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CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU 
EM NEUROPSICOPEDAGOGIA 
COMPONENTE CURRÍCULAR: NEUROCIÊNCIA 
COGNITIVA E PLASTICIDADE NEURAL 
 
 
 
 
DISCENTE: 
 
 
DOCENTE: 
 
 
 
Faculdade Intercultural da Amazônia - FIAMA 
Av. Augusto Montenegro, N°61 - Parque 
Verde Belém - PA, 66823-073 
Telefone:(91)3349-8969 
Email:fiamanivelsuperior@gmail.com 
2024 
 
mailto:fiamanivelsuperior@gmail.com
mailto:fiamanivelsuperior@gmail.com
mailto:fiamanivelsuperior@gmail.com
Olá Caro(a) aluno(a) é com grande satisfação que disponibilizamos o material da 
disciplina NEUROCIÊNCIA COGNITIVA E PLASTICIDADE NEURAL, constituído 
principalmente de Artigos Científicos que envolvem a temática. Em uma Perspectiva 
Pedagógica, nosso material foi organizado da seguinte maneira: 
1) Neurociência e Educação: O Sistema Nervoso e Sua Relação com a Aprendizagem. 
Disponível em: . 
 
 
2) O Cérebro em Funcionamento: Desenvolvimento da Aprendizagem. 
Disponível em: . 
 
 
3) Neurociência Cognitiva e Plasticidade Neural: Um Caminho a ser Descoberto. Disponível em: 
. 
 
 
 
 
Entendemos que essa organização facilita a aprendizagem a respeito do assunto 
bem como possibilita o desenvolvimento do estudante/pesquisador, pois além dos artigos 
estarem disponíveis em Bases de Dados Eletrônicos, no término de cada um deles, consta 
uma vasta bibliografia para que você possa exercer sua autonomia em relação ao seu 
desenvolvimento intelectual e profissional. 
Acredite no seu sucesso, assuma uma postura de dedicação e empenho, seja 
persistente na busca pelo seu aperfeiçoamento pessoal e profissional, tenha bons momentos 
de estudo e conte sempre.
http://www.sinect.com.br/2014/down.php?id=3011&amp%3Bq=1
http://www.unieducar.org.br/artigos/artigopublicarposgrad.pdf
http://eventos.seifai.edu.br/eventosfai_dados/artigos/semic2016/391.pdf
 
NEUROCIÊNCIA COGNITIVA E PLASTICIDADE NEURAL: UM CAMINHO A SER 
DESCOBERTO 
 
Marina Boni 
Maria PreisWelter 
 
RESUMO: Este artigo apresenta um breve estudo com ênfase em Neurociência Cognitiva e 
Plasticidade Neural, com uma abordagem focada no desenvolvimento do cérebro humano. no 
decorrer deste busca-se evidenciar a importância de conhecermos o desenvolvimento do Sistema 
Nervoso Central, suas bases para a aprendizagem, e composição dos neurônios e sinapses, também 
considera-se sobre um fator essencial para que possamos aprender continuamente pelo longo da 
vida, o qual nos possibilita avanços significativos em casos de lesões cerebrais, a chamada: 
Plasticidade neural. São apresentados fatos importantes sobre os chamados períodos críticos ou 
janelas de oportunidades, na qual o cérebro humano tem uma capacidade elevada de 
transformação e adaptação. Para evidenciar esses processos cerebrais importantes, a metodologia 
conta com a realização de um grupo focal e um estudo de caso com duas alunas que possuem 
Paralisia cerebral, no intuito de reforçar a concepção da existência da plasticidade neural, inclusive 
em casos de pessoas com deficiência. 
Palavras-chave: neurociência cognitiva; plasticidade neural; cérebro. 
 
SUMMARY: Thisarticlepresents a briefstudywithemphasis in CognitiveNeuroscienceand Neural 
Plasticity, with a focused approach in 
thedevelopmentofthehumanbrainduringthisseekstohighlighttheimportanceofknowingthedevelop
mentofthe central nervous system, their bases for learning, 
andcompositionofneuronsandsynapses, alsoconsideredonanessentialfactor for 
ustocontinuallylearnthelifetime, whichallowsustosignificantadvances in cases ofbraininjury, call: 
neural plasticity. Theywillbepresentedimportantfactsabouttheso-
calledcriticalperiodsorwindowsofopportunity, in whichthehumanbrainhas a high capacity for 
changeandadaptation. Tohighlighttheseimportantbrain processes themethodology includes 
conducting a focusgroupand a case studywithtwostudentswhohave cerebral palsy, in 
ordertoreinforcetheconceptoftheexistenceof neural plasticityeven in cases 
ofpeoplewithdisabilities. 
Keyword: cognitiveneuroscience; neural plasticity; brain. 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
O presente artigo é um recorte do Trabalho de Conclusão de Curso - TCC I que esteve em 
desenvolvimento durante o primeiro semestre de 2016. Neste artigo trata-se sobre aspectos 
relacionados à Neurociência Cognitiva e a Plasticidade Neural, tendo como objetivo principal 
compreender as atribuições da neurociência cognitiva e da plasticidade neural no desenvolvimento 
cerebral, bem como as bases neurológicas para a aprendizagem. 
Considera-se a importância do tema abordado, partindo-se do pressuposto de que a Neurociência 
Cognitiva estuda aspectos relacionados ao funcionamento do Sistema Nervoso Central (SNC), 
neste sentido aborda-se aspectos importantes sobre o desempenho do cérebro humano e os 
processos e vias pelas quais se consolida a aprendizagem. Assim, enquanto pesquisadora, procura-
se entender o fascinante e complexo mundo cerebral-cognitivo. 
A pesquisa aborda sobre o funcionamento cerebral e como os estudos da neurociência e da 
plasticidade neural podem auxiliar na evolução do SNC (Sistema Nervoso Central) e quadros 
cognitivos de alunos com deficiência. Esta curiosidade impulsiona na busca destes 
conhecimentos. 
 
 
Estes novos estudos e conhecimentos contribuem de forma relevante para a sociedade 
educacional, pedagógica e acadêmica, pois auxiliam educadores a esclarecer dúvidas existentes 
acerca dos processos intelectuais dos educandos, e, consequentemente, inovam as metodologias 
de ensino, assim estimulam-se novos cérebros para que desempenhem um papel positivo na 
sociedade. 
Partindo desta premissa, espera-se que, através deste trabalho de pesquisa, se possa ampliar a 
compreensão da sociedade educacional e social sobre as contribuições da neurociência cognitiva. 
Também, a partir do esclarecimento do funcionamento cerebral do ser humano, contribuir e 
auxiliar professores no processo de construção do conhecimento. 
 
 
DESENVOLVIMENTO 
 
NEUROCIÊNCIA COGNITIVA E PLASTICIDADE NEURAL UMA DUPLA INFALÍVEL 
 
A partir de inúmeras leituras podemos considerar as significativas descobertas científicas 
decorrentes da arquitetura do cérebro humano e a capacidade que este desenvolve em relação à 
aprendizagem, adaptação, plasticidade, regeneração e evolução. Pesquisas sobre as implicações 
da neurociência na educação e no processo de ensino aprendizagem são inevitáveis para aqueles 
que se dedicam em aprofundar os conhecimentos dentro da área da educação. Estes e outros 
aspectos serão abordados no decorrer desta pesquisa. Deste modo, busca-se compreender a 
importância de estudar e compreender a organização do SNC, bem como as contribuições da 
neurociência em âmbito educacional. 
O estudo da neurociência, na atualidade, torna-se de fundamental importância para compreender 
como ocorre o desenvolvimento de habilidades, as contribuições da plasticidadeneural do início 
ao fim da vida e como podemos qualificar o processo de ensino aprendizagem na escola. 
Conforme Relvas (2011, p. 22), “Neurociência é uma ciência nova, que trata do desenvolvimento 
químico, estrutural e funcional, patológico do sistema nervoso. As pesquisas científicas 
começaram no início do século XIX”. 
No decorrer destes estudos Relvas (2011) esclarece que foram descobertas as funções específicas 
de cada área do cérebro, desta forma constituíram-se diversas neurociências dedicadas a estudar 
estas regiões, dentre elas a neurociência molecular, celular, de sistemas, comportamental e 
cognitiva a qual guiará o processo de construção deste trabalho. A neurociência cognitiva é a 
ciência que se dedica a estudar o pensamento, a aprendizagem, a memória, o uso das linguagens, 
e a execução de habilidades assim como o papel das emoçõescom o treinamento, o hipocampo aumenta de volume em pessoas com muita 
habilidade na orientação espacial, músicos tem um aumento do córtex motor, auditivo e visual. 
Dedicação e esforço podem modificar as condições trazidas por fatores genéticos. 
As dificuldades de aprendizagem são resultado de vários aspectos que interferem na aquisição de 
novos esquemas e na reorganização do cérebro para produção de novos comportamentos. Elas 
dependem da interação do indivíduo com o ambiente. O ambiente, na verdade, leva ao 
desenvolvimento de comportamentos adaptativos que podem dificultar ou propiciar a 
aprendizagem. Motivação, incentivo pela leitura e saúde física são fatores fundamentais na 
aprendizagem. 
A mãe consumidora de substâncias como o álcool e os componentes do tabaco, tendo doenças, 
como diabetes e hipertensão arterial sistêmica mal controlada, baixo peso da criança ao 
nascimento, prematuridade, dentre outros, estão estatisticamente associados a transtornos 
emocionais e cognitivos da criança. 
A neurociência nos dá evidências de que ambientes com estímulos sensoriais, que despertem a 
curiosidade e a busca de realização de experimentações levam, devido à neuroplasticidade, ao 
aumento da densidade de conexões das células nervosas, aumentando o desempenho cognitivo, 
mesmo em crianças com déficit intelectual. Por outro lado, a pouca estimulação sensorial pode 
levar ao desenvolvimento de diferentes formas de deficiência. A neurociência contribui para a 
compreensão dos processos neurais do aprendizado, entendendo os mecanismos de memória, de 
atenção, de motivação e de comunicação. 
Entendemos que o desenvolvimento pré-natal tem nos primeiros dois trimestres uma importância 
vital para o desenvolvimento do sistema nervoso central. A mielinização é o envolvimento dos 
axônios com uma camada de gordura feito pelas células da glia. A bainha de mielina acelera a 
condução do impulso nervoso, ela funciona como um isolante, sendo assim, os impulsos ocorrem 
aos saltos ao longo do axônio, através dos nódulos de Ranvier. 
 
 
Pesquisas atuais apontam a vida intrauterina como um importante período de desenvolvimento 
cognitivo. A aprendizagem, no útero materno ou fora dele, ocorreria em estreita interação com os 
estímulos que provêm do ambiente. A deficiência nutricional, por exemplo, relaciona-se à 
ocorrência na vida adulta de problemas como hipertensão, obesidade e resistência à insulina. 
Os alimentos agem na química dos neurotransmissores e ajudam a alterar o estado de espírito, 
regulam o humor e as sensações de prazer e bem-estar. No comando desses estímulos, quatro 
substâncias neurotransmissoras - serotonina, endorfina, adrenalina e dopamina, responsáveis pela 
conexão entre os neurônios e pelos impulsos nervosos que ditam o estado de ânimo. 
"Todas as emoções são resultado de reações químicas, realizadas pelos neurotransmissores. Só se 
é capaz de sentir determinada sensação quando a estrutura química do cérebro está predisposta, e 
quem produz essa química são os alimentos", explica o endocrinologista Tércio Rocha. Devido a 
isso que uma pessoa mal nutrida fica meio apática e não reage a notícias boas nem ruins; ou 
quando está com fome fica mal humorada e irritada. A endorfina garante prazer, a serotonina, 
calma e felicidade, a dopamina, disposição e energia, e a adrenalina deixa a pessoa em estado de 
alerta, tensa. O organismo saudável produzirá essas substâncias e as liberará de acordo com as 
situações. Diante disso estão os neurotransmissores, responsáveis pela comunicação entre os 
neurônios. Alimentar-se de forma correta ajudará a manter o cérebro em plena atividade em 
qualquer idade.na construção do saber humano. 
O estudo desta ciência possibilitará o entendimento de assuntos específicos relacionados ao SNC, 
contribuindo, inestimavelmente, para a educação e a sociedade na formação constante de pessoas. 
Pessoas estas “humanas” nas suas vivências e atitudes, relacionando-se com o outro como homo 
sapiens-sapiens, utilizando a racionalidade, o intelecto e as emoções e sentimentos no 
relacionamento interpessoal e intrapessoal. Outro aspecto importante relacionado ao estudo do 
cérebro e da neurociência foi a descoberta da plasticidade neural, a qual nos permite aprender 
constantemente. 
A plasticidade neural pode ser considerada como uma descoberta recente dos Neurocientistas, 
preocupados em decifrar o funcionamento do nosso cérebro, contudo se bem analisado notaremos 
que os indícios da plasticidade fazem parte da estrutura cerebral do ser humano desde os 
primórdios. 
Relvas (2010) pondera, que por meio da história e da ciência comprovou-se, que o ser humano 
passou por grandes processos de modificações desde a era homo demensaté chegar às capacidades 
atuais de razão, inteligência e emoções, homo sapiens. Desta forma comprovou-se a olhos vistos 
que, assim como as estruturas corporais, as estruturas neuronais e as capacidades inteligíveis 
também foram modificadas através do tempo. 
 
 
 
A mesma autora (2010) esclarece que os primatas, com seu modo particular e nômade de 
sobrevivência, demonstraram a capacidade de adaptação às mudanças de habitat, temperatura, 
aprender a se proteger e a garantir o alimento; estes são alguns indícios que comprovam a 
capacidade do cérebro em adaptar-se as novas situações, espaços, culturas e acontecimentos. Esta 
capacidade é intrínseca do ser humano e está presente desde o início da existência. 
Neste sentido, Andrews (2011, p. 93) declara que “Podemos esculpir os circuitos emocionais do 
cérebro de forma sistêmica assim como esculpimos o corpo exercitando os músculos, elevando 
assim nosso ponto basal de satisfação com a vida”. Reafirmando o pressuposto que nosso cérebro 
é sensível à mudanças e experiências externas. 
Segundo Relvas (2010), durante muitas décadas acreditou-se que o cérebro era imutável, ou seja, 
nascia e permanecia igual por toda a vida. Contudo estudos da Neurociência comprovam que o 
nosso cérebro é um baú de surpresas e mutável a cada nova experiência, confirmando mais uma 
vez a existência da Plasticidade Neural. Desta forma, praticar atividades diversificadas e 
desafiadoras como exercícios cognitivos, ou seja, leituras, caça- palavras, charadas, enigmas, 
praticar exercício físico, frequentar ambientes divertidos, fazer cálculos, aprender um novo jogo 
de tabuleiro pode se tornar uma boa maneira de manter-se um cérebro saudável, pois estas 
atividades aumentam o nível de produção de endorfina, responsável pela sensação de bem-estar. 
Desta forma, altera-se o padrão de funcionamento das células cerebrais, modificando as atividades 
rotineiras de cada dia, melhorando a oxigenação e fazendo com que o sangue passe pelas regiões 
menos irrigadas do cérebro. 
Parafraseando Lent (2010), declara que existe um período crítico ou janelas de oportunidades de 
desenvolvimento do cérebro e consequentemente de plasticidade, o qual compreende a primeira 
infância até os 10 (dez) anos de idade. Assim considera-se que o período de maior plasticidade do 
cérebro é na infância, diminuindo a intensidade de acordo com o crescimento ou envelhecimento, 
porém nunca é findada, pois perdura até o momento da morte. 
Um cérebro bem estimulado aumenta a conexão entre as células nervosas, sinapses, melhorando 
consequentemente a memória e a capacidade de raciocínio. Isso reafirma a capacidade intelectual 
e genética do nosso cérebro para a produção contínua de neurônios. 
Para Pinheiro (2007, p. 44) “O cérebro em desenvolvimento é plástico, ou seja, capaz de 
reorganização de padrões e sistemas de conexões sinápticas com vista à readequação do 
crescimento do organismo às novas capacidades intelectuais e comportamentais da criança”. 
Assim considera-se que os neurônios em desenvolvimento apresentam uma maior capacidade de 
adaptabilidade do que as células já maduras, e, durante o período crítico, tem-se uma plasticidade 
mais acentuada. 
Piaget e Inhelder (2007, p. 11) trazem neste sentido a perspectiva de que: 
O desenvolvimento mental no decorrer dos dezoito primeiros meses a existência é particularmente 
rápido e importante pois a criança elabora, nesse nível, o conjunto de subestruturas cognitivas, 
que servirão de ponto de partida para as suas construções perceptivas e intelectuais ulteriores, 
assim como certo número de reações afetivas elementares, que lhe determinarão, em parte, a 
afetividade subsequente. 
Nesta mesma linha de raciocínio, Bartoszeck e Bartoszeck (2007) vem de encontro com a 
consideração de Piaget e nos explica, de forma breve, o porquê do período crítico, que compreende 
do nascimento até os 10 (dez) anos de vida como o tempo mais propício para o desenvolvimento 
de habilidades importantes, as quais aprendemos nesta faixa etária e nos acompanham pela vida 
toda. 
No quadro a seguir serão apresentados indícios referentes ao período crítico ou janelas de 
oportunidades, decorrentes do desenvolvimento cerebral. 
 
 
 
 
 
 
 
Quadro 01: Referente às habilidades adquiridas durante o período crítico Funções 
 
Faixa de desenvolvimento 
 
Quadro 01: Referente às 
habilidades adquiridas durante 
o período crítico Funções 
Faixa de desenvolvimento 
Visão Do nascimento até os 6 anos 
Controle emocional Dos 9 meses aos 6 anos 
Linguagem Dos 9 meses aos 8 anos 
Habilidades sociais Dos 4 anos aos 8 anos 
Música 4 anos aos 11 anos 
Segundo idioma Dos 18 meses aos 11 anos 
 
Fonte: Quadro adaptado do artigo Neurociência dos seis primeiros anos (DOHERTY, 1997 apud 
BARTOSZECK, BARTOSZECK, 2007). 
 
A partir do estudo deste quadro pode-se compreender que o desenvolvimento humano que 
corresponde ao período crítico é altamente acentuado. Nota-se também que a maioria das 
habilidades necessárias para a existência humana, as quais se aprendem e usam por toda vida, são 
aprendidas exatamente no chamado período crítico. 
Piaget (2004) também dedicou seus estudos ao desenvolvimento da inteligência em crianças e 
adolescentes, sendo que a partir destes constatou que, durante o período que denominou de 
sensório-motor, o qual compreende entre o nascimento até os dois anos de vida, é marcado por 
extraordinário desenvolvimento mental. 
Neste sentido Piaget (2004, p. 17) coloca que: 
Muitas vezes mal se suspeitou da importância deste período; e isto porque ele não é acompanhado 
de palavras que permitem seguir passo a passo, o progresso da inteligência e dos sentimentos, 
como mais tarde. Mas, na verdade, é decisivo para todo o curso de evolução psíquica: representa 
a conquista, através da percepção e dos movimentos, de todo o universo prático que cerca a 
criança. 
Outro aspecto importante que Piaget (2004) esclarece, referente ao período pré-operatório, que 
compreende a idade de dois a sete anos, é o aparecimento da linguagem, a qual provoca mudanças 
intensas nos aspectos afetivos e intelectuais. Assim sendo, a criança torna-se capaz, graças a 
linguagem de reestruturação das suas ações, antecipar seus atos futuros pela representação verbal. 
Pode-se compreender, a partir das concepções do autor acima citado, que esses períodos que se 
relacionam ao sensório motor e pré-operatório são fundamentais para o desenvolvimento humano, 
entende-se assim, que estão dentro dos chamados períodos críticos, ou janelas de oportunidades. 
Desta forma, a estudiosa do cérebro, Marta Pires Relvas (2009, p. 49) contribui com a escrita 
trazendo a sua definição de plasticidade neural, a qual conceitua como: 
As capacidades adaptativas do SNC- sua habilidade para modificar sua organização estruturalprópria e funcionamento. É a propriedade do sistema nervoso que permite o desenvolvimento de 
alterações estruturais em resposta à experiência e como adaptações a condições mutantes e a 
estímulos repetidos. 
Considera-se, a partir da citação, que a plasticidade neural é o ponto crucial de nossa existência, 
pois a mesma está em constante desenvolvimento ao longo de toda a vida. E é esse 
desenvolvimento constante que nos permite aprender e principalmente (re) aprender a todo o 
momento. 
Para entender melhor como ocorre à plasticidade, é necessário dedicar-se na compreensão do 
funcionamento dos neurônios. Neste sentido, Roberto Lent (2010, p. 19) no livro “Cem Bilhões 
de Neurônios?” declara que o cérebro humano tem aproximadamente “85 bilhões de neurônios”. 
 
 
Lent (2010, p. 14) considera o neurônio como: 
A unidade morfofuncional fundamental do sistema nervoso [...] a célula nervosa produz e veicula 
diminutos sinais elétricos que são verdadeiros bits de informações, capazes de codificar tudo o 
que percebemos a partir do mundo exterior e do interior do organismo, os comandos que damos 
aos efetuadores do nosso corpo (como os músculos e as glândulas) e tudo o que sentimos e 
pensamos a partir de nossa atividade mental. 
Os neurônios são células mestres capazes de receber, processar informações e executar as funções 
que se deseja ou necessita. Neste trabalho complexo que o neurônio desenvolve no funcionamento 
do cérebro, o mesmo não está sozinho, pois é composto por outras células que o auxiliam em suas 
tarefas. 
Relvas (2010) nos explica a estrutura básica de um neurônio, que é composto pela membrana 
celular, responsável por transportar os sinais nervosos; os dentritos que são uma espécie de 
ramificação o qual recebe e libera sinais, um único neurônio pode ter milhares de dentritos; o 
axônio que é o cabo condutor de sinais; os pontos de contato sinápticos, os quais são 
especializados em passar as informações de uma célula à outra; célula Glia, cuja função é auxiliar 
e dar sustentação a função do neurônio, um dos tipos de célula Glia é o Schwann, que é 
responsável por isolar os neurônios, formando assim a bainha de mielina, a qual é uma substância 
gordurosa capaz de fazer o axônio transmitir mensagens com maior rapidez, permitindo a 
concentração de informações. A partir destas colocações considera-se que o neurônio trabalha em 
um sistema de cooperação, e não em um sistema isolado. A cada nova experiência, o cérebro se 
modifica, pois é principalmente a interação do ser humano com o meio que aumenta as sinapses 
nervosas através dos neurônios, essas experiências provocam mudanças constantes no cérebro, a 
qual é chamada de plasticidade, ou seja, capacidade de adaptar-se. 
De acordo com Cosenza e Guerra (2011, p. 13):um neurônio pode disparar impulsos 
seguidamente, dezena de vezes por segundo. Mas a informação, para ser transmitida para outra 
célula, depende de uma estrutura que ocorre geralmente nas porções finais do prolongamento 
neural que leva o nome de axônio. Esses locais onde ocorre a passagem da informação entre as 
células, são denominadas sinapses, e a comunicação é feita pela liberação de uma substancia 
química, um neurotransmissor. 
Os autores apontam que existem dezenas de neurotransmissores atuando em nosso cérebro, e que 
estes podem excitar ou inibir a produção de sinapses, pois existem neurotransmissores excitatórios 
e inibitórios. (COSENZA E GUERRA, 2011) 
Portanto, a figura a seguir nos auxilia na compreensão da formação de um neurônio. 
Figura 1 - Formação de um neurônio 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: http://biologianet.uol.com.br/histologia-animal/tecido-nervoso.htm. 
 
 
 
Nesse sentido Oliva, Dias e Reis (2008) reiteram que nossos comportamentos, pensamentos e 
sentimentos são possibilitados pelas sinapses que surgem durante todo o desenvolvimento através 
da plasticidade que é ativada, principalmente, através das experiências vivenciadas. Essa 
estimulação ambiental muda o curso de nossa vida, estimulando nosso cérebro à longevidade 
sadia. 
Relvas (2009, p. 40) mais uma vez vem de encontro com a escrita e dialoga afirmando que: 
Um neurônio pode receber ou enviar entre 1.000 a 
100.000 conexões sinápticas em relação a outros 
neurônios, dependendo do seu tipo e localização no 
sistema nervoso. O número e a qualidade de sinapses 
em um neurônio podem variar, entre outros fatores, 
pela experiência e aprendizagem, demonstrando a 
capacidade plástica do Sistema Nervoso. 
Para auxiliar na explicação, Cosenza e Guerra (2011, p. 13) apontam que “um neurônio 
normalmente pode estabelecer sinapses com centenas de outros neurônios, ao mesmo tempo em 
que recebe informações vindas de outras centenas de células”. 
Após entender o funcionamento dos neurônios e seu conjunto de células, pode-se considerar que 
a plasticidade não está presente apenas no desenvolvimento do cérebro normal ou como resposta 
à experiência, pois também ocorre em reação a uma lesão cerebral, na tentativa de reorganização 
do SNC. Desta forma, dados da neurociência apontam que quanto mais precoce for a lesão, ou 
seja, ainda na infância, o cérebro lesado tem maior capacidade de regeneração devido a maior 
plasticidade em cérebros “novos”, quando as funções neurais são limitadas, por consequência de 
alguma lesão, os neurônios podem se adaptar e assumir outras funções, regenerando suas células 
e criando novas conexões sinápticas. 
A plasticidade neural pode ser considerada compensatória, Lent (2010) discorre sobre a 
plasticidade maléfica e a plasticidade benéfica. A maléfica apresenta evidências que a plasticidade 
pode ser danosa ao indivíduo, pois ao perder um membro do corpo o cérebro recorda e faz sentir 
o membro, isso é definido como dor fantasma do membro ausente, o que é considerado causa de 
sofrimento. Já a plasticidade benéfica pode ser compreendida como a adaptabilidade a uma função 
ausente, por exemplo, um indivíduo que perdeu a visão desenvolve outros sentidos mais aguçados 
que o auxiliam na compreensão do mundo, que é o caso da audição e do sistema tátil apurado, o 
que permite a compreensão e velocidade na leitura braile. 
O estudo relacionado à neurociência, com ênfase na plasticidade neural, nos intriga a investigar o 
funcionamento da vida cerebral, sendo que estes estudos terão respaldo principalmente no trabalho 
pedagógico e interdisciplinar nas escolas, isso acontecerá quando o educador entender que o 
educando é um ser integral, e que principalmente é mutável de acordo com as novas experiências 
vivenciadas. 
O olhar sensível e holístico, sobre o todo, proporcionará resultados positivos no processo de 
ensino aprendizagem, considerando que o cérebro é altamente plástico, ou seja, está sempre 
preparado para novas aprendizagens, desta forma será abordado a seguir, aspectos que contribuem 
para o desenvolvimento sadio do SNC. 
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
Pesquisar, ler e escrever sobre neurociência nos possibilita um olhar abrangente sobre o cérebro 
humano, órgão que comanda nossas ações desde as mais simples como pegar um objeto, até a 
aprendizagem de conceitos, leitura e escrita e capacidades intelectuais e inventivas da criatividade. 
Neste trabalho buscou-se evidenciar os estudos da neurociência, partindo de uma abordagem 
cognitiva, descrevendo as principais partes dos neurônios e como ocorre as famosas sinapses, 
também se abordou fatos importantes sobre plasticidade neural, na perspectiva da aprendizagem 
 
 
 
continua partindo especialmente das experiências vivenciadas pelo indivíduo, ou na adaptação a 
novas atividades, acontecimentos e até em casos de lesões, quando se descreve sobre plasticidade 
benéfica e maléfica. 
É fundamental que na atualidade o professor tenha conhecimento sobre a neurociência, para que 
partindo desse pressuposto entenda como ocorre a aprendizagem e saiba identificar novosmétodos e técnicas para que o aluno com deficiência também possa ter uma aprendizagem 
significativa. 
Portanto, aprender continuamente é um atributo imprescindível para a evolução da humanidade, 
é um presente que o nosso magnifico e fantástico cérebro nos concedeu. 
 
 
REFERÊNCIAS 
 
ANDREWS, Susan. A ciência de ser feliz. São Paulo: Ágora, 2011. 
BARTOSZECK, A. B; BARTOSZECK, F. K. Neurociência dos seis primeiros anos: implicações 
educacionais. Fellow in Basic Medical Education, Departamento de Fisiologia, Laboratório de 
Neurociência & Educação, UFPR, 2007. Disponível em: 
. Acesso em: 25 abr. 2016. 
COSENZA, Ramon; GUERRA, Leonor. Neurociência e educação: como o cérebro aprende. Porto 
Alegre: Artmed, 2011. 
LENT, R. Cem bilhões de neurônios?:conceitos fundamentais da neurociência. 2. ed. São Paulo: 
Editora Atheneu, 2010. 
OLIVA, A. D; DIAS. G. P; REIS, REIS. R. A. M. Plasticidade sináptica: natureza e cultura 
moldando o Self. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2008. Disponível em: 
. Acesso em: 25 abr. 2016. 
PIAGET, J; INHELDER, B. A psicologia da criança. 3. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2007. 
PINHEIRO, M. Fundamentos de neuropsicologia - o desenvolvimento cerebral 
da criança. Vita et Sanitas, Trindade, 2007. Disponível em: 
. Acesso em: 25 abr. 2016. 
PIAGET, J. Seis estudos de psicologia. 24. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004 
RELVAS, M. P. Neurociência e transtornos de aprendizagem: as múltiplas eficiências para uma 
educação inclusiva. 5. ed. Rio de Janeiro: Wak Ed, 2011. 
__________. Fundamentos biológicos da educação: despertando inteligências e afetividade no 
processo de aprendizagem. 4. ed. Rio de Janeiro: Wak Ed, 2009. 
__________. Neurociência e educação: potencialidades dos gêneros humanos na sala de aula. 2. 
ed. Rio de Janeiro: Wak Ed, 2010. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Desenvolvimento humano, organização funcional do cérebro 
e aprendizagem no pensamento de Luria e de Vygotsky 
 
 
Neli Klix Freitas 
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Florianópolis, Santa Catarina, Brasil 
 ________________________________________ 
Resumo: O artigo aborda questões relacionadas com o desenvolvimento humano e a organização 
funcional do cérebro, de acordo com as contribuições de Luria e de Vygotsky. Aborda outras 
questões nessa direção, tais como: os sistemas sensoriais e simbólicos, a linguagem. Trata-se de 
uma complexa trama conceitual implícita nas funções psicológicas e biológicas humanas, 
integrando neuropsicologia, desenvolvimento e aprendizagem. 
Palavras-Chave: desenvolvimento humano; organização cerebral funcional; aprendizagem; 
sistema sensorial; linguagem. 
________________________________________ 
Abstract: The article approaches questionsrelatedtothe cerebral 
functionalorganizationandhumandevelopment, accordingtothe Luria andVygotsky's approach. 
Thispaperalsofocusesonotherquestions in thesamedirection, such as: sensorial andsymbolic 
systems, languageandtheimportanceofthebiologicaland social developmentofhumanbeing. It 
alsodealswith a complex conceptual tram in thepsychologicalhumanfunctions, 
relatedneuropsychology, developmentandlearning.© Ciências & Cognição 2006; Vol. 09: xxx-
xxx. 
Keywords:humandevelopment; cerebral functionalorganization; learning; sensorial system; 
language. 
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Em uma minuciosa revisão das contribuições de Luria e de Vygotsky sobre maturação, 
organização funcional do cérebro e desenvolvimento humano é possível assinalar para uma trama 
conceitual intrincada e complexa que serve de referência para a compreensão da construção de 
repertórios de habilidades e de conhecimento, bem como do papel da aprendizagem nesse 
processo.Estes autores constituem-se em uma referência inicial sobre o tema,não esgotando o 
repertório contemporâneo e as eventuais redefinições que estão surgindo ao longo do 
amadurecimento do campo. 
Luria apresenta uma alternativa à questão tão debatida das localizações cerebrais. Em primeiro 
lugar, distingue a função como funcionamento de um tecido particular e a função como sistema 
funcional complexo. Refere que os processos mentais, que incluem sensações, percepção, 
linguagem, pensamento, memória não podem ser considerados simples faculdades localizadas em 
áreas particulares e concretas do cérebro, mas como sistemas funcionais complexos (Luria, 1980). 
Evidentemente, estes sistemas funcionais complexos foram inicialmente movimentos 
manipulativos que, depois, se condensaram, adquirindo o caráter de ações mentais internas. Então, 
além disso, baseados e mediatizados por ajudas externas encontram-se ligados a imagens do 
mundo exterior, sendo assim impossível pensar que possam ser localizados em áreas precisas e 
restritas do cérebro. Devem antes se organizar em sistemas de zonas que trabalham de modo 
combinado, em papéis diferentes, e até mesmo distanciados (Luria, 1973). 
A expressão localização dinâmica é mais apropriada para estes processos mentais complexos do 
que a localização espacial restrita. Por isso, a tarefa implica não tanto em descobrir áreas precisas 
de localização cerebral para cada uma dessas atividades mentais, mas quais grupos de zonas de 
trabalho do cérebro são responsáveis pela sua execução (Vygotsky, 1984). 
 
 
 
Importa destacar que não se trata de faculdades, mas de unidades ou sistemas funcionais 
complexos que, portanto, não estão localizados em áreas delimitadas do cérebro, mas que têm 
lugar através da participação de grupos de estruturas cerebrais que trabalham de modo integrado 
na organização desse sistema. Na percepção, por exemplo, pode-se constatar uma forma de ilustrar 
essa atividade integrada. A primeira unidade funcional proporciona o tom cortical necessário. A 
segunda realiza a análise e síntese da informação recebida. A terceira se ocupa dos movimentos 
de busca que dão à conduta perceptiva seu caráter ativo (Luria, 1973). 
A dinâmica do comportamento humano compreende a interconexão de múltiplas redes de 
informação dispersas pelo corpo: periféricas (pele, músculo, articulações e vísceras) e centrais 
(mielencefálicas, metencefálicas, mesencefálicas, diencefálicas e telencefálicas), que retratam a 
existência de um sistema sensorial na base do desenvolvimento e da aprendizagem. As sensações 
como puras informações integradas devem estimular e ativar, em um todo funcional as células 
nervosas iniciando o processo neurológico, que culmina nas respostas macro, micro, oro e 
grafomotoras sendo as três últimas funções tipicamente humanas. O desenvolvimento evolutivo 
dos seres humanos exige a organização das sensações para fornecer ao cérebro as informações 
referentes às condições do corpo como universo intra-somático e do envolvimento como universo 
extra-somático, com os quais produz uma motricidade adaptativa e flexível. Trata-se de uma 
complexa integração e associação intraneurossensorial, que reflete a tendência evolutiva do 
processo informativo (Luria, 1966). 
Filogeneticamente, a integração sensorial está na base da evolução da motricidade e do cérebro 
dos vertebrados. A expansão das áreas sensoriais e associativas expressa a questão e, no ser 
humano, explica porque o mesmo é único na comunicação não-verbal e verbal, e único em seu 
índice de encefalização (Luria, 1973). 
Ontogeneticamente, a integração sensorial da espécie humana inicia-se no útero materno, como 
pré-requisito do desenvolvimento e da aprendizagem. Prolonga-se extra-uterinamente através das 
aquisições que transitamentre os gestos, a visão e as palavras (Luria, 1966). 
Compete ao cérebro organizar um sistema de comunicação de milhares de dados, para que as 
respostas adaptativas integrem repertórios de conhecimento dos indivíduos. Assim, o sistema 
nervoso somático fornece o input e o output ao cérebro, e constitui na realidade, uma extensão 
passiva do sistema nervoso central, quer dizer, uma comunicação corpo-cérebro, cérebro-corpo, 
deixando a função de regulação e controle para o sistema nervoso central (Luria, 1973). 
O processo de construção do conhecimento evoca que as sensações devem integrar-se em 
esquemas de ação, o que requer a participação da percepção e a estruturação das representações 
mentais. Desse modo, o homem tem a capacidade de agir sobre o mundo, acomodar-se a ele, 
diferenciar-se qualitativamente, e não apenas captá-lo passivamente. As sensações encontram-se 
na base do processo de construção do conhecimento, e são conduzidas centrípetamente ao cérebro, 
e não mais a outros órgãos (Luria, 1980). 
Desde os órgãos internos, chamados de interoceptores; dos órgãos motores, táteis, cinestésicos e 
vestibulares, denominados de proprioceptores, até os órgãos captadores de informações, como a 
visão e a audição, tidos como telerreceptores, todas as informações devem ser organizadas em 
termos de tráfego de integração sistêmica no cérebro. A partir daí integram-se também sistemas 
funcionais intra e interneurossensoriais, que se encontram na base da aprendizagem e do 
desenvolvimento, tais como: o jogo, a imitação, a linguagem, o desenho, a leitura, a escrita, o 
cálculo, funções mentais humanas (Luria, 1980). 
Pode-se compreender esse processo especificando aspectos da formação da linguagem. Para 
chegar à integração de fonemas, optemas e grafemas, produtos finais da integração sensorial 
subjacente à linguagem, o ser humano necessita integrar múltiplas informações táteis, 
cinestésicas, como tocar, manipular, levar à boca, dentre outras. Integra também informações 
vestibulares, como a gravidade e a motricidade, além de informações proprioceptivas, que 
compreendem os músculos e as articulações. Essas integrações encontram-se na gênese da 
construção de um modo próprio de comunicação não-verbal e verbal de cada indivíduo. 
 
 
 
Integra ainda relações e interações, diálogo, sincronicidade e vínculos implícitos em todas as 
práticas relacionadas com segurança, conforto tônico e tátil, como competências motoras 
(Vygotsky, 1984). 
Existe uma relação intrincada e permanente entre motricidade e linguagem. A gênese das 
competências motoras origina competências comunicativas. Ambas decorrem da coordenação 
binocular para explorar, identificar e manipular objetos. O desenvolvimento direciona-se ao 
domínio da gravidade, inicialmente com a cabeça, depois com o tronco e, posteriormente com a 
postura bípede, revelando a filogênese do sistema nervoso vertebrado em sua ontogênese motora 
própria e pessoal, através da apropriação de uma segurança gravitacional, que direciona ao mundo 
simbólico. Entretanto, antes de se apropriar dos símbolos cada indivíduo necessita conquistar o 
seu corpo como um instrumento de liberdade gravitacional, espacial e de comunicação emocional 
(Vygotsky, 1987). 
Com base na integração sensorial e na mielinização, o ser humano conquista seu próprio corpo, 
fazendo dele o espaço de sua imaginação e o continente de sua ação, como um instrumento vital 
para seu desenvolvimento cognitivo-emocional. A auto-estima possui relação direta com esse 
processo. Dele emerge também a planificação motora encarregada de dar aos gestos e às mímicas 
a atenção, a coordenação, o controle e a intencionalidade, que pré-figura, em termos não verbais, 
a emergência da linguagem propriamente dita. O processo de organização e de integração das 
sensações no sistema nervoso constitui o triunfo adaptativo, filogenético e ontogenético da espécie 
humana (Luria, 1982). 
A atividade, a inatividade, o silêncio, os olhares acusam significações comunicativas importantes, 
uma vez que a comunicação pode ocorrer sem palavras, como na linguagem de sinais, empregada 
pelos deficientes auditivos. Em algumas situações, as mensagens não-verbais são mais 
significativas do que as palavras. Em outras, contradizem, reiteram mensagens verbais (Vygotsky, 
1984). 
No processo de comunicação, a motricidade está implícita na linguagem como se fosse sua 
sombra. Algumas partes do cérebro encarregam-se de controlar o corpo e sua motricidade. Outras 
se disponibilizam para as imagens, símbolos e conceitos. A encefalização na espécie humana 
emerge da riqueza de padrões de ação. Estes, por sua vez, resultam de uma maior sinergia dos 
receptores sensoriais, de onde emergiram sistemas de controle de organização neurológica (Luria, 
1982). 
Os órgãos dos sentidos, que são a visão, o tato, o gosto, o olfato, a audição constituem sistemas 
sensoriais, canais de mensagens. Por ocasião do nascimento, cada ser humano possui capacidades 
inatas para enviar mensagens não-verbais, que lhe são cruciais para satisfazer necessidades básicas 
e afetivas. Como os sistemas sensoriais encontram-se na base das organizações perceptivas e das 
atividades mentais, importa compreender esse papel no processo (Luria, 1966). 
O tato constitui um meio extraordinário de comunicação, porque se encontra espalhado por toda 
a pele. Temperatura, pressão, dor, posturas, movimentos, dentre outros são processados por 
sensores táteis e cinestésicos. A proprioceptividade promovida superiormente superou as áreas 
motoras corticalmente, fornecendo-lhes profundidade associativa, integrativa e, 
conseqüentemente, poder expressivo e intencional. Com o tato, o ser humano inicia a exploração 
do mundo interno e externo. A forma como a mãe acaricia, toca, explora tem importância no 
despertar da vigilância e da reciprocidade do bebê para a comunicação e para a interação, 
assumindo um papel essencial na autoconfiança e auto-segurança (Klaus e Kennel,1982). 
O sentido do olfato é um potente meio de comunicação, profundamente associado a situações de 
prazer, desprazer e sobrevivência. Efetivamente, o olfato está ligado ao mundo dos cheiros, 
potentes meios de orientação espacial à noite, ou quando a visão está afetada, como no paradigma 
dos deficientes visuais. Com ele, pode-se construir mapas territoriais e topográficos que permitem 
deambulações na escuridão e planificações mentais das ações. O olfato, ligado à audição 
desencadeia processos de atenção seletiva e comparativa. O odor entra diretamente no cérebro, 
 
 
 
 
sem passar pelo tálamo. Por isso, evoca recordações e associações fortes. Muitas mensagens são 
emitidas ou recebidas mais rapidamente pelo cheiro, do que por expressões vocais, gestuais ou 
verbais (Luria, 1966). 
O gosto lida com substâncias químicas e os seres humanos evidenciam preferências por sabores 
de determinados alimentos sólidos ou líquidos, aos quais estão associadas situações positivas de 
interação e de satisfação. O gosto representa um canal de comunicação não-verbal de grande 
importância na comunicação, pois em torno da mesa a dinâmica interativa é de grande 
importância, pela dimensão afetiva e gregária que ela subentende (Luria, 1973). 
A audição é o órgão especializado para receber vocalizações. Filogeneticamente, a audição se 
caracteriza por ser um sentido pluridirecional, ininterrupto e seqüencial. Trata-se de um sistema 
sensorial de fundo, básico para a compreensão situacional, para a compreensão da linguagem 
falada(Luria, 1973). 
A visão assume um papel de vigilância, de alerta, de atenção e de prontidão para a comunicação, 
maior do que outro órgão dos sentidos pode desempenhar. Filogeneticamente, a visão é um 
telerreceptor unidirecional, descontínuo (os olhos podem fechar) e simultâneo, um sentido de 
figura básico para lidar com ângulos, linhas distâncias, profundidades, diferentes intensidades 
luminosas,diferentes perspectivas, posições, orientações e projeções virtuais ímpar para analisar 
e simplificar. É o sentido do espaço. Com 125 milhões de células fotorreceptoras instaladas na 
retina, cones e bastonetes ligados às células corticais específicas, permitindo uma análise e síntese 
verdadeiramente extraordinárias, a visão desempenha um papel primordial no desenvolvimento 
motor e lingüístico ao longo da caminhada do homo sapiens (Vygotsky, 1987). 
O sistema visual é o mais completo dos sentidos, o que já foi referido pelo artista plástico 
Leonardo da Vinci, resultante de uma hierarquia composta pelos seguintes subsistemas de 
aprendizagem: antigravídico (postural e vestibular), corporal (lateralização e direcionalidade), 
somatognósico (identificação) e, finalmente, lingüístico (Vygotsky,1987). 
No contexto do desenvolvimento humano não são apenas as palavras que entram em jogo. As 
vocalizações, os gestos, as mímicas, as expressões faciais, os movimentos da cabeça, os olhares, 
as posturas, os odores, a motricidade, os desenhos ocorrem em combinações que enriquecem e 
modelam a comunicação humana, sendo essenciais na dinâmica existente entre desenvolvimento 
e aprendizagem, enriquecendo repertórios de domínios e de conhecimento.Os primórdios da 
linguagem, a proto e a pré-linguagem são compreensíveis à luz da integração das associações 
sensório-motoras precedentes, onde o gesto exprime emoções de modo singular (Luria, 1973). 
Em outra dimensão de caráter neuropsicológico, a linguagem verbal, que define a preferência 
funcional do hemisfério esquerdo é antecedida pela linguagem não-verbal, que pertence ao 
hemisfério cerebral direito. Pessoas com lesões no hemisfério esquerdo podem exibir vestígios de 
gestualidade, que podem ser bem aproveitados em sua reabilitação, por evidenciarem integridade 
funcional no hemisfério direito (Luria, 1980). 
O hemisfério direito é eminentemente postural e gestual (não-simbólico), enquanto o hemisfério 
esquerdo é lingüístico e simbólico, evocando que o controle postural e gestual deve se automatizar 
antes que as funções integrativas superiores, como a linguagem, possam se desenvolver (Vigotsky, 
1987). 
A especialização hemisférica requer que, evolutivamente, o hemisfério direito assuma a liderança 
das atividades não-verbais, como os gestos, a postura, as brincadeiras, as imitações, a integração 
motora. Gradativamente, ao longo do desenvolvimento humano, o hemisfério esquerdo 
transcende esta dimensão a fim de se projetar e disponibilizar para as atividades lingüísticas 
verbais e cognitivas mais complexas (Luria, 1980). 
O controle postural revela a integridade de importantes centros e circuitos neurológicos, sem os 
quais a aprendizagem não pode operar de modo eficaz. A evolução cultural e o desenvolvimento 
do cérebro como órgão de comunicação e de aprendizagem, como sistema aberto, traduz a 
complexidade do desenvolvimento humano. O desenvolvimento do cérebro decorre 
filogeneticamente da síntese integrada e sistemática das adaptações, em uma complexa 
organização evolutiva (Luria, 1976). 
 
 
Luria (1980) e Vygotsky (1984, 1987) dedicaram-se ao estudo das funções psicológicas superiores 
tipicamente humanas, com suporte biológico do funcionamento psicológico. Estas contribuições 
revelam a existência de múltiplos conceitos entrelaçados, implícitos no desenvolvimento e na 
aprendizagem humana. 
O processo de construção do conhecimento supõe a integração das sensações, percepções e 
representações mentais. O cérebro é um sistema aberto, que está em interação constante com o 
meio, e que transforma suas estruturas e mecanismos de funcionamento ao longo desse processo 
de interação. Nessa perspectiva, é impossível pensar o cérebro como um sistema fechado, com 
funções pré-definidas, que não se alteram no processo de relação do homem com o mundo (Luria, 
1976; Vygotsky,1987). 
A transformação da natureza produzida pela motricidade construtiva única da espécie humana, 
mediatizada pelos instrumentos que ela própria imaginou e criou está na origem da consciência, 
o verdadeiro mistério que explica os diferentes modos de comunicação (Popper, 1977). 
Porque sai dos limites do subjetivo, a motricidade projeta formas objetivas de vida social. A 
consciência, ao pressupor uma evolução do cérebro como espaço interior dos seres humanos 
emerge das ações concebidas como intencionalidade para a resolução dos problemas (espaço 
exterior) na relação com os outros e com os objetos, relações essas geradoras, inicialmente, de 
uma dinâmica interpsicológica e, posteriormente, de uma dinâmica intrapsicológica, com o que 
se tem de conceber também o aparecimento de novas formas de comunicação e de aprendizagem. 
A motricidade intencional desencadeadora de tais relações e interações se reflete e se duplica 
sobre os objetos sociais e, ao se interiorizar sob as formas de sistemas funcionais de auto-
regulação, modifica a própria estrutura do cérebro.Gestos, mímicas, imitações como expressões 
não-verbais vão permitir ao cérebro, órgão da evolução, a multiplicidade de suas expressões 
verbais.Estas substantivam sua evolução biológica, que antecede e sustenta a evolução cultural e 
tecnológica, integrando desenvolvimento humano e aprendizagem na base do processo de 
construção do conhecimento (Luria,1980; Vygotsky,1987). 
Os estudos de Vygotsky lançaram as bases para uma nova ciência: a neuropsicologia, que envolve 
disciplinas de neurologia, psiquiatria, psicologia, fonoaudiologia, lingüística e outras correlatas, e 
que tem como objetivo estudar as inter-relações entre as funções humanas e sua base biológica 
(Luria, 1980). 
Tratam-se de estudos importantes para profissionais e docentes de diferentes áreas do 
conhecimento, especialmente a educação e as artes, para uma compreensão mais ampla dos 
processos implícitos na aprendizagem humana. 
 
Referências Bibliográficas 
Klaus, M.; Kennell, J. (1982) ParentInfantBonding. Nova Iorque: McMillan. 
Luria, A. (1966) HumanBrainandPsychologicalProcess. Londres: Harper &Row. 
Luria, A. (1973) El Hombreconsu Mundo Destrozado. Madrid: Garnica. 
Luria, A. (1976) El Cérebro em Acción. Barcelona: Fontanella. 
Luria, A. (1980) Higher Cortical Functions in Man. Nova Iorque: Basic Books. 
Luria, A. (1982) The WorkingBrain: AnIntroductiontoNeuropsychology. Londres:Peguin. 
Popper, K. (1977). The Self andhisPrain. Berlim: Springer. 
Vygotsky, L. (1984). Psicologia Pedagógica. São Paulo: Martins Fontes. 
Vygotsky, L. (1987). A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Neuropsicopedagogia: novas perspectivas para a 
aprendizagem 
 
Ana Lúcia Hennemann 
Professora de Pós-Graduação nas disciplinas de: 
Neuroplasticidade e Desenvolvimento / Bases Neurológicas 
da Aprendizagem/ Fundamentos da Neurologia/ Neurociência 
e aplicação no contexto pedagógico/ Estágio Supervisionado 
Institucional. 
 
RESUMO: Este artigo apresenta como proposta refletir sobre a Neuropsicopedagogia e suas 
perspectivas para o ensino aprendizagem. Será feito um breve relato do histórico da Neurociência, 
sua relação com a Neuropsicopedagogia e o trabalho do neuropsicopedagogo. O embasamento 
teórico se dará através de livros e artigos científicos visando à boa qualidade bibliográfica, bem 
como uma pesquisa de campo, qualitativa, investigando do conhecimento ou não da 
Neuropsicopedagogia no contexto educativo. As considerações finais irão contemplar um 
comparativo entre os referenciais teóricos e a pesquisa de campo. 
 
PALAVRAS-CHAVE: Aprendizagem. Educação. Neurociências. Neuropsicopedagogia. 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
 Novo século, novas mudanças, novos desafios, não se pode olhar mais a educação com uma 
perspectiva de educação inclusiva, pois ela já está inserida neste contexto. Nossos olhares devem 
se voltar em como atender melhor a todos os indivíduos dentro do ambiente escolar, através de 
práticas deensino que melhor se adequam a cada um.Ter a clareza que os conteúdos são comuns 
a todos, mas a metodologia de trabalho deve estar pautada em práticas que contemplem o 
indivíduo como seres únicos, capazes de aprender independente de suas limitações. 
A educação, mesmo que num primeiro olhar não pareça, sempre está ligada a mudanças, a 
reorganizações, a reaprendizagens, a novos olhares. Na mesma proporção que o mundo vem se 
transformando, a educação também se encontra em constantes buscas. Os cursos voltados à área 
educacional têm significativos avanços; profissionais da área buscam, na medida do possível, 
constantes atualizações. A educação continuada destes indivíduos cada vez mais tem se 
intensificando, pois não basta apenas ter o conhecimento, se faz necessário profissionais que 
saibam interagir com o mesmo. 
Um dos grandes referenciais da mudança educacional da última década, não traz nenhum nome 
de teórico específico, mas sim, está pautado nos avanços neurocientíficos, representados pela 
palavra “Neurociências”, que conforme Herculano-Houzel (2004), ainda é uma ciência nova, 
tendo em torno de 150 anos, mas que a partir da década de 90 alcançou um maior auge e vem 
proporcionando mudanças significativas na forma de perceber o funcionamento cerebral. Estes 
avanços ocorreram devido a neuroimagem, ou seja, o imageamento do cérebro.As contribuições 
provindas das Neurociências despertaram interesse de vários seguimentos e entre estes a 
Educação, no sentido da maior compreensão de como se processa a aprendizagem em cada 
indivíduo. 
Para maior entendimento deste processo, se faz necessário que os profissionais envolvidos tenham 
bem claro que as ações comportamentais de seus educandos provêm de atividades cerebrais 
dinâmicas e que os conhecimentos das neurociências contribuem para que sejam elaboradas 
atividades que desenvolvam tais funções. Dentro dessa abordagem, se procurará mostrar o que é 
Neurociências, suas possíveis contribuições para a área educacional, bem como a contextualização 
da Neuropsicopedagogia e sua relação com o processo ensino-aprendizageM. 
 
 
1. NEUROCIÊNCIAS 
 
 
Imagem: BEAR, 2008 
 
 
Entender o funcionamento cerebral faz parte de um processo que vem de longas datas. Há cerca 
de 7.000 anos já havia indícios de trepanações, processo pelo qual as pessoas faziam orifícios no 
crânio de outras. Bear (2008) menciona que estes crânios não apresentavam sinais de cura, então 
esse procedimento era realizado em sujeitos vivos e não era considerado um ritual de morte, pois 
em alguns casos os indivíduos sobreviviam. Não havia registro do motivo destas cirurgias, mas 
existem especulações que tal procedimento poderia ter sido utilizado para tratar dores de cabeça 
ou transtornos mentais. 
Durante séculos muitos estudos foram realizados para entender o funcionamento do cérebro, 
entretanto nomes tais como dos frenologistas[1] Franz Joseph Gall e J. G Spurzheim (entre 1810 
e 1819) e o neurologista John Hughlings Jackson, fizeram significativos avanços proporcionando 
que Paul Broca e Carl Wernicke chegassem as localizações da área de Broca e de Wernicke. Cabe 
ressaltar que as descobertas de Broca ocorreram em 1861 e as de Wernicke em 1876, e ambos 
tiveram seus estudos pautados em pacientes lecionados e vivos, onde Gazzaniga (2006, p.23) 
enfatiza a importância destas descobertas, pois na atualidade isso já não é mais novidade para 
profissionais voltados às áreas neurocientíficas, mas 
[...] há pouco mais de 100 anos, as descobertas de Broca e Wernicke fizeram “tremer a Terra”. 
Filósofos, médicos e os primeiros psicólogos assumiram um ponto de partida fundamental: 
doenças focais causam déficits específicos. Naquela época, os investigadores eram limitados em 
sua habilidade para identificar as lesões dos pacientes. Os médicos podiam observar o local do 
dano – por exemplo, uma lesão penetrante provocada por uma bala -, mas eles tinham que esperar 
o paciente morrer para determinar o local da lesão. A morte podia levar meses ou anos, e, em 
alguns casos, geralmente não era possível realizar a observação: o médico perdia contato com o 
paciente após sua recuperação, e, quando este finalmente morria, o médico não era informado e 
assim não podia examinar o encéfalo e correlacionar a lesão cerebral com os déficits de 
comportamento da pessoa. 
Porém, o entendimento maior se deu através dos estudos de Luria. Alexander Romanovich Luria 
(1901–1978), durante a Segunda Guerra Mundial, desenvolveu estudos com indivíduos portadores 
de lesão cerebral, no qual catalogou cada paciente, mapeou as respectivas lesões cerebrais e anotou 
as alterações no comportamento, tendo como objetivo específico o estudo das bases neurológicas 
 
do co 
mportamento. Estes estudos, de certa forma simbolizaram um elo entre a psicologia e a 
neurociência, denominada neuropsicologia. 
Através disso Luria constatou que o cérebro humano é composto por três unidades funcionais 
básicas, sendo estas, necessárias para qualquer tipo de atividade mental. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 A primeira unidade funcional é responsável para regular o tônus cortical, a vigília e os estados 
mentais e é composta pela formação reticular e pelo tronco encefálico. 
 A segunda unidade funcional, que é responsável por receber, processar e armazenar as 
informações, que se compõe das partes posteriores do cérebro (lobo parietal, occipital e temporal). 
 A terceira é a unidade para programar, regular e verificar a atividade mental, constituindo-se pelas 
partes anteriores do cérebro (lobo frontal). 
Dessa forma, evidenciando as importantes contribuições de Luria no processo ensino 
aprendizagem Tabaquim (2003, p. 91) destaca que: 
O cérebro é o órgão privilegiado da aprendizagem. Conhecer sua estrutura e funcionamento é 
fundamental na compreensão das relações dinâmicas e complexas da aprendizagem. Na busca 
pela compreensão dos processos de aprendizagem e seus distúrbios, é necessário considerar os 
aspectos neuropsicológicos, pois as manifestações são, em sua maioria, reflexo de funções 
alteradas. As disfunções podem ocorrer em áreas de input (recepção do estímulo), integração 
(processamento da informação) e output (expressão da resposta). O cérebro é o sistema integrador, 
coordenador e regulador entre o meio ambiente e o organismo, entre o comportamento e 
aprendizagem. 
Assim como cada ser humano tem impressões digitais diferentes, também possui sinapses 
cerebrais diferentes, pois cada um tem suas vivências, o seu aprender do mundo e com o mundo. 
E nesse sentido Ventura (2010, p.123), ao retratar sobre a neurociência e comportamento no 
Brasil, enfatiza que a mesma possui uma importante interface com a Psicologia e a define do 
seguinte modo: 
A neurociência compreende o estudo do sistema nervoso e suas ligações com toda a fisiologia do 
organismo, incluindo a relação entre cérebro e comportamento. O controle neural das funções 
vegetativas – digestão, circulação, respiração, homeostase, temperatura-, das funções sensoriais e 
motoras, da locomoção, reprodução, alimentação e ingestão de água, os mecanismos da atenção e 
memória, aprendizagem, emoção, linguagem e comunicação, são temas de estudo da 
neurociência. 
Faz-se necessário destacar que a neurociência pode ajudar muito a todos indivíduos, mas 
especialmente aqueles com transtornos, síndromes e dificuldades de aprendizagem uma vez que 
se tem o entendimento da plasticidade cerebral, da busca de novos caminhos para o aprender, das 
múltiplas inteligências propostas por Gardner. 
 
 
 
 
 
2. NEUROPSICOPEDAGOGIA 
Entender a conexão cérebro x aprendizagem, proposta a partir do conhecimento da Neurociência, 
apresenta-se como um dos assuntos mais procurados e um dos grandes desafios educativos. 
Entretanto, considerando que a neurociência é uma ciência nova, pode-se dizer que: a interface 
cérebro x aprendizagem necessita demuito investimento científico, mas são profissionais das mais 
diversas áreas que tem voltado seus estudos para este enfoque. Conforme estudos de Tokuhama-
Espinosa (2008, apud Zaro, 2010, p. 205), demonstraram que: 
[...] enquanto milhares de estudos foram devotados para explicar vários aspectos da neurociência 
(como animais incluindo humanos, aprendem), apenas uns poucos estudos neurocientíficos 
tentaram explicar como os humanos deveriam ser ensinados, para maximizar o aprendizado. (...) 
das centenas de dissertações devotadas ao ‘ensino baseado no cérebro’, ou ‘métodos 
neurocientíficos de aprendizado’, nos últimos cinco anos, a maioria documentou a aplicação 
destas técnicas, ao invés de justificá-las. 
Uma das áreas que vem abrindo espaço dentro âmbito de conhecimento é a Neuropsicopedagogia, 
que no Brasil teve a sua entrada, através do Centro Nacional de Ensino Superior, Pesquisa, 
Extensão, Graduação e Pós Graduação (CENSUPEG) no ano de 2008, no estado de Santa 
Catarina. 
Sua primeira descrição no campo científico se deu através de Jennifer Delgado Suárez, no artigo 
intitulado “Desmistificacion de laneuropsicopedagogía” onde apresentou uma composição 
histórica da trajetória neuropsicopedagógica e ressaltou sua importância para o contexto 
educativo. 
FERNANDEZ (2010) aponta para três pontos elucidativos da Neuropsicopedagogia, abordada 
por Suárez: 1º Educação; 2º Psicologia e 3º Neuropsicologia. Educação no intuito de promover a 
instrução, o treinamento e a educação dos cidadãos. A Psicologia com os aspectos psicológicos 
do indivíduo. E, finalmente, a Neuropsicologia com a teoria do cérebro trino, sendo que aqui 
oportunizou a teoria das múltiplas inteligências, propostas por Gardner. 
Conforme as autoras colombianas, a Neuropsicopedagogia traz importantes contribuições à 
educação, pois existe a possibilidade de se perceber o indivíduo em sua totalidade. Mas, afinal do 
que se trata a Neuropsicopedagogia? Para Hennemann (2012, p.11) a mesma apresenta-se: 
[...] como um novo campo de conhecimento que através dos conhecimentos neurocientíficos, 
agregados aos conhecimentos da pedagogia e psicologia vem contribuir para os processos de 
ensino-aprendizagem de indivíduos que apresentem dificuldades de aprendizagem. 
Contudo, em 2014 foi fundada a Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia(SBNPp) que 
apresenta uma definição mais pontual do que é a Neuropsicopedagogia: 
[...] uma ciência transdisciplinar, fundamentada nos conhecimentos da Neurociências aplicada à 
educação, com interfaces da Pedagogia e Psicologia Cognitiva que tem como objeto formal de 
estudo a relação entre o funcionamento do sistema nervoso e a aprendizagem humana numa 
perspectiva de reintegração pessoal, social e educacional.. (SBNPp, 2014) 
Através dos conhecimentos neuropsicopedagógicos existe a possibilidade de entender como se 
processa o desenvolvimento de aprendizagem de cada indivíduo, proporcionando-lhe melhoras 
nas perspectivas educacionais e dessa forma desmistificar a ideia de que a aprendizagem não 
ocorre para alguns; na verdade sempre acontecerá a aprendizagem, entretanto para uns ela vem 
acompanhada de muita estimulação, atividades diferenciadas, respeitando o ritmo de 
desenvolvimento do indivíduo. 
Dentro desta linha de pensamento as contribuições de Tokuhama-Espinosa (2008, apud Zaro, 
2010, p. 204), podem ser consideradas de significativa importância e utilizadas como elementos 
importantes nas intervenções neuropsicopedagógicas, que são elas: 
a) Estudantes aprendem melhor quando são altamente motivados do que quando não têm 
motivação; 
b) stress impelida o aprendizado; 
c) ansiedade bloqueia oportunidades de aprendizado; 
 
 
 
d) estados depressivos podem impedir aprendizado; 
e) o tom de voz de outras pessoas é rapidamente julgado no cérebro como ameaçador ou não-
ameaçador; 
f) as faces das pessoas são julgadas quase que instantaneamente (intenções boas ou más); 
g) feedback é importante para o aprendizado; 
h) emoções têm papel-chave no aprendizado; 
i) movimento pode potencializar as oportunidades de aprendizado; 
l) sono impacta consolidação de memória; 
k) nutrição impacta o aprendizado; 
m) estilos de aprendizado (preferencias cognitivas) são devidas à estrutura única do cérebro de 
cada indivíduo; 
n) diferenciação nas práticas de sala de aula são justificadas pelas diferentes inteligências dos 
alunos. 
Segundo as considerações acima é possível afirmar que o ato de aprender é um ato complexo, não 
envolve somente a questão de memorizar os conteúdos, é muito mais do que isso; aprender 
envolve emoção, interação, alimentação, descanso, motivação entre outros. 
O espaço educativo deve estar aberto para novos profissionais que venham a somatizar a equipe 
multidisciplinar que atendem o educando, por isso neuropsicopedagogos além de ter uma visão 
de como ocorre a aprendizagem do educando, também possuem vistas para a metodologia de 
ensino do professor, pautados nos estudos descritos acima, possuem competência para orientar de 
que forma a aprendizagem pode se tornar mais significativa tanto na metodologia do professor 
quanto no processo de aprendizagem do aluno. 
Também, cabe aqui ressaltar, o enunciado feito por Hennemann (2012, p.11)descrevendo as 
práticas neuropsicopedagógicas, atribuídas a estes profissionais. O grande avanço da 
Neuropsicopedagogia no Brasil se deu através do Centro Sul Brasileiro de Pesquisa e Extensão - 
CENSUPEG. Dentro deste contexto educacional os profissionais da Neuropsicologia Clínica são 
capacitados para: 
• Compreender o papel do cérebro do ser humano em relação aos processos neurocognitivos na 
aplicação de estratégias pedagógicas nos diferentes espaços da escola, cuja eficiência científica é 
comprovada pela literatura, que potencializarão o processo de aprendizagem. 
• Intervir no desenvolvimento da linguagem, neuropsicomotor, psíquico e cognitivo do indivíduo. 
• Adquirir clareza política e pedagógica sobre as questões educacionais e capacidade de interferir 
no estabelecimento de novas alternativas neuropsicopedagógicas e encaminhamentos no processo 
educativo. 
• Compreender e analisar o aspecto da inclusão de forma sistêmica, abrangendo educandos com 
dificuldades de aprendizagem e sujeitos em risco social. 
O neuropsicopedagogo, profissional que está em constantes buscas de conhecimentos a cerca dos 
transtornos, síndromes, patologias e distúrbios a qual o indivíduo possa estar relacionado, terá ter 
condições de identificar nos indivíduos tais sintomalogias, procurar identificar quais 
competências e habilidades que tais indivíduos possuem, e propor uma intervenção 
neuropsicopedagógica, que com certeza se fará acompanhada junto aos familiares, professores e 
equipe pedagógica e demais profissionais que se fazem presentes na vida destes indivíduos. 
 
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
O contexto educativo deve estar pautado em formas diferentes de aprendizagem, pois já é 
comprovado que um único método de ensino não contempla a todos, pesquisas da área de 
neurociência mostram as diversas áreas ativadas nos indivíduos nos processos de aprendizagem, 
porém as grandes pesquisas giram em torno da área da linguagem, principalmente nos casos de 
 
 
 
dislexia, porém Rotta (2006, p.18) enfatiza que: 
O avanço das neurociências, em especial da neurologia, é de suma importância para o 
entendimento das funções corticais superiores envolvidos no processo da aprendizagem. Sabe-se 
que o indivíduo aprende por meio de modificações funcionais do SNC, principalmente nas áreas 
da linguagem, das gnosias, das praxias, da atenção e da memória. Para que o processo de 
aprendizagem se estabeleça corretamente, é necessário que as interligações entre as diversas áreas 
corticais e delas com outros níveis do SNC sejam efetivas. 
Normalmente observamos que todos comentam apenas as deficiências e as dificuldades da 
criança, fazendocom o treinamento, o hipocampo aumenta de volume em pessoas com muita 
habilidade na orientação espacial, músicos tem um aumento do córtex motor, auditivo e visual. 
Dedicação e esforço podem modificar as condições trazidas por fatores genéticos. 
As dificuldades de aprendizagem são resultado de vários aspectos que interferem na aquisição de 
novos esquemas e na reorganização do cérebro para produção de novos comportamentos. Elas 
dependem da interação do indivíduo com o ambiente. O ambiente, na verdade, leva ao 
desenvolvimento de comportamentos adaptativos que podem dificultar ou propiciar a 
aprendizagem. Motivação, incentivo pela leitura e saúde física são fatores fundamentais na 
aprendizagem. 
A mãe consumidora de substâncias como o álcool e os componentes do tabaco, tendo doenças, 
como diabetes e hipertensão arterial sistêmica mal controlada, baixo peso da criança ao 
nascimento, prematuridade, dentre outros, estão estatisticamente associados a transtornos 
emocionais e cognitivos da criança. 
A neurociência nos dá evidências de que ambientes com estímulos sensoriais, que despertem a 
curiosidade e a busca de realização de experimentações levam, devido à neuroplasticidade, ao 
aumento da densidade de conexões das células nervosas, aumentando o desempenho cognitivo, 
mesmo em crianças com déficit intelectual. Por outro lado, a pouca estimulação sensorial pode 
levar ao desenvolvimento de diferentes formas de deficiência. A neurociência contribui para a 
compreensão dos processos neurais do aprendizado, entendendo os mecanismos de memória, de 
atenção, de motivação e de comunicação. 
Entendemos que o desenvolvimento pré-natal tem nos primeiros dois trimestres uma importância 
vital para o desenvolvimento do sistema nervoso central. A mielinização é o envolvimento dos 
axônios com uma camada de gordura feito pelas células da glia. A bainha de mielina acelera a 
condução do impulso nervoso, ela funciona como um isolante, sendo assim, os impulsos ocorrem 
aos saltos ao longo do axônio, através dos nódulos de Ranvier. 
 
 
Pesquisas atuais apontam a vida intrauterina como um importante período de desenvolvimento 
cognitivo. A aprendizagem, no útero materno ou fora dele, ocorreria em estreita interação com os 
estímulos que provêm do ambiente. A deficiência nutricional, por exemplo, relaciona-se à 
ocorrência na vida adulta de problemas como hipertensão, obesidade e resistência à insulina. 
Os alimentos agem na química dos neurotransmissores e ajudam a alterar o estado de espírito, 
regulam o humor e as sensações de prazer e bem-estar. No comando desses estímulos, quatro 
substâncias neurotransmissoras - serotonina, endorfina, adrenalina e dopamina, responsáveis pela 
conexão entre os neurônios e pelos impulsos nervosos que ditam o estado de ânimo. 
"Todas as emoções são resultado de reações químicas, realizadas pelos neurotransmissores. Só se 
é capaz de sentir determinada sensação quando a estrutura química do cérebro está predisposta, e 
quem produz essa química são os alimentos", explica o endocrinologista Tércio Rocha. Devido a 
isso que uma pessoa mal nutrida fica meio apática e não reage a notícias boas nem ruins; ou 
quando está com fome fica mal humorada e irritada. A endorfina garante prazer, a serotonina, 
calma e felicidade, a dopamina, disposição e energia, e a adrenalina deixa a pessoa em estado de 
alerta, tensa. O organismo saudável produzirá essas substâncias e as liberará de acordo com as 
situações. Diante disso estão os neurotransmissores, responsáveis pela comunicação entre os 
neurônios. Alimentar-se de forma correta ajudará a manter o cérebro em plena atividade em 
qualquer idade.

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