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Cultura e Educação bi/multilíngue
Aprender outra língua é só 
aprender como dizer?
PASSO I 
Cultura e Educação Bi/multilíngue 
1.2 1.3
APRENDER OUTRA LÍNGUA É SÓ APRENDER 
COMO DIZER?
Objetivos
 Compreender que a Educação Bilíngue vai além do ensino de outra língua.
 Reconhecer que aspectos culturais são construídos por meio do discurso.
Quando falamos sobre Educação Bilíngue, muitas vezes pais e até professores 
estão focados somente no aprendizado da língua em questão para o contexto 
escolar no qual estão inseridos.
Mas será que conhecimentos de cunho estritamente linguísticos são suficientes ou 
são os únicos a serem trabalhados na Educação Bilíngue? Que outros aspectos 
também estão presentes nessa forma de organização escolar?
Pense em exemplos de seu contexto e no 
que você já viu na disciplina educação bi/
multilíngue: Que outros ganhos você considera 
que os alunos têm dentro da proposta bilíngue?
 Anote algumas ideias a esse respeito e discuta com seus colegas 
no fórum (Passo 1 - Para começar), sobre outras habilidades que 
não sejam somente “falar bem uma outra língua”.
 Você pode comentar suas expectativas ou suas vivências, mas 
também pode comentar experiências partilhadas por colegas ou 
em artigos ou reportagens de jornais e revistas sobre o tema.
1.2
Cultura e Educação Bi/multilíngue 
1.3
Indicação de Leitura
 Com aulas em inglês, não aulas de inglês – O Estado de São Paulo – 
29/10/2017 - Link: http://twixar.me/bg8n Acesso: 07/07/2019
Voltando à nossa reflexão, podemos 
pensar que, se a escola se propõe a ser 
bilíngue, ter conhecimento de mais de 
uma língua é algo subentendido nos 
objetivos da instituição. No entanto, 
nesta forma de organização escolar, 
não se trata de ter outra língua como 
objeto de aprendizagem, mas de utili-
zá-la como instrumento de instrução 
(MARCELINO, 2009). 
Como você já viu na disciplina ante-
rior, a educação bi/multilíngue não 
se define ou não deveria ser definida 
somente pelo ensino ou pelo uso de 
outra língua, mas por mobilizar outros 
conhecimentos e estabelecer relações 
também e até por causa do trabalho 
em outra língua. 
que saber as 
estruturas, o vocabulário, a gramá-
tica e os fonemas para falar “corre-
tamente” e para conseguir aprender 
o conteúdo das diferentes disciplinas 
escolares já seria o bastante?
Usamos a língua para determinados 
fins, por meio da língua também 
agimos no mundo. É preciso, portanto, 
olhar para além da estrutura, do 
vocabulário e perceber que língua e 
cultura não estão separadas: existem 
marcas culturais inscritas na língua. 
Podemos começar pelas coisas mais 
corriqueiras como outras formas de 
demonstrar afeto, respeito, ou polidez. 
Saber dizer não significa saber usar, 
saber respeitar, saber outras formas 
de se relacionar.
Mas será...
https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,com-aulas-em-ingles-nao-aulas-de-ingles,70002064367
http://twixar.me/bg8n 
Cultura e Educação Bi/multilíngue 
1.4 1.5
Em alemão, por exemplo, se quisermos perguntar ou responder sobre o estado 
de espírito em um dia qualquer, temos algumas opções:
Wie geht es Dir?
Exemplo do alemão
Wie geht es dir? 
Como vai você? 
 
Gut – bem; 
Schlecht – mal; 
Es geht – vai indo; 
Prima – ótimo; 
So-so – mais ou menos.
Como você vai? 
Uma tradução literal dos termos, nesse caso, não nos assegura que possamos 
fazer uso adequado ao contexto. Na Alemanha, culturalmente, não se pergunta 
sobre a disposição ou humor para alguém desconhecido por ser considerado 
invasivo. Mesmo a pessoas com quem temos mais intimidade, a pergunta não 
é feita se não há realmente a intenção de saber. Enquanto, no Brasil, perguntar 
“como vai?” ou “tudo bem?” faz parte de uma estrutura padrão de cumprimento 
informal. 
1.4
Cultura e Educação Bi/multilíngue 
1.5
Indicação de Vídeo 
 Para ver esse e outros aspectos culturais que permeiam a língua alemã, 
assista a esse vídeo da emissora Deutsche Welle. Link: http://twixar.me/Bg8n 
Acesso: 07/07/2019
Outro exemplo... Aceita mais um pouquinho?
Imagine uma pessoa de outro país que tenha aceitado um convite para um café na 
casa de alguém. Quais são as interações à mesa? O que é esperado? O que pode 
ser considerado educado e gentil? O que poderia ser considerado uma ofensa? Em 
cada cultura, existem diferentes formas de oferecer e aceitar ou recusar comida que 
são marcados por pressupostos culturais:
Contrastar modelos interacionais próprios das práticas de alimentação, assim, eviden-
cia traços da cultura brasileira, formas com que a sociedade se estrutura e pelas quais 
opera. Daí por que questões relativas a essas práticas e suas possibilidades simbólicas 
podem ser muito produtivas para a compreensão das diferenças linguísticas culturalmente 
determinadas entre o português do Brasil e outras línguas. (NIEDERAUER, 2011, p. 87)
Saber dizer frases ou conhecer vocábulos de um determinado campo semântico 
como de comidas, por exemplo, não garante que cada pessoa conseguirá estabele-
cer interações adequadas quando estiver circulando entre outras culturas.
Indicação de Leitura
 Não deixe de ler o texto completo sobre modelos interacionais próprios das 
práticas de alimentação e mal-entendidos entre falantes de diferentes línguas. 
Link: http://twixar.me/cg8n Acesso: 07/07/2019
https://www.youtube.com/watch?v=539n0ahI0Ts
http://revistas.fflch.usp.br/papia/article/viewFile/1696/1507
Cultura e Educação Bi/multilíngue 
1.6 1.7
Também nas situações com pessoas de mesma nacionalidade e língua materna, em 
contextos comuns, existem diferenças no uso da língua entre pessoas de diferentes 
grupos sociais, gêneros e idades que são marcadas pelas culturas do entorno.
Indicação de Vídeo
 O cantor Emicida apresenta alguns traços que são exemplos desse aspecto 
quando fala, a seu modo, sobre “Preconceito linguístico no dia a dia”. 
Link: https://bit.ly/2z8uxX7 Acesso: 07/07/2019
Assim, em todos os grupos étnicos e 
sociais, a língua carrega marcas culturais 
diversas que vão além de simplesmente 
“saber dizer”, ou seja, “em línguas distin-
tas, nem sempre fórmulas supostamente 
equivalentes podem ser empregadas 
nas mesmas situações comunicativas.” 
(NIEDERAUER, 2011, p. 93). Isso 
funciona tanto para o que falamos, ou 
seja, as palavras e frases ditas em cada 
língua, quanto para a forma como utili-
zamos a linguagem e como interagimos 
com o nosso interlocutor.
Em muitas línguas indígenas, a alter-
nância do turno de fala, ou seja, 
quem cede a vez de falar, é marcada 
por regras implícitas e por aspectos 
linguísticos não necessariamente mani-
festos de forma evidente em palavras. 
Da mesma forma, o tom de voz e o 
grau de envolvimento nas conversas 
são aspectos culturais que envolvem uso 
da língua, e ignorar tais regras pode 
levar a discordâncias como interrupções 
indevidas, evidenciando “incongruência 
de estilo interacional” (MAHER, 2007, 
p.16). Até o ato de realizar um agradeci-
mento em alguns povos indígenas pode 
não ser necessariamente um ato de fala, 
mas uma ação (MAHER, 2007).
Muitas vezes, transportamos regras de 
uma língua para outra, sem atentar 
às especificidades e diferenças. É inte-
ressante conhecer, por exemplo, sobre 
https://bit.ly/2z8uxX7
https://bit.ly/2z8uxX7
1.6
Cultura e Educação Bi/multilíngue 
1.7
Indicação de Leitura
 Para se aprofundar nesse aspecto, leia o texto “Hoje nós não somos mais 
huni kuin só na nossa língua”, da pesquisadora Beatriz Christino (2018), sobre a 
variedade de português falada por indígenas que carrega traços culturais para 
além de aspectos linguísticos como vocabulário ou sintaxe, mas carrega evidências no discurso 
nas regras de interação da cultura Kaxinawá que são transportadas para a língua (fórmulas de 
fechamento e as retomadas da fala do outro). Link: https://bit.ly/2Z2QqPJ Acesso: 07/07/2019
Ao mesmo tempo, é interessante também refletir sobre como vivenciamos tais dife-renças dentro de uma mesma língua. Analisando diversos aspectos relacionados à(s) 
língua(s) falada(s) no Brasil, mas particularmente em relação ao próprio português, 
Marcos Bagno (1999, p. 15) alerta para vários mitos em relação à língua, como a 
existência de uma única variedade válida e correta:
Esse mito é muito prejudicial à educação porque, ao não reconhecer a verdadeira 
diversidade do português falado no Brasil, a escola tenta impor sua norma linguística 
como se ela fosse, de fato, a língua comum a todos os 160 milhões de brasileiros, 
independentemente de sua idade, de sua origem geográfica, de sua situação socio-
econômica, de seu grau de escolarização etc.
como índios Kaxinawá aplicam a etiqueta interacional de sua língua ao português 
que utilizam em outros contextos (CHRISTINO, 2018).
Após assistir ao vídeo com o depoimento de Emicida e ler o artigo 
sobre os índios Kaxinawá (principalmente a partir da página 13).
 Cite aspectos culturais que possam estar presentes no uso das lín-
guas e que extrapolam a dimensão estritamente linguística (voca-
bulário, construção das frases, pronúncia, etc). 
http://www.scielo.br/pdf/tla/v57n3/0103-1813-tla-57-03-1486.pdf
http://www.scielo.br/pdf/tla/v57n3/0103-1813-tla-57-03-1486.pdf
 https://bit.ly/2Z2QqPJ
Cultura e Educação Bi/multilíngue 
1.8 1.9
Como você viu no passo I de Educação bi/multilíngue, diversas outras línguas são 
faladas no Brasil, assim como convivemos com diferentes variantes da língua portu-
guesa marcadas por traços geográficos, de gênero, idade ou classe social. Também 
vimos agora que as línguas e as formas de utilizá-las carregam algumas marcas 
culturais e saber traduzir termos ou dominar regras gramaticais não é suficiente.
Assim, precisamos refletir sobre nosso trabalho em sala de aula e 
nos modelos escolhidos para as propostas didáticas que oferecemos. 
Posto que a língua carrega em si aspectos da cultura, se oferecermos 
somente uma variante dela em sala de aula, a quais marcas culturais 
nossos alunos terão acesso?
A relação entre língua e cultura em sala de aula existe mesmo em contextos escolares 
que não são bi/multilíngues e se inicia já na relação entre professor e aluno num 
espaço social diferente da família, como nos aponta Maher (2007, p. 15):
A cultura do aluno se manifesta, de forma muito menos tangível, no próprio coti-
diano escolar, pois é ela quem lhe fornece orientações sobre quais seriam os modos 
apropriados de se comportar verbalmente e não verbalmente em sala de aula. Uma 
vez que questões de estilo comunicativo são quase sempre inconscientes e estão 
intimamente associados às identidades dos falantes, uma vez que as culturas intera-
cionais servem para preservar e marcar fronteiras identitárias.
Trazendo reflexões de Lewitt e Stais (1988), Maher (2007) ressalta o fato de existi-
rem informações culturais passadas no ambiente escolar no nível material, ou seja, 
o conteúdo em si; no nível social, na forma de interação e no nível cognitivo, que diz 
respeito ao que é aceito ou valorizado como conhecimento.
Precisamos refletir sobre a relação entre língua e cultura no ensino, pois não é possí-
vel dissociar uma da outra. No entanto:
1.8
Cultura e Educação Bi/multilíngue 
1.9
A língua continua a ser ensinada como um sistema fixo de estruturas formais e 
funções universais da fala, um canal neutro para a transmissão do conhecimento 
cultural. A cultura é incorporada apenas na medida em que reforça e enriquece, 
não que questiona os limites tradicionais de si mesmo e do outro. Na prática, os 
professores ensinam língua e cultura, ou cultura na língua, mas não a língua como 
cultura. ¹ (KRAMSCH, 1996, p. 6, tradução nossa)
A cultura está presente na sala de aula em diferentes camadas, todas elas mediadas 
pela linguagem e, por isso, torna-se importante refletirmos sobre nossas escolhas ao 
pensarmos o material didático, as formas de organização didática, as interações, os 
modelos que ofereceremos e as reflexões que vamos propor. A cultura se manifesta 
na língua por ser “uma associação linguisticamente mediada em uma comunidade 
discursiva, que é real e imaginada.” ² (KRAMSCH, 1996, p. 3, tradução nossa)
Para compreendermos melhor o conteúdo deste módulo, vamos, agora, no passo 
II, discutir o conceito de cultura e seus diversos entendimentos e definições. É preciso 
ter consciência de que cada ação tem uma dimensão teórica própria e contribui 
para um resultado específico, esteja ele explícito ou não.
Você já vivenciou alguma situação engraçada ou constrangedora 
porque não conseguiu decifrar os pressupostos culturais subjacentes 
ao contexto? 
 Procure pensar em suas próprias experiências em contato com 
outras línguas e culturas e descreva alguma situação na qual um 
¹ Language continues to be taught as a fixed system of formal structures and universal speech functions, a neutral conduit 
for the transmission of cultural knowledge. Culture is incorporated only to the extent that it reinforces and enriches, not that 
it puts in question, traditional boundaries of self and other. In practice, teachers teach language and culture, or culture in 
language, but not language as culture.
² linguistically mediated membership into a discourse community, that is both real and imagined.
aspecto da cultura estava “embutido” no uso da língua e a simples tradução literal 
de termos e uso da gramática padrão não foram suficientes.
ALVAREZ, L. Com aulas em inglês, não aulas de inglês. O Estado de São Paulo. São Paulo, 29 out. de 
2017. Disponível em: https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,com-aulas-em-ingles-nao-aulas-de-in-
gles,70002064367 Acesso em: 27.3.2019
BAGNO, M. Preconceito linguístico – que é, como se faz. Ed. Loyola, São Paulo, Brasil, 1999.
CHRISTINO, B. “Hoje nós não somos mais huni kuin só na nossa língua”: o português kaxinawá em interações 
transculturais. Trabalhos em Linguística Aplicada. vol. 57 n.3 Campinas set./dez. 2018 Disponível em: http://www.
scielo.br/pdf/tla/v57n3/0103-1813-tla-57-03-1486.pdf Acesso em: 27.3.2019
DEUTSCHE WELLE. A guide to making small talk in Germany | Meet the Germans. 2019, 3m50s, son., color. 
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=539n0ahI0Ts Acesso em: 30.3.2019
KRAMSCH, C. The Ctulural Component of Language Teaching. Zeitschrift für Interkulturellen Fremdsprachenun-
terricht. v.1 nº 2. Darmstadt: 1996. Disponível em: https://tujournals.ulb.tu-darmstadt.de/index.php/zif/article/
view/741/718. Acesso em: 5/4/2019. 
MAHER, T. M. Do casulo ao movimento: a suspensão das certezas na educação bilíngue e intercultural. In: CAVAL-
CANTI, M. C.; BORTONI-RICARDO, S. M. (Orgs.) Transculturalidade, linguagem e educação. Campinas. SP: 
Mercado de Letras, 2007. p. 67 – 94.
MARCELINO, M. Bilinguismo no Brasil: significado e expectativas. Revista Intercâmbio. Volume XIX: 1-22, 2009. 
São Paulo: LAEL/PUC-SP. 
MEDIA LAB ESTADÃO. Caderno Educação Bilíngue e Intercâmbio. São Paulo, 29 mar. de 2019.
NATURA MUSICAL. Amplifica por Emicida - Preconceito linguístico no dia a dia, 2018, 2m57s, son., color. Dispo-
nível em: https://www.youtube.com/watch?v=QlhsiMWT-eQ Acesso em: 30.3.2019
NIEDERAUER, M. Vamos almoçar? Línguas e culturas: com tato. Papia 21, p. 83-99, 2011. Disponível em: http://
revistas.fflch.usp.br/papia/article/viewFile/1696/1507 Acesso em: 5.4.2019
REFERÊNCIAS
https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,com-aulas-em-ingles-nao-aulas-de-ingles,70002064367
https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,com-aulas-em-ingles-nao-aulas-de-ingles,70002064367
http://www.scielo.br/pdf/tla/v57n3/0103-1813-tla-57-03-1486.pdf
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https://tujournals.ulb.tu-darmstadt.de/index.php/zif/article/view/741/718
https://www.youtube.com/watch?v=QlhsiMWT-eQ
http://revistas.fflch.usp.br/papia/article/viewFile/1696/1507
http://revistas.fflch.usp.br/papia/article/viewFile/1696/1507Professora: Nadia Dini
Design: Mirela Martins

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