Logo Passei Direto
Buscar

Apostila didatica - GE- Psicanalise e Infancia dialogos com Melanie Klein

Ferramentas de estudo

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

PSICANÁLISE E INFÂNCIA: DIÁLOGOS
COM MELANIE KLEIN
APOSTILA DIDÁTICA 
GRUPO DE ESTUDOS
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
 1: Introdução à obra de Melanie Klein
 2: A posição Esquizo-paranóide e a posição
depressiva
 3: Caso Dick
 4: Caso Edna
MÓDULO 1
171
RESENHA
DE LIVROS
ano VII, n. 3, set/2004
Débora Siqueira Bueno
Melanie KleinMelanie KleinMelanie KleinMelanie KleinMelanie Klein
Uma mulherUma mulherUma mulherUma mulherUma mulher, uma psicanalista, uma psicanalista, uma psicanalista, uma psicanalista, uma psicanalista
Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., VII, 3, 171-175
O gênio feminino: a vida, a loucura, as palavras
Tomo II – Melanie Klein
Júlia Kristeva
Rio de Janeiro: Rocco, 2002
Um pouco tantã, mas muito encantadora. Assim Alix Strachey,
sofisticada londrina do grupo Bloomsbury, descreveu sua colega de análise
com Karl Abraham na Berlim do início do século XX, antes da convulsão
trazida pela Segunda Guerra Mundial – quando a psicanálise florescia e
constituía um ambiente favorável para a revelação de talentos e receptivo
à mulher como poucos à época. Mas, que mulher é essa?
Essa mulher – que não era médica nem possuía outra graduação
universitária, esposa infeliz e depois divorciada, mãe deprimida, a vida
pontilhada de lutos e perdas, analisada por Ferenczi e por Abraham –
tornou-se psicanalista aos quarenta anos de idade. Iniciou o estudo da
psicanálise de crianças baseando-se na análise de seus próprios filhos.
Deixou sua terra e sua língua materna em busca de um espaço para si.
De presença marcante, defendeu de forma aguerrida suas idéias, o que a
fez colher experiências duras e dolorosas. Essa mulher, essa psicanalista
– Melanie Klein – fundou a psicanálise de crianças e ampliou a psicanálise
de adultos em muitas direções, sobretudo na da análise das psicoses.
Faleceu em 1960, aos 78 anos, quando ainda trabalhava com pacientes
em análise didática, com supervisões e concluía a revisão de sua Narrativa
da análise de uma criança. Tornou-se uma referência incontornável para
todos que se interessam pela vida psíquica e pelo sofrimento humano.
172
R E V I S T A
L A T I N O A M E R I C A N A
DE PS ICOPATOLOGIA
F U N D A M E N T A L
ano VII, n. 3, set/2004
O gênio feminino: a vida, a loucura, as palavras – Melanie Klein é o
segundo volume de uma trilogia – ao lado dos livros dedicados a Hanna Arendt
e Colette – na qual a autora, Júlia Kristeva, se volta à contribuição de algumas
mulheres que marcaram a história no século XX. Seu subtítulo é A loucura – ou
o matricídio como dor e como criatividade.
Kristeva toma um duplo fio condutor para o andamento de seu texto. No
primeiro deles apresenta a história da vida de Melanie Klein, utilizando como
principal referência a biografia escrita por Phyllis Grosskurth –, os leitores que
já tiveram contato com essa obra, portanto, não encontrarão exatamente fatos
inéditos. Mas desta forma ela dá o colorido da vida e ancora o desenrolar do
segundo fio: a exposição, o aprofundamento e também uma análise, em alguns
aspectos muito particular, da obra de Melanie Klein.
Melanie Klein partiu da psicanálise que lhe era contemporânea: Freud
descrevera o tratamento de Hans feito através de seu pai em 1909; Ferenczi
apresentou o caso de uma criança fóbica, “Um pequeno homem-galo”, em 1913,
e em 1919 escreveu a Freud comunicando que uma de suas pacientes realizara
importantes observações psicanalíticas com crianças. A hipótese da existência
de uma pulsão de morte determinando a vida psíquica, apresentada no trabalho
de Freud, “Além do princípio do prazer” de 1920, foi prontamente aceita por
Melanie Klein, que a utilizou para fundamentar e justificar suas posições. Embora
tenha de fato reformulado a problemática analítica, em momento algum reivindicou
para si o posto de guia intelectual. Mesmo depois de se tornar o pólo de uma
forma de se pensar a psicanálise, detestava o adjetivo “kleiniano”. Klein foi, acima
de tudo, uma clínica corajosa, excepcionalmente sensível à angústia, seu norte
no trabalho com seus pacientes.
Para Kristeva, as divergências com Freud “não foram nunca consumadas
sob a forma de uma fratura, mas conduzidas como uma maneira de completar a
teoria do inconsciente”. A autora faz um valioso cotejamento entre Klein e Freud
ao longo de todo o livro, do qual serão destacados alguns pontos.
Freud mostrou que o recalque cria a angústia e os sintomas. Klein fez da
pulsão de morte o agente principal da angústia, mas também da capacidade
humana de criar símbolos e pensar.
O inconsciente freudiano é estruturado pelo desejo e pelo recalque. A pulsão
em Freud tem uma fonte e um objetivo, mas não um objeto predeterminado e
fixo; para ele, a vida psíquica do sujeito se estrutura na experiência da castração
e em torno da função do pai. Melanie Klein trouxe para o início da vida psíquica
a relação com o objeto – o seio, a mãe. O outro está sempre ali, assim como as
vicissitudes das relações com o objeto, mobilizando angústias e defesas. Sem
ignorar a função paterna e a angústia de castração, serão as relações primitivas
com o objeto que irão determinar o devir do sujeito.
173
RESENHA
DE LIVROS
ano VII, n. 3, set/2004
Kristeva retoma, na obra de Freud, o trajeto do conceito de narcisismo e
evoca as críticas quanto à imprecisão e insuficiência do mesmo, sobretudo as
de Laplanche e Pontalis. Em Melanie Klein, a hipótese é de que o bebê
estabeleceria desde o nascimento certa relação de objeto. O narcisismo não
desaparece, mas toma o aspecto de um “estado narcísico”, no qual a libido se
retira dos objetos exteriores para se dobrar exclusivamente sobre os objetos
internos.
Com Melanie Klein, a fantasia inconsciente passou a estar no centro do
trabalho analítico. Em Freud, escuta de sonhos e linguagem; em Klein, escuta
da fantasia, metáfora encarnada, escuta voltada para a dor psíquica, presente
desde o início da vida.
Os casos clínicos de Melanie Klein são revistos por Júlia Kristeva – de
Fritz, seu filho, até Rita – para se chegar à invenção da técnica do jogo, na qual
jogar será a via régia do inconsciente com o mesmo estatuto que Freud já
atribuíra ao sonho. A fantasia expressa através do jogo torna-se uma fantasia
narrada a dois. A transferência é tomada como o objeto obrigatório da
interpretação e não se evita interpretar a transferência negativa. Estes pacientes
mostram também o percurso de Melanie Klein no trabalho com a angústia. Com
Fritz e Félix, o entrelaçamento de desejo e angústia. Com Rita e Erna, o sadismo
do ego arcaico passou a ser considerado a fonte da angústia originária. Sadismo
fortemente imbricado com as pulsões genitais, evidência clínica que levou Klein
às hipóteses de um Édipo precoce e de uma nova concepção de superego.
A partir da descoberta do apogeu do sadismo, Melanie Klein chegou à
clínica das cisões e da psicose, principalmente com os casos Dick e Richard.
No breve período durante a II Guerra em que atendeu Richard, Klein lidou com
a angústia persecutória e as clivagens. Nessa análise, o trabalho na transferência
com o superego excessivamente rígido e severo abriu uma via essencial para o
tratamento das psicoses.
O tratamento de Dick foi um divisor de águas. Criança psicótica, mal falava,
era indiferente à presença da mãe e ao ambiente. Para Kristeva, Melanie Klein,
apoiada em sua experiência anterior com Fritz, “procede como se ela fosse ele”:
pressupõe e formula a fantasia de Dick, narrando para a criança seu mito edipiano
impregnado por um sadismo violento. Desencadeia-se um processo que possibilita
algum interesse pelos objetos, permitindo que a criança siga num encadeamento
de equação em equação, equivalência em equivalência. Quando Dick pôde enfim
brincar, “o real inominável se tornou um imaginário que alivia. Pela palavra da
analista”.
Kristeva se reporta a um comentário de Lacan sobre o caso Dick para
iluminar este aspecto do método kleiniano: a importância da verbalização sobre a
fantasia inconsciente, favorecendo a passagem de um funcionamento baseado
174
R E V I S T A
L A T I N O A M E R IC A N A
DE PS ICOPATOLOGIA
F U N D A M E N T A L
ano VII, n. 3, set/2004
em identidades para outro baseado em semelhanças. Ao dizer o que Dick alucina,
Melanie Klein põe em palavras uma fantasia solitária e inominável da criança. O
dizer do outro confere ao fantasme o estatuto de uma vivência psíquica, alivia a
angústia e a agressividade e permite que a criança se distancie desta pela fala e
pelo jogo. A experiência clínica com Dick permitiu também destacar a formação
de símbolos, tema que Hanna Segal retomou posteriormente em seu clássico
trabalho Notas sobre a formação de símbolos. Mantendo esta tradição de
experiência clínica fecunda, o caso Dick também é ponto de apoio para um debate
da própria Júlia Kristeva a respeito de um pré-simbolismo e de uma capacidade
de fantasiar infralingüística.
Conceitos elaborados por Melanie Klein ou por autores pós-kleinianos
receberam de Júlia Kristeva um tratamento aprofundado. Destaca-se a discussão
sobre a fantasia inconsciente, em que a autora costura as idéias de Klein com as
posições de Freud, discriminando a fantasia da realização alucinatória de desejo,
com o trabalho de Susan Isaacs Natureza e função da phantasia, e com a teoria
da fantasia de Lacan. Kristeva ressalta que Melanie Klein desenvolveu de uma
nova maneira um dos grandes problemas da teoria psicanalítica: o do estatuto
da representação psíquica. O fantasme kleiniano é um conglomerado de diversos
registros de representação, heterogêneo, comportando também elementos pré ou
sem representação. Em sua clínica, Klein teria demonstrado o imperativo da escuta
analítica do fantasme, o verdadeiro objeto da psicanálise. Somente ao acompanhar
a fantasia inconsciente o analista pode conduzir, incompletamente, o paciente à
verdade psíquica. Kristeva critica os teóricos que desvalorizam ou desprezam o
imaginário como mero desconhecimento, pois deixam, assim, de escutar o
material inconsciente.
Melanie Klein foi a clínica que desceu ao fantasme, à psicose. Trabalhou
sobre o imaginário da criança e no imaginário do analista, intensa e profundamente.
Foi a primeira a privilegiar a função materna, assim como a primeira a conceber
o matricídio como origem da capacidade de pensar. Criou uma concepção da
sexualidade arcaica assentada no casal parental, a partir da fantasia terrífica dos
pais combinados. O pensamento em Klein carrega uma versão da liberdade como
“criatividade respeitosa do self” . Seu estabilizador é a experiência de perda e a
conseqüente depressão.
Os conceitos de Melanie Klein são firmes e pacientemente argumentados,
evoluem de forma circular, às vezes emergindo em flashes súbitos. Seu texto
não segue um deslizamento retórico, é feito de luz e sombras. Kristeva indaga:
existirá um texto de Klein? Freud construiu a sua obra também na linguagem.
Klein portou a estranheza e usou uma língua de empréstimo. Suas elaborações
foram muitas vezes censuradas como ambíguas, assim como o conhecimento
que construiu foi acusado de corporal e imaginário. Júlia Kristeva argumenta com
175
RESENHA
DE LIVROS
ano VII, n. 3, set/2004
a marca do retorno constante do negativo no trabalho de Melanie Klein, tema
absolutamente atual para a psicanálise. O próprio empirismo e inexatidão teórica
fazem desta uma obra “aberta e polissêmica”, tornando-a um instrumento para
se buscar a compreensão do mundo contemporâneo e das “novas doenças da
alma”.
Kristeva lança seu olhar para as incompletudes dessa obra aberta. Melanie
Klein não pensou a histeria de conversão. Subestimou o desejo e o ódio da mãe,
o que foi retomado por seus sucessores. E evitou a perversão, tomando-a
simplesmente como negação do amor destrutivo e defesa contra a dependência
dolorosa. Se há um impasse em Klein no reconhecimento do valor simbólico do
pai, Kristeva o aborda de forma muito interessante: é na experiência clínica que
a interpretação inscreve a função paterna. “Pela pertinência de seu dizer, Melanie
endossa o papel desse outro que assume o pai na família, e que a analista dá a
conhecer pela precisão distante de seu discurso”. Melanie Klein preserva
implicitamente a função do pai em sua concepção do lugar do analista.
O gênio feminino tem lugar assegurado na bibliografia dos que se dedicam
ao estudo da obra de Melanie Klein. Distingue-se do trabalho de outros estudiosos
e exegetas já consagrados do pensamento kleiniano, como Hanna Segal,
Hinselwood, Elsa Del Valle e Willy Baranger. Aproxima-se de Jean Michel Petot,
referência bastante mencionada, mas sem superpor-se a ele. Embora Kristeva
reconheça a importância do pensamento de Melanie Klein para a América Latina,
chama a atenção a ausência de autores desta região entre as referências
consideradas no livro.
O trajeto de Júlia Kristeva – que passa pela semiologia, pela filosofia, pela
teoria literária e pela psicanálise –, imprime sua marca no texto, erudito e rico.
O estilo parece portar a marca do pensamento europeu continental. E por esta
via torna-se um livro também muito valioso para os que pretendem uma
aproximação ao pensamento de Melanie Klein a partir de Freud, de Lacan e da
psicanálise francesa. Em muitos momentos a autora dirige-se aos leitores de
Freud, convidando-os explicitamente a uma aproximação empática com as idéias
de Klein. E Kristeva efetua esta aproximação, desvencilhando-se das armadilhas
que a política das escolas acabou por criar tantas vezes, ao reduzir a estereótipos
um saber complexo. Com cuidado e respeito pela obra da psicanalista cuja paixão
teria sido poder ouvir “um desejo que pensa”.
AnBlIsa Psicológica (197ô). I , 465-70 
Sobre a vida e obra de Melanie Klein 
PEDRO LUZES' 
Melanie Klein, sendo de enorme importância 
teórica e técnica para os psicanalistas de crian- 
ças e adultos e para a psicologia geral do desen- 
volvimento, não é autor de fácil acesso. As 
suas obras completas foram reunidas recente- 
mente em quatro grossos volumes, publicados 
na International Psycho- Analytical Library. Essa 
edição ordenada cronologicamente e apresen- 
tando algumas notas editoriais no final dos volu- 
mes, não é totalmnete esclarecedora para psica- 
nalistas e ainda menos para o leitor não especia- 
lizado. Está ainda por publicar um trabalho 
definitivo sobre a obra de Melanie Klein (com- 
parável por exemplo com a obra de Emest 
Jones sobre Freud) embora ela seja conside- 
rada, por grande número de psicanalistas, a 
segunda grande figura da Psicanálise. 
As dificuldades postas pela leitura de Melanie 
Klein resultam em primeiro lugar de os seus 
trabalhos descreverem problemas que só podem 
ser correctamente avaliados por pessoas que 
utilizem uma técnica semelhante h sua-é o 
que se passa com os relatos referentes i% análise 
de crianças. 
Em segundo lugar datando os seus primeiros 
trabalhos da segunda década do presente século, 
o avanço teórico que existia na época tornava 
* Psicanalista. Presidente da Sociedade Portuguesa 
de Psicanálise. Professor no I.S.P.A. e Assistente no 
Curso Superior de Psicologia, Universidade de Lisboa. 
impossível a recapitulação de todas as informa- 
ções sobre os assuntos tratados. Desse modo as 
suas obras partem de uma posição adiantada 
que o leitor não especializado não está em con- 
dições de acompanhar. 
Em terceiro e último lugar, por tempera- 
mento, Melanie Klein procurava aprofundar as 
suas ideias de acordo com um ângulo de visão 
estritamente pessoal; a sua perspectiva era mais 
intuitiva, subjectiva, mesmo artística, do que 
metódica e discursiva. A sua intenção não era 
convencer ou conquistar adeptos para os seus 
pontos de vista-ao contrário de Freud que 
apreciava as exposições didácticas e sistemáticas 
o que o levou a escrever longas olbras sobre 
vários assuntos. Os trabalhos de Melanie Klein 
são na sua maioria curtos e condensados. Rara- 
mente escreveu trabalhos com intuito de di- 
vulgação. 
Muitas destas dificuldades de abordagem da 
Psicanálise existem, em graus variáveis, para 
a maioria dos autores polsteriores a Freud. 
A Psicanálise pós-freudiana tende a tomar-seo 
assunto especializado, em que o leigo, apesar 
da sua curiosidade, não consegue penetrar. A 
maiolria dos livros de vulgarização que conti- 
nuam a publicar-se sobre Psicanálise são basea- 
dos na obra de Freud e praticamente ignoram, 
ou são forçados a deixar de lado, as contribui- 
ções dos seus sucessores. Os seguidores de 
65 
Freud, que sem fazer divulgações, ou trabalhos 
de pura revisão, são susceptíveis de ser lidos 
por qualquer pessoa, são em número limitado 
(Jones, Reik, Reicli, Spitz, Erikson, Winnicott, 
alguns livros de Anna Freud e pouco mais). 
Melanie Klein nasceu em Viena a 30 de 
Março de 1882. Morreu em Londres em 1960 
(22 de Setembro). Tanto do lado paterno como 
materno a sua família era de origem judaica 
sendo o pai muito mais velho do que a mãe. 
O pai, vindo de um meio ortodoxo judeu, fora 
treinado para se tornar um estudioso do Tal- 
mud. Mas aos 37 anos revoltou-se, foi estudar 
na Universidade e tornou-se médico. Aos 44 
anos o pai de Melanie Klein, de apelido Reizes, 
casou com uma jovem de 25 anos da qual teve 
quatro filhos. 
Melanie era a mais nova dessas quatro crian- 
ças. A sua infância e juventude foram entriste- 
cidas pela doença e morte de dois dos seus 
irmãos. Primeiro a de uma irmã, Sidonie, que 
morreu com 9 anos quando Melanie tinha 5 
anos. Sidonie esteve acamada durante 1 ano e 
passou grande parte desse tempo procurando 
ensinar Melanie, transmitindo-lhe os conhe- 
cimentos que tinha podido alcançar. Melanie 
recebeu esta herança com gratidão e para agra- 
dar ?i irmã aprendeu a ler, a escrever, antes 
dos 5 anos. Mais tarde factos semelhantes 
vieram a passar-se com o irmão Emmanuel, 
mais velho que Melanie 5 anos. Emmanuel 
tinha uma doença cardíaca e esperava-se que 
viria a morrer cedo. Isto aconteceu quando 
tinha 25 anos. Sendo um rapaz dotado, interes- 
sado em arte, literatura e música, com talentos 
incipientes de escritor e pianista, procurou enco- 
rajar em Melanie um interesse pelas artes, inte- 
resse esse que de facto durou toda a vida desta. 
Melanie, cujo apelido de solteira era Reizes 
como se disse, casou com um engenheiro quí- 
mico, Arthur Klein, quando tinha 21 anos. O 
casal teve três filhos. Embora tivesse entrado 
para a Universidade, primeiro com intenção de 
fazer estudos médicos, depois estudando Arte e 
História, Melanie Klein nunca chegou a comple- 
tar um curso. 
A família viajava muito devido a profissão 
de Arthur Klein, tendo-se estabelecido em Buda- 
peste um pouco antes do eclodir da I Guerra 
Mundial. Tendo lido por acaso um livro de 
Freud, começou a interessar-se pela Psicanálise 
e fez análise com Ferenczi durante vários anos. 
O seu primeiro trabalho científico foi apresen- 
tado a Sociedade Psicanalítica de Budapeste em 
1919 e publicado em 1921 (O Desenvolvimento 
de u m a Criança). 
Em 1921 Arthur Klein foi para a Suécia e 
Melanie com os seus três filhos ficou em Berlim. 
Esta separação acabou por levar a um divórcio 
em 1923, não tendo nunca Melanie voltado a 
casar. 
Em Berlim continuou a tratar crianças, 
tendo como seu primeiro caso um rapaz de 5 
anos que exprimia as suas angústias e fantasias 
utilizando brinquedos. Ela tentou interpretar 
o que ele dramatizava através do seu brincar, 
seguindo uma técnica próxima da técnica utili- 
zada por Freud para a análise de sonhos. Estava 
assim descoberta a análise do brincar da criança 
(play technique) a qual será exposta sistemati- 
camente no livro A Psicanálise das Crianças 
(1932). A principal constatação que resulta do 
trabalho desta época berlinesa é a importância 
do impulso agressivo na vida mental da criança 
e riqueza do material simbólico que o brincar 
infantil manifesta. 
Em Berlim ainda fez mais análise didáctica 
com Karl Abraham, análise que foi interrom- 
pida pela morte de Abraham em 1925. Em 1926 
foi convidada por Ernest Jones para se instalar 
em Londres, para divulgar entre os analistas 
ingleses o seu método de análise de crianças. 
Por volta de 1930 começa a analisar tanto 
crianças como adultos, e o seu trabalho expan- 
de-se apresentando novas hipóteses num campo 
mais teórico que técnico. Propõe a opinião de 
que no Eu da criança se estabelece um mundo 
de objectos internalizados, que por um jogo 
complexo de introjecção e projecção vai moldar 
as percepções do mundo externo e vai ser mol- 
dado por elas. Devido & forte agressividade 
que a criança vive, o Eu é abalado por fortes 
angústias de tipo psicótico, que, caso não sejam 
66 
modificadas, são o ponto de regressão das psi- 
coses na idade adulta da vida. 
Certas figuras internas de carácter persecu- 
tório dão origem a um Super-Eu precoce, dife- 
rente do Super-Eu, herdeiro do Complexo de 
Bdipo, descrito por Freud. O próprio Complexo 
de Édipo é visto depois pelo estudo directo da 
criança, como tendo uma instalação mais pre- 
coce do que fora indicado por Freud. A sua 
aparição segue de perto o desmame, em geral 
feito por volta dos 6 meses de idade, quando 
começam a aparecer os primeiros dentes. 
Estas observações e princípios são apresen- 
tados em trabalhos curtos e também na sua obra 
mais longa e sistemática A PsicQnríIise das 
Crianças (1932). Resultou este livro dos cursos 
e seminários realizados em Inglaterra, para os 
analistas que junto dela procuraram aprender a 
teoria e técnica da análise precoce. 
De 1935 a 1946 Klein publica três dos seus 
mais importantes trabalhos, em que vai marcar 
uma modificação importante dos seus pontos 
de vista: Uma Contribuição p a Psicogénese 
dos Estudos Maníaco-Depressivos (1935). O 
Luto e as Suas Relações com os Estados 
Maníaco-Depressivos (1940) e Notas sobre Al- 
guns Mecanismos Esquizóides (1946). Estes 
trabalhos pouco extensos (de cerca de 30 pági- 
nas cada) embora continuando na linha das 
investigações de Freud e Abraham foram con- 
siderados afrontosamente heréticos e revolu- 
cionários. E de facto tanto pelo seu conteúdo, 
como pelo modo assertório como eram propos 
tos, vinham transtornar os hábitos mentais de 
muitos analistas que, insensivelmente, vinham 
transformando a teoria psicanalítica num novo 
academismo. 
Não é aqui o lugar de apresentar em detalhe 
esses artigos tão densos de Klein Bastará 
indicar que sem abandonar a ideia de Freud e 
Abraham, da evolução da libido através de 
estádios psico-sexuais, distingue como funda- 
mentais duas «posições» na evolução da criança. 
Noutro local, numa contribuição para o segundo 
volume de uma obra de váriw autores sobre Desen- 
volvimento Psicológico da Criança, editado por Mo- 
ras, Editores, tento balizar os pontos mais importantes 
da revolução kleiniana. 
O termo «posições» em vez de estádios do 
desenvolvimento, é usado para indicar que se 
trata de fases que não são nunca completamente 
ultrapassadas - o que também era um pres- 
suposto, embora de modo menos explícito, da 
teoria psicanalítica anterior. As duas «posições» 
são marcadas por angústias específicas, por me- 
canismos psíquicos bem diferenciados, que até 
Klein não tinham sido claramente descritos: 
a) Posição esquizo-paranóide, predominante 
durante os 3 a 6 primeiros meses de vida, com 
impulsos destmtivos, angústia persecutória e 
tendência para a clivagem e identificação pro- 
jectiva; 
b) Posição depressiva, sobrepondo-se h an- 
terior, com integração da mãe num objecto total, 
angústia de tipo depressivo, tendência para utiii- 
zar cada vez mais o mecanismo de reparação, 
que está na base das relações objectais estáveis 
e das sublimações. 
Nas «posições» descritas por Klein, como se 
vê, não está só implícita a libido, mas igual- 
mente a sua combinação com os impulsos agres- 
sivos. 
Esta época da vida de Melanie Klein, sendo 
a mais criadora, foi também aquela em que 
esteve pessoalmente sujeita a maior stress e 
desgaste. 
Por um lado desgostos de natureza familiar. 
Em primeiro lugar morre-lhe o segundo filho, 
num acidente de alpinismo (1934). A sua filha 
mais velha, Melita Schmideberg, formada em 
Medicina e futura psicanalista, depois deuma 
análise com Edward Glover, incompatibiliza-se 
com a mãe. 
Mais ou menos pela mesma época começam 
a chegar a Londres os analistas vienenses, for- 
çados a exilar-se pelas perseguições anti-semitas 
dos nazis. 
O grupo vienense estabelecido em Londres 
vem a ser encabeçado por Anna Freud, com 
todo o carisma do nome paternal. Anna Freud, 
que também enveredara pela análise infantil, 
afirmava a impossibilidade de empregar uma 
técnica analítica pura para as crianças (como 
queria Klein), e defendia a utilização de deter- 
minadas influências de ordem sugestiva e edu- 
67 
cativa. Além disso mantinha para o desenvol- 
vimento da criança toda a cronologia estabele- 
cida por Freud, a partir do trabalho executado 
com adultos. 
Este grupo aanna-freudianon procura retirar 
a Klein o apoio que até então tinha alcançado 
da maioria dos psicanalistas ingleses. E de 
início parece consegui-lo. Em torno de Klein 
fica um grupo limitado de «kleinianos». Contra 
ela constitui-se uma oposição que procura 
demonstrar que as suas inovações são «heresias» 
semelhantes as de Adler, Rank, Steckel e 
Jung, que acabarão por arruinar o edifício da 
Psicanálise se não se decretar a sua condenação. 
Sob as bombas do Blitzkrieg, travam-se lutas 
tempestuosas no seio da Sociedade Britânica 
de Psicanálise. A cisão entre «kleinianos» e 
canna-freudianosn é evitada, a muito custo, 
devido ao espírito de compromisso de Jones 
e dos analistas ingleses, e convém também 
acentuar, devido a serenidade, de Mrs. Klein, 
que sem recuar um passo nas suas opiniões, 
praticamente não responde ao grupo rival. Na 
verdade nunca se sentiria em desacordo com 
a posição freudiana. O seu fito nunca fora 
contestar as descobertas de Freud, mas apenas 
se vira forçada a alargá-las devido 2 aquisição 
de novos dados de observação. 
A controvérsia acalmou-se por volta de 1946. 
Depois de amainado este torvelinho, foi pos- 
sível constatar o estado do problema: a luta 
travada tinha sido inglória para os discípulos de 
Anna Freud, pois quase todos os analistas 
ingleses tinham sido contagiados pelo «vírus» 
kleiniano. Tinham-se formado analistas, que 
não sendo discípulos directos de Melanie Klein, 
se mostravam influenciados de maneira impor- 
tante pelas suas teorias e tinham posições de 
destaque na Sociedade Britânica de Psicanálise. 
Para já não falar de Ernest Jones, fundador 
e decano da Sociedade Britânica, figuras de 
grande importância vinham confessar a sua 
dívida a Melanie Klein: Winnicott, Fairbairn, 
Guntrip, Brierly e muitos outros. A própria 
Anna Freud em vários detalhes (maior preco- 
cidade atribuída ao Complexo de Édipo, renún- 
cia As técnicas pedagógicas ou aliciadoras da 
criança) viria a aproximar-se, em certo grau, 
das posições kleinianas, com o decorrer dos 
anos. 
A partir de 1946 a influência de Melanie 
Klein deixou de estar limitada a Grã-Bretanha. 
Numerosos analistas estrangeiros vindos para 
trabalhar em Inglaterra após a guerra, seguiram 
os ensinamentos de Klein, e espalharam a sua 
influência principalmente na América do Sul 
(onde todas as Sociedades Psicanalíticas são 
kleinianas), nos países europeus, e mesmo na 
América do Norte onde a influência dos emi- 
grados vienenses e alemães mais se fazia sentir. 
Nos seus últimos anos Melanie Klein conti- 
nuou a publicar trabalhos importantes entre os 
quais salientarei Inveja e Gratidão (1957) e 
Narrativa de Uma Análise Infaniil (que só apa- 
receu em 1961, depois da sua morte). Também 
de modo simétrico com Freud, que encontrara 
a confirmação das suas teorias na tragédia do 
Édipo-Rei de Sófocles, Melanie Klein através 
do Estudo P s i c d í t i c o da Oresteia de Esquilo 
(1963) vai encontrar surpreendentes confirma- 
ções das suas conjecturas na obra de outro 
grande poeta trágico. 
Antes de Melanie Klein a clínica psicana- 
lítica baseava-se sobre a influência exercida 
pelas vicissitudes da experiência infantil no 
psiquismo do adulto. Mas havendo poucas 
observações sistemáticas feitas em crianças, a 
realidade da vivência infantil era apenas conhe- 
cida através da recordação deixada no espírito 
adulto - que poderia deformar. 
Melanie Klein, usando pequenos brinquedos, 
através dos quais as crianças podiam manifestar 
os seus desejos e fantasias, o desenhar, e de 
uma forma geral o brincar da criança (play 
technique) tornou acessível o mundo psíquico 
das crianças. A sua técnica era aplicável a partir 
da idade de dois anos e meio até às épocas em 
que a verbalização era já possível, como nos 
adultos. Não admira que nessas circunstâncias, 
um grande número de analistas tivessem pro- 
curado aprender e dominar os processos de 
play technique propostos por Melanie Klein. 
que abriam novas vias para a investigação 
psicanalítica. 
68 
Um dos resultados teóricos mais importantes 
que a nova técnica trouxe, foi mostrar que a 
criança adoece mais precocemente do que supu- 
sera Freud. Por exemplo, Rita, citada no livro 
A Psicanálise das Crianças, tinha aos dois anos 
e oito meses uma neurose obsessiva. Isto estava 
em contradição com as suposições de Freud - 
que o núcleo de todas as neuroses ou alterações 
caracteriais era o Complexo de Édipo, desen- 
volvido entre os 5 e 8 anos. A partir daí se 
poderiam produzir regressões a fases mais atra- 
sadas do desenvolvimento emocional. Mas o que 
seria activado por essas regressões, segundo 
Freud, seriam instintos de carácter mais ou 
menos auto-erótico e narcísico e não certas 
formas de relações objectais precoces. 
A importância das relações precoces mater- 
no-infantis foi mais tarde confirmada por obser- 
vações experimentais ou longitudinais directas, 
realizadas por Spitz, Bowlby e outros. Porém 
cabe a Klein o mérito de ter pela primeira vez 
posto em relevo a vinculação prematura da 
criança a mãe, independentemente das relações 
que ela virá a estabelecer mais tarde com o 
casal formado pela mãe e pai. 
A noção da ««posição depressivan de Klein 
foi confirmada por muitos dados de observação 
recolhidos por autores não-kleinianos. As obser- 
vações de Spitz sobre a «angústia do oitavo 
mês» e sobre as «depressões anaelíticasn da 
criança; a dependência que o bebé e a criança 
jovem mostram em relação a mãe, a capacidade 
de autolimitarem a sua agressividade ou de a 
voltarem contra elas mesmas - são elementos 
que, como muitos outros, mostram a realidade 
da «posição depressivax 
Mais difícil é demonstrar a existência da fase 
esquizo-paranóide. Não há dúvida que a criança 
vive inicialmente estados afectivos desintegrados 
(esquizoidia); que tende a mostrar uma agressi- 
vidade e raiva por vezes intensa em face de frus- 
trações; que projecta sobre o mundo exterior a 
causa e razão dos prejuízos sofridos. A criança 
considera «maus» uma mesa, uma pedra, uma 
pessoa com quem chocou ou se magoou, por 
inadvertência própria. Mas poderá objectar-se 
que esses fenómenos não são tão sistemáticos 
como Klein os descreveu, e que a criança só vive 
no mundo atemorizador que esta pintou para os 
primeiros meses de vida, caso lhe faltem os cui- 
dados maternais adequados. 
Klein ela própria no trabalho de 1958, Sobre 
o Desenvolvimento do Funciommenío Mental, 
admitiu que as figuras terroríficas descritas para 
a fase esquizo-paranóide ficariam clivadas do 
Eu e Super-Eu, para serem apenas activadas 
em casos em que o curso do desenvolvimento 
fosse gravemente alterado, por factores externos 
ou internos. 
Como elementos que hoje poderíamos avaliar 
mais criticamente na obra de Melanie Klein 
haveria a sua tendência para situar certas cons- 
telações psíquicas em fases cada vez mais pre- 
coces da evolução psíquica infantil. Por exemplo, 
a fase depressiva tal como é descrita no livro 
A Psicanálise das Criançus (1932) evolui desde 
o período anal até praticamente ?i puberdade. 
No trabalho de 1952 Algumas Conclusões Teó- 
ricas sobre a Vida E m i o n a l do Bebé. pelo 
contrário, todo o problema da posição depres- 
siva é resolvido no primeiro ano da vida da 
criança. Estaprematuridade atribuída aS suas 
«posições» descritas por Klein, parece uma re- 
construção um pouco arbitrária. 
Será esta alteração dos seus esquemas pri- 
mitivos um desafio ao conformismo dos seus 
próprios discípulos, ou o reflexo de uma au- 
dácia especulativa comparável a que Freud 
demonstrou no último período da sua vida? 
De qualquer modo, se a compararmos a Freud, 
seremos levados a admitir que Klein é capaz 
de ter mais razão do que nós lhe atribuímos, 
em face de opiniões (que nos parecem) menos 
cuidadosamente fundamentadas. 
Muitas vezes perante as descobertas dos 
investigadores da mente, convém também per- 
guntar quais as razões psicológicas que os 
impulsionaram para essa via científica e que 
motivaram a escolha de certos capítulos do 
domínio por eles cultivado. Trata-se de aplicar 
o método psicológico ao próprio psicólogo - 
inovação também trazida pela Psicanálise. 
Ao contrário do que se passa com Freud, 
sobre quem possuímos correspondências inti- 
69 
mas, revelações de factos conservados secretos um estado interno, perfeito e inatingível, de 
da sua biografia, faltam-nos dados acerca de comunhão com o bom objecto. 
Melanie Klein. Isto devido certamente ao facto Portanto na minha interpretação a depressão 
de muitas das pessoas que com ela privaram sofrida na infância, pela impossibilidade de 
ainda estarem vivas. Podemos no entanto arris- possuir de modo completo os seus bons objectos 
car algumas suposições, com fundamento nos -por exemplo uma mãe que não estivesse de- 
factos que nos são acessíveis. masiado preocupada com a saúde dos restantes 
O seu interesse pela infância foi provavel- filhos e talvez do marido- terá induzido nela 
mente devido às provações e lutos sofridos um refúgio num mundo interno, em que lhe era 
sucessivamente em épocas particularmente sen- 
síveis do seu crescimento. A longa análise 
didáctica efectuada primeiro com Ferenczi e 
depois com Abraham, deve-lhe ter despertado 
a atenção para a riqueza e precocidade da gama 
de sentimentos que a criança atravessa. A posi- 
ção depressiva por ela descrita terá sido uma 
experiência sentida profundamente na sua pró- 
pria evolução. A depressão infantil que podemos 
supor em Klein estaria ligada à noção que a 
própria agressão teria provocado omnipotente- 
possível realizar uma integração que a vida não 
lhe permitira alcançar, integração dos impulsos 
de amor e agressividade. Sem culpabilidades 
excessivas, seria então capaz de viver uma luta 
com os irmãos (Anna Freud e outros), para 
alcançar a posse da mãe não-angustiada (a teu- 
ria analítica), merecendo em última instância 
a aprovação do pai (Freud) de quem finalmente 
se teria sentido a verdadeira sucessora. 
RESUMO 
Em relação com a publicação recente em 
Inglaterra das Obras Completas de Melanie 
Klein, em quatro volumes, faz-se uma breve 
mente a doença ou morte de pessoas queridas. 
OU Perante a situação de d~andono que deve 
ter sentido com essas mortes terá autolimitado 
a sua agressividade, sentida como daninha. 
Apesar de objecto de muita frustração, nunca 
resenha da súa vida, personalidade e d m pnwc 
pais orientações presentes na sua obra. 
Kiein reagiu com violência. 
Tendo conhecido pessoalniente KIein, nos RESUMÉ 
Congressos de Psicanálise e mais de perto em 
outras ocasiões, o que mais me impressionava 
nela era a combinação de grande afabilidade 
e bom humor com uma concentração bastante 
exclusiva sobre os assuntos relativos às suas 
investigações. Tudo o que dizia denotava pouca 
En rapport avec la publication récente en 
Angleterre des Oeuvres Complètes de Melanie 
Klein, en quatre volumes, on dresse un bref 
tableau de sa vie, de sa persondité et des 
tra'ts principaux de son oeuvre. 
SUMMARY 
PreocuPaW com uma vontade de transmitir 
um ensinamento ou um método. Antes eviden- 
conwction with the recent publishing Of 
The Writings of Melanie Klein, in four volumes. 
ciava a riqueza da sua visão interior, mas sem 
inquietações em traduzir essa visão interior de 
some brief-notes are presented on her life and 
PerSOmliS, and on the m * n trends of her WOrk. 
modo acessível a todos. Num dos seus últimos 
ensaios Acerca do Sentimento de Solidão (1962) REFERÊNCIAS 
ela comenta: «embora possa ser muito gratifi- 
cante, mais tarde na vida, exprimir os nossos 
pensamentos e Sentimentos a uma pessoa que 
nos compreenda, continua a existir em nós 
uma aspiração a uma compreensão sem pala* 
KLEIN, M. (1975) - The Writings of Melanie Klein, 
The Hogarth Press and The Institute of Psycho- 
-Analysis, London. 
Volume I Love, Guilt mid Reparation and Other 
Works (1921-1945); Volume I1 The Psycho-Analysis of 
Children; Volume 111 Envy and Gratitude and Other 
Works (1946-1963): Volume IV Narrative of a Child 
vras». Esta aspiração é identificada por ela Analysis, The Conduct of the Psycho-Ahlysis of 
Children as seeii in the Treatment of a Ten-year-old 
como resultado de um desejo de reencontrar B ~ . 
70 
MÓDULO 2
MÓDULO 3
MÓDULO 4

Mais conteúdos dessa disciplina