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PSICANÁLISE E INFÂNCIA: DIÁLOGOS COM MELANIE KLEIN APOSTILA DIDÁTICA GRUPO DE ESTUDOS CONTEÚDO PROGRAMÁTICO 1: Introdução à obra de Melanie Klein 2: A posição Esquizo-paranóide e a posição depressiva 3: Caso Dick 4: Caso Edna MÓDULO 1 171 RESENHA DE LIVROS ano VII, n. 3, set/2004 Débora Siqueira Bueno Melanie KleinMelanie KleinMelanie KleinMelanie KleinMelanie Klein Uma mulherUma mulherUma mulherUma mulherUma mulher, uma psicanalista, uma psicanalista, uma psicanalista, uma psicanalista, uma psicanalista Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., VII, 3, 171-175 O gênio feminino: a vida, a loucura, as palavras Tomo II – Melanie Klein Júlia Kristeva Rio de Janeiro: Rocco, 2002 Um pouco tantã, mas muito encantadora. Assim Alix Strachey, sofisticada londrina do grupo Bloomsbury, descreveu sua colega de análise com Karl Abraham na Berlim do início do século XX, antes da convulsão trazida pela Segunda Guerra Mundial – quando a psicanálise florescia e constituía um ambiente favorável para a revelação de talentos e receptivo à mulher como poucos à época. Mas, que mulher é essa? Essa mulher – que não era médica nem possuía outra graduação universitária, esposa infeliz e depois divorciada, mãe deprimida, a vida pontilhada de lutos e perdas, analisada por Ferenczi e por Abraham – tornou-se psicanalista aos quarenta anos de idade. Iniciou o estudo da psicanálise de crianças baseando-se na análise de seus próprios filhos. Deixou sua terra e sua língua materna em busca de um espaço para si. De presença marcante, defendeu de forma aguerrida suas idéias, o que a fez colher experiências duras e dolorosas. Essa mulher, essa psicanalista – Melanie Klein – fundou a psicanálise de crianças e ampliou a psicanálise de adultos em muitas direções, sobretudo na da análise das psicoses. Faleceu em 1960, aos 78 anos, quando ainda trabalhava com pacientes em análise didática, com supervisões e concluía a revisão de sua Narrativa da análise de uma criança. Tornou-se uma referência incontornável para todos que se interessam pela vida psíquica e pelo sofrimento humano. 172 R E V I S T A L A T I N O A M E R I C A N A DE PS ICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L ano VII, n. 3, set/2004 O gênio feminino: a vida, a loucura, as palavras – Melanie Klein é o segundo volume de uma trilogia – ao lado dos livros dedicados a Hanna Arendt e Colette – na qual a autora, Júlia Kristeva, se volta à contribuição de algumas mulheres que marcaram a história no século XX. Seu subtítulo é A loucura – ou o matricídio como dor e como criatividade. Kristeva toma um duplo fio condutor para o andamento de seu texto. No primeiro deles apresenta a história da vida de Melanie Klein, utilizando como principal referência a biografia escrita por Phyllis Grosskurth –, os leitores que já tiveram contato com essa obra, portanto, não encontrarão exatamente fatos inéditos. Mas desta forma ela dá o colorido da vida e ancora o desenrolar do segundo fio: a exposição, o aprofundamento e também uma análise, em alguns aspectos muito particular, da obra de Melanie Klein. Melanie Klein partiu da psicanálise que lhe era contemporânea: Freud descrevera o tratamento de Hans feito através de seu pai em 1909; Ferenczi apresentou o caso de uma criança fóbica, “Um pequeno homem-galo”, em 1913, e em 1919 escreveu a Freud comunicando que uma de suas pacientes realizara importantes observações psicanalíticas com crianças. A hipótese da existência de uma pulsão de morte determinando a vida psíquica, apresentada no trabalho de Freud, “Além do princípio do prazer” de 1920, foi prontamente aceita por Melanie Klein, que a utilizou para fundamentar e justificar suas posições. Embora tenha de fato reformulado a problemática analítica, em momento algum reivindicou para si o posto de guia intelectual. Mesmo depois de se tornar o pólo de uma forma de se pensar a psicanálise, detestava o adjetivo “kleiniano”. Klein foi, acima de tudo, uma clínica corajosa, excepcionalmente sensível à angústia, seu norte no trabalho com seus pacientes. Para Kristeva, as divergências com Freud “não foram nunca consumadas sob a forma de uma fratura, mas conduzidas como uma maneira de completar a teoria do inconsciente”. A autora faz um valioso cotejamento entre Klein e Freud ao longo de todo o livro, do qual serão destacados alguns pontos. Freud mostrou que o recalque cria a angústia e os sintomas. Klein fez da pulsão de morte o agente principal da angústia, mas também da capacidade humana de criar símbolos e pensar. O inconsciente freudiano é estruturado pelo desejo e pelo recalque. A pulsão em Freud tem uma fonte e um objetivo, mas não um objeto predeterminado e fixo; para ele, a vida psíquica do sujeito se estrutura na experiência da castração e em torno da função do pai. Melanie Klein trouxe para o início da vida psíquica a relação com o objeto – o seio, a mãe. O outro está sempre ali, assim como as vicissitudes das relações com o objeto, mobilizando angústias e defesas. Sem ignorar a função paterna e a angústia de castração, serão as relações primitivas com o objeto que irão determinar o devir do sujeito. 173 RESENHA DE LIVROS ano VII, n. 3, set/2004 Kristeva retoma, na obra de Freud, o trajeto do conceito de narcisismo e evoca as críticas quanto à imprecisão e insuficiência do mesmo, sobretudo as de Laplanche e Pontalis. Em Melanie Klein, a hipótese é de que o bebê estabeleceria desde o nascimento certa relação de objeto. O narcisismo não desaparece, mas toma o aspecto de um “estado narcísico”, no qual a libido se retira dos objetos exteriores para se dobrar exclusivamente sobre os objetos internos. Com Melanie Klein, a fantasia inconsciente passou a estar no centro do trabalho analítico. Em Freud, escuta de sonhos e linguagem; em Klein, escuta da fantasia, metáfora encarnada, escuta voltada para a dor psíquica, presente desde o início da vida. Os casos clínicos de Melanie Klein são revistos por Júlia Kristeva – de Fritz, seu filho, até Rita – para se chegar à invenção da técnica do jogo, na qual jogar será a via régia do inconsciente com o mesmo estatuto que Freud já atribuíra ao sonho. A fantasia expressa através do jogo torna-se uma fantasia narrada a dois. A transferência é tomada como o objeto obrigatório da interpretação e não se evita interpretar a transferência negativa. Estes pacientes mostram também o percurso de Melanie Klein no trabalho com a angústia. Com Fritz e Félix, o entrelaçamento de desejo e angústia. Com Rita e Erna, o sadismo do ego arcaico passou a ser considerado a fonte da angústia originária. Sadismo fortemente imbricado com as pulsões genitais, evidência clínica que levou Klein às hipóteses de um Édipo precoce e de uma nova concepção de superego. A partir da descoberta do apogeu do sadismo, Melanie Klein chegou à clínica das cisões e da psicose, principalmente com os casos Dick e Richard. No breve período durante a II Guerra em que atendeu Richard, Klein lidou com a angústia persecutória e as clivagens. Nessa análise, o trabalho na transferência com o superego excessivamente rígido e severo abriu uma via essencial para o tratamento das psicoses. O tratamento de Dick foi um divisor de águas. Criança psicótica, mal falava, era indiferente à presença da mãe e ao ambiente. Para Kristeva, Melanie Klein, apoiada em sua experiência anterior com Fritz, “procede como se ela fosse ele”: pressupõe e formula a fantasia de Dick, narrando para a criança seu mito edipiano impregnado por um sadismo violento. Desencadeia-se um processo que possibilita algum interesse pelos objetos, permitindo que a criança siga num encadeamento de equação em equação, equivalência em equivalência. Quando Dick pôde enfim brincar, “o real inominável se tornou um imaginário que alivia. Pela palavra da analista”. Kristeva se reporta a um comentário de Lacan sobre o caso Dick para iluminar este aspecto do método kleiniano: a importância da verbalização sobre a fantasia inconsciente, favorecendo a passagem de um funcionamento baseado 174 R E V I S T A L A T I N O A M E R IC A N A DE PS ICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L ano VII, n. 3, set/2004 em identidades para outro baseado em semelhanças. Ao dizer o que Dick alucina, Melanie Klein põe em palavras uma fantasia solitária e inominável da criança. O dizer do outro confere ao fantasme o estatuto de uma vivência psíquica, alivia a angústia e a agressividade e permite que a criança se distancie desta pela fala e pelo jogo. A experiência clínica com Dick permitiu também destacar a formação de símbolos, tema que Hanna Segal retomou posteriormente em seu clássico trabalho Notas sobre a formação de símbolos. Mantendo esta tradição de experiência clínica fecunda, o caso Dick também é ponto de apoio para um debate da própria Júlia Kristeva a respeito de um pré-simbolismo e de uma capacidade de fantasiar infralingüística. Conceitos elaborados por Melanie Klein ou por autores pós-kleinianos receberam de Júlia Kristeva um tratamento aprofundado. Destaca-se a discussão sobre a fantasia inconsciente, em que a autora costura as idéias de Klein com as posições de Freud, discriminando a fantasia da realização alucinatória de desejo, com o trabalho de Susan Isaacs Natureza e função da phantasia, e com a teoria da fantasia de Lacan. Kristeva ressalta que Melanie Klein desenvolveu de uma nova maneira um dos grandes problemas da teoria psicanalítica: o do estatuto da representação psíquica. O fantasme kleiniano é um conglomerado de diversos registros de representação, heterogêneo, comportando também elementos pré ou sem representação. Em sua clínica, Klein teria demonstrado o imperativo da escuta analítica do fantasme, o verdadeiro objeto da psicanálise. Somente ao acompanhar a fantasia inconsciente o analista pode conduzir, incompletamente, o paciente à verdade psíquica. Kristeva critica os teóricos que desvalorizam ou desprezam o imaginário como mero desconhecimento, pois deixam, assim, de escutar o material inconsciente. Melanie Klein foi a clínica que desceu ao fantasme, à psicose. Trabalhou sobre o imaginário da criança e no imaginário do analista, intensa e profundamente. Foi a primeira a privilegiar a função materna, assim como a primeira a conceber o matricídio como origem da capacidade de pensar. Criou uma concepção da sexualidade arcaica assentada no casal parental, a partir da fantasia terrífica dos pais combinados. O pensamento em Klein carrega uma versão da liberdade como “criatividade respeitosa do self” . Seu estabilizador é a experiência de perda e a conseqüente depressão. Os conceitos de Melanie Klein são firmes e pacientemente argumentados, evoluem de forma circular, às vezes emergindo em flashes súbitos. Seu texto não segue um deslizamento retórico, é feito de luz e sombras. Kristeva indaga: existirá um texto de Klein? Freud construiu a sua obra também na linguagem. Klein portou a estranheza e usou uma língua de empréstimo. Suas elaborações foram muitas vezes censuradas como ambíguas, assim como o conhecimento que construiu foi acusado de corporal e imaginário. Júlia Kristeva argumenta com 175 RESENHA DE LIVROS ano VII, n. 3, set/2004 a marca do retorno constante do negativo no trabalho de Melanie Klein, tema absolutamente atual para a psicanálise. O próprio empirismo e inexatidão teórica fazem desta uma obra “aberta e polissêmica”, tornando-a um instrumento para se buscar a compreensão do mundo contemporâneo e das “novas doenças da alma”. Kristeva lança seu olhar para as incompletudes dessa obra aberta. Melanie Klein não pensou a histeria de conversão. Subestimou o desejo e o ódio da mãe, o que foi retomado por seus sucessores. E evitou a perversão, tomando-a simplesmente como negação do amor destrutivo e defesa contra a dependência dolorosa. Se há um impasse em Klein no reconhecimento do valor simbólico do pai, Kristeva o aborda de forma muito interessante: é na experiência clínica que a interpretação inscreve a função paterna. “Pela pertinência de seu dizer, Melanie endossa o papel desse outro que assume o pai na família, e que a analista dá a conhecer pela precisão distante de seu discurso”. Melanie Klein preserva implicitamente a função do pai em sua concepção do lugar do analista. O gênio feminino tem lugar assegurado na bibliografia dos que se dedicam ao estudo da obra de Melanie Klein. Distingue-se do trabalho de outros estudiosos e exegetas já consagrados do pensamento kleiniano, como Hanna Segal, Hinselwood, Elsa Del Valle e Willy Baranger. Aproxima-se de Jean Michel Petot, referência bastante mencionada, mas sem superpor-se a ele. Embora Kristeva reconheça a importância do pensamento de Melanie Klein para a América Latina, chama a atenção a ausência de autores desta região entre as referências consideradas no livro. O trajeto de Júlia Kristeva – que passa pela semiologia, pela filosofia, pela teoria literária e pela psicanálise –, imprime sua marca no texto, erudito e rico. O estilo parece portar a marca do pensamento europeu continental. E por esta via torna-se um livro também muito valioso para os que pretendem uma aproximação ao pensamento de Melanie Klein a partir de Freud, de Lacan e da psicanálise francesa. Em muitos momentos a autora dirige-se aos leitores de Freud, convidando-os explicitamente a uma aproximação empática com as idéias de Klein. E Kristeva efetua esta aproximação, desvencilhando-se das armadilhas que a política das escolas acabou por criar tantas vezes, ao reduzir a estereótipos um saber complexo. Com cuidado e respeito pela obra da psicanalista cuja paixão teria sido poder ouvir “um desejo que pensa”. AnBlIsa Psicológica (197ô). I , 465-70 Sobre a vida e obra de Melanie Klein PEDRO LUZES' Melanie Klein, sendo de enorme importância teórica e técnica para os psicanalistas de crian- ças e adultos e para a psicologia geral do desen- volvimento, não é autor de fácil acesso. As suas obras completas foram reunidas recente- mente em quatro grossos volumes, publicados na International Psycho- Analytical Library. Essa edição ordenada cronologicamente e apresen- tando algumas notas editoriais no final dos volu- mes, não é totalmnete esclarecedora para psica- nalistas e ainda menos para o leitor não especia- lizado. Está ainda por publicar um trabalho definitivo sobre a obra de Melanie Klein (com- parável por exemplo com a obra de Emest Jones sobre Freud) embora ela seja conside- rada, por grande número de psicanalistas, a segunda grande figura da Psicanálise. As dificuldades postas pela leitura de Melanie Klein resultam em primeiro lugar de os seus trabalhos descreverem problemas que só podem ser correctamente avaliados por pessoas que utilizem uma técnica semelhante h sua-é o que se passa com os relatos referentes i% análise de crianças. Em segundo lugar datando os seus primeiros trabalhos da segunda década do presente século, o avanço teórico que existia na época tornava * Psicanalista. Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Professor no I.S.P.A. e Assistente no Curso Superior de Psicologia, Universidade de Lisboa. impossível a recapitulação de todas as informa- ções sobre os assuntos tratados. Desse modo as suas obras partem de uma posição adiantada que o leitor não especializado não está em con- dições de acompanhar. Em terceiro e último lugar, por tempera- mento, Melanie Klein procurava aprofundar as suas ideias de acordo com um ângulo de visão estritamente pessoal; a sua perspectiva era mais intuitiva, subjectiva, mesmo artística, do que metódica e discursiva. A sua intenção não era convencer ou conquistar adeptos para os seus pontos de vista-ao contrário de Freud que apreciava as exposições didácticas e sistemáticas o que o levou a escrever longas olbras sobre vários assuntos. Os trabalhos de Melanie Klein são na sua maioria curtos e condensados. Rara- mente escreveu trabalhos com intuito de di- vulgação. Muitas destas dificuldades de abordagem da Psicanálise existem, em graus variáveis, para a maioria dos autores polsteriores a Freud. A Psicanálise pós-freudiana tende a tomar-seo assunto especializado, em que o leigo, apesar da sua curiosidade, não consegue penetrar. A maiolria dos livros de vulgarização que conti- nuam a publicar-se sobre Psicanálise são basea- dos na obra de Freud e praticamente ignoram, ou são forçados a deixar de lado, as contribui- ções dos seus sucessores. Os seguidores de 65 Freud, que sem fazer divulgações, ou trabalhos de pura revisão, são susceptíveis de ser lidos por qualquer pessoa, são em número limitado (Jones, Reik, Reicli, Spitz, Erikson, Winnicott, alguns livros de Anna Freud e pouco mais). Melanie Klein nasceu em Viena a 30 de Março de 1882. Morreu em Londres em 1960 (22 de Setembro). Tanto do lado paterno como materno a sua família era de origem judaica sendo o pai muito mais velho do que a mãe. O pai, vindo de um meio ortodoxo judeu, fora treinado para se tornar um estudioso do Tal- mud. Mas aos 37 anos revoltou-se, foi estudar na Universidade e tornou-se médico. Aos 44 anos o pai de Melanie Klein, de apelido Reizes, casou com uma jovem de 25 anos da qual teve quatro filhos. Melanie era a mais nova dessas quatro crian- ças. A sua infância e juventude foram entriste- cidas pela doença e morte de dois dos seus irmãos. Primeiro a de uma irmã, Sidonie, que morreu com 9 anos quando Melanie tinha 5 anos. Sidonie esteve acamada durante 1 ano e passou grande parte desse tempo procurando ensinar Melanie, transmitindo-lhe os conhe- cimentos que tinha podido alcançar. Melanie recebeu esta herança com gratidão e para agra- dar ?i irmã aprendeu a ler, a escrever, antes dos 5 anos. Mais tarde factos semelhantes vieram a passar-se com o irmão Emmanuel, mais velho que Melanie 5 anos. Emmanuel tinha uma doença cardíaca e esperava-se que viria a morrer cedo. Isto aconteceu quando tinha 25 anos. Sendo um rapaz dotado, interes- sado em arte, literatura e música, com talentos incipientes de escritor e pianista, procurou enco- rajar em Melanie um interesse pelas artes, inte- resse esse que de facto durou toda a vida desta. Melanie, cujo apelido de solteira era Reizes como se disse, casou com um engenheiro quí- mico, Arthur Klein, quando tinha 21 anos. O casal teve três filhos. Embora tivesse entrado para a Universidade, primeiro com intenção de fazer estudos médicos, depois estudando Arte e História, Melanie Klein nunca chegou a comple- tar um curso. A família viajava muito devido a profissão de Arthur Klein, tendo-se estabelecido em Buda- peste um pouco antes do eclodir da I Guerra Mundial. Tendo lido por acaso um livro de Freud, começou a interessar-se pela Psicanálise e fez análise com Ferenczi durante vários anos. O seu primeiro trabalho científico foi apresen- tado a Sociedade Psicanalítica de Budapeste em 1919 e publicado em 1921 (O Desenvolvimento de u m a Criança). Em 1921 Arthur Klein foi para a Suécia e Melanie com os seus três filhos ficou em Berlim. Esta separação acabou por levar a um divórcio em 1923, não tendo nunca Melanie voltado a casar. Em Berlim continuou a tratar crianças, tendo como seu primeiro caso um rapaz de 5 anos que exprimia as suas angústias e fantasias utilizando brinquedos. Ela tentou interpretar o que ele dramatizava através do seu brincar, seguindo uma técnica próxima da técnica utili- zada por Freud para a análise de sonhos. Estava assim descoberta a análise do brincar da criança (play technique) a qual será exposta sistemati- camente no livro A Psicanálise das Crianças (1932). A principal constatação que resulta do trabalho desta época berlinesa é a importância do impulso agressivo na vida mental da criança e riqueza do material simbólico que o brincar infantil manifesta. Em Berlim ainda fez mais análise didáctica com Karl Abraham, análise que foi interrom- pida pela morte de Abraham em 1925. Em 1926 foi convidada por Ernest Jones para se instalar em Londres, para divulgar entre os analistas ingleses o seu método de análise de crianças. Por volta de 1930 começa a analisar tanto crianças como adultos, e o seu trabalho expan- de-se apresentando novas hipóteses num campo mais teórico que técnico. Propõe a opinião de que no Eu da criança se estabelece um mundo de objectos internalizados, que por um jogo complexo de introjecção e projecção vai moldar as percepções do mundo externo e vai ser mol- dado por elas. Devido & forte agressividade que a criança vive, o Eu é abalado por fortes angústias de tipo psicótico, que, caso não sejam 66 modificadas, são o ponto de regressão das psi- coses na idade adulta da vida. Certas figuras internas de carácter persecu- tório dão origem a um Super-Eu precoce, dife- rente do Super-Eu, herdeiro do Complexo de Bdipo, descrito por Freud. O próprio Complexo de Édipo é visto depois pelo estudo directo da criança, como tendo uma instalação mais pre- coce do que fora indicado por Freud. A sua aparição segue de perto o desmame, em geral feito por volta dos 6 meses de idade, quando começam a aparecer os primeiros dentes. Estas observações e princípios são apresen- tados em trabalhos curtos e também na sua obra mais longa e sistemática A PsicQnríIise das Crianças (1932). Resultou este livro dos cursos e seminários realizados em Inglaterra, para os analistas que junto dela procuraram aprender a teoria e técnica da análise precoce. De 1935 a 1946 Klein publica três dos seus mais importantes trabalhos, em que vai marcar uma modificação importante dos seus pontos de vista: Uma Contribuição p a Psicogénese dos Estudos Maníaco-Depressivos (1935). O Luto e as Suas Relações com os Estados Maníaco-Depressivos (1940) e Notas sobre Al- guns Mecanismos Esquizóides (1946). Estes trabalhos pouco extensos (de cerca de 30 pági- nas cada) embora continuando na linha das investigações de Freud e Abraham foram con- siderados afrontosamente heréticos e revolu- cionários. E de facto tanto pelo seu conteúdo, como pelo modo assertório como eram propos tos, vinham transtornar os hábitos mentais de muitos analistas que, insensivelmente, vinham transformando a teoria psicanalítica num novo academismo. Não é aqui o lugar de apresentar em detalhe esses artigos tão densos de Klein Bastará indicar que sem abandonar a ideia de Freud e Abraham, da evolução da libido através de estádios psico-sexuais, distingue como funda- mentais duas «posições» na evolução da criança. Noutro local, numa contribuição para o segundo volume de uma obra de váriw autores sobre Desen- volvimento Psicológico da Criança, editado por Mo- ras, Editores, tento balizar os pontos mais importantes da revolução kleiniana. O termo «posições» em vez de estádios do desenvolvimento, é usado para indicar que se trata de fases que não são nunca completamente ultrapassadas - o que também era um pres- suposto, embora de modo menos explícito, da teoria psicanalítica anterior. As duas «posições» são marcadas por angústias específicas, por me- canismos psíquicos bem diferenciados, que até Klein não tinham sido claramente descritos: a) Posição esquizo-paranóide, predominante durante os 3 a 6 primeiros meses de vida, com impulsos destmtivos, angústia persecutória e tendência para a clivagem e identificação pro- jectiva; b) Posição depressiva, sobrepondo-se h an- terior, com integração da mãe num objecto total, angústia de tipo depressivo, tendência para utiii- zar cada vez mais o mecanismo de reparação, que está na base das relações objectais estáveis e das sublimações. Nas «posições» descritas por Klein, como se vê, não está só implícita a libido, mas igual- mente a sua combinação com os impulsos agres- sivos. Esta época da vida de Melanie Klein, sendo a mais criadora, foi também aquela em que esteve pessoalmente sujeita a maior stress e desgaste. Por um lado desgostos de natureza familiar. Em primeiro lugar morre-lhe o segundo filho, num acidente de alpinismo (1934). A sua filha mais velha, Melita Schmideberg, formada em Medicina e futura psicanalista, depois deuma análise com Edward Glover, incompatibiliza-se com a mãe. Mais ou menos pela mesma época começam a chegar a Londres os analistas vienenses, for- çados a exilar-se pelas perseguições anti-semitas dos nazis. O grupo vienense estabelecido em Londres vem a ser encabeçado por Anna Freud, com todo o carisma do nome paternal. Anna Freud, que também enveredara pela análise infantil, afirmava a impossibilidade de empregar uma técnica analítica pura para as crianças (como queria Klein), e defendia a utilização de deter- minadas influências de ordem sugestiva e edu- 67 cativa. Além disso mantinha para o desenvol- vimento da criança toda a cronologia estabele- cida por Freud, a partir do trabalho executado com adultos. Este grupo aanna-freudianon procura retirar a Klein o apoio que até então tinha alcançado da maioria dos psicanalistas ingleses. E de início parece consegui-lo. Em torno de Klein fica um grupo limitado de «kleinianos». Contra ela constitui-se uma oposição que procura demonstrar que as suas inovações são «heresias» semelhantes as de Adler, Rank, Steckel e Jung, que acabarão por arruinar o edifício da Psicanálise se não se decretar a sua condenação. Sob as bombas do Blitzkrieg, travam-se lutas tempestuosas no seio da Sociedade Britânica de Psicanálise. A cisão entre «kleinianos» e canna-freudianosn é evitada, a muito custo, devido ao espírito de compromisso de Jones e dos analistas ingleses, e convém também acentuar, devido a serenidade, de Mrs. Klein, que sem recuar um passo nas suas opiniões, praticamente não responde ao grupo rival. Na verdade nunca se sentiria em desacordo com a posição freudiana. O seu fito nunca fora contestar as descobertas de Freud, mas apenas se vira forçada a alargá-las devido 2 aquisição de novos dados de observação. A controvérsia acalmou-se por volta de 1946. Depois de amainado este torvelinho, foi pos- sível constatar o estado do problema: a luta travada tinha sido inglória para os discípulos de Anna Freud, pois quase todos os analistas ingleses tinham sido contagiados pelo «vírus» kleiniano. Tinham-se formado analistas, que não sendo discípulos directos de Melanie Klein, se mostravam influenciados de maneira impor- tante pelas suas teorias e tinham posições de destaque na Sociedade Britânica de Psicanálise. Para já não falar de Ernest Jones, fundador e decano da Sociedade Britânica, figuras de grande importância vinham confessar a sua dívida a Melanie Klein: Winnicott, Fairbairn, Guntrip, Brierly e muitos outros. A própria Anna Freud em vários detalhes (maior preco- cidade atribuída ao Complexo de Édipo, renún- cia As técnicas pedagógicas ou aliciadoras da criança) viria a aproximar-se, em certo grau, das posições kleinianas, com o decorrer dos anos. A partir de 1946 a influência de Melanie Klein deixou de estar limitada a Grã-Bretanha. Numerosos analistas estrangeiros vindos para trabalhar em Inglaterra após a guerra, seguiram os ensinamentos de Klein, e espalharam a sua influência principalmente na América do Sul (onde todas as Sociedades Psicanalíticas são kleinianas), nos países europeus, e mesmo na América do Norte onde a influência dos emi- grados vienenses e alemães mais se fazia sentir. Nos seus últimos anos Melanie Klein conti- nuou a publicar trabalhos importantes entre os quais salientarei Inveja e Gratidão (1957) e Narrativa de Uma Análise Infaniil (que só apa- receu em 1961, depois da sua morte). Também de modo simétrico com Freud, que encontrara a confirmação das suas teorias na tragédia do Édipo-Rei de Sófocles, Melanie Klein através do Estudo P s i c d í t i c o da Oresteia de Esquilo (1963) vai encontrar surpreendentes confirma- ções das suas conjecturas na obra de outro grande poeta trágico. Antes de Melanie Klein a clínica psicana- lítica baseava-se sobre a influência exercida pelas vicissitudes da experiência infantil no psiquismo do adulto. Mas havendo poucas observações sistemáticas feitas em crianças, a realidade da vivência infantil era apenas conhe- cida através da recordação deixada no espírito adulto - que poderia deformar. Melanie Klein, usando pequenos brinquedos, através dos quais as crianças podiam manifestar os seus desejos e fantasias, o desenhar, e de uma forma geral o brincar da criança (play technique) tornou acessível o mundo psíquico das crianças. A sua técnica era aplicável a partir da idade de dois anos e meio até às épocas em que a verbalização era já possível, como nos adultos. Não admira que nessas circunstâncias, um grande número de analistas tivessem pro- curado aprender e dominar os processos de play technique propostos por Melanie Klein. que abriam novas vias para a investigação psicanalítica. 68 Um dos resultados teóricos mais importantes que a nova técnica trouxe, foi mostrar que a criança adoece mais precocemente do que supu- sera Freud. Por exemplo, Rita, citada no livro A Psicanálise das Crianças, tinha aos dois anos e oito meses uma neurose obsessiva. Isto estava em contradição com as suposições de Freud - que o núcleo de todas as neuroses ou alterações caracteriais era o Complexo de Édipo, desen- volvido entre os 5 e 8 anos. A partir daí se poderiam produzir regressões a fases mais atra- sadas do desenvolvimento emocional. Mas o que seria activado por essas regressões, segundo Freud, seriam instintos de carácter mais ou menos auto-erótico e narcísico e não certas formas de relações objectais precoces. A importância das relações precoces mater- no-infantis foi mais tarde confirmada por obser- vações experimentais ou longitudinais directas, realizadas por Spitz, Bowlby e outros. Porém cabe a Klein o mérito de ter pela primeira vez posto em relevo a vinculação prematura da criança a mãe, independentemente das relações que ela virá a estabelecer mais tarde com o casal formado pela mãe e pai. A noção da ««posição depressivan de Klein foi confirmada por muitos dados de observação recolhidos por autores não-kleinianos. As obser- vações de Spitz sobre a «angústia do oitavo mês» e sobre as «depressões anaelíticasn da criança; a dependência que o bebé e a criança jovem mostram em relação a mãe, a capacidade de autolimitarem a sua agressividade ou de a voltarem contra elas mesmas - são elementos que, como muitos outros, mostram a realidade da «posição depressivax Mais difícil é demonstrar a existência da fase esquizo-paranóide. Não há dúvida que a criança vive inicialmente estados afectivos desintegrados (esquizoidia); que tende a mostrar uma agressi- vidade e raiva por vezes intensa em face de frus- trações; que projecta sobre o mundo exterior a causa e razão dos prejuízos sofridos. A criança considera «maus» uma mesa, uma pedra, uma pessoa com quem chocou ou se magoou, por inadvertência própria. Mas poderá objectar-se que esses fenómenos não são tão sistemáticos como Klein os descreveu, e que a criança só vive no mundo atemorizador que esta pintou para os primeiros meses de vida, caso lhe faltem os cui- dados maternais adequados. Klein ela própria no trabalho de 1958, Sobre o Desenvolvimento do Funciommenío Mental, admitiu que as figuras terroríficas descritas para a fase esquizo-paranóide ficariam clivadas do Eu e Super-Eu, para serem apenas activadas em casos em que o curso do desenvolvimento fosse gravemente alterado, por factores externos ou internos. Como elementos que hoje poderíamos avaliar mais criticamente na obra de Melanie Klein haveria a sua tendência para situar certas cons- telações psíquicas em fases cada vez mais pre- coces da evolução psíquica infantil. Por exemplo, a fase depressiva tal como é descrita no livro A Psicanálise das Criançus (1932) evolui desde o período anal até praticamente ?i puberdade. No trabalho de 1952 Algumas Conclusões Teó- ricas sobre a Vida E m i o n a l do Bebé. pelo contrário, todo o problema da posição depres- siva é resolvido no primeiro ano da vida da criança. Estaprematuridade atribuída aS suas «posições» descritas por Klein, parece uma re- construção um pouco arbitrária. Será esta alteração dos seus esquemas pri- mitivos um desafio ao conformismo dos seus próprios discípulos, ou o reflexo de uma au- dácia especulativa comparável a que Freud demonstrou no último período da sua vida? De qualquer modo, se a compararmos a Freud, seremos levados a admitir que Klein é capaz de ter mais razão do que nós lhe atribuímos, em face de opiniões (que nos parecem) menos cuidadosamente fundamentadas. Muitas vezes perante as descobertas dos investigadores da mente, convém também per- guntar quais as razões psicológicas que os impulsionaram para essa via científica e que motivaram a escolha de certos capítulos do domínio por eles cultivado. Trata-se de aplicar o método psicológico ao próprio psicólogo - inovação também trazida pela Psicanálise. Ao contrário do que se passa com Freud, sobre quem possuímos correspondências inti- 69 mas, revelações de factos conservados secretos um estado interno, perfeito e inatingível, de da sua biografia, faltam-nos dados acerca de comunhão com o bom objecto. Melanie Klein. Isto devido certamente ao facto Portanto na minha interpretação a depressão de muitas das pessoas que com ela privaram sofrida na infância, pela impossibilidade de ainda estarem vivas. Podemos no entanto arris- possuir de modo completo os seus bons objectos car algumas suposições, com fundamento nos -por exemplo uma mãe que não estivesse de- factos que nos são acessíveis. masiado preocupada com a saúde dos restantes O seu interesse pela infância foi provavel- filhos e talvez do marido- terá induzido nela mente devido às provações e lutos sofridos um refúgio num mundo interno, em que lhe era sucessivamente em épocas particularmente sen- síveis do seu crescimento. A longa análise didáctica efectuada primeiro com Ferenczi e depois com Abraham, deve-lhe ter despertado a atenção para a riqueza e precocidade da gama de sentimentos que a criança atravessa. A posi- ção depressiva por ela descrita terá sido uma experiência sentida profundamente na sua pró- pria evolução. A depressão infantil que podemos supor em Klein estaria ligada à noção que a própria agressão teria provocado omnipotente- possível realizar uma integração que a vida não lhe permitira alcançar, integração dos impulsos de amor e agressividade. Sem culpabilidades excessivas, seria então capaz de viver uma luta com os irmãos (Anna Freud e outros), para alcançar a posse da mãe não-angustiada (a teu- ria analítica), merecendo em última instância a aprovação do pai (Freud) de quem finalmente se teria sentido a verdadeira sucessora. RESUMO Em relação com a publicação recente em Inglaterra das Obras Completas de Melanie Klein, em quatro volumes, faz-se uma breve mente a doença ou morte de pessoas queridas. OU Perante a situação de d~andono que deve ter sentido com essas mortes terá autolimitado a sua agressividade, sentida como daninha. Apesar de objecto de muita frustração, nunca resenha da súa vida, personalidade e d m pnwc pais orientações presentes na sua obra. Kiein reagiu com violência. Tendo conhecido pessoalniente KIein, nos RESUMÉ Congressos de Psicanálise e mais de perto em outras ocasiões, o que mais me impressionava nela era a combinação de grande afabilidade e bom humor com uma concentração bastante exclusiva sobre os assuntos relativos às suas investigações. Tudo o que dizia denotava pouca En rapport avec la publication récente en Angleterre des Oeuvres Complètes de Melanie Klein, en quatre volumes, on dresse un bref tableau de sa vie, de sa persondité et des tra'ts principaux de son oeuvre. SUMMARY PreocuPaW com uma vontade de transmitir um ensinamento ou um método. Antes eviden- conwction with the recent publishing Of The Writings of Melanie Klein, in four volumes. ciava a riqueza da sua visão interior, mas sem inquietações em traduzir essa visão interior de some brief-notes are presented on her life and PerSOmliS, and on the m * n trends of her WOrk. modo acessível a todos. Num dos seus últimos ensaios Acerca do Sentimento de Solidão (1962) REFERÊNCIAS ela comenta: «embora possa ser muito gratifi- cante, mais tarde na vida, exprimir os nossos pensamentos e Sentimentos a uma pessoa que nos compreenda, continua a existir em nós uma aspiração a uma compreensão sem pala* KLEIN, M. (1975) - The Writings of Melanie Klein, The Hogarth Press and The Institute of Psycho- -Analysis, London. Volume I Love, Guilt mid Reparation and Other Works (1921-1945); Volume I1 The Psycho-Analysis of Children; Volume 111 Envy and Gratitude and Other Works (1946-1963): Volume IV Narrative of a Child vras». Esta aspiração é identificada por ela Analysis, The Conduct of the Psycho-Ahlysis of Children as seeii in the Treatment of a Ten-year-old como resultado de um desejo de reencontrar B ~ . 70 MÓDULO 2 MÓDULO 3 MÓDULO 4