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1.2.1 As ciências contemporâneas As contribuições para a ciência anatômica durante o século XX não foram tão magníficas quanto eram no período em que pouco se sabia sobre a estrutura do corpo humano. O estudo da anatomia foi se aperfeiçoando cada vez mais por meio das especializações e as pesquisas foram se tornando cada vez mais detalhadas e complexas. Podemos afirmar que, infelizmente, um ponto negativo do estudo da anatomia ocorreu durante o período da Segunda Guerra Mundial, quando as polêmicas bioéticas abrangendo as experiências com seres humanos tomavam corpo com o processo de Nuremberg. Durante o julgamento muitos anatomistas alemães foram denunciados por utilizarem corpos de vítimas do holocausto para as pesquisas anatômicas, assim como foram realizadas diversas acusações da presença da suástica nazista nas páginas de alguns atlas anatômicos do período. Joseph Mengele talvez tenha sido o cientista mais carniceiro de Hitler, seus experimentos custaram a vida de cerca de 400 mil pessoas em Auschwitz. Mengele injetou tinta azul em olhos de crianças, uniu as veias de gêmeos, amputou membros de prisioneiros e dissecou anões vivos em seu laboratório. “Sou, sem dúvida, o único que conhece por completo a fisiologia humana, porque faço experiências em homens e não em ratos” (MORAIS, 2011, p. 6). Isso era o que proferia com ar de orgulho Sigmund Rascher, responsável pelo campo de concentração de Dachau. Lá, ele se utilizava de cobaias humanas vivas para seus experimentos. Já o médico da renomada Universidade de Estrasburgo, August Hirt, utilizou cerca de oitenta corpos em estudos anatômicos para determinação da superioridade do povo ariano. Para muitos especialistas em anatomia o Atlas Pernkopf, conforme ilustra a figura a seguir, produzido com base na dissecação de corpos de aproximadamente 1.500 prisioneiros, é o melhor trabalho ilustrado sobre anatomia humana já efetuado na história. Para outros, trata‑se de um livro questionável e póstumo que, ao lado de suásticas, traz a seguinte frase: “feliz conjunção de ilustradores brilhantes e corpos de criminosos executados” (REZENDE, 2019). Unidade I 35 Figura 24 – Atlas Pernkopf A partir de 1977, uma nova técnica de preparação de peças anatômicas foi elaborada. Essa descoberta foi realizada pelo médico e professor da Universidade de Heidelberg na Alemanha, Gunther von Hagens, o qual se intitula “Vesalius do século XXI”, que inventou e desenvolveu o processo de plastinação, conforme ilustra a figura a seguir, uma maneira moderna de mumificação, fazendo com que os cadáveres tenham uma elevada resistência. A plastinação é outro aspecto que envolve polêmicas bioéticas, em que espécimes inodoros, secos e quase eternos estão sendo vastamente utilizados como modelos de anatomia em exposições e faculdades de medicina. Milhares de pessoas já testemunharam corpos dissecados em uma das exposições de anatomia pelo mundo e o novo mercado on‑line de espécimes humanos plastinados está aumentando. Figura 25 – Cadáver plastinado, musculatura e pele ANATOMIA HUMANA A anatomia humana sempre será uma ciência relevante, não só porque aperfeiçoa o entendimento do funcionamento do corpo humano, mas também por ser fundamental no diagnóstico clínico e no tratamento das doenças. A anatomia humana já não é mais restrita à observação e à descrição das estruturas isoladas, ela se ampliou para compreender as complexidades de como o corpo humano age como um todo integrado. A ciência da anatomia é dinâmica e permanecerá ativa porque os dois aspectos do corpo humano – estrutura e função – são inseparáveis. Saiba mais Para conhecer as novas técnicas de preservação de peças anatômicas, acesse: ANDREOLI, A. T. et al. O aprimoramento de técnicas de conservação de peças anatômicas: a técnica inovadora de plastinação. Revista EPeQ/Fafibe, Bebedouro, n. 4, p. 81‑85, 2012. Disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2019. KIM, J. H. Exposição de corpos humanos: o uso de cadáveres como entretenimento e mercadoria. Mana, Rio de Janeiro, v. 18, n. 2, p. 309‑348, 2012. Disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2019. Para saber mais sobre os precursores da medicina, o desenvolvimento dessa disciplina: GORDON, R. A assustadora história da medicina. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996. Para saber mais sobre a história da anatomia e conhecer o Museu de Anatomia UFCSPA: UFCSPA. Uma breve história da anatomia humana. Porto Alegre: UFCSPA, [s.d.]. Disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2019. Para saber mais sobre a história da farmácia cujos conhecimentos estão atrelados aos conhecimentos anatômicos: CORTES, G. M. A. et al. História da farmácia sob a ótica anatômica. Revista Saúde em Movimento, v. 1, n. 1, ano 8. Disponível em: . Acesso em: 28 abr. 2019. 36 Unidade I 1.3 Bases gerais da anatomia37 A anatomia humana é considerada a disciplina mais antiga da medicina, tanto que no começo ambas se confundiam. Pelo menos no princípio era possível saber anatomia, ou pelo menos ter alguns conhecimentos anatômicos, para poder praticar a medicina. Desde aquela época começou a ser oportuno o pensamento nulla medicina sine anatomia, ou seja, não há medicina sem anatomia. Ramo seco da biologia, ciência dos mortos ou ciência dos fósseis, a anatomia morreu: esses são os versos cantados por aqueles que julgam desnecessário o estudo da anatomia. Para demonstrar esse mal, um caso pitoresco ocorreu no Brasil, quando um laureado com prêmio Nobel foi convidado a fazer conferências científicas e educacionais sobre atualização do currículo médico. O famoso professor, com toda a autoridade que um ganhador de prêmio Nobel pode ter, brindou a plateia com a seguinte mimosidade: “uma grande redução no currículo poderia ser feita às custas da anatomia, pois para conhecer a anatomia dos homens bastaria conhecer a anatomia do rato”. A grande vantagem que ele antevia era que a dissecação de um mamífero pequeno poderia ser feita em três dias e não nos três anos necessários para dissecar o homem. Na discussão que se seguiu, um dos participantes da plateia perguntou: “Se o orador fosse acometido por uma apendicite aguda, ele escolheria o cirurgião que tivesse dissecado um rato, ou um que tivesse dissecado um cadáver humano?” O orador fez uma longa pausa e confessou honestamente que ele escolheria o cirurgião que tivesse estudado anatomia no homem. O professor que fizera a pergunta retomou a palavra e parabenizou o orador pela sua excelente escolha, acrescentando: “principalmente porque o rato não tem apêndice vermiforme” (DI DIO, 1998, p. 28). A anatomia divulga as bases da forma e da estrutura do corpo humano e de seus órgãos. A forma descreve a morfologia externa do indivíduo, de seus membros e órgãos. A estrutura respeita a organização interna dos órgãos e de seus componentes nos níveis macroscópico, microscópico, submicroscópico e molecular; o termo “estrutura” inclui a função. A anatomia determina, ao lado da fisiologia e da bioquímica, a base para a profilaxia, o diagnóstico, a terapia e a reabilitação de patologias. Observação Homeostase é a preservação de um ambiente interno moderadamente contínuo e adaptado para a sobrevivência das células e dos tecidos do corpo. Defeitos na preservação das circunstâncias homeostáticas indicam patologias. Os processos das patologias podem atingir primeiramente um tecido, um órgão ou um sistema específico, porém, em última instância conduzirão a modificações de função ou da estrutura das células do corpo. Algumas patologias podem ser recuperadas pelas defesas corporais, já outras exigem tratamento. Por exemplo, quando acontece um trauma e existe sangramento excessivo ou lesão de órgãos internos o tratamento cirúrgico pode ser indispensável para resgatara homeostase e impossibilitar problemas potencialmente letais. image3.png image4.png image5.png image1.jpeg image2.jpeg