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Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva Ministério da Jus�ça e Segurança Pública Flávio Dino de Castro e Costa Secretaria Nacional de Segurança Pública Francisco Tadeu Barbosa de Alencar Diretoria de Ensino e Pesquisa Michele Gonçalves dos Ramos Coordenação-Geral de Ensino Ana Claudia Bernardes Vilarinho de Oliveira Coordenação Pedagógica Joyce Cris�ne da Silva Carvalho Coordenação de Ensino a Distância Renata Guilhões Barros Santos Gerente de Curso Maria Derli Silva dos Santos Luciana Costa Jatahy de Castro Conteudistas Juliana Teixeira de Souza Mar�ns Nedson Moreira Gonçalves Rômulo Reis de Almeida Revisão Técnica Franciane Aparecida da Silva Revisão Pedagógica Ardmon dos Santos Barbosa Evania Santos Assunção Mota Revisão Textual Wener Vieira dos Santos Programação e Edição Renato Antunes dos Santos Fábio Nevis dos Santos Design Instrucional Anne Caroline Bogarin Manzolli Schumacher Sumário APRESENTAÇÃO DO CURSO ......................................................................................... 7 2. OBJETIVO DO CURSO ......................................................................................... 10 2.1 Obje�vo Geral .......................................................................................................... 10 2.2 Obje�vos Específicos ............................................................................................... 10 3. ESTRUTURA DO CURSO ..................................................................................... 11 MÓDULO 1 – O MUNICÍPIO E A SEGURANÇA PÚBLICA: COMPETÊNCIAS E DESAFIOS .. 12 Apresentação ................................................................................................................. 12 Obje�vos do módulo ..................................................................................................... 14 Estrutura do módulo ...................................................................................................... 14 AULA 1 - VIOLÊNCIA URBANA E PREVENÇÃO ................................................................ 15 1.1 Violência urbana como fenômeno social ............................................................ 15 1.2 Tendências recentes da criminalidade urbana no Brasil ..................................... 18 1.3 Violência urbana e prevenção ............................................................................. 28 AULA 2 – O PAPEL DO MUNICÍPIO NA SEGURANÇA PÚBLICA ....................................... 37 2.1 Histórico da par�cipação dos municípios na segurança pública ......................... 37 2.2. Conselhos Municipais de Segurança Pública ...................................................... 40 2.3. Gabinetes de Gestão Integrada Municipal (GGIMs) ........................................... 42 2.4. Observatórios de Segurança Municipais ............................................................ 44 2.5. Por que o município deve atuar na gestão de segurança pública? .................... 45 2.7. O município como agente estratégico na segurança pública ............................. 46 2.3 Indicadores de engajamento dos municípios na segurança pública ................... 50 AULA 3 – GESTÃO DA SEGURANÇA EM ÂMBITO MUNICIPAL ........................................ 53 3.1 Tipos de polí�cas de segurança cidadã ............................................................... 53 3.2 Exemplos de polí�cas e ações municipais ........................................................... 54 3.3 Dificuldades na execução de polí�cas municipais de segurança ........................ 71 MÓDULO II – AS GUARDAS MUNICIPAIS NO SISTEMA ÚNICO DE SEGURANÇA PÚBLICA 74 Apresentação do módulo .............................................................................................. 74 Obje�vo do módulo ....................................................................................................... 75 Estrutura do módulo ...................................................................................................... 76 AULA 1 – COMPETÊNCIAS DAS GUARDAS MUNICIPAIS (LEI Nº 13.022/2014) .............. 77 1.1 Introdução ao tema ............................................................................................. 77 1.2 Abordagem legal das competências das Guardas Municipais............................. 80 1.3 Atuação preven�va das guardas como polícias cidadãs e comunitárias em espaços de desordem social .................................................................................................... 87 Aula 2 – Introdução ao Sistema Único de Segurança Pública ....................................... 94 2.1 O que é o Susp? ................................................................................................... 96 2.2 Polí�ca Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS) ...................... 97 2.3 Obje�vos do Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Pessoal (PNSP) ..... 97 Aula 3 - O papel das Guardas Municipais no Susp ........................................................ 99 3.1 Aspectos introdutórios: Preparação das Guardas para integrar o Susp ............. 99 3.2 O papel das Guardas Municipais no Susp: Propostas de Polí�cas Públicas Municipais................................................................................................................ 100 3.3 Preparação das Guardas Municipais para integrar o Susp ................................ 103 3.4 Ordem Pública ................................................................................................... 107 3.5 Cadastrar junto à Secretaria Nacional de Segurança Pública - SENASP. ............ 109 Aula 4 - O Plano Nacional de Segurança Pública ......................................................... 111 4.1 Ciclos de implementação previstos no Plano Nacional de Segurança Pública (PNSP) – ciclo 2021/2030: ....................................................................................... 111 4.2 Obje�vos do PNSPDS 2021-2030: ...................................................................... 111 4.3 Fontes de dados e informações do PNSPDS 2021-2030:................................... 112 4.4 Metas de resultado ............................................................................................ 113 4.5 Ações estratégicas ............................................................................................. 114 4.6 Indicadores ........................................................................................................ 116 MÓDULO III – ESTRATÉGIAS DE ATUAÇÃO PARA AS GUARDAS MUNICIPAIS .............. 120 Apresentação do módulo ............................................................................................ 120 Obje�vos do módulo ................................................................................................... 121 Estrutura do módulo .................................................................................................... 121 AULA 1 – O PODER DE POLÍCIA E A GUARDA MUNICIPAL ........................................... 122 1.1 Aspectos introdutórios: Municípios e Segurança Pública ................................. 122 1.2 O Conceito de Poder de Polícia ......................................................................... 125 1.3 Poder de Polícia na Segurança Pública .............................................................. 128 1.4 A Guarda Municipal com Poder de Polícia Preven�vo ...................................... 131 AULA 2 – AS NORMAS DE DIREITOS HUMANOS APLICADAS À FUNÇÃO DA GUARDA MUNICIPAL ................................................................................................................... 135 2.1 O Uso da Força pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei .......... 135 2.2 A Guarda Municipal e o Uso da Força ...............................................................para a segurança pública”, de 2016, para avaliar a par�cipação dos municípios no setor: I. Já foi realizado um diagnós�co da violência e criminalidade? Esse diagnós�co contou com a par�cipação da comunidade local? Iden�ficou fatores de risco e potencialidades locais? Incluiu uma revisão das polí�cas e programas de prevenção que já estavam em curso? Foram iden�ficados os atores que estão ou poderiam ser engajados na estratégia de prevenção? 51 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal II. A par�r desse diagnós�co foi elaborado um plano de segurança municipal? Esse plano envolve um amplo processo social de pactuação e coalizão em torno de regras de convivência e de relações sociais? III. Existe um GGI-M (Gabinete de Gestão Integrada Municipal) ou Conselho Municipal de Segurança para ar�cular todos os atores envolvidos com a polí�ca de segurança da cidade, garan�ndo o alinhamento dos planejamentos, a constante troca de informação e a colaboração entre eles? IV. Existe um observatório de violência no município? Existe um bom sistema de coleta e análise de dados? V. Há uma aproximação entre as forças policiais, equipes de fiscalização e Guarda Municipal? VI. O policiamento tem caráter comunitário e preven�vo? VII. É constante a interação entre autoridades locais e sociedade civil? Essa interação é baseada em mecanismos de par�cipação e controle social ins�tucionalizados? VIII. Foram instaladas câmeras de videomonitoramento? Existe uma central de monitoramento? Elas estão integradas com as demais ações da cidade (Defesa Civil, prevenção urbana e de desastres etc.)? IX. Existem estratégias focadas nos grupos sociais mais vulneráveis, como jovens, mulheres e crianças? X. Existem polí�cas de desenvolvimento urbano e inclusão social? Essas polí�cas levam em consideração as estratégias de prevenção integradas? 52 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal XI. Há um plano de ocupação e uso para os espaços revitalizados, reformados ou construídos? XII. Existem programas de capacitação e formação de pessoas das comunidades para servirem de interlocutoras na mediação de conflitos? XIII. Existe uma ar�culação intersetorial (saúde, educação, urbanismo, trânsito, por exemplo)? As intervenções planejadas são integradas e territorializadas? XIV. Qual é a prioridade polí�ca e ins�tucional dada pelo gestor local a ações focalizadas? Qual a prioridade das polí�cas de prevenção e redução da violência em seu município? PARA REFLETIR Como o profissional do SUSP atuando em âmbito municipal pode tomar a inicia�va de ações e ar�culações entre diferentes órgãos e áreas de governo? 53 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal AULA 3 – GESTÃO DA SEGURANÇA EM ÂMBITO MUNICIPAL 3.1 Tipos de polí�cas de segurança cidadã O conceito de “segurança cidadã” ganhou espaço na América La�na e no Brasil como um contraponto ao emprego, durante o período de regimes autoritários, de expressões como “segurança interna” e “segurança nacional” para o tratamento de questões de segurança pública, que associam o tema da segurança, de forma prioritária, a forças policiais e militares. Como aponta Paulo de Mesquita Neto: O que diferencia os dois tipos de política [segurança cidadã x segurança interna/nacional] não é apenas o fato de que os governantes responsáveis por políticas democráticas são escolhidos através de processos eleitorais, mas também que as políticas democráticas são caracterizadas pela transparência, participação social, subordinação à lei e respeito aos direitos humanos. (...) A transformação conceitual, entretanto, mais do que refletir uma transformação na natureza das políticas de segurança pública desenvolvidas na região, serviu de base para a discussão e formulação de estratégias para adequação de políticas de segurança pública às exigências da democracia (MESQUITA NETO, 2006, p. 6). De acordo com o autor, existem, basicamente, três �pos de polí�cas de segurança cidadã à disposição dos gestores, que podem ter elementos combinados entre si: Polí�ca de empoderamento do município Tem por obje�vo aumentar o poder dos municípios na área da segurança pública. Tipo de polí�ca mais disseminado no país e que ganhou força com a Cons�tuição de 1988, que autorizou os municípios a cons�tuírem Guardas Municipais. Para o autor, 54 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal este �po de polí�ca dificulta a cooperação entre município e Estado na área da segurança pública. Polí�ca de redução do crime e da violência e promoção da segurança do cidadão Baseada principalmente na adoção de programas e ações de natureza preven�va. Ganha força nos anos 2000, com apoio da União e de organizações internacionais. Favorece a cooperação entre município e Estado na área da segurança pública. Polí�ca de democra�zação das polí�cas de segurança pública Baseada na adoção de programas e ações que incen�vam a par�cipação de grupos da sociedade civil, do setor privado, das universidades e de comunidades locais nos assuntos de segurança pública. Favorece a aproximação e a cooperação entre governo municipal e sociedade. 3.2 Exemplos de polí�cas e ações municipais Nesta seção você conhecerá exemplos de inicia�vas municipais em segurança pública que se destacaram ao longo da história recente, tanto pelo desenho das polí�cas como pelos resultados alcançados. Diadema (SP) Diadema é um município de 393.237 habitantes (censo 2022) na região metropolitana de São Paulo. A cidade tem localização geográfica privilegiada, entre a capital do Estado, São Paulo, e o porto de Santos, e por ela passam importantes rodovias de ligação entre a capital e o litoral. O processo de industrialização da cidade nos anos 1950 e 1960 desencadeou um crescimento desordenado da população, gerando sobrecarga nos serviços municipais e o surgimento de mais de 200 favelas em seu território. 55 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal A situação da segurança pública na cidade chamou a atenção do país em março de 1997, após uma reportagem de TV que mostrava um grupo de policiais militares na cidade extorquindo dinheiro e espancando pessoas em abordagens na Favela Naval, localizada no município. A violência culminou com a morte de um mecânico por um cabo da PM. As imagens das prá�cas abusivas por agentes de segurança �veram repercussão mundial. O episódio, aliado a esta�s�cas que colocavam Diadema como um dos municípios mais violentos do Estado no final da década de 1990, mo�varam mudanças nas polí�cas para o setor. A cidade, campeã em homicídios no Estado de São Paulo no final da década de 1990, chegando a 360 homicídios por ano, viu esse número cair para 10 em 2021. Nesse período, o município elaborou e implantou três Planos Municipais de Segurança entre 2001 e 2011. Primeiro Plano Municipal de Segurança Desenvolveu-se de forma par�cipa�va, por meio de audiências públicas. Envolveu o trabalho integrado de diferentes setores da gestão e incluiu, por exemplo, as seguintes inicia�vas: Criação e consolidação de secretaria específica para o setor, para implantação da polí�ca pública de segurança; Programa voltado a jovens de baixa renda, com a�vidades de elevação de escolaridade, qualificação profissional e preparação para acesso ao ensino superior; Serviço de mediação de conflitos; Lei que limitou o horário de funcionamento dos bares das 6h às 23h; Campanhas de desarmamento; Instalação de uma central de videomonitoramento; Criação de Ouvidoria da Secretaria de Defesa Social e de Corregedoria da Guarda Municipal; Criação do ConselhoMunicipal de Segurança e do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGI-M). 56 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Os bons resultados do primeiro plano, como a redução de 60% na taxa de homicídios e de 55% nos incidentes de violência domés�ca (SPANIOL, 2017), levaram à elaboração, em 2005, do 2o. Plano Municipal de Segurança, em parceria com uma organização da sociedade civil. Segundo Plano Municipal de Segurança O plano foi resultado outra vez de um processo de par�cipação popular e enumerou 17 compromissos para o setor, em três eixos: criminalidade e fatores potencializadores; gestão; e urbanização. Terceiro Plano Municipal de Segurança O 3º Plano Municipal de Segurança, de 2011, também realizado em parceria com organização da sociedade civil, levou em conta um diagnós�co de 10 anos de a�vidades implantadas. Reconheceu impactos posi�vos na redução da taxa municipal de homicídios, como melhora na imagem da cidade, na autoes�ma da população e no ambiente econômico de forma geral, e incorporou oito novas ações, veja a seguir. Novas ações incorporadas pelo 3º Plano Municipal de Segurança: I. aprimoramento de medidas contra o envolvimento de adolescentes em situações de risco e violência, como os chamados “pancadões”; II. melhorias na gestão e manutenção de espaços públicos; III. prevenção de violência nas escolas; IV. aprimoramento do atendimento à violência domés�ca; 57 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal V. intensificação da redução de crimes contra a vida; VI. redução de crimes contra o patrimônio; VII. melhoria na relação das forças de segurança com a comunidade; e VIII. aumento da capacidade de gestão da polí�ca municipal de segurança, com previsão de ações integradas entre Guardas Municipais da região metropolitana. Em resumo, as principais ações desenvolvidas pelo município no setor no período, conforme descritas por Spaniol (2017), foram: Mapeamento da criminalidade Georreferenciamento dos dados criminais com iden�ficação precisa de locais das ocorrências e cruzamento das informações com mapas de vulnerabilidade e desigualdade social. Convênio com o governo do Estado permi�u acesso online a informações criminais da cidade e da região. Atendimento a jovens vulneráveis Ações de desenvolvimento de senso de cidadania e pertencimento à comunidade com jovens em situação de vulnerabilidade social. Atendimento a 10.226 jovens nos cinco primeiros anos da inicia�va. Lei de fechamento de bares Legislação de julho de 2002 restringiu das 6h às 23h o funcionamento de estabelecimentos que comercializavam bebidas alcoólicas. A jus�fica�va para a medida foi a constatação de que, em 2001, 60% dos homicídios registrados na cidade ocorreram entre 23h e 6h, nas 58 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal proximidades de pontos de venda de bebidas alcoólicas. A entrada da lei em vigor foi precedida pela realização de 105 audiências públicas, por 10 meses, em todos os bairros da cidade. Fiscalização do funcionamento de bares Programa responsável pela fiscalização do cumprimento da lei de fechamento de bares. Integração das polícias Civil, Militar e Guarda Civil Municipal Ações conjuntas como fiscalização de documentação de motos e de “desmanches” de veículos. Campanha de desarmamento infan�l e adulto Inicia�va de troca de armas de brinquedo por revistas infan�s e de re�rada de armas de fogo de circulação. Policiamento comunitário Rondas preven�vas da Guarda Municipal, realizadas a pé, de bicicleta, moto e com apoio de bases móveis. Serviço de mediação de conflitos Capacitação de facilitadores para iden�ficação de situações de conflito em comunidades e encaminhamento para núcleo de mediação, como alterna�va à resolução de atritos familiares e comunitários. Ricardo e Caruso (2007) apontam que entre 1999 e 2005 a taxa de homicídios em Diadema sofreu uma queda acentuada, indicando que as ações implementadas na cidade contribuíram para a redução da violência. As autoras dizem não ser possível avaliar a contribuição de cada ação para a queda e o impacto de outras ações (como o inves�mento em aperfeiçoamento profissional das polícias) nessa redução. Afirmam, 59 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal porém, que o conjunto de ações levadas a cabo em Diadema contribuiu para a melhoria da segurança pública no município e que entre as causas desse sucesso estão a con�nuidade da polí�ca, a divulgação do trabalho dentro da própria cidade, a centralidade do tema e a liderança governamental na implantação da polí�ca. SAIBA MAIS! Leia a reportagem produzida pela Prefeitura de Diadema sobre ações conjuntas entre Guarda Municipal e Polícia Militar em 2021 para redução de festas irregulares na cidade. Acesse: htps://portal.diadema.sp.gov.br/diadema-ja-fez-quase-1- 500operacoes-preven�va s-de-pancadoes-com-a-gcm-e-pm/ Canoas (RS) Canoas é um município de 347.657 habitantes (censo 2022) na região metropolitana de Porto Alegre. Um dos municípios mais populosos do Rio Grande do Sul, atravessado por importantes rodovias de acesso ao interior e à capital, Canoas historicamente esteve entre aqueles com maiores incidências criminais do Estado. A cidade vivenciou um aumento da taxa de homicídios nos anos 2000 e buscou inspiração em polí�cas municipais de prevenção adotadas em Diadema (SP) para projetos implementados no processo de consolidação de sua polí�ca para o setor. Canoas foi um exemplo de município beneficiado à época por aportes técnicos e financeiros do governo federal durante a ins�tucionalização de suas polí�cas de segurança. Um estudo de 2013 do Ministério da Jus�ça reconheceu a parceria com a União como essencial para a implantação das polí�cas de segurança no município, que seguiram quatro obje�vos estratégicos, veja logo abaixo. 60 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Obje�vos Estratégicos de Canoas (RS): Primeiro Construção de planejamento de policiamento comunitário, a par�r da Guarda Municipal e da sua integração com outras agências. Segundo Emprego de novas tecnologias de prevenção e monitoramento. Terceiro Prevenção das violências em comunidades marcadas pela vulnerabilidade social. Quarto Acesso à Jus�ça e mediação de conflitos. Entre as principais ações desenvolvidas pela prefeitura no período destacaram-se as seguintes: Criação de um Gabinete de Gestão Integrada (GGI-M) O Gabinete de Gestão Integrada (GGI-M) man�nha reuniões quinzenais para discussão de demandas e sugestões e elaboração de ações de prevenção e redução de violência. Em sua composição havia integrantes de diferentes ins�tuições, como Polícia Civil, Brigada Militar, Corpo de Bombeiros, Ministério Público, Defesa Civil e Conselho Tutelar. Implementação de sala de videomonitoramento O programa de videomonitoramento, dialogando com o conceito de “repressão qualificada”, distribuiu mais de 100 câmeras de videomonitoramento em vias públicas, incluindo câmeras com sistemas de iden�ficação facial, instaladas na saída do metrô, e câmeras com sistema iden�ficador de placas veiculares. 61 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Inves�mentos em tecnologias de prevenção da criminalidade Tecnologias de prevenção da criminalidade incluíram mais de 2.000 sensores de alarmes em prédios municipais e mais de 40 sensores acús�cos em vias públicas de bairros mais violentos, dentro de um sistema de detecção de disparos de armas de fogo, além de aparelhos de GPS instalados em viaturas da Guarda Municipal.Implementação de observatório de segurança pública A implementação e a manutenção do observatório de segurança pública da cidade se deram por meio de uma parceria com uma fundação local e com uma universidade do município. Levantamento da série histórica de homicídios e contabilização oficial dos homicídios O observatório também compôs um grupo de pesquisa acadêmico e firmou parceria técnica com uma organização da sociedade civil. Seu foco inicial foi suprir a ausência de dados sobre homicídios, o que foi feito mediante um levantamento da série histórica desse crime e, posteriormente, pela contagem oficial dos casos, a par�r do cruzamento de dados produzidos pela Polícia Civil com aqueles do Sistema Único de Saúde. De modo geral, o órgão visa organizar, produzir e analisar dados de crimes na cidade, bem como integrar e tratar informações de interesse vindas de outros órgãos, e se tornou referência para a gestão da segurança municipal. Melhorias urbanas em bairros mais vulneráveis à violência Bairros em que os altos índices criminais mo�varam a concentração de ações receberam o reforço de polí�cas públicas como recuperação de pontos de iluminação pública, pavimentação de ruas, revitalização de espaços públicos degradados, construção de escolas, reformas em postos de saúde e regulação de espaços com comércios locais. Ações de prevenção à violência pela Guarda Municipal A ação da Guarda Municipal voltada ao policiamento comunitário privilegiou ações como rondas escolares, intervenções lúdicas e reuniões com a comunidade escolar. As polí�cas de segurança também contemplaram um projeto voltado a jovens de 12 a 29 anos, preferencialmente em situação de vulnerabilidade social. Executado em parceria com uma fundação local, oferecia atendimento em três eixos: arte, cultura e esporte, inclusão 62 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal digital e geração de renda, dentro de uma metodologia de trabalho com temas transversais: cultura de paz, segurança pública, protagonismo juvenil e cidadania (BRASIL, 2013; SPANIOL, 2017). SAIBA MAIS! Leia o capítulo 4 do volume 3 da coleção Pensando a Segurança Pública, publicação de 2013 do Ministério da Jus�ça que analisou, entre outras questões, as polí�cas de segurança pública municipais em Canoas (RS) e Jaboatão dos Guararapes (PE). Acesse: htps://bibliotecadigital.economia.gov.br/bitstream/123456789/258/ 3/Pensando%20a%20Seguran%C3%A7a%20-%20vol3.pdf Recife (PE) Recife é um município de 1.488.920 habitantes (censo 2022), capital do Estado de Pernambuco. Em 2000, a cidade �nha a maior taxa de homicídios entre as capitais brasileiras, de 95,8 homicídios por 100 mil habitantes. O desenvolvimento de uma polí�ca de prevenção da violência na cidade par�u de uma orientação da prefeitura, que passou a organizar seus programas sociais em torno dessa demanda, e de uma ar�culação em nível metropolitano. Um primeiro plano metropolitano de prevenção da violência, elaborado em 2004, teve oito metas: reorganização ins�tucional; integração intersetorial e intergovernamental; gestão do conhecimento e da informação sobre polí�ca de defesa social na região metropolitana; programa de capacitação integrado no âmbito da prevenção da violência; promoção e garan�a dos direitos humanos; par�cipação e controle social; segurança comunitária; prevenção dirigida à adolescência e juventude; valorização da vida e respeito às diferenças sociais. 63 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Em 2013, a cidade lançou um novo plano de segurança urbana e prevenção da violência, com o obje�vo de reforçar, com inicia�vas municipais, o ciclo de redução da criminalidade violenta que o Estado vinha alcançando por meio da polí�ca estadual que ficou conhecida como Pacto pela Vida. O Pacto pela Vida foi um conjunto de ações apontado por diferentes estudos como responsável pela queda nos indicadores de violência no Estado entre 2007 e 2013. A primeira etapa deste plano municipal foi a construção de um diagnós�co que sinte�zou indicadores criminais da cidade e indicou, entre outros pontos, uma concentração de 42% dos crimes violentos intencionais em 13 bairros da cidade, que se tornaram o foco principal da inicia�va. Com base nesse levantamento, o plano definiu a atuação em três formas de prevenção à violência: Prevenção primária Intervenções de médio e longo prazo, visando melhorias na qualidade de vida da população de áreas urbanas precarizadas, com ações em educação, habitação, trabalho e cultura. Prevenção secundária Intervenções de curto e médio prazo, visando grupos e territórios com maior vulnerabilidade à violência. Prevenção terciária Intervenções de curto prazo, voltadas a egressos dos sistemas prisional e socioeduca�vo, com obje�vo de coibir a formação de gangues e redes criminosas. Houve elaboração de uma car�lha básica com diretrizes gerais e a metodologia do programa, que foi discu�da em uma consulta pública. Essa consulta 64 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal trouxe propostas e sugestões que foram avaliadas e incluídas em um documento final sobre a polí�ca, que trazia a meta de redução da taxa de homicídios na cidade em 12% ao ano. O Plano Municipal de Segurança Urbana e Prevenção da Violência foi dividido em quatro eixos principais: controle social e ordenamento urbano, prevenção social do crime e da violência, recuperação de situações de risco e participação social e cultura cidadã. Primeiro eixo No eixo controle social e ordenamento urbano as ações envolveram os seguintes pontos: estabelecimento de espaços urbanos seguros, ordenamento da cidade, mobilidade e cidadania, e Guarda Municipal. Segundo eixo O eixo prevenção social do crime e da violência incluiu ações focadas na juventude Mediação de conflitos e acesso à Jus�ça, polí�cas para mulheres e fortalecimento de canais entre a prefeitura e populações historicamente marginalizadas, como pessoas idosas, negras, com deficiência e LGBTQIA+. Terceiro eixo O eixo recuperação de situações de risco procurou trabalhar aspectos como a reinserção social de egressos do sistema prisional e socioeduca�vo, atendimento a dependentes químicos e a ví�mas de violência. Quarto eixo O eixo par�cipação social e cultura cidadã previu a criação de novos espaços e processos de convivência social e cidadania a�va na cidade. 65 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Em relação ao modelo de gestão do plano, houve a criação de um comitê municipal de governança, dividido em quatro câmaras, cada uma associada a um dos quatro eixos do plano. Também houve previsão de ferramentas de integração com outras áreas de governo - nas ações voltadas às mulheres, por exemplo, houve menção à inserção de no�ficações obrigatórias de casos de violência contra a mulher por parte das unidades de saúde. Segundo estudo de 2022 que analisou o cenário recente de segurança da cidade, houve redução de 18,7% em casos de mortes violentas intencionais no município entre 2018 e 2019 - categoria que corresponde à soma das ví�mas de homicídio doloso (incluindo os feminicídios), latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais em serviço e fora. Em relação apenas aos homicídios dolosos, houve uma queda de 22,1% no mesmo período. As taxas de outros crimes apresentaram alta entre 2018 e 2019, como latrocínio (212,8%) e feminicídio (32,6%). Já os índices de furtos e roubos de veículos registraram queda de 4,3%. A conclusão foi que os dados apontaram reduções em alguns �pos criminais e flutuações nas taxas de criminalidade, e que uma avaliação mais precisa dos resultados demandaria análises maisfocadas nas polí�cas públicas realizadas. SAIBA MAIS! Leia o Plano Municipal de Segurança Urbana e Prevenção à Violência de 2013 da cidade de Recife (PE). Acesse: htps://www2.recife.pe.gov.br/sites/default/files/pactopelavida. pdf Teresina (PI) Teresina é um município de 866.320 habitantes (censo 2022), capital do Estado do Piauí. Em 2017, a cidade deu início a uma inicia�va que procurou ar�cular diferentes setores da gestão municipal em torno de 66 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal uma polí�ca de proteção dos cidadãos e de prevenção à violência. Um programa piloto que teve como foco uma região abrangendo 13 bairros da zona norte do município, conhecida como Lagoas do Norte. A escolha da região se deveu à existência de um inves�mento prévio na região em ações de revitalização urbana, com recursos municipais e do Banco Mundial, e à constatação de que as intervenções, isoladas, não estavam tendo impacto posi�vo nos índices de violência e na sensação de insegurança, que cresceram entre os anos de 2013 e 2016. O projeto foi desenvolvido em parceria com uma organização da sociedade civil, que ofereceu assessoramento técnico na elaboração de diagnós�cos de indicadores criminais e índices de percepção de violência, na capacitação de funcionários públicos de secretarias municipais envolvidas no programa, na revisão de documentos técnicos e no monitoramento e avaliação dos projetos e ações desenvolvidas no âmbito do programa, que recebeu o nome Vila Bairro Segurança. O diagnós�co da situação de segurança na região incluiu uma pesquisa com 511 jovens dos bairros envolvidos, oficinas par�cipa�vas com grupo de jovens, mulheres, lideranças comunitárias e empreendedores, audiências públicas em quatro regiões do município e uma análise de dados de homicídios que gerou um mapa com os principais pontos de violência da região. A aplicação da pesquisa a jovens moradores procurou reunir informações sobre o perfil do grupo, o contexto em que viviam e exposições a situações de violência. Resultados do levantamento indicaram, por exemplo, que 97% desses jovens de 15 a 24 anos eram alfabe�zados, 48% nunca �nham exercido a�vidade remunerada e 54% não estudavam no momento da pesquisa. Em relação às percepções de violência, por exemplo, apenas 43% dos jovens moradores disseram se sen�r completamente seguros em suas próprias casas, e aspectos como violência domés�ca e sexual também vieram à tona como questões a serem enfrentadas. 67 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Os resultados dos diagnós�cos subsidiaram propostas discu�das nos grupos par�cipa�vos, que foram sistema�zadas em sete pontos: Figura 17: Propostas para a Cidade de Teresina (PI) Fonte: do Conteudista. Os sete pontos acima embasaram a definição de quatro conjuntos de ações prioritárias: Primeira Ação Projetos de promoção de lazer e cultura para jovens e adolescentes; Segunda Ação Ações integradas de combate à violência contra a mulher; 68 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Terceira Ação Ocupação pública de um parque local para a�vidades familiares aos finais de semana; Quarta Ação Capacitação de agentes públicos em temas correlatos à violência. O programa �nha duas frentes principais de ação. Uma frente preven�va que contemplava os três níveis de prevenção – primária, secundária e terciária, e uma voltada à proteção, com ações ar�culadas nos níveis municipal, estadual e federal. Prevenção A frente de prevenção, com sete projetos, previa ações integradas de iden�ficação de fatores de risco e fatores prote�vos e o atendimento de indivíduos em situação de vulnerabilidade e risco social. A ação de prevenção secundária consis�a na ação da escola para iden�ficar adolescentes em situação de vulnerabilidade à violência, para que pudessem ser encaminhados a uma equipe técnica para elaboração de um projeto de “redirecionamento da trajetória de vida do adolescente”. A responsável por receber e monitorar esse projeto pelo período de um ano seria a Guarda Civil Municipal. Proteção A frente de proteção �nha 18 metas e 16 ações previstas, sendo dois projetos de fiscalização de condutas em parcerias com outros órgãos da segurança: Teresina Protege (fiscalização de bares e postos de conveniência) e Blitz 69 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Sufoco (controle do espaço público em relação ao uso de drogas e armas). Houve ainda ênfase no monitoramento do programa, com a proposta de divisão de responsabilidades entre órgãos envolvidos, uma ro�na de reuniões e um instrumento de apoio gerencial às a�vidades. SAIBA MAIS! Leia o documento Vila Bairro Segurança: A experiência do programa piloto e os desafios para a consolidação de uma polí�ca municipal de prevenção à violência em Teresina/PI, da Prefeitura de Teresina. Acesse: htps://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/ 01/vila- bairro-seguranca-completo-v3-1.pdf Veja mais algumas cidades em que foram implantadas ações de segurança: Vitória (ES) Em Vitória (ES), uma parceria entre prefeitura e Tribunal de Jus�ça criou o chamado “botão do pânico”, um equipamento distribuído a mulheres sob medida prote�va e ameaçadas por companheiros. O equipamento pode ser acionado pelas mulheres atendidas caso o agressor não mantenha a distância mínima fixada pelas medidas prote�vas. O aparelho também registra conversas em um raio de até cinco metros e envia informações para uma central de monitoramento da Guarda Municipal. Campinas (SP) Em Campinas (SP), a prefeitura criou um programa para minimizar danos sociais causados pela violência sexual e domés�ca, com 70 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal atuação de escolas e creches, centros de saúde, serviços de assistência judiciária e delegacias da mulher. A Guarda Municipal atende chamados de socorro e oferece orientação sobre o programa. Be�m (MG) Em Be�m (MG), uma ação definida pelo GGI-M (Gabinete de Gestão Integrada Municipal) viabilizou a atuação integrada das polícias e da Receita Estadual para combate à receptação de celulares furtados. A medida foi acompanhada por uma campanha de comunicação sobre o tema. O exemplo de Medellín: educação e cultura contra a violência urbana A experiência de Medellín, na Colômbia, no combate à criminalidade inspirou inúmeras experiências de prevenção à violência pela América La�na e pelo mundo. A cidade foi marcada nas décadas de 1970 e 1980 pela violência e pela insegurança decorrente da ação do narcotráfico, controlado à época pelo notório cartel de Medellín. No início dos anos 1990 a taxa de homicídios no município era superior a 300 por 100 mil habitantes, o que fazia da cidade a mais violenta da América La�na. A par�r de um entendimento de que a violência urbana �nha raízes em um quadro de exclusão social, desigualdade e ausência estatal, Medellín enfrentou a insegurança e a violência com ênfase na cultura como veículo de mudança social e urbana. A gestão procurou iden�ficar e classificar problemas de segurança e convivência em cada distrito e bairro, para a elaboração de respostas específicas para cada território. Tal perspec�va de territorialização da segurança envolveu estratégias baseadas na gravidade das situações e nas caracterís�cas sociais e econômicas de bairros e regiões. Com a instalação de teleféricos para transporte cole�vo em áreas de di�cil acesso, a cidade transformou áreas em pontos seguros e de convívio. A construção, desde 2004, de espaços conhecidos como Parques Bibliotecas possibilitou o engajamento de crianças e jovens em a�vidades de leitura e oficinasde música e dança. Espaços públicos se tornaram vetores de coesão social, dentro de uma proposta urbanís�ca pensada para o cidadão e com foco nas áreas 71 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal mais vulneráveis à violência. Em 2017, a taxa de homicídios na cidade foi de 24 por 100 mil habitantes. (HIDALGO et al. 2021, FBSP, 2016). 3.3 Dificuldades na execução de polí�cas municipais de segurança O desenvolvimento de polí�cas municipais de segurança depende da disponibilidade de recursos técnicos, administra�vos, econômicos, sociais e polí�cos. Segundo Mesquita Neto (2006), a manutenção de um fluxo de financiamento é o primeiro grande problema enfrentado por municípios interessados no desenvolvimento dessas polí�cas. O autor ressalta que é preciso desenvolver polí�cas amparadas em avaliações realistas dos recursos disponíveis, sob o risco de descon�nuidades e limitações na execução dos planos. Cabe lembrar que a descon�nuidade de programas torna mais di�cil a complexa tarefa de mensuração da eficácia das polí�cas de segurança. Também é comum que municípios dependam de convênios com o governo federal para execução de polí�cas de segurança. Tais convênios podem não se viabilizar por problemas como carência de equipes qualificadas em planejamento e execução de projetos - nesses casos, a consequência mais comum é a devolução de recursos federais por falta de capacidade de execução dos gestores locais. A falta de recursos, no entanto, não deve inviabilizar o desenvolvimento de polí�cas de segurança pelo governo municipal. Outro problema enfrentado pelas gestões municipais é a adoção de estratégias alinhadas a interesses polí�cos, e não a demandas sociais reais. Mesquita Neto (2006) enfa�za a necessidade de que todas as etapas do desenvolvimento de polí�cas municipais de segurança contem com a par�cipação da comunidade e de diversos órgãos e áreas do conhecimento, o que costuma demandar mudanças nos modos de organização do trabalho na administração pública, que em geral é realizado de maneira compar�mentalizada. Um outro possível obstáculo às ações municipais no setor é a falta de colaboração de outros órgãos envolvidos com a segurança pública. Spaniol (2017) relata como, por exemplo, uma mudança de orientação dentro de uma ins�tuição policial ou falta de vontade ou interesse de gestores do Execu�vo estadual pode prejudicar a con�nuidade de ações locais no setor. 72 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal FINALIZANDO.... Neste módulo você aprendeu: As Guardas Municipais são ins�tuições fundamentais para a pacificação social e podem dar uma contribuição muito significa�va ao apresentar novas estratégias de prevenção ao crime, inovando através de procedimentos padronizados de atuação, adoção de estratégias de policiamento baseado em evidências com emprego de tecnologia e fomento à proximidade com a comunidade. Nas sociedades urbanas, a marginalidade social já foi associada a pelo menos quatro causas, não exaus�vas. A violência é indissociável das lógicas de produção, consumo e relações de poder na sociedade. A violência urbana envolve ações de natureza criminal, como roubos e homicídios, e pode alcançar um nível de presença no território que se traduz em poder paralelo ao Estado. Uma das consequências da violência urbana é a difusão de sen�mentos de medo e insegurança entre a população. No Brasil, polí�cas de segurança pública e o debate sobre problemas do setor refletem uma divisão entre prevenção e repressão no controle do crime. A prevenção à violência, de modo geral, pode ser dividida em duas categorias: Prevenção social e Prevenção situacional. A par�cipação efe�va dos municípios na segurança pública é um fato rela�vamente recente da história do país. A par�cipação dos municípios na segurança pública se intensificou, pelo volume de recursos inves�dos e pela oferta de ações preven�vas para implementação pelos municípios, a par�r da ins�tuição pelo governo federal, em 2007, do Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci). A lei nº 13.675, de 2018, que criou o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), representa o marco recente mais importante de consolidação da gestão da segurança pública no Brasil. 73 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal A PNSPDS reforçou o papel dos municípios como integrantes estratégicos do SUSP, ao lado dos Estados, do Distrito Federal e da União. 74 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal MÓDULO II – AS GUARDAS MUNICIPAIS NO SISTEMA ÚNICO DE SEGURANÇA PÚBLICA Apresentação do módulo Neste módulo você estudará sobre as Guardas Municipais no Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Na primeira aula serão abordadas as recentes inovações introduzidas pela Lei Federal nº 13.022/2014, que ins�tuiu o Estatuto Geral das Guardas Municipais. Ao longo da segunda aula será apresentado o Sistema Único de Segurança Pública que, em 2018, por meio da Lei nº 13.675, os municípios ganharam destaque, sendo posicionados como integrantes estratégicos e suas guardas municipais, como integrantes operacionais. Durante a terceira aula será apresentado o papel das Guardas Municipais no Susp, destacando a relevância desse novo ator da Segurança Pública para atuar com foco em ações preven�vas em detrimento de ações repressivas, com a adoção de estratégias de policiamento baseado em evidências com emprego de tecnologia e fomento à proximidade com a comunidade. Por fim este módulo encerrará com a quarta aula tratando do Plano Nacional de Segurança Pública, que se ar�cula em torno de 13 grandes metas, divididas entre cinco eixos temá�cos, previstas para serem implementadas ao longo de cinco ciclos bianuais. Antes de iniciar seus estudos, leia o texto a seguir. [...] as guardas municipais passaram a ter materializada na norma jurídica uma função já rotineira e fundamental para a execução da atividade de polícia comunitária, atividade esta executada por todas as guardas municipais já existentes em razão da peculiaridade de serem instituições locais, que atuam desde sua criação de forma a interagir com a sociedade civil buscando a solução de problemas e a implantação de projetos locais voltados à melhoria das condições de segurança das comunidades. (CARVALHO, 2017, p. 133 apud OLIVEIRA, 2019). 75 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Reflita sobre o tema abordado na citação acima através das seguintes questões: A condição de integrantes operacionais do Susp fortalece a atuação das guardas civis municipais junto à comunidade local em ações preven�vas que visam a promoção de uma cultura de paz na comunidade local? A atuação comunitária e preven�va das guardas civis municipais podem colaborar com a redução dos índices de criminalidade? Qual a relevância da adoção de ações interdisciplinares de segurança no Município pelas guardas civis municipais? A regulamentação das funções das guardas civis municipais em 2014 por meio da Lei nº 13.022, possibilitou ampliar as possibilidades de atuação na Segurança Pública local? A regulamentação da Segurança Pública em 2018, por meio da Lei nº 13.675, levou os municípios a terem maior par�cipação nas ações de segurança pública em âmbito local? Após a reflexão, guarde as respostas para u�lização ao longo do estudo do módulo. Obje�vo do módulo Este módulo tem por obje�vos: Iden�ficar as competências das Guardas Municipais para atuação na Segurança Pública; Estudar as estratégias de policiamento baseado em evidências com emprego de tecnologia e fomento à proximidade com a comunidade; Conhecer o Sistema Único de Segurança Pública eo papel das Guardas Municipais; Analisar o Plano Nacional de Segurança Pública e seus reflexos na segurança pública municipal. 76 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Estrutura do módulo Este módulo compreende as seguintes aulas: Aula 1 - Competências das Guardas Municipais (Lei nº 13.022/2014) Aula 2 - Introdução ao Sistema Único de Segurança Pública Aula 3 - O papel das Guardas Municipais no Susp Aula 4 - O Plano Nacional de Segurança Pública 77 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal AULA 1 – COMPETÊNCIAS DAS GUARDAS MUNICIPAIS (LEI Nº 13.022/2014) 1.1 Introdução ao tema As guardas municipais são ins�tuições de caráter civil, uniformizadas e armadas, que se encarregam não apenas de proteção dos equipamentos públicos, mas também de cuidar da prevenção e da segurança nos ambientes urbanos e espaços de convivência comunitárias, por meio de a�vidades de patrulhamento preven�vo realizado de forma ostensiva e aplicação de técnicas de mediação de conflitos. Regulamentadas pela Lei nº 13.022, de 8 de agosto de 2014, as Guardas Municipais exercem papel de prevenção de violências e de criminalidade. Sua função principal é a proteção municipal preven�va. Atua por meio de inicia�vas que preveem ar�culações com os mais diversos órgãos públicos municipais, com en�dades da sociedade civil e com outros órgãos de segurança pública (polícias e órgãos do Sistema de Jus�ça Criminal). Para Refle�r Faz parte da iden�dade das Guardas Municipais a essência de Polícia Cidadã! 78 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal VEJA A OPINIÃO DE ALGUNS ESTUDIOSOS: Souza e Albuquerque (2017, p. 101), analisando o impacto da sanção da Lei Federal 13.022 de 2014, o Estatuto da Guarda Municipal, explicam que ela “transformou as guardas municipais em polícias municipais”. Carvalho (2017) explica que essa lei, que define como competência das guardas municipais o patrulhamento preven�vo das cidades, regulamenta o texto cons�tucional (SOUZA e ALBUQUERQUE, 2017, p. 101, apud OLIVEIRA, 2019). No Brasil, nossas Guardas Municipais já nascem como polícias urbanas e de proximidade, com plena vocação comunitária, especialmente depois da entrada em vigor da Lei Federal 13.022/2014, chamada Estatuto Geral das Guardas Municipais (CARVALHO, 2017, apud OLIVEIRA, 2019). 79 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Figura 18: Competências GCM’s Fonte: @SenadoFederal (2018). Figura 19: Significada da palavra “Polícia” Fonte: htps://jus.com.br/ar�gos/71114/ciclo-completo-de-policia Imagem: Anna-Karin Nilsson. Disponível em: htps://polis�dningen.se/2022/06/nyckeln-�ll-at-passa-in- som-polis/ 80 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal 1.2 Abordagem legal das competências das Guardas Municipais Na Carta Magna, em seu ar�go 144, § 8º, ao definir a atuação frente à segurança pública e à incolumidade das pessoas e do patrimônio, prevê a responsabilidade de todos, e principalmente do "Estado" (União, Estados, Distrito Federal e Municípios). Neste sen�do, as Guardas Municipais, estão cons�tucionalmente previstas como órgãos de segurança pública, com o propósito de proteção dos bens, serviços e instalações dos municípios. Com o advento da Lei Federal nº 13.022/2014, as atribuições cons�tucionais das Guardas Municipais foram regulamentadas, deixando mais ampla a compreensão de seus três principais eixos de atuação. Assim o art. 4º da citada regulamentação estabeleceu que: Art. 4º É competência geral das guardas municipais a proteção de bens, serviços, logradouros públicos municipais e instalações do Município. Parágrafo único. Os bens mencionados no caput abrangem os de uso comum, os de uso especial e os dominiais. Grifo Nosso Já o Código Civil Brasileiro, norma�zado pela Lei nº 10.406/2002, cuidou de definir e trazer uma melhor compreensão sobre um dos principais eixo de atuação das Guardas Municipais, que refere-se a proteção de “bens públicos”, para tanto, assim está definido: Art. 99. São bens públicos: I - os de uso comum do povo, tais como rios, mares, estradas, ruas e praças; II - os de uso especial, tais como edifícios ou terrenos destinados a serviço ou estabelecimento da administração federal, estadual, territorial ou municipal, inclusive os de suas autarquias; III - os dominicais, que constituem o patrimônio das pessoas jurídicas de direito público, como objeto de direito pessoal, ou real, de cada uma dessas entidades. 81 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Assim se verifica que os “bens de uso comum” são aqueles que são des�nados ao uso cole�vo, sendo acessíveis e disponíveis para todas as pessoas em uma comunidade ou sociedade. Esses bens são geralmente man�dos e administrados pelo poder público ou por en�dades cole�vas, visando o bene�cio e o interesse comum. Alguns exemplos de bens de uso comum incluem: Ruas e estradas As vias públicas, como ruas, avenidas e estradas, são bens de uso comum, pois são u�lizadas por todos os cidadãos para o deslocamento e transporte. Calçadas e passeios As calçadas são espaços públicos des�nados à circulação de pedestres e são consideradas bens de uso comum, garan�ndo a acessibilidade e a mobilidade urbana. Praças e parques Áreas públicas abertas, como praças, parques e jardins, são consideradas bens de uso comum, pois estão disponíveis para o lazer, recreação e convívio social de todos. Praias São consideradas bens de uso comum, permi�ndo que as pessoas desfrutem da costa e das águas do mar. 82 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Praças espor�vas e campos de jogos Instalações espor�vas públicas, como quadras espor�vas, estádios e campos de jogos, são bens de uso comum que possibilitam a prá�ca de a�vidades espor�vas e recrea�vas pela comunidade. Esses são apenas alguns exemplos de bens de uso comum, mas a noção de bens de uso comum pode abranger uma ampla variedade de recursos e espaços que são compar�lhados pela sociedade como um todo. A atuação das guardas municipais em “bens de uso comum” estão relacionada à proteção, segurança e preservação desses espaços públicos acessíveis a todos por meio de ações de patrulhamento preven�vo comunitário. As guardas municipais podem ter um papel importante na manutenção da ordem e no bem-estar dos cidadãos que u�lizam esses bens. Abaixo você verá algumas formas de atuação das guardas municipais nesses locais: Patrulhamento e segurança As guardas municipais realizam patrulhamento preven�vo nos bens de uso comum, como nos logradouros públicos municipais, praças, parques e praias, garan�ndo a segurança dos frequentadores e prevenindo a ocorrência de crimes. Fiscalização de posturas municipais As guardas municipais podem exercer a�vidades de fiscalização em bens de uso comum, como verificar o cumprimento de normas e regulamentos, como proibições de fumar, venda irregular de produtos, descarte de lixo inadequado, entre outros. Fiscalização de trânsito É cons�tucional a atribuição às guardas municipais do exercício de poder de polícia de trânsito, inclusive para imposição de sanções administra�vas legalmente previstas. Referida tese foi firmada pelo Supremo Tribunal Federal ao julgar o Tema 472 - 83 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Competência de guarda municipal para lavrar auto de infração de trânsito. Firmou-se aqui o entendimento de repercussão geral de que não háqualquer desvio de suas funções, entendendo que as guardas municipais podem atuar no controle e na orientação do trânsito e do tráfego urbano das cidades brasileiras. Orientação e apoio ao público As guardas municipais estão disponíveis para orientar e auxiliar o público que u�liza os bens de uso comum, fornecendo informações sobre horários de funcionamento, localização de áreas específicas, normas de conduta, entre outros aspectos relevantes. Mediação de conflitos: Em espaços públicos, podem surgir conflitos entre os frequentadores. Nesses casos, as guardas municipais podem atuar como mediadoras para resolver disputas e garan�r a segurança e o bom convívio entre as pessoas. Prevenção de vandalismos e depredações A presença das guardas municipais em bens de uso comum contribui para desencorajar atos de vandalismo, depredação ou qualquer �po de dano ao patrimônio público. Apoio em emergências Em caso de emergências médicas, acidentes ou situações de risco nos bens de uso comum, as guardas municipais podem atuar prontamente, prestando os primeiros socorros, solicitando apoio de equipes especializadas e garan�ndo a segurança do local e das pessoas envolvidas. Fiscalização do cumprimento de medidas sanitárias Em momentos de pandemia ou situações em que medidas sanitárias são necessárias, as guardas municipais podem auxiliar na fiscalização do cumprimento das regras, como uso de máscaras, distanciamento social e limitação de capacidade. Destaca-se, ainda, os princípios mínimos de atuação das Guardas Municipais trazido pelo seu Estatuto Geral (Lei nº 13.022/2014), apresentado no diagrama abaixo: 84 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Figura 20: Princípios Mínimos de Atuação das GCM’s Fonte: Elaboração Própria (2023) Freepik.com. Como pode ser percebido, a regulamentação das Guardas Municipais fez com que estas corporações se tornassem de extrema importância na preservação dos direitos dos cidadãos e no apoio aos demais órgãos de segurança pública. Suas atribuições foram delineadas para uma atuação focada em a�vidades comunitárias de segurança urbana. Possuem poder de polícia administra�va para atuarem em situações em que o cumprimento do dever se faz necessário, atuam em ocorrências de ameaça à ordem ou à vida e em casos de calamidade pública. Agem também em qualquer outra situação de flagrante delito (ar�go 301, do Código de Processo Penal e art. 5º, XIV, Lei nº 13.022/2014), oportunidade em que agem como agentes das autoridades, devendo prender quem quer que seja encontrado em situação de "flagrância". Neste sen�do, a Lei Federal nº 13.022/2014 especificou as competências específicas das guardas municipais, respeitadas as competências dos órgãos federais e estaduais: 85 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal I. zelar pelos bens, equipamentos e prédios públicos do Município; II. prevenir e inibir, pela presença e vigilância, bem como coibir, infrações penais ou administra�vas e atos infracionais que atentem contra os bens, serviços e instalações municipais; III. atuar, preven�va e permanentemente, no território do Município, para a proteção sistêmica da população que u�liza os bens, serviços e instalações municipais; IV. colaborar, de forma integrada com os órgãos de segurança pública, em ações conjuntas que contribuam com a paz social; V. colaborar com a pacificação de conflitos que seus integrantes presenciarem, atentando para o respeito aos direitos fundamentais das pessoas; VI. exercer as competências de trânsito que lhes forem conferidas, nas vias e logradouros municipais, nos termos da Lei nº 9.50/97 (Código de Trânsito Brasileiro), ou de forma concorrente, mediante convênio celebrado com órgão de trânsito estadual ou municipal; VII. proteger o patrimônio ecológico, histórico, cultural, arquitetônico e ambiental do Município, inclusive adotando medidas educa�vas e preven�vas; VIII. cooperar com os demais órgãos de defesa civil em suas a�vidades; IX. interagir com a sociedade civil para discussão de soluções de problemas e projetos locais voltados à melhoria das condições de segurança das comunidades; 86 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal X. estabelecer parcerias com os órgãos estaduais e da União, ou de Municípios vizinhos, por meio da celebração de convênios ou consórcios, com vistas ao desenvolvimento de ações preven�vas integradas; XI. ar�cular-se com os órgãos municipais de polí�cas sociais, visando à adoção de ações interdisciplinares de segurança no Município; XII. integrar-se com os demais órgãos de poder de polícia administra�va, visando a contribuir para a norma�zação e a fiscalização das posturas e ordenamento urbano municipal; XIII. garan�r o atendimento de ocorrências emergenciais, ou prestá-lo direta e imediatamente quando deparar-se com elas; XIV. encaminhar ao delegado de polícia, diante de flagrante delito, o autor da infração, preservando o local do crime, quando possível e sempre que necessário; XV. contribuir no estudo de impacto na segurança local, conforme plano diretor municipal, por ocasião da construção de empreendimentos de grande porte; XVI. desenvolver ações de prevenção primária à violência, isoladamente ou em conjunto com os demais órgãos da própria municipalidade, de outros Municípios ou das esferas estadual e federal; XVII. auxiliar na segurança de grandes eventos e na proteção de autoridades e dignitários; e XVIII. atuar mediante ações preven�vas na segurança escolar, zelando pelo entorno e par�cipando de ações educa�vas com o corpo discente e docente das unidades de 87 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal SAIBA MAIS! Fonte: Portal MJSP Figura 21: Atuação da Guarda Municipal ensino municipal, de forma a colaborar com a implantação da cultura de paz na comunidade local. Conforme acima apresentado, as competências e atribuições das Guardas Municipais são determinadas não apenas pela Cons�tuição Federal, mas também por legislações específicas (tanto federais, quanto municipais). O papel das Guardas na prevenção primária do crime ganha relevância pela sua atuação de proximidade e interação com o cidadão, que, por sua vez, assume importância por ser a primeira frente de proteção da população em âmbito local. Antes de prosseguir, assista ao vídeo: SEMINÁRIO – GUARDA MUNICIPAL FRENTE AOS NOVOS DESAFIOS: PROTEÇÃO MUNICIPAL PREVENTIVA, ministrado pelo ex-secretário Nacional de Segurança Pública do Ministério da Jus�ça, Ricardo Brisolla Balestreri, disponível em: htps://www.youtube.com/watch?v=xDHAHJNuVzs&t=122s 1.3 Atuação preven�va das guardas como polícias cidadãs e comunitárias em espaços de desordem social Muito se fala hoje, sobretudo nos grandes centros urbanos, de uma crescente sensação de violência e criminalidade que assola a todos, gerando uma grande tensão social e um medo generalizado. Fato é que Segurança Pública é um dos problemas sociais que mais afligem o cidadão brasileiro na atual conjuntura. 88 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Trata-se de um fato complexo que, para ser controlado, exige ações diversificadas, par�cularmente as que refletem na melhoria da qualidade de vida da população em geral. Não obstante, os órgãos de Segurança Pública são elementos importantes, mas não únicos, nesse processo de melhoria, já que devem contar com a comunidade, em geral, para que haja ações efe�vas e qualificadas na prevenção criminal. Para Bayley (2017) essa relação vai além da mera iden�ficação, ela implica em uma pedagogia peculiar, pois “uma vez que ospoliciais são a encarnação do governo, eles são os professores mais permanentes dos valores cívicos na sociedade” (Bayley, 2017, p. 212 apud OLIVEIRA, 2019): Agindo como professores, os policiais devem construir uma relação de autoridade com o público. Essa relação de autoridade não é mais uma imposição simples, mas deriva de uma construção que se manifesta no consentimento do público (BONDARUK; SOUZA, 2004 apud OLIVEIRA, 2019). As boas prá�cas neste contexto demonstram que as polí�cas de segurança pública na contemporaneidade devem contemplar vários aspectos, se pautar em ar�culação, atuação conjunta, coordenada, sistêmica e integrada, indo ao encontro do que estabelece o Sistema Único de Segurança Pública (Susp): …uma estratégia organizacional que promove uma nova parceria entre o povo e a sua polícia. Ela baseia-se na premissa de que tanto a polícia, como a comunidade, precisam trabalhar juntas, como parceiras iguais, para identificar, priorizar, e resolver problemas contemporâneos como crime, drogas, sensação de insegurança, desordens sociais e físicas e enfrentar a decadência dos bairros, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida na comunidade (TORRES, 2001, p. 1) Ainda nesse sen�do segue o posicionamento de Bucqueroux (1999): Baseia-se na premissa de que tanto a polícia quanto a comunidade devem trabalhar juntas para identificar, priorizar, e resolver problemas contemporâneos tais como crime, drogas, o medo do crime, desordens físicas 89 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal e morais, e em geral a decadência do bairro, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida na área. (BUCQUEROUX, 1999, p. 4). Nesta direção aponta as balizas cons�tucionais que es�mulam a adoção de uma segurança cidadã. Contudo, mesmo com os esforços no âmbito das ins�tuições de trazer novos conceitos de atuação, o que se constata é uma tendência midiá�ca do combate e repressão ao crime, para se fazer frente à violência que assola o país. Com isso o cidadão infrator passa a ser visto como inimigo, frente a um modelo cons�tucional e militarizado ins�tuído que confunde defesa nacional, em que o foco está na eliminação de inimigos externos, com segurança cidadã em que o foco deve estar na preservação da vida, conforme apontado por Fontoura (2009): Segundo diferentes especialistas, a atividade policial, em uma sociedade democrática, deveria ter caráter civil. Não somente porque não se deve imiscuir defesa do Estado e proteção do cidadão, mas devido à própria lógica militar, inadequada para atividades relacionadas à prevenção da violência e da criminalidade. O policial que age na rua deve ter consciência de sua função preventiva e deve ter iniciativa, e não somente dever disciplina e obediência a um superior. A sua atuação não deve estar fundamentada em princípios bélicos, ligados à lógica de guerra e de combate ao inimigo, mas na proteção aos cidadãos de maneira democrática e equitativa. A atividade de policiamento seria, portanto, eminentemente civil, porque a polícia tem que prestar serviço público para o cidadão. O foco de sua atuação deve ser a proteção do cidadão, e não o combate ao inimigo. (FONTOURA, 2009, p. 152) Por essa razão, um nicho na segurança pública fica aberto, o do policiamento comunitário, preven�vo e de promoção de Direitos Humanos, caracterís�ca de um estado democrá�co de direito regido por uma cons�tuição cidadã. Deixando assim uma lacuna importante a ser preenchida nas ações de prevenção e de segurança baseada por evidências com forte potencial de serem exercidas pelas Guardas Civis Municipais. Oliveira (2019) entende que a maior parte das demandas apresentadas pela sociedade às agências policiais não são de natureza policial, pois são de natureza 90 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal preven�vas, contudo, podem evoluir e se transformar em caso de polícia se não forem prevenidas: A maior parte das demandas que a sociedade faz à polícia não é de natureza criminal (perturbação do sossego, mediação de conflitos, acidentes de trânsito), mas pode evoluir nessa direção, sendo sua resolução uma questão preventiva. (BAYLEY, 2017, et al, apud, OLIVEIRA, 2019) Para Carvalho (2017) as guardas municipais surgem como um modelo de atuação comunitário e preven�vo que atuam na interação com a sociedade: [...] as guardas municipais passaram a ter materializada na norma jurídica uma função já rotineira e fundamental para a execução da atividade de polícia comunitária, atividade esta executada por todas as guardas municipais já existentes em razão da peculiaridade de serem instituições locais, que atuam desde sua criação de forma a interagir com a sociedade civil buscando a solução de problemas e a implantação de projetos locais voltados à melhoria das condições de segurança das comunidades. (CARVALHO, 2017, p. 133 apud OLIVEIRA, 2019). Na mesma direção aponta Rolim (2006), entendendo a atuação das guardas municipais na autorregulação e na regulação cole�va: Muitas dessas demandas estão relacionadas a serviços de responsabilidade municipal e acreditam que a resolução desse tipo de problema deveria ser uma vocação das guardas municipais, que atuariam “de modo a colaborar na autorregulação e na regulação coletiva”. Nesse sentido, a população não cumpre um papel secundário em relação à polícia, mas a polícia que é suplementar à população (ROLIM, 2006, et al, apud, OLIVEIRA, 2019). Para Monjardet (2002) as polícias contemporâneas seriam classificadas por meio de uma �pologia tripar�te: as polícias contemporâneas por meio de uma tipologia tripartite. Para ele há três modalidades de polícia que estão presentes em maior ou menor grau em todas as polícias. Há a polícia de soberania ou território, que surge a partir 91 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal das Forças Armadas; a polícia criminal, ligada ao Judiciário; e a polícia urbana, municipal, de proximidade, que surge e se integra no seio da comunidade local. Esse modelo é bastante adequado para explicar a polícia brasileira, pois no Brasil, ao contrário da França, país de origem desse autor, as polícias são segmentadas dentro do ciclo de polícia. As polícias militares correspondem à polícia de soberania, ao passo que as civis estão relacionadas com as criminais e as guardas municipais, com as polícias urbanas. “A terceira modalidade é a de polícia urbana (municipal, comunitária, de proximidade) que se origina nos guetos burgueses e cujo papel é “a proteção do sono, o que supõe rondas de guarda” (MONJARDET, 2002, apud OLIVEIRA, 2019). Na mediação dos conflitos e regula o trânsito. Monjardet (2002, apud OLIVEIRA, 2019 Aprofundando nos ensinamentos sobre a polícia urbana, Monjardet (2002, apud OLIVEIRA, 2019), pontua que sua função é social, de fazer com que se respeite a paz pública contra a perturbação do sossego, a desordem local, a sujeira e a pequena delinquência. Ela atua também) sustenta que a polícia urbana mantém a ordem pública, que não é a de dominação do poder central, mas a da tranquilidade. Ela se representa na sociedade, de onde provém, e onde só pode agir eficazmente por sua integração: Desse modo também, seu controle se opera através de sua visibilidade. Polícia uniformizada, ela está a observação de todos, como preconizava Peel. O uniforme aqui não é a vestimenta guerreira da polícia soberana que evoca o exército e simboliza o poder; é, ao contrário, exibição da qualidade policial, no sentido em que esta se coloca à disposição e sob o controle de todos. (MONJARDET, 2002, p. 284, apud OLIVEIRA, 2019). Carvalho (2017, apud OLIVEIRA, 2019) explica que o policiamento cidadão sempre foi foco das guardas municipais, que existem desdeo Império, tendo suas funções reduzidas ou mesmo sendo ex�ntas em períodos de poder centralizado. Monjardet (2002) demonstra que em situações em que tanto a polícia de ordem quanto a criminal são fortes, a polícia urbana é instrumentalizada como reforço ocasional da polícia de ordem, o que parece ser o caso das guardas municipais em sua relação com as polícias militares. 92 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Com o trabalho de Monjardet é possível entender que ambas são complementares, uma é polícia de ordem, que faz policiamento ocasional de proximidade, com foco na preservação e con�nuidade do Estado, e que outra é polícia urbana, com foco na paz social da comunidade por meio de um policiamento permanente de proximidade e comunitário. A atuação preven�va das guardas como polícias cidadãs e comunitárias em espaços de desordem social passa pelo que sustenta Carneiro (2012), ao defender que ao se explorar a relação entre a desordem e o crime é possível abrir novos caminhos para a par�cipação da administração pública local na gestão das polí�cas de segurança pública. Carneiro (2012) sustenta que a inves�gação sobre os mecanismos que relacionam desordem e crime torna possível ar�cular uma resposta à criminalidade que vai além do recurso ao sistema de jus�ça criminal e, em par�cular, que vai além da adoção de leis penais. Há ainda outro argumento a favor de se definir a desordem como um alvo privilegiado para as intervenções na área de segurança, conforme sustenta Garófolo (1987): A desordem é importante não apenas por seu papel no processo que conduz à redução do crime, mas porque afeta outra dimensão muito importante da vida comunitária: o medo do crime e a sensação de insegurança dos residentes (Garofalo, 1981). Carneiro (2012) defende que esse é um tema bastante explorado na criminologia e as evidências acumuladas indicam que a desordem e o medo do crime estão fortemente ligados. Por fim, a desordem é um problema em si mesmo, que tem efeitos diretos e nega�vos sobre a comunidade; como a diminuição da confiança interpessoal e da capacidade de cooperação e o enfraquecimento dos mecanismos informais de controle social. A relação de desordem, aspectos sociais e caracterís�cas sociais e �sicas dos locais onde os crimes ocorrem devem ser levadas em conta na definição das estratégias de qualquer ação que tenha como obje�vo a manutenção da ordem. Para tanto, se verifica 93 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal na atuação das guardas municipais um papel essencial de manutenção da ordem e o reforço dos mecanismos informais de controle na sociedade: Em segundo lugar, se o município direciona as suas políticas na área de segurança para o controle da desordem e planeja suas ações com base em modelos que levam em conta os aspectos espaciais específicos que afetam a ecologia do crime, é possível evitar, como fundamento da política pública, as relações de causalidade difusa que relacionam a desordem e o crime a macro-processos sociais como a desigualdade, a pobreza, a falta de oportunidades de lazer, etc. Crimes ocorrem em espaços específicos e dependem de recursos sociais também específicos. Neste sentido, as características sociais e físicas dos locais onde os crimes ocorrem devem ser levadas em conta na definição das estratégias de qualquer ação que tenha como objetivo a manutenção da ordem. As guardas municipais, se preparadas e direcionadas para o controle da desordem, poderão desempenhar em breve um papel importante na oferta de policiamento. Afinal de contas, o que há de mais essencial no trabalho de polícia do que a manutenção da ordem e o reforço dos mecanismos informais de controle na sociedade? (CARNEIRO, 2012, p. 23) SAIBA MAIS! Acesse o ar�go Carneiro, L. P., & Bondarovsky, B. (2015). Polí�cas de Controle da Desordem Urbana: A Experiência das Unidades de Ordem Pública na Cidade do Rio de Janeiro. Revista De Cultura E Extensão USP, 14, 109-121. Acesse: htps://www.revistas.usp.br /rce/ar�cle/view/108304/106620 94 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Aula 2 – Introdução ao Sistema Único de Segurança Pública Conforme assegurado pelo Ministério da Jus�ça e Segurança Pública, a criação do Sistema Único de Segurança Pública (Susp) é um marco divisório na história do país. Implantado pela Lei nº 13.675/2018, sancionada em 11 de junho, o Susp dá arquitetura uniforme ao setor em âmbito nacional e prevê, além do compar�lhamento de dados, operações e colaborações nas estruturas federal, estadual e municipal. Com as novas regras, os órgãos de segurança pública, como as polícias civis, militares e Federal, as secretarias de Segurança e as guardas municipais serão integrados para atuar de forma coopera�va, sistêmica e harmônica. Como já acontece na área de saúde, os órgãos de segurança do Susp já realizam operações combinadas. Elas podem ser ostensivas, inves�ga�vas, de inteligência ou mistas e contar com a par�cipação de outros órgãos, não necessariamente vinculados diretamente aos órgãos de segurança pública e defesa social – especialmente quando se tratar de enfrentamento a organizações criminosas. A lei do Susp cria também a Polí�ca Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS) para fortalecer "as ações de prevenção e resolução pacífica de conflitos, priorizando polí�cas de redução da letalidade violenta, com ênfase para os grupos vulneráveis". A Polí�ca será estabelecida pela União e está prevista para valer por dez anos. Caberá aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios estabelecerem suas respec�vas polí�cas a par�r das diretrizes do Plano Nacional. PARA REFLETIR O Sistema Único de Segurança Pública é um marco histórico na adoção de um novo modelo de segurança pública para o país! 95 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal A regulamentação da segurança pública em âmbito nacional buscou preencher o que sempre foi das principais lacunas da previsão cons�tucional da Segurança Pública no país: o estabelecimento de princípios, diretrizes e definições conceituais. Antes de elencar quais organizações fazem parte das disposições ins�tucional da segurança pública, ou apresentar quais são os obje�vos do PNSPDS, a Lei nº 13.675/2018 define, já em suas duas primeiras seções, quais são os princípios que orientarão o plano, bem como as diretrizes por meios das quais tais valores serão colocados em prá�ca. Figura 22: Arranjo ins�tucional do Sistema Único de Segurança Pública (Susp) Fonte: do Conteudista. 96 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal 2.1 O que é o Susp? O Sistema Único de Segurança Pública (Susp) foi ins�tuído pela Lei nº 13.675, sancionada em 11 de junho de 2018. Ele cria uma arquitetura uniforme para a segurança pública em âmbito nacional, a par�r de ações de compar�lhamento de dados, operações integradas e colaborações nas estruturas de segurança pública federal, estadual e municipal. A segurança pública con�nua sendo uma atribuição de estados e municípios. A União fica responsável pela criação de diretrizes que serão compar�lhadas em todo o país. (Fonte: htps://www.gov.br/mj/ ) Qual a composição do Susp? O Susp tem como órgão central o Ministério da Jus�ça e Segurança Pública (MJSP) e é integrado pela Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civis, Polícia Militares, Força Nacional de Segurança Pública e Corpo de Bombeiro Militar. Além desses, também fazem parte do Susp: Agente Penitenciário, Guarda Municipal e demais integrantes estratégicos e operacionais do segmento da segurança pública. (Fonte: htps://www.gov.br/mj/ ) Como ele deve atuar? A exemplo doque acontece na área de saúde, no qual os órgãos do Sistema Único de Saúde (SUS) atuam sob um pacto federa�vo, os órgãos de segurança do Susp realizam operações combinadas, em todo o território nacional, a par�r de ações ostensivas, inves�ga�vas, de inteligência ou mistas, com a par�cipação de outras ins�tuições, vinculadas ou não vinculadas aos órgãos de segurança pública e defesa social, especialmente, nas a�vidades de enfrentamento a organizações criminosas. (Fonte: htps://www.gov.br/mj/ ) 97 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal 2.2 Polí�ca Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS) Na lei de criação do Susp, também foram elaboradas as bases da Polí�ca Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS). A norma, regulamentada pelo Decreto nº 9489, de 30 de agosto de 2018, traz instrumentos de monitoramento e avaliação das a�vidades desenvolvidas pelos órgãos do Sistema. A Polí�ca visa a fomentar a integração em ações estratégicas e operacionais, em a�vidades de inteligência de segurança pública e em gerenciamento de crises e incidentes, es�mular e apoiar a realização de ações de prevenção à violência e à criminalidade, com prioridade para aquelas relacionadas à letalidade da população jovem negra, das mulheres e de outros grupos vulneráveis, apoiar as ações de manutenção da ordem pública e da incolumidade das pessoas, do patrimônio, do meio ambiente e de bens e direitos, incen�var medidas para a modernização de equipamentos, da inves�gação e da perícia e para a padronização de tecnologia dos órgãos e das ins�tuições de segurança pública, entre outros obje�vos. (Fonte: htps://www.gov.br/mj/ ) 2.3 Obje�vos do Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Pessoal (PNSP) Criada e regulamentada por decreto, a Lei do Susp também determinou a elaboração e implementação do Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Pessoal (PNSP). Com duração de 10 anos, o Plano foi oficializado em 26 de dezembro de 2018, por meio do Decreto nº 9.630. O Plano foi ins�tuído em dezembro de 2018 e o processo de revisão teve início em 2019, atendendo recomendação da Controladoria Geral da União (CGU), do Tribunal de Contas da União (TCU), e o que estabelece a Lei 13.675/2018 que ins�tuiu o Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Em setembro de 2021, por meio do Decreto nº 10.822, 98 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal o Ministério da Jus�ça e Segurança Pública atualizou o Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSP) 2021-2030 e, pela primeira vez, o Governo Federal estabeleceu prazos, indicadores, priorização e coordenação para cumprir as metas estabelecidas no documento. Durante o período de revisão, o Plano passou por um processo de consulta pública. Foram cerca de 1.400 contribuições da população, inclusive de órgãos públicos, com destaque para as ins�tuições de Segurança Pública. As ações estratégicas foram o�mizadas e alinhadas, tanto com as polí�cas públicas existentes quanto com os orçamentos já aprovados. Com base nele, os estados e o Distrito Federal deverão construir seus respec�vos planos. O Plano conta com 13 metas principais que incluem a redução dos índices de mortes violentas, da violência contra mulher e priorizam a atenção aos profissionais de segurança pública. Também foram definidas prioridades para sua execução, por meio de 12 ações estratégicas. Essas ações vão desde a o�mização da gestão dos órgãos de segurança pública e defesa social até o combate à corrupção, narcotráfico e organizações criminosas, passando pela melhoria no atendimento a grupos vulneráveis vi�mizados e implemento da qualidade de vida dos agentes da segurança pública. (Fonte: htps://www.gov.br/mj/ ) 99 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Aula 3 - O papel das Guardas Municipais no Susp 3.1 Aspectos introdutórios: Preparação das Guardas para integrar o Susp Par�ndo do trabalho desenvolvido pela SENASP (2019) do Ministério da Jus�ça e Segurança Pública (MJSP), no que foi denominado LIVRO AZUL DAS GUARDAS MUNICIPAIS – PRINCÍPIOS DOUTRINÁRIOS DA SEGURANÇA PÚBLICA MUNICIPAL, em que se propõe orientações com vistas a estabelecer parâmetros e requisitos mínimos para padronização, criação e funcionamento eficiente das Guardas Civis Municipais no País, foram estabelecidas diretrizes que indicam um caminho para a preparação das Guardas para integrar o Susp, atendendo ao estabelecido na Lei Federal nº 13.675, de 11 de junho de 2018, permi�ndo que se possam contribuir de maneira efe�va nas polí�cas de segurança pública nacionais. Neste compilado de informações fornecido pelo MJ/SENASP está destacado a importância e o papel desempenhado pelas guardas municipais, buscando refle�r a realidade dos diversos municípios brasileiros que possuem guardas municipais cons�tuídas. A Lei nº 13.675/2018 expressamente as reconheceu como integrantes operacionais do Sistema Único de Segurança Pública (Susp) – art. 9º, VII – que tem a finalidade de preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. Por força de lei, foi reconhecido, aos sistemas municipais de segurança pública, a responsabilidade de implementação dos respec�vos programas, ações e projetos de segurança pública, com liberdade de organização e funcionamento (art. 9º, §4º, da Lei nº 13.675/2018). 100 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal SAIBA MAIS! Antes de prosseguir, assista ao vídeo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: O Papel da Guarda Civil Municipal no Susp htps://www.youtube.com/watch?v=BWdVyZ7w6-8 3.2 O papel das Guardas Municipais no Susp: Propostas de Polí�cas Públicas Municipais Seguindo as indicações apontadas pelo MJSP/SENASP no Livro Azul das Guardas Municipais, serão apresentados aqui propostas de polí�cas públicas municipais alinhadas ao papel das Guardas Municipais no Susp. O Livro Azul orienta que a promoção do bem-estar das pessoas e es�mular o comportamento por meio de medidas nas mais diversas esferas do município, com enfoque par�cular em crianças e jovens, mulheres e grupos vulneráveis, destacando-se o risco e os fatores de proteção associados ao crime e à vi�mização, deve ser a tônica das propostas de polí�cas públicas a serem desenvolvidas. A seguir, são apresentadas áreas temá�cas nas quais podem ser formuladas polí�cas públicas de prevenção à violência e criminalidade no município. Antes de prosseguir em seus estudos, leia o ar�go a seguir: Acesse o ar�go BEATO FILHO, Cláudio C. Polí�cas Públicas de Segurança e a Questão Policial. In: Perspec�va, v. 13, nº 4, São Paulo, Out./Dez., 1999. Disponível em: htps://www.scielo.br/j/spp/a/dkVcT4srWc8d6MS6yR vbLPt/?format=pdf&l%20ang=pt 101 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Veja as ÁREAS TEMÁTICAS nas quais podem ser formuladas polí�cas públicas de prevenção à violência e criminalidade no município: Violência Domés�ca A criminalidade violenta com letalidade intencional tem sua raiz mais profunda na violência domés�ca, onde a mulher é o principal alvo, depois, a criança, o idoso, o deficiente e, às vezes, o próprio homem. Dessa forma, com o aproveitamento dos princípios da polícia de proximidade, a Guarda Municipal deve desenvolver ações que atenuem a violência domés�ca no município, principalmente nas áreas mais vulneráveis. Para tanto, ações como policiamento ostensivo, visita cidadã, reuniões comunitárias, palestras em bairros, igrejas, clubes, centros comunitários, dentre outros espaços, devem ser ocupados por pessoal especializado no tema, sem qualquer conotação polí�co137 2.3 Princípios Reguladores do Uso da Força pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (FRAL) ............................................................................................ 140 2.4 O uso de Arma de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (FRAL) ....................................................................................................................... 146 AULA 3 – A TECNOLOGIA NA PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA .......................................... 150 3.1 Introdução à tecnologia na Segurança Pública .................................................. 150 3.2 Aplicações da Tecnologia na Prevenção do Crime ............................................. 153 3.3 Tecnologia na Segurança Pública: privacidade e proteção de dados ................ 162 AULA 4 – BOAS PRÁTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA MUNICIPAL ............................... 165 4.1 A Inteligência Ar�ficial na predição de infrações em Belo Horizonte: Crime NABI ................................................................................................................................. 166 4.2 Protocolos Operacionais Padrão (POP): segurança jurídica para o FRAL .......... 167 4.3 Integração entre Academia, Planejamento Operacional e Controle ................. 169 Interno/Corregedoria: prevenindo violações de Direitos Humanos ...................... 169 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................... 174 7 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal APRESENTAÇÃO DO CURSO Caras alunas e caros alunos, Sejam bem-vindas e bem-vindos ao curso "Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal". Neste curso, você estudará sobre a importância dos municípios na prevenção e no enfrentamento à criminalidade e sobre o papel das Guardas Municipais na construção de cidades mais seguras. Diversas formas de violência, infelizmente, seguem afetando a vida de milhares de brasileiras e brasileiros todos os anos. Os municípios podem desempenhar um papel fundamental para reverter esse cenário de insegurança, sobretudo na redução dos fatores de risco das diferentes formas de violência, bem como no fortalecimento dos fatores de prevenção. Este é o ente federa�vo mais próximo das cidadãs e dos cidadãos: a capilaridade dos serviços municipais, o conhecimento dos territórios e dos diferentes grupos populacionais tornam o município um ator central na garan�a dos direitos fundamentais da população brasileira. Figura 1: Protagonismo na prevenção à criminalidade Fonte: Ins�tuto Cidade Segura. 8 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Versando sobre a atuação municipal na Segurança Pública, a Lei Federal nº 13.022, de 8 de agosto de 2014, que dispõe sobre Estatuto Geral das Guardas Municipais, trouxe um avanço significa�vo na segurança jurídica da atuação destes órgãos, firmando seus deveres e competências, além de prever a cooperação com outros órgãos de segurança pública, reforçando a integração e a ar�culação necessárias para o sucesso de implementação das polí�cas de segurança pública. A Lei Federal nº 13.675, de 11 de junho de 2018, que ins�tuiu o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), reafirmou e consolidou as prerroga�vas e responsabilidades dos municípios sobre o tema, reconhecendo as Guardas Municipais como órgão operacional integrante e corresponsável pela aplicação da lei, mediante o exercício do poder de polícia no âmbito local. Figura 2: Sistema Único de Segurança Pública Fonte: Ministério da Jus�ça e Segurança Pública / Divulgação. As Guardas Municipais são ins�tuições fundamentais para a pacificação social e podem dar uma contribuição muito significa�va ao apresentar novas estratégias de prevenção ao crime, inovando através de procedimentos padronizados de atuação, adoção de estratégias de policiamento baseado em evidências com emprego de tecnologia e fomento à proximidade com a comunidade. No entanto, é essencial que esses profissionais estejam devidamente capacitados e atualizados sobre as melhores prá�cas de prevenção da violência. 9 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Aliada à necessária capacitação técnica, se faz necessário também reforçar a iden�dade do guarda civil municipal, para que este profissional tenha o pleno conhecimento de sua atuação, das suas prerroga�vas e dos referenciais norma�vos que orientam sua atuação. Cada um dos mais de 5 mil municípios brasileiros tem suas especificidades e dinâmicas próprias que impactam na segurança de seus habitantes. Diante deste universo de variáveis, o agente aplicador da lei deve reconhecer em si o papel de promotor e garan�dor dos direitos da população. As boas prá�cas das Guardas Municipais, nesse contexto, podem guiar novas ações de inovação e integração, aspectos imprescindíveis ao sistema de governança estabelecido pelo Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSP). Tomar conhecimento de novas ideias e novas experiências é fundamental para o avanço de polí�cas de segurança pública garan�doras de direitos, primando por estratégias de aproximação da comunidade mais efe�vas, construídas com credibilidade e legi�midade das ins�tuições de segurança pública e seus operadores. Figura 3: Mapa Brasil PRONASCI Fonte: Projeto PRONASCI. 10 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal 2. OBJETIVO DO CURSO 2.1 Obje�vo Geral O curso "Os Municípios e a Prevenção da Violência: O papel da Guarda Municipal" tem como obje�vo propiciar uma visão geral do panorama da violência no âmbito municipal, sensibilizando o agente sobre o papel e a responsabilidade dos municípios na prevenção da violência, e sobre a relevância da par�cipação das Guardas Municipais como órgão integrante do Susp, detalhando as suas competências e responsabilidades. 2.2 Obje�vos Específicos Apresentar uma visão panorâmica da violência nos municípios, incluindo suas causas, consequências e impactos na sociedade; Explorar o papel da guarda municipal na prevenção e enfrentamento da violência, destacando suas atribuições, competências e responsabilidades legais. Conceituar o Susp e as atribuições das Guardas Municipais no processo de integração entre as Ins�tuições e a atuação interdisciplinares de segurança no Município; Conhecer as estratégias previstas no Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social com impacto nos Municípios; Relacionar a atuação da Guarda Municipal com as normas de Direitos Humanos e de limitação do uso da força, garan�ndo segurança jurídica da atuação; Apresentar estratégias e boas prá�cas de inovação, emprego de tecnologia e de policiamento preven�vo para a mi�gação da violência, adoção de estratégias de policiamento baseado em evidências com emprego de tecnologia e fomento à proximidade com a comunidade. 11 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal 3. ESTRUTURA DO CURSO ESTE CURSO POSSUI 40 HORAS E COMPREENDE OS SEGUINTES MÓDULOS: Módulo 1: O Município e a Segurança Pública: competências e desafios Módulo 2: As Guardas Municipais no Sistema Único de Segurança Pública. Módulo 3: Estratégias de Atuação para as Guardas Municipais. 12 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal MÓDULO 1 – O MUNICÍPIO E A SEGURANÇA PÚBLICA: COMPETÊNCIAS E DESAFIOS Apresentação Neste módulo, o profissional do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) estudará tendências da violência urbana do Brasil, conceito e prá�ca da prevenção à violência, funções do município na Segurança Pública e exemplos de inicia�vas municipais em segurança voltadas à construção de umapar�dária, a fim de evitar a contaminação do discurso, mormente próximo de eleições. Resistência Às Drogas O consumo de álcool e outras drogas favorece o surgimento de gangues, as quais se apropriam, desde cedo, dos jovens mais ousados, fortes ou corajosos, tornando- os militantes do crime. Dessa forma, a Guarda Municipal deve par�cipar, apoiar ou conduzir programas para crianças e adolescentes, por meio de palestras preparadas por profissionais especializados, podendo ser realizada em escolas, centro comunitários, clubes, dentre outros, com obje�vo de conscien�zar para evitar o primeiro uso ou resgatar, caso a situação anterior tenha se consumado. Esportes A prá�ca espor�va é a�vidade relacionada em outras áreas, no entanto, há muitos Guardas que se destacam dentre seus pares por habilidades técnicas espor�vas. Da mesma forma, há ins�tuições que tem por vocação a par�cipação em projetos espor�vos locais, assim como música, a�vidades culturais, dentre outros. Havendo, de fato, esse dom na Guarda Municipal, esse pode ser aproveitado a �tulo de polí�ca pública de inclusão e prevenção, assim como para o fortalecimento da imagem, com o cuidado de des�nar os recursos orçamentários adequados e somente os recursos humanos 102 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal estritamente necessários, a fim de se evitar desvios de finalidade. A parceria com empresas com sede no município é recomendável. Públicos Vulneráveis O Brasil é um País com imensa e diversificada população. Essa diversidade conta-se às centenas. Nesse contexto, os grupos vulneráveis mul�plicam-se nas mesmas proporções, havendo casos curiosos onde um grupo é vulnerável numa cidade e noutra, por vezes, é maioria. Essa vulnerabilidade pode ocorrer por fatores numéricos, sociais, regionais, religiosos, étnicos, polí�cos, econômicos e, até mesmo, espor�vos. Uma premissa básica da Democracia é a convivência segura entre os mais diversos públicos. Dessa forma, para a Guarda Municipal, iden�ficar essas vulnerabilidades, ainda que temporárias, como pode ocorrer com a espor�va, é uma tarefa importante, porque contribui com a decisão de desenvolver ações imediatas com intuito preven�vo, como atuar com a concentração de efe�vos e viaturas num determinado ponto por meio do policiamento ostensivo. Mensagens de tolerância emi�das pela Guarda também são muito válidas, pois, emana de uma ins�tuição com boa imagem, sempre são mais bem aceitas pelo grande público. Conselhos Reconhecidamente, as Guardas Municipais reúnem talentos da gestão pública municipal, ou seja, profissionais que conhecem as leis do município, suas caracterís�cas, suas lideranças, possibilidades e limitações, enfim, tudo que é necessário para materializar o prescrito no art. 144 da Cons�tuição Federal: “a segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos...”. Assim, é pra�camente um dever da Guarda cooperar na formação de organizações locais des�nadas à manutenção da Ordem Pública, a exemplo de conselhos comunitários, associações de vizinhanças, etc. 103 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal SAIBA MAIS! Antes de prosseguir, assista ao vídeo: Webinário "Municípios e Segurança Pública", do Ministério da Jus�ça e Segurança Pública. Disponível em: htps://www.youtube.com/watch?v=xM6ej5pG3II 3.3 Preparação das Guardas Municipais para integrar o Susp Dentre estas as diretrizes apresentadas pelo Livro Azul das Guardas, apresentaremos a seguir os eixos extraídos do citado manual elaborado pelo Ministério da Jus�ça e Segurança Pública, por meio da Secretaria Nacional de Segurança Pública, já que estes indicam um caminho para a preparação das Guardas para integrar o Susp: 3.3.1. Guarda Municipal criada por Lei Municipal (art. 9º, Lei nº 13022/2014) É fundamental a ampla publicidade a respeito da criação da Guarda Municipal, ou mesmo de seus aperfeiçoamentos, principalmente para que os cidadãos menos beneficiados pelo acesso à informação tenham conhecimento e possam usufruir desses bene�cios. A divulgação de decisões sobre a segurança pública é a oportunidade em que as autoridades do município terão para discu�r diretrizes, atribuições, competências, organização, carreira e outros requisitos que vão assegurar o funcionamento eficiente das ins�tuições. As previsões legais mínimas são as seguintes: Diretrizes específicas, de acordo com as peculiaridades do município; Atribuições, competências e organização em consonância com o Estatuto Geral das Guardas Municipais, Lei nº 13.022/14; e 104 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Plano de carreira de seus integrantes como servidores estatutários, contratados mediante concurso público, com cargos, salários e progressão funcional definidos, além de escolaridade – ensino médio – e idade máxima para o ingresso – 30 anos, desde que esteja na lei municipal de criação da Guarda e que o critério esteja jus�ficado pela natureza das a�vidades. É importante ressaltar que em ins�tuições de segurança pública, militares ou não, por força da natureza humana, a questão da an�guidade é relevante. Por isso, sugere- se que esse princípio seja respeitado desde o momento da elaboração dos concursos, até a escolha de seus gestores, o que pode ser a�ngido por meio de concursos anuais e subsequentes para o preenchimento do total de vagas necessárias à demanda do Município, o que provoca an�guidade em turmas sucessivas. Quanto à idade, deve-se lembrar que o jovem ingressante envelhecerá, processo natural que dificulta o desempenho �sico de a�vidades policiais. Por isso, essa questão é relevante. Vamos juntos analisar alguns pontos que a Lei nº 13022/2014 traz: Uniforme As Guardas Civis Municipais, conforme o descrito no art.2º da Lei nº 13.022/14, para serem consideradas como tal, devem ser armadas e uniformizadas. Para tanto, o uso do uniforme é essencial para a visibilidade pela população. A cor das Guardas Civis Municipais, uniforme, viaturas, coletes, braçais etc., é a cor azul noturno, especificação: L*19,90- a*=0,10 e b*=5,68, referência pantone têx�l 194013TC. Armamento Quanto ao armamento, seja letal ou menos letal, deve ser considerado, a priori, como Equipamento de Proteção Individual (EPI), assim como o colete balís�co, sendo que ambos se des�nam a proteger o Guarda e permi�r que ele faça o mesmo com os cidadãos de seu município. 105 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Sem armas ou sem uniformes, não são Guardas, são servidores não atrelados à segurança pública e não estarão habilitadas ao estabelecimento de convênios, cooperações, editais, dentre outros para fins de segurança pública. Para atender aos quesitos acima, os municípios brasileiros têm o prazo de 4 anos. O Porte de Armas das Guardas Municipais está condicionado à previsão em lei, não sendo esta uma exigência única para o reconhecimento da corporação, já que se trata de norma de eficácia limitada. Corregedoria As Corregedorias são ins�tuídas para proteger a sociedade do desvio de conduta do agente de segurança, portanto, exercem função corre�va. Na prá�ca, as Corregedorias auxiliam no controle da disciplina interna das corporações e, não raras vezes, inves�gam e opinam sobre questões eminentemente técnicas, pelo que é di�cil para profissionais, que não seguiram a carreira adquirir conhecimento suficiente para garan�r julgamentos imparciais. Ouvidorias Diferentemente da corregedoria, as Ouvidorias podem ser integradas por outros profissionais, pois sua missão precípua é harmonizar a ins�tuição com aquilo que a Sociedade espera dela. A existência e o funcionamento de ambasé requisito imprescindível para consideração da regularidade da Guarda Municipal. Curso de Formação As Guardas Civis Municipais deverão observar a Matriz Curricular estabelecida pela SENASP. O curso de formação deverá ser conduzido em estabelecimento des�nado para este fim, em estabelecimento próprio ou organizado temporariamente para tal. Recomenda-se, quando não há uma escola vocacionada para este fim, designar um coordenador de curso, para que possa arregimentar os colaboradores e cumprir os obje�vos da Matriz. Consórcios municipais são interessantes e recomendados, por permi�rem o emprego racional de recursos públicos, além da sinergia necessária para a tarefa 106 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal importante da Formação do Guarda Municipal, ou seja, o conteúdo que o profissional levará para a vida toda. A capacitação visa manter o Guarda Municipal sempre atualizado com leis e normas essenciais ao desempenho de suas tarefas, reavaliar sua capacidade técnica operacional, além de habilitá-lo para novas técnicas, acompanhando a evolução da sociedade local e da inovação tecnológica. E ainda, sugere-se a realização de instrução de 8 horas, após o retorno de grandes afastamentos, como o retorno de férias, afastamentos por mo�vo de saúde, de missões diferentes da ro�na, dentre outros, para efeito de adaptação. Estágio de Qualificação Profissional O Estágio de Qualificação Profissional, com 80 horas anuais, é como a Formação, imprescindível, devendo ser executado com vistas às áreas de maior interesse para o atendimento da Sociedade. Formação Complementar Dada a importância da capacitação, sugere-se o atendimento da formação complementar, considerando a capacidade técnica e administra�va dos municípios, com curso de formação com, no mínimo, 1.200 horas/aula, sendo 600 horas/aula de curso presencial e 600 horas/aula de a�vidade prá�ca e aplicação do conhecimento teórico. O obje�vo deste preceito é permi�r a formação do Tecnólogo em Segurança Pública, o que, no futuro, permi�rá a disponibilização de profissionais para os quadros municipais que trabalham na área. A meta é fac�vel de ser alcançada, porque há as 476 horas previstas em Matriz Curricular, complementadas por outras a cargo do próprio Município, até 600 h, e pela avaliação con�nuada, ou estágio posterior à formação, ao fim do qual receberá a cer�ficação técnica equivalente. Atendimento 153 e Videomonitoramento Compromisso fundamental para as guardas municipais, dado o relevante valor social desses serviços e equipamentos para resultados expressivos em segurança, devendo manter o atendimento à população de forma con�nua, rápida e eficiente. Além 107 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal do mais, o inves�mento tecnológico permite estruturar o policiamento orientado para o problema, inclusive com uso de aplica�vos que permitem o acionamento, em tempo real, das equipes operacionais que atuam estrategicamente em perímetros prioritários. O prazo para o atendimento dessa demanda é de 4 (quatro) anos. Documento Único de Iden�ficação O documento funcional deve ser conferido ao Guarda de forma não onerosa, pautado num padrão nacional estabelecido pelo Ministério da Jus�ça e da Segurança Pública, sendo que todas as Guardas Municipais deverão cumprir com os requisitos estabelecidos para aderir ao documento único de iden�dade funcional. Para dirimir dúvidas, todos os profissionais inves�dos da função devem receber sua carteira, desde que concluído o curso de formação. Conforme o ar�go 11 da Lei 13.022/2014, os municípios detentores de Guardas Municipais devem garan�r oportunidade aos profissionais que estão inves�dos dos cargos na ins�tuição, de acordo com a Matriz Curricular da SENASP, considerando, para todos os efeitos, as instruções recebidas. A adequação dessas condições tem efeito legal, garante respaldo jurídico para emprego dos agentes na tarefa, além de servir de efeito mo�vacional, tanto no profissional, como de confiança por parte da população. 3.4 Ordem Pública Ordem Pública é o estado social que permite ao cidadão manter seus direitos naturais imprescri�veis, entre eles a liberdade, a propriedade e a segurança. Obter essa condição é impossível, não por causa do Estado, mas pela impossibilidade da convivência pública entre os cidadãos sem uma força pública capacitada para conter a realidade 108 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal rebelde em seus limites abstratos. (Revisão Doutrinária dos conceitos de ordem pública e de segurança pública, por Diogo de Figueiredo Moreira Neto, associada à leitura da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 26 de agosto de 1789.) Essas premissas definem a esfera de atuação das Guardas Municipais, para todo o Brasil, a fim de se evitar desvio de finalidade, abusos, exercício indevido da função, interpretações jurídicas dúbias ou concorrer com responsabilidades de forças policiais estaduais e federais. Permite, ainda, a integração dos esforços com outras forças, conforme a Lei do Susp. As Guardas devem concentrar esforços nas ações de prevenção primária pela presença ostensiva nos equipamentos públicos, colaborar com o combate à desordem urbana, preservação do patrimônio ecológico, histórico, cultural e imaterial das cidades, garan�ndo a boa execução dos serviços sob a responsabilidade dos municípios. ***Entende-se pelo conceito de patrimônio imaterial aquilo que é intangível segundo o aspecto concreto de ser, a exemplo de convicções, ideais, costumes, percepções, tradição, dentre outros, seja de indivíduos ou de grupos. Mais uma vez, recorre-se à Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, para a garan�a dos direitos individuais, que, em seu ar�go 4º, expressa: A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo. Assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela lei. Ocorre que nem tudo é expresso pela letra da lei, pelo que se exige o bom senso do mediador primário, do preventor, que no município pode ser a Guarda Municipal. 109 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Assim, reforça-se a ideia de que a Guarda Municipal deve fiscalizar as posturas municipais, proporcionando a convivência harmoniosa entre os variados grupos sociais que compõem a população local, assegurando o livre acesso aos serviços públicos essenciais e preservando a integridade daqueles que mais precisam de alguém para protegê-los. SAIBA MAIS! Antes de prosseguir, Assista ao vídeo produzido pelo Ministério da Jus�ça e Segurança Pública, que esclarece sobre o fluxo do processo de adesão ao sistema de gestão de iden�dade funcional padrão nacional. Disponível em: htps://www.youtube.com/watch?v=oZGQtqcOa4A&t=6s Para saber mais, acesse aqui a Portaria Senasp/MJSP nº 523, de 26 de julho 2023. 3.5 Cadastrar junto à Secretaria Nacional de Segurança Pública - SENASP. A Guarda Municipal, no ato de sua criação e para o seu funcionamento, deve estar cadastrada no sistema SENASP, conforme prevê o § 2º, art. 37 da Lei 13.675/2018, fornecendo informações mínimas que permita ao órgão federal iden�ficar a sua existência, estabelecer relações legais previstas em lei, a exemplo da concessão de um 110 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal convênio, estabelecimento de uma operação integrada ou endosso de emenda parlamentar,individual ou de bancada. Figura 23: Pré-cadastro Guarda Municipal Fonte: Portal MJSP ATENÇÃO!!!! Para acessar os FORMULÁRIO DE CADASTRO, clique logo abaixo: Diagnós�co - Guardas Municipais: Pré-cadastro Sinesp: Manual de Pré-cadastro do Sinesp: A Ins�tuição, integrante do Susp, que deixar de fornecer ou atualizar seus dados e informações no Sinesp poderá não receber recursos nem celebrar parcerias com a União para financiamento de programas, projetos ou ações de segurança pública e defesa social e do sistema prisional, na forma do regulamento! 111 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Aula 4 - O Plano Nacional de Segurança Pública Seguindo o mandamento legal que ins�tuiu o Sistema Único de Segurança Pública, o Governo Federal publicou o Decreto nº 10.822/2021, documento que ins�tuiu o Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social – Ciclo 2021/2030, previsto para ser implementado ao longo de cinco ciclos bianuais, conforme abaixo descrito: 4.1 Ciclos de implementação previstos no Plano Nacional de Segurança Pública (PNSP) – ciclo 2021/2030: Figura 24: Os cinco ciclos do PNSP Fonte: do Conteudista. 4.2 Obje�vos do PNSPDS 2021-2030: definir ações estratégicas, metas e indicadores para a consecução dos obje�vos da Polí�ca Nacional de Segurança Pública e Defesa Social; determinar ciclos de implementação, monitoramento e avaliação; 112 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal estabelecer estratégias de governança e de gerenciamento de riscos que possibilitem a execução, o monitoramento e a avaliação; e orientar os entes federa�vos quanto ao diagnós�co prévio e à elaboração dos planos de segurança pública e defesa social, que deverão estar alinhados com a Polí�ca Nacional de Segurança Pública e Defesa Social e o Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social 2021-2030. 4.3 Fontes de dados e informações do PNSPDS 2021-2030: O cumprimento das metas do PNSPDS 2021-2030 será avaliado ano a ano (Art. 8º) e a aferição será realizada por meio das seguintes fontes de dados e informações (Art. 5º): SINESP Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Gené�co, de Digitais e de Drogas. SISDEPEN Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional. PAINEL PESQUISA PERFIL Pesquisa Perfil das Ins�tuições de Segurança Pública da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Jus�ça e Segurança Pública. 113 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal RENAEST Registro Nacional de Acidentes e Esta�s�cas de Trânsito da Secretaria Nacional de Trânsito do Ministério da Infraestrutura. 4.4 Metas de resultado O Plano segue a lógica de orientar a ação da União no campo da segurança pública pelos dez anos seguintes e se ar�cula em torno de 13 grandes metas, divididas entre cinco eixos temá�cos. A seguir é apresentado este conjunto de proposições: Grupo 1: Mortes violentas Meta 1: Reduzir a taxa nacional de homicídios para abaixo de 16 mortes por 100 mil habitantes até 2030; Meta 2: Reduzir a taxa nacional de lesão corporal seguida de morte para abaixo de 0,30 morte por 100 mil habitantes até 2030; Meta 3: Reduzir a taxa nacional de latrocínio para abaixo de 0,70 morte por 100 mil habitantes até 2030 Meta 4: Reduzir a taxa nacional de mortes violentas de mulheres para abaixo de 2 mortes por 100 mil mulheres até 2030; Meta 5: Reduzir a taxa nacional de mortes no trânsito para abaixo de 9 mortes por 100 mil habitantes até 2030; Grupo 2: Proteção dos profissionais de segurança pública Meta 6: Reduzir o número absoluto de vi�mização de profissionais de segurança pública em 30% até 2030; Meta 7: Reduzir o número absoluto de suicídio de profissionais de segurança pública em 30% até 2030; Grupo 3: Roubo e furto de veículos Meta 8: Reduzir a taxa nacional de furto de veículos para abaixo de 140 ocorrências por 100 mil veículos até 2030; 114 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Meta 9: Reduzir a taxa nacional de roubo de veículos para abaixo de 150 ocorrências por 100 mil veículos até 2030; Grupo 4: Sistema prisional Meta 10: Aumentar em 60% o quan�ta�vo de vagas no sistema prisional, com o total de 677.187 vagas até 2030; Meta 11: Aumentar em 185% o quan�ta�vo de presos que exercem a�vidade laboral, com o total de 363.414 presos em a�vidades laborais até 2030; Meta 12: Aumentar em 185% o quan�ta�vo de presos que exercem a�vidades educacionais, com o total de 218.994 mil presos em a�vidades educacionais até 2030 Grupo 5: Ações de prevenção de desastres e acidentes Meta 13: A�ngir o índice de 50% das Unidades Locais devidamente cer�ficadas, por meio de alvará de licença (ou instrumento equivalente) emi�dos pelos corpos de bombeiros militares até 2030 Ainda dentro do plano, todas essas “Metas de resultado” acima descritas estão vinculadas a um conjunto de 12 “Ações Estratégicas”, que são frentes de trabalho que se ar�culam com as “Metas de resultado” de modo transversal, direcionando a ação do Governo Federal no tratamento de problemas de segurança pública mais complexos. A seguir são apresentadas as ações estratégicas definidas no Plano: 4.5 Ações estratégicas Ação estratégica 1: Promover, viabilizar, executar e aprimorar ações de governança e gestão da segurança pública e defesa social do País. Ação estratégica 2: Desenvolver e apoiar a implementação de programas e projetos que favoreçam a execução de ações preven�vas e repressivas ar�culadas com outros setores, públicos e privados, para a redução de crimes e conflitos sociais. 115 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Ação estratégica 3: Aperfeiçoar a atuação, a coordenação estratégica e a integração operacional dos órgãos de segurança pública e defesa social para o enfrentamento de delitos transfronteiriços e transnacionais, inclusive com a ampliação do controle e da fiscalização nas fronteiras, nos portos e nos aeroportos. Ação estratégica 4: Aperfeiçoar a gestão de a�vos provenientes da atuação de persecução penal em casos de prá�ca e financiamento de crimes, de atos de improbidade administra�va e de ilícitos apurados e promover a sua des�nação. Ação estratégica 5: Qualificar o combate à corrupção, à oferta de drogas ilícitas, ao crime organizado e à lavagem de dinheiro, com a implementação de ações de prevenção e repressão dos delitos dessas naturezas. Ação estratégica 6: Qualificar e fortalecer a a�vidade de inves�gação e perícia criminal, com vistas à melhoria dos índices de resolução de crimes e infrações penais. Ação estratégica 7: Padronizar tecnologicamente e integrar as bases de dados sobre segurança pública entre União, Estados, Distrito Federal e Municípios por meio da implementação do Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas), do Sisdepen (Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional) e por meio dos dados ob�dos do SNT(Sistema Nacional de Trânsito) e de outros sistemas de interesse da segurança pública e defesa social, com o uso de ferramentas de aprendizado de máquina (machine learning) para categorização e análise. Ação estratégica8: Fortalecer a a�vidade de inteligência das ins�tuições de segurança pública e defesa social, por meio da atuação integrada dos órgãos do Susp, com vistas ao aprimoramento das ações de produção, análise, gestão e compar�lhamento de dados e informações. Ação estratégica 9: Promover o aparelhamento e a modernização da infraestrutura dos órgãos de segurança pública e defesa social. 116 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Ação estratégica 10: Aperfeiçoar as a�vidades de segurança pública e defesa social por meio da melhoria da capacitação e da valorização dos profissionais, do ensino e da pesquisa em temas finalís�cos e correlatos. Ação estratégica 11: Aperfeiçoar as condições de cumprimento de medidas restri�vas de direitos, de penas alterna�vas à prisão e de penas priva�vas de liberdade, com vistas à humanização do processo e redução dos índices gerais de reincidência. Ação estratégica 12: Desenvolver e apoiar ações ar�culadas com outros setores, públicos e privados, des�nadas à prevenção e à repressão à violência e à criminalidade relacionadas às mulheres, aos jovens e a outros grupos vulneráveis, bem como ao desaparecimento e ao tráfico de pessoas. 4.6 Indicadores Afinal o plano é apresentado a estrutura de governança que deverá se responsabilizar por conduzir a implementação do PNSP, bem como as estruturas e ro�nas de monitoramento e avaliação de suas ações e metas, todas vinculadas a uma carteira de indicadores de acompanhamento e resultados: CLIQUE AQUI PARA VER OS INDICADORES Quan�ta�vo de ví�mas de homicídio - Meta 1 Taxa de homicídios - Meta 1 Quan�ta�vo de ví�mas de lesão corporal seguida de morte - Meta 2 Taxa de lesão corporal seguida de morte - Meta 2 Quan�ta�vo de ví�mas de latrocínio - Meta 3 Taxa de latrocínio - Meta 3 Quan�ta�vo de mortes violentas de mulheres - Meta 4 Taxa de mortes violentas de mulheres - Meta 4 117 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Taxa de mortes no trânsito - Meta 5 Quan�ta�vo de profissionais de segurança pública mortos em decorrência de sua a�vidade - Meta 6 Taxa de vi�mização de profissionais de segurança pública - Meta 6 Quan�ta�vo de suicídios de profissionais de segurança pública - Meta 7 Taxa de suicídios de profissionais de segurança pública - Meta 7 Quan�ta�vo de furtos de veículos - Meta 8 Taxa de furtos de veículos - Meta8 Quan�ta�vo de roubos de veículos - Meta 9 Taxa de roubos de veículos - Meta 9 Quan�ta�vo de novas vagas construídas em unidades prisionais - Meta 10 Quan�ta�vo de presos em a�vidades laborais - Meta 11 Quan�ta�vo de presos em a�vidades educacionais - Meta 12 Proporção de Unidades Locais cer�ficadas por meio de alvarás de licença emi�dos pelos corpos de bombeiros militares - Meta 13 Confira o Anexo A do Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social - Indicadores de acompanhamento do PNSPDS (em anexo), que apresenta as estruturas e ro�nas de monitoramento e avaliação de suas ações e metas, todas vinculadas a uma carteira de indicadores de acompanhamento e resultados. Os Municípios deverão, com base no Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, elaborar e implantar seus planos correspondentes, sob pena de não poderem receber recursos da União para a execução de programas ou ações de segurança pública e defesa social! (§5º, art. 22, Susp) 118 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal SAIBA MAIS! Acesse. Revista Brasileira de Segurança Pública. DELGADO, L. F. P. O papel dos Planos Nacionais de Segurança Pública na indução de polí�cas públicas municipais de segurança. Revista Brasileira de Segurança Pública, v. 16, n. 2, p.10–31, 2022. Disponível em: htps://revista.forumseguranca.org.br/index.php/rbsp/ar�cle/view/1298 119 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal FINALIZANDO Neste módulo você aprendeu que: As Guardas Municipais são órgãos de segurança pública previstas cons�tucionalmente, regulamentadas por meio de Estatuto Federal e inseridas no Sistema Único de Segurança Pública como integrantes operacionais. A atuação das Guardas Municipais está alinhada com o que se entende de polícia cidadã e comunitária, e que atuam desde sua criação de forma a interagir com a sociedade civil buscando a solução de problemas e a implantação de projetos locais voltados à melhoria das condições de segurança das comunidades. A importância de se ins�tuir os Plano Municipal de Segurança Pública com base no Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, sob pena do município não poder receber recursos da União para a execução de programas ou ações de segurança pública e defesa social. A estrutura norma�va do documento que ins�tuiu o Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social – Ciclo 2021/2030, previsto para ser implementado ao longo de cinco ciclos bianuais e que baliza as ações estratégicas, metas e indicadores para a consecução dos obje�vos da Polí�ca Nacional de Segurança Pública e Defesa Social. 120 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal MÓDULO III – ESTRATÉGIAS DE ATUAÇÃO PARA AS GUARDAS MUNICIPAIS Apresentação do módulo Neste módulo você, funcionário responsável pela aplicação da lei (FRAL), estudará sobre estratégias de atuação direcionadas para as Guardas Municipais. Serão abordados aspectos conceituais sobre poder de polícia, sobre o uso legí�mo da força pelas Guardas Municipais e sobre as normas nacionais e internacionais de Direitos Humanos que tratam do tema. Ainda serão apresentadas boas prá�cas de Segurança Municipal como paradigmas de inovação e emprego da tecnologia, obje�vando a mi�gação da violência. Antes de iniciar seus estudos, leia o texto a seguir: “[..] o poder de polícia, simplesmente como o poder que dispõe a administração pública para condicionar ou restringir o uso de bens e o exercício de direito ou a�vidades pelo par�cular, em prol do bem-estar da cole�vidade”. (ALEXANDRINO; PAULO; 2009) Reflita sobre o tema abordado na citação acima através das seguintes questões: Qual a importância do exercício do poder de polícia para organizar a sociedade, e manter a segurança, a salubridade e a tranquilidade públicas? A Guarda Municipal pode exercer o poder de polícia? Quais direitos fundamentais do cidadão podem ser impactados pelo exercício do poder de polícia por agentes públicos? Como o Uso da Força pela Guarda Municipal, no exercício do poder de polícia, deve ser limitado? 121 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Após a reflexão, guarde as respostas para u�lização ao longo do estudo do módulo. Obje�vos do módulo Este módulo tem por obje�vos: Definir o poder de polícia e uso da força; Iden�ficar os princípios reguladores do uso da força pelos funcionários responsáveis pela aplicação da lei; Conhecer as Normas Nacionais e Internacionais de Direitos Humanos que tratam do uso da força; Relacionar a atuação da Guarda Municipal com as normas de Direitos Humanos e de limitação do uso da força, garan�ndo segurança jurídica da atuação; Conhecer estratégias e boas prá�cas de inovação, emprego de tecnologia e de integração para a mi�gação da violência. Estrutura do módulo Este módulo compreende as seguintes aulas: Aula 1 - O poder de polícia e a Guarda Municipal; Aula 2 - As Normas de Direitos Humanos aplicadas à Função da Guarda Municipal; Aula 3 - A Tecnologia na prevenção da Violência; Aula 4 - Boas prá�cas de SegurançaPública Municipal. 122 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal AULA 1 – O PODER DE POLÍCIA E A GUARDA MUNICIPAL 1.1 Aspectos introdutórios: Municípios e Segurança Pública Como já estudado nos Módulos anteriores, muito embora a Cons�tuição Federal não especifique o papel do Município no campo da segurança pública, é notório que nos úl�mos anos esse ente federa�vo passou a ter um destaque significa�vo no que tange à prevenção da violência, uma vez que é a instância de governo mais aproximada do cidadão. Assim sendo, as Guardas Municipais se tornaram o elo dos municípios na polí�ca nacional integrada de segurança pública. Com o obje�vo de atuar mais próximo da população, elas são reconhecidas como agências de segurança pública de fato em várias cidades, vez que estão voltadas para a prevenção da violência e da criminalidade, sendo devidamente resguardadas as competências legais. Para o exercício de suas a�vidades e competências, as Guardas Municipais têm capacitado seu efe�vo e buscado ferramentas para garan�r a aplicação da lei, a exemplo das armas de fogo e instrumentos de menor potencial ofensivo. Segundo a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (MUNIC) do IBGE, no ano de 2019, 21,3% dos municípios brasileiros informaram a existência de Guardas Municipais, representando 1.188 municípios. Destes municípios, 22,4% das guardas municipais fazem uso de armas de fogo e instrumentos de menor potencial ofensivo. Os dados esta�s�cos demonstram a preocupação dos municípios em colaborar de forma mais efe�va com a segurança pública local. 123 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal SAIBA MAIS! Leia a matéria da Agência IBGE No�cias, que traz mais informações sobre o uso de armamento e instrumentos de menor potencial ofensivo pelas guardas municipais. Acesse: htps://agenciadeno�cias.ibge.gov.br/agencia-no�cias/2012-agencia- de-no�cias/no�cias/29570-proporcao-de-municipios-com-guarda- municipal-armada-sobe-para-22-4 Veja a imagem a seguir, a qual demonstra o uso de armas pelas guardas municipais. Figura 25: Uso de Armas pelas Guardas Municipais Fonte: Munic-IBGE (2019). 124 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal No atual panorama, onde os municípios adotam papel de protagonismo na prevenção à violência e à criminalidade, as guardas municipais figuram como ins�tuições versáteis, com ampla gama de serviços desempenhados, de caráter ostensivo e preven�vo. A sociedade clama por mais sensação de segurança, e o policiamento preven�vo realizado por agentes uniformizados, preparados e equipados é muito bem recebido e avaliado, construindo uma relação de credibilidade duradoura entre a população e a Ins�tuição. A Lei Federal nº 13.022/2014 elencou, em seus ar�gos 4° e 5°, as competências e responsabilidades das Guardas Municipais na preservação da ordem e segurança públicas do município em que atuam, onde se observa uma abrangência significa�va de a�vidades preven�vas e ostensivas. Dentre as atribuições elencadas, se destacam as de prevenção e inibição às infrações penais, de proteção da população e de integração com as demais forças de segurança. Legi�ma-se para as Guardas Municipais, portanto, as atribuições de proteção à vida, de colaborar para a manutenção da ordem pública e de prestar assistência aos que precisam, sempre que houver necessidade de proteção sistêmica da população que u�liza os bens, serviços e instalações municipais. Nesse contexto, existe uma discussão a respeito da prerroga�va do poder de polícia das Guardas Municipais, ques�onando se estas Ins�tuições possuem tal poder. É inegável a relevância das Guardas Municipais para a segurança pública, tendo em vista o papel preponderante dos municípios nesse cenário. PARA REFLETIR Mas será que as Ins�tuições municipais de segurança detêm o poder de polícia? 125 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal PARA RESPONDER A ESTA QUESTÃO, VOCÊ PRECISA COMPREENDER O CONCEITO E A ABRANGÊNCIA DO PODER DE POLÍCIA. PARA REFLETIR Além de proteger seus bens, serviços e instalações, os municípios têm o dever de empregar o seu efe�vo, devidamente capacitado e treinado, na proteção ao cidadão? 1.2 O Conceito de Poder de Polícia Inicialmente, na formação do Estado de Direito, houve a preocupação de assegurar ao indivíduo o exercício de direitos individuais e subje�vos. O livre exercício dos direitos era a regra, e o Estado apenas podia limitar tais direitos para garan�r a ordem pública. A ação estatal de polícia administra�va, nesse caso, era preponderantemente de uma polícia de segurança. Somente após a formação de um Estado Liberal a atuação do estado passa a ser mais intervencionista, se estendendo à controlar a economia e as relações sociais (DI PIETRO, 2007). O poder de polícia tem origem no Direito Administra�vo, e tem como principal aspecto a supremacia do interesse público sobre o privado. O conceito legal do poder de polícia está no Código Tributário Nacional (CTN), em seu ar�go 78. 126 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal VAMOS VER ALGUNS CONCEITOS SOBRE O QUE É PODER DE POLÍCIA: Código Tributário Nacional – Art. 78 Art. 78. Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. Car�lha da SENASP De acordo com a SENASP, na car�lha Atuação Policial na Proteção dos Direitos Humanos de Pessoas em Situação de Vulnerabilidade, o poder de polícia em segurança pública: É o mecanismo de que dispõe a Administração Pública para conter os abusos do direito individual. Por ele, o Estado limita os direitos individuais em benefício do interesse coletivo, restringe a atividade individual que se revelar contrária, nociva ou inconveniente ao bem-estar social. (SENASP, 2013) Conceito de Poder de Polícia Numa análise mais moderna, o poder de polícia é definido como uma a�vidade da Administração Pública que limita o exercício dos direitos individuais em prol do interesse da cole�vidade, garan�ndo a preservação da ordem pública e do bem-estar social nos mais diversos setores da sociedade, tais como meio ambiente, relações de consumo, propriedade, segurança, entre outros. Portanto, o Estado busca impor a execução de suas normas por meio do exercício do poder de polícia administra�va, nas mais diversas áreas onde exerce sua influência regulatória. Ele se estende e se aplica conforme cada ramo de atuação do poder público, visando sempre o princípio da supremacia do interesse cole�vo. 127 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal São atributos do poder de polícia administra�va, que fundamentam e garantem a sua validade e legi�midade: Auto executoriedade O Estado pode executar as suas decisões de forma direta, sem necessidade de chancela ou autorização de outro poder. Discricionariedade O Estado dispõe de liberdade de atuação, de acordo com os princípios da conveniência e da oportunidade, prevalecendo o interesse público. Coercibilidade As decisões administra�vas podem ser impostas pelo Estado, inclusive através da força quando necessário, para execução do ato. O poder de polícia proporciona ao Estado,portanto, uma forma de organizar e manter a sociedade coesa e coopera�va, buscando a paz social e a garan�a da supremacia do interesse da cole�vidade. Corroborando com esse entendimento, Mello acrescenta sobre o poder de polícia: Atividade da Administração Pública, que expressa em atos normativos ou concretos, de condicionar, com fundamento em sua supremacia geral e na forma da lei, a liberdade e a propriedade dos indivíduos, mediante ação, ora fiscalizadora, ora preventiva, ora repressiva, impondo coercitivamente aos particulares um dever de abstenção (non facere), a fim de conformar-lhes os comportamentos aos interesses sociais consagrados no sistema normativo (MELLO, 2005). 128 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Conclui-se que o poder de polícia é uma prerroga�va do poder público exercida por qualquer dos três poderes, de acordo com as suas competências. Assim sendo, todo agente público no âmbito de suas atribuições legais atua reves�do pelo poder de polícia em nome da Administração Pública (VENTRIS, 2010). SAIBA MAIS! Antes de prosseguir, assista ao vídeo sobre poder de polícia administra�va, do Canal Instante Jurídico. Disponível em: htps://www.youtube.com/wat ch?v=THyY-EPFnEM 1.3 Poder de Polícia na Segurança Pública O termo poder de polícia, quando u�lizado em sen�do amplo, denota toda e qualquer a�vidade estatal que vise restringir direitos individuais, em razão da supremacia do interesse cole�vo. Já o sen�do estrito do termo se caracteriza pela própria a�vidade administra�va concreta, que se executa para limitar direito individual. Você aprendeu no tópico anterior que o poder de polícia, seja em sen�do amplo ou restrito, cabe a todo agente público no exercício das suas funções, de acordo com suas atribuições legais. Também é importante destacar que o poder de polícia não se confunde com o poder da polícia, pois não exis�ria o segundo sem o primeiro. Os órgãos com função policial u�lizam o poder de polícia como instrumento para fazer cumprir a imposição do interesse cole�vo, na garan�a da tranquilidade pública. 129 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal As Forças de Segurança, portanto, não poderiam exercer o seu dever sem que o Estado reves�sse a sua atuação do poder de polícia, que por sua vez não é exclusivo dos agentes públicos com atribuição policial. O poder de polícia não pertence ao agente público- policial, mas delegado a este pela Administração Pública para fazer cumprir a imposição do interesse público coletivo no âmbito das suas competências expressas no ordenamento jurídico. Logo, o poder de polícia na segurança pública não provém das instituições policiais que a exercem e sim da função constitucional do Estado e da União, a quem o Estado Democrático de Direito incumbiu de exercê-la (CAMPOS, 2013). A doutrina divide a atribuição do poder de polícia em Polícia Administra�va (ou Preven�va) e Polícia Judiciária (ou Repressiva), ambas obviamente valendo-se do poder de polícia para exis�r. Enquanto a primeira é regida, em regra, pelo Direito Administra�vo, a segunda tem seu fundamento no Direito Penal e Processual Penal. Enquanto à Polícia Administra�va cabe impedir e prevenir as infrações à legislação e garan�r a ordem pública, caberá à Polícia Judiciária em decorrência do poder de polícia outorgado pelo Estado, nos casos de ocorrência de ilícito penal, atuar para inves�gar e reprimir os delitos, auxiliando o Poder Judiciário na persecução penal. Em suma, é atribuição da Polícia Judiciária inves�gar e reprimir os delitos que a Polícia Administra�va, enquanto prevenção, não conseguiu evitar que acontecessem (CRETELLA JÚNIOR, 1985). Nesse sen�do, Cretella Júnior discorre acerca das atribuições da Polícia Administra�va ou Preven�va em impedir os delitos e garan�r a ordem pública: 130 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal A polícia administrativa [...] tem por finalidade fazer com que todos os habitantes, nas necessidades comuns da vida civil, desfrutem de todas as regalias que não poderiam proporcionar se a si mesmos através de esforços individuais. Cabe-lhe procurar, declarar e proporcionar a utilidade pública. Consiste em assegurar o repouso do público e dos particulares, purgar a cidade de todo aquele que pode causar desordem, proporcionar a abundância e fazer com que cada um viva segundo suas condições e dever. Difere essencialmente da polícia judiciária, mas empresta todo concurso à autoridade judiciária e desta recebe apoio (CRETELLA JÚNIOR, 1985). Veja o um compara�vo entre Polícia Preven�va e Polícia Repressiva na preservação da ordem pública: Polícia Preven�va Manutenção da Ordem Pública e prevenção de delitos; Incide sobre pessoas, bens direitos e a�vidades par�culares, com atribuições de presença e de vigilância; Pode também exercer a�vidade repressiva ao impor, por exemplo, multas, advertências, ou ao realizar capturas em caso de flagrante delito. Polícia Repressiva Longa manus do Poder Judiciário; Incide sobre pessoas, podendo haver ação imediata de dispersão ou prisão em flagrante; Promove a inves�gação e auxilia a repressão dos crimes. ***Longa manus – É uma expressão que designa o executor de ordens! É normalmente u�lizada em referência ao Oficial de Jus�ça - que é o executor das ordens judiciais, ou seja, "a mão estendida do juiz na rua"! No entanto podemos inferir que, se uma agência de Segurança es�ver no exercício do poder de polícia, atuando como Polícia Administra�va ou Preven�va, e vier a 131 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal ocorrer o ilícito penal, é lógico esperar que ela desenvolva uma a�vidade policial repressiva, onde as normas de Direito Penal e Processo Penal incidirão sobre o infrator, inclusive com a efe�vação da sua captura e posterior prisão em flagrante. A linha tênue entre a a�vidade preven�va e a repressiva é a ocorrência ou não do delito penal. Há nessa hipótese uma atuação mista, onde apenas com a ocorrência do ilícito penal a atuação preven�va se transforma em repressiva, através do poder/dever da Administração Pública no exercício do Poder de Polícia, no território das respec�vas competências e limites legais de cada órgão. PARA REFLETIR As Guardas Municipais detêm o poder de polícia no âmbito da Segurança Pública? 1.4 A Guarda Municipal com Poder de Polícia Preven�vo O poder de polícia de segurança é a responsabilidade mais an�ga do Estado, e é comum que este campo de ação seja o de maior atuação, sendo tal atribuição executada nas três esferas do sistema polí�co de forma preven�va ou repressiva. Naturalmente, o vasto conhecimento da realidade local pelo Poder Público Municipal e a crescente demanda da sociedade por segurança trouxeram aos municípios parcela significa�va de responsabilidade neste tópico, tanto no campo da prevenção quanto no emprego operacional do efe�vo capacitado para tal. Dessa forma, vislumbrou-se as Guardas Municipais como mais uma ferramenta estratégica de prevenção primária e de aplicação da lei, dentro do espírito integra�vo que se exige quando o assunto é Segurança Pública. 132 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Referendando e reconhecendo o papel das Guardas Municipais no pleno exercício do poder de Polícia Preven�va, o Estatuto Geral das Guardas Municipais, promulgado por meio da Lei Federal 13.022/2014, previu princípios mínimos de atuação e competências específicas de colaboração direta nas ações de segurança pública, tais como: o patrulhamento preven�vo e o uso progressivo da força (atualmente denominado pela doutrina especializadacomo uso sele�vo da força); a prevenção e coibição de infrações penais ou administra�vas que atentem contra os bens e serviços municipais; a proteção sistêmica da população que u�liza os bens, serviços e instalações do município; o exercício das competências de trânsito nas vias municipais; a atuação integrada com os demais órgãos de segurança pública estaduais ou federais, dentre outras. O referido Estatuto previu ainda a competência, em caso de flagrante delito, de captura, condução e apresentação do autor da infração ao delegado de polícia, caracterizando nesse caso uma a�vidade repressiva que deve ser exercida pelas Guardas Municipais na proteção sistêmica da população que u�liza os bens, serviços e instalações municipais, em apoio à Polícia Judiciária. O Livro Azul das Guardas Municipais, publicação do Ministério da Jus�ça e da Segurança Pública que apresenta princípios doutrinários da Segurança Pública Municipal, destaca ainda que: 133 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Nesse sentido, o Estatuto do Desarmamento (Lei Federal nº 10.826/2003) reforçou a importância das Guardas Municipais no dever estatal de concretizar e promover a segurança pública, inclusive condicionando a concessão para o porte de arma à existência de mecanismos de fiscalização e controle interno (Corregedorias e Ouvidorias) e à formação profissional em estabelecimento de ensino de atividade policial. A teor do Decreto nº 9.847/2019 (Regulamento do Estatuto do Desarmamento) foi, ainda, estabelecida a submissão dos integrantes das guardas municipais ao curso de formação que contemple o importantíssimo Estágio de Qualificação Profissional (MJSP, 2019). O parágrafo 8º do ar�go 144 da Cons�tuição Federal se encontra regulamentado pelas normas infracons�tucionais citadas, o que refuta os ques�onamentos acerca da par�cipação das Guardas Municipais no contexto da Segurança Pública. As competências legais previstas para esses órgãos trazem bene�cios latentes à população, que anseia por mais presença do poder público como garan�dor da paz social. Importante ressaltar que as Guardas Municipais estão hoje indubitavelmente inseridas como órgãos operacionais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), e como corresponsáveis pela aplicação da lei, por força da Lei Federal nº 13.675/2018 que ins�tuiu o SUSP. 134 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal SAIBA MAIS! A ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) 995, que tramita no Supremo Tribunal Federal, discute o papel das Guardas Municipais enquanto órgãos de segurança pública. Assista o vídeo a seguir e leia o voto do Relator, Ministro Alexandre de Moraes, para conhecer os detalhes da ação. Voto do Relator: htps://www.conjur.com.br/dl/s�-suspende-define-guardas-municipais.pdf Vídeo: htps://www.youtube.com/watch?v=trIymVc4xqs Pelo exposto, para exercer as competências previstas na legislação vigente no âmbito da segurança pública, as Guardas Municipais detêm o poder de polícia administra�va e preven�va conferido pelo Poder Público Municipal, com a finalidade de garan�r a manutenção da ordem e do bem-estar social, prevenir delitos e proteger a população, nos limites das suas atribuições legais. 135 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal AULA 2 – AS NORMAS DE DIREITOS HUMANOS APLICADAS À FUNÇÃO DA GUARDA MUNICIPAL 2.1 O Uso da Força pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei Para que as forças de segurança pública, também chamadas agências de aplicação da lei, cumpram a sua função de aplicar as normas e prestar assistência, o Estado lhes impõe responsabilidades enquanto obje�vos que devem ser alcançados em sua atuação, e lhes atribui poderes como ferramentas para que estes obje�vos sejam a�ngidos. São responsabilidades das agências de aplicação da lei (CICV, 2017): I. Manter a ordem pública; II. Prevenir e detectar o crime; III. Prestar ajuda e assistência às pessoas e comunidades necessitadas; Para que estes obje�vos sejam alcançados, o Estado atribui os seguintes poderes às agências e aos funcionários responsáveis pela aplicação da lei (CICV, 2017); I. Capturar e deter; II. Conduzir abordagens, buscas e apreensões; III. Usar a força por meio de equipamentos, armas e munições. Porém, ao exercer esses poderes, os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem respeitar os princípios reguladores do uso da força, uma vez que a intervenção das agências poderá ir de encontro aos Direitos Fundamentais do cidadão, como o direito à liberdade e à vida. 136 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Portanto, o uso da força pelas agências de aplicação da lei consiste na intervenção imposta à pessoa ou grupo de pessoas a fim de que os deveres destas agências, de aplicar a lei e prestar assistência, sejam devidamente cumpridos. IMPORTANTE! O Estado tem a responsabilidade de manter a lei, a ordem e a paz social, garan�ndo que a aplicação da lei respeite os Direitos Humanos. O Direito Internacional dos Direitos Humanos é o ramo do Direito Internacional que deve ser observado pelas estruturas defini das pelo Estado para aplicação da lei. Além da garan�a dada pelo ordenamento jurídico interno por meio da Cons�tuição Federal, as Normas Internacionais de Direitos Humanos também trazem proteção aos direitos básicos de todo ser humano, como por exemplo o direito à vida e à liberdade. As normas internacionais de Direitos Humanos, no caso brasileiro, foram incorporadas ao rol de normas pátrias de forma a garan�r sua observância e a obediência aos seus princípios. Sobre a garan�a ao direito à vida e à liberdade, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (Resolução 217 A III) em 10 de dezembro de 1948, observa que: Artigo 3: Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. De forma semelhante, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Polí�cos (PIDCP), aprovado em 16 de dezembro de 1966 pela Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) e incorporado ao ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto Legisla�vo n° 226/91 c/c Decreto 592/92, protege o direito à vida e à liberdade em seus ar�gos 6º e 9º: 137 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Art. 6: O direito à vida é inerente à pessoa humana. Este direito deverá ser protegido pela lei. Ninguém poderá ser arbitrariamente privado de sua vida. Art. 9: Toda pessoa tem direito à liberdade e à segurança pessoais. Ninguém poderá ser preso ou encarcerado arbitrariamente. Ninguém poderá ser privado de liberdade, salvo pelos motivos previstos em lei e em conformidade com os procedimentos nela estabelecidos. SAIBA MAIS! Antes de con�nuar o estudo desse módulo, leia a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Polí�cos. https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/d0592.htm 2.2 A Guarda Municipal e o Uso da Força As Guardas Municipais têm um importante papel a desempenhar no âmbito da segurança pública. A elas cabe a missão de prevenir delitos que atentem contra os bens, serviços e instalações municipais, bem como proteger sistemicamente a população que u�liza tais equipamentos. O aspecto preven�vo da atuação para inibir e coibir infrações penais e administra�vas é determinante para o pleno exercício do poder de polícia administra�va, como você estudou na aulaanterior. 138 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal No entanto, caso a presença ostensiva ou o patrulhamento preven�vo falhem ou não sejam suficientes para evitar a ocorrência do ilícito penal, será necessária a intervenção dos agentes municipais para fazer cessar a conduta criminosa e conduzir à Autoridade Policial o cidadão em conflito com a lei. Para que isso ocorra será necessário, em determinados casos, o uso da força, de forma a garan�r assim a aplicação da lei e a preservação da ordem e da segurança. O Uso da Força é um dos princípios mínimos estabelecidos para a atuação das Guardas Municipais previstos na Lei nº 13.022/2014, o Estatuto Geral das Guardas Municipais, em seu ar�go 3º: Art. 3º São princípios mínimos de atuação das guardas municipais: I. proteção dos direitos humanos fundamentais, do exercício da cidadania e das liberdades públicas; II. preservação da vida, redução do sofrimento e diminuição das perdas; III. patrulhamento preventivo; IV. compromisso com a evolução social da comunidade; e V. uso progressivo da força. Muito embora a referida lei traga a expressão “uso progressivo da força”, a doutrina defende que o termo “progressivo” não é adequado, podendo condicionar o agente a u�lizar uma escala sequencial e formal de uso da força, com potencial de gerar consequências tanto de risco para o aplicador da lei, quanto de excesso contra o cidadão infrator. O termo correto a ser empregado para esta situação seria o “Uso Sele�vo da Força”, uma vez que o agente deverá selecionar o nível necessário e proporcional da força, ou seja o nível mais adequado, em resposta à uma ameaça real ou potencial para que o obje�vo legal seja alcançado. 139 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Figura 26: Modelo Básico de Uso Seletivo da Força Fonte: SENASP/MJ (1998). Como agências de aplicação da lei, as Guardas Municipais possuem a prerroga�va de usar a força para executar as suas competências, previstas na legislação vigente. Ao exercer esse poder, os funcionários responsáveis pela aplicação da lei nessas ins�tuições, ou seja, os guardas municipais, devem estar formados e capacitados para sempre: Respeitar, ou seja, não violar os direitos humanos; Proteger os direitos humanos contra violações come�das por terceiros; Garan�r as condições para o pleno gozo dos direitos humanos; Assegurar o tratamento igualitário para todas as pessoas perante a lei. O respeito às Normas Internacionais de Direitos Humanos traz maior segurança jurídica na atuação dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei, pois 140 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal proporcionam parâmetros de conformidade claros e compa�veis com a legislação vigente, limitando o excesso do uso da força pelo agente do Estado. Você vai conhecer a seguir os princípios reguladores do uso da força e as Normas Internacionais de Direitos Humanos que fundamentam a segurança jurídica da atuação dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei (FRAL). 2.3 Princípios Reguladores do Uso da Força pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (FRAL) O conceito de princípio remete à alicerces de um determinado sistema, que tem o obje�vo de fundamentar e esclarecer o seu entendimento. Os princípios se irradiam sobre as normas sendo verdadeiro espírito destas (MELLO, 2000). O autor ainda complementa, acerca da importância dos princípios e da gravidade que deve ser conferida à violação destes, da seguinte forma: É o conhecimento dos princípios que preside a intelecção das diferentes partes componentes do todo unitário que há por nome sistema jurídico positivo [...]. Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma qualquer. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório, mas a todo o sistema de comandos. É a mais grave forma de ilegalidade ou de inconstitucionalidade, conforme o escalão do princípio atingido, porque representa insurgência contra todo o sistema, subversão de seus valores fundamentais, contumélia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra. (MELLO, 2000) Já sabendo que os princípios jurídicos devem ser observados e que sua violação pode ser considerada inclusive mais grave que a própria violação à norma, é dever dos guardas municipais respeitar plenamente os princípios reguladores do uso da força previstos no ordenamento jurídico internacional. 141 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal As Normas Internacionais de Direitos Humanos determinam que os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem, ao u�lizar a força, observar e respeitar os seguintes princípios: Figura 27: Princípios Reguladores do Uso da Força Fonte: do Conteudista. O Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (CCFRAL) e os Princípios Básicos sobre o Uso da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (PBUFAF), ambos adotados pela ONU, formulam padrões relevantes nesse sen�do, e aconselha-se às agências de aplicação da lei a incorporá-los em suas normas internas, regulamentos e códigos de é�ca. IMPORTANTE! Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem respeitar e proteger os direitos humanos e as liberdades fundamentais, principalmente quando es�verem considerando a 142 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal necessidade do uso da força. Para cumprir suas funções, sempre que possível, o agente de segurança pública deve recorrer a meios não violentos antes de usar a força ou armas de fogo. O uso da força deve ser a exceção, aplicada se os outros meios parecerem ineficazes ou sem qualquer possibilidade de a�ngir o resultado pretendido. Qualquer uso da força pelos funcionários responsáveis pela aplicação da lei deve respeitar os princípios da Legalidade, Necessidade, Proporcionalidade, Precaução, Não Discriminação e Responsabilização (ONU, 2022). Você vai conhecer individualmente cada um dos princípios reguladores do uso da força e as Normas de Direitos Humanos que fundamentam e orientam o seu cumprimento. Princípio da Legalidade Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei poderão recorrer ao uso da força apenas para alcançar obje�vos legí�mos de aplicação da lei e de acordo com as circunstâncias especificadas na legislação nacional. Em outras palavras, o agente somente deve recorrer ao uso da força para aplicar a lei. Segundo as Normas Internacionais de Direitos Humanos temos que: Artigo 1º Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem cumprir, a todo o momento, o dever que a lei lhes impõe, servindo a comunidade e protegendo todas as pessoas contra atos ilegais, em conformidade com o elevado grau de responsabilidade que a sua profissão requer. (CCFRAL, 1979) PBUFAF nº 01: Os Governos e os organismos de aplicação da lei devem adotar e aplicar regras sobre a utilização da força e de armas de fogo contra as pessoas, por parte dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei. Ao elaborarem essas regras, os Governos e os organismos de aplicação da lei devem 143 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal manter sob permanente avaliação as questões éticas ligadas à utilização da força e de armas de fogo. (PBUFAF, 1990) Princípio da Necessidade A força somente será u�lizada se for fundamental para fazer cessar a conduta ilegal ou a injusta agressão, quando todos os outros meios de resolução do conflito tenham falhado ou não surtam o efeito desejado. Determinado nívelde força só pode ser empregado quando níveis de menor intensidade não forem suficientes para a�ngir os obje�vos legais pretendidos, na medida estritamente necessária para o exercício do dever. Art. 3° Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei só podem empregar a força quando tal se afigure estritamente necessário e na medida exigida para o cumprimento do seu dever. (CCFRAL, 1979) PBUFAF nº 04: Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei deverão, no exercício das suas funções, recorrer tanto quanto possível a meios não violentos antes da utilização da força ou de armas de fogo. Só poderão utilizar a força ou armas de fogo se os outros meios se revelarem ineficazes ou não pareçam, de forma alguma, capazes de permitir alcançar o resultado pretendido. (PBUFAF, 1990) Princípio da Proporcionalidade O nível da força u�lizado deve sempre ser compa�vel com a gravidade da ameaça representada pela ação do opositor e com os obje�vos estabelecidos na aplicação da lei e de acordo com as circunstâncias específicas da legislação nacional pelo FRAL. É o uso da força com moderação, e com ação proporcional à gravidade da infração. Art. 3° Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei só podem empregar a força quando tal se afigure estritamente necessário e na medida exigida para o cumprimento do seu dever. (CCFRAL, 1979) PBUFAF nº 05: Sempre que o uso legítimo da força ou de armas de fogo seja indispensável, os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem: a) Utilizá-las com moderação e a sua ação deve ser proporcional à gravidade da infração e ao objetivo legítimo a alcançar; (PBUFAF, 1990) 144 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Princípio da Precaução As operações de aplicação da lei devem ser cuidadosamente planejadas, observando-se o contexto a fim de minimizar o uso da força contra quaisquer pessoas, reduzindo o risco de lesões e de danos à bens além do estritamente necessário. Importante salientar que o planejamento não se restringe à preparação de grandes operações, operações integradas, nem mesmo ao planejamento estratégico e operacional de uma Ins�tuição. O planejamento e a precaução devem fazer parte da ro�na do funcionário responsável pela aplicação da lei e de sua equipe, pois toda a�vidade de segurança pública, por menor que pareça, precisa ser minimamente planejada, observando-se o contexto e mi�gando os riscos existentes. PBUFAF nº 05: Sempre que o uso legítimo da força ou de armas de fogo seja indispensável, os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem: b) Esforçar-se por reduzirem ao mínimo os danos e lesões e respeitarem e preservarem a vida humana; c) Assegurar a prestação de assistência e socorros médicos às pessoas feridas ou afetadas, tão rapidamente quanto possível; (PBUFAF, 1990) Princípio da Não Discriminação As pessoas devem ser tratadas com igualdade perante a lei, sem que haja discriminação de qualquer natureza. Art. 7º da Declaração Universal dos Direitos Humanos: Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação. (DUDH, 1948) Art. 2° do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos: Os Estados Partes do presente Pacto comprometem-se a respeitar e a garantir a todos os indivíduos ... os direitos reconhecidos no presente Pacto, sem discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, situação econômica, nascimento ou qualquer outra condição. (PIDCP, 1966) 145 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Princípio da Responsabilização O funcionário responsável pela aplicação da lei deve responder por seus atos quando recorrer ao uso da força. A responsabilidade pode recair de forma direta ao agente que u�lizar a força de maneira arbitrária. No entanto, não só o agente, mas todos que compõem a cadeia de comando, os que testemunharam a ação, a Ins�tuição como um todo e o próprio Estado, em sen�do amplo, devem assumir a sua responsabilidade em virtude de uma ação de aplicação da lei (CICV, 2017). PBUFAF nº 07: Os Governos devem garantir que a utilização arbitrária ou abusiva da força ou de armas de fogo pelos funcionários responsáveis pela aplicação da lei seja punida como infração penal, nos termos da legislação nacional. PBUFAF nº 22: Os Governos e os organismos de aplicação da lei devem estabelecer procedimentos adequados de comunicação hierárquica e de inquérito para os incidentes referidos nos princípios 6 e 11 f). Para os incidentes que sejam objeto de relatório por força dos presentes Princípios, os Governos e os organismos de aplicação da lei devem garantir a possibilidade de um efetivo procedimento de controle e que autoridades independentes (administrativas ou do Ministério Público), possam exercer a sua jurisdição nas condições adequadas. Em caso de morte, lesão grave, ou outra consequência grave, deve ser enviado de imediato um relatório detalhado às autoridades competentes encarregadas do inquérito administrativo ou do controle judiciário. PBUFAF nº 23: As pessoas contra as quais sejam utilizadas a força ou armas de fogo ou os seus representantes autorizados devem ter acesso a um processo independente, em particular um processo judicial. Em caso de morte dessas pessoas, a presente disposição aplica se às pessoas a seu cargo. PBUFAF nº 24: Os Governos e organismos de aplicação da lei devem garantir que os funcionários superiores sejam responsabilizados se, sabendo ou devendo saber que os funcionários sob as suas ordens utilizam ou utilizaram ilicitamente a força ou armas de fogo, não tomaram as medidas ao seu alcance para impedirem, fazerem cessar ou comunicarem este abuso. (PBUFAF, 1990) 146 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal 2.4 O uso de Arma de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (FRAL) Sendo as Guardas Municipais ins�tuições de caráter civil, uniformizadas e armadas, nos termos da Lei Federal 13.022/2014, é fundamental que o agente municipal conheça o que dizem as Normas Internacionais de Direitos Humanos sobre a u�lização do armamento por parte dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei. PARA REFLETIR! O funcionário responsável pela aplicação da lei deve usar armas de fogo contra pessoas, no cumprimento do dever? Em determinadas ocorrências, onde se faz necessário empregar o úl�mo nível da força, a arma de fogo figura como equipamento fundamental para a preservação de vidas, seja a do próprio agente, de terceiros e do cidadão infrator. Para que a atuação do FRAL nesses casos seja legí�ma e juridicamente segura, se faz necessário observar o que diz o Princípio nº 9, dos Princípios Básicos sobre o Uso da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (PBUFAF). PBUFAF nº 09: Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei NÃO utilizarão armas de fogo contra pessoas salvo em caso de legítima defesa do próprio ou de terceiros contra perigo iminente de morte ou dano corporal grave, para prevenir a prática de um crime particularmente grave que implique uma séria ameaça à vida, para capturar uma pessoa que represente tal perigo e resista à autoridade, ou para impedir a sua fuga e somente quando medidas menos extremas se mostrem insuficientes para alcançarem aqueles objetivos. Em qualquer caso, só pode recorrer-se intencionalmente à utilização letal de armas de fogo quando tal seja estritamente indispensável para proteger a vida (PBUFAF, 1990). 147 Os Municípios e a Prevenção da Violência:o papel da Guarda Municipal SAIBA MAIS! A Lei Federal 13.060/2014 determina que os órgãos de segurança pública priorizem o uso de instrumentos de menor potencial ofensivo nas situações em que a integridade �sica ou psíquica dos policiais não es�ver em risco. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13060.htm 2.4.1 Diretrizes sobre uso da força e de arma de fogo da Portaria Interministerial n° 4.226/2010 O Ministério da Jus�ça e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, por meio da Portaria Interministerial 4.226/2010 (https://www.conjur.com.br/dl/integra-portaria-ministerial.pdf), estabeleceram as diretrizes sobre o uso da força e armas de fogo pelos agentes de Segurança Pública, incorporando o Código de Conduta para Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (CCFRAL), os Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (PBUFAF) e a Convenção Contra a Tortura e outros Tratamentos ou penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes. Diretriz 2 O uso da força por agentes de segurança pública deverá obedecer aos princípios da legalidade, necessidade, proporcionalidade, moderação e conveniência. Diretriz 3 Os agentes de segurança pública não deverão disparar armas de fogo contra pessoas, exceto em casos de legí�ma defesa própria ou de terceiro contra perigo iminente de morte ou lesão grave. 148 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Diretriz 4: Não é legí�mo o uso de armas de fogo contra pessoa em fuga que esteja desarmada ou que, mesmo na posse de algum �po de arma, não represente risco imediato de morte ou de lesão grave aos agentes de segurança pública ou terceiros. Diretriz 5 Não é legí�mo o uso de armas de fogo contra veículo que desrespeite bloqueio policial em via pública, a não ser que o ato represente um risco imediato de morte ou lesão grave aos agentes de segurança pública ou terceiros. Diretriz 6 Os chamados "disparos de advertência" não são considerados prá�ca aceitável, por não atenderem aos princípios elencados na Diretriz n.º 2 e em razão da imprevisibilidade de seus efeitos. Diretriz 7 O ato de apontar arma de fogo contra pessoas durante os procedimentos de abordagem não deverá ser uma prá�ca ro�neira e indiscriminada. Diretriz 8 Todo agente de segurança pública que, em razão da sua função, possa vir a se envolver em situações de uso da força, deverá portar no mínimo 2 (dois) instrumentos de menor potencial ofensivo e equipamentos de proteção necessários à atuação específica, independentemente de portar ou não arma de fogo. 149 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Esta Portaria Interministerial demonstra que as Normas Internacionais e Nacionais de Direitos Humanos que regulam o uso da força devem ser observadas pelos funcionários responsáveis pela aplicação da lei durante a sua atuação, de forma a prevenir e coibir excessos e ilegalidades. A lei e os princípios não buscam podar ou impedir o exercício dos poderes concedidos pelo Estado para o cumprimento do dever, mas sim garan�r que o exercício do poder coerci�vo estatal, por meio dos seus agentes, seja exercido dentro dos limites impostos para o bem-estar social, sem excessos e arbitrariedades. Por consequência, fica garan�do ao agente que observa e obedece aos princípios reguladores do uso da força a segurança jurídica da sua atuação, estando a autorizado a u�lizar a força necessária de forma proporcional, para a�ngir um obje�vo legí�mo de aplicação da lei. IMPORTANTE!! O obje�vo de toda a�vidade de segurança pública é proteger vidas, e isso não deve ser esquecido. SAIBA MAIS! Você pode se aprofundar no assunto através do Manual Servir e Proteger, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Mediante o diálogo com as forças policiais e de segurança sobre as leis e as operações, o CICV apoia os esforços para incorporar as normas e padrões do Direito Internacional nos procedimentos policiais. Durante os úl�mos 20 anos, o manual "Servir e Proteger" vem fornecendo orientações para esse diálogo. Acesse: htps://shop.icrc.org/icrc/pdf/view/id/1619 150 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal AULA 3 – A TECNOLOGIA NA PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA 3.1 Introdução à tecnologia na Segurança Pública Você estudou que os Municípios são integrantes estratégicos do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), nos termos da Lei Federal 13.675/2018 que ins�tuiu o referido Sistema. Na mesma lei fora criada a Polí�ca Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS) com a finalidade de estabelecer princípios, diretrizes, obje�vos, meios e instrumentos para implementação, bem como a definição dos integrantes do Susp. Uma das diretrizes da PNSPDS é a padronização de tecnologia e de equipamentos de interesse da segurança pública, e a lei prevê como um de seus obje�vos o incen�vo a medidas de modernização de equipamentos para a padronização de tecnologia dos órgãos e das ins�tuições de segurança pública. Art. 5º São diretrizes da PNSPDS: XI - padronização de estruturas, de capacitação, de tecnologia e de equipamentos de interesse da segurança pública; Art. 6º São objetivos da PNSPDS: III - incentivar medidas para a modernização de equipamentos, da investigação e da perícia e para a padronização de tecnologia dos órgãos e das instituições de segurança pública; Figura 28: Centro de Operações Rio (COR) Fonte: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (2022). 151 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Portanto, enquanto diretriz e obje�vo, o fomento e o emprego de novas tecnologias em segurança pública devem fazer parte da PNSPDS, bem como das correspondentes polí�cas Estaduais e Municipais. É responsabilidade dos entes da Federação o desenvolvimento de estratégias integradoras de informação e de tecnologia. Vamos ver alguns pontos importante de se u�lizar a tecnologia em favor da segurança pública: A inovação é aliada dos mais diversos ramos da atuação humana, e na segurança pública têm o condão de proporcionar mais eficiência aos órgãos que atuam nessa área e maior sa�sfação do cidadão com o serviço à ele prestado. Novas tecnologias podem contribuir para o aprimoramento das estratégias de prevenção, inves�gação e combate ao crime. O emprego de novas ferramentas possibilita a adaptação e a evolução das forças de segurança pública, para que enfrentem de maneira eficiente os desafios impostos pela violência urbana, melhorando a dinâmica operacional e a capacidade de responder diante das adversidades. Através da tecnologia, é possível colher, gerenciar e analisar quan�dades significa�vas de dados, iden�ficar padrões, mapear áreas e gerar manchas criminais, a fim de redirecionar recursos de forma mais efe�va, contribuindo assim para a prevenção à violência. Além disso, soluções tecnológicas podem oferecer condições apropriadas para dar mais agilidade nas inves�gações, no compar�lhamento de informações e na iden�ficação de suspeitos do come�mento de crimes. Seja na vigilância e prevenção, no reconhecimento facial, na inves�gação e a�vidades de inteligência, no treinamento, na regulação do uso da força ou no planejamento de operações, a tecnologia provém uma infinita gama de aplicações que colaboram com a atuação dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei e, consequentemente, fortalecem a sensação de segurança na comunidade. 152 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Outro importante aspecto do uso da tecnologia na segurança pública é ocultura de paz. Antes de iniciar seus estudos, leia o parágrafo a seguir: Entre os estudiosos brasileiros generaliza-se a tese de que não é possível compreender o movimento da criminalidade urbana ignorando o funcionamento das agências de controle e repressão ao crime. A não observância, pelos agentes encarregados de manter a ordem pública, dos princípios consagrados na lei destinados à proteção dos direitos civis é frequentemente invocada, sobretudo pelas organizações de defesa dos direitos humanos, como responsável pela situação de tensão permanente a que se vê relegado o sistema de justiça criminal (ADORNO, 1993). 13 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal VAMOS REFLETIR Reflita sobre o tema abordado acima par�r das seguintes questões: ● Por que estudiosos indicam não ser possível separar o fenômeno da violência urbana do funcionamento das ins�tuições de segurança pública? ● Quais elementos de tensão você percebe no co�diano de sua ins�tuição? Após a reflexão, guarde as respostas para uso ao longo do estudo do módulo. 14 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Obje�vos do módulo Apresentar conceitos rela�vos à violência urbana e a segurança pública para os profissionais que atuam na preservação da lei e da ordem, sobretudo em âmbito municipal, proporcionando a reflexão acerca das competências e do papel desempenhado nesse ambiente orientado para uma cultura de paz. Estrutura do módulo Aula 1 - Violência urbana e prevenção Aula 2 - O papel do município na Segurança Pública Aula 3 - Gestão da segurança em âmbito municipal 15 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal AULA 1 - VIOLÊNCIA URBANA E PREVENÇÃO 1.1 Violência urbana como fenômeno social A violência é parte das relações que compõem uma sociedade. Como apontou Roberto DaMata (1982), sua condição de “normalidade” se mostra como algo, em nossa sociedade, a ser reprimido e evitado – ou seja, sua existência expressa um estado dado de coisas. Nas sociedades primi�vas, a violência era usada como meio de promoção dos mais aptos à liderança dos grupos. Nas sociedades atuais, integra dinâmicas de poder, sobretudo aquelas que se desenvolvem à margem da lei, pela ação de associações criminosas. A visão do senso comum ou popular entende a violência como o resultado da experiência das pessoas, de seres envolvidos em embates morais e materiais, mas ela também tem uma dimensão social que deve ser considerada. Ela varia de acordo com as relações sociais em diferentes grupos e sociedades. A violência é, portanto, um fenômeno inerente a qualquer �po de sociedade, que reflete o �po de sociedade da qual faz parte, que significado essa violência tem no contexto social no qual está inserido e, ao mesmo tempo, é algo que depende de es�mulos desse grupo social (GULLO, 1998). SAIBA MAIS! O estudo da História já iden�ficou, por exemplo, desde sociedades rurais do passado, o fenômeno do “bandi�smo social”, de criminosos como Lampião no Brasil no início do século 20, associados a imagens de rebeldes paladinos da jus�ça, construídas por ações em represália a poderes econômicos e polí�cos. A transição de uma economia pré-capitalista para uma economia capitalista complexa, contudo, ensejou mudanças na própria configuração social do criminoso. A violência, com a ampliação dos grupos criminosos, passou a refle�r dinâmicas mais complexas na própria economia. Nas sociedades urbanas, a marginalidade social já foi associada a pelo menos quatro causas, não exaus�vas: 16 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal I II III IV existência de indivíduos sem condições de adaptação ao processo de trabalho, por problemas como ausência de formação, desorganização familiar, falta de orientação educacional e condições precárias de moradia; existência de mão-de-obra sem qualificação dedicada a ocupações irregulares, proscritas ou ilegais; existência do subemprego e do desemprego; caracterís�cas da estra�ficação social por elementos como educação, a�vidade ocupacional e riqueza. A marginalidade social pode se desdobrar em violência social, segundo Gullo (1998), quando: Figura 4: Desdobramento da Violência Social Fonte: do Conteudista. 17 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal A violência é indissociável das lógicas de produção, consumo e relações de poder na sociedade. As cidades modernas, resultados de processos de urbanização do território, oferecem os cenários polí�cos, econômicos e geográficos que viabilizam a gênese da violência. A produção e a reprodução da violência urbana decorrem, sobretudo, de dinâmicas que se materializam em espaços urbanos específicos. A violência urbana envolve ações de natureza criminal, como roubos e homicídios, e pode alcançar um nível de presença no território que se traduz em poder paralelo ao Estado. É assim que a violência tem se manifestado em países capitalistas de terceiro mundo da América La�na que mantêm estruturas de desigualdade social e econômica herdadas de passados coloniais. Nessas nações a pobreza urbana estrutural tem aumentado de forma progressiva, conforme indicou a Cepal (Comissão Econômica para a América La�na e o Caribe), em relatório de 2018. A violência marcada por altos índices de criminalidade e insegurança reflete diferenças socioeconômicas inscritas nos espaços das cidades, cenário que torna o combate à delinquência impera�vo ao poder público (HIDALGO et al., 2021). SAIBA MAIS! Leia o estudo de pesquisadores brasileiros que abordaram a violência urbana a par�r dos casos de quatro cidades la�noamericanas (Medellín - Colômbia, Guayaquil - Equador, Rio de Janeiro e Curi�ba), usando a taxa de homicídios na comparação de resultados de polí�cas de segurança urbana. Acesse: htps://www.redalyc.org/journal/196/19666824008/19666824008.pdf 18 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal 1.2 Tendências recentes da criminalidade urbana no Brasil Desde meados da década de 1970, diferentes estudos confirmaram uma tendência de elevação na criminalidade urbana no Brasil, bem como uma mudança de padrão dessa violência. Alguns elementos dessa mudança foram: Figura 5: Elementos que contribuíram para a elevação na criminalidade urbana no Brasil, década de 70 Fonte: do Conteudista. Tal mudança na criminalidade urbana se consolidou e se ampliou geograficamente nos anos 1980, com a disseminação do tráfico de drogas, especialmente da cocaína, e a subs�tuição de armas convencionais por armamentos com alto poder de destruição. A par�r dos anos 2000, o quadro de violência no país se agravou com a proliferação de facções e organizações criminosas, que deram nova configuração à violência e aos conflitos pelo domínio das principais rotas de tráfico de drogas. Algumas dessas disputas tornaram-se notórias com o aumento da taxa de homicídios, degradação de bens públicos e homicídios dentro do sistema penitenciário em vários estados da Federação. Impactados por sucessivas crises fiscais ao longo das úl�mas décadas, os entes federa�vos viram diminuir sua capacidade de enfrentar o crescimento do crime organizado, que se tornou um ator global com presença dentro e fora do território nacional. 19 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Figura 6: Principais Facções no Brasil Fonte: Aplica�vo Facções (2022). As fronteiras nacionais com 10 países incluem quatro produtores mundiais de drogas, que têm no Brasil o segundo mercado consumidor mundial. O crimeimpulsionamento que esta ocasiona na capacitação dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei. Ao aprimorar métodos e técnicas de segurança pública, por meio da inovação, a evolução ins�tucional pautada na tecnologia e no profissionalismo se sobressai. E considerando o papel fundamental que a tecnologia desempenha na segurança pública, esta ferramenta deve ser u�lizada de maneira adequada, observando-se os limites legais e os princípios de Direito para que abusos não sejam come�dos, principalmente no que se refere ao direito à privacidade e à proteção de dados. IMPORTANTE! A tecnologia supera-se todos os dias, com inovações de toda ordem, par�cularmente com as relacionadas ao co�diano da vida moderna, como a comunicação. Por óbvio, quem vive à margem da lei, quase invariavelmente apropria-se dessas novidades para o come�mento de crimes. Em resumo, para assumirem verdadeiramente o seu papel legal de ins�tuição preven�va, as Guardas Municipais devem envidar todos os esforços para ocupar pioneiramente os clusters de inovação em seu município, com vistas aos fatos portadores de futuro que, no presente, indicam a realidade adiante do tempo. (Livro Azul das Guardas Municipais, MJSP, 2019) PARA REFLETIR! A sua cidade possui polí�cas de segurança pública onde há o emprego da tecnologia? Essa ação tem impacto significa�vo na sensação de segurança da população? 153 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal 3.2 Aplicações da Tecnologia na Prevenção do Crime 3.2.1 Sistemas Integrados de Videomonitoramento Em todo o mundo temos acompanhado a implantação de sistemas de monitoramento de áreas públicas por meio de câmeras, com a finalidade de prevenir e detectar a�vidades ilícitas e de iden�ficar pessoas e veículos. O monitoramento com o emprego da tecnologia colabora com o trabalho dos agentes de segurança pública, pois proporciona maior abrangência territorial da a�vidade preven�va, mais qualidade e eficiência no atendimento de ocorrências, e mais efe�vidade da a�vidade repressiva. Nesses sistemas as imagens captadas pelas câmeras, em tempo real, geralmente são acompanhadas e gerenciadas por uma central, que monitora e registra as ocorrências, repassando-as com informações mais claras e fidedignas do cenário para as equipes de campo. Para Neto (2016), há muitas vantagens operacionais na implementação dessa ferramenta para a prevenção do crime e atendimento de ocorrências. O posicionamento elevado das câmeras privilegia a visão do operador do sistema, que ainda conta com recursos técnicos de movimentação da câmera e de aproximação da imagem, possibilitando uma identificação qualificada da situação, do local ou da pessoa sob vigilância, agregando qualidade na informação dirigida àquele policial incumbido da atuação na ocorrência. Além da função de monitoramento de espaços públicos e de prevenção à criminalidade, os sistemas de videomonitoramento podem auxiliar na produção de provas para os procedimentos de inves�gação, inclusive sendo requeridas pelo poder judiciário. 154 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal A�vidades de inteligência, de prevenção a acidentes ou desastres naturais, de predição de localização e de georreferenciamento de crimes também podem u�lizar os dados ob�dos e armazenados pelos datacenters das centrais, a fim de executar e aprimorar seus obje�vos. Figura 29: Central de Operações Integradas Beira Mar (Videomonitoramento) Fonte: Prefeitura de Fortaleza/CE (2022). Para a preservação da ordem pública, você aprendeu que a integração entre as agências do Susp é premissa fundamental. Nesse sen�do, uma estratégia que merece destaque é a par�cipação e a presença de representantes das diversas agências governamentais nas Centrais de Videomonitoramento, sejam forças de segurança pública e/ou outros órgãos responsáveis pelos serviços públicos essenciais. Alguns municípios têm implementado sistemas de videomonitoramento em conjunto com ações inovadoras de prevenção e, consequentemente, têm apresentado resultados significa�vos na redução dos índices criminais. As esta�s�cas apontam queda nos números de crimes violentos. 155 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Vamos ver o exemplo da cidade de Curi�ba – PR e de Erechim – RS: Curi�ba – PR Em Curi�ba, capital do Estado do Paraná, todos os sistemas de videomonitoramento de segurança da cidade, totalizando 1.400 câmeras, foram interligados em uma só central denominada “Muralha Digital”. Dados de 2022 apontam redução de até 40% na ocorrência de crimes em pontos monitorados pelas câmeras, e no Carnaval de 2023 houve uma redução de 77% em comparação aos dados do mesmo período em 2020, antes do início da pandemia da COVID-19. O Projeto Muralha Digital, coordenado pela Secretaria Municipal da Defesa Social de Curi�ba, foi criado pelo Decreto 12.821/2018. O obje�vo do projeto está exposto no ar�go 2°, se propondo a “melhorar a segurança e a qualidade de vida da população, por meio da implementação de serviços de monitoramento, informação e comunicação, adequação de infraestrutura tecnológica, equipamentos e ferramentas de gestão, nas áreas de segurança integrada e trânsito, otimizando os recursos para cumprir a melhoria do atendimento ao interesse público”. O Centro de Controle Operacional (CCO) da Muralha Digital foi inaugurado em janeiro de 2021. Segundo a Prefeitura de Curi�ba, o CCO conta com mais de 1.400 câmeras instaladas em locais estratégicos, como vias públicas, parques, praças etc. Você pode ter mais informações do sistema de videomonitoramento “Muralha Digital”, da Prefeitura de Curi�ba, PR, acesse o Portal de No�cias e assista ao vídeo de divulgação. Acesse, ainda, as reportagens: “Pontos monitorados pela Muralha Digital têm redução de crimes em até 40%”, e “Com efe�vo robusto e Muralha Digital, número de ocorrências no Carnaval de Curi�ba diminui 77%”. Acesse os links das reportagens citadas: • https://servidor.curitiba.pr.gov.br/noticias/body-cams-ja-estao-nas-ruas-com-os-guardas- municipais-de-curitiba/66335 • https://www.youtube.com/shorts/qpiixDCb8mg 156 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal • https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/pontosmonitorados-pela-muralhadigital-tem-reducao-de- crimes-em-ate-40/64851 • https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/comefetivo-robusto-e-muralhadigital-numero-de- ocorrencias-no-carnaval-decuritiba-diminui-77/67407 Erechim – RS Outra ação exitosa envolvendo poder público e inicia�va privada pode ser encontrada no município de Erechim, no Estado do Rio Grande do Sul. Por meio de uma parceria público-privada foi implementado em 2017 o sistema “Sen�nela de Videomonitoramento”, sendo instaladas 30 câmeras modelo Speed Dome PTZ nas principais vias e pontos de vulnerabilidade. O Sistema, operado pelo 13° Batalhão de Polícia Militar, passou por ampliação e, em 2022, já contava com mais de 250 câmeras de monitoramento e 30 câmeras de leitura de placas veiculares (OCRs), monitoradas por central funcionando 24 horas. Esta tecnologia, além de representar uma ação contundente de repressão contra crimes patrimoniais, ainda possibilita a iden�ficação dos envolvidos e a recuperação do veículo que porventura tenha sido furtado ou roubado. Considerando o período de 2016, ano que antecedeu o início do projeto, até 2021, o 13º BPM da Brigada Militar em Erechim apresentou dados que demonstram redução significa�va nos indicadores criminais: Figura 30: Indicadores Criminais de Erechim/RS após implementação de Videomonitoramento Fonte: htps://gestao.rs.gov.br/ibmcognos/bi/?perspec�ve=home 157 Os Municípiose a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Com relação ao número absoluto dos crimes furto a pedestres, arrombamentos, roubo a pedestres e a estabelecimento comercial, financeiro ou de ensino, se registra uma queda de 60,07% quando comparados os anos de 2016 e 2021 (DETONI; TRINDADE, 2022). Essa redução, que indica estar relacionada à polí�ca pública em questão, reforça o argumento que aponta o sucesso do emprego dessa tecnologia na segurança pública. 3.2.2 Aeronaves Remotamente Pilotadas As aeronaves remotamente pilotadas possuem histórico de aplicação bem- sucedida em operações militares, principalmente em conflitos armados como o que ocorreu no Afeganistão em 2001. Os equipamentos foram empregados em operações de reconhecimento, coleta de dados e guiamento de armamento, a exemplo do VANT (Veículos Aéreos Não Tripulados) Predator, desenvolvido pela Força Aérea dos Estados Unidos da América. Figura 31: VANT MQ-1 Predator, Força Aérea Americana Fonte: htps://f.i.uol.com.br/folha/mundo/images/17058426.jpeg Também chamados informalmente de drones ou veículos aéreos não tripulados (VANT), as aeronaves remotamente tripuladas são u�lizadas em diversos países em operações militares, de segurança pública e de resgate. É importante conceituar e 158 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal diferenciar os termos u�lizados, a fim de melhor observação das normas regulamentadoras vigentes. O Departamento de Controle do Espaço Aéreo, da Força Aérea Brasileira, diferencia-os da seguinte forma: Drone É o termo u�lizado de forma coloquial e popular para se referir aos equipamentos remotamente pilotados. Drone, cuja tradução significa “zangão”, foi oriundo do �po de ruído que esses equipamentos costumam produzir em voo, que lembra o som emi�do por um zangão. VANT É a sigla de Veículo Aéreo Não Tripulado (tradução do termo UAV – Unmanned Aerial Vehicle), e é o termo u�lizado para se referir a todo e qualquer equipamento que acesse o espaço aéreo sem que haja a presença de um ser humano a bordo. O termo VANT é considerado obsoleto pela Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), conforme a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) em entendimento expresso no Doc 10019, Manual On RPAS. RPAS Sigla de Remotely Piloted Aircraft System (Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada), é o termo técnico e padronizado internacionalmente pela OACI para se referir aos sistemas de aeronaves remotamente pilotadas u�lizados com propósitos não recrea�vos. UAS Sigla de Unmanned Aircraft System (Sistema de Aeronave não Tripulada), pode ser usado como sinônimo de RPAS, sendo preferível o uso deste úl�mo (DECEA, 2023). 159 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal O uso desses equipamentos para ações de segurança pública é regulamentado pelo Manual do Comando da Aeronáu�ca 56-5 (MCA 56-5) (https://publicacoes.decea.mil.br/publicacao/mca-56-5), vigente desde 03 de julho de 2023, que trata de aeronaves não tripuladas para uso exclusivo em operações aéreas especiais. A norma define Operações Aéreas Especiais como aquelas que são realizadas pelos chamados Órgãos Especiais. São considerados Órgãos Especiais, nos termos dos itens 3.11.1 e 3.11.2 da MCA 56-5, os Órgãos ligados aos Governos Federal, Estadual e Municipal. Para operações de segurança pública, estão elencados os órgãos do caput do ar�go 144 da Cons�tuição Federal, bem como autorizadas a operar seus UAS as Guardas Municipais, quando des�nadas à proteção de bens, serviços e instalações. A aplicação das aeronaves remotamente pilotadas nas a�vidades de segurança pública pode oferecer maior conhecimento da área de atuação, a detecção de pontos de atenção à distância e a observação de locais de di�cil acesso, o que proporciona planejamento tá�co-operacional mais detalhado e seguro. O equipamento, quando aliado ao patrulhamento preven�vo ou em operações integradas, pode oferecer vantagens operacionais relevantes para as equipes envolvidas. Destaca-se ainda que equipamentos já têm sido empregados em diversas a�vidades de segurança, como patrulhamento de fronteiras, vigilância, patrulhamento de estradas, proteção de infraestruturas, detecção de pessoas e locais de interesse, a�vidades de reconhecimento e inteligência. O uso do equipamento para ações integradas e preven�vas também deve ser destacado. 160 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal SAIBA MAIS! Em Fortaleza/CE, o Plano Municipal de Proteção Urbana prevê a u�lização de aeronaves remotamente pilotadas no auxílio ao patrulhamento preven�vo da Guarda Municipal, em Células de Proteção Comunitária com perímetro de atuação limitado e pré- definido. Nessas áreas, as operações integradas com os demais órgãos de segurança estaduais e federais também contam com o emprego da tecnologia, trazendo mais efe�vidade nas ações e mais segurança para a população. Os operadores das aeronaves passam por capacitação básica de 40 horas, conhecendo os aspectos técnicos do equipamento, prá�cas de planejamento e técnicas de voo e a legislação que regulamenta o seu uso. 3.2.3 Câmeras Corporais (Câmeras Operacionais Portáteis-COP) Você estudou que o uso da força pelos funcionários responsáveis pela aplicação da lei deve ter obje�vos legí�mos, sempre respeitando os princípios reguladores: Legalidade, Necessidade, Proporcionalidade, Precaução, Não discriminação e Responsabilização. O uso ilegal ou excessivo da força deve ser comba�do, e a observância às Normas Internacionais de Direitos Humanos deve ser integrada à formação e à atuação operacional dos FRALs (Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei), com o estabelecimento de procedimentos operacionais padrão. Por meio da tecnologia, muitas agências de aplicação da lei pelo mundo têm adotado novos mecanismos de controle, de aprimoramento da produ�vidade e de redução dos níveis de uso da força, mediante a u�lização de câmeras corporais nos uniformes dos policiais. Segundo relatório do Bureau Justice Statistics do Departamento de Jus�ça Americano, publicado em 2018, 47% das forças policiais dos EUA u�lizam câmeras corporais, percentual que pode chegar a 80% em grandes departamentos de polícia (FBSP, 2023). 161 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal No Brasil a prá�ca ainda é recente, e poucas agências adotaram as câmeras corporais, geralmente o fazendo apenas em fase de testes. De 2020 a 2022, a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) iniciou a incorporação de câmeras corporais em 62 batalhões, na implementação do Programa Olho Vivo (Adotado a partir de 2020 pela Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), o Programa Olho Vivo contempla a implantação das câmeras operacionais portáteis (COP) nos uniformes dos policiais. Não obstante a redução do uso da força, foi a ideia de ampliar a capacidade operacional o que motivou a elite da corporação a implementar o programa, o que aporta legitimidade junto à opinião pública e com o público interno. Ainda que as experiências com câmeras corporais, em menor ou maior escala, já tenham sido empregadas desde 2014, a disposição tecnológica iniciada em 2021 representou uma mudança significativa em relação ao modelo anterior, em razão da perda da discricionariedade do agente em gerar gravações sobre o seu serviço. Ou seja, na experiência da PMESP, os policiais não têm controle sobre o acionamento da COP, uma vez que a gravação ocorre de forma ininterrupta (FBSP, 2023)). Antes do início do Programa, o número médio anual de pessoas mortas por intervenção policial em São Paulo chegava a 824 pessoas, onde 78% destas morreram em situações em que os policiais estavamno horário de serviço. O gráfico abaixo ilustra os índices de letalidade da intervenção policial no Estado de São Paulo, antes e depois da implantação do Programa Olho Vivo, em 2020. Fica evidenciada a redução significa�va do uso da força potencialmente letal pelos agentes: Figura 32: Mortes decorrentes de intervenções policiais (MDIP) em serviço e fora, PM e PC, no Estado de São Paulo Fonte: FBSP (2023). 162 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Figura 33: Ví�mas de MDIP da PMESP em serviço por ano - batalhões do programa e demais batalhões Fonte: FBSP (2023). Figura 34: Policiais Militares da PMESP mortos em serviço e fora de serviço (2013-2022) Fonte: FBSP (2023). Outro importante impacto se observa na Figura 33: Ví�mas de MDIP da PMESP em serviço por ano, onde há uma redução da vi�mização de policiais no horário de serviço. A quan�dade de policiais ví�mas de homicídio em serviço caiu de 18 em 2020 para 4 em 2021 e 6 em 2022, o que representa os menores números registrados em toda a série histórica. 3.3 Tecnologia na Segurança Pública: privacidade e proteção de dados Estudos indicam que a ampliação do uso da tecnologia nas a�vidades de segurança pública trouxe resultados posi�vos na prevenção da violência, mais 163 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal profissionalismo e proteção aos funcionários responsáveis pela aplicação da lei e mais sensação de segurança para o cidadão. Todavia, é fundamental encontrar um equilíbrio entre as polí�cas públicas que u�lizam a tecnologia na segurança pública e a garan�a dos direitos fundamentais à privacidade, à in�midade e à proteção de dados pessoais. A Lei Geral de Proteção de Dados - LGPD, Lei Federal 13.709, de 14 de agosto de 2018, visa proteger os direitos fundamentais de liberdade e de privacidade e a livre formação da personalidade de cada indivíduo, dispondo sobre o tratamento de dados feito por pessoa �sica ou jurídica de direito público ou privado. Ainda que o ar�go 4°, inciso III, da referida lei traga como exceção à regra da proteção o compar�lhamento de dados pessoais em casos de inves�gações criminais e de segurança pública, e que o seu parágrafo 1° remeta a regulamentação dos dados pessoais nesse contexto à futura lei específica, o Estado deve observar limites mínimos de atuação quanto ao tratamento de dados. Tal exceção não autoriza a completa desproteção à privacidade e aos dados pessoais dos indivíduos, uma vez que há normas cons�tucionais e infracons�tucionais dispondo sobre os deveres da Administração na Segurança Pública, dentre eles o dever de proteção aos dados pessoais dos indivíduos. A CF88, em seu ar�go 5°, traz que: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: … X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; … XII - é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei 164 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; … LXIX - conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público; ... LXXIX - é assegurado, nos termos da lei, o direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais. 165 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal AULA 4 – BOAS PRÁTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA MUNICIPAL O termo “boa prá�ca” deriva do inglês “best practice”, que é definido pelo Dicionário de Cambridge como “um método de trabalho ou conjunto de métodos de trabalho que é oficialmente aceito como sendo o melhor para usar em um determinado negócio ou indústria, geralmente descrito formalmente e em detalhes”. As boas prá�cas são a�vidades, ações ou experiências que resultem em melhoria no processo do trabalho, sa�sfação do público-alvo ou alcance de metas estratégicas (TJCE, 2016). Em Segurança Pública, as boas prá�cas envolvem a adoção de estratégias baseadas em evidências, onde as decisões e ações tomadas pelas agências de aplicação da lei devem ser fundadas em dados concretos e em análises criteriosas. A coleta e uso da informação, e o emprego da tecnologia podem colaborar para o diagnós�co de áreas sensíveis e para o emprego racional e adequado de recursos, com foco na prevenção. Além disso, as boas prá�cas na segurança pública também incluem o respeito aos direitos humanos e à dignidade da pessoa humana, por meio de estratégias de capacitação e treinamento, e de mudança comportamental por meio da padronização de procedimentos, em observância às normas internacionais de Direitos Humanos. Portanto, é fundamental que as boas prá�cas sejam valorizadas e difundidas, a fim de promover uma sociedade mais segura e justa para todos. Ao estabelecer um parâmetro de excelência, as ins�tuições de segurança pública municipal podem influenciar posi�vamente umas às outras, trazendo inspiração para que adotem prá�cas semelhantes adaptadas às suas realidades. Nesta aula, vamos conhecer algumas boas prá�cas em segurança pública municipal que apresentaram resultados significa�vos na prevenção da violência e se destacaram no cenário nacional. 166 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal PARA REFLETIR Como as boas prá�cas podem fomentar a quebra de paradigmas no âmbito da segurança pública? 4.1 A Inteligência Ar�ficial na predição de infrações em Belo Horizonte: Crime NABI A aplicação de Inteligência Ar�ficial nas tecnologias de segurança pública ainda é embrionária, mas tem enorme potencial de revolucionar o planejamento e o emprego de recursos. Uma boa prá�ca no uso dessa metodologia vem da cidade de Belo Horizonte/MG. Em meados de junho de 2022, a Prefeitura da capital mineira firmou termo de autorização para iniciar testes com o aplica�vo Crime Nabi, capaz de prever com eficiência prováveis locais de ocorrência de crimes e infrações, por meio da análise de crimes passados e nas condições do ambiente. Além disso, o algoritmo apresenta rotas de segurança em locais onde provavelmente podem ocorrer delitos, potencializando o efeito preven�vo do patrulhamento realizado pela Guarda Municipal. A ferramenta foi desenvolvida pela empresa japonesa Singular Perturba�ons, e analisa por intermédio do seu algoritmo dados demográficos, ambientais e criminais. Uma vantagem do método de previsão do Crime Nabi frente a outras metodologias de mapeamento e georreferenciamento das ocorrências é a precisão dos pontos de ocorrência de crimes plotados nos mapas, e o planejamento das rotas baseado na predição de crimes. Uma vez que as rotas de patrulhamento sejam direcionadas aos pontos e horários previstos pela ferramenta, o emprego do efe�vo se torna mais eficiente. 167 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Geórgia Ribeiro, diretora do COP-BH, explica que: “O processo de análise dos locais e horários das ocorrências passará a ser muito mais ágil e assertivo. E isso será fundamental para definir a rota dos patrulhamentos, por exemplo”.Em Tóquio, onde o aplica�vo foi desenvolvido, a simulação resultou em um aumento de mais de 50% na eficiência de rota das patrulhas, indicando horários e locais onde efe�vamente ocorrem os crimes. 4.2 Protocolos Operacionais Padrão (POP): segurança jurídica para o FRAL Com as Guardas Municipais cada vez mais atuantes na segurança pública municipal, resguardando os bens, serviços e instalações municipais, e protegendo a população que u�liza tais equipamentos, surge a necessidade de regular e padronizar as ações que fazem parte da ro�na operacional dos seus funcionários responsáveis pela aplicação da lei (FRAL). Essa padronização de procedimentos deve ser implementada por meio de Protocolos Operacionais Padrão (POPs), que são uma espécie de instrução, um passo a passo, um documento que informa como determinada a�vidade deve ser executada. Os POPs são uma espécie de manual de instruções da a�vidade operacional dos FRALs. Os FRALs têm a missão de proteger e servir os cidadãos, e de garan�r o pleno gozo dos Direitos Humanos. É fundamental, portanto, que as Normas Internacionais e Nacionais de Direitos Humanos sejam incorporadas à construção e fundamentação jurídica destes protocolos. 168 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal SAIBA MAIS! Após a construção, publicação e implementação destas normas é imprescindível que a Ins�tuição exija e fiscalize o cumprimento dos procedimentos estabelecidos por parte do seu efe�vo, para que façam parte da ro�na operacional e de formação e capacitação. A Guarda Municipal de Fortaleza/CE, em dezembro de 2020, publicou o Manual de Procedimentos Operacionais Padrão, contendo 76 protocolos operacionais divididos em 6 capítulos. O manual foi fruto de Termo de Cooperação Técnica entre a Secretaria Municipal da Segurança Cidadã de Fortaleza / Guarda Municipal de Fortaleza, e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).I Por meio desta cooperação, a Ins�tuição capacitou seus guardas municipais para mul�plicarem conhecimento no que tange às normas internacionais de Direitos Humanos aplicáveis à Função Policial. Os Gms treinados formaram um Grupo de Trabalho, que se dedicou à confecção de Protocolos Operacionais Padrão nas seguintes temá�cas: Aprestamento, Uso Sele�vo da Força, Procedimentos Operacionais, Atuação nos Terminais de Integração, Atuação nas Escolas e Atuação nos Postos de Saúde. Acesse o manual em: https://seguranca.fortaleza.ce.gov.br/2016-05-19201608.html Outra vantagem da implementação de protocolos operacionais, além de padronizar treinamentos e a execução de procedimentos, é proporcionar segurança jurídica para a atuação dos servidores. Os protocolos, dada a devida publicidade pela ins�tuição por meio de publicação de portaria ou ato norma�vo semelhante, trazem ao Órgão a responsabilidade pelos atos come�dos por seus agentes, principalmente no que se refere ao uso sele�vo da força. Assim, se o funcionário responsável pela aplicação da lei, no exercício das suas funções, se u�liza da força de maneira prevista em protocolo operacional padrão, este não será responsabilizado, uma vez que o procedimento fora regulamentado por sua Ins�tuição. Nesse caso, as consequências rela�vas ao uso da força nos ditames do protocolo operacional padrão recairão sobre a Ins�tuição, e não sobre o agente. 169 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Em 2020, o Ministério da Jus�ça e Segurança Pública (MSJP) firmou acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) (Confira a reportagem: https://www.icrc.org/pt/document/brasil-cicv-firma-acordo-com-ministerio-da-justica-para-inclusao-de- normas) prevendo assessoramento técnico e desenvolvimento de procedimentos operacionais padrão sobre uso da força para os órgãos de segurança pública. Além disso, o memorando de entendimento visa agregar normas de Direitos Humanos na formação dos profissionais. 4.3 Integração entre Academia, Planejamento Operacional e Controle Interno/Corregedoria: prevenindo violações de Direitos Humanos As Corregedorias possuem informações estratégicas que possibilitam um diagnós�co mais preciso acerca das dificuldades da Ins�tuição. Essas informações podem apontar quais setores internos demandam de maior atenção da Administração, a fim de se aprimorar a prestação de serviço nas operações de aplicação da lei. O uso ilegal ou excessivo da força e capturas e detenções mal conduzidas podem gerar consequências humanitárias significa�vas e afetar a credibilidade da Guarda Municipal frente à comunidade em geral (CICV, 2023). Essas informações devem ser compar�lhadas com as áreas de ensino e de planejamento operacional, criando assim uma cultura interna de integração, colaboração e ar�culação entre os três níveis, possibilitando um ciclo de aprimoramento semelhante ao método conhecido como PDCA, onde cada letra tem um significado em inglês (Plan (Planejar), Do (Fazer/Implementar/Executar), Check (Verificar) e Act (agir). O PDCA é um método de gestão que visa a melhoria con�nua dos processos, e pode ser u�lizado em qualquer situação: As quatro etapas do PDCA são: PLAN - Planejar Antes de se executar o processo é preciso planejar as a�vidades, definir a meta e os métodos. 170 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal DO - Implementar/executar É a execução das tarefas de acordo com o que foi es�pulado no plano, inclui também a coleta de dados para o controle do processo. O treinamento é requisito para a execução das tarefas. CHECK - Verificar É a fase de monitoramento, medição e avaliação. Os resultados da execução são comparados ao planejamento e os problemas são registrados. Se os resultados forem favoráveis, as tarefas são man�das, se ocorrer problema, deve-se: ACT - Agir Fase em que se apontam soluções para os problemas encontrados. Considerando essa ideia, u�lizando o ciclo PDCA como parâmetro, podemos estabelecer como etapas desse processo, no âmbito da integração interna entre Corregedoria, Academia e Planejamento Operacional, as seguintes: Detecção do problema pela Corregedoria; Planejamento integrado entre Corregedoria, Academia e Planejamento Operacional para definir ação de mi�gação; Execução da ação definida pelo Planejamento Integrado; Acompanhamento, verificação e análise dos resultados da ação de mi�gação; 171 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Padronizar as a�vidades com resultados posi�vos e corrigir as que não a�ngiram o obje�vo pretendido. Figura 35: Método PDCA aplicado à integração Corregedoria / Academia / Planejamento Operacional Fonte: do Conteudista (2023). Após a aplicação do método PDCA de mi�gação de um problema, para a padronização das ações resolu�vas iden�ficadas, é necessário o estabelecimento de Protocolos Operacionais Padrão, que devem observar as seguintes recomendações para que a integração a�nja seus obje�vos: Os POPs devem ser construídos cole�vamente, com a par�cipação direta do efe�vo operacional, proporcionando envolvimento, sen�mento de pertencimento e maior engajamento ao processo de construção; 172 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal É imprescindível a implantação e a publicidade dos POPs em todos os níveis e etapas de formação e capacitação; O alto comando e a média gerência da Ins�tuição devem estar plenamente comprome�dos na fiscalização, orientação e mo�vação dos funcionários de aplicação da lei, para que cumpram os protocolos estabelecidos; As Corregedorias devem fundamentar as suas decisões também nos protocolos estabelecidos pela Ins�tuição,bem como fomentar ações preven�vas a fim de evitar que ocorra o desrespeito aos procedimentos; As agências devem ins�tucionalizar e formalizar estratégias de integração entre as áreas de ensino, operações e corregedoria, para que seja realizado acompanhamento constante dos indicadores que demonstrem desvios de conduta e não observância das normas posi�vadas de padronização. Devem ser criados mecanismos e sistemas de gestão com indicadores integrados das três áreas; As Normas Internacionais e Nacionais de Direitos Humanos devem ser observadas na construção dos POPs, garan�ndo a segurança jurídica da atuação; Os direitos e garan�as dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem ser protegidos. A responsabilidade de cuidar dos cuidadores é do comando das Ins�tuições. 173 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal FINALIZANDO Neste módulo, você aprendeu que: Poder de polícia é definido como uma a�vidade da Administração Pública que limita o exercício dos direitos individuais em prol do interesse da cole�vidade, garan�ndo a preservação da ordem e do bem-estar social nos mais diversos setores da sociedade, tais como meio ambiente, relações de consumo, propriedade, segurança, entre outros; As Guardas Municipais detêm o poder de polícia administra�va e preven�va conferido pelo Poder Público Municipal, com a finalidade de garan�r a preservação da ordem e do bem-estar social, prevenir delitos e proteger a população, nos limites das suas atribuições legais; O uso da força pelas agências de aplicação da lei consiste na intervenção coerci�va imposta à pessoa ou grupo de pessoas a fim de que os deveres destas agências, de aplicar a lei e prestar assistência, sejam devidamente cumpridos; São princípios reguladores do uso da força pelos funcionários responsáveis pela aplicação da lei: legalidade, necessidade, proporcionalidade, precaução, não discriminação e responsabilização; A tecnologia provém uma infinita gama de aplicações que colaboram com a atuação dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei e, consequentemente, fortalecem a sensação de segurança na comunidade. Ao estabelecer um parâmetro de excelência e boas prá�cas, as ins�tuições de segurança pública municipal podem influenciar posi�vamente umas às outras, trazendo inspiração para que adotem prá�cas semelhantes adaptadas às suas realidades. 174 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, Sérgio. A Criminalidade Urbana Violenta no Brasil: Um Recorte Temá�co. BIB - Bole�m Informa�vo e Bibliográfico de Ciências Sociais, n.35, 1993, pp. 3-24. ADORNO, Sérgio. Exclusão socioeconômica e violência urbana. Sociologias, Porto Alegre, n. 8, jul/dez 2002, p. 84-135. ALVES, J. E. D. Quase 50% das favelas e assentamentos irregulares estão concentrados nas regiões metropolitanas do Rio, São Paulo e Belém. Projeto Colabora, 1º de agosto de 2020. Disponível em: htps://projetocolabora.com.br/ods11/brasil-tem-85-da-sua- populacaovivendo-emgrandes-centros-urbanos/ Acesso em: 20 jul. 2023. BRASIL, Ministério da Saúde. 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A maior parte desse crescimento demográfico urbano correspondeu a um intenso fluxo migratório rural-urbano. Entre 1960 e o final dos anos 1980 es�ma-se que quase 43 milhões de pessoas tenham saído do campo em direção às cidades. 20 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal SAIBA MAIS! Em 1950, a população brasileira se dividia em 36% no meio urbano e 63% no meio rural. Em 2010, a população urbana já representava 84% da população total. Rápido e profundo, o crescimento das cidades deixou grandes carências sociais. Em 2010, por exemplo, as 20 regiões metropolitanas brasileiras à época concentravam 88% dos domicílios nos chamados aglomerados subnormais (assentamentos irregulares ou favelas) (BRITO, 2006; ALVES, 2020). Figura 7: Brasil – População rural e urbana, 1950/2000 Fonte: Brito (2006). A consolidação das redes de tráfico e os efeitos da violência decorrente de suas transações tornaram mais complexo o estudo do fenômeno da criminalidade urbana, ampliando o escopo de pesquisas sobre o tema. Sob o �tulo amplo de “violência urbana”, análises se desdobraram em subtemas como violência de gênero, violência domés�ca, violência contra minorias sexuais, violência contra crianças, violência policial e ins�tucional, violência nas prisões, violência nas escolas, violência de torcedores de futebol, disseminação de armas de fogo entre a população em geral, violência na mídia, violência no trânsito, violência de gangues juvenis, entre outros. 21 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Ao operar segundo moldes empresariais e muitas vezes com bases transnacionais, o crime organizado aproxima e ar�cula diferentes formas de criminalidade (crimes contra a pessoa, contra o patrimônio, o sistema financeiro, a economia popular) em que sintomas visíveis são uso de violência excessiva mediante uso de armas de fogo, contrabando de armas como função estratégica, corrupção de agentes do poder público, desarranjos no tecido social e desorganização das formas convencionais de controle social. Nesse cenário, violações graves de direitos humanos tendem a piorar. Figura 8: Redes Criminosas Fonte: Wikipedia (2022). No passado, a violência urbana era observada, sobretudo, nas capitais, regiões metropolitanas e grandes municípios. Hoje, modificações em sua dinâmica conformam um fenômeno de interiorização, em que a violência urbana antes reconhecida apenas nas metrópoles passa a se verificar no interior do país (ADORNO, 2002; BRASIL, 2008). É preciso, contudo, não perder a noção do todo. No caso da violência letal, após o período entre 1980 e 2003, marcado pelo crescimento acentuado e regular dos homicídios no país, e a oscilação posterior das taxas em patamares elevados sob o ponto de vista compara�vo global, o Brasil permanece sendo uma nação violenta. Um país marcado por diferenças raciais, de gênero, etárias e regionais que caracterizam, no caso da violência letal, quem são e onde vivem as ví�mas. 22 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Figura 9: Evolução da taxa de homicídios por 100 mil habitantes no Brasil, 1980/2019 Fonte: Ipea. Em 2022, o Brasil registrou 47.508 mortes violentas intencionais (MVI), categoria que agrega as ví�mas de homicídio doloso (incluindo feminicídios e policiais assassinados), roubos seguidos de morte, lesão corporal seguida de morte e as mortes decorrentes de intervenções policiais. Figura 10: Ilustração MVI Fonte: do Conteudista. 23 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Em média, 91,4% das mortes violentas intencionais em 2022 vi�maram homens, enquanto 8,6% vi�maram mulheres. O perfil étnico-racial das ví�mas refle�u padrões observados pela literatura da área: 76,5% dos mortos eram negros e 50,3% eram adolescentes e jovens com idade entre 12 e 29 anos. As armas de fogo são o principal instrumento u�lizado para matar no Brasil, visto que 76,5% dos casos de mortes violentas intencionais no país em 2022 foram pra�cados com uso de arma de fogo (FBSP, 2023). SAIBA MAIS! Para aprofundamento no tema, assista ao vídeo sobre homicídios no Brasil e suas dinâmicas. Um debate promovido em 2023 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com os pesquisadores Mateus Rennó (USF), Tulio Kahn (FBSP e IPEA) e Daniel Cerqueira (IPEA e UVV), moderado por Ludmila Ribeiro (UFMG e FBSP) e Arthur Trindade (FBSP e UnB). Acesse: htps://www.youtube.com/watch?v=JGTl57_5BbM Como indicam Bruno Paes Manso e Luis Felipe Zilli (2021), a violência letal, intencional e armada tem sido um dos grandes desafios para as instituições democráticas no Brasil urbano de hoje. A prevalência, indicam os autores, de homicídios em certos territórios informa sobre a existência de grupos armados que impõem seus interesses à população local mediante ameaças e violência, controlando negócios ilegais e desafiando o monopólio do uso legítimo da força pelo Estado brasileiro. A intensificação dos conflitos também revelou nas úl�mas décadas uma dimensão nova da violência urbana, que é o enfrentamento direto do Estado por grupos delituosos organizados, como se viu em ataques coordenados promovidos em 2006 por uma facção criminosa no Estado de São Paulo. Tais ataques evidenciaram a urgência do 24 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal tema em nossa sociedade e a necessidade de soluções polí�cas e pactuadas entre diferentes instâncias do poder público para a pacificação social. Quando há disputa de poder entre grupos criminosos, o resultado é semelhante, com a imposição de silêncio forçado aos moradores e de uma ro�na de confrontos que distancia ainda mais os cidadãos inocentes do Estado de Direito e da Jus�ça. A atuação criminosa desses grupos no espaço urbano muitas vezes mistura atuação em segmentos legais e ilegais, mo�vada pelas oportunidades de alto lucro. Tais segmentos podem ser a venda de drogas no varejo, o roubo de cargas e a venda para terceiros, o controle de operações clandes�nas de transporte público, o roubo de carros e de bancos, a invasão e o loteamento ilegais de terras públicas. SAIBA MAIS! Pesquise o dossiê publicado pela Revista USP em 2021 sobre o fenômeno da violência urbana. A publicação procura explicar de maneira qualita�va e traz reflexões sobre formas de reverter a fragilização do monopólio da força pelo Estado. Acesse: htps://jornal.usp.br/cultura/revista-usp-faz-radiografia- daviolencia-urbana-no-brasil/ Homicídios pra�cados por grupos armados são um fenômeno nacional, mas que se concentram no espaço e a�ngem certos grupos sociais de forma desproporcional. Um estudo sobre dados de 2016 mostrou que metade dos homicídios que aconteceram naquele ano no Brasil ocorreram em apenas 123 cidades, ou 2,2% dos municípios do país. Dentro desses municípios, em mais uma amostra do caráter social da violência urbana, a concentração dos homicídios se dá em bairros mais pobres e menos urbanizados, e homens negros com menosde 25 anos são os que mais morrem. Outro dado relevante: a vida se passa nas cidades para mais de 85% da população brasileira. Independentemente do porte do município, todas as cidades têm o desafio de promover a segurança de seus cidadãos e visitantes. Como a definição de insegurança já não se restringe a homicídios e outras formas de violação pessoal e 25 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal cole�va, a gestão das soluções no setor também deve configurar um campo mul�disciplinar na administração estatal. SAIBA MAIS! Leia a reportagem da EBC sobre estudo do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que abordou o fenômeno da concentração espacial dos homicídios no Brasil e a migração da violência letal para cidades menores. Acesse: htps://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos- humanos/no�cia/201806/metade-dos-homicidios-em-2016- ocorreram-em-apenas-2-dosmunicipios Uma das consequências da violência urbana é a difusão de sen�mentos de medo e insegurança entre a população. Estudos indicam que mudanças nos padrões de violência provocam alterações no comportamento co�diano das pessoas, em suas relações com os outros e com o espaço em que vivem. Em prefácio para o livro de 2003 “Criminalidade Urbana: Conflitos Sociais e Criminalidade Urbana – Uma Análise dos Homicídios Come�dos no Município de São Paulo”, de Renato Sérgio de Lima, Teresa Pires do Rio Caldeira escreveu: A violência urbana articula práticas que respondem por uma parte significativa do conflito social nas cidades brasileiras. Seu caráter factual não deve ser negado, como em análises que a apresentam como “paranoia” individual ou pura ficção alimentada por meios de comunicação e redes sociais. O medo tem bases reais e transforma formas de habitações e a própria paisagem das cidades, que ficam marcadas pela presença de dispositivos de proteção individual e da propriedade, como muros, fossos e cercas. 26 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Figura 11: Nelson Mandela À medida que a violência e a insegurança crescem, a indústria de proteção eleva seus ganhos e estratégias de defesa privada redesenham a arquitetura nas cidades, agravando custos sociais e influenciando padrões de sociabilidade. Nesse sen�do, o sen�mento de calamidade pública gerado pela violência afasta o cidadão de soluções possíveis a par�r do co�diano e reduz sua confiança nos órgãos de segurança (SILVA, 2010; NEVES, 2016). Daí a dimensão do desafio em aberto colocado à sociedade brasileira e mundial, que permanece como descrito há mais de 20 anos pelo advogado, líder rebelde e ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, no relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre violência e saúde que em 2002 abordou a violência como um problema de saúde pública no mundo: O século vinte será lembrado como um século marcado pela violência. Em escala jamais vista e nunca possível na história da humanidade, ele nos oprime com seu legado de destruição em massa, de violência imposta. Mas esse legado - resultado de novas tecnologias a serviço de ideologias de ódio – não é o único que carregamos, nem que devemos enfrentar. Menos visível, mas ainda mais disseminado, é o legado do sofrimento individual diário. (...) É um legado que se reproduz quando novas gerações aprendem com a violência de gerações passadas, quando as vítimas aprendem com seus agressores e quando se permite que se mantenham as condições sociais que nutrem a violência. Nenhum país, nenhuma cidade e nenhuma comunidade está imune à violência, mas, também, não somos impotentes diante dela. (...) Nós devemos às nossas crianças - os cidadãos mais vulneráveis em qualquer sociedade - uma vida livre de violência e medo. A fim de assegurar isto, devemos manter-nos incansáveis em nossos esforços não apenas para alcançar a paz, a justiça e a prosperidade para os países, mas também para as comunidades e membros da mesma família. Devemos dirigir nossa atenção para as raízes da violência. Somente assim, transformaremos o legado do século passado de um fardo opressor em um aviso de alerta. 27 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal VAMOS REFLETIR Como os municípios e seus representantes podem agir para minimizar sen�mento de insegurança e de medo decorrentes do agravamento da violência urbana? SAIBA MAIS! Leia o ar�go “Violência urbana e saúde”, de Maria Fernanda Tourinho Peres e Caren Ruo�, que problema�za a questão da violência urbana no país e sua centralidade nas percepções e vivências co�dianas da população, a par�r do caso do município de São Paulo. Acesse: htps://www.revistas.usp.br/revusp/ar�cle/download/115114/11281 9/2 09840 28 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal 1.3 Violência urbana e prevenção No Brasil, polí�cas de segurança pública e o debate sobre problemas do setor refletem uma divisão entre prevenção e repressão no controle do crime. Polí�cas repressivas Tendem a priorizar a capacidade repressiva e de dissuasão do sistema de jus�ça criminal. Polí�cas preven�vas Apontam uma baixa capacidade do Estado para reduzir a criminalidade e enfa�zam ações voltadas a fundamentos do crime, fatores socioeconômicos que produzem desigualdade e exclusão social. O quadro abaixo apresenta outras diferenças entre as abordagens: Quadro 1: Perspec�vas das polí�cas de Segurança Pública Política repressiva Política preventiva Fundamentos valorativos A punição é um importante instrumento de afirmação de valores morais e culturais. O mais importante é evitar que o crime aconteça; o respeito à justiça, à igualdade e aos direitos humanos são basilares na ação do Estado. Pressuposto da ação social O criminoso é um ator racional, devendo assumir responsabilidade por seus atos e responder perante o sistema de justiça criminal. O criminoso é, sobretudo, vítima de condições sociais marcadas por desigualdades e injustiças. Hipótese criminológica Os níveis de criminalidade estão associados ao grau de eficiência do sistema de justiça criminal. Os níveis de criminalidade estão associados aos níveis de desemprego e pobreza e as crises econômicas. 29 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Diretriz de política pública preponderante As medidas dissuasórias - aparelhamento da polícia, aperfeiçoamento da máquina judicial, maior rigor na aplicação de penas, incremento do encarceramento - devem ser o cerne da ação. As medidas de inclusão social e humanitária - redução da desigualdade social e do desemprego, incremento da participação comunitária, valorização da educação, ressocialização de presos - devem ser o foco da ação governamental. Fonte: Adaptado de Sapori (2007) Na América La�na, aponta Sapori (2007), há uma alternância recorrente entre polí�cas de segurança com ênfase no poder de resolução do sistema de jus�ça criminal e aquelas com ênfase em fatores socioeconômicos responsáveis pela desigualdade social. Essa divisão também se reflete em pesquisas acadêmicas sobre segurança, que passam a buscar evidências de maior eficiência de uma ou de outra abordagem. Na avaliação do autor, não há dados empíricos suficientes que permitam dizer que estratégias repressivas sejam mais eficientes do que as preven�vas, e vice-versa. Para ele, a conclusão é que a divergência entre os dois pólos prejudica a eficácia e a eficiência de ações do poder público no setor. As estratégias devem ser compa�veis e desassociadas de conotações ideológicas. Segundo o autor: Na medida em que prevenção e repressão são concebidas como elementos opostos e excludentes, reduz-se a capacidade do Estado de prover a ordem públicacom efetividade. Essa dicotomia, ainda persistente entre os decision makers [tomadores de opinião], impõe uma escolha desnecessária no direcionamento das políticas de segurança pública, impedindo que a ação governamental abarque simultaneamente as diversas dimensões do fenômeno criminoso (SAPORI, 2007, p. 86-87). 30 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Um trabalho de referência publicado em 1998 pelo Departamento de Jus�ça dos Estados Unidos e assinado, entre outros, pelo criminologista Lawrence Sherman, procurou avaliar o impacto de diferentes estratégias de controle da criminalidade, em nível local e estadual, que �nham financiamento federal naquele país. O estudo revisou mais de 500 estudos e classificou as estratégias em seis grandes grupos, a par�r do contexto social de cada uma: Controle do crime baseado na polícia Estratégias de patrulhamento direto em áreas com alta incidência de crimes, redução do tempo de resposta às chamadas de emergências policiais, patrulhamento a pé, vigilância baseada na vizinhança, repressão mediata a violência domés�ca; Controle do crime baseado nas comunidades Mobilização e organização comunitárias contra o crime, prevenção da violência em gangues juvenis, programas de recreação infan�l após o expediente escolar e formação de preceptores comunitários de dependentes químicos; Controle do crime baseado nas famílias Visitação, por agentes estatais, de famílias com recém-nascidos e crianças, educação pré- escolar envolvendo os pais, capacitação dos pais para lidar com crianças problemá�cas e repressão da violência domés�ca; Controle do crime baseado nas escolas Programas de prevenção do uso de drogas, educação para resistência às gangues, educação para disciplina social, aumento da disciplina no ambiente escolar e campanhas contra o bullying; Controle do crime baseado no mercado de trabalho Programas de treinamento e colocação profissional para jovens e adultos desempregados, treinamento para criminosos presos e transporte para trabalhadores até o local de trabalho; 31 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Controle baseado na jus�ça criminal Reabilitação de egressos do sistema prisional, tratamento para drogados condenados, liberdade condicional intensamente supervisionada, monitoramento eletrônico de condenados, incremento do encarceramento; Controle do crime baseado na prevenção situacional Estratégias de redução de oportunidades para ação criminosa em locais específicos, como lojas, estacionamentos e prédios residenciais, com uso de câmeras e alarmes e outros recursos. A existência de diversas teorias sobre as causas da violência indica que essas razões são múl�plas e demandam uma abordagem em rede, em diferentes dimensões. A agenda da segurança se expande quando procura tratar as causas da violência. Há propostas que defendem ser possível diminuir as violações à lei minimizando as condições para que o crime ocorra. Em geral, são inicia�vas que consideram o cidadão como principal foco de uma polí�ca de segurança. A visão se amplia do combate ao criminoso para a qualidade de vida do cidadão. A prevenção à violência, de modo geral, pode ser dividida em duas categorias: Figura 12: Categorias de prevenção à violência Fonte: do Conteudista. 32 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Numa adaptação de �pologia da saúde pública, intervenções de caráter preven�vo em segurança pública também podem ser divididas em três níveis de prevenção: Prevenção primária Abordagens que buscam prevenir a violência antes de sua manifestação. Exemplos: • inves�mentos em educação e moradia; • recuperação e reordenação de espaços urbanos. Prevenção secundária Abordagens que procuram dar respostas imediatas à violência. Exemplos: • cursos profissionalizantes e oficinas para jovens em situação de vulnerabilidade; • videomonitoramento de pontos crí�cos de criminalidade; • serviços de emergência ou tratamento para doenças sexualmente transmissíveis decorrentes de um estupro. Prevenção terciária Abordagens que se concentram em cuidados de longo prazo frente à violência, como reabilitação e reintegração e tenta�vas de diminuir traumas e reduzir deficiências de longo prazo associadas com violência. Exemplos: • ações de reinserção social de egressos do sistema prisional; • cadastro de membros de torcidas organizadas de futebol. Uma publicação de 2010 da Organização Mundial da Saúde promoveu, por exemplo, uma revisão rigorosa da literatura que examinou evidências cien�ficas sobre a efe�vidade de intervenções para prevenir a violência interpessoal e auto infligida, e iden�ficou sete grupos de estratégias úteis: 33 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Desenvolver relações seguras, estáveis e es�mulantes entre crianças, pais e cuidadores; Desenvolver habilidades de vida em crianças e adolescentes; Reduzir a disponibilidade e o uso abusivo de álcool; Reduzir o acesso a armas de fogo, armas brancas e pes�cidas; Promover igualdade de gênero para prevenir violência contra a mulher; Promover a mudança de normas sociais e culturais que es�mulem a violência; Promover programas de iden�ficação e apoio a ví�mas de violência. 34 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Por ser um problema crônico e complexo, a superação da violência urbana exige ações coordenadas nos diferentes níveis de governo e planejadas a par�r de obje�vos semelhantes. É fundamental o envolvimento de ins�tuições públicas e organizações da sociedade civil na execução de polí�cas, programas e ações que atuem nas causas e interfiram em fatores que propiciam a ocorrência deste fenômeno. Estudos indicam que programas sociais são mais eficientes quando englobam, de forma simultânea, diferentes instâncias da vida das pessoas. Por isso, uma atuação intersetorial facilita a construção de um modelo de proteção integral aos indivíduos. A adoção de um modelo com essa orientação deve se basear na sinergia entre atores governamentais e não-governamentais e em esforços que procurem evitar a fragmentação de ações (FERREIRA, 2012). Uma atuação intersetorial em segurança, contudo, não deve prescindir da manutenção de foco nos obje�vos visados e, como nas demais polí�cas públicas, do trabalho baseado em evidências, e não em ideologias e palpites. SAIBA MAIS! Pesquise a publicação “Podemos Prevenir a Violência: Teorias e Prá�cas”, de Elza Machado de Melo, editada em 2010 pela Organização Panamericana de Saúde (Opas) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Acesse: htps://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/podemos_prevenir_violencia.pdf Lidar com a violência em vários níveis, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (2002), envolve cuidar dos seguintes aspectos: atentar para fatores de risco individuais e agir para modificar comportamentos de risco individuais; 35 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal influenciar relações pessoais e trabalhar para criar ambientes familiares saudáveis, bem como oferecer auxílio profissional e apoio para famílias disfuncionais; monitorar locais públicos como escolas, ambientes de trabalho e vizinhanças e agir para tratar de problemas que possam levar à violência; atacar a desigualdade de gênero e a�tudes e prá�cas culturais prejudiciais; agir sobre os fatores culturais, sociais e econômicos mais amplos que contribuem para a violência e agir para mudá-los, incluindo medidas para reduzir o abismo entre os ricos e pobres e para garan�r acessoigualitário a bens, serviços e oportunidades. Dentro dessa abordagem que compreende a violência como consequência da ar�culação de diferentes fatores de risco, que envolvem caracterís�cas individuais, relacionais, comunitárias e sociais, a prevenção da violência é concebida de forma múl�pla. Essa mul�plicidade envolve um conjunto de ações de prevenção (primárias, secundárias e terciárias) e a conexão com outras áreas do conhecimento e de intervenção. Nessa perspec�va, a OMS defende o desenvolvimento de ações integradas e intersetoriais como algo essencial ao obje�vo da prevenção. Assim, a integração entre os diferentes setores de ação social, como segurança pública e jus�ça, saúde, educação e assistência social, em âmbitos governamentais e não governamentais, se coloca como fundamental ao desenvolvimento de uma estratégia cole�va de prevenção. O município é um lugar privilegiado para inicia�vas que busquem romper a dicotomia entre repressão e prevenção. No que tange às polí�cas municipais de segurança, há um entendimento consolidado no ordenamento jurídico e nas prá�cas do Estado brasileiro de que é preciso ir além da repressão e atuar na prevenção e na promoção de formas de convivência pautadas na garan�a, no respeito e na promoção dos direitos humanos. Tais polí�cas de segurança cidadã pode e deve ser balizadas por duas perspec�vas, dis�ntas e complementares: a repressão qualificada da criminalidade e a prevenção social das violências (BRASIL, 2013). 36 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal No caso das cidades brasileiras, que não contam com organizações policiais, apenas guardas municipais, os governos municipais têm capacidades mais compa�veis com o desenvolvimento de polí�cas baseadas em prevenção. O desenvolvimento de polí�cas centradas em estratégias repressivas depende necessariamente de uma integração com outras ins�tuições e níveis de governo. SAIBA MAIS! Conheça a publicação “Polí�cas municipais de segurança cidadã: problemas e soluções” (2006), de Paulo de Mesquita Neto. Acesse: htps://library.fes.de/pdf-files/buer os/brasilien/05612.pdf 37 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal AULA 2 – O PAPEL DO MUNICÍPIO NA SEGURANÇA PÚBLICA 2.1 Histórico da par�cipação dos municípios na segurança pública A par�cipação efe�va dos municípios na segurança pública é um fato rela�vamente recente da história do país. Desde a redemocra�zação, mesmo com o fim do paradigma de “segurança nacional”, conceito adotado no Brasil durante o período da ditadura militar (1964-1985) e que priorizava a defesa do Estado e a ordem polí�ca e social, prevalecia na vida pública uma interpretação limitada do ar�go 144 da Cons�tuição, aquela que considera que segurança pública é responsabilidade exclusiva dos Estados. Poucos municípios man�nham Guardas Municipais, apenas para vigilância patrimonial e colaborações isoladas com as Polícias Militares. O assunto só ingressou de fato na vida pública, com impactos nas polí�cas para o setor, após o agravamento da crise de segurança no país nos anos 1990. O lançamento do Plano Nacional de Segurança Pública e do Fundo Nacional de Segurança Pública no biênio 2000-2001 permi�u que o tema ganhasse relevância na agenda dos municípios, e a flexibilização das regras do Fundo Nacional de Segurança Pública elevou o número de prefeituras aptas a pleitear recursos do fundo para projetos de segurança. Essa flexibilização ocorreu porque até 2003 somente municípios que �vessem ins�tuído Guarda Municipal estavam aptos a receber recursos do fundo. Alteração posterior na lei de criação do FNSP flexibilizou os critérios e os municípios passaram a se credenciar para recebimento dos aportes mediante projetos executados por outras áreas e órgãos, não apenas a Guarda Municipal - expressão de uma mudança de conceito na orientação do governo federal à época em relação aos municípios. Desde então, municípios passaram a criar secretarias para o setor, elaborar planos e órgãos específicos de segurança pública (MIKI, 2008; RISSO, 2016; MARTINS; 2018). 38 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal A par�cipação dos municípios na segurança pública também se intensificou, pelo volume de recursos inves�dos e pela oferta de ações preven�vas para implementação pelos municípios, a par�r da ins�tuição pelo governo federal, em 2007, do Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci). Koppi�ke (2016) classifica como “era de ouro da prevenção” o período de 2001 a 2011 em que três planos nacionais tentaram fomentar e consolidar ins�tucionalmente essa nova visão no país sobre a prevenção da violência e o papel do município na segurança pública: os Planos Nacionais de Segurança Pública: o primeiro apresentado no úl�mo ano do governo Fernando Henrique Cardoso, em 2001; o segundo, apresentado durante o primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva, e o Pronasci, que pode ser considerado o terceiro Plano Nacional de Segurança Pública, e que durou mais tempo, quatro anos (2007 a 2011). O Pronasci foi definido pela Lei 11.530, de 2007, da seguinte maneira: Art. 2º O Pronasci destina-se a articular ações de segurança pública para a prevenção, controle e repressão da criminalidade, estabelecendo políticas sociais e ações de proteção às vítimas. (BRASIL, 2007). Entre os focos do Pronasci estavam jovens de 15 a 24 anos, ví�mas mais frequentes da violência, regiões metropolitanas e aglomerados urbanos com altos índices de homicídios e de crimes violentos. Também houve des�nação de recursos para capacitação de profissionais da segurança pública, por meio do projeto Bolsa-Formação. Os projetos de prevenção da violência mais conhecidos ofertados pelo programa foram o Mulheres da Paz, o Territórios de Paz e o Protejo. Para o desenvolvimento da segurança pública preven�va, a lei que criou o programa propôs 17 �pos de ações, como criação e fortalecimento de redes sociais e comunitárias, criação de programas de prevenção à violência voltados a jovens e adolescentes, egressos do sistema prisional e famílias expostas à violência urbana e medidas de urbanização para recuperação de espaços públicos. Ex�nto em 2017, o Pronasci representou, de acordo com Spaniol (2017), um avanço importante na 39 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Palavra do Especialista ins�tucionalização das polí�cas de segurança pública no país, deixando legados como a permanência dos GGI-Ms como ferramenta de gestão em determinados municípios. A lei nº 13.675, de 2018, que criou o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), representa o marco recente mais importante de consolidação da gestão da segurança pública no Brasil. A lei torna mais claro o papel municipal na segurança pública brasileira e procura indicar meios de integrar os órgãos do setor, como as Polícias Federal, Rodoviária Federal e Estaduais, as Secretarias de Segurança e as Guardas Municipais, para que atuem de forma coopera�va, sistêmica e harmônica. Além de ins�tuir o SUSP, o projeto criou a Polí�ca Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS), prevista para durar dez anos, tendo como ponto de par�da a atuação conjunta dos órgãos de segurança e defesa social da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios, em ar�culação com a sociedade. A PNSPDS reforçou o papel dos municípios como integrantes estratégicos do SUSP, ao lado dos Estados, do Distrito Federal e da União. A lei propõe deveres e responsabilidades a esses integrantes, e no caso dos municípios destacam-se a criação e manutenção de um Conselho Municipal de Segurança Pública e Defesa Social, a formulação de um Plano Municipal de Segurança Pública e Defesa Social e a ins�tuição de órgãos de ouvidoria.Ser um integrante estratégico do SUSP é, portanto, uma realidade dos municípios brasileiros, e significa ter responsabilidade compar�lhada pela definição e implantação de estratégias de prevenção e controle qualificado da criminalidade e da violência. A Lei do SUSP e sua Polí�ca Nacional de Segurança Pública cons�tuem, portanto, novos eixos para uma polí�ca pública municipal de segurança cidadã, com ênfase na prevenção da violência e atenção para formas de violência armada passíveis de mi�gação por ações municipais. Recursos da União são fontes importantes de inves�mento dos municípios na área de segurança pública, já que recursos estaduais são, em grande parte, alocados para 40 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal pagamento de efe�vo policial e custeio das polícias. Apesar de avanços nos úl�mos 20 anos, polí�cas municipais de segurança no Brasil con�nuam marcadas pela descon�nuidade das ações. Municípios que em algum momento se destacaram nacionalmente passam por interrupções, mudanças de prioridade e reduções de inves�mento em seus programas. Segundo Risso (2016), isso se deve a fatores como mudanças polí�cas e ausência de recursos para manutenção e expansão dos programas. A consolidação dos municípios como vetores de polí�cas de segurança pública depende da cristalização de uma compreensão ampliada sobre o sen�do de segurança pública no país. Existem polí�cas e programas de prevenção da violência que não demandam a aplicação da lei nem o emprego da força, e que revelam um campo amplo para que municípios criem polí�cas e par�cipem da segurança pública, com foco em ações de prevenção. Como aponta Miki (2008), compreender o papel do município na segurança é caminhar rumo ao entendimento da segurança pública como um direito: O município deve focar suas atividades também com vistas à segurança pública, sem invadir o que é de competência policial, mas dando respaldo para esta atuação. Dessa forma, este trabalho tem um viés mais abrangente do que o até então conhecido por “Política de Segurança Pública”. O que se busca num município é algo muito maior: é a quebra do paradigma e, finalmente, o entendimento da segurança como um direito, acarretando na realização de políticas públicas focalizadas que objetivem a queda da violência e da criminalidade. Articular as diversas ações que já são realizadas e atores é um papel muito complexo, mas que se reverte em importantes resultados sociais. (MIKI, 2008, p. 73) 2.2. Conselhos Municipais de Segurança Pública Previsto na Lei do Susp, o Conselho Municipal de Segurança Pública é uma instância de par�cipação popular em decisões que digam respeito à ordem pública de suas cidades. Seus obje�vos principais são o fortalecimento do controle social sobre 41 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal polí�cas para o setor e a abertura de um canal propício para que população e organizações da sociedade civil par�cipem do levantamento de prioridades e demandas locais, bem como do desenho e da implementação de polí�cas públicas para o setor, inclusive em relação à alocação de recursos. A Polí�ca Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS) definiu que os conselhos deverão ter natureza de colegiado, com competência consul�va, suges�va e de acompanhamento social. A composição do conselho deve ser subme�da à Câmara Municipal, e prevê representantes com mandato de dois anos, escolhidos entre organizações da sociedade civil, de profissionais da segurança urbana, da Defensoria Pública, do Ministério Público, da OAB e do Judiciário. Figura 13: Exemplo de ações dos Conselhos Municipais de Segurança Fonte: do Conteudista. 42 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal SAIBA MAIS! Caso queira saber um pouco mais das ações citas, acesse os links abaixo: Belém (PA) htps://semob.belem.pa.gov.br/conselho-municipal-de-seguranca- publica-e-defesa-social-e-aprovado-na-camara-municipal-de-belem/ A�baia (SP) htps://www.a�baia.sp.gov.br/no�cias/seguranca-publica/a�baia- nomeia-membros-do-conselho-municipal-de-seguranca-publica3165 Juiz de Fora (MG) htps://www.portaldoturismo.pjf.mg.gov.br/no�cias/view.php?modo =link2&idno�cia2=68850 SAIBA MAIS! Leia o ar�go “Os municípios e o Sistema Único de Segurança Pública”, de Felipe Sampaio, que apresenta os mecanismos de governança municipal da segurança previstos no ordenamento jurídico mais recente do país. Acesse: htps://www.diariodepernambuco.com.br/no�cia/opiniao/2020/11 /os-municipios-e-o-sistema-unico-de-seguranca-publica.html 2.3. Gabinetes de Gestão Integrada Municipal (GGIMs) O Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGI-M) foi criado com a finalidade de ser a estrutura gerencial do Pronasci, de forma a amparar a par�cipação no programa de todos os órgãos de segurança e en�dades afins. A adesão ao programa foi associada a criação dessa instância de gestão. 43 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Criado no contexto do 2º Plano Nacional de Segurança Pública (2003 a 2006), o GGI-M começou a ser implantado dentro dos primeiros esforços de ins�tucionalização do SUSP, anteriores à sanção da Lei do SUSP, como uma das engrenagens ins�tucionais a viabilizar a ar�culação entre ins�tuições do sistema de segurança pública e jus�ça criminal que atuam em âmbito municipal. A proposta era que ins�tuições como Guarda Municipal e Conselho Comunitário de Segurança Pública, Polícias Militar e Civil, Defensoria Pública, Ministério Público e demais en�dades interessadas se reunissem mensalmente para discussão de questões locais de segurança e ordem pública, delineamento de ações de prevenção e repressão ao crime, monitoramento e avaliação dos resultados alcançados. SAIBA MAIS! Leia o relatório de 2017 “Gabinetes de Gestão Integrada no Brasil: à guisa de ins�tucionalização?”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que analisou o processo de ins�tucionalização dos GGIs estaduais e municipais a par�r da observação de processos de estruturação, funcionamento e criação de instâncias especializadas, como o Observatório de Segurança Pública e o Sistema de Videomonitoramento. Acesse: htps://forumseguranca.org.br/publicacoes_posts/gabinetes-de- gestao-integrada-no-brasil-a-guisa-de-ins�tucionalizacao/ 44 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Figura 14: Reunião do GGIM de Canoas (RS) em 2021 Fonte: Matheus Tomaz/Prefeitura de Canoas. 2.4. Observatórios de Segurança Municipais Observatório é o nome que costuma designar agências e órgãos encarregados de obter, organizar, estruturar e analisar dados e informações sobre polí�cas públicas. No caso da segurança pública, os observatórios atuam na elaboração de diagnós�cos situacionais e na iden�ficação de questões rela�vas ao crime e seus fatores associados. O obje�vo é que possam ser instâncias de reflexão crí�ca, suporte informacional e tecnológico a processos de tomada de decisões estratégicas e operacionais. Seus levantamentos podem incluir áreas não associadas diretamente à segurança, como dados de evasão escolar e de acesso a polí�cas de proteção social. 45 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Palavra do Especialista 2.5. Por que o município deve atuar na gestão de segurança pública? Embora a segurança pública apareça na Cons�tuição de 1988 como uma tarefa a ser compar�lhada, o texto cons�tucional reservou pouca atenção ao tema e, em especial, ao papel dos municípios nessa área. Mas houve mudanças nos úl�mos 20 anos no sen�do de reconhecer e ampliar a atuação dos municípios no setor. Hoje eles têm atribuições claramentedefinidas em relação à redução e à prevenção dos fenômenos que reproduzem a violência, sobretudo após a publicação da Lei do SUSP (Lei 13.675/2018), entre outros avanços legisla�vos recentes. As prefeituras e as ins�tuições da municipalidade são os braços do poder público mais próximos dos cidadãos, e possuem sob sua gestão serviços públicos essenciais no combate à desigualdade social, como educação básica, saúde, assistência social e desenvolvimento urbano. Praças seguras e bem-cuidadas, calçadas, saneamento, iluminação, a�vidades culturais, Guardas Municipais com atuação comunitária, proteção das mulheres e público LGBTQIA+ são responsabilidades da gestão municipal que podem impactar o cenário mais amplo da segurança. Cidades bem cuidadas, movimentadas e iluminadas são cidades seguras. Nesse sen�do, a prefeitura tem o papel essencial de coordenar ações de segurança urbana que ocorrem na cidade sob sua administração, mesmo não tendo ingerência sobre as polícias estaduais. O planejamento da prevenção à violência, a promoção da cultura de paz, o ordenamento territorial, a ação policial preven�va, a inclusão e defesa social de públicos vulneráveis são exemplos de ações ligadas à segurança que devem passar pela prefeitura. (SPANIOL, 2017; PROGRAMA CIDADES SUSTENTÁVEIS e FBSP, 2022) 46 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal 2.7. O município como agente estratégico na segurança pública O Sistema Único de Segurança Pública foi criado em 2018 e complementou o ar�go 144 da Cons�tuição de 1988, reforçando que segurança pública é responsabilidade da União, dos Estados e Municípios. O SUSP buscou estabelecer uma arquitetura uniforme para a segurança pública em âmbito nacional, a par�r de compar�lhamento de dados, operações integradas e colaborações nas estruturas de segurança pública em nível federal, estadual e municipal. A segurança pública con�nua sendo, portanto, atribuição de Estados e municípios, enquanto a União se responsabiliza pela criação de diretrizes a serem compar�lhadas em todo o país. Ao definir segurança em sen�do amplo, para além da ação policial, a lei indica que, no caso dos municípios, a atuação no setor não deve se limitar à criação de Guardas Municipais para proteção do patrimônio público. Há um entendimento de que as configurações da segurança nas cidades extrapolam o panorama das esta�s�cas criminais, pois dependem da situação de serviços e espaços públicos e demandam instrumentos que guiem a ação das prefeituras no setor. O texto da lei prevê a inclusão de outras áreas do serviço público nessa atuação em rede: Art. 22. A União instituirá Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, destinado a articular as ações do poder público. ... § 1º As políticas públicas de segurança não se restringem aos integrantes do Susp, pois devem considerar um contexto social amplo, com abrangência de outras áreas do serviço público, como educação, saúde, lazer e cultura, respeitadas as atribuições e as finalidades de cada área do serviço público. ... § 3º As ações de prevenção à criminalidade devem ser consideradas prioritárias na elaboração do Plano de que trata o caput deste artigo (BRASIL, 2018). 47 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Leia o texto a seguir do Ministério da Jus�ça e Segurança Pública, que apresenta o Sistema Único de Segurança Pública Acesse: htps://www.gov.br/mj/pt-br/acesso-a- informacao/acoes-e-programas/susp O SUSP prevê que os instrumentos de planejamento e governança previstos em lei sejam reproduzidos nos níveis federal, estadual e municipal, de modo a facilitar a integração de ações e de orçamentos. A Lei do SUSP orienta que tais instrumentos legais sejam empregados na elaboração e na gestão do Plano Municipal de Segurança Urbana. Com vigência de 10 anos, o Plano Municipal, em linha com o Plano Nacional, deve ser o marco estratégico do município para obtenção de recursos e gerenciamento de a�vidades e obje�vos da segurança urbana. A lei também enumera diretrizes para a elaboração desse plano: Art. 24. Os agentes públicos deverão observar as seguintes diretrizes na elaboração e na execução dos planos: I - adotar estratégias de articulação entre órgãos públicos, entidades privadas, corporações policiais e organismos internacionais, a fim de implantar parcerias para a execução de políticas de segurança pública e defesa social; II - realizar a integração de programas, ações, atividades e projetos dos órgãos e entidades públicas e privadas nas áreas de saúde, planejamento familiar, educação, trabalho, assistência social, previdência social, cultura, desporto e lazer, visando à prevenção da criminalidade e à prevenção de desastres; III - viabilizar ampla participação social na formulação, na implementação e na avaliação das políticas de segurança pública e defesa social. (BRASIL, 2018). Figura 15: SUSP 48 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Para que o município tenha meios de executar polí�cas de prevenção da violência, é fundamental: Em primeiro lugar, realizar um diagnós�co preciso sobre a situação da violência e da criminalidade na cidade, bem como sobre os programas e outras inicia�vas em curso relacionadas ao tema. Uma segunda etapa é a elaboração de estratégias de intervenção, ou seja, a formulação de um plano de ação baseado nos problemas iden�ficados no diagnós�co. A terceira etapa é a execução do plano de ações. A quarta etapa pressupõe o monitoramento do processo e a avaliação do impacto e dos resultados alcançados pelas polí�cas. A publicação “Guia Segurança nos Municípios”, de 2022, do Programa Cidades Sustentáveis e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, sugere que os gestores municipais em segurança formem uma equipe que procure reunir e analisar as informações da cidade, com o obje�vo de elaborar diagnós�cos sobre públicos e locais de maior vulnerabilidade à violência, que permitam mapear a distribuição da insegurança e da desigualdade do município. De acordo com a Lei do SUSP, Estados, Distrito Federal e municípios deverão elaborar e implantar seus planos municipais de segurança para poderem receber recursos da União para a execução de ações. No caso das prefeituras, outra responsabilidade prevista em lei é a formalização de uma Polí�ca Municipal de Segurança Urbana, a ser subme�da à avaliação do Poder Legisla�vo municipal, e a criação do supracitado Conselho Municipal de Segurança Urbana, para viabilizar a par�cipação social na elaboração e no acompanhamento da Polí�ca Municipal de Segurança Urbana. Entre outras atribuições municipais em segurança pública previstas na Lei do SUSP estão: 49 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Confira abaixo os principais passos para a elaboração de um plano municipal de segurança, segundo publicação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Programa Cidades Sustentáveis: Ações de prevenção e resolução pacífica de conflitos, priorizando a redução da letalidade violenta, com ênfase nos grupos vulneráveis; Elaboração e execução de projetos com foco na cultura de paz, na segurança comunitária e na integração das políticas de segurança com as políticas sociais; Estudos e diagnósticos para a formulação e a avaliação de políticas públicas. 50 Os Municípios e a Prevenção da Violência: o papel da Guarda Municipal Figura 16: Organograma de ações para construção de um plano municipal de segurança pública Fonte: FBSP e Programa Cidades Sustentáveis (2022). 2.3 Indicadores de engajamento dos municípios na segurança pública Conheça questões propostas pela publicação “Construção de uma nova narra�va democrá�ca