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Reprodução de Queixadas em Cativeiro

Artigo (revisão crítica e sistemática) sobre reprodução de queixadas (Tayassu pecari) em cativeiro, compila dados sobre biologia, ameaças (caça e perda de habitat) e discute reprodução ex situ como estratégia para conservação e possível reintrodução.

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Carol Bini

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Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.3|e1407| p.01-19 |2023 
1 
 Renan Luiz Albuquerque Vieira, Adriele Nonato Oliveira, Rodrigo José Araújo de 
Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de 
Faria 
___________________________________________________________________________________ 
 
 
 
REPRODUÇÃO DE QUEIXADAS (TAYASSU PECARI) EM 
CATIVEIRO: ESTRATÉGIA DE CONSERVAÇÃO EX SITU PARA 
UMA ESPÉCIE AMEAÇADA 
 
WHITE-LIPPED PECARY (TAYASSU PECARI) REPRODUCTION 
IN CAPTIVITY: EX SITU CONSERVATION STRATEGIES FOR AN 
ENDANGERED SPECIES 
 
REPRODUCCIÓN DE PECARÍES DE LABIOS BLANCOS 
(TAYASSU PECARI) EN CAUTIVIDAD: UNA ESTRATEGIA DE 
CONSERVACIÓN EX SITU PARA UNA ESPECIE AMENAZADA 
 
Renan Luiz Albuquerque Vieira 1 
Adriele Nonato Oliveira2 
Rodrigo José Araújo de Jesus3 
Marilúcia Campos dos Santos4 
Suélen Dias Silva dos Reis5 
Barbra Gabriela Oliveira de Faria6 
 
DOI: 10.54751/revistafoco.v16n3-113 
Recebido em: 24 de Fevereiro de 2023 
Aceito em: 22 de Março de 2023 
 
 
 
RESUMO 
Queixada é um mamífero pertencente à família Tayassuidae. Na natureza, desempenha 
um importante papel na recomposição e manutenção das florestas, por atuar na 
dispersão e predação de sementes e plântulas. Contudo, devido à caça e destruição de 
seu hábitat a espécie encontra-se em declínio ao longo da sua área de ocorrência, 
sendo, portanto, classificada como vulnerável pela União Internacional para 
Conservação da Natureza. Desta forma, medidas que evitem a extinção dessa espécie 
precisam ser estudadas. Portanto, objetivou-se, por meio desta revisão crítica e 
sistemática de literatura, trazer uma compilação de dados para que se possa 
compreender a biologia dos queixadas e, consequentemente, contribuir com 
alternativas para reprodução da espécie em cativeiro, visando a sua conservação. A 
 
1Doutor em Ciência Animal nos Trópicos pela Universidade Federal da Bahia. Salvador - Bahia, Campus Ondina, Avenida 
Adhemar de Barros, 500. E-mail: renan.albuquerque@hotmail.com 
2 Mestra em Recursos Genéticos Vegetais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Cruz das Almas - Bahia, 
Rua Rui Barbosa, 710. E-mail: adrielenonato13@gmail.com 
3 Mestrando em Recursos Genéticos Vegetais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Cruz das 
Almas - Bahia, Rua Rui Barbosa, 710, CEP: 44380-000. E-mail: rodrigo.araujjo55@gmail.com 
4 Doutora em Ciência Animal nos Trópicos pela Universidade Federal da Bahia. Salvador - Bahia, Campus Ondina, 
Avenida Adhemar de Barros, 500. E-mail: marilucampos@gmail.com 
5 Doutora em Ciência Animal nos Trópicos pela Universidade Federal da Bahia. Salvador - Bahia, Campus Ondina, 
Avenida Adhemar de Barros, 500. E-mail: suelendsdr@gmail.com 
6 Doutora em Ciência Animal nos Trópicos pela Universidade Federal da Bahia. Salvador - Bahia, Campus Ondina, 
Avenida Adhemar de Barros, 500. E-mail: barbra_faria@yahoo.com.br 
Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.2|e1407| p.01-19 |2023 
2 
 REPRODUÇÃO DE QUEIXADAS (TAYASSU PECARI) EM CATIVEIRO: 
ESTRATÉGIA DE CONSERVAÇÃO EX SITU PARA UMA ESPÉCIE AMEAÇADA 
____________________________________________________________________________ 
 
 
 
criação sustentável de queixada em cativeiro, além de apresentar-se como estratégia 
de conservação, por aumentar sua população, possibilita sua reintrodução em áreas 
onde ocorreram extinções da espécie, possibilitando de amenizar a pressão de caça 
sobre animais de vida livre, reduzindo, portanto, o declínio populacional desta espécie 
vulnerável à extinção. 
 
Palavras-chave: Animal silvestre; espécie ameaçada; reprodução em cativeiro. 
 
ABSTRACT 
White-lipped peccary is a mammal belonging to the Tayassuidae family. In nature, it 
plays an important role in the restoration and maintenance of forests, by acting in the 
dispersion and predation of seeds and seedlings. However, due to hunting and 
destruction of its habitat, the species is in decline throughout its area of occurrence, and 
is therefore classified as vulnerable by the International Union for Conservation of 
Nature. Thus, measures that prevent the extinction of this species need to be studied. 
Therefore, the objective was, through this critical and systematic review of literature, to 
bring a compilation of data so that one can understand the biology of the White-lipped 
peccary and, consequently, contribute with alternatives for the reproduction of the 
species in captivity, aiming its conservation. The sustainable creation of White-lipped 
peccary in addition to presenting itself as a conservation strategy, by increasing its 
population, allows its reintroduction in areas where species extinctions occurred, in 
addition to easing the hunting pressure on free-living animals, therefore reducing the 
population decline of this species vulnerable to extinction. 
 
Keywords: Captive breeding; endangered species; wild animal. 
 
RESUMEN 
El pecarí de labios blancos es un mamífero perteneciente a la familia Tayassuidae. En 
la naturaleza, juega un papel importante en la recomposición y mantenimiento de los 
bosques, al actuar en la dispersión y depredación de semillas y plántulas. Sin embargo, 
debido a la caza y la destrucción de su hábitat, la especie está en declive en toda su 
área de distribución y, por lo tanto, la Unión Internacional para la Conservación de la 
Naturaleza la clasifica como vulnerable. Por lo tanto, es necesario estudiar medidas para 
evitar la extinción de esta especie. Por lo tanto, el objetivo, a través de esta revisión 
crítica y sistemática de la literatura, es traer una recopilación de datos para que se pueda 
comprender la biología del pecarí de labios blancos y, en consecuencia, contribuir con 
alternativas para la reproducción de la especie en cautiverio, con miras a su 
conservación. La creación sostenible de pecaríes de labios blancos en cautiverio, 
además de presentarse como una estrategia de conservación, al aumentar su población, 
permite su reintroducción en áreas donde la especie se extinguió, lo que permite aliviar 
la presión cinegética sobre los animales en libertad. reduciendo así, el declive 
poblacional de esta especie vulnerable a la extinción. 
 
Palabras clave: Animal salvaje; especie en peligro de extinción; cría en cautividad. 
 
 
 
Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.3|e1407| p.01-19 |2023 
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 Renan Luiz Albuquerque Vieira, Adriele Nonato Oliveira, Rodrigo José Araújo de 
Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de 
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1. Introdução 
O Tayassu pecari é um mamífero artiodáctilo, pertencente à família 
Tayassuidae (AGNARSSON; MAY-COLLADO, 2008), popularmente conhecido 
como queixada, pecari ou porco do mato (SOWLS, 1997). Contudo, esta espécie 
não pertence à família Suidae, na qual estão incluídos o javali, o porco doméstico 
e o porco feral (SILVA, 2006). Algumas características anatômicas, presentes 
nos pecaris, os diferenciam dos porcos, como, por exemplo, a presença da 
glândula de cheiro próxima ao ânus e o estômago dividido em quatro 
compartimentos (SOWLS, 1997). 
Na natureza, o queixada desempenha um importante papel na 
recomposição e manutenção das florestas, por atuar na dispersão e predação 
de sementes e plântulas (PAINTER, 1998). Porém, a espécie se encontra em 
declínio ao longo da sua área de ocorrência, devido à caça e destruição de seu 
hábitat (KEUROGHLIAN et al., 2013), sendo classificada como vulnerável pela 
União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) (KEUROGHLIAN et 
al., 2012). 
Diante da importância da espécie para a manutenção dos ecossistemas, 
é necessário estabelecer práticas que reduzam seu declínio populacional 
(DESBIEZ; KEUROGHLIAN, 2009). Alguns conservacionistas acreditam que a 
criação do queixada, assim como de outras espécies cinegéticas neotropicais 
(SANTOS et al.,2009), poderia representar uma alternativa para reduzir à caça 
de subsistência/comercial dos animais nativos (GARCIA et al., 2005; ROE, 
2008). 
Contudo, a reprodução de queixada em cativeiro não é sempre acessível. 
Sowls (1997) sugere que a baixa fertilidade de machos pode ser responsável 
pelos baixos índices reprodutivos da espécie em ambiente de cativeiro. Neste 
contexto, é preciso obter dados sobre a biologia da espécie, a fim de desenvolver 
uma tecnologia adequada para a sua produção em cativeiro (SOWLS, 1997). 
Um conhecimento aprofundado acerca da biologia dos queixadas poderá 
possibilitar a aplicação de técnicas de reprodução assistida que viabilize o fluxo 
gênico, a partir da troca de material genético de animais de criadouros diversos 
(SILVEIRA, 2007). Técnicas como estas poderão reduzir, portanto, os efeitos 
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ESTRATÉGIA DE CONSERVAÇÃO EX SITU PARA UMA ESPÉCIE AMEAÇADA 
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negativos da endogamia no rebanho, tais como aumento de animais 
homozigotos para genes letais ou recessivos deletérios (FRANKHAM et al., 
2008). E, ainda, a possibilidade de reintrodução de queixada em locais onde 
ocorreu a sua extinção, contribuindo para a conservação in situ da espécie 
(GUIMARÃES et al., 2013). 
Portanto, objetivou-se, por meio desta revisão crítica e sistemática de 
literatura, trazer uma compilação de dados para que se possa compreender a 
biologia reprodutiva dos queixadas e, consequentemente, contribuir com 
alternativas para a reprodução assistida da espécie em cativeiro, visando a sua 
conservação. 
 
2. Material e Métodos 
Para orientar esta revisão crítica da literatura, foram utilizados 
procedimentos de seleção de artigos e revisão bibliográfica baseada em meta-
análises. Para tanto, foram realizadas as seguintes etapas: i) elaboração do 
protocolo de revisão; ii) avaliação da qualidade da metodologia; iii) extração de 
dados e iv) síntese das informações. Foram utilizados 30 artigos publicados em 
periódicos científicos de 1990 a 2020. A busca foi realizada em bases de dados 
como: Scopus Web of Science (WoS, http://www.isiknowledge.com) e Scielo 
(Scielo, http: //www.scielo.org). Foram utilizadas as seguintes palavras-chave: 
White-lipped peccary; conservação; animais selvagens; criação em cativeiro; 
criação em cativeiro; manejo reprodutivo; reprodução assistida. Em seguida, os 
trabalhos encontrados foram lidos e, consequentemente, os trabalhos que 
estavam fora do escopo desta revisão foram descartados. Para avaliar a 
qualidade dos métodos de trabalho, foram considerados o número de repetições, 
os táxons analisados, o esforço amostral, a amplitude temporal e espacial e o 
tamanho da amostra. Os dados foram organizados sistematicamente em tabelas 
para permitir maior potencial de exploração das informações disponíveis nos 
artigos. Para a coleta de dados, foi realizada uma leitura interpretativa dos 
resultados obtidos em cada trabalho. 
 
 
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3. Resultados e Discussão 
3.1 Fatores que Ameaçam a Sobrevivência do Tayassu pecari na Natureza 
Além do queixada, a família Tayassuidae inclui outras duas espécies, o 
caititu (Tayassu tajacu) e o taguá (Catagonus wagneri). Contudo, o queixada é 
o maior dentre os pecaris, podendo chegar a 1,10 m de comprimento e pesar até 
54 kg em cativeiro. Esta espécie costuma viver em grupos que chegam a 200 
indivíduos, necessitando, portanto, de grandes áreas contínuas de mata para a 
sua sobrevivência (PEREIRA-NETO, 2015). Por serem bastante susceptíveis ao 
processo de antropização, ambientes degradados representam uma ameaça 
aos queixadas, o que explica o seu declínio populacional e consequentemente 
extinções locais (Figura 1) (KEUROGHLIAN et al., 2012). Apesar de 
semelhantes, os catetos diferem dos queixadas e do tagúa, no que se refere a 
sua maior tolerância a ambientes degradados e, isso, por sua vez, reflete na 
diferença de status de conservação desta espécie, (DESBIEZ et al., 2012). 
Além dos prejuízos decorrentes do desflorestamento e da consequente 
degradação dos habitats, ao longo dos anos, a espécie vem sofrendo com os 
efeitos da pressão da caça excessiva (DESBIEZ et al., 2012; KEUROGHLIAN et 
al., 2012). Juntos, estes fatores fizeram do queixada uma espécie classificada 
como “vulnerável à extinção” na lista vermelha da União Internacional para 
Conservação da Natureza (IUCN, 2015). No bioma Mata Atlântica, que possui 
apenas 12,5% de floresta nativa, conforme o levantamento SOS Mata Atlântica 
(2013-2014), a espécie foi classificada como “criticamente em perigo”, segundo 
a Avaliação do Risco do queixada no Brasil (2012). 
 
 
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Figura 1. Distribuição geográfica do queixada (Tayassu pecari) (Fonte: Altrichter et al., 2012). 
 
 
De maneira geral, a excessiva exploração dos recursos naturais tem 
ocasionado drásticas modificações físicas e biológicas nos ecossistemas, bem 
como a perda de espécies e alterações climáticas, o que, para diversos autores, 
representa a era do antropocentrismo, a qual é caracterizada por impactos 
globais decorrentes das ações humanas (STEFFEN et al., 2011: VINCE, 2011). 
A degradação dos ecossistemas, a extinção de espécies e a modificação dos 
fenômenos climáticos são exemplos desses impactos (WU, 2013). 
 
3.2 Comportamento Social de T. pecari 
A falta de informações acerca dos hábitos e comportamentos de algumas 
espécies, impõe restrições à capacidade de atender às suas necessidades em 
ambiente de cativeiro (DUBOST, 2001). O ambiente controlado pode ser um 
importante aliado na obtenção de conhecimentos acerca dos padrões 
comportamentais de alguns animais, como é o caso do T. pecari (GARCIA et al., 
2001; YNTERIAN, 2004). Desta forma, estudos relacionados aos aspectos 
comportamentais em animais silvestres em vida livre fornecem subsídios para 
sua criação e reprodução em cativeiro (YNTERIAN, 2004). 
Indivíduos que vivem em grupo precisam, em geral, partilhar uma 
determinada área e espera-se que exista uma sincronia de atividades entre estes 
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 Renan Luiz Albuquerque Vieira, Adriele Nonato Oliveira, Rodrigo José Araújo de 
Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de 
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indivíduos. Em grupos mistos, formados por machos e fêmeas, podem haver 
maiores disputas pela dominância e, por isso, menos coesão entre os indivíduos 
(YNTERIAN, 2004). 
Os queixadas são animais que vivem em grupos estáveis, apresentando 
uma hierarquia de dominância social linear, com relações sociais complexas, 
podendo ser observado o uso contínuo de vocalizações (VIEIRA et al., 2018; 
PEREIRA-NETO 2015). As vocalizações são importantes durante a identificação 
dos indivíduos, para as interações sociais e identificação do status social dos 
indivíduos (SOWLS, 1997). Além disso, queixadas manifestam também 
comportamentos amigáveis e agonísticos. 
O comportamento amigável possui uma importante função na 
manutenção da vida social dos queixadas, entre eles podem ser citados os 
hábitos de esfregamentodas glândulas de cheiro com intuito de facilitar o 
reconhecimento dos membros do grupo e a catação (SOWLS, 1997). Já o 
comportamento agonístico é um tipo de interação mais frequente entre machos 
adultos (HERNANDEZ et al., 1995), sendo o macho dominante o protagonista 
principal na maior parte das vezes em que interações desse tipo acontecem, 
incluindo a ritualização de lutas que ficam limitadas a sinais de ameaça e o 
embate corporal caracterizado pela agressividade (DUBOST, 2001). 
Em cativeiro, quando manejados, os queixadas apresentam 
comportamentos defensivos, como o enfrentamento e o hábito de estalar os 
dentes (PEREIRA-NETO 2015). Portanto, para realizar procedimentos que 
exijam manipulação desses animais, é indicado a utilização de fármacos, para 
facilitar o manuseio do animal, além de reduzir o estresse e os riscos de 
acidentes com a equipe (Figueira et al., 2003). 
 
3.3 Criação de T. pecari em Cativeiro 
A espécie possui um importante papel econômico e cultural para as 
populações que habitam as florestas tropicais e dependem dos recursos naturais 
para a sua subsistência (NOGUEIRA FILHO et al., 2000). Contudo, tal atividade 
pode estar com os dias contados tendo em vista o declínio populacional sofrido 
pela espécie em decorrência de sua sensibilidade à fragmentação ambiental, 
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bem como a pressão exercida pela caça predatória excessiva (KEUROGHLIAN 
et al., 2012). 
Por isso, a criação dessa espécie em cativeiro poderia ser uma solução 
interessante para diminuir a captura de animais na natureza, além de fornecer 
uma fonte alternativa de proteína para a população que habita em áreas de 
fragmentos de mata (GARCIA et al., 2005), tendo em vista que pecaris são 
apreciados por sua carne, sendo esta altamente palatável, com elevado teor de 
ácidos graxos insaturados, dentre eles os ácidos: linoleico, linolênico, oleico, 
palmitoleico, palmítico e araquidônico (FREIRE et al., 2000). Segundo Jardim 
(2003), carnes com tais características são consideradas mais saudáveis, devido 
a ação dos ácidos graxos supracitados na redução dos níveis séricos de 
colesterol dos consumidores. 
Para implementação dessa técnica, no entanto, são necessários 
conhecimentos sobre a biologia da espécie, tais como a sua fisiologia 
reprodutiva, aspectos sanitários, nutricionais e comportamentais (MORATO et 
al., 1998). O conhecimento da biologia dessa espécie se torna um recurso 
essencial para a sua conservação (BANHOS, 2009). Estes animais consomem 
uma grande diversidade de alimentos e são bem adaptados a ração comercial 
fornecida para suínos. Como complementação de sua dieta, uma variedade de 
frutos pode ser ofertada a esses animais, incluindo: goiaba, manga, banana, 
abacate, pitanga, reduzindo assim os altos custos com ração, que, além de 
estimular o hábito de forrageamento, reduz o ócio, que, eventualmente, poderia 
levar a distúrbios comportamentais (MORATO et al., 1998). 
Para o estabelecimento de um sistema de criação, o produtor precisará 
dispor de piquetes com área que varia de 400 a 1.500 m2, cercada com telas de 
alambrados e sustentadas por mourões de madeira (Figueira et al., 2003). Para 
evitar que os animais fujam por baixo da cerca, deve-se construir um baldrame 
de concreto com cerca de 40 cm, tomando proveito de áreas com baixa 
declividade e boa drenagem a fim de se evitar erosões em função da intensa 
movimentação dos animais, hábito característico da espécie. Assim, o produtor 
poderá iniciar sua atividade utilizando um grupo de animais na proporção de 
quatro fêmeas para um macho (FRAGOSO, 1998). Queixadas mantidos em 
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grandes piquetes arborizados, em sistema criação extensivo, tem demonstrado 
vantagens em relação aos demais sistemas, tendo em vista a possibilidade dos 
animais expressarem seu comportamento natural, contribuindo para o bem estar 
(Figueira et al., 2003). 
Em cativeiro, queixadas possuem longa expectativa de vida, quando 
adequadamente manejados. Se forem criados com finalidade econômica, além 
da produção de carne, sua pele também é bastante apreciada no mercado 
internacional para confecção de chapéus, luvas, casacos e artigos de luxo 
(Figueira et al., 2003). 
A criação de animais silvestres, atualmente, é gerenciada pelos Órgãos 
Estaduais de Meio Ambiente (OEMAs), por meio do sistema informatizado 
desenvolvido pelo Ibama disponível em rede, o SisFauna (Sistema Nacional de 
Gestão de Fauna). O controle é necessário para evitar que animais oriundos do 
tráfico sejam comercializados como animais regularizados, ou seja, nascidos em 
cativeiro. A regulamentação para a criação comercial de espécies silvestres 
nativas está definida na Portaria n° 118, de 15 de outubro de 1997, que normatiza 
a criação para fins econômicos e industriais. 
De acordo com OJASTI (2000), a criação de fauna é uma prática de vital 
importância, uma vez que o manejo sustentado de populações selvagens 
poderia ser uma alternativa para a exploração adequada da espécie. No entanto, 
o estabelecimento de técnicas e metodologias próprias para o manejo devem ser 
testadas, bem como os estudos sobre a biologia dos queixadas devem ser 
intensificados. 
 
3.4 Aspectos Reprodutivos do T. pecari 
Em cativeiro, experiências demonstraram que os queixadas machos 
iniciam sua vida reprodutiva a partir de um ano de idade, já as fêmeas entre os 
10 a 12 meses, com gestação em torno de 158 dias, podendo reproduzir-se 
durante todo o ano (NOGUEIRA-FILHO et al., 1997). O diagnóstico quanto à 
prenhez das fêmeas poderá ser efetuado por meio da verificação de sinais 
externos, tais como: aumento do tamanho do ventre e do úbere, bem como o 
surgimento de uma mancha preta na região da glândula de cheiro próxima a 
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região anal, que nos demais animais não gestantes apresenta-se com coloração 
amarelada (FIGUEIRA et al., 2003). Geralmente nascem de um a três filhotes 
por parto, pesando em média 700g. Imediatamente após o nascimento passam 
a seguir a mãe, recebendo cuidado e proteção (FRAGOSO, 1998). Com 30 dias 
após o parto, as fêmeas já podem exibir um novo cio. Porém, vale ressaltar que 
para atingir tais índices reprodutivos é necessário que os animais sejam criados 
em condições ambientais mais próximas possíveis do seu ambiente natural 
(NOGUEIRA-FILHO et al., 1999). 
Em cativeiro, o cruzamento entre poucos indivíduos, por sua vez, favorece 
o aumento da endogamia no rebanho (SILVEIRA, 2007). Tal evento tende a 
comprometer a sobrevivência e reprodução desses animais em decorrência do 
aumento de animais homozigóticos para genes letais ou recessivos deletérios, 
além de levar a redução da variabilidade genética que, consequentemente, 
levaria a população à depressão endogâmica (FRANKHAM et al., 2008). 
Neste caso, a reprodução assistida possibilitaria um fluxo gênico a partir 
do transporte de sêmen de animais de outros criadouros, aumentando a 
variabilidade genética dentre essas populações (FRANKHAM et al., 2008). Por 
isso, estudos que abordem a fisiologia reprodutiva dos machos são importantes, 
pois geram conhecimentonecessário para a aplicação de biotécnicas que 
possibilitem maior disseminação do material genético nesta espécie (VIEIRA et 
al., 2021; SILVEIRA, 2007). 
De maneira geral, sabe-se que a capacidade reprodutiva dos machos está 
além das concentrações adequadas de hormônios sexuais que promovam libido, 
mas também diretamente relacionada ao correto desenvolvimento dos órgãos 
reprodutivos e a competência dos testículos em produzir um grande número de 
espermatozoides viáveis (GIER; MARION, 1970). 
As características testiculares, tais como as mensurações biométricas 
quanto ao volume e a forma, fazem parte do processo de avaliação e seleção de 
reprodutores (BAILEY et al., 1998; UNANIAN et al., 2000). Os queixadas 
possuem testículos com formato ovalado, achatados látero-lateralmente, 
situados na região pélvica, inclinados dorso-caudalmente e possuem posição 
intermediária (entre a perineal e a inguinal), ou seja, entre a região perineal e 
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Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de 
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iguinal, posicionados mais ventralmente quando comparados aos suínos 
(VIEIRA, 2018). Os testículos de queixadas apresentam comprimento de 5,8 ± 
0,8 cm e 6,3 ± 0,8 cm; largura de 4,4 ± 0,9 cm e 4,4 ± 0,8 cm; altura de 4,5 ± 0,8 
cm e 4,6 ± 0,7 cm, respectivamente para o direito e esquerdo, e largura escrotal 
total de 7,7 ± 1,3 cm (VIEIRA, 2018). A inclusão de tais características no 
processo de seleção de reprodutores se deve principalmente em decorrência de 
sua correlação positiva com a produção espermática diária e consequentemente 
a fertilidade dos machos (REGE et al., 2000). 
Em programas de seleção genética, o perímetro escrotal (PE) tem sido o 
critério mais estudado e utilizado como medida indicativa de características 
morfofisiológicas das gônadas e também das características quantitativas e 
qualitativas do sêmen. Assim, esta mensuração constitui um importante 
indicador da precocidade sexual em animais jovens (ALBUQUERQUE, 2004; 
SILVA et al., 2002). Baixo perímetro escrotal, na maioria das vezes, está 
associado a testículos pequenos, o que tem sido relacionado à infertilidade 
(VERAMACHANENI et al., 1986). 
Em estudo realizado por Vieira et al. (2018) observou-se que os machos 
mais dominantes na hierarquia apresentam massa corporal, testículos e 
epidídimos com dimensões maiores do que os animais subordinados. As 
maiores massas corporais, em conjunto com maior volume testicular, bem como 
maiores comprimentos dos testículos e epidídimos, pode propiciar o 
desempenho reprodutivo dos machos dominantes de grupos de queixadas. A 
seleção de animais com tais características, portanto, poderá favorecer um 
sistema de criação de queixadas em cativeiro, por meio da otimização do manejo 
reprodutivo, contribuindo para a sua produção e conservação. 
A importância do desenvolvimento de métodos de criação de animais 
silvestres em cativeiro aumenta ainda mais, à medida que o número de espécies 
ameaçadas de extinção cresce mundialmente (PUKAZHENTHI; WILDT, 2004). 
Todavia, nem sempre animais de vida livre conseguem se reproduzir em 
ambiente restrito e alterado, como é o caso do cativeiro, problemas estes que 
podem estar associados à falta de conhecimento sobre sua biologia reprodutiva, 
tornando a reprodução em cativeiro limitada (MATTSON et al., 2007). 
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Ainda hoje um dos maiores entraves para se alcançar o sucesso 
reprodutivo de animais selvagens em cativeiro é o desconhecimento de 
informações essenciais sobre a dada espécie, incluindo os princípios básicos 
sobre a sua biologia (SWANSON, 2006). Técnicas de reprodução assistida, 
como a eletroejaculação (EJ), inseminação artificial (IA), produção de embriões 
in vitro (PIV), maturação in vitro (MIV) fertilização in vitro (FIV), transferência de 
embriões (TE) e criopreservação de gametas são técnicas essenciais que 
proporcionam maximização do potencial reprodutivo do doador, assim como a 
preservação da biodiversidade (GOBELLO; CORRADA, 2003). 
Ao avaliarem a eficiência de protocolos de anestesia (xilazina/cetamina e 
acepromazina/cetamina) e de eletroejaculação, crescentes: (2 a 4V; 5 a12V) e 
fixo (12V) para coleta de sêmen em queixada, Vieira et al. (2021) observaram 
que o uso da associação acepromazina/cetamina promove melhor grau de 
analgesia, qualidade e recuperação da anestesia, e melhores indicadores 
comportamentais de bem-estar durante o período anestésico e pós-anestésico 
em comparação ao protocolo xilazina/cetamina visando a eletroejaculação para 
coleta de sêmen de queixadas. Bem como, o protocolo de eletroejaculação 
crescente (5 – 12V) apresentou melhores resultados quando comparado aos 
demais protocolos. 
Durante as avaliações dos protocolos de eletroejaculação, os autores 
supracitados, descreveram que, cinco queixadas apresentaram ereção quando 
submetidos ao protocolo xilazina/cetamina. Destes cinco queixadas, contudo, 
foram obtidos ejaculados apenas de dois animais (volume: 0,2 mL e 
concentração espermática: 459 x 106 espermatozoides/mL e volume: 0,4 mL e 
concentração espermática: 410,0 x 106 espermatozoides/mL) com a adoção de 
estímulos entre 5 a 12V (com 10 estímulos em cada voltagem). Em contraste, 10 
dos 12 queixadas apresentaram ereção quando submetidos ao protocolo 
acepromazina/cetamina. Destes 10 animais, contudo, foram obtidos ejaculados 
de quatro queixadas. Três animais (volume: 0,4 mL e concentração espermática: 
149 x 106 espermatozoides/mL; volume: 0,3 mL e concentração espermática: 
132 x 106 espermatozoides/mL; volume: 1,0 mL e concentração espermática: 
365,0 x 106/mL) com a adoção de estímulos entre 5 a 12V (com 10 estímulos 
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em cada voltagem) e de um queixada (volume: 0,3 mL e concentração 
espermática: 760,0 x 106 espermatozoides/mL) com a adoção de estímulos de 
12V fixos (45 estímulos nesta única voltagem). Nenhum dos queixadas ejaculou 
com estímulos entre 2 a 4V (com 10 estímulos em cada voltagem) para ambos 
os protocolos anestésicos. 
Dos 12 queixadas, oito apresentaram ereção peniana mediante a 
aplicação de estímulos elétricos entre 5 a 6V no período de 2±40 minutos para 
ambos os protocolos anestésicos. Sendo que destes oito animais cinco iniciaram 
a ejaculação mediante o estímulo entre 7 a 9V no período de 5±70 minutos. Para 
ambos os protocolos anestésicos, o protocolo de estímulos crescentes de 5 a 
12V, com 10 estímulos em cada voltagem, resultou em ereção peniana e na 
obtenção de ejaculado em maior número de animais em relação aos demais 
protocolos de eletroejaculação. Por sua vez, o uso do protocolo crescente 2V a 
4V não provocou sequer ereção em nenhum dos 12 queixadas. Este baixo 
sucesso poderia ser explicado por uma estimulação insuficiente dos nervos 
simpáticos lombares. Dos ejaculados coletados dos queixadas, obteve-se 
volumes 0,2 a 1 mL (Vieira et al., 2021). 
Em ensaio realizado por Moreira et al., (2005) na tentativa de coletar 
sêmen de queixada por meio de eletroejaculação, foram utilizados dois 
queixadas machos adultos, com peso médio de 41,0±5 kg. Sendo realizada 
apenasuma única tentativa de coleta por animal, em um protocolo de estímulos 
que consistiu em 30 estímulos elétricos, sendo 10 estímulos de dois volts, 
seguidos por 10 estímulos de três volts e por fim 10 estímulos de quatro volts. 
Com este protocolo os autores obtiveram ejaculado de apenas um animal. O 
volume ejaculado na primeira fração foi de 4,5mL com coloração branca e 
consistência leitosa, a segunda fração, por sua vez, apresentou aspecto seroso 
e volume de 27mL. Os espermatozoides apresentaram-se viáveis, com vigor e 
motilidade 3 e 70% respectivamente. 
O uso da inseminação artificial oferece uma série de vantagens aos 
animais silvestres que apresentam baixos índices reprodutivos em decorrência 
da dificuldade de acasalar por incompatibilidade clínica ou até mesmo 
comportamental. Além disso, possibilita a disseminação de material genético 
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entre animais de diferentes criadouros, contribuindo para o aumento da 
variabilidade genética dentro de uma população, expandindo os grupos de genes 
por meio do cruzamento entre indivíduos selecionados, e, consequentemente, 
reduzindo os efeitos da endogamia (FRANKHAM et al., 2008). Além de permitir 
o transporte de sêmen entre diferentes regiões, reduzindo os riscos e custos com 
aquisição e transporte de reprodutores (HOWARD et al., 1992). 
Se tratando de animais selvagens, para aumentar a eficiência da 
inseminação artificial, é primordial estudos sobre os métodos de coleta de 
sêmen, avaliação e posterior preservação deste, o que contribui também para a 
redução do número de reprodutores em um plantel, além de minimizar a 
disseminação de doenças sexualmente transmissíveis (BAYLEI et al., 2000). 
Entretanto, técnicas de reprodução assistida, que são rotineiras para os animais 
domésticos, nem sempre são adaptáveis aos animais silvestres. Estas se 
diferem tanto na sua morfologia e anatomia reprodutiva quanto nos mecanismos 
fisiológicas que regulam os processos reprodutivos, limitando assim a sua 
aplicabilidade para a reprodução assistida em animais selvagens 
(PUKAZHENTHI; WILDT, 2004). 
Nas últimas décadas tem-se constatado a maior extinção em massa de 
espécies de todos os tempos (LEAKEY; LEWIN, 1996). A genética da 
conservação utiliza ferramentas biotecnológicas em prol da preservação da 
biodiversidade, podendo esta ser aplicada à biologia da conservação, por meio 
da elaboração de estratégias de manejo reprodutivo de espécies em cativeiro 
(FRANKHAM et al., 2008). Para animais em cativeiro a IA apresenta-se como 
uma técnica valiosa, porém, restrita, devido ao pouco conhecimento a respeito 
da fisiologia reprodutiva, bem como as peculiaridades para cada uma das 
espécies de vida livre (PAVAN et al., 1986). 
 
4. Considerações Finais 
A criação sustentável de queixadas em cativeiro, além de se mostrar uma 
prática rentável, apresenta-se como estratégia de conservação, por aumentar 
sua população, possibilitando a reintrodução em áreas onde ocorreram 
extinções da espécie, além de amenizar a pressão de caça em animais de vida 
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livre, reduzindo, portanto, o declínio populacional desta espécie vulnerável à 
extinção. 
 
Agradecimentos 
 
Os autores são gratos ao apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal 
de Nível Superior - Brasil (CAPES), por meio da bolsa de Renan Luiz 
Albuquerque Vieira, número do processo 88882.453697/2019-01. 
 
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