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Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.3|e1407| p.01-19 |2023 1 Renan Luiz Albuquerque Vieira, Adriele Nonato Oliveira, Rodrigo José Araújo de Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de Faria ___________________________________________________________________________________ REPRODUÇÃO DE QUEIXADAS (TAYASSU PECARI) EM CATIVEIRO: ESTRATÉGIA DE CONSERVAÇÃO EX SITU PARA UMA ESPÉCIE AMEAÇADA WHITE-LIPPED PECARY (TAYASSU PECARI) REPRODUCTION IN CAPTIVITY: EX SITU CONSERVATION STRATEGIES FOR AN ENDANGERED SPECIES REPRODUCCIÓN DE PECARÍES DE LABIOS BLANCOS (TAYASSU PECARI) EN CAUTIVIDAD: UNA ESTRATEGIA DE CONSERVACIÓN EX SITU PARA UNA ESPECIE AMENAZADA Renan Luiz Albuquerque Vieira 1 Adriele Nonato Oliveira2 Rodrigo José Araújo de Jesus3 Marilúcia Campos dos Santos4 Suélen Dias Silva dos Reis5 Barbra Gabriela Oliveira de Faria6 DOI: 10.54751/revistafoco.v16n3-113 Recebido em: 24 de Fevereiro de 2023 Aceito em: 22 de Março de 2023 RESUMO Queixada é um mamífero pertencente à família Tayassuidae. Na natureza, desempenha um importante papel na recomposição e manutenção das florestas, por atuar na dispersão e predação de sementes e plântulas. Contudo, devido à caça e destruição de seu hábitat a espécie encontra-se em declínio ao longo da sua área de ocorrência, sendo, portanto, classificada como vulnerável pela União Internacional para Conservação da Natureza. Desta forma, medidas que evitem a extinção dessa espécie precisam ser estudadas. Portanto, objetivou-se, por meio desta revisão crítica e sistemática de literatura, trazer uma compilação de dados para que se possa compreender a biologia dos queixadas e, consequentemente, contribuir com alternativas para reprodução da espécie em cativeiro, visando a sua conservação. A 1Doutor em Ciência Animal nos Trópicos pela Universidade Federal da Bahia. Salvador - Bahia, Campus Ondina, Avenida Adhemar de Barros, 500. E-mail: renan.albuquerque@hotmail.com 2 Mestra em Recursos Genéticos Vegetais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Cruz das Almas - Bahia, Rua Rui Barbosa, 710. E-mail: adrielenonato13@gmail.com 3 Mestrando em Recursos Genéticos Vegetais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Cruz das Almas - Bahia, Rua Rui Barbosa, 710, CEP: 44380-000. E-mail: rodrigo.araujjo55@gmail.com 4 Doutora em Ciência Animal nos Trópicos pela Universidade Federal da Bahia. Salvador - Bahia, Campus Ondina, Avenida Adhemar de Barros, 500. E-mail: marilucampos@gmail.com 5 Doutora em Ciência Animal nos Trópicos pela Universidade Federal da Bahia. Salvador - Bahia, Campus Ondina, Avenida Adhemar de Barros, 500. E-mail: suelendsdr@gmail.com 6 Doutora em Ciência Animal nos Trópicos pela Universidade Federal da Bahia. Salvador - Bahia, Campus Ondina, Avenida Adhemar de Barros, 500. E-mail: barbra_faria@yahoo.com.br Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.2|e1407| p.01-19 |2023 2 REPRODUÇÃO DE QUEIXADAS (TAYASSU PECARI) EM CATIVEIRO: ESTRATÉGIA DE CONSERVAÇÃO EX SITU PARA UMA ESPÉCIE AMEAÇADA ____________________________________________________________________________ criação sustentável de queixada em cativeiro, além de apresentar-se como estratégia de conservação, por aumentar sua população, possibilita sua reintrodução em áreas onde ocorreram extinções da espécie, possibilitando de amenizar a pressão de caça sobre animais de vida livre, reduzindo, portanto, o declínio populacional desta espécie vulnerável à extinção. Palavras-chave: Animal silvestre; espécie ameaçada; reprodução em cativeiro. ABSTRACT White-lipped peccary is a mammal belonging to the Tayassuidae family. In nature, it plays an important role in the restoration and maintenance of forests, by acting in the dispersion and predation of seeds and seedlings. However, due to hunting and destruction of its habitat, the species is in decline throughout its area of occurrence, and is therefore classified as vulnerable by the International Union for Conservation of Nature. Thus, measures that prevent the extinction of this species need to be studied. Therefore, the objective was, through this critical and systematic review of literature, to bring a compilation of data so that one can understand the biology of the White-lipped peccary and, consequently, contribute with alternatives for the reproduction of the species in captivity, aiming its conservation. The sustainable creation of White-lipped peccary in addition to presenting itself as a conservation strategy, by increasing its population, allows its reintroduction in areas where species extinctions occurred, in addition to easing the hunting pressure on free-living animals, therefore reducing the population decline of this species vulnerable to extinction. Keywords: Captive breeding; endangered species; wild animal. RESUMEN El pecarí de labios blancos es un mamífero perteneciente a la familia Tayassuidae. En la naturaleza, juega un papel importante en la recomposición y mantenimiento de los bosques, al actuar en la dispersión y depredación de semillas y plántulas. Sin embargo, debido a la caza y la destrucción de su hábitat, la especie está en declive en toda su área de distribución y, por lo tanto, la Unión Internacional para la Conservación de la Naturaleza la clasifica como vulnerable. Por lo tanto, es necesario estudiar medidas para evitar la extinción de esta especie. Por lo tanto, el objetivo, a través de esta revisión crítica y sistemática de la literatura, es traer una recopilación de datos para que se pueda comprender la biología del pecarí de labios blancos y, en consecuencia, contribuir con alternativas para la reproducción de la especie en cautiverio, con miras a su conservación. La creación sostenible de pecaríes de labios blancos en cautiverio, además de presentarse como una estrategia de conservación, al aumentar su población, permite su reintroducción en áreas donde la especie se extinguió, lo que permite aliviar la presión cinegética sobre los animales en libertad. reduciendo así, el declive poblacional de esta especie vulnerable a la extinción. Palabras clave: Animal salvaje; especie en peligro de extinción; cría en cautividad. Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.3|e1407| p.01-19 |2023 3 Renan Luiz Albuquerque Vieira, Adriele Nonato Oliveira, Rodrigo José Araújo de Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de Faria ___________________________________________________________________________________ 1. Introdução O Tayassu pecari é um mamífero artiodáctilo, pertencente à família Tayassuidae (AGNARSSON; MAY-COLLADO, 2008), popularmente conhecido como queixada, pecari ou porco do mato (SOWLS, 1997). Contudo, esta espécie não pertence à família Suidae, na qual estão incluídos o javali, o porco doméstico e o porco feral (SILVA, 2006). Algumas características anatômicas, presentes nos pecaris, os diferenciam dos porcos, como, por exemplo, a presença da glândula de cheiro próxima ao ânus e o estômago dividido em quatro compartimentos (SOWLS, 1997). Na natureza, o queixada desempenha um importante papel na recomposição e manutenção das florestas, por atuar na dispersão e predação de sementes e plântulas (PAINTER, 1998). Porém, a espécie se encontra em declínio ao longo da sua área de ocorrência, devido à caça e destruição de seu hábitat (KEUROGHLIAN et al., 2013), sendo classificada como vulnerável pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) (KEUROGHLIAN et al., 2012). Diante da importância da espécie para a manutenção dos ecossistemas, é necessário estabelecer práticas que reduzam seu declínio populacional (DESBIEZ; KEUROGHLIAN, 2009). Alguns conservacionistas acreditam que a criação do queixada, assim como de outras espécies cinegéticas neotropicais (SANTOS et al.,2009), poderia representar uma alternativa para reduzir à caça de subsistência/comercial dos animais nativos (GARCIA et al., 2005; ROE, 2008). Contudo, a reprodução de queixada em cativeiro não é sempre acessível. Sowls (1997) sugere que a baixa fertilidade de machos pode ser responsável pelos baixos índices reprodutivos da espécie em ambiente de cativeiro. Neste contexto, é preciso obter dados sobre a biologia da espécie, a fim de desenvolver uma tecnologia adequada para a sua produção em cativeiro (SOWLS, 1997). Um conhecimento aprofundado acerca da biologia dos queixadas poderá possibilitar a aplicação de técnicas de reprodução assistida que viabilize o fluxo gênico, a partir da troca de material genético de animais de criadouros diversos (SILVEIRA, 2007). Técnicas como estas poderão reduzir, portanto, os efeitos Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.2|e1407| p.01-19 |2023 4 REPRODUÇÃO DE QUEIXADAS (TAYASSU PECARI) EM CATIVEIRO: ESTRATÉGIA DE CONSERVAÇÃO EX SITU PARA UMA ESPÉCIE AMEAÇADA ____________________________________________________________________________ negativos da endogamia no rebanho, tais como aumento de animais homozigotos para genes letais ou recessivos deletérios (FRANKHAM et al., 2008). E, ainda, a possibilidade de reintrodução de queixada em locais onde ocorreu a sua extinção, contribuindo para a conservação in situ da espécie (GUIMARÃES et al., 2013). Portanto, objetivou-se, por meio desta revisão crítica e sistemática de literatura, trazer uma compilação de dados para que se possa compreender a biologia reprodutiva dos queixadas e, consequentemente, contribuir com alternativas para a reprodução assistida da espécie em cativeiro, visando a sua conservação. 2. Material e Métodos Para orientar esta revisão crítica da literatura, foram utilizados procedimentos de seleção de artigos e revisão bibliográfica baseada em meta- análises. Para tanto, foram realizadas as seguintes etapas: i) elaboração do protocolo de revisão; ii) avaliação da qualidade da metodologia; iii) extração de dados e iv) síntese das informações. Foram utilizados 30 artigos publicados em periódicos científicos de 1990 a 2020. A busca foi realizada em bases de dados como: Scopus Web of Science (WoS, http://www.isiknowledge.com) e Scielo (Scielo, http: //www.scielo.org). Foram utilizadas as seguintes palavras-chave: White-lipped peccary; conservação; animais selvagens; criação em cativeiro; criação em cativeiro; manejo reprodutivo; reprodução assistida. Em seguida, os trabalhos encontrados foram lidos e, consequentemente, os trabalhos que estavam fora do escopo desta revisão foram descartados. Para avaliar a qualidade dos métodos de trabalho, foram considerados o número de repetições, os táxons analisados, o esforço amostral, a amplitude temporal e espacial e o tamanho da amostra. Os dados foram organizados sistematicamente em tabelas para permitir maior potencial de exploração das informações disponíveis nos artigos. Para a coleta de dados, foi realizada uma leitura interpretativa dos resultados obtidos em cada trabalho. Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.3|e1407| p.01-19 |2023 5 Renan Luiz Albuquerque Vieira, Adriele Nonato Oliveira, Rodrigo José Araújo de Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de Faria ___________________________________________________________________________________ 3. Resultados e Discussão 3.1 Fatores que Ameaçam a Sobrevivência do Tayassu pecari na Natureza Além do queixada, a família Tayassuidae inclui outras duas espécies, o caititu (Tayassu tajacu) e o taguá (Catagonus wagneri). Contudo, o queixada é o maior dentre os pecaris, podendo chegar a 1,10 m de comprimento e pesar até 54 kg em cativeiro. Esta espécie costuma viver em grupos que chegam a 200 indivíduos, necessitando, portanto, de grandes áreas contínuas de mata para a sua sobrevivência (PEREIRA-NETO, 2015). Por serem bastante susceptíveis ao processo de antropização, ambientes degradados representam uma ameaça aos queixadas, o que explica o seu declínio populacional e consequentemente extinções locais (Figura 1) (KEUROGHLIAN et al., 2012). Apesar de semelhantes, os catetos diferem dos queixadas e do tagúa, no que se refere a sua maior tolerância a ambientes degradados e, isso, por sua vez, reflete na diferença de status de conservação desta espécie, (DESBIEZ et al., 2012). Além dos prejuízos decorrentes do desflorestamento e da consequente degradação dos habitats, ao longo dos anos, a espécie vem sofrendo com os efeitos da pressão da caça excessiva (DESBIEZ et al., 2012; KEUROGHLIAN et al., 2012). Juntos, estes fatores fizeram do queixada uma espécie classificada como “vulnerável à extinção” na lista vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, 2015). No bioma Mata Atlântica, que possui apenas 12,5% de floresta nativa, conforme o levantamento SOS Mata Atlântica (2013-2014), a espécie foi classificada como “criticamente em perigo”, segundo a Avaliação do Risco do queixada no Brasil (2012). Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.2|e1407| p.01-19 |2023 6 REPRODUÇÃO DE QUEIXADAS (TAYASSU PECARI) EM CATIVEIRO: ESTRATÉGIA DE CONSERVAÇÃO EX SITU PARA UMA ESPÉCIE AMEAÇADA ____________________________________________________________________________ Figura 1. Distribuição geográfica do queixada (Tayassu pecari) (Fonte: Altrichter et al., 2012). De maneira geral, a excessiva exploração dos recursos naturais tem ocasionado drásticas modificações físicas e biológicas nos ecossistemas, bem como a perda de espécies e alterações climáticas, o que, para diversos autores, representa a era do antropocentrismo, a qual é caracterizada por impactos globais decorrentes das ações humanas (STEFFEN et al., 2011: VINCE, 2011). A degradação dos ecossistemas, a extinção de espécies e a modificação dos fenômenos climáticos são exemplos desses impactos (WU, 2013). 3.2 Comportamento Social de T. pecari A falta de informações acerca dos hábitos e comportamentos de algumas espécies, impõe restrições à capacidade de atender às suas necessidades em ambiente de cativeiro (DUBOST, 2001). O ambiente controlado pode ser um importante aliado na obtenção de conhecimentos acerca dos padrões comportamentais de alguns animais, como é o caso do T. pecari (GARCIA et al., 2001; YNTERIAN, 2004). Desta forma, estudos relacionados aos aspectos comportamentais em animais silvestres em vida livre fornecem subsídios para sua criação e reprodução em cativeiro (YNTERIAN, 2004). Indivíduos que vivem em grupo precisam, em geral, partilhar uma determinada área e espera-se que exista uma sincronia de atividades entre estes Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.3|e1407| p.01-19 |2023 7 Renan Luiz Albuquerque Vieira, Adriele Nonato Oliveira, Rodrigo José Araújo de Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de Faria ___________________________________________________________________________________ indivíduos. Em grupos mistos, formados por machos e fêmeas, podem haver maiores disputas pela dominância e, por isso, menos coesão entre os indivíduos (YNTERIAN, 2004). Os queixadas são animais que vivem em grupos estáveis, apresentando uma hierarquia de dominância social linear, com relações sociais complexas, podendo ser observado o uso contínuo de vocalizações (VIEIRA et al., 2018; PEREIRA-NETO 2015). As vocalizações são importantes durante a identificação dos indivíduos, para as interações sociais e identificação do status social dos indivíduos (SOWLS, 1997). Além disso, queixadas manifestam também comportamentos amigáveis e agonísticos. O comportamento amigável possui uma importante função na manutenção da vida social dos queixadas, entre eles podem ser citados os hábitos de esfregamentodas glândulas de cheiro com intuito de facilitar o reconhecimento dos membros do grupo e a catação (SOWLS, 1997). Já o comportamento agonístico é um tipo de interação mais frequente entre machos adultos (HERNANDEZ et al., 1995), sendo o macho dominante o protagonista principal na maior parte das vezes em que interações desse tipo acontecem, incluindo a ritualização de lutas que ficam limitadas a sinais de ameaça e o embate corporal caracterizado pela agressividade (DUBOST, 2001). Em cativeiro, quando manejados, os queixadas apresentam comportamentos defensivos, como o enfrentamento e o hábito de estalar os dentes (PEREIRA-NETO 2015). Portanto, para realizar procedimentos que exijam manipulação desses animais, é indicado a utilização de fármacos, para facilitar o manuseio do animal, além de reduzir o estresse e os riscos de acidentes com a equipe (Figueira et al., 2003). 3.3 Criação de T. pecari em Cativeiro A espécie possui um importante papel econômico e cultural para as populações que habitam as florestas tropicais e dependem dos recursos naturais para a sua subsistência (NOGUEIRA FILHO et al., 2000). Contudo, tal atividade pode estar com os dias contados tendo em vista o declínio populacional sofrido pela espécie em decorrência de sua sensibilidade à fragmentação ambiental, Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.2|e1407| p.01-19 |2023 8 REPRODUÇÃO DE QUEIXADAS (TAYASSU PECARI) EM CATIVEIRO: ESTRATÉGIA DE CONSERVAÇÃO EX SITU PARA UMA ESPÉCIE AMEAÇADA ____________________________________________________________________________ bem como a pressão exercida pela caça predatória excessiva (KEUROGHLIAN et al., 2012). Por isso, a criação dessa espécie em cativeiro poderia ser uma solução interessante para diminuir a captura de animais na natureza, além de fornecer uma fonte alternativa de proteína para a população que habita em áreas de fragmentos de mata (GARCIA et al., 2005), tendo em vista que pecaris são apreciados por sua carne, sendo esta altamente palatável, com elevado teor de ácidos graxos insaturados, dentre eles os ácidos: linoleico, linolênico, oleico, palmitoleico, palmítico e araquidônico (FREIRE et al., 2000). Segundo Jardim (2003), carnes com tais características são consideradas mais saudáveis, devido a ação dos ácidos graxos supracitados na redução dos níveis séricos de colesterol dos consumidores. Para implementação dessa técnica, no entanto, são necessários conhecimentos sobre a biologia da espécie, tais como a sua fisiologia reprodutiva, aspectos sanitários, nutricionais e comportamentais (MORATO et al., 1998). O conhecimento da biologia dessa espécie se torna um recurso essencial para a sua conservação (BANHOS, 2009). Estes animais consomem uma grande diversidade de alimentos e são bem adaptados a ração comercial fornecida para suínos. Como complementação de sua dieta, uma variedade de frutos pode ser ofertada a esses animais, incluindo: goiaba, manga, banana, abacate, pitanga, reduzindo assim os altos custos com ração, que, além de estimular o hábito de forrageamento, reduz o ócio, que, eventualmente, poderia levar a distúrbios comportamentais (MORATO et al., 1998). Para o estabelecimento de um sistema de criação, o produtor precisará dispor de piquetes com área que varia de 400 a 1.500 m2, cercada com telas de alambrados e sustentadas por mourões de madeira (Figueira et al., 2003). Para evitar que os animais fujam por baixo da cerca, deve-se construir um baldrame de concreto com cerca de 40 cm, tomando proveito de áreas com baixa declividade e boa drenagem a fim de se evitar erosões em função da intensa movimentação dos animais, hábito característico da espécie. Assim, o produtor poderá iniciar sua atividade utilizando um grupo de animais na proporção de quatro fêmeas para um macho (FRAGOSO, 1998). Queixadas mantidos em Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.3|e1407| p.01-19 |2023 9 Renan Luiz Albuquerque Vieira, Adriele Nonato Oliveira, Rodrigo José Araújo de Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de Faria ___________________________________________________________________________________ grandes piquetes arborizados, em sistema criação extensivo, tem demonstrado vantagens em relação aos demais sistemas, tendo em vista a possibilidade dos animais expressarem seu comportamento natural, contribuindo para o bem estar (Figueira et al., 2003). Em cativeiro, queixadas possuem longa expectativa de vida, quando adequadamente manejados. Se forem criados com finalidade econômica, além da produção de carne, sua pele também é bastante apreciada no mercado internacional para confecção de chapéus, luvas, casacos e artigos de luxo (Figueira et al., 2003). A criação de animais silvestres, atualmente, é gerenciada pelos Órgãos Estaduais de Meio Ambiente (OEMAs), por meio do sistema informatizado desenvolvido pelo Ibama disponível em rede, o SisFauna (Sistema Nacional de Gestão de Fauna). O controle é necessário para evitar que animais oriundos do tráfico sejam comercializados como animais regularizados, ou seja, nascidos em cativeiro. A regulamentação para a criação comercial de espécies silvestres nativas está definida na Portaria n° 118, de 15 de outubro de 1997, que normatiza a criação para fins econômicos e industriais. De acordo com OJASTI (2000), a criação de fauna é uma prática de vital importância, uma vez que o manejo sustentado de populações selvagens poderia ser uma alternativa para a exploração adequada da espécie. No entanto, o estabelecimento de técnicas e metodologias próprias para o manejo devem ser testadas, bem como os estudos sobre a biologia dos queixadas devem ser intensificados. 3.4 Aspectos Reprodutivos do T. pecari Em cativeiro, experiências demonstraram que os queixadas machos iniciam sua vida reprodutiva a partir de um ano de idade, já as fêmeas entre os 10 a 12 meses, com gestação em torno de 158 dias, podendo reproduzir-se durante todo o ano (NOGUEIRA-FILHO et al., 1997). O diagnóstico quanto à prenhez das fêmeas poderá ser efetuado por meio da verificação de sinais externos, tais como: aumento do tamanho do ventre e do úbere, bem como o surgimento de uma mancha preta na região da glândula de cheiro próxima a Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.2|e1407| p.01-19 |2023 10 REPRODUÇÃO DE QUEIXADAS (TAYASSU PECARI) EM CATIVEIRO: ESTRATÉGIA DE CONSERVAÇÃO EX SITU PARA UMA ESPÉCIE AMEAÇADA ____________________________________________________________________________ região anal, que nos demais animais não gestantes apresenta-se com coloração amarelada (FIGUEIRA et al., 2003). Geralmente nascem de um a três filhotes por parto, pesando em média 700g. Imediatamente após o nascimento passam a seguir a mãe, recebendo cuidado e proteção (FRAGOSO, 1998). Com 30 dias após o parto, as fêmeas já podem exibir um novo cio. Porém, vale ressaltar que para atingir tais índices reprodutivos é necessário que os animais sejam criados em condições ambientais mais próximas possíveis do seu ambiente natural (NOGUEIRA-FILHO et al., 1999). Em cativeiro, o cruzamento entre poucos indivíduos, por sua vez, favorece o aumento da endogamia no rebanho (SILVEIRA, 2007). Tal evento tende a comprometer a sobrevivência e reprodução desses animais em decorrência do aumento de animais homozigóticos para genes letais ou recessivos deletérios, além de levar a redução da variabilidade genética que, consequentemente, levaria a população à depressão endogâmica (FRANKHAM et al., 2008). Neste caso, a reprodução assistida possibilitaria um fluxo gênico a partir do transporte de sêmen de animais de outros criadouros, aumentando a variabilidade genética dentre essas populações (FRANKHAM et al., 2008). Por isso, estudos que abordem a fisiologia reprodutiva dos machos são importantes, pois geram conhecimentonecessário para a aplicação de biotécnicas que possibilitem maior disseminação do material genético nesta espécie (VIEIRA et al., 2021; SILVEIRA, 2007). De maneira geral, sabe-se que a capacidade reprodutiva dos machos está além das concentrações adequadas de hormônios sexuais que promovam libido, mas também diretamente relacionada ao correto desenvolvimento dos órgãos reprodutivos e a competência dos testículos em produzir um grande número de espermatozoides viáveis (GIER; MARION, 1970). As características testiculares, tais como as mensurações biométricas quanto ao volume e a forma, fazem parte do processo de avaliação e seleção de reprodutores (BAILEY et al., 1998; UNANIAN et al., 2000). Os queixadas possuem testículos com formato ovalado, achatados látero-lateralmente, situados na região pélvica, inclinados dorso-caudalmente e possuem posição intermediária (entre a perineal e a inguinal), ou seja, entre a região perineal e Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.3|e1407| p.01-19 |2023 11 Renan Luiz Albuquerque Vieira, Adriele Nonato Oliveira, Rodrigo José Araújo de Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de Faria ___________________________________________________________________________________ iguinal, posicionados mais ventralmente quando comparados aos suínos (VIEIRA, 2018). Os testículos de queixadas apresentam comprimento de 5,8 ± 0,8 cm e 6,3 ± 0,8 cm; largura de 4,4 ± 0,9 cm e 4,4 ± 0,8 cm; altura de 4,5 ± 0,8 cm e 4,6 ± 0,7 cm, respectivamente para o direito e esquerdo, e largura escrotal total de 7,7 ± 1,3 cm (VIEIRA, 2018). A inclusão de tais características no processo de seleção de reprodutores se deve principalmente em decorrência de sua correlação positiva com a produção espermática diária e consequentemente a fertilidade dos machos (REGE et al., 2000). Em programas de seleção genética, o perímetro escrotal (PE) tem sido o critério mais estudado e utilizado como medida indicativa de características morfofisiológicas das gônadas e também das características quantitativas e qualitativas do sêmen. Assim, esta mensuração constitui um importante indicador da precocidade sexual em animais jovens (ALBUQUERQUE, 2004; SILVA et al., 2002). Baixo perímetro escrotal, na maioria das vezes, está associado a testículos pequenos, o que tem sido relacionado à infertilidade (VERAMACHANENI et al., 1986). Em estudo realizado por Vieira et al. (2018) observou-se que os machos mais dominantes na hierarquia apresentam massa corporal, testículos e epidídimos com dimensões maiores do que os animais subordinados. As maiores massas corporais, em conjunto com maior volume testicular, bem como maiores comprimentos dos testículos e epidídimos, pode propiciar o desempenho reprodutivo dos machos dominantes de grupos de queixadas. A seleção de animais com tais características, portanto, poderá favorecer um sistema de criação de queixadas em cativeiro, por meio da otimização do manejo reprodutivo, contribuindo para a sua produção e conservação. A importância do desenvolvimento de métodos de criação de animais silvestres em cativeiro aumenta ainda mais, à medida que o número de espécies ameaçadas de extinção cresce mundialmente (PUKAZHENTHI; WILDT, 2004). Todavia, nem sempre animais de vida livre conseguem se reproduzir em ambiente restrito e alterado, como é o caso do cativeiro, problemas estes que podem estar associados à falta de conhecimento sobre sua biologia reprodutiva, tornando a reprodução em cativeiro limitada (MATTSON et al., 2007). Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.2|e1407| p.01-19 |2023 12 REPRODUÇÃO DE QUEIXADAS (TAYASSU PECARI) EM CATIVEIRO: ESTRATÉGIA DE CONSERVAÇÃO EX SITU PARA UMA ESPÉCIE AMEAÇADA ____________________________________________________________________________ Ainda hoje um dos maiores entraves para se alcançar o sucesso reprodutivo de animais selvagens em cativeiro é o desconhecimento de informações essenciais sobre a dada espécie, incluindo os princípios básicos sobre a sua biologia (SWANSON, 2006). Técnicas de reprodução assistida, como a eletroejaculação (EJ), inseminação artificial (IA), produção de embriões in vitro (PIV), maturação in vitro (MIV) fertilização in vitro (FIV), transferência de embriões (TE) e criopreservação de gametas são técnicas essenciais que proporcionam maximização do potencial reprodutivo do doador, assim como a preservação da biodiversidade (GOBELLO; CORRADA, 2003). Ao avaliarem a eficiência de protocolos de anestesia (xilazina/cetamina e acepromazina/cetamina) e de eletroejaculação, crescentes: (2 a 4V; 5 a12V) e fixo (12V) para coleta de sêmen em queixada, Vieira et al. (2021) observaram que o uso da associação acepromazina/cetamina promove melhor grau de analgesia, qualidade e recuperação da anestesia, e melhores indicadores comportamentais de bem-estar durante o período anestésico e pós-anestésico em comparação ao protocolo xilazina/cetamina visando a eletroejaculação para coleta de sêmen de queixadas. Bem como, o protocolo de eletroejaculação crescente (5 – 12V) apresentou melhores resultados quando comparado aos demais protocolos. Durante as avaliações dos protocolos de eletroejaculação, os autores supracitados, descreveram que, cinco queixadas apresentaram ereção quando submetidos ao protocolo xilazina/cetamina. Destes cinco queixadas, contudo, foram obtidos ejaculados apenas de dois animais (volume: 0,2 mL e concentração espermática: 459 x 106 espermatozoides/mL e volume: 0,4 mL e concentração espermática: 410,0 x 106 espermatozoides/mL) com a adoção de estímulos entre 5 a 12V (com 10 estímulos em cada voltagem). Em contraste, 10 dos 12 queixadas apresentaram ereção quando submetidos ao protocolo acepromazina/cetamina. Destes 10 animais, contudo, foram obtidos ejaculados de quatro queixadas. Três animais (volume: 0,4 mL e concentração espermática: 149 x 106 espermatozoides/mL; volume: 0,3 mL e concentração espermática: 132 x 106 espermatozoides/mL; volume: 1,0 mL e concentração espermática: 365,0 x 106/mL) com a adoção de estímulos entre 5 a 12V (com 10 estímulos Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.3|e1407| p.01-19 |2023 13 Renan Luiz Albuquerque Vieira, Adriele Nonato Oliveira, Rodrigo José Araújo de Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de Faria ___________________________________________________________________________________ em cada voltagem) e de um queixada (volume: 0,3 mL e concentração espermática: 760,0 x 106 espermatozoides/mL) com a adoção de estímulos de 12V fixos (45 estímulos nesta única voltagem). Nenhum dos queixadas ejaculou com estímulos entre 2 a 4V (com 10 estímulos em cada voltagem) para ambos os protocolos anestésicos. Dos 12 queixadas, oito apresentaram ereção peniana mediante a aplicação de estímulos elétricos entre 5 a 6V no período de 2±40 minutos para ambos os protocolos anestésicos. Sendo que destes oito animais cinco iniciaram a ejaculação mediante o estímulo entre 7 a 9V no período de 5±70 minutos. Para ambos os protocolos anestésicos, o protocolo de estímulos crescentes de 5 a 12V, com 10 estímulos em cada voltagem, resultou em ereção peniana e na obtenção de ejaculado em maior número de animais em relação aos demais protocolos de eletroejaculação. Por sua vez, o uso do protocolo crescente 2V a 4V não provocou sequer ereção em nenhum dos 12 queixadas. Este baixo sucesso poderia ser explicado por uma estimulação insuficiente dos nervos simpáticos lombares. Dos ejaculados coletados dos queixadas, obteve-se volumes 0,2 a 1 mL (Vieira et al., 2021). Em ensaio realizado por Moreira et al., (2005) na tentativa de coletar sêmen de queixada por meio de eletroejaculação, foram utilizados dois queixadas machos adultos, com peso médio de 41,0±5 kg. Sendo realizada apenasuma única tentativa de coleta por animal, em um protocolo de estímulos que consistiu em 30 estímulos elétricos, sendo 10 estímulos de dois volts, seguidos por 10 estímulos de três volts e por fim 10 estímulos de quatro volts. Com este protocolo os autores obtiveram ejaculado de apenas um animal. O volume ejaculado na primeira fração foi de 4,5mL com coloração branca e consistência leitosa, a segunda fração, por sua vez, apresentou aspecto seroso e volume de 27mL. Os espermatozoides apresentaram-se viáveis, com vigor e motilidade 3 e 70% respectivamente. O uso da inseminação artificial oferece uma série de vantagens aos animais silvestres que apresentam baixos índices reprodutivos em decorrência da dificuldade de acasalar por incompatibilidade clínica ou até mesmo comportamental. Além disso, possibilita a disseminação de material genético Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.2|e1407| p.01-19 |2023 14 REPRODUÇÃO DE QUEIXADAS (TAYASSU PECARI) EM CATIVEIRO: ESTRATÉGIA DE CONSERVAÇÃO EX SITU PARA UMA ESPÉCIE AMEAÇADA ____________________________________________________________________________ entre animais de diferentes criadouros, contribuindo para o aumento da variabilidade genética dentro de uma população, expandindo os grupos de genes por meio do cruzamento entre indivíduos selecionados, e, consequentemente, reduzindo os efeitos da endogamia (FRANKHAM et al., 2008). Além de permitir o transporte de sêmen entre diferentes regiões, reduzindo os riscos e custos com aquisição e transporte de reprodutores (HOWARD et al., 1992). Se tratando de animais selvagens, para aumentar a eficiência da inseminação artificial, é primordial estudos sobre os métodos de coleta de sêmen, avaliação e posterior preservação deste, o que contribui também para a redução do número de reprodutores em um plantel, além de minimizar a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis (BAYLEI et al., 2000). Entretanto, técnicas de reprodução assistida, que são rotineiras para os animais domésticos, nem sempre são adaptáveis aos animais silvestres. Estas se diferem tanto na sua morfologia e anatomia reprodutiva quanto nos mecanismos fisiológicas que regulam os processos reprodutivos, limitando assim a sua aplicabilidade para a reprodução assistida em animais selvagens (PUKAZHENTHI; WILDT, 2004). Nas últimas décadas tem-se constatado a maior extinção em massa de espécies de todos os tempos (LEAKEY; LEWIN, 1996). A genética da conservação utiliza ferramentas biotecnológicas em prol da preservação da biodiversidade, podendo esta ser aplicada à biologia da conservação, por meio da elaboração de estratégias de manejo reprodutivo de espécies em cativeiro (FRANKHAM et al., 2008). Para animais em cativeiro a IA apresenta-se como uma técnica valiosa, porém, restrita, devido ao pouco conhecimento a respeito da fisiologia reprodutiva, bem como as peculiaridades para cada uma das espécies de vida livre (PAVAN et al., 1986). 4. Considerações Finais A criação sustentável de queixadas em cativeiro, além de se mostrar uma prática rentável, apresenta-se como estratégia de conservação, por aumentar sua população, possibilitando a reintrodução em áreas onde ocorreram extinções da espécie, além de amenizar a pressão de caça em animais de vida Revista Foco |Curitiba (PR)| v.16.n.3|e1407| p.01-19 |2023 15 Renan Luiz Albuquerque Vieira, Adriele Nonato Oliveira, Rodrigo José Araújo de Jesus, Marilúcia Campos dos Santos, Suélen Dias Silva dos Reis, Barbra Gabriela Oliveira de Faria ___________________________________________________________________________________ livre, reduzindo, portanto, o declínio populacional desta espécie vulnerável à extinção. Agradecimentos Os autores são gratos ao apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES), por meio da bolsa de Renan Luiz Albuquerque Vieira, número do processo 88882.453697/2019-01. REFERÊNCIAS AGNARSSON, I. & MAY-COLLADO, L. J. 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