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Doenças isquêmicas do coração SUMÁRIO 1. Epidemiologia .....................................................................................................4 2. Apresentação clínica ..........................................................................................4 3. Patogenia ...........................................................................................................5 4. Desenvolvimento da aterosclerose coronariana ..................................................8 Alteração aguda na placa ............................................................................................ 8 5. Infarto do miocárdio ...........................................................................................9 Patogenia .................................................................................................................... 10 Padrões do infarto ...................................................................................................... 11 6. Achados morfológicos ......................................................................................12 Complicações e consequências do IM ..................................................................... 15 Intervenções terapêuticas ......................................................................................... 15 Consequências da reperfusão ................................................................................... 16 6. Doença isquêmica crônica do coração ..............................................................16 Referências bibliográficas ................................................................................................20 Doenças isquêmicas do coração 3 1. INTRODUÇÃO Doenças isquêmicas do coração (DIC) é uma classificação que engloba várias sín- dromes causadas pela isquemia do coração, ou seja, um desequilíbrio entre o supri- mento sanguíneo cardíaco (perfusão) e as necessidades de oxigênio e nutrientes do miocárdio. A perfusão é importante pois os cardiomiócitos produzem energia, quase exclusivamente, por meio da fosforilação oxidativa mitocondrial, a qual depende es- tritamente do fluxo contínuo de sangue oxigenado através das coronárias. Em mais de 90% dos casos, a DIC é uma consequência da redução do fluxo san- guíneo coronariano resultante de doença vascular aterosclerótica obstrutiva, sendo por esse motivo a DIC sinônimo de doença arterial coronariana (DAC). Em outras ca- sos a DIC pode resultar do aumento da demanda (como por aumento da frequência cardíaca, hipertensão), da diminuição do volume sanguíneo (hipotensão, choque), diminuição da oxigenação (pneumonia, ICC) ou redução da capacidade de transpor- tar oxigênio (anemia, intoxicação por monóxido de carbono). Figura 1: Doença isquêmica do coração Fonte: Maniki_rus/shutterstock.com Doenças isquêmicas do coração 4 2. EPIDEMIOLOGIA As doenças cardiovasculares são responsáveis por 18 milhões de mortes ao ano no mundo, sendo as doenças isquêmicas do coração e as doenças cerebrovascu- lares responsáveis por 2/3 desses óbitos e, aproximadamente, 22% dos 55 milhões de óbitos por todas as causas. Países em desenvolvimento contribuem com uma parcela maior da carga global de mortalidade, com um excesso relativo da ordem de 70%, em relação aos países desenvolvidos. No Brasil, entre 1993 a 1997, as interna- ções por doenças isquêmicas do coração representaram 1% de todas as internações e 3,3% dos gastos do SUS. A angina foi responsável por 53,3% e o infarto por 26,6% das internações por doenças isquêmicas, sendo as por infarto mais comum em ho- mens e angina em mulheres. 3. APRESENTAÇÃO CLÍNICA As manifestações da DIC são consequência direta do suprimento sanguíneo insuficiente para o coração. Assim, inclui uma ou mais das seguintes síndromes cardíacas: • Angina pectoris: é, literalmente, a “dor no peito”. A isquemia provoca dor, mas que não significa a morte dos miócitos. A angina pode ser estável (após um certo grau de esforço físico), instável (imprevisível, podendo ser por mínimos esforços ou repouso) ou por espasmo vascular (angina de Prinzmetal). • Infarto do miocárdio (IM): quando o processo de isquemia é prolongado ou gra- ve o suficiente para causar morte dos cardiomiócitos. • Doença isquêmica crônica do coração com ICC: a descompensação progressi- va do coração após IM ou pequenas lesões isquêmicas que, com o passar do tempo, acumulam-se e levam à falência mecânica da bomba cardíaca. • Morte súbita cardíaca (MSC): é a morte em até 24h após o início dos sintomas; ocorre por consequência da lesão tecidual promovida por um IM, mas geral- mente resulta de arritmia fatal, sem necrose de miócitos. Se liga! A expressão síndrome coronariana aguda abrange a angina instável, IM ou MSC. Doenças isquêmicas do coração 5 4. PATOGENIA A DIC, como vimos, é uma consequência da inadequada perfusão coronariana em relação às demandas do miocárdio, em geral como resultado da combinação de oclusão aterosclerótica preexistentes das artérias coronárias com trombose sobre- posta e/ou vasoespasmo. Figura 2: Doença aterosclerótica / Artéria normal Fonte: Lightspring/shutterstock.com Figura 3: vasoespasmo Fonte: eranicle/shutterstock.com Doenças isquêmicas do coração 6 Figura 4: trombose arterial Fonte: studiovin/shutterstock.com O estreitamento aterosclerótico pode afetar qualquer uma das artérias coronárias: • Artéria descendente anterior esquerda (DAE); • Artéria circunflexa esquerda (ACE); • Artéria coronária direita (ACD). Figura 5: Artérias coronárias Fonte: Blamb/shutterstock.com Doenças isquêmicas do coração 7 Placas clinicamente significativas tendem a ocorrer nos primeiros centímetros da DAE e da ACE, saindo da aorta e ao longo de toda a ACD. Algumas vezes os ramos secundários também estão afetados (ramos diagonais da DAE, ramos marginais ob- tusos da ACE ou o ramo descendente posterior da ACD). Placas que ocluem menos de 70% do lúmen de um vaso coronariano normalmen- te são assintomáticas, mesmo com o esforço físico. Acima de 70% é chamada de estenose crítica, causando sintomas quando há aumento da demanda; o paciente pode, portanto, cursa com dor torácica ao realizar esforços físicos de determinadas intensidades (angina estável). Obstruções de 90% ou mais pode produzir um fluxo sanguíneo inadequado com sintomas mesmo no repouso (angina instável). Se liga! Lesões ateroscleróticas de longa data, que evoluem de for- ma lenta e progressiva, por anos, podem ter seu fluxo sanguíneo compensado por meio da remodelagem de outros vasos coronarianos, fornecendo uma per- fusão colateral e protegendo contra o IM. Já em obstrução coronariana aguda, não há tempo suficiente para que o fluxo colateral se desenvolva, culminando, dessa forma, em infarto. Figura 6: Aterosclerose coronariana mostrando placa de ateroma (seta) Fonte: Kateryna Kon/ shutterstock.com Doenças isquêmicas do coração 8 5. DESENVOLVIMENTO DA ATEROSCLEROSE CORONARIANA Alguns elementos contribuem para o desenvolvimento e as consequências da ate- rosclerose coronariana: • Inflamação: desde o início até a ruptura da placa. Se inicia com uma interação entre as células endoteliais e leucócitos circulantes, resultando em recrutamen- to e ativação de células T e macrófagos. Essas células promovem o acúmulo e proliferação subsequente de células musculares lisas, com produção de matriz que recobrem um núcleo ateromatoso (lipídeos, colesterol, calcificação e frag- mentos necróticos). Para culminar no processo de ruptura, a desestabilização da placa ocorre por meio da secreção de metaloproteinases pelos macrófagos. • Trombose: a trombose associada a uma placa erodida ou rompida desenca- deia as síndromes coronarianas agudas. Trombos que estão se desenvolven- do sobre placas ateroscleróticas rompidas podem aumentar ou diminuir com o tempo e provocar angina instável ou morte súbita. Além disso, mesmo em uma oclusão parcial, o trombo por comprometer o fluxo sanguíneo o suficientepara causar um pequeno infarto em zona mais interna do miocárdio (infarto subendocárdico). • Vasoconstrição: compromete o diâmetro do lúmen e pode potencializar a ruptura de uma placa (decorrente do aumento de forças de cisalhamento me- cânicas locais). A vasoconstrição em região de placas ateroscleróticas pode ser estimulada por: agonistas adrenérgicos circulantes, conteúdo plaquetário liberado, desequilíbrio entre fatores relaxantes (óxido nítrico) e constritores (endotelina) pela disfunção endotelial e liberação de mediadores pelas células inflamatórias perivasculares. Alteração aguda na placa Não somente a extensão e gravidade da doença aterosclerótica influenciam no início da isquemia miocárdica, mas também as alterações dinâmicas na morfologia da placa coronariana. Na maioria das vezes as síndromes coronarianas agudas são precipitadas por alteração abrupta na placa seguida de trombose. Doenças isquêmicas do coração 9 Figura 7: Trombo com obstrução oclusiva, cursando com IM transmural ou morte súbita. Uma obstru- ção parcial pode cursar com angina instável, IM subendocárdico agudo ou morte súbita. Fonte: Designua/shutterstock.com Além da ruptura súbita, pode haver outros mecanismos envolvidos como a forma- ção de fissuras ou a ulceração das placas, os quais expõem os constituintes trom- bogênicos ou a membrana basal subendotelial subjacente, levando rapidamente à trombose. Além disso, a hemorragia no núcleo das placas pode expandir o volume das placas e, dessa forma, exacerbar subitamente o grau de oclusão. 6. INFARTO DO MIOCÁRDIO Consiste em necrose do músculo cardíaco em consequência à isquemia. A fre- quência dos IMs sobe progressivamente com o aumento da idade e dos fatores de risco ateroscleróticos. 10% dos IMs ocorrem antes dos 40 anos e 45% antes dos 65 anos. Ocorrem mais frequentemente em homens, sendo a vida reprodutiva um fator protetor nas mulheres. Com a menopausa, devido ao declínio da produção de estró- geno, ocorre exacerbação da doença arterial coronariana em mulheres idosas. Doenças isquêmicas do coração 10 Patogenia A maior parte dos IMs é causada pela trombose aguda de uma artéria coronária. Os infartos podem ocorrer decorrente de processos como: • Ruptura ou erosão de uma placa aterosclerótica preexistente; • Vasoespasmo ou êmbolos que se desprenderam, mesmo na ausência de doen- ça vascular aterosclerótica oclusiva; • Aterosclerose coronariana fixa grave (em infartos subendocárdicos); • Vasculite, deposição de amiloide ou estase, como na doença falciforme (em arteríolas intramiocárdicas). Decorrente desses processos, o miocárdio responde à isquemia com alterações bioquímicas, morfológicas e funcionais intensas. Primeiramente, na ausência do suprimento sanguíneo adequado a glicólise aeróbica cessa, levando à queda do nível de trifosfato de adenosina (ATP) e ao acúmulo de ácido lático nos cardiomi- ócitos. Essas alterações levam a uma rápida perda da contratilidade, em cerca de 1 minuto após o início da isquemia. Logo após, alterações estruturais (incluindo relaxamento das miofibrilas, tumefação celular e mitocondrial) também são evi- dentes, sendo ainda reversíveis. Lesões irreversíveis ocorrem após isquemia grave, com duração de 20 a 40 minutos, levando à necrose por coagulação nos miócitos. Isquemias de períodos mais longos geram uma lesão vascular, levando à trombose na microvasculatura. A lesão irreversível ocorre primeiramente na zona subendocárdica, sendo essa re- gião a mais suscetível por ser a última a receber o sangue transportado pelos vasos epicárdicos e pela pressão intramural relativamente alta. A frente de onda de morte celular se desloca para outras regiões do miocárdio, conduzida principalmente por edema tecidual e mediadores inflamatórios. Um infarto geralmente alcança extensão total (transmural) dentro de 3 a 6 horas, sem intervenção clínica. Figura 8: Extensão da zona com isquemia Fonte: Autoria Própria Doenças isquêmicas do coração 11 Conceito: Infarto transmural: >50% da espessura da parede e no ECG, elevação de seg- mento ST. Infarto subendocárdico: 1/3 interno do miocárdio e no ECG, sem elevação de segmento ST. Microinfartos: Pode não apresentar alterações ao ECG. Decorrente de emboli- zação de trombos murais ou vegetações valvares, vasculites, vasoespasmo. Caso o fluxo sanguíneo seja reestabelecido antes de uma lesão irreversível, o mio- cárdio poderá ser preservado. Por isso, o diagnóstico precoce e a rápida intervenção (trombólise ou angioplastia) são extremamente importantes. Entretanto, mesmo a reperfusão pode ter efeitos nocivos, uma vez que o miocárdio pós-isquêmico pode ser profundamente disfuncional durante vários dias devido às alterações bioquími- cas que levam a um estado não contrátil. Isso pode acabar culminando em uma ICC transitória, porém reversível, como veremos mais à frente. Padrões do infarto As características do infarto, localização e tamanho depende de alguns fatores como: • Tamanho e distribuição dos vasos envolvidos; • Velocidade do desenvolvimento e duração da oclusão; • Demandas metabólicas do miocárdio (como pressão arterial e frequência cardíaca); • Extensão da irrigação colateral. De acordo com a o vaso envolvido, a oclusão aguda pode ocorrer na: Descendente anterior esquerda (DAE): cerca de 40 a 50% de todos IMs ocorrem por oclusão aguda da parte proximal da DAE, levando a infarto de parede anterior do ventrículo esquerdo (VE), 2/3 anteriores do septo ventricular e na maior parte do ápi- ce. Já uma lesão mais distal pode acometer apenas o ápice. O envolvimento da des- cendente anterior esquerda é apelidada de “fazedoras de viúvas”, pois abrange uma grande área do miocárdio, sendo normalmente fatal. Circunflexa esquerda (ACE): a oclusão aguda da ACE ocorre em 15 a 20% dos IMs causando necrose da parte lateral do VE. Quando descendente posterior se origina do ACE, ou seja, vaso dominante esquerdo (10% dos casos), o seu acometimento afeta também o terço posterior do septo e a parede inferior e posterior do VE. Doenças isquêmicas do coração 12 Artéria coronária direita (ACD): a oclusão da parte proximal da ACD ocorre em 30 a 40% dos IMs, afetando em grande parte o ventrículo direito. Como em 90% das pes- soas a descendente posterior se origina da ACD, o envolvimento dessa artéria leva a uma isquemia de porção inferior e posterior do VE, além de 1/3 posterior do septo. Figura 9: Correspondência do vaso obstruído e consequente área infartada Fonte: Autoria própria. 7. ACHADOS MORFOLÓGICOS Os aspectos macroscópicos e microscópicos de um IM dependem da idade da lesão. As áreas de lesão passam por uma sequência progressiva e altamente carac- terística nas alterações morfológicas, de necrose por coagulação para inflamação aguda, inflamação crônica e, por fim, fibrose. As tabelas abaixo mostram as altera- ções macro e microscópicas em determinado intervalo de tempo: Doenças isquêmicas do coração 13 Aspectos macroscópicos de um IM INTERVALO DE TEMPO ACHADOS MACROSCÓPICOS coagulativa (fibras mais finas e eosinofílicas) e necrose em banda de contração (bandas hipereosinofílicas de miofilamentos aglomerados ao lado de bandas claras sem miofilamentos); na periferia, aspecto de miocitólise (células globosas, vacuolizadas, com miofilamen- tos rechaçados junto ao sarcolema). 24h Miócitos perdem os núcleos e o edema fica evidente; há afluxo de neutró- filos e início do processo de digestão das células mortas. 2º a 4º dia Número máximo de neutrófilos, tecido digerido e friável. 4º a 5º dia Chegada de macrófagos, proliferação de capilares e fibroblastos (tecido de granulação). 7º a 14º dia Tecido de reparação e início da formação de colágeno. 4 a 6 semanas Cicatrização completa. Fonte: Autoria própria Doenças isquêmicas do coração 14 Em relação aos achados microscópicos, as lesões iniciais só podem ser detecta- das ao microscópio eletrônico. Nos primeiros minutos observam-se edema intrace- lular, tumefação mitocondrial, perda de glicogênio citoplasmático, alargamento de bandas I dos sarcômeros e discreta agregação da cromatina nuclear. Tais alterações são reversíveis desde que o fluxo sanguíneo seja restaurado. Persistindo a isquemia, aparecem as lesões características de dano irreversível: densidades amorfas intrami- tocondriais e ruptura da unidade trilaminar do sarcolema. Figura 10: Relação dos achados microscópicos e macroscópicos Fonte: Autoria própria. Doenças isquêmicas do coração 15 Complicações e consequências do IM A gravidade do infarto depende sobretudo de 3 fatores: (1) extensão; (2) grau de comprometimento da parede (subendocárdico ou transmural); (3) localização. Quanto mais extenso, maiores as chances de repercussões mais sérias. Entretanto, mesmo infartos pequenos podem levar a arritmias graves, ruptura da parede e óbito. Os infartos subendocárdicos, apesar de um grau de comprometimento da parede menor que o transmural, costumam ocorrer em pacientes mais graves (em choque, por exemplo). Dessa forma, as consequências mais comuns são falência cardíaca esquerda, trombose mural. Arritmias e morte súbita. No infarto transmural, as con- sequências são insuficiência cardíaca, arritmias, choque cardiogênico, extensão do infarto, ruptura da parede do coração ou de musculo papilar, aneurisma ventricular, pericardite e tromboembolia pulmonar ou sistêmica. As principais consequências do infarto são o aparecimento de arritmias por insta- bilidade elétrica nas regiões isquêmicas, insuficiência mecânica, fibrilação ventricu- lar e, consequente, morte súbita em 80 a 90% dos casos. Intervenções terapêuticas Para reduzir ou impedir os danos causados pela obstrução coronariana os méto- dos mais utilizados são: • Agentes trombolíticos: deve ser administrado nas primeiras horas após o iní- cio das manifestações. Os medicamentos trombolíticos levam à melhora da função ventricular em grande proporção dos pacientes. Entretanto, as com- plicações mais frequentes desse tratamento são hemorragias no miocárdio necrosado, sangramento em outros locais e arritmias de reperfusão (miocárdio atordoado). Em cerca de 30% dos casos não ocorre lise do trombo, podendo inclusive haver reoclusão por nova trombose. • Angioplastia transluminal percutânea por balão: reestabelece o fluxo por alte- rar a morfologia da placa ateromatosa por meio da compressão da placa e rup- tura do ateroma. Complicações como retrombose precoce e reestenose tardia podem ocorrer. O stent consiste em uma malha metálica e resistente que pode ser colocada durante o procedimento; se expande após ser solta no interior da artéria, impedindo que o vaso sofra retração. Ao longo do tempo, pode haver neoproliferação intimal. • Intervenções cirúrgicas: são as anastomoses entre a aorta e artérias coroná- rias por meio das pontes da veia safena ou de anastomoses entre a artéria torá- cica interna (mamária) e as coronárias. Nos dois primeiros anos, a trombose é a principal complicação e a aterosclerose é a principal causa de oclusão tardia das pontes de safena. Obstrução por proliferação fibrointimal, sem depósitos gordurosos também são comuns. Doenças isquêmicas do coração 16 Se liga! Reperfusão feita após 40 min de isquemia deixa infartada somente a porção subendocárdica; após 3 horas de isquemia, salva a meta- de externa da parede da área de risco; e após 96 horas, apenas estreita faixa subepicárdica. Consequências da reperfusão Conceito: Miocárdio atordoado: quando após a reperfusão o retorno bioquímico e funcio- nal ainda não voltou ao normal, podendo durar dias. A principal consequência desse processo são as arritmias de reperfusão. Miocárdio hibernante: quando o miocárdio fica cronicamente sub perfusão ina- dequada, mas ainda suficiente para não haver infarto, ficando a função cardíaca deficiente. Pode permanecer após meses ou anos de isquemia. É confirmado quando após restauração do fluxo sanguíneo o miocárdio se restabelece e a disfunção ventricular desaparece. Embora se considere que o reestabelecimento da circulação seja benéfico, alguns estudos mostram efeitos deletérios, fenômeno chamado de lesão de reperfusão. Os mecanismos para explicá-los são: (1) ação de radicais livres que se formam na hipó- xia e reperfusão; (2) ação direta de enzimas líticas de neutrófilos; (3) alterações do endotélio, levando a menor secreção de óxido nítrico e liberação de endotelina (vaso- constritor); (4) aumento do fenômeno de não reperfusão. 8. DOENÇA ISQUÊMICA CRÔNICA DO CORAÇÃO Também chamada de cardiomiopatia isquêmica, é basicamente uma insuficiên- cia cardíaca (IC) progressiva que resulta da lesão do miocárdio pela isquemia. Na maioria dos casos há histórico de IM prévio. A DIC crônica surge, portanto, quando os mecanismos compensatórios, como a hipertrofia, do miocárdio viável restante Doenças isquêmicas do coração 17 começam a falhar. A IC da DIC crônica é tipicamente grave, sendo normalmente pon- tuada por novos episódios de arritmias, angina ou infarto. Esses são pacientes que exibem, normalmente, dilatação e hipertrofia ventri- cular esquerda, com áreas de cicatrização cinza-esbranquiçadas (infartos prévios cicatrizados). Observa-se também aterosclerose de grau moderado a intenso em artérias coronárias. Pode haver trombos murais e espessamento fibroso focal em endocárdio. Microscopicamente, pode-se visualizar vacuolização difusa de miócitos subendocárdicos. Doenças isquêmicas do coração 18 Desequilíbrio entre demanda e perfusão Mais de 90% ocorre por doença arterial coronariana (DAC), sendo sinônimos Pode ocorrer também por: aumento de demanda, diminuição de volume sanguíneo, diminuição de oxigenação ou redução de capacidade de transporte de O2 Epidemiologia 18 milhões de mortes/ ano no mundo (22% dos óbitos por todas as causas) No Brasil, das internações por DIC, angina responsável por 53,3% e infarto por 26,6% DOENÇAS ISQUÊMICAS DO CORAÇÃO (DIC) Patogenia Geralmente por oclusão aterosclerótica preexistente de coronária com trombose e/ou vasoespasmo sobrepostos Pode afetar: DAE, ACE, ACD Obstruções 70%: estenose crítica, sintomas aos esforços (angina estável) e sintomáticos em repouso normalmente quando obstrução >90% (angina instável) Apresentação clínica Angina pectoris (“dor no peito”): estável, instável ou de Prinzmetal Infarto do miocárdio (IM) Doença isquêmica crônica do coração com ICC Morte súbita cardíaca (MSC): em até 24h Síndrome coronariana: angina instável, IM e MSC Desenvolvimento da aterosclerose Inflamação Trombose Vasoconstrição Doenças isquêmicas do coração 19 INFARTO DO MIOCÁRDIO Necrose do músculo decorrente da isquemia Maior parte causado por trombose aguda Podem decorrer de: ruptura de placa, vasoespasmo, êmbolos, aterosclerose fixa grave, vasculite, depósitos amiloides ou estase Resposta à isquemia (reversível): queda de ATP, aumento de ácido lático, perda da contratilidade, relaxamentode miofibrilas, tumefação celular e mitocondrial Em 20 a 40 min, lesões irreversíveis: necrose por coagulação Achados morfológicos 2 semanas: cicatriz esbranquiçada, substituição da área infartada por tecido colagenizado Infarto transmural > 50% da espessura da parede; ECG com elevação do segmento ST Infarto subendocárdico 1/3 interno do miocárdio; ECG sem elevação do segmento ST Microinfartos Decorrente de embolização de trombos murais ou vegetações valvares, vasculite ou vasoespasmos Complicações do IM Dependem de: extensão, grau de comprometimento da parede e localização Pode cursar com: arritmias por instabilidade elétrica, insuficiência mecânica, fibrilação ventricular e morte súbita Consequências da reperfusão Lesão de reperfusão: ação de radicais livres, ação direta de enzimas líticas de neutrófilos, menor secreção de NO e maior secreção de endotelina e aumento do fenômeno de não reperfusão Doença isquêmica crônica do coração Remodelação miocárdica pós IM Hipertrofia e dilatação ventricular Padrões do infarto Tamanho e distribuição dos vasos envolvidos Velocidade do desenvolvimento e duração da oclusão Demandas metabólicas do miocárdio Extensão da irrigação colateral Mais comum em DAE (40 a 50%), seguida de ACD (30 a 40%) e ACE (15 a 20%) DAE: parede anterior do VE, 2/3 anteriores do septo e ápice ACD: ventrículo direito ACE: parede lateral do ventrículo esquerdo DP: parede posterior do VE e 1/3 posterior do septo Intervenções terapêuticas Agentes trombolíticos Angioplastia transluminal percutânea por balão (com ou sem stent) Intervenções cirúrgicas Hipertrofia e vacuolização de cardiomiócitos, fibrose cicatricial Doenças isquêmicas do coração 20 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Robbins Pathologic Basis of Disease. 10. ed. Bogliolo Patologia. 9. ed. Inquérito domiciliar sobre comportamentos de risco e morbidade referido de doen- ças e agravos não transmissíveis. Coordenação Geral de Agravos e Doenças Não Transmissíveis, Secretaria de Vigilância em Saúde. Ministério da Saúde. [acesso em 25 abr. 2021]. Disponível em: http://www1.inca.gov.br/inquerito/docs/isquemicas_ coracao.pdf. Rosai and Ackerman’s Surgical Pathology. 10. ed. Van der Wal AC. Coronary artery pathology. Heart. 2007;93:1484-1489. Brown Medical School. Cardiovascular pathology. [acesso em 25 abr. 2021]. Disponível em: https://www.brown.edu/Courses/Digital_Path/systemic_path/cardio/ mi-contractionband.html. sanarflix.com.br Copyright © SanarFlix. Todos os direitos reservados. Sanar Rua Alceu Amoroso Lima, 172, 3º andar, Salvador-BA, 41820-770