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TEORIA E PRÁTICA DAS ARTES CÊNICAS LUCAS PINHEIRO E JULIANA PABLOS CALLIGARIS Código Logístico I000007 ISBN 978-65-5821-022-1 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 2 2 1 Teoria e prática das artes cênicas Lucas Pinheiro Juliana Pablos Calligaris IESDE BRASIL 2021 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2021 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Fer Gregory/lapandr/AlexanderZe/Sodel Vladyslav/Shutterstock CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ P72t Pinheiro, Lucas Teoria e prática das artes cênicas / Lucas Pinheiro, Juliana Pablos Calligaris. - 1. ed. - Curitiba [PR] : Iesde, 2021. 174 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-022-1 1. Teatro. 2. Dramaturgia. 3. Teatro e artistas. I. Calligaris, Juliana Pablos. II. Título. 21-70502 CDD: 792 CDU: 792 Lucas Pinheiro Mestre em Artes da Cena pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Bacharel em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Especialista em Psicomotricidade Educacional, pelas Faculdades Integradas do Vale do Ivaí (Univale), e em Processos Didático-Pedagógicos para cursos na modalidade de educação a distância (EaD) pela Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp). Professor e diretor, ministra aulas para o curso de licenciatura em Teatro na Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e atua como facilitador de aprendizagem e orientador de trabalhos de conclusão de curso da graduação em Pedagogia na Univesp. É autor do livro Bob Wilson: por trás do olhar de um surdo e da voz-pensamento de um autista (2021). Juliana Pablos Calligaris Mestre em Linguística, Teatro e Semiótica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Bacharel em Artes Cênicas e licenciada em Filosofia pela mesma instituição. Atriz, professora e diretora teatral desde 1991, atuando também como dramaturga. Atualmente é professora de teatro para crianças e adolescentes na Escola TaCaTum - Cultura e Arte. Também é professora de História do Teatro e de Interpretação em curso técnico profissionalizante em Teatro e Dublagem da Escola Up Arts. Integrante dos grupos de pesquisa Cognição, Interação e Significação (Cogites) e Os Processos Criativos nas Artes da Cena e os Saberes da Prática, ambos do CNPq/Unicamp. Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO 1 Elementos da linguagem teatral 9 1.1 O que é teatro? 10 1.2 Os múltiplos espaços cênicos 14 1.3 A dramaturgia teatral 20 1.4 Ator e personagem 26 1.5 Outros fundamentos técnicos e componentes humanos 31 2 A origem do teatro: como tudo começou? 35 2.1 Da pré-história ao Antigo Egito 35 2.2 Sem vinho, sem teatro: as festas dionisíacas 40 2.3 O teatro grego e suas tragédias 44 2.4 A invasão do riso no teatro grego 51 2.5 O início do teatro brasileiro 55 3 O teatro brasileiro e suas vanguardas 61 3.1 O encontro da nacionalidade no teatro 62 3.2 O Romantismo no teatro brasileiro 66 3.3 O teatro realista no Brasil 71 3.4 O simbolismo no teatro brasileiro 73 3.5 O teatro brasileiro no pós-guerra 75 3.6 O Teatro de Arena e o Teatro Oficina: vanguardas estéticas 78 4 Gêneros e formas teatrais 87 4.1 Tragédia e comédia 88 4.2 Autos e farsas 94 4.3 Commedia dell’Arte 97 4.4 Ópera, teatro musical e teatro de revista 102 4.5 A ilusão do real: o teatro realista e naturalista 107 4.6 Teatro épico 112 4.7 Teatro de formas animadas 116 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! 6 Teoria e prática das artes cênicas 5 Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 122 5.1 O corpo expressivo no espaço cênico da sala de aula 123 5.2 Movimento corporal 126 5.3 O jogo dramático e o jogo teatral: terminologia e princípios metodológicos 130 5.4 Improvisação: estrutura, natureza e sentido 134 6 Práticas teatrais na escola 144 6.1 A Emergência do teatro no contexto educacional 144 6.2 PCN: educação e formação em arte nas escolas 148 6.3 O Caminho do Jogo 153 6.4 O ensino do teatro na educação especial 160 Gabarito 169 Nesta obra buscamos apresentar as Artes Cênicas como fenômeno artístico, crítico e pedagógico. O campo de estudos dessa linguagem artística traz, intrínseca à sua existência, a relação direta e dialógica entre teoria e prática. O teatro não é somente o espaço físico onde acontece uma atividade artística cênica. Trata-se, também, de uma forma de arte, assim como a música, a pintura, a escultura, a dança, a literatura, entre tantas outras linguagens possíveis. E o que define, circunscreve e diferencia o teatro das outras manifestações artísticas? Como as Artes Cênicas começaram a ser praticadas pela humanidade? É possível fazer teatro na escola, unindo arte e educação? Nesse viés, e tentando responder às perguntas acima elencadas, no primeiro capítulo discorremos sobre o conceito da linguagem teatral, diferenciando essa linguagem artística das demais. Exploramos os principais elementos que a ela estão arraigados e apresentamos quem são as pessoas e as funções que desempenham dentro dessa atividade. Esses esclarecimentos permitem a compreensão sobre o que é o teatro e o que se faz necessário à sua existência. No segundo capítulo apresentamos a história e a origem do teatro, tratamos da sua relação com a comunicação humana e de como sua essência e sua característica auxiliaram os homens pré-históricos nas suas tentativas de compreender o mundo que vivenciavam. Além disso, mostramos como as festas em homenagem ao deus grego do vinho e da fertilidade, Dioniso, foram fundamentais à criação do teatro como o conhecemos hoje. Por fim, abordamos de que maneira a Igreja Católica iniciou e influenciou os fazeres teatrais no Brasil. Já no terceiro capítulo navegaremos pela história do teatro no Brasil, partindo deste ponto: aquele no qual os padres jesuítas chegaram em missões catequéticas, acompanhados dos colonizadores portugueses. Veremos como os padres da Companhia de Jesus impuseram uma forma teatral de catequese a fim de apagar a rica, ancestral e diversificada cultura e religião APRESENTAÇÃOVídeo 8 Teoria e prática das artes cênicas dos povos originários do país. Daremos um sobrevoo sobre a comédia de costumes do século XIX, considerada um teatro eminentemente brasileiro, e daí seguiremos para as formas do teatro romântico, realista e do teatro moderno, este já no início do século XX, bordejando tendências, autoras, autores e grupos teatrais importantes do século XXI. Na sequência, dentro do quarto capítulo, abordaremos dez gêneros e formas teatrais possíveis, versando sobre suas origens e possíveis desdobramentos à contemporaneidade, bem como alguns indícios sobre suas assimilações pelo cinema e pela televisão. É nesse capítulo que procuramos indicar que, dependendo da temática a ser tratada nos espetáculos, há formas e gêneros teatrais específicos que, longe de delimitarem, podem auxiliar e facilitar os processoshoje de arte rupestre, na tentativa de facilitar os seus processos de caça. Essa ideia recebeu o nome de animismo. Figura 1 Pintura rupestre m ar ad on 3 33 /S hu tte rs to ck Há inúmeras teorias que tentam explicar o porquê de os seres humanos primitivos registrarem seus processos de caça nas paredes, uma delas está ligada à ideia de animismo. animismo: ideia de que todas as formas da natureza possuem uma alma. Desse modo, é possível dizer que é um dos primeiros estágios de evolução da religiosidade humana. Glossário https://www.shutterstock.com/pt/g/maradon 38 Teoria e prática das artes cênicas Assim, personificando os poderes e os seres da natureza que eram visíveis e sentidos fisicamente, buscando compreendê-los e domá-los, o homem primitivo se transformava no sol, na lua, no vento e em ou- tras criaturas vivas. Alicerçados em nossos impulsos vitais de buscar compreender o mundo que nos rodeia, os seres humanos primitivos incorporavam, conjuravam e metamorfoseavam-se em algo que eles não eram e que ainda não entendiam. As tribos, entretanto, começaram a constatar que nem sempre seus atos de imitação e metamorfose alcançavam os resultados esperados; isto é, passaram a acreditar que o mundo não se resumia apenas ao que eles viam ou sentiam. Começaram a crer que existia algum poder que controlava as forças da natureza; assim foram sendo cria- dos os ídolos. A princípio, eram adorados árvores ou animais, até que, passados mais alguns séculos, apareceu o conceito de deuses invisíveis com poderes muito mais amplos e, aos pou- cos, começaram a ser realizados rituais cultuando esses deuses. (HELIODORA, 2008, p. 9) Foi por meio desses rituais que os seres humanos passaram a tentar agraciar os deuses, angariando favores e perdões nesse pro- cesso. Cada povo e cada cultura, é claro, com deuses distintos para chamar de seus. O animismo e a magia adquirem agora as feições do totetismo e nascem as orações. Já que na pré-história não havia escrita, não é possível sabermos exatamente como as coisas aconte- ciam. Imagina-se que, a princípio, todos os membros da tribo execu- tavam o ritual em conjunto. Com o tempo, porém, alguns sujeitos da tribo começaram a se destacar nesses rituais. Não eram todos, afinal, que tinham a predis- posição, o talento, ou mesmo a vontade para fingir ser quem não eram, incorporando os seres desconhecidos e sobrenaturais que acreditavam controlar os fenômenos da natureza, ou metamorfo- seando-se neles. Desse modo, despontaram pessoas que tinham uma maior faci- lidade para expressar os anseios de toda a sua comunidade, condu- zindo o ritual, o culto ou a manifestação, como uma espécie de líder. totemismo: é o conjunto dos ritos e práticas associados a qualquer objeto, animal ou planta que seja cultuado como um símbolo. O termo é oriundo da palavra totem. Glossário A origem do teatro: como tudo começou? 39 m um bo ju m bo /S hu tte rs to ck Nesse processo, eram esses sujeitos que conseguiam se comunicar com o divino, com os espíritos ou com o sobrenatural. Cada cultura atribuiu a eles um nome. Hoje, conhecemo-nos como sacerdotes, xamãs, oráculos, pajés, e, posterior- mente, como veremos na próxima seção deste capí- tulo, os atores. Ademais, para perderem suas individuali- dades e poderem se manifestar como seres sobrenaturais, surgiu o elemento fundamen- tal para o nascimento do teatro como o co- nhecemos: a máscara. Feita de plantas e restos de animais, ela, que inicialmente foi utilizada como disfarce dos caçadores, pas- sou a ser empregada para ocultar os traços humanos e, assim, permitir que o homem se exibisse como uma evocação do místico e do desconhecido. Doravante, a fim de se parecerem cada vez me- nos com um humano e cada vez mais com a força desconhecida, com o oculto que se pretendia repre- sentar, todo o corpo humano passou a ser cober- to com vestes e acessórios – a base do que hoje chamamos de figurino. Afastavam-se, assim, cada vez mais, os contornos que identificavam o humano, enquanto o que ele, é para aproximá-lo da suposta imagem dos deuses que pretendia representar e agraciar. “Como o espírito ou deus é apresentado, no ritual, por meio de sua suposta imagem, já temos aí o que no teatro será um personagem” (HELIODORA, 2008, p. 10, grifo do original). Com o tempo, esses rituais passaram a adquirir uma forma muito bem desenhada, com início, meio e fim, passando a ser sempre repeti- da, semelhante à ação teatral. Máscara ancestral encontrada na Papua-Nova Guiné. Sua data de fabricação não é precisa. Figura 2 Máscara ancestral https://www.shutterstock.com/pt/g/jamesmmm9 40 Teoria e prática das artes cênicas Dentre os temas mais abordados nesses rituais, estavam a preo- cupação humana com a chegada do inverno e a consequente morte de plantas e animais, assim como o seu ressurgimento durante a primavera. Do que se recuperou, o mais antigo é chamado Drama da Paixão de Osíris e fora realizado entre 1887 e 1849 a.C., mas a prática litúrgica parece datar de muito antes: 4000 a.C. Trata-se de um ritual dramatizado, apresentado no antigo Egito; contém per- sonagens que usam máscaras, ações e diálogos. Nesse ritual, eram representados a morte e o esquadrejamento de Osíris, pelas mãos de seu irmão Seth. Posteriormente, sua irmã/esposa Ísis o ressus- citava (HELIODORA, 2008). É possível perceber como o homem primitivo, na sua ansiedade por encontrar respostas e tentar entender os fenômenos da natu- reza, passou a construir um grande acervo de rituais, mitologias e, posteriormente, religiões. Assim, só quando estas foram postas no epicentro dos rituais a vida e os feitos de certos deuses, e mesmo de alguns heróis, é que essas manifestações passaram a se tornara verdadeiros pretextos para surgirem os primeiros esboços das re- presentações cênicas. Como se percebe, a origem do teatro como o conhecemos está atrelada à nossa habilidade de imitar e reproduzir ações, sons e gestos e empregada no esforço primitivo para compreender o mundo e os fenômenos naturais. Por isso, torna-se praticamente impossível dissociar o surgimento e a criação dos rituais, das ceri- monias, dos cultos e das próprias religiões do que hoje conhece- mos como teatro. Di vu lg aç ão O livro História mundial do teatro é, sem dúvidas, um dos melhores materiais para conhecermos as origens do teatro. A autora disserta não só sobre a origem primitiva do que hoje conhecemos como teatro, aprofun- dando sua incidência no Antigo Egito, mas também aponta indícios do seu surgimento em diversas outras civiliza- ções, como a China, o Japão, a Mesopotâmia, a Indonésia, a Pérsia e a Turquia. BERTHOLD. M. São Paulo: Perspectiva, 2006. Livro 2.2 Sem vinho, sem teatro: as festas dionisíacas Vídeo É na Antiga Grécia que o teatro, como hoje o conhecemos no Ocidente, assume a sua feição definitiva, ou seja, ocorre no final do século VI a.C. Ali também o seu nascimento foi precedido de uma evolução primitiva e natural dos rituais e cultos a um deus: Dioniso (em Roma é conhecido como Baco), o deus da fertilidade, do vinho e da alegria. A origem do teatro: como tudo começou? 41 Esse era um deus importado da Ásia Menor, mais aces- sível e um tanto menos sério do que os da religião tradi- cional do Olimpo; por isso mesmo, foi muito mais popular entre as pessoas. À sua honra, eram cantados hinos, deno- minados ditirambos, que contavam a história da sua vida. Supõe-se que tenha sido ele o Deus que veio ao mundo (so- lidário aos humanos que era) para ensiná-los sobre o cultivo da terra e da uva. Os ditirambos tinham como premissa agradar a Dioniso, que, em troca, agraciaria os meros mortais com a fertilidade do solo, a fartura da colheita, do leite e do mel, assim como com a frutificação dos pés de videira e parreira, que propiciam as uvas, utilizadas na feitura de vinhos. Figura 3 Dioniso Gi lm an sh in /S hu tte rs to ck m at rio sh ka /S hu tte rs to ck Na imagem, extraída deuma cerâmica grega, podemos observar com precisão alguns dos maiores interesses do povo grego: a arte, a mitologia e a guerra. Figura 4 Cerâmica grega Os gregos tiveram uma cultura maravilhosa, rica em todas as artes; dois dos poemas épicos mais famosos do mundo, a Ilíada e a Odisseia, foram atribuídos a Homero uns trezentos anos antes de o teatro aparecer, com a poesia lírica, a prosa e principalmen- te a política, atingindo altos níveis bem antes da dramaturgia. (HELIODORA, 2008, p. 15) As festas dionisíacas possuíam um caráter cívico-religioso, conci- liando aspectos da política, da religiosidade e da identidade cultural de Estátua do deus Dioniso, deus da fertilidade, do vinho e do teatro. Em seu nome foi realizada uma série de rituais que deu origem à arte teatral. https://www.shutterstock.com/pt/g/rouslan https://www.shutterstock.com/pt/g/matrioshka 42 Teoria e prática das artes cênicas Atenas. Como era o deus que propiciava o vinho, nas festas em sua ho- menagem havia o consumo exacerbado dessa bebida. Afinal, para os atenienses, ela era capaz de permitir que as pessoas fossem tomadas pelo êxtase dionisíaco, que concedia inspiração para a composição de poesias e músicas. Nessas festas, além dos homens, as mulheres e os escravos participavam, algo transgressor para aquela sociedade. Ao que tudo indica, as homenagens a Dioniso, em seu estágio ini- cial, tinham como solenidade principal a caça de um animal selvagem, geralmente um bode; este representaria a figura do próprio deus. A ce- rimônia se iniciava com uma procissão pela pólis 1 , com os atenienses entoando os ditirambos e deliciando-se, abundantemente, com vinhos. O cortejo tinha início nas plantações e findava-se em uma grande are- na, denominada theatron, que possuía em seu centro um altar, o local do sacrifício. Sacrificado, o animal era degustado por todos que participavam da cerimônia. Esta era acompanhada de libações, danças, músicas e ou- tros hinos. À medida que o cortejo dava lugar ao ritual de sacrífico, os ditirambos se transformavam em tragoidías (etimologicamente, tragos, “bode” e ode, “canto” = o canto do bode). O clímax dessa procissão era o carro festivo do deus puxado por dois sátiros, uma espécie de barca sobre rodas (carnus navadis), que carregava a imagem do deus ou, em seu lugar, uma pessoa coroada de folhas de videira. O carro-barca recordava as aven- turas marítimas do deus, pois, de acordo com o mito, Dioniso, quando criança, fora depositado na praia pelas ondas do mar, dentro de uma arca. (BERTHOLD, 2006, p. 105) De início improvisado, os ditirambos e as tragoidías assumiram, pos- teriormente, uma forma escrita, permitindo que fossem recitados da mesma maneira nos rituais seguintes: a gênese da dramaturgia teatral. Com o tempo, para além da vida de Dioniso, a letra dos hinos passou a contar outras histórias, de semideuses, de heróis e de ancestrais len- dários da Grécia. Ambos eram cantados por um coro de cem homens, que tinham como líder o corifeu – o principal narrador dos feitos e das aventuras. Foi nesse contexto que Téspis, um famoso corifeu, vestiu-se (em 534 a.C.) como Dioniso e, em vez de dizer “Dioniso fez...”, passou a dizer “eu fiz...”, ou seja, em vez de narrar o feito, ele o interpretou, colocando-se Violaine Sebillotte Cuchet, em artigo intitulado Cida- dãos e cidadãs na cidade grega clássica. Onde atua o gênero?, discorre sobre as questões de repre- sentação política dos homens, das mulheres e dos escravos nas antigas polis gregas. Disponível em: http://www.scielo. br/scielo. Acesso em: 24 mar. 2021. Saiba mais As poleis eram as cidades estados da Grécia Antiga. As mais conhecidas entre elas são Atenas e Esparta. 1 libação: ato de derramar água, vinho, sangue ou outros líquidos, com finalidade religiosa ou de ritual, em honra a um deus ou divindade. Glossário http://www.scielo.br/scielo http://www.scielo.br/scielo A origem do teatro: como tudo começou? 43 à parte do coro, como solista, e criando a função de hypokrites (“respon- dedor” e, mais tarde, ator). Assim, por responder ao coro e não ser par- te integrante dele, Téspis instaurou, nessa estrutura bastante definida e já conhecida pelos atenienses, as bases do diálogo teatral. É certo que nenhum dos presentes nessa Dionisíaca teria como ima- ginar o quão significativo e influente foi esse ato de Téspis; provavel- mente nem ele mesmo. Mas foi assim, sob o culto a Dioniso, agraciados e embebidos em vinho, que os atenienses viram surgir a figura do ator e erguer uma outra forma de se contar histórias, com base no diálogo e na representação, não apenas na narração. Aos hinos restava apenas vir à tona alguém com algum conteúdo outro que lhes desse outros sentidos perante a vida dos povos gregos, para além dos religiosos. “É com essa mudança de função – buscar no- vos horizontes, em vez de repetir o já conhecido – que aparece essa nova arte, o teatro, na qual um autor imagina uma ação por meio da qual expressa sua visão do comportamento humano diante de deter- minada situação” (HELIODORA, 2008, p. 16-17). Foi justamente quando alguém teve a ideia de usar todos aqueles recursos já utilizados nos hinos a Dioniso, a fim de expressar uma ideia nova ou olhar de um novo modo a uma coisa conhecida, que surgiu a gênese da linguagem teatral como a conhecemos. Mesmo quando distanciado, em partes, da fonte religiosa que o ori- ginara e que lhe concedera os seus primeiros elementos, o fenômeno teatral grego ainda conservou muito dos traços da manifestação que o originara. Onde antes estava o altar, no qual o bode era sacrificado, no centro do theatron, surgiu o espaço cênico, agora ocupado por atores representando personagens. Já o coro, que antes entoava os hinos e tinha papel central nas Dionisíacas, embora tenham cedido cada vez mais espaço para os atores, permaneceu como elemento importante ao longo de toda a história teatral grega. Embora outras histórias tenham passado a ser representadas que não mais a da vida de Dioniso, a ocasião de suas apresentações ainda coincidia com os mesmos períodos do ano em que as festas em seu nome eram realizadas, acentuando ainda mais a importância desse deus, de seus rituais e da fartura do vinho, no surgimento dessa lingua- gem artística e atribuindo a Dioniso também a condição o deus do teatro. 44 Teoria e prática das artes cênicas 2.3 O teatro grego e suas tragédias Vídeo É verdade que até o teatro ser como é hoje muito tempo se passou e, com ele, muitas mudanças incidiram sobre essa linguagem artísti- ca. Surgida por volta século IV a.C. na Antiga Grécia, a arte teatral sur- giu como um desdobramento das festas realizadas em homenagem ao deus do vinho e da fertilidade, Dioniso, que se tornou o deus do próprio teatro. Foram os gregos que construíram os primeiros teatros, para encenar suas peças teatrais; os espaços chegavam a comportar quase 20 mil pessoas simultaneamente. Foram eles, também, os res- ponsáveis por criar os lugares específicos para os atores e para os es- pectadores: o palco e a plateia. Na Grécia, os muitos teatros criados aproveitaram a encosta de uma colina ou montanha, onde a acústica era perfeita e auxiliava o trabalho dos atores. A distribuição de assentos era feita em arquibancadas cor- tadas por escadas de acesso, que já possuíam os espaços diferenciados para autoridades, cidadãos e outras pessoas. Figura 5 Teatro Epidauro Pi t S to ck /S hu tte rs to ck Construído por Policleto, depois de 330 a.C., o teatro de Epidauro comporta mais de 13 mil pessoas. Mesmo no fundo, na última fileira de pedras, é possível escutar com precisão e clareza tudo o que é dito em seu centro, ou seja, sua condição acústica é impressionante. https://www.shutterstock.com/pt/g/Pitk18 A origem do teatro: como tudo começou? 45 O primeiro gênero estritamente teatral, a tragédia, nasceu, como já dissemos, de um desdobramento dos hinos entoados nas festas dionisíacas (ditirambos e tragoidías), aperfeiçoando-see tornando-se material de uma competição que ocorria dentro des- sas mesmas festas. As apresentações, raras no período, ocorriam apenas durante esses festejos, que logo passaram a ser chamados festivais. Os rituais dionisíacos deram lugar aos festivais em homenagem ao deus Dioniso, que conservavam a importância e a data da festa religiosa. Em uma época determinada pelo governo ateniense, os autores apresentavam seus textos a uma comissão; esta julgava e elegia os três vencedores. Apenas os vencedores do concurso dramático tinham suas tragédias montadas e apresentadas nos festivais. As tragédias gregas, o gênero teatral mais antigo de todos, ti- nham como base histórias trágicas e mitológicas, geralmente já conhecidas pelos espectadores. Essas peças tinham a intenção de suscitar, naqueles que as assistissem, os sentimentos de terror e piedade, a catarse. Para isso, os personagens centrais das tragé- dias, geralmente, eram representações de deuses, reis ou heróis. Essa escolha era feita principalmente porque esses sujeitos, di- ferentemente dos homens comuns, continham imensurável poder político, financeiro e/ou sobrenatural, estando envoltos em glórias e honrarias das mais variadas. Apesar disso, terminavam as peças sempre de maneira trágica, ora por uma decisão mal tomada ora por terem desobedecido alguma lei – fosse ela moral, divina ou mundana –, arcando com as consequências dos seus atos. É fácil imaginarmos o que provavelmente pairava na cabeça dos cidadãos comuns, que iam assistir esses espetáculos: “se até esses podero- sos sujeitos sofrem com as consequências de seus atos, o que seria da nossa vida, caso fizéssemos o mesmo que eles?”. Catarse é um conceito filosófico que abre pos- sibilidades para muitas interpretações. Para você se aprofundar na temáti- ca, aconselhamos o artigo de Izabela Bocayuva, intitulado Sobre a catarse na tragédia grega. Disponível em: https://revistas. ufrj.br/index.php/FilosofiaClassica/ article/view/17037. Acesso em: 24 mar. 2021. Saiba mais https://revistas.ufrj.br/index.php/FilosofiaClassica/article/view/17037 https://revistas.ufrj.br/index.php/FilosofiaClassica/article/view/17037 https://revistas.ufrj.br/index.php/FilosofiaClassica/article/view/17037 46 Teoria e prática das artes cênicas Figura 6 Zeus de lc ar m at /S hu tte rs to ck Os gregos criaram uma série de deuses e seres mitológicos. Deles, Zeus, deus dos raios, era o mais imponente e comandava o Monte Olimpo. Segundo Oliveira (2009), para além do caráter religioso, o teatro gre- go passou a ter uma relação muito próxima com a política e a educa- ção, uma vez que, além de possibilitar ao seu público as condições para que ampliasse suas visões da realidade cotidiana, instruía-os sobre os valores que contribuíam para a sua completude enquanto sujeitos ati- vos e responsáveis no mundo grego. O próprio teatro foi um importante instrumento educacional na medida em que disseminava o conhecimento e representava, para o povo, o único prazer literário disponível. Os dramatur- gos eram considerados pelos professores tão relevantes quanto Homero e eram recitados de maneira semelhante. O teatro, em todos os seus aspectos, foi a maior força unificadora educacional no mundo ático. (COURTNEY, 2001, p. 5) https://www.shutterstock.com/pt/g/Matiasenelmundo A origem do teatro: como tudo começou? 47 Dentre os inúmeros dramaturgos que existiram na Antiga Grécia, o mais antigo deles, isto é, o primeiro a ter peças completas que che- garam até nós, é o tragediógrafo Ésquilo (525–456 a.C.), treze vezes ganhador do primeiro prêmio nos concursos dramáticos. Não por menos, é considerado o fundador da tragédia grega. É, também, o responsável por ter adicionado à sua estrutura um segundo ator – para além do primeiro, introduzido anteriormente por Téspis. Dizer, entretanto, que as tragédias possuíam somente dois atores não é o mesmo que dizer que elas possuíam apenas dois personagens. Isso porque Ésquilo, além da introdução do segundo ator, passou a utilizar e explorar ainda mais as máscaras e as indumen- tárias no teatro, o que permitia que um mesmo ator saísse de cena e, com a troca da máscara e do figurino, retornasse a ela como um outro personagem. A esse tragediógrafo é creditada também a criação e a utilização dos coturnos, uma espécie de sapato de solado alto que permitia aos atores ficarem maiores do que eram, cerca de 15 ou 20 centímetros, para melhor serem vistos pela plateia. Dos figurinos e máscaras para uma cenografia rudimentar a distância era apenas de um passo, e um passo que um gênio tão versátil poderia dar com facilidade. Decorava o seu palco – isto é, a construção cênica que se tornou cenário permanente – com objetos requeridos por cada uma das peças em particular. Ao que parece, também começou a utilizar a maquinaria e os efeitos cênicos com bom resultado. [...] Em resumo, Ésquilo foi o primeiro dramatur- go, encenador, cenógrafo, figurinista e coreógrafo importante. (GASSNER, 1974, p. 28) Ésquilo foi autor de 90 peças, das quais apenas sete chegaram aos nossos dias. Destas, a mais antiga se chama As Suplicantes (490 a.C.) e é parte de uma trilogia, completada por Os Egípcios e Danaídes, que se perdeu com o tempo. Sua obra mais famosa é tragédia Prometeu Acor- rentado (sem data específica), que encena a história de um dos maiores mitos gregos: a entrega do fogo do Olimpo para a humanidade, pelas mãos do titã Prometeu. Como castigo pelo feito, ele foi acorrentado por 30 mil anos junto ao alto do monte Cáucaso, durante os quais seria diariamente bicado por uma águia. Figura 7 Representação de um ator trágico grego São creditados ao tragediógrafo Ésquilo a criação dos coturnos, que deixavam os atores mais altos, e o uso de máscaras expressivas, para facilitar ao público que assistia de longe captar a emoção das personagens. Embora Téspis usasse máscaras de linho, foi Ésquilo quem primeiro empregou máscaras expressiva- mente pintadas, necessárias às suas tragédias, que, progres- sivamente, tornaram-se mais complexas (GASSNER, 1974). Curiosidade Es te ba n De A rm as /S hu tte rs to ck 48 Teoria e prática das artes cênicas À medida que as tragédias gregas foram se tornando cada vez mais complexas e que as ações cênicas foram se aprimorando, a necessidade de haver mais personagens agindo concomitantemente em cena foi sendo sentida. Embora o Corifeu, líder do coro, vez ou outra e de maneira modesta, colaborasse com o diálogo cênico, ele não era um indivíduo com personalidade e vontades próprias. Por isso, não podia intervir sobre a cena, apenas comentá-la. Sendo as- sim, Sófocles (496–406 a.C.), sucessor de Ésquilo e o segundo grande tragediógrafo que se tem registro, sentindo a necessidade de deixar o fenômeno teatral ainda mais complexo, introduziu a figura do ter- ceiro ator no teatro. A inserção desse terceiro ator expandiu e possibilitou uma maior exploração dos diálogos em cena. Consequentemente, o fenômeno teatral passou a ser cada vez mais centrado em personagens que podiam agir e falar em sua própria pessoa, em vez de terem suas vidas contadas por outros. Assim, pouco a pouco, os recursos narra- tivos que outrora haviam originado essa linguagem artística come- çaram a perder importância. Em seu lugar, desponta o diálogo. Com isso, o coro, que era de fundamental importância nos diti- rambos e nas tragoidías, viu sua relevância diminuir gradativamente com o passar do tempo. Apesar disso, “durante todo o tempo em que o teatro em Atenas estava no auge, o coro continuou a existir, mas só os atores pisavam no palco; o coro ficava só na área redonda central” (HELIODORA, 2008, p. 23). Além da adição de um terceiro ator, outra grande contribuição de Sófocles à arte teatral foi dar à tragédia a sua estruturação definiti- va, com cinco atos completos. Não por menos, as suas dramaturgias são apontadas pelo filósofo Aristóteles (1992) como exemplos de tragédias bem-feitas. Sófocles foi por24 vezes vencedor nos concursos dramáticos, sendo a primeira em 469 a.C., quando derrotou o próprio Ésquilo. Das mais de 125 peças que escreveu, sobreviveram até os dias de hoje sete tragédias completas. Dentre elas, Édipo Rei (427 a.C.) – sem dúvidas, a mais famosa entre todas e uma das mais encenadas até hoje –, dramatizando a história de Édipo que, após uma longa jorna- A origem do teatro: como tudo começou? 49 da, descobre ter assassinado seu próprio pai, casado com a própria mãe e, com ela, ter tido quatro filhos. O terceiro e último grande tragediógrafo da Grécia Antiga é Eurípides (484–406 a.C.). Diferentemente de Ésquilo e Sófocles, ganhou poucas vezes o primeiro prêmio nos concursos dramáti- cos, apenas quatro vezes em vida e uma outra, a quinta, após sua morte. Ele escreveu cerca de 93 peças, das quais apenas 19 foram resgatadas. Também escrevendo sobre os deuses e os heróis da Grécia, como é de costume das tragédias gregas, Eurípides não incluiu mais ato- res, elementos ou aparatos cênicos. Todavia, criou personagens profundamente humanos, sendo o primeiro dramaturgo a drama- tizar os conflitos internos do indivíduo e a tratar do amor em suas tragédias. Inovou, inclusive, ao introduzir a ideia de deus ex machina (deus sobre as máquinas) no teatro, que nada mais é do que um acontecimento alheio à trama; surge milagrosamente e literalmente “do nada” para resolver o problema ou a situação que parecia não ter solução. De acordo com Gassner (1974), embora tenha tratado de heróis socialmente lidos como superiores, demonstrou que eles também eram sujeitos desagradáveis e, às vezes, até anti-heróis, muito mais próximos do cotidiano e da realidade do que os tragediógrafos que o antecederam. Sua maior contribuição para as artes cênicas tal- vez seja a criação de personagens femininas “como seres humanos completos, ao invés de figuras convencionais. Fazendo-as reais, na- turalmente fê-las capazes tanto de mal quanto de bem” (GASSNER, 1974, p. 68). Privilegiando as mulheres, fez delas as verdadeiras heroínas de suas histórias, além de personagens fortes e decididas, ao contrá- rio dos homens, que em suas tragédias eram representados como fracos e pouco decididos. É o caso, por exemplo, da sua obra mais emblemática: Medéia (431 a.C.). Nela, a personagem homônima re- presenta uma esposa que se descobre traída pelo marido, Jasão. As- sim, para se vingar e causar-lhe a maior dor possível, Medéia mata não só sua rival como seus próprios filhos. É dessa obra que saiu a seguinte charada: Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois e à tarde tem três? A reposta dada por Édipo foi suficiente para encerrar a maldição da Esfinge que atormentava Tebas: o próprio ser humano. Por quê? Pois de manhã, quando bebê, engatinha com “quatro pés”; ao meio-dia, quando adulto, anda sobre duas pernas; de tarde, já envelhecido, utiliza três: seus próprios pés e um apoio, como uma bengala. Curiosidade Di vu lg aç ão O filme Édipo Rei é uma adaptação cinematográfi- ca da tragédia teatral gre- ga escrita por Sófocles. Além de ajudá-lo a conhe- cer a fábula, também o auxiliará na compreensão da sociedade grega e, sobretudo, de como essa tragédia a influenciou. Direção: Pier Paolo Pasolini. Itália/ Marrocos: Alfredo Bini, 1967. Filme 50 Teoria e prática das artes cênicas Figura 8 Deus ex machina em Medéia Vo ro pa ev V as ili y/ Sh ut te rs to ck Na obra de Eurípides, Medéia foge na carruagem do deus do sol, Hélios, de quem era descendente. A aparição repentina da carruagem, completamente inesperada, que ocorre quando tudo dava a entender que Medéia seria capturada e condenada, é um ótimo exemplo de “deus sobre as máquinas” ou deus ex machina. Ésquilo, Sófocles e Eurípedes são os três maiores tragediógrafos gregos. Como vimos, foi o gênero trágico que deu início, propriamente dito, à linguagem teatral. Podemos dizer que Ésquilo, Sófocles e Eurípedes foram homens de teatro em toda a acepção do termo, pois suas obras dramáticas nunca dissociaram o texto escrito de sua representação cê- nica. Contudo, foi com a morte dos dois últimos, Sófocles e Eurípedes, https://www.shutterstock.com/pt/g/kvasay A origem do teatro: como tudo começou? 51 que começou o fim do reinado da tragédia como gênero maior no tea- tro. Outros, é claro, tentaram manter viva a chama da tragédia, mas não foram tão hábeis quando os três grandes mestres já falecidos. Coube, assim, à comédia manter vivo o interesse grego pela arte teatral. 2.4 A invasão do riso no teatro grego Vídeo Embora não do ditirambo, mas de festividades que se realizavam desde muito tempo, também a comédia emanou das cerimônias dioni- síacas. A palavra comédia vem do grego komoidía, que remete à komoi (procissão), festas rurais populares também em homenagem ao deus Dioniso. Nelas, os jovens saiam às ruas, com o seu cortejo de perso- nagens seminuas e meio embriagadas pelo vinho, monstruosamente mascaradas, que urravam canções obscenas e injúrias; também brin- cavam com os habitantes da cidade. As comédias gregas nasceram quase meio século depois da tragé- dia. Apesar de também serem representadas nas festas dionisíacas, eram consideradas um gênero menor. Assim, enquanto o júri que apreciava as tragédias e as escolhia para serem representadas era for- mado por membros da nobreza, o da comédia era formado por pes- soas escolhidas da plateia. A regular inclusão da comédia nas competições teatrais de Atenas aconteceu em 488/7 a.C., quando, nas Grandes Dionisíacas daquele ano, coube o prêmio a Quiônides, de quem se conhecem os títulos de quatro peças. Em seguida, foi cultivada por outros autores, dos quais Aristófanes dá notícia em famosa passagem de Os Cavaleiros, onde enumera os seus predecessores e lastima o descaso que lhes votara o público. (ARAÚJO, 1991, p. 79) O seu coro era composto de 24 coreutas (enquanto o trágico de 12 a 15) e em muitos casos representavam animais, não cidadãos gregos, como o “gênero maior” fazia. Diferentemente das tragédias, que tra- ziam como personagens principais sujeitos de caráter elevado, como deuses, reis e heróis, as comédias traziam pessoas comuns, muitas ve- zes estereotipadas e caricaturadas. Elas abordavam temas gerais do cotidiano por meio do riso, da paródia, da ironia, do sarcasmo e das sátiras políticas. 52 Teoria e prática das artes cênicas Figura 9 Cerâmica grega com a ilustração de atores representando uma comédia M ar ie -L an N gu ye n/ Sh ut te rs to ck A comédia grega tinha como premissa, por meio do riso, da caricatura e do sarcasmo, criticar os costumes e a sociedade. Esses aspectos influenciavam a escolha dos figurinos, que se apro- ximava muito mais das vestimentas das pessoas comuns. Os atores utilizavam sandálias no lugar de coturnos e máscaras pequenas, que mais pareciam caricaturas do que expressões humanas. Isso ajudava na interação com o público, já que este se sentia muito mais próximo do que estava sendo representado. Em vez de três atores em cena, havia quatro, às vezes, cinco. A comédia zombava dos ricos, dos políticos, dos heróis e das insti- tuições. Nasceu e fortaleceu-se como gênero independente da tragédia por colocar o “dedo na ferida” de Atenas, por fazer críticas sociais e A origem do teatro: como tudo começou? 53 culturais. Criticava aquelas pessoas que se consideravam intocáveis e por isso mesmo eram arrogantes ou prepotentes, por vezes tiranas e exploradoras. Como ridicularizavam os poderosos, as perseguições aos comediógrafos e as tentativas de censurar a produção das obras eram constantes (MOUSSINAC, 1957). A origem da comédia demonstra como pelo riso se busca mostrar aos espectadores o quão ridícula é determinada situação e, assim, despertar a consciência crítica acerca do tema. De suas origens ao declínio, de acordo com Araújo (1991, p. 80), a comédia ateniense teve três períodos bem delineados: 1. Comédia antiga – compreende o período que se estendeu,aproximadamente, de 500 a 400 a.C. Caracterizou-se pela sátira política e pelos ataques pessoais. Tem Aristófanes como expoente e comediógrafo mais importante. 2. Comédia intermediária – compreende o período de 400 a 330 a.C. É uma fase de transição em que o coro desaparece. 3. Comédia nova – em números aproximados, inicia em 330 a.C e declina em 150 a.C. Nesse período, ocorreram profundas mudanças nas características desse gênero: de sátira, passou- se a explorar os tipos e os costumes, tendo em Menandro o seu principal expoente. Dentre os comediógrafos, o maior, mais admirado e amado pelo público foi Aristófanes (447–385 a.C.). Ele foi tão grande que, como ne- nhum outro, pôde ser opor aos políticos, aos cidadãos honoríficos e mesmo aos gênios Ésquilo, Eurípides e ao filósofo Sócrates (MOUSSI- NAC, 1957). Sua obra mais famosa é Lisístrata (411 a.C.) ou A Guerra do Sexo. No enredo, as mulheres de Atenas e Esparta, fartas com a Guerra do Peloponeso, unem-se e deflagram uma greve sexual por tempo in- determinado com o objetivo de pôr fim a ela. Duarte (2000) considera essa comédia como a primeira grande obra pacifista da história da qual se tem notícia. Outro comediógrafo que merece destaque especial quando fala- mos das comédias gregas é Menandro (343–291 a.C.), representante Di vu lg aç ão O filme Lisístrata é uma adaptação da peça ho- mônima, escrita pelo co- mediógrafo Aristófanes, em 411 a.C. Nele, além da força e importância das personagens femininas, é possível notar a crítica so- cial e política ligada à essa comédia de Aristófanes. Direção: Francesc Bellmunt. Espanha: A. Lllorens Olivé Producciones Cinematográficas S.A., 2002. Filme 54 Teoria e prática das artes cênicas da chamada comédia nova. No período em que ela a criou, Atenas havia perdido a Guerra do Peloponeso para Esparta e, com o empobrecimen- to dos cofres públicos, já não era possível arcar com as despesas do coro (ARAÚJO, 1991). Para sobreviver, a comédia precisou ser modificada, sendo retiran- do das “alturas da sátira política para o menos arriscado campo da vida cotidiana” (BERTHOLD, 2006, p. 124). Menandro, então, passou a explorar personagens comuns do imaginário popular, como os velhos avarentos, as mães complacentes, os escravos alcoviteiros etc.; enfim, toda a estratificação que será a base de suas comédias posteriores. É possível considerarmos, assim, Menandro como o criador da comédia de tipos. Figura 10 Máscaras da tragédia e da comédia Es in D en iz ?S hu tte rs to ck Máscaras representando feições trágicas e cômicas, gêneros criados no período da Antiga Grécia. Tornaram-se o símbolo tradicional da linguagem teatral. A origem do teatro: como tudo começou? 55 Com a decadência do império grego no mundo ocidental e a ascensão do império romano, a arte dramática quase chegou ao fim. Todavia, como se percebe entre nós, isso não aconteceu de fato. O teatro continuou a existir nas mais diversas sociedades, culturas e países, que passaram a emergir em nosso lado do hemisfério. Isso ocorre quando Roma não con- segue mais impor domínio ao seu vasto território. É claro que ele conti- nuou abordando os temas e as características próprias aos contextos em que estava inserido, adaptando-se e reinventando-se às realidades das quais fazia parte. No Brasil, isso não foi muito diferente. 2.5 O início do teatro brasileiro Vídeo Assim como o foi a origem do teatro mundial, a origem des- sa arte em terras brasileiras também ocorreu por intermédio da religião. É preciso lembrar que, como todos os outros paí- ses das Américas, o Brasil tem a sua história marcada pela co- lonização. Os portugueses, notavelmente católicos, trouxeram consigo para as terras recém-colonizadas não só a língua, mas também seus costumes e sua cultura. Acontece que, a não ser pelo notável Gil Vicente, “Portugal não tem uma grande tradição de textos ou espetáculos mui- to marcantes, o que inevitavelmente acaba por se refletir na colônia” (HELIODORA, 2008, p. 147). Todavia, e embora os por- tugueses não possuíssem relevantes manifestações cênico- -teatrais no período, tudo isso mudou quando, no ano de 1549, a Companhia de Jesus 2 chegou a terras brasileiras. Os padres jesuítas, que integravam a Companhia, tinham como pressuposto a atividade missionária e a catequização dos nativos, assim como a manutenção da fé dos colonos que por aqui estavam se firmando. Junto à catequização, os jesuítas trouxeram inúmeras influências culturais, dentre elas a litera- tura e o teatro. Berthold (2006, p. 338) afirma que o teatro, tão “comprovado em serviço da religião quanto condenado como um perigo para a fé quando enveredado por trilhas erradas, encontrava patrocinadores decididos nos jesuítas”. Tendo como prioridade a ativi- dade missionária e a educação religiosa, a Companhia de Jesus influenciou diversos países, não só nas Américas, mas nas Índias e no Extremo Oriente. Ela foi criada justamente para combater o movimento protes- tante, que crescia no período. 2 56 Teoria e prática das artes cênicas Figura 11 Ritual indígena (Bahia, 2010) Jo a So uz a/ Sh ut te rs to ck Os jesuítas incorporavam às suas missões catequéticas os costumes e os ritos dos povos originários brasileiros. Aliadas aos rituais e às danças indígenas, os padres jesuítas começaram a encenar passagens bíblicas com fins pedagógicos, utilizando o teatro como ferramenta e instrumento catequético. Enquanto a linguagem era um grande obstáculo aos ensinamentos da fé cristã, o mesmo não acontecia com o campo das imagens, apresentadas e construídas cenicamente. Dessa forma, o teatro, com sua potência comunicacional por vias imagéticas, era muito mais eficaz do que um sermão ou uma missa, por exemplo. “Além disso, flexíveis como eram, os jesuítas sempre tentavam encora- jar talentos locais para suas propostas missionárias” (BERTHOLD, 2006, p. 342). file:///C:\Users\rafael.teles\AppData\Local\Packages\microsoft.windowscommunicationsapps_8wekyb3d8bbwe\LocalState\Files\S0\3\Attachments\Joa Souza A origem do teatro: como tudo começou? 57 Eminentemente didático e com o objeto específico de impor a religião e a cultura europeias à população nativa, o teatro emergiu nas terras brasileiras. Devido a isso, podemos afirmar tranquila- mente que “o teatro brasileiro nasceu à sombra da religião católi- ca” (PRADO, 1999, p. 19). A primeira pessoa a escrever peças com certa regularidade na terra que a princípio se chamou de Santa Cruz foi, apro- priadamente, um santo – ou quase. E se oito dos seus textos dramáticos chegaram aos dias atuais deve-se exatamente a isto, ao fato de terem sido enviados sob forma manuscrita a Roma, para instruir o processo de beatificação do seu autor, há poucos anos concluído favoravelmente. (PRADO, 1999, p. 19) Prado de refere ao padre jesuíta José de Anchieta (1534–1579). É dele a autoria do Auto de Pregação Universal, escrito entre 1567 e 1570, e representado em diversos locais do Brasil, por vários anos seguidos. Credita-se a ele, também, junto aos padres Manuel de Nóbrega e Manuel Paiva a fundação da capital paulista. Para a catequese da população nativa, Anchieta não só compôs pequenos autos na língua tupi, incorporando às passagens bíblicas encenadas trechos dos rituais, da mitologia e da cultura indígena, como também fez escolhas simples e sagazes. É o caso, por exem- plo, da utilização dos nomes característicos de tribos inimigas para nomear a figura do Diabo e de seres infernais, quando encenava e ensinava os confrontos entre o céu e o inferno (HELIODORA, 2008). No entanto, quando o processo catequético ocorria com as popu- lações advindas da Europa, Anchieta utilizava o latim, o português e o espanhol. Esse teatro possuía uma preocupação muito mais religiosa do que artística. Os atores eram amadores: às vezes os próprios pa- dres, às vezes pessoas das tribos (geralmente os meninos). Como não havia espaços destinados exclusivamente à atividade teatral, as apresentaçõesocorriam nas praças, nas ruas, nos colégios e nas próprias tribos e florestas. 58 Teoria e prática das artes cênicas A representação completava-se com cantos e danças, nas quais os índios, sobretudo os meninos, tomavam parte, e, ao que parece, com graça e alegria. É possível que a dispersão desse heteróclito universo ficcional se justificasse, em parte, pelo caráter itinerante do espetáculo, desenvolvido muitas vezes em formato de procissão, com paradas em diferentes lugares, cada um dando origem a um episódio relativamente autônomo, dentro do tema religioso geral. (PRADO, 1999, p. 20) Advêm dessa forma de fazer teatro, porém agora a partir do século XVII, inúmeras festas que refletiam (e ainda refletem) a reali- dade da população e da manutenção da fé católica. Dentre as mais importantes, podemos citar a própria Via Sacra, bastante comum em nosso país, principalmente em pequenas cidades do interior, onde ocorre sempre às Sextas-feiras Santas e representam a ago- nia de Cristo antes de morrer na cruz. Passado o século XVII, entretanto, diferentemente da pintura, da literatura e da música, a arte dramática brasileira praticamente desapareceu, caindo “no rol dos fatos rotineiros, de que não se dá notícia nem se guarda memória” (PRADO, 1999, p. 21), pois o teatro precisa de um público para existir e, depois do trabalho catequéti- co dos jesuítas e de Anchieta terem atingido seus objetivos, o que se tem na colônia portuguesa nas Américas é um longo silêncio teatral, panorama que começa a melhorar, ainda que timidamente, a partir do século XVIII. Percebemos, assim, que as origens na linguagem teatral no Bra- sil não estão muito distantes daquelas que também originaram essa arte na Antiga Grécia. Em ambos os contextos, resguardadas as especificidades de cada um, foi principalmente por intermédio da religião, dos cultos e da fé que o teatro nasceu e desenvolveu-se. CONSIDERAÇÕES FINAIS Sintetizar a história das origens da arte teatral não é uma tarefa fácil. Aqui, apresentamos apenas alguns grãos de areia da vasta praia que deu origens à essa linguagem artística no Ocidente. Destacamos, meramente, as grandes linhas e os pontos que deram início ao teatro, ainda que para isso tenhamos sacrificado inúmeras particulares de ordem artística, histó- rica e cultural. Di vu lg aç ão No livro Teatro de Anchieta e Alencar, você poderá conhecer mais sobre a história do teatro jesuítico e a influência de Anchieta na formação do teatro brasileiro. PRADO, D. de A. São Paulo: Perspectiva, 1993. Livro A origem do teatro: como tudo começou? 59 Como a história prova, o teatro nasceu nas tentativas de o ser humano primitivo compreender o mundo e as coisas. Com a evolução da huma- nidade e o desenvolvimento das sociedades, passou a ser utilizado como uma ferramenta de propagação de ideias, valores e conceitos. Se na Anti- ga Grécia foi amplamente utilizado com fins didáticos e morais, no Brasil foi como fins catequizantes, atingindo esses objetivos com certa rapidez e facilidade. Essa característica da arte teatral –ser um instrumento valioso e po- tente de comunicação e disseminação de conteúdos – não poder ser ig- norada. Nos dias de hoje, basta que mudemos o tema abordado para que suas potencialidades estéticas possam ser exploradas nas mais variadas situações, espaços e instituições. Para uma melhor compreensão dos temas que aqui foram aborda- dos, aconselhamos fortemente as leituras das obras dramáticas citadas ao longo do capítulo. O contato com elas ampliará não só os seus conheci- mentos, mas também seu arcabouço cultural, algo indispensável quando falamos de arte e teatro. Afinal, como falar sobre essa linguagem artís- tica sem nunca termos visto uma encenação, lido uma peça ou mesmo feito teatro? ATIVIDADES 1. Quais relações podem ser estabelecidas entre o aprendizado da fala e as origens do teatro? 2. Relacione a importância de Téspis, do ditirambo e da tragoidía ao surgimento da arte teatral. 3. Quais são as principais diferenças entre as tragédias e as comédias gregas? 4. Por que os processos de catequização dos nativos no Brasil utilizaram a linguagem teatral? REFERÊNCIAS ARAÚJO, N. de. História do teatro. Salvador: Empresa Gráfica da Bahia, 1991. BERTHOLD, M. História mundial do teatro. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2006. COURTNEY, R. Jogo, teatro & pensamento. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. DUARTE, A. da S. Dono da voz e a voz do dono: a parábase na comédia de Aristófanes. São Paulo: Humanitas, 2000. GASSNER, J. Mestres do teatro I. São Paulo: Perspectiva, 1974. Vídeo 60 Teoria e prática das artes cênicas HELIODORA, B. O teatro explicado aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2008. MOUSSINAC, L. História do teatro: das origens aos nossos dias. Amadora: Bertrand, 1957. OLIVEIRA, F. R. de. O teatro como instrumento educacional no período clássico: um estudo da Oréstia de Ésquilo. In: VII Jornada de estudos antigos e medievais. Anais [...] Maringá, UEM, 2009, p. 1-6. Disponível em: http://www.ppe.uem.br/jeam/anais/2008/pdf/p011.pdf Acesso em: 22 abr. 2021. PRADO, D. de A. História concisa do teatro brasileiro: 1570-1908. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999. TOMASELLO, M. Origens culturais da aquisição do conhecimento humano. Trad. de Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2003. O teatro brasileiro e suas vanguardas 61 3 O teatro brasileiro e suas vanguardas Juliana Pablos Calligaris Quando ouvimos falar em teatro brasileiro, é possível pensar inicialmente na chegada dos jesuítas ao Brasil. Se você pensou assim, sim, está conseguindo se localizar no tempo e na história. As tribos indígenas de todo o território possuíam rituais sociais e religiosos que sempre foram altamente cênicos e performativos, rituais cheios de teatralidade, que envolviam personagens, másca- ras, figurinos, música, contação e encenação de histórias. Sendo assim, na primeira seção, veremos como os padres je- suítas perceberam a potência dessa arte indígena, muitas vezes aprendendo técnicas com as nações e elaborando um teatro cate- quético que mesclava a religiosidade cristã à religiosidade ances- tral dos povos indígenas, entre os séculos XVI e XVII. Essa prática se estabeleceu por volta do século XVIII como um costume entre as recentes populações de vilas, cercanias e cidades brasileiras, prin- cipalmente como parte de festividades religiosas católicas, instau- rando o teatro no Brasil como uma atividade muito arraigada na construção de um imaginário nacional. Em seguida, veremos como vários autores brasileiros, já no sé- culo XVIII, e sobretudo no século XIX, sentiram a necessidade de escrever textos que falassem sobre o Brasil em si, sem imitar, pa- rodiar ou reproduzir peças ou histórias europeias. Compreendere- mos como esses autores, de diferentes estilos e épocas, passaram a contar e narrar sobre o povo brasileiro em formação, sobre as histórias do folclore nacional – que já trazia em seu bojo atividades e tradições orais indígenas e africanas – e como eles se debruça- ram, em suas peças, sobre os costumes, os vícios, as virtudes, a 62 Teoria e prática das artes cênicas 3.1 O encontro da nacionalidade no teatro Vídeo No Brasil, a colonização imposta pelos portugueses costura influên- cias na forma como organizamos a nossa história. Resumidamente, com a chegada dos portugueses, costumava-se dividir a história do Brasil por seus períodos de regência e representação política: Brasil Colônia (1500–1822); Brasil Império (1822–1889) e Brasil República (1889–dias atuais). Atualmente, é consenso entre historiadores que essa divisão é inapropriada, porque recorta períodos históricos pelo ponto de vista do colonizador, não dos povos colonizados, que sofreram o processo de exploração e deveriam narrar a história de sua própria ótica. No entanto, sua breve exposição aqui ocorre pela importância de estabe- lecermos um panorama mínimo da história do Brasil, para posicionar- mos o teatrobrasileiro nesse contexto. Diante disso, vale pontuar que as influências históricas estrangeiras absorvidas pelo teatro nacional em seu início foram inevitáveis e de- terminantes no estabelecimento de forma e conteúdo da dramaturgia política e a cultura nacionais. Veremos, ainda, o encontro com a brasilidade no teatro, na poesia e na crítica, tanto em comédias quanto em dramas e tragédias. Na terceira seção, descobriremos como o teatro novecentista, romântico, e depois realista (na seção seguinte), evoluiu para um teatro modernista (apresentado na quinta seção), no início do sécu- lo XX. Por fim, atentaremos para autores e companhias teatrais que revolucionaram as artes no Brasil, ao apresentarem novas formas de criar textos e encenações, para o modo como grandes atrizes e atores inovaram em técnicas de atuação e para o surgimento da era dos diretores teatrais e suas linguagens cênicas: o Tropicalismo, o teatro de resistência durante a ditadura civil-militar brasileira, o teatro da anistia pós-ditadura, o teatro de vanguarda no final século XX e as tendências do teatro brasileiro no século XXI. Uma viagem fantástica que começa na pré-história do Brasil e al- cança-nos à luz do século vigente, repleta de episódios emocionantes, com suspense, emoção, engajamento e muito amor pelo fazer teatral. O teatro brasileiro e suas vanguardas 63 nacional e do fazer teatral, de acordo com as épocas em que foram pro- duzidas. Feitas as devidas considerações iniciais, vamos nos debruçar sobre como o teatro foi se inserindo, gradativamente, no processo de formação da cultura ou das culturas brasileiras. No ano de 1540, no ainda chamado período colonial, a Companhia de Jesus – os jesuítas – foi fundada pelo padre espanhol Inácio de Loyola (1491–1556). Essa fundação foi uma resposta 1 da Igreja Católi- ca ao protestantismo crescente e à Reforma Religiosa, instaurada pelo então padre alemão Martinho Lutero, que escreveu 95 teses, dando origem a uma nova forma de pensar o cristianismo em detrimento do que era defendido pela Igreja Católica, cujo objetivo, segundo Lutero, era conquistar fiéis pela via da catequização, sobretudo no continente americano, repleto de povos nativos que nunca conheceram os dog- mas cristãos católicos. Figura 1 Santuário de Inácio de Loyola An de r D yla n/ Sh ut te rs to ck O Santuário de Loyola, construído em torno do local de nascimento de Inácio de Loyola, no País Basco, na Espanha, transmite a noção de opulência da ordem jesuítica e das muitas riquezas minerais, animais e vegetais das Américas levadas à Europa para a construção de templos e palácios. Para tanto, um dos métodos de transmissão das doutrinas do cris- tianismo aos povos originários foi o ensino do latim, o que favoreceu a internacionalização desse idioma. Nas escolas jesuítas, o teatro, rea- lizado em latim, constituía um dos principais instrumentos da práti- ca didática dos padres, pois eram espetáculos que se propunham a Essa resposta compõe a cha- mada Contrarreforma, datada de 1546 a 1563, que consiste em um conjunto de ações da Igreja Católica Apostólica Romana frente ao crescimento do protestantismo; ela é mar- cada, entre outras coisas, pela criação do Índex, o banimento de livros considerados hereges. 1 Di vu lg aç ão Em Como Era Gostoso o Meu Francês, vemos a história de um membro de uma missão francesa nas Américas, cujo objetivo era chegar ao que os colonizadores chamavam de França Antártida. Com muito humor, acompanhamos o protagonista sendo capturado, primeiro pelos tupiniquins e depois pelos tupinambás, para ser devorado em um ritual antropofágico, uma das práticas religiosas que os jesuítas comba- tiam, por não compreenderem sua importância e função nas nações indígenas. Direção: Nelson Pereira dos Santos. Brasil: Condor Filmes, 1971. Filme https://www.shutterstock.com/pt/g/Ander 64 Teoria e prática das artes cênicas ensinar as bases do catolicismo aos indígenas. Esse é um claro exem- plo de aculturação, uma vez que as culturas autóctones foram con- ceitualmente desconsideradas em nome de uma missão civilizatória contrarreformista. No cerne das ações para doutrinar e “civilizar” os índios, estava o teatro catequizador do padre jesuíta José de Anchieta (1534–1597). Nas encenações, eram utilizados os recursos disponíveis na natureza ao re- dor, para a criação dos figurinos, cenários e efeitos especiais, aos quais se somavam recursos sonoros (música instrumental, canto), corporais (dança, mímica) e plásticos (máscaras) dos nativos. Essa incorporação fazia parte da estratégia de trazer os indígenas para dentro da nova estrutura religiosa que os jesuítas impunham. Essa mistura acabou por criar uma forma de expressão cultural. É uma característica fundamental da cultura brasileira a miscigenação de elementos da tradição cultural de outros países em formação na América Latina, no período inicial da colonização nas Américas, com elementos de tradição europeia, fundindo elementos de uma recém-nascida tradição nacional que já mesclava tradições portuguesas, africanas e indígenas. Em suas análises, Bosi (1992, p. 68) defende que “como os tupis não prestavam culto organizado a deuses e heróis, foi relativamente fácil aos jesuítas inferir [erroneamente] que eles não tivessem reli- gião alguma”. Como vimos anteriormente, o ritual religioso dedica- do aos mortos, considerado extremamente sagrado, era praticado pelas nações indígenas e era constituído de cantos e danças per- formáticas, teatralizadas. Nesses rituais, as pessoas faziam uso do cauim – bebida sagrada, análoga ao vinho da comunhão católica – e do fumo – análogo ao incenso católico. O pajé, a figura sacerdotal, conduzia momentos de transes análogos aos momentos de oração na liturgia de uma missa. Bosi (1992) deixa claro que a antropofagia se traduzia por algo muito respeitoso naquelas culturas, porque re- presentava para os indígenas a absorção da alma e do corpo do seu inimigo honrado, caído em combate justo. Porém, devido às moti- vações contrarreformistas, os padres jesuítas acreditavam que tais cerimônias fossem associadas à magia e não a profundos rituais fú- nebres. Sendo assim, precisavam combatê-las a todo custo. autóctones: termo que designa uma população humana originária ou estabelecida em determinada região ou lugar; oposto de nômade. Glossário A forte influência do dramaturgo português Gil Vicente era notada nas peças jesuítas. Vicente, que escrevera obras como o Auto da Barca do Inferno, já trazia elementos religiosos e alegorias. Na peça O Auto de São Lourenço, há também valores religiosos sendo explorados, porém, não da maneira satírica, como Vicen- te fazia, mas com fins de fixação de conceitos, tendo em vista que Anchieta despreza e, então, satiriza as práticas indígenas, visando impor a noção de culpa e de pecado, cerne e fonte da liturgia católica. Personagens: Guaixará – rei dos diabos; Aimberê Saravaia – criados de Guaixará; Tataurana, Urubu e Jaguaruçu – compa- nheiros dos diabos; Valeriano e Décio – imperadores romanos; São Sebastião – padroeiro do Rio de Janeiro; São Lourenço – padroeiro da aldeia de São Lourenço; Velha; Anjo; Temor de Deus; Amor de Deus; Cativos e Acompanhantes. Importante O teatro brasileiro e suas vanguardas 65 Para Anchieta (1997), a ferramenta mais efetiva para esse fim era o teatro. Com o intuito de acessar os povos originários, ele escrevia suas peças nas línguas nativas tupi-guarani, associando-as gradativamente ao latim, língua oficial da Igreja, e ao castelhano, língua dos jesuítas, re- lacionando-as entre si, com finalidades educativas e catequísticas. Sua peça mais conhecida escrita nesse estilo é o Auto de São Lourenço, que apresenta personagens medievais, anjos, demônios e santos ao lado de personagens que representam o povo tupi-guarani. As peças jesuí- ticas eram chamadas de autos sacramentais e tinham caráter dramáti- co, com fundo religioso, moral e educativo,pois representavam, além de demônios e santos, imperadores, rainhas, o povo e, algumas vezes, apenas simbolismos, como amor ou temor a Deus. Jo na s Ci nt ra /S hu tte rs to ck Portal de acesso às ruínas jesuítas de São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, com inscrições em guarani: “Co yvy oguereco yara”, em português “Esta terra tem um dono”. Nas missões jesuíticas, os povos indígenas eram encerrados, catequizados por meio do teatro, domesticados e “higienizados” pela cultura do colonizador, em que sofriam processos de apagamento de sua ancestralidade e cultura em nome da civilização ocidental. Figura 2 Ruínas da Igreja de São Miguel das Missões É fundamental ressaltar que o teatro jesuítico foi usado como instru- mento pedagógico ao se aproveitar do fato de que os indígenas já tinham como prática social e religiosa a música, a performance de histórias mís- ticas e a dança. Fazendo uma reflexão a respeito, Carlson (1997, p. 33) afirma que “o surgimento de uma poderosa tradição dramática no seio da Igreja da Idade Média tardia parece paradoxal à luz das suspeitas que os antigos padres nutriam em relação à arte; entretanto, os pontos de vista novo e velho partilhavam uma teoria comum: a do drama como instru- ção”. Dessa forma, ele acrescenta, que as representações tornavam as histórias bíblicas “não apenas mais vívidas e contundentes, mas também mais divertidas” (CARLSON, 1997, p. 33). alegóricas: é uma das várias formas de figura retórica em um discurso, seja ele oral, per- formativo ou audiovisual (como uma peça, uma música, um filme ou uma pintura). Em uma alegoria, aquilo que se quer dizer se materializa por meio de um símbolo ou um signo daquilo que o discurso representa. Por exemplo: para representar um discurso simplista sobre o bem e o mal, Anchieta se utilizava de alegorias de anjos e demônios. Glossário https://www.shutterstock.com/pt/g/Jonas+Alexandre+Sanches 66 Teoria e prática das artes cênicas Ao se apropriarem de elementos da cultura indígena, os jesuítas tornaram o teatro uma ferramenta de maior importância na missão catequizadora (se comparado ao sermão ou a uma missa), devido ao apelo psicológico e emocional que as imagens alegóricas transmitiam durante a representação. Desse modo, podemos afirmar que as es- colas jesuíticas contribuíram para que o teatro obtivesse um lugar de destaque junto à educação formal, mesmo vinculado aos preceitos e dogmas religiosos da Santa Sé e à manutenção e perpetuação do poder eclesiástico também nos continentes colonizados. Na segunda metade do século XVIII, após uma evolução significativa em relação àquele primeiro teatro, mais dramático e cheio de efeitos moralizantes e catequísticos, teve destaque o edifício Teatro do Padre Ventura, no Rio de Janeiro, que já exibia comédias (quase à moda do teatro que se tornaria muito popular no Brasil no século seguinte) in- tercaladas por canções do letrista luso-brasileiro Antônio José da Silva (1705–1739). Ainda nesse contexto, além de espetáculos nacionais, vá- rias montagens teatrais eram importadas de Portugal e Espanha, apre- sentados no Teatro Manuel Luís. Essas representações tinham um tom popular e eram organizadas por grupos de artistas amadores em praça pública antes de serem apresentadas nos palcos. As peças, celebravam, primeiramente, as au- toridades que os contrataram e depois satirizavam os acontecimentos locais; ocorriam, sobretudo, em momentos festivos. Após o Teatro do Padre Ventura ter sido destruído por um incêndio e o de Manuel Luís ter sido fechado, D. João VI mandou construir, já na primeira década do século XIX, o Real Teatro de São João. 3.2 O Romantismo no teatro brasileiro Vídeo Durante o Romantismo, na alvorada no século XIX, Gonçalves de Magalhães (1811–1882) se sobressai dentre os vultos célebres da dramaturgia romântica, tendo em vista que seu trabalho no teatro solidifica no meio artístico a afirmação de uma consciência nacional, esforço com base em uma motivação muito arraigada, pelo interior de todo o país, na busca de uma identidade própria, capaz de libertá- -lo da dominação colonial. O Romantismo foi, desse modo, uma ma- neira de enaltecer uma produção artística genuinamente brasileira. O Teatro do Padre Ventura foi fundado em meados do século XVII. Esse empreendimento, privado, foi uns dos primeiros a abrigar companhias teatrais profissionais no Brasil. Como não havia o hábito de se nomear as casas de espetáculos, o edifício era conhecido apenas como Casa da Ópera. Como as construções eram muito precárias e a iluminação das peças era feita com velas, os incêndios eram bastante comuns. Foi o que aconteceu com esse prédio, em 1769. O segundo teatro que receberia companhias de atores e atrizes também foi chamado pela população carioca de Casa da Ópera. Para não ser confun- dido com o anterior, recebeu o nome de seu fundador, tornan- do-se conhecido como Teatro Manuel Luís. Curiosidade O teatro brasileiro e suas vanguardas 67 O trabalho de Gonçalves de Magalhães serviu de elo para a transi- ção da escola jesuítica, de tradição medievalista, para o Romantismo. Em 1838, no Rio de Janeiro, estreava a peça Antônio José ou O Poeta da Inquisição, encenada pela Companhia Teatral do ator João Caetano, considerada, por Magalhães, como a primeira tragédia escrita por um brasileiro e a única voltada exclusivamente a temas nacionais. Sobre o episódio, o crítico brasileiro Sábato Magaldi pontua que “o lançamento de Antônio José ou O Poeta e a Inquisição parecia um manifesto para a posteridade – a tomada de consciência artística e cultural a cumprir” (MAGALDI, 1977, p. 40, grifos nossos). Outro destaque importante é Martins Pena (1815–1848). De perfil popular e sem grandes pretensões, ele escreveu e encenou de manei- ra ampla e irrestrita, por meio de sua observação cínica da sociedade, aspectos da realidade brasileira de então, sobretudo da política e de hábitos burgueses da época. O dramaturgo foi o fundador, no Brasil, da comédia de costumes – relevante segmento da literatura teatral brasileira –, que descortinava um painel histórico do Brasil da primeira metade do século XIX. De acordo com Magaldi (1977, p. 40), a 4 de outubro de 1838, pela mesma companhia de João Caetano, estreava O Juiz de Paz na Roça, sem alarde publicitário e preten- são histórica. Era a primeira comédia escrita por Martins Pena (1815–1848), de feitio popular e desambicioso, costurando com observação satírica um aspecto da realidade brasileira. Poucos, talvez, na ocasião, assinalassem o significado do acontecimento. Começava aí, porém, uma carreira curta e fecunda (Martins Pena es- creveu dos 22 aos 33 anos de idade, quando morreu, 20 comédias e 6 dramas), e o verdadeiro teatro nacional, naquilo que ele tem de mais específico e autêntico. Martins Pena é o fundador da nossa co- média de costumes, filão rico e responsável pela maioria das obras felizes que realmente contam na literatura teatral brasileira. Astuto observador, Martins Pena consagrou em suas peças costu- mes e características que permaneceram atemporais, ou seja, sua obra segue para além do seu tempo, conservando-se sempre atual. Enquan- to nascia o movimento romântico, Martins Pena antecipou na comédia alguns dos traços dominantes do período: i) voltou-se para o passado por não estar satisfeito com o presente; ii) descreveu em seus textos, as relações entre brasileiros e estrangeiros no país; iii) mostrou o provin- cianismo e a vida urbana, sobretudo na cidade do Rio de Janeiro, que se Figura 3 Luiz Carlos Martins Pena 68 Teoria e prática das artes cênicas arrogava ares de metrópole; e iv) expôs as diferenças entre o sertanejo e o cidadão urbano. Ele abordou, ainda, em seus escritos, as “profissões indignas” e a opressão exercida pelos ricos sobre os pobres, bem como as questões criminosas sobre a escravização, representado pelo tráfico negreiro no seio de uma sociedade que considerava legítima a exploraçãodo trabalho escravo. Em sua obra, também dedicou atenção aos vícios humanos, debruçando-se com humor e crítica sobre os “pecados ca- pitais”, tratando com sarcasmo modas e desvios de sua época. Entre suas obras, têm destaque as seguintes: Juiz de paz na roça; O judas em Sábado de Aleluia; Quem casa, quer casa; O Noviço; e Os Dois ou O Inglês Maquinista. Por tudo isso, a figura de Martins Pena se consolidou na história do teatro brasileiro. A espantosa atualidade de Martins Pena permanece, assim, um lugar-comum, sempre vitalizado por uma ou outra encenação bem recebida. Admirável observador, ele fixou costumes e ca- racterísticas que têm continuado através do tempo e retratam as instituições nacionais. Retrato melancólico e primário, sem dúvi- da, mas exuberante de fidelidade. Em pleno surto do movimento romântico, idealizador de um nacionalismo róseo, Martins Pena antecipa, com noção precisa, alguns dos nossos traços dominan- tes, ainda que menos abonadores. (MAGALDI, 1977, p. 40) O já mencionado João Caetano (1808–1863), importante ator brasi- leiro da época, também merece consideração. Bastante influente, mon- tou uma companhia de teatro profissional com o intuito de não precisar mais trabalhar com atores e atrizes estrangeiros no teatro brasileiro. Tal companhia foi fruto da já referida necessidade de afirmação nacio- nal, que fomentou o desejo de formar uma identidade nacional, sobre- tudo, afirmada pelas artes e pelo teatro. at ho sv ie ira /S hu tte rs to ck Figura 4 Estátua do ator João Caetano dos Santos Estátua do ator João Caetano, em frente ao teatro que recebe seu nome, na cidade do Rio de Janeiro. https://www.shutterstock.com/pt/g/athosvieira O teatro brasileiro e suas vanguardas 69 Por três décadas, a atuação de João Caetano nos palcos determinou a imagem do que seria um ator ou uma atriz brasileira, referência para muitos artistas e para o público na arte da interpretação. Para ele, o teatro organizado e dirigido com destreza deveria ser um verdadeiro modelo de educação, inspirador do patriotismo (em relação à recente independência do Brasil), da moralidade e dos bons costumes para os jovens. Ele enten- dia que a arte dramática era a imitação da natureza, não a realidade dela; compreendia também que o jogo dos intérpretes é tão feito de convenção a ponto de eles criarem uma segunda natureza para si. Caetano afirma- va que a atriz e o ator, compenetrados no seu papel, seguiam as paixões contidas dentro de si mesmos com inexplicável verdade, porém não as sentiam na extensão da palavra, mas com o corpo, por meio da atuação. De acordo com Faria (2012, p. 54), João Caetano “aprendeu a equilibrar melhor o corpo, a mover os braços e as mãos com maior consciência da gestualidade e a dominar os músculos da face, de modo a criar expres- sões necessárias e não caretas”. Sua morte na pobreza destoou de sua carreira marcada pela genialidade e relevância, que ficam evidentes nas palavras do referido autor: Quando João Caetano criou a primeira companhia dramática bra- sileira, em 1833, já havia um público formado pelo hábito de as- sistir aos espetáculos dados pelas companhias portuguesas. Não demorou muito para que surgissem os primeiros autores dra- máticos, obviamente estimulados pela possibilidade de terem as suas peças representadas por João Caetano. (FARIA, 2000, p. 344) Contemporâneo de João Caetano, o autor Gonçalves Dias teve uma produção dramatúrgica erudita e profunda; sua obra passou desperce- bida por seus contemporâneos em seu tempo de vida, sendo reconhe- cida apenas na posteridade. Os títulos de seus dramas já demonstram um modelo de texto repleto de personagens polêmicos e filosóficos (semelhantes aos dos textos shakespearianos), sendo, em geral, víti- mas do impulso ao mal, arrependendo-se posteriormente e resgatan- do-se diante do juízo eterno. Para Gonçalves Dias, o drama da vida poderia acontecer tanto na comédia como na tragédia. Ficaremos em hipóteses, ao tentar uma justificativa para o fato de nenhuma das quatro peças de Gonçalves Dias ter isso ence- nada no Rio ou em São Paulo, enquanto viveu o poeta. Leonor de Mendonça passou pelo palco maranhense e surgiu em livro, única experiência editorial do dramaturgo. Entretanto, com exis- tência bem menos meteórica do que a dos outros escritores Para receber a família real portuguesa e toda sua corte – milhares de pessoas, que chegariam ao longo de três anos, o Rio de Janeiro passou por diversas melhorias. Entre a criação de bibliotecas e repar- tições públicas, houve também a inauguração do importante Teatro João Caetano. O nome foi dado posteriormente ao edifício, como homenagem ao ator que revolucionou os palcos brasileiros ao encenar peças faladas com sotaque local e não com sotaque português, como se costumava fazer na época. Curiosidade Gilberto dos Santos Martins, em artigo intitulado Contextos e proposições: um panora- ma dos desejos de criação de uma escola de teatro nacional nos séculos XIX e XX, discorre sobre as principais ideias e con- tradições verificadas nos referidos séculos, que impulsionaram a criação de escolas de formação de atores no Brasil. O autor relata como João Caetano encabeçou esse movimento. Para saber mais sobre a história do teatro nacional e desse importante ator, acesse o link. Disponível em: http://www.seer. ufu.br/index.php/ouvirouver/ article/view/35481. Acesso em: 10 mar. 2021. Saiba mais http://www.seer.ufu.br/index.php/ouvirouver/article/view/35481 http://www.seer.ufu.br/index.php/ouvirouver/article/view/35481 http://www.seer.ufu.br/index.php/ouvirouver/article/view/35481 70 Teoria e prática das artes cênicas românticos (nasceu em 1823 e ficou desaparecido no naufrágio do navio Ville de Boulogne, em 1864) e consagrado merecida- mente como grande poeta, nem o prestígio do nome lhe abriu a cena. (MAGALDI, 1977, p. 67) Escreveu quatro peças em forma de prosa: Paktull, Beatriz Cenci, Leonor de Mendonça e Boabdil. Todavia, sua grande contribuição para literatura brasileira, sem dúvida, está na poesia, o que em nada lhe tira o mérito de dramaturgo. Contribuem igualmente para a consolidação do teatro brasileiro os seguintes autores: i) Castro Alves, com a peça Gonzaga ou A revolu- ção de Minas; ii) Joaquim Manuel de Macedo, com a comédia A Torre em Concurso; e iii) José de Alencar, com O Demônio Familiar. Nessa úl- tima, a sociedade escravagista é retratada de maneira estigmatizada, evidenciando os diversos aspectos nocivos e hipócritas que a circun- davam. Alencar tinha o objetivo de ilustrar que o “trabalho honesto” era condição essencial para o homem livre, ideia polêmica para sua época, porque esse conceito integrava a pessoa escravizada à socie- dade, fazendo dela cidadã. Diante dessa convicção, como tantas ou- tras em sua obra, Alencar demonstrou sentimentos nacionalistas e abolicionistas. O autor deixou uma obra teatral promissora, ao consi- derarmos que ele abandonou a dramaturgia ainda muito jovem. Se, porventura, tivesse insistido no gênero, possivelmente teria aprimo- rado seu estilo. Em suas peças são encontrados, lado a lado, exem- plos de Romantismo e de Realismo. Mas é por meio da análise da obra dramática de José de Alencar que o realismo teatral é caracterizado na História Con- cisa do Teatro Brasileiro. Mais conhecido como romancista ro- mântico, o autor de O Guarani não adotou o modelo dramático de Alexandre Dumas ou Victor Hugo, deixando-se seduzir pela comédia realista de Alexandre Dumas Filho. É nesse drama- turgo que Alencar colheu uma série de sugestões formais e temáticas, sem, todavia, desviar os olhos da realidade nacio- nal, como comprovam o drama Mãe e a comédia O Demônio Familiar, que trazem o problema da escravidão para o palco. O julgamento da dramaturgia do escritor é por vezes severo, mas no tom adequado. Se os defeitos de fatura das peças são apontados, igualmente são ressaltadas as suas qualidades. (FARIA, 2000, p. 345) I –Juca Pirama,poema épico de Gonçalves Dias, recebeu diversas montagens, sobretudo por estudantes de escolas de ensino regular, ao longo da história do teatro no Brasil, devido ao seu teor intrinsecamente narrativo. A obra apresenta 484 versos, que são divididos em 10 cantos (à moda renascentista, como em Divina comédia, de Dante Alighieri, por exemplo). A história conta a saga de um in- dígena tupi vencido em batalha e que seria submetido ao ritual antropófago pelos timbiras, entretanto ele deveria provar que era digno de tal honraria, narrando à tribo a sua jornada como guerreiro. Curiosidade Gonçalves Dias foi um dos maio- res poetas da primeira geração romântica do Brasil. Lembrado como poeta indianista, ele foi jornalista, advogado e etnólogo. Da obra indianista de Gonçalves Dias destacam-se: Canção do Tamoio, I-Juca-Pirama, Leito de folhas verdes e Canto do Piaga. Importante O teatro brasileiro e suas vanguardas 71 Outro autor romântico Joaquim Manuel de Macedo (1820–1882), dedicou-se a escrever peças dramáticas (e não cômicas), tais como Cobé e Amor e Pátria, ambas escritas na década de 1850. Seus temas tinham relação com o panorama dos dramas da aristocracia, sem in- troduzir novas contribuições. Porém, seu talento inovador foi mani- festado no romance A moreninha, obra marcante para o romantismo devido ao seu frescor e notável ineditismo, que recebeu (e recebe até hoje) várias adaptações para o teatro. Ao se aliar às intenções realis- tas da escola francesa, Macedo se afastou da sátira de Martins Pena para se dedicar às críticas à sociedade e aos seus costumes pela via do drama; seus personagens traduziram diversos tipos brasileiros. Gonzaga ou a Revolução de Minas foi o único texto de Castro Alves (1847–1871) escrito exclusivamente para o teatro. Pode ser conside- rada uma das mais notórias obras do drama romântico brasileiro. O autor tinha apenas 20 anos quando o escreveu. Castro Alves esta- beleceu um elo entre o movimento que reivindicava a liberdade do Brasil e a luta pela abolição da escravidão. Nessa peça, ele revelou sua habilidade como fabulador, pois, além da presença dos escravi- zados como personagens importantes, também surge na trama um conflito sentimental entre os protagonistas. A obra se adaptava mais à oratória e à defesa de ideais do que ao teatro propriamente dito; ela teve eficácia junto ao público que o autor desejava atingir: a plateia acadêmica, capaz de mudar a opinião pública sobre a terrível prática da escravização. 3.3 O teatro realista no Brasil Vídeo O século XIX chega como o tempo das revoluções científicas nas humanidades (o surgimento da psicologia, da psicanálise, da história moderna, da filosofia do materialismo histórico), na biologia, na quí- mica e na física. Há uma mudança de paradigma na sociedade e, por isso, na segunda metade desse século, há uma reação aos “exageros românticos”, evidenciada em peças que serviram de transição para o Realismo, como A Lição de Botânica, de Machado de Assis. Conside- ra-se que o autor não foi tão bem-sucedido enquanto dramaturgo como o fora sendo novelista, pois Machado não conseguiu apresentar em suas peças tipos humanos de riqueza semelhante aos persona- gens de suas obras literárias. As personagens das peças, por exemplo, 72 Teoria e prática das artes cênicas aproximam-se muito pouco dos seus complexos personagens consa- grados, como os do romance Dom Casmurro. Joaquim José da França Júnior, considerado o autêntico sucessor de Martins Pena, ocupava-se, também, de questionar os costumes pela via da comédia. Em peças como Como se faz um Deputado e Caiu o Ministério, o autor descreve as politicagens típicas do regime imperial brasileiro. Arthur Azevedo, outro famoso autor da segunda metade do século XIX, também sustentou o tom satírico e fez sucesso no tea- tro carioca (que era a referência do teatro brasileiro) até a sua morte, em 1908. A historiografia do nosso teatro pontua que ele fechou um ciclo do teatro nacional originado com as comédias de Martins Pena, de quem, igualmente, foi herdeiro direto. W eb er S an ta na /S hu tte rs to ck Figura 5 Teatro Arthur Azevedo O teatro Arthur Azevedo, inaugurado em 1º de julho de 1917, é um edifício histórico e cultural bem preservado na cidade de São Luís, estado do Maranhão. Arthur Azevedo era maranhense e foi dramaturgo, poeta, contista e jornalista. Os elogios sem restrições estavam reservados a Artur Azevedo, nosso principal homem de teatro da época, de quem são analisadas duas burletas con- sideradas obras-primas: A Capital Federal e O Mam- bembe. As burletas são um tipo de peça em que estão condensadas praticamente todas as caracte- rísticas da dramaturgia então em voga. Elas “reti- ram a sua substância e a sua forma a um só tempo da comédia de costumes, da opereta, da revista, e até, com relação a certos efeitos cenográficos, da mágica”. (FARIA, 2000, p. 346) Além de A Capital Federal e O Mambembe, com- pletam a lista de obras mais significativas do autor O badejo e Amor por Anexins. De escrita muito fluí- da, suas peças deslizam naturalmente pela trama da primeira à última linha, sem causar tédio no público. Mesmo lançando mão do recurso das in- terrupções explicativas, a dinâmica de seus textos em nada é prejudicada. Seu ritmo ágil envolvia os espectadores, levando o público a mergulhar junto com ele na crítica pela via do humor. Suas tramas também se desenrolavam em versos de métrica e rimas simples, de modo a se aproximarem da prosa cotidiana, o que tornava suas peças acessíveis para todos os públicos, além de muito engraçadas. https://www.shutterstock.com/pt/g/weber+santana O teatro brasileiro e suas vanguardas 73 3.4 O simbolismo no teatro brasileiro Vídeo O Simbolismo, outra linguagem estética do final do século XIX e começo do XX, sustentou um discurso estético em que todos os tipos, caricaturas, alegorias e personagens do teatro, fossem eles figuras da época ou de tempos antigos, foram concebidos com a ideia, a priori, de serem símbolos. De tudo, das paixões huma- nas, das dores, dos amores, das tristezas e das glórias. João do Rio produziu uma obra simbolista de teor intimis- ta que deixava transparecer as sensibilidades poéticas do mo- mento. A intenção simbólica marcada no texto devia completar a montagem da peça em cena, e os espetáculos, dessa manei- ra, inseriam-se em um território provisório de simbologias pes- soais e coletivas. Mais mórbido e soturno, Roberto Gomes se destacou no tea- tro simbolista pelo uso de uma psicologia refinada e sutil entre suas personagens, cujas emoções, por mais que parecessem alegria, eram atravessadas de sofrimento e nostalgia. Sua peça mais famosa é um drama intitulado Berenice, que retrata uma mulher em busca de si mesma após um casamento fracassado. Sua escrita segura e o resultado cênico de muitos diálogos ga- rantiam a qualidade simbólica da peça. É importante ressaltar que, em virtude da Primeira Guerra Mundial (1914–1918), o Bra- sil se distancia das produções artísticas da Europa. O isolamento cultural dessas produções, forçado por esse período de guerra, fermentou um fervor nacionalista escancarado em obras com temas regionais, presente em peças como Onde canta o sabiá, de Gastão Tojeiro, e Flores de sombra, de Cláudio de Sousa. Como era comum naquela época, toda a ciência, recém-nas- cida dos tempos modernos relacionados ao desenvolvimento de máquinas à vapor e máquinas e materiais de maneira geral – como o vidro, a eletricidade e compostos químicos – passou a ser rigorosamente questionada quanto à sua relação prática com a vida nas novas sociedades capitalistas burguesas e proletárias, tendo em vista que a ciência poderia pôr abaixo a metafísica e, ao mesmo tempo, não era capaz de explicá-la. Sendo assim, o avanço científico, apesar de ter contribuído para melhorar as condições de vida das pessoas, ao mesmo tempo escancarou uma O Simbolismo no Brasil (1893– 1902) tem início na poesia, pelade criação. No capítulo cinco adentramos no estudo dos jogos teatrais, sua acepção e seus conceitos, sua forma de existir e seu modus operandi, sobretudo em sala de aula e dentro da educação formal. Partindo dos estudos sobre as noções de corpo cênico e corpo expressivo e de como esse corpo sensível joga e apreende jogo, vamos nos debruçar sobre a estrutura do jogo dramático ou teatral, sua terminologia e princípios metodológicos aplicados à educação. Naturalmente, migraremos para a questão da improvisação, preciosa técnica recursiva que é a base e estrutura de muitas outras técnicas e práticas de atuação e composição cênicas. Finalmente, no capítulo seis, seguindo o fluxo natural dos nossos estudos, verificaremos a importância e a emergência do teatro no contexto educacional. Estudaremos como se deu a implementação do teatro na escola, quais são suas raízes e qual é sua história, calcada na renovação do pensamento em detrimento de práticas e hábitos conservadores. Seguiremos para a descoberta de uma série de jogos aplicáveis em sala de aula, pensados e elaborados com base no que propõem os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Com essas descobertas, conheceremos modos e metodologias de ação e atitude como professora e professor, dentro e fora da sala de aula. Esse panorama embasará nosso sobrevoo sobre a fundamental, necessária e urgente questão da Educação Especial, última etapa da jornada deste livro. Portanto, sigam conosco, leitora e leitor, porque há muita coisa ainda para olhar. E, como dizem os versos de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, que nosso olhar seja nítido como o do girassol! Elementos da linguagem teatral 9 1 Elementos da linguagem teatral Lucas Pinheiro A temática deste capítulo está centrada nos elementos funda- mentais que compõem a arte teatral. Afinal, o que é teatro? Para responder a essa questão, exploramos os principais elementos que definem essa linguagem e apresentamos quem são as pes- soas e quais as suas funções dentro desta atividade artística. Para isso, dividimos esse assunto em cinco partes. Na primeira, problematizamos, conceituamos e discutimos o que define o teatro como sendo teatro a partir da seguinte per- gunta: o que circunscreve e diferencia o teatro das outras manifes- tações artísticas? Investigamos, assim, o que é próprio e essencial para que o fenômeno teatral possa ocorrer. Na segunda parte, abordamos os múltiplos espaços cênicos. O objetivo é distinguir os diferentes palcos e espaços cênicos mais utilizados, e de que modo eles afetam a percepção do público ante da cena. Esse entendimento parte do pressuposto de que, depen- dendo de como construímos um espetáculo, há espaços específi- cos para que ele seja apresentado. Na sequência, trazemos o conceito de dramaturgia teatral, des- trinchando os elementos presentes interna e externamente em uma peça de teatro. A ideia é a de instrumentalizar e auxiliar na compreensão da estrutura de uma obra dramática, facilitando a sua compreensão, adaptação e futura montagem sobre os palcos ou, até mesmo, uma criação inédita. Na quarta seção, falamos sobre os atores e as personagens. Abordamos sucintamente as principais características dessa pro- fissão, apontando o que é um personagem e como um ator pode transformar-se em um. 10 Teoria e prática das artes cênicas 1.1 O que é teatro? Vídeo Quando perguntamos “o que é o teatro?”, quais são as respostas que vêm à sua cabeça? Para algumas pessoas, teatro é o lugar onde vamos para assistir a um espetáculo, o edifício teatral; para outras, o teatro é o ato de apresentar uma peça, onde há atores interpretando personagens e encenando histórias. Curiosamente as duas respostas estão ao mesmo tempo corretas e incompletas. A origem do termo théatron, que vem da antiga Grécia, berço da lingua- gem teatral como a conhecemos, nos mostra o por que: teatro é o lugar onde se assiste a um espetáculo; o próprio espetáculo em si. Ou seja, a origem do termo nos indica que teatro é simultaneamente a arte de re- presentar e o espaço físico em que os espetáculos podem ser encenados. Com isso em vista, podemos partir para uma próxima pergunta: o que circunscreve o teatro como sendo uma linguagem artística? Essa pergunta é um pouco mais complexa e sua resposta não caberá em apenas um parágrafo, então vamos por partes. Além de ser uma das mais antigas formas de arte e de expressão, pois “o teatro é tão velho quanto a humanidade” (BERTHOLD, 2006, p. 1), essa linguagem se co- necta à capacidade única dos seres humanos de contar histórias e de imitar outras pessoas, sejam elas fictícias ou reais. Ou seja, o teatro é, acima de tudo, a arte da representação, isto é, a arte de imitar ações, situações e experiências da vida humana. Teatro é a arte da representação. A linguagem artística em que atores imitam ações, situações e experiências da vida humana. É uma linguagem por meio da qual os artistas encenam e apresentam histórias para um público – a dramaturgia do espetáculo. Histórias que po- Fechamos o capítulo apresentando alguns outros fundamen- tos técnicos e componentes humanos que compõem esta lingua- gem artística e, por isso, são essenciais para a criação de uma obra teatral. Elementos da linguagem teatral 11 dem contemplar a diversidade de experiências, sentimentos e ideias que só a pluralidade da existência e da imaginação humana possui. Quer dizer, o teatro é uma arte que conecta o público a outras ma- neiras de ser e de estar no mundo, sendo possível acompanhar as per- sonagens em suas jornadas, conquistas e derrotas. Um vislumbre de outras realidades e perspectivas do que é ser humano. Ou será que facilmente encontramos um casal de jovens apaixonados que, por vi- verem em famílias rivais, não podem concretizar o seu jovial amor – tal qual Romeu e Julieta, de Shakespeare? Podemos pensar, dentro dessa perspectiva, que o teatro, o cinema e a televisão sejam fruto de uma mesma árvore. E isso está totalmente cor- reto! Afinal, tanto o cinema quanto a televisão são oriundos e baseiam-se na arte milenar de contar histórias por meio de atores, que o teatro de- senvolveu ao longo de toda a sua existência. Entretanto, e embora partam de um processo criativo semelhante, essas três linguagens diferenciam-se em pontos cruciais: para além das mídias que as sustentam (a tela para a televisão e o cinema e os palcos para o teatro), a maior diferença entre elas incide nas suas relações com o público. Isto é, a presença ou não dos espectadores no epicentro da sua realização. Enquanto no cinema e na televisão tudo é gravado com antecedên- cia, com suas respectivas obras sendo entregues e difundidas prontas e imodificáveis para quem as assistirá, o teatro só é construído, concre- tizando-se como linguagem artística, quando está em interação e troca em tempo real com os espectadores. Um espaço, um homem que ocupa esse espaço, outro homem que o observa. Entre ambos, a consciência de uma cumplicida- de, que os instantes seguintes poderão atenuar, fazer esquecer, talvez acentuar: o primeiro, sozinho ou acompanhado, mostra um personagem e um comportamento desse personagem numa determinada situação, por meio de palavras ou gestos, talvez por meio da imobilidade e do silêncio; enquanto o segundo, sozinho ou acompanhado, sabe que tem diante de si uma reprodução, falsa ou fiel, improvisada ou previamente ensaiada, de aconteci- mentos que imitam ou reconstituem imagens da fantasia ou da realidade. (PEIXOTO, 1992, p. 9-10) É claro que toda manifestação artística depende de um público para existir. É o espectador, afinal, o interlocutor final de toda obra artís- tica. Porém, quando falamos do fenômeno teatral, a presença do es- pectador é imprescindível para a sua realização. Veja que não estamos Di vu lg aç ão O filme Shakespeare Apaixonado acompanha o jovem Shakespeare sofrendo um bloqueio criativo na escrita de sua nova peça de teatro. Mas tudo isso muda quandovia das obras de poetas como Cruz e Sousa (1861–1898) e Alphonsus de Guimarães (1870- 1921). Cruz e Sousa, um dos raros escritores negros do século XIX, é distinguido pela intensi- dade filosófica de seus poemas, pela busca da metafísica, pela angústia em relação à vida e por possuir uma certa adoração a objetos e coisas de cor branca, que representaria, segundo ele, a pureza. Guimarães, por sua vez, tem na religiosidade extremada de seus versos e na morbidez associadas a ela a sua marca como poeta simbolista. Importante Figura 6 João do Rio Paulo Barreto (João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto; pseudônimo literário: João do Rio) foi jornalista, cronista, contista e teatrólogo; nasceu no Rio de Janeiro em 5 de agosto de 1881 e faleceu na mesma cidade, em 23 de junho de 1921. 74 Teoria e prática das artes cênicas sensação de angústia pela aguda conscientização de a sua peque- nez no universo, onde ele seria uma ínfima partícula, levando-o a questionar o seu papel nesse Cosmos impassível, organizado e, mais que tudo silencioso. Entram em choque a pretensa expli- cação científica do mundo e a incompreensão natural da vida. O Decadentismo seria a inquietação gerada por uma crise, o Sim- bolismo, uma reflexão intelectual que se processou logo em se- guida. (FRAGA, 1992, p. 24) Nesse movimento da história, mais precisamente após o término da Primeira Guerra, em 1918, na Semana de Arte Moderna, de 1922, o tea- tro foi a forma de arte menos abordada, mas continuou florescendo na cena cultural. Ainda na efervescência da transição do Simbolismo para o recém-iniciado movimento modernista, houve a criação da companhia teatral Teatro de Brinquedo de Álvaro Moreyra, que estreia com Adão, Eva e outros membros da família (1927). Sua escrita coloquial é notada pelo inusitado perfil de seus dois protagonistas: um mendigo e um la- drão (ou seja, não eram da aristocracia). Esse exemplo foi seguido pelo dramaturgo Joracy Camargo, em Deus lhe pague, peça que obteve suces- so dentro e fora do país e é considerada o marco do início do teatro so- cial, além de ter lançado o nome do consagrado ator brasileiro Procópio Ferreira (1898 - 1979), pai da histórica atriz brasileira Bibi Ferreira. J. S ilv a/ W ik im ed ia C om m on s O ator Procópio Ferreira contracena, à esquerda, com o ator André Villon na comédia Maria Cachucha, de Joracy Camargo. Figura 7 O ator Procópio Ferreira O teatro brasileiro e suas vanguardas 75 3.5 O teatro brasileiro no pós-guerra Vídeo Durante os anos 1940, o teatro brasileiro finalmente conse- gue abandonar a comédia de costumes, que foi tão importante no século anterior, e avançar para outras formas de dramatur- gia e concepção de cena, cenário, trilha sonora e figurino, em compasso com a literatura e as artes plásticas nacionais, que já estavam alinhadas às novas escolas estéticas europeias do final do XIX e começo do século XX. Os textos deixavam de ser comédias sobre tipos e situações satíricas e caricatas para se debruçarem sobre problemas e questões de justiça social. Em parte devido a mudanças políticas, a partir da chamada Era Var- gas e do golpe de estado aplicado por Getúlio Vargas em 1937, e à instauração da ditadura do Estado Novo varguista até 1946. Escritores e artistas já vinham fazendo esforços considerá- veis para a renovação do teatro brasileiro. Como afirma Prado (1988, p. 14), “o teatro nacional não se mostrou indiferente a essa onda de inquietação, procurando, de vários modos, es- capar dos limites estreitos da comédia de costumes. Os novos rumos da cultura ocidental tornavam-se transversais e mul- tidisciplinares, fato que contribuiu muito para a abordagem psicanalítica dos textos teatrais, associados a obras filosóficas fundantes, como os trabalhos de Sigmund Freud (1856–1939) e Karl Marx (1818–1883). Por meio de estudos desses pensa- dores, autores como Renato Vianna, Joracy Camargo, Álvaro Moreyra, Oduvaldo Vianna Filho, Mário de Andrade e Oswald de Andrade trouxeram para suas dramaturgias personagens com tridimensionalidade psicológica em contextos de questões sociais. Essa semente de mudança frutificou muito graças ao trabalho de companhias teatrais profissionais, que ousaram produzir essas peças mais alinhadas ao modernismo sem te- mer a crítica e o público; este, na verdade, recebeu muito bem as mudanças e a novidade. Em 1948, o italiano Franco Zampari fundou o Teatro Brasilei- ro de Comédia (TBC), em São Paulo; um marco histórico para o teatro brasileiro. Além de companhia, também era um edifício teatral. Essa experiência bem-sucedida em São Paulo possibili- A renovação artística após a Semana de Arte Moderna de 1922 chegou ao teatro com cerca de 20 anos de atraso, às vésperas da década de 1940. As atividades da companhia carioca Os comediantes, fundada por Luísa Barreto Leite e Jorge de Castro, propuseram um teatro mais sério, consciente, sob novo enfoque de seus elementos, distanciando-se de regras tradicionais que tiravam o foco do estrelismo do ator principal, destacando novos caminhos e ritmos para o espetáculo teatral. São exemplos as companhias: Teatro do Estudante (1938), diri- gido por Paschoal Carlos Magno, no Rio de Janeiro; Grupo de Tea- tro Experimental (1939), dirigido por Alfredo Mesquita; e Teatro de Amadores de Pernambuco (1941), fundado por Waldemar de Oliveira, no Recife. Importante 76 Teoria e prática das artes cênicas tou a abertura de uma filial no Rio de Janeiro. O TBC passou por várias fases e existiu como companhia estável até a década de 1960. Segura- mente, chegou a ter o elenco mais conhecido do país, composto de Cacil- da Becker, Tônia Carreiro, Fernanda Montenegro, Cleyde Yáconis, Nydia Lícia, Nathalia Timberg, Tereza Rachel, Paulo Autran, Sérgio Cardoso, Jar- del Filho, Walmor Chagas, Ítalo Rossi, entre outros. A encenação ficava a encargo de diretores refugiados da Segunda Guerra Mundial, como os italianos Adolfo Celi, Luciano Salce, Ruggero Jacobbi e o polonês Ziem- binski, que, em 1943, destacou-se por sua genial direção da peça Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. Aliás, essa peça revolucionou a função do diretor no teatro brasileiro, que passou a ser responsável pela linha estética do espetáculo, não apenas um mero ensaiador. Nelson Rodrigues foi o pioneiro da moderna dramaturgia brasileira e constitui uma referência de obra coerente, contundente e original. O au- tor buscava expor uma espécie de imaginário coletivo da classe média, seus ciúmes, suas insanidades, seus incestos e suas traições. Ele nas- ceu no Recife, em 1912, e na infância foi morar no Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar, aos 13 anos, como repórter no jornal do pai. Sua dramaturgia pode ser dividida em peças psicológicas (Mulher sem peca- do, Vestido de Noiva, por exemplo), peças míticas (Álbum de família, Anjo Negro) e tragédias cariocas (A falecida, O beijo no asfalto, Toda nudez será castigada). Outro legado importante é o de Jorge Andrade. Suas peças são mar- cadas por uma busca do que seria a formação do povo brasileiro e de- monstram a sua insatisfação com o presente injusto, racista, patriarcal. A recusa, em suas personagens, de suas vidas atuais pode ser percebida pela ideia de partida ou fuga, características apresentadas em todas as suas peças. Algumas de suas obras são A Moratória, O Telescópio e Pedrei- ra das Almas. Mudando o eixo do sudeste para o nordeste do Brasil, temos a rele- vante contribuição de Ariano Suassuna. Sua obra está relacionada a uma dramaturgia caracterizada por tipos populares e folclóricos, bem como a uma religiosidade singela, marcada pela “condenação dos maus” e a “sal- vação dos bons”. O Auto da compadecida exemplifica tais características e constitui sucesso indiscutível, sendo adaptada para o cinema e para a televisão. Em sua obra, Suassuna alia espontaneidade e erudição, o regional e o universal. Dentre suas peças, destacamos o Auto de João da Cruz, O Casamentosuspeitoso e O santo e a porca. Vestido de Noiva marca a história do teatro brasi- leiro e consagra Nelson Rodrigues como um dos maiores dramaturgos do país. Com direção de Ziembinski, a montagem exibia um cenário que di- vidia a encenação em três planos: o da alucinação, o da memória e o da rea- lidade. Para saber mais sobre esse importante capítulo da dramaturgia brasileira, acesse o link. Disponível em: https://vejasp.abril. com.br/blog/na-plateia/8220-ves- tido-de-noiva-8221-de-nelson- -rodrigues-faz-70-anos-e-insis- te-na-juventude/. Acesso em: 10 mar. 2021. Saiba mais https://vejasp.abril.com.br/blog/na-plateia/8220-vestido-de-noiva-8221-de-nelson-rodrigues-faz-70-anos-e-insiste-na-juventude/ https://vejasp.abril.com.br/blog/na-plateia/8220-vestido-de-noiva-8221-de-nelson-rodrigues-faz-70-anos-e-insiste-na-juventude/ https://vejasp.abril.com.br/blog/na-plateia/8220-vestido-de-noiva-8221-de-nelson-rodrigues-faz-70-anos-e-insiste-na-juventude/ https://vejasp.abril.com.br/blog/na-plateia/8220-vestido-de-noiva-8221-de-nelson-rodrigues-faz-70-anos-e-insiste-na-juventude/ https://vejasp.abril.com.br/blog/na-plateia/8220-vestido-de-noiva-8221-de-nelson-rodrigues-faz-70-anos-e-insiste-na-juventude/ O teatro brasileiro e suas vanguardas 77 Seguindo na esteira dos autores revolucionários, vale a menção a Gianfrancesco Guarnieri. A peça Eles não usam Black-tie denunciou pro- blemas sociais oriundos do processo de industrialização e, por isso, rela- ciona-se com a formação dos grandes centros urbanos. Como forma de comprometimento político, especialmente após o golpe civil-militar de 1964, a dramaturgia brasileira, representada por artistas como Guarnie- ri, utilizou figuras de retórica e metáforas para retratar aquele momento histórico. Um de seus textos que mais repercutiram foi Um Grito Parado no Ar, peça que estreou em abril de 1973, em Curitiba, no Teatro Guaíra, e contou com a produção de Othon Bastos Produções Artísticas e a dire- ção de Fernando Peixoto. 3.5.1 Dramaturgia escrita por mulheres no Brasil Na segunda metade do século XX, surgem pensadoras e dramaturgas notáveis, cujas peças versam sobre questões políticas e culturais do país. Os temas variam de acordo com cada escritora, mas é possível afirmar que, de maneira geral, tratam das seguintes questões: a mulher na his- tória política e social – a solidão, os sonhos e as fantasias, a liberdade e a opressão, a submissão e o casamento, os desejos femininos, como sexualidade, maternidade e cuidados e descuidos afetivos; o olhar sobre o masculino; a doação de si para o outro; a afetividade positiva e a ne- gativa – inveja, ciúme e rancor –; bem como a sobrevivência e o mundo do trabalho. No plano de fundo das obras é possível identificar a evolução femi- nista, o ideário revolucionário, as duas grandes guerras do século XX (o sentimento do absurdo), o desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, a teoria psicanalítica de Freud, o movimento da contracultura (cultura Hi- ppie), a ditadura civil-militar e a abertura política (anistia) dos anos 1980 e 1990. Destacamos a seguir alguns nomes significativos da dramaturgia bra- sileira desse período, suas principais características e algumas de suas peças. São eles: Renata Pallottini – Suas peças apresentam cunho político-social, nas quais é retratada a herança do anarquismo italiano. Como exemplos, te- mos: Sarapalha (1957, adaptação do conto de Guimarães Rosa), Enquan- to se vai morrer... (1973), Colônia Cecília (1987) e O país do sol (1997). Um Grito Parado no Ar gira em torno de um grupo de teatro em seu processo de trabalho e ressalta as dificuldades que enfrentaram dentro e fora dos palcos na época da ditadura. Disponível em: http://enciclopedia. itaucultural.org.br/evento398612/ um-grito-parado-no-ar. Acesso em: 10 mar. 2021. Saiba mais http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento398612/um-grito-parado-no-ar http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento398612/um-grito-parado-no-ar http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento398612/um-grito-parado-no-ar 78 Teoria e prática das artes cênicas Hilda Hilst – Tem como principais características a linguagem poéti- ca, o erotismo, a complexidade de ideias sobre ser mulher, a construção livre e descompromissada da questão temporal. De suas obras, desta- cam-se: A Possessa (1967), O rato no muro (1967), Aves da noite (1968), A morte do patriarca (1969). Leilah Assunção – Retrata a angústia visceral e a solidão feminina, reforçadas pela instabilidade política, as desigualdades sociais e a sexua- lidade. Fazem parte da sua obra Fala baixo senão eu grito (1969), Boca Molhada de Paixão Calada (1984) e Lua Nua (1986). Consuelo de Castro – Expõe as vertentes políticas contra o consu- mismo e a burguesia opressora. Discute as trágicas repercussões de ser consciente da terrível realidade do período ditatorial sofrida, sobretudo pelos jovens. Compõem sua obra À Flor da Pele (1969), Ao sol do Novo Mundo (1976), O grande Amor de Nossas Vidas (1978), Louco Circo do Desejo (1983) e Strip-tease (1985) . Maria Adelaide Amaral – Bodas de Papel (1978), Cemitério sem Cruzes (1978), Salve-se quem puder (1983) e De Braços Abertos (1984) retratam a nova classe média, advinda do milagre econômico brasileiro, e esboçam um retrato impiedoso e cínico do estereótipo da mulher (seres tolos, sem valor, consumistas e dependentes do companheiro). Maria Clara Machado – Levou em conta os interesses e as neces- sidades das crianças, retomando a estrutura dos contos de fadas com linguagem renovada, convidando as pessoas para uma postura afetiva diante do mundo. Dentre suas obras, podemos citar: A moça da cidade (1951), A Bruxinha que era boa (1955), Pluft, o fantasminha (1955), Maria Minhoca (1968), Tribobó City (1971). Adélia Prado – Investiga e cria uma espécie de suprarrealidade femi- nina; discute o que é ser mulher e a hipocrisia do casamento (aparência e essência). A peça Dona Doida, com base em textos da autora, foi escrita em 1987 como um espetáculo solo para a atriz Fernanda Montenegro. 3.6 O Teatro de Arena e o Teatro Oficina: vanguardas estéticas Vídeo Fundado em 1953, antes de ter sua própria sede notória, o grupo Teatro de Arena estreou nos salões do Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM/SP com a peça Esta Noite é Nossa, de Stafford Dickens. In- O teatro brasileiro e suas vanguardas 79 tegravam o grupo, entre outros, José Renato, Geraldo Mateus, Henrique Becker, Sergio Britto, Renata Blaunstein e Monah Delacy. Depois disso, o Teatro de Arena se tornou referência da dramaturgia nacional nos anos 1960. Em 1955, Augusto Boal volta de uma temporada de estudos nos Estados Unidos, após ter frequentado cursos de dramaturgia de auto- res estadunidenses relevantes até hoje. Até então, o Arena havia mon- tado diversos tipos de textos sem ligação entre eles, contudo, com o retorno de Boal, o grupo passa a buscar uma dramaturgia nova e pró- pria, brasileira. Isso levou à junção do Teatro Paulista dos Estudantes com o Arena, uma vez que Boal lecionava lá cursos sobre o método Stanislavski. Na fusão de elencos, o Arena passou a contar com os au- tores estreantes, que também eram atores: Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho e as atrizes e atores Flávio Migliaccio, Vera Gertel, Milton Gonçalves, Riva Minitz e Floramy Pinheiro. O Arena criou o Seminário de Dramaturgia e os laboratórios de interpretação, tendo em vista a criação de textos nacionais (em uma tentativa de se opor às montagens de textos estrangeiros do Teatro Brasileiro de Comédia), os quais demandavam um novo estilo de inter- pretação, de acordo com os novos tempos. Ainda no final da década de 1960, o grupo apresentou peças originais, escritas pelos integrantes da companhia, afirmando um expressivo movimento de nacionalização das artes cênicas e a discussão da realidade nacional. Após passar por um estágio na França, José Renato põe em prática a noção de teatro popular, servindo-se de clássicos da dramaturgiacom enfoques renovados. Esse momento, marcado pela nacionalização, re- gistra encenações de grande importância artística, influenciadas direta- mente por Bertolt Brecht. Vale registrar que José Renato saiu do Arena em 1962, quando se mudou para o Rio de Janeiro, para dirigir a compa- nhia estatal Teatro Nacional de Comédia (TNC). Integraram o elenco es- tável do Arena artistas como Juca de Oliveira, Paulo José, Joana Fomm, Dina Sfat, Lima Duarte, João José Pompeo, Myrian Muniz, Isabel Ribeiro, Dina Lisboa e Renato Consorte. Com o golpe civil-militar de 1964, o Arena foi obrigado a repensar seu repertório, de modo a driblar a truculenta censura que se instalou durante aquele período. O subterfúgio foi a montagem, em 1965, da fabulosa peça Arena Conta Zumbi (em referência à história de Zumbi 80 Teoria e prática das artes cênicas dos Palmares, recontada pelo grupo), de Boal e Guarnieri. A peça inau- gurou um novo procedimento cênico interpretativo intitulado Sistema Coringa (todos os atores fazem todos os papéis, alternando-os entre si). O coringa também servia de elo crítico entre a ficção e a plateia. As novas experiências de Boal fazem surgir, em 1971, o Teatro Jor- nal – 1ª Edição. Tratava-se de uma estética voltada para a mobilização popular crítica, que se desenvolveu com a leitura de jornais diários. O elenco improvisava teatralmente as notícias, apresentando pontos de vistas variados sobre o problema constatado, oferecendo-se para ensi- nar ao público sobre como seria possível solucionar os conflitos. Eis a gênese do Teatro do Oprimido, estudado e praticado em mais de 70 países atualmente. Os posicionamentos do Arena lhe garantiram o sta- tus de reduto inovador e hegemônico, mesmo internacionalmente. Sua sede foi comprada pelo Serviço Nacional de Teatro (SNT) e, em 1977, foi transformado no Teatro Experimental Eugênio Kusnet, até hoje em funcionamento na cidade de São Paulo. Criado no final da década de 1950, o influente e importante grupo Teatro Oficina evoluiu de uma fase amadora para profissional, tendo como grande referência o encenador José Celso Martinez Corrêa. Após algumas experiências iniciais, o Oficina se volta para o pensa- mento de Bertolt Brecht e seu teatro épico, com a montagem de Andor- ra, de Max Frisch (1964), e Os Inimigos, de Máximo Gorki (1966), as duas foram dirigidas por José Celso e ambas podem ilustrar a radicalização da sua pesquisa artística. Em 1966, um incêndio destruiu a sede da companhia e remonta- gens de antigos sucessos são realizadas a fim de angariar recursos para a construção do novo teatro (o teatro foi transformado em uma “rua cultural” pelo projeto da arquiteta Lina Bo Bardi). Dentre os in- térpretes desse período, sobressaem-se Célia Helena, Eugênio Kus- net, Miriam Mehler, Beatriz Segall, Betty Faria, Raul Cortez, Abraão Farc e Linneu Dias. O Teatro Oficina se incorporou depois, gradativamente, às mais importantes transformações do contexto cênico ocidental e alcançou relevante destaque, inclusive fora do país, com as peças O Rei da Vela (1967), de Oswald de Andrade, e Roda Viva (1968), de Chico Buarque. Estas se tornaram ícones do movimento tropicalista. Sua intenção era fazer um novo teatro, diferente do profundo teor burguês do TBC. Par- No livro Hamlet e o Filho do Padeiro, Augusto Boal, um dos maiores autores e diretores do Brasil, revive sua história: da ori- gem da sua família em Portugal, passando por sua infância no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX, até a fundação do Teatro de Arena e da elaboração do Teatro do Oprimido. O autor inovou a maneira de escrever dramaturgia e encenar peças. Em suas memórias, ele nos conta todos os percalços que sofreu após o golpe da ditadura civil-militar em 1964; narra sua prisão, as torturas e seu exílio. Foi em seu exílio pela América Latina e na França que escreveu e difundiu suas técnicas teatrais utilizadas e traduzidas em 200 países. BOAL, A. São Paulo: Cosac & Naify, 2014. Livro O teatro brasileiro e suas vanguardas 81 ticiparam de sua primeira fase, além de José Celso Martinez Corrêa, Renato Borghi, Carlos Queiroz Telles, Amir Haddad, Caetano Zamma, Fauzi Arap e Ronald Daniel. Durante a década de 1970, uma crise interna abalou a companhia, fazendo surgir uma nova equipe sob a liderança dos remanescentes José Celso e Renato Borghi. As mudanças se materializam em 1971, com a obra Gracias, Señor, criação coletiva que originou nova fase do grupo. Outra mudança radical em sua linguagem possui contornos vivenciais aprofundados na encenação seguinte, com a montagem de As Três Irmãs, de Anton Tchekhov (1972). Essa nova formação é composta por Henrique Nurmberger, Joel Cardoso, Esther Góes, Ci- dinha Milan, Analu Prestes e Luís Antônio Martinez Corrêa (irmão de José Celso). Durante a ditadura militar, José Celso se exila em Portugal, em 1974, retornando ao Brasil em 1979. Focado em retomar os trabalhos da fragmentada companhia aos poucos, a partir de 1980, as atividades do coletivo são voltadas para oficinas de formação artística e leituras dramáticas, com a realização de apresentações pontuais. Após esse momento de reorganização e com nova configuração, o grupo passa a se chamar Oficina Usyna Uzona. Nos anos 1990, o grupo volta à cena teatral profissional fortemente com a peça As Boas, do polêmico autor francês Jean Genet. É nesse momento que atores como Raul Cortez e Marcelo Drummond (que per- manece no grupo e é parceiro de trabalho e gestor do Oficina até hoje) são integrados ao elenco. Em 1993, um novo sucesso de público ocorre ao estrearem Hamlet, de William Shakespeare. Durante os anos 1990, o elenco do Oficina flutuou, contando com as contribuições de atrizes e atores notórios, como Paschoal da Conceição, Catherine Hirsh, Denise Assunção, Leona Cavalli, Bete Coelho e Giu- lia Gam. Estas duas últimas atuaram nas montagens As Bacantes, de Eurípedes, e Cacilda!, peça sobre a vida da atriz Cacilda Becker, vítima de um AVC em cena, falecendo praticamente em seguida, quando atua- va em Esperando Godot, de Samuel Becket, ao lado de seu marido e ator Walmor Chagas, em 1968. As peças contaram com texto do próprio José Celso (de 1998) e trouxeram ainda mais atenção do público e da crítica para o trabalho da Uzyna Uzona. 82 Teoria e prática das artes cênicas O feito que trouxe novamente fama internacional para a companhia foi a adaptação, para o espaço cênico do Oficina Uzyna Uzona, na ínte- gra, da obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, entre 2002 e 2006, sendo realizadas, posteriormente, turnês pela Europa. 3.6.1 Autores importantes da segunda metade do século XX Importantes autores teatrais seguiram na onda da renovação do teatro brasileiro pós-moderno a partir de 1950. Cada autor trouxe, a seu modo, novos ares, novas discussões e novas lentes sobre os pro- blemas sociais do Brasil, seja pela via da comédia, do drama ou da tra- gédia. Alguns deles pavimentaram o caminho para a o teatro épico e o teatro narrativo brasileiros e, posteriormente, para o teatro pós-dra- mático no país. A seguir, apresentaremos alguns dos mais relevantes. Oduvaldo Viana Filho Autor e ator carioca, conhecido pela alcunha de Vianinha, foi as- síduo integrante do Teatro de Arena e responsável pela fundação do Centro Popular de Cultura da UNE e do Grupo Opinião. Na militância contra o imperialismo cultural, sua obra coloca em cena a realidade brasileira enfatizada pelo perfil do homem simples e trabalhador, por meio de textos como Chapetuba Futebol Clube, Papa Highirte e Rasga Co- ração. Viana Filho se identificou com o movimento operário e montou um elenco para percorrer sindicatos, escolas, favelas e organizações de bairro. Em 1960, escreveu A Mais-Valia Vai Acabar, que marca a estreia do Teatro Jovem, germe do teatro anticapitalista. Chico Buarque Aclamado por constituir uma verdadeira biografia de sua geração, o trabalho de Chico Buarque se traduz em um diálogo direto como seu tempo, impregnando-se de motivações e implicações políticas. Em sua dramaturgia, a crítica social aparece com vigor. Sua primeira participa- ção no teatro foi como compositor da trilha para o espetáculo premia- do no exterior Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Foi José Celso Martinez Corrêa quem dirigiu, em 1967, seu primeiro traba- lho para o teatro, Roda Viva; este denunciava com força os bastidores do show business, que fabrica e descarta ídolos em virtude de interesses meramente comerciais. Alguns anos depois, em 1972, Chico Buarque teve de enfrentar o crivo da censura na parceria com Ruy Guerra. Isso Você pode conferir a gra- vação deste incrível traba- lho: Os Sertões, publicado pelo canal Teatro Oficina Uzyna Uzona. Disponível em: https:// www.youtube.com/ playlist?list=PLTN97D_ XfEQFzWkuoleC-V2tVZeSzvK9a. Acesso em: 10 mar. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/playlist?list=PLTN97D_XfEQFzWkuoleC-V2tVZeSzvK9a https://www.youtube.com/playlist?list=PLTN97D_XfEQFzWkuoleC-V2tVZeSzvK9a https://www.youtube.com/playlist?list=PLTN97D_XfEQFzWkuoleC-V2tVZeSzvK9a https://www.youtube.com/playlist?list=PLTN97D_XfEQFzWkuoleC-V2tVZeSzvK9a O teatro brasileiro e suas vanguardas 83 lhes rendeu a peça Calabar: o Elogio da Traição. Outras obras são Gota d´água (1975), Os saltimbancos (1977) e Ópera do Malandro (1978). Plínio Marcos Plínio Marcos se posicionou de maneira crítica e contundente ao reportar os problemas da classe média baixa brasileira e daqueles que se encontravam à margem da sociedade. Algumas de suas obras são: Quando as Máquinas Param (1963), Dois Perdidos Numa Noite suja (1966), Navalha na Carne (1967). Bosco Brasil Nascido em 1960, Bosco Brasil se integrou ao movimento de re- novação dramatúrgica dos anos 1990. Privilegiando temas ligados à juventude e suas contradições, estreou em 1994 com Budro, dirigida por Emílio Di Biasi. Foi um dos fundadores do Teatro de Câmara de São Paulo. Nesse novo espaço, estreou como autor e diretor de Atos e Omissões, texto em que contextualiza, no gênero comédia, uma séria e profunda discussão sobre a juventude marginalizada da pe- riferia. Em 2001, Bosco Brasil surpreende com o texto Novas Diretri- zes em Tempos de Paz, apresentando um novo ciclo da dramaturgia brasileira promovido pelo Ágora - Centro para o Desenvolvimento Teatral, em São Paulo. Com encenação de Ariela Goldmann, a obra deflagra um diálogo entre um imigrante polonês fugido da II Guerra Mundial e o agente policial do estado novo varguista, que faz a tria- gem na imigração. 3.6.2 Legado e perspectivas para o século XXI Contando com o legado deixado por artistas, mulheres e ho- mens de teatro, engajados no fazer e na produção de teatro de gru- po, a cena teatral brasileira, a partir de 1990, amplia-se cada vez mais, assumindo outras linguagens, como os teatros performativo e pós-dramático. Antigos atores e atrizes do teatro do século XX também atuavam e produções televisivas, isso era uma grande vitrine para suas peças, levando um público massivo às casas de espetáculos. Autores foram revisitados e atualizados em montagens contemporâneas, assumin- do novas dramaturgias de cena. Grupos de norte a sul e de leste a oeste inovavam e renovavam, dentre eles: Cia. Carona de Teatro, de Blumenau/SC; Cia A4, de Salvador/BA; Grande Cia. Brasileira de 84 Teoria e prática das artes cênicas Mystérios e Novidades, de São Paulo/SP; Teatro dos Quatro, do Rio de Janeiro/RJ; Teatro Popular do Nordeste (TPN), de Pernambuco; Companhia Tragicômica Jaz-o-Coração, do Rio de Janeiro/RJ; Fodidos Privilegiados, do Rio de Janeiro/RJ; o Grupo Galpão, de Belo Hori- zonte/MG; Fora do Sério, de Ribeirão Preto/SP; Cia Trilhas da Arte, de Americana/SP; Companhia de Ópera Seca, de São Paulo/SP; O Barracão Teatro de Campinas, de São Paulo; Grupo Andaime, de Pi- racicaba/SP; Pombas Urbanas de São Paulo/SP, entre centenas de outras companhias e coletivos teatrais que herdaram o legado de formação artística, formação de público e formação cidadã dos gru- pos do passado recente. Na primeira metade do século XX, o teatro brasileiro superou as comédias de costumes. Estamos passando por uma espécie de ma- turidade, tanto com relação à abordagem e construção dos temas quanto à descoberta de novas formas de encenação, que variam do teatro de manipulação de formas animadas até o teatro audiovisual e, neste momento específico da história mundial, pelo teatro digital. Durante e após a ditadura civil-militar, o teatro politizado no Bra- sil introduziu, discutiu (e ainda discute) questões importantes sobre realidades brasileiras, como reforma agrária, violências de gênero e domésticas, racismo, xenofobia e violência contra a infância, seja na comédia, na tragédia, no drama ou no teatro infanto-juvenil. Se nos anos 1980 o momento foi de um balaço geral e, depois disso, de firmar posições com relação aos próximos passos, a partir anos 1990 o novo vigor de companhias nascentes, que levariam adiante aquela história, trouxe esse fôlego novo, afinal o “show de todo artis- ta tem que continuar”, como já dizia o compositor Aldir Blanc, autor da canção “O bêbado e a equilibrista”, composta em memória das pessoas civis e artistas mortos ou desaparecidos durante a ditadura entre 1964 e 1984. Leis de incentivo à cultura, com base em renúncia fiscal ou cal- cadas em editais públicos de política cultural foram lançados por meio da ação organizada de grupos teatrais paulistanos denomina- da Arte contra a barbárie, no início dos anos 2010. Este foi um im- portantíssimo movimento para a renovação do modo de produção do teatro de grupo, que se contrapõe ao chamado teatro de produ- tor, de cunho meramente comercial. Com incentivo financeiro e a união conjunta, companhias puderam desenvolver suas próprias O teatro brasileiro e suas vanguardas 85 linguagens, bem como processos pedagógicos e procedimentos metodológicos. A recente lei de auxílio emergencial à cultura, denominada Lei Al- dir Blanc, em homenagem ao compositor, é um exemplo da ação da classe artística do país, originada no bojo da classe teatral e fomen- tada com afeto e profissionalismo em todas as demais instâncias das artes por atrizes, atores, diretoras e diretores. É um exemplo de como a ação artística de uma companhia teatral está diretamente vinculada à sua ação no mundo e com seus pares. É isso que temos, neste momento, para os próximos anos do século XXI. CONSIDERAÇÕES FINAIS A história do teatro brasileiro, como vimos, sempre acompanhou os processos mais orgânicos da própria história do Brasil. Afinal, não podemos perder de vista que a história de um país é, em si, a narrati- va crítica e analítica de seus processos humanos, sociais, políticos e ci- dadãos. Apenas dividimos em categorias para uma maior apreensão didática dos momentos, situações e agentes históricos relevantes. A história é sempre viva, reestudada e, eventualmente, com a des- coberta de novos documentos, revisitada, à luz da consciência crítica e social dos seus fatos constitutivos. Os marcos fundantes de renovação de pensamento e reorganização de conceitos em uma sociedade, quan- do permanecem e são endossados por um povo, certamente represen- tam os anseios mais profundos daquela civilização e de seus cidadãos. Percebemos, portanto, por meio da reafirmação dos capítulos mais importantes da história do teatro no Brasil, o quanto, em nosso país, sempre houve a busca por justiça social, igualdade de direitos en- tre todos e movimentos sociais contra o desmonte da educação, dos direitos trabalhistas, a favor dos direitos civis de qualquer indivíduo considerado cidadão brasileiro, independentemente de etnia, orienta- ção sexual, gênero, origem de nascimento e posição socioeconômica. A história do teatro brasileiro está intrinsecamente amarrada à história de nosso povo, com a formação de uma consciência nacional sobre quem somos enquanto brasileiros, de onde viemos e para onde vamos. Um povoque não conhece sua história, não sabe como seguir adiante e re- trocede. Isso nada mais é do que o verdadeiro papel da arte: reconhecer as dores e alegrias da sociedade, suas comoções, e depois absorvê-las, 86 Teoria e prática das artes cênicas recebê-las com afeto e crítica, interpretá-las e oferecer para a sociedade uma luz sobre os fatos por meio do produto artístico, seja um poema, uma canção, uma pintura, uma escultura, um filme, uma dança, uma foto- grafia ou uma peça de teatro. ATIVIDADES 1. Quais relações podem ser estabelecidas entre o início da prática teatral no Brasil e a catequização de povos indígenas? 2. Qual foi a maior motivação do movimento romântico na dramaturgia? 3. Qual é a importância do ator João Caetano para teatro brasileiro? 4. O que provoca, no mundo e no Brasil, a transição para o Realismo? REFERÊNCIAS ANCHIETA, J. de. O Auto de São Lourenço. Trad. de Walmir Ayala. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. BOSI, A. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. CARLSON, M. Teorias do teatro. Estudo histórico-crítico dos gregos à atualidade. Trad. de Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Editora da Unesp, 1997. (Coleção Prismas). COELHO, M. Prefácio. In: SÁ, N. de (org.). Divers/idade: um guia para o teatro dos anos 90. São Paulo: Hucitec, 1997. FARIA, J. R. Um sólido panorama do teatro brasileiro. Revista USP, São Paulo, n. 44, p. 342- 346, dez./fev. 2000. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/30101 Acesso em: 22 abr. 2021. FARIA, J. R. História do teatro brasileiro: das origens ao teatro profissional da primeira metade do século XX. São Paulo: Perspectiva/SESCSP, 2012. FRAGA, E. Simbolismo no teatro brasileiro. São Paulo: Art e Tec, 1992. MAGALDI, S. Panorama do Teatro Brasileiro. Rio de Janeiro: Funarte, 1977. Vídeo Gêneros e formas teatrais 87 4 Gêneros e formas teatrais Lucas Pinheiro Só há um modo de se fazer teatro? Um jeito de ser ator? Uma maneira de ser espectador? Para tentar responder a essas questões, nas páginas que se seguem, abordamos dez gêneros e formas tea- trais e suas origens e desdobramentos até a contemporaneidade, além de indícios de suas assimilações pelo cinema e pela televisão. O objetivo deste capítulo é apresentar a linguagem teatral como uma manifestação artística múltipla, complexa, que possui infinitas possibilidades de existência e feitura. Para tanto, dividimos o capítulo em sete seções, cada uma delas apresentando distintas modalidades cênicas que, de uma certa forma, dialogam entre si. Começamos pelas tragédia e comédia, criadas e amplamente utilizadas pelos antigos gregos. Na segunda seção, partimos para os autos e farsas, duas das manifestações teatrais mais presentes durante o início da Idade Média, sendo uma utilizada pela Igreja católica e outra ojerizada por ela. Na sequência, apresentamos o universo da Commedia dell’Arte, que também esteve bem pre- sente durante a Idade Média e bastante popular, concentrando suas apresentações em praças e feiras. Depois, adentramos em formas teatrais bastante musicais: as óperas, o teatro musical e o teatro de revista. A quinta seção trata das formas teatrais mais conhecidas em nosso país, uma vez que em muito influenciaram as telenovelas brasileiras: o Realismo e o Naturalismo. Na contramão desses dois gêneros, apresentamos, na sexta seção, o teatro épico de Brecht, bastante político e engajado socialmente. Por fim, nos debruçamos sobre o teatro de formas animadas. Conforme você verá, para cada tema que pretendemos abor- dar por vias teatrais, há formas e gêneros específicos que melhor se adequam e que podem facilitar os processos de criação. 88 Teoria e prática das artes cênicas 4.1 Tragédia e comédia Vídeo Assim como o próprio teatro, os dois primeiros gêneros literários estritamente teatrais, a tragédia e a comédia, também se originaram na antiga Grécia, no final do século VI a.C. Ambos são tão importantes para essa linguagem artística que se tornaram o símbolo que a caracte- riza: as máscaras da comédia e da tragédia. Cl ou dy St oc k/ Sh ut te rs to ck Esses dois gêneros surgiram como um desdobramento das festas em homenagem ao deus grego da fertilidade, da colheita, do vinho e do teatro, Dionísio. As tragédias são oriundas dos hinos entoados em seu nome e que rememoravam a sua vida, os ditirambos e as tragoidías. As comédias surgiram das komoi, que eram festas e cortejos rurais que também ocorriam em homenagem a esse deus. Portanto, embora tenham raízes nas festividades dionisíacas, cada um deles se originou de partes distintas desses festejos, o que contri- buiu para que as suas estruturas, as características, os personagens e os temas também fossem diferentes. O nascimento simultâneo da tragédia e da comédia revela a con- dição primordial dos dois gêneros [...] as duas atenderiam, con- tudo, a estruturas de comunicação bem diferentes – enquanto a tragédia revela uma série obrigatória e necessária de motivos que desembocam na catástrofe, a comédia se alimenta do re- pentino, da mudança de ritmo, do acaso, da inventividade dra- matúrgica e cênica. (GUINSBURG; FARIA; LIMA, 2006, p. 86) https://www.shutterstock.com/pt/g/Zubkov+I Gêneros e formas teatrais 89 Comecemos pelas especificidades da tragédia. O que seria uma obra trágica? Algumas pessoas sustentam que qualquer história com um final trágico, catastrófico, pode ser considerada como uma tragédia. Outras exigem que, para além de um final horrível, a história possua al- guns elementos específicos para poder ser caracterizada dentro desse gênero. E quais seriam esses elementos? Figura 1 Atrizes em uma cena trágica cr ib en /S hu tte rs to ck Uma obra trágica não se reduz apenas à cena triste ou a momentos trágicos, embora eles sejam parte fundamental desse gênero. Embora a concepção do que é trágico dependa da maneira de pensar e de sentir de cada época, conceitualmente falando, o padrão fundamental e os elementos que caracterizam uma obra trágica como tal continuam sen- do aqueles criados e transmitidos pelos gregos antigos. Quem primeiro a definiu, enunciando suas estruturas particulares, foi o filósofo Aristóteles, em uma das obras mais importantes no campo das artes, A Poética, escri- ta, provavelmente, entre os anos 335 e 323 a.C. É no capítulo VI, aqui traduzido por Duarte (2012, p. 37), que en- contramos a definição do filósofo para a tragédia como gênero. Uma “imitação de uma ação de caráter elevado [...] imitação que se efetua não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação (kátharsis) dessas emoções”. https://www.shutterstock.com/pt/g/criber Assim estruturada, mediante a ação e não a narração, como a Ilíada ou a Odisseia, à tragédia não basta apenas ter um final terrível, mas fa- zer com que tenhamos piedade do destino infeliz das personagens. Isto é, fazer com que a obra suscite a catarse em quem a leia ou assista, que permita experienciar e sentir os sentimentos de terror e de pieda- de – sendo essa a caraterística central de uma obra trágica. Para que isso possa ocorrer, a tragédia traz como personagens cen- trais os sujeitos de “caráter elevado”, pessoas que demonstram, por meio do que dizem e do que fazem, que são boas, honestas e, às vezes, até heroicas. Nesse gênero, acompanhamos os protagonistas passa- rem de um mundo seguro e feliz para um lugar de desgraça. E, para tentar resolver essa situação, começam a agir. Entretanto, logo desco- brem que, independentemente do que façam, há apenas uma solução possível para o conflito, que os fará sofrer. Apesar disso, e mesmo ten- do consciência do fato de que sofrerão para restabelecer a harmonia no mundo, as personagens trágicas agem. É por isso que sentimos pena delas, pois descobrimos que, embora sejam pessoas boas, de caráter elevado, há apenas uma solução possível para o conflito que consome a sua existência e a das outras pessoas: uma solução trágica,que afetará negativamente a sua vida. Um exemplo disso é o que ocorre em uma das tragé- dias teatrais mais famosas do mundo, a do dramatur- go inglês William Shakespeare (1564-1616): Romeu e Julieta (1592). Nessa tragédia, somos apresentados a dois jo- vens que vivem uma vida ordinária e feliz. Entretan- to, ao se conhecerem, apaixonam-se perdidamente. Um amor proibido. Nada do que tenham feito em vida os colocou na situação em que se encontram, pois a rivalidade de anos, germinada pelas suas fa- mílias, não é culpa de nenhum deles. Mesmo assim, ambos são impedidos de se amarem e de serem fe- lizes um com o outro. Dessa maneira, a peça faz com que nós nos identifiquemos com os dois personagens e que fi- quemos indignados pela situação que vivenciam. Como é bastante conhecido, apesar de todas as Para Aristóteles, a melhor obra trágica já feita, que deveria ser vista como exemplo para as produções futuras, era Édipo Rei (427 a.C.), do tragediógrafo grego Sófocles (496-406 a.C.). Curiosidade Sa ra h Ni ch ol l/S hu tte rs to ck 9090 Teoria e prática das artes cênicasTeoria e prática das artes cênicas https://www.shutterstock.com/pt/g/srnicholl Gêneros e formas teatrais 91 suas tentativas, esse amor não consegue ser concretizado. Um último plano é estruturado. Dessa vez, ele tem tudo para dar certo: ambos fingirão que estão mortos, para, assim, fugirem e serem felizes para sempre. Entretanto, o plano falha. E falha de uma maneira extrema- mente trágica, que nos faz sentir calafrios de angústia. Nós, o público, sabemos e percebemos que o plano está próximo de ser concretizado, porém, por uma questão de minutos, tudo dá errado. O que era para ser um final feliz, desmancha-se em um piscar de olhos em tragicidade. O final não é trágico apenas pelo fato de os dois amantes serem levados à morte, mas por sentirmos terror e pena pela situação. Isto é, somos tomados pela catarse. Por conseguirmos nos identificar com as personagens e por sabermos que elas não são pessoas ruins ou más e que, mesmo assim, estão em uma situação completamente trágica é que a catarse emerge e a obra se torna plenamente trágica. Façamos um exercício hipotético: se no lugar dos dois jovens ingênuos, e que nada têm a ver com a rivalidade de suas famílias, tivéssemos duas per- sonagens nitidamente ruins, sentiríamos pena delas ou nos mantería- mos neutros com relação às suas vidas/mortes? Enquanto a tragédia nos faz sentir terror pela situação apresentada e piedade das personagens, a comédia procura o seu oposto: nos fazer rir, geralmente com um final feliz. É por meio dessa condição, fazendo graça com tudo e com todos, que a comédia, utilizando-se da sátira, da ironia ou da caracterização exagerada, pode ser entendida como um gênero crítico. Isto é, refere-se a uma forma artística que, ao ridicula- rizar determinadas situações, mostrando-as como esdrúxulas, é capaz de despertar a consciência do público diante da situação que está sen- do apresentada. Nesse sentido, a comédia pode ser entendida como um gênero irreverente e, às vezes, até desrespeitoso. Ela faz rir ao zom- bar das coisas, pessoas ou situações que deveriam ser levadas à sério. Para fazer isso, a comédia geralmente traz como personagens cen- trais sujeitos “comuns”, ou seja, não são pessoas da nobreza ou da rea- leza nem heroicos, como nas tragédias. São, no mais estrito sentido do termo, pessoas normais, em situações cotidianas, que acabam se sain- do bem de circunstâncias complexas ou de apuros. Pavis (2008, p. 53) assim define esse gênero: a comédia pressupõe uma visão contrastada, até contraditória do mundo: um mundo normal, geralmente reflexo do mundo do público espectador, julga e caçoa do mundo anormal das 92 Teoria e prática das artes cênicas personagens consideradas diferentes, originais, ridículas e, portanto, cômicas. Tais personagens são necessariamente sim- plificadas e generalizadas, uma vez que encarnam de modo esquemático e pedagógico uma extravagância ou uma visão inu- sitada do mundo. É por isso que a comédia, diferentemente da tragédia, tende a con- versar mais com os espectadores, seja com os atores dialogando direta- mente com o público, seja com a plateia interagindo com o que ocorre em cena. Afinal, é do mundo desses que esse gênero está tratando. Cientificamente falando, é difícil saber o que faz uma pessoa rir, ou o que é engraçado ou não. A comicidade – o achar graça de um determinado fato, evento ou situação – é uma característica intima- mente pessoal e subjetiva. Acredita-se que para rir é preciso que re- conheçamos a ação que está se desdobrando perante nós: que já a tenhamos vivenciado, presenciado ou que seja do nosso conhecimen- to. Quando um texto, uma montagem ou um ator consegue fazer com que a gente ria, é porque eles conseguiram fazer com que nos sinta- mos íntimos da situação. Por essa perspectiva, a comédia, embora tenha sido vista como um gênero “menor” durante séculos, é um dos mais difíceis gêneros de serem concretizados cenicamente. Os atores precisam ter o ritmo certo, chamado de timing, que, no contexto da comédia, diz respeito ao ritmo específico e necessário para que uma determinada ação seja compreendida como engraçada. Aos autores, é necessário que tenham a capacidade de organizar situações supostamente cômicas dentro de uma estrutura lógica de ação. Assim, ao longo do tempo, conhecendo suas audiências, os come- diógrafos foram desenvolvendo determinados “tipos” de comédia, liga- dos à sua estrutura formal e temática, bem como às distintas maneiras de usar o humor para satirizar e criticar determinados sujeitos e/ou si- tuações. Dentre os mais conhecidos, estão: a comédia de tipos/caráter, a de costumes e a de intriga/situação. Sucintamente, a comédia de tipos/caráter “descreve personagens esboçadas com muita precisão em suas propriedades psicológicas e morais” (PAVIS, 2008, p. 54). Isto é, nessa maneira de se fazer comé- dia, há uma exposição em detalhes da personalidade daquela perso- nagem, cuja característica representa a base sobre a qual a obra será Dentre os diversos artistas cômicos que já existiram, sem dúvidas, um dos mais famosos é Charlie Chaplin. Em todos os seus filmes, é possível encontrar a característica central da comédia: a crítica social. Em Tempos Modernos há uma crítica sobre os maus-tratos que os trabalhadores rece- biam após a Revolução Industrial. Direção: Charlie Chaplin. Estados Unidos: United Artists, 1936. Filme Gêneros e formas teatrais 93 construída. Nessa perspectiva, a intriga, a ação e, consequentemente, a progressão dramática – elementos essenciais para que os gêne- ros teatrais existam – são reduzidas ao máximo, tornando-se apenas pretextos para a apresentação do caráter daquela personagem e a respectiva crítica sobre essa característica que a compõe. Por exemplo, pode-se usar a comédia de tipos/caráter para criticar o fato de uma pessoa ser muito gulosa, avarenta ou preguiçosa. Já a comédia de situação/intriga é considerada oposta à de tipo/caráter, pois valoriza muito a ação. Nela, as personagens são apenas esboçadas ou esquematizadas. Não há uma exposição mi- nuciosa de quem são ou quais são as características que as definem melhor: “a psicologia fica em posição secundária, ofuscada pela ação” (GUINSBURG; FARIA; LIMA, 2006, p. 89). O foco, como o próprio nome denuncia, está em desenvolver a situação, ver até que ponto a intriga das personagens pode ir. Uma das obras mais expoentes dessa tipifica- ção é O Mercador de Veneza (1569), de Shakespeare. A comédia de costumes foca sua atenção na observação, análise e crítica de determinados costumes e comportamentos humanos, dentro de um dado momento, situação ou contexto cultural. Caracteriza-se, assim, por exercer uma sutil crítica social ao analisar os comporta- mentos, as ações e as reações humanas frente às suas vontades em contraste com as regras da sociedade. Desse modo, satiriza certos cos- tumes de um grupode pessoas ou de um contexto social ao qual o personagem pertence. Frequentemente, trata de amores proibidos ou da violação de determinados códigos sociais. Tem como um de seus maiores representantes o brasileiro Martins Pena (1815-1848). Percebe-se que tanto as tragédias como as comédias se comuni- cam com o público de maneiras distintas: uma procurando suscitar o terror e a piedade e a outra o riso. Por isso, desde o surgimento de ambas, elas são entendidas como gêneros opostos: tratam de temas diferentes, por perspectivas discordantes e com fins bastante diversos. Entretanto, alguns autores foram capazes de criar um gênero híbrido, unindo as especificidades de ambos os gêneros em uma única forma de teatro: a tragicomédia. Embora não seja objeto do nosso estudo, vale a leitura das obras tragicômicas A Tempestade (1610) e O Rei Lear (1605), ambas de Shakespeare. As famosas séries de televisão, como Friends e The Big Bang Theory e as brasileiras Sai de baixo e a Grande Família, são alguns dos maiores exemplos do gênero mundialmente conheci- do como sitcom. O termo nada mais é do que a abreviatura para a expressão inglesa situation comedy, ou, em português, comédia de situação. São, assim, a adaptação para a televisão de um híbrido da comédia de costumes e a comédia de situação/intriga. Curiosidade 94 Teoria e prática das artes cênicas 4.2 Autos e farsas Vídeo Como vimos, as tragédias e as comédias surgiram e se desenvolve- ram concomitantemente ao nascimento do teatro na antiga Grécia. En- tretanto, a história nos conta que o Império Romano acabou eclipsando a força dos gregos no ocidente do globo terrestre. Acontece que, dife- rentemente dos gregos, os romanos não eram muito voltados para as artes. “As autoridades romanas não gostavam que as pessoas do povo pensassem muito sobre assuntos sérios, e por isso mesmo a tragédia não conseguiu ser aceita. Quanto à comédia antiga, do tipo político, nem pensar” (HELIODORA, 2008, p. 26). É claro que havia teatro na antiga Roma, Plauto (230-180 a.C.) e Terêncio (195/185-159 a.C.) são dois dos maiores nomes do período. No entanto, ambos se baseavam na “comédia nova” da Grécia, que só tratava de tramas de intriga sem muita profundidade, pois “o gover- no romano tinha medo da popularidade do teatro” (HELIODORA, 2008, p. 26). Considerada a maior civilização da história ocidental, o Império Romano durou cerca de cinco séculos: começou em 27 a.C. e terminou em 476 d.C. Quando começou a declinar, a Igreja católica já havia se espalhado por todo o domínio romano, tornando-se a instituição mais organizada de todo o Ocidente. Embora tenha tentado, por séculos, banir o teatro da sociedade, pela origem pagã e pelas temáticas “escandalosas” ou pecaminosas, foi a própria Igreja católica que o resgatou, no século X, por ter percebido o potencial comunicacional e pedagógico dessa linguagem como veí- culo de catequização e evangelização. Assim, por meio da encenação teatral de passagens bíblicas, como a própria Paixão de Cristo, a Igreja católica catequizava e propagava sua fé para as pessoas iletradas. Isso foi possível porque a Igreja guardava, em seus monastérios, textos de teatro, que os próprios monges estudavam, mas não divulgavam. Até meados do século XII, tudo isso era feito em latim. Como a lín- gua latina não era difundida por todas as regiões sobre as quais a Igreja católica detinha poder, todas aquelas pequenas dramatizações bíblicas passaram a ser apresentadas na língua local de cada região, criando os autos (do latim actu, que significa ação, ato). Como havia poucos edifícios teatrais, pela própria proibição da Igreja, as apresentações ocorriam em praças, sobre carroças, ou nos próprios espaços da instituição religiosa. Gêneros e formas teatrais 95 De linguagem bastante simples e de extensão relativamente curta (normalmente compostos por um único ato), os autos podem ser consi- derados como um subgênero da literatura dramática. Seus textos curtos, de intenção moralizadora e, em sua grande maioria, cômicos apresenta- vam como personagens, sujeitos virtuosos ou pecadores, os anjos, de- mônios e santos – quando não representações alegóricas do bem e do mal. De intenção notadamente pedagógica e evangelizadora, ensinavam aos espectadores, além das histórias e das passagens bíblicas, a maneira como eles tinham que viver a vida terrena para que, na ocasião de suas mortes, seus espíritos pudessem descansar em paz nos reinos dos céus. As peças religiosas ganharam corpo e força principalmente na Espanha e em Portugal – de onde vem os seus maiores dramaturgos, como Lope de Vega (1562-1635), Calderón de La Barca (1600-1681) e Gil Vicente (1465-1536), autor do Auto da Barca do Inferno (ou Auto da Mora- lidade), de 1517. Os autos também foram bastante utilizados no início do processo de colonização portuguesa no Brasil. Em 1549, por inter- médio da Companhia de Jesus, que objetivava o processo de evangeli- zação e catequização dos nativos, o Padre José de Anchieta (1534-1579) começou a criar autos sacramentais que uniam a mitologia e os ensina- mentos cristãos à cultura dos indígenas. Depois de Anchieta, muitos brasileiros também escreveram autos; dentre eles podemos citar Joaquim Cardoso (1897-1978), João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e Ariano Suassuna (1927-2014), autor do co- nhecido Auto da Compadecida (1955). Vê-se, assim, que essas pequenas peças religiosas foram peças-chave no processo de catequização e expansão do domínio cristão no Ocidente. A Igreja católica, que durante séculos rechaçou essa linguagem, chegando a excomungar atores, autores e seus familiares, encontrou nela um dos me- lhores instrumentos de propagação de seus dogmas e costumes. Acontece que, “quando a Igreja se deu conta de que com isso estava abrindo as portas para o teatro, já era tarde, e os episódios começaram a incluir detalhes e até mesmo ações que não estavam na Bíblia” (HELIODORA, 2008, p. 35). Foi exatamente assim que a farsa, surgida nas antigas Grécia e Roma, pelas mãos, respectivamente, de Aristófanes e Plauto, pôde atin- gir o seu apogeu durante a Idade Média, por volta do século XVI. Esse gênero, por sua vez, também composto por apenas um ato, é pura- mente caricatural, escatológico e exagerado. As peças escritas em homena- gens aos santos eram chamadas de Milagres; já aquelas que contavam a Bíblia eram denomi- nadas de Mistérios. Curiosidade O filme O Auto da compadecida se eternizou na história do nosso país ao adaptar a obra clássica de Suassuna às telas. Obra essa que mistura a cultura popular nordesti- na e a tradição religiosa. Direção: Guel Arraes. Brasil: Globo Filmes, 2000. Filme 96 Teoria e prática das artes cênicas Diferentemente dos autos, a farsa não utiliza alegorias, é mais simples e direta, mostrando pessoas do povo em seus ambientes fa- miliares. Por isso, o número de personagens é limitado e não são re- vestidos de requintes psicológicos. Representam condições (mulher, marido, empregado, patrão, amante) ou tipos facilmente reconhecí- veis, como um comerciante, um médico, um tolo e assim por diante. Pavis (2008, p. 164) assim a define: à farsa geralmente se associam um cômico grotesco e bufão, um riso grosseiro e um estilo pouco refinado [...] é oposta ao espíri- to, está em parte ligada ao corpo, à realidade social, ao cotidiano. [...] A farsa sempre é definida como forma primitiva e grosseira, que não poderia elevar-se ao nível da comédia. Quanto a esta grosseria, nem sempre se sabe muito bem se ela diz respeito aos procedimentos demasiado visíveis e infantis do cômico ou à temática escatológica. A farsa permanece até os dias de hoje, conseguindo sobreviver mes- mo à força do tempo e da Igreja católica. Esse gênero deve sua eterna popularidade a uma forte teatralidade e a uma atenção voltada para a cena, para o trabalho corporal dos atores, bem como para suas imi- tações e caricaturas excêntricas, e não tanto para a força da palavra – como os outrosgêneros dramáticos. Ao valorizar a dimensão corporal da personagem e do ator, se opõe às outras tipificações da comédia, que enfatizam a linguagem, a inte- lectualidade e a palavra. Ela depende, assim, mais da ação do que do diálogo para existir e mais dos aspectos externos e visíveis (roupas, gestos, cenários) do que do conflito dramático. Seu esquema central repousa no sujeito trapalhão, enganado por alguém mais esperto; nos equívocos, no quiproquó 1 e na caricatura. Afasta-se, também, de todo o princípio de verossimilhança, usando recursos absurdos para dar o tom cômico às suas ações. Na farsa, portanto, não há grande preocupação com a discussão de valores ou com o questionamento das relações sociais, como ocorre em outros gêneros cômicos. Sendo assim, ela não pretende provocar o riso com intenção didática ou moralizante. O riso é produzido pelo sim- ples ato de rir. Embora, em um contexto em que a Igreja católica domi- nava e o terror do post mortem assolava as mentalidades e os corações dos sujeitos, o riso libertador triunfava sobre as inibições do corpo e da carne e das angústias trágicas de não ter vivido e sido um espírito terreno digno de adentrar o reino dos céus (PAVIS, 2008). Um marco na história no cinema italiano, o filme O Incrível Exército de Bran- caleone é um excelente exemplo para que se tenha compreensão do que é a farsa e de sua estrutura caricata. Direção: Mario Monicelli. Itália: Titanus, Flashtar Home Video, 1966. Filme O termo, de origem latina, é utilizado na linguagem teatral cômica como artifício e identifi- ca uma situação na qual há um equívoco, uma confusão. Pode ser traduzido como “tomar uma coisa por outra”. 1 Gêneros e formas teatrais 97 4.3 Commedia dell’Arte Vídeo Com a Igreja católica resgatando a arte teatral, utilizando-a com fins catequizantes e evangelizadores, logo essa linguagem retornou às gra- ças do povo. Por isso, nos séculos XVI e XVII, houve uma verdadeira explosão do teatro na Europa, com cada país desenvolvendo-o à sua maneira, de acordo com suas circunstâncias, necessidades e especifi- cidades. Durante esse período, apareceram, em todo o continente eu- ropeu, autores e textos notáveis, que até hoje são encenados – como o próprio Shakespeare, por exemplo. Foi justamente em decorrência do crescente fascínio e apelo popular que o teatro havia resgatado que novos edifícios teatrais voltaram a ser projetados e construídos, como os Palcos Elisabetanos e os Italianos, por exemplo. Entretanto, foi fora dessas construções, nas próprias ruas, praças e feiras das cidades que a história teatral viu emergir uma das suas ma- nifestações mais interessantes e instigantes: a Commedia dell’Arte. Em português, algo como comédia dos profissionais, sendo comédia qualquer peça teatral e arte a profissão de um indivíduo. Peeter van Bredael. Commedia dell’arte Scene in an Italian Landscape. Óleo sobre tela, 40,5 x 69 cm. A Commedia dell’Arte era apresentada em palcos improvisados, como em cima das carroças. Figura 2 Commedia dell’Arte e seus espaços 98 Teoria e prática das artes cênicas Ninguém sabe dizer exatamente como essa forma teatral apareceu. Sabe-se que é originária da Itália (por isso, às vezes chamada de comé- dia italiana) e que se difundiu por toda a Europa. Teve início por volta do século XVI, atingindo seu ápice no século XVII e seu declínio no sécu- lo XVIII. Foi uma manifestação artística fortemente popular e itineran- te, com a companhia teatral viajando e se apresentando em diversas cidades. Também tinha a intenção de criticar a sociedade, encarando a realidade de modo cômico. Por ser um fenômeno cênico bastante po- pular, inspirava-se em temas do próprio cotidiano para as apresenta- ções, demonstrando à população as situações de abuso existentes nas relações entre patrões e empregados, nobres e plebeus, ricos e pobres. A Commedia dell’Arte é considerada por muitos a base do teatro moder- no, porque priorizava a corporalidade das ações e o trabalho de improvisa- ção por parte dos atores. Assim, diferentemente de outros gêneros teatrais anteriores, e de muitos que a sucederam, as apresentações ocorriam im- provisadamente, sem haver um texto com falas a serem decoradas. Claro que as companhias, geralmente estruturadas por famílias intei- ras, ensaiavam. Porém, não eram textos dramáticos, propriamente ditos, que organizavam as histórias por meio das falas, mas sim canovaccios – espécie de roteiro onde os elementos básicos da trama e as situações da narrativa poderiam ser encontrados. Por exemplo, sabia-se que na pri- meira cena as personagens iriam se encontrar e se apaixonar; essa era a única informação presente no canovaccio. O modo como isso iria ocorrer dependia exclusivamente da improvisação dos atores. Não havia falas que os guiassem, como em um texto dramático convencional, e sim ape- nas a situação a ser improvisada e encenada. Por isso, com base no que percebiam que cativava e interessava o público, cada uma das trupes criava o seu próprio roteiro. As apresentações ocorriam em palcos im- provisados e adaptados na parte traseira das carroças, que, por sua vez, serviam também de transporte e moradia para os artistas itinerantes. O fundamento da Commedia dell’Arte é a improvisação, isto é, o ator torna-se o autor do espetáculo que vai oferecendo. Mesmo a existência de lazzi, achados cômicos, e a preservação de canovacci, roteiros seguidos pelos intérpretes, não invalidam a ideia de que os diálogos se conjugavam de acordo com a fanta- sia do momento. Essa liberdade criadora, paradoxalmente, con- finava-se por outra limitação: os intérpretes fixavam-se sempre numa “máscara”, especializando-se em determinado papel, pelo qual ficavam famosos até a morte. (MAGALDI, 1994, p. 26-27) No filme A viagem do Ca- pitão Tornado, é possível identificar todos os com- ponentes e característi- cas da Commedia dell’Arte. Embora trate da época de declínio desse gênero, o filme acompanha uma trupe de excelentes atores que tentam sobre- viver e ganhar a vida por meio da execução do seu ofício. Direção: Ettore Scola. Itália: Lume Filmes, 1990. Filme Gêneros e formas teatrais 99 Além disso, os intérpretes da Commedia dell’Arte eram chamados de atores completos: sabiam cantar, tocar instrumentos, recitar poesias, fazer malabarismo, acrobacias, dançar etc. Enfim, se aprimoravam corporalmente e artisticamente durante anos antes de entrarem em cena. Como muitas das personagens desse gênero eram inspiradas em sujeitos que viviam em regiões diversas da Itália, e como cada re- gião apresentava um dialeto específico, muitas vezes o público não conseguia compreender com precisão o que estava sendo dito em cena. Por esse motivo, os atores tinham que ter um amplo domínio de seus corpos e de suas expressões, pois só assim os espectadores conseguiam entender o que se passava em cena, mesmo sem com- preender o que estava sendo dito. Ch ris tia n Be rtr an d/ Sh ut te rs to ck As personagens-tipo da Commedia dell’Arte possuem máscaras e trejeitos específicos. Figura 3 Commedia dell’Arte, personagens-tipo. As personagens da Commedia dell’Arte eram extremamente especí- ficas, com características e maneiras de agir e de se movimentar muito bem delimitadas. Por conta disso, cada artista cênico interpretava sem- pre a mesma personagem durante anos – pois só assim conseguiria aperfeiçoar sua interpretação daquela figura. Como todo ofício da épo- ca, que prescindia de minuciosa artesania, essas personagens eram passadas de pai para filho, logo a profissão era transmitida de geração em geração, daí o nome comédia dos profissionais. O filho aprendia com o pai todo o gestual e a forma de falar daquela personagem específica, Por conta de todo o trabalho e tempo de dedicação, os atores da Commedia dell’Arte podem ser considerados os primeiros atores profissionais do ocidente (SANTOS; BOLOGNESI, 2013). Curiosidade https://www.shutterstock.com/pt/g/chbm89 100 Teoria e práticadas artes cênicas que seria sua no futuro. Por isso, diz-se que a Commedia dell’Arte é um gênero de “tipo-fixo”, de “personagem-fixo”. Caricaturadas, tipificadas e estereotipadas, as personagens eram di- vidias em três grupos principais: os enamorados, os criados e os patrões. Como a própria nomeação já evidencia, os enamorados eram persona- gens que buscavam o amor, e não apresentavam uma postura cômica; eram os únicos que poderiam não utilizar máscaras. Além disso, eles eram os mais jovens da trupe, geralmente os mais belos, e os respon- sáveis por atrair o olhar dos curiosos, o que arrecadava mais dinheiro. Os criados eram as personagens que possuíam renda inferior e bai- xa formação intelectual e/ou profissional. Por conta de sua astúcia e inteligência, malandros e criativos que eram, eles sempre conseguiam se dar bem no desenrolar da peça, enganando e ludibriando os pa- trões. Nesse processo, expunham as relações abusivas e exploratórias que seus empregadores tinham para com eles e mostravam que, em- bora possuíssem dinheiro e/ou status, não eram grandes possuidores de inteligência. É com a Commedia dell’Arte que, pela primeira vez na história do teatro, as mulheres puderam subir aos palcos. Importante Suas vestes, feitas de remendos coloridos, demonstram a classe social da personagem; sua máscara faz alusão a um gato e a um macaco, ambos ágeis e astuciosos à sua maneira. A personagem Arlequina, da DC Comics, é livremente inspirada no Arlequim da Commedia dell’Arte. Fonte: Maurice Sand. Masques et bouffons (Comedie Italienne). 1860. Michel Levy Freres, Paris. Figura 4 Arlequim Entre os criados, os mais populares eram o Zanni (servo astuto e malandro) e, grande merecedor de atenção, o Arlequim, a personagem mais famosa da Commedia dell’Arte. É um personagem cômico, atrapalhado, malandro, preguiçoso e travesso. No Brasil, ficou conhecido pela famosa marchinha Pierrô Apaixonado, de Heitor dos Prazeres e Noel Rosa. Como exemplo de patrões, também chamados de velhos, se destacam o Pantalone (velho rico e avarento), o Capitano (forte e im- ponente, mas não heroico) e o Dottore (visto como intelectual, porém logo se descobre que isso é falso). Para saber mais sobre as distintas personagens da Commedia dell’Arte, acesse o link a seguir. Disponível em: https:// escoladeteatrocatarse.wordpress. com/2008/01/15/os-personagens- da-commedia-dellarte/. Acesso em: 12 mar. 2021. Saiba mais A Commedia dell’Arte possui uma extensa gama de peculiaridades. Desde as especificidades de cada personagem-tipo até as características que compõem suas máscaras, figurinos, gestualidades e origens. Para conhecer um pouco mais desse universo, recomendamos a leitura da obra A lou- cura de Isabella e outras comédias da Commedia dell’Arte. SACALA, F. Tradução de Roberta Barni. São Paulo: FAPESP; Iluminuras, 2003. Livro Gêneros e formas teatrais 101 As personagens da Commedia dell’Arte, além de terem uma postura, uma gestualidade, um dialeto e uma personalidade próprias, também possuíam uma máscara específica. Para cada personagem, havia uma máscara, que acentuava um dos traços do rosto e deixava a parte infe- rior dele descoberta – facilitando a dicção e a respiração. Figura 5 Exemplos de máscaras da Commedia dell’Arte ad ria nr od rig ue zd ire ct or /S hu tte rs to ck m ar ie sa ch a/ Sh ut te rs to ck As máscaras da Commedia dell’Arte realçavam determinados traços do rosto da personagem. O conjunto entre máscara, figurinos e trejeitos tornava fácil a identificação de uma personagem. Com os seus “atores completos” e a inserção das mulheres nos pal- cos, a Commedia dell’Arte revolucionou o fazer teatral. Não era mais o https://www.shutterstock.com/pt/g/adrianrodriguezdirector https://www.shutterstock.com/pt/g/mariesacha 102 Teoria e prática das artes cênicas texto dramático que comandava a encenação, mas os atores, por meio da improvisação e do uso habilidoso de seus corpos e instrumentos musicais. Para Magaldi (1994, p. 27), a “Commedia dell’Arte, entre outras virtudes, teve a de marcar em definitivo que o ator é a base do teatro”. 4.4 Ópera, teatro musical e teatro de revista Vídeo No mesmo período e na mesma região em que a Commedia dell’Arte reunia o povo para assistir suas apresentações nas ruas, feiras e pra- ças, outro gênero teatral se desenvolvia no interior dos edifícios, mais voltados à nobreza, à realeza e às pessoas detentoras de riqueza: a ópera. Embora ela possua um sem-número de estilos e correntes di- versas, é possível traçar algumas linhas gerais que a caracterizam. Ig or B ul ga rin /S hu tte rs to ck Surgida no início do século XVII, na Itália, as apresentações operísticas geralmente ocorriam em latim ou italiano. Sua origem re- monta às tragédias gregas, pois também surgiu no final da Renascen- ça – cuja característica central foi a tentativa da cultura europeia em promover a retomada do conhecimento científico, estético e filosófico da Antiguidade clássica, da Grécia e da Roma, colocando-os em contra- posição aos dogmas impostos pela Igreja católica até então. https://www.shutterstock.com/pt/g/bulgarin Gêneros e formas teatrais 103 Comumente, tem-se a ideia de que a ópera seja um teatro musica- do, mas isso não é verdade. Apesar de ela ser essencialmente teatro, utilizando-se de todos os recursos, os procedimentos e as linguagens artísticas que o fazer teatral desenvolveu e aprimorou ao longo dos anos, a ópera não possui – ou possui pouquíssimos – diálogos. Em seu lugar, há a música. Isto é, os artistas cênicos dessa matriz artísti- ca não falam, eles cantam. Havendo a necessidade de diálogo, esses são substituídos pelos recitativos. Claro que para toda regra há ex- ceções, e com a ópera não seria diferente. Há peças operísticas que possuem diálogos, como as notáveis Carmen (1875), de Georges Bizet (1838-1875), e Flauta Mágica (1791), de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) – sim, aquele Mozart! Conceitualmente, não há peças escritas de ópera. O texto desse gê- nero é chamado de libreto, uma espécie de roteiro da história, conce- bido de maneira bastante simplificada, podendo ser cômico, trágico ou romântico. Ele, por si só, não é capaz de se sustentar sozinho, como uma peça de teatro – a qual podemos ler e compreender sua fábula com precisão, sem a necessidade iminente de encenação. Isso porque os libretos precisam ser alimentados pela música, que criará todo o envolvimento emotivo e lógico da narrativa, preenchendo as lacunas intencionalmente deixadas no roteiro. De uma certa maneira, pode-se afirmar que o compositor da ópera desempenha uma função mais importante que a do autor do libreto. Certo é que eles trabalham em conjunto, visto que, para poder compor as músicas que integrarão a ópera, o musicista precisa de uma história para se basear, encontrada nos libretos. Portanto, a ópera se dá nessa integração entre música e narrativa, não sendo possível isolar uma ou outra coisa. Dependentes entre si, complementam-se e ganham vida sobre os palcos. Por precisar de música, as óperas contam com o auxílio de musi- cistas e de uma orquestra e, a partir do final do século XIX, passa a contar com um espaço específico no edifício teatral, no plano inferior àquele em que está o palco, não interferindo visualmente na cena: o fosso da orquestra. O fosso, ao esconder de onde vem a música, corrobora para a imersão sentimental que a obra operística pretende causar. recitativo: ato do canto decla- mado. É o ato de cantar imitando o tom natural do discurso falado, que também exige um controle vocal muito preciso dos cantores. Glossário Parsifal é uma das óperas mais famosas do mundo, composta por Richard Wagner. Embora o filme seja extenso, vale a pena assisti-lo para compreen- der as especificidades desse gênero. Direção: Hans-Jürgen Syberberg. Alemanha Ocidental e França: TMS Film GmbH, 1982. Filme 104 Teoria e prática das artes cênicas Figura 6 O fossoda orquestra A_ Le si k/ Sh ut te rs to ck Estruturalmente falando, e de maneira geral, as óperas podem ser divididas da seguinte maneira: começa-se pela abertura, que, como o próprio nome denuncia, dá início à apresentação; essa primeira parte é feita apenas pela orquestra, que, de maneira rápida, apresenta as prin- cipais músicas da obra. Em seguida, dá-se início aos atos – sim, assim como as peças teatrais estruturadas em diálogos, as óperas também são divididas por atos. Estes são compostos pelas árias, partes canta- das pelas personagens principais, e pelos recitativos, falas cantadas que promovem o desenrolar da história. Além dessas, há inúmeras outras formatações que podem ocorrer no decorrer da apresentação. Os coros, assim como nas tragédias Gregas, também comentam a história. Os cantores podem ainda se unir para realizar Duetos, Trios, Quartetos e assim por diante. A temática abordada varia muito, porém os temas iniciais se baseiam em sujeitos e histórias presentes na mitologia clássica. Como dissemos, a principal característica da ópera é que, em vez de falarem, os artistas cênicos cantam. É com base no registro e na extensão vocal de cada um dos cantores que será definido quem in- terpretará quem. No que concerne às vozes femininas, há três divi- sões principais. Da mais aguda para a mais grave, em sequência: as sopranos, que podem ser subdividas em sopranos ligeiros, apropria- O responsável por criar o fosso da orquestra foi Richard Wagner (1813-1883), exímio maestro, compositor, ensaísta e diretor, que construiu o teatro de ópera de Bayreuth com a ajuda de amigos. A ideia de Wagner era que, com a orquestra escondida, os espectadores poderiam focar suas atenções no que ocorria sobre os palcos, imergindo na obra. Também é creditada a ele a ideia de apagar as luzes da plateia quando o espetáculo tem início e a criação do Leitmotiv – temas musicais associados com um determinado personagem ou lugar (a música tema da mocinha da novela ou o som que incide quando um perso- nagem em um jogo/filme entra em uma situação de perigo, por exemplo). Wagner escrevia simultaneamente a música e o libreto de seus trabalhos, controlando todos os aspectos de suas produções. Curiosidade https://www.shutterstock.com/pt/g/A_Lesik Gêneros e formas teatrais 105 das para personagens jovens e inocentes, e as sopranos dramáticas, geralmente mulheres mais vívidas; já as mezzo-soprano são aquelas personagens mais sensuais e sedutoras; por fim, as contraltos, devido às suas vozes mais graves, associam-se a personagens mais velhas ou com poderes excepcionais, como bruxas. Com relação às masculinas, da mais aguda para a mais grave, te- mos: o tenor, geralmente o mocinho da história, o preferido do público – Luciano Pavarotti (1935-2007), por exemplo, era tenor –; o barítono, que geralmente representa um homem mais maduro ou com função cômica e possui voz grave e aveludada; e o baixo, que tem o registro mais profundo, atingindo notas mais graves, e frequentemente são ho- mens poderosos, idosos ou ambos. No Brasil, a ópera também foi um gênero bastante popular, sendo a mais conhecida O Guarani (1870), de Antônio Carlos Gomes. Outros compositores, como Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993), também compuseram obras desse gênero ao longo do século XX. Como dissemos, é fácil confundir a ópera com o teatro musical. Embora haja uma grande correlação entre os gêneros, eles se diferen- ciam em um aspecto central: enquanto na ópera é praticamente inexis- tente o diálogo, que cede lugar à música, no teatro musical, a música e os diálogos falados estão justapostos, somados à dança. Isto é, a base dessa estrutura cênica é, grosso modo, uma narrati- va apoiada em composições musicais que irão acompanhar o diálogo, ou se fazer, às vezes, de próprio diálogo, e que, por sua vez, irão inte- grar os componentes coreográficos do espetáculo. Devido ao grande contingente de profissionais envolvidos, dentro e fora de cena, essas produções tendem a ser mais caras do que outras produções teatrais, assim como também ocorre com as óperas. Ninguém sabe ao certo como o teatro musical começou. Acredita-se que foi por volta do século XVII, possivelmente na França. Entretanto, foi somente no século XIX que esse gênero ganhou força, quando co- meçou a se desenvolver na América – onde até hoje é um dos mais assistidos e procurados. Já ouviu falar da Broadway? Pois bem, é nessa avenida da cidade de Nova York, nos Estados Unidos, que se localiza a maioria dos teatros musicais do mundo. Nas óperas, até o início do século 19, havia os chamados castrati. Eram homens que, quando crianças, foram castrados para que suas vozes não engrossassem durante a puberdade. Dessa maneira, conseguiam cantar nos mesmos registros que as mulheres. Curiosidade 106 Teoria e prática das artes cênicas Figura 7 O musical Cats ko jo ku /S hu tte rs to ck Dos musicais, Cats, que narra a vida de alguns gatos de rua, é um dos mais famosos. No Brasil, pode-se dizer que o teatro musical teve início em 1859, no Rio de Janeiro. Aqui, porém, recebeu outro nome, ligado à sua essência: teatro de revista. Como o nome evidencia, esse gênero teatral apre- sentava, como em uma revista, os principais acontecimentos do ano ou do mês anterior, sempre por uma perspectiva satírica e crítica. Misturando música e comédia, essa forma cênica foi se desenvolvendo ao longo dos anos e constituindo características próprias. O Teatro de Revista sempre foi considerado pela crítica do cha- mado “teatro sério” um gênero menor, cuja única função era en- treter o público mais humilde e “inculto”. Para esses críticos, as Burletas, Comédias Musicais e Revistas eram compostas apenas por “vulgaridades”, “palavreado chulo” e piadas de duplo sentido, além de músicas, ritmos e danças de “mau gosto”. O público não deu muita atenção a essas advertências e a partir do início do século passado começou a lotar os teatros que se concentravam na Praça Tiradentes e adjacências, no Rio de Janeiro. Logo, a Re- vista conquistaria todo o Brasil. (PORTO, 2010 apud CARDOSO; FERNANDES; CARDOSO FILHO, 2016, p. 30) O ingrediente mais poderoso desse gênero era a paródia, um re- curso que se utiliza da ironia e do deboche para fazer uma releitura Um dos últimos musicais da Broadway a fazer estrondoso sucesso foi o musical Hamilton, cuja gravação virou filme. Direção: Thomas Kail. Estados Unidos: Walt Disney Pictures, 2020. Filme cômica de alguma situação ou pessoa, geralmente sujeitos da classe dominante. Não só as personagens, mas também a música e as can- ções traziam um certo tom de exagero e eram caricaturais. As atrizes que se sobressaíam durante as apresentações, as primeiras grandes estrelas brasileiras, eram as conhecidas vedetes. O gênero se manteve no Brasil por várias décadas, tendo a sua de- cadência nos anos ditatoriais, pelas mãos da censura do regime militar. Afinal, o teatro de revista tinha como pretensão relembrar e criticar os acontecimentos e, por isso, não havia como essa forma cênica cair no gosto dos militares, que logo a censuraram, impedindo-a de existir da maneira que era. Foi a censura, inclusive, que fez com que os artistas do teatro de revista se aproximassem cada vez mais do jeito estaduni- dense de se fazer teatro com música: o teatro musical. A partir do momento em que os artistas do teatro de revista se viram forçados a migrar para outra modalidade cênica, devido à censura, des- pontou no Brasil, durante o período do regime militar, diversos teatros musicais ditos como engajados, que criticavam poética e liricamente a ditadura. Sem serem diretos e explícitos, como eram as apresentações do teatro de revista, os musicais conseguiam enganar os censuradores e serem autorizados a apresentar suas produções. Dentre as mais fa- mosas estão aquelas compostas por Chico Buarque: Roda Viva (1968), Calabar (1973), Gota d’Água (1975) e Ópera do Malandroele se apaixona por Lady Viola, que está prometida para outro homem. Por causa dessa experiência, ele volta a ter inspiração e escreve a peça Romeu e Julieta. Esse filme deu a Gwyneth Paltrow o Oscar de Melhor Atriz, no ano em que, pela primeira e única vez, uma atriz brasileira fora indicada para a mesma categoria: Fernanda Montenegro, por Central do Brasil. Direção: John Madden. Califórnia: Universal Studios, 1998. Filme 12 Teoria e prática das artes cênicas falando aqui da literatura dramática, das peças teatrais escritas e re- gistradas em papel, como as obras de Shakespeare, Nelson Rodrigues ou Plínio Marcos, por exemplo, que podem ser lidas. Estamos falando daquilo que compreendemos como encenação, a arte da cena, que é quando esses mesmos textos são montados sobre um palco e apresen- tados para um público. ae ro go nd o2 /S hu tte rto ck Como ressalta o professor e pesquisador Flávio Desgranges (2006, p. 90), “o fato artístico-teatral se caracteriza fundamentalmente pelo encontro entre ator (ou artista teatral) e espectador, ou entre aque- le que organiza e emite um discurso em cena e aquele que observa”. Como se vê, é do encontro, é da presença, é da materialidade física de corpos relacionando-se em tempo real que o teatro pode existir en- quanto linguagem artística. Não há teatro sem público. Assim como não há representação sem atores ou encenação sem um espaço onde ela possa ocorrer. Um espetáculo teatral sem público é, na melhor das hipóteses, um ensaio. Isso não significa dizer que uma obra teatral não precise ser ensaia- da ou previamente preparada e organizada. Pelo contrário! Um espe- táculo precisa sim ser organizado e ensaiado previamente. Porém, ele Durante séculos, compreendia-se como teatro apenas o gênero literário, o gênero dramático. Nessa perspectiva, as peças teatrais são as mais conhecidas, estando, portanto, ligadas com o texto e com a palavra escrita (relação autor-leitor). Entretanto, no final do século XIX surgiu o termo encenação, ligado ao que ocorre dentro da cena, sobre os palcos, na relação ator-espectador. Curiosidade https://www.shutterstock.com/pt/g/aerogondo2 Elementos da linguagem teatral 13 só se concretizará como linguagem artística quando posto em relação com os espectadores. Conferindo-o a qualidade de arte efêmera, que só existe integralmente enquanto durar a apresentação. Se as pinturas ou esculturas, quando bem conservadas, podem le- var séculos para se desintegrar no tempo, o mesmo não ocorre com uma encenação teatral, que se faz e se desfaz a cada apresentação, sendo única a cada vez que ocorre. Afinal, muitas coisas podem acon- tecer quando estamos lidando com uma linguagem artística que é rea- lizada ao vivo. Independentemente da quantidade de ensaios que uma peça possa vir a ter, é praticamente impossível que um espetáculo seja reproduzi- do exatamente da mesma maneira todas as vezes em que ele for apre- sentado. Imprevistos e acidentes podem acontecer antes ou durante as apresentações: desde uma fala esquecida por algum dos atores ou uma dor de barriga que aparece sem avisar. A mudança constante de público, bastante comum quando apre- sentamos uma obra teatral mais de uma vez, também corrobora com tal aspecto: uma cena cômica, por exemplo, que fez com que a plateia gargalhasse por minutos em uma apresentação, pode não surtir o mes- mo efeito em outra. E isso reverbera no palco, nos atores e no ritmo do espetáculo. Por ser efêmero e por depender da relação em tempo real entre pessoas, o fenômeno teatral sofre influências que lhe são externas o tempo todo. Ademais, como nos afirma Peixoto (1992, p. 15), o teatro nasce no instante em que o homem primitivo coloca e tira sua máscara diante do espectador. Ou seja, quando existe consciência de que ocorre uma “simulação”, quando a represen- tação cênica de um deus é aceita como tal: a divindade presente é um homem disfarçado. Aqui começa o embrião da noção de ficção e também da noção de fazer arte. O teatro, assim, define o seu terreno específico. Como podemos ver, é da essência da linguagem teatral a existência de um pacto firmado e não dito, mas celebrado, entre quem vê (espec- tadores) e quem faz (atores). O saber que, daquele momento até o final do espetáculo, um mundo ficcional será encenado. Os atores são reais, de carne e osso, claro! Mas sabemos que, do abrir ao fechar das corti- nas, eles irão agir como se fossem outras pessoas, como personagens, imersas em um contexto e em um ambiente ficcional. 14 Teoria e prática das artes cênicas Nesse processo, portanto, o teatro porta-se como uma linguagem artística que demanda, desenvolve e aprimora a imaginação e a criati- vidade de todas as pessoas que estão envolvidas nele – independente- mente de quais funções desempenhem. Tanto quem faz quanto quem vai ao teatro precisa “comprar a ideia” de que, pelos próximos minutos, aquele universo ficcional e encenado é real. Isto é, que o espaço físico da apresentação, seja ele aonde for, transformou-se em outro ambien- te; que os atores e atrizes conferiram aos seus corpos e vozes outros contornos, que não os seus cotidianos, a fim de dar vida a personagens e, a partir delas, encenar histórias – totalmente fictícias ou não. Dessa forma, é pela cumplicidade entre artistas cênicos e especta- dores que o fenômeno teatral ocorre e pode nos entreter, nos ensi- nar, nos emocionar ou nos deixar reflexivos. Sendo preciso que todos participem, aceitem e acreditem que, enquanto a apresentação estiver acontecendo, estarão presenciando uma manifestação artística que se alimenta de todo o material oferecido pela imaginação e pela vida humana – espelhando-a sobre os palcos, transformando-a em arte e questionando-a nesse processo. 1.2 Os múltiplos espaços cênicos Vídeo Como vimos na seção anterior, para que o fenômeno teatral pos- sa acontecer, alguns elementos são essenciais, dentre eles, o espaço cênico. Há duas maneiras, que são indissociáveis e que se influenciam mutuamente, de pensarmos sobre esse conceito e sobre a sua impor- tância dentro da linguagem teatral. A primeira trata justamente do espaço físico e material onde o evento cênico ocorrerá; a segunda refe- re-se à maneira com que o público ficará posicionado perante a cena, a sua relação para com o palco, o seu espaço de fruição da obra. Em outras palavras, não é só o lugar concreto no qual o espetáculo será apresentado que deve ser levado em consideração quando esta- mos falando de teatro. É preciso nos atentarmos à forma como o espe- táculo foi estruturado e como será a sua relação com os espectadores. Isto é, onde o público ficará acomodado para assisti-lo? Será de frente para a cena? Nas laterais ou ao redor do palco? Dentro da cena? Onde a plateia será posicionada para apreender a peça? De acordo com o teatrólogo Peter Brook (1977, p. 4), é possível to- marmos qualquer espaço vazio e denominá-lo como sendo um espa- Elementos da linguagem teatral 15 ço cênico. Nas palavras do autor, podemos “escolher qualquer espaço vazio e considerá-lo um palco nu. Um homem atravessa esse espaço enquanto outro observa, isso é suficiente para criar uma ação cênica”. Seguindo essa linha de raciocínio, o espaço cênico pode ser entendido como qualquer lugar que abrigará a imitação de uma ação que, apre- sentada por alguém (ator), é observada por outra pessoa (espectador). O espaço cênico é tanto o local físico da representação como a relação que a cena esta- belecerá com o público. Assim, presumimos que o espaço cênico só pode existir quando há um pacto firmado entre quem faz e quem vê, independentemente do lugar físico em que isso venha a ocorrer. Ou seja, é o lugar aceito como lócus artístico, em que trocas simbólicas entre atores e espectadores ocorrerão. Comumente temos a ideia de que há apenas um espaço onde a representação teatral pode ocorrer. Como se houvesse apenas uma configuração espacial possível, e muito bem definida, para os atores e outra para(1978). Atualmente, não mais tão engajados politicamente como outrora, os teatros musicais brasileiros continuam a espelhar as produções do gênero desenvolvidas nos Estados Unidos. Por isso, a maior parte das produções nacionais, dentro dessa estética, são adaptações e tradu- ções diretas de espetáculos que fizeram muito sucesso na Broadway. Salvo algumas exceções, é claro. As apresentações estão concentradas principalmente no eixo Rio-São Paulo, e o alto custo de produção enca- rece o valor dos ingressos, o que dificulta o acesso à maioria da popu- lação brasileira – tal como a ópera. Em A Grande Vedete, estre- lado por Dercy Gonçalves, acompanhamos a vida de Janete, uma grande vedete à procura de novas oportunidades de trabalho. É um excelente material para conhecer um pouco mais sobre o teatro de revista brasileiro. Direção: Watson Macedo. Brasil: Cinedistri, 1958. Filme Para mais informações sobre a história do teatro musical no Brasil, acesse o link a seguir. Disponível em: https://www. revistas.ufg.br/musica/article/ view/42982/21533. Acesso em: 12 mar. 2021. Saiba mais O filme Ópera do Malandro é uma adaptação cinemato- gráfica da peça musical homônima escrita por Chico Buarque. Direção: Ruy Guerra. Brasil/França: Embrafilme; Globo Video, 1985. Filme https://www.shutterstock.com/pt/g/kojoku https://www.revistas.ufg.br/musica/article/view/42982/21533 https://www.revistas.ufg.br/musica/article/view/42982/21533 https://www.revistas.ufg.br/musica/article/view/42982/21533 Gêneros e formas teatrais 107 cômica de alguma situação ou pessoa, geralmente sujeitos da classe dominante. Não só as personagens, mas também a música e as can- ções traziam um certo tom de exagero e eram caricaturais. As atrizes que se sobressaíam durante as apresentações, as primeiras grandes estrelas brasileiras, eram as conhecidas vedetes. O gênero se manteve no Brasil por várias décadas, tendo a sua de- cadência nos anos ditatoriais, pelas mãos da censura do regime militar. Afinal, o teatro de revista tinha como pretensão relembrar e criticar os acontecimentos e, por isso, não havia como essa forma cênica cair no gosto dos militares, que logo a censuraram, impedindo-a de existir da maneira que era. Foi a censura, inclusive, que fez com que os artistas do teatro de revista se aproximassem cada vez mais do jeito estaduni- dense de se fazer teatro com música: o teatro musical. A partir do momento em que os artistas do teatro de revista se viram forçados a migrar para outra modalidade cênica, devido à censura, des- pontou no Brasil, durante o período do regime militar, diversos teatros musicais ditos como engajados, que criticavam poética e liricamente a ditadura. Sem serem diretos e explícitos, como eram as apresentações do teatro de revista, os musicais conseguiam enganar os censuradores e serem autorizados a apresentar suas produções. Dentre as mais fa- mosas estão aquelas compostas por Chico Buarque: Roda Viva (1968), Calabar (1973), Gota d’Água (1975) e Ópera do Malandro (1978). Atualmente, não mais tão engajados politicamente como outrora, os teatros musicais brasileiros continuam a espelhar as produções do gênero desenvolvidas nos Estados Unidos. Por isso, a maior parte das produções nacionais, dentro dessa estética, são adaptações e tradu- ções diretas de espetáculos que fizeram muito sucesso na Broadway. Salvo algumas exceções, é claro. As apresentações estão concentradas principalmente no eixo Rio-São Paulo, e o alto custo de produção enca- rece o valor dos ingressos, o que dificulta o acesso à maioria da popu- lação brasileira – tal como a ópera. Em A Grande Vedete, estre- lado por Dercy Gonçalves, acompanhamos a vida de Janete, uma grande vedete à procura de novas oportunidades de trabalho. É um excelente material para conhecer um pouco mais sobre o teatro de revista brasileiro. Direção: Watson Macedo. Brasil: Cinedistri, 1958. Filme Para mais informações sobre a história do teatro musical no Brasil, acesse o link a seguir. Disponível em: https://www. revistas.ufg.br/musica/article/ view/42982/21533. Acesso em: 12 mar. 2021. Saiba mais O filme Ópera do Malandro é uma adaptação cinemato- gráfica da peça musical homônima escrita por Chico Buarque. Direção: Ruy Guerra. Brasil/França: Embrafilme; Globo Video, 1985. Filme 4.5 A ilusão do real: o teatro realista e naturalista Vídeo O Realismo e o Naturalismo foram movimentos artístico-literários que surgiram na Europa em meados do século XIX e que logo passaram https://www.revistas.ufg.br/musica/article/view/42982/21533 https://www.revistas.ufg.br/musica/article/view/42982/21533 https://www.revistas.ufg.br/musica/article/view/42982/21533 108 Teoria e prática das artes cênicas a influenciar as concepções e as produções teatrais do continente. Am- bos se opunham ao Romantismo, que idealizava o mundo e as relações humanas, para tentar representar fielmente a realidade como ela era – de maneira racional e analítica. Mas o que seria o real? Para esses artistas, o real seria tudo aquilo que é percebido pelos sentidos, por meio da observação e da comprovação científica do fato, sem abstra- ções ou aparatos mágicos ou sobrenaturais. Nas suas buscas por equiparar o palco à vida, em ser o mais fidedigno e verossímil possível com o mundo, os teatros realistas e naturalistas, em sua grande parte consumidos pela sociedade burguesa, criaram em cena a ilusão do real. Quer dizer, passaram a espelhar a sociedade em que estavam inseridos com exímia precisão. Por isso, suas perso- nagens eram pessoas comuns, geralmente da burguesia, limitadas e suscetíveis a erros e acertos, nem totalmente boas ou totalmente más – assim como são as pessoas do mundo real. Em linhas gerais, vemos que o teatro da ilusão do real passou a: se preocupar mais enfaticamente com a realidade objetiva que se nos apresenta em nossa vida cotidiana. A dramaturgia realista abre mão dos heróis trágicos que povoam a dramaturgia da An- tiguidade [...] já não possui o caráter teologizante do drama me- dieval; nem a sátira e o escárnio da Commedia dell’Arte. (RABELO; MAGALHÃES, 2009, p. 128) Embora sejam semelhantes em muitos aspectos, conforme descre- veremos a seguir, é importante salientar que há uma linha tênue que separa o Realismo do Naturalismo: mesmo que ambos tratem do ser humano como ele realmente é, o primeiro representa o homem por uma perspectiva e um aprofundamento psicológico, dependente do conhecimento e da lógica; já o segundo se propõe a demonstrar o ho- mem enquanto sujeito biológico, carnal, suscetível às leis da natureza. Isso, obviamente, influenciava as temáticas que cada uma dessas ver- tentes abordava em cena. Como afirma Silva (2015, p. 48), “o real que é escrito pelo Realismo é puro. É o tédio da sociedade. Não há idealismo e, para exacerbar o realismo, pode-se passar várias linhas descrevendo o zumbido de uma mosca”. À vista disso, as dramaturgias realistas são bastante lentas e abordavam temas e problemas reais e comuns da sociedade burguesa da época – bastante inspirados pelo contexto social em que as per- sonagens estavam inseridas. Geralmente, tratam de questões ligadas Os teatros de matrizes realistas e naturalistas tinham como pretensão transformar os palcos teatrais em espaços de ilusão do real, como se o que estivesse acontecendo em cena fosse, na verdade, um trecho da vida de uma pessoa real. Importante Gêneros e formas teatrais 109 às famílias de classe média, temas com os quais o seu público pode facilmente se identificar. A linguagem utilizada é mais coloquial e usual, semelhante àquela do dia a dia. Já o Naturalismo, apesar de também expor o dia a dia das pessoas comuns, trata de tópicos mais “sombrios” da existência humana, como a violência, a pobreza, a prostituição e a exploração. Retrata como o ambiente e a hereditariedade controlam a vida humana – fortemente influenciado pela teoria da evolução de Charles Darwin. Usando uma linguagemsimples, recheada de regionalismos e focada em sujeitos de classes sociais mais baixas, as dramaturgias naturalistas buscam mostrar o ser humano como o animal que ele é, com suas mazelas, virtudes e, acima de tudo, subserviente aos seus desejos carnais. Como principais obras e dramaturgos ligados ao gênero realista, te- mos: Alexandre Dumas (1824-1895), com a obra A Dama das Camélias (1848); Henrik Ibsen (1828-1906), com a Casa de Bonecas (1879), e os brasileiros Machado de Assis, com Quase Ministro (1864), e José de Alen- car, com O Demônio Familiar (1857). Já entre os principais autores do Na- turalismo, temos Émile Zola (1840-1902), com a obra Germinal (1885), August Strindberg (1849-1912), com Senhoria Julia (1888) e, no Brasil, embora tenhamos Aluísio de Azevedo (1857-1913), autor de O Mulato (1881) e O Cortiço (1890), como representante na literatura, no teatro foram raras as experiências de cunho naturalista. Grosso modo, podemos dizer que as apresentações com viés realista e naturalista tinham as seguintes características como principais: Espetáculos com a intenção de criar a ilusão de ser uma fatia do mundo real – como se as personagens estivessem vivenciando aquela situação pela primeira vez. Ações cênicas sempre em tempo presente e contínuo, sem grandes saltos temporais ou espaciais. Abdicação de qualquer recurso narrativo. Espaço cênico, cenário e figurinos criados com precisão e minúcia de detalhes. Diálogos estruturados em uma linguagem coloquial e familiar, semelhante àquela utilizada pelas pessoas no dia a dia. (Continua) https://www.todamateria.com.br/machado-de-assis/ https://www.todamateria.com.br/jose-de-alencar/ https://www.todamateria.com.br/jose-de-alencar/ 110 Teoria e prática das artes cênicas Espectadores passivos diante da cena. Personagens construídas fidedignas à realidade, assim como a interpretação dos atores. Foi justamente pela maior atenção aos detalhes que envolviam a encenação, para convencer o público de que aquilo não era teatro, mas sim a realidade, que passou a ser necessária uma maior minúcia na criação dos espetáculos. Precisava-se que alguém coordenasse a montagem, atento à forma como os atores interpretavam suas perso- nagens, às maneiras como a luz incidia sobre os palcos, bem como à cor e ao tipo de tecido dos figurinos. O velho ensaiador teatral, que auxiliava os atores a decorarem suas falas e os organizava sobre o palco, não mais servia para esse tipo de espetáculo. Sai, então, a figu- ra do ensaiador para dar lugar ao diretor teatral: responsável por se atentar às minúcias da obra encenada e o como seria a sua recepção por parte do público. O primeiro diretor que se tem registro é o francês André Antoine (1858-1943). Sua atenção aos detalhes foi tanta que, na ocasião da apresentação de sua peça Os Açougueiros (1888), na tentativa de me- lhor caracterizar o seu espaço cênico, pendurou pedaços reais de carne fresca no palco – abandonando, assim, os grandes painéis pin- tados que outrora representavam o cenário e o espaço cênico. Além dos pedaços de carne, Antoine também chegou a colocar animais vi- vos em cena, e simulou um pequeno riacho para uma de suas apre- sentações. Tudo, é claro, para se assemelhar cada vez mais ao mundo concreto e natural e, assim, criar a ilusão de que a cena era, de fato, um acontecimento real, e não algo ficcional. Obviamente, apenas o espaço cênico não era suficiente para con- vencer o público de que o que estava presenciando não era teatro, mas um excerto da vida de alguém. Surgiu, assim, uma das convenções mais chocantes [...] fica combinado que os atores não são atores, mas outras pessoas (os personagens) que estão, naquele momento, vivendo aquela história, e, mais importante, que o público não está ali, vendo aquelas coisas acontecerem. [...] o trabalho do ator exige identificação ab- soluta com o personagem (desaparece o ator para dar lugar ao personagem). Porque o drama não é representação; ele se Gêneros e formas teatrais 111 apresenta a si mesmo. (COSTA, 2012, p. 17) Decorre dessa convenção o elemento conhecido como a quarta parede: uma parede imaginária que separa o palco da plateia, em que o espectador assiste à ação cênica, a qual se supõe rolar indepen- dentemente dele, atrás de uma divisória translúcida (PAVIS, 2008). A quarta parede servia, portanto, para criar uma divisão simbólica en- tre o palco e a plateia. Quer dizer, nesse teatro ilusionista do real, ca- bia ao público apenas a qualidade de voyeur da cena, observando as personagens que agem “sem saber” que há pessoas as assistindo. Lembre-se de que a ideia dessas formas cênicas era convencer os es- pectadores de que o que eles veem não é uma obra ficção, mas a realidade. Desse modo, ao espectador cabia permanecer completamen- te passivo perante o espetáculo, imerso nele, emocionando-se, entretendo-se com a apresentação e, momentaneamente, se esque- cendo da “vida real”, pois esta passa a ser aquela ocorre sobre os palcos. É como se o público apenas “espionasse”, pelo buraco de uma fechadura ou por uma janela entreaberta, a vida de alguém – que acontece independentemente da existência do observador. Claro que os atores tinham plena noção de que havia pessoas na plateia, mas as personagens as quais eles davam vida, não. Nesse mo- delo de interpretação, o ator tinha que desaparecer para dar lugar apenas à personagem. Uma vez que os atores precisavam encarnar as personagens, foi necessário que um novo método de interpreta- ção surgisse, uma outra forma de desempenhar a profissão do ator, que deveria ser a mais fidedigna possível à realidade. Nesse senti- do, o primeiro a sistematizar técnicas e processos de atuação, em vias de alcançar tais pressupostos, foi o teatrólogo russo Constantin Stanislavski (1863-1938). Embora tenham mais de um século de existência, os dois gêne- ros que abordamos nesta seção foram tão fortes e influentes que até hoje dominam as artes cênicas e tudo o que envolve atores e perso- nagens. Basta que olhemos para as telenovelas brasileiras, bastante populares no nosso país, e que são exímias cópias e reproduções da realidade. São elas as principais responsáveis por influenciar nossas concepções sobre o que é atuação e representação. A maioria de nós voyeur: termo usado para designar aquele ou aquela que tem deleite sexual na condição de expectador do prazer alheio. Por correspondência, diz-se daquele que apenas assiste, sem interferir. Glossário O russo Constantin Stanislavski (1863-1938) foi um dos primeiros teatrólogos a produzir e fundamentar técnicas e métodos para o trabalho do ator. Seus inúmeros livros dão um ótimo panorama dos seus pen- samentos e procedimen- tos. O Manual do ator é fundamental para quem quer se aprofundar na temática. STANISLAVSKI, C. São Paulo: Martins Fontes, 1997. Livro 112 Teoria e prática das artes cênicas cresceu com uma televisão em casa, porém quantos cresceram indo ao teatro? Mesmo os filmes e as séries estrangeiras que chegam até nós, em sua grande maioria advindos dos Estados Unidos, se baseiam nos moldes de interpretação realista. A história pode até ser afastada da realidade concreta, contendo zumbis, invasões alienígenas ou super- -heróis, mas a atuação dos atores continua seguindo os moldes do mundo real, uma ilusão da realidade. É por isso que, de maneira geral, tende-se a conceber como “bons” apenas as obras e os atores que conseguem emular com perfeição a realidade – afinal, esse é o gênero que mais estamos acostumados a assistir. Todavia, como viemos discutindo ao longo de todo o capítulo, essa é apenas uma das múltiplas maneiras possíveis de se fazer tea- tro e de ser ator. 4.6 Teatro épico Vídeo Bertold Brecht (1898-1956) desenvolveu sua teoria sobre o teatro épico ao longo de mais de trinta anos, modificando-a bastante duran- te essas três décadas. À visto disso, sintetizar suas ideias não é tarefa fácil. O primeiro passo é compreender o contexto histórico em queelas foram criadas: a Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial. O país, que estava do lado perdedor da guerra, passava por um momen- to de grande miséria e conflito social. Somado a isso, havia a ascensão das forças nazistas, cujo grande líder fora Adolf Hitler (1889-1945), que dispensa apresentação. Por consequência, o teatro épico trazia à cena temas e discussões sociopolíticas, que tinham como intenção modificar a realidade pela qual a Alemanha estava perpassando. O primeiro ponto que precisamos levar em consideração é que o teatro épico é fortemente anti-ilusionista. Isto é, caminhava em di- reções opostas àquelas construídas e firmadas pelos teatros de ma- trizes realistas e naturalistas. Naquela época, o cinema já estava em rápida expansão por toda a Europa, fazendo com que o teatro repen- sasse o seu papel de “ilusionista da realidade”, que se tornara muito melhor quando executado pelo audiovisual. Podemos fazer um paralelo com o advento da fotografia que impulsionou uma reformulação das questões da pintura e a libertou para caminhos fora da figuração. Já que a fotografia Em O teatro épico, o autor destrincha com maestria e precisão a origem e to- das as características do gênero. Vale a leitura. ROSENFELD, A. São Paulo: Perspectiva, 1985. Livro Gêneros e formas teatrais 113 cumpria o papel de fidelidade ao real de maneira mais eficaz, a pintura se mostrou livre para percorrer caminhos da abstração e outras experiências vanguardistas. (OLIVEIRA, 2017, p. 100) Brecht, aliás, utilizava-se bastante de projeções em suas obras. Além desses fatores, ele acreditava que o teatro da ilusão do real, por deixar seus espectadores passivos diante do espetáculo, sem qual- quer poder de influência sobre o que ocorria em cena, corroborava para que eles ficassem “conformados” com a realidade do mundo, entorpecidos, e que saíssem do teatro apenas emocionados e entre- tidos. Para Brecht, esses seriam os “teatros culinários”, associados ao prazer da arte da culinária, “sinônimo de dramaturgia de ‘consumo’, baseada no fascínio e na reprodução da ideologia dominante” (PAVIS, 2008, p. 376). Ou seja, teatros que, como um restaurante, satisfariam o espectador, sem deixá-lo reflexivo ou crítico diante do que havia presenciado. Soma-se a esses aspectos o fato de os teatros ilusionistas leva- rem aos palcos narrativas nas quais as personagens pouco podiam fazer para mudar o destino de suas vidas, como se este já fosse tra- çado anteriormente. Não lembra o destino cruel de Romeu e Julieta ou Édipo-Rei? Trocando em miúdos, a teoria do teatro épico tinha como intenção mostrar ao público que histórias e pessoas não são imodifi- cáveis, que as pessoas têm o poder para modificar a realidade, ques- tioná-la e melhorá-la. Para isso, o teatro deveria ser transformado em uma arena de discussão política, na qual a cena não corrobora com a inércia do público, mas o convoca a modificá-la, tornando-o reflexivo, crítico e ativo. O teatro épico traz à cena temas, histórias e personagens que são pertinentes principalmente à grande massa de operários em con- dições precárias de trabalho, o que crescia nesse período. Era para esses sujeitos, aliás, que os espetáculos épicos eram direcionados. Portanto, nos teatros de matrizes épicas, o homem não é exposto como ser fixo, como “natureza huma- na” definitiva, mas como ser em processo capaz de transformar- -se e transformar o mundo. Um dos aspectos mais combatidos por Brecht é a concepção fatalista da tragédia. O homem não é regido por forças insondáveis que para sempre lhe determinam a situação metafísica. Depende, ao contrário, da situação histó- rica que, por sua vez, pode ser transformada. O fito principal do 114 Teoria e prática das artes cênicas teatro épico é a “desmistificação”, a revelação de que as desgra- ças do homem não são eternas e sim históricas, podendo por isso ser superadas. (ROSENFELD, 1985, p. 150) Assim, em vez da ilusão e da passibilidade que foram estimuladas pelos teatros de outrora – o teatro “velho”, “culinário” e ilusionista –, o espectador brechtiano era levado a se entender enquanto sujeito ativo no mundo, como detentor de poder para modificar a realidade social. Nesse sentido, além de político, o teatro épico também era didático. De acordo com Rosenfeld (1985, p. 148), o fim didático exige que seja eliminada a ilusão, o impacto má- gico do teatro burguês. Esse êxtase, essa intensa identificação emocional que leva o público a esquecer-se de tudo, afigura- -se a Brecht como uma das consequências principais da teoria da catarse, da purgação e descarga das emoções através das próprias emoções suscitadas. O público assim purificado sai do teatro satisfeito, convenientemente conformado, passivo, encampado no sentido da ideologia burguesa e incapaz de ter uma ideia rebelde. Para que fosse eliminada a ilusão, era preciso manter o público lúcido diante da cena. Isto é, lembrá-lo constantemente de que aquilo que ele estava assistindo era uma peça teatral e não um trecho da vida de alguém, que aquela história é uma criação ficcional, não um fragmento do real, e por isso poderia sofrer alterações; recordar que os atores são atores, não personagens vivendo. Surgiu daí a ideia Verfremdungseffekt, o efeito de distanciamento, um dos aspectos centrais do gênero, que consistia em distanciar o espectador da narrativa do espetáculo e os atores de suas perso- nagens, que não mais deveriam ser “tomados” por elas, como se as encarnassem. Distanciado da personagem, o ator “demonstra” estar atuando e para de fingir estar vivendo. E como esse efeito de distanciamento, efetivamente, era realiza- do em cena? Comecemos falando sobre o trabalho dos atores. Eles, atuando suas personagens, poderiam se referir diretamente à plateia, fazendo perguntas a ela ou saindo do palco e indo em direção a suas poltronas – ou seja, quebrando a quarta parede do teatro ilusionista. Com a quarta parede “posta à baixo”, em vez de apenas conversarem entre si, como se estivessem vivenciando aquela situação pela primei- Gêneros e formas teatrais 115 ra vez, como se fosse a vida real, as personagens poderiam narrar seus feitos, em terceira pessoa mesmo. Lembram de Téspis que disse “Eu fiz...”, no lugar de “Dionísio fez...”? Então, os atores brechtianos, alinhados à vertente épica, faziam o exa- to oposto: ora sendo as personagens, dialogando com as outras per- sonagens, no tempo presente, ora narrando o que acontecia ou o que iria acontecer em cena, no tempo passado ou futuro. Vamos supor que uma determinada personagem, em um momento de fúria, pegue um copo e o arremesse ao chão. No teatro épico, por exemplo, antes de o copo ser pego, a atriz poderia dizer: “em instantes, pegarei aque- le copo e o jogarei no chão”. Isso distancia automaticamente a atriz da personagem que ela re- presenta, visto que, como narradora daquela ação, já conhece o futuro dos personagens (pois toda a estória já de- correu) e tem por isso um horizonte mais vasto que estes; há, geralmente, dois horizontes: o dos personagens, menor, e o do narrador, maior. [...] Também segue que o narrador, distancia- do do mundo narrado, não finge estar fundido com os perso- nagens de que narra os destinos. [...] Sempre conserva certa distância face a eles. Nunca se transforma neles, não se meta- morfoseia. (ROSENFELD, 1985, p. 25, grifo do original) Isso possibilita à obra ser suscetível de modificações externas. Se o que está sendo encenado já aconteceu, no passado, pode ser mo- dificado para que tenha um outro desfecho possível no futuro. Algo bastante diferente do teatro ilusionista que, na sua tentativa de si- mular o real, dava a aparência de que aquela história estava aconte- cendo pela primeira vez diante dos olhos do público. Por exemplo, no ápice de uma cena, quando uma personagem iria matar a outra, a apresentação poderia simplesmente parar, as luzes serem acesas e o ator, com a arma cenográfica em mãos, se virar para os espectadores e perguntar: “seráque devo assassiná-lo? Se o fizer, serei preso para sempre. Se eu não o fizer, ele continuará cometendo seus crimes li- vremente. O que vocês fariam no meu lugar?”. Brecht acreditava que, assim, mostraria às pessoas que há situações reversíveis, e que os indivíduos podem ser modificados. Para além do recurso da narração, há outros artifícios utilizados pelo teatro épico para causar o efeito de distanciamento – todos, im- pensáveis de serem utilizadas nos ilusionistas. Vejamos alguns: Um dos filmes mais clássicos dos últimos tempos, Clube da luta, constantemente quebra a quarta parede. Isso ocorre quando as personagens, olhando diretamente para a câmera, falam com os espectadores. Direção: David Fincher. Estados Unidos: Fox Film, 1999. Filme 116 Teoria e prática das artes cênicas A utilização de canções que comentam o que está se passando no palco – quem no mundo real, em vez de conversar com outra pessoa, canta? O palco sendo exposto como palco, com as varas de luz e as coxias expostas – assim como as trocas de cenário sendo feitas aos olhos do público, e não com as cortinas fechadas. A possibilidade de fazer grandes mudanças temporais e/ou espaciais de uma cena para outra – em uma cena, as personagens estão na Polônia, em 1885, na seguinte, em uma praia tropical, em 1910. Não há a necessidade de representação; podem ser sinalizadas por um cartaz, ou anunciadas pelos atores (“dez anos depois”, “dois dias antes”, “estamos agora na Escócia” e assim por diante). Um mesmo ator interpretar diversos personagens, mudando-se apenas um elemento do figurino, por exemplo – o que distancia a ideia de que aquele ator é, na verdade, uma personagem. Com base nesses recursos, Brecht desenvolveu uma série de espe- táculos, como Mãe coragem e os seus filhos (1941); Círculo de giz cauca- siano (1944) e Terror e miséria no terceiro reich (1935/1938). No Brasil, a primeira montagem de um texto de Brecht ocorreu em 1956, na Escola de Arte Dramática (EAD), com A exceção e a regra (1929). Ademais, vale destacar os espetáculos Arena conta zumbi e Arena conta Tiradentes, montado por Augusto Boal em parceria com o Teatro de Arena, que se figuram entre as montagens mais importantes dos anos 1960 e marcam a assimilação do teatro brechtiano pelo teatro brasileiro. Posteriormente, Boal daria vida ao Teatro do Oprimido (TO) – uma metodologia de criação na qual o teatro é utilizado como uma ferramenta de trabalho política, ética e estética. Foi fortemente influen- ciado pelos ideais de Paulo Freire (2005) e sua pedagogia do oprimido. 4.7 Teatro de formas animadas Vídeo O teatro de formas animadas é um “gênero teatral que inclui bo- necos, máscaras, objetos, formas ou sombras, representado o homem, o animal ou ideias abstratas” (AMARAL, 1997, p. 15). Embora a represen- tação icônica em objetos, esculturas e outros sempre tenha feito parte dos rituais sagrados dos seres humanos – e ainda que as máscaras e os bonecos tenham feito parte das apresentações teatrais durante sécu- Na obra Nem uma lágrima: teatro épico em perspectiva dialética, a autora reúne uma série de textos nos quais reflete sobre a influência e o início do teatro épico no território brasileiro, iniciado na cidade de São Paulo. COSTA, I. C. São Paulo: Expressão Popular, Nankim Editorial, 2012. Livro O Teatro do Oprimido é a metodologia teatral brasileira mais famosa no mundo. Estudada e aplicada em diversos paí- ses, tem como intenção apresentar as mazelas da sociedade e comunicar às pessoas sobre sua situação de opressão. Para saber mais, acesse o link a seguir. Disponível em: https://www. ctorio.org.br/home/. Acesso em: 12 mar. 2021. Saiba mais Gêneros e formas teatrais 117 los –, à medida que o teatro se tornou mais racional, por volta do século XVI, com o Classicismo, e apegado ao real, com o Realismo/Naturalis- mo, os bonecos e as máscaras praticamente despareceram. Ta tia na B ob ko va /S hu tte rs to ck Foi somente no final do século XIX, por influência dos movimentos Simbolistas e Surrealistas, que as expressões artísticas se tornaram mais abstratas e visuais e, então, que as Formas Animadas consegui- ram retornar à cena teatral. Marionete, boneco, figura, objeto ou forma. Qualquer que seja sua nomenclatura, estamos falando de um teatro onde o ina- nimado é personagem central. Assim, Teatro de Bonecos é um termo insuficiente para abranger todas as manifestações que se pretende expressar, isto é, não apenas a representação do quotidiano humano, mas também ideias simbolicamente coloca- das através de objetos e formas abstratas. Daí o nome: Teatro de Animação. (AMARAL, 1997, p. 16) Como se vê, o teatro de animação é uma forma teatral cujo foco de atenção é dirigido para um objeto inanimado que, pelas mãos de um ator, será animado e “ganhará vida”. Pode ser qualquer tipo de objeto, desde um boneco articulado, com contornos e expressões humanas, até uma folha de papel, que, mais abstrata, representa alguma coisa – como um pássaro ou uma nuvem. Pode-se animar todo e qualquer objeto e representar qualquer coisa, já que essa modalidade teatral é, acima de tudo, metafórica. https://www.shutterstock.com/pt/g/Photohota 118 Teoria e prática das artes cênicas Porém, não é qualquer item que pode ser utilizado para expres- sar uma ideia ou um personagem: “o objeto escolhido deve criar no espectador uma associação metafórica que o transforme em outra coisa além do que ele é, sem que deixe de ser o que ele efetivamente é” (VARGAS, 2018, p. 35). Quando usamos um lenço para representar uma mulher bonita, por exemplo, associamos a suavidade da seda à beleza dessa mulher. Lembrem-se de que, antes de ser animado, aquele objeto é como outro qualquer. Até mesmo as marionetes ou os fantoches bem arti- culados e construídos só ganham vida pelas mãos de alguém. Como salienta Waszkiel (2019, p. 212), “até o boneco mais humanoide que imita perfeitamente o movimento do corpo humano não está ver- dadeiramente vivo, apesar da ilusão de vida ser muito poderosa”. E é justamente essa ilusão que é capaz de provocar os sentidos e os sentimentos da plateia. Claro que ninguém, talvez apenas as crian- ças, acredita que os bonecos estejam vivos. No palco, quem segue vivo, oculto ou visível, ainda são os atores – chamados, nessa lingua- gem, de atores-manipuladores. Um boneco humanoide, um fantoche, um boneco de vara, uma efígie, uma marionete, sombras, uma máscara, qualquer objeto, um pedaço de tecido, inclusive um feixe de luz pode ser um animant quando é tratado como uma figura cênica, um parceiro num diálogo, um comunicador de ideias, um obje- to estético que constrói a metáfora – algo que o ator leva ao palco e apresenta aos espectadores como o terceiro elemen- to da performance. Um encontro do ator e do espectador é a essência do teatro. A essência do teatro de bonecos é um encontro de três parceiros: o ator, o espectador e o boneco. (WASZKIEL, 2013 apud WASKIEL, 2019, p. 214) Entretanto, enquanto o ator confunde a sua própria imagem com a do personagem que ele interpreta, o ator-manipulador mantém a sua imagem desconhecida pelo público – sua personagem é o objeto que ele anima. Quando sua presença é notada, seja por necessidade ou por intenção estética, é sempre uma aparição neutra, pois, no teatro de animação, a imagem da personagem será sempre diferen- te da imagem do ator que a anima. Gêneros e formas teatrais 119 Figura 8 O ator-manipulador Dr A ja y K um ar S ivn gh /S hu tte rs to ck No teatro de formas animadas, os atores-manipuladores devem permanecer neutros. O foco é a figura que está sendo animada. Pode parecer até simples animar um objeto, como as crianças fa- zem nas suas brincadeiras. É bastante comum se ter a ideia de que o teatro de formas animadas é uma modalidade cênica direcionada às crianças – o que, em parte, está correto. Entretanto, assim como qualquer outro gênero teatral, o teatro de animação também pode tra- tarde temas mais soturnos e “adultos”. O teatrólogo polonês Tadeuz Kantor (1915-1990), por exemplo, ao tratar de temas como a morte, que invadiu a região onde morava durante a Segunda Guerra Mundial, encontrou no teatro de animação um ótimo veículo para suas ideias. A “brincadeira de criança”, que, por vezes, estereotipa o gênero, possui alguns aspectos técnicos que precisam ser levados em consideração – aspectos advindos de muito estudo, ensaio e dedicação. Fazemos uso das palavras de Vargas (2018, p. 36) para citar ao menos três: • O ator deve ser capaz de direcionar o foco de atenção do público para o objeto, para si ou para o seu jogo com o objeto; • Na escolha dos objetos, um ponto de partida pode ser a seleção de “famílias” de objetos, tais como ferramentas, utensílios de cozinha, brinquedos, objetos femininos (joias, maquiagens, leques, tiaras, A revista Móin-Móin, cria- da em 2005, é uma das maiores do país quando se trata de teatro de formas animadas. Disponível em: https://www. revistas.udesc.br/index.php/moin. Acesso em: 15 mar. 2021. Saiba mais https://www.shutterstock.com/pt/g/aksshutterstock 120 Teoria e prática das artes cênicas grampos, etc). A utilização de diferentes “famílias de objetos” empo- brece o jogo metafórico [...]; • A qualidade dos movimentos, dinâmicas e ritmos, ao se manipular um objeto permitirá associá-lo à imagem ou ideia que se persegue. Vasto, intrigante, complexo, simbólico e muito técnico, o teatro de animação possui uma ampla gama de possibilidades e formatações, impossíveis de serem sintetizadas neste material. Entretanto, é válido enfatizar que, assim como o Realismo, o teatro de animação também se transferiu para o cinema e para a televisão. É comum encontrarmos inúmeros programas de televisão ou filmes que trazem seus elemen- tos, nos mais variados formatos e contextos. No Brasil, por exemplo, um dos bonecos de animação mais famosos é o Louro José, que ganha- va vida pelas mãos e voz do ator-manipulador Tom Veiga (1973-2020) e acompanhava a apresentadora Ana Maria Braga em seus programas. Todavia, enquanto a tecnologia da mídia contribui para que a Animação ganhe contornos ainda mais reais, é apenas no teatro – no contato ao vivo com o ator-manipulador e na forma que ele anima – que esse gênero está completo em toda a sua magia. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como você deve ter percebido ao longo de todo o capítulo, abordar as principais formas e os gêneros teatrais de maneira resumida não é tarefa fácil. Por isso, neste material, trouxemos apenas as principais ca- racterísticas de cada uma dessas possibilidades cênicas. É claro que, a depender do contexto, do país e do artista que as operam, elas podem assumir formatos e contornos variados. É importante frisar que, aqui, foram abordados apenas os gêneros e as formas que muito influencia- ram nossas perspectivas sobre a linguagem teatral. O teatro é múltiplo, podendo ser realizado em diferentes espaços e por variadas perspectivas e abordando distintas temáticas. Longe de li- mitar e classificar, dizendo o que é bom ou ruim, procuramos expandir as possibilidades. Portanto, para ampliar ainda mais suas concepções, aconselhamos fortemente a leitura das peças citadas – além dos mate- riais indicados, como os livros e sites – e, claro, que assistam aos filmes indicados. Assim, você terá acesso a uma visão global sobre a temática abordada, aprofundando ainda mais as questões discutidas. Em posse dessas informações, tendo apreendido esses conhe- cimentos, cabe a cada um de nós, fazedores de teatro, escolhermos quais formas e gêneros melhor se adequam à realidade e à temática que queremos encenar. Os Muppets é uma franquia estadunidense cujos per- sonagens centrais são as marionetes. No filme, além de conhecer um pouco sobre a técnica de anima- ção, é possível verificar como essa forma teatral, devido a sua característica lúdica, pode transitar por diversos gêneros. Direção: James Bobim. Estados Unidos: Walt Disney Pictures, 2011. Filme Gêneros e formas teatrais 121 ATIVIDADES 1. A Igreja católica passou a ver no teatro um potencial catequizador, criando os autos. Quais são as características dessa linguagem artística que corroboram para que isso seja verdade? 2. Quais são as aproximações que podem ser levantadas entre as tragédias e as óperas? 3. Na sua opinião, por que a televisão e o cinema, em sua grande maioria, buscam criar em suas obras a ilusão do real? REFERÊNCIAS AMARAL, A. M. Teatro de animação. São Paulo: Ateliê Editorial, 1997. CARDOSO, A. B.; FERNANDES, A. J.; CARDOSO FILHO, C. Breve história do teatro musical no Brasil, e compilação de seus títulos. Revista Música Hodie, v. 16, n. 1, 8 set. 2016. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/musica/article/view/42982 Acesso em: 22 abr. 2021. COSTA, I. C. Nem uma lágrima: teatro épico em perspectiva dialética. São Paulo: Expressão Popular, Nankim Editorial, 2012. DUARTE, R. (org.). O belo autônomo: textos clássicos de estética. Belo Horizonte: Autêntica, 2012. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 45. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2005. GUINSBURG, J.; FARIA, J. R.; LIMA, M. A. de. Dicionário do teatro brasileiro: temas, formas e conceitos. São Paulo: Perspectiva, 2006. HELIODORA, B. O teatro explicado aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2008. MAGALDI, S. 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Disponível em: https:// repositorio.ufpe.br/handle/123456789/15368 Acesso em: 22 abr. 2021. VARGAS, S. O Teatro de objetos: história, ideias e reflexões. Móin-Móin: Revista de Estudos sobre Teatro de Formas Animadas, v. 1, n. 07, p. 27-43, 2018. Disponível em: https://www. revistas.udesc.br/index.php/moin/article/view/1059652595034701072010027 Acesso em: 22 abr. 2021. WASZKIEL, H. Teatro de formas animadas. Móin-Móin: Revista de Estudos sobre Teatro de Formas Animadas, v. 2, n. 21, p. 208-221, 2019. Disponível em: https://www.revistas.udesc. br/index.php/moin Acesso em: 22 abr. 2021. Vídeo 122 Teoria e prática das artes cênicas 5 Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais Juliana Pablos Calligaris Neste capítulo, apresentamos o teatro e os jogos teatrais apli- cados à educação. No Brasil há todo um cuidado com a educação artística na formação cidadã; por isso, visando o desenvolvimento integral da criança e do adolescente como seres sociais, objetivos de aprendizagem específicos são elaborados. Nesse sentido, na primeira seção nos debruçamos sobre a im- portância dos jogos teatrais para o desenvolvimento da autoimagem positiva nas crianças e nos adolescentes para que possam confiar em suas habilidades e reconhecer suas necessidades. Em seguida, versamos sobre a descoberta do corpo e da consciência de suas po- tencialidades, aprendendo, assim, a cuidar da saúde e do bem-estar. Na terceira seção, abordamos a importância dos jogos teatrais para o desenvolvimento das capacidades de comunicação e atua- ção sociais. Por meio da experiência com jogos de experimentação espacial e improvisação, aliando curiosidade e consciência, alunase alunos se reconhecem como agentes transformadores do meio, tornando-se mais aptos a tomarem atitudes que contribuam para a evolução e o bem-estar da sociedade. Ao final deste capítulo, você pode ajustar variadas intenções e situações de comunicação em suas aulas, fazendo com que suas alunas e seus alunos sejam compreendidos e sintam-se encoraja- dos a expressar suas ideias e dar o passo seguinte na construção de sentidos e significados para as coisas do mundo, valorizando, dessa forma, as diversas manifestações culturais, com respeito, participação e valorização dos saberes humanos, inclusive, para além da escola. Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 123 5.1 O corpo expressivo no espaço cênico da sala de aula Vídeo Para que professoras e professores de teatro possam reali- zar o trabalho de consciência corporal em sala de aula, devem efetuar previamente uma pesquisa segura e ampla acerca de suas crianças e seus jovens para o trabalho com o corpo, tendo em vista que o teatro e a expressão cênica englobam uma gama de conhecimentos interligados, seja no campo subjetivo, seja no campo físico. São aspectos da aprendizagem: o afetivo, o cognitivo e o emocional. Em síntese, a consciência corporal pode se manifestar em quatro níveis (Figura 1), e não há necessariamente uma ordem para acontecer, podendo se sobrepor. cognição: função psicológica que permite a aquisição de conhecimento pela via de pro- cessos cerebrais, como atenção, emoção, imaginação, vontade, razão e reflexão. Glossário wa ve br ea km ed ia /S hu tte rs to ck Ph ot og ra ph ee .e u/ Sh ut te rs to ck fiz ke s/ Sh ut te rs to ck Sp ee dK in gz /S hu tte rs to ck Figura 1 Níveis de consciência corporal A pessoa com relação a si mesma A pessoa relacionada aos objetos no espaço A pessoa relacionada a outros seres vivos A pessoa relacionada a demais pessoas 124 Teoria e prática das artes cênicas Com base nesses níveis, Stokoe e Harf (1987) defendem que a cons- ciência corporal que gera a expressão do corpo, gera também uma lin- guagem desse corpo por meio da qual o ser humano põe para fora sentimentos, emoções e pensamentos, mesclando-os e interligando-os a outras linguagens expressivas por ele desenvolvidas, como o dese- nho, a fala e a escrita. Com esses pressupostos, os autores elaboraram uma metodologia específica em forma de passos/ações que devem ser compreendidos de modo integrado, sucessivo ou alternado no momento da execução dos jogos com as turmas, pois organizam uma série de procedimentos pedagógicos que deslizam para a aplicação desses conteúdos de maneira plena. Vejamos: 1. Pesquisa: é quando, na qualidade de professoras e professores, experimentamos diferentes possibilidades de realizarmos os jogos e exercícios teatrais. Essas experimentações, que são corporais, podem ocorrer em relação ao espaço em si, a nós mesmos, ao outro ou a algum objeto (cenário, adereços etc.) nesse mesmo espaço. A ideia é que possamos compreender o como, o porquê e o para quê de cada exercício. Essa etapa pode ser dividida em duas partes: a. explorar as qualidades de determinado objeto utilizado em uma cena, como espessura, textura, cheiro, tamanho, cor e sabor, além de características específicas do material – flexibilidade ou dureza, elasticidade, resistência e peso, por exemplo; b. explorar e experimentar ações que podem ser realizadas com próprio corpo e sobre ele, considerando verbos que exprimem fisicalidade: dobrar, esticar, amassar, encurtar, alongar, prensar, apalpar, abraçar, tocar, pegar, entre outros. Depois, partindo desses verbos objetivos, transitar para verbos que exprimam ação subjetiva ou metafórica com o corpo, por exemplo: comer (como um corpo inteiro – e não só a boca – come?); chorar (como um corpo inteiro – e não só os olhos – choram?); rir (como o corpo inteiro – e não só o rosto – ri?) etc. 2. Expressão: é quando, com base na pesquisa inicial, compreendemos a nossa capacidade de externalizar, de pôr para fora (a princípio de modo intuitivo e bruto, depois de maneira organizada esteticamente) as emoções, as sensações e os pensamentos por meio de gestos, movimentos e ações físicas. É fundamental para a prática pedagógica do teatro apreender a importância da consciência corporal, para que você possa propor trabalhos de experi- mentação do corpo no espaço e de propriocepção. Consciente de si e do próximo, o indivíduo compreende os limites naturais do corpo e, partindo dessa compreensão, descobre como torná-los expressivos. Importante Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 125 3. Criação: trata-se da criação propriamente dita, que é a realização de uma ação presente de cena sobre uma ideia, um tema proposto surgido durante o momento da experimentação ou com base nele, sobre estímulos sonoros, sobre um objeto, enfim, sobre quaisquer gatilhos em que possam acionar uma relação criativa entre quem atua e seu objeto de cena. Por exemplo, em jogos de transposição de sentidos/utilidade, transformar uma escova de cabelo em um telefone; transformar um escorredor de macarrão em um chapéu, e assim por diante. A etapa da criação igualmente pode ser realizada pela via de jo- gos de improvisação e brincadeiras diversas. A criação desenvol- ve as seguintes competências cognitivas: • capacidade de observar fenômenos; • capacidade de evocação de narrativas do passado; • capacidade de narrar e formar imagens novas; • capacidade de imaginação; • capacidade de concentração; • capacidade de diferenciar entre a imagem/narrativa evocada (imagem reproduzida) e a imagem/narrativa nova (imagem produzida); • capacidade de saber como integrar as contribuições do mundo natural à vida cotidiana. 4. Comunicação: acontece simultaneamente com as ações, pois naturalmente a comunicação é intrínseca, já faz parte do momento expressivo, está imbricada nele. Destacamos didaticamente a comunicação para salientar que essa etapa também é parte da metodologia aqui estudada. Há vários patamares de comunicação, vejamos: • comunicação consigo mesmo (comunicação individual); • comunicação com o outro (comunicação interativa); • comunicação com os demais (comunicação coletiva). Com base nesses três patamares, desdobram-se, ainda, três ní- veis de ação no espaço e com o outro, que são socializantes e integrativas em jogos teatrais deste tipo: a. ação x reação. Exemplo: eu empurro – eu sou empurrada; eu empurro – o outro oferece resistência; eu o empurro, ele cai; O filme Crianças Invisíveis apresenta o dia a dia de um professor espirituoso que consegue ministrar aulas dinâmicas e cria- tivas, fazendo com que suas turmas se envolvam e participem afetivamen- te delas, o que revela a importância de metodolo- gias e procedimentos que invoquem o interesse das alunas e dos alunos. Direção: Emir Kusturica, John Woo, Jordan Scott, Kátia Lund, Mehdi Charef, Ridley Scott, Spike Lee, Stefano Veneruso. França; Itália: MK Film Productions, 2005. Filme 126 Teoria e prática das artes cênicas b. ação x imitação. Exemplo: eu levanto o braço – o outro levanta o braço; eu abro a boca – minha parceira abre a boca; eu escovo os dentes (em mímica) – meu parceiro escova os dentes (em mímica); c. ação x observação. Exemplo: construir em duplas, trios ou grupos “estátuas” e, depois, inverter os papéis. 5.2 Movimento corporal Vídeo O movimento, o gesto, a voz e o olhar são convocados de maneiras distintas e integradas nas diversas situações da vida, isso porque nosso corpo é um amálgama de sentimentos, emoções, ações, sensações e sentidos. Nosso corpo e nossa mente são potencialmente criativos e, para apreendermos tudo isso em sala de aula, nós arte-educadores necessitamos levantar conhecimento para além do prosaico, do sen- so comum. Precisamos, portanto, entender corpo, viver corpo e sentir corpo, para aumentar, assim, nossos saberes acerca da consciência cor- poral pela via da prática como pesquisa e pela via da experimentação.A gama de conhecimentos a respeito de corpo está diretamente ligada aos saberes da experimentação. A educação contemporânea, desde o início do século XXI, tem buscado olhar para esses parâme- tros sensoriais e significativos e, ao mesmo tempo, essa nova abor- dagem tem sido constantemente atacada por incutir na consciência de crianças e jovens o poder da crítica, da analogia histórica e da opinião apoiada em fatos, e não no senso comum. É demandado aos arte-educadores compreender que corpo e mente pensante estão conectados, que ser uma pessoa sensível faz incrementar enorme- mente os níveis de capacidades cognitivas, contemplando as diver- sas inteligências o corpo cria. Cria a si mesmo, quando refaz suas estruturas, quando se modifica, quando metaboliza alimentos. Cria as rela- ções à sua volta, quando ocupa um lugar no espaço, se achata ou se expande, quando se expressa de forma verbal e não verbal. Cria tensões e desejos de alcançar algo, tocar em alguém, se re- trair, agredir, fugir, acarinhar. Cria situações expressivas, quando dança, canta, representa, gesticula, imita, mimetiza. E cria fatos. Gera conhecimento. Gera emoções. Cria doenças. Cria saúde. (VIANNA; CASTILHO, 2002, p. 26) amálgama: mistura de vários elementos. Glossário Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 127 Referendar corpo significa abordá-lo como uma unidade inequívo- ca, visto que a história do corpo, ao longo da história do próprio ser humano sobre a Terra, aconteceu de maneira fragmentada e, à luz dos avanços sócio-históricos, filosóficos e psicológicos do século XXI, não é mais desejável manter essa característica. Por isso a proposta aqui é pensar corpo de maneira integrativa, contemplando todas as capacida- de e competências cognitivas que permitem com que qualquer corpo possa se desenvolver plenamente: as múltiplas faces das dobras visíveis do tempo são reveladas materialmente na arquitetura, no urbanismo, nos utensílios, no maquinário, na alimentação, no vestuário, nos objetos, mas, sobretudo, no corpo. Ele é inscrição que se move e cada gesto aprendido e internalizado revela trechos da história da socieda- de a que pertence. [...] [o corpo] é sempre submetido a normas que o transformam, assim, em texto a ser lido, em quadro vivo que revela regras e costumes engendrados por uma ordem so- cial. (SOARES, 2001, p. 109) Dessa forma, cada ação, cada passo e cada pensamento realizado conscientemente desencadeia sensação, qualidade corporal e abre uma atmosfera nova, extracotidiana. Os movimentos, os gestos, o olhar e a voz no corpo atento são mobilizados de modo distinto em diferen- tes momentos, como quando estamos tristes ou alegres, isso porque no corpo unívoco, no corpo unidade, sentimento, sensação, ação e mo- vimento são integrados e globais. Ao pensamos corpo, devemos ultra- passar o mero conjunto fisiológico de músculos, ossos, órgãos, artérias etc. Ao conjunto fisiológico estão vinculados sinais neurais complexos que geram sentidos e significados que são traduzidos pelos sentimen- tos, pelas emoções e pela memória (sensorial, narrativa, cantada, oníri- ca), e essa tradução está gravada em cada corpo como marca da nossa passagem pela Terra. Por isso, apresentamos a seguir uma abordagem somática do tra- balho de consciência corporal que possa garantir um melhor desem- penho cênico ou dramático, isto é, situações, movimentos, gestos e interações que geram tônus, motricidade e sensopercepção. O tônus, também chamado de tônus muscular, relaciona-se com o grau de relaxamento ou tensão dos músculos do corpo e ao equilíbrio estabelecido entre ambos nos momentos de repouso e ação. O objeti- vo de trabalhar o tônus muscular é a possibilidade de harmonizar ener- gia e força corporal no instante da realização de uma ação presente O filme Eu perdi meu corpo tem uma premissa surrealista e conta a his- tória de uma mão que foi separada do corpo – uma mão consciente e hábil – e busca encontrá-lo. A narrativa é inovado- ra, visto que aborda a memória, o afeto, a in- completude de um corpo que se separa de si, com sensações e sentimentos impressos na memória de corpo por meio de sua história de vida. Direção: Jérémy Clapin. França: Netflix, 2020. Filme abordagem somática: trata-se de um campo de estudo da prática como pesquisa, composto de métodos cujo eixo de aplicação é o movimento do corpo como via de transfor- mação de uma pessoa e como prevenção de acidentes físicos e posturais. Glossário 128 Teoria e prática das artes cênicas de cena convincente, quer dizer, se desejarmos criar uma personagem severa e hierática, um bom exemplo seria corrigir ao máximo a postura na hora de sentar-se, começando por apoiar os ísquios, que são os dois ossos – ponto de apoio – da postura sentada etc. O trabalho de localizar os ossos ísquios em uma aula pode ser iniciado ao senti-los no corpo, tocá-los, percebê-los ao sentar-se sobre uma superfície rígida e apoiar a coluna ereta. A motricidade, ligada diretamente aos movimentos corporais, é a fun- ção motora; a faculdade ou o poder de movimento do corpo ou de uma parte dele, um impulso motor enviado por um nervo em direção a um músculo. As manifestações acerca da motricidade humana visam melho- rar a qualidade de vida das pessoas. A sensopercepção é formada pela sensação e a percepção jun- tas. A sensação básica é depreendida pelos sentidos (olfato, paladar, audição, visão e tato), portanto é um fenômeno gerado por estímulos biológicos, físicos e químicos, iniciados de maneira exógena – fora do organismo –, desse modo as sensações produzem alterações em nossos órgãos receptores. Com isso, o processo cerebral neuropsi- cológico de transposição daqueles estímulos sensoriais em fenôme- nos perceptíveis é a própria percepção em si, ou seja, a tomada de consciência dos fatos e objetos externos ao corpo. O objetivo de estimular a sensopercepção em uma aula de teatro por meio da experiência corporal é justamente desenvolver os sen- tidos, tanto os de percepção externa quanto visão, audição, paladar, tato e olfato, que mobilizam informações sobre o mundo, como o de- senvolvimento dos sentidos internos que mobilizam percepções ínti- mas – volume, espessura e peso corporal, por exemplo. 5.2.1 Composição do movimento e mobilização corporal A composição do movimento depende de sua qualidade, isto é, de seus atributos, como peso, densidade, movimento para trás, movimen- to para frente, planos alto, médio e baixo, entre outros. A qualidade do movimento/ação será dada de acordo com a mobilização consciente do corpo (músculos, ossos, tendões, sentidos etc.). Desse modo, a qualidade de uma ação e da mobilização do corpo no teatro ocorre quando determinado movimento/ação/gesto deixa de ser funcional e assume uma função estética – quando a atriz e o ator Para que haja uma verdadeira mudança de paradigma corporal em favor de uma educação do sensível, é necessá- rio um alargamento da consciência e um treinamento do corpo. Para saber mais sobre o tema, indicamos a leitura da tese de doutorado O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível, de João Francisco Duarte Júnior. Disponível em: http://www. repositorio.unicamp.br/handle/ REPOSIP/253464. Acesso em: 6 abr. 2021. Saiba mais François Delsarte (1811-1871) foi um músico que desenvolveu uma pesquisa inédita sobre o movimento e o gesto, cunhando o conceito de que a intensidade do sentimento expresso em cena rege a intensidade do gesto do performer no palco, uma proposta fulcral para as artes da cena moderna. Curiosidade http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/253464 http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/253464 http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/253464 Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 129 o executam com a intenção de criar uma personagem. Por exemplo, coçar a cabeça, em um primeiro momento, trata-se de um movimento funcional, porém quando uma personagem coçaa cabeça porque está confusa, a atriz ou o ator podem impor qualidades diferentes para essa ação, como coçar rápido ou devagar, dependendo da montagem ou da cena. Outro exemplo, tomar água: ao colocarmos velocidade (rápida ou lenta), densidade/tensão (forte ou fraca), direta ou indiretamente – tomar água realisticamente de um copo ou tomar água em forma de mímica (elemento espacial) –, estamos compondo movimentos e ações por meio da qualidade que atribuímos a elas. O ensaio, a prática, a repetição e o treinamento, além de mobiliza- rem corpos cênicos, favorecem a criação de um ambiente estético que possibilita starts e respostas criativas que abrem passagem para a cons- ciência somática para uma escuta de si e para a organização pela aluna e pelo aluno de um processo único de autoconhecimento e, portanto, de autoimagem. Nessa lógica integrativa que apresentamos aqui, o cor- po naturalmente buscará harmonizar-se, tal como ensinam Vianna e Castilho (2002, p. 27) ao afirmarem que “se você puder descobrir um caminho para reconduzi-lo ao equilíbrio, o corpo, que tem naturalmen- te uma afinidade pelo bem-estar, pelo prazer, seguirá por essa via do- cilmente [...]. Toda situação de bem-estar, de alívio, tende a ser repetida pelo corpo, através de sua memória”. A proposição de um trabalho de consciência corporal que se afasta de uma lógica habitual exigirá dos professores de teatro uma atitude geradora de novas aprendizagens, tanto para si quanto para as turmas. Para que a arte teatral seja um instrumento potencial na educação, é necessário que arte-educadoras e arte-educadores estejam disponí- veis para mergulhar nos processos da arte, observando os processos humanos pela via do autoconhecimento, buscando ampliar seu co- nhecimento de mundo, estudando, assistindo a peças, a filmes, indo a exposições, ouvindo músicas novas etc. 5.2.2 Composição e criação O corpo torna-se o instrumento principal da composição cênica cria- tiva, visto que depois de experienciar esse cabedal de conhecimento (por meio do fazer teatral), a pessoa sente-se apta a buscar uma qua- lidade mais adequada para sua ação presente de cena, não somente lançando mão do jogo cênico ou criando personagens, como também 130 Teoria e prática das artes cênicas incorporando esse conhecimento na elaboração de roteiros, dramatur- gias (com textos inéditos ou adaptações de obras literárias, por exem- plo) ou, até mesmo, na direção teatral. Vale lembrarmos que é assim que uma pessoa artista cria repertó- rio de criação, uma vez que cada experiência vivida é armazenada não somente na memória neural, mas também na memória do corpo, nas memórias cognitivas, acionais e afetivas. O nosso corpo é uma com- posição de histórias, uma composição criativa que a todo momento se transforma diante das mais variadas situações da vida. Esse processo é, sem dúvida, matéria-prima da arte. 5.3 O jogo dramático e o jogo teatral: terminologia e princípios metodológicos Vídeo Chegamos ao momento das conexões e articulações referentes ao jogo teatral propriamente dito e à construção de uma linguagem tea- tral. Na seção anterior apresentamos tópicos sobre corpo, educação somática, metodologias de trabalho sobre consciência corporal, bem como os sentidos e significados do corpo e da composição que, como professoras e professores de teatro, podemos apreender e ensinar. Figura 2 Aula e ensaio de teatro Ch ris tia n Be rtr an d/ Sh ut te rs to ck Uma vez desperto, o corpo está pronto para jogar! O corpo em es- tado de jogo não é apenas um corpo performativo acionado para a Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 131 criação estética, mas um corpo transcendendo a significados com base em sua presença cênica. Quando jogamos, nosso corpo entra em es- tado de atenção (uma das capacidades cognitivas desenvolvidas pelo fazer teatral), de alerta, veiculando a ação requerida, acreditando nela. Em um jogo de pega-pega para valer, por exemplo, não fingimos que vamos pegar, nós simplesmente pegamos. 5.3.1 Objetivos do jogo teatral Agora vamos relacionar os conteúdos articulados anteriormente e pontuar conceitos mais relevantes e as repercussões do jogo teatral na educação, não somente de crianças, como também de jovens e adultos. Toda pessoa tem competência para criar e se expressar, indepen- dentemente de ser artista profissional. A capacidade para criar e ex- pressar-se é inerente à cognição humana, quanto maior o estímulo recebido, maior a potencialidade criativa. Consequentemente, vivên- cias teatrais ativadas por meio de jogos dramáticos permitem às crian- ças, aos jovens e adultos a descoberta de novos horizontes em suas vidas, pois todo seu corpo e sua mente estão envolvidos no ato de criar. Desse modo, o objetivo do jogo teatral é proporcionar o desenvolvi- mento global de uma pessoa, de maneira a integrar o binômio mente e corpo, viés por meio do qual a cognição e a sensibilidade são atadas. Sem dúvida, o alicerce do jogo está assentado nas técnicas e práticas de im- provisação, simulação de situações e na instalação de conflitos cênicos. O jogo, indistintamente, é denominado dramático ou teatral, isso porque, de acordo com Fauré (1982, p. 12), “lhes chamamos [ao jogo] de dramático para recordar o teatro e – tomando o adjetivo no seu sentido etimológico – para acentuar a presença de uma ação”. Em outras palavras, o poder de brincar, especialmente brincar de faz de conta, desempenha condição fundamental para o desenvolvimento da inteligência de uma criança. Podemos afirmar, portanto, que é por meio dos jogos e das brincadeiras (em algumas tradições culturais brasileiras também chamadas brinquedos) que a criança amplia suas capacidades intelectivas e afetivas. O jogo teatral está ligado diretamente à infância porque natural- mente desperta na criança a oportunidade de manifestar-se de manei- ra livre e espontânea, com imaginação e criatividade. Fauré (1982, p. 19) afirma que “a criança, durante a improvisação, intervém com o corpo e 132 Teoria e prática das artes cênicas com a palavra, com sua timidez e sua sensibilidade, com suas recorda- ções e os seus sonhos”. Essa prática permite aos estudantes o exercício da reflexão crítica em arte e sociedade, visto que, para além da dimensão meramente ex- pressiva, também são desenvolvidas dimensões de apreensão estética quanto à compreensão da cultura de diferentes etnias, povos e nações. O conhecimento estético e crítico da arte permite a adesão de empo- deramento do conhecimento de um indivíduo sobre o mundo à sua volta, possibilita análise histórica material, habilita a pessoa a entender uma obra de arte, depreendendo disso a compreensão de um tempo histórico e seu espaço. O jogo teatral surgiu em um formato pedagógico a partir da década de 1960, nos Estados Unidos, com base na pesquisa dramática em es- colas empreendida pela atriz, professora e diretora teatral Viola Spolin, cujos estudos debruçaram-se sobre o entendimento do fazer artístico e teatral como prática pedagógica. O método de Spolin é pautado por jogos com regras definidas. Há categorias específicas, como exercícios de observação, de memória, jo- gos sensoriais, de aquecimento, de agilidade verbal, de comunicação não verbal, entre outros. A condução do processo em teatro não apre- senta uma sequência preestabelecida e a extensão do jogo depende da realidade de cada turma. Para Spolin (2001), podem ser selecionados jogos específicos isoladamente ou jogar uma sequência durante um tempo indeterminado. Esses exercícios ampliam o limite tradicional da situação de aprendizagem, promovendo o desenvolvimento de habili- dades processuais ao trabalhar com um sistema de percepção e comu- nicação que rompe a linearidade da forma discursiva (KOUDELA, 1981). Por meio do envolvimento com os jogos, atrizes e atores desenvol- vem liberdade individual dentro do escopo de códigos estabelecidos e desenvolvem habilidades e técnicas exigidas para se jogar. A pessoa se transformaem uma jogadora criativa à medida que interioriza essas liberdades, habilidade e técnicas. Em oposição à assimilação pura da realidade ao eu, o jogo teatral propõe o esforço da desacomo- dação, da saída da zona de conforto, tendo em vista a solução de pro- blemas por meio da atuação: “todas as pessoas são capazes de atuar no palco. Todas as pessoas são capazes de improvisar. As pessoas O jogo dramático é o mesmo jogo que acontece na infância. Você se lembra da época das brincadeiras nas quais você tinha que ser ou narrar uma persona- gem? De pular corda, de brincar de nave espacial ou super-herói? De brincar de escolinha, de fazer comida de barro na pracinha ou no quintal? Tudo isso é jogo dramático! Importante Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 133 que desejarem são capazes de jogar e aprender a ter valor no palco” (SPOLIN, 2010, p. 3). Entre as atividades de implementação dos jogos teatrais apre- sentadas por Spolin, estão os jogos de aquecimento. Como a própria expressão explicita, o objetivo desse trabalho é aquecer, elevar a energia e a interação do participante. Aliando a utilização de espaços ao ar livre, cantos e jogos oriundos da cultura popular, essas ativida- des “envolvem movimento físico, música prazerosa e um pouco de atuação” (SPOLIN, 2004, p. 53). Com o intuito de aquecer e focar a interação da turma, por exemplo, os jogos de movimento rítmico propiciam aos jogadores tornarem-se conscientes do movimento corporal. Entre os objetivos desses jogos estão: i) explorar o movimento e a expressão física; e ii) descobrir o movimento natural e compreender os elementos do movimento. Os desdobramentos dessas tarefas são múltiplos, por exemplo, uma bola invisível arremessada de mão em mão de jogo ajuda a comparti- lhar e a estabelecer contato com os outros. São jogos que objetivam também: i) sentir o espaço e descobrir que ele pode ser manipulado; ii) explorar uma nova forma de comunicação não verbal; e iii) despertar a comunicação “invisível” dos jogadores, encorajar o acordo no grupo e a participação conjunta. Segundo Spolin (2004, p. 77), “quando o invisível se torna visível, temos a magia teatral”. Após o aquecimento, o grupo estará preparado para perceber cons- cientemente outro aspecto de seu corpo: os sentidos. Estes são pri- mordiais para a linguagem teatral, considerando, por exemplo, que os adereços e os cenários são passíveis de se transformarem em objetos distintos do que realmente são. Portanto paredes de tijolos podem ser feitas de papelão e parecerem de tijolos, uma vez que estamos traba- lhando o nível das impressões e construções sensoriais e o corpo da atriz e do ator vão reagir à parede como se ela fosse mesmo de tijo- los, e não de material inofensivo. Por isso mencionamos a importância do equipamento sensorial, que, conforme Spolin (2004, p. 97), cumpre uma função específica, tendo em vista que nosso corpo físico age “para tornar visível para a plateia aquilo que é invisível”. Por fim, entre os objetivos desses jogos, destacam-se: i) prestar atenção à ação de cena; ii) tornar os jogadores conscientes das várias Indicamos a leitura do li- vro Metodologia do ensino de teatro, do Professor Dr. Ricardo Japiassu, atuante nas discussões referentes ao ensino fundamental, à arte-educação, aos métodos de ensino, à psicologia histórico-so- ciocultural e ao teatro na educação. JAPIASSU, R. O. São Paulo: Papirus, 2012. Livro propriedades de um objeto; iii) aguçar a capacidade de observação e memorização; e iv) aprimorar os sentidos da audição e da visão. 5.4 Improvisação: estrutura, natureza e sentido Vídeo Com o intuito de compreendermos como é possível fazer uso da expressão teatral em contexto de sala de aula, vamos resgatar os con- ceitos de corpo e de jogos teatrais já estudados, ou melhor, suas poten- cialidades e sensibilidades – o repertório do corpo. Este, quando joga (quando está em estado de jogo dramático), transita de uma situação cotidiana para uma situação extracotidiana. É por isso que tratamos, neste capítulo, de conceitos e práticas da improvisação performativa e teatral. Figura 3 Jogos de improvisação na rua wj ar ek /S hu tte rto ck 134134 Teoria e prática das artes cênicasTeoria e prática das artes cênicas Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 135 Como já estudamos, o teatro no Ocidente teve origem na Grécia Antiga; desde os primeiros ritos cênicos daquela cultura, a improvisa- ção sempre esteve presente como técnica de teatro – e de vida! – das pessoas. Temos os primeiros escritos e tratados acerca da prática e do uso da improvisação com base nos registros da antiga civilização grega que chegaram até nós. Depreendemos desses escritos que o improviso cênico sempre esteve presente no teatro; e foi nas ancestrais represen- tações e festividades em honra ao deus Dionísio que a improvisação foi inaugurada como prática formal de um rito, cuja forma textual era composta de um tipo de escrita poética chamada de ditirambo. A improvisação é uma prática recursiva, ou seja, um recurso inter- pretativo que consiste na elaboração de uma ação presente de cena (imediata ou brevemente mediada) por meio da espontaneidade. Na cena performativa contemporânea, tem sido amplamente utilizada como técnica de composição cênica, tendo em vista que requer de quem é intérprete experimentações corporais e intuitivas, por meio das quais a pessoa que dirige poderá formalizar marcas e encenação final. A improvisação é tão importante ao ponto de ser usada como técnica transversal e multidisciplinar em diferentes áreas derivadas do teatro, como o psicodrama, além de ser um importante recurso para a arte-educação de maneira geral. A improvisação, tal como os jogos teatrais, é proposta por meio de jogos dramáticos, nos quais a atriz ou o ator – criança, jovem ou adulto – cria e interpreta algo imprevisto e inédito, não preparado ou ensaia- do antes, surgidos no calor do jogo, sempre considerando combinados e/ou regras prévias. A importância dos jogos de improvisação é defen- dida por Zanini (2019, p. 110), quando afirma que “é através do jogo que a criança tem garantida a realização de sua infância, pois nesse processo ela está em relação direta com seus pares e pode expressar- -se, dialogar e produzir conhecimentos. A improvisação e a encenação garantem a ela lugar de fala no espaço escolar”. Alguns combinados possíveis para os jogos de improvisação são: i) a invenção de um texto considerando um canovaccio conhecido e bem determinado (como na Commedia dell’Arte); ii) um jogo dramático sur- gido de um tema ou código; iii) a invenção de gestos, movimentos ou ações verbais orais sem modelos prévios encontrados nos conceitos de expressão e consciência corporal; e iv) a desconstrução da oralidade por meio do gramelô e a invenção de uma nova “linguagem física” e/ou de um novo idioma. psicodrama: técnica de investigação psicológica e psicanalítica que procura analisar conflitos interiores fazendo com que alguns protagonistas inter- pretem um roteiro improvisado considerando determinadas senhas pessoais. Glossário 136 Teoria e prática das artes cênicas Improviso (a l’improviso) é uma peça combinada, isto é, uma impro- visação com alguns tópicos previamente combinados e que precisam ser alcançados antes de se passar para o próximo tópico, tudo isso para montar uma peça teatral improvisacional, tal qual uma improvi- sação musical sobre determinado tema. Na peça improvisacional, o elenco atua como se tivesse que inventar a narrativa e vivem as perso- nagens como se estivessem improvisando. Considerado um dos mais célebres improvisos da história do teatro ocidental, temos o improviso de Molière, chamado de O improviso de Versalhes, escrito pelo autor como resposta às críticas negativas que ele recebeu por sua peça A escola de mulheres, de 1663. Gênero autorreferente, o improviso põe em cena atores-autores, os envolve na ação cênica e aprofundasua experiência criativa. O improviso instaura um teatro dentro do teatro, em um processo de metalinguagem. 5.4.1 A improvisação como elemento de composição no teatro Por que uma pessoa sai de sua casa para ir ao teatro? Quando faze- mos essa pergunta estamos nos relacionando com as teorias acadêmi- cas da recepção da obra pelo público e com a apreciação estética dela. Dessa forma, evidenciamos uma questão fundamental, a de que na en- cenação de uma peça está implícito um processo criativo, ou seja, um processo que passa pelo crivo de uma encenadora ou um encenador e que conta com a elaboração de atrizes e atores. Podemos dizer, então, que uma pessoa vai ao teatro para apre- ciar uma obra que foi concebida como obra de arte e que vai dizer ou apresentar algo que não poderia ser expresso de outro modo. A forma como é montado um espetáculo teatral é única e original, pois trata-se do resultado de um processo de pesquisa e ensaios movidos pela von- tade deliberada de quem decidiu estar naquela equipe, elaborando a montagem de maneira premeditada. O jogo de cena e a intuição criativa de cada pessoa do elenco, no entanto, exercem influência à realização da obra: o princípio do jogo cênico é o mesmo do jogo teatral – a possi- blidade da ludicidade utilizando e inventando novas regras, que segundo Japiassu (1998), é o mesmo princípio da improvisação teatral e do teatro improvisacional, isto é, a expressão e a co- municação que emergem da criatividade e espontaneidade das Gramelô, ou grammelot, ou, ainda, grommelot é uma espécie de imitação da linguagem humana, muito utilizada em peças satíricas, cuja sonoridade/ oralidade mistura a prosódia de algum idioma específico a elementos onomatopeicos, a fim de transmitir significados emocional e linguístico às supostas palavras do idioma inventado ou imitado. Ou seja, conversação improvisada, sem sentido definido. A técnica foi desenvolvida por atrizes e atores italianos, por necessidade de sobrevivência das companhias de Commedia Dell´Arte ao final do século XVI. Como os diálogos eram originalmente em italiano e haviam sido proibidos, atrizes e atores super criativos acabaram criando a arte do gramelô. Curiosidade Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 137 interações entre sujeito e jogo, e entre sujeitos mediados pela linguagem teatral, engajados na solução cênica de um problema de atuação. (ZIA, 2005, p. 70) De acordo com Chacra (1983, p. 14), podemos chamar de improvi- sação “algo inesperado ou inacabado, que vai surgindo no decorrer da criação artística, aquilo que se manifesta durante os ensaios para se chegar à criação acabada”. Assim a improvisação se torna uma ferra- menta de construção de uma peça. Os improvisos criados como parte da construção do espetáculo são absorvidos e passam a fazer parte de sua composição final. Desse modo, um espetáculo teatral tem características improvisa- cionais, isto é, mesmo que o elenco tenha ensaiado e esteja preparado com relação às marcas e à direção, por exemplo, sabemos que uma apresentação nunca será igual a outra, o que configura uma das carac- terísticas fundamentais do teatro e das artes cênicas de modo geral, a efemeridade. Esta é a natureza do fenômeno teatral, de acordo com o que nos ensina Chacra (1983), quando diz que “a natureza momentâ- nea do teatro já prefigura por si só, um caráter improvisacional na obra acabada” (CHACRA, 1983, p. 15). Nessa caminhada, a ação presente de cena não nomeia de modo exclusivo apenas a ação que ocorre em cena. Esta não se restringe so- mente ao que acontece durante os jogos ao longo da elaboração de uma peça, inclui, também, o espaço da sala, o drama da própria sala, o espaço onde o teatro/drama acontece. A atividade da atriz e do ator, portanto, não é individual, mas relacional; atriz e ator são relativos – es- tão relacionados, incorporam a relação – ao espectador (que também é seu parceiro de cena) por reciprocidade e complementaridade, por meio de seu corpo expressivo. Em jargão dramatúrgico, a relação entre quem atua e quem assiste é tão simbólica e significativa quanto a relação entre as personagens ou entre atrizes e atores. Se de fato a cena for o espaço conectivo en- tre aquelas pessoas que veem e aquelas pessoas que se sabem vis- tas – ou seja, um exemplar sistema de convergência de semioses – a ação presente de cena ocorrerá, então, extrapalco, estará na conexão palco-plateia entre os corpos, dentro e fora deles, nessa relação dialó- gica entre atrizes/atores e receptoras/receptores. Como expõe Ortega y Gasset (1991) ao desenvolver o conceito de fenômeno teatral, ao de- fender que ele acontece no “atrito” das presenças. O filme Léo e Bia gira em torno de um grupo de teatro que se opõe à di- tadura e busca entender a dimensão do regime através da montagem de uma peça. Todo o filme se passa no galpão de uma companhia de teatro, onde ocorrem os ensaios da peça, que está sendo construída com base em improvisação e jogos teatrais. Então, tudo é cena e não é. Os hori- zontes estão abertos! Direção: Oswaldo Montenegro. Brasil: Copacabana Filmes, 2010. Filme 138 Teoria e prática das artes cênicas Assim, ao assumirmos um fazer teatral que vai ao encontro da natu- reza dialética e semiológica do teatro, podemos compreendê-la confor- me aquela defendida por Umberto Eco, para quem: há que se considerar como objeto da semiótica teatral o texto escri- to, a palavra falada, a gesticulação do ator, a direção, a iluminação, a cenografia e assim por diante. Portanto um fenômeno multimodal no qual estão em jogo sistemas sígnicos diferentes, porque a capa- cidade humana para produzir situações sígnicas desde o uso do próprio corpo até a formação, até a realização de imagens visuais, desenvolve-se aí completamente – o teatro é o lugar de condensação e convergência de semióticas diversas. (ECO, 1978 apud GUINSBURG; COELHO NETTO; CARDOSO, 1978, p. 13, grifos nossos) A atividade teatral desenvolve diversas dimensões interacionais: entre a atriz/ator e o autor(a), entre atores e o diretor(a), técnicos, enfim, entre pessoas com diferentes papéis. Uma dimensão, con- tudo, é peculiar, sem a qual o teatro não existe: há uma espécie de diálogo entre atores e público; por meio desse “diálogo” atriz ou ator entende como conduzir as palavras, os gestos, o olhar, as pausas, a ação presente de cena (todas as várias semioses da atriz e do ator). A ação da plateia, como bocejar, olhar as pessoas, rir e comover-se nos momentos “certos” (todas as várias semioses da plateia), confi- gura, para quem está à frente da situação de performar e interpretar (atriz e ator), uma resposta ao ato de ser performer, aos conceitos da atriz e do ator sobre a dramaturgia/estética do espetáculo, sobre personagens e, organicamente, sobre o que ser uma pessoa na Ter- ra e seus desígnios. Há, no teatro, o aprendizado de uma linguagem própria, ou seja, o aprendizado de um específico sistema simbólico verbal e não ver- bal, cada qual com regras e metodologias próprias, que expressam o sentimento, a produção intelectual e as escolhas artísticas (filosóficas e estéticas) de quem fez e a resposta de quem assiste. Nesse sentido, conforme dissemos anteriormente, o fenômeno teatral é relacional e tem como traço particular e distintivo a imbricação entre aqueles dois sistemas simbólicos fundamentais que, a depender do estilo ou filia- ção teatral, nem sempre são possíveis de serem tomados de maneira dicotômica. A Semiótica apresenta uma diversidade de domínios de aplicação, com metodologias diversas de análise de imagens, ícones, discursos e textos mul- timodais (verbais, não verbais, orais, gestuais etc.), nos quais a construção do sentido se apreen- de por meio das formas da linguagem, tornando o próprio sentido comunicável e parti- lhável; abrange as diferentes linguagens que lhe dão forma de expressão: verbal, não verbal. Segundo Santaella (1983, p. 13), tem por objetivo “o exame dos modosos espectadores. Provavelmente esse espaço é o primeiro que deve ter vindo à sua cabeça quando iniciamos a discussão deste tópico. Ele é, de fato, o mais famoso e utilizado no teatro ocidental, caracterizando-se por ser aquele no qual o público se relaciona apenas de maneira frontal com a cena: o chamado palco italiano. Figura 1 Exemplo de palco italiano Fe r G re go ry /S hu tte rs to ck O palco italiano, ou à italiana, é um dos mais comuns e mais lembrados da linguagem teatral. A relação entre o observador e a cena sempre se dá de maneira frontal. 16 Teoria e prática das artes cênicas Nessa configuração, à italiana, os atores ficam em cima do palco e o público, acomodado nas poltronas do teatro ou de pé, observa os des- dobramentos das cenas e o desenrolar da narrativa de um único pon- to de vista: frontal (como representado na Figura 1). Esse palco surgiu durante o período conhecido como Renascimento, na virada do século XV para o XVI, quando ganhou força a noção de perspectiva que, dando tom à pintura, fora transposta para os palcos na tentativa de conferir à cena noções de profundidade e perspectiva. Esse palco caracteriza-se pelo formato retangular, delimitado por três paredes fechadas: duas nas laterais, que, quando fechadas com cortinas, são chamadas de coxias; e a última ao fundo, podendo tanto ser fechada com cortinas quanto por algum material mais sólido ou concreto. Há, ainda, uma quarta parede, porém ela é vazada e aberta para que o público possa assistir à cena. Também conhecido como caixa cênica, o palco italiano surgiu como um importante mecanismo de condicionamento acústico, em conjunto com a própria concepção arquitetural do espaço, que buscava auxiliar as ondas sonoras a reverberarem mais e, assim, permitir que som che- gasse com maior qualidade às últimas fileiras da plateia. Esse tipo de palco condiciona os espectadores e permite, como já dissemos, que eles vejam a cena por um único ponto de vista e de um único ângulo de visão, relacionando-se com os atores apenas frontalmente. A título de exemplo, essa relação espacial frontal entre quem vê e quem faz pode ser notada nas nossas salas de aula convencionais, onde há um espaço específico para os professores e outro para os alu- nos. Nas salas de aula, assim como nos palcos à italiana, todos os ob- servadores acompanham a ação enfileirados lado a lado, um atrás do outro, com seus campos de visão direcionados sempre para a frente. Entretanto, essa configuração espacial não é uma regra. Pois não há apenas uma formatação física capaz de acolher o fenômeno tea- tral, mas múltiplas – a depender da especificidade e necessidades de cada obra. Ou seja, cada um desses espaços, à sua maneira, afetará as dinâmicas de elaboração e construção cênicas, influenciando nesse caminho a relação dos espectadores com a cena. Ao longo de toda a história teatral ocidental, alguns desses espaços se destacaram, moldando de maneira decisiva a concepção e a orga- nização espetacular do olhar. Já falamos anteriormente sobre o palco Elementos da linguagem teatral 17 italiano, que limita o ângulo de visão dos espectadores. Entretanto, há uma outra configuração espacial que permite ao público posicionar-se ao redor de toda a cena, em um ângulo próximo aos 360 graus, o pri- meiro espaço cênico concebido pelos seres humanos: a arena. Figura 2 Exemplo de palco arena Da ni el M en de s Do m in gu es /S hu tte rs rto ck O palco em formatação arena propicia que a cena teatral seja observada de todas as direções. Como é possível observarmos na Figura 2, diferente do palco italia- no, o palco arena não direciona o olhar dos espectadores para uma úni- ca direção. Como a palavra sugere, é um palco em formato de arena/ estádio – a estrutura teatral mais antiga de que se tem conhecimento no ocidente. Foi bastante utilizado pelos gregos antigos nas apresenta- ções de seus espetáculos e em outras formas de diversão social, como os jogos de gladiadores, por exemplo. Embora originária da Grécia antiga, essa formatação especial ainda hoje é bastante utilizada, mesmo no Brasil. Principalmente pela influên- cia do grupo Teatro de Arena, ativo no país durante os anos 1950 e 1960. Como não há saídas laterais no palco, como as coxias do palco italia- no, na arena, os atores acabam ficando em cena praticamente o tempo todo, vistos por todos os ângulos possíveis. Isso amplia o campo de O Teatro de Arena foi um dos grupos teatrais mais importantes do Brasil nos anos 1950 e 1960. Você pode conhecer um pouco mais da sua história acessando o site do Itaú Cultural. Disponível em: http://enci- clopedia.itaucultural.org.br/ grupo399339/teatro-de-arena. Acesso em: 9 mar. 2021. Saiba mais http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo399339/teatro-de-arena http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo399339/teatro-de-arena http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo399339/teatro-de-arena 18 Teoria e prática das artes cênicas visão dos espectadores e, não à toa, é uma espacialidade bastante utili- zada por esportes populares, como o futebol, por exemplo. Há ainda outro espaço cênico bastante semelhante à Arena, no que diz respeito à estrutura, à configuração e à relação da cena para com os espectadores, a semiarena. Como o nome já denuncia, o grande di- ferencial entre elas é que na formatação em semiarena, ao invés de a plateia estar distribuída ao redor dos 360 graus da cena, algum dos lados do palco é fechado, seja o fundo ou alguma de suas laterais. Para além dessas configurações espaciais, que distinguem claramente o que é palco e o que é plateia (qual é o lugar dos atores e dos espec- tadores), iremos encontrar algumas experiências teatrais, mais contem- porâneas, que buscam diluir completamente essas fronteiras. Nessas formatações, todos acabam por dividir o mesmo espaço, a despeito de serem atores ou espectadores. Geralmente essas experiências estão atre- ladas aos espetáculos realizados nos chamados espaços não convencionais. Mas o que vem a ser um espaço não convencional? Quando estamos falando das artes cênicas, são todas aquelas obras que, ao invés de acon- tecerem sobre um palco, acontecem em qualquer outro espaço, seja em casas, bares, shoppings, hospitais, igrejas, presídios desativados etc. Figura 3 Espaço não convencional Pa ve l L P ho to a nd V id eo /S hu tte rto ck Todos os espaços podem ser transformados em espaços cênicos, para isto, basta que haja um ator agindo e um espectador o observando. Na imagem, vemos a montagem de uma peça encenada em um shopping abandonado. Di vu lg aç ão O filme Gladiador acompanha a história do poderoso general romano Maximus, amado pelo povo e pelo impe- rador Marcus Aurelius. Entretanto, quando o imperador morre, seu filho, Commodus, assume o poder e, tomado de ira pela predileção do seu pai por Maximus, decide assassiná-lo. O general romano consegue fugir e passa a viver como um escravo e gladiador, enquanto vai atrás de vingança. Em Roma, a estrutura do Coliseu, onde ocorriam os emba- tes entre gladiadores, é bastante semelhante com o espaço em Arena. Direção: Ridley Scott. Califórnia: Universal Studios, 2000. Filme O grupo brasileiro Teatro da Vertigem criou, ao logo da década de 1990, uma trilogia de espetáculos realizada em espa- ços não convencionais. Paraíso Perdido, de 1992, encenado em uma igreja; O Livro de Jó, de 1995, que tinha como espaço cênico um hospital; e Apocalipse 1,11, de 2000, que foi realizado em um presídio. Curiosidade https://www.shutterstock.com/pt/g/tgtg Elementos da linguagem teatral 19 Acontece que, quando o local geralmente destinado e delimitado para os atores e para os espectadores não existe, todos assumem ao mesmo tempo o papel de ser atores e de ser espectadores daquela obra. Assim, há uma maior complexidade na elaboração do espetáculo e se faz necessário que os seus propositores tenham muita segurança no que estão fazendo. Afinal, quando o espaçode constituição de todo e qualquer fenômeno de produção de significado e de sentido”. Como podemos observar, a linguagem teatral já é, por si, um fenômeno semiótico multimodal interdisciplinar, porque o teatro associa à sua produção e ao seu fazer todas as outras artes. Importante Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 139 Esses sistemas são verificáveis por meio de alguns elementos que os compõem: i) a interpretação da atriz/ator (o ato de fazer sentido) e a intenção da ação e do gesto (construída pelo texto ou pela ação cênica realizada); e ii) a representação teatral como fenômeno interacional do qual faz parte, necessariamente, o espectador. Essa relação palco/pla- teia gera na atriz ou no ator uma espécie de “energia”, alimentada pela presença do público. Segundo afirma Chacra (1983, p. 18), “se os atores são responsáveis pelo levantamento da forma teatral, o público por sua vez coparticipa na preservação desta, durante a ocorrência cênica, tendo um papel de relevo na edificação da obra”. O estudo desses processos interssemióticos e multimodais – siste- mas simbólicos verbais e não verbais possíveis no fazer teatral – nos ajuda a compreender vários aspectos da relação entre cognição e a inteligibilidade do mundo, conforme ensina exemplarmente Humboldt (1972), quando afirma que ainda que o mundo não seja produto origi- nal da linguagem, ele é de sua responsabilidade, e o teatro sabe disso muito bem. 5.4.2 Improvisação como recurso semiótico Ao abordarmos a etimologia da palavra teatro (theatron, que em grego quer dizer lugar de onde se vê), remetemos ao ato de ver (do gre- go thea). O empreendimento metodológico deste capítulo propõe algo que poderíamos chamar, assim como Barthes (1990, p. 85) chamou o teatro, de um cálculo do lugar olhado das coisas. Daí o exercício que trazemos aqui: repensar o lugar olhado das coisas no fazer teatral na escola. Debruçando-nos sobre essa proposição, verificamos que, de acor- do com Marcuschi (2001, p. 12), a comunicação humana se constrói em um esforço coletivo no qual participantes buscam a construção de sentidos ao longo de um processo interacional estabelecido. Portanto o ato de comunicar-se exige de quem faz teatro improvisação e criativi- dade constantes, conforme o seu uso dinâmico e coletivo, caracterizan- do o fazer teatral como prática intersemiótica. Nesse sentido, podemos dizer que as práticas artísticas, especial- mente a improvisação, procuram promover um recondicionamento das capacidades expressivas de quem atua. O corpo e a cognição da aluna e do aluno, reorganizado pelo teatro e pelos jogos, pode apren- der ou reaprender a tornar-se comunicativo por meio da experiência do teatro em grupo (tendo em vista que o teatro é uma arte coletiva) de tornar-se corpo cênico. Para Jean-Jacques Roubine (1987, p. 43 apud PEREIRA, 2003, p. 59), “assim como a voz, o corpo não é por natureza teatral. Ele precisa aprender a se movimentar, e mesmo a ‘estar’ no espaço virtual que é o palco”. Para a aluna e o aluno em ambiente escolar, o teatro tende a se tornar “um espaço estético rico em plasticidade que permite to- tal criatividade, que libera a memória e a imaginação, é dicotômico e nele tudo se dicotomiza” (BOAL, 1996, p. 34). O fazer teatral pode ser extremamente renovador de potencialidades, pode proporcionar a estudantes descobertas de novas ferramentas cognitivas para se relacionar com a sociedade. Cabe destacar, no ponto em que esta- mos, que, a priori, não temos como objetivo transformar estudantes em atores profissionais, porém, visamos explorar recursos da técnica teatral (jogos, encenações, improvisação, reflexão sobre as diferentes formas de comunicação e sobre diferentes linguagens ou estéticas teatrais etc.) como possibilidades de ampliação de sua capacidade ex- pressiva em vários níveis semióticos. Figura 4 Aula de teatro Ch ris tia n Be rtr an d/ Sh ut te rs to ck 140140 Teoria e prática das artes cênicasTeoria e prática das artes cênicas Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 141 5.4.3 O sentido da improvisação O sentido da improvisação pode ser compreendido de duas formas: a improvisação dita “artística”, feita no âmbito teatral por grupos ama- dores, estudantis ou profissionais; e a improvisação como ferramenta de instrumentalização coletiva 1 em lugares alternativos, como o psi- codrama, a improvisação por meio de jogos em empresas, ambientes corporativos, terapêuticos, em fábricas, festas, praças, supermercados e ruas, podendo tornar-se fundamental nas discussões políticas, cultu- rais e sociais. Nas duas formas o público pode participar ativamente do espetáculo teatral, integrando os jogos dramáticos. Na improvisação para o teatro, a artística, procura preencher os re- quisitos da arte em si. Quando consideramos que os fenômenos veri- ficados no teatro são tratados particularmente pela semiótica (mesmo que não só por essa ciência), vale a pena refletirmos sobre o que signi- fica arte para a maioria das pessoas que são semioticistas: que se trata de uma estrutura sígnica que pode ser lida como um texto, seja ele verbal, seja não verbal. Isso quer dizer que a leitura classista da obra de arte e sua suposta posição de “alta cultura” em detrimento do que seria uma “cultura de massa” são colocadas em xeque diante desse novo conceito de texto e de leitura que surge com o aparecimento e a consi- deração de novas tecnologias de inclusão da era digital pós pandêmica e, desse modo, de novas “artes”. A improvisação constitui-se, ainda, como já mencionamos, como re- curso técnico, ou seja, ela pode resolver, ao vivo, uma falha surgida em uma apresentação. Conforme esclarece Chacra (1983, p. 97), “quando o artista representa ao modo de improviso, diante da plateia, ela serve como uma medida de seu virtuosismo e de seu talento. Tem sido usada também para provas de habilidade para o trabalho de atores. E dentro do gênero cômico, é ela que determina muito dos seus procedimentos”. No tocante à educação teatral na escola, portanto, a improvisação coletiva manifesta-se por meio dos jogos teatrais, propiciando às alu- nas e aos alunos o desenvolvimento integrativo individual, coletivo e sensível. Assim, dependendo da abordagem, a improvisação poderá desencadear processos de ordem sociológica, emocional/psicológi- ca e estética, conforme os objetivos da metodologia utilizada pela(o) profissional que a ministra. Sobre os jogos como prática coletiva, a maior referência é o Teatro do Oprimido (TO), cunhado por Augusto Boal ao longo dos anos 1960. Como já vimos, trata-se de uma espécie de metodologia de jogos de improvisação coletiva, como um modo de manifestar-se contra a reprodução do teatro tradicional. Igualmente como uma forma de descentralizá-lo, considerando que o TO serve como ferramenta para alargar discussões políticas, sociais e culturais. 1 142 Teoria e prática das artes cênicas CONSIDERAÇÕES FINAIS Durante os jogos teatrais, o corpo expressivo de uma pessoa precisa agir tanto no sentido de ativar sua criatividade quanto sua receptividade ao corpo da outra. Àquilo que, no jargão teatral, cha- ma-se escuta cênica, ou seja, a busca por um corpo conectivo, pleno de escuta, presente e atento – a busca por um corpo dialogicamen- te receptivo. Essa receptividade é essencial para que a aluna e o aluno possam incorporar de fato (e não apenas intelectualmente) a presença da outra pessoa no jogo cênico, da sua criação crítica e artística. Podemos dizer isso, em consonância, de modo a contemplar di- versas modalidades de comunicação verbal e não verbal de manei- ra expressiva e relevante. Há um crivo, há uma escolha por parte do intérprete. É sua inteligência meta e autorreflexiva (no caso, apli- cado ao raciocínio teatral, ao texto teatral, ao sentido teatral) que abre dimensões para além daquela dicotomia mencionada acima. Finalmente, sobre as capacidades cognitivas, as especificidades, as propriedadese as dramaturgias do corpo aqui estudadas, con- cluímos que se faz necessário investigar amplamente a psicofisicia- lidade. É preciso dissecar a “ação física” e confrontá-la à “ação física normal”, desconstruí-la. Ser capaz de atuar não é apenas invocar sentimentos, movimentos ou ações que normalmente denomina- mos atuação. Atuar envolve também um nível fundamental, que é o das sensações integrativas do corpo. ATIVIDADES 1. De acordo com este capítulo, qual é a importância dos jogos teatrais? 2. Descreva a relevância da improvisação e do jogo como veículos para a criatividade. 3. Em que circunstância a improvisação pode inscrever-se como um recurso técnico no teatro? Vídeo Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 143 REFERÊNCIAS BARTHES, R. O óbvio e o obtuso. Trad. de Léa Novaes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. BOAL, A. 200 exercícios e jogos para o ator e o não ator com vontade de dizer algo através do teatro. 13. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996. CHACRA, S. Natureza e sentido da improvisação teatral. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010. FAURÉ, G. O jogo dramático na escola primária. Brasília: Estampa, 1982. GUINSBURG, J.; COELHO NETTO, J. T.; CARDOSO, R. C. (org.). Semiologia do teatro. São Paulo: Perspectiva, 1978. HUMBOLDT, W. Linguistic variability & intellectual development. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1972. KOUDELA, I. D. Jogos teatrais: um processo de criação. 1981. 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Disponível em: http://tede.bibliotecadigital.puc-campinas.edu.br:8080/ jspui/handle/tede/156 Acesso em: 22 abr. 2021. 144 Teoria e prática das artes cênicas 6 Práticas teatrais na escola Juliana Pablos Calligaris Neste capítulo, especificamente na primeira seção, abordamos a cena contemporânea, na busca por compreender como se deu a emergência do teatro no contexto educacional, discorrendo sobre a construção de um espetáculo teatral e como empreender esse projeto em sala de aula. Em seguida, investigamos jogos teatrais, uma técnica que re- quer inteligência, sutileza e elegância para acontecer, além da necessidade de conduzi-los sem que se atribua um juízo de valor às cenas criadas para não inibir ou prejudicar o poder criativo de crianças, adolescentes ou pessoas adultas. A primeira coisa necessária para jogar é sentir-se livre em re- lação aos nossos processos criativos, que estão vinculados com a realidade que nos cerca, e isso requer atenção à nossa intuição e aos sentidos que tocam o mundo, absorvem-no e inferem nele. Por fim, na última seção, discutimos como se dão estes proces- sos no contexto da Educação Especial. 6.1 A Emergência do teatro no contexto educacional Vídeo No início do século XX, houve uma assimilação, por parte de gover- nos e educadores, sobre a importância do teatro na educação. Henry Caldwell Cook (1886-1939), educador britânico, escreveu um dos pri- meiros livros sobre o tema, The play way 1 , no qual afirmava que o fa- zer teatral poderia ser um caminho de aprendizagem ainda melhor do que apenas ler e ouvir, porque os jovens estudariam brincando. Nas palavras de Courtney (2001, p. 44), Cook afirmava que “atuar era um caminho seguro para aprender”. A palavra “play” ou “to play”, em inglês, tem várias traduções possíveis em português: jogar, brincar, encenar (play = peça). Algumas traduções livres desse título: “O caminho do jogar” ou “O caminho do jogo [teatral]”. 1 Práticas teatrais na escola 145 Pensamentos como esse foram possíveis graças a uma renovação no conceito de infância no mundo ocidental devido a obras como Emílio ou da Educação, de Jean-Jacques Rousseau, escrita em 1762. Nesse tra- balho, o filósofo iluminista francês difundiu o conceito de uma educa- ção pedocêntrica, ou seja, que coloca a criança no centro do interesse educacional, a partir do qual torna-se possível estabelecer uma relação de ensino-aprendizagem, inclusive, por meio de “jogos de faz de conta” (VOLPATO, 2017) – falando de outra forma, jogos teatrais. No início do século XX, portanto, o movimento pela renovação da educação foi impulsionado pelas visões emergentes sobre a infância e sobre o jogo e o brincar. No Brasil, essa renovação tornou-se conhecida com o movimento Escola Nova, e sua difusão aconteceu a partir das teorias cunhadas por John Dewey 2 (1859-1952), um filósofo estadu- nidense que influenciou educadoras(res) no mundo todo ao propor o seguinte: valorizar a capacidade de pensar das alunas e dos alunos; prepará-los para questionar a realidade; sempre unir teoria e prática; e sempre problematizar. Em nosso país, o escolanovismo foi encabeçado por Anísio Teixeira e colocou a atividade prática e a democracia como fundamentos da educação. Em 1954, o filósofo da educação britânico, Peter Slade publicou Child Drama, publicado posteriormente no Brasil sob o título O jogo dramático infantil, afirmando a importância do teatro na educação. Ao publicar esse livro, Slade ofereceu substrato para que o jogo – até então visto como recreação e entretenimento – passasse a ser uma disciplina fulcral para a educação de uma criança. Em seu tratado Jogo, teatro e pensamento, Courtney (2001) indica Slade como precursor do teatro criativo. Slade realmente tem um pensamento fundante ao afirmar que o jogo: É uma forma de arte por direito próprio, não é uma atividade in- ventada por alguém, mas sim o comportamento real dos seres hu- manos. O jogo dramático é uma parte vital da vida jovem. Não é uma atividade de ócio, mas antes a maneira de a criança pensar, comprovar, relaxar, trabalhar, lembrar, ousar, experimentar, criar e absorver. (SLADE, 1978, p. 17) Ainda em suas observações, Courtney (2001) aponta que, para Slade (1978), o método consistia em jogo pessoal e jogo projetado. No jogo pessoal, todo indivíduo integra-se no movimento e ca- racterização; há uma tendência para o ruído e o esforço físico, e a criança está atuando no sentido real – desenvolvendo-se no pedocêntrico: modelo peda- gógico que tem como centro a criança e a construção de sua autonomia. Glossário Publicada em 1762, Emílio ou da Educação continua atual. Tanto essa ideiaquanto a obra, totalmente inédita e original na história ocidental, tornou-se muito famosa por revolucionar o pensamento pedagógico e consagrou-se como estopim de relevantes teorias sobre a forma de educar. A obra marca a refor- mulação do pensamento sobre o que é a infância, influenciando pensadores e pensadoras dos séculos XIX e XX. Em forma de romance, o livro conta a história de Emílio, um órfão rico e nobre, desde seu nascimento, de como foi educado de maneira única por todos os seus preceptores e tutores, até sua vida adulta e seu casamento. ROUSSEAU, J.-J. São Paulo: Martins Fontes, 2018. Livro Interest and Effort in Education (1913), traduzido para o português por Anísio Teixeira sob o título de “Interesse e Esforço”. In: Os Pensa- dores, Abril Cultural, 1980. 2 146 Teoria e prática das artes cênicas que se refere a correr e jogos de bola, luta e dança, natação e representação. No jogo projetado, a mente é mais usada que o corpo, e a criança “projeta” uma situação dramática imaginária. (COURTNEY, 2001 p. 46) Desde os anos 1950, discussões e novas tendências envolvendo a equação teatro e educação vem avançando, sinalizando diversos cami- nhos e sentidos possíveis dessa complexa relação. No Brasil, ainda na década de 1950, a educadora gaúcha Olga Reverbel (1989a; 1989b; 1996), seguindo os passos do escolanovismo, inaugura o Teatro Infantil Permanente do Instituto de Educação em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, promovendo o teatro na educação escolar em todos os níveis por meio da aplicação dos jogos dramáticos na formação artístico-pedagógica de professoras e professores. Reverbel, que lecionou artes cênicas mesmo depois de aposentada, costumava enfatizar a importância da história de vida para o ensino do teatro. Em entrevista concedida a Nunes (2003, p. 94), ela comenta: “isso é importantíssimo! Olha, a história é a seguinte, eu acho que todo aluno, professor que faz formação pedagógica para ensinar os seus alunos tem que ter curso de teatro na educação, sem o qual não é pos- sível, além disso, deve se aproveitar de sua própria história de vida, das brincadeiras de criança”. Reverbel (1989a), em síntese, expõe seu método por meio de quatro características: Voluntária: atividades cuja participação é voluntária, ou seja, somente participa quem tiver vontade. Quem não desejar partici- par realizará outras atividades em prol do grupo de teatro, seja no estudo do texto da peça ou de temas afins, seja na produção de cenários, adereços e figurinos. Ativa: atividades e jogos dramáticos que demandam ação cêni- ca propriamente dita. Coletiva: atividades propostas em grupos com a intenção de gerar interação social, considerando-se que o fazer teatral é, por definição, uma atividade coletiva, mesmos que seja um monólogo (atualmente denominados solos cênicos ou solos teatrais). Anísio Teixeira (1900-1971) é considerado o responsável pelas revolucionárias mudanças que marcaram a educação brasileira a partir do século XX. Ele foi pioneiro e encabeçou a luta pela implementação das escolas públicas de nível pré-escolar, fundamental e médio, visando oferecer educação gratuita para todas e todos. Como pensador e educador, ele não se preocupava com fama e prestígio, mas em garantir acesso ao ensino, con- cedido apenas aos privilegiados. Várias das suas proposições basearam-se na filosofia da educação de Dewey, que foi seu professor num curso de pós-gra- duação nos Estados Unidos. Curiosidade Práticas teatrais na escola 147 Global: atividades de integração de outras linguagens. O teatro é a arte que une todas as outras artes em seu fazer, desse modo, a característica global, defende a professora, é unir as outras lingua- gens artísticas para a montagem de uma peça ou mesmo durante a criação em sala de aula, pesquisando cores, luz, sombras, músicas, estilos estéticos etc. Além das práticas propostas pela autora, no Brasil, outras técnicas atuais de jogos teatrais conhecidas descendem e derivam diretamen- te das pesquisas iniciadas por Spolin na década de 1960 nos Estados Unidos. Foi a partir dos trabalhos dessa multiartista e educadora que o fazer teatral saiu da sala de trabalho dedicada exclusivamente a atores e adentrou as salas de ofício de terapeutas, escolas, hospitais, clínicas e quaisquer locais onde o teatro pudesse servir como chave catalizadora e reveladora de processos cognitivos sociointeracionistas humanos. Viola Spolin tornou-se internacionalmente conhecida por sua con- tribuição metodológica tanto para a prática da arte cênica como para o ensino do teatro nas escolas e universidades, principalmente para o teatro improvisacional para além do teatro profissional per se. Ela inscreveu nas artes cênicas o termo theatre game, traduzido para o por- tuguês como jogo teatral (CALLIGARIS, 2016). Era imigrante russa nos Estados Unidos, tendo chegado ao país na década de 1930. Spolin rece- beu forte influência de Constantin Stanislavsky, a quem faz uma dedi- catória na sua obra Improvisação para o teatro (SPOLIN, 1978). Foi inspirada em Neva Boyd, importante educadora de Chicago (EUA), que Spolin desenvolveu os jogos teatrais. O trabalho da edu- cadora era proposto com base nos jogos socializantes e recreativos, praticados com pessoas refugiadas da Europa após a Segunda Guerra Mundial. O início das publicações de Viola Spolin data de 1956, e toda sua proposta está baseada na prática, no uso, no fazer, no aprendizado que se pode obter por essa via. Autora de vários textos sobre improvi- sação, seu primeiro livro, Improvisation for the theater, foi traduzido por Ingrid Koudela e Eduardo Amós. Publicado pela editora Perspectiva em 1978, tornou-se o livro de referência no país sobre o movimento do teatro improvisacional em defesa dos jogos teatrais. Os jogos teatrais, nesse formato contemporâneo, surgiram no Brasil em 1981, portanto a partir da pesquisa da professora doutora Em Jogos teatrais: o fichário de Viola Spolin, escrito em 1975, a autora apresenta uma gama de atividades com os jogos teatrais, sendo que a própria organização das atividades já prevê sua utilização por diretores teatrais, professores e terapeutas em geral. A explicação de cada jogo é classificada por categorias, e a organização de cada jogo é apresentada de modo sistêmico: i) preparação, ii) instrução, iii) foco, iv) avaliação e v) áreas de experiência. Esse trabalho está disponível em forma de fichário acompanhado de um manual. SPOLIN, V. São Paulo: Perspectiva, 2001. Livro 148 Teoria e prática das artes cênicas Ingrid Koudela, que escreveu sua dissertação de mestrado, Jogos tea- trais: um processo de criação, pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), baseando-se naquele trabalho de Spolin (1963). A autora concluiu ser possível e interessante transformar o aprendizado do teatro em uma técnica educativa (KOUDELA, 1981). Ela também escreveu outra obra que até hoje é referencial no Brasil, Brecht: um jogo de aprendizagem, que aborda a técnica do distancia- mento crítico épico-narrativo no teatro brechtiano, além de ter traduzi- do outras importantes obras no campo teatral. Conforme defende Koudela (1991), cada jogo é uma estrutura ope- racional e pode ser utilizado de maneiras alternativas e reorganizado de diversas formas para ir ao encontro de necessidades particulares de cada turma, grupo ou coletivo. 6.2 PCN: educação e formação em arte nas escolas Vídeo Ainda hoje, mesmo após a instituição dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), com a entrada em vigor da mais recente Lei de Dire- trizes e Bases da Educação (LDB/1996), o ensino das artes nas redes municipal e estadual do nosso país é desafiador. Compete a artistas, educadores, pesquisadores continuar os trabalhos e a discussão a res- peito do assunto, a fim de que possa, de fato, haver renovação de espa- ços pedagógicos que contemplem todas as linguagens das artes, bem como a renovação dos currículosdas licenciaturas em artes e teatro, pedagogia, incluindo os currículos dos cursos de Educação Especial. Para compreendermos como temos nos Parâmetros Curriculares Nacionais/PCN n. 6 – Arte (BRASIL, 1997) uma base bastante fundamen- tada para compreendermos e exercermos nossa atividade profissional como arte-educadores, a seguir vamos nos debruçar sobre eles e veri- ficar o caminho percorrido pela proposta a fim de apreendermos sua gama de especificidades, de complexidades e de abertura de processos educacionais, cognitivos e artísticos para as nossas práticas na escola. Ao longo dos ensino fundamental e médio, a aluna e o aluno de- vem desenvolver suas capacidades estéticas quanto às variadas mo- dalidades da área artística – como dança, artes visuais, música e teatro –, tanto para que possam criar trabalhos pessoais e coletivos quanto para que possam, paulatinamente, apreciar, desfrutar, valorizar, com- Práticas teatrais na escola 149 preender e trazer para si os bens e os valores artísticos, socioculturais e sócio-históricos de distintos povos, produzidos ao longo da história ou mesmo na contemporaneidade. Dessa forma, o ensino de Arte demanda que ele seja organizado de modo que, ao final do ensino básico, fundamental e médio, alunas e alunos sejam capazes de desenvolver as seguintes competências: observação, atenção, concentração, percepção, imaginação, intuição, emoção, raciocínio e memória. Considerando esses objetivos, que deverão ser atingidos por meio dos jogos teatrais, alunas e alunos desenvolverão apreciação estética/ crítica quanto à obra de arte acabada, bem como a capacidade de inte- ração e socialização; quer dizer, o aprendizado em teatro se dá em dois processos: grupal e individual. 6.2.1 Processos individual e em grupo O objetivo geral é proporcionar à aluna e ao aluno diferentes ferra- mentas para que se expressem e se comuniquem por meio das artes cênicas, articulando imaginação, sensibilidade, reflexão, emoção e cria- tividade de maneira indidual e coletiva no observar e no fazer artístico (BRASIL, 1997). I. Teatro como apreciação estética e produto cultural • Observação, apreciação e análise crítica das diversas manifestações e produções teatrais nas diferentes culturas e épocas. • Pesquisa e leitura de textos dramáticos e de fatos históricos sobre teatro. • Pesquisa e frequência junto aos grupos de teatro, de manifestação popular e aos espetáculos realizados na sua região. • Reconhecimento e compreensão das propriedades comunica- tivas e expressivas das diferentes formas dramatizadas (teatro em palco e em outros espaços – circo, teatro de bonecos, mani- festações populares dramatizadas etc.). • Pesquisa e frequência às fontes de informação, documentação e comunicação presentes em cada região (livros, revistas, 150 Teoria e prática das artes cênicas vídeos, filmes, fotografias ou qualquer outro tipo de registro em teatro). • Elaboração de registros pessoais para sistematização das experiências observadas e da documentação consultada. II. Teatro como comunicação e expressão • Reconhecimento e utilização dos elementos da linguagem dramática: espaço cênico, personagem e ação presente de cena (ação dramática). • Participação e desenvolvimento de observação, atenção e improvisação etc. • Experimentos na improvisação com base no acordo de regras para o jogo. • Experimentos na improvisação por meio de estímulos diversos (temas, textos teatrais, jornalísticos, poemas, objetos, máscaras, ações físicas, imagens, sons). • Experimentação e articulação entre as expressões corporal, visual (plástica) e sonora/musical. • Exploração das competências corporais e de criação/ composição cênica. • Pesquisa, elaboração e utilização de bonecos e máscaras, e de outros modos de representação. • Seleção e organização dos objetos a serem usados em cena e da participação de cada pessoa na peça ou no jogo. • Pesquisa e elaboração de cenário, figurino, maquiagem, adereços, iluminação e sonoplastia. III. O teatro como criação e produção coletiva • Reconhecimento e exploração do espaço de encenação com demais participantes do jogo teatral. • Reconhecimento e interação com colegas na elaboração de cenas e na improvisação. • Observação, apreciação e análise dos trabalhos teatrais realizados pelos demais grupos. • Interação atriz/ator – espectadora/espectador. • Criação de textos e encenação com o grupo. • Compreensão dos significados expressivos corporais, textuais, visuais, sonoros da criação teatral. Práticas teatrais na escola 151 No terceiro grupo, ressaltamos a importância das chamadas ações físicas, conforme podemos observar nas palavras de Jerzy Grotowski (2012, p. 9-13), importante encenador e diretor: Eu penso no canto dos olhos, a mão tem um certo ritmo, vejo minha mão com meus olhos, do lado dos meus olhos, quando falo, minha mão faz um certo ritmo, procuro concentrar-me e não olhar para o grande movimento de leques [referência às pessoas do públi- co se abanando] e num certo ponto olho para certos rostos: isto é uma ação. Quando disse olho, identifico uma pessoa, não para vocês, mas para mim mesmo, porque eu a estou observando e me perguntando onde já a encontrei. Vejam, a posição da cabeça e da mão mudou, porque fazemos sempre uma projeção da imagem no espaço; primeiro esta pessoa aqui, onde a encontrei, em qualquer lugar a encontrei, qualquer parte do espaço e agora capto o olhar de um outro que está interessado e entende que tudo isso são ações, são as pequenas ações que Stanislavski chamou de físicas. As ações físicas são o principal legado de Constatin Stanislavski 3 – ator, diretor e encenador russo – e são muito estudadas até hoje. Grotowski (2012) defende que, para Stanislavski, a emoção é indepen- dente da vontade, assim exemplifica: “eu quero amar uma pessoa, porém não posso amá-la”. Em outras palavras, para o autor, o que depende da nossa vontade são apenas as pequenas ações, ações in- ternas, gatilhos psicofísicos e ações quanto aos elementos de compor- tamento. É justamente com elas que a atriz e o ator devem trabalhar. 6.2.2 Metodologia e avaliação Com base nos processos elencados nos PCNs, propomos duas cate- gorias de organização dos procedimentos didáticos de uma professora e de um professor de teatro: (i) metodologia; (ii) avaliação. Nesse sentido, construímos uma proposta de passo a passo para fins de estruturação dessas duas categorias. Com as lentes focadas para o escopo deste estudo, trazemos, a seguir, exemplos de organiza- ção e/ou atitude metodológica e avaliativa. Constantin Stanislavski (1863- 1938) e Jerzy Grotowski (1933- 1999) são pessoas importantes para a renovação do teatro no início do século XX. Seus traba- lhos e obras são referência para o teatro e para a artes cênicas contemporâneas, de modo geral. Apesar de serem de momentos históricos distintos, é consagrada no meio artístico a descrição da relação entre eles – entre o encenador russo e o encenador polonês – como mestre e discípulo, como “pai e filho”, ainda que essa filiação artística não esteja isenta de contradições e embates. 3 152 Teoria e prática das artes cênicas 6.2.2.1 Metodologia e competências do professor A aplicação da metodologia ocorre em três etapas: antes, durante e depois da aula. Vejamos essas etapas e as competências associadas a elas: Antes da aula Durante a aula Depois da aula • Trabalhar junto com a equipe da escola. • Pesquisar, de fontes de técnicas, conteúdo e materiais. • Criar estratégias para a preparação e organização da aula e seu espaço. • Selecionar obras e artistas que serão estudados. • Estudar e desenvolver seus conhecimentos artísticos. • Estimular o olhar crítico e estético. • Incentivar a produção individual e/ou coletiva. • Propiciar um ambiente de trabalho acolhedor e favorável. • Acolher ideias, sugestões e materiais. • Inventar formas de apreciação de e em arte. • Descobrir variadas propostas de trabalho. • Propor um destino para os trabalhos criados. •Analisar os trabalhos produzidos pelas alunas e pelo alunos junto com elas e eles. • Reconhecer o ritmo pessoal das alunas e dos alunos. • Imaginar o que está por acontecer na continuidade do trabalho, com base nas informações depreendidas das experiências das aulas anteriores. • Avaliar cada aula, em particular. • Articular as aulas, uma com as outras, conforme o seu propósito. 6.2.2.2. Avaliação A avaliação consiste em verificar o nível de conhecimento de apren- dizes e pode ser realizada simultaneamente à situação de ensino- -aprendizagem ou ao término de um módulo ou bloco de atividades que componham uma unidade didática. Práticas teatrais na escola 153 As aprendizes devem ser avaliadas(dos) quanto à capacidade para: compreender o teatro como prática coletiva; compreender e habilitar- se para se expressar na linguagem teatral; compreender e apreciar as diversas formas de teatro produzidas nas diferentes culturas. 6.3 O Caminho do Jogo Vídeo Apresentamos alguns jogos para que você possa passar pela expe- riência de modo empírico. Assim, enfatizamos que a experiência empíri- ca deve começar primeiro com a professora e com o professor e, então, deslizar para o trabalho com aprendizes. Estes são alguns jogos que você pode experimentar e, com base neles, expandir sua pesquisa estudando obras que serão mencionadas ao final das propostas de jogos. 6.3.1 Eixo 1: aquecimento Uma estratégia utilizada para inserir a aluna e o aluno na atmosfera poética da criação cênica e quebrar a barreira prosaica entre o que seria um suposto “corpo expressivo” e um suposto “corpo não expres- sivo” temos no aquecimento do corpo, a retomada de todas as etapas do processo de instalação da proposta de trabalho – sempre, a cada nova aula, pela via da memória, dos afetos e da experiência do que fora construído no encontro anterior. Vejamos a seguir. Ko zl ik /S hu tte rs to ck https://www.shutterstock.com/pt/g/Kozlik 154 Teoria e prática das artes cênicas O corpo em si mesmo Com o corpo deitado, de olhos fechados, fazer um escaneamen- to de todas as partes do corpo que tocam o chão; depois, começan- do pelos pés, um escaneamento mental de cada parte do corpo até a cabeça. Após essa propriocepção, utilizar os apoios do corpo para ficar em pé, passando pelos três planos: plano baixo, plano médio e plano alto. O corpo no espaço Imaginar o espaço da sala como se fosse uma grande bandeja apoiada em um único ponto. A ideia é equilibrar essa bandeja para que ela não tombe, ou seja, os corpos pelo espaço devem encontrar uma harmonia proporcional. Enquanto se deslocam pelo espaço, os corpos devem experimentar ações de expansão e recolhimen- to, alternando momentos em que o corpo ocupa o maior espaço possível e momentos em que ocupa o menor espaço possível com movimentos variados, despertando a consciência corporal quanto a si e ao espaço que ocupa. Os jogos podem – e devem – evoluir a fim de que os participantes possam conhecer e explorar os seus limites. Enquanto se deslocam pelo espaço, por exemplo, a cada sinal (que pode ser uma batida de bastão no chão, batida das palmas das mãos etc.), cada uma das joga- doras e dos jogadores deve alternar para nível baixo, médio e alto, bem como de direção: para trás, para frente, para cima, para baixo e para os lados, ao longo do seu deslocamento. Ainda ancorados na ideia de harmonizar o espaço durante o deslo- camento, podemos incrementar diferentes velocidades durante a sua execução. Pode-se trabalhar com três velocidades: muito lenta (câmera lenta); velocidade natural dos corpos; e rápida, como em uma corrida. Dessa forma, trabalhamos a consciência acerca de diferentes estados corporais gerados pelas velocidades. As atividades propostas devem ser entendidas sem uma pretensão de exigência rígida, estrita e super técnica, mas como uma sequência natural dos jogos. Portanto, mantendo os comandos trabalhados na atividade anterior, podemos propor ações que acompanhem a veloci- dade pedida. Exemplos de ações que podem ser solicitadas: abanar- Corpo em locomoção pelo espaço está relacionado diretamente ao chamado espaço pessoal, que se refere ao espaço ocupado pelo nosso corpo in- terna e externamente. O espaço parcial é o que nos circunda, e o chamado espaço total é o espaço demarcado pelo deslocamento do corpo. Há, ainda, o espaço social, compartilhado com outras pessoas. Importante Práticas teatrais na escola 155 -se, pentear o cabelo, beber água, apanhar uma flor, jogar uma pedra, passar batom, passar esmalte, sentar-se no chão, colocar a lente de contato, ler um livro, atender o telefone, comer com palitinho etc. Às jogadoras e aos jogadores é indispensável a atenção a quatro elemen- tos fulcrais: velocidade, nível, dinâmica/arquitetura do espaço, direção para onde se desloca. Podemos verificar atentamente como diferentes propostas de aquecimento promovem semioses e concorrem para a ampliação da inteligência por meio das capacidades cognitivas despertadas pelo fazer teatral, desde a instalação da proposta de trabalho. Desse modo, temos várias maneiras de instaurar esta parte inicial de uma aula: aquecimento vocal, corporal e exercícios de articula- ção e projeção da voz, exercícios de expressão corporal, jogos in- terativos de percepção espacial, jogos interativos de percepção do coletivo e do social e exercícios de criatividade e improvisação. Propomos algumas ideias que são passos didáticos para você saber por onde começar: 1. Aquecimento: alongamento, respiração, ritmo, dança, mímica. 2. Jogos lúdicos e de integração: com objetos (bolas, bastões, corda etc.), objetos trazidos pelos alunos e alunas, sensações (os 5 sentidos), reconhecimento do espaço, reconhecimento do corpo, reconhecimento do outro. 3. Improvisação: sem fala, individual; sem fala, em duplas ou trios; utilizando objetos; a partir de temas propostos por textos e/ou letras de canções; utilizando sons (sem textos definidos). Na prática 6.3.2 Eixo 2: jogos de interação, atenção e consciência corporal Nos jogos em que existe uma interação face a face, há também o favorecimento das próprias semioses, as quais, no Eixo 2, são de na- tureza multissemiótica. Com base nessa ideia, apresentamos, a seguir, alguns exercícios. 156 Teoria e prática das artes cênicas Jacadi Escolhe-se alguém para ser líder. As demais jogadoras e jo- gadores posicionam-se ao lado um do outro no espaço, ficando aquela ou aquele que lidera à frente. O grupo só pode se mo- vimentar quando ouvir a palavra jacadi. O momento de parar pode ser combinado: depois de um curto tempo de deslocamen- to ou movimentação, em um determinado momento perceptível ou quando a líder ou o líder disser “Parou!”. Como desafio do jogo, podemos confundir as jogadoras e os jogadores dizendo palavras parecidas, como “jacaré”, “japerdi”, “jacaí”, “japari”, “ja- parei”. Se alguém se movimentar com outra palavra que não seja “jacadi”, será eliminado. Meia, meia lua As pessoas posicionam-se uma ao lado da outra pelo espaço e, no lado oposto, uma delas fica de costas para as demais. As que es- tão dispostas pelo espaço devem avançar com o objetivo de tocar a que está de costas, sem que ela perceba. Se a que estiver de costas perceber algum movimento e detectar quem foi, essa jogadora ou jogador será eliminada. Acorda, Seu Urso! Trata-se de um jogo de pega. Alguém é escolhido para ser o urso. O urso escolhe um lugar para dormir e se deita; quando acorda, está com muita fome e precisa comer, então sai pela floresta para caçar, porém suas presas se disfarçam (de uma ár- vore, planta ou animal) e isso confunde o Seu Urso ou a Dona Ursa, impedindo-a/o de se alimentar. As jogadoras ou jogado- res devem dispor de agilidade corporal, porque, além da rápida movimentação, deve agir rapidamente para se disfarçar, usando muito bem o seu corpo e a plasticidade corporal para mimetizar coisas da floresta. Jogo dos sentidos Formam-se duplas. Um dos jogadores ou jogadoras évendado enquanto sua dupla o conduz pelo espaço. O condutor ou conduto- ra deve oferecer comandos e rotas diversas àquele que está venda- do a fim de aprimorar seus sentidos, para além da visão, bem como trabalhar a confiança entre jogadoras e jogadores. Práticas teatrais na escola 157 Cabe destacar, no ponto em que estamos, que o trabalho teatral na escola, a priori, não tem como objetivo transformar pessoas em atri- zes e atores profissionais, no entanto visa explorar recursos da técnica teatral (jogos, encenações, improvisação, reflexão sobre as diferentes formas de comunicação e sobre diferentes linguagens ou estéticas tea- trais etc.) como possibilidade de ampliação da sua capacidade expres- siva em vários níveis semióticos. A aprendiz e o aprendiz são movidos por um interesse específico que os leva a criar um signo que, naquele momento, representa a ex- pressão de uma ideia ou significado escolhido por meio de uma lógica e pertinente ao que ela e ele, como produtores do signo, querem ex- pressar. Ressalta-se, ainda, que tanto o produtor (atriz ou ator) quanto o receptor (quem assiste, a plateia) escolhem ora um modo semiótico, ora outro, dentro da gama de modos semióticos disponíveis, para dar destaque ou ressaltá-los, a cada instante da cena (por exemplo: em um instante prestamos mais atenção aos pés, em um outros, aos olhos, e assim por diante), considerando determinadas escolhas, porém todos os modos semióticos se agrupam para formar a interpretação ou o entendimento da cena. 6.3.3 Eixo 3: jogos de confiança Jogos de construção de confiança tornam-se excelentes práticas para turmas de quaisquer faixas etárias. É fundamental que o grupo tenha confiança em si como coletivo e que cada pessoa tenha confian- ça mínima na outra, na medida do possível. Esses jogos visam trabalhar o exercício social, físico e intelectual da confiança, o chamado fair play, o jogo justo, mesmo entre adversários, pois, no fundo, tudo é colabo- ração acima de tudo. Pretendemos que as alunas e os alunos confiem no próximo e entreguem uma parte do seu controle de jogo ao outro para o bem do coletivo. O Jogo das afetações Ao atentar ao estado corporal gerado pelas diferentes velocidades, ampliar a escuta do corpo, reagindo aos afetos que essas ações lhe cau- sam como jogadora e jogador. A pergunta é: o que isso causa a você? Essa é uma pergunta interna, íntima, que deve ser respondida com uma ação corporal, com uma ação física. Muitas coisas podem afetar a jogadora, por exemplo: a ação ou movimentação da colega ao lado, a 158 Teoria e prática das artes cênicas música do exercício, o calor do dia, o frio do dia, uma gota de suor, um tropeção involuntário, o vento que entra pela jane- la, a sede, a fome, o cansaço, a textura do chão, um ruído que vem de fora etc. Amplie e alargue a sua escuta, permita-se se afetar. O jogo da improvisação coletiva Divida a turma em grupos e proponha algum tema. Pode ser um lugar (ponto de ônibus, supermercado, escola, cemitério, hos- pital), uma situação (em uma festa, durante a aula, em uma con- sulta médica), uma palavra (raiva, pressa, medo, alegria, amizade, saudade, loucura), um objeto (casaco, livro, cadeira, telefone, lenço, copo, porta-retratos); deixar livre para que surja alguma possibilidade. Você pode optar por utilizar letras de canções ou poemas, por utilizar ou não a fala. Contato-improvisação Esse jogo é derivado do Aikido, uma arte marcial japonesa, e favorece a construção de confiança e entrosamento. Vamos apre- sentá-lo em níveis. • Nível 1: em duplas, uma pessoa propõe uma pose/forma corporal e a outra, sem mudar a forma da ou do colega, propõe uma outra pose entrando nos “buracos”, nos espaços deixados pelo corpo da parceira ou parceiro no espaço, mantendo sempre o contato corporal e assim, sucessivamente, o primeiro a sair da pose inicial sem alterar a forma da/do colega compõe outra forma a partir do corpo dela ou dele, entrando nos espaços e “buracos” não preenchidos pelo corpo da/do colega. À medida em que todas as jogadoras e jogadores sentirem fluidez, todas as duplas podem, paulatinamente, juntar-se, formando um grupo maior e gerando novas possibilidades formais. • Nível 2: a seguir, partir para a busca do fluxo. Se em um primeiro momento a primeira pessoa se posicionava estaticamente para a segunda preencher seus espaços, agora o fluxo é constante, fluido, sem paradas ou interrupções, como em uma dança ou luta coreografada. Na busca pelo fluxo, utilizar gradativamente as velocidades 1, 2 e 3. Práticas teatrais na escola 159 • Nível 3: após a obtenção de um fluxo, a busca pela precisão corporal faz-se presente organicamente, mas lembre-se de nunca buscar “formas bonitas”, “formas lindas”, isso não faz o menor sentido aqui. Por precisão, entenda-se a busca de uma estabilidade do binômio mente-corpo: controlar ansiedades, força e alongamentos possíveis, respiração, olhar, conduta, permitindo a ampliação de repertório corporal – portanto, da sua inteligência. Isso amplia a relação de trabalho e confiança que a dupla estabelece. Nesse momento, as parceiras e os parceiros podem mais do que somente preencher os espaços um do outro, podendo apoiar o corpo sobre a outra ou outro de modo factível, para que uma pessoa possa servir de apoio, sustentação e alavanca para a outra. Brincadeiras de infância Retomando narrativas pessoais, pensar em uma brincadeira de infância de que gostasse muito e, então, experimentar no e com o corpo um modo de se apresentar para a turma, de dizer quem é você, por meio dessa brincadeira, até mesmo adaptando ações e movimentos se necessário. Por exemplo, na brincadeira de pular corda, uma pessoa começa a pular e inicia uma narrativa de si a par- tir dos gatilhos de memória psicofísicos que o ato – a brincadeira de pular corda – evoca. Quanto mais criadora e inventiva a jogadora for, mais estará livre para usar sua espontaneidade e intuição para comunicar-se, libertando sentimentos, memórias (psicológicas e físi- cas) e narrativas pessoais, que serão, portanto, ficcionadas, poden- do virar roteiros ou dramaturgias de texto e dramaturgia de cena. Representação com o corpo As jogadoras devem, caminhando e deslocando-se pelo espaço de modo a equilibrá-lo, representar coisas que forem solicitadas. As representações podem ser paradas ou em deslocamento, a com- binar. Essas ordens podem ser dadas em blocos; por exemplo, pri- meiro, cores: representar amarelo, roxo, verde, vermelho, azul, lilás, ocre, marrom, laranja, bege, branco, preto, cinza. Depois, no segun- do bloco, sentimentos e sensações: medo, medo de ser assaltada (variações de medos mais específicos); alegria, alegria em ganhar um presente legal (variações de alegrias); tristeza, tristeza pela partida 160 Teoria e prática das artes cênicas de um amigo (variações de tristezas); fome, frio, calor, dor de bar- riga, dor de cabeça, paixão, raiva, amizade, briga, reconciliação, amor, ódio, culpa, redenção. No terceiro bloco, frases inteiras: “Hoje acordei cansada!”; “Que lindo dia de sol!”; “As nuvens estão carregadas. Vai chover hoje!”; “Eu te odeio. (Pausa). Mas também te amo!”; “Não estou gostando disso!”; e assim por diante. O objetivo dos jogos propostos é, como vimos, permitir à aluna e ao aluno interagir com materiais, instrumentos e procedimentos variados, experimentando e conhecendo-os de modo a utilizá-los nos trabalhos coletivos. É, ainda, possibilitar que obervem que a relação entre o ser humano e a realidade pode ser transformada em expressividade artís- tica grupal – pois arte teatral não se faz sozinha –, exercitando a discus- são, indagando, argumentando e apreciando a arte de modo sensível. 6.4 O ensino do teatro na educação especial Vídeo Finalmente vamos conversar um pouco sobre o ensino no contexto da educação especial. Pelo que vimos até aqui, para trabalharmos as singularidades expressivas de cada aluna e aluno, precisamos respeitar o tempo, o espaço, suas competências e habilidades.É preciso enfati- zar, também, o quanto se faz necessário que cada professora e profes- sor de teatro seja também uma pessoa aberta às experiências empíricas da prática no sentido de pesquisa. Diante disso, vale a pena sempre frisar que a formação em arte refere-se a um processo contínuo, que nunca aca- ba, porque ele sempre implicará e impactará nossas vidas docentes, nas idas e vindas de nossas histó- rias pessoais, nos processos que envolvem vivências e saberes da prática e do intelecto, e tudo isso transborda o currículo acadêmico. O tempo todo construímos sa- beres, configurações e reconfigu- Denis Kuvaev/Shutterstock https://www.shutterstock.com/pt/g/dkart777 Práticas teatrais na escola 161 rações e, com isso, outros modos de perceber o futuro na docência. Seguindo nesse viés, é fácil concluir que a formação de uma pessoa em arte-educação se refere não ao que se fecha, mas a um ciclo que cons- tantemente se aprimora e se refina, para além dos muros, para além das margens; enfim, refere-se ao que é intenso, pleno e transformador. Buscamos sempre compreender o teatro na educação de alunas e alunos da educação especial com uma lente extraordinária, extracoti- diana, pois a linguagem teatral inserida nesse contexto veicula o desen- volvimento integrativo de uma pessoa, que é contínuo, em fluxo, tanto intelectiva quanto sensivelmente. É por isso que fazemos deste material um convite para sensibilizar, experimentar, criar, ousar, reinventar, apoiar-se no fazer teatral, uma vez que essas duas ferramentas, o teatro e a educação, acontecem no coletivo, em uma grade via de mão dupla entre quem ensina e quem aprende. Para que o teatro seja potencializado na prática educacional, é imprescindível que a arte-educadora e o arte-educador incorporem-no como recurso semiótico de construção de sentidos e, portanto, de conhecimento. 6.4.1 Objetivos, metodologia e avaliação no contexto da educação especial Partindo da proposta de voltarmo-nos para a educação especial, vamos agora transpassar a fronteira da comunicação e da expressão, então recapitulemos. Como vimos, o teatro é uma linguagem artística que reúne conhecimentos específicos; assim, sabemos que essa lingua- gem acontece por meio da participação de aprendizes, professoras e professores, tendo em vista que ela desenvolve espontaneidade, aten- ção, imaginação, intuição, reflexão, conjectura, raciocino e criatividade a partir do momento em que todo mundo se coloca aberto para o jogo, para a improvisação, para percepções do corpo, para os procedimen- tos do fazer teatral. O teatro amplia a compreensão dos processos corporais e do seu repertório, já que o jogo, a improvisação, o desenvolvimento das com- petências corporais e cognitivas favorecem o conhecimento de si. Uma vez que todo este processo se inicia, ele não se interrompe mais, pois 162 Teoria e prática das artes cênicas é impossível crescer como atriz/ator e não crescer como pessoa, pois a atriz/o ator é um ser humano profissional. Com sua característica fortemente demarcada pela intertextualida- de, local onde as artes se autopenetram, compreendemos o teatro em uma dinâmica de encontros e descobertas cujo fim principal é extrair o inenarrável, o inexplicável, o indizível, intuindo e recriando, nesse entrecruzamento de vida real e vida esteticamente organizada, novas formas de expressões humanas. Esse contínuo movimento do teatro na escola, que incessantemente reconstrói semioses e competências, acaba por contribuir e ampliar as possibilidades expressivas das alunas e dos alunos, isso até chegarmos cada vez mais perto do público, as pessoas ouvintes, e com isso tocar sensações e emoções que foram e são vividas por cada uma das pessoas que atua. O objetivo das atividades de teatro na educação especial é propor- cionar a alunas e alunos com deficiência a experiência da descoberta e redescoberta das suas potencialidades. A possibilidade do trabalho teatral com a educação especial é justamente fazer tais aprendizes compreenderem que podem lançar mão de várias semioses concomi- tantes, complementares, constitutivas, alternativas e compensatórias para se expressar neste mundo e com seus pares, pois outros sistemas semióticos afora a língua também significam. Como observamos ante- riormente, o surgimento e a tomada de consciência da coexistência e possível coocorrência de semioses podem desenvolver a singularidade expressiva da pessoa com deficiência e a tomada de consciência em relação à sua participação em sociedade. O fazer teatral acaba desmistificando determinados comportamen- tos e indicando um caminho para que tais necessidades sejam explo- radas de maneira eficiente e transformadora. As experiências e os conhecimentos vivenciados por aprendizes com necessidade especiais no teatro possuem um importante significado para o desenvolvimento social e emocional delas e deles, pois não nos escapa o fato de que, quando chega à aula de teatro, a atuadora ou o atuador com deficiên- cia carrega tanto os conhecimentos que já trazia consigo quanto os no- vos conhecimentos nascidos em decorrência da sua deficiência. Nesse sentido, podemos dizer que, entre essas práticas, as artísti- cas e especialmente o fazer teatral procuram promover um recondi- Práticas teatrais na escola 163 cionamento das capacidades expressivas de aprendizes de teatro na educação especial. O corpo dessa aluna e desse aluno, reorganizado pela consciência corporal que o teatro propeorciona, pode reaprender a tornar-se comunicativo por meio da experiência do teatro em grupo, do tornar-se corpo cênico. Para Jean-Jacques Roubine (1987, p. 43 apud PEREIRA, 2003, p. 59), “assim como a voz, o corpo não é por natureza, teatral. Ele precisa aprender a se movimentar, e mesmo a estar no es- paço virtual que é o palco”. O teatro pode, na educação especial, realizar muita coisa. Entretan- to, para isso, é preciso que ele seja acolhido por profissionais abertas e abertos a essa realidade. Por ser necessário e urgente que se fale do teatro no âmbito da educação especial, deve-se falar, antes de tudo, em abertura – abertura das políticas públicas, abertura do sistema de educação, abertura de professoras e professores, de gestoras e ges- tores, abertura de alunas e alunos, abertura da grade curricular, que circunscreve o conhecimento. É exatamente disso que fala Gadamer (2013, p. 471) quando afirma: Na relação inter-humana o que importa é experimentar o “tu”, realmente como um “tu”, isto é, não passar ao largo de suas pre- tensões e permitir que ele nos diga algo. Para isso é necessário abertura. Mas, por fim, essa abertura não se dá só para aquele a quem permitimos que nos fale. Ao contrário, aquele que em geral permite que se lhe diga algo está aberto de maneira fun- damental. Sem essa abertura mútua, tampouco pode existir verdadeiro vínculo humano. A pertença mútua significa sempre e ao mesmo tempo poder ouvir uns aos outros. Quando dois se compreendem, isto não quer dizer que um “compreenda” o outro, isto é, que o olhe de cima para baixo. E igualmente, “escu- tar alguém” não significa simplesmente realizar às cegas o que o outro quer. Agir assim significa ser submisso. A abertura para o outro implica, pois, o reconhecimento de que devo estar dispos- to a deixar valer em mim algo contra mim, ainda que não haja nenhum outro que o faça valer contra mim. Abertura atenta, reflexiva, a si e ao outro, abertura para o desconhe- cido, para aquilo que tira do eixo, que desacomoda, para o que foge do controle, para o que provoca e inquieta. Com base nesse lugar é que pensamos a metodologia e a avaliação do fazer teatral na educação es- pecial, pois ela exige outro olhar e abertura para os saberes da prática, bem como para todas as possibilidades que deles podem surgir. 164 Teoria e prática das artes cênicas Nessa metodologia não existe um modo certo de fazer, ou uma estrutura formulaica, ou uma determinada metodologia específica de avaliação, mas variadase múltiplas formas, adaptadas e/ou adequa- das a cada contexto e a cada situação escolar e de formação da tur- ma, de cada contexto cultural, social, de acordo com o público com o qual se dialoga e que pertence ao processo de construção e fruição do conhecimento. Desse modo, é necessário estar aberta e aberto à suspensão de juí- zo a priori, à experiência como ela acontecer e vier; só assim é possível a emergência de novos saberes e competências corporais e cognitivas. Sobre isso, entendemos experiência considerando o que afirma Larrosa (2002, p. 25): A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, e es- cutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, de- morar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, culti- var a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos ou- tros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar- -se tempo e espaço. Na experiência do teatro na educação especial, compreendemos que a coexistência de semioses variadas pode desenvolver – ao mes- mo tempo que a singularidade expressiva da atuadora ou atuador 4 com deficiência – uma tomada de consciência por parte de cada pes- soa quanto aos conteúdos e procedimentos sociocognitivos relativos a experiências socioculturais específicas, que, nesse caso, será o que for criado em sala de trabalho. A noção de corpo expressivo com a qual trabalhamos atualmente nas artes da cena e no debate e reflexão sistemática acerca desse corpo é bem recente, e é essa noção que tem sido mundialmente utilizada na educação especial. De acordo com De Marinis (2012), não se supunha ou não se levava em consideração que o fenômeno teatral coloca em jogo, conjuntamente, o corpo e a mente, o pensamento e os músculos, os nervos e os sentidos, a emoção e a imaginação, e isso tanto para a atriz e o ator quanto para a espectadora e o espectador. Quanto à educação especial, pre- ferimos utilizar os termos atua- dora e atuador em vez de atriz e ator, pois ambos se referem a uma ambiência performativa, ao teatro performativo, próprio de contextos de educação especial e inclusiva. 4 Práticas teatrais na escola 165 Segundo De Marinis (2012), foi durante o século XX que a teoria do teatro passou a assumir completa e explicitamente no seu fazer a di- mensão corpórea da experiência teatral, nesse diálogo corpo-mente, de ambos os lados, ultrapassando os paradigmas da tradição de um corpo densencarnado, culturalista e logocêntrico, na qual o corpo es- teve aprisionado desde Aristóteles, para quem apenas o texto teatral estava acima de quaisquer outros elementos cênicos. A contemporaneidade do século XX instaura novas formas teatrais em todo o mundo, o que aponta para a crise do drama como modelo central do discurso teatral, gerando novas conformações a partir do corpo, da imagem, do movimento, de experiências que utilizam no- vas tecnologias como ponto de partida para a construção de diálogos cênicos. No tratamento específico da educação especial, trabalhamos com a noção de corpo como dimensão constitutiva de qualquer fenômeno cultural e social e, em particular, de qualquer experiência sociointera- cionista provocada pelo jogo teatral. Assim, a perspectiva sociocogniti- va abarcada aqui convoca corporeidade: mente e corpo em um sistema integrado. Não apenas a mente não pode ser concebida como descar- nada dos seus usuários e usuárias, mas também o sentido, a semiose, conforme podemos verificar em Marcuschi (2003, p. 1, grifos nossos): Hoje entra com alguma força na cena teórica nas investigações sobre cognição a idéia de situar o foco mais nas atividades de construção do conhecimento e menos nas atividades de proces- samento, tal como se fez nas décadas de 70 e 80. [...] A explicação caminha na direção das atividades linguísticas situadas e não das estruturas da língua descarnadas de seus usuários. Esse é o cami- nho que vai do código para a cognição e, neste percurso, tudo indica que o conhecimento seja um produto das interações so- ciais e não de uma mente isolada e individual. A cognição passa a ser vista como uma construção social e não individual, de modo que para uma boa teoria de cognição precisamos, além de uma teoria linguística, também de uma teoria social. Por isso, o sentido da experiência em teatro, seja na experiência empírica ou na apreciação de um espetáculo, pode mobilizar e convo- car uma experiência estética que gera mudanças em nossa maneira de pensar e de ser, uma vez que a gama de sensações e sentimentos gera- dos na travessia sempre formidável de uma experiência teatral educa 166 Teoria e prática das artes cênicas ou reeduca sensibilidades, antes não atingidas por conhecimentos con- servadores, retrógrados e meramente conteudistas. Tal condição de experiência tem o potencial de gerar suspensões e interrupções em nossa lógica reificada e habitual de ver o mundo, podendo, então, dilatar percepções sobre as pessoas que somos, sobre outrem, sobre o que nos circunda. Nunca menosprezemos nossos afetos, afeições, afetações; atraves- semos, como aristas, no sentido de enriquecer nossa experiência hu- mana, porque a atriz e o ator têm por profissão ser um ser humano. CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao final deste capítulo tendo a certeza de que permanece- mos em formação, refletindo, construindo, questionando o pensamento sobre o ensino do teatro na escola e na educação especial. A primeira conclusão a que chegamos é de que, para ser educativa, a arte precisa ser, antes de qualquer coisa, arte. Vimos um pouco mais sobre a origem do teatro, as tendências da cena contemporânea e as tendências e conceitos da linguagem teatral. Debru- çamo-nos sobre o corpo e percebemos a relevância do desenvolvimento corporal no trabalho teatral e intuitivo e o quanto isso tudo é importan- te para a formação integrativa de um ser humano, tanto sensível quanto cognitivamente. Estudamos o jogo teatral/dramático, suas metodologias e características. Por tudo isso, entendemos que as seções apresentadas neste capí- tulo estimularão muita pesquisa, estudo e investigação sobre o teatro na escola, além de reflexões que surgirão na continuidade dos seus estudos e na construção continuada de conhecimento sobre a arte teatral e a for- mação em teatro, tanto a sua como professora ou professor quanto das suas alunas e dos seus alunos. Para que a arte teatral seja um instrumento potencial na educação, é necessário que vocês, arte-educadoras e arte-educadores em formação, estejam e sintam disponibilidade para mergulhar nos processos da edu- cação por meio da arte, tanto na educação regular como na educação especial, observando os processos humanos através de lentes sensíveis, pela via do autoconhecimento, sempre buscando ampliar seu repertório lendo, assistindo a peças, vendo filmes, indo a exposições, ouvindo músi- cas para além do mainstreaming. Faz-se necessário estarmos presentes no tempo e na história, na interação com outras pessoas. Práticas teatrais na escola 167 Ressignificar conteúdos faz parte dos requisitos necessários para a formação de uma artista e, portanto, de uma arte-educadora. Essa for- mação requer afetos, afeições, afetividade sempre, empatia e alteridade, porque, do contrário, ficaremos distantes da educação para o sensível, não entenderemos que o caminho se faz ao caminhar. O teatro, entendido aqui como sinônimo de experiência artística, apre- senta-se na educação como transformador, revelador, possibilitando a modificação do presente diante de injustiças sociais, a revisão crítica do passado e a possibilidade de construção de um futuro revolucionário. É preciso ter fôlego e coragem. É preciso ter vigor e energiapara ex- purgar o conservadorismo de pensamentos retrógrados e deixar pulsar o novo em nossas práticas cotidianas e artísticas para que realmente nos formemos como professores artistas e para a sensibilidade e alteridade, respeitando, dessa maneira, todas as singularidades e peculiaridades das pessoas que se tornarem suas alunas e seus alunos. Só assim teremos a certeza de que estamos fazendo educação e educação teatral, pois esta- remos construindo uma sociedade compassiva, mais humana e solidária. ATIVIDADES 1. Qual é o papel da professora e do professor quanto à aplicação do jogo teatral na educação? 2. No papel de educadora e educador, como você pensa a educação teatral na escola inserida na sociedade? 3. De que modo os jogos podem incentivar a transformação na aprendizagem? REFERÊNCIAS BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Volume 06 – Arte. Brasília, DF: MEC/SEF, 1997. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/ arquivos/pdf/livro06.pdf. Acesso em: 23 abr. 2021. CALLIGARIS, J. P. A dimensão multissemiótica do jogo teatral: a experiência de elaboração de uma peça radiofônica no Programa de Expressão Teatral do Centro de Convivência de Afásicos (CCA - IEL/UNICAMP). 2016. Dissertação (Mestrado em Linguística) - Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2016. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/270633/1/Calligaris_JulianaPablos_M. pdf. Acesso em: 23 abr. 2021. COURTNEY, R. Jogo, teatro e pensamento. São Paulo: Perspectiva, 2001. GADAMER, H.-G. Verdade e método I: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis: Vozes, 2013. 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Enquanto o texto dramático é durável, a encenação é efêmera, começa e termina junto à apresentação do espetáculo – sendo possível de ser registrada para a posteridade apenas quando gravada em vídeo. 2. O palco italiano é aquele mais tradicional, que surgiu durante o período histórico conhecido como Renascimento e que tinha como intenção dar perspectiva à cena. Por conta disso, há espaços muito bem delimitados para os atores e para os espectadores, que assistirão ao espetáculo de um único ponto de vista: frontal. Os palcos arena e semiarena são bastante similares. São aqueles em que os espectadores se localizam ao redor de toda a cena, com os atores localizados ao centro. A única diferença entre estes dois espaços é o fato de que a arena possibilita que o público tenha um ângulo de visão próximo ao de 360 graus, e a semiarena tem esse ângulo mais reduzido, geralmente com um dos lados do palco fechado. Os espaços não convencionais são todos aqueles lugares que, embora não tenham sido criados para tal fim, podem ser utilizados para a apresentação de uma peça teatral: igrejas, presídios, shoppings, entre outros. Já a rua é o espaço mais democrático de todos, já que não há cobrança de ingresso. Por conta das especificidades de cada cidade, os espetáculos que são apresentados nas ruas podem utilizar qualquer tipo de relação com os espectadores, desde aquele próximo ao italiano até à arena. 3. Embora tenhamos a impressão de que os atores estão sentindo as emoções de suas personagens como se fossem as deles próprios, isso está equivocado. Basta que pensemos em um ator que interpreta um personagem que assassina sua mãe, por exemplo. Seria saudável conviver e reviver esses sentimentos em todas as apresentações? 170 Teoria e prática das artes cênicas Assim, de acordo com Denis Diderot, em O paradoxo sobre o comediante, os atores são sujeitos que precisam estar atentos com o como as pessoas reagem a determinadas situações. Dessa maneira, por uma minuciosa observação da vida, os atores conseguirão imitar fisicamente determinadas emoções. Isto é, a maneira com que o corpo de uma pessoa fica ao chorar, ao sorrir ou ao se assustar. Saem lágrimas dos seus olhos, um sorriso de seus rostos ou um grito de espanto? Assim, como indica Roubine, é através do seu corpo, dos recursos da sua voz, do rosto e da sua gestualidade, como um maestro em uma orquestra, que o ator consegue agir como se fosse uma pessoa, imitando seus sentimentos e jeitos de ser. 2 A origem do teatro: como tudo começou? 1. O teatro e o aprendizado da fala são frutos da habilidade humana de imitar outros seres, sons e gestos. Enquanto no teatro isso estava ligado a uma perspectiva de compreensão, domínio ou agraciamento de forças ocultas, sobrenaturais e ou/desconhecidas, para aprender a falar o ser humano parte do ato de imitação, na qual aprende ouvindo outras pessoas falarem e associando o som aos símbolos e/ou objetos, imitando-a posteriormente. 2. Téspis foi o primeiro a se colocar à parte do coro, respondendo a ele e criando o hypokrites, que mais tarde se tornaria o ator. Ao fazer isso, instaurou a gênese do diálogo teatral. Já o ditirambo e a tragoidía eram os hinos entoados em honra ao deus Dioniso. Estes, que inicialmente eram improvisados, com o advento da escrita, passaram a ser registrados. É deles que parte o primeiro gênero estritamente teatral: a tragédia. 3. Diferença nas personagens: as tragédias traziam seres nobres e divinos, já as comédiaspassaram a trazer pessoas comuns. Diferença na temática: as tragédias abordavam temas que valorizavam a história e os costumes gregos; as comédias satirizavam e criticavam a sociedade e os costumes gregos. Diferença nos objetivos: as tragédias buscavam causar a catarse e, com isso, ensinar os valores e os costumes gregos; enquanto as comédias buscavam fazer rir e, com isso, despertar a consciência do público. 4. Porque com o teatro, que se comunica também por meio das imagens, a linguagem verbal não seria uma barreira. Além disso, o caráter lúdico impressionava e comunicava-se com a expressão ritualística dos Gabarito 171 indígenas. Assim, encenando passagens e escritos bíblicos, os nativos poderiam aprender sobre a história da religião católica, o que facilitava o processo de catequização. 3 O teatro brasileiro e suas vanguardas 1. A principal ferramenta utilizada pelos colonizadores portugueses para doutrinar e “civilizar” os índios foi o teatro catequizador, do padre jesuíta José de Anchieta, que contava com recursos disponíveis na natureza ao redor para a criação dos figurinos, cenários e efeitos especiais. Além disso, somavam-se a isso a música, a dança, a mímica e as máscaras dos povos indígenas, com o intuito de trazer os indígenas para a nova estrutura religiosa imposta. Essa miscelânea acaba por criar uma forma de expressão cultual própria, a semente do teatro brasileiro. 2. O Romantismo, na alvorada no século XIX, sobressai no meio artístico devido à afirmação de uma consciência nacional, esforço com base em uma motivação muito arraigada pelo interior de todo o país, na busca de uma identidade própria capaz de libertá-lo da dominação colonial. O Romantismo foi, desse modo, uma maneira de enaltecer uma produção artística genuinamente brasileira. 3. A atuação de João Caetano determinou a imagem do que seria um ator ou uma atriz brasileira, referência para artistas e público. Para ele, o teatro organizado e dirigido com destreza deveria ser um verdadeiro modelo de educação, inspirador do patriotismo (com relação à recente independência do Brasil), da moralidade e dos bons costumes para os jovens. Ele entendia que a arte dramática era a imitação da natureza, não a realidade dela, e que o jogo dos intérpretes é tão feito de convenção a ponto de criarem uma segunda natureza para si. Caetano afirmava, ainda, que a atriz e o ator, compenetrados no seu papel, seguiam as paixões contidas dentro de si mesmos com inexplicável verdade, porém, não as sentiria na extensão da palavra, mas com o corpo por meio da atuação. 4. O século XIX chega como o tempo das revoluções científicas nas humanidades (o surgimento da psicologia, da psicanálise, da história moderna, da filosofia do materialismo histórico), na biologia, na química e na física. Então, há uma mudança no paradigma da sociedade e, por isso, na segunda metade desse século, há uma reação aos “exageros românticos”, evidenciada em peças que serviram de transição para o Realismo. 172 Teoria e prática das artes cênicas 4 Gêneros e formas teatrais 1. O teatro é a arte do encontro, a arte que prescinde da troca em tempo real entre pessoas para que possa existir. É uma linguagem artística que se utiliza tanto da palavra quanto da imagem para estruturar suas obras e transmitir suas temáticas. Como a maioria da população da Idade Média era analfabeta, e a maioria das missas era realizada em latim, a Igreja percebeu a potência comunicacional do teatro, que se dá por meio de palavras e imagens. Assim, em vez de contar as passagens bíblicas, os milagres divinos e os mistérios do céu, da terra ou do inferno, o teatro permite que essas histórias sejam “mostradas”, dramatizadas – o que permite uma maior compreensão do texto abordado e da mensagem transmitida. 2. O primeiro ponto a ser levado em consideração é que as óperas surgiram no fim do Renascimento, que pretendia fazer renascer a cultura clássica na Europa – sendo aquela da antiga Grécia, de onde vem o teatro, a principal delas. Depois, ambas procuram emocionar seus espectadores ao máximo; a tragédia por meio da narrativa e da catarse, e a ópera com a música e o fosso da orquestra, que esconde a origem do som. Por último, as duas trazem como elemento o Coro, figura que comentava as ações que se desdobravam sobre os palcos. 3. Por se tratar de uma pergunta subjetiva, a resposta pode variar de pessoa para pessoa. Entretanto, de acordo com o discutido ao longo do capítulo, as duas linguagens estão fechadas, automaticamente, por uma quarta parede: a tela. Claro que algumas obras podem rompê-la, com as personagens olhando diretamente para a câmera e falando com o público. Porém, na grande maioria das obras cinematográficas e televisivas, principalmente as do mainstream, mais convencionais, isso não ocorre, pois a quarta parede possibilita ao espectador “mergulhar” na história que está sendo contada, emocionar-se com os desafios e as dificuldades das personagens e rir de suas trapalhadas. Isso porque, como é típico a quarta parede ser utilizada, as personagens não sabem que há pessoas que as estão observando, e vivem e agem com essa perspectiva. Gabarito 173 5 Jogos dramáticos, improvisação e noções corporais e vocais 1. Os jogos teatrais favorecem o desenvolvimento da imagem positiva da criança e do adolescente com relação a si próprios, para que possam confiar em suas habilidades e reconhecer suas necessidades de aprender. Sabendo de si, a criança, o adolescente e o adulto podem se sentir mais aptos a estabelecer vínculos afetivos de compartilha com seus pares – pessoas de sua idade e outras – e com o mundo. A aluna e o aluno de teatro, de maneira espontânea e natural, podem se sentir convocados a explorar o ambiente, com base em sua experiência com jogos de experimentação espacial e improvisação, com curiosidade e consciência, sabendo-se agentes transformadores do meio, mais aptos, assim, a tomarem atitudes que contribuam para a evolução da sociedade e da natureza. 2. Fazer teatro por meio do jogo e da improvisação como veículos para a criatividade oferece à aluna e ao aluno a capacidade de entender que podemos ser pessoas representativas do coletivo que nos circunda. Renovamos positivamente a sociedade e o mundo com nossos pares, com a ação, o gesto e o movimento, simbolizando todas as faces desse fractal chamado vida, pois a criatividade precisa de parceria, colaboração, compreensão mútua e alteridade para emergir como processo cognitivo. Para que crianças, adolescentes ou adultos sejam potencialmente criativos é preciso deixar que o inesperado aconteça, que se arrisquem. Como professoras e professores também devemos nos arriscar, a atitude de prática como pesquisa deve partir de nós. Em sala de aula é preciso ser capaz de saber dar apoio suficiente às pessoas para que possam lidar com as incertezas do processo criativo quando ele surge, antes da fixação de formas. Desse modo, suas alunas e seus alunos terão condições de examinar as várias possibilidades da ação. 3. A improvisação pode ser tratada ou considerada um recurso técnico de um bom ator ou de uma boa atriz principalmente porque tem como característica principal o aprofundamento das fronteiras da criação e, portanto, confere à atriz e ao ator maior autoria no ato criativo. Inclusive, se acontece um erro em cena de qualquer natureza, uma atriz ou um ator bem preparado tecnicamente consegue improvisar brilhantemente para “salvar a cena”, como se diz em jargão teatral. A improvisação é considerada um recurso técnico e até mesmo de interpretação porque possibilita a emergência da espontaneidade treinada da atriz e do ator nas ações cênicas. 174 Teoria e prática das artes cênicas 6 Práticas teatrais na escola 1. Os jogos teatrais têm uma estrutura que possibilita a mudança de uma atitude convencional por parte da professora e do professor, isto é, em um jogo a professora apenas propõe o conflito, pois a busca da solução é feita pelo coletivo. Dessa forma, não há,da cena se justapõe ao espaço de fruição, tudo pode acontecer. Há também espetáculos teatrais que acontecem na rua. Por um longo período, essas manifestações urbanas não foram consideradas como sendo teatrais, pois não eram feitas para os membros das cortes reais ou para a burguesia. Entretanto, cada vez mais, a rua tornou-se um dos locais por excelência do fazer teatral. Os gastos com produção são menores, já que não é preciso alugar um edifício teatral, por exem- plo, e o público, ao invés de precisar sair da sua casa e se deslocar até o espaço da apresentação, é o próprio transeunte. An na J ur ko vs ka /S hu tte rto ck Por conta de todas as especificidades e diferenças que cada ambien- te urbano possui, os espetáculos que acontecem nas ruas são capazes de abarcar todas as configurações cênico-espaciais que discutimos até aqui. Isto é, quando a obra cênica é realizada na rua, as suas relações com os espectadores são muito mais maleáveis, fluidas e dinâmicas. Além disso, a rua é um espaço mais democrático e acessível, já que os altos valores dos ingressos cobrados atualmente tendem a afastar, cada vez mais, o público do teatro. O filme-documental César Deve Morrer acompanha a criação e a encenação da peça “Julio César”, de Shakespeare, por um grupo de detentos de um presídio de segurança máxima na Itália. Por conta de sua montagem e das apresentações ocorrerem dentro de uma prisão, é um ótimo exemplo para que possa- mos compreender a pos- sibilidade de se realizar espetáculos em espaços não convencionais. Direção: Vittorio Taviani e Paolo Taviani. Roma: Europa Filmes, 2013. Filme https://www.shutterstock.com/pt/g/bananna 20 Teoria e prática das artes cênicas Como viemos discutindo até aqui, é importante compreendermos que os espaços cênicos são múltiplos e, além de fazerem menção a determinadas construções arquitetônicas, são eles que afetam direta- mente a concepção e a construção das obras cênicas, determinando como serão as relações estabelecidas. Às vezes podemos pensar no espaço antes de concebermos o espetáculo, às vezes é a própria ence- nação que demanda um espaço determinado. O importante, contudo, é sempre nos preocuparmos com os espectadores e a sua experiência. Afinal, não há teatro se não houver público para assisti-lo. 1.3 A dramaturgia teatral Vídeo O teatro é, antes de tudo, a arte de representar. É a arte de colocar em um espaço cênico uma história que, por intermédio de atores, será contada para um público. À história que se conta, que foi desenvol- vida para ser contada ou que ocorre cenicamente atribui-se o nome de dramaturgia. Por sua vez, a dramaturgia divide-se entre a textual, aquela ligada à literatura dramática, e a cênica, aquela que se desen- volve sobre os palcos. Essas duas perspectivas não são dicotômicas, mas complementares. O termo dramaturgia é originário da Grécia antiga e significa “com- por um drama”. Nesse contexto, drama não quer dizer uma peça com final triste, de tom sério, ou que apresente um desfecho pessimista. Oriundo, outra vez, do grego, drama significa ação. Dramaturgia designa, então, o conjunto das escolhas estéticas e ideológicas que a equipe de realização, desde o encenador até o ator, foi levada a fazer. Esse trabalho abrange a elaboração e a representação da fábula, a escolha do espaço cênico, a monta- gem, a interpretação do ator, a representação ilusionista ou dis- tanciada do espetáculo. Em resumo, a dramaturgia se pergunta como são dispostos os materiais da fábula no espaço textual e cênico e de acordo com qual temporalidade. A dramaturgia, no seu sentido mais recente, tende, portanto, a ultrapassar o âmbi- to de um estudo do texto dramático para englobar texto e reali- zação cênicos. (PAVIS, 1999, p. 144) Portanto, de maneira simplificada, a dramaturgia é o elemento tea- tral onde as ações cênicas estão dispostas sequencialmente, seja tex- tual ou cenicamente. Aqui, focaremos nossas atenções principalmente à dramaturgia teatral compreendida enquanto literatura dramática. Elementos da linguagem teatral 21 Por entender-se como dramaturgia teatral, a arte de compor e or- ganizar uma história para ser contada cenicamente no palco é (ou de- veria ser) um ato de criação. Dessa maneira, não há receitas ou regras fixas para o ato de conceber uma dramaturgia, pois ele está atrelado à criatividade, à imaginação, à capacidade de criar personagens, his- tórias e conflitos. Mesmo assim, ao longo do tempo, alguns autores e teóricos foram identificando, dentro das próprias estruturas das obras teatrais, determinados códigos e elementos, externos e internos, que hoje em dia não podem ser ignorados – embora sejam desde sempre questionados. Comecemos esmiuçando as partes que compõem uma obra dra- mática textual, a qual pode ser encontrada em diversos livros (todas as peças de Shakespeare, por exemplo, enquadram-se nesta catego- ria). Em geral, dentro de uma peça teatral há um enredo, personagens principais (protagonistas) e secundários (coadjuvantes) e um conflito. A obra inicia-se com uma exposição, que se desenvolve até chegar em um clímax que se finda em um desfecho. Com relação à estrutura interna de uma dramaturgia, podemos dizer que deve conter um conteúdo (o recheio de um texto dramático), que, por sua vez, deve conter uma ideia central: o que se quer dizer com aquela peça, a premissa da história. Isto é, a razão pela qual aquela obra dramática foi criada. Esse conteúdo, essa mensagem ou recado que o dramaturgo quer transmitir, é expresso por meio de palavras que, quando ditas pelos atores, revelam o que cada uma das personagens quer dentro daquela história. Ou seja, na dramaturgia teatral é por meio do diálogo entre as personagens que descobrimos quais são os seus objetivos, suas vontades, seus desejos, anseios e temores. Por objetivos entende-se aquilo que cada uma das personagens procura obter para si. E para tanto, elas precisam agir, precisam ir à ação para conseguir o que almejam. Nesse percurso, elas vão encontrando obstáculos, dificuldades e entraves de todo o tipo e ordem. Forças an- tagônicas que impossibilitam, momentaneamente, as personagens de conseguirem aquilo que almejam. São esses obstáculos, diretamente proporcionais aos objetivos das personagens, que constituem a trama, o enredo da peça. exposição: Apresentação das personagens e dos conflitos. clímax: O ápice do desenvolvi- mento de um conflito. desfecho: A solução desse conflito. Glossário Não só de diálogos é estruturado um texto teatral tradicional, com duas ou mais personagens conversando. Há falas que podem ser direcionadas para si próprias, em um monólogo: quando as personagens, falando sozinhas, expõem os seus pensamentos, sentimentos ou vontades. Também há os apartes, pequenos comentários que uma personagem faz para o público acreditando que não está sendo ouvida pelas outras personagens. Curiosidade 22 Teoria e prática das artes cênicas Esses obstáculos podem ser outras personagens e as suas próprias vontades; as impossibilidades materiais ou morais de se alcançar o dado objetivo; podem ser relativos à natureza das coisas e do mundo, como a vontade divina, a fatalidade do destino, o preconceito ou qual- quer outro tipo de abstração e barreira que dificulte as personagens a atingir os seus objetivos. Acompanhamos em uma peça teatral tradicional, portanto, a ca- minhada das personagens em busca das coisas que elas desejam, os obstáculos que elas encontram e os esforços que elas fazem para con- tornar essas dificuldades. Tudo isso pode ser entendido como a ação dramática. “Isso, e mais os conflitos, que podem ser vários e de tipos di- versos – inclusive o interno, que se desenvolve dentro do personagem –, da dinâmica à peça. A ação dramática é sempre o correspondente de dinâmica, movimento, um passo à frente, mudança” (PALLOTINI, 2006, p. 18, grifo do original). Poderíamos dizer, então, que a ação dramática é o que faz uma peça de teatrona situação, alguém que tenha as respostas, porém ela pode ser dada por todas e todos. O papel da professora e do professor em sala é, sim, o de problematizar as respostas para que o coletivo, em acordo, opte por uma delas. Paulo Freire diria que é “o par educador-educando entrando em cena”. O jogo teatral colabora na formação de pessoas que estão abertas ao diálogo, que, portanto, são críticas, tendo em vista que o jogo expõe um conflito a ser resolvido e cuja solução será encontrada em grupo. Isso suscita e permite o envolvimento do grupo e aciona o improviso, a criatividade e a intuição, condições fulcrais para a aprendizagem. 2. Nós, no papel de educadoras e educadores, ao olhar para a educação, não temos como separá-la da sociedade e dos processos de vida interligados por ela, uma vez que a educação acontece nas sociedades humanas e, com isso, quaisquer ações desenvolvidas na escola serão refletidas na própria sociedade e vice-versa, independentemente de quais sejam elas. Desse modo, é importante que nós, ao elaborarmos um projeto pedagógico, estabeleçamos o que pretendemos com ele, podendo ser desde o aprimoramento da relação ensino-aprendizagem de nossas alunas e alunos até, pelo menos, alcançarmos a coletividade na qual se localiza a escola. Desde a sua idealização até sua aplicação, um projeto pedagógico, qualquer projeto, deve ter como foco o diálogo com a sociedade. 3. Os jogos teatrais são fonte de grande incentivo para a transformação na relação ensino-aprendizagem, pois eles tornam jogadoras e jogadores capazes de construir conflitos cênicos (problema), objetos, conceitos ou situações difíceis, quase impossíveis, de serem captadas pelo viés das palavras, por exemplo, e então recriá-las por meio do estímulo para resolução do conflito dado pela professora ou pelo professor. O jogo teatral propõe um conflito que requer adereços, coisas e/ou pessoas que ou não estão na sala, ou, se estão, não estão no jogo, mas que serão acionadas fisicamente ou narrativamente para que as jogadoras e os jogadores possam chegar à solução do problema que foi proposto, de maneira criativa e crítica, a partir do momento que elaboraram imaginativamente a situação do conflito a ser resolvido. TEORIA E PRÁTICA DAS ARTES CÊNICAS LUCAS PINHEIRO E JULIANA PABLOS CALLIGARIS Código Logístico I000007 ISBN 978-65-5821-022-1 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 2 2 1 Página em branco Página em brancoexistir, é o que dá vida a ela, o movimento interno de uma peça de teatro. A ação dramática seria um “constante evoluir de acon- tecimentos, de vontades, de emoções e de sentimentos que caminham para um fim, um alvo, uma meta” (PALLOTINI, 2006, p. 11) e se carac- teriza por apresentar na sua trajetória as colisões, os obstáculos e os conflitos. Após conhecermos a estrutura interna de uma dramaturgia textual, é preciso reconhecer quais são os elementos que compõem a sua es- trutura externa. O primeiro item, para além do nome da peça, é a listagem das personagens, contendo as características principais que as compõem. Às vezes pode ser a idade, a personalidade, um traço físico ou até mesmo algum elemento visual que o dramaturgo conside- re indispensável para a caracterização dessa personagem – desde um objeto até a cor da roupa, por exemplo. No que tange à divisão de uma obra dramática, temos os atos e as cenas. Um ato é composto por várias cenas e é marcado pela mudança de ambientes ou recortes de tempo. Nas peças escritas, identificamos essas mudanças nas divisões por seções (Ato I, Ato II, Ato III ...) ou nas descrições de novos cenários; na encenação, essas mudanças podem O autor David Ball, em seu livro Para trás e para frente: um guia para leitura de peças teatrais, destrincha com maestria a estrutura dos roteiros das peças de teatro, criando um guia universal para a leitura dos mesmos e para a descoberta de suas especificidades. BALL, David. São Paulo: Perspec- tiva, 2019. Livro Elementos da linguagem teatral 23 ser percebidas através do fechar e abrir das cortinas, pelas mudanças de cenário ou pelo apagar e acender das luzes. Como partes menores de um ato, as cenas ocorrem sempre em um mesmo lugar, sendo que o seus inícios e fins são marcados pelas en- tradas e pelas saídas dos personagens. Tanto as cenas quanto os atos vão ter suas extensões variadas, a depender daquilo que pretende um dramaturgo. Há obras que possuem 6 atos e 30 cenas, enquanto ou- tras possuem um único ato e uma única cena, por exemplo. Tudo vai depender da forma com que o dramaturgo organizou e estruturou sua narrativa. Além da lista das personagens, da discriminação dos atos e das ce- nas e dos diálogos, a dramaturgia teatral textual ainda conta com as rubricas: indicações cênicas presentes dentro do texto. São elas que descrevem o que acontece em cena, o local, se é dia ou noite, como determinada fala deve ser dita etc. São informações que o dramaturgo deixa no texto para auxiliar a sua montagem cênica. Normalmente fi- cam em linhas separadas, entre parênteses e escritas em itálico. Longe de serem elementos acessórios da obra, elas são uma de suas dimensões mais essenciais. Diferentemente dos diálogos, dos monólo- gos ou dos apartes, as rubricas não devem ser ditas pelos atores, mas assimiladas pelos artistas cênicos e incorporadas nos seus processos de criação, no ato de transposição do texto em cena. Podemos distinguir diversos tipos de rubricas, entre elas: • as indicações de lugar, de cenário...; mais geralmente a colocação das circunstâncias da enunciação; • precisões sobre o modo como os personagens fala: “com ardor”, “num tom prudente”, “irônico”, “destacando as palavras”, etc; • indicações sobre as roupas, os gestos, os movimentos dos perso- nagens, as entradas e saídas...; • eventualmente. indicações técnicas dadas à direção (principal- mente sobre a luz) ou conselhos de alcance geral para o diretor. (MAINGUENEAU, 1996, p. 163) Entretanto, é preciso deixar claro que as rubricas não são uma nor- ma, uma regra inquebrável e inviolável que precisa ser levada ao pé da letra. Elas são informações que auxiliarão o processo de montagem cê- 24 Teoria e prática das artes cênicas nica daquele texto. Porém, a depender do contexto em que a peça será encenada e dos recursos financeiros e materiais que teremos à nossa disposição, entre tantas outras especificidades e dificuldades, as rubri- cas, assim como todo o restante de uma obra dramatúrgica, podem ser livremente alteradas e adaptadas. O dramaturgo é um dos artistas que faz parte da linguagem teatral e, embora durante séculos ele tenha sido o “mestre supremo” da cena, a quem todos deveriam obedecer, há muito deixou de ter esse status. Tornando-se mais um entre os componentes humanos dessa lingua- gem e, por isso, passível de ser adaptado às realidades e às vontades do coletivo. Isto é, as palavras, cenas e indicações dramatúrgicas po- dem ser livremente adaptadas, caso a realidade, o contexto e a vontade dos outros artistas cênicos assim requererem. Portanto, um texto dramático não se apresenta imutável, mas pas- sível de sofrer mudanças, recortes e/ou adaptações – desde que uma leitura minuciosa da obra já tenha sido feita e os seus aspectos essen- ciais tenham sido identificados. Quadro 1 Elementos que caracterizam um texto dramático tradicional Personagem Sujeito que os atores representaram no palco. Falas É o texto principal, o texto a ser dito. Rubricas cênicas Considerado o texto secundário, pode ser cons- truído pelo autor; encenador, ator, entre outros. As indicações cênicas não podem ser ignoradas pelo leitor ou espectador, no entanto podem não ser fielmente seguidas na encenação. Diálogos Conversa entre duas ou mais personagens. O diálogo dramático é geralmente uma troca ver- bal entre as personagens. Conteúdo/Ideia central A temática sobre a qual a peça versará, a histó- ria, a mensagem que se quer transmitir. Objetivos As vontades de cada uma das personagens, ge- ralmente reveladas por meio do diálogo. (Continua) Elementos da linguagem teatral 25 Conflitos/obstáculos Resultam de forças antagônicas. Há confli- to quando um sujeito qualquer, ao perseguir certo objetivo, depara-se com um obstáculo. O desenlace pode ser cômico, reconciliador ou trágico. Ação dramática É o desenvolvimento da peça; a ação das perso- nagens em busca dos seus objetivos, superan- do os conflitos e os obstáculos que encontra- rem ou existirem previamente. Fonte: Elaborado pelo autor. É importante levarmos em consideração que uma obra dramática pode ser adaptada para distintas mídias e formatos. Lembre-se de que a televisão e o cinema partem de procedimentos artísticos bastantes semelhantes aos teatrais e, por isso, uma peça de teatro pode virar uma obra televisiva ou cinematográfica. Em todo o caso, é imprescin- dível que, quando estejamos falando da linguagem teatral, a sua estru- tura central seja respeitada: atores interagindo em tempo real, à vista dos espectadores. Ademais, como já dissemos anteriormente, antigamente conside- rava-se como dramaturgia apenas os textos que foram concebidos e criados para serem encenados, convencionando-se a entender e cha- mar como dramaturgia teatral apenas as peças escritas. Todavia, os ar- tistas do último século expandiram os horizontes desse conceito para o de dramaturgia cênica, entendendo que tudo o que está posto em cena também deve ser considerado como sendo a dramaturgia do espetáculo. Sendo assim, não apenas o texto escrito ou as falas das persona- gens, mas suas gestualidades e modos de agir, assim como a música utilizada, os efeitos sonoros, a iluminação, o figurino, a maquiagem, o cenário etc. Tudo é dramaturgia. Afinal, cada um desses elementos cênicos também possui a capacidade de “contar histórias”; cada um, claro, à sua maneira. De todo modo, e independentemente do material que formos utili- zar para estruturar uma cena teatral, é necessário sempre termos em mente que o teatro é a arte da representação, ou seja, a arte de contar histórias em tempo real para um público, com os atores sendo o veícu- lo máximo dessa expressão. Di vu lg aç ão No filme O Baile (Le Bal) não existem diálogos. As personagens não conversam entre si por meio de palavras, mas por meio da linguagem dos signos, ou seja, da percepção de gestos, vestuários, cenários e música. É um ótimo filme para entender o conceito de dramaturgia cênica,já que ele foi criado com o auxílio de todos os ele- mentos que compõem a linguagem teatral, exceto os diálogos. Direção: Ettore Scola. Itália-França- Argélia: Cinéproduction, Films A2, Massfilme, O.N.C.I.C, 1983. Filme 26 Teoria e prática das artes cênicas 1.4 Ator e personagem Vídeo J on as P et ro va s/ Sh ut te rs to ck Como vimos até aqui, um dos componentes fundamentais para que a linguagem teatral possa acontecer são os atores. Conforme Pavis (1999, p. 30), “o ator, desempenhando um papel ou encarnan- do uma personagem, situa-se no próprio cerne do acontecimento teatral. Ele é o vínculo vivo entre o texto do autor, as diretivas de atuação do encenador e o olhar e a audição do espectador”. Uma profissão que foi condenada em algumas sociedades e exaltadas em outras e que, para muitos de nós, é sinônimo de glamour, ri- queza, sucesso e beleza. Confundindo-se com o nascimento do próprio teatro, o surgi- mento do que hoje entendemos como atuação é datado de 560 a.C., na antiga Grécia. O primeiro ator que se tem registro na histó- https://www.shutterstock.com/pt/g/AndrysLukowskis Elementos da linguagem teatral 27 ria ocidental é o grego Téspis, que, participante de um dos rituais em homenagem ao deus Dionísio, resolveu subir em uma mesa, vestir uma máscara humana, ornada com cachos de uvas, e dizer “Eu sou Dionísio”. Todos ficam espantados com a coragem deste ser humano em colocar-se no lugar de um deus, ou melhor, fingir ser um deus, coisa que até então não havia acontecido, pois um deus era para ser louvado, era um ser intocável. Este homem cha- mava-se Téspis, considerado o primeiro ator na história do teatro ocidental. (SANTOS NASCIMENTO; MATOS; CERQUEI- RA, 2014, p. 173) Téspis tentou transformar a verdade em faz de conta, o ritual em teatro. Acredita-se que esse ato foi o responsável por introduzir no teatro o hypokrites – sujeito que se destacava do coro 1 e “con- versava” com ele, instaurando o diálogo no evento teatral. Com o passar do tempo, a palavra foi se modificando, ganhando outros significados e contornos, à depender do país em que foi emprega- da, até assumindo a grafia ator (do latim, actōre, “o que faz, o que representa”). Téspis foi apenas o estopim para que muitos outros apareces- sem e passassem a representar e a imitar outros sujeitos, “fingindo” momentaneamente sê-los. Acompanhando os desdobramentos de cada época e contexto sociocultural são inúmeras as teorias que se debruçaram a tentar definir o que é um ator, como ele deve ser e quais são os melhores procedimentos pedagógicos a serem utiliza- dos no seu processo formativo. A conceituação mais simples, encontrada em qualquer dicioná- rio, é a de que os atores são indivíduos que representam um papel em uma peça de teatro, no cinema, na televisão ou na rádio. Sinte- ticamente, ator é aquele que age como se fosse outra pessoa. Quer dizer, os atores nada mais são do que profissionais que, a partir dos contornos de seus próprios corpos, representam personagens, fazendo de conta que são outras pessoas que não eles próprios. Assim, através dessas pessoas ficcionais, veiculam e transmitem os conteúdos de uma obra dramática para um público. O termo Hypokrites deu origem à palavra hipócrita, sinônimo para falso ou fingido. Curiosidade Um grupo homogêneo de pessoas. No teatro grego eram de 12 a 50 artistas que, em uníssono, comentavam a história que estava sendo representada. 1 O russo Constantin Stanislavski (1863-1938) foi um dos primeiros teatrólogos a produzir e fundamentar técnicas e métodos para o trabalho do ator. É, por isso, consi- derado o primeiro peda- gogo teatral do ocidente. Seus inúmeros livros dão um ótimo panorama dos seus pensamentos e procedimentos, e são extremamente oportunos para quem quiser apro- fundar-se na temática. Recomendamos: • STANISLAVSKI, C. A preparação do ator. Rio de Janeiro: Civiliza- ção Brasileira, 2015. • STANISLAVSKI, C. A criação de um papel. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. • STANISLAVSKI, C. A construção da personagem. Rio de Janeiro: Civili- zação Brasileira, 2016. Leitura 28 Teoria e prática das artes cênicas Isso nos leva automaticamente para a definição do que é um personagem. Como apontado por Silva (2013), a palavra persona- gem é de origem latina, persona, e indicava a máscara que era usa- da pelos atores e pelas quais suas vozes deveriam ressoar (já que, por sua vez, persona deriva de per sonare, soar através de). Por extensão, “a palavra passou a designar não apenas o personagem representado pelo ator, mas também as ‘máscaras’ usadas pelas pessoas em sua vida social” (SILVA, 2013, p. 28). Podemos afirmar, portanto, que: O personagem é o ser humano (ou um ser humanizado, an- tropomorfizado) recriado na cena por um artista-autor, e por um artista-ator. [...] Poder-se-ia dizer, grosso modo, que personagem é pessoa imaginária; para a sua construção, o autor reúne e seleciona traços distintivos do ser – ou de seres – humanos, traços que definam e delimitem um ser ficcional, adequado aos propósitos do seu criador. (PALLOT- TINI, 1989, p. 11) Em suma, tanto o romance, por exemplo, como o teatro falam sobre os seres humanos, mas o teatro o faz através dos próprios seres humanos, da presença viva e carnal do ator. À vista dessas definições, do que é um ator e um personagem, uma das questões mais essenciais que parece perseguir qualquer tipo de análise ou inferência sobre o que vem a ser um ator, à primeira vista, pode parecer quase absurda: o ator vive ou representa seu papel? É evidente que ninguém, sem perder os controles elementa- res de suas faculdades mentais, pode deixar de ser quem é para transformar-se em outro. Ainda mais no exercício de uma atividade artística elaborada e complexa como é a linguagem teatral, que de- pende, para que a história seja contada – e o conteúdo da obra seja veiculado para o público –, da precisão e do controle das falas, dos sentimentos, dos gestos e das movimentações dos atores em cena. Diferentemente de um pintor, por exemplo, que tem como fer- ramentas artísticas tintas e pinceis, o ator possui como instrumen- to apenas o seu próprio corpo. Claro que a maquiagem, o figurino, a iluminação, o espaço e todos os outros elementos cênicos auxi- liam o ator na construção de seus personagens. Porém, é principal- mente por meio de sua voz e gestualidade que se faz possível que o ator confira verossimilhança às personagens que irá representar. Elementos da linguagem teatral 29 Figura 4 O corpo do ator cr ib en /S hu tte rto ck Embora utilize todos os recursos cênicos para compor suas personagens e contar a história, o corpo é o principal instrumento de trabalho do ator. Em outras palavras, o corpo é o instrumento central do trabalho do ator, sendo por meio dele que esse artista emula e imita os traços distintivos de outros seres, humanos ou humanizados. Sendo, assim, capaz de “lhes conferir vida” nos palcos (ou tela, dependendo da lingua- gem artística a qual estivermos nos referindo). É próprio do ator ser ao mesmo tempo um e múltiplo. Ele dá a cada um dos seus papéis a sua própria «grife», ao mesmo tempo, se metamorfoseia de acordo com o que cada um desses papéis exige. Ele também é um e múltiplo por seus instrumentos de ex- pressão: ele pode utilizar, simultaneamente ou um após o outro, os recursos da sua voz, do seu rosto, do seu gesto... E, no en- tanto, a sua interpretação é (em princípio) coerente, unificada. O ator é como uma orquestra de que ele seria ao mesmo tempo maestro! (ROUBINE, 2002, p. 10) Se um ator trabalha bem, despenhando com maestria sua profis- são, é fácil nos esquecermos de que ele, na verdade, não é aquela pes- https://www.shutterstock.com/pt/g/criber 30 Teoria e prática das artes cênicas soa, mas age como se fosse; de que aquela personagem não é ele, mas uma construção, uma elaboração artística e intencional que espelha e imita a realidade; que o ator é um artista que seutiliza das possibilida- des e potencialidades do seu próprio corpo para emular outros corpos e outras personalidades, sensações e sentimentos. Isto é, um bom ator é aquele que consegue compreender e captar, nos mínimos detalhes, o que é o ser humano e o como reagiríamos perante determinadas situações para, posteriormente, imitá-las. O filósofo Denis Diderot (1713–1784) foi um dos primeiros a tentar compreender e sistematizar o que é essencial ao trabalho de um ator. Em O Paradoxo sobre o comediante, escrito no final do século XVIII, Dide- rot diferencia aqueles atores que sentem as emoções das personagens, como se as estivessem vivenciando a cada apresentação, daqueles que as imitam. Segundo o autor, traduzido por Guinsburg: se o comediante fosse sensível, ser-lhe-ia permitido, de boa fé, desempenhar duas vezes seguidas um mesmo papel com o mesmo calor e o mesmo êxito? Muito ardente na primeira re- presentação, estaria esgotado e frio como mármore na terceira. Ao passo que imitador atento e discípulo atento da natureza, na primeira vez que se apresentar no palco [...] copista rigoroso de si próprio ou de seus estudos, e observador contínuo de nossas sensações, a sua interpretação, longe de enfraquecer-se, forta- lecer-se-á com novas reflexões que terá recolhido. (DIDEROT, 1979 apud GUINSBURG, 1996, p. 167-168) Retomando a questão levantada anteriormente a respeito do ator viver ou representar um papel, imaginemos: se uma atriz represen- tando o papel de uma mãe que assassina seus filhos, como é o caso da personagem Medéia, na peça homônima de Eurípedes, realmente sentisse que em toda apresentação ceifasse com as próprias mãos a vida de suas crianças, o que seria do psicológico e do emocional dessa mulher no mundo real? Seria ela capaz de viver com essa sensação, revivendo-a sempre que as cortinas abrissem e o espetáculo iniciasse? Nesse contexto, mais do que um “dom” ou um talento nato, o traba- lho do ator pressupõe treinamento e aperfeiçoamento técnico constante, além de inteligência e sensibilidade atentas à observação da vida social, ao entendimento das relações entre as pessoas e das suas reações perante determinados eventos e situações. Ou seja, é uma profissão e como tal pode ser aprendida e ensinada. Isso, claro, por meio de “estudo constan- Elementos da linguagem teatral 31 te, alimentado pela inquietação e desconfiança em relação ao que lhe é apresentado como conhecido ou definitivo. Pois a matéria-prima de seu trabalho são os homens e a sociedade” (PEIXOTO, 1992, p. 44). Um ator é, portanto, alguém capaz de agir como se fosse outra pes- soa, uma personagem, e imprime em seu próprio corpo, por meio de diversas técnicas ou mesmo da pura intuição, vida e realidade a outros sujeitos – sejam eles humanos ou humanizados – em prol de veicular os conteúdos da obra que está encenando para os espectadores. 1.5 Outros fundamentos técnicos e componentes humanos Vídeo Até o momento, discutimos sobre os elementos centrais e impres- cindíveis para que a linguagem teatral possa ocorrer. Entretanto, há outros fundamentos técnicos e componentes humanos que também corroboram para que um espetáculo teatral ocorra. Nesta seção, fala- remos sucintamente sobre eles. O primeiro componente humano que faz parte de um espetáculo teatral é o diretor. É ele que conceberá o projeto do espetáculo, elabo- rando e coordenando a encenação, seja a partir de uma ideia ou de um texto, procurando, desenvolvendo ou aplicando técnicas específicas para obter os melhores resultados da comunicação com o público. É o diretor que decide sobre quaisquer alterações no espetáculo – desde a adaptação da dramaturgia até a escolha do elenco. É alguém que pre- cisa ter uma visão holística da obra, uma visão externa do que se passa em cena e o como ela irá ser apreendida pelos espectadores. Li gh tF ie ld S tu di os /S hu tte rs to ck https://www.shutterstock.com/pt/g/LightField+Studios 32 Teoria e prática das artes cênicas Como dissemos, para que o evento cênico possa ocorrer é neces- sário que haja um espaço para isso. Embora esse espaço possa ser qualquer lugar, há um profissional que é responsável por idealizar os cenários, por criar, desenhar e orientar a montagem do projeto ceno- gráfico e dos elementos da cena: o cenógrafo. Por sua vez, entendemos como cenografia o conjunto de elementos organizados no espaço cênico, capaz de representar o lugar, ou luga- res, onde acontecem as ações dramáticas representadas pelos atores. Há ainda, nesse contexto, o contrarregra: profissional encarregado de cuidar e transportar os cenários e os objetos de cena, indicando, tam- bém, as entradas e as saídas dos atores. Se há um espaço cênico, preenchido por atores, cenário e objetos, ele precisa ser visto pelos espectadores, certo? Quem se responsabi- liza por tornar visível o invisível, por “fazer a luz” do espetáculo, é o iluminador. Como o próprio nome evidencia, é ele quem conceberá a iluminação do espetáculo, criando desde os efeitos e as transições de luz até a escolha da cor, dos ângulos e dos equipamentos que serão utilizados. É por meio da iluminação que se constrói a atmosfera de um dado espetáculo. O Iluminador, assim, é o responsável por conceber os chamados mapas de luz. Já o sonoplasta é aquele profissional responsável por explorar as possibilidades expressivas do som, seja na escolha das músicas ou dos microfones dos atores (quando houver) até os efeitos sonoros que in- cidem sobre a cena. Assim como a iluminação enfatiza, por meio do som, as cenas – conferindo-lhes maior ou menor carga emocional, sub- linhando e destacando os sentimentos e as atmosferas encenadas e expressas pelos atores. Outro componente humano imprescindível à realização teatral é o chamado figurinista, que é o responsável por criar, orientar e acompa- nhar a feitura dos trajes (o figurino) para o espetáculo teatral. Deve não só possuir conhecimentos básicos de desenho, moda, estilo e costura, como estar atento com o que será encenado. Atua em constante diálo- go com a direção, o cenógrafo, o iluminador, os atores e os maquiado- res – que dispensam apresentação. Por fim, e não menos importante, há os que nomeamos de produ- tores: responsáveis por organizar, coordenar e auxiliar os artistas na realização da obra. Geralmente é a pessoa responsável por inscrever Di vu lg aç ão No filme Os Produtores, acompanhamos um produtor teatral e seu contador tentando arrecadar muito mais dinheiro do que o neces- sário para produzir um show para a Broadway. A ideia é a de que a peça seja um fracasso total, para que ambos embolsem a diferença do dinheiro. Um ótimo filme para compreender alguns meandros da produção teatral, bem como as especificidades que envolvem a montagem de um espetáculo cênico. Direção: Susan Stroman. Los Angeles: Universal Pictures, 2005. Filme Elementos da linguagem teatral 33 nos editais de financiamento, captar verba para a concretização do es- petáculo, além de dialogar com a imprensa e preocupar-se com toda a logística da obra – desde passagens e quartos de hotéis, quando o espetáculo entrar em turnê, até o aluguel dos espaços de ensaio e de apresentação, por exemplo. Todos os componentes humanos listados acima, e suas respectivas funções, são flutuantes e maleáveis. Não são necessariamente atribui- ções e posições rígidas. Isto é, uma mesma pessoa pode desempenhar distintas atividades dentro do fenômeno cênico. O diretor, por exem- plo, pode ser também ator e dramaturgo; um ator pode ser, também, o figurinista do espetáculo; o iluminador pode ser cenógrafo... e assim por diante. CONSIDERAÇÕES FINAIS A linguagem teatral é uma das mais antigas manifestações humanas e está ligada diretamente à capacidade que nós temos de imitar, criar e con- tar histórias. É uma manifestação artística que necessita do coletivo para que possa se concretizar enquanto fenômeno. Assim, não há como existir teatro sem que duas ou mais pessoas estejamem interação em tempo real, esse é o epicentro que define e que distingue a linguagem teatral das outras manifestações: a sua relação com os espectadores. Nesse sentido, dizemos que o teatro é uma linguagem artística efêmera, pois se faz e se desfaz a cada apresentação. Desse modo, podemos dizer que, se há uma pessoa agindo e outra ob- servando, estamos incidindo em teatralidade. Basta um olhar um pouco mais atento ao nosso redor para verificarmos como o teatro está constan- temente presente em nossa vida. Podemos encontrar “teatro” nas nossas relações mais casuais: quando um professor está dando aula perante os seus alunos; quando um jogador está com a bola sobre os pés e os tor- cedores o acompanham vidrados; quando alguém nos chama a atenção, pelo motivo que for, nas ruas ou lojas; ou qualquer outra situação da vida que acompanhamos com curiosidade e interesse. Enfim, o teatro nos acompanha diariamente, por vezes sem o notar- mos. E, embora seus procedimentos artísticos tenham sido reaproveita- dos e ressignificados em outras linguagens, como é o caso do cinema e da televisão, o teatro é uma forma de arte única, por considerar os espec- 34 Teoria e prática das artes cênicas tadores em suas feituras, por abraçar a momentaneidade que é a vida humana, com todas as suas incertezas e dinâmicas. Finalmente, fazer teatro é um ato criativo e sensível, um ofício que nos faz olhar atentamente para o ser humano e, junto a ele, apreender outras maneiras de ser e de estar no mundo. ATIVIDADES 1. Há duas possibilidades de pensarmos a arte teatral: uma ligada ao texto dramático e outra à encenação. Quais são as especificidades de cada uma dessas perspectivas? 2. Sistematize as características de cada um dos espaços cênicos apresentados (italiano, arena e semiarena, espaços não convencionais e a rua). 3. É comum que haja uma impressão de que os atores são sujeitos que sentem e vivenciam as emoções de suas personagens como se fossem as deles. Por que essa impressão é equivocada? REFERÊNCIAS BERTHOLD. M. História mundial do teatro. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2006. BROOK, P. O teatro e seu espaço. Petrópolis: Vozes, 1977. DESGRANGES, Flávio. A pedagogia do teatro: provocações e dialogismos. São Paulo: Editora Hucitec, 2006. GUINSBURG, J. A Filosofia de Diderot, São Paulo: Editora Cultrix, 1996. MAINGUENEAU, D. Pragmática para o discurso literário. São Paulo: Martins Fontes, 1996. PALLOTTINI, R. Dramaturgia, a construção do personagem. São Paulo: Editora Ática, 1989. PALLOTTINI, R. O que é dramaturgia. São Paulo: Editora Brasiliense, 2006. PAVIS, P. Dicionário de teatro. São Paulo: Perspectiva, 1999. PEIXOTO, F. O que é teatro. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1992. ROUBINE, J. A arte do ator. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. SANTOS NASCIMENTO, K. C.; MATOS, A. B. S.; CERQUEIRA, L. M. Teatro: instrumento de aprendizagem na educação. Caderno de Graduação, Ciências Humanas e Sociais, UNIT, SERGIPE, v. 2, n. 2, p. 173-181, 27 out. 2014. SILVA, D. F. S. da. O ator e o personagem: variações e limites no teatro contemporâneo. Tese (Doutorado em Artes) – Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais, 2013. Vídeo A origem do teatro: como tudo começou? 35 2 A origem do teatro: como tudo começou? Lucas Pinheiro Assim como as diversas outras manifestações artísticas, a origem da linguagem teatral é tão velha quanto a humanidade. Neste capítulo, nosso objetivo será abordar, sucinta e direta- mente, a gênese dessa linguagem artística milenar. Iniciaremos nossos estudos evidenciando a relação do tea- tro com a comunicação humana e compreendendo como sua essência e sua característica primordial auxiliaram os homens pré-históricos em suas tentativas de compreensão do mundo em que viviam. Na sequência, procuraremos mostrar como as festas e rituais em homenagem ao deus grego do vinho e da fertilidade, Dioni- so, foram cruciais para a criação do teatro como o conhecemos hoje. Para tanto, exploraremos os dois primeiros gêneros dra- máticos criados pela humanidade: a tragédia e a comédia. Finalizaremos o capítulo, então, apresentando a origem do teatro no Brasil. Você sabia que a Igreja Católica é a principal responsável pelas primeiras manifestações teatrais em solo bra- sileiro? É sobre essa temática que circularão as discussões da última seção deste material. 2.1 Da pré-história ao Antigo Egito Vídeo Apesar de sabermos o que são atores e de termos uma ideia geral sobre o que é o teatro, ainda existem questionamentos sobre as origens dessa linguagem artística milenar. As poucas evidências que temos, en- contradas e sistematizadas por paleontólogos, antropólogos, historiado- 36 Teoria e prática das artes cênicas res e psicólogos, levam-nos a crer que o desenvolvimento do teatro está ligado, primordialmente, à nossa habilidade de imitar, ou seja, “o teatro é tão velho quanto a humanidade” (BERTHOLD, 2006, p. 1). A imitação é, afinal, parte integrante e fundamental de todo e qual- quer processo de aprendizado. Aprendemos observando os outros e, posteriormente, imitando e reproduzindo os modos com que eles rea- lizaram determinadas ações; isso acontece com o nosso aprendizado da língua e da linguagem, por exemplo. O psicólogo e linguista Michael Tomasello (2003, p. 5), nos diz isso no livro intitulado Origens culturais da aquisição do conhecimento humano: a transmissão cultural inclui coisas como um filhote de passa- rinho imitar o canto típico da espécie cantado por seus pais, fi- lhotes de rato comerem apenas os alimentos comidos por suas mães, formigas localizarem comida seguindo os rastros de fe- romônio dos coespecíficos, jovens chimpanzés aprenderem as práticas de uso de ferramentas dos adultos com quem convivem e crianças humanas adquirirem as convenções linguísticas dos outros membros de seu grupo social. Pensemos agora na pré-história, quando o ser humano ainda estava aprendendo a falar. Como é que ocorriam os seus processos de comu- nicação? Semelhante aos bebês, que ainda não aprenderam a utilizar as convenções linguísticas, os homens primitivos também possuíam uma comunicação por meio da imitação e da reprodução de sons, ges- tos ou características, fossem elas de outras pessoas, de animais ou de eventos naturais – como a chuva, o vento ou o trovão. Façamos um exercício de imaginação com a pré-história. Será que conseguimos perceber: o quanto a chuva, naquelas condições difíceis em que os peque- nos grupos viviam, era necessária? Mas, de vez em quando, sem que ninguém soubesse o porquê, chegava uma época de seca. Alguém na tribo teve a ideia de imitar a chuva e, então, todos fa- ziam uma dança, ou o que quer que fosse, imitando a chuva para ver se assim ela chegava (HELIODORA, 2008, p. 9). Isso não lembra a dança da chuva dos povos originários do Brasil, os nossos indígenas? Di vu lg aç ão O filme A Guerra do Fogo acompanha a tribo Ulam, na pré-história. Essa tribo, ainda pouco desenvolvi- da, não havia dominado as convenções linguísticas e, portanto, não sabiam falar. Seus membros se comunicavam, então, por meio de gestos e grunhi- dos. Ademais, é um ótimo filme para compreender- mos um pouco mais a relação do ser humano pré-histórico com o fogo, que acreditavam ser sobrenatural. Direção: Jean-Jacques Annaud. França/Canadá: Lume Filmes, 1982. Filme A origem do teatro: como tudo começou? 37 O mesmo ato de imitar também era feito quando o assunto era en- contrar comida. Para caçar com mais facilidade, alguém se cobria com a pele de algum animal e imitava sua forma de andar e seus grunhidos, enquanto outro fazia as vezes de caçador, imitando a ação de caçar. É possível perceber que, para os povos primitivos, havia uma estreita correlação entre a simbologia de imitar uma presa – evocado o “espíri- to” daquele animal – com a concretização da sua captura na realidade. Algo facilmente relacionável à teoria de que os homens primitivos fa- ziam os desenhos dos animais nas paredes das cavernas, nomeados