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<p>o hipertexto 173 a cosmopédia 174 icação 178 quatro espaços (2) A relação com conhecimento 181 espaços. Para uma filosofia política 183 PRÓLOGO: 0 PLANETA NÔMADE ssivas 183 184 a humana generalizada 186 ções 187 de um espaço depende dos espaços 188 contato 189 O lançamento do projeto das "infovias" provocou grande alvoroço nos Esta- jos 191 dos Unidos. As ondas que acompanham a série de fusões, aquisições e alianças cardeais 194 que hoje acontecem no setor da comunicação e da informática, os anúncios 195 concernentes à futura televisão digital de alta vários sinais ulti- mamente têm chamado a atenção do grande público para o que se convencio- nossos 199 nou chamar de "multimídia". do mundo humano 201 Os acontecimentos que deram o que falar nesse domínio são algumas das manifestações específicas de uma grande onda de fundo tecnológico. Dados, textos, imagens, sons, mensagens de todos os tipos são digitalizados e, cada vez mais, diretamente produzidos sob forma digital. Aplicando-se a essas mensagens, os instrumentos de tratamento automático da informação se banalizam no conjunto dos setores da atividade humana. O estabelecimento de conexão telefônica entre terminais e memórias informatizadas e a extensão das redes digitais de transmissão ampliam, a cada dia, um ciberespaço mundial no qual todo elemento de informação encontra-se em contato virtual com todos e com cada um. Essas tendências fundamentais, já atuantes há mais de 25 anos, farão sentir cada vez mais seus efeitos nas próximas décadas. O atual curso dos acontecimentos converge para a constituição de um novo meio de comu- nicação, de pensamento e de trabalho para as sociedades humanas. Desde os anos 1960, pioneiros como D. Engelbart e Licklider haviam percebido todo o potencial social da comunicação por meio de redes de computadores. Mas foi somente no início dos anos 1980 que a comu- nicação informatizada ou telemática - emergiu como um fenômeno eco- nômico e cultural: redes mundiais de universitários e pesquisadores, redes Pode-se acrescentar a essa lista anúncio recente de um computador "quântico" para fins (N. do T.).</p><p>PIERRE A INTELIGÊNCIA COLETIVA empresariais, correios eletrônicos, "comunidades virtuais" se desenvolvendo A fusão das telecomunicações, da informática, da imprensa, da edi- sobre uma base local, acesso direto a bases de dados etc. ção, da televisão, do cinema e dos jogos eletrônicos em uma indústria unifi- No final dos anos 80, os computadores pessoais tornavam-se mais po- cada da multimídia é o aspecto da revolução digital que os jornalistas mais tentes e fáceis de utilizar, seu uso diversificava-se e difundia-se cada vez mais. enfatizam. Mas não é o único, nem talvez o mais importante. Além de certas Assistiu-se então a um processo sem paralelo de das redes, que repercussões comerciais, parece-nos urgente destacar os grandes aspectos civi- haviam de início crescido isoladamente, e de crescimento exponencial dos lizatórios ligados ao surgimento da multimídia: novas estruturas de comuni- usuários da comunicação informatizada. Rede das redes, baseando-se na cação, de regulação e de cooperação, linguagens e técnicas intelectuais iné- cooperação "anarquista" de milhares de centros informatizados no mundo, ditas, modificação das relações de tempo e espaço etc. A forma e o conteúdo a tornou-se hoje o símbolo do grande meio heterogêneo e trans- do ciberespaço ainda são especialmente indeterminados. Não existe nenhum fronteiriço que aqui designamos como ciberespaço. A cada mês, número de determinismo tecnológico ou econômico simples em relação a esse assunto. pessoas com "endereço eletrônico" no mundo aumenta em 5%. Em 1994, Escolhas políticas e culturais fundamentais abrem-se diante dos governos, mais de 20 milhões de pessoas, essencialmente jovens, estavam "conectados". dos grandes atores econômicos, dos cidadãos. Não se trata apenas de racio- As previsões apontam para cerca de 100 milhões de usuários para o ano cinar em termos de impacto (qual o impacto das "infovias" na vida políti- 2000. Graças às redes digitais, as pessoas trocam todo tipo de mensagens ca, econômica ou cultural?), mas também em termos de projeto (com que entre indivíduos ou no interior de grupos, participam de conferências eletrô- objetivo queremos desenvolver as redes digitais de comunicação interativa?). nicas sobre milhares de temas diferentes, têm acesso às informações públicas Na verdade, as decisões técnicas, a adoção de normas e regulamentos, as contidas nos computadores que participam da rede, da força de políticas tarifárias queiramos ou não, para modelar os equipa- cálculo de máquinas situadas a milhares de quilômetros, constroem juntos mentos coletivos da sensibilidade, da inteligência e da coordenação que forma- mundos virtuais puramente lúdicos ou mais sérios constituem uns para rão no futuro a infraestrutura de uma civilização mundializada. Com esta os outros uma imensa enciclopédia viva, desenvolvem projetos políticos, obra, queremos contribuir para situar a atual evolução em uma perspectiva amizades, cooperações.. mas dedicam-se também ao ódio e à antropológica e para forjar uma visão positiva que poderia ajudar as políticas, A cultura da rede ainda não está estabelecida, seus meios técnicos en- as decisões e as práticas a se orientar no labirinto de um futuro ciberespaço. contram-se na infância, seu crescimento não terminou. Ainda não é tarde O desenvolvimento dos novos instrumentos de comunicação inscreve- demais para refletir coletivamente e tentar modificar o curso das coisas. Ain- -se em uma mutação de grande alcance, à qual ele impulsiona, mas que o da há lugar, nesse novo espaço, para projetos. As "infovias" e a "multimídia" ultrapassa. Numa palavra: voltamos a ser nômades. não acabarão sendo apenas uma supertelevisão? Estariam anunciando a vi- O que isso significa? Trata-se de viagens de prazer, de férias exóticas, tória definitiva do consumo de mercadoria e do espetáculo? o de turismo? Não. Do giro dos homens de negócios e das pessoas apressadas abismo entre ricos e pobres, excluídos e "bem posicionados"? É, com efeito, em torno do mundo, de um aeroporto a outro? Também não. Os "objetos um dos futuros possíveis. Mas, se avaliássemos a tempo a importância do nômades" da eletrônica portátil não nos aproximam tampouco do noma- que está em jogo, os novos meios de comunicação poderiam renovar pro- dismo atual. Essas imagens de movimento nos remetem a viagens imóveis, fundamente as formas do laço social, no sentido de uma maior fraternidade, encerradas no mesmo mundo de significações. A corrida sem-fim nas re- e ajudar a resolver os problemas com os quais a humanidade hoje se debate. des de mercadorias talvez seja o último obstáculo à viagem. Mexer-se não é mais deslocar-se de um ponto a outro da superfície terrestre, mas atravessar universos de problemas, mundos vividos, paisagens dos sentidos. Essas deri- Sobre a internet, ver Tracy Laquey e Jeanne C. Ryer, The Internet Companion (Plus), vas nas texturas da humanidade podem recortar as trajetórias balizadas dos Conferência, Mass., Addison-Wesley, 1993. Ver a excelente obra de Howard Rheingold, The Virtual Community, Nova York, Addison- circuitos de comunicação e de transporte, mas as navegações transversais, -Wesley, 1993, que reconstitui a da comunicação por computador, mostra suas diferentes heterogêneas dos novos nômades exploram outro espaço. Somos imigrantes facetas políticas, sociais, culturais e lúdicas, e apresenta com clareza as implicações, para a civiliza- ção, do desenvolvimento das "infovias". da subjetividade.</p><p>A INTELIGÊNCIA COLETIVA PIERRE O nomadismo dessa época refere-se principalmente à transformação a escrita), temos agora a possibilidade de pensar coletivamente essa aventura contínua e rápida das paisagens científica, técnica, econômica, profissional, e influenciá-la. mental.. Mesmo que não nos O mundo mudaria à nossa volta. As hierarquias burocráticas (fundadas na escrita estática), as monarquias Ora, nós nos movemos. E o conjunto caótico de nossas respostas produz a midiáticas ("surfando" na televisão e no sistema de mídias) e as redes in- transformação geral. Esse movimento não requer de nós uma adaptação ra- ternacionais da economia (utilizando o telefone e as tecnologias do tempo cional ou em grau ótimo? Mas como saber que uma resposta convém a uma real) só mobilizam e coordenam parcialmente a inteligência, a experiência, configuração que se apresenta pela primeira vez e que ninguém programou? o savoir-faire, a sabedoria e a imaginação dos seres humanos. É por isso que a E por que querer se adaptar adaptar-se exatamente a quê?) quando se com- invenção de novos procedimentos de pensamento e negociação que possam preendeu que a realidade não estava posta, exterior a nós, preexistente, mas fazer emergir verdadeiras inteligências coletivas se faz urgente. As tecnologias que já era o resultado transitório do que fazíamos juntos? intelectuais não se limitam a ocupar um setor entre outros da mutação antro- Imprevisível, arriscada, essa situação assemelha-se a uma descida em pológica contemporânea; elas são potencialmente sua zona crítica, seu lugar corredeiras desconhecidas. Não só viajamos entre as paisagens exteriores da político. É preciso enfatizá-lo? Os instrumentos da comunicação e do pen- técnica, da economia ou da civilização. Caso se tratasse apenas de passar samento coletivo não serão reinventados sem que se reinvente a democracia, de uma cultura a outra, ainda teríamos exemplos, referências históricas. Mas uma democracia distribuída por toda parte, ativa, molecular. Nesse ponto passamos de uma humanidade a outra; outra humanidade que não apenas perigoso de virada ou de encerramento, a humanidade poderia reapoderar-se permanece obscura, indeterminada, mas que até mesmo nos recusamos a de seu futuro. Não entregando seu destino nas mãos de algum mecanismo interrogar, que ainda não aceitamos examinar. supostamente inteligente, mas produzindo sistematicamente as ferramen- A conquista espacial persegue explicitamente o estabelecimento de co- tas que lhe permitirão constituir-se em coletivos inteligentes, capazes de se lônias humanas em outros planetas, ou seja, uma mudança radical de ha- orientar entre os mares tempestuosos da mutação. bitat e de meio para nossa espécie. Os avanços da biologia e da medicina espaço do novo nomadismo não é o território geográfico, nem o das nos incitam a uma reinvenção de nossa relação com o corpo, com a repro- instituições ou o dos Estados, mas um espaço invisível de conhecimentos, dução, com a doença e com a morte. Tendemos progressivamente, talvez saberes, potências de pensamento em que brotam e se transformam qualida- sem sabê-lo, e com certeza sem dizê-lo, a uma seleção artificial do humano des do ser, maneiras de constituir sociedade. Não os organogramas do poder, transformado em instrumento pela genética. O desenvolvimento de nano- nem as fronteiras das disciplinas, tampouco as estatísticas dos comerciantes, tecnologias capazes de produzir materiais inteligentes em massa, simbióticos mas o espaço qualitativo, dinâmico, vivo da humanidade em vias de se auto- microscópicos artificiais de nossos corpos e calculadoras de várias ordens de inventar, produzindo seu mundo. grandeza mais potentes que as de hoje poderia modificar completamente Onde encontrar os mapas móveis desse espaço flutuante? Terra incógnita. nossa relação com a necessidade natural e com o trabalho, e isso de maneira Mesmo que consigais por vossa própria conta alcançar a imobilidade, a paisa- bem mais brutal do que se fez até hoje nas diversas fases da automação. gem continuará a fluir, girar em torno de vós, a vos infiltrar, a transformar-vos Os progressos das próteses cognitivas com base digital transformam nos- a partir de dentro. Não é mais o tempo da história, tendo como referência a sas capacidades intelectuais tão nitidamente quanto o fariam mutações de escrita, a cidade, o passado, mas de um espaço móvel, paradoxal, que nos vem nosso patrimônio genético. As novas técnicas de comunicação por mundos igualmente do futuro. Não o apreendemos como uma sucessão, só interroga- virtuais em novas bases os problemas do laço social. Em suma, a ho- mos as tradições, a seu respeito, por meio de perigosas ilusões de óptica. Tempo minização, o processo de surgimento do gênero humano, não terminou, errante, transversal, plural, indeterminado, como o que antecede as origens. mas acelera-se de maneira brutal. Massas de refugiados em marcha para campos improváveis. Nações Porém, ao contrário do que ocorreu no momento do nascimento de sem domicílio fixo... Epidemias de guerras civis... Barulhentas "babéis", nossa espécie, ou por ocasião da primeira grande mutação antropológica megalópoles mundiais... Travessia dos saberes da sobrevida nos interstícios a a cidade, Estado e do império... Impossível fundar uma cidade, impossível doravante estabe-</p><p>PIERRE LÉVY A INTELIGÊNCIA COLETIVA lecer-se em qualquer lugar que seja, num segredo, num poder, num solo... aos complexos problemas que estão diante de nós. Aprenderíamos aos pou- Os signos, por sua vez, tornam-se migrantes: esse não para de tremer, a nos orientar num novo cosmo em mutação, à deriva; a nos tornar, na de arder. Deslizamentos vertiginosos entre as e as línguas, zapping medida do possível, seus autores; a nos inventar coletivamente como espécie. entre as vozes e os cantos, e bruscamente, na esquina de um corredor sub- A inteligência coletiva visa menos ao domínio de si por intermédio das co- terrâneo, surge a música do futuro... A Terra como uma bola sob o olho munidades humanas que a um abandono essencial que diz respeito à ideia gigante de um de identidade, aos mecanismos de dominação e de desencadeamento dos Os primeiros nômades seguiam os rebanhos, que buscavam sozinhos conflitos, ao desbloqueio de uma comunicação confiscada, a voltar a trocar seu alimento segundo as estações e as chuvas. Hoje "nomadizamos" atrás do entre si pensamentos isolados. futuro humano, um futuro que nos atravessa e que construímos. O ser hu- Encontramo-nos, portanto, na situação de uma espécie em que cada mano tornou-se para si mesmo o clima, uma estação infinita e sem retorno. membro teria boa memória, seria observador e astucioso, mas ainda não teria Horda e rebanho misturados, cada vez menos discerníveis de nossas ferra- atingido a inteligência coletiva da cultura por falta de linguagem articulada. mentas e de um mundo estreitamente atado a nossa marcha, desdobramos a Como inventar a linguagem quando jamais se falou, quando nenhum de cada dia uma nova estepe. seus ancestrais jamais proferiu uma frase, quando não se tem exemplo, a Os homens de Neandertal, bem adaptados às maravilhosas caças da tun- mínima ideia do que pode ser uma língua? Por analogia, trata-se de nossa dra glacial, extinguiram-se quando o clima, com excessiva rapidez, umidifi- atual situação: não sabemos o que devemos criar, o que talvez já tenhamos cou-se e reaqueceu-se4. Sua caça habitual desapareceu. A despeito de sua in- obscuramente começado a esboçar. Em alguns milênios, porém, o Homo teligência, esses homens que emitiam grunhidos ou eram mudos não tinham habilis tornou-se sapiens, rompeu uma barreira, lançou-se no desconhecido, linguagem para se comunicar entre si. Desse modo, as soluções encontradas inventou a Terra, os deuses e mundo infinito da significação. aqui e ali para seus novos problemas não puderam difundir-se. Permanece- Mas as línguas são feitas para a comunicação no interior de pequenas ram dispersos diante da transformação do mundo à sua volta. Não se trans- comunidades "de escala humana", e talvez para assegurar as relações entre tais formaram com ele. grupos. Graças à escrita, vencemos uma nova etapa. Essa técnica possibilitou Hoje, o Homo sapiens enfrenta a rápida modificação de seu meio, da um acréscimo de eficácia da comunicação e da organização dos grupos hu- qual ele é o agente coletivo, involuntário. Não quero de modo algum dar manos bem mais importante que o permitido pela fala. Foi porém ao preço a entender que nossa espécie está ameaçada de extinção, nem que o "fim de uma divisão das sociedades entre uma máquina burocrática de tratamento dos tempos" está próximo. Não se trata de milenarismo. Contento-me em da informação, operando por meio da escrita, de um lado, e pessoas "admi- apontar uma alternativa. Ou superamos um novo limite, uma nova etapa da nistradas", de outro. O problema da inteligência coletiva é descobrir ou in- hominização, inventando algum atributo do humano tão essencial quanto a ventar um além da escrita, um além da linguagem tal que o tratamento da linguagem, mas em escala superior, ou continuamos a nos "comunicar" por informação seja distribuído e coordenado por toda parte, que não seja mais meio da mídia e a pensar em instituições separadas umas das outras, que or- O apanágio de órgãos sociais separados, mas se integre naturalmente, pelo ganizam, além disso, o sufocamento e a divisão das inteligências. No segun- contrário, a todas as atividades humanas, volte às mãos de cada um. do caso, só teríamos de enfrentar os problemas da subsistência e do poder. Essa nova dimensão da comunicação deveria, é claro, permitir-nos com- Mas, se 'nos engajássemos na via da inteligência coletiva, progressivamente partilhar nossos conhecimentos e apontá-los uns para os outros, o que é inventaríamos as técnicas, os sistemas de signos, as formas de organização a condição elementar da inteligência coletiva. Além disso, ela abriria duas social e de regulação que nos permitiriam pensar em conjunto, concentrar importantes possibilidades, que transformariam radicalmente os dados fun- nossas forças intelectuais e espirituais, multiplicar nossas imaginações e ex- damentais da vida em sociedade. Em primeiro lugar, disporíamos de meios periências, negociar em tempo real e em todas as escalas as soluções práticas simples e práticos para saber que fazemos juntos. Em segundo lugar, ma- nejaríamos, com facilidade ainda maior do que fazemos com a escrita, os Ver Joseph Reicholf, L'émergence de l'homme, Paris, Flammarion, 1991. instrumentos que permitem a enunciação coletiva. E tudo isso não mais na</p><p>nem na dos Estados e instituições históricas do tensão e a rapidez das turbulências gigantes, dos e do nomadismo antropológico que hoje ades se contentarem em ser inteligentemente em seus objetivos. Para ter alguma chance tornar inteligentes na massa. Além da mídia, voz do múltiplo. Ainda indiscernível, com o INTRODUÇÃO futuro, banhando com seu murmúrio outra tro marcado com a superlíngua. Economia A prosperidade das nações, das regiões, das empresas e dos indivíduos de- pende de sua capacidade de navegar no espaço do saber. A força é conferida de agora em diante pela gestão ótima dos conhecimentos, sejam eles técni- cos, científicos, da ordem da comunicação ou derivem da relação com o outro. Quanto melhor os grupos humanos conseguem se constituir em coletivos inteligentes, em sujeitos cognitivos, abertos, capazes de inicia- tiva, de imaginação e de reação rápidas, melhor asseguram seu sucesso no ambiente altamente competitivo que é o nosso. Nossa relação material com mundo se mantém por meio de uma formidável infraestrutura epistêmica e de software: instituições de educação e formação, circuitos de comunicação, tecnologias intelectuais com apoio digital, atualização e difusão contínua dos savoir-faire... Tudo repousa, a longo prazo, na flexibilidade e vitalidade de nossas redes de produção, comércio e troca de saberes. Seria uma simplificação assimilar, sem mais, a transição para a era do conhecimento à terceirização da economia. E a terceirização, em si mesma, não se reduz tampouco a mero deslocamento das atividades industriais para os serviços. Com efeito, o mundo dos serviços é cada vez mais invadido por objetos técnicos. Ele "se industrializa": distribuidores automáticos, servido- res telemáticos, softwares de ensino, sistemas especialistas etc. Os industriais, por sua vez, concebem cada vez mais sua atividade como um serviço. Para responder às novas condições da vida econômica, as empresas tendem a or- ganizar-se de tal forma que possam ser percorridas por redes de inovação. Isso significa, por exemplo, que em uma grande empresa um setor pode se conectar a todo momento com qualquer outro, sem procedimento formal, com troca constante de informação e de pessoal. estabelecimento de rela- ções e as redes de inovação contemporâneas são transversais e especialmente transempresariais. crescente desenvolvimento das parcerias e alianças é</p><p>PIERRE A INTELIGÊNCIA COLETIVA um forte testemunho disso. Novas competências devem ser importadas, pro- ção subjetiva, bastante individual, de um lado, mas ética e cooperativa, de duzidas, instiladas permanentemente (em tempo real) em todos os setores. outro, que o universo burocrático e totalitário era incapaz de suscitar. As organizações devem se abrir a uma circulação contínua e constantemente Sem dúvida, a interpenetração do lazer, da cultura e do trabalho em uma renovada de especialidades científicas, técnicas, sociais ou mesmo estéticas. espécie de engajamento subjetivo e social global continua sendo hoje o apa- O skill flow condiciona o cash Assim que essa renovação diminui seu nágio dos diretores de empresa, dos quadros mais qualificados, de certas pro- ritmo, a empresa ou organização corre o risco de esclerose e, logo, de morte. fissões liberais, dos pesquisadores e dos artistas. Mais de um índice leva a crer Como diz Michel Serres, o saber tornou-se a nova infraestrutura. que esse modelo irá se difundir, "baixar" por capilaridade a todas as camadas Por que a economia dos chamados regimes comunistas começou a de- da sociedade. Se a fronteira entre vida profissional e desenvolvimento pessoal clinar acentuadamente nos anos 1970, tendo finalmente ruído na virada dos se apaga, é a morte de certo economismo. Os imperativos econômicos e a efi- anos 1990? Sem querer tratar essa questão complexa de maneira exaustiva, cácia técnica não podem mais girar em círculo fechado. Uma vez que um ver- pode-se ao menos mencionar uma que iluminará particularmente dadeiro engajamento subjetivo é requerido dos atores humanos, as finalidades nossa posição sobre a era do conhecimento. A economia planificada de for- econômicas devem remeter ao político, no sentido amplo, ou seja, à ética e à ma burocrática, que ainda era capaz de algumas realizações até os anos 1960, vida da cidade. Devem fazer eco, igualmente, a significações culturais. O puro foi incapaz de seguir as transformações impostas pela evolução contempo- econômico ou a mera eficácia perdem em eficiência. Somente uma composi- rânea das técnicas e da organização do trabalho. O totalitarismo fracassa ção com finalidades culturais e morais ou experiências estéticas lhes permitem diante das novas formas de exercício móvel e cooperativo das competências. dominar a subjetividade dos atores da empresa... como a de seus clientes. Era incapaz de inteligência coletiva. A empresa não é só consumidora e produtora de bens e de serviços, como Não se trata apenas do grande deslocamento das economias ocidentais quer enfoque econômico clássico. Não se contenta em aplicar, elaborar e em direção ao setor terciário, mas de um movimento bem mais profundo, distribuir savoir-faire e conhecimento, como mostra a nova abordagem cog- de ordem antropológica. A partir dos anos 1970, tornava-se cada vez mais nitiva das organizações. Deve-se reconhecer, além disso, que a empresa, com difícil para o operário, o empregado, o engenheiro herdar a tradição de um outras instituições, acolhe e constrói subjetividades. Já que condiciona todas as "ofício", assumi-lo e transmiti-lo quase inalterado, instalar-se de modo du- outras, a produção contínua de subjetividade será provavelmente considerada, no rável em uma identidade profissional. Não só as técnicas se transformavam próximo século, a principal atividade econômica (veja o capítulo 2 deste livro). em ritmo acelerado, como também tornava-se necessário aprender a com- No regime assalariado, o indivíduo vende sua força ou seu tempo de parar, regular, comunicar, reorganizar sua atividade. Era preciso exercer em trabalho de modo quantitativo e facilmente mensurável. Ora, esse regime caráter permanente todas as suas potencialidades intelectuais. Além disso, as poderá em breve ceder lugar à valorização direta de sua atividade isto é, de novas condições da vida econômica conferiam uma vantagem competitiva às suas competências qualitativamente diferenciadas por meio de produtores organizações em que os membros eram capazes de adotar individualmente independentes ou pequenas De fato, indivíduos e microempresas iniciativas de coordenação em lugar de se submeter a uma planificação vinda estão mais aptos que as grandes sociedades à reorganização permanente e à de cima. Ora, essa mobilização constante das capacidades cognitivas e sociais ótima valorização das especialidades que são hoje as condições do sucesso. supõe necessariamente uma forte implicação subjetiva. Doravante, não basta A vida econômica não estaria mais essencialmente animada por uma com- mais identificar-se passivamente com uma categoria, uma profissão, uma petição entre grandes empresas que arrolam sob sua bandeira um trabalho munidade de trabalho; é necessário ainda engajar a singularidade, a própria quantitativo e anônimo. Assistiríamos, em vez disso, ao desenvolvimento de identidade pessoal na vida profissional. É precisamente essa dupla mobiliza- formas complexas de interdependência conflitual entre zonas de competên- cias vagas, não localizadas, aproveitando-se de todas as suas singularidades, fluxo das habilidades condiciona o fluxo do dinheiro (fluxo de caixa); em inglês no ori- ginal Hipótese que nos foi inspirada pelos trabalhos de Bernard Perret. Ver, de Bernard Perret Essa abordagem prospectiva do "fim do regime foi-nos sugerida por Robert e Guy Roustang, L'économie contre la société. Affronter la crise de l'intégration culturelle et sociale, Reich, The Work of Nations. Preparing ourselves for the 21st century capitalism, Nova York, Paris, Seuil, 1993. Random House, 1991.</p><p>A INTELIGÊNCIA COLETIVA PIERRE LÉVY agitadas por movimentos moleculares permanentes de associação, de troca e Um segundo espaço, o Território, é inventado a partir do Neolítico, de rivalidade. A capacidade de formar e reformar rapidamente coletivos inteli- com a agricultura, a cidade, o Estado e a escrita. Ele não suprime a Terra gentes irá se tornar a arma decisiva dos regionais de conhecimentos espe- nômade, mas recobre-a em parte, e tenta sedentarizá-la, domesticá-la. As ri- cificos (savoir-faire) em competição em um espaço econômico mundializado. quezas não provêm da colheita e da caça, mas da posse e da exploração dos Não será mais no âmbito institucional das empresas, mas por ocasião de in- campos. Nesse segundo espaço antropológico os modos de conhecimento terações cooperativas no ciberespaço internacional, que se dará o surgimento dominantes baseiam-se na escrita: começa a história e o desenvolvimento dos e a redefinição constantes das identidades distribuídas. saberes de tipo sistemático, teórico ou hermenêutico. Nesse caso, o centro da existência não é mais a participação no cosmo, mas o vínculo com uma entidade territorial (pertença, propriedade etc.) definida por suas fronteiras. Antropologia Ainda hoje possuímos, todos nós, após nosso nome, um "endereço", que é na verdade nossa identidade no Território dos sedentários e dos contribuintes. Que o saber se torne primeiro motor, e eis que se erige sob nossos olhos As instituições nas quais vivemos são igualmente territórios, ou justaposições uma paisagem desconhecida, na qual são redefinidas as regras do jogo social de territórios, com suas hierarquias, burocracias, sistemas de regras, frontei- e a identidade dos jogadores. Sugerimos a hipótese de que hoje se abre um ras, lógicas de pertença ou de exclusão. novo "espaço antropológico", o Espaço do saber, que poderia muito bem Desde o século XVI se desenvolve um terceiro espaço antropológico, comandar os espaços anteriores: a Terra, o Território e o Espaço mercantil. que chamo de Espaço das mercadorias. Ele começa a sem dúvida, Toda a segunda parte deste livro (capítulos 7 a 15) é consagrada à cartografia com a inauguração de um mercado mundial por ocasião da conquista da detalhada desses espaços e de suas relações. América pelos europeus. O princípio organizador do novo espaço é o fluxo: que é um espaço antropológico? É um sistema de proximidade fluxo de energias, de matérias-primas, mercadorias, capitais, mão de obra, (espaço) próprio do mundo humano (antropológico), e portanto dependente informações. grande movimento de desterritorialização, que começa a de- de técnicas, de significações, da linguagem, da cultura, das convenções, das senvolver-se na aurora dos tempos modernos, não resulta na supressão dos representações e das emoções humanas. Pelo espaço antropológico "Territó- territórios, mas em sua subversão, sua subordinação aos fluxos econômicos. rio", por exemplo, duas pessoas dispostas de lados opostos da fronteira estão O Espaço das mercadorias não suprime os anteriores, mas supera-os em ve- mais "distantes" entre si do que pessoas pertencentes ao mesmo país, mesmo locidade. É o novo motor da evolução. A riqueza não provém do domínio que a relação seja a inversa no espaço da geografia física. das fronteiras, mas do controle dos fluxos. Daí por diante reina a indústria, A Terra foi o primeiro grande espaço de significação aberto à nossa no sentido amplo de tratamento da matéria e da informação. A ciência ex- espécie. Ela repousa sobre as três características primordiais que distinguem perimental moderna é um modo de conhecimento típico do novo espaço o homo sapiens: a linguagem, a técnica e as formas complexas de organização dos fluxos. Mas essa ciência clássica, por sua vez, está em vias de dester- social (a considerada em seu sentido mais amplo). Só os seres hu- ritorialização. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial ela passa a dar lugar manos vivem sobre a Terra; os animais habitam em nichos ecológicos. A re- a uma "tecnociência", movida por uma dinâmica permanente da pesquisa e lação com o cosmo constitui o ponto central do primeiro espaço tanto em da inovação econômica. O par teoria/experiência da ciência clássica se vê em um plano que hoje qualificaríamos de imaginário (animismo, totemismo) concorrência com uma ascensão da simulação e da modelização numéricas, como em uma perspectiva prática, pois o contato com a "natureza" é bas- que voltam a pôr em questão os esquemas habituais da epistemologia e per- tante estreito. Os modos de conhecimento específicos desse primeiro espaço mitem prever os de um quarto espaço. Ter uma identidade, existir antropológico são os mitos e os ritos. Na Terra, a identidade se inscreve ao no espaço dos fluxos das mercadorias é participar da produção e das trocas mesmo tempo no vínculo com o cosmo e na relação de filiação ou de aliança econômicas, ocupar uma posição nos pontos nodais das redes de fabricação, com outros homens. primeiro item de nosso curriculum vitae é, em geral, de negócios e de comunicação. Não é bom ser desempregado no Espaço das nosso nome, ou seja, a inscrição simbólica numa linhagem. mercadorias, uma vez que a identidade social é nele definida pelo "trabalho";</p><p>A INTELIGÊNCIA COLETIVA PIERRE ou seja, no que concerne à maior parte da população, por um posto assala- filtrar a informação pertinente, para efetuar comparações segundo significa- riado. Em nosso curriculum vitae, depois do nome (posição na Terra) e en- ções e necessidades que continuam sendo subjetivas, para nos orientar no flu- dereço (posição no Território), em geral vem a profissão (posição no Espaço XO informacional. É nesse ponto que o Espaço do saber deixa de ser objeto das mercadorias). de uma constatação para tornar-se um projeto. Constituir o Espaço do saber É possível fazer surgir um novo espaço, no qual se possa ter uma iden- seria, em especial, dotar-se dos instrumentos institucionais, técnicos e concei- tidade social, mesmo que não se tenha "profissão"? Talvez a crise atual dos tuais para tornar a informação "navegável", para que cada um possa orientar- pontos de referência e dos modos sociais de identificação indique o surgi- -se e reconhecer os outros em função dos interesses, competências, projetos, mento, ainda mal percebido, incompleto, de um novo espaço antropológico, meios, identidades recíprocos no novo espaço. A instauração deliberada de um o da inteligência e do saber coletivos, cujo advento definitivo não está em sistema de expressão do Espaço do saber permitiria pôr corretamente, e talvez absoluto garantido por certas "leis da história". Como os espaços antropoló- resolver, inúmeros problemas cruciais que já não encontram formulação ade- gicos anteriores, o Espaço do saber teria vocação para comandar os espaços quada nos conceitos e ferramentas que os exprimiam nos espaços precedentes. anteriores, e não para fazê-los desaparecer. Com efeito, doravante, é das ca- Os conhecimentos vivos, os savoir-faire e competências dos seres huma- pacidades de aprendizado rápido e da imaginação coletiva dos seres humanos nos estão prestes a ser reconhecidos como a fonte de todas as outras riquezas. que os habitam que dependem tanto as redes econômicas como as potências Assim, que finalidade conferir às novas ferramentas comunicacionais? Seu territoriais. E, certamente, o mesmo ocorre no que se refere à sobrevivência uso mais útil, em termos sociais, seria sem dúvida fornecer aos grupos huma- da grande Terra nômade. nos instrumentos para reunir suas forças mentais a fim de constituir intelec- A inteligência e o savoir-faire humanos sempre estiveram no centro tuais ou "imaginantes" coletivos. A informática comunicante se apresentaria do funcionamento social. Nossa espécie foi, com muita razão, chamada de então como a infraestrutura técnica do cérebro coletivo ou do de sapiens. Indicamos, aliás, que a cada espaço antropológico correspondia um comunidades vivas. papel da informática e das técnicas de comunicação modo de conhecimento específico. Mas por que então chamar de "Espaço com base digital não seria "substituir o homem", nem aproximar-se de uma do saber" o novo horizonte de nossa civilização? A novidade, nesse domínio, hipotética "inteligência artificial", mas promover a construção de coletivos é pelo menos tripla: deve-se à velocidade de evolução dos saberes, à massa de inteligentes, nos quais as potencialidades sociais e cognitivas de cada um po- pessoas convocadas a aprender e produzir novos conhecimentos e, enfim, ao derão desenvolver-se e ampliar-se de maneira recíproca. Dessa perspectiva, o surgimento de novas ferramentas (as do ciberespaço) que podem fazer surgir, principal projeto arquitetônico do século XXI será imaginar, construir e or- por trás do nevoeiro informacional, paisagens inéditas e distintas, identida- ganizar o espaço interativo e móvel do ciberespaço (veja o capítulo 6). Talvez des singulares, específicas desse espaço, novas figuras sócio-históricas. seja possível, então, superar a sociedade do espetáculo para abordar uma era A velocidade: jamais a evolução das ciências e das técnicas foi tão rápi- pós-mídia, na qual as técnicas de comunicação servirão para filtrar o fluxo da, com tantas consequências diretas sobre a vida cotidiana, o trabalho, os de conhecimentos, para navegar no saber e pensar juntos, em vez de carregar modos de comunicação, a relação com o corpo, com o espaço etc. Hoje é no consigo massas de informação. Infelizmente, e embora tenham entrevisto o universo dos saberes e do savoir-faire que a aceleração é mais acentuada e as problema, os apóstolos das "infovias" ainda têm dificuldade em falar de algo configurações mais móveis. Eis uma das razões pelas quais o saber (entendido mais que não seja a capacidade de transmissão. O grande sistema mundial de no sentido mais amplo) lidera as outras evoluções da vida social. distribuição de vídeo segundo a demanda, do qual nos falam, não é de forma A massa: tornou-se impossível reservar o conhecimento, até mesmo seu alguma nec plus ultra da audácia imaginativa e da reflexão sobre a arte e a movimento, a classes de especialistas. É o conjunto do coletivo humano que arquitetura do ciberespaço. deve, daqui por diante, se adaptar, aprender e inventar para viver melhor no universo complexo e caótico em que passamos a viver. A bela palavra cunhada por Roy Ascott, em Toulouse, em 1992, por ocasião da manifes- As quantidade de mensagens em circulação jamais foi tão tação Faust, em sua conferência intitulada "Telenonia". Ver também "Telenonia", in Interactive intercommunication, n. 7, Tóquio, 1994, pp. 114-123; e "Telenonia, on line", Kunst im Netz muito reduzido de instrumentos para R. Adrian), Graz, Steirischen 1993, pp. 135-146.</p><p>A INTELIGÊNCIA COLETIVA PIERRE LÉVY Laço social e relação com o saber Pelas competências e conhecimentos que envolve, um percurso de vida pode alimentar um circuito de troca, alimentar uma sociabilidade de saber. Além de uma indispensável instrumentação técnica, o projeto do Espaço do Postulemos explícita, aberta e publicamente o aprendizado recíproco saber incita a reinventar o laço social em torno do aprendizado recíproco, da como mediação das relações entre os homens6. As identidades tornam-se sinergia das competências, da imaginação e da inteligência coletivas. Como identidades de saber. As consequências éticas dessa nova instituição da subje- deve ter ficado claro, a inteligência coletiva não é um conceito exclusiva- tividade são imensas: quem é o outro? É alguém que sabe. E que sabe as coi- mente cognitivo. Inteligência deve ser compreendida aqui como na expres- sas que eu não sei. O outro não é mais um ser assustador, ameaçador: como são "trabalhar em comum acordo", ou no sentido de "entendimento com eu, ele ignora bastante e domina alguns conhecimentos. Mas como nossas o inimigo"5. Trata-se de uma abordagem de caráter bem geral da vida em zonas de inexperiência não se ele representa uma fonte possível de sociedade e de seu possível futuro. A inteligência coletiva examinada nesta enriquecimento de meus próprios saberes. Ele pode aumentar meu potencial obra é um projeto global cujas dimensões éticas e estéticas são tão impor- de ser, e tanto mais quanto mais diferir de mim. Poderei associar minhas tantes quanto os aspectos tecnológicos ou organizacionais. Essa abordagem competências às suas, de tal modo que atuemos melhor juntos do que se- ética será especialmente desenvolvida nos capítulos 1 a 5. Em uma época que parados. As "árvores de competências", hoje comuns em empresas, escolas e carece de perspectivas, assumo o risco de propor um norte, uma direção, algo quartéis, permitem desde já ver o outro como um leque de conhecimentos como uma utopia. Essa visão de futuro organiza-se em torno de dois eixos no Espaço do saber, e não mais como um nome, um endereço, uma profissão complementares: o da renovação do laço social por intermédio do conheci- ou um status mento e o da inteligência coletiva propriamente dita. Mas a transparência não será jamais total, e não deve sê-lo. O saber do A questão da construção ou reconstrução do laço social é especialmente outro não pode se reduzir a uma soma de resultados ou dados. O saber no sensível ao momento em que os grupos humanos implodem, cancerizam- sentido que tentamos defender aqui é também um saber-viver (savoir-vivre), -se, perdem seus pontos de referência e veem suas identidades se desagregar. é indissociável da construção e da habitação de um mundo, incorpora o É urgente explorar outras vias além da "inserção" por meio de um trabalho longo tempo da vida. É por isso que, mesmo que eu deva me informar e assalariado em vias de rarefação. É da mais alta necessidade trilhar outros dialogar, mesmo que possa aprender do outro, jamais saberei tudo o que ele caminhos quando a produção de comunidade por pertença étnica, nacional sabe. A necessária escuta do outro não pode se reduzir à construção de um ou religiosa conduz aos sangrentos impasses que conhecemos. Basear o laço saber a seu respeito, à mera e simples captação de sua especialidade ou das social na relação com o saber consiste em encorajar a extensão de uma civi- informações que ele detém. O aprendizado, no sentido amplo, é também um lidade desterritorializada, que coincide com a fonte contemporânea da força, encontro da incompreensibilidade, da irredutibilidade do mundo do outro, ao mesmo tempo que passa pelo mais íntimo das subjetividades. que funda o respeito que tenho por ele. Fonte possível de minha potência, Em nossas interações com as coisas, desenvolvemos competências. Por mesmo tempo que permanece enigmático, o outro torna-se, sob todos os meio de nossas relações com os signos e com a informação adquirimos co- aspectos, um ser desejável. nhecimentos. Em relação com os outros, mediante iniciação e transmissão, Se os outros são fonte de conhecimento, a recíproca é imediata. Tam- fazemos viver o saber. Competência, conhecimento e saber (que podem dizer bém eu, qualquer que seja minha provisória posição social, qualquer que respeito aos mesmos objetos) são três modos complementares do negócio seja a sentença que a instituição escolar tenha pronunciado a meu respeito, cognitivo, e se transformam constantemente uns nos outros. Toda atividade, Nunca será demais enfatizar o que essa concepção deve ao Mouvement des réseaux todo ato de comunicação, toda relação humana implica um aprendizado. d'échanges réciproques de savoir (MRERS), conduzido por Claire e Marc Ver desses autores, por exemplo, les savoirs, Paris, Desclée de Brouwer, 1991. Ver, de Michel Authier Pierre Les arbres de connaissances (prefácio de Michel Serres), A dificuldade aqui reside nos vários sentidos da palavra intelligence em além de "inte- Paris, La Découverte, 1992 (trad. bras. Editora Escuta, 1995). livro não é senão uma nota ligência" propriamente dita, pode significar também acordo, compreensão, entendimento. As duas marginal às árvores de conhecimentos que florescem hoje nas empresas, escolas, universidades e expressões citadas são respectivamente: travailler en bonne intelligence, significando "em comum quartéis e que conferem um sentido técnico e social concreto a nossas afirmações sobre a inteli- acordo com inimigo (N. do gência coletiva.</p><p>PIERRE A INTELIGÊNCIA COLETIVA também sou para os outros uma oportunidade de aprendizado. Por meio de preocupam cada vez mais em evitar o desperdício econômico ou ecológico, minha experiência de vida, de meu percurso profissional, de minhas práticas parece que se dissipa alegremente o recurso mais precioso, a inteligência, sociais e culturais, e dado que o saber é coextensivo à vida, ofereço recursos recusando-se a levá-la em conta, desenvolvê-la e empregá-la. Do boletim de conhecimentos a uma comunidade. Mesmo que esteja desempregado, escolar às grades de qualificação nas empresas, de modos arcaicos de admi- que não tenha dinheiro, não possua diploma, mesmo que more num subúr- nistração à exclusão social pelo desemprego, assiste-se hoje a uma verdadeira bio, mesmo que não saiba ler, nem por isso sou "nulo". Não sou intercambiá- organização da ignorância sobre a inteligência das pessoas, um terrível pasti- vel. Tenho imagem, posição, dignidade, valor pessoal e positivo no Espaço che de experiência, savoir-faire e riqueza humana. do saber. Todos os seres humanos têm direito ao reconhecimento de uma A coordenação das inteligências em tempo real provoca a intervenção de identidade de saber. agenciamentos de comunicação que, além de certo limiar quantitativo, só O Espaço do saber começa a viver desde que se experimentam relações podem basear-se nas tecnologias digitais da informação. Os novos sistemas humanas baseadas nesses princípios éticos de valorização dos indivíduos por de comunicação deveriam oferecer aos membros de uma comunidade os suas competências, de transmutação efetiva das diferenças em riqueza coleti- meios de coordenar suas interações no mesmo universo virtual de conheci- va, de integração a um processo social dinâmico de troca de saberes, no qual mentos. Não seria tanto o caso de modelar o mundo físico comum, mas de cada um é reconhecido como uma pessoa inteira, não se vendo bloqueada permitir aos membros de coletivos mal situados interagir em uma paisagem em seus percursos de aprendizado por programas, pré-requisitos, classifica- móvel de significações. Acontecimentos, decisões, ações e pessoas estariam ções a priori ou preconceitos em relação aos saberes nobres ou ignóbeis. situados nos mapas dinâmicos de um contexto comum e transformariam continuamente o universo virtual em que adquirem sentido. Nessa perspec- tiva, o ciberespaço tornar-se-ia o espaço móvel das interações entre conheci- O que é a inteligência coletiva? mentos e conhecedores de coletivos inteligentes desterritorializados. Atingir uma mobilização efetiva das competências. Para mobilizar as com- É uma inteligência por toda parte, incessantemente valorizada, petências é necessário identificá-las. E para apontá-las é preciso reconhecê-las coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das compe- em toda a sua diversidade. Os saberes oficialmente válidos só representam tências. Acrescentemos à nossa definição esse complemento indispensável: a uma infima minoria dos que hoje estão ativos. Essa questão do reconheci- base e o objetivo da inteligência coletiva são o reconhecimento e o enrique- mento é capital, pois ela não só tem por finalidade uma melhor administra- cimento mútuos das pessoas, e não o culto de comunidades fetichizadas ou ção das competências nas empresas e nas coletividades em geral, mas possui hipostasiadas. igualmente uma dimensão ético-política. Na era do conhecimento, deixar de Uma inteligência distribuida por toda parte: tal é nosso axioma inicial. reconhecer o outro em sua inteligência é recusar-lhe sua verdadeira identida- Ninguém sabe tudo, todos sabem alguma coisa, todo o saber está na huma- de social, é alimentar seu ressentimento e sua hostilidade, sua humilhação, a nidade. Não existe nenhum reservatório de conhecimento transcendente, e o frustração de onde surge a violência. Em contrapartida, quando valorizamos saber não é nada além do que o que as pessoas sabem. A luz do espírito brilha outro de acordo com o leque variado de seus saberes, permitimos que se mesmo onde se tenta fazer crer que não existe inteligência: "fracasso escolar", identifique de um modo novo e positivo, contribuímos para mobilizá-lo, "execução simples", "subdesenvolvimento" etc. juízo global de ignorância para desenvolver nele sentimentos de reconhecimento que conse- volta-se contra quem o pronuncia. Se você cometer a fraqueza de pensar que quentemente, a implicação subjetiva de outras pessoas em projetos coletivos. alguém é ignorante, procure em que contexto o que essa pessoa sabe é ouro. O ideal da inteligência coletiva implica a valorização técnica, econô- Uma inteligência incessantemente valorizada. A inteligência é distribuída mica, jurídica e humana de uma inteligência distribuída por toda parte, a por toda parte, é um fato. Mas deve-se agora passar desse fato ao projeto. fim de desencadear uma dinâmica positiva de reconhecimento e mobiliza- Pois essa inteligência tantas vezes desprezada, ignorada, inutilizada, humilha- das competências. Uma das condições necessárias ao salto econômico da da, justamente por isso não é valorizada. Numa época em que as pessoas se Europa no final do século XVIII foi a instauração de uma garantia jurídi-</p><p>PIERRE LÉVY A INTELIGÊNCIA COLETIVA ca eficaz da propriedade intelectual (direitos autorais, patentes, licenças de missão, invenção e esquecimento, o patrimônio comum passa pela responsa- invenção etc.). Desse modo, os inventores podiam dedicar seu tempo, sua bilidade de cada um. A inteligência do todo não resulta mais mecanicamente energia intelectual e seus recursos financeiros à inovação, sem medo de ter de atos cegos e automáticos, pois é o pensamento das pessoas que pereniza, seus esforços roubados pelos poderes da época. Desde que o direito começou inventa e em movimento o pensamento da sociedade. No entanto, o a banir os monopólios e privilégios econômicos, desde que passou a oferecer coletivo inteligente visado nesta obra não se identifica simplesmente com os meios de inscrever pública e irreversivelmente a marca de uma pessoa O estado de cultura usual. Em um coletivo inteligente, a comunidade assume física ou moral em um procedimento técnico, a inovação tornou-se atrativa. como objetivo a negociação permanente da ordem estabelecida, de sua lin- Ao se atribuir regras ao jogo da inovação, fazendo dela uma atividade legíti- guagem, do papel de cada um, discernimento e a definição de seus objetos, ma, socialmente encorajada, economicamente compensadora, desencadeou- a reinterpretação de sua memória. Nada é fixo, o que não significa que se -se uma dinâmica tecnocientífica e industrial de imenso alcance. Ora, encon- trate de desordem ou de absoluto relativismo, pois os atos são coordenados tramo-nos hoje diante da necessidade de realizar um salto do mesmo tipo na e avaliados em tempo real, segundo um grande número de critérios constan- ordem das competências e das inteligências coletivas, que não ainda temente reavaliados e contextualizados. No lugar das invisíveis" dos de nenhum sistema de avaliação, de contabilidade, representação alguma, cupinzeiros surgem as mãos visíveis e as dinâmicas imaginárias de universos nenhuma regulação jurídica digna desse nome, embora estejam na fonte de virtuais em expansão. Interagindo com diversas comunidades, os indivíduos todas as formas contemporâneas da potência. que animam o Espaço do saber, longe de ser os membros intercambiáveis de A inteligência coletiva, lembremos, é uma inteligência distribuída por castas imutáveis, são ao mesmo tempo singulares, múltiplos, nômades e em toda parte, incessantemente valorizada, coordenada e mobilizada em tempo vias de metamorfose (ou de aprendizado) permanente. real. Para evitar qualquer mal-entendido, e antes de encerrar esta introdução, Esse projeto convoca um novo humanismo que inclui e amplia o "conhe- iremos especificar o que ela não é. Não se deve, sobretudo, confundi-la com ce-te a ti mesmo" para um "aprendamos a nos conhecer para pensar juntos", projetos "totalitários" de subordinação dos indivíduos a comunidades trans- e que generaliza o "penso, logo existo" em um "formamos uma inteligência cendentes e fetichizadas. Em um formigueiro, os indivíduos são "bestas", não coletiva, logo existimos eminentemente como comunidade". Passamos do possuem nenhuma visão de conjunto e não sabem como o que eles fazem cogito cartesiano ao cogitamus. Longe de fundir as inteligências individuais se compõe com os atos dos outros indivíduos. Mas, ainda que as formigas em uma espécie de magma indistinto, a inteligência coletiva é um proces- isoladamente sejam "estúpidas", sua interação produz um comportamento de crescimento, de diferenciação e de retomada recíproca das singulari- globalmente inteligente8. Acrescentemos que o formigueiro possui uma es- dades. A imagem móvel que emerge de suas competências, de seus projetos trutura absolutamente fixa, as formigas dividem-se rigidamente em castas e e das relações que seus membros mantêm no Espaço do saber constitui para são intercambiáveis dentro de cada casta. O formigueiro fornece o exemplo um coletivo um novo modo de identificação, aberto, vivo e positivo. Novas do contrário da inteligência coletiva, no sentido em que a entendemos neste formas de democracia, mais bem adaptadas à complexidade dos problemas livro. Longe de apontar para o Espaço do saber, o formigueiro é anterior à contemporâneos do que as formas representativas clássicas, poderiam então Terra, é simplesmente pré-humano. Serão consideradas odiosas e bárbaras ver a luz do dia (veja o capítulo 4). todas as tentativas de aproximar, em maior ou menor medida, o funciona- A primeira parte desta obra é destinada à "engenharia do laço social", mento da sociedade ao de um formigueiro. que é a arte de suscitar coletivos inteligentes e valorizar ao máximo a diversidade A inteligência coletiva só tem início com a cultura e cresce com ela. Pen- das qualidades humanas. O projeto da inteligência coletiva é declinado em samos, é claro, com ideias, línguas, tecnologias cognitivas recebidas de uma todos os seus aspectos: ético (capítulos 1 e 5), econômico (capítulo 2), tecno- comunidade. Mas a inteligência culturalmente constituída não é mais fixa lógico (capítulo 3), político (capítulo 4) e estético 5 e 6). O núcleo ou programada como a do cupinzeiro ou a da colmeia. Por meio de trans- da engenharia do laço social é a economia das qualidades humanas. Que as Há um jogo de palavras entre bête (animal, besta) e stupide (estúpido). Nesse contexto, As árvores de conhecimentos são, mais uma vez, uma ilustração da factibilidade tecnos- deve-se entender a palavra "besta" no duplo sentido de animal e estúpido (N. do T.). social de tal projeto.</p><p>PIERRE forças das mensagens, das máquinas e das variedades naturais sejam por sua vez avaliadas, exploradas e contabilizadas segundo essa economia subjetiva, que o valor das coisas se exprima segundo os mesmos signos que as identi- dades das pessoas (e não o contrário!), que todo o nosso ambiente volte a ser "humano", tal é a utopia na utopia que esboça nas entrelinhas a engenharia do laço social. A segunda parte do livro, "O Espaço do saber", desenvolve a teoria dos quatro espaços antropológicos anunciada nesta introdução. Após uma apre- A ENGENHARIA DO LA sentação da Terra, do Território, do Espaço das mercadorias e do Espaço do saber (capítulo 7), define-se a noção de espaço antropológico (capítulo 8), depois se examinam os problemas da identidade (capítulo 9), da significa- ção (capítulo 10), do espaço e do tempo (capítulo 11), antes de tratar mais demoradamente da questão do conhecimento (capítulos 12, 13 e 14). Essa parte é encerrada com o esboço de uma filosofia política concebida como teoria das relações entre os espaços antropológicos (capítulo 15). Mesmo que a linearidade do texto nos tenha obrigado, às vezes, a fazer uma apresentação atada à ordem temporal, "o Espaço do saber" pretende ser uma cartografia, uma caixa de ferramentas conceitual, um guia portátil da mutação antropo- lógica, mais do que uma história. Utilizo o texto para fornecer o modo de uso das mudanças em curso, para apontar os obstáculos, indicar algumas di- reções de exploração. Não tenho pretensões à exatidão histórica e científica, mas à fecundidade filosófica e prática.</p>

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