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<p>Como as histórias são escritas? Considerações a respeito do ofício do historiador</p><p>Jivago Furlan Machado1</p><p>A história é uma área que, sem dúvida, desperta o interesse das mais diversas pessoas. Seja</p><p>como pano de fundo para o enredo de filmes, novelas, livros ou até mesmo jogo eletrônicos, ela está</p><p>presente no nosso dia a dia. Entretanto, se quisermos entender a história para além desses exemplos</p><p>mais banais, é preciso compreender como ela é feita.</p><p>A maioria das pessoas não se pergunta como as histórias que estão nos livros foram feitas. O</p><p>mais comum é que, quando surge uma questão, elas recorram a algum livro escrito sobre o tema,</p><p>sem muitas delongas. Atualmente, cada vez mais esse movimento tem sido feito através da internet.</p><p>Na dúvida, busca-se na rede algum site que apresente uma resposta razoável e, de preferência, curta</p><p>e simples. Em muitos casos, isso não chega a ser um grande problema. No entanto, há momentos</p><p>em que a resposta rápida apresentada lá não dá conta do que se quer saber, ao menos não de</p><p>maneira minimamente apropriada e segura. Além disso, mesmo o que está escrito nos livros não</p><p>pode ser tratado como algo absoluto, de caráter inquestionável, mas sim como mais um dos tantos</p><p>produtos do trabalho humano que, por isso mesmo, é fruto de interesses, técnicas e visões de</p><p>mundo. Entender como as histórias são feitas nos ajuda a evitar equívocos e nos permite ficar mais</p><p>atentos quanto às charlatanices e disseminação proposital de mentiras.</p><p>Para entendermos como as histórias são escritas, poderíamos recorrer a diversos</p><p>pesquisadores, filósofos e historiadores que nos diriam, cada um a seu modo, os variados métodos</p><p>utilizados por eles em suas composições. Para simplificar, podemos pensar em práticas</p><p>indispensável para a maioria deles, sem as quais as histórias não podem ser feitas. Nesse sentido,</p><p>podemos definir pelo menos três fatores indispensáveis para a escrita da história: os documentos, as</p><p>outras histórias e a imaginação.</p><p>Em linhas gerais, as histórias necessitam primeiramente de fontes, documentos que</p><p>comprovem suas afirmações. Esse caráter documental aproxima o trabalho do historiador com o do</p><p>detetive, ou mesmo o do caçador. Sem conseguir se fazer presente no momento do fenômeno que</p><p>pretende narrar, o historiador se utiliza dos vestígios que sobraram dele para então montar sua</p><p>narrativa. Importante ressaltar que quando falamos em documentos, não estamos nos referindo</p><p>apenas a esses pedaços de papel com nossos registros perante o Estado, tal qual as carteiras de</p><p>identidade ou de motorista, mas sim a qualquer objeto que restou no presente do passado que se</p><p>pretende conhecer. Roupas antigas, jornais velhos, livros, ferramentas, ossos, literalmente qualquer</p><p>coisa, inclusive os relatos, práticas e costumes que, mesmo não sendo palpáveis, são documentos</p><p>imateriais, passíveis de serem analisados por historiadores devidamente preparados. Sem</p><p>documentos, não é possível escrevermos histórias minimamente verídicas, que tenham algum</p><p>fundamento na realidade do que aconteceu.</p><p>Evidentemente, ainda que as fontes sejam elementos necessários para a composição</p><p>histórica, elas não são suficientes. Não basta ter um objeto antigo para se escrever uma história a</p><p>respeito da época da qual ele se origina, ou das pessoas que o utilizavam. Se apenas isso bastasse,</p><p>teríamos de aceitar as mais estúpidas e irreais elaborações como se fossem histórias dignas de</p><p>confiança, afinal, pode-se inventar praticamente qualquer coisa a respeito de um objeto aleatório. É</p><p>nesse sentido que chegamos ao segundo fator: as outras histórias.</p><p>1 Professor de História do Instituto Federal do Amazonas.</p><p>Um historiador não escreve suas narrativas isoladamente, mas com o apoio de outros livros e</p><p>pesquisas históricas que se relacionam com o tema que ele se propõe a tratar. As outras histórias já</p><p>escritas sobre o assunto, ou mesmo sobre temas correlatos, servem como parâmetro de comparação,</p><p>para que a proposta de um não descambe para o exagero interpretativo e, no limite, o equívoco ou a</p><p>má-fé. Ao comparar sua narrativa com outras, o historiador também consegue obter informações</p><p>novas, conhecer outras análises, o que aumenta suas capacidades interpretativas a respeito de seu</p><p>próprio objeto de estudo. Como dito acima, sem a comparação entre diversas histórias, recairíamos</p><p>em um mar de interpretações soltas e possivelmente sem pé nem cabeça. Além disso, também</p><p>estaríamos suscetíveis às distorções propositais com fins espúrios, como fizeram os regimes</p><p>ditatoriais do século XX, quando interpretações mirabolantes e fantasiosas a respeito da história de</p><p>uma raça ou de uma nação eram utilizadas como justificativas para as mais terríveis atrocidades.</p><p>Podemos pensar em exemplos mais banais para entendermos a importância da comparação</p><p>entre diferentes histórias, como o de um jogo de futebol. Suponhamos que tenha havido uma partida</p><p>e não a tenhamos visto. Curiosos, perguntamos a um torcedor de um dos times como foi a partida.</p><p>Evidentemente, ele nos contará sua versão enviesada e nada isenta do que assistiu, de modo que,</p><p>para termos uma ideia um pouco mais precisa a respeito do jogo, deveríamos fazer a mesma</p><p>pergunta a um torcedor do outro time. É claro que isso não nos dará a dimensão exata do jogo, mas</p><p>certamente aumentará nossas chances de compreensão.</p><p>Além dos documentos e das outras histórias, há ainda um terceiro fator, indispensável na</p><p>composição historiográfica: a imaginação. Esse elemento, diferente dos anteriores, não diz respeito</p><p>a uma escolha do historiador, mas é inerente à condição da pessoa que interpreta. Em outras</p><p>palavras, é impossível compreendermos e, portanto, escrevermo história sem imaginação. Com isso</p><p>não podemos concluir que a história pode ser escrita apenas com base na imaginação do historiador</p><p>por si só, mas sim que sempre haverá um caráter ficcional e imaginativo naquilo que se compõe. É</p><p>necessário imaginar para compreender, e isso em qualquer área do conhecimento, não só para a</p><p>história. No caso desta, a imaginação deve ser contrastada com outros dois fatores: os documentos e</p><p>as outras histórias. É a partir dessa tríplice relação, indissociável e interdependente, que as histórias</p><p>são escritas.</p><p>É importante ressaltar que existem diversos tipos de histórias escritas, nem todas elas se</p><p>adequando aos parâmetros apontados acima. É justamente ao leitor ou estudante que cabe o cuidado</p><p>de ficar alerta e observar o que se está propondo como historicamente válido. Ultimamente, existem</p><p>alguns movimentos que buscam negar os resultados de investigações e descobertas já consolidadas</p><p>no mundo acadêmico e científico, propondo narrativas pouco sólidas como alternativa. É evidente</p><p>que não podemos jamais deixar de questionar e criticar o que está posto como convencional, no</p><p>entanto, isso deve ser feito com critérios claros, com pesquisa e diálogo com a comunidade</p><p>científica, não de modo isolado e com tons apocalípticos. Para dar um exemplo, podemos pensar</p><p>que quando um pequeno grupo isolado passa a afirmar que tudo o que se sabe até então sobre</p><p>determinado tema histórico está errado, devemos desconfiar. Quais fontes eles estão usando? Com</p><p>quais histórias dialogam? Que interesses os movem? Essas e outras perguntas são essenciais para</p><p>combatermos os negacionistas na história.</p><p>A elaboração da história que estudamos na escola e que lemos nos livros especializados, em</p><p>geral, se dá através dos três fatores acima elencados, mesmo que seus autores nem sempre os</p><p>classifiquem dessa mesma forma. Saber como ela é feita nos permite melhor conhecê-la e,</p><p>consequentemente, melhor entender o mundo que nos cerca. Além disso, atentarmos para a</p><p>necessária crítica das informações que nos chegam em geral e não só da história, é uma boa maneira</p><p>de não cairmos nas tão insistentes fake news que cada vez mais têm nos assediado.</p><p>Bibliografia:</p><p>BLOCH, M. Apologia da história, ou o ofício do</p><p>historiador. Tradução de André Telles. - Rio de</p><p>Janeiro: Jorge Zahar, 2001.</p><p>HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Tradução</p><p>de Andréa Souza Menezes, Bruna Beffart, Camila Rocha de Moraes, Maria Cristina de Alencar</p><p>Silva e Maria Helena Martins. - Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.</p><p>KOSELLECK, R…[et al.]. O conceito de História. Tradução de René E. Gertz. - Belo Horizonte:</p><p>Autêntica Editora, 2019.</p><p>RICOEUR, P. Tempo e narrativa. O tempo narrado. Tradução de Cláudia Berlinder. São Paulo:</p><p>Editora WMF Martins Fontes, 2010.</p><p>RUSEN, J. Razão histórica: teoria da história: fundamentos da ciência histórica. Tradução</p><p>Estevão de Rezende Martins. - Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2010.</p>