Prévia do material em texto
<p>Conceito de anatomia e considerações gerais</p><p>Segundo um tradicional conceito proposto em 1981, “anatomia é a análise da estrutura biológica, sua correlação com a função e com as modulações de estrutura em resposta a fatores temporais, genéticos e ambientais” (DANGELO; FATTINI, 2003, n.p.). Em princípio, a anatomia é o campo da ciência que investiga a composição e o desenvolvimento dos organismos vivos em seus diversos níveis de organização. Entre seus principais objetivos, há a compreensão dos princípios da constituição dos organismos, a evidenciação da base estrutural das funções em suas várias divisões e o entendimento dos processos relacionados ao seu desenvolvimento.</p><p>O termo "Anatomia" é uma derivação do grego anatome (ana: “em partes”; tome: “corte”). Do ponto de vista etimológico, temos o seu equivalente latino na palavra "dissecação" (dis: “separadamente”; secare: “cortar”). A associação de palavras significa o ato ou técnica de cortar de maneira ordenada um objeto para conhecer a arquitetura do todo e de suas partes. Assim, consideramos como anatomia a dissecação, descrição, interpretação e avaliação de um ser e de suas partes, com base em peças fixadas anteriormente através de soluções apropriadas. É digno de nota que, atualmente, consideramos anatomia como a ciência, enquanto que dissecação é uma das técnicas utilizadas nessa ciência.</p><p>HISTÓRIA DA ANATOMIA</p><p>Estudos anatômicos são observados desde as primeiras civilizações humanas e, inicialmente, a anatomia era restrita à observação a olho nu e ao manuseio de corpos. Algumas figuras ilustres que merecem destaque: Hipócrates, médico grego considerado como o “pai da medicina”, foi pioneiro ao elaborar escritos e coleções sobre a anatomia humana; Herófilo da Calcedônia, médico grego conhecido como o “pai da anatomia”, realizou a primeira dissecação humana pública registrada; e Galeno, um médico romano, trouxe contribuições impressionantes para o campo da anatomia, compilando estudos anteriores e inferindo a função de órgãos através da vivissecção (dissecação de animais vivos).</p><p>Por não ter acesso a cadáveres humanos em seus estudos, Galeno fez afirmações comparando a anatomia animal à anatomia humana que se provaram equivocadas posteriormente. Há também Leonardo da Vinci, famoso artista e anatomista italiano, que fez descobertas anatômicas importantes, além de ser o primeiro a desenvolver técnicas de desenho em anatomia para transmitir informações utilizando seções transversais e múltiplos ângulos. Por fim, temos Andreas Vesalius, anatomista belga e autor de De Humani Corporis Fabrica, o primeiro atlas de anatomia humana e um dos mais influentes livros de todos os tempos (SINGER, 1996).</p><p>Com o advento da imprensa, a divulgação de ideias e descobertas científicas foi extremamente facilitada, permitindo a expansão global da anatomia humana. Com isso, o próximo grande salto foi a expansão através da aquisição de novas tecnologias, que auxiliaram no estudo da anatomia de cadáveres e indivíduos vivos. Assim foi estabelecida a anatomia como conhecemos atualmente.</p><p>TERMINOLOGIA ANATÔMICA BÁSICA</p><p>Como toda atividade, a anatomia tem uma linguagem própria. Pesquisadores e profissionais de saúde utilizam termos específicos ao se referirem às estruturas do corpo e suas funções. Assim, a linguagem na anatomia precisa de significados definidos com precisão, permitindo uma comunicação que seja clara e concisa. Para evitar confusões, os anatomistas definiram a terminologia anatômica, que é o vocabulário oficial de palavras empregadas para nomear e identificar o organismo ou suas partes. O grego antigo e o latim constituem a base da maioria dos termos e expressões anatômicas, mas cada país pode traduzi-los para sua própria língua.</p><p>Ao nomear uma estrutura, a terminologia anatômica busca utilizar termos que não apenas colaborem na memorização, como também apresentem informações sobre a estrutura em questão. Por isso, foram abolidos os epônimos, os nomes de pessoas designando estruturas anatômicas e condições clínicas. Nos últimos 100 anos, a maioria dessas designações concedidas em homenagem a outrem foi substituída por termos mais pertinentes.</p><p>Anomalia e monstruosidade</p><p>// Normalidade e variação anatômica</p><p>Nós, seres humanos, somos diferentes uns dos outros. Esse conceito, aparentemente óbvio, de que temos diferenças físicas (como forma do corpo e rosto) em relação às pessoas à nossa volta é muito importante para anatomia humana, uma vez que também podemos observar essas diferenças no interior do corpo humano.</p><p>Assim sendo, algumas observações estruturais em um livro podem não ser válidas para todos os indivíduos ou cadáveres que você encontrar em um laboratório de anatomia.</p><p>As descrições anatômicas seguem um padrão que não abrange a possibilidade de variações. Esse padrão considera as estruturas que ocorrem com maior frequência na população. Assim, os anatomistas usam uma abordagem estatística para alcançar a seguinte definição: uma estrutura que se encontra mais frequentemente em uma amostragem de indivíduos é denominada normal ou dentro da normalidade. Quando ocorre uma estrutura diferente do que é observado na maioria das pessoas e sem prejuízo das funções, chamamos de variação anatômica.</p><p>ANOMALIA E MONSTRUOSIDADE</p><p>Ocasionalmente, podem acontecer variações morfológicas que afetam as funções, como vemos nas más formações, em que uma pessoa pode nascer com um dedo a mais no pé, por exemplo. Caso o desvio do padrão anatômico produza alteração funcional, estamos diante de uma anomalia. As anomalias podem ser congênitas (má formação na gravidez) ou adquiridas (sequela de uma lesão ou doença).</p><p>Temos como exemplos de anomalias: lábio leporino, fenda palatina, dedos supranumerários. Quando a anomalia é tão acentuada que deforma a construção do corpo do indivíduo, sendo comumente incompatível com a vida, tal condição é designada monstruosidade. Temos como exemplo de monstruosidade: a agenesia (não formação) do encéfalo.</p><p>O campo que estuda essas variações disfuncionais é a teratologia. A partir de seus estudos, a medicina cirúrgica tem feito avanços no sentido de corrigir imperfeições físicas, permitindo aos portadores de anomalias e monstruosidades uma vida normal. Por outro lado, monstruosidades podem ser produzidas pela própria ciência, como as crianças nascidas de gestantes que ingeriram talidomida.</p><p>EXPLICANDO</p><p>A talidomida é um medicamento que, na década de 60, era usado no tratamento de resfriados, insônia e náuseas, principalmente em grávidas nos primeiros meses de gestação. Com o tempo, foi observado que o medicamento causava monstruosidades nos fetos, como a focomelia (ausência parcial de um ou mais membros). Por isso, o uso de talidomida é proibido para mulheres grávidas. O caso da talidomida foi fundamental para a elaboração dos conceitos de vigilância dos medicamentos, assim como debates éticos sobre as condições de vida e os direitos das pessoas nascidas com deficiências.</p><p>FATORES GERAIS DE VARIAÇÃO ANATÔMICA</p><p>Observamos que as variações anatômicas acontecem de maneira costumeira nos indivíduos. Algumas são identificadas em determinado grupo ou fase da vida da população e são denominadas fatores de variação anatômica. Assim, podemos citar: idade, sexo, etnia, biótipo e evolução.</p><p>Idade: é o tempo de duração da vida. Ao longo das fases da vida intrauterina e extrauterina, podemos notar algumas modificações anatômicas.</p><p>a. Fase intrauterina: dividida em ovo (durante os sete primeiros dias), embrião (até o fim do segundo mês) e feto (até o nono mês);</p><p>b. Fase extrauterina: dividida em recém-nascido (até primeiro mês após o nascimento), infante (até o fim do segundo ano), menino (até o fim do décimo ano), pré-púbere (até a puberdade), púbere (dos 12 aos 14 anos, período da maturidade sexual), jovem (até 21 anos no sexo feminino e 25 anos no sexo masculino), adulto (a partir dos 50 anos, período da menopausa feminina e processo equivalente no homem) e velho (após os 60 anos);</p><p>Sexo: é o conjunto de estruturas funcionais que define a masculinidade ou feminilidade. Mesmo</p><p>quando não observamos os genitais, é possível reconhecer características especiais referentes ao sexo masculino ou feminino;</p><p>Raça: é o conjunto de características físicas, externas e internas, comuns entre grupamentos humanos específicos. Também é comumente dividida em três grupos étnicos: os negroides, os caucasianos e os mongoloides e seus entrecruzamentos. Vale destacar que o conceito de raças humanas é discutível, uma vez que pesquisas recentes em genética humana comprovam que o DNA é o mesmo entre os diferentes grupos, compondo uma só raça: a humana;</p><p>Biótipo: é a manifestação da combinação de características herdadas e adquiridas com a interação com o meio. Geralmente é classificado com base na construção corpórea, sendo divididos em longilíneos, brevilíneos e mediolíneos (Figura 2).</p><p>a. Os longilíneos são caraterizados como magros, alta estatura, pescoço longo, tronco achatado e membros longos em relação ao tronco;</p><p>b. Os brevilíneos são atarracados, baixa estatura, pescoço curto, tronco alongado e membros curtos em relação ao tronco;</p><p>c. Os mediolíneos apresentam características intermediárias aos outros biótipos;</p><p>Evolução: é o processo que influencia o surgimento de diferenças estruturais ao longo do tempo, algo que propicia o aparecimento de novas espécies. Vale lembrar que a evolução é contínua e ocorre em todas as espécies viventes, inclusive a espécie humana.</p><p>Além desses citados, podemos incluir também o meio ambiente, o esporte, o trabalho e os processos mórbidos (que ocorrem após a morte) como fatores que influenciam as variações anatômicas. No entanto, levando em consideração esse último, as condições observadas nos cadáveres não correspondem com exatidão ao que é encontrado in vivo, em especial no que se refere à coloração, consistência e elasticidade. Com isso, devemos sempre comparar o estudo das estruturas de um cadáver ao de um indivíduo vivo.</p><p>Posição, planos e eixos anatômicos: termos anatômicos</p><p>// Posição anatômica</p><p>Com o intuito de evitar confusão na utilização de termos diferentes em seu ofício, os anatomistas definiram uma posição padronizada para suas descrições anatômicas, conhecida como posição de descrição anatômica ou somente posição anatômica.</p><p>A posição anatômica (Figura 3) apresenta um indivíduo ereto (em pé), com a face dirigida para a frente, olhar direcionado para o horizonte, membros superiores estendidos juntos ao tronco com as palmas para frente e membros inferiores unidos, direcionando as pontas dos pés para frente. Assim, não importa se o cadáver esteja em decúbito dorsal (o dorso aderido à mesa) ou decúbito ventral (ventre aderido à mesa), deve ser considerada a posição de descrição anatômica em seus estudos.</p><p>// Planos e eixos anatômicos</p><p>Planos são superfícies planas imaginárias que utilizamos como referência quando relacionamos partes do corpo. Sendo assim, com base na posição anatômica, podemos delimitar o corpo humano através de planos, tangenciando sua superfície como se o indivíduo estivesse dentro de uma caixa retangular e cada parede dessa caixa imaginária representasse um plano de delimitação, sendo os principais:</p><p>· Dois planos verticais, um passando à frente do corpo: plano ventral ou anterior – e outro por trás corpo: plano dorsal ou posterior. São também conhecidos como planos frontais;</p><p>· Dois planos verticais, passando pelos lados do corpo: planos laterais direito e esquerdo;</p><p>· Dois planos horizontais, um por cima da cabeça: plano cranial ou superior – e outro por baixo dos pés: plano podálico ou inferior. Caso o tronco seja isolado dos membros, designamos o plano horizontal, que limita esse tronco por baixo, como caudal.</p><p>Além de conhecer os planos de delimitação, é comum também estudar as estruturas internas do corpo através de cortes (secções) em diversas formas e examinar suas divisões. Esses planos de referência são conhecidos como planos de secção, sendo os principais:</p><p>· O plano vertical, que divide o corpo humano ou órgão em lados direito e esquerdo, denominado plano sagital. Porém, se esse plano atravessa a linha mediana do corpo, é denominado plano mediano;</p><p>· O plano vertical, que divide o corpo humano ou órgão em partes anterior e posterior, chamado de plano frontal ou coronal;</p><p>· Os planos horizontais, que dividem o corpo humano ou órgão em partes superior e inferior, denominados planos transversais.</p><p>Por fim, existem os eixos anatômicos, que são linha imaginárias formadas pelo encontro de dois planos. Os eixos principais são:</p><p>· Eixo sagital ou ântero-posterior, que une o centro do plano sagital ao centro do plano transversal;</p><p>· Eixo longitudinal ou craniocaudal, que relaciona o centro do plano coronal ao centro do plano sagital;</p><p>· Eixo transversal ou laterolateral, que conecta o centro do plano transversal ao centro do plano coronal.</p><p>TERMOS DE POSIÇÃO E DIREÇÃO</p><p>Com base no conhecimento sobre os planos de delimitação e secção do corpo, é possível indicar a situação e a posição dos órgãos, ou partes do corpo em função deles, utilizando os conhecidos termos descritivos da posição e direção dos órgãos. Para indicar direção, os termos são considerados aos pares, cada um indicando uma direção oposta (Quadro 1).</p><p>Vale comentar que o termo médio aponta estruturas que estão entre duas outras partes, podendo estar entre ventral (anterior) e dorsal (posterior); entre cranial (superior) e caudal (inferior); entre interna e externa; ou ainda entre proximal e distal.</p><p>Abordagens anatômicas e divisão do corpo humano</p><p>// Abordagens anatômicas</p><p>A extensão das abordagens possíveis na anatomia é ampla (Quadro 2), abrangendo estudos das variações estruturais a longo prazo, considerando desde os eventos de duração intermediária no desenvolvimento e envelhecimento, até as variações de curto prazo, relacionadas com as diferentes fases de atividade funcional. Em termos de complexidade, pode-se compreender todo um sistema biológico considerando organismos inteiros, órgãos, organelas celulares e até macromoléculas.</p><p>// Níveis de organização do corpo humano</p><p>Entendendo as várias perspectivas de abordagens anatômicas, convencionou-se analisar as estruturas humanas a partir de seus diferentes níveis de organização.</p><p>As menores unidades biológicas, as células, organizam-se em tecidos, estabelecidos como um complexo de células similares que realizam a mesma função. Também capazes de se agrupar funcionalmente, os tecidos compõem os órgãos. Esses, por sua vez, com mesma estrutura e origem, que possuem funções similares e interagem para realizar funções complexas, são nomeados de sistema. Em conjunto, os sistemas constituem o corpo humano.</p><p>As regiões do corpo humano apresentam as seguintes subdivisões:</p><p>· Cabeça: fronte (a testa); occipital (nuca); têmpora (porção lateral, anterior à orelha); orelha; mandíbula e face;</p><p>· Pescoço;</p><p>· Tronco: tórax; abdome; pelve e dorso;</p><p>· Membro superior: cintura do membro superior; axila; braço; cotovelo; antebraço e mão (carpo, metacarpo, palma, dorso da mão, dedos da mão);</p><p>· Membro inferior: cintura do membro inferior; nádegas; quadril; coxa; joelho; perna e pé (tarso, calcanhar, metatarso, planta, dorso do pé).</p><p>// Divisão do corpo humano</p><p>Com base na anatomia macroscópica, podemos dividir o corpo humano principalmente utilizando duas perspectivas: a localização e a proximidade das estruturas do corpo humano (anatomia regional ou topográfica) ou com base em estruturas com funções em comum (anatomia sistemática ou descritiva).</p><p>A abordagem sistêmica, que é a mais utilizada no ensino de anatomia, utiliza uma perspectiva mais fisiológica, estudando os seguintes sistemas orgânicos:</p><p>Quando ocorre a reunião de dois ou mais sistemas que tenham relações íntimas no que diz respeito a desenvolvimento, localização ou função, é constituído um aparelho. Os principais aparelhos do corpo humano são:</p><p>· Locomotor: constituído pelos sistemas esquelético, articular e muscular;</p><p>· Urogenital: constituído pelos sistemas urinário e genital (masculino ou feminino).</p><p>Considerando a abordagem regional, a organização do corpo humano se divide nas seguintes regiões:</p><p>cabeça, pescoço, tronco e membros. A cabeça consiste na extremidade superior do corpo, que se une ao tronco por uma região estreita, o pescoço. Os membros compreendem dois na região superior do tronco (membros superiores) e dois na região inferior (membros inferiores). Por fim, o tronco, também chamado de torso, é uma região central que interliga todas as extremidades.</p><p>image1.png</p><p>image2.png</p><p>image3.png</p><p>image4.png</p>