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<p>S.VYCOTSKY 211 R$ 19,20 ESTUDOS Psicologia SOBRE 13/02/09 128 HISTORIA DO COMPORTAMENTO SIMIOS HOMEM PRIMITIVO E CRIANCA 611.8 es 1</p><p>L. S. VYGOTSKY A. R. LURIA ESTUDOS SOBRE A HISTÓRIA DO SÍMIOS HOMEM PRIMITIVO E CRIANÇA Coordenação e organização desta edição: Victor 1. Golod Harvard University Jane E. Knox Bowdoin College Tradução: V996e L.S. Lourenço de Estudos sobre a história do comportamento: símios, homem primitivo e / L.S. Vygotsky e A.R. Luria; Consultoria, supervisão revisão técnica trad. Lólio Lourenço de Oliveira. - Porto Alegre : Artes desta edição: Médicas, 1996. Marta Kohl em Psicologia da Educação pela 1. Psicologia do comportamento. Universidade de Stanford, I. Luria, A.R. da Faculdade de Educação da USP-SP. CDU 150.194 Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto - CRB ARTES ISBN PORTO 1996</p><p>Obra originalmente publicada sob o título Studies on the history of behavior: ape, primitive, and child Lawrence Associates, Inc., 1993 Capa: Mário Preparação do original: Leda Kiperman, Flávio Cesa Supervisão editorial: Bispo de Lima Editoração AGE - Assessoria Gráfica Editorial Ltda. Este livro é dedicado à saudosa memória meu amigo e mentor, Victor Golod (1946-1991) Reservados todos os de publicação lingua à EDITORA ARTES MÉDICAS SUL LTDA. Av. Jerônimo de Ornellas. 670 - Fones 330-3444 e 330-2183 Fax (051) 330-2378 - 90040-340 Porto RS. Brasil LOJA CENTRO Rua General Vitorino, 277 - 225-8143 90020-171 Porto Alegre. Brasil IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZII.</p><p>Sumário Apresentação James V. Werisch 9 Agradecimentos 15 Prefácio Jane E. Knox 17 Estudos sobre a história do comportamento: introdução 51 1. COMPORTAMENTO DO MACACO ANTROPÓIDE 55 Três estágios do desenvolvimento do comportamento 55 Os experimentos de Köhler 60 A lei da estrutura e o comportamento dos macacos 69 o intelecto c a experiência natural dos macacos 74 o intelecto como terceiro estágio no desenvolvimento do comportamento 80 uso do instrumento como requisito psicológico para o trabalho 86 2. o HOMEM PRIMITIVO E SEU COMPORTAMENTO 93 Três linhas de comportamento psicológico 93 teorias do desenvolvimento histórico-cultural 96 homem primitivo como tipo biológico 101 A do homem primitivo 106 o pensamento ligado ao dn linguagem na sociedade primitiva 120 As operações numéricas e o homein primitivo 133 o comportamento primitivo 143</p><p>3. A CRIANÇA E SEU COMPORTAMENTO 151 Abordagens da psicologia do adulto 151 o adulto e a criança: o principio da metamorfose 152 bebê e seu mundo 155 A percepção primitiva 157 Apresentação o pensamento primitivo 160 A caminho da cultura 177 A aquisição de instrumentos 180 Desenvolvimento cultural de funções especiais: a memória 184 James V. Wertsch Desenvolvimento cultural de funções especiais: a atenção 195 Desenvolvimento cultural de funções especiais: a abstração 201 Clark University Desenvolvimento cultural de funções especiais: a fala e o pensamento 207 o estágio de desenvolvimento cultural da criança 214 Defectologia e psicologia 220 Retardo e talento 226 A perspectiva teórica delineada por Lev Semenovich Vygotsky pode ser com- A avaliação do talento c os problemas do desenvolvimento cultural 235 cm termos de três temas gerais que estão presentes cm todas as suas obras: (a) uso de um método genético, ou de desenvolvimento; (b) a afirmação de que o funcionamento mental superior no indivíduo provém processos sociais; (c) a 239 afirmação de que os processos sociais psicológicos humanos são moldados funda- Referências bibliográficas mentalmente por ferramentas sociais, ou formas de mediação. O surto de interesse Indice de autores 243 contemporâneo pela abordagem de Vygotsky tem-se centrado em grande medida no segundo desses três temas, particularmente do modo como ele se manifesta na idéia vygotskiana de "zona de desenvolvimento proximal" (p.ex., Cole, 1985; Moll, 1990; 245 Rogoff, 1990; Rogoff e Wertsch, 1984). A ver, o tema relativo à media- ção é o mais interessante e especificamente vygotskiano dos três, embora apenas esteja começando a receber a atenção que merece (p.ex., Cole, 1990; Wertsch, 1991). No final das contas, porém, nossa compreensão do segundo do terceiro temas fica limitada enquanto não se tenha uma idéia mais elaborada de seu método genéti- co, porque esses três temas definiam-se reciprocamente no pensamento de Assim sendo, uma explicação de cada um deles depende de que se progrida na com- preensão dos demais. Esse inter-relacionamento não deve ser subestimado. No que eu próprio escrevi (p.ex., Wertsch, 1985, 1991), tenho feito diferença entre os temas numa tentativa de apresentar a abordagem de Vygotsky; mas também tenho assina- lado que, afinal de contas, só se pode compreender o significado de cada um deles compreendendo-se sua relação com os demais. Vale observar que próprio Vygotsky jamais estruturou sua abordagem por meio desses três temas Estudos a História do () Primitivo e Crian- é um dos mais importantes documentos de que dispomos para a compreensão das pretensões de Vygotsky relativas a um método genético, ou de desenvolvimento, A redação desta apresentação o apoio da Spencer As afirmações feitas e as opi- niões expressas são de responsabilidade exclusiva do autor. Estudos sobre História do Comportamento 9</p><p>de sua abordagem que provavelmente tem menor atenção. Muito mudando para um novo tipo de O ponto disso é o reco- livro tenha a co-autoria do discipulo colega Vygotsky, Alexander nhecimento deles de que há "mudanças no lipo mesmo de afir- Romanovich Luria, por todo o texto surge dc mancira evidente a fala condutora mação que torna qualquer idéia paralelismos dirctos; ao invés Vygotsky. Não é de uma que o texto foi escrito num momento cm postula que diferentes desenvolvimento nos diferentes que estava no meio de sua ainda que prolifica, quando Luria Com isso em mente, Vygotsky Luria nos momentos cruciais uma equipe de pesquisa. Isto de modo algum deprecia as brilhantes do desenvolvimento do comportamento. A seu ver, eram uso de contribuições dadas por Luria a outras áreas da psicologia, da neurolingüística à tos, nos macacos, o trabalho o uso de signos psicológicos, no homem primitivo, psicologia transcultural; antes, o que se pretende é à mostra a relação existente a ruptura da linha de desenvolvimento cm psicológico-natural C entre Vygotsky Luria no final da década de 1920 e da de 1930. psicológico-cultural, na criança". Dessa perspectiva, em cada genético os As idéias esboçadas na introdução de Vygotsky Luria, C depois desenvolvidas processos de desenvolvimento são conduzidos por forças e propriedades específicas nos três capítulos que SC seguem, apresentam a mais extensa visão isolada que daquele domínio. Por os princípios evolucionistas darwinianos aplicam-sc dc seu método geral de O pressuposto inicial deles é o de que à filogênese, enquanto uma versão do lamarckianismo responde pelas transições da qualquer exposição adequada a respeito do comportamento deve na análi- história sociocultural. Desse ponto de vista, uma abordagem de desenvolvimento, ou genética, Como outros já observaram Wertsch, 1985), as frontciras entre os do- não constitui apenas um entre muitos métodos; mais do que isso, fundamenta todos mínios genéticos não são, na verdade, tão nítidas quanto supunham Vygotsky os demais. Vygotsky insiste nisso cm outras obras como Mind in Society (1978), na Recentes descobertas da antropologia física C da que a qual afirmou que estudo histórico [no sentido mais amplo de do com- hominização envolveu extenso de sobreposição (algo da ordem de 2 milhões portamento não constitui um aspecto auxiliar do estudo antes, porém, cons- de anos) entre filogênese C história sociocultural. Isto SC ao que cm geral titui sua base própria. Como afirmou P.P. Blonsky, '() comportamento só pode ser se admitia ao tempo em que Vygotsky e Luria Na opinião deles, tinha-sc compreendido como história do (p. 65). certo que a havia culminado com uma transição qualitativa final de Tendo como ponto de partida compromisso geral com genético, que se originara organismo do homo sapiens, isso, por sua permitira que SC Vygotsky Luria passaram a identificar linhas principais no desenvolvimento iniciasse a história sociocultural. A enorme sobreposição, que hoje geralmente do comportamento - evolutiva, histórica Ao incorporar essas três admite ter existido entre dois domínios genéticos, significa que o desenvolvi- linhas, ou "domínios genéticos", (Wertsch, 1985, 1991) à sua abordagem, Vygotsky mento cultural ou protocultural forneceu parte do contexto para a hominização Luria expõem um modo de ver que difere acentuadamente do da maioria dos estu- portanto, influenciou a evolução orgânica no decorrer dela. Porém, esse caráter da- diosos enquadrados na categoria de psicologia do tado da perspectiva de Vygotsky Luria de modo algum desmente suas afirmações Hoje cm dia, a expressão psicologia do desenvolvimento quase que gerais a respeito das diferenças nos processos de desenvolvimento em ação nos di- exclusivamente ao domínio genético da ontogênese tipicamente, ainda mais versos domínios genéticos, as quais desautorizam os pressupostos reducionistas aos períodos da infância da Em contraposição a esse recapitulacionistas que continuam a insinuar-sc na psicologia e disciplinas correlatas. modo de ver, Vygotsky e Luria afirmam que uma análise genética completa deve Outros aspectos da argumentação proposta por Vygotsky e Luria neste volume dos modos pelos quais o conhecimento a respeito dos três domínios genéticos também são datados. Por exemplo, a partir de 1930 houve muito progresso em an- para nossa compreensão do comportamento do funcionamento tropologia social cultural C algumas descobertas atuais contestariam muitos dos além de considerar que modo determinada forma de funcionamento men- de sua argumentação. Por exemplo, o fato de que hoje sabemos muito mais as transições ontogenéticas que conduziram a cla, deve-se também levar sobre as línguas do mundo do que se conhecia cm 1930 indica que já não se accitam em consideração as forças da filogênese e da história sociocultural que a moldaram. mais algumas das generalizações dos a respeito dc níveis de complexidade Quanto a isso, o método genético aqui delineado acompanha, sob vários aspectos, As mesmas críticas também se aplicam a muitas de suas afirmações outros genéticos, tais como Werner (1926), frequentemente citado por gerais a respeito da complexidade cultural. Vygotsky Além dos progressos, existem simples diferenças entre 1930 e hoje, no que diz Ao definir em detalhe os domínios da da história sociocultural C da respeito às árcas investigação consideradas legitimas C de louve uma Vygotsky e Luria uma posição anti-recapitulacionista muito espécie de mudança de paradigma das abordagens evolucionistas cm direção a aná- afirmações a respeito de mero paralelismo entre os domínios lises culturais, da análisc linguistica em direção ao C cultu- genéticos nos processos de Em sua introdução, afirmam que cada ral. Figuras como Boas (1916, 1966), Sapir (1921, 1931) Whorf (1956) abriram representa uma nova cra na evolução do comportamento: "um processo de caminho para a do tipo de ordenação cvolucionista das linguas culturas desenvolvimento prepara-se dialeticamente para seguinte, transformando-se e que desempenha papel tão essencial na argumentação dos autores. Na verdade, 10 1. A. R. Luria Estudos a História do</p><p>mudança dc rumo não meramente um progresso na direção de uma suprema (afirmação que, de todo modo, seria dificil que um relativista de- Rogoff, B., & Wertsch, J.V. (orgs.). (1984). Children's learning in the of proximal development" (Monografia 23). In New directions for child development (pp. 1-102). Francisco: Jossey- l'endesse). Ao invés disso, representa uma mudança de paradigma associado a análi- Bass. ACS estruturalistas que são notoriamente dificeis de conciliar com informações sobre Sapir, E. (1921). Language: All introduction the study of Nova York: Harcourt mudança cultural psicológica. Sapir, E. (1931). Conceptual categories in primitive languages. Science, 74, p. 578. Assim, embora alguns dos das afirmações de Vygotsky Luria a res- Vygotsky, L.S. (1978). Mind in society: The development of higher psychological processes (M. Cole, V. John-Steiner, & E. Souberman, orgs.). Cambridge, MA: Harvard University Press. de cultura possam estar ultrapassados, isso não questiona a abordagem genéti- Werner, H. (1926). in die à psicologia do desen- que buscavam delinear. Ainda não chegamos a ter pleno domínio sobre volvimento]. Leipzig, J.A. Barth. coino lidar com propriedades estruturais complexas de culturas e por um Wertsch, J.V. (1985). and the social formation of Cambridge, MA: Harvard University e transições genéticas, por outro. Por exemplo, como assinalam Wertsch e Press. (no prelo), dedica-se muito pouca atenção, na psicologia do Wertsch, J.V. (1991). Voices of the mind: A sociocultural approach to mediated action. Cambridge, MA: Harvard University in a fatores históricos à mudança histórica. Uma das manifesta- Wertsch, J.V., & Tulviste, P. (no prelo). L.S. Vygotsky and contemporary developmental psychology. estado geral das coisas é que, num momento de crescente intercâmbio Developmental Psychology. entre psicólogos antropólogos, continua a haver pouco contato produtivo entre Whorf, B.L. (1956). Language, thought, and reality: Selected writings of Benjamin Lee Whorf (J.B. e historiadores, Por todas essas razões, a tentativa de Vygotsky e Luria Carroll, org.). Cambridge, MA: MIT (Obras originais escritas em 1927-1941). uma "nova psicologia genética" que dissesse respeito aos múltiplos do- do desenvolvimento conserva grande importância em nosso tempo. livro é um texto crucial para a compreensão desta e de inúmeras outras Pondo ao alcance de leitores do inglês esta obra de dois dos maiores do século XX, os tradutores e editores deram contribuição da maior importân- cin. do mais, deve-se observar que esta não é uma tradução comum. O conhe- clinento dns e o material que Golod e Knox usaram para levar a cabo seu trabalho fazem deste livro uma das melhores traduções que possuímos de obras de e Luria. Mais do que uma tradução precisa, trata-se de uma tradução que conserva muito do sabor do estilo dos próprios autores. Além disso, graças ao vigor e ao engenho de sua investigação Golod e Knox pro- porcionaram-nos incursões nas fontes das idéias dos autores que pela primeira vez são dadas a Algumas dessas descobertas são passadas em revista na introdução de Knox, outras se apresentam no correr de todo o texto. Esse empreen- resultou numa tradução precisa, completa clegante de uma obra muito importante para a psicologia áreas afins. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS F. (1916). The mind of primitive man. Nova York: F. (1966). In F. Boas (org.), Handbook of American Indian Languages (pp. Nebraska: University of Nebraska Press. M. (1985). The zone of proximal development: Where culture and cognition create each J.V. Wertsch (org.). Culture. communication, and cognition: perspectives (pp. 146-161). Nova York: Cambridge University Press. M. (1990). Cultural psychology: A once and future discipline? In J. Berman (org.). Nebraska Symposium on Cross-cultural perspectives, Vol. 37, pp. 279-336. L. (org.). (1990). and education: Instructional implications and applications of Nova York: Cambridge University Press. B. (1990). Apprenticeship in thinking: Cognitive development in social context. Nova York: Oxford University Press. 12 A. R. Luria Estudos sobre a História do 13</p><p>Agradecimentos manifestar nossa gratidão a todos aqueles que nos ajudaram na pesquisa dessas informações que faltavam. De modo especial, a Peeter Tulviste (De- partamento de Psicologia, Universidade de Tartu, Estônia), James V. Wertsch (De- partamento de Psicologia, Universidade de Clark), Robert LcVine (Faculdade de Educação, Universidade de Harvard), Lena Moskovichyute (Universidade de Boston, Faculdade de Medicina, Neurologia do Comportamento), Bencie Woll (Departa- mento de Educação, Universidade de Bristol, Inglaterra), Victor Shnirelman (Insti- tuto de Etnologia e Antropologia, Moscou), Alex Kozulin (Faculdade de Medicina de Boston), Mary Towle (Centro de Pesquisa Russa, Universidade de Harvard) e Jaan Valsiner (Universidade de Carolina, Chapel Hill). Queremos agradecer parti- cularmente a Catherine Snow (Diretora da Faculdade de Educação de Harvard) por suas sugestões relativas à seção sobre a fala infantil. As dotações e bolsas que deram suporte a um ambiente de pesquisa excelente para a preparação deste texto, tanto na União quanto nos Estados Unidos, foram provenientes do IREX (Intercâmbio para a Pesquisa Internacional), da Aca- demia Nacional de Ciências, do Centro de Pesquisa Russa da Universidade de Harvard e do Bowdoin College. Nossos agradecimentos especiais à American Communications Foundation, de Los Angeles, pelo apoio às etapas finais deste livro, a Charles Banks, do Centro de Computação do Bowdoin College, que ajudou na impressão deste texto, e aos muitos estudantes e outros colegas de Bowdoin que nos ajudaram neste manuscrito, particularmente Amanda Bichsel, Jennifer Andich e Vladimir Kitaigorodsky. Final- mente, desejo agradecer aos meus grandes amigos Alexander e Svetlana Rosin, Tatyana Gorlina, Slava Gaufberg, Lee Vida e Dcan Johnson, Vladimir Voina e a meu filho, Robert Knox, que, com sua dedicação e apoio, permitiram que este manuscrito completado após a morte prematura de Victor Golod, mcu querido colega, amigo, e co-organizador deste livro. Jane Knox Estudos do Comportamento 15</p><p>Prefácio Jane E. Knox Bowdoin College Estudos sobre a História do Comportamento: Macaco, Primitivo e a Crian- ca sua primeira edição cm 1930 e desde essa data não voltou a ser publicado em russo pelas razões apresentadas na introdução a este livro. O renovado interesse pela obra de L.S. Vygotsky e de A.R. Luria, tanto na Rússia quanto no Ocidente, faz da publicação deste livro uma contribuição oportuna para estudiosos de muitas áreas: psicologia, educação, e antropologia cultural. Como ocorre cm muitas suas obras, Vygotsky utiliza aqui muitas referên- cias obscuras que não foram identificadas. No que esteve a nosso alcance, suprimos essas referências faltantes para os capítulos e 2, para os quais o próprio Vygotsky não forneceu nenhuma. A.R. Luria contribuiu com as referências e notas de rodapé para o capítulo 3, salvo indicação em contrário. AMBIENTE INTELECTUAL E SOCIAL A fim de compreender e avaliar de maneira completa a contribuição de Lev Semenovich Vygotsky e Alexander Romanovich Luria para o campo da psicologia moderna, é preciso, primeiro, que sua obra seja vista dentro do quadro de seu tempo, dentro do contexto das teorias e idéias predominantes com as quais esses dois estu- diosos tiveram que se haver para chegar a uma nova orientação condizente com uma nova psicologia soviética; psicologia essa que tinha que corresponder às necessida- des e de uma sociedade que acabara de surgir de uma revolução que afetou todas as camadas e áreas da cultura russa. Dentre as estruturas ideológicas que moldaram o pensamento do século XX talvez nenhuma tenha tido impacto de tanta influência quanto o produzido pelas teorias da evolução das espécies de Darwin. Neste livro, Vygotsky e Luria estendem as teorias de Darwin sobre a evolução biológica para uma teoria de mudança cultural e ontogenética, afirmando a existência de estágios históricos de dos fenômenos men- tais, à medida que a mente desenvolve do macaco para o homem primitivo e para o História do Comportamento 17</p><p>homem cultural. Provém de Darwin a idéia desenvolvimento de estágios inferiores as formas de comportamento de macacos quanto de humanos segundo a qual os "povos primitivos". por exemplo, encontram-se num são encaradas aqui em termos de semiótica, isto atividade que organiza e estágio inferior ou, em outras palavras, anterior da evolução histórica do homem. transforma objetos (varas, corda, tinta, pedaços de papel colorido, etc.) Este livro representa importante marco na busca universal empreendida por signos culturais ou instrumentos significativos, a screm empregados para manipular ou psicólogos modernos princípios gerais controlam a o desenvolvi- o ambiente c, a seguir, para comunicar-se com outros a mento das capacidades intelectuais humanas, que determinam de que modo clas Como assinalou Colc, "As abordagens C histórica do estudo organizam, se encadeiam transformam no correr dc uma vida", para usar as da natureza humana não foram peculiares a Vygotsky. na União da década de palavras de Gardner (1985, p. 32), no livro em que descreve as modernas teorias da 1920. Na psicologia, um colega mais velho, Blonsky, havia assumido a posição de que inteligência. Contudo, Vygotsky e Luria estavam interessados no desenvolvimento uma compreensão das funções mentais complexas requer a análise do desenvolvimen- no curso de uma vida (ontogênese), mas no curso de todo o desenvolvimento to". De Blonsky, Vygotsky adotou a idéia de que comportamento só pode ser compre- humano No sentido estrito da palavra, não apresentam apenas uma endido como a história do Além disso, "Blonsky era também um anti- abordagem transcultural, em que se comparam diversos grupos étnicos de povos go defensor da opinião de que as atividades tecnológicas das pessoas cram uma chave pré-letrados, mas uma abordagem que examina os diferentes estági- para a compreensão de sua constituição psicológica, posição explorada por Vygotsky os de pelos quais passa a espécie humana, desde seus primórdios em grande detalhe" (Colc, Scribner, John-Steiner & Souberman, 1978, p. 8). nos macacos antropóides. Para a teoria do desenvolvimento humano de Vygotsky, os Atividade ou "ação" com instrumentos passa a ser o exato ponto de na his- termos cultural histórico são importantes; contudo a maior posta sobre as tória do desenvolvimento Como assinalou Wertsch (1991), "considera-se que diferenças históricas. Como assinalou Wertsch (1991), "Bascando-se nas idéias de ser humano cria e entra em contato com suas circunstâncias, bem como consigo próprio, Hegel, Marx, Lévy-Bruhl e outros, cle (Vygotsky) tendia a ver o que hoje chamaría- através das ações cm que SC Desse modo, é a ação ou, melhor, a interação, C mos de diferenças transculturais como diferenças trans-históricas esse é um ponto não os seres humanos isolados, que oferece o ponto de partida para o (p. 8). importante que distingue de Vygotsky das desenvolvidas na antropologia A abordagem vygotskiana-luriana abrange duas escolas de pensamento opostas a norte-americana por Franz Boas, Edward Sapir C Benjamin Lee 16). respeito do desenvolvimento humano: aquela que veio a ser conhecida em nossos dias (Para uma descrição completa da abordagem trans-histórica de Vygotsky, leia-se como escola behaviorista norte-americana (originária do paradigma estímulo-resposta Puzyrei [1986], Van der Veer [1991] Van der Veer & Valsiner [1988, 1991].) de Pavlov, que o indivíduo é tratado primordialmente como receptor passivo das A abordagem trans-histórica aqui apresentada por Vygotsky Luria corresponde informações provindas do ambiente) a linha cartesiana de pensamento que encara "a a uma nova orientação difundida todos os ramos da ciência no início do século mente humana mais termos categorias e estruturas universais e inatas" que o orientação que rejeitava a atitude predominante no século XIX, por exemplo, ambiente desempenha papel secundário, meramente como dispositivo que cm relação à linguagem. Segundo Roman Jakobson, essa orientação surgiu como dispara determinados processos de desenvolvimento" (Wertsch, 1991, p. 8). "contra cientista de orientação naturalista que retalhava seu material cm Segundo Kozulin (1990c), uma obra anterior de Vygotsky, Psicologia Educa- um sem número de partes" (Jakobson, 1). cional, apresenta "as de Pavlov cm termos bastanic apologéticos, afirmando que os reflexos deveriam tornar-se o fundamento da nova psicologia" (p. 67). Além Surgia por toda parte uma nova orientação na direção da organização de unidades, estruturas disso, esse texto parece "temperado com citações do influente líder e teórico do segundo qual não era o grande número ou a soma de clementos sucessivos, mas partido, Leon Trotsky", de tal modo que "às vezes o texto é tão não-vygotskiano que sim a relação entre eles, que determinava o sentido do Os sons da que até o mais parece uma página de um popular de propaganda comunis- do século XX haviam sido meramente objeto da psicologia dos da fisiologia dos (Kozulin, 1990c, p. 69). sentidos, foram afinal, na mais verdadeira acepção das palavras, incorporados à isto sons da fala passaram a ser estudados quanto a valor de signo especialmente Contudo, muito embora nestc livro Vygotsky louve a dos reflexos condicio- quanto a sua função de transmitir significado. (Jakobson, p. 2. grifo nosso) nados, agora elc os supera, centrando-se nas idéias posteriores de Pavlov. Ou Vygotsky enfatiza e amplia a idéia de Pavlov do reflexo orientado por objetivos como Neste livro, a atenção sobre veículos simbólicos reais de pensamento, criados mais importante estímulo para conduzir uma sociedade de operários orientada pelo tra- historicamente no correr de gerações, está centrada não só sobre símbolos orais e balho. As pessoas devem sempre ter um objetivo pelo qual lutar. Precisamente a partir escritos, mas também sobre gestos, sistemas de contagem, sistemas de rememoração dessa luta é que se desenvolve todo o pensamento humano; quanto maior a dificuldade C outros símbolos humanos. atingir essa meta, maior a energia "psíquica" despendida para consegui-lo, posição A idéia de signos de valor de signo constitui o princípio subjacente à investigação que Vygotsky compartilhava tanto com Bühler quanto com de Vygotsky e Luria sobre o uso "instrumentos psicológicos" pelo macaco, pelo que Vygotsky tomou termo psíquico dos psicólogos gestaltistas alc- homem primitivo e pela criança. Essa idéia incorporou-se cm larga escala ao estudo do mães ou "mentalistas" C o utilizou repetidamente por todas as suas obras, a começar 18 S. A. R. Luria sobre História do Comportamento 19</p><p>pela Psicologia da Arte (Vygotsky, 1925/1971). O termo tem sido traduzido de ma- versos de sociedades humanas. No correr de todo livro, fica claro que Vygotsky neira diversa por estudiosos norte-americanos. Alguns utilizam o termo mental e C Luria compartilhavam a opinião dc (1965) de que "Na vida mental do outros o termo psicológico, como na expressão "funções psicológicas superiores" homem, tudo o que não constitua reação do organismo aos estímulos que (Cole, Scribner, John-Steiner & Souberman, 1978; Kozulin, 1990b, 1991); (Van der recebe é necessariamente de social" (p. 15). 1991), ou "funções mentais superiores" (Wertsch, 1985). Do mesmo modo que Thurnwald e Levy-Bruhl, Vygotsky e Luria estavam inte- Na frente interna soviética, onde o treinamento de reflexos tornou-se a pedra ressados na história dos processos mentais reconstruídos a partir de evidências an- angular da ideologia para a formação do novo homem Vygotsky estava tropológicas da atividade intelectual de povos primitivos. O desenvolvimento dos mais próximo de Anokhin, "primeiro a começar a pensar a respeito do processos mentais "primitivos" compreendidos historicamente atenção espc- e do problema do (Joravsky, 1989, p. 394). Pro- cial neste livro e é extensamente discutido mais curando preencher a lacuna existente entre a ortodoxia pavloviana o "mundo pen- Como em outros pontos das obras de Vygotsky (1986, 1983/no prelo), o estilo sado na Anokhin realizou experimentos que mostraram que "as Gestalten idiossincrático deste livro é característico de muitos escritores e pensadores da década de persistem" mesmo quando "os arcos reflexos são drasticamente alterados", isto é, 1920, quando se atribuía grande importância ao papel do diálogo com os outros e à que tornaram impossível continuar pensando todos os comporta- interiorização desse diálogo como estrutura da própria fala Por exemplo, Bakhtin mentos como cadeias de reflexos. (Joravsky, 1989, p. 396). (1895-1975), critico literário e filósofo da linguagem de Vygotsky, pro- Exatamente neste ponto é que Vygotsky se afasta do Pavlov oficialmente punha que todos os nossos pensamentos são formas de diálogos internalizados com os o qual zombava duramente do mentalismo alemão e particularmente dos experi- outros, cujas vozes são internalizadas, retrabalhadas e incorporadas à nossa: cm outras mentos para testar inteligência em chimpanzés (Pavlov, 1955, pp. 551-604). Neste palavras, a voz de uma pessoa "dá a ilusão de unidade ao que diz"; de fato, porém, essa livro, Vygotsky dá quase um salto quantum para a posição de Köhler e Bühler, pessoa está "constantemente expressando uma plenitude de significados, alguns deles afirmando que, muito embora um reflexo condicionado surja como "resultado de intencionais, outros dos quais [a pessoa] não se dá conta" (Holquist, 1981, p. xx). Sc- instrução ou treinamento processo lento e dificcis situações gundo essa linha de pensamento, mentes' numa só cabeça em novas cm que um macaco subitamente encontra por acaso uma solução para um uma só consciência dialógica expandida (CDE) são mutuamente transparentes; cada problema criando um novo instrumento, forma (configuração), caminho ou, no caso uma delas penetrou a outra profundamente, ainda que não se misturem, mas se mante- do homem primitivo ou da criança, uma nova palavra, frequentemente faz sem nham como duas diferentes" (Radzikhovskii, 1986-1987, p. 14). instrução C adapta-se à nova exigência ou nova circunstância precisamente quando Esse conceito duplas ou múltiplas ou centros de uma só consciência "os movimentos instintivos treinados já não são Como escreve Vygotsky encontram seu reflexo na prática da vida real de escrever obras em colaboração; neste texto, "O trabalho do intelecto começa no ponto cm que a atividade do instinto encontra-se, por exemplo, no cerne de toda a controvérsia que envolve a identidade dos reflexos condicionados se detém ou é bloqueada". de três dos contemporâneos de Vygotsky Voloshinov, Medvedev e Bakhtin - cujas Vygotsky foi influenciado também pela obra psicólogos, sociólogos C antro- vozes, para muitos, fundem-se numa só, isto é, a que se tornou conhecida como pólogos da Europa ocidental. De psicólogos ocidentais como Bühler, Vygotsky sendo a de Bakhtin. Isso serve como exemplo extremo de pensamento, escrita e tomou a idéia de funcionamento ou, mais precisamente, da criação de instrumentos criatividade dialógicos e colaborativos, numa época em que culto do indivíduo era como a unidade primária do comportamento "Bühler considerava que a menosprezado, época em que os escritores ou grupos eram estimulados a trabalhar de Freud sobre o prazer da satisfação era apenas um terço completa: acres- coletivamente e a apresentar-se numa só voz, isto é, "nós" - fenômeno que sobrevi- o prazer de e o prazer de criar" (Corsini, 1984, p. 175). Bühler fez veu até hoje entre os estudiosos da antiga União Soviética. remontar as sementes dessa criatividade ao comportamento No primeiro A "dupla voz" é muito característica do estilo em que este livro foi escrito. Para capitulo de The Mental Development of the Child, Bühler (1919/1930) estudou os usar a definição de Bakhtin, freqüentemente vemos aqui as palavras de uma outra pes- começos da linguagem e da arte remontando a seus princípios: Instinto, Treinamento soa como se "houvessem aberto caminho para dentro de sua fala [neste caso, a de Vygo- Baseou-se muito na psicologia comparada na pesquisa feita por Köhler tsky]... e a influência delas acarretasse uma reorganização radical" de modo que "às com macacos, galinhas e outros animais. Grande parte do que foi dito por Bühler vezes, a fala de uma outra pessoa, além de sua influência sobre a estrutura e sin- Köhler está presente no primeiro de Vygotsky. tática, deixa atrás de si uma palavra ou duase, às vezes, toda uma sentença. A palavra Além disso, no capítulo 2 deste texto, Vygotsky segue a tradição de Augusto Comte, que sustentava que "as funções mentais superiores mantêm-se ininteligíveis enquanto estudadas a partir do Accitando as descrições do pensamento Holquist (1981) explicou que "Há grande controvérsia quanto à autoria de três livros que sido "primitivo" de Vygotsky afirma que, para compreendermos as funções Bakhtin: Freudianism (1927) Marxism and the Philosophy of Language ed., 1930), ambos publicados sob nome de V.N. Voloshinov, The Formal Method in Literary Scholarship mentais superiores, devemos levar em consideração o desenvolvimento de tipos di- (1928). publicado sob o nome de P.N. (p. xxx). 20 A. R. Luria sobre a História do 21</p><p>está presente com tão forte marca da fala de outro que, de vez em quando, irrompe subi- tamente e assume a forma da fala direta da outra pessoa" (Bakhtin, 1973, pp. 172-173). Talvez a mais pronunciada da maioria dos norte-americanos do que tomam para expressar concretos que nossas linguas dão por subente Há vezes em que é muito dificil dizer se a voz é, de fato, a de Vygotsky ou de não-expressos. Um para dizer que um homem matou um teria 9 outra pessoa. fenômeno bakhtiniano do discurso citado ou indireto que acabamos o homem, elc, um, animado, pé (no CRSO nominativo) intencionalmente matou atirando de descrever é evidente aqui; por exemplo, que começa como palavras de Vygotsky uma flecha o coclho, um, animal, sentado (no caso objetivo). (p. 140) terminará como palavras de Lévy-Bruhl, sem que haja qualquer demarcação muito clara que indique onde uma fala e onde outra começa. Em muitas passagens, Assinale-se que em ambos os exemplos a primeira cada uma das duas pas- todo um pensamento anteriormente expresso por Lévy-Bruhl surge neste texto sem sagens constitui uma dupla tradução, ou seja, uma tradução do texto russo de referência à passagem de How Natives Think [As funções mentais nas Vygotsky, que se baseia em seu conhecimento ou lembrança de uma tradução russa sociedades inferiores]. Por exemplo, ao descrever a natureza carregada de imagens de Lévy-Bruhl, donde ser uma tradução de uma tradução do original*. concretas da fala primitiva, Vygotsky escreve: disso, as passagens extraídas do texto francês de Lévy-Bruhl, Les Fonctions Mentales Dans des Sociétés foram aqui apresentadas a partir da tradução publicada Os tasmanianos não possuem palavras para especificar qualidades tais como doce, cm How Natives Think. Isso torna dificil fazer uma comparação palavra por duro, frio, comprido, curto e redondo. Ao invés de "duro", dizem "como pedra". em lugar de palavra das duas diferentes versões dos textos acima citados. É evidente que nos "alto" - "pés altos"*, de "redondo" - "como uma bola", "como a e também textos de Vygotsky as palavras de Lévy-Bruhl fluem acima e fora dos limites demar- um gesto que o explica. (p. 170) cados, isto é, as aspas que indicam a voz deste último. O mesmo fenômeno pode compararmos isso com o texto de Lévy-Bruhl (1910/1926), ali encontramos encontrar-se no capítulo 1, SC SC comparar () texto de Vygotsky com passagens de passagem semelhante: The Mentality of the Apes, de Köhler (1921/1926). Muitos vygotskianos encaram cssa de Vygotsky como uma negli- Os não possuem palavras para representar idéias abstratas c, embora gência acadêmica talvez apenas desculpável pela natureza muito grave de sua pro- pelo nome, cada variedade de árvores ou de arbustos, não possuem uma longada doença (tuberculosc), que levou à morte cm 1934, negligência inevitável palavra para árvore. Não conseguem expressar qualidades, tais como mole, quente, frio, redondo, alto, Para dizer "duro", diriam: como pedra; para alto, pernas grandes; re- devida à urgência febril com que trabalhou para produzir tudo quanto pudesse antes dondo, como uma bola, como a lua; e assim por diante, sempre associando suas palavras a gestos, de morrer. Segundo Joravsky (1989), gênio incrivelmente jovem. teve que reali- destinados a trazer o que estão descrevendo para diante da pessoa a.quem se dirigem. (p. 179) zar sua enorme obra cm alta velocidade, enquanto a 0 obrigava a repou- periódicos, recolhido ao leito, e levou à morte prematura (1934, com trinta e Passagem mais complicada ou problemática é aquela em que Vygotsky passa sete.anos)" (p. 255). do relato indireto do texto de Lévy-Bruhl para o relato Escreve Vygotsky: os tempos dificeis da Revolução os anos que se de Por isso é que em certos casos cm que um europeu pode usar uma ou duas palavras, às guerra civil e a intranquilidade política não tornavam trabalho de pesquisador o homem primitivo emite por a frase: "um homem matou um na lingua uma coisa fácil e grande parte dessc trabalho tinha que estar orientado da tribo dos indios ponka, seria dita literalmente assim: "o homen aquele vivo (caso nominativo) para a solução de problemas sociais concretos, por exemplo número crescente de em pé matou intencionalmente arremessar uma flecha um coclho aquele vivo (caso acusativo) bandos de crianças ou incapacitadas que precisavam ser educadas e transfor- sentado". (p. 140) madas em membros produtivos da nova sociedade O fato de o próprio O texto análogo em How Natives Think, de (1910/1926), reza o Vygotsky não ter um apartamento durante vários anos num cômodo do subsolo do Instituto de Psicologia, de receber um "par amento quase simbólico seguinte: dando aulas cin diversas faculdades e pesquisas muitos laboratórios N de R.T.: A expressão "vissokie nogui" original russo de foi por de pesquisa quase uma norma época" tornava "muito dificil o June Knox para o "high feet" altos). No texto de que a certa- progresso de idéias teórico e desinteressado e a atividade acadêmica clássica no a fonte das palavras de a mesma expressão (11a tradução inglesa do original fran- sentido que essas palavras têm no Ocidente" (Kozulin, 1990c, p. 111). "his legs" (pernas grandes). () que se é lingua russa, existe palavra Contudo, pode haver ainda outros fatores envolvidos. Em primeiro lugar, con- (noga) para designar "perna" e e foi esta a escolhida pela se ta-se que Luria disse que Vygotsky cra um leitor veloz, com uma memória fotográ- optado por "perna" ainda mais semelhantes ficariam, textos de e Embora este é exemplo claro do discutido a seguir pela autora desta fica, que podia recordar palavra por palavra passagens de qualquer livro que lives- à multiplicidade de vozes mesmo tránsito entre versões de se impressionado de mancira especial. Naquela época, as pessoas não tinham accsso mesmo texto em linguas e autoria intelectual. fazer esta digressão em portu- tradução hrasileira a partir do estamos obviamente acrescentando mais alguns componentes complexo jogo de textos e N.T.: Traduzida uma vez mais, agora para 22 S. A. R. Luria Estudos sobre História do 23</p><p>fácil a fontes originais, nem possulam biblioteca pessoal. Era retornar cultura para "fora do barco da lugar de fontes, de modo que Vygotsky pode ter precisado lembrá-las apenas de memória. É direito as capacidades naturais da natureza humana que os hábitos e cultu- plausível que rico material que Vygotsky havia lido no correr dos anos se tivesse de uma aristocracia haviam sufocado ou, pion ainda, O mantido fotograficamente cm sua memória, mesclando-se à sua própria voz. Além primitivismo o movimento de arte mais importante. Além disso, cm alguns muitas de suas idéias cm obras reaparecem palavra por dos soviéticos como os Formalistas, a percepção in palavra em obras posteriores, como se sido por exemplo, a fantil foi proclamada superior à do adulto cultural. Acreditava-se nisso porque, nes- passagem hoje frequentemente citada a respeito dos dois estágios do desenvolvimen- ponto do desenvolvimento, a percepção não SC tornara ainda automática, todas as to da fala da criança (interpessoal, intrapessoal), que quase todo estudioso de Vygotsky sensações físicas provindas da interação com o mundo ainda se mantinham na me- pode recordar com exatidão. É bastante interessante que grande parte do capítulo 2, mória misturadas aos clementos ou afetivos, e a ainda bcm como certas seções de outras seja dedicado ao fenômeno da memória não havia devorado a vida não havia ainda extraído da pedra o "empedernido" fotográfica (Shklovsky, 1965, p. 12). Em segundo lugar, devido à enfermidade de Vygotsky, alguns de seus manus- Os poetas futuristas utilizavam a linguagem do "zaum" (transenso) critos foram compilados e retrabalhados por entre os quais Luria, para revitalizar criar uma linguagem nova, fugindo modo dos despojos da cujo nome é dado como o autor do capítulo 3. Muitos dos volumes foram compostos moderna que havia perdido contato com a vida C com a essência humana. a partir de materiais diversos, apenas mais tarde compilados coletivamente e prepa- Com a ascensão da ciência c da tecnologia, veio o temor de que as palavras não rados para publicação. Inicialmente, por uma "troika" que se formou incluindo Luria viessem a mais do que instrumentos abstratos, raios X sem a riqucza refulgente c mas que acabou por ampliar-se para um grupo de oito, com a inclusão de de conteúdo que se encontra na linguagem da criança ou na antiga linguagem dos Bozhovich, Levina, Morozova, Slavina e Zaporozhets. Como assinalou Kozulin primitivos. (1990c). "O trabalho do grupo era verdadeiramente coletivo. Todos os membros Em suma, a literatura e a arte do início do século XX consideravam que o accitavam a liderança teórica de Vygotsky cada um deles tinha a liberdade de "primitivo" era natural e superior e que o "cultural" era algo artificial, afastado do utilizar as idéias de Vygotsky em sua própria pesquisa. Essa atitude comunitária em primordial e natural, De fato, na descrição que faz do desenvolvimento dos povos relação à propriedade intelectual cria inúmeros problemas para o historiador para primitivos, Vygotsky refere-se ao "efeito Baldwin" segundo o qual a evolução é o (p. sempre acompanhada de involução 2). Por isso, os compiladores de edições recentes de Vygotsky têm-se visto diante Contra essa idéia popularizada de primitivismo, o próprio Vygotsky redefiniu do problema da falta de notas ou citações de fontes originais das opiniões expressas esses termos à luz de sua tcoria do desenvolvimento: como homem progride ao por outros estudiosos. Por exemplo, essa tem sido uma grande dificuldade para os longo da história, a criança, através dos estágios de desenvolvimento de sua vida, organizadorcs c de publicações recentes das obras de o estágio primitivo ou natural não é por estágios culturais Vygotsky. No correr livro, procuramos sempre indicar todas as passa- antes, como andaimes por sobre aqueles, alterando, reestruturando gens de obras de outros autores utilizadas por Vygotsky, mas que, por adaptando esses processos naturais. Assim, a psicologia de um homem cultural qualquer razão, deixaram de citadas. não é superior nem inferior, mas diferente da dc um homem primitivo, assim como a psicologia de um adulto diferente da de uma criança, especialmente uma criança TERMINOLOGIA: "PRIMITIVO" E "CULTURAL" A abordagem feita por Vygotsky das capacidades "primitivas" ou que encontram tanto cm crianças quanto nos chamados povos "primitivos", não- termos devem ser definidos não da perspectiva de hoje, mas a partir do instruídos ou é uma ampliação abordagem contexto das duas primeiras décadas da União Soviética c, de maneira especial, a feita por do pensamento dos povos primitivos. Em How partir da época da Revolução Russa. Naqucia época, houve uma tentativa de jogar a Natives (1910/1926) disse, por exemplo, "Deixemos de lado a desse alaque leve sua expressão 110 Manifesto Futurista dc dezembro de 1912. "Um Como exemplo desse Kozulin (1990c) assinalou que "Por um lado, está claro que tapa na cara do gosto escrito por Kruchenykh, Mayakovsky e obra tão grande quanto A história do desenvolvimento superiores, comple- passado sufoca. Academia Pushkin são do que Pushkin, tada em 1931, cm muitos dos estudos realizados por diferentes membros do grupo, Tolstoi, etc., etc., devem jogados para fora do Navio da grados teoricamente por Vygotsky. Há, porém, casos menos claros, como o do artigo de Luria "Pro- mos que os seguintes direitos dos poctas deven ser sentir um insuperável pela blemas do comportamento cultural da criança" (p. 111). lingua que existiu antes deles. & 24 A. R. Luria " do 25</p><p>tentativa imputar sua atividade mental a uma inferior à nossa" (p.78). nos instrumentos culturais criados para os ouvintes. Essc tipo dc teste só Vygotsky refere-se à controvérsia de com a escola britânica de antropo- deficiência tem como a rotulação dc inferioridade. Tanto nestes logia, accitando a critica que elc faz a Tylor c Frazer: eles confundiam "simples" sobre a História do Comportamento quanto nos Fundamentals of com "indiferenciado". A influência de Lévy-Bruhl é perceptível na expo- a idéia a de que diferentes abordagens psicológicas ou mentais de sição de Vygotsky sobre as línguas a opinião de uma tarefa, dependendo do contexto ou domínio cultural cm que a tarefa é dada. que "primitivo não significa simples línguas 'menos desenvolvidas', como as que Vygotsky amplia essa visão da linguagem primitiva, assinalando que os dois são usadas pelos aborígenes australianos, pelos abipones. pelos andamaneses, pelos estágios descritos por Lévy-Bruhl podem ser vistos também no desenvolvimento da fujianos, etc. apresentam uma boa dose de complexidade. São muito menos 'sim- linguagem infantil. Vygotsky à visão que tem da magia como ples do que embora muito mais primitivas" 1910/1926, p. um traço primário, independente do pensamento primitivo, concorda com Thumwald 22). cm que a magia só se desenvolve num estágio posterior, quando houver ocorrido Como assinalou van der Veer (1991), Vygotsky elogia a Lévy-Bruhl por sua considerável enculturação que permita ao primitivo fundir sua "fantasia" ou caráter afirmação de que os processos mentais superiores nos povos "primitivos" não cram místico (mágico) com os mundos de signos exteriores. Essa discussão sobre a magia inferiores, mas diferentes dos dos povos "culturais" ou "civilizados" (pp. 9-10). A volta a surgir em estudo ulterior de Vygotsky (1991) sobre a fantasia na idéia fundamental da teoria histórico-cultural não era necessariamente uma ordena- cia, quando, à semelhança da magia no segundo estágio do dcsenvolvimento da men- dos diversos grupos étnicos, mas sim uma descrição dos diferentes estágios de talidade primitiva, "a fantasia não é encarada como função primária, independente desenvolvimento dos processos mentais superiores em relação aos diferentes está- ou principal" e desenvolvimento é da formação do conceito (p. gios c condições do desenvolvimento histórico. 73). Kozulin dá a seguinte interpretação do conceito de Vygotsky de processos su- Para Vygotsky, tanto no desenvolvimento do primitivo como no do adolescente, periores ou culturais c de processos mentais inferiores ou naturais: "As formas primitivas foram dc interesse primordial por ajudarem a explicar a mica da emergência do tipo mediado de processo mental a partir de um tipo sincrético" Os processos mentais superiores, por sua envolvem processos mais c mais (Kozulin, 1990c, p. 118). dependendo da de mediação. Em segundo lugar, os processos mentais supe- Um ponto de partida para as teorias de Vygotsky é a descrição feita por riores possuem uma natureza mediada, sendo o papel de mediador desempenhado pelos siste- Bruhl do processo de pensamento primitivo, não como antilógico ou alógico, mas mas semióticos que podem ser tão simples quanto os gestos e tão complexos quanto o discurso literário. Finalmente, desenvolvimento c a composição dos processos mentais superiores sim como uma atividade pré-lógica; isto significa, antes de mais nada, que CSSC tipo humanos dependem de formas cultural e historicamente específicas de mediação de atividade mental "não se obriga, como faz nosso pensamento, a evitar contradi- (Kozulin, 1991, p. 342; ver também Wertsch, 1985) (Kozulin, 1990c, pensamento primitivo à "lei da participação": "a mentalidade pré-lógica é essencialmente sintética" (Kozulin, disso, embora os mecanismos de atividade mental difiram com os cstá- 1990a, p. 108). Ela combina, por associação uma abundância de percepções gios, dentro dos grupos, dependendo da aquisição de instrumentos culturais, as indiferenciadas, variadas, difusas e que estão na memória de pacidades primárias ou subjacentes não diferem. Essa idéia foi aprofundada forma eidética. exposta de maneira mais explícita por Vygotsky (1983/no prelo) na descrição que Contudo, os sistemas de signos culturalmente aceitos, tais como os sistemas fez do trabalho experimental com crianças "limitadas" abandonadas: por exemplo, escrita, começam a rearrumar, estruturar e sistematizar essa fartura de matéria- uma criança surda não é uma criança com um desenvolvimento mas sim prima, desenvolvendo funções mentais ou avançadas (atenção, vonta- uma criança que se desenvolve de diferente, segundo os diferentes instru- de, etc.), que libertam a memória de uma sobrecarga de elementos e detalhes mentos culturais que sejam utilizados para contornar a deficiência (neste caso a ficos, e assim por diante. O modo como Vygotsky trata o estágio superior de desen- surdez) construir sobre as capacidades inatas intactas. volvimento cultural é, contudo, curocêntrico: acompanha o exemplo Como assinalou van der Veer (1991), "A implicação desse modo de ver era que de outros psicólogos que encaravain o pensamento ilustrado, racional ou não se deve submeter pessoas de outras culturas a tarefas tomadas de nossa cultura da Europa como 0 estágio mais recente e mais avançado (hierarquicamente falando) a seguir, tirar conclusões a partir de seu desempenho possivelmente do psicológico. Ainda assim, elc não ignora a importância do tipo Pois isso seria julgá-los por nossos padrões ocidentais e considerar seu pensamento de pensamento característico da mentalidade "primitiva" que ainda se pode encon- como uma forma rudimentar do nosso, abordagem condenada explicitamente por trar, em graus diversos, em adultos culturais, idéia essa que, de certo modo, (p. 11). Analogamente, cm Fundamentals of Vygotsky corresponde às teorias das inteligências múltiplas de Gardner (1985) e as valoriza. critica a avaliação crianças deficientes unicamente com base na medida quantita- Muitos dedicado atenção a diferentes tipos de liva de completadas dentro da dos ouvintes, isto c. testes bascados de pensamento estoniano (1987, p. Estudos sobre do 27 26 R.</p><p>heterogeneidade do pensamento humano no interior uma cultura ou de uma só diversos grupos étnicos na remota Ásia Central soviética que, por assim dizer, não mente humana, juntamente com a idéia de que o pensamento sofre transformações passaram pelo desenvolvimento industrial comum por que haviam passado todos os qualitativas no decorrer de sua evolução, deve ser considerada das 'descobertas países modernos daquela época. Pelo fato de que o objetivo de Stalin era coletivizar importantes' de Como diz Tulviste (1987), o prefácio da edição russa e industrializar todas as populações, os experimentos que davam atenção a popula- de Primitive Thought. Lévy-Bruhl, lança luz sobre a natureza dessa ções semi-analfabetas cram muitas vezes considerados, ainda hoje o são por al- heterogencidade: guns estudiosos como algo negativo. Essa abordagem era muitas vezes erroneamente julgada como um tipo de "racismo", através do qual, pensava-se, al- Não há duas formas de pensamento para a humanidade, uma lógica outra pré-lógica, separa- gumas nacionalidades ou culturas populares cram julgadas não como das uma da outra por um muro o que há são estruturas de pensamento diferen- mas como inferiores. Como mostramos anteriormente, essa é uma leitura claramen- tes, que existem na mesma c muitas vezes, cm uma só mesma equivocada dos termos primitivo. primário ou natural dc Vygotsky-Luria mente. (pp. 14-15) Segundo Cole, Scribner, John-Steiner & Souberman (1978), os Estudos sobre a história do comportamento "serviram como incentivo a duas de Luria Vygotsky tomou como ponto de partida essa visão de Lévy-Bruhl de que esses à Ásia Central, em 1931 e 1932, cujos resultados foram publicados muito depois da dois tipos de pensamento lógico e pré-lógico não são incompatíveis e não neces- morte de Vygotsky" (p. 9). Essas expedições foram organizadas e chefiadas por A. sariamente se anulam mutuamente. Em "Na mentalidade dos povos primitivos, o lógico e o pré-lógico não estão dispostos em camadas e separados entre Luria, porque o próprio Vygotsky estava doente demais com tuberculose para viajar si como o óleo e a água num copo. Eles se interpenetram, c o resultado é uma mistura até a república asiática soviética de Usbequistão. O objetivo do experimento era ver de que modo a influência da cultura as influências sociais modificam o estado das que constitui uma substância muito dificil de diferenciar" (Tulviste, 1987, p. 106). funções psicológicas tais como percepção, memória, memória verbal e assim por Essa visão é extensamente ampliada no 2 c, mais tarde, ganha forma diantc. mais generalizada em outras obras de Vygotsky. Por exemplo, em Fundamentals of Os locais de de Luria para scus experimentos psi- Defectology, o mais importante enquadramento da discussão das crianças deficien- cológicos na Ásia Central (Usbequistão) foram variados, cidades c a idéia de dois níveis de desenvolvimento, "o natural, fisiológico, ou biológico, como Samarcanda, aldeias muito remotas da cadcia de montanhas- Alaiskii por um lado, e 0 histórico-cultural, por outro" (Vygotsky, 1983/no prelo). A linha aldeias de fazendas estatais, onde a coletivização já começara a ocorrer. A. Luria histórico-cultural é internalizada mediante o uso de instrumentos psicológicos, dos escreveu ter escolhido como sujcitos dos testes: (a) "mulheres analfabetas reclusas, quais a linguagem é a mais importante. Essa segunda linha de desenvolvimento so- que viviam na metade da casa destinada às mulheres, com rosto coberto pelo ao comportamento natural c 0 transforma radicalmente, mas não o substi- yashmak nosso] c que não falavam com ninguém a não serseus maridos"; (b) tui: clc se impregna na estrutura da personalidade como um todo. "ativistas de fazendas cstatais"; e (c) "jovens que haviam completado cursos rápi- dos" (citado in A. Luria, 1991, p. 86). Para A. Luria era óbvio que os testes psicológicos não podiam ser aplicados da CRIANÇAS E ADULTOS COMO SUJEITOS DE EXPERIMENTOS maneira tradicional; ao invés disso, deviam ser executados, como escreveu em seu diário, "por meios especialmente planejados", tema subjacente a este livro. Os momentos mais cruciais do desenvolvimento da histórico-cultural ou meios correspondiam às circunstâncias e aos costumes daqueles dos testes sócio-histórica do desenvolvimento, claborada por Vygotsky scus colegas, tcvc e, assim, não podiam de ser significativos para e de refletir mais adequa- lugar no princípio da década de 1930. O primciro tema a que se dedicaram foi a a sua atividade cognitiva". Assim, testes, determinação social das funções psicológicas superiores. Eles estavam intercssados escreveu A. Luria, com uma conversa no ambiente natural na prova experimental desse fato encontraram uma oportunidade interessante e da cabana do chá, onde a maioria dos habitantes locais passa a maior realizar experimentalmente um estudo psicológico dc pessoas naquela parte de scu tempo livre, ou cm torno da fogueira noturna nos pastos da montanha. ainda cram analfabetas na União Gradativamente, adivinhações, preparadas, iam sendo Para CSSC fim, duas foram de especial interesse para Vygotsky introduzidas na conversa" (citado in A. Luria, 1991, p. 86). adivinhações Luria, serviram como sujeitos experimentais para testar seus (a) a po- eram alguns dos pulação cada vez maior sem lar desamparados, da Guerra Civil Um dos maiores obstáculos no caminho dos cra a resistência que das grandes fomes do início da década de 1920; e (b) as populações muitos dos moradores dessas remotas aldeias (kishlak) sentiam naturalmente em sua las diversas regiões remotas da União ainda interação com os membros das expedições. Como escreveu A. Luria, "mais dificil primeira categoria dc crianças serviu base às de Vygotsky ainda era os pastores das montanhas, especialmente as mulheres quirguizianas of ( ) segundo grupo representava 28 A. Estudos sobre História do 29</p><p>que gritavam "NÃO ENFEITICEM MEU FILHO!" (citado cm L. Luria, 1991, p. ramente político, como que os não tinham ilusões a 85). As mulheres assistentes do Instituto de Pesquisas dc Usbek aplica- respeito do poder ou autoridade dos naqucia região. Essa talvez seja apc- vam os testes no setor da casa destinado às mulheres (ichkara). nas uma das razões por aqueles dados só foram publicados cm 1973-1974 objetivo dessas expedições psicológicas era demonstrar diretamente num Luria; 1974a, 1974b). "cxperimento concreto que todos os processos psicológicos possuem caráter históri- Alexander Luria não permissão para continuar essa pesquisa extrema- co" (citado em A. Luria, 1991, p. 84). A. Luria escolheu a Ásia Central por ser mente importante interessante sobre a singularidade cultural ou Usbequistão um país de longa herança cultural que "Produziu gênios como Ulugbek, le remoto povo da Ásia Em suas próprias palavras, "Fui acusado de todos Ala Burini, Avitsenna, mas cssa cultura pertencia a uma camada muito reduzida os pecados mortais, até mesmo racismo, c obrigado a abandonar o Instituto intelectuais, todo resto [do cra analfabeto" (citado cm L. Luria, 1991, p. de Psicologia" (citado cm A. Luria, 1991, p. 98). 85). Porém, com a oficial dc Stalin de promoção da alfabetização universal, Após a segunda expedição, a Comissão MKK RKI (Comitê Consultivo Inter- que isso por isso, as expedições tinham urgência em estudar nacional Inspeção de Operários Camponeses) passou a atuar no Instituto não as mudanças psicológicas numa população que deslocava historicamente do anal- deixou pedra sobre pedra, desferindo duro na histórico-cultural da psi- fabetismo para a alfabetização bem sob os olhos de Luria. Ele cologia proposta por Vygotsky A. Essa devastação da escola histórico- cultural vygotskiana influiu no curso dos quarenta anos seguintes de Era um periodo muito quando um povo atrasado e analfabeto, acuado islamismo, pesquisa de Luria c no destino desse livro, levando-o a abandonar novas pesquisas acabava de herdar condições de outra cultura: a estava em andamento, o analfabe- do mesmo tipo. recurso feito por Luria, em carta à Comissão, mostrou-sc infruti- tismo sendo liquidado, tudo bem sob nossos Podiamos ver em que grau a cultura estava fero, de modo que nenhuma outra escolha restou do que deixar de lado durante influenciando A formação dos processos psicológicos. (Citado cm A. Luria, 1991, p. 85) quarenta anos material que cm suas expedições mudar a orientação de Em outras palavras, todos os conceitos e idéias discutidos neste livro iam ser suas pesquisas, empreendendo um novo programa de investigações clínicas sobre testados por aquelas A equipe dc 14 pesquisadores de Luria coletou afasia em Kharkov, na Academia Psiconcurológica Ucraniana de Kharkov (A. Luria, quase 600 protocolos individuais estruturou seus experimentos cm torno de 11 1974a, p. 267; A. Luria, 1991, p. 101). Contundente ataque oficial à teoria histórico-cultural foi publicado numa edi- temas, dos quais os mais importantes foram: ção 1934 da revista Livro e a Revolução Proletária, e, segundo A. Luria, reza (1) o pensamento como função sujeita A mudanças históricas (c especificamente os processos o seguinte: de uso de palavras, compreensão de metáforas e pensamento etc.): (2) dos processos psicológicos individuais (especialmente percepções: a percepção A teoria histérico-cultural mal acaba de ser criada, mas já conseguiu causar um dano enorme de forma e cor em conexão com pensamento visual [pictórico], ilusões ópticas geométricas, para o setor psicológico da visão teórica, ao dissimular engenhosamente seus aspectos as caracteristicas da rememoração, contagem, e assim por diante). (Citado A. - estranhos marxismo - com citações das obras dos fundadores do mar- 1991, p. 89) xismo. Ao invés de mostrar processo desenvolvimento c o cultural dos trabalhadores do procuram justificativas para sua Como resultado desses dados, A. Luria chegou à conclusão de que "todas as "descobrem" formas idênticas pensamento na mulher usbequistanesa adulta e numa crian- ça de cinco anos de idade, agitando diante nós a das idéias cientificas, que são a que fomos acostumados a pensar como naturais são, na verdade, so- prejudiciais à causa da construção cultural nacional do Usbequistão. (Citado em A. Luria, ciais" (citado em A. Luria, 1991, p. 87). 1991, p. 89) destino desscs dados e destc livro está intimamente ligado às políticas ofi- ciais de Stalin sobre c universalismo, como à sua guerra contra Com a campanha de Stalin para "arrcbanhar" todos os povos comunidades No início da expedição, Luria um telegrama a rurais ou centros urbanos estatais, para acabar com o analfabetismo impor uma Vygotsky, Moscou, que assinala um momento muito crucial no desenvolvimento cultura universal, qualquer de estudar os traços culturais ou étnicos de dessa haviam começado com experimentos dedicados à investigação de diferentes grupos étnicos cra encarada como "nacionalismo burguês" trazendo con- perceptivas. () telegrama Luria a Moscou imaginar sigo perigo de que determinados grupos encontrassem maior orgulho nessas quão dificil cra isso naqucia época, pois cm algum lugar nas montanhas do renças e a transformados cm do novo homem Usbequistão - continha apenas três palavras: "u net illiuzii" (os tico. Assim, a pesquisa na União Soviética foi aniquilada, até a não têm cra da que trouxc consigo os surtos nacionalistas avassaladores temidos Como se pode imaginar, telegrama causou graves transtornos a Luria: por Stalin. membros da KGB estavam à espera quando do trem volta a Moscou. Scgundo o relatório, aqucias palavras haviam sido interpretadas num sentido intci- 30 A. R. Luria Estudos sobre História do 31</p><p>ASPECTOS PRINCIPAIS DA TEORIA DOS INSTRUMENTOS CULTURAIS Usar uma caixa para conscguir comida exige muito mais atividade mental do macaco do que usar um bastão isto um prolongamento dc hábito anterior dc, na floresta, Apesar do fato de quc, a um olhar se possa concluir que esta obra usar um galho para alcançar A caixa ou caixas, quando empilhadas uma constitui uma apresentação sob nova forma das perspectivas propostas por outros sobre à outra, são utilizadas para reconstruir ambiente para um objetivo ou propósito Thurnwald, etc.), esperamos que estas observações possam para o qual a caixa não foi naturalmente Assim, por exemplo, "nó" utiliza- estimular os leitores a perceberem de que modo Vygotsky c Luria utilizaram seleti- do para lembrar constitui um signo psicológico mais extremamente avançado do que vamente o material daqueles autores para fortalecer suas próprias teorias e de que uma colher, diz Vygotsky. Nestc caso, o nó é utilizado para regular atividades mentais, modo transferiram os componentes das perspectivas de outros necessárias à cons- enquanto a colher é utilizada para satisfazer instintos básicos (fome), ser chamado de instrumento "psicológico". trução fundamentação de suas próprias tcorias. A contribuição mais importante deste livro é que ele expõe a idéia de Vygotsky 3. Vygotsky afirma vigorosamente, tanto no I quanto no capítulo 3, sobre a evolução do desenvolvimento a partir suas (forma embrionária) na que esse uso dc instrumentos "artificiais" para psicológico ou utilização de objetos como instrumentos por macacos Em nenhum ou- mental transmitido ou comunicado a outros; uma VCZ que um macaco domina o uso tro lugar se de maneira clara e vigorosa quanto neste livro, a idéia de da caixa para diversos fins, outros macacos adquirem rapidamente mesmo uso utilização de "instrumentos psicológicos" (a internalização daqueles instrumentos) do e são, pois, capazes executar tarcfas que antes não conseguiam. como força propulsora básica dos diversos estágios de Analogamente, como se verá no capítulo 3, quando os adultos dão "palavras" a Em suma, como já foi dito, o ponto crucial desse desenvolvimento não está nos crianças em idade escolar para ajudar a lembrar a resolver determinadas tarcfas, as instrumentos si mesmos, mas no modo como utilizados no significado que crianças são capazes de cumprir tarefas dc memória que até ha- viam sido capazes de executar. Qualquer cstudioso de Vygotsky reconhecerá facil- esquema deste livro é o seguinte: mente nisso embrião do conceito que a ser conhecido como a Zona de 1. Os macacos utilizam objetos para satisfazer suas necessidades, especial- volvimento segundo qual toda função se desenvolve primeiro interpessoalmente e, seguir, intrapessoalmente. mente quando algo se interpõe entre eles e seu objetivo - esse objeto pode ser um Vygotsky no que Lévy-Bruhl sobre os diversos estágios do galho de para apanhar uma fruta fora do alcance, no habitat natural do maca- pensamento e mostra de que modo CSSCS estágios também são visíveis no desenvolvi- o macaco é capaz, a de transferir "conhecimento" ao uso de uma vara numa jaula para pegar uma fruta pendurada muito alto. que é indicativo de mento da linguagem infantil. Diferentemente de Werner, Volkelt e que para Vygotsky, é que, numa situação experimental dificil, o macaco termo complexo para descrever pensamento pré-verbal e o pensa- acaba sendo capaz de tomar ou selecionar um componente ou elemento dc uma mento dos animais, Vygotsky mostra aqui, bem como cm obras posteriores, como o estrutura (uma caixa que foi utilizada para sentar cm determinado pensamento por complexos constitui um estágio muito importante no desenvolvi- colocá-lo em outra como algo sobre 0 que SC num lugar mento do pensamento verbal do significado da palavra. capítulo 3 deste livro pois, um importante ao Thought and Language, cm que Vygotsky (1986) para alcançar o alimento. Essa capacidade dc tomar ou transferir uma escreveu que "as palavras também cumprem função importante, ainda que diferente, parte de um todo atribui-la a outro plano (a outro uso para atingir um objetivo) é, nos diversos estágios do pensamento por complexos" (p. 139). Após a morte de ao ver de Vygotsky, o primeiro passo na evolução dos processos Vygotsky, A. Luria prosseguiu na ampliação ainda maior dessa compreensão do superiores, que atingiram o ponto mais alto nos humanos. do significado da palavra durante a ontogênese (A. Luria, 1982). 2. quando um homem primitivo começa a usar "nós", não para amarrar alguma coisa (o uso primário natural), mas para lembrar-sc alguma coisa Nos três livro, Vygotsky A. Luria estudam como surgem desse (um sistema simbólico sccundário), isso constitui um no desenvolvi- modo as "funções mentais superiores", como a memória, a atenção e a vontade se mento do homem e de sua capacidade tanto de controlar o ambiente quanto de regular como resultado da atividade de "signo" ou de instrumento pelo maca- seu próprio comportamento (controlar e organizar sua mcmória). Vygotsky co, pelo homem primitivo pela criança. "instrumentos" (a caixa do macaco e os nós do homem primitivo) como signos artificiais, como "tecnologia", utilizados para mediar o ambiente e novo sentido - são artificiais por terem adquirido sentido não a partir do cenário natural a que perten- A ESTRUTURA DO LIVRO ccm ou do uso instintivo que SC faz (uma criança levando a colher à boca para mas a partir de um significado arbitrário atribuído ao instrumento pelo homem introdução de Vygotsky a livro oferece um esboço geral de uma teoria do no caso da caixa. pclo macaco) para utilizá- lo na de algum objetivo. do comportamento desde macaco até homem cultural. Três 32 A. R. Estudos História do Comportamento</p><p>diferentes caminhos compôcin a história do comportamento humano cn- Assim, introduz-sc a da cstrutura no comportamento dos primatas. inter- volvidos: a os primórdios da história e a pretação dos dados por Vygotsky condiz com a visão dc Köhler: 0 comportamento Cada um dos três deste livro está centrado sobre o vínculo essencial dos macacos em relação a instrumentos potenciais determinado pela estrutura do que liga entre si os estágios de desenvolvimento do comportamento: desenvolvi- campo visual. Os experimentos demonstram que a descoberta da relação entre as mento do use de instrumentos. uso c a "invenção" de instrumentos por macacos partes da estrutura e seu todo muitas acidental que a reação mais simples distingue seu desenvolvimento comportamental de estágios filogenéticos anteriores. de um organismo constitui uma reação à estrutura. desenvolvimento humano, estágio seguinte da evolução do comportamento, dis- Vygotsky dá a essa exposição com uma análise do intelecto da tingue-se pelo trabalho e, conjuntamente, pela fala humana e por outros signos psi- experiência natural dos macacos. Vygotsky compartilha a opinião de Köhler cológicos utilizados pelo primitivo, desenvolvidos para obter controle sobre de que o comportamento dos primatas irrompe primeiro no que representa apenas o comportamento. Finalmente, o traço principal da ontogênese (isto é, o desenvolvi- um prolongamento do estágio do "reflexo condicionado" do comportamento (réplica mento da criança) consiste na aquisição de habilidades c modos pensamento cul- dc experiências obtidas na condição natural) c, a seguir, numa associação complexa tural de modo coordenado com desenvolvimento biológico ou orgânico. Cada está- ou em reações intelectuais, estágio novo C posterior no desenvolvimento gio comportamental repete mais ou menos 0 precedente, reconstruindo-o. Essa é a comportamental. Em primeiro lugar, Vygotsky assinala que "a capacidade do maca- essência do que Vygotsky e A. Luria chamam de uma nova psicologia genética. CO em usar uma vara não é uma aquisição repentina, mas resultado de toda a sua No 1, que trata do comportamento dos primatas, são discutidos três experiência prévia na natureza"; o macaco "tem que reconstituir a situação ante- estágios do desenvolvimento: (a) desenvolvimento dos instintos, (b) o desenvolvi- rior sob novas condições". mento dos "reflexos condicionados", e (c) desenvolvimento do intelecto "viso- Vygotsky explica de que modo experimento de Köhler nos permite compreen- motor". der, ainda que em termos hipotéticos, os processos interiores que ocorrem no maca- Grande parte desse é dedicado ao empenho de Köhler de buscar o elo CO ao cumprir uma tarefa experimental. Esses processos início nos casos mais perdido entre 0 desenvolvimento do macaco e do homem. Segundo Vygotsky, Köhler puros e simples em que, durante a solução da tarefa experimental de Köhler, dois descobre no macaco rudimentos de formas especificamente humanas de comporta- tanto a vara quanto a fruta, atuam simultaneamente sobre o macaco. mento - o uso de instrumentos rudimentares para conseguir alimento. Contudo, esses dois interligados, embora associados de mancira diferente, Três condições são expostas como base dos experimentos de Köhler. Para que já haviam influenciado 0 macaco durante muito tempo cm sua vida na natureza. o animal possa resolver a tarefa, macaco deve: (a) encontrar modos indiretos de Por isso, não é surpresa alguma para Vygotsky que ambos os estímulos, agora alcançar objetivo cm situações em que, por alguma razão, a solução direta cra percebidos como independentes um do outro, recarregam independentemente aque- (b) contornar ou eliminar um obstáculo encontrado no caminho que con- les centros do sistema nervoso anteriormente haviam atuado conjunta- duz ao objetivo, e (c) usar, inventar ou produzir instrumentos como meio para atin- mente. A essa altura, Vygotsky introduz novamente a terminologia que aparecera gir um objetivo de outro modo inalcançável. anteriormente cm Psychology of All (1925/1971). Elc descreve o efeito pro- No centro experimental de Köhler, descobriu-se que o brinquedo favorito dos cesso como curto-circuito nervosa, ou scja, uma ligação entre dois cacos, usado para fins, cra o bastão. Os macacos mais espertos chegaram até muito fortemente excitados". a inventar um jogo de saltar a partir do bastão. Posteriormente, os outros macacos Uma das contribuições tcóricas mais importantes de Vygotsky é aqui apresen- imitaram brincadeira, nisso. A seguir, os tada na explicação que cle dá sobre que exatamente facilita esse processo. Para macacos foram capazes de transferir o sentido funcional do bastão a outros objetos, tais que o macaco, e humano, façam progresso no comporta- como pedaços de varas, pedaços de corda, caixas, abas de chapéu C sapatos, que mento intelectual, a condição nccessária é que ambos devem ir além das reações bém passaram a ser instrumentos para pegar alimento fora de alcance. instintivas aprendidas que não consigam superar alguma dificuldade. Em outras Vygotsky salienta que, nessa atividade, o papel dos fatores visuais é de grande palavras, essas condições verificam quando macacos, ou hu- importância: "o macaco deve ser capaz de abarcar todo o campo". Neste ponto, manos, encontram-se cm novas condições que diferem a que já estão habi- Vygotsky apresenta a avaliação de desses experimentos, juntamente ou quando se deparam com dificuldade, barreira ou obstáculo pressuposto de que cles têm suas raízes na capacidade do macaco de usar meios Assim, Vygotsky indica experimentos que as reações intelectuais do indiretos de resolver problemas em seu habitat natural dc que os macacos macaco sempre surgem em resposta a algum obstáculo, impedimento, dificuldade ou capacidade de captar a situação num golpe de vista de escolher o caminho barreira que impeçam sua realização, O papel desempenhado pelas dificuldades na experimentos mais dificeis acabam sendo aqucles cm que o macaco tem aquisição de novos modos ação foi evidenciado com toda a clarcza por Groos que isolar algum objeto que é elemento de uma estrutura transferi-lo para uma (1928), que Vygotsky cita cm texto: "No momento cm que a repetição dc outra nova". reação habitual c interrompida, desviada ou imedia- 34 R. a História do</p><p>tamente a consciência entra cm cena. a fim de retomar o controle sobre aquilo que, Muito embora se tenha sustentado por que o homem primitivo possui antes, ela havia relegado à esfera do processamento inconsciente do sistema nervo- uma superioridade sobre o homem cultural, que é mais bem equipado pela natureza so". possui sentidos mais apurados de olfato, visão audição, Vygotsky deixa Do mesmo modo que. em outras obras suas, tais como Fundamentals of claro que os dados existentes não prova alguma de um tipo orgânico de (Vygotsky, 1983/no prelo), também neste caso Vygotsky amplia a lei do humano verdadeiramente diferente. represamento ou bloqueio de Lipp, segundo a qual uma dificuldade ou empecilho Como demonstraram outros autores (Rivers e Meyers), a atividade fisiológica ativa o intelecto, "embora não ainda a cognição propriamente dita", quando "damos elementar ou primária que se encontra na base de nossas percepções e de nossos frente com algo incomum, ou quando a expectativa de algo De movimentos as reações mais simples subjacentes a todos os nossos comportamen acordo com a abordagem darwiniana de Vygotsky do desenvolvimento do comporta- tos - não apresenta qualquer diferença considerável entre o homem primitivo o mento dos primatas e dos humanos, essa lei um tipo de condição biologicamente homem cultural. Razão por que Vygotsky a hipótese de que a aparente supe- prevista para a intervenção de níveis superiores de nosso sistema nervoso". Ocorre rioridade psicofisica de um primitivo deve-se à interpretação que faz dos estímulos uma mudança abrupta repentina do quando um curto-circuito se dá sensoriais, mais do que da psicofisica propriamente entre os centros excitados do cérebro. Isso ocasiona cm primeiro lugar súbito au- A afirmação mais importante que Vygotsky faz aqui de a diferença entre mento atividade externa e, a seguir, uma suspensão abrupta da ação quando "a povos primitivos culturais está seu desenvolvimento social, não cm dc- excitação nervosa amplificada deixa de ser desperdiçada cm movimentos caóticos senvolvimento Cada um desses dois processos está sujcito a suas externos para transformar-se em algum processo interior complexo" ("O macaco específicas próprias c representa duas linhas distintas de desenvolvimento (natural imóvel, com os olhos fixos no fisiológico, por um lado; histórico-cultural, por outro). Assim, o intelecto é descrito como o terceiro estágio na evolução do comporta- Como dessas duas linhas de desenvolvimento, Vygotsky cstuda a mc- mento. Aqui. Vygotsky apresenta uma análise de um novo traço: uma descoberta mória no homem primitivo. Embora, à primeira vista, possa parecer que a memória tipo "cureka", aparentemente instantâneo, seguido de um grau consideravelmente do homem primitivo superior à do homem moderno cultural, porque "as experien- mais longo de generalização da "descoberta" antes conseguida. cias deste último estão condensadas em conceitos", a diferença, afirma Vygotsky, Em suma, o ilustra o lugar limitado de utilização de instrumentos "não é apenas quantitativa, não é apenas uma diferença no de coisas pelos primatas: nunca chega a a atividade predominante para atingir uma meta. lembradas" nosso] Cada tipo de memória (no homem primitivo e no homem Ainda mais importante do que isso é que Vygotsky acentua a incapacidade dos ma- cultural) possui uma diferente. Como assinalaram outros autores, tam- cacos de introduzir o instrumento na esfera da comunicação, isto a incapacidade bém Vygotsky descreve a primitiva como algo fotográfico, con- de produzir um sistema de simbolos. creto algo que representações com enorme abundância dc detaihes No capítulo 2, Vygotsky volta a atenção para desenvolvimento do comporta- exatamente na mesma ordem em que foram apresentados na realidade", do mesmo mento do Homem Primitivo. Aqui, elc analisa os começos a dos sistemas modo que a língua do homem primitivo. No primitivo, a memória uma função simbólicos de um ponto de vista Apresenta dados dc diferente. comparada. Citando os experimentos de Jacnsch com crianças, Vygotsky estende-sc sobre São estudadas três teorias de crescimento psicológico-cultural. Vygotsky revê e cidetismo que representa a fase inicial, primitiva do desenvolvimento da memória. critica a abordagem puramente associacionista do crescimento psicológico, cm que Trata-se de um estágio primário indiferenciado de unidade entre-percepção memó- cstc como acumulação quantitativa. cm ria. Os materiais preservados na memória primitiva ou na memória dc crianças guida a rever a posição Lévy-Bruhl de que a estrutura psicológica dc um indivi- cidéticas são Baseado cm pesquisas de di- duo é função da estrutura social a que pertence ("as sociedades humanas, versos etnógrafos antropólogos, Vygotsky estuda os instrumentos mais antigos da como os organismos. podem apresentar estruturas profundamente diferentes e, con- memória: nós para estimular a memória ou para contar, escrita feita com galhos e diferenças correspondentes nas funções psicológicas superiores"). juncos por homens primitivos, penas perfuradas. Ele ilustra como a memória SC (1910/1926) sustenta que 0 pensamento primitivo não é ilógico ou reorganiza e reestrutura gradualmente com csses sistemas. antilógico, antes porém pré-lógico, ou "alógico, nada tendo em comum com formas Prenunciando sua obra posterior Thought and Language e lin- lógicas e fora ou à margem de qualquer lógica" (pp. 9, 78). as mais estimulantes passagens de Vygotsky neste texto tratam do Uma terceira teoria surge à medida que Vygotsky modifica a perspectiva de volvimento do pensamento linguagem do homem primitivo. Vygotsky fundamenta concordando com a posição mantida por Thurnwald "O muitas de suas posições em pesquisas anteriores, especificamente as de Lévy-Bruhl. pensamento primitivo realmente apenas parece enquanto, "na é Jaensch c Powers. Em seus campo, autores estudaram o traço mais completamente lógico do ponto vista do homem surpreendente da língua de diversos povos primitivos, ou seja, a enorme 36 S. A. R. Estudos sobre do 37</p><p>nomenclatura que têm a dispor c a pobreza de palavras gerais de A de c Cushing, Vygotsky estuda também as qualificativos (como "doce, amargo, duro"): Essa língua sobrecarrega o pensamento duais que muitos povos primitivos possuem. Especificamente, a fala oral a com pormenores, sem processar os dados da mas reproduzin- linguagem dc sinais (a linguagem dos gestos ou "conccitos manuais"), do-os com a plena da realidade. Vygotsky escreve: "[c] uma linguagem interação existente entre clas. Isso implica que SC observe a mútua da pictórica, colorida, que fala com os olhos que dominada pela primazia do compo- mentc a da mão sobre a um homem primitivo não fala ou, nente espacial". mais importante, não pensa sem as mãos. Além disso, a gramática da fala oral No segundo estágio do desenvolvimento da linguagem, aparcce uma só palavra cialmente) cra ligada ao movimento das mãos, donde cada frasc "como signo associativo, não de um objeto mas um agregado". ser um complexo de signos manuais palavras. Vygotsky dá considerável atenção caso, o pensamento primitivo não está sujeito à lei" da lógica formal, se- aos estudos de Mallery (1881/1971) sobre as linguagens de sinais dos gundo a qual apenas uma de duas afirmações contraditórias feitas ao mesmo tempo A exposição de Vygotsky sobre operações numéricas no homem primitivo co- e na mesma relação pode ser definitivamente verdadeira - para homem primitivo, meça com estágio mais antigo de contar quantidades por (complexos) mesmo objeto pode ser elemento constitutivo de completamente perceptivas, tais como "um grupo de doze maçãs". Esse tipo de operação é algo que diferentes. Leibniz chamava de "matemática inconsciente" (associada à percepção de um com- início da utilização de recursos e sistemas simbólicos de comunicação passo de música) ou de No estágio seguinte, o ho- estudado por Vygotsky. Elc faz remontar a história da escrita aos mais mem primitivo utiliza instrumentos para a numérica, como obje- antigos, tais como o quipu (cordões atadados com nós, na do Peru), utilizados tos que Vygotsky chama dc concreta" (uso dos dedos, partes no antigo Peru, na antiga China, no Japão cm outros países como tradicionais do corpo, e recursos adicionais posteriores como cordões com nós, pauzinhos. etc.) recursos auxiliares da memória, que difundiram os povos primitivos. para além de certos limites". que, como a linguagem do homem primitivo, Vygotsky baseia-se na obra de Clodd (1905) que, analogamente, sustentou que esses signos numéricos ainda representem uma idéia de número muito dependente do Indo signo é "um meio de rememoração (p. 35). Esse estágio conteúdo, trazendo consigo um caráter concreto e visual-óptico. Contudo, ocorre a desenvolvimento consiste na utilização dc recursos mnemotécnicos "para usuá- seguir uma alienação em relação ao conteúdo, com a evolução da cul- rio". para regular e controlar a memória. Para Vygotsky, um hábil usuário nós tural" a interiorização das instrumentos numéricas. extensa revisão do está numa posição superior na escala do desenvolvimento cultural, não porque tenha surgimento de quase-linguagens complexas baseadas em conceitos numéricos. uma memória natural superior, mas porque como utilizar melhor sua capítulo 2 termina com um estudo do comportamento mágico do homem com a de signos artificiais. O desenvolvimento histórico da memó- primitivo. Mais uma Vygotsky entra cm polêmica com quanto a sua ria humana pois, diretamente ligado ao desenvolvimento à perfeição origem e afirma que 0 comportamento mágico deve compreendido como um "meios auxiliares" que os humanos sociais criaram sua vida cultural cole- nível de sofisticação do comportamento cultural não como scu ponto de tiva. Assim, mais uma vez aqui primeiro do da partida (comparar com o desenvolvimento da fantasia na adolescência, Vygotsky, linguagem como um processo "interpsicológico" (interação com os outros no pro- 1991). A magia é ainda outro sistema de "recursos psicológicos subjetivos, intuiti- cesso de do ambiente), segundo estágio como um processo vamente utilizados" que o homem primitivo cria para controlar "intrapsicológico" (interiorização desses símbolos para a regulação do comporta- seu ambiente e para controlar a si próprio. Vygotsky utiliza essa exposição sobre o mento de si próprio). pensamento mágico como sua ilustração final da terceira do desenvolvimento Em geral, a exposição feita por Vygotsky sobre a história da escrita aqui cultural-psicológico, mostrando que os fatores principais do desenvolvimento psico- cm outros lugares (Vygotsky. 1935, pp. 73-95) corresponde estágios dc lógico do primitivo são desenvolvimento da tecnologia" (sistemas dc técnicas, desenvolvimento da descritos por Clodd cm ou (a) "o estágio recursos artificiais auxiliares, instrumentos) juntamente com isso, o desenvolvi- ou de auxílio da (b) estágio pictórico". cm que a mento de uma estrutura social. imagem por si só conta a (c) estágio em que a imagem 3, escrito por Luria, apresenta alguns dos experimentos originais do SC torna representativa (um simbolo para alguma outra coisa); (d) autor e colegas e trata da aquisição de sistemas simbólicos e operações psicológicas estágio em que a imagem é um "signo que representa um som" (cf. (fala, operações numéricas, memória cultural, abstração) culturalmente desenvolvidos. 1905, p. 35). Esse começa com uma à teoria que sustenta que um adulto Dc maior importância é que Vygotsky traça 0 progresso do desenvolvimento do diferc de uma criança apenas isto é, que a criança é um pequeno pensamento segundo uma mudança do modo utilização de palavra como adulto. Luria afirma que a criança pensa de mancira diferente porque nasceu isolada nome próprio para o modo cm que a palavra é um complexo e, a seguir, finalmente, do mundo e dos outros. O mundo das coisas habitualmente percehidas ainda não "um instrumento ou meio desenvolver um existe para a criança. 38 R. Estudos sobre do Comportamento 39</p><p>o primeiro estágio da vida da criança c dominada por sensações orgânicas Em seus primeiros passos para a cultura, explica Luria, a con. impulsos primitivos o mundo percebido visivelmente, embora visto, ainda é pouco reagir instintivamente ou segundo suas capacidades naturais Contudo, afirma Luria, criança não é uma folha cm branco", mas "uma cura alcançar a xícara ou o scio para a A seguir, folha de papel coberta de letras que ainda não estão diferenciadas, ou organizadas, a criança aprende a responder pensando por complexos agregados como para 0 adulto". Luria adota a perspectiva de que "o traço fisiológico deixado de objetos ligados pela experiência (tais como "boca", "xicara", c assim por na por um objeto percebido ainda tem que ser processado e avaliado de uma diante), para satisfazer necessidades perspectiva de experiência prévia" que a criança pequena ainda não tem. Em suma, Segue-se uma longa análise do crescimento cultural psicológicas a criança começa sua caminhada como uma "criatura orgânica" e é necessário que superiores memória, atenção, abstração e, finalmente, pensamento e lin- ocorra um prolongado desenvolvimento cultural para que essa fraca ligação primá- guagem. Ao examinar cada função é rciterada a idéia de que os sistcmas ria com o mundo venha a se estabelecer simbólicos servein como recursos para os usuários. Experimentos Na exposição que faz do surgimento do pensamento primitivo na criança, Luria, originais são apresentados para ilustrar essa capacidade de atenção auto-reguladora como Vygotsky (1986) em sua conhecida obra Thought and Language, analisa os através de recursos de mediação cm diferentes grupos de idade. dados de Piaget sobre o pensamento e a fala egocêntricos. Contudo, também neste A exposição Luria a memória natural versus cultural representa ou- caso é apresentada uma hipótese que, sob certos aspectos, é contrária à posição de manifestação do inter-rclacionamento entre as duas linhas dc desenvolvimento, Piaget sobre a fala Tanto Luria quanto Vygotsky sustentam, com base da abordagem vygotskiana-luriana do tanto neste livro quanto cm scus experimentos com crianças, que a fala egocêntrica não manifestação de em todas as demais obras importantes. Mcmória cultural a memória que é mediada uma função rudimentar, mas é estágio inicial, ainda que exterior, da auto-regulação por sistemas também como recursos Luria através da linguagem. Dois fragmentos de fala infantil neste texto mostram que a faz uma revisão de dados indicativos que a natural não sofrc qualquer fala não é apenas uma fala para si mesmo, mas de certo modo é sociali- crescimento com a idade; contudo, há uma gradual mudança dc ruino zada direção ao uso de recursos artificiais, tais como cortes no papel, ou recorte de Há uma surpreendente comparação entre a magia primitiva e 0 pensamento formas dc números que aos entalhes e marcas na madeira feitas pelo egocêntrico ou fantasia na criança: é um modo de organizar mundo da criança e de homem primitivo para aumentar a memória. necessidades a que 0 mundo por si só ainda de atender. A criança primeiro por formas, particularmente formas de números, realidade vivida pela criança ainda é mundo de desejos, devancio e brinquedo, assim como o primitivo contava por conjuntos. Por exemplo, elc conta par c Impar representando um estágio na capacidade de processar dar sentido ao mundo. não pelo número distinto mas pelas formas das configurações. A carência que a criança pequena tem em compreender as relações entre os Analogamente, as crianças usain figuras para ajudar a lembrar alguma coisa, objetos é demonstrada pela análise de desenhos infantis. Uma revisão dos tudo, assinala Luria, as ligações têm que, já ter sido feitas por experimentos de Piaget dos de Vygotsky é útil para mostrar falta de relações experiências anteriores. Finalmente, clas passam desse tipo de recursos para a primciro estágio de pensamento é descrito como natural, codificação palavras números, a memória mediada. Essc tipo ou primário: a criança pequena ainda é incapaz inibir a primcira recursos, conclui Luria, ajuda a criança a "aumentar várias sua solução que venha à mente e é mais fácil para cla dar uma resposta absurda. Num estudo sobre o crescimento da atenção, Luria propôs que, de a Como o primitivo, a criança pequena percebe os objetos do mundo concreta- força da estimulação por objetos físicos externos controla a atenção. Posteriormen- holisticamente, vendo aqueles aspectos que a afctam diretamente. Luria com- te, a atenção voluntária surge na criança com o crescimento sua capacidade parou um desenho infantil de um leão e um desenho de uma mulher primitiva (anal- manipular ativamente os objetos fisicos externos (tais como as "cores proibidas" dos fabeta) de um cavalciro um cavalo para ilustrar a ausência de ligações cau- aqui apresentados) para regular a atenção. Os experimentos de Luria Ambos ainda não vêem completamente as ligações entre as partes, ou um qua- mostram que, em estágio ainda mais adiantado, as crianças mais velhas deixam de dro sistêmico do mundo e seus fenômenos. Objetos distintos são colados numa com- usar objetos externos como recursos mediadores e passam para autocomandos binação aditiva e em de objetos individuais. fenômeno mais surprecn- interiorizados. dente que as idéias de uma criança ainda não estão organizadas numa determinada Certamente, uma das seções mais interessantes deste livro é estudo da fala Ao invés disso, o sincretismo é traço dominante, As idéias conhecidas infantil e, com ela, do pensamento Ali se encontra a à teoria do juntadas às desconhecidas desse modo aditivo: para a criança não há contradi- pensamento como "fala menos som", assim como em outras obras dos tudo pode ser ligado a qualquer coisa. Embora tenha tomado o conceito de como, por Thought and (1986) e Fundamentals of sincretismo de Piaget. Luria apresenta exemplos do livro de Chukovsky (1925/1968) (1983/no prelo). Aqui, mais uma os autores assinalam pensamento a From live para demonstrar CSSC primeiro estágio do pensamento da criança. têm origens psicológicas diferentes podem existir independentemente 40 S. R. Estudos do 41</p><p>um do outro. Por exemplo, por lado, nos estágios iniciais do desenvolvimento do Seção livro é de Luria psicologia de pensamento, pode-se encontrar o comportamento planejado, organizado, em formas física e mentalmente deficientes, que equivale tratado mais longo c mais primitivas, na ausência da palavra; a atividade dos macacos c das crianças Vygotsky (no crianças, cm Fundamentals of Tal do demonstram esse Por outro lado, há muitas reações expressas oral- bém aqui, a idéia que uma função prcjudicada pode reorganizada mente que acompanham movimentos, fortes cinoções c assim por diante, que não modo a ser capaz dc funções representam fala, isto é, não transmitem ou vocalizam determinada mensagem, idéia Finalmente, essas tcorias do desenvolvimento são aplicadas a crianças ou pensamento. ais; tanto quanto talentosas. uma revisão dos dados que indica Luria a seguinte descrição do desenvolvimento da fala. Uma crian- que o retardo não acompanhado de características ça passa. súbita e milagrosamente, de reflexos vocalizados sons imitados para deficientes. Por exemplo, a memoria natural de crianças retardadas pode pensamentos expressos por sons ("concretização") a seguir, para sons que incomumente vigorosa, mas elas não conseguem integrar os sist servem a uma função ou objetivo. Quando a criança pequena tiver passado do mas simbólicos a seu comportamento e por isso não desenvolvem uma estágio da imitação, quando repetia os sons que os adultos apresentavam, come- cultural vigorosa. São apresentados com crianças normais c retardada ça então a função pragmática da fala: a crianca descobre o uso funcional da para ilustrar isso. Além disso, uma revisão dc dados experimentais originais mo palavra como meio de nomcar um objeto, de expressar certos descjos de train que um QI alto pode não ser necessariamente acompanhado memória nati dominio sobre aquelas coisas que The interessam. estágio inicial, de palavras ral acima da média. Contudo, uso da mediação, de recursos artificiais, pode resu da produção da fala caracteriza-sc pela compressão de todo um pensa- tar em uso mais eficiente da mento ou isto c, dc toda uma oração, numa só palavra que pode signifi- livro termina com um exame crítico uma avaliação de diversas abordagen car muitas coisas. da mensuração da inteligência (p.ex., as de e Rossolino), porque as primeiro estágio de aquisição da linguagem é marcado por uma acumulação feitas meramente com base nesses resultados estão longe de serem ade rápida e ativa de palavras, que a criança tanto quanto inventa, quando vê quadas. Luria afirma que esse tipo medida revela apenas diante de uma situação onde não servem as palavras anteriormente aprendidas. Para culturalmente dependentes e não as naturais ou linha de ilustrar o gênio da Luria apresenta alguns exemplos admiráveis senvolvimento natural que ainda pode ser compensada, desenvolvida ou melhorad de fala infantil extraídos de Two to de Chukovsky. Luria compartilha da opi- culturalmente. nião de Chukovsky de que a comunicação de uma criança com adultos provoca aumento de uma sensibilidade especial sentido significado dos elementos (tais como prefixos e sufixos) de que as palavras são formadas (cf. também Chukovsky, VYGOTSKY HOJE: EXTENSÕES E APLICAÇÕES 1963. pp. 7-9). Desse modo é que evoluem as formações conceituais da fala. É dada atenção a Ach (1905, 1921) a scus para estudo do Este livro tem certamente histórico, fato de que, até recentemen processo de desenvolvimento de conccitos absolutamente novos nas crianças com a te, os leitores ocidentais associavam erroneamente a psicologia soviética quase utilização de palavras como instrumentos auxiliares. Muito scja assinalada unicamente a "reflexos condicionados". Contudo, este livro é importante e pertinen a artificialidade desses experimentos, Luria aprova a conclusão a que chega Ach: te hoje em dia, não só por oferecer uma boa introdução aos começos da moderna instrumentos artificiais podem ajudar uma criança a construir um novo conccito psicologia russa ou mas porque as posições aqui expressas por aprender a cumprir uma tarcfa que, doutro modo, não seria capaz de completar. Al e Luria encontram muitas aplicações pesquisas que estão sendo encontra a maior importância da escolarização para a criança: cla introduz a realizadas no Ocidente, diversos campos: educação, psicologia do desenvolvi criança a CSSCS instrumentos habilidades. mento, psicologia cultural, antropologia psicológica, psicologia cognitiva Contudo, assinala Luria, seria equivocado concluir que todo processo SC simplesmente a uma acumulação gradual crescente de técnicas e habilidades No campo da educação, onde há necessidade crucial de reformar e revitalizar complexas. A criança, cm idades diferentes, apresenta diferenças significativas filosolia a metodologia dos principios do da criança, cstc livro litativas, e não quantitativas, que não se alicerçam em mudanças meramente fisioló- dirige-se ao debate atual sobre natureza/cultura, apresentando uma dessas gicas. A criança atravessa diferentes estágios de desenvolvimento cultural, cada um duas linhas de desenvolvimento. Além disso, apresenta um modelo básico de apren- dos quais se caracteriza pelas diferentes maneiras pelas quais a criança se relaciona dizagem que corresponde às abordagens da escolaridade recentemente surgidas nos com o mundo - de naturais, simples, a comportamento psicológico mais Estados Unidos em outros países ocidentais. Os conceitos de Vygotsky de "apren- após haver ocorrido interiorização de mediação de comporta- dizagem de Zona de Desenvolvimento Proximal têm-se tornado "ter- mento mos familiares para a maioria, dos jovens pesquisadores cm educação. Qualquer 42 A. R. " História do 43</p><p>educador ou psicólogo do desenvolvimento que descjc investigar para próprios e, a seguir, criam um Simbólico, isto palavras da criança, c particularmente o desenvolvimento da linguagem, será considerado ou sinais para substituir aqueles suportes ou instrumentos concretos. inadequado se deixar levar cm conta a exposição dc Vygotsky sobre desenvolvi- utilizam essc sistema simbólico para comunicar-sc com outros e para mento da criança (tema dos estudos do capítulo 3). los c, a internalizam-no para regular seu próprio comportamento em novas Este livro apresenta extenso exame da abordagem dc Vygotsky dc outros as- De que modo isso é a principal dc Vygotsky. Vygotsky do desenvolvimento humano que agora continuam a receber pouca aten- confirma procminentes do da atualidade, tais como autor estuda a heterogencidade do pensamento, o desenvolvimento dos povos Gardner (1991) em The Unschooled Mind ou Papert (1980) cm Mind Storms. Como semi-alfabetizados, 0 desenvolvimento da alfabetização das eles, Vygotsky enfatiza que a naturcza da verdadeira aprendizagem não é ritualizada, operações numéricas, e o desenvolvimento da atenção e da memória to- mecânica ou "comportamentalista", mas sim das essas extremamente importantes do desenvolvimento na primeira Aqui, O capítulo 2 deste livro trata de assuntos que muitos pesquisadores educacio- como em outros lugares na obra de Vygotsky, a demonstra ser um pon- nais de hoje estão explorando em seus estudos sobre a natureza e origens da alfabe- to central no desenvolvimento porque fornece muitas instrumentos culturais que per- tização. Além disso, amplia a idéia de semióticos de modo a incluir grande que escolar realize tarefas que um pré-escolar não consegue realizar (ver quantidade de meios não-verbais instrumentos ou suportes concretos (tais como também Vygotsky, 1928, 1935). gestos, contas, pedaços de corda, etc.) que podem ser utilizados para transmitir Torna-se óbvio de imediato ao leitor que Vygotsky não possuía todos os dados significado (tanto quanto numérico). Essa visão dá sustentação a uma hoje disponíveis sobre estudos de e, por isso, não podia ser preciso na exposi- nova abordagem da alfabetização que dá grande importância à atividade ção que faz sobre os primeiros seis meses de vida da criança. Ainda assim, não-verbal (por exemplo, desenho, brinquedo, etc.) como passo necessário e natural de aprendizagem colaborativa iniciada com a interação no da aprendizagem de um novo código. (ver o exemplo anterior da compreensão de "xicara" adquirida pelo bebê) e conti- Além disso, o capítulo 2 corrobora e enriquece a investigação da linguagem nuada com a interação com companheiros (ver "The em 1983/ dos sinais como meio natural de comunicação c de desenvolvimento cognitivo para no prelo) é proclamado hoje como paradigma importante para a compreensão de os deficientes auditivos trabalho que está sendo hoje realizado por linguistas da muitos aspectos da aprendizagem. Assim sendo, não de surpreender o autor do Universidade Northeastern, da Universidade do Novo México c do Instituto Cienti- livro Knowing Children seja criticado por deixar de "integrar a inspirada fico de Defectologia da Academia Russa de Ciências Pedagógicas de Moscou (cf. pcsquisa vygotskiana a sua isto o ponto de vista de que "todas as funções Zaitseva, 1990). mentais superiores começam a surgir inicialmente mediante a interação social das O tratamento dado por Vygotsky às duas linhas de desenvolvimento desen- crianças com adultos mais instruídos" (Bretherton, 1991, p. 446). primário, natural, e desenvolvimento histórico-cultural que, no adulto Muito embora a idéia de Zona de Desenvolvimento Proximal tenha sido muito educado, acaba por sobrepor-se ao primeiro, mas não o substitui - lança as bases trabalhada c tomada por si só como a mais importante tcsc dc Vygotsky, outras para psicanalistas hojc que buscam diferentes camadas ou idéias igualmente importantes ainda precisam examinadas. Estc livro traz para o nios da atividade psicológica. O que temos é um tipo de "freudismo cognitivo", para primeiro plano outros vygotskianos, tais como a idéia de atividade "natu- empregar termo de Howard Gardner (1982, 1985) da Faculdade de Educação da ral" versus "mediada" e a idéia dc transferência de conhecimento ou compreensão Universidade de Harvard: em quasc todo indivíduo cxiste a mente da criança- uma situação de aprendizagem para outra. las comprecnsões intuitivas originais que, por da escolarização, melhoramos, Por exemplo, no capítulo vemos como o experimentador na "ativi- cultivamos, tornamos mais elaboradas, mas que ainda são as bases de nossa ativida- dade natural" dos macacos seu habitat natural, isto é, usando galhos para conse- de mental. Apenas com o tempo com a aplicação constante de um nível superior dc as frutasque pendem muito alto nas árvores, e uma ativida- aprendizagem é que o indivíduo expande gradualmente altera ou efetivamente de "mediada" no ambiente do local da pesquisa. Essa atividade natural é agora ma- reestrutura aquele nível primário. nipulada e organizada para fazer o macaco cumprir tarefas mais complexas, Muito do que Vygotsky diz no capítulo 2 sobre a natureza do pensamento no ro com instrumentos naturais (o bastão) e, a seguir, com instrumentos mais artifici- homem primitivo - pensamento em nível primário ou natural equivale à avaliação ais (cordão ou corda), de modo que o macaco tem que transferir seu conhecimento de Kris (1965, 1979) da atividade psicológica da personalidade criativa. Esse tipo de uma situação para outra Como foi assinalado anteriormente, é essa transfe- de pensamento não se encontra somente nos povos "primitivos" ou nas crianças. de "compreensão" que, segundo Vygotsky, constitui a base da atividade men- Como Vygotsky, Kris atribuiu grande importância aos processos primários que 0 tal tanto nos macacos quanto nos humanos. adulto tem impregnados cm sua personalidade c aos quais ainda pode retornar. humanos, não instrumentos prontos ou gundo Kris, indivíduos particularmente criativos transportam-se constantemente a passados de uma geração para outra; ao invés disso, também criam instrumentos antigos estágios livre e assim por diante. Como assinalou 44 A. R. Luria Estudos sobre História do 45</p><p>Kozulin (1990a), "Kris demonstra que seria incorreto apresentar o tipo de processo significado como algo cria a partir de embates sociais com o mundo cm primário de funcionamento mental como exclusivamente patológico ou indicativo de cenários históricos culturais Como mostramos, este livro não um estado mental totalmente (p. 235, grifo nosso). importância dos respostas ou impulsos biológicos e sua A "lei da que Vygotsky descreve cm suas seções sobre "pensa- mas desvia o foco de atenção para a atividade e para a construção mento primitivo", prenuncia a idéia de Rothenberg do "pensamento janusiano". significado (cf. Lotman, 1990). Rothenberg (1976,1988, 1990) descreveu a atividade mental de certos indivíduos Esse tipo de orientação corresponde ao fervor da atividade de como a capacidade de manter na mente dois tipos opostos de Por exemplo, psicologia que foi impelida, como (1990) em Acts of Meaning sabemos que o artista ou cientista muitas vezes duas coisas que se pensa reunir-se às disciplinas interpretativas suas irmãs nas humanidades e nas ciências contraditórias c as considera ambas válidas ou O interesse de sociais" (p. .2). Bcm dentro da tradição Vygotsky-Luria, "encontrain-se hoje cm dia Vygotsky nos níveis de processamento também encontra CCO na idéia Arieti (1974) prósperos centros dc psicologia cultural, antropologia cognitiva c interpretativa, lin de atividade mental terciária, pela qual pensamento mais difuso, primário, sem güística cognitiva e, um vigoroso movimento mundial que se ocupa com controle, irracional associa-se ao pensamento sécundário (organizado, orientado por nunca antes, desde Kant, com a filosofia da mente e da linguagem" (Bruner, 1990 metas, racional e solucionador de problemas). p.3). Por novo do psicólogo cognitivista Goodman (1984 Como assinalou Kozulin (1990a), para Vygotsky a interação dos (natu- em Harvard, a antropologia interpretativa de Geertz (1973, 1983) ral cultural) é particularmente importante no caso do "influxo de no ambientalismo dc Snow LcVinc (1982) na Universidade dc Harvard representan samento verbal interior: "Importante contribuição dada por Vygotsky é que o pensa- exatamente esse tipo de centros de que fala Bruner. O presente texto deve ser uma mento não deve necessariamente abandonar a verbal para ligar-sc aos recur- muito útil para as atividades pesquisa nessas diversas sos do processo primário. Os significados sociais das palavras são assim Onde cra antes a União a tradição vygotskiana-luriana voltou ao desconstruídos durante o estágio inspiração e, a seguir, transformados cm sentido primeiro plano, particularmente no Instituto de Psicologia da Academia de Ciências para serem depois novamente reunidos com a ajuda dos princípios Pedagógicas, sob a liderança de Davydov outros, e no Departamento de Psicologia sociais da forma artística que traz em si o texto total" (p. 235). da Universidade Estatal de Moscou, no trabalho do neuropsicólogo cognitivista T Este livro pode ser apreciado por um tipo dc leitor bastante inesperado: os Contudo, o centro mais importante dessa orientação psicologia encon- os que se preocupam com as relações na Universidade Estoniana de Tartu, onde P. tem enfrentado as prin mento. Dc fato, a fama de A. Luria é nessas duas áreas. Sua filosofia na avaliação cipais questões levantadas por muitos críticos dos temas centrais deste livro - ou dessas árcas é bem diferente da da maioria dos estudiosos norte-americanos. Impli- seja, nas palavras de Cole: citamente, ele utiliza todos os pressupostos apresentados neste livro em sua aborda- gcm da neuropsicologia, mas esses pressupostos não são expostos seus livros de Como devemos a heterogeneidade do pensamento humano pela compara cm Assim, cstc livro pode oferecer a base ção transcultural? diferenças fundamentais do pensamento humano como função da ra cm que são cssas diferenças. se sc mostrar que existem, ordenáveis en sária para essas obras posteriores. termos de nivel de comportamento? Em termos grossciros mas dirctos, os primitivos pensan seção deste livro que trata da relação entre aprendizagem C mudanças nas como as crianças? (Citado da introdução a Tulviste. 1991, p. x). estruturas cerebrais corresponde ao interesse atual de analisar a natureza e a sistematicidade das alterações ccrebrais, particularmente alterações do frontal O trabalho Tulvistc (1991) atualiza o presente procurando que afetam funções cognitivas. livro é um tipo de precursor do "neurodarwinismo" que, embora haja "diferenças qualitativas do pensamento humano que ser que postula um tipo de supressão de neurônios ou uma atribuídas ao ambiente cultural" (p. x), há heterogencidade dentro dos cm de neurônios que ocorrem com base na Ao nascer, há uma superprodu- qualquer assim, não se pode reduzir uma mentalidade singular a primitiva. ção ou alta densidade de com a aprendizagem c desenvolvimento, deter- ou a civilizada. As conclusões a que chegaram Vygotsky, Luria depois, minados ncurônios se enquanto outros se atrofiam. Como foi assinalado não são propõem metodológicas profundas. Contudo, são cm algum lugar, Vygotsky mostra que não há progressão sem regressão. Para um convite a cstudos c sérios numa época cm a diversidade a como sempre, não é a quantidade (de neurônios) ou o do cérebro cultural são temas que desafiam todas as instituições sociais existentes. o que comumente mais importa, mas sim o uso seletivo a que o tecido cerebral é submetido e que impulsiona desenvolvimento. Em suma, embora estc livro anteceda em cerca de 20 anos a "revolução" que REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS vem tendo lugar na psicologia cognitiva a partir da década de 1950, ofercce argumentos fortes para que se reexamine a própria base do pensamento, isto é, N. (1905). Üher die Denken atividade da vontade e do 10]. Alemanha: 46 1. S. A. R. Luria Estudos do 47</p><p>Ach. N. (1921). die de Alemanha: Pavlov, I.P. (1955). Selected Works. Moscou: Forcign Languages Publishing C.R. Buhner. Proffer, E., Meyer, R., & Szporluk. M.A. (19870. Russian literature of the 1920s. Ann Arbor, Arieti, S. 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Cada um desses ensaios trata, pois, não de todo o campo de interesse do com portamento do macaco do homem primitivo da criança, apenas d um só traço ou aspecto dominante do comportamento, ou seja, aqucle que, como agulha de uma bússola, partindo de um certo ponto inicial, aponta para uma direção e caminho no desenvolvimento do comportamento. Nosso trabalho consisti em descrever três linhas principais no desenvolvimento do comportamento evolutiva, histórica e ontogenética - e em demonstrar que o comportamento do ho cultural é produto dessas três linhas de desenvolvimento e só pode ser compre endido e cientificamente explicado pela análise dos irês diferentes caminhos constituem a história do comportamento humano, Também não foi nosso objetivo oferecer uma descrição completa de cada un desses três processos de desenvolvimento. Nem pretendemos esmiuçar todos os aspectos do comportamento do macaco, do homem primitivo e da criança Mais do que apresentar todo o processo em sua inteireza, procuramos aqui descreve em linhas gerais os principais pontos de referência no caminho da evolução psicoló gica em seus diversos momentos decisivos. Assim, ein cada um dos ensaios, revela mos o vínculo essencial que serve para ligar uma etapa de desenvolvimento à seguin te. Ao limitamos intencionalmente o conteúdo dos ensaios apenas à evolu- ção das formas de comportamento. (V.G., J.K.) Ver a discussão sobre termo primitivo na introdução deste livro. Na parte que cabe neste livro c 2), Vygotsky não fez constar referências notas de Assin sendo, as notas de rodapé c citações foram acrescentadas organizadores-tradutor edição em ou seja, Victor Golodi c Jane E. Knox]. Estudos sobre História do Comportamento 51</p><p>A estrutura de nossos ensaios pode ser resumida da seguinte maneira. O uso o outro, reconstruindo-o; entendemos que a referida relação seria a "invenção" de ferramentas pelos macacos é o fim da etapa orgânica dc methor definida como paralclismo entre os dois processos. desenvolvimento comportamental na evolutiva prepara caminho para A falta de fundamento do do paralclismo genético foi demonstrada uma transição de todo para um novo caminho, criando assim o nas obras de pesquisadores burgueses c, mais ainda, por marxistas. Nossa meta foi do desenvolvimento do primordialmente a especificidade máxima de cada um dos três caminhos () trabalho e, ligado a o da fala humana outros signos psico- de desenvolvimento comportamental, as diferenças nos modos e os tipos de compor- lógicos utilizados pelo homem primitivo para obter o controle sobre o comportamen- Estávamos interessados em discriminar apenas os traços distintivos, e não to significam o começo do comportamento cultural ou histórico no sentido próprio os comuns, desses processos. Em contraposição à tcoria do paralelismo, considera- da palavra. Finalmente, no desenvolvimento da criança, vemos claramente uma SC- mos que os resultados do estudo dos principais traços distintivos de cada processo gunda linha de desenvolvimento, que acompanha- os processos de crescimento c de os traços que distinguem o processo da idéia geral de evolução maturação orgânicos, ou seja, vemos o desenvolvimento cultural do comportamento pode lançar uma luz sobre tipo e as regularidades específicas de cada uma bascado na aquisição de habilidades e em modos de comportamento e pensamento das três linhas que são discutidas. Nossa principal tarefa mostrar as regularida- des a essência independentes cada um dos tipos de desenvolvimen- Esses três fenômenos são sintomas dc novas eras na do comporta- to. Isto não significa, de modo algum, que completamente qualquer cor- mento, sinais de mudançus no tipo mesmo de desenvolvimento, Assim, concentramo- respondência entre ontogêncse Ao contrário, essa do modo como nos nos momentos decisivos, as etapas críticas do desenvolvimento do comporta- tem sido desenvolvida e descrita criticamente por muitos modernos, pode mento. Consideramos críticas as seguintes etapas: 0 uso instrumentos, nos maca- servir como um belo princípio heurístico que, de fato, utilizamos para revelar a cos, trabalho c o uso de signos psicológicos, no homem primitivo, a ruptura da correspondência formal entre determinados fenômenos pertencentes aos diferentes linha desenvolvimento em pstcologico-natural e planos de Contudo, procuramos comprecrider a própria concxão tural, na criança. Todo momento crucial, encarado primordialmente do entre os três caminhos de desenvolvimento de mancira ponto de vista algo novo introduzido por no processo desenvolvi- A nosso ver, essa concxão materializa-sc no modo pelo qual um processo Assim, tratamos cada etapa como um ponto de partida para o processo desenvolvimento prepara dialeticamente o seguinte, transformando-se e mudando rior de para um novo tipo de desenvolvimento. Não pensamos que esses três processos se primeiro ensaio baseia-se no material por Köhler (1921/1926) em dispõem numa linear. Ao invés disso, cremos que cada tipo superior de sua famosa segundo ensaio contém material sobre psicologia começa precisamente no ponto que termina 0 anterior e scrvc nas obras de 1923), Thurnwald (1922), Wertheimer como sua continuação em nova direção. Essa mudança na direção no padrão de (1912), Leroy (1927), Danzel (1912) e muitos outros; finalmente, baseamos o ter- desenvolvimento de modo algum exclui a possibilidade de conexão entre os dois cciro ensaio principalmente em nosso próprio material reunido nos estudos processos, mas, ao contrário, antes pressupõe concxão. mentais sobre o comportamento infantil. A idéia principal de nossos está expressa com a maior de Tentamos lançar luz sobre todos os fatos a partir dc um só ponto forma completa na Pretendemos mostrar que, na do desenvolvimen- vista, a partir de uma abordagem dos processos de desenvolvimento psicológico- to psicológico, tem lugar alguma coisa semelhante ao que, já há muito tempo, foi. cultural, a partir da posição teórica detalhada no livro de Vygotsky (1929b), Pedology estabelecido com respeito ao desenvolvimento orgânice. De modo similar ao que of the School Child. ocorre no processo de desenvolvimento histórico, pelo qual as ferramentas dos scres () que há de novo nestc trabalho (além de uma certa quantidade material humanos mudam mais do que seus órgãos naturais, no processo de desenvolvimento pesquisa) é nossa tentativa de descrever o vínculo que interliga as três linhas psicológico o ser humano o trabalho da principalmente cm asso- desenvolvimento e de definir, nos termos mais o caráter tipo dessa liga- ciação com o desenvolvimento de técnicas ou "meios auxiliares" específicos de pen- Nossa abordagem das relações existentes entre as diferentes linhas de dcsenvol- samento de comportamento. É impossível compreender a história da memória hu- vimento do comportamento é, em certo sentido, contrária à posição desenvolvida mana sem a história da escrita, do modo que não se pode compreender a pela tcoria do paralelismo Em resposta à questão sobre as relações história do pensamento humano sem a história da fala. Basta lembrar-se da natureza existentes entre ontogênese filogênese, essa teoria afirma que um processo repete e origem social de todo signo cultural para compreender que, abordado desse ponto de vista, desenvolvimento psicológico desenvolvimento social condicionado pelo desenvolvimento psicológico está solidamente intro- Wolfgang Köhler psicólogo alemão que investigou da criação de ferramentas duzido no contcxto todo desenvolvimento social em seu clemento por macacos antropóides num centro especial de instalado nas Ilhas constituinte orgânico. 52 1. A. R. Luria Estudos a História do Compartamento 53</p><p>editamos que, ao introduzir o desenvolvimento psicológico do comporta- contexto do desenvolvimento histórico da estamos dando passos na direção das questões mais importantes da nova psicologia os ar trazemos uma perspectiva para a pesquisa ge- a posição de Compreendemos bem todos os riscos e a dade de qualquer primeiro passo numa nova direção, mas somente nesse res- vemos a possibilidade da psicologia genética como 1 3 e segundo foram escritos por Vygotsky, o terceiro, por A. experimentos que fundamentam nosso ensaio sobre o comportamento in- de Educação Comunista. m realizados por nós e nossos colegas do Laboratório de Psicologia na Comportamento do Macaco Antropóide Nec manus intellectus sihi permissus multum valet: et auxiliis res Bacon TRÊS ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO DO COMPORTAMENTO Ao estudar o desenvolvimento do desde as formas mais sim- ples observadas nos animais inferiores até as mais complexas e superiores observa- das no observar facilmente que o comportamento, tomado como um todo, passa por estágios principais seu O primeiro estágio do desenvolvimento do comportamento em todos os animais representado hereditárias ou modos inatos de são geralmente chamados de instintos. para satisfazer as necessidades básicas de um organismo. Sua função biológica é a de e de O principal traço distintivo das reações instintivas é que elas atuam sem tercin sido aprendidas e são ao organismo. Imediata- mente após o nascimento, uma criança move mãos pernas, chora, suga e engole o leite. Porém, nem todos os instintos precocemente quanto a sucção todos são funcionais imediatamente o Muitos o instin- to sexual por exemplo, amadurecem muito mais tarde, apenas quando o próprio auxiliares. / Bacon. Mão nua e só, de pouco valem: / tudo é feito com a ajuda / de instrumentos e A. Luria Estudos sobre do Comportamento 55</p><p>organismo atinge um estágio suficientemente alto de maturação canismo permite que) instintivas, se adaptem às condições indi- Contudo, mesmo esses instintos que amadurecem mais caracterizam-sc ainda vidunis da existência dado animal Sc Darwin explicou a origem das mesmo traço fundamental. Essa constitui a reserva de reações à disposi- Pavlov explicou a do ou seja, a biologia do indivíduo, experiência ção do animal como resultado de sua estrutura hereditária. particular de um animal. animal não instintivas no curso sua vida; cstas scgundo estágio do comportamento só instintivas J.K.] não surgem em de ensaio-c-erro ou de experiências encontrado nos animais vertebrados, cmbora algumas formas mais primitivas dc ou também não são resultado de imitação. Isso constitui condicionadas possam ser observadas cm formigas, abelhas e caranguejos seu principal traço distintivo. A importância biológica das reações instintivas é Contudo, os vertebrados são os primeiros a mostrar uma alteração comportamen clas constituem modos úteis de adaptação ao meio ambiente; desenvolveram-se to. Apesar de todo o êxito no treinamento de animais inferiores, a forma dominante curso da luta pela sobrevivência e se fortaleceram pela escolha natural no processo de seu comportamento continua sendo instinto. Em contraposição, nos animais de evolução biológica. superiores observamos um desvio no sentido da predominância de reflexos condici Por isso sua explica do modo que a das estrutu- onados no sistema global reações. ras c funções "vantajosas" de qualquer organismo, ou scja, segundo as leis dc Esses animais são os cm que SC a plasticidade das capacida de Darwin. Sc tomarmos as espécies inferiores, por os insctos ou des inatas; surgem a "infância" no sentido próprio da palavra ligada a cla, tros invertebrados, veremos facilmente que todo o seu comportamento limita-se qua- brinquedo "infantil". Sendo elc próprio um tipo de atividade instintiva, inteiramente a esse tipo de reações instintivas. A aranha tecendo a teia, a é também um exercício para outros instintos, a escola natural do animal sua abelha construindo a todas essas cspécies utilizam as reações instintivas auto-instrução ou Segundo gatos jovens.e a como forma principal de adaptação ao meio ambiente. brincam, enquanto besouros e insetos, até mesmo as abelhas e formigas extrema- segundo estágio crgue sobre o primeiro mente organizadas, não o fazem. Isso não pode scr acaso, mas deve fundar-se básico estágio do desenvolvimento do comportamento. É chamado estágio dc numa conexão interna: 0 brinquedo suplementa as disposições plásticas" treinamento, ou estágio dos reflexos condicionados. Esta segunda classe de rea- 1919/1930, p. 9). difere da anterior por não ser hereditária, mas provir da experiência indivi- Finalmente, é assinalar também que segundo estágio tem uma dual do animal. Todas as reações dessa categoria resultam aprendizagem influência inversa sobre o primeiro. Os reflexos condicionados, estando sobrepostos específica, treinamento experiência acumulada individualmente, aos reflexos incondicionados, alteram-nos c, muitas vezes, na expc- reflexo condicionado comum, tão conhecido, e que é descrito nas obras de Pavlov riência individual de um animal, obscrvamos "uma perversão dos ou sua escola, pode servir como exemplo clássico de reação do segundo. seja, uma nova orientação-tomada por uma reação inata devido às condições em que estágio. agora assinalar apenas dois aspectos que caracterizam CSSC SC- clássico de uma "perversão do instinto" desse tipo demonstrado gundo estágio no desenvolvimento das reações. Em primeiro lugar, cm mente pelo Pavlov cm quc desenvolve um reflexo num a concxão que as do segundo estágio as instintivas ou sua pelc com uma corrente A primeira resposta do animal à hereditárias. Os estudos sobre reflexos condicionados demonstraram que dor é uma reação defensiva violenta; por livrar-se da coleira, morde o XO condicionado primário aparece somente com base no reflexo incondicionado, ou aparelho e luta com toda a sua força. Porém, em consequência de uma longa de instintivas experimentos, em que estímulo de dor foi acompanhado de afimento, a resposta do Essencialmente, não cria novas reações no animal, mas cão às queimaduras na pele começou a ser exatamente a mesma reação com que apenas para associar dando origem a novas condicionadas c estímulos ambientais. Assim, CSSC novo do desenvolvi- mento do comportamento erguc-se sobre o estágio anterior. Uma Bühler que a de Freud sobre o prazer da satisfação cra apenas um terço comple- condicionada não é mais do que uma reação imediata alterada pelas sob acrescentou o prazer do funcionamento e o prazer da criação (Corsini, 1984, p. 175). As sementes as quais surgiu dessa criatividade são buscadas por Bühler no comportamento animal. No primeiro capitulo The segundo aspecto característico estágio do desenvolvimento Mental Development of the Bühler estuda começo da linguagem c da arte vindo desde comportamental é a nova função biológica criada pelos reflexos condicionados. primórdios: "Instinto, Treinamento Ele recorreu muito a uma psicologia comparada c Embora os instintos sirvam como meios de adaptação a situações ambientais mais pesquisas feitas por Köhler com macacos, galinhas outros animais. Muito do que Bühler dissc nessa obra entra no texto de Vygotsky. ou menos constantes, estáveis e fixas, os reflexos condicionados constituem meca- Mais informações sobre CSSC no encontram-se Kozulin (1990a). nismo de adaptação muito mais flexível, sutil (mc- Ali discute o de regressão c a teoria do 56 R. Estudos a História do 57</p><p>comumente respondia à () famoso psicólogo Sherrington mentos formas humanas dc comportamento a geral presente a esses experimentos, disse, olhando para o "Agora compreendo a mente nos referimos pelo termo comportamento racional, ou alegria com que os mártires subiam à Com palavras, clc salientou a Ao Köhler seguiu a as ciências comparati vasta perspectiva revelada por CSSC experimento clássico. Nesse experimento sim- vas de sua época seguiam. anatomia do diz Marx, a chave da vislumbrou protótipo das profundas mudanças que são produzidas cm nossa mia do macaco. Vestigios formas (de comportamento) superiores presentes nas pela enculturação C pela do ambiente sobre animais inferiores so podem ser compreendidos quando [formas Ukhtomskii (1945) afirmou: J.K. já são conhecidas". Köhler optou por empregar exatamente essa abordagem em seu estudo sobre comportamento dos macacos. Considerava que a Nossa natureza é os próprios fundamentos, ainda que que ser invenção e a utilização de instrumentos constitulam as características mais essen- necessariamente alterados no correr do surgimento das condicionadas de Pavlov, ciais e distintivas do comportamento humano. Por razão, dedicou-sc à tarefa de sempre mais Por isso c que constituem um estável e perma- demonstrar que já se podem encontrar os rudimentos dessas formas dc comporta- mas sentire o fato de que, em condições realizações superiores se desintegram prontamente, enquanto os ins- mento nos macacos antropóides. tintos mais primários não, significa que estes constituem base do comportamento Köhler realizou seus experimentos 1912 1920 na Ilha de Tenerife, na mas não as bases mais novas e superiores. estação de antropóides que a Prussiana Ciências organizou especial- mente para esse fim. Nove macacos (chimpanzés) estiveram sob sua observação e comportamento do ser humano moderno normal não pode ser explicado pelos mais antigos foram utilizados como sujeitos experimentais. instintos animais mais do que pelas do óvulo ou do Pode-se dizer que escopo das huscas do comportamento do homem resume-se à formação e cultivo A importância dos experimentos de Köhler não se limita à descoberta do elo Estou convencido que a mais importante inspiradora da doutrina psicológico perdido na cadeia evolutiva. Facilmente encontrará neles ainda um Pavlov é a de que o mecanismo reflexo funciona não sair do mas sim constante- outro significado que dc nosso interesse imediato. nesscs mente se transformando e avançando para diante no com macacos antropóides é as intelectuais forma simples, e transparente que nunca fomos capazes de observar no comporta- Sobre esse segundo estágio do desenvolvimento do comportamento, mento desenvolvido do homem. Aqui é que observamos a vantagem das formas c, para 0 animal, aparentemente último estágio, não o porém, 3 primárias e primitivas sobrc as formas posteriores mais complexas. para o homem. A presença desse terceiro estágio sido constatada, com E por isso que todas as características dessc estágio de desenvolvimen- cientifica indubitável, somente no comportamento dos macacos antropóides superio- to do comportamento, toda a especificidade que o distingue dos dois anteriores, A Icoria de Darwin estimulou precisamente que se buscasse e o todas as que ligam o terceiro aos dois estágios aqui se encontram estágio exalamente nesses sob a forma mais nitida. É como se uma "cultura pura" de intc- Segundo dados de analomia fisiologia comparados, com absolu- criada experimentalmente com a finalidade dc estudar as qualidades desse fidedignidade que os macacos antropóides ser nossos parentes próximos estágio de desenvolvimento cm toda a sua pureza. Isso explica o grande alcance na progressão evolutiva. Até bcm recentemente, porém, continuava um desses experimentos, que são importantes não só para compreender o nessa corrente evolutiva que unc 0 homem ao mundo animal: o elo psicológico. mento comportamental ascendente do macaco para homem, mas também para agora, os psicólogos ainda não conseguiram demonstrar que comportamento dos compreender corretamente o comportamental de baixo para cima, macacos mantém com homem a mesma relação quc sua anatomia. isto é, partir do instinto até os condicionados da Köhler à tarcfa dc descobrir esse clo psicológico perdido na tcoria Os dc Köhler envolviam basicamente três operações fundamen- de Darwin de mostrar que, como desenvolvimento biológico, o desenvolvimento tais que um animal tem que executar para resolver A primeira condição psicológico também avança pela mesma rota evolutiva - dos animais superiores para a solução da tarcfa era que animal tinha que descobrir meio para o homem. Para tanto, Köhler (1921/1926) tentou encontrar no macaco rudi- indireto para atingir objetivo em situações em que, por alguma razão, era impos- a solução direta; a segunda condição estava ligada à de ultrapas- ou climinar encontrado no caminho que conduzia ao Mais tarde, C.S. Sherrington realizou CSSC mesmo experimento com macacos (ver A. Luria, a terceira condição era a de usar, inventar produzir ins- P 12). trumentos como para atingir um objetivo, outro modo 1 palavra "vospitanie" significa nestc não só instrução, mas também educação moral. por Nos experimentos mais complexos, duas c, às até mesmo as três condi- meio da qual valores c metas da sociedade, bcm como conhecimento, são instilados na criançn. associavam-sc numa condições aparcciam As duas outras palavras que frequentemente os norte-americanos traduzem como "educação" são radamente, mas, em os experimentos foram todos estruturados de tal mancira "obrazovinie" (o sistema global de educação) "obuchenic" 58 A. R. " do 59</p><p>que a complexidade aumentava de modo que capacidade de resolver uma tarefa de mais simples, que fazia parte do cxperimento anterior, tornava-sc pré-requisito para cada um dos experimentos os EXPERIMENTOS DE KÖHLER Vamos agora brevemente sobre algumas das observações mais importantes de Köhler, a fim de descrever as características da terceira forma de comportamento. Até nas brincadeiras dos macacos, inúmeras de observar sua capacidade de utilizar instrumentos. A animais oferecem-nos uma imagem aproximada de seu comportamento na natureza (na flo- resta) Nas brincadeiras encontrar-se uma ligação com a experiência de vida real do animal. Muito facilmente o animal traz certos tipos C modos comporta- mento das brincadeiras para as atividades que não são e animal imediatamente para suas brincadeiras algumas novas cias de vida algumas resolvidas. Segundo Kohler (1921/1926): "Se, sob a pressão da nas cir- FIG. 1.1 Chica na vara de saltar. Rana observando cunstâncias especiais de um testc experimental, algum método cspc- (Köhler, p. 72). digamos, uso de instrumentos seguramente SC pode esperar encontrar cm breve CSSC novo conhecimento utilizado no onde clc não 0 menor ganho imediato, mas somente um aumento da de (p. 71). Usando uma varal macaco remove toca lagarto, ou num Na estação de pesquisa de Köhler, descobriu-se que o brinquedo favorito dos elétrico, ou em qualquer coisa que não quer tocar com a mão. Talvez ainda mais macacos, usado para diferentes fins, era a vara. Enquanto esteve na estação, Sultão, fascinante é que o chimpanzá desenterra raízes de capim com um pedaço de o talentoso dos macacos, inventou o jogo de saltar de uma vara; trepando o em geral, gosta de cavocar o chão. Nesses casos, o pedaço pau serve de que mais rápido possível numa vara colocada quase perpendicularmente ao solo, o ma- dirigida pressionada para baixo com a mão o Quando o macaco quer caco saltava para o chão ou para algum ponto mais assim que a vara comc- crguer a pesada de um recipiente de água, pedaços dc pau fortes barras a cair, ou antes. Os outros macacos imitaram brincadeira e se ferro na fenda sob cla, usando-os como alavancas. tornaram hábcis nisso. Quando estão brincando, os animais gostam se provocar cutucando-se na Esse método, que apareceu primeiro em suas brincadeiras, foi depois utilizado ilharga. Às quando zangados, para se defender ou atacando, usam a vara pelos macacos nos experimentos cin que tinham quc pegar alguma fruta pendurada como arma. Nas palavras dc Bühler: muito alto. A Figura 1.1 (extraida de Köhler, mostra os macacos tomando parte nesse tipo de experimento. CSSCS vários modos de usar vara - juntamente com o fato de que, brincando ou por Um outro macaco segura um pedaço de palha numa fileira de formigas, espera o chimpanzé arranca uma vara por iniciativa própria c a utiliza sem qualquer que várias delas subam nelc e, a seguir, as passando a palha pela boca. instrução c com muita habilidade, dão-nos base suficiente para pensar que, como animal que vive nas já conhecia a vara c já a havia utilizado na vida scivagem. Quando Dcpois que os outros adotaram esse truque, todos os animais da estação "podiam ser menos, estará familiarizado com galhos de árvore, tanto como o lugar em que a fruta fica vistos agachados, um ao lado do outro, ao longo da trilha das formigas, cada um pendurada, quanto como um meio natural de alcançá-la. deles armado de uma palha ou um galhinho, como pescadores na barranca de um rio" 1921/1926, p. 80). melhor exemplo da ligação entre comportamento do macaco em condições experimentais cm formas naturais de comportamento em brincadeiras é dado pela tarefa mais simples, resolvida por todos os animais. Nessa situação experimental, o Wolfgang Köhler, (1921) Todas as traduções em deste texto foram tiradas de Köhler (1921/1926). The Mentality of A figura foi extraida do macaco cstá numa jaula diante da qual se alguma fruta presa a uma corda. original Estudos sobre a História do Comportamento 61 60 1. R.</p><p>Scin qualquer hesitação, quaisquer movimentos exploratórios ou alcatórios, Em outro scm qualquer corda, a fruta colocada diante da jaula todos os macacos arrastam a fruta para junto de si, puxando outra ponta da corda uma vara é colocada dentro tirada dc Köhler, 1921). macaco é de que encontra dentro da jaula. Dcssc são capazes de usar uma corda como imaginar que pode usar a vara como instrumento para trazer a fruta instrumento para conseguir pegar uma fruta. E interessante registrar que um cão não e a seguir pegá-la com a Algo interessante nesses foi consegue resolver mesma quc a tarela só scria cumprida SC a fruta e a vara tão perto uma da outra Em experimentos análogos com um cm que a carne foi colocada diante da que licassem no mesmo campo visual c animal as visse Porém jaula. o cão ficará olhando para a carne, tentando conseguir alcançá-la sempre que a vara cra colocada bastante para que macaco não enfiando a pata através da grade: ficará correndo pela jaula ao longo das grades. abranger num só olhar instrumento objetivo, a solução da tarcfa mas demonstrará ser incapaz dc usar a corda que da à jaula ou de ou muito dificil, usar a vara que ali. certo que muito esforço um cão pode ensinado a usar a corda ou a vara, mas, nestc caso, a nova do só resultará dizado ou treinamento. Por si só, 0 cão não fará uso de um instrumento. Fenômeno mais curioso foi descoberto cm ulteriores experimentos de corda com macacos. Várias cordas são estendidas a partir do lugar fora da jaula em que foi colocada uma fruta; somente uma delas está presa à fruta, enquanto as demais apc- nas preenchem espaço entre animal c a Comumente, os macacos puxam a posição do animal, h a vara, a grade, J a a corda errada, isto é, uma que não está presa à fruta, mas que é mais curta. Somente (Köhler, p. 8). depois de perceber a inutilidade das tentativas de puxar a fruta desse modo que passam para a solução correta da tarefa. Cinco desse tipo estão apre- sentados esquematicamente na Fig. 1.2 (tirada de Köhler, 1921). Os números indi- Pode-sc perceber muita () papel dos fatores Contu- cam a ordem em que o animal puxou as diversas cordas cm sua direção. Em quatro do, basta um pouco dc para que () macaco aprenda a superar CSSC pro- dos cinco casos. escolheu a corda que cobria distância mais curta entre 0 objetivo blema e usar uma vara localizada atc mesmo Tora do mesmo campo visual que C a grade. Isso ilustra o papel que os fatores visuais - a estrutura do campo visual, o objetivo. Em casos cm que não havia uma vara na jaula, macaco arrancava um contato óptico entre o instrumento c o objetivo - desempenham para o macaco na galho dc árvore, usava um punhado de palha, arrancava uma tábua de uma caixa, solução que dá à pegava um arame do gradil, usava um pedaço comprido de tecido para golpear a banana, c por Uma outra técnica mais complexa, descoberta por Sultão, é exemplo de verdadcira invenção produção de um instrumento especial. A fruta é colocada diante da grade da jaula e dentro um pedaço bambu curto demais para alcançar a fruta. Existc um segundo bambu tão curto quanto o primeiro, porém mais grosso aberto cm ambas as extremidades. Nessas circunstâncias, o ambos os bambus juntando a suas extremidades uma por cima da outra. A seguir, segura no ponto dc junção usando a mão como uma com cssa vara alongada procura alcançar a fruta. A posição errada da mão-segurando a vara alongada não pela ponta, mas pelo meio, no ponto cm que as varas se não permite que o macaco seu objetivo. 2 Durante horas a fio, Sultão tentou alcançar a fruta desse modo. 3 Finalmente, afastando-se da grade, pegou ambos os bambus e sentou-se longe, girando-os até que a extremidade de um dos bambus deslizou para dentro do outro h d ali ficou presa. Imediatamente, Sultão veio com a vara alongada até a grade e arras- tou a fruta para junto de si, A partir de então, Sultão sempre se facilmente de situações semelhantes. Quando necessário, enfiava três bambus um no outro, afi- nando a ponta com os dentes, quando cla não cabia no buraco. Desse modo, produ- zia uma vara alongadale depois a utilizava isso, os demais 1/2 FIG. 1.2 Cinco experimentos com c 2 cordas 1926. p. 29). animais 0 imitaram (Fig. 1.4, tirada de Köhier, 1921). 62 1. A. R. Juria Estudos sobre " do 63</p><p>cantos; a construção não será estável se o lado aberto do caixote de cima é o que apóia o de baixo, etc.. Por isso que um macaco às tenta prender um numa par plana. elc firme desse modo, a estaria resolvida. Pode se observar algo cido no caso de uma escada de mão que é usada apenas como um poste de onde pular ou é presa de algum modo lecnicamente falho, por como fosse colada ou parcde de um lado só, o outro qualquer apoio, FIG. 1.4 - fazendo uma vara dupla (Köhler, p. 132). Os animais enfrentavam algo quando a fruta cra pendura- da tão alto na jaula que não podia ser alcançada do chão Neste caso, os macacos mais espertos um caixote que havia na jaula colo- cavam sob a fruta pendurada, subiam sobre dessc modo alcançavam objetivo. Quando estão brincando, os macacos brincam com caixotes com tanta anima- ção quanto com varas; puxam-nos, empilham-nos um sobre outro os arremessam, divertindo-sc com que os caixotes produzem ao bater no chão ou nas No experimento que acabamos de mencionar, () FIG. 1.5 Grande consegue uma estrutura de qua sobe no de um caixote e depois salta dali com isso, apanha a tro andares 144) abrir a porta para dentro da jaula a mesma utilidade do chim- panzé abrc a porta. trepa por cla apanha a fruta está pendurada no Quando a fruta muito alta, o macaco carrega vários caixotes, empilha-os Os macacos também se sacin bem em experimentos em que são necessários um o outro desse modo, usando três ou até quatro caixotes, constrói uma caminhos indiretos para atingir 0 Neste caso, na opinião de Bühler, o com- torre ou uma escada para subir (Figs. 1.5 e 1.6, ambas tiradas de Köhler, 1921). portamento dos macacos geralmente não difere muito do que se pode observar no o combina ambos os meios, caixote e a para obter a fruta comportamento de um esquilo, gato ou cão. O próprio descobriu que um cão (Fig tirada de Köhler, 1921). Os experimentos com caixotes revelam um deta- pode empregar meios muito complexos e para alcançar um objetivo Se- the do comportamento do as construções dos gundo Bühler, a base da capacidade do macaco ent meios indirctos macacos tendem a ser desordenadas c a de equilibrar uma vez mais, no habitat natural do macaco a construção parece ser para cles. Segundo Köhler (1921/1926), Köhler explicou: falta ao macaco uma compreensão da sua construção (p. 154). afirmou: D Imaginemos que da densa folhagem um macaco enxerga uma fruta que não pode alcançar a partir do galho de árvore em que cncontra. para alcancar Parece-me que comparar construções dos com uma árvore nos ajudará a ver objetivo tomará um caminho indireto; por exemplo, descerá de uma árvore e subirá cm outra. melhor o que falta na compreensão do Os ramos de uma irregular- Isso certa capacidade de captar a situação num golpe de vista e de escolher o mente qualquer galho que se estenda para o lado pode com Evidente- correto. um animal que vive nas árvores não que caso muito diferente é lidar com caixotes uns sobre os outros: os caixotes de cima não podem projetar-sc demais Apresentamos agora mais um outro experimento. Neste caso, a fruta está colo- para fora do que está tem que ser juntados pelas faces planas não pelas ou cada no fundo de um caixote sobre qual foram pesadas, pedras uma / A. R. Estudos sohre a História do Comportamento 65</p><p>fenda horizontal foi feita na mais alta numa tábua lateral do caixote; as barras verticais na outra extremidade do caixote. Perto uma vara amarrada a uma que com a vara só SC pode alcançar a fenda animal deve primeiro enfiar a vara através da fenda empurrar a fruta para longe dele na direção das barras oposto do J.K. e, a seguir, depois de dar a volta no pegar a banana a mão através das barras. Os animais mais cspertos resolveram essa tarefa (Fig. 1.8, tirada de Köhler, 1921/ 1926). FIG. 1.6 Grande sobre uma construção insegura (Köhler, p. 142). FIG. 1.8 - a caixote com a grade e a fenda h a fruta, a vara, d a A indica a direção da via indireta (Köhler, 1926, p. 264). Mais dificil a tarcfa se faça passar [a por fora tábua [isto é, de uma das parcdes dc um caixotc]. Do lado de fora das grades [diante das quais se encontra o macaco] existe um caixote aberto (como uma gaveta de escrivaninha) com a tábua da frente faltando [isto a estrutura toda se parece com uma gaveta três lados, onde falta uma tábua J.K.] dentro dele está a O lado em que falta a voltado para 0 lado oposto ao da grade Je do macaco J.K.]. Com o uso de uma vara, o animal deve primeiro fazer a fruta mover- SC para longe empurrando-a para do caixote, depois para o lado, e somente depois disso é que pode alcançar a fruta com as mãos. Somente um dos macacos, mais esperto deles, resolveu essa dilicil tarefa. Para todos os demais, esse caminho indireto de resolver a tarcfa dificil demais (Fig. 1.9, tirada de Köhler, 1926). De fato, ao invés de usar a vara para trazer a fruta em direção si próprio, como fizera comumente nesses experimentos, era exigido agora que o macaco fizesse a fruta mover-sc para longe de si, isto proceder precisamente na direção oposta. com lacabaram por ser ainda mais dificcis para animais do que com caminhos indirctos. "Um animal FIG. 1.7 Chica objetivo com pau Bühler, venceria qualquer obstáculo que atrapalhasse seu caminho (Köhler. 1921, p. 146) na floresta, e dificilmente teria motivo para por isso, todas as tarcfas com obstáculos mostraram-se muito complicadas para os 66 A. R. Luria História do 67</p><p>Uma fruta posta da grade uma vara cstá dentro da Essa vara demais para alcançar a mas do lado dc fora da grade outra, mais prida. Usando a vara curta, o macaco deve primciro deslocar a vara comprida para perto dele e, a seguir, com a ajuda da mais comprida, pegar a banana, como na Fig d 1.10 (tirada de Köhler, 1921; citado em 1921/1926, pp. 130-133). FIG. 1.9 - a posição do animal, b a grade, a caixa, d a fruta, e a vara (Köhler, 1926, p. a. 240). Se caixote de que o macaco precisa para sua construção contém pedras pesa- FIG. 1.10 - posição do animal, h a vara, a vara comprida, d a fruta, a grade (Köhler, 1926, das ou areia, de modo que o animal não é capaz de exige-se que faça p. 180). esforço para imaginar que deve despejar a arcia ou as pedras para liberar o caixote. Se o caixote está encostado às grades, ocupando assim lugar do qual é possível pegar a fruta, muitos dos macacos levam horas e horas trabalhando em diversos outros meios para finalmente vir a imaginar que devem deslocar o caixote Ou, por exemplo, este outro experimento. Uma banana está diante da grade, há para o lado. Essa da situação visual imediata sobre as ações dos uma vara pendurada no um caixote dentro da jaula. O macaco deve subir macacos acaba sendo da maior importância para compreender com- sobre pegar a vara com cla, deslocar a banana para mais perto. Experi- portamento global do macaco, mentos desse tipo, incluindo duas ou três operações com vistas a um fim também Um dos experimentos de Köhler com caixotes é extremamente demonstrativo a análogos aos experimentos que exigem uma solução para a É interessante, neste caso, observar de que modo um animal. que já A caminho do objetivo final, o macaco introduz algumas J.K.] encontrou a solução correta para uma tarefa cm dada situação, por alguma razão rias, como pegar a vara. A maioria dos macacos mostrou-se capaz de lidar com não consegue usá-la em outra situação, Neste caso, é muito fácil descobrir as cir- cssas tarefas, resolvendo-as cm geral scm Eles cunstâncias que impedem a solução correta da tarcfa. Por exemplo, num dos experi- mentos, a macaca Chica faz o possível para pegar a banana pendurada no teto, mas não tenta fazer uso do caixote que está no meio do cômodo, muito embora em várias A LEI DA ESTRUTURA E O COMPORTAMENTO DOS MACACOS já usado essc mesmo caixotc como A macaca se esgota de tanto saltar e tentar agarrar a fruta. Durante todo o Tudo que os macacos faziam nos Köhler cstava intimamento tempo está vendo 0 caixote, chega até a sentar sobre ele mais de uma vez para ligado do caminhos remover obstáculos mas não faz o menor esforço para arrastá-lo em direção ao objetivo. empregar tudo acabava sendo do campo de visão dos maca- Durante todo esse tempo, Tercera, um outro animal, está deitada sobre o /cost O macaco percebia esse campo visual como uma certa entidade, uma estrutura Quando, por acaso, esta se levanta, Chica imediatamente caixote, arrasta-o (configuração) C, graças a isso, cada um dos desse campo (p. a vara) até objetivo e o alcança. adquiria o papel de instrumento ou funcionava como parte dessa estrutura. caixote, sobre o qual está deitada Tercera, não parece à macaca "um objeto Como demonstrou Köhler, a razão a vara SC tornar um instrumento cra que do qual se pegar a fruta", mas apenas "algo sobre o que deitar" (citado em Koffka, cla pertencia à mesma estrutura que a Contudo, caso a vara estivesse colocada 1925/1928, p. 215). Nessas circunstâncias, macaco modo algum associa tão longe da fruta que o macaco não pudesse perceber de um só golpe de vista ao alvo; o caixote parcce incluir-se numa estrutura diferente e, por isso, não instrumento e o objetivo, então a solução correta tornava-se mais pode ser incorporado como um instrumento na situação experimental principal. Sc- Analogamente, caixote, comumente usado como escada, está sendo usado por gundo Koffka (1925/1928): uma coisa uma configuração, transfe- outro animal como lugar repouso, o macaco numa situação dificil; ri-la por para outra configuração seria considerado um dc grau caixote sua ligação antes com a operação de pegar a (p. 215). Assim, Köhler chegou à conclusão dc que, cm geral, o comportamento dos Finalmente, os experimentos mais dificcis são os associam duas ou três macacos durante CSSCS definido pcla lei A técnicas de ação J.K.]. Bom exemplo ver no dessa a todos os processos dc nosso comportamento, inclusive todas as nossas não são simples soma cumulativa de clementos 68 A. R. Luria Estudos sobre História do 69</p><p>duais. Ao contrário, ação nossa percepção juntas, formam um certo a razilo para isso é mais uma vez o de que, no novo conjun- determinam lunção e o cada um dos componen- to mudara funcional dessa folha. No conjunto, essa folha funcionava como a tonalidade mais escura, enquanto neste caso cla portava Ao todo que determina as propriedades os significados de suas partes. os como a mais clara (Fig psicólogos chamam dc Essa é uma noção muito importante para compre- ender o comportamento dos macacos. experimento de Kohler com a criança, chimpanzé a galinha doméstica apresenta o mais simples exemplo do A B C D significado estrutura. o experimento consistiu no seguinte. Foram dados alguns grãos a uma galinha, duas folhas de papel: uma, cinza claro c a cinza Sobre papel cinza claro estavam grãos soltos que a galinha podia pegar com 0 bico; porém, os grãos sobre 0 papel cinza escuro estavam presos com cola. Por ensaio e crro, a galinha gradualmente uma reação positiva em relação ao papel cinza claro uma reação negativa relação ao papel cinza para a folha de papel cinza claro bicava os Quando essa reação estava suficientemente firmada, Köhler passou para um estágio crucial do experimento, à galinha um novo con- junto de folhas: uma delas cra cm relação à qual a III FIG. 1.11 os experimentos básicos galinha desenvolvera uma reação positiva, enquanto a outra cra uma folha nova, II o primeiro III o segundo tcs- branca Como portará a galinha nesta situação? reação negativa Seria natural esperar que a galinha se dirigisse infalivelmente para a folha de 1962, 207). papel cinza uma que havia sido treinada para bicar milho exatamente Ou poderia supor-sc. por um exagero de imaginação que, devido à aparência da nova folha branca papel, os resultados do trcinamento anterior SC- Todos esses demonstram com clareza absoluta e convincente que riam anulados e a galinha. outra por ensaio e se dirigisse primeiro para a reage à situação dada como a uma entidade integral. Os elementos dessa uma, depois para a outra folha papel, com 50% de probabilidade para cada uma delas. Os resultados do experimento provaram totalmente o contrário. situação (cada uina das de papel) podem ser mudados podem outros podem mas a como um todo produz o mesmo a Foi para a nova branca de papel, vista que a galinha geral dirigiu, demonstrando uma negativa folha claro de galinha reage à tonalidade mais clara. dizer quc as dos clementos componentes da percepção aquela relação à qual se firmara uma resposta seletiva positiva no correr de visual da galinha são determinadas por sua estrutura como uma entidade muito Como pode explicar 0 comportamento da galinha neste caso? Esta é, de fato, a característica mais importante da estrutura: 0 significado de cada a seguinte explicação. A folha cinza claro de papel do conjunto um dos elementos nessa situação depende da relação do o todo e da anterior foi substituída pela branca na nova associação. caso, cla a estrutura todo, na qual clc como um dos Exatamente mesma função como a de tonalidade mais clara duas tonalidades. A galinha foi essa mesma folha cinza claro, ou cinza cscuro, ocasionar uma positiva, treinada a discriminar não o cscuro ou 0 claro absolutos das tonalidades, mas a ou negativa, dependendo de qual conjunto em que estcja incluída como parte. Com intensidade relativa das tonalidades. Era à tonalidade mais clara que a galinha rea- notável experimento, Köhler conseguiu revelar a o papel da estru- () que a galinha fez foi transferir para esta situação experimental crucial a tura cin nosso relação entre os clementos do conjunto inicial. Brilhante reforço dessa interpretação Certos psicólogos usain também csse conceito para explicar as relações cm outro experimento realizado a seguir. tentes entre um instinto c um rcflexo. Tradicionalmente, um reflexo Imediatamente depois do procedimento que acabamos descrever, apre- como a unidade ou elemento primário e mais simples do enquanto sentou-se à mesma galinha um novo jogo dc folhas: a cinza usada na primeira do treinamento experimental uma nova, preta. Lembremo-nos de que. no primeiro havia uma resposta negativa a essa mesma ( bcm provável que Vygotsky a partir da tradução russa de Volkelt folha cinza escuro de papel. Agora, a galinha dirigiu-se precisamente a essa (1926/1930) c do original (1926/1962). A 1.11 foi tirada da versão alema para bicar o 1962). 70 1. A. R. Luria sobre a História do 71</p><p>um instinto é considerado uma cadeia complexa de reflexos construída a partir da- unidades, daqueles clos elementares. Na verdade, há muitas provas de que um instinto é genético de um reflexo. Os reflexos nada mais são do que residuais, isolados, dc instintos mais ou menos Vale lembrar, por exemplo, comportamento dos organismos mais simples. A reação que vemos cm tais organismos é, essencialmente, a resposta holistica do organismo como um Essa reação desempenha uma função análo- ga à de nosso instinto. Somente mais tarde, nos estágios superiores de desenvolvi- e mento do organismo, é que se diferenciam os órgãos individuais, cada um deles desempenhando scu próprio papel nessa reação diferenciada global e, desse modo, adquirindo certo grau de Os experimentos de Köhler com chimpanzés claramente o FIG. 1.12 - a árvore, h o galho, o laço, d o anel, c o cesto uso dc instrumentos pelos macacos é primordialmente resultado das de (Köhler, 1926, p. 8). um campo visual acima descritas. Köhler obteve brilhantes provas experimentais disso. Os macacos scmpre enfrentaram tarefas que envolviam a necessidade de per- ceber e utilizar aquelas relações, formas, situações estruturas que já haviam sido o ancl cm seguida, soltou a mão; puxou uma segunda com mais força de modo dadas ou firmadas. Contudo, assim que Köhler mudava para tarefas que envolves- que o cesto voou para cima uma banana acidentalmente no chão. Sultão scm qualquer tipo de conexão imediatamente "pare- desceu, pegou a fruta, tornou a subir na árvore puxou o cordão com tanta força que cia não restar sinal algum do do arrebentou e o cesto todo caiu. chimpanzé tomou posse do cesto e foi Köhler colocou a vara usada para conseguir a fruta a alguma distância das ra para comer as frutas (Köhler, 1921/1926, pp. 8-9: Koffka, 1925/1928, p. 201). grades. 1 vara amarrou uma corda curta que estava presa a um anel metálico num Três dias depois, CSSC foi repetido cm um pouco prego vertical. Os animais não conseguiram resolver essa tarefa tão simples alteradas. Dessa vez, 0 macaco imediatamente optou pelo último modo de resolver o (desenganchando o anel do prego). Davam puxões na vara, mordiam a corda, que- problema, ou seja, arrebentando o cordão. a vara, mas somente uma VCZ um dos macacos foi capaz de resolver Assim, as mecânicas mais simples mostraram-sc extremamente difi- tarefa. ccis complicadas para os macacos, enquanto lidavam muito mais com Quando o anel foi preso dirctamente à vara, a se mostrou mais fácil. Em situações em que as tarefas estavam ligadas a estruturas visuais. scus melhores dias, vários dos chimpanzés tiravam a vara do prego, mas, para a Com respeito a isso, uma outra observação de Köhler é de grande interesse maior parte essa tarcfa apresentou dificuldade intransponível. A propósito para nós: determinado animal, a ação dos demais, pode intervir no mo- disso, Köhler (1921/1926) disse: "O ancl sobre a barra (a vara) parece representar mento necessário na ação complexa dc um outro. Por exemplo, Sultão está a alguma para o chimpanzé um complexo óptico que ainda pode ser dominado completamen- distância das grades, do mesmo lado cm que SC encontra a fruta, observa o que houver concentração de atenção e assim por diante, mas há forte tendência macaco do outro lado da grade está fazendo para arrastar a fruta etc. Segundo a ser percebido menor clareza se animal deixa fazer o esforço adequado Köhler (1921/1926), experimento fora plancjado de modo que o macaco sujeito sua partc" (p. 260). devia descobrir um substituto para a vara que não estava ali e usar um pedaço de Desse ponto de vista, o experimento das pesquisas de Köhler sobre () madeira que deveria quebrar da tampa de um caixote que estava próximo da grade chimpanzé é muito demonstrativo. Como na Fig. (tirada de Köhler, 1921/ 1926) um cesto com frutas foi erguido a 2 metros do chão, de tal modo que o cordão Sem sair do lugar cm que estava, "Durante algum tempo, quieto, Sultão obser- que o prendia passava por um de ferro; a extremidade cordão estava presa va os esforços desajeitados do outro animal Subitamente, Sultão começa a cami- por um laço frouxo ao galho dc uma árvore próxima. animal, que o objetivo C vagarosamente cm à grade, até chegar bcm perto Dá alguns olha- deseja pegá-lo, coloca-se sob o cesto pendurado. Para resolver a tarcfa, deve desfa- res cautelosos ao observador, enfia a mão através da grade e arranca uma tábua o laço do galho, fazendo com que caia no chão. solta da tampa" e depois a coloca nas mãos de seu companheiro (Köhler, 1921/1926, Essa tarefa acabou sendo muito dificil para os macacos. Eis como Sultão, o pp. 176-177). mais talentoso deles, resolveu o problema. Poucos minutos depois do início do expe- rimento, Sultão subiu de repente árvore até chegar laço e ali ficou imóvel por Fica provado pelo exemplo a seguir que clc realmente enxerga um Olhando para o cesto, puxou cordão de modo que o cesto subiu até executada, do de vista do outro animal. Eu empenhava cm Chica a usar a vara dupla. Estava do lado de fora da grade, Sultão estava de cócoras a lado e olhava 72 A. R. Luria Estudos sobre a História do Comportamento (73</p><p>atentamente, devagar a cabeça de vez em quando. Como Chica não conseguisse abso- que novo c cstivesso do instinto ou do o que foi lutamente fazer o que era exigido. dei finalmente as duas varas na esperança de que tornasse claras as coisas. Elc pcgou as varas, fixou na outra, c não apoderou clc monstrado nos como uma forma dc próprio da mas a empurrou pachorrentamente na direção de Chica na grade. (Köhler, das experiências prévias ou das reações dos macacos. 1921/1926, p. 177) Não chega a parccer-nos notável que o animal saiba como usar galhos de para Vemos que, tanto ao brincar quanto nas sessões experimentais, os macacos objetivos, p. ex., curvando um galho para alcançar a fruta nelc pendurada, ou transmitem um ao alguma experiência adquirida. ou algum modo de resol- batendo com elc, ctc., uma que vai além do instinto e do treinamento. Dc qual- quer a entre galho c fruta deve ser muito bem conhecida dos ver uma tarefa. Assim, na estação de pesquisa de Köhler, todos os macacos da colô- arboricolas. Agora, quando encontra dentro da jaula experimental, com a fruta scm nia partilhavam suas experiências uns com os outros. Isso era especialmente eviden- galho do lado de fora c o galho sem fruta dentro, do ponto de vista psicológico. o feito nos jogos, onde uma invenção ou inovação de um animal tornava-se imediatamen- importante é como clc os juntar perceptual ou o demais por si tc propriedade (prática) geral de todo grupo. Nesse caso, os chamados jogos "da Analogamente quanto ao quando o macaco divisa uma fruta muito alla na moda" são especialmente dignos de registro: no momento ein que uma floresta, nada mais natural que procure à sua volta um de árvore pelo qual tem que subir para chegar até a Na jaula, um caixote no campo de visão ao invés de uma desse tipo era inventada por um dos macacos, cla se difundia por toda a colônia árvore c o psiquico consiste em imaginar caixote colocado no lugar Desc- como a última moda da estação. (Köhler, 1921/1926, pp. 171-178) jar c fazer são pois uma coisa só, pois o cativo cstá sempre brincando com caixoles Contudo, isso não elimina as enormes diferenças individuais reveladas de ma- c arrastando-os por (Bühler, 1930, p. 13) neira tão nítida nos experimentos de Os macacos diferiam enormemente em canacidades mentais, destreza e Aquelas operações que o mais es- Do maior interesse é a descrição por Bühler de como os macacos perto cra capaz de executar mostrava estar muito além do alcance do "menos encompridam uma vara enfiando um pedaço de bambu no outro. Na opinião de talentoso". Bühler, os macacos enfrentam situações cin scu habitat natural cm que que ligar Kohler que o talento entre os macacos antropóides não é menos dois galhos dc árvores diferentes para se deslocar de uma árvore para outra; para variável do que entre os homens; pelo menos, isso é verdade quanto ao intelecto, uma tanto, têm que agarrar o ponto de ligação usando a mão como uma braçadeira e, a nova função, ainda que não fixada. Sabemos que, segundo a famosa lei biológica, seguir, deslocar-se por essa ponte artificial. traços novos c ainda não bcm fixados maior Lembremos que foi dessc modo que tentou fazer uma vara que sua diversidade o ponto de partida para o desenvolvimento dc uma nova forma comprida a partir de duas curlas: foi desse modo que 0 ponto de concxão de adaptação no processo de com a mão. Assim, Bühler, CSSC dos Köhler tem antecedente nas formas naturais dc comportamento dos macacos. Descobrir uma ligação entre as reações do macaco nos experimentos e sua O INTELECTO E EXPERIÊNCIA NATURAL DOS MACACOS anterior a possibilidade de explicar com razoável o terceiro estágio de a que chamamos de intelecto. Do mesmo modo De mancira plenamente justificada, Bühler assinalou que os experimentos de Köhler que 0 segundo estágio de desenvolvimento (os reflexos condicionados) se a existência uma conexão psicológica entre a experiência prévia dos ao primeiro e nada mais representa do que uma certa transformação, alteração ou macacos floresta e seu comportamento na estação de pesquisas, fator muito impor- de reações inatas, assim também o terceiro estágio desenvolve-se tante para a compreensão dos experimentos. Observou que cm todos os experimentos de muito naturalmente a partir do segundo, e nada mais representa do que uma forma os macacos empregavam essencialmente metos gerais nova e complexa de combinações de reflexos condicionados. sempre resolviam as tarcias, ou partindo das estruturas ou altc- Além disso, do mesmo modo que o do segundo estágio, a De maneira mais simples se moviam para mais perto do partir do primeiro, resulta no aparecimento de uma qualidade de uma forma de um caminho objetivo para mais perto de ST. comportamento absolutamente novas e, pois, de uma nova função biológica, Bühler chegou. a dizer que princípio de utilizar um indireto e o terceiro estágio (o estágio das reações intelectuais), desenvolvendo-se a partir de obter uma fruta baixando um arrancando-o, trazendo-o mais de uma combinação complexa de reflexos condicionados, também faz surgir perto, são dados ao animal como outros mecanismos instintivos, alguns dos quais uma nova forma de comportamento, por sua função biológica não podemos ainda explicar de mancira completa, mas cuja existência que reconhecer como fato". Examinarcinos rapidamente os traços diferentes do do segundo muitos dos comportamentos dos macacos devem ser segundo estágios, as ligações o intelecto os reflexos condicionados, atribuidos a instintos ao natural na 130hler tendia a explicar que caracteriza o intelecto como um estágio novo c.singular do desenvolvi- 74 A. uria a do 75</p><p>mento comportamental e como o estágio que serviu ponto de partida para o desen- responderá observado c registrado desses animais. Chapéus volvimento de todas as formas superiores de comportamento humano. certamento visualmente idênticos vara c, portanto, não são intercambiáveis no cor- Evidentemente, todas as invenções feitas pelos macacos nos experimentos rer dos somente determinadas eles são funcionalmente va- ras, depois função liver sido dada a um objeto que a clas forma c Köhler mostraram-se apenas porque muitas das situações em sua vida ou uma vara. (p. 37) anterior, bem como na vida de seus ancestrais, assemelhavam-se exata- às situações experimentais criadas artificialmente por Como já foi Não nos de que macaco que resolveu a tarefa de alcançar a fruta mencionado, esse vínculo estreito entre a vida selvagem dos macacos e seu com a ajuda de uma vara substituiu, a seguir, a vara por coisas tais como um feixe de nho nos pode ser percebido com mais clarcza situações dc brinch- palha, um pedaço bcm comprido dc por qualquer objeto que tivesse quando os animais estão a si mesmos "comportamento pelo menos alguma leve semelhança com uma vara. Isso demonstra independência ral" aparece em sua forma mais pura. relativa de uma estrutura como um todo das mudanças cm elementos indivi- Lembremos que, nas situações de brincadeira, os uma vara sem O tipo de transferência aqui rcalizada macacos é, essencialmente, a qualquer razão especial, como um objeto para Como essa vara começa reconstrução da estrutura anterior em a assumir diferentes funções: numa ocasião, como poste para subir, noutra, como Essa interpretação dos experimentos de permite-nos compreender, ain- colher para comer, noutra ainda, como arma para atacar ou defender-se, depois da que em termos hipotéticos, os processos internos que ocorrein no macaco, quando como pá para desenterrar raízes. Finalmente, nas palavras de Köhler a uma tarefa ainda, que no caso mais puro e usada simplesmente como instrumento geral/ para tocar cm coisas im- simples, o macaco é capaz de resolver a tarefa principal quando dois a alcançar com as ou coisas cm que por alguma razão vara e a fruta, atuam simultancamente macaco]. Esses dois inter- animal) não quer por exemplo, sujeira cm scu corpo, um lagarto, um rato, ligados [o galho e a fruta J.K.], ainda que diferentemente associados, já haviam um fio e assim por diante (pp. 76-82). durante muito tempo tido influência sobre o macaco durante sua vida Por a capacidade do macaco usar uma vara não uma aquisição repen- isso, não é surpresa que ambos agora independentemen- mas resultado de toda a prévia na natureza. Dessa perspectiva, um do outro, reativem aqueles centros do sistema nervoso que, anteriormente, comportamento do macaco no experimento torna-sc mais claro. A situação monta- sempre haviam atuado juntos. efcito fenômeno provavelmente algo como da por Kohler assemelha-se de fato a uma situação na floresta. curto-circuito da corrente nervosa, ou scja, uma ligação entre dois centros muito Na floresta, muitas vczes o macaco vê uma fruta na ponta de um galho; vê excitados. também o galho que está entre elc a fruta desejada e é capaz de usar galho para Uma circunstância extremamente importante significativa pode facilitar alcançar seu objetivo. Quando apenas a fruta é colocada do outro lado da grade C um processo. Trata-se do fato de que a reação do macaco surge falta em uma só galho sem fruta está dentro da tudo que macaco tem que fazer quando faltam ao animal reações instintivas e Em outras pa- soh noves condições, isto vincular novamente fruta lavras quando o macaco vê cm novas condicoes. diversas da- Não preciso dizer que construir uma anterior sob novas condições quelas em que já se acostumou a viver agir, ou quando enfrenta uma dificuldade, desempenha um papel enorme no comportamento do macaco. ou obstáculo sob a de grades, espaço que o separa da fruta, um macaco capaz de transferir uma velha estrutura para assim por uma nova fenômeno absolutamente análogo à de estrutura Assim, a reação intelectual do macaco aparece sempre em resposta a algum nos experimentos com galinhas. Esse tipo de também ser obscr- obstáculo, empecilho, dificuldade ou barreira impede sua 0 papel vado nos experimentos de Köhler. Como sabcmos, segundo a da estrutura, os desempenhado pelas dificuldades no processo de aquisição de novos modos de ação clementos individuais dc uma situação podem mudar, mas a estrutura continua a foi por Groos (1898/1907). Diz clc: funcionar como um todo e a como um todo integral todas as características de cada um dc scus clementos. () galho adquire exatamente No momento em que a repetição uma reação habitual interrompida, desviada ou atrasada para um por ISSO é que se torna possível a por outros caminhos, imediatamente a entra cm cena posso transferência da experiência anterior do macaco para as novas condições. Segundo figurativamente) a fim de o controle sobre aquilo que, cla havia relegado à Kohler (1921/1926): esfera do inconsciente do sistema nervoso. Questão de especial para um psicólogo diz a condições afirmamos que a vara adquiriu agora determinado valor ou instrumental em mais gerais que, primariamente, com surjam os fenômenos Quando a relação ao campo de ação cm certas condições, e que esse valor se estende a todos os demais (Einstellung) para a concretização de padrão habitual não encontra objetos que. que remotamente, em seu contorno c a resposta adequada (lei do então isso conduz i avaliação quaisquer que sejam suas demais qualidades então o único pressuposto que mental em sua, por "forma natural". Esse embora 76 A. R. Luria Estudos sobre a História do 77</p><p>não A cognição propriamente dita, ou a um simples quando diante tentativas caóticas c scm objetivo, graças à superprodução movimentos, a galinha de algo incomum, ou à da - J.K.] algo habitual (Groos, 1898/1907). ocasionalmente passa por um dos buracos, ainda suficientemente largo para que Lipps (1907) psicológica fun- pudesse damental chamou, figuradamente, de do Segundo cssa Ici, Segundo Bühler: um processo psicológico, no decorrer dc sua realização, for entravado ou retarda- Na segunda, quinta a galinha não se comporta mancira mas quando do por algum ocorre então nesse momento um aumento de e energia o mesmo processo SC por uma dúzia de cla gradativamente alcança a meta mais do próprio processo. Em resposta a esse represamento, processo com forca rapidamente c acaba por evitar completamente os voltcios inúteis indo diretamente para o ou superar o obstáculo, ou contorná-lo. buraco. o exito frequente deu a modo especial dc comportamento uma vantagem, o Lipps acreditava que essa "lei do represamento" explica as origens de toda fracasso climinou os demais: agora concxão clara, suficien- atividade de pensamento. "Essa Ici", segundo Bühler, um tipo dc condição biolo- temente definida entre as impressões scnsoriais confiáveis modo comportamento bcm. sucedido. (1927/1930, p. 6) gicamente prevista para a intervenção de nosso sistema nervoso vida espiritual na atividade de níveis Uma formiga comportaria do mesmo modo. SC coloca um Pavlov (1951) salientou o estímulo pelo obstáculo de um reflexo orientado por obstáculo em sell caminho, a formiga começa a correr incoerentemente cm todas as metas, o qual, desse ponto de vista, constitui a forma principal de energia vital para como se estivesse perplexa, mas sua de confusão tem qualquer um nós: ficação biológica. Em resposta a uma dificuldade, animal faz. tudo que pode [para Faz muitas fica dando voltas, procurando c, como Toda vida, seu progresso, sua cultura, é criada pelo reflexo orientado por metas, isto c, somen- resultado disso, aumenta siras de encontrar 0 caminho por pessoas que lutam por csic ou aquele fim que fixaram para si Um anglo-saxão é melhor encarnação desse tipo de reflexo c é bem consciente disso; por essa quando assim tainbém que se comporta um cão faminto quando, preso numa jaula indagado sobre a principal condição para atingir um fim. sua resposta seria c incon- como um macaco, um pedaço do lado dc fora da grade. Latindo, lança- a um ouvido russo, a presença de (Em outras é como se dissesse: se ao alimento. Tenta seguidamente enfiar uma ou o focinho através das grades: "Que meu orientado por se exerça em resposta obstáculos, então, de fato, corre ao longo da grade, demonstrando grande excitação nervosa. atingirei o fim, por mais dificil que isso possa interessante que cssa resposta desconsidera Todos dados sugerem a conclusão de que, por si só, um obstá- completamente a impossibilidade de atingir a meta. (pp. 310-311) culo ou à ação instintiva ou habitual aumenta a excitação nervosa pro- Finalmente, lembremo-nos de que todo nosso pensamento se desenvolve a par- duz um aumento da atividade. Lembremo-nos que, no experimento, um ma- tir dessc tipo de dificuldades. Como demonstrou Dewcy, em seu brilhante estudo caco pode ficar sentado durante horas, olhando para a fruta que está fora do alcance. sobre pensamento se desenvolve a partir dc uma ou ficar infindavelmente as varas que se mostram qualquer utilida- pensamento tcórico, a dificuldade a partir da qual comumente chama- de para ele. da de problema. Quando tudo claro, quando nada é dificil para nós, quando não Vemos que a excitação nervosa produzida no macaco apenas pela banana não há problema, processo do pensamento nem mesmo começar. seria capaz. dc manter tal grau de atenção, concentração e persistência, se o Voltando aos macacos, vemos que nos experimentos 0 mais característico do não associado ao aumento de influência um que, neste caso comportamento deles era uma reação demorada a um É fácil perceber assume o papel de "provocar o para usar as palavras de um psicólogo. mesmo nos experimentos mais simples, qualquer entrave ou obstáculo que im- fato, se se mostrasse ao macaco uma banana que, a fosse retirada, dificilmen- peça curso normal da ação dos animais causa um aumento uma superprodução clc concentraria a atenção esforços durante horas a fio tentando pegar a fruta. de movimentos. organismo contrabalança a confrontação com uma Assim, devemos então incorporar o aumento de influência de um em Imagine-se uma galmha acostumada a sair busca de alimento através de nossa descrição anterior dos processos que têm lugar no macaco. Podemos buracos na do jardim. Certa chegando à encontra os buracos que, devido a fenômeno, ocorre um "curto circuito" entre os centros excitados que não consegue Como ela SC comporta do cércbro do macaco. Ein todo caso, comportamento exterior do macaco oferecc- Tenta através de um buraco demais. O fracasso faz com que nos fundamentos indubitáveis para tipo dc suposição. tente outra c outra vez, ir ao ao terceiro, ao quarto buraco. Um segundo que distinguirá, de fato, o comportamento de um macaco do de uma formiga fracasso grande excitação na galinha resulta na chamada hipercinesia, isto galinha ou cachorro - os quais também com movimentos au- superprodução movimentos. Cacarejando, a galinha a dar voltas a mentados em resposta a um empecilho ou a um obstáculo? Pode-se que correr ao longo da cerca, tentando atabalhoadamente atravessar todos os buracos. () cérebro mais desenvolvido do macaco consideração a possibilidade de ocasiona um aumento violento de toda a sua Graças a essas tras formas modos de rccanalizar aquela excitação nervosa que resulta da "Ici do 78 A. R. sobre a História do 79</p><p>represamento". É bem verdade que, neste caso, um macaco também se comporta As reações do macaco de modo completamente Se como os animais inferiores; às vezes fica dando voltas sem parar, tentando alcançar tracarmos um gráfico semelhante para um macaco à medida que resolve esta ou a fruta, embora a primeira tentativa já possa de que é impossível fazê-lo aquela tarefa, observaremos que, neste caso, a curva dos erros cairá verticalmente. Ao resolver uma tarefa, o macaco ou comete 100% de erros, isto é, não Contudo, geralmente ocorre cm pouco tempo uma mudança súbita e crucial no absolutamente resolver a tarefa, ou, assim que a solução da tarefa é encontrada, comportamento do macaco. Ao invés de produzir movimentos redundantes, em geral resolve o problema em qualquer circunstância sem memorização, repetição ou trei- macaco interrompe completamente suas reações exteriores; permanece aparente- namento - o número de erros cai imediatamente a zero. mente imóvel, os olhos fixos no objetivo. Tem lugar uma protelação ou suspensão Um fenômeno surpreendente que se encontra nos experimentos de Köhler é geral das ações. essa memorização "de uma vez por todas" nos macacos. Bühler (1930) (Neste caso) a excitação nervosa amplificada não se desperdiça em compara-a com os fatos bem conhecidos a respeito da memória humana (p. 14). tos exteriores caóticos, mas se transforma em algum/processo complexo interior.) Todo o mundo sabe, afirma Bühler (1919/1930), que: Com Bühler, podemos sugerir que macaco se desvia de esforços externos para um de esquadrinhamento interior, isto é, podemos dizer que os centros nervosos uma prova por exemplo. não é aprendida por repetição continuada, como um excitados do macaco entram em alguma interação ou inter-relação e que isso resulta poema ou vocabulário [dc uma lingua estrangeira J.K.J. Pude encontrar CSSR assombrosa no "curto circuito" que presumivelmente explica o [o mecanismo do J.K.] trabalho capacidade de lembrar em todos os casos em que 0 encontra ou "descobre" a própria de conjetura do macaco. relação [e crcio que estc é o principio mais importante não da chamada memória lógica mas, se corretamente de todos os sistemas mnemotécnicos utilizados pelos Ainda estamos muito distantes de uma verdadeira explicação psicológica da mnemonistas para assombrar o mundo desde a Grécia antiga.) (p. reação intelectual. Para isso, só podemos construir pressupostos esquemáticos e mais ou menos plausíveis. Temos fundamentos, porém, para admitir que essa reação Os experimentos dc Köhler demonstraram que as reações do chimpanzé eram bascia-se numa interação complexa entre os estímulos atuais e conexões condiciona- absolutamente do mesmo tipo. Na maioria das vezes, quando alguma técnica era das anteriores. bein-sucedida pelo menos uma o animal era capaz de aplicar esse novo modo condições de percepção bastante alteradas. Alguns psicólogos encontram, na lei da os fundamentos para expli- INTELECTO TERCEIRO ESTÁGIO NO car esse fenômeno de lembrar de uma vez por todas O macaco descobre a estru- DESENVOLVIMENTO DO COMPORTAMENTO tura que organiza dada situação e, tendo essa estrutura, determinará cor- retamente a partir o lugar o significado de cada parte isolada em situações Vamos dedicar-nos agora, de maneira sucinta, traços novos e análogas, até mesmo em situações alteradas. A partir de nossa experiência pessoal, cos que os macacos apresentam nos experimentos de Köhler c que distinguem pro- todos sabemos que há coisas que devem ser memorizadas por meio muitas fundamente terceiro estágio do desenvolvimento do segundo deles, ou seja, das repetições, enquanto há outras que precisam ser compreendidas apenas uma vez respostas condicionadas ou treinadas. Podemos mencionar vários desses traços que para que sua estrutura scja conservada por muito tempo, constituem essa especificidade. Além disso, podemos sugerir que esse tipo de memorização-es diretamente primeiro e mais significativo traço que distingue essas respostas de um refle- ligado à dificuldade e esforco que acompanham a reação intelectual do NO condicionado no macaco é o modo como elas se originam e surgem. Como se sabe, as funções da memória basciam-sc no desenvolvimento das vias ner- Examinemos o modo como aparece um reflexo condicionado, isto é, o modo vosas e compreende-se que nos casos em que a ativação é relativamente como uma resposta é estabelecida como resultado de instrução ou treinamento. Tra- fraca, o desenvolvimento desse tipo de via nervosa, ou seja, deixar um "vestigio", de um processo lento e gradual. Imagine que você está decorando um poema. requer uma ativação nervosa longa e múltipla do mesmo percurso. [Isso poderia Cada que você o recita, o número de erros [lapsos de memória ou omissões comparado com] 0 modo como uma roda faz um sulco na estrada de maneira lenta C será medido: depois da primeira vez, haverá provavelmente muitas falhas gradual. Quando um novo percurso nervoso está sendo estabelecido, a forte ativação perto de 100%; depois da segunda vez, esse número decrescerá ligeiramente; após a quinta ou a décima vez, decrescerá ainda mais, de tal modo que após determinado numero de repetições. lenta c gradativamente, montante de erros chegará a zero. Se Entre colchetes está a tradução a partir do texto o texto de Bühler parece ser uma processo de aprendizagem - o decréscimo de erros após cada repetição for versão abreviada; muitas edições da obra de Bühler, de modo que essa inconsistência é compre- representado por uma curva, veremos uma linha suavemente O reflexo Lei da estrutura provém do termo alemão Theorie se traduz, por vezes, como lei condicionado em geral, gradual e da forma ou lei da configuração. 80 1. A. R. sohre a do Comportamento 81</p><p>que acompanha um empecilho pode agir como um curto-circuito, como uma explo- Bühler afirmou: são empregada para fazer túneis em montanhas. Em todo caso, muitos psicólogos demonstrado experimentalmente que todo Eu sugeriria a palavra "invenção" como termo técnico para esse tipo de ação do grande esforço que empregamos no ato de lembrar pode, em si mesmo, servir como Neste caso, a razão é que, os macacos superant a nova dificuldade situacional estimulo para uma memorização mais rápida e mais permanente. Por mais que isso não por de técnicas exteriores ou de efeitos e tentativas diversos, mas evidentemente por meio de processo (psicológico) interno: decisão parece surgir possa parecer paradoxal, lembramos melhor o que é dificil do que o que é fácil: em mente como uma resposta pronta, isto é, a ação observável imediatamente realizada com certas circunstâncias, lembramos melhor as coisas que exigem esforço mental do muita facilidade como se fosse um hábito bem aprendido. que as que passam facilmente diante de nossos olhos e ouvidos sem exigir esforço algum. Köhler proporcionou descrições interessantes da aparência e dos gestos ex- segundo traco novo que eleva o intelecto acima dos reflexos condicionados pressivos dos animais, a meio caminho de resolver determinada tarefa: o distingue de todas as demais reações é sua função biológica. Nos experimentos de Köhler, o macaco faz descobertas; inventa. Bühler É realmente que veja como chimpanzé parece incrivelmente tolo, quando não consegue encontrar uma solução; como, num trejeito humano, coça a cabeça quando se a Invenção, no verdadeiro sentido da palavra, constitui a função biológica do intelecto. o ho- como ocorre súbita mudança no comportamento do animal, como cessam as idéias, os instrumentos para si mesmo e enquanto os animais não o olhares c os movimentos caóticos; como, nessc momento, toda expressão facial c antiga tese bascada fatos óbvios não é, como aprendemos em 1917, sem exceção, uma movimentos do animal estão plenos de como, então, resolve a tarcfa em poucos vez que os macacos antropóides utilizam e, quando surge a criam instrumentos segundos, anteriormente tenha comportado durante horas de maneira eles incocrente c Nos de Köhler, macaco cada vez numa situação Bühler (1919/1930) comparou essa mudança súbita nos macacos com um Ninguém lhe mostra ou instrui sobre como agir para sair de alguma dificulda- nômeno semelhante por ele observado em situações experimentais com pessoas a de comportamento do macaco é o de adaptar-se a novas circunstâncias e novas quem havia dado tarefas mentais "Muito frequentemente, a solução nos condições em que os movimentos treinados já não lhe são chega subitamente". Assim, o trabalho do intelecto começa no ponto que a atividade do instinto dos reflexos condicionados se detém ou é bloqueada. Adaptar-se a condições alte- A única explicação que podiam dar era sua decisão havia chegado & eles com uma súbita "exclamação interior" AHA! c é por isso que sou de opinião de que a linguagem eriou uma a novas circunstâncias e a novas situações é o que caracteriza o comporta- interjeição especial para essa súbita "iluminação interior" AHA! exclusivamente com o mento dos Os animais dos experimentos de Köhler adaptam-se a essas propósito de dar conta dessas e de outras experiências Os chimpanzés de novas circunstâncias não do modo como faz a galinha diante da cerca do jardim, isto a experiência dessc "AHA!" ou de algo análogo a isso (p. 14). não por ensaio e mas movimentos exteriores c "csquadrinhando As descobertas dos macacos propõem ainda uma terceira propriedade distinti- va. Trata-se da clara independência do modo comportamental inventado em relação à situação concreta em que foi Tendo encontrado a solução Em Mental Development of the Child, Bühler (1919/1930) disse que o macaco: o macaco adquire imediatamente a capacidade de transferi-la genéralizadamente a outras situações é capaz de apreciar devidamente situações novas e incomuns subitamente não por tentativa, nem adquirindo rapidez e precisão com a mas por meio de processos Como já assinalamos, para o macaco um instrumento adquire um "significado interiores Esse processo na medida em que seus resultados surtem efeito, é equiva- funcional" que pode, ser transferido para qualquer outro objeto lente processos que, em nós, chamamos de reflexão; é muito possível que, em casos um pedaço de pano, um feixe de feno, um sapato, uma aba de chapéu de palha, e mais simples, não passe de uma espécie de tateio interior, por dizer, um mecanismo assim por diante. Assim, o macaco a LK decifra a (relativamente) vivo de processos quais o acaso descobre a solução. Muitas ao invés de desenvolver o hábito de reagir às partes constituintes e, assim sendo, sua invenções e descobertas do homeni ocorrem mesmo modo. (p. 14) solução demonstra-se amplamente independente dos elementos concretos. (Ver Esse processo psiquico interior parece corresponder ao que Vygotsky se refere como um "curto- 1925/1928, p. 210.) circuito" que ocorre quando se toma ou descobre, subitamente algum caminho energia Se a capacidade de usar instrumentos fosse desenvolvida no macaco como re- ou atividade interior. que ocorre diante de uma situação dificil parece, tanto a Bühler sultado de instrução e treinamento, então sua capacidade estaria vinculada aos obje- quanto constituir a base biológica do "intelecto" ou da que oferece a capacida- tos utilizados para o Sc, por exemplo, o macaco tivesse sido treinado de "de descobrir e que "constitui feito terceiro estágio do desenvolvimento 1919/1930, p. 14). pegar frutas com uma vara, jamais usaria um pedaço de pano ou abas de chapéu 82 / R. Estudos a História do Comportamento 83</p><p>para o mesmo fim. Essa transferência de estrutura de alguns objetos para outros é menos importantes do que os dados experimentais são as observações de que também distingue marcadamente a reação intelectual dos macacos de seus refle- Köhler, que já mencionamos, sobre o comportamento do macaco brincando, as quais XOS condicionados: grande significação para sua pesquisa. Nesse caso, como vimos, os macacos Edinger: faziam, por sua própria conta, amplo uso de instrumentos c, depois, transferiam essa atividade, juntamente com os meios para a solução para as tarefas experimentais o estudo do reino animal tem demonstrado que o mecanismo em seu todo, do extremo da vice-versa, usavam tranquilamente em suas brincadeiras os resultados que recente- espinhal aos nervos olfativos, inclusive o está cm mente haviam conseguido atingir num experimento principio disposto de maneira semelhante em todos os vertebrados superiores inferiores, ou fato de os macacos manipularem coisas quando brincam indica, sem dúvida seja. a base das funções mais simples é a mesma de ponta a ponta da série, tanto no homem como no peixe. (Citado em Bühler, 1919/1930, p. 17) alguma, quelo uso que fazem de instrumentos mas extremamente conse- qüente de um ponto de vista psicológico. Como já mencionamos, papel muito especial Edinger acreditava que cada nova capacidade psicológica ou forma de compor- nessas brincadeiras é pela vara. Köhler (1921/1926) explicou: tamento que aparece no desenvolvimento filogenético também é acompanhada, como uma espécie de instrumento geral nas mãos do chimpanzé; pode ser aproveitado em SC pode observar, por uma nova formação dá origem a essa capacidade. quase todas as circunstâncias, quando seu uso tiver conhecimento e proprie- "Mas o sobrepõe-se ao paleoencéfalo como um novo aparelho, que co- dade: suas funções variam de mês para 76). meça com os répteis e cresce rapidamente até que, no homem, espalha-se como um Já se mostrou que os macacos usam a vara como alavanca, colher, pá e largo manto que a tudo recobre" (citado em Bühler, 1919/1930, p. 17). Edinger Köhler descreveu todos esses casos com grande detalhe no brinquedo dos macacos. considera que essa a da capacidade crescente do animal para ser macacos exibem um "manuscio de coisas" semelhante, um uso semelhante Além disso, as pesquisas Pavlov demonstraram que córtex ccrebral é o órgão dc objetos, quando se Em suas vemos os macacos por onde circulam os reflexos condicionados, isto é, a base orgânica da segunda com diversas bugigangas. Como descreve Köhler, os macacos usam animadamente do desenvolvimento comportamental. grande número dos mais variados objetos. Quase diariamente, pode-se ver algum Segundo Bühler (1919/1930): "Parece que há também fatos anatômicos que dos animais com um cordão, uma folha de couve, um galho, ou um retalho de là dão suporte ao pressuposto de um terceiro nível na estrutura do cérebro humano. sobre os ombros. Quando se deu a Tschego [uma macaca] uma corrente de metal, ela Nos macacos antropóides, e mais ainda no homem, encontra-se um novo aumento no a colocou imediatamente sobre o corpo. Um número de gravetos é frequentemente peso relativo do cérebro, que tem lugar principalmente no córtex. Novos campos jogado sobre as costas um fio ou retalho de là é comumente enrolado no pescoço, com ricas fibrosas todas as direções no córtex intro- caindo sobrc os ombros até o chão. duzem-sc por entre os no homem, são sobretudo os centros da fala, Tercera pendura uma corda em torno do pescoço e sobre as emoldu- infinitamente importantes" (p. 18). rando assim ambos os lados da cara. Quando essas coisas caem, a macaca as segura Exatamente como o novo cércbro ao antigo, assim com os dentes. Uma Sultão a idéia dc com latas vazias, seguran- cada novo passo do desenvolvimento comportamental associado à formação do do-as entre os dentes. Chica às vezcs sente prazer cm as costas com pesadas novo aparece sobre o estágio anterior. Na descrição que fez do compor- pedras; encontrando pedaços pesados de lava, começou com quatro e acabou che- tamento do macaco, disse Bühler (1919/1930): "Não conseguimos ver nenhuma gando a nove libras alemäs (Köhler, 1921/1926, p. 95). ruptura com passado. Esse novo grande passo para diante [talvez tudo quanto A essência de todos esses enfeites, como mostrou Köhler (1926), não é a pro- coloca um chimpanzé acima de um cachorro] foi introduzido, talvez, simples- dução de um efeito visual, mas "o extraordinário consciência corpo- mente por um pequeno avanço na conceptualização ou por um jogo de associa- ral" - um sentimento do eu (p. 97). A base para esse aumento é que quando algum um pouco mais livre. A questão é que SC linha que fazer dele um outro objeto se move juntamente com corpo, isso enriquece e amplia a sensação adequado" (p 19). que provém do Vemos, assim, que uma nova forma intelecto começa a surgir muito Resumindo seus estudos, Köhler (1921/1926) concluiu: claramente no comportamento do macaco; é pré-requisito básico para desenvol- vimento da atividade laboral e funciona também como o vínculo entre o comporta- Os chimpanzés exibem um comportamento inteligente do tipo geral, comum em seres huma- nos] Nem todos os seus atos inteligentes são exteriormente semelhantes aos atos humanos, mento do macaco o do homem. coisa mais importante, segundo Köhler, é que, mas, em condições bem escolhidas, sempre pode identificar o tipo de condu- sob muitos aspectos. macaco antropóide está mais próximo do homem do que de ta inteligente. A de toda diferença importante entre um animal e outro. isso se aplica outras famílias de o quimismo somático, revelado nas ca- até mesmo aos espécimes menos bcm dotados da espécie que aqui foram observados, pois. racterísticas do sangue, e a estrutura do órgão superior - cérebro principal pas- deve ser válido para todos os membros da na medida em que não seja mentalmente saram a ser mais semelhantes aos do homem do que aos dos macacos inferiores". deficiente, no patológico da expressão 84 A. R. Luria Estudos a do Comportamento 85</p><p>Em todo caso, isto permanece verdadeiro: os chimpanzés não só se sobressaem ao resto do sabemos, é altamente improvável que em algum momento chimpanzé visse um mundo animal por diversas morfológicas em seu sentido mais estrito, fisio- lógicas, como também se comportam de modo que se considera especificamente humano. signo pictórico numa mancha deixada por um morango esmagado". Ainda conhecemos pouco de seus vizinhos do outro lado, mas segundo o pouco que sabemos, O próprio Köhler tentou fixar os limites para uma avaliação com os resultados deste relatório, não é impossível que, nessa área de pesquisa experimental, dos resultados de seus experimentos. Com relação a isso, Köhler registrou que todas o esteja mais próximo do homem inteligência do que de muitas das ações dos macacos scus experimentos relacionavam-se.com "uma dada espécies de macacos inferiores. Até aqui, as observações bem com as teorias da ação por isso é impossível julgar até que ponto, para trás ou para diante, se em particular, confirma-se a entre inteligência e desenvolvimento do cérebro (pp. 275-276) o tempo em que vivem os macacos. o longo tempo despendido com chimpanzés leva-me a arriscar a de que, além da falta USO DO INSTRUMENTO COMO REQUISITO PSICOLÓGICO de fala, é dentro de limites direção que se deverá encontrar a diferença principal entre e até mesmo o mais primitivo dos seres humanos. A PARA TRABALHO falta dc um recurso técnico (a fala) e grande limitação aos componentes muito importantes do chamados "imagens" assim, as causas que Há, porém, características extremamente importantes que nos permitem des- impedem que o chimpanzé atinia sequer o mais elementar comeco do desenvolvimento cultu- crever o comportamento dos macacos a partir do do homem e apresentar sob uma ral. (Köhler, 1926, p. 277) luz verdadeira comportamento do homem, no sentido próprio da palavra. Todos os pesquisadores estão de acordo na maneira como retratam essas Nós Da maior importância para a história do desenvolvimento do pensamento é o as explicamos com um exemplo simples extraído de Köhler. fato de que pensar, no chimpanzé, é absolutamente independente da fala Vemos o Num certo momento, blocos de argila branca foram levados para a área de chimpanzé numa forma puramente biológica de pensamento não-verbal que nos con- dos macacos. Sem qualquer estimulo exterior, os macacos, ao brincar com a argila, vence da opinião de que as raízes genéticas do pensamento e da fala são diferentes no "descobriram" a pintura. Na vez seguinte em que os macacos receberam argila, a mes- mundo animal Todos os fatores que distinguem o comportamento do macaco do do ma coisa recomeçou de novo imediatamente. Köhler (1921/1926) explicou: homem podem ser resumidos e expressos numa afirmação geral neste despeito do fato de que macaco manifesta uma capacidade para inventar utilizar instrumentos - o pré-requisito de todo o desenvolvimento cultural humano No começo, os chimpanzés lamberam substância desconhecida; muito provavelmente que- riam saber que gosto tinha. Sendo insatisfatório o resultado, como costumam fazer em casos dade de trabalho, bascada nessa capacidade, não desenvolveu ainda no macaco semelhantes, eles limparam os lábios proeminentes no objeto mais próximo que encontraram mesmo minimamente de instrumentos na ausência do trabalho é o que é ciaro, deixaram-no branco. Depois de algum porém, a pintura de barras de mais aproxima o comportamento do homem e do macaco e, ao mesmo 0 ferro e paredes passou a ser um brinquedo os animais pegavam a argila com os lábios, que mais os afasta, às vezes triturando-a na boca, umedecendo-a até se tornar uma pasta, e depois aplicavam mistura, nova tinta c lambuzavam de novo, c assim por de pintura, Essa posição encontra confirmação indiscutível no papel biológico desempc- de mastigar a pois o próprio pintor, c todos os demais, quando não muito ocupados pelo uso dos instrumentos para os Dc modo geral, essa forma de com seus próprios afazeres, estão muitissimo interessados no resultado. comportamento não constitui para a principal forma de Não se pode dizer o macaco se adapta a seu ambiente com a ajuda de Logo, como seria de esperar, os chimpanzés pararam de usar os lábios como pincel pcgando É bem conhecido o fato que Darwin rejeitava a opinião de que apenas o os blocos de argila com as mãos, scus objetos com mais rapidez e firmeza. Claro que não haviam ainda conseguido mais do que grandes brancos, ou, quando homem usa instrumentos. Elc demonstrou de forma rudimentar, o uso de instru- especialmente vigorosos, branquear toda superficie de uma viga. Mais tarde, foram fornecidas mentos é peculiar a animais, especialinente entre os macacos. Tratando dessa outras cores aos animais. (pp. 100-101) questão, Plekhanov: "E bastante provável que Darwin esteja correto, a partir de seu ponto vista, isto é, no sentido de que não se possa encontrar na famosa Exatamente a ausência de os começos da fala no sentido mais amplo da 'natureza humana' traço algum que não se tenha visto antes em alguma espécie de palavra - a falta de capacidade de produzir um signo, ou introduzir alguns meios animal e de que, por essa razão, não dispomos de fundamento algum para indicar o auxiliares que por toda parte marcam o comportamento do homem e a homem como algum tipo de uma criatura singular, ou, em outras palavras, para cultura do homem - é o que a divisória entre o macaco o ser humano colocá-lo num 'reino' especial". mais A esse proposito, Buhler lembra a tese de Goethe sobre as cores, que Contudo, não nos devemos esquecer de que diferenças quantitativas podem diz que "misturar, lambuzar e salpicar com tintas é inerente ao homem". cm diferenças qualitativas. que pode como forma rudj. "Segundo observações de Köhler", disse Bühler, "resulta que misturar, borrar mentar em um animal pode tornar-se signos proeminentes (em outras espécies) lambuzar com tintas são tendências inatas também do macaco, mas, pelo que Devemos dizer que isso é particularmente verdadciro no que se refere ao uso 86 S A. R. 87</p><p>Um elefante quebra galhos das árvores e os utiliza para espantar as desenvolvimento de todo o organismo incomumente complexo dos ancestrais moscas. Isso é interessante e instrutivo. Porém, usar galhos para combater as moscas do homem ocorreu simultaneamente ao desenvolvimento da mão e de sua transfor- não nenhum papel considerável na história do desenvolvi- mação órgão do Engels (1960) "O domínio da natureza, que SC mento da espécie "o clefante". Os elefantes não se elefantes pela razão de que inicia com aperfeiçoamento da mão, com o trabalho, abria novos horizontes para o seus ancestrais mais ou menos tipo-elefante matavam moscas com galhos. homem a cada novo progresso" trabalho servia para unir mais estreitamente a Não é o que se dá com o homem. Toda a existência de um aborigene australiano A atividade conjunta, apoio mútuo passaram a ser os fatores básicos da depende de seu bumerangue, do mesmo modo que toda a existência da moderna atividade (p. Inglaterra depende de suas máquinas. Tirar bumerangue do aborigene torna-o um "Em suma, os homensem chegaram ao ponto em que agricultor e, então, ele terá, necessariamente, que mudar inteiramente seu estilo de coisa a de que conversar" (Engels, 1960, p. 283). trabalho, estritamente vida, seus hábitos, todo o seu modo de pensar, toda a sua natureza. falando, não qualquer papel para aquela raça de macacos a partir da qual evo- Algo semelhante se observa com respeito aos macacos. Realmente, o uso de luiu o homem. instrumentos é incomparavelmente mais desenvolvido nos macacos do que nos ele- "O trabalho começa com a confecção de instrumentos de caça fantes. Na vara usada pelo macaco já podemos ver o protótipo não só de um instru- pesca, os primeiros dos quais são, ao mesmo tempo, armas" (Engels, 1960, p. 286- mento em geral, mas de toda uma série de instrumentos diferenciados: pás, lanças, e 287). Porém, como sabemos, semelhantes formas de adaptação continuam não ten- assim por diante. Porém, mesmo no caso dos macacos que, no mundo animal, encon- do papel algum para o "Pela cooperação da mão, dos órgãos da linguagem tram-se no ponto mais elevado quanto ao uso de instrumentos, esses instrumentos e do cérebro, não só em cada indivíduo, mas também na sociedade, os homens se ainda não desempenham papel decisivo na luta pela sobrevivência Na história do tornaram capazes de fazer operações cada vez mais complicadas, para fixar objeti- desenvolvimento do macaco, ainda não houve aquele salto para diante que constitui vos sempre mais elevados e atingíveis" (Engels, 1960, p. 288). o processo de transformação do macaco em homem, isso, do ponto de vista que nos Engels percebeu a existência de uma diferença entre o comportamento dos ani- interessa, termina no fato de que os instrumentos de trabalho tornam-se a base de mais e o comportamento do homem não no fato de que os animais carecem da capa- adaptação à No processo de desenvolvimento do macaco, esse salto para cidade de planejar ações: diante teve mas não se completou, A fim de que se complete, é preciso que se uma nova forma especial de adaptação natureza estranha aos macacos Pelo contrário. A atividade conforme a um plano existe, em germe, em todas as partes em que ou seja há protoplasma, albumina viva, que reage, isto é, que realiza movimentos, por mais simples O trabalho, como mostrou Engels (1960), é o fator principal no processo de que sejam, em a determinadas excitações exteriores. transição do macaco para o homem. "É a condição fundamental de toda Mas, toda a dos animais conforme a algum plano não conseguiu à terra marca de sua vontade. Somente homem podia ser capaz de vida humana; e em tal grau que, em certo sentido, devemos dizer: o trabalho criou próprio homem" (p. 279). Em resumo, o animal SC utiliza da Natureza e nela produz transformações só por sua presen- Engels indicou o seguinte caminho do processo evolutivo do macaco até o ho- ça; o homem submetc-a a serviço de scus fins, com as modificações que imprime: domina- mem. Considerou que 0 primeiro degrau decisivo nessa transformação foi a separa- a. Reside nisso a diferença essencial e decisiva entre o homem e os outros animais: o traba- por sua vez o que determina tal diferenca. (pp. 290-291) ção das funções das mãos e dos pés, separação que se desenvolveu como resultado da vida na floresta, a emancipação das mãos em relação ao deslocamento no solo e Algo semelhante ocorre também no reino do desenvolvimento psicológico do começo do aprendizado de andar ereto. Exatamente essa diferenciação nos papéis homem. Neste caso, podemos dizer que o animal está totalmente preso à própria dos pés levou a funções completamente novas que as mãos começaram a assumir. Com as mãos, o macaco agarra um bastão ou pedras, ou constrói um ninho ou natureza, homein domina a natureza e a obriga a servir a seus fins) Neste caso, novamente, deve isso ao processo do trabalho exige que o homem um esconderijo. "É precisamente nisto que se revela como é grande a distância entre tenha certo grau de controle sobre seu próprio comportamento. Esse controle sobre a mão sem desenvolvimento do macaco antropóide e a humana, sobremaneira culti- si mesmo essencialmente, no mesmo principio em que se baseia nosso vada pelo trabalho durante centenas de milhares de anos. O número e a disposição controle sobre a dos ossos e músculos em ambos; porém, a mão do selvagem mais primi- tivo pode realizar centenas manobras que nenhuma mão simiesca pode imitar" E assim, nos lembramos a cada passo de que de modo algum dominamos a Natureza como um (Engels, 1960, p. 281). Assim, em certo sentido, a mão torna-se um pré- conquistador domina um povo estrangeiro, como alguém situado fora da Natureza, mas the requisito para o trabalho. Em outro sentido, torna-se a consequência de seu proces- pertencemos com nossa carne, nosso sangue nosso cérebro; estamos em meio dela, todo o Engels (1960) afirmou: a mão não é somente o do trabalho, é também nosso sobre cla consiste na vantagem que temos sobre os outros seres de poder che- gar'a conhecer suas leis c aplicá-las (Engels, 1960, p. 292) sell (p. 282). 4 / Estudos sobre do 89</p><p>Uma intervenção ativa sobre curso da natureza baseia-se precisamente a liberdade provém do dominio homem] sobré si e sobre a nessa compreensão de suas Engels (1960) continuou: "Entretanto, quanto que se numa compreensão das leis da natureza c que assim, necessariamen- te produto do desenvolvimento Os primeiros seres humanos a se desenvolver mais tal acontecer, tanto mais os homens voltarão a sentir-se identificados com partir do reino animal eram, sob todos os exatamente tão não-livres quanto os pró- a Natureza; e terão consciência disso; e tanto mais impossível por assim dizer prios animais; contudo, passo no processo da cultura levou na direção da liberdade se tornaria a noção absurda e antinatural da oposição entre espirito e matéria, homem e a Natureza, a alma e o corpo, noção essa que surgiu na Europa depois Vemos assim que, na esfera do desenvolvimento psicológico, ocorre súbita da decomposição da antiguidade clássica, que adquiriu sua mais acentuada for- mudança exatamente no momento em que se introduz o uso dos instrumentos - no ma no Cristianismo" (p. 293). mesmo momento em que isso ocorre na esfera da adaptação biológica. Esse modo de Assim, na esfera da adaptação à natureza, a ausência do trabalho e, ligado a ver, mais bem expresso por Bacon, foi aqui apresentado por nós sob a forma de uma isso, controle sobre a natureza distinguem o macaco do homem. No macaco, o epígrafe que diz o seguinte: "A mão nua e o intelecto entregues a si mesmos de pouco processo de adaptação pode em geral caracterizar-se como manipulação das condi- valem: tudo se faz com a ajuda e de meios auxiliares ções exteriores naturais e adaptação passiya a Na esfera psicológica, é tambem Claro què isto não quer dizer que o desenvolvimento da mão, desse órgão fun- característica do macaco não possuir autocontrole sobre o comportamento ou, em damental, e do intelecto, entregues a si mesmos, cessa no momento em que começa 0 outras palavras ser incapaz de controlar comportamento com a ajuda de signos desenvolvimento histórico do homem. Ao contrário, a mão e 0 cérebro, como órgãos Isso constitui a essência do desenvolvimento cultural do comportamento naturais, provavelmente jamais se desenvolveram tão depressa ou em ritmo tão ace- do homem. lerado quanto no período de desenvolvimento uso e a criação de meios de trabalho", escreveu Marx "ainda que em em- Porém, o desenvolvimento do comportamento do homem é sempre desenvolvi- brião para determinadas espécies animais, constitui o traço específico característico mento condicionado primordialmente não pelas leis da evolução biológica, mas pe- do processo humano de trabalho e, por isso, Franklin define o homem como um las leis do desenvolvimento histórico da sociedade. os "meios de traba- animal criador de e os "meios de comportamento" sob a forma de linguagem e de outros sistemas Plekhanov afirmou: de signos, ou seja, de instrumentos auxiliares no processo de dominar o comporta- mento, ocupa o primeiro lugar, superando o desenvolvimento "[d]a mão nua e [d]o Com os instrumentos o homem aparentemente adquiriu novos órgãos, alterando sua estrutura intelecto entregues a si mesmos". Desde a época em que passou a usar instrumentos, deu forma absolutamente Se olharmos para todo este estágio através do qual o macaco ingressa no desen nova à história de seu desenvolvimento: formalmente, como no caso de todos os outros ani- mais, isso levou a uma modificação de seus órgãos naturais; agora, antes de mais nada, torna- volvimento do comportamento, temos que dizer que 0 embrião da atividade de traba- a historia do de seus artificiais, do crescimento de suas forças lho - o pré-requisito necessário de sua origem existe no macaco sob a forma do da mão e do intelecto que, tomados conjuntamente, levam ao uso de não encontrareinos no macaco pré-requisitos de Marx via a essência do processo do trabalho no fato de que "um objeto dado autocontrole ou do uso de signos, ainda que primitivos. Estes só aparecem no perío- pela própria natureza torna-se um órgão de sua (do homem) atividade, um órgão que do histórico do desenvolvimento do comportamento humano e constituem o conteu- ele anexa aos órgãos de seu corpo, ampliando de certo modo, apesar da as do principal de toda a histónia do desenvolvimento cultural. Neste sentido "o traba- dimensões naturais destes". Tho criou 0 próprio (Engels, 1960, p. 279). Assim, a partir do momento de sua transição para o trabalho como forma bási- ca de adaptação, desenvolvimento do homem consiste na história do aperfeiçoa- mento de seus órgãos artificiais c progride, "a despeito da isto é, não na linha do de seus órgãos naturais, mas na linha do aperfeicoamento dos instrumentos Do mesmo modo, na área do desenvolvimento psicológico do homem a partir do momento da aquisição e do uso signos, o que permite ao homem obter controle sobre seus próprios processos de comportamento, a história do desenvolvimento comportamental, em grau significativo, transforma-se na história do desenvolvimento de "meios de auxiliares e artificiais na história do domínio do homem sobre seu próprio comportamento. Com ISSO em mente, Engels explicou conceito de dizendo que: Estudos sobre do 91</p><p>2 O Homem Primitivo e seu Comportamento TRÊS LINHAS DE COMPORTAMENTO PSICOLÓGICO Na ciência da psicologia há um pensamento profundamente arraigado, qual seja o de que todas as funções psicológicas do homem devem ser estudadas como produto do desenvolvimento. "O comportamento do homem", diz "deve ser compreendido exclusivamente como a história do comportamento". Até presente momento, duas linhas de desenvolvimento psicológico têm me- recido estudo bastante amplo, A psicologia tem estudado o comportamento do ho- mem-como resultado de-uma evolução biológica encontrando das formas mais complicadas da atividade humana nos organismos celulares mais simples. A psicologia tem tomado reações primitivas, "movimentos de algo para algo", como ponto.de partida para uma compreensão das formas mais elevadas de pensamento e de vontade do homem moderno. A psicologia enxerga nos instintos animais o protótipo das emoções; no medo e no ódio humanos, encontra traços dos instintos de fuga e de ataque dos animais predatórios. A psicologia vê os reflexos condicionados iniciais, que se estudam em laboratório, como a base do desenvolvimento de toda a atividade humana complexa, produto do córtex. Ela tenta incorporar em uma única lei 0 movimento das plantas esticando-se na direção da luz os cálculos de Newton para a lei da gravidade universal "como elos individuais", nas palavras de Pavlov, "de uma só cadeia de adaptação biológica dos organismos". Finalmente, com as recentes descobertas de Kohler, tema do capítulo anterior, a psicologia obteve o clo perdido que une o comportamento do homem ao comporta- Pavel Petrovich (1884-1941), antigo colega na psicologia havia adotado uma abordagem anteriormente obra da Vygotsky não fornece uma para Uma lista das obras de Blonskii pode ser encontrada no volume 4 de Sochinenii (1984) (p. 426). Blonskii foi de tudo um pedologista nessa parte de sua obra que Vygotsky se abeberou sobre a História do 93</p><p>mento de seu parente mais próximo na linha evolutiva biológica os macacos como produto de um processo muito longo e complicado de desenvolvimento da A vitória total do darwinismo na psicologia se tornou gra- criança. A psicologia tentou estabelecer da maneira mais cuidadosa possível todas ças à descoberta que revelou que o traço essencial do intelecto humano a invenção as transformações quantitativas de uma para outra forma de comportamento, isto é o uso de instrumentos remonta, em seu desenvolvimento, ao comportamento dos todas as mudanças quantitativas que, tomadas em conjunto, constituem a base do macacos que, em determinadas também são capazes de inventar e de usar desenvolvimento da criança. os instrumentos mais simples. A psicologia investigou de que modo, pouco a pouco, lampejos individuais de Assim, no mundo animal, bem-sucedidos ao descobrir as raízes até mes- fala humana surgem a partir do choro do recém-nascido e do balbucio da criança mo daquela forma especifica de adaptação humana ativa ao meio ambiente que dis- pequena, e como o processo da aquisição da fala só termina basicamente por volta tinguiu o homem de todo resto do reino animal e que o conduziu pelo caminho do da idade de maturação porque apenas nesse a fala torna um desenvolvimento histórico. papel do trabalho na transformação do macaco em instrumento para a formação de conceitos abstratos um meio de/pensamento abs- homem, assinalado [em primeiro lugar J.K.] por Engels, foi confirmado neste caso trato/- para a criança. por meio de experimentos Ela investiga a seguir de que modo o brinquedo revela, desenvol- A consideração conjunta disso tudo vinculou, de maneira firme e inseparável, a ve e modela as futuras tendências, capacidades e talentos da criança; de que modo, psicologia do homem a uma psicologia evolutiva biológica e tem ensinado os inves- nas invenções das crianças, se aprimoram e são aplicados elementos de imaginação tigadores a perceber que, até hoje, o.comportamento do homem é, em grau significa- criativa, de modo isto facilitará sua atividade artistica e cientifica futura de um animal que se ergueu sobre as patas traseiras e que Ambas essas abordagens do desenvolvimento que acabamos de mencionar 11. fala, para usar a expressão de Blonskii. veram bastante influência na psicologia. Há, porém, uma terceira linha de desenvol- Com igual amplitude, uma outra linha de desenvolvimento tem sido vimento que fez muito menos progresso na consciência dos psicólogos e que é singu- comportamento humano adulto, como há muito tempo definiram os psicólogos, larmente diferente em comparação com os outros dois tipos de desenvolvimento não constitui imediatamente, mas surge gradativamente e se desenvolve a partir trata-sc do do comportamento da criança. Não obstante, anteriormente, os psicólogos e filóso- comportamento do homem moderno, cultural, não é só produto da evolução precipitavam-se em admitir que as idéias c os pensamentos do homem consti- biológica, ou resultado do desenvolvimento infantil, mas também produto do desen- tuem o cerne inato de sua alma humana e não estão sujeitos a desenvolvimento, volvimento histórico. No processo do desenvolvimento histórico da humanidade, quando o corpo da criança se ocorreram mudança e desenvolvimento não só nas relações externas entre as pessoas Tendiam a afirmar que as mais sublimes das idéias do homem estão presentes e no relacionamento do homem com a natureza; o próprio homem, sua natureza nas crianças na hora do nascimento, ou até mesmo antes. "Não sustento", escreveu mesma, mudou e sobre isso Descartes, "que o espirito de uma criança no ventre da mãe medite a Em consequência dessas mudanças, ocorridas no decorrer de longo periodo de respeito mas certamente idéias a respeito de dc si constituiu-se um tipo psicológico homem cultural moderno, ou mesmo c de todas as demais verdades que cm si por si mesmas, do poderemos compreender traços desse tipo adicionarmos mesmo modo que elas existem para os adultos, mesmo que estes não pensem a res- também 0 ponto de vista genético para explicá-los se indagarmos de onde e de que dessas verdades". modo eles se originaram. Conclusões extraídas com base nesse tipo de afirmação foram formuladas por desenvolvimento histórico do comportamento do homem tem sido estudado que sustentava que o conhecimento abstrato, lógico, e menos do que as duas outras linhas de desenvolvimento, porque a matemático é mais acessível às crianças. Se idéias existem de maneira inata nas ciência tem tido a sua disposição muito menos material relativo às mudanças histo- crianças é necessário comunicar a elas as verdades eternas tão cedo quanto ricas da humana do que relativo desenvolvimento da criança no desen Quanto mais próxima da fonte inata, mais pura verdadcira será a própria volvimento biológico. () vasto e variado mundo animal imobilizado em estágios A experiência sensorial posterior da criança, fundada em fatos incidentais, diversos da "origem das espécies" oferece-nos um tipo panorama VIVO da evolu- a inicial de uma idéia ção biológica adicionar psicologia comparada aos Há muito tempo a ciência da psicologia formulou essas posições e adotou o dos de fisiologia comparadas. principio de que 0 pensamento o comportamento do adulto devem ser estudados O desenvolvimento da criança é um processo que tem lugar incessantemente sob nossos próprios Oferece-nos os mais variados tipos de pesquisa. pro- cesso de mudança histórica da psicologia humana, contudo, encontra-se em condi- muito menos favorávcis de pesquisa. Épocas históricas desaparccidas Nicolas de c francês que buscou estender a documentos e traços do passado. de Descartes relativamente à interação corpo-mente 94 1. R. Lurie " 95</p><p>Uma história superficial da espécie humana pode ser bem mais reconstruída com base nesses documentos e vestigios. Ao mesmo tempo, os meca- primeiro de vista, apresentado cm sua época por Tylor e nismos psicológicos do comportamento não deixam rastros de nenhuma forma obje- orientou os primeiros e que coletaram quantidade de tiva c completa. Por isso, a psicologia tem ma- material factual sobre de moral, crenças, hábitos, instituições e de povos primitivos terial à sua disposição. Por isso, a investigação a respeito dos chamados povos primitivos constitui Em autores defendiam ponto de vista do chamado uma das fontes mais ricas para a psicologia. Certos povos do mundo não-civilizado, associacionismo" Pretendian que a básica da psicologia fosse a lei da por estarem nos níveis mais inferiores de desenvolvimento cultural, são comumento isto é, a conexão estabelecida entre elementos de nossa experiência com base em sua chamados de povos primitivos ou selvagens, naturalmente no sentido relativo da Do modo como sugerem esses autores, as leis do espirito palavra. De pleno direito, esses povos não podem ser chamados de primitivos, por- humano são sempre uma só a mesma em todo tempo e por todo o globo que todos eles parecem possuir um maior ou menor grau de civilização. Todos eles O mecanismo da atividade mental, a própria estrutura dos processos de procedem do período pré-histórico da existência do homem. Muitos deles possuem mento e comportamento não diferem num homem primitivo e num homem cultural, tradições muito antigas. Alguns experimentaram diretamente a influência de cultu- e toda a especificidade do comportamento e do pensamento de um homem primitivo distantes e poderosas. Outros regrediram a um nível de desenvolvimento inferior. em comparação com a de um homem cultural pode, segundo essa teoria, ser compre- No sentido estrito du palavra, hoje não existe homem primitivo cm parte endida e partir das que vive e pensa e o tipo humano como apresenta entre os povos selvagens mais antigos) Se nós, como pessoas culturais, um belo dia despojados de toda a só relativamente falando pode ser chamado de primitivo. A primitividade nesse sen- enorme experiência acumulada pelo homem e colocados nas condições de tido é o estágio mais baixo c ponto de partida do desenvolvimento histórico do que vivia 0 homem primitivo, e agiriamos, disscram Tylor e Spencer, homem. Os dados a respeito do homem pré-histórico, a respeito de povos no nível do mesmo modo que um homem primitivo pensa e age. não e mais inferior do desenvolvimento cultural e a respeito da psicologia comparada de uma questão do aparelho de pensamento e comportamento e seus mecanismos povos de cultura diversa são úteis como material para a psicologia do homem primi- ciais o que distingue uma mente-cultural (enculturada J.K. de outra não exposta à cultura é apenas uma quantidade de adquirida por cada tivo. uma delas. A psicologia do homem primitivo ainda não foi definida. Agora é que está acumulando material nessa área, que se estão desenvolvendo métodos para trabalhar com esse material e que, segundo uma visão psicológica está permeando 0 material Edward Burnett Tylor (1832-1917). antropólogo inglês que estudou mitologia, magia e lidade primitiva do ponto de vista darwiniano (cf. Tylor, 1874, 1877). Embora Vygotsky não indique aqui qual o estudo que podia ter em mente, sem dúvida está referindo a How Natives de (1910/1926), cm que este último escreve: "Na época em que foi publicada Primitive c durante alguns anos a seguir, 8 do associacionismo preponderar TRÊS TEORIAS DO DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO-CULTURAL vocamente" 26). Herbert Spencer (1820-1903) propôs 8 do associacionismo evolutivo. Juntamente com Alexander Bain, elc foi o último da dos associacionistas Sua obra impor- A primeira tarefa que surge ao se enfrentar a questão do desenvolvimento his- !ante foi Principles of Psychology (1871) Segundo Corsini (1984): tórico do homem é a de definir a especificidade do processo de com que se depara neste A psicologia um após outro, três pontos de vista e Spencer aplicou a teoria evolutiva da herança de caracteristicas adquiridas de Lamarck a sua três princípios que caracterizam desenvolvimento histórico do homem. própria teoria. Ele acreditava que, quando as mesmas associações ocorrem seguidamente ein um individuo, elas podem ser transmitidas à prole dessa pessoa. Após várias rão por assumir a forma de instintos (Vol. 3. p. Mais tarde, na nos Estados Unidos, submeteram esses principios a testes experimentais. Segundo (1910/1926) "o evolucionismo de Herbert en- Richard Thurnwald (1869-1954), antropólogo socialista que divergia das opiniões de tão muito famoso, fascinio considerável sobre muitas mentes" (p 3) Com toda a Wundi c de acreditando que a comparação entre instituições sociais diferentes de dife- próprio Vygotsky compartilha dessa rentes sociedades poderia definir de desenvolvimento histórico e diferenças de estrutu- A do associacionismo evolutivo apresentada, sobretudo, pelos associacionistas ras sociais que processos mentais superiores. livro, Black and White in cos, particularmente Spencer (1820-1903) Alexander Bain, que propuseram duas leis East Africa (Thurnwald, 1935) é dedicado a estudo de comunidades primitivas aqui o básicas da similaridade c contiguidade Consequentemente "as sensações e sentimen- vêm juntos cm tal modo que quando um deles à muito provavel interesse de Vygotsky mente o outro a acompanhará." (Ver Carlini, Vol. p. 419 96 1. R. Lurid do 97</p><p>A partir dessa lb animismo ou tcoria do espirito de todos os c objetos naturais é, pois, considerado por autores como o fenômeno central e 2 Pesquisas posteriores demonstraram que o mecanismo psicológico para 0 pensa- que se encontra no cerne do desenvolvimento cultural do homem primitivo. mento e comportamento do homem primitivo é também [valor JK A lei da associação de idéias e a aplicação do principio da causalidade historicamente A da associação de idéias e principio do pensamento são, para Tylor e Spencer, explicação para surgimento do animismo (essa filosofia causal de modo algum abrangem todas as facetas do pensamento natural do homem primitivo), que tem nas Icis naturais do espirito humano, foi o primeiro a tentar mostrar que mecanismo psicológico do pensamento do homem A uniformidade do espirito humano por todo globo terrestre é aceita como axioma primitivo não corresponde ao que se encontra no homem cultural. por dois autores. Particularmente, a coincidência entre morais ins- Ele chegou a tentar determinar a diferença entre aquele e e a estabelecer as observada entre povos que vivem nas mais remotas partes da terra, fala em mais universais que controlam a atividade do mecanismo psicológico do homem favor da justcza desse modo de ver. primitivo. Seu ponto de partida é diametralmente oposto à posição de Tylor Assim, o mecanismo psicológico fundamental do comportamento - a lei dn Elc parte de duas fundamentais. A primeira delas está contida na associação de idéias básico do pensamento lógico (o princípio da cau- 3 visão de que, com nas leis de uma psicologia individual como, por exemplo, as salidade) representam a característica comum do homem primitivo e do homem cul- leis da associação de idéias, é impossível explicar as crenças e as idéias coletivas que tural. Contudo, esses dois mecanisinos associação psicológica e pensamento surgiram como fenômenos sociais numa comunidade ou povo. coletivas CO sido utilizados amplamente apenas no homem cultural, enquanto a expe- surgem como resultado da vida social de um dado são comuns a todos riência do homem primitivo é limitada e 0 material não é grande. Isso dá origem à membros de um dado grupo. Neste caso, são transmitidas de geração cm geração diferença entre a psicologia do primeiro cultural] e do último [homem pri- Muitas vezes se transmitem a um individuo de forma pronta e muitas vezes não são posteriormente desenvolvidas por aquele individuo. Precedem essa pessoa e a ela fácil ver assim proposta, rejeita-se exatamente a questão do desenvolvi- sobrevivem, do mesmo modo como a lingua tem uma existência social independente de cada um dos mento psicológico do homem no curso da história. desenvolvimento como tal não é possível quando, bem no começo do caminho, temos absolutamente o mesmo Assim, altera-se 0 principal ponto de vista sobre essa questão. Para empregar meno que no fim. que se quer dizer aqui não desenvolvimento no sentido estrito as palavras de Lévy-Bruhl tentou descrever não "a humanidade atraves da palavra, mas, antes acumulação de Em principio, o mecanismo mesmo do homem, mas, ao contrário, através da humanidade" (citado cin de acumulação e processamento dessa não em nada nos está- Bruhl, 1910/1926, p. 15). não acreditava que se possa obter os traços dos povos primitivos com base nas leis psicológicas da vida individual, mas exatamente o con- gios inicial e Apenas elc mecanismo permanece imutável no curso da trário; procurou bascar sua explicação da psicologia do no caráter das mudança histórica universal. Já há muito tempo a psicologia abandonou esse ponto de vista ingênuo. Nada emergem nesses grupos, bein como no tipo e estrutura da dade cm que vivem aquelas pessoas. mais ingênuo do descrever homem primitivo como um filósofo natural expli- car todo o seu pensamento c comportamento segundo as peculiaridades de sua filo- A segunda posição inicial de pesquisa pressupõe seguinte: tipos diversos de sofia. Não são interesses c ideais, mas sim necessidades materiais () que psicologias individuais correspondem a tipos diversos de Essas psicolo- motiva o desenvolvimento do pensamento do comportamento humanos: homem gias diferem entre si do mesmo modo que diferem as psicologias de vertebrados não-vertebrados. primitivo age mais sob a dc motivos práticos do que teóricos, cm sua própria mente lógico está subordinado a reações instinti- É claro que, como com animais diferentes, e assim também com vas c sociais diversas, há traços universais increntes a todo tipo de sociedade humana M. linguagem, tradições, instituições. Porém, juntamente com essas características versais, disse que as sociedades humanas, como os organismos, podem Não há maior falácia do que descrever visão de mundo de um selvagem como de apresentar estruturas que diferem profundamente umas das outras e, consequente- 80 contrário, visão de mundo forma-se com base cin determinadas cinoções mente, diferenças correspondentes nas funções psicológicas superiores. Por isso, é religiosas Na raiz dessa primitiva não encontra uma mas necessário renunciar à idéia de, logo de inicio, reduzir todas as operações exatamente 3 ausência de uma explicação. Não é alguma idéia ou pensamento lógico, mas sim cas a um tipo único, independentemente da estrutura de uma sociedade, de explicar emoção ponto de partida de todo processo consciente em geral que constitui a base do todas as idéias coletivas por um mecanismo psicológico e lógico que continua pensamento religioso no pre um só e mesmo. Mikail Nikolaevich Pokrovsky historiador Augusto Comte que propôs uma (coria dos estágios do desenvol- vimento intelectual da metafisico e o positivista ou cientifico 98 / " Historia do 99</p>

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