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<p>1</p><p>FACULDADE ÚNICA</p><p>DE IPATINGA</p><p>2</p><p>Roberto Carlos Ferreira</p><p>Mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica PUC-SP/UVV.</p><p>Especialização em Comunicação pela Universidade Anhembi-Morumbi de São Paulo - SP.</p><p>Graduação em Letras Bacharelado com Habilitação em Secretariado Executivo</p><p>Português-Francês pela Universidade Federal de Viçosa. Graduação em Letras</p><p>Licenciatura Português-Inglês pela Universidade Federal de Viçosa. Filosofia pelo Seminário</p><p>Maior Maria Imaculada - Araxá - MG. Teologia pelo Seminário Maior Maria Imaculada -</p><p>Araxá - MG. Professor Adjunto III da Universidade Vila Velha - UVV. Experiência na área de</p><p>Educação, com ênfase em Ensino-Aprendizagem, nos temas: Português Instrumental,</p><p>Francês, design, cultura capixaba, diversidade cultural, moda, Exclusão Social, Arquitetura</p><p>e Urbanismo (desenvolvimento humano de cidades europeias e nacionais, com focos em</p><p>Paris / São Paulo), Ensino a Distância (EAD) das disciplinas de Língua Portuguesa, Textos</p><p>Científicos e metodológicos, Filosofia e Ética, Comunicação Empresarial; atua no curso de</p><p>Direito com a disciplina de Argumentação Jurídica. Revisor Ortográfico da Universidade</p><p>Vila Velha - UVV-ES. Orientador de Conteúdo da Universidade Vila Velha - UVV-ES./UVV-</p><p>ON. Supervisor de Produção de Conteúdo da Universidade Vila Velha UVV-ES/UVV-ON.</p><p>Analista de Plágio da Universidade Vila Velha - UVV-ES/UVV-ON. Elaborador e corretor das</p><p>questões de vestibulares nas áreas de redação e interpretação de texto da Universidade</p><p>de Vila Velha - ES. Diretor-presidente do IBRAMAR - Instituto Brasileiro do Mar - ES de 2008 a</p><p>2016. Projeto "Estudo Detalhado do Leito Oceânico no Interior da RVS de Santa Cruz, APA</p><p>Costa das Algas e Entorno Imediato de 2000m" - pela Universidade Federal do Espírito Santo</p><p>- UFES - Centro de Ciências Humanas e Naturais. Membro do comitê de ética em pesquisa</p><p>CEP - Brasília - DF.</p><p>HISTÓRIA DAS RELIGIÕES: AS RELIGIÕES NO</p><p>MUNDO E NO BRASIL</p><p>3</p><p>1ª edição</p><p>Ipatinga – MG</p><p>2022</p><p>4</p><p>FACULDADE ÚNICA EDITORIAL</p><p>Diretor Geral: Valdir Henrique Valério</p><p>Diretor Executivo: William José Ferreira</p><p>Ger. do Núcleo de Educação a Distância: Cristiane Lelis dos Santos</p><p>Coord. Pedag. da Equipe Multidisciplinar: Gilvânia Barcelos Dias Teixeira</p><p>Revisão Gramatical e Ortográfica: Izabel Cristina da Costa</p><p>Revisão/Diagramação/Estruturação: Bruna Luiza Mendes Leite</p><p>Fernanda Cristine Barbosa</p><p>Guilherme Prado Salles</p><p>Thaynara Eloisa da Silva</p><p>Design: Bárbara Carla Amorim O. Silva</p><p>Élen Cristina Teixeira Oliveira</p><p>Maria Eliza Perboyre Campos</p><p>© 2021, Faculdade Única.</p><p>Este livro ou parte dele não podem ser reproduzidos por qualquer meio sem Autorização</p><p>escrita do Editor.</p><p>Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Melina Lacerda Vaz CRB – 6/2920.</p><p>NEaD – Núcleo de Educação a Distância FACULDADE ÚNICA</p><p>Rua Salermo, 299</p><p>Anexo 03 – Bairro Bethânia – CEP: 35164-779 – Ipatinga/MG</p><p>Tel (31) 2109 -2300 – 0800 724 2300</p><p>www.faculdadeunica.com.br</p><p>5</p><p>Menu de Ícones</p><p>Com o intuito de facilitar o seu estudo e uma melhor compreensão do conteúdo</p><p>aplicado ao longo do livro didático, você irá encontrar ícones ao lado dos textos. Eles</p><p>são para chamar a sua atenção para determinado trecho do conteúdo, cada um</p><p>com uma função específica, mostradas a seguir:</p><p>São sugestões de links para vídeos, documentos</p><p>científicos (artigos, monografias, dissertações e teses),</p><p>sites ou links das Bibliotecas Virtuais (Minha Biblioteca e</p><p>Biblioteca Pearson) relacionados com o conteúdo</p><p>abordado.</p><p>Trata-se dos conceitos, definições ou afirmações</p><p>importantes nas quais você deve ter um maior grau de</p><p>atenção!</p><p>São exercícios de fixação do conteúdo abordado em</p><p>cada unidade do livro.</p><p>São para o esclarecimento do significado de</p><p>determinados termos/palavras mostradas ao longo do</p><p>livro.</p><p>Este espaço é destinado para a reflexão sobre</p><p>questões citadas em cada unidade, associando-o a</p><p>suas ações, seja no ambiente profissional ou em seu</p><p>cotidiano.</p><p>6</p><p>SUMÁRIO</p><p>INTRODUÇÃO ÀS PRINCIPAIS RELIGIÕES DA HUMANIDADE ................. 8</p><p>1.1 JUDAÍSMO .................................................................................................................. 9</p><p>1.2 CRISTIANISMO ................................................................................................... 12</p><p>1.3 ISLAMISMO ......................................................................................................... 15</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO ............................................................................................ 26</p><p>CONSTITUIÇÃO DAS PRINCIPAIS RELIGIÕES DA HISTÓRIA .................. 31</p><p>2.1 FUNDAMENTOS TEÓRICOS ................................................................................ 31</p><p>2.2 BREVE RELATO SOBRE OS RITOS SAGRADOS ................................................... 34</p><p>2.3 LIVROS SAGRADOS: PRINCIPAIS CONSIDERAÇÕES ....................................... 40</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO ............................................................................................ 47</p><p>DOUTRINAS E DOGMAS DAS GRANDES RELIGIÕES ............................... 50</p><p>3.1 JUDAÍSMO .......................................................................................................... 51</p><p>3.2 CRISTIANISMO ................................................................................................... 52</p><p>3.3 ISLAMISMO ......................................................................................................... 55</p><p>3.4 BUDISMO ............................................................................................................ 58</p><p>3.5 HINDUÍSMO ........................................................................................................ 60</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO ............................................................................................ 63</p><p>HISTÓRIA E SOCIEDADE SOB O ASPECTO DAS GRANDES RELIGIÕES ... 66</p><p>4.1 ASPECTOS HISTÓRICOS ..................................................................................... 67</p><p>4.2 ASPECTOS SOCIAIS ........................................................................................... 75</p><p>4.3 PASSADO E PRESENTE: A RELIGIÃO DE ONTEM E O MUNDO DE HOJE .......... 80</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO ............................................................................................ 83</p><p>MONOTEÍSMO VERSUS POLITEÍSMO ....................................................... 86</p><p>5.1 CONCEITOS BÁSICOS ....................................................................................... 87</p><p>5.2 ASPECTOS PARTICULARES DO MONOTEÍSMO ................................................. 88</p><p>5.3 ASPECTOS SINGULARES DO POLITEÍSMO ......................................................... 98</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO .......................................................................................... 103</p><p>MUNDANIDADE & RELIGIOSIDADE ....................................................... 106</p><p>6.1 POR QUE SER MUNDANO? .............................................................................. 107</p><p>6.2 POR QUE TER UMA RELIGIOSIDADE? .............................................................. 111</p><p>6.3 POSSÍVEL SER MUNDANO E TER RELIGIOSIDADE? ......................................... 114</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO .......................................................................................... 117</p><p>O SURGIMENTO DA RELIGIÃO NO BRASIL .......................................... 121</p><p>7.1 RELIGIÃO ANTES DO DESCOBRIMENTO? ....................................................... 123</p><p>7.2 FUNDAMENTOS DE UMA RELIGIÃO NATIVA E INTACTA ............................... 127</p><p>7.3</p><p>servos.</p><p>Segundo a tradição, ela é o ensinamento dado por Deus a Moisés. É</p><p>composta por trinta e nove obras escritas em diferentes épocas por autores que</p><p>transcreviam conhecimentos que, até então, eram transmitidos oralmente. Esta</p><p>Bíblia escrita é composta por três partes:</p><p> a própria Torá, ou Lei de Moisés, também chamada de Pentateuco, pois reúne</p><p>cinco livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, que termina</p><p>com a morte de Moisés, por volta de 1200 a.C.</p><p> os Livros dos Profetas, ou os Neviim que, ao longo dos séculos, renovaram os</p><p>apelos à santidade lançados pela Torá. Eles vão desde a morte de Moisés até</p><p>o retorno do exílio na Babilônia, por volta de 536 a.C.</p><p> os Hagiographa ou escritos sagrados (os Ketouvim): os Salmos, poemas</p><p>atribuídos ao Rei Davi, as Crônicas, os Provérbios (SILVA, 2020).</p><p>A Torá é apresentada como um código a ser respeitado imperativamente. É</p><p>um conjunto de mandamentos que culmina na vocação à santidade e na</p><p>obrigação da justiça, pois é preciso viver o amor de Deus e o amor ao próximo. Todos</p><p>os outros requisitos estão incluídos neste comando. A sua mensagem não responde,</p><p>em primeiro lugar, à preocupação da salvação pessoal, mas à consciência de uma</p><p>eleição coletiva ao serviço do resto da humanidade, numa história em que o</p><p>homem se faz parceiro de Deus no quadro da aliança.</p><p>Islamismo e o Alcorão</p><p>Maomé, não tendo escrito nada, a mensagem divina transmitida pelo profeta</p><p>foi coletada por seus companheiros que a transcreveram em omoplatas de camelo,</p><p>peles de animais e pedras chatas. Os escritos reunidos sob o califa Othman (644-656),</p><p>meio século após a morte do profeta, constituem o Alcorão, cujo significado é</p><p>"recitação", em árabe. O Alcorão é, portanto, a expressão de uma "revelação"</p><p>verbal que só lentamente recebeu a sanção da escrita.</p><p>O livro sagrado do Islã é um livro de doutrina e oração, um código de lei, um</p><p>guia para a vida cotidiana, uma enciclopédia para os pobres.</p><p>Highlight</p><p>44</p><p>O Alcorão consiste em seis mil, duzentos e vinte e seis versículos, divididos em</p><p>cento e quatorze suras ou capítulos (SANCHIS, 2018).</p><p>Com exceção do primeiro, muito curto, elemento essencial da oração</p><p>muçulmana, as suras são classificadas em ordem decrescente de magnitude. Cada</p><p>um começa com uma fórmula que o crente também pronuncia antes de qualquer</p><p>ação importante: “Em nome de Deus, o Clemente, , o Misericordioso!”</p><p>Crianças e adultos aprendem o Alcorão de cor, nas escolas corânicas.</p><p>O Alcorão repete, insistentemente, que existe apenas um Deus: Alá. Ele é o</p><p>criador de tudo o que existe e nada existe fora dele. O Alcorão especifica que Deus</p><p>enviou a cada comunidade um profeta, um livro, uma lei.</p><p>Assim, Moisés recebeu a Torá; Jesus, o Evangelho e Maomé, o Alcorão.</p><p>Como a Bíblia, o Alcorão anuncia que Deus, no fim dos tempos, julgará os</p><p>homens e as comunidades.</p><p>A Sunna ou Hadith é uma coleção de ditos, feitos e gestos do Profeta: é a</p><p>palavra do profeta enquanto o Alcorão é a de Deus. Mas, esta Sunna também é</p><p>importante na religião islâmica (NODARI, 2017).</p><p>É no Alcorão e na Sunna que se baseia a lei islâmica ou Sharia, de modo que</p><p>o Islã é ao mesmo tempo religião, lei, moral, estilo de vida e cultura, sendo a língua</p><p>árabe a língua sagrada de todos os muçulmanos ao redor do mundo.</p><p>O Hinduísmo</p><p>Hinduísmo é uma palavra cunhada no Ocidente para designar um conjunto</p><p>de concepções religiosas tendo a Índia como berço, propostas por uma grande</p><p>diversidade de correntes de pensamento e seitas.</p><p>A ordem do mundo ؘ– Dharma – à qual tudo deve se conformar, constitui o</p><p>ponto central em torno do qual se articulam essas múltiplas correntes e suas</p><p>evoluções milenares. Os hindus chamam sua religião de "Santane Dharma" ou</p><p>Dharma Eterno. As leis do Dharma e como cumpri-las são ensinadas pelos textos</p><p>sagrados.</p><p>Em primeiro lugar estão os Vedas, considerados fruto da revelação direta de</p><p>Brahma aos sábios inspirados, os crentes, e escritos entre 1400 e 800 a.C.</p><p>Os Vedas são quatro em número: Rig Veda (sabedoria dos hinos), uma</p><p>coleção de orações ao mesmo tempo que um poema filosófico de alto alcance;</p><p>Yajur-Veda, fórmulas de sacrifício; Samar-Veda, melodias; Atharva-Veda, coleção</p><p>Highlight</p><p>45</p><p>de tradições antigas (SCARPI, 2004).</p><p>Mas, os textos mais influentes são os Upanishads, escritos desde o século VIII</p><p>a.C. e cuja função é comentar os textos, muitas vezes, obscuros dos Vedas.</p><p>Existem outros duzentos textos que contêm os ensinamentos que são</p><p>respeitados, mas não têm a mesma autoridade; sua escrita se estende desde os</p><p>primórdios da era cristã até os dias atuais; entre eles estão, por exemplo, o da ioga</p><p>ou o ensinamento do famoso místico Ramakrishna.</p><p>O Budismo</p><p>O Budismo não tem nem um livro nem um deus em sua origem, mas um</p><p>homem: Buda. Sua doutrina não é uma religião verdadeira, mas sim, uma filosofia</p><p>que visa o apaziguamento total dos sentidos.</p><p>Seus sermões foram escritos por seus discípulos por volta do século 2 a.C., assim</p><p>como a história de sua vida, embelezada com lendas. Divididos em três grupos, as</p><p>três cestas, esses textos são as principais escrituras do Budismo.</p><p>Os textos do budismo são o corpo de textos considerados de notável valor</p><p>para o ensino, prática ou disseminação do que é considerado mais uma filosofia</p><p>religiosa do que uma religião em si, em seu sentido mais amplo. Este conjunto</p><p>abrange, portanto, escritos atuais de diferentes importâncias, retomando as</p><p>palavras de Buda ou, simplesmente, desempenhando uma interpretação livre do</p><p>pensamento budista (SCARPI, 2004).</p><p>As diferentes correntes do budismo são baseadas em muitos textos, todos</p><p>compilados após a morte de seu mentor, este último não tendo escrito nada, de</p><p>modo que a transmissão de suas palavras foi feita oralmente por quatro a cinco</p><p>séculos, antes de começarem a ser escritas.</p><p>A base do cânone budista consiste em textos em sânscrito, chinês e tibetano.</p><p>O budismo também depende muito de textos compostos em japonês. Os primeiros</p><p>textos budistas foram escritos primeiramente em prakrits, línguas vernáculas indo-</p><p>arianas próximas ao sânscrito. Alguns foram, no entanto, escritos diretamente em</p><p>sânscrito por filósofos de castas brâmanes, ou nos grandes centros de estudo. Eles</p><p>foram, posteriormente, traduzidos para o chinês a partir de meados do século II e,</p><p>alguns séculos depois, para o tibetano ou japonês, sânscrito ou chinês.</p><p>Highlight</p><p>46</p><p>Figura 5: Árvores de bétula</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3KvRfZy. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Os mais antigos fragmentos conhecidos de textos budistas foram escritos em</p><p>casca de bétula, datam dos primeiros dois séculos da nossa era e viriam de</p><p>Gandhara, onde teriam sido guardados em jarros de barro (COLLI, 2019).</p><p>47</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO</p><p>1. (PUC-SP) Diáspora é o termo que designa a dispersão dos hebreus por várias</p><p>regiões do mundo, após serem expulsos de seu território no século II. Somente</p><p>depois de 1948, com a criação do Estado de Israel, esse povo pôde voltar a se</p><p>reunir num mesmo país. Entretanto, essa reconquista vem sendo, há quase meio</p><p>século, motivo de contendas entre os israelenses e o povo ocupante daquela</p><p>região. O ano de 1995, talvez, seja o marco do apaziguamento desses conflitos,</p><p>uma vez que acordos têm sido realizados pelos seus líderes, sob a chancela da</p><p>diplomacia internacional – o que, infelizmente, não impediu o assassinato do</p><p>primeiro-ministro de Israel.</p><p>O povo que provocou a dispersão dos hebreus no século II e o povo que manteve</p><p>o confronto com os israelenses desde 1948 são, respectivamente:</p><p>a) os egípcios e os iranianos.</p><p>b) os romanos e os palestinos.</p><p>c) os palestinos e os egípcios</p><p>d) os romanos e os iranianos</p><p>e) os egípcios e os palestinos.</p><p>2. (PUC-SP) A organização política</p><p>da civilização hebraica entrou em declínio a partir</p><p>do século X, quando profundas crises e invasões assolaram os territórios hebreus.</p><p>Tal situação ocorreu após a morte de qual rei hebreu, no ano de 935 a.C.?</p><p>a) Davi.</p><p>b) Saul.</p><p>c) Jeroboão.</p><p>d) Salomão.</p><p>e) Roboão.</p><p>3. A Bíblia hebraica divide-se em três partes: a Torá; os Livros Históricos e Proféticos</p><p>("Neviim"); e os Escritos Poéticos ("Ketuvim").</p><p>48</p><p>Folha. Sinapse. Disponível em: https://bit.ly/3rh4WnK. 2005. Adaptado</p><p>Para os judeus, a Torá inclui:</p><p>a) Os Salmos, o Livro dos Reis, o Livro de Jó e Deuteronômio.</p><p>b) Josué, Rute, Ester, Samuel e Números</p><p>c) Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio</p><p>d) Gênesis, Levítico, O Livro de Jó, o Livro da Sabedoria e Ester.</p><p>e) Êxodo, Josué, os Salmos, Números e Ester.</p><p>4. O Hinduísmo é um termo cuja etimologia coincide com a de "indiano" e se aplica</p><p>às várias formas de crença que se desenvolveram na Índia há mais de 3 mil anos.</p><p>Os hindus acreditam na reencarnação e adotam o sistema de castas.</p><p>Folha. Sinapse. Disponível em: https://bit.ly/3rh4WnK. 2005. Adaptado</p><p>O Hinduísmo tem a seguinte característica.</p><p>a) É a religião dos índios orientais.</p><p>b) Foi fundado por Brahma.</p><p>c) É considerado uma religião universal.</p><p>d) Seus seguidores adoram vacas como animais sagrados.</p><p>e) É uma religião essencialmente monoteísta.</p><p>5. O livro sagrado dos muçulmanos é o Corão ("Recitacão"), escrito em árabe, que</p><p>se compõe de 114 suras, ou capítulos. É a segunda religião com mais fiéis no</p><p>mundo, depois do Cristianismo.</p><p>Folha. Sinapse. Disponível em: https://bit.ly/3rh4WnK. 2005. Adaptado</p><p>Pode-se dizer do Islamismo que</p><p>a) é uma religião que se baseia em ensinamentos da tradição oral.</p><p>b) promove o fundamentalismo primordial.</p><p>c) proclama o monoteísmo como doutrina de fé.</p><p>d) por causa de sua origem, é uma religião restrita ao mundo árabe.</p><p>e) os deuses são a orientação que define suas atitudes.</p><p>49</p><p>6. O anúncio de calamidades futuras que iriam infernizar a vida de um povo,</p><p>como forma de provocar medo e obter humildade</p><p>PROTA, Antonio; Rodriguez, Ricardo. Religião. Instituto de Humanidades. 2020. Adaptado.</p><p>a) aparece nas diversas religiões da Antiguidade.</p><p>b) corresponde à marca distintiva do povo judeu.</p><p>c) era expediente usado pelos reis a fim de obter formação de exércitos.</p><p>d) somente apareceu entre os judeus e os vizinhos assírios.</p><p>e) é o cerne dos livros do Antigo Testamento.</p><p>7. Com vistas à preservação dos ensinamentos de Jesus Cristo, os primeiros</p><p>cristãos</p><p>PROTA, Antonio; Rodriguez, Ricardo. Religião. Instituto de Humanidades. 2020. Adaptado.</p><p>a) concentraram-se no combate ao paganismo.</p><p>b) cuidaram de sistematizá-los e difundi-los mediante a criação de uma Igreja.</p><p>c) criaram mosteiros e isolaram-se do mundo.</p><p>d) trataram de chegar a um acordo com as autoridades romanas.</p><p>e) elegeram seu papa e fundaram o Vaticano no início do século.</p><p>8. A nova forma de adesão ao Cristianismo manifestado pelo ascetismo deve</p><p>exprimir-se</p><p>PROTA, Antonio; Rodriguez, Ricardo. Religião. Instituto de Humanidades. 2020. Adaptado.</p><p>a) pelas indulgências e expiação dos pecados.</p><p>b) pela demonstração do conhecimento da literatura religiosa.</p><p>c) pela peregrinação a Jerusalém e suas terras santas.</p><p>d) pela descoberta e preservação dos lugares sacros.</p><p>e) numa intensa vida interior, caminho preferencial para o encontro de Deus.</p><p>50</p><p>DOUTRINAS E DOGMAS DAS</p><p>GRANDES RELIGIÕES</p><p>No limiar do século XXI, o grande desafio para a teologia não é a</p><p>multiplicidade de religiosidades sincretistas ou esotéricas cobertas pelo conveniente</p><p>rótulo de Nova Era, mas a pluralidade das grandes religiões cristãs e não cristãs. No</p><p>século XX, em uma época em que a epopeia missionária coincidia com a</p><p>indiscutível dominação do Ocidente, a Igreja fazia um julgamento bastante</p><p>pessimista sobre o futuro das grandes religiões do mundo. Hoje, podemos ver seu</p><p>dinamismo e até seu poder de sedução muito além de seus locais de origem. É o</p><p>caso do Islamismo, que se mantém na África e na Ásia e cuja presença, com fluxos</p><p>migratórios, é cada vez mais significativa na Europa, pois existem mais de catorze</p><p>milhões de muçulmanos no continente europeu. Isso também vale para as grandes</p><p>religiões, como o Hinduísmo e o Budismo, que não só resistem muito bem ao choque</p><p>da civilização técnica, mas também agora têm milhares de seguidores na Europa e</p><p>na América do Norte (NODARI, 2017).</p><p>Não nos surpreenderemos, portanto, se a teologia das religiões se tornar um</p><p>dos capítulos mais vivos e elaborados da teologia contemporânea. Assim como o</p><p>ateísmo pôde ser o horizonte segundo o qual a teologia da segunda metade do</p><p>século XX reinterpretava as grandes verdades da fé cristã, o pluralismo religioso</p><p>tende a se tornar o horizonte da teologia do século XXI. É a resposta a uma situação</p><p>histórica indiscutível e é também a consequência de uma decisão do Concílio</p><p>Vaticano II que, pela primeira vez na história do magistério romano, julgou,</p><p>positivamente, as religiões não cristãs (ELIADE, 2009).</p><p>Erro!</p><p>Fonte de</p><p>referênci</p><p>a não</p><p>encontra</p><p>Highlight</p><p>51</p><p>3.1 JUDAÍSMO</p><p>A literatura teológica produzida pelo Judaísmo durante o período</p><p>intertestamentário é caracterizada pela importância da doutrina dos anjos e</p><p>demônios. Os judeus sempre acreditaram em sua existência. É mencionado no</p><p>Pentateuco, especialmente no Gênesis, e nos profetas, mas pode ser que eles</p><p>tenham sido submetidos durante o exílio à influência da religião persa com sua</p><p>angelologia estruturada. Isso poderia explicar muitos detalhes fornecidos pela</p><p>literatura judaica da época sobre a posição, as tarefas e a hierarquia dos anjos. Sete</p><p>arcanjos receberam nomes: Uriel, Rafael, Raguel, Michael, Saraqael, Gabriel e</p><p>Remiel. Alguns anjos de alto escalão foram designados por Deus para governar as</p><p>nações, enquanto outros diziam agir perversamente e desviar as pessoas, como</p><p>especificado no Livro dos Jubileus, 15:31 (DIONIZIO, 2020). Outros anjos tinham a</p><p>responsabilidade de dirigir as estações e os elementos naturais.</p><p>Figura 1: Gravura em livro do arcanjo Uriel</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3rdm4uz. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>O que caracteriza o Judaísmo na época é uma certa febre escatológica, daí</p><p>a proliferação de toda uma literatura apocalíptica. Era aguardada com ansiedade</p><p>a chegada do grande dia em que Deus julgaria o mundo e redimiria seu povo.</p><p>Naquele dia, ele finalmente cumpriria suas promessas, dando a ela prosperidade e</p><p>paz em uma era de ouro associada à restauração do reinado de Davi. Certas</p><p>perguntas que os discípulos fizeram a Jesus Cristo refletiam essa febre e a esperança</p><p>Highlight</p><p>52</p><p>de ver o cumprimento das previsões registradas nos livros dos profetas, entretanto,</p><p>mal interpretadas por um povo derivado de concepções escatológicas carnais.</p><p>A expectativa do Messias também era central para a piedade judaica. O</p><p>termo designa aquele que foi ungido por Deus e encarregado de uma missão. Este</p><p>foi, particularmente, o caso dos reis. Mas, o Senhor havia prometido a Davi que seus</p><p>descendentes se sentariam em seu trono para sempre segundo 2 Samuel, 7:12. As</p><p>expectativas ligadas a esta promessa continuaram no tempo do exílio e logo após.</p><p>A expectativa de um filho de Davi, representando Deus na terra, coexistia, porém,</p><p>com a expectativa menos política de intervenção e reinado pessoal de Javé</p><p>(JOSEFO, 2019).</p><p>A perfeita observância dos preceitos da Torá era, para os judeus, a condição</p><p>para o cumprimento das promessas divinas. Esperava-se que um grande profeta</p><p>como Moisés viesse, que falaria por Deus,</p><p>restauraria a Lei e exigiria que ela fosse</p><p>guardada (Deuteronômio, 18:18). Esperava-se, também, a não ser que fosse o</p><p>mesmo personagem, a vinda de um profeta justo que conduziria o povo na justiça.</p><p>Essa esperança estava, particularmente, viva na comunidade de Qumran, onde se</p><p>enfatizava o contraste entre o Mestre da Justiça e o Sacerdote Ímpio. Seu Manual de</p><p>Disciplina fala da vinda do profeta e dos Messias de Arão e de Israel que deveriam</p><p>aparecer no fim dos tempos (MATA, 2010).</p><p>O Judaísmo não é apenas uma fé, uma forma de adoração, um código de</p><p>observância e um sistema de valores morais. Constitui a soma das experiências do</p><p>povo judeu através dos tempos. Reflete suas alegrias e suas angústias, seus alaúdes e</p><p>seus triunfos, suas memórias e suas aspirações, a progressão de suas ideias morais e</p><p>sua concepção do mundo. A religião está intimamente identificada com o povo, sua</p><p>história, sua cultura e sua civilização. Abrange a totalidade das atitudes e práticas da</p><p>juventude, o estilo de vida judaica, ideais e, em uma palavra, tudo o que o gênio</p><p>criativo judaico produziu através dos tempos (SILVA, 2013).</p><p>3.2 CRISTIANISMO</p><p>O Cristianismo não aparece primeiro como uma doutrina ou uma teologia: ele</p><p>se apresenta ao mundo antigo, essencialmente, como uma pregação, um kerigma.</p><p>Teologia e doutrina são apenas elementos secundários, aparecendo quando os</p><p>cristãos começam a refletir sobre o conteúdo e a ordem interna de sua mensagem.</p><p>53</p><p>A pregação cristã se resume no anúncio de que Jesus é o Cristo e veio</p><p>evangelizar os pobres . Seus elementos fundamentais são a cruz e a ressurreição, o</p><p>retorno de Cristo no fim dos tempos para estabelecer o Reino, o dom do Espírito Santo</p><p>como penhor deste Reino vindouro e destinado, a partir de agora, a reunir a</p><p>comunidade. Esta mensagem, as primeiras gerações cristãs contentaram-se em</p><p>repeti-la e transmiti-la sem sentir a necessidade de passar do plano da pregação</p><p>para o da reflexão sobre esta pregação. Para eles, o essencial era e permaneceu a</p><p>pregação do "Evangelho de Jesus Cristo" (O’DONNELL, 2007).</p><p>Figura 2: O alfa e o ômega, símbolos da eternidade de Deus</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/37AIC1h. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>É óbvio que tal pregação continha, em si, elementos doutrinários e, em</p><p>particular, todo um pano de fundo judaico. Paulo, os círculos joaninos, os evangelistas</p><p>oferecem, em seus escritos, que são sobretudo kerigma, um grande número de dados</p><p>e reflexões que podem servir para lançar as bases de uma teologia, mas são apenas</p><p>materiais mal elaborados. E deve-se reconhecer que, no século I, muito poucos foram</p><p>capazes de assimilá-los em toda a sua extensão.</p><p>A partir do século II, a situação mudara: assistimos ao nascimento da teologia</p><p>cristã, um desenvolvimento doutrinal que continuaria nos séculos seguintes</p><p>(SAUNDERS, 2005).</p><p>54</p><p>Antes mesmo de responder a esta pergunta, e para preparar a resposta, é</p><p>necessário situar as primeiras expressões da fé cristã agrupadas nas Escrituras do Novo</p><p>Testamento.</p><p>O Cristianismo não é uma religião do livro sagrado. Jesus não escreveu; ele</p><p>não incitou seus apóstolos a fazê-lo, mesmo que, como ele, eles confiassem</p><p>abundantemente nos livros do Antigo Testamento. A primeira geração cristã não</p><p>tinha seus próprios escritos. Foi apenas entre 70 e 95 d.C. que os relatos dos</p><p>Evangelhos foram escritos, precedidos pelas cartas de Paulo (entre 56 e 63 d.C.). É</p><p>relatado que o apóstolo Pedro tinha muito a pedir para autorizar a escrita de seu</p><p>sermão pelo evangelista Marcos. Finalmente, quatro catequeses sobre Jesus foram</p><p>reconhecidas como autênticas na comunidade cristã: a de Mateus, a de Marcos, a</p><p>de Lucas e a de João (SANCHIS, 2018).</p><p>Ao escrever a catequese cristã, tal como circulava nas várias comunidades,</p><p>os autores quiseram dotar estas comunidades dos seus arquivos evangélicos para</p><p>servirem de catecismos e livros litúrgicos, a fim de fixar, de forma estável, a memória</p><p>das origens. Sua realização é significativa, pois eles relataram o evento de Jesus Cristo</p><p>de uma forma que combina história e doutrina, mas sem reduzir a dimensão narrativa,</p><p>importante aos seus olhos, dada a natureza específica da revelação cristã.</p><p>Mas, isso não significa que os evangelistas não fizeram um trabalho doutrinário.</p><p>As histórias já testemunham uma reflexão de fé sobre o evento de Jesus, uma</p><p>elaboração do ensinamento do mestre, um esforço para trazer à tona as implicações</p><p>e os significados do evangelho global, a respeito do livro dos Atos dos Apóstolos e as</p><p>cartas apostólicas de Paulo, Pedro, Tiago, João e Judas (BATAILLE, 2015).</p><p>As narrativas evangélicas, porém, não serão suficientes para a Igreja cristã</p><p>quando surgir a necessidade de possuir formulações mais precisas e mais reflexivas</p><p>de sua fé. A meditação teológica, as necessidades do ensino, as discussões</p><p>suscitadas pela heresia serão a ocasião para lançar um corpo de doutrinas. Os</p><p>quatro primeiros concílios – Niceia em 325, Constantinopla em 381, Éfeso em 431 e</p><p>Calcedônia em 451 – estabelecerão as bases para este desenvolvimento.</p><p>55</p><p>Regras de fé serão, muitas vezes, propostas por esses concílios, com uma</p><p>intenção de precisão, às vezes polêmica, para informar aos fiéis e oferecer-lhes a</p><p>doutrina em uma linguagem culturalmente adaptada (DEMO, 2013).</p><p>3.3 ISLAMISMO</p><p>O ato de fé do Islã é: Não há Deus senão Alá; Muhammad é o profeta de Allah.</p><p>Esses dois ditos são o que os muçulmanos chamam de “os dois testemunhos”.</p><p>Vemos que eles marcam, duplamente, a crença na unidade divina: o primeiro</p><p>afirmando um único Deus; a segunda, rejeitando, implicitamente, qualquer sistema</p><p>de emanação ou de encarnação pelo qual se queira explicar como a divindade se</p><p>revela ao homem, e expressando apenas puro profetismo.</p><p>Figura 3: A peregrinação a Meca, berço do Islamismo</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3xly8h8. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Essas ideias parecem judaicas à primeira vista. O Cristianismo, sem dúvida,</p><p>também professa a unidade divina; mas, sabemos como ele aproxima Deus do</p><p>homem pela Encarnação, e que consequências tira deste mistério, considerado</p><p>como efeito do amor de Deus em relação à sua criatura. Maomé é rebelde quanto</p><p>a este dogma; ele se detém na concepção do Deus único, revelado aos profetas</p><p>por intermédio dos anjos; a encarnação é taxada por ele como politeísmo:</p><p>Infiel é aquele que diz: Deus, ele é o Messias filho de Maria... Quem</p><p>associar outros deuses a Deus, Allah proibirá a entrada no paraíso e</p><p>56</p><p>sua morada será fogo... Infiel é aquele que diz: Deus é um terço da</p><p>Trindade, pois não há Deus senão o único Deus (COLLI, 2019.)</p><p>Este Deus escolhido por Deus único, quem é precisamente? Seria interessante</p><p>pensar que ele era um dos muitos deuses do politeísmo árabe primitivo, escolhido</p><p>entre seus pares e elevado à categoria de Deus supremo. No entanto, não se trata</p><p>disso. Certamente, era o Deus dos judeus e dos cristãos que Maomé queria</p><p>reconhecer; mais exatamente ainda, era o Deus dos judeu-cristãos, pois Alá era o</p><p>nome dado a Deus pelas seitas judaico-cristãs (ELIADE, 2010).</p><p>Essas seitas judaico-cristãs existiam também nas fronteiras da Arábia; eles</p><p>tinham influência e adeptos na própria península. Maomé os conhecia melhor do</p><p>que os judeus e cristãos. Uma dessas seitas estabeleceu a origem a partir de Abraão;</p><p>foi também o que fez Maomé, que afirmou não ter outra intenção senão restaurar a</p><p>religião deste patriarca.</p><p>O dogma da unidade divina teve grande sucesso entre os árabes; produziu</p><p>uma profunda impressão no espírito do Islã. O monoteísmo muçulmano tem uma</p><p>simplicidade impressionante; é um design um tanto áspero e seco, mas de inegável</p><p>grandeza.</p><p>Escritores fizeram observações interessantes sobre o monoteísmo semítico</p><p>em</p><p>geral, mais particularmente aplicáveis ao monoteísmo árabe (ELIADE, 1979).</p><p>No entanto, esse traço de monoteísmo de fato se tornou fundamental no</p><p>caráter de, pelo menos, uma parte da raça semítica; e isso, além disso, está em</p><p>conformidade com nossa tradição religiosa, pelo menos no que diz respeito ao ramo</p><p>hebreu. A Bíblia ensina que Israel é um povo escolhido porque eles têm</p><p>conhecimento do único Deus.</p><p>O Alcorão reconhece esta eleição:</p><p>Ó, filhos de Israel! Lembrem-se das bênçãos que derramei sobre vocês;</p><p>lembrem-se de que eu os elevei acima de todos os humanos.”</p><p>"Não se inventa o monoteísmo; pode-se afirmar que estes (os semitas)</p><p>jamais teriam conquistado o dogma da unidade divina, se não o</p><p>57</p><p>tivessem encontrado nos instintos mais imperiosos de suas mentes e</p><p>corações (NODARI, 2017).</p><p>Os semitas nem sempre manifestaram uma necessidade muito imperiosa do</p><p>monoteísmo, testemunham seu comportamento em torno do bezerro de ouro, a ira</p><p>de Moisés, a luta dos profetas contra o paganismo sempre ressurgente do povo;</p><p>existe, também a mitologia cheia de monstros dos assírios; mitologia emprestada, é</p><p>verdade, de povos de outra raça, mas que os semitas, no entanto, aceitaram:</p><p>existiam os pequenos panteões dos fenícios, dos cartagineses, dos nabateus, dos</p><p>tamudeus, dos himiaritas e dos próprios árabes antigos (GENNEP, 2013).</p><p>Não, os povos semitas não eram, como povos, antipáticos ao politeísmo; longe</p><p>disso. Mas foi de fato entre eles que nasceram os principais representantes do</p><p>monoteísmo, e sobretudo, os dois que permaneceram os maiores aos olhos do Islã:</p><p>Abraão e Moisés. Abraão tirou a raça escolhida do paganismo da Caldeia; Moisés</p><p>tirou o povo escolhido do paganismo do Egito. São duas grandes figuras do Alcorão,</p><p>foram dois grandes modelos para Maomé.</p><p>E, para fundamentar, encontramos um fato bem conhecido na história das</p><p>religiões: a adoração de lugares altos, ou, se você preferir, a tendência de</p><p>personagens meditativos ascenderem a lugares altos. A arte da paisagem não foi</p><p>desenvolvida na época de Maomé, como ocorre em nossa literatura do século</p><p>passado (LE GOFF, 2013).</p><p>Figura 4: Moisés e as tábuas da lei</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/37J2Gig. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>58</p><p>Mais tarde, passado esse momento de deslumbramento, depois de ter</p><p>conhecido a Deus nessa espécie de visão direta, Maomé tentou provar a si mesmo e</p><p>a seus seguidores. Ele reuniu algumas provas imitadas daquelas da Bíblia. A teologia</p><p>muçulmana, depois dele, estabeleceu novos empréstimos da filosofia grega, e os</p><p>desenvolveu com toda a sutileza e complexidade da argumentação para a época.</p><p>Mas, mesmo assim, basicamente, para o espírito do Islã, para a alma do verdadeiro</p><p>muçulmano, não há prova de Deus; há apenas evidência imediata disso. Deus se vê</p><p>em sua unidade; ele se sente, quase se toca; e a prova é feita no mesmo momento</p><p>em que o sentimento é expresso, por estas simples palavras, testemunho de certeza</p><p>e de fé: "Não há Deus senão Alá" (SCARPI, 2004).</p><p>3.4 BUDISMO</p><p>É muito difícil discernir o que, nos milhares de sermões – ou também conhecidos</p><p>como sūtra – atribuídos pela tradição ao Buda, realmente pertença a ele, quais são</p><p>suas ideias e as de seus discípulos. Examinando todos os sutras e comparando as</p><p>várias versões, porém, chega-se a uma base doutrinária comum que deve</p><p>representar o pensamento do Buda ou, pelo menos, o de seus primeiros adeptos.</p><p>Esta doutrina primitiva baseia-se num duplo postulado: todos os seres vivos</p><p>transmigrando infinitamente de uma existência para outra, passando pelos estados</p><p>de homem, deus, animal, fantasma faminto e condenado. É de acordo com seus</p><p>atos anteriores que eles assim transmigram: aqueles que fizeram boas ações</p><p>renascem sob auspícios felizes, aqueles que fizeram más ações recebem a promessa</p><p>de uma vida dolorosa. O primeiro postulado foi aceito por quase todos os indianos</p><p>mesmo antes do tempo de Buda, mas o segundo, que dá ao mecanismo da</p><p>retribuição automática dos atos um caráter moral, talvez tenha sido imaginado pelo</p><p>próprio “Abençoado” (FERREIRA, 2021).</p><p>A essência da doutrina primitiva está contida nas quatro “Santas Verdades”,</p><p>também conhecidas como Ārya-Satya, que teriam sido definidas no famoso primeiro</p><p>sermão, proferido em Benares: a Verdade da dor; a Verdade da origem da dor; a</p><p>Verdade da cessação da dor; a Verdade do Caminho que leva à cessação da dor</p><p>(duḥkha).</p><p>Tudo é dor: nascimento, velhice, doença, morte, luto, tormento, união com o</p><p>que você odeia, separação do que você ama, não conseguir o que deseja. Nenhum</p><p>59</p><p>ser escapa à dor, nem mesmo os inúmeros deuses, cuja existência cheia de felicidade</p><p>e extremamente longa também terá um fim.</p><p>Tudo o que existe, seres vivos e coisas inanimadas, é composto de elementos</p><p>de duração limitada e é desprovido de qualquer princípio pessoal e eterno, análogo</p><p>ao "eu" (ātman) do bramanismo ou o "princípio vital" (jīva) do Jainismo (EISLER, 2007).</p><p>Certos indianistas protestam contra a atribuição ao bem-aventurado dessa</p><p>negação do “eu”, mas é bastante claro que, mesmo antes da era cristã, os doutores</p><p>de todas as seitas budistas concordavam, ao contrário, em torná-la uma das</p><p>principais bases do ensinamento de Buda. Além disso, tudo é impermanente,</p><p>aparece um dia, determinado por múltiplas causas, está em constante mudança e,</p><p>inevitavelmente, perece. A dor está intimamente ligada a essa ausência de si e a</p><p>essa impermanência, e, por isso, é inerente a toda existência. Assim como o indivíduo</p><p>é privado do princípio pessoal, o mundo é desprovido de um “Deus” eterno, criador</p><p>e onipotente, fonte de salvação.</p><p>A dor se origina da "sede", ou seja, do desejo, que está ligado ao prazer e</p><p>acompanha toda a existência; leva a renascer para saborear novamente prazeres</p><p>enganosos. Esta sede é ela própria produzida por uma cadeia de causas, a primeira</p><p>das quais é a ignorância, mais precisamente a ignorância desta realidade que Buda</p><p>descobriu e que revela aos seus discípulos (SILVA, 2020).</p><p>A sede e a ignorância geram as três "raízes do mal", que são a cobiça, o ódio</p><p>e o erro, dos quais, por sua vez, surgem vícios, paixões e opiniões falsas. Tudo isso</p><p>impele o ser a agir e assim se deixar levar pelo mecanismo da retribuição dos atos.</p><p>Qualquer “ato” (karman), bom ou mau, corporal, vocal ou apenas mental, se resultar</p><p>de uma decisão tomada com pleno conhecimento dos fatos, produz por si mesmo,</p><p>automática e inexoravelmente, um "fruto" (phala) que "amadurece" pouco a pouco</p><p>e recai mais cedo ou mais tarde sobre seu autor na forma de recompensa ou punição</p><p>correspondente a esse ato em espécie e em importância. Essa “maturação” (vipāka)</p><p>do ato é mais ou menos longa, mas, como sua duração, muitas vezes, excede a de</p><p>60</p><p>uma vida humana, obriga o autor a renascer para receber sua retribuição.</p><p>A cessação da dor é a cessação da sede; portanto, a das três raízes do mal –</p><p>cobiça, ódio e erro – sofrem “extinção” (nirvāṇa) total quando o ser humano alcança</p><p>a beleza extrema da alma em sua completa exaustão (NODARI, 2017).</p><p>3.5 HINDUÍSMO</p><p>O Hinduísmo é a religião mais difundida na Índia. É uma das religiões mais</p><p>antigas do mundo. Os hindus são politeístas; acreditam em vários deuses que, na</p><p>verdade, são apenas as diferentes facetas de uma única entidade, o Brahman.</p><p>Pode-se, assim, falar também de bramanismo. Eles acreditam na reencarnação da</p><p>alma com base em ações realizadas em vidas passadas e presentes e organizaram</p><p>a sociedade indiana tradicional em castas (DIONIZIO, 2020).</p><p>Acredita-se que essa religião deriva do Vedismo, uma religião muito antiga</p><p>introduzida na Índia por invasores arianos (arya, "nobre" em sânscrito) na primeira</p><p>metade do segundo milênio a.C. As crenças religiosas desses povos foram transcritas</p><p>dos Vedas (Conhecimento) que, para os hindus, são de inspiração e transmissão</p><p>divinas. Essa religião gradualmente integrou as crenças indígenas e se transformou</p><p>em bramanismo na segunda metade do segundo milênio; depois em Hinduísmo no</p><p>início do primeiro milênio (ELIADE, 2010).</p><p>Até meados de 2008, mais de 80% dos indianos eram hindus, o que representa</p><p>quase 900 milhões de pessoas (CASTRO, 2010).</p><p>O Hinduísmo não tem um livro sagrado como a Bíblia ou o Alcorão. No</p><p>entanto, existem livros como o Bhagavad-Gîtâ, escrito há cerca de 2000 anos, que</p><p>reúne os elementos estruturantes do Hinduísmo; ela também não tem um profeta</p><p>fundador como o Cristianismo, o Islamismo ou o Budismo. Não há clero e os fiéis não</p><p>são supervisionados por uma organização estruturada como a Igreja Católica.</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>61</p><p>Para o Hinduísmo, o mundo é regulado por uma ordem sagrada e forma um</p><p>todo. Isso diz respeito tanto às estrelas quanto aos ciclos sazonais terrestres, mas</p><p>também à organização da sociedade e do indivíduo. Há uma solidariedade entre</p><p>todos esses elementos. O homem e o Universo estão ligados e o homem carrega</p><p>dentro de si um fragmento dessa ordem sagrada. O homem não tem começo nem</p><p>fim, ele é apenas um momento da ordem sagrada universal. A alma do indivíduo</p><p>passará, portanto, de um corpo a outro, o que chamamos de metempsicose ou</p><p>reencarnação, uma passagem determinada pelas ações passadas e presentes da</p><p>alma (ELIADE, 2009).</p><p>Figura 5: Templo dedicado a Vishnu no Himalaia</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3DZM5Tj. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Para parar esse movimento sem fim e alcançar a libertação, o Hinduísmo</p><p>oferece várias soluções. O indivíduo deve passar pelas quatro “idades da vida”. Ele</p><p>deve, primeiro, estudar os textos sagrados durante sua infância. Este ensinamento</p><p>deve ser feito, se possível, com um mestre, o guru. Tornando-se adulto, ou seja, o</p><p>"senhor da casa", o indivíduo deve cumprir os deveres sociais e religiosos específicos</p><p>do grupo ou “varna” ao qual pertence: os brâmanes especializados em ritos</p><p>religiosos, os “kshatriyas” ou guerreiros, os “vaicyas” que são os produtores de bens</p><p>materiais ou os “çudras” que são os servidores dos três grupos anteriores. Ele também</p><p>deve procriar para garantir seus descendentes, contribuindo, assim, para a</p><p>manutenção da ordem sagrada do mundo. Com essa etapa concluída, os fiéis</p><p>podem retirar-se da sociedade para meditar. Há um estágio final, o do renunciante.</p><p>62</p><p>Este recusa qualquer ação que o ligue ao mundo e depois espera uma libertação</p><p>que rompa o movimento das sucessivas reencarnações. (COLLI, 2019). Somente</p><p>aqueles que receberam iniciação, isto é, brâmanes, podem esperar alcançar a</p><p>libertação. Há cerca de dois mil anos, surge uma ideia, concernente a todos os</p><p>indivíduos: também se pode alcançar a libertação sem renunciar à vida em</p><p>sociedade. Basta fazer apenas os atos necessários e desinteressados e contar</p><p>totalmente com a ajuda dos deuses. Esses deuses intervenientes são,</p><p>particularmente, Shiva e Vishnu e certas deusas com quem formam casais.</p><p>63</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO</p><p>1. O messianismo constitui uma das mais arraigadas tradições ocidentais e</p><p>caracteriza-se</p><p>a) por afirmar que todos serão salvos para a vida eterna.</p><p>b) por descrer da existência de Satanás.</p><p>c) pela crença numa Idade de Paz e harmonia na terra.</p><p>d) pela busca da síntese de todas as religiões.</p><p>e) pela existência de deuses que promovem o fim do mundo.</p><p>(PROTA, Antonio; Rodriguez, Ricardo. Religião. Instituto de Humanidades. 2020.</p><p>Adaptado.)</p><p>2. Buda acreditava que a existência dos deuses era transitória, assim como a</p><p>humana.</p><p>O budismo é uma religião que</p><p>PROTA, Antonio; Rodriguez, Ricardo. Religião. Instituto de Humanidades. 2020. Adaptado.)</p><p>a) rompeu completamente com o Hinduísmo.</p><p>b) surgiu na China, na segunda metade do século 6 a.C.</p><p>c) adora o Deus Buda.</p><p>d) foi fundada por Siddharta Gautama.</p><p>e) surgiu com o fim do império assírio.</p><p>3. As profecias presentes na Bíblia não estão diretamente ligadas a textos</p><p>escritos, porém a uma tradição oral que se preservou. A singularidade do</p><p>anúncio profético preservado na Bíblia</p><p>a) resulta de estar associado ao monoteísmo.</p><p>b) decorre da circunstância dos profetas pertencerem à mais alta aristocracia.</p><p>c) advém do fato de achar-se relacionado ao futuro imediato.</p><p>d) encontra-se na escassa possibilidade de confirmar-se.</p><p>e) resume-se no Antigo Testamento como forma de argumento.</p><p>64</p><p>4. Os Profetas situam a pregação em sua época e é justamente a partir da</p><p>situação existente que fixam o enunciado que irão expressar. Sua mensagem</p><p>é clara e incisiva: ao manifestar-se sobre a política externa, o primeiro grande</p><p>profeta, Isaias</p><p>PROTA, Antonio; Rodriguez, Ricardo. Religião. Instituto de Humanidades. 2020. Adaptado.)</p><p>a) revolta-se por não ter seu nome citado nos textos sagrados.</p><p>b) foi renegado por ter sido considerado um antipatriota.</p><p>c) contrariou, em alguns momentos, o ensinamento consagrado na Bíblia.</p><p>d) recusou alguns relatos pelo estilo destoante do conjunto do texto bíblico.</p><p>e) nega a eficácia de aliança com algum vizinho para enfrentar a ameaça</p><p>da Assíria.</p><p>5. Os povos semitas não eram contrários, terminantemente, à ideia de religiões</p><p>politeístas, mas inegável notar que, os dois maiores representantes do monoteísmo</p><p>na concepção do Islã foram</p><p>a) Cristo e Abraão.</p><p>b) Abraão e Moisés.</p><p>c) Maomé e Abraão.</p><p>d) Moisés e Muhammad.</p><p>e) Muhammad e Cristo.</p><p>6. Dentre as questões teóricas que os primeiros cristãos tinham que enfrentar</p><p>PROTA, Antonio; Rodriguez, Ricardo. Religião. Instituto de Humanidades. 2020. Adaptado.)</p><p>a) destacava-se o conflito entre partidários do Império e da República.</p><p>b) cabe referir o imperativo de isolar-se do mundo.</p><p>c) era primordial fixar a coexistência com o paganismo.</p><p>d) sobressaía a da existência de divindade que se manifestava pela palavra.</p><p>e) era converterem a todos os pagãos e ascéticos de Roma.</p><p>7. Líderes religiosos preservaram a doutrina e asseguraram a sobrevivência do</p><p>Cristianismo. Estes são representados</p><p>65</p><p>PROTA, Antonio; Rodriguez, Ricardo. Religião. Instituto de Humanidades. 2020. Adaptado.)</p><p>a) pelos convertidos escolhidos pelo do pontífice.</p><p>b) pelos criadores da sede geral em Roma.</p><p>c) pelo acordo realizado com os judeus ortodoxos.</p><p>d) pelos primeiros bispos, denominados de padres da Igreja.</p><p>e) pela ocupação dos templos e sinagogas judaicas.</p><p>8. Os cristãos primitivos enfatizaram o papel da eucaristia</p><p>PROTA, Antonio; Rodriguez, Ricardo. Religião. Instituto de Humanidades. 2020. Adaptado.)</p><p>a) para ter sempre presente o sacrifício de Cristo e a Igreja como local de</p><p>congraçamento.</p><p>b) pela aproximação à prática dos sacrifícios pagãos.</p><p>c) por tornar obrigatório o conhecimento da Bíblia.</p><p>d) para confundir as autoridades romanas.</p><p>e) no intuito de simbolismo da presença do Messias na humanidade.</p><p>66</p><p>HISTÓRIA E SOCIEDADE SOB O</p><p>ASPECTO DAS GRANDES RELIGIÕES</p><p>Para darmos prosseguimento a este capítulo, é importante que nos</p><p>indaguemos por que a religião tem um lugar tão importante na vida das pessoas</p><p>ontem, hoje e, provavelmente, amanhã? Esta é uma questão que enfrentamos ao</p><p>analisar a presença da religião na situação da existência humana.</p><p>Levaremos, em consideração, durante nossos estudos, o fenômeno religioso</p><p>em geral, e não exatamente esta ou aquela religião, mas deixemos claro que nos</p><p>referimos</p><p>às grandes religiões presentes no mundo.</p><p>Figura 1: Religiosidade e a ideia geral de sagrado</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3LVDy6r. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Ora, a religião satisfaz a curiosidade humana acerca do divino, da</p><p>transcendência, acalma a ansiedade e sustenta a esperança. Ela normaliza as</p><p>Erro!</p><p>Fonte de</p><p>referênci</p><p>a não</p><p>encontra</p><p>67</p><p>relações sociais, consagrando sua autoridade em um código de conduta e um</p><p>sistema de representação bem estruturados e estabelecidos.</p><p>Vale salientar que, do ponto de vista histórico e social, importa menos uma</p><p>sequência sobre as religiões do que sua ordem cronológica, principalmente, do</p><p>ponto de vista histórico.</p><p>Para darmos prosseguimento aos nossos estudos desta Unidade, faremos uma</p><p>jornada, almejando a ordem cronológica dos fatos para melhor explicação dos</p><p>aspectos histórico-sociais. Dessa forma, teremos uma situação histórica e social</p><p>baseada na cronologia, o que nos fará ir e vir de acordo com os acontecimentos</p><p>seculares para melhor compreendermos esses dois fenômenos.</p><p>4.1 ASPECTOS HISTÓRICOS</p><p>A mundialização das religiões é um fato real, se com isso queremos dizer que</p><p>o Catolicismo e o Protestantismo continuam a se espalhar pelo mundo, assim como</p><p>o Islamismo e até o Budismo. O Judaísmo faz o mesmo em sua própria escala,</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>68</p><p>enquanto, querendo ou não, o Hinduísmo transborda para vários continentes. Mas,</p><p>essa mundialização é muito variável em ritmo e forma de uma religião para outra. Em</p><p>algumas situações, essa expansão começou dentro dos mais vastos impérios antigos;</p><p>outras vezes, também, espalhou-se por rotas comerciais distantes.</p><p>Hinduísmo, Budismo, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo foram construídas no</p><p>solo universal do animismo das religiões denominadas "primitivas", isto é, que vieram</p><p>em primeiro lugar. Um exemplo desse fenômeno é fornecido pelo que Léon</p><p>Vandermeersch chamou de mundo sinicizado, ou seja, o surgimento de religiões que</p><p>incluem a China, o Japão e as Coreias, bem como o surgimento de povoações muito</p><p>antigos da Ásia Central. Segundo o autor, o entrelaçamento dos cultos arcaicos e</p><p>das religiões que ali se sobrepuseram permanece bastante evidente. Como</p><p>exceção, Vandermeersch nos cita o Xintoísmo no Japão, assim como outras religiões</p><p>que não são organizadas administrativamente e não possuem clero, tais como</p><p>mosteiros, seitas, escolas e outros locais de culto tradicionais como suportes de</p><p>práticas religiosas de grande diversidade em que a família, muitas vezes, tem um</p><p>papel central a desempenhar (VANNIER, 1999).</p><p>Figura 2: Templo xintoísta no Japão</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3O2aa0g. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>69</p><p>Para além de um animismo que parece ter sido o destino de grande parte da</p><p>humanidade, as primeiras construções religiosas que decolaram, então, continuaram</p><p>a se diversificar, dando assim, a imagem de uma estrutura em forma de árvore de</p><p>doutrinas e estruturas organizacionais implantadas no espaço e no tempo desde o</p><p>início. Em outras palavras, não há progressão linear no devir das religiões. Um belo</p><p>exemplo pode nos ser dado pelo Hinduísmo, que, na Antiguidade, emergiu de seu</p><p>berço na Índia para se espalhar pelo Sudeste Asiático e pela atual Indonésia. A</p><p>maioria dos reinos hindus desta Ásia foram, posteriormente, convertidos ao Budismo</p><p>ou ao Islamismo. De fato, não parece haver nenhuma acumulação irreversível no</p><p>domínio religioso (BARON, 2017).</p><p>A difusão de uma religião obedece a fenômenos históricos e sociológicos</p><p>complexos e nem todos podem ser discutidos. Assim, a formação do Budismo ocorreu</p><p>por uma separação do Hinduísmo, depois sua expansão para o oeste, ou seja, para</p><p>regiões hoje islamizadas como a Caxemira, mas se deve a causas políticas ou</p><p>econômicas? É difícil comentar sobre este assunto. O fato é, no entanto, que o</p><p>Budismo experimentou uma territorialização agitada. Regiões foram totalmente</p><p>perdidas, como as fachadas ocidentais do mundo indiano, enquanto novas</p><p>aquisições, como as do Tibete, Mongólia e Japão, foram conquistadas em outros</p><p>lugares. Deve-se lembrar também que mil anos se passaram entre a pregação de</p><p>Buda, aos pés do Himalaia, e a chegada de sua mensagem ao arquipélago japonês</p><p>(BARON, 2017).</p><p>Ramo dissidente do Judaísmo, o Cristianismo, como sabemos, foi desprezado</p><p>e perseguido durante seus primeiros séculos, florescendo no Império Romano, após a</p><p>conversão do imperador Constantino. Mas, bem antes da ruptura, no século XI, entre</p><p>a Igreja do Oriente e a Igreja do Ocidente, o famoso “Cisma do Oriente”, ou seja, o</p><p>rompimento que ocorreu em 1054 d.C., entre as Igrejas Católicas do Oriente e a do</p><p>Ocidente, já existiam várias Igrejas cristãs, sejam elas nascidas no Império Romano, a</p><p>exemplo dos coptas, armênios e siríacos, ou que, como as Igrejas Nestorianas,</p><p>propagaram-se durante mil anos ao longo da Rota da Seda, da Pérsia à China</p><p>(JANICAUD, 1991).</p><p>70</p><p>A propagação do Islã, desta nova fé que emergiu do Hejaz, deu-se pela</p><p>captura de rotas comerciais estabelecidas desde a mais alta antiguidade. Os cismas</p><p>causados pelos sucessores de Maomé deu origem, em primeira instância, a um Islão</p><p>com certa inclinação para a guerra, através do Império Bizantino e do Império Persa,</p><p>em direção à bacia do Mediterrâneo, às portas do mundo ocidental. A Bacia Pontic</p><p>– estabelecida pela Bulgária, Romênia, Ucrânia, Turquia, e o mundo iraniano-indiano</p><p>também foram afetados antes que o Islã retomasse um curso mais pacífico ao longo</p><p>das rotas comerciais do Oceano Índico (LAMBERT, 2006).</p><p>De fato, enquanto seus limites ocidentais estavam quase estabilizados, com o</p><p>Império Otomano e o reino marroquino, o Islã continuou sua expansão comercial-</p><p>religiosa na Ásia e na costa leste da Europa no século XVI, compartilhando o controle</p><p>do Oceano Índico com navegadores indianos, malaios e, por algum tempo, chineses,</p><p>sem confrontos sérios com os Estados ou as religiões instaladas em sua periferia. No</p><p>entanto, foi a época em que os portugueses e os espanhóis, logo seguidos por várias</p><p>outras nações, navegaram da Europa para as margens ocidentais da África,</p><p>tomaram as Américas e, finalmente, desembarcaram no Oceano Índico onde, do</p><p>século XVII ao início do século XX, sua presença continuará a crescer</p><p>imperiosamente. Esses recém-chegados carregavam na bagagem todas as</p><p>variantes religiosas do Cristianismo, e os Estados que construíram ou conquistaram são</p><p>dotados dessas crenças, sempre que seus soberanos pertenciam a essas doutrinas</p><p>(PRÉMARE, 2002).</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>71</p><p>O movimento pelo qual essas religiões transbordam seus espaços já adquiridos</p><p>continuará com uma expansão geográfica que as faz se expandir por todo o globo.</p><p>Está obviamente correlacionado com outros processos históricos, todos os quais</p><p>levaram à colonização europeia de diferentes continentes. Nesse contexto, o</p><p>Cristianismo europeu se espalhou pelas Américas, África, Ásia e Oceania por meio de</p><p>uma série de sucessivas missões e evangelizações, das quais as mais violentas foram</p><p>praticadas por dois séculos na América espanhola (CORBIN, 1981).</p><p>Essa expansão europeia, é de fato a primeira expansão colonial de alguns</p><p>países europeus. Terá o efeito de expandir pelo mundo quase um Cristianismo</p><p>europeu, ele próprio já dividido. De fato, antes de sua expansão global, o Cristianismo</p><p>Ocidental, separado do Cristianismo Oriental desde o Cisma de 1054, dividiu-se entre</p><p>catolicismo e protestantismo, este último desdobrando-se em toda uma série de</p><p>denominações. Assim, é a partir de uma Europa política e religiosamente plural que</p><p>começa</p><p>a onda de cristianização do mundo (CORBIN, 1981).</p><p>Figura 3: Igreja ortodoxa</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3Kw2FfS. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Mais tarde, um segundo fator reforçará a mundialização religiosa de origem</p><p>europeia, quando aumentará a emigração de origem econômica ou política. A</p><p>partir de meados do século XIX, transportou, por vezes, grandes populações a</p><p>milhares de quilômetros de suas casas, cujas línguas e costumes eram diversos, mas</p><p>Highlight</p><p>72</p><p>que, muitas vezes, tinham como sistema de referência comum apenas a sua religião,</p><p>suporte de seu vínculo e, por vezes, o único meio de preservar sua identidade original.</p><p>Entre as potências europeias responsáveis pela difusão do Cristianismo,</p><p>devemos incluir a Rússia. Ao expandir-se para o Pacífico, o Império Russo leva a Igreja</p><p>Ortodoxa até a China, Coreia e Japão, onde ainda sobrevive. No entanto, a principal</p><p>difusão é a do catolicismo realizado por Portugal, e especialmente, pela Espanha, a</p><p>partir dos séculos XVII e XVIII. Então, mais tarde, continuará, mais modestamente, aos</p><p>cuidados da França, principalmente na África negra (DANIÉLOU, 1978).</p><p>As missões católicas na Oceania serão ainda mais tardias, pois acontecerão,</p><p>no século XIX, com o desenvolvimento do protestantismo em um bom número de</p><p>arquipélagos desta região do mundo. Anteriormente, a principal contribuição do</p><p>protestantismo para a mundialização do Cristianismo foi efeito da colonização</p><p>inglesa.</p><p>O anglicanismo e suas desavenças com o catolicismo romano favoreceu a</p><p>disseminação na América do Norte e formou a maioria dos cultos dos Estados Unidos.</p><p>O protestantismo também se espalhou na África, através da colonização inglesa e</p><p>alemã, e até mesmo francesa. Na Ásia, finalmente, o catolicismo conseguiu</p><p>estabelecer um certo número de adeptos que ainda hoje existem, graças em</p><p>particular, às missões espanholas estabelecidas nas Filipinas e na Indochina e às</p><p>missões francesas presentes na Indochina e na China (MANARANCHE, 1985).</p><p>A expansão das religiões cristãs, como consequência da colonização, tem</p><p>como consequência, o de proliferar outras religiões. Esse aspecto menos conhecido</p><p>foi favorecido pela transformação das formas de exploração econômica, marcada</p><p>em particular, pela abolição da escravatura durante o século XIX. Assim, no quadro</p><p>da colonização britânica, a luta inicial de Londres contra as diversas formas de</p><p>escravidão levou as administrações coloniais a substituir o antigo suprimento de</p><p>escravos das plantações do Império Britânico - seja na Ásia, na África ou nas Américas</p><p>- pela emigração de trabalhadores, na maioria das vezes, organizados da Índia</p><p>britânica (MANARANCHE, 1985).</p><p>Esse movimento está na origem da presença na África, na bacia do Caribe e</p><p>em outras regiões onde a colonização britânica espalhou suas plantações, de muitas</p><p>comunidades de indianos, de religião geralmente hindu, mas também islâmica. A</p><p>abertura do Hinduísmo constitui um paradoxo interessante, pois o Hinduísmo é uma</p><p>religião fechada: não se pode tornar-se hindu, só se pode sê-lo por nascimento</p><p>73</p><p>(MANARANCHE, 1985).</p><p>Essa restrição não impediu que a colonização tirasse o Hinduísmo de seu berço</p><p>natural e o projetasse para os quatro cantos do mundo por meio da expansão</p><p>econômica, ilustrando assim, o fato de que o fechamento social de uma religião não</p><p>é contraditório com sua mobilidade geográfica. Ainda hoje, o Hinduísmo continua</p><p>sendo uma religião sem proselitismo (MANARANCHE, 1985).</p><p>Voltando à extensão do domínio muçulmano, isso se deu de maneira diferente</p><p>da do Cristianismo. O Islã, que continuava a progredir ao redor do Oceano Índico, foi</p><p>finalmente ultrapassado pela colonização europeia, que, passo a passo, apoderou-</p><p>se de todas as áreas onde havia proliferado no início do século XX. No século XIX, a</p><p>única exceção a esse respeito foi a do Império Otomano, uma potência</p><p>cambaleante cuja modernização na Turquia logo seria acompanhada, sob a</p><p>liderança de Ataturk, por uma violenta reação secular (GUILLAUME, 2004).</p><p>No entanto, o Islamismo, que a colonização europeia retardou, mas não</p><p>reprimiu, tomou-se, então, um novo impulso que o levou a se globalizar em um ritmo</p><p>diferente do Cristianismo. De fato, é a explosão demográfica do Terceiro Mundo que</p><p>explica, principalmente, a expansão numérica do Islamismo durante o século XX,</p><p>enquanto uma dinâmica de conversão vinha acontecendo em muitas regiões do</p><p>planeta que haviam sido islamizadas por apenas dois ou três séculos. É o caso do</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>74</p><p>Cáucaso, atual Indonésia e também da África, onde o Islamismo se desenvolveu nas</p><p>grandes aglomerações urbanas desse continente (GUILLAUME, 2004).</p><p>Na mesma linha, a emigração de origem política explica a presença de muitas</p><p>comunidades budistas na Europa e na América, onde se estabeleceram após as</p><p>guerras na Indochina e outras desordens que afetaram a Ásia. Neste caso específico,</p><p>a expansão foi reforçada pela conversão de muitos ocidentais a diferentes formas</p><p>do Budismo. O fascínio intelectual pelo Budismo, ligado à presença de centenas de</p><p>milhares de asiáticos, fez com que, hoje, a comunidade budista alcançasse um</p><p>número significativo em um país como a França por exemplo, de minoria católica</p><p>(BURCKHARDT, 2002).</p><p>Fenômeno semelhante é encontrado no caso do Judaísmo, religião que sofreu</p><p>as maiores mudanças demográficas e geográficas nos últimos duzentos anos,</p><p>quando já havia acumulado muitas experiências trágicas nos milênios anteriores.</p><p>Uma comparação dos assentamentos judaicos no início do século XIX e no início do</p><p>século XXI mostra isso de forma plausível. Há dois séculos, a maior parte das</p><p>populações judaicas vivia na Europa Oriental, nos países muçulmanos e do Oriente</p><p>Médio, no Império Otomano e no Império Persa.</p><p>O extermínio praticado durante a Segunda Guerra Mundial e a saída dos</p><p>judeus do mundo árabe após 1948 não explicam, por si só, essas transformações de</p><p>uma paisagem mundial que também foi moldada por grandes mudanças</p><p>econômicas e políticas (BURCKHARDT, 2002). A polarização do mundo judaico</p><p>contemporâneo em duas grandes estruturas, uma na América do Norte, outra no</p><p>Oriente Médio, em Israel, explica-se no primeiro caso pela emigração no século XIX</p><p>de populações fugindo da miséria econômica e das perseguições políticas da Rússia</p><p>e do Leste Europeu. A criação do polo formado pelo Estado judeu decorre, por sua</p><p>vez, do cruzamento de várias opções políticas: as dos Estados subordinados ou</p><p>cúmplices da Alemanha de Hitler durante o genocídio europeu; a das Nações Unidas</p><p>ratificando, em 1948, a criação do Estado de Israel; e aquela, finalmente, desta parte</p><p>do mundo judaico que aceitou a transição de uma definição denominacional para</p><p>uma definição nacional de acordo com a fórmula preconizada pelo sionismo a partir</p><p>do final do século XIX (BURCKHARDT, 2002).</p><p>75</p><p>Em toda a sua dramática singularidade, a evolução da geografia judaica nos</p><p>últimos duzentos anos confirma a ideia de que a mundialização das religiões é, em</p><p>geral, atribuível a fenômenos extrarreligiosos.</p><p>Todas as religiões parecem assim ter sido sucessivamente arrebatadas pela</p><p>expansão colonial, depois pela descolonização, que provocou uma mundialização</p><p>involuntária do seu estabelecimento, condicionada e permanentemente acelerada</p><p>pela história política e económica, isto é, por causas não religiosas.</p><p>4.2 ASPECTOS SOCIAIS</p><p>A ligação entre religião e sociedade tem sido objeto de atenção contínua nos</p><p>clássicos da sociologia moderna, especialmente em Max Weber, Ernst Troeltsch e</p><p>Georg Simmel. Na produção literária, nascem e se desenvolvem teorias e análises</p><p>fenomenológicas ou sócio-históricas em torno da cidade, da sociologia das origens</p><p>cristãs ou da Bíblia e</p><p>da inculturação em relação ao campo religioso (GEERTZ, 2008).</p><p>Existem espaços destinados ao ensino e à pesquisa em torno da interação</p><p>social e simbólica, em particular sobre a relação entre economia e sociedade,</p><p>cultura e religião. Essa produção conta com a contribuição de perspectivas que</p><p>englobam a sociologia do conhecimento, a história social e a antropologia</p><p>etnográfica. As próximas linhas pretende elucidar o jogo de mediações nas</p><p>transações sociais da religião, que interrelaciona elementos opostos, ou</p><p>aparentemente antagônicos, mas que se complementam, pois. Vejamos!</p><p>76</p><p>A expansão do Islamismo não é um fenômeno linear. No dia século XIX, milhões</p><p>de muçulmanos tiveram que deixar os Balcãs e o Cáucaso devido ao declínio do</p><p>domínio otomano. Da mesma forma, se olharmos hoje para a nova islamização da</p><p>África e dos grandes centros urbanos africanos, por iniciativa das fundações</p><p>muçulmanas da Arábia Saudita e do Golfo, temos que notar que a política e os</p><p>fenômenos sociológicos desempenham um papel importante nesta terceira</p><p>islamização (BURCKHARDT, 2002). Na época da descolonização, o Islã se beneficiou</p><p>de um impulso adicional por causa das necessidades trabalhistas da Europa. Assim,</p><p>milhões de muçulmanos do mundo árabe, da Turquia, da África subsaariana e do</p><p>subcontinente indiano se estabeleceram em toda a Europa (POMMIER, 2013).</p><p>Os destinos dessas grandes comunidades muçulmanas ecoam os laços</p><p>coloniais do passado: norte-africanos e outros africanos na França e países vizinhos,</p><p>assim como indianos no Reino Unido. Mesmo o assentamento majoritário dos turcos</p><p>na Alemanha lembra os laços que, sem amadurecer de forma colonial, foram tecidos</p><p>entre esses dois países no auge da colonização. A emigração por exílio político</p><p>iraniano e afegão não decorre de necessidades de mão de obra, cujo pico foi</p><p>atingido na década de 1970, mas seguiu tendências semelhantes. No entanto, foram</p><p>tecidas entre esses dois países no auge da colonização (GUILLAUME, 2004).</p><p>As irmandades que formam um Islã dentro do próprio Islã tornaram possível</p><p>administrar todas as diversidades étnicas e sociológicas que a expansão multiplicou,</p><p>um pouco como as ordens monásticas do catolicismo.</p><p>A vitalidade do Islã, sua flexibilidade, sua capacidade de não se dividir, de não</p><p>experimentar o separatismo se deve ao fato de que as mesquitas – locais de culto,</p><p>educação e vida social – são, muitas vezes, duplicadas por um conjunto variado de</p><p>irmandades, às vezes rivais, que o tornam possível gerenciar elementos de</p><p>heterogeneidade variável de um país – mesmo de uma região – para outro. Essas</p><p>próprias irmandades têm sistemas de supervisão muito (GUILLAUME, 2004). A força do</p><p>sistema de irmandades está em sua desterritorialização, pois as irmandades se</p><p>77</p><p>articulam em redes e não repousam em um território delimitado. Sua segunda força</p><p>se deve ao ciclo histórico que caracteriza as irmandades: protesto espiritual na</p><p>origem, tornam-se fenômenos habituais, para acabarem sendo forças políticas,</p><p>depois realidades econômicas (GUILLAUME, 2004).</p><p>Uma certa diversificação também é evidente no mundo judaico onde, a partir</p><p>do final do século XIX e ao longo do século XX, surgiu uma corrente modernista</p><p>chamada Judaísmo Liberal. Não é o resultado de um cisma ou heresia, porque o</p><p>Judaísmo permanece relativamente unido em sua definição religiosa e nunca foi</p><p>submetido a uma organização religiosa mundial. Ao contrário, resulta do surgimento</p><p>de um modernismo que se manifesta nas práticas cotidianas (CORBIN, 1981).</p><p>Atualmente, essa manifestação afeta milhares de pessoas, principalmente nos</p><p>Estados Unidos. De fato, a emigração dos guetos da Europa Oriental levou a um</p><p>movimento de simplificação e adaptação a contextos sociológicos muito diferentes.</p><p>Até certo ponto, o êxodo forçado de mellahs do mundo árabe para o Estado de</p><p>Israel às vezes teve o mesmo valor modernizador. Assim, para além das tragédias que</p><p>as comunidades judaicas, muitas vezes, sofreram no século XX, a mundialização</p><p>funcionou como um fator de divisão entre o Judaísmo modernista e o Judaísmo</p><p>tradicional (POMMIER, 2013).</p><p>78</p><p>Figura 4: A rua central de Mellah de Fez, com arquitetura doméstica distinta de antigas</p><p>casas judias</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3E1lipD. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>A resposta não é duvidosa, porque sua fragmentação aumentou visivelmente</p><p>nos últimos duzentos anos. Caso a caso, essa tendência pode ser explicada seja por</p><p>disputas doutrinárias, seja por disputas em termos de organização, ou mesmo pela</p><p>dialética desses dois fatores. Os cismas administrativos levam a uma redefinição</p><p>doutrinária, e as mutações doutrinárias levam à reestruturação dos aparatos</p><p>religiosos.</p><p>79</p><p>A mundialização das religiões não as deslocou, mas acelerou sua</p><p>multiplicação, mesmo que apenas por causa de mudanças nas condições de vida</p><p>de seus seguidores. No entanto, essa mesma mundialização não marginalizou nem</p><p>as organizações religiosas nem os sentimentos religiosos. Pelo contrário, gerou novos</p><p>problemas, ligados à emigração, colonização e conversões em massa. Nesse sentido,</p><p>ela tornou mais complexos os espaços religiosos tradicionais, favorecendo o</p><p>surgimento de novas correntes e novas estruturas organizacionais e doutrinárias</p><p>(RAVENEAU, 2008).</p><p>No que diz respeito ao Cristianismo, convém mencionar o catolicismo, religião</p><p>que é, ao mesmo tempo, a mais universalizada e a mais unida em termos de doutrina</p><p>e organização. A preservação da sua unidade foi possível graças a dois fenômenos</p><p>aparentemente contraditórios: a crescente centralização romana e a utilização</p><p>muito flexível das ordens monásticas (PEPIN, 1983). São todas respostas adaptadas à</p><p>gestão de particularismos sociológicos ou geopolíticos, com vista à manutenção da</p><p>unidade de um todo global. O sistema de ordens e congregações permite um</p><p>funcionamento global descentralizado, capaz de enquadrar a diversidade das</p><p>situações religiosas. Por mais relativa que seja, esta descentralização permite, no</p><p>entanto, dinamizar a propagação da fé, sem pôr em causa a centralidade romana</p><p>e a monarquia absoluta do papa, o líder eleito (POMMIER, 2013).</p><p>Vinte séculos depois da pregação de Cristo em aramaico, as milhares de</p><p>línguas em que o Evangelho foi traduzido testemunham, de forma irrefutável, a</p><p>mundialização do Cristianismo.</p><p>O Budismo, também globalizado pelo efeito das diásporas de origem asiática</p><p>que se espalharam na Europa e na América, soube adaptar-se à diversidade de</p><p>situações graças ao seu sistema de “escolas”. Cada uma dessas escolas se</p><p>caracteriza pelo fato de privilegiar este ou aquele aspecto da doutrina do Buda ou</p><p>de sua prática. O Budismo foi capaz de se expandir produzindo um florescimento de</p><p>80</p><p>escolas dentro da estrutura de um policentrismo descentralizado. Este sistema</p><p>extremamente flexível e não centralizado tem favorecido tanto a expansão do</p><p>Budismo tradicional quanto o do Budismo renovado por certas escolas, notadamente</p><p>do Japão ou da Coreia, que estão a se espalhar em forma de seitas, tais como a</p><p>seita Soka Gakai, entre outras (DIONIZIO, 2020).</p><p>Por causa de sua criação no século XX, a Sōka Gakkai é considerada um novo</p><p>movimento religioso e classificada no Japão entre as “novas religiões”. No entanto,</p><p>ela afirma ser a herdeira dos ensinamentos do monge japonês Nichiren (1222-1282)</p><p>transmitidos por Nikkō Shōnin, o mais jovem de seus seis discípulos seniores,</p><p>considerado seu sucessor por certas escolas do Budismo Nichiren, incluindo Nichiren</p><p>Shōshū. No entanto, em 1991, este último rompeu os laços com a Sōka Gakkai,</p><p>chegando a excomungar todos os seus membros. Agora, são os membros leigos que,</p><p>como ministros de culto, realizam cerimônias</p><p>religiosas, como casamentos ou</p><p>cerimônias fúnebres (SÈVE, 2010).</p><p>Em resumo, a mundialização das religiões nos últimos séculos tem sido</p><p>geralmente um fenômeno induzido por causas extrarreligiosas, ainda que os aparatos</p><p>religiosos, atuando como organizações sociais e administrativas, tenham seguido os</p><p>passos dos movimentos sociológicos criados e condicionados por outras forças que</p><p>não sua própria ação. O fluxo e refluxo político dos impérios coloniais remodelou a</p><p>configuração geral das religiões expansivas do mundo, levando a emigrações,</p><p>voluntárias ou não, que trouxeram povos muito diferentes para viver longe de casa</p><p>(SAUNDERS, 2005).</p><p>4.3 PASSADO E PRESENTE: A RELIGIÃO DE ONTEM E O MUNDO DE HOJE</p><p>Um fator importante da mundialização na vida das religiões resulta da</p><p>urbanização massiva que o movimento das trocas econômicas e demográficas</p><p>81</p><p>gerou no século XX. Em 1950, 29% da população mundial vivia em cidades. Em 2002,</p><p>era quase 50%. Na mesma linha, em 1900, eram 16 cidades com mais de um milhão</p><p>de habitantes, em 2002, eram cerca de 325 (BOURDIEU, 1964). A urbanização do</p><p>planeta redefiniu uma sociedade e suas religiões em um espaço concentrado, onde</p><p>a convivência multicultural tornou-se a regra diária. A coexistência de diferenças</p><p>étnicas e confessionais, em grandes metrópoles como Londres, Paris, Nova York,</p><p>Moscou e muitas outras, é um fenômeno recente. Coloca-se a questão de saber se</p><p>as identidades religiosas sofrerão uma certa erosão como resultado dessa</p><p>coabitação nesses espaços urbanos maciços e heterogêneos (BOURDIEU, 1964).</p><p>Das respostas a esta série de perguntas fluirá o futuro das identidades religiosas,</p><p>no contexto de uma coexistência generalizada de diferenças identitárias legadas</p><p>pela história às sociedades contemporâneas. Mas, é fato de que o mundo urbano</p><p>moderno altera o cerne das relações de indivíduos e grupos com seus sistemas de</p><p>crenças. Mesmo que a territorialidade tradicional continue sendo a base da religião</p><p>em muitas regiões, vemos o desenvolvimento de novas redes de solidariedade intra</p><p>e interurbana (DEMO, 2013).</p><p>Assim, para tomar o exemplo do Cristianismo, podemos ver que as igrejas não</p><p>desapareceram nas grandes áreas urbanas, mas agora são complementadas por</p><p>toda uma série de atividades que operam de forma desterritorializada. A</p><p>solidariedade interna dos espaços religiosos e sua solidez já não se baseiam apenas</p><p>na gestão dos territórios delimitados. Assim como as mídias, cada vez mais utilizadas</p><p>pelas religiões para unir seus seguidores, elas operam de forma fragmentada e</p><p>multipolar (DEMO, 2013).</p><p>Essa desmaterialização do fato religioso, acompanhada de grandes</p><p>mudanças na prática religiosa, não é indicativo do desaparecimento das</p><p>identidades religiosas. O calabouço que se tornaram as grandes cidades não remove</p><p>as barreiras religiosas. Os monumentos através dos quais cada religião se expressa</p><p>estão agora enredados em um enxame de locais de culto de arquitetura muito</p><p>82</p><p>variada. As paisagens urbanas de todo o mundo demonstram, cada vez mais, a</p><p>coexistência de igrejas, mesquitas e templos budistas. A urbanização leva, no</p><p>entanto, a uma diminuição das tensões religiosas, devido o anonimato das grandes</p><p>cidades e a inevitável coabitação no local de trabalho, alojamento e lazer para</p><p>pessoas e grupos de origens religiosas muito diversas (FERREIRA, 2021).</p><p>A perpetuação dessa nova realidade oferecida pelo modo de vida urbano</p><p>terá consequências para as relações entre as religiões. O problema não se coloca</p><p>simplesmente no sentido ecumênico, isto é, nas relações entre as religiões. Também</p><p>diz respeito à própria base de muitas práticas religiosas.</p><p>A urbanização generalizada agora obriga o encontro entre Cristianismo,</p><p>Islamismo, Judaísmo e Budismo nas grandes metrópoles do Ocidente, sem falar nas</p><p>grandes metrópoles do Oriente Médio e do resto da Ásia, vivendo juntos em territórios</p><p>limitados. As sucessivas ondas de mundialização levaram a uma nova territorialidade</p><p>das religiões, desarraigando muitas comunidades de seu nicho histórico e</p><p>modificando seus hábitos (LAMBERT, 2006). Essa nova territorialidade religiosa está se</p><p>desdobrando, enquanto a sociologia das religiões vem sofrendo significativas</p><p>alterações. Podemos, portanto, pensar que o conhecimento geopolítico estará</p><p>preocupado com o encontro involuntário de espaços religiosos outrora distintos que</p><p>o século XX provocou.</p><p>Já o século XXI pode ser religioso, mas não como os séculos XIX e XX, nem</p><p>como nos séculos anteriores. A adesão às ideias religiosas, aos sistemas religiosos, não</p><p>é mais hoje sinônimo de aceitação e internalização do controle exercido sobre as</p><p>populações pelos líderes religiosos (LAMBERT, 2006).</p><p>Formado por milênios de vida humana rural, o vínculo religioso está sendo</p><p>desafiado. Sua desconstrução não é sinônimo de desaparecimento das religiões.</p><p>Pelo contrário, decorre de uma redefinição mais geral dos modos de relacionamento</p><p>e mediação entre o espiritual e o cotidiano.</p><p>Esses modos foram forjados no passado pelas estruturas organizacionais das</p><p>religiões, em condições de vida quase em todos os sentidos diferentes daquelas que</p><p>a modernidade propaga hoje. Nesse sentido, a perda de poder social dos aparatos</p><p>religiosos no século XXI, não é, necessariamente, sinônimo de desaparecimento da</p><p>religiosidade. Abre caminho para uma religiosidade secularizada, emocional e</p><p>desdogmatizada (POMMIER, 2013).</p><p>83</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO</p><p>1. Várias religiões, segundo Vandermeersch, surgiram de outras às quais são</p><p>denominadas de primitivas. No entanto, é possível percebermos, segundo o autor,</p><p>exceções, sendo que uma delas é o</p><p>a) Cristianismo.</p><p>b) Budismo.</p><p>c) Xintoísmo.</p><p>d) Animismo.</p><p>e) Ortodoxismo.</p><p>2. O Cristianismo nem sempre foi uma religião reconhecida desde o seu surgimento.</p><p>Ao contrário, sofreu muitas perseguições, enfrentou o aniquilamento de seus</p><p>adeptos e estes precisavam se esconder em catacumbas para se reunir em nome</p><p>dos ensinamentos de Cristo. Entretanto, passou a florescer, no Império Romano, com</p><p>a conversão do imperador</p><p>a) Diocleciano.</p><p>b) Júlio César.</p><p>c) Cícero.</p><p>d) Constantino.</p><p>e) Marco Antônio.</p><p>3. O século XX foi um século de mundialização de algumas religiões que, até então,</p><p>encontravam-se em um ritmo menos acelerado, como no caso do Islamismo. Outra</p><p>religião que teve uma grande emigração foi o Budismo e um dos motivos para isso</p><p>é o fato de que esta religião</p><p>a) assemelha-se em forma e conteúdo ao Cristianismo, mantendo uma unidade em</p><p>diferentes partes do mundo.</p><p>b) tem características próprias de acordo com a região em que se encontra e, por</p><p>isso, causa um fascínio em países como a França por exemplo.</p><p>Highlight</p><p>84</p><p>c) possui uma unidade central no Tibete, de onde se originou, e ramifica-se,</p><p>mantendo seu centro intelectual em livros sagrados únicos.</p><p>d) tem como característica os ensinamentos únicos de Buda, embora haja outros</p><p>monges de importância, como Dalai Lama.</p><p>e) tem forte influência do Hinduísmo, espalhando-se para além da Índia e países</p><p>árabes, e por isso, encontra-se forte oposição no Japão.</p><p>4. As religiões estão ligadas a fatores sociais, englobando teorias e análises</p><p>consideradas fenômenos sociais e históricos e o ambiente retrata o elemento</p><p>cidade, pois a relação social entre os adeptos é um fator que não se pode ignorar.</p><p>Essas interações sociais e simbólicas são mais bem estabelecidas entre fatores</p><p>a) econômico-social e religioso-cultural.</p><p>b) político-econômico e econômico-cultural.</p><p>c) sociorreligioso político-cultural.</p><p>d) sociocultural e econômico-social.</p><p>e) político-cultural e sociorreligioso.</p><p>5. O Islamismo é uma religião que se expandiu de forma que não seguiu uma</p><p>linearidade em seu padrão de expansão. Esse</p><p>fato se deu</p><p>a) pela iniciativa das fundações muçulmanas de não aderirem às necessidades</p><p>trabalhistas na Europa.</p><p>b) pelo fato de aproveitarem o processo de descolonização e a necessidade de</p><p>mão de obra europeia.</p><p>c) pelo êxodo dos sul-africanos no Reino Unido e de indianos na França, formando</p><p>colônias fechadas, sem contato com outras culturas.</p><p>d) pela falta de administração das irmandades islâmicas e as diversidade étnicas e</p><p>sociológicas que se mantiveram intactas, sem se multiplicar.</p><p>e) pelo assentamento minoritário dos turcos-otomanos em terras alemãs e o</p><p>rompimento com os laços coloniais norte-africanos.</p><p>6. No Judaísmo, ocorreu uma diversificação entre os séculos XIX e XX, que embora</p><p>não seja propriamente um cisma, essa diversificação surge como uma espécie de</p><p>85</p><p>manifestação de práticas cotidianas de forma mais moderna. Essa manifestação</p><p>denomina-se</p><p>a) Soka.</p><p>b) Essênio.</p><p>c) Gakkai.</p><p>d) Mellah.</p><p>e) Ataturk.</p><p>7. Durante o processo de mundialização, o Cristianismo, em especial o catolicismo,</p><p>conseguiu manter uma unidade graças a dois fenômenos, sendo eles</p><p>a) a separação entre O Vaticano e a Igreja Ortodoxa.</p><p>b) a descentralização de Roma e a independência do papado.</p><p>c) a diminuição das ordens monásticas e a centralização de Roma.</p><p>d) os conflitos da Primeira Guerra e a inclusão de Roma no conselho da ONU.</p><p>e) a crescente centralização romana e a criação das ordens monásticas.</p><p>8. As religiões tiveram que aprender a conviver em espaços nas cidades de forma</p><p>harmônica, num ambiente em que, hoje, veem-se religiões como Budismo,</p><p>Cristianismo, Islamismo, etc. O principal fator dessa consequência foi</p><p>a) a criação de guetos.</p><p>b) a criação espaços urbanos.</p><p>c) da divisão das igrejas por bairros.</p><p>d) as práticas religiosas segmentadas.</p><p>e) os conflitos entre cristãos e não cristãos.</p><p>86</p><p>MONOTEÍSMO VERSUS POLITEÍSMO</p><p>Podemos dizer que a humanidade construiu seu legado em conjunto com a</p><p>religião, seja ela monoteísta ou politeísta. Assim, não é possível separar história de</p><p>religião e de filosofia, sociologia, antropologia, entre outras tantas ciências que</p><p>envolvem o ser.</p><p>O politeísmo teve sua origem primeira, estruturada na relação do homem com</p><p>a natureza, a exemplo dos primórdios dos desenhos nas cavernas, quando a escrita</p><p>ainda não existia.</p><p>Figura 1: Grécia: o berço do politeísmo</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3Jw2JLi. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Erro!</p><p>Fonte de</p><p>referênci</p><p>a não</p><p>encontra</p><p>87</p><p>Com o passar da história do homem e os estudos antropológicos, podemos</p><p>afirmar que, em se tratando de nossos estudos específicos neste livro, com o</p><p>surgimento do Judaísmo, já temos uma religião estritamente monoteísta, e o</p><p>Cristianismo e o Islamismo são os maiores exemplos desta representação da</p><p>existência de um só Deus (NODARI, 2017).</p><p>Assim, iniciamos nossa jornada em uma exploração entre os conceitos básicos</p><p>de ambas as denominações, e logo após, suas particularidades para uma melhor</p><p>compreensão acerca dos temas que, embora sejam distintos, encontram-se</p><p>interligados.</p><p>5.1 CONCEITOS BÁSICOS</p><p>No intuito de uma melhor compreensão dos alicerces teológicos, históricos e</p><p>sociais, já que são elementos indissociáveis para o estudos da história das religiões, é</p><p>necessário voltarmos o nosso olhar para o conceito de teologia, um termo grego por</p><p>natureza, de aspecto explicitamente filosófico, mas que se faz, atualmente,</p><p>reinterpretado não apenas como “o estudo de Deus e de doutrinas divinas”, mas</p><p>como menciona Burckhardt (2002), um caminho ou um discurso sobre Deus ou para</p><p>se chegar a Ele.</p><p>Assim, podemos estabelecer um estudo mitológico em que a</p><p>dissertação sobre cosmologia e cosmogonia se faz necessário e possuem uma</p><p>estreita correlação filosófica, começando por Aristóteles em uma interpretação</p><p>metafísica deste estudo. Seguindo no conceito aristotélico, o discurso da palavra</p><p>também era comunicada ao público por meio de teatralização e celebrações</p><p>religiosas em que os deuses pagãos estabeleciam uma estreita comunicação com</p><p>seus sacerdotes, com suas ninfas ou com seus poetas para a disseminação e</p><p>interpretação dos oráculos, a exemplo, o famoso Oráculo de Delfos (BURCKHARDT,</p><p>2002).</p><p>Highlight</p><p>88</p><p>Assim, os estudiosos do Cristianismo preferiram não mencionar o uso Deus ou</p><p>Escrituras Sagradas por estes termos terem origem pagã, conforme nos mostra Pepin</p><p>(1983). Mas, no período helenístico, ocorre um entrelaçamento religioso entre o</p><p>monoteísmo do Cristianismo e o politeísmo dos pagãos, nas vozes dos sacerdotes</p><p>gregos Orígenes, Justino e Clemente, difundindo, dessa maneira, a denominação de</p><p>um Deus cristão.</p><p>A partir deste ponto, podemos analisar, de forma particular, os aspectos e as</p><p>implicações das manifestações monoteístas e politeístas, não necessariamente,</p><p>como um corpo de estudo em separado, mas uma explanação maior de um tema</p><p>em detrimento do outro, o que não significa que, ao trabalharmos o monoteísmo, o</p><p>politeísmo será excludente, mas elemento coadjuvante para melhor</p><p>compreendermos as particularidades do anterior.</p><p>5.2 ASPECTOS PARTICULARES DO MONOTEÍSMO</p><p>O monoteísmo, doutrina que se baseia na existência de um deus único,</p><p>transcendente, revelado e pessoal, penetra na cultura e no mundo romanos primeiro</p><p>com o Judaísmo, depois com a difusão do Cristianismo durante os primeiros séculos</p><p>do Império.</p><p>A “religio” romana é, obviamente, baseada no politeísmo e, a partir de César,</p><p>será caracterizada pela importância cada vez maior do culto ao imperador. À frente</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>89</p><p>do panteão romano está a famosa tríade: Júpiter, o governante dos deuses que</p><p>dirige e protege as atividades humanas, Marte e Quirino, os deuses dos homens na</p><p>guerra e na paz; depois vêm Janus e Vesta que protegem a lareira, Palès que guarda</p><p>os rebanhos, Saturno e Ceres, Pomone ou Consus que vigiam os campos e as outras</p><p>divindades (BURCKHARDT, 2002).</p><p>Apesar disso, o Judaísmo, religião monoteísta baseada na revelação feita a</p><p>Moisés no monte Sinai, espalhou-se pelo mundo helenístico e, em seus primórdios,</p><p>manteve boas relações com Roma, onde a presença de uma comunidade judaica</p><p>do século I a.C. não era um problema (BURCKHARDT, 2002). Os judeus praticavam</p><p>sacrifícios, como os romanos, no templo de Jerusalém, mas não admitiam o culto a</p><p>outro deus e, para uma conversão completa, impuseram a circuncisão dos homens.</p><p>Isso explica por que ele exerceu sua atração principalmente sobre as mulheres</p><p>romanas e por que, ao lado dos verdadeiros convertidos, havia um número</p><p>significativo de "tementes a Deus" que praticavam apenas parte dos ritos judaicos</p><p>(BURCKHARDT, 2002).</p><p>Com a expansão da conquista, os romanos passaram a venerar as divindades</p><p>greco-orientais adoradas pelos povos conquistados e a acolhê-los em novos</p><p>santuários, situados fora do pomoerium, ou seja, o recinto sagrado da cidade.</p><p>Essas religiões de mistérios, com promessa de eternidade, favoreceram o</p><p>estabelecimento do sentimento religioso cristão no mundo romano, sem, contudo,</p><p>constituir a causa decisiva de sua vitória sobre os cultos pagãos. Foi assim que o culto</p><p>de Cibele, a grande mãe frígia dos deuses, o de Ísis, a deusa egípcia da Lua e da</p><p>fertilidade, e o de Mitra, o deus-touro persa do Sol espalhou-se por Roma (DANIÉLOU,</p><p>1978).</p><p>Para os romanos, a religião de Cristo, Jesus de Nazaré, tanto Deus como</p><p>homem era, a princípio, apenas uma seita judaica que poderia, portanto, prosperar</p><p>à sombra do Judaísmo. Mas, foram precisamente as brigas entre judeus e judaico-</p><p>cristãos que perturbaram a ordem pública e provocaram a reação dos imperadores</p><p>romanos. A ignorância transformou-se,</p><p>RELIGIÕES DE UM BRASIL COLONIAL ............................................................. 130</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO .......................................................................................... 134</p><p>UNIDADE</p><p>01</p><p>UNIDADE</p><p>02</p><p>UNIDADE</p><p>03</p><p>UNIDADE</p><p>04</p><p>UNIDADE</p><p>05</p><p>UNIDADE</p><p>06</p><p>UNIDADE</p><p>07</p><p>7</p><p>CRISTIANISMO NO BRASIL COLÔNIA .................................................. 138</p><p>8.1 IMPACTO DA CHEGADA DOS JESUÍSTAS AO BRASIL ................................... 139</p><p>8.2 A CATEQUIZAÇÃO INDÍGENA: POR QUE NÃO CATEQUESE? ...................... 142</p><p>8.3 MARQUÊS DE POMBAL E A EXPULSÃO DOS JESUÍTAS DO BRASIL ............... 146</p><p>FIXANDO CONTEÚDO .............................................................................................. 153</p><p>A CHEGADA DOS AFRICANOS EM SOLO BRASILEIRO ........................ 157</p><p>9.1 QUE VENHAM OS NOVOS ESCRAVOS ........................................................... 158</p><p>9.2 CHOQUE CULTURAL E RELIGIOSO .................................................................. 160</p><p>9.3 SINCRETISMO RELIGIOSO: A SALVAÇÃO DA RELIGIÃO AFRICANA ........... 164</p><p>FIXANDO CONTEÚDO .............................................................................................. 167</p><p>ETAPAS HISTÓRICAS E POLÍTICAS DA RELIGIÃO .................................. 170</p><p>10.1 ASPECTOS HISTÓRICOS À LUZ DAS RELIGIÕES .............................................. 170</p><p>10.2 ASPECTOS POLÍTICOS: A RELIGIÃO E SUAS INFLUÊNCIAS ............................ 174</p><p>10.3 PASSADO E PRESENTE: A RELIGIÃO DE ONTEM E O MUNDO DE HOJE ........ 180</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO .......................................................................................... 183</p><p>AS TRADIÇÕES RELIGIOSAS NO BRASIL DE HOJE ................................ 186</p><p>11.1 SOCIEDADE E RELIGIÃO NO SÉCULO XX ....................................................... 186</p><p>11.2 SÉCULO XXI: MUDANÇA DE PARADIGMAS OU PERDA DA FÉ? ................... 193</p><p>11.3 FÉ E TECNOLOGIA NO BRASIL CONTEMPORÂNEO ....................................... 196</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO .......................................................................................... 201</p><p>DIVERSIDADE RELIGIOSA NO BRASIL .................................................... 204</p><p>12.1 FÉ SEM FRONTEIRAS: GLOBALIZAÇÃO DA RELIGIÃO NO BRASIL ................ 204</p><p>12.2 RELIGIÃO E LIBERDADE DE EXPRESSÃO .......................................................... 216</p><p>12.3 ASPECTOS DA INTOLERÂNCIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA ........... 219</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO .......................................................................................... 224</p><p>RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO ............................................. 227</p><p>REFERÊNCIAS ......................................................................................... 229</p><p>UNIDADE</p><p>08</p><p>UNIDADE</p><p>09</p><p>UNIDADE</p><p>10</p><p>UNIDADE</p><p>11</p><p>UNIDADE</p><p>12</p><p>8</p><p>INTRODUÇÃO ÀS PRINCIPAIS</p><p>RELIGIÕES DA HUMANIDADE</p><p>Uma religião é um sistema de práticas e crenças em uso em um grupo ou</p><p>comunidade. Não há nenhuma definição que seja reconhecida como válida para</p><p>tudo o que hoje é permitido chamar de religião.</p><p>Para que comecemos a trabalhar este assunto, é importante que saibamos o</p><p>significado do termo que é o objeto de nosso estudo. Assim, temos que o termo latino</p><p>religio foi primeiramente definido pelo filósofo Cícero como cuidar de uma natureza</p><p>superior que se chama divina, e assim, cultuá-la. Nas línguas em que o termo é</p><p>derivado do latim, a religião é, muitas vezes, vista como aquela que diz respeito à</p><p>relação entre a humanidade e uma ou mais divindades.</p><p>Como você percebeu acima, a religião pode ser entendida como as formas</p><p>de buscar - e possivelmente encontrar - respostas para as questões mais profundas</p><p>da humanidade. Nesse sentido, ela se relaciona com a filosofia. Mas, também pode</p><p>ser vista como contrária à razão e vista como sinônimo de superstição. Pode ser</p><p>pessoal ou comunitária, privada ou pública, ligada à política ou querendo se libertar</p><p>dela. Também pode ser reconhecida na definição e prática de culto, ensino,</p><p>exercícios espirituais e comportamento na sociedade. A questão de saber o que é</p><p>religião é também uma questão filosófica, podendo a filosofia dar algumas</p><p>respostas, mas também, desafiar a obviedade das definições que se propõem.</p><p>Assim, a questão do que é uma religião é uma questão em aberto. E devemos ter a</p><p>UNIDADE</p><p>9</p><p>mente aberta para que os pré-conceitos e os preconceitos que existem em nós, não</p><p>nos impeçam de compreender elementos que ainda não temos conhecimento</p><p>(DEMO, 2013).</p><p>Vejamos, pois, a partir dessa introdução, um conceito mais específico das</p><p>consideradas as cinco maiores religiões do mundo. Um breve relato sobre o ser e o</p><p>sobrenatural.</p><p>1.1 JUDAÍSMO</p><p>Os primórdios do Judaísmo</p><p>A primeira religião monoteísta, a religião dos hebreus nasceu na Antiguidade,</p><p>em uma época em que outros povos praticavam religiões politeístas. Além desta</p><p>singularidade, é caracterizada pelos seus atos, os seus ritos dentro de espaços que</p><p>evoluem dos reinos hebraicos para o tempo da diáspora.</p><p>Figura 1: Judeu ortodoxo lendo a Torá</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3rj1BV1. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Por volta de 1000 a.C., os hebreus estabeleceram-se em Canaã, no Oriente</p><p>10</p><p>Próximo. Fundaram um reino unificado cuja capital era Jerusalém. Seus reis mais</p><p>importantes foram Davi e seu filho, Salomão.</p><p>No século VIII, existiram dois reinos hebraicos, Israel ao norte com Samaria</p><p>como sua capital e Judá no sul, cuja capital era Jerusalém. Por todo lado, os israelitas</p><p>estavam rodeados por pessoas de outras culturas (BATTAILLE, 2015).</p><p>Neste mesmo século, os assírios destruíram o reinado de Israel, deportando</p><p>muitos para a Assíria. No século VI, os babilônios sucederam aos assírios e invadiram</p><p>Judá. Eles deportaram a classe dominante e toda a corte para a Babilônia que se</p><p>tornaram escravos do rei Nabucodonosor.</p><p>Você já deve ter ouvido falar dele, pois em História Geral, normalmente,</p><p>estudamos sobre a Babilônia e seus famosos Jardins Suspensos, como uma das sete</p><p>maravilhas do mundo antigo.</p><p>Assim, os hebreus já não são um povo independente, já não têm um território,</p><p>e são chamados, agora, de judeus.</p><p>A dispersão dos judeus na bacia mediterrânica, a deportação e a aculturação</p><p>de alguns deles, permitiram que esta cultura desaparecesse gradualmente. Foi,</p><p>portanto, por medo de perderem as suas tradições orais que alguns hebreus, a partir</p><p>do século VIII, começaram a estabelecer as suas tradições por escrito na Bíblia</p><p>hebraica, na época do rei Josias (BATTAILLE, 2015).</p><p>A Bíblia, que consiste em vinte e quatro livros no total. São três seções: a Torá,</p><p>os Profetas e os Escritos. Conta a história do exílio babilônico e o regresso dos hebreus.</p><p>A história é uma mistura de fatos e crenças históricas reais. Ela também contém as</p><p>regras religiosas e morais que, segundo a religião, Deus ordenou aos hebreus que</p><p>seguissem o Livro da Lei ou Torá. A própria Torá é constituída por cinco livros; os outros</p><p>dezenove são os livros dos profetas sapiensiais que correspondem ao que os cristãos</p><p>chamam de o Antigo Testamento. Mais do que um livro de história, a Bíblia é, acima</p><p>de tudo, um livro de fé.</p><p>11</p><p>Ainda em relação à Bíblia, esta conta a história dos hebreus como a busca</p><p>da "Terra Prometida" por um povo escolhido por Deus. Esta busca requer</p><p>intervenções divinas que devem fortalecer a crença dos judeus em seu Deus. Alguns</p><p>episódios e personagens encontrados na Bíblia merecem destaque.</p><p>Vamos à história de Abraão, já que ele desempenha um papel fundamental</p><p>na religião judaica: é para ele que Deus promete uma terra onde se estabelecerá e</p><p>onde os seus descendentes residirão. A sua fé e temor</p><p>assim, em medo e a indiferença, em ódio</p><p>(DANIÉLOU, 1978).</p><p>O Cristianismo tornou-se uma ameaça à estabilidade do mundo romano, pois</p><p>seus seguidores geralmente se recusavam a portar armas e alegavam que seu reino</p><p>não era deste mundo, o que era um ultraje contra o poder imperial. A partir do</p><p>incêndio de Roma atribuído a Nero, e logo em seguida aos seguidores de Cristo, as</p><p>90</p><p>perseguições contra os cristãos sucederam-se tomando diferentes formas (DANIÉLOU,</p><p>1978).</p><p>Embora herdando parte dos conceitos e vocabulário do monoteísmo judaico</p><p>e se opondo às diversas formas populares de politeísmo, os autores cristãos</p><p>desempenharam um papel cultural comparável ao dos filósofos pagãos.</p><p>Compartilhavam com eles a mesma formação clássica, composta, essencialmente,</p><p>de retórica e filosofia.</p><p>Sua hermenêutica recorreu a métodos pagãos de exegese do texto, e seu</p><p>pensamento não podia ser radicalmente dissociado das concepções filosóficas</p><p>relativas ao Deus supremo, aos seres intermediários, à organização do mundo e à</p><p>condição humana. O monoteísmo cristão, como pensamento de transcendência,</p><p>teve de ser confrontado com o monismo estoico, no qual Deus se identifica com o</p><p>mundo, como pneuma ativo que o forma e orienta, princípio único, racional e</p><p>material, de toda realidade. O Deus dos estoicos é onipresente e onisciente: tudo</p><p>penetra por sua imanência e tudo conhece por sua providência; não é apenas a</p><p>causa originária e principal da natureza, pois representa a essência intrínseca do</p><p>universo (STANILAS, 1981).</p><p>Sobre o Monismo, vale acrescentar que vem do grego “monos”: “um”,</p><p>“sozinho”. O monismo é uma posição ontológica que sustenta que há apenas uma</p><p>substância. É distinto do dualismo e do pluralismo. Encontramo-lo desde a origem da</p><p>filosofia em Parmênides, que sustenta que "a mesma coisa é ser e pensar". Muito mais</p><p>tarde, Spinoza, recusando o dualismo da alma e do corpo, sustenta que há apenas</p><p>uma substância da qual pensamento e extensão são atributos. Para ele, "Deus ou</p><p>Natureza" designa essa substância única (STANILAS, 1981).</p><p>Para que compreendamos melhor o capítulo o conceito de Estoicismo é de</p><p>ser uma filosofia de ética pessoal influenciada pelo sistema lógico e visões do mundo</p><p>natural. De acordo com seus ensinamentos, como seres sociais, o caminho da</p><p>91</p><p>felicidade e da prosperidade para os seres humanos é aceitar o momento como ele</p><p>se apresenta, não ser controlado pelo desejo de prazer ou pelo medo da dor, usar a</p><p>mente para entender o mundo e fazer sua parte no plano da natureza.</p><p>O termo grego “pneuma” ("espírito") foi usado pelas versões gregas do Antigo</p><p>Testamento para traduzir o termo “ruaḥ” da Bíblia hebraica. Além de significados</p><p>físicos como "vento", "ar", ou antropológicos como "respiração" e, secundariamente,</p><p>"alma", "vida", "coração", "espírito", esta palavra tem um significado teológico</p><p>importante: "o espírito" ou "o sopro de Yahweh" (VANNIER, 1999).</p><p>Figura 2: Yahweh, em hebraico.</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3M1O2l3. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Mas, o Cristianismo tinha uma relação muito mais complexa com o platonismo,</p><p>que se espalhou em Roma a partir da segunda metade do século I a.C.</p><p>Contrariamente à inspiração cética da Academia helenística, este platonismo, que</p><p>se chama Médio, e que inclui uma forte componente pitagórica e integra certos</p><p>conceitos aristotélicos e estoicos, apresentava uma concepção demiúrgica do</p><p>princípio divino e da gênese do mundo.</p><p>Para Platão, o demiurgo é tanto o pai do mundo, porque o engendra como</p><p>um progenitor, quanto seu criador, porque o constrói à mão. O universo é, portanto,</p><p>o resultado perfeito de sua providência, ou seja, de sua inteligência e sua bondade,</p><p>92</p><p>por seu plano cuidadoso e produção generosa. A alma humana, como a Alma do</p><p>mundo, é celestial e divina por natureza, imaterial e imortal graças à sua parte</p><p>racional ou faculdade (BURCKHARDT, 2002).</p><p>Os filósofos romanos do período helenístico e imperial tiveram grande impacto,</p><p>com sua teologia, no pensamento dos autores cristãos. Cícero, que representa tanto</p><p>a autoridade política da religião romana quanto a tradição filosófica de inspiração</p><p>acadêmica, recusa a identificação de deus e do mundo com o fogo universal dos</p><p>estoicos e afirma que somente a Providência dá conta da natureza e atividade do</p><p>divino celebrado nos ritos e nos cultos romanos (BURCKHARDT, 2002). Sêneca,</p><p>considerando a ética como uma preparação para a física, sustenta que a virtude,</p><p>que consiste em estar livre de todo mal, é o que predispõe a mente ao conhecimento</p><p>das realidades celestes e a torna digna de entrar em associação com Deus. Em</p><p>outras palavras, o estudo da natureza como tal eleva nossas almas e as aproxima de</p><p>Deus; inversamente, a cosmologia nos ensina a aceitar nossa natureza e levar uma</p><p>vida apropriada. Para o estoico Sêneca, o sábio deve observar os ritos da religião</p><p>romana “considerando que são ditados pelas leis, e não que agradam aos deuses”</p><p>(BURCKHARDT, 2002).</p><p>Isso mostra claramente a dupla atitude – crítica e de apropriação – dos</p><p>filósofos romanos em relação à religião tradicional de Roma. A teologia era para eles</p><p>a parte mais importante da física, e consistia em um suporte de elementos panteístas</p><p>e teístas, o que explica o uso intercambiável dos termos 'deus' e 'deuses'.</p><p>Marco Aurélio tem uma concepção bastante impessoal do divino, à qual se</p><p>refere por meio de expressões como "a natureza de tudo", "o espírito de tudo", "o</p><p>cosmo que te gerou". Epiteto, por outro lado, adota uma visão mais pessoal da</p><p>divindade: seu deus é um pai e um amigo, mas também um companheiro de vida,</p><p>que nos vê e zela por nós, que nos ajuda e nos pune, e a quem as orações podem</p><p>ser dirigidas.</p><p>Cornuto, por outro lado, aborda a física estoica através da tradição</p><p>mitológica, muitas vezes recorrendo a etimologias de nomes e epítetos de deuses</p><p>romanos, bem como alegorias fantasiosas de traços do culto tradicional</p><p>(BURCKHARDT, 2002).</p><p>93</p><p>No entanto, Tertuliano sabe muito bem que a filosofia grega é indispensável</p><p>para a reflexão teológica. Retomando um tema caro ao Judaísmo helenístico, ele</p><p>afirma que a cultura pagã e profana é posterior às Escrituras, das quais ela teria</p><p>tirado. Ele considera a filosofia como uma propedêutica à teologia, pois permite o</p><p>acesso parcial à Verdade e auxilia na formulação de certos dogmas, em particular</p><p>o dogma trinitário. Contra seu adversário Práxeas, que identificava o Deus do Antigo</p><p>Testamento com seu filho Jesus Cristo, Tertuliano defende a distinção das pessoas do</p><p>Pai, do Filho e do Espírito Santo em sua unidade essencial e numérica, e a distinção</p><p>de duas naturezas na pessoa única de Cristo (DANIÉLOU, 1978).</p><p>O pensamento de Tertuliano é influenciado pela filosofia de Aristóteles e de</p><p>Platão, mas também fortemente marcado pelo estoicismo e, principalmente, pela</p><p>obra de Sêneca. Sua teologia é construída e desenvolvida graças aos conceitos</p><p>estoicos de razão e natureza, providencialismo cósmico e simpatia universal, e graças</p><p>ao vocabulário ontológico das escolas helenísticas. Ao desenvolver sua doutrina</p><p>sobre o conhecimento de Deus, Tertuliano adota e adapta a teoria estoica do sensus</p><p>communis, apresentando-a como uma experiência metafísica acessível a qualquer</p><p>indivíduo. Segundo ele, há uma forma “sobrenatural” de conhecer a Deus, por meio</p><p>da Revelação contida nas Escrituras, e duas formas “naturais”: a primeira,</p><p>cosmológica, consiste em retroceder da criatura ao Criador; a segunda,</p><p>cosmogônica, que consiste na tentativa de explicar o universo, sua cosmogênese</p><p>(JANICAUD, 1991).</p><p>Outro autor importante do Cristianismo latino primitivo é Lactâncio (250-325</p><p>d.C.). Suas obras, por terem sido escritas em época de perseguição, revelam por um</p><p>lado a apropriação</p><p>de certos conceitos da religião romana – como o de Deus pater</p><p>famílias e imperator –, e por outro a influência do platonismo, Gnosticismo e</p><p>Hermetismo Africano de seu tempo e ambiente. Lactâncio cita a Bíblia quando julga</p><p>necessário, e muitas vezes, recorre à literatura pagã, não apenas filosófica, mas</p><p>94</p><p>também poética e retórica: Virgílio, Lucrécio e Sêneca são seus principais</p><p>interlocutores, mas seu modelo literário é sem dúvida Cícero, tanto que ele foi</p><p>chamado de "o Cícero cristão" (JOSEFO, 2019).</p><p>Figura 3: Cícero</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3xrphKG. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Segundo Lactâncio, a filosofia é o amor à sabedoria que nunca atingiu seu</p><p>objetivo e que é, portanto, uma "falsa sabedoria": os filósofos se chocaram, mas não</p><p>se perguntaram as verdadeiras questões, elaboraram doutrinas sem conseguir</p><p>apreender da sua essência. De fato, ele sustenta que a verdadeira sabedoria não</p><p>pode ser separada da religião que proclama a unidade de Deus e que celebra a</p><p>encarnação de um “Mestre da justiça e guia da verdade”, a saber, seu Filho Jesus</p><p>Cristo, a segunda pessoa divina (JOSEFO, 2019).</p><p>É, portanto, a religião cristã que, para Lactâncio, inclui o verdadeiro</p><p>conhecimento e o verdadeiro culto a Deus, que se aprende através da missão e das</p><p>obras de Cristo, desde o batismo até a ascensão. Ele considera a encarnação de</p><p>Cristo como a restauração da justiça na terra, e afirma que o fundamento de toda</p><p>moralidade é apenas o reconhecimento pelo homem de sua relação com Deus</p><p>95</p><p>(JOSEFO, 2019).</p><p>Sua posição é dualista, ainda que se baseie na ideia de que Deus é único:</p><p>segundo ele, o mal, que Deus criou, representa a contrapartida do bem, e foi dado</p><p>ao homem para que ele possa provar sua virtude.</p><p>O ser humano é, portanto, a perfeita criatura de Deus e sua obrigação moral</p><p>é viver como um bom cristão, respeitar a humanidade e obedecer a Deus. E,</p><p>finalmente, ele se pergunta sobre a felicidade, o objetivo da vida humana que, para</p><p>ele, nada mais é do que a imortalidade, graças à qual o homem transcende a</p><p>criação e se assimila a Deus.</p><p>Outro filósofo defensor do monoteísmo é Agostinho (354-430 d.C.), principal</p><p>autor da literatura cristã em língua latina. Ele interpreta a Bíblia usando categorias</p><p>platônicas ou neoplatônicas, persuadindo-se da conformidade, pelo menos parcial,</p><p>da doutrina de Platão com o ensino das Escrituras. Para Agostinho, o Deus de Israel</p><p>se opõe à pluralidade de demônios e anjos caídos que são os deuses pagãos, e se</p><p>identifica com o Jesus Cristo do Evangelho, o Verbo divino, porque Deus é três e um,</p><p>ou seja, uma única essência em três pessoas distintas (MANARANCHE, 1985).</p><p>Agostinho primeiro concebe Deus como uma grandeza que atravessa e</p><p>penetra toda a massa do mundo, como um mar infinito, para depois descobrir a pura</p><p>espiritualidade do espírito humano e de Deus acima dele. É por meio de uma</p><p>experiência de conversão que Agostinho entra na intimidade do seu ser e percorre-</p><p>o até encontrar Deus, fundamento e fim de tudo.</p><p>Compreende, assim, que se trata do Deus verdadeiro, uno e trino, o Ser</p><p>absoluto e a Verdade eterna; ele decide, portanto, ser batizado e começar uma</p><p>nova vida, ou seja, "nascer de novo em Deus". Sua demonstração da existência de</p><p>Deus, uma ascensão espiritual metódica, é de fato uma questão de sua conversão</p><p>pessoal (MANARANCHE, 1985).</p><p>A doutrina cristã professada por Agostinho é a do Deus Criador e Salvador, e</p><p>do homem, criado à imagem de Deus, caído pelo pecado de Adão, salvo pela</p><p>redenção de Cristo. Pai, Filho e Espírito Santo são, juntos, um princípio e um criador,</p><p>sendo sua operação uma e a mesma em virtude de sua consubstancialidade.</p><p>No entanto, cada um dos Três exerce sua própria função: o Pai como poder,</p><p>o Filho como Sabedoria, o Espírito como amor. Segundo Agostinho, o pecado de</p><p>Adão interrompeu a criação, mas o propósito eterno de Deus inclui o dispositivo da</p><p>economia da salvação do homem: a encarnação redentora do Filho que culmina</p><p>96</p><p>na missão do Espírito Santo (MANARANCHE, 1985).</p><p>Agostinho concebe a filosofia como o amor à Sabedoria que nada mais é do</p><p>que Deus. Se, para Platão, o verdadeiro filósofo é aquele que ama a Deus, segundo</p><p>Agostinho, esse amor a Deus deve nos levar a ir além das próprias verdades filosóficas</p><p>em direção à Verdade Cristã. O “tu” ao qual Agostinho se dirige não é, portanto, o</p><p>“Um” de Plotino e dos filósofos platônicos de seu tempo, que ele conhece e usa; ele</p><p>é o único Deus da Bíblia (MANARANCHE, 1985).</p><p>Mas, foram os tratados platônicos de seu tempo e ambiente, que ele sem</p><p>dúvida conhecia da tradução de Marius Victorinus – um gramático romano, retórico</p><p>e filósofo neoplatônico – que forneceram a Agostinho as categorias filosóficas que</p><p>lhe permitiram elaborar sua teologia. Segundo ele, partindo da tríade "ser-viver-</p><p>pensar", percorrendo o caminho que vai do sentido à razão passando pelo sentido</p><p>interior, alcança-se a Verdade que está acima e além da razão, ou seja, a verdade</p><p>de Deus, sua espiritualidade perfeita e absoluta, sua onipresença e sua eternidade.</p><p>Visto que o homem foi criado capaz de compreender e conhecer o verdadeiro Deus,</p><p>ele deve buscá-lo exercitando sua mente, começando pela fé e depois adquirindo</p><p>a inteligência da fé (MANARANCHE, 1985).</p><p>97</p><p>Figura 4: Agostinho</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3jqC8oz. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Agostinho afirma que os filósofos platônicos professavam a doutrina do Verbo</p><p>do Prólogo Joanino, relacionado ao início do quarto evangelho, ou seja, do</p><p>Evangelho segundo São João, considerado este um motivo de grandes discussões</p><p>entre os pesquisadores quanto à sua estrutura, narração e origem.. Porfírio, por</p><p>exemplo, chamava Deus Filho de “Intelecto” ou “Espírito Paternal”. Mas que, para</p><p>eles, Cristo não é ao mesmo tempo a Palavra Deus e a Palavra homem. O platonismo</p><p>de que Agostinho se apropria é, portanto, uma filosofia de conversão, uma</p><p>espiritualidade de purificação cujo fim é a contemplação de Deus (SÈVE, 2010).</p><p>É graças aos platônicos, e especialmente graças a Porfírio, que Agostinho</p><p>consegue conceber Deus como puro Ser, e não como Um além do ser. No entanto,</p><p>de acordo com a revelação divina feita a Moisés em Êxodo (3,14): "Eu sou o que sou",</p><p>Agostinho considera Deus como Ser indicativo, não como estando no infinitivo, isto é,</p><p>como sujeito, e não como um ato de ser. Seu Deus é, portanto, o princípio do ser, do</p><p>conhecer e do agir, ao qual correspondem as três partes da filosofia: natural, racional</p><p>e moral (SÈVE, 2010).</p><p>98</p><p>Para concluir, podemos nos perguntar o que está envolvido no Cristianismo</p><p>como monoteísmo. A resposta nos vêm de forma dúbia, sendo que a religião da</p><p>beleza é a religião grega, enquanto a religião do sublime é a religião judaica. Depois</p><p>dos múltiplos deuses do Egito, da Grécia e de Roma, o Deus dos judeus é</p><p>caracterizado como Justiça, Sabedoria e Bondade; mas também, é onipotente.</p><p>E, por fim, podemos nos perguntar sobre a passagem do politeísmo ao</p><p>monoteísmo; como resposta, ele representa a passagem da arte à religião, ou seja,</p><p>da arte por excelência, a arte grega, à religião por excelência, a religião cristã. Assim,</p><p>o ideal clássico é artístico; dá lugar à realidade real do Deus encarnado do</p><p>Cristianismo (SÈVE, 2010).</p><p>Assim, a passagem do politeísmo ao monoteísmo é uma passagem</p><p>verdadeiramente dialética, explicada de forma mais concisa, algo considerado</p><p>paradoxal, contraditório, controverso. A arte clássica manifesta sua inadequação na</p><p>beleza magistral das estátuas que são, para nós, cadáveres, em oposição ao Deus</p><p>vivo.</p><p>5.3 ASPECTOS SINGULARES DO POLITEÍSMO</p><p>Antigamente, havia rumores de que os monoteísmos inventaram o politeísmo,</p><p>a palavra e a coisa, que teria nascido da degeneração de uma revelação</p><p>primordial. Hoje, pensamos mais prontamente que a crença em um único deus é uma</p><p>escolha revolucionária e que é uma afirmação que rompe com uma sociedade da</p><p>qual múltiplos deuses devem ser excluídos para postular a plenitude e a soberania de</p><p>um único (SCARPI, 2004).</p><p>As ideologias contemporâneas não carecem de razões ou motivações para</p><p>defender um sistema contra outro. Mas, longe desses debates, vale-nos mais a pena</p><p>caminharmos por direções que, por um lado, percorre a análise interna do politeísmo</p><p>como sistema de classificação de competência, como delimitação de saberes e</p><p>poderes; definição dos modos de ação que especifica as principais divindades de</p><p>um panteão; e, por outro lado, para o estudo das práticas sociais dos sistemas</p><p>politeístas e seus modos de organização do espaço; poder e autoridade conferidos</p><p>pelo exercício dos sacerdócios ou de certas funções rituais; relações entre os tipos de</p><p>sociedade, os modelos de poder político e as formas de organização dos poderes</p><p>divinos (SCARPI, 2004).</p><p>99</p><p>Alguns autores afirmam que o monoteísmo sozinho fundou os direitos da</p><p>consciência individual, que recusou, com o sagrado, as tentações da idolatria, da</p><p>paixão pelos ídolos, de onde nascem as grandes aberrações e os totalitarismos da</p><p>modernidade. Outros, por sua vez, empreendem o elogio de politeísmos alegres e</p><p>seu privilégio de produzir, com tolerância, um ateísmo prático, eficaz e discreto, onde</p><p>a pluralidade dos deuses funciona como instrumento de sociabilidade, modo</p><p>exemplar de relação com os demais.</p><p>Nesses debates, seria precipitado ler outro sintoma do "retorno da religião",</p><p>quando se afirma, explicitamente, uma reflexão epistemológica sobre a natureza do</p><p>religioso e sobre os limites do domínio próprio da religião. A epistemologia é uma área</p><p>da filosofia que designa dois campos: o estudo crítico da ciência e do conhecimento</p><p>científico (SCARPI, 2004).</p><p>Mas, ainda há o eco de antigos conflitos, tão vivos, entre gregos politeístas e</p><p>cristãos ou judeus monoteístas, desde Celso, em 180 d.C., denunciado, na seita que</p><p>se dá um deus aberrante – criador do nada! –, o orgulho inacreditável daqueles que</p><p>se julgam eleitos, mas se comportam como ateus quando se recusam a prestar culto</p><p>ancestral aos deuses e reivindicam um único poder divino com a intolerância de</p><p>reivindicar a Verdadeira Religião. Já é visível que os cristãos monoteístas após Cristo</p><p>formaram “outro corpo de pátria” e que anunciaram o surgimento de uma cultura</p><p>que nega a dos deuses plurais (SÈVE, 2010).</p><p>Negação tão profunda que, dezesseis séculos depois, a questão do politeísmo</p><p>só reaparece dando-lhe a forma de um objeto exótico, cautelosamente exibido pela</p><p>filosofia do Iluminismo, em plena Renascença, presença forte nas literatura,</p><p>arquitetura e escultura principalmente.</p><p>Sistema de classificação e divisão de poderes, os politeísmos colocam em</p><p>prática modelos de ação que estão intimamente ligados ao funcionamento da</p><p>sociedade e às formas de organização política. Sem nunca serem reflexo das</p><p>estruturas sociais dominantes, as sociedades divinas variam profundamente de um</p><p>continente para outro, das sociedades antigas às civilizações arcaicas (SCARPI,</p><p>2004).</p><p>No mundo africano, além dos deuses Orisa e Vodun na região do Golfo de</p><p>Benin, os poderes divinos parecem estar espalhados entre os gestos da vida</p><p>cotidiana, em meio às proibições e anotações dos clãs que os criaram, mas sem</p><p>serem reunidos em uma narrativa contínua ou relacionados em um discurso</p><p>100</p><p>teológico. Deuses furtivos, disseminados por sociedades muitas vezes desprovidas de</p><p>um centro político (RAVENEAU, 2008).</p><p>Em contraste, na aldeia mais modesta da Índia, os panteões locais trazem a</p><p>marca do sistema de castas e sua hierarquia. E, no antigo Oriente Próximo, a</p><p>centralização dos estados foi acompanhada por um processo de unificação dos</p><p>panteões urbanos que, por sua vez, em suas novas estruturas, reforçou a eficácia do</p><p>poder régio.</p><p>Assim no mundo Hitita, após as desordens do século XIV e a reconquista militar</p><p>de um rei forte, Tudhaliya IV reorganiza os santuários caídos em deserção, restaura os</p><p>cultos tão profundamente que a natureza dos deuses se transforma. Em vez de ídolos</p><p>antigos, mal trabalhados, surgem estátuas antropomórficas de ferro revestidas de</p><p>metais preciosos (SCARPI, 2004).</p><p>A partir de agora, as imagens dos deuses ficam domiciliadas em santuários,</p><p>templos também construídos com materiais protegidos do tempo, enquanto pessoal</p><p>especializado se encarrega de manter o corpo dos deuses e preservar a integridade</p><p>das formas novas dadas aos deuses. Pois, a estátua de uma divindade é sua essência,</p><p>e é somente nela e por meio dela que uma divindade existe.</p><p>O reagrupamento do panteão é feito em nome de um poder central que</p><p>decide os deuses comuns a todos, escolhe os poderes homogêneos e redistribui a</p><p>multiplicidade de figuras em grandes divindades: poderes da tempestade, deuses da</p><p>guerra, deusas da fertilidade (SCARPI, 2004).</p><p>Divindades com feições bem definidas apagam poderes provinciais, eclipsam</p><p>poderes locais, outrora indiscutíveis soberanos de uma fonte ou de uma dobra no</p><p>solo. Esta reforma é possibilitada por uma administração formada nas castas e</p><p>implementada a partir do palácio real que ergueu o mapa dos deuses e dos</p><p>santuários.</p><p>Na sociedade grega, o religioso está intimamente ligado ao político. Fundar</p><p>uma cidade ou a colônia de uma cidade é, em primeiro lugar, oferecer um sacrifício</p><p>101</p><p>aos deuses do país ou da metrópole. Trata-se de inscrever as marcas dos poderes</p><p>divinos no território da nova cidade. Altares, estátuas e santuários são inseparáveis</p><p>da invenção do espaço político.</p><p>Esses deuses, em configurações apropriadas, são mobilizados pelas práticas</p><p>individuais da vida social. O fato é tão constante que esse tipo de sociedade se</p><p>define explicitamente pela conjunção formal de "negócios dos deuses e negócios</p><p>dos homens", não pelo sagrado e pelo profano - evocado pelo que se chama de</p><p>hiera e hosia –, mas pelo domínio dos poderes divinos e o que é autorizado pelos</p><p>poderes divinos, enquanto se destina aos humanos (CORBIN, 1981).</p><p>Ao mesmo tempo, no seio de uma sociedade onde todos, cidadãos ou</p><p>magistrados, podem exercer livremente as funções de sacerdote – sendo o</p><p>sacerdócio, na maioria das vezes, uma magistratura – um personagem chamado rei-</p><p>arconte administra, em nome da cidade, todos os cultos e rituais praticados pela</p><p>comunidade.</p><p>Na Grécia antiga, quando Atenas era uma monarquia, o rei acumulava todas</p><p>essas funções. Sempre que se trata de abrir uma assembleia, declarar guerra, concluir</p><p>um tratado ou celebrar uma festa, os poderes divinos intervêm de acordo com</p><p>métodos regulares e de acordo com suas habilidades (BURCKHARDT, 2002).</p><p>Figura 5: Salomão.</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3E5oyQF. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Por fim, vale ressaltar que, antes de a palavra "politeísmo", inventada por Filo</p><p>102</p><p>de Alexandria, fosse redescoberta por Jean Bodin em 1580, o termo usado era</p><p>"idolatria". Todas as questões sobre idolatria - e principalmente, suas origens - podem</p><p>ser encontradas a partir dos capítulos 11 a 15 na Sabedoria de Salomão. Durante o</p><p>século XVI, o problema da origem da idolatria foi considerado, principalmente, um</p><p>problema de exegese bíblica. Em oposição à tese católica do evemerismo ser a</p><p>forma original de idolatria, os teólogos protestantes propuseram os cultos descritos</p><p>por Maimônides (BARON, 2017).</p><p>Os deístas ingleses abandonaram a palavra "idolatria" e a substituíram pelo</p><p>termo "politeísmo". Assim, o problema foi deslocado: relegando as evidências bíblicas</p><p>para segundo plano, a discussão foi reorientada para o campo da história</p><p>comparada das religiões. Durante o Iluminismo com a História Natural da Religião de</p><p>David Hume, a reversão foi total: a teoria do politeísmo original substituiu</p><p>completamente a teoria do monoteísmo primitivo. O politeísmo foi assim reavaliado</p><p>(BARON, 2017).</p><p>103</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO</p><p>1. A história do homem nos mostra, em seus estudos antropológicos, que o surgiu</p><p>primeiro, em uma relação estreita do homem com a natureza. Com o passar do</p><p>tempo, surge o monoteísmo, cuja primeira religião com estas características em</p><p>registro em larga escala é</p><p>a) Cristianismo.</p><p>b) Judaísmo.</p><p>c) Budismo.</p><p>d) Islamismo.</p><p>e) Hinduísmo.</p><p>2. A metafísica é um estudo de fundamental importância utilizada por Aristóteles</p><p>para uma interpretação filosófica e o estudo mitológico sobre cosmologia e</p><p>cosmogonia. Sobre a metafísica, podemos conceituá-la como</p><p>a) uma ramificação da teologia que define o ser em antes e depois da vinda de</p><p>Cristo e suas consequências para a humanidade.</p><p>b) uma ciência sociológica, mas que, com o passar dos séculos, alcançou o status</p><p>quo de extra materialidade e vida no além morte.</p><p>c) uma ciência filosófica baseada nos ensinamentos de Platão e, posteriormente,</p><p>Burckhardt, estabelecendo mitos como o oráculo de Delfos.</p><p>d) um ramo da filosofia que aborda os princípios do ser, em um profundo</p><p>questionamento do mundo, em um processo que vai além das experiências</p><p>sensoriais.</p><p>e) a personificação do extrassensorial, do infactível, do indescritível, da narração</p><p>bíblica à luz da filosofia.</p><p>3. Pepin (1983) nos alerta que, para estudarmos o Cristianismo, é fundamental que</p><p>a) tenhamos em mente a impossibilidade de vincular as leis do Cristianismo com</p><p>qualquer elemento pagão.</p><p>104</p><p>b) tenhamos em mente a estreita relação do paganismo e do Judaísmo, cujo</p><p>Cristianismo foi a fonte inspiradora.</p><p>c) tenhamos em mente um vínculo religioso entre a ideologia monoteísta do</p><p>Cristianismo e o politeísmo pagão.</p><p>d) saibamos dissociar o Budismo do Judaísmo, já que este deu origem ao Cristianismo</p><p>e aquele, ao Hinduísmo.</p><p>e) percebamos a linha tênue que une o Islamismo às religiões pagãs, de forma que</p><p>o Cristianismo originou-se dessa mescla, sem contudo, tornar-se politeísta.</p><p>4. A “religio” romana é, obviamente, baseada no politeísmo e, a partir de César, será</p><p>caracterizada pela importância cada vez maior do culto</p><p>a) ao homem divino.</p><p>b) ao templo de Apolo.</p><p>c) ao oráculo de Delfos.</p><p>d) à tríade do Panteão.</p><p>e) ao imperador.</p><p>5. Na exortação de Agostinho aos prólogos joaninos e ao evocar a passagem do</p><p>Êxodo, o filósofo considera Deus como um Ser indicativo, faz uma associação às</p><p>três partes da filosofia, a saber:</p><p>a) etérea, corporal e divina.</p><p>b) racional, amoral e científica.</p><p>c) reflexiva, doutrinária e natural.</p><p>d) moral, humana e epistemológica.</p><p>e) natural, racional e moral.</p><p>6. Na Antiguidade clássica, mais especificamente na sociedade grega, podemos</p><p>notar os deuses como grandes figuras da divindade, evocando elementos de</p><p>guerra, fertilidade, tempestade, etc. Essa associação refere-se, diretamente, a</p><p>a) poder divino e espaço político.</p><p>b) razão e fé.</p><p>105</p><p>c) culto natural e culto sagrado.</p><p>d) sagrado e profano.</p><p>e) eternidade e efemeridade.</p><p>7. Antes que a denominação de “politeísmo” fosse trazida novamente à discussão</p><p>por Jean Bodin, o termo usual denominado às religiões politeístas era</p><p>a) transcendência.</p><p>b) evemerismo.</p><p>c) deísmo.</p><p>d) idolatria.</p><p>e) arcontismo.</p><p>8. Ao nos perguntarmos como se deu a passagem do politeísmo para o monoteísmo,</p><p>uma resposta que a unidade tem a nos oferecer é esta.</p><p>a) Uma desconstrução de valores éticos e morais em prol de valores humanos,</p><p>transcendência e busca pelo Uno, por uma divindade única e eterna.</p><p>b) Um fracasso político da Grécia seguido, anos mais tarde, pela queda de</p><p>Constantinopla e o Cisma Ortodoxo, levando o mundo a entrar por séculos no</p><p>Feudalismo.</p><p>c) Uma passagem do ponto de vista artístico para o ponto de vista religioso, ou seja,</p><p>da arte por excelência à religião por excelência.</p><p>d) Uma passagem de guerras, lutas e conflitos em que o politeísmo foi duramente</p><p>criticado por Constantino e imposto aos romanos.</p><p>e) Uma nova era que surge, já que o Judaísmo desaparece em prol da cultura grega</p><p>e esta, por sua vez, sucumbe ao Cristianismo.</p><p>106</p><p>MUNDANIDADE & RELIGIOSIDADE</p><p>As obras estudadas até agora relacionadas à dualidade mundanidade-</p><p>religiosidade não expressavam muito interesse pela situação da religião no mundo</p><p>moderno. Centravam-se na análise de processos históricos, no mundo moderno</p><p>como tal, ou em culturas não-ocidentais.</p><p>Uma das razões para essa negligência da religião é a quase completa</p><p>ausência de dados empíricos. Outra razão é a falta de interesse pela religião entre os</p><p>sociólogos profissionais: era considerada uma categoria residual, indigna do interesse</p><p>de um pesquisador sério.</p><p>Durante as décadas seguintes, esta situação experimentará uma</p><p>transformação gradual, mas decisiva. Uma das razões para esse desenvolvimento</p><p>positivo é a mudança na sociologia acadêmica: com a emergência quase</p><p>simultânea do empirismo e do funcionalismo, o estudo da religião encontra uma nova</p><p>legitimidade. Mas o fator mais decisivo foi, provavelmente, a ação dos sociólogos</p><p>católicos, que fundaram sociedades eruditas e lançaram investigações empíricas de</p><p>escala sem precedentes sobre a situação contemporânea da religião.</p><p>Notamos que o espaço dedicado à religião aumentou gradativamente. Este</p><p>crescimento do interesse é certamente em parte devido à influência europeia. Mas,</p><p>também, deve-se ao surgimento do empirismo, um conjunto de teorias filosóficas que</p><p>fazem da experiência sensorial a origem de todo conhecimento ou crença e de todo</p><p>prazer estético (ELIADE, 2010).</p><p>Defendido, principalmente, pelos filósofos Francis Bacon, John Locke, David</p><p>Hume, o empirismo sustenta que o conhecimento é baseado na acumulação de</p><p>observações e fatos mensuráveis, dos quais se pode extrair leis gerais por raciocínio</p><p>Erro!</p><p>Fonte de</p><p>referênci</p><p>a não</p><p>encontra</p><p>107</p><p>indutivo, consequentemente, passando do concreto ao abstrato.</p><p>Figura 1: Francis Bacon.</p><p>Fonte: Domínio Público</p><p>O empirismo tem implicações não apenas na filosofia e na epistemologia, mas</p><p>também, em vários campos de estudo como a lógica, psicologia, ciência cognitiva,</p><p>e ciências religiosas (ELIADE, 2010).</p><p>6.1 POR QUE SER MUNDANO?</p><p>O adjetivo mundano refere-se a uma qualidade, uma tendência, um hábito,</p><p>que opõe as coisas deste mundo aos assuntos do outro mundo. É mundano tudo o</p><p>que está relacionado à nossa condição de seres humanos, mortal, temporal,</p><p>enraizado na vida cotidiana e, por extensão, tudo o que destaca as atividades e</p><p>buscas deste mundo (POMMIER, 2013).</p><p>Desnecessário dizer que a palavra tem uma conotação religiosa: o</p><p>mundanismo implica entretenimento e o esquecimento do dever espiritual e religioso.</p><p>Trata-se, portanto, de pecado por um lado e, por outro, do universal, do sofisticado</p><p>108</p><p>e do cosmopolita, ou seja, do que se poderia chamar de mundano, das coisas</p><p>materiais em si, do ser que existe para as coisas materiais de uma forma geral. No</p><p>entanto, há muito que se pensar sobre o conceito de mundano, já que não se trata</p><p>de um mero significado absoluto (POMMIER, 2013).</p><p>Quando um filósofo ou cientista social ou pessoas versadas na prática religiosa</p><p>usa as palavras “mundano” e “mundanidade” para descrever uma certa prática</p><p>crítica, não deve perder de vista essa relação entre autoridade, por um lado, religiosa</p><p>ou não, e, por outro lado, a vida cotidiana. Essa tensão se repete em quase toda</p><p>obra acerca do assunto, pois difícil separar um do outro,</p><p>já que um existe, até certo</p><p>ponto, em oposição ao outro (POMMIER, 2013).</p><p>Vejamos uma interpretação do mundanismo que vincula, explicitamente,</p><p>duas dimensões dessa palavra.</p><p>O conceito de "mundano" é um conceito útil para que possamos atribuir-lhe o</p><p>significado que lhe é inerente, como a expressão de pertencimento ao mundo</p><p>secular, apego aos bens deste mundo, mundanidade, coisas terrenas, em oposição</p><p>à ideia de sagrado, eterno, mas não, necessariamente, religiosidade. Vejamos.</p><p>Olhando mais de perto o conceito apresentado, e percebendo a</p><p>mundanidade de uma forma sistemática, encontramos uma ligação entre</p><p>mundanidade e o que podemos chamar de crítica secular, ou simplesmente</p><p>“crítica”, no sentido que opõe o secular ao sagrado, “crítica secular” ou mesmo</p><p>“crítica mundana”. É uma crítica que estaria ligada ao mundo, uma crítica que olha</p><p>para o mundo e se preocupa com o que acontece nele (SÈVE, 2010).</p><p>As coisas mundanas, assim posto, são parte do mundo social, da vida humana</p><p>e, claro, de momentos históricos e sociais em que estamos neles localizados e deles</p><p>fazemos parte.</p><p>Assim, a crítica é laica e mundana, na medida em que se permite a uma</p><p>cultura velar-se na autoridade de certos valores contra outros. A crítica é mundana,</p><p>pois a ela cabe o direito de opinar, discordar, transgredir, refutar, readaptar. Ao</p><p>109</p><p>sagrado, pelo contrário, não se é permitido tal situação, pois este já vem “lacrado”,</p><p>dogmatizado e institucionalizado. Pode-se, em primeira instância, estudá-lo, mas não</p><p>dele discordar.</p><p>Para melhor compreendermos a relação entre mundano e sagrado,</p><p>mundanidade e religiosidade, precisamos adentrar em um dos elementos mais</p><p>controversos sobre o assunto, o que melhor nos exemplifica a situação em voga: a</p><p>relação entre ciência e religião (SÈVE, 2010).</p><p>Muitos cientistas lançam ataques às religiões em nome da ciência, tais como</p><p>o fato de que ciência e religião não podem coabitar, da mesma forma que razão e</p><p>fé não podem. Generalizações desse tipo são frequentemente encontradas ao longo</p><p>dos séculos, muitas vezes, referindo-se à condenação de Galileu pela Igreja Católica</p><p>Romana em 1633, uma situação histórica clássica conhecida de todos nós.</p><p>Figura 2: Galileu</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/37b7InE. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>A história mostra renúncias de biólogos evolutivos sobre o ensino científico das</p><p>origens, afirmando que o criacionismo deve ser avaliado pelos cientistas não como</p><p>um equívoco, mas como uma visão de mundo. Em outra situação, o vencedor do</p><p>Prêmio Nobel Richard Roberts enviou uma carta ao presidente da Royal Society,</p><p>Martin Rees, decretando a renúncia ou a demissão do professor Reiss por descobrir</p><p>que o mesmo era um clérigo, o que muito o preocupava, e estabelecia uma</p><p>dicotomia, afirmando que era impensável um excelente diretor de educação, mas</p><p>como poderia ele responder situações concernentes às diferenças entre ciência e</p><p>religião de maneira racional sem contaminar os alunos com suas experiências do</p><p>110</p><p>mundo sagrado? (BURCKHARDT, 2002).</p><p>Essas afirmações sugerem, implicitamente, a inevitável batalha entre ciência</p><p>e religião. Mas, este postulado não pode, por si só, fazer-nos compreender a infinita</p><p>diversidade dos laços que tecem entre ciência e religião, mundo e fé, mundanidade</p><p>e religiosidade.</p><p>As ciências são numerosas, as religiões também. Uma descoberta científica</p><p>pode ser problemática para algumas religiões, mas sem consequências para outras.</p><p>Uma ciência pode ameaçar crenças religiosas, enquanto outras são consideradas</p><p>inócuas. Argumentar que existe um conflito fundamental entre ciência e religião está</p><p>fadado ao fracasso (SÈVE, 2010).</p><p>Se, às vezes, as ciências podem dar respostas às questões levantadas pelas</p><p>tradições religiosas, ainda assim, resta um espaço de questionamento e compromisso</p><p>religioso. Como são estabelecidas as prioridades de pesquisa? Dados os recursos</p><p>limitados, devemos primeiro determinar o que é mais importante para a humanidade.</p><p>Não se trata de raciocínio científico. A pesquisa só pode florescer através de</p><p>uma conexão entre uma religião ou ideologia. Como a ciência e a religião são</p><p>interdependentes e conflitantes, a história de sua interação é complexa.</p><p>Afinal, existem, historicamente, muitas situações em que a ciência e a religião</p><p>se opuseram. Entre elas, a recusa de milagres pelos partidários do ponto de vista de</p><p>que a natureza funciona segundo leis incontornáveis. Ou a negação da liberdade</p><p>humana defendida por aqueles que veem a mente do ser humano como uma</p><p>simples montagem química do cérebro (EISLER, 2007).</p><p>No início do século XVII, alguns católicos achavam as teorias materialistas</p><p>preocupantes porque conflitavam com sua interpretação da Eucaristia. Para alguns</p><p>judeus, o banimento da astrologia entre os anos 200 e 500 d.C. foi um obstáculo à</p><p>pesquisa astronômica. Quanto aos que interpretam a Bíblia literalmente, a teoria da</p><p>evolução de Darwin desencadeia um reflexo de rejeição.</p><p>Por outro lado, há muitos pontos de concordância e enriquecimento mútuo.</p><p>Por exemplo, a ideia bíblica de que a humanidade descende de uma única fonte.</p><p>Esse pensamento levou a uma reflexão sobre a origem da linguagem, bem como a</p><p>dispersão do ser humano no planeta (EISLER, 2007).</p><p>No século XVII, certas invenções científicas, como o telescópio e o</p><p>microscópio, pretendiam reverter a queda de Adão de seu pedestal. Esses</p><p>instrumentos e sua metodologia científica foram projetados para reparar as</p><p>111</p><p>habilidades cognitivas e sensoriais do ser humano, prejudicado pelo pecado.</p><p>Vejamos o debate sobre a criação do mundo. Esta ideia constitui a pedra</p><p>angular do desenvolvimento da ciência ecológica. É em parte graças à crença de</p><p>que Deus adaptou animais e plantas ao seu ambiente que tratados essenciais de</p><p>história natural foram escritos, enfatizando as correlações entre organismos e</p><p>ambiente.</p><p>Hoje em dia, um diálogo entre antropólogos teológicos e defensores do</p><p>transumanismo – que defendem o uso da ciência e da tecnologia para melhorar a</p><p>condição humana – pode ser benéfico. Os avanços tecnológicos levantam questões</p><p>profundas sobre o significado da humanidade, assunto sobre o qual os teólogos têm</p><p>muito a dizer. No mínimo, a teologia pode contribuir para a elaboração dos valores</p><p>segundo os quais devem ser priorizadas as capacidades humanas que devem ser</p><p>aprimoradas (GENNEP, 2013).</p><p>6.2 POR QUE TER UMA RELIGIOSIDADE?</p><p>A religião pode ser definida como um movimento universal guiado pela fé e</p><p>um senso de responsabilidade pela crença, pela promoção dos princípios morais,</p><p>pelo estabelecimento de boas relações entre os membros de uma sociedade.</p><p>Mantendo essa definição em vista, nossa necessidade de religião e</p><p>ensinamentos religiosos parece necessária, levando em consideração o assunto</p><p>pertinente a este subitem. Neste caso, não cabe discutir questões como ateísmo e</p><p>suas ramificações. Partiremos sempre da necessidade de homem ter uma</p><p>religiosidade.</p><p>A religião sanciona princípios morais como justiça, honestidade, retidão,</p><p>fraternidade, igualdade, caráter virtuoso, tolerância, sacrifício, ajuda aos</p><p>necessitados e outras virtudes (LE GOFF, 2013).</p><p>Obviamente, é possível adquirir essas qualidades morais e sociais sem a ajuda</p><p>da religião. Mas, na ausência de uma religiosidade, esses valores parecem</p><p>despojados de seu significado deixando-nos completamente livres para aceitar ou</p><p>rejeitar. Logo, essas qualidades são baseadas no sentimento interior e na fé, e</p><p>naturalmente, estão além do alcance da lei comum.</p><p>Will Durant, o famoso filósofo e historiador escreve em seu livro “Os Prazeres da</p><p>Filosofia” que sem a base da religião, a moralidade nada mais é do que</p><p>112</p><p>“aritmomancia”, pois, sem ela, o sentido da obrigação desaparece (POMMIER, 2013).</p><p>Acreditando que qualquer problema pode ser resolvido e qualquer impasse</p><p>pode ser contornado com a ajuda do divino, o homem religioso sempre se volta para</p><p>as coisas que não estão, fisicamente, presentes neste mundo, sendo-lhe facultado o</p><p>direito de crença em algo que possa entendê-lo e guiar seus passos no mundo físico.</p><p>Assim, a fé religiosa é, por um lado, uma força motivadora, um fator que capacita o</p><p>homem a enfrentar as dificuldades (POMMIER, 2013).</p><p>Assim, uma verdadeira compreensão da religião pode desempenhar um</p><p>papel importante no combate às superstições, embora seja verdade que a própria</p><p>religião, se não compreendida corretamente, pode promover superstições.</p><p>Por outro lado, se sustentarmos que este universo é produto de fatores</p><p>inteiramente mecânicos e sem nenhum intelecto, não haveria razão plausível para</p><p>que devêssemos fazer esforços sustentados para descobrir seus segredos. Em</p><p>princípio, um universo que seria produto do trabalho de um mecanismo inconsciente</p><p>não pode ser harmonioso nem misterioso.</p><p>De qualquer forma, é inegável que qualquer tipo de pensamento ou crença</p><p>religiosa não pode alcançar os resultados esperados. Como qualquer outra atividade</p><p>intelectual, a religião requer orientação relevante.</p><p>O homem conheceu a religião desde um tempo tão distante que cobre toda</p><p>a história registrada da vida humana e remonta às profundezas dos tempos pré-</p><p>históricos.</p><p>Pesquisas de sociólogos e historiadores mostram que os locais de culto, simples</p><p>ou elaborados e complexos, sempre tiveram influência na vida humana, e que a</p><p>religião em suas várias formas sempre esteve entrelaçada na história do homem.</p><p>Will Durant, depois de discutir em detalhes o ateísmo de algumas pessoas,</p><p>escreve que, apesar de tudo o que foi dito sobre ele, há casos excepcionais em que</p><p>a velha ideia de que a religião é um fenômeno que geralmente se estende a todos</p><p>os seres humanos é verdadeira (POMMIER, 2013).</p><p>113</p><p>A questão da religião é, do ponto de vista do filósofo, uma das questões</p><p>fundamentais da história e da psicologia. Ele acrescenta que, desde tempos</p><p>imemoriais, a religião sempre andou de mãos dadas com a história da humanidade.</p><p>(POMMIER, 2013).</p><p>Figura 3: História da civilização, de Will Durant</p><p>Fonte: Domínio público</p><p>De fato, na Idade Média e especialmente durante o período entre os séculos</p><p>XIII e XV, a Igreja empreendeu uma campanha contra a ciência e tentou esmagar</p><p>os movimentos científicos através da Inquisição. Seguindo o decreto papal</p><p>condenando a ciência, pessoas como Galileu foram perseguidas e forçadas a negar</p><p>a teoria do movimento da Terra (FERREIRA, 2021).</p><p>Cada um respondendo a diferentes imperativos, o risco de tensão, dissensão</p><p>e até animosidade entre religiosos e científicos permanecerá onipresente. Mas, isso</p><p>não significa que a guerra seja inevitável. A ciência deixa muitos crentes indiferentes.</p><p>E muitos cientistas se distanciam da religião. A desconfiança mútua costuma ser</p><p>necessária. Mas, indiferença, distanciamento e desconfiança não são a mesma coisa</p><p>que guerra (EISLER, 2007).</p><p>114</p><p>6.3 POSSÍVEL SER MUNDANO E TER RELIGIOSIDADE?</p><p>Uma questão crucial surge mais do que nunca sobre a religião e que razões</p><p>ela pode invocar em favor do que afirma: para uma mente racional, a crença</p><p>parece obedecer a um princípio "ético" fundamental, que afirma que a única razão</p><p>que pode haver para acreditar em uma proposição é a verdade pelo menos</p><p>provável do que ela afirma (POMMIER, 2013).</p><p>Ora, uma das objeções formuladas com mais regularidade contra a crença</p><p>religiosa é que ela é, por natureza, incapaz de satisfazer uma exigência desse tipo e</p><p>só pode ser justificada por razões que quase nada têm a ver com sua veracidade ou</p><p>não. Isso é afirmado em particular por críticos da religião tão diferentes quanto</p><p>Nietzsche, Freud e Bertrand Russel.</p><p>Mas, alguns de seus defensores sustentam firmemente que a Religião também</p><p>é perfeitamente capaz de atender à demanda acima mencionada – enquanto</p><p>outros consideram que não pode deixar de depender, em sua parte essencial, da</p><p>emoção e da paixão, mais do que da razão. Isso mostra o quanto o desacordo ainda</p><p>existe hoje, entre crédulos e não crédulos, tanto na questão de saber se a religião</p><p>precisa de justificativas racionais quanto na questão de saber o que exatamente é</p><p>uma justificação racional (SANCHES, 2018).</p><p>Figura 4: Bertrand Russell</p><p>Fonte: Domínio público</p><p>Um dos argumentos essenciais usados por Bertrand Russell contra a religião, e</p><p>em particular contra o Cristianismo, é que as crenças religiosas só podem ser aceitas</p><p>115</p><p>por razões que quase nada têm a ver com a questão de saber se são verdadeiras,</p><p>em contradição com um princípio fundamental de crença de que a única razão que</p><p>pode haver para acreditar em uma proposição deve sempre ser sua verdade pelo</p><p>menos provável (RAVENEAU, 2008).</p><p>Deve-se sempre, idealmente, fazer com que as razões para a crença possam</p><p>ser reconhecidas como sendo também razões para a verdade da proposição em</p><p>questão, e não razões ou causas de algum outro tipo.</p><p>Russell lamenta em sua crítica do pragmatismo, a tendência de nossos tempos</p><p>de substituir a questão de se uma proposição é verdadeira, se vale a pena acreditar</p><p>nela. E ele protesta contra a confusão que tende a surgir cada vez mais entre</p><p>“crença” e “crença na necessidade ou utilidade de crer”.</p><p>Esta confusão parece-lhe jogar a favor da religião, uma vez que, a questão</p><p>colocada no seu caso é a verdade, pelo que se entende por verdade objetiva,</p><p>completamente dissociada das vantagens que a crença nos traz enquanto seres</p><p>mundanos que tentam viver e defender sua religiosidade, entendida aqui como a</p><p>crença em algo que não seja, necessariamente, divina (RAVENEAU, 2008).</p><p>A questão do que se pode realmente esperar, quando se trata de religião,</p><p>religiosidade, trata-se de provar – ou querer provar no sentido próprio e estrito do</p><p>termo, mesmo aqueles que defendem uma visão da questão da religião que</p><p>admitem que elas não são suficientes para levar à fé (RAVENEAU, 2008).</p><p>A razão para isso é que é preciso começar fazendo uma distinção importante</p><p>entre dois significados da palavra “fé”, a primeira é a fé chamada de "nocional" ou</p><p>"intelectual". A segunda é muito mais parecida com a confiança que decidimos</p><p>depositar em uma pessoa. Todos parecem estar mais convencidos, e isso também é</p><p>ensinado nas religiões monoteístas, de que a fé só pode ser um dom concedido pelo</p><p>próprio Deus.</p><p>Na verdade, mundanidade não é mérito de pessoas mundanas, no sentido</p><p>116</p><p>pior da palavra. A mundanidade é inerente ao ser humano, já que este, em súmula,</p><p>vive no mundo com seu corpo material, físico, independentemente de suas crenças</p><p>e de suas necessidades extracorpóreas. A religiosidade é, para os crédulos, o</p><p>alimento da intangível, do etéreo, da transcendência, assim como o pensamento, a</p><p>intelectualidade o são para os não crédulos (NODARI, 2017).</p><p>Ora, se juntarmos ambas as partes, podemos afirmar, com uma certa dose de</p><p>conhecimento pragmático, científico e religioso que a mundanidade é inerente ao</p><p>ser humano que pode viver de forma coesa em um mundo material, buscando suas</p><p>necessidades para além do físico, do material, em uma busca equilibrada entre o ser</p><p>e o não ser.</p><p>Há que se sair da caverna de Platão para se enxergar o além das coisas, sejam</p><p>elas tangíveis ou não, corpóreas ou extrassensoriais.</p><p>117</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO</p><p>1. Os filósofos David Hume, Francis Bacon e John Locke defendiam uma corrente</p><p>filosófica que baseia o conhecimento na observação para a extração de leis</p><p>gerais que permitem a passagem do concreto para o abstrato. Essa corrente</p><p>filosófica é denominada de</p><p>a) empirismo.</p><p>b) metafísica.</p><p>c) aristotelismo.</p><p>d) abstracionismo.</p><p>e) platonismo.</p><p>2. O conceito de “mundano” ou “mundanidade”, por mais explícito que seja, não</p><p>pode perder sua essência em palavras que relatam situações do mundo, do que</p><p>é real. Em se tratando de Teologia, a palavra-chave para esse conceito é o de</p><p>a) finito.</p><p>b) secular.</p><p>c) físico.</p><p>d) material.</p><p>e) dogma.</p><p>3. Em relação à existência de ciência e religião coabitarem o mesmo mundo,</p><p>dividindo o mesmo espaço, filósofos contemporâneos já chegam a um</p><p>pensamento de que</p><p>a) as ciências são muito mais numerosas do que as religiões; logo, impossível a</p><p>religião triunfar em seus argumentos.</p><p>b) as religiões são totalmente desmistificadas com o avanço tecnológico, como a</p><p>criação do mundo e o surgimento de Adão e Eva.</p><p>c) a ciência e a religião podem ter seus argumentos de forma que a descoberta de</p><p>uma não aniquila todas as outras.</p><p>Highlight</p><p>118</p><p>d) ciência e religião podem coabitar, mas não podem conviver pacificamente, já</p><p>que o sucesso de uma faz com a outra esteja inclinada ao fracasso.</p><p>e) ciência e religião são o mesmo lado de uma moeda, já que do outro, encontram-</p><p>se os infinitos mistérios que nem uma, nem outra pode explicar.</p><p>4. Assinale a opção correta quanto à possibilidade – ou não – de convivência entre</p><p>ciência e religião baseado em fatos argumentados nesta unidade.</p><p>a) A ideia de que o homem descende de uma única fonte foi catastrófico para a</p><p>Igreja, pois colocou em xeque a criação do homem e a presença de Eva, dois</p><p>elementos distintos de linguagem.</p><p>b) A ecologia provou a inexistência de Deus pela diversidade de animais e plantas</p><p>e suas adaptabilidades, reforçando a teoria de Darwin e o evolucionismo das</p><p>espécies.</p><p>c) Contrassensual a existência de antropólogos teológicos, haja vista que o estudo</p><p>sobre o homem – antropocentrismo – é totalmente divergente às ideias</p><p>teocêntricas.</p><p>d) Embora pareça controverso, os avanços tecnológicos levantam questionamentos</p><p>sobre a humanidade que os teólogos podem contribuir na questão dos valores</p><p>da humanidade.</p><p>e) A interpretação literal da Bíblia, hoje, está totalmente equivocada com os</p><p>avanços da ciência, em especial a criação do telescópio e do microscópio.</p><p>5. Posto que é inegável a existência da religião e da ciência, pode-se afirmar,</p><p>baseado na unidade em questão, que</p><p>a) pessoas extremamente racionais como engenheiros não conseguem viver em</p><p>sociedade crendo nas imposições das religiões, já que a matemática prova</p><p>situações que a religião não explica.</p><p>b) ciência e religião não são tangíveis, não há um ponto em comum que possa unir</p><p>esses fundamentos; logo, a ciência e a religião devem trabalhar cada uma com</p><p>seus dados experienciais.</p><p>c) o homem não precisa da religião, haja vista que ciências como a aritmancia são</p><p>capazes de explicar um mundo pleno e pragmático, livre de superstições.</p><p>119</p><p>d) não é possível adquirir virtudes como qualidades morais e sociais sem a ajuda da</p><p>religião, pois ela é o centro das manifestações animistas que a ciência não</p><p>consegue explicar.</p><p>e) a religião pode ser vista como uma manifestação universal guiada por questões</p><p>de crença, princípios morais e relações sociais, fatores que também são inerentes</p><p>à filosofia.</p><p>6. Do ponto de vista histórico, é inegável que, na Idade Média, a Igreja tentou</p><p>suplantar a ciência e os movimentos científicos. Um dos acontecimentos mais</p><p>conhecidos dessa época foi</p><p>a) a perseguição a Galileu sobre a teoria do movimento da Terra.</p><p>b) a descontinuidade da Inquisição, principalmente em países católicos.</p><p>c) a valorização antropocêntrica a Igreja contra o etnocentrismo.</p><p>d) a questão da virgindade de Nossa Senhora e sua assunção.</p><p>e) a construção do Vaticano como forma de estabelecer o poder em Roma.</p><p>7. Uma das questões propostas pela religião e fortemente debatida por Russell trata</p><p>do fato de que, nas religiões monoteístas, a fé é</p><p>a) uma escolha dada ao homem pela sociedade.</p><p>b) um dom concedido por Deus.</p><p>c) o resultado das experiências sociais ao longo da vida.</p><p>d) uma consequência natural da existência humana.</p><p>e) um saber intelectual elevado à categoria de sagrado.</p><p>8. Da unidade apresentada, tem-se, como conclusão, ainda que de forma</p><p>abrangente, já que o assunto é, por si somente, inesgotável, que a mundanidade</p><p>é</p><p>a) inerente ao homem como experiência da vida terrena.</p><p>b) uma adaptação dos incrédulos por não encontrarem respostas na religião.</p><p>c) um situação que depende da religiosidade do ser ou de sua condição material.</p><p>d) passível de ser vivida, mas não conciliável com a religiosidade.</p><p>120</p><p>e) não pertence aos crédulos e não compactua com os sentimentos sagrados.</p><p>121</p><p>O SURGIMENTO DA RELIGIÃO NO</p><p>BRASIL</p><p> Panorama Geral</p><p>Falar de religião é quase sempre, se não dissermos sempre, salvo raras</p><p>exceções, motivo de discussões acaloradas por parte de pessoas que ficam sempre</p><p>na defensiva e com um sentimento de defender sua crença e sua religião, ou sua</p><p>não crença.</p><p>No entanto, o objetivo maior e central deste livro é proporcionar a você, leitor,</p><p>uma experiência acerca dos fatos religiosos no Brasil, independente de credo ou</p><p>partido. Precisamos nos ater aos fatos históricos e às verdades teológicas, e não</p><p>religiosas.</p><p>Para começarmos, então, é sabido que o Brasil é um país muito diversificado</p><p>do ponto de vista das religiões, com forte tendência à mobilidade por parte dos</p><p>crentes, ou seja, há uma certa flexibilidade em mudanças de religião e, até mesmo,</p><p>na criação de outras religiões como ramificações de suas matrizes, uma</p><p>característica que tende a ser uma prática com certa frequência em nosso país.</p><p>A população, em geral, é predominantemente cristã, sendo os católicos a</p><p>maior representatividade da população, seguida dos protestantes. Legado da</p><p>colonização portuguesa, o catolicismo foi a religião oficial do Estado brasileiro até a</p><p>promulgação da Constituição Republicana de 1891, que instituiu o Brasil como um</p><p>Estado laico (DEMO, 2013).</p><p>UNIDADE</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>122</p><p>Figura 2: Logo sobre o Estado Laico</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3xahOy0. Acesso em: 15 mar. 2021.</p><p>O trabalho escravo, vindo principalmente da África, trouxe consigo práticas</p><p>religiosas próprias, que resistiram à repressão dos colonizadores, dando origem a</p><p>diversas religiões afro-brasileiras.</p><p>Na segunda metade do século XIX, o espiritismo se difundiu no país, que hoje</p><p>possui o maior número de adeptos dessa doutrina no mundo (NODARI, 2017).</p><p>Desde as últimas décadas do século XX, as religiões resultantes da reforma</p><p>protestante se desenvolveram rapidamente em número de praticantes, até</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>123</p><p>representarem uma parcela significativa da população.</p><p>Da mesma forma, o número de pessoas que se declaram "sem religião"</p><p>aumenta acentuadamente, superado apenas pelo número de católicos e</p><p>evangélicos.</p><p>Muitos praticantes de religiões afro-brasileiras, assim como muitos espíritas,</p><p>também se declaram “católicos” e seguem certos ritos da Igreja Católica. Esse tipo</p><p>de tolerância religiosa associada ao sincretismo é uma característica histórica</p><p>particular da religião no Brasil (SANCHIS, 2018).</p><p>Nos últimos anos, porém, a intolerância religiosa vem crescendo, o que exigiu</p><p>a criação, pelo Governo, de um Dia contra a Intolerância Religiosa, regulamentada</p><p>pela Lei Federal nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007, e comemorada em 21 de</p><p>janeiro, o que denota o reconhecimento do problema pelo Estado (BRASIL, 2007).</p><p>Agora que você já teve um panorama mais abrangente sobre os aspectos</p><p>religiosos no Brasil, é importante que comecemos a segmentar as ideias principais</p><p>para que você possa compreender,</p><p>de forma didática e pedagógica, os pontos</p><p>mais importantes sobre as Religiões no Brasil e como isso aconteceu ao longo dos</p><p>séculos.</p><p>7.1 RELIGIÃO ANTES DO DESCOBRIMENTO?</p><p>Antes de pensarmos “a religião do Brasil” durante o seu descobrimento,</p><p>precisamos pensar a religião no contexto histórico em que se encontrava o mundo,</p><p>principalmente, na Europa do século XVI, em países como Portugal e Espanha, já</p><p>que ambas as nações foram responsáveis pela influência religiosa trazida pelos</p><p>“descobridores” das terras então denominadas por eles de Ilha de Vera Cruz.</p><p>Se a religião hoje é um assunto pessoal e não deve interferir na política, foi</p><p>bem diferente na Europa moderna.</p><p>No velho mundo, onde a religião estruturava e comandava tudo e todos, o</p><p>124</p><p>cristianismo forjou conceitos essenciais à regulação das sociedades. Três princípios</p><p>moldaram a relação entre Igrejas e Estados: a autoridade vem de Deus, os poderes</p><p>temporais e espirituais são independentes, os fins humanos são subordinados aos</p><p>espirituais (DIAS, 1982).</p><p>No entanto, esse quadro permaneceu amplo o suficiente para justificar</p><p>diferentes políticas. Os teólogos não ditaram uma única resposta quando o</p><p>soberano, mesmo o papa, se encontrava diante de um conflito.</p><p>Desestabilizadas pelas reformas do século XVI, as monarquias souberam</p><p>aproveitar o deslocamento do cristianismo latino, abandonando a guerra religiosa</p><p>por razões de Estado. Nos séculos seguintes, enquanto o desencanto do mundo</p><p>privou a Criação de seu aspecto mágico, a ascensão do racionalismo contribuiu</p><p>tanto para retirar a religião do campo político quanto para estabelecer a tutela do</p><p>Estado sobre a Igreja (SAUNDERS, 2005).</p><p>No início do século XVI, a Igreja Católica foi intensamente criticada, já que</p><p>muitos cristãos acreditavam que os padres eram arrogantes e suspeitavam que os</p><p>bispos buscavam apenas o seu próprio enriquecimento.</p><p>Martinho Lutero, um monge alemão e professor de teologia, era intensamente</p><p>questionador e denunciou os muitos abusos da Igreja Católica, opondo-se, em 1517,</p><p>ao comércio de indulgências organizado pelo Papa Leão X, pois tais indulgências</p><p>correspondiam ao perdão dos pecados pela Igreja, permitindo, assim, aos fiéis,</p><p>ganharem sua salvação. De fato, para construir a Basílica de São Pedro, em Roma,</p><p>o papa decidiu vender indulgências.</p><p>Figura 3: Martinho Lutero</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3tjpvAT. Acesso em: 14 mar. 2021.</p><p>125</p><p>Segundo Lutero, muito preocupado com a salvação, essa prática era</p><p>contrária aos Evangelhos. Ele, portanto, condena violentamente esse comércio em</p><p>seus escritos que exibe em público: as famosas 95 teses, afirmando que somente a fé</p><p>assegurava a salvação eterna (DIONIZIO, 2020).</p><p>Dessa forma, opõe-se ao catolicismo, defensor de que as boas obras, como</p><p>doações e peregrinações, por exemplo, também podem permitir aos fiéis ganhar o</p><p>paraíso após a morte.</p><p>Em 1520, Lutero queria o retorno da Igreja como era no início do cristianismo.</p><p>Para isso, fundou uma nova Igreja Cristã: a Igreja Luterana.</p><p>Dos sete sacramentos, ele retém apenas o batismo e a comunhão,</p><p>condenando o culto aos santos e à Virgem e substitui os bispos e párocos por</p><p>pastores, sendo que estes não fazem voto de celibato e, portanto, podem se casar.</p><p>Lutero queria que todos tivessem acesso direto às Sagradas Escrituras. Para isso,</p><p>ele traduz a Bíblia para o alemão, o que permitiu que um número maior de pessoas</p><p>pudesse lê-la e comentá-la sem a intermediação de um padre.</p><p>Em 1521, Lutero foi excomungado pelo Papa, mas suas teorias se espalharam</p><p>por todo o Sacro Império e depois para o resto da Europa. Em 1529, o imperador</p><p>católico Carlos V forçou os príncipes alemães que haviam adotado as ideias de</p><p>Lutero a abandonar essa nova religião (MATA, 2010). Os príncipes se recusam e</p><p>"protestam diante de Deus". É por esta razão que esses novos cristãos serão doravante</p><p>chamados de “protestantes”.</p><p>Outras igrejas protestantes são criadas por cristãos que seguem os passos de</p><p>Lutero. Assim, o francês João Calvino mudou-se para Genebra em 1541, fundando a</p><p>Igreja Calvinista, também conhecida como Igreja Reformada, sendo esta muito mais</p><p>rigorosa e austera do que a Igreja Luterana.</p><p>Na Inglaterra, o rei Henrique VIII rompe com o Papa e se proclama chefe de</p><p>uma nova Igreja Protestante, a Igreja Anglicana.</p><p>Fortemente ameaçada pela Reforma Protestante, a Igreja Católica reagiu,</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>126</p><p>criando o que se chamou de Contrarreforma Católica, compreendida como a</p><p>reação da Igreja de Roma ao aumento das ideias protestantes europeias, por meio</p><p>de vários atos realizados pela Santa Sé, incluindo a catequização de “gentios” pelos</p><p>jesuítas, o restabelecimento dos Tribunais de Inquisição e a proibição de centenas de</p><p>livros considerados hereges, numa tentativa de combater a ascensão do</p><p>protestantismo.</p><p>O Papa Paulo III, depois de ter restabelecido a Inquisição, o tribunal</p><p>responsável pela luta contra os protestantes, em 1542, convocou um concílio na</p><p>cidade de Trento, na Itália (MATA, 2010). O Concílio de Trento reuniu-se regularmente</p><p>entre 1545 e 1563 para combater as ideias de Lutero, reafirmando os princípios do</p><p>catolicismo. Assim, os sete sacramentos são confirmados, a salvação eterna pode ser</p><p>alcançada através da fé e boas obras, como os dons e as peregrinações, podendo</p><p>os fiéis rezar à Virgem e aos santos porque eles intervêm junto a Deus pelos humanos</p><p>e o Papa é o chefe supremo da Igreja Católica. Além disso, o Concílio de Trento cria</p><p>o Index, uma lista de livros proibidos em 1559.</p><p>Figura 4: Concílio de Trento</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3xmdUn5/. Acesso em: 14 mar. 2021.</p><p>127</p><p>Finalmente, o conselho apoiou a criação da ordem jesuíta. Criada pelo</p><p>espanhol Inácio de Loyola, esta ordem colocou-se a serviço do papado cuja</p><p>principal missão era a conversão dos povos das colônias ao cristianismo, tendo uma</p><p>função extraordinária nos estudos em várias áreas referentes à história do Brasil,</p><p>sendo um dos motivos de nosso estudo.</p><p>No século XVI, as guerras religiosas eclodiram na Europa e a divisão do</p><p>cristianismo gerou muitos conflitos entre os defensores da Igreja Católica e os</p><p>protestantes. Este é especialmente o caso do Sacro Império, da França e dos Países</p><p>Baixos espanhóis àquela época (FERREIRA, 2021).</p><p>No Sacro Império, o imperador Carlos V assinou a Paz de Augsburgo em 1555,</p><p>permitindo que os príncipes alemães escolhessem sua religião e a impusessem a seus</p><p>súditos. Na França, Henrique IV pôs fim às Guerras Religiosas em 1598, concedendo</p><p>liberdade de culto aos protestantes através do Édito de Nantes. Quanto aos Países</p><p>Baixos espanhóis, encontravam-se divididos pelas guerras de religião. As províncias</p><p>protestantes do Norte separaram-se das províncias católicas do Sul e deram origem</p><p>a um novo estado em 1579: as Províncias Unidas.</p><p>Quanto a Portugal, manteve-se fiel ao papado com a maioria quase absoluta</p><p>da população católica, com forte influência da Ordem dos Jesuítas e da Santa Sé.</p><p>Nossa história das religiões percorre este vasto caminho para a chegada dos</p><p>portugueses em terras de “gentios” (ALBUQUERQUE, 1989b).</p><p>7.2 FUNDAMENTOS DE UMA RELIGIÃO NATIVA E INTACTA</p><p>O uso predominante que os portugueses fizeram no século XVI do termo</p><p>“gentio” no Brasil, no início da colonização, ilustra esse fenômeno de modificação de</p><p>sentido. Com efeito, esta palavra, que originalmente representa uma categoria</p><p>teológica, é usada para designar os primeiros habitantes do país. Ao uso indevido de</p><p>um termo classificatório para fins de designação, soma-se o fato de que,</p><p>acompanhando o desenvolvimento da colonização, seu uso e conteúdo se</p><p>modificarão.</p><p>O termo “gentio” em português vem do latim cristão gentios, designando os</p><p>pagãos no Antigo e no</p><p>Novo Testamento, em oposição ao povo de Deus, o povo de</p><p>Israel. Assume o significado de “bárbaro, pagão” no século IV d.C. entre os padres</p><p>da Igreja (ALBUQUERQUE, 1989b).</p><p>128</p><p>Os portugueses dos séculos XV e XVI utilizaram o termo “gentio” no seu sentido</p><p>teológico. A teoria dos gentios foi desenvolvida em particular por teólogos e juristas</p><p>dominicanos da Escola de Salamanca após a descoberta do Novo Mundo – os</p><p>gentios eram considerados infiéis bárbaros. No entanto, o conceito de gentio tem um</p><p>outro componente, presente em São Tomás, mas trazido à luz e acentuado pelos</p><p>teólogos dominicanos espanhóis sob o impulso de Francisco de Vitoria – o gentio é</p><p>bárbaro, pagão e livre. De fato, a bula papal de 1537, Sublimis Deus, proclama que</p><p>os povos originários são livres.</p><p>Figura 5: O índio ou o gentio</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/39dOMFF. Acesso em: 14 mar. 2021.</p><p>Este componente é o objeto central do debate teológico e jurídico que se</p><p>intensificará na Península Ibérica em torno do direito natural dos povos recém-</p><p>descobertos de dispor de sua pessoa e de suas terras. Isso leva a um questionamento</p><p>da escravidão e da colonização, mas também das condições da evangelização</p><p>(BATAILLON, 1974). Além disso, a experiência jesuítica, cuja atividade missionária</p><p>começou em 1542, acumula-se, simultaneamente, em vários continentes. A presença</p><p>ativa de missionários jesuítas no Brasil não deixa de influenciar o uso atual dessa</p><p>noção teológica para nomear os primeiros ocupantes do país.</p><p>Enquanto o termo classificatório “gentio” é aplicado para se referir à</p><p>população nativa, o país tem um nome próprio desde o seu descobrimento.</p><p>129</p><p>A Carta de Pero Vaz de Caminha sobre o descobrimento do Brasil foi escrita</p><p>durante a expedição de Pedro Álvares Cabral que se dirigia à Índia com uma</p><p>poderosa frota de doze navios. Caminha mostra grande curiosidade e vivacidade,</p><p>fornecendo o máximo de detalhes possível sobre o país e seus habitantes,</p><p>complementando sua própria observação com a de seus companheiros enviados</p><p>como emissários à população. Em nenhum momento ele atribui aos habitantes</p><p>nomes ou designações particulares. Ele fala apenas de "homens", "mulheres",</p><p>"crianças", "jovens", "velhos", "pessoas". Aplica-lhes os mesmos termos usados para o</p><p>português e distingue as duas partes por meio dos pronomes pessoais "eles" e "os</p><p>nossos" (CAMINHA, 1948). Este é o procedimento habitual nos primeiros contatos,</p><p>quando a comunicação só pode ser estabelecida através da língua gestual, de</p><p>onde Caminha aponta possíveis equívocos e quando os portugueses querem poupar</p><p>o futuro das suas trocas com populações até aí desconhecidas.</p><p>Os intérpretes da frota, especialistas em linguagens africanas, não conseguem</p><p>compreender estes homens nem se fazerem entender por eles. Portanto, “não</p><p>podemos dar-lhes um nome”. Certamente não são “povos originários”. Se Pero Vaz</p><p>de Caminha não os trata diretamente como “gentios", dá-lhes todas as</p><p>características: não são circuncidados, não têm crença ou culto aparente, assustam-</p><p>se facilmente como as aves e os animais selvagens de que têm a instabilidade, mas</p><p>também a capacidade de serem domados, são inocentes e bons, representam o</p><p>estado de natureza, estão certamente bastante preparados para receber a palavra</p><p>do Evangelho, pois acreditavam que Deus os havia colocado na rota dos</p><p>portugueses (CAMINHA, 1948). Caminha atribui a missão ao rei, depois de especular</p><p>os benefícios que a coroa podia retirar dessas novas terras. O elemento humano é</p><p>duplamente valorizado, primeiro, no plano econômico como mão de obra e, no</p><p>plano moral, como futuros cristãos graças à ação evangelizadora inspirada pela</p><p>vontade régia. Caminha mostra-se um hábil cortesão, pois retoma aqui um</p><p>argumento essencial da política expansionista da coroa portuguesa (ALMEIDA, 2010).</p><p>130</p><p>Figura 6: Assinatura de Pero Vaz de Caminha</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3mkhJCU. Acesso em: 14 mar. 2021.</p><p>Essa representação dos habitantes do Brasil, cujo realismo, muitas vezes, foi</p><p>enfatizado, expressa uma mentalidade de mercado. Poupa-se o parceiro para</p><p>observá-lo melhor e aproveitar ao máximo a troca. Além disso, a evangelização</p><p>deste povo será feita em benefício da glória do Rei de Portugal. No entanto, nesta</p><p>primeira construção da imagem do habitante do Brasil, vê-se emergir as questões do</p><p>estado de natureza, do direito natural, da guerra justa com que jesuítas e</p><p>administradores do país serão confrontados cinquenta anos depois (ALBUQUERQUE,</p><p>1998a).</p><p>Dessa forma, percebemos os aspectos observados pelos portugueses no que</p><p>tange às características não somente físicas e psicológicas dos primeiros habitantes,</p><p>como também, sua profunda relação com a natureza e com o ambiente que os</p><p>cercavam, suas crenças, tradições, sua religiosidade e o seu conceito de sagrado</p><p>tão díspar dos colonizadores portugueses.</p><p>7.3 RELIGIÕES DE UM BRASIL COLONIAL</p><p>Em virtude dos poderes que lhe são atribuídos pelo padroado conferido pelo</p><p>Papa, o rei é responsável pela evangelização dos gentios e pelo envio de missionários</p><p>cujas despesas ele assume, tendo o poder e o direito de fundar igrejas, conventos e</p><p>nomear bispos. O padroado – padroado regio, em português, patronato ou</p><p>patronazgo real, em espanhol – rege a relação em termos de fé cristã entre os dois</p><p>soberanos da península e os habitantes das terras descobertas colocadas sob sua</p><p>jurisdição (ELIADE, 2009). É uma instituição exclusivamente ibérica e encaixa-se na</p><p>estratégia pontifícia de fortalecer o Ocidente cristão diante da pressão islâmica. Em</p><p>1455, o Papa Eugênio IV, na bula Romanus Pontifex, concedeu ao rei Afonso V e ao</p><p>Infante Henrique a capacidade de fundar e construir igrejas em territórios</p><p>descobertos e a serem descobertos, bem como a responsabilidade da</p><p>evangelização. Em 1456, a bula Inter Cœtera confirma esta concessão ao Grão-</p><p>131</p><p>Mestre da Ordem de Cristo, o Infante Henrique. No entanto, o direito de padroado</p><p>régio sobre as missões nasceu verdadeiramente no século XVI, na sequência de uma</p><p>série de bulas, a última das quais, de 1534, de Paulo III, Aequum Reputamus,</p><p>concedendo aos reis de Portugal todas as prerrogativas do Jus patronatus. Assim, o</p><p>rei João III convocou jesuítas em 1539 para evangelizar a Índia e esperou a</p><p>aprovação da Companhia por Paulo III em Roma, em 1540, para lhe oferecer essa</p><p>missão. Cronologicamente, a missão dos jesuítas no Brasil em 1549 é a quarta, depois</p><p>de Goa, em 1542; do Congo, em 1547; e de Marrocos, em 1548 (BATAILLON, 1974).</p><p>O direito de padroado (em latim jus patronatus ou ius patronatus) no direito</p><p>canônico católico romano é um conjunto de direitos e obrigações de alguém,</p><p>conhecido como patrono em conexão com uma doação de terra ou benefício. É</p><p>uma concessão feita pela igreja por gratidão a um benfeitor.</p><p>O direito de padroado é designado nas cartas papais como "Ius Spirituali</p><p>Annexum" e, portanto, está sujeito à legislação e jurisdição eclesiástica, bem como</p><p>às leis civis relativas ao direito de propriedade (GOMES, 2012).</p><p> Breve explanação sobre as religiões dos povos originários</p><p>À época do descobrimento, cada nação indígena tinha seus próprios rituais</p><p>e suas crenças específicas, diferenciando-se umas das outras. No entanto, a maior</p><p>parte dos povos originários criam nos elementos naturais, nas forças da natureza e</p><p>nos espíritos de seus antepassados (LARAIA, 1987).</p><p>Os povos originários realizavam cerimônias, celebravam rituais e festejavam</p><p>em nome desses espíritos e deuses, sendo que a figura central e responsável pelo</p><p>cerimonial indígena ficava a cargo do pajé, uma espécie de sacerdote tribal,</p><p>homem de influência política e religiosa, com poderes considerados sobrenaturais,</p><p>tanto de cura ou morte como de nascimento.</p><p>Era o guardião das forças espirituais</p><p>de uma tribo indígena, muitas vezes, um feiticeiro com poder de aconselhamento.</p><p>132</p><p>Na crença da vida após a morte, algumas tribos enterravam os corpos de</p><p>seus entes em imensos vasos de cerâmica, contendo, além do cadáver, seus objetos</p><p>de uso pessoal. Tal demonstração de rito demonstra um tipo de crença após a</p><p>morte.</p><p>Vários deuses dos povos originários estavam presentes em suas culturas.</p><p>Alguns desses deuses pertenciam a religiões específicas. Como exemplo, citaremos</p><p>alguns dos mais conhecidos e considerados mais importantes (LARAIA, 1987).</p><p>Os Tupi-guarani criam no deus Tupã, um deus que criou a terra, os mares e o</p><p>céu, além dos animais, das plantas e das árvores. Segundo os povos originários, Tupã</p><p>lhes deu o conhecimento da agricultura.</p><p>Como dualismo espiritual e religioso, formado aos pares, temos Guaraci e Jaci.</p><p>Guaraci era considerado o deus Sol, nascido de Tupã, sendo, pois, seu filho. A crença</p><p>mitológica dos Tupi-guarani cria que seu filho o ajudou na criação grandiosa da</p><p>natureza (LARAIA, 1987).</p><p>Em contrapartida, mas não em oposição, funcionando como uma dialética</p><p>sincrônica, temos a presença de Jaci, deusa Lua mitológica e símbolo de proteção</p><p>dos amantes e da reprodução de forma geral (LARAIA, 1987).</p><p>Além da tríade citada acima, temos também outros deuses, como Ceuci, a</p><p>protetora divina dos lares e das plantações dos povos originários, e Sumé, a deusa</p><p>que regia as regras e as leis dos povos originários. Criam os povos originários que ela</p><p>os ensinou o segredo do cozimento da mandioca, uma das bases alimentares dos</p><p>povos originários.</p><p>Na mitologia indígena Tupi-guarani também havia a guerra entre o bem e o</p><p>mal, e se Tupã, Jaci e Ceuci representavam o lado do bem, Anhangá era descrito</p><p>como um deus do mal e do inferno indígena Tupi-guarani (LARAIA, 1987).</p><p>Outros deuses faziam parte também das religiões de outros povos originários,</p><p>a exemplo de Yorixiriamori, um deus Ianomâmi que assumia a configuração de um</p><p>pássaro sagrado que cantava para as mulheres das tribos (BASTOS, 1994).</p><p>A nação Arara tinha como seu deus mais importante Akuanduba, uma</p><p>divindade que, de acordo com a mitologia, era responsável pela ordem que reinava</p><p>no mundo, afastando o caos através de suas músicas ao som de uma flauta mágica.</p><p>Menos conhecidos, os povos originários da tribo Lecunas criam em Wanadi, o</p><p>pai de todos os outros seres responsáveis pela criação do mundo (BASTOS, 1994).</p><p>Os povos originários de denominação Dessanas criam em Yebá Beló, uma</p><p>133</p><p>divindade feminina que, como o deus Tupã, criou todo o mundo conhecido por eles.</p><p>Aqui, percebemos a presença imponente de uma representação feminina como</p><p>elemento central e criador do universo, ao contrário da maioria de outras tribos e</p><p>povos originários, e também do resto do mundo, cuja missão de criador, deus,</p><p>divindade de todas as coisas é, notadamente, representada por um arquétipo</p><p>masculino. Tal pensamento de construção divina dos Dessanes é considerado, por</p><p>muitos historiados, filósofos e antropólogos, como uma evolução do pensamento</p><p>humano em centralizar o poder de todo o universo em uma representação da</p><p>mulher e a ela conceder tamanho poder, respeito e responsabilidade (BASTOS,</p><p>1994).</p><p>E, para finalizar, os Araweté tinham seu deus Aranãni que, ao som do seu</p><p>chocalho e de sua bela voz, em canto, criou todos os elementos conhecidos pelos</p><p>Arawetés, como a terra, as ilhas, os rios, o céu e, até mesmo, o subterrâneo (BASTOS,</p><p>1994).</p><p>Como apresentado acima, pudemos experienciar as manifestações religiosas</p><p>de um povo originário. Adiante, veremos como essas manifestações e essas várias</p><p>nações de povos originários sofreram com a chegada dos portugueses e espanhóis</p><p>na América Latina, de forma que esta cultura, até o momento intacta, funde-se a</p><p>outras, desmantela-se e se dissolve, ou por outras é dissolvida no processo de</p><p>aculturação.</p><p>134</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO</p><p>1. Temos, como conhecimento geral e pragmático, que o Brasil é um verdadeiro</p><p>celeiro de religiões, no melhor dos sentidos. Desde a colonização, religiões como</p><p>o Catolicismo, o Protestantismo, o Candomblé e a Umbanda fazem parte de</p><p>nossa cultura.</p><p>A Constituição da República, em 1891, considerou o Brasil como um Estado:</p><p>a) Laico.</p><p>b) Católico.</p><p>c) Estoico.</p><p>d) Ecumênico.</p><p>e) Sincretista.</p><p>2. Nos últimos anos, o Estado reconheceu que o sincretismo religioso vem sofrendo</p><p>certo desrespeito por parte de elementos da sociedade de uma forma geral. Ao</p><p>perceber tal situação, instituiu a Lei Federal nº 11.635 e criou:</p><p>a) O Dia da Consciência Negra no Brasil.</p><p>b) O Dia do Sincretismo Religioso.</p><p>c) A Semana da Paz em prol das Religiões.</p><p>d) O Dia contra a Intolerância Religiosa.</p><p>e) A Quarta-Feira de Cinzas.</p><p>3. Na Europa do século XVI, países como Portugal e Espanha foram nações que</p><p>influenciaram a nossa história religiosa e, para ambos os países, havia três</p><p>princípios que estabeleciam a relação entre o Estado e a Igreja.</p><p>Assinale a opção que retrata um desses princípios:</p><p>a) A autoridade vem do Estado.</p><p>b) Os poderes temporais e espirituais são interdependentes.</p><p>c) Os fins humanos são subordinados aos espirituais.</p><p>135</p><p>d) A religião não deve interferir na política.</p><p>e) O poder do soberano e da Igreja são independentes.</p><p>4. A igreja Católica, no Quinhentismo, sofreu várias críticas da sociedade cristã que</p><p>acreditava que padres e bispos encontravam-se em posições privilegiadas e, por</p><p>isso, abusavam do poder eclesiástico.</p><p>O primeiro a questionar e denunciar esses abusos, opondo-se à compra do</p><p>perdão por venda de indulgências foi:</p><p>a) João Calvino.</p><p>b) Martinho Lutero.</p><p>c) Henrique VIII.</p><p>d) Carlos V.</p><p>e) Marquês de Pombal.</p><p>5. A Carta de Pero Vaz de Caminha descreve os primeiros habitantes como</p><p>“gentios”, não atribuindo-lhes, ainda, o nome de “índios”, como ocorre mais</p><p>tarde. Quanto a estes, de início, não foram conquistados pela força, mas pela</p><p>simpatiza e por gestos corteses, de acordo com a própria carta.</p><p>O motivo que leva os descobridores a não atacarem os habitantes logo de início</p><p>baseia-se em:</p><p>a) Uma invocação teológica, a pedido dos jesuítas, principalmente o padre José de</p><p>Anchieta, grande catequizador dos gentios.</p><p>b) Um apelo dos reis de Espanha e Portugal para não dizimar os habitantes, na</p><p>tentativa de estabelecer uma comunicação entre os dois países.</p><p>c) Uma compreensão linguística e gestual entre os intérpretes da frota de Pedro</p><p>Álvares Cabral que são versados em vários idiomas africanos e povos originários.</p><p>d) No fato de os habitantes não serem circuncidados, deduzindo-se que não eram</p><p>judeus, e terem uma crença ou culto aparente em aves e animais selvagens.</p><p>e) Perceber os benefícios que a coroa portuguesa poderia lucrar em economia e</p><p>mão de obra, convertendo-os em futuros cristãos.</p><p>136</p><p>6. Devido a um sistema entre Estado e Igreja, estabelecia-se uma relação de</p><p>interesses entre os soberanos e o Papa, de forma que este concedia o direito de</p><p>evangelização, em seu nome, por meio dos soberanos que arcavam com os</p><p>custos e as despesas.</p><p>Essa relação diplomática era conhecida como:</p><p>a) Romanus Pontifex.</p><p>b) Padronado Regio.</p><p>c) Inter Coetera.</p><p>d) Aequum Reputamus.</p><p>e) Spirituali Annexum.</p><p>7. Após os vários ataques da Reforma Protestante, a Igreja reagiu, em um movimento</p><p>denominado Contrarreforma, uma resposta ao Protestantismo e às acusações</p><p>contra a Igreja.</p><p>Assinale a opção correta quanto a um dos itens pertencentes à Contrarreforma:</p><p>a) Dissolução dos Tribunais de Inquisição.</p><p>b) Liberação de alguns livros considerados apócrifos.</p><p>c) Liberação do Anglicanismo para o rei Henrique VIII.</p><p>d) Catequização dos gentios pelos jesuítas.</p><p>e) Tentativa</p><p>a Deus foram testados quando</p><p>ele lhe pediu para sacrificar o seu próprio filho. Visto que estava prestes a cumprir o</p><p>seu pedido, Deus interrompeu-o e Abraão sacrificou um carneiro (SILVA, 2013).</p><p>Quanto a Moisés, Deus fez dele um profeta, ou seja, o seu mensageiro: diz-se</p><p>que Deus lhe deu os Dez Mandamentos no Monte Sinai, que ele gravou nas tábuas</p><p>da Lei. Estes mandamentos foram transcritos para a Torá. Foi também Moisés quem</p><p>conduziu o povo hebreu do Egito até Canaã, guiado e ajudado por Deus, durante</p><p>a travessia do Mar Vermelho.</p><p>Os profetas que seguem Moisés fazem cumprir as regras religiosas e anunciam</p><p>a vinda de um Messias que será enviado por Deus para libertar Israel.</p><p>O Templo em Jerusalém, construído pelo Rei Salomão, era considerado a casa</p><p>de Deus. Os sacerdotes dirigiam-lhe sacrifícios de animais e orações. Na época dos</p><p>romanos, o Templo foi reconstruído por Herodes, o Grande. Foi destruído pelos</p><p>romanos em 70 d.C. O Muro Ocidental é o único vestígio que resta deste grandioso</p><p>templo de Herodes. Desde a sua destruição, este espaço é sagrado para os judeus,</p><p>inclusive cristãos (SILVA, 2013).</p><p>Após as invasões que sofreram, muitos judeus deixaram as suas terras. Durante</p><p>o período romano, com a destruição do Templo em 70 d.C., o número de judeus que</p><p>saiu aumentou e os que tinham vivido na Palestina - a terra de Canaã - partiram</p><p>para se estabelecerem em toda a bacia mediterrânica, e é esta dispersão da antiga</p><p>comunidade judaica é descrita como a Diáspora (MATA, 2010).</p><p>As comunidades judaicas estão particularmente presentes no sul da Espanha,</p><p>12</p><p>no centro da Itália, no vale do Nilo, na Grécia, no sul da Ásia Menor, na</p><p>Mesopotâmia. Os membros destas comunidades mantêm laços estreitos entre si</p><p>graças à perpetuação dos seus ritos e de suas tradições. Formaram bairros judeus</p><p>nas grandes cidades da antiguidade e reuniram-se regularmente nas suas</p><p>sinagogas. Após a destruição do Templo em Jerusalém pelos romanos, as sinagogas</p><p>tornaram-se os únicos locais de culto para os judeus. Nelas, os judeus leem</p><p>regularmente os pergaminhos da Torah, rezam e celebram festivais religiosos (MATA,</p><p>2010).</p><p>Assim, podemos afirmar que a Bíblia é uma coleção de textos fundadores da</p><p>primeira religião monoteísta da história: o Judaísmo. Esta religião servirá de base para</p><p>as outras religiões, como o Cristianismo e o Islamismo. É também um livro de</p><p>memórias que relembram os judeus das suas origens. Finalmente, serve-os na sua</p><p>vida quotidiana, regulando uma parte importante do seu comportamento.</p><p>1.2 CRISTIANISMO</p><p>Tanto o Cristianismo, que advém de grande parte do Judaísmo, como o</p><p>Islamismo, que retoma elementos considerados fundamentais para sua fé, é uma</p><p>religião que acredita em um Deus único, que , que foi revelado pela primeira vez a</p><p>Abraão, o patriarca, comum às três grandes religiões monoteístas. Constitui uma</p><p>religião revelada, tanto nas Escrituras quanto na pessoa de Jesus Cristo, buscando</p><p>revestir a vida humana de valores e oferece salvação (LE GOFF, 2013).</p><p>Veremos, agora, um breve histórico desta religião; atentamo-nos, no</p><p>momento, ao surgimento cronológico, ok!</p><p>Surgido no início de nossa era – conhecida como era cristã, pois teoricamente</p><p>13</p><p>começa com ela – o Cristianismo conheceu, no curso de uma história de dois</p><p>milênios, desenvolvimentos, crises e reformas.</p><p>Figura 2: Jesus crucificado, considerado o Messias</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3O26cVk. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>A atividade de Jesus na Palestina – um profeta e reformador religioso que</p><p>pregou de 27 a 30 d.C. – marca o início do Cristianismo. Naquela época, a Palestina</p><p>pertencia ao Império Romano e se distinguia por sua religião, o Judaísmo, que tinha</p><p>um status especial no império por causa de sua fé em um só Deus, o monoteísmo. A</p><p>ocupação estrangeira é, particularmente, mal percebida no país, onde o poder</p><p>político local é cada vez mais diminuído e compartilhado. Os filhos de Herodes, o</p><p>Grande, o último rei asmoneu, era subserviente a Roma. A Palestina, particularmente</p><p>Jerusalém, estava também sob o controle de um prefeito romano dependente do</p><p>legado da província da Síria. Os impostos eram pesados e a desestabilização social</p><p>e política é acompanhada por agitação religiosa (O´DONNELL, 2007).</p><p>Além disso, a assimilação da cultura helenística implementada em toda a</p><p>14</p><p>bacia mediterrânica após as conquistas de Alexandre, o Grande (VI a.C.) – bem</p><p>como os compromissos religiosos e políticos com o poder dominante – provocaram,</p><p>no Judaísmo, movimentos baseados na expectativa de um messias enviado por Deus</p><p>para restaurar a justiça e a paz. As correntes de renovação do Judaísmo são</p><p>múltiplas. Uma delas é a de João Batista, que pregava e batizava longe dos grandes</p><p>centros; o batismo que ele conferia, assumia o papel de perdão dos pecados, ao</p><p>contrário do Judaísmo ortodoxo cujo perdão era alcançado oferecendo sacrifícios</p><p>no Templo de Jerusalém.</p><p>Assim como João Batista, o judeu Jesus anuncia a vinda iminente do reino e o</p><p>julgamento de Deus; mas ele se distingue de João Batista porque insiste no amor de</p><p>Deus como um Deus que ama e perdoa, e que impõe sua ira aos iníquos. Só por isso,</p><p>ele já causa uma revolução para a época (O´DONNELL, 2007).</p><p>O principal testemunho da vida de Jesus, originário de Nazaré, na Galileia,</p><p>onde iniciou seu ministério, é o testemunho dos Evangelhos. No entanto, esses livros</p><p>não são biografias, mas interpretações de sua vida a partir de uma perspectiva</p><p>catequética. No entanto, é estabelecido com relativa certeza de que Jesus era um</p><p>pregador itinerante, que reunia discípulos ao seu redor, ensinava e realizava curas.</p><p>Ele queria fazer uma reforma no Judaísmo, anunciando a proximidade de Deus,</p><p>propondo outra maneira de entender sua. Jesus suscitou forte oposição dos líderes</p><p>religiosos judeus, o que levou à sua execução na forma do tormento romano da cruz.</p><p>Após sua morte, seus discípulos se reuniram em torno da fé em sua ressurreição, que</p><p>o autentica como o verdadeiro mensageiro de Deus. Assim, nasce o movimento de</p><p>Jesus, que é, em sua origem, um movimento de renovação interna do Judaísmo.</p><p>Os discípulos de Jesus se reúnem primeiro em Jerusalém, onde anunciam as</p><p>“Boas Novas” (em grego, euaggelion, “evangelho”) que Deus manifestou na pessoa</p><p>de Jesus: o esperado Messias ou Cristo. Entre aqueles que se enquadram em seu</p><p>grupo, estão os judeus que viveram fora da Palestina e que estão abertos à cultura</p><p>grega e seu universalismo. Os seguidores de Jesus desse Judaísmo helenístico são mais</p><p>abertos à fé e mais críticos das instituições judaicas do que os do Judaísmo palestino</p><p>(NODARI, 2017).</p><p>É assim que esses judeus helenizantes provocam confrontos com os líderes</p><p>religiosos judeus e são perseguidos por eles. O Cristianismo provocou muita aderência</p><p>dos gentios. Por quê? Porque oferecia, além da pregação discipular, uma maneira</p><p>de organização da vida sem marginalizar os pobres. Forçados a fugir, eles transmitem</p><p>15</p><p>o conteúdo da pregação de Jesus às margens da Palestina, em particular em</p><p>cidades onde as populações são muito misturadas, notadamente em Antioquia (na</p><p>Síria), onde há uma diáspora judaica e seguidores de várias religiões orientais. Muitos</p><p>não judeus estão convencidos por suas pregações e formam, com os judeus, um</p><p>grupo de discípulos de Jesus Cristo.</p><p>O movimento de Cristo transcende, assim, as fronteiras espirituais do Judaísmo.</p><p>Ele aceita, com efeito, membros que não pertencem ao povo de Deus, não</p><p>carregam a marca de sua pertença ao povo judeu, como a circuncisão e não</p><p>obedecem aos regulamentos judaicos como, por exemplo, sobre o puro e o</p><p>“impuro”. Em Antioquia, os seguidores de Jesus Cristo recebem o nome de cristãos</p><p>(SANCHIS, 2018).</p><p>A ruptura acontece: nasce uma</p><p>de aliança com os protestantes.</p><p>8. Com a criação da Igreja Luterana, em oposição à Igreja Católica, algumas</p><p>modificações foram estabelecidas, tais como revogação do culto aos santos e à</p><p>Virgem Maria.</p><p>Dos sete sacramentos estabelecidos pela Igreja Católica, Martinho Lutero</p><p>conservou:</p><p>a) O batismo e a comunhão.</p><p>b) O voto de celibato aos maiores de 30 anos.</p><p>137</p><p>c) A permanência da bíblia em latim.</p><p>d) As doações em prol da salvação.</p><p>e) As peregrinações a lugares sagrados.</p><p>138</p><p>CRISTIANISMO NO BRASIL</p><p>COLÔNIA</p><p>Ao longo do século XVI e início do XVII, tanto nas descrições sobre os povos</p><p>originários do Brasil, de viajantes como Américo Vespúcio, Pero Magalhães de</p><p>Gândavo, quanto de missionários jesuítas ou capuchinhos, um motivo de espanto foi</p><p>a total ausência de religião. Não tinham templo, nem ídolo, nem clero, nem</p><p>cerimônia, designados sob a fórmula “sem fé, sem lei, sem rei” (GÂNDAVO, 1964).</p><p>Inicialmente, para os missionários, essa aparente falta de crenças e rituais dos</p><p>povos originários pareceu-lhes uma vantagem. Os religiosos acreditavam que não</p><p>teriam que praticar a "extirpação" da idolatria e estavam ansiosos para preencher a</p><p>"página em branco": "He gente que nenhum conhecimento tem de Deus, nem ídolos,</p><p>fazem tudo quanto dizem", escreve padre Manoel da Nóbrega em sua primeira</p><p>carta, 10 de abril de 1549 (NÓBREGA, 1955).</p><p>Rapidamente, porém, essa ausência é sentida como uma falta. Em 1557,</p><p>menos de dez anos após sua chegada, o mesmo padre no “Diálogo da Conversão</p><p>do Gentio” expressa as dúvidas dos missionários diante do que percebem como</p><p>vazio:</p><p>“[...] mas, como nam sabem que cousa hé crer nem adorar, não</p><p>podem ouvir ha pregação do Evangelho, pois ella se funda em crer e</p><p>adorar a hum soo Deus, ea esse so servi; e como este gentio nam</p><p>adora nada, nem cree nada, todo o que lhe dizeis se fiqua nada”</p><p>(NÓBREGA, 1955, s/n).</p><p>A ausência de religião torna-se em si uma forma de obstáculo, uma ausência</p><p>de métodos para construir uma verdadeira estratégia de evangelização. Os</p><p>Erro!</p><p>Fonte de</p><p>referênci</p><p>a não</p><p>encontra</p><p>139</p><p>missionários queixaram-se da inconstância dos povos originários do litoral do Brasil,</p><p>que abandonaram as novas crenças tão rapidamente quanto as adotaram.</p><p>Segundo Silva (1963), os povos originários colocaram à sua maneira o problema da</p><p>incredulidade no século XVI e os missionários, profundamente moldados pela religião,</p><p>os julgaram serem incapazes de uma aptidão para a crença.</p><p>Figura 7: Manoel da Nóbrega</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3zrxyzD. Acesso em: 14 mar. 2021.</p><p>Quanto a isso, sigamos em nossos estudos para ver um pouco mais sobre como</p><p>a chegada dos missionários, principalmente jesuítas, ajudou a construir a história</p><p>teológica de um Brasil recém-descoberto.</p><p>Mas não sem antes lermos essa preciosidade aqui!</p><p>8.1 IMPACTO DA CHEGADA DOS JESUÍSTAS AO BRASIL</p><p>A experiência resultante da conquista dos gentios pelos portugueses leva a</p><p>140</p><p>uma representação dos primeiros habitantes do Brasil em duas categorias: a primeira</p><p>diz respeito à noção de gentio, seguindo uma reflexão e uma discussão sobre seus</p><p>direitos à autodeterminação e de sua propriedade. O índio, declarado livre pela bula</p><p>papal Sublimis Deus de 1537, coloca um problema, pelos obstáculos que a liberdade</p><p>dos gentios opõe à sua conversão. Disso resulta a posição contraditória dos jesuítas</p><p>que são tanto adversários ferozes da escravidão dos gentios em condições injustas</p><p>quanto partidários determinados da coerção para fazê-los aceitar a conversão</p><p>(ALBUQUERQUE, 1989b). Com efeito, tendo falhada a persuasão e o método brando,</p><p>os jesuítas são levados a admitir a sujeição para criar condições favoráveis à</p><p>evangelização. Esta é a tese defendida por Nóbrega, já em 1559, em uma carta ao</p><p>ex-governador Tomé de Sousa, que regressara a Portugal e a quem confiava "um dos</p><p>seus mais queridos desejos":</p><p>"[...] e submetidos ao constrangimento da obediência aos cristãos</p><p>para que possamos imprimir neles o que quisermos. Pois dada a sua</p><p>natureza, uma vez domada, a fé cristã se encaixará muito bem em</p><p>seu entendimento e sua vontade, como foi no caso do Peru e nas</p><p>Índias Ocidentais. Se os deixarmos viver livremente e de acordo com</p><p>sua vontade, sendo pessoas que vivem no estado animal, não</p><p>obtemos nada, como vimos por experiência durante todo o tempo</p><p>que passamos com eles, empregando muito trabalho sem colher mais</p><p>frutos do que algumas almas inocentes que enviamos para o céu”</p><p>(NÓBREGA, 1955, s/n).</p><p>Impulsionados pelo projeto apostólico que domina sua consciência e sua</p><p>conduta, os jesuítas têm procurado impor aos que os cercam, no Brasil e em toda a</p><p>cristandade, sua própria noção de gentio. Qualquer reflexão sobre o índio é</p><p>submetida à discussão e arbitragem dos padres da Companhia em Coimbra e</p><p>Roma, e confrontada com as demais observações dos jesuítas de todo o mundo. A</p><p>experiência brasileira alimentou o debate em torno das questões dos direitos naturais</p><p>e das guerras justas que foram retomadas no tratado De Iustitia, publicado em 1593</p><p>pelo jurista espanhol Luis de Molina, que lecionava na Universidade Jesuíta de Évora.</p><p>141</p><p>Figura 8: Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3ay97px. Acesso em: 14 mar. 2021.</p><p>No processo de evangelização pelos jesuítas, estes valeram-se de um alto nível</p><p>de observação entre as diferentes reações das nações existentes. O acúmulo de</p><p>conhecimento permitiu separar os gentios em dois polos, considerados bons e maus</p><p>de acordo com sua capacidade de assimilar ou não os ensinamentos dos padres</p><p>(GOMES, 2012). Ainda que os povos originários do litoral falassem a mesma língua e</p><p>seus costumes fossem apresentados como um todo coerente pelos autores dos</p><p>tratados, as distinções são marcadas pela denominação das nações, seus modos de</p><p>vida particulares e seu grau de hostilidade mais ou menos grande com relação aos</p><p>portugueses. Vemos que, assim, elabora-se uma hierarquia na representação dos</p><p>gentios, combinando vários parâmetros. O cume é ocupado pelos povos originários</p><p>mais pacíficos, amigos dos portugueses, não antropófagos e não polígamos,</p><p>sedentários, cristianizados etc., ou seja, aqueles que estão mais ou menos</p><p>pacificados, no processo de sedentarização e evangelização (GEERTZ, 2008). A base</p><p>da hierarquia é composta por rebeldes contra qualquer contato com cristãos,</p><p>canibais, andarilhos e isolados por sua linguagem incompreensível para os outros. Esta</p><p>hierarquia é acompanhada por um mapa das diferentes nações: do litoral para o</p><p>interior, do sul ao norte. A nova grade acompanha de perto o progresso da</p><p>colonização e mantém esse processo de integração por hierarquia ao longo dos</p><p>séculos seguintes. Quando o índio, denominação única exclusiva, toma o lugar do</p><p>gentio, essa hierarquia desaparece. Torna-se “gentilizado” em uma diferença</p><p>percebida de forma negativa por parte de outras nações, estabelecendo um sinal</p><p>142</p><p>de recusa (GEERTZ, 2008).</p><p>8.2 A CATEQUIZAÇÃO INDÍGENA: POR QUE NÃO CATEQUESE?</p><p>Muito se tem indagado acerca da catequese ou do ato de catequizar os</p><p>gentios nas terras do Brasil. E, para isso, faz-se necessário compreender uma série de</p><p>fatos históricos relacionados à presença dos jesuítas para o processo de</p><p>evangelização dos nativos.</p><p>Os padres jesuítas apresentavam, no século XVI, a hierarquia da humanidade</p><p>bárbara. Os chineses, os japoneses, os povos originários da Índia eram representados</p><p>pela categoria de bárbaros que se caracterizam por um regime estável de governo</p><p>e a existência de leis públicas. Mexicanos e peruanos são representantes da</p><p>categoria intermediária de bárbaros que não possuem</p><p>leis escritas, mas que possuem</p><p>magistrados, cidades e memória histórica. Finalmente, a última categoria de</p><p>bárbaros é a fronteira última da humanidade: homens sem escrita, sem lei, caçadores</p><p>e coletores. A esta inumerável categoria, tanto na América como em certas regiões</p><p>da Ásia, pertenciam os povos originários do Brasil (SAUNDERS, 2005).</p><p>Na sua concepção, os jesuítas resumem as diferentes formas de conversão</p><p>correspondentes aos três tipos de bárbaros. Para os bárbaros da primeira categoria,</p><p>eles recomendavam, como método de conversão, a persuasão racional baseada</p><p>na discussão pacífica e no ensino fundamentado, citando como modelo os</p><p>Apóstolos que converteram os gregos e os romanos. Para os bárbaros que viviam em</p><p>sociedades organizadas, mas menos racionais, como os Astecas e os Incas, a</p><p>143</p><p>coerção devia ser combinada com a persuasão e deviam ser governados por um</p><p>líder cristão. Finalmente, a última categoria era educada primeiro humanamente,</p><p>depois religiosamente. Se a persuasão não funcionasse, o uso da força era</p><p>recomendado.</p><p>As diferentes dimensões políticas, culturais e religiosas do processo de</p><p>conversão ficaram comprovadas diante de civilizações mais desenvolvidas, de</p><p>maneira que os missionários usaram a persuasão, sem recorrer à força. Esse método</p><p>de persuasão, que dependia da adaptação necessária ao público, tem sido</p><p>chamado de acomodação. Por outro lado, as outras experiências missionárias teriam</p><p>sido as de coerção e aculturação indígena (SAUNDERS, 2005).</p><p>A China e a Índia eram, na época da expansão marítima da Europa, os únicos</p><p>países do mundo onde se fazia um esforço real para adaptar os missionários às</p><p>civilizações estrangeiras. Os jesuítas se deram ao trabalho de aprender as tradições</p><p>eruditas desses países de antiga civilização. A situação era bem diferente onde</p><p>portugueses e espanhóis se impuseram pela conquista: a evangelização poderia ser</p><p>feita ali de forma mais autoritária.</p><p>A cristianização na América Latina segue a conquista e a abordagem</p><p>universalista que consiste em modelar o outro como a si mesmo, em sua versão</p><p>coercitiva, como parece óbvio. A técnica usada era para destruir as práticas</p><p>religiosas locais, enquanto nas civilizações pagãs mais resistentes, são tomadas</p><p>medidas de acomodação. Domina, então, a abordagem étnica que, por falta de</p><p>algo melhor, é utilizada como uma abordagem estratégica e temporária em relação</p><p>ao universal. No caso das Américas, a situação é mais complexa, já que o processo</p><p>de conversão é cultural, religioso e de dominação política (DIAS, 1982).</p><p>Notando a dificuldade de conversão dos povos originários americanos, os</p><p>jesuítas sugerem, apoiando-se, explicitamente, na autoridade e na experiência de</p><p>outros povos, uma certa "tolerância" quanto aos seus costumes e aos costumes da</p><p>Igreja, em uma mediação com os povos originários para levá-los gradualmente à</p><p>conversão. Eles exortam os sacerdotes a falar a língua indígena, conhecer os</p><p>costumes e desenvolver um trabalho de empatia com eles (SAUNDERS, 2005).</p><p>O processo de evangelização pode ser pensado a partir da ideia de fronteiras.</p><p>A vontade de conversão por parte das autoridades coloniais, incluindo os</p><p>missionários, está intimamente ligada à questão da expansão territorial. A dimensão</p><p>militar da fronteira aparece claramente na expressão de conquista espiritual que é</p><p>144</p><p>usada pelos contemporâneos da época, já que o pagão a ser convertido ou o</p><p>neófito correspondem à fronteira no sentido figurado, sendo estes o objetivo dos</p><p>jesuítas, ou seja, transformar e converter. A história missionária só pode ser uma história</p><p>ocidental centrada nos missionários na medida em que haja uma interação histórico-</p><p>teológica entre missionários e gentios (DEMO, 2013).</p><p>No caso do Brasil, os missionários se definem em relação à religião tupinambá,</p><p>que não é dada, mas construída por esses mesmos missionários. A religião tupinambá</p><p>é problemática para os clérigos ocidentais que têm dificuldade em definir a natureza</p><p>da religião dos povos originários que são definidos ora como homens sem religião,</p><p>ora como homens sujeitos ao seu caraíba, sendo estes personagens ambíguos –</p><p>figuras positivas dotadas de muitos poderes, mas também, negativas que trazem</p><p>doença e morte. Os religiosos traduzem este termo por “profetas”, “feiticeiros” ou</p><p>“santos” (CARDIM, 2003).</p><p>Figura 9: Um pajé, espécie de feiticeiro tribal</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3Q5yzmD. Acesso em: 14 mar. 2021.</p><p>A ausência do que eles consideravam uma religião coerente não os impede</p><p>de buscarem vestígios da verdadeira religião, ou sinais da presença do diabo, sendo</p><p>isso necessário até para justificar a potencialidade da conversão dos povos</p><p>originários. Assim, a partir de agosto de 1549, Manoel da Nóbrega, em uma descrição</p><p>do Brasil aos padres de Coimbra, dedica sete parágrafos dos dez contidos na carta</p><p>à questão da religião dos Tupi, os povos originários do litoral do Brasil. Depois de</p><p>145</p><p>reafirmar que os povos originários não tinham conhecimento nem adoração a Deus,</p><p>eles evocam o trovão como sendo uma "coisa divina" para eles (NÓBREGA, 1955).</p><p>Nóbrega descreve uma religião de feiticeiros, uma religião falsa, invertida, no</p><p>entanto, uma espécie de religião com suas crenças, suas cerimônias, seus</p><p>sacerdotes. A inspiração desta religião que finge santidade é, como diz o próprio</p><p>Nóbrega, sem dúvida, o diabo. Se o filtro de leitura é muito ocidental como a noção</p><p>do diabo, as crenças descritas referem-se a elementos próprios da cultura indígena,</p><p>como a natureza itinerante dos feiticeiros, o fato de estarem fora da comunidade, a</p><p>dimensão profética de sua pregação, a natureza do paraíso que pregam, além da</p><p>suspensão do trabalho e do tempo, felicidade da guerra e o canibalismo (NÓBREGA,</p><p>1955).</p><p>Assim, para os jesuítas, se os povos originários não têm religião, a rigor, têm</p><p>feiticeiros inspirados pelo diabo. Tem-se outra descrição muito precisa do padre</p><p>Azpicuelta Navarro, missionário de campo que, durante uma expedição, em 1555,</p><p>no interior do sertão da Bahia, assistiu a uma cerimônia de feiticeiros que o fez</p><p>derramar muitas lágrimas porque constituiu, a seus olhos, a prova de que os povos</p><p>originários são presas do Maligno – o que não estava claro para os jesuítas até que</p><p>reconheceram cerimônias de idolatria entre eles (COUTINHO, 1951). A falsa religião</p><p>inspirada no diabo descrita pelos jesuítas nesses diversos documentos marca a</p><p>fronteira religiosa do Brasil quinhentista no sentido de um objetivo a ser alcançado.</p><p>146</p><p>Esta é, de fato, uma fronteira religiosa construída pelos jesuítas de acordo com</p><p>seus próprios critérios para definir uma religião. Para eles, várias tribos, a exemplo dos</p><p>Tupinambás, não tinham instituições religiosas claramente estabelecidas, portanto,</p><p>não tinham realmente uma religião, mas, havia alguns elementos de uma falsa</p><p>religião inspirada no diabo e, em particular, nos feiticeiros.</p><p>8.3 MARQUÊS DE POMBAL E A EXPULSÃO DOS JESUÍTAS DO BRASIL</p><p>O documento que desencadeou a campanha antijesuítica em Portugal e</p><p>resultou na supressão da Companhia de Jesus foi publicado em 1757 sob o título de</p><p>“Relação Abreviada”. Seguiram-se várias denúncias, redigidas sob a tutela de</p><p>Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, quando este foi</p><p>ministro no governo de José I (1750-1777). Obra fundadora do antijesuitismo</p><p>pombalino, a “Relação” condensou os principais argumentos do governo português</p><p>contra a Companhia de Jesus. O seu impacto, no entanto, não se deveu apenas ao</p><p>seu conteúdo paradigmático, mas também, à sua distribuição: vinte mil exemplares</p><p>em várias línguas (português, francês, italiano, espanhol e alemão) primeiro</p><p>circularam amplamente em Portugal, depois, por via diplomática, canais em toda a</p><p>Europa,</p><p>incluindo Roma (BATAILLON, 1974).</p><p>A Relação Abreviada não tem indicação de autor, mas consiste na fusão de</p><p>dois textos. Um primeiro documento impresso sob o título Pontos principais a que se</p><p>repreendem os domínios com que os América-religiosos têm os domínios da</p><p>Companhia de Jesus usurpados’, e um segundo, apresentado como Relato militar da</p><p>oposição jesuíta ao respeito às fronteiras definidas pelo Tratado de Madri, assinado</p><p>pelas duas coroas em 1750. No Paraguai e no Uruguai, os padres chegaram a</p><p>organizar uma resistência armada indígena para impedir a execução do Tratado.</p><p>Os dois textos estão atrelados um ao outro na medida em que o primeiro é</p><p>uma formulação teórica do modo como os jesuítas conseguiram usurpar as</p><p>possessões ibéricas e construir uma República independente, denunciada na história</p><p>veiculada pelo segundo: os "pontos principais" resumiam-se à usurpação da</p><p>liberdade dos povos originários, de seus territórios e tudo o que poderia pertencer por</p><p>direito aos habitantes naturais dessas terras. Assim, a palavra “usurpação” aparece</p><p>da seguinte forma: a usurpação da liberdade dos povos originários, a usurpação das</p><p>propriedades desses povos originários, a usurpação das paróquias desses povos</p><p>Highlight</p><p>147</p><p>originários, a usurpação do governo temporal desses povos originários, a usurpação</p><p>da terra e do comércio marítimo desses povos originários (DIAS, 1982).</p><p>A intensa campanha de difamação aberta por este documento não tardou a</p><p>surtir efeitos: em 3 de setembro de 1759, José I decretou a expulsão dos jesuítas de</p><p>Portugal e de suas colônias, e o mesmo ocorreu em vários outros países europeus. Até</p><p>que, em 21 de julho de 1773, o Papa Clemente XIV finalmente emitiu o Breve Dominus</p><p>ac Redemptor, que suprimiu a Ordem Jesuíta.</p><p>Figura 10: Pintura retratando o Marquês de Pombal</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3x9cN8Z. Acesso em: 14 mar. 2021.</p><p>Essa acusação estava, de fato, enraizada em um debate secular que, no</p><p>mundo europeu, opunha os partidários de uma preeminência do poder espiritual</p><p>sobre o poder temporal àqueles que defendiam uma certa autonomia do poder</p><p>temporal. Durante mais de três séculos de confrontos militares e teóricos sobre o</p><p>assunto, o Império e o Papado afirmaram suas respectivas reivindicações universais,</p><p>ambos ameaçando, constantemente, a soberania dos Estados nascentes. Como</p><p>resultado, a campanha dirigida contra a Companhia de Jesus pode ser</p><p>compreendida no quadro mais geral da construção de um discurso anticlerical</p><p>ligado à afirmação do absolutismo régio português (BATAILLON, 1974).</p><p>No entanto, a questão assumiu particular destaque no discurso pombalino. O</p><p>poder temporal dos jesuítas, denunciado em Portugal, dizia respeito muito</p><p>concretamente ao mundo colonial e, especificamente, à administração das aldeias</p><p>ou “reduções” povos originários nos territórios americanos. Assim, a primeira questão</p><p>148</p><p>a examinar sobre a campanha antijesuítica pombalina é o fato de os povos</p><p>originários se encontrarem no centro das controvérsias sobre o poder temporal. E, de</p><p>fato, em um sistema de exploração colonial, a principal queixa dirigida aos padres</p><p>era que, administrando as aldeias nativas, eles também controlavam o trabalho dos</p><p>povos originários e, por esse meio, a agricultura e o comércio das colônias.</p><p>Sabe-se que essas acusações não eram novas: a literatura antijesuítica</p><p>produzida desde o início da atividade da Companhia de Jesus na América revela</p><p>claramente que o governo dos povos originários sempre foi um ponto de discórdia</p><p>entre os jesuítas e o resto da colônia. Essa constatação está relacionada com a</p><p>supressão da ordem, representa um longo processo cumulativo de censura e,</p><p>consequentemente, de redução progressiva do poder político jesuíta (ALMEIDA,</p><p>2010).</p><p>Esse controle abrangia tanto a jurisdição interna das aldeias quanto as</p><p>relações com o mundo exterior, especialmente, a circulação e as condições de</p><p>saída dos povos originários cujos serviços os colonos portugueses contratavam. É por</p><p>esta razão que o duplo interesse militar – ligado à defesa do território econômico e à</p><p>reserva de mão de obra representado pelos aldeamentos – constituiu sempre a</p><p>principal fonte dos conflitos que opuseram os colonos aos jesuítas e à Coroa.</p><p>Para os colonos, a cobiça dos jesuítas era a principal causa das divisões</p><p>internas na República, presente na dupla jurisdição dos aldeamentos – espiritual e</p><p>temporal – que isolava a população indígena do resto da sociedade colonial. Esta</p><p>acusação foi complementada por outra: a Companhia de Jesus enriquecera-se</p><p>ilegalmente, explorando o trabalho dos aldeados nativos, a quem deveria contentar-</p><p>se em ensinar a doutrina. Além disso, o controle jesuíta da mão de obra indígena</p><p>havia gerado concorrência desleal, na medida em que os padres recusavam os</p><p>povos originários aos colonos, declarando-os livres e não escravos, e apropriando-se</p><p>dos que trabalhavam nas terras dos proprietários para instalá-los em aldeias</p><p>colocadas sob sua jurisdição (ALBUQUERQUE, 1989b).</p><p>Toda a discussão acabou levando a uma disputa sobre como integrar os</p><p>povos originários na sociedade civil na constituição de uma República. Os jesuítas</p><p>basearam sua resposta no que os teólogos de Salamanca haviam definido como</p><p>sendo o direito natural e o “direito das gentes”: os povos originários eram livres por</p><p>natureza e, como primeiros habitantes dessas terras, eram possuidores de suas</p><p>propriedades. No entanto, como eram "bárbaros" e "brutos", deviam permanecer</p><p>149</p><p>sujeitos a um sistema de "tutela" segundo o qual cabia aos missionários integrá-los na</p><p>vida política, primeiro civilizando-os e depois, tornando-os cristãos. Os colonos, ao</p><p>contrário, defendiam uma “servidão natural” dos povos originários, segundo uma</p><p>concepção de tipo aristotélico. Sua vida, seus costumes, segundo eles, tornou os</p><p>povos originários impróprios para a liberdade, merecendo a escravidão porque</p><p>agiram contra a lei natural (DIAS, 1982).</p><p>Assim, os padres acrescentaram outro argumento à controvérsia: o</p><p>comportamento muito anticristão dos proprietários portugueses. Estes, que</p><p>submeteram os povos originários à violência e à servidão ilegítima, obrigaram os</p><p>missionários a exercer sua “tutela” sobre os povos originários, a fim de protegê-los. Em</p><p>sua resposta coletiva aos colonos, missionários indagados negaram "possuir" os</p><p>aldeamentos, assegurando que estes pertenciam apenas ao rei e ao povo e que os</p><p>padres só faziam uso dos povos originários em favor de um salário, como outros</p><p>colonos. A sua jurisdição sobre os povos originários limitava-se à educação e a</p><p>algumas penitências: eram obrigados a trabalhar e, se não trabalhavam, eram</p><p>punidos, "como os pais aos filhos". O seu papel entrou nas condições previstas pelos</p><p>teólogos de Salamanca: a Igreja podia e devia intervir em qualquer questão</p><p>temporal, se fosse necessário, para um fim espiritual, neste caso, a conversão dos</p><p>bárbaros e a defesa dos convertidos (DIAS, 1982).</p><p>Embora a hierarquia romana tenha sido informada já na década de 1540 da</p><p>exploração do trabalho escravo em Portugal, a menção explícita do problema</p><p>brasileiro neste documento de 1558 atesta a preocupação do governo da Ordem</p><p>diante das estratégias que se desenvolviam nas terras de missão. A opção pelo</p><p>autofinanciamento da atividade da Companhia se apresentava no Brasil como</p><p>condição necessária para a expansão da missão jesuítica: fontes de renda estáveis</p><p>e independentes se opunham aos favores régios aleatórios. A discussão romana</p><p>desses aspectos econômicos certamente estava em descompasso com as práticas</p><p>no terreno, mas ainda era atual: a evangelização do Brasil encontrou contradições e</p><p>limites inerentes à sua inserção em uma sociedade colonial em formação (DIAS,</p><p>1982).</p><p>Se voltarmos à campanha antijesuítica pombalina, sem dúvida,</p><p>reconhecemos entre os “pontos principais” do discurso certos aspectos da literatura</p><p>anterior, mas também acentos bastante novos. Embora os documentos antigos</p><p>tenham sido reaproveitados por mentores de campanha, a própria substância da</p><p>150</p><p>acusação, sobre a integração dos povos originários à República, foi revertida. Os</p><p>povos originários continuam a ser o principal ponto de discórdia, mas da mesma</p><p>forma que a Apologia pro paulistis transformou o discurso jesuíta, a campanha</p><p>antijesuítica pombalina revela sobre o problema da sua integração política um ponto</p><p>de vista fundamentalmente diferente do da sociedade colonial (BATAILLON, 1974).</p><p>Como indica claramente o seu título de pontos principais – a América que se</p><p>repreendem os maus tratos com que os espanhóis da Companhia Jesus usurpam os</p><p>domínios – da posses das duas Coroas Ibéricas para construir uma República</p><p>autônoma. O documento acusa os jesuítas, nos cinco "pontos", de usurpar o que</p><p>pertencia aos povos originários pela lei natural e pelo povo, exercendo sobre eles um</p><p>poder ilegítimo: sua liberdade, seus bens, a administração de suas paróquias, seu</p><p>governo temporal e suas atividades de negócio.</p><p>Foi do país que primeiro acolheu os missionários jesuítas, Portugal, que</p><p>começou a campanha antijesuítica. Marquês de Pombal, Primeiro-ministro e homem</p><p>do Iluminismo, que admirava a Inglaterra onde a Igreja estava inteiramente sob o</p><p>controle do poder soberano, acreditava que os jesuítas tinham muita influência na</p><p>Corte. Lá, foram proibidos em 1758. Um panfleto publicado pelo jesuíta Gabriel</p><p>Malagrida, alegando que o terremoto que devastou Lisboa em 1755 foi um “castigo</p><p>divino” que exigia arrependimento irrita Pombal. Múltiplas representações e</p><p>memórias acusando os jesuítas de ganância em reduções, desobediência e outros</p><p>crimes são enviadas ao Papa Bento XIV, mas não dão em nada por falta de provas.</p><p>Bento XIV concede uma visita canônica dos jesuítas de Portugal que não tem futuro</p><p>(DIAS, 1982).</p><p>151</p><p>Figura 11: Pintura do papa Bento XIV</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3NX8ftc. Acesso em: 14 mar. 2021.</p><p>Uma tentativa fracassada contra o rei José I permite que Pombal aja. Em 3 de</p><p>setembro de 1758, o rei é vítima de um ataque ao qual sobrevive. Membros da família</p><p>ducal de Távora, próximos dos jesuítas, são acusados de serem os instigadores. Sob</p><p>tortura, os agressores mencionam os jesuítas. No início de 1759, uma dezena deles foi</p><p>presa. Um julgamento rápido condena a família de Távora: doze membros da família</p><p>são executados. A propriedade jesuíta é confiscada. Ao núncio apostólico, que exige</p><p>provas, nada é apresentado. Três meses depois de confiscar suas propriedades, José</p><p>I informou ao papa que havia decidido expulsar os jesuítas de todos os territórios</p><p>portugueses, exceto para aqueles que renunciariam aos seus votos (DIAS, 1982).</p><p>Em setembro de 1759, cento e trinta e três sacerdotes são colocados em um</p><p>barco com destino a Civitavecchia, nos Estados Papais. Para surpresa de Pombal,</p><p>persuadido de que os “libertava” dos votos, a maioria dos não padres, irmãos e</p><p>estudantes jesuítas optou por acompanhar os padres no exílio. Em outubro, os jesuítas</p><p>são declarados “rebeldes e traidores”.</p><p>Quando a operação foi concluída, cerca de mil e cem jesuítas portugueses</p><p>expulsos de Portugal e suas colônias estavam exilados na Itália. Perto de duzentos</p><p>permanecem nas prisões em Portugal. Os sobreviventes, cerca de sessenta, não</p><p>serão libertados até 1777, após a morte de José I. Sebastião José de Carvalho é</p><p>premiado, desde 1770, com o título a que será reconhecido pela história como o</p><p>Marquês de Pombal (DIAS, 1982).</p><p>152</p><p>153</p><p>FIXANDO CONTEÚDO</p><p>1. Os jesuítas perceberam uma dificuldade no processo de evangelização dos</p><p>gentios, considerados livres pela bula papal de 1537.</p><p>Tal situação constitui uma contradição, já que:</p><p>a) Os jesuítas, adversários à escravidão, usaram de coerção para o processo de</p><p>conversão.</p><p>b) A bula papal de iustitia considerava o índio com direito à propriedade e à</p><p>liberdade.</p><p>c) Os colonizadores queriam usar de métodos brandos e os jesuítas preferiam a</p><p>servidão.</p><p>d) Padre manoel da nóbrega solicitou a inácio de loyola que os povos originários</p><p>fossem considerados livres, mas não donos de suas terras.</p><p>e) Os jesuítas queriam evangelizar os povos originários, mantendo-os em seu estado</p><p>animal natural, ao contrário dos colonizadores.</p><p>2. O processo de evangelização estabeleceu critérios para definir a separação dos</p><p>gentios em dois extremos, classificados entre ‘bons’ e ‘maus’.</p><p>Assinale a alternativa que contém um dos critérios estabelecidos pelos</p><p>evangelizadores.</p><p>a) Capacidade de assimilar as orações em latim, como o Pai Nosso e a Ave Maria.</p><p>b) Grau de hostilidade em relação aos portugueses.</p><p>c) Hierarquia entre as nações gentias mais ricas em relação às mais pobres.</p><p>d) Capacidade de trocas de objetos de valor econômico, principalmente metais e</p><p>pedras preciosas.</p><p>e) Habilidade para caça e pesca, aguçamento dos sentidos para a proteção da</p><p>tribo e dos próprios evangelizadores.</p><p>3. Para os jesuítas, a humanidade bárbara era dividida em hierarquias, de acordo</p><p>com seus conceitos estabelecidos no século XVI.</p><p>154</p><p>Assinale a alternativa correta em relação ao fato estabelecido no livro sobre essa</p><p>hierarquia.</p><p>a) Os povos originários americanos, como os brasileiros, pertenciam à categoria</p><p>intermediária, pois não possuíam escrita, mas tinham caciques, tribos e memória</p><p>histórica.</p><p>b) Os indianos pertenciam à classe intermediária, cujo regime de casta, por ser mais</p><p>inflexível, demonstrava uma certa resistência a mudanças quanto à</p><p>evangelização.</p><p>c) Tanto os chineses quanto os mexicanos pertenciam à primeira categoria de</p><p>bárbaros, com regime estável e existência de governo.</p><p>d) Os japoneses eram considerados bárbaros de primeira categoria, com existência</p><p>da escrita, leis públicas e regime de governo estável.</p><p>e) Peruanos e astecas, assim como os povos originários brasileiros, eram</p><p>considerados os últimos na categoria de bárbaros: homens sem escrita,</p><p>caçadores e canibais.</p><p>4. Vimos, durante nossos estudos, que os evangelizadores usavam de três métodos,</p><p>em particular, para atingirem seus objetivos, tais como a coerção e a força, em</p><p>último caso.</p><p>Assinale a alternativa em que um método era sempre usado antes de</p><p>implementarem os outros dois.</p><p>a) Adaptação.</p><p>b) Acomodação.</p><p>c) Conversão.</p><p>d) Tradição.</p><p>e) Persuasão.</p><p>5. Manuel da Nóbrega, ao descrever os povos originários aos padres de Coimbra,</p><p>reforça a ideia de que eles tinham uma espécie de religião, a exemplo dos Tupis,</p><p>cuja religião era calcada na adoração ao trovão como algo divino.</p><p>155</p><p>No entanto, sua descrição, ao longo da carta, deixa clara, em sua versão mais</p><p>contundente, que a religião dos povos originários tinha como inspiração:</p><p>a) O diabo.</p><p>b) A feitiçaria.</p><p>c) A santidade.</p><p>d) As crenças.</p><p>e) As cerimônias.</p><p>6. Os jesuítas demonstravam certas controvérsias para definir a religião dos povos</p><p>originários brasileiros, ora atribuindo-lhes uma religião, ora atribuindo-lhes a</p><p>característica de não possuírem uma.</p><p>O jesuíta Azpicuelta Navarro assistiu a uma cerimônia indígena e derramou muitas</p><p>lágrimas, pois:</p><p>a) Percebeu que suas cerimônias eram ingênuas e carregadas de sentimentalismo</p><p>religioso.</p><p>b) Sentiu que eles eram ludibriados pelos colonizadores e acreditavam em uma</p><p>troca justa.</p><p>c) Percebeu que os povos originários estavam presos ao maligno, ao ser do mal que</p><p>os jesuítas combatiam.</p><p>d) Sabia que a forma de evangelização que administravam aos povos originários</p><p>não era condizente com suas necessidades teológicas.</p><p>e) Tinha a certeza</p><p>de que eles precisavam – os jesuítas – de livrarem os povos</p><p>originários da escravidão a que estavam sendo impostos.</p><p>7. Sebastião Jose de Carvalho e Melo, mais conhecido como Marquês de Pombal,</p><p>era um adversário austero em relação à presença dos jesuítas em terras coloniais.</p><p>A exemplo, escreveu uma obra que narrava alguns desses aspectos.</p><p>Sua obra contra os jesuítas denominava-se:</p><p>a) Supressão da Companhia de Jesus.</p><p>156</p><p>b) Relação Abreviada.</p><p>c) Principais Argumentos Antijesuitismo.</p><p>d) Conteúdo Paradigmático Cristão.</p><p>e) América-religiosos e o Domínio dos Jesuítas.</p><p>8. A intensa campanha do Marquês de Pombal surtiu efeito, levando os jesuítas a</p><p>serem expulsos de Portugal e de suas colônias, e o mesmo ocorreu em outros</p><p>países europeus.</p><p>O documento oficial que suprimiu, de vez, a ordem jesuíta foi:</p><p>a) Actus Justus Imperius, bula papal de José I.</p><p>b) Dominus ac Coloniarum, escrita por Clemente XV.</p><p>c) Apologia pro Paulistis, de Carlos Magno.</p><p>d) Civitavecchia, do papa Gabriel IV.</p><p>e) Dominus ac Redemptor, escrita pelo Papa Clemente XIV.</p><p>157</p><p>A CHEGADA DOS AFRICANOS EM</p><p>SOLO BRASILEIRO</p><p>"A escravidão permanecerá por muito tempo na característica nacional do</p><p>Brasil." Essa ideia, formulada pelo abolicionista Joaquim Nabuco em 1900, não</p><p>poderia ser mais verdadeira. Atravessou o século XX, e hoje é cantada por Caetano</p><p>Veloso em seu álbum Noites do Norte, de 2000. É indiscutível que as marcas da</p><p>escravidão, que vigoraram no Brasil por quase trezentos e cinquenta anos, desde a</p><p>chegada dos primeiros africanos escravizados em meados do século XVI, até a</p><p>abolição em 1888, ainda estão presentes na sociedade brasileira. Talvez seja por isso</p><p>que poucos assuntos tenham se beneficiado tanto da atenção dos historiadores</p><p>brasileiros como este.</p><p>Vejamos, então, alguns destes aspectos para melhor contextualizar e ordenar</p><p>essas ideias.</p><p>Erro!</p><p>Fonte de</p><p>referênci</p><p>a não</p><p>encontra</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>158</p><p>9.1 QUE VENHAM OS NOVOS ESCRAVOS</p><p>Quando falamos de escravatura, é difícil não pensar nos portugueses, nos</p><p>espanhóis, nos franceses e nos britânicos que encheram os porões dos seus navios</p><p>com negros africanos, para colocá-los à venda em toda a zona americana.</p><p>Sobre tal assunto, é difícil não lembrar dos capitães do mato, cuja função era</p><p>perseguir os negros quilombolas, aqueles escravos que haviam fugido das fazendas,</p><p>dos Palmares, da Guerra Civil, da paixão com que os abolicionistas defenderam suas</p><p>ideias e muitos outros fatos relacionados (BESS, 2018).</p><p>Figura 12: Uma aldeia quilombola</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3zmAmhm. Acesso em: 14 mar. 2021.</p><p>Todos esses exemplos não impedem que a escravidão seja muito mais antiga</p><p>que o tráfico de africanos. Ela surgiu desde os primórdios da história humana, quando</p><p>povos derrotados em batalhas foram escravizados por seus conquistadores, a</p><p>exemplo dos hebreus, que foram vendidos como escravos desde o início de sua</p><p>história.</p><p>Muitas civilizações usaram trabalho braçal para a execução das tarefas mais</p><p>difíceis e grosseiras. Entre elas, estão Grécia e Roma, que possuíam um grande</p><p>número de escravos, embora muitos deles fossem bem tratados e tivessem a</p><p>oportunidade de comprar sua liberdade (SANCHIS, 2018).</p><p>159</p><p>Durante a longa Reconquista (722-1492) da Península Ibérica, denominadas à</p><p>época de Espanhas medievais, ou Al-Andalus, como eram também conhecidas,</p><p>particularmente durante a crise da Idade Média espanhola e portuguesa, nos séculos</p><p>XIV e XV, os governantes tiveram que estabelecer ou restaurar uma economia viável</p><p>em benefício das populações cristãs, renovando uma parte da antiga escravidão e</p><p>servidão.</p><p>A escravidão de tipo colonial surgiu em meados do século XV, quando os</p><p>portugueses, sob a liderança de Henrique, o Navegador, capturaram ou compraram</p><p>cativos africanos para deportá-los para suas colônias da Madeira e Cabo Verde. O</p><p>tráfico atlântico de escravos teve início em 1441 com a deportação de cativos</p><p>africanos para a Península Ibérica durante várias décadas. A primeira venda de</p><p>cativos negros saqueados das costas atlânticas ocorreu em 1444, na cidade</p><p>portuguesa de Lagos. Em 1455, o Papa Nicolau V autorizou o Rei de Portugal a</p><p>subjugar as populações muçulmanas da África, após as conquistas do Império</p><p>Otomano que fecham o acesso do Ocidente à Ásia (GRENOUILLEAU, 2009).</p><p>Figura 13: Escravos em uma plantação de café</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3tjAaLI. Acesso em: 14 mar. 2021.</p><p>160</p><p>A colonização portuguesa da América, iniciada já em 1500, começou</p><p>realmente em 1532. Os povos originários da América do Sul são muito variados,</p><p>particularmente os do Brasil. Os povos originários brasileiros eram, em sua maioria,</p><p>tribos seminômades com uma economia baseada na caça, pesca, coleta e</p><p>agricultura de subsistência. Muitos dos grupos que existiam em 1500 foram assimilados</p><p>pela cultura europeia, constituindo a principal origem da população à época.</p><p>Os Tupinambás praticavam uma forma clássica de escravidão sobre membros</p><p>capturados de tribos inimigas, sem valor econômico, com valor simbólico de troféu,</p><p>com relativa integração ao trabalho forçado, e depois sendo devorados em rituais</p><p>canibais. Nenhuma libertação era possível, muito menos a reintegração na tribo de</p><p>origem (GRENOUILLEAU, 2009).</p><p>Os primeiros colonizadores portugueses escravizaram os ameríndios, povos</p><p>originários para explorar a cana-de-açúcar ou madeiras preciosas. O fato de serem,</p><p>em sua maioria, analfabetos, era visto como uma regressão feudal. Mas, os já poucos</p><p>nativos americanos fugiram para o interior ou preferiram cometer suicídio a serem</p><p>escravos. Foi, então, que os portugueses recorreram aos escravos negros da África.</p><p>Os primeiros escravos africanos foram deportados para o Brasil em 1532</p><p>(GRENOUILLEAU, 2009).</p><p>9.2 CHOQUE CULTURAL E RELIGIOSO</p><p>Aos escravos não lhes era permitido praticar suas religiões de origem africana</p><p>nem celebrar suas festas e cerimônias. Tinham que seguir a religião católica, imposta</p><p>pelos donos das plantações que se orgulhavam de obedecer ao mandamento</p><p>cristão de batizar todas as criaturas, razão pela qual muitos se tornaram cristãos,</p><p>principalmente os “bantos”, enquanto a maioria dos negros, mais numerosa na Bahia,</p><p>ao contrário, manteve-se mais fiel à religiosidade africana. Eis um relato de 1871, do</p><p>deputado-general José de Alencar, na seção da Câmara Geral, atual Câmara dos</p><p>Deputados, explicando a importância da religião cristã segundo a concepção dos</p><p>senhores de escravos:</p><p>O grande mérito e excelência do cristianismo é justamente que ele se</p><p>adapta a todas as condições sociais. Ele consola todas as misérias,</p><p>todas as dores deste mundo. Se ele é uma glória para os reis, é um</p><p>refúgio para os cativos. A todos, grandes e pequenos, ilustres e</p><p>obscuros, ricos e pobres, a toda religião lhes mostra uma esperança</p><p>inefável: a esperança de uma vida melhor (XAVIER, 1991, s/n).</p><p>161</p><p>Os escravos foram obrigados a adotar a língua portuguesa para se comunicar.</p><p>Todas essas obrigações e proibições não impediram que um grande número deles se</p><p>deixasse privar de sua cultura africana. Em segredo, faziam suas cerimônias religiosas,</p><p>praticavam suas festas, mantinham suas representações artísticas e chegaram a criar</p><p>uma forma de luta, a capoeira (XAVIER, 1991).</p><p>Durante o tráfico de escravos, os africanos trazidos à força pelos traficantes de</p><p>escravos para as novas terras do Brasil lutaram contra o medo, refugiando-se na</p><p>prática de suas crenças ancestrais. Crenças, é claro, oficialmente proibidas pelos</p><p>colonizadores, que os escravos ocultaram sob uma falsa adoração aos santos</p><p>cristãos. Por isso esta mistura original.</p><p>Essas venerações permitiram aos oprimidos manter uma ligação tênue com</p><p>seu passado africano, sustentar a moral da comunidade e, ao mesmo tempo,</p><p>permanecer unida diante da dureza de sua condição e de seus senhores. Mestres</p><p>que, no entanto, tinham vergonha de condenar brutalmente essas práticas, pois</p><p>tinham uma necessidade vital de sua força de trabalho cativa e, quando</p><p>surpreendiam certas cerimônias – em teoria, proibidas – fingiam mais ou menos</p><p>acreditar em festas de boa índole (CONFORTO, 2012).</p><p>Sendo a economia do Brasil baseada no rendimento das propriedades desses</p><p>colonos escravos, as autoridades, portanto, não tinham interesse em reprimir</p><p>violentamente esses ritos, o que explica a relativa benevolência de certas cerimônias</p><p>escravagistas se beneficiarem ao longo dos séculos. Quanto à Igreja, mesmo que</p><p>considerasse e condenasse abertamente essas crenças como hereges, só podia</p><p>seguir a voz do mercado da época, amplamente dependente dos grandes</p><p>proprietários de terras.</p><p>162</p><p>Do século XVI ao século XVIII, a formação da mão de obra escrava negra da</p><p>África trouxe para o Brasil os cultos de manifestações nos corpos dos médiuns dos</p><p>deuses do panteão africano, chamados Orixás, Nkisses ou Voduns conforme os</p><p>diferentes povos africanos. O lucrativo comércio de escravos europeus no Brasil</p><p>baseou-se, principalmente, na destruição dos bantus no sul da África, depois dos</p><p>Iorubás e Jejê, no oeste da África, entre outros povos. Para sobreviver, porém, os</p><p>deportados da civilização africana tiveram que se adaptar às condições da</p><p>sociedade brasileira, baseada na família escrava (DIONIZIO, 2020).</p><p>Figura 14: Devotos celebram Iemanjá</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3MsJMux. Acesso em: 20 mar. 2021.</p><p>A família escrava é o núcleo básico da sociedade rural colonial brasileira. É</p><p>formado, hierarquicamente, pela família branca dos proprietários da fazenda,</p><p>homens livres que dirigem e fiscalizam o trabalho da produção açucareira e</p><p>comandam os escravos; abaixo, estão os escravos.</p><p>Os africanos tinham os tambores da tradição milenar da África, a dança, as</p><p>canções, seus rituais religiosos e sua alegria de viver. Vários viajantes europeus</p><p>ficaram surpresos na época com a capacidade dos negros de comemorar enquanto</p><p>eram submetidos à escravidão. Foi para sobreviver ao regime de escravidão no Brasil</p><p>que os africanos transformaram o sofrimento em música, dança e ritual (DEMO, 2013).</p><p>No cenário de exploração da escravidão a que os negros foram submetidos</p><p>pelos europeus e depois pelos brancos brasileiros, o Candomblé é, desde suas</p><p>origens, uma religião recriada na Bahia pelas mulheres africanas para ajudar na luta</p><p>163</p><p>de resistência. Sua religiosidade, que consistia desde o início em incorporar práticas</p><p>de povos originários, católicas e espíritas de origem europeia, também assumiu uma</p><p>postura firme contra a alienação e o extermínio. No início, os escravos cultuavam</p><p>orixás disfarçados de imagens de santos católicos, até o momento em que o culto</p><p>africano se espalhou pelas cidades brasileiras entre negros, brancos e mestiços, em</p><p>uma profusão de acessórios sincréticos, misturando estátuas católicas, objetos</p><p>africanos, penas de povos originários e outras criações diversas vendidos nos</p><p>mercados (XAVIER, 1991).</p><p>Figura 15: Uma performance de umbanda</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3GVt31U. Acesso em: 20 mar. 2021.</p><p>Em 1908, em São Gonçalo, estado do Rio de Janeiro, surgiu a umbanda,</p><p>religião de matriz africana e indígena, também fortemente influenciada pelo</p><p>espiritismo do francês Allain Kardec, que rapidamente se espalhou pelo Brasil</p><p>(SANCHIS, 2018).</p><p>164</p><p>9.3 SINCRETISMO RELIGIOSO: A SALVAÇÃO DA RELIGIÃO AFRICANA</p><p>O sincretismo religioso, como vimos, começou no Brasil ainda no período da</p><p>escravidão, embora fossem, teoricamente, proibidas as cerimônias religiosas</p><p>praticadas pelos escravos.</p><p>Ao longo desse período, essa mistura de crenças produziu uma das maiores</p><p>religiões advindas dos negros e que se tornou uma cerimônia de grandes proporções,</p><p>principalmente, nas regiões norte e nordeste do país. O melhor exemplo desse</p><p>sincretismo religioso é o Candomblé. Para entendermos melhor a perpetuação do</p><p>sincretismo africano em um país de maioria cristã, precisamos adentrar um pouco</p><p>nesta festa religiosa escravocrata que permeia nossa história até os dias de hoje</p><p>(XAVIER, 1991).</p><p>Apesar de sua proibição teórica pela Igreja e, nos anos sessenta e setenta,</p><p>pela ditadura, o Candomblé progrediu lentamente na sociedade brasileira até ser</p><p>oficialmente autorizado e protegido.</p><p>Obviamente, o Candomblé continua sendo malvisto pela Igreja. De fato,</p><p>permeou fortemente a cultura popular, principalmente em Salvador, na Bahia, que</p><p>era um dos maiores portos de desembarque de escravos. Não é por acaso que uma</p><p>das maiores festas do Candomblé, a famosa Festa do Bonfim, acontece nesta</p><p>cidade (SCHWARTZ, 2001).</p><p>Existem vários candomblés no Brasil, originários dos vários países africanos de</p><p>onde os escravos eram trazidos no passado. Primeiro Candomblé estabelecido no</p><p>Brasil, o dos Bantu predominou até o século XIX. O Daomé também induziu a um</p><p>candomblé; mas o mais celebrado é o da Nigéria, originário da etnia Iorubá. É desse</p><p>sincretismo que surgiu a linha de padres e sacerdotisas do Candomblé, os “pais e</p><p>165</p><p>mães de santo”, a quem se consulta como se fosse um curandeiro ou um clarividente</p><p>(SCHWARTZ, 2001).</p><p>Figura 16: Uma sessão de candomblé</p><p>Fonte: Disponível em: https://bit.ly/3NFu9kE. Acesso em: 20 mar. 2021.</p><p>Candomblé é o culto de divindades de origem totêmica e familiar, os orixás,</p><p>cada um ligado a um elemento natural como fogo, terra, rios, mar etc. Cada orixá é</p><p>caracterizado por um conjunto de cores e objetos que o representam. É uma força</p><p>imaterial presente na natureza, e todo ser humano é escolhido por um orixá ao nascer</p><p>e que, posteriormente, será identificado em cerimônia por um sacerdote. Em certas</p><p>cerimônias, ao contrário, um orixá pode ser introduzido no corpo de um ser humano</p><p>por meio de um rito de iniciação (SCHWARTZ, 2001).</p><p>As invocações são feitas através de encantamentos, geralmente na língua</p><p>iorubá, oferendas, cantos e danças, daí o lado muito festivo desta cerimônia religiosa.</p><p>Ao contrário da crença popular, o Candomblé é uma religião monoteísta, apenas os</p><p>nomes das divindades mudam de acordo com seu país de origem. O número de</p><p>principais divindades homenageadas nas principais cidades brasileiras é estimado</p><p>em dezesseis (MACHADO, 1988).</p><p>Durante as cerimônias, os orixás são chamados a entrar nos terreiros por meio</p><p>de cantos e danças, mas também, por meio de ervas e comidas sagradas, cada</p><p>orixá possuindo uma comida que lhe diz respeito. Na Bahia, por exemplo, cidade com</p><p>gastronomia e sabores renomados, todos os pratos à base de dendê, como a</p><p>Moqueca, são pratos sagrados do Candomblé.</p><p>166</p><p>Como todas as religiões, o Candomblé não escapa à fiscalização da</p><p>hierarquia. São sete estágios, ou graus, que vão do simples noviço, o Abiã, ao chefe</p><p>de terreiro, conhecido como Babalorixá. Este último é o único capaz de decidir,</p><p>sendo que ninguém pode agir por conta própria sem antes se referir a ele. Como</p><p>qualquer dignitário, ele conhece os escritos sagrados e governa as cerimônias</p><p>(MACHADO, 1998).</p><p>E, assim, o candomblé tornou-se parte integrante dos costumes de toda a</p><p>população. Os brasileiros fazem oferendas a Iemanjá, a deusa do mar, durante</p><p>grandes cerimônias em 31 de dezembro no Rio ou 2 de fevereiro na Bahia, ou têm o</p><p>futuro lido para eles graças aos búzios, adivinhação por conchas. Quase todo mundo</p><p>conhece seu orixá e é essa presença protetora sobrenatural que leva os adeptos,</p><p>qualquer que seja</p><p>sua origem e nível social, a se apegar a esses ritos místicos que</p><p>remontam a seus ancestrais distantes de outros países (MACHADO, 1998).</p><p>Temos que aceitar que somos um povo mítico, místico, plural, miscigenado,</p><p>rico cultural e geneticamente estabelecido, e nossas religiões não devem ser motivo</p><p>de separação, segregação, intolerância, mas motivo de orgulho, respeito,</p><p>diversidade, riqueza de alma, de espírito, ou seja, a forma como o brasileiro se</p><p>posiciona diante de sua fé.</p><p>A Teologia não está mais para uma simples descrição da história cronológica</p><p>das grandes religiões do mundo, mas para o norte de ajudar o ser humano a se</p><p>compreender enquanto sujeito e centro da história e da riqueza cultural e</p><p>transcendental, seja qual for sua crença.</p><p>167</p><p>FIXANDO CONTEÚDO</p><p>1. A escravidão não é um assunto recente, muito menos uma história recente. Ela</p><p>acompanha a humanidade desde que temos registro sobre a dominação dos</p><p>povos.</p><p>Um dos exemplos de dominados citados no livro e que repercute nos estudos</p><p>bíblicos é a escravização dos:</p><p>a) romanos pelos gregos.</p><p>b) judeus pelos cristãos.</p><p>c) hebreus pelos egípcios.</p><p>d) saduceus pelos persas.</p><p>e) assírios pelos babilônios.</p><p>2. A escravidão africana não foi um episódio isolado, de forma que os portugueses</p><p>trouxessem suas “mercadorias” como uma exclusividade para as colônias</p><p>americanas. Já era um costume desde meados do século XV, quando os escravos</p><p>eram deportados para:</p><p>a) Trinidad e Tobago.</p><p>b) Índias e Oceania.</p><p>c) China e Japão.</p><p>d) Cabo Verde e Madeira. (Resposta página 40).</p><p>e) Equador e Caribe.</p><p>3. No que concerne à religiosidade dos escravos, muitas foram as fases pelas quais</p><p>ela passou. Em um primeiro momento, quanto à suas práticas religiosas,</p><p>a) eram-lhes permitidas algumas cerimônias africanas, desde que não violassem os</p><p>direitos canônicos.</p><p>b) eram assistidas pelos capatazes dos senhores, a fim de determinar quais práticas</p><p>poderiam dar continuidade.</p><p>c) a capoeira foi liberada, já que não era, de fato, uma religião, mas uma prática</p><p>esportiva.</p><p>168</p><p>d) não eram permitidas durante a semana, apenas aos domingos, após assistirem à</p><p>missa, em igrejas especialmente para eles.</p><p>e) não lhes eram permitidas praticá-las nem celebrar festas e cerimônias africanas.</p><p>(Resposta página 42).</p><p>4. “O grande mérito e excelência do cristianismo é justamente que ele se adapta a</p><p>todas as condições sociais. Ele consola todas as misérias, todas as dores deste</p><p>mundo. Se ele é uma glória para os reis, é um refúgio para os cativos”.</p><p>Esta fala reflete a importância incontestável da religião cristã de acordo com os</p><p>donos de escravo e foi dita por:</p><p>a) José de Alencar. (Resposta página 42).</p><p>b) Papa Nicolau V.</p><p>c) Joaquim Nabuco.</p><p>d) Marília Conforto.</p><p>e) Itala da Silva.</p><p>5. A partir do século XVI e XVIII, com a mão de obra predominantemente escrava e</p><p>negra, cultos e manifestações africanas passaram a ser cada vez mais comuns,</p><p>cujos deuses mais conhecidos eram denominados de:</p><p>a) Orixás e Anhangá.</p><p>b) Akuanduba e Sumé.</p><p>c) Voduns ou Nkisses. (Resposta página 44).</p><p>d) Yorixiariamori e Ceuci.</p><p>e) Rudá e Rupave.</p><p>6. Houve luta de resistência entre os negros escravos, surgindo uma religião que</p><p>recriaria, a seu modo, uma religiosidade, cujas mulheres da Bahia foram as</p><p>grandes incentivadoras.</p><p>Essa religião é conhecida como:</p><p>169</p><p>a) Umbanda.</p><p>b) Xangô.</p><p>c) Batuque.</p><p>d) Tambor de mina.</p><p>e) Candomblé. (Resposta página 44)</p><p>7. A religiosidade africana invadiu o Brasil colônia em uma proporção sem igual, a</p><p>exemplo do norte do país, com o Tambor de mina no Maranhão. No começo,</p><p>cultuavam orixás disfarçados de santos católicos, mas espalhou-se pelas cidades</p><p>brasileiras entre todas as etnias. Esse fenômeno é chamado de:</p><p>a) sincretismo religioso. (Resposta página 45).</p><p>b) diversidade cultural.</p><p>c) teologia escravocrata.</p><p>d) rito religioso.</p><p>e) espiritualidade africana.</p><p>8. O Candomblé ganhou espaço ao longo dos anos, durante a nossa história, do</p><p>Brasil colônia aos dias atuais. Uma religião de origem totêmica e familiar, que</p><p>evoca elementos da natureza, como fogo, terra, rios e mar.</p><p>Uma das características fundamentais do Candomblé é o fato de essa</p><p>manifestação religiosa ter um caráter:</p><p>a) doutrinário.</p><p>b) monoteísta. (Resposta página 46).</p><p>c) mágico.</p><p>d) politeísta.</p><p>e) pagão.</p><p>170</p><p>ETAPAS HISTÓRICAS E POLÍTICAS</p><p>DA RELIGIÃO</p><p>Para darmos continuidade aos nossos estudos, neste item, em particular, é</p><p>necessário que se faça um recorte da história, até porque, já mencionamos a história</p><p>da religião no Brasil de sua descoberta até o período colonial.</p><p>Agora, é necessário que façamos um outro recorte na história para termos</p><p>uma visão mais específica sobre a presença da religião no período considerado de</p><p>ditadura militar, compreendido entre 1964 e 1985.</p><p>O intento deste estudo não é apontar falhas ou exaltar esta ou aquela religião,</p><p>mas nos atermos, de forma clara e precisa, aos fatos históricos e sua veracidade, o</p><p>mais fiel possível.</p><p>O mesmo concerne às questões de aspectos políticos, uma vez que não é</p><p>possível dissociar tais aspectos que não estejam inseridos em contextos históricos.</p><p>Todo fato ocorre em uma linha temporal em que vários elementos estão presentes,</p><p>desencadeando um todo. A exemplo, não temos como mencionar a atuação de</p><p>Cristo em sua época, sem falarmos dos aspectos políticos que envolviam Roma e</p><p>todo o seu império.</p><p>O que nos caberá aqui, por vezes, é seccionar os fatos históricos, ou mesmo os</p><p>fatos políticos, para melhor estudá-los à luz da Teologia, criando uma espécie de</p><p>recorte que norteará o cerne da questão em si.</p><p>Então, vamos lá!</p><p>10.1 ASPECTOS HISTÓRICOS À LUZ DAS RELIGIÕES</p><p>O projeto político republicano e autoritário foi muito influente no Brasil,</p><p>particularmente poderoso na virada do século XIX para o século XX. O modelo</p><p>proposto por Lemos e Mendes (1902) acrescentou à antiga bandeira do Império o</p><p>lema "Ordem e Progresso", um lema de cunho positivista cuja intenção era ligar o</p><p>passado ao futuro, deixando profundas marcas ideológicas nas classes médias</p><p>urbanas do país.</p><p>O crítico literário Alfredo Bosi (1992) defendia a ideia de que, no Brasil, estavam</p><p>Erro!</p><p>Fonte de</p><p>referênci</p><p>a não</p><p>encontra</p><p>Highlight</p><p>171</p><p>presentes as origens ideológicas do modelo do Estado de Bem-Estar, presente nos</p><p>movimentos políticos de 1930 e 1937, ainda que alguns partidários recusassem o</p><p>abrupto caminho dos golpes de estado. O mesmo autor afirmou ainda que as</p><p>correntes políticas atuantes ao longo do século XX, inovadoras e autoritárias ao</p><p>mesmo tempo, devem muito a um conjunto de correntes advindas da Europa, como</p><p>já mencionado, a exemplo do positivismo de Auguste Comte, (BOSI, 1992).</p><p>Figura 16: Auguste Comte</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3msndeS. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>A presença dessa e de outras correntes filosóficas no Brasil remonta à década</p><p>de 1880, em torno da ação dos que eram a favor da abolição da escravatura no</p><p>país. Segundo Bosi (1992), havia uma oposição entre os grupos ligados aos grandes</p><p>latifundiários de São Paulo e Minas Gerais – liberais, seguidores de Spencer e Darwin</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>172</p><p>– e os grupos de classe média do Rio de Janeiro e do Sul do país, adeptos da ditadura</p><p>republicana.</p><p>A partir de 1850, quando o tráfico intercontinental de povos escravizados foi</p><p>declarado ilegal, os debates políticos e científicos que ocupavam o espaço público</p><p>de jornais e revistas sofreram uma mudança marcante: a substituição do trabalho</p><p>escravo passou a ser cada vez mais considerada um problema racial (LEMOS;</p><p>MENDES, 1902).</p><p>Com a abolição da escravatura nos Estados Unidos, o modelo segregacionista</p><p>adotado nos estados do sul deste país, apoiado por diversos intelectuais, tornou-se</p><p>um dos paradigmas da questão. No Brasil, no entanto, o purismo racial nunca foi tão</p><p>difundido, apesar da publicidade da imigração europeia e das preocupações</p><p>eugênicas por parte das elites. Uma espécie de sentimento fatalista sobre os</p><p>casamentos mistos se estabeleceu gradualmente no país (LEMOS; MENDES, 1902).</p><p>Pensava-se encontrar a solução mais adequada na mistura de brancos com</p><p>raças ditas inferiores e na dissolução do sangue índio e negro no fluxo mais puro do</p><p>sangue europeu. Posteriormente, certas correntes intelectuais valorizaram a</p><p>mestiçagem, fazendo da “mistura de raças” a marca distintiva e positiva de uma</p><p>suposta “identidade brasileira”.</p><p>Exemplo expressivo dessa atmosfera intelectual pode ser encontrado na</p><p>apresentação que o biólogo João Batista de Lacerda fez no primeiro Congresso</p><p>Internacional da Raça, em Londres, em 1911, onde, como suporte para sua</p><p>dissertação científica, reproduziu a pintura “A Redenção de Chaim”, do pintor</p><p>Modesto Brocos, de 1895, que mostra as três gerações de uma família brasileira: a</p><p>avó negra, sua filha mulata e o neto todo branco (LEMOS, 1934).</p><p>173</p><p>Figura 17: Tela “A redenção de Chaim”</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3H7GYlj. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Para entender essa convergência estética e científica, podemos recorrer à</p><p>análise que Bosi (1992) fez da trajetória simbólica do mito de Chaim no Brasil,</p><p>tradicionalmente servindo de justificativa da escravidão com a ajuda do Antigo</p><p>Testamento e retomado no século XIX por escritores românticos abolicionistas, como</p><p>Castro Alves, para denunciar o horror do destino dos africanos no Novo Mundo. Ainda</p><p>segundo Bosi (1992), desde o final do século XIX até a Guerra de 1914, o racismo</p><p>evolutivo atua como uma espécie de mito de Chaim racionalizado.</p><p>O racismo parte da experiência de “branqueamento” dos negros, de forma</p><p>que a mistura de negros e brancos origina pessoas de pele mais clara. Seguindo esta</p><p>linha, o processo de descendentes torna-se cada vez mais miscigenado, quando o</p><p>indivíduo se declara negro por aspectos físicos aparentes, mas com toda uma</p><p>descendência já de algum elemento branco como avós de antepassados. No</p><p>entanto, por mais que seus antepassados sejam de origem europeia, o indivíduo</p><p>continua a sofrer racismo, ou por traços físicos que demonstrem sua etnia, ou por sua</p><p>história ancestral. O racismo evolui, mas não se extirpa (BOSI, 1992).</p><p>Lemos e Mendes (1902), em um elogio ao poeta romântico Gonçalves Dias,</p><p>de 1880, afirmam que todas as religiões estão em simpatia, porque todas convergem,</p><p>como que para o seu limite, no sentido da religião da humanidade.</p><p>Assim, os extremos podem estar mais próximos do que os estágios</p><p>intermediários. Tudo se passa como se os adeptos tivessem retomado o mito do</p><p>“nobre selvagem”. A chamada pureza dos índios os colocaria em condições de ver</p><p>diretamente o mundo em um estado de incorporação do elemento indígena como</p><p>174</p><p>superior à moral dita civilizada, segundo o poeta de Canção do Exílio.</p><p>Assim, nesta fase específica da história brasileira, vivemos o movimento literário</p><p>denominado Romantismo, que traz em si, o elemento indígena como o “nobre</p><p>selvagem”, já que este era o único elemento genuinamente brasileiro. Assim criada</p><p>por Gonçalves Dias, surge a obra O Guarani, de José de Alencar, quando o indígena</p><p>Peri se torna o herói do romance ao salvar a bela Ceci.</p><p>A romantização do período literário, no entanto, não converge para uma</p><p>verdadeira aceitação da valorização do elemento indígena, mas por ora, abranda</p><p>os sentimentos religiosos para uma construção de identidade nacional necessária</p><p>para aquele momento (LEMOS, 1934).</p><p>Dias havia percebido, segundo Lemos (1934), elementos essenciais do</p><p>processo religioso: a supremacia do coração sobre a razão e a catequese do amor.</p><p>Do ponto de vista da ação histórica, o poeta também teria indicado o caminho</p><p>certo: a submissão ao passado, ou seja, a necessidade de incorporar a cultura</p><p>indígena à cultura brasileira por meio do uso de sua língua, religiosidade e tradições.</p><p>Tal foi o caso dos antigos romanos que fizeram seus os deuses dos povos</p><p>conquistados. Assim, no final da década do século XIX, o poeta sustentava que a</p><p>incorporação dos índios deveria respeitar sua cultura e sua religião. Isso, de fato,</p><p>correspondia a propor o fim das missões religiosas, tradicionalmente ocupadas com</p><p>a catequese dos povos indígenas.</p><p>Para além das interpretações simplistas que às vezes se contentam em torná-</p><p>los meros retransmissores da miscigenação negra e indígena, as estratégias dos</p><p>atores que desejam minar o monopólio religioso exercido pela Igreja Católica sobre</p><p>o Estado não para aqui, ao contrário, estende-se por um período em que a Igreja se</p><p>vê em profundo conflito consigo mesma, diante da revolução de 1964, fato este que</p><p>será abordado mais adiante (ANDRADE, 2013).</p><p>10.2 ASPECTOS POLÍTICOS: A RELIGIÃO E SUAS INFLUÊNCIAS</p><p>O Brasil é um verdadeiro laboratório em curso da relação entre religião e</p><p>política em toda a região latino-americana. Historicamente, a Igreja Católica</p><p>brasileira sempre conseguiu impor um modus vivendi ao Estado. Apesar das</p><p>constituições formalmente seculares, os compromissos têm sido constantes. Acima</p><p>de tudo, a capacidade da Igreja de atuar e se definir como mediadora nos conflitos</p><p>175</p><p>sociais, bem como sua participação nos acordos eleitorais, são uma característica</p><p>permanente da história brasileira contemporânea (ANDRADE, 2013).</p><p>A teologia da libertação, outrora em voga, e as comunidades eclesiais de</p><p>base fazendo "a opção preferencial pelos pobres" com figuras tão emblemáticas</p><p>como o bispo Dom Helder Câmara, no Recife, e o dominicano Carlos Alberto Libânio</p><p>Christo (Frei Beto) levaram a Igreja a se tornar um espaço de resistência à ditadura</p><p>durante a década de 1980 (ANDRADE, 2013).</p><p>Embora, inicialmente, a Igreja apoiasse o regime militar, tem assim contribuído</p><p>para a democratização do país, defendendo os direitos humanos e promovendo as</p><p>aspirações de democracia social e econômica. É um bom exemplo do tipo de</p><p>ligação que se tece entre o religioso e o político em um contexto que floresceu ao</p><p>longo do século XIX como um nacional-catolicismo ativo. Alimentava-se da</p><p>identificação do país com Nossa Senhora Aparecida, a representação nacional</p><p>mariana e com o Cristo do Corcovado, protegendo a baía do Rio de Janeiro.</p><p>Inaugurada em 1931, com a presença do presidente populista Getúlio Vargas, a</p><p>imensa estátua abriga aos pés uma capela dedicada à Aparecida.</p><p>Figura 18: Cristo Redentor</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3H2UNBP. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>No entanto, nestes últimos trinta anos, em particular desde o fim dos regimes</p><p>militares, uma nova situação ocorreu devido ao surgimento de atores religiosos</p><p>inesperados: os líderes pentecostais e também neopentecostais. Contrariamente ao</p><p>espiritismo kardecista e às expressões religiosas subordinadas e sincréticas</p><p>(Candomblé, Umbanda etc.) cobertas pela denominação "religiões afro-brasileiras",</p><p>176</p><p>que nunca colocaram em risco a hegemonia católica e até se articularam com o</p><p>catolicismo popular, o pentecostalismo rapidamente estabeleceu-se como</p><p>concorrente. Presente desde 1910 no país, só a partir da década de 1980 é que esse</p><p>cristianismo emocional de origem norte-americana, rapidamente, “abrasileira-se” e</p><p>adquire visibilidade estatística e social (ANDRADE, 2013).</p><p>Portando práticas de glossolalia, ou seja, suposta possibilidade de se expressar</p><p>em línguas desconhecidas, taumatúrgicas e exorcistas, é composto por dezenas, até</p><p>centenas, de pequenos empreendimentos religiosos</p><p>sob a liderança de líderes</p><p>dotados de carisma, muitas vezes, não ultrapassando a escala local ou regional.</p><p>No entanto, algumas organizações assumiram uma dimensão nacional. Duas</p><p>delas dominam o setor que mobiliza milhões de fiéis. São as Assembleias de Deus, de</p><p>antiga instituição de 1910, que cobrem todo o território e têm milhões de adeptos, e</p><p>a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada em 1977 por um funcionário da Loteria</p><p>Pública do Estado do Rio de Janeiro, mais conhecido como Bispo Edir Macedo</p><p>(ANDRADE, 2013).</p><p>Esta última organização é típica dos neopentecostalismos que utilizam os</p><p>meios de comunicação mais modernos para difundir uma mensagem que pode ser</p><p>resumida em dois slogans afixados nas paredes de seus templos: “pare de sofrer” e</p><p>“Jesus é a solução”.</p><p>Uma empresa patrimonial nas mãos do fundador e líder supremo Edir Macedo</p><p>adquiriu por milhões de dólares, em 1989, a Rede Record, que se tornou o principal</p><p>canal de televisão do país depois da também privada Rede Globo. Hoje, é uma</p><p>multinacional religiosa com 1,8 milhão de membros no Brasil, com cerca de 6.000</p><p>templos em todo o todo território nacional e com filiais na América, Europa e África,</p><p>em países de língua portuguesa em particular (ANDRADE, 2013).</p><p>Em julho de 2014, inaugurou em São Paulo o maior de seus templos de</p><p>enormes dimensões, afirmando ser uma réplica do Templo de Salomão em</p><p>Jerusalém.</p><p>177</p><p>Figura 19: Templo de Salomão – Igreja Universal do Reino de Deus – São Paulo</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3zs2L5I. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>A mudança resultante na paisagem religiosa é estatisticamente óbvia. Em</p><p>2010, quando os católicos constituíam apenas 64% da população, os pentecostais-</p><p>evangélicos representavam 22%. Enquanto os não religiosos chegaram a 7%, os</p><p>espíritas estagnaram em 2% e os cultos afro-brasileiros em 1,7%, segundo as últimas</p><p>estatísticas de 2010, realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística</p><p>(IBGE, 2010). Esses dados ganham particular valor se traduzidos geograficamente,</p><p>revelando os polos de expansão dos novos movimentos religiosos entusiastas nas</p><p>periferias das megacidades e em um grande Nordeste que chega às margens</p><p>amazônicas. Eles também são significativos em termos das populações que a eles</p><p>aderem: os setores sociais mais pobres e uma classe média urbana emergente.</p><p>178</p><p>Tabela 1: Afiliações religiosas no Brasil, 1900-2010</p><p>RELIGIÕES 1900 1950 1980 1990 2000 2010</p><p>Católicos 98,9 93,7 89,2 82,9 73,8 64,6</p><p>Evangélicos 1,0 3,4 6,6 9,0 15,4 22,2</p><p>Espíritas 1,1 1,3 2,0</p><p>Umbanda/Candomblé 0,4 0,3 0,3</p><p>Outros 0,06 1,2 3,0</p><p>Sem religião 0,1 0,5 1,6 4,7 7,4 8,4</p><p>Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).</p><p>Embora os dados estatísticos católicos mostrem uma diminuição dramática</p><p>na participação do mercado de adeptos nos últimos vinte anos, uma leitura em</p><p>termos do "declínio do catolicismo" parece totalmente superficial. Resumindo: o Brasil</p><p>continua sendo o maior país católico do mundo, mas, também, tornou-se o maior</p><p>país pentecostal-evangélico. A pluralidade religiosa resultante exacerbou a</p><p>competição e o catolicismo tornou-se parcialmente “pentecostalizado” de forma</p><p>dinâmica, reintroduzindo o milagre, o exorcismo e a taumaturgia que faziam parte</p><p>de sua formação religiosa costumeira, em uma lógica de mercado (ANDRADE, 2013).</p><p>A expressão mais emblemática disso é o aparecimento de sacerdotes</p><p>carismáticos capazes de competir com os líderes pentecostais. Durante sua visita ao</p><p>Brasil em maio de 2007, a atenção de Bento XVI ao padre Marcelo Rossi, sacerdote</p><p>à frente de uma paróquia católica carismática de massa em São Paulo, é indicativo</p><p>da importância que a Igreja atribui a esse tipo de liderança que gostaria até de</p><p>erodir a influência de concorrentes pentecostais. Nessa lógica competitiva, a</p><p>grande novidade é o surgimento de atores sociais dotados de carisma capazes de</p><p>capitalizar seu poder, vinculados às organizações religiosas de massa, e traduzi-lo</p><p>em expressão política (SANCHES, 2018).</p><p>Em 1998, a presença de políticos religiosos se consolidou com 53 deputados</p><p>federais evangélicos, sendo que a Igreja Universal do Reino de Deus contava com</p><p>179</p><p>17 deputados federais, eleitos sob o lema “um irmão vota em um irmão” a partir de</p><p>uma grade eleitoral dos fiéis (MEYER-PF LUG, 2009).</p><p>Desde então, apesar de todos os prognósticos de esgotamento devido à</p><p>erosão do poder e à corrupção endêmica que também atinge os evangélicos, sua</p><p>presença só aumentou a ponto de, nas eleições parlamentares de outubro de 2010,</p><p>o número de evangélicos subir para 70 deputados federais, ou 12% dos assentos, aos</p><p>quais se somaram 3 senadores. Nas recentes eleições de outubro de 2014, a</p><p>bancada continuou a crescer com 80 deputados federais eleitos com qualificativos</p><p>como "pastor, bispo, apóstolo ou missionário", pertencentes a 17 partidos diferentes</p><p>em um amplo espectro político. São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, e Rio</p><p>de Janeiro, o terceiro, elegeram 14 evangélicos cada, seguidos pelo estado do</p><p>Paraná, com 8 deles (MEYER-PF LUG, 2009).</p><p>No estado do Rio de Janeiro, quase um terço dos deputados é composto de</p><p>evangélicos e três deles obtiveram as maiores pontuações na votação. Essa</p><p>geografia da representação parlamentar evangélica reflete tanto a localização</p><p>urbana quanto a rural das bases pentecostais. Mais presentes do que nunca, eles já</p><p>representam 16% dos 513 deputados federais eleitos (SANCHES, 2018).</p><p>Há um paralelismo e uma complementaridade entre ação política e ação</p><p>religiosa que impede solidariedades horizontais, autônomas, e reforça configurações</p><p>verticais em benefício dos atores corporativistas. Como o pentecostalismo e o</p><p>evangelicalismo são uma forma de escapar da hegemonia corporativa da Igreja, a</p><p>confessionalização da política por meio da criação da bancada evangélica é uma</p><p>forma de pressionar o Estado para redefinir o sistema de laicidade e regulação do</p><p>culto que até então, serviu, exclusivamente, aos interesses da Igreja Católica.</p><p>Assistimos, inclusive, a um desdobramento mimético dos relatos de organizações</p><p>180</p><p>religiosas de massa para o estado (ANDRADE, 2013).</p><p>Assim, a concordata católica romana de 2008 respondeu à “pequena</p><p>concordata evangélica”, como era chamada a Lei Geral das Religiões, acordo</p><p>entre o lobby pentecostal e o Estado para negociar os mesmos privilégios</p><p>concedidos à Igreja Católica. Os defensores da laicidade do Estado estão</p><p>justamente preocupados com tal evolução ligada à influência dos atores religiosos</p><p>no espaço público.</p><p>10.3 PASSADO E PRESENTE: A RELIGIÃO DE ONTEM E O MUNDO DE HOJE</p><p>Colonizado pelos portugueses, país de tradição católica muito forte, o Brasil</p><p>herdou essa estreita relação com o Vaticano ao longo de sua história. É agora</p><p>reconhecido como o primeiro país católico do mundo em termos de número de</p><p>praticantes com mais de 128 milhões de pessoas declarando-se católicas no último</p><p>censo em 2010 (SANCHES, 2018).</p><p>Desde o início da colonização, os jesuítas se estabeleceram em todo o país</p><p>criando campos de evangelização para as comunidades indígenas. Apesar de sua</p><p>expulsão pelas autoridades que viam com desconfiança o crescente poder político</p><p>dessa ordem, seu impacto foi decisivo no processo de cristianização massiva do Brasil.</p><p>Assim, até a década de 1970, o Brasil era mais de 90% católico.</p><p>A partir de então, parte da população brasileira se distanciou da tradição</p><p>católica. Ela se interessou por cultos evangélicos protestantes do Cinturão Bíblico dos</p><p>Estados Unidos e já estabelecidos desde o século XIX, principalmente no sul do país</p><p>(ISAÍAS, 2013). Em 40 anos, mais de 20% da população se voltou para essas novas</p><p>igrejas, principalmente</p><p>as classes média e média alta que buscavam sistemas menos</p><p>rigorosos para viver suas espiritualidades. Rapidamente, multiplicaram-se os pastores</p><p>autodidatas e surgiram inúmeras congregações com nomes evocativos como</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>181</p><p>Assembleia de Deus, Deus é Amor ou a poderosa Igreja Universal do Reino de Deus.</p><p>Todas essas igrejas cristãs se caracterizam hoje por uma importante dimensão</p><p>social de ajuda aos mais desfavorecidos. Mas, também, por uma participação mais</p><p>ativa dos crentes nos cultos religiosos com muitos cânticos e músicas de adoração à</p><p>imagem da tradição evangélica norte-americana (ANDRADE, 2013).</p><p>A história do Brasil contemporâneo é, sobretudo, uma história de encontros,</p><p>trocas e assimilações, desejadas ou não, entre os índios e as diferentes levas de</p><p>migrantes de todas as classes sociais que levam, na bagagem, laços muito espirituais.</p><p>Seus descendentes, muitas vezes isolados no interior deste imenso país, ao</p><p>longo do tempo, trocaram conhecimentos e espiritualidade. Da mesma forma que</p><p>os nativos e povos escravizados da África rapidamente se cristianizaram sob coação,</p><p>eles transmitiram e trocaram suas cosmologias por meio de mitos e superstições. Desse</p><p>processo em movimento perpétuo, muitas vezes secreto porque totalmente proibido</p><p>e duramente reprimido pelos colonos, surgiram novas religiões. Eles permitiram que as</p><p>heranças mitológicas africanas e indígenas escondidas por trás dos nomes dos santos</p><p>católicos sobrevivessem (ANDRADE, 2013).</p><p>A Umbanda, uma mistura de Cristianismo, Espiritismo e culto dos Orixás, os</p><p>santos do Candomblé, é também uma dessas fusões muito populares entre diferentes</p><p>religiões para formar um novo culto afro-brasileiro. Atraiu muitos brancos de classe</p><p>média alta porque estava menos focado na África.</p><p>Em 1930, no coração da Amazônia, surgiu outro surpreendente sincretismo: ao</p><p>conhecer os índios na floresta, um ex-coletor de borracha criou um culto que</p><p>misturava Catolicismo e Xamanismo indígena. A particularidade deste culto, o Santo</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>182</p><p>Daime, é usar a Ayahuasca, uma bebida sagrada alucinógena indígena, como</p><p>sacramento. Desde 1972, o governo brasileiro reconhece esse uso e autorizou essa</p><p>prática que tem membros em todo o país e no mundo (VELASCO, 2001).</p><p>Figura 20: Ritual do Santo Daime</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3NCdRJp. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Além dessas diferentes práticas mais ou menos oriundas do Cristianismo que</p><p>representam a maioria dos crentes no Brasil, muitas outras práticas religiosas estão</p><p>representadas. Por um lado, um certo número de povos ameríndios continua</p><p>praticando seus cultos, muitas vezes, à margem de uma prática cristã. Por outro lado,</p><p>muitas comunidades que desembarcaram em grande número mantiveram a</p><p>principal religião de seus povos de origem em meio à sua herança cultural (VELASCO,</p><p>2001).</p><p>E assim, podemos concluir, também, que outras religiões já mencionadas em</p><p>História das Religiões I – as grandes religiões do mundo, também se encontram</p><p>presentes.</p><p>Há, assim, uma discreta comunidade judaica desde o início da colonização.</p><p>Uma pequena comunidade muçulmana também, principalmente nos estados do</p><p>Paraná e de São Paulo, além de mais de 200 mil budistas, religião que chegou com</p><p>os japoneses há pouco menos de cem anos. Mas também, menos clássico, nada</p><p>menos que 2.250.000 espíritas, seguidores da religião fundada pelo francês Allan</p><p>Kardec, caído no esquecimento na Europa, mas muito vivo no Brasil (ANDRADE, 2013).</p><p>Algumas dessas serão retratadas mais adiante, em um próximo capítulo.</p><p>183</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO</p><p>1. Certos críticos literários defendiam a ideia de um Brasil, nos movimentos políticos</p><p>de 1930 e 1937, cultuavam situações ideológicas de um modelo do Estado de</p><p>Bem-estar.</p><p>O trecho acima refere-se ao escritor:</p><p>a) Alfredo Bosi.</p><p>b) Augusto Comte.</p><p>c) Teixeira Mendes.</p><p>d) Augusto Lemos.</p><p>e) Modesto Brocos.</p><p>2. Autores como Bosi afirmam que muitas correntes políticas no século XX de cunho</p><p>inovador e autoritário, referiam-se a correntes europeias, a exemplo da corrente</p><p>denominada:</p><p>a) Existencialismo.</p><p>b) Positivismo.</p><p>c) Iluminismo.</p><p>d) Escolástica.</p><p>e) Pragmatismo.</p><p>3. Nos últimos trinta anos, logo após o fim do regime militar, uma situação nova surge</p><p>no país, com a presença de religiosos que começaram a colocar em risco a</p><p>hegemonia católica. Trata-se, pois, da religião:</p><p>a) Espírita.</p><p>b) Anglicana.</p><p>c) Pentecostal.</p><p>d) Evangélica.</p><p>e) Luterana.</p><p>184</p><p>4. Algumas igrejas, como as igrejas pentecostais e Assembleia de Deus, usam da</p><p>prática de glossolalia, que se traduz pela:</p><p>a) capacidade de curar os enfermos durante as reuniões de louvores em seus cultos.</p><p>b) invocação do divino Espírito Santo para a interpretação de textos da Bíblia que</p><p>se encontram em hebraico.</p><p>c) condição de expulsar os maus espíritos das pessoas que se encontram em estado</p><p>de possessão.</p><p>d) possibilidade de se expressar em línguas desconhecidas e taumatúrgicas.</p><p>e) revelação do passado de determinadas pessoas, libertando-as de seus pecados,</p><p>medos e traumas.</p><p>5. A história do Brasil de hoje é uma história de trocas e assimilações, nem sempre</p><p>desejada, mas inegável. Uma das consequências dessa troca de conhecimentos</p><p>e espiritualidade foi:</p><p>a) A ascensão dos povos escravizados com sua libertação, possibilitando a</p><p>fundação de suas próprias religiões, disseminando-as pelo país.</p><p>b) Maior valorização dos povos nativos e de sua cultura, de modo que o pajé tornou-</p><p>se uma figura respeitada pela sociedade religiosa.</p><p>c) A aceitação maior das igrejas cristãs aos cultos de descendentes africanos que</p><p>lhe apresentaram novas formas de oração.</p><p>d) A miscigenação entre povos nativos e escravizados, num sincretismo religioso</p><p>aceito, aos poucos, pela sociedade do início do século passado.</p><p>e) A cristianização dos povos nativos e escravizados, sob coação, e a transmissão</p><p>de suas cosmologias por meio de mitos e superstições.</p><p>6. Culto sincrético, cujos membros são a maior parte escravizados africanos, ganhou</p><p>visibilidade misturando-se Cristianismo, religiões africanas e indígenas. Hoje,</p><p>conhecido pelo nome de:</p><p>a) Candomblé.</p><p>b) Xamanismo.</p><p>c) Xintoísmo.</p><p>185</p><p>d) Umbanda.</p><p>e) Santo Daime.</p><p>7. Os dados estatísticos mostram uma diminuição dramática em relação ao número</p><p>de católicos nos últimos vinte anos. Como consequência, pode-se afirmar que,</p><p>atualmente, o Brasil</p><p>a) é o segundo país com maior número de católicos do mundo, depois de Portugal.</p><p>b) continua sendo o maior país católico do mundo; em contrapartida, tornou-se o</p><p>maior país pentecostal-evangélico.</p><p>c) continua sendo o maior país católico do mundo, mas também, em contrapartida,</p><p>tornou-se o maior país com número de igrejas.</p><p>d) passou a ser o terceiro país com maior número de católicos do mundo, depois de</p><p>Portugal e Espanha.</p><p>e) não houve redução de forma que afete o número de católicos, mas sim um</p><p>aumento de religiões como o judaísmo e o budismo.</p><p>8. O catolicismo teve seu espaço de resistência à ditadura no período dos anos 80,</p><p>com fortes representações eclesiásticas e movimentos de oposição. Um forte</p><p>exemplo desse movimento denomina-se:</p><p>a) Renovação carismática.</p><p>b) Pastoral da saúde.</p><p>c) Teologia da libertação.</p><p>d) Comunidades sincréticas.</p><p>e) Pastoral carcerária.</p><p>186</p><p>AS TRADIÇÕES RELIGIOSAS NO</p><p>BRASIL DE HOJE</p><p>Após estudarmos, de forma separada, as formações religiosas no Brasil de</p><p>várias formas, é o momento para associarmos essas informações em um século de</p><p>história das religiões no Brasil. Não é uma tarefa simples, para um país de extensões</p><p>tão continentais. No entanto, é o momento para solidificar</p><p>“nova” religião, substituindo a antiga, mas</p><p>absorvendo-a em vários aspectos, em uma transferência da profecia e da</p><p>esperança para o plano do cumprimento das promessas de Deus. E assim, o</p><p>Cristianismo adquire sua forma como religião</p><p>1.3 ISLAMISMO</p><p>Um homem recebe uma mensagem de Deus no deserto da Arábia; seu nome</p><p>é Muhammad (ou Maomé). Ele é um beduíno, nascido no deserto da Arábia. Por</p><p>volta de 610, o anjo Gabriel anuncia-lhe que ele é o profeta supremo escolhido por</p><p>Deus para iluminar a humanidade. A revelação divina será fixada, posteriormente,</p><p>por escrito para evitar que seja apagada das memórias: dessa forma, surge o</p><p>Alcorão.</p><p>O que essa revelação contém? Que existe apenas um Deus, "Allah", e ele</p><p>deve ser obedecido. Muhammad começa a pregar a nova profecia. Primeiro em</p><p>Meca, sua terra natal, mas apenas alguns parentes o seguem. Perseguido por</p><p>membros de sua tribo, refugiou-se em Medina. Este exílio ocorreu no ano de 622,</p><p>data da Hégira, início do calendário islâmico (SANCHIS, 2018).</p><p>Em Medina, Maomé conseguiu converter várias tribos. Ele se torna seu líder. À</p><p>frente de um pequeno exército, ele parte para conquistar Meca, e conquista, então</p><p>parte da Arábia.</p><p>Após sua morte, em 632, os califas que o sucedem partiram para conquistar o</p><p>mundo "à maneira de Deus". Em um século, o Islã se espalhou em um enorme império</p><p>16</p><p>que se estende da Espanha ao Afeganistão. A civilização muçulmana nasceu.</p><p>Aqui está, em poucas palavras, a história canônica dos primórdios do Islã</p><p>como é contada pela tradição muçulmana. Encontra-se em todos os livros de texto</p><p>introdutórios às religiões. É também esse relato que por muito tempo serviu como</p><p>uma estrutura geral para os historiadores.</p><p>Vamos ao conflito?! Afinal, a história da humanidade não é nada linear; muito</p><p>menos quando o assunto é religião.</p><p>Mas, vários historiadores questionam radicalmente esse cenário. Outro</p><p>paradigma das origens derruba completamente a tradicional “grande narrativa”. O</p><p>que essa história diz? Que Maomé não foi o primeiro muçulmano, mas que se</p><p>converteu a uma forma de judaico-Cristianismo presente em todo o Oriente Médio</p><p>em seu tempo (GUILLAUME, 2004).</p><p>O Islã, como uma religião separada, com sua doutrina, seus ritos e sua</p><p>legislação seria, portanto, uma criação posterior. Ela teria se constituído,</p><p>paulatinamente, ou seja, aos poucos, durante os primeiros séculos num contexto de</p><p>conquista imperial, à época da constituição de um novo poder califal. É neste</p><p>contexto de criação de um estado teocrático que o Islã teria sido elaborado e que</p><p>uma história fundadora teria sido “forjada”.</p><p>Até agora, as fontes muçulmanas traçaram a origem do Islã até a década de</p><p>610, a data dos primeiros sermões de Maomé. Anteriormente, a tradição religiosa nos</p><p>dizia que a Arábia vivia na "era da ignorância", adorando ídolos e divindades tribais.</p><p>Agora, as coisas aparecem em um ângulo muito diferente quando se pergunta o</p><p>que acontecia no Oriente Médio e na Arábia na virada do século VII e em toda a</p><p>região. À medida que Maomé entra na cena da história, o Judaísmo e o Cristianismo</p><p>continuam a se expandir no Oriente Médio; reinos cristãos e judeus são estabelecidos</p><p>em toda a Arábia, e muitas tribos árabes já se uniram ao deus único dos judeus e</p><p>cristãos (SANCHIS, 2018).</p><p>No norte e leste da Arábia, o Império Cristão – ou Império Bizantino – estende</p><p>17</p><p>seu domínio da atual Síria ao Egito. Para defender suas fronteiras de ataques, o</p><p>Império Bizantino convocou tribos árabes como a dos gassânidas, instaladas na</p><p>atual Jordânia. Seus líderes se uniram ao Cristianismo. A tribo principesca de Ghassan</p><p>luta contra outra tribo árabe: os lakhmids, que são, em sua maioria, cristianizados.</p><p>Seu rei, um contemporâneo da juventude de Maomé, acabou se convertendo. Os</p><p>caravaneiros de Meca estão em contato com mercadores do Egito, então</p><p>dominados pelas elites cristãs. Mais ao sul, o grande reino etíope de Aksum também</p><p>é cristão de obediência nestoriana. É, também, na Etiópia, que os companheiros do</p><p>profeta perseguido em Meca encontrarão refúgio. A história canônica relatada pela</p><p>tradição muçulmana nos diz que eles serão muito bem recebidos pelo rei cristão</p><p>com quem Maomé mantinha boas relações. O reino de Aksum estende seu domínio</p><p>ao sul da Arábia e luta contra o reino judeu de Himyar, localizado no atual Iêmen.</p><p>Várias rotas de caravanas ligam esses reinos cristãos e judeus. Meca é uma das</p><p>encruzilhadas onde se encontram beduínos árabes de diferentes religiões, como</p><p>judeus, cristãos e pagãos.</p><p>Figura 3: Criança islâmica em oração</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3rjMVoJ. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Durante esses contatos, muitos árabes se convertem à ideia de um deus</p><p>único, fascinados tanto pelo poder e riqueza dos representantes desses reinos</p><p>quanto pelo rigor e unidade de seu deus. Maomé foi um desses convertidos, entre</p><p>muitos outros? Por quem ele teria sido convertido? E que tipo de monoteísmo? A</p><p>questão não está resolvida e não está prestes a sê-lo. Mas, muitos historiadores, hoje,</p><p>18</p><p>inclinam-se a favor de um dos grupos judaico-cristãos presentes na região (PRÉMARE,</p><p>2002). De fato, o Judaísmo ou o Cristianismo presentes no Oriente não são</p><p>homogêneos. Nem as comunidades judaicas nem os cristãos dos primeiros séculos</p><p>se submeteram a um único dogma e, portanto, à autoridade de Roma ou Bizâncio.</p><p>Cada uma das comunidades cristãs que se formaram em torno do Mediterrâneo -</p><p>Egito, Grécia, Turquia, Síria -, correspondendo hoje ao que chamamos de Cristãos</p><p>do Oriente, manteve por muito tempo sua autonomia doutrinal e organizacional.</p><p>Mesmo no tempo de Maomé, 600 anos após a morte de Jesus, os cristãos ainda</p><p>debatem o status de Cristo (FERREIRA, 2021). No Egito, encontramos comunidades</p><p>cristãs bizantinas e arianistas, para quem Jesus é filho de Deus, mas distinto de seu</p><p>pai; os nestorianos, muito presentes na Turquia, professam outra doutrina segundo a</p><p>qual coexistem em Jesus duas naturezas: uma divina, outra humana. Existe, ainda,</p><p>uma doutrina dita monofísica que postula que a natureza humana de Jesus estava</p><p>inteiramente absorvida na divindade: portanto, ele não teria nada de humano. As</p><p>diferenças doutrinárias também escondem conflitos comunitários e questões de</p><p>poder. Para uma Igreja local, aderir a uma doutrina oficial imposta pelo Império</p><p>equivale a submeter-se e perder sua autonomia. Entre as diversas variantes cristãs,</p><p>há algumas que ocupam um lugar especial na história das origens do Islã, a dos</p><p>grupos judaico-cristãos que, como o próprio nome diz, são judeus e cristãos.</p><p>Maomé não seria, portanto, o fundador de uma nova religião resultante de</p><p>uma revelação, mas um convertido ao monoteísmo judaico-cristão, talvez um</p><p>pouco mais intransigente do que outros. Seu objetivo: impor a seus semelhantes o</p><p>respeito de uma lei (a do Deus único) que os pagãos ignoram e que outros</p><p>monoteístas como ele não praticam com suficiente zelo.</p><p>Além da importante presença de judeus e cristãos na comitiva do Profeta e</p><p>da correspondência entre a pregação muçulmana e judaico-cristã, outros</p><p>argumentos são apresentados para sustentar esta tese. As próprias palavras</p><p>"Alcorão", "suras", "verso" não são árabes, mas de origem siríaca, aramaica e</p><p>hebraica, línguas usadas por cristãos e judeus na região. No Alcorão, nem judeus</p><p>nem cristãos são referidos como uma unidade única. Os judeus banidos de Medina</p><p>são por traição e não por razões doutrinárias. Os cristãos aparecem sob o nome de</p><p>"nazarenos", ou "associacionistas". No Alcorão, também aparecem os misteriosos</p><p>"hanifs", palavra que designa os "monoteístas" que compartilham as mesmas</p><p>convicções de Maomé, mas não são muçulmanos propriamente ditos:</p><p>19</p><p>simplesmente, porque o Islã como religião ainda não existe (SILVA,</p><p>os estudos realizados até</p><p>aqui.</p><p>Parecerá repetição em alguns momentos, mas não é. É a concretização de</p><p>uma situação que viemos a estudar desde os primeiros tópicos, e já caminhamos</p><p>para o fim. Então, o que antes era a formação da identidade religiosa de um povo,</p><p>agora, é a realidade que se materializa em estudos e fenômenos históricos, culturais,</p><p>sociais e políticos.</p><p>Estamos a nos referir ao século XX, um século já considerado histórico e História</p><p>para nós, para a humanidade. E o que dizer de um século atual, já com 20%</p><p>consumado? Caminhamos, mais uma vez, para outras sedimentações, outros</p><p>parâmetros, no entanto, com as mesmas tradições religiosas de massa sob um novo</p><p>formato. Afinal, nenhuma grande religião fundada em nosso país desapareceu. Ao</p><p>contrário, elas sofrem alterações, para mais ou para menos, e novos clãs religiosos</p><p>surgem.</p><p>E, assim, esta unidade consistirá em mencionar, elaborar e reforçar o aspecto</p><p>teológico, religioso, histórico, social e político de uma nação. Sigamos, pois!</p><p>11.1 SOCIEDADE E RELIGIÃO NO SÉCULO XX</p><p>O Brasil é, de fato, considerado o país católico mais importante do mundo em</p><p>termos de fiéis. Quase 65% da população do Brasil é católica, e apesar de os dados</p><p>variarem entre uma época e outra, usaremos sempre os dados do IBGE do censo de</p><p>2010 (IBGE, 2010).</p><p>Assim como Ouro Preto, em Minas Gerais, muitas cidades históricas brasileiras</p><p>são dominadas pelos campanários das catedrais barrocas, testemunhas do poder</p><p>da Igreja Católica no Brasil, desde sua introdução pelos portugueses no século XVI</p><p>Erro!</p><p>Fonte de</p><p>referênci</p><p>a não</p><p>encontra</p><p>187</p><p>até os dias de hoje.</p><p>Embora a proporção de católicos tenda a diminuir em nosso país, em favor</p><p>das igrejas evangélicas, os sinais de religiosidade ainda são numerosos: cruzes no</p><p>pescoço, camisetas com a efígie de santos, mensagens religiosas coladas na traseira</p><p>de carros e caminhões. Da mesma forma, o calendário é pontilhado de muitos</p><p>feriados católicos, todos celebrados com fervor (ISAÍAS, 2009).</p><p>Entre as mais famosas festividades religiosas católicas estão a peregrinação à</p><p>Basílica de Nossa Senhora Aparecida e a Semana Santa em Fazenda Nova,</p><p>Pernambuco, com a recriação ao ar livre dos últimos momentos de Cristo na Terra.</p><p>Figura 21: Semana Santa em Fazenda Nova</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3tmxY6b. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>188</p><p>Já quanto à Igreja Evangélica, podemos compará-la a uma igreja em</p><p>ascensão, pois se você assistir à televisão brasileira, rapidamente encontrará um</p><p>programa da Igreja Evangélica, com seus canais próprios nos quais as celebrações</p><p>são transmitidas ao vivo, sendo os pastores considerados verdadeiras celebridades</p><p>públicas. Alguns até possuem uma carreira artística de sucesso a serviço da fé, o que</p><p>acontece também com a Igreja Católica, que conta com sacerdotes midiáticos e</p><p>canais especializados, além de rádios, podcasts e mídias sociais (ISAÍAS, 2011).</p><p>Apesar de hoje isso parecer comum a todas elas, inclusive em canais pagos,</p><p>as pregações e cultos dessas igrejas são consideradas pioneiras em nosso país, já que</p><p>outras, como a Igreja Católica, resumia-se à transmissão de missas dominicais e em</p><p>tempos de festividades como Natal, com a famosa Missa do Galo, apresentada ao</p><p>mundo todo pela rede do Vaticano (SANCHES, 2018).</p><p>No YouTube, muitos cantores da categoria gospel promovem seus álbuns e</p><p>suas turnês. A cada ano, um grande festival gratuito dedicado a esse gênero musical</p><p>e religioso também reúne centenas de milhares de pessoas em torno de uma</p><p>programação de artistas evangélicos nacionais e internacionais.</p><p>Hoje, no Brasil, os evangélicos são a segunda religião mais popular com mais</p><p>de 18 milhões de seguidores. Graças a uma comunicação bem ensejada, a Igreja</p><p>Evangélica continua conquistando novos fiéis (ISAÍAS, 2009).</p><p>Na década de 1930, surge em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, um</p><p>novo componente do campo religioso, mediúnico e afro-brasileiro: trata-se do Abrigo</p><p>Espírita São Francisco de Assis. Esta fundação, sede da Congregação dos</p><p>189</p><p>Franciscanos Espíritas de Umbanda, integra o processo de umbanda no início do</p><p>século XX (ISAÍAS, 2013). A Congregação dos Franciscanos Espíritas de Umbanda</p><p>evidenciou experiências e memórias religiosas de seu fundador, Laudelino Manoel de</p><p>Souza Gomes, oficial da Marinha brasileira, negro, nascido após a libertação dos</p><p>povos escravizados no Brasil em uma realidade cultural extremamente rica. Nela,</p><p>sobressaem-se muitas influências das viagens que fazia como telegrafista da Marinha,</p><p>condição que o levou a várias regiões do Brasil e, segundo as narrativas de seus</p><p>seguidores, a vários lugares do mundo.</p><p>A Congregação foi concebida a partir de duas referências básicas: a</p><p>nascente Umbanda e as Ordens Terceiras de São Francisco. Esta forma apresenta um</p><p>panteão variado no qual, além de São Francisco de Assis, existe desde a presença</p><p>tradicional na Umbanda dos ancestrais negros escravizados e povos originários, até</p><p>bispos católicos (ISAÍAS, 2013).</p><p>Venerando um panteão diverso que se enriqueceu à medida que a</p><p>sociedade brasileira cresceu em complexidade social e renovou seus referenciais</p><p>axiológicos. A Umbanda, como religião mediúnica, mostra uma notável capacidade</p><p>de celebrar a diversidade. Da submissão estereotipada do Preto Velho, figura de</p><p>culto que remete aos pretos velhos dos povos escravizados, ao orgulho e</p><p>pragmatismo dos Caboclos, a Umbanda adotou outras entidades típicas que</p><p>incorporam diversos valores sociais. Assim, no culto dos Exus, a sala das Pombagira e</p><p>Malandros é feita de improviso e transgressão. Com a dos Erês, consideradas</p><p>crianças, cultua-se a celebração da inocência. A liberdade e a alegria de viver</p><p>remete aos Ciganos. O panteão umbandista é vasto, diversificado e totalmente</p><p>inusitado (ISAÍAS, 2013).</p><p>Este local de culto também tem um espaço denominado terreiro em que</p><p>homens e mulheres vestem o hábito característico dos franciscanos católicos e</p><p>adoram São Francisco de Assis. Este é o chamado ritual das Semirombas que destaca</p><p>certos aspectos do Catolicismo pré-conciliar com valores como a caridade, a</p><p>190</p><p>renúncia aos bens terrenos ou o ascetismo. O Abrigo Espírita São Francisco de Assis,</p><p>como sede da Congregação dos Franciscanos Espíritas de Umbanda, é considerado</p><p>o primeiro local de culto umbandista da capital Porto Alegre (ISAÍAS, 2013).</p><p>Laudelino parece ter conseguido frustrar todos os prognósticos sociais relativos</p><p>a um homem negro em um Brasil ainda fortemente marcado pelo preconceito racial.</p><p>Por causa de seus deveres militares, ele se beneficiou de um treinamento cultural</p><p>interessante.</p><p>Essas distinções pessoais, no entanto, não foram suficientes para protegê-lo da</p><p>repressão infligida às religiões afro-brasileiras sob a ditadura de Getúlio Vargas. A sede</p><p>do Abrigo e da Congregação foi invadida pela polícia em 1943. Laudelino,</p><p>considerado curandeiro, foi indiciado pelo exercício ilegal da medicina. Condenado,</p><p>ele pagou fiança legal, permitindo-lhe que não fosse preso (ISAÍAS, 2013).</p><p>Figura 22: Procissão da Congregação dos Franciscanos Espíritas de Umbanda</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3MxcWbT. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Na atual sede do Abrigo Espírita São Francisco de Assis, as camadas de</p><p>memória acumuladas por seus membros ao longo de mais de oito décadas de</p><p>existência se materializam por toda parte. Se esta é uma das funções tradicionais da</p><p>religião, de que os templos são lugares de memória por excelência (MEYER-PF LUG,</p><p>2009), a Congregação não deixou de se dedicar a ela. Quanto mais o observador se</p><p>familiariza com as fotos, as pinturas, a música, os trajes, os ornamentos litúrgicos, as</p><p>prescrições orais ou escritas, melhor ele compreende um tempo em</p><p>que a autoridade</p><p>da tradição e do líder se impunha como forma superior de regulação da vida. Para</p><p>191</p><p>os atuais membros da congregação, esse passado é como uma “era de ouro”</p><p>durante a qual os muitos franciscanos de Umbanda nunca deixaram de manter viva</p><p>uma memória ancorada no sagrado pela repetição de prescrições tidas como</p><p>legítimas (ISAÍAS, 2013).</p><p>Nos aspectos doutrinários de sua leitura da Umbanda, Laudelino aproximou as</p><p>teogonias africanas dos dogmas católicos, sobretudo quando os acontecimentos</p><p>atuais trouxeram um ou outro deles para o centro da discussão. Foi o caso da</p><p>Assunção da Virgem nos anos que antecederam a decisão de Pio XII, em 1950, de</p><p>consagrá-la no direito da Igreja. Laudelino também se interessou por ela, à sua</p><p>maneira, ao relacionar o mito iorubá de Iemanjá à proclamação papal. Ensinava</p><p>que esse orixá feminino, mãe de todas as divindades (PRANDI, 2005), correspondia</p><p>tanto à Virgem Maria quanto à Iara, a “rainha das águas” dos povos originários. No</p><p>mito africano, Iemanjá sofre as agressões incestuosas de seu filho Orugan. Laudelino</p><p>explicou que, de fato, Oxalá, o orixá da criação, protegeu-a, elevando-a ao céu. O</p><p>debate sobre o pressuposto lhe deu, a partir de 1948, uma chave para a leitura</p><p>exegética (ISAÍAS, 2013).</p><p>Figura 23: Homem caracterizado para a cerimônia Semiromba</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/395EveK. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>192</p><p>Outro aspecto dessa convergência é o uso do latim durante as cerimônias,</p><p>pois havia dois momentos claramente distintos no culto: a parte “religiosa” e a parte</p><p>mediúnica: a primeira incluía muitos aspectos próximos à liturgia católica, enquanto</p><p>a segunda era claramente dedicada ao ritual da Umbanda, quando as entidades</p><p>ancestrais "desciam" para aconselhar os vivos e transmitir-lhes mensagens. No</p><p>entanto, o que separava essas duas fases era uma oração cantada em latim, que</p><p>lembrava uma “bênção do sacramento”.</p><p>A Umbanda brasileira tem sido, historicamente, caracterizada por sua</p><p>imprevisibilidade. Nem tudo nesta religião está aberto a macro explicações, já que</p><p>rituais, doutrinas, hierarquias, entre outros, não estão sujeitos a uma autoridade</p><p>central, nem a uma reprodução pura e simples da tradição. Segundo Schwarcz</p><p>(2001), o caráter rizomático é o que melhor define a identidade umbandista que foi</p><p>forjada em conexão com as evoluções socioculturais da sociedade brasileira.</p><p>O abrigo espírita de São Francisco de Assis e o ritual das Semirombas propostos</p><p>por Laudelino Manoel de Souza Gomes não são os menores de suas representações</p><p>religiosas. Fazem parte das idiossincrasias de uma Umbanda capaz de articular o</p><p>arcabouço doutrinário do Espiritismo e a herança mágica africana e dos povos</p><p>originários ao culto dos bispos católicos ultramontanos, bispos estes realmente</p><p>vinculados mais às causas sociais do que à realização de funções políticas</p><p>estabelecidas entre o bispado, Roma e a política governamental.</p><p>Essa parte do clero, assemelhando-se à teologia da libertação, tinha como</p><p>objetivo construir um espírito de religiosidade no povo, e não se abstinha de conhecer</p><p>e mesmo experimentar outras práticas religiosas, o que não foi bem-visto pela Igreja</p><p>Católica e por parte da maioria dos fiéis católicos (ISAÍAS, 2013).</p><p>Logo, tais cerimônias do abrigo espírita de São Francisco de Assis e seus rituais</p><p>eram realizados ao som de antífonas cantadas em latim ao ritmo de maracás e</p><p>pandeiros (ISAÍAS, 2013).</p><p>193</p><p>11.2 SÉCULO XXI: MUDANÇA DE PARADIGMAS OU PERDA DA FÉ?</p><p>O Brasil e seu modelo de desenvolvimento econômico e social receberam</p><p>elogios durante alguns anos. Mas, se tendemos a atribuir o mérito desses avanços ao</p><p>Estado e ao mercado, esquecemos que no país, o terceiro setor, que reúne entidades</p><p>sem fins lucrativos com base no voluntariado, desempenha um papel decisivo no</p><p>desenvolvimento social, precisamente onde o Estado encontra-se ausente (RICOEUR,</p><p>2000).</p><p>Um setor de voluntarismo ocorre no Brasil como em quase todas as nações</p><p>latino-americanas, composto de forma muito significativa por entidades religiosas</p><p>claramente filiadas a congregações majoritariamente católicas, evangélicas,</p><p>espírito-kardecistas ou mesmo afro-brasileiras, todos exercendo uma influência</p><p>considerável neste campo em expansão. (RICOEUR, 2000).</p><p>A contribuição das organizações religiosas e ação social certamente não é</p><p>novidade no Brasil e perpetua em uma longa tradição nascida nos primeiros anos da</p><p>conquista portuguesa pelos jesuítas.</p><p>Nos últimos anos, um número crescente de investigadores das ciências sociais</p><p>interessa-se cada vez mais pelo lugar e papel da religião, nos seus vários segmentos,</p><p>nos sistemas sociais ocidentais e nas políticas de desenvolvimento dos países do Sul.</p><p>Projetos de cooperação universitária que analisam a relação entre ação social (bem-</p><p>estar) e religião têm sido, assim, realizados na Europa com uma abordagem</p><p>comparativa, destacando a disparidade de situações de acordo com as regiões</p><p>consideradas (SCHWARCZ, 2001).</p><p>A ação social empreendida pelos atores religiosos é tanto fundadora quanto</p><p>recorrente na história do desenvolvimento brasileiro. Os livros e manuais de história</p><p>194</p><p>colonial nunca deixam de recordar o papel dos jesuítas que acompanharam, ao</p><p>longo do século XVI, o grande projeto de colonização ibérica. Durante todo o</p><p>período colonial e boa parte do Império, entre 1822 e 1889, o Estado e a Igreja</p><p>mantiveram, efetivamente, uma relação de patrocínio, na qual o catolicismo serviu</p><p>mais ou menos como um braço ideológico e social da monarquia portuguesa</p><p>(SCHWARCZ, 2001).</p><p>Uma relação que se deteriorou com o advento da República. No entanto, se</p><p>a adoção da Constituição republicana positivista em 1891, de fato, sancionou a</p><p>separação das duas esferas e a liberdade de culto, pouco afetou, na realidade, a</p><p>participação social de uma Igreja ainda predominante. Esta última viu, inclusive, suas</p><p>prerrogativas sociais reforçadas durante a década de 1930, quando o Estado Novo</p><p>de Getúlio Vargas favoreceu uma nova aproximação “do trono e do altar”</p><p>(ANDRADE, 2013).</p><p>O advento do regime militar em 1964 marcou uma nova inflexão no papel</p><p>social de uma Igreja Católica que fez no Brasil, na continuidade do Concílio Vaticano</p><p>II e da teologia da libertação, a dupla escolha de uma "opção preferencial pelos</p><p>pobres e desafiando o regime militar” (MATA, 2010).</p><p>A "Igreja dos pobres", muito influenciada por Dom Hélder Câmara, deu à sua</p><p>ação social uma dimensão inédita de sensibilização e mobilização de categorias</p><p>desfavorecidas, nomeadamente através das famosas comunidades eclesiais de</p><p>base e inúmeras pastorais sociais entre os anos de 1970 e 1980.</p><p>Os anos da ditadura (1964-1985) também viram, paralelamente, o</p><p>desenvolvimento e o crescimento de uma série de movimentos evangélicos e</p><p>neopentecostais em todo o país que, aos poucos, passaram a competir com a</p><p>hegemonia da Igreja Católica entre os mais pobres (MATA, 2010).</p><p>195</p><p>Além disso, se anteriormente, os movimentos evangélicos brasileiros, ao</p><p>considerarem o mundo como fundamentalmente corrupto e o Reino de Deus como</p><p>um ideal a ser alcançado no além, haviam feito a opção pelo não engajamento no</p><p>plano social, o surgimento das igrejas neopentecostais (MATA, 2010) mudou a</p><p>situação.</p><p>Com base nos princípios da "teologia da prosperidade", as igrejas</p><p>neopentecostais, em plena atividade no início da década de 1980, impuseram um</p><p>novo paradigma na ação social religiosa, segundo o qual a religião deve ter papel</p><p>primordial no sucesso material e profissional dos fiéis. Multiplicaram-se, assim, as</p><p>iniciativas dirigidas a empresários por conta própria (coaching empresarial,</p><p>microcrédito), estudantes (bolsas) e desempregados (plataformas de procura</p><p>de</p><p>emprego.</p><p>Cabe mencionar, também, o movimento espírita-kardecista, que teve</p><p>verdadeiro sucesso junto à classe média e intelectual brasileira. Com “caridade”</p><p>como palavra-chave, os espíritas de fato construíram, ao longo de seu século de</p><p>existência, muitos centros com vocação social ou educativa em todo o país e</p><p>constituem, hoje, parte significativa da ação social (NODARI, 2017).</p><p>A religião, com todo o dinamismo e pluralismo que a caracteriza no Brasil, hoje</p><p>desempenha um papel essencial no desenvolvimento do país. Conselheiros,</p><p>complementares e, às vezes, até substitutos de um Estado constantemente</p><p>sobrecarregado pela magnitude das questões ou mesmo ausente de certas áreas</p><p>sensíveis, as ERAS – Entidades Religiosas para Ação Social – brasileiras voltam a ser</p><p>parceiras privilegiadas do Estado, colocando, efetivamente em questão, o sistema</p><p>de separação entre Estados e Igrejas constitucionalmente estabelecidas há mais de</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>196</p><p>um século (NODARI, 2017).</p><p>Um laicismo de substituição parece, assim, tomar forma, onde o religioso iria</p><p>reivindicar um conjunto de prerrogativas pertencentes ao Estado, tornando-se este</p><p>mais patrocinador e não mais executor do desenvolvimento social. A</p><p>instrumentalização pelo poder político da contribuição das outras entidades</p><p>religiosas, por um lado, e a crescente influência política das entidades religiosas para</p><p>a ação social por outro, e seus porta-vozes, contribuem para reforçar certa</p><p>interferência mútua das esferas políticas no país (NODARI, 2017).</p><p>O sentimento religioso e sua importância na vida política, longe de</p><p>desaparecer como previsto pelas teorias da secularização, são, ao contrário, objeto</p><p>de renovado interesse nos meios acadêmicos. O exemplo do Brasil, com sua</p><p>laicidade “flexível” em um contexto democrático de forte religiosidade popular,</p><p>oferece novas perspectivas analíticas para as ciências humanas e sociais (NODARI,</p><p>2017).</p><p>11.3 FÉ E TECNOLOGIA NO BRASIL CONTEMPORÂNEO</p><p>Com a disseminação dos dispositivos móveis e da Internet de alta velocidade,</p><p>a rede generalizada de objetos, o aparecimento de um processo cada vez mais de</p><p>interfaces, a concepção teórica de um mundo virtual separado de um mundo real –</p><p>um mundo online e um mundo offline – cria certos mecanismos de interação, isso é</p><p>fato.</p><p>Mas, de que forma podemos administrar essa interatividade toda?</p><p>Quase todas as nossas atividades são em redes digitais; estamos sempre</p><p>conectados. Curiosamente, os aspectos materiais do digital foram drasticamente</p><p>reduzidos, estão mais leves e invisíveis.</p><p>197</p><p>Figura 24: Fé e Tecnologia</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3Hb76fs. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>A imaginação mística torna-se, assim, menos transcendente e mais imanente;</p><p>um imaginário e uma energia que se concentra no aqui e agora, de forma</p><p>conectada e informativa. Assim, parece que utopias distantes estão enfraquecidas,</p><p>inclusive aquelas ligadas à noção ultrapassada de ciberespaço. É sempre uma</p><p>verdadeira reviravolta, mas não substitui uma interação face a face, pessoa a</p><p>pessoa, ou mesmo, pessoa e transcendência (FELINTO, 2005).</p><p>Assim, é possível realizar uma nova fusão entre religiosidade e tecnologia. As</p><p>redes, ao permitir que as diferentes representações do sagrado se espalhem com</p><p>muita facilidade, favorecem uma mistura religiosa e estimulam o surgimento de</p><p>experiências que adotam novas formas de sincretismo.</p><p>O uso de técnicas de rede define cursos de ação e dimensões que dão uma</p><p>percepção relativa da realidade e da sacralidade humana. Como resultado, as</p><p>redes fomentam uma atitude de construção constante e atualizações transitórias de</p><p>várias representações do sagrado, que está em extrema afinidade com a</p><p>espiritualidade contemporânea.</p><p>198</p><p>O mundo é, virtualmente, transformável e deve ser concretizado. Nas</p><p>experiências contemporâneas das redes digitais, especialmente as religiosas, não há</p><p>mais algo virtual que se oponha ao real, mas há deslocamentos para outras</p><p>dimensões bastante imanentes e transcendentes, dependendo do cunho filosófico</p><p>e/ou religioso, caracterizadas pela conexão entre diferentes objetos, humanos e</p><p>outros modos de existência, como a natureza do sagrado e de entidades (FELINTO,</p><p>2005).</p><p>O que conta nessa mística é a conexão, estar conectado com os outros, a</p><p>terra e o mundo espiritual. Somos contemporâneos de uma revitalização do sagrado,</p><p>em que as novas tecnologias digitais desempenham um papel essencial, sendo</p><p>responsáveis pela emergência de um novo conceito de espiritualidade, um sagrado</p><p>interativo, fruto da união do concreto com a tecnologia.</p><p>As redes digitais, como técnicas da religiosidade, difundem uma mística que</p><p>agrega elementos ultrapassados pela modernidade e pelo monoteísmo – como</p><p>animismo, paganismo e mistério – com o elemento tecnológico. Passamos de uma</p><p>experiência do sagrado ligada essencialmente à sua indisponibilidade, para outra</p><p>experiência, caracterizada pela sua constante disponibilidade (FELINTO, 2005).</p><p>A técnica, aqui, compreende o processo de virtualidade das relações entre o</p><p>ser e o sagrado via elementos tecnológicos, como dispositivos móveis, plataformas,</p><p>redes de computadores, toda a aparelhagem necessária para a interação entre o</p><p>homem e as coisas do sagrado.</p><p>Note-se que a dimensão utilitária dos objetos técnicos nos parece mais intensa.</p><p>As experiências determinadas pelos conteúdos religiosos não são mais o ponto de</p><p>partida da experiência do sagrado, mas o meio em si. Nesse sentido, o fenômeno da</p><p>religiosidade é um daqueles exemplos em que a técnica faz parte do ritual sagrado</p><p>(FELINTO, 2005).</p><p>O computador, os dispositivos móveis, as redes e outras técnicas digitais estão</p><p>qua l</p><p>importante</p><p>199</p><p>incluídas em ritos e celebrações religiosas, uma forma de colocar o sagrado na</p><p>realidade virtual. O que vemos é uma conjunção, uma interação entre indivíduo,</p><p>sagrado e computador.</p><p>Podemos mencionar, dessa forma, o ambiente virtual como a imagem que nos</p><p>permite o culto da religiosidade. O meio virtual é a epifania do corpo com a outra</p><p>técnica, a celebração dessa conjunção religiosa como um arquétipo</p><p>fundamentalmente multidimensional e que nos convida a pensar a partir de novos</p><p>caminhos da cultura e da espiritualidade contemporâneas (FELINTO, 2005).</p><p>Se há o deslocamento da religião institucional para o ambiente digital, de</p><p>modo que construa uma verdadeira religião digital, também é verdade que o digital</p><p>faz parte de uma sacralidade tecnológica que acompanha a cultura moderna em</p><p>suas várias transformações. Uma sacralidade em que o próprio meio é algo possível</p><p>e acessível a qualquer um.</p><p>Nesse sentido, a religiosidade digital se estratifica em múltiplas camadas e as</p><p>diferentes materialidades que compõem essa rede revelam certos elementos que</p><p>fazem parte dessa sedimentação, a exemplos de vários cultos hoje transmitidos ao</p><p>vivo pela internet, contrapondo-se a celebrações de outrora em canais aberto de</p><p>televisão.</p><p>A configuração desta realidade é antiga, nada de novo, mas a forma como</p><p>hoje pode ser disseminada a religiosidade sem limites de barreira de espaço e tempo</p><p>é um fenômeno recente. É possível visitar templos e lugares sagrados, meditar ou</p><p>participar de cultos de várias naturezas apenas pela tela de um celular (FELINTO,</p><p>2005).</p><p>200</p><p>Figura 25: Música Gospel</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3Q9MKXY. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Não há mais nada que marque os limites entre as realidades. É sob esta nova</p><p>atmosfera que surgem novas formas de vivenciar o sagrado. Ou seja, da</p><p>materialidade do digital, surgem outras formas de associações e comportamentos.</p><p>Mais do que religião, pode-se vivenciar, no</p><p>ambiente digital, uma religiosidade que</p><p>assume diferentes cores (FELINTO, 2005).</p><p>201</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO</p><p>1. No Brasil, a estatística já comprova, de acordo com o IBGE de 2010, a situação</p><p>das religiões e a variação entre seus números. De acordo com estes dados, a</p><p>segunda igreja mais popular é a:</p><p>a) Evangélica.</p><p>b) Batista.</p><p>c) Católica.</p><p>d) Pentecostal.</p><p>e) Maranata.</p><p>2. Os espíritas pertencem a uma comunidade também considerada importante e</p><p>continuam espalhando sua doutrina. O seu fundador é mais conhecido como:</p><p>a) Chico Xavier.</p><p>b) Allan Kardec.</p><p>c) Hippolyte Léon.</p><p>d) Léon Rivail.</p><p>e) Laudelino Gomes.</p><p>3. A Umbanda, como religião mediúnica, mostra uma notável capacidade de</p><p>celebrar a diversidade. A título de exemplo, podemos citar o culto ao Erês,</p><p>entidades consideradas:</p><p>a) Exus.</p><p>b) Pombagira.</p><p>c) Crianças.</p><p>d) Ciganos.</p><p>e) Malandros.</p><p>4. O sincretismo religioso se espalha pelo Brasil, chegando até o sul do país, e</p><p>originando uma mistura que é conhecida pelo nome de Semirombas. Tal ritual</p><p>destaca-se:</p><p>202</p><p>a) por conter aspectos do Candomblé e da Umbanda, sendo considerado o</p><p>primeiro local de culto da capital Porto Alegre.</p><p>b) por ser, exclusivamente, um culto formado por homens e ter como padroeiro São</p><p>Francisco de Assis.</p><p>c) pela suntuosidade de seus templos, a complexidade de seus escritos e a tradição</p><p>secular.</p><p>d) por unir indumentárias dos franciscanos católicos, ter em sua denominação o</p><p>nome do próprio santo e ser de culto umbandista.</p><p>e) pela presença do profeta Laudelino Gomes, um afrodescendente que incorpora</p><p>o espírito de São Francisco de Assis.</p><p>5. Durante o período colonial e boa parte do Império, o Estado e a Igreja mantiveram</p><p>uma relação de patrocínio, deteriorado com o(a):</p><p>a) República e a Constituição de 1891 que sancionou a separação entre as duas</p><p>esferas.</p><p>b) libertação dos escravizados em 1888 com a Lei Áurea pela princesa Isabel e a</p><p>chegada dos imigrantes europeus.</p><p>c) Estado Novo de Getúlio Vargas, que desfavoreceu a aproximação entre “o trono</p><p>e o altar”, como ficou conhecido.</p><p>d) expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, forçando todo o clero ao regresso</p><p>para Portugal e Itália.</p><p>e) Concílio Vaticano II e a implementação do Estado Novo, ambos ocorridos no</p><p>mesmo período.</p><p>6. As igrejas neopentecostais, em plena atividade no início da década de 1980,</p><p>impuseram um novo paradigma na ação social religiosa, com base nos princípios</p><p>da:</p><p>a) teologia da libertação.</p><p>b) teologia da prosperidade.</p><p>c) opção preferencial pelos pobres.</p><p>d) libertação do regime militar.</p><p>e) opção pelo pentecostalismo.</p><p>203</p><p>7. O uso de técnicas de rede define cursos de ação e dimensões que dão uma</p><p>percepção relativa da realidade e da sacralidade humana. Como resultado, as</p><p>redes:</p><p>a) alteram o conceito de religiosidade, de forma que o sagrado virtual impera sobre</p><p>o sagrado real, sem a presença física da igreja.</p><p>b) fomentam o desejo de atualizações imutáveis do sagrado, estabelecidas pela</p><p>espiritualidade do passado.</p><p>c) fomentam atitude de construção e atualizações transitórias do sagrado, uma</p><p>afinidade com a espiritualidade contemporânea.</p><p>d) dispensam a necessidade de um rito sagrado e um encontro social participativo,</p><p>em prol de uma liberdade maior de expressão.</p><p>e) realizam uma fusão entre fé e tecnologia, permitindo diferentes representações</p><p>do sagrado e culto às outras religiões.</p><p>8. O que conta na tecnologia como algo místico é a conexão, para estar conectado</p><p>com os outros, a terra e o mundo espiritual. Somos contemporâneos de uma</p><p>revitalização do sagrado, em que:</p><p>a) as tecnologias digitais desempenham um papel secundário, mas ainda importante</p><p>no conceito de espiritualidade.</p><p>b) os aparelhos tecnológicos nos guiam com aplicativos reforçadores da fé e do</p><p>pragmatismo humano.</p><p>c) a tecnologia não é novidade, mas a cada geração, é impensável a necessidade</p><p>de um sagrado físico e absoluto.</p><p>d) as tecnologias digitais desempenham um papel essencial, responsáveis por um</p><p>novo conceito de espiritualidade.</p><p>e) a fé torna-se acessível a grupos como afrodescendentes e povos originários, uma</p><p>verdadeira inclusão espiritual.</p><p>204</p><p>DIVERSIDADE RELIGIOSA NO BRASIL</p><p>Segundo o último censo, apenas 8% da população se declara sem crença</p><p>religiosa e já foram citados mais de mil nomes de religiões ou crenças. Informação</p><p>assim nos deixa confusos e, por que não dizer, até um pouco céticos em relação à</p><p>veracidade desses fatos?</p><p>Ainda assim, enquanto 65% dos brasileiros se definem como católicos,</p><p>centenas de cultos evangélicos e outros surgem e desaparecem a cada ano,</p><p>tornando o cenário religioso brasileiro um dos mais dinâmicos do mundo.</p><p>No Brasil, não é incomum a alternância de religião e até a permanência em</p><p>mais de um culto ao mesmo tempo de acordo com as aspirações de cada indivíduo.</p><p>Há, portanto, um mercado real de religiões com índices de popularidade que</p><p>mudam ao longo do tempo, a exemplo do cristianismo e do pentecostalismo, entre</p><p>outras.</p><p>Do tradicional catolicismo apostólico romano ao culto sincrético afro-brasileiro</p><p>do Candomblé, da Umbanda ou mesmo do Budismo, veremos, agora, um breve</p><p>panorama da religiosidade brasileira.</p><p>12.1 FÉ SEM FRONTEIRAS: GLOBALIZAÇÃO DA RELIGIÃO NO BRASIL</p><p>Veremos, aqui, um pequeno recorte sobre as outras religiões presentes no</p><p>Brasil, com dados extraídos, em sua maioria, do censo realizado pelo Instituto Brasileiro</p><p>de Geografia e Estatística – IBGE – de 2010.</p><p>Não cabe nesta unidade e neste livro discorrermos profundamente acerca de</p><p>tais religiões, já que o mesmo assunto é o material do livro intitulado “História das</p><p>Religiões I: as grandes religiões do mundo”. No entanto, é interessante levantarmos</p><p>alguns dados, mínimos que sejam, para termos um panorama mais abrangente da</p><p>presença de outras religiões em território brasileiro.</p><p>Já que não é possível contemplar a maioria, quiçá, todas, escolhemos</p><p>algumas dentre tantas para que você possa ter uma maior compreensão da</p><p>extensão religiosa pelo nosso Brasil afora.</p><p>Erro!</p><p>Fonte de</p><p>referênci</p><p>a não</p><p>encontra</p><p>205</p><p>Algumas já foram comentadas em outros momentos de nossos estudos e são</p><p>trazidas novamente com elemento novo para que seja estruturada, em sua linha de</p><p>raciocínio, uma ideia concretizada do fato e de como a globalização, um tema já</p><p>considerado histórico e que atingiu todas as esferas do conhecimento, também</p><p>deixou suas consequências na construção da religiosidade brasileira.</p><p>Cristianismo</p><p>O Cristianismo é a maior religião do Brasil, sendo os católicos os mais adeptos.</p><p>O Brasil possui uma sociedade ricamente espiritual formada a partir do encontro da</p><p>Igreja Católica com as tradições religiosas dos povos escravizados africanos e dos</p><p>povos originários. Essa confluência de crenças durante a colonização do Brasil levou</p><p>ao desenvolvimento de uma ampla gama de práticas sincréticas dentro do universo</p><p>geral do catolicismo brasileiro, caracterizado pelas festas tradicionais portuguesas</p><p>(GALIMBERT, 2006).</p><p>Até recentemente, o catolicismo era extremamente dominante. A rápida</p><p>mudança no século XXI levou a um crescimento do secularismo, isto é, o indivíduo</p><p>sem filiação religiosa e do protestantismo evangélico para mais de 22% da</p><p>população (IBGE, 2010).</p><p>206</p><p>Em 1891, quando a primeira Constituição republicana brasileira foi</p><p>estabelecida, o Brasil deixou de ter uma religião oficial e permaneceu secular desde</p><p>então, embora a Igreja Católica tenha permanecido politicamente influente até a</p><p>década de 1970. A Constituição do Brasil garante a liberdade de religião e coíbe</p><p>firmemente o estabelecimento de qualquer religião, proibindo o apoio do governo</p><p>ou obstrução da religião em qualquer nível.</p><p>Durante o censo de 2010, 64,63% da população se declarou católica; 22,2%</p><p>protestante; 8% não religiosa e 5,2% adepta de outras religiões, principalmente</p><p>espíritas ou kardecistas que seguem as doutrinas de Allan Kardec, umbandistas,</p><p>candomblés, testemunhas de Jeová, mórmons, e minorias de budistas, judeus,</p><p>muçulmanos e outros grupos (IBGE, 2010).</p><p>As religiões brasileiras são muito diversas e propensas ao sincretismo. Nas</p><p>últimas décadas, houve um aumento exponencial de igrejas neopentecostais e um</p><p>florescimento de religiões afro-brasileiras, fatores que contribuíram para a diminuição</p><p>do número de membros da Igreja Católica Romana.</p><p>O número de umbandistas e candomblés pode ser significativamente maior</p><p>do que o número oficial do censo, já que muitos deles continuam até hoje</p><p>disfarçando sua religião como sincretismo "católico". Cerca de noventa por cento</p><p>dos brasileiros relatou algum tipo de filiação religiosa no censo mais recente</p><p>(GALIMBERT, 2006).</p><p>Embora a Constituição Federal garanta tolerância religiosa a todos os seus</p><p>cidadãos – artigo 5º, inciso VI – ela proíbe, expressamente, todas as entidades que</p><p>compõem a Federação de fundar e financiar cultos públicos e igrejas estatais</p><p>controladas e coordenadas pelo governo, de acordo com o artigo 19, inciso I; no</p><p>207</p><p>entanto, até agora, o Estado brasileiro reconhece o “caráter particular” da Igreja</p><p>Católica sob as demais religiões em seu ordenamento jurídico de acordo com o</p><p>artigo 16 do Decreto 7.107 de 2010, razão pela qual a lei reconhece a Virgem Maria,</p><p>a mãe de Jesus, como “padroeira do Brasil”, estabelecido pelo artigo 1º da lei</p><p>6.802/1980 (ANDRADE, 2013).</p><p>Figura 26: Basílica de Nossa Senhora Aparecida – Aparecida do Norte – SP</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3QdSBLZ. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Nos tempos coloniais não havia liberdade de religião. Todos os colonos</p><p>portugueses e brasileiros estavam vinculados à fé católica e tinham que pagar o</p><p>dízimo à Igreja. Após a independência do Brasil, a primeira constituição introduziu a</p><p>liberdade de religião em 1824, mas o catolicismo permaneceu a religião oficial. O</p><p>governo imperial pagava um salário a cada padre católico e influenciava a</p><p>208</p><p>nomeação de bispos. A divisão político-administrativa das comunas acompanhou a</p><p>divisão hierárquica dos bispados em paróquias (XAVIER, 1991).</p><p>A primeira Constituição republicana de 1891 separou a religião do Estado e</p><p>tornou todas as religiões iguais nos códigos de lei, mas a Igreja Católica permaneceu</p><p>muito influente até a década de 1970. Por exemplo, devido à forte oposição à Igreja</p><p>Católica, o divórcio não foi permitido no Brasil até 1977, embora um casal separado</p><p>professasse uma religião diferente (XAVIER, 1991).</p><p>A fé católica praticada no Brasil está repleta de festas populares enraizadas</p><p>em tradições portuguesas centenárias, mas também, fortemente influenciadas pelos</p><p>usos e costumes africanos e de povos originários. As tradições populares incluem</p><p>romarias ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida do</p><p>Norte, padroeira do Brasil, festas religiosas como o Círio de Nazaré, em Belém, e a</p><p>Festa do Divino, em muitas cidades do Brasil (XAVIER, 1991).</p><p>Regiões que receberam muitos imigrantes europeus no século passado,</p><p>principalmente italianos e alemães, têm tradições católicas mais próximas das</p><p>praticadas na Europa.</p><p>A maior proporção de católicos está concentrada nas regiões Nordeste (59%)</p><p>e Sul (53%). A menor proporção de católicos encontra-se na região Centro-Oeste</p><p>(49%). O estado do Piauí tem a maior proporção de católicos (85%) e o estado do Rio</p><p>de Janeiro a menor (45,19%). Entre as capitais, Teresina tem a maior proporção de</p><p>católicos do país (86,010%), seguida por Aracaju, Fortaleza, Florianópolis e João</p><p>Pessoa, segundo dados do IBGE de 2010 (IBGE, 2010).</p><p>Protestantismo</p><p>Entre os protestantes que chegaram ao Brasil, além dos anglicanos (ou</p><p>episcopais) ligados à presença inglesa após 1810, os imigrantes mais numerosos eram</p><p>os luteranos de origem alemã. As duas primeiras comunidades do que hoje é a Igreja</p><p>Evangélica Luterana no Brasil foram formadas em Nova Friburgo (Rio de Janeiro) e</p><p>São Leopoldo (Rio Grande do Sul), em 1824. Segundo Antônio Gouveia de</p><p>Mendonça, a IELB era considerada uma Igreja étnica, a Igreja dos alemães e seus</p><p>descendentes (ANDRADE, 2013).</p><p>Conforme o censo de 2010, mais de um milhão e quinhentos mil brasileiros se</p><p>declararam luteranos, o que constitui, aproximadamente 15% dos protestantes</p><p>tradicionais. Mas, nem todos pertencem à IELB. Uma parte cabe à Igreja Evangélica</p><p>209</p><p>Luterana do Brasil (IELB), vinculada ao Sínodo de Missouri, comunidade luterana</p><p>estabelecida na América do Norte por imigrantes alemães em 1847 e que, a partir</p><p>de 1867, enviou missionários para o Brasil (ANDRADE, 2013).</p><p>Na segunda metade do século XIX, missionários presbiterianos, batistas e</p><p>metodistas chegaram dos Estados Unidos. Hoje, as igrejas fundadas por eles têm um</p><p>número significativo de fiéis.</p><p>Ortodoxos</p><p>A Igreja Ortodoxa também está presente no Brasil. A Catedral Metropolitana</p><p>Ortodoxa de São Paulo é a sede episcopal da Arquidiocese Ortodoxa Antioquina de</p><p>São Paulo e de todo o Brasil. É um exemplo de notável arquitetura bizantina na</p><p>América do Sul. Projetado na década de 1940 no modelo da Igreja Hagia Sophia em</p><p>Constantinopla, hoje, atual Istambul, foi inaugurada em janeiro de 1954.</p><p>Apesar da presença deste edifício de prestígio, a Igreja Ortodoxa continua mal</p><p>representada no país. Historicamente, a Igreja Católica Romana se separou da Igreja</p><p>Ortodoxa primitiva. Os ortodoxos, portanto, não deveriam ser incluídos nas estatísticas</p><p>dos católicos no Brasil (IBGE, 2010).</p><p>A querela Filioque é a disputa teológica que, a partir do século VIII, opõe a</p><p>Igreja Romana e a Igreja Grega, sobre o dogma da Trindade, que levou, em 1054, à</p><p>separação das Igrejas de Roma e Constantinopla, atual Istambul. Hoje, os cristãos em</p><p>comunhão com Roma constituem comumente a Igreja Católica, e aqueles em</p><p>comunhão com Constantinopla, a Igreja Ortodoxa (ANDRADE, 2013).</p><p>O debate diz respeito à relação entre o Espírito Santo, por um lado, e o Pai e o</p><p>Filho, por outro. À pergunta "De quem vem o Espírito Santo?", o Credo de Niceia-</p><p>Constantinopla responde: “Cremos no Espírito Santo... que procede do Pai” (na</p><p>fórmula latina usada pelos cristãos ocidentais: “...Ex Patre procedit”. A querela surgiu</p><p>quando, no Ocidente, generalizou-se a formulação "Cremos no Espírito Santo... que</p><p>procede do Pai e do Filho (‘ex Patre Filioque procedit’)", quando, no Oriente, se diz</p><p>que o Espírito Santo procede somente do Pai (em grego antigo: “ek monou tou</p><p>Patros”) (SANCHIS, 2018).</p><p>210</p><p>Figura 27: Ícone da Trindade no Mosteiro de Vatopedi, República Monástica Monte</p><p>Athos, Grécia</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3H5Mjtq. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Testemunhas de Jeová</p><p>No Brasil, a comunidade das Testemunhas de Jeová cresce rapidamente. A</p><p>corrente chegou ao Brasil no final do século XIX e início do século XX.</p><p>George Young foi o primeiro missionário enviado ao Brasil e traduziu os livros</p><p>das Testemunhas de Jeová para o português. Em 1923, no Rio de Janeiro, foi fundada</p><p>a primeira associação para trabalhar pela difusão de sua crença no país. A sede das</p><p>Testemunhas de Jeová no Brasil está localizada em Cesário Lange, no estado de São</p><p>Paulo (MATA, 2010).</p><p>Os estados com maior número de seguidores incluem São Paulo, Minas Gerais,</p><p>Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul. As Testemunhas de Jeová são muito</p><p>atuantes no Brasil em trabalho de alfabetização de surdos-mudos e no ensino da</p><p>língua de sinais.</p><p>As Testemunhas de Jeová são conhecidas mundialmente por seu proselitismo</p><p>e sectarismo.</p><p>Raras são, de fato, as pessoas que nunca tiveram, pelo menos, uma</p><p>visita domiciliar deles. Também famosos pela recusa de transfusões de sangue e pelo</p><p>isolamento social de seus membros (MATA, 2010).</p><p>211</p><p>O movimento jeovista é considerado um movimento religioso desde que se</p><p>apresentou, pela primeira vez, como “Estudantes da Bíblia”. Além disso, esse</p><p>movimento anuncia a vinda do "Reino de Deus" na Terra e baseia sua mensagem nos</p><p>escritos da Bíblia, bem como em periódicos contendo profecias e comentários sobre</p><p>versículos bíblicos.</p><p>As Testemunhas de Jeová também se chamam publicadores. Descrevem,</p><p>assim, a sua principal atividade religiosa, aquela que os ocupa cerca de dez horas</p><p>por semana: a evangelização pelo método porta a porta. Essa forma de proselitismo</p><p>visa estimular a população a ouvir as doutrinas do grupo com o objetivo final de</p><p>convencê-los a aderir ao movimento. Os membros são militantes genuínos e não</p><p>podem se tornar ou permanecer Testemunhas de Jeová a menos que saiam</p><p>regularmente para fazer "trabalho de campo", como eles chamam. As horas</p><p>trabalhadas por qualquer membro são minuciosamente listadas e são objeto de uma</p><p>publicação anual nacional e internacional nas últimas páginas de seu diretório, o</p><p>“anuário” (MATA, 2010).</p><p>A escolha é oferecida às pessoas assim abordadas durante o “porta a porta”,</p><p>para se tornarem, por sua vez, Testemunhas de Jeová e, como resultado, a promessa,</p><p>apoiada por seus escritos, de que eles farão parte da "grande multidão" descrita no</p><p>livro do Apocalipse e que viverão em uma “nova terra” durante os “1000 anos do</p><p>milênio”, após a destruição do mundo atual.</p><p>Por outro lado, se eles se recusarem a aderir ao movimento jeovista, serão</p><p>aniquilados definitivamente. Os mais espirituais podem até esperar estar entre os</p><p>144.000 eleitos que “reinarão com Cristo sobre a grande multidão”. Esta é a doutrina</p><p>escatológica das Testemunhas de Jeová (MATA, 2010).</p><p>Esta é a esperança pela qual eles ignoram as preocupações do resto da</p><p>população da terra e encorajam todos a fazerem o mesmo. Seu movimento não visa</p><p>a mudança direta da sociedade, mas convida a todos a viver à margem desta</p><p>212</p><p>enquanto aguardam o estabelecimento divino de uma nova forma de sociedade,</p><p>da qual somente as Testemunhas de Jeová terão o privilégio de fazer parte, como</p><p>recompensa por sua vida de submissão à Sociedade Torre de Vigia e seus líderes</p><p>(MATA, 2010).</p><p>Mórmons</p><p>Quando emigrou da Alemanha para o Brasil em 1913, Richard Zapf havia se</p><p>convertido à Igreja havia cinco anos e se tornou o primeiro membro conhecido no</p><p>Brasil. Quando uma família brasileira procurou a sede da Igreja em busca de</p><p>materiais, o presidente da Missão Sul-Americana visitou o país em 1927 e enviou</p><p>missionários em 1928. A primeira missão foi estabelecida em São Paulo em 1935, e em</p><p>1939, o Livro de Mórmon foi publicado em português (WEBER, 2004).</p><p>O primeiro templo da América do Sul foi edificado em São Paulo, logo após a</p><p>revelação de estender a ordenação do sacerdócio a todos os membros dignos do</p><p>sexo masculino. O segundo maior centro de treinamento missionário, localizado em</p><p>São Paulo, foi criado em 1997.</p><p>O Brasil foi o terceiro país, depois dos Estados Unidos e do México, a ultrapassar</p><p>a marca de um milhão de membros (WEBER, 2004).</p><p>A igreja também relata 1.940 congregações e 315 centros de história da</p><p>família, além de 6 templos espalhados pelo país: Campinas, Curitiba, Manaus, Porto</p><p>Alegre, Recife e São Paulo, com templos adicionais em construção ou anunciados</p><p>em Fortaleza, Rio de Janeiro, Belém, Brasília e Salvador (WEBER, 2004).</p><p>O presidente da Igreja, Spencer W. Kimball, construiu o Templo de São Paulo</p><p>em 30 de outubro de 1978. Em 4 de outubro de 2020, o presidente Russell M. Nelson</p><p>anunciou que a Igreja construiria um segundo templo na mesma cidade.</p><p>A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é uma igreja cristã</p><p>restauracionista fundada no Estado de Nova York, nos Estados Unidos, em 1830. É</p><p>considerada uma religião revelada, cuja sede global fica em Salt Lake City, no</p><p>estado de Utah. Nos Estados Unidos, é a quarta denominação cristã – no sentido</p><p>213</p><p>amplo do termo – com 6,16 milhões de membros. Globalmente, afirmaram ser, em</p><p>2021, mais de 16 milhões de membros, chamados de "Santos dos Últimos Dias" e,</p><p>muitas vezes, apelidados de Mórmons (WEBER, 2004).</p><p>Para os santos dos últimos dias, todos os seres humanos escolheram na vida</p><p>“pré-mortal” vir à Terra e estão aqui para experimentar a vida em um corpo de carne</p><p>e ossos, adquirindo virtudes cristãs antes de retornar à presença de Deus.</p><p>A rejeição do credo de Niceia e do símbolo da cruz exclui A Igreja de Jesus</p><p>Cristo dos Santos dos Últimos Dias do Cristianismo, conforme definido pelo</p><p>ecumenismo (WEBER, 2004).</p><p>Espiritismo</p><p>O Espiritismo é uma doutrina religiosa com aspectos filosóficos e científicos</p><p>fundada no século XIX pelo educador francês Allan Kardec, que oferece o estudo</p><p>da natureza, origem e destino dos espíritos e sua relação com o mundo corpóreo. O</p><p>Espiritismo segue os ensinamentos morais de Jesus e, portanto, seu status de religião</p><p>não cristã é uma questão de debate entre seus adeptos e os cristãos tradicionais. Se</p><p>considerado não cristão, o Espiritismo seria de longe a maior religião não cristã do</p><p>Brasil; se considerada uma religião cristã, seria a terceira maior denominação depois</p><p>do Catolicismo Romano e das Assembleias de Deus Protestantes. A doutrina estuda</p><p>temas como vida após a morte, reencarnação, espíritos, ensinamentos morais, dentre</p><p>outros (DELANE, 2004).</p><p>Inicialmente codificado como doutrina filosófica pelo francês Allan Kardec em</p><p>seu Livro dos Espíritos, publicado em 1857, o Espiritismo foi profundamente</p><p>reelaborado ao chegar ao Brasil, em um sentido muito mais religioso. O primeiro</p><p>centro espírita foi criado em 1865, em Salvador, com o nome de “Grupo Familiar do</p><p>Espiritismo”. Em 1873, foi fundada a "Sociedade de Estudos Espíritas" que se</p><p>encarregou de traduzir para o português as obras de Allan Kardec.</p><p>Nascido em 1910, o médium Francisco Cândido Xavier, mais conhecido como</p><p>214</p><p>Chico Xavier, muito contribuiu para a popularização do espiritismo no país.</p><p>Francisco Cándido Xavier, vulgo Chico Xavier, foi o mais famoso e mais prolífico</p><p>médium brasileiro do século XX. Sob a influência dos "Espíritos", produziu mais de</p><p>quatrocentos livros de sabedoria e espiritualidade, incluindo vários livros publicados</p><p>em diversos idiomas, popularizando a doutrina espírita no Brasil.</p><p>Chico Xavier estudou a doutrina espírita e fundou o centro espírita Luiz</p><p>Gonzaga, em 21 de junho de 1927. Investiu na atividade de médium e desenvolveu</p><p>suas habilidades em psicografia. Ele afirma ter visto, em 1931, seu "mentor" espiritual</p><p>na forma de um espírito chamado Emmanuel. Guiado por esse ser invisível, Chico</p><p>publicou seu primeiro livro em julho de 1932: “Parnasso de além-túmulo”, uma</p><p>coletânea de sessenta poemas atribuídos a nove poetas brasileiros, quatro</p><p>portugueses e um anônimo, todos falecidos (DELANE, 2004).</p><p>Esta obra de alta poesia, produzida por um modesto caixa, que a assinou com</p><p>nomes de autores falecidos, provocou espanto geral. O jornal O Globo enviou um de</p><p>seus editores, não espírita, para assistir às reuniões do grupo espírita no centro Luiz</p><p>Gonzaga por várias semanas. Seguiu-se uma série de reportagens que popularizaram</p><p>o espiritismo no Brasil.</p><p>Budismo</p><p>O Budismo é, provavelmente, a maior de todas as religiões minoritárias, com</p><p>mais de duzentos mil seguidores. Isso se deve, principalmente, à grande comunidade</p><p>nipo-brasileira, sendo que um quinto dela é composta de seguidores do Budismo.</p><p>Seitas budistas japonesas como Jodo Shinshu, Budismo Nichiren</p><p>(principalmente a Soka Gakkai) e Zen são as mais</p><p>populares. O budismo tibetano</p><p>(Vajrayana) também está presente, pois Chagdud Tulku Rinpoche fundou o centro</p><p>Khadro Ling em Três Coroas, Rio Grande do Sul, onde morou até sua morte em 2002,</p><p>e muitas outras instituições em todo o país.</p><p>No entanto, nos últimos anos, as seitas chinesas Mahayana e Theraveda do</p><p>Sudeste Asiático ganharam, atualmente, popularidade (BATAILLE, 2015).</p><p>O budismo foi trazido para o Brasil no início do século XX por imigrantes</p><p>japoneses, embora agora 60% dos nipo-brasileiros sejam cristãos devido a atividades</p><p>missionárias e casamentos mistos. No entanto, a cultura nipo-brasileira tem uma</p><p>influência budista substancial.</p><p>215</p><p>Judaísmo</p><p>Os primeiros judeus chegaram ao Brasil como cristãos-novos ou conversos,</p><p>nomes aplicados a judeus ou muçulmanos que se converteram ao catolicismo, a</p><p>maioria deles à força em tempos remotos. Segundo relatos da Inquisição, muitos</p><p>cristãos-novos que viviam no Brasil durante a era colonial foram condenados por</p><p>praticar, secretamente, os costumes judaicos (COLLI, 2019).</p><p>Em 1630, os holandeses conquistaram parte do nordeste brasileiro e permitiram</p><p>a prática aberta de qualquer religião. Muitos judeus vieram da Holanda para morar</p><p>no Brasil na região dominada pelos holandeses. A maioria era descendente dos</p><p>judeus portugueses que haviam sido expulsos de Portugal em 1497.</p><p>Em 1636, a Sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira sinagoga das Américas, foi</p><p>construída em Recife. O edifício original permanece até hoje, mas os judeus foram</p><p>forçados a deixar o Brasil quando os luso-brasileiros retomaram a terra em 1654.</p><p>Os primeiros judeus que permaneceram no Brasil e praticaram sua religião</p><p>abertamente vieram quando a primeira constituição brasileira concedeu liberdade</p><p>de religião em 1824, logo após a independência. Eram, principalmente, judeus</p><p>provindos de Marrocos, Rússia, Polônia, Bielorrússia e Ucrânia. Um grande grupo veio,</p><p>fugindo do nazismo ou da destruição que se seguiu à Segunda Guerra Mundial</p><p>(COLLI, 2019).</p><p>Islamismo</p><p>Segundo o censo de 2010, havia 35.167 muçulmanos em terras brasileiras.</p><p>Segundo a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, existem mais de cento</p><p>e cinquenta mesquitas onde os muçulmanos realizam suas orações diárias (DIONIZIO,</p><p>2020).</p><p>Pode-se presumir que o Islamismo no Brasil foi praticado, pela primeira vez, por</p><p>povos escravizados africanos trazidos da África Ocidental. Os pesquisadores</p><p>observam que o Brasil recebeu mais muçulmanos escravizados do que qualquer</p><p>outro lugar das Américas (COLLI, 2019).</p><p>Durante o Ramadã, em janeiro de 1835, um pequeno grupo de povos</p><p>escravizados negros e libertos de Salvador da Bahia, inspirados por professores</p><p>muçulmanos, rebelaram-se contra o governo na Revolta dos Malês, a maior rebelião</p><p>de povos escravizados no Brasil. Os muçulmanos eram chamados de malê na Bahia</p><p>nessa época, do iorubá ‘imale’ que denotava um muçulmano iorubá (COLLI, 2019).</p><p>216</p><p>Temendo que o exemplo fosse seguido, as autoridades brasileiras passaram a</p><p>monitorar os malês de muito perto e, nos anos seguintes, foram feitos intensos esforços</p><p>para se converter ao catolicismo, apagando a memória popular e o afeto pelo Islã</p><p>(COLLI, 2019).</p><p>No entanto, a comunidade muçulmana africana não foi exterminada da noite</p><p>para o dia e, até 1910, estima-se que ainda havia cerca de 100.000 muçulmanos</p><p>africanos vivendo no Brasil (IBGE, 2010).</p><p>Hinduísmo</p><p>A maioria dos hindus brasileiros são indianos orientais. No entanto, há novos</p><p>convertidos devido aos efeitos missionários dos Hare Krishnas. Um pequeno número</p><p>de Sindi chegou aqui do Suriname e da América Central em 1960 para se estabelecer</p><p>como comerciantes na cidade de Manaus.</p><p>Outros imigraram de vários países africanos, principalmente ex-colônias</p><p>portuguesas, como Moçambique, logo após sua independência na década de 1970.</p><p>O número de indianos no Brasil aumentou nos últimos anos com a chegada de</p><p>cientistas nucleares e profissionais de Tecnologia da Informação, já que os indianos</p><p>são os maiores especialistas na área e são requisitados pelo mundo todo (DIONIZIO,</p><p>2020).</p><p>Este é o panorama geral de algumas religiões no Brasil. Não sendo</p><p>possível listar todas e sobre todas descrever, optamos pelas mais simbólicas, ou mais</p><p>conhecidas dentre os nomes, se mencionadas em uma situação de estudo ou grau</p><p>de importância para a nossa melhor compreensão. Conforme já mencionado a</p><p>priori, as consideradas maiores religiões do mundo têm um livro somente dedicado a</p><p>elas.</p><p>12.2 RELIGIÃO E LIBERDADE DE EXPRESSÃO</p><p>No ordenamento jurídico brasileiro observamos a predominância de diversas</p><p>interações históricas e culturais em matéria de direito das religiões, com significativas</p><p>transformações terminológicas e conceituais.</p><p>Não se trata, aqui, de fazer uma apresentação detalhada da história do fato</p><p>religioso no ordenamento jurídico, mas apenas indicar suas principais linhas e</p><p>demonstrar que se trata de uma questão estratégica e muito relevante para o</p><p>217</p><p>contexto sociológico brasileiro. Isso pode ser visto em sucessivas constituições e textos</p><p>legislativos (FERREIRA, 2021).</p><p>Há uma hegemonia histórica do catolicismo no Brasil. Durante os primeiros dias</p><p>da colonização até a constituição do Império brasileiro essa era a religião oficial. Até</p><p>a década de 1970, a grande maioria da população era católica e havia um</p><p>entrelaçamento das estruturas políticas com os valores e princípios defendidos pela</p><p>Igreja Católica.</p><p>Mas, esse quadro mudou rapidamente nos últimos anos com um avanço</p><p>gradual das denominações evangélicas, especialmente de caráter neopentecostal.</p><p>E esse avanço repercute nas instituições políticas e jurídicas. A bancada evangélica,</p><p>ou bancada da Bíblia, é hoje uma das forças políticas do Congresso Nacional</p><p>(MARSHALL, 2013).</p><p>Ao mesmo tempo, o processo de secularização é intenso no Brasil – com um</p><p>gradativo aumento do afastamento da população aos valores religiosos. Como em</p><p>grande parte do Ocidente cristão, o número de agnósticos, ateus e indiferentes</p><p>aumenta significativamente. Esse aspecto também exerce forte influência nas</p><p>decisões políticas e sociojurídicas, especialmente no campo da família e da bioética</p><p>(MARSHALL, 2013).</p><p>A sistematização da doutrina jurídica acerca da questão religiosa no Brasil</p><p>permite a redução da subjetividade jurisdicional, ou seja, deixa de variar o</p><p>julgamento de cada pessoa, em suas opiniões sobre algum assunto. Assim, evita-se</p><p>que as decisões fiquem a critério dos juízes e tribunais. Estabelecem-se parâmetros</p><p>218</p><p>legais para avançar no campo do direito das religiões e promover uma regulação</p><p>mais adequada e segura dessa complexa questão sociojurídica, na perspectiva da</p><p>neutralidade do Estado (MARSHALL, 2013).</p><p>Dessa forma, os textos lidos aqui se enquadram no objetivo de contribuir para</p><p>a sistematização do direito das religiões no Brasil e permitir o surgimento de uma visão</p><p>mais ampla e global e, ao mesmo tempo, mais precisa do ponto de vista doutrinário.</p><p>Estamos a discutir sobre o direito das religiões no Brasil segundo dois eixos</p><p>principais: a evolução histórica e os principais contornos da questão, principalmente</p><p>no que diz respeito ao direito constitucional e à abordagem jurídica das organizações</p><p>religiosas e à análise do repertório brasileiro sobre a relação entre direito e religião</p><p>(MARSHALL, 2013).</p><p>Neste momento, consideramos os seguintes elementos: liberdade individual de</p><p>consciência e liberdade coletiva de expressão da fé; contencioso administrativo;</p><p>disputas fiscais; o campo do direito de família e da bioética; e, por fim, outras</p><p>decisões emblemáticas que nos permitem discutir as questões mais relevantes</p><p>recentemente tratadas pelos tribunais brasileiros.</p><p>Ao longo da história brasileira houve dificuldades, muitos retrocessos</p><p>e algumas</p><p>conquistas. Na Constituição Imperial Brasileira de 1824, o artigo V estabelecia,</p><p>expressamente, que a religião católica continuava sendo a religião oficial do império</p><p>e autorizava o culto doméstico de outras religiões – ou seja, sem expressão pública</p><p>de outros fiéis em outros espaços, mas o culto público e suas formas externas em</p><p>edifícios de culto eram proibidos.</p><p>A primeira Constituição republicana de 1891 definiu o Brasil como um país</p><p>laico, aboliu a ideia do catolicismo como religião oficial e introduziu a ideia de um</p><p>estado neutro, a liberdade de crença e a proibição de subsídios públicos às igrejas</p><p>(MELO, 2008).</p><p>O texto da atual Constituição Federal de 1988 protege a liberdade de crença,</p><p>culto e associação de brasileiros e estrangeiros, conforme artigo 72, parágrafo 3º e</p><p>proíbe subsídios públicos a qualquer culto ou igreja e qualquer relação de</p><p>dependência ou aliança com o governo da União ou dos Estados (BRASIL, 1988).</p><p>Devemos chamar a atenção também para os elementos essenciais</p><p>relacionados às relações Estado-religião no Brasil, como o direito à liberdade de</p><p>crença e convicção; a liberdade de expressão desta convicção; a liberdade de</p><p>culto e associação; a liberdade de aquisição de bens para fins religiosos, incluindo a</p><p>219</p><p>construção de edifícios; a proibição expressa de subsídio ou privilégio religioso</p><p>concedido pela União ou entes federados (MELO, 2008).</p><p>Esses elementos são fruto de um longo e penoso processo histórico, que inclui</p><p>a vinculação exclusiva do Estado brasileiro à confissão católica durante o período</p><p>colonial, avançando, paulatinamente, para a liberdade de crença e liberdade de</p><p>crença de outras confissões, com a consequência da liberdade de construção de</p><p>edifícios religiosos para religiões não católicas e a separação total entre Igreja e</p><p>Estado durante a primeira Constituição Republicana de 1891 (MELO, 2008).</p><p>No plano sociológico, direito e liberdade religiosa nem sempre andaram de</p><p>mãos dadas no Brasil e esse vínculo está longe de ser definitivamente estabelecido.</p><p>No entanto, observamos certas conquistas que vão no sentido de traçar</p><p>fronteiras precisas entre Estado e religião e de um espaço plural de convicções e</p><p>manifestações de crença ou sua negação.</p><p>Em geral, observamos uma paisagem na qual predomina a tolerância e a</p><p>coexistência de convicções religiosas, embora, por vezes, as tensões e os conflitos</p><p>subjacentes à matéria que constitui a regulação jurídica do fato religioso emerjam</p><p>com força.</p><p>12.3 ASPECTOS DA INTOLERÂNCIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA</p><p>Para começarmos nossa análise, vale a pena considerar duas situações,</p><p>ambas instauradas pela Associação de Agnósticos e Ateus do Brasil com o intuito de</p><p>impedir a realização de eventos religiosos em espaços públicos e/ou com</p><p>modalidade sutileza de financiamento público, vedada pelo artigo da Constituição</p><p>Federal e fundamento de recurso no caso das Jornadas Mundiais da Juventude. Em</p><p>ambos os casos, o Supremo Tribunal rejeitou as alegações da associação com base</p><p>no princípio da liberdade religiosa.</p><p>A título de esclarecimento, a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é o nome</p><p>de um evento para jovens organizado pela Igreja Católica, iniciado pelo Papa João</p><p>Paulo II, em 1985.</p><p>220</p><p>Figura 28: Jornada Mundial da Juventude</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3aHemmW. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>No nível diocesano, seu conceito foi influenciado pelo movimento Luz-Vida</p><p>que existia na Polônia desde a década de 1960, onde os acampamentos, durante o</p><p>verão, eram montados por jovens católicos que celebravam o "Dia da Comunidade"</p><p>em um período de 13 dias. Para a primeira celebração da JMJ em 1986, os bispos</p><p>foram solicitados a agendar um evento anual para jovens a ser realizado a cada</p><p>Domingo de Ramos em sua diocese, o que foi vivenciado na maioria deles de 1986</p><p>a 2020 (MEYER-PF LUG, 2009).</p><p>O caso mais significativo ocorreu por ocasião destas Jornadas Mundiais da</p><p>Juventude (JMJ) sobre as quais nos referimos. O Supremo Tribunal Federal (STF)</p><p>entendeu que a repercussão do evento, sem dúvida, foi além da exclusividade de</p><p>uma denominação religiosa. Há que se concordar que tal evento teve impactos</p><p>sociais muito importantes, como a aglomeração de jovens, o turismo e até a</p><p>economia local.</p><p>Assim, esse evento possui várias dimensões entrelaçadas e não é possível isolar</p><p>uma sem afetar as demais, razão pela qual o recurso foi julgado improcedente. As</p><p>Jornadas Mundiais da Juventude não dizem respeito apenas à vida cultural da Igreja</p><p>Católica, mas resultam numa sinergia cujas repercussões socioeconômicas vão muito</p><p>além das fronteiras denominacionais (MEYER-PF LUG, 2009).</p><p>Um acórdão do Tribunal Regional de Justiça (TRJ) de Brasília, Distrito Federal,</p><p>permite aprofundar essa questão da liberdade religiosa. Trata-se de ação civil</p><p>pública movida pela coletividade das Igrejas Evangélicas pleiteando danos morais</p><p>221</p><p>em razão da existência de feriado religioso não laboral no dia da padroeira do Brasil,</p><p>Nossa Senhora Aparecida, de acordo com a Lei 6.802/80.</p><p>Os recorrentes alegam que o fato de um feriado público ser determinado,</p><p>exclusivamente, com base no culto católico viola a liberdade e as convicções</p><p>religiosas dos membros de outras religiões e invocam a responsabilidade do Estado</p><p>na matéria (MEYER-PF LUG, 2009).</p><p>O Tribunal decidiu que o feriado, por si só, não infringe as crenças religiosas e</p><p>a liberdade de filiação dos evangélicos e outros fiéis não católicos, pois não há</p><p>obrigação de cultuar nesse dia. O Tribunal considera que a licença foi instituída em</p><p>favor da maioria da população brasileira e que não há possibilidade de indenização</p><p>por danos morais nestas circunstâncias (MEYER-PF LUG, 2009).</p><p>Aqui, devemos nos perguntar sobre a isonomia dos direitos religiosos e se há</p><p>um privilégio concedido a uma determinada denominação religiosa. O feriado</p><p>religioso não implica uma violação explícita da liberdade de religião e não penaliza</p><p>quem não professa a devoção mariana em formas católicas e pode beneficiar-se de</p><p>seus próprios ritos e celebrações, como aliás ocorreu em grandes eventos</p><p>evangélicos.</p><p>Nossa intenção, neste caso, não é provar o lado certo da moeda, mas</p><p>analisar, refletir, conjeturar sobre situações reais que acontecem em nossa sociedade</p><p>e que é palco de disputas religiosas em todos os âmbitos, da menor esfera familiar a</p><p>grandes repercussões em mídias sociais, salas de aulas e, evidentemente, em</p><p>situações de cunho extremo, levando-nos a uma irracionalidade sem fundamento e,</p><p>muitas vezes, sem argumento.</p><p>Não há, portanto, nenhum privilégio explícito, nem positivo nem negativo,</p><p>embora se possa perguntar se, em princípio, um Estado neutro e laico pode legislar a</p><p>favor das festas religiosas. No entanto, precisamos refletir se a ideia de respeito pelas</p><p>tradições religiosas não tem, necessariamente, um impacto negativo na laicidade e</p><p>na neutralidade do Estado.</p><p>O Estado laico e neutro não é sinônimo de Estado ateu ou agnóstico, pois isso</p><p>supõe mesmo uma posição religiosa, por meio da negação. E é importante que o</p><p>Estado promova as condições para a livre expressão da fé, mas sempre de forma</p><p>que não comprometa e afete as diferentes crenças – o que é um verdadeiro desafio</p><p>nas sociedades pluralistas, como no Brasil (MEYER-PF LUG, 2009).</p><p>O ideal é estabelecer condições de paridade para a expressão das diferentes</p><p>222</p><p>correntes religiosas. Existem tradições religiosas que estão tão intimamente</p><p>associadas às tradições culturais que a separação total não é apenas impossível, mas</p><p>não recomendada.</p><p>A maioria dos países ocidentais observa, por exemplo, feriados de Natal e</p><p>Páscoa e alguns têm um sistema de Igreja estabelecido. Inclusive em Estados como</p><p>Inglaterra, onde há um intenso movimento</p><p>de secularização aliado a uma</p><p>significativa imigração de países culturalmente distintos e que resulta na presença de</p><p>muçulmanos, hindus, budistas e outras tradições religiosas.</p><p>As festas religiosas ainda não são fonte de grande debate ou impopularidade,</p><p>mas continuam sendo um assunto delicado que requer reflexão, para evitar a erosão</p><p>do princípio da isonomia.</p><p>Outro exemplo ilustrativo do problema sociojurídico da liberdade de religião</p><p>diz respeito a uma freira católica que foi obrigada a retirar o véu para obter a carteira</p><p>de motorista. O argumento era que o véu a tornava menos identificável e violava a</p><p>legislação que impõe a obrigação de visibilidade de toda a fisionomia da pessoa</p><p>(MEYER-PF LUG, 2009).</p><p>Na decisão do recurso, o Supremo Tribunal considerou que o uso do véu não</p><p>compromete a identificação física e que a proibição do véu envolveria uma</p><p>violação do direito à liberdade religiosa. No Brasil, os casos de véus muçulmanos,</p><p>mesmo do ponto de vista quantitativo, não causam as controvérsias observadas na</p><p>Europa. Mas já existe, como no caso acima, resistência aos sinais religiosos, como o</p><p>véu usado pelas freiras, ou a símbolos religiosos em locais públicos (MEYER-PF LUG,</p><p>2009).</p><p>De qualquer forma, parece razoável que, além de reconhecer o direito à</p><p>crença religiosa, que inclui a exigência de vestimenta ou a manifestação de um</p><p>estado de vida, seja avaliado o grau de dano ao interesse público, dependendo das</p><p>circunstâncias, neste caso, de reconhecimento facial completo para fins de</p><p>identificação do motorista (MEYER-PF LUG, 2009).</p><p>Após cuidadosa consideração, e se não houver ruptura dos princípios</p><p>norteadores da convivência pública, é vedado restringir o direito fundamental à</p><p>liberdade religiosa sem justificativa objetiva e razoável, que inclua a exigência de</p><p>vestuário ou a manifestação de um estado de vida.</p><p>São muitas as decisões nesse sentido, que nem sempre vão na mesma direção,</p><p>envolvendo práticas religiosas em conflito com a ordem pública ou que afetem</p><p>223</p><p>valores protegidos pelo Estado. É importante considerar as circunstâncias específicas</p><p>e as variações na avaliação feita em cada caso (MEYER-PF LUG, 2009).</p><p>Em geral, quando há um atentado à ordem pública e aos interesses públicos,</p><p>não se admite a justificação pela expressão da liberdade religiosa, na medida em</p><p>que não pode ser invocada para justificar a prática de infrações penais ou infrações</p><p>à ordem pública.</p><p>Assim, algumas decisões impuseram uma sanção para a prática de curandeiro</p><p>– ou curandeirismo – ou a prática ilegal de medicina ou farmácia, que constituem</p><p>infrações específicas no Código Penal Brasileiro. Por outro lado, uma decisão</p><p>concedeu liberdade de ação aos acusados de curandeirismo na ausência de provas</p><p>suficientes de fraude ou prática ilegal de medicina (MONDAINE, 2008).</p><p>Em outra situação, foram tomadas decisões a favor do exercício de ritos</p><p>religiosos que atingem um nível de som superior ao que a lei permite, com</p><p>fundamento no direito à liberdade religiosa. Por outro lado, outros concluíram que os</p><p>locais de culto devem adotar um sistema de redução de ruído ou optar pela</p><p>proibição de tocar sinos ou outros objetos religiosos que causem poluição sonora e</p><p>perturbem a tranquilidade pública (MONDAINE, 2008).</p><p>Afinal, e como em qualquer estado de direito, a liberdade religiosa não é</p><p>considerada absoluta, e os limites impostos à sua expressão são avaliados, conforme</p><p>já descrito, de acordo com a situação vigente.</p><p>224</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO</p><p>1. A fé católica praticada no Brasil está repleta de festas populares enraizadas em</p><p>tradições portuguesas centenárias. As consideradas mais tradicionais são, entre</p><p>outras:</p><p>a) Romaria em Aparecida do Norte e o Círio de Nazaré.</p><p>b) Domingo de Páscoa e Festa do Divino.</p><p>c) Assunção de Nossa Senhora e Natal.</p><p>d) Círio de Nazaré e Festa do Divino.</p><p>e) Domingo de Páscoa e Natal.</p><p>2. Entre os protestantes que chegaram ao Brasil, além dos anglicanos ligados à</p><p>presença inglesa após 1810, os imigrantes mais numerosos eram:</p><p>a) luteranos de origem holandesa.</p><p>b) luteranos de origem alemã.</p><p>c) judeus de origem europeia.</p><p>d) anglicanos de origem inglesa.</p><p>e) mórmons de origem americana.</p><p>3. A Igreja Ortodoxa também está presente no Brasil. Historicamente, a Igreja</p><p>Católica Romana se separou da Igreja Ortodoxa primitiva:</p><p>a) em torno de 810, após a queda de Constantinopla.</p><p>b) no século XVI, com o advento do Iluminismo Oriental.</p><p>c) por volta de 1054, bem depois da querela Filioque em torno de 800.</p><p>d) com a queda do Império Romano do Oriente.</p><p>e) em 1431, com o Papa Alexandre VI, o Papa Bórgia.</p><p>4. As Testemunha de Jeová também encontram-se presentes no Brasil e são</p><p>conhecidas mundialmente por seu proselitismo e sectarismo. Segundo seu credo,</p><p>Highlight</p><p>225</p><p>a) viverão em uma “nova terra” durante os “1000 anos do milênio”, após a destruição</p><p>do mundo atual.</p><p>b) podem se recusar a aderir ao movimento jeovista após a conversão, sob ordem</p><p>do pastor; caso contrário, serão aniquilados.</p><p>c) os mais espirituais estarão entre os 154.000 eleitos que “reinarão com Cristo sobre</p><p>a grande multidão”.</p><p>d) visam à mudança direta da sociedade, convidando a todos a viver em sociedade</p><p>enquanto aguardam o estabelecimento divino.</p><p>e) todos os cristãos farão parte da Sociedade Torre de Vigia se cumprirem os</p><p>mandamentos bíblicos.</p><p>5. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é uma igreja cristã fundada no</p><p>Estado de Nova York, nos Estados Unidos, em 1830. De acordo com sua crença,</p><p>a) a revelação se estende à ordenação do sacerdócio de ambos os sexos.</p><p>b) somente os maiores de vinte e um anos podem ser ordenados.</p><p>c) todos os seres humanos escolheram na vida pré-mortal vir à Terra.</p><p>d) estão aqui para experimentar a vida, mas não sabem se retornarão à presença</p><p>de Deus.</p><p>e) todos os seus membros são canonizados, eis o porquê do nome desta igreja.</p><p>6. O Espiritismo é uma doutrina religiosa com aspectos filosóficos e científicos</p><p>fundada no século XIX pelo educador francês Allan Kardec. No Brasil, a primeira</p><p>obra publicada por Chico Xavier, seu maior representante, foi:</p><p>a) O Evangelho segundo o Espiritismo.</p><p>b) O Vento e a Rosa.</p><p>c) Nosso Lar.</p><p>d) Parnasso de além-túmulo.</p><p>e) O Livro dos Médiuns.</p><p>7. A laicidade do Estado indica que ele é neutro, pressupondo não ser a favor nem</p><p>contra a liberdade de expressão religiosa.</p><p>A respeito da afirmação, assinale a opção correta.</p><p>226</p><p>a) Um Estado laico e neutro não é sinônimo de Estado ateu ou agnóstico.</p><p>b) Um Estado laico e neutro é sinônimo de Estado ateu ou agnóstico.</p><p>c) É importante que o Estado promova as condições para a relativa expressão da fé.</p><p>d) A laicidade do Estado sempre deve se comprometer a interferir nas diferentes</p><p>crenças, quando julgar necessário.</p><p>e) O ideal é estabelecer condições de paridade para a expressão das mesmas</p><p>correntes religiosas.</p><p>8. Ao longo da história brasileira houve dificuldades, muitos retrocessos e algumas</p><p>conquistas. Na Constituição Imperial Brasileira de 1824, o artigo V estabelecia</p><p>expressamente que a religião católica:</p><p>a) continuava sendo a religião oficial do império e autorizava o culto em igrejas de</p><p>outras religiões.</p><p>b) não era mais a religião oficial do império e autorizava o culto doméstico de outras</p><p>religiões.</p><p>c) continuava sendo a religião oficial do império e autorizava o culto doméstico de</p><p>algumas religiões.</p><p>d) continuava sendo a religião oficial do império e autorizava o culto doméstico de</p><p>outras religiões.</p><p>não era mais a religião oficial do império e autorizava o culto em igrejas de todas as</p><p>religiões.</p><p>227</p><p>RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO</p><p>UNIDADE 01</p><p>UNIDADE 02</p><p>QUESTÃO 1 A QUESTÃO 1 B</p><p>QUESTÃO</p><p>2 B QUESTÃO 2 D</p><p>QUESTÃO 3 C QUESTÃO 3 C</p><p>QUESTÃO 4 D QUESTÃO 4 D</p><p>QUESTÃO 5 E QUESTÃO 5 C</p><p>QUESTÃO 6 D QUESTÃO 6 A</p><p>QUESTÃO 7 A QUESTÃO 7 B</p><p>QUESTÃO 8 E QUESTÃO 8 E</p><p>UNIDADE 03</p><p>UNIDADE 04</p><p>QUESTÃO 1 C QUESTÃO 1 C</p><p>QUESTÃO 2 D QUESTÃO 2 D</p><p>QUESTÃO 3 A QUESTÃO 3 B</p><p>QUESTÃO 4 E QUESTÃO 4 A</p><p>QUESTÃO 5 B QUESTÃO 5 B</p><p>QUESTÃO 6 D QUESTÃO 6 D</p><p>QUESTÃO 7 D QUESTÃO 7 E</p><p>QUESTÃO 8 A QUESTÃO 8 B</p><p>UNIDADE 05</p><p>UNIDADE 06</p><p>QUESTÃO 1 B QUESTÃO 1 A</p><p>QUESTÃO 2 D QUESTÃO 2 B</p><p>QUESTÃO 3 C QUESTÃO 3 C</p><p>QUESTÃO 4 E QUESTÃO 4 D</p><p>QUESTÃO 5 E QUESTÃO 5 E</p><p>QUESTÃO 6 A QUESTÃO 6 A</p><p>QUESTÃO 7 D QUESTÃO 7 B</p><p>QUESTÃO 8 C QUESTÃO 8 A</p><p>228</p><p>UNIDADE 07</p><p>UNIDADE 08</p><p>QUESTÃO 1 A QUESTÃO 1 A</p><p>QUESTÃO 2 D QUESTÃO 2 B</p><p>QUESTÃO 3 C QUESTÃO 3 D</p><p>QUESTÃO 4 B QUESTÃO 4 E</p><p>QUESTÃO 5 E QUESTÃO 5 A</p><p>QUESTÃO 6 B QUESTÃO 6 C</p><p>QUESTÃO 7 D QUESTÃO 7 B</p><p>QUESTÃO 8 A QUESTÃO 8 E</p><p>UNIDADE 09</p><p>UNIDADE 10</p><p>QUESTÃO 1 C QUESTÃO 1 A</p><p>QUESTÃO 2 D QUESTÃO 2 B</p><p>QUESTÃO 3 E QUESTÃO 3 C</p><p>QUESTÃO 4 A QUESTÃO 4 D</p><p>QUESTÃO 5 C QUESTÃO 5 E</p><p>QUESTÃO 6 E QUESTÃO 6 A</p><p>QUESTÃO 7 A QUESTÃO 7 B</p><p>QUESTÃO 8 B QUESTÃO 8 C</p><p>UNIDADE 11</p><p>UNIDADE 12</p><p>QUESTÃO 1 A QUESTÃO 1 A</p><p>QUESTÃO 2 B QUESTÃO 2 B</p><p>QUESTÃO 3 C QUESTÃO 3 C</p><p>QUESTÃO 4 D QUESTÃO 4 A</p><p>QUESTÃO 5 A QUESTÃO 5 C</p><p>QUESTÃO 6 B QUESTÃO 6 D</p><p>QUESTÃO 7 C QUESTÃO 7 A</p><p>QUESTÃO 8 D QUESTÃO 8 D</p><p>229</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BARON, V. 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The Life of Muhammad: a translation of Ishaq's Sirat Rasul Allah, with</p><p>introduction and notes by A. Guillaume (17th impression) - Oxford University Press 2004.</p><p>ISBN 0-19-636033-1.</p><p>JANICAUD, A. Le Dieu unique. Paris: Flammarion, 1991.</p><p>JOSEFO, F. História dos hebreus. Rio de Janeiro: Cpad, 2019.</p><p>LAMBERT, J. Vers les monothéismes. Paris: Éditeur L’Esprit du temps, 2006.</p><p>LE GOFF, J. História e memória. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2013.</p><p>MANARANCHE, A. Le Monothéisme chrétien. Cerf, Paris, 1985.</p><p>MATA, S. da. História e religião. Belo Horizonte: Autêntica Editora. 2010.</p><p>NODARI, P. C. Filosofia da religião. Caxias do Sul: EDUCS, 2017.</p><p>O´DONNELL, K. Conhecendo as religiões do mundo. São Paulo: Edições Rosari,</p><p>2007.</p><p>PEPIN, J. Helenismo e Cristianismo. In: CHÂTELET, F. (dir.). A filosofia medieval. Rio de</p><p>Janeiro: Jorge Zahar. 1983.</p><p>POMMIER, G. 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ISBN 978-85-224-3312-4.</p><p>232</p><p>2020).</p><p>Nos séculos seguintes, o Islã teria se imposto como uma religião distinta de</p><p>outros monoteísmos.</p><p>Mas então, como?</p><p>Para responder a esta pergunta, devemos, primeiro, entender que o Islã não</p><p>está contido no Alcorão.</p><p>Os sucessores do profeta deveriam continuar a missão através do que</p><p>chamavam a Sunnah (a tradição viva) e, por isso, eles foram</p><p>chamados sunitas, porque somente aceitavam o Corão e outros</p><p>ensinamentos, ditos, mandamentos e citações que depois foram</p><p>escritos em fascículos chamados de Hadiths (as tradições escritas)</p><p>(DIONIZIO et al., 2020, p. 151).</p><p>De fato, o Alcorão permanece vago ou alusivo em relação à prática</p><p>religiosa: nem a liturgia – como rezar, quantas vezes por dia –; nem a legislação</p><p>muçulmana – direito penal, direito de família, direito comercial –, nem a teologia,</p><p>nem a moral comum são objeto de descrições precisas no Alcorão.</p><p>Figura 4: O livro do Alcorão</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3Eae5DS. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>Além disso, o texto pode parecer contraditório: temos o direito de beber</p><p>vinho? Um versículo proíbe, outro indica que se deve abster-se de orar se estiver</p><p>bêbado. Adultério? Ele é severamente condenado, mas em um verso ele é punido</p><p>com a morte, em outro verso ele é punido com chicotadas. O Alcorão não diz se o</p><p>fato de ter uma concubina equivale a adultério. O profeta tinha várias. Usar o véu?</p><p>20</p><p>É evocado de forma alusiva e refere-se apenas às esposas do profeta que devem</p><p>retirar-se atrás de um véu – seria uma cortina? – quando o companheiro entra em</p><p>sua casa. Poligamia? O Alcorão especifica que você deve ter, no máximo, quatro</p><p>esposas, mas somente se você tiver os meios para sustentá-las. O próprio profeta</p><p>tinha onze ou treze dependendo das fontes, incluindo uma judia e outra cristã</p><p>(SCARPI, 2004).</p><p>1.1 BUDISMO</p><p>O Budismo é uma religião e uma filosofia, cuja origem está na Índia entre os</p><p>séculos VI e V a.C., após o despertar de Siddhartha Gautama em Bodhgaya e a</p><p>disseminação de seus ensinamentos. Ele será mais conhecido, futuramente, como</p><p>Buda.</p><p>Existem cerca de seiscentos milhões de budistas no mundo – mas, o número</p><p>deve ser tomado com cautela –, tornando o Budismo a quarta maior religião do</p><p>mundo, atrás do Cristianismo, do Islamismo e do Hinduísmo (em ordem decrescente).</p><p>Os historiadores notam que esta é a única grande religião no mundo a ter regredido</p><p>no século XX, em particular, por causa da perseguição levada a cabo contra o</p><p>Budismo pelos regimes comunistas na China e Indochina.</p><p>O Budismo, por meio de suas diferentes escolas, apresenta um conjunto</p><p>ramificado de práticas meditativas, rituais religiosos, como orações e oferendas,</p><p>práticas éticas, teorias psicológicas, filosóficas, cosmogônicas e cosmológicas,</p><p>abordadas sob a perspectiva do bodhi, o “despertar”. Como o Jainismo, o Budismo</p><p>é, originalmente, uma tradição shramana, e não bramânica como o Hinduísmo</p><p>(DIONIZIO, 2020).</p><p>21</p><p>Figura 5: Monge Budista</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3E63d9R. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>As noções de deus e divindade no Budismo são peculiares; embora o Budismo</p><p>seja frequentemente percebido como uma religião sem um deus, esta noção está</p><p>ausente na maioria das formas de Budismo, pois a veneração e a adoração da</p><p>história de Buda Sidarta Gautama, o Buda, veem neste personagem um ser desperto</p><p>dotado de um corpo triplo que são a Transformação, a Fruição e o Darma.</p><p>O Budismo retomou e ajustou muitos conceitos filosóficos do ambiente</p><p>religioso da época, tais como o conceito de dharma e karma, que serão vistos neste</p><p>livro.</p><p>Os anos de nascimento e morte de Siddhartha Gautama não são certos; ele</p><p>viveu no século VI a.C., cerca de oitenta anos, mas as tradições não concordam</p><p>neste assunto. Os estudiosos ocidentais da história indiana antiga, por sua vez,</p><p>22</p><p>concordam em situar a vida de Buda por volta de 420 a 380 A.C (ELIADE, 2009).</p><p>A vida de Buda foi enriquecida com lendas que descrevem milagres e</p><p>aparições divinas. Mas, foi apenas trezentos anos após sua morte que ela começou</p><p>a ser conhecida por meio de textos, juntamente com seus ensinamentos, graças ao</p><p>imperador Ashoka que a promoveu em todo o seu domínio e enviou missões ao</p><p>exterior.</p><p>Algumas lendas hagiográficas indicam que seu pai era um rei chamado</p><p>Suddhodana, sua mãe era a rainha Maya e ele nasceu em Lumbini. No entanto,</p><p>estudiosos consideram isso uma afirmação duvidosa porque uma combinação de</p><p>testemunhos sugere que ele nasceu na comunidade Śākya, que era governada por</p><p>uma pequena oligarquia ou um conselho pseudo-republicano onde não havia</p><p>hierarquia, mas sim, a antiguidade. Algumas histórias sobre Buda, sua vida, seus</p><p>ensinamentos e suas afirmações sobre a sociedade em que ele cresceu podem ter</p><p>sido inventadas e interpoladas, posteriormente, em textos budistas.</p><p>Achando os ensinamentos de sua época insuficientes para atingir seu</p><p>objetivo, ele se voltou para a prática do ascetismo extremo, que incluía uma dieta</p><p>rigorosa com jejum e várias formas de controle da respiração. Isso não correspondeu</p><p>suficientemente às suas expectativas e, portanto, ele se voltou para uma prática</p><p>meditativa.</p><p>Os ensinamentos de Buda se espalharam graças aos seus discípulos e se</p><p>tornaram, durante os últimos centenários antes de Cristo, várias escolas de</p><p>pensamento budista, cada uma com seus próprios conjuntos de textos, contendo</p><p>diferentes interpretações e ensinamentos autênticos de Buda.</p><p>A tradição budista reúne seu corpo doutrinal em a coleções canônicas de</p><p>seus livros sagrados (ELIADE, 1979).</p><p>23</p><p>1.2 HINDUÍSMO</p><p>O Hinduísmo é uma das religiões mais antigas do mundo, segundo muitos</p><p>estudiosos, com raízes e costumes que remontam há mais de 4.000 anos. Hoje, é a</p><p>terceira religião mais importante atrás do Cristianismo e do Islamismo. Cerca de 95%</p><p>dos hindus do mundo vivem na Índia (CASTRO, 2010).</p><p>Figura 6: O Hinduísmo e um de seus deuses: Krishna.</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3xg3p56. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>O Hinduísmo não é uma religião única, mas uma compilação de muitas</p><p>tradições e filosofias. Ao contrário da maioria das outras religiões, o Hinduísmo não</p><p>tem um fundador específico, nenhuma escritura única e nenhum conjunto de</p><p>ensinamentos mutuamente acordado. Ao longo de sua história, muitas</p><p>personalidades ensinaram diferentes filosofias e escreveram muitos livros sagrados.</p><p>Por essas razões, os escritores costumam se referir ao Hinduísmo como um "modo</p><p>de vida" ou "uma família de religiões" em vez de uma única religião.</p><p>Essa religião contém, portanto, muitas filosofias diferentes, mas mantém raízes</p><p>24</p><p>comuns, nomeadamente rituais reconhecidos, cosmologia e peregrinação a lugares</p><p>sagrados. Os textos hindus são classificados em particular em sruti (ouvido de</p><p>geração em geração) e em smrti (memorizado em plena consciência). Esses textos</p><p>tratam de temas como teologia, filosofia, mitologia, vedismo, ioga, rituais,</p><p>construção de templos, entre outros (SANCHIS, 2018).</p><p>As práticas hindus incluem rituais como oração, recitação, meditação,</p><p>cerimônias de chegada da puberdade, festivais anuais e peregrinações ocasionais.</p><p>O Hinduísmo também prescreve obrigações morais como honestidade, paciência,</p><p>tolerância, autocontrole e compaixão. A maioria dos estudiosos acredita que o esta</p><p>prática começou, oficialmente, em algum lugar entre 2300 e 1500 a.C. no Vale do</p><p>Indo, perto do Paquistão moderno. Mas, muitos praticantes afirmam que sua fé é</p><p>atemporal e sempre existiu (CASTRO, 2010).</p><p>O período de composição dos Vedas é conhecido como o "período védico"</p><p>e é datado de cerca de 1500-500 a.C. Rituais, como sacrifícios e cânticos, eram</p><p>comuns durante o período védico. Os hindus</p><p>DIAS, José Sebastião da Silva. Os descobrimentos e a problemática cultural do século</p><p>XVI. Lisboa, Editorial Presença, 1982.</p><p>DIONIZIO, M. et al. História das religiões. Porto Alegre: SAGAH, 2020. ISBN 978-65-5690-</p><p>035-3.</p><p>ELIADE, M.; COULIANO, I. P. Dicionário das religiões. 2. ed. São Paulo: Martins</p><p>Fontes, 2009.</p><p>FELINTO, Erick. A religião das máquinas: ensaios sobre o imaginário da cibercultura.</p><p>Porto Alegre: Sulina, 2005.</p><p>FERREIRA, G. et al. Epistemologia do fenômeno religioso. Porto Alegre: SAGAH, 2021.</p><p>GALIMBERTI, Umberto. Psiche e techne: o homem na idade da técnica. São Paulo:</p><p>Paulus, 2006.</p><p>GÂNDAVO, Pero Magalhães de. História da província Santa Cruz. Tratado da terra</p><p>do Brasil. São Paulo: Editora Obelisco, 1964.</p><p>GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.</p><p>GOMES, M. P. 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Coimbra:</p><p>Universidade de Coimbra, 1955.</p><p>NODARI, P. C. Filosofia da religião. Caxias do Sul: EDUCS, 2017.</p><p>PRANDI, Reginaldo. 2005. Segredos guardados. Orixás na alma brasileira. São Paulo:</p><p>Companhia das Letras.</p><p>RICOEUR, Paulo. 2000. Memória, História, Esquecimento. Paris: O Limiar.</p><p>SANCHIS, P. Religião, cultura e identidade: matrizes e matizes. Petrópolis: Editora</p><p>Vozes, 2018. ISBN 978-85-326-5970-5.</p><p>SAUNDERS, N. J. Américas antigas: as grandes civilizações. São Paulo: Madras, 2005.</p><p>SCHWARCZ, Lilia Moritz. 2001. Racismo no Brasil. São Paulo: Publifolha.</p><p>SCHWARTZ, Stuart B. Escravos, roceiros e rebeldes. Tradução Jussara Simões. Bauru:</p><p>São Paulo: EDUSC, 2001.</p><p>SILVA, José Bonifácio de Andrada e. Apontamentos para a civilização dos índios</p><p>bárbaros do reino do Brasil, editado por George CA Boeher. Lisboa: Agência Geral</p><p>do Ultramar, 1963.</p><p>VELASCO, J.M. A experiência de Deus, São Paulo, Paulinas, 2001.</p><p>XAVIER, Leopoldo Bibiano. Revivendo o Brasil Império. São Paulo: Artpress, 1991.</p><p>começaram, então, a dar ênfase ao</p><p>culto às divindades, em particular de Vishnu, de Shiva e de Devi.</p><p>Eles acreditam que o karma é a base da vida. Ele une todos os seres vivos e</p><p>constitui a energia determinante no ciclo de causas e efeitos do universo. Karma tem</p><p>sido descrito como a soma ou a essência de um indivíduo derivado de pensamentos</p><p>e ações passados e presentes. Os hindus também veem a vida como cíclica e não</p><p>linear. A existência de cada indivíduo envolve um ciclo contínuo de nascimento,</p><p>morte e renascimento chamado reencarnação.</p><p>Neste ciclo, as pessoas não apenas reencarnam como outras pessoas, como</p><p>a alma de uma pessoa pode assumir a forma de um animal na próxima vida. Por</p><p>esta razão, a maioria dos hindus são vegetarianos e se recusam a comer animais,</p><p>pois também têm uma alma que colhe os frutos de seu carma. Os hindus também</p><p>25</p><p>veem o mundo ao seu redor como uma ilusão. Seu objetivo é, portanto, libertar suas</p><p>almas deste mundo ilusório e deste ciclo de renascimento. As pessoas podem se</p><p>libertar através de um bom carma cada vez maior até que escapem do mundo</p><p>delirante e alcancem um estado chamado "Moksha" (ELIADE, 1979).</p><p>Assim, podemos perceber que as grandes religiões do mundo possuem suas</p><p>próprias crenças, suas diferenças teológicas e filosóficas, seus aspectos de</p><p>transcendência estabelecidos como bases sólidas, ainda que algumas sejam de</p><p>origem não totalmente conhecidas. No entanto, todas possuem um intento, cada</p><p>uma a seu modo, de estabelecer uma ascensão espiritual em direção ao externo</p><p>de si mesmo, uma busca pelo aperfeiçoamento do corpo e da alma, da mente e</p><p>do espírito.</p><p>A observação das religiões no espaço mundial não pode prescindir de várias</p><p>ressalvas, antes de expor as características demográficas dos principais grupos</p><p>religiosos e destacar sua diversidade interna. Contrariamente à representação atual</p><p>de blocos religiosos uniformes em suas práticas, valores e preocupações, é</p><p>fundamental sublinhar a pluralidade de referentes religiões para, então,</p><p>compreender seus usos dentro de uma sociedade complexa como a nossa.</p><p>Existem tantas definições sobre religiões que podemos perceber, pelos nossos</p><p>estudos dessa unidade, que essa apresenta um sistema unido de crenças e práticas</p><p>relativas às coisas sagradas que se unem na mesma comunidade moral, e que, ao</p><p>fazê-lo, ela forma a base de identidades coletivas que podem ser mobilizadas para</p><p>legitimar uma ordem política, redes de solidariedade ou mobilizações sociais.</p><p>26</p><p>FIXANDO O CONTEÚDO</p><p>1. (NUCEPE-2015) As religiões de tradição Monoteísta são aquelas que pregam a fé</p><p>em um Só e Único Deus. Marque a alternativa que contenha apenas religiões</p><p>monoteístas.</p><p>a) Judaísmo, Cristianismo e Islamismo.</p><p>b) Hinduísmo, Judaísmo e Budismo.</p><p>c) Cristianismo, Judaísmo e Hinduísmo.</p><p>d) Religiões Afro, Budismo e Judaísmo.</p><p>e) Islamismo, Mormonismo e Hinduísmo.</p><p>2. (SEDUC-AL-2021-Adaptado) As mais diversas religiões, especialmente as</p><p>monoteístas, comungam de dois elementos comuns: o conceito de revelação e a</p><p>aceitação de um corpo literário normativo, ou seja, um cânone.</p><p>Tendo como referência a noção de escrituras sagradas, marque a opção correta.</p><p>O Hinduísmo, por ter um panteão de inúmeros deuses,</p><p>a) nunca constituiu um corpo de textos que pudessem ser considerados escrituras</p><p>sagradas.</p><p>b) constituiu um corpo de textos que pudessem ser considerados escrituras sagradas.</p><p>c) estabeleceu a crença maior em alguns deuses, como Shiva, por exemplo, não</p><p>incluindo deuses menores nas escrituras sagradas.</p><p>d) determinou que a crença nos vários deuses resultam de elementos alegóricos e</p><p>fantasiosos pertencentes à escritura sagrada.</p><p>e) constituiu um conjunto textual parcialmente monoteísta, já que a religião é</p><p>considerada um organismo religioso ascético.</p><p>3. (SEDUC-AL-2021-Adaptado) Uma pedra não é imaginária. Visível, concreta. Como</p><p>tal, nada tem de religioso. Mas, no momento em que alguém lhe dá o nome de altar,</p><p>ela passa a ser circundada de uma aura misteriosa, e os olhos da fé podem</p><p>vislumbrar conexões invisíveis que a ligam ao mundo da graça divina. E ali se fazem</p><p>orações e se oferecem sacrifícios.</p><p>27</p><p>R. Alves. O que é religião. São Paulo: Abril Cultural/Brasiliense, 1984, p. 26 (com adaptações)</p><p>A partir das ideias expressas no fragmento de texto precedente, marque a opção</p><p>correta.</p><p>a) A religião nasce de um forte anseio interior do ser humano de organizar a vida e</p><p>ordenar o mundo; nessa perspectiva, o fenômeno religioso é redutível à ética ou</p><p>à moralidade.</p><p>b) A religião nasce de um forte anseio interior do ser humano de ordenar o mundo;</p><p>no entanto, o fenômeno religioso é redutível somente à ética, mas não à</p><p>moralidade.</p><p>c) A religião nasce de um forte anseio interior do ser humano de comunicar-se com</p><p>o transcendental e dele receber revelações.</p><p>d) A religião nasce de um forte anseio interior do ser humano de ordenar o mundo;</p><p>no entanto, o fenômeno religioso é redutível somente à moralidade, mas não à</p><p>ética.</p><p>e) A religião nasce de um forte anseio interior do ser humano de comunicar-se</p><p>consigo mesmo, com o transcendental; portanto, reduzindo-se à ética e à moral.</p><p>4. (SEDUC-AL-2021-Adaptado) Uma pedra não é imaginária. Visível, concreta. Como</p><p>tal, nada tem de religioso. Mas, no momento em que alguém lhe dá o nome de altar,</p><p>ela passa a ser circundada de uma aura misteriosa, e os olhos da fé podem</p><p>vislumbrar conexões invisíveis que a ligam ao mundo da graça divina. E ali se fazem</p><p>orações e se oferecem sacrifícios.</p><p>R. Alves. O que é religião. São Paulo: Abril Cultural/Brasiliense, 1984, p. 26 (com adaptações).</p><p>A partir das ideias expressas no fragmento de texto precedente, marque a opção</p><p>correta.</p><p>a) Para adquirir conhecimento de dada religião, é prescindível inteirar-se de sua</p><p>origem no tempo e no espaço, seus fundadores, seus mitos, suas teologias, seus</p><p>ritos e suas práticas.</p><p>b) Para adquirir conhecimento de dada religião, é imprescindível inteirar-se de sua</p><p>origem no tempo e no espaço, seus fundadores, mas não em seus mitos, suas</p><p>teologias, seus ritos e suas práticas.</p><p>28</p><p>c) Para adquirir conhecimento de dada religião, não é imprescindível inteirar-se de</p><p>sua origem no tempo e no espaço, mas sim, de seus fundadores, seus mitos, suas</p><p>teologias, seus ritos e suas práticas.</p><p>d) Para adquirir conhecimento de dada religião, é imprescindível inteirar-se de sua</p><p>origem no tempo e no espaço, seus fundadores, seus mitos, suas teologias, seus</p><p>ritos e suas práticas.</p><p>e) Para adquirir conhecimento de dada religião, é imprescindível inteirar-se de sua</p><p>origem no tempo e no espaço, seus fundadores, seus mitos, mas não em suas</p><p>teologias, seus ritos e suas práticas.</p><p>5. (SEDUC-AL-2021-Adaptado) O Budismo, por meio de suas diferentes escolas,</p><p>apresenta um conjunto ramificado de práticas meditativas, rituais religiosos, como</p><p>orações e oferendas, práticas éticas, teorias psicológicas, filosóficas, cosmogônicas</p><p>e cosmológicas, abordadas sob a perspectiva do bodhi, o “despertar”.</p><p>Baseado na informação referenciada e em seus estudos, marque a opção</p><p>correta.</p><p>a) Os budistas não têm o costume de agrupar seu conjunto de doutrinas em</p><p>coleções canônicas, sendo espalhados pelos templos mundo afora.</p><p>b) Uma das características da tradição budista é agrupar seu conjunto de doutrinas</p><p>em pergaminhos, contendo apenas ilustrações de Buda.</p><p>c) A tradição budista agrupa seus volumes sagrados em várias doutrinas canônicas.</p><p>d) Os budistas dispensam o uso de coleções canônicas, mas agrupam seus</p><p>conhecimentos em volumes sagrados.</p><p>e) A tradição budista agrupa seu conjunto de doutrinas em coleções canônicas de</p><p>seus volumes sagrados.</p><p>6. (FEPESE - 2021) Leia com atenção o texto a seguir.</p><p>O islamismo</p><p>é uma religião ........................., que tem como texto sagrado mais</p><p>relevante o ........................., que contém, segundo seus seguidores, a palavra de</p><p>Deus, e os ensinamentos e exemplos deixados por Maomé, considerado pelos fiéis</p><p>como o último profeta de Deus.</p><p>29</p><p>Assinale a alternativa que completa corretamente as lacunas do texto.</p><p>a) Dualista – Torá</p><p>b) Politeísta – Vedas</p><p>c) Animista – Meguilá</p><p>d) Monoteísta – Alcorão</p><p>e) Xamanista – Talmud</p><p>7. (FEPESE - 2021)</p><p>Analise as afirmativas abaixo sobre o Judaísmo.</p><p>1. É uma das principais religiões politeístas do mundo.</p><p>2. A educação dos rabinos é centrada nas estratégias proselitistas.</p><p>3. Envolve uma filosofia e o modo de vida do povo judeu.</p><p>4. O dualismo teológico da Torá promove as principais heresias judaicas.</p><p>5. A unicidade absoluta de Deus é um dos seus princípios fundamentais.</p><p>Assinale a alternativa que indica todas as afirmativas corretas.</p><p>a) São corretas apenas as afirmativas 3 e 5.</p><p>b) São corretas apenas as afirmativas 1, 2 e 3.</p><p>c) São corretas apenas as afirmativas 1, 2 e 4.</p><p>d) São corretas apenas as afirmativas 2, 3 e 4.</p><p>e) São corretas as afirmativas 1, 2, 3, 4 e 5.</p><p>8. (FUNDATEC - 2021) É um encontro ritualístico entre o mundo do cotidiano e o</p><p>mundo metafísico por meio de manipulação individual. Considerado</p><p>teologicamente como um sistema simbólico que influencia as ações do homem. São</p><p>esses símbolos trabalhados na singularidade ou na coletividade que mantêm a</p><p>espiritualidade, revelando a essência dos grupos que professam sua fé.</p><p>O texto acima se refere ao conceito de:</p><p>a) Mística.</p><p>b) Esperança.</p><p>c) Cristianismo.</p><p>30</p><p>d) Cultura.</p><p>e) Religião.</p><p>31</p><p>CONSTITUIÇÃO DAS PRINCIPAIS</p><p>RELIGIÕES DA HISTÓRIA</p><p>Para iniciarmos esta unidade, importante ter em mente que os fatos religiosos</p><p>afirmam fornecer chaves para a compreensão do mundo. O fato religioso, se não</p><p>for mítico ou esotérico, concorda com princípios metafísicos ou filosóficos, que por si</p><p>só, não podem deixar de questionar a existência de um princípio primeiro. A</p><p>exemplo, podem pensar na ideia do Bem, existência do ser imutável, presença do</p><p>Uno primordial, pensamento dialético, princípio vital etc. A Bíblia afirma que Deus</p><p>criou o mundo do nada: "No princípio criou Deus os céus e a terra" (Gn. 1,1).</p><p>O fato religioso, fundamentalmente, é a relação do homem com o Ser. Entre</p><p>os historiadores da religião, costuma-se dizer que, a relação que um homem tem</p><p>com o sagrado ou o que afirma ver consciente, ou inconscientemente, como tal, é</p><p>consubstancial a toda sociedade humana.</p><p>A religião implica, portanto, uma crença, revelações, uma doutrina, um culto</p><p>à divindade, uma moral pessoal coerente com a fé.</p><p>Vejamos algumas definições teóricos para estabelecermos uma base teórica</p><p>sobre o assunto “religião” (COLLI, 2019).</p><p>2.1 FUNDAMENTOS TEÓRICOS</p><p>Para que você entenda os fundamentos teóricos da religião, precisamos, em</p><p>princípio, estabelecer uma relação entre ciência e religião, pois este fundamento</p><p>tem sido um tema abordado desde a antiguidade em muitos campos de</p><p>investigação, incluindo filosofia da ciência, teologia, história da ciência e história das</p><p>religiões. A filosofia da religião pode ser, antes de tudo, uma fenomenologia que se</p><p>Erro!</p><p>Fonte de</p><p>referênci</p><p>a não</p><p>encontra</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>32</p><p>contenta em descrever a intencionalidade religiosa, em trazer à tona seu</p><p>significado. Os pontos de vista são variáveis, em particular de acordo com as</p><p>épocas, culturas e regiões; alguns veem uma harmonia entre ciência e religião,</p><p>outros separam campos com pouca interação e ainda outros veem uma</p><p>incompatibilidade e um conflito fundamental entre fé baseada em crenças e a</p><p>ciência baseada em fatos e aberta à crítica. Por exemplo, o fundamentalismo</p><p>cristão se opõe às grandes tradições das igrejas cristãs. Promove uma visão de</p><p>concordância entre ciência e religião, ou nega os dados da ciência para dar</p><p>precedência às crenças de seus grupos. O fato é complexo, mas não podemos de</p><p>nos esquivar de, pelo menos, tentar compreender a religião à luz da ciência, senão,</p><p>não se é possível estabelecer as bases teóricas e dos aspectos imanentes entre essas</p><p>duas vertentes (ELIADE, 2010).</p><p>Observemos desde já que o conhecimento de uma época pode ser</p><p>qualificado como ciência. A observação vale também para a religião, que</p><p>transformou-se profundamente tanto em seus rituais quanto em suas concepções e</p><p>crenças.</p><p>David Hume escreveu, por volta de 1750, a “História Natural da Religião”, um</p><p>texto que é considerado um dos primeiros ensaios modernos sobre os fundamentos</p><p>da história das religiões. Hume organiza essa história em torno das ideias de</p><p>politeísmo e monoteísmo, considerando que, na história, a religião passou,</p><p>gradualmente, do politeísmo ao monoteísmo. Essa ideia de uma evolução religiosa</p><p>da humanidade do politeísmo ao monoteísmo tornou-se lugar-comum no</p><p>pensamento das religiões durante o Iluminismo (ELIADE, 2010).</p><p>Nas ciências das religiões, historiadores como Max Weber centraram sua</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>33</p><p>reflexão na distinção entre Igreja e seita. As ideias de Igreja e seita não têm,</p><p>entretanto, aqui, o significado comumente dado a esses termos.</p><p>Figura 1: Crianças budistas da Birmânia</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3JshleF. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>A noção de "Igreja" refere-se, aqui, ao que também é chamado de "as</p><p>grandes religiões", aquelas que souberam reunir em torno de si uma massa</p><p>considerável de fiéis a ponto de a maioria de seus membros serem aqueles que</p><p>nascem com essa religião sem ter escolhido. E são essas “grandes religiões” o nosso</p><p>tema de estudo. Já o que é considerado uma "seita" são, pelo contrário, grupos</p><p>comunitários identificáveis que exigem um ato voluntário de adesão e que não</p><p>acolhem apenas membros considerados qualificados em um nível religioso divididos</p><p>entre “grupos naturais” e “grupos fundados”. Grupos naturais são formados por clãs</p><p>ou tribos, também correspondendo a nações quando o clã se expande para essas</p><p>dimensões. São agrupamentos identitários nos quais não há necessariamente a</p><p>consciência de ter uma determinada religião e onde ainda podem se formar</p><p>subgrupos religiosos, por exemplo, de acordo com a idade ou status social. Nesse</p><p>contexto, todo o grupo é religioso sem que a religiosidade apareça como elemento</p><p>distintivo dentro da sociedade. O aparecimento de “grupos religiosos fundados”</p><p>corresponde a uma evolução marcada pela nova possibilidade de reconhecer o</p><p>que é “especificamente” religioso e, portanto, de definir, moldar ou fundar grupos</p><p>religiosos. A exemplo, podemos citar o Cristianismo e o Islamismo como "grupos</p><p>fundados" (EISLER, 2007).</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>34</p><p>Agora, munidos dessa pequena síntese teórica fundamentada na ciência das</p><p>religiões, podemos prosseguir para uma melhor compreensão das grandes religiões</p><p>que são o tema de nosso estudo.</p><p>2.2 BREVE RELATO SOBRE OS RITOS SAGRADOS</p><p>Um rito é uma prática social codificada, de natureza sagrada ou simbólica,</p><p>destinada a despertar o compromisso emocional dos participantes a serviço da</p><p>mesma expectativa ou no âmbito de um culto.</p><p>O rito é um cerimonial. Designando um conjunto de usos regulados pelo</p><p>costume ou pela lei, a palavra cerimonial aplica-se tanto à esfera religiosa quanto a</p><p>eventos civis ou políticos. Uma cerimônia ritual é sempre religiosa. Em outras palavras,</p><p>podemos dizer que o rito se transforma enquanto a cerimônia confirma.</p><p>Um rito serve de cimento a uma comunidade, de acordo com o duplo sentido</p><p>etimológico de "ligar" e</p><p>"reunir". A participação repetida no culto de acordo com um</p><p>certo rito marca a adesão à comunidade religiosa em questão (GENNEP, 2013).</p><p>Muitas religiões estão divididas em questões de ritos. As Igrejas cristãs do</p><p>Oriente tiveram uma diversidade de ritos quase desde suas origens, cada igreja</p><p>tendo seu modo de expressão de acordo com o ambiente em que se encontra. No</p><p>Oriente, hoje, coexistem os ritos das Igrejas cristãs orientais: bizantina, antioquina,</p><p>caldeia, copta, armênia, rito romano (JOSEFO, 2019).</p><p>Cantar e dançar fazem parte dos ritos de muitas religiões. Em geral, tudo o</p><p>que contribui para uma emoção coletiva é valorizado durante os ritos. A escolha</p><p>dos locais e horários em que os ritos são realizados é extremamente importante e</p><p>contribui para o seu sucesso. A criação de objetos e lugares necessários para a</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>35</p><p>realização de um rito, como igreja, templo, sinagoga, mesquita, é geralmente</p><p>considerada uma fonte de arte. Desde sua invenção, o dinheiro participou</p><p>ativamente de muitos ritos. Na Grécia, por exemplo, havia um rito de colocar um</p><p>óbolo na língua de um morto, para que este pudesse pagar a Caronte, o barqueiro</p><p>do rio Estige.</p><p>Figura 2: Caronte, o barqueiro do rio Estige</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/37FQkHC. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>A antropologia há muito se interessa pelo rito e vários etnólogos tentaram</p><p>propor uma visão formal e ontológica da prática ritual em geral. Em primeiro lugar,</p><p>o rito é apresentado como uma atividade bastante formalizada: possuidora de</p><p>códigos próprios e cujas ações se articulam em torno de símbolos fortemente</p><p>marcados. Basta pensar em uma encenação tradicional ou em um ritual mais</p><p>eclético à medida que encontramos cada vez mais deles para perceber que são</p><p>práticas altamente codificadas. Este último é, geralmente, constituído por</p><p>sequências, etapas, articuladas numa encenação cuidadosamente preparada e</p><p>que correspondem a uma série de regras implícitas no rito em questão: podemos</p><p>falar assim do carácter fragmentado do rito (RAVENEAU, 2008). Este último também</p><p>tem um aspecto repetitivo onde, cuidadosamente implementados, as ações rituais</p><p>são padronizadas e repetidas através de uma ordem bem estabelecida. O</p><p>desenrolar de um rito é, portanto, previsível, pois se baseia em uma série de etapas</p><p>bem estabelecidas, que devem ser minuciosamente respeitadas para que a</p><p>atividade ganhe forma, alcance seu objetivo e possa trazer sentido aos praticantes</p><p>Highlight</p><p>36</p><p>que a ela se submetem. As atividades acontecem em torno de objetos aos quais foi</p><p>atribuído um valor simbólico.</p><p>Cada religião ou denominação codificou, ao longo dos séculos, os gestos que</p><p>lhe são específicos para a celebração do seu culto. Através da prática destes ritos,</p><p>os fiéis reconhecem a sua adesão interior a este culto. As ocasiões rituais dizem</p><p>respeito à vida coletiva geral da comunidade, às circunstâncias familiares ou à vida</p><p>espiritual pessoal (SAUNDERS, 2005).</p><p>Como exemplos, podemos citar os ritos periódicos que se constituem em</p><p>cerimônias diárias, semanais e anuais, como o “Aïd el kébir” para a religião</p><p>muçulmana. "Aïd el-Kebir”, também chamado de “Aïd el-Adha”, é a celebração</p><p>mais importante do calendário muçulmano, também sendo conhecida como a</p><p>"festa do sacrifício" e sua data muda a cada ano. É determinada pelas altas</p><p>autoridades muçulmanas e deve ser realizada no décimo dia do "dhul al-hijja", o</p><p>último mês do calendário lunar muçulmano.</p><p>A intercessão para obter chuva é um tipo de rito praticamente presente em</p><p>todas as religiões. Muitas vezes, nesta ocasião, os ritos mais violentos foram</p><p>inventados. Recordamos os sacrifícios humanos de Cartago para obter chuva</p><p>durante o cerco romano.</p><p>Muitos ritos de intercessão na Grécia antiga dependiam de oráculos, a</p><p>exemplo dos oráculos de Delfos e de Delos. Os antigos romanos esperavam a</p><p>resposta dos deuses a certas questões importantes, através do exame dos restos</p><p>mortais de animais torturados ou observando a direção do voo dos pássaros.</p><p>Vejamos, agora, mais especificamente, alguns desses ritos.</p><p>Batismo</p><p>O uso ritual da água na forma de ablução, imersão, derramamento é comum</p><p>à maioria das religiões. Relaciona-se com o simbolismo natural da água, que</p><p>expressa tanto a desintegração quanto a regeneração. A ablução da água</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>37</p><p>precedeu os principais atos religiosos, preparando, assim, a inserção do homem na</p><p>economia do sagrado. Também a encontramos praticada pelos sacerdotes antes</p><p>de entrarem nos templos. Ela desempenhou um papel na iniciação nos mistérios de</p><p>Ísis e Mitra; banho no rio sagrado, no Nilo ou Ganges, esse rito expressa renovação</p><p>nas forças sagradas. A ablução purifica do crime, liberta das influências</p><p>demoníacas. É possível observar também o costume de batizar ídolos para</p><p>consagrá-los. Casas, vilas, santuários são salpicados de águas lustrais. Todos estes</p><p>ritos são a expressão de um sentido do sagrado inerente à natureza humana e não</p><p>de estruturas culturais ligadas a uma mentalidade ultrapassada. Apresentam</p><p>características comuns a todas as religiões pagãs, diversificando-se de acordo com</p><p>as características próprias de cada uma delas. O Cristianismo, por sua vez, nasceu</p><p>em um meio judaico e só mais tarde se espalhou para o mundo pagão, grego e</p><p>latino. É, portanto, aos ritos da água do Judaísmo contemporâneo de Cristo ao qual</p><p>devemos nos referir (EISLER, 2007).</p><p>Batismos judaicos</p><p>A religião judaica incluía ritos de abluções, que estão registrados em Levítico.</p><p>Assim, para a ordenação dos sacerdotes (Lev., VIII, 1), para a consagração do altar,</p><p>temos a passagem em que "Moisés fez sete aspersões sobre o altar e ungiu, para</p><p>consagrá-los, o óleo e os utensílios (Lev., VIII, 11)” (EISLER, 2007). Muito importantes</p><p>foram as abluções destinadas a purificar o que se tornou ritualmente impuro. Assim</p><p>era para quem havia tocado um cadáver, e também, sobre tudo o que dizia</p><p>respeito à vida sexual: “Quando uma mulher dorme conjugalmente com um</p><p>homem, ambos devem se lavar com água e ficarão impuros até a tarde” (Lev. , XV,</p><p>18) (EISLER, 2007). O leproso era obrigado a passar por severas purificações rituais.</p><p>Essas abluções rituais foram enfatizadas no tempo de Cristo e levadas a um grau</p><p>extremo de perfeição. Este foi o caso entre os essênios. Um banho de purificação</p><p>precedia a cada refeição para eles. As piscinas usadas para essas abluções diárias</p><p>foram encontradas em “Qumran”. Cristo é acusado pelos fariseus de ignorar essas</p><p>obrigações (Mat., XV, 2) (EISLER, 2007).</p><p>No entanto, o batismo cristão parece ser radicalmente diferente desses ritos</p><p>de ablução. Foi dado apenas uma vez, como um rito de iniciação na comunidade.</p><p>É necessário, portanto, buscar se, no meio judaico, encontramos analogias melhores.</p><p>A iniciação na comunidade essênia envolvia um banho ritual (FERREIRA, 2021).</p><p>Highlight</p><p>38</p><p>Figura 3: Cerimônia judaica</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/365sncg. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>GLOSSÁRIO</p><p>ESSÊNIOS.</p><p>Eram adeptos de uma seita judaica que existiu na Palestina, no Oriente Médio, entre</p><p>os séculos 2 a.C. e 1 d.C.</p><p>Qualquer pagão convertido à religião judaica tinha que tomar banho, antes</p><p>de receber a circuncisão, para remover seu estado de impureza ritual. Mas, não é</p><p>certo que o uso existisse no tempo de Cristo. Mais importante é a existência de um</p><p>banho no Jordão, que se encontra nas comunidades batistas desta região na época</p><p>das origens cristãs. Este batismo persistiu entre os mandeístas. É provável que João</p><p>Batista tenha sido inspirado por esse costume quando batizou no rio Jordão. Tomar</p><p>banho neste rio não tem lugar no Antigo Testamento, com exceção do banho de</p><p>Naamã (II Reis, V, 1-28) (SILVA, 2013). Mas se João Batista se inspirou nesse uso, deu-</p><p>lhe um novo significado. Seu batismo é um gesto profético, que cumpre a promessa</p><p>escatológica do derramamento da água purificadora no fim dos tempos (SILVA,</p><p>2013).</p><p>39</p><p>Visnu ou Vishnu e Vichnuism</p><p>Não se pode realmente separar o Vishnuismo do todo religioso da Índia</p><p>bramânica: é apenas um dos aspectos do Hinduísmo. As origens remontam aos</p><p>tempos védicos e, por dois milênios, a forma que assumem não mudou</p><p>profundamente. Paralelamente ao Shaivismo, em estreita ligação com este,</p><p>apresenta a mesma antiguidade e evolui de forma semelhante ao longo dos</p><p>séculos. Embora muitos textos proclamem Viṣṇu como "deus dos brâmanes", ele, no</p><p>entanto, recebe, como Shiva, um culto popular, ora como uma das principais</p><p>divindades do Hinduísmo, ora -– e é então que se pode falar de Vishnuísmo – como</p><p>o Absoluto personificado aos quais todos os outros deuses estão subordinados; mais</p><p>exatamente, estes não são mais considerados neste contexto como nada além de</p><p>manifestações secundárias de Viṣṇu, o Deus supremo (MATA, 2010).</p><p>Viṣṇu</p><p>Viṣṇu é uma das duas grandes figuras do panteão hindu, é, como Shiva, uma</p><p>divindade complexa que, ao longo dos séculos, drenou várias correntes de várias</p><p>tradições.</p><p>Uma das lendas mais antigas sobre Viṣṇu é a do anão Vāmana, que de</p><p>repente, transforma-se em gigante e viaja em três passos – dois visíveis e um terceiro</p><p>invisível – a tríade dos mundos. Viu-se, ali, o rastro dos apegos solares do deus: os três</p><p>passos seriam a imagem da caminhada diurna e noturna do Sol; o anão que se</p><p>Highlight</p><p>40</p><p>tornou um gigante leva este nome de Trivikrama (DEMO, 2013).</p><p>A expansão ilimitada do deus abrange todo o universo; a noção de</p><p>Totalidade com a qual se funde mais tarde e que a fará identificar-se com o</p><p>brâmane já se revela na sua onipresença, totalidade, e, consequentemente, aquele</p><p>que sustenta e governa tudo o que existe.</p><p>Esta posição particular leva à sua identificação com o Puruṣa, ou seja, o</p><p>Gigante cósmico que o Hino 90 do Ṛgveda mostra desmembrado pelos deuses em</p><p>um sacrifício no qual, com seu corpo desmembrado, o mundo é criado. Aqui,</p><p>novamente, seu aspecto “Totalidade” é essencial (EISLER, 2007).</p><p>2.3 LIVROS SAGRADOS: PRINCIPAIS CONSIDERAÇÕES</p><p>Para falar das grandes religiões, é preciso referir-se aos textos fundadores, aos</p><p>escritos sagrados aos quais cada uma está ligada. As informações a seguir são, sem</p><p>dúvida, sucintas, mas destinam-se a ajudar a encontrar o caminho e localizar os</p><p>escritos quando e onde estes se encontram na história das religiões.</p><p>Em todos os lugares da Terra, os homens criaram religiões para se reunir em</p><p>torno de sua visão do divino. Do catolicismo ao Hinduísmo, do islamismo ao Budismo,</p><p>nem todos são iguais; expressam até uma abundante diversidade de crenças e</p><p>comportamentos, mas todas oferecem uma história do mundo, todas vislumbram um</p><p>além-túmulo, todas impõem regras de conduta, instituem ritos, têm lugares sagrados,</p><p>estimulam a meditação, unem comunidades e estabelecem uma hierarquia à</p><p>condução de seu culto (GENNEP, 2013).</p><p>Uma história de origens</p><p>Através de seus textos sagrados, as religiões contam a história de seu deus –</p><p>ou seus deuses – e oferecem uma história das origens do mundo. A Torá, a Bíblia e o</p><p>Alcorão explicam aos judeus, cristãos e muçulmanos, respectivamente, como Deus</p><p>criou o Universo do nada, em seis etapas, sendo a primeira a separação da luz e das</p><p>trevas.</p><p>Highlight</p><p>41</p><p>Figura 4: Representação do deus Brahma</p><p>Fonte: Disponível em https://bit.ly/3Kx3dCp. Acesso em: 20 jan. 2022.</p><p>A cosmogonia hindu descreve um universo cíclico: o mundo emana de</p><p>Brahmā e depois se dissolve a cada 4,32 bilhões de anos. A mitologia xintoísta credita</p><p>a um par de deuses, Izanagi e Izanami, a criação das ilhas do Japão e muitos outros</p><p>deuses. Notável exceção, o Budismo não se refere a nenhum deus criador e ignora</p><p>a questão das origens, o que o faz oscilar entre filosofia e religião (JOSEFO, 2019).</p><p>Num contexto de mundialização, mais do que nunca, estamos em contato</p><p>com outras civilizações,, e por extensão com outras religiões. Então, que atitude</p><p>adotar?</p><p>Para adotarmos uma metodologia, vamos recorrer à lenda de Asoka. Ele era</p><p>um rei por volta de 268-233 a.C. que, aterrorizado com a violência que havia usado</p><p>em suas conquistas, teria se convertido ao Budismo e teria governado seu país de</p><p>acordo com os princípios dessa nova religião. Para garantir a paz em seu império,</p><p>ele convida todos à maior tolerância (LE GOFF, 2013).</p><p>Segundo o rei, não se deve apenas honrar a própria religião e condenar as</p><p>religiões dos outros, mas deve-se honrar as religiões dos outros por esta ou por aquela</p><p>razão. Ao fazê-lo, ajuda-se a crescer a própria religião, e também, se serve a dos</p><p>outros. Ao fazer o contrário, cava-se a sepultura de sua própria religião e também</p><p>prejudica as religiões dos outros. Quem honra sua própria religião e condena as</p><p>religiões dos outros, é claro que o faz por devoção à própria religião. Mas, ao</p><p>contrário, agindo assim, prejudica seriamente sua própria religião s (LE GOFF, 2013).</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>42</p><p>A Bíblia</p><p>Pelo nome de Bíblia, os cristãos designam todos os escritos que consideram</p><p>inspirados por Deus para revelar aos homens sua Palavra e seu plano de salvação.</p><p>Este conjunto, composto ao longo de quinze séculos por dezenas de autores</p><p>conhecidos ou anônimos, é uma soma de experiências espirituais.</p><p>O Antigo Testamento é o conjunto de livros que expressam a aliança entre</p><p>Deus e o povo judeu, nos quais os cristãos reconhecem o povo escolhido por Deus</p><p>para preparar o caminho da salvação.</p><p>Esta primeira parte da Bíblia é comum a judeus e cristãos, mas com algumas</p><p>diferenças. Os judeus, seguidos pelos protestantes, reconhecem apenas os livros</p><p>escritos em hebraico, ou seja, quarenta livros. Já os católicos acrescentam seis livros</p><p>escritos em grego. Os protestantes chamam esses últimos livros de “apócrifos” e os</p><p>católicos de “deuterocanônicos”, ou seja, entraram no cânon, ou regra de fé,</p><p>segundo o Vaticano. Estes seis livros são os de Judite, Tobias, 1 e 2 Macabeus,</p><p>Sabedoria, Sirach (O’DONNELL, 2007).</p><p>O Novo Testamento, idêntico para todos os cristãos, tem vinte e sete livros. Foi</p><p>compilado a partir de meados do primeiro século até por volta entre os anos 100 e</p><p>150. São eles:</p><p> os quatro Evangelhos: o Evangelho de Marcos, o mais antigo e mais concreto;</p><p>os de Mateus e Lucas, respectivamente, destinados ao uso de cristãos vindos</p><p>do Judaísmo e de origens pagãs; a de João, o mais recente, de uma reflexão</p><p>mais profunda.</p><p> os Atos dos Apóstolos, a aventura dos apóstolos pelo Mediterrâneo para os</p><p>primeiros passos da Igreja.</p><p> as Epístolas: vinte e duas cartas enviadas pelos líderes da Igreja a suas</p><p>comunidades para confirmá-los em sua fé, desviá-los de certos erros e resolver</p><p>os problemas de sua nova vida.</p><p> o Apocalipse, atribuído ao apóstolo João, evoca as lutas da Igreja com os</p><p>poderes do mal e anuncia a vitória final do Reino de Deus (O’DONNELL, 2007).</p><p>Judaísmo: a Bíblia Hebraica</p><p>Todas as crenças e tradições judaicas são expressas em uma literatura que</p><p>remonta à antiguidade e se estende até os dias atuais. Foi escrita, em sua maior</p><p>parte, em hebraico, mas também em aramaico, língua falada na Palestina e na</p><p>Highlight</p><p>Highlight</p><p>43</p><p>Mesopotâmia; depois, na Idade Média, em árabe.</p><p>A Torá (que em hebraico significa ensino) é a "lei" no centro do Apocalipse. O</p><p>primeiro dever do judeu é dedicar-se ao longo de sua vida ao seu estudo. Deus deu</p><p>a Torá ao povo judeu para ensiná-los a se tornarem</p>

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