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<p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)</p><p>Bridges, Jerry</p><p>Pecados intocáveis / Jerry Bridges; tradução Eulália Pacheco Kregness. São</p><p>Paulo: Vida Nova, 2012.</p><p>ePub</p><p>ISBN 978-85-275-0718-9 (recurso eletrônico)</p><p>Título original: Respectable Sins: Confronting the Sins We Tolerate</p><p>1. Pecado 2. Pecado - Cristianismo 3. Vida cristã I. Título.</p><p>12-04713 CDD-241.3</p><p>Índices para catálogo sistemático:</p><p>1. Pecado: Cristianismo 241.3</p><p>Copyright © 2007, Jerry Bridges</p><p>Título original: Respectable Sins: Confronting the Sins We Tolerate</p><p>Traduzido da edição publicada pela Navpress, uma Division of �e Navigators, E. U. A</p><p>1.</p><p>a</p><p>edição: 2012</p><p>Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados por Sociedade</p><p>Religiosa Edições Vida Nova,</p><p>Caixa Postal 21266, São Paulo, SP, 04602-970</p><p>www.vidanova.com.br | e-mail: vidanova@vidanova.com.br</p><p>Proibida a reprodução por quaisquer meios (mecânicos, eletrônicos, xerográ�cos,fotográ�cos, gravação,</p><p>estocagem em banco de dados etc.), a não ser em citações breves com indicação de fonte.</p><p>ISBN ���-��-���-����-�</p><p>S��������� E��������</p><p>Marisa K.A. de Siqueira Lopes</p><p>C���������� E��������</p><p>Curtis Alan Kregness</p><p>R������</p><p>Mariú Madureira Lopes</p><p>C���������� �� P�������</p><p>Sérgio Siqueira Moura</p><p>R������ D� P�����</p><p>Ubevaldo G. Sampaio</p><p>D���������� � ��������� ���� ����</p><p>Luciana Di Iorio</p><p>C���</p><p>Wesley Mendonça</p><p>Todas as citações bíblicas, salvo indicação contrária, foram extraídas da versão Almeida Século 21,</p><p>publicada no Brasil com todos os direitos reservados por Sociedade Religiosa Edições Vida Nova.</p><p>A todos os que com suas orações e apoio �nanceiro se juntam a mim no ministério,</p><p>dedico de coração este livro.</p><p>“Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós [...]</p><p>em razão da vossa cooperação na causa do evangelho” (Fp 1.3-5)</p><p>S</p><p>e você é líder de pequeno grupo ou professor de escola dominical, não</p><p>deixe de usar o guia de estudo deste excelente livro. Em apenas oito</p><p>reuniões, vocês irão interagir de maneira dinâmica ao estudar e colocar em</p><p>prática os princípios fundamentais apresentados em Pecados Intocáveis.</p><p>O guia de estudo de Pecados Intocáveis também incentiva a prática da</p><p>re�exão e da aplicação individuais, uma vez que os membros do grupo</p><p>deverão responder por escrito a perguntas e sugestões signi�cativas. (Para</p><p>melhor participação, cada pessoa deve ter uma cópia do livro e do guia de</p><p>estudo.)</p><p>Prefácio</p><p>1. Santos comuns</p><p>2. O desaparecimento do pecado</p><p>3. A malignidade do pecado</p><p>4. A cura do pecado</p><p>5. O poder do Espírito Santo</p><p>6. Orientações para lidar com o pecado</p><p>7. Impiedade</p><p>8. Ansiedade e frustração</p><p>9. Insatisfação</p><p>10. Ingratidão</p><p>11. Orgulho</p><p>12. Egoísmo</p><p>13. Descontrole</p><p>14. Impaciência e irritabilidade</p><p>15. Ira</p><p>16. Ervas daninhas da ira</p><p>17. Mania de julgar</p><p>18. Inveja, ciúme e pecados a�ns</p><p>19. Pecados da língua</p><p>20. Mundanismo</p><p>21. E agora?</p><p>Q“uem dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro a atirar uma</p><p>pedra nela” ( Jo 8.7). Embora muitos estudiosos questionem se o</p><p>famoso relato da mulher acusada de adultério deveria realmente fazer parte</p><p>do evangelho de João, a frase tornou-se parte da cultura popular, do mesmo</p><p>modo que outra também parecida: “Não julgueis, para que não sejais</p><p>julgados” (Mt 7.1).</p><p>Como o título deixa claro, este livro fala sobre pecado — não sobre os</p><p>pecados óbvios da sociedade, mas sobre os pecados sutis dos cristãos,</p><p>público-alvo destas páginas. Assim, gostaria de a�rmar logo de cara que não</p><p>estou livre dos pecados aqui mencionados. Na verdade, o leitor observará</p><p>que, algumas vezes, cito minhas tristes experiências para exempli�car esses</p><p>pecados.</p><p>Este livro é resultado da convicção crescente de que as pessoas entre nós,</p><p>a quem chamo de evangélicos conservadores, �caram tão preocupadas com</p><p>alguns pecados graves da sociedade que deixaram de lado a necessidade de</p><p>lidar com nossos pecados mais “re�nados” ou menos óbvios.</p><p>Embora o propósito aqui seja tratar desses pecados “intocáveis”, também</p><p>desejo que este seja um livro de esperança. Não devemos jamais nos</p><p>chafurdar desesperançados em nossos pecados. Pelo contrário, devemos crer</p><p>no evangelho por meio do qual Deus lida com a culpa do pecado e com o</p><p>domínio deste sobre nós.</p><p>O evangelho, contudo, é somente para os pecadores, para aqueles que</p><p>reconhecem que precisam dele. Muitos cristãos acham que o evangelho é só</p><p>para os não crentes. Achamos que, uma vez que con�amos em Cristo, o</p><p>evangelho é dispensável. No entanto, como tento mostrar aqui, o evangelho</p><p>é uma dádiva essencial de Deus, não somente para nos trazer salvação, mas</p><p>também para nos ensinar a lidar com a atividade constante do pecado em</p><p>nossas vidas. Desse modo, precisamos sim do evangelho diariamente.</p><p>De forma alguma, este livro consegue tratar de todos os possíveis pecados</p><p>sutis com os quais temos de lidar. Vários colegas que estão comigo no</p><p>ministério cristão examinaram a longa relação de pecados que anotei e me</p><p>ajudaram a reduzi-los a uma lista razoável dos mais comuns. A esses</p><p>amigos, a minha mais profunda gratidão pelas opiniões.</p><p>Três outras pessoas merecem reconhecimento especial. Don Simpson,</p><p>que além de meu editor é também amigo íntimo, por sua imensa ajuda. Dr.</p><p>Bob Bevington, com quem colaborei recentemente na produção de um</p><p>livro, por ter lido o manuscrito e oferecido sugestões inestimáveis. A sra.</p><p>Jessie Newton, por ter digitado o manuscrito no computador para que fosse</p><p>apresentado a NavPress. Este é o terceiro manuscrito que Jessie digita para</p><p>mim. Contei também com um grupo grande de pessoas que sustentaram</p><p>este projeto em oração. Agradeço a todos vocês por colaborarem com este</p><p>livro.</p><p>Acima de tudo, a Deus seja a glória, hoje e sempre. Amém.</p><p>A</p><p>igreja de Corinto era um exemplo típico de grande balbúrdia moral e</p><p>teológica. Os crentes eram orgulhosos e rebeldes; toleravam a</p><p>indecência, processavam uns aos outros, vangloriavam-se da liberdade em</p><p>Cristo, exageravam na ceia do Senhor e estavam equivocados quanto aos</p><p>dons espirituais e confusos sobre a ressurreição dos salvos. Contudo, ao</p><p>escrever-lhes, Paulo chama essa turma de “santos” (2Co 1.1) ou de</p><p>“chamados para serem santos” (1Co 1.2).</p><p>Devido ao uso corrente, é normal o signi�cado das palavras mudar com o</p><p>tempo. Hoje não chamaríamos aqueles atrapalhados de Corinto de santos;</p><p>talvez pudéssemos chamar de mundanos, carnais ou imaturos, porém nunca</p><p>de santos. Na tradição católica, santidade é conferição postumária aos</p><p>cristãos de caráter e realizações excepcionalmente notáveis. Escrevo este</p><p>capítulo logo após a morte do admi radíssimo papa João Paulo II, e o desejo</p><p>popular de canonizá-lo já tomou conta do mundo.</p><p>Parece que, no decorrer da história da Igreja, quase todos os apóstolos</p><p>originais, incluindo Paulo, receberam o título de santo. Igrejas católicas,</p><p>principalmente, levam seus nomes: Igreja São Judas Tadeu, Igreja São João</p><p>Batista. Até Matias, escolhido para o lugar de Judas, tem igreja em sua</p><p>honra. E é claro que acima de todas se destaca a Basílica de São Pedro, no</p><p>Vaticano.</p><p>Hoje, fora da Igreja Católica Romana e das tradições ortodoxas, o termo</p><p>santo é raramente usado. Em geral, nos casos em que ainda é usado,</p><p>descreve uma pessoa (quase sempre idosa) de caráter particularmente</p><p>virtuoso. Um neto talvez diga: “Se existe alguém santo neste mundo, é</p><p>minha avó”. Ao ouvir a frase, imediatamente imaginamos uma senhora</p><p>gentil e carinhosa que lê a Bíblia e ora diariamente, e é conhecida por</p><p>ajudar o próximo.</p><p>Então, como é que o apóstolo Paulo pode chamar os desnorteados</p><p>crentes de Corinto de santos? Na verdade, essa parece ser a forma de</p><p>tratamento favorita de Paulo. Ele a usa em várias de suas cartas e vive</p><p>chamando os cristãos de santos (veja, por exemplo, Rm 1.7; 16.15; 1Co 1.2;</p><p>2Co 1.1; Ef 1.1; Fp 1.1; 4.21,22; Cl 1.2). Como é que Paulo pode se referir</p><p>a cristãos comuns, até mesmo aos desordeiros de Corinto, como santos?</p><p>A resposta encontra-se no signi�cado da palavra, do modo como é usada</p><p>na</p><p>que toleramos pelo menos alguns deles. Qualquer pessoa concordaria, com</p><p>exceção da mais “santarrona”. A expressão “a�nal, ninguém é perfeito”</p><p>talvez seja nossa desculpa. Contudo, encarar honestamente esses pecados é</p><p>algo bem diferente. Para começo de conversa, é uma situação que causa</p><p>vergonha. Além disso, também implica termos de tomar uma atitude em</p><p>relação aos nossos pecados. Não podemos continuar a ignorá-los como</p><p>�zemos até agora.</p><p>No entanto, antes de examinar alguns pecados aceitáveis entre os</p><p>cristãos, gostaria de oferecer algumas orientações para lidarmos com eles.</p><p>Embora alguns pecados necessitem ser tratados de modo especial, algumas</p><p>orientações se aplicam a todos os nossos pecados sutis.</p><p>Primeira orientação: lidar com o pecado sempre no contexto do</p><p>evangelho. Já falei sobre essa verdade no capítulo 4, mas é necessário</p><p>repeti-la. Nossa tendência é esquecer o evangelho assim que começamos a</p><p>lidar com um pecado em nossa vida. Esquecemos que, com a morte de</p><p>Cristo, Deus já nos perdoou os pecados. Como Paulo escreveu em</p><p>Colossenses 2.13,14: “Deus [...] perdoando todos os nossos pecados e,</p><p>apagando a escrita de dívida, que nos era contrária e constava contra nós</p><p>em seus mandamentos, removeu-a do nosso meio, cravando-a na cruz.”</p><p>Deus não somente perdoou nossos pecados, mas também nos creditou a</p><p>justiça perfeita de Cristo. Em todas as áreas da vida em que temos sido</p><p>desobedientes, Jesus foi perfeitamente obediente. Somos propensos à</p><p>ansiedade? Jesus sempre con�ou totalmente em seu Pai celeste. Temos</p><p>problemas com o egoísmo? Jesus sempre foi completamente abnegado.</p><p>Somos culpados de grosserias, fofoca ou sarcasmo? As palavras de Jesus</p><p>foram sempre apropriadas às ocasiões. Ele jamais pecou com sua língua.</p><p>Durante trinta e três anos, Jesus viveu em perfeita obediência à vontade</p><p>moral de Deus, e sua obediência culminou quando atendeu à vontade</p><p>especí�ca do Pai — obedecendo-o até a morte, e morte de cruz por nossos</p><p>pecados. Tanto em sua vida pura quanto em sua morte pelos pecados da</p><p>humanidade, Jesus mostrou obediência perfeita, justiça perfeita, e essa</p><p>justiça é transferida a todos os que creem (v. Rm 3.21,22; Fp 3.9).</p><p>Enquanto lutamos para matar nossos pecados sutis, temos de ter duas</p><p>verdades em mente: nossos pecados estão perdoados, e Deus nos aceita</p><p>como justos por causa da vida impecável e da morte expiatória do Senhor</p><p>Jesus Cristo. Não existe motivação maior para lidarmos com o pecado em</p><p>nossa vida do que compreendermos essas duas verdades gloriosas do</p><p>evangelho.</p><p>Segunda orientação: depender do poder capacitador do Espírito Santo.</p><p>Lembre-se de que é pelo Espírito Santo que morti�camos os pecados em</p><p>nossas vidas (v. Rm 8.13). Já estudamos essa verdade em detalhes no</p><p>capítulo 5, mas, como no caso do evangelho, quase sempre nos esquecemos</p><p>disso e recorremos à nossa própria força. (É o que chamo de uma de nossas</p><p>“con�gurações padrão”.) No entanto, não importa o quanto nos</p><p>fortaleçamos, iremos sempre necessitar do poder habilitador do Espírito</p><p>Santo. Nossa vida espiritual pode ser comparada ao motor de um aparelho</p><p>elétrico. Na verdade, é o motor que realiza a tarefa; mas, para isso, ele é</p><p>dependente da fonte de eletricidade externa. Portanto, cultivemos uma</p><p>atitude de dependência contínua do Espírito Santo.</p><p>Terceira orientação: reconhecer que temos responsabilidade de dar todos</p><p>os passos práticos na luta contra o pecado, mesmo dependendo do Espírito</p><p>Santo. Sei que é difícil manter de igual modo essas duas verdades em mente</p><p>— dependência e responsabilidade. Nossa tendência é salientar uma e</p><p>esquecer a outra. A sabedoria de alguns dos velhos escritores é bem útil</p><p>aqui: “Trabalhe como se tudo dependesse de você, e con�e como se não</p><p>tivesse feito absolutamente nada.”</p><p>Quarta orientação: identi�car as áreas de atuação dos pecados aceitáveis.</p><p>Esse é um dos objetivos dos próximos capítulos, em que examinaremos os</p><p>pecados sutis um a um. Ao ler cada capítulo, peça ao Espírito Santo para</p><p>ajudá-lo a descobrir em sua vida algum traço do pecado ali descrito. Claro</p><p>que isso exige atitude humilde e disposição para encarar o pecado. Ao</p><p>identi�car um pecado, pense nas situações que o desencadeiam. Preparar-se</p><p>para as circunstâncias ou eventos que engatilham o pecado ajuda a dar um</p><p>�m nele.</p><p>Quinta orientação: aplicar versículos especí�cos a cada um dos pecados</p><p>sutis. Devemos memorizar os versículos, re�etir e orar sobre eles, e pedir</p><p>que Deus os use para nos fortalecer na luta contra esses pecados. O salmista</p><p>a�rmou: “Guardei a tua palavra no meu coração para não pecar contra ti”</p><p>(119.11). Guardar signi�ca reservar para necessidades futuras.</p><p>Em 1999, o mundo passou por uma tremenda crise de ansiedade</p><p>pensando no que iria acontecer quando os calendários dos computadores</p><p>mudassem para 1 de janeiro de 2000. Muitas previsões sinistras de todos os</p><p>tipos sobre a economia mundial — hoje em dia muito dependente dos</p><p>computadores — garantiam que o colapso era certo. Como resultado, muita</p><p>gente estocou comida e material de emergência. A mudança de ano não</p><p>teve nada de extraordinário, a�nal os computadores continuaram</p><p>funcionando como sempre. Mesmo assim, a ocasião ilustra de modo vívido</p><p>o signi�cado do verbo guardar. A população guardou para as necessidades</p><p>futuras.</p><p>É isso o que fazemos ao guardar a Bíblia no coração. Armazenamos</p><p>versículos para as necessidades futuras: para as horas em que somos</p><p>tentados a nutrir algum pecado sutil (ou nem tão sutil assim).</p><p>Claro que não existe mágica nenhuma na memorização de versículos.</p><p>Eles têm de ser aplicados à vida. Entretanto, se tivermos memorizado e</p><p>usado em oração versículos que falem sobre nossos pecados sutis, o Espírito</p><p>Santo irá trazê-los às nossas mentes em situações especí�cas para nos</p><p>lembrar da vontade de Deus, para nos advertir e para guiar nosso</p><p>comportamento diante da tentação. Para ajudar o leitor, recomendarei</p><p>alguns versículos quando estiver examinando os pecados sutis</p><p>individualmente.</p><p>Sexta orientação: orar continuamente sobre os pecados que toleramos.</p><p>Isso está pressuposto na segunda orientação, que fala sobre dependência do</p><p>Espírito Santo, e na quinta orientação, que trata da memorização de</p><p>versículos. Todavia, é importante destacar a oração como uma das</p><p>orientações mais importantes na luta contra o pecado, uma vez que é por</p><p>meio dela que reconhecemos que precisamos do Espírito Santo. É também</p><p>por meio da oração que reconhecemos continuamente a presença e a</p><p>insistência desses pecados em nossas vidas.</p><p>Devemos orar de dois modos sobre nossos pecados sutis. Primeiro, de</p><p>modo planejado e consistente, talvez em nosso tempo a sós com Deus.</p><p>Segundo, fazer oração “relâmpago” pedindo socorro ao Espírito Santo</p><p>sempre que nos depararmos com situações que engatilham um de nossos</p><p>pecados.</p><p>Sétima orientação: envolver um ou mais cristãos em nossa luta contra os</p><p>pecados sutis. Naturalmente, esse deve ser um relacionamento mútuo que</p><p>nos leve a exortar, encorajar uns aos outros e orar uns pelos outros. A Bíblia</p><p>explica que é melhor “serem dois do que um, porque têm melhor</p><p>recompensa do seu trabalho. Pois, se um cair, o outro levantará seu</p><p>companheiro. Mas pobre do que estiver só e cair, pois não haverá outro que</p><p>o levante” (Ec 4.9,10). Se desejamos avançar na batalha contra o pecado,</p><p>temos de ser vulneráveis e responsáveis uns pelos outros, orar uns pelos</p><p>outros e encorajar uns aos outros.</p><p>Todas essas orientações são demais para sua cabeça? Nada de estresse;</p><p>este sumário irá ajudá-lo:</p><p>Use o evangelho.</p><p>Dependa do Espírito Santo.</p><p>Reconheça a sua responsabilidade.</p><p>Identi�que os pecados sutis especí�cos.</p><p>Memorize e faça uso de versículos apropriados.</p><p>Cultive a prática da oração.</p><p>Chame irmãos em Cristo para estarem ao seu lado.</p><p>Ao fazer uso dessas orientações, lembre-se de que o seu coração é um</p><p>campo de batalha entre a carne e o Espírito (v. Gl 5.17). Nessa guerrilha, a</p><p>carne levará vantagem algumas vezes. Ao mirar um pecado em especial na</p><p>intenção de matá-lo, sua situação pode piorar ao invés de melhorar. Anime-</p><p>se: isso é normal. O Espírito Santo usará sua</p><p>desobediência e derrota</p><p>ocasionais para fazê-lo enxergar a profundidade de seus pecados sutis e</p><p>levá-lo a entender o quanto você depende do poder do Senhor.</p><p>Ao examinar alguns pecados que normalmente toleramos, oferecerei</p><p>outras sugestões práticas a respeito de como lidar com eles. Contudo, essas</p><p>sete orientações gerais serão sempre aplicáveis. Portanto, aconselho que o</p><p>leitor faça uma boa digestão deste capítulo antes de prosseguir.</p><p>Quando falo sobre áreas especí�cas de pecados aceitáveis, um</p><p>comentário que ouço com frequência é que o orgulho é a raiz de</p><p>todos eles. Embora concorde que o orgulho tenha um papel importante no</p><p>desenvolvimento e na manifestação dos pecados sutis, creio que há outro</p><p>pecado ainda mais básico, mais amplo e mais provável de ser a causa dos</p><p>outros pecados. Re�ro-me ao pecado da impiedade, do qual todos nós</p><p>somos, de certa forma, culpados.</p><p>A a�rmação surpreendeu ou ofendeu você? Não nos vemos como ímpios.</p><p>A�nal, somos cristãos; não somos ateus ou perversos. Frequentamos a</p><p>igreja, não cometemos pecados escabrosos, e vivemos de modo digno. Em</p><p>nosso entendimento, ímpios são aqueles cujas vidas são um poço de</p><p>pecados. Como, então, posso dizer que todos nós cristãos somos, até certo</p><p>ponto, ímpios?</p><p>Em desacordo com o pensamento geral, impiedade e perversidade não</p><p>são a mesma coisa. Alguém pode ser escrupuloso e respeitável, e mesmo</p><p>assim ser ímpio. O apóstolo Paulo diz em Romanos 1.18: “Pois a ira de</p><p>Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça.” Observe que</p><p>Paulo faz distinção entre impiedade e injustiça. Impiedade descreve a</p><p>atitude contra Deus, enquanto injustiça se refere ao pecado cometido em</p><p>pensamento, palavra ou ação. Um ateu confesso, ou mesmo alguém com</p><p>uma mentalidade secular, é evidentemente ímpio; todavia, há muitas</p><p>pessoas decentes que também são ímpias, embora a�rmem acreditar em</p><p>Deus.</p><p>Impiedade pode ser de�nida como viver sem pensar — ou pensar pouco</p><p>— em Deus, ou na vontade de Deus, ou na glória de Deus, ou na</p><p>dependência de Deus. Não é difícil notar que a pessoa pode ter uma vida</p><p>decente e ser ímpia, uma vez que Deus é irrelevante no seu dia a dia.</p><p>Encontramos pessoas assim por todos os lados no decorrer de nossos</p><p>afazeres diários. São pessoas simpáticas, educadas e caridosas, mas Deus</p><p>está longe de seus pensamentos. Talvez até passem uma hora por semana</p><p>na igreja, mas vivem os outros dias como se Deus não existisse. Não são</p><p>perversas, mas são ímpias.</p><p>A tristeza é que muitos de nós que são cristãos vivem o dia a dia sem</p><p>pensar muito em Deus, ou nem sequer pensamos. É até possível que</p><p>leiamos a Bíblia e oremos por alguns minutos pela manhã; mas, logo em</p><p>seguida, já nos detemos com nossos afazeres, e vivemos basicamente como</p><p>se Deus não existisse. Di�cilmente levamos em conta nossa dependência de</p><p>Deus ou nossa responsabilidade para com ele. As horas correm sem que</p><p>pensemos um segundo em Deus. Nesse sentido, somos bem iguais ao nosso</p><p>vizinho que é gentil e decente, mas não é salvo. Ele nunca pensa em Deus,</p><p>e nós só pensamos nele de vez em quando.</p><p>É impossível ler o Novo Testamento com atenção sem notar o quanto</p><p>nossa vida está fora do padrão bíblico de piedade. A�rmei que di�cilmente</p><p>levamos em conta nossa dependência de Deus. Sobre isso, medite nestas</p><p>palavras de Tiago:</p><p>Agora, prestai atenção, vós que dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, lá passaremos um</p><p>ano, negociaremos e teremos lucro. No entanto, não sabeis o que acontecerá no dia de amanhã. O</p><p>que é a vossa vida? Sois como uma névoa que aparece por pouco tempo e logo se dissipa. Em vez</p><p>disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo (4.13-15).</p><p>Tiago não condena essas pessoas porque fazem planos ou traçam</p><p>negócios lucrativos. Condena o fato de as pessoas não reconhecerem que</p><p>dependem de Deus para a realização de seus planos. Vivemos planejando</p><p>uma coisa ou outra. Na verdade, não conseguiríamos viver nem fazer as</p><p>coisas mais simples da vida sem algum planejamento. Apesar disso, quase</p><p>sempre agimos como as pessoas às quais Tiago se dirigiu. Nós também</p><p>fazemos planos sem reconhecer que dependemos totalmente de Deus para</p><p>torná-los realidade. Esse é um modo de a impiedade se expressar.</p><p>Da mesma forma, raramente pensamos na prestação de conta de nossos</p><p>atos a Deus e na responsabilidade de vivermos conforme sua vontade moral</p><p>revelada na Bíblia. Isso não signi�ca que estejamos mergulhados em</p><p>pecado; o problema é que di�cilmente consideramos a vontade de Deus e,</p><p>quase sempre, nos contentamos em evitar os pecados gritantes. Paulo,</p><p>contudo, escreveu aos cristãos de Colossos:</p><p>Portanto, desde o dia em que soubemos disso, nós também não cessamos de orar por vós e de</p><p>pedir que sejais cheios do pleno conhecimento da sua vontade, em toda sabedoria e entendimento</p><p>espiritual. Assim, oramos para que possais viver de maneira digna do Senhor, agradando-lhe em</p><p>tudo, fruti�cando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus (Cl 1.9,10).</p><p>Observe como a oração se concentra em Deus. Paulo desejava que seus</p><p>leitores fossem cheios do conhecimento da vontade de Deus — ou seja —</p><p>de sua vontade moral. Desejava que vivessem de modo digno de Deus e</p><p>agradando-lhe em tudo, e orava por isso. A oração centrada em Deus é</p><p>assim. Paulo desejava que os colossenses fossem cristãos piedosos.</p><p>Tenha em mente que os crentes de Colossos não eram supercristãos;</p><p>eram pessoas iguais a nós, vivendo dia a dia em uma sociedade bem pior do</p><p>que a nossa. Mesmo assim, Paulo esperava que vivessem vidas santas, e</p><p>orava para que isso acontecesse.</p><p>Será que oramos por nós mesmos, por familiares e amigos da mesma</p><p>forma que Paulo orava pelos colossenses? Nossas orações mostram</p><p>preocupação com a vontade e a glória de Deus, e desejo de viver de modo</p><p>que o agrade? Ou são mais parecidas com uma lista de tarefas que</p><p>apresentamos a Deus, pedindo-lhe que intervenha na saúde e na</p><p>necessidade �nanceira de familiares e amigos? Não é condenável apresentar</p><p>essas necessidades terrenas a Deus. Na verdade, esse é um modo de</p><p>reconhecermos que dependemos dele diariamente. Mas se oramos apenas</p><p>por essas coisas, estamos tratando Deus como um “o�ce boy divino”, e nada</p><p>mais. Nossas orações estão focadas essencialmente no ser humano, e não</p><p>em Deus. E, de certa forma, somos ímpios nesse aspecto.</p><p>Para Paulo, tudo na vida tem de ser feito na presença de Deus com o</p><p>objetivo de agradá-lo. Note, por exemplo, como ele instrui os escravos que</p><p>eram membros da igreja de Colossos (provavelmente uma grande parte da</p><p>congregação) a servirem aos seus senhores no temor de Deus:</p><p>Escravos, obedecei em tudo a vossos senhores deste mundo, não servindo só quando observados,</p><p>como quem quer agradar os homens, mas de coração íntegro, temendo o Senhor. E tudo quanto</p><p>�zerdes, fazei de coração, como se �zésseis ao Senhor e não aos homens, sabendo que recebereis</p><p>do Senhor a herança como recompensa; servi a Cristo, o Senhor (Cl 3.22-24).</p><p>Sua admoestação para que �zessem tudo “de coração, como se �zésseis ao</p><p>Senhor e não aos homens” (v. 23) apresenta uma regra por meio da qual</p><p>buscamos viver de maneira íntegra em nosso trabalho e pro�ssão. Mas</p><p>quantos cristãos tentam seguir essa regra no viver diá rio? Será que não</p><p>realizamos nossas atividades da mesma forma que os nossos colegas não</p><p>crentes e in�éis que trabalham só em benefício próprio, de olho numa</p><p>subida de cargo e no aumento de salário, sem jamais levar em conta o que</p><p>agrada a Deus?</p><p>Consideremos a igreja de Corinto, que, como já observamos, era uma</p><p>confusão. Paulo escreveu àqueles irmãos: “Portanto, seja comendo, seja</p><p>bebendo, seja fazendo qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de</p><p>Deus” (1Co 10.31). Tudo inclui cada atividade de nosso dia. Não devemos</p><p>só comer para a glória de Deus, temos de dirigir o carro para a glória de</p><p>Deus, temos de fazer compras para a glória de Deus, e nossos</p><p>relacionamentos têm de ser para a glória de Deus. Tudo o que �zermos tem</p><p>de ser feito para a glória de Deus. Essa é a marca do cristão piedoso.</p><p>Mas o que signi�ca fazer tudo para a glória de Deus?</p><p>Signi�ca que faço</p><p>as refeições, dirijo o carro, vou às compras e relaciono-me com as pessoas</p><p>tendo dois objetivos em mente. O primeiro é fazer tudo de modo que</p><p>agrade a Deus. Quero que Deus �que contente com meu jeito de realizar</p><p>até as coisas mais simples do dia a dia. Assim, oro pelas circunstâncias que</p><p>me aguardam, pedindo que o Espírito Santo dirija meus pensamentos,</p><p>palavras e ações de modo que agradem a Deus.</p><p>O segundo objetivo é que todas as minhas atividades honrem a Deus</p><p>perante os outros. Jesus disse: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos</p><p>homens, para que vejam as vossas boas obras e glori�quem vosso Pai, que</p><p>está no céu (Mt 5.16). Em contraste, Paulo escreveu sobre os judeus</p><p>soberbos de Roma: “Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela</p><p>transgressão da lei? Pois, como está escrito, por vossa causa o nome de Deus</p><p>é blasfemado entre as nações” (Rm 2.23,24). Pense desta forma: se todas as</p><p>pessoas com quem você interage no decorrer do dia sabem que você con�a</p><p>em Jesus como Salvador e Senhor, suas palavras e ações estão glori�cando a</p><p>Deus perante elas? Ou será que não pensam o mesmo que um �lho disse a</p><p>respeito de seu pai: “Se Deus é igual ao meu pai, não quero nem saber</p><p>dele”?</p><p>Tomara que nenhum de nós seja igual a esse pai cujo tratamento abusivo</p><p>que dispensava aos �lhos era uma blasfêmia contra Deus. Por outro lado,</p><p>estamos nos empenhando para glori�car a Deus diante dos outros?</p><p>Buscamos glori�cá-lo em oração e de modo consciente no que dizemos e</p><p>fazemos durante o dia? Ou realizamos nossas tarefas pensando pouco ou</p><p>nem sequer pensando em Deus?</p><p>Um indicador ainda mais exato de nossa inclinação à impiedade é o nosso</p><p>desejo minguado de ter um relacionamento íntimo com Deus. O salmista</p><p>disse: “Assim como a corça anseia pelas águas correntes, também minha</p><p>alma anseia por ti, ó Deus! Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo;</p><p>quando irei e verei a face de Deus?” (42.1,2).</p><p>Esse não é um texto isolado. No salmo 63.1, Davi fala que tem sede de</p><p>Deus e que o busca ansiosamente. No salmo 27.4, ele manifesta seu desejo</p><p>de habitar na presença do Senhor para contemplar sua beleza. Era isso que</p><p>os homens santos do passado desejavam. Mas hoje em dia poucos de nós se</p><p>interessam por essas coisas. Alguém pode ser moral e correto, ou até</p><p>bastante ocupado no serviço cristão, e mesmo assim ter pouco ou nenhum</p><p>interesse em desenvolver um relacionamento íntimo com Deus. Isso é uma</p><p>das marcas da impiedade.</p><p>Deus é o foco da vida do cristão piedoso. Cada situação, cada atividade,</p><p>seja no reino espiritual, seja no terreno, é vista através das lentes focadas em</p><p>Deus. No entanto, esse foco só é alcançado por meio do relacionamento</p><p>cada vez mais íntimo com Deus. Sem esse relacionamento, ninguém pode</p><p>agradar ou glori�car a Deus de verdade.</p><p>Se você acompanhou meu raciocínio até aqui, percebeu que nenhum</p><p>cristão é totalmente puro. Como isso é, de fato, verdade, existe certo grau de</p><p>impiedade em nós. A pergunta que deveríamos fazer com honestidade e</p><p>humildade é: Até que ponto sou ímpio? Em que aspectos da vida Deus �ca</p><p>fora dos meus pensamentos? Quantas de minhas atividades são realizadas</p><p>sem que eu reconheça a presença de Deus?</p><p>A santidade total e a impiedade absoluta �cam em lados opostos de uma</p><p>linha. Todos nós estamos em algum lugar no meio desses extremos. Jesus</p><p>foi a única pessoa que teve uma vida absolutamente pura. E é provável que</p><p>nenhum cristão verdadeiro tenha uma vida totalmente ímpia. Mas onde</p><p>estamos no espectro? Ao analisar sua vida, lembre-se de que não estamos</p><p>falando de comportamento correto versus comportamento perverso.</p><p>Estamos falando de realizar tudo na vida como se Deus fosse relevante ou</p><p>irrelevante. As pesquisas continuam a mostrar que existe pouca diferença</p><p>entre os padrões de valores e comportamentos dos cristãos e dos não</p><p>cristãos. Por que é que isso acontece? Certamente isso evidencia que</p><p>vivemos praticamente sem levar Deus em consideração ou sem pensar em</p><p>como agradá-lo ou glori�cá-lo. Não se trata de afastarmos Deus de nossos</p><p>pensamentos, de modo consciente e deliberado. Simplesmente o ignoramos.</p><p>Ele povoa muito pouco a nossa mente.</p><p>No início deste capítulo, a�rmei acreditar que a impiedade é o nosso</p><p>pecado fundamental, até mais do que o orgulho. Imagine como o nosso</p><p>orgulho desin�aria se, por exemplo, vivêssemos cada dia cônscios de que</p><p>tudo o que somos, tudo o que temos e tudo o que realizamos é pela graça de</p><p>Deus. Eu e minha esposa lamentávamos o fato de duas pessoas, que sempre</p><p>foram simpáticas e honestas, estarem se deleitando numa vida imoral.</p><p>Então lembrei à minha esposa e a mim mesmo que, “se não fosse pela graça</p><p>de Deus, estaríamos no mesmo barco”. O orgulho de nos acharmos mais</p><p>santos do que os outros — um dos pecados aceitáveis mais comuns — é um</p><p>produto direto de nossa maneira ímpia de pensar.</p><p>Os pecados da língua, tais como fofoca, sarcasmo, palavras grosseiras</p><p>ditas a outros ou sobre outros, não dão as caras quanto temos certeza de que</p><p>Deus ouve tudo o que falamos. O motivo de pecarmos com nossa língua se</p><p>deve ao fato de vivermos, até certo ponto, na impiedade. Não nos ocorre</p><p>que vivemos cada momento do dia na presença de um Deus que tudo vê e</p><p>tudo ouve.</p><p>Creio que, em última instância, todos os outros pecados aceitáveis têm</p><p>sua raiz no pecado da impiedade. Usando uma árvore como ilustração,</p><p>imaginemos nossos pecados, grandes e pequenos, crescendo no tronco do</p><p>orgulho. É, porém, a raiz que dá vida à árvore; e, nesse caso, a raiz é a</p><p>impiedade. No �m das contas, a impiedade sustenta a vida de nossos</p><p>pecados mais visíveis.</p><p>Se temos o hábito de encher a mente de maus pensamentos, como</p><p>podemos então lidar com esse pecado? Como ser mais puros em nosso viver</p><p>diário? Paulo escreveu a Timóteo: “Mas rejeita as fábulas profanas e</p><p>insensatas. Exercita-te na piedade” (1Tm 4.7). O verbo “exercitar” vem da</p><p>cultura esportiva daquela época, e refere-se aos exercícios que os atletas</p><p>faziam diariamente em preparo para os torneios. Entre outras coisas,</p><p>implica compromisso, consistência e disciplina no treinamento.</p><p>Paulo queria que Timóteo, assim como todos os cristãos de todas as</p><p>épocas, fosse tão comprometido em crescer na santidade, e tão intencional</p><p>em sua busca, como agiam os atletas que competiam por um prêmio</p><p>terreno. No entanto, acho que a maioria dos cristãos di�cilmente, ou nunca,</p><p>pensa em se desenvolver na santidade.</p><p>Não posso deixar de contrastar nosso desejo anêmico por santidade com</p><p>a atitude de alguns jovens de nossa cidade que passaram a noite toda —</p><p>congelando no frio e com neve até o pescoço — em frente a uma loja de</p><p>produtos eletrônicos. Os meninos não queriam perder a chance de comprar</p><p>um videogame cuja edição era limitada. Um rapaz se postou em frente da</p><p>loja às 9h30 do sábado e ali �cou até as 8h do domingo, quando as portas</p><p>foram abertas. Será que qualquer um de nós teria a mesma disposição</p><p>quanto à santidade?</p><p>Nosso objetivo na busca da santidade deve ser o crescimento cada vez</p><p>mais consciente de que vivemos todos os minutos na presença de Deus; que</p><p>somos responsáveis perante ele e dependentes dele. Esse objetivo deve</p><p>incluir o desejo cada vez mais intenso de agradar a Deus e glori�cá-lo nas</p><p>atividades mais simples da vida.</p><p>Naturalmente, o crescimento em santidade tem sua base no</p><p>reconhecimento de que precisamos nos desenvolver nessa área</p><p>importantíssima da vida. Espero ter deixado claro que todos nós somos, até</p><p>certo ponto, ímpios quando vivemos sem nos preocupar muito, ou nem um</p><p>pouco, com Deus. Mais uma vez, gostaria de enfatizar que você pode ter</p><p>uma vida moralmente correta e frequentar a igreja com assiduidade e,</p><p>mesmo assim, ser ímpio, caso não ligue muito para Deus.</p><p>Sei que meras palavras impressas numa página de livro não convencem</p><p>nenhuma pessoa de que ela é culpada, até certo ponto, de impiedade. Para</p><p>começar, provavelmente muita gente não acha que é pecado viver sem levar</p><p>Deus em consideração. Meu único pedido é que você, em oração, analise a</p><p>mensagem deste capítulo e responda honestamente quanto tempo você</p><p>gasta pensando em Deus no</p><p>seu viver diário. O que você faria diferente no</p><p>dia a dia se buscasse realizar tudo para a glória de Deus?</p><p>Como o termo impiedade é muito abrangente, identi�que as áreas em</p><p>que você é mais propenso a viver sem se preocupar com Deus. Pense no</p><p>trabalho, nos passatempos, no lazer, nos programas de ��, e até em seu</p><p>meio de transporte. Memorizar versículos e ponderar neles em oração é</p><p>sempre muito proveitoso. Sugestões: 1Timóteo 4.7,8; 1Coríntios 10.31;</p><p>Colossenses 1.9,10; 3.23; Salmo 42.1,2; 63.1; 27.4.</p><p>Acima de tudo, ore para que Deus torne você cada vez mais consciente</p><p>de que vive cada momento de cada dia debaixo dos olhos daquele que tudo</p><p>vê. Mesmo que você não pense muito em Deus, ele está sempre atento à</p><p>sua pessoa e enxerga tudo o que você faz, ouve cada palavra que você diz e</p><p>sabe tudo o que você pensa (v. Sl 139.1-4). Além disso, ele sonda os nossos</p><p>motivos. Portanto, sejamos tão conscientes dele como ele é de nós.</p><p>A</p><p>vida é quase sempre difícil, e muitas vezes é dolorosa. A possibilidade</p><p>de meu carro pifar durante uma viagem de férias é uma di�culdade. A</p><p>possibilidade de eu sofrer um acidente e �car paralítico é um sofrimento.</p><p>Claro que existem vários graus de di�culdade e, em certa medida, de</p><p>sofrimento. Di�culdades geralmente ocorrem nas atividades rotineiras e nas</p><p>próprias responsabilidades que a vida nos traz, ao passo que sofrimento</p><p>normalmente é gerado por circunstâncias atípicas. Neste capítulo, iremos</p><p>nos concentrar nas di�culdades do dia a dia e nas reações bastante comuns</p><p>que se evidenciam em forma de ansiedade e irritação.</p><p>Ansiedade</p><p>Há algum tempo, pesquisei todo o Novo Testamento em busca de situações</p><p>em que os diferentes traços do caráter cristão fossem ensinados por</p><p>preceitos ou por exemplos. Encontrei vinte e sete. Talvez você não se</p><p>espante ao saber que amor é o mais ensinado — cinquenta vezes. Agora,</p><p>pode-se surpreender com o fato de humildade ter chegado perto —</p><p>quarenta vezes. Mas o que me deixou mesmo de boca aberta foi a con�ança</p><p>em Deus, que em todas as circunstâncias pegou o terceiro lugar — é</p><p>ensinada treze vezes.</p><p>O oposto de con�ar em Deus é ansiedade ou frustração, e Jesus falou</p><p>muito sobre ansiedade. O texto que mais se destaca é Mateus 6.25-34, em</p><p>que Jesus faz cinco referências à ansiedade ou à inquietação. Não devemos</p><p>�car ansiosos com o que iremos comer, beber ou vestir, e nem mesmo com</p><p>as circunstâncias desconhecidas do amanhã. Outra expressão que Jesus usa</p><p>em relação à ansiedade é: “Não temais” (v. Mt 10.31; Lc 12.7). Paulo repete</p><p>essa admoestação contra a ansiedade quando diz em Filipenses 4.6: “Não</p><p>andeis ansiosos por coisa alguma.” E Pedro acrescenta: “Lançando sobre ele</p><p>toda vossa ansiedade, pois ele tem cuidado de vós” (1Pe 5.7).</p><p>Quando dizemos a alguém: “Não �que ansioso” ou “Não tenha medo”,</p><p>estamos simplesmente tentando encorajar a pessoa ou corrigi-la com a</p><p>intenção de ajudar. Todavia, quando Jesus (ou Paulo, ou Pedro, que</p><p>escreveram por inspiração divina) nos diz: “Não �que ansioso”, tal frase tem</p><p>a força de uma ordem moral. Ou seja, a vontade moral de Deus é que não</p><p>vivamos ansiosos. Ou, sendo mais explícito, ansiedade é pecado.</p><p>Ansiedade é pecado por dois motivos. Primeiro, como já mencionei, é</p><p>falta de con�ança em Deus. Em Mateus 6.25-34, Jesus argumenta que, se o</p><p>Pai celeste cuida das aves do céu e dos lírios do campo, não irá cuidar ainda</p><p>mais de nós e de nossas necessidades? E Pedro disse que a razão para</p><p>lançarmos nossa ansiedade em Deus é que ele se importa conosco. Assim,</p><p>quando permito que a ansiedade me domine, estou, na verdade, acreditando</p><p>que Deus não se importa comigo e não irá cuidar de mim na situação que</p><p>está me deixando ansioso.</p><p>Imagine que alguém amado lhe diga: “Não con�o em você. Não acredito</p><p>que você me ame e cuidará de mim.” Que afronta! Mas é isso que dizemos</p><p>a Deus com nossa ansiedade.</p><p>Ansiedade também é pecado porque signi�ca recusar a providência de</p><p>Deus em nossas vidas. A providência divina pode ser de�nida simplesmente</p><p>como Deus orquestrando todas as circunstâncias e eventos do universo para</p><p>a sua glória e para o benefício de seu povo. Alguns cristãos têm di�culdade</p><p>de aceitar que Deus realmente controla todos os eventos e circunstâncias;</p><p>até aqueles de nós que acreditam, muitas vezes, perdem de vista essa</p><p>gloriosa verdade. Em vez de crermos, somos propensos a nos concentrar</p><p>nas causas imediatas da ansiedade em vez de lembrarmos que elas estão sob</p><p>o controle soberano de Deus.</p><p>Tenho de confessar que a ansiedade é uma das minhas tentações mais</p><p>persistentes. Não que eu viva com medo de o céu desabar na minha cabeça.</p><p>Aliás, sou mais tentado a �car ansioso quando viajo de avião, o que faço</p><p>com frequência. Quase sempre, minhas viagens aéreas envolvem conexões.</p><p>Geralmente o primeiro voo, que sai da minha cidade, está atrasado, o que</p><p>signi�ca que no próximo aeroporto tenho de correr para não perder a</p><p>conexão. Assim, a tentação da ansiedade bate à porta. Será que vou</p><p>conseguir fazer a conexão? Geralmente sou escalado para dar meus</p><p>seminários pouco tempo depois de chegar ao destino, então é importante</p><p>não perder o voo. (Sei que no panorama da vida, ou em comparação com os</p><p>problemas dos outros, isso não é nada, mas, na hora, é um problemão para</p><p>mim.)</p><p>Meu esquema é chegar ao destino na hora programada e relaxar um</p><p>pouco antes do seminário. E se Deus tem um esquema diferente? E se o</p><p>plano de Deus é que eu chegue atrasado à reunião, ou nem chegue ao lugar</p><p>programado? ( Já vivi as duas experiências.) Sucumbirei à ansiedade e terei</p><p>um ataque de fúria, ou acreditarei que Deus está no controle absoluto de</p><p>minha viagem e aceitarei o esquema dele, seja lá qual for? Em minhas lutas</p><p>contra a ansiedade nessa área, cheguei à conclusão de que ela é</p><p>desencadeada mais pela minha indisposição de aceitar em submissão e</p><p>alegria seu plano para mim do que pela falta de con�ança em Deus.</p><p>Minha tendência é pensar: Senhor, é importante que eu chegue a tempo</p><p>de dar a palestra. Os responsáveis estão contando comigo. Se eu não chegar</p><p>na hora, o que eles vão fazer? Mas aprendi a dizer a mim mesmo: Senhor, a</p><p>reunião é sua. Se o senhor não me quiser lá, o problema é seu. E o que o</p><p>pessoal que conta comigo irá fazer também é problema seu. Deus, aceito</p><p>seu esquema para esta situação, seja ele qual for.</p><p>Uma das cartas que John Newton, a quem conhecemos no capítulo 4,</p><p>escreveu a um amigo tem me ajudado muito nessa questão de aceitar a</p><p>vontade providencial de Deus, ou sua agenda, como costumo chamar. A</p><p>carta diz:</p><p>[Uma das marcas da maturidade cristã que devemos buscar é] o contentamento na vontade de</p><p>Deus fundamentado na convicção de sua sabedoria, santidade, soberania e bondade [...].</p><p>Enquanto nos ativermos a isso, estaremos livres de decepções. Nossa visão limitada e tola de</p><p>propósitos e desejos pode ser, e será, muitas vezes desconsiderada; desse modo, nossa aspiração</p><p>maior e mais importante — que a vontade do Senhor seja feita — terá de ser realizada. É bastante</p><p>apropriado que nós, tanto criaturas quanto pecadores, nos sujeitemos aos desígnios de nosso</p><p>Criador! E como isso é necessário para termos paz! Di�cilmente pensamos nesse grande feito, e</p><p>quase sempre não o percebemos. Nossa tendência é �xar a atenção nos motivos secundários e nas</p><p>causas imediatas dos acontecimentos, esquecendo-nos de que tudo o que nos ocorrer estará de</p><p>acordo com o propósito de Deus e, portanto, é correto e oportuno em si mesmo, e resultará no</p><p>bem. A falta dessa compreensão dá origem à impaciência, ao ressentimento e aos queixumes (ou</p><p>seja, reclamações), que, além de constituírem pecado, são angustiantes. Pelo contrário, se todas as</p><p>coisas estão nas mãos de Deus, se até os nossos �os de cabelo estão contados, se cada evento — seja</p><p>grande ou pequeno — está debaixo de sua providência e propósito, e se ele tem um �nal sensato,</p><p>santo e maravilhoso em vista — ao qual tudo o que acontece está subordinado e é subserviente —</p><p>então só nos resta seguir com paciência e humildade sua liderança, e aguardar com alegria um �nal</p><p>feliz [...]. Como são felizes as pessoas que entregam</p><p>tudo a Deus, que enxergam sua mão em cada</p><p>propósito e acreditam que suas decisões para elas são melhores do que as que elas mesmas</p><p>tomariam!1</p><p>Aceitar a vontade providencial de Deus não signi�ca que deixaremos de</p><p>orar sobre o resultado �nal. A ordem de Paulo para não �carmos ansiosos é</p><p>acompanhada da instrução para orarmos sobre a causa da ansiedade (v. Fp</p><p>4.6). E Jesus, diante do sofrimento iminente na cruz — uma angústia que</p><p>excedeu a qualquer ansiedade que jamais vivenciaremos —, orou: “Meu Pai,</p><p>se possível, afasta de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas</p><p>como tu queres” (Mt 26.39). Assim, podemos orar por socorro e livramento</p><p>numa situação que desencadeia nosso estado de ansiedade, mas devemos</p><p>estar sempre prontos a aceitar a vontade providencial de Deus e a con�ar</p><p>que, não importa o resultado, sua vontade é melhor do que nossos planos e</p><p>desejos.2</p><p>Talvez você não seja tentado à ansiedade com a mesma frequência que</p><p>eu. Mas, se for o caso, você sabe reconhecer as circunstâncias que o deixam</p><p>ansioso? Como eu, você se frustra quando a vontade providencial de Deus é</p><p>diferente daquilo que você planejou? Se isso acontece, incentivo-o a</p><p>memorizar, e usar em oração, alguns dos versículos que mencionei neste</p><p>capítulo, especialmente em conexão com quaisquer situações recorrentes</p><p>que lhe provoquem ansiedade. Acima de tudo, peça que Deus lhe dê fé para</p><p>crer que a vontade providencial dele para você é fruto de sua sabedoria</p><p>in�nita e bondade, e tem por objetivo o seu bem. Peça, então, que Deus lhe</p><p>dê um coração submisso à vontade dele quando ela for contrária aos seus</p><p>planos.</p><p>Preocupação</p><p>Preocupação é sinônimo de ansiedade. Embora algumas traduções de</p><p>Mateus 6.25-34 usem a palavra ansiedade, a ��� (Nova Versão</p><p>Internacional) usa o verbo preocupar-se. Todavia, o uso popular geralmente</p><p>associa preocupação a uma di�culdade de longo prazo ou a uma situa ção</p><p>dolorosa sem solução aparente. São essas circunstâncias que normalmente</p><p>provocam insônia e nos fazem passar a noite “preocupados” com o que</p><p>fazer, mesmo sabendo que não podemos fazer nada.</p><p>Por exemplo, alguns de meus amigos têm �lhos adultos com de�ciência</p><p>física ou mental. Esses amigos passam noites em claro preocupados com o</p><p>futuro dos �lhos depois que os pais morrerem. Mesmo que dinheiro não</p><p>fosse um fator, e é para meus amigos, a pergunta que não quer calar é:</p><p>Quem cuidará de meus �lhos?</p><p>Essas situações são difíceis de verdade, e tenho de ser sensível aqui</p><p>porque nunca vivi uma circunstância aparentemente sem solução como essa.</p><p>Não quero, portanto, menosprezar situações desse tipo. No entanto, se</p><p>queremos continuar apegados à Bíblia, não podemos fazer outra coisa a não</p><p>ser o que ela manda: “Não se preocupem com o amanhã” (Mt 6.34 [���]).</p><p>Temos as promessas de Deus e o auxílio do Espírito Santo nas horas de</p><p>di�culdades. Um amigo, que está vivenciando uma dessas situações de longo</p><p>prazo, chamou minha atenção para esta tradução de 1Pedro 5.7: “Jogue</p><p>todo o peso de suas ansiedades sobre ele, pois ele tem interesse pessoal em</p><p>você.” Embora muitos considerem essa versão uma paráfrase, acho que ela</p><p>assimila corretamente o signi�cado do texto. Jesus a�rmou que Deus não</p><p>esquece um simples passarinho (v. Lc 12.6). Pensando assim, será que Deus</p><p>não cuidaria muito mais de você que é �lho dele?</p><p>No entanto, a verdade é que muitas vezes a situação se amplia aos nossos</p><p>olhos e �ca maior que as promessas de Deus, e achamos difícil acreditar no</p><p>que ele prometeu. Nessas horas, o pai de um menino com possessão</p><p>demoníaca me encoraja bastante: “Eu creio! Ajuda-me na minha</p><p>incredulidade” (Mc 9.24). Existe uma vasta diferença entre incredulidade</p><p>obstinada como a do povo de Nazaré — cidade natal de Jesus (veja Mc</p><p>6.5,6) — e a fé laboriosa desse pai. Deus respeita nossos esforços, e o</p><p>Espírito Santo virá em nosso auxílio. O importante é honrar a Deus com</p><p>nossa fé, mesmo fraca e vacilante, e não desonrá-lo com nossa</p><p>incredulidade escancarada.</p><p>Frustração</p><p>O pecado da frustração é bem parecido com o da ansiedade ou preo cupação.</p><p>Enquanto a ansiedade está relacionada ao medo, a frustração geralmente</p><p>acontece quando �camos contrariados ou até irritados com alguém ou</p><p>alguma coisa que atrapalha nossos planos. Talvez eu tenha de imprimir um</p><p>documento importante direto do computador, mas minha impressora só</p><p>imprime um monte de baboseira. Em vez de acreditar que Deus está</p><p>soberanamente no controle do meu computador, e que tem um bom motivo</p><p>para deixar que a máquina não funcione direito, �co frustrado. Na verdade,</p><p>essa reação tem suas raízes na minha descrença do momento, pois na hora</p><p>eu me comporto como se Deus não estivesse nem aí comigo ou com minhas</p><p>circunstâncias. Deixo de reconhecer a mão invisível de Deus por trás do que</p><p>desencadeia minha frustração. No calor da emoção, sou levado a não pensar</p><p>nem um pouco em Deus. Fico totalmente concentrado na causa imediata da</p><p>frustração.</p><p>Um texto que tem me ajudado bastante a lidar com a frustração é o salmo</p><p>139.16: “[...] todos os dias determinados para mim foram escritos no teu</p><p>livro antes de qualquer deles existir” (���). “Dias determinados para mim”</p><p>se refere não apenas à extensão da minha vida, mas também a todos os</p><p>eventos e circunstâncias de cada dia da minha existência. Esse é um</p><p>pensamento extremamente encorajador e reconfortante. Dessa forma,</p><p>quando algo frustrante me acontece, recito logo o salmo 139.16 e digo a</p><p>Deus: “Esta situação é parte de seu plano para minha vida hoje. Ajuda-me a</p><p>reagir com fé e de modo que honre tua vontade para mim. E, por favor, dá-</p><p>me sabedoria para lidar com a circunstância que engatilha a frustração.”</p><p>Preste atenção nos recursos que usei para lidar com a situação que me</p><p>irrita: texto bíblico especí�co e dependência do Espírito Santo, revelados</p><p>por meio da oração que me capacita a reagir de maneira verdadeiramente</p><p>cristã. Oro, então, por sabedoria para lidar com a situação. A�nal, em</p><p>minha ilustração sobre o computador, o documento importante tem mesmo</p><p>de ser impresso.</p><p>Sempre é bom perguntar a Deus se existe algo que tenho de aprender ou</p><p>que necessite de minha atenção. Às vezes Deus usa os acontecimentos que</p><p>nos frustram para chamar nossa atenção, ou nos fazer crescer em</p><p>determinada área da vida. Seja como for, nada nos acontece que não tenha</p><p>vindo, em última instância, da mão invisível de Deus, ainda que o meio</p><p>usado para tal tenha sido uma causa visível.</p><p>No entanto, gostaria de repetir o que disse ou deixei transparecer neste</p><p>capítulo. Tanto a frustração quanto a ansiedade são pecados. Não devem ser</p><p>tratadas com pouco caso ou descartadas como reações normais a situações</p><p>difíceis de um mundo caído. Dá para imaginar Cristo todo ansioso ou</p><p>frustrado? E tudo em nossa vida que não for parecido com Jesus é pecado.</p><p>Concordo que, neste mundo, nunca �caremos totalmente livres de</p><p>ansiedades e frustrações (pelo menos, acho que não). Não devemos, porém,</p><p>jamais aceitá-las como parte de nosso temperamento, da mesma forma que</p><p>não aceitamos o adultério como parte dele. Tenha em mente que, embora a</p><p>ansiedade e a frustração não sejam tão graves quanto o adultério, continuam</p><p>sendo pecado. E todo pecado é coisa séria aos olhos do Deus Santo.</p><p>1John Newton. Letters of John Newton. Carlisle, PA: �e Banner of Truth Trust, 1960, p. 137.</p><p>2Estou ciente de que algumas pessoas sofrem ataques de ansiedade debilitantes e que, muitas vezes,</p><p>resultam em complicações físicas. Esses casos requerem tratamento pro�ssional, e estão fora do escopo</p><p>deste livro. Estou lidando aqui com o que podemos chamar de ansiedades do cotidiano.</p><p>A</p><p>nsiedade é uma incerteza temerária quanto ao futuro, seja de curto</p><p>prazo (como minhas viagens de avião), seja de longo prazo (como a</p><p>que resulta de uma perda de emprego). Irritação normalmente é o resultado</p><p>de algum acontecimento imediato que atrapalhou meus planos ou desejos.</p><p>Insatisfação, assunto deste capítulo, quase sempre resulta de situações</p><p>permanentes e imutáveis que estão fora de nosso controle.</p><p>No entanto, antes de iniciarmos o estudo, gostaria de a�rmar que</p><p>algumas vezes a insatisfação é legítima. Todos nós deveríamos, até certo</p><p>ponto, �car insatisfeitos com nosso crescimento espiritual. Caso contrário,</p><p>nosso desenvolvimento seria interrompido. Há também o que podemos</p><p>chamar de insatisfação profética com a injustiça e outros males da sociedade</p><p>que se unem ao desejo de ver mudanças para melhor. O assunto deste</p><p>capítulo é a insatisfação ilegítima que afeta negativamente nosso</p><p>relacionamento com Deus.</p><p>Na verdade, as advertências mais frequentes da Bíblia contra a</p><p>insatisfação referem-se ao dinheiro e aos bens materiais, porém, neste</p><p>capítulo, quero destacar o que talvez seja a forma mais comum de</p><p>insatisfação entre os cristãos �éis, uma atitude que provavelmente é</p><p>desencadeada pelas circunstâncias imutáveis que testam nossa fé.</p><p>Alguns exemplos de circunstâncias que não mudam:</p><p>Trabalho não grati�cante ou salário baixo</p><p>Falta de um(a) companheiro(a) para casar-se</p><p>Impossibilidade de ter �lhos</p><p>Casamento infeliz</p><p>De�ciência física</p><p>Saúde debilitada continuamente</p><p>Há outras situações dolorosas que não incluí na lista. Mas, sejam quais</p><p>forem, as verdades apresentadas neste capítulo se aplicam a todas elas.</p><p>Além das circunstâncias realmente dolorosas da vida, a causa da</p><p>insatisfação é, muitas vezes, corriqueira. Não tenho jeito para</p><p>administração, e ter de lidar constantemente com detalhes administrativos</p><p>pode ser um esvaziamento emocional e, em consequência, uma porta à</p><p>insatisfação. Sei que a necessidade de cuidar de detalhes administrativos é</p><p>“�chinha” em comparação com as questões que mencionei acima. Contudo,</p><p>o que quero enfatizar é que não importa o quanto as circunstâncias sejam</p><p>boas, sempre haverá pequenas coisas que nos levam à insatisfação.</p><p>Não escondo que tive de enfrentar algumas dessas situações mais difíceis.</p><p>Eu estava com quase 34 anos quando me casei; por isso, conheço um pouco</p><p>da solidão vivida pelos solteirões. Mesmo depois de casado, tive de lutar</p><p>contra a insatisfação que eu sentia nos jogos de futebol ou basquete de meu</p><p>�lho, porque eu era dez anos, no mínimo, mais velho do que os outros pais.</p><p>Sem falar nas incapacidades físicas. Sempre tive de�ciência visual e auditiva</p><p>intratáveis. Lembro-me de como me sentia rejeitado na infância porque a</p><p>de�ciência visual me impedia de jogar futebol como todos os garotos.</p><p>Mesmo hoje, na idade adulta, essas de�ciências incuráveis são incômodas e</p><p>criam di�culdades para mim.</p><p>Não estou me lamentando aqui. Reconheço prontamente que as</p><p>situações que me causam transtornos não são nada em comparação com o</p><p>que muitos cristãos têm de lidar. Todavia, quero que o leitor saiba que</p><p>entendo muito bem sua luta contra a insatisfação. Suas circunstâncias talvez</p><p>sejam bem mais difíceis do que as minhas, porém, de verdade mesmo, é a</p><p>nossa reação às circunstâncias, e não o grau de di�culdade, que determina</p><p>se estamos ou não insatisfeitos.</p><p>Não importa a circunstância que nos leva à insatisfação, e nem seu grau</p><p>de severidade, temos de reconhecer que insatisfação é pecado. A a�rmação</p><p>talvez surpreenda alguns leitores. Estamos tão acostumados a �car ansiosos,</p><p>insatisfeitos ou descontentes quando enfrentamos circunstâncias difíceis que</p><p>achamos normal reagir assim aos insucessos da vida. Se é dessa maneira que</p><p>reagimos, o comportamento só enfatiza a sutileza e a aceitação desses</p><p>pecados. Se não reconhecemos esse comportamento como pecado, temos</p><p>agido como descrentes que não incluem Deus em suas circunstâncias.</p><p>Voltamos à impiedade como a raiz de nossos pecados.</p><p>O objetivo principal deste livro é nos ajudar a enfrentar muitos desses</p><p>pecados sutis que povoam nosso dia a dia e a reconhecer que, em geral, são</p><p>bem aceitos por todo mundo. Nós os toleramos sem pensar duas vezes, e</p><p>isso os deixa ainda mais perigosos, visto que, além de serem pecados em si,</p><p>abrem a porta de nossos corações a outros ainda mais graves. A insatisfação,</p><p>por exemplo, pode facilmente gerar ressentimento ou amargura contra</p><p>Deus ou contra o próximo.</p><p>O segundo objetivo deste livro é oferecer sugestões para lidarmos com</p><p>esses pecados, mesmo que os capítulos sejam curtos. Ao ler este capítulo,</p><p>você descobrirá que, no meu caso, alguns versículos que se enquadram em</p><p>determinadas situações são minha primeira arma de ataque. A�nal, em sua</p><p>oração sacerdotal, Jesus pediu: “Santi�ca-os na verdade, a tua palavra é a</p><p>verdade” ( Jo 17.17). Ainda que a frase “tua palavra é a verdade” se re�ra</p><p>principalmente ao evangelho, certamente inclui a verdade da vontade moral</p><p>de Deus em toda a Bíblia e, também, as palavras de instrução e</p><p>encorajamento que nos ajudam a obedecer a essa vontade moral.</p><p>Já mencionei que o salmo 139.16 é um versículo que me ajuda quando</p><p>estou irritado. Contudo, a verdade sobre Deus ter determinado todos os</p><p>meus dias, com seus altos e baixos, suas bênçãos e decepções, também nos</p><p>ajuda (e me ajuda mesmo) a encarar as situações que nos levam à</p><p>insatisfação. Não importa a circunstância, nem tampouco seu grau de</p><p>di�culdade, a verdade é que toda e qualquer circunstância foi determinada</p><p>por Deus como parte de seu plano integral para a nossa vida. Tudo o que</p><p>Deus faz, ou permite acontecer, tem um propósito. E seus propósitos, por</p><p>mais misteriosos e inescrutáveis que sejam, são sempre para a glória de</p><p>Deus e para o nosso bem.</p><p>Para as pessoas que são portadoras de de�ciências físicas ou têm</p><p>problema com a aparência, o salmo 139.13 é de grande ajuda: “Pois tu</p><p>formaste o meu interior, tu me teceste no ventre de minha mãe.” Deus</p><p>construiu nosso ��� e outros fatores que determinam nossa constituição</p><p>física, e isso deu ao salmista a convicção para a�rmar: “Tu me teceste no</p><p>ventre de minha mãe.” Isso é demais, não é? Eu e você temos a aparência</p><p>que temos porque Deus nos fez assim. E ele nos fez assim porque desse</p><p>jeito cumpriremos mais perfeitamente o seu plano para nossas vidas. Para</p><p>aqueles que são portadores de de�ciências físicas severas, o plano de Deus</p><p>talvez pareça sem sentido. Todavia, se acreditamos que somos quem somos</p><p>e o que somos porque Deus nos fez assim, então aprendemos a aceitar</p><p>nossas de�ciências, e passamos a acreditar que ele pode até mesmo usá-las</p><p>para a sua glória.</p><p>O salmo 139.13 é um incentivo a quem sofre algum tipo de limitação</p><p>física. Claro que há muitas outras áreas da vida que não são abordadas nesse</p><p>texto. Todavia, podemos estar certos de que encontraremos na Bíblia outros</p><p>versículos e instruções especí�cas sobre nossas circunstâncias em particular.</p><p>Um amigo me deu um poema escrito por Amy Carmichael intitulado “In</p><p>acceptance lieth peace” [Na aceitação repousa a paz]. Nos quatro primeiros</p><p>versos, a poetisa retrata o sofrimento de alguém que busca paz no</p><p>esquecimento, nas tarefas incessantes, na indiferença, e até mesmo na</p><p>submissão ao inevitável. Por �m, no quinto verso, o sofredor encontra</p><p>descanso nestas palavras:</p><p>Ele disse: “Aceitarei o sofrimento intenso</p><p>Que Deus amanhã</p><p>A seu �lho explicará”.</p><p>Então o tumulto dentro dele cessou,</p><p>Não foi vã a palavra; não foi vã:</p><p>Pois na Aceitação repousa a paz.1</p><p>Amy Carmichael não mencionou que a resignação é um modo de</p><p>lidarmos com as circunstâncias decepcionantes da vida. Quando não temos</p><p>outra escolha, a resignação acontece, muitas vezes, de má vontade.</p><p>Podemos nos resignar a situações que nunca mudarão, e ainda continuar</p><p>guardando uma insatisfação em brasa nos corações. No entanto, como Amy</p><p>Carmichael enfatizou tão bem, não é na resignação nem na submissão que</p><p>encontraremos paz, mas somente na aceitação.</p><p>Aceitação signi�ca que recebemos as circunstâncias das mãos de Deus,</p><p>con�ando que ele sabe de verdade o que é melhor para nós e que, em amor,</p><p>ele planeja só o que é bom. Quando alcançamos esse estado de aceitação,</p><p>estamos prontos a pedir que Deus use as circunstâncias difíceis para sua</p><p>glória e honra. Passamos de vítimas a administradores. A pergunta será</p><p>sempre: “Senhor, de que modo usarei minha de�ciência (ou seja qual for a</p><p>di�culdade) para servir-lo e glori�cá-lo?”</p><p>Talvez o leitor</p><p>pergunte: “Mas eu não deveria orar para ser curado ou</p><p>�car livre da situação dolorosa?” Claro. Somos incentivados a orar sobre</p><p>essas circunstâncias, mas devemos sempre fazê-lo na certeza de que nosso</p><p>Pai celeste, in�nitamente sábio e amoroso, sabe o que é melhor para nós, e</p><p>devemos estar prontos para aceitar sua resposta.</p><p>Depois do falecimento de minha primeira esposa, um amigo enviou-me</p><p>um cartão com este verso de autoria anônima:</p><p>Senhor, estou pronto a</p><p>Receber o que me deres,</p><p>Ficar sem o que retiveres,</p><p>Renunciar ao que tomares.</p><p>Sem dúvida nenhuma, naquela época, a ideia de estar pronto a renunciar</p><p>à minha esposa era a mensagem certa para mim. E se, porém, a</p><p>circunstância fosse outra, se você �casse paralítico em consequência de um</p><p>acidente, conseguiria dizer: “Deus, estou disposto a aceitar esta paralisia que</p><p>o senhor me enviou”? Se você é solteiro e sem nenhuma esperança de se</p><p>casar, conseguiria dizer: “Deus, estou pronto a �car sem o que o senhor</p><p>reteve”?</p><p>Certa vez, sofri uma decepção arrasadora e humilhante. Na época, eu</p><p>ainda não tinha lido o verso acima, mas conhecia Jó 1.21: “[ Jó] orou: Eu saí</p><p>nu do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá. O S����� o deu, e o</p><p>S����� o tirou; bendito seja o nome do S�����.” Na manhã seguinte ao</p><p>acontecimento decepcionante, ajoelhei-me perante Deus e orei: “Deus, o</p><p>senhor deu e o senhor tirou; bendito seja o teu nome”. Por meio desse</p><p>versículo e dessa oração, Deus me deu forças para renunciar ao que ele</p><p>mesmo havia tirado. Na ocasião, eu não sabia que a experiência era apenas</p><p>uma amostra do desa�o ainda maior de renunciar à minha esposa anos mais</p><p>tarde.</p><p>O leitor perceberá que há um tema recorrente neste capítulo, assim como</p><p>houve no anterior. Trata-se da importância de uma crença �rme na</p><p>soberania, bondade e sabedoria de Deus em todas as circunstâncias da vida.</p><p>Sejam as circunstâncias de curto ou longo prazo, nossa capacidade de reagir</p><p>a elas de um modo que honre e agrade a Deus depende de nossa aptidão e</p><p>vontade de aplicar essas verdades aos acontecimentos. E isso tem de ser</p><p>feito pela fé; ou seja, temos de acreditar que o ensino bíblico sobre esses</p><p>atributos é absolutamente verdadeiro e que Deus gerou, ou permitiu, as</p><p>circunstâncias difíceis para a sua glória e para nosso total benefício.</p><p>Por último, sei que, ao falar sobre insatisfação, é provável que eu tenha</p><p>tocado em alguns nervos expostos. Isso pode ser especialmente irritante</p><p>quando rotulo insatisfação de pecado. Você pode estar pensando: se ele</p><p>conhecesse minha situação, não bateria tanto a língua nos dentes e nem</p><p>�caria dando sermões. Isso é verdade; não sei o que você está passando, mas</p><p>escrevo como alguém que lutou contra a insatisfação e tem procurado</p><p>vencê-la por intermédio das verdades apresentadas neste capítulo. Elas me</p><p>ajudaram, e oro para que ajudem você. Que todos nós, com o auxílio do</p><p>Espírito Santo, deixemos de lado toda e qualquer atitude de insatisfação</p><p>ilegítima e adotemos um comportamento positivo. Assim, seremos bons</p><p>administradores das circunstâncias difíceis e decepcionantes que Deus tem-</p><p>nos permitido atravessar para que, de alguma forma, possamos glori�cá-lo</p><p>em todas as áreas da vida.</p><p>1Extraído de “In Acceptance Lieth Peace,” p. 293, de Mountain Breezes, por Amy Carmichael. ©</p><p>1999 Dohnavur Fellowship, e publicado por CLC Publications, Fort Washington, PA. Todos os</p><p>direitos reservados. Usado com permissão.</p><p>N</p><p>os tempos bíblicos, a lepra era uma doença repugnante que afastava</p><p>as vítimas do convívio familiar e social. Na verdade, a Lei Mosaica</p><p>exigia que o leproso gritasse continuamente: “Impuro, impuro”, ao caminhar</p><p>pelas estradas, para que nenhum transeunte fosse contaminado pela doença</p><p>(v. Lv 13.45).</p><p>Lucas a�rma que certa vez Jesus encontrou dez leprosos que, à distância,</p><p>clamaram: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!”. Jesus lhes respondeu:</p><p>“Ide e mostrai-vos aos sacerdotes” (que possuíam autoridade para</p><p>pronunciar o�cialmente que o leproso tinha sido puri�cado da doença); e,</p><p>ao longo do caminho, os homens foram curados. Dos dez curados, somente</p><p>um, que era samaritano, voltou para agradecer a Jesus, louvando a Deus.</p><p>Jesus perguntou: “Não foram dez os puri�cados? E os outros nove, onde</p><p>estão?” (v. Lc 17.11-19).</p><p>Ao ler a história, pensamos: “Como esses homens puderam ser tão</p><p>ingratos a ponto de não voltarem para agradecer a Jesus?” Muitos de nós,</p><p>porém, também são culpados do pecado de ingratidão.</p><p>Em termos espirituais, nossa condição era muito pior do que a lepra. Não</p><p>estávamos enfermos; estávamos espiritualmente mortos. Éramos escravos</p><p>do mundo, de Satanás e das paixões de nossa natureza pecaminosa.</p><p>Estávamos sujeitos à ira de Deus. Entretanto, com seu grande amor e</p><p>misericórdia, ele nos alcançou e nos deu vida espiritual (v. Ef 2.1-5). Deus</p><p>perdoou nossos pecados por intermédio da morte de seu Filho, e revestiu-</p><p>nos da retidão absoluta do próprio Jesus.</p><p>Um milagre ainda mais grandioso foi Cristo nos ter dado vida espiritual,</p><p>e seus benefícios são in�nitamente maiores do que a cura da lepra. Quantas</p><p>vezes, porém, agradecemos pela salvação? Você já parou hoje para</p><p>agradecer a Deus por libertá-lo do reino da escuridão e transportá-lo para o</p><p>reino de seu Filho? Se agradeceu, foi de um jeito automático, como muita</p><p>gente tem costume de orar antes das refeições, ou foi uma expressão sincera</p><p>de gratidão pelo que Deus lhe fez por meio de Jesus Cristo?</p><p>Na realidade, a nossa vida toda deveria ser um agradecimento contínuo.</p><p>Paulo a�rmou aos atenienses que “é ele mesmo [Deus] quem dá a todos a</p><p>vida, a respiração e todas as coisas” (At 17.25). Isso signi�ca que cada ar que</p><p>respiramos é um presente de Deus. Tudo o que somos e tudo o que temos é</p><p>uma dádiva de Deus. Toda habilidade intelectual, pro�ssional ou técnica</p><p>que possuímos é dádiva de Deus. É provável que você tenha sido um aluno</p><p>estudioso, e talvez tenha até suportado horas de treinamento pro�ssional,</p><p>mas de onde veio a capacidade intelectual e o talento inato que você tem?</p><p>Veio de Deus, que criou você com uma aptidão natural e, depois, em sua</p><p>generosa providência, o conduziu no desenvolvimento de seus talentos.</p><p>Temos de prestar atenção à advertência de Deus aos israelitas em</p><p>Deuteronômio:</p><p>Cuidado para não te esqueceres do S�����, teu Deus, deixando de obedecer aos seus</p><p>mandamentos, preceitos e estatutos, que hoje te ordeno. Não suceda que, depois de teres comido</p><p>e estares farto, depois de teres construído boas casas e nelas morado, depois de se multiplicarem as</p><p>tuas manadas e os teus rebanhos, a tua prata e o teu ouro, sim, depois de se multiplicar tudo</p><p>quanto tens, o teu coração se exalte e te esqueças do S�����, teu Deus [...]. Portanto, não digas</p><p>no teu coração: A minha força e a fortaleza da minha mão adquiriram para mim estas riquezas.</p><p>Pelo contrário, tu te lembrarás do S�����, teu Deus, porque ele é quem te dá força para</p><p>adquirires riquezas, a �m de con�rmar sua aliança, que jurou a teus pais, como acontece hoje</p><p>(8.11-14,17,18).</p><p>A maioria dos leitores deste livro concorda que tudo o que temos vem de</p><p>Deus, mas quantas vezes paramos para agradecê-lo? No �m de um dia de</p><p>trabalho, você para por um momento e diz: “Obrigado, Pai celeste, pela</p><p>capacidade, instrução e saúde que o senhor me deu para que eu realizasse o</p><p>meu trabalho hoje”? Alguma vez você andou pela casa, observando os</p><p>móveis e a decoração, e disse a Deus: “Todas as coisas desta casa, incluindo</p><p>os mantimentos na despensa e o carro (ou carros) na garagem, são</p><p>presentes seus. Obrigado por sua provisão bendita e generosa”? Se você</p><p>ainda é estudante, já agradeceu a Deus pela provisão intelectual e �nanceira</p><p>que o capacita a se preparar para o futuro? Quando você ora antes das</p><p>refeições, a oração é rotineira e mecânica, ou é uma expressão de sua</p><p>profunda gratidão a Deus por cuidar de suas necessidades físicas?</p><p>Achar normal receber todas as provisões materiais e bênçãos espirituais</p><p>que Deus tem ricamente despejado sobre nós, e deixar de agradecer-lhe, é</p><p>um de nossos pecados “aceitáveis”. Na verdade,</p><p>muitos cristãos não</p><p>consideram isso pecado. Todavia, quando Paulo descreve uma pessoa cheia</p><p>do Espírito, ele também diz que devemos viver “sempre dando graças por</p><p>tudo a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5.20).</p><p>Atenção às palavras sempre e por tudo. Signi�cam que todo o nosso viver</p><p>deveria ser um agradecimento contínuo.</p><p>Agradecer a Deus por suas bênçãos materiais e espirituais em nossa vida</p><p>não é apenas um gesto educado de nossa parte — é a vontade moral de</p><p>Deus. Deixar de fazer o agradecimento que ele merece é pecado. Isso pode</p><p>parecer um pecado inocente para nós porque não machuca ninguém.</p><p>Contudo, é afronta e insulto àquele que nos criou e sustenta a cada segundo</p><p>da vida. E se — como Jesus deixou bem claro — amar a Deus de todo o</p><p>coração, alma e entendimento é o primeiro e mais importante mandamento,</p><p>então o hábito de não agradecer a Deus é uma desobediência ao maior dos</p><p>mandamentos.</p><p>Em Romanos 1.18-32, Paulo descreve vividamente a decadência moral</p><p>da humanidade pagã daquela época, uma vez que Deus a entregou cada vez</p><p>mais às inclinações perversas de seus corações maldosos. No início da</p><p>descrição, Paulo a�rma: “Porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o</p><p>glori�caram como Deus, nem lhe deram graças; pelo contrário, tornaram-se</p><p>fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu (v. 21;</p><p>ênfase do autor).</p><p>Vemos, então, que a maldade crescente desses homens teve início com a</p><p>impiedade (não honraram Deus como Deus) e com a ingratidão deles para</p><p>com o Senhor. A degradação moral deles era resultado do julgamento de</p><p>Deus à medida que os entregava a formas de perversidade cada vez maiores</p><p>e a outras maldades. Quando lemos esses versículos, é fácil entender que</p><p>ingratidão é assunto sério. Para nós, pode parecer um “pecadinho”, mas</p><p>Deus trata a questão com seriedade.</p><p>Não honrar a Deus nem lhe ser grato são características evidentes da</p><p>sociedade atual, como também é a decadência cada vez maior de nossa</p><p>época. Na verdade, a descrição da depravação moral (v. Rm 1.24-32) pode</p><p>ser aplicada quase ao pé da letra à época em que vivemos. Será que isso não</p><p>é, mais uma vez, o julgamento de Deus por deixarmos de honrá-lo e</p><p>agradecer-lhe? Como cristãos, certamente não desejamos contribuir para</p><p>que Deus nos castigue. Todavia, assim o faremos se com a sociedade em</p><p>geral deixarmos de prestar a Deus o agradecimento que lhe é devido. O fato</p><p>é que talvez sejamos os mais culpados por tudo isso; a�nal, como cristãos,</p><p>deveríamos ter mais discernimento. Jesus deixou claro: “A quem muito é</p><p>dado, muito será exigido; e a quem muito se con�a, mais ainda se pedirá”</p><p>(Lc 12.48). Por acreditarmos que a Bíblia é a palavra de Deus, temos mais</p><p>obrigação de obedecer-lhe, e parte de nossa obediência é dar graças a Deus</p><p>sempre e por todas as coisas.</p><p>Não há dúvida de que o aumento da decadência moral ao nosso redor é</p><p>horroroso e realmente assustador. Ficamos imaginando até onde a coisa vai.</p><p>Mas, antes de julgarmos essas pessoas, temos de nos perguntar se não</p><p>contribuímos de algum modo para a sua decadência moral quando</p><p>deixamos, juntamente com elas, de prestar honras a Deus e de dar graças a</p><p>ele.</p><p>Temos de dar graças sempre e por todas as coisas. Temos de dar graças</p><p>especialmente quando recebemos a provisão extraordinária de Deus ou a</p><p>libertação de alguma circunstância difícil. Já confessei minha tendência a</p><p>�car ansioso diante da possibilidade de perder uma conexão de voo. Outra</p><p>tendência à ansiedade relacionada a viagens aéreas se evidencia na área de</p><p>bagagem do aeroporto; em geral �co na dúvida se minha mala veio no</p><p>mesmo avião que eu. Tive tantos problemas com malas atrasadas que já</p><p>pressuponho que minha bagagem está em outro voo. É por isso que a</p><p>tentação da ansiedade acontece. Assim, cada vez que me dirijo à área de</p><p>bagagem, tenho de rever as verdades expostas no capítulo 8 com relação à</p><p>ansiedade.</p><p>Enquanto escrevia este capítulo, �z uma viagem missionária para São</p><p>Paulo, no Brasil. Ao chegar, e depois de passar pela Imigração, fui para a</p><p>área de bagagem juntamente com mais de 150 passageiros que estavam no</p><p>meu voo, e, mais uma vez, tive de lidar com a ansiedade. A pressão</p><p>aumentava à medida que as malas apareciam no carrossel, e a minha mala</p><p>não estava entre elas. (Bagagem atrasada pode ser um problemão em outro</p><p>país.) Depois que quase todos os passageiros haviam retirado suas malas, a</p><p>minha �nalmente apareceu. Ao retirá-la do carrossel, agradeci</p><p>fervorosamente a Deus. E ao desempacotar minhas coisas no hotel,</p><p>agradeci-lhe de novo por ter uma mala para desfazer.</p><p>Um incidente de atraso de mala pode ser ninharia para você; e, no</p><p>panorama geral da vida, realmente é. Todavia, se você tiver de usar a</p><p>mesma roupa durante dois ou três dias, e tiver de repor artigos de toalete,</p><p>não vai achar que é tão insigni�cante assim. A vida, contudo, é cheia de</p><p>eventos que nos atrasam, que nos incomodam ou importunam, ou</p><p>atrapalham nossos planos. Em meio a esses acontecimentos, devemos lutar</p><p>contra a ansiedade e a irritação. E, quando Deus nos dá alívio, ou quando</p><p>ele nos livra de tais ocorrências, devemos fazer questão de agradecer-lhe.</p><p>Em todas as circunstâncias?</p><p>Usemos a área de bagagem mais um pouco. Suponhamos que minha mala</p><p>não tenha chegado comigo, ou que nunca chegue. Mesmo assim devo</p><p>agradecer a Deus? Antes de responder, insira ainda mais nessa história</p><p>algum contratempo, seja uma situação real ou uma situação que você espere</p><p>que nunca lhe aconteça (isso fará com que a resposta à pergunta a seguir</p><p>não seja teórica). Agora, nesse caso, você deve agradecer a Deus pela</p><p>situação, seja ela real, seja hipotética?</p><p>A pergunta é: Devemos agradecer a Deus quando as coisas não saem do</p><p>jeito que esperávamos? A resposta é sim, mas por uma razão diferente. Em</p><p>1Tessalonicenses 5.18, Paulo escreve: “Deem graças em todas as</p><p>circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus”</p><p>(���).</p><p>Esse mandamento é diferente do mandamento de Efésios 5.20, que nos</p><p>manda agradecer a Deus por todas as coisas. Ao analisar o texto, creio que</p><p>em Efésios Paulo nos exorta a desenvolver o hábito de agradecer</p><p>continuamente por todas as bênçãos que Deus graciosamente derrama</p><p>sobre nós; ou seja, o coração agradecido é uma característica da vida cheia</p><p>do Espírito.</p><p>No versículo de Tessalonicenses, contudo, Paulo nos instrui a dar graças</p><p>em todas as circunstâncias, mesmo quando não sentimos gratidão por um</p><p>acontecimento. Será que Paulo está pedindo que tenhamos força de vontade</p><p>e agradeçamos entre dentes, mesmo quando em nossos corações só existe</p><p>decepção? A resposta está nas promessas de Deus que encontramos em</p><p>Romanos 8.28,29,38,39:</p><p>Sabemos que Deus faz com que todas as coisas concorram para o bem daqueles que o amam, dos</p><p>que são chamados segundo o seu propósito. Pois os que conheceu por antecipação, também os</p><p>predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a �m de que ele seja o primogênito</p><p>entre muitos irmãos. [...] Pois tenho certeza de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem</p><p>autoridades celestiais, nem coisas do presente nem do futuro, nem poderes, nem altura, nem</p><p>profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em</p><p>Cristo Jesus, nosso Senhor.</p><p>O versículo 28 a�rma que, para os que amam a Deus, todas as coisas</p><p>concorrerão para o bem. Isso signi�ca que Deus induz todas as coisas a</p><p>concorrerem para o bem; pois “coisas” — isto é, circunstâncias — não</p><p>concorrem sozinhas para o bem. Ao contrário, Deus conduz o resultado das</p><p>circunstâncias para o nosso bem. No entanto, o “bem” é de�nido no</p><p>versículo 29: sermos conformes à imagem do Filho de Deus. Em outras</p><p>palavras, Paulo diz que o propósito de Deus é que todas as nossas</p><p>circunstâncias, boas ou ruins (e no contexto que Paulo tem em mente,</p><p>especialmente as ruins), sejam instrumentos de nossa santi�cação, de nosso</p><p>crescimento contínuo à imagem de Cristo.</p><p>Portanto, nas situações em que o resultado não é o que esperávamos,</p><p>devemos agradecer a Deus porque, de algum modo, ele usará o fato para o</p><p>desenvolvimento de nosso</p><p>caráter cristão. Não temos de �car especulando</p><p>como ele irá fazer isso, pois seus caminhos geralmente são misteriosos e</p><p>estão além de nossa compreensão. Pela fé na promessa de Deus feita em</p><p>Romanos 8.28,29, obedecemos à ordem de 1Tessalonicenses 5.18 de dar</p><p>graças em todas as circunstâncias.</p><p>Além do mais, quando estamos em meio a uma situação difícil, temos a</p><p>promessa dos versículos 38 e 39 de que nada, incluindo a situação em que</p><p>nos encontramos, pode nos separar do amor de Deus. Repito que temos de</p><p>nos agarrar a essa promessa pela fé. Temos, assim, duas garantias que nos</p><p>capacitam a dar graças na circunstância. A primeira é que, pela fé, nós</p><p>cremos que Deus está usando ou usará essa di�culdade em particular para</p><p>nos fazer mais parecidos com Jesus. A segunda é que temos certeza de que,</p><p>mesmo no turbilhão da di�culdade, estamos acolhidos pelo amor de Deus.</p><p>Portanto, dar graças em uma situação decepcionante ou difícil é sempre</p><p>resultado da fé nas promessas de Deus. Não se trata de fazermos isso por</p><p>pura força de vontade. Se �zermos assim, agradeceremos com os lábios,</p><p>mas não com o coração. Quando nos agarramos às promessas de Deus,</p><p>conseguimos dizer: “Pai, a situação é difícil e dolorosa. Não estou aqui por</p><p>escolha própria, mas o senhor, em amor e sabedoria, decidiu assim. O</p><p>senhor tem o meu bem em mente, e, então, pela fé, agradeço-lhe o bem</p><p>que o senhor fará na minha vida por meio dessa situação. Ajude-me a</p><p>acreditar nisso de verdade e a ser-lhe grato de todo o coração.”</p><p>Resumindo, vamos criar o hábito de dar graças a Deus continuamente.</p><p>Acima de tudo, sejamos gratos pela salvação e pelas oportunidades de</p><p>crescer espiritualmente e no ministério. Devemos agradecer a Deus com</p><p>frequência pela fartura de bênçãos materiais. E quando a situação</p><p>degringolar e não terminar do jeito que queríamos, devemos, pela fé,</p><p>agradecer a Deus pelo que ele está fazendo nas circunstâncias, a �m de nos</p><p>deixar cada vez mais parecidos com seu Filho.</p><p>Como aplicação deste capítulo — criar o hábito de agradecer —, sugiro</p><p>que o leitor memorize Efésios 5.20 e 1Tessalonicenses 5.18 e use esses</p><p>versículos em oração, pedindo que Deus trabalhe cada um deles em sua</p><p>vida. Assim você desenvolverá o hábito de dar graças sempre e por todas as</p><p>coisas. Em seu tempo a sós com Deus diariamente, gaste tempo</p><p>agradecendo, de modo especí�co, pelas bênçãos espirituais e materiais.</p><p>Retornemos ao objetivo principal deste livro. Como o subtítulo sugere, o</p><p>objetivo é ajudar-nos a confrontar honestamente os pecados sutis que</p><p>toleramos em nossas vidas para que sejamos mais humildes diante de Deus</p><p>e respeitemos os não crentes, para os quais somos inclinados a apontar o</p><p>dedo. Esse objetivo só será alcançado quando nós, inclusive eu mesmo,</p><p>examinarmos em oração os nossos corações e vidas diante de Deus,</p><p>pedindo-lhe que nos mostre os nossos pecados sutis. Espero, de fato, que</p><p>você tenha feito isso no �nal dos capítulos 7, 8 e 9, e continuará agindo</p><p>assim nos capítulos seguintes.</p><p>Se você já está desanimado com seus pecados, lembre-se do evangelho.</p><p>Embora sua obediência à lei de Deus seja maculada e imperfeita, a</p><p>obediência de Cristo é perfeita e completa. E Deus não só perdoou seus</p><p>pecados (tanto os sutis como os que não são tão sutis assim), mas também</p><p>creditou a você essa obediência impecável de Jesus. Deus realmente quer</p><p>trabalhar em você e com você em seus pecados sutis, mas como seu Pai, e</p><p>não como seu Juiz.</p><p>Se você não se abalou com nada nestes quatro últimos capítulos, então</p><p>precisa estudá-los novamente. Mesmo que você não seja propenso à</p><p>ansiedade, irritação ou insatisfação, tem certeza de que não é um tanto</p><p>impiedoso? Sua vida está totalmente centrada em Deus, de modo que é</p><p>dessa perspectiva que você enxerga tudo o que lhe acontece? E como �ca a</p><p>ingratidão? Você agradece a Deus sempre e por tudo, e agradece-lhe nas</p><p>situações difíceis da vida?</p><p>Tomara que tenhamos visto que carregamos pecados “intocáveis” em</p><p>nossas vidas; talvez atitudes e ações que nunca consideramos pecado nem</p><p>mesmo percebemos que eram tão sérios. Se você se sentiu pequeno de</p><p>alguma forma e seu coração �cou mais terno, então você é um bom</p><p>candidato a prosseguir, porque é provável que os pecados que analisaremos</p><p>daqui para frente serão mais “feios” do que os examinados até agora.</p><p>E</p><p>ntre todas as personagens da Bíblia que nos causam repúdio, talvez</p><p>nenhuma seja pior do que o fariseu santarrão que orou: “Ó Deus,</p><p>graças te dou porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos,</p><p>adúlteros, nem mesmo como este publicano” (Lc 18.11). A ironia, porém,</p><p>está no fato de que, enquanto o condenamos, agimos da mesma forma</p><p>moralista sem nem pensar.</p><p>Neste capítulo, vamos estudar o pecado do orgulho — não o orgulho em</p><p>geral, porém algumas de suas manifestações que são especialmente</p><p>tentadoras aos cristãos. Examinaremos o orgulho do moralismo, o orgulho</p><p>da doutrina correta, o orgulho das realizações e o orgulho do espírito</p><p>independente. Ao analisar esses pecados sutis, oro para que eu mesmo não</p><p>caia no orgulho do espírito crítico. Assim, gostaria de deixar claro logo de</p><p>início que não estou livre do orgulho, especialmente do tipo que se esconde</p><p>atrás do jaleco de professor. Um dos problemas com o orgulho é que o</p><p>enxergamos nas outras pessoas, mas não em nós mesmos. Estou bastante</p><p>ciente da pergunta de Paulo: “Tu, pois, que ensinas os outros, não ensinas a</p><p>ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas?” (Rm 2.21).</p><p>Portanto, peço ao leitor que ore comigo para que Deus revele a cada um de</p><p>nós o orgulho que ele enxerga em nossas vidas. Tiago e Pedro enfatizam a</p><p>importância do assunto com este aviso: “Deus se opõe aos arrogantes” (Tg</p><p>4.6; 1Pe 5.5).</p><p>Moralismo</p><p>Na parábola de Jesus, o pecado do fariseu foi o que chamaríamos de</p><p>moralismo. Esse pecado se expressa no sentimento de superioridade moral</p><p>em relação a terceiros. Esse tipo de orgulho não se limita aos cristãos.</p><p>Manifesta-se no reino político e cultural, entre liberais e conservadores.</p><p>Quem acredita, por exemplo, que é campeão dos altos padrões morais na</p><p>área política, econômica ou ecológica muito provavelmente se orgulha em</p><p>ser o dono da verdade. Infelizmente essa atitude é bastante comum entre os</p><p>evangélicos conservadores.</p><p>O pecado da superioridade moral é uma armadilha na qual caímos com</p><p>facilidade, pois a sociedade como um todo comete ou aceita abertamente</p><p>pecados como imoralidade, divórcio, homossexualismo, aborto, embriaguez,</p><p>drogas, avarezas e outras indecências �agrantes e escandalosas. Por não</p><p>cometermos esses pecados, nós nos achamos moralmente superiores e</p><p>olhamos com certo desdém ou desrespeito aqueles que os cometem. Claro</p><p>que os pecados que mencionei são coisas graves que destroem os alicerces</p><p>morais da sociedade em que vivemos. São pecados sérios de verdade, e</p><p>respeito os líderes cristãos de nossos dias que levantam vozes proféticas</p><p>contra eles. Contudo, o pecado que nos emaranha é o do moralismo, e do</p><p>espírito crítico que ele provoca em relação às pessoas que cometem esses</p><p>pecados. De fato, Jesus contou a parábola do fariseu “a alguns que</p><p>con�avam em si mesmos, achando-se justos, e desprezavam os outros” (Lc</p><p>18.9).</p><p>Aventuro-me a dizer que, entre todos os pecados sutis que analisamos</p><p>neste livro, o orgulho da superioridade moral talvez seja o mais comum,</p><p>�cando atrás somente do pecado da impiedade. Embora seja tão</p><p>predominante entre nós, é difícil ser reconhecido porque nenhum de nós</p><p>escapa dele totalmente. Na verdade, parece que sentimos uma alegria</p><p>perversa em acusar a sociedade de ter perdido a vergonha. Quando</p><p>adotamos esse tipo de mentalidade ou fazemos esse tipo de comentário,</p><p>escorregamos no pecado da superioridade moral.</p><p>Como, então, nos guardaremos desse pecado? Primeiro, adotando uma</p><p>atitude humilde baseada na verdade de que “é só pela graça de Deus que</p><p>não estou na mesma situação.” Embora essa a�rmação tenha virado lugar-</p><p>comum, aplica-se a todos nós. Se somos moralmente corretos, e</p><p>especialmente se somos cristãos que buscam viver de maneira correta, é só</p><p>porque a graça de Deus</p><p>prevalece em nós. Ninguém é naturalmente</p><p>correto. Pelo contrário, todos nós temos de confessar como Davi: “Sei que</p><p>sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe” (Sl</p><p>51.5 [���]). Em vez de nos sentirmos moralmente superiores àqueles que</p><p>praticam os pecados escabrosos que condenamos, devemos sentir profunda</p><p>gratidão a Deus porque sua graça nos manteve distantes, ou nos resgatou,</p><p>do mesmo estilo de vida.</p><p>Outra maneira de nos guardarmos contra o orgulho moral é nos</p><p>identi�cando perante Deus com a sociedade pecadora em que vivemos.</p><p>Após o cativeiro na Babilônia, quando muitos judeus retornaram a Judá,</p><p>Esdras, o habilidoso escriba da Lei de Moisés, voltou a ensiná-la ao povo de</p><p>Deus. A Bíblia a�rma que Esdras “tinha-se disposto no coração a estudar a</p><p>Lei do S����� e a praticá-la, e a ensinar em Israel os seus estatutos e</p><p>normas” (Ed 7.10).</p><p>É óbvio que Esdras foi um homem virtuoso que viveu de modo exemplar.</p><p>Mesmo assim, nas ocasiões em que observou algum pecado extremo entre o</p><p>povo, ele se identi�cou com o erro, mesmo que não tivesse culpa alguma.</p><p>Leia sua oração em Esdras 9.6: “Ó meu Deus! Estou por demais confuso e</p><p>envergonhado para levantar o meu rosto a ti, meu Deus, porque os nossos</p><p>pecados cobrem a nossa cabeça e a nossa culpa sobe até o céu.” Veja como</p><p>ele se inclui na con�ssão de culpa: “nossos pecados” e “nossa culpa”. Ao</p><p>testemunharmos a degradação moral crescente da sociedade, vamos adotar</p><p>a atitude de Esdras, e ela nos protegerá do orgulho da autorretidão.</p><p>Orgulho da doutrina correta</p><p>O orgulho moral é bastante parecido com o orgulho doutrinário — a</p><p>presunção de que minhas crenças doutrinárias, sejam quais forem, estão</p><p>corretas, e de que quem não pensa igual a mim é teologicamente inferior.</p><p>Nós que nos preocupamos com a doutrina somos passíveis dessa forma de</p><p>orgulho. Não importa se somos arminianos ou calvinistas, se adotamos a</p><p>teologia dispensacionalista ou da aliança, ou se abraçamos alguma forma de</p><p>teologia eclética, somos propensos a achar que nossas crenças doutrinárias é</p><p>que estão corretas, e olhamos com altivez para quem não crê da mesma</p><p>forma. Para completar o leque desse tipo de orgulho, há pessoas que</p><p>menosprezam a doutrina e desdenham de quem lhes dá valor. Isso é</p><p>orgulhar-se de um sistema de crença em particular, seja ele qual for, e isso</p><p>também mostra que achamos que nossas crenças nos tornam</p><p>espiritualmente superiores a quem crê de outro modo.</p><p>Em 1Coríntios 8, Paulo trata dessa forma de orgulho em relação aos</p><p>alimentos oferecidos aos ídolos. Alguns cristãos de Corinto achavam que</p><p>comer ou não comer esses alimentos fazia parte da liberdade cristã. Paulo</p><p>não discordou da conclusão deles, todavia os repreendeu por causa do</p><p>orgulho doutrinário resultante do que criam. Paulo lhes escreveu: “Quanto à</p><p>carne sacri�cada aos ídolos, sabemos que todos temos conhecimento. O</p><p>conhecimento dá ocasião à arrogância, mas o amor edi�ca (1Co 8.1). Paulo</p><p>concorda com o “conhecimento” dessas pessoas — isto é, a crença</p><p>doutrinária delas sobre comer alimentos oferecidos aos ídolos — porém as</p><p>acusa de orgulho doutrinário. O “conhecimento” havia deixado esse pessoal</p><p>arrogante.</p><p>Se o calvinismo, ou o arminianismo, ou o dispensacionalismo, ou a</p><p>opinião sobre o �m dos tempos, ou o desdém por todas as outras crenças</p><p>bíblicas levam você a considerar-se superior a quem pensa de modo</p><p>diferente, então você é culpado de orgulho doutrinário. Com isso, não</p><p>sugiro que não devemos conhecer as verdades bíblicas e desenvolver</p><p>convicções doutrinárias sobre o que a Bíblia ensina. Estou dizendo que</p><p>deveríamos defender nossas convicções com humildade, entendendo que</p><p>muitas pessoas virtuosas e capazes na área teológica têm convicções</p><p>diferentes das nossas.</p><p>Pediram-me que eu �zesse um comentário sobre um livro que ensinava</p><p>uma doutrina de santi�cação com a qual eu discordava totalmente. Em</p><p>minha carta, escrevi o seguinte: “Por favor, observem que estou me</p><p>referindo a ‘coisas sobre as quais discordo’, e não coisas sobre as quais ele [o</p><p>autor] está errado.” Quando chegar ao céu, posso descobrir que eu era o</p><p>errado.</p><p>O comentário que �z sobre o livro signi�ca que minhas convicções são</p><p>menos fortes do que antes? De jeito nenhum — se houve mudança, �quei</p><p>ainda mais convicto de minhas crenças. Signi�ca que quero defender</p><p>minhas convicções com humildade e tratar o autor do livro com o mesmo</p><p>respeito que dispensaria àqueles que pensam da mesma forma que eu</p><p>quanto à doutrina da santi�cação. (Compreendo que, ao me usar como</p><p>exemplo da humildade que devemos praticar, pareço “orgulhoso de minha</p><p>humildade”. Espero que o leitor não pense assim, e estou ciente de que em</p><p>algumas ocasiões não sou tão generoso e respeitoso com aqueles de quem</p><p>discordo.)</p><p>No entanto, um dos objetivos deste capítulo é enfatizar o perigo do</p><p>orgulho doutrinário e encorajar o leitor a considerar em oração se esse não</p><p>é o caso de um de seus pecados “aceitáveis”. Se achar que pode ser, sugiro</p><p>que memorize o versículo sobre a “arrogância do conhecimento” (1Co 8.1),</p><p>e ore sobre o assunto. Depois, procure identi�car com precisão as áreas em</p><p>que você é inclinado a ser orgulhoso doutrinariamente, e peça que Deus o</p><p>capacite a defender suas convicções com um espírito genuíno de humildade.</p><p>Orgulho das realizações</p><p>Segundo a Bíblia, geralmente existe um relacionamento de causa e efeito</p><p>entre trabalho e�ciente e sucesso num empreendimento, seja ele acadêmico,</p><p>esportivo, pro�ssional ou �nanceiro. Por exemplo, Provérbios 13.4 a�rma:</p><p>“O preguiçoso deseja e não consegue nada, mas o desejo do diligente será</p><p>satisfeito.” Paulo exortou Timóteo em seu ministério: “Procura apresentar-</p><p>te aprovado diante de Deus” (2Tm 2.15). E Paulo se esforçou ao máximo</p><p>em seu trabalho para Deus (v. 1Co 9.26,27; Fp 3.12-14).</p><p>No entanto, a Bíblia também a�rma que o sucesso em qualquer</p><p>empreendimento está sob o controle soberano de Deus (v. 1Sm 2.7; Sl</p><p>75.6,7; Ag 1.5,6). Como o texto de 1Samuel ensina, “O S����� faz</p><p>empobrecer e enriquecer; abate e também exalta.” Dois alunos estudam a</p><p>mesma matéria e entregam-se com diligência aos livros e cadernos, mas um</p><p>se sobressai e consegue as notas mais altas, enquanto o outro passa de ano</p><p>raspando. Por que a diferença? Talvez Deus tenha dado mais capacidade</p><p>intelectual ao primeiro e, além disso, uma família que desa�ava e estimulava</p><p>o crescimento intelectual. Seja qual for a causa, em última instância, a</p><p>capacidade de realização ou de sucesso em qualquer empreendimento vem</p><p>de Deus.</p><p>No capítulo 10, examinamos Deuteronômio 8.17,18 em relação à</p><p>gratidão. Mas a razão para agradecermos o sucesso alcançado é porque foi</p><p>Deus quem nos deu força para ser bem-sucedido. Não existe essa história de</p><p>“pessoa que venceu por si mesma” — ou seja, “que chegou lá sozinha”. Do</p><p>ponto de vista humano, pode até parecer que o fulano venceu apenas com a</p><p>força de vontade e o empenho no trabalho. Entretanto, quem lhe deu</p><p>espírito empreendedor e discernimento empresarial que o levou a ser bem-</p><p>sucedido? Foi Deus.</p><p>Aos orgulhosos cristãos de Corinto, Paulo escreveu: “Pois, quem te faz</p><p>diferente dos demais? E o que tens que não tenhas recebido? E, se o</p><p>recebeste, por que te orgulhas, como se não o tivesse recebido?” (1Co 4.7).</p><p>Então, o que é que você tem que não lhe foi dado? Nada. Você não tem</p><p>nada que não tenha vindo como presente de Deus. O intelecto, os talentos,</p><p>as habilidades, a saúde e as oportunidades de bons resultados vieram de</p><p>Deus. Tudo o que temos e que nos capacita a ser bem-sucedidos, recebemos</p><p>de Deus.</p><p>Então, por que nos ensoberbecemos, seja em forma de orgulho público,</p><p>ou de modo mais sutil quando desejamos ser orgulhosos sem parecer que</p><p>somos? Nos dois casos, é porque deixamos de reconhecer que o êxito veio</p><p>de Deus. Claro, houve muito esforço, mas quem nos deu a capacidade e o</p><p>desejo de progredir? E quem abençoou nossos esforços? Basicamente, tudo</p><p>vem de Deus.</p><p>Para mim, as pessoas mais chatas deste mundo são as fanfarronas que</p><p>alardeiam aos quatro ventos que o segredo de seu sucesso nos negócios, ou</p><p>seja lá onde for, é o trabalho</p><p>Bíblia. O termo grego que traduz santo é hagios, e refere-se não ao</p><p>caráter da pessoa, mas ao estado de ser. O signi�cado literal é “separado</p><p>para Deus”. Nesse sentido, cada cristão — até mesmo o mais simples e</p><p>imaturo — é santo. Na realidade, em 1Coríntios Paulo se dirige “aos</p><p>santi�cados em Cristo Jesus, chamados para serem santos” (1.2). Talvez nos</p><p>surpreendamos com o uso que Paulo faz aqui do termo santi�cados, que</p><p>geralmente associamos com o viver santo. Todavia, as palavras santi�cado e</p><p>santo têm a mesma raiz no grego. O santo simplesmente é alguém</p><p>santi�cado. Embora soe estranho, poderíamos reescrever a saudação de</p><p>Paulo literalmente como “aos separados em Cristo Jesus, chamados para</p><p>serem separados.”</p><p>Separados para quê? Seria melhor perguntar: “Separados para quem?” A</p><p>resposta é: “para Deus”. Todo cristão verdadeiro foi separado ou reservado</p><p>por Deus para Deus. Em outra carta, Paulo descreve nosso Senhor Jesus</p><p>Cristo como aquele que se entregou por nós para nos redimir de toda</p><p>maldade e puri�car para si um povo todo seu, dedicado às boas obras (v. Tt</p><p>2.14). Em 1Coríntios 6.19,20, Paulo a�rma que não somos de nós mesmos,</p><p>pois fomos comprados por preço. Juntos, esses dois versículos nos ajudam a</p><p>entender o signi�cado bíblico de santo. Santo é alguém que Cristo comprou</p><p>com seu sangue na cruz e separou para si mesmo como sua propriedade.</p><p>O que signi�ca ser separado ou reservado? Ao observarmos a Academia</p><p>da Força Aérea Americana, perto da minha casa, podemos sugerir uma</p><p>ótima analogia. O tratamento dado aos cadetes iniciantes é bem diferente</p><p>do que é dado aos alunos do primeiro ano das faculdades e universidades em</p><p>geral. A partir do momento em que pisam na Academia, e durante todo o</p><p>primeiro ano, os alunos �cam sujeitos a uma disciplina rigorosa, cujo</p><p>objetivo é transformar adolescentes tranquilões em cadetes bem</p><p>disciplinados que se preparam para a carreira de o�cial militar. Embora a</p><p>disciplina seja afrouxada progressivamente enquanto os cadetes atravessam</p><p>os quatro anos de preparo, nunca é removida por completo. Mesmo no</p><p>último ano, os cadetes continuam sujeitos às demandas acadêmicas e às</p><p>exigências de comportamentos.</p><p>Por que há diferença entre uma academia militar e uma universidade</p><p>comum? No primeiro caso, os rapazes e as moças foram, num sentido real,</p><p>“separados” pelo Governo para se tornarem o�ciais da Força Aérea. O</p><p>Estado gasta muito dinheiro para educar e treinar os cadetes durante quatro</p><p>anos. Assim, esses jovens não são preparados para serem professores da</p><p>rede pública nem consultores �nanceiros do país. A Academia tem um</p><p>propósito: preparar o�ciais para a Força Aérea. E os cadetes são “separados”</p><p>para esse propósito.</p><p>De modo bastante parecido, cada novo cristão foi separado por Deus e</p><p>para Deus a �m de ser transformado à imagem de seu Filho, Jesus Cristo.</p><p>Nesse sentido, todo cristão é santo — uma pessoa que foi separada de um</p><p>modo errado de viver e reservada para Deus, a �m de glori�cá-lo cada vez</p><p>mais à medida que sua vida é transformada.</p><p>No sentido bíblico do termo, santidade não tem a ver com realizações</p><p>nem com perfeição de caráter, mas com o estado de ser — uma condição</p><p>inteiramente nova de viver gerada pelo Espírito de Deus. Paulo descreve</p><p>isso como sair “das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus” (At</p><p>26.18) e como ter sido liberto “do domínio das trevas” e transportado “para</p><p>o reino do seu Filho amado” (Cl 1.13).</p><p>Nosso comportamento não nos torna santos. Somos feitos santos</p><p>unicamente pela ação sobrenatural imediata do Espírito Santo que realiza</p><p>essa mudança profunda em nosso íntimo para que, de fato, nos tornemos</p><p>novas criaturas em Cristo (v. 2Co 5.17). Essa mudança de estado é descrita</p><p>profeticamente em Ezequiel 36.26: “Também vos darei um coração novo e</p><p>porei um espírito novo dentro de vós; tirarei de vós o coração de pedra</p><p>[coração morto, indiferente] e vos darei um coração de carne [coração vivo,</p><p>receptivo]”.</p><p>Seria bom que a história terminasse aqui, porque os dois últimos</p><p>parágrafos talvez sugiram que santo é alguém que não peca mais. Quem</p><p>dera! Todo mundo sabe que não é bem assim. Pelo contrário, se formos</p><p>bastante honestos, confessaremos que pecamos o tempo inteiro em</p><p>pensamentos, palavras e ações. Até mesmo nossas melhores atitudes são</p><p>manchadas por motivos impuros (misturados) e por uma vivência</p><p>imperfeita. E quem de nós se atreveria a dizer: “Amo o próximo como a</p><p>mim mesmo”? A igreja tumultuada de Corinto é a maior evidência de que</p><p>nós, os santos, pecamos demais em nossas atitudes e ações.</p><p>Por que isso é verdade? Qual o motivo da desconexão entre o que Deus</p><p>aparentemente prometeu e o que experimentamos em nosso viver diário?</p><p>Encontramos a resposta em versículos como Gálatas 5.17: “Porque a carne</p><p>luta contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne. Eles se opõem um ao</p><p>outro, de modo que não conseguis fazer o que quereis”.</p><p>A guerra entre a carne e o Espírito, descrita em Gálatas 5.17, acontece</p><p>diariamente no íntimo de cada cristão. É por esse motivo que Pedro, por</p><p>exemplo, nos incentiva à abstenção “dos desejos carnais, que combatem</p><p>contra a alma” (1Pe 2.11). Então, apesar de 2Coríntios 5.17 e Ezequiel</p><p>36.26 falarem sobre a mudança de�nitiva que sempre ocorre no íntimo de</p><p>cada novo convertido, o resultado visível dessa mudança não é instantâneo e</p><p>absoluto; é progressivo e contínuo nesta vida. No entanto, a consciência</p><p>dessa luta interna contra o pecado não deverá jamais ser usada como</p><p>desculpa para atitudes erradas. Pelo contrário, devemos ter sempre em</p><p>mente que somos santos chamados a viver separados para Deus.</p><p>Paulo, então, inicia sua primeira carta aos coríntios chamando-os de</p><p>“santi�cados [separados por Deus] em Cristo Jesus, chamados para serem</p><p>santos [separados]”. No restante da carta, exorta-os vigorosamente a se</p><p>comportarem como santos. Em um sentido, a carta de Paulo poderia ser</p><p>resumida assim: “Vocês são santos. Então se comportem como santos!”</p><p>Algumas vezes essa ideia é expressa de modo mais sucinto: “Seja o que você</p><p>é”. Em outras palavras, aja de acordo com a sua natureza. Embora o termo</p><p>santo basicamente descreva nossa nova fase como pessoas separadas para</p><p>Deus, ele traz em si a ideia da responsabilidade de vivermos como santos no</p><p>dia a dia.</p><p>Quando fui o�cial da Marinha dos Estados Unidos há meio século, a</p><p>expressão “conduta imprópria a um o�cial” nos era bem familiar. A</p><p>expressão abrangia desde ofensas menores, punidas com uma repreensão,</p><p>até coisas sérias que exigiam corte marcial. Contudo, a frase descrevia mais</p><p>do que um comportamento anômalo: mostrava que o comportamento foi</p><p>inconsistente com o que era de se esperar de um o�cial militar. O o�cial em</p><p>questão havia falhado em seu compromisso de agir como deveria.</p><p>Como cristãos, seria bom adotarmos uma expressão parecida: “conduta</p><p>imprópria a um santo”. Isso nos refrearia na hora de agirmos de forma</p><p>errada, não é mesmo? Ao fofocar ou �car impaciente ou com raiva, iríamos</p><p>nos lembrar de que essa conduta é inapropriada a um santo. Temos, em</p><p>princípio, se não em grau, agido igual aos coríntios. Temos vivido de modo</p><p>inconsistente com o nosso chamado.</p><p>A Bíblia tem uma palavra especí�ca para a conduta imprópria de um</p><p>santo: pecado. Assim como a “conduta imprópria de um o�cial” abrange</p><p>uma variedade de comportamentos inadequados, a palavra pecado abrange</p><p>uma variedade de maus comportamentos. Envolve de fofoca a adultério, de</p><p>impaciência a assassinato. Claro que o pecado tem graus de seriedade, mas</p><p>em última análise, pecado é pecado. É uma conduta inapropriada a santos.</p><p>No entanto, um de nossos problemas é que não nos vemos como santos</p><p>— com a responsabilidade de vivermos como santos, conforme nossa nova</p><p>condição — e também não achamos que práticas como fofoca e impaciência</p><p>sejam pecado. Pecado é o que os não salvos fazem. Não vacilamos em</p><p>quali�car de pecado a conduta imoral e antiética da sociedade como um</p><p>todo. No entanto, não pensamos da mesma forma quanto ao que eu chamo</p><p>de “pecados aceitáveis pelos santos”. Na verdade, nós, como a sociedade em</p><p>geral, vivemos em</p><p>árduo. Até aguentamos isso vindo de um não</p><p>crente. Mas de um crente? É realmente ofensivo. E nós que somos do tipo</p><p>mais caladão, ofendemos a Deus quando falamos de nosso progresso, ou do</p><p>progresso de nossos �lhos, sem reconhecer as bênçãos graciosas de Deus.</p><p>No �m do ano, eu e minha esposa, como tantos outros casais, recebemos</p><p>cartas de amigos e conhecidos que temos feito ao longo dos anos. De vez</p><p>em quando, uma das cartas diz algo assim: “Nosso �lho, John, se formou na</p><p>Universidade [alguma escola muito famosa] como o primeiro aluno da</p><p>classe”. Veja bem, não há nada errado em comunicar essa boa notícia aos</p><p>familiares e amigos. Mas, da maneira que foi redigida, a carta transmite esta</p><p>ideia: “Nosso �lho é um gênio, não é?”, sem reconhecer que sua capacidade</p><p>intelectual veio de Deus.</p><p>Se quisermos evitar o pecado sutil do orgulho em relação às conquistas de</p><p>nossos �lhos, a carta poderia dizer algo assim: “Nosso �lho, John, se formou</p><p>na Universidade [uma de bastante prestígio] como o primeiro aluno da</p><p>classe. Reconhecemos de coração que a capacidade intelectual de John lhe</p><p>foi dada por Deus, e estamos profundamente agradecidos a ele. Sabemos</p><p>que Deus não dotou todas as crianças com as habilidades que deu ao John.</p><p>Sempre procuramos instilar essa atitude de gratidão em nosso �lho e</p><p>ensinar-lhe que suas aptidões acadêmicas são responsabilidades que Deus</p><p>lhe con�ou para serem usadas em benefício de outros, e para glori�car a</p><p>Deus.”</p><p>Tenho certeza de que outros pais que recebessem a carta iriam se alegrar</p><p>com os pais do John por Deus tê-lo abençoado tanto. Contudo, sem esse</p><p>reconhecimento, muitos pais, com razão ou sem razão, talvez sentissem um</p><p>pouco de inveja porque seus �lhos estão na média ou bem abaixo dela. Para</p><p>ilustrar o princípio, usei a excelência acadêmica, mas o mesmo seria</p><p>verdadeiro se John fosse o melhor jogador do time da escola. Ou se o John</p><p>agora �zesse parte do mundo corporativo e tivesse sido promovido a vice-</p><p>diretor de uma empresa bem-sucedida.</p><p>Quer o êxito seja nosso ou de nossos �lhos, e seja lá em que área for,</p><p>deixar de reconhecer que o sucesso veio, sim, de Deus leva ao orgulho das</p><p>realizações, algo que não agrada ao Senhor. Esse tipo de orgulho é pecado</p><p>— pecado sutil, contudo pecado.</p><p>Outro aspecto do pecado das realizações é o desejo excessivo de</p><p>reconhecimento. Todos nós gostamos de ser elogiados por um trabalho bem</p><p>feito ou por muitos anos de serviço �el à empresa ou à igreja. Todavia,</p><p>como agimos quando fazemos um trabalho bem feito e ninguém fala nada?</p><p>Estamos dispostos a trabalhar na obscuridade e a realizar nossa tarefa como</p><p>se fosse ao Senhor, ou �camos descontentes pela falta de reconhecimento?</p><p>Dois princípios encontrados na Bíblia nos ajudarão a evitar o desejo</p><p>pecaminoso de ser elogiado. Primeiro, vamos nos lembrar das palavras de</p><p>Jesus em Lucas 17.10: “Assim também vós, quando �zerdes tudo o que vos</p><p>for ordenado, dizei: Somos servos inúteis; �zemos somente o que devíamos</p><p>fazer.” Quando realizarmos bem uma tarefa ou tivermos servido �elmente</p><p>por um longo tempo, nossa atitude deve ser esta: “Só cumpri a minha</p><p>obrigação.”</p><p>Segundo, temos de entender que, no �m das contas, todo</p><p>reconhecimento, independente de sua fonte imediata, vem de Deus. É</p><p>Deus quem exalta um e humilha o outro (v. Sl 75.6,7). Se unirmos esses</p><p>dois princípios, teremos de dizer: “Tudo vem pela graça.” Não mereço nada,</p><p>e tudo o que recebo, inclusive o reconhecimento, é graça de Deus. Portanto,</p><p>se não sou elogiado, não vou ter um ataque de nervos.</p><p>Espírito independente</p><p>Antes de começar a escrever este livro, enviei uma lista de pecados</p><p>“aceitáveis” a quinze pessoas envolvidas no ministério cristão, e pedi-lhes</p><p>que acrescentassem qualquer pecado que deixei escapar. Duas pessoas que</p><p>trabalham com jovens e adolescentes sugeriram que eu incluísse o pecado</p><p>do espírito independente. Esse pecado se revela principalmente em duas</p><p>áreas: resistência à autoridade, especialmente autoridade religiosa, e atitude</p><p>insubmissa.</p><p>Geralmente esses dois comportamentos andam de mãos dadas. Quando</p><p>somos jovens, achamos que sabemos tudo. Ou, como um amigo disse: “Não</p><p>sabemos o quanto não sabemos.” Quando eu era jovem e solteiro, morei</p><p>com duas famílias que tinham �lhos pequenos. Hoje, bastante</p><p>envergonhado, lembro-me de como criticava, em silêncio, o modo de</p><p>aqueles pais educarem suas crianças. Que orgulho! Jovem e solteiro, sem</p><p>absolutamente nenhuma experiência na educação de �lhos, e, mesmo</p><p>assim, achando que sabia mais do que eles.</p><p>No ministério do qual faço parte, quase sempre nos deparamos com esse</p><p>tipo de atitude entre os novatos, os inexperientes. Geralmente esse pessoal é</p><p>estagiário, e trabalha sob a direção de alguém experiente. No entanto,</p><p>muitas vezes, dão uma de quem sabe mais a respeito do ministério do que o</p><p>treinador. Como resultado, mostram-se insubmissos à autoridade ou</p><p>indispostos a seguir a orientação dos mais entendidos no assunto.</p><p>No entanto, a Bíblia é bem clara quanto à submissão. Poderíamos</p><p>examinar vários versículos, porém Hebreus 13.17 fala mais claramente</p><p>sobre a questão:</p><p>Obedecei a vossos líderes, sendo-lhes submissos, pois eles estão cuidando de vós, como quem há</p><p>de prestar contas; para que o façam com alegria e não gemendo, pois isso não vos seria útil.</p><p>É provável que o autor de Hebreus tivesse em mente a autoridade</p><p>espiritual dos líderes de uma igreja local. No entanto, o princípio da</p><p>submissão e aprendizado aplica-se a qualquer pessoa sob o ensino ou</p><p>treinamento de um cristão mais experiente. É o orgulho de um espírito</p><p>independente que nos torna indóceis ou insubmissos.</p><p>Lembro-me bem da noite em que fui exposto pela primeira vez ao ensino</p><p>de Hebreus 13.17. Eu era o�cial novato da Marinha dos Estados Unidos.</p><p>Eu entendia bem o conceito de submissão à autoridade estrutural a bordo</p><p>de um navio, e sempre respeitei a autoridade de meus professores durante os</p><p>anos de escola. Mas a ideia de obedecer a uma autoridade espiritual era</p><p>nova e radical para mim. Sou agradecido porque Deus me expôs a esse</p><p>princípio na ocasião propícia em que o fez. Por coincidência, foi na noite</p><p>imediatamente após eu ter entrado em contato com o ministério do qual</p><p>faço parte hoje, ministério que enfatiza o discipulado um a um. Por causa</p><p>desse novo conceito de submissão a uma autoridade espiritual, eu me tornei</p><p>receptivo ao ensino e respondi prontamente aos desa�os de ser discipulado</p><p>por outra pessoa.</p><p>Resistência à autoridade espiritual e espírito indócil não é coisa só de</p><p>adolescentes e jovens. Às vezes me deparo com essa atitude quando ensino</p><p>a Bíblia a pessoas bem mais velhas. Muitas vezes, ouço a seguinte resposta a</p><p>algo que ensino: “Bom, tenho uma opinião diferente quanto a isso.” Não há</p><p>referência à Bíblia; é só a opinião da pessoa. Todavia, na mente do</p><p>interlocutor, sua opinião é �dedigna. Não há disposição de encarar o ensino</p><p>bíblico.</p><p>No entanto, a Bíblia é �rme quando fala sobre o valor de uma atitude</p><p>dócil. Provérbios, em particular, tem muito a dizer sobre o assunto. Veja, por</p><p>exemplo, as seguintes frases de seus primeiros capítulos:</p><p>Meu �lho, se aceitares minhas palavras e guardares contigo meus mandamentos... (2.1).</p><p>Meu �lho, não te esqueças da minha instrução, e guarda os meus mandamentos no teu coração</p><p>(3.1).</p><p>Filhos, ouvi a instrução do pai e �cai atentos para que alcanceis o entendimento (4.1).</p><p>Meu �lho, atenta para a minha sabedoria; inclina os ouvidos às minhas palavras de discernimento</p><p>(5.1).</p><p>Meu �lho, guarda as minhas palavras e entesoura contigo os meus mandamentos (7.1).</p><p>Embora o contexto desses versículos tenha a ver com o relacionamento</p><p>pai/�lho, eles revelam o princípio do espírito moldável: disposição, até</p><p>mesmo desejo, de aprender com as pessoas mais experientes na fé.</p><p>Para equilibrar esta seção deste capítulo, gostaria de dizer que autoridade</p><p>espiritual não signi�ca que a pessoa tem poder de decidir com quem você se</p><p>casa (ou não casa) ou onde você deve trabalhar. Signi�ca que deve existir</p><p>alguém que se interesse por você e opine sobre esses e outros assuntos</p><p>semelhantes,</p><p>dando-lhe conselhos sábios e bíblicos. Signi�ca que as pessoas</p><p>mais experientes têm como ajudá-lo a crescer e a tornar-se um cristão</p><p>maduro, capaz de auxiliar outras pessoas.</p><p>Voltemos agora ao primeiro objetivo deste livro, que é nos levar à</p><p>identi�cação dos pecados sutis em nossas vidas. Você pode �car surpreso ao</p><p>saber que algumas práticas que identi�quei como pecados neste capítulo</p><p>nunca são, de modo geral, consideradas pecados. Isso acontece porque essas</p><p>práticas são tão comuns e aceitas entre os cristãos que não pensamos nelas</p><p>como pecados. Ou, ainda que concordemos que sejam pecados, reparamos</p><p>nelas em outras pessoas, mas não em nós.</p><p>Portanto, incentivo o leitor a orar a respeito do que foi discutido neste</p><p>capítulo, pedindo que Deus lhe traga à mente qualquer inclinação ao</p><p>orgulho nessas áreas, e que assim você possa confessar seu pecado. Ao fazer</p><p>isso, lembre-se da promessa de Isaías 66.2: “Mas darei atenção a este: ao</p><p>humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra.”</p><p>R</p><p>ecentemente �quei chocado ao saber que um dos meus heróis</p><p>teológicos do passado tinha “pés de barro” — ou seja, falhas visíveis</p><p>de caráter. Um de seus amigos e admiradores escreveu: “Mesmo com todas</p><p>as suas falhas gritantes, ele foi uma das pessoas mais espetaculares que</p><p>conheci.” Quais eram essas falhas gritantes? Esse mesmo amigo descreveu</p><p>meu herói como alguém insensível, egoísta e controlador.</p><p>Essa deve ser uma advertência séria a todos nós. Podemos ser muito</p><p>instruídos teologicamente ou ter um alto padrão moral e, mesmo assim, não</p><p>exibir as qualidades graciosas do caráter cristão que Paulo chamou de fruto</p><p>do Espírito (v. Gl 5.22,23). Ou, de modo mais congruente com o assunto</p><p>deste livro, podemos ser ortodoxos em nossa teologia e circunspectos em</p><p>nosso padrão moral e, mesmo assim, tolerar em nossa vida alguns dos</p><p>pecados “aceitáveis” que analisamos aqui. Acho que todos nós temos “pontos</p><p>cegos”, falhas de caráter, ou pecados sutis dos quais não temos consciência.</p><p>Duvido que meu herói fosse deliberadamente insensível, egoísta e</p><p>controlador. Essas coisas eram pontos cegos com os quais ele nunca lidou.</p><p>Que Deus nos ajude a trabalhar com nossos pontos cegos à medida que vão</p><p>surgindo — inclusive o egoísmo.</p><p>Ao examinarmos o pecado do egoísmo, é bom começarmos com a</p><p>verdade incontestável de que todos nós nascemos com uma natureza</p><p>egoísta. Para con�rmar isso, basta observarmos as criancinhas brincando</p><p>juntas. Quantas vezes a mamãe repete: “Júnior, deixa o Zeca brincar com</p><p>seus carrinhos” ou “Zeca, não agarre os brinquedos da mão do Júnior”? À</p><p>medida que o Júnior e o Zeca crescem, aprendem que essas atitudes</p><p>claramente egoístas são inaceitáveis socialmente, e seus comportamentos</p><p>egoístas tornam-se mais sutis, embora o problema continue. Mesmo depois</p><p>de nos entregarmos a Jesus, a carne continua a guerrear contra o Espírito, e</p><p>o egoísmo é uma de suas manifestações.</p><p>O egoísmo é um pecado trabalhoso de ser exposto porque é fácil vê-lo</p><p>nos outros, mas é difícil enxergá-lo em nós mesmos. Além disso, existem</p><p>graus de egoísmo, assim como existem graus de sutilezas em suas</p><p>manifestações. Há pessoas cujo egoísmo é rude e evidente. Gente assim não</p><p>dá a mínima para a opinião dos outros. A maioria de nós, todavia, se</p><p>importa com o que os outros pensam a nosso respeito; nesse sentido, somos</p><p>egoístas mais gentis e re�nados.</p><p>O egoísmo pode se manifestar de várias formas, mas neste estudo sobre</p><p>pecados “intocáveis”, vou discorrer sobre quatro áreas em que o egoísmo se</p><p>manifesta nos cristãos. A primeira é o interesse. Paulo escreveu em</p><p>Filipenses 2.4: “Cada um cuide não somente de seus interesses, mas</p><p>também dos interesses dos outros” (���). Ao usar o termo interesse, Paulo</p><p>referia-se às preocupações e necessidades de outras pessoas. Contudo, esse</p><p>termo será usado por mim em um sentido mais restrito, abrangendo</p><p>somente as coisas nas quais estamos interessados.</p><p>Quais são os nossos interesses? Neste estágio da vida, eu e minha esposa</p><p>estamos interessados em nossos netos. Gostamos de falar sobre eles e exibir</p><p>suas fotos aos amigos. O problema é que nossos amigos também gostam de</p><p>exibir seus netos. Quando nos reunimos, conversamos sobre os netos de</p><p>quem? Claro que é sobre os netos de todos nós, se formos sensíveis aos</p><p>interesses uns dos outros. Mas se nós ou o outro casal não tiver</p><p>sensibilidade, a conversa provavelmente será de mão única, ou então</p><p>�caremos esperando chegar a nossa vez para nos gabarmos, o que não</p><p>demonstra qualquer interesse verdadeiro pelos netos dos amigos.</p><p>Usei o exemplo especí�co dos netos só para ilustrar que somos tão</p><p>propensos a nos interessar pelos nossos assuntos que mostramos pouco ou</p><p>nenhum interesse pelas questões alheias. Nossos interesses talvez abranjam</p><p>o trabalho, o lazer e outras coisas. Minha esposa gosta de fazer patchwork</p><p>[trabalhos manuais com retalhos de tecido]. É natural que ela e as amigas</p><p>que gostam desse tipo de atividade conversem sobre seus últimos projetos</p><p>quando se reúnem. Enfatizando, minha esposa precisa mostrar interesse</p><p>genuíno pelo trabalho das amigas (e felizmente ela mostra) e não apenas</p><p>pelos seus projetos.</p><p>No momento, estou tentando escrever este livro. Tenho um interesse</p><p>enorme por este projeto. Assim, quando alguém me faz a típica pergunta:</p><p>“Sobre o que você anda escrevendo ultimamente?”, é fácil �car empolgado e</p><p>gastar um tempão falando sobre o meu livro. No entanto, meu interlocutor</p><p>tem seus próprios interesses. Preciso ser sensível e indagar sobre outras</p><p>coisas (trabalho, viagem, �lhos) que lhe deem oportunidade de falar do que</p><p>gosta.</p><p>Para testarmos como está nosso egoísmo em relação às coisas que nos</p><p>interessam, basta re�etirmos na conversa que acabamos de ter com alguém</p><p>(ou com um casal), e compararmos o tempo que gastamos falando de nossos</p><p>interesses com o tempo que gastamos ouvindo a outra pessoa.</p><p>Concordo que essa forma de egoísmo parece tão inofensiva que você não</p><p>entende porque incluí o assunto neste livro. Na pior das hipóteses, egoísmo</p><p>tem cara de grosseria, e nada mais, e geralmente é visto como falta de</p><p>consideração, mas não como pecado. Todavia, é um sintoma de</p><p>egocentrismo. O egoísmo revela que nos preocupamos somente com a</p><p>nossa vida. Em 2Timóteo 3.1-5, Paulo faz uma lista de pecados bem</p><p>nojentos que irão caracterizar os “últimos dias” — a época de hoje. A lista</p><p>menciona os “amantes de si mesmo” (���). Amantes de si mesmos é uma</p><p>boa descrição de pessoa egoísta. O amante de si mesmo é, antes de qualquer</p><p>coisa, egocêntrico. Em caso extremo, o egocêntrico não dá a mínima para os</p><p>interesses, necessidades e desejos dos outros. Só se interessa por si mesmo, e</p><p>suas conversas egocêntricas re�etem essa postura.</p><p>A segunda área em que o egoísmo se manifesta é o tempo. Tempo é</p><p>mercadoria preciosa, e cada um de nós tem quantidade �xa de tempo em</p><p>um dia. Alguém pode ser tão rico a ponto de ter dinheiro sobrando, mas</p><p>pouquíssimas pessoas têm tempo de sobra. Todos nós somos ocupadíssimos,</p><p>então é fácil ser egoísta com nosso tempo. Ouviu-se um marido dizendo à</p><p>esposa: “Meu tempo é mais valioso do que o seu”. Isso é egoísmo descarado,</p><p>mas todos nós somos capazes de agir de forma semelhante, ainda que de</p><p>modo mais gentil.</p><p>Sejamos nós homens ou mulheres, velhos ou jovens, geralmente</p><p>guardamos nosso tempo para nossos próprios interesses. A moça pede que a</p><p>amiga lhe dê uma ajuda na tarefa da faculdade. No entanto, a amiga tem de</p><p>estudar para um teste. Ela deve usar seu precioso tempo com a outra ou</p><p>com si mesma? Ou pode ajudar, com certa relutância?</p><p>E quanto à primeira estudante? Ela tem sido egoísta ao pedir ajuda</p><p>quando sabe que a outra tem de estudar para o teste? Somos egoístas</p><p>quando guardamos obsessivamente o nosso tempo e também quando</p><p>tiramos vantagem do tempo de outra pessoa. Nos dois casos, pensamos</p><p>primeiramente em nós e em nossas necessidades.</p><p>É no lar que o egoísmo em relação ao tempo é mais notório. Geralmente</p><p>marido e esposa, e até certo ponto os �lhos, são responsáveis pelas tarefas</p><p>domésticas. Muitas vezes alguém reluta em ir além</p><p>da tarefa que lhe foi</p><p>estabelecida. “Isso não é obrigação minha”, um �lho talvez reclame quando</p><p>a mãe diz para ele fazer a tarefa de um irmão. Em geral, os adultos não são</p><p>tão abruptos em suas reações, mas o egoísta raramente enxerga as</p><p>necessidades dos outros membros da família, e também não sente pena de</p><p>quem está sobrecarregado naquele momento. Di�cilmente oferece: “Eu</p><p>faço isso para você.” A Bíblia, porém, nos adverte: “Levai os fardos uns dos</p><p>outros e assim estareis cumprindo a lei de Cristo” (Gl 6.2). Fazer mais do</p><p>que nossa obrigação, e ajudar outra pessoa, é um modo de carregar o fardo</p><p>uns dos outros.</p><p>A terceira área em que o egoísmo se manifesta é o dinheiro. Pesquisas</p><p>revelam que os americanos, que vivem no país mais rico do planeta, ofertam</p><p>menos de 2% de sua renda para obras de caridade e instituições religiosas.</p><p>Embora nos orgulhemos de nossa generosidade após uma catástrofe</p><p>mundial, os fatos revelam que, de modo geral, nós, os americanos, somos</p><p>muquiranas com o nosso dinheiro e até mesmo bem indiferentes às</p><p>necessidades — inclusive as físicas e materiais — dos menos afortunados.</p><p>Além disso, preferimos contribuir para causas mais dramáticas. A doação</p><p>monetária para as vítimas do tsunami que atingiu o litoral da Indonésia em</p><p>2004 foi extraordinária, mas para as vítimas do quase igualmente devastador</p><p>terremoto no</p><p>Paquistão em 2005, as doações foram pí�as.</p><p>Esse assunto é importantíssimo para os cristãos. O apóstolo Paulo</p><p>ensinou: “Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram”</p><p>(Rm 12.15). O apóstolo João perguntou: “Quem, pois, tiver bens do mundo</p><p>e, vendo seu irmão em necessidade, fechar-lhe o coração, como o amor de</p><p>Deus pode permanecer nele?” (1Jo 3.17). Juntos, esses dois versículos</p><p>ensinam que nossos corações devem se compadecer dos necessitados e que</p><p>devemos exercitar essa compaixão por meio de ofertas.</p><p>Como já observamos em outro capítulo, cada centavo que recebemos, até</p><p>mesmo do nosso salário que ganhamos com nosso trabalho, é uma dádiva</p><p>de Deus. Temos de ser administradores desse dinheiro, e não gastar tudo</p><p>em nosso próprio bene�cio, ignorando as necessidades dos outros.</p><p>(Estudaremos mais sobre isso no capítulo 20.)</p><p>A quarta área em que o egoísmo se manifesta é a descortesia. Essa</p><p>característica se manifesta de várias formas. A pessoa grosseira jamais leva</p><p>em conta o que suas atitudes causam aos outros. A pessoa que sempre chega</p><p>atrasada e deixa os outros esperando é descortês. Quem fala alto ao celular a</p><p>ponto de perturbar quem está ao redor é egoísta e descortês. Assim como é</p><p>descortês o adolescente que larga sua bagunça na cozinha para outro limpar.</p><p>Sempre que não damos a mínima para o efeito que nossas atitudes exercem</p><p>sobre as pessoas, somos egoístas e grosseiros. Pensamos só em nós mesmos.</p><p>Também deixamos de levar em conta os sentimentos das pessoas. Muitos</p><p>cristãos são grosseiros, e até demais, com garçons e balconistas, ou, no</p><p>mínimo, indiferentes aos seus sentimentos. Em vez de sermos rudes e</p><p>indiferentes, podemos, sem nenhum gasto de energia, iluminar o dia de</p><p>alguém com um simples “obrigado”. Da mesma forma que devemos cultivar</p><p>o hábito de agradecer a Deus, devemos praticá-lo uns com os outros. Em</p><p>casa, um simples “muito obrigado” dito a outro membro da família produz</p><p>muito efeito.</p><p>A pessoa cuja atitude é “falo o que penso, doa a quem doer” é egoísta e</p><p>grosseira. Esse tipo de gente nem considera a possibilidade da outra pessoa</p><p>sentir-se envergonhada, humilhada ou magoada. Sua única preocupação é</p><p>dizer o que pensa.</p><p>Devemos buscar não apenas os nossos interesses, mas também o dos</p><p>outros. Se ampliarmos o signi�cado de interesse e abarcarmos, como acho</p><p>que Paulo fez, as necessidades e preocupações dos nossos semelhantes,</p><p>veremos que a pessoa altruísta sempre equilibra suas necessidades e</p><p>preocupações com as de terceiros. Por outro lado, o egoísta não só é</p><p>indiferente às necessidades alheias como espera que as pessoas satisfaçam</p><p>suas necessidades e seus desejos. Essa forma de egoísmo é vista nos</p><p>casamentos em que cada cônjuge acha que o outro deve atender às suas</p><p>necessidades, e em que cada um não pensa em como servir ao outro.</p><p>O nosso maior exemplo de abnegação é o Senhor Jesus Cristo, que,</p><p>embora fosse rico, se tornou pobre por amor a nós, para que por intermédio</p><p>de sua riqueza nós nos tornássemos ricos (v. 2Co 8.9). Paulo nos incentiva a</p><p>cultivar essa mesma atitude (v. Fp 2.5). Um dos exemplos mais notáveis que</p><p>o mundo já viu tanto de egoísmo quanto de abnegação ocorreu à época da</p><p>peste bubônica que assolou a Europa em 1348, causando a morte de cerca</p><p>de 40% de sua população. A peste se espalhava tão rapidamente que,</p><p>quando alguém era infectado, geralmente a família toda também morria.</p><p>Assim, por muitas vezes, os familiares se mudavam de imediato e deixavam</p><p>o doente morrer sozinho. Muitos padres cuidavam dos enfermos e</p><p>moribundos, e também acabavam morrendo. Alguns padres se recusavam a</p><p>ajudar. Foi dito sobre aquela época que os melhores padres morreram, e os</p><p>piores continuaram vivos.</p><p>Viver de modo abnegado provavelmente não custará a nossa vida, mas</p><p>nos custará alguma coisa. Custará nosso tempo e dinheiro. Custará</p><p>mostrarmos interesse nas preocupações e nos interesses dos outros. Custará</p><p>também o aprendizado de sermos sensíveis às emoções e aos sentimentos</p><p>alheios.</p><p>O egoísmo é bastante comum nos lares, entre os membros da família.</p><p>Fora de casa, geralmente nos comportamos melhor e agimos como pessoas</p><p>educadas (embora muita gente seja egoísta não importa onde esteja). Em</p><p>casa, porém, colocamos de lado as restrições arti�ciais que não fazem parte</p><p>de nosso verdadeiro caráter. Como é difícil enxergarmos o próprio orgulho,</p><p>seria bom pedir que os familiares apontassem as áreas em que nosso</p><p>egoísmo se manifesta. Contudo, devemos fazer isso sem adotarmos uma</p><p>postura defensiva e sem partirmos para retaliação, apontando, assim, o</p><p>egoísmo da outra pessoa. Depois, devemos nos arrepender dos pecados</p><p>gerados pelo egoísmo e orar para que o Espírito Santo nos capacite a lidar</p><p>com essas características.</p><p>No início deste capítulo, mencionei que é fácil enxergarmos o egoísmo</p><p>dos outros, mas é difícil reconhecermos o nosso. Acho que todos nós somos</p><p>propensos a ser egoístas de uma forma ou de outra, porque o velho homem</p><p>pecador continua guerreando contra as nossas almas. Assim, por favor, não</p><p>desconsidere este capitulo, achando que ele não se aplica a você. De fato,</p><p>peço que você o releia e se coloque nas ilustrações que usei. Ore para que o</p><p>Espírito Santo lhe mostre evidências de egoísmo em sua vida, e deixe que</p><p>ele use seus familiares como agentes dele para esse �m.</p><p>C</p><p>“omo uma cidade destruída e sem muros, assim é o homem que não</p><p>pode conter-se” (Pv 25.28). Nos tempos bíblicos, os muros das</p><p>cidades eram sua principal defesa. Se os muros estivessem rachados, o</p><p>exército inimigo não teria muita di�culdade para invadir e tomar a cidade.</p><p>Como bem sabemos, Deus provocou a queda dos muros de Jericó para que</p><p>o exército de Israel tivesse mais facilidade para invadir e conquistar a cidade</p><p>(v. Js 6.1-5,20).</p><p>Assim como a cidade sem muro �cava vulnerável ao exército invasor, a</p><p>pessoa sem autocontrole é vulnerável a todos os tipos de tentações.</p><p>Infelizmente, Salomão que escreveu a verdade de Provérbios 25.28 é um</p><p>exemplo triste, mas extraordinário, de seu próprio ensino. A Bíblia a�rma</p><p>que Salomão teve setecentas esposas e trezentas concubinas, todas vindas de</p><p>lugares onde Deus havia proibido os israelitas de escolherem esposas (v. 1Rs</p><p>11.1-3). Salomão, então, deixou-se dominar pela paixão, e desrespeitou</p><p>totalmente a proibição divina; além disso, como era o soberano mais rico da</p><p>época, conseguia tudo o que queria. Em vez de exercer autocontrole, o rei</p><p>desconsiderou seu próprio conselho e permitiu que sua paixão corresse solta.</p><p>Salomão pagou um alto preço pela falta de autocontrole. Suas esposas</p><p>levaram seu coração para longe do Senhor. Como resultado, Deus dividiu o</p><p>reino de Salomão nos dias de seu �lho Roboão, e a dinastia de Davi foi</p><p>mutilada daquela época em</p><p>diante.</p><p>Tanto em Provérbios quanto nas cartas do Novo Testamento, a Bíblia</p><p>fala bastante sobre autocontrole. Segundo Paulo, autocontrole é fruto do</p><p>Espírito (v. Gl 5.22,23), e o apóstolo inclui o descontrole na lista dos</p><p>pecados que iriam caracterizar os últimos dias (2Tm 3.3). Ao instruir Tito</p><p>sobre o ministério em Creta, Paulo manda, diversas vezes, que ele exorte os</p><p>crentes a terem autocontrole (v. Tt 2.2,5,6), e lembra que a mesma graça</p><p>que produz a salvação também nos capacita a ser equilibrados (v. 2.11,12).</p><p>Em suas duas cartas, Pedro nos incentiva várias vezes a ter bom senso ou</p><p>autocontrole (v. 1Pe 1.13; 4.7; 5.8; 2Pe 1.5).</p><p>A despeito de ser um ensino bíblico, também acho que o autocontrole é</p><p>uma virtude que recebe pouca atenção de forma consciente da maioria dos</p><p>cristãos. A comunidade cristã impõe limites que nos impedem de cometer</p><p>pecados óbvios, mas dentro desses limites nós vivemos a nosso bel prazer.</p><p>Raramente dizemos “não” a desejos e emoções. A falta de autocontrole</p><p>talvez seja um de nossos pecados mais “intocáveis”; e, porque o toleramos,</p><p>�camos mais vulneráveis aos outros pecados “intocáveis”. O descontrole da</p><p>língua, por exemplo, abre caminho para todos os tipos de conversas</p><p>pejorativas, como sarcasmo, fofoca, calúnia e menosprezo.</p><p>O que é autocontrole? É domínio ou governo cauteloso sobre nossos</p><p>desejos, anseios, impulsos, emoções e paixões. É dizer não na hora certa. É</p><p>ter comedimento nas vontades e atitudes legítimas, e restrição absoluta</p><p>daquilo que é pecado. Por exemplo, ter moderação quanto ao uso da �� e</p><p>restringir totalmente a pornogra�a na Internet.</p><p>O autocontrole conforme a Bíblia não é exercido por força de vontade.</p><p>Conhecemos muitos não crentes que mostram autocontrole em áreas</p><p>especí�cas da vida porque desejam alcançar um objetivo, mas têm pouco, ou</p><p>nenhum, autocontrole em outros aspectos. Um atleta pode ser regrado na</p><p>alimentação, mas possuir um gênio “de cão” e ter “ataques de nervos”</p><p>homéricos.</p><p>No entanto, o autocontrole de acordo com a Bíblia está presente em</p><p>todas as áreas da vida e exige confronto incessante com as paixões da carne,</p><p>que batalham contra nossas almas (v. 1Pe 2.11). Esse autocontrole depende</p><p>da persuasão e capacitação do Espírito Santo. Exige que nossa mente seja</p><p>continuamente exposta aos ensinos de Deus e que oremos sem cessar</p><p>pedindo que o Espírito Santo nos conceda vontade e poder para</p><p>exercitarmos autocontrole. Podemos a�rmar que autocontrole não é o</p><p>domínio por força de vontade pessoal, mas o controle da pessoa pela força</p><p>do Espírito Santo.</p><p>Embora tenhamos de exercer autocontrole em todos os aspectos da vida,</p><p>iremos analisar três áreas em que os cristãos mais falham em colocá-lo em</p><p>prática. A primeira área é a da comida e bebida. Quero deixar bem claro</p><p>que não estou expondo quem tem o famoso “problema de peso”. A condição</p><p>pode ou não ser causada pelo descontrole “no garfo”. Um dos homens mais</p><p>controlados que já conheci lutou a vida inteira contra a balança. Por outro</p><p>lado, alguém que “come um boi inteiro” sem engordar uma grama talvez</p><p>seja, por esse motivo, descontrolado em relação à comida e bebida.</p><p>Re�ro-me à tendência de ceder continuamente ao desejo de comer e</p><p>beber determinadas coisas. Conheço um homem, cristão �el, que bebia</p><p>doze latas de refrigerante todos os dias. Eu costumava ser louco por sorvete,</p><p>e “traçava” uma tigelinha depois do jantar e outra antes de dormir. Nesse</p><p>caso, Deus me convenceu do descontrole ao me mostrar que uma coisa tão</p><p>inocente enfraquecia o autocontrole em áreas mais importantes da vida.</p><p>Entendi que não posso ser descontrolado em uma área e controlado em</p><p>outra.</p><p>Um jeito de exercermos autocontrole é nos afastar da tentação ou</p><p>remover para longe aquilo que nos tenta. No caso do sorvete, pedi que</p><p>minha esposa não mantivesse nenhum pote da gostosura no freezer, e só</p><p>comprávamos sorvete em ocasiões especiais. Embora essa decisão tenha</p><p>sido tomada há mais de trinta anos, ainda preciso exercitar autocontrole</p><p>nessa área. Outro dia, fui a um posto do correio que �cava dentro de uma</p><p>sorveteria. Pelo caminho, comecei a sonhar com uma bela taça de sorvete.</p><p>Enquanto lutava com o forte desejo de tomar um sorvete, decidi que aquele</p><p>era o momento de dizer “não” a mim mesmo com o único propósito de</p><p>manter a vontade sob controle.</p><p>Não estou tentando encher de culpa quem gosta de sorvete, de</p><p>refrigerante ou de café. Re�ro-me ao descontrole — à tendência de</p><p>satisfazer os desejos que nos controlam, e que deveríamos controlar.</p><p>A segunda área em que os cristãos geralmente não exercem autocontrole</p><p>é o temperamento. Alguns crentes são famosos por serem “explosivos” ou</p><p>por terem “o pavio curto”. Temperamento explosivo é um estouro ligeiro,</p><p>porém intenso, de ira, quase sempre seguido de calmaria imediata. A pessoa</p><p>de pavio curto �ca zangada ou irritada com facilidade e tem pouco ou</p><p>nenhum controle sobre suas emoções. Geralmente a pessoa explosiva</p><p>também tem o pavio curto. Outra maneira de descrever esse tipo de pessoa</p><p>é: “Ele vive chutando o pau da barraca”.</p><p>Falaremos mais sobre a ira em outro capítulo; aqui, a ênfase é colocada</p><p>no descontrole da ira. Na maioria das vezes, a ira é pecado, mas a pessoa</p><p>explosiva também peca pela falta de autocontrole.</p><p>Os ataques de ira normalmente são dirigidos contra alguém que nos</p><p>desagradou. Talvez contra um motorista que nos “cortou” na avenida ou</p><p>contra o juiz que marcou uma falta injusta no bate-bola da igreja.</p><p>Infelizmente, quase sempre o ataque de ira é dirigido contra alguém da</p><p>família.</p><p>O livro de Provérbios faz várias advertências contra o gênio explosivo.</p><p>Por exemplo: “Quem se irrita com facilidade cometerá erros” (14.17);</p><p>“Quem tem paciência é melhor que o guerreiro; quem tem domínio próprio</p><p>é melhor que aquele que conquista uma cidade” (16.32). No Novo</p><p>Testamento, Tiago nos admoesta a ser “tardio para se irar” (1.19). Lembre-</p><p>se de que devemos guardar a palavra de Deus no coração para não</p><p>pecarmos contra ele (v. Sl 119.11). Se memorizados, esses versículos de</p><p>Provérbios e Tiago serão de grande ajuda para controlarmos nosso</p><p>temperamento.</p><p>A terceira área em que muitos crentes não exercem autocontrole é a</p><p>�nanceira. Ouvi um palestrante respeitado a�rmar que a família americana</p><p>tem uma dívida média de 7 mil dólares em cartões de crédito. Claro que, às</p><p>vezes, uma pessoa, ou família, se vê obrigada a entrar numa dívida assim</p><p>por questão de emergência, porém o fato de 7 mil dólares ser a média de</p><p>dívida indica que o povo tem gastado mais do que ganha. Como nação, não</p><p>temos exercido autocontrole �nanceiro; pelo contrário, temos satisfeito</p><p>nosso desejo de consumo: roupas, aparelhos eletrônicos de última geração,</p><p>férias exóticas, e uma multidão de outros bens e serviços que apelam aos</p><p>nossos corações. O fato de existirem [nos Estados Unidos] organizações</p><p>cristãs voltadas unicamente a ajudar os crentes a controlar suas �nanças</p><p>mostra que o problema é uma realidade em nosso meio. Essas organizações</p><p>estão simplesmente ajudando as pessoas a exercerem autocontrole.</p><p>Contudo, não são apenas os endividados que se descontrolam nos gastos.</p><p>Muita gente rica, inclusive cristã, satisfaz todos os desejos de seus corações.</p><p>São parecidas com o autor de Eclesiastes (supostamente Salomão) que</p><p>disse: “Não me neguei nada que os meus olhos desejaram” (2.10). Não é</p><p>satisfazendo todos os desejos do coração, mesmo podendo e sobrando, que</p><p>conquistamos autocontrole, que é fruto do Espírito (mais sobre o assunto no</p><p>capítulo 20).</p><p>Existem muitas outras áreas em que necessitamos praticar autocontrole.</p><p>Por exemplo, gastar um tempão diante do computador, mesmo que não seja</p><p>em sites pornográ�cos; televisão em excesso; impulso por compras; obsessão</p><p>por algum hobby; fanatismo por esportes. Em geral, os homens precisam de</p><p>muito autocontrole em relação aos olhos e pensamentos, particularmente</p><p>numa época de roupas femininas cada vez mais diminutas e transparentes.</p><p>Poderíamos mencionar outras áreas que são facilmente atingidas pela</p><p>falta de autocontrole. Portanto, incentivo o leitor a re�etir em sua própria</p><p>vida.</p><p>Há em você desejos, anseios ou emoções um tanto descontrolados?</p><p>Lembre-se de que este livro fala sobre pecados “intocáveis” ou “aceitáveis”,</p><p>pecados que toleramos em nós. Como o autocontrole não é uma virtude</p><p>muito enfatizada entre os cristãos, observamos que somos descontrolados</p><p>em alguns aspectos da vida. Em sua busca por crescimento nessa área,</p><p>lembre-se de que autocontrole é fruto do Espírito (veja Gl 5.22,23). É</p><p>somente pelo poder capacitador de Deus que conseguimos algum progresso.</p><p>U</p><p>m pastor, amigo meu, fez uma visita a um casal fundador de sua</p><p>igreja. Marido e mulher eram bastante amados e respeitados na</p><p>comunidade, e haviam investido muito de si na vida de outras pessoas.</p><p>Nessa ocasião, o marido estava com câncer, e faleceu alguns meses depois.</p><p>Durante a visita, o pastor perguntou ao casal: “Como vocês estão</p><p>espiritualmente?” Em lágrimas, a esposa respondeu: “Com relação ao</p><p>câncer, estamos bem. Mas o que não consigo suportar é o nosso pecado.</p><p>Depois de tantos anos juntos, e especialmente agora, achávamos que não</p><p>iríamos mais ferir e magoar um ao outro, contudo é assim que agimos. E é</p><p>isso que não posso aguentar. Sei lidar com o câncer, mas não com minha</p><p>natureza pecaminosa.”</p><p>Essa história triste, porém real, ilustra uma verdade bastante comum</p><p>sobre nossos pecados “intocáveis”. Quase sempre é no seio da família que</p><p>exibimos com mais frequência muitos desses pecados. Como mencionei em</p><p>outro capítulo, usamos a “máscara cristã” fora de casa, porém o nosso</p><p>verdadeiro caráter se revela junto à família. Isso é especialmente verdadeiro</p><p>em relação a dois pecados que examinaremos agora: impaciência e</p><p>irritabilidade.</p><p>Esses dois traços estão bem ligados um ao outro. Dependendo do</p><p>contexto, porém, as duas palavras têm acepções, em certa medida,</p><p>diferentes. Assim, neste capítulo, de�no impaciência como um sentimento</p><p>profundo de aborrecimento com as falhas e os erros (geralmente)</p><p>involuntários dos outros. Quase sempre, a impaciência é verbalizada de</p><p>modo a humilhar a pessoa (ou as pessoas) que é objeto de seu desgosto.</p><p>A chave para entendermos esse tipo de impaciência é saber que</p><p>normalmente ela é fruto das atitudes desintencionais das pessoas. Por causa</p><p>da de�ciência auditiva, eu quase sempre ouço quando minha esposa fala</p><p>comigo, mas nem sempre entendo o que ela está dizendo. Uma situação</p><p>dessas facilmente pode deixá-la irritada quando peço para que repita o que</p><p>acabou de dizer. Minha esposa teve de aprender a ser paciente comigo</p><p>nessa área, a deixar a impaciência de lado. (Caso você queira saber, nenhum</p><p>aparelho de surdez funcionou no meu caso.)</p><p>Eu gosto de ter tempo de sobra para fazer as coisas. Para não �car na</p><p>correria, gosto de sair cedo para igreja, aeroporto, seja aonde eu for. Ao</p><p>contrário de mim, minha esposa tem uma capacidade incrível de �car</p><p>pronta em cima da hora. (Como ela consegue fazer isso é um mistério para</p><p>mim.) Então, lá �co eu, prontinho, esperando por ela. Como lido com a</p><p>situação? Fico impaciente e “solto” algo como: “Por que você vive atrasada?”,</p><p>ou não digo nada, mas, por intermédio de um gesto silencioso de</p><p>impaciência, deixo claro que estou chateado? Ou serei paciente com ela,</p><p>pois entendo que o relacionamento harmonioso entre nós é mais</p><p>importante que sair de casa na hora que eu estabeleci?</p><p>Essas situações da vida real são apenas dois exemplos em que pessoas que</p><p>vivem ou trabalham juntas têm de se prevenir contra a tendência de �carem</p><p>impacientes. Por causa da natureza pecaminosa, nunca “chegaremos lá” no</p><p>quesito paciência. Todos nós, inclusive eu e minha esposa, estamos a</p><p>caminho.</p><p>Além disso, é importante dizer que nem minha de�ciência auditiva nem</p><p>o corre-corre de minha esposa nos levam à irritação. Simplesmente nos</p><p>oferecem oportunidades para a carne se manifestar. O motivo verdadeiro de</p><p>nossa impaciência está em nossos corações, em nossa insistência para que os</p><p>outros atendam às nossas expectativas.</p><p>Existem em sua vida situações repetitivas que o levam a perder a</p><p>paciência? Espero que sua resposta não seja: Quem? Eu? A impaciên cia não</p><p>é um de meus problemas. Você pode não ter problema, mas �ca impaciente,</p><p>irritado? Vou apresentar algumas situações em que a impaciência se revela.</p><p>Os pais �cam irritados com a lentidão dos �lhos pequenos e dos</p><p>adolescentes em praticar o que ensinam. “Quantas vezes já avisei para você</p><p>não largar os sapatos pela casa?” ou “Já não falei para não mastigar com a</p><p>boca aberta?” Essas reações lentas ao que ensinamos geralmente nos</p><p>deixam irritados. Claro que as manifestações de irritação que usei como</p><p>ilustrações não contribuem com nosso esforço de ensinar os �lhos. Servem</p><p>apenas para extravasarmos a irritação e humilharmos a criança. É normal os</p><p>irmãos se irritarem uns com os outros, e os pais têm o grande desa�o de</p><p>ensinar os �lhos, tanto por palavras como por exemplos, a serem pacientes</p><p>com as pessoas.</p><p>Embora eu tenha a�rmado que somos propensos a ser impacientes com</p><p>os familiares, certamente isso não se limita a eles. Alguns cristãos, por</p><p>exemplo, têm fama de serem impacientes no trânsito. Ficamos irritados com</p><p>o atendimento demorado em lojas, bancos, restaurantes. No meu caso,</p><p>tenho de ter cuidado para não me tornar impaciente no correio quando só</p><p>quero comprar alguns selos, e a pessoa na minha frente tem dez pacotes</p><p>para enviar ao exterior. Peça ao seu cônjuge, aos �lhos, ou a um amigo que</p><p>conheça você muito bem, que o ajudem a identi�car em que situações você</p><p>mostra impaciência. Acima de tudo, precisamos reconhecer que impaciência</p><p>é pecado, e temos de nos arrepender disso.</p><p>Em várias de suas cartas, o apóstolo Paulo nos exorta a ser pacientes. Em</p><p>1Coríntios 13, o magní�co capítulo do “amor”, ele começa assim sua</p><p>descrição do amor: “O amor é paciente”. Gálatas 5.22,23 a�rma que a</p><p>paciência é uma das nove manifestações do fruto do</p><p>Espírito. Em Efésios 4.1,2, Paulo insiste que vivamos de modo paciente, e</p><p>Colossenses 3.12 manda que nos revistamos de paciência. É óbvio que, na</p><p>visão de Paulo (que, esclareço, não estava expondo sua própria opinião, mas</p><p>escrevia sob a liderança do Espírito Santo), a paciência é uma virtude a ser</p><p>cultivada. Pela lógica, podemos a�rmar que a impaciência — oposto de</p><p>paciência — é um pecado que devemos matar em nossa vida. Embora seja</p><p>aceitável aos nossos olhos, não é aceitável aos olhos de Deus.</p><p>Eu disse que impaciência e irritabilidade estão bem ligadas entre si.</p><p>Embora a impaciência seja um sentimento de profunda chateação ou</p><p>exasperação, a irritabilidade, de acordo com minha de�nição, descreve a</p><p>frequência com que a pessoa �ca impaciente com as mínimas coisas. Quem</p><p>�ca impaciente com facilidade e com certa frequência é uma pessoa irritada.</p><p>A maioria de nós �ca impaciente de vez em quando, mas a pessoa irritável é</p><p>impaciente o tempo todo. Quando estamos juntos de alguém que vive</p><p>irritado, temos de “pisar em ovos”. Pessoas assim não são divertidas,</p><p>contudo, infelizmente, em casa ou no trabalho, muitas vezes não temos</p><p>saída a não ser conviver com elas.</p><p>Você passa a maior parte do tempo chateado com alguém ou com alguma</p><p>coisa? Se esse for o caso, é provável que você seja uma pessoa irritável. Se</p><p>vive chateado com uma pessoa (ou pessoas), tem de aprender a relevar as</p><p>atitudes involuntárias do outro. Embora Provérbios 19.11 fale sobre a ira</p><p>(assunto do próximo capítulo), também diz: “[...] sua [do homem] virtude</p><p>está em esquecer as ofensas.” Pedro escreveu: “[...] o amor cobre um grande</p><p>número de pecados” (1Pe 4.8). Podemos a�rmar que, se o amor cobre um</p><p>grande número de pecados, deveria cobrir um número ainda maior de</p><p>comportamentos que nos irritam.</p><p>Suponhamos que você seja alvo constante da impaciência de alguém.</p><p>Suponhamos que seja menosprezado, criticado ou repreendido com</p><p>frequência. Qual deve ser sua atitude? Muitas vezes a pessoa de</p><p>temperamento igualmente forte dá o troco “na lata”, e com isso se inicia o</p><p>bate-boca. Além de improdutiva, essa abordagem não é nada bíblica.</p><p>Talvez você não reaja verbalmente, embora �que fervilhando por dentro</p><p>e ressentido com a pessoa que explodiu de</p><p>irritação com você. Essa reação</p><p>também é pecado de sua parte.</p><p>De acordo com a Bíblia, você tem duas opções. A primeira é seguir o</p><p>exemplo de Cristo, que “ao ser insultado, não retribuía o insulto, quando</p><p>sofria, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga com justiça” (1Pe</p><p>2.23). E muitas vezes essa é sua única saída bíblica.</p><p>A segunda é confrontar a pessoa que vive impaciente com você, e dar-lhe</p><p>exemplos bem especí�cos de como é impaciente. Contudo, isso só deve ser</p><p>feito depois de você ter resolvido o assunto em seu coração, sendo capaz de</p><p>falar sobre isso tendo em vista promover o bem da outra pessoa, e não</p><p>apenas tornar as coisas mais fáceis para você mesmo. Se o confronto ocorrer</p><p>de modo bíblico e a pessoa reconhecer o erro, é provável que o</p><p>relacionamento de vocês �que bem melhor (v. Mt 18.15).</p><p>Se a pessoa negar que é irritável e, então, partir para defensiva ou</p><p>hostilidade, adote a primeira opção, e siga o exemplo de Jesus. Para isso, no</p><p>entanto, é preciso crer de coração que Deus é soberano em cada</p><p>circunstância de sua vida. Possivelmente Deus tem usado as atitudes erradas</p><p>do outro para fazer você crescer em paciência e mansidão bíblicas (veja o</p><p>exemplo de Moisés em Nm 12.1-3).</p><p>Como faço em quase todos os capítulos, gostaria de recordar ao leitor que</p><p>este livro trata de nossos pecados “intocáveis”, pecados que toleramos em</p><p>nós enquanto condenamos os pecados mais �agrantes da sociedade. Que</p><p>sejamos tão severos com nossos pecados sutis quanto somos com os pecados</p><p>repugnantes que condenamos nos outros. Que não sejamos iguais ao fariseu</p><p>metido a santo que orou no templo: “Ó Deus, graças te dou porque não sou</p><p>como os outros homens”, mas que tenhamos sempre a mesma atitude</p><p>humilde do cobrador de impostos que suplicou: “Ó Deus, tem misericórdia</p><p>de mim, um pecador!” (Lc 18.11-13).</p><p>R</p><p>obert Jones escreveu em seu livro Uprooting Anger [Arrancando a ira</p><p>pela raiz]: “A ira é um problema universal, prevalecente em todas as</p><p>culturas e vivenciado por todas as gerações. Ninguém está livre de sua</p><p>presença e nem imune ao seu veneno. Ela impregna cada pessoa e azeda</p><p>nossos relacionamentos mais íntimos. A ira é um aspecto garantido de</p><p>nossa natureza caída.” E acrescenta: “Infelizmente isso é verdade até</p><p>mesmo nos lares cristãos e nas igrejas.”1</p><p>À observação de Jones sobre lares cristãos e igrejas, eu acrescentaria que</p><p>nossa ira é quase sempre dirigida às pessoas que mais amamos: cônjuge,</p><p>�lhos, pais, irmãos da nossa família biológica, e nossos verdadeiros irmãos</p><p>em Cristo — a família da igreja. Conheci um senhor cristão que era um</p><p>símbolo de delicadeza com terceiros, mas despejava sua ira na esposa e nos</p><p>�lhos. Finalmente, depois de muitos anos tendo esse tipo de</p><p>comportamento, Deus o fez reconhecer sua culpa e o ajudou a lidar com a</p><p>ira.</p><p>O que é ira? Muitos responderiam: “Não sei de�nir, mas a reconheço</p><p>quando vejo, especialmente se for dirigida a mim.” Segundo os dicionários,</p><p>ira nada mais é que um profundo sentimento de rancor e, normalmente, de</p><p>antagonismo. Eu diria também que a ira, muitas vezes, vem acompanhada</p><p>de emoções pecaminosas e de palavras e atitudes que magoam aqueles que</p><p>são objetos de seu furor.</p><p>Ira é um assunto gigantesco e complexo, e está acima do escopo deste</p><p>livro analisá-la de forma abrangente. Para prosseguir no objetivo de</p><p>confrontar os pecados que toleramos em nossa vida, irei concentrar-me</p><p>num aspecto da ira com o qual, sem nem perceber, convivemos como um</p><p>pecado “aceitável”. Para tanto, quero logo de cara analisar a ira legítima.</p><p>Muitas pessoas desculpam a ira que sentem dizendo que ela é justi�cada.</p><p>Acham que têm o direito de �car com ira em algumas situações. Mas como</p><p>saber se a minha ira é justi�cada? Primeiro, a ira legítima é fruto da</p><p>percepção correta do mal verdadeiro — ou seja, da infração à lei moral de</p><p>Deus. Ela é centrada em Deus e em sua vontade, e não em mim e em</p><p>minha vontade. Segundo, a ira legítima é sempre regida pelo autocontrole.</p><p>Nunca nos faz perder a cabeça ou retaliar de modo vingativo.2</p><p>Apesar de a Bíblia apresentar alguns exemplos de ira justi�cada, como a</p><p>de Jesus na limpeza do templo, eles são poucos. O foco principal do ensino</p><p>bíblico sobre o assunto tem a ver com a ira pecaminosa, nossas reações</p><p>malvadas às ações ou às palavras dos outros. O fato de reagirmos ao pecado</p><p>real de outra pessoa não torna a nossa ira necessariamente correta. É</p><p>provável que estejamos mais preocupados com o impacto negativo das</p><p>atitudes erradas sobre nós do que com a profanação da lei de Deus. Talvez</p><p>usemos a violação da lei de Deus como justi�cativa para respondermos com</p><p>ira perversa.</p><p>Outro aspecto da ira que está fora do escopo deste livro é o da pessoa que</p><p>vive enfurecida, ou da pessoa cuja ira faz com que ela aja com violência, seja</p><p>verbal ou física. Pessoas assim precisam de aconselhamento bíblico e</p><p>pastoral adequados. Neste capítulo, quero me concentrar no que iremos</p><p>chamar de ira comum, aquele tipo que aceitamos como parte da vida, mas</p><p>que, na verdade, é pecado aos olhos de Deus.</p><p>Ao reconhecer nossa ira, temos de admitir que ninguém nos faz �car</p><p>com ira. As palavras ou atitudes de alguém talvez desencadeiem a ira,</p><p>porém o motivo está lá dentro de nós — geralmente nosso orgulho,</p><p>egoísmo ou desejo de supremacia. Concordei em ajudar um amigo, mas</p><p>acabei me esquecendo de realizar a tarefa. Quando soube que não �z o</p><p>prometido, ele �cou muito zangado comigo. Por quê? Porque meu</p><p>esquecimento o deixou mal perante alguns de seus amigos. Isso não é</p><p>desculpa para o meu esquecimento, e bem é verdade que o deixei numa</p><p>tremenda “saia justa”. Todavia, isso não muda o fato de que o motivo de sua</p><p>ira não foi meu esquecimento, mas o seu orgulho.</p><p>Ficamos com ira quando alguém nos maltrata de algum modo. A pessoa</p><p>fofoca a nosso respeito, e ao tomarmos conhecimento disso �camos bravos.</p><p>Por quê? Provavelmente porque nossa reputação ou caráter foram postos</p><p>em dúvida. Mais uma vez, o orgulho é a causa da ira.</p><p>Ficamos com ira quando não conseguimos o que queremos. Isso é</p><p>comum nas crianças, mas também acontece com os adultos. Muitas vezes,</p><p>no casamento, o cônjuge de personalidade e gênio mais fortes quer dar “as</p><p>cartas” o tempo todo, mesmo às custas da vontade ou do bom senso do</p><p>outro. Quando esse cônjuge não consegue facilmente o que quer, sua</p><p>tendência é �car com ira.3 Situação parecida também pode ocorrer na igreja</p><p>ou até mesmo em organizações cristãs. Muitas vezes, uma pessoa enérgica e</p><p>mandona quer exercer controle e �ca brava ao encontrar oposição. Em</p><p>todos esses exemplos, o egoísmo é a causa da ira. “A coisa tem de ser feita</p><p>do meu jeito.”</p><p>Ficamos com ira em reação à ira de alguém. O marido chega em casa</p><p>esperando encontrar o jantar pronto. Se isso não acontece, ele �ca nervoso,</p><p>e sua ira se revela de forma explosiva num monte de palavras grosseiras.</p><p>Embora não verbalize nada, a esposa também �ca com ira, nutrindo</p><p>ressentimento e fervilhando por dentro. A ira da esposa é tão pecado</p><p>quanto a do marido. O homem leva uma tremenda bronca do chefe,</p><p>possivelmente na frente dos colegas. Ele não pode revidar à altura, mas,</p><p>igual à infeliz esposa, ele também é consumido pelo ressentimento.</p><p>Essas situações hipotéticas não têm o objetivo de justi�car as ações do</p><p>marido nem do chefe. Sem dúvida, são erradas. No entanto, somos nós que</p><p>decidimos como reagir às más atitudes dos outros para conosco. Considere</p><p>as orientações de Pedro aos escravos que eram maltratados por donos cruéis</p><p>e injustos nas igrejas do primeiro século. De acordo com o pensamento</p><p>dominante em nossos dias, a ira desses escravos seria justi�cada, mas Pedro</p><p>admoestou:</p><p>Servos, sujeitai-vos com todo temor aos vossos senhores, não somente aos bons e gentis, mas</p><p>também aos maus. Pois digno de louvor é o fato de alguém suportar tristezas, sofrendo</p><p>injustamente, por causa da consciência para com Deus. Pois que mérito há em ter de suportar</p><p>sofrimento se cometeis pecado e sois esbofeteados por isso? Mas se suportais sofrimento quando</p><p>fazeis o bem, isso é digno de louvor diante de Deus (1Pe 2.18-20).</p><p>As orientações</p><p>de Pedro aos escravos são uma aplicação especí�ca de um</p><p>princípio bíblico mais abrangente: nossa reação a qualquer tratamento</p><p>injusto deve ter em vista a “consciência para com Deus”. Isso signi�ca levar</p><p>em conta a vontade e a glória de Deus. Como Deus espera que eu reaja</p><p>nesta situação? Creio que esta situação difícil, ou este tratamento injusto,</p><p>está sob o controle soberano de Deus e que, em sua in�nita sabedoria e</p><p>bondade, ele está usando as circunstâncias para me deixar mais parecido</p><p>com Cristo? (v. Rm 8.28; Hb 12.4-11.)</p><p>Sou realista o bastante para saber que, no calor da emoção de uma</p><p>situação estressante, não checaremos uma lista de questões como as</p><p>mencionadas no parágrafo acima. Todavia, podemos e devemos criar o</p><p>hábito de pensar assim. Muitas vezes a nossa reação imediata a uma atitude</p><p>injusta é �car louco da vida com a pessoa. É o meu caso, não nego. Mas,</p><p>logo após o episódio, temos o poder de decidir se vamos acalentar a bronca</p><p>ou re�etir nas questões que apresentei, e permitir que o Espírito Santo</p><p>dissipe nossa ira.</p><p>Sei que existem centenas de outras circunstâncias e atitudes de terceiros</p><p>que nos tentam a �car furiosos. No entanto, não podem nunca ser a causa</p><p>de nossa ira. O motivo está sempre em nossos corações, geralmente como</p><p>resultado de nosso orgulho ou egoísmo.</p><p>É provável que haja exceções que provem a regra, mas, fora isso, é seguro</p><p>dizer que todos nós nos enraivecemos de vez em quando. A questão é como</p><p>lidamos com a situação. Algumas pessoas exteriorizam a ira com palavras</p><p>agressivas, maldosas. Outras agem de maneiras mais sutis, fazendo</p><p>comentários depreciativos ou sarcásticos sobre a pessoa que as enfureceu.</p><p>Existem também aquelas que internalizam a ira em forma de</p><p>ressentimento. Todas essas expressões de ira são pecado.</p><p>Como, então, lidar com a ira de um modo que honre a Deus? Primeiro,</p><p>temos de reconhecer e confessar nossa ira e o pecado que nela existe. Não</p><p>há como lidar com a ira sem admitir sua existência. A seguir, temos de nos</p><p>perguntar por que estamos com ira. É por orgulho, egoísmo ou algum ídolo</p><p>que adulamos em nosso coração? Se esse for o caso, temos de nos</p><p>arrepender não apenas da ira, mas também do orgulho, do egoísmo e da</p><p>idolatria.</p><p>Após lidarmos de modo positivo com a expressão de nossa ira por meio</p><p>do reconhecimento e do arrependimento, é necessário mudar nossa atitude</p><p>em relação à pessoa ou às pessoas cujas palavras ou ações engatilharam</p><p>nossa ira. Da caneta de Paulo vêm estes versículos que devem nos orientar:</p><p>[...] sede bondosos e tende compaixão uns para com os outros, perdoando uns aos outros, assim</p><p>como Deus vos perdoou em Cristo (Ef  4.32).</p><p>E mais:</p><p>[...] suportando e perdoando uns aos outros; se alguém tiver alguma queixa contra o outro, assim</p><p>como o Senhor vos perdoou, também perdoai (Cl 3.13).</p><p>Se demos vazão à ira, também temos de buscar o perdão de quem</p><p>magoamos.</p><p>Por último, precisamos entregar a Deus a situação que ocasionou a nossa</p><p>ira. Isso é particularmente verdadeiro quando somos objetos da ira de outra</p><p>pessoa, ou quando somos injustiçados por um chefe, um marido arrogante,</p><p>ou quando alguém nos maltrata. Para desvanecer as emoções pecaminosas,</p><p>temos de crer que Deus é soberano em todos os acontecimentos de nossa</p><p>vida (tanto os “bons” quanto os “ruins”) e que todas as palavras e atitudes</p><p>que nos enfurecem estão, de algum modo, incluídas em seus bons e sábios</p><p>propósitos de nos tornar mais parecidos com Jesus. Precisamos reconhecer</p><p>que qualquer situação que nos tenta à ira pode levar-nos ou ao pecado, ou a</p><p>Cristo e seu poder santi�cador.</p><p>No início deste capítulo, reconheci que a ira é um assunto complexo e que</p><p>fazer uma análise dela de maneira abrangente está acima do propósito deste</p><p>livro. Mas espero ter ajudado todos nós a entender que quase toda a ira que</p><p>sentimos é pecado e, mesmo que a desculpemos e toleremos em nosso viver,</p><p>não é aceitável diante de Deus. Antes de encerrar o assunto, há mais um</p><p>aspecto da ira que precisamos considerar.</p><p>Ira contra Deus</p><p>Já conheci muitos cristãos que estão com ira de Deus por algum motivo.</p><p>Alguns acham que Deus os decepcionou; outros pensam que Deus está</p><p>contra eles. Acabei de ler uma carta cujo remetente diz: “Muitas vezes achei</p><p>que Deus me deu um tapa na cara exatamente quando eu estava con�ando</p><p>nele.” Essa pessoa admitiu abertamente estar com ira de Deus, pois concluiu</p><p>que ele só podia estar com ira dela.</p><p>O que diremos às pessoas que estão sofrendo demais e acham que Deus</p><p>as abandonou ou que até mesmo está contra elas? É pecado �car com ira de</p><p>Deus? A psicologia moderna diria que não. “Simplesmente despeje tudo em</p><p>Deus”. Li esta a�rmação em algum lugar: “Pode �car zangado com Deus.</p><p>Ele é grandinho. Ele aguenta �rme.” A meu ver, isso é pura blasfêmia.</p><p>Quero a�rmar em alto e bom som que nunca é correto �car com ira de</p><p>Deus. Ira é um julgamento moral, e, no caso de Deus, é acusá-lo de fazer</p><p>algo errado. É acusá-lo de pecar contra nós por abandono ou de nos tratar</p><p>injustamente. Geralmente também acontece porque achamos que Deus nos</p><p>deve algo melhor do que temos recebido na vida. Assim, colocamos Deus</p><p>no banco dos réus de nosso próprio tribunal. Lembro-me de um homem</p><p>que, ao ver a mãe morrendo de câncer, desabafou: “Depois de tudo o que</p><p>minha mãe fez para Deus, esse é o agradecimento que ela recebe.” Sem</p><p>levar em consideração que Jesus sofreu agonia indescritível para redimir a</p><p>mãe de seus pecados e poupá-la de passar a eternidade no inferno, o</p><p>homem achava que Deus também lhe devia proporcionar vida melhor na</p><p>terra.</p><p>Admito que os cristãos podem ter, e têm, momentos de ira contra Deus.</p><p>Eu mesmo já senti isso. No entanto, é necessário reconhecer de imediato</p><p>que essas ocorrências são pecados dos quais devemos nos arrepender.</p><p>Como, então, podemos lidar com o impulso de �car com ira de Deus?</p><p>Temos de “engolir” as emoções e vivermos um tanto alienados de Deus?</p><p>Não, essa solução não é bíblica. Primeiro, como eu disse antes (veja o</p><p>capítulo 8), a resposta �rma-se na con�ança total e absoluta no amor, na</p><p>soberania e na sabedoria de Deus. Segundo, devemos, em humildade e</p><p>con�ança, entregar a Deus nossa confusão e perplexidade. Podemos orar da</p><p>seguinte maneira:</p><p>Deus, eu sei que o senhor me ama, e também sei que muitas vezes as suas atitudes estão acima da</p><p>minha compreensão. Reconheço que estou confuso porque não tenho evidências de seu amor por</p><p>mim. Ajude-me, no poder do Espírito, a con�ar no senhor e a não ceder à tentação de �car com</p><p>ira do senhor.4</p><p>Lembre-se também de que nosso Deus é perdoador. Até mesmo nossa</p><p>ira contra ele, que considero um pecado grave, foi paga por Cristo com sua</p><p>morte na cruz. Se você abriga ira contra Deus em seu coração, convido-o —</p><p>não, insisto — que você se aproxime dele em arrependimento, e</p><p>experimente o poder puri�cador do sangue de Cristo derramado na cruz</p><p>por você.</p><p>Acho que muitos cristãos vivem em estado de negação quanto à ira.</p><p>Sabem que mergulham em pensamentos e sentimentos negativos em</p><p>relação a alguém que os desagradou, porém não veem isso como ira,</p><p>especialmente como ira pecaminosa. Enfatizam o erro da outra pessoa, mas</p><p>justi�cam suas próprias ações. Não enxergam o próprio pecado. Como</p><p>resultado, a ira é “aceitável” aos seus olhos. Não acham que têm de lidar</p><p>com ela. Oro para que Deus se agrade em usar este capítulo para ajudar a</p><p>todos nós a reconhecer nossa ira como pecado, seja ocasional ou frequente,</p><p>e a lidar com ela de modo apropriado.</p><p>1Robert D. Jones. Uprooting Anger. Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 2005, p. 13.</p><p>2Sou profundamente agradecido a Robert Jones por esses conceitos, embora não os tenha citado ao pé</p><p>da letra.</p><p>3Entendo que os princípios bíblicos do casamento ensinados por Paulo e Pedro em Efésios 5.22,23 e</p><p>1Pedro 3.1-7 devem reger situações assim, mas estou falando da ira que resulta da desobediência a</p><p>esses princípios.</p><p>4Reconheço novamente que não me aprofundei no assunto.</p><p>P</p><p>or razões que explicarei em breve, precisamos analisar mais</p><p>profundamente a ira e os seus resultados turbulentos. É normal</p><p>pensarmos na ira tendo em vista</p><p>alguns episódios. Ficamos com ira, e</p><p>depois nos acalmamos. Às vezes pedimos desculpas à pessoa com que nos</p><p>enfurecemos, e outras vezes deixamos “passar batido”. Mas, de algum modo,</p><p>a outra pessoa, com ou sem pedido de desculpas, supera a postura defensiva</p><p>— seja ela uma contestação furiosa ou um ressentimento guardado na alma</p><p>— e a vida continua. O relacionamento foi arranhado, mas não desfeito.</p><p>Não é um jeito fantástico de viver com alguém, contudo é tolerável. Essa</p><p>parece ser a maneira de muitos cristãos enxergarem o pecado da ira.</p><p>Aceitam-na como parte da vida.</p><p>No entanto, a Bíblia não é tão complacente com a ira. Pelo contrário,</p><p>manda que seja eliminada de nossa vida (v. Ef 4.31; Cl 3.8). Se você</p><p>examinar esses versículos, descobrirá que, em cada um deles, a ira está</p><p>associada a pecados horríveis como amargura, reclamação, calúnia, maldade</p><p>e conversa obscena. Também está incluída na lista de pecados repugnantes</p><p>de 2Coríntios 12.20. É óbvio que a ira não anda bem acompanhada e</p><p>normalmente se associa ao que consideraríamos pecados sérios, podendo até</p><p>mesmo nos fazer cair em alguns deles.</p><p>Mas como entender o versículo que diz: “Irai-vos e não pequeis; não se</p><p>ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4.26 [���])? Paulo não está dando</p><p>permissão para sentirmos ira, e muito menos nos mandando �car com ira,</p><p>como o modo imperativo do verbo pode sugerir. Sabendo que sentimos ira,</p><p>Paulo está nos ensinando a lidar com ela. Basicamente está dizendo: “Não</p><p>se agarre à ira. Livre-se dela o mais rápido possível”. Este é o motivo do</p><p>esclarecimento: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira”.</p><p>Temos uma expressão idiomática que aconselha: “Corte o mal pela raiz”.</p><p>É isso o que Paulo nos manda fazer. Lide com sua ira imediatamente, mas,</p><p>acima de tudo, não vá dormir cheio de ira. Na melhor das hipóteses, ira é</p><p>pecado (com a rara exceção da ira legítima); na pior das hipóteses, ela dá</p><p>origem a pecados mais sérios.</p><p>Neste capítulo, analisaremos alguns resultados de longo prazo causados</p><p>pela ira; é o que chamo de “ervas daninhas da ira”. Escolhi esse título</p><p>porque erva daninha não é uma planta que desejamos cultivar. As ervas</p><p>daninhas da ira não são benignas; são nocivas. Envenenam nossa mente e a</p><p>mente das pessoas que nos cercam. Quais são algumas ervas daninhas que</p><p>brotam da fermentação da ira?</p><p>Ressentimento é ira guardada no peito. Ela brota no coração da pessoa</p><p>que foi maltratada e acha que não pode fazer nada a respeito da situação.</p><p>Um funcionário é injustiçado pelo chefe, mas não ousa enfrentá-lo, e</p><p>internaliza a ira em forma de ressentimento. Uma esposa talvez reaja da</p><p>mesma forma em relação ao marido controlador. Pode ser mais difícil lidar</p><p>com o ressentimento do que com a ira clara e evidente porque, em muitos</p><p>casos, a pessoa continua lambendo as feridas e relembrando a injustiça que</p><p>sofreu.</p><p>Amargura é ressentimento que se transformou em animosidade contínua.</p><p>Enquanto o ressentimento pode se dissipar com o tempo, a amargura</p><p>continua a crescer e apodrecer, aumentando o grau de indisposição. Por</p><p>deixarmos de lidar com a ira inicial, a amargura é quase sempre uma reação</p><p>de longo prazo a um erro real ou imaginário.</p><p>Um líder interveio numa situação que envolvia uma adolescente de sua</p><p>igreja. O pai da garota achou que o líder não soube lidar bem com a</p><p>circunstância. Em vez de tentar resolver a questão, o pai �cou com ira e, por</p><p>conseguinte, amargurado. Nas palavras do pastor, ele se “consumia em</p><p>amargura”. O pai disse ao pastor: “Eu perdoei aquele irmão, todavia não</p><p>quero mais papo com ele.” É evidente que ele não perdoou. O perdão</p><p>verdadeiro resulta em relacionamento restaurado, e não em animosidade</p><p>permanente. O homem estava consumido pela amargura, porém seu</p><p>farisaísmo não lhe permitia enxergar isso. Tudo o que conseguia ver era o</p><p>erro real ou imaginário cometido pelo líder, e o pai continuou acalentando a</p><p>amargura.</p><p>Como esse episódio ilustra, a amargura é um sentimento frequente na</p><p>igreja. Alguém é maltratado de alguma forma, ou acha que foi maltratado.</p><p>Em vez de buscar resolver a questão, a pessoa deixa o ressentimento</p><p>in�amar e transformar-se em amargura com o passar do tempo. Talvez a</p><p>pessoa tenha buscado resolver a questão, mas o oponente não quis saber de</p><p>conversa. Pode ser que tenha procurado um dos líderes da igreja, e este fez</p><p>pouco caso do assunto, e despediu-a deixando claro que o problema era todo</p><p>dela. Não importa se a desfeita foi real ou imaginada, a amargura nunca é</p><p>uma opção bíblica. Podemos ser magoados, e reconhecer que o fomos, sem</p><p>�car amargurados.</p><p>Certamente a amargura pode acontecer em qualquer relacionamento,</p><p>mas quase sempre acontece entre pessoas que deveriam se amar. Referi-me</p><p>à família da igreja. É isso o que somos. Somos irmãos em Cristo. Irmãos e</p><p>irmãs de famílias biológicas, porem, também �cam amargurados uns com os</p><p>outros. Um �lho ou uma �lha talvez ache que os pais gostem mais de outro</p><p>irmão do que dele, e sua percepção pode estar correta. Entretanto, se o �lho</p><p>é cristão, não deve abrigar esse sentimento a ponto de o rancor ser</p><p>transformado em amargura. Muitas vezes, irmãos adultos �cam</p><p>amargurados porque acham que saíram perdendo na divisão da herança da</p><p>família. Repetindo, a amargura não é uma opção para quem deseja seguir a</p><p>Cristo.1</p><p>Inimizade e hostilidade são palavras praticamente sinônimas e denotam</p><p>um nível mais elevado de má vontade ou animosidade do que o produzido</p><p>pela amargura. Enquanto a amargura pode, de certo modo, ser</p><p>acompanhada de comportamento civilizado, geralmente a inimizade ou a</p><p>hostilidade se mostra abertamente. Quase sempre a pessoa faz isso</p><p>denegrindo ou “descendo a lenha” no objeto de sua hostilidade. Além disso,</p><p>embora a amargura possa ser abrigada no coração, a inimizade ou a</p><p>hostilidade geralmente espalha seu veneno de modo a  atingir outras</p><p>pessoas.</p><p>Ódio (furor contra alguém) é mencionado várias vezes na Bíblia (v. Gn</p><p>27.41;50.15; Lv 19.18; Sl 55.3; Mc 6.19). Entendemos melhor a dimensão</p><p>da má vontade e da inimizade inferida na palavra ódio quando lemos os</p><p>dois textos de Gênesis na ���, que usa o termo rancor. Em todos os</p><p>versículos acima citados, a palavra é associada à vingança contra o objeto do</p><p>ódio. Por exemplo, Esaú passou a odiar Jacó e planejou matá-lo (Gn 27.41).</p><p>Os irmãos de José tiveram medo que o caçula os odiasse e quisesse se vingar</p><p>do mal que havia sofrido nas mãos deles (Gn 50.15). Lemos no Novo</p><p>Testamento que Herodes odiava João Batista e queria matá-lo (Mc 6.19).</p><p>É provável que nenhum de nós associe rancor com planos de assassinato.</p><p>Muitas vezes, contudo, pensamos em nos vingar de alguém que detestamos.</p><p>Não ousamos colocar nossos planos em ação, mas sentimos uma alegria</p><p>perversa em executá-los em nossa mente. Isso acontece até entre os</p><p>cristãos. Tanto é verdade que Paulo achou necessário escrever a exortação</p><p>de Romanos 12.19-21:</p><p>Amados, não vos vingueis a vós mesmos, mas dai lugar à ira de Deus, pois está escrito: A vingança</p><p>é minha; eu retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de</p><p>comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, se �zeres isso, amontoarás brasas sobre a cabeça</p><p>dele. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem.</p><p>Discórdia descreve con�ito visível ou confusão entre grupos, geralmente</p><p>entre facções, e não tanto entre indivíduos. É por isto que falamos em</p><p>“brigas na igreja” ou “rixas entre famílias”. A discórdia é sempre feia e</p><p>ultrapassa os limites dos pecados “intocáveis”, e obviamente não é nada</p><p>sutil. Apesar disso, eu a incluo porque, muitas vezes, ocorre entre cristãos</p><p>que se acham perfeitos e que nunca imaginam que suas atitudes ou palavras</p><p>furiosas contribuem para a discórdia. Na maneira de pensar desses cristãos,</p><p>a culpa é sempre dos outros.</p><p>As descrições dessas “ervas daninhas da ira” não pretendem se igualar às</p><p>de�nições dos dicionários, e também não foi minha intenção fazer distinção</p><p>clara entre elas. A terminologia não é importante aqui. Meu objetivo é que</p><p>entendamos que a ira guardada no peito, além de ser pecado, é</p><p>espiritualmente perigosa. Se</p><p>examinarmos bem essas ervas daninhas,</p><p>notaremos a intensi�cação da má vontade e do con�ito. A ira nunca é</p><p>estática. Se não for cortada pela raiz, transforma-se em amargura,</p><p>hostilidade e vingança. É por isso que Paulo advertiu: “Não se ponha o sol</p><p>sobre a vossa ira.”</p><p>Como, então, lidar com a ira antes que ela produza essas ervas nocivas?</p><p>Como cortar o mal pela raiz de modo que o sol não se ponha sobre ele?</p><p>Gostaria de apresentar três passos básicos.</p><p>Em primeiro lugar, temos de levar em conta a soberania de Deus em</p><p>todas as circunstâncias. Deus não instiga ninguém a pecar contra nós, mas</p><p>permite que isso aconteça, e a permissão tem sempre um objetivo —</p><p>geralmente é para que �quemos mais parecidos com Cristo. Quando os</p><p>irmãos de José pecaram de modo tão grave contra ele e o venderam à</p><p>escravidão, o rapaz não �cou amargurado, e até lhes explicou: “Não fostes</p><p>vós que me enviastes para cá, mas sim Deus” (Gn 45.8). Sei que José disse</p><p>isso quando já era a segunda pessoa mais importante do Egito, contudo suas</p><p>palavras eram verdadeiras desde o dia em que ele foi vendido como escravo</p><p>pelos irmãos. E, segundo a Bíblia, durante o tempo em que foi escravo na</p><p>casa de Potifar e �cou na cadeia por um crime que não havia cometido, José</p><p>nunca se mostrou amargurado. Na verdade, a Bíblia a�rma que ele realizou</p><p>muito bem suas obrigações (certamente esta não é a atitude de alguém</p><p>amargurado) e que era tão respeitado por Potifar e o carcereiro que os dois</p><p>lhe delegaram tarefas de grande responsabilidade.</p><p>Descobri que crer de coração na soberania de Deus é minha primeira</p><p>defesa contra a tentação de permitir que a ira domine meus pensamentos e</p><p>emoções. Se quero mesmo lidar com a tentação, preciso lembrar-me de que</p><p>as atitudes da outra pessoa (ou pessoas) que despertaram minha ira estão</p><p>sob o controle absoluto de Deus. Embora as atitudes sejam erradas em si,</p><p>Deus irá usá-las em meu benefício, como José disse aos seus irmãos:</p><p>“Certamente planejastes o mal contra mim. Porém Deus o transformou em</p><p>bem” (Gn 50.20).</p><p>Como já observei, o bem talvez seja a oportunidade de �carmos mais</p><p>parecidos com Cristo. Mas pode ser que Deus tenha outros objetivos em</p><p>mente, como o de nos preparar para tarefas maiores. Talvez nunca</p><p>saibamos por que Deus permitiu uma situação que fez despertar nossa ira.</p><p>Importa saber que, por mais difícil que seja a circunstância, e por mais forte</p><p>que seja a tentação de explodir de ira, Deus tem o nosso bem em vista.</p><p>Re�etir seriamente nesta grande verdade — a soberania de Deus — é meu</p><p>primeiro passo para desarmar a ira.</p><p>Em segundo lugar, devemos pedir que Deus nos capacite a crescer em</p><p>amor. Em 1Pedro, uma carta que instiga os leitores a buscarem santidade,</p><p>mesmo em tempos difíceis, o apóstolo continua enfatizando a importância</p><p>do amor fraternal — ou seja, do amor entre os cristãos. Por exemplo, Pedro</p><p>incentiva: “Antes de tudo, tende profundo amor uns para com os outros,</p><p>porque o amor cobre um grande número de pecados” (4.8).</p><p>Pedro está dizendo que o amor nos capacita a ignorar um monte de</p><p>atitudes erradas das outras pessoas. Se alguém nos esnoba ou envergonha</p><p>ou aborrece, o amor nos capacita a ignorar tudo isso. Lembre-se de que nós</p><p>decidimos como reagir ao erro real ou imaginário das outras pessoas. A</p><p>frase “cortar o mal pela raiz”, que já usei duas vezes neste capítulo, se aplica</p><p>de modo especial aqui. Embora o amor talvez não “cubra” alguns pecados</p><p>signi�cantes contra nós, certamente cobre muitos erros comuns.</p><p>Quando o esposo mandão volta do trabalho, encontra a casa bagunçada e</p><p>vê que o jantar ainda não está pronto, ele tem poder de consentir que o</p><p>amor cubra a situação. De fato, se seguir o caminho do amor, além de</p><p>ignorar o que lhe desperta a ira, o marido arregaçará as mangas e ajudará a</p><p>esposa. Ele seguirá o exemplo de Jesus que, mesmo sabendo que era Deus,</p><p>realizou a tarefa mais servil daquela época — lavou os pés dos discípulos ( Jo</p><p>13.2-15).</p><p>Devemos amar uns aos outros com profundo amor; ou seja, perseguir o</p><p>amor com diligência. O amor que ignora as ofensas não aparece do nada. É</p><p>resultado de nossa dependência total do Espírito Santo.</p><p>O apóstolo Paulo repete as palavras de Pedro quando escreve: “[O amor]</p><p>não se enfurece” (1Co 13.5). Essa é uma a�rmação sobre a qual todos nós</p><p>devemos re�etir. Você �ca com ira facilmente? Alguém consegue arruinar</p><p>seu dia com um sarcasmo de nada? Ou você, por amor a quem fez o</p><p>comentário, consegue “cobrir” o sarcasmo? É provável que não haja nada</p><p>mais corrosivo nos relacionamentos interpessoais do que a língua</p><p>descontrolada (v. Tg 3.5-10). No capítulo 19, abordaremos esse assunto do</p><p>ponto de vista do orador, mas, por enquanto, vamos nos concentrar em</p><p>nossa resposta às palavras de terceiros.</p><p>Existe um velho ditado que a�rma: “Paus e pedras podem quebrar meus</p><p>ossos, mas as palavras não me atingem.” Sabemos que isso não é verdade.</p><p>Palavras maldosas nos atingem, especialmente se são ditas por alguém</p><p>chegado a nós. Contudo, nós decidimos se elas irão nos deixar com ira.</p><p>Podemos absorver a mágoa como fato real sem �carmos zangados com a</p><p>pessoa que nos maltratou. Mas, para isso, temos de amar a pessoa</p><p>profundamente.</p><p>Paulo também a�rma: “[O amor] não guarda ressentimento do mal”</p><p>(1Co 13.5). Você costuma arquivar na mente os erros cometidos contra sua</p><p>pessoa? Esse é o caminho certo para a amargura. A a�rmação: “Perdoei,</p><p>mas não consigo esquecer” não é verdadeira. Se vivemos relembrando</p><p>velhas mágoas, coisas que aconteceram há anos ou meses, não perdoamos</p><p>de verdade. Só estamos alimentando a amargura. Não se enfurecer signi�ca</p><p>parar de lembrar o erro a nós mesmos ou à outra pessoa. Isso não signi�ca</p><p>que apagamos o sofrimento de nossas mentes. Não há como fazer tal coisa.</p><p>Signi�ca que tomamos a decisão de não falar no assunto e nem �car</p><p>lambendo as feridas. Também quer dizer que, se a questão surgir em nossa</p><p>mente, talvez engatilhada por outro incidente, é rejeitada logo de cara. Não</p><p>lhe damos a chance de se fortalecer.</p><p>Em terceiro lugar, é preciso aprender a perdoar como Deus nos tem</p><p>perdoado. O texto bíblico que mais me ajuda a praticar o perdão é a</p><p>parábola do servo ingrato (Mt 18.21-35). Jesus contou a parábola como</p><p>resposta à pergunta de Pedro: “Senhor, até quantas vezes deverei perdoar</p><p>meu irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?” (v. 21), que signi�ca</p><p>perdoar tantas vezes quanto ele pecar, e sabemos bem quantas vezes a</p><p>pessoa peca contra nós. É a partir disso que Jesus conta a parábola do servo</p><p>implacável. No entanto, a história não deixa claro quantas vezes temos de</p><p>perdoar, todavia mostra claramente a base para perdoarmos uns aos outros.</p><p>A parábola conta que o servo de um rei lhe devia 10 mil talentos. Um</p><p>talento valia 6 mil denários. Deixando a matemática de lado, o servo devia o</p><p>equivalente a duzentos mil anos de salários de um trabalhador comum.</p><p>Algo entre 6 a 8 bilhões de dólares no atual mercado de trabalho. Jesus</p><p>costumava usar hipérboles para enfatizar um ensino, e foi o que fez aqui. O</p><p>servo de um rei jamais acumularia tal dívida, mas iremos ver por que Jesus</p><p>usou uma quantia tão grande de dinheiro.</p><p>O servo implorou que o rei tivesse paciência e desse tempo para ele pagar</p><p>o que devia. Isso era puro sonho do homem. Ele nunca conseguiria pagar</p><p>tamanha dívida. O rei, então, �cou com pena do servo e perdoou a dívida.</p><p>Ao se retirar da presença do rei, o servo encontrou um colega que lhe</p><p>devia cem denários — quantia que representava quatro meses de trabalho,</p><p>ou, nas contas de hoje, de 10 a 15 mil dólares. O segundo servo também</p><p>implorou paciência, mas o servo que acabara de ter uma dívida de, no</p><p>mínimo, 6 bilhões de dólares perdoada, se recusou a perdoar e jogou o outro</p><p>na prisão.</p><p>A chave da parábola está na enorme diferença entre as duas dívidas: mais</p><p>de 6 bilhões de dólares contra 10 ou 15 mil dólares. Esta última quantia não</p><p>é desprezível nem mesmo para nós hoje. Mas para os discípulos que</p><p>ouviram a parábola diretamente de Jesus, os 15 mil dólares causariam mais</p><p>impacto porque representavam quatro meses de trabalho.</p><p>A primeira soma de dinheiro</p><p>representa nossa dívida moral e espiritual</p><p>com Deus. Embora no relacionamento mestre/servo daquela época os 6 ou</p><p>8 bilhões de dólares tenham sido um exemplo exagerado [hipérbole], em</p><p>nosso relacionamento com Deus a quantia é uma representação acurada de</p><p>nossa dívida com ele. Não importa o quanto sejamos íntegros e espirituais,</p><p>nossa dívida com Deus é enorme. O estrago que nossos pecados causam à</p><p>glória de Deus não é determinado pela severidade do erro, mas pelo valor</p><p>da glória do Senhor.</p><p>Se eu derramar tinta escura indelével num tapete que você comprou num</p><p>brechó qualquer, foi mal. Mas se eu derramar o mesmo tipo de tinta num</p><p>tapete persa caríssimo, aí é ruim demais. Por quê? Meu ato é o mesmo e a</p><p>tinta também é a mesma, porém existe uma enorme diferença entre os</p><p>preços dos tapetes. O tamanho do estrago não é determinado pelo tamanho</p><p>das manchas de tinta nos tapetes, e sim pelos respectivos valores de cada</p><p>um.</p><p>É assim que temos de avaliar nosso pecado contra Deus. Cada pecado</p><p>que cometemos, não importa seu valor aos nossos olhos, é uma agressão à</p><p>glória in�nita de Deus. Mesmo que um tapete custe milhões de dólares, a</p><p>quantia não é nada em comparação ao valor da glória de Deus. Portanto,</p><p>todos nós estamos representados no servo que devia 10 mil talentos. Jamais</p><p>conseguiremos pagar nossa dívida com Deus.</p><p>Voltemos à parábola. O que aconteceu com os bilhões de dólares que o</p><p>primeiro servo devia? O rei simplesmente esqueceu a história toda? Não</p><p>houve prejuízo �nanceiro? Claro que houve. No momento em que o rei</p><p>perdoou a dívida, seu patrimônio líquido sofreu uma redução de 6 a 8</p><p>bilhões de dólares. O rei pagou um alto preço ao perdoar a dívida do servo.</p><p>Da mesma forma, Deus pagou um alto preço ao nos perdoar. Custou-lhe</p><p>a morte de seu Filho. Não há como avaliar o preço dessa morte, contudo</p><p>Deus o pagou para que fôssemos perdoados da enorme dívida espiritual que</p><p>tínhamos com ele.</p><p>A mensagem é clara. A dívida moral dos erros, das palavras infames e das</p><p>atitudes contra nós, não é nada comparada à nossa dívida com Deus. Não</p><p>estou diminuindo a seriedade das mágoas ou prejuízos que tenhamos</p><p>experimentado. Na parábola, os 10 ou 15 mil dólares eram muito mais do</p><p>que uma “vaquinha” feita no trabalho. Representavam quatro meses de</p><p>salário. E os erros que sofremos podem ter sido mais sérios que um</p><p>menosprezo qualquer ou uma fofoca maldosa. Podem ter causado grandes</p><p>prejuízos. Mas, em comparação ao prejuízo que todos nós causamos à glória</p><p>de Deus, não signi�cam nada.</p><p>A base para perdoarmos uns aos outros é, então, a enormidade do perdão</p><p>que Deus nos ofereceu. Devemos perdoar porque fomos perdoados</p><p>imensamente. Se não reconhecermos que somos devedores de dez mil</p><p>talentos a Deus, continuaremos lutando em perdoar aqueles que nos</p><p>causaram grandes prejuízos ou continuam a nos prejudicar.</p><p>No entanto, quando entendermos o quanto devemos a Deus porque</p><p>continuamos a pecar contra ele, conseguiremos lhe dizer quando formos</p><p>prejudicados: “Senhor Deus, fui bastante magoado, mas sou o devedor de</p><p>dez mil talentos. O pecado dessa pessoa não é nada em comparação ao meu</p><p>pecado contra o senhor. Como o senhor me perdoou, eu perdoo, de</p><p>coração, essa pessoa.”</p><p>Não estou dizendo que uma oração desse tipo, mesmo feita com</p><p>sinceridade, vai aplacar de imediato nossa ira. A carne não desiste tão</p><p>facilmente. Todavia, a atitude revelada na oração oferece-nos uma arma</p><p>com a qual podemos matar a ira.</p><p>Ao concluirmos este segundo capítulo sobre a ira, sei que tanto este</p><p>quanto o primeiro levantam questões ou objeções. Alguns leitores talvez</p><p>achem que ignorei assuntos complicados como pais ou cônjuges violentos,</p><p>ou algumas injustiças sistêmicas prevalecentes em nossa sociedade. Outros</p><p>talvez pensem: Ele não conhece a minha vida. Se conhecesse, não seria tão</p><p>bonzinho em suas respostas.</p><p>Gostaria de a�rmar que o propósito deste livro não é lidar com as várias</p><p>questões que desencadeiam nossa ira. E certamente não advo go que</p><p>sejamos cristãos “capachos”, permitindo que todo mundo nos esmague ou</p><p>tire proveito de nós. Há momentos em que temos de defender o que é certo</p><p>e justo. Contudo, não devemos pecar durante o processo. E é disso que</p><p>estou falando.</p><p>Meu objetivo nestes dois capítulos é que encaremos o fato de que grande</p><p>parte, se não a quase totalidade, de nossa ira é pecado, mesmo que seja</p><p>resultado das atitudes erradas de outras pessoas. Ao enfatizar o pecado da</p><p>ira, não estou menosprezando o pecado dos ofensores. Entretanto, o antigo</p><p>provérbio ensina: “Um erro não conserta o outro.” O pecado da outra</p><p>pessoa não “conserta” ou justi�ca o nosso pecado da ira. Ou como Tiago</p><p>a�rmou: “Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus” (1.20).</p><p>Além disso, acho que muito de nossa ira não é resultado de injustiças ou</p><p>erros importantes contra nós, mas é uma manifestação de nosso próprio</p><p>orgulho e egoísmo. Eu sofro constrangimento, aborrecimento e frustração</p><p>por causa das atitudes (ou inatividades) de outras pessoas, e �co com ira.</p><p>Embora existam muitas injustiças que merecem nossa ira legítima, não</p><p>devemos usá-la como desculpa para encobrir o pecado da ira que, muitas</p><p>vezes, surge em nossos corações e que, possivelmente, se mostra em nossas</p><p>palavras ou atitudes.</p><p>Mais uma vez, recomendo os três princípios ou práticas que me ajudam</p><p>muito: crença �rme na soberania de Deus; busca diligente do amor fraternal</p><p>que cobre uma multidão de pecados e não mantém uma lista dos erros; e a</p><p>percepção humilde que, em comparação ao pecado do meu irmão contra</p><p>mim, reconhece o débito de 10 mil talentos a Deus.</p><p>1Alguns leitores talvez se perguntem o motivo de eu ter me referido à frase “raiz de amargura” em</p><p>Hebreus 12.15 como uma advertência contra o pecado da amargura. A expressão é uma referência a</p><p>Deuteronômio 29.18 e à frase “raiz que produza veneno e fel”, que no texto fala de rebeldia interior,</p><p>no coração, contra Deus. Em Hebreus 12.15, o autor usa a expressão de Deuteronômio como</p><p>advertência contra a apostasia, e não contra a amargura produzida por ressentimento contínuo.</p><p>O</p><p>pecado de julgar os outros é um dos mais sutis entre os pecados</p><p>“intocáveis”, uma vez que quase sempre é praticado sob o disfarce de</p><p>zelo pelo que é certo. Sabemos que dentro dos círculos evangélicos</p><p>conservadores existem miríades de opiniões sobre tudo: teologia,</p><p>comportamento, estilo de vida e política. Além de termos opiniões</p><p>diferentes, geralmente pressupomos que nosso ponto de vista é o correto. É</p><p>aí que começa nosso problema de julgar as pessoas. Nossas opiniões e</p><p>verdade tornam-se a mesma coisa.</p><p>Claro que a mania de julgar não se restringe aos evangélicos</p><p>conservadores. A atitude permeia a sociedade e ocorre em todos os níveis.</p><p>Nos Estados Unidos, por exemplo, os ativistas pelos direitos dos animais</p><p>que incendeiam laboratórios de pesquisas médicas e os ecologistas fanáticos</p><p>que vandalizam estações de esqui estão extravasando suas críticas. A pessoa</p><p>que sentencia: “Jesus não teria dirigido um carro de luxo” faz um</p><p>julgamento, não porque Jesus teria dirigido um carro de luxo (essa não é a</p><p>questão), mas porque fez uma a�rmação dogmática e opinativa baseada</p><p>unicamente no que acha certo ou errado.</p><p>Cresci no meio do século ��, quando as pessoas caprichavam no visual</p><p>para ir à igreja. Os homens usavam terno e gravata, e as mulheres, vestido</p><p>ou saia. Lá pela década de 70, os homens começaram a aparecer na igreja</p><p>usando calça esporte e camisa de colarinho aberto, e as mulheres, de calça</p><p>comprida. Durante muitos anos, critiquei esse pessoal. Essa gente perdeu o</p><p>respeito por Deus? Aposto que não se vestiriam assim para uma audiência</p><p>com o presidente! Em minha opinião, o argumento era sólido.</p><p>Contudo, eu estava errado. A Bíblia não diz nada sobre a maneira de nos</p><p>vestirmos para ir à igreja. Quanto a “caprichar no visual” para um encontro</p><p>com o presidente, é uma questão de protocolo na capital federal. Se for</p><p>convidado a visitar o presidente enquanto ele estiver de férias na praia, é</p><p>provável que você apareça de bermudas e sandálias. Finalmente entendi que</p><p>reverência a Deus não</p><p>estado de negação de nosso pecado. Tratemos agora do</p><p>pecado e de nossa insistência em negar que ele existe em nosso viver.</p><p>E</p><p>m seu livro Whatever Became of Sin? [Que �m levou o pecado?], o</p><p>psiquiatra Karl Menninger escreveu:</p><p>Até mesmo a palavra — “pecado” — que parece ter sumido de entre nós, costumava ser orgulhosa.</p><p>Era uma palavra forte, sinistra e séria [...]. Mas a palavra saiu de cena. Quase desapareceu — a</p><p>palavra, juntamente com o conceito. Por quê? Ninguém mais peca? Alguém ainda acredita em</p><p>pecado?</p><p>Para enfatizar suas observações, o dr. Menninger a�rmou que, no</p><p>discurso presidencial americano do Dia Nacional da Oração, a última</p><p>menção ao termo pecado foi do presidente Eisenhower em 1953 — e suas</p><p>palavras vieram emprestadas de um chamado nacional à oração feito por</p><p>Abraham Lincoln em 1863! Portanto, como o dr. Menninger comentou,</p><p>“o�cialmente, como nação, deixamos de ‘pecar’ há uns vinte anos [agora</p><p>mais de cinquenta]”.1</p><p>Karl Menninger não é, de jeito nenhum, o único a pensar assim. Peter</p><p>Barnes escreveu em um artigo intitulado “What! Me? A Sinner?” [Como?</p><p>Eu? Pecador?]:</p><p>Na Inglaterra do século ��, C. S. Lewis explicou: “A barreira que mais encontro é a falta quase</p><p>total de algum senso de pecado em meus ouvintes”. Em 2001, D. A. Carson, estudioso do Novo</p><p>Testamento, a�rmou que o aspecto mais frustrante de pregar o evangelho em universidades é o</p><p>fato de, no geral, os alunos não terem noção de pecado. “Eles sabem pecar muito bem, mas não</p><p>conhecem a natureza do pecado.”2</p><p>Essas a�rmações simplesmente con�rmam o que parece óbvio a muitos</p><p>observadores: a noção geral de pecado quase desapareceu da sociedade.</p><p>Infelizmente, o conceito de pecado também tem desaparecido de muitas</p><p>igrejas. Marsha Witten, socióloga, analisou quarenta e sete gravações de</p><p>mensagens sobre o �lho pródigo (v. Lc 15.11-32) pregadas por pastores</p><p>batistas e presbiterianos. Em seu livro All Is Forgiven [Tudo está perdoado],</p><p>Witten escreve:</p><p>Como o conceito de pecado é tratado nas mensagens analisadas? Não deveria nos surpreender o</p><p>fato de muitos pastores terem di�culdade em falar sobre o pecado [...]. Como vemos nesses</p><p>exemplos, uma investigação mais detalhada dos sermões mostra como o conceito de “pecado” tem</p><p>sido trabalhado para não ferir o politicamente correto da sociedade. Embora algumas imagens</p><p>tradicionais de pecado sejam conservadas nesses sermões, a linguagem quase sempre poupa os</p><p>ouvintes de seu impacto, pois usa uma variedade de artifícios retóricos para abrandá-lo.3</p><p>É deste modo que Marsha Witten conclui assim o capítulo sobre o modo</p><p>de os pastores tratarem o pecado: “Nesses sermões, falar sobre pecado não é</p><p>articular insights teológicos sobre a depravação da natureza humana; parece</p><p>mais um estabelecimento de limites implícitos com o objetivo de separar</p><p>nosso grupo — que está acima de qualquer avaliação — das pessoas de fora</p><p>que são alvos de julgamento.”4</p><p>Vemos, então, que o conceito integral de pecado praticamente sumiu da</p><p>sociedade em geral, e tem sido abrandado em muitas igrejas para não ferir a</p><p>consciência moderna. Na verdade, as palavras severas que a Bíblia usa em</p><p>relação ao pecado foram banidas de nosso meio. As pessoas não adulteram</p><p>mais; elas têm casos. Os executivos não roubam; eles cometem fraude.</p><p>E como se comportam as igrejas evangélicas conservadoras? O conceito</p><p>de pecado também desapareceu de nosso meio? Não, não desapareceu,</p><p>contudo, em muitos casos, foi redirecionado para os que não fazem parte de</p><p>nosso meio e cometem pecados �agrantes como aborto, homossexualismo,</p><p>assassinato, ou os famosos crimes do colarinho branco do mundo</p><p>corporativo. É fácil condenarmos esses pecados óbvios enquanto ignoramos</p><p>nossos pecados de fofoca, orgulho, inveja, amargura, luxúria, ou até nossa</p><p>falta de qualidades amáveis que Paulo chama de fruto do Espírito (v. Gl</p><p>5.22,23).</p><p>Certo pastor convidou os homens da igreja para uma reunião de oração.</p><p>Em vez de orarem sobre as necessidades espirituais da igreja como o pastor</p><p>desejava, todos eles, sem exceção, oraram sobre os pecados da sociedade,</p><p>principalmente o aborto e a homossexualidade. Por �m, o pastor,</p><p>assombrado com a visível presunção dos fulanos, encerrou a reunião com a</p><p>famosa oração do cobrador de impostos: “Ó, Deus, tem misericórdia de</p><p>mim, um pecador” (Lc 18.13).</p><p>A atitude daqueles homens em relação ao pecado é prevalecente demais</p><p>nos círculos evangélicos conservadores. Claro que essa é uma observação</p><p>bem generalizada, e existem muitas boas exceções por aí. Entretanto,</p><p>parece que nos preocupamos mais com os pecados da sociedade do que com</p><p>os pecados dos santos. Na verdade, muitas vezes nos esbaldamos nos</p><p>pecados que chamo de “intocáveis” ou até “aceitáveis” sem termos qualquer</p><p>noção de pecado. A fofoca e as palavras indelicadas sobre um irmão ou irmã</p><p>em Cristo �uem de nossos lábios sem que tenhamos a mínima concepção</p><p>de pecado. Guardamos mágoas de um passado distante sem nenhum</p><p>esforço de perdoar como Deus nos perdoou. Lançamos nosso desdém</p><p>religioso sobre os “pecadores” sem nos lembrar, em humildade de alma, que,</p><p>se não fosse pela graça de Deus, estaríamos na mesma situação.</p><p>Ficamos indignados, e com razão, quando uma denominação muito</p><p>conhecida ordenou bispo um homossexual praticante. Mas por que também</p><p>não lamentamos nosso egoísmo, nosso espírito crítico, nossa impaciência e</p><p>nossa ira? É fácil livrar a própria cara dizendo que esses pecados não são tão</p><p>vergonhosos quanto os cometidos pela sociedade. Acontece que Deus não</p><p>nos deu autoridade para estabelecer graus de pecados. Pelo contrário, ele</p><p>a�rma por meio de Tiago: “Pois qualquer um que guarda toda a lei, mas</p><p>tropeça em um só ponto, torna-se culpado de todos” (2.10). Temos</p><p>di�culdade de entender esse versículo porque pensamos em termos de leis</p><p>individuais com suas respectivas punições. Mas a lei de Deus é indivisível. A</p><p>Bíblia não fala em leis de Deus, como se houvesse muitas, e sim em lei de</p><p>Deus como uma unidade. Quando alguém comete assassinato, quebra a lei</p><p>de Deus. Quando um cristão deixa que palavras corruptas (ou seja, que</p><p>devastam outra pessoa) saiam de sua boca (v. Ef 4.29), ele transgride a lei</p><p>de Deus.</p><p>No capítulo 1, reconheço que alguns pecados são mais graves do que</p><p>outros. Pre�ro ser culpado de lançar um olhar cobiçoso para uma mulher do</p><p>que cometer adultério com ela. Todavia, Jesus a�rmou que, ao lançar este</p><p>olhar, o adultério já aconteceu no coração. É melhor ter raiva de uma</p><p>pessoa a matá-la. Contudo, Jesus a�rmou que quem mata e quem se ira</p><p>contra o irmão serão de igual modo julgados (v. Mt 5.21,22). A verdade é</p><p>que todo pecado é sério porque todo pecado infringe a lei de Deus.</p><p>O apóstolo João escreveu: “O pecado é rebeldia contra a lei” (1Jo 3.4).</p><p>Todo pecado, até mesmo aquele que achamos insigni�cante, é rebeldia</p><p>contra a lei. Não se trata apenas de descumprimento de um único</p><p>mandamento; é total desrespeito pela lei de Deus, é rejeição deliberada ao</p><p>seu padrão moral em favor dos nossos próprios desejos. Quando avaliamos</p><p>as leis civis, fazemos grande distinção entre um “cidadão cumpridor da lei”</p><p>que comete uma eventual infração de trânsito e aquele que vive “sem lei”</p><p>em total menosprezo e absoluto desrespeito por todas as leis. Entretanto,</p><p>parece que a Bíblia não faz essa distinção. Pelo contrário, simplesmente</p><p>a�rma que o pecado — ou seja, todo e qualquer pecado — é rebeldia.</p><p>Na cultura grega antiga, pecado signi�cava “errar a marca”, isto é, não</p><p>acertar o alvo em cheio. Assim, pecado era considerado um erro de cálculo</p><p>ou um insucesso numa tarefa. Esse conceito é bastante válido ainda hoje</p><p>quando, por exemplo, alguém se arrepende verdadeiramente de um pecado</p><p>e busca se livrar dele, mas fracassa repetidamente. A pessoa continua</p><p>querendo acertar o alvo em cheio, mas não consegue. Os pecados</p><p>normalmente não resultam de fracassos em nossas tarefas, mas de um</p><p>anseio interior de satisfazermos nossos desejos. Como disse Tiago: “Cada</p><p>um é tentado quando atraído e seduzido por seu próprio desejo” (1.14).</p><p>Fofocamos ou cobiçamos por causa do prazer pecaminoso que isso nos dá.</p><p>é questão de vestimenta; é questão de coração. Jesus</p><p>a�rmou que os verdadeiros adoradores são aqueles que adoram o Pai em</p><p>espírito e verdade (v. Jo  4.23). É verdade que a roupa displicente talvez</p><p>revele displicência para com Deus, mas não tenho como avaliar isso. Assim,</p><p>não posso atribuir irreverência baseado apenas na roupa da pessoa.</p><p>Na minha época, também se cantavam os bons e velhos hinos</p><p>acompanhados de piano e órgão. Era majestoso. A meu ver, era um culto</p><p>reverente a Deus. Hoje, na maioria das igrejas, esses hinos foram</p><p>substituídos pela música contemporânea, e o piano e órgão deram lugar a</p><p>guitarras e baterias. De novo, critiquei. Como essa gente pode louvar a</p><p>Deus com esses instrumentos? Acontece que as igrejas do Novo Testamento</p><p>não tinham nem piano nem órgão, e mesmo assim louvavam a Deus com</p><p>salmos, hinos e cânticos espirituais (v. Cl 3.16). Ainda pre�ro os hinos que</p><p>cantávamos na minha juventude, mas é só isto — preferência — não é</p><p>convicção baseada na Bíblia. Concordo que muitos cânticos</p><p>contemporâneos são vazios e centrados nos homens. Todavia, muitos</p><p>honram e glori�cam a Deus tanto quanto os nossos hinos tradicionais.</p><p>Portanto, vamos deixar as críticas de lado.</p><p>Tratamos algumas de nossas convicções como se fossem verdades</p><p>bíblicas. Escrevi em outro capítulo que �nalmente havia entendido que a</p><p>Bíblia ensina moderação e não abstinência, na maioria dos casos. Também</p><p>tive de lidar com o assunto porque, de novo, me peguei criticando um irmão</p><p>em Cristo que bebia uma taça de vinho num restaurante. No entanto,</p><p>depois de ter dado meu parecer sobre moderação, recebi uma carta gentil,</p><p>mas enfática, de uma querida senhora, chamando-me a atenção. Ela estava</p><p>convencida de que eu havia abandonado uma das pedras fundamentais da</p><p>moralidade cristã. Entendo a preocupação da senhora, mas ela não me</p><p>apresentou nenhuma evidência bíblica. Tudo era convicção pessoal.</p><p>Não me entenda mal, por favor. Acho que, em virtude do abuso</p><p>difundido da bebida alcoólica hoje em dia, há bons motivos para a prática da</p><p>abstinência. Em outro contexto, eu defenderia a abstinência com unhas e</p><p>dentes, baseado nesses motivos. Mas este capítulo fala sobre a mania de</p><p>julgar, e estou dando alguns exemplos pessoais de como é fácil julgar os</p><p>outros em assuntos que a Bíblia não trata ou não trata com a clareza de que</p><p>gostaríamos.</p><p>O apóstolo Paulo atacou de frente esse problema em Romanos 14. Parece</p><p>que havia duas questões especí�cas que geravam críticas na igreja de Roma.</p><p>Uma era o vegetarianismo contra a mentalidade do “coma o que bem</p><p>quiser”. A outra questão estava relacionada à guarda de alguns dias</p><p>considerados santos. Segundo Paulo, “uma pessoa considera um dia mais</p><p>importante do que outro, mas outra julga iguais todos os dias” (Rm 14.5).</p><p>Parece que os vegetarianos andavam criticando quem comia de tudo</p><p>(especialmente carne), enquanto estes faziam pouco caso — provavelmente</p><p>desdenhavam — dos vegetarianos (veja v. 3). Os dois lados se criticavam</p><p>mutuamente. Os vegetarianos se achavam donos da verdade e olhavam com</p><p>desprezo religioso os que comiam de tudo. O outro lado se achava mais</p><p>instruído. Sabiam que Deus não estava preocupado com o que eles comiam,</p><p>desde que o alimento fosse recebido com gratidão (v. 1Tm 4.4). E assim</p><p>faziam críticas de um modo diferente.</p><p>O mesmo acontece hoje em dia. Os defensores da música contemporânea</p><p>desdenham dos que preferem os hinos tradicionais, chamando-os de</p><p>antiquados e ultrapassados. Um jovem pastor me disse: “Com nossa música,</p><p>vamos conquistar todos os jovens de sua igreja.” De modo inverso, são tão</p><p>críticos quanto os que preferem os hinos tradicionais. Isso também se aplica</p><p>à questão da moderação versus abstinência. Já observei cristãos que tratam o</p><p>consumo de bebida alcoólica como assunto de liberdade cristã desdenharem</p><p>de quem é abstêmio.</p><p>Meu argumento aqui é que não interessa que lado da questão</p><p>defendemos. É fácil criticar quem não pensa como pensamos e, depois,</p><p>encobrir o julgamento com a capa das convicções bíblicas.</p><p>A resposta de Paulo à situação em Roma foi: “Parem de julgar uns aos</p><p>outros, não interessa de que lado vocês estão”. E acrescentou: “Quem és tu,</p><p>que julgas o servo alheio? É para seu próprio senhor que ele está em pé ou</p><p>cai; mas estará �rme, pois o Senhor é poderoso para o �rmar” (Rm 14.4).</p><p>Basicamente, Paulo está mandando: “Parem de fazer o papel de Deus em</p><p>relação aos irmãos em Cristo. Deus é o Juiz, não vocês.”</p><p>É isso o que fazemos quando julgamos as pessoas que têm preferências e</p><p>práticas diferentes das nossas. Estamos usurpando um papel que Deus</p><p>reservou para si mesmo. Talvez seja a isso que Jesus se referia no conhecido</p><p>texto de Mateus 7.1-5 quando perguntou: “Por que vês o cisco no olho de</p><p>teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho?” Será que a</p><p>trave em nosso olho não é a da crítica, a da arrogância de usurparmos o</p><p>papel de Deus?</p><p>Mais uma vez, Jesus faz uso de hipérbole como forma de ensino.</p><p>Fisicamente, é impossível termos uma trave no olho. Mas assim como os</p><p>dez mil talentos da parábola do servo ingrato representam a verdadeira</p><p>dimensão de nosso pecado contra Deus, a trave no olho pode muito bem</p><p>representar seu veredito quanto ao nosso pecado de julgar os outros. Se</p><p>estou correto, então a seriedade do pecado da crítica não é tanto o fato de eu</p><p>julgar o meu irmão, mas o de assumir uma posição que pertence a Deus.</p><p>O que escrevi até agora não signi�ca que não devemos nunca julgar as</p><p>práticas e crenças dos outros. Se o estilo de vida ou o comportamento de</p><p>alguém é claramente oposto à Bíblia, então temos o direito de a�rmar que o</p><p>outro está pecando. Algumas práticas são abertamente condenadas pela</p><p>Bíblia. Veja, por exemplo, a descrição que Paulo faz em Romanos 1.24-32</p><p>da escorregadela moral para uma depravação absoluta. Ou leia sua descrição</p><p>sobre as “obras da carne” (Gl 5.19-21) ou as características dos “últimos</p><p>dias” (2Tm 3.1-5). Essas práticas são claramente pecaminosas. Quando as</p><p>julgamos dessa forma, estamos simplesmente concordando com a Bíblia. É</p><p>a Bíblia que está julgando, não nós.</p><p>Apesar disso, talvez pequemos mesmo julgando de acordo com a Bíblia.</p><p>Pecamos se julgarmos com superioridade, aspereza ou espírito de censura.</p><p>Pecamos se condenarmos os pecados obviamente �agrantes dos outros sem</p><p>reconhecermos, ao mesmo tempo, que continuamos pecadores diante de</p><p>Deus. Um dos maiores objetivos deste livro é nos ajudar a pôr um �m nisso.</p><p>Crítica doutrinária</p><p>Outra área em que escorregamos facilmente no espírito crítico é a que</p><p>envolve diferenças doutrinárias. Muitos cristãos não têm problemas nesse</p><p>aspecto porque, aos seus olhos, doutrina não é importante. Quando �rmei</p><p>minha posição contra o teísmo aberto — a crença de que Deus não conhece</p><p>e nem pode conhecer o futuro — um amigo me respondeu: “Por que perder</p><p>o sossego com picuinhas? Vamos simplesmente amar Jesus e viver em paz</p><p>uns com os outros.”</p><p>No entanto, a maioria de nós sabe que doutrina é importante; por</p><p>acreditarmos nisso, caímos facilmente no pecado da crítica. Por exemplo, a</p><p>doutrina da morte expiatória de Cristo por nossos pecados e a doutrina</p><p>complementar da justi�cação pela fé somente nele são vitais para mim. Em</p><p>doutrinas como essas, sou categórico e aviso: “Não abro mão. Nem mesmo</p><p>um dedinho, e ponto �nal!” Contudo, alguns escritores e professores que se</p><p>consideram evangélicos negam a morte expiatória de Cristo. Para eles, Jesus</p><p>não morreu em nosso lugar como pagamento de nossos pecados. Ele</p><p>aceitou a cruz simplesmente como um exemplo para seguirmos diante do</p><p>sofrimento. Outros subestimam a morte de Jesus na cruz e a�rmam que não</p><p>devemos nos concentrar na cruz de Cristo, mas em sua vida, e seguir seu</p><p>exemplo. Sempre que o tema de meu ensino ou palestra me permitir,</p><p>discordarei desse pessoal. E acho que estou certo em agir assim. Contudo,</p><p>confesso que, algumas vezes, caio no pecado da crítica. Discordo tanto do</p><p>que estão ensinando que chego a dizer que estão com o diabo no corpo. E</p><p>acho que não sou o único culpado desse pecado. Já observei isso acontecer</p><p>entre outros</p><p>grupos de nossa comunidade evangélica. Por acreditarmos</p><p>tanto na importância da sã doutrina, acabamos nos tornando supercríticos</p><p>das pessoas de quem discordamos. Devemos expressar nossas divergências,</p><p>sem, contudo, destruir a reputação do semelhante.</p><p>Espírito crítico</p><p>De vez em quando, quase todo mundo cai no pecado do julgamento.</p><p>Todavia, muitos dentre nós vivem julgando os outros. Essas pessoas têm o</p><p>que chamo de espírito crítico. Procuram e acham erros em todos e em tudo.</p><p>Não importa o tema da conversa — pessoa, igreja, evento, qualquer coisa</p><p>— acabam falando de modo depreciativo. Encontro muita gente assim, e</p><p>esse encontro não é nada agradável.</p><p>Mencionei em outros capítulos que alguns de nossos pecados aceitáveis,</p><p>tais como egoísmo, impaciência e ira, geralmente se manifestam com mais</p><p>liberdade junto à família do que em público, especialmente o público cristão.</p><p>A mesma coisa acontece em relação à crítica. Um cônjuge, seja o esposo,</p><p>seja a esposa, talvez viva encontrando defeito no outro, ou em um ou mais</p><p>dos �lhos. A pessoa que vive sendo criticada passa a achar que nunca faz</p><p>nada direito.</p><p>Um amigo, criado num lar cristão de classe média alta, con tou-me que</p><p>seu pai era supercrítico, especialmente em relação à �lha do meio. Aos</p><p>poucos, a menina se tornou uma pessoa que “não conseguia fazer nada</p><p>direito” — pelo menos é o que qualquer um pensaria ao ouvir as</p><p>repreensões severas que o pai lhe fazia. Entretanto, quanto mais ele</p><p>criticava sua postura, mais ela se encurvava. Quanto mais ele a criticava por</p><p>não olhar no rosto das pessoas, mais os olhos da garota se �xavam no chão.</p><p>Se o menosprezo recorrente do pai para “o próprio bem dela” deu algum</p><p>resultado, foi transformar em realidade as críticas dele. A menina entendeu</p><p>as críticas constantes do pai como rejeição, e passou a se ver como uma</p><p>rejeitada. Ao se tornar adulta, sua prioridade maior foi correr atrás de quem</p><p>a aceitasse, e os “amigos” logo descobriram como tirar vantagem de sua</p><p>necessidade de ser aceita. No leito de morte, o pai reconheceu seu pecado e,</p><p>em prantos, se arrependeu de ter criticado tanto a �lha. Mas era tarde</p><p>demais. Ninguém sabia, mas ela havia se tornado promíscua e viciada em</p><p>cocaína.</p><p>Esse é um exemplo drástico da natureza destruidora do espírito crítico e</p><p>julgador. E estamos cercados de evidências da malignidade desse pecado.</p><p>Dizem que são necessários sete elogios para que os resultados de uma crítica</p><p>sejam desfeitos. Assim, vamos dar uma boa examinada em nós mesmos;</p><p>melhor ainda, vamos nos colocar sob a lupa dos outros. Temos um espírito</p><p>crítico exacerbado? Vivemos descobrindo defeitos nos outros, especialmente</p><p>em nossos familiares ou membros de nossa igreja?</p><p>Acho que alguns de meus amigos mais queridos irão discordar de</p><p>algumas coisas que escrevi neste capítulo. Para muitos, a roupa que usamos</p><p>na igreja ou o tipo de cântico que entoamos não é questão de preferência.</p><p>Para eles, trata-se de convicção. Respeito a opinião deles e não quero, de</p><p>jeito nenhum, mudar suas convicções.</p><p>Gostaria de ser como Paulo, que tomou uma decisão parecida em relação</p><p>aos assuntos que causavam divisão entre os cristãos de Roma. Ele não</p><p>tentou mudar a cabeça de ninguém quanto ao que deviam comer ou quanto</p><p>aos dias que consideravam santos. Pelo contrário, Paulo a�rmou: “Cada um</p><p>esteja inteiramente convicto em sua mente” (Rm  14.5). Tal a�rmação</p><p>incomoda muitos de nós. Não gostamos de ambiguidades em questões de</p><p>práticas bíblicas. É difícil aceitarmos que a opinião de uma pessoa seja</p><p>diferente da nossa e que, mesmo assim, nós dois somos aceitos por Deus.</p><p>Mas é isso que Paulo a�rma em</p><p>Romanos 14. E se levarmos Paulo a sério e defendermos nossas convicções</p><p>em humildade, evitaremos o pecado de viver julgando os outros.</p><p>R</p><p>ecentemente �quei sabendo que uma amiga que escreveu tantos</p><p>livros quanto eu vive recebendo convites para dar palestras aos</p><p>quatro cantos do mundo. Ao ouvir isso, pensei com meus botões: Escrevi</p><p>tantos livros quanto ela. Por que não me fazem convites desse tipo? Fui tentado,</p><p>ainda que apenas rapidamente, a �car com inveja dela.</p><p>Inveja é a percepção dolorosa, e muitas vezes cheia de ressentimento, de</p><p>que alguém está usufruindo de algum privilégio. Às vezes queremos esse</p><p>mesmo privilégio, o que resulta no pecado da cobiça, e podemos acabar</p><p>�cando ressentidos com a pessoa que tem o que não temos. Mas não</p><p>invejamos as pessoas em geral. Normalmente a inveja nos tenta em duas</p><p>áreas. Primeiro, somos propensos a invejar as pessoas com quem mais nos</p><p>identi�camos. Segundo, somos propensos a invejá-las nas coisas que mais</p><p>valorizamos.</p><p>Minha amiga escritora se encaixa nessas duas áreas. Nós dois lutamos na</p><p>mesma arena — ensino e literatura, que é uma área que valorizo</p><p>muitíssimo. Nós dois temos usufruído muitas bênçãos em nosso trabalho,</p><p>mas nenhum de nós se tornou o que eu chamaria de um escritor ou</p><p>professor “famoso”. Assim, identi�co-me com ela como colega escritor e</p><p>professor de reputação mais ou menos comparável na área que me é mais</p><p>preciosa.</p><p>O que, então, instigou a inveja? O fato de a escritora usufruir um</p><p>privilégio que eu não tenho. Ela recebe todos esses convites para dar</p><p>palestras internacionais, enquanto eu não recebo praticamente nenhum. A</p><p>ironia é que não gosto de viajar para fora do país. Não gosto dos voos</p><p>longos, nem de passar pela imigração, nem de lidar com moeda estrangeira,</p><p>nem de reuniões com pessoas cujo idioma desconheço. Então, por que fui</p><p>tentado a invejar minha amiga? Porque ela estava sendo mais reconhecida</p><p>do que eu. Percebeu como a tentação da inveja é sutil?</p><p>Nunca sou levado a invejar músicos, nem artistas, nem empresários e</p><p>pro�ssionais bem-sucedidos. Admiro alguns deles, mas não os invejo. Seus</p><p>talentos e habilidades são completamente diferentes dos meus, então não</p><p>me comparo com eles. Mesmo nas áreas de ensino e literatura existem</p><p>tantos pro�ssionais que são claramente muito mais talentosos do que eu que</p><p>nunca me ocorreu invejá-los. Trabalham no mesmo campo que valorizo</p><p>muitíssimo, porém estão tão acima de mim que não me identi�co com eles.</p><p>Consideremos um jogador iniciante que sonha em um dia fazer parte de</p><p>um time pro�ssional. Ele não inveja os jogadores desse time, pois estão em</p><p>outra estratosfera. Talvez inveje um colega de time que esteja se destacando</p><p>mais do que ele, especialmente se achar que o colega está sendo favorecido</p><p>pelo treinador. Um corretor de seguros provavelmente não inveja um atleta</p><p>que ganha um salário colossal. Mas pode muito bem invejar um corretor</p><p>que venda mais seguros do que ele. É improvável que o pastor de uma</p><p>igreja pequena ou média inveje o pastor de uma megaigreja, mas será</p><p>tentado a invejar um pastor do mesmo bairro cuja igreja esteja crescendo</p><p>mais do que a sua. O motivo de sermos invejosos nessas situações é que</p><p>existem tantas semelhanças que as diferenças saltam aos olhos.</p><p>Pais invejam pais quando os �lhos destes são melhores alunos ou atletas</p><p>do que os seus ou quando têm melhores empregos, se os �lhos forem</p><p>adultos. Quem sabe, em nosso caso, não invejamos amigos que moram em</p><p>casas mais bonitas do que a nossa ou que dirijam carros mais luxuosos. As</p><p>causas da inveja são in�nitas. Sempre que nos comparamos com alguém em</p><p>uma situação melhor do que a nossa, deparamo-nos com a tentação de</p><p>invejá-lo. Talvez nem mesmo queiramos o que nossos vizinhos e amigos</p><p>possuem; simplesmente nos ressentimos porque eles possuem o que não</p><p>temos. Ao sermos tentados a ter inveja de alguém, é bom lembrarmos que a</p><p>inveja, embora nos pareça um pecado sutil e insigni�cante, faz parte dos</p><p>pecados odiosos que Paulo relaciona em Romanos 1.29 e Gálatas 5.21.</p><p>Ciúme</p><p>Ciúme e inveja são pecados bem semelhantes. Na verdade, geralmente</p><p>equiparamos os dois termos como sinônimos. Existe, porém, entre eles uma</p><p>tênue diferença que nos ajudará a enxergar, mais uma vez, como nossos</p><p>corações são pecadores. Ciúme é normalmente de�nido como intolerância</p><p>com os concorrentes. Existem situações em que o ciúme tem razão de ser,</p><p>como no caso de alguém estar tentando lhe roubar o cônjuge. Deus</p><p>chegou</p><p>a a�rmar que ele é um Deus zeloso [ciumento] que não tolera que</p><p>ninguém, nem nada, a não ser ele mesmo, sejam adorados (v. Êx 20.5).</p><p>Contudo, o ciúme pecaminoso ocorre quando receamos que alguém se</p><p>torne igual ou até mesmo superior a nós.</p><p>A Bíblia oferece vários exemplos em que o ciúme a�orou e, assim,</p><p>conseguimos ver que cara ele tem. No início da igreja cristã, quando as</p><p>autoridades judaicas ainda mandavam e desmandavam, Lucas conta que o</p><p>sumo sacerdote e os saduceus foram tomados de inveja dos apóstolos porque</p><p>mais e mais judeus estavam aceitando Cristo (v. At 5.17-18). Mais tarde,</p><p>durante o ministério de Paulo, Lucas registra que os judeus da Antioquia da</p><p>Pisídia se encheram de inveja de Paulo e Barnabé porque grandes multidões</p><p>se reuniam para ouvir a pregação de Paulo (v. At 13.44,45). A ilustração</p><p>bíblica clássica é o ciúme perverso que o rei Saul tinha de Davi. Depois que</p><p>Davi matou Golias, as mulheres de Israel cantaram: “Saul feriu milhares,</p><p>mas Davi dez milhares” (1Sm 18.7). Saul se enfureceu porque elas deram</p><p>mais honra a Davi do que a ele. Dali em diante, o rei passou a ver Davi</p><p>como um rival e teve inveja dele.</p><p>Nós também podemos �car enciumados se formos abençoados por Deus</p><p>em alguma área da vida ou do ministério e, de repente, alguém aparecer e</p><p>conseguir mais resultados do que nós. Imaginemos que o Bento, vendedor</p><p>de carro, tenha sido muito bem-sucedido, e nos últimos três anos ganhou o</p><p>troféu de melhor vendedor da concessionária. Mas um novo vendedor é</p><p>contratado e rapidamente ultrapassa o</p><p>Bento. O novato recebe os elogios e prêmios que antes iam para o Bento. É</p><p>bem provável que o Bento seja levado a ter ciúme do outro.</p><p>Situações assim acontecem o tempo todo. Sempre aparece alguém que é</p><p>mais jovem ou mais capacitado ou mais talentoso do que nós. Quando isso</p><p>acontece, a maioria de nós �ca enciumada. Não queremos que ninguém</p><p>mais usufrua do sucesso ou das bênçãos divinas que experimentamos.</p><p>Como, então, lidar com a tentação da inveja ou do ciúme? Primeiro,</p><p>podemos sempre, como em muitas outras áreas de pecados sutis, nos abrigar</p><p>na soberania de Deus. Precisamos reconhecer que é Deus quem nos</p><p>concede talentos, habilidades e dons espirituais. Se quisermos sair vitoriosos</p><p>no combate à inveja e ao ciúme, temos de colocar Deus em campo. Não</p><p>podemos esquecer que ele determina não apenas as nossas habilidades</p><p>como também o grau dessas habilidades e da bênção que ele irá conferir em</p><p>seu uso. Ao olharmos à volta, �ca claro que alguns vendedores de carro são</p><p>melhores do que outros.</p><p>Alguns pastores são excepcionalmente talentosos. Algumas pessoas são</p><p>mais habilidosas em trabalhar com as mãos na construção de coisas e nos</p><p>ofícios mecânicos. Não só existem talentos e dons diferentes como também</p><p>há uma ampla diversidade das bênçãos de Deus sobre esses talentos. Tudo</p><p>vem de Deus, que criou o pobre e o rico, que humilha e exalta (v. 1Sm 2.7).</p><p>É Deus quem humilha um e exalta outro (v. Sl  75.7). Precisamos</p><p>reconhecer que ter inveja e ciúme é tirar Deus de cena, ou então acusá-lo</p><p>de ser injusto.</p><p>Segundo, a arma contra a inveja e o ciúme é lembrar que todos nós</p><p>cristãos “somos um só corpo em Cristo e, individualmente, membros uns</p><p>dos outros”, ou como diz a ���, “cada membro está ligado a todos os outros”</p><p>(Rm 12.5). Assim, Paulo nos incentiva: “Pre�ram dar honra aos outros mais</p><p>do que a si próprios” (v.10 [���]). Em vez de termos inveja daqueles que</p><p>levam alguma vantagem sobre nós ou ter ciúme de quem está,</p><p>aparentemente, nos superando, vamos dar-lhe honra e aplaudi-lo, pois</p><p>somos todos membros do mesmo corpo em Cristo.</p><p>Terceiro, precisamos entender que se gastarmos energia emocional com</p><p>ciúme e inveja, perdemos de vista o que Deus pode realizar de especial em</p><p>nossas vidas. Usando uma metáfora do esporte, não existe a condição de ser</p><p>primeiro ou segundo reserva, nem de �car no banco enquanto os outros</p><p>jogam. Não; Deus tem uma posição e uma tarefa para cada um de nós</p><p>preenchermos. Concordo que algumas tarefas ganham mais aplausos do</p><p>que outras, mas todas são importantes no plano de Deus.</p><p>Competitividade</p><p>Coligado à inveja e ao ciúme encontramos o espírito de competitividade —</p><p>o desejo de ganhar sempre ou de ser o maioral em nossa área de atividade.</p><p>O ímpeto competitivo começa logo cedo na vida. As crianças geralmente</p><p>�cam muito contrariadas ou têm chiliques quando são derrotadas num</p><p>simples jogo infantil. Mas não são apenas as crianças que têm esse</p><p>problema. Já vi homens adultos, que sempre foram cristãos exemplares,</p><p>terem um ataque de nervos porque o time do �lho perdeu o jogo.</p><p>Competitividade é basicamente uma manifestação de orgulho. É o impulso</p><p>de vencer à custa dos outros. Certamente não é amar o próximo como a nós</p><p>mesmos.</p><p>Sei que estou mexendo com uma “vaca sagrada” de nossa cultura, pois</p><p>transformamos a competitividade em virtude. Ensinamos os �lhos</p><p>diretamente e pelo exemplo de que é bom ser competitivo, que é assim que</p><p>somos bem-sucedidos no mundo.</p><p>No entanto, questiono se o espírito de competição é uma virtude cristã.</p><p>Acredito que a ênfase bíblica está na virtude de fazermos o melhor que</p><p>pudermos (veja, por exemplo, 2Tm 2.15). No emprego, devemos trabalhar</p><p>de coração (v. Cl 3.23), que é outro modo de dizer: “Faça o seu melhor”.</p><p>Mas, claro, o “nosso melhor” não é igual para todo mundo. Algumas</p><p>pessoas foram abençoadas com maiores habilidades ou com mais</p><p>inteligência ou dons espirituais. Naturalmente, a glória de Deus — e não o</p><p>reconhecimento público — deve ser a motivação para fazermos tudo da</p><p>melhor maneira possível. O reconhecimento pode vir, mas não deve ser</p><p>nossa motivação.</p><p>Assim, Bento, o vendedor de carros, deve esforçar-se ao máximo para</p><p>vender carros de um modo que glori�que a Deus. Se o esforço �zer dele o</p><p>melhor vendedor da concessionária, o Bento não deve �car soberbo, mas</p><p>agradecer a Deus por tê-lo capacitado a chegar lá. Se o esforço o colocar em</p><p>terceiro, quarto ou em outra posição inferior no quadro de vendedores, ele</p><p>pode ter o consolo de saber que deu tudo de si.</p><p>Alguém talvez argumente que Paulo tacitamente apoiou o espírito</p><p>competitivo em 1Coríntios 9.24: “Não sabeis que entre todos os que correm</p><p>no estádio, na verdade, somente um recebe o prêmio? Correi de tal maneira</p><p>que o alcanceis.” Contudo, a analogia termina no prêmio. Numa maratona,</p><p>apenas um corredor vence e recebe o prêmio; mas, na vida cristã, todos nós</p><p>podemos receber o prêmio. Paulo não nos incentiva a competir contra</p><p>ninguém. O que ele está dizendo é: “Corram a maratona cristã com o</p><p>mesmo vigor que os maratonistas que competem pelo único prêmio.”</p><p>Gostaria de esclarecer que não sou contra as competições amistosas, mas</p><p>contra o espírito competitivo de quem sempre tem de vencer ou ser o</p><p>melhor. Acho até que a competição saudável faz muito bem, especialmente</p><p>às crianças e aos adolescentes, pois dá-lhes a chance de se esforçarem ao</p><p>máximo. Esse tipo de competição não se limita aos esportes. Por exemplo,</p><p>as feiras de ciência, os concursos musicais e os “soletrando” promovem</p><p>competição saudável. Mas não importa o campeonato, a pergunta que as</p><p>crianças ou os adolescentes e seus pais devem fazer não é: “Ganhamos a</p><p>prova?”, e sim: “Fizemos o nosso melhor?”</p><p>Vemos, assim, que existe um relacionamento íntimo entre inveja, ciúme e</p><p>competitividade. Ficamos com inveja de um colega mais bem-sucedido em</p><p>uma área que valorizamos muitíssimo. Ficamos com ciúme se alguém tenta</p><p>tirar o que é nosso. E esses dois sentimentos fomentam o espírito</p><p>competitivo que anuncia: “Tenho de vencer ou ser o número um em tudo.”</p><p>Todos esses comportamentos são resultantes do orgulho pecaminoso, de</p><p>pensarmos só em nós mesmos.</p><p>Controle</p><p>Inveja, ciúme e espírito competitivo podem ser agrupados em uma palavra:</p><p>rivalidade. Em lugar de vermos uns aos outros como membros participantes</p><p>do corpo de Cristo, é fácil vê-los como rivais contra quem estamos lutando.</p><p>Existe outro pecado sutil que podemos incluir nesse grupo. É o pecado de</p><p>tentar controlar os outros para nos darmos bem ou para conseguirmos o que</p><p>desejamos</p><p>Perguntei a</p><p>um pastor qual era o motivo do atrito entre um casal de sua</p><p>igreja. Sem hesitar, ele respondeu: “A esposa quer controlar tudo. Ela quer</p><p>que as coisas sejam sempre do seu jeito.” A ilustração não tem o objetivo de</p><p>jogar a culpa nas mulheres. Homens e mulheres têm competência para</p><p>serem controladores. Em todos os relacionamentos interpessoais contínuos,</p><p>há sempre alguém de personalidade mais forte ou mais dominante. Se essa</p><p>pessoa não tiver cuidado, acaba controlando o relacionamento. Isso não</p><p>ocorre somente nos casamentos, mas em qualquer situação em que duas ou</p><p>mais pessoas trabalham ou se divertem juntas. Observamos isso nas crianças</p><p>enquanto elas brincam. Geralmente uma delas quer fazer todas as escolhas,</p><p>e �ca zangada quando sua vontade é contrariada.</p><p>Notei essa mentalidade controladora em atividade numa igreja onde um</p><p>músico cheio de vontades era sempre contra as decisões do ministro de</p><p>música. Atitudes assim não são incomuns. Um amigo me contou que algo</p><p>semelhante aconteceu em sua igreja. Tenho outro amigo, ex-pastor e agora</p><p>missionário, que deixou uma igreja apenas seis meses depois de ser</p><p>empossado porque uma família mandona insistia em que as coisas fossem</p><p>feitas do seu jeito. Já vi isso acontecer até nos ministérios com estudantes</p><p>universitários.</p><p>O controlador usa todos os métodos para conseguir o que deseja. Um</p><p>desses métodos é dominar completamente o relacionamento pela pura força</p><p>de vontade, de tal modo que a outra pessoa (ou pessoas) sempre cede e</p><p>deixa o controlador fazer o que quer. Outro jeito é �car zangado quando</p><p>sua decisão é questionada ou quando seus desejos não são satisfeitos</p><p>imediatamente. Muitas vezes, quando o controlador não consegue</p><p>facilmente o que quer, ele recorre à manipulação. E a coisa pode ser feita de</p><p>modo a levar o outro a se sentir culpado ou incompetente. O marido</p><p>controlador diz algo assim: “Por que o jantar nunca �ca pronto na hora?”</p><p>quando, de fato, o jantar normalmente é servido na hora. A esposa</p><p>manipulativa talvez diga: “Você é igualzinho ao meu pai” (porque o pai nem</p><p>sempre lhe fazia as vontades). O músico que queria comandar o louvor na</p><p>igreja passou a denegrir o caráter do ministro de música.</p><p>É óbvio que o controlador quer as coisas sempre do seu modo. Em vez de</p><p>se sujeitar uns aos outros (v. Ef 5.21), existe uma ânsia de controlar uns aos</p><p>outros. Claro que isso é fruto do egoísmo. É difícil lidar com esse pecado</p><p>porque o controlador é o último a reconhecer essa tendência em sua vida.</p><p>Como a carne continua guerreando dentro de nós, ainda temos pontos</p><p>cegos de pecado — especialmente o pecado sutil — em nossas vidas.</p><p>Precisamos do poder convincente do Espírito Santo, e da ajuda de outras</p><p>pessoas para detectarmos esses pontos cegos. Incentivo-o a pedir que Deus</p><p>lhe abra os olhos para que você enxergue sua inclinação à inveja, ao ciúme</p><p>ou ao desejo de controlar os outros. Peça que familiares e amigos mais</p><p>chegados sejam honestos com você a esse respeito. Se você é do tipo</p><p>controlador, as pessoas talvez relutem em fazer isso por causa de seu</p><p>comportamento no passado. Assim você tem de mostrar humildade sincera</p><p>ao falar com elas. Depois, em vez de se defender — ou usar o que as</p><p>pessoas disseram contra elas mesmas — aja com sabedoria, aceite o que</p><p>disserem e peça que Deus o ajude.</p><p>Certa vez confrontei alguém em nosso ministério que era propenso a</p><p>controlar tudo (acho que fui a terceira pessoa a fazer isso). Em vez de me</p><p>ouvir, ele �cou uma fera e cortou relacionamento. Dali em diante, ele fazia</p><p>de tudo para me evitar. Faz anos que não o vejo; mas, pelo que sei, o</p><p>homem continua com o problema. Ele se recusou a encarar seu pecado.</p><p>Não faça isso. Não atravesse a vida acalentando inveja nem ciú me, nem</p><p>tentando ser sempre o primeiro ou forçando a barra para conseguir o que</p><p>deseja. Lembre: “Deus se opõe aos arrogantes, mas dá graça aos humildes”</p><p>(1Pe 5.5). Não se oponha a Deus.</p><p>D</p><p>urante os meses que tenho me dedicado a escrever este livro, sempre</p><p>alguém me pergunta: “Sobre o que você está escrevendo?” Quando</p><p>menciono pecados “intocáveis” ou “aceitáveis”, invariavelmente a pessoa</p><p>revira os olhos e responde: “Ah, coisas como a fofoca, imagino”. Parece que</p><p>esse é o primeiro pecado cristão que vem à mente, o que nos leva a concluir</p><p>que se trata de uma prática predominante entre nós, que continuamos a</p><p>tolerar em nossas vidas.</p><p>No entanto, por mais difundida que seja a prática da fofoca, ela está</p><p>longe de ser o único pecado da língua. Nessa categoria, devemos também</p><p>incluir a mentira, a difamação, as críticas (mesmo quando verdadeiras), as</p><p>palavras grosseiras, os insultos, o sarcasmo e a zombaria. Na verdade, temos</p><p>de a�rmar que qualquer conversa que humilhe alguém — seja a pessoa de</p><p>quem ou com quem estamos falando — é pecado da língua.</p><p>A Bíblia está repleta de advertências contra os pecados da língua. Só o</p><p>livro de Provérbios contém cerca de sessenta dessas advertências. Jesus</p><p>avisou que prestaremos conta de cada palavra inútil que proferirmos (veja</p><p>Mt 12.36). E não nos esqueçamos do conhecido texto de Tiago 3, que fala</p><p>sobre os efeitos malé�cos da língua. Tiago iguala esses efeitos a um</p><p>pequeno fogo que incendeia uma �oresta inteira, e a um membro que</p><p>contamina todo o corpo.</p><p>O versículo, porem, que mais tem me ajudado a lidar com os pecados da</p><p>língua é Efésios 4.29: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra que cause</p><p>destruição, mas só a que seja boa para a necessária edi�cação, a �m de que</p><p>transmita graça aos que a ouvem.”</p><p>Esse versículo é uma aplicação do ensino “despir/revestir” que Paulo</p><p>apresenta em Efésios 4.22-24. O apóstolo ensina que devemos nos despir</p><p>dos traços malignos da velha criatura e, ao mesmo tempo, nos revestir</p><p>prontamente dos traços benignos da nova criatura gerada em Cristo.</p><p>Ao examinarmos Efésios 4.29, observamos que não devemos permitir</p><p>que nenhuma conversa corrupta saia de nossa boca. Essa conversa não se</p><p>limita a palavrões e obscenidades. Inclui todos os tipos de conversas</p><p>negativas que mencionei anteriormente. Note a proibição absoluta de</p><p>Paulo. Nada de palavra destruidora. Nenhuma sequer. Isso signi�ca nada de</p><p>fofoca, nada de sarcasmo, nada de críticas, nada de palavras grosseiras.</p><p>Todas essas conversas malignas que geralmente destroem outra pessoa têm</p><p>de estar fora de nossas conversas. Imagine como seria a igreja de Cristo se</p><p>todos nós praticássemos esse ensino de Paulo.</p><p>Ao estudarmos os pecados da língua, vamos começar por aquele que vem</p><p>primeiro à nossa mente: fofoca. Fofocar é espalhar comentários</p><p>desfavoráveis sobre alguém, mesmo que sejam verdadeiros. Mas geralmente</p><p>a fofoca é baseada em rumores, o que torna o pecado ainda pior. Parece que</p><p>fofocar alimenta nosso ego pecador, especialmente quando o comentário</p><p>que passamos adiante é negativo. Ou seja, falar do “defeito” do outro nos faz</p><p>sentir melhores. Em algumas ocasiões, revestimos a fofoca de santidade:</p><p>“Só estou falando isso porque quero suas orações.” Se descobrimos algo</p><p>negativo sobre alguém, devemos orar pela situação, mas nunca espalhar a</p><p>conversa nociva.</p><p>Além de dizer que tipo de conversa temos de abandonar, Efésios 4.29</p><p>nos ensina sobre o que conversar. Devemos conversar apenas sobre o que</p><p>edi�ca e dá graça aos que ouvem. Assim, quando formos tentados a fofocar,</p><p>temos de nos perguntar: O que vou dizer irá destruir ou edi�car a pessoa</p><p>sobre quem falarei?</p><p>Bem próximo ao pecado da fofoca encontramos o pecado da difamação.</p><p>Difamar é dizer falsidades ou distorções que prejudicam a reputação de</p><p>alguém. As campanhas políticas, por exemplo, são notórias por difamarem</p><p>oponentes. Um candidato atribui ao adversário uma postura baseada em</p><p>a�rmações fora de contexto ou em fato isolado acontecido há muito tempo.</p><p>A�rmações desse gênero têm o objetivo claro de criar uma imagem falsa, de</p><p>destruir a reputação do outro.</p><p>Será que os cristãos caluniam? Claro que sim. Caluniamos ao atribuir</p><p>motivações erradas a alguém, mesmo sendo incapazes de ver seus corações</p><p>ou de saber de suas circunstâncias em particular. Caluniamos ao a�rmar que</p><p>o outro “não é um cristão de verdade”,</p><p>porque ele não segue as mesmas</p><p>orientações espirituais que nós ou não pratica as mesmas atividades que</p><p>praticamos. Caluniamos ao distorcer a posição de alguém sobre um assunto</p><p>sem antes saber o que ele pensa de verdade. Caluniamos ao dar proporção</p><p>exagerada ao pecado de alguém, fazendo com que a pessoa pareça mais</p><p>pecadora do que realmente é.</p><p>Geralmente a fofoca é motivada pelo desejo de parecer melhor do que o</p><p>outro. No mundo dos negócios, isso é chamado de “esfa quear pelas costas”</p><p>ou “subir a escada corporativa à custa de outros.” Os cristãos agem assim</p><p>muitas vezes. Membros de organizações cristãs e igrejas também procuram</p><p>levar vantagem por meio da calúnia.</p><p>Caluniar é, na verdade, mentir. Claro que existem outras formas de</p><p>mentir. Geralmente entendemos a mentira como uma a�rmação falsa, e</p><p>provavelmente a maioria de nós evita esse tipo de conversa. No entanto,</p><p>mentimos quando exageramos, quando não dizemos toda a verdade ou</p><p>quando proferimos uma “mentirinha branca” — uma mentira que achamos</p><p>que não vai ter consequência alguma. Não importa a forma, a mentira</p><p>revela a intenção de enganar. Um bom teste a ser feito é nos perguntarmos:</p><p>“Isto é verdade?”</p><p>Criticar é fazer comentários negativos que talvez sejam verdadeiros, mas</p><p>não precisam ser ditos. Por exemplo: “Ele passa o dia inteiro na frente da</p><p>televisão” ou “Ela não vai bem nos estudos”. Antes de fazer comentários</p><p>assim, devemos nos perguntar: O que vou dizer é agradável? É necessário?</p><p>Nesse caso, precisa mesmo ser dito?</p><p>Não pecamos somente em nossas conversas sobre os outros, mas também</p><p>quando conversamos com os outros. Esse tipo de conversa maldosa inclui</p><p>palavras ásperas, sarcasmo, insultos e desdém. O denominador comum em</p><p>todas essas formas de conversa nociva é a nossa busca por destruir, humilhar</p><p>ou magoar a outra pessoa. É uma conversa resultante de impaciência ou</p><p>raiva. Jesus disse: “A boca fala do que o coração está cheio” (Mt 12.34). Isso</p><p>signi�ca que, embora falemos dos pecados da língua, o problema verdadeiro</p><p>está em nosso coração. Por trás de toda fofoca, calúnia, críticas, insultos e</p><p>sarcasmo, existe um coração pecador. A língua não passa de um</p><p>instrumento que revela o que vai no coração.</p><p>Já faz alguns anos que venho aplicando Efésios 4.29 às minhas conversas.</p><p>Sei que falho algumas vezes, mas, pelo menos, esse é o padrão, ou alvo, que</p><p>desejo alcançar. Certa noite, abri a boca para falar mal de um ex-colega à</p><p>minha esposa, e então me lembrei de Efésios 4.29 e, como dizemos, “mordi</p><p>a língua”. Até a manhã seguinte, �quei muito feliz com meu autocontrole.</p><p>Durante o tempo a sós com Deus, lembrei do incidente da noite anterior, e</p><p>um pensamento me assaltou: “Mas você pensou em falar, não pensou?”</p><p>Parei na hora. Entendi que precisava guardar não somente a língua, mas o</p><p>que havia de mais importante: precisava guardar o coração.</p><p>Davi orou: “As palavras da minha boca e a meditação do meu coração</p><p>sejam agradáveis na tua presença, S�����, minha rocha e meu redentor!”</p><p>(Sl 19.14). Davi não estava preocupado apenas com suas palavras, mas</p><p>também com os pensamentos de seu coração. Aprendi a orar da mesma</p><p>forma. Ainda uso Efésios 4.29 como diretriz, mas agora busco aplicá-lo</p><p>tanto aos meus pensamentos como às minhas conversas. Gostaria que</p><p>nenhum pensamento destruidor saísse do meu coração, mas somente</p><p>aqueles que edi�quem as pessoas que me ouvem.</p><p>Se realmente quisermos nos revestir da nova criatura feita à imagem de</p><p>Deus na verdadeira justiça e santidade, teremos de usar Efésios 4.29 como</p><p>um de nossos princípios norteadores.</p><p>Re�ita por alguns minutos neste capítulo e nas conversas que você</p><p>normalmente tem com os outros. Você fofoca ou critica as pessoas, ou</p><p>mostra-se impaciente ou enfurecido por meio de palavras grosseiras que</p><p>humilham ou magoam quem é o alvo dessa raiva toda? Melhor ainda,</p><p>pergunte isso a seus amigos ou a seu cônjuge, se você for casado, ou a um</p><p>�lho mais velho. Lembre que estamos falando de pecado real. O gênero de</p><p>conversa que discutimos neste capítulo talvez seja aceitável aos nossos olhos,</p><p>mas não é aceitável aos olhos de Deus. É realmente pecado.</p><p>M</p><p>undanismo signi�ca coisas diferentes para diferentes pessoas. Para</p><p>a comunidade religiosa Amish [inexistente no Brasil] signi�ca</p><p>eletricidade, telefone e carro. A igreja bastante conservadora onde cresci</p><p>tinha uma lista de atividades proibidas, tais como dançar, jogar cartas e ir ao</p><p>cinema. Sem qualquer intenção de desdenhar desses dois pontos de vista,</p><p>precisamos entender que mundanismo é muito mais do que uma lista de</p><p>atividades proibidas ou conveniências do mundo moderno.</p><p>Dois textos bíblicos nos ajudarão a entender o conceito de mundanismo.</p><p>O primeiro é 1João 2.15,16, em que o apóstolo nos exorta a não amar o</p><p>mundo, descrevendo, então, as coisas do mundo como os [pecaminosos]</p><p>desejos da carne e dos olhos, e o orgulho dos bens. As três expressões</p><p>parecem indicar que João tem em mente desejos e atitudes que vemos hoje</p><p>claramente como sendo pecado. No entanto, como estamos considerando o</p><p>que chamo de pecados mais aceitáveis ou sutis, há um texto de Paulo que</p><p>nos levará a entender os aspectos “aceitáveis” do mundanismo.</p><p>Trata-se de 1Coríntios 7.31: “[...] os que usam as coisas do mundo, como</p><p>se não as usassem; porque a forma presente deste mundo está passando”</p><p>(���). Traduções diferentes usam expressões diferentes para transmitir a</p><p>mesma ideia. A advertência é que, embora usemos legalmente as coisas do</p><p>mundo, devemos tomar cuidado para que não se tornem importantes</p><p>demais para nós.</p><p>Com base no aviso de 1Coríntios 7.31, de�no mundanismo como estar</p><p>apegado às coisas, monopolizado ou preocupado com o que é passageiro</p><p>neste mundo. As coisas transitórias desta vida podem ou não ser pecados</p><p>em si. O que transforma em mundanismo as coisas que não são</p><p>necessariamente pecado é o valor exagerado que lhes damos. Em</p><p>Colossenses 3.2, Paulo nos instrui: “Pensai nas coisas de cima e não nas que</p><p>são da terra.” As “coisas de cima” devem ter muito mais valor para nós — ou</p><p>seja, coisas espirituais como Bíblia, oração, evangelho, obediência a Deus,</p><p>cumprimento da Grande Comissão e, acima de tudo, o próprio Deus.</p><p>Nossos valores devem estar concentrados nessas áreas, e não nas coisas</p><p>desta vida, e isso inclui até mesmo as que são consideradas legítimas.</p><p>O mundo ímpio certamente não se concentra nas coisas de Deus. Até</p><p>mesmo os nossos conhecidos mais gentis e honestos estão de olho apenas</p><p>nesta vida. Pela própria natureza deles, não conseguem se voltar para as</p><p>coisas que são de cima. Apesar disso, o estilo de vida dessas pessoas não é</p><p>muito diferente do nosso, se é que há diferença. Eles varrem a calçada,</p><p>pagam seus impostos e evitam pecados escabrosos da mesma forma que</p><p>evitamos. É por isso que conviver com eles torna o mundanismo aceitável a</p><p>nós. Podemos aprofundar nosso entendimento de mundanismo com esta</p><p>de�nição secundária: mundanismo signi�ca aceitar os valores, as regras</p><p>morais e as práticas da sociedade simpática, mas descrente, sem discernir se</p><p>esses valores, regras e práticas são bíblicos. Mundanismo nada mais é do</p><p>que aceitar o costume da sociedade desde que ele não seja um pecado óbvio.</p><p>Mundanismo é um assunto tão amplo que merece um livro inteiro, e</p><p>estou dedicando-lhe apenas um capítulo. Portanto, vou limitar nossa</p><p>discussão a três áreas que, penso eu, se tornaram pecados aceitáveis aos</p><p>nossos olhos: dinheiro, imoralidade e idolatria. A lista pode surpreender o</p><p>leitor porque mencionei duas coisas — imoralidade e idolatria — que são</p><p>claramente inaceitáveis. As duas áreas, porem, apresentam determinados</p><p>aspectos que se tornaram aceitáveis, e é sobre eles que discorreremos. E</p><p>quanto à questão do dinheiro, também há certas coisas, como roubo, trapaça</p><p>e fraude, que são claramente pecados inaceitáveis. Todavia, nessas três</p><p>áreas, focalizaremos apenas os pecados que nos parecem aceitáveis.</p><p>Dinheiro</p><p>Estados Unidos é o país mais rico do mundo, e nada se compara a nossa</p><p>próspera classe média em toda a história. Apesar disso, nosso jeito de lidar</p><p>com o dinheiro é vergonhoso.</p><p>Em 2004, a renda líquida anual de uma</p><p>família de classe média era 52.287 dólares. Mesmo assim, como mencionei</p><p>no capítulo 13, essa família tinha uma dívida de 7 mil dólares em cartões de</p><p>crédito. O mais alarmante é que, dessa renda de mais de 52 mil dólares, a</p><p>contribuição da família a causas bene�centes eram meros 794 dólares — ou</p><p>seja, 1,5%.1</p><p>Naturalmente, a estatística tem como base toda a população, e é claro</p><p>que, considerando-se apenas os evangélicos, há certa melhora, contudo a</p><p>diferença é pouca. Em uma pesquisa de 2003, membros de oito</p><p>denominações evangélicas doaram 4,4% de sua renda para a obra de Deus.</p><p>A porcentagem, na verdade, é um decréscimo dos 6,2% que os membros</p><p>das mesmas denominações doaram em 1968.2 Se essas oito denominações</p><p>representam as igrejas evangélicas como um todo, isso signi�ca que temos</p><p>�cado menos generosos para com Deus �nanceiramente.</p><p>Além de estarmos ofertando menos para nossas igrejas, parece que a</p><p>maior porcentagem do que damos é gasto em causa própria. Em 1920, a</p><p>porcentagem de contribuições para missões retiradas do total de ofertas era</p><p>pouco mais de 10%. Mas, por volta de 2003, esse número havia diminuído</p><p>para pouco menos de 3%. Isso quer dizer que, de cada dólar, gastamos 97</p><p>centavos em nossos programas e ministérios e doamos apenas três centavos</p><p>para missões.3</p><p>Resumindo, parece que as famílias evangélicas americanas têm guardado</p><p>mais de sua renda para si mesmas e ofertado menos para suas igrejas. E as</p><p>igrejas têm gasto mais com seus próprios programas e ministérios e enviado</p><p>menos para o trabalho missionário. No entanto, somos o país mais rico do</p><p>mundo.</p><p>Se nossas ofertas têm diminuído e nossa dívida com cartão de crédito</p><p>aumentado, o que temos feito com o nosso dinheiro? Não temos poupado, e</p><p>sabemos disso porque a conta poupança, como porcentagem da renda, anda</p><p>bem baixa — na casa de 2%. Isso tudo signi�ca que temos gasto nosso</p><p>dinheiro com as coisas desta vida — casas, carros, roupas, férias e produtos</p><p>eletrônicos caros, só para citar alguns itens. Com relação ao dinheiro,</p><p>colocamos nosso pensamento nas coisas do mundo e não nas de cima.</p><p>Ficamos mundanos em relação ao nosso dinheiro.</p><p>Quanto, então, deveríamos ofertar? Acho que 10% é o mínimo — ou,</p><p>usando uma expressão bíblica, o dízimo. Sei que há divergências quanto ao</p><p>dízimo ser ou não um mandamento bíblico na época neotestamentária em</p><p>que vivemos, pois não é mencionado especi�camente em nenhuma carta do</p><p>Novo Testamento. Todavia, há o conceito de oferta proporcional — isto é,</p><p>de acordo com a prosperidade que Deus nos deu (v. 1Co 16.2; 2Co 8.12). O</p><p>dízimo é uma aplicação especí�ca da entrega proporcional. Quem ganha 10</p><p>mil entrega um mil. Quem ganha cem mil entrega 10 mil. As duas pessoas</p><p>ofertam de modo proporcional à prosperidade que Deus lhes deu. (Alguns</p><p>acham que quem tem um salário de cem mil pode ofertar mais de 10%. É</p><p>por isso que considero o dízimo como o piso e não como o teto.)</p><p>Acho que o conceito de dízimo perdeu a força, não porque deixou de ser</p><p>considerado um ensino bíblico, mas porque nos tornamos mundanos em</p><p>nossa atitude para com o dinheiro e, como resultado, �camos avarentos com</p><p>Deus. Avareza é uma palavra negativa. Ninguém gosta de ser taxado de</p><p>avarento em relação a outras pessoas. Queremos ter fama de generosos.</p><p>Mas, quando ofertamos voluntariamente menos da metade do que era</p><p>exigido dos judeus do Antigo Testamento, estamos ou não sendo avarentos?</p><p>Se o próprio Deus a�rmou que os judeus estavam roubando dele porque</p><p>não entregavam o dízimo, será que ele �ca feliz quando ofertamos menos</p><p>da metade do que os judeus deveriam ofertar (v. Ml 3.8)?</p><p>Jesus foi categórico: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6.24). A</p><p>impressão é que, na vida de muitos cristãos, o dinheiro está acima de Deus.</p><p>Todavia, Deus e dinheiro não são duas escolhas equiparáveis, pois a Bíblia</p><p>diz: “Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e por causa</p><p>dessa cobiça alguns se desviaram da fé e se torturaram com muitas dores”</p><p>(1Tm 6.10). Se o dinheiro domina nossa vida, quem perde somos nós, não</p><p>Deus. A�nal, Deus não precisa do nosso dinheiro. Se gastarmos o dinheiro</p><p>só em causa própria, acabaremos como indigentes espirituais.</p><p>Alguns cristãos acham que não têm como ofertar 10% do salário para a</p><p>obra de Deus. Compreendo essa mentalidade. Há muito tempo, quando</p><p>deixei a indústria e fui trabalhar com a missão �e Navigators, meu salário</p><p>foi reduzido em 75%. Entrei em pânico �nanceiro, e pensei: “Não tenho</p><p>como dar o dízimo. Tenho certeza de que Deus aceitará como dízimo o</p><p>serviço sacri�cial do salário baixo que recebo.” Mas Deus não me deixou</p><p>sossegado por muito tempo. Então decidi que iria entregar o dízimo da</p><p>minha parca renda e con�ar na providência de Deus.</p><p>Pouco tempo depois, fui cativado pela história de Elias sendo alimentado</p><p>pela viúva de Sarepta (v. 1Rs 17.8-16). Só restava à mulher um punhado de</p><p>farinha e um pouco de azeite com os quais ela prepararia a última refeição</p><p>para si e para o �lho, e depois morreriam. Elias, porém, mandou (estou</p><p>parafraseando): “Primeiro eu, e Deus cuidará de vocês.” Ela obedeceu às</p><p>instruções de Elias, e Deus realmente cuidou dos demais. A frase �nal da</p><p>história diz: “A farinha da vasilha não se acabou, e não faltou azeite na</p><p>botija, conforme a palavra do S�����, que ele falara por intermédio de</p><p>Elias” (v. 16). Li esse versículo e comecei a orar, e a�rmo que durante os</p><p>cinquenta e dois anos de ministério, Deus sempre cuidou de mim.</p><p>Como vimos no capítulo 10, temos de lembrar que tudo o que temos e</p><p>nossa capacidade de ganhar mais vêm de Deus (sugiro que você leia e releia</p><p>Deuteronômio 8.17,18). Devolver a Deus pelo menos 10% do que ele nos</p><p>dá é uma expressão tangível de nosso reconhecimento e gratidão.</p><p>Finalmente, temos de lembrar a in�nita generosidade de nosso Senhor</p><p>Jesus que entregou a si mesmo por nossa salvação. Quando quis incentivar</p><p>os cristãos a serem generosos, Paulo escreveu: “Pois conheceis a graça de</p><p>nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, tornou-se pobre por vossa causa,</p><p>para que fôsseis enriquecidos por sua pobreza” (2Co 8.9). Nossos dízimos e</p><p>ofertas devem re�etir o valor que colocamos na dádiva de Deus a nós.</p><p>Imoralidade</p><p>Das três áreas do mundanismo que examinaremos, tenho certeza de que</p><p>esta é a que mais causa espanto. O leitor deve estar se perguntando como a</p><p>imoralidade pode até mesmo ser considerada um pecado “intocável”. Quero</p><p>deixar logo bem claro que não iremos considerar nem adultério nem</p><p>pornogra�a como atos imorais. Essas atitudes são obviamente inaceitáveis e</p><p>estão fora do escopo deste livro, que trata dos pecados que toleramos.</p><p>Em que sentido toleramos a imoralidade? Fazemos isso por meio de algo</p><p>que um amigo denomina imoralidade vicária. Sentimos o prazer íntimo ao</p><p>ler sobre a imoralidade de pessoas cuja conduta sexual imprópria é descrita</p><p>em jornais e revistas? Se esse for o caso, estamos envolvidos em imoralidade</p><p>vicária. Gostamos de espiar tabloides e revistas expostos nos caixas de</p><p>supermercados, imaginando como seria bom comprar um e ler sobre as</p><p>peripécias sexuais de pessoas famosas, mas claramente imorais? Se esse for o</p><p>caso, estamos envolvidos em imoralidade vicária. Se vamos ao cinema ou</p><p>ligamos a televisão sabendo que iremos assistir a cenas de sexo explícito, ou</p><p>se lemos romances em que tais cenas são descritas em detalhes, estamos</p><p>envolvidos em imoralidade vicária. É óbvio que o mundo ao redor se delicia</p><p>com esse tipo de coisa. A�nal, esses tabloides e revistas não estariam</p><p>expostos nos caixas dos supermercados se nossos vizinhos não os</p><p>comprassem. A mesma coisa pode ser dita sobre �lmes, programas de �� e</p><p>livros. Esse é um exemplo das práticas e dos valores aceitos pela sociedade</p><p>que são claramente opostos à Bíblia. Caso sigamos esse exemplo, também</p><p>somos mundanos.</p><p>Existe ainda o aspecto das roupas indecentes. Sempre que caminho por</p><p>lugares aglomerados de gente, como aeroportos ou shoppings, �co cada vez</p><p>mais certo de que a moda feminina para todas as idades tem o objetivo de</p><p>atrair os olhares cobiçosos dos</p><p>homens. Parece que estou sempre desviando</p><p>os olhos de alguma coisa proibida. Rapazes me contam que o problema é</p><p>epidêmico em seus colégios e faculdades.</p><p>Dentro desse assunto, há duas áreas nas quais podemos nos tornar</p><p>mundanos. Primeiro, muitas mulheres cristãs, especialmente as mais jovens,</p><p>seguem a moda da sociedade descrente que as cerca. Quando minha esposa</p><p>me acompanha em visitas a universidades, �ca chocada e assustada com as</p><p>roupas que algumas estudantes usam até mesmo para ir aos estudos bíblicos.</p><p>De acordo com 1Timóteo 2.9, as mulheres cristãs devem se vestir com</p><p>modéstia e discrição. Portanto, digo às leitoras deste livro que, se vocês</p><p>simplesmente seguem a moda indecente de hoje, são mundanas nessa área</p><p>de sua vida. É triste dizer, mas essa forma de mundanismo continua</p><p>aumentando, especialmente entre as jovens.</p><p>Como homens, nosso problema é que reagimos com olhares cobiçosos à</p><p>vestimenta indecente. Para pecarmos, nem precisamos imaginar cenas de</p><p>imoralidade. Somente o olhar demorado e apreciativo no que as mulheres</p><p>expõem ou acentuam com suas roupas justinhas já é pecado. Estamos</p><p>fazendo o que homens, geralmente decentes, estão fazendo. Nesse sentido,</p><p>somos mundanos.</p><p>Um rapaz me perguntou como lido com essa tentação. Respondi que</p><p>minha primeira estratégia de defesa é Provérbios 27.20, que memorizei há</p><p>muito tempo: “O inferno e a perdição nunca se fartam, e os olhos do</p><p>homem nunca se satisfazem” (���). O vocabulário é, em certa medida,</p><p>diferente nas traduções modernas, mas diz a mesma coisa. O que aprendi é</p><p>que um único olhar demorado nunca satisfaz; só abre o apetite. Assim, não</p><p>espiche os olhos sobre aquilo que você nem deveria estar vendo.</p><p>Minha segunda estratégia de defesa é Romanos 6.21: “E que fruto [ou</p><p>seja, benefício] colhestes das coisas de que agora vos envergonhais? Pois o</p><p>�m delas é a morte.” Pergunto-me que benefício recebo por me entregar a</p><p>um olhar cobiçoso. A resposta é: nada mais que os prazeres fugazes do</p><p>pecado, seguidos de sentimentos de vergonha e arrependimento. Homens,</p><p>assumamos o compromisso de tratar desse aspecto do mundanismo em</p><p>nossa vida.</p><p>Idolatria</p><p>Esse aspecto do mundanismo também precisa de algumas explicações.</p><p>Claro que não adoramos ídolos de madeira, metal e pedras. Nosso</p><p>problema, como dizem, são os “ídolos do coração”. Nesse sentido, ídolo é</p><p>qualquer coisa que valorizamos tanto que acaba drenando nossa energia</p><p>emocional e mental, ou nossos recursos e tempo. Pode também ser qualquer</p><p>coisa que �que acima do nosso relacionamento com Deus ou com a família.</p><p>O trabalho ou a pro�ssão podem tornar-se um ídolo. A pessoa �ca tão</p><p>obcecada em progredir, ou chegar ao topo, que tanto Deus quanto a família</p><p>acabam em segundo plano. Reconheço que, na competição ferrenha do</p><p>mundo corporativo, em que os colegas de trabalho transformam a carreira</p><p>em um deus, é difícil não seguirmos na mesma trilha. As circunstâncias de</p><p>cada pro�ssão ou carreira são diferentes, portanto não existe solução única</p><p>para o problema. No entanto, se tivermos em mente um determinado</p><p>princípio bíblico, ele nos guardará da tentação de transformar a pro�ssão</p><p>em ídolo. Esse princípio é ensinado por Paulo em 2Coríntios 5.9: “Por isso</p><p>também nos esforçamos para agradá-lo.” Se nosso objetivo é agradar a</p><p>Deus, em vez de escalar a montanha do mundo corporativo ou ser o</p><p>pro�ssional mais extraordinário em nosso campo de trabalho, então</p><p>venceremos a tentação de transformar nossa pro�ssão em ídolo.</p><p>Lembro-me de um vendedor de carros que conheci há tempos. Ele me</p><p>explicou: “Depois que me converti, larguei mão de tentar vender carros e</p><p>passei a ajudar os clientes a comprar carros.” Meu amigo não mudou de</p><p>pro�ssão, só mudou de objetivo. Seu foco passou de quanto dinheiro poderia</p><p>ganhar para como servir as pessoas ajudando-as a comprar um carro que se</p><p>ajustasse às suas necessidades e à sua situação �nanceira. Quando ele passou</p><p>a servir de coração aos seus clientes, sua carreira deixou de ser ídolo e</p><p>transformou-se em serviço a Deus.</p><p>Entendo que o princípio de Paulo talvez não se aplique de modo exato à</p><p>situação que você vive. Isso é particularmente verdadeiro em algumas</p><p>pro�ssões que exigem longas horas de trabalho e alta produtividade. Se esse</p><p>é o seu caso, incentivo você a aconselhar-se com um cristão mais maduro</p><p>que possa ajudá-lo a lidar com as questões especí�cas de sua área</p><p>pro�ssional.</p><p>Talvez outra área de idolatria tenha a ver com assuntos políticos e sociais.</p><p>Combino as duas coisas porque, em muitos casos, as questões sociais se</p><p>tornam questões políticas. Embora eu acredite na importância de os cristãos</p><p>serem bem informados e, até certo ponto, envolvidos nessas questões,</p><p>precisamos ser cuidadosos para não transformar nosso partido político ou</p><p>nossas preocupações sociais em ídolos.</p><p>Sem dúvida nenhuma, existem questões sociais — como aborto e</p><p>homossexualismo — que são visivelmente contrárias aos padrões morais de</p><p>Deus. Apoio os líderes e organizações que se opõem �rmemente a essas</p><p>práticas. Mas não podemos esquecer que a prioridade maior da igreja como</p><p>um todo é a proclamação do evangelho. Bebês nascituros precisam ser</p><p>protegidos, e o padrão bíblico de casamento tem de ser preservado. Todavia,</p><p>acima de tudo, seres humanos precisam ser resgatados do poder de Satanás</p><p>e levados ao reino de Deus por meio de Jesus Cristo. Se perdermos de vista</p><p>o chamado principal da igreja, corremos o risco de transformar nossas</p><p>atividades políticas e sociais em ídolos.</p><p>Uma terceira área da idolatria moderna é a paixão consumidora de</p><p>muitos pelos esportes. Aqui, sei que entrei num caminho que até “os anjos</p><p>temem trilhar”. Vejam o que acontece nos Estados Unidos, por exemplo.</p><p>Não creio que haja alguma dúvida de que os esportes, sobretudo o futebol</p><p>americano e o basquete, se tornaram ídolos em nossa cultura. Na verdade, a</p><p>idolatria não se restringe aos adultos. Crianças que mal saíram das fraldas já</p><p>estão se tornando fanáticas, e a mentalidade do “ganhar é o que interessa”</p><p>da maioria dos pais só alimenta a idolatria. Sem mencionar que, cada vez</p><p>mais, os times estão contratando, a salários estratosféricos, jogadores que</p><p>mal entraram na adolescência.</p><p>O time de futebol americano da universidade onde estudei está entre os</p><p>primeiros da liga há muitos anos, e já conquistou vários campeonatos; o</p><p>primeiro foi quando eu estava no penúltimo ano do curso. Digo isso para</p><p>explicar por que a boa sorte do meu time o transformou em ídolo para mim.</p><p>Muitos anos depois de me formar, eu ainda �cava uma “pilha de nervos” em</p><p>dia de jogo, como se minha felicidade dependesse do resultado da partida.</p><p>Continuo torcendo por meu time da universidade, e �co muito feliz</p><p>quando ele vence. No entanto, o time não é mais um ídolo para mim. Deus</p><p>me convenceu da idolatria, e agora vivo me lembrando de que futebol é</p><p>apenas um jogo, e, não importa que time vença, não acho que Deus seja</p><p>glori�cado. Aliás, a vitória só acende o nosso orgulho.</p><p>Não deixe de torcer por seu time, se esse é o seu desejo. Mas não se</p><p>consuma por causa de vitórias e derrotas. Mantenha os esportes em</p><p>perspectiva. É só um jogo.</p><p>Gostaria de recapitular minhas duas de�nições de mundanismo.</p><p>Primeiro, é a preocupação com as coisas passageiras da vida. Segundo, é</p><p>concordar com os valores e as práticas da sociedade sem levar em conta se</p><p>são bíblicos ou não. Acho que nossa inclinação ao mundanismo reside na</p><p>frase concordar com. Simplesmente concordamos com os valores e práticas</p><p>do mundo sem considerar se são práticas e valores bíblicos. É por isso que</p><p>jovens cristãs usam roupas sensuais. Meramente concordam com o estilo do</p><p>momento sem analisar se ele é do agrado de Deus. E o esporte em si não é</p><p>pecado, mas, se concordarmos com todo mundo, acabamos transformando</p><p>nosso time em ídolo.</p><p>Como, então, lidaremos com nossa inclinação ao mundanismo? Não é</p><p>tomando a decisão de nos afastarmos do mundanismo, mas nos</p><p>comprometendo a ser mais �éis a Deus. Precisamos estreitar nosso</p><p>relacionamento com ele e ver todos os aspectos da vida através das lentes de</p><p>sua glória. No século ���, �omas</p><p>Chalmers, pastor escocês, pregou um</p><p>sermão intitulado “A força expulsora de um novo amor”. É disso que</p><p>precisamos para combater o mundanismo. Precisamos ter um amor mais</p><p>profundo por Deus, amor que expulse de nossos corações a afeição que</p><p>temos pelas coisas deste mundo.</p><p>1Joel Belz, “Stingy Givers,” World Magazine, 24 de junho de 2006, p. 4.</p><p>2Belz, p. 4.</p><p>3Gene Edward Veith, “Who Gives Two Cents for Missions?” World Magazine, 22 de outubro de</p><p>2005, p. 28.</p><p>S</p><p>e você não me abandonou até aqui, deve ter percebido que neste livro</p><p>tratamos de assuntos difíceis. Analisamos detalhadamente muitos</p><p>pecados sutis que toleramos em nossa vida. Algumas vezes, a tarefa foi</p><p>dolorosa. Espero que realmente tenha sido, porque isso signi�ca que você</p><p>foi honesto e humilde o bastante para admitir a presença de alguns desses</p><p>pecados em sua vida. E nisso reside a esperança. Lembre-se de que “Deus</p><p>se opõe aos arrogantes, mas dá graça aos humildes” (1Pe 5.5).</p><p>As a�rmações iniciais do sermão do Monte (v. Mt 5.1-7) irão encorajar</p><p>você. Os pobres de espírito e os que choram são pessoas cientes de seus</p><p>pecados. Portanto, são humildes e misericordiosos em suas atitudes e ações</p><p>para com os outros, e têm fome e sede da justiça que sabem que ainda não</p><p>alcançaram. Em tudo, apresentam um comportamento diferente da pessoa</p><p>orgulhosa, hipócrita, que se acha moralmente superior. São eles (e não os</p><p>que se acham melhores dos que os outros) que o Senhor Jesus chama de</p><p>bem-aventurados.</p><p>Ao contar suas parábolas, Jesus criava personagens com o intuito de fazer</p><p>com que o ensino fosse marcante. Analise a parábola do fariseu e do</p><p>cobrador de impostos orando no templo (v. Lc 18.9-14). Para os judeus, o</p><p>contraste entre o fariseu e o odiado cobrador de impostos não poderia ser</p><p>maior. Na parábola do �lho pródigo (v. Lc 15.11-32), o comportamento</p><p>desprezível do �lho certamente chocou o público judeu. Contudo, nas duas</p><p>parábolas, são o fariseu santarrão e o irmão moralista que recebem a</p><p>condenação implícita de Jesus. O cobrador de impostos, no entanto, vai</p><p>embora justi�cado, e o �lho pródigo arrependido é recebido com um abraço</p><p>caloroso do pai. Será que isso não revela algo sobre o quanto Deus odeia o</p><p>pecado da autorretidão e sobre como ele responde graciosamente ao</p><p>humilde e contrito de espírito?</p><p>Concluo o último capítulo com uma referência ao sermão “A força</p><p>expulsora de um novo amor”, de �omas Chalmers. A pergunta é natural:</p><p>“Como crescemos nesse novo amor?” Ele é resultado de uma</p><p>conscientização cada vez maior de que continuamos pecando e também de</p><p>que Cristo mostrou seu amor por nós ao morrer por esse pecado.</p><p>Na história de Lucas sobre a mulher que lavou e ungiu os pés de Jesus</p><p>(7.36-50), o Mestre a�rma: “Aquele a quem se perdoa pouco, este ama</p><p>pouco” (v. 47). O oposto também é verdadeiro, como Jesus deixa bem claro</p><p>nos versículos 41-43; ou seja, quem é perdoado bastante ama muito. Simão,</p><p>fariseu, não sabia o quanto era pecador e como precisava ser perdoado,</p><p>então amou pouco ou, na verdade, nunca amou. A mulher sabia o quanto</p><p>era pecadora e como precisava ser perdoada, então amou muito. O modo de</p><p>crescermos em nosso novo amor [por Cristo], conforme Chalmers pregou,</p><p>é aprofundar o conhecimento do amor de Cristo por nós conforme revelado</p><p>no evangelho. O apóstolo Paulo escreveu que é o amor de Cristo por nós</p><p>que nos motiva a viver para ele (v. 2Co 5.14,15). Esse amor por Jesus que</p><p>expulsa nosso amor pelo mundo só pode ser uma reação ao sentimento</p><p>profundo e sincero de seu amor por nós.</p><p>Assim, temos de ser honestos e humildes o bastante para admitir nossos</p><p>pecados sutis e, então, vivenciar o amor que resulta do perdão desses</p><p>pecados. Todavia, para lidarmos com esses pecados, temos de encará-los. O</p><p>pior pecado que existe, em termos práticos, é negar a existência desses</p><p>pecados em nossa vida. Não podemos lidar com eles sem admitirmos sua</p><p>presença. O primeiro passo para lidarmos com qualquer pecado é</p><p>reconhecer sua existência e nos arrependermos de tê-lo praticado. Isso não</p><p>signi�ca que seremos rapidamente bem-sucedidos em nos livrarmos deles.</p><p>A carne não desiste assim tão fácil. Pelo contrário, e usando uma expressão</p><p>de Paulo, temos de “matar esses pecados” (Rm 8.13; Cl 3.5). Além disso,</p><p>desenvolvemos o hábito de pecar. Desenvolvemos o hábito dos maus</p><p>pensamentos: ansiedade, autocomplacência, atitudes críticas, fofoca, e coisas</p><p>semelhantes. E agora? O que fazemos daqui para frente? Como</p><p>aplicaremos a mensagem global deste livro?</p><p>Espero que, durante o estudo dos chamados pecados “intocáveis”, o leitor</p><p>tenha orado sinceramente a respeito de cada um, pedindo que Deus</p><p>mostrasse a presença deles em sua vida. Agora, porém, seria bom fazer uma</p><p>retrospectiva em oração. Para facilitar, apresento um esboço dos pecados</p><p>sutis que analisamos neste livro:</p><p>Capítulo 7 — Impiedade</p><p>Capítulo 8 — Ansiedade e frustração</p><p>Capítulo 9 — Insatisfação</p><p>Capítulo 10 — Ingratidão</p><p>Gratidão nas situações difíceis</p><p>Capítulo 11— Orgulho</p><p>Moralismo</p><p>Orgulho da doutrina correta</p><p>Orgulho das realizações</p><p>Espírito independente</p><p>Capítulo 12 — Egoísmo</p><p>Nossos interesses</p><p>Nosso tempo</p><p>Nosso dinheiro</p><p>Falta de consideração</p><p>Capítulo 13 — Descontrole</p><p>Comida e bebida</p><p>Temperamento</p><p>Finanças</p><p>Televisão, passatempos, compulsão por compras</p><p>Capítulo 14 — Impaciência e irritabilidade</p><p>Capítulo 15 — Ira</p><p>Ira de Deus</p><p>Capítulo 16 — Ervas daninhas da ira</p><p>Ressentimento</p><p>Amargura</p><p>Inimizade e hostilidade</p><p>Ódio</p><p>Capítulo 17 — Mania de julgar</p><p>Convicções diferentes</p><p>Diferenças doutrinárias</p><p>Espírito crítico</p><p>Capítulo 18 — Inveja, ciúme e pecados a�ns</p><p>Inveja</p><p>Ciúme</p><p>Competitividade</p><p>Controle</p><p>Capítulo 19 — Pecados da língua</p><p>Fofoca</p><p>Difamação</p><p>Mentira</p><p>Palavras grosseiras, sarcasmos, insultos e desdém</p><p>Capítulo 20 — Mundanismo</p><p>Dinheiro</p><p>Imoralidade vicária</p><p>Idolatria</p><p>Ao revisar a lista, continue pedindo que Deus abra seus olhos para</p><p>enxergar aqueles pecados que você tolera ou nega que existam em sua vida.</p><p>Nada substitui a humildade e a con�ssão sincera de nossos pecados como o</p><p>primeiro passo para lidar com eles.</p><p>Você pediu que outras pessoas avaliem a presença desses pecados sutis em</p><p>sua vida? Se não pediu, agora é um bom momento para fazer isso. Reúna-se</p><p>com o cônjuge, um irmão ou irmã, um bom amigo e peça que sejam</p><p>honestos com você. Garanta-lhes que você não irá se defender nem</p><p>questionará a avaliação deles. Ouça, mas não responda. Se quiser, peça-lhes</p><p>para avaliar você em cada área de acordo com uma escala mais ou menos</p><p>assim:</p><p>Sem problema</p><p>Problema ocasional</p><p>Problema frequente</p><p>Caracteriza sua vida</p><p>Mesmo que você discorde da avaliação, aceite-a com humildade. Talvez</p><p>Deus esteja usando a outra pessoa para revelar problemas que você não</p><p>admite.</p><p>Revise os seis passos para lidar com o pecado, apresentados no capítulo 6.</p><p>Caso se sinta esmagado, dê atenção especial ao primeiro passo, que é tratar</p><p>o pecado sempre no contexto do evangelho.</p><p>Lembre-se de que a santi�cação progressiva — isto é, desnu dar-se do</p><p>pecado e revestir-se da semelhança de Cristo — está sobre duas pedras</p><p>fundamentais: a justiça de Cristo e o poder do Espírito Santo. Não tire os</p><p>olhos de Cristo e de sua justiça perfeita quanto à sua posição e aceitação por</p><p>Deus. Lembre-se: se você estiver unido a Cristo, Deus irá enxergá-lo</p><p>revestido da perfeita justiça de seu Filho. Busque sempre a capacitação do</p><p>Espírito Santo para lidar com o pecado em sua vida e produzir o fruto do</p><p>Espírito.</p><p>O mundo vive de olho em nós, mesmo quando desdenha de nossos</p><p>valores e rejeita nossa mensagem. Podemos achar que nossos pecados sutis</p><p>estão escondidos de seus olhos, mas, de alguma forma, o mundo os enxerga.</p><p>As pessoas notam nosso moralismo, nossa ira e nosso espírito crítico. Elas</p><p>nos veem como “santarrões”, ou como hipócritas que não praticam o que</p><p>pregam. Lidar com nossos pecados “aceitáveis” com humildade e</p><p>honestidade contribui muito para desfazermos essa imagem. Por �m,</p><p>gostaria de repetir a advertência de 1Pedro 5.5: “Deus se opõe aos</p><p>arrogantes, mas dá graça aos humildes.”</p><p>Sumário</p><p>1. Capa</p><p>2. Sumário</p><p>3. Prefácio</p><p>4. Santos comuns</p><p>5. O desaparecimento</p><p>do pecado</p><p>6. A malignidade do pecado</p><p>7. A cura do pecado</p><p>8. O poder do Espírito Santo</p><p>9. Orientações para lidar com o pecado</p><p>10. Impiedade</p><p>11. Ansiedade e frustração</p><p>12. Insatisfação</p><p>13. Ingratidão</p><p>14. Orgulho</p><p>15. Egoísmo</p><p>16. Descontrole</p><p>17. Impaciência e irritabilidade</p><p>18. Ira</p><p>19. Ervas daninhas da ira</p><p>20. Mania de julgar</p><p>21. Inveja, ciúmes e pecados afins</p><p>22. Pecados da língua</p><p>23. Mundanismo</p><p>24. E agora?</p><p>Capa</p><p>Sumário</p><p>Prefácio</p><p>Santos comuns</p><p>O desaparecimento do pecado</p><p>A malignidade do pecado</p><p>A cura do pecado</p><p>O poder do Espírito Santo</p><p>Orientações para lidar com o pecado</p><p>Impiedade</p><p>Ansiedade e frustração</p><p>Insatisfação</p><p>Ingratidão</p><p>Orgulho</p><p>Egoísmo</p><p>Descontrole</p><p>Impaciência e irritabilidade</p><p>Ira</p><p>Ervas daninhas da ira</p><p>Mania de julgar</p><p>Inveja, ciúmes e pecados afins</p><p>Pecados da língua</p><p>Mundanismo</p><p>E agora?</p><p>Na hora, a sedução daquele prazer momentâneo é mais forte do que o</p><p>desejo de agradar a Deus.</p><p>Pecado é pecado. Mesmo os que classi�co de “pecados aceitáveis pelos</p><p>santos” — aqueles que toleramos em nossa vida — são graves aos olhos de</p><p>Deus. O orgulho religioso, as atitudes críticas, os mexericos, a impaciência e</p><p>a ira, e até mesmo a ansiedade (v. Fp 4.6); tudo isso é coisa séria aos olhos</p><p>de Deus.</p><p>Ao enfatizar a necessidade de buscarmos a justi�cação unicamente por</p><p>meio da fé em Cristo, o apóstolo Paulo cita o Antigo Testamento: “Maldito</p><p>todo aquele que não permanece na prática de todas as coisas escritas no</p><p>livro da lei” (Gl 3.10). Esse é um padrão de obediência bastante exigente.</p><p>Em termos acadêmicos, signi�ca que 99 no exame �nal é nota de</p><p>reprovação. Signi�ca que uma vírgula fora de lugar no trabalho escrito</p><p>rende uma nota zero. Felizmente, Paulo nos garante que Cristo “nos</p><p>resgatou [a todos os que con�am nele como redentor] da maldição da lei,</p><p>tornando-se maldição em nosso favor” (Gl 3.13). No entanto, permanece o</p><p>fato de que os pecados aparentemente insigni�cantes que toleramos em</p><p>nossa vida merecem, sim, a condenação de Deus.</p><p>Concordo com a ideia de que o pecado parece ter sumido de nosso meio.</p><p>Pode ter sido abrandado em muitas de nossas igrejas para não ofender os</p><p>presentes. E, digo com tristeza, o conceito de pecado entre muitos cristãos</p><p>conservadores foi praticamente rede�nido para abranger apenas os pecados</p><p>obviamente nojentos da sociedade. O resultado, então, é que para muitos</p><p>cristãos moralmente corretos, a noção de pecado individual basicamente</p><p>desapareceu de suas consciências. Contudo, não desapareceu da vista de</p><p>Deus. Pelo contrário, todo pecado, tanto os chamados pecados intocáveis</p><p>dos santos — que quase sempre toleramos — quanto os pecados asquerosos</p><p>da sociedade — que somos rápidos em condenar — são transgressões à lei</p><p>de Deus e repreensíveis aos olhos dele. Ambos merecem a condenação de</p><p>Deus.</p><p>Se essa parece ser uma a�rmação muito severa e uma acusação que</p><p>abrange todos os cristãos, apresso-me a dizer que há muitas pessoas �éis e</p><p>humildes que são maravilhosas exceções. Na realidade, o paradoxo é que os</p><p>cristãos que mais produzem o fruto do Espírito são aqueles que estão muito</p><p>mais cientes desses famosos pecados aceitáveis em suas vidas e que sofrem</p><p>no íntimo por causa deles. Existe ainda um batalhão de gente que critica</p><p>com ferocidade os pecados repulsivos dos outros e, contudo, parece</p><p>orgulhosamente esquecido de seus próprios pecados. Muitos de nós �cam</p><p>entre um e outro grupo. Mas a questão é que todo pecado — não importa</p><p>se temos ou não consciência dele — é  asqueroso aos olhos de Deus e</p><p>merece seu castigo.</p><p>Admito que pintei um retrato bastante sombrio, tanto da sociedade em</p><p>geral quanto de nossa comunidade evangélica conservadora. Mas Deus não</p><p>nos abandonou. Ele continua sendo o Pai celeste dos cristãos verdadeiros, e</p><p>continua trabalhando entre nós e chamando-nos ao arrependimento e</p><p>renovação. Parte do seu chamado é para que enxerguemos os pecados que</p><p>toleramos em nossas vidas e, então, vivenciemos o arrependimento e a</p><p>renovação que precisamos tanto. Oro para que Deus se agrade em usar este</p><p>livro como um recurso para esse �m. No próximo capítulo, então,</p><p>cavaremos mais fundo na sujeira de nossos pecados “intocáveis”.</p><p>1Karl Menninger, MD. Whatever Became of Sin?. New York: Hawthorne Books, 1973, p. 14,15.</p><p>[Publicado no Brasil por Editora José Olympio sob o título O pecado de nossa época.]</p><p>2Peter Barnes, “What! Me? A Sinner?” �e Banner of Truth, 21 de abril de 2004.</p><p>3Marsha Witten. All Is Forgiven. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1993, p. 81.</p><p>4Witten, p. 101,102.</p><p>C</p><p>âncer! Uma palavra temida, uma palavra que geralmente evoca</p><p>desespero e, muitas vezes, até desesperança. Para mim, câncer era</p><p>algo que acontecia em outras famílias. Contudo, em 1987, ele bateu à nossa</p><p>porta quando minha esposa foi diagnosticada com câncer linfático. Lembro</p><p>de minha reação: isso não está acontecendo conosco. Mas estava, e,</p><p>dezessete meses depois, minha esposa morreu de uma doença debilitante e</p><p>até mesmo humilhante.</p><p>Outro termo para câncer é malignidade. Na Medicina, malignidade</p><p>descreve um tumor que tem potencial ilimitado de crescimento e que invade</p><p>os tecidos vizinhos atingindo outras áreas do corpo por metástase. Se for</p><p>deixada à vontade, a malignidade se in�ltra e avança pelo corpo todo e, por</p><p>�m, causa a morte. É fácil entender por que câncer e malignidade são</p><p>palavras que causam pavor.</p><p>Pecado é malignidade espiritual e moral. Se for deixado à vontade, acaba</p><p>se espalhando por todo o nosso ser, contaminando cada área de nossa vida.</p><p>O que é ainda pior é que geralmente atinge por “metástase” a vida dos</p><p>cristãos ao nosso redor. Ninguém é uma ilha espiritual ou social. Nossas</p><p>atitudes, palavra e ações, e até os pensamentos jamais verbalizados,</p><p>costumam afetar as pessoas que nos cercam.</p><p>Paulo deveria estar pensando nisso ao escrever: “Não saia da vossa boca</p><p>nenhuma palavra que cause destruição, mas só a que seja boa para a</p><p>necessária edi�cação, a �m de que transmita graça aos que a ouvem” (Ef</p><p>4.29). De modo geral, nossa conversa, seja sobre outros ou com outros,</p><p>destrói ou edi�ca. Corrompe as mentes dos ouvintes ou, então, as agracia.</p><p>Esse é o poder das nossas palavras. Quando fofoco, destruo outra pessoa e</p><p>perverto a mente do meu ouvinte. Quando reclamo sobre as circunstâncias</p><p>difíceis da vida e contesto a soberania e bondade de Deus, instigo meu</p><p>ouvinte a agir do mesmo modo. Dessa forma, meu pecado entra no coração</p><p>dos outros por “metástase”.</p><p>Pecado, no entanto, é muito mais que atitudes erradas, palavras grosseiras</p><p>ou maus pensamentos que nunca expressamos. Pecado é um princípio ou</p><p>força moral em nosso coração, em nosso íntimo. Nossos pensamentos,</p><p>palavras e comportamentos pecaminosos são simples expressões da lei do</p><p>pecado que reside em nós, mesmo naqueles cujos corações foram</p><p>transformados. O apóstolo Paulo chama esta lei de carne (ou natureza</p><p>humana [����]). Essa lei, chamada carne, é tão real que algumas vezes</p><p>Paulo a personi�ca (veja, por exemplo, Rm 7.8-11; Gl 5.17).</p><p>Agora, eis aqui a verdade nua e crua que precisamos aplicar aos nossos</p><p>corações. Apesar de nossos corações terem sido transformados, termos sido</p><p>libertos do domínio absoluto do pecado, e o Espírito Santo de Deus habitar</p><p>em nossos corpos, essa lei do pecado continua espreitando nosso íntimo e</p><p>guerreando contra nossas almas. Quando deixamos de reconhecer essa</p><p>verdade estarrecedora, providenciamos solo fértil para que nossos pecados</p><p>“intocáveis” ou “aceitáveis” cresçam e �oresçam.</p><p>Nós, os cristãos, costumamos usar a cultura moral do meio em que</p><p>vivemos para avaliar nosso caráter e conduta. Como nosso padrão moral</p><p>normalmente é mais alto do que o da sociedade em geral, é fácil nos</p><p>sentirmos orgulhosos de nós mesmos e pressupormos que Deus sente a</p><p>mesma coisa. Assim, deixamos de considerar a realidade do pecado que</p><p>continua habitando em nós.</p><p>Uma das verdades sobre o câncer é que ele pode, muitas vezes, passar</p><p>despercebido até atingir um estado crítico ou terminal. Quando minha</p><p>esposa foi ao médico em 19 de junho de 1987, não fazia a menor ideia de</p><p>que havia um tumor maligno crescendo em seu abdome. Nem mesmo os</p><p>médicos que foram bem-sucedidos em tratar o tumor perceberam que o</p><p>câncer havia atingido o sistema linfático. Na verdade, a palavra pér�do é</p><p>um termo moral que pode ser usado para descrever como o câncer</p><p>normalmente age. Ele dá a impressão de que foi vencido; mas, de repente,</p><p>surge em outro lugar do corpo.</p><p>O modo como o câncer age é uma boa analogia de como o pecado,</p><p>especialmente o pecado considerado aceitável ou discreto, opera em nossas</p><p>vidas. Como mencionei no prefácio, outro termo bem descritivo é pecados</p><p>sutis. A palavra sutil tem uma variedade de signi�cados, alguns são</p><p>positivos, como “as nuances sutis de azul em um quadro”. Mas normalmente</p><p>o termo tem uma conotação bastante negativa que se aplica a astuto,</p><p>ardiloso ou traiçoeiro. É esse o sentido da palavra no caso de pecados sutis.</p><p>Os pecados aceitáveis são sutis porque nos enganam e nos levam a pensar</p><p>que não são tão maus assim ou simplesmente que não são pecados, ou —</p><p>pior ainda — porque nos induzem a não pensar neles de modo nenhum! A</p><p>verdade é que alguns de nossos pecados requintados são tão sutis que os</p><p>cometemos sem pensar, seja no momento, seja depois. Geralmente vivemos</p><p>em estado de negação inconsciente de nossos pecados “aceitáveis”.</p><p>Até certo ponto, nós cristãos de hoje somos in�uenciados pela �loso�a do</p><p>“sinta-se bem com você mesmo”. Em contraste, os cristãos puritanos do</p><p>século ���� tinham uma visão diferente deles próprios. Temiam a realidade</p><p>do pecado que ainda habitava neles. Tenho quatro livros sobre pecado</p><p>escritos por pastores daquela época. Seus títulos são:</p><p>�e Sinfulness of Sin [A pecaminosidade do pecado]</p><p>�e Mischief of Sin [O dano do pecado]</p><p>�e Anatomy of Secret Sins [A anatomia dos pecados secretos]</p><p>�e Evil of Evils or �e Exceeding Sinfulness of Sin [O mal dos males ou A excessiva</p><p>pecaminosidade do pecado]</p><p>Todos aqueles pastores viam o pecado exatamente como ele é: uma força</p><p>diabólica dentro de nós. Ralph Venning, autor de “�e Sinfulness of Sin”</p><p>[A pecaminosidade do pecado], descreve o pecado em palavras bem vívidas</p><p>(no sentido negativo). Em apenas algumas páginas, ele a�rma que o pecado</p><p>é vil, feio, odioso, maligno, pestilento, nocivo, hediondo, vingativo,</p><p>venenoso, virulento, bandido, abominável e mortal.</p><p>Gaste alguns minutos analisando esses adjetivos para sentir o impacto</p><p>total deles. Essas palavras não descrevem somente os pecados escandalosos</p><p>da sociedade, mas também os pecados “intocáveis” que toleramos em nossas</p><p>vidas. Pense em pecados tais como impaciência, orgulho, ressentimento,</p><p>irritação e autocomiseração. Têm cara de odiosos ou nocivos? E de fato são.</p><p>Tolerar esses pecados em nossa vida espiritual é tão perigoso quanto tolerar</p><p>um câncer em nosso corpo. Os “pecadinhos” acabam levando a pecados</p><p>mais graves. Olhares cobiçosos geralmente levam ao vício da pornogra�a e,</p><p>talvez, ao adultério. O assassinato quase sempre tem sua raiz no rancor, que</p><p>se transforma em amargura, depois em ódio e, �nalmente, em morte.</p><p>A essa altura, o leitor deve estar com vontade de jogar este livro no lixo.</p><p>A�nal, você não começou a ler este livro para ser condenado ou para ter</p><p>seus pecados sutis expostos. Até aqui, parece que neste livro tudo é sombrio</p><p>e deprimente. Você quer ser encorajado, não condenado. Se esse é o caso,</p><p>peço que você continue me acompanhando. Há boas notícias mais tarde.</p><p>Mas, por enquanto, temos de examinar as notícias desagradáveis. Na</p><p>verdade, a coisa vai piorar. Quando percebermos como a notícia ruim é má,</p><p>teremos mais capacidade de entender como a notícia boa é ótima.</p><p>Como a notícia ruim �ca pior? Até aqui vimos o efeito do pecado em</p><p>nossa vida. Observamos sua direção maligna em nossa vida e na vida das</p><p>pessoas que nos cercam. No entanto, a questão mais importante é como o</p><p>nosso pecado atinge o coração de Deus. Alguém descreveu o pecado como</p><p>traição cósmica. Se a descrição parece exagero, saiba que na Bíblia a palavra</p><p>transgressão, como usada em Levítico 16.21, por exemplo, tem o sentido</p><p>verdadeiro de rebeldia contra autoridade — nesse caso, a autoridade de</p><p>Deus. Quando guardo ressentimentos de alguém em vez de perdoar de</p><p>todo o coração, estou me rebelando contra Deus.</p><p>Em Isaías 6.1-8, o profeta recebe uma visão de Deus em sua majestade</p><p>absoluta. Ele ouve os seres angelicais exclamando: “Santo, santo, santo é o</p><p>S����� dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória” (v. 3). Qualquer</p><p>judeu entenderia que as três repetições da palavra santo exprimem o maior</p><p>grau possível de santidade. Ou seja, Deus é in�nitamente santo. Mas o que</p><p>isso signi�ca? Certamente fala de sua pureza moral e absoluta, contudo</p><p>signi�ca muito mais do que isso. Primeiro, o termo santo, quando usado em</p><p>relação a Deus, refere-se à sua in�nita e transcendente majestade. Fala de</p><p>seu reinado absoluto sobre toda a criação. Assim, quando pecamos, quando</p><p>infringimos de algum modo a lei de Deus, por menor que a infração seja</p><p>aos nossos olhos, estamos nos rebelando contra a autoridade soberana e a</p><p>majestade transcendente de Deus. Falando francamente, nosso pecado é</p><p>um ataque à majestade e ao governo soberano de Deus. É, sim, uma traição</p><p>cósmica.</p><p>Continuemos com as más notícias. Você se lembra do adultério de Davi</p><p>com Bate-Seba e de como o rei tramou a morte do marido dela, Urias, para</p><p>encobrir o caso? Em palavras brandas, Deus �cou chateado, e mandou o</p><p>profeta Natã confrontar Davi a respeito de seu pecado. Leia o que Natã</p><p>disse:</p><p>Por que desprezaste a palavra do S�����, fazendo o mal aos seus olhos? Tu mataste à espada</p><p>Urias, o heteu, e tomaste para ti a sua mulher; sim, tu o mataste com a espada dos amonitas.</p><p>Agora a espada jamais se afastará da tua família, porque me desprezaste e tomaste para ti a mulher</p><p>de Urias, o heteu (2Sm 12.9,10; grifo do autor).</p><p>Observe o uso da palavra desprezaste nos versículos 9 e 10. No primeiro,</p><p>Davi despreza a palavra (a lei) do Senhor. No segundo, Deus, falando por</p><p>meio de Natã, o acusa: “Você me desprezou”. Vemos, então, que pecar é</p><p>desprezar a lei de Deus, mas também vemos que desprezar a lei de Deus é</p><p>desprezar ao próprio Deus. Bom, é fácil vermos o pecado de Davi como</p><p>algo horroroso e deixarmos de aplicar as palavras de Natã a nós mesmos.</p><p>No entanto, como já vimos, todo pecado, seja grande ou pequeno aos</p><p>nossos olhos, é cometido contra Deus. Portanto, quando mergulho em</p><p>qualquer pecado que considero aceitável, não estou desprezando somente a</p><p>lei de Deus; estou desprezando também o próprio Deus. Pense nisso da</p><p>próxima vez que for abrir a boca para criticar ou massacrar alguém.</p><p>Entendeu agora por que eu disse que nossa descrição de pecado iria piorar?</p><p>E vem mais pela frente. As notícias ruins continuam. Ao expor o pecado</p><p>em nossos relacionamentos (v. Ef 4.25-32), Paulo é claro: “Não entristeçais</p><p>o Espírito Santo de Deus, com o qual fostes selados para o dia da redenção”.</p><p>Quando entendemos que nosso pecado é rebeldia contra a autoridade</p><p>soberana de Deus e menosprezo à sua lei e à sua pessoa, reconhecemos que</p><p>o Senhor tem direito de governar e julgar. No entanto, quando</p><p>reconhecemos que nosso pecado ofende o Espírito Santo — ou seja, ofende</p><p>a Deus —, reconhecemos que Deus é nosso redentor e Pai. Nosso pecado</p><p>magoa nosso Pai celeste. Quer sejamos grosseiros com alguém, quer</p><p>recusemos perdão a quem nos ofendeu, estamos magoando o coração do</p><p>Pai.</p><p>Além de magoarmos nosso Pai celeste com nosso pecado, também</p><p>abusamos de sua graça. Paulo a�rmou que Deus nos perdoa segundo a</p><p>riqueza de sua graça (v. Ef 1.7). Isso é uma verdade bendita, mas o pecado,</p><p>na sutileza de sua enganação, cochicha em nossos ouvidos que as palavras</p><p>grosseiras e os ressentimentos não importam, pois Deus já os perdoou.</p><p>Perdão, no entanto, não signi�ca fazer vista grossa ou tolerar o pecado.</p><p>Deus nunca faz isso; pelo contrário, Deus sempre julga o pecado. Mas, em</p><p>nosso caso (ou seja, de quem con�a em Jesus como Salvador), Deus julgou</p><p>nosso pecado na pessoa de seu Filho. Como o profeta Isaías escreveu:</p><p>“Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo</p><p>seu caminho; mas o S����� fez cair a maldade de todos nós sobre ele”</p><p>(53.6). Deveríamos abusar da graça de Deus e, assim, tolerar em nossa vida</p><p>o pecado que pregou Cristo na cruz?</p><p>Observe bem que cada um de nossos pensamentos, palavras e atitudes é</p><p>realizado na presença de Deus. Davi escreveu:</p><p>S�����, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; conheces de</p><p>longe o meu pensamento. Examinas o meu andar e o meu deitar; conheces todos os meus</p><p>caminhos. Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu, S�����, já a conheces toda (Sl</p><p>139.1-4).</p><p>Deus conhece cada um de nossos pensamentos; ele ouve nossas palavras</p><p>antes mesmo que as pronunciemos, e vê tudo o que fazemos. Até mesmo</p><p>nossos motivos ele examina, pois Paulo escreveu que, quando o Senhor</p><p>voltar, ele “manifestará os motivos dos corações” (1Co 4.5).</p><p>Isso signi�ca</p><p>que toda a nossa rebeldia, todo o nosso desprezo por Deus e</p><p>sua lei, toda a mágoa que causamos ao Espírito Santo, todo o nosso pouco</p><p>caso com a graça divina, e todo o nosso pecado acontecem abertamente na</p><p>presença de Deus. É como se estivéssemos encenando o nosso pecado</p><p>diante de Deus enquanto ele assiste a tudo de seu trono real.</p><p>Fiz referência ao livro de Ralph Venning, “�e Sinfulness of Sin” [A</p><p>pecaminosidade do pecado]. O título parece pleonasmo, repetição</p><p>desnecessária; mas, na verdade, a intenção de Venning com isso era propor</p><p>esta ideia: “Assim como Deus é santo, todo santo, somente santo,</p><p>completamente santo e sempre santo, o pecado é pecador, todo pecador,</p><p>somente pecador e sempre pecador.”1 Não importa se nosso pecado é</p><p>escandaloso ou intocável, todo nosso pecado é pecador, somente pecador e</p><p>totalmente pecador. Se é pequeno ou grande aos nossos olhos, é hediondo</p><p>aos olhos de Deus. Deus perdoa nosso pecado porque Cristo derramou seu</p><p>sangue, mas ele não o tolera. Pelo contrário, cada pecado que cometemos,</p><p>até o mais sutil, aquele em que nem pensamos, foi colocado sobre Jesus</p><p>quando ele recebeu o castigo de Deus em nosso lugar. E aqui reside a</p><p>malignidade do pecado.</p><p>Cristo sofreu por causa de nossos pecados.</p><p>Essa é, então, a má notícia sobre nosso pecado; e, como você viu, ela é</p><p>muito, muito ruim mesmo. Qual é a sua reação diante disso? É redirecionar</p><p>essa notícia para as pessoas que você julga que são pecadoras? É pensar em</p><p>como seria bom que determinada pessoa lesse este capítulo? Ou essa visão</p><p>de nosso pecado faz com que você queira cair de joelhos perante Deus em</p><p>arrependimento e contrição pelos pecados que tem tolerado em sua vida? Se</p><p>essa última atitude é o seu desejo, então você está pronto para a boa notícia,</p><p>e ela é muito, muito boa mesmo.</p><p>1Ralph Venning. �e Sinfulness of Sin. Edinburgh, Escócia, e Carlisle, PA: �e Banner of Truth Trust,</p><p>1965, primeira publicação em 1669, p. 31.</p><p>J</p><p>ohn Newton, autor do querido hino “Amazing Grace”1 , foi tra�cante de</p><p>escravo e capitão de um navio negreiro que levava africanos para os</p><p>Estados Unidos. Por motivo de saúde, Newton deixou a navegação e passou</p><p>a ser o�cial alfandegário; estudou teologia e tornou-se pastor. Contudo,</p><p>mesmo pastoreando, ele não esquecia a natureza horrorosa de seu pecado</p><p>como tra�cante de escravo. Perto de morrer, Newton disse a um amigo:</p><p>“Minha memória praticamente se foi, entretanto me lembro de duas coisas:</p><p>que sou um grande pecador e que Cristo é um grande Salvador.”2</p><p>Séculos antes, Saulo de Tarso, que se tornou o apóstolo Paulo, também</p><p>foi culpado de pecados repulsivos. Atos 7.54—8.1 descreve sua</p><p>cumplicidade no apedrejamento de Estêvão; em Atos 9.1,2, lemos sobre seu</p><p>envolvimento pessoal na perseguição aos cristãos. No �m da vida, Paulo</p><p>confessa que na juventude havia sido “blasfemo, perseguidor [de Cristo] e</p><p>arrogante” (1Tm 1.13). Todavia, no mesmo contexto, também a�rma:</p><p>“Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o</p><p>principal” (v. 15).</p><p>Tanto John Newton quanto o apóstolo Paulo se consideravam grandes</p><p>pecadores, mas a�rmaram ter encontrado um grande Salvador. A maioria</p><p>dos cristãos não se identi�ca com John Newton nem com o apóstolo Paulo</p><p>na gravidade de seus pecados antes de se converterem. Talvez não</p><p>tenhamos adulterado, assassinado, tra�cado drogas ou roubado nossos</p><p>patrões. Eu mesmo, ao fazer um balanço da vida, posso a�rmar que fui uma</p><p>criança obediente, um adolescente exemplar, um funcionário de con�ança e</p><p>um marido e pai consciencioso. Na verdade, faço parte de um ministério</p><p>cristão há mais de cinquenta anos.</p><p>No entanto, apesar de nunca ter cometido nenhum pecado escabroso, já</p><p>fofoquei, apontei o dedo para os outros, guardei ressentimento, fui</p><p>impaciente, agi baseado no egoísmo, deixei de con�ar em Deus em</p><p>momentos difíceis da vida, sucumbi ao materialismo, e até idolatrei meu</p><p>time de futebol. Tenho de me juntar a Paulo e dizer que sou o maior dos</p><p>pecadores, ou parafraseando John Newton: “Sou um grande pecador, mas</p><p>tenho um grande Salvador.” Essa é minha única esperança. É a única cura</p><p>para os meus pecados, e também é a única cura para os seus.</p><p>John Newton e Paulo descreveram-se como pecadores no tempo</p><p>presente. Nenhum dos dois disse: “Fui”; ambos confessaram: “Sou”. O</p><p>contexto da a�rmação de Paulo deixa claro que ele re�etia sobre seus</p><p>pecados como perseguidor dos cristãos. Da mesma forma, entendemos pelas</p><p>re�exões de Newton que ele nunca superou o fato de ter sido tra�cante de</p><p>escravos. Na realidade, com o passar do tempo, ele �cava cada vez mais</p><p>horrorizado com seu passado.</p><p>Então, isso signi�ca que Paulo e John Newton, embora se descrevessem</p><p>pecadores no tempo presente, se referiam apenas aos pecados antigos como</p><p>perseguidor e tra�cante de escravos, respectivamente? Di�cilmente estariam</p><p>pensando assim. Sabemos, por exemplo, que poucos anos antes de escrever</p><p>1Timóteo Paulo se classi�cou como “o menor entre todos os santos” e como</p><p>ministro do evangelho somente pela graça de Deus (v. Ef 3.7,8). Aliás,</p><p>parece haver uma descida progressiva na conscientização de Paulo; descida</p><p>que vai de o menor dos apóstolos (v. 1Co 15.9, escrito no ano 55 d.C.) para</p><p>o menor dos santos (v. Ef 3.8, escrito em 60 d.C.), chegando ao maior dos</p><p>pecadores (v. 1Tm 1.15, escrito por volta de 63-64 d.C.).</p><p>É certo que, desde a conversão até a morte, Newton e Paulo</p><p>desenvolveram o caráter de Cristo. Com o passar do tempo, os dois agiam</p><p>cada vez mais como os santos que se tornaram na conversão. Entretanto o</p><p>processo de crescimento exigiu maior consciência e percepção das</p><p>manifestações da carne que ainda habitava neles. Assim, John Newton</p><p>poderia facilmente ter dito: “Fui e ainda sou um grande pecador, mas tenho</p><p>um grande Salvador.” Se você e eu queremos lidar efetivamente com os</p><p>pecados aceitáveis em nossa vida, temos de a�rmar a mesma coisa.</p><p>A cura para nossos pecados, sejam vergonhosos, sejam aceitáveis, é o</p><p>evangelho em sua maior abrangência. O evangelho é, na verdade, uma</p><p>mensagem; aqui ele é entendido como expressão resumida da obra</p><p>completa da vida, morte e ressurreição de Cristo por nós e de sua atuação</p><p>em nós hoje por intermédio do Espírito Santo. Quando falo de abrangência</p><p>maior do evangelho, re�ro-me ao fato de Cristo, em sua obra por nós e em</p><p>nós, livrar-nos não somente do castigo do pecado como também de seu</p><p>domínio ou poder reinante em nossas vidas. Augustus Toplady apreendeu</p><p>de maneira belíssima esses dois aspectos da obra maravilhosa de Cristo em</p><p>seu hino “Rock of Ages”:</p><p>Que a água e o sangue,</p><p>Que de teu lado escorreram,</p><p>Sejam a cura dupla do pecado,</p><p>Limpando-me de seu mal e poder.3</p><p>A partir do capítulo 7, seremos especí�cos quanto aos muitos pecados</p><p>intocáveis em nossas vidas — com que eles se parecem, os estragos que</p><p>causam em nossas vidas, e como lidar com eles. Mas antes temos de</p><p>examinar com cuidado o evangelho, e isso por alguns motivos.</p><p>Primeiro, o evangelho é só para os pecadores. Cristo Jesus veio ao mundo</p><p>salvar os pecadores (v. 1Tm 1.15). Muitos cristãos acham que o evangelho</p><p>se aplica somente aos não crentes, que precisam ser “salvos”. A crença geral</p><p>é que, uma vez que con�amos em Cristo, não precisamos mais do</p><p>evangelho, a não ser para compartilhá-lo com quem ainda está perdido.</p><p>Embora sejamos santos de verdade no sentido de separados para Deus,</p><p>ainda continuamos pecadores. No Novo Testamento, todos os</p><p>mandamentos éticos e exortações aos cristãos pressupõem que o pecado</p><p>continua presente em nosso viver, e temos de lidar com ele. Dentre as</p><p>quatro maneiras em que a Escritura é útil, conforme 2Timóteo 3.16,</p><p>encontram-se a repreensão e a correção. Mais uma vez, essas duas maneiras</p><p>pressupõem que ainda temos pecados que precisam ser repreendidos e</p><p>corrigidos.</p><p>Então, a primeira utilidade do evangelho, como cura para nossos pecados,</p><p>é arar o terreno de nossos corações para enxergarmos os pecados que ali</p><p>estão. Aceitar minha condição de pecador que necessita do evangelho</p><p>diariamente é uma apunhalada no meu coração moralista que me prepara</p><p>para enfrentar e aceitar a</p><p>realidade do pecado que continua a viver dentro</p><p>de mim.</p><p>Segundo, o evangelho não só me prepara para encarar o pecado, mas</p><p>também me deixa livre para isso. Enfrentar o pecado resulta em culpa. Nós</p><p>nos sentimos culpados, porque somos culpados. E se creio, de forma</p><p>consciente ou inconsciente, que Deus ainda leva em conta a minha culpa, o</p><p>instinto de autoproteção me impede de reconhecer o pecado e a culpa, ou</p><p>então me leva a depreciá-los. Contudo, não podemos nem começar a lidar</p><p>com uma manifestação em particular do pecado — como ira ou</p><p>autocomiseração, por exemplo — até reconhecermos abertamente sua</p><p>presença e atuação em nossas vidas. Então, preciso ter certeza de que meu</p><p>pecado está perdoado antes mesmo de reconhecê-lo, quanto mais para</p><p>começar a lidar com ele.</p><p>Quando falo em reconhecer o pecado, re�ro-me a algo mais do que uma</p><p>admissão pessoal pela metade de que fui egoísta em certa ocasião. Pelo</p><p>contrário, falo de admissão incondicional e indefensável: “Sou egoísta, e</p><p>aquela atitude em particular nada mais foi que uma manifestação do</p><p>egoísmo que ainda habita em mim.” Mas, para admitir isso, preciso ter</p><p>certeza de que meu egoísmo está perdoado — que Deus não me culpa mais</p><p>por ele. O evangelho nos dá essa garantia. Avalie estas palavras do apóstolo</p><p>Paulo: “Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas, cujos</p><p>pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor nunca</p><p>atribuirá o pecado” (Rm 4.7,8).</p><p>Por que Deus “dá baixa” no meu pecado? Porque já o creditou a Jesus.</p><p>Como o profeta Isaías disse: “Todos nós andávamos desgarrados como</p><p>ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o S����� fez cair a</p><p>maldade de todos nós sobre ele” (53.6).</p><p>À medida que entendo, no meu íntimo, essa grande verdade do perdão</p><p>de Deus por intermédio de Cristo, �co livre para enfrentar, de modo</p><p>honesto e humilde, as manifestações do pecado em minha vida. Por isso, é</p><p>importante a�rmar diariamente como John Newton fez: “Sou um grande</p><p>pecador, mas tenho um grande Salvador.”</p><p>Terceiro, o evangelho me motiva e me fortalece a lidar com o pecado.</p><p>Não basta enfrentar honestamente o pecado. Se queremos �car mais e mais</p><p>parecidos com Cristo, temos de lidar com o pecado. Usando a linguagem</p><p>bíblica, é preciso “morti�car as práticas do corpo” (v. Rm 8.13; Cl 3.5).</p><p>Todavia, como alguém disse com muita propriedade, o único pecado contra</p><p>o qual podemos lutar com sucesso é o pecado perdoado. Só podemos</p><p>começar a lidar com a atividade do pecado em nossas vidas depois de termos</p><p>lidado com sua culpa. Retornamos, assim, para o evangelho e para a certeza</p><p>de que Deus, por meio de Cristo, já tratou da nossa culpa.</p><p>Saber que Deus não me culpa mais pelo pecado me oferece duas certezas.</p><p>Primeiro, assegura-me de que Deus está comigo, e não contra mim (v. Rm</p><p>8.31). Não estou sozinho nessa batalha contra o pecado. Deus não está me</p><p>olhando lá do trono celeste e admoestando: “Quando é que você vai se</p><p>endireitar? Quando é que vai dar um basta nesse pecado?” Pelo contrário,</p><p>ele se coloca ao meu lado, e me incentiva: “Vamos trabalhar nesse pecado,</p><p>mas saiba que não tenho nada contra você.” Deus não é mais o meu Juiz;</p><p>agora ele é meu Pai celeste que me ama, mesmo em face do meu pecado,</p><p>com amor in�nito gerado em seu próprio coração. Essa certeza me encoraja</p><p>grandemente e me motiva a lutar contra o pecado.</p><p>Além disso, ter certeza de que Deus não me atribui mais o pecado, e que</p><p>está ao meu lado na luta contra ele, produz em mim uma enorme gratidão</p><p>pelo que ele fez e está fazendo em minha vida por intermédio de Cristo.</p><p>Juntos, o encorajamento e a gratidão geram em nós o desejo de lutar</p><p>contra o pecado. Não se engane: lutar contra o pecado não é uma opção.</p><p>Matar o pecado é uma ordem. É nossa obrigação realizar essa tarefa.</p><p>Todavia, obrigação sem disposição logo resulta em canseira. É a verdade do</p><p>evangelho, rea�rmada em nossos corações diariamente, que planta em nós</p><p>o desejo de realizar a tarefa. É o evangelho que alimenta o fogo de nossa</p><p>motivação para lidar com nossos pecados intocáveis e sutis. É o evangelho</p><p>que nos motiva a viver diariamente o que somos aos olhos de Deus.</p><p>Vemos, então, que a apropriação diária do evangelho que nos assegura o</p><p>perdão dos pecados é uma parte signi�cativa de nossa luta contra o pecado.</p><p>Não é a única parte — e analisaremos algumas em outros capítulos —, mas,</p><p>por ora, incentivo o leitor a apoderar-se do evangelho todos os dias de</p><p>modo consciente.</p><p>Alguém disse: “Pregue o evangelho a você mesmo todos os dias.” É assim</p><p>que nos apropriamos diariamente, e de modo consciente, do evangelho.</p><p>Temos de anunciá-lo a nós mesmos dia a dia. Além disso, temos de</p><p>personi�cá-lo, como Paulo fez ao escrever sobre o “Filho de Deus, que me</p><p>amou e se entregou por mim” (Gl 2.20; grifo nosso). Também é bom</p><p>personi�car o amor do Pai de maneira semelhante. Por exemplo,</p><p>parafraseando 1João 4.10: “Nisto está o amor: não fui eu que amei a Deus,</p><p>mas foi ele quem me amou e enviou seu Filho como propiciação pelos meus</p><p>pecados” (grifo nosso).</p><p>A boa notícia de que Deus não vai jogar os meus pecados na minha cara,</p><p>que ele me perdoou de verdade, é tão espetacular e tão contrária à nossa</p><p>forma de pensar que, francamente, parece boa demais para ser verdade.</p><p>Particularmente num dia em que os acontecimentos escancaram seu</p><p>egoísmo, sua impaciência ou seus ressentimentos, aí é que a notícia parece</p><p>mesmo boa demais para ser verdade. Tive um dia assim: precisei correr para</p><p>a Bíblia, ler de olhos arregalados sobre o perdão de Deus anunciado em</p><p>suas páginas e “pregá-lo” a mim mesmo. Contudo, não importa se o dia está</p><p>“ruim” ou “bom”, mesmo nos melhores dias temos de pregar o evangelho a</p><p>nós mesmos. A verdade é que nunca existe um dia em nossas vidas em que</p><p>somos tão “bons” que não precisamos do evangelho.</p><p>Você deve estar perguntando: “Se pregar o evangelho a mim mesmo é</p><p>tão importante, como faço isso?” Não existe um jeito certo, então vou</p><p>explicar como faço. Sou metódico por natureza, então meu jeito não servirá</p><p>para todo mundo, mas tomara que faça brotar em sua cabeça alguma ideia</p><p>sobre como é pregar o evangelho a nós mesmos. Lá vai.</p><p>Como o evangelho é coisa para pecadores, começo o dia admitindo que,</p><p>apesar de eu ser santo, peco diariamente em pensamentos, palavras, ações e</p><p>motivos. Se estou ciente de qualquer pecado sutil — ou nem tanto — em</p><p>minha vida, confesso-o a Deus. Mesmo se minha consciência não me acusa</p><p>de nada, confesso a Deus que não chego nem perto de amá-lo de todo o</p><p>coração ou de amar o próximo como a mim mesmo. Arrependo-me desses</p><p>pecados, e aplico alguns versículos especí�cos que me asseguram do perdão</p><p>de Deus aos pecados que acabei de confessar.</p><p>A seguir, estendo as promessas do perdão de Deus, apresentadas nesses</p><p>versículos, para toda a minha vida e admito que minha única esperança de</p><p>�car bem com ele naquele dia é por meio do sangue de Jesus derramado por</p><p>meus pecados, e por sua vida de retidão em meu favor. Edward Mote</p><p>apreendeu de maneira belíssima essa con�ança nos dois aspectos da obra de</p><p>Cristo por mim nesta frase do seu hino “�e Solid Rock”: “Minha</p><p>esperança não está alicerçada em nada, a não ser no sangue e na retidão de</p><p>Jesus.”4 Quase todos os dias, pego-me cantando essa frase e re�etindo nas</p><p>promessas de perdão contidas na Bíblia.</p><p>Quais versículos uso para pregar o evangelho a mim mesmo?</p><p>Alguns deles são:</p><p>Como o Oriente se distancia do Ocidente, assim ele afasta de nós nossas transgressões (Sl</p><p>103.12).</p><p>Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e não me lembro dos teus</p><p>pecados (Is 43.25).</p><p>Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o</p><p>S����� fez cair a maldade de todos nós sobre ele (Is 53.6).</p><p>Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas, cujos pecados são cobertos. Bem-</p><p>aventurado o homem a quem o Senhor nunca atribuirá o pecado (Rm 4.7,8).</p><p>Portanto, agora já não há condenação alguma para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1).</p><p>Há muitos outros, incluindo Salmo 130.3,4; Isaías 1.18; 38.17; Miqueias</p><p>7.19; Efésios 1.7; Colossenses</p><p>2.13,14; Hebreus 8.12 e 10.17,18.</p><p>Sejam quais forem os versículos que usemos para nos certi�car do perdão</p><p>de Deus, precisamos entender que, a�rmando claramente ou não, a única</p><p>base para o perdão de Deus é o sangue de Cristo derramado na cruz por</p><p>nós. Como disse o autor de Hebreus, “sem derra mamento de sangue não há</p><p>perdão” (9.22), e o contexto deixa claro que o sangue de Cristo é o critério</p><p>objetivo pelo qual Deus perdoa nossos pecados.</p><p>Esta é, então, a primeira parte da boa notícia do evangelho: Deus</p><p>perdoou todos os nossos pecados por intermédio da morte de seu Filho na</p><p>cruz. Voltando ao hino de Toplady, “Rock of Ages”, essa é a primeira parte</p><p>da “cura dupla” — isto é, ser puri�cado da culpa do pecado. No entanto, a</p><p>“cura dupla” de Toplady também inclui ser puri�cado do poder do pecado, e</p><p>esse é o assunto do próximo capítulo.</p><p>1Traduzido em português com o título “Preciosa a graça de Jesus”, e publicado no Brasil pela JUERP</p><p>no Hinário para o Culto Cristão, hino 314.</p><p>2Brian H. Edwards, �rough Many Dangers: �e Story of John Newton. Welwyn, England: Eurobooks,</p><p>1980, p. 191.</p><p>3O hino foi traduzido em português com o título Rocha eterna, e publicado no Cantor Cristão e</p><p>Hinário para o Culto Cristão, da JUERP, e também em Salmos e Hinos, da Igreja Evangélica</p><p>Fluminense e Edições Vida Nova, entre outros. Aqui, a tradução é literal para acompanhar o</p><p>argumento do escritor.</p><p>4Traduzido em português com os títulos “A minha fé e o meu amor”, no Hinário para o Culto Cristão, e</p><p>“Firmeza”, no Cantor Cristão, ambos da JUERP.</p><p>O</p><p>hino de Augustus Toplady fala sobre a “cura dupla”— ou seja, sobre</p><p>a libertação da culpa e do poder do pecado. No capítulo anterior,</p><p>vimos que, por meio da morte de seu Filho, Deus nos puri�ca de verdade da</p><p>culpa do pecado. Ele não perdoa porque deseja ser bonzinho conosco, mas</p><p>perdoa porque sua justiça foi cumprida. O perdão absoluto de nossos</p><p>pecados é tão incontestável quanto a realidade histórica da morte de Cristo.</p><p>É importante entendermos essa maravilhosa verdade do evangelho, pois só</p><p>conseguimos lidar com nossos pecados “intocáveis” quando temos certeza de</p><p>que foram perdoados.</p><p>O hino de Toplady não fala apenas de livramento da culpa do pecado,</p><p>mas também de livramento do seu poder. Quando labutamos contra alguma</p><p>manifestação de pecado, muitas vezes duvidamos se o evangelho realmente</p><p>confronta o poder do pecado em nossas vidas. Questionamos se adianta</p><p>matar algum pecado mais persistente contra o qual lutamos. Será que</p><p>podemos honestamente nos juntar a Toplady e dizer que Cristo, a “Rocha</p><p>Eterna”, nos puri�ca de verdade da culpa e do poder do pecado?</p><p>Para responder à pergunta, temos de analisar em duas etapas a</p><p>puri�cação do poder do pecado. A primeira etapa se refere à libertação</p><p>decisiva e completa dos cristãos do domínio ou do poder reinante do pecado.</p><p>A segunda etapa se refere à libertação progressiva e contínua do pecado que</p><p>permanece ativo em nós até morrermos. Em Romanos 6, Paulo nos ajuda a</p><p>entender essa libertação que acontece em duas etapas.</p><p>Em Romanos 6.2, o apóstolo a�rma que “morremos para o pecado”, e no</p><p>versículo 8, que “já morremos com Cristo”. Ou seja, por meio de nossa</p><p>união com Cristo em sua morte, morremos não só para a culpa do pecado</p><p>como também para o seu poder reinante em nós. Isso é verdade para todos</p><p>os cristãos, e acontece no dia em que somos salvos, quando Deus nos liberta</p><p>do domínio das trevas e nos transporta para o reino de seu Filho (v. Cl</p><p>1.13).</p><p>A a�rmação de Paulo que “morremos para o pecado” é assertiva. É algo</p><p>que Deus faz por nós no momento de nossa salvação. Nada do que</p><p>realizamos depois desse ato decisivo tem poder de alterar, para melhor ou</p><p>pior, o fato de termos morrido tanto para a culpa quanto para o domínio do</p><p>pecado.</p><p>Ao mesmo tempo, porém, Paulo nos encoraja a não deixar que o “pecado</p><p>reine em [nosso] corpo mortal, a �m de [obedecermos] aos seus desejos”</p><p>(Rm 6.12). Mas como é que o pecado reina se já morremos para ele? Paulo</p><p>refere-se à presença contínua e à atividade incessante do pecado que,</p><p>embora “destronado” de seu poder em nossas vidas, continua buscando</p><p>exercer in�uência e controle em nosso caminhar diário. De certo modo, o</p><p>pecado é uma guerrilha espiritual em nossos corações. Paulo descreve esse</p><p>combate em Gálatas 5.17:</p><p>Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne. Eles se opõem um ao outro, de</p><p>modo que não conseguis fazer o que quereis.</p><p>A luta entre os desejos da carne e os desejos do Espírito é diá ria. Muitas</p><p>vezes, essa tensão nos leva a questionar se o evangelho realmente lida com</p><p>esse aspecto da força do pecado — ou seja, sua capacidade de nos arrastar</p><p>para seus desejos. Isso parece especialmente verdadeiro em relação aos</p><p>nossos pecados mais intocáveis. Alguns desses pecados sutis são resistentes,</p><p>e temos de combatê-los dia a dia. Às vezes achamos que alguns deles já</p><p>�caram para trás, contudo, pouco depois, damos de cara com eles em algum</p><p>lugar, e a batalha recomeça.</p><p>A essa altura do con�ito, somos levados a pensar: É fácil dizer que o</p><p>pecado não tem mais domínio sobre mim, contudo como é que �ca o</p><p>convívio diário que tenho com a presença e as atividades remanescentes do</p><p>pecado? O evangelho me puri�ca disso? Posso ter esperança de sair vitorioso</p><p>na batalha mortal contra os pecados sutis de minha vida?</p><p>A resposta de Paulo a esse questionamento a�itivo encontra-se em</p><p>Gálatas 5.16: “Mas eu a�rmo: Andai pelo Espírito e nunca satisfareis os</p><p>desejos da carne.” Andar pelo Espírito é viver sob o controle e na</p><p>dependência dele. Paulo garante que, se vivermos assim, não satisfaremos</p><p>os desejos da carne.</p><p>Falando de modo prático, vivemos sob o controle do Espírito à medida</p><p>que sujeitamos diariamente nossos pensamentos à vontade moral do</p><p>Espírito revelada na Bíblia, e procuramos obedecer a ela. Vivemos na</p><p>dependência do Espírito quando imploramos por meio da oração incessante</p><p>que seu poder nos capacite a ser obedientes à sua vontade.</p><p>A vida cristã tem um princípio fundamental que chamo de</p><p>responsabilidade dependente. Ou seja, somos responsáveis diante de Deus</p><p>por obedecer à sua Palavra e matar os pecados em nossa vida, tantos os</p><p>chamados aceitáveis quanto os obviamente não aceitáveis. Ao mesmo</p><p>tempo, não temos capacidade para cumprir essa tarefa. Na verdade, somos</p><p>totalmente dependentes do poder capacitador do Espírito Santo. Nesse</p><p>sentido, somos tanto responsáveis quanto dependentes.</p><p>À medida que buscamos andar pelo Espírito, iremos vê-lo trabalhar em</p><p>nós e por nós para nos puri�car da força do pecado que ainda atua em nossa</p><p>vida. Nunca seremos perfeitos neste mundo, mas progrediremos aos poucos.</p><p>Algumas vezes, acharemos que não tem ocorrido progresso nenhum.</p><p>Contudo, se queremos mesmo lidar com os pecados sutis de nossa vida,</p><p>podemos estar certos de que o Espírito Santo trabalhará em nós e por nós, e</p><p>nos ajudará. Sua promessa é que “aquele que começou a boa obra em [nós]</p><p>irá aperfeiçoá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). O Espírito Santo não</p><p>abandonará a obra que começou em nós.</p><p>Na verdade, ao lermos cuidadosamente as cartas do Novo Testamento,</p><p>observaremos que seus autores, especialmente Paulo, às vezes atribuem essa</p><p>obra em nós ao Deus Pai, outras vezes ao Filho Jesus e algumas vezes ao</p><p>Espírito Santo. A verdade é que as três pessoas da Trindade estão</p><p>envolvidas em nossa transformação espiritual, contudo o Pai e o Filho</p><p>trabalham por meio do Espírito Santo que habita em nós (v. 1Co 6.19). Por</p><p>exemplo, Paulo ora ao Pai para que sejamos fortalecidos interiormente com</p><p>poder pelo seu Espírito (v. Ef 3.16). Como alguém disse com muita</p><p>propriedade: “O Espírito entrega o que Cristo concede.” Assim, quando falo</p><p>do poder do Espírito Santo, re�ro-me ao poder do Pai, do Filho e do</p><p>Espírito Santo; poder que nos é transmitido e exercido em nós pelo Espírito</p><p>Santo.</p><p>O modo como o Espírito Santo age em nós e por nós é um mistério, pois</p><p>não conseguimos entendê-lo nem explicá-lo. Simplesmente aceitamos o</p><p>testemunho da Bíblia de que ele habita em nós e está trabalhando para nos</p><p>deixar cada vez mais</p><p>parecidos com Cristo (v.  2Co  3.18). Não podemos</p><p>duvidar dessa grande verdade a respeito do Espírito Santo. Precisamos</p><p>acreditar que não estamos sozinhos na batalha contra os pecados sutis. Ele</p><p>tem trabalhado em nós, e progredimos à medida que andamos pelo</p><p>Espírito.</p><p>Convencer-nos do pecado é um jeito de o Espírito Santo trabalhar em</p><p>nós. Ou seja, ele nos faz ver nosso egoísmo, nossa impaciência e nossa</p><p>atitude crítica exatamente como são — pecados. O Espírito trabalha por</p><p>meio da Bíblia (que ele inspirou) para nos repreender e corrigir (v. 2Tm</p><p>3.16). Também age por meio de nossa consciência, ao passo que ela vai</p><p>sendo esclarecida e sensibilizada pelos ensinos da Bíblia. O Espírito já me</p><p>trouxe à lembrança um pecado sutil e, usando essa minha atitude errada</p><p>como ponto de partida, foi mostrando como esse pecado agia em minha</p><p>vida. É lógico que nos convencer do pecado é uma das tarefas vitais do</p><p>Espírito em nós, pois não dá nem para começar a lidar com um pecado —</p><p>especialmente aqueles que são comuns e aceitáveis no ambiente evangélico</p><p>— sem antes concordarmos que certo jeito de pensar, falar ou agir é pecado</p><p>de verdade.</p><p>Outra maneira de o Espírito Santo trabalhar em nossa vida é nos</p><p>capacitando e fortalecendo para lidar com o pecado. Em Romanos  8.13,</p><p>Paulo nos exorta pelo Espírito a “morti�car as práticas do corpo”. Em</p><p>Filipenses 2.12,13, o apóstolo nos incentiva a pôr “em ação a [nossa]</p><p>salvação [...] pois é Deus quem efetua em [nós] tanto o querer quanto o</p><p>realizar, segundo a sua boa vontade” (���). Em outras palavras, Paulo nos</p><p>instiga a agir na con�ança de que Deus está trabalhando em nós. Embora o</p><p>apóstolo se re�ra a Deus, provavelmente Deus Pai, como aquele que</p><p>trabalha, já vimos que Deus usa o Espírito Santo como agente</p><p>transformador de nossas vidas.</p><p>Paulo diz em Filipenses 4.13 que eu “posso todas as coisas naquele que</p><p>me fortalece”. Ficamos aptos a lidar com nosso orgulho, impaciência,</p><p>espírito crítico e presunção quando dependemos da força e capacitação que</p><p>o Espírito Santo nos dá. Assim, não devemos jamais desistir. Não importa</p><p>se o progresso é pouco ou nenhum, o Espírito tem trabalhado em nós. Às</p><p>vezes, parece que ele refreou o seu poder, mas talvez isso seja para nos</p><p>mostrar o quanto dependemos dele.</p><p>Além de o Espírito Santo nos fortalecer e capacitar para a tarefa, sua</p><p>obra em nós é monergística; ou seja, ele trabalha sozinho sem nossa</p><p>participação consciente. Na oração de Hebreus 13.20,21, o autor a�rma que</p><p>Deus está “realizando em nós o que perante ele é agradável.” Essa verdade</p><p>deveria nos encorajar muitíssimo. Mesmo em nossos piores dias, quando</p><p>não conseguimos quase nenhum avanço na batalha contra o pecado,</p><p>podemos ter certeza de que o Espírito Santo continua trabalhando em nós.</p><p>É bem possível que, apesar de sofrer com nosso pecado (v. Ef 4.30), ele use</p><p>esse pecado para nos ensinar a ser humildes e a clamar a Deus em</p><p>dependência cada vez maior.</p><p>Outra maneira de o Espírito Santo nos transformar é fazendo-nos viver</p><p>situações planejadas para o nosso crescimento espiritual. Assim como nossa</p><p>musculatura física não se fortalece sem exercícios, a nossa vida espiritual não</p><p>crescerá sem as circunstâncias que nos desa�am.</p><p>Se temos tendência a ter ataques de ira, algumas situações desencadearão</p><p>a nossa ira. Se somos inclinados a julgar as pessoas, é provável que não nos</p><p>falte ocasião para isso. Se �camos ansiosos com facilidade, teremos</p><p>inúmeras oportunidades de lidar com esse pecado. Deus não nos tenta ao</p><p>pecado (v. Tg 1.13,14), mas proporciona ou permite circunstâncias que nos</p><p>dão a chance de matar aqueles pecados sutis característicos de nossa</p><p>individualidade. Naturalmente, só podemos lidar com os pecados sutis</p><p>quando eles brotam numa situação.</p><p>Claro que tudo o que eu disse nos últimos dois parágrafos pressupõe que</p><p>Deus tem absoluto controle de todas as nossas circunstâncias. Há inúmeros</p><p>versículos na Bíblia que a�rmam isso, porém Lamentações 3.37,38 mostra</p><p>essa verdade de modo explícito: “Quem poderia mandar e fazer acontecer as</p><p>coisas, sem que o Senhor o tenha ordenado? Não é o Altíssimo que envia</p><p>tanto o mal como o bem?”</p><p>Podemos tirar muitas lições desse versículo, mas a verdade que gostaria de</p><p>enfatizar agora é que Deus está no controle de cada situa ção e cada</p><p>acontecimento de nossa vida, e os usa, de modo muitas vezes inexplicável,</p><p>para nos deixar mais e mais parecidos com Cristo.</p><p>Romanos 8.28 é um versículo em que muitos de nós buscam</p><p>encorajamento nas horas difíceis. Para quem não se lembra, ele diz:</p><p>“Sabemos que Deus faz com que todas as coisas concorram para o bem</p><p>daqueles que o amam, dos que são chamados segundo o seu propósito.” No</p><p>entanto, apesar de esse versículo ser de grande encorajamento, Paulo na</p><p>verdade está falando de nossa transformação espiritual. O “bem” do</p><p>versículo 28 é explicado no versículo 29, como sendo a conformidade com a</p><p>imagem do Filho de Deus. Isso quer dizer que o Espírito Santo trabalha em</p><p>nós por meio das circunstâncias a �m de nos deixar mais parecidos com</p><p>Cristo.</p><p>Resumindo, o Espírito Santo trabalha em nós para nos convencer e nos</p><p>fazer cientes dos pecados sutis. Ele trabalha em nós para nos capacitar a</p><p>matar esses pecados. Depois, ele trabalha de modo que nem notamos.</p><p>Desse modo, usa as circunstâncias para nos exercitar no combate aos</p><p>pecados.</p><p>Temos um papel de muita importância nisso tudo. É nossa</p><p>responsabilidade matar os pecados aceitáveis em nossas vidas. Não podemos</p><p>simplesmente jogar a responsabilidade nas costas de Deus e permanecer</p><p>sentado, observando-o trabalhar. Ao mesmo tempo, somos dependentes</p><p>dele. Não conseguimos progredir um milímetro espiritualmente sem o</p><p>poder capacitador de Deus.</p><p>Entretanto, o Espírito Santo faz mais do que nos ajudar. É ele quem</p><p>lidera nossa transformação espiritual. É claro que ele usa ferramentas — e</p><p>espero que até este livro — para nos ajudar a descobrir e lidar com os</p><p>pecados sutis em nossas vidas. Contudo, ele não nos abandona nem nos</p><p>deixa descobrir sozinhos os nossos pecados ou lidar com eles na base da</p><p>nossa própria força.</p><p>As palavras de Augustus Toplady são verdadeiras: Deus nos liberta da</p><p>culpa e do poder do pecado por meio da morte expiatória de Cristo na cruz</p><p>e da obra misteriosa, mas real, do Espírito Santo em nós.</p><p>Ao iniciarmos, então, os capítulos deste livro que examinam em detalhes</p><p>os nossos pecados aceitáveis, encha-se de coragem. Lembre: Cristo já</p><p>sofreu o castigo por nossos pecados e conquistou por nós o perdão de todos</p><p>eles. Além disso, enviou seu Espírito Santo para habitar em nós e nos dar</p><p>força para lidar com os pecados.</p><p>Incentivo você, leitor, a orar para que o Espírito Santo o leve a enxergar</p><p>os pecados sutis e ocultos de sua vida. O pecado é enganoso (Ef 4.22), nos</p><p>ilude e nos faz viver num completo estado de negação sobre um pecado em</p><p>particular ou numa tentativa de minimizar sua seriedade. Somente o</p><p>Espírito Santo consegue, com absoluto sucesso, expor um pecado pelo que</p><p>ele é verdadeiramente.</p><p>Prepare-se para calçar “as sandálias da humildade”. Lembro-me bem da</p><p>ocasião em que o Espírito Santo revelou o egoísmo em minha vida. Até</p><p>então, eu sempre havia de�nido egoísmo como o orgulho óbvio e exagerado</p><p>que via em outras pessoas. Foi humilhante admitir que eu era, sim, egoísta,</p><p>ainda que de um modo bem mais sutil. Jesus, no entanto, prometeu</p><p>abençoar os pobres de espírito — ou seja, aqueles que admitem seus</p><p>pecados e choram por causa deles. Jesus também prometeu abençoar os que</p><p>têm fome e sede de justiça — ou seja, os que desejam de todo o coração</p><p>matar os pecados de suas vidas e substituí-los pelo fruto maravilhoso do</p><p>Espírito (v. Mt 5.4,6; Gl 5.22,23).</p><p>J</p><p>á estudamos sobre a cura para o pecado e sobre o poder do Espírito</p><p>Santo que trabalha a nosso favor. Vimos também que temos de</p><p>participar de forma ativa no trato com o pecado. O apóstolo Paulo escreveu</p><p>que é necessário “morti�car” as práticas do pecado em nossa vida (v. Rm</p><p>8.13; Cl 3.5). Isso inclui os pecados óbvios que queremos evitar como</p><p>também os mais sutis que somos propensos a ignorar. Não basta concordar</p>

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