Prévia do material em texto
CONCEITOS BÁSICOS EM AGROECOLOGIA O desenvolvimento de técnicas de cultivo e de criação busca prover a humanidade com elementos que satisfaçam suas necessidades não somente por alimentos, mas também por fibras e combustíveis. A AGRICULTURA SE INICIOU NA PRÉ-HISTÓRIA E NO DECORRER DOS SÉCULOS PASSOU POR DIVERSOS MODELOS DE PRODUÇÃO. Toda essa evolução trouxe inúmeros impactos socioambientais, principalmente a partir da segunda metade do Século XX quando ocorreu uma considerável expansão econômica logo após a Segunda Guerra Mundial. Tal expansão econômica trouxe, como consequência, impactos negativos sobre a biodiversidade, além de causar contaminação do solo e das águas, erosão e diminuição das populações rurais. O surgimento da Agroecologia em 1930 e seu fortalecimento a partir da década de 70 contribuiu para que novas técnicas e métodos de cultivo e criação fossem desenvolvidas visando a conservação da biodiversidade e a garantia da qualidade de vida da sociedade. O conceito de Agroecologia foi discutido por diversos autores e a ele foi incorporado conhecimentos sobre compostagem, adubação orgânica, permacultura, uso e manejo do solo, dentre outros assuntos de base ecológica. Ao longo de seu desenvolvimento, recebeu contribuições de várias ciências como a Ecologia, Sociologia, Geografia etc. Essa gama de conhecimentos e informações incorporadas permitiu conceituar a Agroecologia como sendo uma ciência multidisciplinar que busca manter o equilíbrio ecológico e a conservação da biodiversidade através de práticas de cultivo e de criação sustentáveis, minimizando assim, os impactos ambientais produzidos pelas práticas da agricultura convencional. Para melhor compreensão do termo Agroecologia, é necessário conhecer alguns conceitos básicos relacionados a essa ciência: ECOSSISTEMA O ecossistema é um sistema funcional, delimitado arbitrariamente, onde se dão relações complementares entre os organismos e seu ambiente. É constituído de organismos vivos, que interagem no ambiente, de fatores bióticos, e de componentes físicos e químicos não vivos do ambiente, como solo, luz, umidade, temperatura etc., que constituem os fatores abióticos. As relações entre ambos formam a estrutura do sistema, e os processos dinâmicos de que participam constituem a função do sistema (FEIDEN, 2005). AGROECOSSISTEMAS Os agroecossistemas são formados a partir da modificação de um ecossistema natural pelo homem para produção de bens necessários à sua sobrevivência, além de serem manejados de forma a aumentar a produtividade. A interferência antrópica substitui os mecanismos e controles naturais por controles artificiais, condicionada pelo tipo de sociedade na qual se insere o agricultor, ou seja, o ambiente vai determinar a presença de cada componente, no tempo e no espaço. Esse arranjo de componentes será capaz de processar inputs (insumos) ambientais e produzir outputs (produtos). Para fins práticos, um agroecossistema pode ser considerado equivalente a um sistema de produção, sistema agrícola ou unidade de produção. Nesse caso, é o conjunto de explorações e de atividades realizadas por um agricultor, com um sistema de gestão próprio (FEIDEN, 2005). AGROBIODIVERSIDADE O conceito de agrobiodiversidade reflete as dinâmicas e complexas relações entre as sociedades humanas, as plantas cultivadas e os ambientes em que convivem, repercutindo sobre as políticas de conservação dos ecossistemas cultivados, de promoção da segurança alimentar e nutricional das populações humanas, de inclusão social e de desenvolvimento rural sustentável (SANTILLI, 2012). SUSTENTABILIDADE O conceito de sustentabilidade está relacionado à capacidade que os ecossistemas possuem de se recuperarem e se reproduzirem diante de impactos ambientais negativos produzidos por desmatamentos, erosão, fogo, uso indiscriminado dos recursos naturais etc. Além disso, o termo sustentabilidade também está associado à economia quando se discute a utilização de recursos naturais como principal matéria-prima para o desenvolvimento econômico, trazendo à tona questionamentos quanto à disponibilidade destes recursos para as gerações futuras. Portanto, o conceito de sustentabilidade está diretamente ligado à preocupação com a qualidade do meio ambiente e com a qualidade de vida daqueles que o utilizam, considerando para isso, os aspectos ambientais, sociais e econômicos. AGRICULTURA CONVENCIONAL E AGROECOLÓGICA Todo e qualquer processo de modernização é responsável por incorporar novos elementos e tecnologias a metodologias já existentes. Com a agricultura convencional não é diferente. O processo de modernização traz benefícios que contribuem para o crescimento econômico, porém podem ainda gerar riscos potenciais quando se utiliza de práticas que comprometem a qualidade do meio ambiente, tais como, manejo inadequado do solo e das culturas, desmatamento, perda da biodiversidade, erosão, contaminação dos recursos naturais, entre outras. Os processos utilizados pela agricultura convencional, por exemplo, dependem do consumo de insumos externos, como fertilizantes químicos e agrotóxicos que empregados de forma inadequada pode provocar a contaminação de solos, da água e do ar. A utilização desses insumos, tanto na agricultura quanto na pecuária, gerou questionamentos por parte das comunidades acadêmica e científica, além de despertar grande preocupação da sociedade em relação aos impactos que o meio ambiente e o homem podem sofrer, uma vez que o consumo de alimentos contaminados e/ou o contato direto com agrotóxicos ou resíduos destes produtos podem comprometer a saúde humana e a qualidade do meio ambiente. Sabemos que a agricultura convencional busca atingir a maior produtividade em curto prazo, objetivando resultados econômicos significativos. Em contrapartida, um dos principais objetivos da agricultura ecológica é a redução do uso de agroquímicos e, consequentemente, garantir a segurança alimentar, a conservação dos recursos naturais, além de valorizar o pequeno produtor. As práticas convencionais, entretanto, não podem simplesmente ser abandonadas para dar lugar aos sistemas agroecológicos. É necessário a formação de uma consciência ecológica que deverá produzir uma nova abordagem em relação às técnicas e metodologias de produção utilizadas, visando garantir a sustentabilidade dos agrossistemas. A Agroecologia difere da agricultura convencional principalmente por buscar desenvolver uma metodologia ecológica que priorize a conservação dos recursos naturais e a utilização de técnicas tradicionais. A Tabela 1 apresenta as principais características que diferenciam os sistemas de produção convencional e agroecológico: Os agroecossistemas são originados a partir das alterações que o homem produz sobre um ecossistema natural, na busca por produzir bens necessários para sua sobrevivência. Essas interferências antrópicas substituem os mecanismos e controles naturais existentes nos ecossistemas por controles artificiais, alterando significativamente o ambiente. Os agroecossistemas são compostos pelas interações físicas e biológicas de seus componentes, ou seja, o ambiente vai determinar a presença de cada componente, no tempo e no espaço e esse arranjo de componentes será capaz de processar inputs ambientais e produzir outputs (FEIDEN, 2005). As interações entre os diversos componentes bióticos contribuem positivamente para o controle biológico de pragas, reciclagem de nutrientes, conservação da água, conservação e/ou regeneração do solo, sendo também fundamentais para o aumento da produtividade agrícola de forma sustentável, ou seja, sem a necessidade de uso de insumos externos. Componente ativo nas interações nos agroecossistemas, o homem possui papel fundamental nos processos de organização e gerenciamento dos recursos disponíveis nos sistemas. Agroecossistemas tradicionais Tais sistemas se caracterizam por apresentar um elevado grau de diversidade das plantas, geralmente na forma de policultivos e/ou sistemas agroflorestais, o que minimiza os riscos e estabiliza a produtividade emlongo prazo, promovendo a diversidade das dietas. Também maximiza os retornos a partir da produção baseada em baixos níveis de tecnologia e recursos limitados (ALTIERI, 1995). Agroecossistemas modernos ou tecnificados Nesses tipos de agroecossistemas há pouca preocupação com a conservação e a ciclagem de nutrientes, sendo comum o emprego de práticas como correção da acidez do solo, fertilização, irrigação, drenagem, entre outras. Dessa maneira, há uma homogeneização dos microambientes, o que possibilita a utilização de um manejo simplificado. Em decorrência disso, impactam fortemente o ambiente, tanto dentro como fora da propriedade. Além disso, reduzem a diversidade genética local, pela introdução de espécies e de cultivares melhoradas e, simultaneamente, desestruturam os conhecimentos e a cultura local. Geralmente, nesses agroecossistemas os rendimentos são proporcionais à aplicação de insumos e pouco dependem do ecossistema original, visto que o objetivo principal da produção é a obtenção de lucro, e o tipo de produção é determinado pelas demandas do mercado global, independentemente das necessidades das comunidades locais (FEIDEN, 2005) Agroecossistemas modernos ou tecnificados Nesses tipos de agroecossistemas há pouca preocupação com a conservação e a ciclagem de nutrientes, sendo comum o emprego de práticas como correção da acidez do solo, fertilização, irrigação, drenagem, entre outras. Dessa maneira, há uma homogeneização dos microambientes, o que possibilita a utilização de um manejo simplificado. Em decorrência disso, impactam fortemente o ambiente, tanto dentro como fora da propriedade. Além disso, reduzem a diversidade genética local, pela introdução de espécies e de cultivares melhoradas e, simultaneamente, desestruturam os conhecimentos e a cultura local. Geralmente, nesses agroecossistemas os rendimentos são proporcionais à aplicação de insumos e pouco dependem do ecossistema original, visto que o objetivo principal da produção é a obtenção de lucro, e o tipo de produção é determinado pelas demandas do mercado global, independentemente das necessidades das comunidades locais (FEIDEN, 2005) AGROECOLOGIA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Conforme já mencionado, a estabilidade de um ecossistema está diretamente relacionada à sua capacidade de resistência e de resiliência, sendo esses aspectos considerados fundamentais para a preservação da biodiversidade e para o equilíbrio do sistema. A agricultura é uma atividade que interfere negativamente neste equilíbrio, uma vez que simplifica o ecossistema original causando a perda da biodiversidade, diminuição do fluxo de energia e da ciclagem de nutrientes etc. A Agroecologia apresenta a possibilidade de desenvolver uma agricultura produtiva a partir de técnicas e metodologias capazes de reproduzir as condições dos ecossistemas naturais, além de promover os aspectos sociais e econômicos, possibilitando, assim, reduzir os impactos gerados pelo modelo tradicional de agricultura através de práticas sustentáveis. Com isso, se espera a diminuição da utilização de práticas que envolvem a alta mecanização, o uso de insumos químicos e a monocultura. O grande problema a ser resolvido é conscientizar a todos que as práticas convencionais visam apenas à alta produtividade e o lucro, produzindo impactos ambientais negativos, tais como degradação dos solos, diminuição dos recursos naturais e redução da biodiversidade. É claro que não se pode, simplesmente, descartar as tecnologias e metodologias atribuídas à produção agrícola já amplamente praticadas por tantos anos e que contribuem não somente para o aumento da produtividade, como também para a segurança alimentar. Entretanto, o desenvolvimento e a aplicação de processos mais sustentáveis e ecológicos podem contribuir de forma significativa para a proteção ambiental, sem impactar negativamente a produtividade e os lucros. Atenção As possíveis tecnologias e metodologias propostas pela Agroecologia devem levar em consideração as características locais e a cultura da população que será responsável pelo manejo dos ecossistemas nos quais estão inseridas. Os princípios da Agroecologia primam por conceitos que integram conhecimentos de Agronomia, Ecologia, Economia e Sociologia, e buscam através desta multidisciplinariedade, desenvolver o processo tecnológico necessário em conformidade com o desenvolvimento sustentável, optando por tecnologias que não degradem o ambiente e não interfiram de forma negativa nos aspectos socioeconômicos locais. O desenvolvimento sustentável busca a melhoria da qualidade de vida humana de acordo com os limites da capacidade de suporte dos ecossistemas, e as pessoas envolvidas nesse processo são fundamentais para garantir tal desenvolvimento. Para alcançar o sucesso deste processo de desenvolvimento sustentável, é necessário garantir que os envolvidos estejam, além de engajados, informados sobre as questões ambientais que permeiam todo o processo. Dessa forma, é possível garantir que os envolvidos se tornem parceiros e não agentes de degradação devido à falta de conhecimento. Sendo assim, podemos afirmar que a adoção de um padrão de agricultura sustentável permite utilizar os recursos naturais disponíveis, porém garantindo a conservação da biodiversidade, através da minimização de danos ao meio ambiente e colaborando para uma produção rentável e que atenda às necessidades sociais de todos os envolvidos. image1.jpeg image2.jpeg