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<p>Copyright Marialva Barbosa, 2016 SUMÁRIO Direitos desta edição reservados à MAUAD Editora Ltda. Rua Joaquim Silva, 98, 5° andar Lapa Rio de Janeiro - CEP: 20241-110 PREFÁCIO - Ana Maria Mauad 7 Tel.: (21) 3479.7422 - Fax: (21) 3479.7400 www.mauad.com.br INTRODUÇÃO 13 1 TERRITÓRIOS DA INCERTEZA 21 Tempos mudos 26 Tempos embaralhados 31 Projeto Gráfico: Tempos ruidosos 37 Núcleo de Arte/Mauad Editora 2 - TERRITÓRIOS DA ORALIDADE 45 Imagens da Capa: Encenações vocais nas ruas: dos gritos aos sussurros 50 Jose Christiano Junior 1865 Encenações musicais nas ruas: corpos que falam 56 Foto da Autora: Calunga: a comunicação dos vivos e dos mortos 65 Cicero Rodrigues 3 TERRITÓRIOS DA LEITURA 71 Revisão: Índices de letramento 77 Leticia Castello Branco Muitos são leitores 82 Romão assina sua liberdade 90 4 TERRITÓRIOS DA ESCRITA 95 Cartas de Teodora: afetos sem-fim 97 Claro, Vitorino, Timóteo e Arnaldo: variadas escritas de si 105 SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. Poesias: sonhos de liberdade 113 B199e 5 TERRITÓRIOS DA IMPRENSA 121 Barbosa, Marialva, 1954- Escravos e o mundo da comunicação : oralidade, leitura e Marcas de seus corpos 122 escrita no século XIX / Marialva Barbosa. 1. ed. Rio de Janeiro Alegorias carnavalescas 129 Mauad X, 2016. 176 p. : 15,5 X 23,0 cm. Rebeldias infinitas 135 Inclui bibliografia e índice Fugas e mais fugas 139 ISBN 978.85.7478.842-5 Enfim, a 144 1. Imprensa Brasil História - Séc. XIX. 2. Jornalismo Brasil História Séc. XIX. 3. Jornalismo Aspectos sociais Brasil CONSIDERAÇÕES FINAIS 155 História Séc. XIX. I. 16-33789 CDD: FONTES E BIBLIOGRAFIA 163 CDU: 070(81) 1. Fontes primárias 163 2. Fontes secundárias 165</p><p>PREFÁCIO Conheço Marialva desde os anos 1980, quando ambas cursávamos o Mes- trado de História na UFF. Naquela época vivíamos um momento importante de renovação da historiografia internacional, com novos objetos, abordagens e problemas. Indagava-se sobre a condição histórica do sujeito e os conceitos para se explicar um passado que não se reduzia às estruturas vazias e englo- bantes. Discutia-se sobre sexualidade, infância e a condição dos que fizeram a história mas não a escreveram, deixando-se existir como restos jogados nos documentos ao sabor do acaso. Uma história que vem debaixo surgia, nos programas de pós-graduação brasileiros, por caminhos plurais e nem sempre compatíveis, mas que favoreceram uma verdadeira revolução documental, pois tinham como imperativo metodológico a necessidade de fazer falar o passado por meio de novas perguntas, o que impunha a leitura a contrapelo dos documentos. Desde essa época Marialva já se dedicava a buscar leitores entre os traba- lhadores urbanos e a decifrar os segredos do mundo da imprensa escrita no Brasil. Os primeiros exercícios de interpretar as formas de ler e dar a ler o mundo através da escritura foram seguidos por outros, cada vez mais com- plexos e sofisticados, ao incorporarem reflexões da hermenêutica de Paul Ri- couer. Em 25 anos Marialva produziu uma obra que vem a se adensar, ainda mais, com Escravos e o mundo da comunicação: oralidade, leitura e escrita no século XIX, livro que eu tenho o prazer de apresentar. Inspirada na percepção da história como um ato de comunicação, Marial- va se debruça sobre os documentos na busca de encontrar as formas de lin- guagem corporais e orais dos homens e mulheres escravizados no Brasil oitocentista e sua relação com a cultura letrada. A descoberta dos escravos como leitores implica a sua consideração como sujeitos que habitavam o cotidiano social e interagiam com as diferentes formas de leitura do mundo social. Analisa como o contato com o mundo das letras poderia ser feito e aponta os caminhos para o reconhecimento da circulação de práticas de lei- tura entre os mundos branco e negro. Marialva afirma que sua obra não é sobre escravidão, mas sobre os modos de comunicação dos sujeitos escravizados no século XIX, incluindo-se nesse</p><p>percurso as competências de oralidade e as práticas escritas. Para dar prova Nos territórios de incerteza a noção de tempo ganha proeminência na cons- material da capacidade de ler e de escrever dos escravizados brasileiros, a trução de narrativas. Tempo e memória para fazerem falar o passado emude- autora utiliza-se de um conjunto significativo de fontes que incluem cartas cido nas incertezas das condições de enunciação e endereçamento; tempos de alforria, anúncios de jornal, processos crimes, etc. Na busca do Outro que sem ordenação em que a história se desvela como um relâmpago; tempos me olha do passado, desenvolve aquilo que Walter Benjamin propôs em suas ruidosos em que a escrita em trânsito busca aproximar o que se vê das ima- "Teses sobre História": perseguir o inusitado, o salto do tigre, o relâmpago gens possíveis. Na análise desses territórios, valorizam-se os efeitos narra- que ilumina o passado, ou uma fotografia, aquilo que se detém do fluxo tivos dos documentos, sobretudo os relatos de viajantes estrangeiros, que contínuo do tempo. orientam sua interpretação para uma aproximação ao passado vivido, nas Agrega à sua busca documental uma leitura atenta da historiografia es- cidades, em que as rodas de capoeira se misturam aos pregões de trabalho. pecializada que, nos últimos 30 anos, refez o caminho da diáspora africana e Já nos Territórios da oralidade avaliam-se as gramáticas possíveis do ato foi ao lugar de origem buscar os múltiplos sentidos do ser escravo no comunicativo num mundo em que a oralidade atua como estratégia narra- A riqueza de referências da bibliografia especializada aponta para o diálogo tiva e se desenrola como escritura. Contar histórias, cantar, fazer algazarra, estreito que a autora, mesmo sem esgotar as possibilidades de conversas a performance com voz e corpo são compreendidos como competências co- futuras, estabelece com especialistas sobre a temática da escravidão oitocen- municativas dos territórios da oralidade. Na análise dos registros do passa- tista. Um diálogo que tem como diferencial indagar os atos de comunicação do, escavam-se as frases para desvelar um outro sentido que o enunciado de sujeitos que, tradicionalmente, tratados como objetos inanimados, pés e não previa; assim o endereçamento imprevisto a um leitor de outro tempo mãos de senhores de engenho, passaram a ser compreendidos pelas novas permite que se coloquem em perspectiva o autor do relato, o tema da descri- lógicas culturais que desenvolveram como forma de sobrevivência à condição ção, as condições da narração e a própria observação histórica como um ato de escravização. de interpretação. Os mecanismos de comunicação próprios aos escravizados Por outro lado, a leitura atenta da historiografia especializada permite são apresentados como parte de uma estratégia cotidiana de estar em algum à autora desenvolver o seu argumento de que os atos comunicativos são lugar, o que tira o sujeito da condição de infâmia e o lança no jogo da história. narrações cotidianas, mensagens que, se decifradas, acessam um outro mun- Assim, nos anúncios de fuga de escravos, os gestos e traços físicos definem do só conectado pelas perguntas corretas. As evidências que comprovam as uma possível comunicação. hipóteses dos historiadores são realocadas para que novas hipóteses sejam Como a mensagem na garrafa que boia no mar à espera de alguém que comprovadas. a leia, na análise de Marialva, as formas de expressão corporal associadas à Em um duplo movimento, a autora indaga sobre a consciência histórica fala orientam para possíveis percepções de letramento. Associa-se o ato co- daqueles que produziram os documentos do passado, e, ao mesmo tempo, municativo à construção de mensagens; mais do que discursos que definem avalia o que hoje nos mobiliza a nos debruçarmos sobre esses documentos uma lógica, as mensagens são enunciados de situações vividas cuja concate- e propor novas questões. Questões que nos obrigam a enfrentar a dialética nação sugere um nível de codificação compartilhado pelo grupo emissor da da memória e do esquecimento. Entretanto, quando o tema é escravidão, o mensagem. enquadramento da memória hegemônica leva ao esquecimento da condição Corpo e voz definem a mensagem que adere ao seu suporte de enunciação humana do sujeito escravizado; assim, todo estudo sobre o tema não pode corpo que dança produz um texto que pode ser lido pelos que assistem a abrir mão da dimensão política e ética da qual o processo histórico é tribu- sua performance. Em sintonia de movimento, a música aciona o processo de tário. Desafio que este livro enfrenta com seriedade sem, no entanto, abrir rememoração; assim, os que sabem tocar um instrumento operam partituras mão da criatividade. A análise apoiada na relação entre as categorias tempo imaginárias cuja leitura é uma herança ancestral. e espaço desenvolve-se através de uma estrutura em que os capítulos deli- Portanto, nos territórios de oralidade o corpo e a fala se reúnem no ato da neiam territórios, recortados pelas dinâmicas e ritmos dos tempos múltiplos performance como competência comunicativa. As ações condensam mensa- da História. gens que podem ser interpretadas como experiências passadas organizadas</p><p>em narrativas rumo ao futuro, sem endereçamento definido. Vagam pelo de cartas, bilhetes, inventários, procurações, são eloquentes em apresentar oceano na busca de um leitor que as decifrem. as variadas estratégias e artimanhas que colocaram o tema da liberdade como fundamental para as pessoas comuns, mas escravizadas. Regulando os jogos Nos Territórios da leitura o cruzamento de referências documentais pos- de escala, Marialva calibra a relação micro e macro da abordagem histórica, sibilitou à autora interpretar as interpretações que os autores dos registros compondo exemplarmente um trabalho de história cultural. documentais produziam do seu próprio tempo. diálogo dos registros que se apresentam como prova com os que nascem como representação amplia A liberdade também foi o tema principal dos Territórios da imprensa recons- as possibilidades de se observar e analisar o passado. rico tratamento de tituídos pela autora, por meio da análise minuciosa dos jornais que circula- documentos desenvolvido pela autora apoia-se na ideia de que "o autor não vam na Corte do Rio de Janeiro ao longo do século XIX, em que se buscou elabora seus argumentos fora do mundo em que habita", argumento que vale compreender a presença negra no mundo impresso dos brancos. capítulo para qualquer tipo de documento os que têm vocação de prova e os que apoia-se nos diversos entrelaçamentos entre esses dois mundos, entrevistos nasceram para representação. tanto pela forma como a imprensa registrou as marcas de escravidão nos corpos, gestos, resistências, violências e sofrimentos, quanto na análise sis- A mudança dos gestos dos escravos indica o trânsito entre os códigos da temática das desordens urbanas. Estas, analisadas segundo a qualificação oralidade e do letramento entre os territórios da oralidade e o da leitura. como foram apresentadas, em sucessivas vezes ao longo do século XIX, com Assim, em cada uma das partes do capítulo, Marialva utiliza-se de referên- o objetivo de identificar resistências às normas impostas e que se apresen- cias para apresentar o deslocamento dos territórios de oralidade para a lei- tam em ações vividas como atos de comunicação. tura. Na análise dos anúncios de jornais, destacam-se as conexões entre as características dos escravos fugidos e a capacidade de ler e escrever; ou, ain- Após a travessia pelos territórios da comunicação escrava chega-se mais da, as brechas que se colocavam no relacionamento como o mundo branco, perto de Romão, Claro, Teodora, Eduarda, Vitorino, Antônio e outros tantos como, por exemplo, o acesso à leitura. Já na história de Romão, um escravo personagens que fazem parte deste livro como atores de uma história real. A alforriado que assina a sua carta de alforria, Marialva analisa as possiblidades escolha em colocar no centro da análise os processos comunicacionais, nota- para se pensar a complementação dos territórios da leitura com os da escrita. damente orais, realizados pelos sujeitos escravizados e seu entrelaçamento Os Territórios de escrita e os Territórios da imprensa são contíguos no domínio com o mundo escrito e impresso, sobretudo de domínio branco, possibilita a aproximação do leitor ao mundo das disputas cotidianas pela posse da pelos escravizados do código verbal. A escrita é um código que, apesar de não pertencer à cultura originária dos escravizados, atua como uma chave para palavra. Assim, mais do que dar voz aos homens e mulheres sujeitados pela a sua entrada no mundo da liberdade. A carta de alforria e os elementos de escravidão, Marialva abriu um canal de comunicação entre tempos, fazendo distinção do liberto passam pelo controle dos códigos da linguagem verbal. que a voz dos pregões, das músicas, das narrativas ancestrais se misturasse às performances dos corpos e dos gestos, reverberasse no presente num ato As Cartas de Teodora e as possibilidades de se comunicar com seus entes político de reconhecimento. queridos fora do seu alcance, as variadas escritas de si de Claro, Vitorino, Timóteo e Arnaldo, bem como as poesias que projetam os sonhos de liber- Ana Maria Mauad dade, expõem, através da análise sensível de Marialva, a oralidade presente na escritura, aquilo que só a leitura em voz alta revela: a presença da palavra Professora titular do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense falada no texto escrito. Em sua interpretação, o excelente aproveitamento das referências his- toriográficas que se apoiam na análise da documentação criminal permite a reileitura dos documentos à luz de novas hipóteses. E também a descoberta de um rico universo de experiências comunicativas, as quais, mesmo em si- tuações limites, deixam seus rastros de existência e nos colocam em contato com um passado totalmente inusitado. Os escritos do cotidiano, sob a forma</p><p>INTRODUÇÃO Havia no Brasil do século XIX uma multidão de homens e mulheres como uma rede de sujeitos que, através de diversos modos de comunicação, pro- curava fazer valer sua e sua existência. Durante séculos essas práticas foram silenciadas. Representados como imersos num mundo predominan- temente oral, os escravos brasileiros passaram à História como não fazendo parte de um universo comunicacional que se transformava à medida que tecnologias permitiam a expansão dos modos de comunicar. Se a memória pode se tornar silêncio duradouro, compete aos pesquisa- dores que se interessam também pelos modos de comunicação de um mun- do distante fazer falar esses gestos que se multiplicam alhures, mas que per- manecem como silêncio num tempo elevado à condição de futuro. Assim, como pensar que havia apenas um modo de comunicação domi- nante, oral, no instante em que nas cidades e nos campos se ingressava em um mundo comunicacional cada vez mais complexo, a partir da proliferação gradual da impressão? Parece ser no mínimo incompreensível que esses su- jeitos ficassem dele distantes. Era como se, apartados da vida, fossem tam- bém apartados das possibilidades de comunicação. Este não é um livro sobre escravidão. Há muitos estudos no Brasil que procu- ram interpretar e reinterpretar o sistema escravista sob os mais variados prismas. pelo menos nos últimos vinte anos inúmeras pesquisas procuraram escavar, por detrás de cristalizações históricas, interpretações diversas, sempre na perspectiva de recuperar os gestos, a voz, os sentidos e os sentimentos desse ator fundamen- tal na História do Brasil. A "teoria do escravo-coisa", como diz Sidney Chalhoub (1990), foi substituída por uma visão que procura reinterpretar os gestos signifi- cativos do passado para revelar ações complexas desse grupo social. mesmo Chalhoub já remarcava no início dos anos 1990 que, em con- traposição a essa teoria, havia também a perspectiva crescente do escravo Ainda que esses estudos sobre a rebeldia negra tenham como foco desmontar o mito da democracia racial no Brasil, é preciso perceber que "a violência da escravidão não transformava os negros em seres incapazes de ação autonômica, nem em passivos receptores de valores senhoriais, e nem tampouco em rebeldes valorosos e indomáveis" (1990, p.</p><p>No seu notável estudo, Sidney Chalhoub procura mostrar como os escra- Muitos, entretanto, mesmo sem saber manejar os códigos escritos, vos agiam de acordo com "lógicas de racionalidades próprias" e como seus eram letrados: sabiam contar; eram capazes de exercer o ofício de car- movimentos estão "firmemente vinculados a experiências e tradições parti- pinteiro e pedreiro, para os quais é indispensável o conhecimento dos culares e originais". Há por trás de cada gesto uma "rede densa de sentidos códigos numéricos; podiam ser mestres chapeleiros; exerciam o ofício e experiências", e compete ao pesquisador desvelar e interpretar esses traços de vendedores; impressores; enfim, diversas profissões para as quais os dentro dessa perspectiva (1990, p. 42). códigos letrados são fundamentais. É com esse mesmo pressuposto, ou seja, tentando revelar e compreender Mesmo os que não conheciam as letras fixadas em suportes duradouros as experiências e os sentidos produzidos por esses atores do passado, que este sabiam a sua importância: afinal, o que lhes concedia a liberdade era uma livro propõe uma travessia cujo objetivo principal é desvendar os modos de carta plena de inscrições. A carta de alforria concedia a liberdade pela escrita. comunicação dos escravos brasileiros do século XIX: uma viagem que começa Portanto, a aspiração máxima de todos decorria de um simples papel sobre o nas competências da oralidade e termina nas suas práticas escritas. Cartas, qual se adicionavam letras: letramento se igualava à liberdade. assinaturas nos processos de alforria, poemas diversos, são muitas as provas Através de vestígios múltiplos que o passado deixou inscritos no pre- materiais da capacidade de ler e de escrever dos escravos brasileiros. Entretan- sente, pode-se remontar a relação dos escravos com o mundo da leitura to, essa é uma história frequentemente elevada à condição do esquecimento. e da impressão no século XIX. E esse é um dos objetivos deste livro. A história que contaremos começa com a indagação a partir de uma cons- Outro será mostrar como incorporaram ao seu universo predominante- tatação que nos intrigou: as relações entre escravos e imprensa são mais mente oral gestos de um mundo letrado, produzindo atos singulares de complexas do que habitualmente se supõe, afirmava Marco Morel num texto comunicação expressos pela mistura de vozes. A mistura cultural é uma de 2008. A partir daí seguimos pistas para mostrar não apenas essas múlti- ação dialética decorrente da miscigenação e concomitância próprias das plas relações, mas para desvendar os modos de comunicação desses atores práticas de comunicação. Uma nova fórmula comunicacional é sempre fundamentais na vida brasileira durante mais de três séculos. incorporada à anterior, que permanece interpelando e sendo usada pelos Agnes Heller (1993), num belo texto em que destaca que a teoria da His- sujeitos, que acrescentam ao seu cotidiano, repleto das práticas antigas, tória fundamenta-se também numa História encharcada de cotidiano, afirma novos modos de comunicar. que o conhecimento é uma questão de valor próprio de cada época: sempre A história que vamos contar e que descreve diversos aspectos das relações houve alguma coisa que não pôde ser conhecida, conhecimento considerado escravos e comunicação no século XIX é tributária de uma metodologia que maldito, coisa que nenhum mortal deveria saber. Alguns desses conhecimen- visualiza a História como possibilidade interpretativa a partir de restos e rastros tos só afloram à superfície quando se alcança determinado grau de consciên- que do passado chegam ao presente. Rastros que foram modos de comunicação cia histórica. Esse parece ter sido o processo que encobertou, por mais de um e que só perduraram em função de terem sido práticas comunicacionais. São século, as práticas culturais letradas e leitoras dos escravos do século XIX. atos de comunicação de homens que hoje designamos como atores de um pas- Como homens de seu tempo, envoltos em uma atmosfera em que as le- sado, atos aos quais, em última instância, se tem acesso para interpretar aquele tras impressas passam a ocupar gradualmente lugar central nos ambientes momento. São traços de uma cultura material, resquícios de falas impressas, públicos e privados, também os escravos eram leitores de múltiplas nature- audíveis, manuscritas, imagens que teimam em perdurar em suportes variados. zas: leitores por saberem efetivamente ler e escrever, estando imersos em Assim, considerando a questão da comunicação como centro da reflexão códigos de leitura e de escrita; leitores por escutarem os textos, sejam os di- (e não apenas o conteúdo das mensagens ou a caracterização dos periódicos retamente lidos para eles ou os que se espalhavam pelos ambientes das casas como espécies de apêndices de um mundo mais amplo), a proposta é remon- e das ruas; leitores, enfim, por saberem o significado das letras impressas e tar cenários comunicacionais dos escravos do século XIX. por acompanharem as imagens de suas faces e corpos expostas nos periódi- Enfatizamos os discursos construídos pelos escravos em torno das práti- cos que circulavam pelos campos e pelas cidades (Barbosa, 2010). cas como discursos sobre a ação, produzindo-a como enredos, sem, contudo,</p><p>nos atermos de maneira exclusiva a eles. São os argumentos dos escravos Estudando o universo cultural europeu, Anne Marie Chartier (1995, como atores sociais do século XIX (seus gestos, suas escritas, suas imagens, p. 34) afirma que a leitura silenciosa parece ser uma técnica ignorada até os discursos produzidos sobre eles, etc.) que produzem "provas" de sua exis- entre as elites cultas. lector, escravo encarregado de oralizar, geralmente tência, do mundo em que estavam imersos, e é isso que permite a interpre- transmitia o texto àqueles que o escutavam, compreendiam e comenta- tação desses signos esparsos e seus modos de vida. vam. O escriba-secretário escrevia a partir do que era ditado pelo autor. Por que o estudo dos modos de comunicação dos escravos do século Assim, há uma separação entre recepção e produção de textos, compreen- XIX é relevante para a comunicação? Por que se interessar por um tempo são e invenção realizadas por diferentes indivíduos. Uma nova tecnologia tão distante e esfumaçado na poeira do valor do conhecimento histórico, de escrita, inventada em torno do século VII, inicialmente o uso de ponto encoberto muitas vezes por ele mesmo? Como enfatiza Morel (2008, p. para separar as palavras e, posteriormente, o espaço entre as palavras, 81), deixando marcas de seus corpos, gestos, resistências, violências e so- mudaria profundamente a representação mental que se faz da língua em frimentos na imprensa, dividindo opiniões dos jornais e jornalistas, sendo suas unidades básicas, e permitiu a emergência e a difusão progressiva da agentes intermediários na venda dos periódicos, possibilitando a explosão leitura visual. É a transformação do latim numa língua mais estrangeira de um tipo mais recorrente de anúncios os das fugas sistemáticas do cati- que leva à inclusão dessa marcação distintiva, servindo a uma melhor veiro e, finalmente, como leitores, há uma ligação estreita entre escravos compreensão. Na Idade Média esse tipo de leitura mental passa a ser e imprensa no Brasil do século XIX. E completo: há mais. Há um mundo a competência comum entre os "intelectuais" e, alguns séculos mais tarde, ser desvendado dos processos comunicacionais desses homens e mulheres é o modo de leitura habitual das elites sociais. Entretanto, a leitura em que constituíam o maior contingente populacional das grandes cidades, o alta permanece até o século XXI como prática social extensivamente qual, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, se deparou com difundida em todos os meios, dos mais populares aos mais cultos. Ler a explosão da cultura do impresso (Eisenstein, 1979), que se misturou aos silenciosamente, por outro lado, continuou a ser, por muito tempo, uma seus modos orais de comunicação. Estudar esse grupo é colocar em cena, conduta indelicada e suspeita. "A transformação definitiva se produz no também, um dos mais importantes processos de comunicação: a passagem momento em que, numa França bem escolarizada (e de óculos), ler por si da oralidade à escrita e à impressão. mesmo um texto parece claramente ser sempre menos trabalhoso do que ouvir um texto ser lido" (Allen, 1991). Não tendo mais finalidade social, Durante muitas décadas reafirmamos verdades absolutas, rapidamente a leitura oralizada torna-se símbolo da leitura hesitante ou enfática, jul- desmontadas quando estamos diante dos rastros deixados pelo passado. Isso gada e reprovada, quer se trate de crianças ou de adultos iletrados. Mas também ocorre em relação aos modos e às práticas de comunicação do maior isso, já no século XX. Mas como se lia no século XIX? E, sobretudo, como contingente populacional do Brasil do século XIX. Há uma suposição ge- liam os escravos brasileiros do século XIX? neralizada de que, como uma totalidade, não havia no mundo dos escravos expressões dos códigos de letramento. Mas isso de fato não ocorreu. Só no Rio de Janeiro, em 1849, havia aproximadamente 80 mil escravos, e a cidade abrigara durante as três décadas anteriores a maior população es- Os escravos eram leitores de primeira, segunda e terceira naturezas e, sobretudo, eram sujeitos imersos em múltiplos modos de comunicação. É crava das Américas. Na década de 1830, três quartos da população eram de escravos (Karasch, 2000, p. 41). Em 1872, os pretos e pardos (escravos ou necessário tentar reconstruir os contextos dessas leituras e de suas escritas. não) representavam 44,79% da população da cidade. Em 1890, o percentual Como aprendiam a ler e a escrever? Por que aprendiam a ler e a escrever? cai para 37,2% (Brasil, 1890). Qual era o significado de saber ler e escrever nessa sociedade? A leitura e a escrita não eram meramente mais uma habilidade, e saber escrever podia ser Se, portanto, considerarmos público quem direta ou indiretamente está assinar o próprio nome de maneira titubeante ou tomar da pena e se desig- em contato com os modos de comunicação, o maior do século XIX é consti- nar com letras firmes. Da mesma forma, saber ler era significar a leitura, o tuído pelos escravos. Serão, pois, os modos de comunicação orais, escritos, fato de falar de um mundo conhecido ou improvável, podendo formular um letrados e impressos dos escravos no mundo comunicacional de misturas do sentido e uma interpretação a partir daqueles textos. século XIX, e questões relativas aos processos cognitivos existentes e das</p><p>transformações que ocorrem a partir da ampliação de contato com a escrita/ Nesses jogos com o tempo, essência da História, há que pensar na ques- tão do conhecimento como algo sempre relativo a um momento histórico, impressão (Lord, 1960; Havelock, 1963, 1986 e 1988; Ong, 1982 e 1986), como já enfatizamos. conhecimento é um valor que possui as possibilida- que constituirão o cerne reflexivo do des das épocas históricas em que se vive. A História é a autobiografia de pes- As habilidades da leitura e da escrita (que juntas formam o que se chama soas e da humanidade. Da mesma forma que cotidianamente reescrevemos de letramento ou alfabetismo) são profundamente diferentes, mesmo em a história de nossas vidas, a humanidade reescreve novamente sua biografia sociedades letradas. Da mesma forma são diferentes os processos de apren- (Heller, 1993, p. 107). dizagem da leitura e da escrita: pode-se saber ler sem saber escrever, por Considerando ainda que a História é referência ao fracasso ou ao sucesso exemplo. ler se relaciona a símbolos escritos com unidades sonoras, e é de homens que vivem juntos, com pretensão ou ao verdadeiro ou ao veros- também interpretação dos textos escritos. A escrita inclui diferentes ações: símil, ela é sempre fragmento ou segmento do mundo da comunicação. São escrever é "um processo no qual se relacionam unidades sonoras e símbolos os atos comunicacionais dos homens do passado o que se pretende recuperar escritos, e é também um processo de expressão de ideias e de organização como verdade absoluta ou como algo capaz de ser acreditado como verídico. do pensamento sob a forma escrita" (Becker, 1995 p. 9). Diante de uma É nesse sentido que dizemos que a História é ato comunicacional. sociedade que multiplica modos impressos, ao longo de todo o século XIX, esses modos passam a fazer parte do cotidiano predominantemente oral dos Mas não é todo o passado que valorizamos: desse passado tornado pre- escravos. que eles faziam com o letramento? E por que suas habilidades sente elegemos um aspecto, demarcamos como fundamentais momentos com a leitura e a escrita foram silenciadas pela História? axiais que instauram rupturas no terceiro tempo, o tempo da História, o tempo calendário (Ricoeur, 2007) Essa seleção memorável depende, tam- Do presente, do nosso agora sempre transitório, olhamos o passado e bém, do valor atribuído a cada época histórica. A própria visão científica projetamos o futuro. Mas o passado só existe como representação mental do mundo é expressão de dada consciência histórica, a permitir a busca do a partir do olhar individual daquele que descortina os tempos idos (Heller, conhecimento verdadeiro. Mas como interpretar o passado à luz das visões 1993). Portanto, o passado não é fixo: é materializado pelas recordações e sempre transformado pela interpretação. Assim, como o passado não é fixo, de mundo dos homens do passado? Como adentrar o espírito de uma época percebendo valores que não são os nossos? também o presente indica o que vivemos, mas também as rememorações que o passado proporciona. Essas rememorações existem no presente, construin- Encontramo-nos mais uma vez diante do problema da é a do-o pelo entrelaçamento de um mesmo (as ações vividas no presente) e de adoção de normas, preceitos, teorias, possibilidades metodológicas que, na um outro (as rememorações que fazem o passado presente). Do mesmo e do essência, permite visualizar o passado de forma verdadeira. Assim, valores outro, também, porque, sendo a vida um ato de historicidade, vivemos sem- de outrora, interpretados à luz da compreensão presente, tornam-se, pela pre em relação: existe um mundo habitado por seres que vivem igualmente questão da fiabilidade de a História falar do passado, o verdadeiro passado. a mesma humanidade. Procuram-se encontrar nos rastros deixados marcas que revelam, pela inter- pretação produzida e permitida, um mundo que até então é desconhecido. São os princípios normativos produzidos no presente que permitem o acesso a um passado considerado como se fosse real, já que o que é formulado pela 1 Goody (1977) critica a adoção de uma visão dicotômica que constrói a escrita como historiografia deve ser a verdade (ou o conhecimento verdadeiro). uma espécie de divisor de águas, a partir do qual se separam culturas ditas "primitivas" de outras "avançadas", ou ainda "selvagens" de "domesticadas", ou ainda "tradicionais" Mas é preciso perceber que a norma do conhecimento científico é tam- de "modernas". Goody; Watt (1968), Havelock (1988), Graff (1987), Ong (1982) e Olson bém uma visão de mundo própria de uma época histórica. A aceitação e a (1977) se ocupam das consequências e dos efeitos da introdução da escrita; McLuhan (1962) e Eisenstein (1979 e 1985) se dedicam a explicar as consequências e os efeitos da construção de conceitos como avaliadores, ou seja, possuindo em si mesmos introdução da imprensa; Chartier (1985, 1991a, 1991b, 1994, etc.), Darnton (1986, 1990 essência explicativa, são visões de mundo produzidas. A ciência é sempre e 1992) e Ginzburg (1987) se propõem a recuperar as práticas de leitura e de escrita ao longo do tempo; Furet e Ozouf (1977) procuram determinar o número e as características produto da consciência histórica do homem. dos leitores; Darnton (1992) e Davis (1990) enfatizam a natureza das leituras em vários momentos</p><p>Da mesma forma, é questão de valor perceber nos vestígios determinadas mensagens. Se houver, em determinada época, a consciência histórica dis- ponível para enxergá-las e, posteriormente, interpretá-las, pode-se ter uma história a ser contada dentro das normas da cientificidade da disciplina. É 1 TERRITÓRIOS DA INCERTEZA por essa razão que conhecimentos tidos como malditos, demoníacos e trans- gressores em determinados momentos foram elevados à categoria de bom conhecimento em um outro tempo. Encobre-se a memória do passado pelas múltiplas dimensões do esquecimento, para, em um momento seguinte, em Apesar das peculiaridades do sistema escravista na América colonial por- função do grau de consciência histórica alcançado, considerar a validade des- tuguesa, não se pode dizer que a escravidão era branda. Nenhuma escravidão se mesmo conhecimento. é branda. A visão de que havia no sistema econômico colonial e imperial bre- Mesmo que a História não tenha dívidas para com o passado, temos cada chas para o desenvolvimento da exploração do escravo de forma mais suave, um de nós dívidas em relação a uma enorme parcela de homens e mulheres que resultou em teses apregoadas no início do século XX, foi amplamente demolida pela produção acadêmica das décadas de 1960 e 1970. Mostrou-se, que durante três séculos foram feitos escravos no Brasil. Muitas vezes en- por exemplo, como a tese da miscigenação pacífica, da cordialidade entre cobrimos esse processo e fazemos questão de não lembrar. A escravidão se constitui no nosso holocausto. Varremos nossa História para debaixo dos os grupos e dos laços afetivos entre cativos e seus proprietários (esse é, por tapetes de nossos esquecimentos. É tempo de falar do cotidiano desses ato- exemplo, o argumento de Gilberto Freyre sobre o caráter supostamente be- nigno da escravidão brasileira e que se converte na ideologia da democracia res sociais que construíram uma existência duradoura em rastros de comu- nicação que, com esforço, podemos trilhar, desvendando o caminho que do racial) minimiza e produz o esquecimento de um dos períodos mais obscu- ros da história do país. passado chega até o A existência de mecanismos de libertação dos escravos, de miscigena- ção, da "produção de um povo híbrido na raça" encobre a sutileza dos regi- mes de dominação na sociedade escravista brasileira. Se havia, como apre- goava Visconde de escravos que possuíam outros escravos, escravos que possuíam recursos, escravos que compravam suas cartas de alforria, era porque o sistema produzia brechas desejáveis para a reprodu- ção da própria escravidão. Trocavam-se ex-escravos, escravos nascidos no país, por levas de novos escravos até 1850, quando termina o tráfico ne- greiro, para fazer gerir as riquezas da terra. A maior exploração e produção de contingência da própria escravidão é a construção da lógica (inclusive discursiva) de uma escravidão branda, das relações pacíficas entre negros, escravos, libertos ou ex-escravos com os brancos. A escravidão não é e nunca pode ser branda, por definição. Devendo ser vista como "um processo de transformação de status que pode prolongar-se uma vida inteira e inclusive estender-se para as gerações seguintes", a escravidão produz inicialmente o escravo como um outsider so- Apud Marquese, Rafael de Parron, Azeredo Coutinho, Visconde de 2 Este livro é resultado da pesquisa realizada com apoio do Conselho Nacional de Araruama a memória sobre comércio dos escravos de Revista de História, V. 152, Desenvolvimento Científico e Tecnológico de 2010 a 2014, ao qual 122,</p><p>cial. Em seguida, há o processo de sua construção como um insider. Despido de maneira geral a cultura escrita de 1750 a 1850 em Minas Gerais, Morais de sua identidade social prévia, é colocado à margem de um novo grupo (e (2009) observa a proliferação nos espaços públicos de alternativas ao ensi- em um novo espaço social) que lhe outorga ou impõe uma nova identidade. no. Analisando as possibilidades de acesso à cultura escrita, afirma que no A escravidão, mais do que um processo étnico, é um processo de exclusão mundo luso-brasileiro não havia uma população alheia ao mundo das letras. social de larga escala (Kopytoff, 1982, p. 221-222). A circulação extensiva da palavra escrita, manuscrita ou impressa, fazia que A perspectiva de interpretação da escravidão no Brasil, a partir de 1960, inau- mesmo os que não estavam habilitados para ler e escrever fossem capazes gurada com os trabalhos da chamada Escola Sociológica Paulista, passou a perce- de utilizar cotidianamente a cultura escrita de variadas e inventivas formas. ber as relações sociais do escravismo brasileiro, ou na perspectiva da total domi- Mas como remarca Sidney Chalhoub, a aproximação do pesquisador com nação dos escravos (a teoria do "escravo-coisa"), ou de sua inconteste rebeldia. os arquivos da escravidão revela uma realidade social extremamente vio- Mas esses estudos foram sendo gradualmente revistos a partir da década de 1970.4 lenta: "são encontros cotidianos com negros espancados e supliciados, com Nessas revisões, parte-se do pressuposto de que, como sujeitos da sua mães que têm seus filhos vendidos a outros senhores, com cativos que são própria história, os escravos elaboram valores, visões de mundo, a partir de ludibriados em seus constantes esforços para a obtenção da liberdade, com práticas no mundo cotidiano, nem sempre compreensíveis das dinâmicas de escravos que tentam a fuga na esperança de conseguirem retornar à sua terra suas identidades. A questão do hibridismo, como remarca Morais (2007), natal" (1990, p. 35). passa novamente a ser considerada, ainda que com novas abordagens. Adota- Se a constatação da violência da escravidão deve ser ponto de partida, ela -se a perspectiva da apropriação e da incorporação de elementos culturais, a não pode ser o único ponto de chegada. Exacerbar seu caráter e não ver as partir do conceito de circularidade da cultura (Bakthin, 1987) ou da visão da ações cotidianas dos escravos significa também produzir uma nova exclusão existência de superposição de culturas (Gruzinski, 2001). de suas possibilidades de experimentar o mundo da vida. A partir, sobretudo, do início dos anos 2000, diversas pesquisas procura- Apesar de os primeiros africanos terem sido trazidos para o Brasil como ram interpretar as relações dos africanos escravos, forros e seus descenden- escravos desde meados do século XVI, "a tomada de consciência do processo tes com a palavra escrita. Sarita Moysés (1995), por exemplo, destaca que, institucional do escravismo brasileiro" ocorreu apenas três séculos mais tar- mesmo com a proibição legal de frequentar escolas, havia uma invenção, de, isto é, no contexto da Independência. Seja com os viajantes estrangeiros, no sentido empregado por Certeau (1994), nas múltiplas maneiras como seja com o discurso dos chamados construtores do Império do Brasil, só os escravos liam. Já em um notável estudo cuja fonte principal são as cartas então percebe-se o começo da discussão de questões relativas ao processo da escrava Teodora, que, embora não sabendo ler nem escrever, se valeu do de escravização sob o qual se instaura toda a produção econômica brasileira domínio dessa técnica por Claro, um escravo de ganho, Wissenbach (1998) (Marquese, 2006, p. 4). analisa as complexas relações dos escravos com o mundo da escrita. Entre 1576 e 1600, desembarcam em portos brasileiros cerca de 40 Focalizando a Educação, Marcus Vinícius Fonseca (2002) afirma que na mil escravos; entre 1601 e 1625, esse número mais que triplica, passando primeira metade do século XIX o aprendizado da leitura e da escrita dos es- para 150 mil, a maior parte destinada a trabalhos em canaviais e engenhos cravos se fazia em espaços não escolares. A questão do hibridismo cultural é de açúcar (Alencastro, 2000, p. 69). No século seguinte, o caminho das também o foco de Morais (2006), quando apresenta as diversas motivações minas leva à escravização de outras milhares de vidas, de tal forma que, possíveis para o aprendizado da leitura (e da escrita) dos escravos brasilei- no final do século XVIII e início do XIX, a população colonial brasileira ros. Para ela, a leitura oralizada "teve papel fundamental para o trânsito cul- é composta de 28% de brancos, 27,8% de negros e mulatos livres, 38,5% tural entre o mundo dos que sabiam ler e escrever e o dos que não possuíam de negros e mulatos escravizados e 5,7% de índios (Marcílio, 1999). E no esses saberes" (Morais, 2009, p. 290). Ainda que preocupada em estudar período de quarenta anos entre a vinda da Família Real (1808) e o fim definitivo do tráfico, em 1850, é introduzido mais de 1,4 milhão de escra- 4 Exemplar nesse sentido é a magistral pesquisa de Mary C. Karasch (2000), originalmente vos, ou seja, cerca de 40% dos africanos desembarcados em três séculos publicada em 1987, mas produto de sua Tese de Doutorado defendida em 1972. de História do Mas há uma considerável população livre negra ou</p><p>mestiça descendente de africanos, que vive lado a lado com brancos e a Estados Unidos, é um exemplo da capacidade de escrita de muitos dos que maioria dos escravos, compostos por africanos e, em menor número, por se tornaram escravos no Brasil, e permite a interpretação das sensações que crioulos e pardos nascidos na América. permanecem interpelando as suas Como mostra Sidney Chalhoub (1990), um dos aspectos mais traumá- A sua última experiência na África, contada mais de dez anos depois ticos da escravidão foi exatamente a "constante compra e venda de seres com o propósito de transformar sua vida em diagnóstico da desumanidade, humanos", produzindo o deslocamento compulsório, sobretudo após 1850, revela sensações diante do desconhecido que começam a povoar o olhar de quando se intensifica a troca interprovincial. constantes transferências de Baquaqua. Na descrição daquele momento axial, em que tudo de fato teria propriedade soma-se a transferência de território, produzindo desenraiza- começado um tudo repleto de dor, desalento, desesperança e sofrimento mentos frequentes. que viriam pela frente -, mistura o passado e o futuro. A narrativa escrita Segundo estimativas, a partir de 1850 esse movimento populacional daquele que viveu como escravo no Brasil destaca, pela memória trans- "despejou no Sudeste cerca de 200 mil escravos". auge da transferência mutada em escrita, a incerteza e as sensações no seu último momento no interna ocorre entre 1873 e 1881, quando 90 mil negros entram na região, território de origem. principalmente através dos portos do Rio de Janeiro e de A polícia do Quando estávamos prontos para embarcar, fomos acorrentados uns aos ou- Porto do Rio registra a entrada de quase 60 mil escravos nos nove anos de tros e amarrados com cordas pelo pescoço e assim arrastados para a beira do apogeu do tráfico interprovincial (Chalhoub, 1990, p. 43). mar. o navio estava a alguma distância da praia. Nunca havia visto um navio Quais as sensações que tiveram ao serem transferidos da longínqua antes e pensei que fosse algum objeto de adoração do homem branco. Imagi- África para terras desconhecidas? Que sentimentos tiveram quando foram nei que seríamos todos massacrados e que estávamos sendo conduzidos para lá com essa intenção. Temia por minha segurança, e o desalento se apossou diversas vezes arrancados de onde estavam para serem comprados por ou- quase inteiramente de mim. Uma espécie de festa foi realizada em terra fir- tros senhores? Essas sensações, esses sentimentos profundos, ficaram re- me naquele dia. Aqueles que remaram os barcos foram fartamente regalados gistrados a partir de atos de comunicação desses homens e mulheres, que, com uísque e, aos escravos, serviam arroz e outras coisas gostosas em abun- relatando oralmente ou por registros escritos, deixam para o futuro as lem- Não estava ciente de que esta seria minha última festa na África. Não branças de seus temores. A viagem de infortúnio começa ainda na África e sabia do meu destino. Feliz de mim que não sabia. Sabia apenas que era um escravo, acorrentado pelo pescoço, e devia submeter-me prontamente e de perdura no país de destino. boa vontade, acontecesse o que acontecesse. Isso era tudo quanto eu achava Depois de passar dias ou até meses nos portos de embarque à espera de que tinha o direito de saber. (Baquaqua, 1854, apud Lara, 1988a, p. 271) um destino desconhecido, num silêncio que denota o medo da incerteza, os africanos embarcam nos navios negreiros para alcançar o Atlântico e, do Na descrição sobressaem os exercícios imaginativos diante da incerteza. outro lado, as terras brasileiras. Olhando formas desconhecidas, como um navio, pensa que poderia ser ob- jeto de adoração dos homens brancos. E imagina. Imagina que para eles não A experiência da vida em comum antes, durante e logo após o desembar- haveria salvação, seriam todos massacrados. Mas diante da festa imprevista, que sobreviveu graças aos traços de um mundo da comunicação que relacio- resta a ele não saber. Só sabe de um tempo duradouro que teima em não pas- na memória e ato narrativo. Primeiramente, as lembranças são fixadas em sar, tempo em que, escravo, acorrentado pelo pescoço, deveria se submeter. imagens duradouras. Décadas depois a mão faz o gesto de imortalizar pelas Baquaqua, como os outros, não tem o direito de saber muitas coisas. letras escritas a memória da dor feita de pedaços de um passado repleto de cores, imagens e sensações. A biografia do africano Mahommah Gardo Ba- quaqua, publicada sob a forma de livro em 1854, quando, livre, morava nos Mahommah G. Baquaqua. Biography of Mahommah G. Baquaqua: a Native of Zoogoo, in the Interior of Africa Samoel Moore). Detroit: George E. Pomery/Tribune Office, 1854. 5 A existência dessa expressiva população livre negra e mulata é explicada por muitos Uma tradução de Sonia apresentada por Sonia Hunold Lara, das páginas historiadores em função da própria dinâmica do tráfico e de concessão das cartas de 270 a 284, foi publicada na Revista Brasileira de História, 8, n. 16, 1988. É essa tradução alforria. Cf. Marquese (2006, p. 107-123). que referenciamos neste (LARA,</p><p>Para revelar práticas de comunicação duradouras dos escravos, transcre- jantes revelando impressões de diversos momentos inclusive a bordo dos ve-se um texto no qual o ato de ser expropriado do território de origem induz navios da do cotidiano das cidades onde desembarcam, que, aos a um mutismo compulsório. Desconhecidos uns dos outros, mas próximos olhos dos estrangeiros, se transformaram em cidades negras. pela experiência que partilham, começam, na ausência de palavras, a formar Poder-se-ia retirar do olhar repleto de preconceitos sobre esses povos, um território comum de vida conjunta, próxima da morte, nos navios que os vistos pelos europeus como estranhos, escavando, por detrás das descrições transportam. Da terra firme são então jogados em embarcações que os levam dos viajantes, produções de sentido que permitam ver as sensações sentidas para um mundo desconhecido. E nesse novo mundo têm de reaprender o no corpo e transportadas como lembrança duradoura de uma cena que fixa significado da vida comum. uma marca. Entretanto, interessa-nos privilegiar a voz dos escravos. Se considerarmos, tal como Muniz Sodré (2014), que o comum é a ma- Assim, os atos mnemônicos transformados em textos produzidos por es- téria-prima do entendimento da comunicação, é então sobre esse comum ses atores históricos revelam o comportamento narrativo, isto é, uma comu- da vida escrava que esse livro se debruça, tentando desvelar atos humanos nicação dirigida a um outrem, na ausência do acontecimento ou do objeto nas ações cotidianas de uma existência que se fixa também pelas sensações que motivou sua narrativa. A linguagem, primeiro falada e que se transforma corpóreas que, em um segundo momento, são transcendidas pela memória em produção escrita, materializa as possibilidades de armazenamento da me- e pelos gestos que reproduzem cenas de um mundo distante. São as ações, mória. Com isso, os limites físicos do corpo daquele que fala são estendidos, o fazer organizativo desses homens do século XIX, sem rostos definidos ao e suas sensações se transformam em escritos, produzidos por ele ou conta- olhar de hoje, que serão objetos de exposição. Mas se considerarmos que "a dos por outros. Lidos, provocarão outras tantas sensações nos que travam comunicação, orientada pela articulação existencial do comum, é uma ação, contato com um mundo distante temporalmente e próximo pelo diálogo que um fazer organizativo" (Sodré, 2014, p. 165), são esses fazeres que consti- se estabelece (Le Goff, 1990, p. 424). A memória sai do corpo daquele que tuem o centro dessa história. Mas não são apenas "palavras, figuras, compa- narra para habitar o corpo daquele que um texto, que armazena sempre rações, para contar o que ele pensa a seus semelhantes", ou seja, o discurso um comportamento narrativo. verbal. São também "as obras de sua mão, as palavras de seu discurso"; afi- nal, "o homem se comunica não porque transmite um saber, mas porque faz Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de um lado, a tradução daquilo que pensa, provocando seu interlocutor a fazer o mesmo, e as mulheres de outro. porão era tão baixo que não podíamos ficar de pé, éramos obrigados a nos agachar ou nos sentar no chão. Noite e dia eram a contratraduzir" (Sodré, 2014, p. 265). iguais para nós, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos Podemos dizer então que os gestos feitos num tempo que denominamos corpos. (Baquaqua, 1854, apud Lara, 1988a, p. 272) passado produzem a contratradução de outros e que, por mecanismos diver- duram até o presente, que nos leva hoje a tentar também contratraduzir Na breve descrição de Mahommah Gardo Baquaqua, as sensações corpó- para contar uma história da comunicação fixada e traduzida a partir de res- reas são responsáveis pelas lembranças duradouras. corpo traduz a reali- tos. São as obras das mãos dos escravos, os seus gestos, as palavras de seu dade em sensações. A proximidade dos corpos confinados leva à vigília per- discurso, provocando outros gestos, outras palavras, a fixação de lembranças manente, transformando o presente num tempo que não passa. A realidade em suportes duradouros, que vão montando esse quebra-cabeça de um mun- só poderia ser transcendida pela morte. do da comunicação que começa no mutismo causado pela incerteza. Os gestos que fazem estão agachados ou sentados no chão, ficam lado a lado com outros corpos, os olhos sempre abertos e os ouvidos à espreita da incerteza mostram o medo e o pavor. Dia e noite são iguais. O tempo passa Tempos mudos a não ser mais perceptível. Resta o tempo que não passa. Em contraposição às escassas descrições produzidas pelos escravos sobre as condições de vida a bordo dos navios negreiros, há muitos relatos de via- por exemplo, Pascoe Grenfell Cinquenta dias a bordo de um navio negreiro. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008</p><p>Também nos textos ficcionais aparecem indícios de lembranças duradou- Muitas décadas depois de ter deixado a terra natal, ainda sabe "restos de ras dessa travessia, que podia durar até quarenta dias, de Angola para o Rio palavras na sua língua". Na descrição do escritor, gestos de comunicação de de Janeiro, no século XIX. Se os ventos não fossem favoráveis, as viagens Galdina se destacam. Seja a comunicação possível com os mortos, a partir podiam se estender ainda mais. das sombras projetadas em que identifica a presença dos espíritos sob a for- ma de pássaros, seja nas palavras fixadas em sua memória, ensinadas na ação José Lins do Rego, no seu Menino de engenho, relembra as histórias conta- de uma vida comum. das pela negra Galdina, que viera de Angola ainda criança. Nas suas lembran- ças, as imagens de uma travessia que dura muitos dias. Depois de apresentar No processo que estamos descrevendo, na recuperação dos modos de co- a personagem, o escritor indica como o passado de Galdina perdura na sua municação dos escravos estão envolvidas as estratégias ainda nesse momento narrativa. menino do engenho "vivia de conversa com ela, atrás das suas predominantemente oral, que faz da partilha de histórias vividas e imaginadas histórias da costa da África". a aproximação com um passado irrecuperável. Se não há mais a possibilidade de viver junto dos antepassados e na terra natal, os restos de palavras consti- A velha Galdina era outra coisa. Africana também, de Angola, andava de tuem elos com o tempo de antes. Ao recontar histórias e ao repetir a língua muletas, pois quebrara uma perna fazendo cabra-cega para brincar com os meninos. Fora ama de braço de meu avô, e todos nós a chamávamos de vovó. original, dividem um território que ganha vida pelo ato narrativo. [...] Eu vivia em conversa com ela, atrás das suas histórias da costa da África. O ato comunicacional se constitui, de fato, num enigma e num milagre Viera de lá com 10 anos. Furtaram-na do pai. Um seu irmão a vendera aos (Ricoeur, 1997). Enigma porque, contando histórias, Galdina transmite sua compradores de negros, e marcaram-na no rosto a ferro em brasa. (Rego, experiência para o menino, que, quando escritor, imortalizará as suas lem- 2001[1932], p. 71) branças. Pela linguagem, sua experiência é transmitida a José Lins do Rego, Sua viagem de muitos dias é assim resumida pelo escritor. que, a compreendendo, fixa uma memória de segunda natureza na história que conta décadas depois. A experiência da velha escrava transcende a vida e Os negros amarrados e os meninos soltos; de dia botavam todos para tomar se torna ato de comunicação, passando a ser experiência partilhada. É nesse sol, onde viam o céu e o mar. Já estava contente com aquela vida de navio. veleiro corria como o vapor na linha. E um dia chegaram em terra. Ela pas- sentido que Paul Ricoeur (1997) afirma que a comunicação é uma espécie de sou muito tempo ainda para ser comprada. Os homens que vinham queriam milagre: por meio dela se consegue superar a solidão de cada ser humano. mais gente grande e molecas taludas. (Rego, 2001 [1932], p. 71) Mas também para Ricoeur (1997) o ato de comunicação é enigma, no sentido de que a linguagem transcende a si mesma e se refere a um mundo Nas lembranças da velha escrava também há as imagens da morte, pre- que se torna perceptível pelo ato de dizer. Para o mundo se traz a linguagem sença constante na travessia, decorrente das condições insalubres e muitas e não a experiência, mas o que é comunicado é sempre o sentido da experi- vezes da falta de alimento e de água naqueles navios. A imagem de pássaros ência. É por isso que a comunicação se torna também enigma. brancos batendo asas metaforicamente introduz na narrativa as almas que ficam voando por cima dos negros amarrados. Mas a comunicação não se define apenas pela transmissão verbal de uma mensagem ou de um saber. Como remarca Muniz Sodré (2014), "a comunicação A vovó contava que via almas, pássaros brancos batendo asas pelas pare- orientada pela articulação existencial do comum é uma ação, um fazer organi- des. Na viagem, estas almas, de noite, ficavam voando por cima dos negros Nessa organização, continua o autor, "o homem faz palavras, figuras, amarrados. E nos ensinava uns restos de palavras que ela ainda sabia de sua língua. Na noite de Natal botavam os bois no carro para a velha Galdina comparações, para contar o que pensa a seus semelhantes". Há mais do que ouvir missa no Pilar. E davam colchões velhos para a cama dela. Por qualquer a dimensão verbal; há também as obras de suas mãos, os gestos, os atos que coisa chorava como uma criança. Quando queriam pegar a gente para uma permitem a tradução do que pensa, provocando a contratradução, enfatizamos, surra, era para junto dela que corríamos. Ela pedia pelos seus netos com os a partir do autor, mais uma vez 265). Na lúcida definição de comunicação, olhos cheios de lágrimas. (Rego, 2001 [1932], p. 72) Sodré caracteriza-a como "o processo simbólico (e não prioritariamente linguís- tico, que é uma dimensão complementar) de organização ou codificação das trocas vitais no plano de elaboração do comum humano" (p. 284).</p><p>Aprender a nova língua é a possibilidade de conquistar uma vida melhor. É preciso, portanto, habitar um mundo comum, presumir a existência diálogo permite a expressão de uma aceitação transitória da nova condição de coisas semelhantes, identificadas por um processo de significação parti- de vida. Compreender o que o outro quer e dizer que acataria as ordens é lhada. Por outro lado, pensar historicamente é privilegiar a visão processual possibilidade de resistência. acordo tácito firmado pela transforma a e perceber, no caso de uma história cujo foco é a comunicação, práticas e iminência de morte em vida. processos relacionados ao gesto comunicacional. A história é a forma como cada um se sente na duração, como se percebe no tempo uma existência, vi- Durante minha viagem no navio negreiro, consegui aprender um pouco de vendo num espaço, que por vezes denominamos mundo e, assim, deixando- português com aqueles homens que mencionei antes e, como meu senhor marcado com pegadas de vida. Diante dos documentos e fazendo uso da era um português, podia compreender muito bem o que ele queria e lhe dei a entender que faria tudo o que ele precisava tão bem quanto me fosse possibilidade de recriar o tempo passado por meio de uma imaginação que possível, e ele pareceu bastante satisfeito com isso. (Baquaqua, 1854, apud deixa antever sentidos mudos no presente, reconstroem-se gestos, produz- Lara, 1988a, p. 274) -se, enfim, uma interpretação. A ausência da possibilidade de comunicação, a vivência sem direito à par- Quando os navios chegam aos portos, a notícia rapidamente se espalha. tilha leva à morte antes mesmo que ela se instale. Na descrição de Mahom- Mesmo que os jornais tragam desde o final dos anos 1820 o movimento de mah Gardo Baquaqua de sua experiência a bordo do navio negreiro, destaca- entrada e saída dos navios, especificando as cargas que transportam, naquele -se o mutismo a que ele e os outros estão submetidos. São escassas as re- momento a predominância dos modos orais de comunicar faz da o lugar ferências aos diálogos. A ausência de uma língua comum e o sofrimento os de divulgação das novidades. A informação oral transmitida é a notícia de um acontecimento que marca a eclosão da novidade. incluem no mundo da não comunicação. Nosso sofrimento era da nossa conta, não tínhamos ninguém com quem Quando um navio negreiro aporta, a notícia espalha-se como um rastilho de pudéssemos compartilhá-lo, ninguém para cuidar de nós ou até mesmo nos pólvora. Acorrem, então, todos os interessados na chegada da embarcação dizer alguma palavra de conforto. Alguns foram jogados ao mar antes que o com sua carga de mercadoria viva, selecionando do estoque aqueles mais último suspiro exalasse de seus corpos; quando supunham que alguém não adequados aos seus propósitos, e comprando os escravos da iria sobreviver, era assim que se livravam dele. Apenas duas vezes durante maneira como se compra gado ou cavalos num mercado. (Baquaqua, 1854, a viagem nos permitiram subir ao convés para que pudéssemos nos lavar - apud Lara, 1988a, p. 273-274) uma vez enquanto estávamos em alto-mar, e outra pouco antes de entrarmos no porto. (Baquaqua, apud Lara, 1988a, 1854, p. 273) Tempos embaralhados Mas a ausência da comunicação verbal revela, paradoxalmente, processos de comunicação. No silêncio, fazem gestos e observam outros tantos - como Após desembarque, diante das autoridades alfandegárias, são contados o fato corriqueiro naquele momento de ver outros sendo jogados ao mar -, divididos por sexos. O número das crianças escravas é também anotado, já levando-os a formular pensamentos. O sofrimento pertence apenas ao indiví- que impostos devem ser pagos por todos com mais de 3 anos de idade. Na duo, que, mudo, assiste a tudo. Fazem no silêncio a tradução do que pensam. sequência são levados para os armazéns situados próximos às áreas portu- É essa tradução do passado, tanto a primeira que se fixa como lembrança como No Rio de Janeiro, por exemplo, os galpões do Valongo8 podem alojar a segunda que se transforma de imagens mentais em palavras escritas, que até quatrocentos escravos. permite mais de 150 anos depois no interlocutor localizado no futuro a espe- rança de também contratraduzir (Sodré, 2014, p. 265). Na narrativa, à medida Quando desembarquei, senti-me grato à Providência por ter me permitido que as páginas avançam, já no novo território, a referência a atos de comuni- respirar ar puro novamente, pensamento este que absorvia quase todos os ou- cação se adensam. "Alguns escravos a bordo sabiam falar português [...]. Não eram colocados no porão como nós, mas desciam ocasionalmente para nos Sobre Valongo as formas de comercialização dos escravos no século XIX, cf. dizer uma coisa ou outra" (Baquaqua, 1854, apud Lara, 1988a, p. 273). Karasch</p><p>tros. Pouco me importava, então, de ser um escravo, havia me safado do navio No início do século XIX, o Brasil tinha uma população de 3.818 mil pes- e era apenas nisso que eu pensava. (Baquaqua, 1854, apud Lara, 1988a, p. 274) soas e, dessas, 1.930 mil eram escravas. Até meados daquele século, quando é abolido o tráfico, a maior parte dos escravos era nascida na África. Com a A narrativa em primeira pessoa faz que o narrador seja, de fato, proprie- proibição do comércio, ainda que continuasse havendo o tráfico clandestino, tário solitário de cada uma das sensações fixadas em suas lembranças. A passa a acontecer, sobretudo, o deslocamento de escravos entre diversas re- escrita não revela maiores detalhes que permitam situar temporalmente a giões do país, ao sabor das necessidades momentâneas da economia. narrativa. Quando foi, afinal, o desembarque? tempo calendário é apagado da descrição, para na sequência aparecer quando são apresentados momen- Muitos desses escravos já chegam no território brasileiro conhecendo a tos de transição. navio ficara para trás, enquanto o mercado de escravos se escrita, como no caso dos escravos mulcumanos, que protagonizam, em Sal- situa num tempo contado de maneira particular. vador (Bahia), na noite do dia 24 para 25 de janeiro de 1835, o levante que ficou conhecido como a Revolta dos A imprecisão mostra não apenas o desconhecimento do território no qual Baquaqua está temporariamente fixado, como também possibilita a inclusão João José dos Reis, ao estudar em profundidade o movimento, descreve do leitor, que não necessita da descrição pormenorizada para participar da como, apesar de o papel ser um bem caro naquela época, os malês fizeram narrativa. Um lembrete é suficiente para que possa situar a cena. largo uso dele para registrar sua religião. "Foram muitos os manuscritos encontrados pela polícia, e que tanto impressionaram os contemporâneos" Dirigindo-se ao leitor como a um confidente, Baquaqua inclui na narrati- (Reis, 2003, p. 228). va diversos outros companheiros de viagem. A partir de pequenas informa- ções, o leitor do futuro vai remontando pela imaginação aspetos particulares Possuindo meios sofisticados de comunicação, escrever, de acordo com da cena. Ao aceitar o papel de leitor, pode seguir a narrativa como um com- os valores dominantes na época, regidos pelas convenções europeias, era sinal de civilização. A marca da caligrafia perfeita nesses papéis indica o panheiro do autor. grau de letramento avançado entre alguns dos escravos. E José Reis acres- Na descrição do desembarque há tanto os leitores reais do passado, para centa que, se a organização dos malês terá de aguardar outras fontes para quem o ex-escravo escreve sua história com a intenção de servir de testemu- ser confirmada, para ele não há dúvida de que estavam organizados em nho das dores da escravidão que ele vivenciara, como os que estão implícitos grupos de prece e estudos, "espécie de modestas casas de oração e escolas no próprio texto. Além dele, o biógrafo, os destinatários preferenciais são corânicas que em geral funcionavam com regularidade nas residências de aqueles que, a partir do contato com o texto, poderiam se indignar com a africanos e locais de trabalho, sob a orientação de um mestre ou discípulos experiência da escravidão. mais adiantados". Para o historiador, os documentos, escritos "inteira ou Entender a narrativa na sua dimensão de construção de um lugar de per- parcialmente em árabe que sobreviveram", indicam que havia desde ini- tencimento no mundo (Ricoeur, 1994, 1996 e 1997) é fundamental para a ciantes até outros que dominavam profundamente os códigos da arte de compreensão dos modos de comunicação, procurando desvendar estratégias escrever (Reis, 2003, p. 223). e lugares e, sobretudo, a experiência humana na sua dimensão temporal. Es- A experiência da leitura e da escrita é partilhada entre os escravos, que, tudar narrativas é refletir sobre as diversidades de linguagens; desvendar os segundo Reis (2003, p. 223), "sempre arranjavam tempo para se dedicar a jogos de narrar e entender a organização das práticas comunicacionais estru- Como também indica Reis, essa experiência não era exclusividade dos turadas em unidades de sentido. O que se procura perceber são textualidades já que a dedicação à escrita pode ser encontrada em outras que fazem a ponte entre o vivido e o narrado. regiões das Américas onde africanos foram escravizados. Uma história da comunicação em sua dimensão narrativa, portanto, pro- cura explicitar atos de narrar, sem que se produza uma dicotomia classi- ficatória de unidades textuais. Não se trata de falar em textos, discursos, a Revolta dos de 1835 e sobre as dezenas de amuletos escritos encontrados gêneros, mas perceber o desenvolvimento da ação humana como ato comu- após o massacre, com sentido religioso, pequenos papéis dobrados e acondicionados em nicacional e, portanto, como ato narrativo. pequenas bolsas que podiam ser de couro que os escravos traziam presas ao pescoço, como proteção, of Reis</p><p>Essas práticas, entretanto, foram silenciadas por séculos, ainda que nas Perguntado há quanto tempo veio para esta Corte, respondeu que não pode descrições dos viajantes possam ser encontradas referências esparsas do con- dizer ao certo por não se recordar, mas presume ter vindo há cerca de três tato dos escravos com a palavra escrita: seja por terem sido mensageiros para anos. Perguntado se é livre ou escravo, respondeu que é escravo de Domin- gos Pedro Rubem, [...] o qual Rubem deixou vivo quando fugiu da sua fazen- levar bilhetes variados e com diversos propósitos a múltiplos destinatários, da na Mata, há mais ou menos um ano sem poder precisar o tempo, por não seja porque escutavam nos ambientes a leitura em alta, seja porque de saber calculá-lo. (Apud Chalhoub, 1990, p. 63) fato participavam do aprendizado da leitura e da escrita. A explicação para esse silêncio pode ser de duas ordens. A primeira diz Tanto Serafim, há três anos da Abolição, como Baquaqua, muitas décadas respeito ao significado que possuía a escrita numa sociedade dependente dos antes, não são capazes de perceber a duração ou se recusam a o ideais europeus, nos quais aos códigos letrados é atribuído valor só possível tempo na narrativa. A ação pode ser interpretada como estratégia de sobre- aos que ocupam posição superior. Saber ler e escrever é participar do pro- vivência. Afinal, fazer os dias, meses e anos não passarem significa conseguir cesso civilizatório gradualmente imposto e que tem na leitura e na escrita continuar vivendo, já que a não duração estanca não apenas o tempo, mas a símbolos de distinção social. Assim, é preciso silenciar esse lugar simbólico experiência vivida naquele momento. dos escravos, produzindo uma dupla exclusão social, inclusive das suas pos- Assisti a um leilão de escravos que geralmente acontece a cada semana, sibilidades de lidar com tecnologias de um mundo que se transforma. tendo sido previamente anunciado pelos jornais. Eram mais ou menos uns 25 de ambos os sexos, decentemente vestidos, sentados em bancos A segunda razão para o silêncio em relação não apenas à possibilidade de atrás de uma mesa comprida onde um de cada vez subia para ser melhor saber ler e escrever, mas também à capacidade letrada dos escravos, é a mes- examinado pelos arrematadores, um ar de obstinação pareceria expressar ma que atribui valor positivo àqueles que porventura se mantenham ligados seus sentimentos de degradação por estarem sendo expostos à venda. às suas origens e aos seus conhecimentos também originais. Nesse sentido, (Hill [1843], 2008, p. 26) conhecer algo novo pode ser visto como uma espécie de contaminação que leva o grupo a se descaracterizar. mito da permanência de valores origi- Na descrição que Pacoe Grenfell Hill faz do leilão que assistiu no Rio de nais, a rigor, faz parte de uma ideologia que também oprime duplamente. Os Janeiro, em 1842, sobressaem os signos do sentimento dos escravos no mo- valores originais devem ser preservados, e assim se é, mais uma vez, excluí- mento em que são expostos para venda. As expressões faciais transmitem, do do processo de transformação do mundo social. aos olhos do viajante, "um ar de obstinação" que, na interpretação feita, revela os sentimentos de degradação dos que estão sendo comercializados. Na narrativa dos escravos, a imprecisão dos tempos em que o presente se gesto de subir na mesa, de ser examinado pelos compradores, certamente apresenta como única referência é frequente. Mas não é possível saber ao certo produz expressões faciais múltiplas, que podem ser interpretadas de inúme- a duração dos dias, não é possível localizar o momento da chegada, se ficam ho- ras maneiras. Sentimentos profundos expressos pelo mutismo, mas visíveis ras, dias ou semanas no mercado de negros. São tempos sem duração, tempos nas faces dos que são jogados num mundo de incertezas. mortos, um eterno presente em que o futuro não tem espessura presumível. Nas descrições da chegada, da permanência no mercado dos escravos e, Permaneci nesse mercado de escravos apenas um dia ou dois, antes de ser finalmente, a venda e a ida para a casa do novo senhor e para o novo trabalho, vendido a outro traficante na cidade, que por sua vez me revendeu a um ho- entretanto, destaca-se uma particular apropriação do tempo. A experiência mem do interior, que era padeiro e residia num lugar não muito distante de do tempo, modulada pela incerteza, produz a extensão daquele presente que Pernambuco. (Baquaqua, 1854, apud Lara, 1988a, p. 274) não passa e de um futuro que nunca é indicado. Quanto tempo dura toda aquela ação? Não sabemos e não saberemos. Saltando tempos mortos, Baquaqua continua sua narrativa nos introdu- tempo de Baquaqua está submetido a outra lógica organizativa que diz res- zindo diretamente na casa onde passaria a ser escravo. A descrição da cena peito diretamente à maneira como vivencia sua existência. À imprecisão do em que é obrigado a fazer orações junto com a família de seu novo senhor destino acrescenta-se a imprecisão de um presente sem horas, dias e meses, indica outro tempo, introduzido gradualmente na narrativa. Não apenas o um presente que não possui futuro como expectativa. relógio na entrada da casa, onde ficam guardadas as imagens de barro dos</p><p>santos, revela uma maior precisão, como também a referência de que as ora- primeiro percorrendo a vila, seguindo de lá para o campo e, ao entardecer, ções são feitas regularmente duas vezes por dia. depois de ter voltado para casa, ia para o mercado, onde vendia até as nove horas da noite. (Baquaqua, 1854, apud Lara, 1988a, p. 275) (Grifo nosso) Ele tinha um grande relógio na entrada de sua casa dentro do qual havia algumas imagens feitas de barro, que eram utilizadas no culto. Nós todos Enquanto no início do texto, quando descreve o primeiro trabalho, a marca- tínhamos de nos ajoelhar diante delas; a família na frente e os escravos atrás. ção temporal é imprecisa, não dando detalhes da quantidade de horas em que Fomos ensinados a entoar algumas palavras cujo significado não sabíamos. passa carregando pedras, no segundo momento a precisão destaca-se na narrati- Também tínhamos de fazer o sinal da cruz diversas vezes. Enquanto orava, Mas de um momento a outro não há tempo passando. Em breve ele começa meu senhor segurava um chicote na mão, e aqueles que mostravam sinais de desatenção ou sonolência eram prontamente trazidos à consciência pelo a trabalhar pesado, assim como muito em breve começa a contar até cem. toque ardido do chicote. (Baquaqua, 1854, apud Lara, 1988a, p. 274) As possibilidades de imersão no código partilhado de comunicação le- vam-no em direção a outro território, e nas horas, agora longas, do dia, passa Na descrição sobressai também a capacidade de repetir palavras ("cujo signi- a fazer um trabalho mais leve em função das possibilidades letradas que pos- ficado não sabíamos"), revelando a habilidade de reter sons na memória e repro- Por ser capaz de contar até cem, é designado para vender pão no mercado duzir de forma tão precisa que para o senhor estão, de fato, entoando a oração. da cidade. Nesse momento, indica com exatidão que permanece na tarefa até A habilidade de reter fórmulas complexas na memória indica, por outro nove horas da noite. lado, que nesse momento, ainda não dominando os códigos de leitura e es- Há uma indiferença em relação ao tempo ou uma recusa em viver no crita, Baquaqua, como outros, faz das competências da oralidade, das quais a tempo? A ausência do tempo calendário, da precisão das horas do dia ou capacidade de guardar fórmulas narrativas é uma delas, uma das estratégias da noite, dos dias que não se sucedem, parece marcar a astúcia de emba- de sua própria inserção num mundo marcado pela incerteza. ralhar tempo como gesto deliberado, que permite inclusive a expansão Percebe-se um duplo movimento no ato de entoar a oração descrita pelo das possibilidades imaginativas. No território da incerteza não há tempo, escravo. Havia gestos que deveriam ser repetidos, em momentos precisos. apenas espaços. Esses movimentos são complementados por palavras desconhecidas, numa sequência narrativa que deveria ser construída diversas vezes. Há, portanto, não a memorização, mas uma rememoração, em que as palavras correspon- Tempos ruidosos dem a ações numa primeira performance (Zumthor, 2010) e que se repetirão em situações subsequentes. Estão envolvidas na ação a repetição de movi- É nesses múltiplos espaços, que com suas presenças se transformam, que mentos e a capacidade de relembrar as palavras e os gestos, rapidamente, novos sentidos de tempo começam a se anunciar. A apropriação das cidades todas as vezes que a senha para o início da oração é dada. com seus corpos e gestos constrói um significado particular para esses luga- Na sequência de sua rememoração, novamente a imprecisão temporal res, que recebem, em consequência, muitos qualificativos. Cidades negras, mostra a astúcia no passado e os trabalhos de memória no futuro, modu- cidades barulhentas, cidades sujas, cidades feias, enfim, cidades repletas dos lando a percepção dos dias, meses e anos. Da entrada na casa grande, onde atos impuros de negros circulando pelas ruas. É dessa forma que os viajantes o relógio situado chamara a sua atenção, até o momento em que começa a passam, então, a se referir a esses espaços habitados por gestos múltiplos e trabalhar carregando pedras para a construção de uma casa, quanto tempo se que revelam a inserção dos escravos num mundo da comunicação caracteri- passara? Mais uma vez o presente estendido introduz um tempo sem espes- zado por novas apropriações temporais. sura que permanece durando. medida que os dias, semanas, meses e anos passam, a predominância ruidosa nas ruas indica a presença de uma nova narrativa partilhada, que per- Em breve me puseram para trabalhar pesado, trabalho a que ninguém é sub- metido, a não ser escravos e cavalos [...] Meu conhecimento da língua por- mite interpretar os atos comunicacionais produzidos naquelas cidades toma- tuguesa melhorou rapidamente enquanto estava ali e, muito em breve, con- das pelos ruídos, falas e gritos, insinuando a existência de outro tempo vivido. seguia contar até cem. Fui então encarregado pelo meu senhor de vender pão,</p><p>Na rua barulhenta de vozes e de gestos, registrada pelas inúmeras des- Destacando aspectos relativos à demografia da cidade, Reis (1993, p. crições dos viajantes que passaram a visitar o Brasil logo após a abertura dos 9) indica que entre 1750 e 1850 a Bahia importou mais escravos da região portos, em 1808, mostram suas ações de comunicação nas práticas da vida do Golfo de Benin e do antigo Daomé, principalmente povos aja-fon-ewe, cotidiana. Não é apenas por ser a parcela mais volumosa da população que aqui chamados jejes; iorubás, chamados e haussás, também chama- faz que, aos olhos dos estrangeiros, se tornem presença dominante. Vivendo dos auçás ou ussás. Durante o século XIX, os da nação nagô são a maioria no espaço das ruas relações de aproximação, de partilha da vida em comum, (Reis, 1993, p. 9). transformam as cidades em lugares habitados por muitas sonoridades. Já no Rio de Janeiro e no Sudeste de maneira geral, a grande maioria dos Quando se desembarca na Bahia, o povo que se movimenta nas ruas corres- escravos que aqui aporta do século XVIII até 1850 é do Centro-Oeste afri- ponde perfeitamente à confusão das casas e vielas. De fato, poucas cidades cano. No século XIX, a área do Centro-Oeste africano era dividida em três pode haver tão originalmente povoadas como a Bahia. Se não se soubesse regiões principais: Congo Norte (a bacia do rio Congo/Zaire e a costa norte que ela fica no Brasil, poder-se-ia tomá-la, sem muita imaginação, por uma da desembocadura desse rio até o Gabão), Angola e Benguela. Reconhecendo capital africana, residência de poderoso príncipe negro, na qual passa intei- ser tarefa difícil estabelecer as identidades específicas da maioria africana de ramente despercebida uma população de forasteiros brancos puros. Tudo pa- rece negro: negros na praia, negros na cidade, negros na parte baixa, negros escravos, devido à diversidade étnica, Karasch (2000) acrescenta que três no- nos bairros altos. Tudo que corre, grita, trabalha, tudo que transporta e car- meações identificam os africanos na cidade: os termos genéricos; os nomes rega é negro; até os cavalos dos carros na Bahia são negros. (Ave-Lallemant, étnicos registrados por viajantes estrangeiros no século XIX; e os nomes das 1980 [1859], p. 125) nações que sobrevivem nas expressões da cultura religiosa (p. 42-50). A referência frequente aos gritos, aos risos, às brigas, aos múltiplos A apropriação das ruas leva também à mistura dos tempos de vida e de contatos no espaço externo mostra como passam a habitar e ressignificar trabalho como estratégia de ação. "Não havia, por exemplo, como proibir em as ruas. Os atos simbólicos, interferências sonoras e a presença visual in- definitivo o escravo de baixar o cesto, o pau ou a corda para jogar ou apreciar dicam ações de comunicação nas quais se deixam ver os passos de uma uma capoeira, entrar num samba-de-roda, consultar um curador na periferia oralidade complexa. ou enfurnar-se numa casa para orar para Alá, o Misericordioso" (Reis, 1993, Gente correndo e andando na cidade, transformando suas ruas e vielas p. 11). Enfim, na cidade ocupada os gestos que expressam a vida organizam o tempo, dentro de uma lógica em que o tempo livre se interpunha, como em território dos negros. Os gritos são presença constante. Apropriando-se astúcia, ao do trabalho. Associam e deixam visíveis a relação entre trabalho e da cidade, os escravos se inscrevem no espaço praticado (Certeau, 1994), vida por meio de gestos de comunicação, que incluem tanto ações corporais nele se fixando. Ao burburinho de vozes e das suas práticas cotidianas, diretas - a parada do corpo, o início de atividades lúdicas, etc. - como a mú- acrescenta-se a movimentação de corpos que escapam à disciplina, apro- sica, que os acompanha "em tudo de mais (ou menos) importante na vida, na priando-se da urbe. alegria e na dor", como remarca com lucidez José Reis (1993, p. 12). Destacando as características de uma cultura de rua na Bahia, João José Reproduzem uma percepção de tempo "episódico e descontínuo", não dos Reis (1993) enfatiza que a disciplinarização do trabalhador africano na sendo "um tipo de coisa ou mercadoria". Assim, esse tempo se constitui cidade era tarefa ingrata. Precisando de independência e liberdade de mo- como diverso do linear e da percepção de trabalho como ritmo mecânico vimentos para conseguir realizar os diversos serviços que se desenvolvem do consumo capitalista. "Sob o regime colonialista, em suas terras ou sob o no espaço da rua, alguns senhores permitem até que morem em pequenos regime escravocrata em terra alheia, os africanos resistiram quanto puderam quartos alugados, só voltando para casa para "pagar a semana", ou seja, o aniquilamento de suas noções de tempo e trabalho" (Ray, 1976, p. 41, montante previamente contratado (p. 9-10). Muitos desses escravos são sapateiros, alfaiates, pedreiros, padeiros, barbeiros e carpinteiros. Mas "a apud Reis, 1993, p. 12). maioria fazia serviços de rua, carregando fardos e gente, em saveiros, nas Experimentando e se apropriando do tempo distante da percepção da costas ou em cadeiras" (p. 10). existência de conectores possíveis de materializá-los numa sequência linear orientada, a ideia de sucessão e de sua contagem se faz a partir da experi-</p><p>ência com a natureza e o cotidiano. tempo constitui-se de diversos "agora Desviando-se das normas impostas nas cidades, correm e gritam, crian- mesmo", passando para frente e para trás, num presente que dura e volta em do um uso particular da urbe, expressando seus gestos. Transformado pelas perspectiva cíclica. Transcendidos pela memória, à medida que a experiência práticas, os gestos alteram a retórica do espaço (Certeau, 1994). Correndo cotidiana se intensifica, passam a incluir elementos do passado, algo que já em grupo, gritando, modificam a ordem da cidade, reunindo-se e fazendo terminou e é único nas narrativas do presente agora. É a fixação no espaço e das ruas o lugar possível de realizar sua comunicação. As ruas são pautas de a vivência nesses territórios que permitem a pausa necessária para incluir o uma escrita que se faz pelos gestos. passado nas suas narrativas. A ação de correr no meio da multidão, de se empurrar uns aos outros e Se considerarmos tempo, tal como Norbert Elias (1998), um símbo- de gritar indica a presença de uma alegria momentânea. Os movimentos, lo social comunicável, isto é, uma ideia comum partilhada e que permite por outro lado, denotam um sentido de liberdade que existe nos gestos. transmitir para outros imagens mnêmicas que dão lugar a uma experiência, espaço apropriado pelos corpos permite ver o tempo passando, se esvaindo são as ações transcendidas para o espaço que permitem interpretar os seus em horas, já que, no final da noite, a festa termina e com ela se inicia o tempo jogos com o tempo. de voltar às senzalas. Aos olhos dos estrangeiros, porém, a ocupação desse espaço resulta em Mas a ação indica, por outro lado, a existência de atos semelhantes movimentos confusos. Nas ruas, os gestos de uma comunicação que se faz informando-os que fazem parte de um mesmo mundo. Ao realizar e tornar muito além das palavras e se traduzem em movimentos corporais, se trans- a realizar a mesma ação, constroem a possibilidade de uma vida com senti- formam em ação ruidosa. Os gritos, os movimentos, a ocupação da cidade, do comum. Arrancados da sua experiência original, é preciso experimentar enfim, mostram não apenas a apropriação do espaço, mas um sentido es- novos atos que relacionam cada um deles aos outros, construindo a comu- pecífico de tempo que começa a se deixar ver em suas narrativas. Tempos nicação pela partilha. permanentes de gritos e vozes, de pregões dos vendedores, das festas e da No simples ato de cozinhar, também é possível perceber a alegria em música, num mundo de práticas orais complexas. torno dos movimentos comuns, instaurando uma vivência partilhada. Na praça e em volta da igreja, havia um movimento confuso de feira. Negros Seja se "misturando em redor de um pequeno fogareiro de carvão onde nos mais coloridos e berrantes trajes de festa empurravam-se e corriam, com eles fritam seus peixes ou cozinham a raiz de mandioca e batata doce" barulho e gritos estridentes. Carruagens de senhoras em romaria ou carre- (Hill, 2008 [1843], p. 25), seja aplicando com os ingredientes presentes gando gente curiosa da cidade procuravam dirigir-se para o terraço da igreja, no novo território a "gramática culinária africana", ou seja, "métodos de através da maré humana, como barcos em ondas impetuosas. Caixas de vidro cozinhar e de condimentar" que deixam à mostra gestos ancestrais, há cheias de comestíveis pairavam, ousadamente, sobre a multidão. Pequenos um sentido de transcendência nos atos mais cotidianos. A refeição ali- grupos fornecedores de cachaça formavam as ilhas, no mar de pessoas. Um palanque, semelhante àquele erigido para o Imperador, na praça do Teatro, menta não apenas o corpo, mas também a alma, já que o mundo do espí- anunciava coisas maravilhosas para a tarde que se aproximava. (Habsburgo, rito não se separa do mundo do corpo. Nesse sentido é que muitos dos 1982 [1864], p. 92) ingredientes que podem vir a parar em seus pratos situam-se na categoria dos proibidos, por serem também ofensivos aos espíritos ancestrais ou da Na descrição da festa do Bonfim, na década de 1860, o príncipe destaca natureza (Slenes, 2011, p. o movimento resultante das aglomerações em torno da praça da igreja, mas também tem sua atenção despertada pelos trajes de festa coloridos usados pelos escravos num dia especial. Mas na descrição sobressai o movimento dos corpos, sugerindo a brincadeira dos grupos nas ruas. Que sentido teriam 10 Citando a abóbora-moranga como um alimento que não nutria o espírito, o autor informa que nas sociedades da África Central há um grande número de proibições alimentares os e a corrida, seguidos dos gritos estridentes? A ação deixa ver que frequentemente são de determinadas categorias sociais. Entre os "há pratos na partilha de gestos a alegria denotada pelos gritos em ruas ocupadas a par- que são considerados próprios para homens, mulheres, crianças e escravos, e que eram evitados por outros grupos, desejosos de não serem "Plantas da família tir de práticas cotidianas. dos pepinos, entre elas a eram consideradas próprias somente para mulheres" 2011, p.</p><p>Com o "acervo do seu conhecimento à mão", dão novas significações as suas A música como território de pertencimento é utilizada com múltiplo ações (Schulz, 1974, p. 25). Ao efetuar e tornar a fazer gestos, profundamente ar- propósitos: não apenas para introduzir o tempo do lazer, mas também o raigados na vida vivida, usam esse acervo para realizar a comunicação partilhada. trabalho. Os lamentos sincopados que o reverendo Robert Walsh escuta sã Se as roupas coloridas usadas na festa são um exemplo afinal, se en- cânticos de trabalho que permitem a cadência dos gestos, mas também feitar para ir ao Bonfim é construir a importância da festa -, os cânticos que produção de imagens mentais distantes, capazes de fazê-los suportar a ativ entoam no trabalho também são escavados da memória duradoura para ins- dade penosa e desenvolvida durante muitas horas do dia. Carregando pes taurar um tempo que começa a reestabelecer laços com o território original, na cabeça, cantam enquanto caminham, numa língua estranha para os qu e com ele não apenas a relação passado e presente, mas a fixação do passado estão à margem do grupo, como Walsh. ato de não revelar os significa com um sentido particular. tempo de antes, expresso em vozes entoadas dos das palavras que entoam e que causam a curiosidade do viajante pela música, passa a ser lugar de uma memória que se faz conjuntiva. ser interpretado como uma não disposição de partilhar um saber exclusiv do grupo. segredo guardado é maneira de construir, na contingência Os negros trazem consigo a sua linhagem e os seus costumes, que conti- conjuntividade (Heller, 1993), um espaço de comunicação inteligível apena nuam no Brasil idênticos ao do seu lugar de origem, de onde vieram muito recentemente. A linguagem é tão diversificada por dialetos que uma tribo para eles, que com esse gesto passam da periferia para o centro da não compreende a língua da outra. Quando escravos de uma mesma casta trabalham juntos, eles se movimentam ao som de certas palavras, entoadas numa cadência melancólica, começando numa nota mais aguda e terminan- do numa mais grave. Formando uma longa fila, carregando coisa na cabeça, eles cantam enquanto caminham, e isso pode ser visto todos os dias em quase todas as ruas do Rio. Parecia-me tratar-se de uma espécie de canção nacional, e fiquei particularmente curioso para saber o seu significado, mas ninguém soube interpretar as palavras para mim; e os negros, quando con- sultados, não quiseram dizer ou fingiram não saber, como se tratasse de algo secreto, do qual fizessem mistério. (Walsh, 1985 [1830], p. 156) Na descrição do viajante, a referência às dificuldades da não partilha de uma língua comum está lado a lado com a constatação de que entoar um canto deixa à mostra a utilização de um mesmo universo significante. A im- possibilidade de partilhar a língua introduz como comunicação duradoura a sonoridade que transmuta palavras, utilizada com múltiplos propósitos e com múltiplas funções. Cantam enquanto caminham, estabelecendo um elo entre todos que entoam a mesma língua musical. Quando afirmamos que, ao se apropriar dos territórios pelos gestos comu- nicacionais, os escravos realizam práticas de comunicação, mas também experi- mentam a conjuntividade (Heller, 1993), estamos reconhecendo que atribuem ao presente estendido em que vivem um valor de transformação cotidiana, per- ceptível nos modos como estabelecem diálogos e partilhas uns com os outros. Se entendermos conjuntividade como contemporaneidade e, sobretudo, como simultaneidade, percebemos a vida em relação nos territórios ocupados por seus corpos, que os possibilitam ser participantes de um tempo simultâneo, incluin- do no cotidiano um passado que se deixa ver nas ações do presente.</p><p>2 TERRITÓRIOS DA ORALIDADE Uma das referências mais constantes nas descrições dos viajantes é a pre- sença da música no território de vida dos escravos. Utilizando-a como cânti- de trabalho, como de oração, nos momentos de lazer, na cantilena da vida diária, em grupo ou individualmente, fazem dela o elemento mais constante de sua comunicação partilhada. Canções, danças, recitativos constituem o arsenal da cultura oral que denominamos territórios da oralidade - como narrativa rítmica capaz de permitir o armazenamento de materiais na memó- ria (Havelock, 1995, p. 17-34.). Pensar a música como ação de comunicação é inserir na discussão a rela- ção entre memória e Ao mesmo tempo, não é possível conceber a oralidade longe da equação proposta por Havelock (1995), que a relaciona com o letramento. Para ele, constitui um erro primário separar esses dois polos, vendo-os como mutuamente exclusivos. Buscar o entendimento mais profundo de uma cultura escrita pressupõe perceber a oralidade em que se nasce e que governa as atividades da vida cotidiana. Nos traços da escrita dos escravos é visível a presença de códigos do mun- do oral. Muitas vezes só conseguimos decifrar o que foi escrito se, novamente, recitarmos em alta aquilo que ficou registrado, como veremos no próximo capítulo. Os territórios da oralidade, através da palavra falada e da música, pas- sam também a ser, quando reconhecem o lugar onde estão, empregados para o armazenamento de elementos memoráveis do mundo original, isto é, a África. Observando a gramática que produzem, é possível identificar competên- cias dos modos de comunicação, produzindo fórmulas específicas de regis- trar mundo, fazendo das práticas orais/corporais lugares dominantes de trocas, capazes inclusive de perdurar, deixando vestígios para a sua interpre- tação (Barbosa, 2013). Optamos pelo conceito de oralidade, ainda que vocalidade (Zumthor, 2010) pudesse abranger de forma mais completa o que estamos refletindo, já que a palavra é apenas um dos territórios que analisaremos. Ao lado da voz, em suas diversas possibilidades, o foco recal também sobre o canto, a música e a situação de performance, no sentido atribuído por Zumthor (2010), manifestando diálogo Para ele, a vocalidade é a própria historicidade da voz, já que diz respeito ao seu uso (1993, p. 21).</p><p>Entre essas competências encontra-se o gesto de contar histórias, tal como Um dia estava olhando esse cenário extraordinário através das janelas do faz a negra Galdina ao menino José Luís do Rego (1932). Ao pé do fogo que Convento de S. Antônio quando, de repente, toda a praça ficou em polvo- para os escravos tem significado extremamente peculiar, como ainda veremos rosa. Os homens atiravam suas latas, as mulheres espirravam água para os lados e a polícia usava o chicote; todos brigavam, gritavam e riam na maior no final desse capítulo -, após o dia de trabalho, homens e mulheres se reú- confusão. (Walsh, 1985 [1830], p. 211) nem para contar histórias. Mas podem também conversar em alto e bom som. A oralidade era o fundamento maior em todo o continente africano (Pa- Em torno dos chafarizes se reúnem os libambos, escravos prisioneiros dilha, 2007, p. 126). A palavra ganhava força fundamental entre os bantos. condenados a carregar água para as repartições públicas. Acorrentados pelo Era ela transportada pelas gerações e permanecia sempre viva por ser o laço pescoço durante o dia, frequentam esses locais, caracterizados pela alta con- fundamental de união entre os vivos, e destes com os antepassados (Altuna, centração de transeuntes. É ali que entram em contato com diversas pessoas, 1985, p. 85); união vital para a comunhão, que, portanto, se instituía como colhendo informações e levando-as até a cadeia à noite, quando voltam a comunicação. A ação participativa os unia em torno da fogueira, que ganhava ocupar seus lugares na prisão. Como "janelas da prisão" (Araújo, 2008, p. uma dimensão de rito principal da cena de comunhão. 93), permitem que outros, através das suas vozes, possam perceber o mun- do. Transformam-se em meios de comunicação para os que não podem ver a A capacidade de contar, acionando sonhos, produzindo mitos e lendas, luz do dia. Nesse caso, seus corpos e a tecnologia da voz são a possibilidade institui a maneira pela qual os indivíduos e os grupos tentam se situar no mundo (Zumthor, 2010, p. 52). Contar histórias é, portanto, a primeira das de permitir que outros entrem em contato com as novidades do mundo. São homens que alargam o horizonte de visão pela informação transmitida a ou- competências da oralidade. tros, constituindo-se, de fato, em janelas que da prisão se abrem em direção Os negros gostam de reunir-se ao cair da noite ao redor do fogo, fumando, ao mundo lá fora (Barbosa, 2013, p. 23). palestrando e gesticulando, em grande algazarra. As tarimbas, das quais cada Se na volta à prisão contam as novidades do dia, no decorrer do trabalho, uma mede 2,5 a 3 pés de largura, são separadas uma da outra por uma divisão de madeira de 3 pés de altura, tendo na frente uma esteira ou cobertor para acorrentados, entoam cânticos recitativos, numa sonoridade que se soma à tapar a entrada do lado do corredor. [...] As senzalas ficam abertas até às 10 das correntes que carregam. horas da noite, havendo até lá um convívio misto nas mesmas. A um sinal Todos os serviços públicos desta cidade são feitos por escravos acorrentados. dado por uma campainha, os homens e mulheres se retiram, cada qual para sua habitação, e o guarda as fecha a chave, abrindo-as, na manhã seguinte, Esses trabalhadores, para mitigar a sua penosa labuta, entoam uma triste e melancólica recitativa, a qual, acompanhada pelo retinir das correntes, uma hora antes de iniciar-se a tarefa diária. (Von Tschudi, 1980 [1866], p. 56) é a própria voz do infortúnio, despertando na alma uma simpatia e uma com- As conversas são acompanhadas de gestos, amplificando a narrativa oral. paixão maior do que a mais elaborada peça musical. (Hamilton; Edwards, A algazarra, qualificada pelo olhar estrangeiro, faz presumir uma conversa 1793, p. 12-19, apud França, 2000, p. 243) em vozes altas e concomitantes. Na gramática da oralidade sobressai uma Mas não são só os prisioneiros que se reúnem em volta das fontes. Al- comunicação oral complementada por outros e pelo corpo que amplia a men- guns escravos de ganho também se dedicam à tarefa de vender a água reco- sagem transmitida pelo aparelho tecnológico da voz. nesses lugares públicos. Mesmo em ambientes propícios a uma comunicação mais sussurrada, a As negras, em geral, dedicam-se a vender água das fontes públicas, produ- natureza daquilo que partilham leva à mistura de vozes, indicando a presen- tos que anunciam aos gritos, tal como as vendedoras de leite em Londres. ça de outras falas, sempre acompanhadas pelos gestos. As vozes da senzala Quando requisitadas, as negras vendedoras param, despejam o conteúdo povoadas de modos orais expressam gestos e expressões vocais, em que a dos seus vasos na vasilha do comprador, recebem o pagamento pelo ser- simultaneidade é marca dominante. viço [...] e caminham em direção às fontes para reabastecer [...]. A venda de água é um negócio que ocupa muitas centenas de escravos. As fontes, As tecnologias da oralidade dos escravos deixam antever a gestualidade constantemente, encontram-se repletas de carregadoras negras, e não é in- que acompanha as palavras e um volume de som sempre qualificado como comum eclodir querelas e confusões entre elas. (Vaux, 1819, p. 117-126, barulhento; nos ambientes privados ou nos espaços apud França, 2000, p. 305-306)</p><p>Na gramática das práticas orais que desenvolvem, os gritos estão por to- Em diálogo com Eric Havelock, afirma que a categoria indivíduo oraliza- dos os lados. Não apenas os gritos de dor, mas os resultantes dos conflitos e do dialoga com o que o autor chama "oralismo histórico", ou seja, "um modo dos pregões das vendas de produtos, fazendo da voz estridente o gênero de distinto de consciência que tem suas próprias regras" (Havelock, 1994, p. fala mais praticado nesses territórios da oralidade. Mesmo quando as con- 40). Assim, para ele, "sujeito e condição de comunicação podem se trans- versas não decorrem de conflitos, as inúmeras descrições fazem referência ao formar e adquirir contornos específicos e variados no tempo e no espaço", volume do som emitido pelas vozes humanas. acrescentando como decisivas tanto a percepção da transformação como as Com o fim de preservar a ordem pública, um soldado é colocado nas continuidades existentes (Ferrão Neto, 2010, p. 45). imediações. Essa autoridade obriga as negras a retirarem-se para uma tra- Entre os gêneros de fala dos escravos sobressaem aqueles que adicionam vessa próxima [...] e aguardarem pacientemente a sua vez de abastecerem as expressões acústicas à conduta corpórea. Assim, a conversa em sons altos [...], enquanto esperam a ordem da sentinela conversam animadamente é sempre acompanhada pelo gesticular constante. Aos gritos se adicionam e fumam cachimbos. incessante tagarelar desse grupo pode ser ouvido gestos corporais da briga nos lugares públicos ou do corpo em suplício ex- a grande distância, antes mesmo de o passante tê-lo sob a vista o que confere maior singularidade à cena. (Vaux, 1819, p. 117-126, apud França, posto. E, sobretudo, os ritmos decorrentes dos versos musicais sempre pu- 2000, p. 305-306) blicizados para o auditório que acompanha o canto e a dança. Percebendo esses processos de comunicação como "um sistema de ecos" Nas falas amplificadas observam-se tipologias, materialidades das nar- (Havelock, 1994, p. 98), convém também atentar para os ruídos do passa- rativas, funções relacionadas aos interlocutores e aos lugares de produção do fixados nas narrativas para escutar vozes que ecoam no tempo. Afinal, a discursiva, produzindo um sistema de informação oralizado (Ferrão Neto, oralidade é um fenômeno histórico e, como um sistema cultural, só pode ser 2010, p. 79). Nesse sistema, esses indivíduos constroem gêneros de fala. compreendido na sua efetuação, ou seja, em sua ação. Não são meras transa- Decorrentes de padrões orais de pensamento e da sua ação no mundo, ções entre indivíduos, mas um significado compartilhado pela comunidade, percebemos singularidades nesses modos de dizer em função de como lidam incluindo o falante solitário. com a tecnologia da fala, e também "uma mentalidade, um modo de ver e Isso não quer dizer que não haja a fala murmurada, a fala recitada de pala- ouvir, de expressar e de criar narrativas no ambiente, de posicionar-se no vras aprendidas na memória, por exemplo, no instante em que são obrigados a universo dos seres, das coisas e das ideias" como um indivíduo oralizado entoar as rezas diante das imagens dos santos na casa grande. Existe também (Ferrão Neto, 2010, p. 44). fala treinada como aquela que é dirigida aos senhores e nas quais se exprime Definindo esse indivíduo como aquele que "tem nos regimes orais de desejo de cumprir ordens, para dessa forma resistir e continuar a vida. processamento da informação de produção, consumo, armazenamento e Podemos dizer, então, que havia três grandes classes de gêneros de fala: publicização de discursos -, a base e a tônica de sua comunicação cotidiana; aqueles que se constituem em fala do grupo para o próprio grupo; aqueles que faz usos da escrita em função de uma condição de funcionamento social encenados nos espaços públicos; e aqueles que são estratégias discursivas oralizante, capaz de, através de uma racionalidade outra, transmutar a letra destinadas a outros grupos. Nesse último estrato figuram também os re- em voz, gestos, sons e memória", Ferrão Neto acrescenta que o adjetivo ora- cados e mensagens mandados de boca e os argumentos selecionados para lizado pode ser empregado também para qualificar ou especificar o próprio convencer. Já os gêneros encenados nas ruas e praças deixam à mostra uma ato comunicativo. Assim, é possível falar "de uma escrita ou de uma leitura conduta acústica e corporal, espécies de rituais orais cotidianos, e que se oralizadas, estruturadas segundo as regras de composição e difusão orais; produzem tendo como pressuposto a construção do diálogo. de uma memória oralizada, que faz usos de recursos fonéticos, musicais e rituais performáticos para selecionar e armazenar a informação; de um meio Nas construções estratégicas de suas falas, o indivíduo distingue os gê- oralizado, plataforma de permanência da comunicação oral e do uso abran- neros que se aplicam para cada ocasião. Mas é preciso perceber igualmente gente dos sentidos humanos para a simulação de uma interação cotidiana, o entrelaçamento entre esses gêneros, já que numa mesma ocasião pode-se passar de uma situação a outra. Afinal, mundo da oralidade é de uma etc." (Ferrão Neto, 2010, p. 45).</p><p>interação permanente, exigindo a presença física de um outro, pautado pelas Ao estudar esses relatos através das "lentes europeias", nos quais corpos, reações de quem é convidado a participar, envolvido que foi pelo som, pelo sinais e impressões se destacam nos textos, Sela identifica algumas temáti- apelo gestual, enfim, pelo convite à partilha (Ferrão Neto, 2010, p. 80). cas comuns no conjunto das produções oitocentistas: "o susto com a multi- A cada gênero corresponde também uma gramática do gesto, expressa dão negra e seus emblemas rostos feios, marcas corporais, seminudez, uma pela postura e pelo movimento do corpo. Enquanto esperam a ordem para língua estranha e incômoda, canções incompreensíveis e, por fim, o acinte novamente abastecer suas vasilhas de água, as mulheres escravas sentam e dos castigos corporais" (Sela, 2006a, p. 195). ampliam os gestos feitos com as mãos, adensando o tagarelar constante. Em Para alguns historiadores, entretanto, é possível construir, a partir desses pé, amarrados uns aos outros, como se fosse um corpo só, os libambos que relatos, um retrato compatível com uma realidade presumida, quando sonda- carregam água da mesma fonte têm os gestos interrompidos pela situação dos em maior profundidade. Submetidos a outra leitura, se forem articulados de contingência a que as correntes os submetem. A triste e melancólica voz com dados de outras fontes e, sobretudo, percebendo as suas "entrelinhas", recitativa que sai de suas bocas é acompanhada pelo contido caminhar dos esses textos podem revelar uma visão surpreendente do mundo dos escravos corpos. As correntes produzem um barulho sincopado que se junta à voz, (Slenes, 2011, p. 132-133). mas os corpos estão compulsoriamente submetidos à economia dos gestos. Quando o propósito, entretanto, não é recuperar o passado em sua in- teligibilidade, mas construir interpretações a partir dos pressupostos line- rentes a qualquer reflexão histórica a história narrativa constrói enredos Encenações vocais nas ruas: dos gritos aos sussurros mas sedimentados pela verdade que lhe é inerente -, os relatos podem se constituir em janelas do passado que se abrem aos olhos de uma Ainda que haja muitas críticas aos pesquisadores que se valem preferencial- interpretação entre muitas possíveis realizadas no presente. mente dos relatos dos viajantes para tentar interpretar o passado escravista bra- sileiro, sobretudo porque, repletos das visões de mundo eurocêntricas, constru- As impressões fixadas na retina dos viajantes, tendo como pressuposto íram narrativas em que era dominante o estranhamento diante de imagens que elaboração de imagens a serem transpostas para a tecnologia da escrita, feriam as suas retinas, é possível, escavando as frases que registraram, encontrar contêm, portanto, tramas visuais fundamentais para deixar ver gestos signi- nexos do mundo da comunicação em que os escravos estavam envolvidos. ficantes de personagens do passado. Para Eneida Maria Mercadante Sela (2006a), os limites desses testemu- Retirar das descrições os juízos de valor e escavar as cenas da vida co- nhos decorrem sobretudo de visões de mundo dominantes presentes nas ridiana pode ser um bom exercício para remontar a gramática de sentidos narrativas, identificadas com o pensamento científico e estético gestados nas presentes nos gestos da oralidade. últimas décadas do século XVIII. As novidades dessas duas ordens, segundo Quando um viajante pisa no Rio, sua atenção será naturalmente atraída pela a autora, "acabaram por nortear juízos e parâmetros encontrados na litera- aparência dos negros. Sua cor, à qual o olho de um europeu não pode se tor- tura de viagem oitocentista". Nesse contexto, continua, "os africanos, en- nar familiarizado por um longo tempo suas fisionomias selvagens e gros- quanto representantes da variedade humana, ganharam ontologias inferiores seiras, geralmente tatuados, ou seus membros nus, apenas suficientemente cobertos para atender aos propósitos da decência mínima sua língua bár- específicas, muitas das quais adentraram com força as primeiras décadas do bara, e vociferações barulhentas a selvagem melodia de suas árias nacionais século XIX" (Sela, 2006a, p. 6). (se termo pode ser usado), que cantam invariavelmente enquanto traba- Assim, muitas interpretações que tomam como base para a reconstru- o ranger das correntes e as coleiras de ferro usadas por criminosos ção do passado os relatos dos viajantes ignoram "a opacidade cultural, os ou fugitivos nas ruas, estes e outros emblemas peculiares de barbarismo e códigos, os juízos e preconceitos" contidos nesses textos, sendo muitas miséria, tudo concorre para promover a surpresa, o horror e a repugnância. (Mathison, 1825, apud Sela, 2006b, p. 194-195) vezes incorporadas acriticamente. Em suma, atribui-se a esses relatos a noção de documentos válidos para desvendar os significados da escravidão viajante tem seus sentidos voltados para os elementos dominantes na (Sela, 2006a, p. 7). cena pública: os aspectos físicos dos escravos (suas tatuagens, a exiguidade</p><p>das roupas, por exemplo), os sons da língua proferida e a forma como en- e bom som, poucas vezes sussurradas, numa vida em que não há possibili- toam as palavras, a música que acompanha invariavelmente o trabalho e o dades de segredos. Nos gritos que se repetem em muitas situações, pode-se ranger das correntes e das coleiras de ferro. São sonoridades dominantes que perscrutar o desejo de ser ouvido, presumir que muitos escutam uma a matizam a cena repleta de juízos de valor. que, a rigor, não é dada autoridade para falar. Gritar é uma forma de expres- Na descrição, no entanto, podem ser percebidos elementos da gramática sar não apenas a dor, a emoção, a alegria, mas de deixar claro que se está de vozes presentes nas sociabilidades cotidianas. A maneira de falar, incom- vivo. A exprime um sentido comunicacional próprio, em que a amplitude preensível ao olhar do estrangeiro ("vociferações barulhentas"), denota um do som torna sempre presente aquele que a profere, mesmo quando não está modo predominante em que a carrega a intensidade dos sons. A ela se no quadro da imagem de quem vê. juntam os muitos barulhos da cena pública, mas sobretudo a música que os Há que se pensar também que essas "vociferações barulhentas" podem acompanha todo o tempo. ter sido assim percebidas porque o viajante muitas vezes não pôde compre- Os corpos, fluxos de sons, se tornam um "rio de ações" (Havelock, 1996, ender o que é falado. Oriundos de inúmeros territórios na África, há a pre- p. 111), expressando uma sintaxe de conduta que revela mecanismos de co- sença constante de muitas línguas nesses espaços públicos. Por outro lado, municação. Se o cântico pode ser interpretado como brecha necessária para essa pluralidade nos induz a pensar na importância de aprender uma língua tornar mais suave a realização do trabalho, fazendo do ritmo um auxílio para comum para, assim, estabelecer laços de sociabilidade e de construção de um a repetição das tarefas, é também momento de inflexão que produz o afasta- novo mundo comum. Como remarca Karasch (2000, p. 294), talvez o motivo mento momentâneo do mundo exterior. mais importante para que aprendessem o português era se comunicar com outros escravos. As ações do corpo acompanham, assim, de diferentes modos a tecnologia da voz, permitindo a compreensão, a partilha, enfim, a tradução do que dese- A fluência no idioma, por outro lado, pode denotar a utilização da língua jam dizer. Se o estrangeiro percebe naqueles sons a surpresa, o horror e a re- como estratégia de sobrevivência. Saber falar fluentemente o português permi- pugnância, podem-se, em contrapartida, encontrar sintaxes de condutas va- a muitos esconder a nacionalidade, passando-se por um já nascido no Brasil. riadas a partir das gramáticas de sentidos, nas quais não é possível dissociar Nos muitos anúncios publicados em jornais como o Diário do Rio de Janei- a audição do restante do corpo como materialidade da comunicação humana. TO até meados dos anos 1850 informando as frequentes fugas dos escravos, Refletindo sobre a presença da voz, Paul Zumthor (2010) destaca a impor- entre os sinais de identificação, ao lado das marcas da escravidão, se destaca tância da palavra, ou seja, da linguagem vocalizada para a compreensão dos muitas vezes o fato de "falar bem": signos de reconhecimento da comunicação. Para ele a ultrapassa a palavra, Anda fugida desde o dia 23 de novembro do ano passado a escrava Joanna, pois "a não traz a linguagem", mas, ao contrário, "a linguagem nela tran- nação angola, com os seguintes sinais: alta, bem parecida, fala muito bem, pelo sita". Assim, as emoções mais intensas são suscitadas pelo som da voz. Se o que parece crioula, levou vestido de chita de morim escuro: quem a levar a rua murmúrio pressupõe a intimidade ou o medo do dizer, os gritos mostram a da Carioca (antiga do Piolho) n. 85, será bem gratificado, protesta-se contra explosão, no sentido da alegria ou da dor, daquele que o profere em direção, quem a tiver acoitada com todo o rigor das leis. (Diário do Rio de Janeiro, 7 de janeiro de 1850, p. 4) (Grifo nosso) diz Zumthor, a uma origem perdida, ao tempo da voz sem palavra (p. 11). As tradições africanas consideram decisiva a forma da voz, atribuindo po- Muitos, certamente, combinam uma língua mista que mescla várias tra- der transformador a seu timbre, a sua altura e a seu fluxo. "O rei africano fala dições linguísticas (Karasch, 2000, p. 294). A charge publicada na edição de pouco e nunca eleva o tom da VOZ: o explicita, se preciso em alta, as 10 de janeiro de 1868 da Vida Fluminense, em referência aos interesses dos palavras que dirige a seu povo". Já o "grito é fêmea" (Zumthor, 2010, p. 15). escravos em ser recrutados para lutar na Guerra do Paraguai, em função dos Os gritos são referências constantes quando se trata de descrever os es- ganhos de liberdade que poderiam ter, o faz em tom jocoso e debochado, ao cravos nos ambientes das ruas e das senzalas. Ao lado deles, todos os tipos tentar transcrever por escrito as formas orais das suas vozes, e deixa antever de cânticos. Observamos também o rumor das conversas. Conversas em alto língua mista a que se refere Karasch.</p><p>Sob o título "Diálogo de negros minas", reproduzem a suposta conversa Foram presos a ordem das respectivas autoridades, no dia 29 do passado, os entre um negro com um cesto na cabeça com outro sentado numa mureta. seguintes indivíduos Manoel, escravo do Dr. Saboia, por capoeira; Felix, escravo, por embriaguez; Agostinho, escravo, a requisição do seu senhor por Ambos estão e vestidos com blusas de algodão com mangas arre- causa doméstica. (Diário do Commercio, 1° de julho de 1866, p. 2) gaçadas e calças simples, cortadas pouco abaixo do joelho. Os gestos corporais complementando as encenações vocais denotam Entonce, pae Juaquim, vossuncê tem mêmo medo do reculatamento? ainda a importância do corpo na construção do diálogo. Não apenas por Xi! Não fala n'esse não! Minha corpo está tremendo tudo!... gesticular seguidamente, acompanhando a fala com gestos eloquentes, Medroso! Pois eu está querendo que seu moço urbano me agarra. mas também por encenar nas ruas os proibidos jogos de capoeira. A re- Padre, fio e escripto santo! Cala boca, Zunzé! frequente à formação de grupos "ajuntamento de negros" Está enganado. Quero vortá lá do feito generá, com um penacho bem mostra a construção de laços de sociabilidade e de ações conjuntas na grande ni cabeça como sinhô velho Camamú, para ve tuda as criolinha de elaboração de uma vida comum. olhinho terno para mim. (Vida Fluminense, 10 de janeiro de 1868, p. 9) Em uma taberna da rua do Fogo, esquina das Violas, continuam ajuntamen- Nos anúncios são frequentes também as descrições das marcas de casti- tos de negros, que depois de alcoolizados saem para a rua a contender com gos recentes ou antigos. A maioria carrega uma "mancha escura no rosto", os transeuntes com gestos de capoeira. Será bom que a polícia ponha termo uma "perna manca", pode ser "cego de um olho", ter "um dedo cortado", e as a semelhante abuso que vai de encontro às posturas municipais. (Diário do cicatrizes estão por toda parte (no queixo, nas pernas, no dorso, nos braços). Commercio, n. 1, p. 2, 1° de julho de 1866) Podem também carregar ferros no pescoço, como o charuteiro João, que é "ainda moço e levou um ferro no pescoço", ou "sinais de castigo pelo corpo Mas nem sempre os gestos são caracterizados superlativamente. Em mui- de pouco tempo", como José, que fala "muito pouco inteligível e atrapalha- tos anúncios podem ser observados o silêncio de alguns, a comunicação res- do" (Diário do Rio de Janeiro, 5, 7 e 11 de janeiro de 1850, p. 4). trita e sussurrada de outros, ou por não dominarem a língua ou por fazerem da introjeção dos gestos uma forma de proteção ou de vergonha explícita. Fugiu no dia 24 do corrente, da rua da Assembleia, n. 28, um preto de nome Base é caso de José, que, tendo "sinais de castigo pelo corpo de pouco tem- Francisco, nação moçambique, é cozinheiro, levou vestido camisa de algodão po", fala "muito pouco inteligível e atrapalhado"; ou de Francisco, cozinheiro americano bastante suja, e calça de brim no mesmo estado; tem um ferro ao pescoço em castigo de ter feito outras fugidas, é alto, delgado e tem o que fugiu no dia 24 de agosto de 1851, vestindo uma camisa de algodão costume de olhar para baixo para a gente com ar de simplório; consta que anda "bastante suja e calça de brim no mesmo estado". Com um ferro no pescoço, ganhando. (Diário do Rio de Janeiro, 28 de agosto de 1851, p. 4) (Grifo nosso) alto e delgado, tem o "costume de olhar para baixo para a gente com ar de simplório". Poderia ter outro gesto, senão olhar para baixo, quem carrega Nas páginas dos jornais podem ser capturadas informações aqui e ali que permanentemente ferros no pescoço? E também "o preto de nação angola, denotam a ação dos escravos nas ruas, desenvolvendo uma vida comum. Nas de 25 anos", descrito como de "estatura regular, reforçado de corpo, cor bem informações sobre aqueles que foram presos sobressaem suas práticas coti- preta, olhos grandes, tem andar um pouco curvado". Como a maioria, usa dianas, apesar de toda a repressão sofrida. São presos por "embriaguez", por quando fugiu camisa branca e calça de riscado azul. "andarem fora das horas", por "exercícios de capoeiragem", por "andarem com armas de defesa", enfim, por "provocarem muitas Cada uma des- Considerando que as vozes estão enraizadas no corpo e que na pro- sas razões denota a ação da partilha de gestos capazes de produzir uma ação de dução de suas expressões incluem o ritmo, as pausas e as entonações re- comunicação duradoura. Praticar capoeira, andar nas ruas depois da hora per- lacionadas à respiração, a ação, a exposição de uma atitude e os gestos mitida pelas leis municipais, beber e conversar nas tabernas, discutir, brigar, corporais (Zumthor, 2010, p. 34), podemos também atribuir a cada um dos ou seja, na visão das autoridades, insurgir-se contra as normas disciplinares é gestos realizados em complemento à ação vocal um atributo narrativo, já a produção de gestos de vida expressando o que consideram a liberdade. São que acrescenta à voz uma particularidade, contribuindo para a construção também formas de resistência. Gestos corporais que acompanham a voz na polifônica do ação de "tradução" (Sodré, 2014) diária de uma</p><p>Assim, José, com sinais de castigo por todo o corpo, só pode falar de ma- propósitos. Em todos, porém, o corpo duplica a palavra sonora, oferecida neira ininteligível e de forma atrapalhada, economizando cada gesto. Como múltiplos contatos, configurando uma fala completa: gestos que incitam poderia falar Francisco se não olhando para baixo, já que carrega no corpo os outros a repeti-los, que significam e traduzem o mundo comum. ferros da sua condição escrava? Podemos supor mesmo que sua é sus- Ampliada para o auditório, encenada nos espaços públicos, possibilitam surrada e complementada por economia de gestos, que começa no olhar. Da a comunicação extensiva, mesmo que o som que saía de suas bocas, a língua, mesma forma, quando andam curvados não deixam registradas as vozes que estrito senso, não seja do conhecimento da plateia. Corpo e música constro- certamente não emitem. A voz ausente na descrição no anúncio que informa em gestos e sons que chamam a atenção, permitindo, inclusive, a comunica- a fuga certamente também não é vocalizada quando estão em presença. explosiva no território. No denso estudo que fez ainda nos anos 1970 sobre a vida dos escravos Encenações musicais nas ruas: corpos que falam no Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX, Mary Karasch (2000) afirma que estes cantam em todas as ocasiões possíveis. Baseada nos relatos dos viajantes e nos arquivos penais, ao lado de uma extensa documentação, Nos múltiplos territórios culturais em que se movem, os escravos entoam a historiadora procura desvendar os sentidos dessas canções. Nas suas des- cânticos a qualquer hora do dia ou da noite: no trabalho, na caminhada, nas horas vagas, nas festas e com os mais variados propósitos. Das bocas saem crições pormenorizadas, entretanto, sobressaem sempre os gestos corporais. música e ritmo, constituindo os cânticos entoados documentação oral da sua Ainda mais eloquentes do que quando acompanham o dito, os gestos do corpo no canto constituem uma espécie de segunda voz. cultura. Na memória armazenam sons e gestos que decorrem do ritmo que escutam, que são a memória no veículo daqueles indivíduos na situação de escravo parava na rua e começava a cantar, outros reuniam-se em torno comunicação (Havelock, 1995, p. 108). Falar, portanto, dos territórios e das dele. Acompanhavam-no com um refrão ou um certo grito, um tipo de refrão competências da oralidade é inserir na discussão as complexas encenações estranho articulado em dois ou três sons. Após o canto, começava uma pan- musicais desenvolvidas no espaço público, construindo corpos que falam. tomina improvisada por aqueles que iam para o centro do círculo. Durante a encenação, as faces dos atores ficavam possuídas por delírio. Outros acom- Dividindo o que denomina obra vocal em dois tipos: o dito, que utiliza panhavam com instrumentos improvisados em harmonia perfeita. Outros apenas uma parte dos recursos da voz, e o canto, Paul Zumthor acrescenta ainda batiam palmas, duas batidas rápidas para uma lenta. (Debret, 1975 que este desaliena a palavra, "desabrochando as potencialidades da voz e [1834-1839], p. 252, apud Karasch, 2000, p. 322) pela prioridade que concede a ela". "Dita, a linguagem submete-se à voz; No canto encenado na rua, o viajante do início dos anos 1820 vê uma cantada, ela exalta sua potência, mas, por isso mesmo, glorifica a palavra" de performance (Zumthor, 2010), em que gestos e vozes são or- (Zumthor, 2010, p. 199). questrados por intérpretes que, com sua teatralidade, projetam a ordem so- As encenações vocais acompanhadas pela expressão corporal, muitas ve- nora em direção a um auditório esperando a resposta, afinal realizada. Um zes qualificada como fala barulhenta, revelam a especificidade dos padrões modelo gestual faz parte da "competência desse intérprete e se projeta na orais produzidos pelos escravos, como já enfatizamos, e explicam as formas performance" (Zumthor, 2010, 217). pelas quais transitam da oralidade em direção ao letramento. Para Zumthor, a performance implica, portanto, competência, pois além As referências aos cantos e à música dos escravos aparecem nos rastros de um saber-fazer e de um saber-dizer, deixa evidente um saber-ser no tempo do passado (sempre como vestígios significantes) a todo momento: nas des- no espaço. "O que quer que, por meios linguísticos, o texto dito ou cantado crições dos viajantes, nas notícias dos jornais informando que tinham sido evoque, a performance lhe impõe um referente global que é da ordem do presos por ajuntamentos e badernas nas vias públicas, nos documentos ofi- corpo" (Zumthor, 2010, p. 166). ciais proibindo muitas dessas ações. Desde a saudade da terra natal até a sau- Ao começar cantar, está dada a senha para a situação de partilha, dação de divindades, a música e o canto provocando os passos caminhando, munhão e participação. Primeiramente, os que são introduzidos no canto as mãos trabalhando ou corpo dançando são produzidos com muitos acompanham Depois acrescentam instrumentos improvisados, a</p><p>batida das mãos cadenciadas e alternadas. Exibindo o corpo e fazendo dele amoroso". Pulsão corporal, a dança é também consciência. Com a proximi- instrumento de acompanhamento do canto, se oferecem ao contato. À dupli- dade dos corpos estabelece-se o diálogo produzido em conjunto pela e cação de jogos de cena corporais acrescenta-se a da palavra. pelo corpo. Expandindo os gestos, a dança revela o reprimido. improviso Os gestos têm, nesse caso, uma função rítmica diretamente ligada à da canção, a repetição conjunta do refrão acompanhado por palmas, todos musicalidade da performance, e não à linguagem. Daí os sons serem quali- juntos, têm certamente muitos significados, mas mostra sobretudo a cons- ficados pelo viajante como "um certo grito", "um tipo de refrão articulado trução de gestos partilhados. objetivo final é produzir um ato comum, re- velando a unidade, dramatizando as circunstâncias, construindo um mundo em dois ou três sons". Daí também essas músicas e danças serem frequen- para aqueles que dela participam. temente associadas com gritarias aos olhos dos estrangeiros. Gritaria ou não, são afinal percebidas e, portanto, empregadas numa situação de co- O que Pohl e outros viajantes descrevem, colocando em relação música, municação extensiva. voz e corpo, é a publicação da música quando a plateia responde ao incita- Essas diversas formas de canto, a multiplicidade de vocalidades acompa- mento com a participação. Seja em meio a festas, seja nos dias de descanso nhadas pelos ritmos do corpo, são registradas seguidamente pelos europeus, (que alguns têm), qualquer ocasião serve para a produção de músicas que seja com o olhar de estranhamento, seja com o olhar científico, tentando inundam a cidade. São momentos em que, através do corpo, dos gestos, da voz, enfim, da performance, publicam os cantos e as danças, recebendo res- compreender um universo cultural para eles estranho. Tentam descrever e caracterizar os instrumentos. Mas, sobretudo, destacam o lugar do corpo postas de um auditório que participa ativamente da narrativa. Publicadas no na construção da performance encenada nos espaços públicos. Gestos dos espaço, são armazenadas na memória para que possam tornar a ser publi- membros superiores, da cabeça, do busto, mas sobretudo das ancas, das per- cadas no momento seguinte. Diz Havelock: "O auditório oral participa não nas e, por fim, do corpo inteiro dos escravos, que não se cansam de executar só executando passivamente e memorizando, senão participando da ativida- de da linguagem usada. Batendo palmas, bailando e cantado coletivamente os passos, mesmo quando, esgotados, regressam do trabalho estafante. Nas descrições, sobressai o fato de essas danças e gestos incluírem sempre o como resposta ao canto do cantor" (Havelock, 1995, p. 111-112). outro. Não há dança solitária, há sempre a partilha numa situação de comu- Não sei qual o viajante, é Golbery, creio, que disse que a certa hora da nicação profunda e comum. noite toda a África estava em dança, e que os negros dançavam mesmo no meio das sepulturas. Passando à América, suportando a dura lei da escra- Os negros gostam muito de música. Consta da gritaria monótona de um vidão, os negros nada perderam de seu amor por seu exercício de predile- entoador, cujo estribilho é seguido por todo o coro de maneira igualmente conservam o uso de todos os instrumentos próprios de sua nação: a monótona, ou, quando instrumental, do sonido de uma corda retesada num banza, tambor congolês, o monocórdio de Loango soam continuamente pequeno arco, num simples instrumento que descansa sobre uma cabaça nas ruas do Rio de Janeiro. Suas danças nacionais se improvisam em to- esvaziada e dá, no máximo, três tons; ou do débil ruído de uma varinha de dos os lugares onde estejam seguros de que não serão interrompidos. ferro fixada numa pequena tábua e que, ao contato com o polegar, deixa O batuque, que alternativamente exprime as repulsas e os prazeres do ouvir o seu pobre som. Aqui devo dizer uma palavra sobre suas danças. Con- amor; a capoeira, em que se finge o combate; o lundu, que mesmo no sistem, como quase todas as danças propriamente nacionais, na expressão teatro se dança, e cuja graça consiste principalmente num movimento de galanteios. Apenas, num povo tão selvagem como o negro, o galanteio particular das partes inferiores do corpo... todas essas danças apaixonan- é grosseiramente indicado na dança. [...] Veem-se com frequência negros tes que mil vezes têm sido descritas pelos viajantes, executam-se no Rio dançando nas ruas. Comumente são três, dos quais dois representam o par de Janeiro, como tinham tido lugar em nossas colônias e como se hão amoroso, cuja união o terceiro procura impedir. Deixam-se empolgar de tal de executar em toda a parte onde houver negros, mudando somente de maneira pelo furor báquico dessa dança, que não a interrompem enquanto denominações. (Denis, 1980, p. 156-158, apud Sela, 2006) não caem exaustos. (Pohl, 1951 [1832-1837], p. 85-86) Na descrição, historiador francês Jean Ferdinand Denis, que visitou A dança acompanhada do canto permite ao viajante produzir uma inter- país diversas vezes no período entre 1816 e 1831, enumera as muitas pretação para a narrativa construída pelos corpos que, afinal, falam. Nela ele danças e os instrumentos que fazem ecoar os sons enquanto a ação foi vê galanteio, a disputa pela mulher, a tentativa de impedir a união do "par</p><p>permitida nas ruas das Entre as numerosas danças registradas, Tocado de maneira expressiva, enriquecido com efeitos de intensidade, enumera, além do batuque, a capoeira e o lundu. Entre os instrumentos, a com múltiplas conotações melódicas, revezando com o canto no decorrer da banza, o monocórdio e o tambor. performance, torna possível vencer a distância (o som de um tambor pode Ainda que não seja o objetivo desse texto se referir mais profundamente à ser ouvido em até 20 quilômetros) e, portanto, alonga o espaço e o tempo. música, já que o foco recai de maneira geral sobre os gestos da oralidade que tempo porque, em conjunto com o canto e se revezando com ele, abre maio- encaminham os escravos para inserção num processo específico de letramen- res possibilidades para a conservação dos discursos na memória. espaço, to, não é possível deixar de fazer referência ao tambor presente na descrição porque amplia o território pela sonoridade: o espaço sonoro dos tambores é de Denis e em inúmeros outros relatos. Reconhecer a importância da per- delimitado pelo alcance dos sons que deles podem ser ouvidos. cussão para o gesto social e o comportamento linguístico significa perceber o canto acompanhado ou não pelos instrumentos está, portanto, em to- valor mágico que possui, anunciando a palavra verdadeira e exalando o sopro dos os lugares. Como diz Karasch em relação aos escravos do Rio, eles "can- dos ancestrais (Zumthor, 2010, p. 188). tavam em todas as ocasiões possíveis" 322). Mas que significados possui Acompanhando em contraponto a que pronuncia frases, dando a elas a música para eles? uma espécie de sustentação de sua existência, o tambor, além de marcar o A partir das descrições podemos aferir alguns: permitir a explosão da ima- ritmo básico da voz, provoca as palmas, os passos da dança, o jogo gestual, ginação, construindo uma pausa para a realidade vivida; estabelecer relações de produzindo com suas batidas figuras próprias de uma linguagem que começa partilha com outros que se encontram na mesma situação de escravidão, ou seja, na mão que faz o gesto e continua no som que ecoa. Zumthor afirma que "ele estabelecer laços de comunicação; prestar reverência aos vivos e aos mortos; ela- é parte constitutiva do movimento poético oral" (2010, p. 188). borar ritmos para desenvolver o trabalho repetitivo de maneira menos penosa; Entre os escravos há tambores de muitos tamanhos e formatos (Karasch, estabelecer códigos cifrados para comunicar aos outros algo que não podia ser 2010, p. 315), e sua utilização foi alvo de frequentes proibições. Os maiores diretamente dizível; permitir momentaneamente a explosão da alegria. A vida eram normalmente escondidos e só usados a noite, mas também os meno- escrava se organiza de maneira particular em torno de práticas orais complexas de uma comunicação que faz da música forma de sobrevivência. res eram proibidos. A partir de 1833, um juiz de paz proibiu que tocassem tambores no Rio de Janeiro, sob a alegação de que o som atraía escravos das Em certos feriados, [os escravos] obtêm permissão para se juntarem em ban- fazendas vizinhas. A partir de então a polícia passou a prender os que dança- dos de quinze, vinte ou mais, de acordo com seus distritos e dialetos nati- vam ao som dos tambores. Karasch relata que, em 1849, a polícia dispersou vos; os chefes estando, às vezes, espalhafatosamente enfeitados com contas um grupo de mais de duzentos negros que estavam dançando batuque ao e plumas, botões velhos, pedaços de vidro e marcas de distinção similares. Entre os membros de cada grupo havia geralmente dois ou três músicos, que som de tambores (Karasch, 2010, p. 315-316). executavam suas árias nacionais em diferentes instrumentos, alguns rudes e Interpretando as proibições, chamam a atenção os argumentos de que o toque simples; outros, de formato estranho e complexo. Aqueles sons, entretanto, do tambor poderia atrair escravos de fazendas vizinhas, o que nos induz a pensar pareciam deleitar os escravos que cantavam e dançavam com um ar de sincera na possibilidade extensiva de comunicação dos instrumentos e na percepção do alegria, tão fortemente, tão naturalmente demonstrada, que não pude nem som característico de suas batidas como uma mensagem endereçada mesmo para por um momento supor que era fingimento. (Ouseley, 1819, p. 15, apud Sela, 2006, p. 183) (Grifo nosso) os que não ocupavam contiguamente o território. som que se espalha constitui uma comunicação de amplo alcance. Além de linguagem poética, são cartas ende- A música possibilita, enfim, a vivência em comum nas mais diversas si- reçadas a ouvintes que reconhecem nos sons mensagens significantes. tuações e com os mais diferentes sentidos. Velhos, jovens, mulheres e ho- mens, não importa de que idade, grupo étnico ou procedência, estabelecem 12 A tolerância em relação às grandes reuniões de escravos e danças africanas, segundo situações de comunicação duradouras, permitindo a explosão narrativa do Karasch (2000, p. 328), não durou muito, tendo sido proibidas nos anos 1820. governo corpo nos espaços públicos. Com ela, a permissão da própria imaginação proibiu a concentração de grande número de escravos, considerada perturbação à ordem para construir outros significados para a vida cotidiana. pública. A partir de então, a polícia passou a prender todos que apanhava dançando o batuque.</p><p>Encontramos um dia, perto da fonte, escravos que dançavam a bamboula ao trabalho mais pesado que se vê na rua é o do carregador de café, que leva som de uma espécie de bandolim. músico era um velho; seus cabelos lhe sacos pesados na cabeça com seus passos acelerados, ao som de chacoa- cobriam a testa como uma branca, e uma tatuagem bizarra traçava-lhe, do lhantes substâncias dentro de uma bexiga, que o chefe do grupo sacode e os topo da testa até a ponta do nariz, uma linha de inchaços semelhante a um outros acompanham cantando. (Hill, 2008 [1843], p. 25) rosário de verrugas. estardalhaço de risos insanos, as contorções e os mo- vimentos exorbitantes dos dançarinos mostravam quão pouco eles se inco- O certo é que os cânticos de trabalho fazem parte do mesmo universo que modavam com o calor; pode ser mesmo que esta companhia, a única que lhe permite ver as vozes ecoando dos corpos. Tanto na forma como na função, a foi fiel na terra estrangeira, contribuísse para apagar as lembranças de sua música, remarca Terra (2007, p. 93), é instrumento comunitário. Ou melhor, escravidão, para reavivar aquelas de sua infância livre e alegre... (Radiguet, um instrumento de construção do comum e, portanto, um lugar materiali- 1856, p. 261, apud Sela, 2006, p. 152) zável da comunicação. Acionando mecanismos memoráveis, capazes de fazer perdurar os can- barulho é incessante. Uma chusma de negros seminus cada qual levando tos e as danças, que novamente podem se materializar nas ruas, estes são, à cabeça seu saco de café, e conduzidos à frente por um que dança e canta ao portanto, também lugares de armazenamento de lembranças passadas, se- ritmo de um chocalho, na cadência de monótonas estrofes a que todos fazem lecionadas por trabalhos de memória. A mesma imaginação permitida pela eco. Dois mais carregavam ao ombro pesado tonel de vinho, suspenso de introjeção da música leva à seleção de partículas de lembranças, nas quais se longo varal, entoando a cada passo melancólica cantilena; além um segundo relacionam os sons ao tempo imemorial da alegria e da liberdade. A música, grupo transporta fardos de sal, sem mais roupas que uma tanga, e indiferen- tes ao peso como ao calor, apostam corrida gritando a pleno pulmão. (Ebel, território da memória, é ao mesmo tempo lembrança e esquecimento: da 1972 [1828], p. 45-46) mesma forma que apaga a situação de escravidão, reaviva as lembranças de um passado longínquo e feliz. Música e grito na percepção dos viajantes mais uma vez produzem a at- mosfera de barulho incessante. Mesmo com sacos de café na cabeça, podem Absolutamente alheios ao que se está passando, prestando atenção somen- te à música, a que todos se entregam com a mesma paixão e fervor que às ser conduzidos pela dança e pelo ritmo que o condutor impõe à ação. A res- danças e aos enfeites, caminham dois outros negros. Um deles, filho de Mo- posta da voz, através do eco, ressoa nas ruas e imprime à atividade o ritmo toca um instrumento tosco, trazido de sua terra natal, chamado desejável para a sua execução de maneira mais rápida. marimba, espécie de violino com uma única corda. outro, um negro do Estudando a greve dos carregadores de 1857 na Bahia, João José Reis Congo, executa uma melodia diferente no sambee, um instrumento de seu refere-se à marcação de "um ritmo particular" no trabalho e que é observado país. Árias nativas são geralmente preferidas por eles [...]. (Chamberlain, 1943 [1821], p. 231, apud Sela, 2006, p. 190) praticamente por todos os viajantes estrangeiros (Reis, 1993, p. 12). Citando principe Alexandre de Wuerttemberg, que passou um mês, em 1853, na Mas os sentidos da música também existem para os intérpretes em fun- Bahia, escreve: "Quer descendo ou subindo, vencendo encostas íngremes e ção da situação de performance (Zumthor, 2010). A música das festas, dos pedregosos cantam! Cantam sempre durante a marcha." E con- dias de descanso, as que são entoadas para a partilha comandada no espaço "quanto mais o fardo era pesado ou quando subiam ladeiras os africa- público não têm os mesmos significados, por exemplo, que as músicas de nos [se] faziam muito mais vigorosos em seus gritos, ajudando o trabalho e trabalho. Essas têm outros propósitos. Podem servir de código cifrado para variando sua música com um expressivo e longo grunhido". Para Reis, a mú- avisar, por exemplo, a aproximação do feitor, ou podem ainda aliviar tensões, sica, que podia aliviar o peso sobre os ombros dos escravos, "aliviava sobre- fazer o tempo passar mais rapidamente ou cadenciar com o ritmo os movi- tudo espírito, permitindo aos africanos persistir, afirmar sua humanidade, mentos do trabalho, tornando-o um pouco mais suportável. Podem ainda não desesperar". E conclui: "ela contribuía para assegurar alguma estrutura reavivar lembranças, com isso aliviando a carga do trabalho ou permitindo a de integridade comunitária" (p. 12). alegria momentânea. Além disso, o improviso permite a crítica e a inclusão Baseando-se em outros relatos, historiador acrescenta o sentido crítico de elementos do cotidiano no canto. que essas canções podiam ter, que permite supor que os escravos pudes- sem inventar letras críticas à escravidão e de escárnio aos brancos, fazendo</p><p>muitas vezes alusão direta à exploração do trabalho e a outros pesares da a África. Nesse caso, o caminho a ser percorrido pode ser o do suicídio. Mas condição de cativo. No mesmo artigo, chama a atenção para a importância a transcendência como comunicação com o imaterial, com aqueles que estão que tinha a realização das tarefas em conjunto. "Trabalho solitário não era do lado do mundo dos mortos, pode ser atingida também por outro método. um valor de sua cultura" (Reis, 1993, p. 13). fogo surge então como a comunicação mais complexa, porque infinita, do Ainda que as letras das músicas em suas línguas africanas não tenham mundo dos escravos do século XIX, como veremos a seguir. sobrevivido como registro escrito, interpretando algumas dessas raras ins- crições que, utilizando trabalhos de memória, são transcritas já no início do século XX, aparecem referências a uma palavra que tem significado parti- Calunga: a comunicação dos vivos e dos mortos cular para os escravos da África Central, vindos de sociedades que falam as Uma cena frequentemente ilustra os modos cotidianos dos escravos bra- línguas banto: calunga, a linha divisória ou a superfície que separa o mundo sileiros nas fazendas. Saindo de dentro de uma pequena choupana, uma mu- dos vivos daquele dos mortos (Slenes, 2011, p. 151). negra com o dorso nu carrega para fora da casa onde estão outros es- João do Rio, em As religiões do Rio, originalmente publicado na série de cravos um pedaço de madeira incandescente. tição, percebemos no traço mesmo nome na Gazeta de Notícias no período entre 22 de fevereiro e 21 de bico de pena do desenho de está em brasa, o que é indicado abril de 1904, reproduz uma canção que ouviu quando visitou algumas casas pela fumaça que sai de maneira intermitente. de candomblé no Rio, localizadas no que ficou conhecido como Pequena Nela, a palavra calunga fecha o refrão. pedaço de madeira em brasa serve para acender o cachimbo de um preto velho que está sentando à porta da casa. Pelo terreiro, vemos outros Bumba, bumba, ó calunga, personagens: crianças nuas brincando perto das mães; um pequenino no colo Tanto quebra cadeira como quebra de uma negra; outros trabalhando ou descansando pelo chão; e dois outros Bumba, bumba, ó calunga. carregando um pote na cabeça em direção à casa. Cenas de um cotidiano que parece corriqueiro. No pequeno casebre não há uma só janela: apenas uma Na interpretação que produz do trecho, a historiadora Mary Karasch porta deixa antever o interior do aposento. (2000) procura desvendar o mistério contido nas frases da poesia oral. E ca- lunga é a chave para a sua interpretação. Barreira entre este mundo e o próxi- Nas descrições de época aparecem também referências às pequenas fo- gueiras que ficam permanentemente acesas no interior das senzalas. E tam- mo, que poderia ser o oceano ou o túmulo, diz ela: "Em algumas sociedades bém o fato de nelas não haver janelas (por vezes há apenas uma pequena africanas, um escravo era usado como cadeira quando o soberano presidia a abertura abaixo do teto, permitindo a entrada de escassa luz e ventilação), o corte; assim, cadeira parece significar escravo." Já sofá pode ser um jogo de palavras com "sova" ou "soba", termo angolano que também significa chefe que faz que o recinto fique repleto de fuligem e as paredes e teto empreteci- dos em função do fogo que não se apaga nunca. A incompreensão diante dos supremo, podendo, portanto, se referir aos chefes africanos. Em suma, o refrão falava da inevitabilidade da morte: tanto morre o escravo como morre de uma comunicação duradoura faz que se interprete de maneira obscura fogo permanentemente aceso. o senhor (Karasch, 2000, p. 325). Ao descrever as senzalas da Fazenda São Francisco, na década de 1880, Mas a percepção do calunga, a grande linha divisória entre o mundo da vida Ina von Binzer, alemã que permaneceu no país de 1881 a 1884 ensinando os e o mundo dos mortos, nos dá a senha para a compreensão da mais profunda de fazendeiros ricos (Machado, 2010), assim se refere ao fogo mantido possibilidade de comunicação existente entre os escravos: a de transcender a dentro das cabanas: morte e poder estabelecer vínculos com os ancestrais. Em função disso podem agir buscando transcender este mundo e encontrar outros territórios, inclusive Estamos nos referindo à ilustração de Rugendas, Habitation de nègres. In: Viagem através do São Paulo: Martins, 1940 [1835]. (Fundação Biblioteca 13 Pequena África era designada a região do Rio de Janeiro englobando a zona portuária, Disponível em: Gamboa, Saúde e Santo Cristo.</p><p>Uma espécie de armação das mais grosseiras, feitas de tábuas e recoberta do grupo e suas origens num "ancestral fundador". O fogo permite abrir a por uma esteira de palha de milho; um cobertor de vermelho, um bauzi- janela para que encontrem o caminho da comunicação entre o mundo dos nho de latão, uma mesa indescritivelmente primitiva, além de algumas pa- mortos e o mundo dos vivos, o calunga. nelas, pratos e pequenos utensílios, eram a única ornamentação do cômodo sem janelas. Num canto, havia um fogo aceso, onde uma preta preparava uma A alegria que Ribeyrolles não vê, já que para ele está sintetizada na comida qualquer. Deve ser horrível ter-se de fazer fogo dentro da cabana, flor, não está na flor, mas no fogo. fogo, como bem disse Robert Slenes disse eu. senhor não permite que com um calor destes essa pobre gen- (2011), é a flor. A possibilidade de estabelecer a maior comunicação entre te acenda o fogo fora da casa? Permitir? Tentei um sem-número de vezes todas: a comunicação com todos os outros que viveram antes e que são vencer-lhes a resistência, mas o preto sente-se infeliz e fica até doente, se the os ancestrais. tiram seu foguinho. Eles sentem necessidade dele tanto no inverno como no verão e nunca dormem nas cabanas sem as suas brasas. Que horror! Gemia o professor, Essa comunicação invisível, possibilitada pelo fogo, permite também que e além de tudo sem janelas! Com certeza, no começo, isso foi determinado haja a transposição de outro dentro de si mesmo, tomando seu corpo e sua para impedir as fugas, pois as janelas não podem ser bem fechadas como voz, essência da manifestação dos ancestrais materializados nos corpos nas as portas. Mas agora o preto já se acha tão acostumado que ser libertado, cerimônias do candomblé, que segundo Karasch já são referenciadas antes construindo sua própria cabana, também não lhe abre janelas. (Von Binzer, de 1850 (2000, p. 377). Nessas cerimônias o princípio comum duradouro 1994 [1887], p. 62) (Grifo nosso). pressupõe também a tomada da voz do outro o ancestral que fala pela boca Na longa descrição da preceptora alemã, com as diversas referências ao daquele que o recebe no corpo. fogo que não pode se apagar nunca, que é uma necessidade, não havendo Mais uma vez música, corpo e são constitutivos da comunicação. possibilidade de dormirem sem as suas brasas, percebemos a importância Abertura possível não apenas ao mundo dos vivos, mas também ao mundo desse fogo perpétuo em suas vidas. fogo que torna as paredes e tetos das dos mortos. Se o canto e a dança permitem aos mortos tomar os corpos dos senzalas tingidos de fuligem não é mantido apenas para iluminar, afastar vivos (veículo da comunicação) e, assim, falar da sua existência passada, ao insetos, aumentar a durabilidade da cobertura de palha do teto. fogo está mesmo tempo que vivem num hiato de tempo no aqui-agora tornam possível associado intimamente às divindades e permite ultrapassar o calunga, ou abolir tempo e comprimir o espaço. seja, a linha divisória entre o mundo dos vivos e dos mortos. No seu estudo, Slenes (2011) destaca vários aspectos que podem servir Num belo livro em que reinterpreta o significado da família escrava, Ro- de guia na trajetória desse livro: o primeiro, referido anteriormente, é que bert Slenes (2011) transcreve um pequeno trecho do relato do viajante Char- escavando as leituras dos viajantes pode-se produzir uma interpretação di- les Riebeyrolles, que em 1859, ao ver as senzalas que por aqui existiam, ferenciada daquilo que não viram, mas que de alguma forma fica registrado, registrou suas impressões diante dos casebres onde "não se fala nunca do a partir do que chama desmontagem crítica das fontes (p. 141). Para ele, os passado que é de dor nem do futuro que está fechado", dizia ele. relatos do século XIX oferecem nas suas margens dados que permitem ver Tal como ocorre com Ina von Binzer, também a ele causa estranhamen- questões relevantes presentes naqueles textos, mas que a partir da identifi- to o fato de que em todas as senzalas, casebres pequenos, sem janelas e cação de informações e do seu ordenamento podem mostrar aspectos silen- com uma única abertura a pequena porta de entrada haja sempre o ciados ou interpretados com outra forma de olhar. A segunda diz respeito às fogo permanentemente aceso. fogo, na percepção do estrangeiro, en- possibilidades de generalizações quando falamos do universo que podemos carde o teto e as paredes, além de tornar o calor mais insuportável ainda. denominar mundo dos Mas o fogo não se apaga nunca (e não pode se apagar). E destaca: "Nos Nesse sentido, a questão da multiplicidade dos territórios dos escravos cubículos dos negros, jamais vi uma flor: é que lá não existem nem espe- na África que impediria a interpretação de seus mundos culturais como de- ranças, nem recordações." correntes de aspectos distintivos em função do lugar de origem pode ser ul- fogo permanentemente aceso é a forma como os escravos mantêm a trapassada, se considerarmos na análise a abordagem a partir de paradigmas sua mais complexa forma de comunicação. fogo simboliza a continuidade ou pressupostos que podem ser encontrados nas suas práticas culturais.</p><p>Identificando como característica comum a quase todas as sociedades interpretação desse passado sob paradigmas diversos. Essa gramática serve africanas o fato de elas se estruturarem em torno da família como linhagem, também, como vimos no decorrer desse capítulo, para a reorganização da Slenes (2011) esclarece o peso da formação do grupo a partir de ancestrais própria existência, construindo gestos que revelam sentimentos profundos. comuns. grupo de parentesco se define pelo pertencimento a um território Nesse sentido, mais uma vez calunga pode fornecer a chave para a com- criado a partir da ancestralidade. preensão de gestos que, em princípio, são incompreensíveis ou interpretados No mesmo estudo, o historiador chama a atenção para alguns conjuntos de forma parcial. Calunga pode significar também oceano, que no seu senti- de valores comuns às religiões africanas, abrangendo uma extensa região do profundo é a passagem de um mundo a outro, de uma situação a outra, no continente. Entre esses, destaca o conceito de "ventura e desventura", em direção ao bem-estar. ou seja, "a ideia de que o universo em seu estado normal se caracteriza pela Diversos historiadores já se referiram aos frequentes suicídios dos es- harmonia, pelo bem-estar e pela saúde". desequilíbrio, o infortúnio e a do- Os viajantes registram com frequência essa busca da ação da morte. ença são causados pela ação malévola de espíritos e pessoas, frequentemente Alguns, como Walsh (1985 [1830]) afirmam mesmo que o suicídio era um através da feitiçaria. Para manter o estado de pureza ritual, há que haver a acontecimento diário e que a enseada de Botafogo, no Rio de Janeiro, cons- mediação fundamental entre os homens e os espíritos. tantemente ficava coalhada de cadáveres negros. Também nas notícias dos Referindo-se especificamente à questão do parentesco, o autor afirma jornais do século XIX são constantes as referências de casos de suicídio entre que o conceito de linhagem é o princípio cultural mais profundo para a com- escravos, sobretudo por afogamento. No Diário do Rio de Janeiro, percor- preensão do que chama uma "gramática do parentesco em comum", e que, rendo as edições apenas de 1850, inúmeros suicídios de escravos aparecem afastados do território, os "africanos teriam lutado com uma determinação registrados: José, escravo Benguela, tenta-se afogar lançando-se ao mar; no ferrenha para organizar a vida, na medida do possível, de acordo com a gra- dia seguinte a notícia de que na freguesia do Sacramento "procedeu-se a cor- mática (profunda) da família linhagem" (Slenes, 2011, p. 155). Nesse sen- po de delito no cadáver de um preta, escrava de Bernardo Joaquim de Faria", tido, as raízes não pertencem a um lugar, mas ao grupo de parentesco e que também havia se suicidado; também Domingas tirou a vida se jogando aos ancestrais, numa posição genealógica. Citando Kopyfott (1987), o autor de uma janela (Diário do Rio de Janeiro, 4 e 5 de janeiro de 1850). afirma que "os africanos levam seus ancestrais consigo, quando mudam de Muitos desses escravos acreditavam que após a morte seu espírito reen- lugar, não importando onde esses ancestrais estejam enterrados" (p. 155). contraria os ancestrais na África (Karasch, 2000, p. 418). Mas a escolha do Cada uma dessas questões induz a pensar numa gramática da comuni- afogamento como método mais frequente não pode ser explicada apenas em cação que os escravos foram construindo paulatinamente nos novos territó- função de sua facilidade. Se calunga é a possibilidade de transposição, permi- rios, nas quais diversas permanências de um mundo cultural comum passam tindo reencontro com o mundo dos mortos, a água, ao ser transposta, per- a conviver com novos sentidos fabricados na vivência cotidiana. mite cruzar o oceano para assim reencontrar os ancestrais. Calunga, mediada As múltiplas mediações que constroem a primeira delas permite aceder pelo fogo ou pela água, ponto de interface entre dois mundos, é sobretudo ao mundo dos espíritos, atravessando a fronteira entre a vida e morte têm comunicação infinita na elaboração de um comum humano (Sodré, 2014), de ser ressignificadas a partir de gestos que envolvem o entendimento da representado além da própria existência. comunicação como partilha e ação. Entre essas ações situam-se a construção de símbolos comuns, a preser- vação de outros tantos e, sobretudo, a fixação de imagens numa memória partilhada. A primeira ação de comunicação, portanto, é o trânsito da me- mória para a vida. A seguir, anotamos as ações da vida comum, produzidas pelo corpo, pelo canto, pela música, pela voz. Expressões com que traduzem o mundo e que permanecem, de um modo ou outro, durando, permitindo a</p><p>3 TERRITÓRIOS DA LEITURA Uma imagem de Rugendas mostrando uma cena no antigo Cais Pharoux, hoje Praça XV, no centro do Rio de Janeiro, chama a atenção pelo desenho que das mãos do pequeno escravo migra para a parede do mercado de ne- Na cena, estão todos amontados pelos cantos, e no centro da sala o mercador observa a movimentação. Das mãos do pequeno escravo surgem imagens. Personagens da sua vida coti- diana e de sua história recente da escravidão. que parece ser um soldado aparece em primeiro Na sequência surgem elos de uma corrente arrebentada. Mais do que entender o significado da imagem que compõe uma cena de escravidão, é perceber que o pequeno escravo conta uma história através do traço. A capacidade de construir um pensamento abstrato está presente no seu ato de para o desenho a narrativa que gostaria de contar. E efetivamente A imagem compõe um quadro que narra uma história que se liberta da tecnologia da fala e migra para a tecnologia do traço. o escravo que reproduz a narrativa sob a forma de imagens está imerso, portanto, no mundo do Cenas do final do século XIX inscritas no tempo como desenhos também páginas das revistas ilustradas mostram aqui e ali traços de escravos letrados e leitores. Ao mesmo tempo, os anúncios que revelam suas fugas falam também de características que não são apenas as muitas marcas que carregam no corpo. Suas habilidades profissionais, a destreza com os instrumentos musicais, o gosto pelo canto e a capacidade de contar, e escrever são inúmeras vezes referenciados (Barbosa, 2010). Há, portanto, um caminho que vai sendo lentamente percorrido da ora- lidade ao letramento e do letramento à leitura e à escrita, sem que nenhum dos passos anteriores sejam abandonados. fato de terem possibilidades letradas e leitoras não fazem deles indivíduos menos oralizados. A oralidade marca fundamental, mas as letras escritas e impressas cada vez mais vão fazendo parte de suas vidas. Johann Moritz Marché aux nègres, 1835. In: Viagem Pitoresca através do São Paulo: Martins, 1940 Disponível em</p><p>Ainda que os rastros de um mundo presumido como realidade, expresso Como imagens, as letras escritas vão tomando corpo e significado para nos periódicos ou na trama da documentação, como as cartas de alforria, os Pedro. O conteúdo do que seria escrito é falado, mas a forma escrita pode ser processos penais, testamentos e outras fontes, sejam lugares de busca do identificada pela imagem mental espacialmente construída na sua memória. passado mais evidentes, a trama ficcional pode também revelar modos de como Baquaqua e outros escravos que decoram as palavras para poder vida dominantes, já que a literatura fala de um mundo ficcional, mas cons- rezar as orações não decifradas, também na passagem da oralidade para os truído nas teias de uma vida vivida. O autor não elabora seus argumentos letramentos a memória se torna a possibilidade de, como formato, espacia- fora do mundo em que habita. lizar letras escritas. Nesse sentido, os textos ficcionais podem conter indícios desse mundo Assim, ainda que as palavras sejam, como diz Walter Ong (1987, p. 21), letrado dos escravos do século XIX. demônio familiar, peça teatral escrita na fala oral, a escrita as encerra tiranicamente para sempre em um por José de Alencar em 1857 e publicada no ano seguinte, que tem como um visual". Desloca-se paulatinamente a equação da oralidade em dire- dos personagens o escravo Pedro, pode ser um bom exemplo para o exercício capacidade de compreensão a partir do olho que percebe. Enquanto o de perceber como o letramento se fixa no corpo e nos gestos de um escravo. oral enfatiza a prevalência do ouvido, no escrito o olho se insinua como pos- Os textos, fossem eles bilhetes manuscritos ou livros impressos, faziam sibilidade de apreender movimentos capazes de figurar símbolos no papel. parte do seu cotidiano e eram usados de diversas formas. A impossibilidade mesmo olho que lê é o olho que vê alguém fazendo o movimento para com- de leitura não faz do personagem um não letrado. por letras em frases que serão decifradas não pelo corpo de maneira geral, Entregando bilhetes e manuseando os livros da casa, o escravo neles olha, mas por uma parte dele: o olho que lê (Zumthor, 1993, p. 23). sobretudo, as imagens. Identificando e diferenciado a poesia da prosa tam- Na construção do movimento que insere o pequeno escravo no mundo do bém pela imagem que a letra constrói no papel, sendo capaz de sugerir o letramento, observam-se, portanto, gestos corporais específicos. Se, nos exer- conteúdo de um bilhete, Pedro, o escravo da peça de Alencar, adquire todas da oralidade, o corpo é fundamental para a construção do processo de essas habilidades observando o seu entorno e percebendo letras e conteúdo comunicação, nesse novo momento o do contato com as letras manuscritas dos livros, tal como vê o mundo lá fora. Como imagens. (e impressas) os gestos passam a ser contidos, e é para o olho que se desloca possibilidade de distinguir a prosa do verso. Novos movimentos podem ser Pedro - Olhe este livro, tem pintura também, mulher bonita mesmo (abre percebidos no corpo dos escravos já imersos nos códigos do letramento. o livro). Carlotinha Deixa ver! Bravo!.. Que belo!! (tirando um papel) Que é isto? Pedro - Um verso... Oh! Pedro vai levar à viúva! (Alencar, 1858, p. 21) Gestos do letramento: olhos que falam Na mesma obra, mais adiante, o escravo Pedro esclarece que sabe não apenas diferenciar a prosa da poesia, mas que é capaz de escrever um verso, Também Pedro, na sua astúcia, percebe a economia dos gestos existentes atividade de leitura. Diante do livro impresso, deve ficar inerte, sentado porque observa. numa poltrona, com o livro diante do olhar. No corpo, poucos movimentos. Carlotinha - E o que hei de eu responder? Descrevendo a possível leitura silenciosa que realizaria, o pequeno escravo, Pedro - Um palavreado, como nhanhã diz quando está no baile. expressar seu desejo de leitura, enfatiza cenas que frequentemente fazem Carlotinha Mas ele escreveu em verso. parte do território do seu olhar. "Ah! Se Pedro soubesse ler (sentando-se) Pedro - Ah! Em verso! E V. Mce. não sabe fazer verso? É muito fácil, eu como doutor, sentado na poltrona, com o livro na mão e puxando só a ensino a nhanhã: vejo Sr. moço Eduardo fazer. Quando é esta coisa que se do Havana" (Alencar, 1858, p. 21). chama prosa escreve-se o papel todo, quando é verso, é só no meio, aquelas Na cena, remontando pela imaginação algo que existe na vida vivida, carreirinhas (vai à mesa) Olhe! Olhe! (Alencar, 1858, p. 21) percebem-se questões relativas não apenas às materialidades do texto que é lido, mas outras que dizem respeito aos lugares e situações de leitura. A lei-</p><p>tura de um livro, em que os códigos impressos se impõem, indica a familiari- Utilizando como fonte principal as descrições dos dos que fogem dade diante das inscrições, mas também permite outros gestos para a leitura do cativeiro pelas mais variadas razões e procurando perceber os sinais capazes diante da legibilidade. livro como materialidade, em função do tamanho, de possibilitar o reconhecimento dos escravos, identificamos o que estamos de- do formato, da edição, etc., pode ser facilmente tomado em apenas uma das nominando índices de letramento, bem como os gestos que os denotam. mãos, enquanto a outra pode estar livre para fazer outro movimento, por Não foi encontrado nenhum índice de letramento nas descrições das es- exemplo, permitir fumar um charuto havana. cravas fugidas. Portanto, a totalidade dos anúncios diz respeito a escravos Na leitura de Eduardo, a sua ação verbal se orienta para a decifração do sexo masculino, a maioria jovem (entre 20 e 25 anos), todos relativos à dos códigos gráficos, não havendo a observação dos objetos no seu entor- ação de fuga. Nesses, para que pudessem fornecer dados que facilitassem a no. Como indivíduo alfabetizado, tendo adquirido o hábito de ler, a rela- localização dos escravos, há a enumeração de muitas de suas características, ção entre o significante e o significado não transita mais pelo objeto. Lê enfatizando-se aquelas que poderiam ser mais eficazes. Nesse sentido, saber os caracteres traçados na página e passa diretamente à noção correspon- e escrever é um índice frequentemente referido. dente. Há uma relação integrada imediata entre o perceptível e o mental Mas além dos que são seguidamente identificados como sabendo ler e escre- (Zumthor, 2007, p. 72-73). ver, estão presentes nesses anúncios sinais do corpo que dizem respeito explici- Entre as múltiplas formas de leitura, descreve-se a mais complexa, aquela ao letramento e também gestos de fala que indicam a imersão no mun- em que os olhos realizam o ato solitário de compreender como conceito as do da leitura e da escrita e uma cognição aguçada em relação a essas práticas. palavras que vão compondo a narrativa. A leitura silenciosa pressupõe fami- No primeiro caso gestos do corpo -, podem ser interpretados como liaridade com o escrito e cria uma atmosfera de intimidade entre o leitor e sinais de letramento, as descrições da maneira como andavam (pisa forte, o texto, na qual o intercâmbio entre eles se intensifica, enquanto o contexto altivo); de como se apresentam vestidos (andar bem vestido, etc.) e das exterior se distancia e se apaga (Zumthor, 1993, p. 106). expressões do rosto, como a descrição frequente dos olhos vivos e, mais ra- Na situação ficcional está registrada essa leitura feita com os olhos, de ramente, o uso de óculos. Mas os gestos do corpo que mais indicam os sinais maneira silenciosa, denotando a familiaridade com as letras impressas de de imersão no mundo letrado são os papéis que carregam junto ao corpo: quem está imerso nos códigos de leitura. E o desejo do pequeno Pedro é ser que provam a liberdade (as de alforria), cartas de maneira geral nos esse tipo de leitor, não um letrado, que, afinal, ele já é. bolsos e papéis na algibeira. São frequentes as referências a esses múltiplos Considerando letramento a apropriação dos códigos escritos de va- papéis, alguns com o claro intuito de serem confundidos com cartas de al- riadas formas (Morais, 2009, p. 20), ou seja, o fato de estar envolvido forria, outros provando o conhecimento de alguém (cartas que levam, cartas das diversas maneiras com a cultura letrada e dela se utilizar de modo que recebem) e outros ainda apresentados de maneira imprecisa (papéis no particular e variado, este não está relacionado diretamente ao processo de papéis na algibeira). escolarização, nem apenas à habilidade de leitura e da Portanto, No segundo caso gestos de fala -, destacam-se as muitas habilidades talvez seja mais apropriado falar em letramentos, no plural, já que os que pressupõem o conhecimento do mundo da leitura e o contato com a es- usos da cultura letrada se fazem das mais variadas formas e considerando e que se materializam na produção de uma fala específica, por exemplo, diversas ingerências. recitar versos, falar bem e muito bem explicado. Há ainda índices compor- frequentemente associados a um prejulgamento de dissimulação, que se expressam em gestos de fala, como "muito prosa" e "tem prosa de mas sobretudo o fato de anunciar a sua condição de escravo forro. 16 Usando igualmente indícios para estudar os usos sociais cultural e historicamente atribuídos à palavra escrita, também Morais (2009) enfatiza a necessidade de buscar, de maneira indireta, os indícios que revelem essa complexa cultura, já que habitualmente são praticamente inexistentes as fontes produzidas para indicar as marcas do letramento (ou Foram pesquisados os jornais da Provincia de São Paulo, um da capital (Correio alfabetismo, como preferem alguns autores). Sobre conceito de letramento, Magalhãos Paulistano) um do interior (Gazeta de Campinas), em anos salteados das décadas de (1994, 1999, 2001), Kleiman (1995) Magda Soares (1995, 1870</p><p>Com frequência aparecem os que se intitulam forros e os que mudam de nome, havendo ainda os que querem parecer exercer atividades certamente identificadas com valor superior na sociedade ("passa por domador de ani- mais"). Além de indicar o conhecimento do valor da palavra e da inscrição do e nome, todos esses gestos mostram a produção do si mesmo (Ricoeur, 1996), que, num primeiro momento, se faz a partir da voz, mas num segundo migra da voz para o escrito. nome é a primeira escrita de si que produzem, como e e I de e de veremos no final deste capítulo. com Em relação às profissões com as quais são caracterizados, podem-se cor- de relacionar diretamente algumas com habilidades específicas, para as quais são necessários conhecimentos do mundo do letramento. Entre esses ofícios estão os de carpinteiro, alfaiate, vendedor, marceneiro e "professor chape- leiro". Mas há também indicações daqueles que fazem tarefas domésticas e que possuem habilidades de leitura e escrita, mostrando que o convívio mais próximo com o cotidiano da casa senhorial pode colocá-los em contato com zip letras inscritas. Assim, por exemplo, são associados aos copeiros habilidades Se do mundo da leitura. de de que de Em muitos desses anúncios, as marcas da oralidade também aparecem de como sistema identificador. Assim, se chamam a atenção características rela- boa por e cionadas ao mundo do letramento, também o da oralidade, que pode deixar DE marcas de significação e relacionar-se, sobretudo, às habilidades musicais ali representadas: saber cantar, tocar algum instrumento ou carregá-lo junto ao corpo. Algumas vezes essas marcas aparecem lado a lado com índices de letramento, mostrando que a passagem do universo oral para o mundo da na escrita não os excluem de modos de comunicação que continuam a ser pre- na do dominantemente orais. Oralidade e letramento são uma equação, como diz I e com com I Havelock (1995), de complementação e construção conjunta do mundo da expressão comunicacional. Não há letramentos sem oralidade. de No quadro a seguir, sintetizamos os sinais de letramentos que aparecem e descritos em alguns anúncios, caracterizando os gestos de corpo e de fala mais frequentes. I I de de</p><p>Em relação às habilidades específicas, além de gestos que podem ser an- pelo tempo de cativeiro e, por último, como uma espécie de adendo, que se teriores à leitura e à escrita, por exemplo, saber contar ou fazer contas de caracteriza como algo que foge às possibilidades descritivas daquele sujeito, memória, há algumas qualificações que dizem respeito diretamente à leitura, fato de saber ler e escrever. tal como mal" ou números", mas na maioria das vezes os anúncios Fugiu do abaixo assinado no dia 14 o escravo Luiz Nepomuceno, de idade 25 referem-se genericamente ao fato de saberem ler. Quando destacam que sa- anos mais ou menos, cor fula, testa pequena, rosto redondo, olhos vivos, boa bem ler, apresentam em conjunto a informação de que sabem também es- dentadura, estatura regular, é pernambucano, lida bem com carroças, sabe crever. Apenas duas vezes a leitura é referida isoladamente, isto é, quando ler e escrever, levou calça e colete de casimira preta, camisa de riscado azul, e enunciam que o escravo mal" ou quando destacam genericamente que palha vermelho. (Gazeta de Campinas, 25 de abril de 1872, p. 4) (Grifo nosso) Rodolpho, o professor chapeleiro, é "muito inteligente". Tal como Luiz Nepomuceno, também Pio é primeiro identificado pela cor. Joaquim, um escravo de 26 anos mais ou menos, nascido em São Pau- lo, quando fugiu da casa de José Luiz de Oliveira, em abril de 1872, é Fugiu no dia 1° de abril, ao abaixo assinado, o escravo de nome Pio, com os apresentado com muitos sinais da escravidão pelo corpo e aspectos que o seguintes sinais: mulato, cabelos corridos quase pretos, altura regular, cheio de corpo, nariz afilado, tem nas costas um sinal como queimadura e bons valorizam como "mercadoria" no que diz respeito à aparência (boa denta- dentes; sabe ler e escrever e trabalha um pouco de alfaiate. (Gazeta de Campinas, dura, bonito de rosto) e também no que se refere às suas habilidades. o 28 de abril de 1872, p. 4) (Grifo nosso) "mulato de cabelos grenhos, pouca barba, altura regular, corpo delicado, bonito de rosto, olhos pretos e grandes, boa dentadura" tem marcas da Pela cor podem ser pretos em suas muitas gradações (fixamente pretos, condição de escravo, como "um sinal pequeno a testa, meio fundo pro- por exemplo), mulatos, pardos, fulos e seus derivados (um pouco fulo), en- duzido por queda ou pancada". Mas possui também outras características tre outros. A designação contém um sistema de representações vindo da es- que o valorizam em função das habilidades do mundo do trabalho e da cravidão, como remarca Moysés (1995, p. 57). Assim, qualificados pela adap- leitura: "fala bem, tem prática de negócio de molhados, entende de contas, tação, podem ser pretos (quando fortemente ligados ao passado) ou crioulos mal e tem prática de andar com carroça" (Gazeta de Campinas, 25 de abril (quando nascidos no Brasil e sabendo conviver com os brancos). São negros de 1872, p. 3) (grifos quando rebeldes e fugitivos. Quando aprendem a língua são ladinos (aquele Em função das habilidades que possui - ter prática com venda de secos que aceita e fala a língua do branco), e quando não a aprende são boçais. Os e molhados, conseguir fazer contas e ler e conduzir uma carroça Joaquim lugares de origem passam a ser também designativos do si mesmo. São então se diferencia, mas também se iguala a outros que, como ele, possuem habi- pretos mina, em função do Porto de São Jorge da Mina; podem ser cabindas, lidades decorrentes de um conhecimento aprendido a partir de sua inclusão em referência ao Porto de Cabinda, no Congo; aparecem também os bengue- em práticas de sociabilidade que se desenvolvem, sobretudo, nos espaços das las, em razão do Porto de Benguela, no sul de Angola. São ainda benins (em ruas das grandes e pequenas cidades. função da cidade de Benin), jabus ou jebus (em referência à cidade iorubá de Ijebu). Em todas essas situações o porto de partida na África os constituem De fato, é difícil saber como adquirem todas essas habilidades, mas pode- como escravos (Moysés, 1995, p. 55). Algumas vezes nos anúncios o "nome mos supor que a transmissão dos fazeres leitura e escrita são qualificadas cristão" que recebem já na condição de escravo desaparece como designação. nos anúncios como um fazer, e não como habilidade superior - se desenvol- ve, sobretudo, em contato com o mundo prático. Saber ler e escrever é marca Fugiu no dia 10 do corrente, o preto de nação mina, idade 45 anos mais ou capaz de possibilitar a localização mais rápida do escravo que fugira, não menos, corpo reforçado, altura regular, barba regular, nariz chato, falta de sendo igualada a um conhecimento distintivo (Bourdieu, 1989). Saber ler e alguns dentes, cabeleira sempre penteada e grande, e tem boa prosa d'iludir. (Gazeta de Campinas, 15 de maio de 1872, p. 4) (Grifos nossos) escrever é antes de tudo um estranhamento. Dessa forma, os anúncios primeiramente enumeram os sinais mais evi- Chamam atenção nas descrições as astúcias, sobretudo dos mais jovens, dentes, a cor, o cabelo, os aspectos físicos, nos quais se destacam signos que fazem das marcas do letramento possibilidades de tentar esconder sua dos castigos corporais, as roupas que vestem, os defeitos físicos provocados condição cativa. José, um crioulo, ou seja, já nascido no Brasil, designado</p><p>como pardo, muito prosa e ladino (falando correntemente o que faz de Estevão "muito conhecido aqui dentro da cidade"? Não sa- anda sempre "com cartas dirigidas ao mesmo doutor, dizendo que está a seu bemos, mas podemos aferir que ele ficava muitas horas do seu dia nas ruas, serviço". Com isso, se fosse pego, teria na carta, ou seja, na prova documen- podendo por isso ser percebido e reconhecido por muitos. Podemos também tal, a possibilidade de assegurar momentaneamente sua liberdade. supor que no contato, a vivacidade, a simpatia e a forma como se comporta se destacam, fazendo do pequeno escravo alguém "muito conhecido". Mas o Fugiu no dia 15 do corrente, da fazenda do dr. Araújo, no Amparo, onde se achava a título de venda, o creoulo José, com os sinais seguintes: pardo, pequeno Estevão, quando foge, tal como muitos outros, encobre sua condi- cabelos grenhos e quase vermelhos, cara fina e alegre, muito prosa e ladino, de escravo pela voz. de 14 anos de idade, baixo, e tem um pé saído mais para fora. Anda montado Mas o gesto encobridor só é eficiente se carregasse outras marcas entre em um burrinho pangaré, velho, em um lombinho novo e anda com cartas elas o domínio perfeito do idioma capazes de atestar a condição de liberto. dirigidas ao mesmo dr. dizendo que está a seu serviço. (Gazeta de Campinas, 21 de Não basta se dizer liberto, é preciso fazer gestos de quem pode ser livre, abril de 1872, p. 3) (Grifo nosso) entre esses, saber ler, escrever e falar "bem e muito explicado". Tais gestos Comportamento análogo tem o "moleque fugido" Silvestre, que denotam um mundo que não é considerado próprio da escravidão. Assim, nas ruas, homens que falam bem, que são inteligentes, que leem e escrevem [...] Costuma dar-se por livre, mudar de nome e alugar-se para qualquer são também escravos. As marcas do letramento que permitem capturá-los, serviço, outras vezes diz que é cativo de diversas pessoas sem declarar quem é o seu senhor [...], finge de humilde para iludir, quando é surpreen- paradoxalmente, os escondem momentaneamente. Numa sociedade repleta dido torna a fugir. (Província de São Paulo, 25 de abril de 1878, apud Schwar- de preconcepções em relação a eles como seres inferiores, esses signos do 1987, p. 140-141) mundo da leitura e da escrita não poderiam, a priori, fazer parte do mundo da vida dos escravos. Mas fazem. Tal como José, Silvestre designa a si mesmo como escravo livre, muda de nome, encobrindo sua identidade como possibilidade de não ser descoberto. As profissões que exercem são destacadas, o que permite observar o Outras vezes, ao contrário, diz ser escravo de outras pessoas, mas efetiva- quanto pode ser amplo o leque de habilidades que possuem. Nesse sentido, mente não revela quem é o seu senhor. Silvestre faz do manejo da língua e uma inscrição do século XVIII, transcrita por Mary del Priore, descreve as das artimanhas que constrói maneiras de encobrir sua situação de escravo e palavras do fidalgo Antônio Gomes Ferrão Castelo Branco para tentar recu- de conseguir momentaneamente fatias de liberdade. Cada um desses gestos perar seu escravo. revela índices de letramento, ainda que não necessariamente saiba ler ou es- [...] marceneiro, entalhador, torneiro e oficial de fazer engenhos. Teve bexigas de crever. Entretanto, sabe os significados possíveis de ser construídos através que lhe ficaram bastantes sinais, a cor é fixamente preta. Não se lhe falta dente do manejo da língua. algum; tem alguma coisa de cavalgador, a fala é fina, não é gordo, nem magro; pernas magras e representa 30 para 40 anos sem cabelos brancos. Toca viola a Mesmo os muito pequenos podem navegar pelos sentidos linguageiros cujo som recita alguns tonilhos castelhanos. É inclinado a Baco, mas não tanto para encobrir sua escravidão e para sonhar, primeiro ao se designar, e depois quanto a de que foi sempre inseparável. Sabe ler e escrever, mas já com ócu- efetivamente experimentar, a condição de ser livre. los, e traz a sua vida por ele mesmo. (Del Priore, 1997, p. 292) (Grifos nossos) Sob o título o anúncio publicado no Correio Paulistano em 7 de Marceneiro, entalhador, torneiro e oficial de fazer engenhos, Rodolpho setembro de 1854 pede a quem encontrar o "menor Estevão, muito conhe- tem muitas habilidades e, certamente, é um letrado. A informação de que cido aqui dentro da cidade, fugido de casa há oito dias, o favor de mandar sabe ler e escrever confirma o que já vinha sendo indicado desde a primeira encontrá-lo à rua da Esperança, que será gratificado". Na sequência, Estevão linha do texto. Mas esta é completada com o adendo de que dificuldades na é descrito primeiro pelos trajes que usa quando foge. Como muitos outros, visão obrigam a usar óculos para conseguir fazer sua leitura e escrita. Além as roupas estão sujas e há a desconfiança de que anda pelas estradas. Este- disso, a última linha do anúncio informa algo que também provoca interro- vão, informa o anúncio, tem de 9 a 10 anos e é pardo. E complementa: "É gação. A percepção de que "traz a sua vida por ele mesmo" deixa antever a escravo e por isso intitula-se às vezes forro." procurada em cada gesto por Rodolpho.</p><p>Os óculos, entretanto, nos levam a pensar nos olhos como fundamentais A partir da ação de atores singulares em determinados contextos, ainda para a construção da vida leitora, no momento em que passam a decifrar có- nos anos 1980, foram realizadas pesquisas que tiveram influência decisiva digos escritos (manuscritos e impressos). Os óculos podem indicar o quanto nesse quadro teórico e metodológico, procurando enfatizar as ações comuns Rodolpho fez uso dos olhos nos seus múltiplos ofícios, mas igualmente po- na constituição de um universo mental leitor. Esse é o caso do clássico estu- dem ser índices do tempo em que ficou preso às artimanhas de textos que do de Ginzburg (1987) sobre o moleiro italiano que construía suas interpre- cruzaram a sua vida. tações de mundo a partir das leituras que realizara, submetidas a processos Os olhos, assim, são órgãos que falam da possibilidade leitora e escriturá- ou também do instigante livro de Robert Darnton sobre o mundo ria. Da mesma forma, olhando simplesmente os textos publicados no século cultural daqueles que massacravam gatos nos telhados da França do Antigo XIX podem-se produzir, pelo olhar, gestos para desvendar um mundo que Regime (1986). A natureza das leituras foi também objeto de análise, em ainda hoje provoca inúmeras sensações. certa medida, dos trabalhos de Nathalie Davis (1975), que se ocupam do que denomina culturas do povo, influenciada visivelmente pelos estudos cultu- rais e, particularmente, pelos trabalhos de Richard Hoggart (1957). Muitos são leitores Todas essas abordagens adotam a perspectiva da História cultural, cuja ênfa- se recai no sentido de produzir interpretações para as representações do mundo Mas o que os escravos liam? Como aprendiam a ler? que faziam com social (Chartier, 1990). Assim, ao procurar estabelecer conexões entre cultura e essas leituras? Essas três questões constituem o exercício interpretativo des- mundo social, interpretando as representações, privilegiam as práticas existen- te item, que parte do pressuposto de que muitos são leitores. Leitores de pri- tes no cotidiano, forjadas elas mesmo pelas representações. Considerando-se meira natureza, porque sabem e de fato leem. Leitores de segunda natureza essas filiações teóricas, algumas dessas análises passam a privilegiar o que se porque escutam o que outros podem ler para eles, em voz alta. E, finalmente, denomina, a partir de então, História da leitura ou das práticas de leitores de terceira natureza, porque tomam conhecimento do que se comen- Assim, apenas na perspectiva histórica, as reflexões em torno da questão ta a partir das leituras. da leitura (e da escrita) envolvem pesquisas que se dedicam, entre outros te- letramento pode ser definido como um conjunto de práticas sociais mas, à História dos sistemas, dos suportes e dos objetos de escrita; dos pro- que usam a escrita como um sistema simbólico e como uma tecnologia "em cessos de acumulação, difusão, circulação, distribuição da escrita em diver- contextos específicos, para objetivos específicos" (Kleiman, 1995). Ou ainda, momentos históricos; das possibilidades de acesso à escrita; a História como "um conjunto de comportamentos que engloba um leque de conheci- dos leitores, desde a quantificação até questões relativas à condição social, mentos, habilidades, técnicas, valores, usos sociais e funções e que também etc.; a História das leituras e de suas práticas e A História da aprendizagem varia histórica e espacialmente" (Soares, 1995), o que nos permite falar em da leitura e da escrita (Soares, 1995, p. 13). níveis de letramento, índices de letramento e gestos de letramento. Definir Por outro lado, há que se considerar também que nas últimas décadas di- leitura conceitualmente não é menos complexo. versas pesquisas históricas têm rechaçado conclusões tidas como definitivas desenvolvimento de inúmeras reflexões em torno do ato de leitura e em relação à questão da difusão da cultura impressa e das possibilidades de suas práticas se adensaram com diversos estudos que privilegiam as esco- leitura realizadas por atores sociais improváveis, como os escravos. Numa lhas teóricas de Roger Chartier, que procura, por meio de conceitos-chave, revisão dessas leituras que de impossíveis se tornaram possíveis, Eduardo como o de apropriação, recuperar as práticas de leitura e de escrita ao longo França Paiva (2006) enumera que entre as "antigas verdades recentemente do tempo (1985, 1991a, 1991b, 1994, entre outros). Outros autores, como refutadas" está a que reconhece como uma espécie de a priori "a incapacidade Robert Darnton, com a proposta metodológica de recuperação do circuito natural de negros e mestiços para as atividades intelectuais" e de que "eles social da leitura, enfatizam também a natureza dessas práticas em vários não tiveram acesso à escrita e à leitura e nem se interessavam por isso". momentos históricos (Darnton, 1990, 1992). Sobre as diversas abordagens da História do livro da leitura, Bessone, 2009.</p><p>Segundo ele, nesse caso, "desconhece-se a tradição de letramento e de sobre a presença majoritária dos negros nos espaços voltados para a educação reflexão intelectual entre os povos negros, principalmente os mulcumanos, formal em escolas mineiras do século XIX. Cabe ainda referência à criteriosa no continente africano, desde os séculos XIV e XV, e a existência de vários pesquisa de Christianni Cardoso Morais, sobre os usos da cultura escrita e a centros de estudos, ligados quase sempre às mesquitas". difusão da escola em São João del Rei, em Minas Gerais, no período de 1750 a A partir de estudos inovadores, continua Paiva, sabe-se hoje que na Amé- 1850 (Morais, 2009). Mesmo não abordando diretamente os escravos, libertos rica portuguesa, entre os séculos XVI e XIX, "houve muito mais escravos, e forros, ao se propor a identificar também os níveis de letramento, a partir da libertos e descendentes deles, que aprenderam a ler e a escrever do que se análise das assinaturas postadas nos testamentos, produz uma reflexão minu- imaginou até muito recentemente" (Paiva, 2006, p. 481-482). ciosa sobre a cultura escrita na América colonial portuguesa. A segunda verdade revista pela historiografia brasileira e apontada por Pai- Nas reflexões que estamos desenvolvendo sobre a mesma temática, con- va (2006) diz respeito à educação escolar e à circulação de conhecimento na siderando como pressuposto os códigos de letramento e as práticas de leitura América portuguesa. fato de não existirem universidades e centros de ensino dos escravos, elegeu-se como período privilegiado a segunda década do sé- superior até os séculos XIX e XX não quer dizer que não se dava a circulação culo XIX. Isso porque, nesse momento, em que havia discussões fervorosas do conhecimento. "Os livros entraram em quantidade significativa no Brasil e em torno da questão da liberdade a ser outorgada aos escravos (ainda que circulavam de mão em mão no cotidiano colonial", enfatiza Paiva (p. 482). fosse sempre parcialmente), eles mesmos passam a ser objetos de deba- tes intensos nos muitos jornais que circulam em todo o país. Supomos que Hão que se considerar ainda, a partir da perspectiva da circularidade da cultura, de Bakthin (1987) e da questão da apropriação cultural, enfatizada naquele momento, as habilidades letradas que já têm se adensavam como leitura e escrita. por Chartier (1990), os usos que fizeram os que tiveram contato com esses livros, lendo, refletindo, discutindo e divulgando-os, e também de quem, Numa perspectiva diversa das abordagens citadas anteriormente, interes- "mesmo sendo iletrado, os reapropriou por meio de discursos, leituras cole- sa-nos, portanto, refletir sobre modos e formação de práticas de comunica- tivas, pregações, isto é, via oralidade" (Paiva, 2006, p. 482). ção. São os gestos de leitura, os gestos de letramento, as ações de leitura e de escrita que estão sendo privilegiados. A partir do ingresso no mundo da Dentro de uma perspectiva que objetiva valorizar os traços históricos comunicação que transita no cotidiano, os escravos constroem trocas reais e dessas sociedades que permitam interpretar (e explicar) as razões do letra- simbólicas num universo comunicacional. mento, as revisões enfatizam questões como complexidade social e dinâmica cultural das sociedades, destacando códigos de comportamento, sociabilida- Assim, a leitura é uma ação de comunicação, compreendida como ato des, formas de viver, etc. pelo qual o texto ganha sentido e eficácia. Sem leitor o texto não possui nenhuma essência verdadeira (Ricoeur, 1955). E os leitores são os escravos. A maioria desses estudos dentro da perspectiva metodológica da Histó- ria - recorta particularidades referentes a espaços sociais claramente demar- Num primeiro movimento, eles aparecem em situação de relação com cados. Nesse sentido, as pesquisas se circunscrevem a territórios históricos os textos, sendo, nesse caso, leitores de segunda natureza, mesmo que as delimitados (Minas Gerais, Bahia, São Paulo, etc.). Anota-se, ainda, a prefe- leituras ou o contato com a palavra escrita não sejam dirigidos direta e expli- rência dessas análises pelo período colonial. citamente a eles. Eles sempre vêm de soslaio e escutam a leitura de outros de um lugar secundário. A essas abordagens se somam pesquisas que se dedicam, na perspectiva da História da Educação, às possibilidades formais de ensino destinadas aos es- Diante da leitura dos outros, suas formas de apropriação dos códigos cravos forros e libertos, sobretudo no século XIX. Algumas dessas análises fa- desenvolvem-se a partir de pistas, ressignificadas pela oralidade. Assim, o zem referência a experiências pontuais, por exemplo, a escola de Pretextato de ritmo das leituras em alta fornece a primeira percepção do som cons- Passos Silva, criada na Corte em 1853 para atender meninos "pretos e pardos" truído a partir de palavras lidas, o que permite formar um quadro mental (Silva, 2000 e 2002). Mas há também aquelas que adotam perspectiva mais oral que os tornará capazes de ler no momento seguinte. As letras são como abrangente, como a tese de doutorado de Marcos Vinícius Fonseca (2007), canções e as palavras podem ser soletradas com musicalidade. método de</p><p>leitura que mistura palavras entoadas, nas quais as sílabas se constituem e ali o som com a palavra escrita. Há que se considerar ainda que esse apren- em unidades sonoras que, juntas, formam um todo, favorece igualmente o dizado se faz através de trocas culturais com outros (inclusive escravos) que aprendizado a partir dos códigos da oralidade. Ao repetir palavras, a relação dominam com maior destreza tais códigos. som versus letra se constitui, e pela sonoridade produzem palavras a serem Outra ação frequentemente referida e que os coloca em contato direto lidas como unidades de sentido. com os textos é o fato de fazer "mandados", levando bilhetes, cartas e outros Mesmo os que levam bilhetes, trazem jornais, carregam livros escolares, escritos, podendo, em presença das palavras, se tornar participantes dessas na função frequente de mucamas (e mucamos) das crianças brancas, são escritas íntimas. Há ainda, como vimos, as atividades que exercem e para as num primeiro momento literalmente portadores do objeto da leitura, e não quais é fundamental o conhecimento dos códigos letrados, que gradualmen- seus leitores. Mas o contato do corpo com a palavra escrita vai construindo te vão se transformando de letramentos múltiplos em práticas leitoras. paulatinamente a possibilidade de eles mesmos realizarem o ato leitor. Ler não é uma habilidade unívoca. Há muitas formas e possibilidades de A segunda percepção das letras a serem decifradas se faz, portanto, pelas leitura, a ser realizadas por gestos múltiplos. Envolve desde a habilidade de possibilidades de serem objetos colados aos seus corpos, como apêndices traduzir sons em sílabas isoladas até produzir, a partir da leitura, sequência de desses. Daí a frequência com que são descritos como tendo junto ao cor- ideias, analogias, comparações. Envolve também o gesto de construir signifi- po múltiplos papéis. Papéis esses que, no momento seguinte, como textos, cados a partir de conhecimentos prévios, relacionando-os com as informações podem ser divididos em unidades mentais. Os olhos passam a ser órgãos do texto, produzindo reflexão, avaliações e conclusões a partir do que foi lido. privilegiados da possibilidade leitora. A percepção de que os escravos detêm habilidades e códigos letrados, Finalmente, a terceira percepção se faz através da transposição do texto manifestadas na construção de pensamentos abstratos decorrentes das capa- como imagem. Dessa forma, podemos supor que o aprendizado da leitura, cidades cognitivas que os incluem primeiramente no mundo do letramento de forma autodidata na maioria das vezes, se dá a partir da memorização (pensamento abstrato, capacidade de contar, perceber que a escrita contém da palavra como forma, e só depois consegue sua autonomia como símbolo uma mensagem, capacidade de fazer uso da oralidade como um letrado, co- visual, correspondendo a uma sonoridade precisa. nhecer o significado de ser letrado, possuir habilidades de fazer cálculos, Nas imagens fixadas na imprensa ilustrada, não são poucas as vezes que etc.), também os coloca no centro das cenas como leitores de primeira, de vemos cenas como a publicada na Revista Ilustrada (31 de dezembro de 1886, segunda, mas também de terceira natureza. 5), em que uma escrava carrega nas mãos um jornal, no caso a Gazeta de O caso da jovem Eduarda, citado por Morel (2008, p. 75), exemplifica o Notícias. Na cena, em que a sogra lê a carta do genro informando-lhe que que estamos chamando leitura de terceira natureza e que, sem dúvida, faz como presente lhe oferecia uma assinatura do jornal, a pequena escrava, parte do universo cultural de maneira extensiva da maioria dos escravos bra- além de trazer o periódico, observa a cena da leitura. sileiros do século XIX. Inúmeras são também as descrições de escravos no ambiente doméstico Perambulando pelas ruas do Rio, na manhã de 11 de fevereiro de 1886, em contato com leituras realizadas de diferentes maneiras: da escrita solitá- com hematomas e feridas abertas por todo o corpo, marcas visíveis da tortura ria de um livro, como a que descrevemos no início deste capítulo, às leituras que lhe fora imposta, Eduarda é abordada por uma senhora que a aconselha a coletivas dos saraus domésticos. Em todos esses momentos, são também procurar a redação da Gazeta da Tarde, jornal abolicionista fundado cinco anos leitores por ouvir, uma vez que o escrito raramente é destinado a ele, como antes por José do Patrocínio. episódio é minuciosamente contado por Mar- já remarcamos. Como leitor, também não são considerados nos textos pro- CO Morel (2008, p. 75-76) e também é noticiado por alguns jornais da cidade duzidos, o que aumenta ainda mais a dificuldade de encontrá-los inscritos (ver, por exemplo, "Abusos da em A Vanguarda, 12 a 16 de feve- nas fimbrias das narrativas. reiro de 1886, p. 1). Ao mesmo tempo, Patrocínio divulga o acontecimento a Antes de ser leitores por ler, são então leitores por ouvir, reforçando a outros órgãos da imprensa. Forma-se um cortejo com líderes abolicionistas e perspectiva de que o aprendizado se faz também por ouvir, relacionando aqui alguns jornalistas conduzindo as torturadas e que se dirige às redações de A</p><p>Vanguarda, do Diário de Notícias, de Paiz, da Gazeta de Notícias e do Jornal do post mortem, acrescenta que a aprendizagem se dava no período de cativeiro, Commercio. Também a Revista Ilustrada, na edição de 18 de fevereiro de 1886, durante a infância ou a puberdade, e que as habilidades de leitura e escrita publica duas imagens, uma do cortejo dos jornalistas e outra das faces desfi- favorecem sobretudo os homens. Com uma educação bem diferente, as me- guradas das escravas, ilustrando o que foi descrito pela imprensa. ninas, brancas e escravas, são preparadas para a casa e só raramente apren- Ainda que seja impossível não se referir à notícia da morte de uma das dem a ler e escrever. escravas, Joana, publicada na edição de A Vanguarda de 16 de fevereiro e No mesmo trabalho, Paiva (2006) também cita o caso de Francisco, mu- que descreve minuciosamente as 56 cicatrizes e ferimentos descobertos no lato de 10 anos de idade, Jozeph, crioulo, de 8 anos, e Anna, de 6 anos. exame do cadáver, do ponto de vista do argumento para reflexões em torno tutor deixou no processo de inventário dos bens da africana forra, mãe das da leitura dos escravos importa saber por que as duas escravas podem ser três crianças, informações sobre Francisco, dizendo que este consideradas leitoras de terceira natureza. [...] andava alguns anos na escola, aprendendo a ler e escrever e que quando A escrava Eduarda certamente não sabia ler nem escrever, mas fora capaz de fora (o tutor) para fora da vila, para Rio Grande, o levou e o tem em sua compreender quando a senhora que a abordou sugeriu que se dirigisse à redação companhia e o trás lá aprendendo a ler, escrever e contar, com um mestre do jornal de José do Patrocínio. Compreendeu que, fazendo o gesto, sua situação que mora no Rio Grande e que não tem outro exercício para este de tenra estaria mais bem resolvida do que se fosse à Chefia da Polícia, como pensara idade. (inventário post-mortem de Antonia Soares Rodrigues, 20 de julho de inicialmente. que pensa naquele momento? Por que aceita a sugestão? 1752, apud Paiva, 2006, p. 487) Podemos supor que certamente já ouvira fala no líder abolicionista e sabe Eduardo França Paiva também afirma que a aproximação com as formas que o jornal é capaz de ouvir a dos escravos. Mas, mesmo que não soubes- de viver dos brancos coloca muitos cativos e forros em contato direto com se nada disso, Eduarda ouve falar naquele momento de um jornal para onde mundo letrado. Assim, além dos que efetivamente leem, há os que têm deveria se dirigir. Compreende a informação, ou seja, percebe o que significa acesso aos livros e outros impressos que circulam na colônia, aprendendo o um jornal abolicionista. Percebe igualmente o simbolismo e a importância das conhecimento dessas práticas de maneiras alternativas (Paiva, 2006, p. 489). letras impressas nessa sociedade, representados pelo periódico que a acolhe- Se pensarmos, então, no século XIX, quando houve a explosão da palavra ria. Eduarda realiza nesse momento uma leitura de terceira natureza. impressa em todo o território nacional a partir da década de 1820, com a Mas os escravos também fazem muitas leituras de primeira natureza. proliferação de jornais e revistas, não é de estranhar que os escravos imorta- Mais uma vez uma cena publicada na Revista Ilustrada (15 de outubro de lizados pelo traço de Agostini estejam de fato lendo o jornal Paiz. 1887) e que reproduz práticas de leitura dos escravos é reveladora para de- Pensando nas razões por que aprendem a ler a partir da imagem repro- cifrar como realizam suas leituras. No desenho, 11 escravos formam uma duzida pelas revistas e pelo que indica o conteúdo do que leem, podemos roda em torno de um que segura o jornal Paiz. Nas mãos o jornal que dizer que o aprendizado se faz por motivos pragmáticos, mas também pelos Os outros, sete homens, duas mulheres e uma criança, escutam boquia- sentidos imaginativos que a leitura produz. Conhecer o mundo à sua volta, bertos. Apoiam-se nas enxadas e, podemos supor, fazem o mais absoluto tomar conhecimento de maneiras de conseguir uma vida melhor (por exem- silêncio. Escutam com atenção palavras que do mundo impresso invadem o plo, garantir a aplicação de direitos que passam a ter, a maioria das vezes, mundo oral e que são percebidas a partir das práticas de oralidade. Afinal, apenas na letra da lei, mas não na prática), se somam a outras razões, tais o escravo lê para todos os outros palavras impressas no jornal, mas que são como conseguir restabelecer contatos com familiares distantes ou garantir absorvidas como voz. a sobrevivência por meio de atos de linguagem que libertam uma memória, Referindo-se um período bem anterior, o século XVIII, Eduardo França sobretudo, traumática. Paiva (2006) afirma categoricamente que "não foram poucos os que sabiam Inseridos num novo mundo comunicacional, a partir de signos de reco- ler e escrever se comparados ao analfabetismo geral da colônia" (p. 486). fornecidos pela leitura, talvez estivessem pela imaginação in- E a partir de inúmeros exemplos escavados nos testamentos e inventários gressando num universo de possibilidades infinitas. Se que buscam com a</p><p>leitura não são intenções literárias nem eruditas, como enfatiza Paiva (2006), Fazer contas, construir palavras num espaço gráfico em branco, preen- procuram por meio dela sempre permeada por uma oralidade duradoura chendo-o com ideias, informações ou simplesmente o reconhecimento de si apreensões de sentido do mundo e também brechas que permitam percorrer mesmo, como o nome, são gestos mentais que não possuem similar naquilo o caminho da imaginação. que alguns autores chamam a "cadeia falada", e que permitem a libertação da memória dos gestos da oralidade (Anne Marie Chartier, 1995, p. 40-41). É nesse sentido que apresentamos Romão, escravo crioulo que coloca Romão assina sua com letras firmes e claras seu nome no processo que lhe concede a carta de alforria. Romão é uma espécie de sujeito síntese da capacidade escriturária Realizando a leitura a partir da oralidade, ouvindo o que era lido e a partir dos escravos. Claro, Faustino, Rodolpho, Nepomuceno, Pio, Luiz, Marcos e daí desenvolvendo habilidades que os permitiam desocultar a mensagem do muitos outros que sabem escrever estão sintetizados no ato de si-mesmo de escrito, os escravos brasileiros fazem da leitura visual forma de percepção Romão quando assina o próprio nome. do texto e reconhecimento de suas materialidades. Saber reconhecer pelo Em 11 de dezembro de 1873, Romão, escravo de Antônio Felix de Melo formato o jornal, o livro e a carta indica o desenvolvimento das capacidades e Carmem Joaquina de Melo, compareceu junto ao Juizado de Órfãos da ci- letradas na direção de um texto que além de lido é escrito. dade de Valença, na província do Rio de Janeiro, para começar uma longa Mesmo que muitas vezes não possam realizar o ato de inscrição, cada vez caminhada em direção à liberdade. Como muitos, a morte de seus senhores que leem um texto tomam contato com a escrita, de tal forma que podemos permitiu que solicitasse a alforria, tendo em vista o que estava formalizado afirmar que leitura supõe inexoravelmente a escrita. no testamento de Antônio. Por outro lado, as histórias que possivelmente leem podem ser textos já A letra manuscrita do processo indica idas e vindas do pedido, que afinal percebidos anteriormente pela leitura em alta e que descobrem primeiro é deferido. Se Romão ganhou de fato a liberdade que o título de forro em ouvindo e só depois conseguindo, pela junção silábica ou pela percepção to- princípio lhe concedeu, jamais saberemos. tal da palavra, visualmente, redescobri-la pela ação do olhar. São textos que Mas aqui o objetivo é recuperar as práticas comunicacionais em suas múl- estão primeiro na memória e só depois se deslocam para o gesto do lábio, tiplas significações, percorrendo o caminho de revelá-las a partir das suas que na sequência palavras. As memórias dos textos constroem também a inscrições no cotidiano, entendido como mundo da vida (Schulz, 1974). Des- possibilidade do ato leitor. sa forma, importa decifrar o significado de um escravo ter assinado o seu Assim, ao ouvir com regularidade a leitura e a releitura de textos, adquirem pedido de liberdade. familiaridade com a língua escrita, com aquilo que ela pode anunciar, desen- Acima da assinatura de Joaquim e Carlos, os herdeiros de Antônio e Car- volvendo o manancial cognitivo fundamental para a competência alfabética. mem, a de Romão aparece com letra firme, denotando o manejo das artes da Mas a percepção da escrita se faz também num território de espacialida- escrita. A letra não é tremida nem desenhada. Romão escreve seu nome de des. Se no texto do jornal podem tomar conhecimento do que o conselheiro maneira clara. A inexistência de linha no papel não faz que as letras subam Dantas falou há milhares de quilômetros de distância, vencendo o espaço e desçam no espaço. A linha imaginada como espacialidade permite que o o tempo de produção do discurso, no texto das cartas que escrevem (ou pe- nome seja escrito supondo a existência de uma reta. diram para alguém escrever) há a percepção de que esta pode ultrapassar o Ainda que não tenha um nome composto, denotando um lugar social que espaço e fazer transportar palavras para encontrar o destinatário que não está compartilhasse, pelos códigos letrados, uma identidade familiar, Romão é em presença. A palavra escrita tem o sentido de alongar os espaços vividos e capaz de escrever seu próprio nome com firmeza. fixar no tempo um agora que dura. A relação do escravo com o mundo da comunicação mostra, então, clara- mente um gesto letrado, transfigurado na capacidade de escrever. As vozes 19 Este item reproduz parcialmente subitem de mesmo do livro História da Comunicação da liberdade podem ser ouvidas num papel repleto de letras - as cartas de no Brasil (2013), p.</p><p>alforria e também no momento em que, ao postar seu nome de próprio A variedade de materiais escritos apenas o nome, cartas, punho, relaciona a escrita de si a muitos significados. A escrita é ato de con- imaginativos e designativos da memória vivida pressupõe ge cordância, perspectiva de construir outro significado para a existência e, o Por outro lado, a escrita envolve diferentes habilidades: desde mais importante, a materialização do si mesmo. sons até construir textos que pretendem se comunicar um leitor potencial. Escrever não é apenas relacionar unida Ao assinar, Romão reconhece seu nome para si e para o mundo. A sua símbolos escritos: é um processo de expressão de ideias e o face, suas mãos, seu corpo, possuem mais uma marca singular, dessa vez do pensamento sob formatos específicos, envolvendo habilida desenhada sob a forma de letras manuscritas que indicam certa manutenção motoras, interpretativas e compreensivas (Soares, 1995, p. 8 de si mesmo. Cinco letras formam o nome que possui, a partir da escrita, também o conhecimento de que fórmulas narrativas devem identidade nomeada, reconhecida, além de duradoura. Tanto assim que o das em função de materialidades (cartas, jornais, livros, carta: nome de Romão perdurou durante dois séculos, para que fosse novamente intenções contidas no ato escriturário (de assinar o nome até reconhecido no século XXI, com outros propósitos. ato escriturário, como tos imaginativos ou que tenham a intenção de produzir conh ato narrativo, significa o si mesmo (Ricoeur, 1996). Mas significa também a exemplo). Envolve minimamente o ato de "caligrafar", ou manutenção do si mesmo. objeto de forma a que o olho não somente leia, mas, olhand Mas Romão não é o único. Nas notícias aparecem aqui e ali referências a sensações que podem ser relacionadas ao exercício da escrita. escravos que assinam seus nomes com "letras desenhadas e tremidas" (Gaze- ta de Notícias, 30 de dezembro de Essas assinaturas estão em muitos lugares e podem-se ainda hoje encontrar nexos que religam a designação de si através da escrita, revelando outras habilidades cognitivas completamente diferentes daquelas exigidas pela leitura. aprendizado da escrita e da leitura até meados do século XIX, mesmo em ambientes escolares, não são feitos de maneira associada. Assim, pode-se aprender a ler sem aprender a escrever (Morais, 2009, p. 25). Estudando os processos de leitura e escrita em Minas Gerais de 1750 a 1850, Morais afirma que escrever a partir da segunda metade do século XIX passa a ser uma atividade muito mais fácil e disseminada do que em períodos anteriores em função de uma série de razões, entre elas o ensino da leitura e da escrita passarem a ser combinados e simultâneos; a introdução de novas tecnologias para a escrita, que facilitam a sua produção, tal como a pena de metal e o papel de celulose; e, por último, a simplificação e a instituição da ortografia (Morais, 2009, p. 34). Acrescente-se ainda a difusão da palavra escrita e impressa de maneira mais extensiva. 20 Na sua tese de doutorado, Morais (2009) faz uma análise do grau de letrismo dos que assinaram os testamentos, objeto empírico central de sua análise, para interpretar aspectos de uma cultura escrita em cem anos, atravessando os séculos XVIII e XIX, lançando mão de escalas de assinaturas, analisando os traços com a ajuda dessa escala, determinando as escalas de letrismo. Parte do pressuposto de que, mesmo entre os que são capazes de assinar, há habilidades literácitas distintas (Morais, 2009). Para tanto, utiliza a escala de assinaturas, relacionando a forma como assinavam aos níveis possíveis de leitura e escrita 1994).</p><p>4 TERRITÓRIOS DA ESCRITA Se Romão, como tantos outros, foi capaz de postar seu nome num papel repleto de letras escritas e cujo significado era a liberdade, os restos que o mundo da comunicação fazem ecoar em uma multiplicidade documental indicam que os territórios da escrita dos escravos brasileiros do século XIX estavam presentes em muitas materialidades. significado da escrita, aprendida por ouvir dizer, e, sobretudo, a partir da partilha do conhecimento de quem detinha a habilidade de construir o traço, começa bem antes de ser possível fazer o gesto de produzir letras e palavras. A carta de alforria que toma forma a partir de letras que atestam a pos- sibilidade da liberdade aparece nos traços distintivos do passado colada aos corpos, nos bolsos, nos papéis que carregam e que, muitas vezes, denotam a liberdade que ainda não possuem. Fugiu da cidade de o escravo de nome Luiz, cabra 22 anos, al- tura regular e corpulento, pés grandes, cabelos grenhos, olhos vivos e pe- quenos, falta de dentes na frente, sabe ler e escrever regularmente, fala bem e muito explicado, muito risonho e fica sempre com papéis nas algibeiras, gosta muito de recitar versos, é pedreiro e copeiro e costuma dizer que é forro, anda É de Macaé, Rio de Janeiro. (Correio Paulistano, 18 de agosto de 1877, apud Schwarcz, 1987, p. 141-142) Os papéis junto aos corpos indicam o simbolismo de ter, como espécie de amuleto, letras escritas que poderiam simular estar de posse das cartas da liberdade. Para Luiz, se dizer forro significa ser necessário carregar sem- pre colados ao corpo pedaços de escritas que certamente possuem muitos simbolismos, mas que sobretudo provam o que a já anuncia. As marcas visíveis na pele e na aparência denotam a escravidão; assim, é preciso apre- sentar a prova da liberdade, isto é, a escrita sob a forma de alforria, que o faria entrar num mundo ainda não plenamente conquistado. Sempre que algum dos escravos se faz passar por forro ou diz ser forro do mundo verbal enunciadas de maneira recorrente -, precisa ter visível a prova do que afirma verbalmente. Os papéis que carregam conotam liberdade desejada, mas nem sempre possível.</p><p>Tal como Luiz, também Joaquim, da nação cabinda, apesar dos sinais mundos em convivência e determinando modos de viver imersos numa cul- da escravidão marcas de bexiga no rosto e dos castigos corporais no cor- tura oral/impressa que se mistura e na qual duas expressividades convivem, po costuma se intitular forro. Mas, ao contrário de Luiz, pode se fazer produzindo gestos particulares. passar por livre, não por carregar uma inscrição escrita (a carta, fosse ela Fugiu a tempos de Ouro Preto o pardo Vicente, com os seguintes sinais: cor verdadeira ou não). No caso de Joaquim, são os modos cotidianos de se fula, nariz chato, cabelos corridos, barbado, olhar de velhaco, muito falante e fixar para outros que permite dizer uma condição que também ainda não um pouco gago, não é dado a bebidas, porém muito inclinado a crápula e a orgia. é sua. Este escravo já esteve como criado do tabelião Bernardino e também como Fugiu no dia 28 de abril do corrente um preto por nome Joaquim, de nação cozinheiro na Serra do Caraça, donde evadiu-se em companhia de um estu- cabinda, com os sinais seguintes: estatura regular, cara redonda, com sinais dante. Corre que tomara a direção de São João del Rei, dizendo-se padre e de bexiga e beiços grossos, costuma-se intitular-se forro e é muito pernóstico assim intitula-se forro. Sabe latinórios de.algibeira e gosta muito de intro- no falar. (Jornal do Commercio, 3 de julho de 1837, p. 5) (Grifo nosso) meter-se com gente grande a quem serve de cupido. (Gazeta de Notícias, 4 de janeiro de 1879, p. 5) fato de dominar o código linguístico permite dizer que é escravo liberto No caso do pardo Vicente, mergulhado em códigos do mundo da escrita, e fazer essa informação ser acreditada como verídica. domínio da língua "pernóstico no falar" é eficaz para que ele possa encobrir sua condição esta não se confunde com a intenção de explicitamente produzir um texto. A mentalidade escriturária dialoga com as trocas do mundo da oralidade. cativa. Intitular-se forro é astúcia frequente nos modos enunciativos dos es- Criado com um tabelião, tendo se evadido com um estudante do tradicional cravos do século XIX. E a prova da sua condição de livre é apresentada com Colégio do Caraça, podemos supor que a escrita faz parte do cotidiano do seu um papel repleto de signos escritos. olhar. Os gestos significativos que produz pelas práticas da oralidade diz-se Essa evidência nos induz a pensar no significado que a escrita possui para padre e intitula-se forro mostram a mentalidade escriturária, mesmo que muitos, já que a liberdade só pode ser anunciada dessa forma. Escrever é não faça claramente o gesto da escrita. então estar definitivamente num mundo que não é o originário, mas que per- mite o trânsito para um novo lugar real e simbólico. A imersão da cidade e Vicente é capaz de recitar em latim poder se dizer padre e de pro- mover aproximações amorosas a partir de astúcias verbais. As textualidades do país nos modos impressos que circulam com intensidade livros, jornais, de Vicente produzem uma historicidade própria de suas práticas escriturá- revistas, etc. sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, produz rias, inserindo-as num outro ritmo e produzindo uma história particular dos também a imersão da vida da cidade, na cultura do impresso. seus gestos de escrita. Mesmo que ao longo da existência Vicente não tenha Inseridos nessa vida, os escravos passam a atribuir significados próprios escrito um único texto, podemos dizer que é um sujeito do mundo da escrita. a esse novo mundo, parte de seu cotidiano. Se para alguns, desde muito, como os malês, a escrita era a permissão de trânsito para os fundamentos religiosos e ideológicos, para outros, como os que se intitulavam forros, é a Cartas de Teodora: afetos sem-fim materialidade da liberdade. Para outros tantos, é apenas a possibilidade de restabelecer vínculos perdidos nas práticas cruéis de um regime que separa Há que se remarcar, portanto, a relação estreita entre escrita e voz. Os pais e filhos, mulheres e homens, dissolvendo laços originais. traços das maneiras de dizer aparecem claramente nos escritos, o que faz que A escrita, portanto, não deve ser confundida com a mera aptidão de pro- só possamos hoje decifrar o que ali foi postado se lermos novamente em voz duzir uma mensagem textual. No caso dos escravos brasileiros do século alta texto produzido. A de quem construiu a escrita continua ecoando XIX, é também intenção que permite sua inclusão num outro lugar, governa- na possibilidade interpretativa dos textos no futuro. do pela lógica da liberdade. Mesmo que não haja uma mentalidade escriturá- modo de codificação das grafias se faz, assim, sobre uma base oral. São ria amplificada, há modos escritos como possibilidades comunicacionais. A cartas, frases esparsas, palavras perdidas aqui e ali que indicam também a escrita situa-se entre o mundo da oralidade e as práticas do letramento: dois forma como se aprende a passar da voz à grafia.</p><p>aprendizado das práticas escriturárias se dá, sobretudo, no ambiente Sob a forma de um discurso, nele está impregnada a sensação de que quem das casas e das ruas, na partilha de um conhecimento adquirido e comparti- escreve está não apenas falando em voz alta, mas fazendo migrar a voz, pela Ainda que no final da década de 1880 possam ser localizadas ações mão de outro, para alguém que se encontra ainda mais distante. para criar espaços para o desenvolvimento do ensino formal também voltado A espacialidade construída pelo traço da letra sobre o papel constitui um para a instrução de menores e adultos livres, além de libertos e escravos, há território próprio em que a presença daquele que fala ultrapassa as fronteiras que interpretá-las dentro dos limites das próprias iniciativas. Nos primeiros espaciais e reencontra um outro situado há quilômetros de distância. A es- anos da década de 1880, três escolas são criadas por associações abolicionis- pacialidade material da escrita permite a ampliação do espaço territorial pelo tas no Rio de Janeiro, destinadas "a instrução de menores e adultos livres, gesto comunicacional. libertos e escravos" (Gazeta da Tarde, 27 de dezembro de 1881, p. 1, apud Souza e Torres, 2012, p. 10), mas cujo objetivo é promover uma educação caso do pedreiro Claro Antônio dos Santos, descrito por Wissenbach popular e não especificamente destinada aos escravos (Souza; Torres, 2012). (1998), exemplifica claramente o que destacamos em relação às territoriali- dades da escrita. As cartas que o escravo de ganho escreve, e que perduraram Mais do que desvendar como constroem esse tipo de habilidade, interes- como anexo ao seu processo criminal, a mando da também escrava Teodora sa-nos mostrar os significados da escrita nesse mundo, como os escravos a Dias da Cunha, mostra não apenas a existência de escravos alfabetizados no usam, em suma, o que fazem com ela. século XIX. Mostra também os índices de oralidade presentes na escrita e, Se considerarmos apropriação o processo capaz de tomar a palavra do sobretudo, a construção de uma espacialidade visual que ainda não se liber- outro, dando a ela seu próprio acento valorativo e utilizando-a segundo seus tara completamente das táticas da oralidade. propósitos, podemos antever nos modos escriturários dos escravos brasilei- Assim, quando Teodora dita para Claro o que gostaria de falar para o ros um complexo mecanismo de apropriação no qual a palavra letrada, dos marido, ainda que ocupe o mesmo espaço territorial de Claro, se insere no dominantes, vai sendo cada vez mais utilizada com múltiplos propósitos e texto que um outro escreve para ela, e sua presença se reconfigura nas le- nas mais variadas situações. tras visíveis agora em outro espaço, o papel. Em função da nova territoria- As cartas que escrevem para localizar pessoas, para contar histórias, para lidade escriturária, pode se transportar em imagem/imaginação/escritura relembrar o passado que teima em perdurar nas lembranças, permitindo para um local onde encontraria o seu destinatário. Dias, meses, anos talvez reingresso num mundo mítico em que havia liberdade, são exemplos dessa se passem para que a fala de Teodora, sob a forma escrita, encontre seu ação de fazer da palavra significada pela escrita algo próprio. As marcas da ora- destinatário em um lugar desconhecido e jamais percebido em presença. lidade, presentes com todos os signos distintivos nos seus escritos, mostram território da escrita constrói a possibilidade de inserção em outro espaço, um processo de tomada da palavra que passa assim a significar algo singular. que se torna espaço-tempo. No território da escrita, as cartas ocupam lugar peculiar, e por meio delas Wissenbach (1998) reproduz trechos do processo e das cartas escritas é possível mostrar não apenas a capacidade escriturária, indicando por Claro a pedido de Teodora. Teodora, ao ver casualmente Claro escreven- te o domínio sobre essa habilidade, mas também como os recursos caligráfi- do, pede que este, em troca de seis vinténs, lhe escreva cartas para seu filho cos são paulatinamente inseridos no mundo da oralidade (Ong, 1987, p. 34) marido. Ao todo, ele escreve sete cartas: Passando a gravar em uma superfície o papel palavras que, pronunciadas em alta, migram da superfície verbal factível voz) para uma superfície Respondeu que uma vez vindo de um armazém, na rua de São Gonçalo, escriturária duradoura (o papel sob a forma de carta), gradualmente, mas em uma casa dos fundos dos Remédios, a qual estava sendo assoalhada por Claro, viu que ele escrevia e por isso, dando seis vinténs, a respondente com todos os índices do mundo, a escrita se converte em uma pediu-lhe que ele escrevesse uma carta para o filho e marido da respondente que ainda escreveu mais outras... (Aesp [Arquivo Público do Estado de São 21 Impedidos de ter acesso ao ensino, discussão que ganha alguma importância a partir de Paulo], A Justiça versus Claro e Pedro, escravos do cônego Fidélis Alves Sigmaringa 1850 com a questão da implantação de um sistema de educação pública para a população de Moraes, 1868-1872. In: Wissenbach, 1998, p. 113-114) livre, os escravos pertencentes às ordens religiosas apresentavam uma notável incidência de letramento. Sobre o assunto, cf. Schueler, 1999, Wissenbach, 2002, Gondra; Schueler,</p><p>A partir da imaginação que a História possibilita, podemos mesmo re- cu espero hinda compir ainda que esteja com cabelos bracos sua senhor montar a cena. Vindo Teodora pela rua de São Gonçalo, talvez estivesse na- disse que desfacado de dar carta de forria de ajuntar o carsar responcado quele momento e certamente estava pensando no marido Luís, que havia também de ajuntar casar ganhou dinheiro pagar o Seu Senhor da carta de arfuria eu quero ocasar junto para não ganhar dinheiro e dispois em tão muito não via. Percebe de soslaio e a distância já que o pedreiro está assoa- ganha dinheiro pagar primeiro pagar a minha pormeça dipos para pagar lhando uma casa de fundos que Claro faz o gesto da escrita. fato de ter se sua senhoria senão fica como a rainha. (Aesp, A Justiça versus Claro e Pedro, dado conta de que Claro escreve, mesmo estando a uma distância considerá- escravos do cônego Fidélis Alves Sigmaringa de Moraes, 1868-1872. In: Wissen- vel da sua visão, indica atos de letramento da escrava. Soube reconhecer que bach, 1998, p. 114-115) (Manteve-se a grafia original) Claro escrevia. Mas soube mais. Soube que ele poderia ser o intermediário da Teodora, pela carta escrita por Cosme, conta uma história ainda desco- sua para reencontrar Luís. Sabe que é possível ditar e um outro compor fora "arrematada" por um moço muito rico de Campinas, que se as palavras que saíssem de sua boca por grafismos, que encontra na leitura chama Marciano. Ainda no Congo, fizera uma promessa, que ele não sabia, de outrem a possibilidade de transpor o espaço, transportando ideias. pois já tinha sido vendido. Tinha de cumprir a promessa, mas não podia, já Por outro lado, para Claro escrever para alguém é algo tão valioso que que "São Benedito tinha perdido a Rainha no Mar". Mas Teodora não pode se constitui num serviço a ser pago. Aceita os seis vinténs de Teodora e facilitar com os santos e um dia esperava cumprir a promessa feita, mesmo escreve cartas para que ela possa, pelas letras manuscritas, reencontrar o que já estivesse de cabelos brancos. filho e o marido. No final da carta, a menção à carta de alforria (grafada como "carta de A primeira dessas cartas, que Wissenbach transcreve, mantendo a grafia forria" e "carta de arfuria") mostra que o desejo de obter a liberdade só não original para permitir múltiplos sentidos interpretativos das misturas entre maior do que a obrigação de cumprir a promessa feita aos santos, pois caso o mundo oral e escrito, indica a maneira como a escrava entende aquela prá- não faça certamente seria castigada ("senão fica como a Rainha"). tica de comunicação: pela escrita talvez possa descobrir o paradeiro de Luís, importante quanto decifrar os códigos quase imperceptíveis aos já que ela apenas vagamente intuía onde ele poderia estar. A escrita, portan- modos letrados do século XXI é perceber a intenção da comunicação escrita to, além de ser diálogo entre ela e o marido, como se estivessem entabulando de Teodora para o Sr. Luís: contar uma história, produzir uma aproximação, uma conversa, é também a possibilidade de estabelecer uma conexão comu- reencontrar quem estava perdido e reconstruir, via mecanismos escriturá- nicacional para além de espaços restritos. rios, elos desconectados no tempo e no espaço. Na espacialidade da escrita, É mais, porém. A carta serve para contar histórias, realizar trabalhos de apropriação dos códigos letrados se faz pela singularidade dos traços da memória, enfatizar crenças, reafirmar promessas. Tudo isso numa escritura Mas igualmente produz um território próprio, em que os signi- que só pode ser decifrada se lida, de novo, em alta. Os códigos da orali- ficados partilhados entre Luís, Teodora e Cosme produzem o efetivo gesto dade migram para o mundo da escrita, criando um universo comunicacional de misturas entre práticas orais e universo letrado. A segunda carta, que Cosme produz a pedido da escrava Teodora, enuncia Meu Marido Luis desejo da escrita presente no gesto de comunicação. A carta serve mais Muito heide estimar que esta va achar esteije com saude que meu uma vez para dar a ele informações sobre ela e, ao mesmo tempo, reafirmar deseijo voçe me mande contar para hande esta morando. Quem me laços preexistentes fixados pela velha promessa. A forma escriturária re- arematou foi um moçó muito rico de campinas o homem chama Marciano mais uma vez, o gesto da silabação indispensável para compor a escrita. quina eu fis uma pormeça em comgo não esta lembrado da pormeça modos de dizer estão presentes indubitavelmente na forma escriturária. que que eu fis não esta lembrado que pai vendeu para se lembra da pormeça que me avisou de noite eu estava dormindo. Rainha As palavras escritas mais uma vez devem ser pronunciadas em voz alta para tem companheiro de fase pormeça e não compir e agora ella esta persa no serem A escrita não é composição acabada, e os gestos da oralida- mal e poriço facillital com santos e poriço veija que a rainha e maior de continuam interpelando e mostrando como as formas de aprendizado do do mundo e esta persa no mal e não pode se salvar porque São Bendicto mundo escriturário existem na dependência do universo verbal. perdeu ella no mar não pode se calvar e poriço eu não facilito com santos</p><p>Meu marido Luis No documento seguinte, com o tradicional cabeçalho que introduz a fala Mumito ide istimar que Vossa Mercê esteja com saúde eu is tou aqui naci dade estimando a saúde improvável, mas desejada no texto formular, de maneira mais eu vos is Crevo para Vossa Mercê selem bra daquela promessa que nois fi zemos breve, Teodora, em 21 de agosto de 1866, continua pedindo quase imploran- eu hidi pricura por vose man dou mun to lem braça para vose e ajun ta hum do que o marido junte algum dinheiro para ela poder comprar sua liberdade. dinheiro la sepuder vimfalar com migo venha senão puder me mande a reposta e dinheiro va juntando la mesmo se CZO eu maranjar por aqui man do propio la. Mumito eu est ima a sua saúde como para mim dezeio noto bem para mi Dessa vosça Mulher Theodoria escrava do connio terra que fiu vin dida na faça o favor de mi ajum ta a gu m dimhe ro para mim eu já tem ho 4 mireis (In: Wissenbach, 1998, transcrito por Oliveira, 2009, p. 217) no mais pase muito bem eu tou na ci da de de São Paulo na caza do Senhor comgo terra. Te a do (In: Wissenbach, 1998, transcrito por Oliveira, Interessante observar na segunda carta escrita por Claro para Teodora 2009, p. 219) que alguns temas da carta anterior são retomados. É como se as ideias que estão martelando o cérebro de Teodora, provocadas pelos sentimentos que A frequência com que escreve para o marido duas cartas são datadas, uma a ausência de Luís produz, se deslocassem do pensamento para fala e de agosto, outra de outubro também nos induz a pensar que a escrava não para as mãos de Claro, que compunha uma escrita a partir do lamento da certeza de que sua fala fosse efetivamente encontrar Luís. Certamente é escrava. Um novo elemento, entretanto, é acrescentado: agora Teodora pede falta das respostas que a leva a seguidamente pedir a Claro para que escreva para Luís juntar um dinheiro e, se puder, que venha falar com ela. Caso não novamente. Mas também é o desespero de poder contar com alguma ajuda, no possa, pelo menos mande uma resposta. E reafirma: "dinheiro vá juntando caso, dinheiro que frequentemente pede para poder ter a liberdade. mesmo se caso eu arranjar por aqui", ela mesma mandaria. A carta seguinte indica a insegurança de Teodora diante da incerteza do A carta, assim, supre a ausência temporária, mas exige uma resposta por da comunicação. Diante da dúvida, já que não recebera nenhum sinal escrito, caso não se possa estar em presença. A escrita, portanto, materializa de Luís, escreve para o "Ilustríssimo Senhor Domiciano Dias da Cunha" para a possibilidade de encontro apesar da ausência física, pela transposição do que ele faça o favor de mandar uma carta "para a cidade de Limeira, para meu desejo falado e transformado em letras postadas num pedaço de papel. Para marido Luís da Cunha", e assinava: "Ti a do ra da cun ha" (In: Wissenbach, Teodora como para Claro, que recebe o texto auditivamente, a escrita fixa 1998, transcrito por Oliveira, 2009, p. 219). desejos e transporta sonhos e ordens. Recebendo auditivamente o texto a ser reproduzido, a grafia e suas altera- A grafia, que pelo espaçamento do texto reproduz a silabação indicativa do evidenciam que Claro interioriza uma imagem das palavras que é mais modo como se passa da oralidade para a leitura e, posteriormente, para a escrita sonora do que visual. Escreve por ditado, mas soletra igualmente ditando (permanecendo nela durando), não reproduz muitas vezes a fixidez das pala aquilo que a escrava diz, e só então pode reproduzir ideias. Do oral-auditivo, vras. Assim, alforria, promessa (pormeça ou promeça, por exemplo) e muitas ou seja, da voz, passa à letra (escrito), carregando todos os ícones da voca- outras aparecem com grafias distintas, as vezes no mesmo documento ou na lidade, numa simbologia própria. O corpo conecta com o papel apenas pela sucessão das cartas. A escrita é profundamente dependente dos modos de falar mão, mas os índices da voz continuam ecoando através da escrita. Ainda assim, porém, reproduzem as formas textuais do gênero epistolar exis Assim, a linguagem que o manuscrito fixa continua a ser, potencialmen- tentes no século XIX, por exemplo, o início em que deseja, numa reprodução das a da comunicação direta e oral. A escrita, nesse caso, constitui-se pelo mesmas fórmulas escriturárias, que a carta o encontre com saúde: "muito hei de contágio corporal a partir da e da mão que faz o gesto tátil, transfor- estimar que Vossa Mercê esteja com saúde", inicia a escrita de Teodora para mando por ela e através dela o corpo (voz e tato) em letras manuscritas. Nesse caso, a escrava, ainda que não escreva, é a autora da carta. Já Claro é escrevente e intérprete. 22 Muito ei de estimar que Vossa Mercê esteja com saúde, eu estou aqui na cidade vos escrevo para Vossa Mercê se lembrar daquela promessa que nós Eu de procurar por você. Mando muitas lembranças para você junta um dinheiro se puder vem Muito eu estimo a sua saúde como para mim desejo noto bem para mim faça favor de falar comigo, venha senão puder me manda a resposta e dinheiro vai juntando lá mesmo juntar algum dinheiro para mim. Eu já tenho 4 mil No mais passe muito bem. Eu estou Se caso eu me arranjar por aqui mando próprio (Transcrição feita pela na de São Paulo na casa do Senhor congo Teodora (transcrição da autora).</p>

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