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História da cidadania - Carla Bassanezi Pinsky, Jaime Pinsky

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David Hall

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<p>DA CIDADANIA & Carla er cidadão é ter direito à vida, à i propriedade, à igualdade perante a lei: em resumo, ter direitos civis tambem Pinsky at no destino da votar, ser votado Organização HISTO tos Os direitos civis e politicos não a democracia sem direitos que garantem a participação de individuo za coletiva: direito à ao to justo à a uma velhice tranquila a plena é ter direitos politicos Este livro trata do processo historico que sociedade ocidental a conquistar esses direitos RIADA dos passos que faltam para integrar os não cidadãos ra, com textos inéditos, escritos por los principais intelectuais Jaime Pinsky da analisa as bases da a questão para Brasil da Cidadania ja surge como obra de Bassanezi Pinsky Carla CIDA & moderna, descreve sua expansão e, em ia Ao organizar a sobre um se fala e tão se sabe, o livro da Organização a um conceito esvaziado pelo indevido ia uma solida e para estudantes, professores militantes e ativistas enfim. alquer DANIA ISBN 85-7244-217-0 342.71(09) N.Cham 342.71(091) H637h H637h Título: História da cidadania. NTEXTO 9788572442176 CONTEXTO A CIRCULAÇÃO SABER</p><p>Copyright© 2003 dos autores Todos os direitos desta edição reservados à Editora Contexto (Editora Pinsky Ltda.) Preparação de textos 10031860 Maurício de Oliveira SUMÁRIO Diagramação Denis Fracalossi Revisão Jane Cristina Mathias Cantu Vera Quintanilha Projeto e montagem de capa INTRODUÇÃO Victor Burton Jaime Pinsky 9 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) DA CIDADANIA (Câmara Brasileira do Livro, Brasil) História da cidadania / Jaime Pinsky, Carla Bassanezi Pinsky, HEBREUS (orgs.). 3. ed. - São Paulo : Contexto, 2005. Os profetas sociais e deus da cidadania, Jaime Pinsky 15 Vários autores GRÉCIA ISBN 85-7244-217-0 Cidades-estado na Clássica, Norberto Luiz Guarinello 29 1. Cidadania 2. Cidadania - História I. Pinsky, Jaime. II. Pinsky, Carla ROMA A cidadania entre os romanos, Pedro Funari 49 03-0735 CDD-323.609 Índice para catálogo sistemático: CRISTIANISMO 1. Cidadania : História : Ciência política 323.609 As comunidades cristãs dos primeiros séculos, Eduardo Hoornaert 81 A cidadania em Florença e Salamanca, Carlos Zeron 97 Rua Acopiara, 199 Alto da Lapa 05083-110 São Paulo - SP PABX: DA CIDADANIA contexto@editoracontexto.com.br www.editoracontexto.com.br INGLESA O respeito aos direitos dos indivíduos, Marco Mondaini 115 2005 REVOLUÇÃO AMERICANA 135 Estados Unidos, liberdade e cidadania, Leandro Karnal FRANCESA Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei. A liberdade como meta coletiva, Nilo Odalia 159 O DESENVOLVIMENTO DA CIDADANIA SOCIALISMO Idéias que romperam fronteiras, Leandro Konder 171</p><p>DA CIDADANIA DIREITOS SOCIAIS A cidadania para todos, PaulSinger 191 MULHERES Igualdade e especificidade, Carla Bassanezi Pinsky e Joana Maria Pedro 265 CIDADANIA POLÍTICA Autodeterminação nacional, Coggiola 311 MINORIAS Direitos para os excluídos, Peter Demant 343 LIBERDADE DE EXPRESSÃO Trevas e luzes: a Anistia Internacional, Rodolfo Konder 385 Por uma cidadania planetária AMBIENTE Em busca da qualidade de vida, Wagner Costa Ribeiro 399 CIDADANIA NO BRASIL ÍNDIOS O caminho brasileiro para a cidadania indígena, Mércio Pereira Gomes 419 QUILOMBOS Sonhando com a terra, construindo a cidadania, Flávio dos Santos Gomes 447 TRABALHADORES Direitos sociais no Brasil, Tania Regina de Luca 469 BRASILEIRAS Cidadania no feminino, Maria Lygia Quartim de Moraes 495 DEMOCRACIA Aprendendo a votar, Bicalbo Canêdo 517 CIDADANIA AMBIENTAL Natureza e sociedade como espaço de cidadania, Maurício Waldman 545 TERCEIRO SETOR Novas possibilidades para exercício da cidadania, Rubens Naves 563 Ao Erik, CONTO Tomara possamos the entregar O nascimento de um cidadão, Moacyr Soliar 585 um mundo mais cidadão! OS AUTORES 589</p><p>INTRODUÇÃO Jaime Pinsky Afinal, O que é ser cidadão? Ser cidadão é ter direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei: é, em resumo, ter direitos civis. É também participar no desti- no da sociedade, votar, ser votado, ter direitos políticos. Os direitos civis e políticos não asseguram a democracia sem os direitos sociais, aqueles que garantem a participação do indivíduo na riqueza coletiva: direito à edu- cação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde, a uma velhice Exercer a cidadania plena é ter direitos civis, políticos e sociais. Este livro trata do processo histórico que levou a sociedade ocidental a conquistar esses direitos, assim como dos passos que faltam para integrar os que ainda não são cidadãos plenos. Cidadania não é uma definição estanque, mas um conceito histórico, que significa que seu sentido varia no tempo e no espaço. É muito diferente ser cidadão na Alemanha, nos Estados Unidos ou no Brasil (para não falar dos países em que a palavra é tabu), não apenas pelas regras que definem quem é ou não titular da cidadania (por direito territorial ou de sangue), mas também pelos direitos e deveres distintos que caracterizam o cidadão em cada um dos Estados-nacionais contem- porâneos. Mesmo dentro de cada Estado-nacional conceito e a prática da cidadania vêm se alterando ao longo dos últimos duzentos ou trezen- tos anos. Isso ocorre tanto em relação a uma abertura maior ou menor do estatuto de cidadão para sua população (por exemplo, pela maior ou menor incorporação dos imigrantes à cidadania), ao grau de participa- ção política de diferentes grupos (o voto da mulher, do analfabeto),</p><p>10 HISTÓRIA DA CIDADANIA INTRODUÇÃO 11 quanto aos direitos sociais, à proteção social oferecida pelos Estados aos bases da cidadania moderna, descreve sua expansão e, em seguida, traz a que dela necessitam. questão para Brasil. Na primeira parte examinamos algumas importantes A aceleração do tempo histórico nos últimos séculos e a manifestações de cidadania avant la lettre. Estudamos os profetas sociais rapidez das mudanças faz com que aquilo que num momento podia ser que há quase trinta séculos falavam em cuidar dos proteger considerado subversão perigosa da ordem, no seguinte seja algo corri- a viúva e não pensar apenas em morar, comer e viver bem num queiro, "natural" (de fato, não é nada natural, é perfeitamente social). mundo de pobreza extrema. Em seguida, Norberto Guarinello, Não há democracia ocidental em que a mulher não tenha, hoje, direito da USP, aborda as Cidades-estado greco-romanas, essas organizações de ao voto, mas isso foi considerado absurdo, até muito pouco tempo democracia direta em que cada cidadão era um voto. Pedro Paulo Funari, países tão desenvolvidos da Europa como a Suíça. Esse historiador da Unicamp, analisa as instituições romanas e a luta dos "me- mesmo direito ao voto já esteve vinculado à propriedade de bens, à nos cidadãos" por seus direitos, e historiador Eduardo Hoornaert verifica titularidade de cargos ou funções, ao fato de se pertencer ou não a como cristianismo dos primeiros séculos, igualitário. à determinada etnia etc. Ainda há países em que os candidatos a presiden- quia, tinha caráter cidadão. No último trabalho dessa unidade historiador te devem pertencer a determinada religião (Carlos Menem se converteu Carlos Zeron, da USP, escreve sobre Renascimento, período considerado ao catolicismo para poder governar a Argentina), outros em que nem da redescoberta do homem. filho de imigrante tem direito a voto e por aí afora. A idéia de que A cidadania propriamente dita é fruto das revoluções burguesas, tema poder público deve garantir um mínimo de renda a todos os cidadãos e de nossa segunda unidade, os alicerces da cidadania. O historiador acesso a bens coletivos como saúde, educação e previdência deixa ainda Marco Mondaini, da UFF, explica a Revolução Inglesa e surgimento da muita gente arrepiada, pois se confunde facilmente simples separação de poderes como base para uma sociedade cidadã. O filósofo assistencialismo com dever do Estado. Nilo Odalia, da Unesp, discute as idéias que estão por trás da Revolução Não se pode, portanto, imaginar uma única, determinista e Francesa, e historiador Leandro Karnal, da Unicamp, verifica que fo- necessária para a evolução da cidadania em todos os países (a grande ram os americanos que partiram do discurso para a prática democrática, nação alemã não instituiu O trabalho escravo, a partir de segregação racial colocando em ação aquilo que apenas mundo das idéias, do Estado, em pleno século XX, na Europa?). Isso não nos permite, contu- na Europa. do, dizer que inexiste um processo de evolução que marcha da ausência Em o desenvolvimento da cidadania filósofo Leandro Konder, da de direitos para sua ampliação, ao longo da história. estuda as idéias que romperam fronteiras, particularmente socia- A cidadania instaura-se a partir dos processos de lutas que culminaram lismo. O economista Paul Singer, da USP, investiga a luta pelos direitos na Independência dos Estados Unidos da América do Norte e na Revolu- sociais, bandeira fundamental dos trabalhadores dos séculos XIX e XX. As ção Francesa. Esses dois eventos romperam princípio de legitimidade historiadoras Joana Maria Pedro, da UFSC, e Carla Bassanezi Pinsky debru- que vigia até então, baseado nos deveres dos súditos, e passaram a estruturá- çam-se sobre a longa marcha das mulheres em busca de igualdade com lo a partir dos direitos do cidadão. Desse momento em diante todos os especificidade. O historiador Peter Demant, da USP, lança seu olhar sobre tipos de luta foram travados para que se ampliasse conceito e a prática as minorias religiosas, étnicas e nacionais. O historiador Osvaldo Coggiola, de cidadania e mundo ocidental estendesse para mulheres, crianças, da USP, estuda a autodeterminação nacional. O jornalista e escritor Rodolfo minorias nacionais, étnicas, sexuais, etárias. Nesse sentido pode-se afirmar Konder conta sobre a Anistia Internacional e seu empenho pelos direitos que, na sua acepção mais ampla, cidadania é a expressão concreta do humanos elementares, como direito à integridade física, e geógrafo exercício da democracia. Wagner Costa Ribeiro apresenta as conquistas da humanidade em busca É dessa expressão, ao longo do tempo, que tratamos neste livro. da qualidade de vida, de um meio ambiente razoável. A obra, só com textos inéditos, escritos por alguns dos principais inte- A última parte do livro é cidadania no Brasil. Aqui antropólogo lectuais brasileiros, começa com a pré-história da cidadania, analisa as Mércio Gomes, da UFF, mostra caminho brasileiro para a cidadania indí-</p><p>12 HISTÓRIA DA CIDADANIA INTRODUÇÃO 13 gena. O historiador Flávio dos Santos Gomes, da UFRJ, a luta dos negros Sonhar com cidadania plena em uma sociedade pobre, em que fugidos organizados em quilombos. A historiadora Tania de Luca, da Unesp, acesso aos bens e serviços é restrito, seria utópico. Contudo, os avanços da descreve as conquistas sociais dos trabalhadores do Brasil. A socióloga cidadania, se têm a ver com a riqueza do país e a própria divisão de Maria Lygia Quartim de Moraes, da Unicamp, estuda as mulheres brasilei- riquezas, dependem também da luta e das reivindicações, da ação concre- ras em busca da cidadania. A socióloga Letícia Bicalho Canedo, da Unicamp, ta dos indivíduos. Ao clarificar essas questões, este livro quer participar da fala sobre eleições, possibilidades e limites da prática de votar. O geógrafo discussão sobre políticas públicas e privadas que podem afetar cada um de Maurício Waldman reivindica que chama de cidadania ambiental e nós, na qualidade de cidadãos engajados. Afinal, a vida pode ser melhora- advogado Rubens Naves mostra novas possibilidades para exercício da da com medidas muito simples e baratas, ao alcance até de pequenas cidadania por meio do terceiro setor. prefeituras, como proibição de venda de bebidas alcoólicas a partir de Fechando livro temos um perturbador conto inédito do escritor certo horário, controle de ruídos, funcionamento de escolas como centros gaúcho Moacyr Scliar, O nascimento de um cidadão, escrito especialmen- no final de semana, opções de lazer em bairros da periferia, te a nosso pedido, como, de resto, os demais textos desta História da estímulo às manifestações culturais das diferentes comunidades, e muitas Cidadania. outras. Sem que isso implique abrir mão de uma sociedade mais justa, Muitas outras questões são contempladas, transversalmente, no livro, igualitária, com menos diferenças sociais, é evidente. razão pela qual não aparecem com títulos próprios. Questões como cida- da Cidadania já surge, portanto, como obra de referência. Ao dania para os negros, crianças, idosos, liberdade de expressão, exclusão organizar a discussão sobre um assunto de que tanto se fala e tão pouco se social, marcam forte presença em vários artigos da obra. Algumas sabe, ao estimular a produção de textos de intelectuais de alto nível, livro cias entre autores, até estocadas involuntárias, denotam caráter democrá- dá conteúdo a um conceito esvaziado pelo uso indevido, e propicia uma tico de uma publicação que não pretende ser detentora da verdade, ape- reflexão sólida e nas buscá-la com afinco. A idéia deste livro surgiu ao constatarmos a carência bibliográfica a respeito da questão da cidadania. Inicialmente pensamos tratar-se de um problema brasileiro, mas aos poucos fomos percebendo que era um fenô- meno mundial. Não havia, simplesmente, um grande livro sobre a história da cidadania. Quem quer que escrevesse sobre assunto recorria ao soció- logo inglês T. H. Marshall, autor de um texto básico, mas que não tinha a pretensão de ser uma história da cidadania. De resto, achamos importante mostrar que a sociedade moderna adquiriu um grau de complexidade muito grande a ponto de a divisão clássica dos direitos do cidadão em individuais, políticos e sociais não dar conta sozinha da realidade. Nossa proposta foi a de organizar um livro de história social, no sentido de não fazer um estudo do passado pelo passado, muito menos do passa- do para justificar eventuais concepções pré-determinadas sobre mundo atual. isto sim, estimular a produção de textos cuidadosamente pesquisados, mas que se propusessem a dialogar com presente. Não é por acaso que os textos dão conta de um processo, um movimento lento, não linear, mas perceptível, que parte da inexistência total de direitos para a existência de direitos cada vez mais amplos.</p><p>than OS PROFETAS SOCIAIS E O DEUS DA CIDADANIA Jaime Pinsky Um dos maiores mitos da história é aquele que atribui aos hebreus, antecessores dos judeus modernos, a criação do monoteísmo. Embora essa idéia tenha empolgado muitos estudiosos e ainda esteja presente em ma- nuais didáticos desatualizados, é difícil defendê-la hoje em dia. Vários N outros povos da Antiguidade acreditavam e cultuavam um só deus, antes mesmo dos hebreus. O conhecido caso de Aton, concebido lá pelo ano de 1375 a.C. pelo faraó Amenophis IV, no Egito (e considerado por muitos como uma poderosa influência na religião de é O exemplo mais famoso, mas não único. Encontramos muitas referências a batalhas trava- das entre grupos tribais rivais que recorriam, cada um, a seu deus, verda- deiro e mais poderoso, segundo os membros do respectivo grupo. E assim foi deus dos hebreus durante muito tempo: uma divindade tribal, HEBREUS senhor dos exércitos, que tinha por função proteger seus seguidores e ajudar a derrotar, da forma mais implacável, seus inimigos. Jericó estava cercada e encerrada por causa dos filhos de Israel: ninguém saía e ninguém entrava. Disse O Senhor a eu te entregarei Jericó e seu rei, seus valentes guerreiros". 6, 1-2) O Senhor disse a "não os temas, pois amanhã, a esta mesma hora, eu, eu os entregarei todos, mortos, a Israel". O Senhor os entregou às mãos de Israel, que os derrotou e perseguiu até Sidon-a-Grande e até Mesrefot-Máim e até O</p><p>16 HISTÓRIA DA CIDADANIA PROFETAS SOCIAIS DEUS DA CIDADANIA 17 vale de Mispá a leste. Ele os destroçou a ponto de não lhes deixar nenhum do século XI a.C.), nem durante reinado de Saul, primeiro rei; de Davi, sobrevivente. 11, 6 e 8) verdadeiro criador da monarquia unificada; de Salomão, grande con- quistador, aquele que definiu as fronteiras com armas e sabedoria; mas já Portas, elevai vossos frontões! no período da decadência da monarquia, após a separação que dividiu a Elevai-vos, pórticos antigos! monarquia nos reinos de Judá, ao sul, e de Israel, ao norte. Que entre rei de glória! A doutrinação dos chamados profetas sociais estabelece os fundamentos Quem é rei de glória? do monoteísmo ético, que é, por sua vez, a base das grandes religiões oci- O Senhor, forte e valente, dentais (cristianismo e islamismo, alem do judaísmo) e se constitui, provavel- O Senhor, valente na glória. (Salmos, 24, 7-8) mente, na primeira expressão documentada e politicamente relevante (até por suas históricas) do que poderíamos chamar de Até aí, portanto, nada de verdadeiramente Antes e depois, mui- ria da Vamos, portanto, neste pequeno ensaio, examinar tanto as tos povos desfraldaram seus deuses guerreiros e creditaram parte dos méri- condições históricas do surgimento do monoteísmo ético quanto aquelas que tos de seus soldados à atuação de seu deus dos exércitos. Tanto a expan- permitiram a manutenção dos seus valores ao longo dos mais de 25 séculos são no final do primeiro milênio como as Cruzadas, perpetra- que nos distanciam daquele período. Vamos também, é claro, promover das pelos cristãos europeus, basearam-se na concepção de um deus guer- diálogo entre período sobre qual estamos escrevendo e atual. Interes- reiro que não diferia muito dos deuses tribais como hebreu. Não, não foi sa-nos, sobretudo, perceber as formas e os modos de apropriação do essa, com certeza, a contribuição original dos hebreus à civilização. monoteísmo ético, devidamente transformado, pelo mundo judaico, para Seu grande legado foi a concepção de um deus que não se satisfazia não dizer pelo universo das chamadas grandes religiões monoteístas. em ajudar os exércitos, mas que exigia um comportamento ético por parte de seus seguidores. Um deus pouco preocupado em ser objeto da idola- tria das pessoas e com sacrifício de animais imolados em seu holocausto, O PARADOXO DA SUPERIORIDADE ÉTICA mas muito comprometido com problemas vinculados à exclusão social, à A discriminação sofrida por judeus ao longo da história provocou no pobreza, à fome, à solidariedade. grupo grande coesão e forte identidade em torno de práticas e rituais. Come- moração de datas, rezas, costumes e tradições, embora adaptados a diferen- MONOTEÍSMO E MONOTEÍSMO ÉTICO tes locais e épocas, têm mantido elo que conecta as diferentes comunida- Em todas, por exemplo, se respeita Iom Kipur (o dia do perdão) e se Uma concepção tão revolucionária de deus não acontece por acaso, do festeja Pessach (ceia que comemora a libertação dos judeus da escravidão nada: ela se desenvolve dentro de condições históricas específicas, de uma no Egito, sob a liderança de Se, por um lado, é fácil perceber a realidade social única. Se, durante muito tempo, os hebreus cultuaram um permanência das práticas, mais difícil é encontrar aqueles que seriam os deus que não se distanciava tanto do de seus vizinhos, que os levou a "valores" permanentes do povo judeu, os elementos não palpáveis que esta- conceber esse deus tão desprendido a ponto de exigir que as pessoas pen- beleceriam amálgama. Noutras palavras, qual seria elemento comum sassem umas nas outras antes de pensar nele, próprio deus? Um deus que, entre um judeu persa e um francês, um russo e um argentino? Para os mais se não fosse anacronismo, diríamos preocupado com a cidadania. religiosos, os valores são evidentes e derivam da própria crença em Yahavé e Uma concepção religiosa do judaísmo afirmaria que esse deus se reve- das formas de devoção, inclusive de certas práticas religiosas que foram se lou para os hebreus pela simples razão de estes constituírem povo eleito. agregando ao longo da história (um bom exemplo são os capotes escuros Aqui, porém, evitaremos as verdades reveladas para ficar com fatos anali- usados por grande parte dos ortodoxos no mundo ocidental e que remon- sados e explicações racionais. Cronologicamente sabemos que monoteísmo tam a meados do século XVII, na Ucrânia). Para os mais nacionalistas, elo ético encontraria sua expressão não no período tribal (que vai até final seria Eretz Israel (a Terra de Israel), O ponto de partida e, no fim da história,</p><p>18 HISTORIA DA CIDADANIA PROFETAS SOCIAIS DEUS DA CIDADANIA 19 porto de chegada. Na identidade nacional reencontrada estariam presentes pelos gentios. O vencedor do prêmio Goncourt, Schwartz-Bart, escre- esses elementos, uma vez que durante muito tempo teria havido uma terra veu em francês inquietante romance O último justo, que mostra não ape- sem povo de um lado e um povo sem terra do outro. nas a carga de sofrimento necessário imposto por Deus a todos os judeus, A idéia de "povo eleito" povoava os sonhos de uma etnia marcada, como ainda a existência de, entre estes, um pequeno número de eleitos, os pela marginalização e pelo desprezo. Uma análise de textos justos, que com seu sofrimento teriam por objetivo redimir toda a humanida- de autores judeus em diferentes épocas e locais apresenta uma incrível similitude de. E até, por que não, personagem-título de O complexo de Portnoy, (desde Alexandria, no Egito Helenístico, até Vilna, Lituânia, no início do sécu- escrito em inglês pelo americano Philip Roth, que se revolta contra judaís- lo XX) ao salientar o orgulho que a comunidade tinha pelo fato de apresentar mo que é "obrigado a carregar" pelos pais, quer e não consegue abrir mão baixa incidência de bêbados, ladrões ou assassinos. O temor a perseguições e de sua missão na Terra e acaba se desesperando por sentir que a força da a ansiedade em conseguir beneplácito dos governantes têm conduzido, missão era maior do que sua capacidade em desistir dela. com as comunidades judaicas, mormente aquelas com um simu- lacro de autogoverno, a pressionar os seus membros a fim de não chamarem a atenção de forma negativa, imaginando, com certa ingenuidade, que as QUANDO O PRESENTE SE APROPRIA DO PASSADO perseguições tivessem a ver, diretamente, com O bom comportamento do Também os ideólogos, os que pensaram O judaísmo, refletiram sobre grupo.. Mesmo nas sociedades em que as sanções diretas eram inviáveis, pois a institucionalização prescindia da organização comunitária, a pressão essa questão e buscaram explicar à sua maneira paradoxo de o povo do grupo, atuava fortemente sobre cada elemento, ameaçando com a eleito por Deus não viver em território próprio e não conseguir sequer ser marginalização total aqueles que se comportassem de maneira inadequada. reconhecido pelos supostamente não eleitos como tendo sido escolhido O embasamento teórico-religioso da cobrança do grupo, especialmen- por Deus. O importante historiador Simon Dubnow, em seus ensaios, come- te, mas não só, nas comunidades judaicas da Europa Centro-oriental, cos- teu a proeza de "transformar" a vida judaica na diáspora no "grau mais tumava ser a explicação de uma pretensa superioridade ética do judaísmo elevado de existência nacional", demonstração histórica de superioridade. com relação a outras religiões ou filosofias. De fato, desde as primeiras Para ele, uma nação pode passar por três estágios: tribal, o político-territorial letras até os seminários ensinava-se a necessidade de cada judeu e Só os judeus teriam chegado a essa última etapa, fazer valer os valores de justiça e fraternidade estabelecidos por Deus e despindo-se de "características externas" como território, Estado, indepen- cumpridos por seus ancestrais. Na prática da ética residiria a diferença dência política e, apesar de tudo, mantendo vida social própria e autonomia interna, revelando inflexível determinação nacional. Já escritor e pensador fundamental entre judeu e não judeu (gentio). alcunhado Ahad Haam acreditava, claramente, na especificidade da "mis- A ideologia da superioridade ética comparece com muita nas obras dos autores judeus. Ser detentor de uma missão na Terra seria a justifi- são judaica", baseada em profunda espiritualidade. Segundo ele, a sobrevi- vência do povo judeu teria se devido ao poder espiritual, vitorioso no seu cativa, a explicação racional possível para uma existência de sofrimento. embate contra poder material. Mais uma vez a velha fórmula mágica de Dessa maneira, o negativo se transfiguraria em positivo e outros parâmetros "aceitar" sofrimento (de resto, inevitável) como entrariam para analisar a existência judaica. A rica literatura escrita por ju- Para quem ousasse questionar esta "visão do mundo" havia uma pergunta deus é pródiga em representar essa espécie de orgulho no sofrimento em nome de uma missão. O escritor Sholem Aleichem escreveu em iídiche deli- que não calava, grande trunfo da superioridade moral: afinal, se não ciosos contos sobre O mundo judaico nas pequenas cidades da Europa Cen- monoteísmo, ao menos monoteísmo ético, quem criou? A idéia do Deus que não apenas conduz os exércitos, como também exige um determinado compor- tro-oriental (um deles transformou-se no famoso musical O violinista no tamento, aquele que pune os homens não pela falta de cumprimento de rituais, telhado), nos quais se percebe, de maneira sutil, a idéia de uma superiorida- mas por atitudes não piedosas para com O semelhante, quem desenvolveu? de ética sobre os gentios, mesmo sendo os personagens judeus quase sem- E assim, em nome dos grandes profetas, a ética dos judeus ter-se-ia pre pobres, miseráveis mesmo, e quase sempre temerosos e humilhados mantido, atravessando quase trinta séculos com a rapidez de um segundo,</p><p>20 HISTÓRIA DA CIDADANIA PROFETAS DA CIDADANIA 21 superando realidades históricas diferentes, modos de produção que nada PROFETAS E têm a ver com tribalismo da época dos juízes, ou fracassado escravismo do tempo dos monarcas de Judá e Israel. Na verdade, esse salto, essa O profeta não é uma criação dos hebreus; ele já existia entre os antigos incorporação do passado como monopólio étnico, é uma forma comum de habitantes da Palestina, os cananeus, com a função de vidente. A palavra uso da história. Um judeu do século XXI esgrimir com a criação do hebraica para profeta (nabi ou navi) designava originalmente uma espécie não monoteísmo ético como uma criação sua, por sangue e herança cultural muito confiável de gente que afirmava prever futuro. Alguns levemente dese- exclusiva (ou por recitar meia dúzia de rezas por dia), tem tanto valor quilibrados, outros francamente megalomaníacos, esses homens ascéticos, que quanto um miserável egípcio moderno sentir-se construtor das falavam em nome da divindade, percorriam os reinos procurando ser ouvidos, Grandes Pirâmides, um comerciante grego alegar ser herdeiro de Aristóteles, imaginando-se ter algo de relevante a dizer. O profeta, durante séculos, foi uma ou Hitler, com seu arianismo pretender apresentar-se como figura muito popular, mas, com poucas sem maior relevância na ser humano da grandeza de Bach, Beethoven ou Goethe. época em que viveu. E, com certeza, sem nenhuma importância histórica. Meu ponto é que, uma vez criado, um valor cultural (seja ele uma Por que então, quase de repente, alguns profetas alcançaram a dimen- música, uma pintura, um pensamento ou um livro) passa a fazer parte do são de verdadeiros criadores, concebendo uma nova forma de pensar patrimônio cultural da humanidade e não mais de pessoas que, acidental- mundo, a divindade e, mais do que isso, a relação entre as pessoas? Os mente, nasceram mesmo território geográfico em que bem foi conce- grandes profetas utilizaram-se de uma exterioridade, de uma forma de ser bido, ou que simplesmente se apresentem como descendentes genéticos já existente e praticada pelo vidente, para dar um novo conteúdo a ela. ou culturais dos criadores daquele bem Eles partiram de um formato presente e familiar ao mundo em que atuam, dando-lhe nova dimensão. Vale mais pensar e viver de acordo com os ensinamentos dos profetas, mesmo sem falar em nome deles (não se apresentando como seus herdeiros, por sangue ou discurso), do que alegar a herança e viver em com a Isaias essência de suas pregações. Isso é particularmente válido para os que confun- Um dos mais importantes profetas foi Isaías, que nasceu e profetizou dem fé com ritual, e ambos com as práticas sociais determinadas pelas religiões. na Judéia, talvez só em Jerusalém, durante um largo período de tempo, Os grandes profetas não estavam preocupados com questões teológicas ou ritu- provavelmente compreendido entre os anos 740 e 701 a.C. ais e sim com comportamento do povo judeu. Mesmo defensores da impor- De origem social elevada, tinha acesso às principais figuras do reino. tância do ritualismo acabam se curvando a essa evidência, que é caso do Seu pai, chamado Amós, fez muitos estudiosos se atrapalharem ao imagi- especialista em História das Religiões e biblista russo-israelense Kaufmann: nar que Isaías fosse filho do grande profeta Nas suas falas faz O que se nega dos profetas sociais] não é o ato de culto do indivíduo referências seguidas a seus contatos com os sacerdotes, altos dignitários e malvado, o que seria inaceitável para a divindade tendo em vista caráter peca- até rei. O deus, em nome do qual fala, embora tenha caráter universal, minoso do ofertante. (...) O que os profetas condenam é culto de todo povo: preocupa-se em discutir a realidade do reino de Judá e faz pesadas críticas suas festividades, sacrifícios, templos, cantos etc. (...) A doutrina da primazia da às práticas sociais e rituais vigentes. Sabemos de Isaías que foi casado e moralidade implica uma revolução nos conceitos religiosos; retira do culto todo teve uma penca de filhos. Seus textos deixam entrever um homem da cidade, tanto nos exemplos que dá, como nas descrições que faz. Conside- seu valor inerente e rado dos profetas", falava sempre em nome de deus, do qual se Uma vez, pois, determinado que o monoteísmo ético é uma criação apresentava apenas como uma espécie de porta-voz. dos profetas e que ele é uma conquista de toda a Humanidade volta, pois, Ouvi, céus, e tu, terra, escutai! a questão: como e por que O monoteísmo ético desenvolveu-se entre os É Senhor que fala: hebreus, no século VIII a.C. e com os profetas?</p><p>22 HISTORIA DA CIDADANIA PROFETAS DEUS DA CIDADANIA 23 "Eu criei filhos e os enalteci; Vossas mãos estão cheias de sangue, lavai-vos, purificai-vos. Eles, porém, revoltaram-se contra mim. Tirais vossas más ações de diante de meus olhos. O boi conhece seu possuidor, Cessai de fazer mal, aprendei a fazer bem. asno, estábulo do seu dono; Respeitai direito, protegei oprimido; Mas Israel não conhece nada, Fazei justiça ao órfão, defendei a (Isaías, 1, 15-17) e meu povo não tem entendimento. Ai da nação pecadora, do povo carregado de crimes, Amós da raça de malfeitores, dos filhos desnaturados! Amós deve ter nascido na Judéia, mas profetizou na Samaria, durante Abandonaram O Senhor, reinado de Jerobão II (783-743 a.C.), quando esse reino se encontrava no desprezaram Santo de Israel, apogeu, em termos de extensão territorial. A obra de Amós é curta e con- e lhe voltaram as costas". (Isaías, 1, 2-4) tundente, acreditando-se que ele tenha atuado no decorrer de um único O discurso de Isaías não se esgota, contudo, na reclamação da divindade ano, provavelmente 745 a.C. contra povo "que esquece seu dono", como poderia Logo em A origem humilde de Amós, uma forte negação de qualquer tipo de seguida ele deixa claro que não se deixaria seduzir por oferendas e rezas: ritualismo, linguagem agressiva e desabusada e, mais do que tudo, um sentimento agudo e intransigente de justiça, essas são as características Ouvi a palavra do Senhor, de Sodoma; mais evidentes dos nove capítulos do chamado "profeta pastor" Deixa escuta a lição de nosso Deus, povo de Gomorra: claro, desde logo, que não fala em seu nome, mas no de Deus e que este "De que me serve a mim a multidão dos vossos sacrifícios?" anda zangado com povo que elegeu. diz Senhor. Ouvi a palavra que O Senhor pronunciou contra vós, filhos de Israel, contra toda estou farto de holocaustos de cordeiros a família que eu tirei da terra do Egito, dizendo: "de todas as linhagens da terra e da gordura de novilhos cevados. só a vós reconheci como meu povo, por isso vos punirei por todas as vossas Eu não quero sangue de bezerros e de bodes, (Amós, 3, 1-2) quando vierdes apresentar-vos diante de mim. Quem reclamou isso de vós? Ele não tem meias palavras, vai logo avisando que Senhor destina Deixai de pisar em meus átrios. aos ricos e poderosos, a seus edifícios, templos e palácios: De nada serve trazer oferendas; eu tenho horror da fumaça [dos sacrifícios]. "No dia em que eu começar a punir as transgressões de Israel, visitarei também As luas novas, os sábados, as reuniões de culto, os altares de Betel, e as pontas do altar serão cortadas e cairão por terra. E não posso suportar a presença do crime na festa religiosa. deitarei abaixo palácio de inverno com palácio de verão; e as casas ornadas Eu abomino as vossas luas novas e as vossas festas! de marfim ruirão, e uma grande multidão de edifícios será destruída", diz elas me são molestas, estou cansado delas." (Isaías, 1, 10-14) Senhor. (Amós, 3, A conclusão do discurso de Isaías é de uma atualidade surpreendente. Para não haver nenhuma dúvida sobre as razões de Deus, Amós esclare- No limite ele parece querer que as pessoas se reencontrem, voltem a cons- ce que isso se refere à forma com que a riqueza é distribuída e a justiça é truir uma comunidade que, em algum momento, foi desfeita. feita. Investe de forma extremamente agressiva contra as mulheres (há quem atribua caráter metafórico a essa passagem, mas tudo é tão explícito e coe- "Quando estendeis vossas mãos, eu desvio de vós meus olhos; rente com O resto do capítulo que é difícil aceitar essa explicação), aquelas Quando multiplicais vossas preces, eu não as ouço. que apenas consomem, sem produzir, alimentando-se do suor dos outros.</p><p>PROFETAS SOCIAIS DEUS DA CIDADANIA 25 24 HISTÓRIA DA CIDADANIA Ouvi estas palavras, vacas de Bashan, vós que estais sobre a montanha de AREVOLUÇÃO NOSTÁLGICA Samaria, vós que oprimis os necessitados e esmagais os pobres; vós que dizeis Amós e Isaías atuam, como já foi dito, no período em que a Monarquia aos vossos maridos: "trazei e beberemos". O Senhor Deus jurou pelo seu san- já estava dividida entre Israel e Dois pequenos reinos, sem força to nome que brevemente virão dias mais infelizes para vós, em que vos espe- política ou econômica, mas com grande estrutura burocrática a ser susten- tarão nas lanças e meterão os restos dos vossos corpos em caldeiras de ferver. tada pelo povo, implicava taxas e impostos elevados e vida difícil para a (Amós 4, 1-2) maioria. Nem sempre O crescimento territorial e um poder político centrali- Amós determina pouco significado que templos, festas, sacrifícios e zado proporcionam condições de vida melhores para a maior parte da presentes têm para seu deus. Num dos textos mais belos (que, por sinal, população. Nos pequenos reinos hebreus, espremidos entre poderio egípcio, nos remete ao de de teor semelhante), de uma força que se mantém ao sul, e gigantismo babilônico, a leste, poucos além da camada dirigen- igual há mais de 27 séculos, Amós contrapõe templo e justiça, ritual e vida te e um pequeno grupo de mercadores viviam bem. Havia uma nostalgia social, aparência e conteúdo, hipocrisia e solidariedade. dos tempos em que as pessoas viviam mais unidas, sem separações sociais tão pronunciadas como agora, século VIII a.C. Nostalgia da época do "Eu aborreço desprezo as vossas festas; e vossas assembléias solenes não tribalismo que existira havia trezentos me dão Se me holocaustos e presentes, não aceita- Até pouco antes do ano 1000 a.C., os hebreus tinham vivido divididos rei; e não porei olhos nas vítimas gordas que ofertares, em cumprimento de em 12 tribos, sem reis ou qualquer outro tipo de monarca, sem divisão de vossos atos. Aparta de mim dos teus eu não ouvirei as melo- trabalho que implicasse hierarquização social (apenas com divisão de tare- dias de tua lira. Antes corra como as aguas e a justiça como fas, por uma questão funcional), sem propriedade particular de bens de perene". (Amós, 5, 21-24) produção. Seus líderes, chamados juízes, podem ser divididos em dois tipos. Uns, como Débora ou Samuel, tinham por função ouvir as partes em Finalmente Amós explicita a relação determinista entre comporta- eventuais desavenças dentro de cada tribo, elas. Outros, e Sansão mento e a punição, assim como as características do deus que estabelece é o exemplo mais evidente, não passavam de líderes guerreiros, cujo papel uma forma de agir solidária do povo como condição nécessária para que ganhava importância em época de guerra e desaparecia quase por comple- as pessoas tenham a possibilidade de encontrar a felicidade na Terra. O to em tempos de paz. Era uma liderança passageira, restrita e que não deus de Amós insiste na preservação dos direitos sociais e individuais de implicava na criação de mecanismos de poder, ou em burocracia destinada todos: do contrário, nenhum os preservaria, mesmo os que já os conquista- a perpetuar uma família (dinastia) ou um grupo (oligarquia) no poder. ram. É uma das passagens mais fortes de toda a Bíblia, aquela em que Com a Monarquia, tudo isso muda. Cria-se não apenas a Casa Real, exige dos seguidores de Deus um comportamento ético, um verdadeiro como toda uma estrutura (militar, burocrática, religiosa, ideológica) em tor- respeito cidadão avant la lettre por parte dos membros do povo hebreu: no dela. É caso do templo de Jerusalém, erigido pelo terceiro rei, Salomão, com requintes de luxo e grandiosidade. Após sua criação elabora-se uma "Portanto, já que explorais pobre e lhe exigis tributo de trigo, edificareis casas série de normas que ritualizam a religião e obrigam todos os súditos a de pedra, porém não habitareis nelas; plantareis as mais excelentes vinhas, visitar, O templo, que passa a ser O único centro de culto porém não bebereis do seu vinho. Porque eu conheço as vossas inúmeras trans- yahavista (de Yahavé, "aquele que é", Deus) e lá pagar uma taxa, gressões e os vossos graves pecados: atacais justo, aceitais subornos e rejeitais O templo atuava lado a lado com rei e a visita do povo ao centro religioso os pobres à sua porta. Por isso, que for prudente se calará, porque é tempo era também uma manifestação de subordinação à Casa de Davi. mau. Buscai bem, e não mal, para que vivais, e Senhor, Deus de todo o Enquanto as coisas caminharam bem, O povo aceitou a Monarquia. Quan- poder, estará convosco, como vós afirmais". (Amós, 5, 11-14) do ela própria deixa de se entender e se divide em dois reinos, de Israel e O de Judá, as coisas começaram a piorar. As pessoas comuns se perguntam</p><p>DA CIDADANIA DA CIDADANIA 27 qual O sentido de viver mal numa Monarquia e se não seria melhor viver, como compreender e aceitar. Não seria errado dizer que O sonho nostálgico como os antigos, numa estrutura tribal. O texto atribuído a Samuel sobre a por um passado imaginado não passa de atitude reacionária, de sonho pelos criação da Monarquia mas escrito bem depois, após O tempo da pregação tempos de vida mais simples de antigamente, talvez a época do nomadismo, de Isaías e Amós é exemplar. Sabendo de tudo O que tinha acontecido ou do governo patriarcal dos camponeses e dos juízes. Em vez disso, os após a unificação das tribos, a pessoa que escreveu texto dá uma de pobres e os profetas presenciavam, entre os ricos e poderosos, uma vida de profeta do passado, adivinhando com precisão aquilo que todos já sabiam.. luxo, de lassidão, de busca do prazer, dinheiro, de orgulho, distante, portan- to, do que entendiam serem as formas justas de relacionamento. E juntando-se todos os anciãos de Israel, foram ter com Samuel, em Ramata, e O paradoxal é que esses reacionários, esses profetas que tomaram a disseram-lhe: "Bem vês que estás velho e que teus filhos não seguem as tuas bandeira nostálgica das mãos da população mais pobre, foram, principal- pisadas; constitui-nos, pois, um rei que nos julgue, como têm todas as nações". mente, grandes Na moral e ao presente, na Samuel, pois, repetiu todas as palavras do Senhor ao povo, que lhe tinha pedido busca de exemplos de relações sociais diferentes no passado idealizado, um rei, e disse: "Este será O direito do rei que há de governar. Tomará os criam um novo modelo do que seria uma sociedade justa, um vossos filhos, e os porá em suas carroças, e fará deles moços de cavalo, e correrão até então inexistente de relação entre os indivíduos. Pela primeira vez, diante dos seus coches, e os constituirá seus tribunos e seus centuriões e lavrado- desde que mundo era mundo, ouviu-se com tamanha intensidade grito res dos seus campos e segadores de suas messes e fabricantes das suas armas e dos oprimidos e dos injustiçados. Amós, principalmente, fazer ouvir carroças. E também tomará dízimo dos vossos trigos e do rendimento das vi- bem alto retrato de uma sociedade injusta. Mais que isso, e nisso consis- nhas, para ter que dar aos eunucos e servos Tomará também os vossos servos tiu seu caráter revolucionário, teve a coragem de dizer quais os caminhos e servas, e os melhores jovens, e os jumentos, e empregará no seu trabalho. que a sociedade deveria tomar para superar a injustiça e criar uma socieda- Tomará também dízimo dos vossos trabalhos, e vós sereis seus servos, E naque- de de pessoas com direitos individuais e sociais. Amós sabia que, ao agir le dia clamareis por causa do vosso rei, que vos mesmos elegestes; Senhor não assim, questionava reino e O templo, as bases da Monarquia hebraica. vos ouvirá, porque vós mesmos pedistes um (I Samuel, 10-18) Ele e Isaías romperam com ritualismo e com O pequeno deus nacional, um deus que necessitava do templo e dos sacerdotes para se impor. Ao O rei, Saul, acaba sendo constituído e as "previsões" contidas no texto criticarem O que existia e proporem uma nova sociedade, cortam suas acima devidamente cumpridas. Como, pois, continuar aceitando a Monar- amarras e partem para mar aberto. Desistem do deus do templo, de qual- quia e templo? As pregações dos profetas são, pois, ouvidas atentamente; a quer templo, e criam deus da cidadania. inquietação e as reclamações ganham volume. Entre a religião do templo, burocrática e sem esperança para eles, e O discurso dos profetas, atingindo que lhes parecia centro do problema, a população se inclinava pela vee- NOTAS mência destes. Não eram suas palavras pronunciadas por Deus, ele próprio? (1) Ver melhor a questão dos ideólogos e das ideologias em Jaime Pinsky, Origens do nacionalismo Elas não atingiam diretamente templo, os ricos e os poderosos, aqueles judaico, principalmente 85-95. que tinham criado e mantido um sistema político que os marginalizava? O (2) La época biblica, pág. 101. povo tinha nostalgia de um tempo passado, que eles não tinham vivido, mas que a tradição oral mantivera vivo, tempo em que, senão na realidade, no BIBLIOGRAFIA seu imaginário, as viúvas eram protegidas, os pobres não eram miseráveis, os ricos não eram tão poderosos, os bens estavam ao alcance de todos, não Biblia. São Paulo: Loyola, 1994 FINKELSTEIN, The jews: their history. Nova York: Schocken Books, 1974. havia servidão, não se pagava O dízimo do templo. KAUFMANN, La época biblica. Bucnos Aires: Paidós, 1964. Os profetas conseguiam ser os porta-vozes da incompreensão das pesso- LODS, Adolphe. Histoire de la littérature et juive. Paris: Payot, 1950. 100 de História Antiga. ed. São Paulo: Contexto, 2001. as com relação aos novos tempos, a um gênero de vida que não tinham Origens do nacionalismo judaico. ed. São Paulo: 1997.</p><p>CIDADES-ESTADO NA ANTIGÜIDADE CLÁSSICA Norberto Luiz Guarinello Pensar a cidadania no âmbito de nosso próprio Estado-nacional ou globalmente é um imperativo imposto pela realidade em que vivemos. Mas que papel pode caber ao historiador da Antiguidade nessa reflexão? É verdade que os primeiros pensadores que se debruçaram sobre a defi- nição do que hoje entendemos por cidadania buscaram inspiração em certas realidades do mundo greco-romano, que conheciam por intermé- dio dos clássicos transmitidos pela tradição manuscrita do Ocidente: a idéia de democracia, de participação popular nos destinos da coletivida- de, de soberania do povo, de liberdade do indivíduo. A imagem que faziam da cidadania antiga, no entanto, era idealizada e falsa. A nia nos Estados-nacionais é um fenômeno único História. Não podemos falar de continuidade do mundo antigo, de repe- tição de uma experiência passada e nem mesmo de um desenvolvimento progressivo que unisse mundo contemporâneo ao antigo. São mundos diferentes, com sociedades distintas, nas quais pertencimento, ção e direitos têm sentidos diversos. Se há contribuição cabível ao historiador da é justamente aproximar dois mundos diferentes, mantendo sempre a consciência dessa distinção, e evidenciar processos históricos que podem iluminar os limites e as possibilidades da ação humana no campo das relações entre indivíduos. O mundo greco-romano permite-nos isso, com a vantagem de descortinar um panorama histórico de longa duração, com amplo painel de sucessos fracassos da ação humana sobre a Talvez nos auxilie a projetar</p><p>30 HISTÓRIA DA CIDADANIA CIDADES ESTADONA CI 31 um futuro desejável para a cidadania contemporânea e nos sirva de alerta de os bancos escolares, de pensar a História Antiga como parte essencial para os possíveis da história do mundo, como uma de suas etapas em direção ao presente. Comecemos pela diferença mais crucial entre presente e passado, a da Trata-se, contudo, de um efeito ilusionista produzido pela necessidade que própria forma da existência social. O mundo greco-romano não se estruturava a Europa sentiu, sobretudo a partir do século XIX, de definir Ocidente em como os Estados-nacionais contemporâneos, mas de modo bem distinto, sua relação com resto do mundo, traçando suas origens na tradição como cidades-estado. Aqui, defrontamo-nos com um primeiro problema: é literária do mundo greco-romano e projetando-a, no presente, como berço tão difícil oferecer uma definição cabal de cidade-estado como é, sabem- da civilização humana. É uma armadilha ideológica difícil de evitar, mas no os historiadores contemporâneos, definir Estado-nacional. As cidades- que rejeitamos conscientemente neste texto. estado, que conhecemos pela tradição escrita, pela epigrafia ou pelas fontes Tratamos, portanto, de uma história localizada, regional. Entre os sécu- arqueológicas, eram muito diferentes entre si: nas dimensões territoriais, ri- los IX e VII a.C. as costas do Mediterrâneo eram apenas que poderíamos quezas, em suas histórias particulares e nas diferentes soluções obtidas, ao definir como uma área periférica, pouco desenvolvida, que sofria a influ- longo dos séculos, para conflitos de interesses entre seus componentes. A ência dos grandes Impérios estabelecidos nos vales fluviais de sua porção maioria delas nunca ultrapassou a dimensão de pequena unidade territorial, oriental, chamado Oriente Médio. Esses séculos, afastados de nós por abrigando alguns milhares de habitantes não mais que cinco mil, quase quase três milênios, são cruciais na história da região. É um período de todos envolvidos com O meio rural. Outras, de porte médio, chegaram a grandes transformações econômicas e sociais, quase uma revolução. Assim congregar vinte mil pessoas. Algumas poucas, portos comerciais ou centros como os Estados-nacionais devem sua consolidação, senão sua formação, de grandes atingiram a dimensão de verdadeiras metropoles, com à industrialização, ao desenvolvimento do capitalismo e à expansão impe- mais de cem mil habitantes e, por vezes, como na Roma imperial, chega- rialista da Europa no século XIX, as cidades-estado também surgiram num ram à escala de um milhão de pessoas. quadro de grandes mudanças econômicas e ainda que sua novida- Além disso, sob termo cidade-estado abarcamos povos distintos, cultu- de seja, hoje, difícil de perceber. ras diferentes, com seus próprios costumes, hábitos cotidianos, leis, institui- Os elementos fundamentais dessa revolução silenciosa podem ser tra- ções, ritmos históricos e estruturas sociais gregos, romanos, etruscos, fenícios, çados pelos vestígios arqueológicos e pelos documentos mais antigos da "itálicos", celtas, berberes cujo destino foi, ao longo do tempo, marcado por região, sobretudo os poemas homéricos. Entre os séculos IX e VIII a.C. imensa variedade de projetos e soluções. Não é fácil (talvez seja impossível) desenvolveu-se um intenso intercâmbio de pessoas, bens e idéias por todo dar conta de tantas histórias, tão diferenciadas, ao longo de quase dois Mediterrâneo. Esse crescimento progressivo da integração entre as costas milênios. Diversidade, fragmentação, modificações incessantes ao longo dos do "mar interno" foi causado, sobretudo, pela necessidade dos impérios séculos: como definir uma cidade-estado? Em busca de uma compreensão guerreiros do Oriente Médio de obter uma matéria-prima preciosa, o ferro. mais abrangente, qualquer definição tem de ser, pela força das circunstâncias, O uso do ferro difundiu-s então pelo Mediterrâneo, assim como de parcial e genérica, consciente das perdas que acarreta para entendimento outras inovações técnicas de grande importância: a arquitetura em pedra, de cada caso particular. É a opção que seguiremos ao longo deste texto. as construções monumentais, a escultura em três dimensões, relevo, a pintura, a fabricação de artigos de bronze e, de modo geral, uso de OS PRIMÓRDIOS metais preciosos, assim como da escrita alfabética e do cavalo de guerra. Não é fácil ter noção do que isso representou à época, uma verdadeira A história das cidades-estado é, em primeiro lugar, geograficamente "revolução industrial" sem indústria. O aumento populacional fai visível localizada e circunscrita. Não é parte da história universal, como a entende- em todo Mediterrâneo. Gregos e fenícios fundaram colônias por toda mos hoje, mas de uma região específica do planeta: as margens do mar parte norte da sul da Espanha, Mar Negro e Itália -, levando É preciso enfatizar esse ponto, pois temos a tendência, des- consigo uma forma de organização social peculiar: a cidade-estado.</p><p>32 HISTÓRIA DA CIDADANIA 33 A ORGANIZAÇÃO COMUNITÁRIA como comunidades, excluindo os estrangeiros e defendendo coletivamen- te suas planícies cultivadas da agressão externa. As cidades-estado surgiram, assim, num quadro de crescimento econômi- Indivíduo e comunidade, portanto, não se negavam reciprocamente na CO e social. Difundiram-se pelo Mediterrâneo a partir de núcleos originais da cidade-estado antiga, mas se integravam numa relação dialética. O indiví- Grécia continental, da Ásia Menor (hoje Turquia) e da Fenícia (atual Líbano). duo, proprietário autônomo de seus meios de subsistência e de riqueza, só Pelos séculos seguintes, até bem adentrado Império Romano, representa- existia e era possível no quadro de uma comunidade concreta que pos- ram um modelo vitorioso, em contínua expansão, de um modo de organiza- suía, por assim dizer, de modo virtual território agrícola. Propriedade ção da coletividade humana, construído sob a égide da progressiva integração individual da terra, fechamento do acesso ao território e ausência de um das costas do Mediterrâneo e, depois, das terras centrais da Europa e do poder superior que regulasse as relações entre camponeses foram Oriente Próximo a um mesmo sistema econômico e de poder. Ao estudar- fatores essenciais na história dessas comunidades Seus confli- mos as cidades-estado, não podemos perder de vista esse quadro multissecular tos internos que, como veremos, foram intensos e crescentes, não podiam de expansão, pressuposto constante nas páginas que se seguem. ser resolvidos no âmbito das relações de linhagem, nem pelo recurso a O termo "cidade-estado" não se refere ao que hoje entendemos por uma autoridade superior a todos. Tinham que ser resolvidos comunitaria- "cidade", mas a um território agrícola composto por uma ou mais planícies mente, por mecanismos públicos, abertos ao conjunto dos proprietários. de variada extensão, e explorado por populações essencialmente Aqui reside a origem mais remota da política, como instrumento de tomada camponesas, que assim permaneceram mesmo nos períodos de mais intensa de decisões coletivas e de resolução de conflitos, e do Estado, que não se urbanização no mundo antigo. Alguns-elementos deram a essas comunida- distinguia da comunidade, mas era sua própria expressão. des camponesas um caráter único dentre as sociedades agrárias da História. Um fator primordial foi desenvolvimento da propriedade privada da terra. Em uma cidade-estado, cada família camponesa cultivava um ou mais lotes AS REGRAS DE ACEITAÇÃO com contornos bem definidos, que eram sua propriedade individual, de onde obtinha seus meios de subsistência, sobretudo trigo, e alguns outros Espaço público e Estado parecem se confundir nas origens das cidades- produtos característicos do Mediterrâneo, como vinho e azeite. As gran- estado. Não é fácil defini-los cabalmente: variaram de cidade para cidade e des propriedades eram formadas, quase sempre, pela multiplicação de pe- se alteraram com tempo, mas a tendência geral foi de expansão. Foram, quenos lotes (alguns muito pequenos, entre dois e dez hectares; outros, os primeiramente, um espaço de poder, de decisão coletiva, articulado em ins- maiores, chegando a quinhentos hectares). A apropriação da terra não era tâncias cujas origens se perdem em tempos remotos: conselhos de anciãos mediada, desta forma, nem por relações de linhagem como nas famílias (como Senado romano ou a gerousia espartana) ou simplesmente de extensas das sociedades agrícolas de caráter tribal, praticantes de uma agri- "cidadãos" (como a bouléateniense), assembléias com atribuições e amplitu- cultura, mais das vezes, itinerante nem pela presença de grandes organi- des variadas, magistraturas e, posteriormente, tribunais. Foi espaço de uma zações como os palácios ou templos do Antigo Oriente lei comum, que obrigava a todos e que se impôs como norma escrita, fixa, Próximo, que organizavam trabalho de grandes populações camponesas publicizada e coletiva. Mas O espaço público abrangia igualmente áreas que em terras coletivas. A terra comunitária, onde existia, era uma reserva para hoje não como "políticas" em sentido estrito: culto comum a loteamentos futuros, sempre apropriados individualmente. divindades que eram próprias de cada cidade-estado; as festividades coleti- De modo geral, podemos dizer que as cidades-estado formavam asso- vas, seguindo calendários que também eram exclusivos; matrimônio geral- ciações de proprietários privados de terra. Só tinha acesso à terra, no entan- mente endogâmico; direito de comerciar bens imóveis e móveis etc. Por fim, to, quem fosse membro da comunidade. As cidades-estado foram resul- e de forma bem acentuada, um exército comum que garantia a defesa do tado do fechamento, gradual e ao longo de vários séculos, de territórios território, encarnando as esperanças de sobrevivência e de expansão de agrícolas específicos, cujos habitantes se estruturaram, progressivamente, cada cidade-estado, num mundo competitivo, fragmentado e guerreiro.</p><p>DA CIDADANIA 34 35 Na maioria das cidades-estado, esse espaço público tendia a materiali- ca. Mesmo na Grécia continental clássica há casos de integração de comu- zar-se em um núcleo urbano que congregava O que era comum por exce- nidades inteiras ao corpo "originário" de cidadãos. Em todas as épocas, a lência: os templos; a praça do mercado, que fazia às vezes de lugar da cidadania podia ser conferida individualmente, como homenagem a um comunitária; porto, por meio do qual a comunidade controla- personagem importante ou retribuição a um favor prestado à coletividade. va os contatos com exterior, obtendo os recursos materiais que não pro- No processo de constituição das identidades particulares, observa-se a duzia; as oficinas de artesãos; as lojas do pequeno comércio; uma acrópole, tendência geral ao fechamento do acesso à comunidade. O grau efetivo de muitas vezes amuralhada, que funcionava como núcleo de defesa e como permeabilidade sempre foi variado e dependeu das situações locais, no en- símbolo da unidade territorial. tanto. Atenas, por exemplo, fechou-se quase completamente no século V a.C., Cidades-estado eram comunidades num sentido muito mais forte do época em que admitia no corpo de cidadãos apenas os filhos de pai e mãe que nos Estados-nacionais contemporâneos. Eram também comunidades atenienses. Já Roma, durante toda sua história, permaneceu mais aberta, tanto imaginárias, que se construíram e inventaram ao longo do tempo. Ao con- externamente unindo as cidades submetidas na Itália a um amplo sistema trário do que pregava a historiografia tradicional, não eram primevas, origi- de alianças e depois à plena cidadania, em 89 a.C. quanto internamente, nais ou naturais, nem tampouco resultado da divisão e subdivisão pro- integrando ao corpo de cidadãos os escravos libertos por seus senhores. gressiva de um grupo de famílias. A realidade, como a vemos hoje, foi bem mais complexa. Sua identidade comunitária foi ao longo do OS INIMIGOS INTERNOS tempo, a partir de populações muitas vezes sem unidade étnica ou racial. Foi criada e recriada, reforçada e mantida por mecanismos que Pertencer à comunidade da cidade-estado não era, portanto, algo de produziram cidadão ao mesmo tempo em que faziam nascer cultos pouca monta, mas um privilégio guardado com zelo, cuidadosamente vigia- muns, moeda cívica, língua, leis, costumes coletivos modos de a comuni- do por meio de registros escritos e conferido com rigor. Como já ressaltava dade fechar-se sobre si mesma e definir seu território. filósofo grego Aristóteles, fora da cidade-estado não havia indivíduos plenos Esse caráter construído das cidades-estado fica claro se pensarmos nas e livres, com direitos e garantias sobre sua pessoa e seus bens. Pertencer à regras que definiam, em cada uma delas, pertencimento legítimo à co- comunidade era participar de todo um ciclo próprio da vida cotidiana, com munidade. É verdade que tendiam a apresentar-se como derivadas de um seus ritos, costumes, regras, festividades, crenças e relações pessoais. ancestral comum, de uma divindade, herói ou grupo de famílias originárias. Não podemos, no entanto, entender a formação dessas comunidades A cidadania antiga transmitia-se, idealmente, por vínculos de sangue, pas- apenas como um processo de inclusão, já que O fechamento da cidade- sados de geração em geração. Na prática, contudo, as comunidades cida- estado implicava, necessariamente, a definição do outro e sua exclusão. E formaram-se de modos bem distintos e é difícil encontrar um princípio outro não era apenas estrangeiro, mas muitos dos habitantes do pró- universal. Uma primeira integração, comum a muitas cidades, foi a da prio território das cidades-estado. Eles participavam da sociedade com seu massa dos artesãos do ferro, do bronze, da cerâmica e dos não-proprietári- trabalho e recursos, mas não se integravam ao conjunto dos cidadãos. Este os de terra à comunidade cidadã. Entre os séculos VIII e V a.C., muitas é um ponto crucial, cuja importância aumentou com crescimento de comunidades permaneceram permeáveis à incorporação de estrangeiros. várias cidades-estado, por expansão econômica ou militar. Muitas delas, Cidades da Grécia continental fundaram colônias que se espalham pelo sobretudo as maiores e mais poderosas, como Atenas, Esparta ou Roma, Mediterrâneo ocidental e oriental alcançando, até mesmo, Mar Negro. Os abrigavam vasta população completamente excluída do corpo que migravam perdiam sua cidadania original. As cidades que fundavam e de cidadãos. As possibilidades foram múltiplas e se alteraram com tem- que difundiam pelo Mediterrâneo eram muitas vezes de composição mista, po, mas podemos sintetizá-las em três casos exemplares. com colonos provenientes de diferentes cidades-estado. No norte da Áfri- O primeiro é dos estrangeiros domiciliados, presentes sobretudo nas ca, na Sicília, nas costas da Itália, surgiram cidades cujos habitantes provi- cidades portuárias e comerciais, como Atenas. Embora integrados à vida nham de origens diversas, fundindo-se em comunidades sem unidade étni-</p><p>36 HISTÓRIA DA CIDADANIA 37 econômica e à teia das relações sociais, eles não faziam parte da popula- imensa diversidade que marca a história fragmentada dessas cidades pode- ção cidadã. Outro exemplo eram os grupos submetidos em bloco ao domí- ríamos citar três fontes de diferenciação interna. nio e controle da comunidade cidadã, mormente após uma conquista mili- Primeiramente, no tocante ao gênero: embora a posição das mulheres tar, como os hilotas e periecos de Esparta situação que se repetia em variasse em cada cidade, em cada âmbito cultural, é fato que elas perma- muitas colônias fundadas pelos gregos, nas quais trabalho fundamental neceram à margem da vida pública, sem direito à participação política, das terras agrícolas era realizado por comunidades subalternas. Ao contrá- restringidas em seus direitos individuais, tuteladas e por ho- rio dos estrangeiros domiciliados, que se acomodavam com sua situação, mens que consideravam lar, O espaço doméstico, como único apropria- essas comunidades foram fonte permanente de conflitos com a cidade- do ao gênero feminino. As mulheres eram, certamente, membros da comu- estado dominadora, quase em busca da independência coletiva e nidade mas membros, por assim dizer, menores. às vezes de integração. Havia, por fim, os escravos, cuja situação no seio Um segundo elemento de conflito diz respeito à distinção entre jovens e das era peculiar. Encontravam-se sob poder de seus do- velhos. Cidades-estado eram comunidades fundadas e legitimadas no passa- nos e eram regidos por regras privadas, sem controle cívico, acesso à esfera do comum, na tradição, no respeito aos antepassados. De modo geral, ob- pública ou quaisquer direitos. Nas cidades mais ricas, em certos momentos, serva-se nelas um forte domínio dos mais velhos sobre os mais jovens, mes- chegaram a compor um contingente expressivo da população um terço mo que fossem os responsáveis, em última instância, pelo ou até Ocupavam todo tipo de ofício, agrícolas e artesanais, e mono- esforço militar que garantia a independência, ou a expansão, de suas comu- polizavam os serviços domésticos. Submetidos a um poder sem limites, nidades. Em muitas cidades, a autoridade dos mais velhos era garantida por sem lei, ao arbítrio de seus senhores, os escravos foram, por boa parte da uma série de mecanismos, como poder, por vezes importante, atribuído história do mundo antigo, fonte de conflitos intensos desde lutas domés- aos conselhos de anciãos, ou limites etários para acesso às magistraturas ticas contra seus senhores até grandes sublevações, como a famosa revolta principais, geralmente na faixa dos trinta ou dos quarenta anos. Embora de na Itália romana. Esses conflitos, no entanto, jamais objetivaram tenha ocorrido conflito de gerações em determinados momentos, a sua integração à comunidade cidadã nem tampouco a abolição da escra- cia e poder dos mais velhos, guardiões da tradição, foi predominante. Esse vatura, mas apenas a liberdade individual dos revoltosos. apego à tradição é uma diferença significativa entre antigos e modernos, Todas as cidades-estado, portanto, conviveram ao longo de suas histórias manifestada, por exemplo, na maneira de legitimar a ordem social e de com inimigos internos por vezes formidáveis. O processo inclusivo de consti- projetar futuros possíveis, fundando-os não na inovação e no desenvolvi- tuição das comunidades cidadãs forjou-se simultaneamente a um brutal pro- mento, mas no respeito ou retorno ao passado. resulta que muitas "cons- cesso de exclusão interna que se tornou cada vez mais agudo, na medida em tituições" preservassem antigos institutos, mesmo que anacrônicos, dando- que algumas dessas cidades cresceram em poder e complexidade social. lhes novo significado sem aboli-los. Há muitos exemplos possíveis, mas caso mais flagrante é de Augusto que, ao fundar sua monarquia, declarou estar restituindo as velhas instituições republicanas romanas. INTERESSES EM CONFLITO O terceiro e mais fundamental elemento de conflito tem suas origens O conflito foi uma das chaves da história das cidades-estado. Contudo, na da terra, principal meio de produção, e nas rela- e esse é um ponto fundamental, ele não se resumia às frequentes guerras ções de trabalho no interior da Desde que temos registros, externas, ou às lutas com a população dominada e não integrada. Isso escritos ou arqueológicos, as cidades-estado aparecem marcadas por pro- porque a própria comunidade cidadã não era, e nunca foi, igualitária ou fundas clivagens sociais: grandes, médios e pequenos proprietários, estes harmônica. O sentimento e a prática da unidade não impediram que as últimos, muitas vezes, no limiar da subsistência; camponeses sem terra, que próprias comunidades fossem crivadas por disputas internas, por suas pró- alugavam sua força de trabalho para um grande senhor; e os não campo- prias regras de exclusão e inclusão no espaço público que as definia. Da neses, como artesãos e comerciantes, que habitavam núcleo urbano e cuja posição, no seio da comunidade, foi sempre ambígua. A comunidade</p><p>38 HISTÓRIA DA CIDADANIA NA CLÁSSICA 39 era, assim, não apenas um de coesão, mas de conflito social, de público ainda embrionário, detinham controle dos ritos religiosos, da lei lutas encarniçadas que, por vezes, ameaçavam sua própria e das ações conjuntas da comunidade, cujos membros, muitas vezes, esta- Interessa-nos ressaltar que não eram conflitos de classe tradicionais, como vam submetidos aos aristocratas por vínculos de dependência pessoal. O os que capitalistas e operários no mundo contemporâneo, Eram de poder dessas aristocracias sobre a comunidade manifestava-se, por exem- outra ordem: embates, por assim dizer, comunitários, mediados pelo plo, na possibilidade de escravizar seus concidadãos por dívidas não pa- pertencimento à cidade-estado, Isso equivale a dizer que tinham, sempre, gas, de tomar-lhes a terra ou de excluí-los forçadamente do seio de suas um caráter econômico, ligado a interesses materiais concretos; um caráter comunidades. Muitos cidadãos pobres migraram, fundando colônias por ideológico, associado à dignidade e ao reconhecimento que a coletividade todo Mediterrâneo. Outros permaneceram e lutaram. emprestava às diferentes categorias em seu interior; e um caráter político, pois espaço de negociação ou de enfrentamento era público, dava-se no âmbito das regras mais gerais que regulavam viver coletivo. A ARISTOCRARIA PERDE FORÇA A luta contra a aristocracia uma crise fundamental e funda O PODER MILITAR dora para a comunidade das cidades-estado. Os eventos históricos concre- tos foram variados, com ritmos diferentes, mas seu resultado foi claro: a Dois eram os focos principais desses conflitos: a participação nas deci- quebra do exclusivismo aristocrático e a abertura do espaço político que que envolviam destino da comunidade, algo que poderíamos defi- consolidou a existência das cidades como comunidades coesas. Os efeitos nir como participação política, e a distribuição ou redistribuição dos recur- fundamentais desse processo foram a garantia da liberdade individual dos comunitários, tanto os materiais terra, alimentos, rendas quanto os membros da comunidade; a publicação de leis escritas; a abertura do espa- simbólicos, como a honra e a dignidade. Esses conflitos internos, inerentes público para camadas mais amplas da população, com a reestruturação à cidade-estado, são uma das chaves do dinamismo de suas histórias. da comunidade como organismo e, por fim, a reorganização do Os fatores que controlaram, nas cidades-estado antigas, ritmo e a exército citadino. Várias causas podem ser enumeradas, sem que se possa evolução desses conflitos foram a concentração de riquezas que sempre estabelecer uma hierarquia entre elas: desenvolvimento do comércio conferiram poder e prestígio a seus detentores e a participação no exérci- através do Mediterrâneo, visível a partir do século VII a.C., com a amplia- to comunitário. Este último tinha um papel crucial. As cidades-estado eram ção da circulação de pessoas, bens e idéias; crescimento do artesanato e comunidades guerreiras, organizadas para a guerra, em luta permanente da riqueza móvel; aparecimento da moeda e desenvolvi- com seus vizinhos próximos ou distantes. Até a imposição da chamada mento dos núcleos urbanos. "paz romana", a guerra foi um fato cotidiano na vida das cidades-estado. A primitiva comunidade agrícola tornou-se uma sociedade mais com- Em seus primórdios, pelo que se observa nas fontes disponíveis, rique- plexa e a riqueza deixou de ser monopólio das famílias O za e poder militar estavam estritamente associados. Na maioria das cidades- uso do ferro difundiu-se por camadas mais amplas da população, amplian- estado, controle da comunidade ficava nas mãos da classe guerreira, do o círculo dos cidadãos capazes de portar armas, produzindo grande constituída por uma aristocracia de senhores de guerra que detinha O mo- mudança nas táticas de guerra. Num movimento que se difundiu pelo nopólio das ações militares. Os membros desse grupo eram os "melhores" Mediterrâneo, de Oriente a Ocidente, cavalo perdeu seu papel de desta- dentre os cidadãos, pelo valor individual no combate, pelo brilho de suas que nas batalhas e a guerra deixou de basear-se no combate singular entre posses, pela rede de alianças familiares que estabeleciam entre si e com aristocratas valorosos para tornar-se uma atividade coletiva. A partir do aristocracias de outras cidades. Era como se constituíssem uma comunida- século VII a.C., desenvolveu-se um tipo de guerra fundado no confronto de menor, fechada e exclusiva, dentro de uma cidade ainda em formação entre formações cerradas de combatentes, que lutavam lado a lado, cada (como os eupátridas em Atenas ou os patrícios em Roma). Num espaço qual protegendo seu vizinho com seu escudo e atacando a formação inimi-</p><p>ANTIGO CLASSICA 40 HISTÓRIA DA CIDADANIA competições teatrais. Os ricos, que acomodaram como puderam ao siste- ga com armas novas, lanças ou espadas de curto alcance. Foi a chamada "revolução hoplítica". Os defensores da cidade-estado passaram a ser não ma democrático, foram obrigados a contribuir com a comunidade de várias formas, construindo naves de guerra, financiando espetáculos e festas religi- mais os agricultores ricos, mas médio campesinato, que se apoderou da osas. Grande parte do sucesso da democracia ateniense deveu-se, sem dúvi- guerra e da defesa do território agrícola da comunidade e fez disso uma da, ao império constituído após as guerras contra os persas, cujos benefícios, arma para aumentar sua participação política no seio da cidade-estado. em tributos e terras cultiváveis, foram distribuídos para os mais pobres. Mas a A conquista da participação política assinala a entrada dessas cidades democracia sobreviveu à derrocada do império, em grande parte pela cons- no seu período clássico. Longe de serem pacíficas, foram transições marcadas tituição, ao longo dos séculos V e IV a.C., de uma verdadeira cultura demo- por crises agudas no seio das comunidades, resolvidas pela intervenção de um legislador escolhido pela cidade-estado como mediador de seus con- crática em sua população. flitos ou de um tirano que, com base no poder pessoal, rompia com as regras comunitárias e dissolvia as prerrogativas aristocráticas. As formas de DESUNIÃO E DECADÊNCIA participação criadas com fim da aristocracia dependiam, sobretudo, da extensão e da força do médio campesinato em cada cidade. Algumas trans- Quando falamos em participação política na cidade-estado antiga, deve- formaram-se em oligarquias, mantendo a participação no poder restrita às mos ter em mente uma diferença radical entre os antigos e nós. Tanto nas famílias mais ricas, ou organizando corpo de cidadãos por escala de oligarquias como nas democracias, a participação política era direta, exercida riqueza. Oligarquias podiam ser muito fechadas, ou mais abertas, englo- por um corpo de cidadãos ativos, que podia ser mais ou menos amplo, mas bando conjunto dos grandes e médios proprietários. De qualquer modo, que representava a si mesmo, por meio do voto individual de seus membros. a diferença em relação à aristocracia do período anterior era marcante: as Nunca se desenvolveu a noção de representação, nem partidos políticos distinções no seio da comunidade não eram mais reguladas pelo nasci- doutrinários, nem uma clara divisão de poderes constitucionais ou qualquer mento, mas pelo poder econômico; as leis públicas e as deci- noção abstrata de soberania: esta podia residir na assembléia, ou num con- mesmo que tomadas por um corpo restrito, passaram a ser selho mais restrito, ou mesmo na lei em geral, dependendo das circunstânci- estabelecidas por meio da discussão e do voto. as específicas e do jogo de interesses e forças em conflito. Outras cidades desenvolveram, progressivamente, formas mais abertas De qualquer modo, a abertura do espaço público, como espaço de de participação no poder, denominadas pelos próprios antigos de "democra- conflitos, tornou clara a oposição entre ricos e pobres. O desenvolvimento cia". O caso mais exemplar foi de Atenas, modelo. para muitas cidades- das trocas comerciais pelo Mediterrâneo e a crescente importância dos escra- estado, onde a participação ao conjunto da população masculi- vos não fizeram senão aumentar cada vez mais as desigualdades no interior na cidadã e a democracia se manteve por quase dois séculos. É importante das cidades-estado. A participação no poder não bastava para fazer frente às conhecer melhor Atenas, pela relevância que possui no imaginário político demandas dos mais pobres a suas comunidades. As cidades maiores, mais até hoje. Em primeiro lugar, uma ressalva: a democracia ateniense nunca foi poderosas, conseguiram amenizar seus conflitos internos expandindo-se absolutamente includente: dizia respeito apenas aos cidadãos bre outras cidades e distribuindo, entre seus cidadãos, as presas de guerra, os excluía, de qualquer forma de participação política, as mulheres, os imigran- tributos e as terras obtidas. Foi caso de Atenas, como vimos, e sobretudo tes e os escravos. Em contrapartida, no âmbito restrito dos cidadãos, repre- de Roma. Nas cidades menores, por sua vez, os séculos seguintes foram sentou uma experiência notável de participação direta no poder de as marcados por aguda crise interna e externa. Premidas ou apoiadas pelas camadas sociais, independentemente da riqueza ou posição social. Criaram- cidades dominantes (Esparta, Atenas, Império persa, Macedônia, Roma), as se mecanismos de indenização pecuniária que facilitavam, aos mais pobres, cidades-estado conheceram profundas divisões internas no seio de suas O acesso à participação na vida comunitária, não apenas nas assembléias e munidades, geradas pela crescente clivagem entre ricos e pobres. Os séculos tribunais, mas até mesmo nas festividades cívicas, como a assistência às IV e II a.C. foram, em particular, agitados por intensas demandas sociais,</p><p>42 HISTÓRIA DA CIDADANIA CIDADES-ESTADO NA CLÁSSICA 43 cristalizadas nas palavras de ordem de redistribuição de terras e de perdão obedecer aos desígnios do centro, ou a sofrer as de seu poder das dívidas dos pequenos camponeses. Crises de tal monta que, em certos militar superior. Curiosamente, no mesmo processo pelo qual se tornou de- momentos, levaram à ruptura do pacto comunitário e à divisão da comuni- tentora de um império que abarcava as demais cidades-estado do dade cidadã em duas cidades, contrapostas entre si e em guerra permanente. neo e outras populações com organização social variada nômades, tribos, Traições, exílios forçados ou voluntários, assassinatos maciços de adversários, estados teocrático-palacianos -, Roma deixou de ser uma cidade-estado, no convocação de apoio externo por uma das facções passaram a ser a tônica sentido que aqui definimos. Com a expansão militar pelo Mediterrâneo, a da vida dessas comunidades. comunidade romana ampliou-se de tal maneira que tornou inviáveis as es- A essa ruptura do pacto comunitário correspondia, por outro lado, uma truturas políticas comunitárias próprias ao pequeno mundo de uma cidade- crescente fraqueza das cidades-estado para enfrentar seus inimigos exter- estado. Com a expansão e crescente afluxo de riquezas, as tensões no nos. Fragmentadas, fechadas pelo caráter exclusivista de sua cidadania, as interior da comunidade romana intensificaram-se. cidades-estado não conseguiram fundir-se em comunidades mais amplas. Um dos pontos centrais do conflito girou em torno da distribuição das As milícias cidadãs tornaram-se pequenas e fracas diante de um mundo em terras conquistadas na Itália. As riquezas trazidas com a expansão não permanente integração. A partir do século IV a.C., observa-se uma crescen- beneficiaram por igual os cidadãos de Roma. Alguns empobreceram, pelas te importância dos mercenários nas atividades guerreiras, oriundos das ca- campanhas contínuas que os afastavam de suas terras, outros migraram madas mais pobres e excluídas das cidades-estado e disponíveis para quem para a cidade de Roma, que se tornava, progressivamente, uma lhes pagasse melhor. Instabilidade interna e fraqueza externa foram as Os cidadãos mais ricos, os que detinham poder político ou faziam negócios causas do fim da cidade-estado A formação de grandes impérios com Estado, viram sua riqueza ampliar-se enormemente, possibilitando pode ser vista, desse modo, como da fragilidade e da insta- um. maciço investimento, por exemplo, em propriedades agrícolas e em bilidade das cidades-estado como forma de organização social. Os impéri- escravos. Boa parte dessas fazendas assentara-se, irregularmente, sobre ter- os que as sucederam não negaram a cidade-estado, mas foram, de certo ras públicas e comunitárias. A luta por sua redistribuição para conjunto modo, sua realização, seu resultado necessário. dos cidadãos agitou as últimas décadas do século II a.C.. O último século da República romana foi um período convulsionado, de SURGE O IMPÉRIO DE ROMA guerra civil quase permanente. Um de seus ingredientes mais importantes foi a mudança introduzida no recrutamento militar. A partir de fins do século II É interessante notar que império que, por fim, unificaria todas as a.C., exército romano tornou-se uma força mercenária, composta por cida- cidades-estado e toda a bacia do Mediterrâneo fosse oriundo de uma cida- dãos de poucos recursos que viam, nas vitórias dos generais que os coman- de-estado cuja cidadania era mais aberta do que a regra geral: Roma, que davam, a possibilidade de obter terras e riquezas no final das campanhas. conseguiu unificar a Itália sob sua égide, formando a maior aliança de Outro elemento foi a chamada Guerra dos Sócios, revolta movida pelas cidades-estado que mundo antigo conheceu. Aliança sólida, baseada no cidades-estado da Itália que culminou, em 89 na concessão da esforço militar conjunto e numa distribuição dos ganhos com a nia romana a todos os cidadãos das cidades da Itália, sem que perdessem, conquista militar, mas também marcada por fortes tensões O Im a cidadania de suas pério de Roma, ao abarcar as demais cidades-estado, levou os Tratou-se de um processo crucial: a cidadania deixou de representar a próprios de uma cidade-estado às últimas comunidade dos habitantes de um território circunscrito, para englobar os A partir de meados do século II a.C., Roma tornou-se a cidade-estado senhores de um império, fossem ricos ou pobres, habitassem em Roma, na dominante em todo Mediterrâneo, impondo, via de regra, governo dos Itália, ou nos territórios conquistados. Roma tornou-se uma potência mais ricos às cidades submetidas ou "aliadas". As cidadanias locais, na Itália mediterrânica, com extensões para a Europa central, e também centro de ou alhures, não desapareceram, mas O escopo de sua ação coletiva passou a uma sociedade complexa, na qual a presença de escravos era cada vez</p><p>44 HISTÓRIA DA CIDADANIA LASSICA 45 mais e perigosa. As estruturas políticas da antiga cidade-estado de complexa, formada não apenas por cidades-estado (romanizadas, Roma, com suas velhas instituições (magistraturas, assembléias, Senado) e helenizadas, semíticas), mas por povos organizados em tribos e aldeias e seu caráter oligárquico não conseguiam mais dar conta do jogo de pres- pelos remanescentes dos antigos impérios teocráticos do Oriente Próximo. e de interesses conflitantes de um espaço tão vasto. as sangrentas Nesse contexto, próprio estatuto de cidadão perdeu sua capacidade guerras civis que agitaram a Itália e Mediterrâneo até a constituição do de representar, politicamente, uma comunidade de direitos e deveres. O Principado, nas décadas finais do século I a.C., com a vitória final do poder, centralizado na figura do imperador, passou a articular-se por gru- general Augusto sobre seus adversários. pos de pressão, vinculados à riqueza e influência pessoais, ou à proximida- de com a casa imperial: plebes de Roma e das grandes metrópoles do Império, senadores de múltiplas origens, cavaleiros que participavam da AS LIÇÕES DO PASSADO administração imperial, elites locais, comandantes e soldados dos diferen- O Principado inaugurou uma nova era, na qual a cidadania mudou, tes corpos do exército, cidades mais ricas ou com representação no Senado mais de caráter. Com O desaparecimento da participação política, O foram os meios pelos quais poder se e se concretizou pelo espaço público restringiu-se. Os novos pólos do poder passaram a ser Império, até a grande crise do século III e a reconstituição da Monarquia, imperador, símbolo da unidade do Império, e exército, esteio de sua domi- cada vez mais absoluta, no século seguinte. nação. Ser cidadão romano permaneceu ainda como privilégio, mas as for- Se por um lado, sobretudo nas províncias orientais, as comunidades con- tinuaram articulando-se como territoriais, agora dominadas mas de obter tal distinção se diversificaram: podia ser por hereditariedade, alforria ou concessão, individual ou coletiva, aos súditos do imperador. Ao por oligarquias de homens ricos e letrados. no Ocidente romano a cidadania romana desterritorializou-se definitivamente, pondo frente a sem mesmo tempo em que permanecia como fonte de privilégios, a cidadania ligava-se a vínculos pessoais e não mais públicos, como os que uniam ex- intermédio de princípios comunitários, ricos e pobres. Aos pobres não resta- senhores a seus libertos ou próprio imperador a seus Público e vam alternativas senão acomodar-se à situação, refugiar-se num banditismo privado passaram a confundir-se no seio da própria definição de cidadão. endêmico ou explodir em revoltas esporádicas contra os ricos locais, sobretu- Durante os dois primeiros séculos do Principado, a concessão da cida- do quando faltava pão. Por outro lado, Império jamais conseguiu incorpo- dania romana alastrou-se até alcançar todos, ou quase todos, os habitantes rar, no seio de sua comunidade político-estatal, os escravos e os povos de do Império. Foi, ao mesmo tempo, uma conquista e uma perda. As prerro- além fronteira, os chamados bárbaros, que irromperiam um dia no próprio gativas do cidadão romano desapareceram, na medida em que todos se coração do Império, fragmentando-o. Deve-se a isso, em grande parte, O tornaram súditos do imperador. O estatuto privilegiado de cidadão romano surgimento e expansão de outras formas de organização comunitária, parale- foi perdendo importância e as diferenças de riqueza por todo las ao Estado, como cristianismo, que permitia aos indivíduos, nesse mundo passaram a garantir acesso privilegiado à justiça (que deixava de ser tão vasto, obter ainda um sentido de pertencimento, uma comunhão de inte- igualitária) e às benesses distribuídas pelo Estado, ao mesmo tempo em resses, um foco de relações sociais. Mas era um novo mundo a iniciar-se. que fosso entre os mais ricos e os mais pobres não cessava de aumentar. Em síntese: a história da cidadania antiga só pode ser compreendida Com tempo, apenas os escravos permaneceram como estrangeiros den- como um longo processo histórico, cujo desenlace é Império Romano. De tro do Império, regidos não por normas públicas, mas pelo arbítrio indivi- pertencimento a uma pequena comunidade agrícola, a cidadania tornou-se, dual de seus senhores. A própria comunidade cidadã acabou por dividir-se com correr dos tempos, fonte de e de conflitos, na medida em duas classes, juridicamente distintas e com direitos diferenciados: os em que diferentes concepções do que fossem as obrigações e os direitos dos chamados "mais honestos", os ricos, e os denominados "humildes", os mais cidadãos no seio da comunidade se entrechocaram. Participação no poder, pobres, cuja situação econômica e social não os distinguia muito da posi- igualdade jurídica, mas também igualdade econômica foram os termos em ção dos escravos. A comunidade imperial converteu-se numa sociedade que se puseram, repetidamente, esses conflitos, até que um poder superior</p><p>47 46 HISTÓRIA DA CIDADANIA se estabeleceu sobre conjunto das cidades-estado e suprimiu da cidadania BIBLIOGRAFIA comunitária, progressivamente, sua capacidade de ser fonte potencial de A politica. São Paulo: Atena, 1957. reivindicações. O fim da cidade-estado antiga, por sua incorporação num Constitution Paris: Belles Lettres, 1922. império de grande extensão territorial, deu novo sentido a esses Ciro. A cidade-estado antiga. São Paulo: Ática, 1984. CHRISTIAN, Meier. La naissance du politique. Paris: Gallimard, 1995. conflitos, que não mais se expressavam pelas linhas de clivagem que uniam CÍCERO. La República. Buenos Aires: Aguilar, 1967. e separavam os antigos cidadãos das cidades-estado da Quan- CORNELL, Tim. The beginnings of Londres e Nova York: Routledge, 1997. do os pensadores iluministas do século XVIII retomaram, a seu modo, a COULANGES, Fustel de. A cidade antiga: estudo sobre culto, direito instituições da Grécia de Roma. Lisboa: Teixeira, 1971 noção de cidadania, foi em outro contexto, buscando inspiração não na FINLEY, Moses. A politica no mundo antigo. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. cidadania estendida e amorfa do Império Romano, mas naquela, potencial- Democracia antiga e moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1988. GLOTZ, Gustave. A cidade grega. São Paulo: Difel, 1980. mente participativa, das pequenas cidades-estado que um dia repartiram HANSEN, Mogens Herman. Polis and city-state. An ancient concept and its modern equivalent. entre si os territórios das planícies do Copenhague: Royal Danish Academy of Sciences and Letters, 1998. Para nós resta uma imagem que nos diz respeito: cidadania implica MARX, Karl. Formações econômicas pré-capitalistas. São Paulo: Paz e Terra, 1981. MURRAY, Oswyn; PRICE, Simon. The greek city from Homer to Oxford: Clarendon Press, sentimento comunitário, processos de inclusão de uma população, um con- 1989. junto de direitos civis, políticos e econômicos e significa também, inevita- NICOLET, Claude. Le de citoyen dans la Rome républicaine. Paris: Gallimard, 1976. OBER, Josiah. The Athenian revolution. Essays on ancient Greek democracy and political theory. velmente, a exclusão do outro. Todo cidadão é membro de uma comuni- Nova Jersey: Princeton University Press, 1999. dade, como quer que esta se e esse pertencimento, que é fonte OSBORNE, Robin. Greece in the making, 1200-479 B.C. Londres e Nova York: Routledge, 1999. de obrigações, permite-lhe também reivindicar direitos, buscar alterar as São Paulo: Atena, 1962. POLIGNAC, François de. La naissance de la Cultes, espace et société VIII-VII siècles relações no interior da comunidade, tentar redefinir seus princípios, sua avant J.C. Paris: Éditions de la Découverte, 1984. identidade simbólica, redistribuir os bens comunitários. A essência da cida- TRABULSI, Antônio Dabdab. Ensaio sobre a mobilização politica na Grécia Horizonte: UFMG, 2001. dania, se pudéssemos defini-la, residiria precisamente nesse caráter públi- WEBER, Max. Storia economica sociale Roma: Riuniti, 1981. co, impessoal, nesse meio neutro no qual se confrontam, nos limites de A dominação não-legitima (tipologia das cidades). Economia e sociedade. Brasília: UnB, uma comunidade, situações sociais, aspirações, desejos e interesses conflitantes. Há, certamente, na história, comunidades sem cidadania, mas só há cidadania efetiva no seio de uma comunidade concreta, que pode ser definida de diferentes maneiras, mas que é sempre um espaço privilegiado para a ação coletiva e para a construção de projetos para O futuro. A chamada globalização, bem como a crise da autonomia dos Estados- nacionais, coloca-nos diante de problemas análogos aos enfrentados pelas cidades-estado quando incorporadas ao poder de um único e grande impé- rio. Como manter e essa é a questão essencial de nossos dias a possibili- dade de ação coletiva num mundo em que as comunidades políticas per- dem, progressivamente, sua capacidade de ação e não conseguem atender às demandas mínimas de seus concidadãos? Como manter comunidades políticas exclusivas num mundo em que capital se internacionalizou, mas não trabalho? Como construir, sem perder a capacidade de ação coletiva, uma cidadania global? Será esta possível ou mesmo desejável?</p><p>A CIDADANIA ENTRE OS ROMANOS Pedro Paulo Funari ROMA No sentido moderno, cidadania é um conceito derivado da Revolução Francesa (1789) para designar conjunto de membros da sociedade que têm direitos e decidem destino do Estado. Essa cidadania moderna liga- se de múltiplas maneiras aos antigos-romanos, tanto pelos termos utilizados como pela própria noção de cidadão. Em latim, a palavra ciuis gerou ciuitas, "cidadania", "cidade", "Estado". Cidadania é uma abstração deriva- da da junção dos cidadãos e, para os romanos, cidadania, cidade e Estado constituem um único conceito - e só pode haver esse coletivo se houver, antes, cidadãos. Cinis é ser humano livre e, por isso, ciuitas carrega a noção de liberdade em seu Cícero, pensador do final da República romana, afirmava no século I a.C. que "recebemos de nossos pais a vida, patrimônio, a liberdade, a A descrição daquilo que os pais nos deixam, segundo estadista romano, é cronológica mas também acumulativa. Recebemos a vida ao nascer; em seguida, a herança, na for- ma de nossa educação quando crianças, que nos permite alcançar a liberdade individual e coletiva na vida adulta. Se para os gregos havia primeiro a cidade, polis, e só depois cidadão, polites, para os romanos era conjunto de cidadãos que formava a Se para gregos havia cidade e Estado, politeia, para os romanos a cidadania, ciuitas, englobava cidade e Segundo a tradição, a cidade de Roma foi fundada em 753 a.C. e caracterizou-se desde as origens pela diversidade de povos e costumes. Na região viviam povos latinos, pastores e agricultores, mas um fator determinante na história romana foi a chegada dos etruscos povo oriun-</p><p>50 HISTÓRIA DA CIDADANIA ACIDADANIA ROMANOS 51 do do norte da Península Itálica. A cidade romana formou-se, então, sob O sa, filhos, escravos. Cada família patrícia podia ter, ainda, um sem número de domínio etrusco e até O próprio nome da cidade parece derivar de uma clientes, agregados que atuavam como força auxiliar dos aristocratas, tanto na estirpe etrusca, Ruma. Os etruscos nunca formaram um único Estado, mas paz como na guerra. Chamados de "homens bons", os patrícios eram os foram fundamentais para desenvolvimento das estruturas sociais das ci- únicos que podiam usar sinais de distinção social como anel de ouro, dades itálicas e, em particular, de Roma. As instituições e formas de gover- uma faixa púrpura na túnica e a capa curta adotada pelos cavaleiros. no romanas originais foram estabelecidas pelos etruscos e poder em Grandes proprietários rurais, os oligarcas romanos desprezavam as ati- Roma esteve, por longo tempo, nas mãos de reis etruscos. vidades urbanas mesmo fruto do trabalho na terra que não fosse feito A sociedade etrusca era formada por dois grandes grupos: a nobreza, por escravos ou agregados subalternos. Durante a Monarquia (753-509 que compunha conselho de anciãos, e restante da população, em e no início da República (509-31 a.C.), essa elite da sociedade romana posição subalterna e sem direitos de cidadania. Essa bipartição social foi constituía uma nobreza sangue, hereditária. Por um bom tempo este foi transferida a Roma na posterior consolidação de dois grupos sociais, os um grupo fechado, um verdadeiro estamento, inacessível. Tal condição patrícios (detentores da "nobreza de sangue") e os plebeus. deu origem a lutas, por parte de outros membros da Outra característica da cidadania legada pelos etruscos foi relevante sociedade, pelo a direitos reservados apenas aos patrícios. papel feminino na sociedade. A grande participação social das mulheres de Até a introdução da infantaria, no século os patrícios desempe- elite entre os etruscos foi importante para que as romanas alcançassem um nhavam papel militar único e detinham grosso das presas de destaque pouco comum em sociedades mediterrâneas antigas. As mulheres Formayam conselho de anciãos, O Senado, composto originalmente pe- romanas podiam assistir aos espetáculos, às representações e aos jogos, e los pais de família patrícios, os patres. Eram os únicos que podiam exercer nunca viviam isoladas no gineceu, como ocorria na Grécia. Participavam de as magistraturas, como pretores, cônsules ou ditadores. Mesmo quando banquetes e eram representadas com destaque na pintura e na escultura. não patrícios passaram a ser aceitos no Senado, com decorrer do período da República, foram chamados de "conscritos" e não podiam votar. POBREZA E ESCRAVIDÃO Entre restante da população havia "povo" e a "plebe", palavras que se ligam à idéia de multidão, massa. A noção de plebe como grupo surgiu no Entre os romanos, agrupavam-se em grandes famílias, co- processo histórico de luta contra os privilégios dos patrícios. Era um termo nhecidas como gentes, unidas pela de descender de antepassa- para englobar todos os cidadãos romanos sem os mesmos direitos dos oligarcas. dos comuns. Os patrícios formavam uma oligarquia de proprietários rurais Na sua base estavam os camponeses livres de poucas posses, aos quais se e mantinham monopólio dos cargos públicos e dos juntaram os artesãos urbanos e os comerciantes. Ao que tudo indica, a plebe Eram, assim, os únicos cidadãos de pleno direito. Na guerra, combatiam a incluía também descendentes de estrangeiros residentes em Roma. e em carros, detendo com isso também um grande poder militar. O Para além da dicotomia entre patrícios e plebeus havia mais dois gru- restante da população romana era formada por subalternos excluídos da pos: os clientes e os escravos. Os clientes, "aqueles que obedecem a um cidadania. Pouco a pouco, foram adquirindo um nome próprio, "povo" mantinham relação de fidelidade ao patrono, a quem deviam (populus). Em grande parte, a história de Roma pode ser vista como uma serviços e apoios diversos e de quem recebiam terra e proteção. Clientes luta pelos direitos sociais e pela cidadania entre aqueles que tinham direi- podiam ganhar independência e passar a integrar a plebe, e vice-versa, tos civis plenos demais grupos. mas isso não era comum. Já os escravos, até século III a.C., eram basica- De início, direitos de cidadania apenas os proprietários rurais. A mente domésticos. Integravam conjunto de propriedades do patriarca e família patrícia formava uma unidade econômica, social e religiosa, encabeçada faziam parte da familia. A pobreza de camponeses e trabalhadores urba- pelo pai de família (pater familias), dotado de autoridade moral (auctoritas) nos levava-os à Assim, embora houvesse rigidez na sociedade e poder discricionário (imperium) sobre os outros membros da família: espo- romana, os pobres podiam mudar de posição. É verdade que quase sem-</p><p>52 HISTÓRIA DA CIDADANIA 53 pre para situação pior de livre para escravo ou de plebeu para cliente. É OS PLEBEUS GANHAM ESPAÇO nesse contexto que se pode entender a grande luta entre patrícios e ple- beus durante a República romana. Os senadores, a barriga da sociedade, procuravam justificar sua posi- ção no organismo social em crise. Em 494 a.C., O povo conseguiu que fosse instituído Tribunado da Plebe, magistratura com poder de veto às A LUTA ENTRE PATRÍCIOS E PLEBEUS decisões dos patrícios. Os plebeus puderam criar suas próprias reuniões, os "concílios da plebe", assim como adotar resoluções, os plebiscitos. A luta pelos direitos civis dos plebeus foi grande motor das transfor- Outro grande avanço da cidadania deu-se quando os plebeus consegui- mações históricas a partir da República, por dois séculos (V e IV a.C.). Parte ram que todos os romanos fossem divididos em tribos geográficas, e não da plebe urbana conseguiu acumular riquezas pelo artesanato e pelo CO- mais hereditárias. No início eram quatro tribos urbanas e 16 rurais. Os antigos mércio, sem que pudesse gozar de igualdade de direitos em relação aos comícios de cúrias, dominados pelos patrícios e seus clientes, foram comple- patrícios. Os plebeus urbanos preocupavam-se, portanto, com os direitos tados por comícios de tribos, nos quais prevalecia a plebe. Em meados do políticos e sociais: queriam ocupar cargos, votar no Senado e século foi publicada a Lei das Doze Tábuas. Embora fosse a codificação casar-se com patrícios, que lhes era vedado. Em um movimento paralelo, da legislação tradicional, que previa grande poder aos patriarcas, estabele- parte da plebe rural teve as terras confiscadas pelo endividamento e lutava ceu-se ali importante princípio da lei escrita. De fato, chamado direito pelo fim da escravidão por dívida e pelo direito a parte da terra conquista- consuetudinário, baseado na tradição, gerava grande insegurança já que, da de outros povos. Apesar dos interesses diversos, os plebeus não tiveram em caso de divergência, a palavra final era sempre dos patrícios. Com a dificuldades para unir-se contra patriciado na luta pela cidadania. publicação da lei, todos podiam recorrer a um texto conhecido para reclamar Os conflitos internos na sociedade romana tornaram-se mais evidentes direitos sem depender da boa vontade dos poderosos. Instituiu-se também a a partir da República, quando os romanos passaram a guerrear em outras classificação das pessoas pelas posses. Isso beneficiou os plebeus ricos, cuja cidades sem a retaguarda etrusca da época monarquica. O poder de barga- importância social começou a ser reconhecida. nha da plebe aumentava, uma vez que O exército passou a depender cada Nos séculos seguintes, as conquistas da cidadania romana ligaram-se à vez mais dos soldados plebeus, tanto cavaleiros não patrícios quanto infan- expansão militar, causa de modificações profundas e duradouras para a soci- tes. Isso resultou nas chamadas "secessões" da plebe, que ameaçava aban- edade. Até final do século V a.C., a estrutura social romana conservava as donar a defesa da cidade se os patrícios não concedessem direitos civis. Os características de uma cidade arcaica, ainda que a luta entre patrícios e ple- dois grandes episódios do gênero foram em 494 e 449 a.C., abrindo cami- beus tenha levado a uma nova configuração social. A antiga sociedade que nho para conquistas da cidadania. O historiador romano Tito descre- opunha dois estamentos, patrícios e plebeus, tornava-se, com a crescente ve a situação da sociedade romana com a seguinte parábola: diferenciação social, cada vez mais complexa. No decorrer do século IV a.C., Antigamente, antes que corpo humano fosse coordenado, cada um dos seus as tensões sociais tornaram-se mais agudas, em parte como resultado da ex- pansão romana no interior da Península Itálica, uma vez que as novas terras membros tinha suas próprias vontades e meios de expressão. Os outros membros estavam zangados, pois tudo que faziam apenas beneficiava a barriga, que ficava conquistadas por mérito da infantaria plebéia não eram distribuídas entre os ociosa bem no centro, a aproveitar que lhe era trazido. Por isso, os membros cidadãos em geral passavam às mãos dos grandes proprietários de terras. Um episódio é sintomático das tensões sociais do período. Os celtas decidiram parar de trabalhar. As mãos não trariam comida à boca, a boca não aceitaria comida, os dentes não mastigariam. Embora seu objetivo fosse fazer a assentados ao norte da Península Itálica, no que viria a se chamar de Gália Cisalpina, venceram tropas romanas e, em 387 a.C., chegaram a ocupar barriga passar fome, os próprios membros e todo corpo sofriam. Isso mostrou Roma por algum tempo. Pequenos proprietários foram os que mais sofreram que a barriga não era, na verdade, apenas consumidora, pois colocava na corren- com os saques. Muitos acabaram escravizados por dívida. Em te sua parte da comida digerida, dando vida a todo organismo. disso, as duas décadas seguintes testemunharam distúrbios sociais contra a</p><p>BICEN /UFS ACIDADANIA ROMANOS 55 54 DA CIDADANIA ordem patrícia vigente. Começou a forjar-se uma aliança de setores patrícios Mais um grande passo foi dado por Ápio Cláudio que, tendo sido com plebeus enriquecidos, que gerou, em 368 a.C., a nomeação de um nomeado censor, tomou medidas que beneficiaram diretamente os ex- mestre de cavalaria plebeu por um ditador patrício e a admissão de plebeus escravos, cidadãos pobres e quase excluídos da vida pública. Antes, os libertos eram distribuídos entre as quatro tribos urbanas, que dificultava a em um colégio de sacerdotes. No ano seguinte, foram aprovadas leis pro- postas pelos tribunos da plebe Caio Licínio e Lúcio Séxtio que assegura- inserção social. Ápio Cláudio passou a distribuí-los entre as tribos rurais. vam maiores direitos políticos aos plebeus enriquecidos e criavam alguns Com isso, ficou mais fácil incluí-los na divisão de terras provenientes das benefícios sociais para as camadas mais pobres. Diversos cargos até então conquistas romanas e integrá-los à vida política camponesa. reservados a patrícios passaram a poder ser exercidos também por plebeus. A última grande conquista plebéia foi a aprovação da Lei Hortênsia, em As relações entre devedores e credores começaram a ser reguladas por 287 a.C., resultado de uma série de agitações e secessões. A lei permitia que lei e nenhum cidadão poderia receber do Estado mais do que 500 jeiras os plebiscitos tivessem força de lei mesmo sem a aprovação final do Senado. (ou 125 hectares) de terras públicas. No campo religioso, os livros sagrados O historiador Floro (1,26) resume bem resultado e os objetivos da plebe: (livros sibilinos), antes controlados pelos patrícios, passaram para cuida- Em meio a essas sedições, esse povo valoroso merece admiração. Lutou por sua do de uma comissão de dez pessoas, os decêmviros, cinco dos quais ple- liberdade, por sua honestidade, por sua dignidade de nascimento e também beus. Essas leis, conhecidas como Licínias Séxtias (367 a.C.), pelos cargos e suas honras, mas, acima de tudo, bateu-se de forma mais valente foram votadas pela assembléia popular, com aprovação do Senado. pela salvaguarda da liberdade. As decisões da assembléia popular podiam, também, ser anuladas pelo Senado. Em 339 a.C., no entanto, a Lei Publília restringiu direito de veto do Alguns estudiosos afirmam que, como resultado das lutas dos plebeus, Senado. Em 300 a.C., com a Lei Ogúlnia, os plebeus tiveram, por fim, acesso Estado passou a chamar-se e Senado de Roma" com a plebe em a todos os cargos tanto políticos quanto religiosos. Um cidadão condenado primeiro lugar! Assim aparece retratado Estado romano no bronze de à pena máxima passou a ter direito de recorrer à assembléia popular em Lascuta, inscrição encontrada na Espanha (Corpus Inscriptionum busca de perdão ou diminuição da pena medida importante para que os Latinarum), e em um decreto de Emílio Paulo, datado de 188 a.C. (Poplus líderes populares não fossem submetidos aos ditames do patriciado. senatusque Romanus)4. O século III a.C. testemunhou grandes progressos na cidadania romana OS PLEBISCITOS e trouxe benefícios diretos para as camadas plebéias superiores, que passa- ram a integrar a elite aristocrática. Os grandes conflitos sociais deslocaram- Todas essas medidas significaram grande avanço para os direitos de se do choque entre patrícios e plebeus para os confrontos entre dominan- cidadania. A limitação de tamanho para as propriedades agrícolas repre- tes e subalternos, romanos e não romanos aliados, senhores e escravos. De sentou verdadeira reforma agrária, pois permitiu aos camponeses acesso uma forma ou de outra, a questão da cidadania sempre esteve em jogo às terras advindas das conquistas romanas, que lhes garantia sustento e nesses embates, pois mesmo os escravos, por meio da alforria, passavam a a independência. fazer parte do corpo cidadão e a lutar por direitos. Outra medida de igual ou talvez até maior importância social foi a No interior da elite dominante, um grupo restrito consolidou-se como abolição da servidão por dívida, determinada pela Lei Poetélia Papíria, de uma aristocracia de patrícios e plebeus, com privilégios, propriedades 326 a.C. Até então, os cidadãos pobres não tinham direito de manter a fundiárias e fortuna, chamada de "nobreza" (nobilitas). Esse restrito círculo própria liberdade. Escravizados, ainda que temporariamente, perdiam todos era composto por pouco mais de vinte famílias. Aqueles que tentavam os direitos civis. Por isso, O historiador Tito Lívio, na época do imperador aceder aos mais altos cargos passaram a ser chamados de "homens novos". Augusto (fim do primeiro século a.C.), não hesitou em dizer que a Lei Poetélia Com origens sociais modestas, às vezes sem sobrenome de família, desta- Papíria trazia a liberdade, fundamento essencial da cidadania. cavam-se pela dedicação e perseverança em raras ocasiões, obtinham</p><p>56 DA CIDADANIA sucesso. A nobreza controlava as magistraturas e assembléias plebéias, de Nesse novo contexto, a configuração social tornou-se ainda mais forma que os avanços sociais beneficiavam mais diretamente as elites ple- da, pressagiando a estrutura de um verdadeiro império em formação. Além béias do que conjunto dos cidadãos As antigas clientelas foram da aristocracia senatorial, fortalecia-se a ordem eqüestre, composta por revigoradas, com a incorporação de comunidades itálicas inteiras à esfera proprietários e empresários, assim como as elites locais itálicas e, em menor de influência dos "nobres", uma vez que tanto patrícios como plebeus ricos medida, provinciais. Por outro lado, os simples cidadãos camponeses pas- passaram a contar com grande contingente de clientes. savam por crescentes dificuldades, incapazes de prestar serviço militar por tantos anos longe de suas pequenas propriedades e acossados pelos A EXPANSÃO MILITAR latifundiários em expansão. A proletarização era crescente, assim como a migração para as áreas urbanas. Também em posição precária estavam os Durante século III a.C., Roma expandiu-se pela Itália antiga e au- itálicos e provinciais livres e pobres e, em estado muito pior, os escravos mentou número de escravos. À diferença dos gregos, sempre ciosos do agrícolas e mineiros, explorados e sem quaisquer direitos civis. Se os escra- direito de cidadania, os romanos a utilizavam como mecanismo de cooptação vos podiam tornar-se cidadãos após libertados, essa possibilidade era da lealdade de outros povos. A concessão de cidadania a aliados era um ma para a massa de escravos não domésticos. lembra os possíveis fator importante para a acomodação das elites nos territórios conquistados. estatutos jurídicos dos homens: Foi uma época de mudanças na sociedade romana, em parte A principal divisão no direito das pessoas é esta: todos os homens são livres ou desencadeadas pela Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.) e suas conse- escravos. Entre os livres, alguns são nascidos livres, outros são libertos. Nasci- Essa guerra leyou combate entre púnicos e romanos para a dos livres são aqueles que nasceram em liberdade; os libertos são aqueles que Península Ibérica e a vitória romana representou significativo aumento da foram libertados de uma escravidão legal. Há três tipos de libertos: cidadãos área dominada. Formava-se um domínio romano ultramarino, transformando romanos, latinos ou submetidos. Mediterrâneo em um mar romano (Mare Nostrum). A primeira metade do século II a.C. viria a testemunhar as sociais da vitória O número de escravos incorporados ao mundo romano não parava de romana: aumento do número de escravos e das propriedades fundiárias, crescer. A oferta era alta. Só na ilha de Delos, no Mar Egeu, até dez mil com resultante crise na pequena agricultura que transformou parte do pessoas eram vendidas por dia. A escravidão doméstica dos primeiros sé- campesinato livre em proletários aqueles cidadãos cujos bens resumiam- culos foi substituída por um verdadeiro regime escravista, que utilizava a se à prole. A riqueza de alguns levava à pobreza de muitos, que não mão-de-obra tanto em grandes propriedades rurais como em empreendi- tardou a gerar novas lutas pelos direitos mentos manufatureiros de massa um prenúncio, em certos aspectos, do Roma, ao extrapolar os limites da Península Itálica, passou a gerir seus moderno sistema capitalista de montagem industrial. Esse novo escravo é novos territórios de forma inédita. As comunidades itálicas, aliadas ou subme- tratado como mercadoria, equiparado a objetos e animais. Em termos jurí- tidas, haviam, historicamente, sido incorporadas pelo Estado romano. Ao saí- dicos, houve a passagem da escravidão de para a de estran- rem da Península, no entanto, os romanos criaram um novo conceito: a geiros. A vida do inimigo vencido estava legalmente nas mãos do vencedor província, um território administrado pelos romanos para seu benefício, sujei- poupá-la dava direito de usar serviços do cativo (seruus, escravo, to a tributação. Criaram-se, então, as províncias da Hispânia Citerior e Ulterior conservado para servir). A escravidão de massa significou uma importante (197 a.C.), seguidas da Macedônia (148 a.C.), África, com a destruição de mudança de concepção. No grande levante iniciado em 136 a.C. e contro- Cartago e Ásia a.C.). Sem direitos de cidadania, os provinciais lado quatro anos depois, quase duzentos mil escravos homens e adultos presenciaram estabelecimento de municípios e colônias de cidadãos roma- que labutavam na ilha da lutaram não pela obtenção da cidadania, nos. Apenas com o tempo as elites locais passaram a usufruir direito de mas para escapar do domínio romano ou seja, do sistema escravista. cidadania concedido caso a caso, com base na lealdade ao poder romano.</p><p>ACIDADANIA ENTRE OSROMANOS 59 58 HISTÓRIA DA CIDADANIA OS IRMÃOS GRACO E A CRISE AGRÁRIA contra inimigo suas tumbas e seus lugares de culto, pois nenhum desses roma- nos possui nem altar de família, nem sepultura de ancestral. É para o luxo e Outro grande episódio das lutas pela ampliação da cidadania foram as enriquecimento de outrem que combatem e morrem tais pretensos senhores do campanhas dos irmãos Graco. Membros da família plebéia Semprônia, mundo, que não possuem sequer um torrão de Tibério e Caio Graco faziam parte da "nobreza" e tinham entre seus ante- passados nomes ilustríssimos como Cipião, Africano gran- A situação descrita por Tibério refletia um processo assim descrito pelo de conquistador romano. Oriundos da mais alta classe, protagonizaram um historiador movimento agrário voltado à satisfação das agruras dos cidadãos campo- Os ricos tomavam a maior parte das terras públicas e, confiantes de que nin- neses em crise iniciada pelos latifundiários. guém nunca as retomaria, começavam a avançar nos lotes vizinhos e nos poucos Tibério, nascido em 163 a.C., teve educação filosófica esmerada e se- acres dos pobres camponeses das redondezas, às vezes pela persuasão, outras guiu carreira pública digna de seus predecessores familiares. Tibério, ao pela força, de forma que, ao final, estavam em suas mãos imensas propriedades atravessar a Etrúria romana, no norte da Itálica, para dirigir-se à rurais, no lugar dos antigos pequenos lotes camponeses. Usavam escravos como Península Ibérica, em 137 a.C., ficou chocado com a pobreza daquela agricultores e pastores, pois temiam que, se usassem mão de obra livre, os terra, outrora tão fértil. Notou que nos campos já não havia camponeses, camponeses fossem obrigados a parar o serviço para servir no exército. A posse mas hordas de escravos provenientes de outras partes do mundo mediter- de escravos era altamente rentável, pois havia muitos à disposição e não estan- Decidiu, então, combater a condição miserável dos agricultores e do sujeitos à leva militar, podiam multiplicar-se em cativeiro. Assim, os podero- defender seus não somente por valorizar os soldados cidadãos, tornaram-se ricos ao extremo e a Itália estava repleta de escravos, enquanto mas por perceber que poderio romano estava ameaçado pela fraqueza decrescia a população livre da Itália, abatida pela pobreza, pelos impostos e estrutural do campesinato, base do exército. Sem camponeses soldados, pelo serviço militar. não haveria exército romano. Como continuar a defender Império no se predominavam latifúndios trabalhados por escravos? A terra pública, A reação dos senadores, grandes proprietários, à legislação de Tibério foi antes dividida entre os cidadãos comuns, estava agora concentrada nas a esperada. Alegaram que haviam obtido as terras de forma legítima, que mãos dos latifundiários. haviam feito com que se tornassem produtivas, que sua distribuição levaria à Tibério candidatou-se e foi eleito tribuno da plebe, cargo que ocupou destruição da República. A aprovação da legislação de Tibério foi conturba- a partir de 10 de dezembro de 134 a.C. Propôs a Lei Semprônia, que da e, ao final, os senadores acusaram-no de tramar a implantação de uma limitava uso ilegal das terras públicas pelos grandes proprietários, cujos monarquia, proclamando-se rei de Roma. Seus opositores no Senado acaba- fundos agrícolas não deviam ultrapassar antigo limite de quinhentas jeiras ram por assassinar Tibério quando este tentava reeleger-se (125 hectares), com possíveis acréscimos de 250 jeiras por filho. As terras Sem o líder, a execução da reforma agrária seguiu a passos lentos, até a públicas retomadas seriam divididas entre os cidadãos pobres, que teriam eleição de Caio Graco como tribuno, em 124 a.C. Embora a legislação de lotes de trinta jeiras (7,5 hectares), sem que pudessem vendê-las, como Tibério visasse beneficiar a todos os camponeses, aliados itálicos dos romanos faziam, forçados pelos latifundiários. Para tanto, foram eleitos pelo povo sentiram-se prejudicados, que levou Caio a repensar as medidas. Ele propôs triúnviros encarregados de distribuir as terras. Em sua arenga, Tibério utili- todo um programa legislativo: lei agrária, militar, direito de cidadania romana zou-se de metáforas para explicar a situação: aos aliados itálicos, distribuição de alimentos, reforma judiciária. O tamanho das terras concedidas não seria mais de trinta, mas duzentas jeiras. Excluiu das Os animais da Itália possuem cada um sua toca, seu abrigo, seu refúgio. No distribuições algumas áreas em mãos de senadores importantes. Foi reeleito entanto, os homens que combatem e morrem pela Itália estão à mercê do ar e da tribuno em 123 a.C. e as reformas caminhavam, até que seus inimigos conse- luz, nada mais: sem lar, sem casa, erram com suas mulheres e crianças. Os gene- guiram que sua proposta de concessão de cidadania romana aos itálicos fosse rais mentem aos soldados quando, na hora do combate, os exortam a defender</p><p>ACIDADANIA 61 60 DA derrotada, pois os cidadãos romanos pobres foram convencidos de que a e os oligarcas, com as lutas entre Mário (representante popular) e general extensão da cidadania poderia prejudicar seus interesses. Conseguida essa aristocrata Sila no final do segundo século e início do primeiro século a.C., vitória, os oligarcas maquinaram para que todas suas medidas fossem ab- quando os cidadãos pobres conseguiram algumas conquistas como a rogadas e, sob pretexto de que Caio havia participado de um assassinato, possibilidade, a partir de 111 a.C., de participar do exército mesmo sem ter conseguiram que Senado declarasse a República em perigo por causa dele. renda mínima. Os proletários puderam chegar ao exército e conseguiram, Os oligarcas mataram Caio e mais de três mil cidadãos que se alinhavam com nas décadas sucessivas, a concessão de terras, na forma de colônias, aos as reformas. veteranos do exército. Os cidadãos soldados passaram, no entanto, a estar O domínio oligárquico propiciou uma crescente preocupação dos cida- mais ligados a determinados generais que à República. Em menos de um dãos quanto ao abuso de poder e à corrupção. Legislação contra essas práticas século, as antigas instituições republicanas cederiam passo ao Principado, tornou-se um importante meio de garantir os direitos dos cidadãos, como se regime baseado no poder no exército. pode deduzir de uma lei datada de 122 a.C. e preservada em uma inscrição: A extensão da cidadania romana para as comunidades itálicas era uma demanda corrente no segundo século a.C. e, como resultado, eclodiu uma Se qualquer pessoa que tenha atuado como ditador, cônsul, pretor, mestre da revolta armada dos itálicos contra os dominadores pela cidadania. Druso, cavalaria, censor, edil, tribuno da plebe, questor, encarregado de penas capi- um nobre romano partidário dos populares, em 92 a.C., que a cida- tais, ou de distribuição de terras, tribuno militar das legiões I a IV, ou filho de dania fosse concedida a todos os itálicos. Houve oposição de diversos seto- qualquer desses, ou qualquer pessoa que seja, ou cujo pai seja, senador, tenha, res, a começar por algumas das próprias elites itálicas, como a etrusca, que no exercício de cargo público ou com a devida autorização, tomado, retido ou tinham já a cidadania romana e que não estavam interessadas que campo- ilegalmente pego soma de dinheiro que exceda no prazo de um neses e artesãos obtivessem iguais direitos. Druso, desaprovado pelo Sena- ano, de qualquer pessoa que seja um aliado, seja de direito latino, seja estran- do, foi assassinado, O que desencadeou a guerra entre os aliados itálicos de geiro, sob a soberania, domínio, autoridade ou amizade do povo romano, de tal Roma contra a República romana, em defesa dos direitos de cidadania e da pessoa ou de seu rei, povo ou pai, ou de qualquer pessoa, agora ou doravante, manutenção dos costumes tradicionais de cada comunidade itálica. Ao final ligada a ele ou a seu pai por autoridade, posse ou propriedade legal, ou de do conflito, em a.C., todos os insurgentes que se rendessem podiam obter qualquer pessoa para a qual ele ou seu pai ou filho seja herdeiro, tal pessoa terá a cidadania romana, que significou um grande aumento do número de direito de abrir um processo e processar. O pretor conduzirá uma investigação e cidadãos romanos, agora todos os homens livres na Península Itálica. julgamento, veredicto e avaliação dos danos serão de responsabilidade de tais Restrições aos direitos civis, contudo, afloraram com nas dé- pessoas, como estabelecido nesta lei, por decisão da corte de cadas seguintes, pois as guerras entre populares e oligarcas levaram à ditadu- ra do general Sila (82-78 a.C.), apoiado pelo Senado. Sila fez aprovar uma Ao menos em termos legais, os cidadãos comuns podiam, portanto, série de leis que fortaleciam poder do Senado e enfraqueciam os poderes recorrer dos abusos de autoridade cometidos pelos poderosos. A fixação ligados à plebe. Essas medidas foram abolidas, mas os generais posteriores pública de inscrições que garantissem esse direito demonstra a preocupa- adotaram atitudes semelhantes que resultariam em limitações aos direitos ção fundamental de dar a todos O acesso à informação de suas prerrogati- civis, tanto no final da República como, principalmente, no Principado. vas jurídicas. Esses são dois princípios basilares da cidadania: a possibilida- Neste contexto, a revolta de Espártaco, líder escravo, adquire sentido. de de recorrer do abuso e amplo acesso à informação dos direitos. Em 73 a.C., um antigo pastor trácio, Espártaco, vendido como gladiador, atuante em Cápua, liderou uma imensa sublevação de escravos. Nas pala- POPULARES E ARISTOCRATAS EM CONFLITO vras de Apiano:9 O trácio Espártaco, um ex-soldado romano que fora feito prisioneiro e vendido As lutas pela cidadania continuaram, nos anos seguintes, com a crescen- te polarização da sociedade romana em dois grandes grupos, os populares como gladiador para a escola de treinamento de lutadores de Cápua, persuadiu</p><p>62 HISTÓRIA DA CIDADANIA ACIDADANIA ENTRE ROMANOS 63 cerca de setenta homens a arriscarem sua vida pela liberdade, antes que para severa de direitos foi em 121 a.C., na esteira da crise dos irmãos Graco, na agradarem ao público. Dominaram os guardas, roubaram viajantes e armaram- forma do senatus consultum ultimum (estado de sítio). Por outro lado, esse se com clavas e armas brancas. Esconderam-se no Monte Vesúvio, onde muitos período final da República viu O reconhecimento legal dos grêmios corporativos, escravos fugitivos e alguns camponeses livres juntaram-se ao bando (...) Espártaco espécie de sindicatos. Na maioria dos casos, os membros desses collegia, como logo liderava um exército de setenta mil homens... Por três anos ele venceu as eram chamados os grêmios, eram pequenos comerciantes e artesãos, mas tropas romanas até a batalha final, na qual sofreu uma ferida de uma lança na também libertos e até mesmo escravos (com a concordância de seus pa- coxa, de joelhos, mas continuou a defender-se com seu escudo. Lutou até As eleições eram disputadas. Essas associações não contavam com a que ele e seus companheiros foram cercados e mortos. O resto de seu exército simpatia das elites, preocupadas com a presença de escravos fugitivos e de caiu em desordem e foi trucidado. Os mortos e feridos foram tantos que nunca criminosos. As suspeitas de que tais associações poderiam ser também "covis se pôde contar e O corpo do Espártaco nunca foi encontrado (...) O restante de de criminosos" motivaram a crescente introdução de tropas militares na cidade seu exército, em número de seis mil homens, foi capturado e todos foram cruci- de Roma, para manter a ordem. Essa presença de tropas, esporádica no final ficados ao longo da Via Ápia, de Cápua até Roma. da República, tornou-se permanente a partir do Principado, com Augusto. período tardio da República romana, no entanto, testemunhou um grande avanço nas possibilidades de iniciativas jurídicas dos cidadãos. A im- ELEIÇÕES E CIDADANIA plantação de cortes com jurados e do voto secreto na assembléia garantiram aos cidadãos em geral e explica, também, a importância da oratória. Do As eleições, em Roma, constituem outro grande tesouro da cidadania. êxito dos discursos dependiam as decisões nas reuniões populares. Isso per- Os comícios por tribos eram muito importantes, pois elegiam questores, mitiu que se adotassem medidas contrárias aos interesses aristocráticos. Várias edis, tribunos militares e tribunos da plebe. À diferença de muitas cidades formas de ação coletiva faziam parte da justiça popular, como O uso da gregas, em que O direito de voto era restrito, em Roma votavam pobres e sanção moral coletiva, de modo a coagir O acusado de alguma ofensa a se As funções das assembléias eram tanto eleitorais como comportar conforme os desejos da população. A população urbana, por di- legislativas, e princípio fundamental do voto romano era voto por versas vezes, promoveu manifestações de arruaça a fim de exigir um "preço grupo, não individual. César construiu um edifício, no Campo de Marte, justo" para trigo. Outras manifestações comuns eram os versos obscenos ou para as eleições populares. A ampla área de 25 mil metros quadrados agressivos em relação a personagens políticos, vociferados em praça pública poderia comportar setenta mil pessoas. A lista dos candidatos era afixada e, mais raramente, escritos nas paredes da cidade. Outra forma de justiça no dia do escrutínio, como esclarece um documento datado do ano 5 a.C.: popular era linchamento, quando houvesse um crime muito violento a ser punido, como no caso de autoridades que abusavam do poder ou participa- Que presidente dos comícios trate de colocar, em locais que se possa ler com vam de assassinatos políticos. À diferença de gregos e judeus antigos, que facilidade, tábuas de madeira brancas, nas quais estarão escritos os nomes dos praticavam linchamento por apedrejamento, os romanos executavam acusado "esquartejando-o com suas próprias mãos" (manibus discerpere). O voto secreto foi introduzido ao final da República e, para isso, ado- Foi esta, aliás, a prática adotada pelos assassinos de Júlio César, em 45 a.C. tou-se voto por escrito (per tabellam, "em uma cédula"). Além desses As últimas décadas da República testemunharam grande violência política. comícios eleitorais, havia reuniões prévias (contiones), com participação Um dos resultados foi a promulgação de diversas leis destinadas a limitar O uso inclusive de quem não tinha direito a voto. da força, como a Lei Lutácia, de 78 a.C., e as leis Júlias, sobre violência pública As lutas pela cidadania centraram-se nos embates entre os próprios e Neste contexto, está inserida toda a legislação de estado de exce- cidadãos, entre populares e oligarcas, conflitos que caracterizaram todo O ção ou emergência, em vigor no final da República e que tanto restringiu as período tardio da Os conflitos entre os generais Pompeu e Júlio liberdades civis nessa época. A primeira vez que se fizera uso dessa limitação</p><p>64 LUSTÓRIA DA CIDADANIA ACIDADANIA ROMANOS 65 César representaram bem essa oposição, com a vitória final de César. Ele se Otávio Augusto manteve, na aparência, regime republicano e, de fato, tornou ditador em 47 a.C. e, após adotar uma série de medidas administra- Estado continuou a chamar-se de res publica. Passou, no entanto, a ser domi- tivas, foi assassinado em 17 de março de 45 a.C. As preocupações domi- nado pelo do Senado, conhecido também como general do exército nantes nos círculos populares do período podem ser bem avaliadas por (imperator, de onde deriva nosso conceito moderno de império). Um uma obra de aconselhamento a Júlio César, atribuída a Salústio: pio do direito romano, "o que agrada ao príncipe (= imperador) tem força de viria a caracterizar, de certa maneira, os limites dos direitos civis romanos, Aceito a tradição da bipartição da República entre patrícios e plebeus. Na medi- uma vez que a satisfação do imperador passava a ser um parâmetro jurídico. O da em que a maioria plebéia entrava em conflito com a autoridade patrícia, a historiador Moses Finley viria a interpretar tal preceito como a prova do poder República sofreu secessões, que, pouco a pouco, minaram poder discricionário do príncipe. Seria a partir de Otávio Augusto, contudo, que se patrício e fortaleceram os direitos plebeus. A plebe teve liberdade de secessão, consolidariam de maneira sintomática direito romano e as prerrogativas da pois ninguém estava acima da lei: a precedência de um nobre sobre um homem cidadania. Uma história contada por mostra como, a despeito do comum baseava-se na sua boa fama e bravura, não na riqueza ou arrogância (...) brocardo jurídico acima citado, príncipe não era um senhor de seus súditos: Mas quando a desocupação e a pobreza expulsaram os plebeus de suas fazen- das e os levaram a vagar sem posses, começaram a cobiçar a propriedade alheia Teve Augusto sempre horror ao título de 'senhor', como se fosse ofensivo e inju- e a colocar sua liberdade e da pátria à venda (...) Tenho, contudo, esperanças rioso. uma vez no teatro, quando disse um ator: senhor bondoso e que uma injeção de novos cidadãos os acordará para a importância da liberdade Todos os espectadores, aplicando tais palavras a Augusto, aplaudiram com (...) Aconselho a misturar novos cidadãos com antigos e fundar colônias. Isso entusiasmo. Augusto conteve, com suas mãos e olhar, estas adulações e, no dia produzirá um exército mais uma camada inferior alheia à subversão, seguinte, publicou um edito censurando-as. Nem tampouco permitiu que seus pró- dedicada a boas atividades. Naturalmente, antevejo a reação dos nobres, em prios filhos e netos O chamassem de 'senhor', seja seriamente, seja de brincadeira. sua raiva. Gritarão que 'o mundo está de cidadãos serão como 'nossa República será uma ditadura', povão O termo "senhor" (dominus) era usado apenas pelos escravos para se dirigirem a seus donos. O regime imperial viria a concentrar poder, mas, até final do século II, os imperadores não usaram a expressão "senhor" que O PRINCIPADO E A CIDADANIA viria a mudar a relação entre os cidadãos e general governante. Durante os O assassinato de César levou a nova guerra civil e ao triunfo, em 31 a.C., dois séculos de Principado, direito de cidadania foi, aos poucos, expandi- de seu sobrinho, Otávio Augusto. Ele reorganizou a estrutura política e do, atingindo um número sempre maior de habitantes do mundo romano. redimensionou a cidadania romana. O próprio Otávio Augusto deixou uma Apenas a cidadania romana permitia que uma pessoa gozasse de plenos descrição de seus feitos (Res gestae), na qual se percebe tanto a pretensão de direitos, ainda que a posse de cidadanias locais continuasse a ser importante manter regime republicano como a realidade da concentração de poderes no que tange a questões de âmbito restrito. Alguns historiadores chegaram a afirmar que Império Romano nada mais era do que uma imensa federação em suas mãos: de cidades autônomas, cada uma com sua cidadania. Não cabe dúvida de Não aceitei a ditadura que me foi oferecida pelo povo e pelo Senado. Não acei- que a cidadania local conferia direitos diversos, tanto políticos como civis. tei tampouco consulado anual e vitalício, apesar de me ser oferecido. Anuindo Podia-se votar ou ter propriedade apenas com a cidadania local. Cada Senado e povo romano em que eu fosse nomeado sozinho curador das leis de possuía uma câmara municipal (ordo decurionum) e magistraturas diver- e dos costumes, com poder ilimitado, não aceitei magistratura alguma que con- sas, às vezes abertas até mesmo aos libertos. A importância da cidadania trariasse as instituições dos antepassados. Fui príncipe do Senado durante qua- romana, contudo, não pode ser subestimada, pois era a única a garantir total renta anos, até dia em que escrevi essas proteção jurídica. Um bom exemplo disso pode ser observado no caso de Paulo de Tarso, numa passagem do Novo Testamento, da</p><p>66 DA CIDADANIA ACIDADANIA 67 Quando um tribuno foi prender Paulo, ele disse: 'é-vos lícito açoitar um romano, não pode fazer um testamento grego. A propriedade de libertos de metropolita- sem ser E, ouvindo isso, foi e anunciou ao tribuno, dizen- nos que morrem sem filhos é herdada pelo seu antigo dono ou por seus filhos, do: 'vê que vais fazer, porque este homem é romano'. E vindo tribuno, disse-lhe: se existem e se reclamam a herança, mas não por suas filhas ou ninguém mais. 'dize-me, és tu romano?' E ele disse: 'sim'. E respondeu tribuno: 'eu, com grande Um metropolitano não pode deixar a seus libertos mais do que quinhentas soma de dinheiro, alcancei este direito de Paulo disse: 'mas eu de dracmas ou um donativo de cinco dracmas mensais. Heranças deixadas por Ao governador da Judéia Festo, em seguida, Paulo dirá: 'apelo para gregos da classe ginasial para romanos ou por romanos para gregos foram César'; então Festo, tendo falado com O conselho, respondeu: 'para César apelaste, confiscadas pelo deificado Vespasiano. Romanos não podem casar com suas para César irás'. Uma vez em Roma, foi permitido a Paulo morar por sua conta, irmãs ou tias, mas podem fazê-lo com as filhas de seus Filhos de uma tendo em sua companhia soldado que guardava. Por dois anos permaneceu mãe metropolitana e de um pai egípcio permanecem egípcios, mas podem her- Paulo na sua própria casa, que alugara, onde recebia a todos os que dar de ambos os pais. Filhos de um homem ou mulher de cidadania romana casado com um metropolitano ou com um egípcio fica com status PRIVILÉGIO Durante Principado, a cidadania municipal continuou importante. Dividia corpo de cidadãos em dois grupos: Senado municipal e A concessão de cidadania, em seus aspectos jurídicos e políticos, signi- povo, ordopopulusque. Ordo, origem da nossa palavra "ordem", significa- ficava uma mobilidade social importante. Plínio, Jovem, conta, em carta va, inicialmente, a "ordem de fios em uma trama" e logo passou a designar enviada ao imperador caso de um médico chamado Harpocras: conceito abstrato de "grupo", em particular para designar os agrupamen- tos de cidadãos: ordo senatorius (senadores), ordo equester (cavaleiros), Fui aconselhado por pessoas mais experientes do que eu que, já que ele é um ordo plebeius (plebeus). Com tempo, contudo, ord isoladamente passou egípcio, deveria ter, primeiro, obtido para ele a cidadania de Alexandria, e ape- a designar a ordem senatorial, os membros de um conselho, e, no caso das nas depois, a romana. Não sabia que havia diferença entre egípcios e outros cidades, grupo de decuriões ou vereadores (ordo decurionum). Assim, não romanos, contentei-me em escrever para você informando, somente, que havia, de um lado, povo e, de outro, a ordem. Nas províncias, os gover- era um liberto de uma mulher estrangeira [sem cidadania romana] e que seu nadores tinham jurisdição tanto sobre os cidadãos comuns como sobre os havia morrido pouco antes. decuriões (ordo), restando a prerrogativa de julgamento em Roma apenas Uma vez obtida. a cidadania romana trazia consigo privilégios legais para a mais alta elite de membros do Senado romano. Por este motivo, um fiscais importantes, permitia a seu portador a direito e a obrigação de estudioso como Andrea Giardina não hesita em dizer que, no mundo ro- seguir as práticas legais do direito romano em contratos, casa- mano imperial, somente os membros da aristocracia senatorial, sustentados mentos, direitos de propriedade de guarda de indivíduos sob sua tutela por sua riqueza, por seu prestígio e por sua rede de clientes e amigos, (como as da família e parentes homens com menos de 25 anos). seriam cidadãos de pleno direito. No entanto, até século III, ser chamado No entanto, os direitos advindos da cidadania romana não desobrigavam de cidadão representava uma importante garantia de direitos políticos e indivíduo de obedecer à cidadania original em uma cidade específica. O sociais, mesmo para as pessoas comuns. direito, de certa forma, controlava e moldava a estrutura social, como fica claro em um código de meados de século II, nos quais se distinguem CIDADANIA E OPINIÃO PÚBLICA diversas categorias sociais e jurídicas no Egito romano (cidadãos romanos, de Alexandria, ginasiais, metropolitanos e aldeãos): Cidadania, hoje, liga-se à opinião pública, aos anseios e clamores do conjunto de cidadãos. Haveria opinião pública na cidadania romana? A Se em um testamento romano inclui-se uma cláusula dizendo que 'minhas dis- própria palavra opinião é de origem latina (opinio). Embora no mundo posições em códices gregos são isso não é admissível, pois um romano</p><p>68 HISTÓRIA DA CIDADANIA antigo não houvesse comunicação de massa e, menos ainda, pesquisas de É necessário que assim diga, de modo a ser aprovado pela multidão, e mesmo opinião pública, foi naquele ambiente que surgiu conceito de "opinião". seja aprovado pelos cultos... Aquilo que não é aprovado pelo povo, não pode referia-se a popularis opinio, e opinio tanto era termo usado para ser provado para um auditório traduzir grego doxa, por oposição a episteme (ciência), como, mais pro- saicamente, para designar "impressão", verdadeira ou falsa. "Impressão" Cícero, em seu De lege agrária (1, 7, 8), argumentava que, se corresponde bem à raiz de dokeo ("parecer, pensar, imaginar") e, ainda mos a opinião pública, descobritíamos que ao povo agradava, antes de que não saibamos a origem de opinio, transmite a sensação de falta de tudo, a paz: certeza, imprecisão. Este é o sentido do termo em outra frase de apud barbaros opinio plus ualet saepe quam res ipsa ("entre os Assim, se observarmos que seja agradável e bom para povo, não encontrare- homens bárbaros, a impressão vale, muitas vezes, mais do que a própria mos nada tão popular quanto paz, concórdia e realidade"). Expressões como opinio est ("considera-se") e opiniones omnium ("todos acham"), bem como sentido de "boato" que a palavra Seriam estas as palavras usadas nos anúncios pompeianos? Nos carta- conduzem-nos à percepção de um espaço público que permitia a zes eleitorais que chegaram até nós, encontramos expressões mais concre- existência não apenas do sentido individual da opinião (ut mea opinio est, tas, próximas àquelas usadas por e outros autores eruditos, mas "na minha como da impressão tornada coletiva. outras de sabor bem Haveria, pois, necessariamente, um espaço público antigo, uma O uso de expressões como oro faciatis (peço que elejam), abrevia- da como ouf, escrita como uma sigla está a indicar tanto a compre- Öffentlichkeit ("abertura", "esfera pública"), para usar um conceito moder- no implícito na cidadania, subjacente à opinião pública. Como podemos ensão generalizada da expressão e da abreviatura quanto poder da ter acesso, contudo, a essa opinião? A maneira mais direta são as paredes opinião pública de "fazer" candidato. Entre os que se apresentam como de Pompéia, que preservaram grande número de epígrafes cuja existência propugnadores das candidaturas encontramos muliones um só pode ser explicada pela vitalidade de um campo de expressão da cida- princeps libertinorum ("primeiro entre os pomari gallinarii e outros mais obscuros, como dania em público. Dois tipos de inscrições compõem esse campo: programmata (cartazes eleitorais) e edicta munerum edendorum (anúncios ou seribibi da Quaisquer que sejam de apresentações no por um lado, e graphio inscripta (grafi- as interpretações para essas assim como para aquelas de mulhe- tes), por outro. Os primeiros, feitos com tinta em letras capitais cursivas, res que apóiam candidatos, estão todas a ressaltar que havia atores sociais considerados dignos de menção nas paredes. Não se discute fato de que eram anúncios para serem vistos à distância, enquanto os outros eram as mulheres não votavam. Nem é difícil pensar que a presença de categorias intervenções individuais voltadas para público. O estudo desses dois tipos de expressão permite tecer algumas conside- sociais subalternas pode representar uma inscrição paga por membros da rações sobre a opinião pública, em uma cidade romana como Pompéia, elite. Porém, que nos importa é que havia uma opinião pública que por exemplo. A ubiquidade dos anúncios chamou a atenção de diversos aceitava mulheres, libertos e pobres como supostos autores de discursos estudiosos, que concluíram que as inscrições eleitorais eram, provavelmen- públicos. Não se citariam esses "homens humildes e obscuros", nas pala- te, expressões do caráter competitivo da elite local, que emergia do público vras de se eles não fizessem parte de um espaço público. nas eleições anuais e fazia-se visível por meio dos nomes dos candidatos pintados por toda a cidade. VIRA PÚBLICO Pode notar-se que os magistrados queriam fixar, na mente pública, a sua gloria e fama. em seu excurso no Brutus (183-200), ressalta Os "cartazes de divulgação de demonstram a preocupa- que deve haver harmonia entre os julgamentos de cultos e incultos: ção, por parte dos patrocinadores desses eventos, de tornar pública sua oferta de lutas de gladiadores e de caçadas. Note-se a menção ao</p><p>70 HISTÓRIA DA CIDADANIA nio "sem despesa a revelar a valorização, por parte dos leitores pompeianas, remete a uma sociedade cujo funcionamento implicava a do cartaz, do uso de recursos privados, ainda que a excepcionalidade da existência de uma esfera de relações públicas e abertas. Quando detalhes expressão permita entrever que não se tratava de costume generalizado. privados são tornados públicos e quando a própria vida coletiva encontra- Outras inscrições pintadas revelam notável atenção à opinião alheia, se tão insistentemente tratada é porque, naquela sociedade, havia uma pública e anônima. Assim, um certo Lúcio queria que esses leitores opinião pública que não se restringia à elite, mas estendia-se à cidadania nitos soubessem que havia pintado e um tal de Caio Júlio Trofimo como um todo. queria desenhar-se e assinar seu nome. Tanto seu nome, de origem servil, como as incorreções ortográficas ressaltam que Trofimo se encontrava em JOGOS E CIDADANIA posição social modesta que, no entanto, não impedia de ambicionar comunicar-se com Outro aspecto importante da participação da cidadania na vida pública Os grafites podem ser caracterizados como verdadeiro manancial de consistia nos jogos de gladiadores. Pode parecer estranho relacionar cida- intervenções públicas. Dois deles demonstram, de forma muito clara, a dania e esses jogos sangrentos, mas esses espetáculos foram importantes preocupação privada com a "opinião pública" e merecem ser mencionados na afirmação da Os jogos de gladiadores têm origem muito in Um libelo de um Severo contra um Sucesso, rivais na busca do antiga, tendo surgido com os etruscos. Na origem, eram lutas entre guerrei- afeto de uma foi escrito à entrada de uma caupona ("taberna"), ros em honra de um soldado valoroso morto em combate. Tinham, desde com os seguintes dizeres: O início, um aspecto religioso, pois celebravam a vitória da vida sobre a morte. Com passar do tempo, as lutas de gladiadores, juntamente com as Severo o tecedor, ama Iris, escrava taberneira, que não lhe dá aten- caçadas e as execuções de condenados, passaram a fazer parte de um ção. Mas pede que tenha dó dele, mas ela não liga. Escreva, rival, saudações. ritual de caráter a um só tempo religioso e legal. Em geral, os jogos eram Sucesso invejoso, porque arrebenta com ciúmes! Não persiga quem é mais realizados no Fórum, mercado, ou, a partir de fins da República romana atrativo e que é robusto e maldoso. (século I a.C.), em anfiteatros. Era sempre a luta da civilização contra a Severo disse e escrevi. Você ama Iris, que não se importa. De Sucesso para barbárie, humano contra animal, justo contra injusto, um meio Severo, como acima, público de mostrar que a sociedade domina as forças da natureza e da Na entrada do bar, havia um público atento a tais discórdias, envolven- perversão social. do dois cidadãos e uma escrava. Outro exemplo relata a preocupação com Ao contrário do que se vê em filmes, a luta de gladiadores não se a reputação pública nesse texto destinava à mera diversão do povo, nem a luta era Ao final de cada combate, perdedor devia retirar capacete e oferecer pescoço ao Já desempenhou oito, superará 16. Trabalhou como taberneiro, ceramista, vencedor, que não podia tirar-lhe a vida de motu Também não salsicheiro, padeiro, agricultor, bronzista de quinquilharias, vendedor de rua; agora cabia ao magistrado ou ao imperador decidir destino do perdedor: ape- é ceramista de pequenos vasos. Para completar, só falta praticar o nas os espectadores podiam fazê-lo. A decisão, assim, estava nas mãos da multidão, a testemunhar um ato de soberania popular que só teria equiva- Tornar pública uma declaração como essa remete a um espaço coleti- lência, no mundo moderno, com os referendos ou plebiscitos, em que vo, ao público de todos os níveis sociais. Isso apenas seria possível em todos se manifestam. O princípio da soberania popular manifestava-se, na uma sociedade com significativo espaço público, na qual a expressão arena, de forma direta e incisiva. Se nas eleições as mulheres não tinham verbal era essencial para a vida coletiva e para O exercício da cidadania. direito ao voto, na arena todos podiam manifestar-se, prerrogativa que a Não se pode subestimar a importância desse aspecto do mundo romano, cidadania moderna atingiria apenas no século XX. A condenação à morte pois a centralidade da vida pública, atestada nas inscrições parietais tampouco era resultado de um simples capricho, da mera avaliação de</p><p>HISTÓRIA DA CIDADANIA superioridade física de um lutador sobre outro. O principal quesito para Em pergunta outro. que perdedor fosse poupado era ter mostrado valentia. Vigiar a entrada, proteger a casa contra os ladrões, mesmo à noite. Os romanos possuíam conceito de "humanidade" (humanitas), que Estou, seguramente, disposto a isto! Por ora, sofro com a neve e a chuva, levo tinha conotações que ultrapassavam a "urbanidade" (urbanitas). Humanitas uma vida árdua nas florestas; como me seria mais cômodo viver sob um teto sem implicava educação liberal, elegância de costumes, hábitos da classe alta. As- fazer nada, alimentar-me e saciar-me de comida! sim, alguns historiadores consideram que a arena de espetáculos não servia Siga-me, então. apenas como lugar de integração de romanos ricos e pobres, mas também No caminho, lobo reparou no pescoço do cão, que a coleira tinha marcado. para separar os civilizados, que os espetáculos, dos bárbaros. De onde vem isso, meu amigo? Não é nada. a ubiquidade de arenas em cidades fronteiriças do mundo roma- no, daí sua localização próxima ao limite físico que separa recinto urba- Conte-me, eu lhe peço. no amuralhado do campo, daí sua presença no mundo de fala grega, Acham-me muito fogoso, por isso prendem-me durante o dia para que eu como sinal de identidade romana, talvez mais eloquente do que domínio repouse quando está claro e para que eu zele quando chega a noite. No crepús- do latim pois se, no Oriente, poucos dominavam latim, muitos podiam, culo, sou desatado e you onde quero. Sem que eu tenha que me mexer, trazem- por meio dos espetáculos, tomar parte do ritual de identificação com a me pão; de sua mesa, meu dono me dá ossos e as pessoas da casa atiram-me romanidade. Em toda parte, em cidades grandes ou pequenas, no Mediter- porções de tudo aquilo que não querem. Assim, sem me cansar, encho meu râneo ou nas fronteiras, a arena representava um lugar de afirmação da estômago. cidadania e da justiça. Nem todos os romanos tinham os mesmos senti- E, diga-me, se você quiser in a algum lugar, você pode? mentos quanto aos jogos de gladiadores; havia quem os condenasse e Não, absolutamente. mesmo os que os aprovavam tinham interpretações diversas sobre seu Seja feliz a seu modo, cão; não gostaria de um trono que me tirasse a significado. Em qualquer caso, contudo, a palavra final estava nas mãos Esse amor à liberdade estava na base da cidadania romana. A moderna daqueles que ali se reuniam, homens e mulheres, ricos ou pobres. cidadania, na base mesma da democracia, funda-se na distinção romana da chamada liberdade negativa, ou seja, a liberdade de não se submeter à A LIBERDADE E O DIREITO ROMANO vontade de outrem. Gaio informa-nos em Institutas que, perante a lei, as pessoas são escravos ou livres, como vimos anteriormente, mas acrescenta Subjacente ao direito de cidadania encontra-se a própria noção de dados essenciais: liberdade, definida como a não submissão ou sujeição a outra pessoa, conceito esse que será fundamental para as formulações dos fundadores Algumas pessoas são independentes (personae sui outras estão submeti- da cidadania no mundo moderno. Uma fábula de Fedro (3,6) retrata bem das a outrem (alieno iuri Destas pessoas submetidas, algumas estão valor da liberdade para os romanos: sob poder (in potestate), sob domínio marital (in manu) ou sob servidão (in mancipio). Examinemos as pessoas submetidas pois, se soubermos quem é su- Relatarei, sumariamente, a docura da liberdade. bordinado, saberemos quem é independente. Vejamos primeiro os que estão no Um gordo e saciado encontra um lobo magro ao extremo; eles se cumpri- poder de outrem. Os escravos estão no poder de seus senhores. Este poder mentam e param: baseia-se no direito dos Diga-me, de onde vem tal exuberância? Que comida lhe deu esta corpulência? Eu, que sou bem mais corajoso que vocês, morro de fome. Os pensadores modernos verão nesta definição os fundamentos da li- O mesmo destino lhe espera, se você puder servir dono de mancira idêntica berdade individual. Se, numa sociedade civil, somos todos ou livres ou responde, bondosamente, subordinados, então um cidadão livre deve ser aquele que não o</p><p>74 DA CIDADANIA ACIDADANIA ENTRE OSROMANOS 75 domínio (in potestate) de nenhuma outra pessoa é, portanto, capaz de os editos (edicta), decretos (decreta), respostas a petições (rescripta) e ins- agir segundo seu próprio juízo e direito. Esse foi entendimento da liberda- truções a outros magistrados, ou mandados (mandata). Um dos princípios de que levou, 17 séculos depois de Gaio, ao choque entre Parla- básicos do direito romano ligado à cidadania consiste no caráter público das mento inglês e a Coroa absolutista de Carlos I, em 1642. O conjunto de determinações legais, princípio que já estava na Lei das Doze Tábuas e que cidadãos com liberdade, os cidadãos, representados no Parlamento, queria levaria, quando da expansão romana pelo mundo mediterrâneo, à publica- controlar poder militar mas rei anunciou que se uma lei emanasse do ção extensiva das leis, como demonstra a Lex Irnitana. Chegou até nós na Parlamento ele não a cumpriria, ao fazer uso do direito de veto. Esse direito forma de inscrição pública e, numa de suas rubricas, estabelece: absolutista, chamado de Negative Voice, fundava-se, de forma sintomática, no princípio romano já mencionado de que que agrada ao príncipe tem Que os magistrados tenham exposto ao público edito do governador da pro- força de lei", pois que não lhe agrada tampouco pode ser uma lei. Contu- víncia e que exerçam sua jurisdição em conformidade com ele. Todos os editos, do, os cidadãos livres objetaram que se rei pudesse uma lei seria as fórmulas judiciais e os interditos que tenham publicado em sua província Parlamento e, por extensão, os cidadãos livres, a estarem em servidão, governador dessa província, os que destes digam respeito à jurisdição do magis- subordinados. Já não seriam pessoas de próprio juízo (personae sui iuris), trado que presida a jurisdição no município Flávio Irnitano, todos eles tenham mas subordinados ao rei (alieno iuri subiectae). A questão central consiste governador publicados e anunciados nesse município, de modo que se possa em que a liberdade é condicionada pela subordinação, que leva a uma ler, com facilidade da própria rua, durante a duração de sua magistratura, diaria- maneira original de encarar as relações entre a liberdade dos cidadãos e a mente, a maior parte do constituição do Estado civil, que deve refletir a opinião dos Deri- va desses conceitos, cruciais não apenas para a Revolução Puritana Inglesa No ano de 212, imperador Caracalla estendeu a cidadania romana a do século mas também para as revoluções Americana e Francesa do todos os homens livres do mundo romano, prenunciando a generalização século XVIII, a noção de que só existe liberdade individual se existir uma dos direitos de cidadania entre milhões de pessoas. Contudo, os poderes cidadania que se governe a si mesma, pois viver como súditos de um imperiais aumentavam e, como vimos, todos se transformavam em súditos governante viver na no limite, como Esse mesmo do dominus, do imperador patrão que tudo podia. A universalização da tema foi também tomado de quando afirma que, sob Tibério, "côn- cidadania romana levou, também, à sua desvalorização e à criação de novos sules, senadores e cavaleiros foram lançados à servidão". tipos de diferenciações sociais. Ricos e poderosos passaram a ser designados O direito romano consiste, portanto, em fundamento essencial das refle- como bonestiores os outros foram chamados de "mais humildes" Durante os anos centrais do século III, entre 235 e 275, sucederam-se comba- xões modernas sobre a cidadania. A consolidação do direito romano deu-se, tes entre os generais romanos, período de guerra civil que destroçou as por primeira e decisiva vez. no Principado direito romano baseava-se no sistema de processo por fórmulas, Uma queixa podia ser feita ao pretor que estruturas políticas e sociais do Império. As cidades, que por séculos haviam se acostumado à vida sem ataques militares, passaram a preocupar-se com designava um ou mais juízes. Para instruir juiz, pretor instruía a ação com uma breve declaração, chamada de formula, que indicava juiz, nomeava amuralhamento. O dominado acentuava, aos poucos, a concentração de poderes arbitrários nas mãos dos generais. Com Constantino, no início do as partes na disputa, especificava a questão legal em jogo e solicitava século IV, a administração imperial foi reorganizada, com burocracia cres- julgamento. Em seguida, juiz ouvia advogados dos dois lados e emitia um cente, enquanto as cidades, já em redução desde as guerras civis, continua- veredicto. Desde final da República, dominavam os procedimentos os estudiosos do direito, chamados de jurisconsultos. Os juristas, desde Augusto, ram a diminuir, com êxodo dos aristocratas para suas propriedades rurais. podiam emitir pareceres jurídicos, verdadeiras respostas a consultas legais A conversão do imperador Constantino ao cristianismo foi seguida da constituição do Império Romano Cristão, prenunciando acentuado (responsa). Os principais instrumentos legais eram as leis (leges), os decretos das prerrogativas da cidadania clássica. Consolidou-se, contudo, a compilação do Senado (senatusconsulta), além de decretos emanados do como do direito romano, legado ao mundo moderno na forma do Código de Justiniano.</p><p>76 HISTÓRIA DA CIDADANIA 77 CIDADANIA MODERNA E LEGADO ROMANO 7, setembro de 1998, 12-13, 1998; As pesquisas sobre a Clássica no Brasil: cidadania e erudição, História Cidadania, XIX Simpósio Nacional da ANPUH, 153-162, 1998; Ensino de História, modernidade cidadania, in E. Zamboni (org.), Anais do Encontro de do Ensino Como podemos avaliar a importância da experiência romana para de Campinas, FE/UNICAMP, 21-30, 1999. conceito moderno de democracia? Para muitos estudiosos do século XX, a (3) Ab urbe condita 2, 32 República romana foi encarada como uma oligarquia corrupta, uma aristo- (4) Sigo a de Degrassi: L. Aimilius L.f. inpeirator decreinit utei quei Hastensium sernei in turri Lascutana habitarent leiberei essent. Agrum Quod ea posedisent item possidere cracia endinheirada, comparada negativamente com a Atenas democrática habereque ioussit dum poplus senatusque Act. In castreis a.d. XII K. texto, bastante do século V a.C. Nas últimas décadas, entretanto, estudiosos têm mostrado arcaico na grafia, parece indicar que costume de nomcar Senado e depois o povo é tardio e talvez corresponda à atistocrática da época de Sila, no início do século I a.C. uso da fórmula que a vida política romana era menos controlada pela aristocracia do que senatus populusque em Tito Lívio para descrever épocas muito anteriores seria, neste caso, reflexo do uso se de certa maneira, Roma apresentava diversas características corriqueiro, em sua época (início do século d.C.), da fórmula criada um século antes apenas. Os textos em comum com as modernas noções de cidadania e participação popular antigos foram traduzidos pelo autor dos originais gregos ou latinos, à exceção daqueles cuja referência tradução fot explicitada no capítulo. na vida social. Os patriarcas fundadores dos Estados Unidos da América (5) Institutas (1, 3, 9-12) tomaram como modelo a constituição romana republicana, com a combi- (6) Plutarco, Tibério Graco, 9,4, cm Jaime Pinsky, 100 textos de História Antiga. São Paulo: Contexto, 1988. (7) Guerras civis 1, 1, 7 nação de Senado e Câmara (no lugar das antigas assembléias). A invenção (8) Corpus Inscriptionum Latinarum 1, 2, 583, linhas 1-3 do voto secreto, em Roma, tem sido considerada a pedra de toque da (9) Guerras civis 1, 14, 116-120 liberdade cidadã Fórum pode ser considerado símbolo maior de um (10) Reportadas no Digesto 48, 6-7 (11) Segundo o Digesto 47, 22, 3, 2 sistema político com forte participação da cidadania. Lá, os magistrados (12) Tabula Hebana, 20-21 defendiam seus pontos de vista e tentavam conseguir apoio dos cida- (13) Carta segunda sobre funcionamento 5-6 (14) Res Augusti, 5-7, resumido dãos. O poder dependia desse apoio, a tal ponto que grupos rivais compe- (15) Quod principi placuit legis tiam pelo controle dos lugares em que os cidadãos se reuniam. Os roma- (16) Vida de Otávio Augusto, 53 nos tinham um conceito de cidadania muito fluido, aberto, (17) Atos dos Apóstolos, 22-28 (18) Cartas, 10, 6 se do conceito moderno de forma decisiva. (19) Alan K. Bowman, Egypt after the Londres: British Museum, 1986, 127-128 (20) Oralio pro Cluentio 2, 33, 70 (21) Frag. 7 (22) E.g. Suctônio, Nero 53, Just. 8,3,8 AGRADECIMENTOS (23) Necesse est, Qui ita dicat ut multitudine probetur, doctis probari. illud quod populo non probatur, ne intellegenti guidem auditori probari Agradeço aos colegas Geza Alföldy, Alan Bowman, Masaoki Doi e Carla B. Pinsky. Devo (24) Etenim, circumspiciamus omnia quae grata atque incunda sint, nibil tam populare mencionar, ainda, os apoios institucionais do Núcleo de Estudos Estratégicos da UNICAMP, da quam pacem, quam concordiam, otium reperiemus. (25) Em alguns casos, encontramos, nos cartazes cleitoriais pompeianos, termos presentes em autores FAPESP, do CNPq e da Universidad de Barcelona, onde, como professor visitante, pude eruditos, sendo, talvez, melhor exemplo a inscrição CIL IV, 45, amator(em) facial(is) aed(ilem) desenvolver parte da pesquisa apresentada neste capítulo. A responsabilidade pelas idéias M. Ma(rium?), análoga à frase de Cicero (Ad Att. 1, 20) L. Papirius uir bonus amalorque uso de amator ("amigo") denota o valor atribuído ao candidato, que se comporta, com relação aos eleitores, restringe-se ao autor. como um "amante". O mesmo pode dito do uso de optimus (CIL IV, 158, optimum innenem, 187 optimos) e bonus (CIL IV, 499); o termo defensor coloniae 768), que aparece nos documentos da tradição literária apenas no século IV d.C., referindo-se à proteção em relação aos governadores, surge NOTAS muito antes, em como "patrono". O uso de probissimus (CIL IV, 460, Paquium et Caprasium probissimos) também ccoa o uso (cf. Plaut. 1,2,53: frugi usque et probus fuil). Diversas (1) A parentibus nobis patrimonium, libertas, cinitas tradita Cic. P. red. in sem. 2 fórmulas eleitorais repetidas indicam que candidato devia ser considerado dignus rei publicae (digno da (2) Sobre o conceito moderno de cidadania, remeto aos seguintes artigos de minha autoria: Antigüi- coisa pública) (CIL IV, 220, Rufum dig(num) reip(publicae)). Note-se que relacionado a decet dade, proposta curricular formação de uma cidadania democrática, Revista Brasileira de 7,14, portanto, a decor, deve ter origem comum com a palavra grega doxa, justamente, "opinião, 261-262, 1987; Cidadania Compadrio, Registro, UFOP, 3, 5, 1996; Universidade, crudição cidada- A frase tem uma forma bem popular e demonstra para a cidadania cm geral. nia, maio, 11, 1996; Cidadania compadrio: relações de poder e atividade acadêmica (26) cf. IV, 351, 352 em questão, in Cláudio DeNipoti & Gilmar Arruda (orgs), Cultura volume 1, (27) 97, 113 ANPUH-PR, Londrina, 11-23, 1996; Cidadania, erudição e pesquisas sobre a Antiguidade Clássica no Brasil, (28) CIL IV, 117 do CPA, 3: 83-98, 1997; Ensino de História, Modernidade e Cidadania, Bolando Aula (29) 202</p><p>78 DA CIDADANIA 79 (30) CIL IV, 241 FUNARI, Pedro Paulo, e Roma. São Paulo: Contexto, 2001. (31) CIL IV, 575 Propaganda, oralidade e escrita em Pompéia. In: História, São Paulo, 1998/9, números (32) CIL IV, 581 17/18, (33) Humiles et obscuri homines, Cicero, Diu. 1, 40, 88 Graphic caricature and the ethos of ordinary people at Pompeii. In: Journal of European (34) Edicta munerum edendorum Archaeology, Londres, 1993, número 1, fasciculo 2, 133-150. (35) Sine impensa publica, CIL IV, 7991; cf. De Republica 2, 14: sine Suetônio, Vesp. GAIUS. The Institutes of Gaius, Latin Text. Londres: Duckworth, 1988. 18: impensa publica The commentaries of Gains and Rules of Ulpian. Cambridge: Cambridge University Press, (36) CIL IV, 7535: Lucius pinxit 1885. (37) CIL IV, 7309, b; Fig. 3 GIARDINA, Andrea (org.). romano. Roma: Laterza, 1989. (38) CIL IV, 8258; 8259 GOODMAN, Martin. The Roman World, 44 BC-AD 180. Londres: Routledge, 1997. (39) (Severo) GRIMAL, Pierre. La civilisation romaine. Paris: Flammarion, 1981. Successus textor amat coponiaes ancilla(m) JACQUES, Le de liberté. Politique et autonomie municipale dans les cités nomine Hiridem, quae guidem illum de l'occident romain. Roma: Ecole Française de Rome, 1984. non curat, sed ille illa LINTOTT, Andrew. The Constitution of the Roman Republic. Oxford: Oxford University Press, 1999. Scribit Vale. Fergus. The Crowd in Rome in the Late Republic. Michigan: University Michigan 1999 (Sucesso) NICOLET, Claude. Le métier de citoyen dans la Rome républicaine. Paris: Gallimard, 1976 quia rumperes, sedare (uel se(c)tare) formosiorem, NIPPEL, Wilfried. Public Order in Ancient Rome. Cambridge: Cambridge University Press, 1995 et qui est et bellus. PINSKY, Jaime. 100 textos de Antiga. cd. São Paulo: Contexto, 2001. (Severo) ROBINSON, Olivia. The Sources of Roman Law. Problems and Methods for Ancient Historians Dixi, scripsi. Amas Hiridem, Londres: Routledge, 1997. quae non Six Sucesso, ut supra (40) CIL IV, 10150 (41) (Cum) de(d)uxisti octies, tibi superat (=superest), ut (b)abeas sedecies. Coponium fecisti. Cretaria fecisti. Salsamentaria fecisti. Pistorium fecisti. Agricola fuisti. Aere minutaria fecisti. Propula Laguncularia facis. Si cunnu(m) linxseeris, consummaris omnia. (42) Em Jaime Pinsky, 100 textos de História Antiga (43) Gaio, Institutas, 1, 48-52 (44) Anais 1, 7 (45) Conforme texto da epígrafe estabelecido por Álvaro e Javier D'Ors (1988:69): magistratus ut in publico habeant album eins qui prouinciam optinebit, ex que dicant. Quaecunque edicta, quasue formulas indiciorum, quasque sponsiones, stipulationes, satis acceptiones, exceptiones, praescriptiones, quaeque interdicta is qui ei prouinciae praerit, in prouincia proposita habebit, quae corum ad iuris dictionem eins magistratus quis [in] municipio flauio irnitano i(ure) d(icundo) p(raerit) pertinebunt, ea omnia in in municipio, in magistratu, quotidie maiorem cuiusque diei proposita babet ut d(ie) p(lano) r(ecte) 1(egi) BIBLIOGRAFIA ALFÖLDY, Romische Sozialgeschichte. Wiesbaden: Franz Steiner, 1984. BOARDMAN, John; GRIFFIN, Jasper; MURRAY, Oswyn (eds). The Roman World. Oxford: Oxford University Press, 1990. BOWMAN, Alan. Egypt after the Londres: The British Museum Press, 1986. ; CHAMPLIN, E.; LINTOTT, A. (eds). The Cambridge Ancient History, volume X, The Augustan Empire, 43 B.C.- A.D. 69. Cambridge: Cambridge University Press, 1996. DOI, The results and issues of post-war Japan's studies on slavery in Classical Antiquity. Tóquio: 1982. D'ORS, Alvaro; D'ORS, Javier. Lex Irnitana. Santiago de Compostela: Universidad de Santiago de Compostela, 1988. FINLEY, Moses. A no Mundo Antigo. Rio de Janciro: Zahar, 1985.</p><p>CRISTIANISMO AS COMUNIDADES DOS PRIMEIROS SÉCULOS Eduardo Hoornaert Por si só, a rápida expansão do jovem movimento cristão no seio da megassociedade romana e mesmo fora das fronteiras orientais do dito Império tem tudo para impressionar. A minúscula "sinagoga dissidente", iniciada na Galiléia com Jesus de Nazaré e abrigada no casulo do judaísmo rabínico por 150 anos, multiplicou-se em tempo recorde. O movimento alcançou, já no século I, a Síria litorânea, partindo de Antioquia; penetrou na Ásia Menor, com centro em Éfeso; espalhou-se no delta do rio Nilo, com centro em Alexandria; e finalmente no Mediterrâneo ocidental, na Grécia e na Itália. No decorrer do século II atravessou a Síria oriental e formou base em Edessa, na margem direita do rio Eufrates; a partir de suas bases na Ásia Menor chegou às regiões da Capadócia e Armênia; atravessou igualmente a África do Norte, com base em Cartago; subiu ao interior do Egito para além da sexta catarata do rio Nilo; e subindo do outro lado do mundo - rio Ródano, alcançou a Gália e a Espanha. Tudo isso é impressionante e suscita a pergunta: de onde provém tão extraordinário desenvolvimento em tão pouco tempo? Qual o segredo? A literatura corrente sobre assunto costuma aduzir principalmente cin- CO razões para que chama de "vitória do martírio, a santi- dade, os milagres, a evangelização e mais modestamente - a criação de uma rede associativa entre populações marginalizadas. Acontece que, con- tra cada uma das quatro primeiras razões alegadas, por sinal as mais invocadas na história oficial das igrejas, problemas de ordem científica. As pesqui- sas históricas desmentem O discurso das igrejas. Assim, sabemos que mar-</p><p>HISTÓRIA DA CIDADANIA tírio não teve nem de longe O impacto histórico sobre a evolução do cristia- A VERDADE DE DEUS nismo que lhe foi atribuído pela literatura posterior. Morreram menos cris- tãos martirizados nos três primeiros séculos do que Apresentar as coisas assim implica, contudo, dificuldades não só heurísticas nos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. É mas também hermenêuticas. Onde encontrar documentos que alicercem a verdade que as comunidades estavam expostas a eventuais de idéia de um cristianismo articulador da cidadania? As coisas normalmente caráter local e que, em certas circunstâncias, os cristãos eram chamados para não são apresentadas desse jeito. Como já escrevi anteriormente, a literatura interrogatórios vexatórios e perigosos diante das autoridades, mas isso não corrente prefere atribuir a vitória do cristianismo à coragem dos mártires basta para se justificar O tão invocado termo "igreja dos mártires". (conforme a famosa frase do apologeta Tertuliano no início século III: "san- Quanto à santidade e às virtudes heróicas dos primeiros cristãos, basta gue de mártires, semente de cristãos") ou à dos cristãos em meio a um lembrar-se da história de Judas nos evangelhos para se convencer de que a mundo perverso, ou ainda aos numerosos milagres que costumam acompa- complexidade e imprevisibilidade do comportamento humano aplica-se nhar a obra de Deus. A imagem vigente é a de apóstolos pregando O evan- tanto aos apóstolos em redor de Jesus como aos bispos e cardeais em torno gelho usque ad fines terrarum (até os confins da Todo mundo se do atual papa. Os dois únicos cristãos das primeiras gerações dos quais é curva diante da verdade de Deus. Eis discurso que predomina. Os textos possível reconstituir uma biografia coesa, Paulo e Hermas (início do século que colocam em cena pessoas ou grupos armando estratégias na linha da II), declaram explicitamente que não são "santos". Em relação à explicação cidadania não são muito comentados. Contudo, eles existem. Exemplos são pelos milagres praticados por Jesus, ou por seus apóstolos e determinados Paixão de Perpétua e Felicidade e O pastor, de Hermas4. seguidores das primeiras gerações, é preciso lembrar que a primeira litera- Diante da predominância de uma leitura institucional do cristianismo, tura não pratica uma clausura tão nítida entre O real e imaginado no entanto, é preciso ler nas entrelinhas, interpretar O subentendido, inves- como a que estamos acostumados a apreciar hoje. Nesse ponto os tigar a partir de uma nova ótica, uma vez que os grandes intelectuais da lhos e os atos dos apóstolos decepcionam os positivistas entre nós, já que O época não demonstraram interesse pelo que se passava no interior do seu intento consiste menos em relatar 0 que realmente aconteceu do que movimento cristão. Tanto mestre alexandrino Filo como historiador em provocar a consciência e a ação. judeu Flávio Josefo mencionam movimento em poucas palavras, en- Mas é sobretudo a negação de uma evangelização explícita no início quanto autores romanos como Tácito, Celso (no seu Discurso verdadeiro, do cristianismo que costuma causar estranheza entre os funcionários das datado da década de 170) ou Porfírio (que um século depois compõe um igrejas hoje. Contudo, é preciso ser honesto com a documentação ataque devastadoramente erudito contra cristianismo) têm uma idéia muito vel. Não se tem nenhum relato de um cristão (no sentido que vaga e distorcida do que se passa nos grupos cristãos. Apologetas cristãos hoje damos ao termo) antes do sermão de Gregório de Nissa, datado do como Justino ou Ireneu defendem a nova religião no campo da doutrina, ano de 380, que apresenta seu parente distante Gregório, Taumaturgo, mas pouco dizem sobre cotidiano e as possíveis discussões internas. como evangelizador "profissional" entre camponeses no Ponto É, Mais tarde a coisa ainda piora. A patrística, empolgada com as discussões portanto, anacrônico querer projetar em tempos primordiais métodos pos- cristológicas e teológicas, só lança de vez em quando um olhar distraído sobre teriormente usados pelas igrejas. Celso, um intelectual romano dos anos a vida nas comunidades. Esse desinteresse é típico da literatura antiga em 170, trata os cristãos como tímidos que têm medo de abrir a boca. geral. A maioria anônima não merece as atenções de Platão, Aristóteles, Cícero, Resta a última razão invocada para explicar primeiro impulso, decisi- Sêneca, Galeno, Plotino, Marco Aurélio. Mas tampouco chama a atenção de vo, do cristianismo na sociedade: a formação de uma rede associativa que autores cristãos como Justino, Ireneu, Tertuliano, Cipriano, Clemente de cobre uma área social totalmente negligenciada pela administração roma- Alexandria, Orígenes. Nem a historiografia romana nem a cristã mostram inte- na. Ou seja, a luta organizada pela cidadania (avant la lettre, é claro) resse com que se passa no mundo de escravos e libertos, mulheres e crian- dentro da sociedade romana. ças, sejam eles cristãos ou não. Intelectuais, teólogos e bispos discutem entre si; os cristãos comuns permanecem calados. O underworld (submundo) ro-</p><p>84 HISTORIA DA CIDADANIA PRIMEIRO mano e cristão permanece largamente desconhecido, sua cotidianidade per- manter distância dos escravos, tinham que demonstrar um controle emocio- manece até hoje um campo aberto para a pesquisa. Por isso mesmo os teste- nal capaz de impressionar as pessoas das classes inferiores. A espontaneida- munhos que you aduzindo aqui são esporádicos e colhidos por toda parte. de é atributo dos escravos; ela não é bem vista socialmente. Ao jovem rico a sociedade lembra a cada momento: "Saiba manter distância. Não se misture NO MUNDO DOS GLADIADORES com gentinha". Como se vê, O estatuto da escravidão é inexorável. Enquanto O Direito romano permanece impassível, os textos cristãos de- O cotejo entre que afirma Direito romano e certas histórias monstram sensibilidade. Atos de Tecla e Visões de apresentam horri- sobretudo os martirológios, pode abrir perspectivas interessantes. Aí se evi- pilante proximidade com mundo dos gladiadores, lutadores profissionais dencia que os cristãos conviviam com categorias sociais como soldados, que atuam em espetáculos nos anfiteatros de Roma e nas demais gladiadores e escravos em geral. O tema do tal qual é estudado do Império. Eles são escravos, criminosos condenados, prisioneiros de guerra, pelo historiador francês Paul é particularmente esclarecedor. Sabe- por vezes cristãos. Medidas especiais são tomadas para prevenir que se suici- se que suicídio era nessas O Direito romano trata dem. Um gladiador de sucesso é um herói, cantado por poetas e músicos, do assunto com soberana indiferença. Apenas se interessa pelo patrimônio retratado em gemas e vasos. Quem consegue sobreviver após muitos comba- que'o morto ocasionalmente poderia deixar. O fisco, poder terrivel e sobe- tes pode ser absolvido e libertado. Mas a maioria, é claro, não obedece a esse rano, sempre espreita devorar as economias dos suicidas. Ou seja, modelo glorioso. Muitos acabam se suicidando ou sendo assassinados. dio dos escravos despertava O olhar interesseiro do patrão. Os textos não Outro segmento social particularmente exposto ao era O dos sol- aprofundam as razões que levavam os escravos ao suicídio, mas a indeni- dados, entre os quais havia cristãos, conforme sabemos através de narrativas zação que O patrão eventualmente pudesse cobrar. sobre São Maurício e São Sebastião. O de soldados foi silenciado Quando um aristocrata se suicidava, era por taedium vitae (desgosto como segredo de Estado (para preservar exército, uma das da pela vida), mas quando um escravo cometia absurdo, era por nequitia respeitabilidade romana), mas deve ter sido pois recebe tratamento Não se entendia que um escravo pudesse matar-se pelos especial no Direito romano, que considera indigno è repugnante. O solda- mesmos motivos "filosóficos" do homem livre por exemplo). Se do representa como ninguém a honorabilidade e invencibilidade do sistema. ele se mata, é porque não presta. Escravo é como cachorro ou cavalo. Se Deve marchar e lutar sem revelar problemas pessoais, elevando-se acima de der satisfação ao dono, é bem visto e até amado; caso contrário, precisa-se seus sentimentos. Mesmo tendo sido alistado à força e vivendo uma vida de tomar logo providências contra os efeitos negativos, no plano financeiro, cão, precisa manter a postura de homem público. Um que tenta de um gesto de desespero. Além disso, patrão podia fazer justiça com as suicídio é imediatamente expulso da corporação (missio cum ignominia. "des- próprias mãos. Em vez de denunciar escravo às autoridades, patrão pedido com ignomínia"). Suicídio de soldado não é falha humana, é atenta- resolvia caso em família. À luz de análises como a de Veyne acerca do do à respeitabilidade do exército, e isso não se perdoa. O soldado vive além tão prestigiado e celebrado Direito romano perde muito de seu da moral corrente. Tem de ser insuspeito, já que a honra do exército excede brilho. Desnuda uma sociedade socialmente fechada, cínica e interesseira, todas as honras. Isso verifica-se até hoje: O nome das legiões romanas percor- que defende os interesses dos que vivem do tesouro imperial por meio do re os séculos, fica estampado nos livros didáticos de História romana, en- fisco e de outros instrumentos. Não defende os direitos básicos de incontáveis quanto um silêncio multissecular encobre a vida real dos soldados. pessoas, dos escravos, das mulheres, das crianças. Enfim, O Direito romano expressa de forma crua como funciona a socie- Aos estudos de Veyne O historiador irlandês Peter Brown acrescenta que dade romana e como a escravidão está firmemente ancorada na mentalidade O fato fundamental da sociedade romana é a de que existia uma de seus cidadãos, que a consideram perfeitamente natural. O escravo produz distância social intransponível entre os notáveis "bem-nascidos" e seus inferio- para seu patrão com a naturalidade das plantas, dos campos e animais. Nada res6. Essa insuperável e imperturbável distância é solidificada, de forma dis- mais normal do que ver O escravo labutar a terra. Seu gesto é um gesto da creta mas firme, pela educação moral das pessoas de classe A que, além de própria natureza. O cidadão, no ócio da propriedade; os escravos, no negócio</p><p>86 HISTÓRIA DA CIDADANIA PRIMEIRO CULOS do trabalho. Valorizado é quem possui um patrimônio, e, sobretudo, quem ou confrarias (confraternitates) agregavam, por exemplo, ferreiros usa do patrimônio para O euergetismo, ou seja, para a beneficência no exercí- adoradores de ou comerciantes de roupas adoradores de Mercúrio. cio de alguma função pública. Para ser que é, um romano tem de possuir As mais prestigiosas conseguiam a proteção de algum mecenas, um magistra- um patrimônio e de certa forma ser um benfeitor7. A indigência é a grande do ou senador que se dispusesse a ajudá-las financeiramente. culpada pelas mal-aventuranças sociais; é considerada filha da preguiça e mãe As mulheres não tinham acesso a esses clubes, cuja primeira finalidade era do crime. "A indigência nasce da preguiça, e crime da indigência" (Isócrates). invariavelmente a de providenciar um funeral digno para O membro partici- Dar trabalho ao indigente significa educá-lo. Louvável O dono de escravo que pante. Existia também a tradição de organizar periodicamente um banquete, faz com que seus escravos trabalhem O tempo todo. É bom educador. Pois os tanto mais opulento quanto mais rico fosse colégio. O bispo cristão Cipriano, pobres trabalham, não para chegar a uma vida mais elevada, mas para que a do século III, conheceu colégios que funcionavam na cidade de miséria não os incite ao vício e ao crime. Os ricos são diferentes. Eles sabem África, e confirmou que os dois objetivos básicos da confraria eram efetiva- empregar ócio em filosofia, arte ou beneficência pública. Caso pratiquem mente a sepultura e O banquete. Ele é testemunha de que as pessoas gosta- algum negócio, é para conseguir um ócio maior. Por isso os ricos preferem vam muito dessas confrarias e se cotizavam para garantir uma sepultura, er- viver na cidade, instituição que se acrescenta à sociedade natural dos homens guer um santuário doméstico aos gênios protetores da casa, providenciar um para fazer com que levem uma existência mais elevada. A cidade é lugar do banquete para todos. Em resumo, os colégios eram corpos fundamentalmente ócio bem empregado em afazeres agradáveis e elevados. democráticos no seio de uma sociedade patriarcal e piramidal. Dentro dessa mentalidade fechada, Estado romano dispensa-se de Os cristãos aderiram com entusiasmo ao estatuto dos colégios, logo providenciar serviços sociais propriamente ditos. Para pelo menos 80% da percebidos como aliados naturais nas grandes do Império, como população do imenso Império, a vida é trabalho, sofrimento, violência. Os Roma, Alexandria e Antioquia. Mas eles inovaram em diversos pontos de documentos silenciam acerca dessa situação desastrosa. Restaram apenas organização interna. Em contraste com a exclusividade machista dos colé- alguns poucos indicadores casualmente conservados pela História, como, gios pagãos, organizaram e pareciam até encorajar a criação de colégios por exemplo, a respeito da vida extremamente breve dos escravos, quase femininos e sob liderança feminina conforme ficou amplamente regis- sempre inferior a 25 anos. Apenas 4% dos homens alcançavam a idade de trado em textos. Quanto aos cemitérios, os cristãos não se restringiam a anos, sendo menor ainda a porcentagem das mulheres, em ra- enterrar seus fiéis, mas admitiam igualmente enterrar vizinhos pagãos, con- zão sobretudo dos perigos do parto. forme testemunham escavações realizadas em Roma e alhures. Aliás, os cemitérios cristãos, a partir do século III, constituem uma prova arqueológi- COLÉGIOS OU CONFRATERNITAIES ca de primeira importância acerca da imersão do cristianismo no mundo escravo das grandes cidades. A importância é tamanha que em certas Diante desse quadro é compreensível que os cristãos tenham procurado munidades os coveiros chegam a ser considerados ministros, ao lado dos brechas na legislação vigente, oportunidades talvez não suficientemente ex- porteiros, acólitos, diáconos e outros8. Um caso interessante é de Calisto, ploradas e que pudessem melhorar a vida das pessoas no submundo roma- escravo liberto administrador de um cemitério em Roma no início do sécu- no. Como dispunham de invejável sistema organizatório, conseguiram en- lo III, e que chega ao posto de bispo. Quanto aos banquetes, movimento quadrar-se de alguma forma na legislação romana, aproveitando direito à cristão coloca novos acentos. O banquete cristão costuma ser sim- associação autônoma. A lei permitia que homens (sexo masculino) que exer- ples e fraterno, sendo realizado uma vez por semana, no dia do cessem a mesma profissão ou venerassem mesmo deus, fossem eles livres, libertos ou escravos, se reunissem e formassem uma associação, chamada LIBERDADE PARA OS ESCRAVOS colégio ou ainda confraternitas. Mesmo desconfiadas dessas livres agremiações que reuniam muita gente e cujos objetivos não lhes eram sem- Outra brecha na legislação romana relaciona-se com processo de eman- pre claros, as autoridades romanas não as reprimiam legalmente. Os colégios cipação de um escravo. Vale a pena estudar esse ponto, pois diversos docu-</p><p>88 HISTÓRIA DA CIDADANIA 89 mentos apresentam cristãos que são escravos libertos, como Hermas ou Calisto. vam decisões políticas nem faziam leis. A escravidão permaneceu, no seio Aqui também Direito romano tem caráter liberal, pois prevê algum do Império romano, como uma evidência social sancionada por uma or- cio para que liberto possa sobreviver, seja a cessão de um terreno (fundus), dem jurídica e definitivamente ratificada pela mentalidade reinante. Como de uma renda (alimenta), ou ainda de uma tabern a ou ponto já escrevi aqui, cidadão romano considerava a escravidão a coisa mais Mas, além dessa não desprezível vantagem financeira, não se deve ter ilu- natural do mundo. Ninguém a contestava, nem os filósofos mais lúcidos sões sobre status do liberto. A emancipação na sociedade romana é antes nem os líderes mais éticos. A boa conduta consiste não em contestar um gesto simbólico do que uma mudança efetiva de situação social. O instituto, mas em se comportar como "bom senhor" ou "bom escravo", liberto, afinal de contas, permanece escravo, não sai da casta dos escravos. A conforme ensina São Paulo com seu "patriarcalismo do Não há aristocracia não tolera ascensão social. Socialmente, a emancipação não é como mudar uma sociedade tão solidamente ancorada nas mentalidades. nada. Traz certa independência financeira, nada mais. Mesmo assim, pro- Só há um caminho: fazer com que as pessoas pensem de maneira diferen- cesso emancipatório permite a emergência, na sociedade romana, de um te, disseminar grupos capazes de influenciá-las. seleto grupo de libertos independentes que parece ter dado nova vitalidade E Será que estoicismo é uma "ocasião perdida" por ser à vida econômica dos séculos e II, a ponto de historiador Mikhail Rostovtzeff potencialmente um aliado do cristianismo na luta pela cidadania no decorrer imaginar que se trataria de uma "nova burguesia", um exemplo de ascensão do século II? Ou é um desvio, um atalho errado? É verdade que, na época dos social no seio da sociedade Mas a tese de Rostovtzeff é hoje imperadores as classes privilegiadas foram aos poucos aderindo abandonada. A sociedade romana é definitivamente uma sociedade de cas- ao estoicismo. surge, naturalmente, a comparação entre cristianismo e tas. Os escravos, libertos ou não, não podem aspirar a ascender efetivamente estoicismo. transfere O instituto da escravidão para mundo moral, à posição de cidadãos, senadores ou patrícios romanos. uma idéia menos indigesta do que a condenação simples e direta da riqueza A história de Trimalquião, magistralmente descrita por Petrônio no seu que se encontra nos primeiros documentos cristãos. A idéia estóica repousa Satiricon um dos clássicos da literatura romana e talvez texto que nos sobre a perspectiva de uma progressiva humanização da escravidão. Com permite penetrar mais no submundo romano dos escravos e subalternos em tempo, os senhores se tornariam mais humanos e mais brandos. Isso seria uma geral -, mostra até que ponto pode chegar um liberto independente, que tendência "natural" da humanidade. E as provas existem: os donos de escra- esbanja luxo mas não consegue ser realmente um aristocrata, por mais que vos, no século antonino, separam menos os escravos de suas famílias, não Mas os libertos cristãos não são Trimalquiões. Sua vida decorre vendem mais marido sem a mulher ou os filhos, sepultam escravos em vez mais modestamente. Apenas engrossam a multidão dos orientais pobres em de jogar o corpo no lixo. A penetração das idéias estóicas nas classes abastadas Roma, sempre à procura da sobrevivência, e passam a morar num dos repercute no seio das comunidades sobretudo por meio de intelectuais bairros onde atuam as comunidades cristãs, nos terrenos baixos e malcheirosos como Clemente, em Alexandria, ou Tertuliano e Minúcio Félix, na África do próximos do rio Tibre, seja na margem direita, hoje chamada Trastevere Norte. Esses autores de certa forma democratizam as idéias estóicas, fazem com ("Além Tibre"), entre a Via Portuensis e a Via Aurelia, seja na margem que penetrem em ambientes mais populares. Com a continuação desse tipo de esquerda, entre a Via Ardeatina e a Via Latina, ao longo da Via discurso, inclusive assimilado por não poucos bispos, pobre vai encontrando aos poucos um lugar na moral lugar da conformidade com a sorte, da POSSIBILIDADES PERDIDAS? confiança em Deus. Assim, a maioria dos padres da Igreja é elitista e costuma tratar os pobres de "simples", "rudes", "atrasados", "idiotas", "ingênuos", dentro Esse último ponto evoca a questão da abolição da escravatura. Será de uma cosmovisão estóica. Tertuliano fala em "simples, para não dizer ingê- que movimento cristão poderia ter ido mais longe, como sugerem alguns, nuos e idiotas, que sempre constituem a maior parte dos O mesmo e enfrentado próprio estatuto da escravidão? Infelizmente não. "O cristia- diz Orígenes e mais tarde Em suma, estoicismo deve ser consi- nismo nem por um momento pensou em abolir a As comu- derado, em termos estritamente históricos, como um desvio da primitiva men- nidades cristãs viviam imersas nos segmentos da sociedade que não toma- sagem. Acompanha a elitização do cristianismo na virada do século III.</p><p>90 DA CIDADANIA ASCOMU NIDADES PRIMEIRO OSSÉCULOS A NOVA LÓGICA COMUNITÁRIA escrito por Hegesipo, onde conta que pelos anos 90 imperador romano Domiciniano, inquieto pelo que ouve dizer sobre a seita dos cristãos, man- Mas voltemos aos tempos iniciais. Defendemos aqui a tese de que O segre- da chamar os dois netos de um irmão de Jesus, Judas, para investigar se do do sucesso do cristianismo no decorrer do século II muito tem a ver com a eles porventura articulam um movimento que apresente perigo para a se- luta pela cidadania. O jovem movimento resistiu ao encanto de sucessivos gurança do Império. Durante a entrevista, os interrogados "mostravam suas levantes contra Roma, tanto nos anos 67-70 como mais tarde, no ano 135, com mãos e os calos nelas impressos como prova de seu labor incessante. a revolta palestinense liderada por Bar Kokba, que custou a vida de quase Domiciniano não encontrou neles nada demais e os deixou sair meio milhão de Os seguidores de Jesus preferem projetos concretos, Esses trabalhos a favor da cidadania se processam dentro de um imaginá- mini-utopias realizáveis. Tomemos caso das comunidades nas grandes rio fundamentalmente religioso. O cristianismo antigo não é de forma nenhu- poles como Alexandria, Roma ou Antioquia. Os estrangeiros que chegavam em ma um movimento secularizado. No mundo escuro em que vive escravo, a Roma, por exemplo, podiam contar com um eficiente serviço de hospitalidade. religião é a única luz, a última trincheira de luta, último recanto da Pois cristianismo romano provém basicamente do povo vindo do Oriente de. Dentro da casa do seu amo ele tem de praticar, é claro, a religião do lar. procurar trabalho na grande cidade. As pessoas encontravam acolhida na casa Mas, fora de casa, pode dirigir-se a um sacerdote de Mitra, de Isis, ou ainda do bispo cristão, hospedeiro por excelência, como atesta O pastor de Hermas participar de uma comunidade, de uma seita proveniente do Oriente, terra (talvez esteja aí a origem do prestígio do episcopado na história do cristianis- natal de muitos, ou ainda de um colégio. Se é verdade que teatro, circo, mo). A mesa está posta para os recém-chegados. Alimentos são levados para a arena exercem especial atração sobre O escravo, fazendo-o esquecer sua viúvas necessitadas e Em algumas comunidades há um serviço regular desgraça por alguns momentos, a religião exerce um papel igualmente im- de alimentação e hospedagem para necessitados, viúvas e uma caixa portante. Situa-se cristianismo. As "sinagogas dissidentes" do movimento de ajuda mútua para casos de urgência. Tertuliano fala de um depositum cristão abrem as portas para todos. Seguem modo de vida das colônias pietatis (depósito da piedade, ou seja, uma caixa comunitária) em Cartago no judaicas, mantêm uma grande coesão baseiam-se sobretudo nos qua- início do século III. As pessoas oferecem donativos em gêneros alimentícios dros familiares, praticam a esmola, jejum, a oração, a ceia, as festas. São nos dias de jejum. Outro serviço bem organizado é do enterro de falecidos, facilmente identificáveis pelos imigrantes orientais em Roma. Além disso, dão não só os da comunidade mas da vizinhança em geral. Compram-se terrenos assistência regular aos necessitados a partir de ofertas voluntárias. Os Atos de para enterrar os mortos. Quando alguém cai doente, pode contar com visitas Pedro, que dão informações interessantes acerca de uma comunidade regulares e até, nos melhores casos, encontrar um lugar tranqüilo para se recu- na Ásia Menor entre 180 e 190 mencionam escravos, viúvas pobres, perar. Na hora de interrogatórios pelas autoridades, os cristãos se dão mutua- um soldado romano e sua esposa, algumas matronae que ajudam a comuni- mente apoio moral. Procuram ativar a coragem por ocasião de pogroms e dade, dois senadores que fazem O dom de seis mil peças de ouro para as outras atitudes de hostilidade por parte de grupos e indivíduos. Há um serviço viúvas da comunidade, um outro senador cuja casa acolhe os viajantes de de visita aos presos, e em certos casos um amparo psicológico para os que, passagem, os pobres e os Uma dama afortunada oferece dez mil desesperados, tentam Assim a comunidade cristã local vira, no denários para ajudar os pobres. Os Atos de Paulo, da mesma ofere- dizer de Hermas, um "salgueiro" que protege muita gente, cristãos e pagãos, na cem igualmente um insight interessante na vida concreta das comunidades. amplitude de sua Eis segredo do sucesso do cristianismo. Estamos, é claro, diante de um cristianismo "de mãos calejadas" e qua- OS BENEFICIADOS se nenhuma escrita, de mãos habituadas a lidar com mesa e cozinha, fuso e agulha, enxada e arado, na fonte, na oficina do pisoeiro e do trabalhador Relacionamos aqui algumas categorias sociais particularmente benefici- na mãos de trabalhadores no campo e na cidade, de escravas domésti- adas pela ação cristã. Esses beneficiados, mais que bispos ou cas nas casas senhoriais. No terceiro livro de sua História Eclesiástica, do são os propagandistas do cristianismo. O movimento cresce pela propagan- início do século IV, bispo historiador Eusébio de Cesaréia cita um texto, da feita de boca em boca por anônimos beneficiados. Quem são eles?</p><p>DOS PRIMEIRO CULOS 93 92 DA CIDADANIA São Paulo recomenda que no primeiro dia da semana (domingo) se As comunidades lhes dão uma identidade. Como atestam numerosos tex- ponha de lado, num jarro, as moedas que sobram do gasto semanal plane- tos do Novo Testamento, elas constituem um grupo definido, com tarefas jado para a Essas moedas são para os pobres, as viúvas, definidas, como a oração, visita aos doentes e O ensino às demais mulhe- os doentes e aleijados mantidos pela comunidade (1 Cor 16, 2). O próprio res. As mulheres não faltam em nenhum registro acerca de comunidades Paulo já angaria dinheiro para levar aos pobres da comunidade de Jerusa- antigas. Por exemplo, uma carta do bispo Dionísio de Roma, datada de lém, no ano de 49. Na sua Apologia (67, 5-6), Justino descreve em porme- 251, relata que essa igreja sustenta "mais de 1500 viúvas e nores como esse gesto está sendo organizado na comunidade de Roma em Certos registros oficiais sobre perseguições revelam igualmente a predomi- meados do século II. Na Tradição Apostólica, de 218, menciona-se "pão nância das mulheres nas comunidades. dos pobres", ou seja, as refeições especialmente organizadas para Outro ponto de atuação cristã é da sepultura dos mortos, já Como foi dito, Tertuliano fala de um depositum pietatis (depósito de pie- antes. Mais uma vez é imperador Juliano que nos informa acerca da dade) nas comunidades de Cartago no início do século III. Essas práticas persistência desse serviço no século devem ter permanecido durante séculos, pois em meados do século IV, Beneficiados e gratificados na sua auto-estima são os que "foram arrasta- quando imperador Juliano quer corrigir a política de seu antecessor dos diante das autoridades, submetidos a interrogatórios é não Constantino, protetor do cristianismo, recomenda que as autoridades locais Eles têm cadeira cativa no local da reunião, lugar de honra reservado. Pois criem centros de assistência social e hospedagem como um dique contra a não são raros os que sofrem prisão ou confisco de seus bens pelas autorida- avassaladora penetração do cristianismo em meios populares. des do Os que chegam a morrer sem renegar sua fé têm sua É sobretudo junto às pessoas sem cidadania romana, os assim chamados memória para sempre gravada: "Homens que sofreram por causa do nome ou paroikoi (gente sem terra, sem cidadania, sem posição do Filho de Deus, que sofreram corajosamente, de todo coração, entregan- social reconhecida. vem termo "paróquia"), que as comunidades cris- do a própria Seus nomes figuram até hoje nos martirológios. agem. Dão-lhes um sentimento de pertença, de dignidade e de identida- Um "serviço social" altamente apreciado entre escravos e libertos con- de social. A primeira Carta de Pedro expõe essa função social do cristianis- siste no pagamento de um preço de resgate para pessoas presas e em mo, assim como fazem outros textos, como Não se esqueçam da hospitalida- seguida reduzidas à escravidão. O termo dado a essa ação de resgate, e d (Hebr 13, 2). Os modelos bíblicos são Lot e Raab, por que se mantém durante séculos, é "redenção dos ou simplesmen- causa de sua fé e hospitalidade" (1 Clem 10, 37). É mesmo que dizer: "não te "redenção". A manutenção de pessoas como escravos nas mãos de quem se pode servir a dois senhores" (Mt 6, 24). O estrangeiro é "dono" da os compra de "bárbaros" é um costume tolerado pelos juristas romanos, mesmo se tratando de cidadãos romanos. O cristianismo não tolera esse comunidade, a casa é dele. Um grupo particularmente beneficiado é das e dos abuso e as comunidades fazem possível para promover a redenção efeti- O cuidado com ambos é uma herança direta da sinagoga, que va, O que lhes traz imensa simpatia por parte de eventuais mantém ao longo dos séculos uma impressionante estrutura de amparo à Um texto forte e inconfundível nesse sentido é de Clemente romano, que viuvez e à pobreza em geral. Tão impressionante que imperador Juliano escreve por volta do ano 100: "Conhecemos muitos entre nós que se entre- escreve em meados do século IV: "não se vê um só judeu mendigando na gam às cadeias (da escravidão) para libertar outros. Não poucos se entre- rua". A grande diferença com a caridade cristã está na abrangência. En- gam como com preço da venda, dão alimento a quanto a sinagoga só atende aos judeus, as comunidades cristãs acolhem a Excepcionalmente a ação das comunidades cristãs se faz sentir também todos. Uma carta atribuída ao apóstolo Tiago, e que circula na Síria pela quando se abate uma epidemia sobre O povo, acompanhada ou não de virada do século II, define a religião "pura e imaculada" da seguinte ma- surtos de fome. Eusébio relata que os cristãos foram os únicos a neira: "visitar órfãos e viúvas em suas necessidades e guardar-se livre da visitar, remediar e sepultar as vítimas de uma peste que eclodiu na cidade corrupção deste mundo" (1, 27). Na sociedade romana, as viúvas são nu- de Alexandria em 259, e na qual muitos Naquela diz merosas, pois as mulheres normalmente casam com homens mais velhos. Eusébio, as pessoas costumavam deixar os doentes na rua com medo da</p><p>94 DA CIDADANIA 95 contaminação, mas os cristãos os carregavam para dentro das casas. O (9) Esse dado não pode ser Na primeita carta aos Paulo já mostra que há mesmo fato, sempre segundo Eusébio, repetiu-se entre 305 e 313, quando problemas com o banquete cristão. (10) Veyne, op. cit., 20. a peste foi acompanhada de fome generalizada. Em casos como esses, (11) Michel Tableaux de la Vie Paris: Payot, 1936. comportamento dos cristãos ganha a admiração geral. Eusébio: "Os fatos (12) Uma evocação brilhante no filme Satiricon, de Federico (13) P. Lampe, Die Christen in den ersten beiden Tübingen, J.C.B. Mohr, falam por si... Todos exaltam Deus dos cristãos e admitem que eles são 1987, abb.3. É no Além Tibre que fica atual os únicos verdadeiramente religiosos e (14) Veyne, 1993, 70. (15) A expressão é de Gerd Theissen no seu clássico Sociologia da Cristandade São Leopoldo: Editora Sinodal, 1987. (16) Embora originário do século a.C., estoicismo só teve influência efetiva sobre a sociedade CONCLUSÃO romana a partir do século II d.C., com governo dos imperadores No texto explico que efetiva- mente distingue estoicismo do cristianismo, embora tenha havido um 'cristianismo ou seja, uma Compreende-se que cristianismo, com um rol tão impressionante de vivência a partir de paradigmas estóicos de forte impacto a vivência durante muitos (17) A era dos imperadores antoninos estende-se do reinado do Imperador Nerva (96-98 até serviços no campo social e humanitário, tenha recebido em relativamente Marco Aurélio (161-180). É considerada uma das eras mais felizes do Império Romano, em que os impe- pouco tempo um sólido apoio popular por onde se espalha. Esse apoio se radores são mais que bons soldados e bons administradores: se preocupam também com a justiça social, a traduz, posteriormente, em avanços jurídicos, poder político e prestígio segurança, o bem-estar de todos, a tolerância, a paz. cinco 'bons imperadores' antoninos são Nerva, Trajano, Adriano, Antonino Pio e Marco cultural. Por isso repetimos aqui que já escrevemos antes: é um engano (18) Tertuliano, Adversus 3. pensar que invejável status de respeito na sociedade romana que os (19) Agostinho, De catechizandis rudibus (20) Páginas inesquecíveis em Marguerite Yourcenar, Memoria de historiadores atribuem ao cristianismo do século II se deva a um movimen- (21) Hermas, "O Comp 10, 4, 3. In: Patristica 1. São Paulo: Paulus, 1995, p. 273. to organizado de evangelização, liderado por bispos, sacerdotes ou diáconos. (22) Ibidem, Essa é uma falsa imagem das origens cristãs. O cristianismo não venceu (23) "História 3, 20, 1-6. In: Patrística 15. São Paulo: Paulus, 2000, 137. (24) Veja a. referência em Altaner-Stuiber, Patrologia. São Paulo: Paulus, pela pregação de seus apóstolos ou bispos, nem pelo testemunho destemi- (25) Referência no mesmo livro. do de mártires, pela santidade de seus heróis, pelas virtudes nem pelos (26) P. Lampe (Die Christen in den ersten beiden Tübingen: J.C.B. Mohr, 1987) supõe que a necessidade de maior centralização da caridade tenha sido um dos fatores da milagres de seus santos. Venceu, isso sim, por uma atuação persistente e emergência do episcopado Veja também W. A. Meeks, As origens da moralidade Os dois corajosa na base do edifício social e político da sociedade. Constituiu-se primeiros São Paulo: Paulus, 1997, p. (27) Eusébio, Historia VI, 43,11. numa "utopia que funciona" no seio do submundo romano. Conseguiu (28) R. Lane Pagans and Christians in the Mediterranean World from the Second Century A.D. to para muitas pessoas e muitos grupos uma cidadania real, embora limitada the conversion of Constantine. Londres: Harmondsworth, 1986. e bastante modesta quanto aos resultados em termos de sociedade global. (29) Hermas, O pastot, Comp 9, 28, Patrística 1, (30) Ibidem, Visão 1, 1 e 2, 3, ibidem 172 sq. (31) Ibidem, Comp. 9, 28; ibidem 266. (32) Trata-se de uma estrutura que atravessa séculos. Na Idade Média há ordens religiosas NOTAS explicitamente dedicadas à (33) Brown, P., The making of Late Antiquity. A história guarda diversos casos de correspondência (1) "Wie es eigentlich gewesen ist", lema da história positivista. entre bispos com a finalidade de providenciar essas redenções (veja Cipriano, Ep. 60 e Ep. 70). (2) Patrologia grega (Migne), 46, 923 sqq. Paulo foi interpretado como "missionário" pela literatura (34) 1 Clem 55, 2; Patrística 1, 1995, 62. posterior, mas sua atuação explica-se perfeitamente nos quadros do sistema sinagogal judeu daquele tempo. (35) Eusébio. Op. cit., VII, 12, 7-10. (3) São Tomás de Aquino ainda está convencido disso. Ele escreve que evangelho penetrou no (36) Ibidem. mundo inteiro, só não in silvis et inter bruta animalia (nas selvas e entre os animais brutos). (4) Eduardo Hoornaert. Hermas no topo do mundo. São Paulo: Paulus, 2002. (5) Paul Veyne. A sociedade romana Lisboa: Edições 70, 1993. 73-123. (6) Peter Brown. A Antigüidade Tardia. In: da vida privada, vol. 1. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 230. (7) Ibidem, 133. (8) Veja trabalho de Harold Sikorsky, Ministry from Below: Gravediggers in Roman Civil Documents (inédito)</p><p>A CIDADANIA EM FLORENÇA E SALAMANCA Carlos Zeron É curioso notar que Dicionário de Política dos filósofos italianos Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, que é também um dicionário histórico, não contém um verbete sobre "cidadania", ou outro termo correlato. Quanto aos dicionários vocabulares, eles impõem limites ao conceito, decorrentes de uma percepção estritamente contempo- rânea do termo, e remetem à idéia de um "indivíduo" que possui direitos e deveres relativamente ao Estado e à sociedade. Portanto, para referirmo- nos à idéia de cidadania no Renascimento (compreendido aqui na sua longa duração, entre os séculos XIV e XVI, devemos adotar, por um lado, uma compreensão ampla do termo, concebendo-o nas suas diferentes dimensões sociais, políticas e culturais. Por outro lado, devemos considerar igualmente a concepção clássica de cidadania, pois esta foi a noção recuperada e reivindicada pelos homens renascentistas. Para Direito romano, direito era algo como um patrimônio que se possuía. A partir desta forma de compreender o direito, estabelecia-se então RENASCIMENTO o que constituía em última instância as fontes dos direitos do homem: "três são, pois, as coisas que temos: a liberdade, a cidade, a A liberdade era tida como a fonte radical dos direitos do homem; a "posse de uma família" e a "posse de uma cidade" (a cidadania) requeriam, para cumprir a finalidade de outorgar direitos ao homem, a existência prévia de liberdade. Desta maneira, os escravos, ao carecerem de liberdade, careciam também da qualidade de homens. Havia ainda seres humanos que, sem serem escravos, viam diminuída a sua capacidade de serem livres, como os estrangeiros ou os vencidos que se rendiam ao poder de Roma. A esses homens que care-</p><p>HISTÓRIA DA CIDADANIA 99 98 ciam de uma pátria ou de uma cidade aplicava-se apenas direito das Reino Itálico fez com que elas aspirassem cada vez mais a uma maior gentes, gentium. Por isso Direito romano era privilégio do povo livre liberdade e à segurança das vias comerciais que garantiam finalmente sua de Roma, dos cidadãos romanos, Cidadania reporta-se primariamente, nesse autonomia política. Durante essa longa luta, as cidades da Lombardia e da sentido, à condição de quem pertence a uma cidade e sobre ela tem direitos. Toscana não tiveram êxito apenas ao vencer os imperadores no campo de A referência política para a época renascentista, nesta matéria, era a batalha; também conseguiram constituir um vasto arsenal de "armas cidade-estado clássica polis sobretudo, a urbs), onde a soberania era gicas" com as quais procuraram legitimar essa continuada resistência exercida pelos cidadãos livres de uma cidade independente, por meio de que era nominalmente seu suserano, reivindicando direito a preservar um código legal válido inclusive para os territórios que se estendiam para sua "liberdade" ou seja, sua independência política e autogoverno repu- além dos seus e que se encontravam sob seu controle direto. blicano. Aqui reside a importância de Bartolo de Saxoferrato Essa era a situação de algumas comunas do então chamado Reino Sua principal contribuição foi antes de tudo metodológica: ele rompeu com Itálico. Juridicamente submetida ao Sacro Império Romano, a região aca- pressuposto básico dos glosadores do Direito romano segundo qual, bou conquistando grande autonomia em face das fraquezas militares e quando a lei se mostrava descompassada dos fatos legais, eram estes que financeiras do imperador. deveriam ser ajustados para acolher uma interpretação literal da lei. Em vez A mais espetacular manifestação da autoridade imperial era fato de que, disso, Bartolo adotou como preceito único que, quando a lei e os fatos embora O Direito romano fosse aplicado em todos os seus domínios4, no colidissem, era a lei que deveria se conformar aos Assim, Bartolo Reino Itálico seu poder era exercido por delegação: a continuidade do Império declarou que, como as cidades eram governadas por "povos livres" com seu dependia do vicariato (isto é, O exercício de fato do poder em substituição ao próprio imperium, podia-se então dizer que elas efetivamente constituíam do imperador), única manifestação de uma soberania afinal sem sibi princeps, ou seja, que cada uma delas possuía autonomia política. as, fórmula logo ultrapassada pela questão financeira subjacente. O imperador, É nesse contexto que os autores renascentistas recuperam a herança aos olhos dos italianos, não era mais do que uma máquina capaz de legitimar ca clássica e que as cidades-estado italianas se reapropriam do Direito romano. e consolidar qualquer poder local adquirido em troca de dinheiro. Porém, as divisões de classe no interior dessas cidades (às No que diz respeito à questão militar, uma série de imperadores, a partir da famílias mais antigas opunham-se os comerciantes, ou gente nuova, ou primeira expedição de Frederico Barbarossa à Itália, em 1154, lutou por quase popolani, que reivindicavam a igualdade de direitos) fizeram com que, a dois séculos a fim de impor sua regra ao Regnum Italicum. A constituição de partir do final do século XIII, a maior parte delas fossem a tal ponto cindidas uma Liga em 1167, teve papel fundamental na série de derrotas por suas facções internas que se viram forçadas a abandonar suas constitui- impostas ao Sacro Império. Por volta de 1220, porém, imperador Frederico II ções republicanas e aceitar poder forte de um único signore ("senhor"), ainda reclamava a herança de toda a Itália, argumentando que ela era vassala buscando assim atingir maior paz do Sacro Império Romano desde Carlos Magno e da sua anexação por Oto I A ascensão dos signori ("senhores") e do governo hereditário de uma única (912-973). As ambições de Frederico II pareciam concretizar-se, de fato, por família foi também uma forma de enfrentar a dominação direta dos papas, que volta de 1239, quando ameaçou capturar inclusive Sumo Pontífice. Mas, nas serviram como aliados eventuais nas lutas de resistências aos imperadores. prolongadas guerras entre guelfos e a linha Hohenstaufen acaba- Algumas cidades resistiram, contudo, a essa evolução política bem ria por ser derrotada e destruída. A derradeira tentativa coube a Luís da Baviera, como à dominação dos poderes universais do imperador e da Igreja e, em 1327, quando a maior parte dos senhores feudais disseminados pelo norte dentre elas, Florença, particularmente. da Itália estavam aliados à sua causa. Contudo, a vitória do papado, ao qual se aliaram os demais senhores feudais, não correspondeu nunca à afirmação de FLORENÇA uma supremacia política e militar da Igreja. Aos poucos, diante da fraqueza evidente tanto do Sacro Império Roma- Se não existe ainda a idéia moderna de cidadania no Renascimento, é no como do papado, a situação geográfica e econômica das comunas do certo, contudo, que ela começou a ser esboçada justamente nesse período</p><p>100 HISTÓRIA DA CIDADANIA ACIDADANIA EM FLORENÇA 101 em razão de um conjunto de circunstâncias. Para construir uma história desses estados, repúblicas ou despotismos, está não a única, mas a principal social e política da idéia de cidadania é essencial, portanto, investigar a razão para desenvolvimento precoce dos italianos." Até então, diz situação específica da "república florentina". Burckhardt, "o homem só estava consciente de si próprio como membro de As antigas comunas italianas, cujas dimensões não ultrapassavam em uma raça, de um povo, de um partido, de uma família ou corporação geral espaço delimitado pelos muros que circundavam essas cidades, somente através de uma categoria geral. Foi na Itália que este véu se desfez foram aos poucos substituídas por senhorias que englobavam diversos primeiro." Para autor, era despotismo que se instalara com as senhorias burgos e cidades. No auge desse fenômeno de agrupamento, no século que "fomentava a individualidade ao mais alto grau, não apenas do tirano XV, encontramos ainda um certo número de comunas autônomas e peque- ou do condottiere, mas também dos homens que ele protegia ou usava nos principados, ao lado de verdadeiros estados regionais que caracteriza- como instrumentos secretário, ministro, poeta, companheiro". Este rão a fisionomia política da Península Itálica até a sua tardia unificação, no seria caso de Florença, durante período de domínio da família Medici. século XIX: os estados pontifícios, Florença, Veneza e Milão. A valoração recorrente da "república florentina" e a associação ali locali- Por que não se criou então, nessa ocasião, um governo forte, centralizado zada entre desenvolvimento da individualidade e exercício da cidadania e unificado? Segundo historiador inglês Perry Anderson, motivo principal remonta, contudo, à própria época renascentista Coluccio Salutati (1331- reside no desenvolvimento prematuro do capital mercantil nas cidades do nor- 1406), eleito chanceler de Florença em elabora já a imagem dessa te da Itália: "foi a riqueza e a vitalidade das comunas da Toscana e da Lombardia cidade como a herdeira legítima da antiga Roma republicana. Salutati refu- que derrotaram os mais sérios esforços para a constituição de uma monarquia tou em mais de uma ocasião as acusações de que o governo florentino seria feudal unificada que servisse de base a um posterior absolutismo", um governo oligárquico, afirmando que Florença não era governada por Para Perry Anderson, a principal razão do fracasso da tentativa Hohenstauffen apenas trinta pessoas, mas por milhares de cidadãos que se alternavam no de unificação da península reside na decisiva superioridade econômica e social poder. Um outro chanceler florentino, Leonardo Bruni, discípulo e sucessor do norte da Itália, que se aliou ocasionalmente ao papado, fornecendo-lhe de Salutati, dirá ainda que "todos os oprimidos, todos os banidos, todos os dinheiro e tropas. Mas se esse capital mercantil tinha força para financiar uma exilados, todos os que combatem por uma causa justa são idealmente aliança entre o papado e os franceses contra imperador, por exemplo, não É interessante observar como esses chanceleres recuperam as tinha força suficiente para edificar a unificação da Itália. "O papado, então um distinções sociais romanas antigas entre os que tinham e os que não tinham mero hóspede da França, foi deportado para Avignon, evacuando totalmente a direitos políticos e, no elogio e defesa do governo de sua cidade, estendem península durante meio século. As cidades do norte e do centro ficaram então direito de cidadania a uma parte expressiva da sua população. entregues a si próprias, fascinantes no seu desenvolvimento político e cultural. Leonardo Bruni considera ainda a história de Roma como a mais clara O eclipse simultâneo do Império e do papado fizeram da Itália elo fraco no comprovação da tese segundo a qual um povo necessariamente atinge a feudalismo ocidental: entre os meados do século XIV e os do século XVI, as grandeza enquanto dispõe de liberdade para participar dos negócios do cidades entre os Alpes e Tibre passaram por essa experiência histórica revolu- governo, e necessariamente se corrompe tão logo se vê privado dela. cionária a que os homens chamaram Antes de nos embrenharmos muito profundamente nos meandros da Assim, quando a historiografia refere-se à história política do Renascimento, retórica política dos chanceleres florentinos e na interpretação dos seus faz referência a essas do norte da Itália obrigatoriamente, a ditos e feitos pelo historiador suíço Jacob Burckhardt, convém tomarmos uma delas em particular, Florença que teria se destacado das demais pela algumas precauções. adoção e manutenção de "formas republicanas" de governo. Em primeiro lugar, é conveniente retomarmos a definição jurídica ro- Essa linha de força historiográfica remonta aos estudos empreendidos mana original do termo conforme vimos anteriormente, ao cidadão por Jacob Burckhardt e sintetizados no seu célebre livro A Cultura do romano, que tem todos os direitos (civis optimo jure), opõe-se-lhe semici- Renascimento na Itália, publicado pela primeira vez em 1860. A tese central dadão, ou cidadão de direto restrito (civis minuto jure), e aqueles que são de Burckhardt diz respeito ao "desenvolvimento do indivíduo": "no caráter mantidos fora da esfera do Direito e, particularmente, do direito eleitoral</p>