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<p>CAPÍTULO Objeto sociológico e problema social por Remi Lenoir Muitas vezes, a sociologia é assimilada às disciplinas cujo objeto é definido segundo as categorias da prática social por exemplo, a ergonomia ou a criminologia. É verdade que a história das origens da sociologia tende a credenciar essa representação do sociólogo como especialista dos problemas "sociais" do momento. Com efeito, a sociologia apareceu em meados do século XIX e desenvolveu-se na sua segunda metade, isto é, no momento em que as lutas entre as classes sociais exacerbaram-se consideravelmente com a irrupção de um proletariado urbano, associada ao desenvolvimento da industrialização - o que se designava por Desde o início do século XIX, a ciência econômica estava constituída como tal e a atividade propriamente econômica encontrava-se disso- ciada - tanto para os teóricos (professores, filantropos, políticos), quanto para os homens de ação (empresários industriais ou financis- tas) dos outros setores da atividade social. Com efeito, é na primeira metade desse século que se estabelece a oposição entre a economia "política" e a economia "social": a primeira limitando seu interesse ao "valor venal e capital de um operário", segundo a expressão de A. de Villeneuve e a segunda, às condições da vida operária. Tal distinção não é somente o produto de uma divisão do trabalho intelectual, mas resulta, no essencial, de um conflito político que, ao longo de todo o século XIX, não deixou de opor principalmente em tudo o que diz respeito ao que, então, começa a ser designado por 1. H. Hatzfeld (1971), Du Paupérisme à la Sécurité sociale, Paris, A. Colin. 2. J.-B. Duroselle (1951), Les Débuts du catholicisme social en France (1822-1870), Paris, PUF, p. 230. 59</p><p>"problemas sociais" os representantes da burguesia industrial aos da aristocracia conservadora. Ao denunciar os efeitos da indus- trialização, as frações mais conservadoras da aristocracia contestavam a legitimidade dessa "nova feudalidade", baseada na produção de bens manufaturados e que, nesse momento, estava conseguindo ter acesso ao poder político. Essa dissociação da vida social em dois setores e a autonomização conceitual e teórica (como, aliás, é testemunhado pelo rápido desen- volvimento da filosofia utilitarista na França e do que será designado por "gestão das é, sem dúvida, um dos fatores que facilitou a emergência da sociologia como disciplina distinta de outras ciências sociais, em particular, da economia. Na maior parte das teorias sociológicas dessa época, encontramos o eco de tal divisão, simultaneamente, política e intelectual, sob a forma de pares de oposição entre dois tipos de sociedade ("comunidade/socie- dade", sociedade com estatuto/sem estatuto, etc.). Alguns sociólogos tão diferentes entre si como Ferdinand Tönnies, Georg Simmel, Max Weber, etc. tiveram consciência do que Émile Durkheim designava por "abalo" das sociedades européias no século XIX e tomaram isso como objeto, mais ou menos direto, de seus trabalhos. Em particular, a maior parte das obras de Durkheim visam servir de remédio à crise social que grassava sob seus olhos, como é confirmado pelo exemplo do último capítulo de um de seus livros mais conhecidos, Le Suicide (1897), com um título bastante explícito ("Con- práticas"), ou a distinção entre "normal" e "patológico" que é desenvolvida em Les règles de la méthode sociologique (1895). Um grande número de pesquisas ditas "sociológicas", empreendidas desde então, incidem sobre "problemas sociais", isto é, sobre o que é constituído em determinado momento como uma "crise" do sistema social, quer se trate da "droga", situação das "pessoas idosas", "imigração", "desemprego", beneficiários da "renda mínima", etc. Essa definição, socialmente constituída, do objeto da ciência sociológi- ca encontra-se, além disso, amplamente reforçada pela utilização dos soció- logos pelas diferentes instituições (administrações, coletividades locais, empresas, organismos sociais, etc.). Ficam na expectativa de que eles aju- dem a resolver um "problema", por definição, "social"; ora, esse termo remete, pelo menos, a duas acepções. A primeira, herdada da "economia 3. M. Foucault (1976), La Volonté de savoir, Paris, Gallimard. 60</p><p>social" como ciência auxiliar e ancilar da economia política, abrange o campo da "ajuda social" (pobres, casos "sociais", marginais, etc.), da "segu- ridade social" (vida fora do trabalho, em particular, a vida de família e a das pessoas idosas, etc.), em suma, dos problemas enfrentados, profis- sionalmente, pelos trabalhadores "da área social" (assistentes "sociais", educadores especializados, etc.) e para a solução dos quais são elaboradas políticas e leis "sociais". A segunda acepção provém de um outro sentido que o termo já tinha no século XIX: próximo do termo "socialismo", "questão social", ou "pesquisa social", encontra-se atualmente nas expres- como "parceiros sociais", "direito social", "conflito social", etc. Esse termo designa, então, tudo o que diz respeito às relações entre grupos "sociais", em particular, as relações entre patronato e "assalariados", isto é, as condições de trabalho no âmago do que é designado por "mundo do trabalho". A primeira dificuldade encontrada pelo sociólogo deve-se ao fato de estar diante das representações preestabelecidas de seu objeto de estudo que induzem a maneira de apreendê-loe, por isso mesmo, defini-lo e concebê-lo. o ponto de partida de qualquer pesquisa é constituído por representações que, como escrevia Émile Durkheim em Les règles de la méthode sociologique, são como "um véu que se interpõe entre as coisas e nós e acaba por dissimulá- las tanto melhor quanto mais transparente julgamos ser tal Trata-se do que ele designava por "pré-noções" que podem tomar a forma de "imagens sensíveis" ou "conceitos grosseiramente formados"; com efeito, "a reflexão é anterior à ciência que se limita a utilizá-la de forma mais No entanto, Émile Durkheim indica com precisão que não basta afastar, pura e simplesmente, as "falsas evidências" e o "jugo das categorias empíricas que, muitas vezes, hábitos muito arraigados acabam por tornar Com efeito, essas pré-noções encontram sua força em um fundamento e função social: "Produzidas pela experiência banal, [as têm como objeto, antes de tudo, harmonizar nossas ações com o mundo que nos cerca; são formadas pela e para a prática", o que lhes dá essa espécie de "ajustamento que dificulta ainda mais a tarefa de nos libertar delas na medida em que se tornam banais, evidentes, legítimas. 4. Durkheim (1895), Les Règles de la méthode sociologique, Paris, Alcan, p. 16; nova ed., Paris, PUF (col. "Quadrige"), 1995; ou ainda, Paris, Flammarion (col. "Champs"), 1988. 5. Ibid., p. 15. 6. Ibid., p. 32. 7.Ibid., p. 16. 61</p><p>Entre essas representações, a que aparece sob a forma de um "problema social" constitui, talvez, um dos obstáculos mais difíceis de ser superado. Com efeito, os "problemas sociais" são instituídos em todos os instrumentos que participam da formação da visão corrente do mundo social, quer se trate dos organismos e regulamentações que visam encontrar uma solução para tais problemas, ou das categorias de percepção e pensamento que lhes correspondem. Isso é tão verdadeiro que uma das particularidades dos problemas sociais é que, em geral, estes se encarnam, de forma bastante realista, nas "populações" que apresentam "problemas" a serem soluciona- dos. Muitas vezes, tais populações chegam a ser determinadas segundo critérios "fisiológicos" ("mulheres", "jovens", "velhos", "excepcionais", certas categorias de doentes ou deficientes físicos, etc.). Por exemplo, uma noção como a de acidente de trabalho é, atualmente, uma categoria corrente. Elaborada e codificada juridicamente, encontra-se na origem da atividade de numerosos organismos e serviços especializados na avaliação das taxas de incapacidade ou do montante das indenizações, etc., assim como para a prevenção desse tipo de acidente e a defesa dos interesses das vítimas. Ora, tal noção, que se tornou tão evidente em nossos dias, foi o produto de um verdadeiro "trabalho social" que culminou na criação e difusão de uma nova categoria de percepção do mundo social que não se reduz, unicamente, em considerá-lo sob o ponto de vista jurídico. Por trás da substituição da noção moral de "culpa" pela categoria estatística de "risco", está implicada uma verdadeira concepção da justiça social, uma definição das relações sociais no seio da empresa, uma relação com o trabalho e, mais amplamente, uma atitude diante da vida. Desde então, a pesquisa da origem do acidente desloca-se da imputação a culpas "pessoais" para efeitos do meio ambiente, condições de trabalho, etc., correndo o risco, embora de forma distorcida, de acabar incriminando sempre a própria vítima. Em suma, a mudança verifica-se na representação das causas do acidente: não será que a definição do que é designado por acidente de trabalho prejulga a respeito da natureza de sua causa? De modo que a análise das causas dos acidentes de trabalho corre o risco de se assemelhar a um círculo. Com efeito, a maior parte desses estudos estabelecem que as catego- rias sociais, cuja taxa de acidentes de trabalho é a mais elevada, são as que se encontram menos protegidas contra os riscos e vicissitudes da condição operária: trabalhadores imigrantes, operários inexpe- rientes, temporários, etc. No entanto, não será que tal "descoberta" se deve ao fato de que essas mesmas categorias sociais são, precisa- mente, as escolhidas para os postos de trabalho mais perigosos, 62</p><p>colocadas nas oficinas mais imundas, nos setores mais "arriscados"? Não será também porque os especialistas das "relações sociais no seio da empresa" e os diretores dos recursos humanos consideram as vítimas dos acidentes de trabalho como "desajeitados", "impruden- tes" e "indisciplinados" que os estudos têm "encontra- do", entre os acidentados, "menos plasticidade funcional", menos "inteligência concreta", mais "gestos fatais", mais manifestações de "rebelião contra a As pesquisas sobre as causas do suicídio são também um bom exemplo da incidência e peso das definições instituídas que comandam as condições de observação e, ao mesmo tempo, as explicações dos fenômenos estudados pelos sociólogos. Com efeito, foi possível mostrar que as estatísticas sobre as causas do suicídio são, em parte, o resultado das representações elabora- das pelos especialistas (médicos, psicólogos, sociólogos, policiais, etc.). Os indícios utilizados por estes últimos implicam necessariamente uma teoria das causas do suicídio. De fato, existem casos em que as causas de uma morte acidental não são assim tão evidentes: será que a vítima escorregou, ou atirou-se deliberadamente debaixo do trem? De modo que os especialistas são levados a utilizar critérios que permitem estatuir se uma morte resulta de um suicídio ou não. Assim, a análise deve começar pelo estudo do processo de elaboração dessas categorias que classificam determinada morte como suicídio, porque "as diferentes teorias do suicídio constituem, ao mesmo tempo pelo menos parcialmente as causas do que elas (cf. cap. III). 1. REALIDADE E CONSTRUÇÃO DO OBJETO SOCIOLÓGICO Herbert Blumer mostrou que era inútil definir os "problemas sociais" através de uma natureza que lhes fosse peculiar, por meio de uma população que apresentasse características que é constituído como "problemas sociais" varia segundo as épocas e as regiões e pode desaparecer como tal, precisamente no momento em que subsistem os fenômenos desig- 8. R. Lenoir (1980), "La notion d'accident du travail: un enjeu de luttes", in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 32-33, março-abril de 1980, p. 77-88. 9. D. Merllié (1987), "Le suicide et ses statistiques: Durkheim et sa postérité", in philosophique, CXII, n° 3, julho-setembro de 1987, p. 303-325. 10. H. Blumer (1971), "Social problems as collective behavior", in Social Problems, XVIII, n° 3 (1971), p. 298-306. 63</p><p>nados por eles. É o caso, por exemplo, da pobreza que, nos Estados Unidos, foi um grave problema "social" durante os anos 30, desapareceu na década de 1940-1950 e voltou a aparecer nos anos 80; ou ainda o caso do racismo que só se transformou em um "problema social" nos anos 60. Além disso, o mesmo problema "social" pode ser constituído por vários motivos. Tal é o caso da "velhice" que remete a problemas de natureza bastante diferente: a sorte das pessoas idosas mais desprovidas (a "pobreza" ou a "dependência"), o "desequilíbrio" demográfico (o "envelhecimento" da população) e, enfim, o alongamento da duração da vida biológica e seus efeitos sobre as relações entre gerações, tanto na família e no ambiente de trabalho, quanto no funcionamento dos sistemas de aposentadoria. Ora, a "velhice" é uma categoria aparentemente natural e evidente. É a razão pela qual uma pesquisa sobre a constituição da "velhice" como um problema social enfrenta todos os obstáculos nos quais o sociólogo esbarra, habitual- mente, para construir o objeto de sua 1.1. Uma categoria "natural": a idade Os princípios de classificação do mundo social, até mesmo os mais naturais, referem-se sempre a fundamentos sociais. Sem falar de "raça" é conhecida a implicação social dessa noção e das categorias utilizadas por - os estigmas físicos e, de forma geral, as particularidades biológicas, como o sexo e a idade, servem, quase sempre, de critérios de classificação dos indivíduos no espaço social. Em geral, a elaboração de tais critérios está associada ao aparecimento de instituições e agentes especializados que encontram nessas definições a força-motriz e o fundamento de sua ativida- de. Por conseguinte, esses princípios de classificação não têm sua origem na "natureza", mas em um trabalho social de produção das populações elaborado, segundo critérios juridicamente constituídos, por diferentes instituições - as mais conhecidas e estudadas são o sistema escolar, o sistema médico, os sistemas de proteção social, o mercado do trabalho, etc. Maurice Halbwachs ficava impressionado pelo fato da idade ser utili- zada como princípio de formação de grupos com uma certa "consistência social". Segundo este autor, a idade não é um dado natural, embora possa 11. P. Bourdelais (1993), Le Nouvel âge de la vieillesse: histoire du vieillissement de la population, Paris, Odile Jacob. 12. C. Lévi-Strauss (1973), "Race in C. Lévi-Strauss, Anthropologie structurale II, Paris, Plon, cap. XVIII. 64</p><p>servir de instrumento para avaliar a evolução biológica dos indivíduos, assim como a dos animais: enquanto instrumento de medição, não poderia dar corpo àquilo que mede. Ainda mais: a idade não é um dado imediato da consciência universal. "Um indivíduo humano isolado, privado de qualquer relação com seus semelhantes e que não se apoiasse na experiência social, nem chegaria a saber que deve morrer [...]. É, portanto, uma noção social, estabelecida por comparação com os diversos membros do A própria noção de idade a que é designada em número de anos é o produto de determinada prática social: medida abstrata cujo grau de preci- são reconhecido em certas sociedades - é explicado sobretudo pelas necessidades da prática administrativa (na medida em que já não é suficien- te a identificação dos indivíduos, o nome e o lugar de moradia). Como critério de classificação, a idade cronológica apareceu na França, no século XVI, no momento da generalização da inscrição do nascimento nos regis- tros Podemos lembrar que as primeiras categorizações das populações segundo a idade dependem, de forma bastante explícita, das prerro- gativas estatais, como é testemunhado pelos reagrupamentos opera- dos pelos primeiros Assim, o de Treviso, efetuado em 1384, distingue duas categorias: os homens com idade superior ou inferior a catorze anos, sendo que "religiosos e criados são conta- dos à parte" porque estes últimos-assim como as crianças com menos de catorze anos e as mulheres excluídas, durante muito tempo, de qualquer recenseamento não pagando impostos e andando desar- mados, não eram "bens a serem recenseados". Da mesma forma, os primeiros "levantamentos" venezianos distinguem apenas duas cate- gorias de pessoas: a "útil", isto é, a população masculina de 15 a 60 anos e a "inútil" que reagrupa os Se a idade cronológica e as divisões que, por seu intermédio, se tornam possíveis podem ser consideradas noções sociais, as categorias que ela permite distinguir não chegam a formar grupos sociais. Com efeito, as divisões "aritméticas" da escala das idades podem vir a ser categorias "nominais" (os "velhos", os "jovens", os "adolescentes") sem designar 13. M. Halbwachs (1972), "La statistique en sociologie", 1935, reproduzido in M. Halbwachs, Classes sociales et morphologie, Paris, Ed. de Minuit, p. 329-348. 14. P. Ariès (1960), L'Enfant et la vie sous l'Ancien Régime, Paris, Le Seuil (col. "Points"), 1975. 15. R. Molls (1954), Introduction à la démographie des villes d'Europe des XIV et XVIII siècles, Duculot, Gembloux, tomo 1, p. 170-171. 65</p><p>grupos sociais definidos nesses termos. Mauricé Halbwachs observa, em primeiro lugar, que tais grupos não podem ter consistência já que, por definição, os indivíduos limitam-se a passar por essas fases, a não ser que o intervalo seja consideravelmente ampliado; nesse caso, tais grupos não poderiam, a rigor, ser definidos em termos de idade. Sobretudo, como escreve esse autor, "segundo a época, os costumes, as instituições e a própria composição da população, damos mais ou menos importância a essa carac- terística; sendo assim, a juventude, a idade adulta e a velhice são definidas pela opinião de forma bastante diferente". E acrescenta: "Outrora, um europeu de 50 anos julgava-se jovem para iniciar sua vida de negócios na América, enquanto em nossos países as pessoas com essa idade retiravam-se do comércio ou se Ao comparar a pirâmide das idades das populações francesas e ale- entre as duas guerras depois de ter verificado que os dados numéricos mostravam, claramente, diferenças que diziam respeito à representação das faixas etárias nos dois países (nessa época, havia um número maior de "jovens" na Alemanha do que na França) Maurice Halbwachs se pergunta qual é o alcance dessa comparação do ponto de vista sociológico. necessário, indica ele com precisão, saber se o limite estabelecido, pela opinião pública, para a separação entre idade adulta e juventude, entre velhice e idade adulta, é o mesmo nos dois países. Podemos duvidar porque nas regiões onde existe um grande número de idosos, estes consideram-se talvez mais jovens do que sua idade, e nas regiões onde existem mais jovens como um grande número deles ocupam ou aprestam-se a ocupar situações reservadas, alhures, a adultos talvez se considerem e são considerados como mais velhos do que são realmente, ao ser tida em conta sua idade cronológica. "Inversamente, se levarmos em consideração que, por um lado, um desses países fica mais ao norte enquanto o outro se mais ao sul, e, por outro, têm uma composição étnica diferente, pode acontecer que os homens sejam mais precoces, por exemplo, na França: então, as pessoas tornar-se-iam aí adultas mais cedo; entrariam também, mais cedo, na categoria dos idosos, de tal modo que a população francesa seria ainda mais idosa e a população ainda mais jovem do que poderia resultar dessas configurações. Enfim, como não levar em consideração a diversidade das classes sociais, profissões, meios urbanos e rurais? Será que, em determinado país, a pirâmide das 16. M. Halbwachs (1972), op. cit., p. 334.</p><p>idades é a mesma na cidade e na zona rural, na indústria, comércio, agricultura e profissões liberais, nas classes abastadas e nas classes pobres? "Observemos que, nos Estados Unidos, a proporção dos adultos é praticamente tão elevada quanto na França, não porque, há bastante tempo, o índice da natalidade esteja também em baixa nesse país, mas em decorrência do afluxo dos imigrantes. Seria necessário identificar essa diversidade de condições. o estudo estatístico deveria incidir sobre esses grupos diferentes. De tudo isso, as pirâmides das idades dão-nos uma idéia tão esquemática e pobre quanto as pirâmides do Egito em relação à sorte das multidões humanas que tiveram como tarefa a sua Ao reter os princípios da análise de Maurice Halbwachs sobre a com- paração entre as pirâmides de idade de dois países, podemos nos interrogar sobre a noção de "envelhecimento demográfico" que se apóia também sobre divisões que, sem serem arbitrárias, não deixam de ser abstratas, sendo que a definição social das idades se modifica segundo a composição da popula- ção. Em seu estudo sobre "a nupcialidade na França durante e depois da guerra", Maurice Halbwachs mostra como a definição social das idades depende da composição numérica das gerações: a diminuição extremamen- te sensível, consecutiva à guerra, da população masculina de vinte e três a trinta e oito anos, teve como efeito "promover os jovens nas escalas das idades" na medida em que, levados a ocupar posições deixadas vagas por pessoas mais velhas, foram induzidos a exercer responsabilidades que, até então, estavam "acima de sua faixa etária": essa transformação foi acompa- nhada por uma redefinição da idade legítima para o casamento e, de forma geral, da idade em que os "jovens" têm acesso ao estatuto de Inversamente, "a doença do século", para retomar a expressão de Alfred Musset, que atingia a juventude burguesa e pequeno-burguesa de 1830 deveu-se, em grande parte, ao fato de que as carreiras nas profissões liberais e na alta administração estavam bloqueadas, nessa época, pela presença de homens relativamente jovens, recrutados durante a Revolução e o Império, e pelo retorno dos imigrantes no reinado de Luís XVIII. A definição da idade de acesso a tais profissões (e ao que estava ligado a ela, em particular, o casamento) foi avançada de maneira que os "jovens" dessas categorias 17. Ibid., p. 18. Ibid., p. 270. 67</p><p>sociais encontraram-se em posição de Ao mesmo tempo, tal fenômeno condenou essa geração ao que o autor de Confession d'un enfant du siècle designava por "horrível desesperança" e explica, pelo menos parcialmente, a forma assumida pelo romantismo francês, ou seja, a "vida boêmia" e seu sucesso durante esse Assim, não seria possível tratar "a idade" dos indivíduos como uma característica independente do contexto no qual ela toma sentido, tanto mais que a fixação de uma idade é o produto de uma luta que envolve diferentes 1.2. Categorias "naturais" e implicações sociais Nesse aspecto, as faixas etárias são também um bom exemplo dos desafios implicados em qualquer classificação: com efeito, é evidente que, na manipulação das classificações em termos de idade, o que está em questão é a definição dos poderes associados aos diferentes momentos do ciclo da vida, sendo que a amplitude e o fundamento do poder variam segundo a natureza das implicações peculiares a cada faixa etária ou a cada fração de faixa - da luta entre as gerações. o mesmo acontece com a percepção da atividade profissional como "trabalho", segundo é confirmado pelas lutas que dizem respeito à idade da aposentadoria ou ao reconhecimento da da mulher. Para o sociólogo, o que constitui o objeto da pesquisa não é tomar partido nessas lutas simbólicas, mas analisar os agentes que as travam, as armas utilizadas, as estratégias postas em prática, levando em consideração não só as relações de força entre as gerações e entre as classes sociais, mas também as representações dominantes das práticas legítimas associadas à definição de uma faixa etária. Assim, desse ponto de vista, fica excluída a eventualidade de fixar para os membros da mesma classe social, a fortiori para quaisquer indivíduos, a idade a partir da qual se tornam "velhos", isto é, "velhos demais" para exercer determinada atividade ou ter acesso, de forma legítima, a certas categorias de bens ou posições sociais. É precisamente a determinação dessa idade, momento em que as gera- ções mais jovens obrigam as gerações mais velhas a se retirarem das posições de poder a fim de virem a ocupá-las, que constitui o pretexto da luta entre 19. G. Bertier de Sauvigny (1955), La Restauration, Paris, Flammarion. 20. P. Bourdieu (1980), Questions de sociologie, Paris, Éd. de Minuit. 68</p><p>as gerações. Assim, podemos nos perguntar se a sociologia da velhice, que toma como objeto uma população definida, no essencial, pela idade legal ou pelo estado de envelhecimento biológico, não aniquila, antecipadamen- te, seu objeto de estudo na medida em que considera como resolvido o que, justamente, deve ser explicado. É o que fazem David Herlihy e Richard Trexler ao relacionarem o aparecimento da noção de "adolescência", em algumas grandes cidades italianas da Renascença, às transformações das relações entre gerações no seio da burguesia. Os pais retardavam a idade do casamento dos filhos para não serem despojados de uma parte de seus bens e poder porque, nessa categoria social e nessa época, o casamento era também acompanhado por uma transferência do patrimônio familiar. Diante da pressão exercida pelos jovens (nesse tempo, os parricídios não eram raros), os pais davam prova de uma grande tolerância no que dizia respeito à sexualidade, a fim de não cederem o que consideravam como essencial, ou seja, a preservação e conservação do poder sobre a gestão do patrimônio familiar até sua A manipulação das faixas etárias implica sempre certamente, em diferentes graus uma redefinição dos poderes ligados aos diversos mo- mentos do ciclo da vida peculiar de cada classe social. Ela constitui uma forma da luta pelo poder travada, em cada grupo social, pelas diferentes gerações. Em particular, vemos tal fenômeno quando esse estado de relações de força se modifica, como mostra o exemplo da evolução, na segunda metade do século XIX, das relações entre gerações de artesãos vidraceiros, consecutiva à transformação das técnicas de produção nesse Com efeito, a mecanização e a simplificação das tarefas que estão associadas a tal evolução minaram um dos fundamentos do poder dos mestres vidra- ceiros, a saber, o monopólio da detenção das técnicas de fabricação e, correlativamente, o de sua transmissão: os oficiais encarregados de soprar o vidro controlavam até então, em seu proveito, as relações entre as gerações pela imposição de tempos de formação e níveis de competência a seus 21. D. Herlihy (1972), "Some psychological and social roots of violence in Toscan cities", in Lauro Martines (ed.), Violence and Civil Disorder in Italian Cities, 1200-1500, Berkeley, p. 129-154. R.-C. Trexler (1974), "Ritual in Florence: adolescent and salvation in the Renaissance", in C. Trinkaus e H.A. Oberman, The Pursuit of Holiness in Late Medieval and Renaissance Religion, Leyde, E.J. Brill, p. 200-264. 22. J.W. Scott (1974), Les Verriers de Carmaux: la naissance d'un syndicalisme, trad. de Thérèse Arminjon, Paris, Flammarion, 1982. 69</p><p>sucessores "garotos" e "jovens adultos" eram denominações que designa- vam tanto uma posição na escala das idades e da profissão, quanto, de forma geral, uma posição social (baixa remuneração, estado de solteiro, etc.). Depois de terem tentado, sem sucesso, retardar a idade de acesso à apren- dizagem e prolongar a duração da formação, os vidraceiros foram obrigados a adotar, diante da concorrência dos jovens aprendizes, estratégias defensi- vas; em particular, vieram a reconhecer para os concorrentes mais peri- gosos que possuíam uma qualificação equivalente - um estatuto especial que fixava de forma permanente a função desempenhada e, ao mesmo tempo, impedia que fossem desalojados pelos "jovens" que se tornavam "adultos". Da mesma forma, Georges Duby mostrou que, no século XII, na sociedade aristocrática francesa, a constituição de uma nova etapa bem determinada da existência designada como "juventude", mo- mento compreendido entre a cerimônia que marcava a saída da infância e o casamento, que definia o adulto realizado, era o produto das estratégias familiares de conservação do poder e de preservação do patrimônio das linhagens. o fato de pertencer à "juventude" dizia menos respeito à idade biológica do que à idade, bastante variável, em que os herdeiros assumiam a sucessão da gestão do patrimônio, isto é, em geral no momento da morte do pai. Ao prolongar a "juventude" dos filhos, isto é, afastando-os do feudo (cruzadas, tor- neios, etc.), os pais recuavam da mesma forma a idade em que eram considerados como "velhos". Assim, os "jovens" eram cavaleiros celibatários votados à errância e aventura, esperando o momento em que poderiam assumir a sucessão dos pais e se As terminologias das idades são em si mesmas o resultado "desse antagonismo latente e dessa luta surda, cada um reclamando seu lugar ao Essas observações mostram que "a idade" não é um dado natural, nem um princípio de constituição dos grupos sociais, tampouco um fator explicativo dos comportamentos. Como mostra G.I. Jones, a propósito de uma população africana, os ibos, a idade de um indivíduo resulta de três fatores: em primeiro lugar, do que Norman B. Ryder designou por "meta- bolismo demográfico" que depende das taxas de fecundidade e mortalidade 23. G. Duby (1964), "Les 'jeunes' dans la société aristocratique dans la France du au siècle", in Annales, E.S.C., XIX, n° 5, setembro-outubro de 1964, p. 835-846 (reproduzido in G. Duby, Hommes et structures du Moyen-Age, Paris, Mouton, 1973). 24. M. Halbwachs (1938), Morphologie sociale, Paris, A. Colin, p. 108; nova ed., A. Colin (col. "U2"), 1970. 70</p><p>e cujas variações contribuem para definir o estado da concorrência entre as gerações para a ocupação das posições de em seguida, da relação de força entre pais e filhos na família e, de forma mais ampla, no seio da linhagem; enfim, da capacidade dos jovens para colocarem, como se diz atualmente, "a pública a seu favor" demonstrando que eles detêm as qualidades socialmente exigidas para passar de uma para a outra faixa No entanto, pelo fato "de que não se sabe em que idade ou momento da vida começa a velhice", será necessário seguir o procedimento dos sociólo- gos que, como observava Pareto, "não podendo traçar uma linha para estabelecer, de forma absoluta, a separação entre os ricos e os pobres", chegavam à conclusão da ausência dos antagonismos de classes e à dedução de que não existem pessoas objeto da sociologia da velhice não consiste em definir quem é e não é velho, ou em fixar a idade a partir da qual os agentes das diferentes classes sociais se tornam velhos, mas em descrever o processo através do qual os indivíduos são socialmente desig- nados como tais. Isso não significa tampouco que a idade cronológica "quantidade mensurável legalmente" que, segundo a expressão de Philippe Ariès, emer- ge do mundo "da exatidão e do cálculo" não tenha qualquer realidade social: é evocada continuamente pelos indivíduos (aniversários, diligências administrativas, etc.) e constitui uma espécie de padrão abstrato e omnibus de identificação ou, se preferirmos, um referente que permite fazer compa- rações. Além disso, a fixação de uma idade legal, por exemplo, a da maiori- dade aos dezoito anos ou a da aposentadoria aos sessenta e cinco, exerce seus efeitos sobre a luta entre as gerações. Tende a constituir uma espécie de norma oficial que deve ser levada em consideração pelos agentes ("é necessário dar lugar aos jovens", etc.) nem que fosse pelo fato de que a essas idades estão associados determinados direitos. A "velhice", assim como a "juventude", não é uma espécie de caracte- rística substancial que acontece com a idade, mas uma categoria cuja delimitação resulta do estado (variável) das relações de força entre as classes 25. N.B. Ryder (1965), "The cohort as a concept in the study of social change", in American sociological review, XXX, 6, dezembro de 1965, p. 843-865. 26. G.I. Jones (1962), "Ibo ages organization, with special reference to the Cross River and North-Eastern Ibo", in Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, XLII, 2, july-december 1962, p. 191-211. 27. V. Pareto (1964), Cours d'économie politique, Genebra, Droz, tomo 2; nova ed., 1986, p. 285. 71</p><p>e, em cada classe, das relações entre as gerações, isto é, da distribuição do poder e dos privilégios entre as classes e entre as gerações. o exemplo da manipulação da idade da aposentadoria é, particu- larmente, esclarecedor porque encontram-se aí em ação as duas dimensões das lutas que dizem respeito às definições das faixas etárias: as que estabe- lecem oposição entre grupos sociais e aquelas nas quais se enfrentam as gerações. É também porque o valor dos indivíduos - e, em particular, o dos homens - no mercado do trabalho é, sem dúvida, uma das variáveis essenciais que, atualmente, age sobre o envelhecimento social em razão do peso da atividade profissional na definição do valor social dos indivíduos. A hierarquia das formas e graus de envelhecimento no campo das profissões parece reproduzir a hierarquia social e respeitar, se pode- mos falar assim, a "hierarquia" até mesmo no interior das empresas. É o que ressalta de uma pesquisa na qual, segundo os empregadores, a mais importante "deficiência" dos trabalhadores que estão envelhe- cendo, é "o enfraquecimento das faculdades de adaptação às novas tarefas, métodos ou técnicas"; em seguida, é mencionada a "perda de velocidade", a "perda de força", e depois a perda da "vivacidade intelectual", da "habilidade", da "memória" e, em último lugar, "a inaptidão para o Por outras palavras, isso significa que a dimimuição, com a idade, das qualidades julgadas necessárias pelos empregadores para o exercício das diversas atividades profissionais ou, se preferirmos, a idade a partir da qual as diferentes categorias sociais começam a "envelhecer", é mais precoce para os membros das classes mais baixas: para os empresários, os trabalhadores braçais são considerados como "100% produtivos" somente até a idade média de 51,4 anos; os operários sem qualquer qualificação até 53,5; os contra- mestres até 55,9; os executivos até 57,9; e nenhuma idade é fixada para os Através dessa avaliação diferencial da "produtividade" das diversas categorias de trabalhadores, efetuada pelos empresários, isto é, por agentes socialmente interessados em impor uma definição do envelhecimento, id est um valor no mercado do trabalho, apreendemos que o envelhecimento 28. Pesquisa elaborada, em 1961, pela agência IFOP junto a 100 empresários e diretores dos recursos humanos de grandes e médias empresas particulares. Ver "Les travailleurs âgés dans l'entreprise", in Le Haut-Co- mité consultatif de la Population et de la Famille (1962), Les Personnes âgées et l'opinion en France, Paris, La Documentation française, p. 99-100. 29. Ibid., p. 97. 72</p><p>é avaliado, nesse mercado, não tanto à "escala das idades", mas sobretudo à escala de critérios cuja imposição depende do estado das lutas entre as diferentes categorias de vendedores e compradores da força de trabalho. De maneira geral, os princípios da divisão do trabalho estruturam a distribuição das tarefas entre os grupos sociais e, ao mesmo tempo, as categorias de percepção e avaliação destas últimas. A divisão do trabalho social é um trabalho social de divisão, isto é, uma luta entre grupos para impor os princípios de uma visão do mundo social que contribua para a manutenção ou transformação de sua posição no espaço Essas lutas em volta da classificação podem chegar a transformações da visão e das divisões do mundo social, sobretudo quando, às categorias cuja definição está em jogo, são associados determinados direitos, por exemplo, a aposentadoria para as pessoas que tenham atingido determinada idade. Isso contribui, certamente, para dar uma certa "consistência social" a essa categoria que os aposentados tendem a formar porque a defesa dos direitos pode se tornar um fator de mobilização quando estes são ameaçados. A "realidade social" é o resultado de todas essas lutas. Ela se manifesta sob diferentes formas: no estado de direitos, equipamentos coletivos, cate- gorias de pensamento, movimentos sociais, etc. Nesse aspecto, o estudo da emergência de um problema social é um dos melhores reveladores desse trabalho de "construção social da realidade", para retomar o título de uma célebre obra de porque condensa todos os aspectos desse processo. E, tratando-se de um problema social, o objeto de pesquisa do sociólogo consiste, antes de tudo, em analisar o processo pelo qual se constrói e se institucionaliza o que, em determinado momento do tempo, é constituído como tal. 1.3. Inconsciente semântico e objeto pré-construído: a "família" A universalidade da noção de família, como instância de reprodução biológica e social deve-se, sem dúvida, ao fato de que, como indica com precisão Françoise Héritier, "todo o mundo sabe ou julga que sabe o que é. a família na medida em que, inscrevendo-se de forma tão evidente na nossa prática cotidiana, ela aparece implicitamente a cada um como um fato 30. Ver P. Bourdieu (1984), "Espace social et genèse des classes", in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 52-53, junho de 1984, p. 3-12. 31. P.L. Berger, T. Luckmann (1967), La Construction sociale de la réalité, trad. de Pierre Taminiaux, Paris, 1986. 73</p><p>natural e, por extensão, como um fato No entanto, tal crença a respeito da "família", baseada na natureza e cujas únicas mudanças, entre as diferentes sociedades, se limitam à sua composição e funções, é também o produto de um trabalho social. Esse trabalho de construção da realidade social, segundo a expressão já consagrada atualmente, efetua-se e manifes- ta-se no próprio plano das palavras, sendo que estas contêm sempre uma visão do mundo. Com efeito, a linguagem é, como escreve Ernst Cassirer, não somente "um mediador na formação dos mas sobretudo um "condicionamento do comportamento", como foi sugerido de maneira diferenciada por Edward Sapir e Benjamin Lee Assim, o simples fato de falar de "família" equivale a pressupor uma certa representação social dos grupos. Com efeito, a linguagem usual des- creve a família como um "círculo" no qual alguém entra ou do qual é excluído (o "círculo da família"). A família designa implicitamente o modo de fazer parte de um grupo baseado em uma comunidade de condição social, habitação, sangue, etc. Em suma, um conjunto homogêneo dotado de coesão resultante, sobretudo, da "semelhança" existente entre os agentes que o no sentido em que Durkheim dá a essa palavra quando fala da "solidariedade mecânica" ou por Isso mes- mo é evocado por expressões como "ar de família" ou "espírito de família" e, até mesmo, "desgosto de família". Por último, de todos esses pressupostos implicados na simples utilização do termo "família" - e ao qual levam a pensar, irresistivelmente, fórmulas do senso comum, tais como "(bom) pai de família", "filho de (boa) família", sem falar de "sagrada família" sobressai uma valorização ético-social dessa maneira de estar junto. Isso mesmo é sugerido ainda pelas expressões como "sustento da família", "ajuda familiar", e também "chefe da família" porque, na família nem tudo é sentimento, desinteresse e benevolência. Em suma, a noção de "família" (assim como, e de um ponto de vista negativo, a de "sem família") designa implicitamente um todo coerente, estruturado, em uma palavra, unido. 32. F. Héritier (1979), verbete "Famiglia", in Enciclopedia Einaudi, Turim, Giulio Einaudi, vol. 6, p. 3-16 e C. Lévi-Strauss (1983), Le Regard éloigné, Paris, Plon, p. 65-92. 33. Ver E. Cassirer (1969), "Le langage et la construction du monde des objets", in Journal de psychologie, janeiro-abril de 1933 (número especial), reproduzido in E. Cassirer et al., Essais sur le langage, Paris, Éd. de Minuit. 34. Ver E. Sapir (1967), Anthropologie, tomo 1, Culture et personalité, Paris, de Minuit, p. 37-50 e B.-L. Whorf (1969), Linguistique et anthropologie, Paris, p. 69-115. 35. Ver É. Durkheim (1893), De la division du travail social, Paris, PUF, 1967, cap. I. 74</p><p>Assim, inclusive no vocabulário, encontra-se enraizada uma proble- mática, a da união e da unicidade do grupo que, aliás, são referidas nas categorias do discurso comum nesse campo. Pode-se reunir estas últimas sob a oposição família unida/família desunida. Integram essa tipologia familiar, até mesmo familiarista, tanto as diferentes formas que podem assumir as uniões, casamento, concubinato (notório ou não) ou o seu contrário, divórcio, separação, e essas formas híbridas, tais como a "coabi- tação" ou a família "recomposta". É também o caso dos modos de afiliação, filiação legítima, natural ou adotiva; e, ao contrário, os modos de rejeição, negação, abandono, deserdação dos filhos. Nessas condições, compreende- se a razão pela qual, atualmente, é ainda tão difícil nomear estruturas "familiares" que não correspondem pelo menos formalmente a essa representação inconsciente da família (família "recomposta", "composta", "incerta", "união civil", "união social", "descasamento", etc.)36. A essa representação da família como um todo harmonioso está ligada essa espécie de obsessão pela permanência do grupo doméstico. Isso mesmo é manifestado também pela linguagem corrente que associa à noção de "família" as noções de linhagem, posteridade, origem, em suma, descen- dência. Com efeito, a família é um grupo que tem uma história, uma vida e, como para todas as "histórias de vida", essa história é inseparavelmente um relato da vida dessa história ("histórias de família", "álbum de família"). As etapas são sempre as mesmas, evocadas nesse trabalho oficial (bem-su- cedido ou fracassado) de unificação e integração do grupo: nascimentos, casamentos, sucessões, etc. Como as gerações, umas após as outras, esses acontecimentos sucedem-se de maneira cronológica e linear e tendem a apresentar a "família" como a imagem de um grupo coerente, integrado e cujo princípio é em si mesmo seu próprio fim: a perpetuação da unidade (doméstica) e o que a fundamenta: "os bens de família". 2. FUNDAMENTO SOCIAL DAS CATEGORIAS PRÉ-CONSTRUÍDAS Por conseguinte, o trabalho sociológico não poderia consistir em regis- trar os dados construídos segundo categorias que são o produto de um trabalho social. Nesse aspecto, a sociologia da velhice fornece um bom exemplo das operações empreendidas pelo pesquisador porque trata-se de um dos casos em que a sociologia da construção da noção é o próprio objeto da pesquisa. 36. Ver P. Bourdieu (1996), "Des familles sans nom", in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 113, junho de 1996, p. 3-7. 75</p><p>pesquisador enfrenta, necessariamente, definições institucionais de seu objeto, isto é, os problemas colocados a essas instituições pelas popula- ções "idosas" que elas administram. Assim, a "sociologia da velhice" resulta de uma divisão não científica da sociologia que foi constituída para levar em consideração o aparecimento de um problema social. Com efeito, a divisão das idades e as definições das práticas legítimas que lhes estão associadas têm a ver com o aparecimento de institui- ções e agentes especializados como foi estabelecido, por exemplo, a propósito da distinção das primeiras idades da vida, ligada ao desen- volvimento do sistema escolar. A invenção da da "ado- lescência" e, mais recentemente, da "primeira resultam, em grande parte, do prolongamento da duração dos estudos e da difusão da escola maternal. Da mesma forma, atualmente, a invenção da "terceira idade", essa nova etapa do ciclo de vida que tende a se intercalar entre a aposentadoria e a velhice, é, no essencial, o produto da generalização dos sistemas de aposentadoria e da intervenção correlativa de instituições e agentes que, ao se especializarem no tratamento da velhice, contribuem para o processo de autonomização da categoria e, ao mesmo tempo, da população designada por o obstáculo, no qual esbarra o sociólogo, refere-se não tanto a uma espécie de complexidade inerente ao objeto, mas sobretudo às condições em que se processa seu estudo: o próprio campo, ou seja, o dos agentes da gestão da velhice, do qual ele participa necessariamente, é que constitui o verdadeiro obstáculo à construção do objeto sociológico. Assim, ao fazer a sociologia desse campo, o sociólogo encontra o meio de superar tal óbice revelando, em particular, as implicações das definições e das classificações elaboradas pelos agentes interessados pelo tratamento e gestão da velhice. sociólogo tem uma consciência mais apurada da "imposição da problemática" quando estuda as populações mais dominadas, isto é, as que levantam os problemas ditos "sociais" no duplo sentido de "caso social" e de "problemas de sociedade". É, assim, o caso do imigrante que, segundo a análise de Adbelmalek Sayad, acumula todas as formas de dominação: "O imigrante em 37. P. Ariès (1960), op. cit. 38. J.-C. Chamboredon, J. (1973), "Le 'métier d'enfant'. Définition sociale de la prime enfance et fonctions différentielles de l'école maternelle", in Revue française de sociologie, XIV, n° 3, julho-setembro de 1973, p. 295-335. 39. R. Lenoir (1979), "L'invention du 'troisième âge' et la constitution du champ des agents de gestion de la vieillesse", in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 26-27, março-abril de 1979, p. 57-82. 76</p><p>questão (a respeito do qual falam a ciência e todas as ciências, o discurso político, etc.) é simplesmente o imigrante tal como foi constituído, tal como foi determinado [...]". A força da definição social do imigrante e dos "problemas" que levanta "deve-se ao fato de que ele encarna todas as formas possíveis de dominação: é, simul- taneamente, operário, colonizado, delinqüente, alienado mental, de- sempregado, etc. De modo que, como para todas as populações dominadas (camponeses, operários, assim como crianças, mulheres, pessoas idosas, etc.), mas talvez ainda mais para o imigrante (e aí, ainda mais para o argelino do que para o português, e mais para o português do que para o italiano, etc.), não existe objeto social cuja problemática (e todas as orientações de pesquisa que lhe estão asso- ciadas) seja tão "Uma das formas de tal imposição, continua ele, é perceber o imi- grante, pensar sempre nele referindo-nos a um problema social, isto é, um problema que remete às suas condições de existência e, em último lugar, ao seu direito de existir. Esse acoplamento entre uma população e um problema social (os imigrantes e o mercado de trabalho, os imigrantes e o desemprego, os imigrantes e a formação, os imigrantes e o retorno a seus países de origem, etc.) é o indício mais evidente de que a problemática da pesquisa encontra-se em continuidade direta com a percepção social previamente constituída a respeito do imigrante: aquele que- provoca o problema e também levanta os problemas que têm de ser resolvidos por uma sociedade". Com efeito, podemos nos perguntar qual é exatamente a natureza dos "problemas" da imigração. Será que se trata de problemas peculiares aos imigrantes, ou antes dos problemas que a sociedade francesa se coloca a respeito deles e que, por isso mesmo, acabam provocando problemas para os próprios imigrantes? Por conseguinte, o sociólogo deve contar com tais "representações coletivas" que, segundo é indicado com precisão por Émile Durkheim, "uma vez constituídas, tornam-se realidades parcialmente atuam sobre a realidade pela ação da explicação, formulação e informação (no duplo sentido de modelagem e difusão), inerente a qualquer forma de representação. No entanto, tais representações serão tanto mais eficazes 40. A. Sayad (1986), et 'profits' de l'immigration. Les présupposés politiques d'un débat économi- que", in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 61, março de 1986, p. 79-82. 41. E. Durkheim (1898), "Les individuelles et les représentations collectives", in Revue de Métaphysique et de Morale, tomo VI, maio de 1898; reproduzido in E. Durkheim, Sociologie et philosophie, Paris, PUF, 1973, p. 4. 77</p><p>quanto mais corresponderem a transformações objetivas que, antes de tudo, deverão merecer a atenção do pesquisador porque se encontram na origem do aparecimento e conteúdo das mesmas. Tal aspecto costuma ser negligenciado pelas perspectivas "constru- tivistas" da análise dos problemas sociais, como a de Herbert Blumer: nem tudo pode ser constituído como "problema social". 2.1. Transformações morfológicas e econômicas Se, por exemplo, considerarmos a "invenção" de uma "doença" que toma todos os aspectos de um "flagelo" social como foi o caso, na França, da tuberculose, das doenças venéreas e, desde os anos 20, do câncer - veremos que esta é acompanhada por aquilo que Patrice Pinell designa por "movimento Sem negligenciar os fatores internos do campo médico (em particular, o desenvolvimento da tecnologia) que permitiram alargar a intervenção médica tanto no plano das investigações do diagnós- tico, quanto no plano da própria terapêutica (principalmente a radiologia e a radioterapia), esse autor descreve as implicações propriamente sociais surgidas com o aparecimento da cancerologia enquanto disciplina médica autônoma, cristalizada na criação da Liga contra o Câncer. Essa Liga reunia representantes de todo o espaço da classe dominante (aristocracia, burguesia financeira e industrial, políticos, médicos, etc.), condição necessária, mas não suficiente, para que um "problema" enfren- tado por "particulares", até mesmo, mais amplamente, por um campo da vida social (médico, militar, escolar, etc.), se torne um "problema social", um problema de sociedade no duplo sentido do termo. Se, na época, o sucesso da Liga dependeu, em grande parte, da "sua capacidade em ter conseguido transformar o 'câncer' em um produto concorrencial no mer- cado das obras caridosas, isso resulta de fatores objetivos que a análise exclusivamente centrada na produção das categorias tende a negligenciar ou esquecer, em particular, a evolução da mortalidade e suas causas revela- das pelas estatísticas: o envelhecimento dos franceses aumenta a parte da população suscetível de morrer com tal doença que, da oitava causa de óbito dos parisienses, em 1956, passa, 30 anos mais tarde, para o quinto lugar". Esse aumento da incidência do câncer sobre a mortalidade é acompanhado por uma transformação da população em questão: os homens são cada vez mais atingidos e, sobretudo como mostra a objetivação estatística tende a se reduzir a diferença entre os bairros pobres e os bairros ricos. Cresci- 42. P. Pinell (1992), Naissance d'un Histoire de la lutte contre le cancer (1890-1940), Paris, 78</p><p>mento do número, elevação do estatuto social da população em questão, tais são as condições que, entre outras, podem ser reunidas para transformar um "problema" em um "problema social". mesmo acontece com a constituição da "velhice" como problema social que é correlativa das reviravoltas econômicas que afetaram as estru- turas familiares que, até então, assumiam o encargo dos pais idosos, inca- pazes de atender a suas necessidades. Aí também, o exemplo da velhice confirma a complexidade e diversidade dos fatores que se encontram na origem da emergência de um problema social e lembra que é, muitas vezes, o conjunto da ordem social que está em questão. "Que fazer com os velhos que já não servem para nada?" Tal era a questão formulada pelos "economistas" e "políticos" de meados do século XIX, a propósito da velhice nas classes "deserdadas" em que se tornaram as classes proletarizadas. Desde a origem, o problema das aposentadorias foi o de saber qual grupo deveria assumir o encargo da velhice dessas classes, por definição, desprovidas de capital a ser transmitido: a família ou a empresa, cujos campos de atividade iam-se dissociando com o desenvolvimento do capitalismo. A "velhice" como problema social surgiu, antes de tudo, na classe operária pelo fato da extensão rápida, sobretudo a partir de meados do século XIX, da organização capitalista do trabalho e do sistema de atitudes que lhe está Presume-se que o salário remunera apenas a força investida no trabalho, sem levar em consideração todos os encargos que um indivíduo deve assumir além da satisfação de suas próprias necessidades. rendimento dessa força é tanto mais mensurável quanto se desenvolve o maquinismo acompanhado pela desqualificação operária; além disso, tal força tende a ser reduzida unicamente à força física. A "velhice" dos operários é, então, assimilada, pelo patronato capitalista, à "invalidez", isto é, à "incapa- cidade para produzir", como é indicado com precisão por Cheysson, um dos especialistas da política social dos diretores das grandes empresas da época. Como é observado pela historiadora Rolande Trempé, a propósito da Companhia das Minas de Carmaux, foi a partir dessa lógica que as caixas de aposentadoria foram instituídas pelos empresários a fim de "reduzirem os custos da produção, desfazendo-se em condições honrosas, dos traba- lhadores idosos que ganhavam demais pelo rendimento 43. B. Dumons, G. Pollet (1994), L'État et les retraites. Genèse d'une politique, Paris, Belin. 44. R. Trempé (1971), Les Mineurs de Carmaux (1848-1914), Paris, Les Éditions ouvrières, 2 vols. 79</p><p>2.2. Problema social e formas de solidariedade Estamos vendo que a velhice, como problema social, não é o resultado mecânico do crescimento do número de "pessoas idosas", como tende a sugerir a noção ambígua de "envelhecimento demográfico", te utilizada pelos demógrafos. Podemos ver um exemplo disso na seguinte proposição: "Para qualquer população, escreve Alfred Sauvy, em determi- nado momento, encontramo-nos diante da distribuição: P qual P representa a população total, J o número de jovens, A o número de adultos, V o número de velhos. Esses três grupos permitem calcular três índices de envelhecimento: a) a relação V/P do número dos velhos com a população total; b) a relação V/J do número dos velhos com o número dos jovens; c) a relação V/A do número dos velhos com o número dos Diante de tais abstrações, o sociólogo é levado a empreender uma dupla abordagem que implica romper com as definições socialmente admitidas do fenômeno que estuda, na medida em que são demasiado gerais e/ou históricas. A primeira consiste em observar as diferenças entre os grupos sociais em relação ao seu objeto (nesse caso, a mortalidade, a idade da aposentadoria, a evolução dos salários ao longo do ciclo da vida, etc.). A segunda visa recolocar essas diferenças em conjuntos mais gerais que podem ser designados por "contexto", no qual se desenrola o fenômeno observado. Assim, não é tanto, talvez, referindo-nos ao asilo de idosos que vamos ter a possibilidade de compreender a evolução dos modos de assumir o encargo da velhice, mas levando em consideração as transformações da relação de força entre gerações no interior das famílias que, por sua vez, resultam de fatores externos à vida familiar. De modo que o estudo socio- lógico da velhice remete à consideração dos fatores que modificaram o que Émile Durkheim designava por "modos de solidariedade", isto é, "a natu- reza dos elos que unem os indivíduos", em determinado Embora a "velhice" da classe operária tivesse constituído, na origem, um "problema social", como é testemunhado pelos numerosos e prolonga- dos debates parlamentares sobre as "aposentadorias operárias e campone- sas", ao longo da segunda metade do século XIX, acontece que, mais tardiamente e em outras condições, também se colocou a questão de saber 45. A. Sauvy (1963), "Le vieillissement démographique", in Revue internationale des sciences sociales, XV, n° 3, 1963, p. 371-380. 46. E. Durkheim (1893), De la division du travail social, op. cit. 80</p><p>se o encargo dos membros idosos das outras classes sociais seria assumido famílias. Já não se tratava dos efeitos diretos das transformações de modelo econômico de produção, mas, de forma mais global, das conse- quências da mudança do modo de reprodução da estrutura social que, nessas classes, parece ter afetado, sobretudo, as relações entre gerações. TRANSFORMAÇÕES ECONÔMICAS E EVOLUÇÃO DAS ESTRUTURAS FAMILIARES: A INVENÇÃO DA VELHICE Todos os observadores da época descreveram o que Max Weber designou por "decomposição da comunidade doméstica" que, segundo ele, acompanha necessa- riamente o desenvolvimento da economia Sua argumentação é a seguin- te. A introdução da moeda favoreceu o cálculo das contribuições que cada um dos membros trazia para a vida do grupo e permitiu, para alguns deles e a partir de um certo patamar, a livre satisfação das necessidades individuais. Sem dúvida, como observa o próprio Max Weber, tal paralelismo não é perfeito, mas, desde o momento em que a atividade econômica está orientada para o lucro, torna-se uma "profissão" distinta que, diferentemente dos modos de produção que ele chama "comunistas", se exerce no quadro de uma "empresa". Estabelece-se, então, essa distinção, a seu ver decisiva, "calculável" e "jurídica", entre "casa" e "exploração", "trabalhos domésticos" e "oficina", etc. Tal separação é acompanhada de uma dissolução dos valores de solidariedade e troca que regulavam as relações entre parentes: a atividade dos membros do grupo, fortemente diferenciada em particular, segundo o sexo, ao ponto de ser instituída sob forma de ritos individualiza-se e tende, daí em diante, a definir e fixar o estatuto social de cada um. Nas economias tradicionais, essencialmente rurais, o princípio da distribuição das funções de cada um dos membros do grupo doméstico que constitui uma unidade de produção e, ao mesmo tempo, uma unidade de consumo apóia-se na indivisão do patrimônio; ora, como foi mostrado por muitos antropólogos, tal indivisão é correlativa de um recalque do espírito de cálculo, favorecido por esse modo de apropriação e gestão das riquezas (e que, ao mesmo tempo, permite salvaguardá-lo). Certamente, em tal economia, o "trabalho" está socialmente definido (é objeto de uma distribuição, de uma diferenciação, etc.), segundo o conjunto do sistema dos valores da comunidade (em particular, comandado pela satisfação das necessidades e da segurança do grupo) e não pela troca monetária e pelo que esta implica (um trabalhador "isolado", um mercado "livre", etc.): não é pensado ou percebido como distinto de outras funções sociais. M. Weber (1922), Économie et Société, tomo 1, trad. sob a direção de J. Chavy e E. de Dampierre, vol. 1 e vol. 2, Paris, Presses Pocket (col. "Agora"), 1995. 81</p><p>A partir do momento em que, com o crescimento do número de assalariados e a imposição da definição do trabalho como atividade produtora e rentável, a interde- pendência dos membros do grupo familiar tende a se desfazer, constitui-se uma nova visão da "atividade": a que é remunerada e valorizada, ou seja, o "trabalho", e a que não o é e como tal é depreciada ao ponto de deixar de ser considerada como tal ("a inatividade"). A percepção da "velhice" como um "encargo" a ser suportado e como um custo para o grupo familiar é tanto mais forte na classe operária quanto menores são os meios à disposição das A maior parte das pesquisas da época descreveram as condições miseráveis dos operários idosos. No final do século XIX, mais da metade da população urbana com idade superior a 65 anos não recebia pensão, nem salário, sendo que o encargo da maior parte dessas pessoas era assumido pelos filhos ou instituições de assistência. Nesse aspecto, podemos lembrar que mais de 40% dos asilos foram construídos no século XIX contra 26,5% antes de 1800, 23,3% entre 1900 e 1944, e 9,3% entre 1945 e 1970; além disso, a maior parte desses estabelecimentos foram criados ou finan- ciados, em parte, por fundos privados, muitas vezes provenientes das famílias de industriais ou de banqueiros. De fato, a passagem de um modo de sucessão segundo o qual as relações entre gerações eram diretamente controladas pelos pais, para um modo em que o acesso às posições de poder e aos bens é feito cada vez mais pela mediação de diplomas e concursos, teve como efeito transformar o âmbito das relações entre filhos e pais e modificar a definição do conteúdo e da intensidade das trocas entre eles, em suma, das obrigações recíprocas. Além disso, um grande número de campos que, tradicionalmente, eram da alçada da família e contribuíam para que ela existisse como grupo, foram, pouco a pouco, delegados a instituições e a um pessoal especializado. Assim, a guarda e educação das crianças são confiadas, desde a mais tenra idade, à escola; o acesso dos jovens ao mercado do trabalho é cada vez mais garantido pela via do concurso ou por agências de emprego; os empréstimos aos casais jovens podem ser concedidos por instituições financeiras; enfim, a manu- tenção material da velhice é, daí em diante, garantida por caixas de aposen- tadoria e estabelecimentos especializados, etc. Tal transferência tende a limitar, por uma parte variável segundo as classes sociais, o poder que os pais exerciam sobre os filhos48. Uma parte dos fundamentos da unidade e da estrutura do grupo familiar encontra-se, assim, abalada e o que dava lugar a trocas e negociações de 48. R. Lenoir (1985), des bases sociales du familialisme", in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 57-58, junho de 1985, p. 69-88. 82</p><p>pessoa a pessoa tende, daí em diante, a ser assumido por instituições que atuam segundo uma lógica própria. Nesse aspecto, a família camponesa constitui um caso típico da solidariedade que organiza entre as gerações e da qual é o produto: apóia-se em um patrimônio que é, ao mesmo tempo, um meio de produção, um meio de existência e o símbolo da posição social da linhagem. A crise da sucessão no meio camponês permite fazer aparecer o princípio da transformação das relações de força entre gerações no interior da família. Sem dúvida, mais do que nas outras categorias sociais, em particular assalariadas, nas quais a entrada dos jovens no mercado do trabalho não obriga os pais a se aposentarem, a velhice, entre os camponeses, chega através dos filhos que, para se tornarem chefes da empresa familiar, necessitam da retirada, pelo menos parcial, dos pais. No caso desses pequenos empresários fami- liares, a sucessão parece, com efeito, confinada em uma alternativa e se apóia em um equilíbrio sempre frágil; ou os pais conseguem conservar a autoridade sobre os filhos e os mantêm o mais longamen- te possível como "ajudantes familiares", ou então os filhos, para tomarem mais cedo a sucessão, necessitam da renúncia antecipada dos pais à gestão do patrimônio. No meio rural, a idade em que os filhos tomam o lugar dos pais depende do estado das relações de força entre gerações que, por sua vez, dependem da possibilidade dos filhos "saírem" da empresa familiar, isto é, exercerem uma profissão e terem condições de se estabelecer alhures. Assim, o acesso generalizado dos filhos de camponeses ao primeiro ciclo do ensino secundário* trans- formou as relações de poder no interior do grupo familiar camponês, modificando a divisão do trabalho de educação entre a família e a instituição escolar, favorecendo as comparações com os jovens das outras classes sociais, enfim e sobretudo, dotando as jovens gerações de um capital escolar. Com efeito, o único futuro possível dos filhos de camponeses já não é o de continuarem camponeses ou, quando tivessem de abandonar a terra, o de subproletários. Tornar-se enquanto ajudante familiar, pressupõe uma expectativa percebida, daí em diante, como demasiado longa. Tanto mais que, em decorrência do desenvolvi- mento das indústrias locais e da reviravolta das atitudes em relação às profissões citadinas, estão em condições de considerar a possibi- lidade de se tornarem operários ou empregados, isto é, "assalariados", N.T.: Corresponde ao período entre a a séries. 83</p><p>com todas as vantagens relativas que tal situação implica em relação às "servidões" da condição camponesa (independência material pre- coce, férias semanais, tempo fixo de trabalho cotidiano, etc.). Desde então, a sucessão tardia deixa de ser evidente e os filhos encontram-se, assim, em posição de negociar as condições da eventual retomada da empresa familiar por uma espécie de "chantagem de irem embora", com o objetivo de abaixar a idade em que os pais devem se retirar49. Embora um problema social seja, como toda problemática sociológica, o produto de uma construção, acontece que seus princípios são diferentes. Um problema social não é somente o resultado do mau funcionamento da sociedade (o que pode levar a pensar na utilização, por vezes abusiva, de termos como "disfunção", "patologia", "transgressão", "desorganização", etc.), mas pressupõe um verdadeiro "trabalho social" que etapas essenciais: o reconhecimento e a legitimação como tal. Por um lado, seu "reconhecimento": tornar visível uma situação parti- cular, torná-la, como se diz, "digna de atenção", pressupõe a ação de grupos socialmente interessados em produzir uma nova categoria de percepção do mundo social a fim de agirem sobre o Por outro lado, sua legiti- mação: esta não é necessariamente induzida pelo simples reconhecimento público do problema, mas pressupõe uma verdadeira operação de promoção para inseri-lo no campo das preocupações "sociais" do momento. Em suma, a essas transformações objetivas, sem as quais o problema não seria levado em consideração, acrescenta-se um trabalho específico de enunciação e formulação públicas, ou seja, uma operação de mobilização: as condições sociais de tal mobilização e de seu sucesso constituem um outro aspecto da análise sociológica dos problemas sociais. 3. A GÊNESE SOCIAL DE UM PROBLEMA SOCIAL trabalho de formulação pública pode surgir da iniciativa dos atores do próprio campo político que, na constituição de um problema social, encontram uma causa de interesse geral a ser defendida. Assim, a luta que, ao longo de todo o século XIX, opôs os representantes da burguesia industrial aos da aristocracia conservadora a propósito dos sistemas de 49. P. Champagne (1979), "Jeunes agriculteurs et vieux paysans. Crise de la succession et apparition du 'troisième in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 26-27, abril de 1979, p. 83-107. 50. E. Goffman (1963), Stigmate, trad. de Alain Kihm, Paris, Éd. de Minuit, 1975. 84</p><p>proteção social, em particular das aposentadorias dos operários, não des- pertava o interesse daqueles em favor de quem o problema tinha sido levantado, como é testemunhado pela ausência de reivindicações e manifes- tações populares sobre esse No entanto, embora tenha sido, sobretudo, a ocasião e o pretexto de lutas políticas que não se limitaram a encontrar soluções para o problema, este acabou sendo formulado de forma pública, isto é, enunciado e integrado na problemática política do momento. Essa integração quase sempre, um trabalho prévio de tomada de consciência e de formulação que não é imediatamente quando, no século XIX, a velhice da classe operária foi constituída como problema social. Com efeito, somente um mínimo de segurança, garantida pela permanência do emprego, regularidade do salário, etc., favorecendo a organização da vida cotidiana, permite o aparecimento de uma percepção racional do mundo e autoriza a formação de projetos e previsões, em suma, uma certa previdência em relação ao futuro que constitui, entre outras coisas, o objeto das reivindicações em matéria de Na França, tais con- dições não serão garantidas antes do final do século XIX e somente em favor das categorias mais bem aquinhoadas da classe operária. 3.1. Pressão e expressão Um estudo sobre a transformação do direito da família e do trabalho das mulheres, nos anos permite revelar essas operações que precedem a formalização jurídica das soluções para um problema social. Com na origem, a revolta contra o estatuto da mulher, tal como era definido no código civil de 1804 (apenas modificado um século e meio mais tarde), traduziu-se, antes de tudo, em práticas cotidianas de certas catego- rias de mulheres e foi sentida mais sob a forma de um mal-estar confuso, impreciso e relativamente indeterminado, e para retomar uma metáfora química, como em estado de suspensão. Essa espécie de distúrbio quase incomunicável verbalmente mas compartilhado por numerosas mulhe- res, cuja posição social e nível escolar se tinham elevado, em média, desde o início do século XX encontrou, sobretudo após a guerra, uma forma de expressão pública entre os "especialistas do inefável" como são, muitas vezes, os romancistas, neste caso as romancistas. 51. M. Perrot (1974), Les en France 1871-1890, Paris Haia, Mouton, 2 vols. 52. P. Bourdieu et al. (1963), Travail et travailleurs en Algérie, Paris Haia, Mouton. 53. R. Lenoir (1985), "Transformations du familialisme et reconversions morales", in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 59, setembro de 1985, p. 3-47. 85</p><p>No entanto, é sobretudo o rápido desenvolvimento da "imprensa femi- nina" (Elle, Marie-Claire são publicadas nesse momento, etc.) que, para prosseguir a metáfora, precipitou e solidificou essa espécie de "doce melan- colia" familiar de caráter feminino, definindo-a não tanto sob a forma de reivindicações do tipo jurídico, mas servindo-se de modelos da arte de viver ou não viver, prestando-se à identificação, quer se trate da apresentação de si (moda, tratamentos prodigalizados ao corpo, etc.), da vida doméstica (cozinha, decoração, recepção, etc.), ou da moral (sexualidade, maneira de educar os filhos, atividades profissionais, etc.). mesmo é dizer que delinear a gênese de um problema social pressupõe o estudo desses intermediários, culturalmente favorecidos, e que desempe- nham a função de porta-vozes. Por esse fato, podem ser considerados como representantes, senão de um grupo social, pelo menos de uma causa impli- citamente compartilhada; contribuem para sua explicitação. Acontece que essa forma de pressão, como é a expressão pública, traz a marca socialmente determinada dos homens e mulheres que têm acesso às diferentes mídias, de modo que o sociólogo não pode fazer a assimilação dos discursos organizados, quase sistemáticos e coerentes, peculiares a certas categorias sociais, até mesmo a profissionais, com as formas de revolta, sentidas, mas não verbalizadas e tematizadas. No caso das reivindicações feministas, tais discursos são proferidos, sobretudo, por mulheres que não somente tinham acesso aos meios de expressão pública (escritoras, jornalistas, advogadas, professoras, médicas, etc.), mas também a posições sociais que lhes permitiam falar publica- mente a respeito da crise a que estavam submetidas e as soluções desejadas para superar tal situação. Encontramo-nos, aqui, em um caso extremo em que problemas que existem na vida particular, sob forma de "problemas pessoais", como se diz, acabam se transformando em "problemas de socie- dade": tornaram-se públicos não tanto graças aos meios de informação e formação a que essas mulheres têm acesso, mas graças à sua própria posição que lhes permitia, de saída à maneira do segundo Max Weber fazer de sua "pessoa" um exemplo, apresentar-se como exemplo, dirigindo-se ao "interesse pessoal dos que sentem a ardente necessidade de serem salvos e comprometê-los a seguir a via trilhada por No lado oposto, outras categorias não dispõem de meios sociais, nem dos instrumentos de acesso à expressão pública, pelo menos sob sua forma 54. M. Weber (1922), op. cit. 86</p><p>verbal. o caso das "pessoas idosas" é, particularmente, interessante na medida em que fazem parte dessas "categorias estigmatizadas" como são designadas por Erving Goffman "incapazes de uma ação coletiva" e "obrigadas a se submeter", para serem reconhecidas e ouvidas como tais, a uma "organização Apesar de algumas tentativas ("congressos", "estados gerais", etc.) promovidas com o objetivo de organizar uma repre- sentação do tipo democrático, os representantes das "pessoas idosas" são sobretudo "experts", cuja competência é oficialmente reconhecida e remete a uma especialidade constituída como científica, a saber, a Como em relação ao movimento feminista, esses especialistas foram levados a formular uma nova definição da velhice (uma nova maneira de ser "velho"; neste caso, de preferência, uma forma de não o ser) que corresponderia, por uma parte, à demanda que poderíamos chamar "iden- titária" de novas categorias sociais de "pessoas idosas" cuja velhice já não era assumida pela família, mas pelos sistemas de aposentadoria. Essa nova imagem da velhice ("a terceira idade") pressupôs um trabalho de categori- zação que consistiu, principalmente, em eufemizar o vocabulário utilizado para designar os "velhos". Tratava-se de dar um nome, isto é, tornar público, o que tinha sido, até então, recalcado e não podia se exprimir oficialmente. Um outro exemplo 'é o do aborto. No momento em que a autorização do aborto foi objeto de um debate público, essa noção foi substituída pela expressão "interrupção voluntária da gravidez", e depois por "IVG", sigla que tem como particularidade excluir todas as conotações semânticas pejora- tivas. A constelação semântica tradicional que designa a velhice de fato, a das classes populares, a única de que se falava publicamente, ainda nos anos 50, com seus "velhos recursos", seus "entrevados" e seus "enfermos senis", abandonados nos "asilos" apaga-se em benefício de uma outra que tende a exprimir a forma como ela é considerada nas classes médias com suas "pessoas idosas" (por vezes, designadas simplesmente pelas iniciais "p.a."* ou "3.A"**): essas pessoas com "idade avançada" ou "idade de ouro", moram nos "lares do sol" ou nas "residências-luz", "se distraem" nos "clubes da terceira idade" ou seguem cursos nas "universidades da terceira idade". 55. E. Goffman (1963), Stigmate, op. cit., p. 36-40. 56. R. Lenoir (1984), "Une bonne cause. Les 'Assises des retraités et des personnes in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 52-53, junho de 1984, p. 80-87. N.T.: Sigla de "personnes âgées", ou seja, pessoas idosas. N.T.: Sigla de "troisième âge", ou seja, terceira idade. 87</p><p>Sem dúvida, a produção propriamente dita de um certo tipo de neces- sidades (em especial, a necessidade de atividades culturais e psicológicas que, no essencial, formam o conteúdo da expressão "terceira idade") resulta da transformação das relações entre gerações (abaixamento da idade da aposentadoria, diminuição do campo das profissões familiares e de sua duração, etc.). Quanto ao trabalho político, irá consistir, principalmente, em nomear, isto é, designar de forma oficial tais necessidades e, por conse- guinte, permitir que se exprimam de forma legítima e legal. Portanto, o discurso sobre a "terceira idade" não é um simples discurso de acompanhamento de processos objetivos. Exerce, também, um efeito peculiar de legitimação que, por uma parte, contribui para acelerar esses processos na medida em que tenta operar a reclassificação simbólica de gerações socialmente desclassificadas. o trabalho de classificação efetuado por agentes que têm também, quase sempre, o encargo da gestão cultural e psicológica da velhice e, por isso mesmo, são sem dúvida os primeiros interessados na classificação que impõem tem como senão por função, "normalizar" um "problema social", isto é, fazer aceitar como "normal" um novo estado das relações entre gerações, nem que fosse pelo fato de dar um nome oficial e inventar novas normas que orientam a vida cotidiana e as atividades associadas a essa "nova idade da vida". 3.2. Força do discurso e forças sociais A análise do discurso, das representações que veicula e das pretensões que formula, é inseparável do dos que o enunciam e das instâncias nas quais é pronunciado ou publicado. Do ponto de vista sociológico, esses fatores sao os mesmos que dão força e eficácia a essa forma particular de expressão que é o discurso; aliás, não seria possível isolá-lo dos outros instrumentos que visam dar uma certa "consistência social" a determinadas reivindicações. Se é verdade que a força (e o sentido) de um discurso resulta, por uma grande parte, das características daquele que o faz, é importante também nos interrogarmos sobre a "representatividade" do porta-voze de sua capacidade para "mobilizar a Assim, o estudo deve incidir sobre todas as formas de mobilização e condições que os tornam possíveis e têm como efeito credenciar a causa, em particular, junto aos poderes públicos. De fato, para que um "problema" tome a forma de um problema social, não basta que encontre agentes socialmente reconhecidos como competen- tes para examinar sua natureza e propor soluções aceitáveis; ainda será preciso, de alguma forma, impô-lo no cenário dos debates públicos. Por exemplo, a denúncia da condição da mulher pelos movimentos feministas nos anos 1960-1970, foi acompanhada por um trabalho de mobilização. Tal 88</p><p>fenômeno pressupõe uma instrumentação social elaborada, como a criação de "grupos" cujas funções são, simultaneamente, materiais (divisão do trabalho de informação e difusão) e simbólicas (dar a enunciados singulares a força de um "trabalho coletivo"). Isso equivale (pelo menos, em um primeiro tempo), a garantir e confir- mar as como afirma Max Weber, por meio desse conjunto de técnicas de integração social e intelectual que vão das "pequenas reuniões" aos "meetings" e da redação de folhetos e slogans ou de brochuras à publicação de revistas especializadas. Os "meetings" e as manifestações exibem-se de forma oficial, desenrolam-se em espaços públicos e visam tornar-se um "acontecimento comentado por todo o mundo", em particu- lar, fazendo apelo, determinante em nossos dias, à (cf. cap. IV). No processo de constituição da "terceira idade" como problema social e apesar de tomar uma outra forma encontramos esse trabalho coletivo de imposição de uma identidade social específica. No entanto, diferen- temente do "movimento feminista", emanou não tanto de associações de defesa de aposentados ou de pessoas idosas - quase sempre, limitando-se a existir, como se diz, "no papel" - mas das diferentes categorias de profis- sionais da gestão da velhice (trabalhadores e animadores sociais, gerontó- logos, geriatras, etc.) que, nessa ocasião, desempenharam um papel homólogo ao dos "militantes". Com efeito, são eles que, habitualmente, estão na origem de tais associações, redigem e difundem as brochuras e revistas, participam de todas as manifestações em que são apresentadas reivindicações específicas, assinalando a existência social do "grupo" e, ao mesmo tempo, a importância política do problema que ele coloca. 3.3. Consagração estatal e trabalho de legitimação É por um processo de consagração estatal que determinados problemas da vida particular e apenas tematizados são transformados em problemas sociais que exigem soluções coletivas, muitas vezes sob a forma de regula- mentações gerais, direitos, equipamentos, transferências econômicas, etc. Tais soluções são elaboradas, quase sempre, por "especialistas" benévolos ou profissionais. Uma das fases essenciais da constituição de um problema como problema social é justamente seu reconhecimento como tal pelas instâncias estatais. Assim, o sociólogo deve recensear os espaços nos quais se elaboram essas "políticas" (como as comissões do Commissariat Général du Plan, as das 57. R. Lenoir (1985), "Transformations du familialisme et reconversions morales", loc. cit. 89</p><p>assembléias parlamentares ou do Conseil Économique et Social, etc.), descre- ver as características dos agentes que contribuem para a definição das medidas, sendo que estas ficam devendo sempre uma parte de seu conteúdo às características sociais e profissionais desses "especialistas". Assim, estão criados os meios de apreender um dos princípios da evolução das políticas em determinado setor, no pressuposto de que podem mudar os agentes envolvidos e as relações de força que os ligam. Pelo fato de se tratar de um desafio com múltiplas dimensões, sobretudo econômicas, mas também profissionais e morais, a análise da consagração oficial dos "problemas da velhice" revela, pelo menos, duas formas de legitimação que se combinam e reforçam mutuamente: a consagração pelos isto é, principalmente pelos membros da alta função pública e o reconhecimento pelos "experts". Com efeito, a invenção da "velhice" como uma categoria da ação política (fala-se de "política da velhice" que é elaborada e aplicada por instâncias ministeriais criadas especificamente para tal fim) é típica desse trabalho de reconhecimento, unificação e oficialização, em suma, de normalização que, em grande parte, define a ação política estatal. No início dos anos 60, o governo criou uma "Comissão de estudo dos problemas da velhice". Em relação às que a tinham precedido, que não reuniam membros tão elevados na hierarquia profissional respectiva e não dispunham de meios materiais e simbólicos tão importantes, essa comissão reagrupava as personalidades mais importantes dos setores interessados pelo problema não da "velhice", mas do "envelhecimento". A COMISSÃO DE ESTUDO DOS PROBLEMAS DA VELHICE (1960-1962) A análise do processo pelo qual determinadas ações, até então isoladas e dispersas, empreendidas em geral por trabalhadores da área social, obtêm o estatuto de medidas políticas com a força e a visibilidade que estão associadas a tudo o que é oficial, é importante para compreender o que está em jogo na construção de um problema social. No entanto, tal transmutação não teria sido tão rápida se não tivesse constituído o objeto de uma consagração oficial por uma dessas novas instâncias de legitimação da ação social, instância que se poderia chamar Tal é o caso da "Commission d'étude des problèmes de la vieillesse"58 58. Comission d'étude des problèmes de la vieillesse (1962), Politique de la vieillesse, Paris, La Documentation française. Este relatório é freqüentemente designado por "rapport Laroque" nome do presidente da comissão. 90</p><p>Diretamente ligada ao primeiro-ministro, reuniu em volta de Pierre Laroque presidente da seção social do Conseil d'État e principal responsável pela instalação, em 1945, da seguridade social os dois especialistas mais capacitados e famosos em assuntos relativos ao envelhecimento: François Bourlière, titular da primeira cáte- dra de geriatria na faculdade de medicina de Paris, e Alfred Sauvy, professor no Collège de France e diretor do Institut national d'études démographiques (INED). Ambos participaram muitas vezes, como promotores da maior parte dos colóquios sobre o envelhecimento, desde a realização do primeiro, em 1948, subordinado ao tema "Journées scientifiques sur le vieillissement". Além disso, fizeram parte dessa comissão presidente diretor geral de uma companhia de seguros, o comissário adjunto do Commissariat général du plan, vários especialistas em ciências sociais que foram encarregados de empreender pesquisas sobre os diferentes aspectos das condições de vida das pessoas idosas (Pierre Chevry, diretor adjunto do INSEE; Louis Chevalier, professor de história no Collège de France; Pierre George, professor de geografia na Sorbonne; assim como Jean Fourastié, economista, professor no Conservatoire national des arts et métiers). Apesar da comissão ter contado com a participação de representantes dos diferentes ministérios interessados, sobretudo, pelo destino das pessoas idosas das classes populares, a "política da velhice" adotada na do "rapport Laroque" aplica-se "não somente às pessoas idosas mais mas também ao conjunto da população idosa" (p. 215); além disso, não se limita a olhar pelos idosos indigentes, mas se preocupa com a "inserção das pessoas idosas na sociedade" (p. 9). Essa problemática do "envelhecimento" (dito do "envelhecimento de- mográfico") está apta a se tornar uma "causa nacional", como a da crise da natalidade da qual é o complemento. Como no caso do sistema de assistência tradicional, já não se trata de aperfeiçoar as condições miseráveis de vida das pessoas idosas sem recursos e dos indigentes o que teria mobilizado outros agentes especializados, tais como assistentes sociais, médicos de asilo ou de centros de saúde, responsáveis pelos organismos de beneficência e de obras caritativas, etc. mas de resolver um problema definido como um questionamento da reprodução da sociedade e da perpetuação do grupo nacional (e da ordem social a que está associado). Com efeito, o "envelhe- cimento" é concebido como um "perigo" nacional, o que fornece a uma certa categoria de agentes a ocasião de exercer uma espécie de magistratura metapolítica em campos relativamente pouco constituídos do ponto de vista político. A essa mudança de "problemática", isto é, de uma visão estatal da ordem das coisas cujas categorias são, atualmente, muito mais "econômicas" do que "morais" corresponde, não somente uma transformação do sistema dos agentes interessados em resolver o "problema", mas também o estatuto daqueles a quem é confiada a função de definir o conteúdo da "política" a 91</p><p>ser seguida, em particular, no campo político. A "gravidade" do problema ("perigo"), o tamanho da população (o conjunto das "pessoas idosas"), a multiplicidade dos setores envolvidos (economia, saúde, seguridade social, etc.) são outros tantos fatores que mobilizam tais "personalidades públicas incontestáveis, tanto em sua profissão encontram-se no mais elevado grau da respectiva hierarquia profissional quanto em sua maneira de ocupar o espaço público são "técnicos" e não "políticos". No entanto, diferentemente de seus pares, esses "profissionais" exerceram também, quase sempre, funções públicas e administrativas, quer se trate da diretoria de grandes organismos administrativos ou de grandes associações com vocação de ordem moral. Em suma, eles é que são designados por "sábios", isto é, espécie de "generalistas" dos problemas sociais. A nova representação da velhice deve uma parte de sua força ao fato de que se encontra caucionada por certos agentes do campo científico na área da medicina e das ciências sociais e apóia-se na difusão de uma "vulgata gerontológica" correlativa da institucionalização recente da gerontologia como disciplina "científica". A gerontologia confedera as diversas especia- lidades que se foram constituindo em volta do tratamento da velhice. No entanto, inversamente, a consistência e a força dessa nova "especialidade" deve-se, sem dúvida, não tanto aos fundamentos propriamente científicos e reconhecidos como tais pelo conjunto do campo científico, mas à neces- sidade de uma nova crença coletiva que tem a ver com a transformação das relações entre gerações e à autonomização da gestão da velhice resultante daí, incrementada por esses "especialistas". Se a nova representação coletiva da velhice tomou as aparências da ciência é porque esta se tornou um modo legítimo de representação do mundo social. Nesse aspecto, a gerontologia é exemplar dessas "morais científicas" que acompanham a instalação das instituições de gestão dos "problemas sociais". Um dos indícios da fraca "autonomia" de tais disci- plinas em relação à demanda administrativa é a própria definição de seu objeto. São sempre decalcadas a partir da matriz juridicamente determi- nada das instituições; aliás, muitas vezes, não passam da emanação das mesmas. Com efeito, as definições dessas "especialidades", tais como a gerontologia, a criminologia, a ergonomia, etc., são construídas segundo os próprios princípios dos modos burocráticos de gestão das relações sociais, a saber: a formação de "populações" dotadas ou privadas de direitos social- mente garantidos pelo Estado. Tal adequação entre o objeto científico e o objeto jurídico encontra-se, talvez, na origem da representação "realista" dos objetos submetidos à formulação científica, à qual estão inseparavel- 92</p><p>mente ligados o crédito e os créditos: "aposentados", "acidentes de traba- lho", "mães celibatárias", "famílias numerosas", etc. Nas lutas pela imposição da definição legítima do objeto científico, o fato de "ter a realidade em seu favor", como dizia Gaston Bachelard, é uma arma cujo valor é inestimável junto aos responsáveis administrativos. Estes exigem que os especialistas em ciências sociais sejam "realistas". Tudo o que lhes pedem é o que faz, embora de outra forma, o direito e, nesse caso, em ligação com ele- de proceder a um trabalho de racionalização e justificação da decisão. Esse trabalho consiste em dar a medidas administrativas e políticas o estatuto de decisões justas, isto é, racionalmente justificadas. Em retorno, tais especialistas são consagrados, senão pela "realidade", ao menos pelos agentes cujos atos, pela posição ocupada, têm o poder de "concreti- zar", em particular graças aos meios financeiros de que dispõem, as repre- sentações elaboradas e legitimadas por esses especialistas. Por exemplo, a invenção pelos gerontólogos de uma nova repre- sentação do período que começa com a aposentadoria, como "as grandes férias da vida", favoreceu o rápido desenvolvimento da indústria do lazer (ou, de qualquer modo, de uma rentabilização maior dos investimentos nesse setor) desenvolvendo a utilização, durante a baixa estação, de equipamentos cuja é, habi- tualmente, sazonal. Aliás, o mercado das "férias da terceira idade" não se teria desenvolvido tanto, se não tivesse sido tão amplamente subvencionado pelas municipalidades e caixas de aposentadoria que se encarregaram de garantir sua publicidade, prospectar sua clientela e financiar uma parte das despesas. Assim, ao defender que "o estado normal da terceira idade é o lazer", o gerontólogo contribui com sua parte para o crescimento das empresas de lazer. Em retorno, ao criar serviços especificamente destinados à "terceira idade" levando essa expressão a entrar nas categorias de percepção do senso comum os agentes do campo econômico reforçam a posição de tais especialistas que, no desenvolvimento desse novo mercado, vêem a confir- mação, à maneira de um plebiscito, das necessidades que, em parte, são o produto de suas análises e pesquisas. 3.4. especialista e o sociólogo Não se trata de uma novidade convocar especialistas para assessorar as instâncias administrativas. Robert Castel descreveu a evolução da lógica que conduz tais instâncias a recorrer a especialistas, cuja função era, na 93</p><p>origem, "avaliar determinada situação a partir de seu saber Eis o que caracterizava tal intervenção: a competência mobilizada, o "capital de perícia", era independente em relação aos interesses da instituição que fazia apelo a esse serviço. o caso-limite desse aspecto técnico da relação de perícia é o do contador a quem a autoridade judiciária pede para fazer o balanço financeiro de uma empresa. É também o caso do especialista em balística. É a partir dessa "relação de serviço" entre duas instituições que se constituiu a perícia enquanto "instância de legitimação". Robert Castel, cuja análise é reprodu- zida aqui, utiliza o exemplo do recurso ao relatório psiquiátrico pelos tribunais no meio judiciário, tal prática veio a impor-se no início do século XIX. o recurso explica-se por uma contradição interna ao funcionamento do aparelho judiciário. Para ser punido, segundo o código penal, é necessário ser responsável por seus atos. Quando um ato foi cometido em condições tais que parece ter sido realizado fora de qualquer racionalidade, o tribunal deve se pronunciar, mas os critérios sobre os quais se apóia para fundamentar seu julgamento não podem ser pertinentes para a instituição jurídica. o recurso ao "expert", isto é, a um agente dotado de uma competência específica externa à da instituição que faz apelo a seus serviços, irá permitir que ela possa sair dessa contradição. "Ao dizer, prossegue Robert Castel, que o acusado é ou não responsável (e ao constituir um saber para fazer tal afirmação, ao construir conceitos como o de monomania, etc.), o especialista-médico irá permitir que o aparelho judiciário funcione segundo sua própria lógica, isto é, condenar "com toda justiça" ou renunciar ao processo com boa consciência, conforme o ato incrimi- nado entre ou não em suas próprias categorias". Vemos que, neste caso, trata-se de uma relação de serviço: o especia- lista não está constituído, aqui, como "decididor". Transmite um parecer que será ou não utilizado pelos demandantes de tal serviço. No entanto, até mesmo no caso em que "o parecer não compromete", como se diz em direito, o conteúdo da perícia acaba influenciando a decisão. De modo que a legitimidade judiciária tende a se apagar diante da legitimidade da perícia. "De forma mais exata, apóia-se em uma legitimidade da perícia, contentando-se em reformulá-la segun- do seu próprio código". No que diz respeito aos problemas sociais, 59. R. Castel (1985), "Lexpert mandaté et l'expert instituant", in Situations d'expertise et socialisation des savoirs, Ata da mesa-redonda organizada pelo CRESAL em março de 1985, p. 84-92. 94</p><p>especialista quase sempre médico, psicólogo ou sociólogo é assim, muitas vezes, o agente que, em última análise, tem a autoridade legítima para definir as categorias de classificação dos indivíduos e para reconhecer, nestes últimos, os sintomas e indícios corres- pondentes a tais categorias. Assim, a perícia "instituinte" exerce uma espécie de magistério, certa- mente, baseado em um saber (o "capital específico" do especialista), mas que produz "fatos normativos", classificações e desclassificações que têm um estatuto de direito. Por conseguinte, esse mandato do especialista não é essencialmente um mandato técnico, mas uma capacidade para definir normas. "Não serve de árbitro entre opções técnicas, mas entre escolhas de valores". Assim, encontramos exatamente a mesma lógica a propósito das decisões de orientação nas seções especializadas de ou na utili- zação dos testes de inteligência para a orientação Desse modo, o aparecimento de um problema social resulta de duas séries de fatores: das transformações que afetam a vida cotidiana dos indivíduos na de diversas reviravoltas sociais e cujos efeitos diferem segundo os grupos sociais; no entanto, essas condições objetivas apenas dão origem a um problema social quando este chega a receber uma formulação pública. Tal fenômeno remete à segunda série de fatores (traba- lho de evocação, de imposição e de legitimação) que acabam de ser lembra- dos. Resta uma terceira fase: o processo de institucionalização que tende a imobilizar e fixar as categorias segundo as quais o problema foi colocado e resolvido ao ponto de torná-las evidentes para todos. 4. A INSTITUCIONALIZAÇÃO obstáculo a uma análise propriamente sociológica não se deve tanto à complexidade do objeto, mas às condições sociais de seu estudo. o sociólogo encontra-se diante de representações já constituídas que têm diversas formas: apresentam-se não somente no estado de discurso, erudito ou político-moral, mas também no estado de instituições como sistemas de retribuição ou redistribuição, equipamentos, etc. São outros tantos fatores que contribuem para impor ao sociólogo a definição de seu objeto. Por 60. G. Balazs, J.-F. Faguer (1986), "Un conseil de classe particulier", in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 62-63, junho de 1986, p. 61. F. Muel-Dreyfus (1975), "L'école obligatoire et la naissance de l'enfance anormale" in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 1, janeiro de 1975, p. 61-74. 95</p><p>consegüinte, ao tentar fazer a sociologia dessas diferentes formas de insti- tucionalização de seu objeto, é que o sociólogo encontra o instrumento que dá toda a força à crítica epistemológica. Nesse aspecto, e para retomar o exemplo que nos serviu de fio condutor desde o início, a gestão coletiva da velhice ainda é típica dessas diferentes formas, a partir das quais é institu- cionalizado um problema social, assim como as propostas feitas no sentido de resolvê-lo. 4.1. A burocratização das relações sociais A instauração dos sistemas de aposentadoria e, de forma geral, dos sistemas de seguro - é característica dos modos de resolução dos problemas sociais constituídos, desde o final do século XIX, em todos os países industrializados. aspecto principal dessa nova tecnologia social é a transferência para mecanismos, que funcionam segundo as técnicas do seguro, daquilo que se encontrava, muitas vezes, na origem da força-motriz da vida privada e familiar ou, em caso de falência, da caridade e de sua forma racionalizada, a assistência (o que, então, se designava por filantropia), até mesmo o que passou a ser designado por ajuda social. Todos os sistemas de proteção social consistem em uma redistribuição dos recursos; no entanto, diferentemente da ação "caritativa", ato singular que coloca em relação um particular com outro particular, os seguros sociais colocam em relação os detentores de direitos com agentes socialmente mandatados para classificar os indivíduos nas categorias jurídicas corres- pondentes. No que diz respeito à velhice, o modo tradicional (familiar) de gestão coloca em relação direta a pessoa idosa com aqueles que tomam seu encargo; o custo desse encargo e as obrigações correlatas constituem o objeto de negociações de pessoa a pessoa, levando em consideração a pressão social favorável aos pais idosos. Daqui em diante, esse tipo de encargo é substituído por um modo de manutenção cuja característica se deve à mediação anônima operada, entre os agentes envolvidos, por uma instância que intervém a partir de mecanismos despersonalizados. De fato, a instauração de sistemas de pensão tem como efeito confiar (pelo menos parcialmente) a manutenção financeira da velhice a leis esta- tísticas (as da mortalidade) sobre as quais se apóia o funcionamento dos "regimes" de aposentadoria. Tais regimes estão assentes em "populações" cujo princípio de constituição não está relacionado, como nos grupos "reais" de solidariedade, com "elos pessoais" dos membros que os compõem; pelo contrário, como em todos os sistemas de seguro, tem a ver com o estabelecimento da relação de "dependência mútua" de pessoas que não se 96</p><p>conhecem e desconhecem que estão ligadas por tais relações. São "grupos" nos quais as relações entre os membros são exclusivamente jurídicas, como as que são mantidas, por exemplo, pelos acionistas de uma sociedade anônima: as relações são definidas pelo direito de se apropriar, em condi- ções determinadas e independentes dos indivíduos, de uma parte do capital colocado em comum que, no caso particular das caixas de aposentadoria, é formado pelo conjunto das cotizações dos sócios. Esse modo burocrático de gestão das populações pressupõe a elaboração e reconhecimento de princí- pios universais e abstratos de classificação, distinguindo as características dos titulares de direitos, assim como a produção de agentes especializados e ajuramentados para aplicar tais princípios. Para a "velhice", os critérios adotados são bastante simples: idade, duração e montante da cotização. Para a "família", as fórmulas são mais complexas. São utilizadas duas séries de critérios. A primeira diz respeito ao "modelo familiar" que deve ser favorecido (a família "numerosa", por exemplo, com três filhos ou mais). Com essa finali- dade, são utilizadas as seguintes variáveis: situação matrimonial (tal como é definida pelo direito em determinado momento do tempo), espaço de tempo entre o casamento e o primeiro nascimento, número de filhos, diferença intergenésica, trabalho da mulher e nacio- nalidade. Assim, o modelo da família privilegiado pelo Código da Família de 1939 é o da família de nacionalidade francesa, tendo pelo menos três filhos e no qual a mãe, casada, permanece em casa. A segunda série explicita os critérios segundo os quais são pagas e avaliadas as prestações: dizem respeito à criança (presença, posição e idade), casamento (existência, duração), nacionalidade e montante dos recursos. Toda "política familiar" poderia ser definida pela im- portância que reconhece a este ou aquele conjunto de critérios. Sem dúvida, as categorias segundo as quais são instituídas as soluções políticas para os problemas sociais constituem, como nos modos de gestão anteriores menos formalizados, um pretexto para lutas entre diferentes categorias interessadas pela imposição desta ou daquela fórmula. No entan- to, com este novo modo de gestão das populações, o essencial da mudança é que o terreno tende a se deslocar, sendo que as armas tradicionais dos conflitos políticos dão um espaço cada vez maior para esses confrontos entre responsáveis político-administrativos e especialistas da instituição. É como se as transformações da estrutura social (evolução das relações entre as classes, evolução das relações entre gerações, etc.) fossem, daqui em diante, mediatizadas pelo que é designado com a expressão "política social". Com efeito, a "política" e suas funções sociais não se limitam à representação 97</p><p>jurídica (partidos, parlamento, governo, etc.) a que estamos habituados, graças à mídia e às próprias tecnologias políticas (eleições, debates parla- mentares, votação das leis, etc.). A política principalmente, "social" atua de duas maneiras: por um lado, produz representações que têm um grau de generalidade e validade legitimado pela ciência (biologia, demografia, psicologia, sociologia) e consagrado pelo direito, sendo que tais representações são institu- cionalizadas em numerosos organismos especializados e encarnados por técnicos cuja competência é reconhecida e garantida juridicamente; por outro, atua através da modificação das próprias práticas e através do desen- volvimento de um conjunto diversificado de instituições que cobrem certos aspectos da vida e são utilizadas pelos atores sociais. 4.2. Os discursos das instituições No entanto, o sociólogo tem de enfrentar, sobretudo, discursos que tendem a constituir, como especialidade, o fenômeno que estuda. Essa espécie de senso comum erudito emerge, muitas vezes, de disciplinas reconhe- cidas como científicas que encontram, nesse novo objeto de estudo, uma nova aplicação. As problemáticas dos diferentes discursos feitos sobre a velhice refletem, à maneira das camadas geológicas, as etapas da evolução das disciplinas que transformaram a "velhice" em uma especialidade. conteúdo de cada um deles corresponde aos problemas encontrados, no decorrer de seu desenvolvimento, pelas instituições especializadas nesse campo. Os primeiros discursos com caráter científico provêm do campo médico e, na origem, incidem sobre o envelhecimento orgânico. No entanto, se o envelhecimento fisiológico constituiu, bem cedo, um terreno de estudo e pesquisa no campo médico, a "gerontologia" (ou a "geriatria") enquanto disciplina autônoma das ciências médicas, dispondo de um corpo de saberes e especialistas reconhecidos, só apareceu, na França, após 1945. Esta disci- plina limita-se a considerar o envelhecimento como processo contínuo de usura fisiológica. Tal definição do envelhecimento encontrou na extensão da atividade médica (crescimento e especialização dos médicos e pessoal paramédico, desenvolvimento dos serviços hospitalares) as condições favo- ráveis para sua difusão, como é testemunhado, entre outros indícios, pelas numerosas obras de divulgação gerontológica escritas por médicos, desde o final dos anos 50. A "vulgata gerontológica" consiste em difundir regras de higiene corporal e contribui para reforçar a representação do envelhe- cimento como um processo individual de enfraquecimento orgânico. 98</p><p>Em seguida, com a instalação dos regimes de aposentadoria (1950), a problemática mais especificamente econômica dos demógrafos (desde a origem, associados à criação dos sistemas de aposentadoria) tende a se impor, em particular, no campo Para estes últimos, trata-se de avaliar o custo da manutenção da velhice, colocando em relação a população ativa com a que deixou de ser; nesse caso, a relação "demográ- fica" é o instrumento utilizado pelas caixas de aposentadoria o montante das cotizações de seus sócios e o das pensões pagas a seus aposentados. Desse ponto de vista, a velhice é assimilada à aposentadoria. A generalização dos regimes de aposentadoria a categorias sociais que, até então, não se beneficiam deles, e o abaixamento contínuo da idade da aposentadoria durante esse período (entre 1954 e 1968, a taxa de atividade dos homens com 65 anos e acima passou de 36,2% para 19,1%) levaram as caixas de aposentadoria e, em particular, as caixas de aposentadoria com- plementar, a enfrentar novas populações com outro tipo de demandas. A fim de responder a essas novas demandas de serviço, mais culturais e psicológicas, as caixas fizeram apelo a especialistas em ciências sociais (psicó- logos e, sobretudo, sociólogos). A intervenção dos especialistas em ciências sociais no campo dos agentes de gestão da velhice contribuiu para difundir uma nova problemática da velhice, a da "inserção social das pessoas idosas"; assim, o envelhecimento é descrito como um processo de diminuição da vida social, uma "redução dos papéis sociais", que desemboca em "morte social". Tais discursos (e as instituições correspondentes) constituem o princi- pal obstáculo encontrado pelo pesquisador para construir seu objeto, na medida em que cooperam para delimitar o campo da pesquisa. Nesse caso, a velhice é definida como uma etapa do ciclo da vida, identificável como tal, segundo critérios que diferem segundo as disciplinas intervientes: usura "biológica" para os médicos, idade "cronológica" para os demógrafos, ausência de "funções sociais" para os sociólogos. No entanto, além de tais divergências, esses discursos contribuem, sobretudo, para credenciar a representação da velhice como uma faixa etária autônoma com caracte- rísticas específicas, relacionadas fundamentalmente com os efeitos da ida- de. A velhice torna-se, deste modo, uma faixa etária para os demógrafos ("as pessoas com 65 anos e acima"), uma categoria médica para os médicos (os "entrevados"), enfim, uma categoria social para os sociólogos (as "pessoas idosas", os "aposentados"), etc. Assim, para estudar "a velhice", o sociólogo é levado, quase inevita- velmente, a efetuar uma pesquisa sobre as populações designadas, do ponto 99</p><p>de vista social, como "velhas" ou "envelhecidas", essas mesmas que são assumidas pelas instituições das quais, muitas vezes, ele depende financei- ramente: por um lado, asilos, lares para aposentados, clubes ou universida- des da terceira idade; e, por outro, beneficiários de aposentadoria. Essa autonomização conceitual da "velhice" é, em parte, o produto da formação de um campo de instituições e agentes que, em luta para imporem a definição da velhice mais conforme a seus interesses, contribuem - com seus discursos e as formas "realizadas" (prédios, serviços, etc.) ou "encar- nadas" (gerontólogos, geriatras) desse discurso - para transformar uma "representação mental" da realidade, segundo a expressão de Durkheim, na realidade. Pela ação que esses agentes exercem sobre os indivíduos, acabam transformando as categorias mentais em instituições com a força e a eficácia do real. Vemos um exemplo desses efeitos na constituição recente da oposição entre "terceira idade" e "quarta idade", que corresponde à chegada de novos especialistas no sistema dos agentes que administram a problemática da velhice: ao estabelecerem a diferença entre "quarta idade" objeto de acolhimento e de tratamentos "fisiológicos" - e "terceira idade" que exige, sobretudo, "atividades de ordem cultural e psicológica", eles tendem a impor novas necessidades e, ao mesmo tempo, a necessidade de seus serviços. 4.3. A institucionalização de uma nova moral Enfim, a ruptura com as definições socialmente pré-construídas da velhice ainda se torna mais difícil devido a esses novos discursos que acompanham o aparecimento de novas formas de tratamento; aliás, estas correspondem a uma demanda social cuja manifestação mais aparente, por ser a mais compartilhada, é a difusão de uma nova moral que rege as relações entre gerações. Com efeito, o discurso sobre a "terceira idade" (e a fortiori sobre a "quarta") é um discurso de delegação. Os gerontólogos são especialistas autorizados a falar em nome da velhice; além disso, ao promoverem novas formas de consumo e de práticas destinadas às pessoas idosas, contribuem também para inventar uma nova moral doméstica, isto é, uma nova defini- ção social do que devem ser as relações entre gerações no interior do grupo familiar. Os discursos sobre a "terceira idade" legitimam o recurso a essas novas formas de gestão da velhice como uma solução normal que está se impondo com o caráter oficial que lhe dá a consagração política e, atual- mente, midiática. 100</p><p>No entanto, se a transformação das atitudes em relação ao tratamento coletivo da velhice obteve um tão grande sucesso, como é testemunhado pelo desenvolvimento dessas novas instituições e, sobretudo, pela rápida difusão do discurso sobre a terceiraidade", é porque, pelo menos, em parte, essas atitudes lhe eram preexistentes. Os idosos que fizeram poupança, em particular os da classe média, estavam bastante voltados para os filhos: os pais faziam poupança "pensando nos filhos"; mas, em troca, esperavam que estes se comportassem como "bons filhos", isto é, se dedicassem pessoal- mente, de forma incondicional, aos pais envelhecidos. Delegar a institui- ções especializadas a preocupação de tratar dos aposentados e tornar legítimo o fato de que os pais idosos deixaram de fazer poupança, mas gastam suas pensões em lazer e férias, tal atitude equivale também a economizar uma parte importante desse trabalho de manutenção de rela- ções e afeição que, anteriormente, incumbia aos filhos. Na medida em que as relações com as gerações idosas comprometem sempre, em diversos graus, a moral do grupo familiar e, portanto, a honra de seus membros, não basta tornar os asilos "mais acolhedores" para que venham a ser ipso facto uma solução moral e afetiva mais aceitável. Para que o abandono das soluções familiares tradicionais não seja assimilado a um abandono puro e simples pela família ("eles desembaraçaram-se da pessoa idosa") ou, pior, a uma espécie de desclassificação ("colocaram-na aí como uma pobre"), é necessário evitar que o fato de enviar alguém para tais instituições seja assimilado a uma internação em asilo. A redução do custo moral ou afetivo pode, assim, passar pela elevação do custo econômico das novas formas de tratamento: a delegação da manutenção dos pais idosos a agentes especializados só é possível ao preço, sempre elevado do ponto de vista econômico, de uma transformação e de uma transfiguração do asilo convertido em "residência", em "casa de saúde e tratamento médico", etc. No entanto, a variedade e qualidade da oferta de tratamento coletivo não basta, por si só, para desencadear o processo de liberação do sentimento de culpa. Com efeito, não é suficiente colocar os pais idosos em "asilos de luxo" para apagar os interesses, ainda aparentes demais, dos filhos em relação a essa situação dos pais. Para que o recurso a tais instituições não apareça, para os próprios indivíduos, como a expressão pura e simples dos interesses das gerações mais jovens, é necessário que tal decisão seja preconizada por agentes exteriores à família e investidos de autoridade, em nome de uma nova definição do interesse bem compreendido das "pessoas idosas". As- sim, apesar da "decisão" de colocar um dos pais em determinada instituição ser tomada oficialmente pela família, acaba por se apoiar, 101</p><p>quase sempre, no "conselho" de um desses ministros oficiosos da boa ordem familiar como são, segundo as classes sociais, o padre, a assistente social ou o médico aliás, este último ajuda não somente com seu "diagnóstico", mas também através de seus conhecimentos, para encontrar um lugar para a pessoa idosa. Ao mandarem agentes insus- peitos redefinir qual é o interesse das "pessoas idosas" (serem bem "tratadas" por um pessoal "especializado e competente"), os indiví- duos podem adotar soluções conformes a seus próprios interesses, embora pareça que se limitam a obedecer aos interesses de seus pais. Conformam-se, assim, à moral e podem tirar os benefícios ligados a tal conformidade. Assim, o derradeiro "serviço" que os pais idosos devem prestar a seus filhos talvez seja, segundo uma expressão utilizada freqüentemente pelos gerontólogos, não "culpabilizá-los". As novas formas de tratamento da velhice operam não somente a gestão dos "velhos", mas também a gestão do sentimento de culpa proveniente do custo "psicológico" do abandono de pais que se tornaram idosos. "Não se tornar um peso" tal é, em resumo, o conteúdo dessa moral da renúncia, difundida pela maior parte dos manuais de "saber envelhecer" e pelas revistas destinadas às pessoas idosas que se multiplicaram ao mesmo tempo que as instituições para a "terceira idade". Sem dúvida, a "política da velhice" oferece um dos exemplos mais completos de uma das funções assumidas pelo modo-político de gestão das relações sociais: proceder de forma que os antagonismos entre os grupos, quer se trate das gerações ou de categorias sociais, mais ou menos consti- tuídas, em determinado momento, se esfumem e encontrem, como se diz, uma "solução", isto é, um "acordo", sob uma forma jurídica (convenção coletiva), financeira (subvenção) ou política (reconhecimento oficial). No entanto, a invenção da "terceira idade" e, de forma geral, a consti- tuição da "velhice" como categoria da ação política faz lembrar que esses "acordos" uma espécie de acordo prévio sobre a sua necessi- dade, sendo que sua formalização resulta do trabalho propriamente político. Uma de suas condições de possibilidade é, entre outras, o aparecimento dessas noções "grosseiramente formadas", segundo a expressão pela qual Durkheim definia as "pré-noções". Essas noções "confusas" são o indício, mas também um dos meios utilizados por essas operações de negociação e integração social que, em parte, caracterizam a atividade política. Algumas noções como a de "família", "velhice", "emprego", etc., são tão imprecisas 102</p><p>e indeterminadas que favorecem os reagrupamentos mais amplos possíveis, eliminando os diferentes sentidos que lhes estão associados. o impacto dessas políticas "sociais", que não são de modo algum mensuráveis em termos de cálculo, embora dêem lugar por exemplo, no momento das eleições - a "batalhas de números", poderia consistir em favorecer esses acordos fundamentalmente ambíguos, ao dar uma certa "consistência social" a essas expressões cuja polissemia contribui para reforçar esse emaranhamento de todos os sentidos que lhes estão associados. Por exemplo, não chegaríamos a compreender, talvez, o alcance político que, atualmente, pode ter uma expressão como a de "trabalho em tempo parcial" se não soubéssemos que ela constitui uma dessas fórmulas passe-partout que são aceitas por todo o mundo, embora não lhe seja dado o mesmo sentido. Ela é, ao mesmo tempo, um "modo de gestão da mão-de-obra" particularmente favorável para o patrona- to (já que está associado à precariedade de emprego, ausência de promoção, salário baixo, etc.), uma "medida de política familiar" que permite "conciliar" a vida profissional e doméstica das mulheres; enfim, corresponde igualmente entre certas categorias tanto de quanto de a expectativas socialmente cons- tituídas. Também tende a se tornar, pelo menos entre os especialistas, a solução para os encargos cada vez maiores com a manutenção das pessoas idosas que são cada vez mais numerosas. 4.4. o positivismo do estado A constituição de uma situação como "problema social" interessa os poderes públicos por dois motivos: a essa definição estão associadas "solu- ções" que o Estado poderá aplicar através de medidas apropriadas; ou tal situação é suscetível de ser apreendida e avaliada com uma aparente exati- dão, dando assim a impressão de que os poderes públicos têm condições de controlá-la, o que acaba por reforçar a representação de um Estado onis- ciente e, portanto, onipotente. objetivo é tomar a medida dos "fatos" e colocá-los em relação com os meios de que dispõe ou deveria dispor um Estado racional. Não se trata de explicar um fato social enquanto tal, mas de apreender os aspectos em que o Estado poderá intervir. 62. M. Maruani (1985), Mais qui a peur du travail des femmes?, Paris, Syros. 63. M. Pialoux (1979), "Jeunesse sans avenir et travail intérimaire", in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 26-27, março-abril de 1979, p. 19-47. G. Mauger, C. Fossé-Polliak (1983), "Les loubards", in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 50, novembro de 1983, p. 49-67. 103</p><p>A abordagem positivista que considera como tais os "fatos" instituídos, tanto nas categorias oficiais de classificação, quanto nas respostas dadas por entrevistados a perguntas cujo sentido parece evidente, é como que repri- mida, imprensada entre a doxa oficial e os bons sentimentos convencionais e comedidos como convém quando se trata de problemas sociais. De modo que toda contradição é automaticamente desqualificada com a ajuda de argumentos não somente mas também morais. A contestação só poderá vir de pessoas percebidas necessariamente como mal informadas para não dizer mal-formadas ou de ideólogos partidários e caluniadores, grosseiros e exagerados, em suma, inconvenientes e Tal situação é tanto mais constrangedora na medida em que, muitas vezes, trata-se de trabalhos que incidem sobre populações ou instituições (a fortiori, as duas coisas ao mesmo tempo) inatacáveis e irrepreensíveis, de tal modo que todas as críticas se voltam contra aquele que as faz simplesmente porque, injúria suprema, não "gosta" delas. Com efeito, esse positivismo é acompanhado por uma preocupação filantrópica, constitutiva de disciplinas, que à semelhança da sociologia ou demografia, retém, entre os "problemas de populações", em particular, "as populações com problemas" (pessoas idosas, alcoólatras, crianças que vivem em meios de risco, famílias numerosas e desfavorecidas, pai isolado, etc.). Esse humanismo, até mesmo humanitarismo, participa dessa operação de universalização com base científica e alcance ético de interesses particu- lares. Com efeito, ao transfigurar tais interesses em grandes "causas" a serem defendidas, os "especialistas" em ciências sociais ampliam, ao mesmo tempo, aos registros morais, políticos, econômicos e científicos, o âmbito legítimo das intervenções do Estado. É o que se passa, por exemplo, com os "velhos" e as "pessoas idosas" cujas condições de vida estiveram ligadas, durante muito tempo, à instalação e funcionamento dos sistemas de apo- sentadoria. Esse modo de redistribuição das rendas de uma geração a outra acaba por levantar problemas, simultaneamente, econômicos (idade da aposentadoria) e morais (relações entre gerações). mesmo pode ser dito a respeito da "família" que tem sido constituída por sociólogos ou demógrafos especializados como princípio de todas as 64. A propósito de Sócrates, Maurice Merleau-Ponty descreveu bem o que é propriamente insuportável para os representantes do pensamento do Estado não é tanto o questionamento da doxa, mas sua "Se tivesse conseguido uma explicação mais convincente, teríamos visto que [Sócrates] não estava procurando novos deuses não menosprezava os de Atenas: limitava-se a dar-lhes sentido, interpretava- os", ver M. Merleau-Ponty (1960), Éloge de la philosophie, Paris, Gallimard (col. "Folio"), p. 42. 104</p><p>coisas, desde os bons resultados escolares ao sucesso social, passando pelo alcoolismo ou e sobretudo, como categoria da ação política, enquanto é portadora de uma visão moral da ordem social. Nada é mais difícil do que romper com essas visões do mundo que se beneficiam, simultaneamente, da caução da ciência e da autoridade do Estado. Se isso acontece dessa forma é talvez porque a forma extrema assumida, daqui em diante, pelo processo de institucionalização passa por essas duas instâncias, inextricavelmente misturadas, como é possível ver, ainda hoje, em deter- minadas questões relativas à saúde pública. CONCLUSÃO: o FUNDAMENTO SOCIAL DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS As categorias que servem de base para a construção da realidade social e que, por conseguinte, se apresentam diante do sociólogo, são o resultado de lutas. Podem assumir diversas formas. Se, por exemplo, as lutas para a representação da velhice se exprimem, quase sempre, em termos morais, encontram também seus fundamentos nessa economia das relações entre gerações nas quais as relações propriamente econômicas são, em geral, negadas como tais. Inversamente, como mostrou Abdelmalek Sayad a propósito da imigração, a representação do "problema" dos imigrantes, colocado habitualmente em termos de "custos e benefícios" é, na realidade, o exemplo típico de um problema político (o fato de fazer parte de um grupo nacional) que se dissimula sob as aparências de uma simples operação de ordem processo de institucionalização de uma problemática sob forma científica (econômica, biológica, etc.) ou ética encobre também toda uma série de questões que, por esse motivo, se tornam impensáveis: por exemplo, considerando ainda a imigração, a questão de saber quem tem tido prejuízo e quem tem obtido lucro com a mesma; ou em relação à velhice, a questão das lutas, por definição "imorais", entre gerações. Talvez seja necessário atribuir, em parte, a essa dissociação entre economia política e economia social, a origem desses artefatos instituídos dos quais o tem tanta dificuldade em se desfazer. Através da análise dos pressupostos das repre- sentações sociais, o trabalho sociológico poderia consistir na construção dessa economia que integraria em tal abordagem todos os "custos" e todos os "benefícios" não levados em consideração pelas teorias econômicas no 65. A. Sayad (1986), loc. cit., p. 74. 105</p><p>estrito do termo, isto é, o conjunto das lutas travadas pelos agentes construírem a representação da realidade e, a partir daí, a realidade nais conforme a seus interesses. Esse tipo de análise poderia ser desenvolvido a propósito de múltiplos objetos de estudo - por exemplo, o de Francine Muel-Dreyfus sobre "a escola obrigatória e o surgimento da infância anormal". A NOÇÃO DE "INFÂNCIA Em seu estudo sobre "A escola obrigatória e o surgimento da infância anormal", Francine Muel-Dreyfus mostra o que os sistemas de classificação psiquiátricos e psicológicos, concernentes à infância, ficam devendo às características sociais dos que os produzem e daqueles a quem se A pesquisadora estabelece as relações entre o aparecimento dessas nosografias e a formação, no final do século XIX, desse campo de atividades que é o setor além disso, descreve o contexto no qual surgiu esse setor da ação administrativa da qual a escola primária gratuita, laica e obrigatória, é a ossatura e o pretexto. Todas essas institui- ções (associações, comitês, ligas, sociedades de beneficência, etc.) têm como objeto a educação, tanto das crianças, quanto dos adultos. Em nome da "previdência social", visam modelar os indivíduos cujo comportamento deve ser, daí em diante, "previsível" (a Comuna de Paris não está longe). Por conseguinte, a ação em favor da "infância anormal" está associada a um movimento mais amplo que diz respeito à "infância em perigo". Se os organismos criados em favor da infância anormal são diferenciados e se os zeladores da ação médico-pedagógica exercem diversas profissões (médicos, advo- gados, filantropos, professores, etc.) acontece, no entanto, que "os especialistas da infância anormal foram, muitas vezes, propagandistas das sociedades de beneficên- cia; parece igualmente que as crianças envolvidas são socialmente as mesmas e que, entre a moral' e a mental', existe apenas uma troca de palavras; da mesma forma, as profissões previstas para os pobres desgraçados (abandonados, delinqüentes ou doentes mentais), reeducados por tais instituições, não sofrem qualquer alteração (ajudantes de jardineiros, trabalhadores braçais, entregadores, faxineiras). perigo social futuro está dissimulado entre os mais pobres dos pobres; depois de tudo o que foi tentado para que eles viessem a entrar na escola primária, tudo será feito para que a deixem com o rótulo de anormais". Assim, "a anormali- dade" dessas categorias de crianças, assim como os riscos que representam, são definidos tendo como referência a norma 66. F. Muel-Dreyfus (1975), école obligatoire et la naissance de in Actes de la recherche en sciences sociales, n° 1, janciro de 1975, p. 61-74. 67. R. Castel (1983), "De la dangerosité au risque", in Actes de la recherche en sciences sociales, 47-48, junho de 1983, p. 119-127. 106</p>