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<p>Indaial – 2020</p><p>Genética Humana e</p><p>médica</p><p>Prof.ª Mariana Franzoni Maioral</p><p>1a Edição</p><p>Copyright © UNIASSELVI 2020</p><p>Elaboração:</p><p>Prof.ª Mariana Franzoni Maioral</p><p>Revisão, Diagramação e Produção:</p><p>Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI</p><p>Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri</p><p>UNIASSELVI – Indaial.</p><p>Impresso por:</p><p>M227g</p><p>Maioral, Mariana Franzoni</p><p>Genética humana e médica. / Mariana Franzoni Maioral. – Indaial:</p><p>UNIASSELVI, 2020.</p><p>238 p.; il.</p><p>ISBN 978-65-5663-053-3</p><p>ISBN Digital 978-65-5663-054-0</p><p>1. Genética. – Brasil. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.</p><p>CDD 575.1</p><p>apresentação</p><p>Caro acadêmico, seja bem-vindo a mais uma disciplina do nosso</p><p>curso de Biomedicina! Estamos prestes a iniciar os estudos da disciplina de</p><p>Genética Humana e Médica.</p><p>A Genética é a ciência que estuda os mecanismos de hereditariedade,</p><p>ou seja, a forma como as características são transmitidas de geração a geração.</p><p>Dentro desta temática, existem muitos conceitos básicos que precisam ser</p><p>revisados e aprendidos e também inúmeras implicações clínicas relacionadas</p><p>a alterações gênicas. Por esse motivo, a Genética é uma área extremamente</p><p>importante para o profissional biomédico. Esse profissional deverá ser capaz</p><p>de compreender e executar métodos de diagnóstico molecular realizados em</p><p>laboratórios clínicos, como o PCR, os quais são importantes na detecção de</p><p>diversas condições e doenças.</p><p>Na Unidade 1 apresentaremos as bases moleculares da genética</p><p>humana. Para isso, estudaremos diversos conceitos básicos que nos permitirão</p><p>entender como o genoma humano é organizado, o que é e qual a importância</p><p>do ciclo celular e das células-tronco, como o ser humano é formado após a</p><p>fecundação e, também, os princípios relacionados à hereditariedade.</p><p>Na Unidade 2 começaremos a utilizar os conhecimentos previamente</p><p>apresentados na Unidade 1 de forma a transferir a teoria para a prática,</p><p>mais especificamente para o campo clínico. Nesta unidade, abordaremos as</p><p>principais alterações genéticas e suas implicações, discutiremos os princípios</p><p>da imunogenética e abordaremos o papel da genética no câncer.</p><p>Para finalizar, a Unidade 3 abordará questões mais avançadas dentro</p><p>da Genética, como as principais técnicas genéticas e de biologia molecular</p><p>realizadas em laboratórios clínicos e as aplicações da Genética no campo da</p><p>Biomedicina.</p><p>Esperamos que as informações aqui apresentadas sejam de grande</p><p>valia em sua vida profissional e que, ao finalizar este livro didático, você seja</p><p>capaz de atuar em qualquer espaço que contemple os assuntos abordados</p><p>nesta disciplina de forma segura, ética, responsável e competente.</p><p>Bons estudos e sucesso!</p><p>Prof.ª Dra. Mariana Franzoni Maioral</p><p>Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para</p><p>você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novi-</p><p>dades em nosso material.</p><p>Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é</p><p>o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um</p><p>formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.</p><p>O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagra-</p><p>mação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui</p><p>para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.</p><p>Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,</p><p>apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilida-</p><p>de de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.</p><p>Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para</p><p>apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assun-</p><p>to em questão.</p><p>Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas</p><p>institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa</p><p>continuar seus estudos com um material de qualidade.</p><p>Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de</p><p>Desempenho de Estudantes – ENADE.</p><p>Bons estudos!</p><p>NOTA</p><p>Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela</p><p>um novo conhecimento.</p><p>Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro</p><p>que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você</p><p>terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complemen-</p><p>tares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento.</p><p>Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.</p><p>Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!</p><p>LEMBRETE</p><p>sumário</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA ....................................... 1</p><p>TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO À GENÉTICA ................................................................................... 3</p><p>1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... 3</p><p>2 VISÃO GERAL DA CÉLULA HUMANA ....................................................................................... 3</p><p>2.1 CROMOSSOMOS HUMANOS ..................................................................................................... 5</p><p>2.2 CARIÓTIPO HUMANO ................................................................................................................ 6</p><p>3 CICLO CELULAR, REGULAÇÃO E APOPTOSE ......................................................................... 8</p><p>3.1 MITOSE CELULAR ..................................................................................................................... 10</p><p>3.2 MEIOSE CELULAR ..................................................................................................................... 12</p><p>3.2.1 Meiose I ................................................................................................................................. 12</p><p>3.2.2 Meiose II ................................................................................................................................ 14</p><p>3.3 CÉLULAS-TRONCO ................................................................................................................... 16</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 19</p><p>AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 20</p><p>TÓPICO 2 — REPRODUÇÃO HUMANA E EMBRIOGÊNESE ................................................. 23</p><p>1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 23</p><p>2 ESPERMATOGÊNESE ...................................................................................................................... 24</p><p>3 OVOGÊNESE .................................................................................................................................... 27</p><p>4 FECUNDAÇÃO ................................................................................................................................. 30</p><p>5 EMBRIOGÊNESE ............................................................................................................................. 33</p><p>5.1 ANEXOS EMBRIONÁRIOS ....................................................................................................... 38</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 40</p><p>AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 42</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA</p><p>denominado de pró-núcleo feminino. O núcleo do</p><p>espermatozoide expande-se, formando o pró-núcleo masculino e, dentro de 12</p><p>horas após a fecundação, o pró-núcleo feminino entra em contato íntimo com</p><p>o pró-núcleo masculino. A fecundação se completa quando os dois materiais</p><p>genéticos se fundem formando o zigoto (SADLER, 2013). A partir desse momento,</p><p>inicia-se o desenvolvimento embrionário. As etapas da fecundação podem ser</p><p>observadas na Figura 18.</p><p>FIGURA 18 - ETAPAS DA FECUNDAÇÃO HUMANA</p><p>FONTE: Adaptado de <https://escolakids.uol.com.br/upload/image/fecundacao-humana(1).jpg>.</p><p>Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>32</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>Talvez você tenha algum caso de gêmeos na sua família, mas você sabe</p><p>como eles ocorrem? Existem basicamente dois tipos de gêmeos, os bivitelinos, também</p><p>chamados de dizigóticos, fraternos ou multivitelinos, e os univitelinos, também chamados</p><p>de monozigóticos.</p><p>Os gêmeos bivitelinos são geneticamente diferentes e são originados a partir da liberação de</p><p>dois ovócitos secundários no momento da ovulação. Enquanto a maioria das mulheres na</p><p>maioria dos ciclos menstruais libera apenas um ovócito secundário, em alguns casos ocorre</p><p>a liberação de duas dessas células. Se elas forem fecundadas por dois espermatozoides,</p><p>cada uma dará origem a um embrião. Esses indivíduos podem ser do mesmo sexo ou não,</p><p>e sua semelhança será como a de dois irmãos nascidos em diferentes momentos.</p><p>Algumas mulheres têm maior predisposição genética para liberar mais de um ovócito</p><p>durante a ovulação, por isso costumamos dizer que é comum casos de gêmeos</p><p>acontecerem na mesma família! Os gêmeos univitelinos, por outro lado, surgem de um</p><p>único óvulo fecundado por um único espermatozoide. Nesses casos, o zigoto se divide e</p><p>dá origem a dois indivíduos geneticamente idênticos.</p><p>A ocorrência de gêmeos univitelinos é obra do acaso e não há nenhum componente</p><p>genético envolvido. Esses indivíduos são sempre do mesmo sexo, tem o mesmo genoma</p><p>e são clones um do outro.</p><p>IMPORTANTE</p><p>FIGURA – GÊMEOS UNIVITELINOS E BIVITELINOS</p><p>FONTE: <https://genomic.com.br/wp-content/uploads/2016/03/gemeosghv.jpg>. Aces-</p><p>so em: 9 jun. 2020.</p><p>TÓPICO 2 — REPRODUÇÃO HUMANA E EMBRIOGÊNESE</p><p>33</p><p>5 EMBRIOGÊNESE</p><p>Como vimos anteriormente, acadêmico, a embriogênese é o processo</p><p>de formação do embrião. Ele se inicia a partir da formação do zigoto durante a</p><p>fecundação e vai até as primeiras oito semanas do desenvolvimento intrauterino.</p><p>A partir da nona semana o embrião já possui aparência humana, mede cerca de</p><p>2,5 centímetros e passa a ser chamado de feto (LEWIS, 2010). Vamos agora estudar</p><p>de forma mais aprofundada cada uma das etapas da embriogênese, as quais estão</p><p>ilustradas nas Figuras 19 e 20.</p><p>FIGURA 19 - ETAPAS INICIAIS DA EMBRIOGÊNESE: CLIVAGEM E NIDAÇÃO</p><p>FONTE: <https://static.todamateria.com.br/upload/56/2a/562a0a6d3c847-desenvolvimento-</p><p>-embrionario-humano-large.jpg>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>Cerca de um dia após a fecundação, o zigoto começa a se dividir por mitose</p><p>e inicia um período de frequentes divisões celulares chamado de clivagem. Essas</p><p>primeiras células originadas a partir do zigoto são chamadas de blastômeros.</p><p>Conforme se dividem, os blastômeros aumentam de número e diminuem de</p><p>tamanho. Quando os blastômeros formam uma massa sólida de 16 ou mais</p><p>células, ele passa a ser chamado de mórula, o que ocorre após mais ou menos 72</p><p>horas (LEWIS, 2010).</p><p>Conforme a mórula se divide as células se organizam para formar uma</p><p>cavidade central, chamada de blastocele e, neste estágio, o embrião passa a</p><p>ser chamado de blastocisto. Algumas das células do blastocisto formam o</p><p>revestimento interno da blastocele e são chamadas de massa celular interna. Essa</p><p>é a primeira vez que é possível diferenciar tipos celulares na massa embriogênica.</p><p>As células da massa celular interna continuarão a se desenvolver para formar o</p><p>embrião, enquanto que as células externas, chamadas trofoblastos, darão origem</p><p>aos anexos embrionários que veremos a seguir. A formação da blástula e da</p><p>34</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>blastoce caracteriza o fim da clivagem. Durante esse período, não há crescimento</p><p>efetivo do embrião e o tamanho original do zigoto não clivado é preservado</p><p>(SADLER, 2013).</p><p>Em torno de uma semana após a fecundação o blastocisto começa a se</p><p>fixar no endométrio da parede uterina. Esse processo é chamado de nidação.</p><p>Nessa etapa as células externas do blastocisto (trofoblastos) começam a secretar o</p><p>hormônio gonadotrofina coriônica humana (HCG), conhecido como “hormônio</p><p>da gravidez”. Esse hormônio tem a função fisiológica de manter o corpo lúteo e</p><p>bloquear a menstruação.</p><p>Vamos relembrar as células-tronco que você conheceu no Tópico 1? Você</p><p>aprendeu que existem dois tipos de células-tronco, as embrionárias e as adultas. Agora,</p><p>você é capaz de entender que as células-tronco embrionárias podem ter duas origens: o</p><p>blastômero de oito células ou a massa celular interna do blastocisto.</p><p>Quando originada do blastômero, a célula-tronco embrionária é considerada multipotente,</p><p>ou seja, é capaz de dar origem a todas as células do nosso corpo e também aos anexos</p><p>embrionários. Quando são originadas do blastocisto elas são consideradas pluripotentes:</p><p>também podem originar os diferentes tipos celulares, mas não os anexos embrionários.</p><p>As células-tronco adultas, presentes em praticamente todos os tecidos humanos após</p><p>o nascimento, podem ser multipotentes, quando dão origem a diversos tipos celulares</p><p>comprometidos com uma mesma linhagem (como as células-tronco hematopoiéticas que</p><p>podem dar origem a qualquer célula sanguínea) ou unipotentes, quando são capazes de se</p><p>diferenciar em apenas um tipo celular.</p><p>ATENCAO</p><p>DIFERENCIAÇÃO CELULAR</p><p>FONTE: <http://vetopsy.fr/embryologie/images/potentialites-cellule.gif>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>TÓPICO 2 — REPRODUÇÃO HUMANA E EMBRIOGÊNESE</p><p>35</p><p>Os testes de gravidez vendidos em farmácia são baseados em uma reação</p><p>química que detecta a presença do hormônio HCG na urina. A fita do teste possui anticorpos</p><p>que se ligam a uma das subunidades do HCG, chamada de beta. Se ocorrer ligação entre o</p><p>antígeno com o anticorpo, essa reação libera cor que resulta na segunda linha que indica</p><p>a gravidez.</p><p>Nesse tipo de exame sempre aparecerá uma linha controle para mostrar que o exame</p><p>está funcionando e a segunda linha só aparecerá se o beta HCG for detectado. O exame</p><p>de sangue tem o mesmo princípio, a diferença é que é um teste mais sensível porque a</p><p>quantidade de hormônio no sangue é maior do que na urina.</p><p>IMPORTANTE</p><p>DIFERENCIAÇÃO CELULAR</p><p>FONTE: <http://twixar.me/RYWm>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>A segunda etapa do desenvolvimento embrionário é chamada gastrulação,</p><p>pode ser vista na Figura 20, e é marcada pela formação dos três folhetos</p><p>embrionários ou germinativos: endoderme, mesoderme e ectoderme. Durante</p><p>a segunda semana após a fecundação ocorre a formação de um espaço entre a</p><p>massa celular interna do blastocisto e as células externas que estão fixadas no</p><p>endométrio. Em seguida, a massa interna se achata e forma um disco embrionário</p><p>de duas camadas, a camada mais interna é chamada de endoderme e a camada</p><p>externa é chamada de ectoderme.</p><p>36</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>Diante disso ocorre a formação de uma cavidade chamada arquêntero</p><p>que dará origem ao sistema digestivo primitivo. A comunicação do arquêntero</p><p>com o meio externo é chamada blastóporo e dará origem ao ânus. Em um estágio</p><p>posterior do desenvolvimento ocorre a formação de uma terceira camada entre as</p><p>duas outras, a mesoderme. Essa estrutura de três camadas é chamada de gástrula.</p><p>Ainda durante a gastrulação ocorre a formação da linha primitiva</p><p>que evidencia o eixo cefálico-caudal, e da notocorda, formada a partir da</p><p>mesoderme, que qual dará origem à coluna vertebral. Assim, depois que os</p><p>folhetos germinativos são formados, as células começam a se tornar destinadas</p><p>a se desenvolverem para dar origem a cada um dos tecidos humanos</p><p>(GARCIA;</p><p>GARCIA FERNÁNDEZ, 2012).</p><p>FIGURA 20 - ETAPAS DA GASTRULAÇÃO COM FORMAÇÃO DOS TRÊS FOLHETOS EMBRIONÁ-</p><p>RIOS, DO ARQUÊNTERO E DO BLASTÓPORO</p><p>FONTE: <https://blogdoenem.com.br/wp-content/uploads/2016/05/6-2.gif>. Acesso em: 9 jun.</p><p>2020.</p><p>A etapa seguinte à gastrulação é chamada de morfogênese ou</p><p>organogênese. A organogênese é o período a partir da terceira semana após a</p><p>fecundação que se caracterizada pela diferenciação dos folhetos germinativos</p><p>para formar os primórdios dos órgãos humanos.</p><p>Assim, cada folheto dará origem a certas estruturas no embrião: as células</p><p>da ectoderme dão origem à pele, ao tecido nervoso e a algumas glândulas; as</p><p>células da endoderme formam partes do fígado e do pâncreas e o revestimento</p><p>de vários órgãos; já a mesoderme, por sua vez, forma os músculos, o tecido</p><p>conjuntivo, os órgãos reprodutivos e os rins (GARCIA; GARCIA FERNÁNDEZ,</p><p>2012). Você pode observar a descrição dos órgãos e tecidos formados a partir de</p><p>cada folheto germinativo no Quadro 4.</p><p>O início da organogênese é marcado pela neurogênese que é a formação</p><p>do tubo neural a partir da ectoderme. O tubo neural dará origem ao sistema</p><p>nervoso central. A partir do 18º dia, o coração do embrião começa a bater. A quarta</p><p>TÓPICO 2 — REPRODUÇÃO HUMANA E EMBRIOGÊNESE</p><p>37</p><p>semana do desenvolvimento embrionário é marcada por um período intenso de</p><p>crescimento e diferenciação. As pernas e braços começam a ser formados, bem</p><p>como as células sanguíneas e pulmões e rins imaturos. Na quinta e sexta semanas</p><p>a cabeça do embrião é desproporcionalmente grande e ocorre a formação dos</p><p>olhos e orelhas. A partir da sétima semana um esqueleto cartilaginoso começa</p><p>a ser formado e é possível visualizar o tubérculo genital, que dará origem às</p><p>genitálias masculina e feminina. No entanto, nessa etapa ainda não é possível</p><p>determinar o gênero do embrião.</p><p>A oitava semana finaliza a etapa de organogenêse e é possível observar</p><p>diferenciações na genitália que dirão se o embrião é do gênero feminino ou</p><p>masculino. Nessa etapa o embrião possui os rudimentos de todas as estruturas</p><p>que estarão presentes no nascimento (SADLER, 2013). A partir da nona semana,</p><p>o embrião passa a ser chamado de feto. Algumas etapas importantes da</p><p>organogênese podem ser observadas na Figura 21.</p><p>QUADRO 4 - DIFERENCIAÇÃO DOS FOLHETOS EMBRIONÁRIOS</p><p>FONTE: <https://docplayer.com.br/40228903-Organogenese-fase-embrionaria.html>. Acesso</p><p>em: 9 jun. 2020.</p><p>38</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>FONTE: Adaptado de <https://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2009/10/desenvolvi-</p><p>mento-embrionario-humano-510x1024.jpg>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 21 - PRINCIPAIS ETAPAS DO PERÍODO EMBRIONÁRIO ENTRE A 3ª E 8ª SEMANAS</p><p>5.1 ANEXOS EMBRIONÁRIOS</p><p>Os anexos embrionários são estruturas encontradas junto ao embrião em</p><p>formação que têm como função suprir suas necessidades durante o período de</p><p>desenvolvimento. Os anexos embrionários humanos são: âmnio, saco vitelino,</p><p>córion (parte fetal da placenta), alantoide e cordão umbilical.</p><p>Como vimos anteriormente, essas estruturas são formadas a partir da</p><p>camada celular externa do blastocisto (LEWIS, 2010). A localização dos anexos</p><p>embrionários e suas principais funções podem ser vistas na Figura 22 e no</p><p>Quadro 5.</p><p>TÓPICO 2 — REPRODUÇÃO HUMANA E EMBRIOGÊNESE</p><p>39</p><p>FONTE: <https://www.sobiologia.com.br/conteudos/figuras/embriologia/anexosembrionarios3.</p><p>jpg>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 22 - ANEXOS EMBRIONÁRIOS HUMANOS</p><p>FONTE: <http://www.mesalva.com/forum/uploads/default/optimized/2X/8/8f302f9682150b7e-</p><p>4c7b927f04dabcd5e0466f61_2_487x500.jpg>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>QUADRO 5 - ANEXOS EMBRIONÁRIOS HUMANOS E SUAS PRINCIPAIS FUNÇÕES</p><p>40</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• A espermatogênese é o processo de formação dos gametas masculinos a partir</p><p>da célula diploide espermatogônia até o espermatozoide haploide. Ela ocorre</p><p>nos túbulos seminíferos dos testículos e se inicia na puberdade.</p><p>• A etapa final da espermatogênese é chamada espermiogênese e consiste na</p><p>diferenciação da espermátide para formar o espermatozoide.</p><p>• A estrutura do espermatozoide possui características fundamentais para a</p><p>fecundação, como a presença do acrossomo, que contém enzimas digestivas,</p><p>e do agregado de mitocôndrias que produz energia. Além disso, a morfologia</p><p>celular, no formato de cabeça e cauda, permite que o espermatozoide tenha</p><p>motilidade.</p><p>• A ovogênese é a formação dos gametas femininos, os ovócitos, a partir de uma</p><p>célula precursora diploide chamada ovogônia. Ela ocorre nos ovários e se inicia</p><p>no período embrionário.</p><p>• No embrião, os ovócitos primários começam a primeira divisão da meiose, a</p><p>qual é interrompida na prófase I até o início da puberdade. Na puberdade</p><p>ocorre a formação dos ovócitos primários e dos corpúsculos polares, os</p><p>primeiros sendo liberados nas tubas uterinas durante a ovulação.</p><p>• Os ovócitos junto com as células epiteliais adjacentes são chamados de folículos.</p><p>Existem diferentes tipos de folículos ao longo da ovogênese, dentre eles o corpo</p><p>lúteo, formado após a ovulação.</p><p>• A fecundação é o processo no qual o gameta masculino, o espermatozoide, e o</p><p>gameta feminino, o ovócito, se encontram e se fundem dando origem ao zigoto.</p><p>A fecundação ocorre após a capacitação dos espermatozoides e é dividida em</p><p>quatro etapas.</p><p>• A embriogênese é o processo de formação do embrião a partir do zigoto</p><p>até a 8ª semana do desenvolvimento intrauterino. As primeiras etapas da</p><p>embriogênese são a clivagem, que resulta na formação dos blastômeros que</p><p>continuam a divisão dando origem a mórula, e a nidação, que consiste na</p><p>fixação do embrião na parede uterina.</p><p>• O revestimento interno da blastocele é chamado de massa celular interna e</p><p>dá origem ao embrião, enquanto que a camada celular externa, chamada</p><p>trofoblasto, dá origem aos anexos embrionários.</p><p>41</p><p>• A segunda etapa da embriogênese é a gastrulação, que é marcada pela formação</p><p>dos três folhetos embrionários ou germinativos: ectoderme, mesoderme e</p><p>endoderme. Nessa etapa, as células se organizam para formar o arquêntero, o</p><p>blatóporo, a linha primitiva e a notocorda.</p><p>• A etapa seguinte é a morfogênese ou organogênese que ocorre a partir da</p><p>terceira semana e é caracterizada pela diferenciação dos folhetos germinativos</p><p>em primórdios dos órgãos humanos. Ela se inicia com a formação do tubo neural</p><p>e finaliza na oitava semana quando o embrião já possui todas as estruturas que</p><p>estarão presentes no nascimento.</p><p>• Os anexos embrionários são estruturas que têm a função de suprir as</p><p>necessidades do embrião durante o período de desenvolvimento. São eles:</p><p>âmnio, saco vitelino, córion, alantoide e cordão umbilical.</p><p>42</p><p>1 Uma mulher com 40 anos tem maior probabilidade de gerar uma criança</p><p>com defeitos congênitos do que uma mulher com 20 anos. Mas, em homens</p><p>com 20 ou 40 anos, a probabilidade é a mesma. Esta diferença deve-se ao</p><p>fato de:</p><p>a) ( ) Tanto os ovócitos primários quanto espermatócitos primários</p><p>se formarem apenas durante a puberdade, sendo os espermatócitos</p><p>produzidos em maior quantidade.</p><p>b) ( ) Os ovócitos primários serem produzidos apenas durante a puberdade</p><p>e os espermatócitos primários produzidos constantemente ao longo da</p><p>vida.</p><p>c) ( ) Tanto os ovócitos primários quanto os espermatócitos primários se</p><p>formarem apenas na vida embrionária, sendo os espermatócitos produzidos</p><p>em maior quantidade.</p><p>d) ( ) Os ovócitos primários serem produzidos apenas no período</p><p>embrionário e os espermatócitos primários produzidos continuamente a</p><p>partir da puberdade.</p><p>2 Analisando o processo de gametogênese, marque V para verdadeiro e F</p><p>para falso:</p><p>( ) O gameta feminino é uma célula grande e móvel cujo citoplasma aumenta</p><p>muito durante o processo de formação.</p><p>( ) Na formação dos espermatozoides, ocorre uma etapa de diferenciação</p><p>celular após a divisão meiótica.</p><p>( ) Após a divisão meiótica de cada ovogônia originam-se quatro ovócitos</p><p>idênticos.</p><p>( ) O processo de ovulogênese ocorre</p><p>em etapas, permanecendo os ovócitos I</p><p>em estágio inicial da meiose durante vários anos da vida da mulher.</p><p>( ) Espermatogônias e espermátides são células haploides resultantes de</p><p>etapas do processo de espermatogênese.</p><p>( ) O número diploide característico da espécie só é reconstituído no momento</p><p>da fecundação, quando se forma o zigoto.</p><p>A sequência correta é:</p><p>a) ( ) F – V – V – F – V – V.</p><p>b) ( ) V – F – F – V – V – F.</p><p>c) ( ) V – V – F – F – F – F.</p><p>d) ( ) F – V – F – V – F – V.</p><p>3 As fases iniciais do desenvolvimento embrionário humano estão</p><p>representadas nas figuras a seguir. Sobre cada uma das fases, analise as</p><p>frases:</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>43</p><p>FONTE: <https://d28wddiwk4qifq.cloudfront.net/2015/05/08165955/desenvolvimento-</p><p>-300x97.png>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>I- A Figura A representa a célula resultante da união entre o espermatozoide</p><p>e a ovogônia e é chamada de zigoto.</p><p>II- A Figura B representa o embrião após 72 horas da fecundação, é chamado</p><p>de mórula e é resultado de divisões dos blastômeros.</p><p>III- Na Figura C, a cavidade formada é chamada de blastocele e a massa celular</p><p>interna é chamada de trofoblasto, que dará origem ao embrião.</p><p>IV- No estágio representado na Figura D há a formação dos folhetos</p><p>embrionários: ectoderme, mesoderme e endoderme.</p><p>V- O estágio representado pela Figura E é chamado organogênese e é marcado</p><p>pela formação da notocorda que dará origem ao sistema nervoso central.</p><p>As alternativas corretas são:</p><p>a) ( ) I e IV.</p><p>b) ( ) II e IV.</p><p>c) ( ) I, II e IV.</p><p>d) ( ) IV e V.</p><p>4 A gastrulação é uma etapa importante do desenvolvimento embrionário,</p><p>pois é nessa fase que ocorre a formação dos três folhetos germinativos.</p><p>Esses folhetos são responsáveis por originar todos os órgãos e tecidos do</p><p>embrião. Considerando a fi gura a seguir, responda às questões:</p><p>FONTE: <http://twixar.me/QYWm>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>a) Denomine os folhetos embrionários primordiais X, Y e Z, respectivamente,</p><p>e identifi que o folheto que irá originar a notocorda.</p><p>b) Nomeie a estrutura W e diga qual é a sua importância para a formação do</p><p>embrião.</p><p>c) Explique o que é o arquêntero e diga a qual sistema ele dará origem.</p><p>44</p><p>45</p><p>TÓPICO 3 —</p><p>UNIDADE 1</p><p>ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Seja bem-vindo, acadêmico, ao terceiro tópico da disciplina de Genética</p><p>Humana e Médica. Até aqui você aprendeu os conceitos de cromossomo e cariótipo</p><p>humano e também foi apresentado aos processos que resultam na divisão celular</p><p>e na embriogênese. Agora, iremos ainda mais fundo no aprendizado sobre nossos</p><p>genes: abordaremos conceitos importantes como os ácidos nucleicos e veremos</p><p>também um princípio extremamente importante conhecido como o dogma central</p><p>da biologia molecular, que explica como as proteínas são formadas a partir de</p><p>moléculas de DNA.</p><p>Ao final deste tópico, você deverá ser capaz de conhecer um pouco sobre</p><p>a história da Genética, diferenciar os principais ácidos nucleicos (DNA, RNAm,</p><p>RNAt, RNAr) e compreender as principais etapas dos processos de replicação do</p><p>DNA e síntese de proteínas. Esses conceitos formarão a base necessária para a</p><p>compreensão dos assuntos abordados nos demais tópicos e para a interpretação</p><p>das aplicações clínicas da genética humana que serão exploradas nas unidades</p><p>seguintes. O conhecimento acerca desses conceitos será de suma importância para</p><p>a sua atuação profissional como biomédico, por isso é extremamente importante</p><p>a sua dedicação ao longo da nossa jornada.</p><p>2 HISTÓRIA DA GENÉTICA</p><p>Como vimos no início deste livro didático, acadêmico, a Genética é a</p><p>área da Biologia que estuda a forma como as características são transmitidas ao</p><p>longo das gerações. Desde o estabelecimento das primeiras civilizações humanas,</p><p>a importância da hereditariedade é reconhecida de forma empírica, ou seja, a</p><p>partir da prática, da observação e da experiência. Seus princípios eram aplicados,</p><p>por exemplo, na melhoria das culturas de grãos, da polinização e dos animais</p><p>domésticos e os primeiros registros sobre o assunto datam de mais de 4000 anos</p><p>a.C. O médico e filósofo grego Hipócrates (460-370 a.C.) foi o primeiro a propor uma</p><p>teoria para explicar a hereditariedade, conhecida como pangênese. Segundo essa</p><p>teoria, todas as partes do organismo produzem partículas chamadas “gêmulas”,</p><p>sendo que as gêmulas do macho e da fêmea se misturam produzindo um novo</p><p>organismo com características de ambos os progenitores (WINCHESTER, 1998).</p><p>Essa ideia é muito parecida com a noção que temos hoje de gene, o qual é definido</p><p>como a unidade física e funcional de hereditariedade.</p><p>46</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>No entanto, acadêmico, a Genética como ciência começou apenas no</p><p>século XIX, lado a lado com a Teoria da Evolução, proposta em 1858, por Charles</p><p>Darwin. Em 1866, um monge austríaco chamado Gregor Mendel, ao realizar</p><p>experiências sobre a herança genética de plantas de ervilha, observou que</p><p>algumas características obedeciam a regras estatísticas simples, sendo que alguns</p><p>traços eram considerados dominantes e outros recessivos. Mendel estudou vários</p><p>genes das ervilhas e cada um deles foi associado a uma característica diferente,</p><p>como a cor ou o tamanho da planta. Ele descobriu que esses genes existem em</p><p>diferentes formas, o que agora chamamos de alelos (formas alternativas de um</p><p>mesmo gene). Uma forma do gene para cor, por exemplo, faz com que as ervilhas</p><p>tenham cor amarela, enquanto que outra forma faz com que ela tenha cor verde</p><p>(MUKHERJEE, 2016). Na Figura 23 vemos que a forma amarela é dominante, o</p><p>que significa que uma ervilha que possua um alelo amarelo e outro verde terá cor</p><p>amarela, enquanto que para possui a cor verde, a ervilha deverá ter os dois alelos</p><p>relacionados a esta cor.</p><p>FONTE: <http://twixar.me/6YWm>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 23 - MENDEL, O PAI DA GENÉTICA E SEU EXPERIMENTO COM AS ERVILHAS</p><p>Se você quiser saber mais sobre as descobertas de Mendel e sobre sua</p><p>importância para a Genética como ciência, assista ao documentário: Mendel e a ervilha,</p><p>disponível em: http://biologo.com.br/bio/documentario-mendel-e-a-ervilha/.</p><p>DICAS</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>47</p><p>O trabalho de Mendel foi tão importante que ele fi cou conhecido como</p><p>o “pai da genética”. Mas foi apenas no início do século XX que a comunidade</p><p>científi ca reconheceu a importância do seu trabalho e diversos estudos foram</p><p>publicados demonstrando a herança mendeliana em plantas e animais, incluindo</p><p>seres humanos. Foi nessa época que se estabeleceu a Teoria Cromossômica da</p><p>Herança, que diz que os cromossomos são as unidades que carregam a informação</p><p>genética na forma de genes (MANDAL, 2019).</p><p>A partir da década de 1950 os cientistas dedicaram-se a investigar a</p><p>natureza física do gene. Em 1953, o norte-americano James Watson e o britânico</p><p>Francis Crick divulgaram pela primeira vez a estrutura tridimensional do DNA</p><p>como sendo uma molécula de fi ta dupla, antiparalela, enrolada em formato</p><p>de hélice sobre um eixo principal e constituída de cadeias complementares de</p><p>nucleotídeos. Este modelo fi cou conhecido como “dupla hélice” e pode ser</p><p>observado na Figura 24. Em 1958, Crick divulgou aquele que seria conhecido como</p><p>dogma central da Biologia Molecular (CRICK, 1970). Este nome, acadêmico, foi</p><p>dado porque o conceito proposto por Crick é o conhecimento mais fundamental e</p><p>importante sobre como acontecem as etapas de transferência do material genético</p><p>do DNA até a sua forma fi nal, a proteína.</p><p>FONTE: <https://i.pinimg.com/originals/64/c1/49/64c1493d057b4150b6034f8d8c77b8f0.png>;</p><p><https://player.slideplayer.com.br/37/10711808/data/images/img1.jpg>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 24 - OS CIENTISTAS WATSON E CRICK EM 1953 COM SEU MODELO DA ESTRUTURA</p><p>DO DNA E A REPRESENTAÇÃO ATUAL DO MODELO DE DUPLA HÉLICE</p><p>Os nucleotídeos mencionados no parágrafo anterior são moléculas</p><p>compostas por um grupo fosfato, um açúcar formado por cinco carbonos (pentose)</p><p>e uma base nitrogenada, as quais podem ser bases purinas,</p><p>adenina (A) e guanina</p><p>(G), e bases pirimidinas, citosina (C), uracila (U) e timina (T). O DNA e o RNA são</p><p>macromoléculas chamadas de ácidos nucleicos e são formados por milhares de</p><p>unidades de nucleotídeos. As diferenças estruturais do RNA e do DNA estão no</p><p>tipo de açúcar (ribose no RNA e desoxirribose no DNA) e nas bases pirimidinas</p><p>U e T, a primeira encontrada no RNA e a segunda, no DNA.</p><p>48</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>Rosalind Franklin, a “mãe do DNA”</p><p>A história não costuma incluir mulheres como agentes ativas e reconhecer este fato auxilia</p><p>a sociedade a tornar toda forma de conhecimento mais inclusiva, e não exclusiva. Rosalind</p><p>Franklin foi, possivelmente, uma das mulheres mais injustiçadas da ciência moderna.</p><p>Franklin era uma biofísica britânica contratada pela Universidade de Cambridge por sua</p><p>experiência com raios X. Em 1951, ela tirou aquela que seria chamada “entre as mais belas</p><p>fotografias de raios X de qualquer substância já tomada”, a Fotografia 51, que mostra uma</p><p>imagem nítida da estrutura do DNA. Ao mesmo tempo em que Watson e Crick tentavam</p><p>entender a estrutura do DNA usando os dados de Franklin, ela também estava concluindo</p><p>que o DNA tinha uma estrutura de dupla hélice. No entanto, o reconhecimento de Franklin</p><p>foi impedido por seu chefe, o biólogo molecular Maurice Wilkins, que não a aceitava como</p><p>coautora da descoberta e insistia que ela era apenas uma assistente de pesquisa. Assim,</p><p>apesar de ter conduzido o estudo que permitiu a observação do formato helicoidal do</p><p>DNA, o que rendeu a Watson, Crick e Wilkins o prêmio Nobel em 1962, seu nome não levou</p><p>nenhum crédito pela descoberta. Rosalind Franklin seguiu suas pesquisas até falecer, aos 37</p><p>anos, de câncer de ovário (ELLIOT, 2016).</p><p>IMPORTANTE</p><p>FONTE: <https://s2.glbimg.com/e94HzKPnJE_tQNOuWul0R8NIPsI=/e.glbimg.com/og/</p><p>ed/f/original/2020/04/06/rosalind_franklin.jpg >; <https://www.chromosome.com.br/</p><p>wp-content/uploads/2013/06/photograph-51-image.jpg?w=478>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA - ROSALIND FRANKLIN</p><p>Na década de 1960, os pesquisadores buscaram entender como a expressão</p><p>dos genes, ou seja, a transmissão das informações genéticas do DNA a proteínas</p><p>(dogma central), era regulada. Na década de 1970, a expressão gênica já podia ser</p><p>controlada e manipulada por técnicas de engenharia genética.</p><p>A engenharia genética, acadêmico, como você verá mais adiante, é</p><p>a manipulação direta do genoma de um organismo por meio de técnicas de</p><p>biotecnologia. O genoma, por sua vez, é toda a informação hereditária de um</p><p>organismo que está codificada em seu DNA (MUKHERJEE, 2016). Assim,</p><p>diante do avanço no conhecimento adquirido nas décadas anteriores, em 1990</p><p>pesquisadores do mundo inteiro colaboraram com o Projeto Genoma Humano,</p><p>que teve como objetivo mapear todos os genes do homem e identificar a sequência</p><p>completa de bases das moléculas de DNA.</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>49</p><p>A identificação da sequência de bases do DNA (genoma) é chamada</p><p>de sequenciamento, portanto, o sequenciamento do genoma equivale ao</p><p>sequenciamento de todos os genes do organismo. Somente em 2003, o Projeto</p><p>Genoma foi finalmente concluído. Não se preocupe em entender agora todos</p><p>os conceitos apresentados neste tópico, pois nós iremos estudá-los a fundo nas</p><p>etapas seguintes desta unidade!</p><p>Se você quiser saber mais sobre a história da Genética e algumas de suas</p><p>aplicações práticas, procure o livro: O gene: uma história íntima, de Siddhartha Mukherjee,</p><p>publicado em 2016 pela Companhia das Letras.</p><p>DICAS</p><p>3 ÁCIDOS NUCLEICOS: DNA</p><p>Como você já deve saber, acadêmico, o corpo humano é formado por</p><p>órgãos e tecidos, os quais são compostos por células. No núcleo dos trilhões de</p><p>células que possuímos existem filamentos muito finos, compostos de DNA, que</p><p>têm a função de armazenar toda a nossa informação genética, regular as atividades</p><p>das nossas células e guiar o funcionamento dos tecidos e órgãos que formam o</p><p>nosso organismo. As informações genéticas são codificadas em sequências de</p><p>nucleotídeos nas moléculas de DNA. Essa sequência completa de nucleotídeos é</p><p>chamada de genoma (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>Você sabia que o genoma humano é composto de 3,2 bilhões de pares de</p><p>nucleotídeos? É um número enorme, certo? Então, para que as informações sejam</p><p>transmitidas, os códigos são organizados em unidades chamadas genes. Cada</p><p>gene é um trecho de pares de nucleotídeos ao longo de uma molécula de DNA. Em</p><p>uma célula humana os genes estão situados em 46 moléculas diferentes de DNA,</p><p>as quais correspondem aos 46 cromossomos humanos. Toda vez que uma célula</p><p>se divide, seu DNA é replicado e distribuído igualmente entre as duas células-</p><p>filhas, assim, o conteúdo de DNA — chamado de genoma — é conservado. Você</p><p>pode entender melhor essa organização observando a Figura 25 a partir do gene</p><p>que é um pedaço do DNA composto por uma sequência de nucleotídeos que dará</p><p>origem a uma proteína. O DNA, por sua vez, se organiza nos 46 cromossomos, os</p><p>quais se localizam no núcleo das células.</p><p>50</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>FONTE: Adaptado de <https://thpanorama.com/img/images/los-tipos-de-cromosomas-y-sus-</p><p>-caractersticas.jpg>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 25 - VISUALIZAÇÃO DO MATERIAL GENÉTICO DE UMA CÉLULA SOMÁTICA DOS GE-</p><p>NES ATÉ OS CROMOSSOMOS</p><p>Como você viu brevemente no tópico anterior, o DNA (do inglês,</p><p>Deoxyribo Nucleic Acid), ou ácido desoxirribonucleico), é um tipo de ácido</p><p>nucleico composto por milhares de estruturas chamadas de nucleotídeos, as</p><p>quais se unem para formar a dupla hélice descoberta pelos cientistas Watson e</p><p>Crick na década de 1950. Na Figura 26, você pode ver que cada nucleotídeo do</p><p>DNA é formado por três estruturas: um grupamento fosfato (P), um açúcar, que</p><p>é uma pentose chamada de desoxirribose (D) e uma base nitrogenada (adenina,</p><p>timina, citosina e guanina). A pentose e a base nitrogenada se unem por uma</p><p>ligação chamada glicosídica e formam um nucleosídeo. Quando o nucleosídeo se</p><p>liga a um grupo fosfato, ele forma um nucleotídeo. Os nucleotídeos, por sua vez,</p><p>unem-se entre si para formar uma cadeia de DNA por meio de ligações chamadas</p><p>fosfodiéster (VARGAS, 2014).</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>51</p><p>FIGURA 26 - ESTRUTURA DO DNA E TIPOS DE BASES NITROGENADAS</p><p>FONTE: Adaptado de <https://slideplayer.es/slide/1831679/>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>A união de vários nucleotídeos forma uma cadeia simples de DNA. No</p><p>entanto, como falamos antes, o DNA é uma dupla hélice, o que signifi ca que</p><p>duas fi tas ou cadeias de DNA estão pareadas. Como você pode ver na Figura 27,</p><p>uma das fi tas é orientada no sentido 5’ para 3’, enquanto a outra é orientada no</p><p>sentido 3’ para 5’. É por esta razão, acadêmico, que dizemos que as duas fi tas de</p><p>DNA são antiparalelas. A ligação entre as duas fi tas ocorre através de pontes de</p><p>hidrogênio entre as bases nitrogenadas: a adenina forma 2 pontes de hidrogênio</p><p>com a timina, e a citosina forma 3 pontes de hidrogênio com a guanina (VARGAS,</p><p>2014).</p><p>52</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>FIGURA 28 - DNA COMO FITAS ANTIPARALELAS E LIGAÇÕES ENTRE AS BASES NITROGENADAS</p><p>FONTE: <https://www.resumov.com.br/biologia/biologia-molecular/acidos-nucleicos/>. Acesso</p><p>em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 29 - ESTRUTURAS PRIMÁRIA, SECUNDÁRIA, TERCIÁRIA E QUATERNÁRIA DO DNA</p><p>Em termos estruturais, a fi ta simples de DNA é chamada de Estrutura</p><p>Primária e a dupla hélice, de Estrutura Secundária. A dupla fi ta de DNA, por sua</p><p>vez, se enrola em proteínas presentes no núcleo das células chamadas histonas. Este</p><p>complexo DNA + proteínas recebe o nome de cromatina e forma a Estrutura Terciária</p><p>do DNA. Finalmente, quando a célula entra em divisão, a cromatina se enovela e</p><p>forma os cromossomos, os quais correspondem à Estrutura Quaternária (SNUSTAD;</p><p>SIMMONS, 2017). Você pode observar as estruturas do DNA na Figura 29.</p><p>FONTE: <http://twixar.me/3PWm>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>53</p><p>No Tópico 1 desta unidade, você aprendeu os processos de divisão celular</p><p>e viu que a etapa mais importante é a duplicação dos cromossomos para que</p><p>o material genético possa ser transmitido da célula-mãe para as células-filhas.</p><p>Agora, você irá aprender que isso acontece através de um processo chamado</p><p>replicação do DNA. A replicação é o processo no qual o DNA faz cópias de si</p><p>mesmo e é uma etapa fundamental na manutenção do genoma humano.</p><p>3.1 REPLICAÇÃO DO DNA</p><p>Como você pode imaginar, acadêmico, a replicação do DNA, ou a cópia</p><p>do DNA de uma célula, não é uma tarefa simples! Lembre-se de que temos 3,2</p><p>bilhões de pares de nucleotídeos em cada núcleo, os quais devem ser copiados</p><p>com precisão toda vez que qualquer uma dos trilhões de células do nosso corpo</p><p>se divide.</p><p>A replicação do DNA possui algumas características fundamentais que</p><p>resumiremos a seguir. Em seguida, iremos explicar detalhadamente cada uma</p><p>das etapas de replicação e ficará claro entender como esses conceitos se aplicam</p><p>(LEWIS, 2010):</p><p>• A replicação do DNA é semiconservativa. Cada fita na dupla hélice atua como</p><p>modelo para a síntese de uma nova fita complementar.</p><p>• Para replicar, o DNA precisa se desenovelar, separar suas fitas, construir fitas</p><p>complementares de nucleotídeos e uni-las novamente.</p><p>• O novo DNA é feito por enzimas denominadas DNA polimerases, que atuam</p><p>sempre no sentido 5' para 3'.</p><p>• A replicação do DNA sempre se inicia em sequências de nucleotideos especificas</p><p>chamadas primer (iniciador).</p><p>• Durante a replicação do DNA, uma nova fita (fita líder) é feita como uma peça</p><p>contínua. A outra (fita tardia) é feita em pequenas partes. Por isso dizemos que</p><p>a replicação do DNA é semidescontínua.</p><p>• A replicação do DNA requer outras enzimas além da DNA polimerase,</p><p>incluindo DNA primase, DNA helicase, DNA ligase, e topoisomerase.</p><p>54</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>Você já se perguntou qual é o sentido da vida, acadêmico? Para os geneticistas</p><p>essa resposta é fácil: 5‘– 3’! O fato de a replicação do DNA acontecer somente no sentido 5‘–</p><p>3’ da fita e considerando a enorme importância que este processo tem para a manutenção</p><p>da vida, fez com que esse sentido fosse chamado, de forma bastante simpática, de “o</p><p>sentido da vida”.</p><p>INTERESSANTE</p><p>Mafalda, às vezes me pergunto:</p><p>Qual o sentido da vida?</p><p>É na direção 5' --> 3',</p><p>Filipe!!!</p><p>FONTE: <https://i.pinimg.com/564x/79/11/b0/7911b0daaf0dacb17f4b7f68d9eef3c8.jpg>.</p><p>Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>O SENTIDO DA VIDA</p><p>No Tópico 1, aprendemos que a replicação do DNA acontece durante a</p><p>fase S do ciclo celular. Ela parte de uma molécula de DNA a ser copiada, que é</p><p>chamada de fita-molde. Para que fique mais fácil entender o processo, iremos</p><p>dividir o processo em três etapas: a iniciação, o alongamento e a terminação</p><p>(BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013, MENCK; SLUYS, 2017). Você pode</p><p>visualizar cada uma delas na Figura 30.</p><p>• INICIAÇÃO: como vimos antes, acadêmico, a molécula de DNA é composta</p><p>por duas fitas unidas uma a outra na forma de dupla hélice. Então para que</p><p>a molécula possa ser duplicada, a primeira coisa a ser feita é a separação</p><p>ou abertura da dupla fita. Esse trabalho é feito por uma enzima chamada</p><p>helicase que desliza sobre as fitas, abrindo-as e mantendo separado o DNA</p><p>a ser replicado. Mas como essa enzima sabe em qual local do DNA iniciar a</p><p>separação? A helicase reconhece uma região do DNA chamada OriC que é</p><p>rica em adenina e timina. Essa região é mais fácil de ser separada, pois, como</p><p>você viu anteriormente, a ligação entre essas duas bases nitrogenadas é de</p><p>apenas duas pontes de oxigênio (ao contrário das 3 ligações entre citosina e</p><p>guanina). Então, ao identificar a região OriC, a helicase separa as duas fitas</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>55</p><p>de DNA e o local de separação forma o que chamamos de forquilha de</p><p>separação (semelhante a um zíper aberto). É nessa região que a replicação</p><p>acontece. Para que a forquilha continue estável, proteínas chamadas SSB se</p><p>ligam aos nucleotídeos e auxiliam a helicase a manter a abertura. Conforme</p><p>a helicase vai separando as fitas, o DNA nas extremidades da forquilha vai</p><p>ficando muito compactado. Para resolver essa questão, outra enzima, chamada</p><p>topoisomerase, quebra as fitas de DNA para aliviar a tensão.</p><p>• ALONGAMENTO: quando as fitas de DNA estiverem devidamente abertas,</p><p>outra enzima, chamada primase, irá sintetizar pequenos fragmentos de RNA</p><p>chamados primers ou iniciadores que funcionam como ponto de partida</p><p>para a replicação. Esses fragmentos de RNA são necessários, pois a enzima</p><p>responsável pela formação da fita complementar, a DNA polimerase III, só</p><p>pode fazer seu trabalho a partir de uma sequência de nucleotídeos já existentes.</p><p>Assim, após a ação da primase, a enzima DNA polimerase III irá se posicionar</p><p>na extremidade 3’ do primer para iniciar a síntese. À medida que as bases da fita</p><p>molde vão sendo expostas, essa enzima começa a adicionar a ela nucleotídeos</p><p>presentes no meio, sempre respeitando a especificidade de emparelhamento:</p><p>A com T, T com A, C com G e G com C, formando, então, a fita complementar.</p><p>Na fita de sentido 5’- 3’, chamada de fita líder, a DNA polimerase III segue</p><p>de forma contínua até o final da sequência. Já na fita 3’ - 5, chamada de fita</p><p>tardia, o processo é um pouco diferente, pois a formação da nova fita se dá</p><p>de forma descontínua. Como vimos que a replicação do DNA ocorre somente</p><p>no sentido 5’ - 3’, na fita tardia a DNA polimerase III tem que inserir as bases</p><p>nitrogenadas de trás para frente. Os fragmentos formados a partir da fita tardia</p><p>são chamados de fragmentos de Okasaki.</p><p>• TERMINAÇÃO: no final do processo de alongamento, uma enzima chamada</p><p>DNA ligase une os fragmentos de Okasaki e formando a segunda fita</p><p>complementar a partir da fita tardia. Além disso, a enzima DNA polimerase</p><p>I substitui os primers de RNA por DNA e confere se toda a nova sequência</p><p>de novos nucleotídeos está correta. A partir de cada uma das fitas de DNA</p><p>originalmente separadas foi sintetizada uma nova fita complementar seguindo</p><p>o pareamento AT e GC, sempre no sentido 5’- 3’ e de forma antiparalela em</p><p>relação a fita molde (o que significa que a fita molde tem orientação oposta</p><p>à fita de DNA que está sendo sintetizada). Finalmente, da mesma forma</p><p>que possui sequências iniciadoras OriC, a fita de DNA possui sequências de</p><p>terminação chamadas TER que sinalizam o local em que a replicação deve ser</p><p>interrompida. Quando a helicase identifica essa região, ela se desliga da fita</p><p>molde, o que faz com que as DNA polimerases finalizam a replicação e que as</p><p>novas fitas se unam formando novas moléculas de DNA.</p><p>56</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>FIGURA 30 - ETAPAS DO PROCESSO DE REPLICAÇÃO DO DNA</p><p>FONTE: Lewis (2010, p. 178)</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>57</p><p>Agora que você já sabe como o DNA é replicado, você deve se perguntar</p><p>como sua sequência de genes é responsável por todas as suas características? Iremos</p><p>discutir melhor este processo mais adiante, por enquanto, é importante que você</p><p>saiba que isso é possível porque os genes contêm as instruções para a síntese de</p><p>proteínas. Cada proteína (também chamadas polipeptídeo) é formada por uma</p><p>ou mais cadeias de aminoácidos: existem 20 tipos diferentes de aminoácidos na</p><p>natureza e cada proteína é formada por uma combinação específi ca. A sequência</p><p>de aminoácidos em uma proteína é especifi cada por uma sequência de unidades</p><p>codifi cantes em um gene, chamadas códons. Cada códon especifi ca a incorporação</p><p>de um aminoácido em um polipeptídio. Isso signifi ca que o nosso DNA contém</p><p>os códigos responsáveis por informar quais aminoácidos serão formados e em</p><p>qual sequência, o que é capaz de formar cerca de 20.325 proteínas! Você já ouviu</p><p>falar deste processo, acadêmico, é o dogma central da biologia molecular que</p><p>mencionamos anteriormente e que está ilustrado na Figura 31. Mas antes de</p><p>explicarmos como o processo de síntese de proteína ocorre, é preciso conhecer</p><p>outra molécula importante, o RNA.</p><p>FIGURA 31 - DOGMA DA BIOLOGIA MOLECULAR: COMO UMA PROTEÍNA É SINTETIZADA A</p><p>PARTIR DO DNA</p><p>FONTE: Adaptado de <https://o.quizlet.com/D2rkyUkYI9nXo8h9EH9McQ.png>. Acesso em: 9</p><p>jun. 2020.</p><p>4 ÁCIDOS NUCLEICOS: RNA</p><p>O RNA, ou ácido ribonucleico, possui uma estrutura primária semelhante</p><p>ao DNA. Ele também é uma macromolécula formada por nucleotídeos unidos entre</p><p>si por ligações fosfodiéster. As diferenças, como já mencionamos anteriormente,</p><p>é que o açúcar presente no RNA é diferente, pois trata-se de uma ribose. Além</p><p>disso, enquanto o DNA possui a base nitrogenada timina, o RNA possui uracila</p><p>(LEWIS, 2010, SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>A estrutura secundária do RNA, por outro lado, é bastante diferente do</p><p>que vimos até aqui, pois, enquanto o DNA é uma fi ta dupla (dupla hélice) o</p><p>RNA é formado por uma fi ta simples. Além disso, na fi ta de RNA podem ocorrer</p><p>pareamentos internos, chamados de grampos ou hairpins, enquanto as regiões</p><p>não pareadas são chamadas de alças (LEWIS, 2010). Um esquema das estruturas</p><p>primária, secundária e terciária (arranjo tridimensional) do RNA pode ser visto</p><p>na Figura 32.</p><p>58</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>FIGURA 32 - ESTRUTURAS PRIMÁRIA, SECUNDÁRIA E TERCIÁRIA DO RNA</p><p>FONTE: Adaptado de <http://player.slideplayer.com/18/6186915/data/images/img3.jpg>. Acesso</p><p>em: 9 jun. 2020.</p><p>O RNA é produzido no núcleo da célula a partir de uma molécula de</p><p>DNA e ele atua como um intermediário na transferência de informação dos genes</p><p>(localizados no núcleo das células) para a síntese de proteínas que ocorre em uma</p><p>organela citoplasmática chamada ribossomo. Mas você sabia, acadêmico, que o</p><p>RNA não é uma molécula única? É verdade, existem diferentes tipos de RNA</p><p>dentro das nossas células e cada um deles responsável por desempenhar uma</p><p>função específica (MENCK; SLUYS, 2017). Os três tipos principais envolvidos na</p><p>síntese de proteínas serão descritos a seguir:</p><p>• RNA Ribossômico (RNAr): recebe esse nome por ser o principal constituinte</p><p>dos ribossomos, corresponde a 75% do RNA celular e é o principal responsável</p><p>pela síntese de proteínas.</p><p>• RNA Mensageiro (RNAm): corresponde a 1-5% do RNA total e sua função</p><p>é levar a informação genética do DNA (localizado no núcleo da célula) até os</p><p>ribossomos (localizados no citoplasma).</p><p>• RNA Transportador (RNAt): corresponde a 10-15% do RNA total e, como seu</p><p>nome indica, sua função é transportar os aminoácidos que serão utilizados na</p><p>síntese de proteínas até os ribossomos. Nos ribossomos, os aminoácidos se</p><p>unem e formam as proteínas.</p><p>5 SÍNTESE DE PROTEÍNAS</p><p>A síntese proteica é o processo que utiliza a informação genética contida em</p><p>nosso DNA para formar proteínas. Antes de entender como isso ocorre, lembre-</p><p>se de que um gene é um pedaço de DNA que carrega uma sequência específica</p><p>de ácidos nucleicos para dar origem a uma proteína. Para que isso aconteça, a</p><p>síntese proteica requer a presença de moléculas de RNA que funcionam como</p><p>uma “ponte” entre o código genético presente no DNA e a síntese proteica.</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>59</p><p>O processo completo é dividido em duas etapas, uma que ocorre no núcleo,</p><p>chamada transcrição, e outra que acorre no citoplasma chamada tradução. Cada</p><p>uma delas, por sua vez, é dividida em iniciação, alongamento e terminação,</p><p>assim como a replicação do DNA (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>De forma geral, a primeira etapa da síntese proteica, a transcrição, envolve</p><p>a leitura e cópia de um gene em uma molécula de RNAm que é complementar</p><p>a uma das fitas da dupla hélice do DNA. A cópia de RNAm sai do núcleo e vai</p><p>para o citoplasma, onde, no ribossomo e com a participação do RNAr e do RNAt,</p><p>ocorre a tradução. A tradução usa a informação contida no RNAm para produzir</p><p>uma proteína, alinhando e unindo sequencias específicas de aminoácidos para</p><p>formar a cadeia polipeptídica (LEWIS, 2010).</p><p>Finalmente, a proteína formada precisa adquirir sua conformação</p><p>tridimensional específica para se tornar funcional. A seguir, iremos apresentar</p><p>de forma mais detalhada cada uma dessas etapas, mas antes, acadêmico, observe</p><p>uma visão geral desse processo na Figura 33.</p><p>FONTE: Adaptado de <http://twixar.me/WPWm>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 33 - SÍNTESE DE PROTEÍNAS A PARTIR DO DNA</p><p>5.1 TRANSCRIÇÃO GÊNICA</p><p>A transcrição é o processo no qual uma molécula de RNA é sintetizada a</p><p>partir de uma das fitas de DNA. Pense que nessa etapa a fita de DNA funciona</p><p>como um molde e é criado um fragmento de RNA correspondente a sua sequência</p><p>de bases nitrogenadas. As etapas da transcrição serão descritas a seguir e podem</p><p>ser visualizadas na Figura 34.</p><p>60</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>A transcrição é ativada por proteínas chamadas fatores de transcrição que</p><p>se ligam ao DNA em locais específicos dos cromossomos. Os fatores de transcrição,</p><p>ativados por sinais extracelulares como hormônios e fatores de crescimento,</p><p>formam um complexo de pré-iniciação que atrai a RNA polimerase, a enzima</p><p>que constrói a cadeia de RNA. Assim, na etapa de iniciação da transcrição, a RNA</p><p>polimerase é atraída pelos fatores de transcrição ligados a uma região do DNA</p><p>chamada promotora.</p><p>A região promotora é uma sequência especial de nucleotídeos que</p><p>sinaliza o início de um gene. Geralmente possui uma sequência TATA e, por</p><p>isso, é chamada de TATAbox. Quando a RNA polimerase encontra uma região</p><p>promotora, com o auxílio dos fatores de transcrição, ela se liga à molécula e abre</p><p>as fitas de DNA. A partir daí uma das fitas do DNA servira como fita molde</p><p>(BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>Na etapa de alongamento, a RNA polimerase vai percorrendo essa fita</p><p>molde e pegando bases nitrogenadas presentes no meio nuclear para uni-las à fita</p><p>de RNA. Assim como o DNA, o RNAm é fabricado no sentido 5’ - 3’ (o “sentido da</p><p>vida”). Lembre-se, acadêmico, de que enquanto no DNA as bases nitrogenadas se</p><p>pareiam em A-T e C-G, o RNA utiliza a base uracila no lugar da timina.</p><p>Assim, sempre que houver uma adenina na fita molde de DNA, ela vai</p><p>parear com uma uracila na fita de RNAm sendo formada. A RNA polimerase</p><p>segue produzindo o RNAm até encontrar uma sequência de término que indica</p><p>o fim da região codificadora do gene. Nesta, que é a fase de terminação, a enzima</p><p>se solta, o RNAm fica livre no núcleo da célula e as duas fitas de DNA voltam a</p><p>se ligar formando novamente a dupla hélice (LEWIS, 2010).</p><p>O produto inicial da transcrição é chamado de pré-RNAm. Antes de ser</p><p>transportada para o citoplasma para que ocorra a tradução, essa molécula precisa</p><p>ser processada e transformada para dar origem ao RNAm. A etapa mais marcante</p><p>do processamento do RNAm é a retirada dos introns, chamada de splicing do</p><p>RNA e pode ser observada na Figura 35. Primeiro o pré-RNAm é quebrado entre</p><p>os íntrons e éxons, em seguida os íntrons são removidos e os éxons são unidos</p><p>para formar o RNAm. A partir daí o RNAm se desloca para o citoplasma onde</p><p>ocorrerá a tradução.</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>61</p><p>FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/transcriognica2009-1-vera-121216083641-phpa-</p><p>pp01/95/transcrio-gnica-20091-vera-4-638.jpg?cb=1355647038>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 34 - ETAPAS DA TRANSCRIÇÃO DO DNA</p><p>Você viu que os genes são regiões do DNA que possuem o código para sin-</p><p>tetizar proteínas. Mas você sabia que nem toda parte do gene tem essa função? Os genes</p><p>são formados por duas regiões chamadas de éxons e íntrons. Os éxons possuem, em</p><p>média, 145 pares de base e são a parte do gene que pode ser transcrita em proteínas. Os</p><p>íntrons, por sua vez, tem um tamanho médio de 3.500 pares de bases, estão distribuídos</p><p>entre os éxons e não são transcritos em proteínas. Isso significa que a maior parte dos ge-</p><p>nes e, consequentemente do DNA, não realizam a função principal dessas moléculas que</p><p>é codificar proteínas! Mas então para que eles servem? Durante muito tempo a existência</p><p>dos íntrons parecia ser um grande desperdício e eles foram chamados de “DNA lixo”, pois</p><p>não sabíamos bem quais eram suas funções. Atualmente, sabemos que os íntrons são</p><p>muito importantes, pois, apesar de não originarem diretamente proteínas como os éxons,</p><p>possuem diversas funções reguladoras.</p><p>IMPORTANTE</p><p>62</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>FONTE: Lewis (2010, p. 190)</p><p>FIGURA 35 - PROCESSAMENTO DO RNA COM A RETIRADA DOS ÍNTRONS (SPLICING)</p><p>5.2 TRADUÇÃO GÊNICA</p><p>Ao migrar do núcleo para o citoplasma, o RNAm se liga à organela</p><p>responsável pela síntese de proteínas chamada ribossomo. O ribossomo é</p><p>formado por duas subunidades, uma menor chamada 40S e uma maior chamada</p><p>60S, cada uma delas contendo uma ou mais moléculas de RNAr. O outro tipo de</p><p>RNA fundamental para a síntese proteica é o RNAt.</p><p>Ele tem a função de captar aminoácidos dispersos na célula e transportá-</p><p>los até os ribossomos. Lá, a nova proteína será sintetizada a partir da união</p><p>dos aminoácidos transportados pelo RNAt seguindo a sequência específica</p><p>determinada pelo RNAm transcrita da molécula de DNA original (SNUSTAD;</p><p>SIMMONS, 2017).</p><p>Mas como as bases nitrogenadas codificadas pelo RNAm definirão a</p><p>sequência de aminoácidos que formará a proteína? Para entender como isso</p><p>acontece, acadêmico, você precisa conhecer o código genético.</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>63</p><p>O código genético é a relação entre as bases nitrogenadas do DNA e a</p><p>sequência de aminoácidos de uma proteína. Ele funciona da seguinte maneira:</p><p>cada sequência de três nucleotídeos do RNAm forma o que chamamos de códon.</p><p>O RNAt, por sua vez, é formado por duas unidades: a subunidade</p><p>superior é chamada de aceptor e está ligada ao aminoácido que será transportado;</p><p>já a subunidade inferior é chamada anticódion e possui uma sequência de três</p><p>nucleotídeos complementar ao códon do RNAm.</p><p>Com as quatro bases nitrogenadas do RNA (adenina, uracila, guanina e</p><p>citosina) é possível formar 64 combinações de códons.</p><p>Cada códon do RNAm é complementar a um anticódon do RNAt e, com</p><p>isso, é capaz de traduzir um aminoácido diferente. Existem na natureza 20 tipos</p><p>de aminoácidos que formam todas as proteínas existentes. É a sequência e a</p><p>quantidade desses 20 aminoácidos que definirão o tipo de proteína formada.</p><p>Sobre o código genético, dizemos que ele é universal, pois em todos os</p><p>organismos da Terra ele funciona da mesma maneira, quer seja em bactérias, em</p><p>uma cenoura ou no homem. Todos possuem o mesmo código genético, mas claro,</p><p>cada organismo possui genes diferentes e, portanto, produz proteínas diferentes.</p><p>Além disso, dizemos que o código genético é degenerado, o que significa que</p><p>diferentes códons podem codificar a mesma proteína.</p><p>Um exemplo é a proteína leucina que pode ser codificada por seis códons</p><p>diferentes (LEWIS, 2010, SNUSTAD; SIMMONS, 2017). Na Figura 36, você pode</p><p>ver os 64 tipos de códons e os 20 aminoácidos formados a partir deles.</p><p>Assista ao vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lZStH_</p><p>Be1mw para entender melhor como ocorre os processos de transcrição e tradução!</p><p>DICAS</p><p>64</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>FONTE: Adaptado de <http://files.mapasquimica.webnode.com.co/200000066-afa3ab09ed/</p><p>codigo%20genetico.jpg>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>FIGURA 36 - O PRINCÍPIO DO CÓDIGO GENÉTICO E A LISTA DE CÓDONS E AMINOÁCIDOS</p><p>Agora que você já entendeu como o código genético funciona, ficará</p><p>fácil entender como ocorre a tradução. A tradução começa quando o ribossomo</p><p>identifica o códon de iniciação do RNAm que é o primeiro códon a ser traduzido.</p><p>Como você pode ver na Figura 37, esse código sempre possui a sequência AUG</p><p>que codifica o aminoácido metionina. Diante disso, o RNAt contendo o anticódon</p><p>correspondente ao códon de iniciação AUG do RNAm, se encaixa no ribossomo</p><p>trazendo a metionina. Em seguida, o segundo códon do RNAm é traduzido e</p><p>o segundo aminoácido trazido pelo RNAt se liga a metionina por uma ligação</p><p>chamada peptídica (ligação que une todos os aminoácidos). A partir daí os</p><p>demais códons da fita de RNAm vão sendo traduzidos a aminoácidos pelo RNAt</p><p>e a cadeia polipeptídica começa a se formar.</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>65</p><p>A etapa de alongamento continua até que o ribossomo atinja um códon de</p><p>terminação que pode ser UAA, UGA ou UAG. Quando isso acontece, a síntese da</p><p>proteína é finalizada e, ao invés de receber um novo aminoácido, a sequência é</p><p>ocupada por um fator de terminação. O polipeptídio então se liberta do ribossomo</p><p>e das moléculas de RNA e é liberado no citoplasma (LEWIS, 2010).</p><p>FIGURA 37 - TRADUÇÃO DO RNAM EM PROTEÍNA</p><p>FONTE: <https://ib.bioninja.com.au/_Media/translation_med.jpeg>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>Leia mais sobre o código genético e o Projeto Genoma nos sites a seguir:</p><p>• http://genoma.ib.usp.br/sites/default/files/projeto-genoma-humano.pdf;</p><p>• https://educacao.uol.com.br/disciplinas/biologia/gene---funcoes-codigo-genetico-e-</p><p>-sintese-de-proteinas.htm</p><p>Ou acesse os seguintes artigos:</p><p>• Projeto Genoma Humano e Ética de Mayana Zatz, disponível no endereço: https://</p><p>www.scielo.br/pdf/spp/v14n3/9771.pdf.</p><p>• Projeto Genoma Humano: um retrato da construção do conhecimento científico sob a</p><p>ótica da revista Ciência Hoje de Andréa Góes e Bruno de Oliveira, disponível no endereço:</p><p>https://www.scielo.br/pdf/ciedu/v20n3/1516-7313-ciedu-20-03-0561.pdf.</p><p>DICAS</p><p>66</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>Projeto Genoma, dez anos depois</p><p>New Scientist</p><p>Desde que o mapa genético humano foi decifrado, há uma década,</p><p>pesquisadores encontraram mais perguntas que respostas</p><p>Lançado em 26 de junho de 2000, uma das grandes promessas do</p><p>Projeto Genoma era a possibilidade de descobrirmos previamente a chance de</p><p>desenvolvermos problemas como diabetes ou doenças cardiovasculares. E então</p><p>criar remédios para preveni-los. Com o código decifrado, seria “só” colocar</p><p>supercomputadores para comparar os genes “saudáveis” com “doentes” e</p><p>decifrar que parte estaria causando as enfermidades. Apesar desse processo de</p><p>ter revelado mais de 500 enfermidades associadas ao DNA, as informações ainda</p><p>significam muito pouco perto do que se esperava.</p><p>É que uma variação no gene em si está longe de dizer tudo. Os</p><p>pesquisadores descobriram que a receita de como o organismo deve funcionar</p><p>também depende muito de outros fatores, como nossa alimentação e várias</p><p>mutações raras em partes diferentes do código genético. Difícil é conseguir juntar</p><p>tudo isso. São detalhes escondidos em uma espécie de “caixa-preta” do genoma.</p><p>O desafio é distinguir quais mutações causam doenças e quais são inofensivas.</p><p>“Temos que admitir que ainda não sabemos como fazer isso”, afirma David</p><p>Goldstein, da Universidade Duke, nos Estados Unidos.</p><p>Informação demais</p><p>No princípio, tudo parecia simples. O DNA era um mero conjunto de genes</p><p>que continha receitas de fabricação de proteínas pelo organismo. Assim que os</p><p>cientistas identificassem essas receitas e seu funcionamento fosse descoberto, os</p><p>homens estariam no caminho certo para entender o que faz de nós o que somos.</p><p>Mas não foi bem assim. Um dos grandes choques do projeto foi saber que temos</p><p>apenas 23,5 mil genes — pouco mais que uma minhoca, que tem 19 mil.</p><p>Os pesquisadores descobriram que um gene humano não sintetiza apenas</p><p>uma proteína, mas sim várias delas. É que os genes têm pequenos pedaços,</p><p>chamados exons, como em um colar de contas, que se recombinam de diferentes</p><p>maneiras, tornando possível fabricar milhares de proteínas diferentes — apesar</p><p>de a média ser de apenas cinco.</p><p>Outra descoberta é que em vez de termos duas cópias de cada gene (uma</p><p>do pai e outra da mãe), podemos ter só uma, ou três, ou mais. Isso é resultado</p><p>de grandes blocos de DNA que são perdidos ou duplicados — sim, o nosso</p><p>organismo parece ser um tanto bagunceiro. Essas perdas podem nos ajudar a</p><p>entender a razão de sermos tão diferentes. Ou o que está por trás de doenças</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>TÓPICO 3 — ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>67</p><p>sobre as quais pouco sabemos, como a esquizofrenia. Ou seja, boa parte</p><p>das ideias</p><p>que tínhamos sobre nosso código genético se mostrou falha. Agora, é preciso</p><p>redescobrir as peças que nos constroem.</p><p>Design não inteligente</p><p>O estudo de todos esses mecanismos genéticos complexos, recheados de</p><p>exceções e que aparentam funcionar aleatoriamente parece ser esquisito e inútil.</p><p>“Às vezes me pergunto: por que diabos a biologia funciona desse jeito?”, diz</p><p>Ewan Birney, do Instituto Europeu de Bioinformática. “Mas, do ponto de vista</p><p>evolutivo, isso não tem que parecer bonito ou lógico, simplesmente tem que</p><p>funcionar.</p><p>A confusão e o design não-inteligente dos nossos genes significam que</p><p>há muita coisa que pode dar errado — e normalmente dá. Erros na hora de</p><p>recombinar os pedaços de RNA (moléculas que ajudam na síntese de proteínas)</p><p>que vagam pelas células têm papel importante no câncer, por exemplo. Essas</p><p>descobertas podem indicar tratamentos para doenças conhecidas e nos ajudar a</p><p>entender o ser humano. “O genoma está no começo, não no fim do processo”, diz</p><p>Birney.</p><p>FONTE: <http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT157079-17933,00.html>. Aces-</p><p>so em: 9 jun. 2020.</p><p>68</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• A Genética como ciência começou no século XIX a partir das descobertas de</p><p>Mendel sobre a herança genética de ervilha. Ele descobriu que os genes existem</p><p>em diferentes formas, o que agora chamamos de alelos.</p><p>• Na década de 1950, Watson e Crick divulgaram a estrutura em dupla hélice</p><p>do DNA e logo depois publicaram o dogma central da Biologia Molecular,</p><p>que explica o processo de transferência do material genético do DNA até a</p><p>proteína.</p><p>• Nos anos 2000, o Projeto Genoma foi concluído, tornando possível mapear os</p><p>genes humanos e identificar a sequência completa de bases das moléculas de</p><p>DNA (chamado sequenciamento).</p><p>• No núcleo das células está localizado o nosso DNA, um tipo de ácido nucleico</p><p>que tem a função de armazenar nossa informação genética codificada em</p><p>sequências de nucleotídeos. Os códigos são organizados em unidades</p><p>chamadas genes.</p><p>• O nucleotídeo do DNA é formado por três estruturas: um grupamento fosfato</p><p>(P), um açúcar, que é uma pentose chamada de desoxirribose (D) e uma base</p><p>nitrogenada (adenina, timina, citosina e guanina).</p><p>• O DNA é composto por duas fitas antiparalelas de nucleotídeos, uma orientada</p><p>no sentido 5’ para 3’ e outra orientada no sentido 3’ para 5’. A ligação entre as</p><p>duas fitas ocorre através de pontes de hidrogênio entre as bases nitrogenadas:</p><p>duas ligações entre A e T e 3 entre C e G.</p><p>• A fita simples de DNA é sua Estrutura Primária, a dupla hélice é a Estrutura</p><p>Secundária, a dupla fita enrolada em proteínas é a Estrutura Terciária e</p><p>recebe o nome de cromatina e, finalmente, quando a célula entra em divisão,</p><p>a cromatina se enovela e forma os cromossomos, os quais correspondem a</p><p>Estrutura Quaternária.</p><p>• A replicação do DNA é o processo em que ele faz cópias de si mesmo durante</p><p>a divisão celular. A replicação é semiconservativa, semidescontínua, ocorre</p><p>sempre no sentido 5' para 3' e requer as enzimas DNA primase, helicase, ligase,</p><p>polimerase e topoisomerase.</p><p>69</p><p>Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem</p><p>pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao</p><p>AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.</p><p>CHAMADA</p><p>• Na fase de iniciação ocorre a formação da forquilha de separação, na fase de</p><p>alongamento a DNA polimerase adiciona os nucleotídeos formando a nova</p><p>fita a partir dos primers e forma-se os fragmentos de Okasaki na fita tardia. A</p><p>replicação finaliza na fase de terminação com a conferência da fita formada.</p><p>• O RNA difere-se do DNA por apresentar uma ribose no lugar da pentose e por</p><p>usar a base nitrogenada uracila ao invés da timina. Existem três tipos principais</p><p>de RNA: o RNA mensageiro, o RNA ribossômico e o RNA transportador.</p><p>• A síntese de proteínas envolve duas etapas, a transcrição, que ocorre no</p><p>núcleo e copia o gene do DNA em uma molécula de RNAm; e a tradução, que</p><p>ocorre no citoplasma quando o RNAm se liga ao ribossomo e o RNAt traz os</p><p>aminoácidos que formarão a cadeia polipeptídica.</p><p>• O código genético é a relação entre as bases nitrogenadas do DNA e a</p><p>sequência de aminoácidos de uma proteína, ele é universal e degenerado. Três</p><p>nucleotídeos do RNAm formam um códon e cada códon codifica um dos 20</p><p>aminoácidos que formarão as proteínas.</p><p>70</p><p>1 Em relação à replicação do DNA, marque (V) se a afirmativa for verdadeira</p><p>e (F) se for falsa.</p><p>( ) A sequência usual de crescimento da nova fita de DNA ocorre no sentido</p><p>3’- 5’.</p><p>( ) A replicação do DNA é semiconservativa.</p><p>( ) A enzima DNA primase é responsável pela separação da dupla fita do</p><p>DNA.</p><p>( ) Fragmento de Okasaki é o nome dado ao local onde a replicação se inicia.</p><p>( ) A enzima DNA polimerase é responsável por adicionar os nucleotídeos e</p><p>formar a nova fita.</p><p>( ) A enzima DNA ligase é responsável por unir os nucleotídeos à nova fita</p><p>sendo formada.</p><p>Assinale a alternativa que represente a sequência correta é:</p><p>a) ( ) F – V – F – F – V – F.</p><p>b) ( ) V – V – V – F – V – V.</p><p>c) ( ) F – V – F – F – V – V.</p><p>d) ( ) V – F – V – V – F – F.</p><p>2 O RNA mensageiro é produzido no _______ e, ao nível _______, associa-se a</p><p>_______ participando das sínteses de _______. Para completar corretamente</p><p>essa frase, as lacunas devem ser substituídas, respectivamente, por:</p><p>a) ( ) Ribossomo – citoplasmático – mitocôndrias – energia.</p><p>b) ( ) Ribossomo – citoplasmático – mitocôndrias – DNA.</p><p>c) ( ) Núcleo – citoplasmático – mitocôndrias – proteínas.</p><p>d) ( ) Citoplasma – nuclear – ribossomos – DNA.</p><p>e) ( ) Núcleo – citoplasmático – ribossomos – proteínas.</p><p>3 As subunidades ribossomais são formadas por moléculas de ______,</p><p>é nessa organela que o _______ se liga ao _______ pelo anticódon e</p><p>códon, respectivamente, trazendo os aminoácidos que formarão a cadeia</p><p>polipeptídica de acordo com o código transcrito a partir da molécula</p><p>de _____. Considerando-se RNAt (RNA transportador), RNAr (RNA</p><p>ribossômico) e RNAm (RNA mensageiro), assinale a alternativa que</p><p>apresenta a sequência correta para, respectivamente, preencher as lacunas.</p><p>a) ( ) RNAr – RNAm – RNAt – DNA.</p><p>b) ( ) RNAm – RNAt – DNA – RNAr.</p><p>c) ( ) RNAr – RNAt – RNAm – DNA.</p><p>d) ( ) DNA – RNAr – RNAm – RNAt.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>71</p><p>4 Todos os seres vivos têm suas informações genéticas codificadas pelas</p><p>sequências de bases nitrogenadas dos ácidos nucleicos. Assinale a</p><p>alternativa correta, considerando as informações a seguir:</p><p>Fita 1 → AAAGATCCCGAATCGGTCGGCGATTTATCG</p><p>Fita 2 → TTTCTAGGGCTTAGCCAGCCGCTAAATAGC</p><p>Fita 3 → UUUCUAGGGCUUAGCCAGCCGCUAAAUAGC</p><p>a) ( ) Se considerarmos 1 a fita molde, o RNAm formado por esta sequência</p><p>conterá as mesmas bases nitrogenadas da Fita 2.</p><p>b) ( ) As Fitas 1 e 2 são complementares e juntas podem representar um</p><p>segmento de molécula de DNA.</p><p>c) ( ) Na Fita 3 existem 30 códons e 10 nucleotídeos.</p><p>d) ( ) Se considerarmos 1 a fita molde, a Fita 3 pode ter sido formada durante</p><p>o processo de replicação.</p><p>5 (Mackenzie, 1999) Os códons UGC, UAU, GCC e AGC codificam,</p><p>respectivamente, os aminoácidos cisteína, tirosina, alanina e serina; o códon</p><p>UAG é terminal, ou seja, indica a interrupção da tradução. Um fragmento</p><p>de DNA, que codifica a sequência serina – cisteína – tirosina – alanina,</p><p>sofreu a perda da 9a base nitrogenada. Assinale a alternativa que descreve</p><p>o que acontecerá com a sequência de aminoácidos.</p><p>FONTE: <https://brainly.com.br/tarefa/8988030>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>a) ( ) O aminoácido tirosina será substituído por outro aminoácido.</p><p>b) ( ) O aminoácido tirosina não será traduzido, resultando numa molécula</p><p>com 3 aminoácidos.</p><p>c) ( ) A sequência não será traduzida, pois essa molécula de DNA alterada</p><p>não é capaz de comandar esse processo.</p><p>d) ( ) A tradução será interrompida no 2º aminoácido.</p><p>e) ( ) A sequência não sofrerá prejuízo, pois qualquer modificação na fita de</p><p>DNA é imediatamente corrigida.</p><p>72</p><p>73</p><p>UNIDADE 2 —</p><p>GENÉTICA CLÍNICA</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• entender os princípios básicos da hereditariedade e a importância das</p><p>Leis de Mendel para a Genética;</p><p>• conhecer as principais alterações cromossômicas e estruturais e suas apli-</p><p>cações clínicas;</p><p>• entender a relação entre genética e sistema imune e suas aplicações práti-</p><p>cas como a determinação dos sistemas ABO e Rh;</p><p>• compreender a influência genética em alguns tipos de cânceres;</p><p>• apropriar-se do conhecimento sobre os temas abordados e tornar-se ca-</p><p>paz de refletir e questionar de forma crítica sobre o papel da genética</p><p>humana em determinadas condições e patologias.</p><p>Esta unidade está dividida em quatro tópicos. No decorrer da unidade,</p><p>você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo</p><p>apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>TÓPICO 2 – ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS</p><p>TÓPICO 3 – IMUNOGENÉTICA</p><p>TÓPICO 4 – GENÉTICA DE TUMORES</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos</p><p>em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá</p><p>melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>74</p><p>75</p><p>UNIDADE 2</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Seja bem-vindo a nossa segunda unidade da disciplina de Genética</p><p>Humana e Médica! Agora que você já aprendeu alguns conceitos básicos na</p><p>Unidade 1, como cariótipo, cromossomo, mitose e meiose, RNA e DNA, você</p><p>está apto para iniciar o estudo dos princípios da hereditariedade que constituem</p><p>a base para o entendimento da genética clínica abordada ao longo desta unidade.</p><p>Lembre-se de que sua participação e comprometimento com a disciplina é</p><p>fundamental para o seu sucesso, então realize as autoatividades propostas no</p><p>final do tópico e não deixe de procurar os materiais suplementares expostos ao</p><p>longo dos temas abordados!</p><p>Neste primeiro tópico apresentaremos os princípios da hereditariedade.</p><p>Ao final dele, você deverá ser capaz de entender os fundamentos da Genética</p><p>Mendeliana, a importância da probabilidade e o conceito de heredograma. Além</p><p>disso, deverá ser capaz de diferenciar entre herança monogênica e multifatorial,</p><p>dominante e recessiva e autossômica e ligada ao sexo. Apesar de complexa, a</p><p>hereditariedade é um conceito fascinante que possui inúmeras aplicações</p><p>clínicas como você verá nos tópicos seguintes. Aproveite este primeiro tópico da</p><p>Unidade 2 para construir mais um degrau de uma base de conhecimento sólida</p><p>e aprofundada que lhe permitirá compreender a Genética Clínica. Vamos juntos!</p><p>2 GENÉTICA MENDELIANA</p><p>No Tópico 3 da Unidade 1, nós mencionamos que a Genética como ciência</p><p>começou no século XIX, com os experimentos de Mendel com plantas de ervilha</p><p>de cheiro (Pisum sativum). Agora, acadêmico, iremos explicar detalhadamente</p><p>como Mendel realizou seus experimentos e como eles culminaram com o que</p><p>chamamos de As Leis de Mendel. Essas leis são um conjunto de fundamentos</p><p>que explicam os mecanismos primordiais da transmissão hereditária durante as</p><p>gerações e constituem a base da Genética.</p><p>TÓPICO 1 —</p><p>PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>76</p><p>2.1 PRIMEIRA LEI DE MENDEL – PRINCÍPIOS DA DOMINÂNCIA</p><p>E DA SEGREGAÇÃO</p><p>Para entender o trabalho de Mendel é importante saber que as plantas</p><p>de ervilha que ele utilizou em seus experimentos eram geneticamente puras, ou</p><p>seja, homozigotas; porém possuíam diferentes variedades, por exemplo, algumas</p><p>produziam sementes verdes e outras sementes amarelas, algumas eram bem</p><p>altas e outras mediam apenas meio metro. Sabendo disso, Mendel iniciou seu</p><p>trabalho realizando o cruzamento de ervilhas altas e ervilhas anãs, como mostra</p><p>a Figura 1. A esse processo damos o nome de fertilização cruzada. Ele observou</p><p>que as sementes produzidas pela fertilização cruzada de ervilhas altas e anãs</p><p>produziram 100% de plantas altas e nenhuma planta anã (Etapa 3 da Figura 1).</p><p>Em um segundo momento, Mendel realizou o cruzamento dessas novas ervilhas</p><p>altas e, para sua surpresa, ao examinar essa segunda prole composta por 1.064</p><p>ervilhas, ele observou que 787 eram altas e 277 eram anãs, uma razão aproximada</p><p>de 3:1 (Etapa 4 da Figura 1). Ou seja, a característica anã, que havia desaparecido</p><p>no primeiro cruzamento, reapareceu quando estas plantas altas foram cruzadas</p><p>entre si! Mendel viu que as plantas produzidas no cruzamento das variedades</p><p>alta e anã eram capazes de produzir plantas anãs, mesmo sendo todas altas</p><p>(SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>FIGURA 1 - EXPERIMENTOS DE MENDEL COM ERVILHAS DE CHEIRO</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 71-72)</p><p>Diante desse achado, Mendel concluiu que as plantas altas híbridas</p><p>resultantes do primeiro cruzamento (Etapa 3 da Figura 1) possuíam um fator</p><p>genético para o nanismo, mas que este foi mascarado por outro fator para altura</p><p>elevada. O fator não visível (nanismo) recebeu o nome de recessivo e o fator</p><p>expresso (altura elevada) foi chamado de dominante. Mendel fez experimentos</p><p>semelhantes para estudar outras características, como a textura (lisa ou rugosa)</p><p>e a cor (amarela ou verde) das sementes. Esses experimentos foram chamados</p><p>de cruzamentos mono-híbridos, porque estudavam uma única característica</p><p>de cada vez. Hoje sabemos que os “fatores” descritos por Mendel são, na</p><p>TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>77</p><p>verdade, genes. Além disso, sabemos que as formas dominante e recessiva são</p><p>denominadas alelos, que, como você já aprendeu na Unidade 1, são formas</p><p>alternativas de um gene (VARGAS, 2014). A partir disso, Mendel estabeleceu o</p><p>que foi chamado de Primeira Lei de Mendel:</p><p>FIGURA 2 – PRIMEIRA LEI DE MENDEL</p><p>FONTE: Adaptado de <https://www.todamateria.com.br/leis-de-mendel/>. Acesso em: 10 jun.</p><p>2020.</p><p>Em outras palavras, a Primeira Lei de Mendel diz que todas as</p><p>características de um indivíduo são determinadas por genes que se segregam,</p><p>ou seja, que se separam durante a formação dos gametas. Assim, o pai e a mãe</p><p>transmitem apenas um gene de cada característica para seus descendentes. Os</p><p>descendentes terão, portanto, um gene do pai e outro da mãe, o que levou a outra</p><p>conclusão importante: que todos os genes existem em pares. Mendel propôs que</p><p>cada progenitor possui duas cópias idênticas de um gene — hoje dizemos que</p><p>são diploides. Durante a produção dos gametas, Mendel sugeriu que essas duas</p><p>cópias são reduzidas a uma; isso é, como você viu no Tópico 2 da Unidade 1, os</p><p>gametas resultantes da meiose têm apenas uma cópia de um gene — dizemos</p><p>que eles são haploides. Mendel reconheceu que o número diploide de genes</p><p>seria restaurado com a união dos gametas masculino e feminino para formar</p><p>um zigoto. Além disso, compreendeu que indivíduos geneticamente “puros”</p><p>possuem dois alelos iguais de um mesmo gene, o que é chamado de homozigoto.</p><p>Já indivíduos híbridos que possuem dois alelos diferentes, um da mãe e outro do</p><p>pai, são chamados de heterozigotos. Mendel constatou ainda que fertilizações</p><p>de indivíduos heterozigotos produziriam alguns zigotos com ambos os alelos</p><p>recessivos e que essa característica recessiva sempre aparecia em uma razão de</p><p>3:1. Isso explica o reaparecimento da característica recessiva na prole das plantas</p><p>híbridas (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>Mendel desenvolveu uma simbologia para explicar seus resultados, a qual</p><p>você pode entender melhor na Figura 3. Primeiramente temos os progenitores,</p><p>representados pela letra P. Os dois progenitores geneticamente puros, uma planta</p><p>alta e uma planta anã, são homozigotos para os alelos do gene que controla a</p><p>altura da planta. O alelo recessivo é simbolizado pela letra minúscula d e o alelo</p><p>dominante, pela letra maiúscula D. A constituição genética de um indivíduo, ou</p><p>seja, seus tipos de alelos, é chamada de genótipo. Já sua aparência física, ou seja,</p><p>as características genéticas que</p><p>se manifestam naquele indivíduo, é o fenótipo.</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>78</p><p>Na Figura 3, a prole híbrida da linhagem P é denominada primeira geração filial,</p><p>ou F1. Como cada genitor é puro e contribui igualmente para a prole transmitindo</p><p>um único alelo, o genótipo das plantas F1 obrigatoriamente é Dd; isso é, elas são</p><p>heterozigotas para os alelos do gene que controla a altura.</p><p>O fenótipo, porém, é igual ao da linhagem parental DD, porque D é</p><p>dominante em relação a d. Na Etapa 2 da figura vemos que durante a meiose,</p><p>essas plantas F1 produzem dois tipos de gametas, D e d, em iguais proporções.</p><p>Depois da fertilização, os dois tipos de gametas produzidos por heterozigotos</p><p>podem se unir de todas as maneiras possíveis (Etapa 3). Assim, eles produzem</p><p>quatro tipos de zigotos: DD, Dd, dD e dd. No entanto, por causa da dominância,</p><p>três desses genótipos têm o mesmo fenótipo, ou seja, no caso das ervilhas, serão</p><p>plantas altas. Assim, na geração seguinte, denominada F2, as plantas altas e anãs</p><p>são produzidas em uma razão de 3:1.</p><p>FIGURA 3 - PRINCÍPIOS DA PRIMEIRA LEI DE MENDEL E SUA SIMBOLOGIA</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 74)</p><p>Em resumo, a Primeira Lei de Mendel tem três princípios fundamentais</p><p>(VARGAS, 2014).</p><p>• Os genes existem aos pares: cada característica de um organismo é determinada</p><p>por um fator unitário (gene) que existe aos pares.</p><p>TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>79</p><p>• Dominância e recessividade: um alelo dominante é aquele que se manifesta</p><p>no fenótipo do indivíduo mesmo quando presente em uma única cópia; já um</p><p>alelo recessivo, para ser expresso, deve estar presente aos pares.</p><p>• Segregação: durante a meiose, há uma separação dos dois alelos de modo que</p><p>cada gameta receberá um deles aleatoriamente e com a mesma probabilidade.</p><p>A base biológica é o pareamento e a subsequente separação de cromossomos</p><p>homólogos durante a meiose, um processo que você viu na Unidade 1 deste</p><p>livro didático.</p><p>2.2 SEGUNDA LEI DE MENDEL – O PRINCÍPIO DA</p><p>SEGREGAÇÃO INDEPENDENTE</p><p>Como vimos no tópico anterior, a Primeira Lei de Mendel se aplica ao</p><p>estudo da transmissão de uma única característica (mono-híbrido). Mas você pode</p><p>se perguntar, acadêmico: como ocorre a transmissão de várias características ao</p><p>mesmo tempo?</p><p>Mendel também teve essa dúvida e, para saná-la, ele utilizou plantas que</p><p>diferiam em mais de um aspecto: ele cruzou plantas que produziam sementes</p><p>amarelas e lisas com plantas que produziam sementes verdes e rugosas. O</p><p>objetivo desse experimento, chamado di-híbrido, era verificar se a herança das</p><p>duas características da semente, cor e textura, eram independentes (VARGAS,</p><p>2014).</p><p>Como você pode ver na Figura 5, as sementes da geração F1 saíram todas</p><p>amarelas e lisas, o que significa que os alelos para essas duas características eram</p><p>dominantes. Curiosamente, na geração F2, Mendel observou todas as combinações</p><p>possíveis de cor e textura. Duas delas — sementes amarelas e lisas e sementes</p><p>verdes e rugosas — eram iguais às plantas originais (geração P). As outras duas</p><p>— sementes verdes e lisas e sementes amarelas e rugosas — apresentam novas</p><p>combinações de características diferentes dos seus progenitores.</p><p>As quatro classes de fenótipos observadas por Mendel têm uma razão</p><p>aproximada de: nove amarelas e lisas, três verdes e lisas, três amarelas e rugosas e</p><p>uma verde e rugosa. Com isso, Mendel concluiu que cada característica observada</p><p>era controlada por um gene diferente e que os dois genes tinham heranças</p><p>independentes entre si (SNUSTAD; SIMMONS, 2017). Trata-se da Segunda Lei</p><p>de Mendel:</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>80</p><p>FIGURA 4 – SEGUNDA LEI DE MENDEL</p><p>FONTE: Adaptado de <https://mundoeducacao.uol.com.br/biologia/segunda-lei-mendel.htm>.</p><p>Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>Em resumo, a Segunda Lei de Mendel, observada a partir de um cruzamento</p><p>di-híbrido, estabeleceu um quarto princípio importante para a hereditariedade:</p><p>a distribuição independente, a qual se baseia em pares diferentes de alelos serem</p><p>segregados (separados ou distribuídos) de maneira independente uns dos outros.</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 77)</p><p>FIGURA 5 - PRINCÍPIOS DA SEGUNDA LEI DE MENDEL</p><p>TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>81</p><p>3 LEI DA PROBABILIDADE</p><p>Os quadrados apresentados nas Etapas 3 das Figuras 3 e 5 são chamados</p><p>de Quadrados de Punnett. Para montá-los é preciso separar os possíveis gametas</p><p>dos progenitores e cruzar suas informações com o objetivo de analisar os possíveis</p><p>zigotos que podem ser formados. O quadrado de Punnett é útil quando avaliamos</p><p>um ou dois genes, porém imagine a dificuldade do quadrado a ser montado se</p><p>quisermos analisar, por exemplo, quatro genes diferentes! Por isso, se o número</p><p>de genes analisados for maior que dois, é mais fácil utilizar os princípios da</p><p>probabilidade para prever um cruzamento (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON,</p><p>2013). Para entender isso, acadêmico, você precisará de de matemática!</p><p>Nós vimos nas Leis de Mendel que a segregação dos dois alelos de um</p><p>mesmo gene ocorre de maneira independente, ou seja, quando um heterozigoto</p><p>produz gametas, metade deles contém um alelo e a outra metade, o outro.</p><p>Seguindo este raciocínio, dizemos que um determinado gameta tem metade</p><p>das chances de conter o alelo dominante, ou seja, essa probabilidade é de ½. O</p><p>mesmo vale para a probabilidade de conter o alelo recessivo, também é de ½.</p><p>Entendendo este conceito, podemos prever o resultado de qualquer cruzamento!</p><p>Vamos começar com um exemplo simples, proposto por Snustad e Simmons</p><p>(2017) e ilustrado na Figura 6.</p><p>Pense em dois indivíduos Aa (cruzamento Aa x Aa). A chance de que o</p><p>zigoto formado deste cruzamento seja AA é simplesmente a probabilidade de que</p><p>cada um dos gametas que se unem para formá-lo contenha o alelo A, ou seja, é</p><p>(1/2)gameta mãe × (1/2) gameta pai = (1/4) zigoto, ou 25 %.</p><p>A chance de que o zigoto seja homozigoto aa também é de ¼, como você</p><p>pode ver na figura. No entanto, a chance de que o zigoto seja heterozigoto Aa é de</p><p>1/2 ou 50 %. Isso porque existem dois modos de produzir um heterozigoto: o alelo</p><p>A pode vir do gameta feminino e o alelo a do gameta masculino, ou vice-versa.</p><p>Como a chance de cada um desses eventos é de um quarto, a probabilidade total</p><p>de que um filho seja heterozigoto é (1/4) gameta mãe + (1/4) gameta pai = (1/2) zigoto.</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>82</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 80)</p><p>FIGURA 6 - PRINCÍPIOS DE PROBABILIDADE APLICADA À HEREDITARIEDADE</p><p>Este exemplo é simples, pois se trata de um único gene e por isso poderia</p><p>ser facilmente previsto por um Quadrado de Punnett. Mas pense no exemplo</p><p>que mencionamos no início do tópico, se quisermos prever o cruzamento entre</p><p>heterozigotos para quatro genes diferentes, todos com distribuição independente,</p><p>e quisermos saber qual a chance de obter um indivíduo homozigoto para os quatro</p><p>alelos recessivos. Para responder a essa pergunta vamos usar a probabilidade</p><p>e pensar em um gene de cada vez! Para o primeiro gene, a fração da prole de</p><p>homozigotos recessivos é de 1/4, assim como para o segundo, o terceiro e o</p><p>quarto genes. Portanto, pelo princípio de distribuição independente, a fração de</p><p>homozigotos recessivos quádruplos será de (1/4) × (1/4) × (1/4) × (1/4) = (1/256)!</p><p>4 HEREDOGRAMAS</p><p>Os princípios das Leis de Mendel, iniciados nas ervilhas, logo passaram a</p><p>ser aplicados à genética humana, porém, como você pode imaginar, acadêmico,</p><p>existem diversas questões éticas envolvidas na realização de experimentos</p><p>genéticos com seres humanos.</p><p>Atualmente existem diversos métodos sofisticados de biologia molecular</p><p>que permitem analisar a hereditariedade (você os estudará na Unidade 3), porém,</p><p>por muito tempo, para analisar uma herança genética específica era preciso</p><p>fazer um histórico familiar por meio de uma ferramenta chamada heredograma</p><p>(SNUSTAD; SIMMONS, 2017, BORGES-OSÓRIO; ROBINSON,</p><p>HUMANO ....................................................... 45</p><p>1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 45</p><p>2 HISTÓRIA DA GENÉTICA ............................................................................................................ 45</p><p>3 ÁCIDOS NUCLEICOS: DNA .......................................................................................................... 49</p><p>3.1 REPLICAÇÃO DO DNA ............................................................................................................. 53</p><p>4 ÁCIDOS NUCLEICOS: RNA .......................................................................................................... 57</p><p>5 SÍNTESE DE PROTEÍNAS .............................................................................................................. 58</p><p>5.1 TRANSCRIÇÃO GÊNICA ........................................................................................................... 59</p><p>5.2 TRADUÇÃO GÊNICA ................................................................................................................. 62</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 66</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 68</p><p>AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 70</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA ............................................................................................. 73</p><p>TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE ................................................................ 75</p><p>1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 75</p><p>2 GENÉTICA MENDELIANA ........................................................................................................... 75</p><p>2.1 PRIMEIRA LEI DE MENDEL – PRINCÍPIOS DA DOMINÂNCIA E DA SEGREGAÇÃO .... 76</p><p>2.2 SEGUNDA LEI DE MENDEL – O PRINCÍPIO DA SEGREGAÇÃO INDEPENDENTE ..... 79</p><p>3 LEI DA PROBABILIDADE ............................................................................................................. 81</p><p>4 HEREDOGRAMAS ........................................................................................................................... 82</p><p>5 APLICAÇÕES DO MENDELISMO: PADRÕES CLÁSSICOS DE HERANÇA .... 84</p><p>5.1 HERANÇA AUTOSSÔMICA DOMINANTE .......................................................................... 85</p><p>5.2 HERANÇA AUTOSSÔMICA RECESSIVA ............................................................................... 86</p><p>5.3 HERANÇA LIGADA AO SEXO ................................................................................................ 88</p><p>6 EXTENSÕES DO MENDELISMO: PADRÕES NÃO CLÁSSICOS DE HERANÇA ............ 91</p><p>6.1 CODOMINÂNCIA ...................................................................................................................... 91</p><p>6.2 ALELOS MÚLTIPLOS E POLIMORFISMO .............................................................................. 92</p><p>6.3 PLEITROPIA ................................................................................................................................. 93</p><p>6.4 HERANÇA MATERNA ............................................................................................................... 93</p><p>6.5 HERANÇA INFLUENCIADA PELO SEXO ............................................................................ 94</p><p>6.6 HERANÇA LIMITADA PELO SEXO ....................................................................................... 94</p><p>7 EXTENSÕES DO MENDELISMO: HERANÇA MULTIFATORIAL ...................................... 94</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 96</p><p>AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 98</p><p>TÓPICO 2 — ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS .................................................................... 101</p><p>1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 101</p><p>2 CARIÓTIPOS NORMAIS .............................................................................................................. 101</p><p>3 CARIÓTIPOS ALTERADOS ........................................................................................................ 104</p><p>4 ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS NUMÉRICAS ............................................................... 106</p><p>4.1 TRISSOMIAS ............................................................................................................................... 106</p><p>4.2. MONOSSOMIAS ....................................................................................................................... 109</p><p>5 ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS ESTRUTURAIS ............................................................ 110</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 113</p><p>AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 114</p><p>TÓPICO 3 — IMUNOGENÉTICA .................................................................................................. 117</p><p>1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 117</p><p>2 PRINCÍPIOS DA IMUNIDADE ................................................................................................... 117</p><p>3 VARIEDADE DE RECEPTORES ANTIGÊNICOS ................................................................... 118</p><p>4 SISTEMAS ABO E RH ................................................................................................................... 120</p><p>4.1 SISTEMA ABO............................................................................................................................. 121</p><p>4.2 SISTEMA RH ............................................................................................................................... 123</p><p>5 SISTEMA HLA E TRANSPLANTES .......................................................................................... 125</p><p>6 IMUNODEFICIÊNCIAS E DOENÇAS AUTOIMUNES ........................................................ 127</p><p>6.1 IMUNODEFICIÊNCIAS ............................................................................................................ 128</p><p>6.2 DOENÇAS AUTOIMUNES ...................................................................................................... 131</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 134</p><p>AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 135</p><p>TÓPICO 4 — GENÉTICA DE TUMORES ..................................................................................... 137</p><p>1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 137</p><p>2 ORIGEM E DESENVOLVIMENTO DO CÂNCER ................................................................... 137</p><p>3 MUTAÇÕES, AGENTES MUTAGÊNICOS E SISTEMAS DE REPARO ............................ 141</p><p>3.1 MUTAÇÕES RELACIONADAS AO CICLO CELULAR ..................................................... 141</p><p>3.2 MUTAÇÕES RELACIONADAS A PROCESSOS DE MORTE CELULAR PROGRAMADA .....142</p><p>3.3 MUTAÇÕES QUE AFETAM A ESTABILIDADE GENÔMICA ........................................... 144</p><p>3.4 MUTAÇÕES ENVOLVENDO PROTO-ONCOGENES .........................................................</p><p>2013).</p><p>Heredograma é um tipo de gráfico que representa a herança genética de</p><p>determinada característica dos indivíduos representados. É como se fosse uma</p><p>árvore genealógica que analisa uma característica específica como, por exemplo,</p><p>uma anomalia genética ou a frequência de olhos azuis em uma família. Os</p><p>TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>83</p><p>heredogramas usam símbolos padronizados para representar as relações e são</p><p>úteis para estudar o passado genético e familiar de um indivíduo. Na Figura 7,</p><p>você pode observar os principais símbolos usados em um heredograma e um</p><p>exemplo deste gráfico.</p><p>FONTE: Adaptado de <https://edlamarblog.files.wordpress.com/2016/05/slide_4.jpg>. Acesso</p><p>em: 10 jun. 2020.</p><p>FIGURA 7 - HEREDOGRAMA – SÍMBOLOS E GRÁFICO</p><p>No canal do YouTube Curso Online Gratuito, você encontra vídeos sobre as</p><p>leis de Mendel, Probabilidade e Heredogramas. Acesse: https://www.youtube.com/channel/</p><p>UCUn9CBocrtIw6vNPYPGQ_5w.</p><p>Recomendamos também a leitura do livro O polegar do violinista para você que quer</p><p>aprofundar de forma didática e agradável seu conhecimento sobre genética. Neste</p><p>livro, o jornalista Sam Kean conta a história da genética de Mendel e suas ervilhas até o</p><p>conhecimento de ponta dos dias de hoje.</p><p>DICAS</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>84</p><p>5 APLICAÇÕES DO MENDELISMO: PADRÕES CLÁSSICOS DE</p><p>HERANÇA</p><p>Os estudos de Mendel formaram a base daquilo que chamamos de</p><p>Padrões clássicos de herança. Como vimos no tópico anterior, uma herança</p><p>monogênica é aquela determinada por um único gene. Quando este gene está</p><p>localizado em um dos 22 pares de cromossomos não sexuais, dizemos que ela é</p><p>uma herança monogênica autossômica. Uma herança autossômica, por sua vez,</p><p>pode ser dominante ou recessiva.</p><p>Assim, uma herança monogênica autossômica dominante (Aa/AA) é</p><p>aquela que acomete cromossomos não sexuais e na qual o fenótipo é expresso da</p><p>mesma maneira em homozigotos e heterozigotos.</p><p>Quando se trata de uma doença, o alelo normal é considerado recessivo</p><p>e o alelo mutante é dominante. Por isso, ao ser traçado o heredograma desta</p><p>herança (Figura 8), o fenótipo afetado irá aparecer em todas as gerações e toda</p><p>pessoa afetada terá, obrigatoriamente, um genitor afetado.</p><p>Já uma herança monogênica autossômica recessiva (aa) é expressa</p><p>somente em indivíduos homozigotos. Neste caso, o alelo normal é dominante e</p><p>o alelo mutante é recessivo, por isso o indivíduo afetado precisa herdar um alelo</p><p>mutante de cada genitor (um “a” de cada).</p><p>Assim como nas ervilhas de Mendel, o fenótipo pode saltar gerações e a</p><p>pessoa afetada geralmente tem pais heterozigotos que não manifestam a doença</p><p>(Figura 8). Em ambos os casos, por serem heranças autossômicas, homens e</p><p>mulheres tem a mesma probabilidade de transmitir o fenótipo aos filhos de ambos</p><p>os sexos (LEWIS, 2010; MENCK; SLUYS, 2017; SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>FIGURA 8 - EXEMPLOS DE HEREDOGRAMAS RETRATANDO HERANÇAS AUTOSSÔMICAS</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 88)</p><p>TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>85</p><p>5.1 HERANÇA AUTOSSÔMICA DOMINANTE</p><p>Alguns exemplos de doenças hereditárias dominantes determinadas</p><p>por um par de alelos autossômicos é a polidactilia, que é a presença de mais</p><p>de 10 dedos nas mãos ou nos pés, a osteogênese imperfeita, doença conhecida</p><p>como “ossos de vidro” e a doença de Huntington, uma doença degenerativa</p><p>progressiva que afeta as funções cognitivas, psiquiátricas e motoras (BORGES-</p><p>OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>Para você entender como funciona a transmissão desse tipo de herança</p><p>vamos pegar como exemplo a polidactilia. Vamos chamar de P o alelo para a</p><p>presença de dedos excessivos e de p o alelo para sua ausência, Veja no Quadro 1</p><p>os genótipos e fenótipos possíveis.</p><p>Alelos Genótipos Fenótipos</p><p>P e p PP Polidactilia</p><p>Pp Polidactilia</p><p>pp Dedos normais</p><p>QUADRO 1 - GENÓTIPOS E FENÓTIPOS DA POLIDACTILIA</p><p>FONTE: Adaptado de Borges-Osório e Robinson (2013)</p><p>Como a polidactilia é uma característica dominante, indivíduos que</p><p>possuem apenas um alelo P apresentarão o fenótipo anormal de mais de 10 dedos</p><p>nos pés ou nas mãos, enquanto que indivíduos pp serão normais (10 dedos). Veja</p><p>no Quadro 2, a seguir, os tipos de cruzamentos possíveis quando se trata de uma</p><p>doença autossômica dominante usando como exemplo a polidactilia.</p><p>TIPOS DE CRUZAMENTOS DESCENDÊNCIA</p><p>Genótipos Fenótipos Genótipos Fenótipos</p><p>PP x PP Polidactilia x</p><p>Polidactilia 100% PP 100% Polidactilia</p><p>PP x Pp Polidactilia x</p><p>Polidactilia 50% PP e 50% Pp 100% Polidactilia</p><p>PP x pp Polidactilia x</p><p>Normal 100% Pp 100% Polidactilia</p><p>Pp x Pp Polidactilia x</p><p>Polidactilia</p><p>25% PP, 50% Pp e</p><p>25% pp</p><p>75% Polidactilia, 25%</p><p>normal</p><p>Pp x pp Polidactilia x</p><p>Normal 50% Pp e 50% pp 50% Polidactilia, 50%</p><p>normal</p><p>pp x pp Normal x</p><p>Normal 100% pp 100% normal</p><p>QUADRO 2 - TIPOS DE CRUZAMENTO E DESCENDÊNCIA DA POLIDACTILIA</p><p>FONTE: Adaptado de Borges-Osório e Robinson (2013)</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>86</p><p>5.2 HERANÇA AUTOSSÔMICA RECESSIVA</p><p>Na herança autossômica recessiva é preciso que o indivíduo possua dois</p><p>alelos de um mesmo gene. Neste tipo de herança, os genitores raramente são</p><p>afetados, pois costumam ser heterozigotos com fenótipos normais. No entanto,</p><p>esses progenitores heterozigotos possuem o alelo recessivo de forma silenciosa</p><p>e podem transmiti-lo para sua prole resultando em um indivíduo com fenótipo</p><p>doente (Figura 9).</p><p>Em muitos casos o nascimento de uma criança com uma doença</p><p>autossômica recessiva é uma surpresa para a família, pois, muitas vezes, não</p><p>existe tipo de histórico familiar. É importante lembrar também que esse tipo</p><p>de herança é mais comum se manifestar entre casais consanguíneos do que no</p><p>restante da população (PIERCE, 2016).</p><p>FIGURA 9 - PADRÃO DE HERANÇA AUTOSSÔMICA RECESSIVA</p><p>FONTE: <http://twixar.me/PsWm>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>A fibrose cística é um exemplo de doença autossômica recessiva. Ela</p><p>é causada por uma mutação no gene CFTR localizado no cromossomo 7 e se</p><p>manifesta pelo acúmulo de muco principalmente nos pulmões, o que resulta em</p><p>quadros respiratórios crônicos e graves que diminuem a expectativa de vida do</p><p>indivíduo (Figura 10).</p><p>O teste do pezinho, feito no nascimento, tem como uma das funções detectar</p><p>esta doença. Outro exemplo de herança autossômica recessiva é o albinismo, um</p><p>defeito na produção de melanina que resulta em pouca pigmentação na pele,</p><p>olhos e cabelos (Figura 10) (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>87</p><p>FIGURA 10 - FISIOPATOLOGIA DA FIBROSE CÍSTICA E CRIANÇA NEGRA COM ALBINISMO</p><p>FONTE: Adaptado de <http://twixar.me/csWm>; <http://twixar.me/NsWm>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>ANEMIA FALCIFORME</p><p>A anemia falciforme é uma doença hereditária monogénica recessiva caracterizada pela</p><p>produção anormal de hemoglobinas, a proteína das hemácias responsável pelo transporte</p><p>de oxigênio. O gene da hemoglobina está localizado no cromossomo 11 e a doença é</p><p>causada por uma mutação pontual na sequência de DNA quando a base nitrogenada timina</p><p>(T) é substituída por uma adenina (A). O resultado é a troca do aminoácido ácido glutâmico</p><p>pela valina, levando o organismo a produzir a hemoglobina anômala S (HbS). O formato</p><p>das hemácias é então alterado: elas perdem sua forma arredondada e elástica e adquirem</p><p>um formato rígido de foice. Isso dificulta sua passagem pelos vasos sanguíneos e faz com</p><p>que elas sejam destruídas em grande quantidade pelo pâncreas. Os indivíduos portadores</p><p>de anemia falciforme sentem dores fores no corpo pelo bloqueio de fluxo sanguíneo e</p><p>pela falta de oxigenação nos tecidos. Por ser uma doença recessiva, o indivíduo portador</p><p>precisa possuir ambos os alelos mutantes. Indivíduos heterozigotos, ou seja, aqueles que</p><p>possuem apenas um alelo alterado, não manifestam a doença, mas a transmitem aos seus</p><p>descendentes. Dizemos que estes indivíduos tem o traço falciforme (ROCHA, 2004).</p><p>IMPORTANTE</p><p>FONTE: <http://twixar.me/CsWm>.</p><p>Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>COMPARAÇÃO DE HEMOGLOBINA NORMAL E DA HEMOGLOBINA PRESENTE NA ANE-</p><p>MIA FALCIFORME</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>88</p><p>5.3 HERANÇA LIGADA AO SEXO</p><p>Uma herança monogênica também pode afetar os cromossomos sexuais</p><p>(X ou Y). Doenças que afetam genes localizados no cromossomo Y são mais raras,</p><p>pois são transmitidas diretamente de pai para filho, e são chamadas de holândricas</p><p>ou restritas ao sexo (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013). As doenças ligadas</p><p>ao cromossomo X são mais frequentes e são chamadas de doenças ligadas ao</p><p>sexo (ou ligada ao X). Elas também podem ser dominantes ou recessivas. Em uma</p><p>doença dominante ligada ao X, uma mulher heterozigota portadora da doença</p><p>tem 50% de transmitir a doença para filhos de ambos os sexos. Isso porque, como</p><p>mulher e heterozigota, ela tem dois cromossomos X, um normal e um mutado.</p><p>Assim ela terá 50% de chances de transmitir um gameta X normal e 50% de</p><p>chances de transmitir um gameta X alterado. Como a doença é dominante, basta</p><p>receber um cromossomo X alterado para que sua prole desenvolva a doença.</p><p>Caso a doença ocorra em um indivíduo do sexo masculino, XY, nenhum dos seus</p><p>filhos herdará a doença, pois sempre receberá do pai um cromossomo Y. Porém,</p><p>todas as suas filhas herdarão a doença, pois receberão do pai o cromossomo X</p><p>mutado e dominante.</p><p>As doenças recessivas ligadas ao X costumam se manifestar com maior</p><p>frequência em indivíduos do sexo masculino. Isso porque as mulheres que</p><p>possuem apenas um cromossomo X alterado, ou seja, as heterozigotas, não</p><p>manifestam o fenótipo. No entanto, elas têm 50% de chances de transmitir um</p><p>gameta X alterado para a sua prole. Como indivíduos do sexo masculino possuem</p><p>apenas um cromossomo X (XY), caso ele receba um X alterado, ele manifestará</p><p>a doença (SNUSTAD; SIMMONS, 2017; SILVEIRA, 2019). Você pode entender</p><p>melhor essas alterações observando a Figura 11.</p><p>FIGURA 11 - HERANÇAS LIGADA AO SEXO</p><p>FONTE: Adaptado de Silveira (2019, p. 23-25)</p><p>TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>89</p><p>O daltonismo é um exemplo de doença recessiva ligada ao sexo e seus</p><p>genes estão localizados no braço longo do cromossomo X (Xq28). Como esperado</p><p>para esse padrão de herança, ela é mais comum em indivíduos do sexo masculino:</p><p>cerca de 8% dos homens tem alguma variação da doença. Clinicamente ela</p><p>se manifesta pela dificuldade em distinguir cores como o verde e o vermelho</p><p>(BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013). Você pode fazer um teste rápido de</p><p>daltonismo observando a Figura 12: se você conseguir identificar os números</p><p>dentro dos círculos a seguir, sua visão é normal, do contrário, você provavelmente</p><p>tem alguma variação da doença.</p><p>FIGURA 12 - TESTE DE DALTONISMO</p><p>FONTE: <http://twixar.me/FMWm>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>Outro exemplo de doença recessiva ligada ao X é a hemofilia. Indivíduos</p><p>hemofílicos são incapazes de produzir um fator necessário para a coagulação</p><p>sanguínea, o fator VIII. Essa proteína é codificada pelo alelo H e não codificada</p><p>pelo alelo recessivo e mutante h, ambos localizados no cromossomo X. Quase</p><p>todas as pessoas afetadas pela hemofilia são do sexo masculino que herdaram</p><p>a mutação de mães heterozigotas. Caso homens hemofílicos tenham filhos, eles</p><p>transmitem a mutação para as filhas, mas elas geralmente não terão a doença,</p><p>pois herdarão o alelo normal das mães (SNUSTAD; SIMMONS, 2017; SILVEIRA,</p><p>2019).</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>90</p><p>As famílias reais europeias são conhecidas pela frequência de casamentos</p><p>consanguíneos, o que aumenta a frequência de doenças recessivas. Veja o exemplo citado</p><p>por Snustad e Simmons (2017, p. 55):</p><p>O caso mais famoso de hemofi lia ligada ao X ocorreu na família imperial</p><p>russa no início do século XX. O czar Nicolau e a czarina Alexandra</p><p>tiveram quatro fi lhas e um fi lho; Alexei, o fi lho, era hemofílico. A</p><p>mutação ligada ao X responsável pela doença de Alexei foi transmitida</p><p>por sua mãe, portadora heterozigota. A czarina Alexandra era neta da</p><p>rainha Vitória da Grã-Bretanha, também portadora. Os registros do</p><p>heredograma mostram que Vitória transmitiu o alelo mutante para</p><p>três dos nove fi lhos.</p><p>HEMOFILIA NA FAMÍLIA REAL</p><p>INTERESSANTE</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 156)</p><p>TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>91</p><p>6 EXTENSÕES DO MENDELISMO: PADRÕES NÃO CLÁSSICOS</p><p>DE HERANÇA</p><p>Como você viu até aqui, acadêmico, os experimentos de Mendel</p><p>mostraram que os genes existem em duas formas alternativas, os alelos dominante</p><p>e recessivo. Essa descoberta foi muito importante, pois estabeleceu a base do</p><p>estudo da genética, porém hoje sabemos que essa dualidade dos alelos, como se</p><p>um fosse sempre inativo e o outro sempre responsável pelo fenótipo, é bastante</p><p>simplificada. Na verdade, segundo Snustad e Simmons (2017), pesquisas recentes</p><p>mostram que os genes podem existir em diferentes formas e que cada alelo pode</p><p>ter um efeito diferente no fenótipo. A seguir, iremos descrever brevemente</p><p>algumas dessas principais variações:</p><p>6.1 CODOMINÂNCIA</p><p>Nós já sabemos que um alelo dominante é aquele que tem o mesmo efeito</p><p>fenotípico em indivíduos heterozigotos e homozigotos, ou seja, os genótipos</p><p>AA e Aa produzem fenótipos iguais. Alguns genes, no entanto, possuem alelos</p><p>chamados codominantes, pois entre eles não existe relação de dominância e cada</p><p>um possui um fenótipo equivalente. Um exemplo de codominância é o sistema</p><p>sanguíneo humano MN, semelhante ao sistema ABO.</p><p>No sistema sanguíneo MN, a capacidade de produzir os antígenos M e</p><p>N é determinada por um gene com dois alelos, um determina a produção do</p><p>antígeno M e o outro, do antígeno N. Homozigotos para o alelo M produzem</p><p>apenas o antígeno M e homozigotos para o alelo N, apenas o antígeno N.</p><p>No entanto, indivíduos heterozigotos para esses dois alelos produzem</p><p>os dois tipos de antígenos e possuem fenótipo MN. Neste caso, nenhum alelo é</p><p>dominante sobre o outro. Como não há predominância de um alelo sobre o outro,</p><p>não diferenciamos alelos codominantes por letras minúsculas e maiúsculas como</p><p>vimos anteriormente.</p><p>Esses alelos são representados sobrescritos ao símbolo do gene, no caso</p><p>do sistema MN, a letra L em homenagem ao seu descobridor. Assim, o alelo M</p><p>é LM e o alelo N é LN. A Figura 13 mostra os três genótipos possíveis formados</p><p>pelos alelos LM e LN e os fenótipos associados (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>92</p><p>FIGURA 13 - EXEMPLO DE CODOMINÂNCIA COM O SISTEMA SANGUÍNEO MN</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 105)</p><p>6.2 ALELOS MÚLTIPLOS E POLIMORFISMO</p><p>Até aqui nós aprendemos que cada gene possui dois alelos segundo a</p><p>genética mendeliana, um dominante e um recessivo, e que existem também casos</p><p>de alelos codominantes, porém a genética moderna descobriu que existem genes</p><p>que possuem três ou mais alelos, ou seja, uma única característica fenotípica é</p><p>determinada por mais de dois alelos em um mesmo lócus. A isso damos o nome</p><p>de alelos múltiplos (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>Um exemplo disso é o sistema sanguíneo ABO que mencionamos</p><p>brevemente no item anterior. Como você deve lembrar acadêmico, quando as</p><p>células possuem apenas o antígeno A, o sangue do indivíduo é tipo A; quando</p><p>tem apenas o antígeno B, o sangue é tipo B.</p><p>Quando os dois antígenos estão presentes, o sangue é tipo AB e quando</p><p>não há antígeno A ou B, o sangue é tipo O. O gene responsável pela produção dos</p><p>antígenos A e B é designado pela letra I. Esse gene possui três alelos: IA, IB e i. O</p><p>alelo IA produz do antígeno A e o alelo IB, o antígeno B, no entanto, o alelo i não</p><p>especifica nenhum antígeno. Assim, entre os seis genótipos possíveis do sistema</p><p>ABO, existem quatro fenótipos: os tipos sanguíneos A, B, AB e O.</p><p>Nesse sistema, os alelos IA e IB são codominantes, pois ambos são expressos</p><p>igualmente em indivíduos heterozigotos IA IB. Já o alelo i é recessivo em relação</p><p>aos alelos IA e IB. Os três alelos são encontrados em frequências consideráveis nas</p><p>populações humanas; assim, diz-se que o gene I é polimórfico, o que significa</p><p>“que tem muitas formas” (SNUSTAD; SIMMONS, 2017; SILVEIRA, 2019).</p><p>TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>93</p><p>6.3 PLEITROPIA</p><p>Pleitropia é o nome dado a um único gene que atua na manifestação de</p><p>diversas características fenotípicas ao mesmo tempo. Um exemplo em humanos</p><p>é a doença fenilcetonúria. O principal efeito de mutações recessivas nesse gene</p><p>é a deficiência da enzima fenilalanina-hidroxilase, que resulta no acúmulo de</p><p>substâncias tóxicas no organismo. Porém, como esse gene é pleiotrópico, ele</p><p>também interfere em outros fenótipos, como a síntese de melanila. Isso resulta</p><p>no clareamento dos pelos do corpo, por isso indivíduos fenilcetonúricos, além</p><p>das manifestações clínicas da doença, costumam ter cabelos claros (SNUSTAD;</p><p>SIMMONS, 2017).</p><p>6.4 HERANÇA MATERNA</p><p>O genoma humano, que estudamos ao longo de toda a Unidade 1 deste</p><p>livro didático, é composto pelo genoma contido no núcleo (chamado genoma</p><p>nuclear, composto por mais de 30 mil genes) e pelo genoma presente em nossas</p><p>mitocôndrias (chamado genoma mitocondrial, composto por 37 genes).</p><p>As mitocôndrias que possuímos em nossas células são sempre de</p><p>origem materna, isto ocorre porque, durante a fecundação, as mitocôndrias do</p><p>espermatozoide são degradadas, restando no zigoto somente as mitocôndrias do</p><p>ovócito.</p><p>Assim, quando falamos em herança materna, estamos nos referindo a</p><p>distúrbios codificados por genes presentes no DNA mitocondrial, o qual pode</p><p>ser transmitido para ambos os sexos, mas é sempre é herdado da mãe (Figura 14)</p><p>(BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>FIGURA 14 - HERANÇA MATERNA RELACIONADA AO GENOMA MITOCONDRIAL</p><p>FONTE: <http://www.planetainvertebrados.com.br/imagens_artigos/textos/img_20150131_ol-</p><p>drkeovjja0.jpg>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>94</p><p>6.5 HERANÇA INFLUENCIADA PELO SEXO</p><p>Esse tipo de herança está relacionado a genes autossômicos, mas o</p><p>fenótipo é influenciado pelo sexo. Em outras palavras, é um tipo de herança</p><p>autossômica cuja expressão é dependente da constituição hormonal. Neste caso,</p><p>o sexo influencia a expressão fenotípica, ou seja, um indivíduo heterozigoto pode</p><p>apresentar um fenótipo em um sexo e outro fenótipo no outro sexo, mas não</p><p>é limitada apenas ao sexo feminino ou masculino. Um exemplo é a calvície</p><p>humana. O gene b é dominante em homens e recessivo em mulheres e só exerce</p><p>seu efeito em heterozigotos na presença do hormônio masculino (SILVEIRA,</p><p>2019).</p><p>6.6 HERANÇA LIMITADA PELO SEXO</p><p>Essa herança também está relacionada a genes autossômicos, mas sua</p><p>expressão fenotípica é limitada pela presença ou ausência de um dos hormônios</p><p>sexuais. Assim, seu efeito só se manifesta em um dos dois sexos. Alguns exemplos</p><p>são as características sexuais secundárias: presença de barba, volume dos seios,</p><p>forma de quadris femininos etc. (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>7 EXTENSÕES DO MENDELISMO: HERANÇA MULTIFATORIAL</p><p>Todas as situações apresentadas até aqui são padrões de herança ligados</p><p>a um único gene, por isso são chamados monogênicos. Hoje sabemos que além</p><p>da herança monogênica, existe a herança poligênica. Ela ocorre quando uma</p><p>característica é determinada pela combinação de vários genes, ou seja, pares de</p><p>genes diferentes possuem efeito aditivo sobre eles mesmos e determinam um</p><p>único fenótipo. A herança poligênica é responsável pela grande variedade de</p><p>fenótipos e genótipos existentes na natureza, como as diferentes estaturas, cor de</p><p>pele e cor dos olhos humanos.</p><p>Quando esses diversos genes ainda sofrem a influência de fatores</p><p>ambientais, o que aumenta ainda mais a variabilidade genética, dizemos que se</p><p>trata de uma herança multigênica. A expressão destes genes é distribuída em uma</p><p>curva em forma de sino (chamada distribuição normal). Na herança multigênica,</p><p>a presença de cada gene soma ou subtrai um traço de forma independente dos</p><p>outros genes. Por isso a maioria dos indivíduos se localiza no meio da curva,</p><p>pois a probabilidade de herdar alguns fatores é maior do que a probabilidade</p><p>de herdar todos ou nenhum (FINEGOLD, 2017, SILVEIRA, 2019). A cor da pele</p><p>humana é um exemplo de herança multigênica determinada por cinco genes. Na</p><p>Figura 15, você pode observar como o número de genes dominantes presentes</p><p>em cada indivíduo contribuirá para a intensidade de pigmentação da sua pele e</p><p>exemplos de heranças multifatoriais.</p><p>TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS DA HEREDITARIEDADE</p><p>95</p><p>FIGURA 15 - EXEMPLOS DE HERANÇA MULTIGÊNICA</p><p>FONTE: Adaptado de Snustad e Simmons (2017); Borges-Osorio e Robinson (2013)</p><p>Como você viu na Figura 15, várias anormalidades congênitas</p><p>relativamente comuns e doenças familiares resultam de herança multifatorial.</p><p>Entre as principais doenças com causas multifatoriais estão a hipertensão, o</p><p>diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer. Essas doenças surgem diante da soma</p><p>de infl uências genéticas e ambientais. Os traços multigênica multifatoriais</p><p>raramente produzem padrões claros de herança, entretanto estes traços tendem</p><p>a ocorrer com mais frequência entre certos grupos étnicos e geográfi cos ou entre</p><p>um sexo ou outro (FINEGOLD, 2017).</p><p>96</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• Gene é um pedaço de uma molécula de DNA responsável por transmitir uma</p><p>característica genética. A posição (local) que o gene ocupa no seu cromossomo</p><p>é chamado de lócus ou loci.</p><p>• A primeira lei de Mendel diz que os genes existem aos pares. Os dois genes que</p><p>ocupam a mesma posição no par de cromossomos homólogos (um do pai, um</p><p>da mãe) são chamados alelos e podem ser heterozigotos (Aa) ou homozigotos</p><p>(AA e aa). A primeira lei de Mendel também define dominância e segregação.</p><p>• Dominante é o gene cujo fenótipo é expresso mesmo na presença de uma única</p><p>cópia do gene em predominância a um gene recessivo. Já recessivo é o gene</p><p>cuja característica não aparece expressa no estado heterozigótico, o fenótipo só</p><p>é expresso quando os dois alelos estiverem presentes. Ex.: aa.</p><p>• A lei da segregação diz que durante a meiose, há uma separação dos dois alelos</p><p>de modo que cada gameta receberá um deles aleatoriamente e com a mesma</p><p>probabilidade.</p><p>• A segunda lei de Mendel trata do conceito de distribuição independente: pares</p><p>diferentes de alelos são segregados (separados ou distribuídos) de maneira</p><p>independente uns dos outros.</p><p>• Quadrado de Punnett é uma ferramenta utilizada para prever a transmissão</p><p>da hereditariedade em cruzamentos. Essa previsão também pode ser realizada</p><p>matematicamente fazendo uso da probabilidade. Já os gráficos que representam</p><p>a herança genética de determinada característica em uma família são chamados</p><p>de heredogramas.</p><p>• Uma herança monogênica autossômica dominante (Aa/AA) acomete</p><p>cromossomos não sexuais e o fenótipo é expresso da mesma maneira em</p><p>homozigotos e heterozigotos. Já uma herança monogênica autossômica</p><p>recessiva (aa) é expressa somente em indivíduos homozigotos.</p><p>• A anemia falciforme é um exemplo de herança monogênica autossômica</p><p>recessiva caracterizada pela presença da hemoglobina anômala HbS que</p><p>resulta em hemácias com formato de foice.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>97</p><p>• Uma herança monogênica também pode afetar os cromossomos sexuais:</p><p>quando afetam genes do cromossomo Y são chamadas de holândricas e quando</p><p>afetam genes do cromossomo X são chamadas de doenças ligadas ao sexo ou</p><p>ligadas ao X. O daltonismo e a hemofilia são exemplos de doenças recessivas</p><p>ligadas ao X.</p><p>• As heranças influenciadas pelo sexo são heranças autossômica cuja expressão é</p><p>dependente da constituição hormonal, como a calvície, mas não é restrita a um</p><p>dos sexos. Já a herança limitada pelo sexo, como o nome diz, é limitada pela</p><p>presença ou ausência de um dos hormônios</p><p>sexuais, por isso seu efeito só se</p><p>manifesta em um dos dois sexos, como a presença de seios.</p><p>• Outros padrões não clássicos de herança incluem a codominância, os alelos</p><p>múltiplos, o conceito de penetrância, a pleitropia e a herança materna,</p><p>relacionada ao genoma mitocondrial.</p><p>• Além da herança monogênica existe a herança poligênica, quando uma</p><p>característica é determinada pela combinação de vários genes que possuem</p><p>efeito aditivo sobre eles mesmos. Quando esses genes ainda sofrem a influência</p><p>de fatores ambientais dizemos que se trata de uma herança multigênica.</p><p>• A expressão da herança multigênica é distribuída em uma curva normal e</p><p>alguns exemplos incluem a cor da pele e dos olhos, a altura, o peso etc.</p><p>98</p><p>1 Desenhe o heredograma da sua família a partir dos seus avós e escolha uma</p><p>característica como “afetado” (pode ser uma doença hereditária conhecida</p><p>ou uma característica física como cabelos louros ou olhos azuis).</p><p>2 As Leis de Mendel, que constituem a base da Genética, são baseadas em</p><p>experimentos realizados no século XIX, com plantas de ervilha de cheiro</p><p>(Pisum sativum) (SNUSTAD; SIMMONS, 2017). Mendel acreditava que as</p><p>características das ervilhas de cheiro eram baseadas em:</p><p>a) ( ) Herança de fatores (genes) originados de ambos os progenitores.</p><p>b) ( ) Herança de fatores (genes) originados de apenas um progenitor.</p><p>c) ( ) Características desconhecidas dos progenitores no momento da</p><p>polinização.</p><p>d) ( ) Características adquiridas de um dos progenitores antes da polinização.</p><p>3 Hoje sabemos que os “fatores” descritos por Mendel em seus experimentos</p><p>com ervilhas são, na verdade, genes e sabemos que as formas dominante</p><p>e recessiva são denominadas alelos (VARGAS, 2014). Segundo o que você</p><p>aprendeu sobre genética básica, um alelo é:</p><p>a) ( ) Sinônimo de gene.</p><p>b) ( ) Um genótipo homozigoto.</p><p>c) ( ) Um genótipo heterozigoto.</p><p>d) ( ) Uma de várias formas possíveis de um gene.</p><p>4 As palavras “genótipo” e “fenótipo” são conceitos muito utilizados em</p><p>genética para descrever atributos de um indivíduo. De acordo com o</p><p>conhecimento adquirido ao longo do Tópico 1, analise as afirmações a</p><p>seguir e assinale a resposta correta:</p><p>I- Fenótipo é o conjunto de características observáveis (físicas) expressas em</p><p>um organismo.</p><p>II- Fenótipo é o conjunto de genes que um indivíduo possui e que é expresso</p><p>em características físicas especiais.</p><p>III- Genótipo é a constituição genética de um organismo, ou seja, o conjunto</p><p>de genes que um indivíduo possui.</p><p>IV- Genótipo são os diferentes tipos de genes que existem em uma espécie.</p><p>a) ( ) As alternativas I e IV estão corretas.</p><p>b) ( ) As alternativas I e III estão corretas.</p><p>c) ( ) As alternativas II e IV estão corretas.</p><p>d) ( ) As alternativas II e III estão corretas.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>99</p><p>5 Quando o genótipo de um indivíduo consiste em um alelo dominante e</p><p>um alelo recessivo para uma determinada característica, o fenótipo desse</p><p>indivíduo será referente a qual alelo?</p><p>a) ( ) Ambos.</p><p>b) ( ) O dominante.</p><p>c) ( ) O recessivo.</p><p>d) ( ) Nenhum.</p><p>6 A ideia de que diferentes pares de alelos são passados para a prole de forma</p><p>independente é baseado no princípio de Mendel da _______1_______. A</p><p>ideia de que, para qualquer característica, o par de alelos de cada progenitor</p><p>se separa e apenas um dos alelos é transmitido para a prole, é o princípio</p><p>de Mendel de ______2______. Os números 1 e 2 nas frases anteriores são</p><p>referentes, respectivamente, a:</p><p>a) ( ) Segregação e distribuição independente.</p><p>b) ( ) Hibridização e segregação.</p><p>c) ( ) Distribuição independente e segregação.</p><p>d) ( ) Codominância e hibridização.</p><p>7 Um trato recessivo será observado em indivíduos que são ________ para</p><p>este trato. O espaço em branco é referente a:</p><p>a) ( ) Heterozigotos.</p><p>b) ( ) Haploides.</p><p>c) ( ) Homozigotos.</p><p>d) ( ) Diploides.</p><p>8 Imagine que você está realizando um cruzamento envolvendo a cor da</p><p>semente de plantas de ervilha. Qual descendência F1 você esperaria se</p><p>cruzasse progenitores puros com sementes verdes e amarelas? Você sabe</p><p>que a cor amarela é dominante sobre a verde.</p><p>a) ( ) 100% plantas verdes.</p><p>b) ( ) 100% plantas amarelas.</p><p>c) ( ) 50% plantas verdes e 50% plantas amarelas.</p><p>d) ( ) 75% plantas amarelas e 25% plantas verdes.</p><p>100</p><p>101</p><p>UNIDADE 2</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Olá, acadêmico, seja bem-vindo ao segundo tópico da Unidade 2 do</p><p>livro de Genética Humana e Médica! Você aprendeu na Unidade 1 deste livro</p><p>didático que nós humanos possuímos 23 pares de cromossomos (totalizando 46).</p><p>O número (2n) de 46 cromossomos é chamado diploide e corresponde à maioria</p><p>das células somáticas. Já o número (n) é chamado haploide e corresponde aos</p><p>gametas sexuais. A espécie humana possui dois tipos de cromossomos sexuais, o</p><p>cromossomo X e o cromossomo Y, que define o gênero masculino. Durante a meiose</p><p>no sexo masculino, os cromossomos X e Y se separam, produzindo dois tipos de</p><p>espermatozoide, um que tem X e outro que tem Y, enquanto que indivíduos XX do</p><p>sexo feminino só produzem um tipo de ovócito, com X. No Tópico 1 da Unidade</p><p>2, você viu que Mendel elaborou dois princípios de transmissão genética: (1) os</p><p>alelos de um mesmo gene são segregados; e (2) os alelos de dois genes diferentes</p><p>são distribuídos de modo independente. A constatação de que os genes estão</p><p>localizados nos cromossomos e o comportamento meiótico dos cromossomos são</p><p>a base dos princípios de segregação e distribuição independente que formam as</p><p>Leis de Mendel.</p><p>Neste segundo tópico, nós iremos estudar as principais alterações</p><p>genéticas envolvendo os cromossomos humanos. Ao final dele, você deverá ser</p><p>capaz de entender os principais conceitos relacionados a um cariótipo normal e as</p><p>principais alterações que resultam em anormalidades cromossômicas. Também</p><p>saberá diferenciar aneuploidia de rearranjos cromossômicos, bem como conhecer</p><p>os principais tipos de trissomias e monossomias e o impacto de deleções, inversões,</p><p>duplicações e translocações. Lembre-se que sua participação e comprometimento</p><p>com a disciplina são fundamentais para o seu sucesso!</p><p>2 CARIÓTIPOS NORMAIS</p><p>Cariótipo é o nome dado ao conjunto diploide (2n) de cromossomos das</p><p>células somáticas. No cariótipo os cromossomos são estudados em relação à sua</p><p>quantidade e estrutura e é possível determinar a normalidade ou anormalidade</p><p>dos 46 cromossomos que compõem a espécie humana (LEWIS, 2010).</p><p>Mas como é possível avaliar os cromossomos de um indivíduo?</p><p>TÓPICO 2 —</p><p>ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS</p><p>102</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>Como vimos na unidade anterior, os cromossomos só́ podem ser</p><p>visualizados durante a metáfase da divisão celular. Isso acontece porque no</p><p>resto do tempo eles estão desenovelados na forma de fitas de DNA, é somente</p><p>durante a metáfase que os cromossomos estão condensados ao máximo. Na</p><p>Unidade 3 deste livro didático, você irá aprender técnicas de citogenética e</p><p>biologia molecular. Neste momento é importante que você saiba, apenas, que a</p><p>técnica clássica para estudar o cariótipo de um indivíduo consiste na coloração</p><p>de células em divisão com determinados corantes e posterior observação em um</p><p>microscópio onde os campos são fotografados. A partir dessas fotografias, os</p><p>cromossomos são recortados e organizados aos pares sobre uma folha de papel.</p><p>Essa ordenação de cromossomos é chamada cariograma e você pode observá-la</p><p>na Figura 16 (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>FIGURA 16 - CARIOGRAMA E CARACTERÍSTICAS DOS CROMOSSOMOS HUMANOS</p><p>FONTE: Borges-Osório e Robinson (2013, p. 101; 106)</p><p>A ordenação dos cromossomos em um cariograma leva em consideração</p><p>o tamanho e a posição do centrômero. Você deve se lembrar da Unidade 1 que</p><p>o centrômero classifica os cromossomos humanos em três tipos: metacêntricos,</p><p>quando o centrômero é central e divide o cromossomo</p><p>em dois braços iguais;</p><p>submetacêntricos, quando o centrômero está um pouco distante do centro,</p><p>dividindo o cromossomo em braços ligeiramente desiguais; e acrocêntricos,</p><p>quando o centrômero está mais próximo de uma das extremidades, dividindo-o</p><p>em dois braços completamente desiguais.</p><p>TÓPICO 2 — ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS</p><p>103</p><p>Quanto ao tamanho, os cromossomos são considerados grandes, médios,</p><p>pequenos e muito pequenos, sendo classificados, em ordem decrescente de</p><p>tamanho, em sete grupos denominados de A a G e numerados, aos pares, de</p><p>1 a 22, além dos cromossomos sexuais. Assim, o Par 1 é o de maior tamanho</p><p>e é metacêntrico, portanto, pertencente ao grupo A; já o Par 22 é o menor e é</p><p>acrocêntrico, pertence ao grupo G (Figura 16) (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON,</p><p>2013).</p><p>O centrômero também divide as cromátides-irmãs em braços longos e</p><p>curtos. Os braços longos são chamados de q e os braços curtos, de p (do francês,</p><p>petit, pequeno). Cada braço do cromossomo é subdividido em Regiões 1, 2 etc.,</p><p>partindo sempre do centrômero. Assim, quando você ler, por exemplo, 7p2, isso</p><p>significa que estamos falando da Região 2 do braço curto do cromossomo 7.</p><p>Além disso, cada região do cromossomo é subdividida em bandas a partir do</p><p>centrômero, chamadas de Banda 1, Banda 2 e assim por diante. Algumas bandas</p><p>são, ainda, subdivididas em sub-bandas e são identificadas por um número</p><p>decimal depois do número da banda respectiva. Por exemplo: a Região 3 do</p><p>braço longo do cromossomo 7 (7q3.1) possui três sub-bandas, 1, 2 e 3 (Figura 17)</p><p>(SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>FIGURA 17 - DIVISÃO DO CROMOSSOMO 1 EM BRAÇOS, REGIÕES E BANDAS</p><p>FONTE: Adaptado de Silva (2015)</p><p>É importante saber também que os cariótipos são descritos pelo número de</p><p>cromossomos acompanhado da constituição cromossômica sexual (que irá definir</p><p>o gênero do indivíduo) e de qualquer alteração presente. Assim, um homem normal</p><p>será definido como 46,XY, enquanto uma mulher normal será 46,XX. As alterações</p><p>cromossômicas devem ser precedidas por vírgula, após os cromossomos sexuais,</p><p>por exemplo: uma criança do sexo masculino com síndrome de Down devido à</p><p>trissomia do cromossomo 21 é referida como 47,XY, +21, enquanto uma menina</p><p>com deleção do braço curto do cromossomo 5 (síndrome do “miado do gato”)</p><p>será representada como 46,XX, 5p- ou 46,XX, del(5p) (SNUSTAD; SIMMONS,</p><p>2017). Não se preocupe que nós iremos falar sobre cada uma dessas alterações</p><p>genéticas mais para frente nesta apostila, atente-se, neste momento, a entender</p><p>como é feita a leitura dos cariótipos e de suas principais alterações!</p><p>104</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>3 CARIÓTIPOS ALTERADOS</p><p>Como você deve imaginar, acadêmico, alterações no número na estrutura</p><p>dos cromossomos podem resultar em diversos distúrbios genéticos com</p><p>manifestações clínicas importantes. Neste tópico iremos abordar algumas delas.</p><p>Quando a alteração ocorre no número de cromossomos, dizemos que são</p><p>variações na ploidia. A Figura 18 mostra que essas alterações ocorrem por erros</p><p>durante o processo de meiose, ou pela não separação dos cromossomos homólogos</p><p>na meiose I ou pela não separação das cromátides-irmãs durante a meiose II.</p><p>Assim, organismos com conjuntos completos ou normais de cromossomos são</p><p>chamados euploides. Você sabe que a euploidia na espécie humana, ou seja, o</p><p>número de conjuntos normais na nossa espécie é 2n, isto é, diploide.</p><p>Organismos que têm conjuntos adicionais inteiros de cromossomos são</p><p>chamados poliploides e podem ser triploides (3n), tetraploides (4n) ou mais.</p><p>Na espécie humana, essa condição é incompatível com a vida e, portanto, não</p><p>existem humanos poliploides, apesar de ser algo relativamente comum em</p><p>algumas espécies de plantas e animais.</p><p>O que acontece no homem considerando as alterações cromossômicas</p><p>numéricas é a deficiência ou o excesso de determinado cromossomo (e não</p><p>do genoma inteiro). Para isso damos o nome de aneuploidia. A perda de um</p><p>cromossomo, por exemplo, é chamada monossomia, enquanto que a adição de</p><p>um cromossomo extra é chamada trissomia (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON,</p><p>2013). No Quadro 3 estão descritas as principais alterações numéricas e suas</p><p>respectivas nomenclaturas.</p><p>FIGURA 18 - ORIGEM DAS ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS NUMÉRICAS</p><p>FONTE: Adaptado de FGO (2019)</p><p>TÓPICO 2 — ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS</p><p>105</p><p>NOMENCLATURA/ ALTERAÇÃO</p><p>NUMÉRICA</p><p>NÚMERO DE LOTES</p><p>CROMOSSOMOS</p><p>EUPLOIDIA (o cariótipo</p><p>apresenta o número normal de</p><p>cromossomos)</p><p>Diploidia 2n (46)</p><p>POLIPLOIDIA (todo o</p><p>conjunto de cromossomos é</p><p>multiplicado – incompatível</p><p>com a espécie humana)</p><p>Triploidia 3n</p><p>Tetraploidia 4n</p><p>Poliploidia 5n ou mais</p><p>ANEUPLOIDIA (excesso ou</p><p>ausência de um determinado</p><p>cromossomo)</p><p>Nulissomia 2n – 2 (perda de um par de</p><p>cromossomos)</p><p>Monossomia 2n – 1 (perda de apenas um</p><p>cromossomo)</p><p>Trissomia 2n + 1 (ganho de um</p><p>cromossomo)</p><p>Tetrassomia 2n + 2 (ganho de um par de</p><p>cromossomo)</p><p>FONTE: A autora</p><p>QUADRO 3 - TIPOS DE ALTERAÇÕES NUMÉRICAS</p><p>Além das alterações no número de cromossomos, existem diversos tipos</p><p>de alterações em sua estrutura. Por exemplo, um fragmento de um cromossomo</p><p>pode ser fundido a outro cromossomo, ou um segmento dentro de um cromossomo</p><p>pode ser invertido em relação ao restante deste cromossomo. Essas alterações</p><p>estruturais são denominadas rearranjos e os principais tipos podem ser vistos na</p><p>Figura 19 (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>FIGURA 19 - PRINCIPAIS TIPOS DE REARRANJOS CROMOSSÔMICOS</p><p>FONTE: Adaptado de Oliveira (2008)</p><p>106</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>4 ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS NUMÉRICAS</p><p>Você aprendeu que as anomalias cromossômicas numéricas na espécie</p><p>humana recebem o nome de aneuploidias e ocorrem devido a meioses atípicas</p><p>durante o processo de gametogênese, o que resulta na produção de gametas</p><p>(espermatozoide e ovócito) com quantidade genômica haploide alterada. Essas</p><p>alterações ocorrem principalmente durante a separação dos cromossomos</p><p>homólogos (anáfase I) e durante a separação das cromátides-irmãs (anáfase II).</p><p>Quando ocorre a fecundação de um desses gametas alterados, a contribuição</p><p>genética dessas células alteradas leva ao surgimento de indivíduos com cariótipo</p><p>anormal.</p><p>4.1 TRISSOMIAS</p><p>A anormalidade cromossômica mais comum em seres humanos é a</p><p>síndrome de Down, uma aneuploidia causada pela presença de um cromossomo</p><p>21 a mais. Também é conhecida como trissomia do 21 e afeta igualmente indivíduos</p><p>de ambos os sexos (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013). Sua frequência é de</p><p>1:1500 casos em mulheres com menos de 25 anos e 1:100 casos em mulheres de</p><p>40 anos. Esse aumento é causado por fatores que afetam a meiose à medida que a</p><p>mulher envelhece. Nós vimos na Unidade 1 que, nas mulheres, a meiose começa</p><p>na vida fetal, mas só é concluída depois da fertilização do ovócito. Durante todo</p><p>o período antes da fertilização, as células meióticas permanecem na prófase da</p><p>primeira divisão. Quanto maior é a duração da prófase, maior é a chance de que não</p><p>haja pareamento adequado ou disjunção do cromossomo. Portanto, as mulheres</p><p>mais velhas são mais propensas a produzir ovócitos aneuploides (SNUSTAD;</p><p>SIMMONS, 2017). Estudos mais recentes mostram que a idade paterna avançada</p><p>(+55 anos) também aumenta o risco da síndrome. Além do comprometimento</p><p>mental, as principais características físicas de indivíduos com síndrome de Down</p><p>estão descritas na Figura 20 (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013). A figura</p><p>também mostra o cariótipo de uma paciente com a síndrome: 47 cromossomos,</p><p>incluindo dois cromossomos X e um cromossomo 21 extra. Portanto, o cariótipo</p><p>é 47, XX, +21 (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>Além da trissomia do 21, também há relatos de trissomias dos cromossomos</p><p>8, 9, 13, 18 e 22, porém são bem mais raras e quase sempre fatais. A síndrome</p><p>de Edwards, ou trissomia do 18, por exemplo, leva a óbito 95% dos bebês antes</p><p>mesmo do</p><p>nascimento e somente 5 a 10% completam o primeiro ano de vida. As</p><p>outras trissomias viáveis observadas em seres humanos estão relacionadas aos</p><p>cromossomos sexuais (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>TÓPICO 2 — ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS</p><p>107</p><p>FIGURA 20 - PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS FÍSICAS DE INDIVÍDUOS COM SÍNDROME DE</p><p>DOWN</p><p>FONTE: Adaptado de <https://image1.slideserve.com/2168666/autosomal-nondisjunction-rela-</p><p>ted-disorders-l.jpg>; Sinustad e Simmons (2017, p. 187). Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>O cariótipo triplo-X, 47, XXX, por exemplo, ocorre em indivíduos do sexo</p><p>feminino. Estas mulheres não apresentam grandes alterações fenotípicas e essa</p><p>aparente normalidade acontece porque dois dos seus três cromossomos X são</p><p>inativados de maneira que se aproxime do nível de uma mulher de cariótipo normal.</p><p>Apenas em alguns casos esses indivíduos irão apresentar leve</p><p>comprometimento mental e diminuição da fertilidade. O cariótipo 47, XXY,</p><p>chamado de síndrome de Klinefelter, também é uma trissomia viável. Esses</p><p>indivíduos têm três cromossomos sexuais, dois X e um Y, e a presença do</p><p>cromossomo Y faz com que tenham fenótipo masculino. A presença de dois</p><p>cromossomos X, no entanto, faz com que esses homens apresentem algumas</p><p>características sexuais secundárias femininas, como quadris arredondados e</p><p>desenvolvimento de mamas e eles geralmente são estéreis.</p><p>As principais características e o cariótipo padrão da síndrome de</p><p>Klinefelter estão descritos na Figura 21.</p><p>Vale lembrar, acadêmico, que o cariótipo XXY pode originar-se pela</p><p>fertilização de um ovócito anormal XX por um espermatozoide Y ou pela</p><p>fertilização de um ovócito X por um espermatozoide anormal XY e a mesma ideia</p><p>vale para indivíduos triplo-X. Todos os indivíduos com síndrome de Klinefelter</p><p>têm um ou mais corpúsculos de Barr nas células, e aqueles que têm mais de dois</p><p>cromossomos X geralmente têm algum grau de comprometimento mental.</p><p>Finalmente, o cariótipo 47, XYY ou duplo-Y, é outra trissomia viável que</p><p>afeta indivíduos do sexo masculino. Exceto pela tendência a serem mais altos que</p><p>os homens 46, XY, eles não apresentam nenhuma alteração fenotípica importante</p><p>(SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>108</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>FONTE: Adaptado de <https://lamedicinaestetica.files.wordpress.com/2017/06/medicina-online-</p><p>-sindrome-klinefelter-cariotipo-cause-sintomi-cura-genetica-malattia.jpg?w=640>. Acesso em:</p><p>10 jun. 2020.</p><p>FIGURA 21 - CARACTERÍSTICAS E CARIÓTIPO DA SÍNDROME DE KLINEFELTER</p><p>CORPÚSCULO DE BAAR</p><p>Na década de 1940, o cientista inglês Murray Barr observou no interior do núcleo das cé-</p><p>lulas somáticas de mamíferos um corpúsculo intensamente corado que só era encontra-</p><p>do em fêmeas. Ele chamou-o de corpúsculo de Barr ou cromatina sexual. Hoje sabemos</p><p>que se trata de um dos cromossomos X que se encontra condensado durante a interfase</p><p>e, portanto, é inativo.</p><p>Você aprendeu neste livro que as mulheres possuem dois cromossomos X, um de origem</p><p>materna e outro de origem paterna; mas você pode se perguntar: se uma mulher possui</p><p>genótipo XX, ela não deveria ter o dobro de produtos de um gene presentes neste cro-</p><p>mossomo quando comparado com um homem XY que possui apenas um cromossomo</p><p>X? A resposta é não! E isso acontece devido a um fenômeno chamado compensação de</p><p>dose, que leva a formação do corpúsculo de Baar.</p><p>A compensação de dose torna um dos cromossomos X da mulher inativos a fim de</p><p>compensar a dose dupla de genes presentes nestes cromossomos no sexo feminino. Isso</p><p>faz com que apenas um dos alelos X se manifeste. Assim, o número de genes ativos no</p><p>cromossomo X torna-se igual em homens e mulheres.</p><p>Por isso, acadêmico, as mulheres sempre possuem em suas células um corpúsculo de</p><p>Barr, enquanto os homens, exceto os da síndrome de Klinefelter, não possuem nenhum.</p><p>Isso também explica porque mulheres triplo-X costumam ser normais, pois dois dos seus</p><p>cromossomos X são inativados e apenas um se manifesta. Esses indivíduos possuem,</p><p>portanto, duas cromatinas sexuais (ALBERTS et al., 2002).</p><p>ATENCAO</p><p>TÓPICO 2 — ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS</p><p>109</p><p>FONTE: Adaptado de Bourroul (2012)</p><p>CORPÚSCULO DE BAAR</p><p>4.2. MONOSSOMIAS</p><p>Como você aprendeu, acadêmico, monossomia é a ausência de um</p><p>cromossomo em um indivíduo diploide. Em seres humanos, só existe um tipo</p><p>de monossomia compatível com a vida e ela também afeta os cromossomos</p><p>sexuais: o cariótipo 45, X, conhecido como síndrome de Turner. Esses indivíduos</p><p>têm apenas um cromossomo X, portanto seu fenótipo é feminino, mas possuem</p><p>ovários pequenos e são quase sempre estéreis.</p><p>Como você pode ver na Figura 22, o cariótipo 45, X pode se originar de</p><p>duas maneiras: ou de ovócitos ou espermatozoides sem um cromossomo sexual</p><p>devido a erros na meiose; ou da perda de um cromossomo sexual durantes a</p><p>mitose após a fertilização. Essa última possibilidade é explicada por um fenômeno</p><p>chamado mosaicismo e pela constatação de que muitos indivíduos com síndrome</p><p>de Turner são mosaicos somáticos (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>Em genética, mosaico é quando um indivíduo possui células com</p><p>dois materiais genéticos diferentes, porém provenientes do mesmo zigoto. O</p><p>mosaicismo acontece devido a não disjunção dos cromossomos em uma divisão</p><p>mitótica, o que resulta em populações de células com cariótipo normal e outras</p><p>populações com alguma anormalidade.</p><p>110</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>Geralmente, esse distúrbio ocorre como uma variação no número de</p><p>cromossomos nas células do corpo, no caso da Síndrome de Turner, os indivíduos</p><p>possuem algumas células normais 46, XX e algumas células alteradas 45, X. As</p><p>pessoas com cariótipo 45, X não têm corpúsculos de Barr o que indica que o único</p><p>cromossomo X presente não foi inativado (PIERCE, 2016).</p><p>FONTE: Adaptado de Snustad e Simmons (2017, p. 190); <https://www.scielo.br/img/revistas/</p><p>hcsm/v16n2/06f2.jpg>; <https://images.uncyc.org/pt/thumb/3/3c/Sindrome-de-turner.jp-</p><p>g/250px-Sindrome-de-turner.jpg>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>FIGURA 22 - ORIGEM E CARACTERÍSTICAS DA SÍNDROME DE TURNER</p><p>5 ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS ESTRUTURAIS</p><p>Você aprendeu no início deste tópico que a ausência de um pedaço do</p><p>cromossomo é chamada deleção. A deleção resulta em um genoma hipoploide,</p><p>ou seja, com diminuição ou perda de material genético. Como você deve imaginar,</p><p>a perda de segmentos cromossômicos causa danos graves ao organismo, mas a</p><p>severidade dos possíveis fenótipos associados a essas anomalias depende do</p><p>tamanho do fragmento envolvido (quanto maior, mais genes perdidos) e de</p><p>quais genes estão nele localizados (são vitais ao desenvolvimento?). Um exemplo</p><p>clássico de deleção é a síndrome cri-du-chat (do francês, “miado de gato”),</p><p>que mencionamos anteriormente neste tópico. Seu nome foi inspirado no tipo</p><p>característico de choro das crianças portadoras: agudo e alto como um miado</p><p>de gato. Esses indivíduos costumam apresentar grave comprometimento físico e</p><p>mental e outras características estão descritas na Figura 23. A síndrome afeta 1 em</p><p>50.000 nascimentos e é causada por uma deleção no braço curto do cromossomo</p><p>5. Um indivíduo do sexo feminino com síndrome do miado de gato tem cariótipo</p><p>46, XX del(5) (p14), que indica a ausência de bandas no braço curto (p) de um dos</p><p>cromossomos 5 (SNUSTAD; SIMMONS, 2017; PIERCE, 2016)</p><p>TÓPICO 2 — ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS</p><p>111</p><p>FONTE: Adaptado de Snustad e Simmons (2017, p. 191); <https://3.bp.blogspot.com/-HhxlU6G-</p><p>32Zg/WHqtzvWafPI/AAAAAAAAA2U/hFJvyh8j7qYz-zNIx9_XGnH2IRO3JH2EwCLcB/s400/carac-</p><p>teristicas-sindrome-de-angelman.jpg>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>FIGURA 23 - CARACTERÍSTICAS DA SÍNDROME DE CRI-DU-CHAT</p><p>Você também aprendeu que a presença de um pedaço duplicado do</p><p>cromossomo é chamada duplicação. O segmento extra faz com que o organismo</p><p>se torne hiperploide em relação à parte de seu genoma, mas esta, em geral,</p><p>é uma</p><p>alteração bem menos nociva do que a deleção e a maioria não traz consequências</p><p>fenotípicas importantes. Uma exceção é a Síndrome de Charcot-Marie-Tooht,</p><p>caracterizada pela duplicação de pequenos fragmentos do cromossomo 17, o que</p><p>resulta na perda de sensibilidade das mãos e dos pés (SNUSTAD; SIMMONS,</p><p>2017).</p><p>As inversões, que acontecem quando um segmento do cromossomo</p><p>é invertido, ou seja, gira 180°, são outras alterações cromossômicas que não</p><p>possuem impacto clínico relevante. Como não há mudança na quantidade de</p><p>material genético, a maioria das inversões não causam anormalidades, desde</p><p>que o rearranjo esteja equilibrado sem DNA extra ou ausente. Cerca de 2% da</p><p>população mundial possui inversões detectáveis por microscopia ótica sem saber,</p><p>alguns destes indivíduos poderão apenas apresentar diminuição na fertilidade</p><p>devido à produção de gametas anormais. A inversão mais comum em humanos é</p><p>no cromossomo 9, a inv (9) (p12q13), que não possui efeitos prejudiciais além de</p><p>um possível risco aumentado de abortos e problemas de fertilidade (MUTHUVEL</p><p>et al., 2016; PIERCE, 2016).</p><p>Finalmente, as translocações são causadas pelo rearranjo de partes entre</p><p>cromossomos não homólogos. Essas alterações cromossômicas têm um papel</p><p>importante no surgimento de alguns tipos de câncer, como você verá mais adiante</p><p>nesta unidade.</p><p>Um tipo importante de translocação são as Robertsoninanas ou fusões</p><p>cêntricas, que acontecem quando dois cromossomos acrocêntricos se fundem</p><p>próximos da região do centrômero e perdem seus braços curtos. Cerca de 5% dos</p><p>casos de síndrome de Down são causados por uma translocação Robertsoniana</p><p>entre o cromossomo 21 e o cromossomo 14, como você pode ver na Figura 24.</p><p>112</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>FONTE: Adaptado de Kolgeci et al. (2015)</p><p>FIGURA 24 - TRANSLOCAÇÃO ROBERTSONIANA NA SÍNDROME DE DOWN</p><p>A Síndrome de Hutchinson Gilford, conhecida como Progeria, é uma doença</p><p>genética extremamente rara, incurável e fatal que afeta um entre cada 4 milhões de nas-</p><p>cimentos. Até hoje só foram relatados cerca de 100 casos em todo o mundo. As crianças</p><p>com a síndrome nascem aparentemente normais, porém, com aproximadamente um</p><p>ano de idade, elas começam a aparentar sintomas de envelhecimento precoce, cerca de</p><p>sete vezes maior em relação à taxa normal. Elas vivem em média até os 13.4 anos e geral-</p><p>mente morrem por infarto agudo no miocárdio. A progeria é causada por uma mutação</p><p>pontual no gene LMNA localizado no cromossomo 1 do cariótipo humano (SINHA et al.,</p><p>2014).</p><p>Para saber mais sobre a Progeria você pode assistir ao documentário da HBO: A vida de</p><p>acordo com Sam (2013) (legendado), disponível no YouTube: https://www.youtube.com/</p><p>watch?v=G-xX6sFIGyc</p><p>INTERESSANTE</p><p>FONTE: <https://www.progeriaresearch.org/wp-content/uploads/2019/04/1.-Progeria-</p><p>-FAQs-square.jpg>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>113</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• Cariótipo é o conjunto diploide (2n) de cromossomos das células somáticas</p><p>de um organismo e cariograma é sua ordenação de acordo com o tamanho e</p><p>posição do centrômero.</p><p>• No cariótipo os cromossomos são estudados em relação a sua quantidade e</p><p>estrutura. Eles são descritos pelo número de cromossomos, mais a constituição</p><p>cromossômica sexual, seguida de qualquer alteração. Ex. 46, XX; 46, XY +21.</p><p>• Alterações no número de cromossomos são variações na ploidia e ocorrem</p><p>por erros durante o processo de meiose, pela não separação dos cromossomos</p><p>homólogos na meiose I ou pela não separação das cromátides-irmãs na meiose</p><p>II.</p><p>• Organismos que têm conjuntos adicionais inteiros de cromossomos (3n, 4n,</p><p>5n...) são chamados poliploides e essa condição é incompatível com a vida</p><p>humana.</p><p>• A ausência ou o excesso de determinado cromossomo é chamado de aneuploidia.</p><p>A aneuploidia com perda de um cromossomo é chamada monossomia,</p><p>enquanto que a adição de um cromossomo extra é chamada trissomia.</p><p>• A síndrome de Down ou trissomia do 21 (47, XX ou XY +21) é a aneuploidia</p><p>mais comum em humanos. Outras trissomias importantes envolvem os</p><p>cromossomos sexuais, como a síndrome de Klinefelter (47, XXY) e do triplo X</p><p>(47, XXX).</p><p>• A síndrome de Turner (45, X) é um exemplo de monossomia em que há ausência</p><p>de um cromossomo X. É também um exemplo de mosaicismo, que é quando</p><p>um indivíduo possui células com dois materiais genéticos diferentes.</p><p>• As alterações estruturais dos cromossomos são chamadas rearranjos e podem</p><p>ser duplicações, inversões, translocações e deleções. Destas, as deleções e</p><p>translocações têm maior relevância clínica. Nas deleções há perda de material</p><p>genético, o que resulta em várias síndromes, como a do miado de gato. Já as</p><p>translocações, envolvem a troca de material genético entre os cromossomos</p><p>homólogos, e estão relacionadas ao desenvolvimento de cânceres.</p><p>114</p><p>1 O cariótipo é o conjunto de cromossomos de uma célula. Na espécie</p><p>humana, existem 46 cromossomos nas células somáticas (2n = 6). A partir</p><p>dessas informações, analise o cariótipo humano a seguir:</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>FONTE: <http://www.citogene.com.br/img/img-trissomia-do-cromossoma-21.gif>. Acesso</p><p>em: 10 jun. 2020.</p><p>CARIÓTIPO DE UMA PACIENTE PORTADORA DA SÍNDROME DE DOWN: 47, XX, +21</p><p>Analise as afirmações acerca do indivíduo que possui o cariótipo apresentado</p><p>e assinale a alternativa correta:</p><p>I- É do sexo feminino.</p><p>II- É do sexo masculino.</p><p>III- Não apresenta nenhuma alteração quanto ao número de cromossomos.</p><p>IV- Possui Síndrome de Down.</p><p>V- Possui Síndrome de Turner.</p><p>a) ( ) As afirmativas I e IV estão corretas.</p><p>b) ( ) As afirmativas II e IV estão corretas.</p><p>c) ( ) As afirmativas I e III estão corretas.</p><p>d) ( ) As afirmativas I e V estão corretas.</p><p>2 O cariótipo é um método que analisa células de um indivíduo para</p><p>determinar seu padrão cromossômico. Essa técnica consiste na montagem</p><p>fotográfica, em sequência, dos pares de cromossomos e permite identificar</p><p>um indivíduo normal (46, XX ou 46, XY) ou com alguma alteração</p><p>cromossômica (SNUSTAD; SIMMONS, 2017). A investigação do cariótipo de</p><p>115</p><p>um indivíduo do sexo masculino, com alterações físicas e comprometimento</p><p>cognitivo, verificou que ele apresentava o seguinte cariótipo: 47, XY, +18.</p><p>Esta alteração cromossômica pode ser classificada como:</p><p>a) ( ) Estrutural, do tipo deleção.</p><p>b) ( ) Numérica, do tipo euploidia.</p><p>c) ( ) Estrutural, do tipo duplicação.</p><p>d) ( ) Numérica, do tipo aneuploidia.</p><p>3 Quais são os cariótipos de (I) uma mulher com síndrome de Down, (II) um</p><p>homem com trissomia do13, (III) uma mulher com síndrome de Turner,</p><p>(IV) um homem com síndrome de Klinefelter, (V) um homem com deleção</p><p>no braço curto do cromossomo 11?</p><p>a) ( ) (I) 46, XX, +21; (II) 46, XY, +13; (III) 46, X; (IV) 46, XXY; (V) 46 XY-11.</p><p>b) ( ) (I) 45, X; (II) 47, XXY; (III) 47, XX, +21; (IV) 47, XY, +13; (V) 46, XY</p><p>del(11p).</p><p>c) ( ) (I) 47, XX, +21; (II) 47, XY, +13; (III) 45, X; (IV) 47, XXY; (V) 46, XY</p><p>del(11p).</p><p>d) ( ) (I) 46, XX, +22; (II) 47, XY, +13; (III) 45, X; (IV) 47, XX, +Y; (V) 46, XY -11p.</p><p>4 Uma mulher com cariótipo 47, XXX tem cariótipo anormal. Assinale a</p><p>alternativa correta referente a essa anomalia:</p><p>a) ( ) Caracteriza-se pela presença de um corpúsculo de Barr.</p><p>b) ( ) Pode ter origem no gameta paterno.</p><p>c) ( ) É uma aneuploidia autossômica.</p><p>d) ( ) É uma triploidia estrutural.</p><p>5 Em uma olimpíada, a ausência de corpúsculo de Barr (cromatina sexual) nas</p><p>células interfásicas da mucosa bucal pode ser um critério para a exclusão</p><p>de atletas de uma competição feminina. Sabendo-se que o corpúsculo de</p><p>Barr corresponde a um cromossomo X inativo (heterocromatina), analise as</p><p>seguintes afirmativas:</p><p>I- Nas mulheres, o cromossomo X inativo é, preferencialmente, o cromossomo</p><p>X de origem paterna.</p><p>II- A ausência de cromatina sexual nas células interfásicas</p><p>da mucosa bucal não</p><p>permite detectar mulheres com cariótipo alterado, é preciso que seja utilizada</p><p>uma célula sexual, uma vez que se trata de uma doença ligada ao X.</p><p>III- A inativação do cromossomo X faz com que a quantidade de genes</p><p>ativos nas células das fêmeas dos mamíferos seja igual à quantidade de</p><p>genes ativos nas células dos machos. A esse mecanismo dá-se o nome de</p><p>compensação de dose.</p><p>IV- O exame de corpúsculo de Barr permite detectar indivíduos aneuploides</p><p>com cariótipo 47, XXX; e 47, XXY.</p><p>116</p><p>Assinale a alternativa correta:</p><p>a) ( ) As afirmativas I e III estão corretas.</p><p>b) ( ) As afirmativas I e II estão corretas.</p><p>c) ( ) As afirmativas I, III e IV estão corretas.</p><p>d) ( ) As afirmativas III e IV estão corretas.</p><p>117</p><p>UNIDADE 2</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Olá, acadêmico, seja bem-vindo ao terceiro tópico da Unidade 2 do Livro</p><p>Didático de Genética Humana e Médica!</p><p>Você aprendeu na disciplina de Imunologia que o sistema imunológico</p><p>humano é formado por diversas células, moléculas, tecidos e órgãos que têm a</p><p>função de combater microrganismos invasores e manter a homeostase. Isso é</p><p>possível porque a principal característica do sistema imune é a capacidade de</p><p>reconhecer o que é próprio do nosso corpo e o que é estranho (ou não próprio).</p><p>Quando o sistema imune reconhece um agente estranho (antígeno) as células de</p><p>defesa são mobilizadas para gerar uma resposta para neutralizar essa possível</p><p>ameaça. Assim, chamamos de autoantígeno quando o corpo o percebe como</p><p>próprio e aloantígeno quando é percebido como estranho, provocando uma</p><p>resposta imune.</p><p>Neste Tópico 3 abordaremos os fascinantes conceitos de imunogenética</p><p>que trata dos aspectos genéticos dos antígenos, anticorpos e suas interações. No</p><p>final dele, você deverá ser capaz de entender os fundamentes de cinco temas</p><p>importantes: a diversidade dos receptores antigênicos, o sistema de grupos</p><p>sanguíneos eritrocitários, os transplantes de tecidos e órgãos, as imunodeficiências</p><p>e as doenças autoimunes. Estes assuntos são bastante práticos e têm impacto</p><p>direto na rotina laboratorial do profissional biomédico, por isso estude bastante</p><p>os temas abordados e procure os materiais complementares sugeridos ao longo</p><p>do texto. Bom aprendizado!</p><p>2 PRINCÍPIOS DA IMUNIDADE</p><p>Como resumimos na Figura 25, acadêmico, a resposta imunológica é</p><p>dividida, para fins didáticos, em imunidade inata e imunidade adaptativa (ou</p><p>adquirida).</p><p>A imunidade inata é uma resposta rápida e não específica a um número</p><p>grande, mas limitado, de estímulos e independe de contato prévio com aquele</p><p>antígeno. Trata-se da primeira defesa do organismo frente a um dano tecidual</p><p>e sua intensidade não se altera em uma segunda exposição. A imunidade inata</p><p>compreende barreiras físicas, químicas e biológicas, células especializadas e</p><p>moléculas solúveis.</p><p>TÓPICO 3 —</p><p>IMUNOGENÉTICA</p><p>118</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>As principais células efetoras desse tipo de resposta são: macrófagos,</p><p>neutrófilos, células dendríticas e células NK (natural killer) (CRUVINEL et al.,</p><p>2010; MESQUITA JUNIOR et al., 2010; GELLER; SCHEINBERG, 2015).</p><p>A resposta imune adaptativa, por sua vez, depende da ativação de células</p><p>especializadas chamadas linfócitos. As principais características da resposta</p><p>adquirida são especificidade e diversidade de reconhecimento, memória, resposta</p><p>especializada, autolimitação e tolerância a autoantígenos. A resposta imune</p><p>mediada por linfócitos T é chamada de resposta imune celular. Ela depende</p><p>também de células apresentadoras de antígenos (APCs) que desempenham um</p><p>papel fundamental ao apresentar antígenos associados a moléculas do complexo</p><p>de histocompatibilidade principal (MHC) para os linfócitos T. Já a resposta</p><p>mediada por linfócitos B é chamada resposta imune humoral e envolve a produção</p><p>de imunoglobulinas, ou anticorpos. Como vimos na introdução deste tópico, a</p><p>imunogenética estuda principalmente os aspectos genéticos e as interações entre</p><p>antígenos e anticorpos, por isso iremos começar aprofundando um pouco mais</p><p>sobre esses conceitos (CRUVINEL et al., 2010, ABBAS; LICHTMAN; PILLAI,</p><p>2017).</p><p>FIGURA 25 - RESPOSTA IMUNE INATA E ADQUIRIDA</p><p>FONTE: Abbas, Lichtman e Pilai (2017, p. 3)</p><p>3 VARIEDADE DE RECEPTORES ANTIGÊNICOS</p><p>Você pode se perguntar, acadêmico, se um dos princípios da resposta</p><p>imune adquirida é a especificidade, como é possível que o corpo produza um</p><p>anticorpo específico para cada tipo de antígeno com o qual um indivíduo entrará</p><p>em contato ao longo da vida? De fato, os componentes função imunológica</p><p>adaptativa são capazes de reconhecer quantidade praticamente ilimitada de</p><p>antígenos e nós iremos explicar brevemente como isso acontece.</p><p>TÓPICO 3 — IMUNOGENÉTICA</p><p>119</p><p>Cada linfócito maduro é programado geneticamente para atacar apenas</p><p>um antígeno específico, ou seja, cada célula B madura produz anticorpos contra um</p><p>único antígeno, assim como cada célula T é capaz de se ligar a um tipo específico</p><p>de antígeno exógeno. Por isso, diz-se que a ligação antígeno-anticorpo é do tipo</p><p>chave-fechadura. O reconhecimento de antígenos pelos linfócitos B e T é feito por</p><p>receptores chamados receptores de antígenos B (BCR) e receptores de antígenos T</p><p>(TCR). Os TCRs reconhecem somente antígenos ligados à superfície de moléculas</p><p>MHC presentes na superfície de células APCs, já os BCRs são as imunoglobulinas</p><p>ou anticorpos (BORGES-OSÓRIO, 2013). Na espécie humana são encontrados</p><p>cinco tipos de imunoglobulinas: IgG, IgA, IgM, IgD e IgE. As imunoglobulinas,</p><p>como mostra a Figura 26, possuem quatro cadeias polipeptídicas: duas cadeias</p><p>pesadas (H – heavy) e duas cadeias leves (L – ligth), ambas idênticas e ligadas</p><p>entre si por pontes de dissulfeto. A porção FAB da imunoglobulina é aquela que</p><p>se liga ao antígeno, enquanto a região FC corresponde ao “corpo” e é a porção</p><p>que se liga aos receptores celulares. Cada cadeia leve e pesada possui ainda uma</p><p>região variável e outra constante. A extremidade das regiões variáveis, chamadas</p><p>parátopos ou sítios combinatórios, são consideradas hipervariáveis e conferem</p><p>especificidade ao anticorpo, ou seja, permitem que eles se liguem aos diferentes</p><p>tipos de antígenos (a região do antígeno que se liga ao parátopo é chamada</p><p>epítopo) (ABBAS; LICHTMAN; PILLAI, 2017).</p><p>FIGURA 26 - ESTRUTURA DAS IMUNOGLOBULINAS HUMANAS</p><p>FONTE: <https://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/04/anticorpos.jpg>. Acesso</p><p>em: 10 jun. 2020.</p><p>Os anticorpos são proteínas, portanto, são sequências de aminoácidos</p><p>codificadas a partir do genoma humano. A partir do momento em que células T e</p><p>B se diferenciam em células T ou B maduras, ocorre um rearranjo de vários genes</p><p>(éxons) como mostra a Figura 27. Esse rearranjo é chamado de recombinação</p><p>somática. Em outras palavras, os genes que codificam os TCRs e BCRs são</p><p>formados por segmentos de genes que se recombinam de forma aleatória</p><p>antes da transcrição. Isso permite que uma quantidade limitada de segmentos</p><p>gênicos codifique uma infinidade de receptores/anticorpos, garantindo a</p><p>hipervariabilidade e a especificidade geneticamente determinada para cada tipo</p><p>de antígeno.</p><p>120</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>Em resumo, a infi nita especifi cidade dos TCRs e BCRs é possível graças ao</p><p>rearranjo de segmentos gênicos no DNA dos linfócitos B e T (BORGES-OSÓRIO,</p><p>ROBINSON, 2013).</p><p>FIGURA 27 - RECOMBINAÇÃO SOMÁTICA E VARIABILIDADE DOS RECEPTORES DE ANTÍGENOS</p><p>FONTE: <https://www.microbiologybook.org/Portuguese/chap6fi g2.GIF>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>4 SISTEMAS ABO E RH</p><p>Os grupos sanguíneos são antígenos localizados na superfície das</p><p>hemácias e são exemplos de polimorfi smos importantes como marcadores</p><p>genéticos. Como você viu no Tópico 1 desta unidade, polimorfi smo é a ocorrência</p><p>de dois ou mais alelos alternativos</p><p>para um mesmo gene e são resultados de</p><p>mutações (substituiç õ es, deleç õ es, inserç õ es e encadeamentos alternativos) em um</p><p>segmento de gene (nucleotí deo, có don ou sequê ncias maiores) que resultam na</p><p>alteraç ã o do produto fi nal codifi cado. Já o termo “marcadores gené ticos” refere-</p><p>se àquelas características com padrões simples de heranç a, fenó tipos facilmente</p><p>identifi cá veis, frequê ncias alélicas relativamente altas em diferentes populaç õ es</p><p>e ausência de infl uência de fatores ambientais que, por estes motivos, sã o ú teis</p><p>em estudos familiares e populacionais. Os sistemas de grupos sanguí neos são</p><p>marcadores importantes para transfusõ es de sangue, transplantes de ó rgã os,</p><p>obstetrí cia, medicina legal, gené tica forense e na investigaç ã o de paternidade.</p><p>Atualmente, sã o conhecidos mais de 300 antí genos eritrocitários, dos quais 270</p><p>estã o agrupados em cerca de 30 sistemas de grupos sanguí neos diferentes. Alguns</p><p>desses sistemas sã o muito comuns entre os indiví duos da espé cie humana, como</p><p>os sistemas ABO e Rh, e são chamados de antí genos pú blicos. Outros sistemas</p><p>são muitos raros e recebem o nome de antí genos privados (BORGES-OSÓRIO,</p><p>ROBINSO, 2013).</p><p>TÓPICO 3 — IMUNOGENÉTICA</p><p>121</p><p>4.1 SISTEMA ABO</p><p>O sistema sanguíneo ABO é considerado o mais importante em medicina</p><p>transfusional. Hoje sabemos que os genes ABO estão localizados em um lócus</p><p>situado no braço longo do cromossomo 9 (9q34) formado por 7 éxons e 6 íntrons.</p><p>Esses genes codificam a produção de duas enzimas glicosiltransferases A e B.</p><p>A transferase A α (1,3 N acetilgalactosaminil transferase), que adiciona o açúcar</p><p>N acetilgalactosamina e produz o antígeno A; e a transferase B (α1,3 galactosil</p><p>transferase), que adiciona a galactose e produz o antígeno B em um substrato</p><p>precursor na membrana da hemácia, o antígeno H. O gene O não produz nenhum</p><p>tipo de transferase ativa (BRASIL, 2014).</p><p>Você aprendeu, no Tópico 1, que nesse sistema existem pelo menos três</p><p>alelos diferentes, chamados alelos múltiplos: os alelos A e B são codominantes,</p><p>enquanto que o alelo O é recessivo em relação a eles. Com isso, os fenótipos ABO</p><p>são divididos em quatro grupos: A, B, AB e O. No entanto, cada um desses alelos</p><p>apresenta ainda muitas variantes, as quais são resultado de mutações pontuais e</p><p>recombinações. Para você ter uma ideia da enorme variedade de alelos do sistema</p><p>ABO, acadêmico, veja o exemplo a seguir: as variantes mais importantes dos</p><p>alelos A são A1, A2, A3 e Ax. Assim, indivíduos do grupo A podem dividir-se</p><p>nos subgrupos A1, A2, A3, Ael e Ax e os indivíduos do grupo AB podem dividir-</p><p>se em A1B, A2B, A3B, AelB e AxB, por exemplo. Existem também variantes dos</p><p>alelos B, mais raras do que as de A, chamadas B3, Bx e Bel e ainda variações do</p><p>alelo O: O1, O1v, O2, O3, O4 e O5 (BATISSOCO; NOVARETTI, 2003). No Quadro</p><p>4 você pode observar as características genotípicas e fenotípicas do sistema ABO.</p><p>Genótipos Fenótipos</p><p>Presença do</p><p>antígeno A nas</p><p>hemácias</p><p>Presença do</p><p>antígeno B nas</p><p>hemácias</p><p>Presença do</p><p>anticorpo A</p><p>no soro</p><p>Presença do</p><p>anticorpo B no</p><p>soro</p><p>IAIA ou IAi A + - - +</p><p>IBIB ou IBi B - + + -</p><p>IAIB AB + + - -</p><p>ii O - - + +</p><p>FONTE: Adaptado de Snustad e Simmons (2017)</p><p>QUADRO 4 - GENÓTIPOS E FENÓTIPOS NO SISTEMA ABO E PRESENÇA DE ANTÍGENO E ANTI-</p><p>CORPO</p><p>A classificação do grupo sanguíneo em termos laboratoriais é feita de</p><p>acordo com a presença ou ausência dos antígenos (ou aglutinogênios) A e B nas</p><p>hemácias, e dos anticorpos (ou aglutininas) anti-A e anti-B no soro. Para isso</p><p>existem dois tipos de testes: a classificação ou tipagem direta e a classificação ou</p><p>tipagem reversa.</p><p>122</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>Na tipagem direta (Figura 28) é feita a identificação da presença dos</p><p>antígenos A ou B nas hemácias do indivíduo a ser testado. Para isso são usadas</p><p>amostras de sangue e soluções de anticorpos conhecidos (anti-A, anti-B, anti-AB).</p><p>Na tipagem reversa (Figura 28), busca-se identificar a presença de anticorpos</p><p>anti-A e anti-B no soro do indivíduo a partir de reativos compostos de antígenos</p><p>conhecidos (hemácias A, hemácias B).</p><p>Ao realizar os dois testes é possível observar há formação de aglomerados</p><p>celulares (aglutinação) nas amostras do sangue a ser identificado, sendo possível</p><p>classificá-lo em um determinado grupo sanguíneo, como você pode observar na</p><p>Figura 30 (BATISSOCO; NOVARETTI, 2003).</p><p>É importante saber que as variações e subgrupos do sistema ABO que</p><p>vimos no parágrafo anterior determinam diferenças na quantidade e na forma de</p><p>expressão dos antígenos na membrana das hemácias devido a alterações genéticas</p><p>que codificam transferases ligeiramente diferentes. Por isso, esses subgrupos</p><p>apresentam intensidade de reação mais fraca com os reagentes anti-A, anti-B e</p><p>anti-AB nos testes imuno-hematológicos, o que pode levar a discrepâncias entre</p><p>a prova direta e reversa (BRASIL, 2014).</p><p>FIGURA 28 - PROCEDIMENTOS DA TIPAGEM DIRETA DO SISTEMA ABO</p><p>FONTE: Brasil (2014, p. 29)</p><p>TÓPICO 3 — IMUNOGENÉTICA</p><p>123</p><p>FIGURA 29 - PROCEDIMENTOS DA TIPAGEM REVERSA DO SISTEMA ABO</p><p>FONTE: Brasil (2014, p. 30)</p><p>FIGURA 30 - INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS DAS TIPAGENS DIRETA E REVERSA DO SISTEMA</p><p>ABO LEVADO EM CONSIDERAÇÃO A PRESENÇA DE AGLUTINAÇÃO</p><p>FONTE: Brasil (2014, p. 30)</p><p>4.2 SISTEMA RH</p><p>O sistema Rh é o mais complexo dos sistemas eritrocitários e o 2º mais</p><p>importante, depois do sistema ABO, na medicina transfusional. O nome “Rh”</p><p>vem de macacos Rhesus que possuem o fator Rh em seu sangue.</p><p>Quando o sangue de macacos Rhesus foi injetado em cobaias, estas</p><p>produziram em seu sangue (soro) anticorpos antifator Rh, estranhos ao seu</p><p>organismo. Esse soro anti-Rh, quando em contato com sangue humano, aglutina</p><p>aproximadamente seis em cada sete amostras, o que significa que seis em cada</p><p>sete indivíduos são Rh-positivo. Uma parcela bem menor de amostras (1 em 7)</p><p>não sofre aglutinação do soro anti-Rh, são, portanto, indivíduos Rh-negativos,</p><p>como mostra a Figura 31 (BORGES-OSÓRIO, ROBINSON, 2013).</p><p>124</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>FIGURA 31 - DETERMINAÇÃO DO FATOR RH A PARTIR DE MACACOS RHESUS</p><p>FONTE: Borges-Osório; Robinson (2013, p. 342)</p><p>Os antígenos do sistema Rh são encontrados exclusivamente em hemácias</p><p>e são proteínas codifi cadas por um par de genes homólogos, RHD e RHCE. O gene</p><p>RHD codifi ca a produção do antígeno RhD e o gene RHCE codifi ca a produção de</p><p>outros dois pares de antígenos: C, c, E, e.</p><p>Hoje sabemos que o sistema Rh possui mais de 50 antígenos, sendo, como</p><p>falamos anteriormente, bastante complexo. No entanto, apenas a classifi cação</p><p>RhD, que se refere à presença ou ausência do antígeno RhD, é obrigatoriamente</p><p>realizada em rotinas pré-transfusionais e em doadores de sangue. Por isso esse</p><p>sistema costuma ser descrito com um único par de alelos, D e d. Assim, as pessoas</p><p>Rh-positivas tê m genó tipo DD ou Dd, e as Rh-negativas sã o dd (BRASIL, 2014).</p><p>Os sistemas ABO e Rh sã o os mais considerados em transfusões sanguíneas.</p><p>Em uma situação ideal, o indivíduo receptor irá receber um sangue de um grupo</p><p>idê ntico ao seu, mas, em casos de emergê ncia, outros tipos sanguí neos podem ser</p><p>doados desde que haja compatibilidade entre doador e receptor. Para o sucesso</p><p>de uma transfusão é preciso considerar os antí genos presentes nas hemá cias do</p><p>doador e os anticorpos presentes no soro do receptor. Quando o doador for do</p><p>grupo sanguí neo O, ele poderá doar para indivíduos A, B, AB ou O, pois ele</p><p>não possui antí genos A e/ou B nas suas hemá cias que serão reconhecidos pelos</p><p>anticorpos do receptor. Por outro lado, quando o doador for AB ele só poderá doar</p><p>para indivíduos AB, pois possui ambos os antígenos que sofrerão aglutinação</p><p>com o soro de receptores A, B ou O. Na transfusão de sangue é preciso considerar</p><p>também o sistema Rh. Um indivíduo Rh-negativo deve receber sangue somente</p><p>de outro indivíduo Rh-negativo. Assim considerando</p><p>os sistemas ABO e Rh,</p><p>dizemos que indivíduos O-negativos são “doadores universais”, pois podem</p><p>doar para todos os tipos sanguíneos ABO e Rh. Já indivíduos AB+ são chamados</p><p>“receptores universais”, pois podem receber sangue de todos os grupos.</p><p>TÓPICO 3 — IMUNOGENÉTICA</p><p>125</p><p>Eritroblastose fetal é uma doença hemolítica adquirida que ocorre quando</p><p>há incompatibilidade entre os grupos sanguíneos da mãe e do feto. O tipo mais comum é</p><p>relacionado ao sistema Rh, quando uma mãe Rh-negativa gera um feto Rh-positivo. Nesse</p><p>caso, a mãe produz anticorpos anti-Rh durante a gestação, pois reconhece o agente Rh</p><p>do feto como algo estranho. Esses anticorpos anti-Rh permanecem na circulação materna</p><p>e, caso a mulher volte a engravidar de um bebê Rh-positivo, eles irão destruir as hemácias</p><p>do feto, provocando a doença hemolítica no recém-nascido. O primeiro filho, portanto,</p><p>apresenta menos risco de desenvolver a doença porque a mãe Rh-negativa ainda não foi</p><p>sensibilizada pelos anticorpos anti-Rh. Os próximos fetos positivos, no entanto, podem</p><p>desenvolver a doença que varia desde uma ligeira anemia até a morte intrauterina. Para</p><p>prevenir a eritroblastose fetal em mães Rh-negativas com parceiros Rh-positivos, a mulher</p><p>deve receber injeções de anticorpos anti-Rh. Esses anticorpos destroem as hemácias Rh-</p><p>positivas do feto que circulam na corrente sanguínea da mãe, o bloqueia o processo de</p><p>síntese de anticorpos maternos contra o o feto (imunização passiva) (BORGES-OSÓRIO;</p><p>ROBINSON, 2013).</p><p>NOTA</p><p>ERITOBLASTOSE FETAL</p><p>FONTE: <https://planetabiologia.gumlet.com/wp-content/uploads/2016/09/Rh-negativo-</p><p>-e-o-pai-%C3%A9-Rh-positivo.jpg?compress=true&quality=80&w=800&dpr=1.0>. Acesso</p><p>em: 10 jun. 2020.</p><p>5 SISTEMA HLA E TRANSPLANTES</p><p>Assim como na transfusão de sangue, o sucesso dos transplantes depende</p><p>do grau de compatibilidade entre o doador e o receptor a fim de buscar evitar</p><p>ao máximo a rejeição do órgão transplantado. Com tudo o que você aprendeu</p><p>até o momento sobre genética e imunidade, acadêmico, você deve ser capaz de</p><p>imaginar o que faz um organismo rejeitar o órgão recebido. Se você apostou que</p><p>essa rejeição é causada por mecanismos imunológicos decorrentes de diferenças</p><p>genéticas entre os sistemas sanguíneos ABO e Rh e também o MHC, você acertou.</p><p>126</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>Você viu no início deste tópico que o MHC, ou complexo principal de</p><p>histocompatibilidade, são proteínas presentes em células APCs que têm a função</p><p>de reconhecer e apresentar antígenos para os linfócitos T durante a resposta imune</p><p>celular. O MHC é uma família de genes localizada no braço curto do cromossomo</p><p>6 (região 6p21.3) e as proteínas codificadas por estes genes estão presentes na</p><p>superfície de todas as células nucleadas e nas plaquetas (proteínas receptoras</p><p>transmebrana). Esse grupo genético recebe diferentes nomes de acordo com as</p><p>espécies; na espécie humana, o MHC é chamado de sistema HLA e pode ser</p><p>observado na Figura 32 (ABBAS; LICHTMAN; PILLAI, 2017).</p><p>Os genes do sistema HLA são altamente polimórficos e apresentam</p><p>diversos alelos codominantes com muitas combinações possíveis. Estima-se que</p><p>existam mais de 250 alelos e, pelo menos, 11 lócus principais. Por exemplo, dentre</p><p>os HLA de classe I, existem as variações HLA-A, HLA-B, HLA-C, HLA-E, HLA-F</p><p>e HLA-G. Os genes HLA são herdados em bloco e cada indivíduo apresenta</p><p>dois antígenos HLA diferentes para cada lócus. O conjunto de lócus de um</p><p>dado cromossomo é chamado haplótipo, que é herdado inteiro de cada um dos</p><p>genitores. Todo indivíduo tem, portanto, um haplótipo em comum com seu pai e</p><p>outro em comum com sua mãe.</p><p>A probabilidade de dois irmãos terem haplótipos iguais é de 25%. Como</p><p>as moléculas HLA estão presentes em todas as células do nosso corpo, você pode</p><p>imaginar, no caso de transplantes de órgãos ou tecidos, como é difícil encontrar</p><p>indivíduos compatíveis que não rejeitem o novo órgão com outro sistema HLA!</p><p>(BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>FONTE: Berlingerio et al. (2009, p. 217, tradução nossa)</p><p>FIGURA 32 - MAPA GENÉTICO DA REGIÃO HLA</p><p>Os genes HLA presentes nas células dos tecidos transplantados podem</p><p>codificar proteínas que serão estranhas para o sistema imunológico do receptor,</p><p>funcionando como antígenos de histocompatibilidade. Nesse caso, as células T</p><p>do receptor podem detectar e ser ativadas contra esses antígenos, desencadeando</p><p>uma resposta imune e a consequente rejeição do tecido ou órgão transplantado.</p><p>TÓPICO 3 — IMUNOGENÉTICA</p><p>127</p><p>A compatibilidade entre indivíduos é determinada através da Sorologia</p><p>HLA, que consiste na coleta de cerca de 10 ml de sangue de quem receberá o</p><p>transplante e dos possíveis doadores. Assim, ao escolher um doador, deve-se buscar</p><p>aquele que tenha maior semelhança quanto ao MHC do receptor (rotineiramente</p><p>são testados os lócus HLA-A, HLA-B, HLA-C, de classe I, e o HLA-DR, de classe</p><p>II), além da compatibilidade dos sistemas sanguíneos ABO e Rh. Mesmo assim,</p><p>é necessário administrar fármacos imunossupressores que irão minimizar a</p><p>atividade imunológica do receptor com o objetivo de diminuir a possibilidade</p><p>de rejeição. Só para você ter uma ideia da importância da compatibilidade HLA</p><p>em transplantes, as taxas de sobrevida dos transplantes renais aumentam de</p><p>63% com baixa compatibilidade HLA para 90% entre indivíduos com quatro</p><p>compatibilidades (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>Dentre os diferentes tipos de transplante existem os autotransplantes</p><p>(quando envolvem tecidos do próprio indivíduo como ponte de safena, medula</p><p>óssea e enxertos de pele); os isotransplantes (quando ocorrem entre indivíduos</p><p>geneticamente idênticos, ou seja, gêmeos monozigóticos); os alotransplantes</p><p>(entre dois indivíduos da mesma espécie, mas geneticamente diferentes) e os</p><p>xenotransplantes (entre espécies diferentes).</p><p>Os alotransplantes são os mais comuns. Em alguns casos, quando o doador</p><p>e o receptor não são geneticamente compatíveis, o transplante pode parecer ter</p><p>sido aceito em um primeiro momento, porém com o passar dos dias ele morre e</p><p>se desprende. Esta reação recebe o nome de Resposta Primária.</p><p>Caso ocorra um segundo transplante do mesmo doador, a reação é</p><p>chamada de Resposta Secundária. As reações de rejeição mais comum são</p><p>chamadas de agudas, correm nos seis primeiros meses após o transplante e é</p><p>mediada por linfócitos T que destroem as células do tecido ou órgão doado.</p><p>A rejeição hiperaguda é aquela que imediatamente após o transplante</p><p>e envolve a produção de anticorpos IgG contra antígenos HLA. Finalmente, a</p><p>rejeição crônica é aquela em que o órgão perde a função de forma lenta devido ao</p><p>ataque resultando em fibrose (ABBAS; LICHTMAN; PILLAI, 2017).</p><p>6 IMUNODEFICIÊNCIAS E DOENÇAS AUTOIMUNES</p><p>A capacidade de um organismo reconhecer seus próprios antígenos</p><p>e formar anticorpos contra antígenos estranhos é chamada homeostase</p><p>imunológica. Se este equilíbrio for perdido, o indivíduo pode desenvolver uma</p><p>doença autoimune ou uma imunodeficiência que o deixará mais suscetível a</p><p>infecções.</p><p>128</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>6.1 IMUNODEFICIÊNCIAS</p><p>Quando o sistema imune não é capaz de funcionar de forma adequada</p><p>o indivíduo possui uma imunodeficiência, que pode ser hereditária (também</p><p>chamada imunodeficiência primária) ou adquirida (também chamada</p><p>imunodeficiência secundária.) As imunodeficiências hereditárias são causadas</p><p>por defeitos em um dos genes necessários para a produção de proteínas que</p><p>compõem o sistema imune e, geralmente, são doenças congênitas raras. Alguns</p><p>exemplos são listados no quadro a seguir:</p><p>PARTE</p><p>AFETADA</p><p>DO SISTEMA</p><p>IMUNE</p><p>DOENÇA CARACTERÍSTICAS</p><p>Imunidade</p><p>humoral: afeta</p><p>células B e a</p><p>produção de</p><p>anticorpos</p><p>Imunodeficiência comum</p><p>variável</p><p>As células B não amadurecem e, por isso,</p><p>não conseguem produzir anticorpos.</p><p>Agamaglobulinemia</p><p>145</p><p>4 NEOPLASIAS HEREDITÁRIAS .................................................................................................. 147</p><p>5 NEOPLASIAS E VÍRUS ................................................................................................................. 148</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 151</p><p>RESUMO DO TÓPICO 4................................................................................................................... 153</p><p>AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 155</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA ....................................................... 157</p><p>TÓPICO 1 — PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA MOLECULAR ...... 159</p><p>1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 159</p><p>2 CITOGENÉTICA ............................................................................................................................. 159</p><p>2.1 CITOGENÉTICA CLÁSSICA .................................................................................................... 160</p><p>2.2 HIBRIDIZAÇÃO IN SITU POR FLUORESCÊNCIA (FISH) ................................................ 162</p><p>2.3 OUTRAS TÉCNICAS DE CITOGENÉTICA MOLECULAR ................................................ 164</p><p>3 BIOLOGIA MOLECULAR ............................................................................................................ 165</p><p>3.1 EXTRAÇÃO E PURIFICAÇÃO DE DNA/RNA ..................................................................... 166</p><p>3.2 ELETROFORESE ........................................................................................................................ 167</p><p>3.3 REAÇÃO EM CADEIRA DA POLIMERASE (PCR) .............................................................. 169</p><p>3.4 VARIAÇÕES DA TÉCNICA DE PCR ...................................................................................... 171</p><p>4 SEQUENCIAMENTO .................................................................................................................... 174</p><p>5 CLONAGEM .................................................................................................................................... 177</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 181</p><p>AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 183</p><p>TÓPICO 2 — APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO .................................... 187</p><p>1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 187</p><p>2 DIAGNÓSTICO DE DOENÇAS GENÉTICAS ......................................................................... 187</p><p>2.1 DIAGNÓSTICO PRÉ-NATAL .................................................................................................. 191</p><p>2.2 TESTE DE PATERNIDADE ..................................................................................................... 194</p><p>2.3 ANÁLISE FORENSE ................................................................................................................. 195</p><p>2.4 REPRODUÇÃO HUMANA ................................................................................................ 198</p><p>2.4.1 Aconselhamento genético ................................................................................................. 199</p><p>2.5 TERAPIA COM CÉLULAS-TRONCO ..................................................................................... 200</p><p>2.6 TERAPIA GÊNICA ..................................................................................................................... 202</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 206</p><p>AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 208</p><p>TÓPICO 3 — OUTRAS APLICAÇÕES DA GENÉTICA ............................................................ 211</p><p>1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 211</p><p>2 FARMACOGENÉTICA E FARMACOGENÔMICA ................................................................. 212</p><p>2.1 NUTRIGENÔMICA .................................................................................................................. 213</p><p>2.2 A INFLUÊNCIA GENÉTICA NO TREINAMENTO ESPORTIVO .................................... 215</p><p>2.3 ALIMENTOS TRANSGÊNICOS .............................................................................................. 217</p><p>3 PRINCÍPIOS ÉTICOS EM MANIPULAÇÃO GENÉTICA .................................................... 218</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 221</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 225</p><p>AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 226</p><p>REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 227</p><p>1</p><p>UNIDADE 1 —</p><p>BASES MOLECULARES DA</p><p>GENÉTICA HUMANA</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• entender como o genoma humano se organiza e funciona;</p><p>• compreender como uma proteína é gerada a partir de um gene e qual o</p><p>papel do ciclo celular no reparo de mutações;</p><p>• conhecer os principais conceitos de reprodução humana e embriogênese;</p><p>• formar a base do raciocínio lógico que permitirá a interpretação das apli-</p><p>cações clínicas da genética humana a ser explorada nas unidades poste-</p><p>riores.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade,</p><p>você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo</p><p>apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – INTRODUÇÃO À GENÉTICA</p><p>TÓPICO 2 – REPRODUÇÃO HUMANA E EMBRIOGÊNESE</p><p>TÓPICO 3 – ORGANIZAÇÃO DO GENOMA HUMANO</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos</p><p>em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá</p><p>melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>2</p><p>3</p><p>TÓPICO 1 —</p><p>UNIDADE 1</p><p>INTRODUÇÃO À GENÉTICA</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Seja bem-vindo ao nosso primeiro tópico da disciplina de Genética</p><p>Humana e Médica! Neste tópico abordaremos alguns conteúdos fundamentais</p><p>para o entendimento da disciplina, como o cariótipo humano, os processos de</p><p>divisão e regulação do ciclo celular e o conceito de célula-tronco. É importante</p><p>que você entenda bem esses assuntos iniciais para formar uma base sólida que</p><p>lhe permita adquirir o conhecimento crítico e aprofundado no qual se objetiva a</p><p>disciplina. Lembre-se de que sua participação é fundamental para o seu sucesso,</p><p>então realize as autoatividades propostas no final do tópico e não deixe de</p><p>procurar os materiais suplementares expostos ao longo dos temas abordados.</p><p>Ao final deste tópico, você será capaz de entender os principais</p><p>componentes estruturais e funcionais de uma célula, suas funções básicas,</p><p>as etapas e o funcionamento do ciclo celular e as principais características dos</p><p>processos de divisão e morte celular. Além disso, deverá compreender o conceito</p><p>de cromossomo, cariótipo e célula-tronco, dentre outros assuntos básicos</p><p>importantes. Esperamos que desde este primeiro momento você considere a</p><p>genética um assunto fascinante e que se divirta ao longo desta jornada. Vamos lá!</p><p>2 VISÃO GERAL DA CÉLULA HUMANA</p><p>Você sabia, acadêmico, que o corpo humano é formado por cerca de</p><p>10.000.000.000.000</p><p>ligada ao cromossomo X</p><p>Resultado de uma mutação no</p><p>cromossomo X, há ausência de células B e</p><p>níveis muito baixos de anticorpos.</p><p>Imunidade</p><p>celular: afeta</p><p>linfócitos T</p><p>Síndrome de DiGeorge</p><p>Causa ausência ou deficiência do timo, o</p><p>que prejudica a maturação dos linfócitos</p><p>T que acontece nesse órgão. Pode ser</p><p>causada por uma mutação espontânea ou</p><p>por uma anomalia cromossômica.</p><p>Imunidade</p><p>humoral e</p><p>celular: Afeta</p><p>células</p><p>B e T</p><p>Imunodeficiência</p><p>combinada grave (SCID)</p><p>Pode ser autossômica ou lidada ao</p><p>cromossomo X. É uma doença grave e</p><p>potencialmente fatal que causa baixos</p><p>níveis de anticorpos e diminuição ou</p><p>ausência de células T.</p><p>Síndrome da</p><p>hipergamaglobulinemia</p><p>E</p><p>Pode ter origem autossômica dominante</p><p>ou recessiva, causa um aumento</p><p>exagerado na produção de IgE o que gera</p><p>abcessos e furúnculos recorrentes.</p><p>Fagócitos Doença granulomatosa</p><p>crônica</p><p>Os fagócitos ingerem, mas não</p><p>conseguem produzir as substâncias que</p><p>matam determinadas bactérias e fungos.</p><p>Proteínas do</p><p>complemento Angioedema hereditário</p><p>Deficiência ou mau funcionamento do</p><p>inibidor de C1, uma das proteínas do</p><p>sistema complemento.</p><p>FONTE: A autora</p><p>QUADRO 5 - EXEMPLOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DE IMUNODEFICIÊNCIAS HEREDITÁRIAS</p><p>TÓPICO 3 — IMUNOGENÉTICA</p><p>129</p><p>As imunodeficiências adquiridas podem ser causadas por infecções</p><p>virais, como o HIV, cujo nível mais grave é conhecido como síndrome da</p><p>imunodeficiência adquirida (AIDS). Essa doença é causada por um retrovírus,</p><p>ou seja, um vírus que contém RNA como material genético. O vírus HIV liga-se</p><p>aos receptores CD4 dos linfócitos T auxiliares e introduz nelas seu RNA. Com a</p><p>enzima transcriptase reversa, que você conheceu na Unidade 1, o vírus sintetiza</p><p>uma fita de DNA complementar ao RNA viral que se replica para formar um DNA</p><p>de dupla-hélice. Em outras palavras, o HIV usa o linfócito T CD4 para replicar</p><p>seu material genético, fazendo com que esta célula perca sua capacidade imune.</p><p>Além disso, leva ao rompimento da célula hospedeira, reduzindo o número de</p><p>células de defesa e liberando novas partículas de HIV que irão infectar as células</p><p>adjacentes (NIAID, 2019).</p><p>FONTE: Berlingerio et al. (2009, p. 217, tradução nossa)</p><p>FIGURA 32 - MAPA GENÉTICO DA REGIÃO HLA</p><p>130</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>O tratamento do HIV é feito com medicamentos chamados antirretrovirais</p><p>que não matam diretamente o vírus, mas atuam no seu mecanismo de replicação</p><p>evitando que ele infecte novas células CD4 do hospedeiro. A zidovudina, por</p><p>exemplo, conhecida como AZT, foi o primeiro fármaco utilizado contra o HIV</p><p>no final da década de 1980. O AZT é um inibidor de nucleosídeos da enzima</p><p>trancriptase reversa, ou seja, ele torna as cadeias de DNA que o vírus sintetiza</p><p>dentro das células de defesa do organismo defeituosas.</p><p>No entanto, o HIV é tão variável geneticamente que em pouco tempo</p><p>surgem variantes virais resistentes aos medicamentos usados. Por isso,</p><p>cientistas do mundo estão sempre pesquisando novos compostos contra o vírus</p><p>e o tratamento atual consiste na administração de combinações de fármacos</p><p>(chamados coquetéis), que atuem de diferentes maneiras. Assim, quando tomado</p><p>de forma regular e contínua, o coquetel reduz o número de vírus circulante (a</p><p>chamada carga viral) a níveis indetectáveis e impede o enfraquecimento do</p><p>sistema imunológico do indivíduo infectado, o que aumenta significativamente</p><p>sua qualidade e expectativa de vida. Estudos demonstram que a redução do vírus</p><p>a níveis indetectáveis no sangue periférico inclusive impede sua transmissão por</p><p>via sexual (VELOSO; FINK; DE LIMA, 2010; NIAID, 2019; BRASIL, 2019).</p><p>Você sabia também, acadêmico, que o Brasil é considerado referência</p><p>mundial no tratamento contra o HIV? É verdade, o Sistema Único de Saúde (SUS)</p><p>garante tratamento gratuito àqueles que dele necessitem, desde 1996. A novidade</p><p>mais recente ocorreu em 2017, quando o SUS passou a oferecer na rede pública</p><p>um dos melhores antirretrovirais do mundo, o Dolutegavir.</p><p>Após três meses de uso desse antirretroviral, 87% das pessoas com HIV/</p><p>Aids já apresentavam carga viral inferior a 50 cópias/mL. O Dolutegavir é usado</p><p>em combinação com os antirretrovirais Tenofovir e Lamivudina no esquema</p><p>chamado "2 em 1". Ou seja, apesar de serem três compostos, os pacientes tomam</p><p>apenas dois comprimidos: um de Dolutegravir e outro formado por Lamivudina</p><p>+ Tenofovir (BRASIL, 2019).</p><p>A AIDS é o estágio final da doença, na qual a imunodeficiência resulta</p><p>na aquisição de infecções oportunistas (herpes simples, cândida, criptococose,</p><p>toxoplasmose etc.) e maior suscetibilidade a alguns tipos de câncer, como o sarcoma</p><p>de Kaposi. Pacientes com AIDS apresentam linfopenia devido à diminuição da</p><p>população de linfócitos T auxiliares CD4, enquanto os linfócitos T citotóxicos</p><p>CD8 estão normais. A relação T-CD4:T-CD8 é utilizada clinicamente para avaliar</p><p>a progressão da doença, assim como a quantidade de vírus na corrente sanguínea</p><p>(o que é chamado de carga viral) (NIAID, 2019; BRASIL, 2019).</p><p>TÓPICO 3 — IMUNOGENÉTICA</p><p>131</p><p>Para saber mais sobre a genética do vírus HIV, recomendamos o artigo de</p><p>revisão chamado Resistência genotípica do Vírus da Imunodeficiência Humana tipo 1</p><p>aos antirretrovirais, disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/periodicos/ccs_artigos/</p><p>2010Vol21_1art07resistencia.pdf.</p><p>Recomendamos também o site do Ministério da Saúde, no qual você pode encontrar in-</p><p>formações sobre diagnóstico, tratamento, transmissão, janela imunológica, além de outros</p><p>assuntos relevantes: http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/aids-hiv.</p><p>DICAS</p><p>6.2 DOENÇAS AUTOIMUNES</p><p>As doenças autoimunes acontecem quando há uma falha na tolerância</p><p>imunológica fazendo com que o organismo comece a produzir anticorpos contra</p><p>antígenos do próprio corpo (chamados de autoantígenos). Baseado na severidade,</p><p>as doenças autoimunes são classificadas em organoespecíficas (quando envolvem</p><p>apenas um órgão, como a tireoidite de Hashimoto), intermediárias (quando</p><p>envolvem um órgão, mas com autoanticorpos não específicos) e sistêmica</p><p>(quando atingem o sistema imunológico como um todo, como a febre reumática).</p><p>Doença</p><p>autoimune Características</p><p>Alopécia areata</p><p>Doença na qual o sistema imunológico ataca os folículos</p><p>pilosos, resultando em queda acentuada de cabelo. Pode ser</p><p>causada por estresse grave.</p><p>Artrite</p><p>reumatoide</p><p>Doença sistêmica causada pela infiltração de leucócitos nas</p><p>articulações, causando inflamação.</p><p>Diabetes tipo 1</p><p>Doença que envolve a produção de anticorpos contra várias</p><p>proteínas, incluindo as células β do pâncreas que produzem</p><p>insulina.</p><p>Doença celíaca Reação imunológica à ingestão de glúten criando uma</p><p>inflamação que danifica o revestimento do intestino delgado</p><p>Doença de</p><p>graves</p><p>Doença em que os antígenos tireoidianos se encontram</p><p>próximos ao receptor do hormônio estimulante da tireoide.</p><p>Causa hipertireoidismo (produção excessiva de hormônios</p><p>pela glândula tireoide).</p><p>Esclerose</p><p>múltipla</p><p>Doença em que o sistema imunológico destrói a cobertura</p><p>protetora de nervos causam distúrbios na comunicação entre</p><p>o cérebro e o corpo.</p><p>QUADRO 6 - EXEMPLOS DE DOENÇAS AUTOIMUNES E SUAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS</p><p>132</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>Lúpus</p><p>eritematoso</p><p>Doença sistêmica grave na qual o paciente desenvolve</p><p>anticorpos que reagem contra suas células normais, podendo</p><p>afetar a pele, as articulações, os rins e outros órgãos.</p><p>Síndrome de</p><p>Sjögren</p><p>Doença reumática autoimune comum e é caracterizada</p><p>pela secura excessiva dos olhos, boca e outras membranas</p><p>mucosas.</p><p>Tireoidite de</p><p>Hashimoto</p><p>Doença organoespecífica mediada por células T específicas</p><p>que atacam a tireoide causando a destruição da glândula</p><p>e resultando em hipotireoidismo (insuficiência de</p><p>funcionamento da tireoide).</p><p>FONTE: A autora</p><p>Existem muitos fatores que podem levar ao aparecimento de uma doença</p><p>autoimune, desde genéticos até a exposição</p><p>prolongada a agentes que alterem a</p><p>estrutura de proteínas, como alguns fármacos e patógenos e radiação UV. Sabe-</p><p>se que existem três grupos principais de genes relacionados a essas doenças:</p><p>genes associados aos receptores de células T, genes relacionados à produção</p><p>de anticorpos e genes relacionados ao HLA. Esses genes estão envolvidos no</p><p>reconhecimento de antígenos e são altamente variáveis, o que, como já vimos, é</p><p>importante para desencadear respostas imunes a múltiplos agentes, mas também</p><p>pode levar à autorreatividade. Estudos mostram que alguns alótipos do MHC</p><p>de classe II estão fortemente associados a determinadas doenças autoimunes</p><p>(MANDAL, 2020):</p><p>• O HLA DR2 está positivamente associado ao lúpus eritematoso sistêmico</p><p>(LES) e esclerose múltipla e inversamente associado a diabetes tipo I.</p><p>• O HLA DR3 está associado a LES, diabetes tipo I e síndrome de Sjögren.</p><p>• O HLA DR4 está associado a diabetes tipo I e artrite reumatoide.</p><p>TÓPICO 3 — IMUNOGENÉTICA</p><p>133</p><p>LUPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO</p><p>O termo “lupus” tem origem na palavra lobo, pois uma das características da doença é um</p><p>padrão de lesões na face em formato de borboleta que lembram as manchas de um lobo.</p><p>Em 1872, o médico Kaposi subdividiu o lúpus nas duas formas que conhecemos hoje, a</p><p>discoide ou cutânea, que afeta predominantemente a pele, e a sistêmica, que afeta o</p><p>corpo como um todo e é potencialmente fatal.</p><p>Lúpus é uma doença autoimune rara, causada por um desequilíbrio no sistema imunoló-</p><p>gico que faz com que as células B produzam autoanticorpos e ataquem tecidos do pró-</p><p>prio organismo, como pele, articulações, fígado, coração, pulmão, rins e cérebro. Cerca de</p><p>90% dos portadores de lúpus são mulheres, provavelmente pelo fato de que o hormônio</p><p>feminino estrógeno é autoformador de anticorpos, enquanto que o hormônio masculino</p><p>testosterona é baixo produtor.</p><p>Nas mulheres portadoras ocorre excesso na produção de anticorpos pela presença do es-</p><p>trógeno, o que resulta em altas taxas da proteína gamaglobulina nos exames laboratoriais.</p><p>Pacientes com lúpus precisam fazer tratamento por toda a vida, pois quando não tratado,</p><p>desenvolve-se rapidamente insuficiência renal e lesões cerebrais (BRUNA, 2011; SMITH;</p><p>CYR, 1988).</p><p>NOTA</p><p>SINTOMAS DO LUPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO</p><p>FONTE: Adaptado de <https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTNZ-T-</p><p>8JYNGPQnTUY6UnomFwbvo_dGEEyaQxLrCXEJmsQDRfFGcFA&s>; http://www.minutoen-</p><p>fermagem.com.br/uploads/posts/207/lupus.jpg. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>134</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• A imunogenética estuda aspectos genéticos das interações entre antígenos e</p><p>anticorpos, considerando a alta especificidade das respostas imunes adquiridas.</p><p>• O reconhecimento de antígenos pelos linfócitos B e T é feito por receptores BCR</p><p>e TCR. Os TCRs reconhecem antígenos ligados a moléculas MHC presentes na</p><p>superfície de células APCs, já os BCRs são as imunoglobulinas ou anticorpos.</p><p>• Os genes que codificam TCRs e BCRs são formados por segmentos de genes</p><p>que se recombinam de forma aleatória, o que permite que uma quantidade</p><p>limitada de segmentos codifique uma infinidade de receptores/anticorpos</p><p>(recombinação somática) e garante a hipervariabilidade e a especificidade para</p><p>cada antígeno.</p><p>• Os grupos sanguíneos são antígenos localizados na superfície das hemácias</p><p>e são exemplos de polimorfismos importantes como marcadores genéticos.</p><p>O sistema ABO é composto por pelo menos três alelos diferentes (alelos</p><p>múltiplos): A e B codominantes e O recessivo. Além disso, todo alelo apresenta</p><p>muitas variações.</p><p>• A classificação dos grupos sanguíneos é feita de acordo com a presença de</p><p>antígenos (aglutinogênios) A e B nas hemácias, e anticorpos (ou aglutininas)</p><p>anti-A e anti-B no soro. Para isso existem dois testes: tipagem direta e tipagem</p><p>reversa.</p><p>• O sistema Rh é bastante complexo, mas costuma ser descrito como um único</p><p>par de alelos, D e d. Junto com o sistema ABO são os mais considerados em</p><p>transfusões sanguíneas. É fundamental que haja compatibilidade entre doador</p><p>e receptor.</p><p>• MHC é uma família de genes que codifica proteínas presentes na superfície</p><p>de todas as células; na espécie humana, é chamado HLA. Os genes HLA são</p><p>altamente polimórficos e são antígenos de histocompatibilidade em casos de</p><p>transplantes.</p><p>• Quando a homeostase imunológica é quebrada, pode-se desenvolver uma</p><p>imunodeficiência ou uma doença autoimune. As imunodeficiências podem ser</p><p>hereditárias (doenças congênitas graves) ou adquiridas (HIV/AIDS).</p><p>135</p><p>1 Com relação ao sistema sanguíneo ABO, se uma mulher com sangue B</p><p>tem um filho com um homem de sangue AB, quais tipos sanguíneos essa</p><p>criança poderá ter?</p><p>a) ( ) Tipo AB, tipo A, tipo B.</p><p>b) ( ) Tipo AB e tipo B.</p><p>c) ( ) Tipo AB, tipo A, tipo B e tipo O.</p><p>d) ( ) Tipo A e tipo B.</p><p>2 Uma mulher Rh-negativa se casa com um homem Rh-positivo. Sobre</p><p>os filhos gerados desta união, analise as sentenças a seguir e assinale a</p><p>alternativa correta:</p><p>I- Os filhos apresentam risco de desenvolver a doença hemolítica do recém-</p><p>nascido.</p><p>II- O risco de desenvolver a doença é maior no primeiro filho.</p><p>III- Para prevenir a eritroblastose fetal, a mulher Rh-negativa deve receber</p><p>anticorpos anti-Rh que, através da imunização passiva, irá impedir que a</p><p>mulher produza anticorpos contra o feto.</p><p>IV- Se o homem fosse Rh-negativo, os filhos teriam maior risco de ter a doença.</p><p>a) ( ) As afirmativas I e II estão corretas.</p><p>b) ( ) As afirmativas I, III e IV são falsas.</p><p>c) ( ) As afirmativas I e III estão corretas.</p><p>d) ( ) As afirmativas I, II e III são falsas.</p><p>3 Uma mulher do grupo sanguíneo O, casada com um homem do grupo B,</p><p>teve um filho do grupo AB. Considerando tudo o que você sabe sobre o</p><p>sistema sanguíneo ABO, assinale a alternativa correta:</p><p>a) ( ) A criança pode ser filha do casal em questão.</p><p>b) ( ) No exame laboratorial da criança foram observados antígenos A e B</p><p>nas hemácias durante o teste de tipagem direta.</p><p>c) ( ) A criança pode ser filha do casal se o homem for heterozigoto para o</p><p>gene B.</p><p>d) ( ) No exame laboratorial da mãe foram observados antígenos anti-A e</p><p>anti-B durante o teste de tipagem reversa.</p><p>4 Um casal de grupo sanguíneo Rh desconhecido teve o primeiro filho</p><p>normal, o segundo com eritroblastose fetal e o terceiro filho normal. Qual é</p><p>o provável genótipo desses cinco indivíduos, quanto ao sistema Rh?</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>136</p><p>a) ( ) Mãe Rh-, pai Rh-, 1º filho Rh-, 2º filho Rh+, 3º filho Rh-.</p><p>b) ( ) Mãe Rh+, pai Rh+, 1º filho Rh+, 2º filho Rh+, 3º filho Rh-.</p><p>c) ( ) Mãe Rh-, pai Rh+, 1º filho Rh-, 2º filho Rh+, 3º filho Rh-.</p><p>d) ( ) Mãe Rh-, pai Rh+, 1º filho Rh+, 2º filho Rh+, 3º filho Rh-.</p><p>5 Em 1952, Jean Dausset descreve o primeiro antígeno de</p><p>histocompatibilidade humano (HLA). O polimorfismo do sistema HLA</p><p>permite diferenciar o próprio do não próprio. Com relação à imunologia</p><p>dos transplantes, assinale a opção correta.</p><p>a) ( ) O complexo principal de histocompatibilidade (HLA) está relacionado</p><p>às altas taxas de rejeição nos autotransplantes.</p><p>b) ( ) A rejeição hiperaguda inicia minutos a horas após o transplante e é</p><p>mediada por células T que atacam o tecido ou órgão doado.</p><p>c) ( ) Alotransplantes são os tipos mais comuns e são realizados entre</p><p>indivíduos da mesma espécie geneticamente diferentes.</p><p>d) ( ) A rejeição aguda ocorre imediatamente após o transplante e é mediada</p><p>por anticorpos IgG contra antígenos HLA.</p><p>6 Em 2023, completarão 40 anos da publicação do artigo que divulgava a</p><p>identificação do vírus responsável pela AIDS, o HIV. Ao longo dos anos, o</p><p>tratamento da doença apresentou importantes avanços, porém a epidemia</p><p>não está totalmente controlada e o HIV ainda é responsável por infectar</p><p>aproximadamente 35 milhões de pessoas em todo o mundo. Sobre o a AIDS</p><p>e o HIV, é correto</p><p>afirmar:</p><p>I- O vírus HIV é transmitido através do contato com fluidos contaminados,</p><p>como sangue e no sexo não seguro.</p><p>II- As células atingidas pelo HIV fazem parte do sistema imune (linfócito</p><p>CD4), um dos fatores que dificultam o combate à infecção.</p><p>III- As drogas antivirais interferem no ciclo de replicação do HIV, impedindo</p><p>que ele infecte outras células.</p><p>IV- O vírus HIV, assim como outros vírus, possui altas taxas de mutação, o</p><p>que é explicado pela ausência de enzimas de controle e reparo na síntese</p><p>de seu genoma.</p><p>V- A transcriptase reversa é a enzima viral responsável pela replicação do seu</p><p>DNA.</p><p>a) ( ) As afirmativas I, II, III e IV estão corretas.</p><p>b) ( ) As afirmativas I, II, III, IV e V estão corretas.</p><p>c) ( ) As afirmativas I, II e V estão corretas.</p><p>d) ( ) As afirmativas III e V estão corretas.</p><p>137</p><p>UNIDADE 2</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Olá, acadêmico, seja bem-vindo ao quarto tópico da Unidade 2 do Livro</p><p>Didático de Genética Humana e Médica!</p><p>Até aqui você aprendeu vários princípios básicos da genética, como os</p><p>diferentes tipos de herança e as principais alterações cromossômicas, e também</p><p>estudou o sistema imune e sua relação com a genética, naquilo que chamamos</p><p>de imunogenética, porém, ao contrário das doenças monogênicas, multifatoriais</p><p>e cromossômicas que você conheceu nos dois primeiros tópicos desta unidade,</p><p>cuja anormalidade genética se encontra no DNA de todas as células do nosso</p><p>corpo, inclusive nos gametas, e que podem ser transmitidas para as gerações</p><p>futuras, o câncer é uma doença genética de células somáticas. O câncer é causado</p><p>principalmente por mutações em genes que controlam os processos de morte e</p><p>replicação celular, por isso, neste tópico, você verá como esses dois conhecimentos</p><p>adquiridos até aqui, a genética e o sistema imunológico, desempenham um papel</p><p>fundamental na proteção e no desenvolvimento de tumores.</p><p>No final deste tópico, você deverá ser capaz de entender os processos</p><p>envolvidos na carcinogênese, ou seja, na formação do câncer, e as principais</p><p>alterações genéticas relacionadas ao surgimento de tumores. Também deverá</p><p>conhecer os principais tipos de câncer de origem genética e o papel de alguns tipos</p><p>de vírus no desenvolvimento da malignidade. Lembre-se de que sua participação</p><p>e comprometimento com a disciplina são fundamentais para o sucesso, por isso</p><p>faça as autoatividades no final do tópico e leia com atenção as leituras sugeridas</p><p>ao longo da unidade. Bons estudos!</p><p>2 ORIGEM E DESENVOLVIMENTO DO CÂNCER</p><p>A palavra câncer tem origem no grego Karkinos, “caranguejo”, devido à</p><p>capacidade dos tumores de se espalhar pelos tecidos adjacentes como patas de</p><p>caranguejo. Câncer, neoplasia maligna ou tumor maligno são termos utilizados</p><p>para descrever mais de 100 doenças diferentes que têm em comum a presença</p><p>de células que perderam a capacidade de se diferenciar e se tornarem funcionais</p><p>e adquiriram a capacidade de se multiplicar de forma descontrolada, podendo</p><p>invadir outros tecidos e causar metástase (MUKHERJEE, 2012; STEWART; WILD,</p><p>2014).</p><p>TÓPICO 4 —</p><p>GENÉTICA DE TUMORES</p><p>138</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>Os cânceres são divididos de acordo com o tecido de origem em: carcinomas</p><p>(tecido epitelial), sarcomas (tecido conectivo), linfomas (tecido linfático),</p><p>gliomas (células do sistema nervoso) e leucemias (células hematopoiéticas).</p><p>As neoplasias ou tumores benignos, por sua vez, são aqueles que crescem, mas</p><p>não se espalham para outros tecidos, ou seja, não causam metástase (BORGES-</p><p>OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>Todo câncer é clonal, ou seja, as células que compõem a massa tumoral são</p><p>originadas de uma única célula que sofreu algum tipo de mutação no seu DNA</p><p>levando à produção de inúmeros clones alterados dela mesma (Figura 34). O</p><p>processo de formação do câncer, ou carcinogênese, em geral, ocorre lentamente,</p><p>podendo chegar a 10 anos ou mais e é dividida em três fases que você verá a</p><p>seguir.</p><p>FIGURA 34 - ETAPAS DA CARCINOGÊNESE</p><p>FONTE: <https://www.helioangotti.com.br/wp-content/uploads/2018/08/Histo%CC%81ria-do-</p><p>-ca%CC%82ncer-do-Brasil1.docx.jpg>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>• INICIAÇÃO: o câncer, normalmente, é iniciado por uma mutação que pode</p><p>ser causada por fatores ambientais ou herdada da linhagem germinativa. Cerca</p><p>de 1% dos casos de câncer são hereditários (herança multifatorial) e 99 % são</p><p>aleatórios, o que significa que a mutação ocorreu em uma única célula somática</p><p>que se tornou alterada, dividindo-se descontroladamente até desenvolver o</p><p>câncer.</p><p>TÓPICO 4 — GENÉTICA DE TUMORES</p><p>139</p><p>• PROMOÇÃO: no segundo estágio, a célula geneticamente alterada sofre a</p><p>ação de agentes oncopromotores que intensificam a lesão celular, como proto-</p><p>oncogenes promotores do crescimento, genes supressores de tumor, genes</p><p>que regulam a morte celular programada (apoptose) e genes de reparo ao</p><p>DNA. Essas células malignas passam a se comportar de maneira desordenada,</p><p>multiplicando-se descontroladamente.</p><p>• PROGRESSÃO: a última etapa é caracterizada pelo crescimento excessivo da</p><p>massa tumoral, com início de sintomas clínicos, invasão local e capacidade de</p><p>migrar para outros tecidos formando metástases. Em nível molecular ocorre um</p><p>acúmulo de lesões genéticas decorrentes de mutações adicionais (COTRAN;</p><p>KUMAR; COLLINS, 2010; INCA, 2011).</p><p>FIGURA 35 - PROCESSOS ENVOLVIDOS NA CARCINOGÊNESE</p><p>FONTE: Maioral (2013, p. 26)</p><p>Em nível tecidual, a massa tumoral se desenvolve em uma série de etapas,</p><p>como mostra a Figura 36. Chamamos de hiperplasia quando a célula alterada</p><p>e suas células-filhas aparentam estar normais, mas se replicam de forma muito</p><p>acelerada, formando uma massa tumoral. Eventualmente, uma em um milhão</p><p>dessas células pode sofrer outra mutação, que leva ao descontrole do crescimento</p><p>celular. Assim, a displasia é quando, além da proliferação descontrolada, as</p><p>células-filhas possuem aspecto também alterado. Novamente, pode ocorrer uma</p><p>nova mutação que irá alterar o comportamento celular.</p><p>140</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>Se o tumor ainda não ultrapassou as fronteiras do seu tecido de origem,</p><p>é chamado de câncer in situ, e pode permanecer contido indefi nidamente, assim</p><p>como pode também sofrer mutações adicionais. Finalmente, se as alteraç õ es</p><p>gené ticas permitirem que o tumor invada os tecidos subjacentes e que suas cé lulas</p><p>se espalhem pelos vasos sanguí neos ou linfá ticos causando metástases, ele passa</p><p>a ser chamado de câncer invasivo (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>FIGURA 36 - DESENVOLVIMENTO DE UM TUMOR SÓLIDO EM NÍVEL TECIDUAL</p><p>FIGURA 37 - MARCADORES DO CÂNCER</p><p>FONTE: INCA (2019, p. 14)</p><p>FONTE: Adaptado de Hanahan e Weinberg (2011)</p><p>Em nível celular, por sua vez, a homeostase depende de um equilíbrio</p><p>entre proliferação, diferenciação e morte celular programada. Já os processos</p><p>malignos são caracterizados por falhas em um ou mais desses processos, o que</p><p>pode resultar em proliferação celular descontrolada e imortalidade (GALLUZZI</p><p>et al., 2018). Na Figura 37, você pode observar as principais características do</p><p>câncer, aquilo que chamamos de Marcadores do Câncer.</p><p>TÓPICO 4 — GENÉTICA DE TUMORES</p><p>141</p><p>3 MUTAÇÕES, AGENTES MUTAGÊNICOS E SISTEMAS DE</p><p>REPARO</p><p>Em condições normais, todas as células do nosso corpo cumprem um ciclo</p><p>em que se multiplicam, crescem, diferenciam-se e morrem (o que chamamos de</p><p>ciclo celular). O ciclo celular e os processos de morte celular são regulados por</p><p>um sistema complexo de sinais bioquímicos que têm origem em duas classes de</p><p>genes específicos: os proto-oncogenes e os genes supressores de tumor. Quando</p><p>algum desses genes sofre alguma mutação, isso pode levar à formação de um</p><p>câncer.</p><p>3.1 MUTAÇÕES RELACIONADAS AO CICLO CELULAR</p><p>O ciclo celular é composto de duas fases principais, a mitose e a interfase</p><p>(Figura 38). A mitose, acadêmico, que você já estudou na Unidade 1, é o processo</p><p>de divisão celular no qual</p><p>uma célula-mãe se divide em duas células-filhas com o</p><p>mesmo número de cromossomos. A interfase, por sua vez, é o período entre duas</p><p>mitoses e é dividida nas fases gap1 (G1), síntese (S) e gap2 (G2). A célula que não</p><p>está se replicando encontra-se no que se denomina de fase G0 ou quiscência, na</p><p>qual, apesar de estar metabolicamente ativa, seu DNA encontra-se enovelado e a</p><p>atividade nuclear é baixa (TAN; DUNCAN; SLAWSON, 2017).</p><p>Ao longo do ciclo a célula possui alguns pontos de checagem ou checkpoints</p><p>que garantem que a replicação irá ocorrer de forma adequada, sem transmitir</p><p>alterações para as células-filhas. A progressão do ciclo celular é controlada por</p><p>dois grupos de proteínas, as ciclinas e as cinases dependentes de ciclinas (CDKs).</p><p>Cada ponto de checagem possui ciclinas e CDKs específicas que interagem entre</p><p>si fazendo com que a célula passe para a fase seguinte do ciclo. Quando algum</p><p>erro é detectado, a célula possui mecanismos que bloqueiam o ciclo celular</p><p>até que o dano seja reparado. Esse bloqueio é feito, principalmente, por outro</p><p>grupo de proteínas chamadas inibidores de CDKs (CKIs). Hoje, acadêmico, são</p><p>conhecidos três pontos de bloqueio principais: em G1, antes da célula duplicar o</p><p>seu DNA; em G2, antes da célula entrar em mitose; e durante a metáfase (WIMAN;</p><p>ZHIVOTOVSKY, 2017).</p><p>142</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>FIGURA 38 - ETAPAS DO CICLO CELULAR, PONTOS DE CHECAGEM E PROTEÍNA P53</p><p>FONTE: Adaptado de <https://www.sobiologia.com.br/conteudos/fi guras/Citologia2/cellcycle.</p><p>gif>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>A principal proteína responsável pelo controle do ponto de checagem</p><p>G1 é a proteína p53, codifi cada pelo gene supressor de tumor TP53. Em células</p><p>normais, o nível de p53 é baixo, mas em situações que envolvem lesão ao DNA,</p><p>o gene p53 é ativado, levando à transcrição da proteína p53 que monitora a</p><p>integridade do genoma e impede a proliferação das células com DNA mutado.</p><p>Além disso, a p53 ativa a transcrição de genes de reparo com o objetivo de</p><p>corrigir a mutação ao DNA antes que ela seja propagada para as células fi lhas. A</p><p>disfunç ã o do gene TP53 torna a célula incapaz de reparar a lesão ao DNA, fazendo</p><p>com que o ciclo celular prossiga mesmo que haja uma mutaç ã o e permitindo sua</p><p>transmissã o à s cé lulas-fi lhas. Devido às suas atividades antineoplásicas e ao</p><p>auxílio na manutenção da homeostase celular, a proteína p53 é considerada a</p><p>“guardiã do genoma” (BORGES-OSÓRIO; ROBSON, 2013; TAN et al., 2015).</p><p>3.2 MUTAÇÕES RELACIONADAS A PROCESSOS DE</p><p>MORTE CELULAR PROGRAMADA</p><p>Nós vimos que o ciclo celular é a sequência de eventos envolvidos na</p><p>senescência (quando a célula desempenha suas funções normais) e na replicação</p><p>celular (quando a célula duplica seu material genético). Diante de erros nesse</p><p>processo de replicação, ou seja, de mutações que alterem o DNA celular de forma</p><p>a transmitir esse DNA mutado para as células-fi lhas, a célula possui mecanismos</p><p>de reparo que buscam corrigir esse dano, como a proteína p53. No entanto, se</p><p>o reparo ao DNA não for efetuado de forma satisfatória e o dano não puder ser</p><p>reparado, a p53 desempenha sua terceira função, além do monitoramento e do</p><p>reparo do genoma: ela ativa mecanismos de morte celular regulada.</p><p>TÓPICO 4 — GENÉTICA DE TUMORES</p><p>143</p><p>Veja como nosso corpo é inteligente, acadêmico: a autodestruição pode</p><p>ser ruim para a célula em si, mas é uma perda muito menor do que os possíveis</p><p>efeitos da manutenção de uma mutação carcinogênica (COTRAN; KUMAR;</p><p>COLLINS, 2010, GALLUZZI et al., 2018).</p><p>A morte celular regulada tem como característica básica ser rigorosamente</p><p>controlada por diferentes vias bioquímicas. Esse tipo de morte acontece de forma</p><p>fisiológica durante o desenvolvimento embrionário humano, contribui para a</p><p>formação de órgãos e tecidos e é um componente da resposta imune a agentes</p><p>infecciosos. Ela também serve como uma segunda linha de defesa diante de</p><p>mutações que podem resultar em uma neoplasia maligna. O tipo mais estudado</p><p>de morte celular regulada é a apoptose.</p><p>Morfologicamente, a apoptose é caracterizada pelo encolhimento celular,</p><p>fragmentação do DNA e dissolução da célula em pequenos fragmentos chamados</p><p>corpos apoptóticos, que serão fagocitados pelo sistema imune. A apoptose é</p><p>dividida em duas vias, a apoptose extrínseca que é ativada por receptores de</p><p>morte, e apoptose intrínseca que envolve a mitocôndria e é controlada por</p><p>proteínas da família Bcl-2, como as proteínas Bcl-2 e Bax.</p><p>A proteína p53, que falamos no tópico anterior, dispara a apoptose pela</p><p>ativação do gene Bax, cuja proteína ativa a apoptose intrínseca.</p><p>Como você pode ver na Figura 39, a apoptose intrínseca e extrínseca</p><p>convergem na ativação de proteínas chamadas caspases que ativam outras</p><p>proteínas responsáveis por finalizar o processo de morte. Mutações em qualquer</p><p>uma das etapas desses processos também pode levar ao surgimento de uma</p><p>neoplasia maligna (GALLUZZI et al., 2018).</p><p>144</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>FIGURA 39 - CARACTERÍSTICAS MORFOLÓGICAS DA APOPTOSE E VIAS DE ATIVAÇÃO</p><p>FONTE: Adaptado de Maioral (2013, p. 36 e 41)</p><p>3.3 MUTAÇÕES QUE AFETAM A ESTABILIDADE GENÔMICA</p><p>A instabilidade genômica das células malignas caracteriza-se pela</p><p>presença de translocações, aneuploidias, deleções cromossômicas e duplicações</p><p>do DNA, e esse conjunto de características é chamado de fenótipo mutador.</p><p>Ele está relacionado a algumas neoplasias hereditárias causadas por</p><p>mutações em genes que controlam o reparo ao DNA, como alguns tipos de câncer</p><p>de pele e colorretal. Portanto, um indivíduo que apresente esse fenótipo mutador</p><p>possui maior probabilidade de vir a desenvolver determinados tipos de câncer.</p><p>A Figura 40 mostra o cariótipo de uma célula normal e de uma célula</p><p>tumoral, nitidamente aberrante e apresentando translocações, deleções e</p><p>aneuploidia (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>TÓPICO 4 — GENÉTICA DE TUMORES</p><p>145</p><p>FIGURA 40 - CARIÓTIPO DE UMA CÉLULA NORMAL (A) E DE UMA CÉLULA MALIGNA (B)</p><p>FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/genticadocncer14-140410094656-phpapp01/95/</p><p>gentica-do-cncer-140414-3-1024.jpg?cb=1397123289>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>3.4 MUTAÇÕES ENVOLVENDO PROTO-ONCOGENES</p><p>Oncogenes são genes que codificam proteínas estimuladoras do</p><p>crescimento celular e que contribuem para o descontrole da divisão celular e</p><p>para o fenótipo maligno da célula tumoral. Eles são representados por três letras</p><p>maiúsculas em itálico, como ABL1, BCR2, MYC etc.</p><p>Os oncogenes são originados de genes celulares normais, mas que, por</p><p>diferentes razões, são expressos de forma alterada. Um gene normal que possui</p><p>potencial para virar um oncogene é chamado de proto-oncogene. Todavia, você</p><p>pode se perguntar: o que transforma um proto-oncogene em um oncogene?</p><p>Na verdade, acadêmico, existem diferentes razões, mas as duas principais</p><p>são a presença de mutações pontuais e translocações cromossômicas. Um</p><p>exemplo de mutação pontual é o proto-oncogene RAS que pode transformar-se</p><p>em um oncogene pela substituição de uma única base nitrogenada: GGC → GTC.</p><p>Essa mutação resulta na troca de uma glicina por uma valina e causa carcinoma</p><p>de bexiga.</p><p>O oncogene RAS é detectado em cerca de 30% das neoplasias humanas,</p><p>chegando a 90% dos casos de carcinomas pancreáticos. Já as translocações</p><p>podem levar à superexpressão de um proto-oncogene ou a formação de um gene</p><p>quimérico ou gene de fusão.</p><p>Um exemplo é a leucemia mieloide crônica (LMC), caracterizada pela</p><p>translocação entre o gene ABL1, localizado no cromossomo 9q34 e o gene BCR,</p><p>localizado no cromossomo 22q11.2 (Figura 41). A translocação t(9q;22q) cria uma</p><p>estrutura conhecida como cromossomo Philadelphia (Ph1), e a proteína de fusão</p><p>transcrita pelo gene BCR/ABL permite que a célula escape do controle do ciclo</p><p>celular (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>146</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA</p><p>CLÍNICA</p><p>FONTE: < https://image.slidesharecdn.com/genticadocncer14-140410094656-phpapp01/95/</p><p>gentica-do-cncer-140414-12-1024.jpg?cb=1397123289>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>FIGURA 41 - FORMAÇÃO DO GENE ABERRANTE BCR/ABL E CARIÓTIPO DE INDIVÍDUO COM</p><p>LMC</p><p>PML/RARA: a proteína supressora de tumor PML é um importante regulador</p><p>da atividade de p53 e, consequentemente, do bloqueio do ciclo celular e do reparo ao</p><p>DNA. Também desempenha um papel importante no controle da apoptose, da imunidade</p><p>e de processos inflamatórios. Essa proteína foi originalmente identificada em células de</p><p>um tipo de neoplasia hematológica chamada leucemia promielocítica aguda (LPA). A</p><p>LPA é caracterizada pela presença de uma proteína de fusão originada da translocação</p><p>entre os cromossomos 15q22 e 17q21.1 que fusiona o gene RARA, do receptor do ácido</p><p>retinoico (um receptor de superfície celular), com o gene PML, que, como vimos, é um</p><p>gene supressor de tumor cujo produto está envolvido em várias funções antitumorais. A</p><p>t(15:17), detectada em mais de 90% dos pacientes com LPA, resulta na proteína de fusão</p><p>PML/RARA — oncogênica e indutora da LPA. Um ponto interessante é que é justamente</p><p>a presença dessa proteína de fusão oncogênica que torna a célula leucêmica sensível ao</p><p>medicamento ATRA, que faz com que as células imaturas e imortais da LPA se diferenciem e</p><p>morram. Indivíduos que não possuem a t(15:17), por sua vez, são resistentes a esse fármaco</p><p>e seu prognóstico é bastante desfavorável (SALOMONI; DVORKINA; MICHOD, 2012).</p><p>IMPORTANTE</p><p>TÓPICO 4 — GENÉTICA DE TUMORES</p><p>147</p><p>FONTE: A autora</p><p>FIGURA – TRATAMENTO DA LEUCEMIA PROMIELOCÍTICA AGUDA (LPA) COM ATRA</p><p>TENDO COMO ALVO A PROTEÍNA ONCOGÊNICA PML/RARA.</p><p>4 NEOPLASIAS HEREDITÁRIAS</p><p>As neoplasias hereditárias correspondem a apenas 1% dos casos de</p><p>câncer e ocorrem quando um gene dominante herdado de um dos progenitores</p><p>predispõe o surgimento de diversas malignidades, como mama, ovário, sistema</p><p>digestório e células sanguíneas. Algumas das características clínicas associadas</p><p>ao câncer hereditário incluem idade precoce no diagnóstico, múltiplas neoplasias</p><p>em um mesmo indivíduo, muitos membros de uma mesma família apresentando</p><p>neoplasias relacionadas e múltiplas gerações afetadas (BORGES-OSÓRIO;</p><p>ROBINSON, 2013).</p><p>O câncer de mama é o segundo tipo de câncer mais frequente no mundo e</p><p>no Brasil, segundo o INCA (2019), é a primeira causa de mortalidade por neoplasia</p><p>em mulheres. Grande parte dos casos de câncer de mama hereditário resulta</p><p>de mutações germinativas nos genes supressores de tumor BRCA1 e BRCA2.</p><p>Mulheres que apresentam mutação nesses genes têm 85% de probabilidade de</p><p>desenvolver câncer de mama antes dos 70 anos. Além disso, também tem risco</p><p>aumentado de desenvolver câncer de ovário. Algumas medidas preventivas, como</p><p>amamentação, prática de atividade física, alimentação saudável e manutenção do</p><p>peso corporal, diminuem o risco, mas mesmo assim, ele ainda é bastante elevado</p><p>(BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>O câncer de pulmão é outro exemplo de neoplasia que pode ter origem</p><p>hereditária. Segundo a American Cancer Society (2019), é o câncer de maior</p><p>mortalidade no mundo e o tabagismo é seu principal fator de risco, associado</p><p>a 90% dos casos. Os cânceres de pulmão hereditários envolvem mutações em</p><p>diferentes genes, como TP53, RB1, EGFR, KRAS e MET, amplificações e deleções,</p><p>148</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>bem como a presença do gene de fusão ALK/EML4. Por outro lado, cientistas</p><p>observaram que alguns indivíduos japoneses e chineses apresentam risco</p><p>reduzido de desenvolver esta neoplasia e estudos demonstraram que isso ocorre</p><p>pela deleção de alelos dos genes CYP2A6 e CASP8, respectivamente. Nesse caso,</p><p>essas mutações teriam efeito protetor para o câncer de pulmão. Além dos cânceres</p><p>de mama e de pulmão, diversas outras malignidades podem ter origem genética,</p><p>como algumas leucemias que vimos anteriormente e alguns casos de carcinoma</p><p>colorretal (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>A atriz Angelina Jolie realizou uma dupla mastectomia, em 2013, removendo as</p><p>duas mamas ao descobrir que possuía uma mutação hereditária no gene BRCA1. Segundo</p><p>os médicos ela tinha 87% de chances de desenvolver um câncer de mama, o que diminuiu</p><p>para 5% após a cirurgia, além de 50% de chances de ter câncer no ovário.</p><p>A mãe da atriz faleceu de câncer de mama aos 56 anos, após lutar 10 anos contra a doença.</p><p>Atualmente, existem testes genéticos que permitem a detecção de mutações nos genes</p><p>BCRA1 e BCRA2, como técnicas de sequenciamento. Você irá aprender mais sobre elas na</p><p>Unidade 3 deste livro didático.</p><p>INTERESSANTE</p><p>5 NEOPLASIAS E VÍRUS</p><p>Hoje sabemos que alguns tipos de vírus, tanto de DNA quanto de RNA,</p><p>podem causar neoplasias malignas. É claro, acadêmico, que assim como os outros</p><p>fatores de risco que mencionamos anteriormente, inclusive a predisposição</p><p>genética, o vírus sozinho não é suficiente para desencadear um câncer: é preciso</p><p>sempre haver uma combinação de fatores.</p><p>No entanto, cerca de 15% dos tumores malignos humanos estão associados</p><p>a infecções virais. Mas você deve se perguntar, como um vírus pode causar câncer?</p><p>Veja só: quando estudamos o HIV no Tópico 3 desta unidade, você viu que o</p><p>vírus é formado apenas por ácido nucleico e uma capa proteica, por isso precisa</p><p>utilizar os mecanismos da célula hospedeira para se replicar. Como muitos vírus</p><p>contêm genes que codificam proteínas estimuladoras do ciclo celular, durante</p><p>a replicação do vírus na célula, a célula infectada pode perder o controle do</p><p>seu ciclo celular e, assim, iniciar a formação de um tumor (BORGES-OSÓRIO;</p><p>ROBINSON, 2013). Na Figura 42, você pode acompanhar o desenvolvimento do</p><p>câncer cervical a partir da infecção pelo vírus HPV. E, no quadro a seguir, você irá</p><p>conhecer alguns tipos de cânceres associados a infecções virais.</p><p>TÓPICO 4 — GENÉTICA DE TUMORES</p><p>149</p><p>FONTE: Adaptado de <https://kd-group.ro/images/human-papillomavirus-cause-cancer.gif>.</p><p>Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>QUADRO 7 - PRICIPAIS EXEMPLOS DE NEOPLASIAS MALIGNAS CAUSADAS POR VÍRUS</p><p>FIGURA 42 - DESENVOLVIMENTO DO CÂNCER CERVICAL A PARTIR DA INFECÇÃO POR HPV</p><p>MATERIAL</p><p>GENÉTICO VÍRUS CÂNCER ASSOCIADO</p><p>DNA</p><p>Epstein-Barr</p><p>O vírus causa mononucleose infecciosa, porém</p><p>aumenta o risco de desenvolver linfoma</p><p>de Burkitt, doença de Hodgkin, carcinoma</p><p>nasofaríngeo e outros tumores sólidos.</p><p>Hepatite B e C</p><p>(HBV e HCV)</p><p>Causam inflamação no fígado e estão associados</p><p>ao desenvolvimento de câncer hepático.</p><p>Herpes-vírus Em pacientes com AIDS pode levar ao</p><p>desenvolvimento de sarcoma de Kaposi.</p><p>Papiloma</p><p>vírus</p><p>Codificam proteínas que tem como alvo as</p><p>proteínas supressoras de tumor RB1 e p53, está</p><p>associado ao câncer de colo de útero.</p><p>150</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>RNA</p><p>HTLV-I e</p><p>HTLV-II Causam tipos raros de leucemia linfocítica.</p><p>HTLV-III</p><p>Chamado de HIV (vírus da imunodeficiência</p><p>humana), causa a síndrome de imunodeficiência</p><p>adquirida (AIDS), fator de risco para o</p><p>desenvolvimento de sarcoma de Kaposi.</p><p>FONTE: A autora</p><p>Para saber sobre o CRISPR (do inglês Clustered Regularly Interspaced Short</p><p>Palindromic Repeats), assista à série documental Unnatural Selection e ao episódio De-</p><p>signer DNA da série Explained, ambos disponíveis no Netflix.</p><p>DICAS</p><p>TÓPICO 4 — GENÉTICA DE TUMORES</p><p>151</p><p>Médicos combatem câncer com edição genética pela primeira vez nos EUA</p><p>Sofia Aureli</p><p>A primeira tentativa de utilizar a edição de genes CRISPR para combater</p><p>o câncer foi realizada por médicos norte-americanos e parece, até agora,</p><p>estável nos três pacientes que participaram do tratamento. Dois dos pacientes</p><p>enfrentavam mieloma múltiplo, um câncer que afeta a medula óssea; o terceiro</p><p>luta contra um sarcoma, um tumor maligno que se forma no tecido mole. Antes</p><p>da edição genética, todos haviam falhado em procedimentos padrões e estavam</p><p>ficando sem opções.</p><p>No procedimento, os médicos retiraram as células do sistema</p><p>imunológico</p><p>do sangue dos pacientes e as alteraram geneticamente, ajudando-as a</p><p>reconhecer e combater o câncer. O tratamento possui efeitos colaterais mínimos e</p><p>é realizado apenas uma vez, já que a edição genética é uma maneira de alterar</p><p>permanentemente o DNA para atacar as causas de uma doença. O CRISPR é</p><p>uma ferramenta para cortar o DNA em um lugar específico e, neste tratamento,</p><p>foram excluídos três genes que podem estar comprometendo a ação de defesa do</p><p>sistema imunológico, adicionando um novo recurso para fortificar o combate à</p><p>doença. Assim, as novas células editadas devem se multiplicar dentro do corpo e</p><p>agir como uma ‘droga viva’, podendo curar doenças genéticas.</p><p>A técnica já havia sido utilizada contra outras doenças. Em abril de 2016,</p><p>o periódico "Cell Reports" avaliou que a técnica precisava de ajustes para evitar</p><p>a ação do vírus da AIDS, com sua alta capacidade de mutação. Mais de um ano</p><p>depois, em maio de 2017, a revista "Molecular Therapy" publicou que cientistas da</p><p>Universidade Temple, na Filadélfia, conseguiram editar o código e evitar que o</p><p>vírus continuasse a se replicar em animais. Em agosto de 2017, a "Nature" publicou</p><p>pela primeira vez a modificação de genes defeituosos em embriões humanos para</p><p>evitar uma condição cardíaca hereditária. A pesquisa gerou embriões saudáveis,</p><p>que sem edição genética teriam desenvolvido a cardiomiopatia miotrífica —</p><p>doença que dificulta o bombeamento do sangue pelo coração.</p><p>Ainda existe bastante chão até os médicos chegarem em uma conclusão</p><p>sobre o resultado do tratamento. Mas, por enquanto, o doutor Stadtmauer afirmou</p><p>que as células editadas sobreviveram e se multiplicaram como pretendido. O</p><p>plano é tratar mais 15 pacientes e avaliar como eles se saem no programa, traçando</p><p>um panorama sobre como a edição de genes CRISPR pode ser utilizada para o</p><p>combate ao câncer.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>152</p><p>UNIDADE 2 — GENÉTICA CLÍNICA</p><p>FONTE: Adaptado de <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2018/11/27/entenda-o-cris-</p><p>pr-a-tecnica-de-edicao-de-dna-que-pode-ter-criado-bebes-resistentes-ao-hiv.ghtml>. Acesso</p><p>em: 10 jun. 2020.</p><p>FONTE: <https://olhardigital.com.br/noticia/medicos-combatem-cancer-com-edicao-genetica-</p><p>-pela-primeira-vez-nos-eua/92727>. Acesso em: 10 jun. 2020.</p><p>153</p><p>RESUMO DO TÓPICO 4</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• Câncer, neoplasia maligna ou tumor maligno são termos usados para</p><p>descrever mais de 100 doenças que têm em comum células com a capacidade</p><p>de se multiplicar de forma descontrolada, invadindo outros tecidos e causando</p><p>metástase.</p><p>• O processo de formação do câncer, ou carcinogênese, envolve as etapas de</p><p>iniciação, promoção e progressão, o que, em nível tecidual, se inicia com uma</p><p>hiperplasia, que evolui para displasia, câncer in situ e câncer invasivo.</p><p>• A homeostase celular depende do equilíbrio entre proliferação, diferenciação e</p><p>morte celular, enquanto que neoplasias malignas são caracterizadas por falhas</p><p>em um ou mais desses processos, o que resulta em proliferação descontrolada</p><p>e imortalidade.</p><p>• O ciclo celular é dividido em mitose e intérfase, que é subdividida nas fases G1,</p><p>S e G2. Entre essas fases existem pontos de checagem que conferem se a célula</p><p>está se replicando de forma adequada.</p><p>• A principal proteína responsável pelo controle do ciclo celular é a proteína</p><p>p53, conhecida como “guardiã do genoma”. Ela monitora a célula, detecta</p><p>erros, bloqueia a proliferação da célula alterada, ativa genes de reparo e ativa a</p><p>apoptose.</p><p>• Fenótipo mutador é a presença de translocações, aneuploidias, deleções</p><p>cromossômicas e duplicações do DNA que aumentam os riscos de câncer.</p><p>• Oncogenes codificam proteínas que contribuem para o fenótipo maligno da</p><p>célula tumoral. Eles são originados de genes comuns, que recebem o nome</p><p>de proto-oncogenes, e sua ativação envolve desde mutações pontuais até</p><p>translocações.</p><p>• As translocações podem levar à formação de proteínas de fusão, como a BCR/</p><p>ABL, t(9q;22q), encontrada na LMC e a proteína PML/RARA, t(15:17), detectada</p><p>na LPA.</p><p>• Os cânceres de mama e de pulmão são exemplos de malignidades que podem</p><p>ter origem hereditária. O câncer de mama está associado a mutações nos genes</p><p>supressores de tumor BRCA1 e BRCA2, enquanto o de pulmão está associado</p><p>a diversas mutações, amplificações, deleções e translocações.</p><p>154</p><p>Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem</p><p>pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao</p><p>AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.</p><p>CHAMADA</p><p>• Alguns tipos de vírus podem causar neoplasias malignas ao fundir seu material</p><p>genético ao da célula hospedeira, aumentando o risco de mutações. Dentre eles</p><p>estão o vírus HPV, os vírus da hepatite B e C, o vírus HTLV, o herpes vírus e o</p><p>Epstein-Barr.</p><p>155</p><p>1 Explique brevemente as etapas de formação do câncer, desde a mutação</p><p>em uma única célula somática até a formação do câncer invasivo com</p><p>metástase.</p><p>2 As células humanas carregam instruções para se autodestruírem diante de</p><p>condições alteradas ou patológicas. Acerca do processo pelo qual a célula</p><p>promove sua autodestruição de modo programado, assinale a alternativa</p><p>incorreta:</p><p>a) ( ) A principal proteína responsável pelo controle do ciclo celular é a</p><p>proteína p53, conhecida como “guardiã do genoma”.</p><p>b) ( ) A morte programada é importante durante a embriogênese e a perda</p><p>da capacidade de autodestruição pode levar a doenças autoimunes e ao</p><p>câncer.</p><p>c) ( ) A apoptose é o tipo mais estudado de morte celular regulada.</p><p>d) ( ) Pontos de checagem são etapas importantes da apoptose intrínseca e</p><p>extrínseca que controlam as etapas da morte celular.</p><p>3 Ana tem 30 anos e está preocupada com o risco de vir a desenvolver câncer</p><p>de mama, uma vez que sua mãe teve esse tipo de câncer aos 38 anos e</p><p>uma irmã, com 33 anos, apresentou recentemente um pequeno nódulo</p><p>maligno no seio esquerdo. Sabe-se que 5% das mulheres com câncer de</p><p>mama herdam uma mutação germinativa no gene BRCA, que determina</p><p>suscetibilidade ao câncer. Sobre a genética de tumores, assinale a alternativa</p><p>incorreta:</p><p>a) ( ) A função normal dos genes BRCA1 e BRCA2 é suprimir tumores, mas</p><p>quando mutados, aumentam as chances de desenvolver câncer de mama e</p><p>ovário.</p><p>b) ( ) Se Ana herdar a mutação, isso seria suficiente para causar-lhe câncer de</p><p>mama.</p><p>c) ( ) Oncogenes codificam proteínas que contribuem para o descontrole da</p><p>divisão celular e para o fenótipo maligno da célula tumoral.</p><p>d) ( ) Atualmente, existem testes genéticos que permitem a detecção de</p><p>mutações nos genes BCRA1 e BCRA2, como técnicas de sequenciamento.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>156</p><p>157</p><p>UNIDADE 3 —</p><p>TÓPICOS AVANÇADOS EM</p><p>GENÉTICA</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• conhecer os fundamentos das principais técnicas genéticas e de biologia</p><p>molecular realizadas na rotina laboratorial;</p><p>• entender o papel da Biomedicina no campo da genética e conhecer as</p><p>principais áreas de atuação;</p><p>• compreender o fundamento de outros conceitos importantes da genética,</p><p>como a farmacogenética e os alimentos transgênicos;</p><p>• refletir criticamente sobre a importância da ética no campo da genética.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade,</p><p>você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo</p><p>apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA</p><p>MOLECULAR</p><p>TÓPICO 2 – APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO</p><p>TÓPICO 3 – OUTRAS APLICAÇÕES DA GENÉTICA</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos</p><p>em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá</p><p>melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>158</p><p>159</p><p>UNIDADE 3</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Olá, acadêmico! Seja bem-vindo à terceira e última unidade da disciplina</p><p>de Genética Humana e Médica! Você iniciou esta</p><p>jornada aprendendo alguns</p><p>conceitos básicos na Unidade 1, como cariótipo, cromossomo, mitose, RNA e DNA.</p><p>Essa base adquirida na primeira unidade do nosso livro didático lhe permitiu</p><p>entender os princípios da hereditariedade na Unidade 2, na qual você estudou</p><p>a herança monogênica e multifatorial, dominante e recessiva, autossômica e</p><p>ligada ao sexo. Nesta segunda etapa de aprendizado, você também estudou dois</p><p>tópicos com aplicações muito importantes dentro da genética: a imunogenética e</p><p>a imunologia de tumores.</p><p>Neste tópico, você estudará as principais técnicas genéticas e de biologia</p><p>molecular utilizadas na rotina laboratorial, as quais são fundamentais para</p><p>a formação do profissional biomédico. Existem inúmeras técnicas utilizadas</p><p>para a detecção e acompanhamento de doenças genéticas como aquelas que</p><p>você conheceu na Unidade 2 deste livro. A escolha do protocolo específico será</p><p>baseada nas características da doença e/ou do gene envolvido, da experiência</p><p>e condições do laboratório a ser realizada a análise e do grau de confiabilidade</p><p>que se deseja atingir. Em termos gerais existem duas grandes áreas dentro de um</p><p>laboratório de genética: aquela que analisa os cromossomos e que é chamada</p><p>de citogenética clássica e aquela que analisa os genes e que recebe o nome de</p><p>genética molecular. É claro, acadêmico, que a compreensão completa a respeito</p><p>de cada etapa de execução das técnicas apresentadas neste livro ficará mais</p><p>evidente caso você desenvolva algum tipo de estágio na área ou se especialize</p><p>em genética laboratorial, porém, ao final desta unidade, esperamos que você seja</p><p>capaz de entender o fundamento e as principais aplicações de cada metodologia.</p><p>2 CITOGENÉTICA</p><p>Você aprendeu na Unidade 2 deste livro que muitas doenças genéticas são</p><p>causadas por distúrbios no número e na estrutura dos cromossomos: as alterações</p><p>numéricas geralmente são descritas como variações da ploidia do organismo,</p><p>enquanto que as alterações estruturais, por exemplo, a fusão de um fragmento de</p><p>um cromossomo com outro, é denominada rearranjo.</p><p>TÓPICO 1 —</p><p>PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA</p><p>MOLECULAR</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>160</p><p>Você também aprendeu que o cariótipo humano (mas também o animal</p><p>e vegetal) pode ser observado pelo cariograma, que corresponde à montagem de</p><p>imagens capturadas no microscópio em que os cromossomos são arranjados em</p><p>pares e em ordem decrescente (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013; SNUSTAD;</p><p>SIMMONS, 2017).</p><p>Se o médico suspeitar que a doença genética de um paciente é causada</p><p>por uma alteração cromossômica, ele irá solicitar a um laboratório de citogenética</p><p>a análise dos seus cromossomos. A citogenética é, portanto, a parte da genética</p><p>que estuda os cromossomos, sua função, estrutura, comportamento biológico e</p><p>patológico. A citogenética clássica necessita que as células estejam em divisão para</p><p>poder avaliar os cromossomos. A metáfase da mitose é a fase mais utilizada, pois</p><p>é quando os cromossomos estão mais condensados, o que facilita a visualização</p><p>de alterações. Já a citogenética molecular não depende de divisão celular, pois é</p><p>baseada principalmente na análise do DNA (genes). A citogenética molecular</p><p>compreende as técnicas de hibridação in situ por fluorescência (FISH), hibridação</p><p>genômica comparativa (CGH) e cariotipagem espectral (SKY), dentre outras</p><p>(CHAUFAILLE, 2005). Neste tópico iremos abordar a técnica de citogenética</p><p>clássica e a técnica de FISH.</p><p>2.1 CITOGENÉTICA CLÁSSICA</p><p>A citogenética clássica avalia os cromossomos a partir de células em</p><p>divisão. Para isso inicialmente são coletadas amostras de sangue, pele ou de</p><p>material obtido por amniocentese (feto) ou biopsia (tumores), como você pode</p><p>observar na Figura 1. Após a coleta do material biológico e envio para o laboratório,</p><p>as células do paciente serão cultivadas para que elas se multipliquem. Essa etapa</p><p>é feita em garrafas próprias para a cultura de células, com a adição de um meio</p><p>de cultura apropriado e de um mitógeno, que são substâncias que induzem a</p><p>célula a se dividir (mitose, por isso o termo mitógeno) (KULKARNI; AL-KATEB;</p><p>COTTRELL, 2016).</p><p>A segunda etapa da técnica consiste no preparo das células cultivadas</p><p>para a análise no microscópio. Em um primeiro momento é adicionada uma</p><p>substância chamada demecolcina, um quimioterápico utilizado para bloquear a</p><p>divisão celular. Esse inibidor da mitose faz com que os cromossomos se encontrem</p><p>na sua forma mais condensada e de melhor visualização, a metáfase. Em seguida</p><p>é adicionada uma solução hipotônica que lisa apenas as hemácias, eliminando-as</p><p>da amostra. Essa solução também irá inchar os leucócitos que serão visualizados,</p><p>ou seja, irá aumentar o seu volume. A amostra é então fixada com metanol e</p><p>ácido acético: a fixação é um processo químico utilizado na rotina laboratorial no</p><p>qual amostras biológicas são preservadas para posterior análise. Em uma terceira</p><p>etapa os leucócitos fixados são transferidos para uma lâmina e marcados com um</p><p>corante, de modo a ser mais fácil visualizá-los.</p><p>TÓPICO 1 — PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA MOLECULAR</p><p>161</p><p>Corantes como quinacrina e giemsa criam padrões de bandas úteis</p><p>na identificação individual dos cromossomos. Finalmente, a lâmina corada</p><p>é visualizada em um microscópio óptico e as imagens são fotografadas para</p><p>posterior análise. A partir da imagem obtida os cromossomos são organizados</p><p>segundo seu tamanho e tipo para formar o cariograma do paciente (KULKARNI;</p><p>AL-KATEB; COTTRELL, 2016; SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>A citogenética clássica é muito eficaz para detectar alterações numéricas</p><p>e estruturais dos cromossomos, no entanto, essa técnica possui a limitação de só</p><p>permitir a visualização de alterações maiores que 5 Mpb (5 milhões de pares de</p><p>bases), o que acaba limitando seu uso para pesquisas mais específicas. Além disso,</p><p>é uma técnica lenta, pois requer o cultivo das células em cultura, a preparação das</p><p>lâminas e a análise dos cromossomos um a um, o que requer pelo menos uma</p><p>semana (EUROGENTEST, 2009; MENCK; SLUYS, 2017).</p><p>FONTE: Adaptado de Kulkarni, Al-Kateb e Cottrell (2016)</p><p>FIGURA 1 - CITOGENÉTICA CLÁSSICA: PROCEDIMENTOS</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>162</p><p>BANDEAMENTO G</p><p>A técnica de citogenética clássica que usa coloração com o corante de Giemsa é cha-</p><p>mada de banda G ou bandeamento G (G de Giemsa). O corante Giemsa tem esse nome</p><p>em homenagem ao químico alemão Gustav Giemsa e é usado também no diagnóstico</p><p>histopatológico da malária e outros parasitas. O corante adere a regiões do DNA ricas</p><p>em ligações timina-adenina, por isso seu nome (banda G), pois ele produz um padrão</p><p>de bandas horizontais claras e escuras ao longo dos cromossomos. Esse padrão permite,</p><p>além da identifi cação exata de cada par cromossômico, a análise da sua estrutura e a</p><p>visualização de alterações estruturais como translocações e rearranjos.</p><p>O bandeamento G é a principal técnica molecular aplicada na citogenética para diagnós-</p><p>tico e confi rmação da síndrome de Down, por exemplo, que, como você viu na Unidade</p><p>2, é caracterizada pela presença de um cromossomo 21 a mais (KULKARNI; AL-KATEB;</p><p>COTTRELL, 2016).</p><p>IMPORTANTE</p><p>FIGURA – GUSTAV GIEMSA; EMBALAGEM DO CORANTE; CARIÓTIPO DE UM PORTADO</p><p>DE SÍNDROME DE DOWN</p><p>FONTE: <http://twixar.me/k2Wm>; <http://twixar.me/q2Wm>; <http://twixar.me/r2Wm>.</p><p>Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>2.2 HIBRIDIZAÇÃO IN SITU POR FLUORESCÊNCIA (FISH)</p><p>A citogenética clássica, apesar da sua importância histórica para o</p><p>ramo da Genética Clínica, apresenta muitas limitações quanto à sensibilidade e</p><p>especifi cidade, como você viu no tópico anterior. Assim, o desenvolvimento da</p><p>citogenética molecular aumentou substancialmente a capacidade de detecção de</p><p>anormalidades cromossômicas, pois não necessita de células em divisão, permite</p><p>a identifi cação de alterações menores e é capaz de analisar o DNA celular in situ,</p><p>ou seja,</p><p>dentro da célula. Assim, a principal vantagem da citogenética molecular,</p><p>TÓPICO 1 — PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA MOLECULAR</p><p>163</p><p>dentre elas a técnica de hibridização in situ por fluorescência (do inglês fuorescence</p><p>in situ hybridization, FISH), é que ela permite a detecção de anormalidades</p><p>específicas, ou seja, no alvo predeterminado (CHAUFAILLE, 2005).</p><p>A técnica de FISH baseia-se no uso de uma sequência de bases nitrogenadas</p><p>(a qual chamamos de sonda ou, em inglês, probe) que é complementar ao DNA</p><p>alvo que se pretende analisar. Assim, o termo hibridização refere-se à utilização</p><p>dessa sonda contendo a sequência conhecida de nucleotídeos que é complementar</p><p>a sequência de DNA que se deseja pesquisar (RIEGEL, 2014). Imagine, por</p><p>exemplo, acadêmico, que o médico suspeite que um paciente possua uma</p><p>mutação específica no cromossomo 8. Ele irá solicitar a coleta de sangue desse</p><p>paciente, o envio ao laboratório e a pesquisa da presença daquela mutação. Para</p><p>isso, uma sonda específica contendo a sequência desejada é adicionada à amostra.</p><p>Essa sonda, além da sequência de nucleotídeos, contém um corante fluorescente.</p><p>Se ocorrer a ligação da sonda com o DNA do paciente, o corante fluorescente</p><p>será detectado em um microscópio de fluorescência, o que indicará a presença da</p><p>mutação específica.</p><p>Na Figura 2 você pode observar as etapas principais da hibridização por</p><p>FISH. Como é possível utilizar sondas marcadas com diferentes fluoróforos, é</p><p>possível localizar vários genes de interesse simultaneamente. Além disso, tem</p><p>a vantagem de ser uma técnica rápida, específica e sensível (NEVES; GUEDES,</p><p>2012; MENCK; SLUYS, 2017).</p><p>A técnica de FISH é muito utilizada na clínica, tanto para detectar anomalias</p><p>genéticas quanto somáticas. Veja o exemplo mostrado na Figura 2. Na segunda</p><p>unidade do nosso livro didático, você aprendeu que a leucemia mieloide crônica</p><p>(LMC) é causada pela translocação de material genético entre os cromossomos 9</p><p>e 22. Essa translocação, escrita como t (9:22), é causada pela fusão de uma parte</p><p>do gene ABL1 do cromossomo 9 com parte do gene BCR do cromossomo 22.</p><p>O resultado é o gene de fusão anormal chamado BCR-ABL1, que resultará no</p><p>cromossomo anormal chamado cromossomo Filadélfia, presente na maioria dos</p><p>pacientes com LMC (SNUSTAD; SIMMONS, 2017). Pela técnica de FISH com a</p><p>utilização de duas sondas diferentes (uma emitindo fluorescência verde e a outra</p><p>emitindo fluorescência vermelha) é possível observar os genes BCR e ABL normais</p><p>(representados pelas fluorescências verde e vermelha, respectivamente) e o gene</p><p>fundido BCR/ABL representado pela sobreposição das duas fluorescências. Essa</p><p>fusão indica a presença da t (9:22).</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>164</p><p>FONTE: Adaptado de Halder (2012, p. 16); <https://image.slidesharecdn.com/ihcfishandflowcy-</p><p>tometry-170225051749/95/ihc-fish-and-flowcytometry-12-1024.jpg?cb=1487999900>. Acesso</p><p>em: 15 jun. 2020.</p><p>FIGURA 2 - PROCEDIMENTOS DA TÉCNICA DE FISH, FOTO ILUSTRATIVA EM MICROSCOPIA DE</p><p>FLUORESCÊNCIA E PRESENÇA DA T (9:22)</p><p>2.3 OUTRAS TÉCNICAS DE CITOGENÉTICA MOLECULAR</p><p>Além da técnica de FISH, outras técnicas de citogenética molecular se</p><p>destacam, como a técnica de cariótipo espectral (SKY), a técnica de hibridização</p><p>genômica comparativa (CGH) e a técnica de hibridação genômica comparativa</p><p>por microarranjos (CGH-array) (Figura 3). A técnica de SKY permite observar</p><p>simultaneamente os 24 pares de cromossomos através de um coquetel de sondas</p><p>que identificam cada par de maneira diferenciada. Esse coquetel é formado por</p><p>uma mistura de cinco fluorocromos com diferentes espectros e as imagens são</p><p>adquiridas em um microscópio de epifluorescência. A técnica CGH consiste na</p><p>marcação do DNA do paciente com um fluorocromo verde e, então, na sua mistura</p><p>com DNA controle marcado com um fluorocromo vermelho. A proporção de</p><p>fluorescência verde e vermelha, ou seja, a razão entre a intensidade do sinal obtido</p><p>entre a amostra-teste e o controle, possibilita identificar pequenos segmentos de</p><p>DNA deficientes (microdeleção) ou em excesso (microduplicação). A diferença</p><p>essencial entre o CGH e o CGH-array é que a primeira é realizada em células em</p><p>TÓPICO 1 — PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA MOLECULAR</p><p>165</p><p>divisão, enquanto que a segunda usa a hibridização com uma série de sequências</p><p>genômicas conhecidas e fixas em uma lâmina (HALDER, 2012; RIEGEL, 2014;</p><p>SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>Atualmente há uma tendência mundial em se utilizar o CGH-array como</p><p>primeiro exame de investigação genética em crianças com anomalias congênitas</p><p>e déficit cognitivo, pois este é um método sensível que permite detectar um maior</p><p>número de anormalidades cromossômicas (na ordem de 20%, contra 3% usando</p><p>cariótipo convencional). As principais desvantagens dessas técnicas de citologia</p><p>molecular é que elas requerem kits e equipamentos próprios, além de profissionais</p><p>treinados, o que aumenta o custo dos exames e limita seu uso (MENCK; SLUYS,</p><p>2017).</p><p>FONTE: Adaptado de Dorritie et al. (2004); D’amours (2013, p. 28)</p><p>FIGURA 3 - PRINCÍPIOS DAS TÉCNICAS DE CITOLOGIA MOLECULAR SKY, CGH E CGH-ARRAY</p><p>3 BIOLOGIA MOLECULAR</p><p>Você deve imaginar, acadêmico, que, ao contrário dos cromossomos,</p><p>o DNA não pode ser visto através do microscópio. Por isso, quando o médico</p><p>suspeita da presença de mutações em um gene, ele irá encaminhar o paciente</p><p>para um laboratório, onde serão coletadas amostras de sangue e, a partir dele,</p><p>o geneticista molecular irá extrair o DNA das células do paciente e usá-lo para</p><p>realizar testes específicos. Apesar de ser uma área ainda recente, existem várias</p><p>técnicas disponíveis atualmente para detectar alterações gênicas e para avaliar a</p><p>presença de doenças genéticas. A Genética Molecular é baseada no ramo da Biologia</p><p>chamado Biologia Molecular, que estuda as interações bioquímicas e celulares</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>166</p><p>envolvidas na duplicação do material genético e na síntese proteica. Os exames</p><p>realizados por Biologia Molecular funcionam basicamente pela amplificação do</p><p>DNA do material a ser estudado, são altamente sensíveis e específicos e esta é</p><p>uma das áreas de maior potencial para a realização de pesquisas na área clínica</p><p>(MENCK; SLUYS, 2017).</p><p>A seguir, iremos apresentar algumas das técnicas utilizadas em biologia</p><p>molecular com aplicações na genética: a extração do DNA, a eletroforese de</p><p>proteínas, a reação em cadeia da polimerase (PCR) e o sequenciamento.</p><p>3.1 EXTRAÇÃO E PURIFICAÇÃO DE DNA/RNA</p><p>Como vimos, acadêmico, a primeira etapa de uma análise genética</p><p>por biologia molecular é a extração do material genético de dentro da célula.</p><p>Praticamente qualquer tecido que contenha células nucleadas pode ser utilizado</p><p>para a obtenção de DNA ou RNA, porém, por razões práticas, a principal fonte</p><p>usada na rotina laboratorial são os leucócitos (glóbulos brancos) do sangue</p><p>periférico. Para isso, acadêmico, o sangue deve ser coletado por punção venosa</p><p>em tubo contendo o anticoagulante EDTA, devendo-se evitar a heparina, pois este</p><p>anticoagulante interfere com a reação de PCR que você verá nos próximos itens.</p><p>Outra alternativa que vem sendo cada vez mais utilizada por ser um</p><p>método não invasivo é a extração de material genético a partir de raspado bucal.</p><p>Após a obtenção do material, a extração e purificação dos ácidos nucleicos</p><p>podem ser realizadas por protocolos que utilizam reagentes preparados no</p><p>próprio laboratório (o que chamamos de métodos in house) ou através do uso</p><p>de kits comerciais. Em geral, todos os protocolos de extração de DNA envolvem</p><p>as seguintes etapas (PEREIRA; LEISTNER; MATTE, 2001; ALVES; SOUZA,</p><p>2013) (Figura 4):</p><p>• Rompimento das membranas: primeiramente é preciso isolar as células</p><p>nucleadas do tecido (quando necessário) e realizar o rompimento das</p><p>membranas celular e nuclear para expor o DNA. A lise</p><p>de membranas</p><p>celulares é realizada com soluções detergentes que desestabilizam os lipídios</p><p>das membranas, liberando os ácidos nucleicos.</p><p>• Ligação à sílica: em todos os kits são utilizadas membranas ou colunas de sílica</p><p>nas quais o DNA se liga, o que permite a retenção e concentração do material.</p><p>• Lavagens: uma vez que o DNA se ligou à sílica é preciso eliminar as demais</p><p>substâncias presentes na amostra. Essa etapa de purificação é feita com</p><p>sucessivas centrifugações a fim de eliminar proteínas e gorduras contaminantes</p><p>e de deixar apenas a sílica com DNA. Os restos celulares precipitam para o</p><p>fundo do tubo após a centrifugação, assim o sobrenadante contendo os ácidos</p><p>nucleicos é transferido para outro tubo no qual será adicionado etanol 70%.</p><p>• Eluição: agora que os resíduos da amostra já foram removidos na etapa</p><p>anterior, o último processo consiste em liberar o DNA da sílica. O resultado</p><p>deste processo é a obtenção do DNA isolado e purificado.</p><p>TÓPICO 1 — PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA MOLECULAR</p><p>167</p><p>FONTE: <http://3.bp.blogspot.com/-xFlP9EoLpxk/VencENrn7HI/AAAAAAAABxo/_cz2Q1axDXM/</p><p>s640/tecnica-biologia-molecular-extracao-dna-biomedicina.bmp>; <https://escoladigital-pro-</p><p>duction-storage.s3.amazonaws.com/uploads/20191122233124.jpeg>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>FIGURA 4 - ETAPAS DE EXTRAÇÃO DO DNA</p><p>Em casos em que se deseja avaliar e expressão gênica pode ser necessário</p><p>isolar o RNA das amostras no lugar de DNA. Os métodos para isolamento de RNA</p><p>também se baseiam na lise celular e na liberação dos ácidos nucleicos, assim como</p><p>na extração de DNA, porém diferente deste, o RNA é uma molécula altamente</p><p>instável, por isso o processo deve ser realizado na presença de inibidores que</p><p>impedem a ação de ribonucleases (RNases).</p><p>As RNases estão presentes em todos os lugares, acadêmico, no material</p><p>biológico do paciente, nas mãos do profissional que fará a análise e no meio</p><p>ambiente em geral, e essa é a principal dificuldade na extração de RNA, pois</p><p>faz com que o RNA seja rapidamente degradado. Por isso, a primeira etapa dos</p><p>protocolos é a adição de tampões de extração que contenham, por exemplo,</p><p>isotiocianato de guanidina, uma substância que degrada as RNases e garante a</p><p>integridade do material. Atualmente existem diversos kits comerciais específicos</p><p>para a extração eficiente de RNA (BITENCOURT et al., 2011).</p><p>3.2 ELETROFORESE</p><p>A eletroforese é uma das principais técnicas utilizadas em biologia</p><p>molecular e foi proposta pela primeira vez em 1937 pelo bioquímico Arne Tisélius.</p><p>Ela permite a separação e a identificação de macromoléculas como DNA, RNA</p><p>e proteínas. O princípio da técnica de eletroforese consiste na migração das</p><p>moléculas presentes em um gel de acordo com o seu tamanho (peso molecular)</p><p>e carga elétrica durante a aplicação de uma diferença de potencial (corrente</p><p>elétrica), conforme pode ser observado na Figura 5 (ALVES; SOUZA, 2013;</p><p>PEREIRA; LEISTNER; MATTE, 2011).</p><p>Para realizar uma eletroforese, o DNA extraído do material biológico deve</p><p>ser aplicado em um gel feito de agarose ou de poliacrilamida. O gel contendo as</p><p>amostras é colocado em um suporte (fase semimóvel), também chamado de cuba</p><p>eletrolítica, que possui dois polos, um com carga negativa (cátodo) e outro com</p><p>carga positiva (ânodo). Na cuba, o gel é, então, coberto por um tampão salino,</p><p>em geral TAE (Tris-Acetato-EDTA) ou TBE (Tris-Borato-EDTA) e é através deste</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>168</p><p>tampão que a corrente elétrica é conduzida. Como os grupos fosfatos do DNA</p><p>possuem carga negativa, a amostra “corre” do polo negativo para o positivo. O</p><p>tempo de corrida varia com o tamanho do fragmento que se deseja visualizar:</p><p>fragmentos maiores necessitam de mais tempo de corrida, enquanto que</p><p>fragmentos menores correm mais rápido. No final do procedimento, a distância</p><p>que a amostra percorreu é comparada a um padrão chamado de “marcador de</p><p>peso molecular”, o qual permite a identificação do fragmento desejado, a qual</p><p>chamamos de banda. Para a visualização das bandas é usado um corante que</p><p>emite fluorescência sob a luz UV, como o brometo de etídio, e o gel é lido em um</p><p>aparelho chamado transiluminador (OLIVEIRA et al., 2007, PEREIRA; LEISTNER;</p><p>MATTE, 2011, ALVES; SOUZA, 2013).</p><p>FIGURA 5 - ETAPAS DA ELETROFORESE EM GEL DE AGAROSE</p><p>FONTE: <https://www.sobiologia.com.br/conteudos/Biotecnologia/eletroforese.php>. Acesso</p><p>em: 15 jun. 2020.</p><p>Em 1975, o pesquisador Ed Southern publicou um método revolucionário</p><p>que permitia localizar genes importantes em fragmentos de DNA separados</p><p>por eletroforese em gel. O diferencial dessa técnica é que, após a separação,</p><p>as moléculas de DNA eram transferidas para membranas de nitrocelulose ou</p><p>náilon, o que permitia sua marcação com sondas fluorescentes. Esse processo de</p><p>transferência do DNA do gel para a membrana foi chamado de Southern blot</p><p>(Figura 6). Alguns anos depois foi desenvolvida uma técnica similar de detecção</p><p>TÓPICO 1 — PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA MOLECULAR</p><p>169</p><p>de moléculas de RNA chamada Northern blot. O uso de RNA no lugar de DNA</p><p>permitia a análise da expressão dos genes em diferentes circunstancias, porém,</p><p>como o RNA é muito mais sensível à degradação, era preciso ter maior cuidado</p><p>para evitar contaminações. Finalmente, uma técnica que permitia a análise de</p><p>proteínas foi desenvolvida: ela recebeu o nome de Western blot e é extremamente</p><p>importante para a pesquisa e para a clínica. O western blot, através do uso de</p><p>anticorpos primários e secundários específicos, permite identificar a expressão de</p><p>uma infinidade de proteínas (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>FIGURA 6 - ETAPAS DAS TÉCNICAS DE SOUTHERN BLOT (DNA) E NORTHERN BLOT (RNA)</p><p>FONTE: Adaptado de <http://www.biorede.pt/page.asp?id=1177>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>3.3 REAÇÃO EM CADEIRA DA POLIMERASE (PCR)</p><p>Um marco essencial para a aplicação dos fundamentos de biologia</p><p>molecular na rotina laboratorial foi o desenvolvimento da técnica da reação em</p><p>cadeia da polimerase (do inglês, Polymerase Chain Reaction — PCR) (PEREIRA;</p><p>LEISTNER; MATTE, 2001). O fundamento da PCR consiste na multiplicação</p><p>de qualquer região do genoma em milhões de cópias através da enzima DNA</p><p>polimerase, o que permite o desenvolvimento de técnicas de diagnóstico muito</p><p>mais sensíveis e específicas. Atualmente, a PCR possui inúmeras aplicações</p><p>em diversas áreas da pesquisa e da clínica e, no âmbito da genética, permite</p><p>a identificação de mutações e/ou polimorfismos em amostras biológicas de</p><p>pacientes (ALVES; SOUZA, 2013).</p><p>Para que se possa amplificar um segmento de DNA específico na qual se</p><p>suspeite que haja a presença de uma mutação, é necessário saber as partes finais</p><p>da sequência de nucleotídeos. Sabendo disso, a reação de PCR é preparada a</p><p>partir dos seguintes componentes (PEREIRA; LEISTNER; MATTE, 2001; ALVES;</p><p>SOUZA, 2013; OLIVEIRA et al., 2007; MENCK; SLUYS, 2017):</p><p>• uma solução contendo a amostra de DNA que se quer amplificar, chamado</p><p>DNA alvo (esse DNA pode ser extraído de amostras de sangue, de culturas de</p><p>microrganismos, de espécimes clínicos, de plantas etc.);</p><p>• uma enzima DNA polimerase estável ao calor (chamada Taq polimerase)</p><p>que sintetiza novas fitas de DNA a partir da adição de novos nucleotídeos</p><p>complementares ao DNA alvo;</p><p>• quatro tipos de nucleotídeos com as bases nitrogenadas A, T, C e G (chamados</p><p>de dNTPs), essenciais para a formação de novo DNA;</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>170</p><p>• dois oligonucleotídeos chamados primers que são sequências de nucleotídeos</p><p>complementares às duas extremidades (5’ e 3’) do fragmento de DNA a ser</p><p>amplificado. Os primers são sintetizados em laboratórios especializados e</p><p>comprados para serem usados na técnica;</p><p>• tampão de reação que fornece as condições de pH ideais para a reação, além de</p><p>cofatores</p><p>como o cloreto de magnésio.</p><p>Após o preparo da mistura para a reação, a amostra é colocada em um</p><p>aparelho chamado termociclador que realiza uma série repetida de ciclos térmicos</p><p>(em média de 30 a 40 ciclos) alternando entre temperaturas altas e temperaturas</p><p>mais baixas. Em termos gerais, a alta temperatura causa a desnaturação da</p><p>molécula de DNA e a abertura das fitas, enquanto que a diminuição da temperatura</p><p>permite a ligação do DNA alvo aos oligonucleotídeos complementares (primers)</p><p>(ALVES; SOUZA, 2013; OLIVEIRA et al., 2007). Assim, a técnica de PCR constitui-</p><p>se de uma série repetida de ciclos envolvendo os seguintes passos (Figura 7):</p><p>1. Desnaturação do DNA: nessa etapa, o aquecimento da reação a 90-95 °C pelo</p><p>termociclador resulta na quebra das pontes de hidrogênio da molécula de</p><p>DNA, o que faz com que ele perca sua estrutura de dupla-hélice, abra as fitas</p><p>duplas e passe a se apresentar como duas fitas simples.</p><p>2. Anelamento (hibridização dos primers): a reação é resfriada para permitir a</p><p>ligação do primer com o DNA alvo de fita simples. Cada primer possui uma</p><p>temperatura de anelamento ideal específica de acordo com a sua composição</p><p>em pares de base. Assim, a temperatura dessa fase é variável e sempre irá</p><p>depender do ponto de fusão (Tm, do inglês melting temperature) do primer</p><p>usado.</p><p>3. Extensão do DNA: a síntese de novo DNA a partir do molde da fita simples</p><p>original ocorre com o aquecimento da solução a 72 °C, temperatura ótima para</p><p>a Taq DNA polimerase. A enzima sintetiza a nova fita a partir dos dois primers</p><p>de oligonucleotídeos usando os nucleotídeos (dNTPs) que foram adicionados</p><p>ao tampão e que são sempre complementares à fita-molde. Dessa maneira, são</p><p>formadas novas fitas de DNA de dupla hélice, correspondente a região-alvo de</p><p>amplificação (delimitada pelos primers).</p><p>Após o término de um ciclo (desnaturação, anelamento e extensão),</p><p>todo o processo é repetido várias vezes até que se obtenha grande quantidade</p><p>do DNA a ser amplificado. A cada ciclo de amplificação, o número de cópias</p><p>da sequência-alvo é duplicado e, com a evolução dos ciclos da reação, ocorre</p><p>aumento exponencial do número dessas sequências. O aumento do número de</p><p>ciclos não é aconselhado, em decorrência da redução da especificidade da reação</p><p>(OLIVEIRA et al., 2007).</p><p>TÓPICO 1 — PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA MOLECULAR</p><p>171</p><p>FIGURA 7 - ETAPAS DA REAÇÃO EM CADEIA DA POLIMERASE (PCR)</p><p>FONTE: Adaptado de <https://mesuturkey.files.wordpress.com/2014/04/pcr.jp-</p><p>g?w=500&h=584>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>3.4 VARIAÇÕES DA TÉCNICA DE PCR</p><p>Com o desenvolvimento da Biologia Molecular como ciência, acadêmico,</p><p>a PCR passou a ser mais e mais aprimorada e seu protocolo básico sofreu</p><p>alterações que ampliaram o uso da técnica para diferentes finalidades. Algumas</p><p>dessas variações receberam nomes específicos e se tornaram muito utilizadas</p><p>em laboratórios pelo mundo, inclusive na área da genética médica. A seguir</p><p>apresentaremos algumas dessas técnicas.</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>172</p><p>1. RT-PCR: o nome RT-PCR deriva do princípio da técnica que consiste em</p><p>uma reação da enzima transcriptase reversa seguida de reação em cadeia da</p><p>polimerase. Em outras palavras é uma PCR realizada a partir de uma molécula</p><p>de RNA mensageiro (mRNA). Como o mRNA é uma molécula instável, é</p><p>preciso usar a enzima transcriptase reversa para sintetizar uma fita de DNA</p><p>complementar (chamada cDNA) a ela. Para isso são usados primers especiais</p><p>constituídos apenas de uma sequência de nucleotídeos T (chamados primers</p><p>oligo dT) que irão se ligar à terminação poli A do mRNA e, assim, obter o</p><p>cDNA (para revisar a estrutura do RNA e do DNA, acadêmico, revise a</p><p>Unidade 1 deste livro). Após a obtenção do cDNA é feita uma reação de PCR</p><p>normal (Figura 8) (PEREIRA; LEISTNER; MATTE, 2001).</p><p>FIGURA 8 - TÉCNICA DE RT-PCR</p><p>FONTE: Adaptado de <http://twixar.me/0HWm>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>2. PCR Multiplex: é uma variação da técnica normal de PCR, na qual são</p><p>amplificados simultaneamente mais de um fragmento de DNA em um mesmo</p><p>tubo de reação. Neste caso, são utilizados mais de um par de primers que</p><p>hibridizam em regiões distintas do DNA. A PCR multiplex permite, assim, a</p><p>detecção de múltiplas mutações em uma única análise (Figura 9) (PEREIRA;</p><p>LEISTNER; MATTE, 2001).</p><p>TÓPICO 1 — PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA MOLECULAR</p><p>173</p><p>FIGURA 9 - ETAPAS DA PCR MULTIPLEX</p><p>FIGURA 10 - SEQUÊNCIA DA TÉCNICA DE NESTED-PCR</p><p>FONTE: https://old.abmgood.com/marketing/knowledge_base/img/PCR/Multiplex_PCR.png>.</p><p>Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>3. Nested PCR: é uma variação usada para aumentar a sensibilidade e a</p><p>especificidade do DNA amplificado. Nessa técnica são utilizados dois grupos</p><p>de primers em duas reações sucessivas. Na primeira PCR usa-se o primeiro par</p><p>de primers; o produto gerado pode conter regiões amplificadas que não faziam</p><p>parte do DNA alvo (devido a reações inespecíficas). O produto da primeira PCR</p><p>é então utilizado como modelo para a segunda PCR usando o segundo par de</p><p>primers e aumentando a especificidade da reação (Figura 10) (WILCZYNSKI,</p><p>2009). Imagine, acadêmico, que se trata de “uma PCR da PCR”.</p><p>FONTE: Adaptado de <https://old.abmgood.com/marketing/knowledge_base/img/PCR/Nest-</p><p>ed_PCR.png>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>174</p><p>4. PCR em tempo real (qPCR): também chamada de PCR quantitativa, a qPCR</p><p>permite a coleta de dados durante a amplificação do DNA e não apenas no</p><p>final do processo como a PCR tradicional. Isso é possível graças ao uso de</p><p>corantes que se ligam ao DNA, como o corante SYBR Green ou, de maneira</p><p>ainda mais específica, com o uso de sondas especiais ligadas à enzima Taq</p><p>DNA polimerase (sondas TaqMan). Assim, a qPCR combina a técnica de PCR</p><p>convencional (que consiste na amplificação do DNA) com uma técnica de</p><p>detecção e quantificação desse DNA por fluorescência. Todos esses processos</p><p>ocorrem de forma simultânea em uma única etapa, o que permite obter</p><p>resultados mais rápidos e com maior precisão (ARYA et al., 2005).</p><p>Para saber mais sobre a rotina de um laboratório de Citogenética e Genética</p><p>Molecular, leia o Guia de Boas Práticas Laboratoriais fornecido pela Unicamp, disponível no</p><p>endereço: https://www2.ib.unicamp.br/caeb/Eduardo%20Becker/art%2016.pdf.</p><p>DICAS</p><p>4 SEQUENCIAMENTO</p><p>Você viu nas unidades anteriores deste livro, acadêmico, que o genoma</p><p>humano tem aproximadamente três bilhões de bases A, T, C e G que se organizam</p><p>em sequências de DNA como longas fitas. Você também viu que cada ser humano</p><p>possui duas cópias desse genoma, uma herdada do pai e outra herdada da mãe.</p><p>Assim, quando falamos em sequenciamento genético estamos nos referindo</p><p>a uma técnica que lê um a um cada nucleotídeo da sequência de DNA de um</p><p>organismo, o que permite, em longo prazo, decifrar todo o seu genoma.</p><p>O Projeto Genoma Humano, concluído no ano 2002, tinha a finalidade de</p><p>mapear todo o genoma humano pela técnica de sequenciamento. Imagine que</p><p>essa é uma tarefa tão complexa que levou anos para ser realizada e, no final, se</p><p>nosso genoma fosse impresso na forma de um livro, ele teria cerca de 840 mil</p><p>páginas! (ALVES; SOUZA, 2013).</p><p>A técnica de sequenciamento tradicional é feita pelo método de Sanger</p><p>(Figura 11) que consiste na incorporação aleatória de ddNTPs (dideoxinucleotídeos</p><p>trifosfatos) em uma fita de DNA alvo pela enzima DNA polimerase. A diferença</p><p>entre ddNTPs e dNTPs é que os primeiros não possuem uma hidroxila na região</p><p>3’ o que paralisa a síntese sempre que um ddNTP é incorporado, resultado na</p><p>formação de fragmentos de DNA de diferentes tamanhos (MENCK; SLUYS,</p><p>2017).</p><p>TÓPICO 1 — PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA MOLECULAR</p><p>175</p><p>A primeira etapa da reação consiste na desnaturação da molécula</p><p>de DNA, formando</p><p>(10 trilhões) de células? Esse número enorme de unidades</p><p>que formam nossos tecidos e órgãos não é constante, ou seja, nosso corpo está</p><p>permanentemente perdendo células mortas e dividindo as células existentes</p><p>para repor aquelas perdidas. Além disso, cada uma dessas células, com exceção</p><p>das células vermelhas do sangue, contém todo o nosso genoma, isto é, toda a</p><p>sequência de 3,2 bilhões de pares de base que formam o nosso material genético</p><p>(VARGAS, 2014).</p><p>Se isso é verdade, por que temos diferentes células em nosso corpo? Na</p><p>verdade, nossas células diferem quanto a sua aparência e atividade, pois cada</p><p>uma delas ativa apenas alguns tipos de genes. A isso damos o nome de expressão</p><p>gênica. Assim, a expressão de diferentes subconjuntos de genes impulsiona a</p><p>divisão, a diferenciação e a especialização dos diferentes tipos celulares.</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>4</p><p>Como você deve lembrar, as células dão origem aos quatro tipos básicos</p><p>de tecidos humanos (epitelial, nervoso, conjuntivo e muscular), os quais, por sua</p><p>vez, dão origem aos órgãos (LEWIS, 2010). A estrutura básica de uma célula pode</p><p>ser vista na Figura 1 e a função das principais organelas celulares, no Quadro 1.</p><p>FIGURA 1 - ESTRUTURA ESQUEMÁTICA DE UMA CÉLULA EUCARIÓTICA</p><p>FONTE: <http://player.slideplayer.es/11/3297162/data/images/img5.jpg>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>QUADRO 1 - ESTRUTURA E FUNÇÃO DAS ORGANELAS CELULARES</p><p>ESTRUTURA E FUNÇÃO DAS ORGANELAS CELULARES</p><p>ORGANELA ESTRUTURA FUNÇÃO</p><p>Núcleo</p><p>Limitada por uma</p><p>membrana nuclear,</p><p>contém DNA.</p><p>Controlar a expressão gênica e</p><p>mediar a replicação do DNA.</p><p>Mitocôndria</p><p>Dupla membrana:</p><p>membrana interna e</p><p>externa.</p><p>Produção de energia a partir</p><p>de nutrientes, participação em</p><p>processos de morte celular.</p><p>Complexo de</p><p>Golgi</p><p>Conjunto de</p><p>compartimentos</p><p>achatados defi nidos por</p><p>membranas.</p><p>Síntese de polissacarídeos,</p><p>centro de armazenamento,</p><p>transformação, empacotamento e</p><p>remessa de substâncias.</p><p>Lisossomo Saco contendo enzimas</p><p>digestivas.</p><p>Degradar partículas e reciclar</p><p>conteúdos celulares.</p><p>TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO À GENÉTICA</p><p>5</p><p>Retículo</p><p>endoplasmático</p><p>Rede de túbulos e</p><p>vesículas achatadas e</p><p>interconectadas que</p><p>se comunicam com o</p><p>núcleo.</p><p>Síntese e empacotamento de</p><p>proteínas e lipídios.</p><p>Peroxissomo Saco contendo enzimas.</p><p>Quebra de diversas moléculas</p><p>participando da desintoxicação</p><p>celular.</p><p>Ribossomo</p><p>Duas subunidades</p><p>globulares associadas de</p><p>RNA e proteína.</p><p>Participa da síntese proteica.</p><p>Vesícula Saco envolto por uma</p><p>bicamada lipídica.</p><p>Armazenar e transportar</p><p>substâncias.</p><p>FONTE: Adaptado de Lewis (2010)</p><p>2.1 CROMOSSOMOS HUMANOS</p><p>Você também deve recordar, acadêmico, que em organismos eucariotos</p><p>como o homem, o material genético é isolado e compartimentalizado no interior de</p><p>uma organela chamada núcleo. Dentro do núcleo, possuímos aproximadamente</p><p>23 mil genes em 46 cromossomos. Como você verá detalhadamente no Tópico 3</p><p>desta unidade, todas as nossas características são determinadas por esses genes,</p><p>localizados no nosso DNA, o qual, por sua vez, formam os cromossomos (LEWIS,</p><p>2010, SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>Em nível estrutural, as principais partes de um cromossomo serão</p><p>descritas a seguir e podem ser observadas na Figura 2:</p><p>• Cromatídes: resultado da duplicação de um cromossomo, é cada um dos dois</p><p>filamentos de DNA.</p><p>• Centrômero: região onde as cromátides-irmãs entram em contato, ou seja, local</p><p>onde o cromossomo é dividido em dois braços.</p><p>• Telômeros: localizados nos extremos dos cromossomos, são estruturas</p><p>constituídas por fileiras repetitivas e protegem o DNA.</p><p>FIGURA 2 - ESTRUTURA DE UM CROMOSSOMO</p><p>FONTE: <http://twixar.me/xRWm>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>6</p><p>Os cromossomos são classificados de acordo com a posição dos</p><p>centrômeros da seguinte forma, melhor observada na Figura 3:</p><p>• Metacêntrico: o centrômero é central, logo os dois braços dos cromossomos</p><p>possuem o mesmo tamanho.</p><p>• Submetacêntrico: o centrômero fica um pouco deslocado da região central, por</p><p>isso os braços têm tamanhos diferentes.</p><p>• Acrocêntrico: o centrômero fica localizado mais próximo de uma das</p><p>extremidades e, por conta disso, um dos braços fica bem maior que o outro.</p><p>• Telocêntrico: o centrômero fica localizado em uma das extremidades e o</p><p>cromossomo passa a ter apenas um braço.</p><p>FIGURA 3 - CLASSIFICAÇÃO DOS CROMOSSOMOS DE ACORDO COM A POSIÇÃO DO CEN-</p><p>TRÔMERO</p><p>FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/ncleo-120606064756-phpapp01/95/ncleo-7-1024.</p><p>jpg?cb=1338965391>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>2.2 CARIÓTIPO HUMANO</p><p>Com relação ao número de cromossomos, nosso corpo possui dois tipos</p><p>de células: as células diploides e as células haploides.</p><p>Nossas células somáticas (aquelas responsáveis por formar tecidos</p><p>e órgãos) possuem dois conjuntos cromossômicos organizados em 23 pares,</p><p>formando um número diploide (2n) de 46 cromossomos. Esse conjunto é</p><p>chamado de cariótipo. Dos 23 pares de cromossomos que formam o cariótipo</p><p>humano, 22 são semelhantes tanto no homem quanto na mulher e são chamados</p><p>de autossômicos. O par restante é chamado de cromossomos sexuais, possuem</p><p>morfologia diferenciada e determinam o sexo do indivíduo: XX se for mulher e</p><p>XY se for homem (BORGES-OSORIO; ROBINSON, 2013).</p><p>TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO À GENÉTICA</p><p>7</p><p>Cada par autossômico, numerado de 1 a 22, possui dois cromossomos</p><p>iguais (quanto ao tamanho e formato) e com os mesmos genes, chamados</p><p>de cromossomos homólogos. Um deles é derivado do gameta materno, o</p><p>oócito (ovócito) e, o outro, do gameta paterno, o espermatozoide. O oócito</p><p>e o espermatozoide são células especiais chamadas células reprodutivas,</p><p>germinativas ou gametas e são as únicas células haploides (n) do nosso corpo,</p><p>ou seja, possuem apenas um conjunto cromossômico. A presença da metade dos</p><p>cromossomos (23) garante que, após a fecundação dos gametas (23 cromossomos</p><p>do oócito + 23 cromossomos do espermatozoide), o número de cromossomos</p><p>diploide (46) seja restabelecido. Como você verá a seguir, as células somáticas se</p><p>dividem por um processo chamado mitose e as células germinativas por outro</p><p>processo chamado meiose (SNUSTAD; SIMMONS, 2017). Na Figura 4, você</p><p>pode observar as principais características das células somáticas e germinativas e</p><p>também um cariótipo humano de um indivíduo do sexo masculino.</p><p>FIGURA 4 - CÉLULAS SOMÁTICAS E GERMINATIVAS E CARIÓTIPO HUMANO</p><p>FONTE: Adaptado de <http://www.worksheeto.com/post_karyotype-worksheet-answers-biolo-</p><p>gy_203722/>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>8</p><p>Os alelos são as formas alternativas de um determinado gene e ocupam um</p><p>mesmo loco em cromossomos homólogos. Existem dois termos que diferenciam os alelos</p><p>que estão presentes em um indivíduo e aqueles que são expressos. O genótipo refere-</p><p>se à informação genética do indivíduo, ou seja, aos alelos existentes. Já o fenótipo é a</p><p>expressão do genótipo, ou seja, é o traço visível, a mudança bioquímica ou o efeito na</p><p>saúde (alelos expressos). Os alelos são diferenciados pelo número de cópias necessárias</p><p>para afetar o fenótipo. Um alelo dominante tem efeito quando presente em apenas uma</p><p>cópia (em um cromossomo). Já um alelo recessivo deve estar presente em ambos os</p><p>cromossomos para ser expresso (MENCK; SLUYS, 2017).</p><p>NOTA</p><p>FONTE: <https://i0.wp.com/trabalhosparaescola.com.br/wp-content/uploads/2019/02/</p><p>genotipo-e-fenotipo.jpeg?fit=600%2C283&ssl=1>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FENÓTIPO E GENÓTIPO</p><p>3 CICLO CELULAR, REGULAÇÃO E APOPTOSE</p><p>Agora, acadêmico, iremos, primeiramente, apresentar a você o ciclo</p><p>celular de uma célula somática. Em seguida apresentaremos o conceito de célula-</p><p>tronco e discutiremos sobre mitose e meiose de células germinativas.</p><p>O ciclo celular descreve se uma célula está se dividindo (mitose) ou não</p><p>(intérfase). A interfase é o período entre duas mitoses, ou seja, é o período no</p><p>qual a célula não está se dividindo, e sim realizando suas funções ou reunindo</p><p>as condições necessárias para</p><p>fitas simples que servirão de molde para a DNA</p><p>polimerase. É necessária a presença de sequências iniciadoras, os</p><p>primers, para que a DNA polimerase possa começar a atuar. Além</p><p>disso, a solução deve conter baixas concentrações de ddNTP e altas</p><p>concentrações de dNTP. No decorrer da reação, a DNA polimerase</p><p>utiliza os dNTPs para a síntese na nova fita de DNA até que,</p><p>aleatoriamente, utiliza uma ddNTP, a qual, por não possuir uma</p><p>hidroxila na posição 3’, interrompe a polimerização da nova cadeia.</p><p>A inclusão de marcadores fluorescentes de cores diferentes para</p><p>cada ddNTP permite a identificação da cadeia truncada (que não foi</p><p>capaz de terminar a polimerização em virtude da adição da ddNTP),</p><p>independentemente do tamanho do fragmento. Os fragmentos</p><p>são separados por eletroforese em gel de poliacrilamida. Existem</p><p>equipamentos (sequenciadores automáticos) capazes de distinguir</p><p>os quatro tipos de ddNTP existentes em razão da captação de sua</p><p>fluorescência. A ordem em que os diferentes fragmentos passam</p><p>pelo detector de fluorescência indica a sequência dos nucleotídeos da</p><p>cadeia complementar ao DNA molde, determinando assim a sequência</p><p>original (ALVES; SOUZA, 2013, p. 173-174).</p><p>FIGURA 11 - SEQUENCIAMENTO DE SANGER (A) E AUTOMATIZADO (B)</p><p>FONTE: Turchetto-Zolet et al. (2017, p. 28)</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>176</p><p>Desde o ano de 2005 é possível utilizar o chamado sequenciamento</p><p>de nova geração (NGS, do inglês Next Generation Sequencing) que permite o</p><p>sequenciamento simultâneo e em larga escala de múltiplos genes através da</p><p>combinação das técnicas de sequenciamento, PCR e fluorescência. O NGS reduziu</p><p>de forma drástica o tempo e os custos necessários para sequenciar o genoma, o</p><p>que popularizou a técnica em diversos laboratórios e aumentou sua aplicação</p><p>clínica.</p><p>Atualmente, além do sequenciamento de genomas propriamente dito, é</p><p>possível realizar o sequenciamento dos genes que são transcritos (transcriptoma),</p><p>do conjunto de éxons (exoma) ou das proteínas expressas (proteoma). Mas você</p><p>pode se perguntar, acadêmico, qual é a vantagem de analisar, por exemplo, o</p><p>exoma de um indivíduo ao invés do seu genoma completo? Acontece que o exoma</p><p>é formado pelo conjunto de éxons que, como você viu na Unidade 1, corresponde</p><p>exatamente às sequências responsáveis por codificar moléculas de RNA que, por</p><p>sua vez, codificam proteínas.</p><p>Assim, embora os éxons correspondam a apenas 1-2% do genoma</p><p>humano, eles são responsáveis por 80-90% das doenças genéticas conhecidas. Por</p><p>isso, sequenciar o exoma de um indivíduo é uma estratégia mais barata e rápida</p><p>do que sequenciar todo o seu genoma e que também permite a identificação de</p><p>alterações gênicas (YAMAMOTO, 2017).</p><p>A possibilidade de sequenciar o genoma ou uma parte do genoma de</p><p>cada indivíduo tem mudado a forma de fazer medicina, pois permite identificar a</p><p>possibilidade do desenvolvimento de uma doença genética antes que ela ocorra.</p><p>Esse avanço abriu caminho para uma nova área, a genômica, e a obtenção de</p><p>uma grande quantidade de dados genéticos nos últimos anos tornou necessário</p><p>o auxílio da informática, fazendo surgir outra área importante, a bioinformática</p><p>(MENCK; SLUYS, 2017).</p><p>TÓPICO 1 — PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA MOLECULAR</p><p>177</p><p>Painel Ampliado NGS de Risco Hereditário de Câncer</p><p>Na Unidade 2 deste livro, nós comentamos sobre o caso da atriz Angelina Jolie, que</p><p>realizou uma dupla mastectomia preventiva, em 2013, devido à alta probabilidade de</p><p>desenvolver câncer de mama. Mas você sabia que a detecção do gene mutante BRCA1 no</p><p>genoma da atriz foi realizada pela técnica de sequenciamento?</p><p>Segundo o site Genomika do Hospital Albert Einstein, o teste mais completo atualmente dis-</p><p>ponível para a detecção de doenças genéticas sequencia cerca de 20 mil genes em busca</p><p>de mutações associadas a doenças e custa cerca de R$ 5.000,00 (GENOMIKA, 2020).</p><p>Outro exame disponível é o Painel Ampliado de Risco Hereditário de Câncer que avalia 44</p><p>genes associados a câncer de mama, intestino, próstata, endométrio, entre outros. A partir</p><p>dos resultados deste exame, o paciente, em conjunto com seu médico, pode planejar o</p><p>melhor programa de prevenção para o câncer, com dados personalizados, baseados na</p><p>sua constituição genética. Incrível, não é? Você pode descobrir mais sobre este assunto</p><p>no site: https://www.genomika.com.br/blog/.</p><p>ATENCAO</p><p>5 CLONAGEM</p><p>Em 1997, quando cientistas anunciaram a clonagem da ovelha Dolly, o</p><p>assunto virou uma notícia de grande impacto mundial. Mas você sabia, acadêmico,</p><p>que a clonagem é, na verdade, um fenômeno muito comum na natureza? Sim,</p><p>ela acontece toda vez que um organismo ou uma célula é formado a partir de</p><p>outro por reprodução assexuada, mantendo um conjunto de genes idêntico ao</p><p>original. Muitos protozoários, fungos e bactérias reproduzem-se por clonagem,</p><p>assim como nossas células, ao se dividirem por mitose. É claro que a clonagem</p><p>de um mamífero, como a Dolly, é um processo muito mais complexo e que só foi</p><p>possível com o avanço da engenharia genética e da biotecnologia.</p><p>Na biologia molecular, clonagem consiste na produção de cópias exatas</p><p>de um gene, ou seja, é uma técnica que replica o DNA desejado diversas vezes</p><p>para gerar um número enorme de cópias idênticas. O primeiro evento básico</p><p>de uma experiência de clonagem é a extração do DNA a ser clonado através de</p><p>técnicas semelhantes a que você estudou no início desta unidade. Com o DNA</p><p>extraído, as demais etapas da clonagem serão descritas a seguir e apresentadas</p><p>na Figura 12 (BROWN, 2009; ALVES; SOUZA, 2013; SUNSTAD; SIMMONS, 2017;</p><p>BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>178</p><p>• Tratamento do DNA com enzimas de restrição: as enzimas de restrição</p><p>são produzidas por bactérias que clivam cadeias duplas de DNA exógeno</p><p>localizadas no seu interior, poupando a clivagem do seu próprio DNA.</p><p>Atualmente são conhecidas mais de mil enzimas de restrição que são essenciais</p><p>para a genética molecular, pois permitem a obtenção dos fragmentos de</p><p>DNA que serão utilizadas na produção de moléculas híbridas no processo de</p><p>clonagem.</p><p>• Eletroforese em gel de agarose: após o uso de uma determinada enzima de</p><p>restrição em um segmento de DNA, deseja-se saber em quantos fragmentos</p><p>o DNA foi cortado e qual o tamanho desses fragmentos. Para isso, usa-se a</p><p>eletroforese em gel de agarose, técnica que você aprendeu anteriormente neste</p><p>livro.</p><p>• Formação do DNA recombinante: em seguida é feita a inserção de um</p><p>fragmento de DNA contendo o gene a ser clonado em outra molécula de DNA</p><p>chamada de vetor de clonagem. Um vetor de clonagem é uma estrutura de DNA</p><p>geralmente circular com capacidade de se introduzir em células bacterianas,</p><p>sendo que os mais utilizados são os plasmídeos. A fusão do gene a ser clonado</p><p>(chamado inserto) com o plasmídeo (vetor) pela enzima DNA ligase in vitro</p><p>produz uma molécula de DNA recombinante.</p><p>• Transfecção: a molécula de DNA recombinante é introduzida em uma célula</p><p>hospedeira (geralmente, E. coli), um processo denominado transfecção.</p><p>• Seleção: as células são colocadas em meio de cultura e é preciso selecionar aquelas</p><p>transfectadas das não transfectadas. Isso pode ser feito através de marcadores,</p><p>como genes de resistência a antibióticos: o tratamento da cultura celular com</p><p>o fármaco irá matar as células não transfectadas, deixando resistentes no meio</p><p>apenas aquelas em que a transfecção teve sucesso. Finalmente, dentro da célula</p><p>hospedeira, ou seja, in vivo, ocorre a clonagem propriamente dita: o vetor se</p><p>multiplica e leva a multiplicação do DNA recombinante, produzindo várias</p><p>cópias idênticas do inserto desejado.</p><p>TÓPICO 1 — PRINCIPAIS TÉCNICAS GENÉTICAS E DE BIOLOGIA MOLECULAR</p><p>179</p><p>FONTE: Adaptado de <https://www.blogs.unicamp.br/synbiobrasil/wp-content/uploads/si-</p><p>tes/246/2014/02/320-620x666.jpg>.</p><p>Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>FIGURA 12 - ETAPAS DO PROCESSO DE CLONAGEM GÊNICA</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>180</p><p>Produção de hormônios pela técnica de clonagem molecular</p><p>A clonagem é certamente um assunto fascinante, acadêmico, mas você pode se pergun-</p><p>tar: afinal, como clonar alguns pedaços de DNA pode nos beneficiar quanto seres huma-</p><p>nos e quanto sociedade? Na verdade, a clonagem possui inúmeras aplicações, algumas</p><p>delas você verá mais detalhadamente no Tópico 2 desta unidade. Essas aplicações estão</p><p>relacionadas à reprodução, ao tratamento de doenças genéticas, a clonagem de animais</p><p>e plantas ameaçados de extinção etc. Um dos usos mais importantes da clonagem é a</p><p>produção de medicamentos como a síntese do hormônio do crescimento humano</p><p>(hGH), cuja deficiência está relacionada ao nanismo. Segundo Snustad e Simmons (2017),</p><p>o hGH foi um dos primeiros produtos da engenharia genética: era produzido em E.</p><p>coli que tinham um gene modificado constituído da sequência codificadora de hGH</p><p>fundida a elementos reguladores bacterianos sintéticos. Esse gene quimérico foi criado in</p><p>vitro e introduzido em E. coli por transfecção. Em 1985, o hGH produzido em E. coli foi</p><p>aprovado para uso em seres humanos pela Food and Drug Administration, nos EUA.</p><p>Antes da aprovação do hGH, outro hormônio, a insulina, relacionada ao desenvolvimento</p><p>de diabetes, foi o primeiro produto de engenharia genética feito em E. coli, aprovado pela</p><p>FDA em 1982.</p><p>INTERESSANTE</p><p>181</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• Existem duas grandes áreas dentro de um laboratório de genética: a citogenética</p><p>clássica que analisa os cromossomos, e a genética molecular que analisa os</p><p>genes.</p><p>• A citogenética clássica avalia os cromossomos a partir de células em divisão</p><p>(mitose). Ela permite a avaliação do cariótipo pela análise do cariograma e</p><p>detecta alterações numéricas e estruturais. Quando utiliza o corante de Giemsa</p><p>é chamada de banda G ou bandeamento G.</p><p>• A técnica de FISH baseia-se no uso de uma sequência de bases nitrogenadas</p><p>chamada sonda que é complementar ao DNA alvo que se pretende analisar e</p><p>que contém uma molécula fluorescente.</p><p>• A primeira etapa das análises genéticas por biologia molecular é a extração e</p><p>purificação dos ácidos nucleicos da célula, o que pode ser feito por métodos</p><p>in house ou com kits comerciais. A extração de RNA é mais complexa do que</p><p>a de DNA, pois o RNA é uma molécula instável que é degradada por RNases</p><p>presentes no meio.</p><p>• A eletroforese permite a separação e identificação de DNA, RNA e proteínas.</p><p>Ela consiste na migração dessas macromoléculas presentes em um gel de</p><p>acordo com o seu tamanho (peso molecular) durante a aplicação de uma</p><p>corrente elétrica.</p><p>• As técnicas de blot (Southern, Northern e Western blot) são baseadas na</p><p>transferência de DNA, RNA e proteínas separados em uma corrida de</p><p>eletroforese para membranas específicas, o que permite posterior marcação</p><p>com sondas e anticorpos.</p><p>• A reação em cadeira da polimerase (PCR) baseia-se na multiplicação de uma</p><p>região do DNA através da enzima DNA polimerase. A reação é feita em um</p><p>termociclador que realiza uma série repetida de ciclos térmicos divididos em</p><p>desnaturação, anelamento e extensão.</p><p>• O RT-PCR é uma PCR realizada a partir de uma molécula de RNA mensageiro</p><p>(mRNA) e requer a enzima transcriptase reversa para a síntese do cDNA. O</p><p>q-PCR, por sua vez, é o PCR em tempo real (ou quantitativo) que permite a</p><p>análise simultânea de dados durante a amplificação.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>182</p><p>• Sequenciamento é uma técnica que lê a sequência de cada nucleotídeo de uma</p><p>fita de DNA, o que permite mapear todo o genoma. A técnica tradicional é</p><p>feita pelo método de Sanger e atualmente são usados sequenciamentos de nova</p><p>geração que permite o mapeamento do exoma, usado na prevenção de doenças</p><p>como o câncer.</p><p>• Clonagem molecular consiste na produção de cópias exatas de um gene. Sua</p><p>técnica exige a formação de uma molécula de DNA recombinante (DNA alvo</p><p>mais plasmídeo), a qual é transfectada para dentro de uma bactéria onde o</p><p>material genético se replica.</p><p>• A clonagem gênica possui diversas aplicações como na reprodução humana,</p><p>no tratamento de doenças e na produção de medicamentos como os hormônios</p><p>sintéticos: insulina e hGH.</p><p>183</p><p>1 A ligação de um fragmento de DNA (inserto) com outra molécula de DNA</p><p>(vetor) formando uma molécula de DNA recombinante é uma das fases da</p><p>técnica de:</p><p>a) ( ) Citogenética clássica.</p><p>b) ( ) Reação em cadeia da polimerase.</p><p>c) ( ) Clonagem molecular.</p><p>d) ( ) Eletroforese em gel de agarose.</p><p>2 Sobre as técnicas de citogenética, analise as sentenças a seguir e assinale a</p><p>alternativa que contém apenas as asserções corretas:</p><p>I- A citogenética clássica avalia os cromossomos a partir de células em divisão</p><p>e, para isso, as células do paciente precisam ser cultivadas em laboratório.</p><p>II- A citogenética clássica permite analisar alterações nos genes de um</p><p>indivíduo e é muito usada para detectar Síndrome de Down.</p><p>III- A técnica de citogenética que usa o corante Giemsa é chamada</p><p>bandeamento G.</p><p>IV- A citogenética molecular é baseada na marcação dos cromossomos com</p><p>sondas ligadas a substâncias fluorescentes (hibridização in situ).</p><p>a) ( ) I – III – IV.</p><p>b) ( ) II – III – IV – V.</p><p>c) ( ) I – IV – V.</p><p>d) ( ) II – III – V.</p><p>3 Sobre as técnicas de Biologia Molecular, analise as questões a seguir e</p><p>assinale a alternativa que contém apenas sentenças corretas:</p><p>I- A Biologia Molecular estuda as interações bioquímicas e celulares</p><p>envolvidas na duplicação do material genético e na síntese proteica.</p><p>II- A extração pode ser feita por métodos in house ou por kits comerciais, sendo</p><p>que a extração de DNA é mais delicada devido à presença de DNases no</p><p>meio.</p><p>III- A eletroforese é uma técnica que permite a separação e a identificação de</p><p>proteínas de acordo com o seu tamanho e carga, mas não de DNA e RNA.</p><p>IV- O fundamento da PCR consiste na multiplicação de um gene em milhões</p><p>de cópias usando a enzima DNA polimerase.</p><p>a) ( ) I – III – IV.</p><p>b) ( ) I – II – III.</p><p>c) ( ) II – IV.</p><p>d) ( ) I – IV.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>184</p><p>4 A técnica cujo princípio consiste na migração das moléculas presentes em</p><p>um gel de acordo com o seu tamanho (peso molecular) e carga elétrica</p><p>durante a aplicação de uma diferença de potencial (corrente elétrica) é</p><p>chamada de:</p><p>a) ( ) Clonagem molecular.</p><p>b) ( ) Reação em cadeia da polimerase.</p><p>c) ( ) Bandeamento G.</p><p>d) ( ) Eletroforese.</p><p>5 Sobre as técnicas de blot apresentadas na primeira coluna, relacione as</p><p>características correspondentes apresentadas na segunda coluna e selecione</p><p>a opção que apresenta a sequência correta.</p><p>I- Southern blot.</p><p>II- Northern blot.</p><p>III- Western blot.</p><p>( ) Pesquisa RNA.</p><p>( ) Pesquisa proteínas.</p><p>( ) Pesquisa DNA.</p><p>( ) Usa anticorpos primários e secundários.</p><p>a) ( ) I – III – II – I.</p><p>b) ( ) III – II – I – III.</p><p>c) ( ) II – I – III – II.</p><p>d) ( ) II – III – I – III.</p><p>6 Selecione as etapas da técnica de PCR na ordem em que são realizadas</p><p>(I a IV) com as sentenças correspondentes descritas a seguir e assinale a</p><p>alternativa que contém a sequência correta:</p><p>I- Desnaturação.</p><p>II- Anelamento.</p><p>III- Extensão.</p><p>IV- Repetição.</p><p>( ) Realização de 30-40 ciclos térmicos idênticos ao primeiro.</p><p>( ) Aquecimento da reação para 72 °C para ação da enzima DNA polimerase</p><p>e adição dos nucleotídeos (dNTPs).</p><p>( ) Aquecimento a 90-95 °C pelo termociclador para quebrar as moléculas de</p><p>DNA.</p><p>( ) Resfriamento da reação e ligação às sequências iniciadoras ou primers.</p><p>185</p><p>a) ( ) III – II – I – IV.</p><p>b) ( ) IV – I – III – II.</p><p>c) ( ) IV – III – I – II.</p><p>d) ( ) I – II – III – IV.</p><p>7 Relacione as quatro variações da técnica de PCR (I a IV) com as principais</p><p>características de cada uma delas e assinale a alternativa que corresponde à</p><p>sequência correta:</p><p>I- RT-PCR.</p><p>II- q-PCR.</p><p>III- PCR Multiplex.</p><p>IV- Nested PCR.</p><p>( ) PCR em tempo real, permite a coleta de dados durante a amplificação do</p><p>DNA, resultando em uma técnica mais precisa.</p><p>( ) Usa dois pares de primers em duas reações sucessivas a fim de aumentar</p><p>a sensibilidade e especificidade da técnica.</p><p>( ) Usa mais de um par de primers e permite amplificar mais de um gene na</p><p>mesma reação.</p><p>( ) PCR realizada a partir de uma molécula de mRNA, usa a enzima</p><p>transcriptase reversa para sintetizar uma molécula de cDNA.</p><p>a) ( ) II – IV – III – I.</p><p>b) ( ) I – IV – III – II.</p><p>c) ( ) II – III – IV – I.</p><p>d) ( ) I – IIII – IV – II.</p><p>186</p><p>187</p><p>UNIDADE 3</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Olá, acadêmico! Seja bem-vindo ao segundo tópico da Unidade 2 do livro</p><p>de Genética Humana Médica. Você estudou, na Unidade 1, as principais técnicas</p><p>usadas em um laboratório de Genética e que devem ser dominadas pelo biomédico</p><p>que deseja trabalhar nessa área. Nosso objetivo aqui é apenas apresentar a base</p><p>teórica de cada uma dessas metodologias tão importantes na rotina laboratorial e</p><p>também na pesquisa básica e clínica.</p><p>Agora que já tem conhecimento sobre os fundamentos das principais</p><p>técnicas utilizadas em um laboratório de Genética, você irá aprender como elas</p><p>são aplicadas nas diversas áreas de atuação do profissional biomédico. Como</p><p>você sabe, a Biomedicina é uma área bastante ampla e mesmo dentro da Genética</p><p>é possível trabalhar com diversos assuntos.</p><p>Neste segundo tópico, você irá aprender como são diagnosticadas</p><p>algumas das principais doenças hereditárias, como princípios de clonagem</p><p>podem ser aplicados em centros de reprodução humana, como as técnicas de</p><p>sequenciamento são utilizadas para prever a eficácia de medicamentos em uma</p><p>nova área chamada farmacogenômica e qual é a importância da genética para</p><p>as ciências forenses, entre outros assuntos. Ao final, você deverá ser capaz de</p><p>entender a importância do profissional biomédico e das técnicas aprendidas</p><p>na Unidade 1 dentro de diversos contextos e também se familiarizar com as</p><p>múltiplas áreas de atuação do mesmo dentro da Genética. Lembre-se de que sua</p><p>participação e comprometimento com a disciplina são fundamentais para o seu</p><p>sucesso!</p><p>Vamos lá!</p><p>2 DIAGNÓSTICO DE DOENÇAS GENÉTICAS</p><p>Talvez a primeira aplicação que você associe às técnicas de citogenética</p><p>e biologia molecular aprendidas no tópico anterior é no diagnóstico de doenças.</p><p>E você não está errado! A aplicação dessas técnicas na investigação de doenças</p><p>genéticas ganhou força na década de 1990 e hoje está presente na rotina de</p><p>laboratórios de todo o mundo.</p><p>TÓPICO 2 —</p><p>APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO</p><p>188</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>O desenvolvimento de metodologias cada vez mais modernas levou ao</p><p>surgimento de novas áreas, como a Genômica, a Bioinformática e a Engenharia</p><p>Genética e tornou o diagnóstico molecular mais rápido e eficaz. Atualmente</p><p>existem mais de 1.200 desordens e anormalidades cromossômicas que podem ser</p><p>diagnosticadas pela análise de alterações específicas no DNA do paciente.</p><p>Você aprendeu neste livro que as doenças genéticas são causadas por</p><p>alterações (mutações e/ou polimorfismos) no DNA e que essas alterações podem</p><p>ser identificadas por protocolos laboratoriais de análise molecular. O diagnóstico</p><p>precoce favorece o acompanhamento médico a tempo de prevenir sequelas</p><p>graves e, muitas vezes, evitar o óbito. É importante ter em mente, acadêmico, que</p><p>existem inúmeras técnicas disponíveis e a escolha do protocolo específico será</p><p>baseada nas características da doença e/ou do gene envolvido, na experiência do</p><p>profissional, nas condições do laboratório e no grau de confiabilidade que se deseja</p><p>atingir. Todos os métodos têm vantagens e desvantagens e requerem considerável</p><p>experiência para serem realizados: algumas técnicas são menos sensíveis, mas</p><p>mais baratas, fáceis de serem executadas e financeiramente acessíveis; outras</p><p>podem ser altamente específicas, mas são caras e complexas, o que restringe seu</p><p>acesso. Assim, é importante que o profissional conheça as limitações e vantagens</p><p>das técnicas disponíveis para avaliar a melhor escolha dentro da sua realidade e</p><p>daquilo que se deseja atingir (SUNSTAD; SIMMONS, 2017; BORGES-OSÓRIO;</p><p>ROBINSON, 2013). A seguir, iremos discutir o diagnóstico de algumas doenças</p><p>genéticas.</p><p>Apesar do avanço das técnicas de citogenética e biologia molecular, é</p><p>importante lembrar que algumas doenças genéticas podem ser diagnosticadas</p><p>com simples exames bioquímicos. Por exemplo, uma criança com atraso no</p><p>desenvolvimento e características faciais específicas pode ser suspeita de</p><p>ter uma doença autossômica recessiva chamada mucopolissacaridose. A</p><p>mucopolissacaridose é um grupo de doenças causadas pela deficiência genética</p><p>de uma enzima, geralmente a alfa-L-iduronidase, o que resulta no acúmulo de</p><p>glicosaminoglicanos (GAGs) dentro das células, tecidos e órgãos, levando a uma</p><p>série de deformidades. O diagnóstico pode ser feito pelo exame bioquímico da</p><p>enzima e, caso sua deficiência seja constatada, testes genéticos são importantes</p><p>para determinar exatamente qual mutação causou a doença. Esse conhecimento</p><p>irá orientar a família sobre a probabilidade de futuros filhos nascerem com a</p><p>doença (BROWN, 2009).</p><p>Em outros casos, o médico pode suspeitar de uma anormalidade</p><p>cromossômica ao detectar, por exemplo, alterações físicas compatíveis com</p><p>síndrome de Down em um bebê. Neste caso, ele pode realizar a coleta de material</p><p>e solicitar a observação do cariótipo, por exemplo, pela técnica de bandeamento</p><p>G. Você aprendeu que a construção de mapas citogenéticos do genoma de um</p><p>indivíduo mostra a localização relativa de características morfológicas dos</p><p>cromossomos (Ex.: centrômeros, marcadores citogenéticos ou bandas) e também</p><p>lesões cromossômicas visíveis.</p><p>TÓPICO 2 — APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO</p><p>189</p><p>No caso do bebê suspeito, a visualização de um cromossomo 21 a mais</p><p>no cariograma confirma o diagnóstico. Alterações cromossômicas também</p><p>podem ser detectadas pela técnica de hibridização com sondas fluorescentes</p><p>de FISH. O diagnóstico de Síndrome de Down por FISH, por exemplo, utiliza</p><p>sondas marcadas com sequências de nucleotídeos complementares a regiões do</p><p>cromossomo 21. A presença de três cromossomos marcados no microscópio de</p><p>fluorescência confirma o diagnóstico (BROWN, 2009), como você pode ver na</p><p>Figura 13.</p><p>FIGURA 13 - DIAGNÓSTICO DE SÍNDROME DE DOWN PELA TÉCNICA DE FISH</p><p>Legenda: os três cromossomos 21 possuem fluorescência vermelha e o cromossomo 13, em</p><p>verde, foi marcado como controle.</p><p>FONTE: <https://labtestsonline.es/sites/aacc-lto.es/files/inline-images/Fish%20trisomy%2021.</p><p>jpg>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>A técnica de FISH é também muito utilizada no diagnóstico de síndromes</p><p>congênitas causadas por microdeleções, perdas tão pequenas de parte do DNA de</p><p>um cromossomo que não são detectadas pela cariotipagem clássica. Um exemplo é</p><p>a síndrome Lissencefalia-Miller Dieker, causada por microdeleções no braço curto</p><p>do cromossomo 17. Indivíduos com essa síndrome possuem microcefalia, retardo</p><p>de desenvolvimento e outras anormalidades e, apesar de não ser detectada pela</p><p>técnica de bandeamento G, 90% dos casos são diagnosticados por FISH (FLEURY,</p><p>2008). Outra técnica de citogenética molecular importante utilizada no diagnóstico</p><p>de doenças é o CGH-array. Ela é indicada em casos de suspeita de autismo, atraso</p><p>de crescimento e linguagem e anormalidades congênitas (GENOMIKA, 2016).</p><p>Junto com FISH e CGH-array, as técnicas de PCR e sequenciamento são as</p><p>mais utilizadas no diagnóstico de doenças e alterações genéticas, como a fibrose</p><p>cística. A fibrose cística é uma doença autossômica recessiva progressiva que afeta</p><p>todo o organismo, principalmente pulmões e sistema digestivo. Ela é</p><p>triada em</p><p>recém-nascidos no teste de Triagem Neonatal, conhecido como Teste do Pezinho,</p><p>onde sua pesquisa é feita por métodos bioquímicos indiretos. No entanto, cerca</p><p>de duas mil mutações já foram identificadas no gene responsável pela doença, o</p><p>CFTR, sendo que a mutação delta-F508 está presente em 50-70% dos casos. Veja</p><p>na Figura 14 os seis diferentes tipos (ou classes) de mutações no gene CFTR.</p><p>190</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>Os três mais graves são a síntese comprometida do gene (classe I), o</p><p>processamento defeituoso da proteína após a tradução ou sua degradação</p><p>aumentada dentro da célula (classe II) e a regulação alterada da proteína (classe</p><p>III) (MARSON; BARTUZZO; RIBEIRO, 2013). Mas como detectar todas essas</p><p>possibilidades de mutações? Segundo o Laboratório Fleury (2008), existem duas</p><p>opções de diagnóstico molecular para a fibrose cística. O primeiro é feito por PCR-</p><p>Multiplex que permite a detecção de 106 mutações no gene CFTR e o segundo,</p><p>mais completo, é pelo sequenciamento de nova geração NGS de todas as regiões</p><p>codificantes e regiões adjacentes aos exons do gene CFTR.</p><p>FIGURA 14 - ALTERAÇÕES NO GENE CFTR ASSOCIADO À FIBROSE CÍSTICA</p><p>FONTE: Adaptado de <https://unidospelavida.org.br/wp-content/uploads/2013/07/Figura-</p><p>-1-811x1024.png>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>Outras doenças genéticas que podem ser detectadas por diagnóstico</p><p>molecular são (FLEURY, 2008):</p><p>• Esclerose lateral amiotrófica — ELA: doença neurodegenerativa progressiva</p><p>que envolve a perda de neurônios motores. O diagnóstico é feito por</p><p>sequenciamento NGS de todas as regiões codificantes dos genes envolvidos na</p><p>doença, como ABCD1, ABHD12 e ALS2.</p><p>• Cânceres — mama, cólon e próstata: estima-se que entre 5% a 10% dos casos</p><p>de câncer de próstata são de origem hereditária. O diagnóstico do câncer de</p><p>próstata é feito por teste genômico (RT-PCR), que analisa a expressão de mais</p><p>de 10 genes (no caso do câncer de mama, são mais de 20 genes). Também é</p><p>possível fazer o sequenciamento NGS para identificar variantes patogênicas</p><p>que agravam o prognóstico.</p><p>• Intolerância à lactose: a análise é feita por PCR e sequenciamento para</p><p>identificar a variante genética C/C (-13.910), localizada no íntron 13 do gene</p><p>MCM6, situado próximo ao gene LCT que codifica a lactase. O genótipo C/C</p><p>TÓPICO 2 — APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO</p><p>191</p><p>está associado com a predisposição à intolerância à lactose e os genótipos T/T</p><p>e C/T possuem a habilidade em digerir a lactose ao longo da vida, sendo assim</p><p>tolerantes à lactose.</p><p>• Doença — Alzheimer e Parkinson: são as doenças neurodegenerativas mais</p><p>comuns e o risco de desenvolver uma destas doenças pode ser melhor estimado</p><p>quando a causa genética é conhecida, uma vez que algumas mutações podem</p><p>aumentar o risco e também proporcionar um início mais precoce destas</p><p>doenças. O diagnóstico é feito pelo sequenciamento NGS que avalia todas as</p><p>regiões codificantes dos genes envolvidos nas doenças.</p><p>2.1 DIAGNÓSTICO PRÉ-NATAL</p><p>Você sabia, acadêmico, que caso o médico suspeite de uma anormalidade</p><p>genética no feto durante a gravidez é possível solicitar um exame ainda no útero?</p><p>Vamos entender como isso ocorre. Cerca de 4% de todos os neonatos apresentam</p><p>algum tipo de alteração de origem genética e essas doenças podem ser divididas</p><p>em três grupos principais: aberrações cromossômicas, doenças monogênicas e</p><p>doenças poligênicas/multifatoriais — causadas por mutações em vários genes e</p><p>também associadas a fatores exógenos (STRACHAN; READ, 2011).</p><p>Existem vários fatores que podem fazer com que o médico solicite um</p><p>exame genético pré-natal, como a idade materna e paterna, pois a probabilidade</p><p>de alterações cromossômicas aumenta com a idade. Além disso, o médico pode</p><p>observar características no ultrassom que indicam a presença de um problema</p><p>genético. No caso de pais que já possuem uma doença genética conhecida ou</p><p>caso o casal já tenha tido um primeiro filho com alguma anormalidade, também</p><p>se deve realizar o exame.</p><p>E como o material é coletado? A amniocentese (Figura 15) ou coleta do</p><p>líquido amniótico normalmente é a técnica mais utilizada. A coleta é feita com</p><p>uma agulha que perfura a barriga da mãe e coleta 15 ml de líquido amniótico. O</p><p>procedimento é feito com auxílio do ultrassom entre 15 e 17 semanas de gravidez</p><p>e o risco de aborto é de 0,5% a 1%. Outra técnica importante de coleta de material</p><p>para testes pré-natais é a cordocentese, que consiste na coleta de sangue da</p><p>veia umbilical a partir do seu local de inserção na placenta. As indicações mais</p><p>comuns para esse tipo de coleta é quando há suspeita de anemia fetal associada à</p><p>eritroblastose fetal e para a cariotipagem ou diagnóstico genético em gravidezes</p><p>mais avançadas (ALFIREVIC; NAVARATNAM; MUJEZINOVIC, 2017).</p><p>192</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>FIGURA 15 - TÉCNICAS DE COLETA DE MATERIAL INTRAÚTERO</p><p>FONTE: <https://www.fetalmed.net/o-que-e-amniocentese/>; < https://i2.wp.com/www.dr-sa-</p><p>fia-taieb.tn/wp-content/resources/images/specialites/maternite/diagnostic-prenatal/techniques-</p><p>-de-prelevement/gallery_3_1.jpg>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>Para detectar aberrações cromossômicas, as células coletadas por</p><p>amniocentese ou cordocentese precisam ser postas em cultura, como você viu</p><p>anteriormente, e só então os cromossomos metafásicos são analisados numérica</p><p>e estruturalmente. O líquido amniótico não cultivado pode ser usado para</p><p>determinar os níveis de alfafetoproteína (AFP) que está aumentada em fetos</p><p>com defeitos no fechamento do tubo neural e na parede abdominal. Ainda hoje</p><p>a avaliação do cariograma segue sendo o padrão ouro para o diagnóstico pré-</p><p>natal de alterações nos cromossomos quando se deseja avaliar todo o cariótipo. A</p><p>técnica de FISH foi a primeira que permitiu a detecção de aneuploidias nos núcleos</p><p>interfásicos, o que eliminou a necessidade de cultivar células e proporcionou</p><p>resultados mais rápidos, em cerca de 2-3 dias (STEINHARD, 2010).</p><p>Com relação às doenças monogênicas, atualmente conhece-se cerca de</p><p>5.000 distúrbios dessa natureza, sendo que os mais frequentes são de origem</p><p>autossômica dominante, autossômica recessiva e ligados ao X. Para o diagnóstico</p><p>dessas doenças, em geral são feitas PCRs para amplificação do gene obtido do</p><p>material fetal seguida de técnicas de sequenciamento, quando necessário. O</p><p>desenvolvimento das técnicas de PCR quantitativo e Multiplex aumentou ainda</p><p>mais a especificidade dos diagnósticos. A desvantagem dessas técnicas é que</p><p>elas avaliam um ou mais genes específicos, ou seja, elas são excelentes quando</p><p>se suspeita de uma doença particular, pois permitem ir direto ao alvo, mas são</p><p>limitadas quando se deseja uma estratégia mais abrangente. Nesse caso, é usada</p><p>a técnica CGH-array. Atualmente, o teste pré-natal invasivo é indicado para todos</p><p>os fetos com malformações estruturais detectadas na ultrassonografia e sugere-</p><p>se o uso de CGH-array como teste citogenético de primeira escolha. Isso porque,</p><p>como você viu no tópico anterior, essa técnica é muito mais sensível e ampla do</p><p>que a cariotipagem tradicional e permite também a detecção de microdeleção</p><p>e microduplicação, algumas das quais podem causar distúrbios graves do</p><p>TÓPICO 2 — APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO</p><p>193</p><p>desenvolvimento infantil. Nos últimos anos, o sequenciamento do exoma tem</p><p>sido utilizado para distúrbios fetais, principalmente quando se suspeita de</p><p>variações em um único nucleotídeo, e seu uso no diagnóstico pré-natal tende a</p><p>aumentar nos próximos anos (VERMEESCH; VOET; DEVRIEND, 2010).</p><p>SEXAGEM FETAL</p><p>Saiba, acadêmico, que não apenas de doenças é feita a Genética Laboratorial em exames</p><p>pré-natais. As técnicas de biologia molecular podem ser aplicadas a diversos outros as-</p><p>suntos, como a determinação do sexo do bebê no início da gravidez (idealmente a partir</p><p>da 8ª semana de gestação). Em 1997, um grupo de pesquisadores descobriu a presença</p><p>de DNA do feto no plasma de mulheres grávidas. Isso tornou possível não apenas o diag-</p><p>nóstico de alterações genéticas por métodos não invasivos, mas também a possibilidade</p><p>de determinação da sexagem fetal. Mas como isso é feito?</p><p>Na verdade, o princípio é muito simples: como sabemos que existe DNA do feto do plas-</p><p>ma da mãe, o exame é baseado na identificação do cromossomo Y na amostra materna.</p><p>Caso o cromossomo Y seja identificado, sabe-se com certeza que o feto gerado é do sexo</p><p>masculino. Caso o cromossomo Y não seja identificado, isso indica que só há cromosso-</p><p>mos X na amostra, tanto da mãe quanto do feto, o que sugere um bebê do sexo feminino.</p><p>Simples, não? Para a realização do procedimento, o plasma é separado do sangue total e</p><p>submetido a uma PCR com primers específicos para o cromossomo Y.</p><p>A visualização da banda em gel de agarose indica a presença desse cromossomo. Veja na</p><p>figura a seguir como isso ocorre. No gel estão presentes as amostras de quatro indivíduos</p><p>(1,2,3 e 4). As amostras foram aplicadas em quadruplicata (a-d para cada paciente) e a letra</p><p>M corresponde ao poço no qual foi aplicado o padrão de peso molecular usado como</p><p>controle. Pode-se observar a clara presença de banda para o cromossomo Y nas amostras</p><p>dos indivíduos 2 e 3, indicando fetos masculinos, enquanto que os fetos 1 e 4 são femi-</p><p>ninos. Apesar de a quantidade de DNA fetal ser de apenas 3-6% do DNA total circulante</p><p>no plasma materno, como a PCR é uma técnica altamente sensível, ela permite detectar</p><p>quantidades muito pequenas de material: após a 8ª semana de gestação, a confiabilidade</p><p>do resultado é de 99%.</p><p>Mas, e no caso de gêmeos? Gêmeos univitelinos (gerados a partir de um único óvulo</p><p>e um único espermatozoide) são obrigatoriamente do mesmo sexo. Nessa situação, o</p><p>diagnóstico segue o mesmo princípio apresentado anteriormente: a detecção do cro-</p><p>mossomo Y indica gêmeos do sexo masculino e a não detecção indica o sexo feminino.</p><p>No caso de gêmeos bivitelinos é possível ter dois embriões de gêneros diferentes. Assim,</p><p>a não detecção do cromossomo Y indica que não há fetos masculinos, logo, os dois são</p><p>do sexo feminino. Porém, caso o cromossomo Y seja detectado, sabe-se que pelo menos</p><p>um dos embriões é do sexo masculino, mas não é possível afirmar com certeza o sexo do</p><p>segundo embrião (SIQUEIRA; FELIPIN, 2018).</p><p>IMPORTANTE</p><p>194</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>REAÇÃO DE PCR PARA FRAGMENTO DO CROMOSSOMO Y A PARTIR DE DNA ISOLADO</p><p>DO PLASMA MATERNO</p><p>FONTE: Levi, Wendel e Takaoka (2003, p. 689)</p><p>2.2 TESTE DE PATERNIDADE</p><p>Você já parou para se perguntar, acadêmico, qual é o princípio genético</p><p>dos testes de paternidade? Antes do advento da biologia molecular, a única forma</p><p>de elucidar minimamente a paternidade de um indivíduo era através de testes de</p><p>tipagem sanguínea. Essa alternativa era muito limitada, pois no máximo permitia</p><p>dizer que determinado homem não poderia ser o pai de determinada criança.</p><p>Imagine um homem de sangue AB e uma mulher O que tiveram um filho também</p><p>O. Com o seu conhecimento em genética você pode afirmar que não é possível</p><p>que esse homem seja o pai biológico da criança. Por outro lado, se o suspeito pai</p><p>tivesse sangue do tipo A, não seria possível chegar a nenhuma conclusão apenas</p><p>com esses dados (SNUSTED; SIMMONS, 2017).</p><p>O teste de paternidade é possível devido à existência de regiões</p><p>polimórficas no nosso genoma. Lembre-se de que polimorfismo é quando</p><p>determinado gene está presente com frequência em uma população e pode se</p><p>expressar de diferentes formas. Estas regiões polimórficas podem ser formadas</p><p>por repetições consecutivas de número variável (VNTR, do inglês, Variable</p><p>Number of Tandem Repeats) também chamadas de minissatélites, ou por repetições</p><p>consecutivas curtas (STR, do inglês, Short Tandem Repeats) ou microssatélites.</p><p>Por muito tempo os testes de paternidade usaram regiões VNTR, isoladas com</p><p>enzimas de transcrição e visualizadas pela técnica de Southern blot.</p><p>Atualmente, são usadas regiões STR, o que permite o uso de uma quantidade</p><p>menor de material genético, e são pesquisados 15 lócus após amplificação do</p><p>material por PCR. Para a PCR é utilizado um conjunto de primers marcados</p><p>com diferentes fluorescências, o que permite a visualização das bandas a partir</p><p>de esferogramas gerados por eletroforese em um sequenciador automatizado</p><p>(STRACHAN; READ, 2011; ALVES; SOUZA, 2013). Na interpretação do resultado,</p><p>as bandas da criança são comparadas com as bandas da mãe e do suposto pai,</p><p>como mostra a Figura 16. Observe a figura, quem você acha que é o pai biológico</p><p>da criança?</p><p>TÓPICO 2 — APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO</p><p>195</p><p>Sabendo que ela recebe de cada genitor um cromossomo de cada par de</p><p>cromossomos homólogos, cerca de metade dos marcadores do seu perfil provém</p><p>de sequências de DNA herdadas da mãe, e a outra metade, do pai. Assim,</p><p>quando os perfis são comparados, todas as bandas no perfil de DNA da criança</p><p>devem estar presentes nos perfis de DNA combinados dos pais biológicos. Diante</p><p>disso, podemos afirmar que o pai biológico da criança do exemplo é o número 2</p><p>(SNUSTED; SIMMONS, 2017).</p><p>FIGURA 16 - RESULTADO DE TESTE DE PATERNIDADE</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 597)</p><p>2.3 ANÁLISE FORENSE</p><p>A chamada Ciência Forense é uma área de atuação interdisciplinar</p><p>que utiliza diversos conhecimentos científicos e técnicas especializadas para</p><p>solucionar questões legais. O biomédico também pode dar sua contribuição para</p><p>a Ciência Forense ao traçar o perfil genético de indivíduos e compará-los com o</p><p>material biológico encontrado em cenas de assassinatos, estupros e outros crimes.</p><p>No caso de estupros, por exemplo, é possível identificar o DNA do sêmen</p><p>deixado na vítima, enquanto que o sangue de uma faca usada em um assassinato</p><p>pode identificar o DNA do agressor. Até um fio de cabelo ou raspados de pele</p><p>podem ser utilizados, pois basicamente qualquer material é capaz de fornecer</p><p>DNA para análise.</p><p>Antigamente, era preciso obter uma grande quantidade de DNA da cena</p><p>do crime, mas hoje em dia, com o avanço das técnicas de biologia molecular,</p><p>é possível identificar o DNA de uma amostra contendo apenas vinte células e</p><p>compará-la com os possíveis suspeitos. Não é incrível, acadêmico?</p><p>196</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>Mas o que é feito em um laboratório de Genética Forense? Assim como no</p><p>teste de paternidade, a análise forense é feita pela avaliação de microssatélites (ou</p><p>STR) em uma técnica que ficou conhecida como DNA fingerprinting (impressão</p><p>digital de DNA). Esse nome é devido ao fato de que pela análise do número de</p><p>repetições desses trechos STR é possível individualizar uma pessoa e, no caso</p><p>da Genética Forense, correlacionar com precisão determinado vestígio de algum</p><p>suspeito (ALVES; SOUZA, 2013).</p><p>A técnica de DNA fingerprinting se inicia com a extração do DNA de</p><p>amostras coletadas da vítima ou de algum suspeito. Qualquer tipo</p><p>de fluido biológico ou amostra de tecido que contenha células pode</p><p>ser utilizado para a análise de DNA. As amostras mais utilizadas</p><p>atualmente são sangue, sêmen (no caso de crimes sexuais), células do</p><p>epitélio da bochecha, amostras de biópsias de tecidos moles e ossos, e</p><p>pelos e cabelos que contenham células do bulbo capilar, entre outras.</p><p>O DNA obtido é tratado pela técnica RFLP, método que se baseia em</p><p>clivagens feitas por enzimas de restrição (enzimas que clivam o DNA</p><p>em determinados pontos específicos), gerando fragmentos de DNA</p><p>de diferentes tamanhos e sequências específicas. Em seguida, esses</p><p>fragmentos são separados por eletroforese, marcados e analisados.</p><p>O perfil formado será específico de cada indivíduo, dado que os</p><p>fragmentos formados pelas enzimas de restrição, os microssatélites,</p><p>têm quantidade variável de indivíduo para indivíduo (ALVES;</p><p>SOUZA, 2013, p. 178).</p><p>A Figura 17 mostra o tipo de perfis de STR</p><p>usados em processos judiciais.</p><p>Quatro lócus estão sendo comparados na figura (VWA, TH01, TPOX e CSF1PO)</p><p>e, comparando os perfis de fluorescência mostrados no gráfico, podemos ver que</p><p>o DNA obtido do sangue encontrado na cena do crime corresponde ao perfil do</p><p>Suspeito 2, mas não ao perfil do suspeito 1. É importante lembrar que esse resultado</p><p>não é suficiente para afirmar que o Suspeito 2 cometeu o crime, mas indica que,</p><p>pelo menos, ele esteve na cena do crime (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>Caso Leicester, o primeiro assassinato resolvido com o uso da genética</p><p>Em 1988, na Inglaterra, duas adolescentes, Lynda Mann e Dawn Ashcroft foram estupradas</p><p>e mortas, e um homem chamado Richard Buckland havia confessado os crimes. Na</p><p>mesma região vivia o médico e geneticista Alec Jeffreys, professor na Universidade de</p><p>Leicester. Jeffreys estudava uma técnica que permitia a identificação de um indivíduo com</p><p>quase 100% de certeza. A polícia local, que havia coletado os sêmens encontrados nas</p><p>vítimas, pediu para Jeffreys comparar o material com o DNA de Richard Buckland e o</p><p>médico descobriu que ele não era o responsável pelos crimes. Para tentar encontrar o</p><p>estuprador e assassino a polícia incentivou uma campanha de doação de sangue na região.</p><p>Jeffreys analisou amostras de 3.600 homens e comparou com o DNA extraído do sêmen.</p><p>Finalmente, descobriu-se que o padeiro Pitchfork havia sido o causador dos crimes e ele</p><p>ficou conhecido como o primeiro indivíduo condenado por causa de um exame de DNA.</p><p>Leia mais sobre o papel da Genética na Ciência Forense em: https://kasvi.com.br/genetica-</p><p>forense-importancia-amostras-solucao-crimes/.</p><p>INTERESSANTE</p><p>TÓPICO 2 — APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO</p><p>197</p><p>FIGURA 17 - PERFIS DE DNA DE QUATRO LOCI STR PREPARADOS A PARTIR DE DNA ISOLADO</p><p>DE SANGUE ENCONTRADO NO LOCAL DE UM CRIME E DE SANGUE COLETADO DE DOIS</p><p>SUSPEITOS</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 598)</p><p>198</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>2.4 REPRODUÇÃO HUMANA</p><p>Uma das questões mais comuns envolvendo Genética e Reprodução</p><p>Humana são casais que desejam, porém não conseguem engravidar. A</p><p>dificuldade na reprodução atinge cerca de 20% da população mundial e o homem</p><p>é responsável por 50 a 70% dos casos. A infertilidade masculina pode ter causas</p><p>genéticas, como a presença de anomalias nos cromossomos sexuais, mutações</p><p>no gene CFTR e microdeleções do cromossomo Y. Essas últimas correspondem</p><p>a 7-10% dos casos e envolvem mutações no braço longo do cromossomo Y (Yq)</p><p>em três regiões denominadas “azoospermia factors” (AZF), AZFa, AZFb e AZFc,</p><p>relacionadas com a espermiogênese. Você aprendeu que as microdeleções não</p><p>são detectáveis na cariotipagem tradicional, por isso outras técnicas precisam</p><p>ser utilizadas, como a PCR, o FISH e, principalmente o CGH-array (BORGES;</p><p>MACEDO, 2016).</p><p>Com o avanço dos estudos em genética, surgiram técnicas de Reprodução</p><p>Humana Assistida que, em termos gerais, podem ser classificadas em</p><p>intracorpórea, como a Inseminação Artificial, na qual a fecundação ocorre dentro</p><p>da mulher, e extracorpórea, como a Fertilização in vitro (FIV). A FIV é uma</p><p>técnica complexa na qual os ovócitos da mulher são retirados do seu organismo</p><p>para serem fecundados em laboratório. O material genético masculino (cerca de</p><p>40.000 espermatozoides, que podem ser do parceiro ou de um banco de sêmen), é</p><p>adicionado ao meio contendo os ovócitos e, caso a fertilização ocorra, os embriões</p><p>são reinseridos no útero.</p><p>Outra técnica extracorpórea usada em casos mais difíceis é a Injeção</p><p>Citoplasmática de Espermatozoides (ICSI), que consiste na introdução de um</p><p>único espermatozoide no interior do citoplasma do ovócito com o auxílio de</p><p>micromanipuladores. O biomédico especializado nessa área pode atuar no</p><p>processo de identificação e classificação ovocitária, processamento seminal,</p><p>espermograma, criopreservação seminal, classificação e criopreservação</p><p>embrionária, biópsia embrionária e na manipulação de gametas e pré-embriões</p><p>(PAULA et al., 2019, FERREIRA et al., 2017).</p><p>Outro exemplo do uso da Genética na área de reprodução humana é no</p><p>Diagnóstico Genético Pré-Implantacional (PGD) ou no Screening Genético Pré-</p><p>Implantacional (PGS). O PGD e o PGS têm o objetivo de analisar o embrião gerado</p><p>por FIV ou ICSI ainda nos primeiros estágios de desenvolvimento (3º ou 5º dia</p><p>após a fertilização) e antes de ele ser implantado no útero da mãe. No PGD são</p><p>pesquisadas doenças específicas (por exemplo, caso os pais tenham o gene para</p><p>fibrose cística), enquanto no PGS é feito um rastreio em busca de anormalidades</p><p>gênicas e cromossômicas. Em ambos os casos, recomendados principalmente</p><p>quando há abortos frequentes ou suspeita de doenças hereditárias, uma ou</p><p>duas células do embrião são removidas no laboratório e testadas, o que permite</p><p>selecionar os embriões saudáveis para o implante no útero, o que aumentam as</p><p>chances de uma gravidez saudável. As técnicas mais utilizadas para PGD e PGS</p><p>são FISH, CGH-array e sequenciamento NGS (SOUZA; ALVEZ, 2016).</p><p>TÓPICO 2 — APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO</p><p>199</p><p>FIGURA 18 - ESQUEMA ILUSTRATIVO DOS PROCEDIMENTOS DE PGD E PGS</p><p>FONTE: Adaptado de <https://www.invitra.com/en/wp-content/uploads/2014/04/What-is-PGD.</p><p>png>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>2.4.1 Aconselhamento genético</p><p>O aconselhamento genético é um conjunto de procedimentos realizados</p><p>por profissionais (médicos, geneticistas, biomédicos, bioquímicos, psicólogos etc.)</p><p>que tem como objetivo informar e orientar indivíduos sobre o risco de ocorrência</p><p>de doença genética em sua família. Dentre os procedimentos estão incluídos o</p><p>diagnóstico, a etiologia, o prognóstico, o risco de repetição da doença e a prestação</p><p>de esclarecimentos que possibilitem aos casais de risco tomar decisões sobre seu</p><p>futuro reprodutivo.</p><p>O aconselhamento genético pode ser prospectivo, quando previne o</p><p>aparecimento de uma doença genética na família, como no caso de casais de idade</p><p>avançada, ou retrospectivo, quando já existem indivíduos afetados: uma mulher</p><p>filha de hemofílico quer saber o risco de ter um filho com a doença ou casal cujo</p><p>primeiro filho teve anencefalia quer saber o risco de ter um segundo filho com a</p><p>anomalia (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>Em alguns casos, acadêmico, o cálculo do risco de um casal ter um filho com</p><p>determinada doença é relativamente simples e requer apenas o conhecimento dos</p><p>princípios de herança mendeliana. Entretanto, muitos fatores podem complicar</p><p>o cálculo, como doenças com manifestação tardia e redução da penetrância.</p><p>Além disso, é preciso analisar o risco não apenas de forma quantitativa, mas</p><p>também qualitativa. Por exemplo, apesar de o risco de recorrência de polidactilia</p><p>poder chegar a 50%, dificilmente um casal optará por não ter mais filhos devido</p><p>à possibilidade de ele possuir um ou dois dedos a mais. Por outro lado, riscos</p><p>muito menores para doenças graves, como 1/25 para defeito de tubo neural, pode</p><p>levar um casal a optar por FIV seguida de PGD ou PGS (SNUSTAD; SIMMONS,</p><p>2017). O importante no caso do aconselhamento genético é que o profissional</p><p>seja capaz de orientar o casal sobre os possíveis riscos de doenças genéticas e</p><p>possíveis soluções a fim de que eles sejam capazes de tomar a melhor decisão</p><p>possível para a sua realidade.</p><p>200</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>2.5 TERAPIA COM CÉLULAS-TRONCO</p><p>No primeiro tópico da Unidade 1 do nosso livro didático, acadêmico,</p><p>você conheceu as células-tronco, seus diferentes tipos e onde elas podem ser</p><p>encontradas no nosso organismo. Você aprendeu que essas células especiais</p><p>possuem duas características importantes: o seu potencial de renovação, o que as</p><p>torna capazes de se reproduzir continuamente, e sua capacidade de diferenciação,</p><p>ou seja, de se especializar em diversos tipos celulares. Neste subtópico, nós</p><p>iremos além e estudaremos o potencial</p><p>terapêutico dessas células no tratamento</p><p>de diversas doenças.</p><p>As pesquisas com células-tronco aumentaram significativamente nos</p><p>últimos 20 anos. Em 2006, um pesquisador japonês descobriu a possibilidade de</p><p>obter células-tronco pluripotentes de maneira induzida (esse processo é chamado</p><p>de reprogramação celular); isso solucionou um problema ético e também</p><p>ampliou o potencial terapêutico das células-tronco. Mas por que essa descoberta</p><p>foi tão importante que rendeu um Prêmio Nobel em 2012? Você deve lembrar,</p><p>acadêmico, que as células-tronco pluripotentes são muito especiais, pois são</p><p>capazes de dar origem a todos os tecidos do nosso corpo. No entanto, até então,</p><p>essas células eram obtidas de uma única forma: de blastocistos humanos.</p><p>Quando casais com problemas de fertilidade realizavam FIV ou ICSI, os</p><p>embriões gerados no processo e que não eram utilizados poderiam ser doados</p><p>para a pesquisa, de onde seriam obtidas as células-tronco pluripotentes.</p><p>Você pode imaginar, acadêmico, que esse processo de obtenção das células-</p><p>tronco gera até hoje uma grande discussão ética entre diferentes segmentos da</p><p>sociedade a respeito do uso e da possível destruição de embriões para fins de</p><p>pesquisa. Assim, quando Shinya Yamanaka, pesquisador japonês, mostrou que</p><p>era possível pegar uma célula especializada (como, por exemplo, uma célula de</p><p>pele) e redirecioná-la de volta ao estágio embrionário pluripotente (essas células</p><p>reprogramadas foram chamadas de iPSC, do inglês, induced pluripotent stem</p><p>cells), essa descoberta revolucionou a comunidade científica. Em outras palavras,</p><p>é possível pegar qualquer célula somática de um indivíduo adulto, por exemplo,</p><p>células de pele, e transformá-la em uma célula não especializada, indiferenciada</p><p>e com a capacidade de se dividir indefinidamente (Figura 19).</p><p>Yamanaka mostrou, em suas pesquisas, ser possível obter células-tronco</p><p>pluripotentes sem a necessidade de usar embriões. Essa célula indiferenciada e</p><p>imortal teria o potencial de se especializar novamente na mesma célula da pele</p><p>ou em outro tipo celular qualquer, mesmo em um neurônio. Isso pode ser usado</p><p>em transplantes, por exemplo, ao obter células do próprio paciente, reprogramá-</p><p>las e utilizá-las no próprio indivíduo, o que praticamente eliminaria os riscos de</p><p>rejeição (ZORZANELLI et al., 2017; MENCK; SLUYS, 2017).</p><p>TÓPICO 2 — APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO</p><p>201</p><p>FIGURA 19 - REPROGRAMAÇÃO CELULAR PARA OBTER CÉLULAS-TRONCO PLURIPOTENTES</p><p>INDUZIDAS</p><p>FONTE: Adaptado de <https://www.stammzellen.nrw.de/fileadmin/_processed_/e/9/csm_Gra-</p><p>fik02_zellreprogrammierung_E_ea714e8d19.png>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>Além do uso em transplantes, outra aplicação das iPSC é a possibilidade</p><p>de reprogramar células de pacientes com doenças genéticas para transformá-las</p><p>em iPSC e, então, diferenciá-las em células saudáveis. Nesses casos, as células</p><p>somáticas do paciente são coletadas e, no laboratório, são reprogramadas para</p><p>iPSC ex vivo. Em seguida são diferenciadas para as células que originalmente</p><p>estavam alteradas no paciente, permitindo corrigir o problema.</p><p>Estudos envolvendo doenças capazes de ser modeladas pela reprogramação</p><p>celular ainda são raros e envolvem principalmente doenças neurológicas e</p><p>neurodegenerativas, como o mal de Parkinson e a esclerose amiotrófica lateral</p><p>(ELA). No entanto, estudos recentes têm utilizado a edição gênica em fibroblastos</p><p>de pacientes com β-talassemia homozigota e fibrose cística.</p><p>As iPSC geradas foram diferenciadas em hemácias livres da doença</p><p>e em células epiteliais respiratórias com a devida correção no gene CFTR,</p><p>respectivamente, as quais são, então, transplantadas de volta nos pacientes</p><p>202</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>(FIRFH et al., 2015, XIE et al., 2014). Imagine que incrível a possibilidade de utilizar</p><p>essa técnica de células-tronco para tratar e curar pacientes com uma infinidade de</p><p>doenças genéticas diferentes!</p><p>Veja ainda, a seguir, algumas aplicações do uso de células-tronco adultas</p><p>na clínica (EITELEVEN et al., 2017):</p><p>• Células-tronco na substituição de tecidos, membros e órgãos: as células-tronco</p><p>hematopoiéticas, por exemplo, dão origem às linhagens sanguíneas (hemácias,</p><p>linfócitos e plaquetas), e são utilizadas no tratamento de leucemia a partir da</p><p>doação de medula óssea de alguém que seja compatível com o receptor.</p><p>• Células-tronco na restauração do sistema cardiovascular: a administração de</p><p>células-tronco é capaz de reparar o tecido cardíaco em casos de doença arterial</p><p>coronariana, levando à formação de novos vasos sanguíneos e miócitos.</p><p>• Células-tronco de origem dental: obtidas principalmente da polpa dos dentes,</p><p>pode ser usada no reparo de tecidos dentais e faciais.</p><p>2.6 TERAPIA GÊNICA</p><p>A terapia gênica é definida como a transferência de material genético</p><p>(DNA ou RNA, chamado transgene) para células de um paciente visando à cura</p><p>ou melhora de determinada doença. No caso de doenças genéticas, nas quais um</p><p>gene está defeituoso ou ausente, a terapia genética irá inserir genes funcionais nas</p><p>células que tenham o gene defeituoso a fim de substituí-los e, com isso, reparar o</p><p>defeito e melhorar o quadro clínico do paciente.</p><p>A terapia gênica pode utilizar técnicas físicas (Ex.: biobalística), químicas</p><p>(Ex.: lipossomos) e/ou biológicas (Ex.: vetores virais) para inserir o transgene no</p><p>alvo e pode ser realizada in vivo ou ex vivo. A seguir iremos conhecer algumas</p><p>etapas dessa técnica:</p><p>• 1ª ETAPA – Isolar o gene: nós vimos que existem mais de 5.000 doenças</p><p>genéticas, então a primeira etapa da terapia gênica consiste em identificar a</p><p>doença do paciente e isolar o gene que se deseja introduzir para corrigir o</p><p>problema. O isolamento do gene é feito por técnicas de clonagem e biologia</p><p>molecular que mencionamos anteriormente.</p><p>• 2ª ETAPA – Definir se a técnica será in vivo ou in vitro: a transferência gênica</p><p>pode ser realizada in vivo, quando feita diretamente ao paciente, ou ex vivo,</p><p>em que as células são manipuladas em laboratório, recebem o transgene e só</p><p>então são inoculadas no paciente. O método indireto (ex vivo) é mais demorado,</p><p>mas tem a vantagem de ser mais eficiente, pois permite selecionar e ampliar as</p><p>células antes da inoculação.</p><p>• 3ª ETAPA – Introdução do gene na célula-alvo: assim como você viu no</p><p>Tópico 1 no subtópico sobre Clonagem, o gene desejado deve ser introduzido</p><p>na célula-alvo e ser capaz de traduzir uma grande quantidade de proteína para</p><p>TÓPICO 2 — APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO</p><p>203</p><p>reparar o defeito genético. Essa transferência pode ser feita de forma física,</p><p>química ou biológica, sendo que o uso de vetores, como retrovírus, é a forma</p><p>mais utilizada.</p><p>• 4ª ETAPA – Produção das células com DNA recombinante: o vetor com o</p><p>gene-alvo é introduzido na célula mantida em cultura e esta incorpora o DNA</p><p>retroviral, tornando-se o que se chama de DNA recombinante.</p><p>• 5ª ETAPA – Introdução das células no paciente: as células cultivadas são</p><p>introduzidas no paciente e o gene-alvo produz a proteína corrigida, substituindo</p><p>a proteína doente e melhorando os sintomas da doença genética.</p><p>Veja, na Figura 20, um exemplo de terapia gênica para o tratamento de</p><p>anemia falciforme, a doença genética de maior prevalência no Brasil. A anemia</p><p>falciforme é uma doença monogênica causada por uma mutação no gene da cadeia</p><p>beta da hemoglobina, o que dá origem a uma hemoglobina anormal chamada</p><p>hemoglobina S (HbS).</p><p>Essa hemoglobina alterada substitui a hemoglobina normal (HbA) e</p><p>resulta em hemácias que perdem seu formato bicôncavo e adquirem um formato</p><p>de foice, o que prejudica sua atividade transportadora de oxigênio e resulta na</p><p>sua destruição pelo baço. Até recentemente, a única opção de cura para pacientes</p><p>homozigotos com a doença era o transplante de medula óssea, o que é bastante</p><p>limitante, pois apenas 25% dos pacientes encontram doadores compatíveis.</p><p>Atualmente, com</p><p>a combinação da terapia de células-tronco com a terapia</p><p>gênica, os cientistas encontraram uma nova alternativa para a cura da anemia</p><p>falciforme. Para isso, os cientistas isolam o gene funcional da hemoglobina e,</p><p>usando retrovírus ou lentivírus como vetores, o introduzem em células-tronco</p><p>hematopoiéticas coletadas da medula óssea vermelha (MOV) do próprio paciente.</p><p>Essas células-tronco hematopoiéticas são transplantadas para a MOV do</p><p>paciente e, ao se dividirem, produzirão a hemoglobina funcional, suprimindo</p><p>as hemoglobinas alteradas (GOUVEIA; FERREIRA, 2018). Veja a importância do</p><p>biomédico especialista em genética, acadêmico: o exemplo apresentado mostra a</p><p>combinação de várias técnicas apresentadas neste livro para o tratamento de uma</p><p>única doença: transplante, terapia com células-tronco, clonagem e terapia gênica.</p><p>204</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>FIGURA 20 - ETAPAS DA TERAPIA GÊNICA NO TRATAMENTO DA ANEMIA FALCIFORME</p><p>FONTE: <https://www.sobiologia.com.br/conteudos/Biotecnologia/terapia_genica.php>. Acesso</p><p>em: 15 jun. 2020.</p><p>TÓPICO 2 — APLICAÇÕES DA GENÉTICA PARA O BIOMÉDICO</p><p>205</p><p>Leia mais sobre terapia gênica em:</p><p>• https://g1.globo.com/bemestar/aids/noticia/2019/10/22/cientista-testa-terapia-genica-</p><p>-para-impedir-replicacao-do-hiv-em-pacientes-na-franca.ghtml;</p><p>• https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-e-feita-a-terapia-genetica/.</p><p>DICAS</p><p>Terapia gênica no tratamento do HIV</p><p>A terapia gênica não tem aplicações apenas para doenças de origem genética: cada vez</p><p>mais cientistas no mundo todo tem usado essa técnica no combate a outras doenças,</p><p>como o HIV.</p><p>A ideia agora é utilizar os chamados “lentivírus”, microrganismos com longos períodos de</p><p>incubação e pertencentes à mesma família do HIV, para transportar os genes terapêuticos</p><p>que vão combater o vírus. Esses genes serão inoculados nas células-tronco da medula</p><p>dos pacientes, retiradas previamente e corrigidas geneticamente em laboratório para</p><p>inclusão dos antivírus. Em seguida, as células serão novamente injetadas nos doentes.</p><p>A expectativa é criar nos pacientes uma “resistência” ao vírus da Aids, que impediria sua</p><p>replicação no organismo. O antivírus, explicou a cientista à RFI Brasil, contém um RNA</p><p>(ácido ribonucleico, essencial no comando e coordenação dos processos biológicos) que</p><p>vai diminuir ou anular completamente a transcrição do correceptor da membrana do</p><p>vírus HIV. Finalmente, com o tempo, o vírus não conseguirá mais se replicar.</p><p>FONTE: <https://anadem.org.br/site/cientista-testa-terapia-genica-para-impedir-replica-</p><p>cao-do-hiv-em-pacientes-na-franca/>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>IMPORTANTE</p><p>206</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• Desordens cromossômicas, como a síndrome de Down, podem ser detectadas</p><p>pela citogenética clássica, por FISH e por CGH-array, sendo que essas</p><p>últimas também são capazes de detectar microdeleções. Já técnicas de PCR e</p><p>sequenciamento são usadas para detectar alterações gênicas, responsáveis por</p><p>uma série de doenças, como a fibrose cística, alguns tipos de câncer, doença de</p><p>Parkinson e Alzheimer e até intolerância à lactose.</p><p>• O diagnóstico pré-natal é aquele realizado no feto/embrião ainda no útero</p><p>materno. O material é coletado principalmente por amniocentese, na qual</p><p>uma parte do líquido amniótico é utilizada para detectar alterações genicas e</p><p>cromossômicas.</p><p>• A sexagem fetal consiste em pesquisar, pela técnica de PCR, sequências</p><p>relacionadas ao cromossomo Y no sangue, o que identifica o gênero masculino.</p><p>• O teste de paternidade é baseado na pesquisa por regiões polimórficas do</p><p>DNA formadas por microssatélites. Sabendo que cada pessoa recebe 50% do</p><p>seu material genético de cada um dos seus genitores, é possível identificar no</p><p>DNA da criança em questão bandas compatíveis com as bandas encontradas</p><p>no DNA dos pais biológicos.</p><p>• A avaliação de microssatélites também é utilizada em ciência forense para</p><p>identificar a compatibilidade de materiais biológicos encontrados em cenas de</p><p>crimes (como sangue, sêmen, fios de cabelo etc.) com possíveis suspeitos. Essa</p><p>técnica ficou conhecida como DNA fingerprinting.</p><p>• Na área de reprodução humana é possível usar a genética para identificar</p><p>possíveis causas de infertilidade, como a causada por mutações no cromossomo</p><p>Y e também para técnicas de reprodução assistida, como a inseminação artificial,</p><p>a inseminação in vitro (FIV) e a Injeção Citoplasmática de Espermatozoides</p><p>(ICSI).</p><p>• O Diagnóstico Genético Pré-implantacional (PGD) e o Screening Genético Pré-</p><p>Implantacional (PGS) tem o objetivo de analisar o embrião gerado por FIV ou</p><p>ICSI antes de ele ser implantado no útero da mãe. No PGD são pesquisadas</p><p>doenças específicas e no PGS é feita uma triagem de possíveis anormalidades</p><p>genéticas.</p><p>207</p><p>• O aconselhamento genético é um procedimento multidisciplinar que tem</p><p>como objetivo orientar casais que desejam ter filhos sobre o risco de ocorrência</p><p>de determinadas doenças genéticas em sua família. Pode ser prospectivo ou</p><p>retrospectivo.</p><p>• As terapias com células-tronco podem utilizar células mesenquimais ou</p><p>hematopoiéticas (como no transplante de medula óssea) e, mais recentemente,</p><p>células-tronco pluripotentes induzidas (iPSC) obtidas através da reprogramação</p><p>de células somáticas. A grande vantagem desse método é a não utilização de</p><p>embriões humanos.</p><p>• A terapia gênica é definida como a transferência de material genético para</p><p>células de um paciente visando à cura ou à melhora de determinada doença.</p><p>Para isso é preciso definir o gene que irá corrigir a doença em questão, adicioná-</p><p>lo a um vetor e inseri-lo na célula do paciente. O gene adicionado irá produzir</p><p>a proteína que substituirá a proteína mutante.</p><p>208</p><p>1 A metodologia mais simples e barata para detectar síndrome de Down é</p><p>__________, no entanto, a técnica possui como desvantagem o _____________</p><p>devido à necessidade de fazer ____________ para obter ______________.</p><p>Assinale a alternativa a seguir que contém a ordem correta das informações</p><p>que preenchem as lacunas.</p><p>a) ( ) Bandeamento G – uso de corantes tóxicos – clonagem celular – Células</p><p>em divisão.</p><p>b) ( ) PCR – uso de equipamentos complexos – amplificação do DNA – a</p><p>sequência gênica do paciente.</p><p>c) ( ) FISH – uso de sondas fluorescentes – amplificação do DNA – a imagem</p><p>da trissomia do 21.</p><p>d) ( ) Bandeamento G – tempo para obter o resultado – cultura celular –</p><p>células em divisão.</p><p>2 Sobre a técnica de hibridização fluorescente in situ (FISH), utilizada assinale</p><p>a alternativa incorreta:</p><p>a) ( ) Ela utiliza sondas marcadas com sequências de nucleotídeos</p><p>complementares a sequência de DNA alvo.</p><p>b) ( ) Após a extração do DNA e marcação com a sonda fluorescente é</p><p>necessário fazer uma eletroforese em gel de agarose para visualizar as</p><p>bandas fluorescentes.</p><p>c) ( ) Diferente da citogenética clássica, ela pode ser usada no diagnóstico de</p><p>microdeleções.</p><p>d) ( ) Ela pode ser usada no diagnóstico de doenças genéticas como a</p><p>síndrome de Down e também para doenças somáticas, como a mutação</p><p>BCR/ABL presente em algumas leucemias.</p><p>3 Sobre o diagnóstico pré-natal, é incorreto afirmar:</p><p>a) ( ) Uma das formas de coletar material para a análise é pela técnica de</p><p>amniocentese que coleta o líquido amniótico através de uma agulha que</p><p>perfura o ventre materno.</p><p>b) ( ) Para detectar aberrações cromossômicas, as células coletadas por</p><p>amniocentese são postas em cultura e os cromossomos metafásicos são</p><p>analisados numérica e estruturalmente.</p><p>c) ( ) Para o diagnóstico de doenças monogênicas são feitas técnicas de</p><p>cultura celular para amplificação do gene obtido do material fetal a partir</p><p>de células em divisão.</p><p>d) ( ) Para a pesquisa de doenças genéticas específicas o ideal é usar a técnica</p><p>de PCR ou suas variações, já para realizar uma triagem, o ideal</p><p>é a técnica</p><p>de CGH-array.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>209</p><p>4 Sobre o exame de sexagem fetal, assinale as afirmativas a seguir e selecione</p><p>a alternativa que contém todas as sentenças corretas:</p><p>I- O exame é feito pela pesquisa do cromossomo Y na amostra de sangue</p><p>materno.</p><p>II- O exame é feito pela pesquisa do cromossomo X na amostra de sangue</p><p>materno.</p><p>III- A técnica usada é PCR seguida de eletroforese em gel de agarose.</p><p>IV- Após a 8ª semana de gestação, a confiabilidade do resultado é de 99%,</p><p>inclusive em gravidezes gemelares.</p><p>a) ( ) As afirmativas I e III estão corretas.</p><p>b) ( ) As afirmativas II e III estão corretas.</p><p>c) ( ) As afirmativas I e IV estão corretas.</p><p>d) ( ) As afirmativas I, III e IV estão corretas.</p><p>5 Sobre o uso da Genética nas ciências forenses e nos testes de paternidade é</p><p>incorreto afirmar:</p><p>a) ( ) Assim como no teste de paternidade, a análise forense é feita pela</p><p>avaliação de microssatélites (ou STR).</p><p>b) ( ) Em geral são feitas técnicas de PCR seguida de eletroforese em um</p><p>método conhecido como DNA fingerprinting.</p><p>c) ( ) Na interpretação do resultado do teste de paternidade, as bandas da</p><p>criança são comparadas com as bandas da mãe e do suposto pai.</p><p>d) ( ) A confiabilidade do resultado depende da quantidade de material</p><p>coletado, sendo que são necessárias grandes quantidades de DNA para a</p><p>obtenção do resultado.</p><p>6 Sobre o papel da Genética nas técnicas de reprodução humana, analise as</p><p>sentenças a seguir e selecione a alternativa que contém apenas sentenças</p><p>corretas.</p><p>I- Microdeleções no cromossomo Y podem ser uma das causas de infertilidade</p><p>masculina e elas podem ser detectadas por técnicas de citogenética clássica.</p><p>II- A fertilização in vitro (FIV) é uma técnica intracorpórea, na qual a</p><p>fecundação ocorre dentro da mulher.</p><p>III- A injeção citoplasmática de espermatozoides (ICSI) consiste na introdução</p><p>de um único espermatozoide no interior do ovócito com o auxílio de</p><p>micromanipuladores.</p><p>IV- O Diagnóstico Genético Pré-Implantacional (PGD) e o Screening Genético</p><p>Pré-Implantacional (PGS) têm o objetivo de analisar o embrião gerado por</p><p>FIV ou ICSI ainda nos primeiros estágios de desenvolvimento para detectar</p><p>doenças genéticas.</p><p>210</p><p>a) ( ) As afirmativas I e III estão corretas.</p><p>b) ( ) As afirmativas III e IV estão corretas.</p><p>c) ( ) As afirmativas II e IV estão corretas.</p><p>d) ( ) As afirmativas II, III e IV estão corretas.</p><p>7 Sobre a terapia gênica, analise as sentenças a seguir e selecione a alternativa</p><p>que contém apenas sentenças corretas.</p><p>I- Em pacientes com doenças genéticas nas quais um gene está defeituoso</p><p>ou ausente, é possível inserir genes funcionais que substituem os genes</p><p>defeituosos do paciente.</p><p>II- A terapia gênica pode utilizar técnicas físicas químicas e/ou biológicas</p><p>como vetores virais para inserir o transgene e pode ser realizada in vivo ou</p><p>ex vivo.</p><p>III- A anemia falciforme é um exemplo de doença genética que pode ser</p><p>tratada pela terapia gênica.</p><p>IV- A terapia gênica utiliza técnicas de clonagem molecular, biologia molecular</p><p>e cultivo celular.</p><p>a) ( ) As afirmativas I, II e IV estão corretas.</p><p>b) ( ) As afirmativas II, III e IV estão corretas.</p><p>c) ( ) As afirmativas I e III estão corretas.</p><p>d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas.</p><p>211</p><p>UNIDADE 3</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Olá, acadêmico, seja bem-vindo ao último tópico do nosso Livro Didático</p><p>de Genética Humana e Médica!</p><p>Neste tópico, nós iremos abordar o princípio de alguns conceitos bastante</p><p>amplos e complexos, mas que são muito importantes dentro da Genética e, por isso,</p><p>é necessário que você conheça pelo menos os seus fundamentos: a Farmacogenética</p><p>e a Farmacogenômica, a Nutrigenômica, os alimentos transgênicos e o papel da</p><p>Genética no desempenho esportivo.</p><p>Por fim, iremos discutir algumas questões de bioética, pois você já deve ter</p><p>percebido que a possibilidade de manipular genes vegetais, animais e humanos</p><p>abre precedentes para uma série de questões que tornam necessária a discussão</p><p>sobre o desenvolvimento da ciência nessa área. Até onde devemos ir?</p><p>Juntos, nós viemos de uma longa jornada desde o aprendizado sobre os</p><p>princípios moleculares da Genética na Unidade 1, quando você aprendeu sobre</p><p>divisão celular, cromossomos, embriogênese e a organização do genoma humano;</p><p>passando pelo conhecimento dos fundamentos da hereditariedade e alterações</p><p>cromossômicas na Unidade 2, onde você ainda estudou a Imunogenética e</p><p>a Genética de tumores; até finalmente chegar à Unidade 3, na qual todo esse</p><p>conhecimento foi aplicado em técnicas de Citogenética e Biologia Molecular, as</p><p>quais, por sua vez, você aprendeu que são utilizadas em uma série de atividades</p><p>clínicas e de pesquisa.</p><p>Neste último tópico, nós esperamos que você seja capaz de entender os</p><p>conceitos apresentados e aplicar tudo o que aprendeu até aqui para tirar suas</p><p>próprias conclusões sobre as discussões éticas que permeiam o campo da Genética.</p><p>Obrigada pela sua companhia até aqui e bom aprendizado desses últimos</p><p>conteúdos referentes ao nosso livro!</p><p>Bons estudos!</p><p>TÓPICO 3 —</p><p>OUTRAS APLICAÇÕES DA GENÉTICA</p><p>212</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>2 FARMACOGENÉTICA E FARMACOGENÔMICA</p><p>Imagine, acadêmico, que uma pessoa descobre possuir uma doença grave,</p><p>como um câncer. Ao descobrir a doença, esse indivíduo receberá um tratamento</p><p>com medicamentos quimioterápicos utilizados para o seu tipo específico de</p><p>câncer. Mas você já se perguntou por que algumas pessoas são curadas e outras,</p><p>que receberam exatamente o mesmo protocolo de tratamento, não são? Claro</p><p>que existe uma série de fatores envolvidos no sucesso da quimioterapia, mas um</p><p>desses fatores é a variabilidade genética da população.</p><p>Essa variabilidade faz com que uma pessoa tenha sucesso no tratamento</p><p>com um fármaco X, enquanto que outra pessoa seja totalmente resistente a ele.</p><p>Não seria incrível se, ao descobrir um câncer, por exemplo, fosse possível fazer</p><p>uma análise genética desse paciente e, ao invés de tratá-lo com medicamentos</p><p>genéricos que não sabemos se terão efeito, conhecer exatamente quais fármacos</p><p>serão efetivos e administrá-los já no início do tratamento? Em outras palavras,</p><p>abandonar a tentativa e erro e ir direto ao alvo?</p><p>Nesse contexto, sabendo que a resposta farmacológica para um</p><p>medicamento não é a mesma para todos os indivíduos devido, entre outros</p><p>fatores, à variabilidade genética, a Farmacogenética é a ciência que estuda a</p><p>variabilidade das respostas a fármacos em função das variações genéticas dos</p><p>indivíduos. Enquanto a Farmacogenética estuda os efeitos de genes isolados, a</p><p>Farmacogenômica estuda o efeito do genoma como um todo, bem como o efeito</p><p>das interações de vários genes simultaneamente.</p><p>As duas ciências permitem o que hoje chamamos de Medicina Personalizada,</p><p>a qual é baseada na investigação do perfil genético de um indivíduo para escolher</p><p>a melhor opção terapêutica para ele. O objetivo da Medicina Personalizada é</p><p>aumentar ao máximo a probabilidade de eficácia terapêutica e minimizar o risco</p><p>de toxicidade e reações adversas graves (NOVA, 2016).</p><p>Uma das principais aplicações da Medicina Personalizada é no tratamento</p><p>do câncer. Na Figura 21 é possível observar uma imagem em que a técnica de</p><p>FISH foi utilizada para identificar o gene amplificado HER-2/neu (identificado</p><p>na imagem pela fluorescência vermelha, a fluorescência verde corresponde ao</p><p>controle da reação). Aproximadamente 25% dos pacientes com câncer de mama</p><p>possuem amplificação desse gene. Nesses pacientes é possível utilizar o fármaco</p><p>trastuzumabe (Herceptin®), que tem como alvo a proteína produzida por esse</p><p>gene anormal. No entanto, nos 75% dos pacientes com câncer de mama negativos</p><p>para HER-2, o fármaco não será eficiente e serão necessários outros medicamentos</p><p>(BRASIL, 2017).</p><p>TÓPICO 3 — OUTRAS APLICAÇÕES DA GENÉTICA</p><p>213</p><p>FIGURA</p><p>21 - IMAGEM DE CÉLULAS DE TUMORES DE CÂNCER DE MAMA POSITIVAS PARA HER-2</p><p>FONTE: <https://labtestsonline.org/sites/aacc-lto.us/files/inline-images/Fish%20HER2neu.jpg>.</p><p>Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>Outro exemplo das aplicações da Farmacogenética e da Faramacogenômica</p><p>é na avaliação do tratamento com Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina</p><p>(ISRS). Os ISRS são uma classe de medicamentos utilizados no tratamento de</p><p>uma série de doenças relacionadas ao neurotransmissor serotonina, como</p><p>esquizofrenia, ansiedade, depressão etc. Apesar de terem melhorado de maneira</p><p>significativa o tratamento de doenças psíquicas, os mecanismos de ação dos ISRS</p><p>ainda não são totalmente conhecidos. Além disso, o efeito desses fármacos em</p><p>um grupo de pacientes é bastante diverso: enquanto algumas pessoas respondem</p><p>muito bem a baixas doses do ISRS sertralina, por exemplo, outras não respondem</p><p>ou apresentam muitos efeitos adversos ou necessitam de doses muito altas e, em</p><p>função disso, precisam tentar outro medicamento. Como as doenças psíquicas</p><p>são bastante complexas e possuem componentes genéticos, o conhecimento</p><p>da variabilidade em genes envolvidos no metabolismo dos antidepressivos ou</p><p>nos genes codificadores de proteínas relacionadas com seus sítios de ação pode</p><p>fornecer informações que ajudem no manejo de dosagens e personalização da</p><p>escolha das medicações utilizadas para o tratamento da depressão e ansiedade,</p><p>doenças cada vez mais comuns na nossa sociedade (SILVA; ANDRADE, 2008).</p><p>2.1 NUTRIGENÔMICA</p><p>De maneira semelhante à Farmacogenômica, a Nutrigenômica é um</p><p>campo que vem crescendo na atualidade e tem o objetivo de estabelecer dietas</p><p>personalizadas, com base no genótipo de cada indivíduo, para a promoção</p><p>da saúde e redução do risco de doenças crônicas, como o câncer. Já está bem</p><p>estabelecido que alguns nutrientes e compostos bioativos, principalmente os de</p><p>origem vegetal, possuem efeito protetor contra determinadas doenças. Por outro</p><p>lado, a variação genética que discutimos no tópico anterior também está presente</p><p>na maneira como esses nutrientes atuam no nosso corpo. Tessarin e Silva (2013, p.</p><p>79) discutem por que isso acontece:</p><p>214</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>A partir de dados do sequenciamento do DNA humano, constatou-se</p><p>que, apesar das profundas diferenças existentes entre os indivíduos</p><p>quanto a seus fenótipos, como cor da pele, tipo de cabelo, peso e</p><p>altura, seus genomas apresentam similaridade de cerca de 99,9%.</p><p>A pequena variação interindividual de 0,1% se dá, principalmente,</p><p>por meio de alterações discretas na sequência do DNA conhecidas</p><p>como polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs, pronunciam-se</p><p>“snips”), que existem aos milhões no genoma humano. Muitas vezes,</p><p>os SNPs podem levar a mudanças na estrutura, função, quantidade ou</p><p>localização das proteínas codificadas, alterando inúmeros processos</p><p>fisiológicos. Além de interferirem em características físicas, os SNPs</p><p>também podem influenciar o risco para doenças crônicas não-</p><p>transmissíveis, necessidades de nutrientes e resposta aos alimentos.</p><p>Mas você deve se perguntar como isso acontece. Veja a Figura 22 e</p><p>imagine que os nutrientes que ingerimos são sinais que são detectados pelas</p><p>células. Uma vez detectados, esses sinais desencadeiam alterações na expressão</p><p>dos genes: por exemplo, podem induzir o aumento ou a diminuição da síntese</p><p>de determinadas proteínas. Essas proteínas podem estar relacionadas à produção</p><p>de energia, a processos metabólicos e inflamatórios e também à proliferação,</p><p>diferenciação e morte celular. Por isso, imagine um paciente com câncer, com</p><p>uma doença inflamatória como a aterosclerose ou com qualquer outra doença</p><p>crônica. O conhecimento sobre a capacidade dos nutrientes de modular a</p><p>expressão gênica deve ser considerado na hora de escolher alimentos específicos</p><p>que podem melhorar o prognóstico e a qualidade de vida desses pacientes. É</p><p>claro, acadêmico, que a ingestão e compostos bioativos nem sempre substitui</p><p>o uso de medicamentos, mas a nutrigenômica pode e deve ser uma aliada da</p><p>terapia medicamentosa. Por outro lado, estudos mostram que dietas específicas</p><p>estão associadas ao controle de determinadas doença sem o uso de moléculas</p><p>sintéticas, como o hipotireoidismo e a síndrome do ovário policístico, além da dieta</p><p>cetogênica para pacientes com autismo (TESSARIN; SILVA, 2013; MEZZOMO;</p><p>NADAL, 2016; CICCANTELLI; DONINI, 2019).</p><p>TÓPICO 3 — OUTRAS APLICAÇÕES DA GENÉTICA</p><p>215</p><p>FONTE: <https://3rlab.fi les.wordpress.com/2016/09/nutri-2.jpg?w=474&h=307>. Acesso em: 15</p><p>jun. 2020.</p><p>FIGURA 22 - CADEIA DE EVENTOS DESDE A INGESTÃO DE UM NUTRIENTE ATÉ A RESPOSTA</p><p>METABÓLICA BASEADA NA MODULAÇÃO GÊNICA</p><p>2.2 A INFLUÊNCIA GENÉTICA NO TREINAMENTO ESPORTIVO</p><p>Além do impacto da dieta na promoção da saúde, a prática da atividade</p><p>física regular é outro importante fator a se considerar na prevenção e no</p><p>tratamento de inúmeras doenças; por isso, a Organização Mundial da Saúde</p><p>(2020) recomenda a realização de, pelo menos, 30 minutos de atividade física</p><p>moderada por dia.</p><p>Porém, além de fatores externos como o tipo de treinamento e a dieta, é</p><p>inegável que a genética desempenha um papel importante no grau de adaptação</p><p>de um indivíduo a determinada atividade física. Para pessoas comuns, esse papel</p><p>não é tão evidente, mas em atletas de alto rendimento essa infl uência é bastante</p><p>clara. De fato, hoje são conhecidos mais de 200 genes que estão relacionados ao</p><p>desempenho físico humano. Eles estão relacionados, por exemplo, à geração de</p><p>energia, síntese proteica, atuação como neurotransmissores ou receptores de sinais</p><p>hormonais e infl uenciam, entre outros, o ganho de massa muscular, a resistência</p><p>muscular e a densidade óssea, os quais tem grande impacto na performance. Veja</p><p>o exemplo do gene ACTN3, responsável pela proteína alfa-actina-3, presente</p><p>em fi bras musculares de contração rápida, as quais que possuem maior ganho</p><p>de massa muscular e volume. Essa proteína é expressa pelo alelo funcional R</p><p>em indivíduos homozigotos ou heterozigotos. Porém existe um polimorfi smo</p><p>chamado R577X no gene ACTN3 (descrito pelo alelo não funcional X), que está</p><p>presente em cerca de 18% da população saudável. Indivíduos XX têm maior</p><p>difi culdade para realizar exercícios de força e tendem a ser sedentários ou realizar</p><p>216</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>atividades aeróbias. Um estudo com jogadores de futebol mostrou ainda que</p><p>indivíduos RR ou RX eram mais rápidos e melhores em saltos que indivíduos XX</p><p>(TRINDADE, 2017).</p><p>Além do gene ACTN3, tem sido demonstrado que indivíduos que possuem</p><p>concentrações aumentadas do fator de crescimento IGF-1 têm maior lubrificação</p><p>das articulações, maior massa e força na musculatura esquelética. Aqueles com</p><p>maior produção de eritropoetina têm maior liberação de oxigênio nos tecidos</p><p>ativos durante o exercício físico e possuem melhor desempenho em atividades de</p><p>caráter aeróbio. Além disso, já se sabe que existem variantes genéticas associadas</p><p>a uma maior predisposição a lesões, de forma que a identificação desses casos</p><p>permite preparar melhor o atleta com o objetivo de preveni-las (SOUZA et al.,</p><p>2019).</p><p>Doping genético</p><p>O chamado doping genético consiste no uso de células, genes e elementos gênicos, ou</p><p>na modulação da expressão gênica, com objetivo de melhorar o desempenho esportivo.</p><p>O princípio é exatamente o mesmo que foi apresentado na terapia gênica (inserção</p><p>do gene-alvo dentro da célula do indivíduo com o uso de um vetor, sendo que o gene</p><p>produzirá a proteína desejada), a diferença é que nesse caso o objetivo não é terapêutico,</p><p>mas sim relacionado à performance. Os principais alvos em atletas são: eritropoietina,</p><p>bloqueadores de miostatina, hormônio de crescimento humano, fator de crescimento</p><p>IGF-1, endorfinas, leptina etc. O doping genético é um dos grandes desafios</p><p>realizar a divisão (ABBAS; DUTTA, 2009). Ela é</p><p>dividida em duas fases de intervalo, chamadas gap1 (G1) e gap2 (G2), e uma fase</p><p>de síntese (S). Na Figura 5, você pode observar um esquema representativo do</p><p>ciclo celular com as fases da intérfase e da mitose. Segundo a figura, na fase G1</p><p>ocorre a preparação para a divisão, com aumento do volume celular, condensação</p><p>dos cromossomos e produção de proteínas que serão essenciais para a nova</p><p>célula. Na fase S ocorre a síntese de novo DNA de forma que a célula duplica o</p><p>seu número de cromossomos. Nós discutiremos detalhadamente os processos de</p><p>replicação do DNA no Tópico 3 desta unidade. Finalmente, após a replicação do</p><p>TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO À GENÉTICA</p><p>9</p><p>DNA, inicia-se a fase G2, durante a qual a célula duplica seus centríolos, organelas</p><p>que serão necessárias durante a divisão e sintetiza componentes necessários para</p><p>a mitose, por exemplo, o fuso mitótico (LEWIS, 2010).</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 50)</p><p>FIGURA 5 - CICLO CELULAR DIVIDIDO EM INTÉRFASE E MITOSE</p><p>O ciclo celular é altamente regulado. O termo checkpoint ou pontos de</p><p>checagem refere-se aos mecanismos pelos quais a célula bloqueia de forma ativa</p><p>o ciclo celular até que um processo, como a replicação do DNA ou a mitose,</p><p>ocorra de forma completa e sem erros. Durante o ciclo celular são reconhecidos</p><p>três pontos de bloqueio principais: em G1, antes de a célula entrar na fase S do</p><p>ciclo; em G2, antes de a célula entrar em mitose; e durante a metáfase (KASTAN;</p><p>BARTEK, 2004). Se, durante o processo de divisão celular, ocorre um erro como</p><p>uma mutação, por exemplo, os pontos de checagem bloqueiam o ciclo celular</p><p>para permitir que proteínas especiais reparem o dano e, assim, garantir que as</p><p>células-filhas não serão prejudicadas. Quando o dano não pode ser reparado,</p><p>a célula em um processo de morte regulada, chamado de apoptose, conhecido</p><p>como “suicídio celular”.</p><p>A apoptose é um tipo de morte celular que ocorre de forma natural</p><p>durante toda a vida de um organismo. Ela envolve alterações morfológicas</p><p>características como diminuição do volume do núcleo e da célula, fragmentação</p><p>do DNA e invaginações na membrana plasmática, chamadas blebs, que separam</p><p>os fragmentos celulares em corpos apoptóticos. Essas estruturas são reconhecidas</p><p>pelo sistema imune e resultam na eliminação das células danificadas sem gerar</p><p>uma intensa resposta inflamatória (KERR; WYLLIE; CURRIE, 1972; LI; GALLUZZI</p><p>et al., 2018). É importante ter em mente, acadêmico, que o equilíbrio entre divisão</p><p>e morte celular mantém o número adequado de células, permite que estruturas</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>10</p><p>cresçam durante nosso desenvolvimento e impedem o crescimento celular</p><p>anormal, como acontece em tumores. Algumas características morfológicas da</p><p>apoptose podem ser observadas na Figura 6.</p><p>FONTE: Adaptado de <https://image.slidesharecdn.com/apoptosis-121108135829-phpapp01/95/</p><p>apoptosis-3-1024.jpg?cb=1352383200>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 6 - PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA APOPTOSE</p><p>Apesar de o termo morte celular soar como algo ruim, em muitos casos é</p><p>importante que algumas células do nosso corpo possam morrer de forma controlada.</p><p>Por exemplo, você já se perguntou como seus dedos foram formados? Durante a vida</p><p>intrauterina, as células entre os seus dedos foram instruídas a morrer, permitindo que seus</p><p>dedos fossem formados. Que bom que elas fizeram isso, caso contrário, você poderia ter</p><p>mãos ou pés com membranas entre os dedos, por exemplo.</p><p>INTERESSANTE</p><p>FONTE: <http://twixar.me/KYWm>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FORMAÇÃO DOS DEDOS</p><p>3.1 MITOSE CELULAR</p><p>A mitose, acadêmico, é o processo de divisão celular no qual uma célula-</p><p>mãe se divide em duas células-filhas geneticamente idênticas e com o mesmo</p><p>número de cromossomos (46). Como você viu na Figura 5, ela é dividida em cinco</p><p>fases: prófase, metáfase, anáfase, telófase e citocinese (ALMEIDA et al., 2005,</p><p>PIERCE, 2016).</p><p>TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO À GENÉTICA</p><p>11</p><p>Durante a prófase, o primeiro estágio da mitose, o DNA já foi duplicado</p><p>durante a fase de síntese da intérfase. Cada cromossomo consiste, então, em duas</p><p>subunidades paralelas, as cromátides, unidas por uma região estreita comum aos</p><p>dois, chamada de centrômero. Na prófase ocorre a condensação do DNA, o que</p><p>resulta no encurtamento e engrossamento dos cromossomos e permite que eles se</p><p>separem mais facilmente. A membrana nuclear se rompe e ocorre a formação do</p><p>fuso mitótico.</p><p>Na metáfase, os cromossomos duplicados se anexam ao fuso mitótico pelos</p><p>centrômeros e se alinham na região central (ou equador) da célula. Em seguida,</p><p>na anáfase, a membrana plasmática começa a sofrer invaginações no centro</p><p>da célula, onde os cromossomos da metáfase se alinharam. Os centrômeros se</p><p>partem, liberando as duas cromátides e dividindo os cromossomos, seguida pela</p><p>migração das cromátides para os polos opostos do fuso (SNUSTAD; SIMMONS,</p><p>2017).</p><p>Após a divisão do material nuclear, na telófase os cromossomos se</p><p>desenovelam, a membrana nuclear é novamente formada e ocorre a citocinese</p><p>(divisão do citoplasma), finalizando o ciclo de replicação. Cada célula-filha recebe</p><p>metade do material cromossômico duplicado e, dessa maneira, elas mantêm</p><p>o mesmo número de cromossomos da célula-mãe (46) (LEWIS, 2010). As fases</p><p>detalhadas da mitose estão descritas na Figura 7.</p><p>FONTE: <https://aulazen.com/wp-content/uploads/2016/06/jogo-da-mitose.jpg>. Acesso em: 9</p><p>jun. 2020.</p><p>FIGURA 7 - ETAPAS DA MITOSE</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>12</p><p>3.2 MEIOSE CELULAR</p><p>A meiose, acadêmico, é o processo que reduz o estado diploide de 46</p><p>cromossomos para o estado haploide de 23 cromossomos, isto é, reduz pela metade</p><p>o número de cromossomos de uma célula. As células haploides resultantes dão</p><p>origem aos gametas humanos (espermatozoide no homem e oócito na mulher).</p><p>Se você pensar a respeito, a meiose é um processo essencial para a vida humana.</p><p>Se não tivéssemos a divisão do número de cromossomos e a formação</p><p>de gametas haploides, cada uma dessas células teria 46 cromossomos, como</p><p>todos os nossos outros tipos celulares. Assim, quando o espermatozoide de 46</p><p>cromossomos se unisse ao óvulo, também com 46, daria origem a uma célula de</p><p>92 cromossomos, o que é incompatível com a vida humana!</p><p>Além de produzir gametas haploides, a meiose possui outra característica</p><p>fundamental: ela permite a variabilidade genética! É possível, por exemplo, que uma</p><p>pessoa produza um gameta contendo alelos para cabelos loiros e olhos azuis e outro</p><p>gameta com alelos para cabelos e olhos castanhos. A meiose explica, por exemplo,</p><p>porque irmãos possuem características diferentes entre si. Mas como isso acontece?</p><p>Como vimos anteriormente, os cromossomos de uma célula diploide se</p><p>apresentam em pares, um de origem materna e outro de origem paterna. Você</p><p>lembra como são chamados os membros de um par de cromossomos? Eles são</p><p>chamados de cromossomos homólogos! Cromossomos homólogos possuem os</p><p>mesmos genes, mas diferentes alelos (ou variantes) de um mesmo gene. Durante</p><p>a meiose, os cromossomos homólogos se associam e essa é a base do processo</p><p>que reduz o número de cromossomos ao estado haploide e permite a variação</p><p>genética (LEWIS, 2010, SNUSTAD; SIMMONS, 2017, MENCK; SLUYS, 2017).</p><p>Da mesma forma que acontece com a mitose, acadêmico, a duplicação</p><p>cromossômica associada à síntese de DNA, ocorre antes da primeira divisão,</p><p>durante a fase de síntese da intérfase, como você viu nos tópicos anteriores. Porém,</p><p>diferentemente da mitose, o processo de meiose conta com duas divisões celulares,</p><p>a meiose I, chamada de divisão de redução, pois reduz o número de cromossomos</p><p>duplicados de 46 para 23, e a meiose II, chamada divisão equacional, que produz</p><p>quatro células a partir das duas células formadas na primeira divisão, separando</p><p>os cromossomos duplicados. Agora veremos detalhadamente cada fase da meiose.</p><p>3.2.1 Meiose I</p><p>Após a interfase, na prófase I (prófase da meiose I), os cromossomos</p><p>das</p><p>agências antidoping, pois não há o uso de substância ilícita, o que dificulta sua detecção</p><p>(CARDOSO, 2018).</p><p>ATENCAO</p><p>Para aprender mais sobre a influência genética no desempenho esportivo, leia</p><p>os seguintes materiais:</p><p>• http://www.usp.br/aunantigo/exibir?id=7913&ed=1400&f=14;</p><p>• https://www.educacaofisica.com.br/ciencia-ef/genetica-e-desempenho-esportivo/;</p><p>• Artigo: Biologia molecular e esporte: como a genética ajuda a melhorar o desempenho de</p><p>quem pratica esporte? Disponível em: http://publicacoesacademicas.unicatolicaquixada.</p><p>edu.br/index.php/mostrabiomedicina/article/view/3916/3428.</p><p>DICAS</p><p>TÓPICO 3 — OUTRAS APLICAÇÕES DA GENÉTICA</p><p>217</p><p>2.3 ALIMENTOS TRANSGÊNICOS</p><p>Atualmente existe muita discussão a respeito de alimentos transgênicos,</p><p>mas você sabe exatamente o que eles são? Alimentos transgênicos são organismos</p><p>que, através de técnicas de engenharia genética, receberam genes de outro</p><p>organismo a fi m de melhorar as características do alimento original. É importante</p><p>lembrar, acadêmico, que a melhoria genética de plantas e vegetais é uma prática</p><p>constante e realizada pelo homem praticamente desde que ele dominou a</p><p>agricultura.</p><p>A seleção de sementes mais resistentes, de frutos mais doces e de vegetais</p><p>mais suculentos automaticamente moldou os alimentos como os conhecemos</p><p>hoje. Atualmente, porém, é possível modifi car diretamente o DNA das plantas</p><p>e rapidamente acrescentar genes de outras espécies aos genomas vegetais por</p><p>técnicas de recombinação do DNA. Com isso é possível obter plantas mais</p><p>resistentes a pragas, maiores e mais palatáveis.</p><p>Os vegetais transgênicos podem ser produzidos por vários procedimentos</p><p>diferentes, porém o mais utilizado é a transformação mediada por Agrobacterium</p><p>tumefaciens (Figura 23). A. tumefaciens é uma bactéria do solo que possui genes</p><p>(chamados genes cry), que codifi cam proteínas tóxicas para insetos como besouros</p><p>e lagartas. Assim, ao inserir o segmento de DNA dessa bactéria que contém os</p><p>genes cry para as células vegetais, elas passam a produzir essa proteína tóxica, o</p><p>que a protege dos insetos que se alimentam do vegetal (BROWN, 2009).</p><p>FONTE: <https://meioambiente.culturamix.com/blog/wp-content/uploads/2013/02/Saiba-Mais.</p><p>gif>. Acesso em: 15 jun. 2020.</p><p>FIGURA 23 - PRODUÇÃO DE ALIMENTOS TRANSGÊNICOS PELA INSERÇÃO DE GENES CRY</p><p>218</p><p>UNIDADE 3 — TÓPICOS AVANÇADOS EM GENÉTICA</p><p>3 PRINCÍPIOS ÉTICOS EM MANIPULAÇÃO GENÉTICA</p><p>Você viu, ao longo deste livro, acadêmico, que os avanços recentes em</p><p>Genética, Biologia Molecular, Biotecnologia e Engenharia Genética possibilitaram</p><p>o avanço de técnicas laboratoriais que permitiram aos cientistas manipular o</p><p>DNA de plantas, animais e mesmo de seres humanos com o objetivo de alterar</p><p>suas características originais. Já há muito tempo inúmeras questões de “certo”</p><p>ou “errado”, “bom” ou “mal” estão envolvidas na medicina, mas o número de</p><p>questionamentos e de questionadores só cresce com o desenvolvimento dela: que</p><p>destino dar a uma gestação de um feto anencéfalo? Como aliviar a dor de um</p><p>paciente terminal? Deve-se permitir selecionar embriões na FIV? E o que fazer</p><p>com aqueles não selecionados?</p><p>Como você pode imaginar, todas essas possibilidades rendem inúmeros</p><p>debates sobre possíveis riscos biológicos dessas práticas, bem como sobre os</p><p>aspectos éticos das pesquisas (DIAFÉRIA, 2002; SNUSTED; SIMMONS, 2017).</p><p>Segundo o dicionário Aurélio, a ética é definida como “o estudo dos juízos</p><p>de apreciação que se referem à conduta humana susceptível de qualificação do</p><p>ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja</p><p>de modo absoluto” (FERREIRA, 2005, p. 383). Em outras palavras, ética é o ramo</p><p>da filosofia que estuda o comportamento humano a fim de estabelecer limites que</p><p>garantem uma convivência pacífica dentro de uma sociedade. Ela define o que é</p><p>correto e incorreto no agir humano.</p><p>Na década de 1970, surgiu o termo Bioética, que busca aplicar a ética no</p><p>contexto da biomedicina e da tecnologia científica a fim de, entre outros objetivos,</p><p>proteger a vida e a dignidade humana (TELES, 2014).</p><p>Com o termo Bioética tenta-se focalizar a reflexão ética no fenômeno</p><p>vida. Constata-se que existem formas diversas de vida e modos</p><p>diferentes de consideração dos aspectos éticos com elas relacionados.</p><p>Multiplicaram-se as áreas diferenciados da Bioética e os modos de</p><p>serem abordadas. A ética ambiental, os deveres para com os animais,</p><p>a ética do desenvolvimento e a ética da vida humana relacionada com</p><p>o uso adequado e o abuso das diversas biotecnologias aplicadas à</p><p>medicina são exemplos dessa diversificação. É esse último, contudo,</p><p>o significado que tem prevalecido na prática. Com o espetacular</p><p>desenvolvimento da biologia molecular e da genética médica, a</p><p>humanidade deparou-se com novos questionamentos de caráter ético.</p><p>Para Noelle Lenoir, presidente do Comitê Internacional de Bioética da</p><p>UNESCO, a Bioética nasceu a partir da seguinte pergunta importância</p><p>capital: "Qual a influência do desenvolvimento da biologia molecular</p><p>no futuro do homem? (TELES, 2014, p. 1).</p><p>Atualmente, a tecnologia do DNA recombinante, as possibilidades de</p><p>clonagem e de sequenciamento do genoma, entre outros avanços na área da</p><p>Genética, possibilitam a construção de uma nova ideia de medicina, a medicina</p><p>TÓPICO 3 — OUTRAS APLICAÇÕES DA GENÉTICA</p><p>219</p><p>preditiva aplicada à genética. É possível encontrar, por exemplo, um paciente</p><p>saudável e assintomático que seja portador de uma doença no seu genoma que</p><p>poderá ou não aparecer futuramente.</p><p>A identificação dessas alterações genéticas permitirá ao médico prevenir</p><p>a doença ou limitar seus efeitos. Por outro lado, a possibilidade de alterar</p><p>organismos geneticamente, sem nenhuma supervisão ou controle, pode gerar</p><p>resultados desastrosos que vão desde impactos ambientais graves até questões</p><p>relacionadas à perda da dignidade humana, segregação e eugenia.</p><p>A manipulação gênica pode curar e prevenir doenças, mas também</p><p>pode criar monstros. Como tudo na vida, existe um lado bom e um lado ruim</p><p>e, justamente por isso, é preciso cautela ao decidir até onde podemos ir com o</p><p>uso dessas tecnologias. A seguir estão algumas questões éticas relacionadas à</p><p>genética e levantadas por Clotet (2009):</p><p>• Até que ponto o bem da humanidade é melhor atingido com novas formas de</p><p>vida por meio da engenharia genética?</p><p>• Qual é o impacto para a saúde do uso de alimentos transgênicos?</p><p>• Como avaliar os resultados da experimentação genética, sabendo que alguns</p><p>dos seus efeitos só serão manifestados nas gerações futuros?</p><p>• Quais são os critérios utilizados no momento de fixar os riscos e benefícios</p><p>experimentação genética?</p><p>• É justo incentivar, por meio do SUS, as terapias gênicas de grande custo em</p><p>fetos ou recém-nascidos com doenças de alto risco quando grande parte da</p><p>população não tem garantidas as suas necessidades de saúde mais elementares?</p><p>• Quais são as doenças genéticas que deveriam ser submetidas a diagnóstico</p><p>pré-natal visando à interrupção da gravidez?</p><p>• Quais são os limites da pesquisa e/ou aplicação de alterações genômicas de</p><p>células germinativas?</p><p>• Quais são os princípios que deveriam nortear a alteração do genoma de um ser</p><p>ainda não nascido?</p><p>• Quais são as fronteiras da eugenia?</p><p>Inúmeras Organizações Internacionais, como a ONU, a UNESCO, a OMS</p><p>e ONGs espalhadas por todo o planeta, além de filósofos e entidades religiosas,</p><p>debatem a necessidade de diretrizes internacionais relacionadas à saúde, justiça</p><p>e ética a respeito das intervenções genéticas. Frias (2013) destaca outras questões</p><p>importantes envolvendo bioética e genética:</p><p>• Problema da pesquisa: testes de técnicas de intervenção genética em adultos</p><p>devem ser realizados quando não há tratamento possível? E em fetos e</p><p>embriões? A pesquisa com células-tronco embrionárias deve ser permitida? E</p><p>a clonagem terapêutica?</p><p>começam a se condensar e os homólogos se alinham um ao lado um do outro,</p><p>gene por gene, em um evento chamado sinapse. Neste momento, os cromossomos</p><p>homólogos trocam pedaços do seu DNA em um processo chamado cruzamento</p><p>ou, do inglês, crossing over (Figura 8). Após o crossing over, cada cromossomo que</p><p>antes continha genes de apenas um dos pais passa a apresentar genes de ambos os</p><p>TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO À GENÉTICA</p><p>13</p><p>progenitores. O resultado disso é o surgimento de novas combinações genéticas.</p><p>Por exemplo: pense novamente que um dos progenitores possui alelos para</p><p>cabelos loiros e olhos azuis, enquanto o outro possui alelos para cabelos e olhos</p><p>castanhos. Após o crossing over e a mistura de genes, é possível ter cromossomos</p><p>contendo, além dos alelos originais, alelos para cabelos loiros e olhos castanhos</p><p>e alelos para cabelos castanhos e olhos azuis, por exemplo. Como a prófase I é</p><p>uma fase bastante complexa, ela é dividida em cinco fases: leptóteno, zigóteno,</p><p>paquíteno, diplóteno e dia cinese (BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2013).</p><p>• Leptóteno: início da condensação dos cromossomos.</p><p>• Zigóteno: início do pareamento dos cromossomos, chamada de sinapse.</p><p>• Paquíteno: ocorre o crossing over, também chamado de permutação gênica, que</p><p>aumenta a variabilidade genética.</p><p>• Diplóteno: os cromossomos pareados começam a se separar, porém a região</p><p>onde houve crossing over continua em estreito contato. Esses pontos de contato</p><p>são chamados de quiasmas.</p><p>• Diacinese: a carioteca (membrana do núcleo) se rompe, os cromossomos se</p><p>condensam ainda mais e se ligam pelos centrômeros ao fuso mitótico.</p><p>Em seguida, na metáfase I, os cromossomos pareados seguem em direção</p><p>a polos opostos do fuso mitótico. Isso garante que, quando a célula-mãe se dividir,</p><p>cada célula-filha receberá um cromossomo homólogo de cada par. Durante a anáfase</p><p>I, os cromossomos pareados separam-se definitivamente em um processo chamado</p><p>disjunção cromossômica. Quando os cromossomos separados se reúnem em polos</p><p>opostos da célula, termina a primeira divisão meiótica. No estágio final, a telófase</p><p>I, o fuso se desfaz, as células-filhas são separadas por membranas, os cromossomos</p><p>são descondensados e um núcleo se forma ao redor dos cromossomos de cada nova</p><p>célula. Como você pode observar na Figura 9, as células produzidas na meiose I</p><p>contêm um número haploide de cromossomos, mas cada um deles ainda tem duas</p><p>cromátides-irmãs que não são geneticamente idênticas, pois trocaram material com</p><p>seus pares durante a prófase I (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>FONTE: <https://pt-static.z-dn.net/files/ddd/084d897527ac8d01b4ec78f2a555ada0.jpg>. Acesso</p><p>em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 8 - REPRESENTAÇÃO DO CROSSING OVER, COM A TROCA DE MATERIAL GENÉTICO</p><p>QUE GARANTE A VARIABILIDADE GENÉTICA</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>14</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 56)</p><p>FIGURA 9 - ETAPAS DA MEIOSE I</p><p>3.2.2 Meiose II</p><p>As etapas da meiose II são muito semelhantes às etapas da mitose: enquanto</p><p>a meiose I tem como objetivo separar os cromossomos homólogos, a meiose II,</p><p>assim como a mitose, busca separar as cromátides irmãs. Como vimos no item</p><p>anterior, as células que iniciam a meiose II são células haploides originadas na</p><p>meiose I com apenas um cromossomo de cada par, mas ainda contendo duas</p><p>cromátides irmãs.</p><p>Assim, como mostra a Figura 10, durante a prófase II (prófase da meiose</p><p>II), os cromossomos se condensam, a carioteca é rompida e as duas cromátides</p><p>irmãs se ligam a lados opostos do fuso mitótico. Na metáfase II, os cromossomos</p><p>se deslocam até o plano equatorial da célula e, na anáfase II, seus centrômeros</p><p>se dividem para que as cromátides-irmãs possam se separar e seguir até os</p><p>polos opostos da célula. Este processo é chamado de disjunção das cromátides.</p><p>Finalmente, durante a telófase II, a membrana nuclear se forma novamente ao</p><p>redor das cromátides separadas, que passam a ser chamadas de cromossomos</p><p>(LEWIS, 2010; VARGAS, 2014; PIERCE, 2016).</p><p>Em humanos, o produto final da meiose são os espermatozoides e o</p><p>ovócito (oócito), que você verá com mais detalhes no Tópico 2 desta unidade. No</p><p>Quadro 2, você pode observar e comparar as principais características da mitose</p><p>e da meiose.</p><p>TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO À GENÉTICA</p><p>15</p><p>FONTE: Snustad e Simmons (2017, p. 56)</p><p>FONTE: Adaptado de <https://www.diferenca.com/mitose-e-meiose/>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 10 - ETAPAS DA MEIOSE II</p><p>QUADRO 2 - DIFERENÇAS ENTRE A MITOSE E A MEIOSE</p><p>MITOSE MEIOSE</p><p>DEFINIÇÃO</p><p>Processo de divisão celular em</p><p>que uma célula se divide em duas</p><p>réplicas idênticas.</p><p>Processo de produção dos gametas</p><p>humanos.</p><p>OCORRÊNCIA Células somáticas. Células germinativas.</p><p>NÚMERO DE</p><p>DIVISÕES Ocorre apenas uma divisão. Ocorrem duas divisões (meiose I</p><p>e II).</p><p>NÚMERO DE</p><p>CÉLULAS-FILHAS</p><p>Origina duas células-filhas com o</p><p>mesmo número de cromossomos da</p><p>célula-mãe (46).</p><p>Origina quatro células-filhas com</p><p>metade dos cromossomos da</p><p>célula-mãe (23).</p><p>COMPOSIÇÃO</p><p>GENÉTICA</p><p>A informação genética das células-</p><p>filhas é idêntica à célula-mãe.</p><p>Há variabilidade genética devido</p><p>ao crossing over.</p><p>FASES DA</p><p>DIVISÃO</p><p>Prófase</p><p>Metáfase</p><p>Anáfase</p><p>Telófase</p><p>Prófase I</p><p>Metáfase I</p><p>Anáfase I</p><p>Telófase I</p><p>Prófase II</p><p>Metáfase II</p><p>Anáfase II</p><p>Telófase II</p><p>CRUZAMENTO</p><p>GENÉTICO</p><p>Não há emparelhamento de</p><p>cromossomos homólogos nem</p><p>crossing over, logo nenhuma</p><p>recombinação ocorre.</p><p>Há emparelhamento de</p><p>cromossomos homólogos e crossing</p><p>over que resulta em recombinação</p><p>genética.</p><p>FUNÇÃO</p><p>Crescimento e regeneração de</p><p>tecidos, cicatrização, divisões do</p><p>zigoto durante o desenvolvimento</p><p>embrionário.</p><p>Diversidade genética através da</p><p>reprodução sexual, formação dos</p><p>gametas.</p><p>DIVISÃO DOS</p><p>CENTRÍOLOS</p><p>Os centríolos dividem-se durante a</p><p>anáfase. Durante a anáfase II.</p><p>CITOCINESE Ocorre na telófase. Ocorre na telófase I e na telófase II.</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>16</p><p>O YouTube conta com diversas videoaulas sobre mitose e meiose que podem</p><p>ajudá-lo a fixar e visualizar melhor este conteúdo! Por exemplo, acesse o canal Brasil</p><p>Escola pelo endereço https://www.youtube.com/MaisBiologiaRoger e procure por mitose</p><p>e meiose.</p><p>DICAS</p><p>3.3 CÉLULAS-TRONCO</p><p>Você já deve ter ouvido falar em células-tronco, acadêmico, mas você sabe</p><p>o que elas são e por que são tão importantes?</p><p>As células-tronco são muito raras e especiais, e se diferenciam de todos</p><p>os outros tipos celulares por apresentarem três características importantes.</p><p>Em primeiro lugar, são células não especializadas (ou indiferenciadas). Isso</p><p>significa que elas não são capazes de desempenhar funções de células normais do</p><p>nosso corpo, como bombear sangue (como uma célula da musculatura cardíaca)</p><p>ou carregar oxigênio (como uma hemácia). No entanto, justamente por serem</p><p>indiferenciadas, elas são capazes de dar origem a células altamente especializadas,</p><p>como as células cardíacas e nervosas. Essa é a segunda característica importante</p><p>das células-tronco: em determinadas circunstâncias elas podem ser induzidas</p><p>a se diferenciar dando origem a células maduras especializadas. Finalmente, a</p><p>terceira característica importante das células-tronco é que elas são capazes de se</p><p>renovar inúmeras vezes através da divisão celular, mesmo após longos períodos</p><p>de inatividade (SNUSTAD; SIMMONS, 2017).</p><p>Existem, basicamente, dois tipos de células-tronco: células-tronco</p><p>embrionárias e células-tronco não embrionárias, também chamadas de somáticas</p><p>ou adultas, como pode ser visto na Figura 11. As células-tronco embrionárias</p><p>são obtidas do zigoto, resultante da fertilização do oócito pelo espermatozoide.</p><p>Esse zigoto tem a incrível capacidade de originar absolutamente todas as células</p><p>do nosso organismo e de dar origem a um indivíduo completo. Devido às suas</p><p>propriedades regenerativas originais, essas células têm potencial para tratar</p><p>inúmeras doenças, como diabetes, doença cardíaca e doenças genéticas.</p><p>No entanto, como são obtidas de embriões humanos, existem questões</p><p>éticas envolvidas que atrasam o desenvolvimento</p><p>de pesquisas científicas nessa</p><p>área. As células-tronco adultas, por outro lado, estão presentes em praticamente</p><p>todos os tecidos após o nascimento e ao longo da vida adulta. São responsáveis</p><p>por substituir células que morrem tanto por processos fisiológicos (desgaste ou</p><p>lesão) quanto patológicos. Uma limitação das células-tronco adultas é que elas</p><p>geralmente dão origem a células especializadas do tecido nas quais residem.</p><p>TÓPICO 1 — INTRODUÇÃO À GENÉTICA</p><p>17</p><p>Por exemplo, uma célula-tronco hematopoiética na medula óssea é capaz de dar</p><p>origem a todas as células sanguíneas, mas não a uma célula de um tecido diferente,</p><p>como uma célula nervosa ou muscular (BORGES-OSÓRIO, 2013; VISINTIN et al.,</p><p>2013).</p><p>FONTE: <https://www.coladaweb.com/medicina-e-enfermagem/celulas-tronco>. Acesso em: 9</p><p>jun. 2020.</p><p>FIGURA 11 - CÉLULA-TRONCO EMBRIONÁRIA E CÉLULA-TRONCO ADULTA (HEMATOPOIÉTICA)</p><p>Além de serem divididas quanto a sua origem em embrionárias ou</p><p>adultas, as células-tronco podem ser divididas em relação a sua plasticidade, ou</p><p>seja, em relação a sua capacidade de se diferenciar, em totipotentes, pluripotentes</p><p>e multipotentes. A origem e as principais características de cada tipo estão</p><p>descritas no Quadro 3.</p><p>QUADRO 3 - CLASSIFICAÇÃO DAS CÉLULAS-TRONCO HUMANAS QUANTO AO SEU POTENCIAL</p><p>DE DIFERENCIAÇÃO</p><p>FONTE: <https://www.coladaweb.com/wp-content/uploads/2014/12/20170313-celula-tronco3.</p><p>jpg>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>18</p><p>Para conhecer mais sobre as células-tronco e seu incrível potencial terapêutico,</p><p>visite o site: https://saude.ig.com.br/celulastronco/.</p><p>Caso você se interesse em aprofundar o assunto, também recomendamos o livro: Células-</p><p>tronco: ciência, tecnologia e ética, escrito por Alice Teixeira Ferreira, Jerônimo Pereira de</p><p>França e Karolyn Sassi Ogliari.</p><p>DICAS</p><p>CAPA DO LIVRO CÉLULAS-TRONCO: CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ÉTICA</p><p>FONTE: <https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/91kW63+DpoL.jpg>. Acesso</p><p>em: 9 jun. 2020.</p><p>19</p><p>Neste tópico, você aprendeu que:</p><p>• As células contêm, dentro do núcleo, todo o nosso genoma, ou seja, toda a</p><p>sequência de informações que formam o material genético, organizado em 46</p><p>cromossomos. Esse conjunto de cromossomos é chamado de cariótipo.</p><p>• Um cromossomo é formado por braços unidos pelo centrômero e possui regiões</p><p>chamadas telômeros em suas extremidades. Eles são classificados de acordo</p><p>com a posição do centrômero em metacêntrico, submetacêntrico, acrocêntrico</p><p>e telocêntrico.</p><p>• Nossas células somáticas possuem 23 pares de cromossomos totalizando</p><p>um número diploide (2n) de 46. Os 22 pares comuns em homens e mulheres</p><p>são chamados de autossômicos e o par restante é chamado de cromossomos</p><p>sexuais.</p><p>• As células germinativas (oócito ou espermatozoide) são nossas únicas células</p><p>haploides (n), ou seja, possuem a metade do número de cromossomos: 23.</p><p>• Cromossomos homólogos são os pares de cromossomos herdados do pai e da</p><p>mãe e possuem informações genéticas semelhantes.</p><p>• O ciclo celular diz se uma célula está se dividindo (mitose) ou não (intérfase).</p><p>É um processo regulado por pontos de checagem que garantem a duplicação</p><p>correta da célula. Quando isso não acontece, a célula recebe um sinal de morte</p><p>(apoptose).</p><p>• A mitose é o processo de divisão celular no qual uma célula-mãe se divide</p><p>em duas células-filhas geneticamente idênticas e com o mesmo número de</p><p>cromossomos (46). Ela é dividida em: prófase, metáfase, anáfase, telófase e</p><p>citocinese.</p><p>• A meiose é o processo que reduz o estado diploide de 46 cromossomos para o</p><p>estado haploide de 23 cromossomos e dá origem aos gametas. É dividida em</p><p>meiose I e II e é na prófase I que ocorre o crossing over, um fenômeno em que os</p><p>cromossomos homólogos pareados trocam materiais genéticos entre si.</p><p>• Células-tronco são células indiferenciadas capazes de autorrenovação e de se</p><p>diferenciar em células maduras especializadas. Podem ter origem embrionária</p><p>ou adulta e são divididas em totipotentes, pluripotentes e multipotentes.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>20</p><p>1 Todas as células eucarióticas têm dentro de si uma variedade de estruturas</p><p>chamadas organelas, responsáveis pelas diferentes funções necessárias para</p><p>a manutenção do metabolismo celular. Sobre as organelas humanas citadas</p><p>a seguir, associe cada uma a sua principal função descrita na segunda</p><p>coluna.</p><p>Organela:</p><p>I- Lisossomo.</p><p>II- Retículo endoplasmático rugoso.</p><p>III- Núcleo.</p><p>IV- Retículo endoplasmático liso.</p><p>V- Complexo de Golgi.</p><p>VI- Mitocôndria.</p><p>VII- Peroxissomo.</p><p>Função:</p><p>( ) Síntese de lipídios.</p><p>( ) Contém DNA.</p><p>( ) Produção de energia.</p><p>( ) Digere restos celulares.</p><p>( ) Desintoxicação celular.</p><p>( ) Síntese de proteínas.</p><p>( ) Secreção e armazenamento.</p><p>Assinale a sequência correta:</p><p>a) ( ) I – V – IV – II – VI – VII – III.</p><p>b) ( ) IV – III – VI – I – VII – II – V.</p><p>c) ( ) VII – III – VI – IV – I – V – II.</p><p>d) ( ) V – II – III – VII – I – IV – VI.</p><p>2 Os cromossomos são constituídos por moléculas de DNA associadas</p><p>a proteínas. A respeito das características dos cromossomos humanos,</p><p>marque V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas.</p><p>( ) A extremidade do cromossomo é uma região chamada telômero e está</p><p>associada ao envelhecimento celular.</p><p>( ) Cromossomos homólogos são cópias unidas de um cromossomo recém</p><p>duplicado.</p><p>( ) As células somáticas possuem 46 cromossomos e as células germinativas,</p><p>23.</p><p>( ) Nos cromossomos acrocêntricos, o centrômero está localizado no meio do</p><p>cromossomo.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>21</p><p>Assinale a sequência correta:</p><p>a) ( ) V – F – V – V.</p><p>b) ( ) F – V – F – V.</p><p>c) ( ) V – F – V – F.</p><p>d) ( ) F – V – V – F.</p><p>3 O cariótipo é o conjunto de cromossomos de um indivíduo. Analisando</p><p>o cariótipo de uma pessoa podemos obter várias informações, como,</p><p>por exemplo, se se trata de um homem ou uma mulher. O que devemos</p><p>observar em um cariótipo para afirmar que um indivíduo é um homem</p><p>com cariótipo normal?</p><p>a) ( ) A presença do cromossomo X, pois esse é cromossomo que determina</p><p>o sexo masculino.</p><p>b) ( ) A ausência do cromossomo X, pois esse cromossomo é típico do sexo</p><p>feminino.</p><p>c) ( ) A presença de 47 cromossomos, sendo um cromossomo Y.</p><p>d) ( ) A presença de um cromossomo Y, pois indivíduos do sexo masculino</p><p>apresentam como cromossomos sexuais o X e o Y.</p><p>e) ( ) A presença de 46 cromossomos e um cromossomo Y.</p><p>4 Como reconhecimento de seus trabalhos pioneiros relacionados ao ciclo</p><p>celular, Leland H. Hartwell, Tim Hunt e Paul Nurse receberam o Prêmio</p><p>Nobel de Medicina e Fisiologia em 2001. Sabemos que o ciclo celular pode</p><p>ser dividido em duas etapas distintas: a interfase e a divisão celular. Sobre</p><p>a interfase, marque a alternativa correta.</p><p>I- Ela pode ser dividida em três etapas G1, G2 e G3.</p><p>II- Podemos definir essa etapa como um período entre duas divisões celulares.</p><p>III- Em G1 ocorre a duplicação do DNA.</p><p>IV- A célula em G1 possui metade da quantidade de DNA comparada à G2.</p><p>V- A apoptose é um processo de morte que acontece em casos de erros</p><p>detectados nos pontos de checagem e é sempre patogênica.</p><p>Estão corretas as alternativas:</p><p>a) ( ) I, IV e V.</p><p>b) ( ) II e IV.</p><p>c) ( ) II e III.</p><p>d) ( ) III, IV e V.</p><p>5 O processo de divisão celular é parte integrante do ciclo celular. Nas células</p><p>somáticas, a divisão ocorre por mitose, a qual é dividida em quatro fases.</p><p>A partir das afirmativas a seguir, relacione os estágios da mitose com suas</p><p>características principais.</p><p>22</p><p>( ) Anáfase.</p><p>( ) Metáfase.</p><p>( ) Telófase.</p><p>( ) Prófase.</p><p>I- Os cromossomos se unem ao fuso e se posicionam no centro da célula.</p><p>II- Ocorre a separação das duas cromátides-irmãs de cada par. Cada cromatina</p><p>se torna um cromossomo completamente pronto. Os dois cromossomos-</p><p>filhos liberados começam a se mover em direção às extremidades opostas</p><p>da célula.</p><p>III- Dois núcleos-filhos se formam na célula. Os cromossomos se tornam</p><p>menos condensados.</p><p>IV- O envelope nuclear se fragmenta, os cromossomos se tornam</p><p>mais</p><p>condensados e ocorre a formação do fuso mitótico.</p><p>A sequência correta é:</p><p>a) ( ) II – I – III – IV.</p><p>b) ( ) I – II – III – IV.</p><p>c) ( ) IV – I – II – III.</p><p>d) ( ) III – IV – I – II.</p><p>23</p><p>TÓPICO 2 —</p><p>UNIDADE 1</p><p>REPRODUÇÃO HUMANA E EMBRIOGÊNESE</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Bem-vindo, acadêmico, ao Tópico 2 da primeira unidade do livro de</p><p>Genética Humana e Médica. Neste tópico iremos abordar brevemente alguns</p><p>conceitos importantes sobre reprodução humana e também sobre as etapas de</p><p>formação do embrião.</p><p>Aqui, você será capaz de utilizar os conhecimentos adquiridos no tópico</p><p>anterior sobre mitose, meiose, ciclo celular e células-tronco para entender como</p><p>esses conceitos se aplicam fisiologicamente à formação do indivíduo.</p><p>Como você deve imaginar, um dos princípios fundamentais da biologia</p><p>é que toda vida é proveniente de seres vivos, o que envolve a capacidade dos</p><p>organismos de se reproduzirem para a conservação da espécie.</p><p>Assim, reprodução humana é o processo que envolve a formação de novos</p><p>indivíduos e envolve a combinação de genes de dois indivíduos progenitores</p><p>em novos arranjos (o que chamamos de recombinação gênica). Você aprendeu</p><p>também que a mitose é o processo de formação dos gametas masculino e feminino,</p><p>cada um deles contento 23 cromossomos.</p><p>Agora, você irá entender como células-tronco embrionárias dão origem</p><p>às células germinativas masculina e feminina e como elas se diferenciam para</p><p>formar os gametas maduros. Além disso, você aprenderá como o DNA haploide,</p><p>resultado da gametogênese, será unido no processo de fecundação para a</p><p>formação do zigoto que dará origem a um novo ser multicelular.</p><p>Esse processo de evolução a partir de uma única célula até o surgimento</p><p>dos primórdios dos órgãos (as primeiras oito semanas do desenvolvimento</p><p>humano) é denominado embriogênese (às vezes chamado de organogênese).</p><p>Finalmente, você irá enteder que o novo indivíduo gerado é resultado da</p><p>combinação particular de genes de ambos os pais (e não uma cópia genética de</p><p>um simples indivíduo) e que isso oferece à espécie humana melhorias que lhe</p><p>permitem sobreviver melhor que as gerações anteriores. Vamos juntos entender</p><p>como tudo isso ocorre?</p><p>24</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>2 ESPERMATOGÊNESE</p><p>A espermatogênese, acadêmico, é o nome dado à formação dos gametas</p><p>masculinos, células haploides chamadas espermatozoides, a partir de uma</p><p>célula-tronco diploide chamada espermatogônia. Em seres humanos, o tempo</p><p>necessário para a espermatogônia se desenvolver em um espermatozoide maduro</p><p>é de aproximadamente 74 dias e cerca de 300 milhões de espermatozoides são</p><p>produzidos diariamente (LEWIS, 2010).</p><p>Os testículos são as glândulas produtoras dos espermatozoides, que,</p><p>até serem ejaculados, são banhados por secreções provenientes das glândulas</p><p>anexas do aparelho reprodutor. A unidade fundamental do testículo é o túbulo</p><p>seminífero, que é formado por dois tipos de células: células de sustentação ou de</p><p>Sertoli e células da linhagem germinativa. A partir da puberdade, devido a ação</p><p>de hormônios como o FSH e a testosterona, as células germinativas se dividem</p><p>por mitose dando origem a duas células-filhas. Uma das células-filhas continua a</p><p>se especializar até se tornar um espermatozoide maduro e a outra continua sendo</p><p>uma célula-tronco, capaz de se autorrenovar e produzir continuamente novos</p><p>gametas. As células de Sertoli, por sua vez, além da função de sustentação, criam</p><p>o microambiente ideal para que a espermatogênese possa acontecer (SADLER,</p><p>2013). Na Figura 12 você pode observar um esquema do sistema reprodutor</p><p>masculino e o local de formação dos espermatozoides.</p><p>FIGURA 12 - SISTEMA REPRODUTOR MASCULINO</p><p>FONTE: Adaptado de <https://pt.slideshare.net/sandrasoeiro/sistema-reprodutor-masculino-e-fe-</p><p>minino2ciclo>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>As espermatogônias, células precursoras dos espermatozoides, são</p><p>células arredondadas com um diâmetro de aproximadamente 12 μm e núcleos</p><p>arredondados ou ovoides. Existem diferentes tipos de espermatogônias que</p><p>podem ser distinguidas de acordo com sua morfologia e destino na linhagem</p><p>espermatogênica. As células mais imaturas com capacidade de autorrenovação são</p><p>chamadas de espermatogônia do tipo A, enquanto que aquelas já comprometidas</p><p>a se tornarem espermatozoides são chamadas de espermatogonia do tipo B</p><p>(SADLER, 2013).</p><p>TÓPICO 2 — REPRODUÇÃO HUMANA E EMBRIOGÊNESE</p><p>25</p><p>Em intervalos regulares, diante de estímulos hormonais, a</p><p>espermatogênese é iniciada a partir de uma célula-tronco germinativa que</p><p>dá origem a uma espermatogônia do tipo A. As células do tipo A sofrem um</p><p>número limitado de divisões mitóticas para formar clones de si mesmas. A última</p><p>divisão celular produz espermatogônias do tipo B, o que caracteriza o período</p><p>germinativo da espermatogênese. Na fase de crescimento, a espermatogônia do</p><p>tipo B forma o espermatócito primário, célula que inicia, então a fase de maturação.</p><p>Os espermatócitos primários, que ainda são células diploides (2n), entram em</p><p>uma prófase prolongada (22 dias), seguida pelo término rápido da meiose I e pela</p><p>formação de espermatócitos secundários. Durante a segunda divisão meiótica,</p><p>essas células imediatamente formam as espermátides haploides (n) (GARCIA;</p><p>GARCIA FERNÁNDEZ, 2012). Finalmente, o processo de transformação da</p><p>espermátide em espermatozoide é chamado de períodode diferenciação ou</p><p>espermiogenese. Todas essas fases podem ser visualizadas na Figura 13.</p><p>FIGURA 13 - ETAPAS DA ESPERMATOGÊNESE</p><p>FONTE: <https://static.biologianet.com/conteudo/images/2018/08/espermatogenese.jpg>. Aces-</p><p>so em: 9 jun. 2020.</p><p>A espermiogênese, acadêmico, é a série de alterações morfológicas que as</p><p>espermátides sofrem para se transformar de uma célula de formato circular a uma</p><p>célula com motilidade como o espermatozoide. Essas mudanças estão ilustradas</p><p>na Figura 14 e descritas a seguir (GARCIA; GARCIA FERNÁNDEZ, 2012):</p><p>• O complexo de Golgi forma o acrossomo, uma estrutura que cobre metade</p><p>de toda a superfície nuclear e que contém as enzimas que auxiliam o</p><p>espermatozoide a penetrar no ovócito durante a fertilização.</p><p>26</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>• Ocorre perda de parte do citoplasma e organelas desnecessárias que são</p><p>fagocitadas pelas células de Sertoli.</p><p>• O núcleo se condensa e a cromatina se torna inativa e extremamente compacada.</p><p>• As mitocôndrias migram para a base do flagelo onde formam um agregado</p><p>responsável pela produção de energia necessária para a motilidade celular.</p><p>Ocorrem modificações no formato celular com formação de duas regiões</p><p>principais, a cabeça e a cauda. Na cabeça localizam-se o núcleo e o acrossomo, já</p><p>a cauda é formada pela peça intermediária e pela cauda.</p><p>FONTE: <https://pontobiologia.com.br/wp-content/uploads/2017/07/21-9-768x442.jpg>. Acesso</p><p>em: 9 jun. 2020.</p><p>FIGURA 14 - ESPERMIOGÊNESE</p><p>Finalmente, quando estão completamente formados, os espermatozoides</p><p>entram no lúmen do túbulo seminífero do testículo. A partir daí, são empurrados</p><p>em direção ao epidídimo e liberados durante a ejaculação.</p><p>É importante lembrar, acadêmico, que embora o espermatozoide esteja</p><p>morfologicamente pronto ao ser ejaculado, ele ainda não está apto a fecundar. Isso</p><p>porque a sua passagem pelos órgãos genitais femininos é uma etapa fundamental</p><p>para capacitá-lo a realizar a fecundação (LEWIS, 2010).</p><p>TÓPICO 2 — REPRODUÇÃO HUMANA E EMBRIOGÊNESE</p><p>27</p><p>3 OVOGÊNESE</p><p>A ovogênese é a formação dos gametas femininos, os ovócitos, a</p><p>partir de uma célula precursora diploide chamada ovogônia. Assim como a</p><p>espermatogênese, a ovogênese é dividida em fases: fase germinativa ou de</p><p>multiplicação, fase de crescimento e fase de maturação. No entanto, diferente</p><p>da espermatogênese que só se inicia após o nascimento, a ovogênese já começa</p><p>no período intrauterino (GARCIA; GARCIA FERNÁNDEZ, 2012). A ovogênese</p><p>acontece nos ovários e, antes de começarmos a explicar cada uma das suas etapas,</p><p>você pode relembrar um pouco sobre a anatomia feminina na Figura</p><p>15.</p><p>FIGURA 15 - SISTEMA REPRODUTOR FEMININO</p><p>FONTE: Adaptado de <http://2.bp.blogspot.com/-6WuLojOqvUY/UiwOBjWKy1I/AAAAAAAAAFQ/</p><p>K8g006PSvBc/s640/anatomi_sistem_reproduksi_wanita.jpg>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>Como vimos, na ovogênese, a fase de multiplicação inicia-se no período</p><p>embrionário, quando as células germinativas primordiais se dividem por</p><p>mitoses para originar as ovogônia. Essas células continuam a se multiplicar</p><p>metodicamente, formando novas ovogônias, sempre diploides. Do terceiro ao</p><p>sétimo mês do desenvolvimento embrionário, estima-se existir cerca de sete</p><p>milhões de ovogônias. Muitas delas se degeneram, mas algumas iniciam um</p><p>processo de divisão meiótica e passam a ser chamadas de ovócitos primários.</p><p>Os ovócitos primários, junto com as células epiteliais adjacentes, são chamados</p><p>de folículos primordiais. Finaliza-se assim, o processo de multiplicação das</p><p>ovogônias ainda na vida fetal (SADLER, 2013).</p><p>Inicia-se, então, a fase de crescimento, quando os ovócitos primários</p><p>começam a primeira divisão da meiose. A divisão é interrompida no diplóteno</p><p>da prófase I e essa parada pode se prolongar por anos e até décadas, até a menina</p><p>entrar na puberdade. Ao nascimento, uma menina tem em seus ovários cerca</p><p>de 300.000 a 400.000 ovócitos primários. Nesse momento, todos os folículos são</p><p>primordiais, isto é, o ovócito está rodeado por apenas uma camada de células</p><p>foliculares.</p><p>28</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>Na puberdade, o número de ovócitos reduzirá para praticamente 0,8%,</p><p>e destes, menos de 500 (0,006%) serão ovulados. Durante a infância, os ovários</p><p>permanecem inativos e os ovócitos primários estão em repouso na prófase I. Neste</p><p>período de pausa, as células aumentam a sua massa citoplasmática e armazenam</p><p>substâncias de reserva (LEWIS, 2010).</p><p>Na oogênese, a fase de maturação só se inicia quando a mulher atinge a</p><p>maturidade sexual, isto é, na puberdade. Durante cada ciclo menstrual, devido à</p><p>influência dos hormônios sexuais, certo número de folículos primordiais começa</p><p>a crescer e o ovócito primário reinicia e completa a primeira divisão da meiose.</p><p>A divisão do ovócito primário forma duas células haploides de tamanhos</p><p>diferentes — pois a divisão do citoplasma ocorre de forma desigual. A célula</p><p>maior é chamada de ovócito secundário, e a menor é chamada de primeiro</p><p>corpúsculo polar. O ovócito secundário, então, completa a segunda divisão da</p><p>meiose e originará duas outras células haploides, também desiguais em tamanho.</p><p>A maior, denominada ovoide, se transformará no óvulo e a menor denomina-se</p><p>segundo corpúsculo polar.</p><p>A fase de maturação realmente se completará se o ovócito secundário,</p><p>na metáfase II da meiose, ao ser liberado pelo ovário durante a ovulação e</p><p>captado pela trompa, for fecundado pelo espermatozoide. Se isso acontecer, o</p><p>óvulo fecundado dará origem ao zigoto e, posteriormente, ao embrião. Caso</p><p>este fenômeno não ocorra, o óvulo passa a ser chamado corpo lúteo (GARCIA;</p><p>GARCIA FERNÁNDEZ, 2012). Na Figura 16, você poderá acompanhar cada uma</p><p>das etapas da ovogênese e, a seguir, descreveremos mais detalhadamente os</p><p>principais tipos de folículos:</p><p>• Folículos primordiais: são os mais abundantes e são formados na vida</p><p>embrionária. Neste tipo de folículo, o ovócito I está envolvido por apenas uma</p><p>camada de células epiteliais. A meiose está estacionada em prófase I e assim</p><p>permanece até o início da vida fértil da mulher, quando, a cada ciclo menstrual,</p><p>alguns folículos primordiais começam a se desenvolver.</p><p>• Folículos primários: a cada ciclo, um grupo de 25 a 30 folículos começa o</p><p>seu crescimento. Quando o ovócito é estimulado por hormônios, as células</p><p>foliculares que o envolvem começam a aumentar de tamanho e passam à forma</p><p>cúbica, originando os folículos primários.</p><p>• Folículo secundário: conforme o folículo cresce e o ovócito matura, ele adquire</p><p>novas camadas de células epiteliais, até tornar-se um folículo maduro (chamado</p><p>de folículo de Graaf) pronto para liberar o ovócito secundário durante a ovulação.</p><p>• Corpo lúteo: após a ovulação, o que resta do folículo, isto é, as células</p><p>foliculares que permanecem no ovário, dão origem ao corpo lúteo. O corpo</p><p>lúteo produz progesterona e estrógeno que atuam sobre a mucosa uterina</p><p>preparando o útero para receber o embrião. Quando não ocorre a fecundação,</p><p>o corpo lúteo persiste durante a segunda metade do ciclo menstrual e, em</p><p>seguida, por falta do hormônio LH, ele degenera, a parede uterina descama e</p><p>ocorre a menstruação. Se houver fecundação, o corpo lúteo aumenta e secreta</p><p>progesterona até o final da gravidez.</p><p>TÓPICO 2 — REPRODUÇÃO HUMANA E EMBRIOGÊNESE</p><p>29</p><p>FIGURA 16 - ETAPAS DA OVOGENESE</p><p>FONTE: <https://pontobiologia.com.br/wp-content/uploads/2017/07/ovogenese.png>. Acesso</p><p>em: 9 jun. 2020.</p><p>Talvez você já tenha ouvido falar que o risco de ter bebês com anomalias</p><p>genéticas aumenta de acordo com a idade materna, principalmente após os 35 anos de</p><p>idade. Você consegue imaginar por que isso ocorre? Ao contrário do homem que produz</p><p>espermatozoides durante toda a vida adulta, as mulheres já nascem com uma quantidade</p><p>limitada de ovócitos primários. Nós vimos que ao longo da vida da mulher não há produção</p><p>de novas células, elas apenas sofrem processos de maturação. Assim, os ovócitos primários</p><p>que darão origem aos óvulos liberados a cada ciclo menstrual até a menopausa já estão</p><p>formados desde o período embrionário. Se você considerar uma gravidez aos 40 anos, a</p><p>célula terá sido formada 40 anos antes! Como nós, as células do nosso corpo envelhecem</p><p>com o passar do tempo e células mais velhas têm maior risco de apresentar anormalidades</p><p>que comprometerão o embrião.</p><p>INTERESSANTE</p><p>30</p><p>UNIDADE 1 — BASES MOLECULARES DA GENÉTICA HUMANA</p><p>4 FECUNDAÇÃO</p><p>A fecundação é o processo no qual o gameta masculino, o espermatozoide,</p><p>e o gameta feminino, o ovócito, se encontram e se fundem dando origem ao</p><p>zigoto. Você sabia acadêmico, que centenas de milhares de espermatozoides</p><p>são depositados na vagina durante o ato sexual, mas que apenas 1% sobrevive a</p><p>acidez da vagina e somente um conseguirá finalizar a fecundação? Além disso,</p><p>um espermatozoide pode sobreviver no corpo da mulher por até três dias, mas</p><p>o ovócito só pode ser fertilizado nas primeiras 12 a 24 horas após a ovulação.</p><p>Incrível, não é?</p><p>Em situações normais, a fecundação acontece na tuba uterina, como</p><p>mostra a Figura 17, após a liberação do ovócito secundário (popularmente</p><p>chamado de óvulo) pelo ovário. No entanto, para que ela aconteça, é preciso que</p><p>ocorra antes a capacitação dos espermatozoides. Essa capacitação ocorre dentro</p><p>do sistema reprodutor feminino, por meio de interações com a mucosa da tuba</p><p>uterina e tem a função de tornar os espermatozoides aptos a adentrar o ovócito.</p><p>Na espécie humana, o processo de capacitação leva em torno de sete horas para</p><p>se completar (GARCIA; GARCIA FERNÁNDEZ, 2012).</p><p>FIGURA 17 - OVULAÇÃO E LOCAL DA FECUNDAÇÃO NA TUBA UTERINA</p><p>FONTE: <http://twixar.me/pYWm>. Acesso em: 9 jun. 2020.</p><p>Na primeira etapa da fecundação (Etapa 1), os espermatozoides</p><p>capacitados atravessam uma zona chamada de corona radiata, que possui duas</p><p>ou três camadas de células foliculares. Em seguida (Etapa 2), eles penetram a</p><p>zona pelúcida, uma região formada por glicoproteínas que circundam o ovócito.</p><p>Ao atingir essa camada o espermatozoide inicia a reação acrossômica, que é a</p><p>liberação das enzimas e proteínas que ficam no acrossoma localizado na cabeça</p><p>da célula. Essas enzimas permitem que o espermatozoide entre em contato com a</p><p>membrana plasmática do ovócito. A fecundação propriamente dita ocorre com a</p><p>fusão entre as membranas plasmáticas do ovócito e do espermatozoide (Etapa 3).</p><p>TÓPICO 2 — REPRODUÇÃO HUMANA E EMBRIOGÊNESE</p><p>31</p><p>Geralmente, apenas a cabeça do espermatozoide entra no ovócito (Etapa</p><p>4) e, após a entrada, o ovócito completa sua segunda divisão meiótica, formando</p><p>o segundo corpúsculo polar, chamado óvulo. No óvulo, os cromossomos estão</p><p>dispostos em um núcleo</p>