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<p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Programa de Pós-Graduação EAD</p><p>UNIASSELVI-PÓS</p><p>Autoria: Amanda Muniz Oliveira</p><p>CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI</p><p>Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito</p><p>Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC</p><p>Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090</p><p>Reitor: Prof. Hermínio Kloch</p><p>Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol</p><p>Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD:</p><p>Carlos Fabiano Fistarol</p><p>Ilana Gunilda Gerber Cavichioli</p><p>Cristiane Lisandra Danna</p><p>Norberto Siegel</p><p>Camila Roczanski</p><p>Julia dos Santos</p><p>Ariana Monique Dalri</p><p>Bárbara Pricila Franz</p><p>Marcelo Bucci</p><p>Revisão de Conteúdo: Priscilla Camargo</p><p>Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais</p><p>Diagramação e Capa:</p><p>Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI</p><p>Copyright © UNIASSELVI 2018</p><p>Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri</p><p>UNIASSELVI – Indaial.</p><p>OL48d</p><p>Oliveira, Amanda Muniz</p><p>Direito das sucessões. / Amanda Muniz Oliveira – Indaial:</p><p>UNIASSELVI, 2018.</p><p>142 p.; il.</p><p>ISBN 978-85-53158-56-0</p><p>1.Direito civil – Brasil. 2.Direito das sucessões – Brasil. II.</p><p>Centro Universitário Leonardo Da Vinci.</p><p>CDD 347</p><p>Amanda Muniz Oliveira</p><p>Doutoranda em Direito pela Universidade</p><p>Federal de Santa Catarina - UFSC e Mestra em</p><p>Direito pela mesma Universidade. Natural de Montes</p><p>Claros – MG, obteve o bacharelado em Direito no ano</p><p>de 2013, pelas Faculdades Santo Agostinho (FADISA) -</p><p>MG. É pesquisadora do “Núcleo de Estudos Conhecer</p><p>Direito – NECODI” (UFSC) e do Grupo de Pesquisa</p><p>“Modelagem e Compreensão de Sistemas Sociais: Direito,</p><p>Estado, Sociedade e Política” (UFSC), no qual participa do</p><p>Projeto de Pesquisa “Lilith: Direito das Mulheres”. Dedica-</p><p>se a pesquisas interdisciplinares na área de Direito e Arte,</p><p>com ênfase em Rock, Literatura e Cultura Pop. Também</p><p>se dedica aos estudos de epistemologia jurídica,</p><p>sociologia do conhecimento, métodos e teorias das</p><p>ciências humanas, direitos das mulheres e direito</p><p>e gênero. Possui experiência nas áreas de Direito</p><p>Civil, Hermenêutica Jurídica, Ética Profissional</p><p>e Metodologia da Pesquisa.</p><p>Sumário</p><p>APRESENTAÇÃO ..........................................................................07</p><p>CAPÍTULO 1</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões ................ 09</p><p>CAPÍTULO 2</p><p>Da Sucessão Legítima ................................................................. 51</p><p>CAPÍTULO 3</p><p>CAPÍTULO 4</p><p>Da Sucessão Testamentária ...................................................... 85</p><p>Inventário e Partilha ............................................................... 119</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>A presente obra dedica-se a um importante tema do direito civil: o direito</p><p>sucessório na sociedade contemporânea. Muito embora quase não se pense na</p><p>morte e na finitude de nossa existência terrena, o fim da vida de um indivíduo</p><p>gera diversos efeitos jurídicos, sobre os quais o jurista e os herdeiros do falecido</p><p>devem ter ciência.</p><p>Iniciamos o tema a partir de uma introdução geral ao direito das sucessões,</p><p>adotando como objetos de estudo conceitos e finalidades específicos desta</p><p>área, além de identificar as relações sucessórias e reconhecer as hipóteses de</p><p>aplicação deste ramo do direito. Neste primeiro capítulo, veremos ainda questões</p><p>relativas aos sucessores e à herança.</p><p>O segundo capítulo tem como tema central a sucessão legítima, conforme</p><p>estabelecida pelo Código Civil. Aqui, estudamos as características e efeitos</p><p>da sucessão legítima e identificamos suas hipóteses de aplicação, conforme a</p><p>vocação hereditária. Também aprendemos a reconhecer os herdeiros legítimos e</p><p>a ordem de sucessão.</p><p>O terceiro capítulo trata da sucessão testamentária, realizada de acordo com</p><p>a vontade individual do falecido, manifesta em testamento. Além de apresentar</p><p>as características e efeitos da sucessão testamentária, vamos diferenciá-la</p><p>da sucessão legítima, nos atendo aos diversos tipos possíveis de testamento,</p><p>bem como ao conhecimento sobre quem pode testar e quem pode receber por</p><p>testamento.</p><p>O quarto e último capítulo aborda os trâmites processuais relativos ao</p><p>inventário e à partilha, que determinarão o quinhão final de cada herdeiro.</p><p>Estudaremos o procedimento do inventário judicial e do extrajudicial, além da</p><p>aplicação da lei civil para efetivação dos procedimentos estudados.</p><p>Esta obra pretende, assim, facilitar o estudo do direito sucessório, tema</p><p>de grande relevância no direito civil e no mundo contemporâneo, a partir de um</p><p>viés simples, objetivo e direto. O leitor encontrará atividades de estudo, dicas de</p><p>leituras complementares e algumas notícias atuais relacionadas aos assuntos</p><p>estudados, tudo isso visando uma interação didática e acessível.</p><p>Amanda Muniz Oliveira.</p><p>CAPÍTULO 1</p><p>Introdução ao Estudo do Direito</p><p>das Sucessões</p><p>A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes</p><p>objetivos de aprendizagem:</p><p>3 Compreender os principais conceitos do direito sucessório, identificando suas</p><p>funções e características.</p><p>3 Analisar as relações sucessórias e reconhecer as hipóteses de aplicação do</p><p>direito das sucessões.</p><p>10</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>11</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>1 Contextualização</p><p>A morte, atualmente, é um tema evitado nas reuniões familiares e nas mesas</p><p>de bar. Dificilmente, os indivíduos se sentem à vontade para tocar neste delicado</p><p>assunto, cercado de incertezas e insegurança. A relação do ser humano com a</p><p>morte possui contornos variados, que dependem do tempo e do espaço no qual</p><p>determinada sociedade se insere.</p><p>Na antiguidade, por exemplo, os mesopotâmicos enterravam seus mortos</p><p>com cuidado, cercando-os de suas marcas distintivas (bens, insígnias de família,</p><p>comidas preferidas), enquanto os hindus cremavam os corpos e lançavam às</p><p>cinzas ao vento, indicativo de que aquela pessoa já não pertencia a este mundo,</p><p>tendo alcançado o eterno. Os gregos também cremavam os seus, mas guardavam</p><p>as cinzas, que poderiam ter dois destinos: as pessoas comuns tinham suas cinzas</p><p>lançadas a valas, enquanto os heróis eram glorificados com uma cremação em</p><p>suntuosas piras funerárias.</p><p>Já na alta Idade Média europeia (séc. V ao XII), a morte era um assunto</p><p>doméstico e íntimo. Encarada como um fato natural da vida, os mortos eram</p><p>envoltos em sudários, com a face exposta, e enterrados nas igrejas, onde obteriam</p><p>proteção dos santos em sua passagem. Na baixa Idade Média (séc. XII ao XV),</p><p>emerge uma nova relação com a morte, marcada pela incerteza, pelo medo, e</p><p>pela preocupação com as condutas realizadas em vida, já que estas definiriam o</p><p>destino final das almas – céu ou inferno. O corpo do morto passa a ser intolerável,</p><p>precisando ser oculto no que hoje conhecemos por caixões.</p><p>O século XVIII, com o advento do romantismo, passa a idealizar a morte,</p><p>vendo nela uma passagem. A morte se torna um assunto laico, os cemitérios se</p><p>separam das Igrejas e as sepulturas passam a ser individualizadas. O século XIX</p><p>ressignifica a ideia de luto, tornando insuportável a perda de alguém próximo. No</p><p>entanto, é no século XX que a morte passa a ser vista como assunto proibido,</p><p>momento em que se passa a morrer longe de casa (geralmente em hospitais ou</p><p>asilos) e o corpo é velado, também, fora do ambiente doméstico.</p><p>A morte, assim, vestida de preto e munida de uma longa foice, torna-se</p><p>um tabu. Negada, evitada e ignorada, ainda assim ela teima em perseguir a</p><p>humanidade. Conhecida como Hades (deus grego do mundo inferior), Samael (anjo</p><p>da morte na cultura judaica), Shinigami (anjo da morte nipônico) ou simplesmente</p><p>associada à figura do Grim Reaper (ceifador), amplamente difundida na cultura</p><p>pop, a morte permeia o imaginário social, gerando consequências práticas a</p><p>diversos ramos do saber. E com o Direito, não seria diferente.</p><p>12</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>É a partir da visita da morte que se inicia o ramo do direito civil a ser estudado</p><p>neste material: o direito sucessório. Neste</p><p>qual é possível que o indivíduo renuncie a herança.</p><p>Neste sentido, a aceitação da herança, na verdade, não passa</p><p>de uma confirmação, já que desde a morte do autor da herança ela é</p><p>transmitida aos herdeiros. Assim, uma vez aceita (confirmada), ela</p><p>continua sendo propriedade dos herdeiros; ou seja, “a aceitação tem [...]</p><p>efeito retro-operante. Os direitos hereditários não nascem com ela, mas</p><p>retroagem, automaticamente e ex vi legis, à data do óbito do autor da</p><p>herança” (GONÇALVES, 2012, p. 101).</p><p>Existem diversas espécies de aceitação, que podem ser classificadas: 1)</p><p>Quanto à forma (expressa, tácita ou presumida); e 2) Quanto ao agente (aceitação</p><p>pelos sucessores, por mandatário e gestor de negócios, por tutor ou curador de</p><p>heranças, e pelos credores).</p><p>A aceitação expressa é aquela manifestada por declaração escrita (art.</p><p>1.805, CC), de caráter público ou privado. A aceitação tácita advém dos atos</p><p>praticados pelos herdeiros, excluídos “os atos oficiosos, como o funeral do falido,</p><p>os meramente conservatórios, ou os de administração e guarda provisória” e “a</p><p>cessão gratuita, pura e simples, da herança, aos demais coerdeiros” (art. 1.805, §</p><p>1º e § 2º). Como afirma Gonçalves (2012, p. 103):</p><p>A aceitação tácita resulta de qualquer ato que demonstre</p><p>intenção de adir a herança, como a intervenção no inventário,</p><p>representado por advogado, concordando com as declarações</p><p>preliminares e avaliações; a cessão de seus direitos a</p><p>outrem; a participação em defesa dos interesses do espólio;</p><p>o apossamento de bens a este pertencentes ou outros atos.</p><p>Pode-se afirmar que há aceitação tácita quando o sucessor</p><p>pratica atos que ultrapassam a simples conservação e</p><p>administração da herança e que implicam necessariamente a</p><p>intenção de aceitar e que só poderia praticar na qualidade de</p><p>herdeiro. Já se decidiu que simples requerimento de abertura</p><p>de inventário, por si só, não traduz o propósito de aceitar a</p><p>herança, por se tratar de obrigação legal do herdeiro.</p><p>A aceitação será presumida quando um interessado em saber se o herdeiro</p><p>irá ou não aceitar a herança, solicita ao juiz, após 20 dias da abertura da</p><p>sucessão, que forneça um prazo não maior que 20 dias para o herdeiro manifestar</p><p>sua aceitação ou renúncia; se passado o prazo o herdeiro permanecer silente, a</p><p>aceitação será presumida (art. 1.807, CC).</p><p>Com a abertura</p><p>da sucessão, a</p><p>herança passa</p><p>automaticamente,</p><p>por força de lei, aos</p><p>herdeiros. Todavia,</p><p>eles não são</p><p>obrigados a aceitá-</p><p>la, motivo pelo qual</p><p>é possível que o</p><p>indivíduo renuncie</p><p>a herança.</p><p>40</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>O art. 1.809 do Código Civil estabelece que, caso o herdeiro morra antes de</p><p>manifestar sua aceitação, o direito de aceite passa a seus próprios sucessores,</p><p>exceto se houver sido estabelecida algum tipo de condição suspensiva para o</p><p>herdeiro original. Exemplifiquemos.</p><p>Mary morre e deixa um testamento segundo o qual sua mansão irá para</p><p>Abbadon se, e somente se, ele ganhar o concurso de melhor violinista da cidade.</p><p>Entretanto, Abbadon morre antes de sequer poder se inscrever no concurso,</p><p>deixando duas filhas, Amara e Eva. Como a herança de Abbadon dependia de</p><p>condição suspensiva (vencer o concurso), Amara e Eva não poderão aceitá-la</p><p>porque a condição já não mais pode ser cumprida.</p><p>A situação seria outra, entretanto, se Mary tivesse deixado diretamente a</p><p>mansão para Abbadon. Falecendo antes de expressar sua aceitação, Amara e</p><p>Eva deveriam 1) aceitar a herança de Abbadon; 2) Aceitar a herança de Mary</p><p>como parte da herança de Abbadon.</p><p>A aceitação também pode ser realizada por mandatário do herdeiro,</p><p>ou seja, por procurador. Com relação ao gestor de negócios, entretanto,</p><p>há controvérsias. A gestão de negócios é um tipo de ato unilateral que gera</p><p>obrigação extracontratual e ocorre:</p><p>Quando uma pessoa, sem autorização do interessado,</p><p>intervém na administração de negócio alheio, dirigindo-o</p><p>segundo o interesse e a vontade presumível de seu dono</p><p>(CC, art. 861). A intervenção é motivada por necessidade ou</p><p>por utilidade, com a intenção de trazer proveito para o dono</p><p>(GONÇALVES, 2012, p. 107).</p><p>Em tese, nada impede o gestor de manifestar aceitação de herança, no</p><p>intuito de prevenir prejuízos ao herdeiro. A herança poderá, ainda, ser aceita pelo</p><p>tutor ou curador de incapaz, com a devida autorização judicial (art. 1.748, II; art.</p><p>1.781, CC).</p><p>Por fim, os credores dos herdeiros endividados podem aceitar a herança</p><p>em nome deles, quando a renúncia lhes for prejudicial. A aceitação deve ser feita</p><p>nos autos do inventário, mediante autorização judicial (art. 1.813 CC). Se após o</p><p>pagamento das dívidas sobrar algum patrimônio, será distribuído entre os demais</p><p>herdeiros, excluído o renunciante. Segundo Gonçalves (2012, p. 108):</p><p>Tendo em vista que a transmissão da herança se dá no mesmo</p><p>instante da abertura da sucessão (CC, art. 1.784), a renúncia</p><p>da herança por parte do herdeiro pode consistir em fraude</p><p>aos seus credores. Assim, por exemplo, se o de cujus deixa</p><p>vultoso patrimônio a três filhos, que é prontamente aceito por</p><p>41</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>dois deles mas não pelo terceiro, que o repudia porque não</p><p>possui bens penhoráveis, contraiu dívida de elevado valor e</p><p>percebe que o seu quinhão na herança paterna será absorvido</p><p>pelo credor, pode este requerer ao juiz que o autorize a aceitá-</p><p>lo em nome do renunciante, evitando, assim, a consumação</p><p>da fraude. Procura o devedor, ao renunciar ao seu quinhão,</p><p>evitar que seja ele totalmente utilizado na satisfação do crédito</p><p>daquele. Repudiando-o, haveria a devolução aos seus irmãos</p><p>– solução esta a que dá preferência.</p><p>A aceitação é juridicamente caracterizada como um negócio jurídico</p><p>unilateral e puro, pois não pode depender de termos ou condições (art. 1.808 CC).</p><p>É irretratável (art. 1.812, CC), embora possa vir a ser anulada se for descoberto,</p><p>posteriormente, que o aceitante não é herdeiro. Nesse caso, a herança é devolvida</p><p>a quem lhe tenha direito.</p><p>A aceitação é, ainda, indivisível, pois não é possível que se aceite parte da</p><p>herança. Essa indivisibilidade, porém, pode ser afastada caso a mesma pessoa</p><p>seja herdeira legítima (filho do morto, por exemplo) e legatária (receba, em</p><p>testamento, um bem específico, como uma casa). Nesta hipótese, o herdeiro pode</p><p>optar por aceitar apenas a herança legítima e renunciar ao legado ou vice-versa</p><p>(Art. 1808, §1º, CC). Além disso, a indivisibilidade também é mitigada nos casos</p><p>em que o mesmo sujeito seja herdeiro legítimo e testamentário; poderá optar pela</p><p>parte deixada em testamento e renunciar a parte que lhe é legítima, ou fazer o</p><p>contrário (art. 1.808, §2º, CC).</p><p>Por outro lado, o herdeiro pode renunciar à herança ganha com a abertura da</p><p>sucessão, conforme veremos a seguir.</p><p>5.3 Da Renúncia da Herança</p><p>Assim como a aceitação, a renúncia é um negócio jurídico unilateral</p><p>cujos efeitos retroagem até a abertura da sucessão. Tendo uma vez</p><p>renunciado, o inventário e a partilha desenvolvem-se como se o</p><p>renunciante jamais tivesse sido herdeiro. A renúncia tem como efeitos a</p><p>exclusão do renunciante do trâmite sucessório, de forma que sua parte</p><p>é redistribuída entre os demais herdeiros (art. 1.829, II, CC).</p><p>Diferentemente da aceitação, a renúncia só pode ser expressa, devendo ser</p><p>manifestada em instrumento público ou termo judicial, nos autos do inventário e</p><p>partilha (art. 1.806, CC), sob pena de invalidade absoluta do ato. Uma vez emitida,</p><p>é irrevogável, assim como a aceitação (art. 1.812, CC).</p><p>A renúncia tem como</p><p>efeitos a exclusão</p><p>do renunciante do</p><p>trâmite sucessório, de</p><p>forma que sua parte</p><p>é redistribuída entre</p><p>os demais herdeiros</p><p>(art. 1.829, II, CC).</p><p>42</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Entretanto, é possível falar em dois tipos de renúncia: a abdicativa e a</p><p>cessão.</p><p>A renúncia abdicativa é aquela feita de maneira pura e simples, sem indicação</p><p>de qualquer favorecido. Já a cessão, entretanto, ocorre quando o herdeiro</p><p>transfere seu</p><p>direito a outrem; não se trata, propriamente, de uma renúncia, mas</p><p>de uma aceitação seguida de cessão, a se efetivar mediante escritura pública (já</p><p>que o direito a herança é considerado bem imóvel).</p><p>Para que seja válida, a renúncia deve ser feita por indivíduo com capacidade</p><p>jurídica plena, sendo que os incapazes não podem renunciá-la ainda que contem</p><p>com representantes, exceto se houver autorização judicial para tanto (art. 1.691,</p><p>CC). Como o direito à herança é considerado bem imóvel, a renúncia a ele</p><p>também depende de concordância do cônjuge, quando o herdeiro for casado (art.</p><p>1.647, I e art. 80, II); caso essa autorização não seja emitida, o cônjuge que não a</p><p>forneceu poderá exigir anulabilidade da renúncia. A renúncia também não poderá</p><p>ser feita no intuito de lesar credores, como explicado anteriormente; no intuito de</p><p>evitar essa situação, é possível que os credores do herdeiro aceitem a herança</p><p>em seu lugar.</p><p>E se, falecido o de cujus, os herdeiros não forem encontrados? Trataremos</p><p>do tema no tópico a seguir.</p><p>5.4 Herança Jacente e Herança</p><p>Vacante</p><p>Nos casos em que o morto não deixa testamento e seus herdeiros</p><p>são desconhecidos, teremos a chamada herança jacente (art. 1.819,</p><p>CC) que:</p><p>Jaz enquanto não se apresentam herdeiros do de cujus para</p><p>reclamá-la, não se sabendo se tais herdeiros existem ou não.</p><p>O Estado, no intuito de impedir o perecimento da riqueza</p><p>representada por aquele espólio, ordena sua arrecadação,</p><p>para o fim de entregá-lo aos herdeiros que aparecerem e</p><p>demonstrarem tal condição (RODRIGUES, 2002, p. 81).</p><p>Neste sentido, a herança fica à espera de um herdeiro, aguardando que</p><p>alguém legitimado a reclame.</p><p>Nos casos em</p><p>que o morto não</p><p>deixa testamento</p><p>e seus herdeiros</p><p>são desconhecidos,</p><p>teremos a chamada</p><p>herança jacente.</p><p>43</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>Herança jacente:</p><p>Denomina-se herança jacente a universalidade de direitos,</p><p>relativa aos bens pertencentes a uma pessoa que faleceu sem</p><p>deixar testamento e sem deixar herdeiros conhecidos. Trata-</p><p>se de um ente despersonalizado, constituído pelo patrimônio</p><p>(relações jurídicas ativas e passivas) de uma pessoa que morreu</p><p>sem deixar declaração de última vontade (ou deixando um</p><p>testamento no qual não dispôs da integralidade do patrimônio)</p><p>e sem deixar sucessores conhecidos. Para preservar os</p><p>interesses jurídicos e percebendo que o Estado assumirá a</p><p>titularidade de tais direitos, a herança jacente merece proteção</p><p>jurídica, com a nomeação de um curador especial (FARIAS;</p><p>ROSENVALD, 2015, p. 214).</p><p>Embora não tenha personalidade jurídica, a lei concede capacidade</p><p>processual à herança jacente, sendo que ela pode atuar no polo ativo ou passivo</p><p>das relações processuais, sendo representada por seu curador.</p><p>Existem dois tipos principais de heranças jacentes: 1) sem testamento,</p><p>sendo que os herdeiros são desconhecidos ou renunciaram à herança; 2) com</p><p>testamento, sendo que o herdeiro nele indicado não existe ou não aceita a herança</p><p>e o falecido não deixar herdeiros necessários, ou estes também a renunciarem.</p><p>Além disso, é possível que a herança se torne jacente quando, em</p><p>testamento, o falecido aponte como herdeiro único o filho já concebido e</p><p>ainda não nascido de alguém; a herança ficará jacente até o nascimento</p><p>com vida da criança. Se os bens forem deixados para uma empresa em</p><p>fase de constituição, a herança também será considerada jacente.</p><p>Entretanto, se após todos os procedimentos legais tratados na lei</p><p>processual (art. 738 e seguinte, do CPC) os herdeiros ainda assim não</p><p>forem identificados, ou, ainda, se todos os herdeiros a renunciarem (art.</p><p>1.823, CC), a herança se tornará vacante (art. 1.820, CC), garantindo</p><p>o pagamento de eventuais débitos do defunto (art. 1.821, CC) e sendo</p><p>incorporada ao patrimônio do Poder Público.</p><p>Se após todos os</p><p>procedimentos</p><p>legais tratados na</p><p>lei processual (art.</p><p>738 e seguinte, do</p><p>CPC) os herdeiros</p><p>ainda assim não</p><p>forem identificados,</p><p>ou, ainda, se todos</p><p>os herdeiros a</p><p>renunciarem (art.</p><p>1.823, CC), a</p><p>herança se tornará</p><p>vacante.</p><p>44</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Herança vacante:</p><p>Restando infrutíferas as diligências para a localização de</p><p>herdeiros do falecido ou de ato de última vontade, não havendo</p><p>habilitação de herdeiros-interessados, devem ser arrecadados</p><p>os bens e encerrado o inventário, serão publicados editais por</p><p>três vezes no órgão oficial de imprensa. Contado, então, o</p><p>prazo de um ano, a partir da primeira publicação editalícia, será</p><p>prolatada decisão judicial, transformando a herança jacente</p><p>em herança vacante. Nesse momento, especificamente, a</p><p>guarda e administração do patrimônio são transferidas para</p><p>o Poder Público. A jacência, portanto, funciona como espécie</p><p>de fase preliminar da vacância, com visível caráter transitório,</p><p>sem, contudo, haver uma relação implicacional, uma vez que</p><p>habilitando-se algum herdeiro, não haverá herança vacante</p><p>(FARIAS, ROSENVALD; 2015, p. 215).</p><p>Diz o artigo 1.822 do Código Civil:</p><p>Art. 1.822 A declaração de vacância da herança não prejudicará</p><p>os herdeiros que legalmente se habilitarem; mas, decorridos</p><p>cinco anos da abertura da sucessão, os bens arrecadados</p><p>passarão ao domínio do Município ou do Distrito Federal, se</p><p>localizados nas respectivas circunscrições, incorporando-se ao</p><p>domínio da União quando situados em território federal.</p><p>Parágrafo único. Não se habilitando até a declaração de</p><p>vacância, os colaterais ficarão excluídos da sucessão.</p><p>Assim, considera-se que o principal efeito da declaração judicial de vacância é</p><p>eliminar a situação incerta na qual se encontra a herança jacente, sempre à espera de</p><p>um herdeiro. Declarada a vacância, os bens deverão ser entregues ao poder público</p><p>em até um ano (art. 1.820, CC) da publicação dos editais previstos na lei processual;</p><p>entretanto, a posse definitiva só será consolidada após cinco anos da abertura da</p><p>sucessão. Antes deste prazo, os herdeiros podem reclamar o patrimônio a que</p><p>tem direito, exceto se forem colaterais e não tiverem se habilitado até a sentença</p><p>declaratória de vacância (conforme parágrafo único do art. 1.822 CC).</p><p>45</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>Atenção! A herança jacente é passível de usucapião, até o</p><p>momento da declaração de vacância!</p><p>AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO.</p><p>HERANÇA JACENTE. USUCAPIÃO. FALTA DE ARGUMENTOS</p><p>NOVOS, MANTIDA A DECISÃO ANTERIOR. MATÉRIA JÁ</p><p>PACIFICADA NESTA CORTE. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 83.</p><p>I - Não tendo a parte apresentado argumentos novos capazes</p><p>de alterar o julgamento anterior, deve-se manter a decisão recorrida.</p><p>II - O bem integrante de herança jacente só é devolvido ao</p><p>Estado com a sentença de declaração da vacância, podendo, até ali,</p><p>ser possuído ad usucapionem. Incidência da Súmula 83/STJ. Agravo</p><p>improvido. (Processo Ag Rg no Ag 1212745 RJ 2009/0188164-</p><p>0; Órgão JulgadorT3 – TERCEIRA TURMA; Publicação DJe</p><p>03/11/2010; Julgamento 19 de Outubro de 2010; Relator: Ministro</p><p>SIDNEI BENETI).</p><p>Estudaremos, agora, a petição de herança.</p><p>5.5 Petição da Herança</p><p>Em alguns casos, pode ser que algum herdeiro seja preterido</p><p>de forma total ou parcial, sendo necessário, assim, medida judicial para</p><p>reaver a herança que lhe pertencia. Trata-se da petição de herança,</p><p>estabelecida pelo art. 1.824 do Código Civil, que assim dispõe:</p><p>O herdeiro pode, em ação de petição de herança,</p><p>demandar o reconhecimento de seu direito</p><p>sucessório, para obter a restituição da herança,</p><p>ou de parte dela, contra quem, na qualidade de</p><p>herdeiro, ou mesmo sem título, a possua.</p><p>Além dos casos nos quais o herdeiro é afastado por má-fé, de</p><p>maneira ilegal, nas palavras de Gonçalves (2012, p. 160): “O verdadeiro</p><p>sucessor pode ter sido preterido, por exemplo, porque não era</p><p>conhecido, porque não se encontrou testamento ou este veio a ser anulado, ou</p><p>por se tratar de filho não reconhecido”.</p><p>Em alguns casos,</p><p>pode ser que</p><p>algum herdeiro seja</p><p>preterido de forma</p><p>total</p><p>ou parcial,</p><p>sendo necessário,</p><p>assim, medida</p><p>judicial para reaver</p><p>a herança que lhe</p><p>pertencia. Trata-se da</p><p>petição de herança,</p><p>estabelecida pelo art.</p><p>1.824 do Código Civil.</p><p>46</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Importante mencionar que, se a partilha ainda não foi efetuada, o herdeiro</p><p>prejudicado não deverá se utilizar da petição de herança, mas sim do artigo</p><p>628 do Código de Processo Civil, que assim diz: “Aquele que se julgar preterido</p><p>poderá demandar sua admissão no inventário, requerendo-a antes da partilha”.</p><p>Neste sentido, infere-se que a petição de herança é ação cabível apenas</p><p>quando a fase de inventário já terminou e a partilha já foi realizada. Caso contrário,</p><p>o herdeiro lesado pode requerer a simples admissão no inventário, conforme</p><p>dispositivo acima mencionado.</p><p>A petição de herança só pode ser ajuizada por herdeiro, legítimo ou</p><p>testamentário, seus sucessores e o cessionário, em caso de cessão de direitos</p><p>hereditários. Além disso, conforme o art. 1.825 do Código Civil, ainda que a ação</p><p>seja feita por apenas um herdeiro preterido, ela pode abranger todos os bens</p><p>da herança. Isto porque a herança é considerada um todo indivisível, conforme</p><p>já mencionado, até o momento da partilha. Esta também é a razão pela qual</p><p>o legatário não pode ajuizar ação de petição de herança; o legado refere-se a</p><p>um bem individualizado, específico, sendo que o legatário terá ação diferente,</p><p>pautada em outro fundamento jurídico, para reaver seu bem.</p><p>Já os legitimados a assumir o polo passivo da ação, ou seja, os réus, serão</p><p>tanto o herdeiro aparente, aquele que erroneamente acredita ter direito à herança</p><p>e dela tem posse (total ou parcial), quanto o indivíduo que não se intitula herdeiro,</p><p>mas acredita que a herança (ou parte dela) lhe pertence, por algum motivo.</p><p>Herdeiro aparente:</p><p>Denomina-se herdeiro aparente aquele que se encontra na</p><p>posse de bens hereditários como se fosse o legítimo titular</p><p>do direito à herança. É assim chamado porque se apresenta,</p><p>perante todos, como verdadeiro herdeiro, assumindo, pública e</p><p>notoriamente, essa condição. O herdeiro aparente é reputado</p><p>herdeiro legítimo, por força de erro comum ou geral. Em</p><p>outras palavras, é aquele que, não sendo titular dos direitos</p><p>sucessórios, é tido, entretanto, como legítimo proprietário da</p><p>herança, em consequência de erro invencível e comum. Enfim,</p><p>é aquele que nunca foi herdeiro pela essência, mas o foi pela</p><p>aparência (GONÇALVES, 2012, p. 171).</p><p>47</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>Provada a qualidade de herdeiro pelo autor da petição de herança, a</p><p>sentença proferida gera a ineficácia da partilha já efetuada e sua retificação, para</p><p>incluir o herdeiro preterido. Já para o réu, os efeitos diferem.</p><p>Se a ação foi ajuizada contra herdeiro aparente, este deverá restituir os bens,</p><p>seus frutos e seus acessórios, respondendo por perdas e danos. Além disso,</p><p>Faz jus ao ressarcimento das benfeitorias necessárias, ainda</p><p>que de má-fé (CC, art. 1.220); e também das úteis, se estiver de</p><p>boa-fé. Quanto às voluptuárias, reconhece-lhe a lei, somente</p><p>no caso de boa-fé, o jus tollendi, que é o direito de retirá-las, se</p><p>puder fazê-lo sem danificar a coisa (art. 1.220) (GONÇALVES,</p><p>2012, p. 168).</p><p>O herdeiro aparente estará de boa-fé quando realmente acreditar ser</p><p>o herdeiro legítimo, e de má-fé quando souber que não é herdeiro, mas ainda</p><p>assim, agir como se o fosse.</p><p>Um bom exemplo é narrado na telenovela de 2006, Cobras e Lagartos,</p><p>cuja trama central se desenvolve a partir da seguinte situação: Omar Pasquim,</p><p>empresário milionário, deixa parte de sua fortuna para um herdeiro testamentário</p><p>chamado Daniel Miranda. No contexto em questão, existiam dois indivíduos</p><p>com este mesmo nome, sendo um apelidado de Duda e outro de Foguinho.</p><p>O testamento mencionava apenas o nome Daniel Miranda, sem maiores</p><p>especificações de quem seria o sujeito correto. Foguinho era um amigo próximo</p><p>do milionário; já Duda, era um simples conhecido dele, de forma que todos</p><p>acreditaram que o Daniel Miranda herdeiro fosse o amigo, Foguinho. O desfecho</p><p>da narrativa, porém, aponta que o verdadeiro herdeiro era o conhecido, Duda.</p><p>Temos aqui, dois cenários possíveis. Se Foguinho nada sabia a respeito da</p><p>intenção de Omar, em deixar parte de sua fortuna para Duda, e presume que o</p><p>Daniel Miranda indicado fosse ele próprio, Foguinho é herdeiro aparente de boa-</p><p>fé. O que ocorre, porém, é que Omar lhe confessa antes de morrer, que deixará</p><p>Duda como herdeiro; como Foguinho sabia das intenções do de cujus e ainda</p><p>assim se aproveitou da situação, ele é herdeiro aparente de má-fé.</p><p>A situação se modifica quando se trata de terceiro não herdeiro que acredita</p><p>ter justa posse dos bens, como no caso de ter obtido os objetos de herdeiro</p><p>aparente. Se a obtenção foi gratuita, os bens devem retornar ao herdeiro preterido,</p><p>independentemente de boa-fé. Se a obtenção foi onerosa, mas o terceiro estava</p><p>de boa-fé, ele não é obrigado a devolver os bens para o herdeiro preterido, que</p><p>terá direito de cobrar o valor da coisa ao herdeiro aparente, mas se o comprador</p><p>estava de má-fé, deverá restituir os bens.</p><p>48</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Utilizando o exemplo de Foguinho, imaginemos a seguinte situação.</p><p>De boa-fé, sem saber que Foguinho não era herdeiro, Bel compra dele um</p><p>carro que pertencia a Omar. Findo o procedimento de petição de herança ajuizado</p><p>por Duda, verdadeiro herdeiro, Bel não precisa devolver o carro a ele; mas</p><p>Foguinho deverá lhe repassar o valor que recebeu de Bel pelo carro. Agora, se</p><p>Leona, sabendo que Foguinho não era herdeiro, ainda assim compra dele um iate</p><p>que pertencia a Omar, ela deverá devolver o bem a Duda, verdadeiro herdeiro.</p><p>Conforme Gonçalves (2012, p. 170):</p><p>São, portanto, apenas três os requisitos para a validade da</p><p>aquisição por terceiro: a) que adquira de herdeiro aparente;</p><p>b) que adquira por título oneroso; c) que adquira de boa-fé.</p><p>A proteção à boa-fé do terceiro estende-se àquele que, sem</p><p>título, comporta-se como se o fosse, investindo-se na posse</p><p>dos bens hereditários, pagando tributos, fazendo despesas</p><p>etc. Em resumo: são eficazes as aquisições de boa-fé, por</p><p>título oneroso, e ineficazes as de má-fé por esse mesmo título,</p><p>bem como as feitas a título gratuito.</p><p>Questão interessante refere-se ao prazo prescricional para ação de petição</p><p>de herança. Conforma Súmula 49 do STF, “É imprescritível a ação de investigação</p><p>de paternidade, mas não o é a de petição de herança”. Tem-se que o prazo</p><p>prescricional passa a contar da abertura da sucessão, mas pode ser suspenso ou</p><p>interrompido pelas causas gerais que afetam a prescrição (art. 198, CC), inclusive</p><p>a incapacidade absoluta.</p><p>Neste sentido, é possível afirmar que o prazo prescricional para petição de</p><p>herança não corre contra filho natural não reconhecido, até que seja juridicamente</p><p>entendido como herdeiro, seja por reconhecimento voluntário em testamento, seja</p><p>por ação de investigação de paternidade julgada favorável.</p><p>6 Algumas Considerações</p><p>Neste capítulo, procuramos tecer algumas considerações gerais a respeito</p><p>do direito sucessório, como a abertura da sucessão e a transmissão causa mortis,</p><p>quem são os sucessores e o que é a herança.</p><p>O direito sucessório constitui matéria de suma importância, pois visa proteger</p><p>as disposições de última vontade e os bens do falecido, encaminhando-os para os</p><p>indivíduos que de fato o merecem. O de cujus, ainda que não mais presente no</p><p>plano terrestre, merece ter sua memória e seus desejos devidamente preservados,</p><p>ainda que seja por força de lei.</p><p>49</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>No próximo capítulo, abordaremos a chamada sucessão legítima, conforme</p><p>especificada no Código Civil. O capítulo abrangerá a ordem de vocação hereditária</p><p>e os herdeiros legítimos como sucessores. É fundamental, a partir de agora,</p><p>reconhecer a importância da leitura tanto do material de apoio quanto do Código</p><p>Civil seco, sem comentários, uma vez que eventuais dúvidas ou esclarecimentos</p><p>são respondidos no próprio texto legal. Portanto, faça dele seu aliado.</p><p>Referências</p><p>FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil:</p><p>sucessões. São Paulo: Atlas, 2015, v. 7.</p><p>GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: direito das sucessões. 6.</p><p>Ed. São Paulo: Saraiva, 2012, v. 7.</p><p>MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de direito civil: direito das</p><p>sucessões. 37. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. V. 6.</p><p>RODRIGUES, Silvio. Direito civil. 32. ed. V. 1. São Paulo: Saraiva, 2002.</p><p>______. Direito civil. 25. ed. V. 7. São Paulo: Saraiva, 2002.</p><p>50</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>CAPÍTULO 2</p><p>Da Sucessão Legítima</p><p>A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes</p><p>objetivos de aprendizagem:</p><p>3 Conhecer as características e efeitos da sucessão legítima.</p><p>3 Identificar as hipóteses de sucessão legítima em observância à vocação</p><p>hereditária.</p><p>3 Fazer a aplicação da lei civil, reconhecendo os herdeiros legítimos e a</p><p>ordem de sucessão.</p><p>52</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>53</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>1 Contextualização</p><p>Vimos no capítulo anterior alguns aspectos gerais do direito sucessório,</p><p>como a abertura da sucessão, a legitimidade para herdar, a herança jacente e</p><p>vacante, entre outros assuntos.</p><p>Neste segundo capítulo, iniciaremos o estudo da divisão dos bens do morto,</p><p>conforme o direito material. Caso não tenha deixado testamento, quem deverá</p><p>herdar o patrimônio? Filhos ou netos? Pais ou irmãos? Levando em consideração</p><p>às disposições do Código Civil, veremos que a lei cuida da maioria das hipóteses</p><p>sucessórias possíveis, mas não de todas, como quando o morto deixa filhos em</p><p>comum com o cônjuge e filhos exclusivamente seus.</p><p>Apesar das diversas críticas (bem fundamentadas) dirigidas ao instituto da</p><p>sucessão legítima, suas regras são vigentes e válidas, cabendo ao jurista saber</p><p>operá-las adequadamente.</p><p>2 Vocação Hereditária</p><p>O art. 1.786 do Código Civil estabelece que a sucessão poderá ser feita</p><p>de acordo com a vontade do morto, ou segundo as regras jurídicas vigentes ao</p><p>tempo de sua morte. O primeiro caso refere-se à sucessão feita com base em</p><p>testamento, disposição de última vontade deixada pelo indivíduo na qual ele</p><p>próprio dividirá seus bens. O segundo, diz respeito à sucessão legítima, que será</p><p>objeto de estudo neste capítulo.</p><p>Sucessão legítima é a deferida por determinação de lei,</p><p>em atenção ao vínculo familial ou, na falta deste, ao vínculo</p><p>político, existente entre a pessoa do sucedendo e a do sucessor</p><p>(BEVILÁCQUA, 2000, p. 103).</p><p>54</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>A sucessão legítima é subsidiária da sucessão testamentária, ou seja, só será</p><p>realizada quando o falecido não deixou testamento ou quando não menciona o destino</p><p>de certos bens. Deverá ser realizada, ainda, nos casos de nulidade ou caducidade do</p><p>testamento (art. 1.788, CC). Entretanto, alerta Gonçalves (2012, p. 178):</p><p>A existência de testamento não exclui a sucessão legítima.</p><p>Com efeito, a sucessão testamentária pode com ela conviver,</p><p>em havendo herdeiro necessário, a quem a lei assegura o</p><p>direito à legítima, ou quando o testador dispõe apenas de parte</p><p>de seus bens.</p><p>Para entender como se dá a sucessão legítima, é preciso</p><p>compreender, antes de tudo, a ordem estabelecida pela lei em relação</p><p>a quem deve herdar. Trata-se da ordem de vocação hereditária, ou</p><p>seja, a ordem preferencial dos herdeiros legitimados para suceder.</p><p>Como mencionado no Capítulo 1, herdeiro legítimo é aquele</p><p>indicado pela própria lei como sucessor, enquanto herdeiro</p><p>testamentário é aquele nomeado por testamento. Ocorre que, dentro da</p><p>classificação “herdeiro legítimo”, temos ainda os herdeiros necessários</p><p>e facultativos. Os herdeiros legítimos e necessários, são aqueles</p><p>que necessariamente devem receber metade da herança deixada (a</p><p>chamada “legítima”), independentemente da vontade do de cujus, por força de lei;</p><p>é o caso dos descendentes, ascendentes e cônjuge/companheiro. Os herdeiros</p><p>legítimos facultativos são aqueles que só irão herdar caso não existam herdeiros</p><p>necessários e nem testamento. Assim, temos:</p><p>Para entender como</p><p>se dá a sucessão</p><p>legítima, é preciso</p><p>compreender, antes</p><p>de tudo, a ordem</p><p>estabelecida pela lei</p><p>em relação a quem</p><p>deve herdar. Trata-</p><p>se da ordem de</p><p>vocação hereditária,</p><p>ou seja, a ordem</p><p>preferencial dos</p><p>herdeiros legitimados</p><p>para suceder.</p><p>Caso o autor da herança tenha herdeiro necessário e, ainda assim, deixe</p><p>testamento, independentemente de sua vontade, metade de seu patrimônio irá</p><p>para seus herdeiros necessários.</p><p>Assim, por exemplo, Carlos Daniel é casado com Paola e tem dois filhos,</p><p>Carlos e Lizete. Entretanto, ele vem a falecer e deixa toda sua fortuna para sua</p><p>Paulina, grande amor de sua vida. Como ele possui herdeiros necessários (Paola,</p><p>Carlos e Lizete), sua vontade não será totalmente respeitada, por ferir dispositivo</p><p>legal (art. 1.789, CC); a esposa e os filhos herdarão 50% do patrimônio, de</p><p>qualquer maneira, e Paulina só poderá usufruir dos 50% restantes.</p><p>55</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>Já sabemos, portanto, que os herdeiros necessários têm preferência sobre</p><p>os herdeiros facultativos. Além disso, é preciso compreender que o chamamento</p><p>dos sucessores é feito por classes, sendo que a classe mais próxima exclui a</p><p>remota (art. 1.833, 1.836, §1º e 1.840, CC), da seguinte forma:</p><p>Art. 1.829 A sucessão legítima defere-se na ordem seguinte:</p><p>I - aos descendentes, em concorrência com o cônjuge</p><p>sobrevivente, salvo se casado este com o falecido no regime</p><p>da comunhão universal, ou no da separação obrigatória</p><p>de bens (art. 1.640, parágrafo único); ou se, no regime da</p><p>comunhão parcial, o autor da herança não houver deixado</p><p>bens particulares;</p><p>II - aos ascendentes, em concorrência com o cônjuge;</p><p>III - ao cônjuge sobrevivente;</p><p>IV - aos colaterais.</p><p>A primeira classe a ser chamada, portanto, será a dos descendentes. Se</p><p>existirem, eles afastam os ascendentes e os colaterais, devendo dividir a herança</p><p>com o cônjuge, observadas as exceções listadas. A segunda classe elencada são</p><p>os ascendentes; a terceira, o cônjuge e a quarta, a classe dos colaterais.</p><p>Além de classes, é possível, ainda, falar em graus. Neste sentido, no caso</p><p>dos descendentes, por exemplo, podemos ter descendentes de primeiro grau</p><p>(filhos), segundo grau (netos), terceiro grau (bisnetos) e assim por diante. Para</p><p>melhor explicitar a ideia em questão, observe a seguinte figura:</p><p>FIGURA 1 – HERDEIROS NECESSÁRIOS CONFORME O GRAU</p><p>COLATERAIS</p><p>FONTE: A autora</p><p>56</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Levando em consideração o indivíduo indicado como “eu”, temos como</p><p>descendentes o filho (descendente de 1º grau) e o neto (descendente de 2º</p><p>grau). Como ascendentes, temos o pai (ascendente de 1º grau), avô (ascendente</p><p>de 2º grau), bisavô (ascendente de 3º grau). Como colaterais, temos o irmão</p><p>(colateral de 2º grau), o tio e o sobrinho (colaterais de 3º grau), o tio avô e o</p><p>primo (colaterais de 4º grau).</p><p>Assim, por exemplo, levando em consideração que a classe dos descendentes</p><p>é a primeira a suceder, se um indivíduo falece, deixando apenas filho e neto, tanto</p><p>o filho quanto o neto irão herdar? Estudaremos melhor a sucessão por classe e</p><p>por grau nos tópicos a seguir.</p><p>Atividade de Estudos:</p><p>1) O que é vocação hereditária? E qual sua ordem? No caso de o</p><p>falecido deixar um filho, uma esposa e dois pais, quem herdará</p><p>seu patrimônio?</p><p>_______________________________________________</p><p>_______________________________________________</p><p>_______________________________________________</p><p>_______________________________________________</p><p>_______________________________________________</p><p>_______________________________________________</p><p>_______________________________________________</p><p>_______________________________________________</p><p>3 Cônjuge ou Companheiro Como</p><p>Sucessor</p><p>Conforme</p><p>veremos, a sucessão de cônjuge e de companheiro possui</p><p>tratamento diverso nos termos da lei civil. Em razão disto, por questões didáticas,</p><p>iremos nos ater primeiramente às disposições relativas ao cônjuge e, na</p><p>sequência, nas relativas ao companheiro.</p><p>57</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>3.1 O Cônjuge Como Sucessor:</p><p>Quando o Víuvo Herda Junto aos</p><p>Descendentes</p><p>Conforme o art. 1.846 do Código Civil, os cônjuges são</p><p>herdeiros necessários (ou seja, tem direito a metade da herança,</p><p>independentemente da vontade do morto), figurando em terceiro lugar</p><p>na ordem de vocação hereditária. Além disso, o cônjuge pode vir a</p><p>herdar junto dos descendentes e dos ascendentes, a depender da</p><p>meação que lhe caiba. Segundo Gonçalves (2012, p. 191):</p><p>O cônjuge sobrevivente permanece em terceiro lugar na ordem de</p><p>vocação hereditária, mas passa a concorrer em igualdade de condições</p><p>com os descendentes do falecido, salvo quando já tenha direito à</p><p>meação em face do regime de bens do casamento. Na falta de descendentes,</p><p>concorre com os ascendentes. Como herdeiro necessário, tem direito à legítima,</p><p>como os descendentes e ascendentes do autor da herança, ressalvadas as</p><p>hipóteses de indignidade e deserdação.</p><p>Cumpre destacar que a meação mencionada pelo autor não se confunde</p><p>com a herança; trata-se, antes, dos bens devidos ao viúvo sobrevivente em razão</p><p>do regime de bens escolhido no casamento. Quando o casamento chega ao fim,</p><p>com o divórcio, os bens não devem ser divididos? Com o matrimônio tragicamente</p><p>findado pela morte, ocorre o mesmo.</p><p>Os cônjuges</p><p>são herdeiros</p><p>necessários (ou</p><p>seja, tem direito a</p><p>metade da herança,</p><p>independentemente</p><p>da vontade do</p><p>morto), figurando</p><p>em terceiro lugar na</p><p>ordem de vocação</p><p>hereditária.</p><p>Meação:</p><p>Quando da morte de um dos consortes, desfaz-se a</p><p>sociedade conjugal. Como em qualquer outra sociedade,</p><p>os bens comuns, isto é, pertencentes às duas pessoas</p><p>que foram casadas, devem ser divididos. A existência</p><p>de meação, bem como do seu montante, dependerá do</p><p>regime de bens do casamento. A meação é avaliada de</p><p>acordo com o regime de bens que regulava o casamento</p><p>(VENOSA, 2012, p. 132-133).</p><p>58</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>No caso do falecido ter deixado cônjuge e descendentes, diz o Código Civil:</p><p>Art. 1.829 A sucessão legítima defere-se na ordem seguinte:</p><p>I - aos descendentes, em concorrência com o cônjuge</p><p>sobrevivente, salvo se casado este com o falecido no regime</p><p>da comunhão universal, ou no da separação obrigatória</p><p>de bens (art. 1.640, parágrafo único); ou se, no regime da</p><p>comunhão parcial, o autor da herança não houver deixado</p><p>bens particulares;</p><p>Desta forma, com relação à sucessão conjunta entre cônjuge</p><p>e descendentes, a primeira coisa a se indagar é o regime de bens</p><p>escolhido pelo casal quando do matrimônio. Se este for o regime de</p><p>comunhão universal de bens, o viúvo não herdará junto dos descentes,</p><p>pois já conta com a meação.</p><p>Se o regime for o de separação obrigatória, o viúvo não apenas</p><p>deixará de herdar junto dos descendentes como também nada levará</p><p>da meação. Isso porque a separação obrigatória de bens é o regime</p><p>“imposto por lei às pessoas que contraírem o matrimônio com inobservância das</p><p>causas suspensivas, forem maiores de 60 anos ou dependerem de suprimento</p><p>judicial para casar” (CC, art. 1.641) (GONÇALVES, 2012, p. 192).</p><p>Importante mencionar, porém, que este dispositivo pode ser mitigado em</p><p>juízo, em razão de entendimento já sumulado do STF a respeito do tema. Diz a</p><p>Súmula 377: “No regime da separação legal de bens, comunicam-se os adquiridos</p><p>na constância do casamento”. Neste sentido, ainda que haja imposição legal a</p><p>respeito do tema, os tribunais tem entendido que os bens adquiridos onerosamente</p><p>na constância do casamento (os chamados aquestos), se comunicam por serem</p><p>frutos do esforço comum do casal.</p><p>A separação obrigatória em relação ao idoso (maior de 60 anos) tem sido</p><p>alvo de duras críticas, por se tratar de cerceamento de liberdade individual de</p><p>dispor do próprio patrimônio. Neste sentido, veja o excerto Maria Berenice Dias:</p><p>Com relação à</p><p>sucessão conjunta</p><p>entre cônjuge e</p><p>descendentes, a</p><p>primeira coisa a se</p><p>indagar é o regime</p><p>de bens escolhido</p><p>pelo casal quando</p><p>do matrimônio.</p><p>59</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>A DISCRIMINAÇÃO DO IDOSO</p><p>A Lei Maior, que se quer cidadã, democrática e igualitária, de</p><p>modo expresso veda discriminação em razão da idade, bem como</p><p>assegura especial proteção ao idoso. Em face do direito à igualdade</p><p>e à liberdade ninguém pode ser discriminado em função do seu sexo</p><p>ou da sua idade, como se fossem causas naturais de incapacidade</p><p>civil. O Estatuto do Idoso igualmente assegura todos os direitos e</p><p>garantias a quem tem mais de 60 anos.</p><p>Tais postulados, no entanto, não foram suficientemente</p><p>enfáticos para excluir da nova codificação civil uma capitis diminutio</p><p>contra a chamada terceira idade. Quem pretender casar após os 60</p><p>anos tem subtraída de forma injustificável, aleatória e discriminatória</p><p>a plenitude de sua capacidade para eleger o regime de bens que lhe</p><p>aprouver. Absurdamente é imposto o regime da separação legal de</p><p>bens, que gera a total incomunicabilidade para o passado e para o</p><p>futuro. Sequer é tornado obrigatório o regime da comunhão parcial,</p><p>que é o vigorante quando os nubentes nada manifestam e não</p><p>convencionam diferentemente por meio de pacto antenupcial, o que,</p><p>no mínimo, obviaria algumas injustiças.</p><p>A limitação, além de odiosa, é inconstitucional, pois, ao se falar no</p><p>estado da pessoa, toda cautela é pouca. A plena capacidade é adquirida</p><p>quando do implemento da maioridade e só pode ser afastada em</p><p>situações extremas e por meio do processo judicial de interdição, que</p><p>dispõe de rito especial (arts. 1.177 a 1.186 do CPC). É indispensável</p><p>não só a realização de perícia, mas também é obrigatória audiência</p><p>onde o interditando é interrogado pelo magistrado. Raros processos são</p><p>revestidos de tantos requisitos formais, sendo imperiosa a publicação</p><p>da sentença na imprensa por três vezes. Tal rigorismo denota o extremo</p><p>cuidado do legislador quando trata da capacidade da pessoa.</p><p>Frente ao casamento, no entanto, tudo isso é olvidado. Quando</p><p>alguém, após atingir a idade de 60 anos, quiser casar, ainda que</p><p>não esteja impedido de fazê-lo, não pode dispor sobre questões</p><p>patrimoniais e escolher livremente o regime de bens. Não dá para</p><p>deixar de concordar com João Baptista Villela, ao afirmar que a</p><p>proibição, na verdade, é bem um reflexo da postura patrimonialista</p><p>do Código e constitui mais um dos ultrajes gratuitos que a nossa</p><p>cultura inflige à terceira idade.</p><p>60</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Tão draconiana limitação já existia no Código Civil de 1916, só</p><p>que estabelecia diferença de idade a depender do sexo dos nubentes.</p><p>O inc. II do parágrafo único do art. 258 impunha o regime da</p><p>separação de bens quando a noiva tinha mais de 50 anos ou o noivo</p><p>houvesse ultrapassado os 60 anos de idade. Essa diferenciação de</p><p>tratamento tinha origem na menos-valia emprestada à mulher, que</p><p>só era valorizada por seus atributos físicos, beleza e sensualidade.</p><p>Assim, uma mulher com mais de 50 anos não poderia ser alvo de um</p><p>amor verdadeiro. Como o fator valorativo do homem sempre esteve</p><p>ligado à virilidade, que perdura mais do que a beleza, somente</p><p>quando sexagenário é que perdia ele a capacidade de despertar o</p><p>interesse de alguém.</p><p>Luiz Edson Fachin já questionava se, com a vinda da Constituição</p><p>Federal de 1988, a idade seria a mesma para os dois sexos, tendo</p><p>em vista o princípio da igualdade. [10] A jurisprudência, igualmente</p><p>invocando o mesmo princípio consagrado constitucionalmente, já</p><p>havia unificado a idade em sessenta anos.</p><p>FONTE: <http://www.mariaberenice.com.br/uploads/5_-_</p><p>amor_n%E3o_tem_idade.pdf>. Acesso em: 13 mar. 2018.</p><p>Ainda no que se refere à sucessão do cônjuge junto de ascendente, as duas</p><p>classes herdarão juntas caso o de cujus tenha deixado</p><p>bens particulares, aqueles</p><p>adquiridos antes do casamento, ou por doação/sucessão/sub-rogação após o</p><p>matrimônio. Os bens particulares são aqueles que não se comunicam ao cônjuge</p><p>quando o regime escolhido é o da comunhão parcial (art. 1.659, I).</p><p>Pergunta: neste caso, a herança do cônjuge (e não sua meação, lembrem-</p><p>se), será calculada sobre todo o patrimônio do morto, ou ele herdará apenas parte</p><p>dos bens particulares, que lhe “escapam” à meação?</p><p>Para Diniz (2002) e Cahali (1988), por ser a herança bem indivisível, o viúvo</p><p>sobrevivente deveria ter sua herança calculada sobre a totalidade do espólio, a</p><p>ser individualizada apenas na partilha. O entendimento majoritário, seguido por</p><p>Veloso (2003), Régis (2005) e Gonçalves (2012, p. 194), entretanto, é outro: a</p><p>herança do cônjuge incidirá apenas sobre parte dos bens particulares porque</p><p>estes são divididos “não em decorrência da sucessão, mas tão só em virtude da</p><p>dissolução da sociedade conjugal”.</p><p>61</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>Interessante destacar, entretanto, uma terceira possibilidade defendida</p><p>por Farias e Rosenvald (2015), segundo o qual os bens a serem divididos não</p><p>seriam nem os particulares, nem a totalidade da herança, mas apenas aqueles</p><p>adquiridos na constância do casamento, além da meação. Este entendimento</p><p>já está presente em jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, conforme o</p><p>julgado a seguir:</p><p>DIREITO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. INVENTÁRIO.</p><p>CÔNJUGE SUPÉRSTITE CASADO COM O DE CUJUS PELO</p><p>REGIME DA COMUNHÃO PARCIAL DE BENS. HERANÇA</p><p>COMPOSTA DE BENS PARTICULARES E BEM COMUM.</p><p>HERDEIRO NECESSÁRIO. CONCORRÊNCIA COM OS</p><p>DESCENDENTES. ARTS. ANALISADOS: 1.658, 1.659, 1.661,</p><p>E 1.829, I, DO CC/02.</p><p>1. Inventário distribuído em 24/01/2006, do qual foi extraído</p><p>o presente recurso especial, concluso ao Gabinete em</p><p>27/05/2013.</p><p>2. Cinge-se a controvérsia a definir se o cônjuge supérstite,</p><p>casado com o falecido pelo regime da comunhão parcial de</p><p>bens, concorre com os descendentes dele na partilha dos bens</p><p>particulares.</p><p>3. No regime da comunhão parcial, os bens exclusivos de um</p><p>cônjuge não são partilhados com o outro no divórcio e, pela</p><p>mesma razão, não o devem ser após a sua morte, sob pena de</p><p>infringir o que ficou acordado entre os nubentes no momento</p><p>em que decidiram se unir em matrimônio. Acaso a vontade</p><p>deles seja a de compartilhar todo o seu patrimônio, a partir do</p><p>casamento, assim devem instituir em pacto antenupcial.</p><p>4. O fato de o cônjuge não concorrer com os descendentes</p><p>na partilha dos bens particulares do de cujus não exclui a</p><p>possibilidade de qualquer dos consortes, em vida, dispor</p><p>desses bens por testamento, desde que respeitada a legítima,</p><p>reservando-os ou parte deles ao sobrevivente, a fim de</p><p>resguardá-lo acaso venha a antes dele falecer.</p><p>5. Se o espírito das mudanças operadas no CC/02 foi evitar</p><p>que um cônjuge fique ao desamparo com a morte do outro,</p><p>essa celeuma não se resolve simplesmente atribuindo-lhe</p><p>participação na partilha apenas dos bens particulares, quando</p><p>houver, porque podem eles ser insignificantes, se comparados</p><p>aos bens comuns existentes e amealhados durante toda a vida</p><p>conjugal.</p><p>6. Mais justo e consentâneo com a preocupação do legislador</p><p>é permitir que o sobrevivente herde, em concorrência com os</p><p>descendentes, a parte do patrimônio que ele próprio construiu</p><p>com o falecido, não lhe tocando qualquer fração daqueles</p><p>outros bens que, no exercício da autonomia da vontade, optou</p><p>- seja por não ter elegido regime diverso do legal, seja pela</p><p>celebração do pacto antenupcial - por manter incomunicáveis,</p><p>excluindo-os expressamente da comunhão.</p><p>7. Recurso especial conhecido em parte e parcialmente provido</p><p>(STJ, Ac. unân. 3ª T., REsp. 1.377.084/MG, Rel. Min. Nancy</p><p>Andrighi, j. 8.10.13, DJe 15.10.13, grifos nossos).</p><p>62</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Além disso, é preciso mencionar o art. 1.832 do CC, que determina que, se</p><p>os filhos forem comuns ao viúvo e ao morto, a parte do viúvo não pode ser inferior</p><p>a ¼ da herança. Neste sentido, exemplifica Gonçalves (2012, p. 198):</p><p>Se, por exemplo, o casal tinha três filhos, e falece o marido,</p><p>a herança será dividida, em partes iguais, entre a viúva e os</p><p>filhos. Assim, o sobrevivente e cada um dos filhos receberá</p><p>25% da herança. Porém, se o falecido deixou quatro filhos ou</p><p>mais, e tendo de ser reservado um quarto da herança para o</p><p>cônjuge sobrevivente, este receberá quinhão maior, repartindo-</p><p>se os três quartos restantes entre os quatro ou mais filhos. A</p><p>repartição da herança por cabeça [por direito próprio] não irá,</p><p>portanto, prevalecer nesse caso.</p><p>A meação permanece intocada; o que dela sobrar deverá ser dividida entre</p><p>os filhos e o cônjuge sobrevivente. Se os filhos eram apenas do morto e não</p><p>do viúvo, ele não terá direito à quarta parte, devendo a herança ser igualmente</p><p>dividida entre todos.</p><p>Questão intrigante diz respeito à hipótese na qual existem filhos em comum</p><p>(do viúvo e do morto) e também filhos exclusivos do de cujus. Como proceder à</p><p>divisão sucessória, com relação à quarta parte?</p><p>Segundo Gonçalves (2012), existem autores que defendem o direito a</p><p>prevalência da quarta parte do cônjuge nessa situação; autores que afirmam</p><p>que este direito não subsiste, valendo-se de uma interpretação mais dogmática</p><p>do preceito (que estipula a quarta parte apenas quando há filhos em comum,</p><p>silenciando sobre a situação de filhos híbridos); e há ainda, quem defende</p><p>que a divisão seja feita proporcionalmente: “resguardar-se-ia a quarta parte da</p><p>herança ao cônjuge somente com relação aos filhos comuns, e fazendo-se a</p><p>partilha igualitária, sem aquele mínimo de um quarto, com relação aos herdeiros”</p><p>(GONÇALVES, 2012, p. 199).</p><p>Por se tratar de um privilégio, Farias e Rosenvald (2015) sugerem que</p><p>a interpretação restritiva seria a mais adequada, de forma que esta reserva de</p><p>quarta parte só deveria ser efetuada quando houvesse apenas filhos em comum</p><p>do falecido e do viúvo.</p><p>63</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>Farias e Rosenvald (2015, p. 240) manifestam pertinente crítica</p><p>a respeito da sucessão do cônjuge junto de descendentes:</p><p>Imagine-se um exemplo muito comum entre nós: uma pessoa</p><p>que já possui patrimônio próprio e que já tem filhos de uma</p><p>relação e que, posteriormente, pretende casar com uma outra</p><p>pessoa. Curiosamente, essa outra pessoa também tem filhos e</p><p>também tem patrimônio, ou não. Se o pretendente quiser blindar</p><p>o seu patrimônio para deixá-lo, com exclusividade, aos seus</p><p>filhos (que não são filhos de seu novo consorte), não poderá, por</p><p>conta do direito sucessório garantido ao cônjuge, mesmo que</p><p>casem no regime de separação absoluta de bens. Vemos nisso</p><p>uma afronta absurda à autonomia privada, com a ingerência</p><p>estatal sobre uma relação que deveria ser existencial.</p><p>Dias (2012, p. 123) também descorda da divisão elencada no</p><p>Código Civil:</p><p>Não há como admitir que os filhos vejam no novo cônjuge</p><p>de seu pai alguém que irá disputar com eles bens do genitor.</p><p>Ninguém vai aceitar um concorrente. Basta figurar um exemplo</p><p>para flagrar a incongruência do que vem sendo sustentado:</p><p>alguém, tendo filhos e bens, vem a casar e recebe a herança</p><p>de seu genitor. Quando de sua morte, o viúvo (que não é</p><p>genitor dos filhos do de cujus) recebe fração igual a cada</p><p>um dos herdeiros. Ou seja, o cônjuge sobrevivente torna-se</p><p>proprietário de parte da meação do finado e de parte da herança</p><p>do sogro. Vindo o cônjuge a morrer, seu patrimônio – integrado</p><p>dos bens do ex-marido – passará aos seus sucessores (seus</p><p>filhos, seus pais, seu novo cônjuge, seus irmãos ou sobrinhos).</p><p>Assim, não reverterá aos órfãos o patrimônio que o pai havia</p><p>amealhado sozinho, e nem a herança do avô, que cairão em</p><p>mãos de estranhos. E como não há qualquer regime de bens</p><p>que impeça tal resultado, talvez a solução seja não casar, viver</p><p>só ou em união estável.</p><p>E você, o que acha a respeito do assunto?</p><p>64</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Sobre a polêmica, ver:</p><p>FARIAS, Cristiano</p><p>Chaves de; ROSENVALD, Nelson. A ilógica</p><p>concorrência do cônjuge casado no regime de separação absoluta de</p><p>bens com os descendentes do falecido. In: FARIAS, Cristiano Chaves</p><p>de; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil: sucessões. São</p><p>Paulo: Atlas, 2015, v. 7.</p><p>DIAS, Maria Berenice. Filhos, bens e amor não combinam!</p><p>Disponível em: <http://www.mariaberenice.com.br/uploads/3_-_filhos_</p><p>bens_e_amor_n%E3o_combinam.pdf> Acesso em: 13 mar. 2018.</p><p>3.2 O Cônjuge Como Sucessor:</p><p>Quando o Viúvo Herda Junto aos</p><p>Ascendentes</p><p>No que se refere à sucessão do cônjuge em conjunto com os</p><p>ascendentes (art. 1.829, II), não há qualquer limite a ser observado</p><p>em razão do regime de bens escolhido para o casamento. Além da</p><p>meação, o cônjuge simplesmente herdará parte da herança, junto dos</p><p>ascendentes.</p><p>O art. 1.837, porém, estabelece a seguinte regra: “Concorrendo com</p><p>ascendente em primeiro grau, ao cônjuge tocará um terço da herança; caber-lhe-á</p><p>a metade desta se houver um só ascendente, ou se maior for aquele grau”. Em</p><p>síntese, isso significa que além da eventual meação, o viúvo terá direito a 1/3 da</p><p>herança, se os ascendentes herdeiros forem ambos os pais; e ½, se o herdeiro for</p><p>apenas um dos pais, ou se forem avós ou ascendentes de maior grau.</p><p>Com relação à sucessão conjunta entre viúvo e ascendentes, pertinente</p><p>refletir a respeito da multipaternidade. A multipaternidade ocorre quando o</p><p>indivíduo, por alguma razão, passa a ter mais de um pai ou de uma mãe, como por</p><p>exemplo no caso de filiação socioafetiva – biologicamente se tem um genitor, mas</p><p>a criação e o afeto foram dados por terceiro. Sobre o tema, Farias e Rosenvald</p><p>(2015, p. 267):</p><p>Além da meação,</p><p>o cônjuge</p><p>simplesmente</p><p>herdará parte da</p><p>herança, junto dos</p><p>ascendentes.</p><p>http://www.mariaberenice.com.br/uploads/3_-_filhos_bens_e_amor_n%E3o_combinam.pdf</p><p>http://www.mariaberenice.com.br/uploads/3_-_filhos_bens_e_amor_n%E3o_combinam.pdf</p><p>65</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>Problematizando esse percentual sucessório da concorrência</p><p>do cônjuge com o ascendente, vale suscitar a questão da</p><p>multipaternidade ou pluripaternidade. Nesse caso, deixando o</p><p>morto dois pais e uma mãe, por exemplo, o percentual da viúva</p><p>permaneceria de 1/3 ou, proporcionalmente, cairia para ¼? A</p><p>nós parece que a resposta é a imperativa e equânime redução</p><p>do percentual, uma vez que a ratio do dispositivo, a toda</p><p>evidência, é manter a proporcionalidade entre os ascendentes</p><p>e o consorte supérstite.</p><p>Vejamos, agora, as regras aplicáveis aos casos nos quais o cônjuge, sozinho,</p><p>será herdeiro do de cujus.</p><p>3.3 O Cônjuge Como Sucessor:</p><p>Quando o Viúvo Herda Sozinho</p><p>O cônjuge sobrevivente é o terceiro na ordem de vocação</p><p>hereditária (art. 1.829, III), sendo herdeiro universal quando o de cujus</p><p>não tiver descendentes ou ascendentes (art. 1.838). Para suceder,</p><p>porém, é necessário que o viúvo esteja convivendo com o falecido</p><p>quando da abertura da sucessão, o que significa dizer que se estavam</p><p>divorciados ou separados, independentemente de prazo, como bem</p><p>salientam Farias e Rosenvald (2015, p. 268), “a herança é transmitida</p><p>aos colaterais”.</p><p>Oportuno pontuar que o regime de bens escolhido para o casamento não</p><p>altera a situação do cônjuge herdeiro: todo o patrimônio será herdade pelo viúvo.</p><p>Além disso, o art. 1.831 do Código Civil, confere ao cônjuge sobrevivente o</p><p>direito real de habitação, que consiste na</p><p>Garantia reconhecida ao cônjuge (e ao companheiro) de</p><p>continuar residindo no imóvel, de natureza residencial,</p><p>que, durante a convivência, servia de lar para o casal,</p><p>após a morte do outro componente da sociedade afetiva,</p><p>independentemente de ter direito meatório ou sucessório sobre</p><p>o bem e independentemente do regime de bens.</p><p>Trata-se de um direito concedido ao cônjuge, ainda, nos casos em que divida</p><p>herança com ascendentes, descendentes, ele terá direito de residir no imóvel onde</p><p>outrora fixou lar com o falecido até sua morte, ainda que venha constituir nova</p><p>família. O dispositivo visa proteger o viúvo de eventual arbitrariedades, como por</p><p>exemplo, nos casos em que os filhos exclusivos do falecido, tentem tirá-lo da casa.</p><p>O cônjuge</p><p>sobrevivente é o</p><p>terceiro na ordem de</p><p>vocação hereditária</p><p>(art. 1.829, III),</p><p>sendo herdeiro</p><p>universal quando o</p><p>de cujus não tiver</p><p>descendentes ou</p><p>ascendentes (art.</p><p>1.838).</p><p>66</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Sua configuração, entretanto, exige que o de cujus tenha deixado apenas um</p><p>imóvel residencial, e que este não seja utilizado para outras finalidades que não a</p><p>simples moradia.</p><p>Estudaremos, agora, a situação dos companheiros no Código Civil de 2002.</p><p>3.4 O Companheiro Como Sucessor:</p><p>Quando o Companheiro Viúvo Herda</p><p>É possível que o falecido não tenha sido juridicamente casado em vida, mas</p><p>tenha convivido em união estável com alguém, que também terá direitos à sucessão.</p><p>A união estável, caracterizada pela relação longa e duradoura entre indivíduos, com</p><p>intenção de formar família mas sem a burocratização do casamento, é protegida</p><p>pelo texto constitucional (art. 226, §3º), sendo conceituada pelo art. 1.723 do Código</p><p>Civil da seguinte forma: “É reconhecida como entidade familiar a união estável entre</p><p>o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e</p><p>estabelecida com o objetivo de constituição de família”.</p><p>A união estável gera direitos sucessórios, mas apenas se a condição de</p><p>companheiro puder ser comprovada em juízo. Para tanto, é possível valer de</p><p>todas as provas possíveis, como fotos do casal (prova documental), depoimento</p><p>de amigos (prova testemunhal), entre outras.</p><p>O companheiro, assim como o cônjuge, tem direito tanto à meação</p><p>(a depender do regime de bens que regia a união estável) quanto à</p><p>herança, mas as diferenças entre o tratamento dos dois são inúmeras.</p><p>O art. 1.790 do Código Civil, que assim preceitua:</p><p>Art. 1.790 A companheira ou o companheiro participará da</p><p>sucessão do outro, quanto aos bens adquiridos onerosamente</p><p>na vigência da união estável, nas condições seguintes:</p><p>I - se concorrer com filhos comuns, terá direito a uma quota</p><p>equivalente à que por lei for atribuída ao filho;</p><p>II - se concorrer com descendentes só do autor da herança,</p><p>tocar-lhe-á a metade do que couber a cada um daqueles;</p><p>III - se concorrer com outros parentes sucessíveis, terá direito</p><p>a um terço da herança;</p><p>IV - não havendo parentes sucessíveis, terá direito à totalidade</p><p>da herança.</p><p>O companheiro,</p><p>assim como o</p><p>cônjuge, tem direito</p><p>tanto à meação (a</p><p>depender do regime</p><p>de bens que regia</p><p>a união estável)</p><p>quanto à herança,</p><p>mas as diferenças</p><p>entre o tratamento</p><p>dos dois são</p><p>inúmeras.</p><p>67</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>O dispositivo tem sofrido diversas críticas por diversas razões, a serem</p><p>abordadas ao longo desta seção. Mas as principais dela são: 1) A herança do</p><p>companheiro recai apenas quando houver adquirido bens de forma onerosa na</p><p>vigência da união estável (art. 1.790, caput); 2) a lei estabelece diferença entre</p><p>descendentes exclusivos e descendentes em comum; e 3) cria uma situação na</p><p>qual o companheiro herda junto aos colaterais (situação não sofrida pelo cônjuge).</p><p>Além disso, o direito real de habitação expressamente concedido ao cônjuge</p><p>conforme estudado, não figura como direito do companheiro. Todavia, como a</p><p>lei equipara o casamento à união estável, para efeitos jurídicos, compreende-se</p><p>que o companheiro também possa se beneficiar deste direito. Neste sentido, é o</p><p>Enunciado 117 do Conselho da Justiça Federal: “O direito real de habitação deve</p><p>ser estendido ao companheiro, seja por não ter sido revogada a previsão da Lei n.</p><p>9.278/96, seja em razão da interpretação analógica do art. 1.831, informado pelo</p><p>art. 6º, caput, da CF/88”. É também, neste sentido, que tem entendido os tribunais.</p><p>O caput do art. 1.790 estabelece que o companheiro, além da meação que</p><p>lhe cabe, herdará apenas parte dos bens que foram adquiridos de forma onerosa</p><p>durante</p><p>e união estável. Os bens particulares do falecido, são, portanto, excluídos</p><p>da herança do companheiro. Essa situação tem sido alvo de críticas, como</p><p>discorrem Farias e Rosenvald (2015, p. 285):</p><p>A situação pode se mostrar paradoxal, gerando injustiças, a</p><p>depender do caso: se o companheiro tinha vasto patrimônio</p><p>antes do início da união e nada adquiriu na constância, não</p><p>transmitirá herança e não deixará meação; se não possuía</p><p>patrimônio algum antes da vigência do relacionamento, mas</p><p>adquire, onerosamente, um considerável patrimônio, deixará</p><p>herança e meação, fazendo com que a união estável se mostre,</p><p>nesse ponto, mais vantajosa do que o próprio casamento.</p><p>Nessa hipótese, é recomendável não casar... A situação</p><p>se nos apresenta inaceitável. Assim como defendemos a</p><p>inadmissibilidade de tratamento discriminatório e depreciativo</p><p>em relação à união estável, também o fazemos em relação</p><p>ao casamento. Não parece razoável que a união estável,</p><p>eventualmente, gere direitos sucessórios mais benéficos do que</p><p>o matrimônio. Por isso, entendemos ser caso de harmonização</p><p>do sistema sucessório, evitando ambas as situações.</p><p>Quanto ao quinhão, caso o companheiro viúvo e o autor da herança tenham</p><p>filhos em comum, os bens serão igualmente divididos entre todos. Caso os</p><p>filhos sejam apenas do falecido, o companheiro terá direito à metade do que</p><p>cada filho herdará. Importante pontuar que apesar do inciso I do referido artigo</p><p>utilizar a palavra “filhos”, entende-se que as disposições são aplicáveis a todos os</p><p>descendentes: filhos, netos bisnetos.</p><p>68</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Uma diferença notável em relação às hipóteses nas quais o cônjuge herda</p><p>junto aos descendentes é a reserva da quarta parte, a qual o companheiro não</p><p>tem direito. Pela regra, ou herdará em igualdade de condições junto aos filhos</p><p>em comum, ou herdará de apenas metade do que os filhos exclusivos do falecido</p><p>herdarem. E assim como no caso dos cônjuges, a lei não estabelece norma</p><p>própria para o caso da existência de filhos híbridos, ou seja, tanto exclusivamente</p><p>do morto, quando em comum com o companheiro viúvo.</p><p>Uma solução é explicada por Gonçalves (2012, p. 222):</p><p>O inciso II do art. 1.790 do Código Civil só garante aos</p><p>descendentes quinhão correspondente ao dobro do que for</p><p>atribuído à companheira quando forem todos descendentes</p><p>exclusivos do de cujus. Havendo descendentes comuns</p><p>e unilaterais, aplica-se a regra do inciso I, assegurando à</p><p>companheira quinhão igual ao daqueles.</p><p>Autores como Farias e Rosenvald (2015, p. 289), porém, entendem ser</p><p>melhor “garantir uma divisão igualitária entre todos os filhos e o companheiro</p><p>sobrevivente, evitando uma distinção de tratamento hereditário entre os próprios</p><p>filhos – o que pode, inclusive, martirizar a isonomia constitucional entre a prole”.</p><p>Caso o companheiro viúvo herde junto de outros parentes (ou seja, os</p><p>ascendentes e os colaterais), terá 1/3 da herança. Assim, independentemente se</p><p>estejam vivos um ou dois pais, avós ou mesmo bisavós do morto, obedecido o</p><p>grau, o montante da herança do companheiro será sempre 1/3. O mesmo ocorre</p><p>quando há parentes colaterais.</p><p>O dispositivo é duramente criticado porque permite que parentes mais</p><p>distantes do falecido herdem mais que o companheiro, incluindo aí os bens</p><p>particulares do morto. Conforme Farias e Rosenvald (2015, p. 292):</p><p>A situação ganha requintes de crueldade se se imaginar</p><p>que o falecido não deixou bens adquiridos onerosamente</p><p>na constância de uma união estável de vinte ou trinta anos,</p><p>apenas o patrimônio adquirido antes da relação ou, no curso</p><p>dela, a título gratuito, por doação ou herança. Nesse caso, o</p><p>companheiro sobrevivente não terá qualquer direito sucessório,</p><p>cabendo todo o patrimônio deixado ao parente, mesmo que</p><p>seja um primo distante, um tio-avô ou um sobrinho-neto</p><p>desconhecidos, que, na lógica do Código Civil, possuem mais</p><p>afinidade, afeto e merecimento do que o companheiro.</p><p>Apenas quando não houver parente algum apto a suceder, é que o</p><p>companheiro irá herdar todo o patrimônio do morto.</p><p>69</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>A (IN)CONSTITUCIONALIDADE DO SISTEMA</p><p>SUCESSÓRIO DO COMPANHEIRO</p><p>Considerado o manancial de distinções entre o sistema</p><p>sucessório do casamento e o da união estável, passando pela</p><p>diferença de tratamento, inclusive pela concorrência sucessória do</p><p>companheiro com os colaterais e, supostamente, com a Fazenda</p><p>Pública, vem se debatendo a constitucionalidade do dispositivo legal.</p><p>É bem verdade que alguns autores propagam a tese da</p><p>compatibilidade do texto legal com a Constituição da República sob o</p><p>argumento de que o próprio constituinte teria intencionado priorizar a</p><p>proteção do casamento em detrimento da união estável.</p><p>A maioria da doutrina, contudo, com o nosso aval, se posiciona</p><p>em sentido diametralmente oposto. Tendo em mira o fato de que o</p><p>afeto, a solidariedade, o respeito e a dignidade das pessoas que</p><p>estão no casamento e na união estável é a mesma, bem por lembrar</p><p>que o caput do art. 226 do Texto Constitucional determinou que toda</p><p>e qualquer família merece “especial proteção do Estado” e que o</p><p>direito à herança é uma garantia constitucional (CF, art. 5º, XXX), os</p><p>autores, em posição majoritária, defendem a inconstitucionalidade do</p><p>sistema de sucessão do companheiro.</p><p>Nesse diapasão, chega a se asseverar, com toda a razão:</p><p>As diferenças são absurdas. O tratamento diferenciado não</p><p>é somente perverso, é escancaradamente inconstitucional,</p><p>afrontando de forma direta os princípios da igualdade e da</p><p>dignidade da pessoa humana, sem falar na desequiparação</p><p>preconizada entre duas células familiares: união estável e</p><p>casamento. No mesmo dispositivo em que assegura especial</p><p>proteção à família, a Constituição reconhece a união estável</p><p>como entidade familiar, não manifestando preferência por</p><p>qualquer de suas formas. O retrocesso da lei se afasta</p><p>da razoabilidade (DIAS, Maria Berenice, cf. Manual das</p><p>Sucessões, cit., p. 161)</p><p>Mais incisivo, Aldemiro Rezende Dantas Júnior, eminente civilista do</p><p>Amazonas, dispara que o tratamento sucessório dispensado ao companheiro “é</p><p>ofensivo ao Texto Constitucional, porque agride a igualdade da proteção que a</p><p>lei deve deferir a todas as espécies de família, uma vez que não aceitamos a</p><p>alegada superioridade de qualquer das espécies familiares sobre as demais”. E,</p><p>70</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>mais adiante, é direto ao asseverar que o art. 1.790 do Código Civil (que trata da</p><p>sucessão do companheiro) “deve ser destinado à lata do lixo, sendo declarado</p><p>inconstitucional e, a partir daí, simplesmente ignorado, a não ser para fins de</p><p>estudo histórico da evolução do Direito”.</p><p>Em sede jurisprudencial já é possível localizar importantes julgados,</p><p>consagrando o posicionamento aqui defendido. Veja-se ilustrativamente:</p><p>“Sucessão – União estável – Inconstitucionalidade do art. 1.790</p><p>do CC diante do tratamento paritário entre a união estável</p><p>e o casamento por força do art. 226 da CF. [...] As regras</p><p>sucessórias previstas para a sucessão entre companheiros</p><p>no novo Código Civil são inconstitucionais. Na medida em</p><p>que a nova lei substantiva rebaixou o status hereditário do</p><p>companheiro sobrevivente em relação ao cônjuge supérstite,</p><p>violou os princípios fundamentais da igualdade e da dignidade.”</p><p>(TJ/RS, Ac. 8a Câmara Cível, AgInstr.70009524612, Rel. Des.</p><p>Rui Portanova, j. 18.11.04)</p><p>“Incompatibilidade do art. 1.790 do Código Civil com o</p><p>sistema jurídico de proteção constitucional às entidades</p><p>familiares e o direito fundamental à herança. Impossibilidade</p><p>de legislação infraconstitucional alijar direitos fundamentais</p><p>anteriormente assegurados a partícipes de entidades familiares</p><p>constitucionalmente reconhecidas, em especial o direito à</p><p>herança. Posição jurisprudencial que se inclina no sentido da</p><p>inaplicabilidade do ilógico art. 1.790 do Código Civil.” (TJ/SP,</p><p>Ac. 4a Câmara de Direito Privado, AgInstr. 5679294000, Rel.</p><p>Des. Francisco Loureiro, j. 11.9.08)</p><p>“1.</p><p>Inconstitucionalidade do art. 1.790, III, do Código Civil</p><p>por afronta ao princípio da igualdade, já que o art. 226, §</p><p>3o, da Constituição Federal conferiu tratamento similar aos</p><p>institutos da união estável e do casamento, ambos abrangidos</p><p>pelo conceito de entidade familiar e ensejadores de especial</p><p>proteção do estado. 2. A distinção relativa aos direitos</p><p>sucessórios dos companheiros viola frontalmente o princípio</p><p>da igualdade material, uma vez que confere tratamento</p><p>desigual àqueles que, casados ou não, mantiveram relação de</p><p>afeto e companheirismo durante certo período de tempo, tendo</p><p>contribuído diretamente para o desenvolvimento econômico</p><p>da entidade familiar.” (TJ/PR, Ac. Órgão Especial, AI 536.589-</p><p>9/01, Rel. Des. Sérgio Arenhart, j. 4.12.09)</p><p>“I – A questão relativa à sucessão na união estável e a</p><p>consequente distribuição dos bens deixados pelo companheiro</p><p>falecido, conforme previsão do art. 1.790 do Código Civil de</p><p>2002, reclama a análise da inconstitucionalidade do referido</p><p>dispositivo legal, pois este, ao dispor sobre o direito sucessório</p><p>da companheira sobrevivente, ignorou a equiparação da</p><p>união constitucionais da isonomia e da dignidade humana; II</p><p>– Incidente conhecido, para declarar a inconstitucionalidade</p><p>do art. 1.790 do Código Civil de 2002.” (TJ/SE, Ac. Tribunal</p><p>Pleno, II 2010114780, Rel. Desa. Marilza Maynard Salgado de</p><p>Carvalho, j. 30.3.11)</p><p>71</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>O mesmo raciocínio deve ser aplicado a todo e qualquer dispositivo legal que,</p><p>eventualmente, trate da união estável de modo distinto em relação ao casamento,</p><p>sendo expurgado pela incompatibilidade com as garantias constitucionais. Isso</p><p>porque a consagração da união estável como entidade familiar lhe acobertou com a</p><p>mesma proteção jurídica deferida ao casamento, não sendo razoável que a legislação</p><p>infraconstitucional venha a distinguir o que não foi diferenciado pelo constituinte.</p><p>Por isso, toda e qualquer proteção conferida aos cônjuges tem de ser</p><p>estendida aos companheiros. Daí a objetividade de Maria Berenice Dias: “quando</p><p>a lei trata de forma diferente a união estável em relação ao casamento, é de se ter</p><p>simplesmente tais referências como não escritas. Sempre que o legislador deixar</p><p>de nominar a união estável frente a prerrogativas concedidas ao casamento,</p><p>outorgando-lhe tratamento diferenciado, devem tais omissões ser tidas por</p><p>inexistentes, ineficazes e inconstitucionais. Igualmente, em todo texto em que é</p><p>citado cônjuge, é necessário ler-se cônjuge ou companheiro”.</p><p>É com esse espírito que se há de compreender a sucessão na união estável,</p><p>não permitindo que velhos (pre)conceitos, de natureza muito mais moral e religiosa</p><p>do que jurídica, possam servir de pretexto para atentar, diretamente, contra os mais</p><p>elementares princípios constitucionais – que possuem induvidosa força normativa.</p><p>Enfim, é preciso deixar de amar obcecadamente o passado e perceber uma nova</p><p>arquitetura familiar, que, certamente, merece proteção, e não discriminação.</p><p>FONTE: Farias e Rosenvald (2015, 293-294).</p><p>Questão polêmica é quando o mesmo indivíduo falece deixando companheiro</p><p>e cônjuge, pois “pode suceder que uma pessoa, separada de fato há menos</p><p>de dois anos, já estivesse vivendo em união estável por ocasião de sua morte”</p><p>(GONÇALVES, 2012, p. 224). Nesta caso, como deve ser realizada a partilha?</p><p>A solução mais adequada, juridicamente, é a de que o companheiro tenha</p><p>direito sobre os bens adquiridos na constância da união estável e o cônjuge, aos</p><p>adquiridos no casamento. A questão mostra-se mais espinhosa quando o falecido,</p><p>devidamente casado e sem separação, deixa também um companheiro – como</p><p>realizar a partilha dos bens?.</p><p>São questões que estão longe de serem pacificadas nos tribunais.</p><p>72</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Atividade de Estudos:</p><p>1) Segundo as regras da sucessão legítima, enumere as diferenças</p><p>existentes entre a sucessão do cônjuge e a sucessão do</p><p>companheiro.</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>4 Os Descendentes Como</p><p>Sucessores</p><p>A primeira classe a ser beneficiada com a herança, é a classe dos</p><p>descendentes (em concorrência com o cônjuge). Em princípio, todos os</p><p>descendentes são contemplados: filhos (descendentes de 1º grau), netos</p><p>(descendentes de 2º grau), bisnetos (descendentes de 3º grau), sem</p><p>limitação de grau. Entretanto, os graus mais próximos excluem os mais</p><p>distantes. Neste sentido, se o falecido tinha filhos, netos e bisnetos,</p><p>apenas os filhos irão ser chamados a suceder. Se o de cujus não</p><p>deixou filhos, mas deixou netos, estes serão os sucessores, e assim</p><p>por diante.</p><p>A situação se modifica, entretanto, quando falamos em direito</p><p>de representação (art. 1.833, CC). Ocorre que na sucessão legítima</p><p>existem duas maneiras de herdar: por direito próprio (ou ainda,</p><p>por cabeça), quando a herança vai para o herdeiro mais próximo,</p><p>observadas as regras da sucessão legítima; e por representação (ou</p><p>ainda, por estirpe), quando o indivíduo é chamado para suceder no</p><p>lugar do parente mais próximo do falecido, pois tal parente é pré-morto,</p><p>ausente ou incapaz de herdar.</p><p>Na sucessão legítima</p><p>existem duas</p><p>maneiras de herdar:</p><p>por direito próprio (ou</p><p>ainda, por cabeça),</p><p>quando a herança</p><p>vai para o herdeiro</p><p>mais próximo,</p><p>observadas as regras</p><p>da sucessão legítima;</p><p>e por representação</p><p>(ou ainda, por</p><p>estirpe), quando o</p><p>indivíduo é chamado</p><p>para suceder no</p><p>lugar do parente mais</p><p>próximo do falecido.</p><p>73</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>Representação sucessória é um benefício da lei, em virtude</p><p>do qual os descendentes de uma pessoa falecida são chamados a</p><p>substituí-la na sua qualidade de herdeira legítima, considerando-se</p><p>do mesmo grau que a representada, e exercendo, em sua plenitude,</p><p>o direito hereditário que a esta competia (BEVILÁQUA, 2000).</p><p>Para que haja representação são necessários alguns requisitos. O primeiro</p><p>deles é que o herdeiro representado tenha morrido antes do representante, ou</p><p>seja ausente ou indigno. Não se pode saltar uma geração para beneficiar a outra;</p><p>portanto, o filho jamais poderá vir a representar pai vivo na herança do avô. Não</p><p>abrange, porém, os casos de renúncia, já que o herdeiro renunciante é tratado</p><p>como se jamais tivesse herdado (art. 1.811, CC).</p><p>O segundo requisito é que o representante seja descendente do representado.</p><p>Como afirma Gonçalves (2012, p. 252):</p><p>A representação se caracteriza, com efeito, pela chamada do</p><p>descendente para substituir o ascendente em uma sucessão.</p><p>Quando é feita na linha reta, o filho substitui o pai na sucessão</p><p>do avô, e assim por diante. Quando ocorre na linha colateral, o</p><p>filho substitui seu pai, na sucessão de um tio, em concorrência</p><p>com outros tios. O direito de representação – proclama o art.</p><p>1.852 do Código Civil – ‘dá-se na linha reta descendente, mas</p><p>nunca na ascendente’.</p><p>Em terceiro lugar, é preciso que o representante seja legitimado para</p><p>representar o herdeiro incapacitado no momento da abertura da sucessão.</p><p>Imaginemos a seguinte situação, representada no esquema gráfico a seguir:</p><p>André falece em 2004, sendo pai de dois filhos (Bernardo e Camila, filha pré-</p><p>morta), e possuindo um neto (Daniel, filho de Camila, pré-morta). Camila, por não</p><p>aceitar a transexualidade de seu filho Daniel, o deserda, morrendo pouco tempo</p><p>depois deste fato, em 2003 (sendo, portanto, pré-morta de André). Daniel está</p><p>impossibilitado de herdar os bens de sua mãe Camila, mas poderá representa-la</p><p>para herdar os bens deixados por seu avô André.</p><p>74</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>FIGURA 2 – REPRESENTAÇÃO DE HERDEIRO DESERDADO</p><p>FONTE: A autora</p><p>Como quarto e último requisito, é necessário que esteja</p><p>vivo ao menos</p><p>um filho do morto, na linha de descendentes, ou um irmão do falecido, na</p><p>linha colateral. Se estes não existirem, os netos e os sobrinhos, possíveis</p><p>representantes, herdarão por direito próprio e não por representação.</p><p>No caso dos netos, como não há mais nenhum representante do primeiro</p><p>grau de descendentes (filhos), o próximo grau (netos) é chamado a suceder por</p><p>direito próprio. Por isso, os netos herdam em nome próprio. A situação pode ser</p><p>representada da seguinte maneira:</p><p>FIGURA 3 – SUCESSÃO POR DIREITO PRÓPRIO QUANDO</p><p>INEXISTENTES HERDEIROS DE GRAU ANTERIOR</p><p>FONTE: A autora</p><p>No caso dos sobrinhos, o de cujus não tem descendentes, ascendentes ou</p><p>cônjuge vivos, de forma que seu patrimônio passará aos colaterais. Os primeiros</p><p>a serem chamados são os irmãos; estando todos eles também falecidos, os</p><p>sobrinhos são chamados, em nome próprio, da seguinte maneira.</p><p>75</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>FIGURA 4 – HERANÇA DO SOBRINHO EM NOME PRÓPRIO</p><p>FONTE: A autora</p><p>Importante mencionar que o direito de representação só será exercido na</p><p>linha reta descendente (art. 1.852, CC), e na linha colateral em favor dos filhos</p><p>de irmãos pré-mortos, quando ainda houverem irmãos vivos (pois se todos os</p><p>irmãos morrerem, o sobrinho do morto herda por direito próprio, conforme já</p><p>mencionado).</p><p>Segundo Gonçalves (2012, p. 255):</p><p>O principal efeito da representação é atribuir o direito sucessório</p><p>a pessoas que não sucederiam, por existirem herdeiros de grau</p><p>mais próximo, mas que acabam substituindo um herdeiro pré-</p><p>morto. Pelo fato de os representantes sucederem diretamente</p><p>o de cujus, não estão obrigados pelas dívidas do representado,</p><p>mas somente pelas daquele. Só podem herdar, como tais, o</p><p>que herdaria o representado, se vivo fosse (CC, art. 1.854),</p><p>ou seja, não recebem menos nem mais do que receberia o</p><p>representado. O quinhão do representado “partir-se-á por igual</p><p>entre os representantes” (art. 1.855).</p><p>Ainda com relação à sucessão dos descendentes, é importante</p><p>mencionar que todos os filhos do falecido herdam em condições de</p><p>igualdade, independentemente de sexo, de terem nascido ou não na</p><p>constância do casamento, e de serem naturais ou adotivos. A lei não</p><p>faz distinção de filhos, sendo este, inclusive, um comando constitucional</p><p>(art. 226, §6º).</p><p>Todos os filhos do</p><p>falecido herdam</p><p>em condições</p><p>de igualdade,</p><p>independentemente</p><p>de sexo, de terem</p><p>nascido ou não</p><p>na constância do</p><p>casamento, e de</p><p>serem naturais ou</p><p>adotivos.</p><p>76</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>A SUCESSÃO DOS DESCENDENTES E A</p><p>TESE DA PLURIPATERNIDADE</p><p>Por derradeiro, sobreleva uma palavra a respeito da situação</p><p>jurídica do filho socioafetivo em relação ao seu genitor (pai biológico).</p><p>Com o reconhecimento da possibilidade de filiação socioafetiva, é</p><p>induvidoso que uma pessoa pode ser filha de alguém com quem não</p><p>guarda descendência genética, ou seja, pai (quem cria) e genitor</p><p>(quem procria, gera) podem não ser a mesma pessoa. É o caso do</p><p>filho adotivo, bem como do filho de criação – hipóteses claras de</p><p>filiação socioafetiva.</p><p>Nesse caso, surge uma intrigante pergunta: o filho socioafetivo</p><p>de uma pessoa, além de herdar do seu pai, poderia reclamar a</p><p>herança também do seu genitor?</p><p>Atualmente, a posição prevalecente se inclina por responder</p><p>negativamente à indagação, a partir do raciocínio de que, entre</p><p>os diferentes critérios determinativos da filiação (presunção legal,</p><p>biológico e socioafetivo), um deles deve avultar, permitindo o</p><p>estabelecimento da relação paterno-filial, com todos os seus efeitos,</p><p>inclusive sucessórios. Assim sendo, o filho herdaria do seu pai, e</p><p>não do seu genitor.</p><p>Comprovada a paternidade biológica após 40 anos do</p><p>nascimento do filho e inexistindo interesse de anular ou</p><p>retificar o atual registro de nascimento, cabível tão somente</p><p>o reconhecimento da paternidade biológica, sem a concessão</p><p>de direito hereditário ou retificação de nome. É que, se</p><p>certa a paternidade biológica, o seu reconhecimento, sem a</p><p>concessão dos demais direitos decorrentes do vínculo parental</p><p>e inexistindo prejuízo e resistência de quem quer que seja, não</p><p>viola o ordenamento jurídico. Ao contrário. Em casos como</p><p>este, negar o reconhecimento da verdade biológica chega a</p><p>ser uma forma de restrição dos direitos da personalidade do</p><p>indivíduo, cujo rol não é exaustivo. Caso em que tão somente</p><p>se reconhece a paternidade biológica, sem a concessão de</p><p>qualquer outro efeito jurídico. (TJ/RS, Ac. 8ª Câm. Cív., ApCív.</p><p>70031164676, Rel. Des. Rui Portanova, j. 17.9.09)</p><p>Entretanto, surge uma nova tese a respeito do tema,</p><p>advogando a possibilidade de coexistência simultânea da sucessão</p><p>em relação ao pai e ao genitor. É a chamada pluripaternidade ou</p><p>multiparentalidade. Para os defensores da tese, como Dóris Ghilardi,</p><p>77</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>nos casos em que o laço filiatório é estabelecido com dois pais</p><p>diferentes (um afetivo e outro biológico), negar um deles ao filho</p><p>seria “impingir-lhe uma penalidade em decorrência de uma situação</p><p>por ele não provocada”. Também em defesa dessa pluralidade</p><p>de efeitos jurídicos (inclusive sucessórios) na filiação, Renata</p><p>Barbosa de Almeida e Walsir Edson Rodrigues Júnior propagam</p><p>que a “coexistência de relações filiais” permitiria, por outra banda,</p><p>a execução de “direitos oriundos da filiação biológica – como de</p><p>alimentos e sucessórios”, além da cobrança desses direitos também</p><p>da filiação socioafetiva. Embora ainda embrionário, o argumento já</p><p>mereceu referência jurisprudencial:</p><p>Maternidade socioafetiva. Preservação da maternidade</p><p>biológica. Respeito à memória da mãe biológica, falecida em</p><p>decorrência do parto, e de sua família. Enteado criado como</p><p>filho desde dois anos de idade. Filiação socioafetiva que tem</p><p>amparo no art. 1.593 do Código Civil e decorre da posse do</p><p>estado de filho, fruto de longa e estável convivência, aliado ao</p><p>afeto e considerações mútuos, e sua manifestação pública,</p><p>de forma a não deixar dúvida, a quem não conhece, de que</p><p>não se trata de parentes. A formação da família moderna não</p><p>consanguínea tem sua base na afetividade e nos princípios</p><p>da dignidade da pessoa humana e da solidariedade. (TJ/SP,</p><p>Ac. unân. 1ª Câmara de Direito Privado, ApCív. 0006422-</p><p>26.2011.8.26.0286 – comarca de Itu, Rel. Des. Alcides</p><p>Leopoldo e Silva Júnior, j. 15.8.12)</p><p>De nossa parte, vislumbramos que o tema exige cuidados</p><p>e ponderações de ordem prática, uma vez que, admitida a</p><p>pluripaternidade sem limitações, estar-se-ia tolerando, por igual,</p><p>uma multi-hereditariedade, gerando inconvenientes explícitos,</p><p>como uma estranha possibilidade de estabelecimento da filiação</p><p>para atender meramente a interesses patrimoniais. Mais ainda:</p><p>uma pessoa poderia herdar várias vezes, de seus diferentes pais.</p><p>É que seria possível ao filho socioafetivo buscar a determinação de</p><p>sua filiação biológica, apenas, para fins sucessórios, reclamando</p><p>a herança de seu genitor, muito embora não mantenha com ele</p><p>qualquer vinculação, ou, sequer, aproximação. Ademais, poder-se-</p><p>ia, com isso, fragilizar o vínculo socioafetivo estabelecido, permitindo</p><p>uma busca inexorável do vínculo biológico. Até porque a concepção</p><p>familiar que decorre da filiação não permite escolhas de ordem</p><p>meramente patrimonial.</p><p>Admitimos, pois, com cautelas e casuisticamente, a</p><p>multipaternidade, desde que a situação fática do caso demonstre</p><p>78</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>a pré-existência da duplicidade paterna, evitando que se utilize</p><p>o instituto com finalidades escusas, desviando o seu propósito</p><p>de inclusão e respeito à dignidade paterna. São casos nos quais</p><p>uma pessoa, de modo evidente, possui uma bipaternidade, uma</p><p>concomitância de pai afetivo e biológico, já enraizada em seu</p><p>cotidiano.</p><p>Não se queira, porém, utilizar a multiparentalidade como</p><p>mecanismo de descoberta da origem biológica (direito à</p><p>ancestralidade). Esta tarefa está dedicada à ação de investigação</p><p>de origem genética, permitindo a descoberta</p><p>capítulo, nós veremos algumas noções</p><p>introdutórias ao direito das sucessões, como a transmissão causa mortis, o que é</p><p>a herança e quem são os sucessores.</p><p>2 Noções Introdutórias</p><p>Etimologicamente, a palavra sucessão relaciona-se diretamente com a ideia</p><p>de substituição, de troca. Nas relações jurídicas, as sucessões (substituições)</p><p>podem abranger tanto bens quanto indivíduos, conforme os exemplos a seguir.</p><p>Imagine, pois, que Eduardo tenha recebido um imóvel, mediante doação.</p><p>O bem, entretanto, veio gravado com cláusula de inalienabilidade (art. 1.911 do</p><p>Código Civil), sendo, portanto, impossível de vendê-lo. Caso seja de interesse de</p><p>Eduardo, essa cláusula poderá ser “trocada” mediante decisão judicial: ele poderá</p><p>revestir outro imóvel com a inalienabilidade e, assim, dispor do bem</p><p>doado, antes obstruído. Este fenômeno é chamado de sub-rogação</p><p>real, e nada mais é que a sucessão (substituição) de um bem por outro.</p><p>Com relação ao sujeito, teremos dois tipos de sub-rogação: a</p><p>feita por ato entre pessoas vivas (inter vivos), como no caso do pai</p><p>que se obriga a pagar dívida de filho incapaz de quitar o débito; e</p><p>aquela originada a partir da morte de um indivíduo, titular de direitos e</p><p>obrigações, a ser substituído por seus herdeiros. Neste sentido, o direito</p><p>sucessório se dedica, integralmente, a regulamentar “a substituição do</p><p>sujeito (ativo ou passivo) de uma relação jurídica em razão do óbito do</p><p>seu titular” (FARIAS, ROSENVALD; 2015, p. 4).</p><p>O direito das sucessões refere-se à transferência da herança,</p><p>ou do legado, por morte de alguém, ao herdeiro ou legatário, seja por</p><p>força de lei, ou em virtude de testamento. A sucessão, no questionado</p><p>ramo do Direito Civil, tem, pois, como pressuposto, do ponto de vista</p><p>subjetivo, a morte do autor da herança.</p><p>O direito</p><p>sucessório</p><p>se dedica,</p><p>integralmente,</p><p>a regulamentar</p><p>“a substituição</p><p>do sujeito (ativo</p><p>ou passivo) de</p><p>uma relação</p><p>jurídica em razão</p><p>do óbito do seu</p><p>titular” (FARIAS,</p><p>ROSENVALD;</p><p>2015, p. 4).</p><p>13</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>É importante destacar desde já que, como qualquer outro ramo do direito,</p><p>o direito sucessório encontra-se limitado pelos preceitos constitucionais. Como</p><p>exemplo, podemos mencionar o limite do patrimônio a ser transmitido por</p><p>testamento; embora seu dono seja livre para deixá-lo a quem desejar, ele não</p><p>poderá deixar todos os seus bens a determinado indivíduo, pois isso viola a</p><p>dignidade de seus herdeiros necessários, parte de seu núcleo familiar. Neste</p><p>diapasão, Farias e Rosenvald (2015, p. 16) afirmam:</p><p>Os direitos e garantias constitucionais podem, outrossim, servir</p><p>para uma mitigação ao exercício dos direitos sucessórios,</p><p>obstando o recebimento da herança ou legado, como no exemplo</p><p>da indignidade e da deserdação do sucessor, por conta de</p><p>eventual conduta ignóbil contra o autor da herança. A justificativa</p><p>é lógica: se um sucessor se comporta mal em desfavor do titular</p><p>do patrimônio, mostra-se atentatório à dignidade do proprietário</p><p>permitir que se mantenha o direito à herança.</p><p>As regras do direito sucessório, assim, encontram limites na esfera constitucional,</p><p>sempre em observância ao princípio basilar da dignidade da pessoa humana. Além</p><p>disso, não podemos nos esquecer de que a titularidade de bens é um fenômeno social</p><p>e, como tal, gera consequências. Por isso, é possível falar em uma função social da</p><p>sucessão, uma vez que “a transmissão patrimonial de alguém que faleceu gera a</p><p>conservação das unidades econômicas, em prol da proteção de seu núcleo familiar”</p><p>(FARIAS, ROSENVALD; 2015, p. 20). Sobre o assunto, Monteiro (2009, p. 8) afirma:</p><p>Ocorreria, sem dúvida, improdutivo dispêndio de energias se</p><p>essas unidades devessem desaparecer pela morte das pessoas</p><p>que as criaram e as mantiveram, impondo-se-lhes a restauração</p><p>por outros homens. A sociedade tem, por isso, o maior interesse</p><p>na subsistência da herança, porque, com a sucessão, sobrevivem</p><p>tais unidades, sem solução de continuidade, em benefício geral.</p><p>O direito sucessório, desta forma, pode ser compreendido como um</p><p>desdobramento do direito de propriedade. Inclusive a Constituição Federal de</p><p>1988 reconhece o direito à sucessão (art. 5º, XXX) após o direito à propriedade</p><p>privada (art. 5º XXII). Os bens adquiridos em vida, assim, não se perdem, mas</p><p>são transmitidos à linhagem do antigo dono, ou a pessoa por ele querida.</p><p>No Código Civil de 2002, a sucessão é regulamentada em quatro</p><p>partes: 1) sucessão em geral, na qual são estabelecidas as regras gerais da</p><p>sucessão; 2) sucessão legítima, relativa a sucessão originada por força de lei</p><p>independentemente da vontade do falecido; 3) sucessão testamentária, que trata</p><p>da transmissão de bens oriunda da vontade do autor da herança; e 4) inventários</p><p>e partilhas, que se referem aos procedimentos para divisão dos bens.</p><p>Neste capítulo, nós estudaremos as normas gerais da sucessão, a começar</p><p>sobre a transmissão causada pela morte.</p><p>14</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>3 Transmissão Causa Mortis</p><p>A sucessão se inicia com a morte da pessoa natural (art. 1.784 CC),</p><p>que poderá ocorrer de forma real (art. 6º Código Civil) ou presumida</p><p>(art. 22 do Código Civil). A morte real ocorre quando há comprovação</p><p>do óbito da pessoa, sendo considerado o momento de sua morte a</p><p>cessação das atividades cerebrais (morte encefálica, conforme Lei nº</p><p>9.434/97). Já a morte presumida se dá quando a pessoa desaparece</p><p>sem deixar notícias ou representantes, tornando-se ausente. Conforme</p><p>Gonçalves (2012, p. 37-38):</p><p>Ausente é a pessoa que desaparece de seu domicílio sem dar</p><p>notícia de seu paradeiro e sem deixar um representante ou</p><p>procurador para administrar-lhe os bens (CC, art. 22). Protege</p><p>o Código, através de medidas acautelatórias, inicialmente o</p><p>seu patrimônio, pois quer esteja ele vivo, quer esteja morto, é</p><p>importante considerar o interesse social de preservar os seus</p><p>bens, impedindo que se deteriorem ou pereçam (arts. 22 a 25).</p><p>Prolongando-se a ausência e crescendo a possibilidade de que</p><p>haja falecido, a proteção legal volta-se para os herdeiros, cujos</p><p>interesses passam a ser considerados (arts. 25 a 38).</p><p>Assim, a lei autoriza os herdeiros do ausente, num primeiro</p><p>momento, a ingressarem com o pedido de abertura de</p><p>sucessão provisória. Se, depois de passados dez anos da</p><p>abertura dessa sucessão, o ausente não tiver retornado, ou</p><p>não se tiver confirmação de sua morte, os herdeiros poderão</p><p>requerer a sucessão definitiva, que também terá a duração</p><p>de dez anos. Pode-se, ainda, requerer a sucessão definitiva,</p><p>provando-se que o ausente conta 80 anos de idade, e que de</p><p>cinco datam as últimas notícias dele (CC, art. 38).</p><p>O ausente, pois, é uma exceção dentro do sistema sucessório,</p><p>tendo em vista que se admite a abertura de sua sucessão</p><p>simplesmente em razão de seu desaparecimento, sem que se</p><p>tenha certeza de seu falecimento</p><p>Para que a sucessão seja considerada aberta, a morte deverá, assim, ser</p><p>comprovada com o atestado de óbito. Em casos excepcionais, nos quais o corpo</p><p>não pôde ser encontrado (como no caso de naufrágios e incêndios), a Lei dos</p><p>Registros Públicos (Lei nº 6.015/73) prevê um procedimento de justificação;</p><p>além disso, o próprio Código Civil (art. 7º, I e II) caracteriza tais situações como</p><p>hipóteses de morte presumida, a ser declarada sem decretação de ausência,</p><p>usando expressão genérica: “se for extremamente provável a morte de quem</p><p>estava em perigo de vida”.</p><p>Comprovada a morte do indivíduo e aberta a sucessão, “os bens e as</p><p>dívidas, os créditos e os débitos, os direitos e as obrigações, as pretensões e</p><p>ações de que era titular o falecido, e as que contra ele foram propostas, desde</p><p>A sucessão se</p><p>inicia com a morte</p><p>da pessoa natural</p><p>(art. 1.784 CC),</p><p>que poderá ocorrer</p><p>de forma real (art.</p><p>6º Código Civil) ou</p><p>presumida (art. 22</p><p>do Código Civil).</p><p>15</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>que transmissíveis (GONÇALVES, 2012, p. 36)”,</p><p>da origem biológica,</p><p>sem, contudo, produzir qualquer consequência patrimonial. Aqui</p><p>urge uma diferenciação da ação de investigação de origem genética</p><p>e da ação de investigação de parentalidade (paternidade). Através</p><p>da ação de investigação de parentalidade pretende-se obter o</p><p>reconhecimento filiatório. Isto é, o autor da investigatória de estado</p><p>parental almeja ter o seu pai, ou mãe, reconhecido pela decisão</p><p>judicial, estabelecendo um estado filiatório e, via de consequência,</p><p>uma relação de parentesco, com todos os seus efeitos pessoais (e.</p><p>g., o direito ao sobrenome do pai e ao registro civil) e patrimoniais</p><p>(como o direito à herança, aos alimentos etc.). Como se vê, esta</p><p>demanda decorre de uma relação do Direito das Famílias, com</p><p>o escopo de obter um estado de filiação – que é imprescritível e</p><p>inalienável. A outro giro, através da investigação de origem genética,</p><p>uma pessoa que já titulariza uma relação paterno-filial (ou seja, já</p><p>tem genitor), estabelecida a partir de hipóteses não biológicas (por</p><p>exemplo, através de adoção ou de filiação socioafetiva), pretende</p><p>obter o reconhecimento da sua origem ancestral, em relação ao seu</p><p>genitor biológico. Aqui, não se persegue a formação de uma relação</p><p>filiatória (não se quer alterar a relação paterno-filial). O autor da ação</p><p>não pretende requerer alimentos ou a herança do réu, seu ancestral.</p><p>Apenas pretende ver declarada a sua ascendência genética. Aqui,</p><p>funda-se o pedido no exercício de um direito da personalidade</p><p>(totalmente desatrelado de uma relação de família) e a pretensão é,</p><p>por igual, imprescritível, e o direito em disputa, inalienável.</p><p>Ademais, não há que se pensar que multiparentalidade</p><p>evitaria, garantidamente, uma irresponsabilidade dos genitores,</p><p>pois, efetivamente, o vínculo familiar não se confunde com os</p><p>direitos da personalidade, como o direito à ancestralidade. Por</p><p>isso, a decorrência de efeitos familiares (como herança, alimentos,</p><p>sobrenome...) não pode estar atrelada a uma perspectiva biológica,</p><p>mas, efetivamente, aos vínculos paterno-filiais estabelecidos pela</p><p>79</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>vida. Até porque a filiação não pode ser reduzida, tão somente, ao</p><p>desempenho de atividades sexuais. Com efeito, filiação é muito</p><p>mais do que isso.</p><p>FONTE: Farias e Rosenvald (2015, p. 298-299).</p><p>5 Os Ascendentes Como</p><p>Sucessores</p><p>Não tendo o falecido deixado descendentes, a classe a ser chamada</p><p>é a dos ascendentes, que podem concorrer com o cônjuge sobrevivente</p><p>(art. 1.836, CC). Assim como no caso dos descendentes, o grau mais</p><p>próximo exclui o mais remoto; entretanto, se há igualdade de grau e</p><p>diferença entre linha materna e paterna, cada indivíduo herdará metade.</p><p>Pensemos no seguinte exemplo. Nathália, jovem investidora,</p><p>falece sem deixar filhos nem marido. Seus únicos herdeiros são seus</p><p>pais (ascendentes em 1º grau). A herança, portanto, deverá ser dividida</p><p>igualmente entre os dois indivíduos (50% para cada).</p><p>Se Nathália só tem um dos pais como herdeiro (ou pai ou mãe, ascendentes</p><p>de 1º grau), ele será seu herdeiro universal, ainda que a moça tenha avós vivos</p><p>(pois avós são ascendentes de 2º grau). Caso ela também não tenha pais vivos,</p><p>mas tenha avós maternos e paternos (ascendentes de 2º grau), a herança será</p><p>dividida igualmente entre eles.</p><p>Desta forma, Gonçalves (2012, p. 202) explica:</p><p>Se não há prole, herdam os genitores do falecido, em partes</p><p>iguais, por direito próprio (iure proprio). Se apenas um está vivo,</p><p>recebe a totalidade da herança, ainda que estejam vivos os pais</p><p>do genitor falecido (avós do de cujus), pois na linha ascendente,</p><p>como mencionado, não há direito de representação. Se ambos</p><p>faltarem, herdarão os avós da linha paterna e materna; na falta</p><p>deles, os bisavós, e assim sucessivamente. Se concorrerem</p><p>à herança avós de linhas diversas (paterna e materna), em</p><p>número de quatro, divide-se a herança em partes iguais entre</p><p>as duas linhas. Se são três os avós (igualdade de graus), sendo</p><p>dois paternos e um materno (diversidade em linha), reparte-se</p><p>a herança entre as duas linhas meio a meio, cabendo metade</p><p>para os dois avós paternos (de uma linha), e metade para o</p><p>único avô materno (da outra linha).</p><p>Não tendo o</p><p>falecido deixado</p><p>descendentes,</p><p>a classe a ser</p><p>chamada é a dos</p><p>ascendentes, que</p><p>podem concorrer</p><p>com o cônjuge</p><p>sobrevivente (art.</p><p>1.836, CC).</p><p>80</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Se a jovem Nathália, porém, deixou marido, independentemente do regime</p><p>de bens, a regra do art. 1.837 do Código Civil estabelece que: “Concorrendo com</p><p>ascendente em primeiro grau [pai e mãe], ao cônjuge tocará um terço da herança;</p><p>caber-lhe-á a metade desta se houver um só ascendente [pai ou mãe], ou se</p><p>maior for aquele grau [avós, bisavós]”. Como sintetiza Gonçalves (2012, p. 203):</p><p>O viúvo, portanto, terá direito: a) a um terço, se concorrer com</p><p>os pais do falecido; b) à metade, se concorrer com um dos pais</p><p>(por falta ou exclusão do outro); e c) também à metade, se</p><p>concorrer com avós ou ascendentes de maior grau. Assim, se</p><p>o falecido deixou pai e mãe, além do cônjuge, a este caberá um</p><p>terço da herança; se ao de cujus sobreviveu somente o pai, ou</p><p>apenas a mãe, ou se possui ascendentes do segundo grau, ou</p><p>de grau mais elevado, tocará ao cônjuge a metade da herança.</p><p>No caso dos ascendentes, cumpre mencionar ainda que não há</p><p>representação, por força do art. 1.852 do Código Civil, que diz “O direito de</p><p>representação dá-se na linha reta descendente, mas nunca na ascendente”.</p><p>6 Os Colaterais Como Sucessores</p><p>Os últimos chamados a suceder, na sucessão legítima, são os</p><p>colaterais, que herdam apenas nos casos em que não há cônjuge (art.</p><p>1.839). Se o falecido deixar companheiro, porém, este herdará um</p><p>terço da herança (art. 1.790, III), devendo o restante ser repartido entre</p><p>os colaterais até o quarto grau (art. 1.592, CC). Cumpre lembrar que,</p><p>a depender do regime de bens vigente na união estável, a legítima do</p><p>companheiro é garantida (pois a ele lhe é conferido o status de herdeiro</p><p>necessário). Portanto, o companheiro irá herdar a legítima mais um terço.</p><p>Farias e Rosenvald (2015, p. 307), entretanto, destacam a seguinte situação</p><p>de desvantagem para o companheiro:</p><p>Havendo companheiro sobrevivente do falecido, será</p><p>estabelecida uma (absurda!) concorrência sucessória (CC,</p><p>art. 1.790, III) entre o(a) viúvo(a) e os colaterais até o quarto</p><p>grau do de cujus. Nesse caso, o convivente supérstite fará jus,</p><p>para além de sua meação (a depender do regime de bens), de</p><p>1/3 dos bens que o falecido adquiriu onerosamente durante</p><p>a convivência afetiva. Por outro lado, os bens adquiridos</p><p>a título gratuito e os bens que o extinto titularizava antes da</p><p>relação convivencial serão transmitidos, com exclusividade,</p><p>para os seus parentes transversais, com visível prejuízo do</p><p>companheiro (grifo nosso).</p><p>Os últimos chamados</p><p>a suceder, na</p><p>sucessão legítima,</p><p>são os colaterais, que</p><p>herdam apenas nos</p><p>casos em que não há</p><p>cônjuge (art. 1.839).</p><p>81</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>Na sucessão entre colaterais, o grau mais próximo exclui o mais distante (por</p><p>exemplo, o irmão do falecido – colateral de 2º grau – exclui o tio – colateral de 3º</p><p>grau), havendo aqui direito de representação aos filhos de irmãos (art. 1.840, CC).</p><p>Assim, vamos supor que José da Silva venha a falecer em 2005, sem deixar</p><p>cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente. José, porém, tinha três</p><p>irmãos (colaterais de 2º grau): Joaquim, Jaime e João. Joaquim havia morrido em</p><p>2003 (ou seja, era pré-morto), tendo deixado dois filhos (Luiz e Luciana). Jaime e</p><p>João estão vivos. Como será realizada a sucessão de José?</p><p>Como José originalmente tinha 3 herdeiros (Joaquim, Jaime e João), sua</p><p>herança será dividida em 3 partes. Joaquim, porém, é pré-morto; sua parte será,</p><p>então, herdada por seus filhos (Luiz e Luciana, sobrinhos do falecido), sob direito</p><p>de representação conferida pelo art. 1.840 do Código Civil.</p><p>FIGURA 5 – DIREITO DE REPRESENTAÇÃO</p><p>POR COLATERAIS</p><p>FONTE: A autora</p><p>O direito de representação, porém, abrange apenas os sobrinhos do falecido;</p><p>se estes também são pré-mortos, mas deixam filhos (sobrinhos-netos do morto),</p><p>não há que se falar em representação.</p><p>Entre irmãos, há ainda algumas regras próprias a serem observadas. Se o</p><p>de cujus possuía tanto irmãos bilaterais (de mesmo pai e mesma mãe) quanto</p><p>unilaterais (irmãos apenas por parte de pai – consanguíneos – ou apenas por</p><p>parte de mãe – uterinos), os unilaterais herdam metade do que cada bilateral</p><p>herdar (art. 1.841, CC).</p><p>Gonçalves (2012, p. 227) exemplifica: “se o falecido deixou quatro</p><p>irmãos, sendo dois unilaterais e dois bilaterais, e um patrimônio estimado em</p><p>R$ 300.000,00, os dois [irmãos bilaterais] receberão, cada qual, R$ 100.000,00,</p><p>cabendo R$ 50.000,00 a cada um dos unilaterais”. Se não houver irmãos bilaterais,</p><p>82</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>os unilaterais herdarão o mesmo montante (art. 1.842, CC). Não havendo irmãos</p><p>do morto, mas havendo sobrinhos e tios (ambos colaterais de 3º grau), a lei da</p><p>preferência aos sobrinhos (art. 1.843, CC).</p><p>Não havendo sobrinhos, chamam-se os tios do falecido, e</p><p>depois os primos-irmãos, sobrinhos-netos e tios-avós, que</p><p>são parentes colaterais em quarto grau. Como não existe</p><p>representação, sucedem por direito próprio, herdando todos</p><p>igualmente, sem qualquer distinção. Saliente-se que os citados</p><p>colaterais até o quarto grau (irmãos, sobrinhos, tios, primos,</p><p>tios-avós, sobrinhos-netos) são herdeiros legítimos (CC, art.</p><p>1.829, IV), mas não são herdeiros necessários (art. 1.845). Por</p><p>conseguinte, o autor da herança pode excluí-los da sucessão;</p><p>basta que faça testamento dispondo de todo o seu patrimônio</p><p>sem os contemplar (art. 1.850).</p><p>1) Sobre sucessão legítima, marque a alternativa falsa:</p><p>a) ( ) Os herdeiros colaterais sucedem conforme o grau, sendo que</p><p>um irmão vivo do morto exclui a herança do tio do falecido.</p><p>b) ( ) Se os herdeiros ascendentes forem vivos mas indignos, a</p><p>herança passará integralmente ao companheiro.</p><p>c) ( ) O companheiro não herda junto de parentes colaterais, tendo</p><p>preferência sobre eles.</p><p>d) ( ) Se os descendentes forem vivos, mas indignos, a herança</p><p>passará aos ascendentes em concorrência com o cônjuge.</p><p>7 Algumas Considerações</p><p>Neste capítulo, procuramos apresentar a sucessão legítima, estabelecida por</p><p>lei na ausência de testamento do morto. Além disso, apresentamos algumas das</p><p>principais críticas e divergências presentes na doutrina.</p><p>Como jurista, é crucial saber operar devidamente as regras elencadas, no</p><p>intuito de defender os direitos de eventuais clientes e proteger as intenções de</p><p>indivíduos ainda vivos, quando de sua morte. Conforme estudado, é possível que</p><p>o morto disponha de parte de seu patrimônio, evitando assim várias situações</p><p>desconfortáveis que poderiam ocorrer caso a sucessão fosse apenas legítima.</p><p>83</p><p>Da Sucessão Legítima Capítulo 2</p><p>No próximo capítulo, abordaremos, portanto, a sucessão testamentária,</p><p>oriunda da vontade direta do falecido e não apenas do texto legal. Vale dizer</p><p>que o Código Civil e demais legislações mencionadas nos capítulos, inclusive</p><p>a Constituição, precisam ser lidos constantemente para assegurar uma melhor</p><p>aprendizagem.</p><p>Referências</p><p>BEVILÁQUA, Clóvis. Direito das sucessões. Campinas: Red Livros, 2000.</p><p>CAHALI, Yussef Said. A comunhão dos aquestos no regime da separação de</p><p>bens. In: Família e casamento: doutrina e jurisprudência. Coordenação de</p><p>Yussef Said Cahali. São Paulo: Saraiva, 1988.</p><p>DIAS, Maria Berenice. Manual das sucessões. 2. ed. São Paulo: RT, 2011.</p><p>DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro. 17. ed. São Paulo:</p><p>Saraiva, 2002.</p><p>FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil:</p><p>sucessões. São Paulo: Atlas, 2015.</p><p>GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: direito das sucessões. 6.</p><p>ed. São Paulo: Saraiva, 2012.</p><p>RÉGIS, Mário Luiz Delgado. Controvérsias na sucessão do cônjuge e do</p><p>convivente. Revista Brasileira de Direito de Família, Porto Alegre: Síntese/</p><p>IBDFAM, v. 29, abr./maio 2005.</p><p>VELOSO, Zeno. Comentários ao Código Civil. Coordenação de Antônio</p><p>Junqueira de Azevedo. São Paulo: Saraiva, 2003.</p><p>VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: direito das sucessões. 12. ed. São Paulo:</p><p>Atlas, 2012.</p><p>84</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>CAPÍTULO 3</p><p>Da Sucessão Testamentária</p><p>A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes</p><p>objetivos de aprendizagem:</p><p>3 Conhecer as características e efeitos da sucessão testamentária, diferenciando-a</p><p>da sucessão legítima.</p><p>3 Compreender as noções básicas da sucessão testamentária e dos tipos</p><p>possíveis de testamento, bem como o conhecimento sobre quem pode testar e</p><p>quem pode receber por testamento.</p><p>3 Realizar a análise do testamento e de suas disposições, em observância a lei civil.</p><p>86</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>87</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>1 Contextualização</p><p>No capítulo anterior, apresentamos a sucessão legítima, que ocorre quando o</p><p>de cujus não deixou testamento, manifestando sua vontade quanto à distribuição</p><p>de seu patrimônio.</p><p>Neste terceiro capítulo, estudaremos as possibilidades elencadas pela lei</p><p>civil para que o falecido distribua seus bens da forma que melhor lhe convier.</p><p>Embora tal liberalidade não seja ilimitada, é possível que o indivíduo entregue seu</p><p>patrimônio a quem melhor lhe convir, podendo inclusive recompensar terceiros</p><p>por motivos íntimos.</p><p>Como veremos, o testamento, ainda, pode ser utilizado para explicitar</p><p>intenções pessoais, ultrapassando as repartições de patrimônio. O falecido pode</p><p>valer-se de tal documento para reconhecer filhos, deixar instruções sobre seu</p><p>funeral, perdoar herdeiros indignos etc.</p><p>Apesar de pouco utilizado no Brasil, por questões culturais e de costume,</p><p>o testamento é uma ferramenta útil para aqueles que desejam dar um destino</p><p>adequado aos seus bens, pois permite o estabelecimento de critérios e</p><p>escolhas próprias – pautadas nos limites legais. Iniciamos, assim, com algumas</p><p>considerações sobre o direito de testar.</p><p>2 O Direito de Testar</p><p>Conforme Gonçalves (2012), o direito de testar se refere tanto</p><p>àqueles que podem dispor por testamento (capacidade testamentária</p><p>ativa) quanto aos que podem adquirir pelo mesmo instrumento</p><p>(capacidade testamentária passiva).</p><p>Quanto à capacidade testamentária ativa, além dos requisitos gerais</p><p>para realização dos atos jurídicos (agente capaz, objeto lícito, possível,</p><p>determinado ou determinável e forma prescrita ou não defesa em lei; art.</p><p>104 do Código Civil) é necessário que o indivíduo tenha consciência do</p><p>ato. O Artigo 1.860 do Código Civil dispõe que: “Além dos incapazes, não</p><p>podem testar os que, no ato de fazê-lo, não tiverem pleno discernimento”.</p><p>Importante ressaltar que o sistema de capacidades do Código Civil sofreu</p><p>significativa alteração com o advento da Lei n° 11.146/2015 (Estatuto da Pessoa com</p><p>Deficiência) de forma que após sua entrada em vigor (em janeiro de 2016), apenas os</p><p>menores de 16 anos passaram a ser considerados absolutamente incapazes.</p><p>O direito de testar se</p><p>refere tanto àqueles</p><p>que podem dispor</p><p>por testamento</p><p>(capacidade</p><p>testamentária ativa)</p><p>quanto aos que</p><p>podem adquirir pelo</p><p>mesmo instrumento</p><p>(capacidade</p><p>testamentária</p><p>passiva).</p><p>88</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Essa mudança tem impacto direto na capacidade testamentária ativa do</p><p>indivíduo, pois os deficientes com capacidade de expressar suas vontades</p><p>poderão dispor de seus bens em testamento. Conforme Taturce (2016, p. 67):</p><p>Com as mudanças engendradas na teoria das incapacidades,</p><p>somente devem ser considerados como absolutamente</p><p>incapazes para o testamento os menores de 16 anos. Quanto</p><p>aos maiores com alguma deficiência, em regra, são capazes,</p><p>a não ser que, por causa transitória ou definitiva, não possam</p><p>exprimir à vontade para o ato testamentário, hipótese em que</p><p>se enquadram como</p><p>relativamente incapazes no novo sistema</p><p>(novo art. 4º, inciso III, do CC).</p><p>As hipóteses de incapacidade relativa também sofreram modificações,</p><p>de forma que apenas os ébrios habituais, viciados em tóxico e os pródigos,</p><p>indivíduos que gastam desordenadamente, se enquadram nesta categoria. Assim,</p><p>como leciona Tartuce (2016, p. 67), alcóolatras e os viciados terão a capacidade</p><p>testamentária cerceada “desde que haja interdição ou ação com nomeação</p><p>de curador, com laudo médico e decisão que apontam tal possibilidade”. Já os</p><p>pródigos, para Tartuce (2016, p. 67), possuem plena capacidade de testar “pois</p><p>a sua interdição somente diz respeito aos atos de disposição direta de bens,</p><p>praticados em vida e capazes de reduzi-lo a um estado de penúria”.</p><p>Sobre o Estatuto da Pessoa com Deficiência e a capacidade</p><p>testamentária ativa, leia o artigo de Flávio Tartuce.</p><p>Disponível em: <http://www.fadisp.com.br/revista/ojs/index.php/</p><p>pensamentojuridico/article/view/63>. Acesso em: 3 abr. 2018.</p><p>O parágrafo único do artigo 1.860 do CC estabelece, ainda, que “podem testar</p><p>os maiores de dezesseis anos”. Desta forma, o maior de 16 anos e menor de 18,</p><p>mesmo sendo considerado relativamente incapaz, não precisa de assistência do</p><p>representante legal para confecção de testamento. Isto ocorre porque,</p><p>além de regra especial e expressa sobre o tema, o testamento é ato</p><p>personalíssimo, passível de ser realizado apenas pelo próprio indivíduo.</p><p>O testamento é ato exclusivo de pessoas físicas, não sendo</p><p>possível no ordenamento jurídico brasileiro o testamento de pessoa</p><p>jurídica. Segundo Gonçalves (2012, p. 270-271): “Efetivamente, as</p><p>pessoas jurídicas extinguem-se por dissolução e não por morte. A</p><p>O testamento é</p><p>ato exclusivo de</p><p>pessoas físicas,</p><p>não sendo possível</p><p>no ordenamento</p><p>jurídico brasileiro</p><p>o testamento de</p><p>pessoa jurídica.</p><p>89</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>extinção ou dissolução da pessoa jurídica, sua liquidação, o destino ulterior do</p><p>seu patrimônio e a divisão de seus bens não têm relação com a morte física”.</p><p>A capacidade testamentária ativa é exigida no momento de confecção do</p><p>testamento, de forma que, caso o indivíduo seja acometido por incapacidade</p><p>posterior (por exemplo, torne-se viciado em tóxico e seja interditado após fazer o</p><p>testamento), seu testamento permanece válido (art. 1.861, CC).</p><p>Caso algum dos interessados tenha motivos para acreditar que o testamento</p><p>padece de invalidade, deve aguardar a morte do testador e impugnar o documento</p><p>em até cinco anos após o registro judicial, feito depois da apresentação do</p><p>testamento ao magistrado (art. 1.859, CC).</p><p>Se as disposições testamentárias estiveram eivadas de erro, dolo ou</p><p>coação (vícios do consentimento), elas poderão ser anuladas em até quatro anos</p><p>contados a partir do momento em que o interessado toma conhecimento do vício</p><p>(art. 1.909, parágrafo único, CC). Tal dispositivo é muito criticado entre autores do</p><p>direito, como salienta Gonçalves (2012, p. 284):</p><p>A incongruência do legislador é bem demonstrada por Zeno</p><p>Veloso, ao dizer que o apontado critério gera instabilidade e</p><p>não é bom: “Um testamento nulo, por exemplo, não pode mais</p><p>ter a validade impugnada depois de cinco anos do seu registro.</p><p>Mas uma disposição que ele contém, sob o argumento de que</p><p>o testador errou, deliberou mediante dolo, ou foi vítima de</p><p>coação, pode ser anulada muito depois daquele prazo, pois</p><p>a decadência do direito de atacar a disposição começa a ser</p><p>contada de ‘quando o interessado tiver conhecimento do vício’.</p><p>A solução não é lógica, não é razoável. O tema carece de</p><p>reforma, deve ser ordenado, sistematicamente”.</p><p>Quanto à capacidade testamentária passiva, ou seja, a aptidão para ser</p><p>herdeiro testamentário ou legatário, estão inclusos todos os indivíduos já nascidos</p><p>ou já concebidos (art. 1.798, CC) assim como sujeitos ainda não concebidos,</p><p>“pessoas jurídicas já existentes e pessoas jurídicas a serem constituídas com o</p><p>patrimônio transmitido” (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 337) – regra específica</p><p>da sucessão testamentária, conforme disposto no art. 1.799:</p><p>Na sucessão testamentária podem ainda ser chamados a suceder:</p><p>I – os filhos, ainda não concebidos, de pessoas indicadas pelo</p><p>testador, desde que vivas estas ao abrir-se a sucessão; II – as</p><p>pessoas jurídicas; III – as pessoas jurídicas, cuja organização for</p><p>determinada pelo testador sob a forma de fundação.</p><p>Estudaremos, agora, o documento mais importante da sucessão</p><p>testamentária: o testamento.</p><p>90</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Atividade de Estudos:</p><p>1) Levando em consideração que o pródigo é considerado</p><p>relativamente incapaz para os atos da vida civil, responda: ele</p><p>possui capacidade testamentária ativa? Justifique sua resposta.</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>3 O Testamento</p><p>Conforme se infere a partir dos artigos 1.857 e 1.858 do Código</p><p>Civil, o testamento é “ato personalíssimo e revogável pelo qual alguém</p><p>dispõe da totalidade dos seus bens, ou de parte deles, para depois de</p><p>sua morte” (GONÇALVES, 2012, p. 262).</p><p>Ele pode conter ainda disposições de caráter não patrimonial,</p><p>como o “reconhecimento de filhos havidos fora do casamento (CC, art.</p><p>1.609, III), nomeação de tutor para filho menor (art. 1.729, parágrafo</p><p>único), reabilitação do indigno (art. 1.818), instituição de fundação</p><p>(art. 62), imposição de cláusulas restritivas se houver justa causa” (art. 1.848)</p><p>(GONÇALVES, 2012, p. 262), entre outros.</p><p>Importante ter em mente que a legítima, ou seja, a parte garantida por lei</p><p>aos herdeiros necessários, não pode ser incluída no testamento, já que por força</p><p>normativa ela pertence a esta categoria específica de herdeiros (art. 1.846, CC).</p><p>O testamento tem como principais características o fato de ser:</p><p>a) Ato personalíssimo, devendo ser diretamente realizado pelo autor da</p><p>herança, ainda que transcrito por outrem.</p><p>O testamento é “ato</p><p>personalíssimo e</p><p>revogável pelo qual</p><p>alguém dispõe da</p><p>totalidade dos seus</p><p>bens, ou de parte</p><p>deles, para depois</p><p>de sua morte”</p><p>(GONÇALVES,</p><p>2012, p. 262).</p><p>91</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>b) Negócio jurídico unilateral, constituído por uma única manifestação de</p><p>vontade, sendo vedado o testamento conjuntivo (feito por duas ou mais</p><p>pessoas), conforme art. 1.863 do Código Civil.</p><p>c) Solene, pois precisa obedecer às regras estabelecidas em lei para sua</p><p>formação;</p><p>d) Gratuito, já que não prevê vantagens ao testador.</p><p>e) Revogável, podendo o testador alterá-lo quantas vezes quiser (art. 1.858,</p><p>CC), exceto no que diz respeito ao reconhecimento de filhos nascidos</p><p>fora do casamento (art. 1.609, III).</p><p>f) Ato causa mortis, pois embora seja ato válido e perfeito com a simples</p><p>manifestação de vontade do testador (desde que obedecidas as</p><p>formalidades exigidas em lei), o testamento só produz efeitos após a</p><p>morte do autor da herança.</p><p>O Código Civil elenca três formas de testamentos ordinários (público, cerrado</p><p>e particular) e três formas de testamentos especiais (marítimo, aeronáutico</p><p>e militar), além de dispor sobre o condicilo, ato de última vontade relativo a</p><p>disposições de pequeno valor ou a instruções a serem seguidas após a morte de</p><p>seu autor. Vejamos cada uma destas categorias.</p><p>3.1 Testamento Público</p><p>O testamento público é aquele registrado pelo tabelião, em seu livro</p><p>de notas, com presença de duas testemunhas. Suas formalidades estão</p><p>elencadas no art. 1.864, que assim diz:</p><p>Art. 1.864. São requisitos essenciais do testamento público:</p><p>I - ser escrito por tabelião ou por seu substituto legal em seu livro</p><p>de notas, de acordo com as declarações do testador, podendo</p><p>este servir-se de minuta, notas ou apontamentos;</p><p>II -</p><p>lavrado o instrumento, ser lido em voz alta pelo tabelião ao</p><p>testador e a duas testemunhas, a um só tempo; ou pelo testador,</p><p>se o quiser, na presença destas e do oficial;</p><p>III - ser o instrumento, em seguida à leitura, assinado pelo testador,</p><p>pelas testemunhas e pelo tabelião.</p><p>Parágrafo único. O testamento público pode ser escrito</p><p>manualmente ou mecanicamente, bem como ser feito pela</p><p>inserção da declaração de vontade em partes impressas de livro</p><p>de notas, desde que rubricadas todas as páginas pelo testador,</p><p>se mais de uma.</p><p>No testamento público, a vontade do testador deve manifestada e</p><p>transcrita no livro de notas pelo tabelião ou por seu substituto legal (escrevente).</p><p>O oficial deve checar a identidade e a capacidade do indivíduo (art. 215, § 1º,</p><p>O testamento público</p><p>é aquele registrado</p><p>pelo tabelião, em seu</p><p>livro de notas, com</p><p>presença de duas</p><p>testemunhas.</p><p>92</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>II, CC) e as testemunhas devem ser conhecidas do testador, para que também</p><p>possam afirmar sua identidade. Em resumo, Farias e Rosenvald (2015, p. 347)</p><p>descrevem a sequência dos atos a serem realizados:</p><p>Pois bem, presente a autoridade estatal, o testamento público</p><p>será lavrado, com a leitura em voz alta pelo tabelião, ou por</p><p>quem fizer as suas vezes, na presença das duas testemunhas</p><p>e do próprio testador, “a um só tempo”, como impõe o comando</p><p>legal. Exige-se, assim, a presença simultânea de todos eles, não</p><p>podendo ser composto fracionadamente o ato. Em seguida, deve</p><p>o testamento ser assinado pelo testador, pela autoridade e pelas</p><p>testemunhas. É preciso um encadeamento de atos: lavratura do</p><p>instrumento, leitura em voz alta na presença de todos e assinatura</p><p>dos presentes expedindo, em seguida, uma certidão. É que se</p><p>chama “ato complexo”.</p><p>A situação engendra diversas polêmicas a respeito do acesso de deficientes</p><p>a este tipo de testamento. Por um lado, Gonçalves (2012, p. 295) entende que o</p><p>mudo não pode se valer do testamento público, pois o art. 1.864, I utiliza o termo</p><p>“declaração”, o que segundo o autor deve ser entendido como declaração oral.</p><p>Por outro lado, Farias e Rosenvald (2015, p. 349) entendem que a declaração</p><p>expressa na lei faz referência a uma declaração genérica, a uma manifestação de</p><p>vontade, dispensando assim a declaração oral. Esta interpretação permite que o</p><p>mudo (ou o surdo-mudo) utilize o testamento público e parece a mais acertada já</p><p>que o mudo analfabeto também não pode deixar testamento cerrado ou particular</p><p>por força dos artigos 1.872 e 1.876, § 1º. Vedar-lhe o direito ao testamento público</p><p>seria impedir a efetivação de sua capacidade testamentária ativa, já que não</p><p>poderia deixar qualquer tipo de testamento.</p><p>Com relação ao surdo, o Código Civil trouxe solução própria, estabelecendo</p><p>que, caso o indivíduo saiba ler, lerá suas disposições em voz alta; caso contrário,</p><p>escolherá alguém que as leia na presença das testemunhas (art. 1.866). Nos casos</p><p>em que o testador for analfabeto ou não souber assinar, o Código estabelece que</p><p>esta condição deverá ser registrada pelo tabelião, devendo uma das testemunhas</p><p>assinar o documento no lugar do indivíduo (art. 1.865, CC).</p><p>Uma outra polêmica diz respeito aos cegos. O artigo 1.867 estabelece que o</p><p>deficiente visual só poderá testar mediante testamento público, sendo que suas</p><p>disposições serão lidas em voz alta por duas vezes. Essa disposição é duramente</p><p>criticada por Farias e Rosenvald (2015, p. 349):</p><p>Ao permitir ao cego, tão só, o uso do testamento público, mostra-</p><p>se o Código de 2002 preconceituoso e insensível. Ignora a</p><p>importância e eficácia da linguagem braile, que é utilizada com</p><p>segurança pelos deficientes visuais e que poderia lhe autorizar a</p><p>lavratura de um testamento cerrado ou mesmo particular.</p><p>93</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>De fato, é curioso que o Brasil, tendo promulgado o Estatuto da Pessoa com</p><p>Deficiência, permita a coexistência de normas retrógradas e preconceituosas na</p><p>esfera do direito civil.</p><p>Como bem lembra Gonçalves (2012, p. 300), o analfabeto também só pode</p><p>testar de forma pública, por força dos artigos 1.872 e 1.876, § 1º, que o vetam</p><p>de fazer testamento cerrado ou particular. Voltaremos a este ponto ainda neste</p><p>capítulo, em subtópico específico.</p><p>3.2 Testamento Cerrado</p><p>O testamento cerrado é aquele escrito pelo testador ou por alguém</p><p>a seu pedido, de forma secreta, de próprio punho ou mecanicamente,</p><p>e registrado pelo tabelião na presença de duas testemunhas (art.</p><p>1.868, CC). O escritor do testamento não pode ser herdeiro instituído</p><p>ou legatário, nem seu cônjuge ou companheiro, ascendentes e irmãos</p><p>(art. 1.801, I, CC); mas pode ser o próprio tabelião que irá registrá-lo</p><p>posteriormente (art. 1.870, CC).</p><p>Este testamento apresenta uma forma híbrida, pois inicialmente</p><p>é feito de forma privativa (a chamada cédula testamentária) e, em</p><p>um segundo momento, é submetido a registro público, sem que haja</p><p>necessariamente a leitura de seu conteúdo pelo tabelião ou pelas testemunhas</p><p>(auto de aprovação), sendo, por fim, lacrado (cerrado). Sua grande vantagem é,</p><p>portanto, a privacidade das informações nele contidas.</p><p>Caso o testamento cerrado tenha sido aberto (dilacerado) antes de chegar ao</p><p>juiz para abertura de inventário, são diversas as soluções a serem perseguidas,</p><p>devendo ser analisado cada caso concreto. Algum dos caminhos a serem</p><p>percorridos são indicados por Farias e Rosenvald (2015, p. 353):</p><p>Entendendo que o sigilo é um benefício para o testador, se o</p><p>dilaceramento ocorreu por ato próprio, haver-se-á como revogado</p><p>tacitamente. Se a abertura foi indevidamente realizada por terceiro,</p><p>enquanto vivo o testador, lhe é possível revogar, é bem verdade.</p><p>Não desejando fazê-lo, as disposições permanecem válidas e</p><p>o terceiro que atuou ilicitamente poderá ser sancionado com a</p><p>indignidade, se for dele beneficiário, na medida em que tentou</p><p>frustrar a eficácia do testamento (CC, art. 1.814, III). Entretanto,</p><p>tendo sido dilacerado após o seu óbito, por terceiro (de boa ou má-</p><p>fé), é possível ao juiz mandar executá-lo, em respeito à vontade</p><p>do autor da herança, considerando que a indevida abertura não</p><p>feriu a sua vontade. Idêntica solução, inclusive, é emprestada</p><p>para a hipótese de ser aberto por juiz incompetente.</p><p>O testamento</p><p>cerrado é aquele</p><p>escrito pelo testador</p><p>ou por alguém a</p><p>seu pedido, de</p><p>forma secreta, de</p><p>próprio punho ou</p><p>mecanicamente,</p><p>e registrado</p><p>pelo tabelião na</p><p>presença de duas</p><p>testemunhas.</p><p>94</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Este tipo de testamento é vedado, por força de lei, aos cegos e aos</p><p>analfabetos, como já mencionado, mas é possível que o surdo mudo o</p><p>confeccione. O artigo 1.873 do Código Civil estabelece que, para tanto, o surdo</p><p>mudo deve assinar a face externa ou o envelope do documento, quando entregá-</p><p>lo para registro público, na presença de duas testemunhas.</p><p>3.3 Testamento Particular</p><p>O testamento particular (art. 1.876, CC) é aquele realizado</p><p>totalmente pelo declarante, lido por ele em voz alta, e assinado na</p><p>presença de três testemunhas, sem a necessidade de registro público.</p><p>Pode ser escrito de próprio punho, exclusivamente pelo testador, ou</p><p>por meio mecânico, podendo ser digitado por qualquer pessoa, mas</p><p>devendo conter a assinatura do testador. Quando da abertura da</p><p>sucessão, porém, será necessário que seja judicialmente homologado</p><p>(art. 1.877, CC), no intuito de gerar maior credibilidade, com a</p><p>confirmação das testemunhas.</p><p>A exigência de todas as testemunhas quando da abertura da sucessão pode</p><p>ser afastada por expressa previsão legal, já que o artigo 1.878, parágrafo único,</p><p>permite que o juiz homologue o testamento ainda que apenas uma das três o</p><p>reconheça.</p><p>Solução similar é apresentada pela lei no artigo 1.879 do CC, que</p><p>dispensa a oitiva de todas as testemunhas em circunstâncias especiais, ficando</p><p>a homologação a critério do juiz. Coelho (2013, p. 294) exemplifica essas</p><p>circunstâncias especiais a partir do seguinte caso:</p><p>Imagine que alguém</p><p>já havia contratado advogado para auxiliá-</p><p>lo na celebração de testamento público, ao qual já transmitira</p><p>suas intenções, mas, estando sozinho, começou a se sentir mal.</p><p>Redige, então, às pressas o testamento e vem, de fato, a morrer</p><p>em seguida, sem que ninguém testemunhasse a elaboração do</p><p>documento. São situações como estas que configuram a hipótese</p><p>excepcional.</p><p>Alguns autores chegam a afirmar que se trata de uma nova espécie de</p><p>testamento, o que ainda não encontra fundamento na jurisprudência, que</p><p>entende essas excepcionalidades como desdobramentos específicos do próprio</p><p>testamento particular.</p><p>O testamento</p><p>particular (art.</p><p>1.876, CC) é aquele</p><p>realizado totalmente</p><p>pelo declarante,</p><p>lido por ele em voz</p><p>alta, e assinado na</p><p>presença de três</p><p>testemunhas, sem</p><p>a necessidade de</p><p>registro público.</p><p>95</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>3.4 Mitigação das Formalidades</p><p>Exigidas nos Testamentos Ordinários</p><p>Apesar das formalidades exigidas em cada um dos tipos de</p><p>testamento ordinários, é preciso ter em mente que a jurisprudência tende</p><p>a relativizar tais exigências levando em consideração as particularidades</p><p>de cada caso. Sobre o tema, escreveu o ministro Cesar Asfor Rocha, no</p><p>Recurso Especial n. 302.767-PR:</p><p>CIVIL. SUCESSÃO. TESTAMENTO. FORMALIDADES.</p><p>EXTENSÃO.</p><p>O testamento é um ato solene que deve submeter-</p><p>se a numerosas formalidades que não podem ser</p><p>descuradas ou postergadas, sob pena de nulidade.</p><p>Mas todas essas formalidades não podem ser</p><p>consagradas de modo exacerbado, pois a sua</p><p>exigibilidade deve ser acentuada ou minorada em razão</p><p>da preservação dos dois valores a que elas se destinam –</p><p>razão mesma de ser do testamento –, na seguinte ordem de</p><p>importância: o primeiro, para assegurar a vontade do testador,</p><p>que já não poderá mais, após o seu falecimento, por óbvio,</p><p>confirmar a sua vontade ou corrigir distorções, nem explicitar o</p><p>seu querer que possa ter sido expresso de forma obscura ou</p><p>confusa; o segundo para proteger o direito dos herdeiros do</p><p>testador, sobretudo dos seus filhos.</p><p>(Disponível em: <https://www.gontijo-familia.adv.br/2008/</p><p>artigos_pdf/Jose_da_Silva_pacheco/testamento.pdf>. Acesso</p><p>em: 3 abr. 2018.</p><p>Assim, no testamento público, por exemplo, é possível que o documento</p><p>seja considerado válido mesmo que haja ausência da assinatura de uma das</p><p>testemunhas, devendo o juiz decidir sobre o caso (GONÇALVES, 2012). Da</p><p>mesma forma, existem julgados que afastam a necessidade de assinatura do</p><p>testador no testamento cerrado, como afirmam Farias e Rosenvald (2012, p. 352):</p><p>Insistimos que eventual preterição de solenidade exigida por</p><p>lei para a elaboração do testamento, inclusive cerrado, como</p><p>a assinatura do testador, pode ser mitigada, suavizada, pela</p><p>busca da finalidade do ato, com a preservação da intenção do</p><p>testador. Nesse ponto, louva-se decisum do Superior Tribunal</p><p>de Justiça esclarecendo que, não havendo qualquer motivo</p><p>para impugnar a vontade manifestada, a falta de assinatura</p><p>do testamento cerrado pode ser relevada, garantindo o</p><p>cumprimento da cédula:</p><p>Testamento cerrado. Auto de aprovação. Falta de assinatura do</p><p>testador. Inexistindo qualquer impugnação à manifestação da</p><p>vontade, com a efetiva entrega do documento ao oficial, tudo</p><p>confirmado na presença das testemunhas numerárias, a falta</p><p>de assinatura do testador no auto de aprovação é irregularidade</p><p>Apesar das</p><p>formalidades exigidas</p><p>em cada um dos</p><p>tipos de testamento</p><p>ordinários, é preciso</p><p>ter em mente que a</p><p>jurisprudência tende</p><p>a relativizar tais</p><p>exigências levando</p><p>em consideração as</p><p>particularidades de</p><p>cada caso.</p><p>96</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>insuficiente para, na espécie, causar a invalidade do ato.</p><p>(STJ, Ac. unân. 4ª T., REsp. 223.799/SP, Rel. Min. Ruy Rosado</p><p>de Aguiar, j. 18.11.99, DJU 17.12.99, p. 379).</p><p>E quanto ao testamento particular, Farias e Rosenvald (2015, p. 355-356)</p><p>trazem diversos exemplos de julgados nos quais formalidades como leitura do</p><p>testamento em voz alta e a presença de testemunhas também foram afastadas,</p><p>visando preservar a vontade do falecido.</p><p>Não há falar em nulidade do ato de disposição de última</p><p>vontade (testamento particular), apontando-se preterição de</p><p>formalidade essencial (leitura do testamento perante as três</p><p>testemunhas), quando as provas dos autos confirmam, de</p><p>forma inequívoca, que o documento foi firmado pelo próprio</p><p>testador, por livre e espontânea vontade, e por três testemunhas</p><p>idôneas, não pairando qualquer dúvida quanto à capacidade</p><p>mental do de cujus, no momento do ato. O rigor formal deve</p><p>ceder ante a necessidade de se atender à finalidade do ato,</p><p>regularmente praticado pelo testador.</p><p>(STJ, Ac. unân. 3a T., REsp. 828.616/MG, Rel. Min. Castro</p><p>Filho, j. 5.9.06, DJU 23.10.06, p. 313)</p><p>Excepcionalidade devidamente declinada, consistente no</p><p>temor de morte quando do procedimento cirúrgico. Ausência</p><p>de identificação das testemunhas. Irrelevância. Dispensa das</p><p>mesmas pelo art. 1.879 do Código Civil.</p><p>(TJ/SP, Ac. 7ª Câmara de Direito Privado, ApCív. 4341464000,</p><p>Rel. Des. Álvaro Passos, j. 21.5.08).</p><p>Tal comportamento tem implicações diretas no que diz respeito ao testador</p><p>analfabeto, conforme será argumentado. No caso dos cegos, a lei expressamente</p><p>indica que eles só podem testar por meio de testamento público (art. 1.867, CC).</p><p>Quanto aos mudos e surdos-mudos, há divergências doutrinárias quanto ao</p><p>testamento público, como já demonstrado, mas não há impedimentos expressos</p><p>quanto aos testamentos cerrado e privado, desde que sejam alfabetizados. Os</p><p>surdos podem testar publicamente, alfabetizados ou não (art. 1.866, CC), mas</p><p>só poderão utilizar o testamento cerrado e o privado se forem alfabetizados. Por</p><p>fim, os analfabetos teoricamente só podem se valer do testamento público, pois</p><p>lhes é expressamente vedado o testamento cerrado (art. 1.872) e o testamento</p><p>privativo tem como requisito a assinatura e a leitura em voz alta do testador, para</p><p>as testemunhas.</p><p>Em síntese, quanto aos testamentos ordinários, temos a seguinte situação:</p><p>97</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>QUADRO 1 – A CAPACIDADE TESTAMENTÁRIA DOS</p><p>ANALFABETOS, CEGOS, SURDOS E MUDOS</p><p>Testamento Público Testamento Cerrado Testamento Privado</p><p>Cego Pode (1.867) Não pode (1.867) Não pode (1.867)</p><p>Surdo Pode (art. 1.866) Pode, desde que</p><p>alfabetizado</p><p>Pode, desde que</p><p>alfabetizado (será?)</p><p>Mudo Divergência Pode, desde que</p><p>alfabetizado</p><p>Pode, desde que</p><p>alfabetizado (será)</p><p>Surdo-</p><p>Mudo</p><p>Divergência Pode, desde que</p><p>alfabetizado (art. 1873)</p><p>Pode, desde que</p><p>alfabetizado (será)</p><p>Analfabeto Pode Não pode (art. 1.872) Não pode (será?)</p><p>FONTE: A autora</p><p>Todavia, como já foi explicado, a lei permite que no testamento privado seja</p><p>afastada a necessidade de testemunhas, em circunstâncias especiais. Desta</p><p>forma, teoricamente, é possível imaginar situações nas quais um analfabeto peça</p><p>a terceiro para digitar mecanicamente seus atos de última vontade e, a depender</p><p>das circunstâncias do caso, o juiz homologue o documento, pois sem testemunhas,</p><p>não há como confirmar a leitura em voz alta. Saliente-se que não há impedimento</p><p>legal expresso para testamento particular por parte do analfabeto, mas faz parte</p><p>dos requisitos legais que o testador leia suas disposições para as testemunhas;</p><p>dispensadas as testemunhas, não haveria como confirmar a alfabetização ou</p><p>não do testador. É possível que tenha aprendido, durante a vida, a desenhar sua</p><p>assinatura, deixando-a no instrumento ou, ainda, que o juiz também dispense este</p><p>requisito formal.</p><p>São situações hipotéticas, mas que podem vir a acontecer e o jurista</p><p>responsável pela sucessão deve estar atento a elas.</p><p>3.5 Testamentos Especiais</p><p>O Código Civil se preocupou com o testamento feito por indivíduos em</p><p>situações extraordinárias, como estar presente em uma embarcação ou avião, ou</p><p>em situação militar.</p><p>Os artigos 1.888 a 1.892 do CC, dispõe sobre o testamento em navios</p><p>ou aviões em viagem. O indivíduo poderá fazê-lo de forma pública ou</p><p>cerrada,</p><p>deixando o documento sob a guarda do comandante até a primeira oportunidade</p><p>de entregá-lo às autoridades administrativas (art. 1.890, CC).</p><p>98</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Sobre as modalidades elencadas por lei, dizem Farias e Rosenvald (2015, p. 357):</p><p>No primeiro caso (forma pública), o testador se apresentará ao</p><p>comandante da embarcação ou aeronave, ou à pessoa por ele</p><p>indicada, entregando-lhe a declaração de vontade, na presença</p><p>de duas testemunhas, entregando a sua deixa, que será lida</p><p>na presença das testemunhas (que podem ser passageiros</p><p>ou tripulantes, sem qualquer vedação), e registrada em livro</p><p>de borda. Na outra hipótese (forma cerrada), o declarante</p><p>entregará ao comandante, ou a quem fizer as suas vezes,</p><p>o seu testamento para que seja lacrado na presença das</p><p>testemunhas, com o respectivo registro no livro de bordo. Numa</p><p>ou noutra hipótese, pode o comandante, que assume função</p><p>visivelmente notarial, em caráter extraordinário, designar</p><p>alguém para atuar em seu lugar, até porque ordinariamente,</p><p>não deve se afastar do comando da embarcação ou aeronave.</p><p>Como se trata de testamento excepcional, o testamento feito em</p><p>embarcações ou aeronaves só terá validade caso seu autor venha a</p><p>óbito no curso da viagem; se sobrevive, deverá ratificá-lo em até 90</p><p>dias contatos de desembarque ou de sua retomada de consciência, por</p><p>meio de testamento ordinário (art. 1.891, CC). O testamento deve ainda</p><p>ser confirmado por autoridade judicial.</p><p>Quanto ao testamento militar, ele é autorizado tanto ao soldado</p><p>quanto ao civil a serviço das forças armadas. Nos termos do artigo</p><p>1.894 do Código Civil, uma vez escrito o documento, o testador deverá apresentá-</p><p>lo ao auditor ou oficial de patente, na presença de duas testemunhas. O auditor</p><p>ou oficial, por sua vez, deve escrever no testamento o dia a hora em que o</p><p>documento lhe foi entregue, com assinatura dele e das duas testemunhas.</p><p>Sobre o auditor ou oficial de patente, Farias e Rosenvald (2015, p. 359)</p><p>comentam:</p><p>É interessante perceber a pluralidade de hipóteses de</p><p>testamento militar, no que tange à autoridade a quem se</p><p>dirige a declaração de vontade. Se o testador integrar um</p><p>destacamento específico (corpo ou seção), deverá elaborar o</p><p>seu testamento perante o respectivo comandante, ainda que de</p><p>graduação ou posto inferior – mitigando as regras da hierarquia</p><p>militar. Sendo o testador o oficial mais graduado, o testamento</p><p>será redigido perante o substituto. E, finalmente, estando o</p><p>testador em hospital, deverá ser escrito pelo respectivo oficial</p><p>de saúde ou pelo diretor do estabelecimento.</p><p>Caso o testador sobreviva à situação, o testamento caducará em 90 dias</p><p>contatos a partir do momento em que o testador tenha condições de fazer</p><p>testamento ordinário art. 1.895, CC).</p><p>Como se trata</p><p>de testamento</p><p>excepcional, o</p><p>testamento feito em</p><p>embarcações ou</p><p>aeronaves só terá</p><p>validade caso seu</p><p>autor venha a óbito</p><p>no curso da viagem.</p><p>99</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>Por fim, necessário mencionar que o artigo 1.896 do Código Civil estabelece</p><p>o único caso de testamento oral no ordenamento jurídico brasileiro: quando os</p><p>militares ou civis em serviço militar estejam em combate ou feridos, poderão</p><p>dizer seus últimos desejos a duas testemunhas, sendo considerado o ato um</p><p>testamento válido, se o declarante vier a falecer na ocasião.</p><p>3.6 Condicilo</p><p>Farias e Rosenvald (2015, p. 362) conceituam o condicilo como “ato particular de</p><p>última vontade, desatrelado de formalidades legais, contendo disposições patrimoniais</p><p>de menor relevância (por exemplo, bens de pequeno valor, como uma joia de</p><p>estimação) ou não patrimoniais (como disposições para o funeral do seu autor)”.</p><p>Apesar da falta de solenidade, o condicilo exige, para sua</p><p>confecção, a capacidade de testar, de forma que apenas podem celebrá-</p><p>lo os maiores de 16 anos, que não sejam ébrios ou viciados em tóxicos</p><p>com interdição judicial.</p><p>Em razão da informalidade, o objeto do condicilo sofre grandes</p><p>limitações, de maneira que o documento só pode tratar de bens de pequeno</p><p>valor e alguns atos determinados. Conforme Gonçalves (2012, p. 295-296):</p><p>Pode o codicilo ser utilizado pelo autor da herança para as</p><p>seguintes finalidades: a) fazer disposições sobre o seu enterro;</p><p>b) deixar esmolas de pouca monta; c) legar móveis, roupas</p><p>ou joias, de pouco valor, de seu uso pessoal; d) nomear e</p><p>substituir testamenteiro;127 e) reabilitar o indigno; f) destinar</p><p>verbas para o sufrágio de sua alma.</p><p>Assim, a “pouca monta” mencionada no artigo 1.881 do Código Civil deve</p><p>ser entendida dentro do contexto patrimonial do falecido, devendo ser auferida</p><p>no caso concreto. Caso o condicilo extrapole tais limites, não será considerado</p><p>invalido, mas deverá ser ajustado pelo magistrado, que o tornará compatível tanto</p><p>com os valores padrões quanto com a vontade de seu autor.</p><p>Uma situação polêmica é a possibilidade de reconhecimento de filhos em condicilo.</p><p>Embora não seja um assunto pacífico, Farias e Rosenvald argumentam (2015, p. 365):</p><p>A partir da facilitação do reconhecimento de filhos, palmilhando</p><p>o art. 1.609 do Código Civil, dúvida não temos em afirmar,</p><p>com convicção e segurança, que é absolutamente possível</p><p>reconhecer um filho não registrado através de codicilo, como,</p><p>de resto, é possível fazê-lo por qualquer instrumento público ou</p><p>interpretação construtiva, teleológica, humanitária, pois o direito</p><p>O objeto do</p><p>condicilo sofre</p><p>grandes limitações,</p><p>de maneira que</p><p>o documento só</p><p>pode tratar de</p><p>bens de pequeno</p><p>valor e alguns atos</p><p>determinados.</p><p>100</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>de ter revelada a sua ascendência biológica é substancial e diz</p><p>respeito à dignidade da pessoa humana.</p><p>Assim como o testamento, o condicilo pode ser revogado de forma expressa</p><p>ou tácita. No primeiro caso, basta que seu autor elabore novo documento no qual</p><p>informe que o anterior não mais deve ser considerado válido; no segundo, caso o</p><p>autor disponha de seus bens em outro instrumento, dando-lhes destino diferente</p><p>do condicilo original, este estará revogado. Lembre-se: a confecção de um novo</p><p>condicilo por si só não revoga o anterior; é preciso que no novo documento seja</p><p>dado destino diferente aos bens elencados no documento antigo.</p><p>É possível, ainda, que um testamento revogue o condicilo, ou que o condicilo</p><p>revogue o testamento. Quanto a esta última hipótese, dizem Farias e Rosenvald</p><p>(2015, p. 365-366): “um codicilo também pode revogar o testamento que lhe</p><p>antecedeu quando dispuser, expressa ou tacitamente, de um bem de pequena</p><p>monta cuja disposição estava normatizada em testamento antecedente”.</p><p>Quanto à revogação do condicilo por testamento, o artigo 1.884 do Código</p><p>Civil estabelece que, caso seja feito um testamento após confecção de um</p><p>condicilo, e tal testamento seja silente quanto a permanência do condicilo, este</p><p>será automaticamente revogado.</p><p>4 Disposições Testamentárias</p><p>O testamento, como já explicado, tem por objeto principal indicar</p><p>a distribuição do patrimônio disponível, não destinado aos eventuais</p><p>herdeiros necessários (art. 1.845 e 1.846, CC), deixado pelo morto. O</p><p>testamento também pode versar sobre “o reconhecimento de filhos,</p><p>a destinação do cadáver, a nomeação de tutor para um filho órfão, a</p><p>deserdação de herdeiro necessário, o perdão ao sucessor indigno etc.”</p><p>(FARIAS; ROSENVALD; 2015, p. 366).</p><p>Assim, o documento pode conter tanto as cláusulas relativas a</p><p>valores patrimoniais quanto às relativas a assuntos pessoais, sendo tal</p><p>conteúdo denominado disposições testamentárias.</p><p>O testamento</p><p>também pode</p><p>versar sobre “o</p><p>reconhecimento de</p><p>filhos, a destinação</p><p>do cadáver, a</p><p>nomeação de tutor</p><p>para um filho órfão,</p><p>a deserdação de</p><p>herdeiro necessário,</p><p>o perdão ao</p><p>sucessor indigno</p><p>etc.” (FARIAS;</p><p>ROSENVALD; 2015,</p><p>p. 366).</p><p>101</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>Disposição testamentária</p><p>é a derradeira manifestação de vontade do autor da</p><p>herança, individualmente</p><p>considerada, atribuindo</p><p>patrimônio a uma pessoa certa e determinada (ou</p><p>determinável) para depois de sua morte ou realizando</p><p>outras disposições de vontade, de caráter econômico</p><p>ou existencial (FARIAS; ROSENVALD; 2015, p. 366).</p><p>Em tais disposições, o testador pode vir a explicar as razões pelas quais favorece</p><p>o indivíduo indicado, embora não seja obrigado afazê-lo. Nestes casos, as disposições</p><p>serão consideradas espécie de recompensa, pois se não fossem os motivos</p><p>explicados, a pessoa não herdaria. Desta forma, se com a abertura da sucessão for</p><p>comprovado que a motivação do testador se baseou em situação falsa, a disposição</p><p>poderá ser considerada inválida, conforme lição de Farias e Rosenvald (2015, p. 382):</p><p>Em tal circunstância, se a causa que originou a nomeação</p><p>testamentária for falsa, invalidar-se-á a cláusula, considerando</p><p>que se o testador tivesse conhecimento da realidade</p><p>fenomenológica da vida, não teria deixado o benefício em</p><p>favor do sucessor instituído. De outra banda, se a causa for</p><p>verdadeira, mas a pessoa foi indicada erroneamente, impõe-se</p><p>identificar o indivíduo que se pretendia realmente beneficiar e</p><p>promover a interpretação da vontade do autor da herança.</p><p>Desta forma, é importante atentar para a interpretação das disposições</p><p>escritas pelo testador, no sentido de sempre procurar observar qual a vontade do</p><p>de cujus ao se expressar, evitando se prender a erros materiais como a confusão</p><p>de nomes ou de datas, conforme artigo 1.899 do Código Civil.</p><p>Farias e Rosenvald (2015, p. 374) sistematizam cinco regras de interpretação,</p><p>elencadas pelo próprio Código Civil, em relação às disposições testamentárias:</p><p>i) a disposição genérica em favor dos pobres, dos estabelecimentos</p><p>particulares de caridade ou de assistência pública deve ser</p><p>interpretada em favor das pessoas domiciliadas no local onde o</p><p>testador tinha domicílio ao tempo de sua morte, ao menos que</p><p>tenha indicado expressamente o contrário (CC, art. 1.902);</p><p>ii) se o testamento indica dois ou mais herdeiros, sem</p><p>especificar a cota de cada um, partilhar-se-á por igual,</p><p>proporcionalmente entre eles (CC, art. 1.904);</p><p>iii) havendo nomeação de alguns herdeiros individualmente e</p><p>de outros coletivamente, será dividida a herança em tantas</p><p>partes quantos forem os indivíduos e os grupos designados</p><p>(CC, art. 1.905);</p><p>102</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>iv) existindo disposição testamentária não absorvendo o valor</p><p>total da herança, o saldo que remanescer pertencerá aos</p><p>herdeiros legítimos, segundo a ordem de vocação hereditária</p><p>do art. 1.829 do próprio Código Civil (CC, art. 1.906);</p><p>v) se houver indicação do quinhão de uns e não o de outros</p><p>herdeiros, será distribuído, por igual, a estes últimos o que</p><p>sobejar, depois de completas as porções hereditárias indicadas</p><p>(CC, art. 1.907);</p><p>vi) na hipótese de o testador estabelecer que não caberá ao</p><p>herdeiro instituído certo e determinado objeto pertencente</p><p>à herança, este tocará aos herdeiros legítimos (CC, art.</p><p>1.908). Ou seja, se o testador dispuser que não cabe ao</p><p>sucessor um determinado e especificado bem, ficará ele</p><p>para os herdeiros legítimos.</p><p>Como negócio jurídico que é, o testamento também se sujeita aos requisitos</p><p>de validade elencados no artigo 104 do Código Civil: capacidade do agente, objeto</p><p>lícito, possível, determinado ou determinável, e forma prescrita ou não defesa em</p><p>lei. A ausência de um destes requisitos poderá tornar o testamento inválido.</p><p>O Código Civil, porém, estabeleceu em seu artigo 1.900, hipóteses específicas</p><p>nas quais as disposições testamentárias (e não todo o testamento) serão consideradas</p><p>inválidas. Tais hipóteses são sistematizadas por Farias e Rosenvald (2015, p. 378) de</p><p>forma que a disposição será considerada não escrita quando houver:</p><p>i) nomeação de herdeiro ou legatário sob condição captatória,</p><p>isto é, quando se prevê um benefício (herança ou legado)</p><p>em favor de uma pessoa com a condição de que ela, em</p><p>retribuição, disponha de algo em benefício do testador ou</p><p>de terceiro. Coopta-se a vontade alheia com a oferta de uma</p><p>vantagem;</p><p>ii) nomeação de pessoa incerta, cuja identidade não fosse</p><p>possível averiguar. É necessário que o beneficiário seja uma</p><p>pessoa determinada ou determinável. Não se admite a sua</p><p>indeterminação absoluta, uma vez que frustraria a transmissão</p><p>do patrimônio;</p><p>iii) favorecimento de pessoa incerta, cuja nomeação seja</p><p>conferida a terceiro, em razão da expressa afronta ao caráter</p><p>personalíssimo do testamento;</p><p>iv) conferir a terceiro a fixação do valor do legado ou da cota</p><p>hereditária, exatamente pelas mesmas razões anteriormente</p><p>aludidas em relação à violação do caráter intuitu personae do</p><p>testamento;</p><p>v) favorecimento das pessoas indicadas nos arts. 1.801 e 1.802</p><p>do Código Civil, uma vez que é vedada a estipulação de benefício</p><p>em favor da pessoa que escreveu o testamento, bem como o</p><p>seu cônjuge, companheiro, ascendente e descendente, das</p><p>testemunhas do testamento, do concubino impuro, do tabelião,</p><p>civil ou militar, perante quem se elaborou o testamento, bem</p><p>como em favor de terceiro interposto, caracterizando simulação.</p><p>O artigo 1.909 do Código Civil também faz referência aos vícios do</p><p>103</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>consentimento, permitindo que disposições escritas mediante erro, dolo ou</p><p>coação sejam anuláveis pelos interessados, em até quatro anos contados a partir</p><p>do conhecimento do vício.</p><p>Em uma recapitulação rápida, o erro diz respeito à falsa percepção da</p><p>realidade; o testador se confunde sozinho, quanto à situação fática e acaba</p><p>comprometendo sua herança. Um exemplo, seria o de cujus que tendo dois</p><p>amigos com o nome João da Silva, resolve deixar herança para João da Silva,</p><p>sem especificar qual dos amigos poderia ser o herdeiro intencionado.</p><p>O dolo ocorre quando alguém engana o testador, fazendo-o acreditar que</p><p>uma situação falsa é real. Por exemplo, suponha que uma amiga minta ao</p><p>testador, dizendo que sua família está muito doente, e, em razão desta mentira,</p><p>lhe é deixada uma herança.</p><p>Por fim, a coação diz respeito a ameaça; ou o testador faz o que o indivíduo</p><p>quer, ou sofrerá algum tipo de sanção. Imagine, por exemplo, que a namorada do</p><p>testador o ameace da seguinte forma: ou ele a beneficia em testamento, ou ela o</p><p>acusará publicamente de estupro.</p><p>Qualquer destes vícios é passível de anulação da cláusula testamentária,</p><p>alegada por qualquer interessado que deverá comprová-la em juízo. Entretanto,</p><p>o vício poderá ser convalidado se houver motivos para acreditar que, mesmo</p><p>ausente o defeito, o testador não teria modificado sua vontade. Conforme salienta</p><p>Farias e Rosenvald (2015, p. 381):</p><p>Lembre-se, ademais, de que adotando o regime das</p><p>anulabilidades, é possível a convalidação (ratificação) da</p><p>cláusula testamentária viciada pelo erro, pelo dolo e pela</p><p>coação. Essa convalidação pode decorrer, inclusive, de</p><p>contexto externo, exógeno, quando o interessado demonstrar,</p><p>por fatos inequívocos, a vontade do testador, no que diz</p><p>respeito à identificação do beneficiário ou a indicação da coisa.</p><p>As disposições testamentárias patrimoniais podem ter eficácia direta, a partir</p><p>da abertura da sucessão, ou podem ser submetidas aos elementos acidentais</p><p>do negócio jurídico, como condição, termo ou encargo, o que fará com que sua</p><p>eficácia dependa da realização de algum fator, conforme será explicado a seguir.</p><p>104</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>4.1 Disposições Testamentárias e</p><p>Elementos Acidentais (Condição,</p><p>Termo ou Encargo)</p><p>A eficácia das disposições testamentárias patrimoniais pode</p><p>ser imediata, dependente de evento futuro e certo ou evento futuro</p><p>e incerto (em casos específicos) ou, ainda, depender da realização</p><p>de um ônus por parte do sujeito indicado no testamento. Em outras</p><p>palavras, as disposições testamentárias podem ser condicionadas aos</p><p>elementos acidentais do negócio jurídico, conhecidos como condição,</p><p>termo e encargo.</p><p>A condição faz com que a disposição patrimonial passe a depender</p><p>de evento</p><p>futuro e incerto (art. 121, CC). Por exemplo, é possível que</p><p>o de cujus deixe parte de seus bens para um amigo muito próximo,</p><p>desde que ele seja aprovado no vestibular. Caso a aprovação ocorra,</p><p>a condição estará cumprida e a disposição será considerada eficaz, de</p><p>forma que o amigo se torna apto a receber a herança testamentária.</p><p>É possível estabelecer condições para herdeiros e legatários, desde que</p><p>lícitas e possíveis; caso sejam inválidas, serão consideradas não escritas,</p><p>permanecendo válidas as demais disposições. Também é impossível estabelecer</p><p>condições relativas ao estado de família, como a exigência de que o herdeiro</p><p>testamentário se case ou não com certa pessoa, ou mantenha-se solteiro pelo</p><p>resto da vida. Como afirmam Farias e Rosenvald (2015, p. 372):</p><p>Toda e qualquer condição relacionada ao poder de escolha da</p><p>entidade familiar é nula de pleno direito por violar frontalmente</p><p>direito da personalidade, atingindo, de modo inequívoco, a</p><p>dignidade da pessoa humana. Casar e permanecer casado</p><p>consubstanciam uma projeção da personalidade humana, não</p><p>sendo admissível submeter tais situações a qualquer forma de</p><p>captação patrimonial.</p><p>O termo, por sua vez, vincula a eficácia da disposição testamentária a evento</p><p>futuro e certo. Por exemplo, é possível que o testador deixe um imóvel aos filhos</p><p>de uma amiga, quando esta vier a falecer, assegurando-lhes algum amparo.</p><p>Saliente-se desde já que só é possível estabelecer termos quando se fala em</p><p>legado, por força do artigo 1.898 do CC, que também autoriza imposição de termo</p><p>à substituição fideicomissária.</p><p>A eficácia das</p><p>disposições</p><p>testamentárias</p><p>patrimoniais pode</p><p>ser imediata,</p><p>dependente de</p><p>evento futuro e certo</p><p>ou evento futuro e</p><p>incerto (em casos</p><p>específicos) ou,</p><p>ainda, depender da</p><p>realização de um</p><p>ônus por parte do</p><p>sujeito indicado no</p><p>testamento.</p><p>105</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>O assunto será estudado mais a frente, quando falarmos das substituições,</p><p>mas em síntese, a substituição fideicomissária acontece da seguinte maneira: o</p><p>autor da herança (fideicomitente) deixa herança ou legado a um indivíduo de sua</p><p>confiança (fiduciário) e estabelece um termo ou condição a partir do qual esta</p><p>mesma herança passará a um outro sujeito, ainda não concebido quando de sua</p><p>morte (fideicomissário).</p><p>Imagine o seguinte exemplo: Amy é amiga próxima de Bernadete, que</p><p>há anos tenta engravidar sem sucesso. Ciente da proximidade de sua morte e</p><p>querendo fazer algo por sua amiga, Amy (fideicomitente) resolve deixar parte de</p><p>sua herança para Bernadete (fiduciário), que deverá repassá-la a seu filho futuro</p><p>(fideicomissário), quando este fizer 18 anos (termo).</p><p>Assim, o termo só pode vincular legados, em geral, e heranças transmitidas</p><p>por substituição fideicomissárias, em particular. Se no testamento houver termo</p><p>para nomeação de herdeiro comum testamentário, será considerado nulo (não</p><p>escrito), permanecendo válido o resto do testamento.</p><p>Por fim, a herança ou legado deixado em testamento podem ter sua eficácia</p><p>vinculada a um encargo, uma obrigação a ser cumprida pelo herdeiro, que pode</p><p>ser em favor do próprio testador, de terceiro ou da coletividade. Por exemplo, o</p><p>de cujus estabelece que deixará um imóvel a um indivíduo, desde que ele cuide</p><p>de seu gato, que se encontra no imóvel. O encargo, assim como a condição e o</p><p>termo, deve ser lícito e possível, sob pena de nulidade.</p><p>Em síntese, sobre a eficácia das disposições testamentárias patrimoniais e</p><p>os elementos acidentais do negócio jurídico, temos o seguinte quadro:</p><p>QUADRO 2 – ELEMENTOS ACIDENTAIS NO TESTAMENTO</p><p>Condição Termo Encargo</p><p>Legado Sim Sim Sim</p><p>Herança Sim Não, exceto substituição fideicomissória (art. 1.898) Sim</p><p>FONTE: A autora</p><p>106</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Atividade de Estudos:</p><p>1) Analise o seguinte caso.</p><p>James, sabendo que sua morte se aproxima, decide deixar um</p><p>testamento beneficiando como herdeira sua amiga Cersei. Para</p><p>tanto, ele escreve “Cersei deverá herdar metade dos meus bens</p><p>quando completar 30 anos”. Pergunta-se: de acordo com o</p><p>ordenamento jurídico brasileiro, essa disposição testamentária é</p><p>válida? Justifique.</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>___________________________________________</p><p>4.2 Cláusulas Restritivas</p><p>Assim como é possível que o testador determine o destino de</p><p>seu patrimônio, a lei permite que ele também imponha restrições aos</p><p>herdeiros e legatários quando ao uso dos bens. Tais restrições são</p><p>chamadas de cláusulas restritivas, podendo versar sobre inalienabilidade</p><p>(proibição de vender, doar, dar em garantia, dispor, em geral),</p><p>impenhorabilidade (sofrer penhora por execução) e incomunicabilidade</p><p>(o bem não se transfere aos cônjuges ou companheiros).</p><p>O artigo 1.911 do Código Civil estabelece que, uma vez limitado por</p><p>cláusula de inalienabilidade, o titular da herança ou legado também terá de</p><p>suportar a impenhorabilidade e incomunicabilidade do bem. Assim, para</p><p>efeitos testamentários, podemos afirmar que a inalienabilidade é um gênero amplo,</p><p>que comporta, automaticamente, a impenhorabilidade e a incomunicabilidade.</p><p>Tais cláusulas surtem efeito apenas quanto ao titular herdeiro ou legatário,</p><p>de forma que não podem frustrar interesses dos credores do testador (que serão</p><p>Assim como é</p><p>possível que o</p><p>testador determine</p><p>o destino de seu</p><p>patrimônio, a lei</p><p>permite que ele</p><p>também imponha</p><p>restrições aos</p><p>herdeiros e</p><p>legatários quando</p><p>ao uso dos bens.</p><p>107</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>pagos primeiro, quando da abertura da sucessão) e são, ainda passíveis de</p><p>usucapião. As limitações também não abrangem eventuais frutos, que podem ser</p><p>penhorados ou transmitidos conforme vontade do titular.</p><p>As cláusulas restritivas, porém, comportam uma exceção: o bem limitado</p><p>poderá ser penhorado para pagar taxa condominial, como explicam Farias e</p><p>Rosenvald (2015, p. 385):</p><p>Vem entendendo a Corte Superior [STJ], com esteio na função</p><p>social da propriedade, ser possível a penhora da coisa gravada</p><p>para pagamento de taxa condominial, evitando um prejuízo</p><p>aos demais condôminos. O entendimento pretoriano superior é</p><p>digno de elogios, uma vez que a cota condominial tem natureza</p><p>de obrigação propter rem, vinculada, por conseguinte, à coisa,</p><p>enquanto a restrição imposta pela clausulação se dirige à</p><p>pessoa que titulariza o bem.</p><p>Neste mesmo sentido, é preciso levar em consideração que o artigo 1.848,</p><p>§ 2º do Código Civil permite relativização das cláusulas restritivas, visando</p><p>assegurar a função social da posse e da propriedade e a dignidade do herdeiro.</p><p>Diz o referido dispositivo: “Mediante autorização judicial e havendo justa causa,</p><p>podem ser alienados os bens gravados, convertendo-se o produto em outros</p><p>bens, que ficarão sub-rogados nos ônus dos primeiros”.</p><p>O juiz, então, deverá avaliar no caso concreto a possibilidade de afastar tais</p><p>restrições; Carvalho Júnior apresenta, o seguinte exemplo (2004, p. 735):</p><p>[...] se o herdeiro se encontra acometido de doença grave, é</p><p>inaceitável que se sobreponha à vida um valor patrimonial,</p><p>numa completa e absurda inversão dos valores constitucionais</p><p>que inscrevem o princípio da dignidade da pessoa humana</p><p>no vértice do sistema jurídico pátrio. Logo, conquanto isto, na</p><p>prática, implique a extinção gradativa dos vínculos, é de se</p><p>autorizar a alienação, ou sub-rogação, dos bens e a liberação</p><p>progressiva dos valores para custeio do tratamento e para a</p><p>mantença do sucessor.</p><p>Outro exemplo, apresentado por Farias e Rosenvald (2015) é a desvalorização</p><p>de um imóvel em um determinado bairro que passou a ser considerado perigoso.</p><p>Visando proteger o seu capital econômico, o herdeiro pode solicitar ao juiz que</p><p>permita</p><p>a venda deste imóvel e compre outro, de igual valor, transferindo para ele</p><p>a cláusula restritiva imposta pelo testador.</p><p>Questão que suscita debates na doutrina é a possibilidade de o testador</p><p>limitar a legítima, parte indisponível reservada aos herdeiros necessários,</p><p>com cláusulas restritivas. Leia, a seguir, um texto de Cristiano Farias e Nelson</p><p>Rosenvald sobre o assunto.</p><p>108</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>EXTENSÃO DO PODER DE CLAUSULAR DO</p><p>TESTADOR: A PARTE DISPONÍVEL E A LEGÍTIMA</p><p>Indubitavelmente, é amplo o poder do autor da herança de gravar</p><p>a sua parte disponível com as cláusulas restritivas. Afinal de contas, se</p><p>pode ele livremente dispor dos seus bens na inteireza, com a totalidade</p><p>dos poderes do domínio, com absoluta razão pode, por igual, transmiti-</p><p>los com restrição dos poderes que gravam a propriedade.</p><p>Bem por isso, pode o testador inscrever quaisquer das</p><p>cláusulas limitadoras (inalienabilidade, incomunicabilidade e</p><p>impenhorabilidade) sobre os bens que compõem a sua parte</p><p>disponível, livremente, transmitindo por testamento.</p><p>Aliás, o testador poderá, até mesmo, estabelecer sanções para</p><p>a eventual hipótese de violação da cláusula restritiva gravada, por</p><p>meio de uma cláusula penal de resolução da liberalidade.</p><p>Grandes debates, contudo, são estabelecidos com relação à</p><p>possibilidade de inserção das cláusulas restritivas sobre a legítima</p><p>(parte indisponível).</p><p>Em conformidade com o texto legal, considerada a sua</p><p>intangibilidade, somente será possível gravar a legítima dos herdeiros</p><p>necessários com cláusulas restritivas se houver justa causa declarada</p><p>no testamento e confirmada judicialmente, após a abertura da sucessão.</p><p>Art. 1.848, Código Civil:</p><p>Salvo se houver justa causa, declarada no testamento, não pode</p><p>o testador estabelecer cláusula de inalienabilidade, impenhorabilidade,</p><p>e de incomunicabilidade, sobre os bens da legítima.</p><p>É que não seria razoável permitir ao autor da herança o poder</p><p>absoluto e ilimitado de, imotivadamente, indisponibilizar o patrimônio</p><p>transmitido aos herdeiros necessários. Considerando a clareza solar</p><p>da dicção legal (CC, art. 1.846),201 a legítima pertence aos herdeiros</p><p>necessários de pleno direito – o que conduz à segura conclusão de que</p><p>não deveria sofrer restrições decorrentes da vontade do autor da herança.</p><p>Entretanto, o legislador considera a possibilidade de existência</p><p>de justa motivação (justa causa) suficiente a autorizar uma mutação</p><p>109</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>da natureza plena e ilimitada da propriedade transmitida aos herdeiros</p><p>necessários. Nesses casos, presente a motivação justificada, é</p><p>possível impor restrições à extensão plena da titularidade. Um bom</p><p>exemplo de justa causa para a limitação da legítima é o temor de</p><p>dilapidação do patrimônio comprometendo a própria subsistência do</p><p>sucessor, como no caso da prodigalidade.</p><p>De qualquer modo, o conceito de justa causa é visivelmente</p><p>aberto e flexível, dependente das circunstâncias do caso concreto,</p><p>somente cabendo ao juiz, em cada caso, analisá-la, com prudência,</p><p>a partir das particularidades. Até porque o rol de motivações</p><p>justificáveis é, seguramente, infinito.</p><p>Não se pode admitir como justa causa para a clausulação da</p><p>legítima motivos frívolos, morais ou emocionais, como a preocupação</p><p>do pai com os rumos afetivos ou patrimoniais do casamento da filha</p><p>ou o medo de fracasso nos investimentos financeiros. As opções</p><p>pessoais da vida do herdeiro não se mostram consistentes para</p><p>justificar uma limitação patrimonial. Até porque, efetivamente, não</p><p>pode o pai impedir o filho de optar por um, ou outro, caminho, por</p><p>mais que a idade e experiência representem sabedoria... em sendo</p><p>assim, sem uma motivação clara e consistente, razoável, não se</p><p>pode restringir a legítima.</p><p>A declaração da causa motivadora da gravação da legítima é</p><p>conditio sine qua non, de modo que, ausente a justificativa, queda</p><p>inerte a cláusula limitadora, transferindo-se a propriedade de modo</p><p>livre e desembaraçado. Anuindo a essa reflexão, Marcelo Truzzi Otero</p><p>é enfático: “a sua ausência (da justa causa) franqueia ao magistrado,</p><p>de ofício ou a requerimento do interessado, proclamar a nulidade da</p><p>disposição testamentária no próprio procedimento de abertura, registro</p><p>e cumprimento de testamento ou no próprio inventário”.</p><p>A contrario sensu, a parte disponível do patrimônio do testador pode</p><p>ser gravada livremente, independentemente de qualquer necessidade</p><p>de justificação do fato gerador (motivação) da clausulação.</p><p>Sílvio Rodrigues, tecendo contundentes críticas à opção</p><p>legislativa, por entender absurda a clausulação da legítima</p><p>(que deveria, no seu pensar, ser transmitida sem gravames aos</p><p>herdeiros necessários), destaca não bastar ao testador apontar a</p><p>justa causa motivadora da restrição da legítima. Indo mais longe,</p><p>entende o saudoso civilista que precisa ser justa e reconhecida pelo</p><p>110</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>juiz no caso concreto. Assim, “se o testador explicou que impõe a</p><p>incomunicabilidade sobre a legítima do filho porque a mulher dele</p><p>não é confiável, agindo como caçadora de dotes; ou se declarou que</p><p>grava a legítima da filha de inalienabilidade porque esta descendente</p><p>é uma gastadora compulsiva, viciada no jogo, e, provavelmente, vai</p><p>dissipar os bens, será constrangedor e, não raro, impossível concluir</p><p>se a causa apontada é justa ou injusta”.</p><p>Naturalmente, qualquer interessado na intangibilidade da</p><p>legítima tem legitimidade para atacar, em juízo, a clausulação imposta</p><p>pelo autor da herança, impedindo fraudes. Considerando, aliás, que</p><p>o efeito decorrente da ausência da indicação da justa motivação é a</p><p>nulidade da disposição testamentária, é de se reconhecer, inclusive,</p><p>nesse caso, a legitimidade processual do Ministério Público.</p><p>Estabelecido o lineamento geral, vale o registro de que o</p><p>permissivo legal de gravação da legítima vem despertando aquecidas</p><p>controvérsias, que exigem cuidadosa análise.</p><p>Primus, surge a necessidade de esclarecer a consequência</p><p>da não comprovação da justa causa apontada pelo testador</p><p>no instrumento. Se a motivação apontada não restar provada</p><p>judicialmente, qual o tratamento a ser dedicado à cláusula? Atente-</p><p>se a um ponto: não se trata de debater a ausência de indicação da</p><p>justa causa, mas, sim, a não comprovação judicial dela. A ausência</p><p>de indicação do motivo ensejador da clausulação gera nulidade, sem</p><p>dúvidas, por conta da desobediência do texto legal, como visto (CC,</p><p>art. 166). Entrementes, indicada pelo testador, mas não comprovada</p><p>judicialmente, qual seria a consequência decorrente?</p><p>Sem dúvida, não comprovada em juízo a justa causa alegada,</p><p>afasta-se o gravame imposto, deixando o bem livre e desembaraçado.</p><p>Não se trata de invalidade da cláusula (nulidade). De nenhum modo. O</p><p>caso é de mera ineficácia da cláusula, que será tida como não escrita.</p><p>Secundus, surge uma outra indagação: seria permitido</p><p>ao magistrado rechaçar ex officio a cláusula restritiva,</p><p>independentemente de provocação do interessado ou do Ministério</p><p>Público, quando atuar no processo?</p><p>A questão é delicada, mas a solução parece óbvia. É induvidoso</p><p>que, em situações limítrofes, não se pode negar ao julgador a</p><p>possibilidade de adotar providências de ofício, quando já provocado.</p><p>111</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>Assim, no curso de um inventário poderá, sponte sua, motu proprio,</p><p>declarar a insubsistência de uma cláusula restritiva, percebendo a</p><p>falta de justa causa.</p><p>Tertius, outra palpitante controvérsia trata da constitucionalidade da</p><p>gravação da legítima. Considerada a garantia constitucional de direito</p><p>de herança (CF, art. 5º, XXX), reconhecendo ao sucessor o acesso à</p><p>herança ou legado que lhe é transmitido, sobreleva refletir: violaria essa</p><p>garantia restringir a extensão dos seus poderes sobre a coisa?</p><p>Uma reflexão inicial se inclina por afirmar que, pertencendo</p><p>a legítima de pleno direito aos herdeiros necessários (CC, art.</p><p>1.846),</p><p>a eles deveria ser repassada nas condições em que estão</p><p>os bens. Por isso, a crítica severa de Orlando Gomes, asseverando</p><p>não ser razoável permitir restrições aos bens indisponíveis, pois</p><p>atentatórias “da legítima expectativa convertida em direito adquirido”.</p><p>E, em arremate, destaca: “não se justifica, realmente, a permissão</p><p>de clausular a legítima. A preocupação do testador de preservar a</p><p>adversidade o herdeiro necessário pode ser atendida por outros</p><p>meios jurídicos que não a sacrificam”.</p><p>Ainda nesse diapasão, vem se sustentando, em sede</p><p>doutrinária, não ser possível olvidar a natureza de direito fundamental</p><p>da herança (CF, art. 5º, XXX), bem como da propriedade privada (CF,</p><p>art. 5º, XXII), deixando antever uma repulsa que se alinha contra a</p><p>possibilidade (ainda que excepcional) de clausulação da legítima. Por</p><p>isso, ousam os corifeus da tese dizer que o dispositivo contido no art.</p><p>1.848 da Lei Civil (permitindo, ainda que em caráter extraordinário,</p><p>a imposição de cláusula restritiva sobre a legítima) padeceria de</p><p>inconstitucionalidade, devendo ser repulsado pelo aplicador, no caso</p><p>concreto, através de declaração incidental de inconstitucionalidade.</p><p>Lado outro, sustenta não menos renomada doutrina inexistir</p><p>incompatibilidade entre a clausulação excepcional da legítima e o</p><p>Texto Magno porque “decorrem da tutela da herança como direito</p><p>fundamental e da liberdade individual do instituidor, como incremento</p><p>da dignidade humana nas relações privadas”, consoante as palavras</p><p>de Flávio Tartuce. Comungamos do entendimento. Considerando</p><p>que a autonomia privada é a regra geral do sistema, parece-nos</p><p>induvidoso que o titular do patrimônio pode antever motivação</p><p>razoável para clausular a legítima, garantindo que a transmissão</p><p>do patrimônio, depois de seu passamento, não produza efeitos que</p><p>vislumbra perniciosos. Pensamos que é uma forma de mitigar a</p><p>112</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>dureza da garantia da legítima, quando há motivação justificável de</p><p>preocupação do destino do patrimônio.</p><p>De qualquer modo, ressaltamos que a justa causa indicada</p><p>deve dizer respeito à pessoa do herdeiro necessário – e não ao seu</p><p>núcleo familiar. Com isso, mera alegação de exacerbação de gastos</p><p>financeiros, sem violar a sua subsistência, não nos parece suficiente</p><p>para motivar a clausulação.</p><p>Com efeito, a prodigalidade nos parece um fenômeno complexo,</p><p>exigindo um diálogo entre diferentes searas, como o Direito, a</p><p>Psiquiatria, a Psicanálise e a Economia. Afigura-se-nos incontroverso</p><p>que a prodigalidade não pode estar ligada, tão somente, ao volume</p><p>de gastos de alguém. Até porque é possível gastar muito sem</p><p>prejudicar à própria sobrevivência. Ao nosso viso, a prodigalidade</p><p>não constitui, tecnicamente, causa justificadora da gravação da</p><p>legítima e, por igual, incapacitante, a ponto de restringir a plena</p><p>capacidade do titular. É que, lastreado na dignidade humana, não</p><p>vemos lógica em interditar alguém (e, por conseguinte, privá-</p><p>lo da capacidade jurídica geral, inclusive da livre disposição de</p><p>seu patrimônio, inclusive adquirido por herança) apenas porque o</p><p>despende como bem lhe aprouver. Trata-se de absurda intervenção</p><p>do Estado. Bastaria imaginar alguém que amealhou patrimônio para</p><p>um dia gastá-lo como bem entender. Por que uma pessoa tem de</p><p>deixar patrimônio resguardado? Isto implica em uma exacerbada</p><p>valorização do patrimônio em detrimento da essência da pessoa. É</p><p>instigante a provocação de Jussara Maria Leal de Meirelles: “será</p><p>que essa pessoa (o pródigo) não é feliz assim? Será que não passou</p><p>a vida inteira aguardando por esse momento, de poder gastar tudo</p><p>o que economizou? Será que é possível depreender uma falta de</p><p>discernimento somente porque o seu olhar para a vida não tem o</p><p>viés econômico que o sistema pretende como seguro?” E mais:</p><p>qual seria o standard, a moldura básica, de gastos de uma pessoa?</p><p>Todos devem manter um mesmo padrão de gastos? É lógico que</p><p>a variação de temperamentos, necessidades pessoais, opções</p><p>íntimas... implicam variação de gastos. Existem pessoas com um</p><p>volume de gastos maior e outras mais econômicas e não nos parece</p><p>que aquelas sejam inferiores ou menos capacitadas do que estas.</p><p>Por isso, a clausulação da legítima decorrente de mera prodigalidade</p><p>afigura-se-nos muito mais como uma punição do que proteção. Até</p><p>porque o que se protege, no caso, é o patrimônio, e não a pessoa –</p><p>aliás, a vontade da pessoa pródiga parece ter sido completamente</p><p>ignorada pelo sistema, aviltando a sua dignidade. Em sendo assim,</p><p>113</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>com base na proteção avançada da dignidade humana (CF, art. 1º,</p><p>III), entendemos descabida a afirmação de que a prodigalidade, por si</p><p>só, justifica a gravação da legítima. Até mesmo porque entendemos</p><p>que a prodigalidade não diz respeito ao interesse do núcleo familiar,</p><p>mas sim da dignidade do próprio titular. Dessa maneira, tendo em</p><p>mira a dignidade do titular e o natural direito de dispor do que é seu,</p><p>é de se inferir que a gravação da legítima do pródigo somente será</p><p>justificável quando os seus gastos desordenados comprometerem</p><p>a si mesmo e à sua dignidade – o que tem caráter completamente</p><p>excepcional, como a sua própria interdição.</p><p>FONTE: Farias e Rosenvald (2015, p. 385 - 390.</p><p>5 Legados</p><p>Conforme Gonçalves (2012, p. 412):</p><p>Legado é coisa certa e determinada deixada a</p><p>alguém, denominado legatário, em testamento ou</p><p>codicilo. Difere da herança, que é a totalidade ou</p><p>parte ideal do patrimônio do de cujus. Herdeiro</p><p>nomeado não se confunde, pois, com legatário.</p><p>Assim, apesar de similares, legado e herança são institutos diferentes. O herdeiro</p><p>representa patrimonialmente o falecido, enquanto o legatário não. Inclusive, o legado</p><p>não pode ser utilizado para quitar dívidas do morto, exceto se esta for maior que a</p><p>herança, se o de cujus só deixar legados ou, ainda, se assim disser o testamento.</p><p>Além disso, o legado é próprio da sucessão testamentária, não existindo fora dela.</p><p>O testador pode constituir qualquer pessoa como legatário, inclusive herdeiro</p><p>já contemplado, deixando a ela qualquer objeto, desde que lícito, possível,</p><p>determinado ou determinável. O legado também precisa ser expresso, não sendo</p><p>possível a existência de legado tácito.</p><p>Os legados podem ser classificados em a) legado de coisas; b) legado de</p><p>crédito; c) legado de alimentos; d) legado de usufruto; e) legado de imóvel; f)</p><p>legado de dinheiro; g) legado de renda; e h) legado alternativo.</p><p>O legado de coisas diz respeito a bens individualizados deixados pelo testador</p><p>a alguém. Vale ressaltar que tais bens devem pertencer ao de cujus quando houver</p><p>a abertura da sucessão (art. 1.912), sendo admitidas duas exceções legais: 1)</p><p>Legado é coisa</p><p>certa e determinada</p><p>deixada a alguém,</p><p>denominado legatário,</p><p>em testamento ou</p><p>codicilo.</p><p>114</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>quando o testador impõe que um dos herdeiros entregue um bem a terceiro, como</p><p>condição para receber a herança (art. 1.913); ou 2) quando o de cujus deixa bem</p><p>especificado não presente em seu patrimônio, ocasião na qual o testamenteiro</p><p>deverá comprá-lo com os bens do espólio e transmiti-lo ao legatário.</p><p>O legado de crédito refere-se à possibilidade de o testador indicar um legatário</p><p>para receber o pagamento de determinada dívida (art. 1.918); o de alimentos,</p><p>relaciona-se com a possibilidade do testador estabelecer que um herdeiro deve</p><p>pagar pensão alimentícia a terceiro (art. 1920), por tempo determinado ou de</p><p>forma vitalícia, quando não estipulado.</p><p>O legado de usufruto diz respeito a possibilidade de o testador permitir que</p><p>alguém use um bem pertencente a outro herdeiro, percebendo-lhes os frutos (art.</p><p>1.921, CC); já o legado de imóvel diz respeito ao fato do testador deixar bem</p><p>imóvel a alguém, nele incluídas as benfeitorias.</p><p>Com a abertura da sucessão, o legatário adquire a propriedade de coisa certa e</p><p>o direito de pedir-lhe a posse no inventário, que só será efetivada na partilha.</p><p>são transmitidos aos herdeiros.</p><p>Esse conjunto de ativos e passivos é o que chamamos de herança. Trata-</p><p>se, portando, de erro achar que a herança compreende apenas os bônus e os</p><p>benefícios oriundos do patrimônio do falecido; ela engloba, na verdade, todas as</p><p>suas relações jurídicas não personalíssimas.</p><p>Agora, pensemos na seguinte hipótese: o Sr. e a Sra. Banks estão em sua</p><p>BMW, rumo à praia, junto de seus filhos Carlton e Ashley. Por um descuido, o</p><p>veículo colide com um caminhão e toda a família vem a falecer. Como se dá a</p><p>sucessão neste caso?</p><p>Trata-se de um exemplo clássico de comoriência, ou seja, a morte</p><p>simultânea do indivíduo e de seus herdeiros. A comoriência, na verdade, é uma</p><p>ficção jurídica, pois em casos como o descrito acima não há como estabelecer</p><p>quem faleceu primeiro, o que geraria diversos problemas relativos a sucessão.</p><p>A regra está elencada no artigo 8º do Código Civil que assim preceitua: “Art.</p><p>8º - Se dois ou mais indivíduos falecerem na mesma ocasião, não se podendo</p><p>averiguar se algum dos comorientes precedeu aos outros, presumir-se-ão</p><p>simultaneamente mortos”.</p><p>O principal efeito da comoriência é que um não herda do outro. Neste sentido,</p><p>Gonçalves (2012, p. 41) exemplifica:</p><p>por conseguinte, se morre em acidente casal sem descendentes</p><p>e ascendentes, sem saber qual morreu primeiro, um não herda do</p><p>outro. Assim, os colaterais da mulher ficarão com a meação dela;</p><p>enquanto os colaterais do marido ficarão com a meação dele.</p><p>Ainda sobre a comoriência, nada impede que o sujeito e seus herdeiros</p><p>venham a óbito ao mesmo tempo, mas em lugares diferentes. Levando em</p><p>consideração o exemplo da família Banks, considere-se que no exato momento do</p><p>acidente de carro, a filha primogênita do casal, Hilary, estava escalando os Alpes</p><p>suíços e sofre um acidente fatal. Mesmo estando geograficamente distantes, não</p><p>há como determinar quem faleceu primeiro, razão pela qual ocorre a comoriência.</p><p>Ainda sobre a transmissão causa mortis, temos o princípio de saisine,</p><p>“segundo o qual o próprio defunto transmite ao sucessor a propriedade e a posse</p><p>da herança. (GONÇALVES, 2012, p. 42)”. Saisine vem do francês, posse, e refere-</p><p>se a uma ficção jurídica que considera que o falecido, ao morrer, deixou seus</p><p>herdeiros na posse de seu patrimônio, que não pode ficar sem dono. Inclusive,</p><p>uma das consequências deste princípio é de que “o herdeiro que sobrevive ao de</p><p>cujus, ainda que por um instante, herda os bens por este deixados e os transmite</p><p>aos seus sucessores, se falecer em seguida. (GONÇALVES, 2012, p. 45).</p><p>16</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Todavia, cumpre salientar que por força do art. 1.791 do Código Civil, por</p><p>mais que os herdeiros sejam considerados possuidores da herança do de cujus,</p><p>está só será individualizada quando houver a partilha. Até lá, seus direitos serão</p><p>indivisíveis.</p><p>Em decorrência deste mesmo princípio, as normas sucessórias a serem</p><p>aplicadas nas sucessões serão aquelas vigentes ao tempo da abertura</p><p>sucessória (art. 1.787, CC). Inclusive, o Supremo Tribunal Federal sumulou o</p><p>seguinte entendimento: “Súmula 112 do Supremo Tribunal Federal: o imposto de</p><p>transmissão causa mortis é devido pela alíquota vigente ao tempo da abertura</p><p>da sucessão”.</p><p>Por fim, pertinente indagar: em que lugar se abre a sucessão?</p><p>O artigo 1.785 do Código Civil estabelece que a sucessão será</p><p>aberta no último domicílio do falecido. A redação do artigo 48 do Código</p><p>de Processo Civil estabelece as regras para abertura do inventário:</p><p>Art. 48. O foro de domicílio do autor da herança, no Brasil, é</p><p>o competente para o inventário, a partilha, a arrecadação, o</p><p>cumprimento de disposições de última vontade, a impugnação</p><p>ou anulação de partilha extrajudicial e para todas as ações</p><p>em que o espólio for réu, ainda que o óbito tenha ocorrido no</p><p>estrangeiro.</p><p>Parágrafo único. Se o autor da herança não possuía domicílio</p><p>certo, é competente:</p><p>I - o foro de situação dos bens imóveis;</p><p>II - havendo bens imóveis em foros diferentes, qualquer destes;</p><p>III - não havendo bens imóveis, o foro do local de qualquer dos</p><p>bens do espólio.</p><p>Vejamos agora as diferentes espécies de sucessões e sucessores.</p><p>O artigo 1.785</p><p>do Código Civil</p><p>estabelece que</p><p>a sucessão será</p><p>aberta no último</p><p>domicílio do</p><p>falecido.</p><p>Atividades de Estudos:</p><p>1) No Direito Brasileiro, considera-se que a morte da pessoa natural</p><p>se dá:</p><p>a) Com parada cardíaca.</p><p>b) Com a declaração de ausência.</p><p>c) Com parada cardiorrespiratória.</p><p>d) Com morte cerebral.</p><p>17</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>2) Seiya e Saori, namorados de infância, sofrem grave acidente em</p><p>um cruzeiro na Grécia, sendo considerados mortos na tragédia</p><p>ainda que seus corpos não tenham sido encontrados. Neste</p><p>caso, pergunta-se: há comoriência? Por quê?</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>4 Sucessores</p><p>O ordenamento jurídico brasileiro conta com dois tipos principais</p><p>de sucessões: a legítima, decorrente da própria lei, e a testamentária</p><p>que decorre diretamente da vontade individual do falecido (art. 1.786</p><p>do Código Civil), manifesta em testamento ou codicilo. Ressalte-se</p><p>que, caso o testamento venha a caducar ou ser eivado de nulidade, a</p><p>sucessão a se realizar será a legítima. É possível que os dois tipos se</p><p>misturem, tendo o autor da herança testado apenas sobre parte dos</p><p>bens. Os restantes também serão distribuídos conforme as regras da</p><p>sucessão legítima.</p><p>Desta forma, é possível inferir as diferentes espécies de sucessores.</p><p>Os herdeiros legítimos serão aqueles indicados pela lei (art. 1.829 CC); já</p><p>os testamentários são aqueles indicados no testamento do de cujus, sem</p><p>que qualquer bem em específico lhe tenha sido destinado. Caso o testador</p><p>individualize coisa a ser entregue e alguém, teremos uma outra espécie de</p><p>sucessor, o legatário. Temos ainda os herdeiros necessários (descendentes,</p><p>ascendentes e cônjuge, conforme o art. 1.845 CC), e o herdeiro universal, que</p><p>receberá a herança em sua totalidade.</p><p>É importante destacar que apesar da sucessão testamentária se originar da</p><p>vontade individual do falecido, o artigo 1.789 do Código Civil estabelece que, caso</p><p>ele tenha herdeiros necessários, poderá testar apenas sobre metade da herança.</p><p>Além disso, como salienta Gonçalves (2012, p. 48):</p><p>O ordenamento</p><p>jurídico brasileiro</p><p>conta com dois</p><p>tipos principais</p><p>de sucessões: a</p><p>legítima, decorrente</p><p>da própria lei, e</p><p>a testamentária</p><p>que decorre</p><p>diretamente da</p><p>vontade individual</p><p>do falecido.</p><p>18</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Se o testador for casado no regime da comunhão universal de</p><p>bens, o patrimônio do casal será dividido em duas meações,</p><p>e só poderá dispor, em testamento, integralmente, da sua, se</p><p>não tiver herdeiros necessários, e da metade, correspondente</p><p>a um quarto do patrimônio do casal, se os tiver.</p><p>Quanto aos efeitos, podemos classificar as sucessões em a título universal,</p><p>quando o sucessor herda parte ou totalidade da herança; e em a título singular,</p><p>quando o sucessor herda um bem específico, chamado de legado. Conforme</p><p>Gonçalves (2012, p. 49): “Legatário, portanto, não é o mesmo que herdeiro.</p><p>Este sucede a título universal, pois a herança é uma universalidade; aquele,</p><p>porém, sucede ao falecido a título singular, tomando o seu lugar em coisa certa e</p><p>individuada”.</p><p>Sabe-se, desde já, que os parentes, cônjuges, legatários e herdeiros</p><p>testamentários tem direito à herança, mas existem exceções? Para esclarecer</p><p>tal questão, vejamos, agora, a legitimidade para suceder, também chamada de</p><p>vocação hereditária.</p><p>4.1 Legitimidade para Herdar e</p><p>Suceder (Vocação Hereditária)</p><p>Caso</p><p>haja condição ou termo estabelecido em testamento, o legatário só poderá reclamar</p><p>a posse do bem após efetivação dos elementos acidentais. Com relação ao legado</p><p>com encargo, ele pode ser pedido desde já pelo legatário, que deverá cumpri-lo.</p><p>O legatário tem direito aos frutos desde a abertura da sucessão, se o legado não</p><p>estiver impedido por termo ou condição. Se o legado for relativo à pensão alimentícia</p><p>ou à renda, o valor também passa a ser devido desde a abertura da sucessão.</p><p>Os legados devem ser pagos pelos herdeiros, responsáveis por retirar da</p><p>universalidade de bens que é a herança, os bens específicos a serem transmitidos</p><p>aos legatários (art. 1.934, CC), mas as despesas oriundas de impostos e os riscos</p><p>relativos a entrega do legado, correm por conta do legatário (art. 1.936, CC).</p><p>O artigo 1.939 do Código Civil enumera as hipóteses nas quais o legado caduca:</p><p>Caducará o legado:</p><p>I - se, depois do testamento, o testador modificar a coisa legada,</p><p>ao ponto de já não ter a forma nem lhe caber a denominação</p><p>que possuía;</p><p>II - se o testador, por qualquer título, alienar no todo ou em parte</p><p>a coisa legada; nesse caso, caducará até onde ela deixou de</p><p>pertencer ao testador;</p><p>III - se a coisa perecer ou for evicta, vivo ou morto o testador, sem</p><p>culpa do herdeiro ou legatário incumbido do seu cumprimento;</p><p>IV - se o legatário for excluído da sucessão, nos termos do art.</p><p>1.815;</p><p>V - se o legatário falecer antes do testador.</p><p>Vejamos, agora, como ocorrem as substituições na sucessão testamentária.</p><p>115</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>6 Substituições</p><p>É possível que o herdeiro testamentário ou o legatário não queiram ou não</p><p>possam receber a herança deixada pelo de cujus, em razão de renúncia, pré-morte,</p><p>indignidade, deserdação ou falta de legitimidade. Nesses casos, o Código Civil (artigos</p><p>1.947 a 1.960) estabelece a possibilidade de que um substituto usufrua da herança</p><p>deixada, a partir de três tipos de substituição: vulgar, recíproca e fideicomissária.</p><p>A substituição vulgar é a mais simples pois se origina da indicação direta</p><p>do próprio testador. Assim, é permitido que o autor da herança escreva</p><p>explicitamente que, no caso do herdeiro ou legatário A não aceitar ou não poder</p><p>receber a herança indicada, o indivíduo B o substituirá (art. 1.947, CC). O testador</p><p>pode enumerar quantos substitutos quiser. Além disso, as eventuais condições</p><p>e encargos impostos ao herdeiro original também são transferidas ao substituto,</p><p>exceto de forem personalíssimos.</p><p>A substituição recíproca é uma variação da substituição vulgar. Ao invés</p><p>de indicar apenas um substituto, o testador indica “dois ou mais herdeiros como</p><p>substitutos uns dos outros, para a hipótese de qualquer deles não querer ou não</p><p>poder aceitar o benefício instituído” (FARIAS; ROSENVALD; 2015, p. 414).</p><p>Por fim, temos a substituição fideicomissária, definida por Farias e Rosenvald</p><p>(2015, p. 415) como aquela na qual o testador encarrega “o herdeiro ou legatário</p><p>nomeado substituto a conservar e transmitir a um beneficiário a coisa”. Um exemplo,</p><p>seria a hipótese na qual o testador (fideicomitente) deixa um bem imóvel para filho não</p><p>concebido de uma amiga próxima (fideicomissário), devendo esta amiga atuar como</p><p>substituta (fiduciária) até que seu filho nasça. Se tal amiga morrer antes de dar à luz a</p><p>uma criança, sua propriedade plena é consolidada e a substituição não se opera.</p><p>Importante destacar que apenas os sujeitos ainda não concebidos</p><p>quando da morte do autor da herança podem ser beneficiários da</p><p>substituição fideicomissária, por força do artigo 1.952 do Código Civil. Não</p><p>há limitações para os substitutos, porém, sendo necessário apenas que</p><p>eles aceitem atuar como tal. Se eles recusarem, o fideicomisso é extinto e o</p><p>beneficiário vira herdeiro direto, assim que nascer.</p><p>Se o beneficiário renunciar, o fideicomisso é extinto e a propriedade</p><p>passa a ser do substituto, exceto se houver disposição contrária no</p><p>testamento (art. 1.955, CC). O substituto não pode dispor da propriedade</p><p>enquanto houver possibilidade de o beneficiário existir, sendo aceitável uma</p><p>eventual alienação do bem deteriorado para compra de um novo, a ser transmitido,</p><p>mediante autorização judicial.</p><p>Importante destacar</p><p>que apenas os</p><p>sujeitos ainda não</p><p>concebidos quando</p><p>da morte do autor</p><p>da herança podem</p><p>ser beneficiários</p><p>da substituição</p><p>fideicomissária, por</p><p>força do artigo 1.952</p><p>do Código Civil.</p><p>116</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>7 Redução das Disposições</p><p>Testamentárias</p><p>Como já salientado, o testador pode dispor apenas da parte de</p><p>seu patrimônio que não seja destinada aos herdeiros necessários</p><p>(legítima). Ainda que o testamento destine todos os bens a um amigo,</p><p>se existirem herdeiros necessários, a interpretação que se dá é que,</p><p>uma vez quitadas as dívidas do morto, abatidas as despesas do</p><p>funeral, reservada a meação do cônjuge ou companheiro, e distribuídas</p><p>as partes dos eventuais herdeiros necessários, o que sobrar será</p><p>encaminhado ao herdeiro testamentário, mediante correção judicial que</p><p>pode ser feita no próprio inventário. Caso haja controvérsia a respeito do excesso</p><p>(se a disposição testamentária exclui ou não parte da legítima), os interessados</p><p>deverão ajuizar ação ordinária.</p><p>A esse procedimento chamamos redução das disposições testamentárias.</p><p>Seu objetivo principal é garantir a legítima, por meio de recomposição patrimonial,</p><p>preservando, assim, a vontade do falecido, na medida do possível. Para tanto, o</p><p>juiz deverá obedecer aos critérios elencados no artigo 1.967 do Código Civil:</p><p>As disposições que excederem a parte disponível reduzir-</p><p>se-ão aos limites dela, de conformidade com o disposto nos</p><p>parágrafos seguintes.</p><p>§ 1º Em se verificando excederem as disposições testamentárias</p><p>a porção disponível, serão proporcionalmente reduzidas as</p><p>quotas do herdeiro ou herdeiros instituídos, até onde baste, e,</p><p>não bastando, também os legados, na proporção do seu valor.</p><p>§ 2º Se o testador, prevenindo o caso, dispuser que se inteirem,</p><p>de preferência, certos herdeiros e legatários, a redução far-</p><p>se-á nos outros quinhões ou legados, observando-se a seu</p><p>respeito a ordem estabelecida no parágrafo antecedente.</p><p>Desta forma, se o testamento beneficiar herdeiros e legatários, os</p><p>herdeiros terão suas partes reduzidas primeiro e só depois, caso necessário, os</p><p>legatários terão seus bens reduzidos. Em contrapartida, se o testamento deixar</p><p>apenas herdeiros ou apenas legatários, cada um terá sua herança reduzida,</p><p>proporcionalmente à quota deixada. O Código permite ainda que o testador,</p><p>prevendo a hipótese de diminuição, explicite no documento quais herdeiros terão</p><p>sua parte diminuída.</p><p>E se a diminuição recair sobre bem imóvel?</p><p>Neste caso, o artigo 1.968 prevê as seguintes soluções:</p><p>O testador pode</p><p>dispor apenas</p><p>da parte de seu</p><p>patrimônio que</p><p>não seja destinada</p><p>aos herdeiros</p><p>necessários</p><p>(legítima).</p><p>117</p><p>Da Sucessão Testamentária Capítulo 3</p><p>i) se o excesso supera a ¼ do valor do bem, o legatário tem</p><p>de devolvê-lo ao espólio, ficando com o direito de receber o</p><p>valor do legado; ii) se a superação não for maior do que ¼</p><p>do valor do bem, o legatário ficará com ele, obrigando-se a</p><p>repor a diferença em dinheiro (FARIAS; ROSENVALD, 2015,</p><p>p. 396-397).</p><p>8 Algumas Considerações</p><p>Neste capítulo, procuramos apresentar a sucessão testamentária, cuja</p><p>característica principal se refere à manifestação direta da vontade do morto,</p><p>desde que amparada dentro dos critérios de legalidade.</p><p>Diferentemente do que ocorre na sucessão legítima, a sucessão</p><p>testamentária permite maior liberdade ao de cujus, que pode deixar seus bens a</p><p>quem lhe interessar. Além disso, o falecido pode deixar em testamento disposições</p><p>específicas como reconhecimento de filhos, instruções a respeito de eventuais</p><p>substitutos de herdeiros, legados, entre outros.</p><p>No próximo capítulo, abordaremos o aspecto processual do direito sucessório,</p><p>ou seja, as regras processuais relativas</p><p>ao inventário e a partilha, estabelecidas</p><p>pelo novo código de processo civil.</p><p>Referências</p><p>CARVALHO JÚNIOR, Pedro Lino de. Das cláusulas restritivas da legítima. In:</p><p>FARIAS, Cristiano Chaves de (Coord.). Temas atuais de direito e processo de</p><p>família. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004.</p><p>COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito civil. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2013.</p><p>FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil:</p><p>sucessões. São Paulo: Atlas, 2015.</p><p>GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: direito das sucessões. 6.</p><p>ed. São Paulo: Saraiva, 2012.</p><p>TARTUCE, Flávio. O estatuto da pessoa com deficiência e a capacidade</p><p>testamentária ativa. Revista Pensamento Jurídico, São Paulo, v. 10, n. 2, jul./</p><p>dez. 2016. Disponível em: <http://revistapensamentojuridico.fadisp.com.br/ojs/</p><p>index.php/pensamentojuridico/article/view/63/65>. Acesso em: 5 abr. 2018</p><p>118</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>CAPÍTULO 4</p><p>Inventário e Partilha</p><p>A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes</p><p>objetivos de aprendizagem:</p><p>3 Conhecer o procedimento do inventário judicial e do extrajudicial.</p><p>3 Realizar a aplicação da lei civil para efetivação dos procedimentos estudados.</p><p>120</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>121</p><p>Inventário e Partilha Capítulo 4</p><p>1 Contextualização</p><p>Nos capítulos anteriores, estudamos questões relativas ao direito material</p><p>civil que rege o processo sucessório, desde a abertura da sucessão, com a morte</p><p>do de cujus, a especificações sobre os herdeiros, legatários, sucessão legítima e</p><p>sucessão testamentária.</p><p>Neste capítulo, estudaremos os meios pelos quais a divisão dos bens</p><p>se opera, desde o inventário dos bens à partilha destes. Embora a herança se</p><p>transmita aos herdeiros desde a morte de seu autor, antes da partilha ela constitui</p><p>um complexo de bens indivisíveis, conhecido como espólio, só adquirindo</p><p>autonomia e individualização após a partilha.</p><p>Como será demonstrado, existem diversos tipos de inventário, a depender da</p><p>capacidade dos herdeiros, do acordo entre eles e do valor da herança deixada. O</p><p>mesmo se aplica a partilha, que pode ser feita ainda em vida, pelos ascendentes,</p><p>por meios extrajudiciais, quando os herdeiros são capazes e possuem acordo a</p><p>respeito da divisão, ou mediante interferência judicial.</p><p>Iniciamos o capítulo com algumas considerações sobre a dissolução do</p><p>condomínio hereditário, um dos principais efeitos da partilha.</p><p>2 Dissolução do Condomínio</p><p>Hereditário</p><p>Aberta a sucessão, com a morte do de cujus, a herança é automaticamente</p><p>transmitida aos herdeiros, como se fosse um todo universal e indivisível similar a</p><p>figura do condomínio. Como afirma Gonçalves (2012, p. 549):</p><p>A abertura da sucessão instaura entre os herdeiros um</p><p>verdadeiro condomínio sucessório, um estado de comunhão,</p><p>relativamente aos bens do acervo hereditário, que só cessará</p><p>com a partilha. A tão só constatação dessa realidade</p><p>é suficiente a revelar a importância capital do</p><p>processo de inventário, que tende a pôr fim à</p><p>situação de indivisão do espólio, considerada fonte</p><p>de litígio e de permanente tensão.</p><p>Para que haja a dissolução deste condomínio, ou seja, para que os</p><p>bens sejam divididos de forma devida, é necessário que este montante</p><p>seja individualizado a partir dos procedimentos judiciais denominados</p><p>inventário e partilha. No primeiro, serão elencados todos os ativos e</p><p>Para que os bens</p><p>sejam divididos</p><p>de forma devida,</p><p>é necessário que</p><p>este montante seja</p><p>individualizado a partir</p><p>dos procedimentos</p><p>judiciais denominados</p><p>inventário e partilha.</p><p>122</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>passivos constituintes da herança; no segundo, os bens restantes são divididos</p><p>entre os herdeiros, conforme as regras das sucessões legítima ou testamentária e</p><p>do legado. Segundo Rosenvald e Farias (2015, p. 435):</p><p>O inventário é o procedimento, administrativo ou judicial,</p><p>tendente ao levantamento e descrição individualizada das</p><p>relações jurídicas patrimoniais (ativas e passivas) transmitidas</p><p>automaticamente pelo falecido, em razão da incidência da</p><p>regra de saisine (CC, art. 1.784), para que, posteriormente,</p><p>pagas as dívidas deixadas e recolhido o tributo respectivo, seja</p><p>partilhado o saldo remanescente entre os sucessores.</p><p>Existem, portanto, dois grandes tipos de inventário: o administrativo e o</p><p>judicial. De acordo com art. 610, parágrafos primeiro e segundo do Novo Código</p><p>de Processo Civil, o inventário administrativo só poderá ser realizado se todos</p><p>os herdeiros forem capazes, estiverem de acordo sobre a divisão de bens e</p><p>estiverem assistidos por advogados. Trata-se de procedimento mais célere, na</p><p>qual a partilha é formalizada por simples escritura pública, gerando de pronto os</p><p>efeitos jurídicos da divisão dos bens.</p><p>O inventário judicial, por sua vez, deve ser prioritariamente aberto por aquele</p><p>que estiver na posse e na administração do espólio, em até 60 dias contados da</p><p>abertura da sucessão, devendo ser encerrado em até 12 meses de sua abertura</p><p>(art. 615 do Novo CPC). Tais prazos podem sofrer dilatação, caso o juiz considere</p><p>justo o motivo de seu descumprimento.</p><p>Segundo o artigo 616 do Novo CPC, caso o indivíduo que estiver na posse</p><p>ou administração do espólio não faça o requerimento de abertura do inventário no</p><p>prazo estabelecido por lei, também podem solicitar a abertura da sucessão:</p><p>Art. 616 [...]</p><p>I - o cônjuge ou companheiro supérstite;</p><p>II - o herdeiro;</p><p>III - o legatário;</p><p>IV - o testamenteiro;</p><p>V - o cessionário do herdeiro ou do legatário;</p><p>VI - o credor do herdeiro, do legatário ou do autor da herança;</p><p>VII - o Ministério Público, havendo herdeiros incapazes;</p><p>VIII - a Fazenda Pública, quando tiver interesse;</p><p>IX - o administrador judicial da falência do herdeiro, do legatário,</p><p>do autor da herança ou do cônjuge ou companheiro supérstite.</p><p>Neste caso, cada estado possui autonomia para, querendo, cobrar multa</p><p>pelo atraso, como afirma a Súmula 542 do STF: “Não é inconstitucional a multa</p><p>instituída pelo Estado-membro, como sanção pelo retardamento do início ou da</p><p>ultimação do inventário”.</p><p>123</p><p>Inventário e Partilha Capítulo 4</p><p>Uma vez aberto o procedimento de inventário, este deverá seguir até a</p><p>finalização da partilha, sendo permitido a troca de inventariante que haja com</p><p>inércia ou descaso.</p><p>No que se refere ao inventário judicial, o Novo Código de Processo</p><p>Civil estabelece três tipos distintos: 1) O inventário tradicional e solene; 2) O</p><p>arrolamento sumário; e 3) O arrolamento comum. Vejamos cada um deles.</p><p>O inventário pressupõe a existência de bens deixados pelo</p><p>falecido, pois seu objetivo principal é viabilizar a divisão destes em</p><p>favor dos herdeiros. Neste sentido, é pertinente indagar: e quando o</p><p>sujeito morre sem deixar bens? É necessário solicitar inventário?</p><p>Para todos os efeitos, não, em razão de sua inutilidade.</p><p>Entretanto, em algumas ocasiões específicas, pode ser necessário</p><p>que um dos supostos herdeiros comprove a inexistência de bens a</p><p>serem divididos. Tal comprovação se dará por meio de declaração</p><p>judicial, apelidada de inventário negativo.</p><p>Mas em quais situações é necessário comprovar a inexistência</p><p>de herança?</p><p>É possível, por exemplo, que os herdeiros desejem comprovar</p><p>que não há bens a serem executados para sanar dívidas do falecido.</p><p>Entretanto, uma das hipóteses mais citadas pela doutrina, é o artigo 1.523,</p><p>I do Código Civil, como explicado por Gonçalves (2012, p. 558-559):</p><p>A finalidade do inventário negativo é, na maioria das vezes,</p><p>evitar a incidência da causa suspensiva prevista no art. 1.523,</p><p>I, do Código Civil, que exige inventário e partilha dos bens aos</p><p>herdeiros, a cargo do viúvo, ou viúva, que pretende casar-se</p><p>novamente, sob pena de tornar-se obrigatório o regime da</p><p>separação de bens. O viúvo, ou viúva, que pretender casar-</p><p>se em outro regime de bens deverá requerer a abertura de</p><p>inventário negativo, para comprovar que não está sujeito</p><p>àquela causa suspensiva de casamento.</p><p>Em igual situação encontra-se o divorciado que se casar antes</p><p>de homologar ou decidir a partilha dos bens do casal (CC, art.</p><p>1.523, II). Para que se celebrem as novas núpcias no regime da</p><p>comunhão, não basta o simples inventário, sendo necessário</p><p>se homologue a respectiva partilha.</p><p>O parágrafo único do art. 1.523 permite aos nubentes solicitar</p><p>ao juiz que não lhes sejam aplicadas as causas suspensivas</p><p>do casamento, provando a inexistência de prejuízo para o</p><p>herdeiro. Uma das formas de efetuar essa prova é exatamente</p><p>o inventário negativo.</p><p>124</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Tal exemplo, porém, não é aceito de forma pacífica. Para Farias e Rosenvald</p><p>(2015), há falta de interesse de agir nestes casos, pois o afastamento da condição</p><p>suspensiva pode ser solicitado na própria habilitação para o casamento ou em</p><p>ação judicial própria.</p><p>Veja o que os autores escreveram sobre o assunto:</p><p>O inventário negativo</p><p>Malgrado o inventário tenha como pressuposto existencial (ratio</p><p>essendi) a transmissão dos bens pelo falecido, fala-se, abertamente,</p><p>em nossa doutrina e jurisprudência sobre o inventário negativo.</p><p>Trata-se de uma figura criada jurisprudencialmente, permitindo</p><p>ao interessado formular ao juiz um pedido declaratório de que</p><p>uma determinada pessoa faleceu sem deixar patrimônio a ser</p><p>inventariado. Enfim, um pedido de que alguém faleceu sem deixar</p><p>bens ou valores econômicos.</p><p>Seguindo o entendimento de Paulo Cezar Pinheiro Carneiro,</p><p>“o inventário negativo é uma verdadeira aberração jurídica”, porque</p><p>“o inventário pressupõe necessariamente a existência de bens, o</p><p>que decorre de sua própria natureza”. Até porque o procedimento</p><p>de inventário é tendente à apuração dos bens transmitidos, a</p><p>sua avaliação para posterior partilha entre os sucessores. O seu</p><p>pressuposto ontológico, por conseguinte, é a existência de bens</p><p>transmitidos pela morte do titular.</p><p>Entrementes, a doutrina e a jurisprudência vêm admitindo o</p><p>inventário negativo para atender aos interesses de alguém que</p><p>pretende obter uma declaração judicial de inexistência de bens</p><p>deixados pelo defunto.</p><p>Ao que nos parece, o problema é mais vocabular do que jurídico. A</p><p>expressão inventário negativo se mostra, de fato, pouco coerente e, de</p><p>certo modo, paradoxal. O que se pretende nele, em verdade, é, tão só,</p><p>uma declaração judicial da inexistência de bens de uma determinada</p><p>pessoa que faleceu, para a obtenção de certos efeitos jurídicos.</p><p>125</p><p>Inventário e Partilha Capítulo 4</p><p>Aliás, qualquer interessado tem direito de encarecer ao Judiciário</p><p>uma declaração, certificando a existência, ou inexistência, de um</p><p>determinado fato. Efetivamente, uma pessoa pode ter interesse em</p><p>que se declare a inexistência de bens a serem inventariados de</p><p>titularidade de um morto. Esse interesse não é, necessariamente,</p><p>patrimonial, podendo dizer respeito a obrigações de fazer ou de emitir</p><p>declarações de vontade. Prospectamos alguns casos que podem,</p><p>abstrata e hipoteticamente, justificar a propositura do inventário</p><p>negativo: a outorga de escritura pública na promessa de compra e</p><p>venda feita pelo falecido, a descaracterização de uma herança como</p><p>jacente ou repelir a tributação estatal.</p><p>Explica Gérson Fischmann que “o chamado inventário</p><p>negativo assume, assim, um nítido caráter preventivo, como, aliás,</p><p>é característica das ações declaratórias. Mas não se faz inventário,</p><p>não se nomeia inventariante (porque não há o que inventariar)”.</p><p>Disso não discrepam Sebastião Amorim e Euclides de Oliveira,</p><p>para quem o inventário negativo se mostra útil “sempre que haja</p><p>necessidade de se cumprir obrigações do espólio, como a de outorga</p><p>de escritura a compromissários compradores de imóveis vendidos</p><p>pelo autor da herança em vida”.</p><p>É dizer: a possibilidade de promoção de um pleito de inventário</p><p>negativo está relacionada à obtenção de declaração judicial de</p><p>inexistência da obrigatoriedade de abertura de um inventário,</p><p>para que seja possível colher efeitos jurídicos específicos. Há</p><p>interessantes exemplos na casuística jurisprudencial, servindo para</p><p>demonstrar a presença do interesse de agir no inventário negativo:</p><p>Conquanto sustentem que nada receberam com a morte do</p><p>devedor originário, já que este não possuía bens em seu</p><p>nome, nenhuma prova foi produzida neste sentido, sendo</p><p>certo que a mera inserção de observação na certidão de óbito,</p><p>no sentido de que o falecido não deixou bens e testamento,</p><p>é incapaz de afastar o direcionamento da persecução do</p><p>crédito em desfavor dos sucessores. A abertura de inventário</p><p>negativo, na casuística, seria o único meio apto a afastar a</p><p>responsabilização dos herdeiros.</p><p>(TJ/RS, Ac. 18a Câmara Cível, ApCív. 70062152194 – Comarca</p><p>de São Sebastião do Caí, Rel. Des. Pedro Celso Dal Pra, j.</p><p>11.12.14, DJRS 15.12.14)</p><p>Apesar de não estar previsto em lei, o inventário negativo</p><p>passou a ser admitido pela doutrina e jurisprudência quando</p><p>há interesse na demonstração da inexistência de bens a</p><p>inventariar, elemento este que deve ser aferido em cada caso.</p><p>126</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Quando há a necessidade de provar a insolvência do de cujus,</p><p>há interesse e utilidade na propositura do inventário negativo.</p><p>(TJ/SC, Ac. unân. 2ª Câmara de Direito Civil, ApCív.</p><p>2012.080726-7 – comarca de Lages, Rel. Des. Gilberto Gomes</p><p>de Oliveira, j. 23.5.13)</p><p>Advirta-se que não há interesse de agir na propositura de</p><p>inventário negativo para afastar causa suspensiva de casamento</p><p>(CC, art. 1.523), com vistas a demonstrar que não se abriu inventário</p><p>porque o falecido ex-cônjuge de um dos noivos não deixou bens</p><p>a inventariar. Isso porque o pedido de afastamento das causas</p><p>suspensivas pode ser feito na própria habilitação para o casamento</p><p>– ou posteriormente, através de ação própria ou incidentalmente</p><p>em alguma outra ação (como o inventário e o divórcio), conforme</p><p>previsão do parágrafo único do art. 1.523 da Codificação de 2002.</p><p>Art. 1.523, parágrafo único, Código Civil:</p><p>É permitido aos nubentes solicitar ao juiz que não lhes sejam</p><p>aplicadas as causas suspensivas previstas nos incisos I,</p><p>III e IV deste artigo, provando-se a inexistência de prejuízo,</p><p>respectivamente, para o herdeiro, para o ex-cônjuge e para a</p><p>pessoa tutelada ou curatelada; no caso do inciso II, a nubente</p><p>deverá provar nascimento de filho, ou inexistência de gravidez,</p><p>na fluência do prazo.</p><p>Com isso, esvazia-se, nessa hipótese, a necessidade de propositura do</p><p>inventário negativo. Não há mais necessidade de aforamento de uma ação</p><p>para que o juiz reconheça que o falecido consorte não deixou bens a partilhar.</p><p>Atualmente, o interessado pode formular esse pedido de reconhecimento do</p><p>óbito sem deixar bens diretamente no procedimento administrativo de habilitação</p><p>para o novo casamento do viúvo ou da viúva ou mesmo incidentalmente em</p><p>alguma outra ação em que se discuta a matéria, conforme permissivo do aludido</p><p>dispositivo legal. Por tudo isso, não é cabível a propositura de inventário negativo</p><p>para a específica finalidade de provar a inexistência de patrimônio do falecido com</p><p>vistas ao afastamento de causa suspensiva para novas núpcias do(a) viúvo(a),</p><p>por absoluta falta de interesse de agir.</p><p>De qualquer modo, o inventário negativo não estará submetido às regras</p><p>do procedimento de inventário, não havendo necessidade de nomeação de</p><p>inventariante, nem de prestação de primeiras declarações e avaliações, até</p><p>mesmo porque inexiste patrimônio a ser inventariado. Não se trata, também,</p><p>de procedimento especial de jurisdição voluntária. Cuida-se, em verdade, de</p><p>procedimento comum ordinário, visivelmente litigioso.</p><p>127</p><p>Inventário e Partilha Capítulo 4</p><p>O Ministério Público somente precisará intervir como fiscal da ordem jurídica</p><p>(custos juris) no inventário negativo se houver interesse de incapaz. Nesse caso,</p><p>atuará com liberdade funcional, não se atrelando à defesa de seus interesses,</p><p>podendo, até mesmo, se manifestar contra o incapaz.</p><p>Outrossim, é de fundamental importância,</p><p>em relação à proteção jurídica</p><p>de terceiros, sublinhar que a decisão prolatada na ação de inventário negativo</p><p>não atingirá a esfera jurídica de terceiros. Assim, a sentença que, eventualmente,</p><p>reconhecer que o falecido não deixou bens não impedirá terceiros-interessados de</p><p>ajuizar demandas contra o espólio (ou os sucessores) do extinto. A uma, porque</p><p>não foram partes do processo. A duas, porque somente lhes poderia arguir a</p><p>existência de coisa julgada erga omnes se tivesse ocorrido uma citação editalícia</p><p>no inventário negativo – o que, a toda evidência, inexiste. Nessa ordem de ideias,</p><p>nada impede que os terceiros-interessados possam demandar o espólio (ou os</p><p>sucessores) do falecido, formulando os pedidos que entendam cabíveis.</p><p>In fine, se registre quem vem sendo admitido o inventário negativo por escritura</p><p>pública, conforme previsão do art. 28 da Resolução no 35 do Conselho Nacional de</p><p>Justiça, desde que todas as partes sejam capazes e concordes e estejam assistidas</p><p>por advogado comum ou advogados de cada uma delas ou por defensor público.</p><p>FONTE: Rosenvald e Farias (2015).</p><p>2.1 Inventário de Rito Formal e</p><p>Solene</p><p>Em geral, o inventário deverá ser aberto no foro de domicílio do</p><p>autor da herança. Caso não tenha domicílio, o procedimento será aberto</p><p>onde se situem os bens imóveis; caso haja mais de um bem imóvel,</p><p>qualquer dos foros é competente. Porém, caso não existam bens</p><p>imóveis, o foro competente será o local onde estiverem qualquer dos</p><p>bens do espólio (art. 48, do NCPC).</p><p>Uma vez requerida a abertura do inventário pelo rito tradicional e</p><p>solene, instruída com a certidão de óbito do autor da herança (art. 615,</p><p>Parágrafo Único, NCPC), o juiz deverá nomear um inventariante para</p><p>administrar e representar a herança até a partilha. Essa nomeação deve</p><p>seguir a ordem estabelecida no artigo 617 do Novo Código de Processo</p><p>Civil, a saber:</p><p>Uma vez requerida</p><p>a abertura do</p><p>inventário pelo rito</p><p>tradicional e solene,</p><p>instruída com a</p><p>certidão de óbito do</p><p>autor da herança</p><p>(art. 615, Parágrafo</p><p>Único, NCPC), o</p><p>juiz deverá nomear</p><p>um inventariante</p><p>para administrar</p><p>e representar a</p><p>herança até a</p><p>partilha.</p><p>128</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Art. 617: O juiz nomeará inventariante na seguinte ordem:</p><p>I - o cônjuge ou companheiro sobrevivente, desde que estivesse</p><p>convivendo com o outro ao tempo da morte deste;</p><p>II - o herdeiro que se achar na posse e na administração do</p><p>espólio, se não houver cônjuge ou companheiro sobrevivente</p><p>ou se estes não puderem ser nomeados;</p><p>III - qualquer herdeiro, quando nenhum deles estiver na posse</p><p>e na administração do espólio;</p><p>IV - o herdeiro menor, por seu representante legal;</p><p>V - o testamenteiro, se lhe tiver sido confiada a administração</p><p>do espólio ou se toda a herança estiver distribuída em legados;</p><p>VI - o cessionário do herdeiro ou do legatário;</p><p>VII - o inventariante judicial, se houver;</p><p>VIII - pessoa estranha idônea, quando não houver inventariante</p><p>judicial.</p><p>Esta ordem, porém, pode ser afastada pelo juiz, nos casos em que houver</p><p>motivos justificados para tanto.</p><p>Não é possível que mais de uma pessoa atue como inventariante, devendo</p><p>o juiz optar por um indivíduo nas hipóteses em que mais de uma pessoa seja</p><p>passível de atuar como tal. Em relação ao cônjuge ou companheiro, é preciso</p><p>destacar que sua prerrogativa para o cargo independe do regime de bens</p><p>acordado durante o relacionamento, podendo atuar como inventariante inclusive</p><p>se o casamento tinha por regime a separação de bens.</p><p>Em regra, a atuação do inventariante não é remunerada, exceto no caso</p><p>do inciso VIII, que se refere ao inventariante dativo, pessoa estranha e idônea</p><p>indicada pelo juiz.</p><p>Uma vez nomeado, o inventariante será intimado e deverá prestar compromisso</p><p>de desempenho do cargo, no prazo de 5 dias (art. 617, Parágrafo Único, Novo CPC).</p><p>Suas atribuições estão elencadas nos artigos 618 e 619, NCPC, que assim dispõe:</p><p>Art. 618 Incumbe ao inventariante:</p><p>I - representar o espólio ativa e passivamente, em juízo ou fora</p><p>dele, observando-se, quanto ao dativo, o disposto no art. 75,</p><p>§ 1º;</p><p>II - administrar o espólio, velando-lhe os bens com a mesma</p><p>diligência que teria se seus fossem;</p><p>III - prestar as primeiras e as últimas declarações pessoalmente</p><p>ou por procurador com poderes especiais;</p><p>IV - exibir em cartório, a qualquer tempo, para exame das</p><p>partes, os documentos relativos ao espólio;</p><p>V - juntar aos autos certidão do testamento, se houver;</p><p>VI - trazer à colação os bens recebidos pelo herdeiro ausente,</p><p>renunciante ou excluído;</p><p>VII - prestar contas de sua gestão ao deixar o cargo ou sempre</p><p>que o juiz lhe determinar;</p><p>VIII - requerer a declaração de insolvência.</p><p>129</p><p>Inventário e Partilha Capítulo 4</p><p>Art. 619 Incumbe ainda ao inventariante, ouvidos os</p><p>interessados e com autorização do juiz:</p><p>I - alienar bens de qualquer espécie;</p><p>II - transigir em juízo ou fora dele;</p><p>III - pagar dívidas do espólio;</p><p>IV - fazer as despesas necessárias para a conservação e o</p><p>melhoramento dos bens do espólio.</p><p>Importante destacar que o espólio, ou seja, o conjunto de ativos e passivos</p><p>deixado pelo falecido, não possui personalidade jurídica, motivo pelo qual será</p><p>representado e administrado pelo inventariante em juízo até que se opere a partilha.</p><p>Caso descumpra seus deveres, o inventariante poderá ser retirado de suas</p><p>funções e substituído por outro indivíduo, a requerimento das partes ou mesmo</p><p>de ofício, por iniciativa do próprio juiz. O artigo 622 do NCPC elenca hipóteses</p><p>exemplificativas nas quais a remoção é justificável:</p><p>Art. 622 O inventariante será removido de ofício ou a</p><p>requerimento:</p><p>I - se não prestar, no prazo legal, as primeiras ou as últimas</p><p>declarações;</p><p>II - se não der ao inventário andamento regular, se suscitar</p><p>dúvidas infundadas ou se praticar atos meramente protelatórios;</p><p>III - se, por culpa sua, bens do espólio se deteriorarem, forem</p><p>dilapidados ou sofrerem dano;</p><p>IV - se não defender o espólio nas ações em que for citado, se</p><p>deixar de cobrar dívidas ativas ou se não promover as medidas</p><p>necessárias para evitar o perecimento de direitos;</p><p>V - se não prestar contas ou se as que prestar não forem</p><p>julgadas boas;</p><p>VI - se sonegar, ocultar ou desviar bens do espólio.</p><p>O inventariante será intimado para se defender e produzir provas em até</p><p>15 dias (art. 623, NCPC), devendo o juiz decidir sobre sua substituição após o</p><p>término do prazo. Uma vez removido, o inventariante entregará ao seu substituto</p><p>os bens do espólio, sendo a recusa passível de mandado de busca e apreensão,</p><p>imissão na posse e multa (art. 625).</p><p>Vinte dias após prestação do compromisso, o inventariante deverá prestar as</p><p>primeiras declarações (art. 620, NCPC), nas quais deve constar:</p><p>Art. 620 [...]</p><p>I - o nome, o estado, a idade e o domicílio do autor da herança,</p><p>o dia e o lugar em que faleceu e se deixou testamento;</p><p>II - o nome, o estado, a idade, o endereço eletrônico e a</p><p>residência dos herdeiros e, havendo cônjuge ou companheiro</p><p>supérstite, além dos respectivos dados pessoais, o regime de</p><p>bens do casamento ou da união estável;</p><p>III - a qualidade dos herdeiros e o grau de parentesco com o</p><p>inventariado;</p><p>130</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>IV - a relação completa e individualizada de todos os bens do</p><p>espólio, inclusive aqueles que devem ser conferidos à colação, e</p><p>dos bens alheios que nele forem encontrados, descrevendo-se:</p><p>a) os imóveis, com as suas especificações, nomeadamente</p><p>local em que se encontram, extensão da área, limites,</p><p>confrontações, benfeitorias, origem dos títulos, números das</p><p>matrículas e ônus que os gravam;</p><p>b) os móveis, com os sinais característicos;</p><p>c) os semoventes, seu número, suas espécies, suas marcas e</p><p>seus sinais distintivos;</p><p>d) o dinheiro, as joias, os objetos de ouro e prata e as pedras</p><p>preciosas, declarando-se-lhes especificadamente a qualidade,</p><p>o peso e a importância;</p><p>e) os títulos da dívida pública, bem como as ações, as quotas</p><p>e os títulos de sociedade, mencionando-se-lhes o número, o</p><p>valor e a data;</p><p>f)</p><p>as dívidas ativas e passivas, indicando-se-lhes as datas, os</p><p>títulos, a origem da obrigação e os nomes dos credores e dos</p><p>devedores;</p><p>g) direitos e ações;</p><p>h) o valor corrente de cada um dos bens do espólio.</p><p>Ainda que os imóveis não estejam registrados em nome do falecido, devem</p><p>ser indicados se a ele pertenciam ou se ele detinha sua posse. Mesmo os bens</p><p>alheios, conforme art. 620, IV, precisam ser elencados, com menção a seus</p><p>donos, para que possam ser destacados na partilha.</p><p>Se o falecido tiver atuado como comerciante em nome individual, o juiz procederá</p><p>ao balanço do estabelecimento com nomeação de contador (art. 620, §1º, I); se tiver</p><p>atuado como sócio de sociedade não anônima, haverá apuração de haveres desde</p><p>que sua morte não acarrete em extinção da sociedade (art. 620, §1º, II).</p><p>Prestadas as primeiras declarações, o juiz deverá citar todos os interessados</p><p>no inventário e na partilha, como cônjuge, herdeiros, legatários, Fazenda Pública,</p><p>Ministério Público (caso haja herdeiro incapaz ou ausente) e testamenteiro (se</p><p>houver testamento). As citações serão feitas por correio e publicadas em edital,</p><p>com cópias das primeiras declarações (art. 626 e parágrafos).</p><p>Concluídas as citações, as partes terão o prazo de 15 dias para se</p><p>manifestarem sobre as declarações prestadas, podendo arguir erros, omissões</p><p>e sonegação de bens; reclamar contra a nomeação do inventariante e contestar</p><p>a qualidade de herdeiro (art. 627). Se o juiz julgar procedente as impugnações,</p><p>mandará retificar as declarações prestadas; se acolher a reclamação contra</p><p>inventariante, deverá nomear outra pessoa para o cargo; e se a questão sobre</p><p>qualidade de herdeiro for considerada complexa, deverá seguir em procedimento</p><p>ordinário, sendo que a entrega do quinhão ao herdeiro ficará sobrestada até a o</p><p>julgamento da ação (art. 627. §3º).</p><p>131</p><p>Inventário e Partilha Capítulo 4</p><p>Caso algum dos herdeiros se sinta preterido, pode solicitar sua inclusão no</p><p>inventário a qualquer momento antes da partilha. O juiz deverá ouvir as partes em</p><p>quinze dias e decidirá sobre a questão (art. 628).</p><p>Findas as questões arguidas nesta etapa, o juiz determinará a avaliação dos</p><p>bens inventariados, sobre o qual incidirá o imposto por transmissão causa mortis</p><p>(art. 630). Entregue o laudo pericial de avaliação, as partes deverão se manifestar</p><p>em 15 dias (art. 635); caso haja impugnação do valor apresentado, o juiz deve</p><p>decidir de plano e, julgando procedente a impugnação, deverá solicitar sua correção.</p><p>O imposto sobre transmissão causa mortis e doação é um imposto</p><p>de competência estadual que incide sobre a transmissão gratuita de</p><p>bens e/ou direitos, como ocorre na transmissão da herança. Trata-se</p><p>de matéria do direito tributário, que merece atenção por parte do jurista</p><p>responsável por procedimento de inventário e partilha.</p><p>Aceito o laudo, o inventariante procederá às últimas declarações, nas</p><p>quais poderá emendar, aditar ou complementar as primeiras (art. 636). É a</p><p>oportunidade de descrever bens esquecidos ou desconhecidos, retificar as</p><p>primeiras declarações ou mesmo fornecer elementos que facilitem a partilha.</p><p>As partes serão ouvidas em 15 dias, e, não havendo impugnações, será feito</p><p>o cálculo do tributo por transmissão causa mortis (art. 637). Feito o cálculo, as</p><p>partes poderão se manifestar em até 5 dias (art. 638) e, havendo impugnação</p><p>julgada procedente por parte do juiz, os autos serão remetidos para retificação</p><p>ao contabilista (art. 638, §1º). Em seguida, passa-se a partilha, a ser</p><p>estudada no último tópico deste capítulo.</p><p>Vejamos, agora, o procedimento de arrolamento sumário.</p><p>2.2 Arrolamento Sumário</p><p>Como afirma Gonçalves (2012, p. 579), “o arrolamento sumário</p><p>constitui forma simplificada de inventário-partilha, permitida quando</p><p>todos os herdeiros são capazes e convierem em fazer partilha amigável</p><p>dos bens deixados pelo falecido, qualquer que seja o seu valor”.</p><p>Como afirma</p><p>Gonçalves (2012, p.</p><p>579), “o arrolamento</p><p>sumário constitui</p><p>forma simplificada de</p><p>inventário-partilha,</p><p>permitida quando</p><p>todos os herdeiros</p><p>são capazes e</p><p>convierem em fazer</p><p>partilha amigável dos</p><p>bens deixados pelo</p><p>falecido, qualquer</p><p>que seja o seu valor”.</p><p>132</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Regulamentado pelo artigo 659 a 663 do Novo Código de Processo Civil e</p><p>seguintes, o arrolamento sumário basta que as partes sejam capazes e estejam de</p><p>acordo quanto à divisão de bens para que este procedimento seja possível. Trata-</p><p>se de um inventário administrativo chancelado por autoridade judicial. Os herdeiros</p><p>devem constituir procurador e apresentar termo de partilha, por instrumento público</p><p>ou particular, a ser homologado pelo juiz. Se houver testamento, o testamenteiro</p><p>deve fiscalizar o feito, junto do Ministério Público. O procedimento também pode ser</p><p>utilizado nos casos em que houver herdeiro único (art. 659, §1º).</p><p>Quanto às fases processuais, diz o artigo 660 do Novo CPC:</p><p>Art. 660 Na petição de inventário, que se processará na forma</p><p>de arrolamento sumário, independentemente da lavratura de</p><p>termos de qualquer espécie, os herdeiros:</p><p>I - requererão ao juiz a nomeação do inventariante que</p><p>designarem;</p><p>II - declararão os títulos dos herdeiros e os bens do espólio,</p><p>observado o disposto no art. 630;</p><p>III - atribuirão valor aos bens do espólio, para fins de partilha.</p><p>Observe-se, portanto, que na petição inicial os herdeiros deverão requerer</p><p>a nomeação de inventariante por eles indicados, além de apresentar o rol de</p><p>herdeiros e a relação de bens, com valor sumário indicado. Questões sobre o</p><p>imposto de transmissão causa mortis não são apreciadas, cabendo ao fisco</p><p>cobrar eventual diferença (art. 662, §1º). Por este motivo</p><p>Dispensa-se por isso a citação da Fazenda, que não intervém</p><p>no arrolamento sumário em vista da homologação de plano</p><p>da partilha. Deverá, no entanto, ser cientificada da sentença</p><p>homologatória, mediante publicação pela imprensa, em</p><p>razão do seu interesse no recolhimento do imposto causa</p><p>mortis, sendo-lhe facultado exigir eventual diferença na via</p><p>administrativa, mediante lançamento complementar, uma vez</p><p>que não fica adstrita aos valores dos bens do espólio atribuídos</p><p>pelos herdeiros (GONÇALVES, 2012, p. 581).</p><p>No arrolamento sumário, não há que se falar em declarações iniciais ou</p><p>avaliação de bens por perito, exceto se eventuais credores com direito a reserva</p><p>de bens para pagamento de dívidas impugnarem as estimativas apresentadas</p><p>pelo próprio inventariante (art. 663, Parágrafo Único). A partilha é homologada</p><p>mediante prova da quitação dos impostos, sendo o formal de partilha expedido</p><p>logo após o decurso do prazo recursal.</p><p>133</p><p>Inventário e Partilha Capítulo 4</p><p>2.3 Arrolamento Comum</p><p>Além do arrolamento sumário, o Novo Código de Processo Civil</p><p>prevê a possibilidade de arrolamento comum, conforme artigos 664 a 667,</p><p>a se efetuar quando os bens do falecido não ultrapassarem a quantia de</p><p>1.000 salários mínimos (art. 664), sendo possível a atuação de herdeiro</p><p>incapaz com a devida intervenção do Ministério Público (art. 665).</p><p>O inventariante nomeado apresentará suas declarações, com</p><p>estimativa de valor dos bens e com plano de partilha, o qual deve conter</p><p>os respectivos orçamentos e folhas de pagamento a cada parte. Havendo</p><p>impugnação da estimativa, o juiz nomeará avaliador. Inexistindo tal</p><p>impugnação, sendo aceito o plano de partilha e realizado o pagamento do</p><p>imposto de transmissão causa mortis, o juiz julgará a partilha.</p><p>O artigo 666 menciona, ainda, a hipótese de alvará judicial, cabível</p><p>para pequena transmissão de dinheiro. O alvará judicial é substitutivo de</p><p>inventário e será cabível nas hipóteses previstas na Lei nº 6.858, de 24</p><p>de novembro de 1980: a) inexistência de outros bens a partilhar, além</p><p>de dinheiro; b) os valores pecuniários deixados não ultrapassem 500 Obrigações</p><p>do Tesouro Nacional, cujo valor aproximado atualmente é de R$10.000,00. O juiz</p><p>libera o alvará independentemente de cobrança de tributo e</p><p>haverá intervenção</p><p>do Ministério Público quando houver interesse de incapaz.</p><p>QUADRO 1 – DOS DIFERENTES TIPOS DE DIVISÃO DE HERANÇA</p><p>Tipo de divisão de</p><p>herança</p><p>Necessidade</p><p>de capacidade</p><p>dos herdeiros</p><p>Necessidade</p><p>de acordo entre</p><p>herdeiros</p><p>Valor dos bens</p><p>do espólio</p><p>Termos e</p><p>declarações do</p><p>inventariante</p><p>Avaliação dos</p><p>bens por perito</p><p>Inventário Extrajudicial Sim Sim Inexistente Desnecessárias</p><p>Apenas se houver</p><p>impugnação de</p><p>credores</p><p>Inventário formal e</p><p>solene</p><p>Não Não</p><p>Acima de 1.000</p><p>salários mínimos</p><p>Necessárias Necessária</p><p>Arrolamento Sumário</p><p>(inventário administrativo</p><p>homologado</p><p>por juiz)</p><p>Sim Sim Inexistente Desnecessárias</p><p>Apenas se houver</p><p>impugnação de</p><p>credores</p><p>Arrolamento Comum Não Não</p><p>Até 1.000</p><p>salários mínimos</p><p>Necessárias</p><p>Apenas se houver</p><p>impugnação de</p><p>herdeiros ou</p><p>Ministério Público.</p><p>Alvará Judicial Não Não</p><p>Apenas quantias</p><p>em dinheiro de</p><p>até 500 OTNs</p><p>Desnecessárias</p><p>Não se aplica,</p><p>pois trata-se de</p><p>alvará judicial</p><p>FONTE: A autora</p><p>Além do arrolamento</p><p>sumário, o Novo</p><p>Código de Processo</p><p>Civil prevê a</p><p>possibilidade de</p><p>arrolamento comum,</p><p>conforme artigos</p><p>664 a 667, a se</p><p>efetuar quando os</p><p>bens do falecido</p><p>não ultrapassarem</p><p>a quantia de 1.000</p><p>salários mínimos</p><p>(art. 664), sendo</p><p>possível a atuação de</p><p>herdeiro incapaz com</p><p>a devida intervenção</p><p>do Ministério Público</p><p>(art. 665).</p><p>134</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Atividade de Estudos:</p><p>1) Aponte as principais diferenças entre o inventário formal e solene,</p><p>o arrolamento sumário e o arrolamento comum.</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>3 Colação</p><p>Conforme Gonçalves (2012, p. 614):</p><p>Colação é o ato pelo qual os herdeiros descendentes que</p><p>concorrem à sucessão do ascendente comum declaram no</p><p>inventário as doações que dele em vida receberam, sob pena de</p><p>sonegados, para que sejam conferidas e igualadas as respectivas</p><p>legítimas (CC, arts. 2.002 e 2.003). É dever imposto ao herdeiro,</p><p>pois a doação de ascendentes a descendentes “importa</p><p>adiantamento do que lhes cabe por herança” (CC, art. 544).</p><p>A colação se fundamenta no princípio da equidade, no sentido de</p><p>assegurar igualdade de divisão entre os herdeiros, levando em consideração a</p><p>vontade presumida do falecido.</p><p>O Código Civil obriga à colação apenas os descendentes (art. 2.002, CC),</p><p>embora uma leitura combinada dos artigos 2.003 (que estabelece como objetivo</p><p>da colação a igualdade das legítimas entre descentes e cônjuges) e 544 (que</p><p>considera a doação feita entre cônjuges como adiantamento da herança)</p><p>Colação é o ato pelo</p><p>qual os herdeiros</p><p>descendentes</p><p>que concorrem</p><p>à sucessão do</p><p>ascendente</p><p>comum declaram</p><p>no inventário as</p><p>doações que dele</p><p>em vida receberam.</p><p>135</p><p>Inventário e Partilha Capítulo 4</p><p>permitam inferir que o cônjuge também deverá prestá-la, quando concorrerem com</p><p>descendentes. Os netos que representem seus pais também deverão colecionar,</p><p>conforme previsão expressa do artigo 2.009: “Quando os netos, representando</p><p>os seus pais, sucederem aos avós, serão obrigados a trazer à colação, ainda que</p><p>não o hajam herdado, o que os pais teriam de conferir”.</p><p>Por força deste dispositivo, é possível afirmar que os descendentes chamados</p><p>à sucessão na qualidade de herdeiro necessário mediante representação,</p><p>deverão fazer a colação dos bens doados. Portanto, os bisnetos e trinetos em</p><p>representação também deverão colacionar. Os herdeiros que tenham renunciado</p><p>a herança, ou tenham sido excluídos por indignidade, deverão ainda assim</p><p>colacionar os bens (art. 2.008, CC).</p><p>Importante mencionar que as doações sujeitas à colação são aquelas operadas</p><p>na época em que o donatário já era descendente necessário. Assim, exemplifica</p><p>Gonçalves (2012, p. 619): “a doação feita ao filho adotivo é sujeita a ser conferida.</p><p>Mas a que foi feita antes do ato de adoção não o é, porque na data da liberalidade</p><p>ele não seria chamado a suceder na qualidade de herdeiro necessário”.</p><p>As doações poderão ser reduzidas se ultrapassam o valor do patrimônio</p><p>disponível do falecido, ou seja, se ele vier a doar um valor maior do que o da</p><p>herança de seus demais herdeiros necessários (art. 2.007, CC).</p><p>São dispensados da colação, conforme os art. 2.010, “os gastos ordinários</p><p>do ascendente com o descendente, enquanto menor, na sua educação, estudos,</p><p>sustento, vestuário, tratamento nas enfermidades, enxoval, assim como as</p><p>despesas de casamento, ou as feitas no interesse de sua defesa em processo-</p><p>crime” e 2.011 “as doações remuneratórias de serviços feitos ao ascendente”. Um</p><p>exemplo deste último caso, seria quando o filho recebesse alimentos e moradia,</p><p>em troca de cuidar do falecido, quando idoso, em seus momentos finais de vida.</p><p>O artigo 2.004, §2º, exclui da colação as benfeitorias acrescidas aos bens</p><p>doados e os frutos e rendimentos destes bens até a data do falecimento do autor</p><p>da herança.</p><p>Ademais, falecido também pode, por escolha própria, liberar herdeiro da</p><p>colação desde que o valor ou bem doado não ultrapasse a legítima cabível aos</p><p>herdeiros necessários no tempo da doação (art. 2005). A dispensa pode ser</p><p>registrada em testamento ou no próprio documento relativo à doação (art. 2.006).</p><p>Caso a doação seja feita ao descendente por ambos os cônjuges, o artigo</p><p>2.012 do Código Civil preceitua que “no inventário de cada um se conferirá pela</p><p>metade”. Como afirma Gonçalves (2012, p. 629): “Presume-se que cada doador</p><p>136</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>efetuou a gratificação com relação à metade do bem. Por essa razão, no inventário</p><p>de cada um dos cônjuges se conferirá o que for doado por metade”.</p><p>O procedimento de colação é descrito nos artigos 639 a 641 do Novo Código</p><p>de Processo Civil. Os herdeiros obrigados à colação devem reporta-los, em até</p><p>15 dias após as citações, sendo avaliados conforme o valor que detinham na</p><p>abertura da sucessão.</p><p>Caso o bem ultrapasse a legítima reservada aos herdeiros, os parágrafos do</p><p>artigo 640 dispõe que:</p><p>Art. 640 [...]</p><p>§ 1º É lícito ao donatário escolher, dentre os bens doados, tantos</p><p>quantos bastem para perfazer a legítima e a metade disponível,</p><p>entrando na partilha o excedente para ser dividido entre os</p><p>demais herdeiros.</p><p>§ 2º Se a parte inoficiosa da doação recair sobre bem imóvel que</p><p>não comporte divisão cômoda, o juiz determinará que sobre ela</p><p>se proceda a licitação entre os herdeiros.</p><p>§ 3º O donatário poderá concorrer na licitação referida no §2º e,</p><p>em igualdade de condições, terá preferência sobre os herdeiros.</p><p>É possível que o herdeiro alegue a desnecessidade de apresentar os bens</p><p>à colação ou negue que os tenha recebido. Neste caso, o juiz deverá ouvir as</p><p>partes em 15 dias e após decidir sobre as alegações. Sendo improcedente a</p><p>oposição do herdeiro, caso este continue a se recusar a apresentar os bens, o</p><p>juiz poderá mandar sequestra-los ou abater do quinhão hereditário os respectivos</p><p>valores (art. 641, §1º).</p><p>4 Sonegados</p><p>Caso o inventariante, ao prestar declarações, omita bens ou</p><p>valores do espólio, ou caso um herdeiro não descreva corretamente os</p><p>bens do falecido que estejam em sua posse, terão cometido o delito</p><p>civil de sonegação.</p><p>O bem sonegado, conforme Maximiliano (1942, p. 93) é todo aquele</p><p>que “deveria entrar em partilha, porém foi ciente e conscientemente</p><p>omitido na descrição de bens pelo inventariante, não restituído</p><p>pelo</p><p>mesmo ou por sucessor universal, ou doado a herdeiro e não trazido à</p><p>colação pelo beneficiado com a liberdade”.</p><p>As penas para tal prática estão elencadas no Código Civil, que assim dispõe:</p><p>Caso o</p><p>inventariante, ao</p><p>prestar declarações,</p><p>omita bens ou</p><p>valores do espólio,</p><p>ou caso um herdeiro</p><p>não descreva</p><p>corretamente os</p><p>bens do falecido</p><p>que estejam em</p><p>sua posse, terão</p><p>cometido o delito</p><p>civil de sonegação.</p><p>137</p><p>Inventário e Partilha Capítulo 4</p><p>Art.1.992 O herdeiro que sonegar bens da herança, não os</p><p>descrevendo no inventário quando estejam em seu poder, ou,</p><p>com o seu conhecimento, no de outrem, ou que os omitir na</p><p>colação, a que os deva levar, ou que deixar de restituí-los,</p><p>perderá o direito que sobre eles lhe cabia.</p><p>Art. 1.993. Além da pena cominada no artigo antecedente, se</p><p>o sonegador for o próprio inventariante, remover-se-á, em se</p><p>provando a sonegação, ou negando ele a existência dos bens,</p><p>quando indicados.</p><p>Os sujeitos passíveis de cometer tais ilícitos são o inventariante; os</p><p>herdeiros; os cessionários do herdeiro e o testamenteiro. Para sua configuração,</p><p>e necessário o dolo, ou seja, a intenção consciente de se ocultar a existência ou</p><p>características importantes do bem a ser inventariado.</p><p>A ação de sonegados só pode ser ajuizada por herdeiros ou credores</p><p>da herança, individualmente, sendo que sua sentença aproveita a todos os</p><p>interessados (art. 1994, CC). Seu prazo prescricional é o de 10 anos, motivo pelo</p><p>qual mesmo finda a partilha, ela poderá ser ajuizada com o intuito de corrigir a</p><p>divisão de bens, a ser corrigida na sobrepartilha (art. 2.022, CC).</p><p>5 Pagamento das Dívidas</p><p>Antes e/ou durante o procedimento de inventário, o credor do</p><p>falecido poderá exigir o pagamento das dívidas deixadas, que não se</p><p>extinguem com a morte, devendo o espólio ser utilizado para quitá-las.</p><p>O Código Civil elenca as dívidas a serem prioritariamente pagas:</p><p>Art. 965 Goza de privilégio geral, na ordem seguinte,</p><p>sobre os bens do devedor:</p><p>I - o crédito por despesa de seu funeral, feito</p><p>segundo a condição do morto e o costume do lugar;</p><p>II - o crédito por custas judiciais, ou por despesas com a</p><p>arrecadação e liquidação da massa;</p><p>III - o crédito por despesas com o luto do cônjuge sobrevivo e</p><p>dos filhos do devedor falecido, se foram moderadas;</p><p>IV - o crédito por despesas com a doença de que faleceu o</p><p>devedor, no semestre anterior à sua morte;</p><p>V - o crédito pelos gastos necessários à mantença do devedor</p><p>falecido e sua família, no trimestre anterior ao falecimento;</p><p>VI - o crédito pelos impostos devidos à Fazenda Pública, no</p><p>ano corrente e no anterior;</p><p>VII - o crédito pelos salários dos empregados do serviço</p><p>doméstico do devedor, nos seus derradeiros seis meses de vida;</p><p>VIII - os demais créditos de privilégio geral.</p><p>Antes e/ou durante</p><p>o procedimento de</p><p>inventário, o credor</p><p>do falecido poderá</p><p>exigir o pagamento</p><p>das dívidas</p><p>deixadas, que não</p><p>se extinguem com</p><p>a morte, devendo o</p><p>espólio ser utilizado</p><p>para quitá-las.</p><p>138</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>O credor pode acionar o espólio em juízo, antes da abertura do inventário em</p><p>ação autônoma, ou durante o procedimento, por meio de petição formal de habilitação:</p><p>Art. 642 Antes da partilha, poderão os credores do espólio</p><p>requerer ao juízo do inventário o pagamento das dívidas</p><p>vencidas e exigíveis.</p><p>§ 1º A petição, acompanhada de prova literal da dívida, será</p><p>distribuída por dependência e autuada em apenso aos autos</p><p>do processo de inventário.</p><p>§ 2º Concordando as partes com o pedido, o juiz, ao declarar</p><p>habilitado o credor, mandará que se faça a separação de</p><p>dinheiro ou, em sua falta, de bens suficientes para o pagamento.</p><p>§ 3º Separados os bens, tantos quantos forem necessários para</p><p>o pagamento dos credores habilitados, o juiz mandará aliená-</p><p>los, observando-se as disposições deste Código relativas à</p><p>expropriação.</p><p>§ 4º Se o credor requerer que, em vez de dinheiro, lhe sejam</p><p>adjudicados, para o seu pagamento, os bens já reservados, o</p><p>juiz deferir-lhe-á o pedido, concordando todas as partes.</p><p>§ 5º Os donatários serão chamados a pronunciar-se sobre</p><p>a aprovação das dívidas, sempre que haja possibilidade de</p><p>resultar delas a redução das liberalidades.</p><p>Assim, feito o pedido de habilitação do crédito no inventário, tendo apresentado o</p><p>credor prova do valor da dívida e de sua data de vencimento, inexistindo impugnação,</p><p>o juiz ordenará que parte dos bens seja reservado para o pagamento das dívidas</p><p>apresentadas, sendo permitido ao credor que fique com os bens designados. Os</p><p>indivíduos que tiverem recebido doações do falecido, serão chamados para se</p><p>manifestar sobre as dívidas, se elas diminuírem o valor das doações realizadas.</p><p>Caso haja discordância entre os herdeiros sobre as dívidas apresentadas,</p><p>será necessário discutir sua legitimidade em ação autônoma:</p><p>Art. 643 Não havendo concordância de todas as partes sobre o</p><p>pedido de pagamento feito pelo credor, será o pedido remetido</p><p>às vias ordinárias.</p><p>Parágrafo único. O juiz mandará, porém, reservar, em poder do</p><p>inventariante, bens suficientes para pagar o credor quando a</p><p>dívida constar de documento que comprove suficientemente a</p><p>obrigação e a impugnação não se fundar em quitação.</p><p>As dívidas ainda não vencidas podem ser cobradas no inventário (art.</p><p>644, NCPC) e os legatários deverão se manifestar sobre as dívidas caso</p><p>a herança seja toda dividida em legados ou quando o reconhecimento</p><p>das dívidas diminua o valor destes legados (art. 645, NCPC).</p><p>Uma vez efetivada a partilha, é possível que o credor cobre seus</p><p>créditos diretamente dos herdeiros, na proporção da parte que lhes</p><p>coube na herança.</p><p>Uma vez efetivada a</p><p>partilha, é possível</p><p>que o credor cobre</p><p>seus créditos</p><p>diretamente dos</p><p>herdeiros, na</p><p>proporção da parte</p><p>que lhes coube na</p><p>herança.</p><p>139</p><p>Inventário e Partilha Capítulo 4</p><p>6 Partilha</p><p>Após o inventário, os bens serão partilhados entre os respectivos herdeiros.</p><p>Desta forma, é possível definir a partilha como</p><p>A operação processual pela qual a herança passa do estado</p><p>de comunhão pro indiviso, estabelecido pela morte e pela</p><p>transmissão por força da lei, ao estado de quotas completamente</p><p>separadas, ou ao estado de comunhão pro indiviso, ou pro</p><p>diviso, por força da sentença (MIRANDA, 1983, p. 223).</p><p>O principal efeito da partilha é a extinção do caráter indivisível</p><p>da herança, que se configura com a abertura da sucessão, motivo pelo</p><p>qual a figura do espólio também desaparece.</p><p>Na partilha, tanto é possível que os bens sejam divididos de</p><p>forma determinada, sendo cada um deles discriminado nos quinhões</p><p>hereditários, ou, permite ainda a lei, que os bens indivisíveis continuem</p><p>comum aos herdeiros, de forma que serão regidos pelas normas</p><p>do direito das coisas (art. 1.314 e seguintes do CC). Entretanto, esta</p><p>situação pode ser extinta a qualquer momento mediante solicitação de qualquer</p><p>dos herdeiros, conforme artigos 1.320, §§1º e 2º e art. 2.013 do Código Civil.</p><p>A partilha tem natureza declaratória, pois apenas reconhece uma situação de</p><p>propriedade que já se operou com a morte do de cujus, ou seja, com a abertura</p><p>de sucessão. Pode ser feita de forma amigável, mediante escritura pública,</p><p>documento particular homologado pelo juiz ou nos autos do inventário, quando</p><p>os herdeiros forem capazes e estiverem de acordo com a divisão proposta (art.</p><p>2.015, CC). Se houver herdeiro incapaz ou divergência quanto à distribuição dos</p><p>bens, a partilha será feita de forma judicial (Art. 2.016, CC).</p><p>Nosso ordenamento jurídico admite, ainda, a partilha em vida, feita por</p><p>qualquer ascendente em escritura pública ou testamento, desde que a legítima dos</p><p>herdeiros necessários não seja prejudicada (art. 2018, CC). Se feita em escritura</p><p>pública, denomina-se partilha-doação; se feita em ato de última vontade, chama-se</p><p>partilha-testamento. Em ambos, o autor da herança já distribui os bens entre seus</p><p>herdeiros necessários, estabelecendo a parte de cada um. Se a legítima de algum</p><p>herdeiro for ofendida, será necessário efetuar a redução dos quinhões.</p><p>No caso de partilha judicial, findo o inventário, as partes poderão realizar</p><p>o pedido de quinhão no prazo de quinze dias, decidindo, em seguida, sobre os</p><p>pedidos realizados, observando: “Art. 648 (NCPC). [...] I - a máxima igualdade</p><p>possível quanto ao valor, à natureza e à qualidade dos bens; II - a prevenção</p><p>O principal efeito da</p><p>partilha é a extinção</p><p>do caráter indivisível</p><p>da herança, que</p><p>se configura com</p><p>a abertura da</p><p>sucessão, motivo</p><p>pelo qual a figura</p><p>do espólio também</p><p>desaparece.</p><p>140</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>de litígios futuros; III - a máxima comodidade dos coerdeiros, do cônjuge ou do</p><p>companheiro, se for o caso”.</p><p>Na sequência será organizado um esboço de partilha, que deverá dividir</p><p>os bens observando, em ordem de preferência, as dívidas atendidas; a meação</p><p>do cônjuge; a meação disponível; e os quinhões hereditários, a começar pelo</p><p>herdeiro mais velho (art. 651, NCPC). As partes terão 15 dias para se manifestar</p><p>sobre o esboço e, resolvidas as reclamações, a partilha será lançada nos autos.</p><p>Conforme o artigo 653 do Código Civil, a partilha constará:</p><p>Art. 653 [...]</p><p>I - de auto de orçamento, que mencionará:</p><p>a) os nomes do autor da herança, do inventariante, do cônjuge</p><p>ou companheiro supérstite, dos herdeiros, dos legatários e dos</p><p>credores admitidos;</p><p>b) o ativo, o passivo e o líquido partível, com as necessárias</p><p>especificações;</p><p>c) o valor de cada quinhão;</p><p>II - de folha de pagamento para cada parte, declarando a quota</p><p>a pagar-lhe, a razão do pagamento e a relação dos bens que lhe</p><p>compõem o quinhão, as características que os individualizam e</p><p>os ônus que os gravam.</p><p>A próxima etapa a ser realizada consiste no pagamento do imposto de</p><p>transmissão causa mortis; sendo tal dívida quitada, o juiz irá proferir a sentença</p><p>de partilha. Ocorrido o trânsito em julgado, os herdeiros receberão os respectivos</p><p>bens e o formal de partilha, documento composto pelas seguintes peças: “Art.</p><p>655 [...] I - termo de inventariante e título de herdeiros; II - avaliação dos bens que</p><p>constituíram o quinhão do herdeiro; III - pagamento do quinhão hereditário; IV -</p><p>quitação dos impostos; V - sentença”.</p><p>Após realizada a partilha, é possível que apareçam bens que por algum</p><p>motivo não entraram no inventário. Neste caso, opera-se a sobrepartilha que recai</p><p>sobre os bens: “Art. 669 (NCPC) [...] I - sonegados; II - da herança descobertos</p><p>após a partilha; III - litigiosos, assim como os de liquidação difícil ou morosa; IV -</p><p>situados em lugar remoto da sede do juízo onde se processa o inventário”.</p><p>Com relação aos bens situados em local remoto, diz o artigo 2.021 do</p><p>Código Civil:</p><p>Quando parte da herança consistir em bens remotos do lugar</p><p>do inventário, litigiosos, ou de liquidação morosa ou difícil,</p><p>poderá proceder-se, no prazo legal, à partilha dos outros,</p><p>reservando-se aqueles para uma ou mais sobrepartilhas, sob a</p><p>guarda e a administração do mesmo ou diverso inventariante,</p><p>e consentimento da maioria dos herdeiros.</p><p>141</p><p>Inventário e Partilha Capítulo 4</p><p>Assim, entende a lei que os bens nessas situações podem comprometer a</p><p>finalização da partilha, motivo pelo qual poderão ser partilhados por último, sendo</p><p>mantidos sob a guarda de inventariante.</p><p>A sobrepartilha procedimento correrá nos mesmos autos do inventário</p><p>anterior (art. 670, Parágrafo único), obedecendo as mesmas regras gerais de</p><p>inventário e partilha (art. 670).</p><p>O Código Civil também se preocupou em proteger a igualdade dos herdeiros</p><p>na partilha ao estabelecer que os coerdeiros devem indenizar um herdeiro que</p><p>sofra a perda de bem partilhado em razão de evicção (art. 2.024, CC). A título de</p><p>lembrança, a evicção é a perda da posse ou propriedade de um bem em razão</p><p>do reconhecimento de que este bem, na verdade, pertencia a terceiro antes da</p><p>celebração de contrato – no caso, antes da abertura da sucessão. Os coerdeiros,</p><p>entretanto, estarão livres de tal responsabilidade nas seguintes hipóteses:</p><p>a) quando houver, na partilha, ou em documento separado,</p><p>convenção em contrário, estipulada em termos expressos ou</p><p>genéricos,</p><p>porém inequívocos;</p><p>b) ocorrendo a evicção por culpa do herdeiro evicto; se este,</p><p>por exemplo, poderia ter invocado usucapião e não o fez,</p><p>vindo a perder por isso o bem herdado, só pode queixar-se da</p><p>própria inércia,</p><p>não tendo direito de reclamar dos coerdeiros o ressarcimento</p><p>dos prejuízos que sofreu;</p><p>c) se a evicção se deu por fato posterior à partilha, por exemplo,</p><p>força maior, falência, apreensão por motivos sanitários ou</p><p>fiscais etc. (GONÇALVES, 2012, p. 646).</p><p>Por fim, cumpre mencionar que, caso a partilha seja eivada por algum dos</p><p>vícios dos negócios jurídicos, ela poderá ser anulada, mediante ação anulatória,</p><p>em até um ano (art. 2.027, CC). Tais vícios são: incapacidade relativa do agente;</p><p>erro; dolo; coação; estado de perigo; lesão e fraude contra credores (art. 171, CC).</p><p>Complementando a regra de direito material, o direito processual civil apresenta</p><p>regras distintas para a anulação de partilha amigável e judicial.</p><p>No caso da partilha amigável, haverá anulação em razão dos vícios dos negócios</p><p>jurídicos, em até um ano contato a partir de “Art. 657 (NCPC) [...]; Parágrafo Único [...];</p><p>I - no caso de coação, do dia em que ela cessou; II - no caso de erro ou dolo, do dia em</p><p>que se realizou o ato; III - quanto ao incapaz, do dia em que cessar a incapacidade”.</p><p>Com relação à partilha judicial, além de anulação, caso se constate as hipóteses</p><p>dos vícios dos negócios jurídicos, há a possibilidade de rescisão, solicitada por ação</p><p>própria, caso seja constatada a preterição de formalidades legais; a preterição de</p><p>herdeiro; ou ainda, a inclusão de terceiro não herdeiro (art. 658, NCPC).</p><p>142</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>7 Algumas Considerações</p><p>Neste capítulo, procuramos apresentar os meios práticos para realização do</p><p>inventário e da partilha, seja por via administrativa ou judicial.</p><p>A depender da capacidade civil dos herdeiros, do acordo entre suas vontades</p><p>e do valor dos bens a ser partilhado, o inventário pode ocorrer de diversas</p><p>maneiras, assim como a partilha. Alguns detalhes como a ocultação de bens,</p><p>os chamados sonegados, bem como a necessidade de se efetuar o pagamento</p><p>das dívidas do falecido e a indicação de bens doados para colação, precisam ser</p><p>observados pelo jurista responsável pela parte processual da sucessão.</p><p>Com este capítulo, encerramos o estudo do direito das sucessões,</p><p>responsável por regulamentar a distribuição dos bens do falecido entre seus</p><p>herdeiros, de forma que todos sejam contemplados com um quinhão razoável,</p><p>levando em consideração as normas jurídicas e a vontade do próprio de cujus.</p><p>Referências</p><p>FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de direito civil:</p><p>sucessões. São Paulo: Atlas, 2015.</p><p>GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: direito das sucessões. 6.</p><p>ed. São Paulo: Saraiva, 2012.</p><p>MAXIMILIANO, Carlos. Direito das sucessões. 2. ed. Rio de Janeiro: Freitas</p><p>Bastos, 1942.</p><p>MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado de direito privado. 3. ed.</p><p>São Paulo: Revista dos Tribunais, 1983.</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões</p><p>Da Sucessão Legítima</p><p>Da Sucessão Testamentária</p><p>Inventário e Partilha</p><p>Para suceder, o Código Civil em seu art. 1.798 apresenta a seguinte regra</p><p>geral, válida para herdeiros legítimos, testamentários e legatários: “Legitimam-se</p><p>a suceder as pessoas nascidas ou já concebidas no momento da abertura da</p><p>sucessão”. Infere-se, portanto, que o nascituro e demais pessoas vivas possuem</p><p>legitimidade genérica para atuar como sucessores, sendo excluídos os indivíduos</p><p>mortos quando da abertura da sucessão, os animais, as coisas inanimadas e as</p><p>entidades místicas.</p><p>No caso específico do nascituro, sua legitimidade para suceder advém de</p><p>sua personalidade jurídica condicionada, que só se efetuará mediante nascimento</p><p>com vida. Por essa razão, caso nasça sem vida, não irá gerar efeitos sucessórios,</p><p>como se nunca tivesse existido, não recebendo e nem transmitindo direitos. Como</p><p>afirma Gonçalves (2012, p. 80), “Nesse caso, a herança ou quota hereditária será</p><p>devolvida aos herdeiros legítimos do de cujus, ou ao substituto testamentário, se</p><p>tiver sido indicado, retroagindo a devolução à data da abertura da sucessão”.</p><p>Além dos requisitos genéricos para suceder (pessoa viva ou nascituro), a</p><p>sucessão testamentária, criada por vontade do próprio autor da herança, admite</p><p>como herdeiros testamentários ou legatários, ainda:</p><p>19</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>Art. 1.799 [...]</p><p>I - os filhos, ainda não concebidos, de pessoas indicadas pelo</p><p>testador, desde que vivas estas ao abrir-se a sucessão;</p><p>II - as pessoas jurídicas;</p><p>III - as pessoas jurídicas, cuja organização for determinada</p><p>pelo testador sob a forma de fundação”.</p><p>Assim, o primeiro inciso permite que os legatários e testamentários sejam</p><p>filhos não nascidos de pessoas indicadas pelo falecido. Trata-se de uma condição</p><p>suspensiva que poderá ou não se realizar quando da abertura da sucessão.</p><p>Imaginemos, por exemplo, que Sirius escreve, em testamento, que sua moto</p><p>Harley Davidson deverá ser entregue ao filho ainda não nascido de seu afilhado</p><p>Harry. Temos, aqui, três possibilidades, quando da abertura da sucessão: 1) Harry</p><p>não existe no momento indicado; 2) Harry está vivo (pode ainda vir a ter um filho,</p><p>legatário) ou alguma mulher está grávida de seu filho (o legatário foi concebido);</p><p>3) Harry teve seu filho, Alvo, já vivo quando da abertura da sucessão. Cada uma</p><p>destas hipóteses enseja uma possibilidade jurídica diferente.</p><p>Na primeira hipótese, Harry pode ter morrido antes da abertura da sucessão</p><p>de Sirius. Neste caso, a disposição é ineficaz e o legado (a moto) passará aos</p><p>herdeiros legítimos do de cujus, já que não há possibilidade da pessoa indicada</p><p>como legatário vir a existir.</p><p>Na segunda hipótese, pode ser que Harry esteja vivo mas ainda não tenha</p><p>filhos quando da abertura da sucessão de Sirius; se este for o caso, o Art. 1.800</p><p>§4º estabelece um prazo de dois anos para que o filho de Harry (legatário de</p><p>Sirius) seja concebido. Se depois deste prazo o legatário ainda não for gerado, o</p><p>legado passa a seus herdeiros legítimos. Caso o filho de Harry (Alvo, o legatário)</p><p>já tenha sido concebido, receberá o bem indicado por Sirius se nascer com vida.</p><p>Neste caso, após a partilha, o bem do futuro legatário (Alvo, filho de Harry)</p><p>ficará sob os cuidados de um curador, que deverá ser a pessoa cujo filho o testador</p><p>esperava ter como sucessor (no caso de nosso exemplo, Harry; art. 1.800, caput</p><p>e §1º, CC) ou os curadores indicados nos arts. 1.775 e 1.797 do CC.</p><p>Na terceira hipótese, Alvo, já nascido, recebe seu legado imediatamente.</p><p>Em síntese, Gonçalves (2012, p. 83) explica:</p><p>aberta a sucessão que beneficia a prole eventual, a herança é</p><p>posta sob administração, permanecendo nessa situação até que</p><p>a condição se cumpra ou haja a certeza de que não pode cumprir-</p><p>se. A certeza de que o nascimento não poderá ocorrer se dá</p><p>quando morre o progenitor, indicado pelo testador do concepturo</p><p>20</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>instituído, ou quando ele for declarado impotente, por exemplo,</p><p>numa ação de anulação de casamento ou em ação de impugnação</p><p>de paternidade presumida, ou, ainda, na hipótese prevista no § 4º</p><p>do art. 1.800, ou seja, se decorridos dois anos após a abertura da</p><p>sucessão, não for concebido o herdeiro esperado.</p><p>O segundo inciso refere-se às pessoas jurídicas, de qualquer tipo (simples,</p><p>empresárias, de direito público ou privado), desde que tenham seu ato constitutivo</p><p>inscrito no respectivo registro – ou seja, desde que tenham personalidade (art.</p><p>45, CC). É admitido, porém, que as pessoas jurídicas em formação sejam</p><p>comparadas à situação do nascituro, com personalidade condicional; se os atos</p><p>para sua criação estiverem em andamento, portanto, admite-se sua legitimidade</p><p>para herdar, a ser confirmada quando da inscrição efetiva do ato constitutivo.</p><p>Já o terceiro diz respeito especificamente à criação de fundações, que</p><p>podem ser originadas tanto por escritura pública quanto por testamento (art. 62,</p><p>CC). Se a fundação já existe quando da abertura da sucessão, o de cujus poderá</p><p>testar em benefício dela com base no inciso II; o inciso III é específico para ato de</p><p>constituição da fundação. Assim, conforme Gonçalves (2012, p. 88-89):</p><p>Por ainda não existir a pessoa jurídica idealizada pelo testador,</p><p>aberta a sucessão os bens permanecerão sob a guarda</p><p>provisória da pessoa encarregada de instituí-la, até o registro</p><p>de seus estatutos, quando passará a ter existência legal.</p><p>Justifica-se a regra pelo fato de o testador efetivar a dotação</p><p>de bens para a instituição da fundação, instituição esta que</p><p>interessa à sociedade em virtude dos fins nobres que deve ter</p><p>tal espécie de pessoa jurídica (CC, art. 62, parágrafo único).</p><p>Estabelecidos os indivíduos aptos a herdarem quando da sucessão</p><p>testamentária, necessário conhecer aqueles que não podem ser nomeados</p><p>herdeiros testamentários e nem legatários:</p><p>Art. 1.801 Não podem ser nomeados herdeiros nem legatários:</p><p>I - a pessoa que, a rogo, escreveu o testamento, nem o seu</p><p>cônjuge ou companheiro, ou os seus ascendentes e irmãos;</p><p>II - as testemunhas do testamento;</p><p>III - o concubino do testador casado, salvo se este, sem culpa</p><p>sua, estiver separado de fato do cônjuge há mais de cinco</p><p>anos;</p><p>IV - o tabelião, civil ou militar, ou o comandante ou escrivão,</p><p>perante quem se fizer, assim como o que fizer ou aprovar o</p><p>testamento.</p><p>Com exceção do caso do concubino, ao qual faremos comentários mais</p><p>detalhados a seguir, tais proibições baseiam-se em questões de segurança, no</p><p>intuito de evitar que a vontade real do testador seja, de alguma forma, alterada</p><p>por aquele que a escreve.</p><p>21</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>O inciso primeiro refere-se ao indivíduo que escreve as disposições</p><p>testamentárias a rogo, ou seja, a pedido do falecido. Na situação de escrevente,</p><p>tal pessoa poderia facilmente beneficiar a si ou a parentes próximos, dada a</p><p>oportunidade. Os descentes do escritor também são proibidas de figurarem</p><p>como herdeiros testamentários, por força do art. 1.802, parágrafo único do CC.</p><p>O segundo inciso refere-se às testemunhas, também no intuito de assegurar a</p><p>veracidade das informações e garantir os últimos desejos do defunto.</p><p>O inciso terceiro, a seu turno, fundamenta-se, conforme Gonçalves (2012, p.</p><p>92), “na proteção da família legítima” e na coibição do adultério. Trata-se de proibir</p><p>que o/a concubino/a (amante), ou seja, homem e mulher que mantêm relações</p><p>não eventuais entre si, mas são impedidos de casar (art. 1.727, CC), herde parte</p><p>do patrimônio a ser deixado por seu parceiro. A herança testamentária será legal,</p><p>entretanto, se o testador estiver separado de fato há mais de cinco anos.</p><p>Em 2017, foi lançado nos cinemas o filme “Professor Marston</p><p>e as mulheres maravilhas”, obra baseada na história real do Doutor</p><p>em Psicologia e Professor de Harvard, Wiliam Marston, que junto de</p><p>sua mulher Elizabeth Marston (também Doutora em Psicologia por</p><p>Harvard), criou o Detector de Mentiras (polígrafo) e a famosa Mulher-</p><p>Maravilha,</p><p>personagem dos quadrinhos, em 1941. O casal mantinha</p><p>uma relação poliafetiva e consensual com Olive Byrne, uma ex-aluna</p><p>que virou acadêmica. Dirigido por Angela Robinson, seu elenco conta</p><p>com Luke Evans, Rebecca Hall e Bella Heathcote.</p><p>Apesar de se tratar de dispositivo legal em vigor, não podemos esquecer</p><p>que a realidade social já se modificou de maneira grandiosa, sendo possível hoje</p><p>encontrar novas disposições familiares que, na informalidade e longe da proteção</p><p>do Direito, se fundamentam no poliamor – união entre três ou mais pessoas.</p><p>Desta forma, não é incomum encontrar decisões judiciais que reconhecem direitos</p><p>sucessórios oriundos do concubinato, por exemplo, a divisão da pensão por morte</p><p>do de cujus, entre sua esposa e sua concubina:</p><p>AGRAVO DE INSTRUMENTO. ADMINISTRATIVO.</p><p>PENSÃO POR MORTE DE SEGURADO. CONCUBINATO.</p><p>POSSIBILIDADE. 1 - Por mais que esteja em nosso</p><p>ordenamento prestigiada a monogamia, não se pode fechar os</p><p>olhos à realidade deixando desamparada a concubina, que, não</p><p>obstante a inexistência de vínculo formal com o servidor, estava</p><p>22</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>em igualdade de condições com a esposa. Este entendimento</p><p>não traz consignada a validação da duplicidade de relações</p><p>maritais; pretende-se, apenas, guiado pelo senso de justiça,</p><p>regular as consequências das circunstâncias fáticas, evitando-</p><p>se deixar à margem da proteção jurídica a concubina, que tinha</p><p>vida em comum sob o mesmo teto more uxório com o servidor,</p><p>embora não com exclusividade (AG 2005.04.01.056483-2/RS,</p><p>Rel. Des. Federal Luiz Carlos de Castro Lugon, DJU 14-06-06,</p><p>p. 490) (grifos nossos).</p><p>EMENTA: PREVIDENCIÁRIO. PENSÃO POR MORTE.</p><p>ESPOSA E CONCUBINA. RATEIO. POSSIBILIDADE. 1. Para</p><p>a concessão do benefício de pensão por morte, no caso de</p><p>companheira, há necessidade de comprovação de união</p><p>estável. 2. Na hipótese, ainda que verificada a ocorrência</p><p>do concubinato impuro, não se pode ignorar a realidade</p><p>fática, concretizada pela longa duração da união do falecido</p><p>com a concubina, ainda que existindo simultaneamente dois</p><p>relacionamentos, razão pela qual é de ser deferida à autora o</p><p>benefício de pensão por morte na quota-parte que lhe cabe, a</p><p>contar do ajuizamento da ação (TRF4, AC 2000.72.04.000915-</p><p>0, Quinta Turma, Relator p/ Acórdão Luiz Antonio Bonat, D.E.</p><p>15/09/2008) (grifos nossos).</p><p>Assim, pode ser que o art. 1.801, III, CC sofra alterações consideráveis nos</p><p>próximos anos. Importante mencionar que, caso o filho do concubino/a também</p><p>seja filho do testador, terá direito à herança (art. 1.803, CC).</p><p>O Art. 1.801, III, do Código Civil] proíbe benefício testamentário</p><p>em favor da concubina, ou do concubino, do testador casado,</p><p>incorporando argumentos preconceituosos e estigmatizantes.</p><p>Coloca-se o dispositivo na mesma linha de tratamento da</p><p>proibição de doação à concubina (CC, art. 550)¹, mantendo o</p><p>tratamento preconceituoso existente de há muito.</p><p>Malgrado o concubinato não tenha merecido tratamento</p><p>de entidade dotada de natureza familiar, consoante a opção</p><p>legislativa (CC, art. 1.727) e o consensus omnium jurisprudencial²,</p><p>o dispositivo é de duvidosa razoabilidade porque está retirando do</p><p>testador a liberdade sobre a sua porção disponível (a legítima dos</p><p>herdeiros necessários e a meação do cônjuge ou companheiro estão</p><p>preservadas). Não custa lembrar que se trata da parcela disponível</p><p>do patrimônio do titular, já restringida pela legítima, pertencente</p><p>23</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>aos herdeiros necessários. Esta parte disponível (insista-se) do</p><p>patrimônio poderia ser testada (ou doada) para qualquer pessoa, por</p><p>mais estranha que seja. Entretanto, não pode ser para a concubina.</p><p>Trata-se de disposição legal excessivamente moralista e</p><p>preconceituosa, explicitando uma exacerbada preocupação com o</p><p>adultério e ignorando as novas formas de composição de núcleos</p><p>familiares, baseadas no afeto. Proíbe-se uma pessoa casada de</p><p>dispor, gratuitamente, de seu patrimônio em favor de seu concubino</p><p>ou de sua concubina. Com isso, o sistema termina promovendo</p><p>uma interdição parcial de uma pessoa plenamente capaz, pois retira</p><p>do titular o direito de livre dispor de seu patrimônio, como se fosse</p><p>incapaz para tanto.</p><p>Enfim, é uma tentativa de desestímulo do concubinato³.</p><p>Há, sem dúvidas, uma influência da moral cristã, que repugnava</p><p>as formas de constituição de família apartadas dos rituais do Código</p><p>Canônico. Prova disso é que a proibição vem de tempos longínquos,</p><p>nos quais a ciência jurídica sofria a ascendência da Religião.</p><p>Assim, atravessaram as Ordenações Alfonsinas (Livro IV, Título 13),</p><p>Manuelinas (Livro IV, Título 8) e Filipinas (Livro 4o, Título 66)4 para</p><p>ganhar cores bem nítidas no Código Civil de 1916 (art. 1.177).</p><p>A título de curiosidade, vale a lembrança de que o Código de</p><p>1916 apenas proibia o testamento em favor da concubina do homem</p><p>casado, e não do concubino da mulher casada, demonstrando</p><p>absoluta discrepância de tratamento entre os sexos5. Ou seja, uma</p><p>mulher casada poderia testar para o seu concubino; o homem</p><p>casado, não.</p><p>Mantendo a proibição de testamento em benefício da concubina,</p><p>a legislação brasileira ignora toda a evolução da matéria no direito</p><p>comparado, deixando de perceber que os mais contemporâneos</p><p>Códigos Civis não apresentam norma semelhante, como se pode</p><p>notar no português, no italiano, no francês e no alemão.</p><p>Conquanto a atual redação legal (CC, art. 1.801, III) enseje</p><p>algum nível de dúvida, por conta da imprecisão, prevalece a</p><p>compreensão de que a proibição alcança todas as pessoas casadas,</p><p>independentemente do gênero sexual, a partir de uma interpretação</p><p>sistêmica e finalística.</p><p>24</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Não incide a vedação, todavia, se o testador já estiver separado</p><p>de fato, independentemente de prazo, porque, no caso, já se permite</p><p>a constituição de uma união estável, consoante previsão expressa do</p><p>§ 1o do art. 1.723 do Código Civil6. Isso porque, malgrado o inciso III</p><p>aluda ao prazo de cinco anos de separação de fato, para convalidar o</p><p>testamento em favor da concubina, a interpretação sistêmica com o § 1º</p><p>do art. 1.723 do mesmo Codex conduz à fatal conclusão de que basta a</p><p>simples separação de fato, independentemente de qualquer prazo, para</p><p>que se caracterize a união estável e esteja afastada a proibição legal.</p><p>Nesse diapasão, inclusive, sedimentou-se no Enunciado 269 da</p><p>Jornada de Direito Civil: “a vedação do art. 1.801, inciso III, não se aplica</p><p>à união estável, independentemente do período de separação de fato”.</p><p>A orientação sedimentada na jurisprudência superior é</p><p>exatamente no sentido de reconhecer que a simples separação de</p><p>fato, independentemente de qualquer prazo, convalida o testamento,</p><p>por conta da recategorização jurídica, na medida em que o</p><p>concubinato se transforma em união estável. Veja-se:</p><p>A separação, de fato, do testador descaracteriza a</p><p>existência de concubinato e, por corolário, afasta a</p><p>pretensão da recorrente de ver nulo o testamento, por</p><p>força da vedação legal de nomeação de concubina</p><p>como legatária. (STJ, Ac. unân. 4ª T., REsp 1.338.220/</p><p>SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 15.5.14, DJe 22.5.14).</p><p>De nossa parte, defendemos que o dispositivo deve ser</p><p>interpretado com mais proximidade à realidade social do país, bem</p><p>como liberto de preconceitos morais. Com isso, a proibição não</p><p>deve alcançar o concubinato de boa-fé (objetiva ou subjetiva), por</p><p>caracterizar uma verdadeira união estável putativa.</p><p>Ora, a pessoa que participa de uma relação afetiva sem ter</p><p>ciência de que a sua relação é concubinária (ou seja, sem saber que</p><p>o seu companheiro é casado ou tem uma união estável anterior, sem</p><p>ruptura da convivência, caracterizando um paralelismo) deve ter a</p><p>sua dignidade protegida da mesma forma que a pessoa enganada.</p><p>É a proteção da boa-fé subjetiva. Por igual, quando todas as partes</p><p>envolvidas no paralelismo sabem e aceitam a situação, impõe-se a</p><p>proteção. Isso porque, nesse segundo caso,</p><p>está presente a boa-fé</p><p>objetiva. Até porque a confiança (legítimas expectativas) de todos é</p><p>a mesma e reclama justa tutela jurídica. Nessa trilha, entendemos</p><p>que, presente a boa-fé (objetiva ou subjetiva), é possível emprestar</p><p>25</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>efeitos típicos do Direito das Famílias e do Direito das Sucessões</p><p>às uniões extramatrimoniais em que um dos companheiros sofre um</p><p>dos impedimentos matrimoniais7. Caracterizar-se-á uma verdadeira</p><p>união estável putativa, decorrente da boa fé. E, bem por isso, em</p><p>se tratando de união estável putativa, entendemos que a melhor</p><p>interpretação aponta na direção do afastamento da incidência</p><p>do dispositivo sub examine, sob pena de desvio interpretativo e</p><p>elastecimento indevido de uma proibição legal.</p><p>Em sede jurisprudencial, já são colhidas manifestações diversas</p><p>em sede de nossos Tribunais de Justiça, como o do Rio Grande do</p><p>Sul8, Santa Catarina9 e Minas Gerais10. A posição do Superior Tribunal</p><p>de Justiça, no entanto, é refratária à tese, mantendo o tratamento</p><p>da união estável putativa como mero concubinato11, indicando a</p><p>irrelevância da boa-fé.</p><p>1 Art. 550, Código Civil: “A doação do cônjuge adúltero ao seu cúmplice pode</p><p>ser anulada pelo outro cônjuge, ou por seus herdeiros necessários, até dois</p><p>anos depois de dissolvida a sociedade conjugal.”</p><p>2 Veja-se a posição dominante do Superior Tribunal de Justiça: “A orientação</p><p>jurisprudencial desta Corte é firme no sentido de que a relação concubinária,</p><p>paralela a casamento válido, não pode ser reconhecida como união estável,</p><p>salvo se configurada separação de fato ou judicial entre os cônjuges” (STJ,</p><p>Ac. unân. 3a T., AgRg no REsp 1.235.648/RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas</p><p>Cueva, j. 4.2.14, DJe 14.2.14).</p><p>3 Tentando justificar a ratio do dispositivo legal, Carlos Roberto Gonçalves</p><p>afirma que “a vedação complementa a série de dispositivos destinados a</p><p>proteger a família legítima e coibir o adultério”, GONÇALVES, Carlos Roberto,</p><p>cf. Direito Civil Brasileiro, cit., p. 81.</p><p>4 Constava, preconceituosamente, das Ordenações Filipinas: “se algum</p><p>homem casado der a sua barregã coisa móvel ou de raiz, ou a qualquer outra</p><p>mulher, com que tenha carnal afeição, sua mulher poderá anular e haver para</p><p>si a coisa que assim foi doada”.</p><p>5 Mais surpreendente era a justificativa da disparidade de tratamento: “o</p><p>legislador visou evitar escandalosas investigações a respeito da vida íntima</p><p>de mães de família”, MAXIMILIANO, Carlos, cf. Direito das Sucessões, cit.,</p><p>p. 513.</p><p>6 Art. 1.723, § 1o, Código Civil: “A união estável não se constituirá se ocorrerem</p><p>os impedimentos do art. 1.521; não se aplicando a incidência do inciso VI no</p><p>caso de a pessoa casada se achar separada de fato ou judicialmente”.</p><p>7 Mais incisiva e direta, Maria Berenice Dias, corroborando da ideia aqui</p><p>defendida, assegura que negar a união estável putativa não atende aos</p><p>ditames elementares de justiça e de ética (aliás, uma das diretrizes do</p><p>Código Civil). E dispara: “o casamento, embora nulo, mas realizado de boa-</p><p>fé, produz todos os efeitos jurídicos até que seja desconstituído. No mínimo,</p><p>em se tratando de união estável constituída em afronta aos impedimentos</p><p>legais, há que se invocar o mesmo princípio e reconhecer a existência de</p><p>uma união estável putativa. Estando um ou ambos os conviventes de boa-fé,</p><p>é mister atribuir efeitos à união”. DIAS, Maria Berenice, cf. Manual de Direito</p><p>das Famílias, cit., p. 164.</p><p>8 “União estável. Situação putativa. Affectio maritalis. Notoriedade e publicidade</p><p>26</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>do relacionamento. Boa-féda companheira. [...] 2. Tendo o relacionamento</p><p>perdurado até o falecimento do varão e se assemelhado a um casamento</p><p>de fato, com coabitação, clara comunhão de vida e de interesses, resta</p><p>induvidosa a affectio maritalis. 3. Comprovada a notoriedade e a publicidade</p><p>do relacionamento amoroso havido entre a autora e o de cujus, é cabível o</p><p>reconhecimento de união estável putativa, quando fica demonstrado que a</p><p>autora não sabia do relacionamento paralelo do varão com a mãe da ré” (TJ/</p><p>RS, Ac. 7a Câm. Cív., ApCív. 70025094707 comarca de Gravataí, Rel. Des.</p><p>Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves, j. 22.10.08, DJRS 30.10.08).</p><p>9 “2. Embora seja predominante, no âmbito do Direito de Família, o</p><p>entendimento da inadmissibilidade de se reconhecer a dualidade de</p><p>uniões estáveis concomitantes, é de se dar proteção jurídica a ambas as</p><p>companheiras em comprovado o estado de recíproca putatividade quanto</p><p>ao duplo convívio com o mesmo varão, mostrando-se justa a solução que</p><p>alvitra a divisão da pensão derivada do falecimento dele e da terceira mulher</p><p>com quem fora casado” (TJ/SC, Ac. 4a Câmara de Direito Civil, ApCív.</p><p>2009.041434-7, Rel. Des. Eládio Torret Rocha, j. 10.11.11).</p><p>10 “Direito das Famílias. União estável contemporânea ao casamento. União</p><p>dúplice. Possibilidade de reconhecimento face às peculiaridades do caso.</p><p>Ao longo de vinte e cinco anos, a apelante e o apelado mantiveram um</p><p>relacionamento afetivo, que possibilitou o nascimento de três filhos. Nesse</p><p>período de convivência afetiva – pública, contínua e duradoura – um cuidou</p><p>do outro, amorosamente, emocionalmente, materialmente, fisicamente</p><p>e sexualmente. Durante esses anos, amaram, sofreram, brigaram,</p><p>reconciliaram, choraram, riram, cresceram, evoluíram, criaram os filhos e</p><p>cuidaram dos netos. Tais fatos comprovam a concreta disposição do casal</p><p>para construir um lar com um subjetivo ânimo de permanência que o tempo</p><p>objetivamente confirma. Isso é família. O que no caso é polêmico é o fato de</p><p>o apelado, à época dos fatos, estar casado civilmente. Há, ainda, dificuldade</p><p>de o Poder Judiciário lidar com a existência de uniões dúplices. Há muito</p><p>moralismo, conservadorismo e preconceito em matéria de Direito de Família.</p><p>No caso dos autos, a apelada, além de compartilhar o leito com o apelado,</p><p>também compartilhou a vida em todos os seus aspectos. Ela não é concubina</p><p>– palavra preconceituosa – mas companheira. Por tal razão, possui direito a</p><p>reclamar pelo fim da união estável. Entender o contrário é estabelecer um</p><p>retrocesso em relação a lentas e sofridas conquistas da mulher para ser</p><p>tratada como sujeito de igualdade jurídica e de igualdade social. Negar a</p><p>existência de união estável, quando um dos companheiros é casado, é solução</p><p>fácil. Mantém-se ao desamparo do Direito, na clandestinidade, o que parte da</p><p>sociedade prefere esconder. Como se uma suposta invisibilidade fosse capaz</p><p>de negar a existência de um fato social que sempre aconteceu, acontece</p><p>e continuará acontecendo. A solução para tais uniões está em reconhecer</p><p>que ela gera efeitos jurídicos, de forma a evitar irresponsabilidades e o</p><p>enriquecimento ilícito de um companheiro em desfavor do outro” (TJ/MG, Ac.</p><p>unân. 5a Câm. Cív., ApCív. 1.0017.05.016882-6/003 – comarca de Almenara,</p><p>Rel. Desa. Maria Elza, j. 20.11.08, DJMG 10.12.08).</p><p>11 “A relação concubinária, paralela ao casamento válido, não pode ser</p><p>reconhecida como união estável, salvo se configurada a separação de fato ou</p><p>judicial entre os cônjuges” (STJ, Ac. unân. 6a T., AgRg no REsp. 1.147.046/</p><p>RJ, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. 8.5.14, DJe 26.5.14).</p><p>FONTE: Farias e Rosenvald (2015, p. 91-94).</p><p>27</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>Por fim, o art. 1.801, IV, CC proíbe que outros possíveis participantes da</p><p>feitura do testamento (tabelião, comandante, escrivão), atuem como herdeiros</p><p>testamentários ou legatários, evitando, novamente, o abuso de confiança.</p><p>Caso, ainda assim, as pessoas proibidas de herdar como testamentários ou</p><p>legatários sejam contempladas mediante simulação ou interposição, as disposições</p><p>testamentárias relativas a esses indivíduos serão nulas (art. 1.802, CC).</p><p>Conforme Gonçalves (2012, p. 95):</p><p>Simulação é uma declaração falsa, enganosa, da vontade,</p><p>visando aparentar negócio diverso do efetivamente</p><p>desejado. Proclama coerentemente o art.</p><p>167 do novo</p><p>diploma que ‘é nulo o negócio jurídico simulado’, conquanto</p><p>possam permanecer os efeitos do ato dissimulado, se</p><p>válido for na substância e na forma.</p><p>A simulação ocorrerá quando o testador afirmar ser devedor de obrigação</p><p>que não existe, ou falsamente afirmar que prometeu a venda de alguma coisa já</p><p>tendo recebido por ela o pagamento.</p><p>Já a interposição de pessoas (Art. 167, §1º, I CC) beneficia de forma</p><p>direta um terceiro, capaz de suceder mediante sucessão testamentária, mas</p><p>indiretamente gera algum bônus para o não legitimado. Assim, por exemplo, se</p><p>para recompensar Eduardo, que escreveu o testamento a rogo, o falecido Hughes</p><p>deixa herança para Alphonse, irmão de Eduardo, essa disposição será nula. No</p><p>caso de ascendentes, descendentes, irmãos, cônjuge ou companheiro do não</p><p>legitimado, a presunção é absoluta e dispensa provas (art. 1.802, CC).</p><p>Falaremos agora dos indivíduos excluídos da sucessão.</p><p>28</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Atividade de Estudos:</p><p>1) Levando em consideração o Artigo 1.801 do Código Civil, avalie</p><p>a seguinte situação: Mufasa, moribundo, pede para que Scar,</p><p>seu irmão, escreva o seu testamento. Na qualidade de herdeiro</p><p>legítimo, Scar herda, após a morte de Mufasa, metade de seu</p><p>patrimônio. Pergunta-se: a herança de Scar é válida? Por quê?</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>____________________________________________________</p><p>29</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>4.2 Os Excluídos da Sucessão</p><p>Segundo Gonçalves (2012, p. 127), a sucessão baseia-se na afeição</p><p>entre de cujus e herdeiro, ainda que de forma pressuposta. Assim, caso</p><p>o sucessor cometa ato atentatório contra esta afetividade, poderá ser</p><p>penalizado e excluído da sucessão. O art. 1.814 do CC elenca taxativamente</p><p>os casos capazes de tornar o herdeiro indigno, ou seja, excluído:</p><p>Art. 1.814 São excluídos da sucessão os herdeiros</p><p>ou legatários:</p><p>I - que houverem sido autores, coautores ou</p><p>partícipes de homicídio doloso, ou tentativa deste,</p><p>contra a pessoa de cuja sucessão se tratar, seu</p><p>cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente;</p><p>II - que houverem acusado caluniosamente em juízo o autor da</p><p>herança ou incorrerem em crime contra a sua honra, ou de seu</p><p>cônjuge ou companheiro;</p><p>III - que, por violência ou meios fraudulentos, inibirem ou</p><p>obstarem o autor da herança de dispor livremente de seus</p><p>bens por ato de última vontade.</p><p>O inciso I refere-se ao homicídio doloso do falecido ou de algum de seus</p><p>familiares, incluindo a tentativa e a participação indireta no crime. Apesar de não</p><p>abordar especificamente o auxílio ao suicídio do autor da herança, esta hipótese</p><p>também deve ser enquadrada já que nos termos do Código Penal vigente, trata-</p><p>se de crime de igual gravidade.</p><p>Já o segundo inciso refere-se à prática efetiva de crime contra a honra do</p><p>morto. Neste caso, não há que se falar em exclusão do herdeiro por tentativa de</p><p>cometer tal ato. No caso de denúncia caluniosa contra o falecido, esta deve ter</p><p>sido efetuada em juízo criminal, dispensada a necessidade de condenação do</p><p>de cujus. Diferentemente do inciso anterior, os crimes contra a honra só geram</p><p>exclusão de herdeiro se tiverem sido cometidos contra o próprio morto ou contra</p><p>seu cônjuge ou companheiro.</p><p>Por fim, o inciso III diz respeito às situações nas quais a vontade do autor</p><p>da herança é, por algum motivo, suprimida. Monteiro (2009, p. 65) aponta alguns</p><p>exemplos: “a) o herdeiro constrange o de cujus a testar; b) ou então impede-o</p><p>de revogar testamento anterior; c) suprime testamento cerrado ou particular dele;</p><p>d) urde ou elabora um testamento falso; e) cientemente, pretende fazer uso de</p><p>testamento contrafeito”.</p><p>Independentemente de relações de parentesco, qualquer indivíduo que</p><p>cometa alguma dessas atitudes será considerado herdeiro indigno. Para que a</p><p>efetivação da exclusão ocorra, entretanto, além de praticar um dos atos transcritos</p><p>Caso o sucessor</p><p>cometa ato</p><p>atentatório contra</p><p>esta afetividade,</p><p>poderá ser</p><p>penalizado e excluído</p><p>da sucessão. O art.</p><p>1.814 do CC elenca</p><p>taxativamente os</p><p>casos capazes de</p><p>tornar o herdeiro</p><p>indigno.</p><p>30</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>acima, o herdeiro não pode ter sido perdoado pelo falecido e é preciso que haja</p><p>uma sentença judicial declaratória de indignidade. Sobre o perdão do herdeiro</p><p>indigno, diz o Artigo 1.818, caput e parágrafo único do CC:</p><p>Art. 1.818 Aquele que incorreu em atos que determinem a</p><p>exclusão da herança será admitido a suceder, se o ofendido</p><p>o tiver expressamente reabilitado em testamento, ou em outro</p><p>ato autêntico.</p><p>Parágrafo único. Não havendo reabilitação expressa, o indigno,</p><p>contemplado em testamento do ofendido, quando o testador,</p><p>ao testar, já conhecia a causa da indignidade, pode suceder no</p><p>limite da disposição testamentária.</p><p>Desde já se percebe que o perdão deve ser manifesto em ato solene expresso,</p><p>no próprio testamento ou em ato autêntico, não admitindo arrependimento.</p><p>Uma leitura atenta do parágrafo único acima transcrito apontará, ainda, para a</p><p>possibilidade de perdão tácito. Tal situação ocorre nos casos em que a ofensa foi</p><p>cometida contra o de cujus antes de sua morte e ele, ciente do ocorrido, ainda</p><p>assim resolve contemplar o ofensor em testamento. Seus direitos, porém, ficam</p><p>limitados ao que for expresso pelo autor da herança.</p><p>Ato autêntico:</p><p>é qualquer declaração, por instrumento público ou particular,</p><p>autenticada pelo escrivão. Não têm valor, para esse fim, escritura</p><p>particular; declarações verbais ou do próprio punho, embora</p><p>corroboradas por testemunhas; cartas, ou quaisquer outros</p><p>atos que revelem reconciliação ou propósitos de clemência.</p><p>Não é necessário que o ato seja lavrado exclusivamente</p><p>para reabilitar o indigno. Mesmo que o ato autêntico tenha</p><p>objetivo diverso, como doação ou pacto antenupcial, pode o</p><p>hereditando inserir o seu perdão. Pode fazê-lo até em ata de</p><p>casamento (GONÇALVES, 2012, p. 143).</p><p>No que se refere à sentença declaratória de indignidade, cabe ressaltar que</p><p>a ação cabível deve ser ajuizada apenas após a morte do autor da herança, pois</p><p>é somente neste momento que o indivíduo se torna herdeiro indigno; caso o réu</p><p>(herdeiro indigno) venha a falecer no curso do processo:</p><p>31</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>Extingue-se a ação, por efeito do princípio da personalidade</p><p>da culpa e da pena. A morte do indigno acarreta a transmissão</p><p>dos bens herdados, dos quais vinha desfrutando desde o</p><p>falecimento do de cujus, aos seus próprios sucessores, visto</p><p>que a indignidade só produziria efeitos depois de declarada por</p><p>sentença, e tal pena não deve ir além da pessoa do criminoso</p><p>(GONÇALVES, 2012, p. 141).</p><p>“A indignidade é, portanto, uma sanção civil que acarreta a</p><p>perda do direito sucessório. Segundo Clóvis Beviláqua, ‘é a privação</p><p>do direito, cominada por lei, a quem cometeu certos atos ofensivos à</p><p>pessoa ou ao interesse do hereditando’” (GONÇALVES, 2012, p. 128).</p><p>A exclusão do herdeiro produz uma série de efeitos jurídicos, sendo os</p><p>principais 1) a pessoalidade; 2) a retroatividade e 3) a impossibilidade do herdeiro</p><p>indigno gerir os bens herdados pelos filhos menores.</p><p>Quanto à pessoalidade, os efeitos oriundos da exclusão atingem apenas a</p><p>pessoa que efetivamente cometeu algum dos atos elencados no art. 1.814 CC,</p><p>pois como sanção que é, não pode ultrapassar a figura do delinquente. Desta</p><p>forma, o art. 1.816 do CC preceitua: “os descendentes do herdeiro excluído</p><p>sucedem, como se ele morto fosse antes da abertura da sucessão”.</p><p>Imaginemos que Theodoro, já idoso e viúvo, venha a falecer. Seus únicos</p><p>herdeiros são Max e Walter, sendo que Max é casado e possui duas filhas (Helga</p><p>e Anna). Após a morte de Theodoro, se descobre que seu filho Max o assassinou,</p><p>com doses regulares de veneno, para que todos achassem que a morte chegara</p><p>de causas naturais. Realizado o processo de exclusão de Max, por indignidade,</p><p>a parte que lhe caberia deverá ser transmitida a quem? A seu irmão Walter, ao</p><p>Estado, ou a suas duas filhas, Helga e Anna?</p><p>Observe o esquema a seguir:</p><p>32</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>FIGURA 1 – EXCLUSÃO DO HERDEIRO INDIGNO</p><p>FONTE: A autora</p><p>Neste caso, os bens deverão ser herdados por Helga e Anna, já que a exclusão</p><p>gera efeitos personalíssimos, o que para o herdeiro indigno significa uma espécie</p><p>de morte ficta. A este fenômeno, chamados sub-rogação: Helga e Anna sub-rogaram</p><p>para si a herança de seu pai, Max. Sobre o assunto, Gonçalves (2012, p. 144) afirma:</p><p>A situação do excluído equipara-se à do herdeiro pré-morto:</p><p>embora vivo, será representado por seus descendentes, como</p><p>se tivesse morrido. Os bens que deixa de herdar são devolvidos</p><p>às pessoas que os herdariam, caso ele já fosse falecido na data</p><p>da abertura da sucessão. Se o de cujus, por exemplo, tinha</p><p>dois filhos e um deles foi excluído por indignidade, tendo prole,</p><p>a herança será dividida entre as duas estirpes: metade ficará</p><p>com o outro filho, e metade será entregue aos descendentes</p><p>do excluído, que herdarão representando o indigno.</p><p>Esta regra, entretanto, comporta exceções. Usando o mesmo exemplo citado,</p><p>caso Helga e Anna fossem diretamente contempladas em testamento, a parte de</p><p>seu pai indigno, (Max) deveria ser acrescida ao total da herança para partilha,</p><p>ou seja, elas não iriam sub-rogar a parte de Max, mas sim repartir diretamente</p><p>com seu Tio Walter a distribuição dos bens. Voltaremos a abordar o assunto no</p><p>Capítulo 2, quando trataremos diretamente da ordem de vocação hereditária.</p><p>O segundo efeito gerado pela exclusão do herdeiro indigno diz respeito à</p><p>retroatividade, pois ele será fictamente considerado morto quando da abertura da</p><p>sucessão, conforme explicado anteriormente. Uma das principais consequências</p><p>deste efeito é a de que, caso tenha usufruído da herança antes de ser considerado</p><p>indigno, deverá restituir aquilo que percebeu, com direito a indenização por</p><p>eventuais benfeitorias úteis (necessárias a conservação do bem; Art. 1.817,</p><p>Parágrafo único, CC).</p><p>33</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>O terceiro efeito refere-se ao usufruto ou administração dos bens dos filhos</p><p>menores que receberam a sua parte da herança, sendo proibido, ainda, que o</p><p>indigno um dia, a herde. Para melhor entender, usaremos novamente o exemplo</p><p>de Theodoro, Max e suas filhas Helga e Anna.</p><p>Tendo Max sido considerado indigno e a sua parte sendo transmitida</p><p>diretamente para suas filhas crianças, Helga e Anna, ele não poderá usufruir nem</p><p>administrar o que as meninas herdarem. E se eventualmente as duas falecerem</p><p>antes de Max, ele também não poderá herdar nenhum dos bens que originalmente</p><p>eram de Theodoro e foram a elas transmitidos, seja em razão da indignidade</p><p>de Max (que gerou o efeito de sub-rogação), seja em razão de disposição</p><p>testamentária específica (que não gera sub-rogação, conforme já explicado).</p><p>Questão a ser enfrentada diz respeito à validade dos atos praticados por herdeiro</p><p>que posteriormente é declarado indigno. Mais uma vez valendo-me do exemplo de</p><p>Max, o indigno, proponho o seguinte cenário: antes da sentença judicial declarando-o</p><p>indigno, Max, tido até então como herdeiro legítimo, vende o conservado e luxuoso</p><p>Chevrolet Impala 1967 de Theodoro para Simone, colecionadora de carros antigos,</p><p>que nada sabia sobre o crime de Max (ou seja, ela estava de boa-fé). Uma vez</p><p>excluído da sucessão por sentença, o que acontecerá com a venda deste bem?</p><p>Sobre o tema, diz o Artigo 1.817 do Código Civil:</p><p>São válidas as alienações onerosas de bens hereditários a</p><p>terceiros de boa-fé, e os atos de administração legalmente</p><p>praticados pelo herdeiro, antes da sentença de exclusão;</p><p>mas aos herdeiros subsiste, quando prejudicados, o direito de</p><p>demandar-lhe perdas e danos.</p><p>Portanto, apesar da retroatividade ser um dos efeitos da exclusão declarada</p><p>em sentença, ela não atinge os atos de disposição já praticados pelo herdeiro</p><p>indigno. Tais atos devem ser relativos a negócios onerosos e firmados de boa-</p><p>fé. No caso da venda pactuada entre Max e Simone, caso Simone soubesse da</p><p>indignidade e ainda assim comprasse o Impala, o carro deveria ser devolvido à</p><p>herança para partilha entre os herdeiros. Se, ainda, no lugar de vender, Max o</p><p>tivesse doado, o bem necessariamente voltaria para a herança do falecido, ainda</p><p>que Simone estivesse de boa-fé, pois a doação é ato gratuito, não oneroso.</p><p>Importante pontuar que não se deve confundir exclusão com deserdação, pois</p><p>apesar de similares, há uma diferença crucial entre ambas. A exclusão é realizada</p><p>por força da lei, em observância a suposta vontade do de cujus; já a deserdação</p><p>advém diretamente da vontade do morto, que explicitamente afasta do rol de</p><p>herdeiros alguém em específico em disposição testamentária (art. 1.964, CC).</p><p>Estudaremos, agora, questões relativas à herança.</p><p>34</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>5 Herança</p><p>Conforme mencionado anteriormente, a herança abrange os</p><p>ativos e passivos do indivíduo morto. Considera-se que com a morte</p><p>do titular do patrimônio, abre-se a sucessão e a herança é transmitida</p><p>aos herdeiros, tudo a um só tempo. Por força do Artigo 1.791 e seu</p><p>parágrafo único, a herança é considerada um todo unitário e indivisível, que</p><p>só será repartida entre os herdeiros no momento da partilha. Por esta razão,</p><p>os direitos de propriedade e posse dos herdeiros são regulados pelas normas</p><p>aplicáveis ao condomínio.</p><p>A herança abrange</p><p>os ativos e passivos</p><p>do indivíduo morto.</p><p>Herança: A herança (Erbschaft, como preferem os alemães)</p><p>é o conjunto de relações jurídicas, ativas e passivas, patrimoniais</p><p>pertencentes ao falecido e que foram transmitidas aos seus</p><p>sucessores, por conta de sua morte, para que sejam partilhadas</p><p>(FARIAS; ROSENVALD; 2015, p. 31).</p><p>Na prática, isso significa que cada herdeiro tem direitos e deveres iguais no</p><p>que se refere à herança, não podendo dispor sobre parte específica e determinada.</p><p>Entretanto, é possível que um dos herdeiros venda ou ceda a parte a que tem direito,</p><p>sem especificar nenhum tipo de bem ou que parte seria esta. O que é vendido é o</p><p>próprio direito à sucessão que fora aberta, sendo este inclusive considerado bem</p><p>imóvel (art. 80, II, CC). Trata-se da cessão de direitos hereditários (Art. 1.793 e</p><p>seguintes), que pode operar-se de forma gratuita ou onerosa a partir da morte do</p><p>autor da herança, ainda que o inventário não tenha sido aberto, e enquanto persistir</p><p>a indivisibilidade da herança (ou seja, até a partilha).</p><p>Como o direito à sucessão é considerado bem imóvel, a cessão de direitos</p><p>hereditários tem como requisitos de validade escritura pública e autorização</p><p>do cônjuge (Art. 1.793, 1.647 caput e inciso I, e 166, IV); na escritura, deve</p><p>ser informado se foi realizada a título gratuito ou oneroso. Uma vez realizada,</p><p>“O cessionário assume o lugar e a posição jurídica do cedente, ficando sub-</p><p>rogado em todos os direitos e obrigações, como se fosse o próprio herdeiro,</p><p>recebendo, desse modo, na partilha, o que o herdeiro cedente haveria de receber”</p><p>(GONÇALVES, 2012, p. 65). Como a cessão tem por objeto os direitos e não</p><p>a qualidade</p><p>de herdeiro em si, qualquer possibilidade de acréscimo que passe</p><p>existir após sua celebração não será aproveitada pelo cessionário.</p><p>35</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>Exemplifiquemos. Rick falece e deixa um total de R$ 120.000,00 reais a ser</p><p>dividido entre seus filhos Beth, Summer e Jerry, de forma que ao fim da partilha</p><p>espera-se que todos recebam partes iguais (total da herança – 120.000 – divididos</p><p>por três herdeiros em condições iguais = 40.000 para cada herdeiro).</p><p>Jerry cede seu direito a esta herança para um terceiro (Morty), de forma</p><p>que é esperado que os R$ 40.000,00 reais de Jerry serão de Morty, ao final da</p><p>partilha. Todavia, Summer recusa sua parte na herança. Por isso, o total não mais</p><p>será dividido por três herdeiros, mas por apenas dois; isto significa que, se antes,</p><p>Jerry tinha uma expectativa de herdar R$ 40.000,00 reais, sua expectativa, com a</p><p>renúncia de Summer, será de R$ 60.000,00 reais. Mas como ele cedeu os direitos</p><p>hereditários referentes aos R$ 40.000,00, Morty, em regra, só terá direito a esses</p><p>mesmos R$ 40.000,00.</p><p>Graficamente, a situação originariamente pactuada entre Jerry e Morty seria</p><p>a seguinte:</p><p>FIGURA 2 – CESSÃO DE DIREITOS SUCESSÓRIOS</p><p>FONTE: A autora</p><p>Entretanto, a situação que realmente aconteceu foi a seguinte:</p><p>36</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>FIGURA 3 – CESSÃO DE DIREITOS SUCESSÓRIOS COM RECUSA DE UM HERDEIRO</p><p>FONTE: A autora</p><p>Observe que Beth receberá os R$ 60.000,00 a que tem direito, acrescido dos</p><p>R$ 20.000,00 que sobram da parte de Morty. Essa situação poderia ser modificada</p><p>caso cessante e cessionário acordassem em sentido contrário; assim, os lucros</p><p>advindos da renúncia de Summer passariam para Morty, mas como nada foi</p><p>acordado sobre isso, os lucros passam para os outros herdeiros (no caso, Beth).</p><p>Além disso, ainda sobre cessão de direitos hereditários, caso um dos herdeiros</p><p>queira obter a parte a ser cedida onerosamente, ele terá direito de preferência sobre</p><p>qualquer terceiro estranho. Se for gratuita, essa preferência é perdida.</p><p>Apesar de ser considerada um bem indivisível, os herdeiros possuem</p><p>responsabilidade para com a herança, que, como abordado, pode englobar as</p><p>dívidas do falecido. Por força do Art. 1.792 CC, porém, a responsabilidade dos</p><p>herdeiros para com eventuais débitos do morto limita-se às forças da herança,</p><p>não podendo atingir o patrimônio pessoal do herdeiro.</p><p>Assim, imagine que John falece e deixa herança para seus filhos Dean e Sam.</p><p>A herança é avaliada em R$ 100.000,00 reais, mas John havia contraído dívida de</p><p>empréstimo bancário no valor R$ 150.000,00 reais. Desta forma, o valor deixado</p><p>(R$ 100.000,00 reais) irá cobrir parte da dívida, mas os R$ 50.000,00 reais que</p><p>ainda permanecerem em aberto não poderão ser cobrados dos herdeiros Dean e</p><p>Sam, já que ultrapassa os limites da herança. Como afirma Gonçalves (2012, p.</p><p>61): “Só serão partilhados os bens ou valores que restarem depois de pagas as</p><p>dívidas, isto é, depois de descontado o que, de fato, pertence a outrem”.</p><p>Vejamos agora como se dá a abertura do inventário.</p><p>37</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>5.1 Abertura do Inventário</p><p>O inventário e a partilha, mencionados de forma recorrente ao</p><p>longo deste capítulo, compõem um “procedimento especial de jurisdição</p><p>contenciosa previsto no Código de Processo Civil para que seja efetivada</p><p>a transmissão da herança” (FARIAS, ROSENVALD; 2012, p. 36).</p><p>O inventário e a</p><p>partilha compõem</p><p>um “procedimento</p><p>especial de jurisdição</p><p>contenciosa previsto</p><p>no Código de</p><p>Processo Civil para</p><p>que seja efetivada</p><p>a transmissão da</p><p>herança”.</p><p>Inventário e Partilha:</p><p>Trata-se de um procedimento bifásico-escalonado, por meio</p><p>do qual o patrimônio transferido por conta da morte do titular</p><p>será avaliado, bem como serão detectados os sucessores e</p><p>eventuais credores (primeira parte, chamada inventariança),</p><p>para que seja procedida a divisão entre eles, de acordo com</p><p>o quinhão de cada um (segunda fase, denominada partilha). O</p><p>objetivo do inventário é ‘a descrição dos bens do falecido, bem</p><p>como a verificação dos seus possíveis herdeiros, a separação</p><p>da meação do cônjuge supérstite, conforme o regime de</p><p>bens do casamento, o pagamento das dívidas do de cujus,</p><p>habilitando-se credores, e a partilha do acervo remanescente,</p><p>atendido o eventual imposto de transmissão’, como ponderam</p><p>Arruda Alvim, Araken de Assis e Eduardo Arruda Alvim</p><p>(FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 36).</p><p>O procedimento deve ser iniciado em até dois meses da abertura da</p><p>sucessão, prorrogáveis a pedido das partes (art. 611, Código de Processo Civil).</p><p>A inobservância deste prazo pode gerar sanção fiscal, com imposição de multa no</p><p>imposto a ser recolhido. O foro competente será o de último domicílio do falecido</p><p>(art. 48, Código de Processo Civil); além disso, conforme Gonçalves (2012, p. 69):</p><p>Requerimento de abertura do inventário será instruído</p><p>obrigatoriamente com certidão de óbito do de cujus e com a</p><p>procuração outorgada ao advogado que assinar a petição.</p><p>Tendo sido deixado testamento, o respectivo instrumento</p><p>deverá ser também anexado à inicial, além de qualquer outro</p><p>documento de interesse dos herdeiros.</p><p>38</p><p>DIREITO DAS SUCESSÕES</p><p>Aberto o inventário, o juiz deverá nomear inventariante, ou seja, um</p><p>representante dos bens do espólio deixado de herança, cuja função principal</p><p>será administrá-los. O inventariante deverá ser capaz e não poderá ter interesses</p><p>contrários ao do espólio. Suas declarações presumem-se verdadeiras, sob pena de</p><p>sanções criminais. A lei estabelece uma lista a ser seguida por ordem, para escolha</p><p>do inventariante:</p><p>Art. 617 O juiz nomeará inventariante na seguinte ordem:</p><p>I - o cônjuge ou companheiro sobrevivente, desde que</p><p>estivesse convivendo com o outro ao tempo da morte deste;</p><p>II - o herdeiro que se achar na posse e na administração do</p><p>espólio, se não houver cônjuge ou companheiro sobrevivente</p><p>ou se estes não puderem ser nomeados;</p><p>III - qualquer herdeiro, quando nenhum deles estiver na posse</p><p>e na administração do espólio;</p><p>IV - o herdeiro menor, por seu representante legal;</p><p>V - o testamenteiro, se lhe tiver sido confiada a administração</p><p>do espólio ou se toda a herança estiver distribuída em legados;</p><p>VI - o cessionário do herdeiro ou do legatário;</p><p>VII - o inventariante judicial, se houver;</p><p>VIII - pessoa estranha idônea, quando não houver inventariante</p><p>judicial.</p><p>Esta ordem deve ser obedecida e só será quebrada por razões bem</p><p>fundamentadas pelo juiz. Entretanto, caso haja motivo para requerer o afastamento</p><p>do inventariante, é possível solicitá-lo. O artigo 622 do Código de Processo Civil</p><p>elenca um rol exemplificativo de motivos plausíveis para tal afastamento:</p><p>Art. 622 O inventariante será removido de ofício ou a</p><p>requerimento:</p><p>I - se não prestar, no prazo legal, as primeiras ou as</p><p>últimas declarações;</p><p>II - se não der ao inventário andamento regular, se suscitar</p><p>dúvidas infundadas ou se praticar atos meramente</p><p>protelatórios;</p><p>III - se, por culpa sua, bens do espólio se deteriorarem,</p><p>forem dilapidados ou sofrerem dano;</p><p>IV - se não defender o espólio nas ações em que for citado,</p><p>se deixar de cobrar dívidas ativas ou se não promover</p><p>as medidas necessárias para evitar o perecimento de</p><p>direitos;</p><p>V - se não prestar contas ou se as que prestar não forem</p><p>julgadas boas;</p><p>VI - se sonegar, ocultar ou desviar bens do espólio.</p><p>Instaurado o inventário e nomeado inventariante, inicia-se o procedimento</p><p>judicial que irá avaliar o total de ativos e passivos presentes no espólio do morto;</p><p>após quitação das dívidas, restando bens, será feita a divisão entre os herdeiros,</p><p>que podem, ainda, aceitar ou renunciar a herança.</p><p>39</p><p>Introdução ao Estudo do Direito das Sucessões Capítulo 1</p><p>5.2 Da Aceitação da Herança</p><p>Com a abertura da sucessão, a herança passa automaticamente,</p><p>por força de lei, aos herdeiros. Todavia, eles não são obrigados a aceitá-</p><p>la, motivo pelo</p>

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