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BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. Artigo de Revisão Uso de Finasterida Associado a Possíveis Efeitos Psiquiátricos Graves Use of finasteride associated with possible serious psychiatric effects. Introdução Objetivos Materiais / Sujeitos e Métodos Resultados Conclusões Abstract A finasterida é um inibidor competitivo da enzima 5-alfa redutase tipo 2, resultando na diminuição de conversão de DHT. Recentemente um estudo aventou a possibilidade de a Finasterida estar associada a alterações psicológicas graves, o que desde 2011 é debatido, evidenciando a necessidade de mais estudos. Realizar uma revisão na literatura sobre os possíveis efeitos psicológicos graves associados ao uso de finasterida. Foi realizada uma revisão de literatura através das bases de dados PubMed e Google acadêmico utilizando os termos: “Finasteride”, “Finasteride and Suicide” “Finasteride side effects”, “Finasteride psychiatric”, “Finasteride depression”. Foram selecionados 5 estudos que abordavam os possíveis efeitos psicológicos graves associados ao uso de finasterida. A maioria dos estudos encontraram associações estatisticamente significativas entre o uso de finasterida e suicídio e depressão. Desde 2012 a finasterida tem sido muito estudado devido a sua possível associação com efeitos psicológicos graves, porém a maioria apresenta incongruências com a metodologia aplicada. Porém, devido ao desfecho que esses efeitos podem causar para o paciente é prudente que o médico dermatologista acompanhe o paciente. Finasteride is a competitive inhibitor of the enzyme 5-alpha reductase type 2, resulting in decreased DHT conversion. Recently, a study suggested the possibility that Finasteride is associated with serious psychological changes, which since 2011 has been debated, highlighting the need for more studies on the medication. A literature review was carried out through the PubMed and academic Google databases using the terms: “Finasteride”, “Finasteride and Suicide”, “Finasteride side effects”, “Finasteride psychiatric”, “Finasteride depression”. In total, 5 studies that addressed the possible serious psychological effects associated with the use of finasteride were selected. It was concluded that since 2011 finasteride has been widely studied due to its possible association with serious psychological effects, but most of them present inconsistencies with the applied methodology. However, due to the outcome that these effects can cause for the patient, it is prudent for the dermatologist to monitor the patient more carefully. Eryco de Azevedo Coutinho Pós-graduando em Dermatologia Faculdades BWS Brasil Autor Resumo Palavras-chave Finasterida, Depressão, Suicídio. Keywords Finasteride, Depression, Suicide. Trabalho submetido: 16/06/21. Publicação aprovada: 20/12/21. Financiamento: nenhum. Conflito de interesses: nenhum. BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 1 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves INTRODUÇÃO A finasterida é um inibidor competitivo da enzima 5-alfa redutase tipo 2, resultando na diminuição de conversão de DHT. Usualmente ela é administrada por via oral para tratamento de diferentes tipos de alopecia e enfermidades prostáticas. Ela foi desenvolvida na década de 80 e em 1992 seu uso foi aprovado pelo FDA (Food and Drugs Admnistritation) para tratamento de hiperplasia prostática benigna, 5 anos depois sendo também aprovada para tratamento de alopecia androgenética, na dosagem de 1 mg (1). Atualmente, esse medicamento também é usado para tratamento off-label de doenças como hirsutismo e outros tipos de alopecia, sendo, portanto, bastante utilizado pelo médico dermatologista (2). A finasterida possuía muitos efeitos adversos já conhecidos antes da mesma iniciar sua comercialização, como hipotensão, rinite, ginecomastia, diminuição reversível de libido, e múltiplos outros. Porém, os eventos adversos atribuídos ao uso da droga após sua comercialização que ratificam a necessidade de se estudar mais esse medicamento, dado à gravidade, e/ou permanência desses efeitos mesmo após cessar o uso de Finasterida (2). Dentre os efeitos pós-comercialização mais conhecidos estão a síndrome pós- finasterida, depressão, alteração de humor, possível aumento de risco para neoplasias de próstata de alto grau e até suicídio (2,17-20). Devido à potencial gravidade desses efeitos, a finasterida e outros inibidores da enzima 5-alfa redutase vem sendo objeto de interesse de muitos pesquisadores, principalmente após 2011, quando foi publicado o primeiro estudo ligando uma possível associação do uso do medicamento com suicídio e ideação suicida. Recentemente um grande estudo de farmacovigilância reiterou a possibilidade de efeitos colaterais psiquiátricos graves estarem associados ao uso de finasterida, evidenciando a necessidade de mais estudos sobre a medicação, e a maior cautela para a prescrição do medicamento. BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 2 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves MATERIAIS, SUJEITOS E MÉTODOS Foi realizada uma revisão de literatura através das bases de dados PubMed e Google acadêmico utilizando os termos: “Finasteride”, “Finasteride and Suicide” “Finasteride side effects”, “Finasteride psychiatric”, “Finasteride depression”. Não houve limite de data de publicação para a escolha dos artigos. Foram incluídos relatos de casos, séries de casos, artigos de revisão e ensaios clínicos. Ainda, como adicional critério de inclusão, apenas trabalhos onde o foco era os efeitos psicológicos graves relacionados ao uso de finasterida foram incluídos, pois, apresentavam abordagem mais ampla sobre o assunto, possuindo melhor relevância para a pesquisa. RESULTADOS E DISCUSSÃO A finasterida é um medicamento bastante usando no mundo todo, e antes de abordar seus potenciais efeitos adversos psicológicos graves, é essencial conhecer seus efeitos farmacológicos. Conceitos farmacológicos sobre Finasterida A finasterida é um inibidor específico da 5-α redutase do tipo II. Esta enzima medeia a conversão de testosterona em DHT e existe em duas isoformas nos folículos pilosos do couro cabeludo: tipo 1 e tipo 2. Embora ambas as isoformas tenham um papel na alopecia androgenética, o papel da isoforma tipo 2 é maior. A isoforma tipo 2 está localizada na bainha externa da raiz dos folículos pilosos, epidídimo, canal deferente, vesículas seminais e próstata. A isoforma tipo 1 está localizada nas glândulas sebáceas, queratinócitos epidérmicos e foliculares, células da papila dérmica e glândulas sudoríparas (2,3). A finasterida diminui ambos o DHT sérico e local do couro cabeludo no folículo piloso. Sendo utilizada para tratamento de alopecia androgenética, hiperplasia prostática benigna e múltiplas outras condições off-label (4, 5, 6). A finasterida não se liga diretamente ao receptor androgênico, portanto não é um antiandrogênicos tradicional; no entanto, a supressão de DHT reduz BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 3 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves secundariamente os níveis de expressão de receptores androgênicos via mecanismos de retroalimentação (4). A finasterida é bem absorvida no trato gastrointestinal, metabolizada no fígado e excretados na urina e nas fezes. A meia-vida sérica é 5 a 6 horas. Ainda, quantidades em nanogramas da droga são detectáveis no sêmen humano, mas isso é considerado insuficiente para qualquer efeito adverso ou consequências em parceiras sexuais femininas de homens que fazem uso de finasterida (4). A tabela 1 demonstra o mecanismo de ação da finasterida em comparação com outras drogasantiandrogênicas e fatores que podem alterar a atividade de andrógenos. Figura 1 - Mecanismo de ação de antiandrogênicos durante o metabolismo de seus precursores. Fonte: Wolverton (4) . Em células de mamíferos, o colesterol é um componente essencial da membrana celular (análogo ao ergosterol em células fúngicas membranas) e um precursor de todos os hormônios esteróides. BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 4 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves A- O colesterol é convertido em vários precursores de androgênios, como desidroepiandrosterona (DHEA) e sulfato de desidroepiandrosterona (DHEA-S,) para participar da síntese de andrógenos. B- A dexametasona (e outros corticosteroides) pode inibir a produção da glândula adrenal desses precursores andrógenos através der feedback negativo da produção de ACTH. C- Os ovários podem metabolizar esses precursores androgênicos em testosterona; e os anticoncepcionais hormonais podem reduzir produção de testosterona ovariana por meio da inibição via feedback negativo. D- A enzima 5-alfa redutase converte a testosterona em sua forma mais biologicamente ativa di-hidrotestosterona. E- Ambas finasterida (inibidor da 5-alfa redutase tipo II ) e a dutasterida (inibidor da 5-alfa redutase tipos I e II) diminuem a conversão de testosterona em dihidrotestosterona. F- Ambos a testosterona quanto a dihidrotestosterona se ligam ao receptor androgênico; e a espironolactona inibe competitivamente a ligação dos dois hormônios ao receptor de andrógeno. Efeitos colaterais A finasterida possui diversos efeitos colaterais, já conhecidos, como: Impotência sexual, hipotensão ortostática, diminuição da libido, ginecomastia, distúrbios de ejaculação, rinite, teratogenicidade (inclusive sendo orientado ao não contato da pele de mulheres grávidas com o conteúdo das cápsulas de finasterida), aumento da incidência de câncer de próstata de alto grau e câncer de mama (4, 7, 8, 9, 10, 11). Porém os efeitos adversos relatados após sua comercialização têm alertado sobre potenciais cuidados com o uso da medicação. Os principais efeitos adversos atribuídos à droga são a síndrome pós finasterida, e suas alterações no sistema nervoso (ansiedade, depressão e tendencias suicidas) (4, 12, 13). BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 5 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves Efeitos adversos psiquiátricos Há uma base biológica plausível que liga o uso da finasterida, um inibidor da 5α- redutase, à depressão e à ansiedade. Seu uso tem sido associado à desregulação de neuroesteroides e à deficiência de andrógenos. Essas neuroesteróides, junto com seus derivados, são esteróides ativados no cérebro e incluem alopregnanolona, diidrodeoxicorticosterona, deidroepiandrosterona e pregnenolona (14, 15). Acredita-se que os neuroesteróides possuam propriedades ansiolíticas, antidepressivas, aprimoram a memória e também desempenham um papel neuroprotetor (14, 16). Como a finasterida inibe a enzima 5-alfa-redutase, que é necessária para sintetizar esses neuroesteróides, a diminuição resultante na biossíntese de neuroesteróides pode contribuir para os eventos adversos psiquiátricos observados em pacientes que fazem uso da medicação. Por exemplo, já se foi observado que a redução da alopregnanolona está associada a sintomas depressivos e depressão maior unipolar em homens. Porém, embora a finasterida e a dutasterida tenham demonstrado inibir a alopregnanolona em modelos animais, não há informações em humanos (14). Outros mecanismos possíveis envolvem a redução dos níveis de DHT, que também podem estar associados à depressão. Ainda, pacientes com diagnóstico de depressão possuem níveis mais baixos de 5α-redutase tipo I no córtex pré-frontal (14). Por fim, alguns estudos identificaram que pessoas canhotas eram mais suscetíveis aos efeitos colaterais associados ao uso de finasterida, inclusive os efeitos psicológicos graves, demonstrando que talvez a lateralização do cérebro desempenhe um papel no desenvolvimento de efeitos adversos ao uso do medicamento (15). No entanto, falta um contexto clínico mais amplo para esclarecer essas associações e diferenciar se a maioria desses dados seriam causalidades ou casualidades de pacientes que já apresentariam alterações compatíveis com depressão ou outras alterações neuropsiquiátricas. Estudos Relevantes Há diversos estudos que associaram o uso de finasterida a um risco aumentado de depressão entre pacientes que faziam tratamento para hiperplasia prostática benigna BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 6 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves e alopecias de forma geral. A maioria desses estudos se basearam em dados incompletos, alguns inclusive anedotais. Porém há estudos que utilizaram escalas validadas para triagem de depressão nesses pacientes que faziam uso de finasterida, e tiveram melhor qualidade cientifica. Altomare e Capella (16) relataram uma série de 19 pacientes que desenvolveram uma síndrome depressiva moderada quando tratados com finasterida (1 mg / dia) para alopecia androgenética (AGA). Todos os pacientes apresentavam história negativa de transtornos psiquiátricos antes de iniciar o tratamento. A depressão nesses indivíduos desenvolveu-se em média na 14º semanas após o início do tratamento e ocorreu apesar do fato de a maioria dos pacientes estar satisfeita com o impacto que a finasterida teve na estabilização da queda de cabelo. A depressão se resolveu completamente após a interrupção da terapia com finasterida, com resolução dos sintomas depressivos variando de 3 dias a 3 semanas. Um estudo prospectivo sem grupo controle conduzido por Rahimi-Ardabili et al., (17) avaliou à pontuação dos questionários BDI e HADS no início do estudo e, novamente, 2 meses após o tratamento diário com finasterida para pacientes masculinos que apresentavam Alopecia androgenética. Essas escalas são questionários usados para avaliação de depressão (BDI), e depressão e ansiedade (HADS). Os resultados deste estudo mostraram que houve um aumento estatisticamente significativo nas pontuações das pesquisas BDI e HADS dos pacientes após o início da medicação. Porém a severidade da alopecia androgenética não foi relatada no estudo, evidenciando a necessidade de um grupo controle conduzido de forma mais eficiente. Ali et al., (18) realizaram uma análise de farmacovigilância retrospectiva para detectar relatos desproporcionais de eventos de ideação suicida em usuários de finasterida em comparação com eventos de ideação suicida relatados em usuários de outras drogas. Para este estudo estatístico, os autores pesquisaram o banco de dados do Sistema de Notificação de Eventos Adversos da Food and Drug Administration (FAERS) dos Estados Unidos para relatórios de eventos adversos relacionados à finasterida em homens com idade entre 18-45 anos que foram submetidos ao FAERS entre 1998 e 2013. Um total de 4.910 notificações adversas relacionadas à finasterida BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 7 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves foram encontradas para este período de tempo, das quais 39 notificações (0,79%) foram registradas por ideação suicida. Um relato desproporcional de ideação suicida foi encontrado em pacientes que faziam uso de finasterida em comparação com outras drogas no banco de dados FAERS. Dentre os 39 pacientes com ideação suicida, 34 relataram também disfunção sexual persistente. Os autores especularam que uma possível disfunção sexual experimentada por usuários de finasterida poderia ter contribuído para a ideação suicida. Ainda, os autores encontraram 577 relatos de disfunção sexual relacionada ao uso de finasterida e concluíram quea finasterida estava associada a um relato significativamente maior do que o esperado de disfunção sexual em homens jovens em comparação com o relato desses eventos com todas as outras drogas dentro do FAERS, todas associações desse estudo foram realizadas utilizando o método empírico de Bayes. Em 2017, Wlelk et al., conduziram um grande estudo de coorte pareado, retrospectivo de base populacional usando dados administrativos vinculados para 93.197 homens com 66 anos ou mais, no Canadá, que iniciaram o uso de um inibidor da 5α-redutase durante o período de estudo (2003 a 2013) (19). Como resultado, o estudo identificou que os homens que usaram inibidores da 5α-redutase não apresentaram um risco significativamente aumentado de suicídio, contudo o risco de automutilação aumentou significativamente durante os 18 meses iniciais após o início do inibidor da 5α-redutase, mas não depois disso. O risco de depressão também permaneceu elevado durante os 18 meses iniciais após o início do inibidor 5α- redutase, e se manteve elevado, mas em menor grau, para o restante do acompanhamento período. Os aumentos absolutos nas taxas de suicídio (desfecho primário do estudo), automutilação e depressão (desfechos secundários do estudo) foram de 17 por 100.000 pacientes-ano, para o primeiro e 237 por 100.000 pacientes- ano, para o desfecho secundário. O tipo de inibidor da 5α-redutase (finasterida ou dutasterida) não modificou significativamente as associações observadas com suicídio, automutilação e depressão. Por fim, o estudo demonstrou que não houve risco aumentado de suicídio associado ao uso de inibidores da 5α-redutase. No entanto, o risco de automutilação e depressão aumentou em comparação com os homens não BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 8 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves expostos. Este dado é congruente com o observado pós-comercialização desses medicamentos. Mais recentemente, um estudo de farmacovigilância realizado por Nguyen e colaboradores avaliou o VigiBase, o banco de dados global da Organização Mundial da Saúde de relatórios de segurança de casos individuais, e evidenciou que a finasterida, quando comparada com outras drogas no registro, teve notificações desproporcionais de suicídio (356 versus 219 notificações) e eventos adversos psicológicos (2.926 versus 709 notificações). A maioria das notificações de efeitos adversos relacionados à finasterida ocorreu em homens com idades entre 18 e 44 anos, e em análises de sensibilidade, eventos significativamente maiores de ideação suicida e suicídio foram observados em pacientes com menos de 45 anos e pacientes com alopecia não especificada, mas não em pacientes mais velhos ou pacientes com hiperplasia benigna da próstata. Foi-se investigado se a dutasterida, outro 5ARI com as mesmas indicações que a finasterida, porém com função de inibição de ambos os tipos 1 e 2 da 5α- redutase, enquanto, a finasterida inibe seletivamente a isoenzima tipo 2. Além disso a dutasterida reduz os níveis séricos de dihidrotestosterona marcadamente mais do que a finasterida, apresentava também efeitos adversos em proporções semelhantes com a finasterida, porém não encontrou padrão semelhante para doenças psicológicas graves entre as drogas. Considerando que a dutasterida tem propriedades farmacológicas e efeitos adversos semelhantes à finasterida, e que ambas são prescritas para as mesmas indicações, deveria se esperar efeitos psicológicos semelhantes. Mas deve-se levar em consideração que a dutasterida tem recebido muito menos atenção da mídia, e que as incongruências observadas no estudo poderiam ser resultadas do viés de popularidade e viés de publicação. O aumento exponencial de estudos e reportagens divulgados na mídia após 2019 poderiam ter levado a uma maior vigilância e relatos de depressão e suicídio atribuídos ao uso de finasterida, identificados por profissionais de saúde, ou ainda induzido um efeito Nocebo em pacientes, como já observado em estudos prévios. BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 9 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves Ainda, houve uma estratificação no banco de dados da pesquisa por critério temporal, comparando as diferenças de publicação de relatos sobre efeitos colaterais psicológicos usando o ano de 2012 como divisor. Essa data foi selecionada devido ao início de estudos clínico indexado no PubMed associando finasterida e suicídio terem sido publicados em 2012.41 Este estudo inicial atraiu atenção significativa da mídia na época, sendo reportado de forma massiva. Ainda, a fundação: Post-Finasteride Syndrome Foundation, uma organização dedicada a arrecadar fundos para pesquisas científicas e pesquisa clínica sobre a síndrome pós-finasterida, foi fundada em julho de 2012. Por fim, de acordo com o Google Trends, as pesquisas do Google por “síndrome pós-finasterida” começaram a aumentar continuamente a partir de 2012. A tabela (1) evidencia os achados do estudo, de forma geral. Ao ponto que a tabela (2). BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 10 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves Tabela 1 - Características e dados demográficos de efeitos adversos psicológicos e suicidas de usuários de finasterida. Fonte: Adaptado de Nguyen, et al (20) . BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 11 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves Tabela 2 - Desproporcionalidade nas análises de Finasterida. Fonte: Adaptado de Nguyen, et al (20) . Há múltiplos vieses nesse estudo, como a não especificação do grau de gravidade da alopecia dos pacientes que foram estudados, visto que há um aumento expressivo de efeitos adversos psicológicos em pacientes com severidade maior de alopecia, além de o viés de relatórios ser uma limitação significativa para este estudo. Porém essas descobertas sugerem uma associação potencial entre a terapia com finasterida e eventos adversos psicológicos e fomentam a necessidade de suporte e ao aconselhamento de pacientes adultos mais jovens que fazem uso da medicação, considerando o tratamento com finasterida sobre esse risco potencial de suicido. CONCLUSÕES A finasterida é um medicamento amplamente usando no mundo para tratamento de hiperplasia prostática benigna, alopecia androgenética, e outras doenças de forma off-label. Desde 2012, esse medicamento tem sido muito estudado devido a sua possível associação com efeitos psicológicos graves. A maioria dos estudos conduzidos desde então apresentam dados estatísticos significativos, porém apresentam também incongruências com a seleção de grupos do estudo e metodologia, o que prejudica na interpretação do resultado desses estudos. Há necessidade de novos estudos para avaliar se realmente o uso de finasterida está associado à efeitos psiquiátricos graves. Porém, devido ao desfecho que esses efeitos BWS Journal. 2021 Dezembro; v.4, e211200226: 1-13. 12 Uso de finasterida associado a possíveis efeitos psiquiátricos graves podem causar para o paciente, e ao grande número de indivíduos que fazem uso da medicação, é prudente que o médico dermatologista oriente o paciente a monitorar alterações comportamentais compatíveis com os efeitos psiquiátricos atribuídos à finasterida, e ter cuidado com a prescrição do medicamento em pacientes jovens com fatores de risco para suicido, ou já com alterações psiquiátricas. REFERÊNCIAS 1. Finasteride: Uses, Interactions, Mechanism of Action. DrugBank Online. [Internet]. Go.drugbank.com. 2021. [Citado 2021 Jun. 21]. Disponível em: https://go.drugbank.com/drugs/DB01216 2. Uptodate. Treatment of androgenetic alopecia in men. [Internet]. [Citado 2021 Jun. 22]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/treatment-of-androgenetic-alopecia-in-men 3. Rittmaster RS. Finasteride. N Engl J Med. 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