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A histeria, a hipocondria e os fenômenos psicos- somáticos representam articulações diversas do cor- po com a psique, articulações essas que se expressam caracteristicamente rio corpo. A histeria nos remete à neurose, a hipocondria ao delírio e à psicose e os fenômenos psicossomáticos a uma mal-estabelecida e intrigantemente pesquisada relação corpo-mente na qual o corpo vê-se atingindo concretamente em sua intimidade tecidual e humoral, não raras vezes levando a internações, cirurgias e à própria morte. Também as manifestações psicossomáticas são fre- quentemente consideradas como o limite analisável, deixando-nos, analistas, diante da paradoxal sensa- ção de impotência e desafio, na busca de expansão de nossos limites terapêuticos em confronto com os limites do investimento narcísico de nossa qualidade e capacidade analítica. Tomo a histeria e a hipocon- dria neste texto como referenciais para uma tentativa de aproximação psicanalítica aos fenômenos psicos- somáticos, esta sim a razão principal do trabalho. HISTERIA E HIPOCONDRIA A histeria conta uma história. Há uma escrita a ser decifrada por um leitor que, privilegiado pela atenção flutuante, surpreende o retomo do recalcado. As manifestações corporais na histeria são consequên- cias singulares do processo de recalcamento. Assim, uma representação que não pode ser consciente por sua característica afetiva intolerável, parte de uma si- tuação conflitiva, torna-se inconsciente, porém esta- belecendo um vínculo associativo com a consciência através do sintoma histérico. O sintoma histérico arti- cula a representação recalcada à sua própria demons- tração deformada, o que paradoxalmente esconde e insinua a situação conflitiva. Este arranjo dá-se por uma via simbólica em oposição à via anatômica. O corpo narra, fala e simultaneamente descarrega. O fenômeno da conversão histérica é uma solução sim- bólica e econômica para a questão conflitiva. A repre- sentação é recalcada, retorna através do sintoma e o afeto correspondente à representação é convertido na qualidade física da manifestação corporal. Tomo emprestado um exemplo citado por Goldin e Piedi- monte em seu livro La Histeria (1976). Uma moça, Ana, é trazida pela mãe à consulta psicanalítica. Ana chega pedindo que não se toque nela, pois lhe dói muito todo o corpo. Está toda contorcida, torta e mal consegue an- dar. Ao falar, adverte que vem de uma família muito direita, que não se pense que está louca ou que pade- ce de algo incomum. Está assim há dois meses. No de- correr da consulta, Goldin associa estar ela torta com vir de uma família muito direita, e questiona se há dois meses não teria acontecido algo relacionado ao “tocar”, “perder a rectitude” (termo usado no original em oposição à torcido), e “algo doloroso”. Daí surge a lembrança de uma cena na qual estava voltando com o noivo de uma festa, quando pararam o carro e tiveram vários jogos sexuais sem no entanto terem re- lações sexuais, isso há cerca de dois meses. Interrom- po aqui o exemplo. Já nos basta. O sintoma histérico “corpo torcido” e “dor em todo o corpo” expressa si- multaneamente uma relação entre a família “direita” e a sexualidade como algo torto. O corpo torto dra- matiza, como num jogo de mímica à procura de um decifrador, simultaneamente a situação não “direita” e a posição torta que Ana ocupava na ocasião da cena do carro. Também lhe era esta situação muito dolo- rosa como talvez algo doloroso tivesse lhe acontecido no carro. O recalcamento incide na representação da cena e em sua articulação com os significantes torto, direito, retorna através do sintoma. Mais ainda, re- torna através do sintoma dor de transgredir algo que é direito: a família, o que nos leva ao especial lugar ocupado por esse namorado, que o torna parcialmen- te proibido. E assim vamos tecendo esta trama como o fez Goldin na consulta e em seu livro. E nada disso é novidade, apenas um reforço da posição que ocupa o corpo na histeria. Corpo simbólico, corpo história, corpo mímica pedindo e evitando ao mesmo tempo 12 HISTERIA, HIPOCONDRIA E FENÔMENO PSICOSSOMÁTICO Otelo Corrêa dos Santos Filho Psicossomatica.indd 153Psicossomatica.indd 153 05-01-2010 12:12:0805-01-2010 12:12:08 CS Sintomas conversas Fobias Neurose Obsessiva EU VALORES recalque ICS Pulsão desejo Não é nada organico 154 Mello Filho, Burd e cols. ser desvendado. Não há lesão orgânica, a não ser eventualmente secundária. A via é a da escrita, não a da anatomia. A anatomia do corpo simbólico é uma anatomia muito singular, relacionada à história da sexualidade e à vida do sujeito a quem pertence este corpo em particular. Outro ponto importante diz respeito à relação com a realidade. O vínculo com a realidade é mantido e há, implícita neste jogo de esconder e demonstrar, uma possibilidade de subjetivação do sujeito histéri- co. A própria característica principal do recalcamen- to, a via simbólica, contém um outro à espera de ser subjetivado, no decorrer de um processo psicanalíti- co, por exemplo. A hipocondria nos leva a outras considerações. Considerações sobre o corpo delirante, o corpo inimi- go do sujeito, o corpo como um outro, alheio, estra- nho, pertencente a um sistema que ultrapassa a rea- lidade e impõe-se como uma alucinação com delírio. Não me refiro às ideias hipocondríacas ou às suspei- tas de mau funcionamento corporal, tão comum em todos, principalmente em estados depressivos. Falo da hipocondria como estrutura em que não há um estabelecimento de laços simbólicos com o corpo, os quais tentam se estabelecer através do delírio hipo- condríaco. Aqui não se trata do recalcamento de represen- tações relacionadas ao corpo. Há uma rotura radi- cal das relações com o mundo objetal, incluindo o próprio corpo como realidade, e uma tentativa de restauração desses vínculos através do delírio. Na hipocondria, o corpo não se articula simbolicamen- te a uma história ou a um discurso, mas justamente por ser radicalmente excluído dessa possibilidade de articulação, retorna como delírio imposto pelo real. O hipocondríaco chega à análise mais raramente. É paciente dos clínicos e cirurgiões, os quais procura na busca de curar o seu câncer ou tratar as bactérias que o estão invadindo, ou operar aquele tumor cerebral que com angustiada certeza vai levá-lo à morte. Há uma perda do juízo de realidade de tal ordem que frequentemente convence os médicos, levando-os a exames complementares desnecessários na busca ou do convencimento do paciente de que ele não padece de nenhuma doença orgânica, o que dá um ligeiro e breve alívio da angústia, ou para convencer ao mé- dico, já partner do delírio, de que realmente se trata de um sujeito hipocondríaco. Tomo um exemplo para ilustração. Marta, 25 anos, vem à análise em estado de absoluto desespero. Analisa-se quase ininterrup- tamente desde os 8 anos. Acaba de chegar de uma consulta com o clínico. Está em pânico porque teve uma evacuação com fezes um pouco moles e vai ter o seu corpo todo invadido por vermes que vão cul- minar em sua morte. Pela manhã, mais cedo, pisou numa poça de água suja e lavou-se com álcool, pois estava contaminada por bactérias que poderiam des- truí-la. Ontem, esteve num ortopedista porque acha que pisou de mau jeito e teme precisar ser operada no pé. Frequenta uma média de um a dois médicos por dia. Logo que uma lesão ou doença é descartada, outro aparelho, órgão ou sistema corporal se impõe como nova vítima de um inimigo implacável. Há uma mínima relação com a realidade. Não sabe bem por que está na análise, mas algo a leva a vir, talvez para obter um pouco de alívio de sua enorme angústia. Na hipocondria, o corpo sofre uma dupla clivagem. Numa, não faz parte do sujeito, mas ou o domina ou é por ele dominado. Noutra, divide-se em um cor- po em estado de desamparo, importante, submetido às torturas de um órgão inimigo ou de inimigos ex- ternos, bactérias, vírus, câncer, que vão destruí-lo.A ameaça é de aniquilamento, de esfacelamento, não de um representação, mas da própria capacidade de representar, de construir vínculos associativos. Esta- mos no terreno do repúdio, da recusa e não do re- calcamento. O médico e o analista são desesperada- mente convidados a serem aliados desse corpo frágil clivado para protegê-lo do inimigo implacável. Não são convidados a participar de um deciframento ou de uma possível subjetivação. O que se mostra é a própria incapacidade de subjetivação, de construção desse outro escondido, recalcado. Se pudéssemos pensar diacronicamente, estaría- mos numa etapa pré-simbólica, em que se demanda- ria a possibilidade de construir uma capacidade de articulação discursiva que contivesse o corpo e seus vínculos, de constmir um remendo nessa brecha aber- ta na constituição do sujeito. OS FENÔMENOS PSICOSSOMÁTICOS. UMA TENTATIVA DE APROXIMAÇÃO PSICANALÍTICA A histeria e a hipocondria se delimitam, respec- tivamente ao campo da neurose e da psicose e per- tencem a uma área conceitual teoricamente definida pela Psicanálise desde Freud. E os fenômenos psicossomáticos? Em busca de resposta para tão intrigante ques- tão da teoria e prática psicanalítica, vejo-me traçando um caminho e chegando a algumas hipóteses. Esse caminho começa com os clássicos trabalhos e pes- quisas na chamada Medicina Psicossomática. Tomo como exemplo as ideias de Franz Alexander, de Chi- cago. Alexander estudou sete doenças, mais tarde universalmente chamadas psicossomáticas, em bus- ca de correlacionadas a específicas constelações de personalidade, as quais diante de certos momentos Psicossomatica.indd 154Psicossomatica.indd 154 05-01-2010 12:12:0805-01-2010 12:12:08 Psicossomática hoje 155 vitais e aliadas a fatores de natureza constitucional deflagrariam a crise psicossomática. Essa corrente, se assim posso chamar, desemboca numa busca de especificidade psicológica para cada doença psicos- somática e, submetida a critérios estatísticos, aponta mais para uma tendência do que para a configura- ção clara e estrutural desta especificidade. Ficamos sem uma resposta satisfatória, evidenciável à obser- vação, entre determinadas manifestações corporais nem histéricas, nem hipocondríacas e determinados eventos de natureza psicológica. Outras pesquisas da década de 1950, simultâneas ao trabalho do grupo de Chicago, também buscavam correlacionar alteracões do funcionamento fisiológico corporal com determi- nados momentos existenciais, como as crises vitais. Cito para exemplificar o trabalho de Mirsky e cola- boradores (1950), pesquisando o desenvolvimento de úlceras pépticas em recrutas, um interessante mo- delo duplo-cego de pesquisa psicossomática. Nessa pesquisa, por um lado foram realizadas entrevistas psicanalíticas e testes projetivos e, por outro, dosada determinada enzima sanguínea cuja elevação diz de uma predisposição a doença ulcerosa. Ambos busca- vam prever que adolescentes desenvolveriam a doen- ça quando se tornassem soldados. A pesquisa teve um percentual de acerto correlacionado de cerca de 70%. Incluo estes trabalhos por fazerem parte de meu acer- camento da questão psicossomática, o que vejo como importante historicamente para construção de um hi- potético sistema de ideias sobre esta questão. Sifneos e Nehemiah (1983) na década de 1970 descrevem o conceito alextimia como uma impossibi- lidade de nomeação dos próprios sentimentos, como uma falha no reconhecimento dos estados afetivos do próprio sujeito e o condiciona a um achado clínico nos pacientes psicossomáticos, agora já assim cha- madas as pessoas que padecendo de determinados transtornos somáticos, não histéricos, evidenciam uma demonstrável relação entre esses transtornos e determinados acontecimentos e situações vitais que, por seu caráter repetitivo, conferem uma característi- ca singular aos fenômenos é às pessoas. Situação típica seria dada por uma imaginária pessoa que sempre se vê diante de um desafio exis- tencial que ameace sua situação de equilíbrio anterior, desenvolve uma crise ulcerosa. Nesta pessoa, como achado clínico, descobre-se uma enorme dificulda- de para falar sobre e para identificar seus próprios sentimentos. Esta a descrição de alextimia. Outros estudos da mesma época como os de Engel e Medei- ros correlacionam a doença somática à situação de perda, separação e a estados depressivos. Na França, a chamada Escola Psicossomática de Paris, hoje insti- tuto de Psicossomática, através de P. Marty, M. de Mú- zan e C. David, introduz o conceito de “pensamento operatório” encontrado nos pacientes “somatizantes” (Marty, 1988). Cito a descrição: “Os pacientes portadores de doenças somáticas têm uma atividade fantasmática muito reduzida. Em particular eles sonham pouco, e seus sonhos são ‘realistas’; eles repetem o que fizeram durante o dia, o que se passa na realidade. Há muito pouca elaboração psíquica, como se o pré-consciente funcionasse de ‘modo insuficiente’. Por consequência, eles não têm grande coisa para contar ao analista: Eles falam do seu tratamento, dão as novidades e é o silêncio. Se acontece um lapso, ele não é seguido de associações; não há afeto, nem representações in- vestidas fantasmaticamente, nem via imaginária... Se lhe sobrevém um acidente da existência, uma perda qualquer, luto, licença, reage com uma doença somá- tica, mais ou menos grave”. Sobressai à primeira vista uma coincidência. Um certo número de autores (na minha amostra) corre- lacionam a eclosão psicossomática a acontecimentos reais, em geral ou diretamente uma perda, como a morte de um ente querido, desemprego, separação, migração ou indiretamente como no caso das crises vitais, a adolescência, ou o vestibular, ou o casamen- to, por exemplo. Também sobressai a descrição de uma peculiar relação com a vida de fantasia e com os estados afetivos. Vejo-me aqui tentado, e acho que muitos também se sentirão atraídos, a buscar estabe- lecer um diagnóstico estrutural do paciente psicosso- mático, como outra categoria junto aos neuróticos, psicóticos e perversos. Mas a prática como elemento teste da realidade impede minha tentação de êxito. Vemos manifestações psicossomáticas desen- volverem-se em histéricos, obsessivos e psicóticos na clínica diária, como vemos sintomas psicossomáticos serem incorporados a cadeias associativas significan- tes nos neuróticos ou articularem-se a um delírio em psicóticos, embora também observamos a existência dos pacientes classicamente somatizantes de P. Marty. Duas possibilidades: ou estamos observando e diag- nosticando equivocadamente, ou a resposta à ques- tão psicossomática ainda não está suficientemente formulada. Tendo a crer que ainda temos um cam- po aberto à pesquisa e à reflexão com inequívocas consequências para clínica psicanalítica. Trabalho com hipóteses e neste trabalho deixo clara a ausência de um pesquisa extensa sistemática aos autores que atual mente têm elaborado a Psicossomática, contan- do com o estado de meus conhecimentos atuais. Fala-se do afeto no sujeito psicossomático como ou não reconhecido ou praticamente inexistente. De que se fala? Relembremos Freud (1915), que em seu tex- to sobre o Recalcamento e o Inconsciente, propõe para o destino do afeto, a sua transformação (con- Psicossomatica.indd 155Psicossomatica.indd 155 05-01-2010 12:12:0805-01-2010 12:12:08 156 Mello Filho, Burd e cols. versão, deslocamento e transformação) ou a supres- são (Unterdrückung) onde “já não encontramos mais nada dele” (do afeto suprimido). Este termo (Unter- drückung) e o que designa (o desaparecimento do afeto) foi apontado e pouco desenvolvido por Freud e creio ser um conceito central na questão psicosso- mática. Assim como na neurose o que importa é o destino dado à representação, no fenômeno psicos- somático o que importa é o destino dado ao afeto. Não quero assemelhar a supressão ao recalcamento e supor um “retorno do suprimido” através do sintomasomático. Trata-se de algo singular que diz respeito a uma impossibilidade de acercamento a afetos de per- da, e creio que o conceito supressão deva referir-se a esta impossibilidade. Não há como recalcar a repre- sentação para evitar o afeto, pois não está se lidando com representações e sim com acontecimentos reais nos quais está implícita uma perda ou separação. E esta a rotura que é temida. Não se trata de uma possi- bilidade psicótica nem neurótica de arranjo com uma realidade penosa e sim um destino dado ao afeto im- possível de ser vivenciado ou transformado. Deixarei propositadamente de fora considera- ções etiológicas, embora creia possam ser buscadas nas relações do sujeito com seu objeto primordial articulados a aspectos corporais, tangenciados por Freud quando se refere à “Complacência Somática” no “Caso Dora”. Temos adiante duas outras questões. A primeira diz respeito ao fato de que fenômenos psi- cossomáticos são também desencadeados por deter- minadas representações e não só por acontecimentos vitais, o que aparentemente contradiz o que foi dito até aqui. A segunda, que as manifestações somáticas atingem os neuróticos, psicóticos e perversos, portan- to convivem com o recalcamento, o repúdio e a recu- sa. Equacionamos a primeira. As representações que desencadeiam os fenô- menos somáticos não têm uma ligação simbólica com perda ou separação, mas uma ligação imaginária, ou seja, são representações sem a mediação de um discurso. Logo adiante vou descrever o caso de Ber- nardo, em que se evidencia esta relação, mas tomo aqui dois pequenos exemplos para ilustrar esta re- lação da representação à evocação da perda no fato psicossomático e na histeria. Primeiro exemplo: um homem começa a sentir-se dispneico e tem uma cri- se de asma ao ver um casal de namorados brigando. Segundo exemplo: uma moça tem crise de dispneia e sufocação histérica ao ver o trono de determina- do rei em um museu. No primeiro exemplo, a cena da briga evoca diretamente a questão da separação é a própria imagem da separação, daí o desencadea- mento da asma. No segundo, a histérica, associando posteriormente, viu nas formas femininas dos braços do trono sua relação de submissão com o namorado, que era “seu rei” e a subjugava, o que desencadeou a crise de angústia e sufocação. O namorado a sufo- cava e era preciso fugir desta constatação. Vamos à segunda questão que penso só poder ser respondida se pensarmos em termos da “clivagem do ego”. Esta clivagem, como descrita por Freud (1938), permite a coexistência no ego de determinadas articulações para a pulsão e suas representações e outros para a possibilidade de perda do objeto. Sintetizando, teríamos no fenômeno psicosso- mático uma situação real de perda ou equivalente ou ainda uma representação imaginariamente presa a uma cena de perda, um particular destino dado ao afeto que lhe corresponderia e que é impossível ser vivenciado, a supressão, e uma clivagem do ego que permitiria a coexistência com outras defesas e estru- turas de articulação da pulsão. Esta hipótese traz consequências clínicas na me- dida em que o que é buscado na análise das manifes- tações psicossomáticas ou do “sujeito psicossomático” não é uma escritura a ser lida nem uma brecha a ser remendada. É mais que tudo construção de uma pos- sibilidade de vivenciar afetos sem o risco de uma dor impossível: a de sua própria destruição como sujeito, alienado que está primariamente àquele do qual não pode ser separado. BERNARDO E A REPRESENTAÇÃO – FOTOGRAFIA Bernardo tem 8 anos e foi-me derivado por uma pediatra. Esteve internado por um mês com diagnóstico endoscópico de úlcera duodenal, tendo sido medicado durante sua internação. Obtendo alta com remissão sintomática. A pediatra notou certas características em sua história pessoal que a fizeram recomendá-lo ao Serviço de Psicossomática. Com a própria pediatra e com os pais de Bernardo, colhi a seguinte história. Bernardo é o segundo filho, tendo uma irmã 2 anos mais velha. Seu pai é um pequeno industrial e sua mãe professora. Ambos trabalham muito, tendo a mãe três empregos, portanto estando muito pouco com Bernardo, que desde os 3 meses fica com a empregada. Bernardo, no dia 27 de ou- tubro de 1988 amanheceu com fortes dores abdomi- nais. Levado ao Setor de Emergência, foi internado para investigação diagnostica sendo posteriormente transferido para a Pediatria. Na conversa com os pais, surge uma triste e curiosa história. No dia 27 de ou- tubro de 1987, ou seja, exatamente um ano antes do aparecimento dos sintomas havia acontecido um fato trágico em sua casa. A pedido de Bernardo e de sua irmã, a empregada havia levado seu filho de 1 ano para que eles o vissem. Num determinado momento, Psicossomatica.indd 156Psicossomatica.indd 156 05-01-2010 12:12:0805-01-2010 12:12:08