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Etiologia e alterações mecânicas das disfunções em urologia e gineco-obstetrícia Unidade 2 Aspectos clínicos e diagnósticos nas disfunções vesicoesfínctero-perineal Disfunções vesicoesfínctero-perineal Aspectos clínicos e diagnósticos Prolapso urogenital Classificação dos prolapsos genitais Tratamento dos prolapsos urogenitais Incontinência urinária e tratamento fisioterapêutico Tratamento fisioterapêutico para as incontinências Incontinência anal e constipação intestinal Prostatectomias Prostatectomias e tratamento fisioterapêutico Aspectos clínicos e diagnósticos nas disfunções vesicoesfínctero-perineal O sistema nervoso, através de mecanismos voluntários e involuntários, realiza o controle da micção, que possui três fases. A primeira é a de enchimento vesical, com aumento gradual da resistência uretral, em conjunto com o esfíncteres estriado e liso. Na fase de reservatório, a urina é armazenada até o momento da micção, que corresponde à última fase, o esvaziamento vesical, no qual a contração coordenada entre o detrusor e o relaxamento do esfíncter urinário externo resulta na micção. Essas fases são dependentes do sistema nervoso, e complicações advindas dele e de disfunções anatômicas contribuem para o aparecimento de doenças, incontinências, prolapsos, infecções, obstrução e distúrbios. A bexiga é um órgão muscular localizado na pelve que possui como principal função o armazenamento e a eliminação periódica da urina através da uretra, formando o trato urinário inferior junto com a uretra. A bexiga é formada por fibras de musculatura lisa, que recebem o nome de músculo detrusor. O detrusor (bexiga) tem um corpo vesical acima dos orifícios uretrais e uma base formada pelo trígono e pelo colo vesical. A sustentação da bexiga é realizada nos indivíduos do sexo masculino pelos ligamentos puboprostáticos e, nos indivíduos do sexo feminino, pelos ligamentos pubovesicais. O funcionamento da bexiga é comandado pelo sistema nervoso central (SNC) e sua inervação se faz tanto por fibras parassimpáticas, originadas dos segmentos de S2 a S4 e que seguem até a bexiga, quanto por fibras simpáticas, derivadas dos segmentos de T11 a L2 e que formam o nervo hipogástrico, inervando a bexiga e a uretra. Esses segmentos dão origem ao plexo nervoso vesical. Formada por um tubo muscular, a uretra é responsável por conduzir a urina do óstio interno da uretra da bexiga até sua eliminação pelo óstio externo da uretra. A uretra masculina possui a porção pré-prostática, membranosa, esponjosa e inervada pelo nervo pudendo e pelo plexo prostático. A uretra feminina está localizada no vestíbulo da vagina, passando pelo diafragma pélvico, músculo esfíncter externo da uretra e membrana do períneo, sendo inervada pelo nervo pudendo, conforme exposto por Girão, em Tratado de uroginecologia e disfunções do assoalho pélvico, de 2015. Em condições fisiológicas normais, a urina pode ser eliminada após a percepção do enchimento completo da bexiga e também em condições de enchimento parcial, nas quais o indivíduo considerará o momento mais oportuno para iniciar a micção, de acordo com relatos de Kavia, Dasgupta e Fowler, em artigo para o The Journal of Comparative Neurology em 2005. Quando a bexiga estiver cheia de urina, sua parede se distende, estimulando as raízes parassimpáticas aferentes (sensitivas) para que elas acionem o centro de reflexo de S2 a S4 que, através das fibras eferentes (motor), envia a informação ao músculo detrusor para que este execute a contração e elimine a urina através da uretra. Tal reflexo se dá de forma automática, ao nível medular. O indivíduo, em condições anatômicas e fisiológicas normais, com o aumento da pressão vesical, comprime receptores na parede da bexiga, provocando o desejo miccional. DIFUNÇÕES VESICOESFÍNCTERO-PERINEAL Doenças neurológicas podem causar alterações na funcionalidade vesical e esfincteriana do trato urinário inferior. A bexiga neurogênica, ou micção disfuncional, é uma disfunção vesico-esfincteriana que acomete indivíduos portadores de doenças do sistema nervoso central ou periférico, sendo gerada por lesão parcial da medula espinhal ou do tronco cerebral e distúrbios neurológicos, como acidente vascular cerebral (AVC), esclerose múltipla, paraplegia, doença de Parkinson, neuropatia periférica; porém, a origem mais comum é o traumatismo raquimedular. Doctors.gif Tal disfunção acarreta em alterações no padrão normal da micção nas fases de enchimento vesical, reservatório e esvaziamento vesical, contribuindo para o aumento da pressão intravesical, esvaziamento vesical incompleto, incapacidade de iniciar ou interromper a micção, sem falar no aparecimento de incontinências, dada a lesão sofrida pelos centros responsáveis pela emissão dos sinais inibitórios. A bexiga neurogênica é classificada de acordo com o nível de lesão. O controle medular da micção fica localizado entre S2 a S4, na medula espinhal. Lesões acima do nível do controle da micção ocasionam bexigas neurogênicas não flácidas, divididas em reflexa ou não inibida. A bexiga reflexa é quando há uma lesão completa, acima do controle da micção, que leva a comprometimento motor e sensitivo. A bexiga não inibida é quando, durante o processo de enchimento vesical, as contrações para eliminação da urina não são inibidas, levando à urgência miccional ou incontinência urinária. As lesões abaixo do controle medular da micção suscitam bexigas neurogênicas flácidas, divididas em autônoma, atônica (sensitiva) e paralítico- motora. A bexiga autônoma tem a sua ocorrência associada à choque medular, interrompendo o arco-reflexo. A bexiga atônica (sensitiva) se dá quando ocorre uma lesão no corno superior da medula espinhal. Já a bexiga paralítico-motora é quando a lesão ocorre no neurônio ou nervo responsável pelo controle do músculo detrusor. ASPECTOS CLÍNICOS E DIAGNÓSTICOS Para que seja oferecido um tratamento adequado, conforme a necessidade do indivíduo, é de extrema importância que o profissional de saúde realize uma avaliação minuciosa. A avaliação deve ser geral, contemplando um histórico completo sobre sintomas pregressos e atuais do indivíduo, abordando cirurgias realizadas, doenças do trato urinário e intestinal, função neurológica e sexual, histórico da micção, queixas miccionais, medicamentos em uso, fatores hereditários, bem como presença de dor, febre, infecção e hematúria. No exame físico, o profissional foca na anatomia pélvica e no sistema neurológico, na sensibilidade e nos reflexos urogenitais, além de testes de função esfincteriana e do assolho pélvico. Também são aplicados testes mentais, de força e de sensação (dermátomos sacrais), no intuito de verificar condições neurológicas que contribuem para alterações na micção. Para pacientes que possuem lesões na medula espinhal, é importante verificar o nível da lesão, se é completa ou incompleta, sem esquecer do tônus e da sensação da extremidade. Entre os sintomas apresentados pelos indivíduos acometidos pela bexiga neurogênica, os principais são de esvaziamento incompleto da bexiga, perda de urina em pequena ou grande quantidade e infeções do trato urinário com frequência. Exames solicitados pelo médico, como a radiografia contratada logo após a micção, auxiliam no diagnóstico preciso, assim como o uso de sonda, de modo a medir a pressão interna da bexiga e aferir a quantidade de urina, e de exames como ultrassonografia, cistografia e urodinâmico. Após o diagnóstico, é necessário que o indivíduo realize o tratamento adequado com base no tipo de bexiga neurogênica apresentado. Pode ser necessário o uso de medicamentos, cirurgias e a fisioterapia, uma vez que o tratamento ideal deve buscarsolucionar o problema. Contudo, nos casos em que não for possível, as ações devem oferecer uma melhor qualidade de vida para o indivíduo. O tratamento para bexiga neurogênica consiste em preservar a função renal, fornecer baixa pressão no armazenamento da urina, melhorar a capacidade de armazenamento e trabalhar na prevenção de possíveis infecções. 122808-OQ65OX-836-01.png O tratamento fisioterapêutico é de extrema importância para as disfunções vesicoesfínctero- perineais. O tratamento fisioterapêutico para a bexiga neurogênica não inibida pode se valer dos exercícios de Kegel para estimular a contração da musculatura do assoalho pélvico. Esses exercícios auxiliam o indivíduo na melhora da força muscular, colaborando para uma melhor resistência uretral. O biofeedback, associado à eletromiografia, fisioterapia miofascial no assoalho pélvico e terapia comportamental, também é uma técnica que o fisioterapeuta pode utilizar no tratamento. A fim de estimular o reflexo para a micção, o tratamento fisioterapêutico para a bexiga neurogênica reflexa também pode empregar técnicas de percussão, de amassamento e de tracionamento do pelos púbicos. No tratamento da bexiga neurogênica autônoma, o fisioterapeuta usa exercícios que estimulam a contração isométrica dos músculos que fazem parte do assoalho pélvico e abdominais. O biofeedback, a acupuntura e a terapia comportamental também podem ser aproveitadas. Em relação ao tratamento para bexiga atônica (sensitiva) e paralítica motora, o fisioterapeuta realiza técnicas que provocam o aumento da pressão intravesical, como a manobra de Valsalva, estímulo de tosse, exercícios de contração muscular isométrica e isotônica do abdômen, iliopsoas, glúteo e paravertebrais, no intuito de provocar a micção, além da acupuntura, da eletroestimulação, do biofeedback e dos exercícios de Kegel. Prolapso urogenital O prolapso urogenital, também denominado prolapso genital ou prolapsos dos órgãos pélvicos (POP), é uma consequência do desequilíbrio entre os mecanismos que sustentam e suspendem os órgãos pélvicos em sua posição normal, ocasionando o deslocamento, no sentido caudal, de uretra, bexiga, útero, alças intestinais e reto através da vagina, ocorrendo em diferentes graus. Mulheres são acometidas por esse problema de saúde em todo o mundo, porém, o prolapso quase nunca resulta em morbidade e mortalidade, embora o impacto negativo na qualidade de vida da mulher seja significativo. A ocorrência do prolapso pode estar associada a alguma alteração congênita, que contribui para o enfraquecimento dos aparelhos de suspensão e sustentação, e também ao aumento crônico advindo da pressão intra-abdominal. A multiparidade é o principal fator para o aparecimento dos prolapsos, dadas as alterações hormonais na musculatura lisa e no tecido conjuntivo pélvico, que sofrem um afrouxamento na gestação. Todavia, mulheres que não tiveram gestação (nulíparas) também têm chances de desenvolvimento dos prolapsos, em especial as que praticam exercícios físicos de alta intensidade, que podem aumentar a pressão intra-abdominal e acarretar em algum prolapso. Estudos sugerem que mulheres negras e asiáticas têm menor risco do desenvolvimento de prolapsos, enquanto mulheres hispânicas possuem maior risco, algo que pode ser explicado pelas diferenças anatômicas e pela composição das fibras de colágeno. Os prolapsos urogenitais são afecções exclusivas para indivíduos do sexo feminino e que podem acometer a vagina, nas suas paredes anterior e posterior, e o útero, no ápice da vagina. Em outras situações, pode haver mais de uma combinação de áreas acometidas, entretanto, o segmento em que há um número maior de casos são as afecções da parede anterior da vagina, nas quais, em geral, a bexiga desce no sentido caudal, pela vagina, também conhecido como cistocele. Já o prolapso apical se dá quando o útero ou o fundo da vagina sofrem protrusão, enquanto parte do intestino delgado e o reto sofrem protrusão devido ao prolapso da parede posterior da vagina. CLASSIFICAÇÃO DOS PROLAPSOS GENITAIS Os prolapsos urogenitais são classificados pelo sistema de Baden-Walker e pelo International Continence Society (ICS) de acordo com o introito vaginal e o compartimento genital. O prolapso em relação ao introito vaginal é caracterizado conforme o grau. O prolapso de primeiro grau se dá quando o órgão prolapsado não alcança o introito da vagina; o de segundo grau acontece quando os órgãos prolapsados se exteriorizam de forma parcial através do introito vaginal; e o prolapso de terceiro grau ocorre quando o órgão que sofreu o prolapso se exterioriza de maneira total. A classificação baseada no sistema de Baden-Walker, explicada no Quadro 1, é de fácil execução, embora pouco empregada na prática clínica. A classificação do ICS utiliza o sistema de quantificação do prolapso dos órgãos pélvicos (Pelvic Organ Prolapse Quantification System- POP-Q). O POP-Q examina os prolapsos por meio de medidas e pontos específicos de suporte dos órgãos pélvicos da mulher. Em posição ortostática, a mulher examinada executa algum esforço a fim de se realizar o mapeamento da anatomia vaginal. O anel do hímen é utilizado como ponto fixo de referência, denominado como o ponto zero. As estruturas localizadas acima desse ponto fixo são classificadas com um valor negativo, e as estruturas abaixo do ponto fixo recebem um valor positivo. O Quadro 2 traz os pontos de referência adotados para realizar as medidas. A classificação dos prolapsos urogenitais também pode se fundamentar a partir do compartimento genital envolvido. Quando o prolapso está localizado no compartimento anterior da vagina, ele é denominado de cistocele, uretrocele ou cistouretrocele. Quando o prolapso está no compartimento apical, é denominado uterino (uterocele), fórnice posterior (enterocele) ou prolapso de cúpula vaginal pós-histerectomia. Agora, se o prolapso está localizado no compartimento posterior da vagina, é denominado de retocele. A cistocele acontece em decorrência de lesão da fáscia vesicovaginal e/ou perda da fixação da fáscia vesicovaginal ao arco tendíneo. Com isso, a bexiga, não sustentada em sua posição normal, se desloca no sentido caudal para a vagina. Os sintomas relatados pelas mulheres são de sensação de peso ou desconforto na região da genitália externa, aliviados ao se deitar e menos evidentes pela manhã, porém, o desconforto se intensifica ao ficar por muito tempo em ortostatismo (de pé). A dispaurenia e a dor durante a relação sexual também são sintomas associados a esse prolapso. Na cistocele, o sinal mais comum é o da exteriorização de uma “bola” na vagina, que pode se apresentar também em repouso e aumentar conforme o esforço. Os ligamentos laterais (cardinais), posteriores (uterossacros) e anteriores (pubovesicocericais) oferecem suporte, para o colo uterino e para a cúpula da vagina. Complicações nesse suporte advindas de traumatismos no parto e/ou de cirurgias pélvicas, podem favorecer o aparecimento do prolapso apical. Esse prolapso pode incluir o útero, com ou sem enterocele. O prolapso uterino é quando o útero se desloca, no sentido caudal, através da vagina. O Manual de orientação: uroginecologia e cirurgia vaginal, editado em 2010 pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), classifica em três graus o prolapso uterino: - o prolapso de primeiro grau acontece quando o órgão prolapsado não atinge o introito vaginal; - o prolapso de segundo grau é ocasionado quando o órgão prolapsado se exterioriza de forma parcial pelo introito vaginal; e - o prolapso de terceiro grau é quando o órgão prolapsado se exterioriza todo através do prolapso genital.Os sinais e sintomas apresentados são sensação de peso ou desconforto, com sensação de uma “bola” na genitália externa, dispaurenia, sangramento pelo contato com roupa e disfunção sexual. Como na cistocele, os sintomas são aliviados ao deitar-se e pela manhã e pioram quando a mulher fica por muito tempo em pé. O prolapso da cúpula vaginal ou eritrocele pode acontecer durante o procedimento de histerectomia, ou outra cirurgia pélvica, através da redução das estruturas de suporte. Os sintomas são os mesmos apresentados pela cistocele e pelo prolapso uterino. A enterocele se dá quando o intestino delgado se desloca em direção à cúpula vaginal por conta de um defeito na fáscia endopélvica, colocando o peritônio em contato direto com a vagina. Ela também tem o seu aparecimento mais comum após a histerectomia. O prolapso da parede posterior da vagina, denominado de retocele, acontece quando o enfraquecimento da fáscia retovaginal e de seus pontos de fixação próximos aos músculos elevadores do ânus, desencadeia a herniação do reto. Na retocele, também há lesão do centro tendíneo do períneo, que dá suporte suplementar para os órgãos do assoalho pélvico. Os sinais e sintomas comumente apresentados são similares aos dos outros prolapsos, com a sensação de peso e desconforto na região da vagina, exteriorização de uma “bola” pela vagina, sangramento devido ao atrito com tecidos, dispaurenia, disfunção sexual e dificuldade durante a evacuação. E em algumas mulheres, a retocele pode ser assintomática. TRATAMENTO DOS PROLAPSOS UROGENITAIS O tratamento para os prolapsos urogenitais engloba uma série de fatores, visto que os sintomas advindos dessas complicações afetam a saúde física e mental, bem como a vida sexual e social, gerando consequências negativas impactantes na qualidade de vida das mulheres. O tratamento médico pode ser através de correções cirúrgicas, com o uso de técnica de implantes ou uso de telas, e o uso de medicamentos conforme a necessidade. O tratamento conservador, indicado nos casos mais leves e moderados, se aplica quando há educação em saúde sobre a importância de adoção de um estilo de vida saudável e da fisioterapia. Em primeiro lugar, é necessário que o fisioterapeuta saiba quais os tipos de prolapsos, o compartimento afetado e o grau desse prolapso. Quanto ao grau, o fisioterapeuta se pauta na classificação dos estágios do prolapso segundo o POP-Q, a fim de padronizar a sua intervenção e contribuir para comparação entre os pacientes. Nos casos leves (estágio I) e em alguns casos moderados (estágio II), segundo a classificação do POP- Q, a fisioterapia também pode ser adotada, como preconizado por Palma (2009) em Aplicações clínicas das técnicas fisioterapêuticas nas disfunções miccionais e do assoalho pélvico. Para que o fisioterapeuta trace a sua conduta, ele faz uma detalhada anamnese englobando idade, número de gestações e partos, cirurgias, medicamentos em uso, doenças diagnosticadas pelo médico, hábitos de vida e o que acreditar ser pertinente para o tratamento. No exame visual da região acometida, verifica se há presença de cicatrizes, edemas e escoriações, além da coloração da pele da região da genitália e da avaliação da musculatura do assoalho pélvico. Os objetivos do tratamento fisioterapêutico para os prolapsos urogenitais aumentam a força, a rigidez e o suporte da musculatura do assoalho pélvico. Auxiliar na prevenção, para que esse prolapso não progrida para um estágio negativo mais avançado, sendo necessária a cirurgia, contribui para a melhora dos sintomas apresentados pelo indivíduo em tratamento, bem como o adiamento ou até o fim da necessidade de procedimento cirúrgico. A partir da avaliação e dos objetivos traçados, o fisioterapeuta planeja a programação de intervenção, com técnicas envolvendo exercícios para fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico, como os exercícios propostos por Kegel, que oferecem à mulher uma conscientização e aprendizado para o controle dessa musculatura. Os exercícios serão orientados para que o indivíduo realize a contração da musculatura do assoalho pélvico por 3 segundos e depois relaxe por à estimulação segundos, podendo ser associados nas setas: três elétrica por cones introduzidos na vagina, que funcionam como “halteres” dos músculos do assoalho pélvico. Conforme a musculatura melhora sua força muscular, a “carga” do cone vaginal aumenta. O biofeedback também é uma técnica a ser utilizada, seja pela palpação fisioterapêutica na vagina ou pelo equipamento introduzido na vagina, capaz de medir a força de contração da musculatura. Com a resposta do biofeedback, a mulher em tratamento compreende de que forma deve ser feita a contração da musculatura. Dispositivos como anéis e pessários também podem ser utilizados no intuito de fornecer suporte às estruturas e diminuir sintomas de dor e desconforto. O fisioterapeuta também deve educar a mulher sobre a importância de adoção de um estilo de vida saudável, sejam mulheres já com prolapsos ou que não possuam tal afecção. É de extrema importância que o fisioterapeuta trabalhe em ações de educação em saúde para a população referentes à promoção e prevenção dos prolapsos urogenitais. Incontinência urinária e tratamento fisioterapêutico Incontinência urinária A continência faz referência à fisiologia adequada de controle da urina e das fezes que permite a consciência do momento e local apropriados para eliminar urina e fezes. A queixa da perda de urina, de forma involuntária, está relacionada ao enfraquecimento ou lesão dos músculos responsáveis pelo controle da micção, os músculos do assoalho pélvico e esfíncter uretral. Tal condição, de complicações na musculatura, gera a incontinência urinária (IU). A função urinária é comanda pelo cérebro e pela bexiga. A bexiga, responsável por armazenar a urina até o momento adequado para sua eliminação, é formada por musculatura lisa, que fica relaxada de forma a contribuir para o enchimento. O colo da bexiga é responsável pelo fechamento e abertura da uretra e, durante a fase de enchimento, ele se mantém fechado junto com a musculatura do esfíncter ao redor da uretra, evitando a perda da urina. No momento em que a parede da bexiga tiver atingido o seu limiar de enchimento, distendendo a sua parede, os receptores sensoriais de estiramento encaminham o estímulo mictório ao cérebro e a bexiga tem uma inibição reflexa, gerada pelo nervo hipogástrico, junto com a inibição do esfíncter externo, gerada pelo nervo pudendo, de forma a manter a urina dentro da bexiga até o comando cerebral. Através das fibras nervosas do parassimpático, o ato reflexo sai do cérebro e retorna à bexiga pelo nervo pélvico, estimulando a contração do músculo detrusor. Ao mesmo tempo, o esfíncter da uretra relaxa para que haja a micção. A IU afeta a saúde física, mental, emocional e social de homens e mulheres em todo mundo, comprometendo de forma negativa a sua qualidade de vida. As IU são classificadas em IU de esforço (IUE), bexiga hiperativa (incontinência urinária de urgência), incontinência mista e incontinência por transbordamento. A IUE é a incontinência mais comum no público do sexo feminino e acontece quando o músculo detrusor não se contrai como deveria e a pressão vesical excede a pressão da uretra, acarretando em perda urinária através da uretra. O sintoma mais apresentado é a queixa da perda de urina ao realizar algum tipo de esforço, como tossir, espirrar, praticar exercício físico ou mudança de peso. A IUE pode ser consequente da hipermobilidade da uretra e do colo vesical, quando as estruturas responsáveis por manter a posição adequada da uretra e do colo vesical sofrem algum tipo de lesão. A deficiência do mecanismoesfincteriano intrínseco da uretra, devido ao tônus diminuído da uretra, é outro fator que contribui para o desenvolvimento da IUE. O tecido conjuntivo da mulher e o envelhecimento também são fatores que contribuem para a ocorrência da IUE, cujos principais fatores que a pressupõem são: Parto – O tipo de parto e número de gestações pode ocasionar lesão no tecido de sustentação ou suspensão dos órgãos pélvicos. Aumento da paridade – Forte contribuinte para o enfraquecimento do assoalho pélvico, além do risco de lesão, que pode gerar secção e estiramento de músculos e nervos, desarranjo na estrutura do tecido conjuntivo e fáscias, alterando a anatomia e contribuindo para perda de urina. Estrogênio – A deficiência desse hormônio leva a atrofia muscular, ligamentar, da mucosa uretral e também da vascularização periuretral, que diminui a pressão da uretra para o seu fechamento. Traumatismos pélvicos – Seja por fratura ou sinfisiotomia, podem lesar as estruturas de sustentação e suspensão do assoalho pélvico. Cirurgias ao redor do colo vesical e pélvicas radicais – Podem causar lesões na região esfincteriana e uretral, fibrose parauretral pós-operatória e falência em elevar ou abaixar a junção uretrovesical. Outros fatores – Ser da raça branca, constipação intestinal, tabagismo, obesidade e ocupações que exigem grau elevado de esforço. A bexiga hiperativa ou incontinência urinária de urgência são sinônimos utilizados quando há presença de urgência urinária, podendo ter ou não incontinência urinária, e na ausência de infecção ou doenças do trato urinário, em geral acompanhada do aumento da frequência urinária e da noctúria. Nessa situação, o músculo da bexiga começa a se contrair de forma involuntária, ocasionando urgência de urinar mesmo com volume de urina baixo. Os sintomas apresentados relatam vários episódios de vontade de urinar e difícil de controlar, perda involuntária de urina logo após a vontade de urinar e acordar várias vezes para urinar. Tais complicações geram impacto negativo sobre a qualidade de vida e o indivíduo com bexiga hiperativa tende a se isolar, sentir vergonha, ansiedade, depressão e baixa autoestima. Essas contrações involuntárias do detrusor são qualificadas em idiopática, com contrações não inibidas do detrusor na fase de enchimento da bexiga e sem causa definida para que isso ocorra, e em neurogênica, com a hiper-reflexia do detrusor. Nessa situação, além das contrações não inibidas, há uma lesão neurológica associada, com disfunção no arco reflexo sacral, córtex cerebral e/ou de outros centros neurológicos responsáveis pelo controle voluntário e involuntário da atividade vesical, tendo como consequência o relaxamento do esfíncter da uretra de forma involuntária e abrupta. Os fatores de predisposição ao desenvolvimento da bexiga hiperativa podem estar relacionados ao próprio processo de envelhecimento, aumento da próstata, diabetes, declínio cognitivo, decorrente de doenças do sistema nervoso, como doença de Alzheimer, consumo de café e álcool, que estimulam a poliúria e a polaciúria, e a constipação intestinal. A incontinência urinária mista é a associação da IUE com a hiperatividade do detrusor. Os indivíduos com essa afecção apresentam, além da perda urinária aos esforços, contrações não inibidas do detrusor. Um exame urodinâmico define se é uma incontinência mista, confirmando se há perda sincrônica aos esforços junto com contrações não inibidas do músculo detrusor. Para o tratamento, o ideal é que seja tratada primeiro a hiperatividade, e se os sintomas da IUE persistirem, mesmo com a melhora do quesito da hiperatividade, o procedimento cirúrgico é o mais indicado. A incontinência por transbordamento é quando a pressão intravesical excede a pressão uretral, ligando- se à distensão vesical, em virtude da ausência da atividade do músculo detrusor. Encontrada em indivíduos com lesão neurológica, após a bexiga estar completamente cheia ocorre a perda urinária, porém o músculo detrusor não consegue se contrair para eliminar o líquido da bexiga. Sua ocorrência se dá em bexigas espásticas e atônicas e, no seu tratamento, é necessária a utilização de medidas de suporte por meio da redução de medicação que aumente os tônus do esfíncter da uretra ou que diminua a contratilidade vesical. TRATAMENTO FISIOTERAPÊUTICO PARA AS INCONTINÊNCIAS O tratamento conservador para IU inclui fisioterapia, medicamentos, mudanças de hábito de vida e terapia comportamental. O tratamento primário para as IU é a fisioterapia e, nos casos em que houver maior necessidade, o procedimento cirúrgico. A fisioterapia visa reeducar as contrações da musculatura do assoalho pélvico e, para tanto, o fisioterapeuta realiza uma anamnese minuciosa do indivíduo, a fim de delimitar seus objetivos e condutas pertinentes para cada caso. Na avaliação, o fisioterapeuta se atenta ao tônus muscular do assoalho pélvico em repouso, à propriocepção e à qualidade da contração muscular, à contração e relaxamento correto dos músculos do assoalho pélvico, além de averiguar se há atuação de músculos sinergistas e antagonistas, bem como grau de força muscular. O tratamento fisioterapêutico indicado para as IU emprega o treinamento muscular do assoalho pélvico (TMAP), terapia comportamental, exercícios de Kegel, terapia com o uso de cones e biofeedback, a fim de permitir que as mulheres vejam a contração muscular durante o exercício. A estimulação elétrica, ao produzir hipertrofia muscular, normaliza a atividade reflexa do trato urinário inferior e aumenta a circulação para os músculos. O fisioterapeuta, a partir do diagnóstico do tipo de IU, traça as condutas mais pertinentes. Difundida pelos fisioterapeutas, o TMAP é uma abordagem que representa o padrão-ouro de intervenção para a IUE e enfatiza que o indivíduo faça uma série de contrações e relaxamento da musculatura do assoalho pélvico, de modo a fortalecer a musculatura importante para a continência urinária. O biofeedback consiste numa técnica com vários estímulos empregados para o condicionamento da musculatura. É um aparelho formado por um eletrodo de superfície ativo, eletrodo terra e um monitor que, conectado ao músculo com seus sensores colocados sobre a pele, aumenta a resposta fisiológica e a converte em informações significativas, visuais e auditivas. Como provoca uma resposta, gera uma motivação no indivíduo em tratamento, além de contribuir para a atividade muscular do assoalho pélvico. O tratamento pode ser utilizado nas IUE, incontinência mista e na bexiga hiperativa, de forma a ensinar o indivíduo a atingir a contração voluntária do detrusor. A terapia comportamental é utilizada em todos os tipos de incontinência por auxiliar o indivíduo, mediante o autoconhecimento, a solucionar os problemas e dificuldades, contando também com o apoio da educação em saúde sobre a anatomia e fisiologia do assoalho pélvico, explicando sobre a sua incontinência e a importância da participação do indivíduo na melhora do seu quadro. A eletroestimulação é um recurso que gera estímulo elétrico na vagina ou no reto com uma corrente de baixa frequência, funcionando como exercício muscular para aumentar o tônus muscular, o fluxo sanguíneo e a pressão intrauretral. É uma modalidade indicada para IUE, bexiga hiperativa e IU mista, todavia, segundo Girão (2015), o profissional seleciona os parâmetros de estimulação elétrica a partir do objetivo de aplicação. Os cones vaginais são dispositivos em formato de cone, numerados de 5 a 9 e com peso entre 20 e 100 g, tidos como um método seletivo, dada a capacidade de recrutar fibras do tipo I, de contração lenta. Antes de iniciar o tratamento, o fisioterapeuta avalia qual o peso ideal parao início do tratamento e, para isso, a paciente fica com o cone na vagina por um minuto em posição ortostática, sendo utilizado o cone com o peso que a paciente conseguir manter. Para o treinamento, a paciente retém o cone dentro da vagina por 15 minutos, duas vezes ao dia. Com o aumento da força de contração muscular, o cone pode ser trocado para um de peso maior. Ainda conforme Girão, a técnica também pode ser associada a exercícios musculares. Nessa associação, a paciente realiza de 8 a 12 contrações musculares e três séries durante a execução dos exercícios, sendo uma terapia indicada para o tratamento da IUE. Incontinência anal e constipação intestinal Incontinência anal e tratamento fisioterapêutico A incontinência fecal (IF), ou incontinência anal, é a perda involuntária de conteúdo advindo do reto, como gases e fezes, e também quando há incapacidade de esperar o momento mais conveniente para a evacuação. Para que a continência anal ocorra de forma fisiológica, a musculatura esfincteriana do ânus, músculos do assoalho pélvico, devem trabalhar em forma integrada, em conjunto com o reflexo inibitório retoanal, havendo ainda sincronia com a capacidade, a sensibilidade, a complacência retal, a consistência das fezes e o tempo de trânsito intestinal. Todos esses fatores cooperam para que ocorra a continência fisiológica anal. Assim, alterações em um ou mais desses componentes favorecem o desenvolvimento da IF, de acordo com o exposto por Oliveira, em artigo para o JBG – Jornal Brasileiro de Gastroenterologia em 2006. As fezes são armazenadas no reto. Quando esse conteúdo fecal aumenta de quantidade, o reto sofre distensão e ocorre o relaxamento reflexo do músculo esfíncter anal interno, a fim de que o conteúdo fecal passe do reto para o canal anal. Através da mucosa presente na parede do ânus, é feita a percepção do conteúdo fecal e de sua consistência. Então, em condições fisiológicas normais, o indivíduo finaliza o processo de defecação ou pode adiá-la. Nessa situação, pela contração voluntária do esfíncter externo e pelo elevador do ânus, o conteúdo fecal é deslocado para o reto, sendo armazenado até uma condição adequada para a defecação, como apontado por Barbosa, na dissertação Avaliação da qualidade de vida e das estratégias de enfrentamento em idosos com incontinência fecal, defendida em 2006. A prevalência da IF traz valores similares para indivíduos do gênero masculino e feminino. Contudo, as mulheres apresentam maior chance de desenvolver a IF por causa das lesões obstétricas no momento do parto, como a ruptura do esfíncter. Fatores como anormalidade adquiridas (hemorroida, fístula, prolapso retal, fratura pélvica), distúrbios funcionais (diarreia crônica, doenças do intestino irritável, doença inflamatória intestinal, má absorção, desordem físicas, desordem psiquiátrica), problemas neurológicos (diabetes, quimioterapia, cirurgia espinhal, esclerose múltipla, demência, acidente vascular cerebral, tumor) e doenças congênitas (espinha bífida, ânus imperfurado, defeito cloacal, mielomeningocele, meningocele) contribuem para a IF. Barbosa classifica a IF em dois tipos. Na incontinência sensorial, há perda fecal sem a autopercepção, enquanto na incontinência motora o indivíduo percebe o desejo de evacuar, mas não consegue impedir a perda. Quanto ao tipo de material perdido, as fezes podem ser classificadas em: líquidas, pastosas ou sólidas, e flatos. Os sintomas iniciais da IF incluem o agravamento da falta de controle da defecação nas fezes líquidas, sólidas e nos gases. Num grau mais avançado, além da perda das fezes, a IF apresenta prurido, irritação da pele da região perianal e infecções do trato urinário, podendo ainda ter seus sintomas associados à IU, prolapsos dos órgãos pélvicos (reto e bexiga), hemorroidas, fístula retovaginal e hábitos intestinais alterados. Indivíduos com IF são impactados negativamente na sua saúde física, mental e social, gerando insegurança, depressão, isolamento social, diminuição da autoestima e angústia. O tratamento fisioterapêutico para a IF é pautado por uma avaliação minuciosa, com histórico completo definindo as queixas e investigando possíveis fatores ou eventos que tenham sido agravantes para o desenvolvimento da IF, como cirurgias, diabetes e quimioterapia. É importante também que seja destacado se o indivíduo já realizou algum tratamento, se obteve respostas positivas ou não, se faz uso de medicamento e, se sim, qual. O exame físico também investiga alterações na pele, coloração, cicatrizes, hematomas e edemas. A partir da avaliação, o fisioterapeuta traça os seus objetivos e adota a intervenção mais adequada para a necessidade do indivíduo. O TMAP também pode ser utilizado, uma vez que ele trabalha de forma efetiva na melhora da força muscular, resistência e coordenação. O uso do biofeedback pela fisioterapia tem como objetivo fortalecer e coordenar a função do assoalho pélvico de forma e esfíncter, podendo ser associado aos exercícios do TMAP de modo a contribuir para o fortalecimento da musculatura. A eletroestimulação também pode ser empregada, pois recruta de forma passiva as musculaturas do assoalho pélvico e dos esfíncteres. A teoria comportamental e práticas de prevenção e promoção à saúde por meio da educação em saúde também são utilizadas a fim de melhorar a saúde do indivíduo acometido e transmitir conhecimento à sociedade. Constipação intestinal A constipação intestinal, conhecida como “prisão de ventre” e “intestino preso”, não é uma doença, mas um sintoma cuja manifestação pode indicar a presença de alguma doença, o que requer uma investigação médica. O transtorno acomete a população a nível mundial, em indivíduos de ambos os sexos, tendo uma prevalência maior para mulheres e nas diversas faixas etárias, mas com frequência maior em idosos, dada a perda da mobilidade, a fraqueza muscular do abdômen e da pelve e o uso de medicações. A constipação é marcada por dificuldade de defecar, sensação de evacuação incompleta, evacuações esporádicas, esforço para conseguir eliminar as fezes, fezes mais endurecidas, longos períodos de tentativa para evacuar e, em algum desses períodos, não conseguir evacuar. Caso o indivíduo apresente menos de três evacuações na semana, pode ser considerado que ele tenha uma constipação intestinal. A etiologia da constipação é classificada em primaria, secundária e terciária. A primária está relacionada a funcionalidade, complicações motoras e obstruções mecânicas. Já a secundária está relacionada a doenças metabólicas e neurológicas, ao passo que a terciária é causada pelo uso de medicamentos por tempo prolongado e/ou inadequado, dentre outras causas, elencadas no Quadro 3. Quanto aos aspectos fisiopatológicos, a constipação pode ser de trânsito normal, quando as fezes estão mais endurecidas ou o indivíduo não consegue evacuar de forma satisfatória, sendo o tipo de constipação mais frequente. A constipação de trânsito lento, mais comum em mulheres e jovens, está associada à falta de atividade muscular, dor abdominal, flatulências e urgência fecal. A constipação devido a doenças do ato evacuatório, por seu turno, acontece por disfunções na musculatura do assoalho pélvico e no esfíncter anal. A partir do diagnóstico médico de constipação intestinal, o fisioterapeuta traça condutas de intervenção. Vale destacar que o profissional fisioterapeuta deve estar atento às queixas do paciente e se ele apresentar reclamações referentes a uma possível constipação. É de suma importância que o fisioterapeuta o oriente a procurar um médico para demais providências e, após o diagnóstico, iniciar o tratamento. Uma abordagem de extrema importância é a da educação em saúde, visando orientar a comunidadesobre a constipação intestinal de forma a prevenir e promover saúde. Na anamnese, o fisioterapeuta observa questões sobre antecedentes pessoais, cirurgias, traumas, uso de medicamentos, hábitos intestinais anteriores, frequência e consistência das fezes, presença de dor e em quais locais, eliminação de flatos, dificuldade para urinar, ingestão de alimentos e líquidos, bem como a prática de atividade física. Já no exame físico, são examinados aspecto da pele, alterações sensoriais e/ou motoras, presença de fissuras, coloração, edema e tônus do esfíncter anal. Após a avaliação detalhada, o fisioterapeuta planeja seus objetivos de tratamento e condutas. As técnicas de massagem na região do abdômen, com movimentos circulares em sentido horário, contribuem para a motilidade intestinal, contribuindo para a evacuação. O treino adequado da musculatura pélvica, através de exercícios e da teoria comportamental, gera conhecimento sobre a musculatura da região e o controle sobre ela, assim como o uso do biofeedback conscientiza e coordena a contração muscular e relaxamento. A eletroestimulação transcutânea também pode ser utilizada, mas sem esquecer das orientações quanto à importância da ingestão de água e fibras e da prática da atividade física para melhora da motilidade intestinal e treinamento da postura durante a evacuação, de forma a não dobrar o cólon ao se sentar, favorecendo uma evacuação mais fisiológica. Prostatectomias A próstata é uma glândula do sistema reprodutor masculino localizada logo abaixo do colo da bexiga, ao redor da uretra e acima da musculatura do assoalho pélvico. Na região posterior da próstata, está o reto e, nas laterais, há contato com a musculatura elevadora do ânus. Essa glândula, em condições anatômicas normais, pesa cerca de 20 g e, conforme a idade do indivíduo, apresenta tamanhos diferentes, em especial na adolescência, período em que mais se desenvolve, atingindo a maturidade na fase adulta. A estrutura é constituída por duas partes, uma glandular, responsável pela produção do líquido que protege e nutre os espermatozoides que formam o sêmen, e outra muscular que, graças à inervação oriunda do plexo pélvico, se contrai de forma involuntária na ejaculação. O componente glandular da próstata é dividido em três zonas: Conforme Palma, a próstata é responsável pela produção de parte do sêmen e o líquido produzido pela glândula é alcalino, sendo composto por cálcio, íons de citrato e de fosfato, enzimas como a de coagulação e o antígeno prostático específico (PSA), responsáveis por tornar esse fluido nutrido e oferecer motilidade aos espermatozoides, contribuindo para a fertilidade masculina. Assim, para que a ejaculação ocorra, é necessário que um mecanismo muscular seja acionado a fim de que o sêmen siga o trajeto da uretra até sua eliminação. Durante o processo, as fibras musculares da próstata e o músculo do esfíncter da bexiga se contraem, fechando a parte superior da uretra, evitando que o sêmen entre dentro da bexiga. Na micção, os músculos localizados na zona central da próstata se contraem e fecham os ductos seminais, para que a urina não entre na próstata. PROSTATECTOMIAS E TRATAMENTO FISIOTERAPÊUTICO A próstata tem um papel primordial na função sexual e urinária do homem. Com o avançar da idade, a próstata tende a aumentar de tamanho, possibilitando que, em alguma faixa etária, se desenvolva alguma disfunção, como o câncer de próstata e a hiperplasia benigna da próstata, complicações que interferem na continência urinária, visto que o aumento da próstata comprime a uretra e faz com que a urina retorne para a bexiga, dificultando a eliminação pela uretra. No tratamento de câncer de próstata, o procedimento mais indicado é a prostatectomia, que remove toda a próstata e os gânglios linfáticos circundantes. Em relação aos homens com hiperplasia benigna de próstata – aumento da próstata devido ao envelhecimento, mas não maligno, embora tenha sintomas similares ao câncer de próstata –, é realizada a prostatectomia parcial, removendo apenas a parte da próstata que bloqueia o fluxo de urina. A depender da extensão do procedimento, a função sexual fica prejudicada pelo feixe vásculo- nervoso, responsável pela inervação e ereção peniana, de acordo com o escrito por José em artigo para a revista Atualidades médicas em 2018, sem falar na função urinária, que poder levar ao desenvolvimento de incontinência urinária no pós-operatório da prostatectomia. A incontinência pode durar poucos dias ou se prolongar, porém, com o tratamento adequado, o indivíduo volta a ter continência. A prostatectomia radical tem abordagens distintas, adotadas pelo médico urologista segundo o caso clínico do paciente. A prostatectomia radical, com abordagem retropúbica, é o padrão-ouro das prostatectomias, sendo uma intervenção empregada quando o câncer se espalhou para além da próstata, acometendo os gânglios. Nesse procedimento, a próstata em si e os gânglios linfáticos ao redor da próstata são removidos. Outra modalidade de abordagem é a prostatectomia com preservação dos nervos, quando o câncer ainda não atingiu os nervos. Entretanto, há situações em que os nervos são retirados por estarem entrelaçados ao tecido canceroso. Caso os nervos sejam retirados, o homem tem a função erétil comprometida, uma vez que esses nervos são responsáveis pela inervação da musculatura peniana e pela ereção. A prostatectomia laparoscópica pode ser assistida por robô ou com o médico realizando cortes pequenos para inserir a câmera e fazer o procedimento, porém, no caso robótico, o cirurgião controla os braços do robô pelo computador para fazer a retirada da próstata. A abordagem de prostatectomia perineal é usada quando a remoção dos linfonodos e nervos não for necessária, sendo adotada quando não houver necessidade de abordagem retropúbica. Em decorrência da prostatectomia, lesões nos esfíncteres responsáveis pela continência urinária podem ocasionar incontinência urinária. O tratamento mais indicado para a incontinência urinária após a prostatectomia é o tratamento conservador, que engloba a fisioterapia e terapia medicamentosa. A fisioterapia se vale das técnicas como da terapia comportamental, treino da musculatura do assoalho pélvico e também eletroterapia, orientações e reeducação postural, como listado no Quadro 4. Antes de traçar as condutas apropriadas para o indivíduo, o fisioterapeuta faz uma avaliação minuciosa de histórico atual e pregresso, medicamentos em uso, hábitos de vida, cirurgias, doenças e demais informações pertinentes, de modo a ter uma anamnese completa. No exame físico, o fisioterapeuta se atenta à força muscular do assoalho pélvico, à presença de cicatrizes e/ou edema e à coloração da pele. Depois da avaliação e delineamento dos objetivos do tratamento, o fisioterapeuta adota as modalidades de tratamento de acordo com a necessidade. SINTETIZANDO Nesta unidade, observou-se que a aprendizagem sobre a etiologia e o quadro clínico das disfunções em urologia e gineco-obstetrícia são de extrema importância para que o fisioterapeuta determine os objetivos e o tratamento adequado para a disfunção apresentada. Dessa forma, antes de adentrar no estudo da disfunção vesicoesfínctero- perineal, com ênfase na bexiga neurogênica e no tratamento fisioterapêutico, foi apresentado o conhecimento sobre o controle da micção. Também foram estudados a etiologia, os tipos, a classificação, os estágios, sinais e sintomas dos prolapsos urogenitais, bem como das incontinências urinária e fecal. A respeito da constipação intestinal, ela não se trata de uma doença, mas de um sintoma associado a alguma doença, cuja etiologia e classificação é dividida em primária,secundária e terciária. O fisioterapeuta deve se atentar, durante a sua avaliação, para determinar objetivos e os tipos de tratamento fisioterapêuticos que podem ser realizados para melhorar a vida do indivíduo. Portanto, o conhecimento exposto auxilia o fisioterapeuta a fazer uma avaliação detalhada do indivíduo, de modo a traçar seus objetivos de tratamento e condutas a serem realizadas. Para finalizar a unidade, abordou-se o conhecimento sobre a anatomia da próstata, função, localização, importância para a função sexual e urinária do homem e as consequências do aumento de seu tamanho com o avançar da idade, o que pode resultar numa hiperplasia benigna ou num câncer de próstata. O tratamento para a disfunção, a prostatectomia, bem como suas modalidades de abordagem também foram apresentadas, assim como a intervenção fisioterapêutica no tratamento de pós-operatório da prostatectomia.