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HALLYU NO BRASIL: O CRESCIMENTO DA CULTURA SUL-COREANA HALLYU IN BRAZIL: THE GROWTH OF SOUTH KOREAN CULTURE Stefani de Cássia Couto FONSECA1 Giovanni Guizzo da ROCHA2 RESUMO: O trabalho abordará a influência da cultura sul-coreana, "Hallyu", no Brasil, focando em K-pop e K-drama. Explora-se como estas manifestações culturais impactam a população brasileira. A pesquisa visa entender o interesse crescente pelo universo sul-coreano e seus reflexos na vida diária de jovens e adultos. Proporciona uma visão sobre a Hallyu no cenário cultural brasileiro. PALAVRAS-CHAVE: Hallyu, K-pop, Doramas, Coreia do Sul, K-dramas ABSTRACT: The study will address the influence of South Korean culture, "Hallyu," in Brazil, focusing on K-pop and K-drama. It explores how these cultural manifestations impact the Brazilian population. The research aims to understand the growing interest in the South Korean universe and its reflections on the daily lives of youths and adults. It provides insight into Hallyu in the Brazilian cultural scene. KEYWORDS: Hallyu, K-pop, Doramas, South Korea, K-dramas 2Orientador do Trabalho no curso de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul 1 Estudante de Graduação 8º. semestre do Curso de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul; e-mail: stefanicouto.jornalismo@outlook.com SUMÁRIO 1. Introdução 2. Objetivos 2.1. Objetivo Geral 2.2. Objetivos Específicos 3. Problema e/ou Hipótese(s) de Pesquisa 4. Justificativa 5. Metodologia 6. Resultado 7. A Emergência da Onda Hallyu no Mundo 7.1. Origem da Cultura Sul-coreana 7.2. O Conceito de Hallyu 7.3. Hallyu no Brasil: Chegada, Ascensão e Expansão 8. A popularidade das séries sul-coreanas no Brasil 9. K-pop: Música e Fandom 9.1. A Ascensão do K-pop no Brasil 9.2. O Preconceito contra os Fãs de K-pop no Brasil 10. Impactos da Cultura Sul-coreana no Brasil: Uma Análise Crítica 11. Considerações Finais 12. Referências 1 INTRODUÇÃO Nos últimos anos, o Brasil tem sido palco de uma fascinante onda cultural originária da Coreia do Sul, denominada "Hallyu". Essa influência sul-coreana tem se manifestado em diversas frentes, desde a música com o K-pop até as produções televisivas através dos K-dramas. Tal fenômeno não é mero acaso, mas o resultado de uma combinação de fatores que vão desde a estratégia de soft power do governo sul-coreano até a identificação e atração que o público brasileiro sente por essas manifestações culturais. Essa crescente popularidade levanta questionamentos pertinentes sobre a razão de tal encanto e sobre os impactos dessa cultura na vida dos brasileiros. A proposta deste trabalho é mergulhar no universo da Hallyu no Brasil, desvendando as raízes dessa influência e elucidando as razões pelas quais a cultura sul-coreana tem conquistado corações e mentes em terras tupiniquins. Ao longo desta investigação, buscamos não apenas traçar um panorama da presença sul-coreana no Brasil, mas também entender as nuances e particularidades dessa relação intercultural. OBJETIVOS OBJETIVO GERAL: Investigar a influência da cultura sul-coreana, representada pela onda Hallyu, no Brasil e compreender as motivações e impactos desta presença na vida cotidiana dos brasileiros. OBJETIVOS ESPECÍFICOS ● Mapear a trajetória da disseminação da cultura sul-coreana no Brasil, identificando os principais marcos e momentos de consolidação. 2 ● Analisar a receptividade do público brasileiro em relação aos elementos da Hallyu, especialmente o K-pop e os K-dramas. ● Compreender os fatores que contribuíram para o sucesso e a popularidade da cultura sul-coreana no Brasil, considerando aspectos socioculturais, econômicos e políticos. ● Avaliar os impactos da Hallyu nas indústrias culturais brasileiras. ● Examinar a percepção e os sentimentos dos jovens e adultos brasileiros que consomem e se identificam com a cultura sul-coreana, buscando entender as razões por trás de tal fascinação. METODOLOGIA Neste trabalho utilizou-se uma abordagem mista, englobando técnicas qualitativas e quantitativas. Inicialmente, foi feita uma revisão bibliográfica, buscando materiais acadêmicos sobre o fenômeno Hallyu. Paralelamente, analisaram-se websites e fóruns dedicados à cultura sul-coreana para compreender a perspectiva digital da comunidade brasileira. Entrevistas qualitativas foram realizadas com fãs de K-pop e K-dramas, usando um roteiro semi-estruturado, garantindo diversidade na amostra. Os dados coletados foram submetidos a uma análise criteriosa. Reconhecem-se as limitações do estudo, mas acredita-se que a metodologia proporcionou uma visão ampla sobre a influência da Hallyu no Brasil. RESULTADO A crescente presença da cultura sul-coreana no Brasil, personificada pela onda Hallyu, tem despertado o interesse de diversos segmentos da sociedade. Diante disso, emerge a seguinte indagação: Qual é a magnitude da influência da Hallyu no Brasil e quais fatores têm contribuído para a consolidação e popularização da cultura sul-coreana no país? 3 A Hallyu tem se estabelecido no Brasil não apenas por sua qualidade artística e produção cultural, mas também devido a estratégias bem-sucedidas de marketing e de soft power por parte da Coreia do Sul. O público brasileiro, especialmente a juventude, identifica-se com a cultura sul-coreana por encontrar nela ressonâncias emocionais, estéticas e temáticas que dialogam com seus anseios, desejos e realidades. JUSTIFICATIVA O fenômeno Hallyu, ou onda coreana, não é apenas uma moda passageira no cenário global; ele representa uma notável incursão cultural que tem conquistado corações e mentes em diferentes partes do mundo. No Brasil, essa influência tem se tornado cada vez mais palpável, sendo evidente não apenas no número crescente de fãs de K-pop e K-dramas, mas também na adoção e adaptação de diversos outros elementos culturais sul-coreanos. Portanto, ao abordar a influência da cultura sul-coreana no Brasil, este trabalho não apenas ilumina um fenômeno cultural contemporâneo de grande relevância, mas também contribui para um melhor entendimento das dinâmicas culturais, econômicas e sociais que moldam o mundo atual. CONSIDERAÇÕES FINAIS A onda Hallyu no Brasil não é apenas uma tendência passageira. Demonstrando a capacidade da arte de atravessar fronteiras, a cultura sul-coreana, com seu K-pop cativante e K-dramas envolventes, encontrou um lugar no coração dos brasileiros. E não se trata apenas de música e drama; é um vínculo emocional e cultural que conecta dois países distantes. Várias engrenagens movimentaram esse fenômeno aqui. Estratégias de marketing afiadas, a expansão da globalização e a facilidade de acesso à informação foram essenciais. Porém, o que realmente selou o acordo foi a identificação da juventude brasileira com a essência sul-coreana – uma combinação de emoção, estética e temática. 4 E há uma dimensão econômica. A onda coreana abriu portas para novos mercados, desde o turismo até o comércio, estreitando os laços econômicos e alimentando intercâmbios culturais. E essa troca não é unilateral; a Coreia do Sul também teve um gostinho da vasta cultura brasileira, mostrando que a admiração é mútua. Olhando pelo prisma sociológico, o Hallyu no Brasil é uma representação de uma geração que anseia por conexões globais, mas ainda preza por suas origens. A forma como os brasileiros adotaram e moldaram a cultura sul-coreana fala muito sobre a adaptabilidade das identidades culturais hoje. Para encerrar, o Hallyu no Brasil vai além do entretenimento. Ele conecta, ensina e inspira. Este fenômeno ilustra o poder da cultura e a riqueza das interações interculturais na nossa era. REFERÊNCIAS CONVARD, Quentin. A Guerra da Coreia: Da Guerra Mundial à Guerra Fria. [s.l.]: Plurilingua Publishing, 2023. TURISMO, Publicado pelo Serviço de Cultura e Informação sobre a Coreia Ministério da Cultura, Esportes e. Fatos sobre a Coreia: Coreia do Sul, Passado e Presente. [s.l.]: 길잡이미디어, 2013. IM, YUN JUNG. Na onda da HALLYU:o fenômeno mundial e seus reflexos no Brasil e Portugal. [s.l.]: Digitaliza Conteudo, 2022. DEWET, Babi; IMENES, Érica; PAIK, Sol. K-Pop - Além da sobrevivência: Tudo o que você ainda precisa saber sobre a cultura pop coreana. [s.l.: s.n.], 2019. 5 Onda Coreana? Entenda o que é Hallyu e o seu impacto no entretenimento - NerdBunker. Jovem Nerd. Disponível em: <https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/onda-coreana-halluy-o-que-e/>. Acesso em: 25 Oct. 2023. LUCIO, Amanda. Fãs de k-pop movimentam as buscas por produtos da cultura sul-coreana no e-commerce. E-Commerce Brasil - Artigos e Dicas sobre comércio eletrônico. Disponível em: <https://www.ecommercebrasil.com.br/noticias/fas-de-k-pop-movimentam-as-buscas-por-pro dutos-dacultura-sul-coreana-no-e-commerce>. Acesso em: 25 Oct. 2023. K-pop é o aspecto cultural que mais representa a Coreia do Sul no Brasil. Extra Online. Disponível em: <https://extra.globo.com/tv-e-lazer/k-pop/k-pop-o-aspecto-cultural-que-mais-representa-corei a-do-sulno-brasil-25628764.html>. Acesso em: 25 Oct. 2023. QUEIROGA, Louise. Na onda do K-pop: como a Hallyu fez do Brasil o terceiro maior consumidor de K-dramas na pandemia. O Globo, Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/na-onda-do-pop-como-hallyu-fez-do-brasil-terceiro-maior- consumi dor-de-dramas-na-pandemia-25098742>. Acesso em: 25 Oct. 2023. FERREIRA, Gabriela. Linha do tempo: a história do k-pop até dominar o mundo. Tangerina. Disponível em: <https://tangerina.uol.com.br/musica/k-pop-linha-do-tempo/>. Acesso em: 25 Oct. 2023. DURVAL, Nathalia Lima; MARTINS, Pedro. Por que doramas e k-dramas, as novelas conservadoras da Ásia, viraram febre no Brasil. Folha de S.Paulo. Disponível em: 6 <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/07/por-que-doramas-e-k-dramas-as-novelas-c onservad oras-da-asia-viraram-febre-no-brasil.shtml>. Acesso em: 25 Oct. 2023. Soft power e a Hallyu: Pesquisadora da UFF aborda a expansão da influência sul-coreana através do entretenimento. Universidade Federal Fluminense. Disponível em: <https://www.uff.br/?q=noticias/14-02-2023/soft-power-e-hallyu-pesquisadora-da-uff-aborda- expansa o-da-influencia-sul>. Acesso em: 25 Oct. 2023. 7 K O R E A N M A G A Z I N E B R N O V E M B R O 2 0 2 3 • K O R E A N M A G A Z IN E B R • V O L U M E 1 H A L L Y U N O B R A S I L : O C R E S C I M E N T O D A C U L T U R A S U L - C O R E A N A Foto 1: Mapa Coreia do Sul. Créditos: Canva Stefani de Cássia Couto Fonseca RGM: 28748239 índ ice 03 INTRODUÇÃO 04 A Emergência da Onda Hallyu no Mundo Origem da cultura suL- coreana O conceito de Hallyu Hallyu no Brasil: Chegada, Ascensão e Expansão 07 A popularidade das séries sul-coreanas no Brasil 11 K-pop: Música e Fandom A Ascensão do K-pop no Brasil O Preconceito contra os fãs de K-pop no Brasil 15 Impactos da Cultura Sul-coreana no Brasil: Uma Análise Crítica 17 Conclusão K M B R | P Á G I N A 2 Foto 2: Canva Nos últimos anos, o Brasil tem sido palco de uma fascinante onda cultural originária da Coreia do Sul, denominada "Hallyu". Essa influência sul-coreana tem se manifestado em diversas frentes, desde a música com o K-pop até as produções televisivas através dos K- dramas. Tal fenômeno não é mero acaso, mas o resultado de uma combinação de fatores que vão desde a estratégia de soft power do governo sul-coreano até a identificação e atração que o público brasileiro sente por essas manifestações culturais Essa crescente popularidade levanta questionamentos pertinentes sobre a razão de tal encanto e sobre os impactos dessa cultura na vida dos brasileiros. A proposta deste trabalho é mergulhar no universo da Hallyu no Brasil, desvendando as raízes dessa influência e elucidando as razões pelas quais a cultura sul-coreana tem conquistado corações e mentes em terras tupiniquins. Ao longo desta investigação, buscamos não apenas traçar um panorama da presença sul- coreana no Brasil, mas também entender as nuances e particularidades dessa relação intercultural. K M B R | P Á G I N A 3 KOREAN MAGAZINE BR 2023 A EMERGÊNCIA DA ONDA HALLYU NO MUNDO ORIGEM DA CULTURA SUL- COREANA Em meio aos ecos de milênios de história, a cultura sul-coreana se destaca por uma tapeçaria rica e diversificada, tecida através de interações contínuas. O ponto de partida? Gojoseon, o berço do país, estabelecido em 2333 a.C. pelo pioneiro Dangun, um marco fundamental na moldura da identidade nacional. As batidas rítmicas do xamanismo, a fé primordial da Coreia, ainda ressoam nos festivais e rituais contemporâneos. É quase palpável a presença dos reinos ancestrais - Goguryeo, Baekje e Silla - cada um deixando sua marca indelével na paisagem cultural da nação. E enquanto o Budismo, um presente de Silla, permeou as esferas da arte, arquitetura e espiritualidade coreanas, a nação não foi uma mera sombra de suas vizinhas. Sim, a Coreia acolheu o confucionismo da China, mas também brilhou com sua própria luz, exemplificado pelo Hangul, um sistema de escrita inovador introduzido no século XV. Mas a trilha não foi sem obstáculos. Invasões, adversidades e até a sombria ocupação japonesa no século XX tentaram abalar sua fundação. No entanto, esses desafios apenas cimentaram a resiliência e o fervor patriótico do povo coreano. E, embora uma fissura política possa separar o Norte do Sul hoje, as raízes culturais permanecem inabaláveis, testemunhando a unidade indomável do espírito coreano. Foto 3: Rachel Luna Foto 4: Coreia do Sul. Créditos: Canva K M B R | P Á G I N A 4 The 1st Journal By Estelle Darcy 24 September, 2014 O mundo se curva ao ritmo da Hallyu. Esta não é apenas a tradução literal para "Onda Coreana", mas uma manifestação da crescente influência da cultura sul-coreana que tem inundado o cenário global desde os anos 90. Atingindo até mesmo terras brasileiras, a Coreia do Sul se estabelece como um colosso cultural, com impactos econômicos e sociais imensuráveis. A Hallyu não foi mera coincidência. Originou-se a partir dos dramas televisivos coreanos que capturaram corações em toda a Ásia. Estes dramas, como "Winter Sonata" e "Jewel in the Palace", serviram de ponte para a globalização da cultura coreana, desencadeando uma avalanche de interesse que poucos poderiam prever. Mas o que levou a Coreia a investir tão pesadamente na exportação de sua cultura? A resposta remonta a 1993, quando "Jurassic Park" bateu recordes de bilheteria, superando até mesmo os lucros da Hyundai, uma das gigantes automobilísticas do país. Foi um momento 'eureca' para o então governo de Kim Young-sam, que reconheceu o poder do entretenimento. Revigorando o Ministério da Cultura, o país casou tradições seculares com inovações globais. Surgiram assim titãs da cultura pop como o k- pop, o cinema de vanguarda e os populares webtoons. O salto não se restringiu à cultura popular. A aclamada produção "Parasita" e a série global "Round 6" servem como testemunhos do vigor criativo sul-coreano. De fato, essa influência é tão marcante que o estudo do idioma coreano cresceu em impressionantes 40% entre 2018 e 2020. Mas a rica história cultural da Coreia não começou com a Hallyu. Esta nação, com uma herança que data de séculos, já enfrentou adversidades, incluindo a tentativa de supressão cultural durante a ocupação japonesa. Alguns argumentam que as gisaeng, artistas femininas da era Joseon, foram as precursoras deste legado cultural. Hoje, a Hallyu representa a tenacidade e adaptabilidade da Coreia. É um lembrete de que a cultura, quando compartilhada, torna-se uma força capaz de transformar e conectar. E o mundo, sem dúvida, está ouvindo. O CONCEITO DE HALLYU KOREAN MAGAZINE BR 2023 Foto 5: Hallyu Créditos: Google Imagens K M B R | P Á G I N A 5 Dos becos de Seul aos palcos do mundo, o fenômeno televisivo da Coreia do Sul, conhecido como K-drama, conquistou audiências globais. Estes dramas, consagrados por suas narrativas cativantes, personagens densos e produção impecável, têm suas raízes mais profundasdo que a mera ficção. Produções icônicas como “Boys Before Flowers”, “Goblin”, “O Rei de Porcelana” e "Pousando no Amor" destacam-se no cenário global, provando a capacidade sul-coreana de criar histórias universais com toques culturais únicos. Ao contrário da típica produção televisiva ocidental, que se estende por múltiplas temporadas, o K-drama geralmente se concentra em uma única temporada, variando de 12 a 24 episódios. No entanto, não se surpreende ao se deparar com dramas históricos de fôlego ainda maior. Essa onda não surgiu por acaso. A inspiração inicial veio das novelas japonesas da década de 1950. Apesar da opressão do regime militar sul-coreano da época, o K-drama fincou seu espaço na mídia televisiva, moldando-se e adaptando-se ao longo das décadas. O marco inicial dessa trajetória foi após a devastadora Guerra da Coreia, em 1956, quando a primeira estação televisiva foi inaugurada na Coreia do Sul. Mas foi em 1962, com a produção "Backstreet of Seoul" da Korean Broadcasting System (KBS), que o termo K-drama foi criado. Vale ressaltar que, neste início, os dramas refletiam a realidade política, submetendo-se aos princípios do governo militar. Hoje, esses dramas são mais do que entretenimento – são um retrato da evolução cultural e social da Coreia do Sul, que encontrou sua voz e a compartilhou com o mundo. HALLYU NO BRASIL: CHEGADA, ASCENSÃO E EXPANSÃO KOREAN MAGAZINE BR 2023 Foto 6: Goblin. Créditos: Site Pxfuel K M B R | P Á G I N A 6 A popularidade das séries sul- coreanas no Brasil Na corrida global pelo entretenimento, os K- dramas, seriados originários da Coreia do Sul, ganham destaque no cenário brasileiro. Plataformas de streaming, como Netflix, Viki e Kocowa, viram sua oferta dessas séries disparar diante de um público ávido e crescente. O fenômeno não se restringe apenas ao mundo das telas. Ele se insere na Hallyu, a onda cultural sul-coreana que domina o mundo. Durante o período crítico da pandemia de COVID-19, quando a necessidade por distração se acentuou, muitos brasileiros se refugiaram nos envolventes enredos dos K- dramas, alavancando a demanda por esse tipo de conteúdo. Em números, o Brasil se posiciona com destaque: é o terceiro maior consumidor de K- dramas no mundo, ficando atrás apenas da Malásia e da Tailândia. Esse dado surpreendente provém de um estudo realizado pela Fundação Coreana para Intercâmbio Cultural Internacional, a pedido do Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia do Sul. O levantamento, feito entre setembro e novembro de 2020, abrangeu 18 países e ouviu 8,5 mil pessoas, com idades entre 15 e 59 anos, em nações que vão da China ao Reino Unido, passando por Estados Unidos, Brasil e até Emirados Árabes Unidos. Essa ascensão dos K-dramas no Brasil reforça a crescente influência da cultura coreana e o poder do entretenimento como agente de conexão global. KOREAN MAGAZINE BR 2023 Foto 7: Gráfico Créditos: Agência O Globo K M B R | P Á G I N A 7 As plataformas de streaming vêm moldando o consumo de entretenimento dos brasileiros. Uma prova disso é a crescente onda dos doramas - séries televisivas asiáticas. Um levantamento recente do Viki, plataforma líder nesse segmento, desvenda um retrato interessante desse público: são majoritariamente jovens mulheres, entre 13 e 18 anos, representando 77% dos usuários e 53% dentro dessa faixa etária. A plataforma já registra mais de 1 milhão de acessos mensais apenas no Brasil. “Artistas de K-pop, também conhecidos como “idols”, não são distantes do cenário de atuação quando se trata de K-dramas, e isso definitivamente atrai o público brasileiro. Na maioria das vezes, você verá vários cantores estreando como ator, sempre trazendo sua enorme fanbase com eles para aumentar os números de audiência”, afirmou Edgard Elizarraras, especialista em marketing digital. Os três pilares do sucesso? Comédia romântica, séries protagonizadas por idols – referindo-se às estrelas do K-pop – e tramas de fantasia. E é essa tendência que direciona o ranking. A Rakuten, conglomerado detentor do Viki, listou as 10 séries mais aclamadas pelo público brasileiro até julho de 2021. O resultado? Sete produções sul- coreanas e três chinesas dominando as paradas. Por trás desse fenômeno, alguns fatores emergem como propulsores. O acesso à internet, mais facilitado que nunca, combinado com a emergência de plataformas de streaming, democratizou a disseminação de filmes e séries internacionais. Entretanto, é impossível desassociar essa ascensão da forte influência do K-pop no Brasil, que funcionou como porta de entrada para a rica cultura sul- coreana. KOREAN MAGAZINE BR 2023 Foto 8 e 9: Dados K-Dramas no Brasil Créditos: K M B R | P Á G I N A 8 A prova concreta desse apetite cultural? A aposta da RedeTV! ao transmitir "Descendentes do Sol", dorama de 2016, atendendo a uma demanda crescente por conteúdos coreanos. A mensagem é clara: o Brasil abriu suas portas para a Ásia, e o futuro do entretenimento promete ser ainda mais diversificado. Em uma manobra inovadora, a RedeTV! decidiu apostar em k-dramas, inaugurando sua “Sessão Dorama” durante as noites de segunda a sexta- feira. Em pouco tempo, a hashtag #DoramaNaRedeTV alçou voo, tornando-se um dos tópicos mais debatidos no Twitter, confirmando o apetite voraz dos brasileiros por dramas coreanos. O anúncio veio à tona durante o 16º Festival de Cultura Coreana em São Paulo, um marco que solidifica ainda mais a influência coreana em território nacional. A estreia registrou uma média de 0,2 ponto no IBOPE, com picos de 0,3. Pode parecer modesto, mas, considerando a volatilidade da audiência televisiva e os recentes desafios da emissora, é um sinal promissor. O boom virtual dos k-dramas demonstra o poder dessa onda. O cerne agora é transformar esse entusiasmo em números estáveis. Plataformas como Kocowa e Viki têm sido testemunhas do fenômeno. A Kocowa, por exemplo, revela que 85% de seu público global são mulheres, e impressionantes 90% não são de origem coreana. Outra estatística surpreendente? 70% não são asiáticos e a maioria (86%) está abaixo dos 44 anos. KOREAN MAGAZINE BR 2023 Fotos 10, 11 e 12: Logos das principais plataformas de k- dramas no Brasil Créditos: Viki, Netflix e Kocowa K M B R | P Á G I N A 9 No Brasil, os fãs estão dispostos a pagar: cerca de 4,5 milhões deles desembolsam entre R$ 25 e R$ 50 para mergulhar no universo dos k-dramas. Com uma base de usuários de 2,2 milhões, a Kocowa revelou que 26% de suas inscrições vêm do Brasil, país onde a plataforma estreou em 2019. São Paulo lidera o consumo, seguida por cidades como Rio, Fortaleza e Brasília. E as visualizações brasileiras? Em um ano, cresceram 53%. Se ainda havia alguma dúvida, a Netflix dissipou: entre 2019 e 2022, a demanda por k-dramas sextuplicou globalmente. E, somente na primeira metade de 2023, 16 séries coreanas figuraram entre as dez mais vistas no Brasil. A popularidade das séries sul-coreanas – K- dramas – tem crescido notoriamente no Brasil. Especialistas apontam que esse fenômeno é impulsionado pela habilidade destas produções em abordar temas universais: amor, relacionamentos, conexões familiares e a capacidade de superação. Tais temas encontram profunda ressonância no público brasileiro. Mais do que simples entretenimento, os K- dramas proporcionam aos telespectadores brasileiros uma imersão em uma cultura diferente. E essa diversidade cultural parece ser um chamariz. Serviços de streaming, como a Netflix, evidenciam esse sucesso, destacando-se títulos como "Sorriso Real" e "Round 6" entre os mais vistos no país. O impacto dos K-dramas no Brasil ultrapassa a esfera do consumo. Recentemente, a série “Além do Guarda- Roupa” marcou história, sendo o primeiro dorama gravado em solo brasileiro com a colaboração de elenco sul-coreano e brasileiro. Isso reforça a ideia de que o apreço pelos doramas transcende modismos, estabelecendo-se como um fenômeno cultural duradouro no país. KOREAN MAGAZINE BR 2023 Foto 13: K-drama “Pousando no Amor” Créditos:TVN K M B R | P Á G I N A 1 0 K-POP: MÚSICA E FANDOM Em 1992, a Coreia do Sul testemunhou um divisor de águas em sua cultura musical quando o grupo de hip-hop Seo Taiji & Boys se apresentou na TV. Sua popularidade astronômica até 1996 impulsionou uma revisão da paisagem cultural pelo governo sul-coreano. Em resposta, a música pop sul-coreana transformou-se rapidamente em uma mercadoria valiosa, com novas leis de incentivo desencadeando investimentos robustos no setor. A onda do K-pop, que dominou o leste asiático nos anos 1990, teve como principais protagonistas três gigantes da indústria: SM Entertainment, YG Entertainment e JYP Entertainment. Mas foi a virada do milênio, marcada pelo advento das redes sociais e plataformas de streaming, que posicionou o K- pop no mapa global. PSY, com "Gangnam Style", pavimentou o caminho para o reconhecimento mundial. Desde então, nomes como BTS, EXO, NCT, ATEEZ, Stray Kids, Seventeen, Twice e BLACKPINK, aliando talento, produções sofisticadas e presença online marcante, romperam fronteiras, conquistando fãs desde as Américas até a Europa e África. A indústria do K-pop enfrenta contínuas críticas quanto à pressão imposta aos ídolos, expectativas irreais e invasão de privacidade. O rigoroso sistema de treinamento, pilar do sucesso do setor, tem sido apontado por vezes como desumano. Contudo, o cenário se transforma: o K-pop abraça a diversidade, incorporando artistas de várias etnias. As agências redirecionam seus esforços para a saúde mental e o bem-estar dos artistas. Além disso, a musicalidade se expande, com experimentações em diversos gêneros e sonoridades. KOREAN MAGAZINE BR 2023 Fotos 14, 15 e 16: grupos de K-pop EXO, BTS e BLACKPINK Créditos: SM, HYBE, YG. K M B R | P Á G I N A 1 1 A ASCENSÃO DO K-POP NO BRASIL Desde 2009, o Brasil se rendeu à onda do K- pop, com a difusão da cultura pop coreana na web. Pioneiros como Super Junior, Girls’ Generation e Big Bang capturaram a atenção dos brasileiros. Em apenas um ano, o consumo deste gênero musical saltou 47%, posicionando o país como o quinto maior ouvinte de K-pop no Spotify. E o impacto vai além das paradas de sucesso: a moda, a dança e até a culinária nacional foram tocadas por esta febre. Não é raro encontrar fãs brasileiros adotando desde o vestuário, passando por coreografias, até degustando pratos coreanos, um testemunho da extensiva influência dos ídolos k-pop no território brasileiro. E a paixão não para por aí. A comunidade k- pop no Brasil fervilha. Com a organização de eventos, competições de dança e maratonas para ver shows e dramas juntos, os fãs se mostram tão ativos quanto engajados em ações online, como streamings e votações em premiações. KOREAN MAGAZINE BR 2023 É importante valorizar a figura dos fãs quando se fala na difusão da onda coreana, porque são eles que vão sempre atrás demais e também compartilham com suas redes de amigos. Eles são a maior voz ativa que a gente tem em relação à propagação da cultura coreana. Gabi Guimel via Correio Braziliense Fotos 17 e 18: gráficos Créditos: Stefani Couto K M B R | P Á G I N A 1 2 O Brasil aparece como o quinto maior consumidor de K-Pop no Spotify globalmente. Só entre janeiro e agosto de 2022, a playlist "K-pop ON" cresceu 36%, com 11 milhões desses streams vindo diretamente do Brasil, representando 2,6% do total mundial. E o Spotify não é o único reflexo dessa onda. Em 2021, o país figurou em oitavo no ranking global do Twitter de menções e diálogos sobre K-Pop. Voltando a 2019, até o dia 11 de outubro, astros do K-Pop como BTS e BLACKPINK já acumulavam mais de 19,653 milhões de streams só no território brasileiro. Se comparado com os anos anteriores, essa marca aponta um salto impressionante de 484,9%, confirmando o boom do K-Pop por aqui. Economicamente, esse fenômeno tem duas faces. De um lado, fortalece o mercado de música digital no Brasil, beneficiando plataformas e lojas de música. Por outro, há um possível declínio no consumo de músicas locais, impactando diretamente artistas brasileiros e a diversidade cultural na música. Mas o K-Pop também tem impulsionado outros setores: o aumento da demanda por mercadorias de bandas, vestuário e produtos de beleza atrelados ao gênero abriu novos caminhos de negócios e empregos, especialmente em áreas de varejo e produção. No entanto, um alerta: embora o K-Pop esteja enriquecendo a indústria musical sul-coreana, o mesmo não ocorre com a indústria brasileira. A maior parte dos lucros desse movimento flui para as grandes empresas de entretenimento na Coreia do Sul. KOREAN MAGAZINE BR 2023 Fotos 19 e 20: gráficos Créditos: Stefani Couto K M B R | P Á G I N A 1 3 O Preconceito contra os fãs de K-pop no Brasil A ascensão do K-pop no Brasil, impulsionada pela globalização e plataformas digitais, tem um preço: o estigma. A barreira linguística e as diferenças culturais do ritmo sul-coreano têm desencadeado preconceitos. O resultado? Uma legião de jovens, muitas vezes vistos como "alienados", sendo apontados como traidores da cultura brasileira. Há ainda um debate acerca da estética do K-pop, que desafia convenções ocidentais de gênero, colocando em xeque a masculinidade de artistas e fãs. Dados coletados pelo site Uva Dados em 2022 mostram que a resistência vai além da simples paixão pela música: 89,1% dos entrevistados foram vítimas de preconceito devido ao seu apreço pelo ritmo sul-coreano. As cifras revelam que a animosidade pode estar enraizada em implicações culturais e raciais. KOREAN MAGAZINE BR 2023 Foto 21: NCT 127 no Brasil Créditos: NCT 127 Fotos 22 e 23: Rede Social X Créditos: Rede Social X K M B R | P Á G I N A 1 4 E onde está o cerne dessa resistência? Em grande parte, nos estereótipos que envolvem artistas asiáticos. O consumo musical global historicamente se inclinou para artistas norte- americanos e europeus. Diante desse cenário, artistas asiáticos que ganham destaque global encontram resistência: 76,4% dos amantes do K-pop se sentiram rejeitados em seus grupos sociais por conta de sua preferência musical. Mas, ao contrário do que muitos podem pensar, o K-pop não é só "coisa de adolescente". A mesma pesquisa destaca que 85% dos fãs têm entre 18 e 24 anos. Mesmo assim, comentários como “você não é muito velho para gostar disso?” ou “isso é música de criança” ainda ecoam, ilustrando preconceitos ainda mais profundos sobre o gênero. O K-pop e os K-dramas têm conquistado rapidamente espaço no Brasil e em outros países, gerando debates sobre homogeneização cultural e idealização da Coreia do Sul. O processo de homogeneização se manifesta quando culturas locais incorporam características de uma cultura dominante, muitas vezes perdendo sua essência. No mundo do K-pop, a preocupação surge com a estética uniforme adotada pelos ídolos, que nem sempre reflete a diversidade real da população. Esse padrão estético tem o potencial de influenciar visões de beleza globalmente, restringindo a aceitação da diversidade. Mesmo com o K-pop sendo diverso em gêneros, sua grande popularidade pode eclipsar estilos musicais locais. Impactos da Cultura Sul- coreana no Brasil: Uma Análise Crítica KOREAN MAGAZINE BR 2023 Fotos 24 e 25: Lisa / J-Hope Créditos: Billboard / Google Imagens K M B R | P Á G I N A 1 5 Este intenso fascínio tem suas consequências. Pode causar isolamento cultural, obscurecendo a riqueza de outras culturas. No Brasil, país reconhecido por sua diversidade, é vital manter o equilíbrio no consumo cultural. O K-pop, especialmente, tem impacto visível na juventude brasileira, mas a idolatria pode levar a pressões estéticas e comportamentais desalinhadas com a realidade local, afetando a saúde mental dos jovens. Há também o risco de perda da identidade cultural brasileira e o fortalecimento de estereótipos. Com o destaque do Hallyu, sul-coreanos e seus descendentes no Brasil podem enfrentar preconceitos. Enquanto o fenômeno Hallyu enriquece culturalmente o Brasil, também traz desafios. É vital uma reflexão crítica paraque essa influência se consolide de forma integrada e respeitosa. KOREAN MAGAZINE BR 2023 Foto 27: Banner do K-Festival. Créditos: K-Festival Foto 26: Banner do K-Festival. Créditos: K-Festival K M B R | P Á G I N A 1 6 Conclusão A onda Hallyu no Brasil não é apenas uma tendência passageira. Demonstrando a capacidade da arte de atravessar fronteiras, a cultura sul-coreana, com seu K-pop cativante e K-dramas envolventes, encontrou um lugar no coração dos brasileiros. E não se trata apenas de música e drama; é um vínculo emocional e cultural que conecta dois países distantes. Várias engrenagens movimentaram esse fenômeno aqui. Estratégias de marketing afiadas, a expansão da globalização e a facilidade de acesso à informação foram essenciais. Porém, o que realmente selou o acordo foi a identificação da juventude brasileira com a essência sul-coreana – uma combinação de emoção, estética e temática. E há uma dimensão econômica. A onda coreana abriu portas para novos mercados, desde o turismo até o comércio, estreitando os laços econômicos e alimentando intercâmbios culturais. E essa troca não é unilateral; a Coreia do Sul também teve um gostinho da vasta cultura brasileira, mostrando que a admiração é mútua. Olhando pelo prisma sociológico, o Hallyu no Brasil é uma representação de uma geração que anseia por conexões globais, mas ainda preza por suas origens. A forma como os brasileiros adotaram e moldaram a cultura sul-coreana fala muito sobre a adaptabilidade das identidades culturais hoje. Para encerrar, o Hallyu no Brasil vai além do entretenimento. Ele conecta, ensina e inspira. Este fenômeno ilustra o poder da cultura e a riqueza das interações interculturais na nossa era. Foto 28: Luzes da Coreia. Créditos: KCC Brazil K M B R | P Á G I N A 1 7 Foto 29: Bom Retiro Créditos: Folha