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t 
NIFOR 
MEDICINA LEGAL 
Texto e Atlas 
Hygino de Carvalho Hercules 
Professor Titular de Medicina Legal e Deontologia da Faculdade de Medicina 
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. 
Professor Titular de Medicina Legal e Deontologia do Curso de Medicina da Universidade 
Gama Filho, UGF. Perito-legista do Instituto Médico-lega/ Afrânio Peixoto, IMLAP-RJ 
•\Atheneu 
UNIVERSIDADl DE FORTALEZA 
BIBLIOTECA CENTRAL 
COMPRA .1 
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l:"IJl'f"<JUA A'/1/HNHfl 
Siio /'m1Ít1 U1111 .h•.w1í1111 l'11sn111/, 30 
·1e/s.: (li} :!.'~58-8750 
Fax: (li) 2858-8766 
E-mail: athene11@athene11.com.br 
Rio de Janeiro - Rua Bambina. 74 
Te/.: (21) 3094-1295 
Fax: (21) 3094-1284 
E-mail: athene11@athene11.com.br 
Belo Horizonte - Rua Domingos Vieira. 319 - Conj. 1. 104 
P_LANEJAMENTO GRÁFICO: Equipe Athcncu 
PRODUÇÃO EDITORIAL: Tatiana Corrêa Pimenta 
CAPA: ülicio Estú<lio 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 
"'iercules, Hygino de Carvalho 
Medicina Legal - Texto e Atlas /[editor] Hygino de Carvalho 
Hercules. - São Paulo: Editora Atheneu, 2011. 
Vários autores. 
1. Medicina legal. 1. Hercules, Hygino de Carvalho. 
4-6934 CDU-340.6 
Índices para catálogo sistemático: 
1. Medicina legal 340.6 
-· UNIVERSIDADE DE fORTALEZA· 
é BIBLIOTECA CENTRAL 
.. Nº9,~5lf Data f),1·04 1 I/ 
HERCULES, H.C. 
Medicina Legal - Texto e Atlas 
©Direitos reservados à EDITORAATHENEU - São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte. 2011. 
COLABORADORES 
]OSE CARLOS PANDO ESPERANÇA 
Perito-legista do In.\·tiruro Médico-lega! Afrânio Peixoto do Rio de Janeiro, !Ml.AP-RJ. 
Professor Assistente de Patologia da f(1cu/dade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ 
MIGUEL (HALUB 
Professor Adjunto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. 
Perito Psiquiatra Forense do Hospilíll IÍC' Custódia e Trata111ento Heitor Carrilho, Manicônlio Judiciário 
NwR,\ LIANE DE ÜUVEIRA ADED 
Perito-legista do /11.wituto Médico-legal Afrânio Peixoto, /Ml.AP-RJ. 
Pr<~f'es.wJra Auxiliar da di.w.:iplina de Medici11a Legal da Unii·ersidade Federal Flunlinense, UFF. 
Me.\·tranda do !11s1i1u10 dt• Psiquiatria da U11i1•c•rsidacle F'ederal do Rio de Janeiro, Uf'RJ 
NEREU GILBERTO M, GuERRA Nrro 
Prf~(essnr As.\·i.\·tenll' de Patologia da Faculdade de Mc>dicina da Universidade Federal do Rio 
dt• .ft111t'iro. l//:u.1. l'n~/l•.\·sor ·1;·111ft1r d1• !vlt•diri11t1 l.t·gul t!a Faf't1fdrull' dl' Ml't!ici11a t!t• Vaft·nça. 
IJaL·lzarel e111 Direito 1u•/a 1-·ac11/dudc de Direito da Uni\ 1er.\·idade t:\·tadual do Rio de Janeiro, U/:,'RJ 
NILO jORGE RODRIGUES GONÇALVES 
Professor Adjunto de Ml•dicina Legul l' Deontologia da /.~acuidade de Ciências Médicas da Universidade 
Estadual do Rio de Janeiro. UERJ. Li\1re-dnce11te de Medicina Legal e Deontologia da Faculdade 
de Ciências Médicas da UERJ. Professor Tiutlar de Medicina Legal da Faculdade de Medicina de Petrópolis 
VIRGÍNIA RosA RODRIGUES DIAS 
Perito-legista do /11sti11110 Médico-legal Aji·â11io Pe1:roto, IMLAl'-RJ. 
Professora Auxiliar de Medicina Legal do Curso de Medicina da Universidade Gcuna Filho, UGF 
'· 
~ 
1 
I' 
DEDICATÓRIA 
A todos aqueles que fazem de sua vida 
um ideal de justiça e de amor ao próximo. 
AGRADECIMENTOS 
O ser humano é fruto das tendências que traz de berço e do ambiente em que é criado e 
amadurece. Não fosse o amor de meus pais, que tudo fizeram para me tomar um homem de 
bem, e do meu próprio núcleo, formado por lolete, Cristina e Flávio, pouco eu poderia ter 
realizado. É basicamente a essas pessoas que devo o ter-me tomado a pessoa que sou, plena 
de defeitos e virtudes con10 qualquer un1. mas ávida por co1npartilhar com seus semelhantes 
o pouco que aprendeu. 
Ao pensar em agradecer àqueles que me levaram a produzir esta obra me reporto ao 
início da jornada. Foi no Laboratório de Patologia da Santa Casa da Misericórdia que, ao fim 
do curso n1édico. conheci o n1cstrc cujo cxcn1plo de honestidade procurei seguir ao longo <la. 
vida. Refiro-me ao patologista professor Manoel Barreto Netto. Em seu laboratório, aprendi a 
ser um patologista. Nele, conheci duas outras criaturas de grande caráter, que me ensinaram 
técnicas de fotografia científica e de necrópsia. O fotógrafo José Christiano Hohl, o seu Hohl, 
e Euclides Francisco da Silva, o mais completo técnico de necrópsia que conheci, que mais 
parecia um cirurgião que um simples técnico ao dissecar um cadáver. Exceto o Euclides; são 
hoje apenas uma saudade. 
O interesse pelo ensino da Medicina Legal veio em 1966 quando o amigo Nísio 
Marcondes Fonseca, então chefe do Serviço de Patologia do IMLAP, me convidou para 
integrar o grupo que gestava o que seria a Escola Médica do Rio de Janeiro, da Universidade 
Gama Filho. A partir daí, cada vez mais passamos a estudar a Medicina Legal. O clímax 
dessa relação deve-se a outro amigo, o professor Adolfo Hoirisch, que me incentivou a 
prestar concurso para titular de Medicina Legal e Deontologia na Faculdade de Medicina da 
UFRJ em 1987. A ele, certamente, credito a minha orientação definitiva e exclusiva para a 
Medicina Legal. 
Ao longo do período em que atuei como perito legista no IMLAP, tive a oportunidade de 
conhecer e 1nc tornar a111igo de diversos outros colegas. Mas devo testemunhar meu 
especial afeto por Ivan Nogueira Bastos, já falecido, que, no dizer de Raphael Pardeilas, 
outro dileto amigo, era o mais completo médico legista de nossa geração. Trabalhamos juntos no 
curso de Medicina Legal da Escola Médica por mais de 30 anos, o que nos aproximou como 
se fôssemos irmãos. Povoam as minhas lembranças as figuras amigas de Nilson Amaral 
Sant' Anna e de Olympio Pereira da Silva. Ambos foram diretores do IMLAP. O primeiro me 
ensinou conceitos de psiquiatria forense e o segundo foi quem me recebeu em 1964, em seu 
plantão das quartas-feiras, quando me mostrou as particularidades das necrópsias forenses. 
Um professor só pode ser considerado um educador quando é capaz de dialogar com seus 
alunos, sabendo ouvir e, desse modo, estabelecer uma relação afetuosa sem abrir mão da 
autoridade. As dúvidas e críticas dos alunos servem de estímulo para p aperfeiçoamento do 
professor. Assim, tivemos o prazer de lidar com algumas gerações de alunos, entre os quais 
tenho a certeza de que finquei laços de perene amizade. Entre eles, um se tornou 
parcialmente responsável por esta obrn: Daniel Rzezinski. Por ser filho de outro médico e 
amigo, Paulo Rzezinski, diretor da Editora Atheneu, abriu as portas de sua empresa para 
acolher nosso anseio por editar um livro próprio de Medicina Legal. Se devo gratidão ao 
estímulo que os alunos me dão a cada nova turn1a, a esse cm especial devo muito mais. 
Alguns advogados con1 qucn1 lidei ao longo de 111inha atividade pericial n1c inccntivara111 a 
escrever, mas nenhum foi tão importante e atuante como Anarnaria Bittencour. A ela devo o 
acesso a obras da área do Direito de Família e críticas ao modo de interpretar as normas do 
Direito Civil. 
Devo muito aos colaboradores que cscrcvcnun alguns capítulos desta ohra. Sua boa 
vontade e dedicação permitiram que não precisasse me preocupar com assuntos que eles 
conhecem melhor do que eu. Desse modo, sou especialmente grato a Virgínia Rosa 
Rodrigues Dias (Capítulo 5), José Carlos Pando Esperança (Capítulo 12), Nereu Gilberto 
Moraes Guerra Neto (Capítulo 20), Nilo Jorge Rodrigues Gonçalves (Capítulos 26 e 27), 
Naura Liane de Oliveira Aded (Capítulo 31) e Miguel Chalub (Capítulos 33 e 34). 
Alguns patologistas nos ajudaram com a permissão do uso de sua documentação 
privada e/ou institucional. Assim, a Dra. Heloísa Novaes, do Instituto Fernandes Figueira, 
nos cedeu fotografias de patologia fetal, e a Dra. Virgínia Borges Nassralla permitiu que 
usássemos parte do seu acervo de material de patologia placentária. A elas meu 
testemunho de profunda gratidão. 
Parte do material quepude fotografar nos últimos dez anos diz respeito a perícias feitas 
por novos colegas peritos do lMLAP, uma vez que nos aposentamos há vários anos daquela 
instituição. Sempre que anotado, as fotos dessa leva vêm com a indicação da data da perícia 
e, às vezes, com o nome do responsável. por ela. Co1no são muitas as on1issões, pe:ço 
desculpas aos que não foram citados nominalmente apesar de terem-me franqueado a 
possibilidade de documentar e usar as fotos de seus casos. Da mesma forma, queremos 
agradecer a todos os técnicos de necrópsia que não se importaram em perder.parte do seu 
tempo me ajudando a enxugar e a arrumar urna peça a fim de que a fotografia ficasse 
melhor. Todos que nos ajudan1111 são pessoas que lê1n apreço pela ciência e fazc1n e.la 
atividade profissional que desenvolvem algo mais que um simples modo de ganhar a vida. 
Homenageamos a todos escolhendo como seu protótipo o técnico Adernar Ferreira da Silva. 
Não podemos deixar de dedicar algumas palavras às vítimas da violência e às suas 
famílias. As diversas formas de violência contra a pessoa geram as lesões e as mortes que os 
legistas devem constatar em seus laudos. A documentação dessas perícias serviu de 
ilustração para o nosso livro. Desse modo, prestamos nosso preito de pesar a essas pessoas e 
à dor de seus familiares e amigos. 
Por fim, agradecemos a toda a equ.ipe de produção da Editora Atheneu por sua paciência 
com as nossas falhas que tiveram de corrigir. Homenageamos a todos na pessoa de Tatiana 
Corrêa Pimenta, que foi a gentil interface entre a Editora e nós. 
APRESENTACÃO 
' 
O Direito é, ccrta1ncntc. a 1naior criação <la hu1nanidadc. O ordenamento jurídico, 
garantindo a coexistência harmônica dos homens, possibilitou o desenvolvimento da 
ciência, c1n seus diversos ra1nos. Co1n clCito, não fosse a segurança gerada pela sanção 
jurídica, os homens viveriam em permanente estado de tensão, sem oportunidade para os 
trabalhos do espírito. 
À semelhança da lei física, a norma jurídica incide sobre fatos e circunstâncias 
determinadas. O trabalho do juiz é construir teoremas, cujo escopo é apurar as conseqüências 
da aplicação de normas preestabelecidas a situações concretas. 
Sob outra perspectiva, o juiz assemelha-se ao médico, cuja função é superar anomalias no 
corpo humano, aplicando regras de experiência relativas à manutenção da saúde, à 
prevenção e à cura das doenças. 
Assim como a Medicina, o Direito atua no plano da realidade. Para bem resolver com 
segurança os conflitos que lhe são submetidos, o juiz deve conhecer, exatamente, a natureza 
e a situação das pessoas ou coisas envolvidas na lide. Assim ocorre, também, com os demais 
figurantes da distribuição do Direito: advogados, agentes do Ministério Público. 
A boa administração da Justiça pressupõe o domínio de estatutos jurídicos, regras de 
hermenêutica e conhecimentos elementares das ciências naturais. Por isso, a Medicina Legal 
integra os cursos de Direito. con10 disciplina ohrigatória. 
O aprendizado curricular não é sulicicntc. O jurista prático não pode dispensar o socorro 
de u1n ho111 co1npêndio de tncdicina legal que, ao lado do vade-11u!cu1n, funciona como 
breviário no exercício diário da atividade forense. Tal livro é necessário tanto na 
compreensão da fisiologia e psicologia humanas como para a formulação de quesitos a serem 
respondidos nas perícias médicas. 
O legista, de sua vez, necessita conhecer os institutos jurídicos, para melhor expressar-se 
em seus laudos. Para ele, o bom livro torna-se necessário na elaboração de respostas claras 
e seguras. Bem por isso, o livro de medicina legal deve ser acessível tanto ao médico quanto 
ao jurista. 
Com olhos nessa circunstância, o Professor Hygino Hercules - um dos grandes nomes da 
medicina legal brasileira - concebeu o presente trabalho: Medicina Legal - Texto e Atlas, 
capaz de funcionar como intérprete entre os cultores das duas disciplinas. Fazendo jus à 
reconhecida honestidade intelectual, reuniu uma equipe de especialistas a quem confiou a 
dissertação sobre temas relacionados com as respectivas especialidades. Não fugiu, contudo, 
ao encargo de preservar a unidade doutrinária, evitando que o trabalho resultasse em simples 
coletânea de artigos. 
O resultado desse esforço coletivo é um tratado denso, substancioso, seguro. Professores 
por ronnação. seus autores não pen.leran1 <le vista o alcance <li<lático, incrente a qualquer boa 
obra doutrinária. Esse cuidado tomou possível, sem sacrifício da precisão técnica, a leitura 
confortável do alentado texto. Não lic:.lfan1 ao largo as rcco1ncn<laçõcs <lconto16gicas e as 
indicações úteis na coleta de dados e elaboração de laudos claros e seguros. 
Abrangência dos temas, segurança da abordagem e clareza da exposição são atributos 
que conduzirão Medicina Legal - Texto e Atlas, de Hygino C. Hercules, à galeria· dos 
clássicos da literatura médico-legal brasileira. 
A nós, que exercemos a delicada tarefa de distribuir o Direito. resta agradecer ao 
Professor Hygino, seus eminentes colaboradores e à Editora Athcneu pela preciosa 
contribuição. 
Humberto Gomes de Barros 
Ministro do Supremo Tribunal de Justiça 
PREFÁCIO 
Lastreada em invulgar afeição familiar, é-me conferido o lisonjeio de prefaciar o livro: 
Medicina legal - Texto e Atlas do insigne Professor Titular de Medicina Legal e 
0l'onlologi:i Médiea d:i lJFR.J. o J)r. 1 lygino de C'arvalho l lcn.:ulcs. 
O Direito dos tempos hodiernos nunca esteve tão umbilicalmente ligado à Medicina, quer 
por força de novéis repercussões no campo da própria responsabilidade civil médica, quer no 
âmbito do descortino das verdades criminais sobre a forma, as causas do cometimento dos · 
delitos e suas conseqüências biopsicológicas, mas, sobretudo, no âmbito do Biodireito. 
Controverte-se, na atualidade, acerca da influência do genoma em inúmeros campos da 
pesquisa médico-judicial. 
Sem prejuízo, ainda é a Medicina que nos informa sobre ser mais importante para o ser 
humano a verdade do sangue ou a verdade socioafetiva. 
É à luz da Medicina Legal que ao magistrado caberá aferir'os resultados psicológicos e 
sociais de seu trabalho. 
Esses consectários seriam suficientes a demonstrar que oportuno se faz o lançamento do 
presente livro. 
A obra não se descura de nenhum aspecto, nem mesmo do mais objetivamente 
perceptível pelos jejunos; qual o da Traumatologia Forense. 
Enfim, é um livro de grandiosíssima contribuição para esse antigo ramo do Direito, com 
vertentes atualíssimas. 
Mauro Cappelletti, na sua obra notável sobre o acesso à justiça, advertia sobre a 
necessidade de o jurista abrir-se às outras ciências, completando o seu necessário 
conhecimento interdisciplinar, tomando a solução judicial a mais aproximada dos 
anseios do povo. 
A Medicina tem essa aproximação legal com a ciência jurídica. Mas, a obra vem a 
demonstrar que essas duas ciências estão vinculadas aos dois maiores bens da humanidade: a 
vida e a esperança. 
Felicito o Professor Dr. Hygino de Carvalho Hercules e à Editora Atheneu pela iniciativa, 
ciente de que mesmo aqueles que ainda não leram já gostaram por saber do lançamento 
desta valiosíssima obra. 
Luiz Fux 
Ministro do Superior Tribunal de Justiça 
Professor Titular de Processo Civil da UERJ 
I' 
" 
INTRODUÇAO 
Desde a década de 1970, acalentamos o sonho de produzir um livro de Medicina Legal no 
qual pudéssemos expressar nossa visão dessa especialidade médica. Conforme o tempo foi 
passando, como é natural. fomos amadurecendo como pessoa e como perito. A obra que ora 
oferecemos aos prezados leitores é fruto desse amadurecimento. Expressa nosso 
pensamento e reflete nossa experiência através de farta documentação, fruto de mais de 30 
anos de labor pericial. 
Por força de nossa formação profissional orientada para a anatomia patológica, exercitada 
tanto na rotina de patologia dos hospitais universitários como no necrotério do IMLAP, era 
inevitável que a ênfase da obra se situasse principalmente sobre a TraumatologiaForense. 
Contudo. procuramos não descuidar dos outros segmentos da Medicina Legal nem da base 
jurídica da parte doutrinária. Grande esforço foi realizado de modo a oferecer ao leitor a 
correlação dos aspectos médicos com as mudanças mais recentes da legislação, sempre 
transcrita quando julgamos necessária ao entendimento do tema abordado. 
Tratando-se de disciplina necessária à formação cultural de médicos e advogados, 
a tarefa de tomar o texto permeável a ambos nos levou, por vezes, a explicar, talvez de modo 
exagerado. os aspectos que nos pareceram pouco claros para cada profissional. Assim, 
procuran1os, na 111clli<la <lo ho111 senso, abandonar a tcrn1inologia técnica Uc 1no<lu a torntl-Jo 
compreensível a ambos. Se o texto parecer por demais pesado ou, por outro lado, muito 
redundante, a culpa é toda do autor que não foi capaz de superar a dificuldade de explicar 
fatos médicos para juristas e aspectos legais para médicos. 
Este livro está dividido em oito partes. A Parte 1 tem a intenção de situar o 
médico no mundo jurídico, fazendo-o compreender as regras básicas do direito. 
Desse modo, procuramos levá-lo a entender o valor das perícias e do seu compromisso 
legal quando de sua investidura como perito. Essa parte pode parecer supérflua aos 
profissionais do direito. 
A Parte 2 procura informar a ambos os profissionais as técnicas de identificação tanto do 
vivo quanto do morto. A maior ênfase é dada à identificação de despojos humanos -
Antropologia Forense. Procuramos nos valer dos conhecimentos adquiridos pela jovem legista 
Virgínia Rosa Rodrigues Dias, que tem manifesto interesse por essa área da Medicina Legal, 
na qual já freqüentou curso ministrado por Douglas Ubelaker, cuja autoridade nesse campo é 
internacionalmente reconhecida. 
A Parte 3 abrange os diversos aspectos da Tanatologia Forense. Inicia pela difícil 
conceituação do que é a morte, inclusive do ponto de vista legal, abrange sua causa jurídica, 
discute a Lei dos Transplantes e discorre sobre o embasamento técnico da cronotanatognose 
através do estudo dos fenômenos cadavéricos. Nessa parte, expressamos nosso ponto de 
vista com relação ao que se deve chamar de morte suspeita e morte súbita. 
A Parte 4 é a mais extensa: a Traumatologia Forense. Nessa parte, procuramos 
sistematizar as energias vulnerantes dividindo-as confonne o agente traumatizante atue por 
meio de fenômenos físicos ou químicos. Embora tenhamos nos inspirado no italiano Bani, a 
classificação dessas energias é proposta de modo algo diferente, conforme explicamos no 
Capítulo 10 - Traumatologia Forense Geral. Nossa visão da traumatologia passa pela 
valorização da Física e de suas leis. O corpo humano é encarado aqui como um corpo físico, 
submetido de modo ativo ou passivo àquelas leis. Assim, nos Capítulos de 11 a 18, analisamos 
a interação das energias cinética, térmica e elétrica nas diversas formas com que se 
manifestam na natureza. Criamos o termo baropatia para abranger os efeitos das 
1noc.liíicaçõcs e.la pressão arnhicnlc sohrc o ser hun1ano. confonnc justiíicarnos no Capítulo 16. 
/\trihuí111os rclcvfincia üs annas de guc..:rra por tcrc111-sc tornado, int'clizn1cntc. nu1ito utilizadas 
cm nossas áreas 1netropolitanas e1n função <la guerra do tráfico. 
Entre as possíveis sedes das lesões produzidas pelos agentes mecânicos, ressalta a 
cabeça pela freqüência dos traumatismos craniencefálicos. Por essa razão, convidamos o 
patologista e perito legista José Carlos Pando Esperança, professor do Departamento de 
Patologia da Faculdade de Medicina da UFRJ, para escrever o Capítulo 12 - Estudo 
médico-legal dos traumatismos craniencefálicos. Nesse capítulo, são discutidos os 
mecanismos lesionais e as suas repercussões clínicas, tais como as incapacidades e a morte, 
por profissional dedicado à neuropatologia. 
Os diversos mecanismos lesionais por ação térmica e por ação elétrica são extensamente 
discutidos, respectivamente, nos Capítulos 17 e 18. Novos conceitos são introduzidos em 
ambos, ressaltando-se a ação lesiva dos campos elétricos gerados pelas grandes diferenças 
de potencial (eletroperfuração). Tanto o calor quanto o frio são estudados com relação à 
temperatura ambiente e à sua ação local (queimaduras e geladuras). 
As energias de ordem química são estudadas no Capítulo 19, no qual procuramos 
descrever sua ação local, como cáusticos, e, geral, como venenos. Fazemos breve 
abor<lagcn1 <los principais agentes tóxicos se1n qualquer pretensão <lc servir con10 texto <lc 
referência em farmacologia ou toxicologia clínica. Tais citações devem ser entendidas mais 
con10 cxc1nplificação dos princípios gerais da loxieologia forense. Tan1pouco nos 
preocupamos em fornecer as bases técnicas laboratoriais toxicológicas, pois tal abordagem 
fugiria ao escopo desta obra. Nossa intenção foi alertar os peritos legistas sobre as 
armadilhas que a necrópsia dos intoxicados pode trazer. O objetivo principal foi recomendar e 
justificar a melhor conduta nas diversas situações de ordem prática. Os profissionais do 
direito poderão achar indigesta boa parte do texto, mas, no geral, compreenderão as 
limitações impostas pelas circunstâncias aos peritos, na hora de responder a suas consultas. 
A par da etiopatogenia e da fisiopatologia, abordamos os aspectos jurídicos dos traumas 
nos Capítulos 20 e 21. O Capítulo 20 versa sobre o tema das lesões corporais, enfocando seu 
aspecto penal. É escrito pelo professor .. Nereu Gilberto Moraes Guerra Neto, cuja titulação o 
torna a pessoa ideal para discorrer sobre o tema. É ele médico patologista, legista e bacharel 
em Direito. Sua dupla formação, médica e jurídica, fica bem patente ao longo de um texto 
rico em conhecimentos jurídicos e médicos. Por sua vez, o Capítulo 21 - Infortunística 
demonstra a importância da traumatologia forense nos acidentes do trabalho. Através de 
pequena revisão histórica da legislação, procuramos levar o leitor a refletir sobre a proteção e 
o amparo ao trabalhador acidentado e sobre as incapacidades resultantes dos acid.entes. Em 
tennos quantitativos. levanla111os dados estatísticos nacionais e estrangeiros co1n a intenção 
de avaliar a eficácia de nossas medidas de prevenção. 
A rigor, a Parte 5, que lida com as asfixias, pertence à Traumatologia Forense. Mas a 
própria dificuldade de inserir as asfixias na classificação geral das energias vulnerantes indica 
sua peculiaridade. A designação "energias de ordem físico-química" carece de precisão 
conceituai, embora já consagrada pelo uso. Na verdade, não se devem as asfixias a 
fenômenos de ordem físico-química. Adotamos conceito e classificação próprios, fruto de 
1nuita reflexão sohrc a 1natéria. Os textos dessa parte segue1n a classificação proposta no 
Capítulo 22. 
A Parte 6. referente ü Sexologia Forense. aborda os crirnes sexuais. o casamento e o 
;1horto. lnicia-sl' pelos ('apítulos 2ô l' '27. escritos pelo prolCssor Nilo Jorge l{odrigucs 
Gonçalves, que é. alén1 de excelente legista, ginecologista especializado cm reprodução 
humana, autor de tese de livre-docência sobre útero de aluguel. No Capítulo 26, ele aborda os 
aspectos médico-legais dos atos libidinosos e dos transtornos da sexualidade. No Capítulo 27, 
discorre sobre os crimes contra os costumes, descritos nos artigos 213 a 234 do Código · 
Penal, com ênfase nos aspectos periciais. 
Completamos a Parte 6 com os Capítulos 28 e 29, respectivamente, sobre os aspectos 
médico-legais do casamento e do aborto. O estudo médico-legal do casamento está baseado 
nos artigos 1.511 a 1 .582 do Subtítulo 1 Do Casamento, do Título 1 Do Direito Pessoal, do 
Livro IV Do Direito de Família do Código Civil de 2002. No Capítulo 29 - Estudo 
Médico-legal do Aborto, fazemos pequena revisão histórica da legislação brasileira 
rcpuhlicana e con1paran1os seus aspectos atuais com as normas vigentes em outros países. 
São tnostra<los nú1ncros co1nparativos e.la incidência c..le aborto legal e ilegal no Brasil e no 
mundo bem como as complicações decorrentesdas práticas ilegais. São descritas as 
técnicas abortivas mais modernas e mostradas as dificuldades da perícia no que diz 
respeito ü c..lc111onstração e.la gn.tvic..lcz pregressa e à alinnação e.la provocação c..lolosa. 
No que tange ao diagnóstico da gravidez pregressa em material de necrópsia, são propostos 
novos métodos diagnósticos. 
A violência contra recém-natos e crianças é o tema da Parte 7. Inicia-se com o 
Capítulo 30 - Infanticídio, no qlial fazemos revisão histórica dos aspectos legais, inclusive a 
proposta de modificação que tramita no Congresso Nacional. Nesse capítulo, damos as bases 
morfológicas da perícia a ser realizada na vítima e na mãe. A chamada "Síndrome da Criança 
Espancada" é abordada no Capítulo 31 pela professora Naura Liane de Oliveira Aded, 
atualmente a legista mais interessada e atuante nessa área. Pediatra de formação, alia seus 
conhecimentos ao exame de crianças e adolescentes vítimas da violência doméstica e 
institucional. 
A Psiquiatria Forense, um dos ramos da Medicina Legal, constitui a Parte 8, que encerra a 
presente obra. Dividimo-Ia em três capítulos: 32, 33 e 34. O 32 reporta-se ao estudo da 
imputabilidade penal e à influência dos diversos fatores que podem modificar a capacidade do 
agente de entender a ilicitude de sua ação, de acordo com o critério biopsicológico adotado 
por nosso Código Penal. O 33, escrito pelo louvado psiquiatra forense Miguel Chalub, livre­
docente de psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFRJ, aborda a capacidade civil das 
pessoas naturais diante do novo C<ldigo Civil. O n1cs1110 colahon.H.lor. <.:0111 base cn1 sua 
grande cxpcriênL"ia de psiquiatra clínico. 111onncntc no trata111cnto das toxico111anias. escreve 
o capítulo sobre c111hriagucz e toxico111anias ao linal e.leste livro. 
Embora cientes da impossibilidade de atualizar completamente os temas, grande esforço 
foi por nós empreendido no sentido de dar ao leitor as informações mais recentes de modo o 
mais completo possível. 
Esperamos que esta obra possa ser de valor como fonte de consulta tanto para médicos, 
peritos ou não, quanto para os profissionais do direito seja na área penal, seja na civil. O autor 
e seus colaboradores, cônscios de suas limitações, aceitam agradecidos quaisquer críticas que 
possam contribuir para o seu aprimoramento. A primeira edição de qualquer obra sempre 
apresenta falhas, pois é fruto do labor humano. 
Rio de Janeiro, 14 de março de 2005. 
Hygino de C. Hercules 
SUMÁRIO 
PARTE 1 - INTRODUÇÃO À MEDICINA LEGAL 
1. Nn<;<ic•s d!' i)ir<·i\u_ Nt>rrn,1<.., 1\1\or.:li<.., <' '\Jcir111.-i.., ltiridic,-1..,, 1 
Hygino de C. Hercu/es 
2. História. Conceituação e Divisão da Medicina Le(jal. 5 
Hygino de C. Hercules 
3. Perícia e ·Peritos. Documentos !\l\édico-leQais, 13 
Hygino de C. Ht•rcuh•s 
PARTE 2 - ANTROPOLOGIA FORENSE 
4. Identidade e Processos de Identificação, 29 
Hygino de C. Hercules 
5. l<.k11llflca1<!0 de~'""" l illll1'\llO' IJl'it'\lllilld<,:10 dt· S1•\o, id<ult· ,. r,lillllíil, ~l 
Virgínia Rosa Rodrigues Dias 
Hygino de C. Hercules 
PARTE 3 - TANATOLOGIA 
6. Conceito de Morte. Estudo lv\édico-legal dos Transplantes, 95 
Hygino de C. Hercu/es 
7. Causa jurídica da rv\ortc. lll 
Hygino de C. Hercu/es 
8. Morte Súbita e Morte Suspeita. 129 
Hygino de C. Hercules 
9. Cronotanato(jnose. 14 5 
Hygino de C. Hercules 
PARTE 4 - TRAUMATOLOGIA FORENSE 
10. TraumatoloQia rorcnsc Geral, 165 
Hygino de e:. 1-/ercules 
11. Lesões e Morte por Ação Contundente, 171 
Hygino de C. Hercu/es 
12. Estudo Médico-legal dos Traumatismos Craniencelalicos, 193 
José Carlos Panda Esperança 
13. Lesões e Morte por Armas Brancas, 215 
Hygbzo de C. Hercules 
14. Lesões e Morte por Instrumentos Pérfuro-contundentes. Armas de Fogo, 229 
Hygino de C. Hercules 
15. Lesões e Morte por Projéteis de Alta Energia, 259 
llygi110 de• r. llr·n·11!t•.\" 
16. Estudo Médico-lcqal das Baropatias, 279 
Hygino de C. Hercules 
17. lesões e Morte por Ação Térmica, 303 
Hygino de C. Hercu/es 
18. lesões e Morte por Ação Elétrica, 337 
Hygino de C. Hercules 
19. /\ção Química. ToxicoloQia íorcnsc, 363 
Hygino de C. Hercules 
20. Quantificação do Dano. Lesões Corporais, 397 
Nereu Gilberto M. Guerra Neto 
21. lnfort11nisliríl, 41q 
llygi110 til' ( ·. lll'rcull'.\' 
PARTE 5 - ASFIXIOLOGIA, ENERGIAS DE ORDEM FÍSICO-QUÍMICA 
2 2. Conceito e Classificação das Asfixias, 469 
Hygino de C. Herct,~les 
23. Asfixias por Sufocação, 483 
Hygino de C. Hercules 
24. Asfixias por Constrição Cervical, 491 
Hygino de C. Hercules 
25. Asfixias por lv\odificaçócs do Meio ·\mbiente. 517 
/ lygi110 de ( ·. l /erculc.\· 
PARTE 6 - SEXOLOGIA FORENSE 
26. Atos Libidinosos. Transtornos da Sexualidade. 541 
Nilo Jorge Rodrigues Go11çaf1·es 
27. Violência Sexual - Crimes contra os Costumes. Demonstração Pericial. 549 
Nilo Jorp,e Rodrigue.\· Gonçali·es 
28. Aspectos lv\édico-lcqais do Casamento. 561 
Hygino de C. Hercules 
29. Estudo lv\édico-lcQal do J\borto. 575 
Hygino de C. Hercules 
PARTE 7 - VIOLÊNCIA CONTRA RECÉM-NATOS E CRIANÇAS 
30. Infanticídio. 613 
/lygino de e·. l!t 1rc11Ít'S 
31. Síndrome da Criança Espancada. 641 
Naura Liane de V/iP<'irc1 i\dt'd 
PARTE 8 - PSIQUIATRIA FORENSE 
32. Estudo Médico-leQal da Imputabilidade e da Responsabilidade Penal. 655 
Hygino dt• C. Hercule.,· 
33. Estudo Médico-leQal da Capacidade Civil. 675 
Miguel Chaluh 
34. ísludo Mc'clirn-b\ill cio 1\lrnolismo ,, da Dcrc'mlt'ncia Químicil. 681 
Miguel Chaluh 
lntroducão à 
f 
Medicina Le~al 
' ~ ' 
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,• 
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Nocões de Direito. Normas 
' 
Morais e Normas Jurídicas -
Hygino de C. Hercules 
A autodeterminação, a linguagem sin1bólica e o trí.lbalho 
produtivo fizcnun con1 que o ho1nc111 pudesse se c.lcstac<lí e.las 
outras espécies de ani1nais e construir o inundo civilizado. Só 
o homen1, entre os animais, tem a capacidade de mudar o cur­
so da sua hisfória de vida, diferenten1ente dos outros, que 
seguem uma curva vital predeterminada geneticamente. Não 
se tcn1 inforn1ação de que algu1na espécie ja1nais tenha de­
monstrado qualquer forma de fuga ao determinismo de seu 
ciclo vital. Não ocorrendo alguma mutação genética. todos 
seguem os passos de seus ancestrais. geração após geração. 
Já o ser hun1ano, por outro lado, desde suas origens. desco­
briu novos caminhos, criando opções diferentes daquelas de 
que dispunham seus antepassados. Sua capacidade criativa. 
decorrente do raciocínio associativo. pennitiu-lhe substituir 
idéias por sírnbülos, passo fundamental para o surgin1ento da 
linguagem. Assim, foi possível, através da linguagem sin1bó­
lic;:1, criar un1 legado cultural que foi de gera~·ão en1 ger:H.;ão. 
sen1prc aperfeiçoado. Co111 isso. lihertou-sc da fatali<la<li.: de 
aprender con1 os prtlprios crnls. 
O trabalho produtivo, voltado inii.:ia!Jncnte para u sobre­
vivência, à medida que novas técnicas foran1 incorporadas ao 
sistema produtivo, expandiu-se, chegando a criar excedentes, 
que passaram a ser armazenados como tesouros. A partir daí. 
começaram a se distinguir classes sociais de diferente poder 
aquisitivo. As relações humanas, como era de se esperar, tam­
bém sofreram modificações. As nonnas balizadoras do compor­
tamento individual na sociedade foram mudando com o passar 
do tempo para fazer face às mudanças da ordem econômica. 
Nos estágios mais pri1nitivos da sociedade, o 1nais in1por­
tante era a preservação da espécie. A sociedade era fonna­
da por indivíduos inermes e incapazes de enfrentar sozinhos 
os desafios de um mundo pleno de perigos. Destarte. a pos­
sibilidade de sobrevivência resultava da forte união que ha­
via entre os men1bros das tribos. Eran1 enaltecidas as quali­
dades que _tornavam o indivíduo útil à preservação do gru­
po - força física, valentia, sacrifício pelo coletivo. A moral 
individual era pobre. pois rcstavan1 poucas opções a cada 
qual. a não ser agir e111 fu111.,;ân das llL'LºL'ssidadL's do grupo. 
Con1 o passar do tempo, houve necessidadede especia­
lização dos trabalhadores, que linha1n que executar tarefas 
cada vez n1ais co1nplexas e1n função das n1odificações. que 
vieram a ocorrer no modo de produção, deco1rentes da criação 
de novos métodos e técnicas de trabalho. Com isso. ocorreu 
uma estratificação profissional. Além do mais, a distribuição 
e gozo dos bens foram-se tornando desiguais. principai1nente 
pela adoção do trabalho escravo. conseqüência direta da 
dominação dos povos mais fracos pela força das armas. 
Esses fatos fizeram com que as normas de conduta se alte­
rassen1. de modo a fazer face à nova ordem social. 
Da Antigüidade até os nossos dias, a expansão dos do-
1nínios do homem sobre a face da terra aumentou a área ha­
bitada e fez crescer a população mundial. Como era natural, 
houve grandes conflitos, que mudara1n as relações entre as 
classes sociais. Os impérios se sucederam, numa evolução 
contínua c.lc expansão, apogeu e declínio. conforme explica o 
1nateri1.dis1110 histórico. Mas sc1nprc a convivência dos ho-
1nens cn1 sociedade continuou, e se n1antém até hoje, regida 
por nonnas que procun.1n1 validar os costu1ncs vigentes e 
consagrar valores de ordem moral - as nonnas éticas. Em 
cada região e em cada época da história. a conduta humana 
tem sido orientada pela educação no sentido d~ cooperação 
c da obediência ao que é dado con10 correto e moraln1ente 
válido. E a transgressão às regras sempre tem acarretado ao 
infrator o repúdio de seus pares. 
A conduta contrária às convenções morais, também cha­
madas de éticas, leva à rejeição do indivíduo, o que é uma 
experiência que todos já experimentamos ao longo da vida. 
Mas essa punição de ordem simplesmente moral não priva o 
indivíduo de sua liberdade nem lhe retira bens materiais; ape­
nas o deixa constrangido e com noção de culpa - maior ou 
menor, confonne a estrutura de seu caráter. 
Como há, e sempre houve. indivíduos que não se incomo­
dain co1n o conceito de que c.lcsfn1ta111 na sociedade. a si111ples 
reprovação moral da conduta não os afeta e, por isso, não é su­
ficiente para manter a hannonia da vida em sociedade. Assim, 
desde tempos imemoriais, os homens estabeleceram um conjun­
lo de norrnas rnais poderosas. c111hor:.1 igual!ncntc de cunho éti-
3 
- Legalidade 
Ideal 
Moralidade 
l#Mlll A zona cinza corresponde a um ideal utôpico cm que a legislação consngra plcnamenle a moralidade vigente na sociedade. As 
áreas preta e branca represenlam, respeclivamente, leis imorais e atos ilegais moralmente válidos. 
co, que coagem os indivíduos à obediência pela aplicação de 
punições ·mais severas, como a restrição da liberdade, a imposi­
ção de castigos físicos, a decadência de direitos ou a aplicação 
de penas pecuniárias. Essas normas, garantidas pelo poder do 
governo - qualquer que seja sua forma -, são conhecidas 
co1no nonna.\· jurídica.,.:' São i111postas aos cidadãos e tê111 que 
ser obcdecida'i sob pena de retaliação proporcional ü infra'ião 
cometida. O Governo (Estado) não pede ao indivíduo que siga 
a norma. mas, sim, ordena É o imperativo jurídico. O Estado tem 
o monopólio do uso da força para fazer cumpri-Ia. 
O conjunto das normas morais de uma sociedade estabe­
lece a moralidade, enquanto o conjunto das normas jurídicas 
constitui o ca1npo da legalidade. Qualquer ação humana que 
caia fora desses campos é considerada, respectivamente, imo­
ral ou ilegal. Pode-se dizer que uma sociedade está perfeita­
mente estruturada quando os campos da moralidade e da le­
galidade se superpõem. Mas isso é u1na utopia. O que ocorre 
com freqüência 1nuito 1naior é não haver perfeita coincidência. 
E111 priinciro lugar, porque as rclw;õcs sociais são dintunicas e 
mudam mais, ou 111enos, rapidamente co1n o passar do ten1po. 
Em segundo lugar, porque a elaboração das leis segue um rito 
que depende da forma de governo, podendo ser rápida ou len­
ta. A legislação de urna sociedade é tanto mais justa quanto 
. maior for a área comum aos dois campos, confonne a Fig. 1.1. 
O esquema mostra que as ações humanas podem cair en1 
qualquer das três áreas, e o ideal é que liquen1 na zona de su­
perposição, quer dizer, scja1n 1noralmente válidas e legai:-;. Mas· 
há situações em que a'i ações são realizadas de acordo co111 a 
lei, mas não traduzem um comportamento ético. Por exemplo, le­
gisladores votaren1 aun1ento de seus próprios salários quando 
o. goven10, por falta de verbas. se recusa a aprovar aun1ento para 
os funcionários públicos. Por outro lado, por vezes nos depa­
ramos com situações em que a ação é moralmente dignificante, 
mas contrária à lei, como nos casos de pacientes com câncer 
avançado e incurável em que o médico deixa de usar os n1cios 
ncccss:írios i"1 111aiullcnt;:io da vida. co1110 rcposit.;·:lo de sang1ll' 
após un1a hemorragia intensa, e os c.Jcixa111 n101Tcr. Ele alivia o 
sofrimento do indivíduo, mas comete ho1nicídio por 0111issão. 
/\tual111cntc, há países c111 que essa p()S\ura dt1s 1110dk{1s, C{111hc­
cida como eutaná'iia pa'isiva. não é incrin1inada. 
No campo da legalidade, do ordenamento jurídico, as 
ações humanas devem ser divididas em lícitas e ilícita.\", sem 
que haja un1 mcio-tcrn10. O Direito não existiria se se pudes-
4 
se considerar unia ação sc1nilegal. Segundo Hermes Lima, cair­
se-ia na perplexidade. São lícitas as ações que representam 
pretensões garantidas pelo Direito; ilícitas são aquelas que 
originam responsabilidades e sanções por ele impostas. 
Cha111a-sc de direito positil10 o conjunto de normas jurí­
dicas consagradas pelo poder púhlico en1 uni dctcnninado 
país. E111 geral. está escrito cn1 leis elaboradas pelo Poder Le­
gislativo e sancionadas pelo Executivo. O direito positivo 
tem dois ramos, o objetivo e o processual. O objetivo é forma­
do pela norma que estabelece a conduta legítima. Conforme o 
campo da atividade humana que o conjunto de normas regu­
le, estaremos diante do direito penal, civil, trabalhista, adminis­
trativo. co1ncrcial etc. O direito processual corresponde ao 
conjunto de regras segundo as quais o poder público faz 
cumprir as normas objetivas. Sempre que ocorre a violação de 
un1a dessas, torna-se necessário um conjurito de medidas 
prescritas pelo direito processual para que seja verificada e 
sanada a lesão de direito. Ao conjunto de proçedi1ncntos 
adotados dá-se o non1e procC'.\º,\·o. E111 u1n processo. rcgistnu11-
se fatos transit6rios e fatos Uun.1douros. Os fatos transitórios, 
con10 uma ofensa verbal, dcven1 ser den1onstrados por 1neio 
do depoimento de testemunhas, mas os fatos duradouros, 
que deixa1n un1a 1nodificação no ambiente físico, tê1n que ser 
con1provados por profissionais espccializadàs, conforn1e a 
natureza dos vestígios ou indícios deixados. O indivíduo que 
exan1ina esses elcn1entos a pedido de u1na autoridade compe­
tente é genericaincnlc ch:.1111ado de perito. E o exan1e realiza­
do recchc o 110111e de p<'rícia. Cotno é natural. o tipo de cxan1c 
depende da natureza da infração. Assin1, tanto pode ser fei­
to numa pessoa, por un1 1nédico, ou numa coisa, por outro 
técnico. As perícias e sua regula1nentação ·serão abordadas 
no Capítulo 3 desta obra. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
l. Aranha ML de A e Martins MHP. Fi/o.w1fa11do. /111rod11rlio ti Fi­
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r 
História, Conceituacão e Divisão , 
da Medicina Legal 
Hygino de C. Hercu/es 
DOS PRIMÓRDIOS À IDADE MODERNA 
Desde tempos imemoriais, as regras de convivência eni 
sociedade já dependiam de conhecimentos sobre a natureza 
humana. Sua formulação era baseada nos costumes e nas 
parcas infonnaçõesacerca da influência da fisiologia e da pa­
tologia hu1nanas no con1port;.uncnto. Assin1, os prin1ciros si­
nais de u1nà relação ínti111a entre a Medicina e o Direito 
remonta1n aos registros da Antigüidade. No seio dos povos 
antigos, o poder dependia principaln1cnte da força. n1as tan1-
bém emanava de líderes que alardeavan1 dons especiais, fru­
to de seu alegado relacionan1ento com os deuses - os 
sacerdotes. Considerados representantes divinos e agentes 
da sua vontade, ditavam normas que deveriam ser obedeci­
das para que os bons fados acon1panhasse1n o grupo. Pelos 
poderes sobrenaturais de que se diziam possuidores, eram 
chan1ados a intervir com freqüência quando a c61cra dos deu­
ses. cxtcrn:.u.la soh a fonna de doc1H;as. se abatia sobre os 
111c111hros daqucl:is contunida(k's. Nesse 1110111L·1110. o saLTrdo­
te, intérprete da vontade divina, invocava poderes sobrena­
turais para afugentar os maus espíritos e curar os enfermos. 
Para isso, valia-se de orações, ofertava sacrifícios e usava o 
que realmente detinha da arte de curar, através do uso de er­
vas medicinais. O arauto das leis divinas era, a um só tempo, 
legislador, juiz e médico. 
Os documentos mais antigos da história humana dão inú­
meros exemplos da influência mútua entre a Medicina e o Di­
reito. O código penal mais antigo que se conhece, o de 
Hamurábi, da Babilônia, promulgado no século XVIII a.C., 
contém dispositivos relativos à relação jurídica entre médico 
e paciente. Estabelecia em um de seus artigos: "Se um médi­
co tratou um ferimento grave de um escravo de um homem 
pobre, com uma lanceta de bronze, e causou a morte do es­
cravo, deve pagar escravo por escravo." Contudo, as penas 
relativas a tratanientos malsucedidos variavam desde multas 
até a amputação das mãos do médico, na dependência da 
importância social do paciente. Em compensação. os hono­
r:.írios cran1 estabelecidos lcgahnente pela 111csn1a escala <lc 
valores. Esse código fazia referência. inclusive. à anulação de 
contratos de con1pra e venda de escravos por cstarcnl <loen­
tes. Representa, pois, o primeiro marco da relação médico-le­
gal, embora não estipulasse que os juízes teriam que ouvir 
médicos ao julgarem os casos. 
O Código de Manu, na Índia do período budista, século 
V a.C., proibia que crianças, velhos, embriagados, débeis 
lllC!ltais e loucos fOSSClll ouvidos COlllO (CSlClllUllhas. 
Essa interdição, no mundo ocidental, só aparece muito de­
pois, com a Lei das XII Tábuas (449 a.C.), promulgada no 
l111pério Romano. Determinava, entre outras coisas, que a 
duração 1náxima aceita para a gravidez seria de 1 O meses, o 
que coincide com o nosso prazo cíe viuvez como causa Sl;JS­
pensiva do matrimônio. Além disso, um julgamento pode­
ria ser adiado por doença do juiz ou de qualquer das partes 
litigantes. 
Na antiga Pérsia, as leis estabeleciam uma classificação 
das Jesc1cs corporais por ordem de gravidade, o que só viria· 
a aparL'L'Cr 11ov:1111cntc na l,t'X alt·111a11on1111, no século V da 
era cristã, cont a finalidade de se arbitrar a 111ulla a ser paga 
pelo agressor. 
A primeira citação do exame médico de uma vítima de ho­
micídio refere-se à morte de Júlio César. Seu corpo foi exami­
nado por Antistius, um médico que pertencia ao· seu círculo 
de amizades, no ano 44 a.C. Constatou a presença de 23 gol­
pes, dos quais apenas um foi mortal. Mas o exame não foi fei­
to como perito médico, e sim na qualidade de cidadão do 
Império Romano. 
Alguns séculos depois. o reconhecimento de que os mé­
dicos são testemunhas especiais em juízo foi feito por 
Justiniano (483 a 565 a.D.). Contudo, os juízes não eram obri­
gados a ouvi-los. A obrigatoriedade só aparece na já referi­
da Lex alenianorum dos povos bárbaros germânicos. Com d 
passar do tempo, esse reconhecimento vai-se tornando mais 
freqüente. Carlos Magno (742 a 814), na< Capitulárias, instrui 
os juízes a ouvi-los em casos de lesão corporal, infanticídio, 
suicídio, estupro. impotência etc. 
O Livro <la Lei Co1nu1n de São Luís, na França do século 
XIII. manda substituir os duelos judiciais e as provas de re-
5 
sistência (ordálios) pela palavra dos médicos. Até então, o 
vencedor do duelo judicial se1npre tinha razão, porque ven­
cera por ter sido protegido por Deus, sempre justo. Da 1nes-
1na fonna, o infeliz que conseguisse resistir a torturas 
extre1nas era dado como inocente. 
Em plena Idade Média, 1234, o papa Gregório IX substi­
tui o jura1nento da acusada pelo exame 1nédico de virginda­
de nos casos de anulação de casamento. Seguiu-se a 
chamada prova pelo "congresso" para se caracterizar a impo­
tência do marido. Os médicos examinavam os cônjuges e in­
dicavan1 uma matrona experiente como observadora enquanto 
marido e mulher tentavam realizar a conjunção carnal. Logo 
após o prazo estabelecido, a matrona relatava o acontecido, 
e a mtilher era reexaminada. Algum tempo depois, a inatrona 
foi substituída por uma junta de três médicos, três cirurgiões 
e três parteiras. Essa prática foi usada na França até 1677. 
Nesse ano, o ·Parlamento a suprimiu porque o Marquês de 
Langey, que havia sido declarado impotente, já constituíra 
nova família, tendo sete filhos com outra mulher. 
Àquela época, com meios de comunicação precários, não 
era possível haver influência importante dos costu1nes de um 
povo· sobre outro que habitasse região muito distante. Tal fato 
tomava os avanços culturais muito regionalizados. Assim é 
que o primeiro registro de uma obra escrita de Medicina Le­
gal vem da China. É o H'ii Yttan Lu, um volumoso manual para 
a aplicação dos conheci1nentos médicos à solução de casos 
criminais e ao trabalho dos tribunais, publicado pela primei­
ra .vez em 1248. Ao lado de noções fantasiosas, comuns aos 
escritos da época, refere-se ao diagnóstico diferencial de le­
sões produzidas antes ou depois da morte, bem como à téc­
nica de exame dos corpos, provida de a1npla ilustração. 
A iinportância dos 111édicos nos tribunais ganha 111aior 
destaque na França ao tempo de Felipe, o Audaz, que emite 
as "Cartas Patentes" em 1278, que fazen1 alusão a cinirgiões 
jura1nentados junto à pessoa do rei. A nomeação de médicos, 
cirurgiões, parteiras e barbeiros para funcionarem como pe­
ritos em casos de lesão corporal, morte violenta, atentado ao 
pudor etc. toma-se freqüente em Paris a partir do século XIV. 
Até 1374, as necrópsias eram feitas clandestinamente pe­
los anatomistas. Mas, nesse ano, o papa concede à Faculdade 
de Medicina de Montpellier a priineira autorização para rea­
lizar necrópsias para estudos anatômicos e clínicos. Ainda 
não cheg:ira a vez da necrópsia forense. 
A obrigatoriedade da perícia 1nédica en1 n1ortes violen­
las só !Oi decretada, de :.1cordo co1n os registros disponíveis, 
em 1507, na região da atual Alemanha, pelo Código de 
Ba1nberg. Assi1n 1nes1no, scn1 a abertura dos corpos, <1penas 
a inspeção externa. 
A MEDICINA LEGAL NOS SÉCULOS XVI, XVII 
E XVIII 
A nccrópsia forense só foi pennitida co111 a pro1nulgação 
da Constitutio Crinlinalis Carolina, o grande 1narco da his­
tória da Medicina Legal no século XVI, promulgada pelo im­
perador alemão Carlos V, em 1532. Abordava, entre outros, 
vários t~mas médico-legais, tais co1no trau1natologia, 
sexologia e psiquiatria forense. Mas ainda não a tornava 
6 
compulsória. Podemos dizer que essa constituição abrigava 
o embrião da Medicina Legal con10 uma disciplina distinta e 
individualizada. 
Os relatórios 1nédico-legais tomaram-se freqüentes. Com 
a subn1issão desses relatórios às faculdades de medicina 
para avaliação, houve maior divulgação dos proble1nas mé­
dico-legais, despertando o interesse dos estudiosos. As 
co111pilaçõcs dos relatórios serian1 o genne das primeiras 
obras de valor no inundo ocidental. Assin1, a partir da segun­
da 1nctade do século XVI, e111erge111 os pri111eiros tratados. 
Na frança, e111 l 575, surge o que pode ser considerado o 
prhneiro livro ocidental de Medicina Legal, o Traité des 
Rela1o;res, escrito pelo grande cinirgiãodo exército francês, 
Atnbroise Paré. Nele, o autor estuda, entre outros temas mé­
dico-legais, as feridas por projéteis de arma de fogo. Mas, por 
influência do a1nbiente cultural em que vivia, abrigou crenças 
sobrenaturais e1n parte de seus relatórios. No Tra;té des 
Monstres el des Prodiges aceitava o fenômeno da super­
fetação; no TraUé de la Gé11ératio11 acreditava na atuação 
1nalévola de feiticeiros que tinhan1 pactos co1n o de1nônio, 
capazes de tornar estéril un1 casal. Ainda na França, ao fin­
dar o século, e1n 1598, Séverin Pineau escreveu u1n livro so­
bre virgindade e defloramento, em que afinnava que o hímen 
podia restar intacto após a cópula vaginal, cha1nando a aten­
ção para o fcnôn1eno da con1placência hi1ncnal. 
Contudo, não seria1n francesas as obras 1nais i1nportantes 
desse período. Teria1n orige1n na Itália. E111 1597, un1 niédico 
de Í1nola, de no1ne Baptista Codronchius, publica o livro 
Methodus Testijicandi, e1n que estuda problemas médico-le­
gais de traumatologia, sexologia e toxicologia, com o auxílio 
de casos ilustrativos. No ano seguinte, 1598, na cidade de 
Pa!cnno, aparece o pri111ciro grande tratado geral de Medici­
na Legal. Escrito por Fortunato Fidelis sob o título De 
Relatio11Hn1s Me<Ucoru111, estava dividido cn1 quatro livros. 
O prin1eiro versava sobre saúde pública; o segundo, feriinen­
tos, siinulação de doenças e erro médico; o terceiro, virgin­
dade, impotência, gravidez e viabilidade fetal; o quarto, vida 
e morte, fulguração e envenena1nento. O autor defendia a prá­
tica de necrópsias completas. Apesar de n1uito bom para a 
época e111 que foi escrito, seu trabalho não teve a mesma re­
percussão que a obra do romano Paulus Zacchias, Questio­
nes. Medico-Legales. Era fonnada por um conjun,to de dez 
livros, publicados entre 1621 e 1658. Indubitavelmente, é a 
1n;lior obra dessa lhsc da Medicina Legal. Cada livro é divi­
dido c111 partes, que, por sua vez, são divididas e1n questões 
específicas. Tal conjunto abrange aspectos 1nédico-legais de 
obstetrícia, scxologi:.1, psiquiatria, toxicologia, lrau1natologia, 
tanatologia e saúde pública. Os livros de Paulus Zacchias 
excederam os de seus contemporâneos em extensão, profi.1n­
didade e qualidade e continuan1111 con10 fontes de referência 
até o início do século XIX. Ainda há u1n volu111e dessa obra 
na biblioteca do Centro de Estudos do Instituto Médico-le­
gal Afrünio Peixoto. 
Durante o século XVII, alé111 dos italianos, ta111bé111 dcs­
pontara1n grandes autores alen1àcs na Medicina Legal. Assiin 
é que, e111 1650, surge o pri1neiro curso especializado e111 Me­
dicina Legal. Foi lecionado na Universidade de Leipzig, por 
Michaelis. En1 1682, na Bratislávia, Schrcyer usou a chama-
da prova hidrostática de (Jalcno c111 u111 caso de inl1u1ticídio, 
substituindo, pela pritncira vez, as confissões obtidas nte­
dinnte tortura por provn técnica. Isso jú havia sido proposto 
por Sonnenkalb, na Saxônia, cn1 1561. 
Outros nomes, como Welsch e Amman, destacaram-se na 
escola de Leipzig, 1nas o 1nais fatnoso foi Johannes Bohn. Seu 
trabalho De Renunciatione Vulnerun1, de 1689, foi a principal 
obra alemã da época. Nela, o autor classificava as lesões em 
mortais por si e naquelas fatais apenas quando complicadas 
por outros fatores, alé1n de fazer o diagnóstico diferencial en­
tre lesões produzidas em vida ou após a 1norte. Escreveu so­
bre deontologia, estabelecendo regras de conduta para os 
médicos quando d.e sua relação com os clientes e quando di­
ante dos tribunais. Propunha un1 controle 111édico dos venenos, 
pleiteava autópsias completas e negava enfatican1ente a pos­
sessão dc1noníaca e os poderes 1nôgicos. Por tudo isso, podc­
se concluir que estava alguns passos adiante do seu te1npo. 
No século XVIII, há poucas referências i1nportantes cotno 
111arcos na história da Medicina Legal. Na França, depois de 
A1nbroise Paré, são encontradas poucas obras de real valor. 
Entre as causas da decadência citam-se a multiplicidade de 
jurisdições, a necessidade de confissão dos réus, 111cs1no que 
obtida por torturas, a ausência de dclCnsor c111 1nuitas causas, 
a inexperiência e incompetência dos peritos, alén1 da 
venalidade e do segredo dos ofícios. A atuação pericial con­
tinuava a cargo dos cin1rgiõcs, j:í. que os clínicos a dctcsta­
van1. O vulto tnais ilnportantc foi o de Antoine Louis, o 
primeiro a ensinar Medicina Legal e Saúde Pública em seu 
país. Escreveu sobre vários temas médico-legais, inclusive 
lesões por contragolpe nos traumatismos craniencefálicos, em 
1772. Era comuin que os 1nesmos tnédicos exercessetn tanto 
a atividade pericial como as ações de medicina preventiva, 
pois eram funcionários do Estado. 
Foi nesse século que surgiu, e111 Berlin1, a priineira publi­
cação especializada etn Medicina Legal. Co1neçou a circular 
em 1782, editada por Uden e Pyl. 
SÉCULO XIX: A ERA DE OURO DA MEDICINA 
LEGAL 
As modificações legais introduzidas na França pela Revo­
lução de 1789 1nodiricara111 n1uitn o seu direito processual. E111 
primeiro lugar, o Code d'Jnstruction Cri111i11el/e, protnulgado 
por Napoleão em 1808, desfechou golpe mortal nas práticas 
jurídicas secretas e inquisitoriais dos séculos precedentes. O 
trabalho dos juízes e o parecer dos médicos passaram a ser 
públicos. Antes da Revolução, o segredo dos pareceres 
acobertava a incompetência e a venalidade em numerosos 
julgamentos. Em segundo lugar, o interesse pelo social fez 
com que a inedicina preventiva se desenvolvesse 1nais, já 
que a plebe e a burguesia, classes menos favorecidas que a 
nobreza, era1n as mais atingidns quando da eclosão de epide­
mias. Co1no os 1nédicos oticinis ern1n responsáveis tanto pe­
los pareceres para a justiça como pela implementação de 
medidas de saúde pública, as duas áreas fora1n fundidas no 
que passou a ser chamado de Medicina Pública. 
A partir da criação das cátedras de Paris, Strasbourg e 
Montpellier, ten1 grande dcsenvolvi1ncnto a Medicina Legal 
franccsn. En1 1799, Foderé, que viria a ser o primeiro catedráti­
co de Strasbourg, publica seu Traité de Médecine Légale et 
d 'f-f)·:rr,iene Publique, que pennaneceria como obra de referên­
cia por cerca de 50 anos. E1n 1829, é fundado o Anna/es 
d 'Hygiene Publique et de Médecli1e Légale, primeiro periódico 
para publicação de trabalhos em Medicina Legal na França. 
As grandes descobertas no campo da Física, da Química 
e da Biologia começaram a ser incorporadas à Medicina Le­
gal no início do século. Coube a Juan Matio Bonaventura 
Orfila, espanhol naturalizado francês; Marie Guillaume 
Alphonse Devergie, francês; e Johan Ludwig Casper, alemão, 
dar cunho científico à Medicina Forense. 
Orfila, considerado o pai da moderna toxicologia, trouxe 
para a·Medicina Legal seus conhecimentos de química ana­
lítica, forjando sólida base científica para a atividade pericial. 
Sua obra Traité eles Poisons ... pode ser considerada revolu­
cionária, já que trouxe a metodologia da química para o estu­
do dos casos de envenenamento. Até então, era muito 
connun a prútica de hon1icí<lios por 1neio de venenos em face 
da dificuldade de comprovação pericial. 
Devergie, em 1834, iniciou o primeiro curso prático de Me­
dicina Legal na França. Mas, c1n razão das dificuldades de 
ordc111 política quf! f!ncontrou, tcvf! duração d!! apenas dois 
anos. En1 1835, escreveu a obra Médecine Légale, Théorique 
et Pratique. Esse curso, contudo, foi reaberto em 1878, pór 
Brouardel, que dispunha de condições ideais para fazê-lo. Ele 
era o inspetor <la 1norgue e assistente de 'fardicu, catedráti­
co de Medicina Legal de Paris. 
Casper trabalhou em Berlim sob condições quase desu­
manas. Seu local de trabalho era fétido e lúgubre, situado em 
porões com pouca ventilação. A publicação de seus livros 
Gerichtliche Leichenõffmmg (Dissecção Forense), de 1850, 
e Praktisches Handbuch der Gerichtlichen Medizin (Manual 
Prático de Medicina Forense), de 1856, garantiu à Medicina 
Legal um lugar entre as ciências médicas. 
A partir da segunda metade do século XIX,a aplicação 
do 111étodo cientílieo às ciêncü1s biológicas modificou a visão 
1nédica das doenças. Paulatinamente, foram surgindo as es­
pecialidades clínicas e cirúrgicas. A Medicina Legal, como 
caudatúria desse dcsenvolvilnento, passou a ser considera­
da ciência, u1na fonna de medicina aplicada. Entre os maiores 
nomes dessa fase podemos citar Tardieu, Brouardel, 
Lacassagne, Legrand du Saullc, Etienne Martin;Balthazard, 
Thoinot e Vibert, na França; Hoffman e Paltauf, na Áustria; 
Strassman, na Alemanha; Carrara e Borri, na Itália; e·Taylor, 
na Inglaterra. 
A MEDICINA LEGAL NO BRASIL 
Durante séculos, obedecemos à orientação jntelectual e 
cultural portuguesa. Como Portugal custou a desenvolver 
sua Medicina Legal, tivemos que abrir caminho por nós mes­
n1os, do que resulta ser nula a influência da Medicina Legal 
portuguesa sobre a brasileira. O Brasil não tem, felizment~. de 
que se envergonhar. Seu aprimoramento científico, no que 
tange à Medicina Legal, o coloca em condições que deixam 
pouco a desejar com relação aos países mais desenvolvidos, 
c111 face dos progressos realizados. 
7 
Segundo Oscar Freire, a evolução da Medicina Legal no 
Brasil pode ser dividida em três fases: 1) estrangeira; 2) de 
transição; 3) de nacionalização. 
A fase estrangeira vai desde o fim do período colonial até 
o ano de 1877, no qual Souza Lima assume a cátedra de Me­
dicina Legal da Faculdade de Medicina que pertence hoje à 
Universidade Federal do Rio de Janeiro. A primeira publica­
ção dessa fase data de 1814, e era um documento em que 
Gonçalves Gomide, médico e senador do Império, contesta­
va um parecer dado por dois outros profissionais, Antônio 
Pedro de Sousa e Manuel Quintão da Silva, em que afirma­
vam ser santa uma rapariga da comarca de Sabará, na capela 
de Nossa Senhora da Piedade da Senra. 
Àquela época, os juízes brasileiros não tinham a obriga­
ção de ouvir peritos antes de proferirem a sentença. Tal de­
ver só lhes seria imposto com o advento do primeiro Código 
Penal Brasileiro, em 1830. No artigo referente ao homicídio, 
esse código estipulava que "o mal se julgará 1nortal a juízo 
dos facultalivos". 
No ano de 1832, ocorrem dois fatos importantes para a 
Medicina Legal brasileira. É rcgula1nentado o processo penal, 
estabelecendo-se regras para os exames de corpo de delito, 
criando-se, assim, a perícia profissional. Além disso, as anti­
gas escolas médico-cirúrgicas criadas por decreto de D. João 
VI em 1808, na Bahia e no llio de Janeiro, são transformadas 
em faculdades de medicina oficiais, sendo criada em ambas 
uma cadeira de Medicina Legal. Como, para obter o grau de 
doutor, os alunos eram obrigados a defender uma tese, alguns 
optavam por desenvolvê-la na área da Medicina Legal. Em­
bora se constituíssem em meras cópias de tratados europeus, 
abriram o caminho para a ampliação das pesquisas em Medi­
cina Forense. 
. Em 1835, Hércules Otávio Muzzi, cirurgião da família im­
perial brasileira, publica a Autopsia do Exrno. Sr. Regente 
João Bráulio Moniz, feita segunda-feira, 21 de setenzbro de 
1835, às 14 horas, 22 horas depois da 111orte. Era a prilncira 
publicação de necrópsia médico-legal no Brasil. 
O Conselheiro Jobim, que fora nomeado, em 1832, primei­
ro catedrático <lc Medicina Legal da Faculdade <le Medicina 
do Rio de Janeiro, foi incumbido, pelo Ministro da Justiça, em 
1854, de uniformizar a prática dos exames médico-legais, pre­
sidindo uma comissão que organizaria uma tabela prognós­
tica das lesões segundo sua natureza e sede. 
Em 1856, é criada a assessoria médica junto à Secretaria 
de Polícia da Corte, composta por quatro médicos. Dois eram 
Inembros efetivos e enc~rregados de fazer os exames de cor­
po de delito; os outros dois seriam professores de Medicina 
Legal da faculdade, denominados então consultantes, res­
ponsáveis principalmente pelos exames toxicológicos. O su­
cessor do Conselheiro Jobim na cátedra de Medicina Legal, 
Francisco Ferreira de Abreu, passou a fazer as perícias toxi­
cológicas nos laboratórios da Faculdade de Medicina. No 
mesmo ano, foi criado o primeiro necrotério do Rio de Janei­
ro, no depósito de mortos da Gamboa, usado até então para 
guardar cadáveres de escravos, indigentes e presidiários. 
A fase de transição começa em 1877, quando o ensino da 
Medicina Legal assume um caráter prático. Como os exames 
toxicôlógicos rcprcscntavan1 un1 ônus não-retribuído para a 
8 
Faculdade de Medicina, prejudicando as atividades didáticas, 
Agostinho José de Sousa Lima, que acabara de assumir a ca­
deira de Medicina Legal, consegue ser nomeado consultante 
da polícia, juntamente com o seu assistente, Borges da Cos­
ta. Em 1879, Souza Lima é autorizado a dar um curso prático 
de tanatologia forense no necrotério oficial. A importância 
maior desse fato é que a mesma facilidade só tinha sido con­
seguida por Brouardel, na França, no ano anterior. O último 
gabinete do Império, o de Ouro Preto, cria novo necrotério 
para a polícia no prédio da Santa Casa do Rio de Janeiro. 
Em 1891,já na vigência do primeiro governo da Repúbli­
ca, ocorre nova modificação no ensino superior. As faculda­
des de direito passam a ter como obrigatórias as disciplinas 
de Medicina Legal e de Higiene, enquanto a cadeira de Me­
dicina Legal da Faculdade de Medicina perde a Toxicologia, 
que passa para a Química Analítica. Em 1895, as disciplinas 
de Medicina Legal e de Higiene das faculdades de Direito 
fundc111-sc na disciplina chun1ada Medicina Pí1blica. O uspcc­
to social da Medicina Legal é realçado nessa união. 
A fase de nacionalização começa nessa época. Seu início 
é 111arcado pela posse de Rainn1ndo Nina R.odrigues, cn1 1895, 
como catedrático de Medicina Legal da Faculdade de Medi­
cina da Bahia. Foi ele o maior professor de Medicina Legal 
brasileiro do século XIX. Sua obra se dc.Staca, principaln1cn­
te, no campo da Psiquiatria Forense e da Antropologia Cri­
minal. Lombroso, célebre criminologista italiano, o chamava 
de "apóstolo da Antropologia Criminal no Novo Mundo''. 
Seus artigos, escritos em francês, eram publicados nos 
Annales de Lacassagne e Brouardel. Mais tarde, Afrânio Pei­
xoto viria a atribuir tal sucesso ao fato de Nina Rodrigues es­
tudar as correlações dos elementos étnicos e sociais com a 
criminalidade de sua terra. Entre outras proposições, Nina 
Rodrigues defendia a realização obrigatória de concursos 
para a nomeação de peritos oficiais, a fim de que se tornas­
se a justiça tnais bc111 servida e iinune aos erros de avaliação 
e interpretação comuns à atividade pericial de seu tempo. 
Deixou ilustres discípulos, entre os quais Afrânio Peixoto e 
Oscar Freire. Faleceu e1n 1906. 
O R.io de Janeiro, capital da llepública, continua sendo 
palco de importantes reformas administrativas. Em 1900, é 
promulgado um decreto que transforma a Assessoria Médi­
ca da polícia e1n Gabinete Médico-legal e cria nele um servi­
ço de identificação antropométrica, que passaria a fazer 
também exames psiquiátricos. No ano seguinte, 1901, ocorrem 
outras alterações no ensino da Medicina Legal. As provas 
práticas deixam de ser obrigatórias nas faculdades de Medi­
cina, e os alunos deixam de freqüentar essas aulas. Sousa Liina 
protesta, em vão, contra a medida. Em compensação, na mes­
ma reforma, a Toxicologia volta a fazer parte da Medicina Le­
gal, e, nas faculdades de Direito, a Medicina Pública é cindida 
em Medicina Legal e Higiene, como era até a reforma de 1895. 
Em 1902, no Rio de Janeiro, Afrânio Peixoto, cuja compe­
tência como médico-legista já era tão reconhecida quanto seu 
talento de literato, propõe uma reformulação do Gabinete 
Médico-legal inspirada no sistema alemão, o centro europeu 
· mais avançado em Medicina Legal, que ele conhecera pessoal­
mente. Clamava, então, que "as monstn1osidades alcunhadas 
de tennos de <lutópsias, autos de corpo de delito confusos, 
desordenados, incoerentes, dando un1 triste atestado de in­
competência profissional e prejudicando os interesses da jus­
tiçn ", não podcri:un continuardistorcendo a aplicaç:io da lei 
penal. Soh sua inllui:ncia, o (iovcrno Fcdcr:il baixa o l)ccrc­
to 4.864 de 15/06/1903, que estabelecia normas detalhadas 
para a descrição e conclusão das perícias n1édicas. Entre ou­
lros avanços, sugeria u111 protocolo de nccrúpsi:is se1nc\hanlc 
ao do ah:1n:io Vircho\v, o pai da patologia celular. Seu rotei­
ro foi an1plamente elogiado por Locard e por Lo1nbroso, que 
o achavam um avanço tão grande que seus próprios países, 
a França e a ltiífia, dcvcria1n i1nitar o cxc111plo brasileiro. Mas 
essas detenninações não se teria1n efetivado se não fosse 
o prestígio pessoal de Afrânio Peixoto. 
A Academia Nacional de Medicina e o Instituto dos Ad­
vogados do Brasil, bem co1no outras sociedades nlêdicas, 
lançara1n manifestos no sentido da aplicação prática do que 
estava na lei, com o fim de se impedir que continuasse1n a 
ir aos tribunais laudos imperfeitos. Mas, apesar de tudo 
isso, o desempenho dos peritos continuava desastroso. 
Médicos não especializados era1n nomeados para realizaren1 
perícias que envolviam conhecimentos fora de seu campo 
usual de atuação apenas por serem aparentados ou amigos 
dos magistrados. 
Co1no resultado direto daquela pressão, foi baixado o 
Decreto 6.440 de 30/03/1907, que transformou o gabine­
te em Serviço Médico-legal do Rio de Janeiro. Afrânio Pei­
xoto foi empossado con10 o seu primeiro diretor. O 
protocolo de necrópsias foi ampliado ainda mais, passan­
do a incluir as reformas preconizadas por Orth na Alema­
nha. Foram criadas especialidades dentro da Medicina 
Legal, mas sua sugestão de que os professores da faculda­
de pudessem efetuar perícias oficiais não foi incluída no 
texto final do decreto. 
Em 1911, com a Lei Orgânica do Ensino, o artigo 262 do 
regulamentei da Faculdade de Medicina determinava que o 
professor de Medicina Legal, com pequenas tunnas de alu­
nos, deveria fazer aulas de demonstração e o relatório dessas 
perícias, inclusive no necrotério. Contudo, as autoridades 
policiais e judiciárias não pennitiram que Nascimento e Silva, 
catedrático de Medicina Legal, sucessor de Souza Lima, cum­
prisse tal detenninação, alegando quebra do sigilo pericial. Tal 
resistência despertou acalorados debates. No entanto, 1nes­
n10 entre os peritos oficiais, havia aqueles, con10 Jacyntho de 
Barros, diretor do Serviço Médico-legal entre 1913 e 1915, 
que defendiam as aulas práticas de demonstração de 
necrópsia forense desde que resguardados os interesses das 
Partes envolvidas na perícia. A autorização só veio com a Lei 
Maximiliano de 18 de março de 1915, que deu aos professo­
res de Medicina Legal o acesso ao necrotério oficial e o di­
reito de fazerem perícias em suas aulas, reconhecendo a 
validade jurídica dos laudos então elaborados. 
Em 1917, Afrânio Peixoto organiza um curso de especia­
lização e1n Medicina Pública com o auxílio de outros catedrá­
ticos da Faculdade de Medicina. Novamente, houve oposi·ção 
dos legistas da polícia sob o 1nesn10 argu1nento de quebra do 
sigilo pericial. Por isso, esse curso durou apenas um ano. As 
relações entre a Faculdade de Medicina e o Serviço Médico­
leg:il do Rio de Janeiro tornar:1111-se tensas. Entidades con10 
a Academia Nacional de Medicina; a Sociedade de Medici­
na e Cin1rgia do Rio de Janeiro; a Sociedade de Neurologia, 
Psiquiatria e Medicina Legal; a Congregnção da Faculdade 
de Mcdicina das Universidades da Ui.ihia e de São Paulo, as­
sim como juristas famosos como Clóvis Bevilacqua, tomaram 
público o seu apoio aos profes~ores no sentido de que a ex­
clusiio de :ilguns casos para aulas deveria ser por con~cnso 
entre os professores e a direção <lo serviço de perícias, de 
1nodo a não inviabilizar os cursos práticos. Mesmo assim, o 
diretor do Serviço Médico-legal, Moretsohn Barbosa, não 
pcnnitiu o uso do necrotério oficial. As únicas períci·as per­
tnitidas para aulas práticas eram as realizadas no Laboratório 
de Medicina Legal. 
Enquanto isso, na Bahia, Oscar Freire, outro discípulo de 
Nina Rodrigues, luta pela transformação da estrutura médico­
lcgal do seu estado. Em 1911, toma-se o diretor do Serviço 
de Medicina Legal da Bahia, que viria a ser chamado, até nos­
sos dias, de Instituto Médico-legal Nina Rodrigues. Em 1917, 
passa a trabalhar na Faculdade de Medicina da Universida­
de de São Paulo, onde organiza um grande Departamento de 
Medicina Legal. Contudo, as portas do Serviço Médico-legal 
da polícia de São Paulo jamais se abririam aos professores da 
Faculdade de Medicina. Morre em 1923, tendo deixado gran­
de contribuição ao desenvolvimento da Medicina Legal bra­
sileira. Hoje, o instituto que fundou na Universidade de São 
Paulo leva o seu nome: Instituto Oscar Freire. 
Em 1923, o Serviço Médico-legal do Rio de Janeiro é 
transferido do galpão que ocupava ao lado da Polícia Central 
para o pavilhão onde ficara a representação do Distrito Fe­
deral por ocasião da Exposição do Centenário da Independên­
cia, em I 922. No ano seguinte, novas e importantes mudanças 
ocorrem. O Serviço Médico-legal do Rio de Janeiro passa a 
constituir o Instituto Médico-legal, órgão agora subordina­
do diretamente ao Ministério da Justiça, não mais à polícia. 
No bojo dessas mudanças, são ampliadas as instalações, 
· como os laboratórios de toxicologia e de anatomia patológi­
ca, o corpo de peritos é aumentado, e é construído um necro­
tério novo na Praça XV. 
A autonomia do Instituto Médico-legal do Rio de Janei­
ro, contudo, sofre sério golpe ao fim do governo de Washing­
ton Luís, em 1930, quando volta a ser subordinado ao chefe 
de polícia do [)istrito Federal. E1n 1932, ano do centenário dns 
faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia, já na 
vigência do Estado Novo, o governo manda construir no IML 
um anfiteatro para a realização das aulas práticas das facul­
dades oficiais e autoriza os professores de Medicina Legal a 
fazerem os laudos dos casos apresentados aos alunos. O local 
desse anfiteatro é ocupado, atualmente, pelo Museu da Ima­
gem e do Som. 
Com a entrada em· vigência do novo Código de Processo 
Penal (Decreto-Lei 3.689 de 03/10/41), as perícias passaram a 
ser realizadas apenas por peritos oficiais, o que trouxe, nova­
mente, grande prejuízo ao ensino da Medicina Legal. 
Em 1949, houve a transferência do IML do Rio de Janei­
ro para a sua atual sede na Lapa. Era um prédio novo, super­
dimensionado para as necessidades daquela época, mas que 
fora construído com os olhos voltados para o futuro. ílem­
;.1pan.:lhado, tanto no setor de clínica con10 no de necrópsia, 
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dispunha de excelentes instalações laboratoriais e radiológi­
cas, co1n capacidade ociosa a esperar o au111cnto de dcrnan­
da que haveria de ocorrer com o cresci1nento da população. 
Já nos anos 50, surgem especialistas dentro da Medicina Le­
gal, nas áreas de anatomia patológica, hematologia, radiolo­
gia e neuropsiquiatria. Nos anos 60, a 1nédia de necrópsias 
do IML do Estado da Guanabara atingiu 15 a 20 por dia, fa­
zendo co1n que a Instituição ampliasse seus quadros. Como 
fruto do maior volume de trabalho, feito em boas condições 
técnicas e supervisionado por peritos que, com freqüência, 
ta1nbém crJ1n professores das faculdades de Medicina, oco1Tcu 
grande aprimoramento, culminando co1n o surgin1ento, cn1 
1969, de u111 periódico, a Revista do IML do E\'taclo da Guana­
bara, cujos nú1neros foratn indexados e1n resenhas internaci­
onais e distribuídos por toda a comunidade científica do seu 
campo de atuação. Contudo, a falta de verba inviabilizou a con­
tinuação da publicação da Revista do IML, que foi interrom­
pida após poucos anos de atividade fulgurante. Fatos de natu­
reza política e econômica haveriam de interferir no crescimento e 
na qualidade da produção do IML do Estado da Guanabara, 
nas décadas seguintes. Note-se que a mudança da capital fe­
deral para Brasília já havia tirado parte da posição de prestígio 
da Instituição por desvinculá-la do Governo Federal. 
A fusão dos antigos Estados da Guanabara edo Rio de 
Janeiro, em 1975, marca o início da decadência da Instituição. 
A necessidade de atender a uma área geográfica muito maior 
e mais pobre, carente de recursos humanos e técnicos, fez 
com que fossem drenados- para o Instituto os casos de in­
vestigação médico-legal mais laboriosa de todos os municí­
pios do antigo Estado do Rio de Janeiro, sem que houvesse 
uma contrapartida de aumento de recursos humanos e mate­
riais. Por outro lado, a crise dos serviços de saúde e a baixa 
re1nuncração dos 1nédicos levara1n a que fizcssc111 concurso, 
e fossem admitidos co1no 1nédicos-legistas profissionais pou­
co identificados con1 a especialidade, pre1nidos pela necessi­
dade de mais um emprego para recompor a renda familiar em 
franco declínio. E esse foi um fenômeno ocorrido em escala 
nacional. O grande aumento do número de faculdades de 
Medicina tomou excessivo o nú1nero de 1nédicos nos gran­
des centros, com a conseqüente redução da remuneração. 
Tais problemas agravaram-se nos anos seguintes, tendo 
como tônica o aumento da demanda por serviços e a redução. 
das verbas destinadas à Instituição por sucessivos governos 
estaduais. Hoje em dia, com o grande aumento na violência 
urbana, a situação tomou-se caótica. Dão ingresso, diaria­
mente, 30 a 40 corpos no necrotério da Instituição, ora deno­
minada Instituto Médico-legal Afrânio Peixoto (IMLAP), a 
maioria vítimas de ho1nicídios dolosos. 
Mais recentemente, houve uma reforma das instalações 
da área de ensino do necrotério do IMLAP, resultado de unia 
cooperação entre a ad1ninistração estadual e as fi.lculdades de 
Medicina de universidades particulares que as utiliza1n para as 
aulas de demonstração de necrópsia forense, já que seus pro­
fessores, c1n geral, ta1nbén1 são peritos oficiais. For..un rcfonna­
dos os anfiteatros, o centro de estudos e as instalações sanitárias 
para os alunos usuários. Os professores e seus alunos dis­
põem, agora, de ambiente condigno. No plano administrativo 
da Instituição, está sendo implantada sua infonnatização. 
10 
Nos outros Estados da Federação, a situação ora é 1nclhor; 
ora, pior que no H.io de Janeiro. Existe1n institutos que <lcscn­
volvc111 L11na rotina de boa qualidade, com infonnatização <los 
laudos, e que conseguem exercer alguma atividade de pes­
quisa. Mas também é verdadeira a contrapartida, ou seja, ins­
titutos 1nuito carentes de recursos materiais e humanos . 
Deixamos de citar nomes de instituições, professores e 
peritos que se destacaram nas duas últimas décadas para não 
pecar por omissão de alguns igualmente importantes. 
Em 20 de outubro de 1967, en1 Niterói, os médicos-legistas 
brasileiros reunira1n-se para fundar a Sociedade Brnsilcint de 
Medicina Legal. Desde então, seus 111c1nbros tên1 pron1ovido 
congressos nacionais, nos quais hú grande intcrc<i111bio cien­
tifico e são debatidos te1nas <le interesse geral da classe. O 
·último encontro foi em outubro de 2002, no XVII Congresso 
Brasileiro de Medicina Legal, realizado em Porto Alegre. Além 
dos temas científicos, fora1n debatidas questões de ordem 
política, a 1nais importante das quais foi a necessidade de 
maior autono1nia para os profissionais da área. É ponto co­
mum entre os nlédicos-legistas brasileiros atuais o sentimen­
to de que a independência administrativa em muito auxiliaria 
ajustiça por evitar qualquer suspeita de cercea1nento da ati­
vidade pericial pelas autoridades policiais. No Estado do Pará, 
os peritos já se acham totahnente independentes, tanto ad­
ministrativa quanto financeiramente, sendo subordinados 
apenas à autoridade do governador. 
CONCEITO DE MEDICINA LEGAL 
Se citarmos as expressões com que alguns autores a de­
finiram, veremos que o conteúdo da definição depende da 
perspectiva histórica de cada u1n. Assim é que A1nbroise 
Paré, o autor do Tratado dos lle/atórios, cn1 1575, a 
conceituava con10 .. a arte de fazer relatórios na Justiça". Mais 
tarde, con1 a conotação de Medicina Pública, seu conceito 
tomou-se mais amplo. A definição de Tourdes pode servir de 
exemplo: "É a aplicação dos conhecimentos médicos às ques­
tões que conceme1n aos direitos e aos deveres dos ho1nens 
reunidos en1 sociedade." 
Com o grande impulso das ciências naturais e com a ne­
cessidade de maior objetividade nos conceitos, a partir do 
século XIX, temos definições mais concisas e claras, co1no 
a de Lacassagne: .. É a arte de pôr os conhecin1entos 1nédi­
cos ao serviço da ad1ninistração da Justiça." Hoffman, o 
grande legista austríaco, a considerava não· uma arte, mas 
uma ciência. Dizia ele: "É a ciência que tem por objeto o 
estudo das questões no exercício da jurisprudência civil e 
criminal e cuja solução depende de certos conhecimentos 
médicos prévios." Concordamos com ambos, pois a Me­
dicina Legal é, a un1 só tc1npo, arte e ciência. É arte por­
que a realização de u1na perícia 111édica requer habilidade na 
prática do exan1e e estilo na redação do laudo; é ciência 
porque, alé111 de ter u1n ca1npo próprio de pesquisas, vale­
sc de todo o conhcci1ncnto oferecido pelas dcrnais especi­
alidades 111édicas. 
É a Medicina Legal uma especialidade? Pode qualquer 
1nédico, clínico ou cin1rgião, exercê-la quando não acostuma­
do às sutilezas periciais, sem prejuízo para a Justiça? Pode-
rão ensiná-la aqueles que n<io 11:111 experiência acu1nuh1da 
co1no peritos'! Veja1nos. 
Em primeiro lugar, há aspectos peculiares à disciplina 
e que só a ela dize1n respeito. A investiga~·iio de paterni­
dade, fl!ita por n1eio de exan1cs dc sangue t:, 111ais 111odi:r­
namente, pela seqüência do DNA, não é pedida a qualquer 
outro profissional da 111cdicina. O cstahclcci1ncnto aproxi-
1nado da hora da 1nortc só ten1 interesse para o legista, qlie, 
por isso, pesquisa meios cada vez mais requintados para 
determinar o momento em que alguém 1norreu; ou se A fa­
leceu antes de 8, com evidentes itnplicações na sucessão 
dos bens. O diagnóstico da distância de tiro ou o tipo de 
instrumento causador de uma lesão são problemas só apre­
sentados aos legistas. A avaliação da periculosidadc de 
um doente mental é u1n diagnóstico que se solicita apenas 
ao psiquiatra forense. 
Mas, se há tarefas propostas apenas aos 1nédicos­
legistas, não é menos verdade que o tnodo de infonnar às 
autoridades que :u; solicita111 seja especial. lJin rclatúrio nH:­
dico-legal não é conto un1 pnJntutirio hospitalar. Nelc, a ana111-
nese é prejudicada pela falta de segurança que o profissional 
sente com relação às infonnações prestadas pelo paciente. 
São freqüentes as sinnilaçC1cs, ora supri111indo, ora \l.'11\ando 
<lc1nonstrur sinto1nas e sinais inexistentes. Alt!111 disso, nu 
foro criminal, a descrição e as conclusões visa1n à resposta 
aos quesitos legais, que reílete111 a necessidade de caractcd­
znç:iu dos elc111c11tos de u111 delito ou de unia 1.:in.:u11st;-111i..:i:1 
atenuante ou agravante penal. Por tu<lo isso, é a Medicina 
Legal urna especialidade médica. 
SUBDIVISÕES DA MEDICINA LEGAL 
Por se valer de conheci1nentos de diversas especialida­
des médicas, é natural que també1n a Medicina Legal resulte 
subdividida. Para nós, os principais ra1nos da Medicina Le­
gal são a Patologia Forense, a Toxicologia Forense, a 
lnfortunística, a Antropologia Forense, a Sexologia Forense, 
a Psiquiatria Forense e a Deontologia. 
A Patologia Forense estuda toda a Traumatologia Foren­
se e a Tanatologia. Na pri111eira, são estudados as energias 
vulnerantes, seu .1necanisrno <le ação e suas conseqüências 
pessoais e sociais. Já a Tanatologia visa ao estudo da 1nor­
te, sua conceituação, sua causa jurídica e os fenôn1enos ca­
davéricos qúe enseja. 
A Toxicologia Forense te1n por objeto de estudo as subs­
tâncias tóxicas, seus efeitos sobre o ser htnnano, seu 111cca­
nismo de ação, seu 1no<lo de detecção en1 casos concretos e 
o esclarecimento de aspectos de repercussão jurídica. 
A Infortunística ocupa-se dos acidentes do trabalho, sua 
etiologia, dinâmica e suas conseqüências. Estabelece o nexo 
entre os acidentes e as incapacidades laborativas.En1bora 
não seja essa a opinião da maioria dos autores, acha1nos que 
deva incluir também o estudo dos acidentes pessoais não­
relacionados ·ao trabalho. 
Na Antropologia Forense, atualmente 1nuito desenvolvi­
da, são estudados os restos 1nortais, os despojos hun1anos, 
com o objetivo de esclarecer sua identidade, causa de 1nor­
te, ascendência e outros dados de valor social. 
A Sexologia Forense abrange os aspectos relacionados 
con1 o diagnóstico de virgindade, violência sexual, gravi­
dez, puerpério, aborto e problemas 1nédico-legais relativos 
ao cas:11ncnto. 
A Psiquiatria Forense te1n por finalidade a avaliação da 
responsabilidade penal e da capacidade civil, que podem 
estar alteradas en1 função de distúrbios 111entais. Nela são 
abordados os aspectos 1nédico-legais da en1briaguez e das 
toxicomanias. 
A Deontologia é o capítulo da Medicina Legal que se 
ocupa das normas éticas a que o médico está sujeito no exer­
cício da profissão. Por extensão, abrange a responsabilidade 
profissional nas esferas penal, civil, ética e administrativa. Seu 
ca1npo de estudo inclui a Bioética e seus princípios. 
VALOR DO ESTUDO DA MEDICINA LEGAL PARA o 
ADVOGADO 
Por ser o Oi rei to u1na ciência hu111nna, é preciso, en1 ·pri-
111eiro lugar, qul.! o profissional do Direito tenha bo1n conhe­
ci1nento do que é o ser humano em sua totalidade - unta 
unidade biopsicossocial. Para isso, não é necessário que 
possua o saber de un1 profissional da ;'1rca hio1nédica, 111as. 
tc111 que conhecer as bases dessa unidade. E a Medicina Legal 
lhe provê os elementos necessários a essa compreensão. 
Se incursionar na elaboração c discussão das leis, tcr;'1 que 
ler rudi111cnlos de biologia, para que niio proponha nonnas 
inexeqüíveis, por exemplo, no crunpo da legislação sanitária. E1n 
se tratando de nonnas penais, o desconhecimento das peculia­
ridades da personalidade, conforme o biotipo individual, pdde 
levá-lo a querer criar um padnio geral de comportamento, pou­
co flexível e no qual não caiba1n as variações individuais. 
Na prática forense, 1ntiitas vezes ele terá que se deparar 
con1 casos em que certos conhecimentos da área médica se­
rão indispensáveis para poder elaborar quesitos, saber quan-. 
do apresentá-los e co1no tirar proveito da resposta dos 
peritos. No campo do direito penal, são inúmeras as situações 
que ilustram essa necessidade. Nos casos de aborto,'por 
exemplo, deverá saber que há casos em que ele ocorre espon• 
tanca1nente, scn1 ação cri1ninosa. 1-Iavcndo suspeita de 
infanticídio, terá que saber o que é nascer com vida; do con­
trário, aceitará a possibilidade do cri1ne praticado contra u1n 
nati1norto. Precisará estar atento para os desvios de condu­
ta dos psicopatas, sabendo que não são, na realidade, doen­
tes mentais, conforme requer o artigo 26 do Código Penal. Ao 
ler uni laudo cadavérico, ou de lesão corporal, poderú esta­
belecer associações entre as lesões e as alegações do 
indiciado. E assim por diante. 
No direito civil, ressaltam as causas de interdição, de anu­
lação de casamento por itnpotência, de detem1inação de pa­
ternidade, em que se fará necessário saber que tipos de exmne 
poderá solicitar aos peritos de modo a esclarecer os fatos. 
Co1n um mínimo de conhecimento de biologia, evitará formu­
lar quesitos impossíveis de serem respondidos. Por exemplo, 
a partir de que dia estaria uma pessoa incapacitada de gerir 
seus bens. Nas causas de acidentes do trabalho, terá que sa­
ber que há doenças que são típicas de certas profissões, 
como a silicose, que ocorre nos trabalhadores em pedreiras. 
11 
VALOR DO ESTUDO DA MEDICINA LEGAL PARA o 
Mémco 
A Medicina Legal é a única disciplina do curso de Me­
dicina que vale 1nais para o 1nédico que para o paciente. Ao 
estudar clínica, ao se preparar para ser um cirurgião, o pro­
fissional visa basicamente a promover o bem-estar do paci­
enté. Como subproduto dessa intenção, se atingido o 
objetivo, resulta o bom nome do profissional. No caso da 
Medicina Legal, o seu conhecilncnto previne aborrccirncntos 
com o cliente e questionamentos na justiça. Por exemplo, o 
ginecologista tc1n que saber que não deve introduzir o 
espéculo vaginal em uma paciente virgem, sob pena de rorn­
per-lhe a membrana. Já fomos procurados por um ex-aluno 
que estava sendo processado penalmente por ter rompido o 
hímen de uma moça de 16 anos a que atendera por queixa de 
conimen~o, em um ambulatório de posto de saúde de uma fa­
vela. Sua chefe, eon1 postura alta1nentc preconceituosa, ;.lic­
gava que não poderia supor que uma favelada negra daquela 
idade pudesse ainda ser virgem. 
Nos hospitais qe pronto-socorro, a descrição das lesões 
apresentadas quando da admissão de pacientes traumatiza­
dos tem fundamental importância legal, já que poderá ser a 
única possibilidade de determinar o agente causal se a víti­
ma permanecer internada por vários dias, tempo suficiente 
para a descaracterização das feridas pelo processo cicatricial. 
Na eventualidade de vir a falecer durante esse período, seu 
corpo terá que ser examinado por médico-leg.ista, o qual não 
disporá de elementos para dizer que instrumento ou meio te­
ria causado as lesões. Infelizmente, a regra é os 1nédicos plan­
tonistas referirem as lesões por seu diagnóstico, e não pela 
descrição cuidadosa de suas características. Estaria correlo 
o diagnóstico? 
Outro erro que resulta da ignorância da legislação que 
normatiza o exercício da medicina é o médico passar a decla­
ração de óbito em casos de morte violenta de evolução pro­
longada em que a causa imediata tenha sido uma complicação 
tal corno uma pneumonia. E isso ocorre até com professores 
de medicina! 
Concluindo este capítulo, devemos dizer que, mais do que 
nunca, hoje. a Medicina Legal é uma forma de medicina apli­
cada. Os conhecimentos recolhidos nas diversas especialida­
des, fruto da pesquisa básica, ou clínica, lastreiam a evolução , 
tecnológica pericial. Ao médico-legista cabe a tarefa de se 
especializar, acompanhar o progresso da ciência em sua área 
e servir de instrumento para a aplicação da justiça. Ao juris-
12 
ta, o dever de manter contato com os legistas para melhor 
decidire1n o destino das partes em confronto nos tribunais. 
Esta obra tem a pretensão de servir como fonte de consulta 
para ambos. 
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por Leónidas Gontijo de Carvalho, Editora Civilização Brasileira 
SA, Rio de Janeiro, 1968. 
f) 
r 
1 
Perícia e Peritos. Documentos 
Médico-legais 
Hygino de C. Hercules 
Processos são u1n conjunto de provi<lênci<1s que <levc111 
ser to111adas para se veriti1.:ar e sanar u111a lesão de direito. No 
curso dos processos, os fatos deven1 ser esclarecidos sen1 
quaisquer dúvidas. de n1odo que os juízes possa1n proferir 
sentenças -justas. 
Os fatos alegados c1n u1n processo prccisa111 ser dc1nons­
trados, e essa demonstração depende de sua natureza. Quan­
do tais fntos não dcixan1 vestígios 111c.ucriais e se dcsvancccn1 no 
n1cs1no instante cn1 que ocorrcn1, ou logo após, a sua con1pro­
vação cm juízo só pode ser feita pela prova testemunhal. E o 
relato dt: testc111unhas pode, por diversas razües, não corres­
ponder fielmente à realidade. Mas, se resultam vestígios dura­
douros doS fatos ocorridos, com a possibilidade de sere1n 
detectados pelos nossos sentidos, o seu cxa1ne e registro dcve1n 
ser feitos obrigatoriamente. E por pessoas tecnica1nente capaci­
tadali para fazê-lo. O exame desses elementos materiais, quando 
feito por técnico qualificado para atender solicitação de autori­
dade competente, é chamado de perícia. Conseqüenten1ente; o 
indivíduo que o reali1.a deve ser chamado de perito. 
Os achados periciais, por seren1 evidenciados por técni­
cos especializados, cicntilic:.uncnte c111basados, devem preva­
lecer mes1110 que se oponha111 a dcpoi111cntos testcn1unhais. 
ou que conlrarie111 a confissão de u111 acusado. Contudo, o 
juiz não está adstrito ao laudo pericial, podendo rcjcitú-Jo. É 
o que consta no artigo J 82 do Código de Processo Penal 
(CPP) e no 436 do Código de Processo Civil (CPC). Mas é 
necess;.írio que o juiz justifique as razões por que não acon1-
panhou o parecer dos peritos. 
( lítligo de Pr<wt'.\',\'O Pe11a/ 
;\rt. 182. () jui: niio ficarâ cu/s1ri10 ao laudo, 11oc/e11do 
aceirâ-lo ou rt'jc'itâ-lo 110 1odo 011 c•111 par/l'. 
Câdigo de Processo Ci1•i/ 
Arr. 436. O jui::. niio estâ adstrito ao laudo pericial, poden­
do for111ar a sua con\•icçüo co111 outros ele111e11tos ou fotos pro-
1•ados nos autos. 
Embora o exercício da função pericial seja um dever cívi­
co, assim cürno o juiz tem a liberdade de recusar o laudo pe-
ricial tan1hén1 o perilo pode recusar-se a atuar quando hou­
ver justa causa (art. 277 do CPP, art. 146 do CPC). 
Cckligo de Processo Penal 
Ar!. 277. O pt'rito nrnneado pt'la autoridade será ohri;.:ado 
li at·eirar o encargo, sob pena de 111ulta de duzentos a 111il cru· 
::.eiros, salvo escusa atendível. 
Parâ;.:rq{o único. Incorrerá na nu'.Hlla 11111/ta o perito que, 
.\·,·111 juJla cc111.w1, provada ü11ediata111e11te: 
a) deixar de acudir à i11ti111ação 011 ao chan1ado da (luto· 
ridadt•: 
b) niio con1parecer 110 dia e local designados para o exan1e; 
e) niio der o laudo, 011 concorrer para que a pericia não seja 
feito, nos prazos estabelecidos. 
Crídi;.:o dl' Procc•sso Cil·il 
Art. 146. O perito te111 o dever de c1unprir o ofício, no 
prazo que lhe assino o lei, e1npregando toda a sua diligên· 
eia: pode, todavia, escusar-se do encargo alegando 1notivo 
lt'KÍti1110. 
Parâgrafo 1í11fr:o. A escusa serâ apresentada dentro de cin· 
co (5) dias contados da inti111açiio, ou do in1pedin1e11to super-
1•e1zic'111l' ao con1pro11lisso, soh pena de se repular renunciado 
o direito a alegâ-la (art. 423). 
As perícias podc1n envolver qualquer aspecto do saber 
humano. Médicos, engenheiros, químicos, contadores, artis­
tas plásticos, todos podem vir a ser convocados para a fun­
ção pericial, tanto no foro penal como no foro civil. A gam.a 
de exa1nes nccess;,írios ao csclarcci1ncnto dos fatos duradou­
ros nos diversos tipos de processos é cnonnc. 
CORPO DE DELITO 
As infrações penais podem deixar vestígios (delicta 
facti pennanentis), como no homicídio e na lesão corporal~ ou 
não (de/ictafacti transeuntis), como na injúria e no desacato. 
Quando o fato produz alterações n1ateriais no ambiente, dá-se 
o nome de corpo de delito ao conjunto de elementos sensí­
veis denunciadores do fato criminoso. São os elementos 
materiais, perceptíveis pelos nossos sentidos, resultante~ 
13 
da infração penal. Esses elementos sensíveis, objetivos, 
devem ser alvo de prova, obtida pelos 111cios que o direito 
fornece. Os técnicos dirão da sua natureza e cstnbclcccrào 
o nexo entre eles e o ato ou 0111issão por que .se incri111ina o 
acusado. O exame de corpo de delito deve realizar-se o 111ais 
rapidamente possível, logo que se tenha conhecimento da 
existência do fato. 
O CPP estabelece: 
Art. 158. Quando a infração dei:r:ar vestígios, será indispen­
sável o exan1e de corpo''de delito, direto ou indireto, não poden­
do supri-lo a confissão do acusado. 
É direto o corpo de delito objeto da atividade pericial. 
Chama-se, indevidamente, de corpo de delito indireto a subs­
tituição do exame objetivo pela prova testemunhal, subjetiva. 
Indevidamente, pois não há corpo, embora exista o delito, 
porque faliam os sinais, os vestígios, os elementos materiais. 
O mesmo código detennina, como um princípio geral, a exclu­
sividade dos peritos oficiais para os exames técnicos . .. 
. Art. 159. Os exan1es de co1po de delito e as outras pericia.'> 
,venio e111 regra J"i!itos por dois peritos rljiciais. 
§ li!. Não havendo peritos oficiais, o e:r:a111e será realizado 
por duas pessoas idôneas. portadoras de diploma.'> de curso 
s11perio1; escolhidas, de prej'érência, entre as que ti\1e1-e111 habi­
litação técnica relacionada à natureza do exa111e. 
§ 2u. Os peritos não-oficiais prestarão o co111pro111isso de 
bem e fielmente desempenhar o encargo. 
Tal exclusivismo justifica-se pela grande so1na de conhe­
cimentos científicos e pela técnica segura que as perícias exi­
gem para serem bem feitas e merecerem fé, o que só a 
oficialização pericial confere, assegura e tàcilita. Funcionário 
público, inteiramente dedicado à fünção, a que galgou depois 
de provas públicas de concurso, lidando diariamente com a 
atividade pericial, é evidente que os peritos oficiais tê1n to­
daS as vantagens e possibilidades de se tornarem perfeitos 
conhecedores de todos os seus aspectos teóricos e práti­
cos. Ademais, a atividade pericial, de interesse público, é 
custeada pelo Estado e exercida sem qualquer despesa para 
as partes e interessados, o que constitui um dos requisitos 
<la in1parcialidadc. 
No caso de a localidade on<lc se der o fato não dispor 
de instituição com peritos oficiais, o exame poderá ser feito 
por duas pessoas idôneas portadoras de diploma de cur­
so superior, de preferência escolhidas entre as que tiverem 
habilitação técnica relacionada à natureza da perícia (artigo 
159 do CPP modificado pela Lei 8.862 de 28/3/94). Todos os 
centros civilizados, no entanto, dispõem desses órgãos 
técnicos encarregados de efetuar as perícias exigidas pelo 
processo penal. 
São três as instituições da Secretaria de Segurança Públi­
ca do Estado do Rio de Janeiro encarregadas da realização 
das perícias oficiais: o Instituto Médico-legal Afrânio Peixo­
to, o Instituto de Criminalística Carlos Éboli e o Instituto Félix 
Pacheco, responsável pelas perícias de identificação. 
Enquanto no foro penal são dois peritos, o Código de 
Processo Civil exige apenas um: 
14 
Art. 145. Quando a prow1 do.fato depender de co11heci111e11to 
técnico ou cie11t{fico, o juiz serú assistido por perito, se~111ulo o 
di.\·11osfo 1111 artigo ./21. 
Art . ./21. O jui= 110111carúo perito. 
§ Ju Incumbe ris parte.'>, dentro de cinco (5) dias. contados 
da i11ti111açiio do despacho de 110111eação do perito: 
1- indicar o assistente técnico; 
li - apresentar quesitos. 
.\r: 2" Havendo pluralidade de autores 011 de réus, for-se-á 
a escolha pelo \'Ofo da 111aioria de cada grupo; ocorrendo em­
pate, decidirá a sorte. 
Art. 430. O perito e os assistentes técnicos, depois de ave­
rig11açiio i11dii•id11al ou e111 ctny·1111to, conferenciarão reservada-
111e11te e, havendo acordo, lavrarão laudo unâni111e. 
Parágrafo único. O laudo será escrito pelo perito e assina­
do por ele e pelos assistentes técnicos. 
Art. 431. Se houver divergência entre o perito e os assis­
tentes técnicos, cada qual escreverá o laudo e111 separado, dan­
do as razões e111 que se fundai: 
Mas o juiz poderá determinar a realização de nova perícia. 
Art. 437. O juiz poderá deten11i11a1; de oficio ou a requeri-
111t·11tr1 da JIUl'ft', 11 n•ali=açrio rh• 1101'a Jll'l'Ícia. q11a11do a malt:~ 
ria ni'io lhe parecer s11jicie11te111e11te esclarecida. 
A FUNÇÃO DO PERITO 
O perito não é advogado de defesa nem funcionário do 
Ministério Público: não defende nem acusa. Sua função limi­
ta-se a verificar o fato, indicando a causa que o motivou. No 
exercício <le sua alta 111issão, pode proceder a todas as inda­
gações que julgar necessárias, devendo consignar, com im­
pUrcialidade exe1nplar, todas as circunstâncias, sejan1 ou não 
favoráveis ao acusado. Expondo sua opinião científica, o pe­
rito age livremente, é senhor da sua vontade, das suas con­
vicções, não podendo ser coagido por ningllém, nem pelo 
juiz, ne1n pela polícia, no sentido de chegar a conclusões 
preestabelecidas. Caso se sinta pressionado e sem liberdade 
para realizar de modo adequado o exame, o perito deve recu­
sar-se a fazê-lo, mesmo que sua recusa o eXponha a possíveis 
e injustas sanções administrativas. Por exemplo, não é apro­
priado querer que o cxan1e de preso que alega ter sido tortu­
nu.lo .seja !Cito nas dcpcndc'.':ncia.s da própria <lclcgacia policial. 
Haveria constrangimento tanto do perito con10 do examinan­
do. Às vezes, peritos oficiais são injustatnente acusados de 
elaborar laudos adrede preparados para encobrir tortura ou 
outros fatos delituosos atribuídos às autoridades policiais. 
Para se efetuar uma perícia, há necessidade de ambiente 
tranqüilo e livre de interferências de pessoas não-incumbidas 
da tarefà. E1nbora não deva trabalhar em segredo, o perito não 
pode ser perturbado por representantes da mídia nem por 
autoridades que nada tenham a tàzer no local de realização da 
perícia. Por exigir exame minucioso, as perícias necessitam 
de que toda a atenção do perito esteja dirigida para esse 
fi111, de 1nodo a não deixar escapar detalhes importantes. 
Quando achar conveniente, o perito pode colher material para 
exames co1nplementares laboratoriais, que podem ser feitos 
por ele próprio, ou por outros mais especializados, na depen­
dência da sua natureza. 
/\s instituiçôes do governo s;io o local 111ais adequado 
para a realização das pericias oficiais. para onde dcve111 ser 
encaminhadas as pessoas e as coisas relacionadas co1n o 
fato a esclarecer. Contudo, no caso de exames de local, seja 
no foro penal. seja no cível, o perito te1n que se deslocar para 
lá a fi1n de fazer o lcvanta1nento de elc1nentos 111atcriais que 
não podcn1 ser re1novidos. be111 co1110 para ter un1a noção de 
conjunto da cena em que se deu o tàto. 
DIVERGÊNCIA ENTRE PERITOS 
E111bora a palavra do perito seja considerada de fé públi­
ca, a fiscalização da perícia deve ser bcn1-vinda. Assi1n reco­
nhecem todos os autores. Tanto pela falibilidade do ser 
humano, corno pela necessidade de transparência nas ações 
judiciais, recomenda-se que sejam adotadas IÍledidas preven­
tivas que impeçam falhas de qualquer natureza. Desse modo, 
o processo penal sugere que haja um perito relator e outro 
revisor do laudo, ao determinar que sejam dois. Contribuem 
para o mesmo fim a metodização e o uso de impressos padro­
nizados que constitue1n protocolos a serem seguidos pelos 
peritos oficiais_. Ao usá-los, os peritos evitam omitir etapas do . 
exame, o que pode acontecer, principalmente, se são muitas 
as perícias que têm que fazer durante seu turno de trabalho. 
Na hipótese de haver divergência entre os dois peritos, cada 
qual fará o seu laudo, e ambos serão submetidos à autorida­
de que solicitou a perícia. Esta, após leih1ra de atnbos. poderá 
designar u1n .terceiro perito, olicial ou não, ao qual c1u:an1i­
nhará os laudos discrepantes. Na eventualidade de ser esta­
belecida uma terceira posição diferente das precedentes. a 
autoridade podcrfl dctcn11inar a rcalizaçiin de un1 novo cx:1111c. 
dcsconsidcran<lo o que jú Livcr sido !Cito. É o que diz o Có­
digo de Processo Penal: 
Art. 180. Sl~ ho1/l'er dii·erRé11cia entre os peritos. senio con­
signadas no a1110 do exc1111l' a.'> deelara('ries e respostas de 11111 
e de outro, ou cada 11111 rl!digirá separad(unente o seu laudo. 
e a autoridade 110111eará 11111 terceiro: se este divergir de a111bos, 
a autoridade poderá 111a11dar proceder a no\'O exa111e por ou­
tros peritos. 
Em ações civeis, a existência dos assistentes técnicos 
deve-se a essa necessidade. 
Qualquer que seja a posição e1n que esteja o perito. ofi­
cial ou não, seu con1pro111isso co111 a verdade constitui-se e111 
dever ético e-obrigação legal. A declaração làlsa ou a ocul­
tação da verdade constituem delito previsto no artigo 342 do 
Código Penal e fato punível segundo o processo civil (art. 147 
doCPC). 
Código Pl'nal 
:/ri. 3.J}. F11:.:cr c~/in11c1~·iio .fi1ls11, 1111 11t'gt1r 1111 1·1tf11r a l"l'r­
dade, co1110 teste1111111ha, perito, co11tado1; tradutor 011 intérpre­
te em processo judieial ou ad111inistrath·o, inquérito policial. 011 
e1njuízo arbitral: 
Pena: reclusüo. de I (11111) a 3 (três) 0110.'> I! 1111t!ta. 
§ !"As penas a111ne11ta111-se de 11111 sexto a 11111 terço se o cri-
1ne é praticado 111edia11te suborno ou se conu•tido co111 o j/111 de 
obter prova destinada a produ::ir f!..feito e1n processo penal, ou 
t'lll pn1t"<'sso civil e111 qt{('.fiJr parle entidade da adnlinistrarlio 
púb/icu direta ou indireta. 
§ ]" O fato deixa de ser punível se, antes da sentença no 
processo e111 que oco1reu o ilicito, o agente se retrata ou declara 
a 1·erdade. 
('ódigo de Processo Civil 
Art. 147. O perito que, por dolo ou culpa, prestar infonna­
çDes illl'(!rídicas responderá pelos prejui=os que causar à par­
te, ficará inabilitado, por dois anos, a funcionar em outras 
perícia.\· e incorrerá na sanr;tio que a lei penal estahelece1: 
Os achados periciais devem ser relatados pelos peritos em 
linguagcn1 técnica, 1nas acessível à autoridade solicitante, 
se1npre tendo em 1nente que quem vai ler o laudo é pessoa 
leiga naquele campo do saber. A inobservância dessa peque­
na regra traz prejuízos para a Justiça, pois leva a autoridade 
a pedir esclarecimentos por meio de quesitos encaminhados 
por escrito aos peritos, ou de viva voz após convocá-los para 
audiência. Em qualquer das duas hipóteses, há retardamen­
to dos trâmites processuais. 
DOCUMENTOS MÉDICO-LEGAIS 
Em qualquer tipo de processo, podem ser necessárias as 
pericias médicas: penal, civil, ou administrativo. No foro pe­
nal, o perito médico pode ser chamado a intervir em qualquer 
fase do processso - inquérito, sumário, julgamento, até mes­
n10 após a sentença. As perícias podem consistir em exames 
da víti111a, do indiciado. de testc111unhas ou de jurado. O cxa-
1ne do indiciado pode ter por finalidade determinar sua iden­
tidade, lesões ou vestígios de luta, a existência de doenças 
tisicas ou 1ncntais etc. Para a execução de medidas de segu­
r:.111ça. ou sua rcvogaçiio, é indispcnsúvcl, 111uitas vezes, a in­
tervenção pericial (ver Capitulo 32). De um modo geral, o 
perito médico atua principalmente na fase inicial, de instrução 
do processo, quando a autoridade policial está interessada na 
obtenção de provas que caracterize1n crimes contra a pessoa,tais como lesão corporal, homicídio; crimes contra os costu­
mes, corno estupro, atentado violento ao pudor, sedução; ou 
mesmo características especiais da vítima como, por exerhplo, 
sua sanidade mental. 
Os peritos podem ser convocados para esclarecer dúvi­
das na fase do sumário, relativas ao laudo ou resultantes da 
superveniência de fatos novos no transcorrer do processo. 
Durante o julgamento, sua presença torna-se necessária sem­
pre que houver fatos ainda não plenamente caracterizados, ou 
quando qualquer das partes precisar de seu auxílio para ve­
rificar a possibilidade de novas versões dos fatos a esclare­
cer. Nos casos de homicídio cometidos com annas de fogo, 
a direção dos projéteis e a distfincia de tiro são questões 
cruciais para a sustentação ou destruição das teses apresen­
tadas aos jurados. Na década de 70, houve no Rio de Janei­
ro u1n julga111cnto, cn1 que a dclCsa de u111 ho1nici<la apelara 
para a tese de legitima defesa baseada na alegação de ,que a 
víti1na estava fora de um automóvel e disposta a atirar ó.o cri­
tninoso, que fora niais rápido no gatilho e conseguira salvar­
se alvejando o possível agressor. Contudo, pelo estudo da 
trajetória do projétil no interior do corpo da vitima, ficou de­
n1onstrado, inclusive com prova radiológica feita com auxílio 
15 
de um vergalhão colocado na posição dos orificios de entra­
da e de saída, que a arma do agressor estava cm plano aci­
ma do alvo, tendo disparado de cima para baixo. Tal direção 
seria i1npossível se ambos, atirador e vítima, estivesse1n de 
pé, confom1c alegado pelo defensor do acusado. 
Durante o cumprimento da pena, pode haver necessidade 
de exame médico do sentenciado. O aparecimento de sinais 
ou sinto1nas de doença 1ncntal faz com que o juiz da Vara de 
Execuções cJctcnninc o cxa111c pericial do crilninoso. Se cons­
tatada a doença, a sentença é interro1npida e o detento enca­
minhado a tratamento médico especializado no manicômio 
judiciário (ver Capítulo 32). 
No processo civil, o médico é recrutado, de preferência, 
entre os peritos oficiais, conforme recomenda o Código de 
Processo Civil: 
Art. 434. Quando o exa111e tiver por objeto a autentica<,:üo ou 
a faú·idade de doc1u11ento, ou for de natureza 111édico-legal, o pe­
rito será escolhido, de preferência, entre os técnicos dos estahe­
lecin1entos oficiais especializados. O juiz CJUtorizará a remessa 
dos autos, ben1 con10 do tnaterial sujeito a exa111e, ao estabeleci-
1nento, perante cujo diretor o perito prestará o co111pro1nisso. 
Pâragrafo único ... [Sem interesse médico-legal]. 
Justifica-se tal recomendação pela maior experiência des­
ses no campo da Medicina Legal. Antes mesmo do início da 
ação o perito pode ser chamado. A parte interessada o con- · 
voca, por meio de seu representante, para avaliação de um 
dano físico, de uma incapacidade, uma deformidade, enfim · 
para saber se há consistência na propositura de uma repara­
ção de danos. Por vezes, o dano é inegável, mas persistem 
dúvidas quanto à sua relação de causalidade com o evento 
alegado. Caso admita que vale a pena mover a ação cível. o 
perito deve ser apresentado ao juiz para quem foi distribuí­
do o processo a fim de firmar o compromisso legal de servir 
fichnentc à Justiça. No fàro penal. tal co1npro1nisso está in1-
p-lícito na função que o perito oficial exerce como funcioná­
rio do Estado. 
Além dessas, há outras situações cíveis em que a palavra 
do perito médico é indispensável. Sua presença é obrigató­
ria nos acidentes do trabalho, em que verifica a existência de 
incapacidades e a sua gradação, a ocorrência de doenças pro­
fissionais, seu nexo causal com o trabalho e a eficácia das 
medidas preventivas (vide Capítulo 21 ). J loje c111 dia, as Va­
ras de Família podem pedir, quando contestada, a dctcnnina­
ção da paternidade, pois a Medicina Legai já dispõe de testes 
extremamente seguros, como o do DNA. A psiquiatria foren­
se tem sido chamada a validar testamentos, interditar pródi­
gos, anular casamentos, sempre que seja alegada doença 
mental de uma das partes (vide Capítulo 33). 
Na missão de informar às autoridades. o 1nédico produz 
documentos que aprcscnta1n uma configuração que varia 
conforme a situação e a sua finalidade. Analisaremos a seguir 
as características desses documentos. 
RElATÓRIO MÉDICO-LEGAL 
Segundo Fla1nínio Fúverou', é a narração escrita e 111inu­
ciosa de todas as operações de u1na pericia 111édica detenni-
16 
nada por autoridade policial ou judiciária a u1n ou 111ais pro­
fissionais anterionnente no1neados e comprometidos na for-
1na da lei. Geralmente, é feito por dois peritos. O perito que 
redige o documento é o relator, funcionando o outro como re­
visor. Quando é ditado a um escrivão durante o exame, cha­
ma-se auto; se redigido depois de terminada a perícia, deve 
ser chamado de laudo. Pode ser dividido em sete partes: pre­
:.i1nbulo. quesitos. histórico. descrição, discussão. conclusão 
e resposl•1 aos qucsitos. 
Preâmbulo 
É uma espécie de introdução na qual constam a qualifica­
ção da autoridade solicitante, a dos peritos, a do examinan­
do; o local onde é feito o exame; a data e a hora, bem como 
o tipo de perícia a ser feita. 
Quesitos 
São perguntas cuja finalidade é a caracterização de fa­
tos relevantes que dera111 origem ao processo. No foro pe­
nal, são padronizados e tê1n o fi1n de caracterizar os 
clc1ncntos de u1n fato típico. Os quesitos oficiais varian1 
confànne o tipo de pericia. Quando da elaboração, cn1 1941, 
do CPP, uma comissão, composta por Miguei Sales, ex-di­
retor do Instituto Médico-legal, do Rio de Janeiro, Antenor 
Costa, médico-legista e professor de Medicina Legal, e 
Roberto Lira, titular de Direito Penai da Faculdade de Direito 
da Universidade do Brasil, formulou-os de modo a facilitar a 
caracterização dos diversos delitos e de circunstâncias ate­
nuantes ou agravantes. Fora1n aprovados pela Comissão 
Elaboradora do CPP. Os quesitos oficiais constam dos im­
pressos utilizados pelas instituições n1édico-Iegais de cada 
Estado da Federação. com discretas variantes. Podem ser vis­
tos no Apêndice que co1nplcn1cnta este capítulo. Ni'io exis­
ten1 quesitos oficiais no foro cível. 
Histórico 
É a contrapartida 1nédico-legal da anan1nesc do exame clí­
nico co1nu111. Na 1naioria das vezes, os dados referentes aos 
antecedentes são obtidos do próprio exa1ninando, exceto nos 
casos de autópsia. nos quais prccisa1n ser transcritos da guia 
de rcn1oção que acon1panha o corpo. No pri1neiro caso, o pe­
rito dever ter o cuidado de não fazer suas as afirmações da 
pessoa que exan1ina. Convén1 co1neçar o histórico com expres­
sões do tipo .. refere que ... ", de 1nodo a não se comprometer 
com o que for informado. É importante não escjuecer que qual­
quer pessoa que vem a exame em um instituto médico-legal 
foi envolvida cn1 uma ocorrência policial, como vítima ou 
con10 agressora. É con1un1 que a víti1na exagere en1 suas quei­
xas de 1nodo a ton1ar niaior o dano sofrido': Aqui, reside unia 
diferença fundamental com o exame clínico con1um. Neste, 
n:io h:·1 razôes para que o 111édico d1..·s1..·11111ic da vcracidndc dos 
<lados IOrncci<los pelo paciente. que busca alivio para seus 
n1ales e sabe que o diagnóstico depende de o médico ser 
ficln1entc infnnnadn. E que o trata1ncnto depende de un1 diag­
nóstico ben1 !Cito. 
Quando o exame é feito no indiciado, várias situações 
podem comprometer a fidelidade das infonnações prestadas. 
Podem ser dissimuladas lesões comprometedoras e que de­
nunciem ter o indivíduo participado de uma luta corporal, 
con10 nos casos de estupro, c111 que o ho1nc111 pode ter sido 
arranhado pelas unhas de sua vítima. Às vezes, são produ­
zidas autolesões a fim de descaracterizar um crime de lesão 
corporal pela existência de lesões recíprocas. A sin1ulaçiio de 
doença 111cntal pode ser tentada con1 o fi1n de substituir a 
pena por uma medida de segurança. Nesta, o agente não é 
encarcerado, mas submetido a tratamento psiquiátrico. 
Em se tratando de autópsia, épreciso não esquecer que 
os dados da guia de remoção cadavérica deve1n ser transcri­
tos, não endossados. Por se esquecerem disso, algumas par­
tes interessadas em processos de homicídio, principahnente 
se o crime tem tnotivação política, acusan1 os peritos de 
acobertar versões falsas atribuídas <is autoridades policiais 
quando da morte de algum preso. Ao lerem o laudo cadavé­
rico, acham que as informações transcritas da guia para o re­
latório são a opinião dos peritos sobre a ocorrência. Alguns 
processos éticos foram abertos nos Conselhos Regionais de 
Medicina contra médicos-legistas que autopsiaram membros 
dos movimentos armados de esquerda, durante o regi1ne mi­
litar, baseados nessa falsa premissa. 
Descrição 
E a parte mais importante do relatório 1nédico-legal. En1 
prilneiro lugar, porque não pode ser refeita co1n a 1nes111a ri­
queza de detalhei; em um exame ulterior. No caso de pessoa 
viva, a evolução das lesões pelo processo inflamatório e/ou 
pela reparação e cicatrização faz com que os aspectos mais 
característicos e denunciadores do instru1nento ou meio que 
as causou se modifiquem, perdendo gradualmente seu po­
tencial de informação. Na hipótese de lesões em cadáver, os 
processos de decomposição alteram o seu aspecto, retiran­
do-lhes as particularidades que permitem ao patologista fo­
rense fazer o diagnóstico, seja da causa, seja da idade da 
lesão. Em nosso meio, com temperaturas ambientes elevadas, 
a putrefação e a ação da fauna cadavérica rapidamente des­
troem as partes moles do corpo, impedindo que as lesões 
sejam reavaliadas. O melhor momento para a boa descrição 
é o primeiro exame. 
Tal descrição deve ser minuciosa, rica em detalhes, cor­
respondendo ao visu111 et repertu111. O perito deve traduzir e1n 
palavras as sensações que experimenta ao realizar o exame, 
tanto as visuais quanto as derivadas dos outros sentidos. 
Para isso, seu lingu:tjar deve ser rico en1 substantivos, ntas 
não pode abusar dos adjetivos. A objetividade da descrição 
será baseada na percepção e comunicação de fonnas, propor­
ções, extensões. Dará importância aos elementos presentes, 
mas anotará também algumas ausências importantes. Por 
exemplo, a ausência de reação vital em um ferimento tem que 
ser anotada. 
E de boa norma não diagnosticar durante a descrição, 
mesmo que seja tentado a fazê-lo para simplificá-la. Referir 
uma lesão pelo s_eu diagnóstico impede que, numa revisão do 
laudo, feita após longo tempo, ele próprio, ou outro legista, 
discutam outras possibilidades diagnósticas. Assim, num 
caso de morte por projétil de arma de fogo transfixante do tó­
rax, a simples afirmação de que a entrada foi por diante e a 
saída pelo dorso é insuficiente. Se, mais tarde, for levantada 
a hipótese de erro diagnóstico, não terá o perito elen1entos 
para fundan1entar a sua conclusão anterior. 
Discussão 
Na maioria dos casos de rotina, sem contradições aparen­
tes, pode não ser necessária. Contudo, quando surge algu­
ma discrepância, quando o aspecto de alguma lesão foge ao 
que era de se esperar pelos elementos do histórico, torna-se 
imperiosa. Nesses casos, os achados têm que ser analisados 
sob novos ângulos, tentando encontrar uma explicação para 
as diferenças. Podem ser formuladas hipóteses diferentes, por 
vezes envolvendo a necessidade de estudos 1nais detalhados 
e exames complementares. Por exemplo, quando os sinais ca­
davéricos em conjunto sugerem urna hora de morte diferen­
te daquela anotada na guia de remoção do corpo, é possível 
que outros fatores tenham interferido em sua evolução natu­
ral, tal como a colocação do corpo em uma câmara fiia, à que · 
protela a instalação da putrefação e o desfazimento da rigi­
dez muscular. 
Por vezes, as divergências não podc1n ser superadas, e a 
única hipótese viável é a H1lsidade dos dados colhidos no_ his­
tórico. Ao fazermos, em uma prova de concurso, o exame de 
tuna senhora que alegava ter sido agredida pelo companheiro 
no dia anterior ao exame, constatamos a presença de uma 
equimose periorbitária palpebral de contornos esverdeados. 
Como sabemos que as equimoses mudam de cor com o pas­
sar dos dias, e que a cor esverdeada indica uma evolução de, 
no mínimo, três a quatro dias, ficou claro que ela estava men­
tindo quanto à data da agressão. 
O perito deve lançar mão de esquemas, desenhos, foto­
grafias ou outras fonnas de registro ao seu alcance para 1ne­
lhor referir as lesões encontradas e outros achados. Tais 
elementos serão numerados e identificados para que não se 
ponha em suspeição sua autenticidade. Nas fotografias, é 
importante o emprego de etiquetas ao lado da peça e uma ré­
gua aferida em centímetros, sempre que possível. As institui­
ções oficiais costumam fornecer esquemas do corpo humano 
com o desenho das regiões anatômicas para que os peritos 
situem as lesões referidas na descrição. 
Conclusão 
Tenninadas a descrição e a discussão, se houver, o peri­
to assume uma posição quanto à ocorrência, ou não, do fato 
com base nas informações do histórico, nos achados do exa­
tne objetivo e no seu confronto. O que for concluído será re­
sumido em poucas palavras, de modo a tornar a informação 
concisa e clara para a autoridade que pediu a pericia. Aqui, 
não há mais espaço para dúvidas, para avaliações e compa­
rações, que terão sido feitas na discussão. 
As conclusões podem ser afirmativas ou negativas. Por 
exemplo, o perito pode concluir que uma paciente apresentada 
a exame é virgem, ou não. Nos casos de lesões por anna de 
17 
fogo, o número de projéteis que atingiram a vítima e o seu tra­
jeto no corpo devem ser referidos sempre nas conclusões de 
um relatório referente a homicídio. No entanto, casos há em 
que não é possível finnar uma conclusão, seja positiva, seja 
negativa. Nã? i1nporta. A impossibilidade de concluir já é un1a 
conclusão. E o que ocorre nos casos em que um hímen é 
cotnplacente e não se rompe com a cópula vaginal. O perito 
dirá que não tem elementos para afinnar ou negar ter havido 
conjunção carnal. 
Resposta aos Quesitos 
Deve ser sucinla e objetiva. Não são adn1issíveis l11lta de 
clareza nem interpretação dúbia. As incertezas pode1n serre­
feridas na discussão, ou até na conclusão, 1nas não poden1 
transparecer na resposta aos quesitos. Cotno já referido an­
terionnente, os quesitos são perguntas, em geral padroniza­
das, com a finalidade de estabelecer elementos de um fato 
típico, ou algun1a outra circunstância relevante para o caso. 
Em caso de dúvida, os peritos responderão que não têrn da­
dos para esclarecê-la. É muito mais sensato reconhecer a fa­
libilidade do exame e da própria ciência médica do que induzir 
a autoridade cm erro, 1nes1no que a probabilidade de estar cor­
reto seja razoável. Qualquer advogado competente poderia 
usar a dúvida a seu favor. U1na resposta que se cobra muito 
aos patologistas forenses é a que se refere ao 41! quesito do 
exame cadavérico: .. Se a morte foi produzida por 1neio deve­
neno, fogo, explosivo, asfixia ou tortura, ou por outro 1neio 
insidioso ou cruel (resposta especificada)." A finalidade des­
se quesito é estabelecer formas de homicídio qualificado. Na 
ausência de sinais claros de que se trata de homicídio, o pe­
rito pode responder con10 prejudicado o quesito e aguardar 
unia consulta poslcrior. É 111elhor do que responder afínnali­
vamente em u1n caso que pode ser de suicídio e no qual o 
fato seria irrelevante. Sabe-se que a causa jurídica 1nais fre­
qüente de cnforcan1cnlo é o suicídio. Nesses casos, não hú 
necessidade de responder especificadamente a esse quesito. 
Outro aspecto que cabe salientar aqui é que a pergunta 
é sobre se "a n1ortc foi produzhla por ... ". Não se pergunta se 
houv.c en1prcgo de qualquer <laqueies agentes anles da n1or­
te. Em alguns casos, pode ter havido tortura que não tenha 
levado, por si, à morte. Esta pode, 1nuito bem, ter sido provoca­
da por outras causas que não as ciladas eo1110 qualilicantcs, 
v.g., projétil de anna de tbgo. l!nagine-se LHn indivíduo deti­
do para interrogatório.Seus inquisidores podem pegar tun 
revólver, colocar apenas um cartucho no tambor e fazer role­
ta-russa sobre a cabeça do preso. Após uma ou duas vezes 
de acionamento do gatilho sem ter havido o disparo, o indi­
víduo pode confessar até o que não tiver feito. E não fica 
qualquer pi.arca da tortura. 
Tennínado o relatório, os peritos devem assiná-lo. O pri-
1neiro que o faz é o relator. Após sua assinatura, o laudo é 
encaminhado ao perito revisor, que deve lê-lo con1 atenção, 
de 1nódo a poder surpreender algu1na incoerência, e, ern se­
guida, a:;sinâ-lo. 
A data do exame pode constar do preâmbulo, estar no 
início da descrição, ou ser colocada antes das assinatu­
ras finais. 
18 
CONSULTA MÉDICO-LEGAL 
Às vezes surgen1 dúvidas sobre um relatório n1édico-le­
gal, dando ensejo a que seja ouvida a opinião de um mestre 
da Medicina Legal, ou a de uma instituição altamente concei­
tuada. A consulta médico-legal é o documento que exprime 
a dúvida e no qual a autoridade, ou mesmo um outro perito, 
solicita esclarecimentos sobre pontos controvertidos do re­
latório, em geral fonnulando quesitos complementares. Deve 
ser feita com clareza e precisão, por escrito. No intuito de fa­
cilitar o trabalho do especialista consultado, sempre que pos­
sível, a consulta deverá vir acompanhada de todas as peças 
stiscctíveis de escl;1rcccr llll tn·ienlar: cxa111es 111édico-lcgais, 
laudos, pareceres, inclusive os próprios autos processuais, 
enfin1 tudo o que for pertinente. Co111 1naior freqüência, cons­
ta111 de poucos quesitos, cuja resposta é si111plcs e objetiva, 
decorrentes da não-compreensão de algu1n aspecto do rela­
tório. Pode1n ser ta1nbén1 causadas pela superveniência de um 
fato novo no transcorrer do processo. 
É co1nun1 que as consultas tnédico-legais por escrito se­
ja1n precedidas de utn contato verbal de quem consulta com 
o perito a fi111 de sondar se poderia ser de algun1 proveito na 
defesa de sua causa. Isso porque o 1nestrc ou a instituição 
consultada responderão baseados fielmente nos dados for­
necidos, se1n qualquer grau de parcialidade. 
PARECER MÉDICO-LEGAL 
Quando tuna consulta médico-legal envolve divergên­
cias in1portantes quanto à interpretação dos achados de uma 
perícia, de 1nodo a i1npedir uma orientação correta dos 
julgadores, estes, ou qualquer das partes interessadas no pro­
cesso, podcnt solieiHir csclarcci111entos 111ais aproll1ndados a 
unia instituição cujo corpo técnico te111 con1petência inques­
tionúvel, ou a un1 perito ou professor cuja autoridade na 1na­
téria seja reconhecida. O docu111ento gerado por esse tipo de 
consulta recebe o non1e de parecei: Às vezes, solicita-se um 
parecer sobre outro parecer elaborado previamente por outro 
especialista. 
O valor técnico do parecer está associado ao rcno1ne de 
quem o assina. Isso não quer dizer, porém, que se deva acei­
ta! co1no palavra final a opinião do parecerista. Mas a con­
duç:io da argu111cntaç:io, Ji.:ila de 1nodo claro e lógico, apoiada 
por citação de autores consagrados, co1no costun1a aconte­
cer-nos pareceres assinados por grandes mestres do tema em 
discussão, toma-se dificil de contestar. 
Segundo Flamínio Fávero 16, um parecer consta de preâm­
bulo, exposição, discussão e conclusão. Não existe, aqui, a 
descrição, pois as dúvidas são de interpretação dos achados 
de u1na pericia. Por vezes, a própria descrição está ~m xeque, 
ora por ser julgada incompleta, ora por não corresponder ao 
cspcrudo confonnc o histórico do caso. Poucas são as vezes 
en1 que un1 parecerista requer a possibilidade de reexa1ninar 
a pessoa ou o 111ateri;.1l alvo da perícia. 
O preú111h11/o é onde Jica1n a qualilicação da autorida­
de que faz a consulta e a do parecerista, constando seus 
títulos e o nú1nero do processo e da Vara Crin1inal ou Ci­
vil correspondente. 
A e.\]Josi(;tio co1npreendc o 111otivo da consulta, os qut:­
sitos fonnula<los e o histórico <lo caso a ser analisado. O 
parecerista deve transcrever os quesitos e fazer un1 resu1no 
cronológico dos fatos e dos dc111ais clc111cnlos dos autos. 
A discusstio vem a ser a parte 111ais in1portante e 111ais rica 
de um parecer. É nela que o parecerista demonstra sua culh1-
ra, capacidade de __ análise e poder de argutnentação. Quanto 
1nais enriquecido for o parecer pela citação de tratadistas cliis­
sicos e de novas referências bibliogrúlicas, 111aior scrú o Sl.!u 
peso na formação da convici.:_ão dos julgadores. É por essa 
razão que um perito chamado a elaborar um parecer sobre as­
sunto de que não- tenha pleno domínio e experiência deve-se 
furtar ao chamado. Não há, co1no no relatório, o dever cívi­
co de servir à justiça. Na verdade, que1n aceita <lar pareceres 
sobre 111atéria que não conheça o suficiente, alé111 de não de-
111onstrar bon1 senso, está prestando un1 dcsscrviço, jú quc 
podení induzir e111 erro aqueles que o consulta111. Na discus­
são, são apontados os pontos julgados ralhos da perícia, 111as 
de 111odo sereno e se111 excessos de linguage1n para não ferir 
a ética. 
A conclusão, ou conclusões, deve sintetizar os pontos 
relevantes da discussão <lc 111odo claro e sucinto. l·lü qt1cn1 
prefira colocar as conclusões à medida que vão sendo res­
pondidos os quesitos fonnulados na consulta. 
DEPOIMENTO ÜRAL 
A resposta aos quesitos de un1 relatório n1édico-Jegal não 
representa, com freqüência, o fim do trabalho pericial. Tanto 
durante a fase de instrução como durante e 1nes1no após o 
julgamento, os peritos podem ser chamados a prestar escla­
recimentos acerca do que viram e descreveram. Mesmo que 
se tenham aposentado, poderão vir à presença dos 
julgadores para maiores infonnações, quando necessário. O 
juiz pode convocar os dois peritos signatários do laudo, 
como é o caso mais comum, mas pode mandar que um outro 
seja no1ncado para prestar o dcpoi111ento. Todos que jú tra­
balhanun con10 peritos c111 casos de ho111icídio sabc111 que a 
convocação para depor em juízo é tanto mais freqüente quan­
to 1nenos claro for o laudo e 111ais nnnoroso for o caso. Co111-
parcccndo perante a autoridade judici;'1ria, o perito te111 que 
l'l.!SJ10llder ;is perguntas que lhe rorClll dirigidas por qualql1er 
das partcs e 111es1110 pelo juiz. l)cvcr:'! 1:1zê-lo dc 111odo claro 
e rt!speitoso, n1t!s1110 que o to111 da pt!rgunta traga tuna insi­
nuação de incompetência da sua parte. Se tiver de usar ter­
mos técnicos, o fará sempre explicando o seu sentido, nunca 
esquecendo que está falando para leigos em medicina. 
ATESTADO MÉDICO 
Nas palavras de Souza Lin1a~0 • é a afinnação si111ples e por 
escrito de u1n fato 111édico e suas conseqüências. Vários são 
os usos do atestado 1nédico. Pode1n ser oficiosos, adminis­
trativos e judiciários. Oficiosos são os atestados solicitados 
por quaisquer pessoas a cujo interesse atende1n. Visa111 uni­
camente ao interesse privado. Como exe1nplo desses, te1nos 
os atestados médicos para justificar falta ao trabalho, a pro­
vas escolares, a bancos. ·n1111bé111 os atestados de saúde para 
adn1issão a aulas de ginástica, para freqüentar piscinas etc. 
Ac/111i11istrativos são os exigidos pelas autoridades adminis­
trativas. São dessa categoria os que os empregados públicos 
são obrig:1dos a apresentar quando solicita1n licença ou re­
querem aposentadoria (via de regra, são fornecidos por jun­
tas médicas de inspeção de saúde), atestados de vacinação 
ou atestados de sanidade fisica e mental para admissão em 
escolas e repartições públicas. Judiciários são os atestados 
requisitados por juiz. O cxe1nplo 111ais comum são aqueles ~om 
que os jurados justificam suas faltas ao Tribunal do Júri. Só 
os atestados que interessam à justiça constituem documen­
tos médico-legais. 
Embora o atestado médico não exija compromisso legal, 
isso não quer dizer que se abre mão do compromisso com a 
verdade. Todos que cxcrcc111 a 111cdicina clínica sabem que é 
n1uito connnn serem solicitados a dar atestados nos corredo­
res dos hospitais, nos ambulatórios, tendo ou não atendido 
a pessoa que o solicita. Nos casos cn1 que houveo atcndi­
n1ento, o médico tem o dever ético de fornecer o atestado, já 
que o Código de Ética Médica (CEM) o considera parte in­
tegrante da consulta quando estabelece: 
É \·edado ao n1édico: 
Arl. 112. Deixar de ales/ar aios executadas no exercicio 
profissional, quando solicilado pelo pacie11/e ou se11 respOnsá­
i•el legal. 
Parágrafo único. O ales/ado 111édico é parte integrante do ato 
ou trala111e11lo 111édico, sendo o seu Jornecilnenlo direito inques­
tionável do paciente, não ilnportando e111 qualquer 1najoração 
dos honorários. 
O constrangimento surge quando a pessoa que pede o 
atestado é do círculo de amizades do profissional mas não 
esteve sob seus cuidados. Afirma ter estado doente, mas o 
rnédico não constatou o fato. Mais grave é a situação quan­
do não refere ter estado doente e requer o beneficio do ates­
tado. Tanto num como noutro caso, trata-se do chamado 
atestado gracioso. O profissional não pode deixar-se levar por 
esse tipo de pressão. ·rem que recusar o pedido. Os atesta­
dos de favor devem ser rigorosamente proscritos. Nenhum 
n1édico que se respeite deve prestar-se ao papel de distribui­
dor de atestados con1placentcs. /\ alcgnção, que 1nuitas ve­
zes faze1n os interessados e111 obter atestados, de que sua 
linalidade é 1nera1nente protocolar, se1n i111po11Üncia, n1erecc a 
111ais enérgica repulsa. Habituando-se a passar atestados de 
favor, sem sofrer com isso qualquer vexame, o médico, pela 
reiteração do ato, acaba atestando fatos mais impo11antes, 
chegando a atestar imprudentemente. O ato de dar atestado 
médico falso constitui ilícito penal (ar!. 302 do CP) e infração 
ética (art. 110 do CEM). 
Código Penal 
Ar/. 302. Dar o 111édico, 110 exercicio da sua profissão, ates­
tado falso. 
Pena: detenção de 1 (11111) 111ês a 1 (11111) ano. 
Parágrafo ú11ico. Se o cri111e é ca111elido com o ji111 de lucro, 
aplica-se ta111bé1n 111111/a. 
Códi!-:a de Ética Médica 
l 1•edculo ao 111édicu: 
19 
Art. 110. Fornecer atestado sen1 ter praticado o ato profis­
sional que o justifique, ou que não corresponda à verdade. 
Existem algumas regras que devem ser respeitadas quan­
do se faz um atestado médico. Em primeiro lugar, o papel uti­
lizado deve conter infonnações claras e precisas sobre o 
número de registro do profissional no CRM do seu estado, 
onde encontrá-lo (endereço completo e telefone), sua espe­
cialidade, eventual titulação acadêmica, e mesmo seu nú1nero 
de registro no CPF. A disposição gráfica desses elementos é 
irrelevante, o importante é que estejam presentes no receituá­
rio. Como título e em destaque, deve conter a palavra "Ates­
tado''. Algumas linha abaixo, o corpo do texto principal deve 
começar com a expressão "Atesto, para fins ... ", sempre referin­
do o fim para o qual foi pedido o atestado. Devem ser evita­
das expressões como "para os devidos fins", que cabem para 
qualquer propósito. É sempre bom que o médico deixe claro 
que sabia para que uso estava dando o docu1nento. Isso 
também cerceia o uso indevido. 
Convém anotar, no início do texto, o número do documen­
to de identidade do paciente, para que mais tarde não se du­
vide de que o exame tenha sido feito naquele indivíduo11 • 
O médico não pode, ao se referir ao fato, revelar o diag­
nóstico da doença que motivou o impedimento, mesmo sob 
a forma codificada (Código Internacional de Doenças). A de­
claração do diagnóstico no corpo do atestado só é pemliti­
da em casos de dever legal, justa causa, ou por autorização 
expressa do paciente (art. 102 do CEM e Resolução 1.484/97 
do CFM). Nos casos em que o próprio paciente o solicitar, 
deverá constar do atestado que a revelação do diagnóstico 
foi feita a pedido. 
Código de Ética Médica 
É vedado ao médico: 
Art. 102. Revelar fato de que tenha conhecilnento em virtu­
de do exercício de sua profissão, salvo por justa causa, dever 
legal ou autorização expressa do paciente. 
Resolução 1.484197 do CFM 
1. É pennitido ao 111édico, quando por justa causa, exercí­
cio de dever legal, solicitação do próprio paciente ou de seu re­
presentante /ega/,for11ecer atestado 111édico co111 o diagnóstico. 
As conseqüências do fato médico, porém, têm que serre­
latadas de modo adequado. Um erro con1u1n aos atestados 
passados com menor cuidado é o uso da expressão " ... i1npos­
sibilitado de se locomover''. Raras são as situações médicas em 
que o paciente fica impossibilitado de se locomover. Estaria 
nessas condições o paciente em coma, o grande gessado 
pclvipodálico ou aquele aco1nctido por tctraplcgia. Mcs1110 o 
paraplégico é capaz de se locomover com o auxílio de sua ca­
_deira de rodas. Alguns até praticam esportes que exigen1 dcs­
Jocan1entos nípidos, co1110 tênis ou basquete. Muito 1nais 
conveniente é dizer-se que foi recomendado ao paciente que 
guardasse repouso no leito. O período do impedimento deve 
ser escrito de modo claro para que surta seu efeito legal. 
É indispensável, ao fin.~l, que seja colocado o local en1 que 
se redigiu o atestado, bem como a data da afirmação. Esta não 
precisa ser a mesma do último dia em que o paciente esteve 
sob os cuidados do profissional, pode ser ulterior. 
20 
Com a promulgação da Lei dos Juizados Especiais (Lei 
9.099 de 26/09/95), o atestado médico assumiu a posição de 
substituto eventual da perícia médico-legal nos casos de le­
são corporal leve. É o que consta do parágrafo primeiro do 
artigo 77. 
lei dos Juizados Especiais 
Art. 77. Na açi"io penal de iniciativa pública, quando não 
ho1n•e aplicaçiio da pena, pela ausência do autor do fato, ou 
pela não-existência de hipótese prevista 110 art. 76 desta lei, o 
Ministério Público oferecerá ao juiz, de in1ediato, denúncia oral, 
se não houver necessidade de diligências i111presci11díveis. 
§ lu. Para o ofereci111e11to da denúncia, que será elaborada 
co111 base 110 tenno de ocorrência referido 110 art. 69 desta lei, 
com dispensa do inquérito policial, prescindir-se-á do exan1e do 
co1po de delito q11a11do a 111aterialidade do crilne estiver aferida 
por boletün 111édico 011 prova equivalente. 
Essa é mais uma razão para o es1nero e o cuidado ao se 
emitir um atestado médico 11
• 
DECLARAÇÃO DE ÓBITO 
A expressão usada com maior freqüência é "atestado de 
óbito", mas não é a mais correta. Até o ano de 1976, o formu­
lário usado para esse documento oficial era assim chamado 
porque imitava o "Modelo Internacional de Atestado de Óbi­
to", adotado cm 1948, durante a Sexta Revisão da Classifica­
ção Internacional de Doenças 17• Até então, nos estados 
brasileiros, a parte 1nédica era sen1elhnntc, 1nas a parte refe­
rente aos dados de identificação e outras informações varia­
va de um para outro. Por isso, para uniformizar os formulários 
en1 todo o país, foi criada, naquele ano, urlia Declaração de 
Óbito a ser distribuída pelo Ministério da Saúde, adotada até 
recentemente em todo o território nacional. A versão atual é 
a 09/98-01, que é uma modificação dessa última. Consta de 
nove blocos de infonnações em que apenas o bloco VI pode 
ser chamado de atestado, pois contém os dados de ordem 
111édica da causa da 111orte111
• Assiln, quando no.s referimos, 
hoje, a atestado de óbito estamos nos reportando ao bloco 
VI da Declaração de Óbito. Para estudar esse documento, é 
· interessante, de início, separar os aspectos legais dos aspec­
tos 1nédicos. 
AsPECTOS LEGAIS 
En1 pri111eiro lugar, é preciso que seja dicignosticada a 
111ortc. Mas os critérios para tal serão abordados no Capí­
tulo 6. 
O Código Civil (CC) estabelece que a personalidade civil do 
ho1nc1n co1ncça do nasci1ncnto con1 vida e que a existência da 
pessoa natural termina co1n a morte. Admite, ainda, a presun­
ção dessa em circunstâncias previstas no artigo sétimo. 
Código Civil 
Ar!. 2ª A personalidade civil da pessoa começa do nasci-
111<?1/lo co111 vida: 111as a lei põe a sah10, desde a concepção, os 
direitos cio 11ascit11ro. 
Art. 6« A existência da fU?ssoa 11at11ral termina co111 a 111or­
te; prL•s11111e-,\'C: esta, qua11to aos a11se11te.\', nos <'lisosem que a 
lei autoriza a abert11ra de sucessão deft11iti\•a. 
Art. 711. Pode ser declarada a 111orte pres1m1ida. se111 decre­
taçrio de r111sr!11cia: 
1- se ji.Jr extre11u1111L•11te pro\'tÍl'L•I " 111orte d<• quem estaw1 
em perigo de vida; 
li - se algu,;111, desa1u1rL•cido em cc1111pa11ha 011 ji.>ito pri­
sioneiro, não for encontrado até dois anos apUs o tén11i110 dá 
guerra. 
Partigrafo lÍ11ico. A declaração da 111orte presumida, nesses 
casos, son1e11te poderá ser requerida depois de esgotadas as 
buscas e averiguações, devendo a sentença fixar a data provti­
vel do faleci111e11to. 
Manda, ainda, inscrever em registro público certos even­
tos importantes, como o nascimento e a morte das pessoas 
(art. 9°, l do CC; art. 29, lll da Lei 6.015 de 31/12173, Lei dos 
Registros Públicos)''. Mas, para que seja feito o assento <lo 
óbito no cartório do regis.tro civil, é indispensável a apresen­
tação da Declaração de Obito totahnente preenchida e assi­
nada pelo médico (art. 77 da Lei dos Registros Públicos). 
Código Civil 
Art. 9" Serão registrados e111 registro público: 
/ - os 11asci111e11tos, casa111t•111os e t'Jhitos; 
Lei dos Registros Públicos 
Art. 29. Serão registrados 110 Registro Cil'il de Pessoas 
Naturais: 
1- os 11asci111e11tos; 
li - os-casan1e11tos; 
Ili - os óbitos; 
Art. 77, Nenh11111 sep11lta111e11to será feito se111 certidão do 
oficial de registro do lugar do faleci111e11to, extraída após a 
lavratura do assento de óbito, e111 vista do atestado de 111édico, 
se houver 110 li1gar, 011, e1n caso co111rtirio, de duas pessoas 
qualificadas que tivere111 presenciado ou verificado a 111orte. 
.{~' 111 C' ~ [Sc111 interesse para nosso estudo}. 
O preenchimento de todos os seus itens é da responsa­
bilidade do 1nédico. Contudo. entende1nos que os dados re­
ferentes à causa jurídica, que constam do bloco VIII dessa 
declaração, não deveriam ser cobrados ao médico signatário, 
já que, como regra, não dispõe das informações necessárias 
para tal afinnação. 
Juridicamente, a morte pode ser natural, violenta ou sus­
peita. Entende-se por violenta a morte não natural decorren­
te da ação de energias externas. Pode assuniir a fonna de 
crime, sui_cídio ou acidente. Preferimos usar a palavra crime, 
em vez de homicídio, porque a morte violenta dolosa pode 
ocorrer também em crimes previstos em outros artigos do Có­
digo Penal, como no 123 (infanticidio); 127 (morte materna em 
aborto criminoso); 129, § 3° (lesão corporal seguida de mor­
te), 157, § 3° (latrocínio); 223, parágrafo único (estupro ou 
atentado violento ao pudor seguidos de morte). Morte sus­
peita é aquela cuja causa jurídica precisa ser esclarecida por 
não se ter certeza de ter sido natural. 
O médico está sujeito a normas legais que ora o impedem 
de declarar o úbito, ora o ohrig:1111 :i razê-lo. () 111édico assis-
tente está impedido de finnar a Declaração de Óbito quando 
se tratar de 1nortc em que a causa tenha sido claramente vio­
lenta ou, pelo menos, tenha havido suspeita de violência 
(arts. 158, 159 e 162 do CPP; art. 3', § 2' da Lei 8.501de30/11/92, 
Resolução 1.290/89 do CFM; art. 12, alínea e, do Decreto 1.754 
do Estado do Rio de Janeiro). 
CUdigo de Processo Penal 
Art. 162. A autópsia será feita pelo nrenos seis horas depois 
do óbito, salvo se os peritos, pela evidência dos sinais de 1nor­
te, julgare111 que possa ser feita antes daquele prazo, o que de­
clararão no auto. 
Parágrafo único. Nos casos de morte violenta, bastará 
o sin1ples exame externo do cadáver. quando não houver in­
fração penal que apurar, ou quando as lesões externas per-
1nitire111 precisar a causa da n1orte e não houver necessidade 
de exan1e interno para a verificação de alg11111a circ1111stâ11-
cia relevante. 
Lei S.501192 (dispõe sobre 11tilizaçüo de cadáver piira es­
tudos e pesquisas) 
Art. 311. Será destinado para estudo, na fonna do artigo a11-
terio1; o cadáver: 
1- sem qualquer documentação; 
li - identificado, sobre o qual i11existe111 i11/on11ações rela­
tivas a endereços de parentes ou responstiveis legais. 
§ 21! Se a 111orte ncio resultar de causa 11a/11ral. o corpo serú 
ohrigatoriamente s11b111etido â necrópsia 110 Urgâo co111pete11te. 
Resolução 1.290189 do CFM (dispõe sobre atestado de óbito) 
4. No caso de n1orte \1iolenu1 ou suspeita, é vedado ao mé­
dico assistente atestar o óbito, o que caberá ao 111édico lega/-
111e11te autorizado. 
Mesmo que o paciente tenha morrido de uma complica­
ção remotamente relacionada com o trauma, a morte é tida 
como violenta desde que se possa estabelecer um nexo cau­
sal. Seria o caso, por exemplo, de um indivíduo que, tendo 
sido atropelado e sofrido fratura do fêmur, tivesse ficado aca-
1nado por tc1npo prolongado e viesse a 1norrcr por bronco­
pneumonia decorrente de acúmulo de secreções nos 
pulmões, facilitando a sua invasão pelas bactérias. Tais pneu­
monias de estase são complicação possível na evolução de 
doenças traumáticas em que o paciente tem que permanecer 
deitado por muitos dias. 
Nos casos de morte natural a que não tenha aSsistido, 
como é óbvio, também fica impedido de preencher a declara­
ção (art. 16, alínea d, do Decreto Federal 20.931de11/01/32; 
Resolução 1.290 do CFM; art. 114 do CEM; art. 12, alínea d, 
do Decreto 1.754 do Estado do Rio de Janeiro). 
Decreto Federal 20.931 (regula111e11ta profissões de saúde). 
Art. 16. É vedado ao 111édico: 
d) atestar o óbito de pessoa a que111 não lenha prestado as­
sistência médica; 
Resolução 1.290189 do CFM 
1. O n1édico só atestará o óbito após tê-lo verificado pes­
soa/Jnente; 
21 
Código de Ética Médica 
É vedado ao 111édico: 
Art. 114. Atestar óbito q11a11do não o tenha verificado pes­
soal111e11te, 011 quando não tenha prestado assistência ao pacien­
te, salvo, 110 últinzo caso, se o fizer co1110 pla11to11ista, 111édico 
substituto, ou em caso de necrópsia e verificação 111édico-legal. 
Contudo, cm casos de óbito hospitalar, 111esn10 não ten­
do acompanhado o caso, pode ter acesso às informações ne­
cessárias no prontuário do hospital. O mesn10 não se dá 
quando o doente fica internado por curto período, e1n geral 
menos de 24 horas, sem que se tenha chegado a u1na conclu­
são quanto à causa da morte. Nesses casos, existem nom1as 
que variam de um estado para outro, rnas que, e111 síntese, es­
tabelecem que é da responsabilidade do serviço de patologia 
do hospital a realização da autópsia para esclarecê-la. Em al­
guns, o corpo é transferido para o instituto médico-legal; em 
outros, para· um serviço de verificação de óbitos. Na falta 
desses recursos, o médico deve declarar no atestado que se 
trata de morte sen1 assistência, de causa indeterminada. Tal 
informação é muito importante para que as autoridades sani­
tárias tenham dados para planejar medidas corretivas. 
Por outro lado, o médico assistente não pode esquivar­
se de firmar a Declaração de Óbito sem justa causa (art. 15, 
alínea e, do Decreto Federal 20.931; Resolução 1.290 do 
CFM; art. 115 do CEM). 
Decreto Federal 20.931 
Art. 15. São deveres dos 1nédicos: 
e) atestar o óbito e111 i111pressosfor11ecidos pelas repartições 
sanitárias, co111 a exata causa 1nortis, de acordo co111 a 110111e11-
clatura nosológica internacional de estatística de111ográjica­
sanitária; 
Resolução 1.290 do CFM 
2. É dever do 111édico atestar óbito de paciente ao qual 
vinha prestando assistência, ainda que o 111esmo ocorra fora 
do an1bie11te hospitala1; exceto e111 caso de 111orte viole11ta 011 
suspeita; 
Código de Ética Médica 
É vedado ao 111édico: 
Art. 115. Deixar de atestar óbito de paciente ao qual vinha 
prestando assistência, exceto q11a11do houver indicias de morte 
violenta. 
É o que ocorre, por exemplo, quando a recusa se dá para 
obrigar a família a permitir que se faça a autópsia por interes­
se puramente científico. O desconhecimento de algum deta­
lhe referente ao modo de morte não é razão suficiente para 
desrespeitar o direito que a família ten1 de posse e guarda do 
cadáver, mesmo que isso implique prejuízo por deixarincom­
pleta a documentação científica do caso. Tal motivo não 
constitui justa causa, podendo ser enquadrado no constran­
gimento ilegal (art. 146 do CP). 
22 
Código Penal 
Art. 146. Constranger algué111, 111edia11te i•iolência ou gra­
ve a111eaça, 011 depois de lhe haver reduzido, por qualquer ou-
Iro 111eio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei 
pennite, 011 afazer o que ele não 1nanda: 
Pena - detençâo de 3 (três} 111eses a 1 (11111) ano, ou multa. 
/\ Dcclaraçiio de Óbito é feita cn1 três vias, de cores dife­
rentes. U1na vez preenchida, deve ser entregue aos familiares, 
prira que a lcve111 ao cartório do registro civil, onde fica arqui­
vada a segunda via, de cor a111arela. Cabe ao oficial do car­
tório fazer o assento do óbito e dar a certidão de óbito, um 
documento oficial que encerra a vida civil da pessoa natural. 
Essa ccrtid:io é indispensável para que se obtenha a guia de 
sepultamento, ou para a cremação do cadáver (art. 77 da Lei 
dos Registros Públicos). /\ pri1neira via da declaração, de cor 
branca, é enviada pelo ca11ório ao serviço de bioestatística da 
Secretaria de Saúde do Estado ou a uma repartição da Fun­
dação IBGE. A terceira via, de cor rosa, fica no estabelecimen­
to hospitalar onde foi e1nitida18• 
O preenchimento da DO dos nascidos mortos é um as­
pecto que é pouco conhecido por médicos e advogados. Em 
primeiro lugar, deve-se explicar que, conforme a definição da 
Organização Mundial da Saúde (OMS), "Nascido vivo é o 
produto da concepção que, depois de expuiso ou extraído 
con1pleta111ente do corpo da 1nãe, respira ou dá qualquer ou­
tro sinal de vida, tal co1no bati1nentos cardíacos, pulsações 
do cordão u1nbilical ou 111ovi1nentos efetivos dOs n1úsculos 
de contração voluntúria, quer tenha, ou não, sido cortado o 
cordão un1bilical e esteja, ou não, desprendida a placenta". 
Por conseguinte, a ausência desses sinais caracteriza o nas­
cido 1norto17
• 
De acordo com a Lei dos Registros Públicos (art. 53), o 
registro do óbito tem que ser feito 1nesmo que a criança te­
nha nascido 1norta. 
Lei dos Registros Ptiblicos (6.015 de 31112173) 
Art. 53. No caso de ter a criança nascido 111orta ou 110 de 
ter morrido na ocasião do parto, será, não obstante, feito o 
assento co111 os ele111e11tos que coubere111 e con1 remissão ao 
do óbito. 
§ Jr: No caso de ter a criança nascido 111orta, será o registro 
feito 110 livro "'C aux:i/iar", co111 os ele111e11tos que couberem. 
§ }! No caso de a criança 111orrer na ocasião do parto, te11-
do. entretanto, respirado, serão feitos os dois assentos, o de 
11asci111e11to e o de óbito, co111 os elementos cabíveis e com re-
111issões reciprocas. 
Nesse caso, o 1nédico te1n que esclarecer que se trata de 
óbito fetal no bloco li da DO. Mas podem nascer mortos pro­
dutos da concepção e111 qualquer fase da gestação: E é aí que 
surge o problema de saber a partir de que idade da gestação 
está o médico obrigado pela lei a passar o a~estado. Estabe­
lcc.ido o lilnitc, ele poder..1, se o desejar, recusar-se a dar a DO 
nos casos en1 que a idade lhe seja inferior. Mais uma vez, de­
ve1nos recorrer ao critério internacional adotado pela OMS, 
que divide as perdas fetais cn1 precoces, intennediárias e trir­
dias, confonne tenha111 ocorrido até 20, de 20 a 27, ou de 28 
sen1anas em diante. Como a caracterização da idade gestacio­
nal é, por vezes, dificil, podem ser usados· outros dados do 
produto, como o seu peso e a sua estatura. Na mesma ordem, 
os li111itcs ponderais seria1n até 500 g, de 500 a 1.000 g e aci-
ma de 1.000 g; os referentes â estatura, abaixo de 25 cm, en­
tre 25 e 35 c111 e aci1na di: J5 c111 17. 
A obrigatoriedade recai sobre as perdas ICtais tardias. 
As perdas precoces e as intern1ediárias são consideradas 
aborto, e o médico não está obrigado a fazer a DO. Contu­
do, a OMS reco1nenda que scja1n preenchidas voluntaria­
tncntc para que as infonnaçõcs possa1n ser aproveitadas na 
confecção das tabelas de mortalidade, con1 fins estatísticos 
e sanitários. 
O corpo lc111 que st:r cntcrr;1do ou i.:rc1nado nos l'asos c111 
que é obrigatório o prccnchi111cnto da lJO, pois passa a ~cr 
considerado cadáver. Para isso, torna-se necessária a apre­
sentação da certidão de óbito. Nos de1nais, porém, nunca 
sedio tratados como lixo comun1. E1nbora não haja deternli­
nação legal, recomenda-se que seja1n cremados no 
incinerador da instituição em que foram expulsos, retirados 
ou examinados. 
ASPECTOS MÉDICOS 
Durante muito tempo, os médicos e os serviços de 
bioestatística encontraram dificuldades e1n estabelecer un1 
sistema de comunicação de causas de rnorte que pudesse ser 
tabulado sem distorcer a realidade dos aspectos clínicos e 
patológicos das doenças f<1tais. Houve época c1n que apenas 
uma causa podia ser escrita no atestado, o que resultava e1n 
se ter que descartar, ;.is vezes, diagnósticos coexistentes iin­
portantcs. Ü 1naior pn:juízo dai deeo1TelllC roi se111prc a dilicul­
dade de adotar 1nedidas corretas de n1edicina preventiva. Outra 
desvantagem era a i1npossibilidadc ele ccl!nparaç5o de dados 
entre os serviços de diferentes países e 111esn10 entre os diver­
sos centros de um mesmo país, já que eram diferentes os cri­
térios de inclusão e de exclusão das diversas causas. 
Em 1948, durante a Conferência Internacional para a Sex­
ta Revisão da Classificação Estatística Internacional de Doen­
ças, uma comissão estudou o problema e concluiu que o mais 
importante era estabelecer a causa básica da 111orte. Esta se­
ria definida como a) a doe11ça ou lesão que iniciou a suces­
são de eventos 111órbidos que levou diretan1ente à 111orte, ou 
b) as circunstâncias do acidente 011 violência que produziu 
a lesão fatal. A partir da causa básica, surgen1 causas 
conseqiienciais entrelaçadas que, por fi1n, chegam à causa 
ter111i11al ou i111ediata 11• 
A parte médica consta na declaração de óbito co1no "Con­
dições e causas do óbito" (bloco VI). Nela, há três linhas de­
signadas pelas letras a, b, e e d. Na linha "a", coloca-se a 
causa imediata; na linha "b", uma causa conseqi.iencial que 
produziu "a"; na linha "c", a que produziu "b"; e, na linha 
"d", a causa búsica. Suponha1nos que u111 111édico-lcgista 
tenha feito a nccrópsia de u111 indivíduo 1no110 a tiros que te­
nha sofrido feridas translixantcs do coração e dos puln1õcs, 
sen1 ter sido socorrido. O Atestado Médico da DO seria pre­
enchido da seguinte maneira: a) anemia aguda; b) hemotórax; 
e) feridas transfixantes do coração e dos pulmões; d) projé­
teis de arma de fogo. 
Os diagnósticos têm que ser escritos por extenso, não 
sendo permitido_colocar abreviadas as causas de morte nern 
a sua substituição pelo código que receben1 na Classificação 
Internacional de Doenças (CID). Tal fato não implica falta éti­
ca 11e111 o crilne de violação do segredo prolissional, por se 
tratar de dever legal. · 
Apesar dos esforços na orientação de estudantes de me­
dicina e de médicos quanto à forma correta de preencher a 
DO, ainda hú muitas f.:1lhas na maneira de referir as causas de 
1nortc e incerteza quanto à fidelidade dos dados. Vários es- _ 
tudos retrospectivos de arquivos hospitalares realizados no 
estrangeiro e entre nós têm acusado diferenças significativas 
L'lllrc o rcfi:rido nos pronluúrios 011 laudos de aulópsia e o 
que consta da DO con10 causa básica, e 111esn10 con10 causa 
irnediata17
• Tanto ocorre subnotificação como a referência 
exageradamente alta de algumas causas. Tais erros devem-se 
ora à falta de recursos diagnósticos, ora à negligência do 
profissional. Mais comum ainda é a discrepância entre o diag­
nóstico clínico e o laudo de autópsia, quando realizada, ines­
mo nos países mais desenvolvidos. Em 1985, nos EUA, foi 
feito un1 levanta111ento que dc1nonstrou que as diferenças 
variava1n de 25 a 56%, confonne o local, entre o que foi diag­
nosticado em vida e o resultado das autópsias21 • 
O grande número de necrópsias a serem feitas durante um 
plantão dos institutos médico-legais dos centros metropoli­tanos faz com que o exame de cada caso seja superficial, per­
n1itindo a ocorrência de erros. A probabilidade de errar 
au111enta nos lugares e111 que essas instituições também são 
encarregadas de realizar as verificações de óbito. Para agilizar 
o serviço, quando os peritos abrem uma das grandes cavida­
des do organis1no e encontnnn qualquer lesão visceral t:apaz 
de causar a morte, encerram a perícia se1n abrir as demais. 
l\ssiin, é fato co111un1 encerrar uma verilicação de óbito ao se 
achar llllla cicatriz de inil1rto do rniocárdio, se1n atentar para 
o fato de que a pessoa pode não ter sofrido outro infarto, 
tendo morrido de outra causa, como, por exen1plo, uma he­
morragia cerebral. Tal conduta não é correta, 1nas, infeliz111en­
te, é comum. 
Na ausência de lesões macroscópicas, os patologistas 
forenses devem recolher fragmentos das principais vísceras 
para exame histopatológico e, se possível, material para exa­
tne toxicológico e microbiológico. Persistindo a dificuldade 
após o resultado dos exames, a causa da morte será declara­
da indeternzinada. Tal situação é vista com maior freqüência 
diante de corpos encontrados em estado avançado de putre­
fação. Nesses casos, o legista informará no laudo que não 
foram achados sinais de· violência. Com isso, a autoridade 
policial poderá encerrar a investigação e arqtlivar o caso. A 
conclusão de causa indeterminada de morte sem o apoio la­
boratorial somente se admite quando for impoSsível ter aces­
so a esses exames laboratoriais. Mas, se a causa da morte não 
foi dclcnninada por não tcrc111 sido esgotados os ret:ursos 
disponíveis na localidade, trata-se de ncgligênda. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
1. Brasil - Código Civil. Lei 10.406 di: 10 di: jani.:irll di: 2002. 
2. Brasil - Código Penal. Decreto-Lei 2.848 de 7 di: dezembrO di: 
1940. 
3. ílrasil - Código de Processo Civil. Lei 5.869, de 11 de janeiro de 
1973. 
23 
4. Brasil - Código de Processo Penal. Dccrclo-Lci 3.689 de 3 de 
outubro de 194 1. 
·5. Brasil - Conslituição da República Fcdcraliva do Brasil, 1988. 
6. Brasil - Decreto 20.931 de 11 de janeiro de 1932 (regulamenta 
as profissões de saúde). 
7. Brasil - Lei 8.501 de 30 de novembro de 1992 (dispõe sobre o 
. uso de cadãvcr para cstud,ps e pesquisas). 
8. Brasil - Lei dos Juizados Especiais. Lei 9.099 de 26 de setembro 
de 1995. 
9. Brasil - Lei dos Registros Públicos. Lei 6.015 de 31 de dezem­
bro de 1973. 
1 O. Brasil - Parte Geral do Código Penal. Lei 7.209 de 11 de julho 
de 1984. 
11. Cardoso MA e Moraes JM. Atestado Médico. Capitulo 28, pp. 
166-168, cm Ética, Moral e Deontologia Médicas, editor Andy 
Pctroianu, Editora Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2000. 
12. CID-10. Classificação Estatístlca /11ter11acio11al de Doenças e Pro­
blé~1as Relacionados à Saúde, 1 ~ revisão, Editora da USP, 1995. 
13. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica. Rcsoluçiio 
1.246 <lc 8 <lc janeiro de 1988. 
24 
14. Conselho Federal de Medicina. Resolução 1.290 de 1989 (dispõe 
sobre declaração <lc óbito). 
15. Conselho Federal de Medicina. Resolução 1.484/97 (dispõe sobre 
quebra do segredo médico cm atestados). 
16. Fâvcro F. Pericia Médica e Peritos. Capítulo 3, cm Medicina Le­
gal, 8• edição, 111 volume, Livraria Martins Editora, São Paulo, 
1966 . 
17. Laurcnti R e Mello Jorge MHP. O A1e.1·tadv ele Óbito. 21 cd., Cen­
tro Brasileiro de Classificação de Doenças, MS/USP/OPAS-OMS, 
São Paulo, 1987. 
18. Marolta JF\V e Epiphanio EB. Declaração de Óbito. Capitulo 27, 
pp. 161-165, cm Ética, Mural e Deontologia Médicas, editado por 
Andy Pctroianu, Editora Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2000. 
19. Romeiro VR. legislaçcio Médica. Núcleo de Pesquisa e Extensão 
da Faculdade de Direito do Sul de Minas, Pouso Alegre, 2002. 
20. Souza Lima AJ. Tr(ltaclo de Medicina legal, 5l cd., Livraria Freitas 
Bastos, Rio de Janeiro, 1933. 
21. Undcnvood JCE. Autopsies and Clinicai Audit. Capítulo 14, cm Tire 
llospital A111opsy, cdilores Colton 11WK e Cross SS, Edilorn 
lluttcrworlll & Jlcincmann. o .... ronl, l99J. 
ANEXO 
Qucsilos ()lici:1is dos Ex:11lll'S n1ais Co1nuns 
nos IMLs 
Exan1c de lesão corporal 
Primeiro - Se há ofensa à integridade corporal ou à saúde do 
paciente; 
Segundo - Qual o instnuncnto ou 1ncio qw: produziu a ofensa; 
Terceiro - Se foi produzid:1por1ncio de veneno, IOgo, explosi­
vo, asfixia ou tortura, ou por outro 111cio insidioso ou cn1cl (resposta 
cspccificadn); 
Quarto - Se resultou e111 incapacidade para as ocupações habi­
tuais por mais de 30 dias; 
Quinto - Se resultou cn1 perigo de vida; 
Sexto - Se resultou c1n debilidade pcnnancntc ou perda ou 
inutilização de membro, sentido ou função (resposta especificada); 
Sétimo - Se resultou em incapacidade pcnnanente para o traba­
lho, ou cnfcnnidadc incurável, ou dcfonnidadc pcnnanente (resposta 
especificada); 
Oitavo - Se resultou e111 aceleração de parto ou aborto (resposta 
especificada). 
Exame de conjunção carnal 
Pri1nciro - Se a paciente é virgen1; 
Segundo - Se há vestígios de dcsvirginmncnto recente; 
Terceiro - Se há outros vestígios de conjunção carnal recente; 
Quarto - Se há vestígio de violência e, no caso afinnativo, qllal 
o 111eio e1npregado; 
Quinto - Se d;i violência resultou parn a viti111a incapacidade p:1r.1 
:1s ocupm;Ôl.'S h:1bitu:1is por 1nais dl.· trint:1 di:1s, 011 perigo d'"· \'id;1, 
ou debilidade pcnnanentc ou perda 011 inutilização de 1nc1nbro, si.;11-
tido ou função, ou incapacidade pennanente para o trabalho, ou cn­
fennidade incurável, ou defonnidade pennancntc, ou aceleração de 
parto, ou aborto (resposta especificada); 
Sexto- Se a vítin1a é alienada ou débil 1ncntal; 
Sétimo - Se houve outra causa diversa de idade não n1aior de 
quatorze anos, alierlação 1ncnta\ ou debilidade 1nenta\, que a impos­
sibilitasse de oferecer resistência. 
Exan1c de atentado ao pudor 
Primeiro - Se há vestígios de ato libidinoso; 
Segundo - Se há vestígios de violência e, no caso afin11ativo, qual 
o meio empregado; 
Terceiro - Se da violência resultou para a vitin1a incapacida­
de para as ocupações habituais por mais de 30 dias, ou perigo de 
vida, ou debilidade pennancntc ou perda ou inutilização de 1ne1n­
bro, sentido ou função, ou incapacidade pennancnte para o tra­
balho, ou enfermidade incurável, ou deformidade pcnnanentc 
(resposta especificada); 
Quarto ·Se :1 viti111;1 é :1li1..·1wd;1 ou d~·hil 1ne11t;1I; 
Quinto - Se houve outra causa, diversa de idade não 111aior de 
14 anos, alienação ou debilidade 1ncnta\, que a i1npossibilitassc de 
oícreeer resistênci;.1; 
Sexto - Se resultou aceleração de parto ou aborto. 
Exan1e de aborto 
Pritnciro - Se há vestígios de provocação de aborto; 
Segundo - Qual o 111cio c1nprcgado; 
T ercciro - Se, cn1 conscq üência do aborto ou do 111eio en1prega­
do para provocá-lo, sofreu a gestante incapacidade para as ocupa­
ções habituais por 1nais de 30 dias, ou perigo de vida, ou debilidade 
pcnnancnte, ou perda ou inutilização de me1nbro, sentido ou fun­
ção, ou incapacidade permanente para o trabalho, ou enfcnnidade 
incurável, ou dcfonnidade permanente (resposta especificada); 
Quarto - Se não h:ivia outro n1eio de salvar a vida da gestante 
(no caso de aborto praticado por 111édico); 
Quinto - Se a gestante é alienada ou débil 1nental. 
Exame de embriaguez 
Prin1ciro - Se o paciente apresentado a exaine está embriagado; 
Segundo - No caso afinnativo, que espécie de embriaguez; 
Terceiro - Se, no estado cm que se acha, pode pôr o mesmo em 
risco a segurança própria ou alheia; 
Quarto - Se é passivei detcnninar se o paciente se c1nbriaga ha~ 
bitualn1cntc; 
Quinto -·No caso afinnativo, qual o prazo, aproximada1nentc, 
e111 que deve ficar internado, para a necessária desintoxicação. 
Exame de validez 
Prin1eiro - Se o paciente te1n saúde e aptidão para trabalhar. 
Exame de idade 
Pri111ciro - Se o paciente é 1ncnor de 18 anos; 
Segundo - No caso afinnativo, se é n1aior de 14 .anos. 
Ex:11nl' c:id:ivérico co1nun1 
Pri1nciro - Se houve n1ortc;Segundo - Qual a causa da 1norte; 
Terceiro - Qual o instru1nento ou meio que produziu a 1norte; 
Quarto - Se a 1norte foi produzida por meio de veneno, fogo, 
explosivo, asfixia ou tortura, ou outro meio insidioso ou cruel (res­
posta especificada). 
Exan1e cadavérico cn1 aborto 
Prin1eiro - Se houve 1norte; 
Segundo - Se a 1nortc foi precedida de provocação de aborto; 
Terceiro - Qual o 111eio c1npregado pafa a provocação do aborto; 
Quarto - Qual a causa da morte; 
Quinto - Se a morte da gestante sobreveio em conseqüência do 
aborto ou do 111cio e1npregado para provocá-lo. 
Exan1c cadavérico en1 infanticídio 
Pri1neiro - Se houve tnorte; 
Segundo - Se a morte foi ocasionada d11rante o parto ou Jogo após; 
Tercl.·iro Qllal ;i c.1usa <l:1 n1ortc; 
Quarto - Qual o instnuncnto ou 1ncio ~ue produziu a 1norte; 
Quinto - Se foi produzida por meio pe veneno, fogo, explosi-
vo, asfixia 011 tortura, 011 por outro 1neio ii1siúioso ou cn1el (resposta 
especificada). 
25 
r 
Antropolo~ia 
Forense 
-r Identidade e Processos 
de ldentificacão , -
Hygino de C. Hercules 
IDENTIDADE 
O estabelecimento da identidade de pessoas, e mesmo de 
coisas, tem sido objeto de estudos técnicos profundos, vi­
sando à solução de proble1nas originados quando não é 
prontamente estabelecida. A evidência de que certa pcssou 
que se apresenta para exercer seus direitos seja ela própria 
SÔ pode SCf dt:lllOilS(f<ld<l CO!ll h<tSC Clll conl'ronto de d<1dos 
a ela referentes, colhidos no passado, e os evidenciados no 
momento da apresentação. Até obras de arte devem ser sub­
n1ctidas a exame n1inucioso por técnicos especializados. <.jl!C 
nelas proeuran1 sinais caractcrísti<:os de su•1 <1utenth:i<lade, 
para serem consideradas legítimas. 
O concei~o legal de identidade foge um pouco ao mate­
mático, já que as pessoas podem-se modificar na aparência 
com o passar dos anos sem deixarem de ser as mes1nas des­
de que nascem .. Em Matemática, duas grandezas são idênti­
cas ou iguais quando não houver diferença alguma entre 
ambas. Flamínio Fávero8 refere que identidade é a qualidade 
de ser a mesma coisa e não diversa. 
A identid.ade humana interessa particularmente ao Direi­
to e, por conseguinte, à Medicina Legal. No estudo da iden­
tidade humana, temos que reconhecer dois aspectos 
distintos: o subjetivo, que é a consciência do indivíduo_de 
ser ele 1ncsn10 durante toda a sua existência. e o objetivo. que 
se traduz pela sua presença física no 1ncio a1nbicnte. esta­
belecido pelas características peculiares que lhe dão a indi­
vidu<tli<ladc. A identidade suhjetiva pode cstnr prcjudicath.1 
nos casos en1 que a consciência esteja perturbada, con10 ocl)r­
re em certas doenças mentais. Os esquizofrênicos podem 
apresentar distúrbios da consciência do cu e se identificar 
con1 outras pessoas, e 111cs1no anilnais ou coisas (1'cnô111enus 
de transitivismo e de personificação). 
O que interessa n1ais viva1nente ~1 Medicina Legal é a 
identidade física, que se respalda na imutabilidade e 
unicidade dos caracteres individuais. Devem permanecer 
evidenciáveis durante toda a vida da pessoa e distingui-la de 
todas as demais. Embora haja na Terra mais de seis bilhões 
de habitantes, a possibilidade de existirem dois seres huma­
nos idênticos é infinitamente remota. Na fonnação dos carac­
teres individuais (fenótipo) interferem os fatores hereditários 
(genótipo) e o meio ambiente. O patrimônio hereditário de 
cada indivíduo difere bastante de um para o outro. Mesmo os 
gên1eos univitelinos, que possuem igual equipamento gené­
tico, apresentam diferenças físicas suficientes para distingui­
los apôs ex:unc 1ninucioso. Tais dilCrcn'°·as são c.:;1usadas pela 
atuação desigual dos fatores an1bientais sobre cac.Ja u1n des­
de a vida intra-uterina. 
IDENTIFICAÇÃO 
Identificação é o processo pelo qual se estabelece a 
identidade. Nos indivíduos vivos, pode utilizar sinais físi­
cos, funcionais, ou psíquicos; mas, no morto, somente se 
pode valer dos caracteres físicos, nem sempre bem conser­
vados. Não deve ser confundida com o simples reconheci­
mento. A identificação utiliza, além de dados de fácil 
observação, capazes de serem percebidos por pessoas lei­
gas, dados técnicos de obtenção por vezes difícil e labori­
osa. O reconhecimento baseia-se na comparação entre a 
experiência da sensação visual, auditiva ou tátil, proporci­
onada no passado, com a mesma experiência renovada no 
presente pelo elemento a ser reconhecido. Requer uma com­
paração psíquica entre a percepção passada e a presente. 
Como é óbvio, quanto maior o tempo transconido entre uma 
e outra percepção. maiores serão as possibilidades de erro 
na comparação. Além do mais, a percepção é influenciada 
por fatores psíquicos de ordem emocional, ou n1esmo de or­
dcn1 patolôgica. Camps7 afinna que a testemunha perjura é 
1nenos nociva do que a teste1nunha 4uc reconhece falsa-
1nente. convencida de estar sendo verdadeira, por uma ilu­
são dos sentidos e da percepção. 
A identidade só pode ser estabelecida quando há. certe­
za de terem sido afastados todos os pontos duvidosós. Por­
tanto, a identificação necessita de métodos precisos que 
resistam a interpretações duvidosas. 
29 
IMPORTÂNCIA DA IDENTIFICAÇÃO 
Nos diversos setores da atividade humana e das relações 
sociais, a identificação assume papel relevante. 
No foro penal - O Código Penal estabelece aumento de 
pena para os criminosos reincidentes, o que só pode ser con­
finnado através da sua identificação. A apresentação de u1na 
pessoa para exercer algum direito de outra, fingindo ser o le­
gítimo detentor daquele direito, constitui o crime de falsa iden­
tidade (art. 307 do CP). A expedição de mandados de prisão 
inicia o processo de captura, que só é concluído após a iden­
tificação da pessoa presa. Nos crimes contra a pessoa, é in­
dispensável a identificação da vítima. Havendo testemunhas 
de alguma ocorrência policial, elas têm que ser identificadas 
ao prestarem seu depoitnento. 
No foro civil - São numerosos os casos em que a iden­
tificação é parte das mais importantes. Pode1nos citar, à gui­
sa de ilusttação, o casamento, a avaliação de danos en1 
acidentes pessoais e do trabalho, a interdição, a sucessão de 
direitos e obrigações, a investigação de paternidade, transa­
ções co1nerciais etc. 
Na justiça eleitoral - É tão importante a identificação de 
cada eleitor que, no momento do voto, só é admitido na se­
ção eleitoral o que estiver tnunido de seu docu1nento de iden­
tidade. Procura-se evitar que pessoas 1nortas votem ou que 
o mesmo sujeito vote mais de uma vez, por vezes e1n municí­
pios distintos. Apesar disso, as fraudes acontecem. Já hou­
ve registro de 1nunicípio co1n número de votantes superior ao 
de habitantes. 
No foro internacional - O controle da imigração requer 
que cada estrangeiro que pretenda estabelecer-se no país 
seja identificado e a ele se dê unia carteira de estrangeiro, de 
1nodo a se poder reconhecer os que são clandestinos. 
Depois da n1orte, o cslabclcci1nento da identidade é de 
suma importância sob vários aspectos. Em primeiro lugar, é 
necessário para que se possa encerrar a vida do ponto de vista 
jurídico. Desse 1nodo, pode ser feito o inventário dos bens e 
providenciada a sua transfCrência para os herdeiros. Por vezes, 
quando da morte de desconhecidos, pessoas inescn1pulosas 
tentam estabelecer no cadáver a identidade de tun parente rico 
ausente, com o fim de to1nar posse de seus bens. Tal conduta 
tipifica o crime de falsidade ideológica (art. 299 do CP). O fal­
so reconhecimento pode também ser um expediente para ces­
sar a busca a criminosos com mandado de prisão já expedido. 
Os. institutos 1nédico-Jcgais são, en1 geral, 111uito rigorosos no 
que ·diz respeito à liberação dos corpos examinados e1n seus 
necrotérios. No Rio de Janeiro, é exigido um documento de iden­
tidade do falecido para que os papiloscopistas o confi-ontem 
com as impressões digitais do cadúver. 
FUNDAMENTOS DOS MÉTODOS DE 
IDElllTIFICAÇÂO 
Qualquer processo de identificaçãotem que se basear e1n 
sinais e dados peculiares ao indivíduo e que, em seu conjun­
to, posS.am excluí-lo de todos os demais. Os sinais e dados 
utilizados na identificação são cha111ados de elen1e11tos 
sina/éticos. A cor e o tipo dos cabelos, a cor dos olhos, a JOr-
30 
1na da orelha, a estatura, são todos elementos sinaléticos. 
Quando isolados, são de pouco valor, já que muitas pessoas 
tê1n olhos da 1nes1na cor, a n1esma estatura etc. Mas, quando 
associados, passarn a restringir o número de pessoas que 
podem ser enquadradas co1no possuidoras desses caracteres 
ao 1nes1no tempo. Assim, a associação de vários elementos 
sinaléticos constitui a base de todos os processos utilizados 
na identificação através dos te1npos. O conjunto de elemen­
tos sinaléticos, para ser considerado bo1n, deve preencher 
quatro requisitos técnicos, a saber: unicidade, imutabilidade, 
praticabilidade e classificabilidade. 
Unicidade - O conjunto desses elementos deve ser ex­
clusivo do indivíduo, de 1nodo a distingui-lo de todos os demais. 
/11111tabilidade - Os ele1nentos não pode1n modificar-se 
facilmente pela ação do meio ambiente, pela idade, nem por 
doenças. U1na vez que tenham sido escolhidos, deverão con­
servar o 1nesmo aspecto em qualquer época para posterior 
confronto. J\ssin1, o peso do corpo não deve ser considera­
do elen1ento sinalética por estar sujeito a grandes variações. 
Alguns dos dados tisicas poden1 111oclificar-sc pela ação do 
111cio, co1no a cor da pele (raios solares) c a espcsstira e.la epidcr-
1ne (mãos calosas). O envelhecin1ento leva ao encaneciinento 
· dos cabelos, ao apareciinento de n1gas e mesmo à atrofia das 
rnassas tnuscu\ares, 1nodificando o aspecto fisico. Pode ha­
ver di111inuição da estatura, na dependência de doenças como 
a espondilite anquilosante, a doença de Paget dos ossos, ou 
de fraturas dos ossos da perna co1n calo defeituoso. O 
vitiligo, uma doença que causa despigmentação da pele, pode 
modificar a aparência intensamente. Outras doenças 1nodifi­
ca1n a atitude, a coordenação 1notora ou a marcha, que são 
dados de valor na identificação funcional. Os traumatismos 
pode1n causar amputação de segmentos. 
Praticahilidade - O nú1nero crescente de pessons ficha­
das nos serviços de identificação e111 todo o inundo exigiu 
que fossem utilizados processos baseados em elementos 
sinaléticos de fácil registro e obtenção. Por outro lado, esses 
clc111entos não podc111 expor :.1s pessoas a vexn1nc quando 
elas precisare1n ser identificadas. Certos sinais particulares, 
ou cicatrizes, localizados nas regiões pudendas, glúteas, ou 
genitália externa, não pode1n ser usados em cadastramentos 
de rotina. Mas poderão ser de valor e111 casos especiais, quan­
do faltare1n outros ele1nentos mais importantes, tais como as 
'i1npressões digitais. 
Classificahilidade - A reunião das fichas dos diversos 
indivídut;s registrados e111 qualquer serviço de identificação 
não pode ser feita ao acaso, já que o níunero é extremamen­
te elevado em alguns. Não sendo arquivados de modo racio­
nal, haverá enonne dificuldade para sua localização. Por isso, 
os processos de identificação dcven1 valer-se de clcn1cntos 
e·sinais de fácil classificação, de modo a orientarem a busca 
prontamente nos arquivos, e a qualquer momento. 
MÉTODOS DE IDElllTIFICAÇÂO 
Mutilações, Marcas e Tatua!!ens 
J\ origc1n dos 111étodos de identificação rcn1onla ú /\nti­
güi<lade. Conta a História que viveu na Babilônia, no século 
XVIII a.C., o rei Ha1nurábi, fa1noso por ter pro1nulgado um 
código de leis que ficou conhecido con1 o seu no1ne. Desco­
berto em 1901, na Pérsia (atual Irã), pelo assiriologista fran­
cês Jean Vincent Scheil, esse código propunha certas penas 
qualificadas corno expressivas por caractcrizarcn1 e idcntifica­
rc1n os condenados. Entre outras, havia a a1nputação de unia 
das 1nãos dos ladrôcs e da língua dos caluniadon:s. l'ais pe­
nas n1arcava111 as pessoas castigadas para o resto da vida. 
Onde quer que passasse1n, todos sabcria111 de seus cri1nesrn. 
Conta Ahneida Junior1 que, e111 Po1iugal, na Idade Média, 
era usado cortar-se tuna das orelhas aos ladrões. Mais tarde, 
passaram-se a usar marcas feitas com ferro em brasa, que eran1 
colocadas na testa dos cri1ninosos, de 111odo a caracterizá-los 
dü1nte da coletividade. Os ladnics reincidentes cra1n 1n;in;a­
dos na testa co111 u1n sinal, e, na terceira vcz <.Jue li.1ssc111 apa­
nhados en1 furto, serian1 enforcados. As 1narcas a ferro no 
rosto foram abolidas em 1524. Mas as n1arcas em outras par­
tes do corpo continuaram a ser feitas, tendo sido 1nuito usa­
das no Brasil durante a escravidão. E1n 111arço de 1741, o rei 
determinou que os negros que fugissem para os quilo1nbos 
fossem marcados n·as costas com un1 F. Se já estivesse1n 1nar­
cados por fuga anterior, sofrerian1 a111putação <las orelhas. 
Fonun abolidas pela Constituição de 1 X24. 
Todas essas 1nutilações e 1narcas visava1n à identificação 
do criminoso reincidente con1 o fi1n de agravan1ento da peno.. 
Só 1nais tnrde é que se pensou cn1 fichar e 1narcar todas as 
pessoas de lnna con1unidade co111 fins de idcntilicação. O pre­
cursor dessa idéia foi Benthatn, que propôs que toda pessoa 
fosse tatuada ao 11;1scer, co111 o próprio no1ne no braço. E1n­
bora a idéia fosse renovadora no sentido de retirar das n1ar­
cas seu caráter infan1ante, pois que todos seriam 1narcados, 
não teve êxito por questões de ordetn prútica3• 
Além das feitas intcncionaln1cnte, as pessoas pode1n apre­
sentar tnarcas co11gê11itas ou adquiridas con10 conseqüên­
cia de traun1atis1nos e de doenças. Entre as congênitas, 
devemos citar os hemangio1nas; os nevas pign1entares e os 
vasculares; as alterações do esqueleto como polidactilia, 
focomelia e outras displasias ósseas; o lábio leporino; de­
fonnidades das orelhas etc. Dentre as adquiridas, destaca­
mos as cicatrizes deixadas pelos diversos tipos de traumas, 
as alterações da pele por doenças pign1entares como o 
vitiligo, tumores, processos degenerativos ou inflamatórios 
do esqueleto como a osteoartrite e as deformidades articulares 
causadas pela artrite reutnatóide, hérnias e outros. São todas 
úteis quando se sabe que a pessoa procurada as apresent'1-
va. Devem sempre ser ben1 descritas quanto à fonna, ao ta­
manho e à localização. 
Indivíduos que exerce1n certas profissões costt11na1n apre­
sentar marcas relacionadas com a atividade desempenhada -
são os estig111as profissionais. Assim, os sapateiros apresen­
tam uma dep.ressão no terço inferior do esterno, os soprado­
res de vidro evidenciatn desgaste dentário nos incisivos 
centrais, os tintureiros revelan1 coloração dircrente das unhas 
e os bailarinos, hipertrofia das panturrilhas. Indivíduos que 
trabalham com chumbo ou seus sais, como no caso de bom­
beiros hidráulicos, tipógrafos, fabricantes de baterias e pin­
tores de parede, pode1n apresentar u1na coloração escura na 
orla gengival cha1nada de orla de Burton2
• Certas doenças 
profissionais, co1no as pneumoconioses, podem identificar a 
profissão, como no caso dos trabalhadores em pedreiras que 
adquirem silicose. 
Merece1n 1nenção especial as tatuagens. O termo vem do 
dialeto falado na Polinésia, através do inglês lattoo, que sig­
nifica 111arca feita profundatnente na pele por n1eio de tintas. 
(ion1cs 11 refere que as tintas 1nais"usadas nos processos·c_lc 
taluage111 são o nanquiln, o vermelhão, tinta de escrever e 
outros pign1entos mais modernos. Atualmente, há máquinas 
vibratórias que fazcn1 o trabalho de tatuagc111 de 111odo 111ais 
rúpido e perlt:ito 12
• 
As diversas cores das tatuagens têm tempo de persistên­
cia variável. A que mais resiste ao tempo é o preto feito com 
tinia nanquin1. Cores con10 o vennelho, o verde e o azul cos­
lt11nan1 ticsbotar COlll O passar dos anos e1n runção <la fClllO­
ção dos pigmentos pelos macrófagos da denne. É interessante 
salientar que as cores implantadas pela tatuagem podem ser 
achadas nos linfonodos de drenagem da região tatuada mes-
1110 depois de tcrc1n cs1nacci<lona figura original 12
• 
Vários processos já foram tentados para a remoção de ta­
tuagens: ferro etn brasa, vesicatórios, cáusticos e abrasivos. 
Na 1naioria das vezes, causam reação inflamatória que interes­
sa a região da pele tatuada e evolui para a ronnação de tuna 
crosta. Co1n a queda da crosta, a tatuage111 desaparece, 111as 
fica un1a cicatriz con1 a fonna da tatuage1n que se queria apa­
gar. O recurso:.\ cin1rgia plástica surte 1nelhores resultados. 
/\. 1notivação para fazê-las é variada, por vezes represen­
tando un1 1nodismo. Há tatuagens feitas para demonstrar 
liliação a seitas religiosas, co1110 o cando1nblé; facções crin1i­
nosas, co1no o Terceiro Comando (TC) do Rio de Janeiro, ou 
outros grupos, como os hippies dos anos 60 e os homosse­
xuais. Estes costu1na1n tatuar um pássaro azul no dorso do 
polegar12 • Alguns se tatuam com motivos artísticos, eróti­
cos, profissionais, patrióticos. As tatuagens eróticas são 
colocadas nas ôrcas genitais ou e1n outras zo1H1s crógenas. 
Ora representam o órgão sexual masculino, ora o non1e da 
pessoa amada. U1n dps protagonistas de um crime de reper­
cussão nacional, por ter vitimado uma jovem atriz de tele­
visão, tinha tatuado no pênis o nome da companheira de 
vida e do crime pelo qual foram condenados. Não é raro en­
contrar uma tatuagem de três pontos em adeptos do can­
do1nblé. Seria um modo de tomar o corpo "fechado", imune 
a tentativas de homicídio. 
A localização mais freqüente das tatuagens é no ante­
braço (Fig. 4.1), seguida pelo dorso das mãos e o braço 
(Fig. 4.2), mas podem ser encontradas em qualquer região 
do corpo. Não é incomum o achado de pessoas com nume­
rosas tatuagens que, embora raramente, chegam a cobrir 
quase todo o corpo. 
Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas tatuavam 
o número de ordem no antebraço dos judeus confinados nos 
ca1npos de concentração. Pessoas ligadas ao mundo do cri-
1nc rcferc1n que os bandidos co111 a inscrição "A1nor de 111ãc" 
tatuada no corpo são n1ais perversos que os de1nais. 
As tatuagens têm valor inestimável na identificação de 
pessoas desaparecidas em acidentes de massa, como naufrá­
gios e des1noronamentos. Como os corpos, em alguns casos, 
só são resgatados após vários <lias, já em avançado estado 
31 
de putrefação, a perda da cpidcrn1c i111pcdc a leitura das iln­
pressões digitais. Contudo, por sere1n feitas na derme profun­
da, as tatuagens não desaparecem dos corpos cm 
decomposição e podem seivir de base para a identificação. 
Retrato Falado 
As descrições sumárias e os retratos falados, embora au­
xiliem na captura de elementos marginais e perigosos, não 
podem ser considerados métodos de identificação. Até à era 
da computação gráfica, o retrato falado era feito por dese­
nhistas, que cnlrcvistava1n testc1nunhas e delas obtinha1n 
detalhes relativos ao contorno do rosto, de frente e de per­
fil, à forma e cor dos olhos, nariz, boca, orelhas, i1nplantação 
e distribuição dos cabelos e das sobrancelhas, bigode e bar­
ba se houvesse, alé111 de informações gerais quanto ao por­
te fisico, Co1no estatura, estado de nutrição, idade aparente 
e cor da pele. l-Ioje, é 1nais fácil a tarefa, já que há progra­
mas de cornputação em que vão sendo colocados e substi­
tuídos esses elementos até que a testemunha diga que está 
reahnente parecido com a pessoa procurada. Na ausência de 
fotografia, é de valor enorme na busca de pessoas perdidas 
ou seqüestradas. 
Foto{!rafia Sinalética 
As fotografias são úteis no reconhecimento, mas como 
método de identificação carecem de unicidade, imutabilidade 
e classificabilidade, principalmente as de caráter artístico. 
Essas últitnas escondem elementos de grande valor como 
pequenas cicatrizes, nevas, rugas de expressão e outros de­
talhes que prejudica1n a estética. Alé1n do 1nais, sabe-se que 
certos indivíduos têm fisionomia tão parecida que chegatn 
a ser confundidos entre si, tnesmo por parentes e an1igos -
são os chamados sósias. Mas é muito inenos provável 
que a semelhança se faça sentir tanto de frente como de 
perfil. Por isso, Alphonse Bertillon criou a chamada foto­
grafia sinalética, em que são tiradas duas fotos, uma ri­
gorosamente de frente e outra de perfil, a1nbas con1 
redução de 1/76
• Nelas, são abolidos os retoques. A com­
paração deve ser feita por superposição da foto recente con1 
a que consta dos arquivos. Mas a fotografia sinalética re­
presenta o rosto do indivíduo na data em que foi fotogra­
fado. Vários anos mais tarde, sua fisionomia envelhecida 
pode estar bastante diferente da fotografia. Outra dificul­
dade da fotografia sinalética é a impossibilidade de arqui­
van1ento, por não ser classificável de 1nodo racional. O 
registro fotográfico de São Paulo durou pouco 111ais de 11 
anos ( 1891-1902) e acabou por causa do tc1npo gasto na 
busca de qualquer ficha do arquivo'. 
Embora desprezada co1no nlétodo isolado de identifica­
\'.fiu, a fi1lografia passou a ser usad:i c111 todos os tipos dl~ 
Carteiras <lc identidade por ser de fácil observação e cu111-
paração. Em alguns países, como a Argentina, a fotografia 
para a carteira de identidade é feita com visão u111 pouco 
oblíqua, com base no fato de que, quando conversa1nos 
com alguma pessoa, não a vemos rigorosamente de frente 
na maioria das vezes. 
32 
Antropometria 
Outro 1nétodo de identificação, utilizado na França no fim 
do século XIX, foi a antropometria, também idealizado por 
Bertillon com o fim de caracterizar a reincidêi:icia criminal. A 
bertilhonage111, con10 também tem sido chamado o método, 
baseava-se na associação de várias medidas do esqueleto 
com sinais particulares e com as impressões digitais. Seivia 
para identificar indivíduos adultos, pois nps jovens tais me­
didas sofrem alterações com o crescimento6• 
As fichas propostas apresentavam, no anverso, duas fo­
tografias (de frente e de perfil); as n1edidas da estatura, da en­
vergadura, do busto; os diâmetros longitudinal, biparietal e 
bizigon1ático da cabeça; a altura da orelha direita; o compri-
1ncnto dos dedos 1nédio e 1níni1no esquerdos; o co1nprimcn­
lo do antebraço esquerdo e a cor do olho esquerdo, do cabelo 
e da barba. No verso, havia dados gerais como o nome, a ida­
de, a profissão, alé1n de anotações sobre sinais particulares 
co1no nevas, cicatrizes ou tatuagens. 
Tais fichas eram arquivadas em gavetas seguindo um ro­
teiro que con1eçava co1n os diâmetros longitudinal e transver­
sais da cabeça, pois que a estatura pode sofrer alterações por 
desvios e acentuação da curvatura da coluna vertebral. 
Corno havia uma classificação e1n pequena, média e grande 
para cada medida, a cada passo se eliminavam 2/3 das fichas, 
de modo a ser possível encontrar a procurada após algumas 
etapas. Se, ao final, restassem ainda algumas delas, seriam 
identificadas pelos sinais particulares anotados e pelas im­
pressões digitais dos quatro primeiros dedos da mão direita, 
que ta1nbém faziam parte das anotações contidas no anver­
so6·14. Balthazard6 reproduz uma ficha um pouco diferente, em 
que havia a in1prcssão digital dos cinco dedos da n1ão direi­
ta no anverso e dos cinco da 1não esquerda no verso. E1n seu 
livro, já descreve o 111étodo datiloscópico. Por ser muito labo­
riosa, sc1n praticabilidade, a bertilhonagcm foi superada por 
esse novo processo. 
Método Datiloscópico 
Nossa pele é constituída por duas camadas sobrepostas: 
a 1nais superficial por tecido epitelial e a 1nais profunda por 
tecido conjuntivo. O tecido epitelial fonna a epider111e e o 
conjuntivo, a den11e. O epitélio de revestimento da pele é for-
1nado por can1adas superpostas de células, sendo as mais 
superficiais de fonna achatada e, en1 contacto con1 o 1ncio 
an1bicnte, transfonnadas em tnn material· duro, a queratina. A 
parte do tecido conjuntivo da denne que está cm contacto 
con1 a epidenne é mais frouxa do que a situada 1nais profun­
d:unentc. /\presenta projcçües que clcva111 a cpidt!nnc, cuja 
forn1a varia de acordo con1 a região do corpo. Nas regiões 
pahnar e plantar, essas projeçõesassu1ne1n a forma de cristas 
sinuosas l" sl'paradas por sull·11s JHllll'n profundos. Essas lTis­
las pode111 ser vistas a olho nu sub a fr>nna de linhas parale­
las. Tais linhas fonna111 o desenho das ilnpressões digitais. 
Ahneida Junior"' faz un1 resumo histórico dos estudos 
que levar.un à elaboração do 1nétodo datiloscópico. Conta que 
Herschell, en1 1858, foi o pri111eiro a aplicar as impressões di­
gitais para fins contratuais e que, na área criminal, o pioneiro 
foi Faulds, em J 880. Fn1ncis Galton criou um siste1na de cla..;­
sificação no fim do século XIX, aperfeiçoado por Edward 
Richard Henry. que passou a ser usado prin1eira1ncntc na Ín­
dia cn1 1897. E o sislc1na Gailon-Hcnry. E1n 1891. foi inicial.lo. 
na Argentina, o uso de u1na nova classificação. elaborada pt;r 
Juan Vucctich, i111igrante vindo da Daln1ücia. O llOV(l sislen1a. 
por sua sin1plicidade. foi pronta1nente adotado por divcrs()s 
países. inclusive o Brasil c1n 1905.l. 
Analisado sob qualquer ponto de vista, o n1étodo 
datiloscópico de identificação supera todos os processos 
anteriores e todas as tentativas feitas até hoje. Há. inclusi­
ve, prognunas de co111putação Uesenvolvidos para fazer o 
confronto de impressões digitais. Nos EUA. existe un1 ban­
co de dados co1n esse fin1 - Auto1natcd Fingcrprint 
ldentification Systcn1s {AFisr. Esse 1nétodo satisfaz plena­
mente aos requisitos de unicidade, in1utahilidade. pratica­
bilidade e classificabilidade. 
Uniodade 
A análise de uma in1pressão digital deve levar e111 consi­
deração elementos qualitativos, quantitativos e topográficos. 
Os qualitativos são desenhos formados pelas diversas cris­
tas e recebe1n a denominação geral de pontos caracrerí.,·1i­
cos. Ilhotas, bifurcações, forquilhas etc. são exen1plos desses 
pontos (Fig. 4.3). 
A cont;.1gcn1 do nú1nero de linhas existentes entre dois ou 
n1ais pontos característicos au1nenta niuito a capacidade de 
distinguir duas impressões entre si. Alé1n disso. a distrihui­
ção dos pontos na figura e o seu posicionan1ento, junto con1 
esses clc111e11tos. torn;.1111 i1npossívcl quL' haja duas i111prcs­
sõcs idênticas. n1esn10 con1parando-se os dedos <le unia das 
mãos do indivíduo. Vários autores fizeram cálculos estatísti­
cos com base na variabilidade dos desenhos papilares e che­
garam à conclusão de que o número de habitantes da Terra 
é 1nuito pequeno para que se encontren1 dois indivíduos co111 
as impressões digitais idênticas.!. 
lmutabl1idade 
As impr~ssões digitais guardam o mesmo desenho des­
de o sexto mês de vida intra-uterina até alguns dias após a 
morte, ocasião em que a putrefação destrói a pele. Tal persis­
tência do desenho papilar recomenda que seja feita carteira 
de identidade de crianças o mais cedo possível. con1 benefí­
cios óbvios nos casos de extravio em multidões, tun1ultos. 
pr:tias etc. Hcrschcll. uni dos estudiosos do assunto. con1p<1-
rou suas próprias ilnpressões obtidas con1 53 anos de inter­
valo e não conseguiu estabelecer quaisquer diferenças4
• 
O desenho pupilar removido por ação ahrasiva. acidenta\ 
ou intencional, volta a se evidenciar <lcpois <le pou..:os <lias. 
Do mesmo modo, queimaduras por ação térmica, ou cáusti­
c:.1, dcstroc1n a cpidennc, 111as, quando se doí a regeneração 
epitelial, volta a ser visto o desenho original. Alguns traumas, 
no entanto, podem destruí-lo desde que atinjam a derme mais 
profunda, levando à formação de tecido cicatricial irregular. 
O mais comum, porém, é que o desenho seja restaurado, com 
perda das cristas papilares apenas nos pontos mais compro-
Bifurcação 
Núcleo 
llhOIQ. 
WCfl tmpressão do polegar D do autor - presilha externa. 
metidos pelo trauma. A remoção da pele das polpas digitais 
e a sua substituição por pele de outras regiões do corpo aca­
han1 co1n as i111prcssões digitais, 1nas dcixan1 as cicatrizes 
reveladoras do ato cirúrgico, alén1 <lc a prúpria ausência das 
in1pressões ser denunciadora da fraude. 
!'1ati1abilid1de 
A colheita das impressões digitais nos serviços de·identi­
ficação é un1a operação rápida, segura e não expõe a pessoa a 
qualquer tipo de constrangimento. O material necessário 
consta de unia prancheta com superfície lisa, de metal ou de 
plástico, onde se espalha tinta de tipografia, ou outra seme­
lhante, com um rolo de borracha. Os dedos da pessoa a ser 
identificada devem ser pressionados contra a tinta da pranche­
ta de modo a que toda a polpa digital seja untada. A passagem 
da tinta dos dedos para o papel da ficha é feita com auxílio da 
prancheta de Vucetich, uma placa de madeira com cinco de­
pressões, lado a lado, numa das faces, junto à borda. 
Classificabr1idade 
Apesar da infinidade de desenhos observados nas im­
pressões digitais, há detcnnina<los padrões que se repclcn1 
e que constituem os tipos fundanzentais. Já foram propostas 
várias classificações com base nesses padrões. A adotada no 
l3rasil é a <lc Vucctich. Ton1a co1no clc111cnto básico n presen­
ça, a ausência e a posição de uma figura chamada de delta, 
pela semelhança com a letra grega. São quatro os tipos fun­
damentais da classificação de Vucetich: 1) Arco - ausência 
de delta; 2) Presilha Interna - presença de dclu1 iI direita do 
observador; 3) Presilha Externa - presença de delta à es­
querda do observador; 4) Verticilo - presença de dois del­
tas, um à direita e outro à esquerda. 
33 
Os encontrados no polegar são representados na ficha 
pelas letras A, 1, E, V. Os observados nos demais dedos, pe­
los números 1, 2, 3, 4, respectivamente (Fig. 4.4). 
A classificação da ficha de cada pessoa está baseada nos 
tipos .fundamentais encontrados nos dez dedos. A individual 
ou fórrhula <latiloscópica é formada por uma fração cujo nu­
merador é a mão direita, chamada de série; o denominador é 
a mão esquerda, chamada de seção. Como são possíveis, teo­
ricamente, 1 .024 séries e 1 .024 seções, podem existir I .048.576 
fórmulas datiloscópicas.s. Assim, cada indivíduo vai ser 
alocado a uma dessas fórmulas. Contudo, cada fórmula pode 
abrigar nú1ncro variado de pessoas. Alguma<; fórmulas, inclu­
sive, são muito freqüentes, como aquelas em que há repetição 
do mesmo tipo fundamental nos dez dedos. A diferenciação 
entre elas será feita pelos pontos característicos. Mas, nos 
grandes arquivos e bancos de dados dos serviços de iden­
tificação das grandes metrópoles, os escaninhos ou 
diretórios dessas fórmulas muito freqüentes podem conter 
dezenas de milhares de fichas, o que torna extremamente la­
borioso localizar uma ficha por métodos manuais. Para con­
tornar tal problema, foram criadas subclassificações, de modo 
a facilitar a busca. 
Arquivos Monodatilares 
As fórmulas datiloscópicas, tão úteis no registro geral 
dos cidadãos, são inadequadas a lins policiais. As i1npres­
sões encontradas e1n locais de cri111c são, geralmente. de un1 
ou dois dedos, deixadas em superfícies lisas de objetos ou de 
folhas de papel. Não é possível atribuí-Ias a uma individual 
datiloscópica. Havendo suspeitos, as i1npressões coletadas 
no local devem ser comparadas com cada um dos seus dedos. 
Vê-se primeiro o tipo fundamental e, depois, procuram-se 
pontos característicos coincidentes. A maioria dos autores 
está de acordo em estabelecer confronto positivo quando há 
mais de I 2 pontos coincidentes, sem que haja qualquer ponto 
de divergência. Não havendo de quem suspeitar, a tarefa fica 
muito mais difícil. Com a finalidade de resolver esse proble­
ma, foram criados arquivos especiais monodatilares, feitos a 
partir dos dedos de criminosos habituais. O processo de clas­
sificação das impressões desses criminosos varia de um ins­
tituto para outro. 
Arco (N1) Presilha interna (112) 
A!bodati/ogramil' 
É formado pelo conjunto de linhas brancas que atra­
vessam as negras que representam as cristas papilares. 
Podem ter qualquer direção e tamanho, mas, geralmente, 
são transversais. Na verdade, rcprcscnla1n pequenas pre­
gas superficiais à 1naneira de rugas. adquiridas com o pas­
sar dos anos, que se torna1n 1nais visíveis quando sefaz 
a flexão da terceira falange. São n1ais freqüentes nos po­
legares e nos indivíduos mais idosos. Para que apareçam 
na impressão digital, o técnico deve fazer pouca pressão 
e usar pouca tinta no 11101nento de sua oblenção; e.lo con­
trário, as pregas se desfazc1n e não aparece1n no datilogra­
ma. Cerca de 70% delas são pern1anentes. O seu conjunto 
constitui un1 desenho que auxilia nas operações de busca 
por ser reconhecido n1acroscopica1nente, de relance, por 
peritos experientes (Fig. 4.3 ). 
outros Métodos de Identificação 
Vários outros 1nétodos de identificação têm sido propos­
tos. Alguns, co1no a rugopalatoscopia, a poroscopia, a 
oftalinoscopia, a radiografia e a llcbografia, hão tivera1n boa 
receptividade por causa da dificuldade de obtenção e/ou clas­
sificação dos registros. 
A rugopalatoscopia baseia-se na diferença individual 
das cristas sinuosas que todos nôs aprcsenta111os na n1uco­
sa do palato duro (céu da boca). O ch:.1111ado ruKOt:ra111a é 
obtido por 1noldagc1n feita con1 1nassa de dentista, seguido de 
forma gessa.da em que as cristas ficam em relevo. Essas de­
vem ser niarcadas a lápis e depois fotografadas·\ 
A poroscopia te1n por base a posição dos poros onde as 
glândulas sudoríparas se abrem nas cristas papilares. Apare­
ce1n con10 pontos brancos ao longo das linhas das impres­
sões digitais, com diâmetro que varia entre 0,08 e 0,25 mm. O 
arranjo desses pontos é individual. Requer emprego de lupas 
para sua observação' (Fig. 4.5). 
A oftabnoscopia procura comparar o aspecto do fundo 
do olho de cada pessoa principalmente quanto à posição e 
ramificação dos vasos arteriais e venosos relacionados com 
a papila óptica (local onde o nervo óptico tem origem). Tem 
o inconveniente de exigir o uso do oftalmoscópio e de não 
Presilha externa (E/3) Verticilo (V/4) 
@ICI Desenno dos quatro tipos fundamentais da classificação de Vucetich. Reproduzido do Manual Técnico de Datilosc~pia do JIFP. 
34 
@fj Detalhe de impressão digital, em que os pontos brancos 
correspondem aos poros. 
ser útil em cadáveres. nos quais os vasos do fundo do olho 
logo se lorna111 iinpcn.:cptíves. 
O n1étodo radiográfico foi proposto por Lcvinsohn e con­
sistia na realização de radiografia dos ossos do 111ctacarpo e 
do metatarso. As radiografias seriam feitas em incidência pa­
dronizada para pcnnitirc1n sua superposição quando neces­
sária a con1paração con1 o dcsconhecido1. 
Por fin1. a.flehogrt~{ia consiste cn1 fotografar as veias do 
dorso da 1não ou fronte para posterior co1nparaçüo co111 as de 
outros indivíduos. Carece de cJ;1ssificahilid:ide e, con1n a 
oftalinoscopia, é difícil de se obter cn1 cad:ívcn:s1. 
Outros não deven1 ser chan1ados de 111étodos, unia vez 
que dependem de ocasionais registros prévios. con10 os 
dependentes de radiografias tiradas por tnotivos clínicos. 
Aqui, vale a citação dos seios paranasais, principalmen­
te os frontais, cuja fonna e tarnanho são individuais. Foi 
utilizado c1n Brasília. cn1 caso de repercussão nacional. 
para a iden.tificação do corpo de uma mulher que fora 
morta pelo marido. conforme julgamento do processo no 
Tribunal do Júri 1.i. 
A identificação do autor de manuscritos pode ser feita atra­
vés da caligrafia. Os peritos nessa área são os grafotécnicos. 
Atuam tanto no foro penal quanto no foro civil. 
A análise da \'OZ ten1 sido usada con1 freqüência cada vez 
maior. Outrora, era baseada no dcpoi1nento de teste111unhas 
que teriam ouvido algué1n nllar. 111as scn1 poder ver a pessoa. 
Isso poderia acontecer en1 casos de seqüestro e1n que a víti­
ma fosse libertada e. depois, preso algum suspeito. Peritos 
cm son1 costurnan1 estudar o padrão da voz gravada con1 o 
auxílio de progra111as de con1putador c1n que as ondas sono­
ras são decompostas e analisadas. produzindo gníllcos uti­
lizados na comparação entre a gravação fornecida e o padrão 
da fala de quen1 se quer identificar. 
O estahelecilnento da identidade pelo e.w1111c das arcadas 
dentária.\·, alén1 de útil nos vivos. é indispenso.ívcl en1 casos 
de carbonização e de achado de esqueletos. quando se sus­
peita que se trate de certa pessoa desaparecida. Os dentis­
tas cn1 geral são obrigados por nonna legal a l~1zer e guardar 
por cinco anos a fónnula dentária de seus pacientes. bc1n 
como a registrar os trabalhos que porventura tenha1n feilo. 
Con10 se trata de matéria afeita à Odontologia Legal, os com­
pêndios e tratados relativos ao terna devem ser consultados. 
A identificação baseada no DNA será estudada no Ca­
pítulo 5. 
PROBLEMAS ESPECIAIS DE IDEllfTIFICAÇÃO 
Conforn1e já rcferiinos. a identificação estú baseada na 
con1paração de dois registros feitos do mesmo indivíduo. Por 
isso. de nada adianta colher dados minuciosos de uma pes­
soa que se quer identificar se não h;í un1 prin1eiro registro. I~ 
o qui: oco1Tc co1n crianças. A identificação de u111a criança ex­
traviada, seqüestrada ou desaparecida e morta tem que ser 
feita con1 base cm informações prestadas pelos familiares e 
por ocasionais docu111entos que registre1n algu1n detalhe, 
confonne os tnétodos antigos já descritos, como sinais par­
ticulares, mutilações e outras marcas. 
Na maioria das vezes, porém, ai; dificuldades surgem no exa­
n1c de cado.ívcrcs que cstcja1n incompletos, por exemplo 
cs4uw1cjados, carbonizados ou en1 estado avançado de putrefa­
ção. Con1 freqüência, o que se apresenta aos peritos é apenas un1 
esqueleto, acompanhado, ou não, pelas vestes. Aqui, é o campo 
de atuação da Antropologia Forense propriamente dita, um ramo 
da Antropologia Física, que serJ. estudada no Capítulo 5. 
Tratando·se de pessoas vivas, podem surgir situações 
e111 que seja necessário o estabeleci1ncnto da idade aproxima­
da e. 1nais rara111entc, do sexo. 
DETERMINAÇÃO DA IDADE NOS Vivos 
Pode ser necessária tanto no foro penal quanto no foro 
civil. No foro penal, sua i1nportância é crucial no momento de 
se in1por medidas de restrição da liberdade a delinqüentes 
presos cm flagrante infração penal. De acordo com o artigo 
27 do Código Penal, os menores de 18 anos são coiisidera­
dos inimputáveis, estando sujeitos às normas estabf;.lecidas 
en1 legislação especial. Tal legislação está no Estatuto da Cri­
ança e do Adolescente (Lei 8.069/90). De acordo com ela. in­
divíduos menores de 18 anos, qualquer que tenha sido o 
delito praticado, não podem ser trancafiados juntamente co1n 
os delinqüentes maiores de idade. A autoridade policial deve 
encaminhá-los a uma instituição correcional para que sejam 
submetidos a um processo de reeducação. A propósito, hoje, 
discute-se acaloradamente a proposta de redução da maiori­
dade penal de 18 para 16 anos de idade. Há argumentos pon­
deráveis tanto a favor quanto 'Contrários. De qualquer 
1nancira. tendo dúvida a autoridade. o pretenso menor deve 
ser cnca1ninhado ao Instituto Médico-legal para que se faça 
o exame de determinação da idade. 
De acordo com o novo Código Civil, os menores de 16 
anos são absolutamente incapazes de exercer pessoalmente 
os atos da vida civil. Quando entre 16 e 18 anos, são consi­
derados relativamente incapazes, podendo realizar cerlos 
atos, desde que assistidos por seu representante legal. É o 
que consta no inciso 1 do artigo terceiro e no inciso I do ar­
tigo quarto, respectivamente. Não entraremos, aqui, na aná­
lise da responsabilidade penal e civil, pois seus aspectos 
serão discutidos na Parte VIII desta obra. 
35 
Perícia 
O fundamento da avaliação pericial da idade c1n pessoas 
vivas é a inexorável sucessão de transformações impostas ao 
ser humano pelo passar do tempo. Desde o nascimento at~ 
à velhice nossa aparência vai-se modificando, de modo que 
qualquer pessoa leiga é capaz de calcular grosseiramente a 
idad"e de qualquer um, com 'acuidade que varia com a faixa etá­
ria considerada. Assim, uma diferença de poucos meses de 
um bebê para outro não deixa dúvidas sobre quc1n é o 1nais 
moço, qualquer que seja o observador. Mas, em indivíduos 
maduros, diferenças de anos não podem ser percebidas nen1 
pelosmais perspicazes. 
Os elementos a serem pesquisados nessa avaliação sofrem 
influência de diversos fatores, tanto genéticos como ambien­
tais. Assim, existe um tipo hereditário de nanismo (progéria) 
em que. o iqdivíduo novo apresenta pele enrugada e aspec­
to senil: O 1nes1no envelheciinento precoce surge nos indivíduos 
albinos .. Além disso, a exposição prolongada ao sol antecipa 
o aparecimento <le rugas por destruir precocen1cnte as libras 
eláSticas da pele e condiciona o surgin1ento de pequenas le­
sões pré-neoplásicas, chu1nadas de ccralosc actínica ou se­
nil. As doenças nutricionais também podem retardar o 
an1adurecimento do organismo e o desenvolvi1nento tisico. 
Feitas essas ressalvas, analisemos o valor dos dados que 
podem ser considerados na detenninação da idade. 
Estatura 
Embora sujeita a falhas, te1n 1nuita i1nportãncia na infân­
cia e na adolescência. Apesar de haver tabelas estaturais, 
que são fa1niliares aos pediatras, o inais importante é o esta­
belecirnento do ritino de cresci1nento nessa fase da vida. 
Após o fecha1nento das cartilagens de crcscin1ento dos os­
sos longos ao fim da puberdade, a estatura perde totahncn­
te seu valor comparativo. 
Pele 
Tem valor, ressalvadas as discrepâncias já referidas ante­
riormente, pela presença e distribuição dos pêlos, presença 
de rugas e alterações pigtnentares, inclusive dos pêlos. 
No início da adolescência, começam a surgir os prin1eiros 
pêlos pubianos, que são seguidos pelos axilares. No caso 
dos rapazes, co1neça a surgir a barba pri1neiro na região do 
bigode, depois nas costeletas e região mentoniana. Depen­
dendo de fatores fa1niliares e raciais, a densidade da barba 
pode ser maior ou menor, assim como podem surgir pêlos na 
face anterior do tórax. Em idade mais avançada, podem sur­
gir pêlos no conduto auditivo externo. Por outro lado, a que­
da dos cabelos sugere uma idade madura. A calvície é uma 
alteração que ocorre nos homens maduros, variando muito a 
idade em que começa a se instalar. Mas a calvície avançada 
pennite supor que o indivíduo tenha inais de 30 anos. Os ca­
belos começam a embranquecer por volta dos 30 anos de ida­
de, geralmente pelas regiões temporais. Mas, ta1nbé1n aqui, há 
grande variação individual. Nosso técnico de autópsias te1n 
a cabeça toda branca e pouco 111ais de 50 anos de idade. 
36 
As rugas costu111:11n co1neçar pela pele próxi111a ao can­
to externo da fenda palpebral ("pé-de-galinha''). Scgue111-sc 
as rugas de expressão facial. Con1 o te1npo, a pele toma-se 
cada vez mais flácida, há perda de gordura no subcutâneo 
e de fibras elásticas e colágenas na derme, com a conse­
qüente universalização das rugas ·nos indivíduos de idade 
muito avançada. 
O passar do tempo leva ao aparecimento de 1nanchas 
hipcrcrôn1icas c1n diversos seg1nentos do corpo, porém as 
1nais características siio as que surgc111 no dorso das 1nãos. 
São 1nais co1nuns en1 nlulheres que já entraram na menopau­
sa ( .. pintinhas da vovó"). Quando não são removidas por 
tratamento dermatológico estético, denunciam a idade de mu­
lheres que foram submetidas à cinirgia plástica de rejuvenes­
cimento. Mas os homens não ficam imunes. Os idosos podem 
apresentá-las en1 quantidade variada. 
Olhos 
Chatna-se de arco ou halo senil lnna deposição de 111aterial 
proteico na região lhnbica do globo ocular. forn1ando um anel 
de coloração acinzentada no li111itc externo da íris (l·~ig. 4.6). 
A partir dos 40 anos, cerca de 20o/o dos indivíduos já o apre­
sentam, sendo mais freqüente e precoce na raça negra e nas 
1nulhcrcs. Sua incidência au1nenta con1 a faixa etúria pesqui­
sada~·12. Com o passar dos anos, vai havendo modificações 
no cristalino, que, em alguns indivíduos, culminan1 com tal 
din1inuição da transparência ao atingire1n tuna idade avança­
da, que se toma necess<íria sua reinação cirúrgica. É o que se 
cha1na de catarata. Co1110 pode haver cataratas causadas por 
outras doenças oculares, seu valor na estima~iva da idade do 
indivíduo é relativo, devendo ser avaliados outros elementos. 
A progressiva alteração do cristalino também diminui sua 
elasticidade, de n1odo que a aco1nodaçiio da visiio para 
objetos próxin1os fica prejudicada - presbiopia. É uma carac­
terística de pessoas já 1naduras. 
Esqueleto e Dentiçiio 
Do ponto de vista pericial, são os elementos mais fide­
dignos. O cxa1nc do esqueleto é feito pela identificação 
do: pontos de ossificação e pelas cartilagens de cresci­
, nlento. Os pontos de ossificação podem ser identificados 
pelo exa1ne radiológico do esqueleto. São 1nais importan­
tes na inf<incia, principahncntc co1n relação aos ossos do 
punho e do pé. Na bacia, os três pontos de ossificação, 
constituídos pelo ílio, ísquio e púbis, estão unidos por 
uma cartilage111 e1n fonna de Y. À medida que se dá o cres­
cimento da criança e ela entra no período da adolescência, 
essa cartilage1n vai desaparecendo pela fusão das três áreas 
de ossificação. Seu ponto de encontro está no interior da 
cavidade cotilóide do osso ilíaco e serve de referência para 
o cálculo de índices antropométricos in1portantes. Algu­
mas tabelas i1nportantes referentes à cronologia do apare­
ci1nento dos pontos de ossificação em geral pode1n ser 
encontradas en1 Can1ps7
• 
Na adolescência, a detenninação da idade, con10 já refe­
rin1os. pode ser extrc111:11nenle itnporlantc para se dar o trata-
mento penal adequado aos delinqüentes que alegam meno­
ridade e não têm uma certidão para comprovação do alega­
do. Aqui, são muito importantes as metáfises dos ossos 
longos e a fusão dos pontos de ossificação do ilíaco. O fe­
chamento das cartilagens de crescimento das regiões 
metafisárias obedece a uma cronologia que é pouco influen­
ciada por elementos ambientais, inclusive nutricionais. Con­
tudo, é indispensável que se leve em consideração o sexo, 
pois as mulheres entram na adolescência n1ais cedo que os 
homens, e as alterações do esqueleto induzidas pelos honnô­
nios sexuais ocorrem nelas com antecipação de um a dois 
anos (Figs .. 4. 7 e 4.8). 
O aparecitncnto dos dentes, tanto caducos quanto per­
manentes, segue uma cronologia regular, com pouca varia­
ção individual e racial. Existe1n tabelas que devem ser 
consultadas e que são apresentadas no Capítulo 5. Lá, se­
rão abordados, mais detalhadamente, os elementos ósseos 
de avaliação da idade. Como regra geral, porém, devemos 
aconselhar a avaliação da idade com preferência para os se­
guintes elementos: 
1) até 2 anos -primeira dentição; 
2) de 2 a 6 anos - aparecimento dos pontos de ossifi­
cação; 
3) de 6 a 12 anos - segunda dentição; 
4) de 12 a 25 anos - fechamento das zonas de cresci­
mento dos ossos longos (metáfises); 
5) acima de 25 anos - fechamento das suturas do 
crânio. 
DrnRMINAÇÃO oo Sexo Nos Vivos 
Poucas vezes são os peritos chamados pela justiça para 
realizar uma perícia de determinação de sexo. Tal situação 
pode-se apresentar quando houver sexo dúbio em função de 
anomalias genitais, ou quando a dúvida provier de alteração 
de uma genitália normal por meio de artificias cirúrgicos em 
indivíduos com distúrbio da sexualidade. No primeiro caso, 
o problema pode surgir logo após o nascimento em se tratan­
do de hermafroditas ou de pseudo-hermafroditas, ou ser 
acobertado até a idade adulta, ocasião em que levará a pro­
blemas quando das núpcias. 
Nosso C6digo Civil não permite o casamento de pessoas 
do mesmo sexo. Embora tenha havido uma liberalização co1n 
relação à herança de bens entre parceiros homossexuais que 
tenham vivido juntos por vários anos, a união homossexual 
não é reconhecida por nossa lei civil. Destartc, havendo sido 
celebrado tnn casamento entre duas pessoas do n1esn10 sexo, 
sendo tnna delas pseudo-hcnnafrodita, se o sexo gonádico 
for o mesmo, o casa1nento é nulo. Dele não resulta1n direitos 
nem obrigações. 
Os desvios da sexualidade podem estar no campo gené­
tico, so1nútico ou psíquico. No ca1npo da gcnétic<1, cxistc1n 
casos em que a separação dos cromossomas sexuais não se 
faz de 1nodo nonnal,e o indivíduo pode apresentar padrão 
diferente do normal - XX para a mulher e XY para o ho­
mem. Assim, podemos ter o tipo XXY encontrado .na 
síndrome de Klinefelter, e o tipo XO, na síndrome de Turner. 
Existem outras anomalias com menor importância para o 
nosso estudo, como a chamàda superfêmea, com XXX. O 
indivíduo com síndrome de Klinefelter costuma ter atrofia 
testicular e biotipo eunucóide. 
Os desvios somáticos são representados pelos casos de 
hermafroditismo verdadeiro e de pseudo-hermafroditismo. O 
hern1afroditisn10 verdadeiro pode ser classificado de acordo 
com o tipo de gônada que o indivíduo apresenta. Em geral, 
o que se observa é a presença de gônadas que mostram, no 
mesmo órgão, tecidos masculinos e femininos. constituindo 
o que se convencionou chamar de ovotestis. No ovotestis; 
são achados setores com túbulos seminíferos (componente 
masculino) e outros com folículos de Graaf (componente fe­
rninino). Confonne a predominância de produção de honnô­
nios masculinos. ou femininos, o indivíduo vai apresentar 
características somáticas num ou noutro sentido. O aspecto 
da gcnitália externa costun1a corresponder de 1nodo claro a 
essa tendência, o que conduz a uma educação condizente 
com o sexo aparente. Nos hermafroditas verdadeiros, a geni­
tália externa pode ter qualquer aspecto, desde o masculino 
normal até o feminino normal. passando pelos estágios 
intermediários. Conforme a histologia das gônadas, os 
hermafroditas verdadeiros devem ser classificados em: 1) 
unilaterais - com ovotestis de um lado e gônada normal do 
outro lado; 2) bilaterais - com ovotestis em ambos os lados; 
3) alternos, ou laterais - com testículo de um lado e .ovário 
do outro. Todos são raros, e o alterno é o menos freqüente. 
O pse11do-hem1afi·oditb;n10 consta da presença de gôna­
das nonnais, ou atróficas, 1nas con1 histologia con1pafivcl 
com somente um dos sexos. O que torna os pseudo-her­
mafroditas diferentes das pessoas normais é o fato de terem 
a genitália externa, ou a interna, diferenciada para o sexo 
oposto ao da gônada que apresentam. Por essa razão, devem 
ser classificados em dois tipos: masculino ou feminino, con­
forme a gônada seja testículo ou ovário, respectivamente. Se 
a gcnitália diferente for a interna, deve ser chamado de 
pseudo-hennafrodita, 1nasculino ou feminino, interno. Se for 
a externa, pseudo-hermafrodita, masculino ou feminino, exter­
no. Desse modo, um indivíduo pseudo-hermafrodita femini­
no externo é aquele que tem ovários, mas genitália externa 
com aspecto masculino. São os tipos mais comuns. Resultam 
de disfunção na produção de hormônios durante a vida en1-
brionária, com predominância de produção de horinônios 
masculinos pela glândula supra-renal do feto feminino. Nos 
pseudo-hermafroditas masculinos, é comum que os testículos 
fiquem dentro da cavidade abdominal, ou no conduto inguinal, 
sem descerem para a bolsa escrotal. O pênis é atrófico, poden­
do simular um clitóris grande, principalmente se houver uma 
fenda entre as duas metades da bolsa escrotal formando uma 
pseudovagina. Tais casos são acompanhados de intensa 
hipospádia (abertura da uretra na face inferior do pênis). 
O drama dos pseudo-hermafroditas costuma agravar-se 
por ocasião da adolescência. Basta i1naginar a situação cm 
que um indivíduo masculino, com testículos escondidos no 
canal inguinal, porém ativamente secretores, seja educado cm 
um internato para meninas e moças. A atração peló sexo fe­
minino desencadeada pelo aun1ento da testosteron~ estabe­
lece penoso conflito entre a educação feminina e o impulso 
sexual masculino. Mais dramática é a situação quando se tra-
37 
ta de uma adolescente educada em um seminário. Ao chegar 
à puberdade, começa a apresentar formas femininas, aumen­
to das mamas e alargamento dos quadris, despertando a atra­
ção sexual de seus co1npanheiros masculinos. A falta de 
con1precnsão para con1 essas pessoas e de apoio psicoterú­
pico pode conduzir a situações funestas. 
O.s desvios psíquicos da sexualidade envolven1 desde a 
atração pelo mesmo sexo (homossexualismo) a várias outras 
formas de perversão como satirismo, ninfomania, pig1nalio­
nismo, bestialismo, fetichismo etc. Não costuma1n causar 
problemas de identidade, mas podem levar a cri1nes sexuais. 
Em raras ocasiões, os peritos legistas são chamados a 
fazer o exame de determinação de sexo em adultos que se 
submeteram à cirurgia de emasculação. São ho111ens con1 
distúrbio psíquico da sexualidade que leva111 sua tendência 
ao extremo de procurar cinirgia plástica para retirada da gc­
nitália externa e confecção de tuna neovagina co111 os reta­
lhos da bolsa escrotal. São nu1nerosos os casos relatados 
na literatura, principalmente em travestis e transexuais con1 
atividade artística e1n casas de espetáculos noturnos. Não 
são_ ncccssaria1ncnte ho1nosscxuais. Alguns sofrc111 de apa­
tia sexual e não se sente1n .atraídos para a vida sexual ho1110 
ou hetero. O problema 1nédico-legal costuma surgir quando 
tais criaturas têm necessidade de se identificar. Em geral, o 
oficial que lhes pede a identidade se surpreende ao olhar 
para uma "mulher" e ver na carteira de identidade um nome 
tipica1nente masculino. 
No início da década de 90, fomos solicitados pela direção 
do IMLAP, na pessoa do Dr. Raphael Pardellas, a auxiliar 
numa perícia de determinação de sexo de tnna "senhora" 
francesa que queria casar-se com um homem que a acompa­
nhava. Ó início do processo foi motivado pelo pedido de tro­
ca de nome feito ao Registro Civil para que se pudcssc111 
casar. O exame constatou as cicatrizes da cirurgia de 
enuisculação, a presença de 1na1nas aumentadas (não sabe­
mos se por influência honnonal apenas ou se associada à 
prótese) e desenvolvimento normal do resto do corpo, 1nas 
com pomo-de-adão nítido na topografia da laringe. Coube a 
nós realizar o exame de cro1natina sexual, que deu resultado 
con1patívcl co111 o sexo 111asculino. O f)r. Ivan Nogueira Uas­
tos; do IMLAP, já havia examinado três outros casos sen1e-
38 
lhantes na década de 70. Um deles era egípcio e já havia 
atuado e1n espetáculos na cidade de Casablanca, Marrocos. 
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1\h:dcci11(' l.t:ga/e, 5• cd .. pp. 547-51, Libr:dric JB. Bailliêrc cl Fils, 
P:1ris. 1900. 
Identidade e Processos de Identificação 
Rll Tatuagem artística que representa a figura de um mago, 
localizada na face anterior do antebraço. Guia 49 da 1 Oª DP, de 
02/05/84. 
39 
Wiil Radiografia das grandes articulações de um adolescen­
te, incluindo joelho, cotovelo e punho. O aspecto é compatível com 
menos de 12 anos, se feminino, ou menos de 14 anos, se mascu­
lino. As cartilagens de crescimento ainda não-ossificadas são re­
presentadas por uma linha radiotransparente entre a epífise e a 
diáfise (região metafisária). 
40 
p!:I Radiografia da bacia de um adolescente. Esse aspecto 
é compatível com maior de 20 anos, se feminino, ou de 21 anos, 
se masculino. Caso nº 63.029 do IMLAP-RJ, cedido por gentileza do 
Dr. Hélio Oliveira Santos, já falecido, chefe do Serviço de Radiolo­
gia à época. 
ldentificacão de Restos , 
Humanos. Determinacão de , 
Sexo, Idade e Estatura 
Virgínia Rosa Rodrigues Dias 
Hygino de C. Hercules 
INTRODUÇÃO 
A Antropologia é o estudo dos seres humanos, tradicio­
nalmente dividida em três subcampos: Antropologia Cullural 
(ou Social), Arqueologia e Antropologia física (ou Biológica). 
Os antropologistas culturais investigam as crenças e os cos­
tumes das populações em diferentes sociedades. Os arqueo­
logistas conduzc111 cscav•u;ilcs e :.inalisa111 a arquitc:tura e 
objetos produzidos por povos antigos. ()s antropologistas fí­
sicos são essencial1nente cotejadores. exan1inando as diferen­
ças e as similaridades morfológicas dos homens através do 
n1undo e ao longo do ten1po(l .. n. 
Antropologistas físicos, n1édicos e odontologistas são 
frcqiicntcn1cntc requisitado:-; pelas autoridades judiciais para 
proceder à identificação de despojos hu1nanos, que pode111 
derivar de catástrofes ambientais, acidentes aéreos. incên­
dios, 1nassacres etc., sendo encontrados expostos ao aram­
biente, enterrados ou sub1ncrsos. 
A peça-chave de qualquer investigação policial é a iden­
tificação dos criminosos e de suas vítimas. Em corpos con­
servados e inteiros, essa tarefa pode ser executada sem 
muitos problemas, desde que exista um registro prévio. To­
davia, o procedimento para dctenninar a identidade c.le un1 in­
divíduo a partir de restos humanos, quer en1 decon1posição, 
quer esqueletizados, esquartejados. reduzidos a pequenos 
frag1ncntos e 1nesn10 carbonizados, torna-se u111 verdadeiro 
teste de paciência, a co1neçar por distinguir se os despojos 
são hu111anos ou provenientes de outros anin1ais. 
A <lctennin:.~ção d:.i idc.:ntilicação 111édico-lcg:.il nessas si­
tuações complicadas deverá estar baseada no minucioso es­
tudo da Antropologia. por apurado conhecin1ento da biologia 
csyucli.!tic:.t' hu111ana. O estudo apropriado de n:stos l1u1nall(lS 
necessita de local adequado, equipamento osteométrico es­
pecílico e pessoal treinado, visto ser objeto de trabalho cien­
tífico para auxiliar a Justiça. 
Pode causar estranheza o fato de que não serão aborda­
dos neste capítulo aspectos relativos à filiação racial como 
parâmetro identificador na perícia de despojos humanos. 
Mas, no Brasil, devido ao acentuado grau de miscigenação 
desde a época da colonização portuguesa (índios, brancos e 
negros), incrementada com a imigração posterior de outros 
povos europeus e asiáticos, também recentemente avaliado 
por análises co1n DNA, não há como estabelecer - de for­
ma precisa, a partir das aferições métricao;; de um esqueleto -
a qual padrão racial aquele sujeito pertencia. 
J\tuahncnte o ex<unc de DNA constitui o 1nelhor 111étodo 
para a identificação de un1 indivíduo, poré111 sua análise con1-
parativa através de técnicas complexas e restritas a poucos 
grupos de pesquisadores nacionais, exigindo o emprego de 
equipamento solisticado, transforma-se em gasto operacional 
inl'clizn1ente elevado. 
Para que a "marca genética" possa servir como instrumen~ 
to de identificação, é conveniente usar a prova do DNA, uma 
vez que já se tenha reduzido ao máximo - pelo prévio exa­
n1e antropológico - o universo das possíveis vítimas, com 
o Jin1 de otimizar os custos e agilizar o procedimento legal. 
CONCEITO 
A Antropologia Forense é um ramo da Antropologia Fí­
sica (Biológica) que tem por linalidades estabelecer a identi­
dade do sujeito através da individualização da idade, do 
sexo. do padrão racial e da estatura e determinar a causa, a 
data e as circunstâncias da morte<•.2 ~..i 7 • 
A documentação dos fatos ocorridos antes, durante e 
depois da morte é de extrema necessidade na elucidação do 
seu diagnóstico. Utiliza-se o método de reconstrução bioló­
gica do indivíduo, que consiste em um conjunto de operações 
científicas de caráter analítico, comparativo e complexo, rela­
cionadas con1 a identificação biológica geral (sexo, idade, pa­
drão racial, estatura), na dependência do meio ambiente 
biogeogr:.ífico e cultural no qual o sujeito se desenvolveu. 
incluindo as alterações associadas con1 anon1alias, patolo­
gias, estado de saúde, hábitos alilncntarcs (tipo de dieta), 
ocupação profissional e atividade física, com o propósito de 
estabelecer como era o seu modo de vida antes de morrer. A 
41 
detecção de doenças e de traumas ante111or/e111 permite re­
constituir tanto as causas da morte quanto as circunstâncias 
cm que ela ocorreu, aspectos de vital itnportância para a pe­
ricia 1n~<lico-legal. 
/\ Antropologia Forense po<le ser subdividida c1n: 
Osteologia Forense, Arqueologia Forense e Tafonomia Fo­
rense. A Osteologia é o estudo da anatomia do esqueleto. 
A Arqueologia abrange os processos de escavação e arreca­
dação controlada de restos humanos e outras evidências 
pertinentes ao local de encontro ou ao contexto da cena, e1n 
situação de crime. A Tafonomia é o conhecimento das alte­
rações que ocorrem sobre os despojos a partir do momento 
da morte ao longo do tempo, incluindo trau1na, decon1posição 
e modificações climáticas, ressaltando-se o papel do patolo­
gista forense na diagnose diferencial entre trauma, fenôme­
nos tafonôn1icos e doenças ósseas. 
Com ba~e no grande número de crimes insolúveis, prin­
cipahnente quando o corpo de delito se apresenta deteriora­
do, como em casos de carbonização, cremação, encontro 
isolado de ossadas ou cemitérios clandestinos, achado de 
fragmentos de ossos em lugares suspeitos etc., toma-se pri-
1nordial a aplicação da pesquisa e de técnicas antropológicas 
para a resolução de problen1as 111édico-legais. 
Métodos co1nplc1ncntarcs utilizados na identificação de 
pessoas desaparecidas vêm sendo desenvolvidos através 
de avanços tecnológicos, tais co1no: confronto por superpo­
sição de radiografias dos seios da face, da sela túrcica e do 
tórax~ sobreposição de fotografias com o crânio; reconstru­
ção facial morfometria analítica de configuração do crânio 
assistida por co1nputador, via sobreposição de vídeo, e recons­
tituição tridimensional de crânios por tomografia co1nputa­
dorizada, associada à visualização por vídeo2•
14
·28.34.-15_ 
HISTÓRICO 
A Antropologia Forense é uma especialidade relativa­
mente recente. Essa ciência iniciou-se no século XIX e vem 
sendo incre1nentada c1n paralelo ao exponencial au1nento 
da violént.'.iil, pela lll'.t.'.l!ssidadc do t.'.Ollhl!t.'.i111c11to da anato-
111ia do esqueleto c1n ações judiciais que envolva1n a iden­
tificação e avaliação de restos hu1nanos c1n deco1nposição 
ou esqueletizados 11
•
47
• 
E111bora<> t.'.a111po de aluaç;Jo da 111aioria dos antropologis· 
las esteja liliado a Universidades e Museus, a requisição 
constante de sua assistência por autoridades da lei 1nostra 
uma tendência para assumirem o status e1n te1npo integral 
como peritos forenses. 
A Antropologia Forense guarda suas origens intilna1ncn­
tc relacionadas às ciências anatômicas. Até a década de 30. 
era dos Dcpartan1entos de Anato1nia das Univcr:-;idadcs que 
provinha111 as principais t.'.o.11trihuiçõçs para a 111ctodologi<.1 do 
estudo da variação esquelética hu1nana, usando coleções <lc 
cadáveres com idade, raça, sexo e morbidadc conhecidos. 
Nessa época, basicamente, 1nédicos e anato1nistas (raros an­
tropologistas) constituíam as únicas fontes de consulta para 
a Justiça a respeito de restos esqueletizados. 
Com o advento da Segunda Guerra Mundial, diversos 
antropologistas físicos foram consultados para auxiliar na 
42 
identificação do grande nún1ero de indivíduos 1nortos. O con­
flito da Coréia registrou a segunda n1aior contribuição antro­
pológica nos processos de identilicaç:io de 111ortos de guerra. 
As pesquisas conduzidas co111 <is viti1nas das guerras 
pennitinun u111a 111clhor co111prccnsào da progressão natu­
ral dos indicadores de idade no ser hun1ano, pois em sua 
amostragem a população era formada por indivíduos sau­
dáveis e be1n-nutridos - ao contrário dos estudos prévios 
- realizados e1n cadáveres de escolas de Medicina, que 
representavam u111 grupo de pessoas de idade conhecida, 
mas que havian1 sofrido algu1n tipo de doença e/ou priva­
ção nutricional. 
Nos EUA. a década de 70 representou un1in1portante111ar­
co no cainpo da Antropologia. con1 o estabclcci1nento de uma 
seção de Antropologia Física na Academia de Ciências Fo­
renses, o que pennitiu um intercâ1nbio disciplinar na identifi­
cação de vítin1as e1n desastres de massa, inclusive na 
investigação de assassinatos de repercussão, como no caso 
do presidente Kennedy. Em 1977, esse trabalho obteve seu 
reconhecin1ento oficial tnediante a criação da Junta Americana 
de Antropologia Forense, com a finalidade de garantir a qua­
lidade das pericias forenses e a profissionalização de seus 
colaboradon:s. c111 assessoria conjunta na 111;,iior parte da 
casuistica do FBI (Federal Burcau of lnvcstigation). 
A despeito do crescente interesse global nessa área. na 
Europa e en1 111uitos outros países - à exceção dos EUA-. 
a quase totalidade do trabalho cm Antropologia Forense con­
tinua a ser realizada por profissionais sem graduação acadê­
n1ica antropológica. principal111cnte 1nédicos~ 
Na /\111érica Latina. o nntropologista forense não pode li­
n1itar-se ao processo de exu1nação e identificação de restos 
ósseos. Duas são as razões para que se exija desse profis­
sional algo 111ais. En1 primeiro lugar, nas décadas de 60, 70 
e 80. houve 111ovi111cntos de insurreição contra os governos 
ditatoriais instalados no poder por golpes n1ilitares cn1 al­
guns países. A repressão a esses movin1entos levou ao se­
qüestro e 1norte dos insurretos. que eram enterrados cm 
vnlas con1uns. En1 segundo lugar. na atualidade. a onda de 
violência que varre a rcgi:1o. principailnente 11.Í C.'olôinbia e no 
Brasil. conduz à 1nes1na fonna de desaparecer con1 os corpos. 
Assi1n, o antropologista forense precisa esclarecer, ou con­
~ribuir pnra o csclarcci111cnto. tanto da identidade co1no da 
causa da 111ortL'. 1 lL'VL' agir c1n consonüncia co111 as ( '01nisslies 
de. Direitos Hu111anos de cada pais. respeitando as nonnas 
jurídicas vigentes. Por esses 1notivos. o componente bioló­
gico - identificação - precisa vir aco1npanhado dos aspec­
tos históricos. sociais e jurídicos nos casos de pessoas 
desaparecidas nas circunstâncias relatadasi.. 
NOÇÕES DE OSTEOLOGIA 
üticial111cntc existen1 206 ossos no esqueleto hu1nano 
adulto. 111as eventuais ossos supranu1nenírios poderão apa­
recer. espccialn1entc rclacionndos às 111ãos e aos pés e, ex­
ccpcionahnentc, no crânio. au111entando o nú1nero habitual. 
Os co111poncntes ósseos en1 indivíduos jovens e crianças 
são variáveis cm 11Un1cro de acordo con1 a idade, co1no seg­
n1cntos de ossos que surgen1 a partir de tnais de 800 centros 
de ossificação que. progressiva1nente. vão-se rusionando. 
É praxe se estabelecer a separação entre o esqueleto axial. 
(ossos da c;:1beça e do tronco) e o esqueleto apcndiculnr (os­
sos dos 111e1nbros). 
Os ossos :-;ão órgãos rígidos. fortes e con1plexos. consti­
tuídos de v{1rios tecidos. correspondendo a aproxiinada111cn­
te 14% do peso corporal de u111a pessoa con1u1n. A 111aioria 
dos ossos dçi corpo exibe un1 padrão estrutural sc111elhan­
te. Encontran1-se posicionados entre si através de contatos 
articulares fixos. n1óveis ou se111in1óveis. por intennédio de 
cabc:ças e extrc111idade:-; co1110 nos ossos longos; suturas 
intrincadas con10 nos o:-;sos cranianos e tàcetas c:le1nenta­
res co1no as encontradas nas junções das costelas con1 as 
vértebras. 
A estrutura interna do osso pode ser observada c1n cor­
tes longitudinais e transversais. Ela é constituída por uma 
ca111ada externa lis;1 L' co111p;1ct:i que co111püe o cúrtcx do 
osso, o qual exibe espessura variável, e por tuna porção in­
terna porosa·que corresponde à cavidade 1nedular (Fig. 
5.IA). Nos ossOs longos. o córtex forma tun tubo circun­
dando a cavidade 1nedular. enquanto nos ossos chatos o 
espaço 1nedular é co1npletan1entc preenchido por osso es­
ponjoso, se1n cavidade presente. Ein idade avançada. o osso 
esponjoso pode desaparecer nos ossos chatos. con1 conse­
qüente colapso entre as duas superfícies corticais oponen-
tes. Cada osso 0 cin.:undado interna e e:xtcrnan1cntL' 
por nle1nbranas de tecido conjuntivo. Exteman1ente. a n1c111-
brana que cobre o osso é o perióstco. constituindo un1 rc­
vesti1nento forte e libroso, exceto nas supcrlicics articulares. 
que s:lo protCgidas por cartilagc111. ·As cavidades 111edulares 
internas são deli1nitadas pelo endósteo. Tanto o periósteo 
quanto o endóstco contên1 células que pode1n fabricar osso. 
No interior 9a cavidade n1edular e nos espaços intratrabe­
culares do osso esponjoso existe a 1nedula óssea vennclha, 
a qual forma células sanguíneas. A cavidade 1nedular tain­
bém pode servir co1no un1 sitio para arn1azena1nento de 
tecido adiposo, que é, conseqüenten1cntc. ehainado de 111e­
dula amarela21 • 
Os ossos pode1n ser classificados. de acordo co111 o seu 
fonnato, em: 
• longos: eonsisten1 en1 t11na haste (ou diúlise) con1 duas 
extrc1nidades (ou cpítises), con10 o ún1ero e o fê1nur; 
• curtos: pode1n ser equiparados aos ossos longos -
só que em 1niniatura - con10 os 1netacarpianos e n1eta­
tarsianos; 
• chatos: 1nostran1 superficies planas para proteção ou 
para fixação 1nuscular. co1110 o crânio. a eseúpula e o ino1ni­
nado (hacia); 
• inL·g.ularL·s: 1\.•li..·1\.'lll-SL" a l(11111;1s L'<1111pk·xas. l11is L'Olllo ;is 
vc.!r!d1ras. o 111axilar L' o L'sli.:11úidL• 1. 
HISTOLOGIA ÓSSEA 
Tipos de Osso 
O osso é um órgão fonnado por tecido ósseo que. junta­
n1cnte cotn a cartilage1n. con1põe o esqueleto dos vertebra­
dos. Esses tecidos são constituídos por-células ostcó-
citos. ostcoblastos e osteoclastos - e matriz intercelular. A 
111atriz óssea é co1nposta por fibras colágenas e glicoproteínas 
1naterial orgânico que confere resistência e elasticidade 
ao osso -. ligadas entre si por substâncias inorgânicas. 
responsúveis pela rigidez do osso. representadas por cris­
tais de rusllito de cúlcio (cerca de xs~Yu), carbonato de cúlcio 
(10%) e fosfato de magnésio (5%). 
Macroscopicamente, dois tipos de tecido ósseo podem ser 
diferenciados: o compacto e o esponjoso. O osso cotnpaeto se 
apresenta sólido e fonna a parede óssea e1n toda a extensão da 
di:ílisc. revestindo tan1bén1 as epíliscs (Fig. 5.1 A). 
O tecido ósseo esponjoso tem aspecto poroso e é con1-
posto por un1 conjunto de espículas ou trabéculas irregula­
res. finas e interligadas en1 ra1nilicairõcs, li.Jnnando tuna lran1a 
cujos espaços são preenchidos pela medula óssea vermelha 
- tecidohen1atopoiético. Ele ocorre na epífise dos ossos lon­
gos e na parte central dos ossos curtos, e é envolto por un1a 
tina can1ada externa de osso co1npacto. 
Não se consegue traçar u1n limite preciso entre os dois ti­
pos de tecido ósseo, e a diferença entre eles depende, basi­
ca111entc. da quantidade relativa de material sólido e do 
ta1nanho e nún1cro dos espaços medulares. 
No osso co111pacto são visualizadas ao microscópio es­
truturas bcn1 características, cha1nadas de siste1nas de 
1-lavers ou óstcon. unidade estrutural do osso co1npact'o. 
('ada ósteon é un1 cilindro co111 u1n canal central - o canal 
de I·lavers - ao redor do qual se distribue1n lâminas ósseas con­
cêntricas. Entre essas lâminas situam-se fileiras também 
concêntricas de ostcóeitos. interligados por canalículós na 
1natriz. ('anais de Havers de sistemas vizinhos são 
conectados transversahnente pelos canais de Volkmann. No 
interior desses canais se estende unia rede de capilares san­
guíneos e nervos. Os pequenos espaços entre os sisiemas 
de Havers são preenchidos por latnelas ósseas de disposi­
ção diversa, formando as lamelas intersticiais. Os sistemas 
de canais de un1 osso fon11a1n u1n verdadeiro labirinto que 
se estende da região periférica e fibrosa - o periósteo -
até a região interna, o endósteo, que reveste a cavidade 
medular (Figs. 5. IB e 5.1 C)'- '. 
Os ósteons estão organizados ao longo das linhas de 
estresse 1necânico, relacionadas à atividade de suporte de 
peso. U1na alteração nos padrões de estresse c1n un1 osso 
durante a vida resulta etn um realinhamento dos ósteons -
a única propriedade adaptativa do osso -, conhecido cótno 
lei de Wolff. * 
Células ósseas 
J\s c0lul.-1s que co1nptli.:111 o tecido ússco s:lo: 
1) ostcohlasto t•Clula jovL'lll qt1L· 11;io apresenta capa-
cidade pan.1 se dividir, responsúvcl pela sintcse proteica e se­
creção da parte orgânica da nlatriz óssea, denominada 
osteóide ou pré-osso, que ta1nbém está envolvida no proces­
so de calcificação da 1natriz. encontrada no interior do osso 
• 1.ci dc \\'111 IT: Toda a!Ccrnção n;1 fonna e na função dc um osso. ou apenas na sua função. 
e~ al'Prnp:u1h:1da pur n111dificm,:1k~ lk s11;1 arqui1c111rn intcm;1. 
43 
Sistema circunferencial 
interno 
1 ~ -i:·. : Lamelas ósseas 
j . .'~,ffi;~jt?:__---- Sistema de Havers ·---L-&-"~~ 
Perlósteo 
Sistema 
circunferencial 
externo 
Vaso 
sanguíneo 
Canal de Volkmann 
UJ!iit·I Esquema de diáfise femoral, no qual se notam a face externa recoberta pelo periósteo, a face interna porosa, os vasos san-
guíneos nutridores e um sistema de Havers. Conforme LB Gitirana, 2004. 
Osteob!asto 
Osteócito 
Osteoclasto 
1------ Vaso sanguineo 
Lamelas 
concêntricas 
fijl:I Esquema de sistema de Havers constituído por lamelas ósseas concêntricas que formam um tubo, centralizado por um vaso 
sanguíneo e um filete nervoso. Conforme LB Gitirana, 2004. 
44 
Canaliculo ósseo 
Osteoplasto Canal de Havers 
Q!4jlíj Aspecto microscópico de osso compacto, exibindo um 
ósteon de limites precisos em contato com outros vizinhos. Confor­
me LB Gitiranã, 2004. 
cn1 estreita associação con1 o pcrióstco e o cndôstco, e que 
conté1n a enzima fosfatase alcalina; 
2) osteócito ou célula óssea propriatnente dita - é o 
osteoblasto maduro que púra de secretar 1natéria orgânica, 
cuja função é a li1anulcnçào da 1natriz óssea. ()s ost~ócitns 
acha1n-sc localizados nas lacunas e aprcscnta111 nu1nerosos 
prolongamentos citoplas1náticos interconectantes, dispostos 
ao redor dos c_anais de Havers; 
3) osteoclasto - é uma célula gigante, multinucleada, 
que não se divide, responsável pela reabsorção do excesso 
de matriz óssea, participando da remodelação. do reparo e da 
ren1oçào da 1natriz 1nalconstituída ou frag111entada·1 ~. 
Desenvolvimento e Crescimento ósseos 
A fonnação do osso se1nprc se dá a partir de u1na estru­
tura conjuntiva que serve de base, por 1necanis1no aposicio­
nal, lllTil.1 vez que a existência de sais de cú\cio na tnatriz 
i111pcde a cxpunsào intersticial. Conf'onne sua origcn1 c1nbrio­
lógica, podemos distinguir dois tipos de ossificação: intra-
1nen1branosa e cndocondral ou ca11ilaginosa. 
Ossificação lntramembranosa 
Ocorre no interior de uma 1ne1nbrana de natureza conjun­
tiva tal como as que revestem o encéfalo de u1n e1nbrião. En1 
diversos locais da 111e1nbrana, células se diferenciam eni os­
tcoblastos e inieia111 a deposição de 1natriz orgânica que, aos 
poucos. vai sendo calcificada. Os vários centros de ossifica-· 
ção se unem por finas traves calcificadas, dando ao conjun­
to u1n aspecto esponjoso. 
Entre as traves forrna1n-sc cavidades que são invadidas 
por capilares sanguíneos trazendo células indiferenciadas. 
Essas cavidades. u1na vez ocupadas, darão origem à medula 
óssea. Aos poucos o processo de ossificação se espalha para 
a periferia, até que toda a peça membranosa sofra ossifica­
ção. Os ossos chatos do crânio. mandíbula e escápulas são 
exemplos de ossos intramembranosos. 
( Jssillc d( <Ir) ' f7(Í< }( "( )/ uirill a c:·1rt i/afjint JSC1 
Ocorre na formação de ossos longos, à exceção das 
clavículas e dos ossos da coluna vertebral. Nesses ossos, 
duas regiões sofrerão a ossificação: o cilindro longo, co­
nhecido como diáfise, e as extremidades dilatadas, que cor­
respondem às epífises. Em ambas as regiões, a deposição 
de tecido ósseo resultará na formação do osso. O cresci­
n1ento da diáfise e das epífises ocorre de modo diferente. 
Na diáfise ele ocorre no sentido longitudinal e em es­
pessura, enquanto nas epífises o crescimento se dá no sen­
tido radial. 
A fon11ação do primeiro tecido ósseo - em um osso lon­
go -- ocorre por ossilicação intra111en1branosa no pcricôndrio 
que envolve a cartilage1n na região 111édia da diáfisc. Forrna­
sc uni tubo ósseo que circunda a peça cartilaginosa, e o 
pcricôndrio passa a ser chamado de periósteo. Capilares san­
guíneos provenientes do periósteo invade1n a peça cartilagi­
nosa e leva111 células indiferenciadas que se espalham por 
todo o con1pri1ncnto da diálise. Ocorre, então, a substituição 
de tecido cartilaginoso por tecido ósseo. 
Entre a epífise e a diáfise permanece uma faixa de cartila­
ge1n deno1ninada metáj]se, placa ou disco epifisário, que 
pennitc o aun1ento do osso cm co111priinento até atingir a ida­
de adulta, quando ocorre o seu fecha1nento completo e ces­
sa o alongamento ósseo. 
PATOLOGIA ÓSSEA 
Um dos aspectos mais desafiantes no estudo da biolo­
gia esquelética é a investigação da saúde e da doença nas 
populações. Apesar de nem todas as doenças deixarem as­
sinaturas no esqueleto, o estudo de ossos anormais pode 
fornecer infonnaçào iinportante relativa ao estado de saúde 
de u1n indivíduo. Os antropologistas usam, igualmente, a 
paleopatologia como um veículo para a investigação da his­
tória de doenças como tuberculose, sífilis, lepra e artrite 
n:u1natóidc~·1 • 
Quando unia amostra representativa da população é ava­
liadn. n nnálisc dn patologia esquelética pode dnr estin:i.ativas 
da saúde da co1nunidade e, assiin, facilitar as investigações 
sobre padrões de doenças. en1 perspectiva con1parativa. cor­
relacionada a fatores culturais e climáticos, con10 o dcsenvol­
vi1nento da agricultura, estresse ocupacional, migrações e 
intercâmbio de povos. 
45 
Um passo crítico no registro de condições patológicas é 
o reconhecimento de anormalidades ósseas verdadeiras, em 
oposição a urna extensão normal de variação em indivíduos 
saudáveis. O registro deverá, por essa razão, desenvolver um 
padrão de apreciação para a morfologia do osso nonnal -
tanto i1naturo co1no maduro - e aprender a diferenciar arte­
fi1los t.(alh.::nu;ões po.\·/ 111orte111. 
Traços co1nu111ente 1nal interpretados co1no patológicos 
incluc1n allerm;õcs 111clalisárias e111 indivíduos na l~1sc de crcs­
cin1ento, depressões de Pacchioni e i1npressões vasculares. 
I~ nonnal que 111ctúfiscs juvenis aprcscnte111 porosidade ç 
evidência de re1nodelan1ento, especialmente nos períodos 
de crescimento rápido. E1nboraurna porosidade metafisária 
ex treina e a conseqüente exposição de osso trabecular scja111 
consideradas patológicas, a maioria dos exe1nplos encontra­
dos e1n esqueletos cai dentro dos limites da normalidade. O 
aspecto interno da abóbada craniana de un1 adulto n1ais ido­
so mostra numerosas depressões circunscritas, designadas 
depressões de Pacchioni ou aracnóides, as quais são aspec­
tos anatômicos normais. Essas irregularidades são fonnadas 
porquanto a tábua interna da abóbada craniana se desenvol­
ve em acomodação con1 as estruturas cerebrais adjacentes e 
seus- tecidos circundantes. Depressões lineares bilaterais re­
fletem o caminho tomado por um vaso sanguíneo superficial 
e representam n1ais u1na variação normal do que u1na condi­
ção patológica. Similarmente, o forâ1nen para u1na veia vertc­
brobasilar, na face dorsal ou no centro do corpo vertebral, 
não deve ser confundido com condição anormal. Muitas ve­
zes essas impressões vasculares são 1nal interpretadas co1no 
1narcas de corle ou evidência de alterações post 111or1<•111. 
eo1no 1nordc<lura <lc roedores ou ilnpressões de raízes vege­
tais5·37. 
U1na variedade de agentes agressivos deixa sua impres­
são sobre os ossos por alteração de sua estrutura. Essas 
desordens são usualmente causadas por: fraturas, infec­
ções, distúrbios circulatórios, anemias, doenças endócrinas, 
1netabólicas e nutricionais, displasias, neoplasias e outras 
lesões originadas nas superficies articulares. Quando c1n 
crescimento, o osso reage a essas desordens tanto pela de­
posição como pela reabsorção de osso na área afetada. A 
identificação de u1na alteração isolada no esqueleto requer 
uma observação 1nais cuidadosa nos diferentes padrões de 
deposição ou de distribuição óssea em todo o espécime, 
uma vez que, por serem semelhantes em u1na ou 1nais pato­
logias, aumenta o grau de dificuldade para a diagnose po­
sitiva e diferencial35
• 
A maioria das condições ósseas patológicas encontradas 
cm esqueletos são: anormalidades de fonna e ta1nanho; per­
da e formação óssea anormais; hiperostose porótica; fraturas; 
infecções e artritcs~·17 • 
Anormalidades de Forma 
As anom1alidades de forma pode1n ser observadas e111 os­
sos longos como resultado de fraturas consolidadas, en1 do­
enças de deficiência, con10 raquitismo e escorbuto, e c111 
processos infecciosos crônicos. No crânio, o fcchan1cnto 
prematuro das suturas, chamado de craniossinostosc ou 
46 
cranioestenose, pode 111udar de 1nodo acentuado a forma do 
crânio, na dependência das suturas envolvidas e da idade 
de início do seu aparecimento. Tipos específicos de craniossi­
nostose incluem: escafocefalia, trigonocefalia e plagiocefalia. 
Na coluna espinhal, sua curvatura habitual pode apresen­
tar desvios anonnais nos sentidos anterior, dito cifose, ou 
laleral, cha111a<lo de cscoliose. A anquilose coristitui situa­
çélo patológica crônica que rcsultn cn1 fusélo intCrvertcbral. 
·n1is <lelOnni<lades po<lc1n-se originar e111 siluaçõcs congêni­
tas ou adquiridas, c1n que ocorre1n perda óssea anormal e ví­
cios de postura. 
A.normalidades de Tamanho 
Entre as alterações de tamanho, a hidroccfalia é condi­
ção congênita rara. Caracteriza-se por um acúmulo excessivo 
de líquido nos espaços n1eníngcos, o que leva à dilataçfio 
dos ventrículos cerebrais, adelgaça o cérebro e provoca a 
separnção dos ossos cranianos en1 crianças. Acarreta u111 
au1nento anorn1al do crânio e1n relação à fac~. Pode ocorrer 
em outros 1na1niferos39 • 
Perda óssea Anormal 
Osteoporose ou perda óssea anor111al, de modo focal. 
n1l1ltifocal ou difuso, pode aco1nctcr qualquer local do osso 
e ter grau e extensão variáveis, estando freqüentemente as­
sociada cotn a aspereza trabecular. Muitas circunstâncias 
pode1n detenninar o seu aparcci1nento, e, conseqiicnte1nen­
te. não é patognotnônica de qualquer agente. Pode ser rc­
sullantc de hipertircoi<lis1110, hiperadrenocorticalisn10, 
desnutrição generalizada, proporção anormal dC fosfato de 
cálcio na dieta, deficiência de vitamina e, osteomielite, ar­
trite, i111obilização de un1a parte do corpo, perda de peso 
(e1nagreci111ento) e idade avançada. A osteoporose não 
apresenta in1portância clínica até que exista uma perda de 
30o/o do conteúdo mineral no osso. Em estágio.s avançados, 
isso pode levar a adclgaça1nento do osso cortical e fraturas 
por compressão. A condição é quatro vezes mais comum em 
1nulheres e1n idade avançada que em homens. O crânio é par­
ticulannente susceptivel à osteoporose, e o local de ocor­
.rência 1nais freqüente é uma porção da placa orbitária do 
osso frontal adjacente à glândula lacrimal. O colapso estru­
tural con10 resultado da perda óssea ocorre mais eomumente 
ao nível da coluna espinhal, tanto con10 conseqüência da 
osteoporose quanto co1no resultado de trauma ou da 
reabsorção focal secundária a doença infecciosa. 
Formação óssea Anormal 
A fonnaçào óssea anonnal pode ser observada c111 alte­
rações proliferativas específicas dos corpos vertebrais corno 
os ostcólitos (Fig. 5.]) e sindcs111ólitos: ser produto de rc-
1nodclação, provocando unia reação csclerótica indicativa de 
fase de cicatriznçào ou un1 processo de doença crônica. Na 
doença de Pagct. a forn1açào de 111ntriz óssea anonnal está 
associada n úreas de reabsorção óssea, co1n várias linhas 
de cin1ento e padrão n1uito irregular. principahncnte no crü-
nio, onde a calota tem espessura exagerada. 1-Iá substituição 
de osso nonnal por tecido ostcóidc danificado (c111 ravo de 
1nel), pobremente 1nineralizado e a1nolecido. Sua etiologia é 
desconhecida, mas raramente ocorre antes dos 40 anos de 
idade e é duas vezes mais freqüente em homens. As regiões 
do corpo mais afetadas, e1n probabilidade decrescente, são a 
bacia, o crânio, o fêmur, a coluna vertebral, a tíbia, o ún1ero 
e a escápula. 
Os ossos que sofre1n essa transfoniiação são co1nt11ncn­
te alargados e, às vezes, torn:.un-se leves, a111olecidos e po­
rosos. Com freqüência eles são descritos como tendo a 
consistência de pão seco. As tábuas corticais (platôs) n1ais 
externas são finas ou ausentes. Urna calvária transfonnada 
é tão porosa que. se a calota craniana for preenchida con1 
água, esta escoa conio se fosse por tuna peneira. E1n un1 es­
tágio mais tardio, o osso co1neça a remineralizar, e o fonna­
to expandido pode aparecer be111 ossi licado e, por fi111, 
csclerótico. 
O padrão de destruição óssea na doença de Paget pode 
ser identificado em um único osso ou generalizado no es­
queleto. Algumas vezes existe tun padrão de 1nosaico, for­
mado por linhas estreitas de ciniento entre o osso original 
e os focos do novo osso defeituoso. Existe un1 aumento 
acentuado na circulação sanguínea para o osso doente que 
sobrecarrega a função cardíaca. Con1 o avanço da idade, o 
sarco1na osteogênico ocorre com freqüência nessas áreas 
alteradas do osso. 
As situações que incluem ossificação de tecidos conjun­
tivos, geralmente de origem trauniática, são a 1niosite calcifi­
cante e a presença de ostcófitos ou cntt!sólitos. A presença 
de uma cicatriz estrelada no osso é sinal patogno1nônico da 
sífilis terciárias. 
Hiperostose Porótica 
A hiperostose porótica ou cribra orbita/ia é caracteriza­
da por uma porosidade exacerbada da abóbada craniana e/ou 
das órbitas, sendo aceita co1no representativa de tuna respos­
ta anêmica do organismo, resultante da hipertrofia do tecido 
de matriz sanguínea no interior da abóbada craniana. O en­
contro dessa porosidade nos constituintes ósseos cranianos 
citados sugere que o indivíduo fosse portador de algum tipo 
de anemia qua_ndo em vida, critério que poderá auxiliar na sua 
identificação. Tipicamente, a hiperostose porótica ocorre na 
superficie orbitária do osso frontal ou adjacente às suturas 
lambdóides, sagital ou, ocasionalmente, coronal. Em casos 
mais severos, regiões mais centrais dos ossos frontal, 
parietais e occipital podem ser afetadass.!~. 
As anc1nias pode111 ser originadas por traços gcnl:ticos, 
por dcficit!ncias nutricionais, espccialn1entc na cart!nciade 
ferro cn1 associação a doenças infecciosas, parasitoses e 
patologias crônicas, ou por eritroblastose fetal, unia con­
dição determinada por incompatibilidade do fator Rh en­
tre mãe e feto. Anemias hemolíticas herdadas como a 
talassemia e a ariemia falciforme podem estar presentes, res­
pectivamente, em restos de indivíduos de herança negra ou 
mediterrânea. Os tipos relacionados a déficits alilnentares, 
infecções ou infestações em geral são encontrados em po-
pulações indígenas ou em países de baixo desenvolvimen­
lll sociocconôn1ico. 
Fraturas 
As fraturas serão estudadas no Capítulo 11. Sua presen­
ça em um esqueleto ajuda na identificação, desde que haja 
história de traumatismo com fratura do mesmo osso e em 
época co1npatível com o estado do calo ósseo, se em forma­
ção inicial ou jú antigo. 
Infecções 
Infecções que envolve111 u1n os:-;o são sc1nprc graves. Po­
<len1 aco1neter primariamente o periósteo (periostite), o côr:tex 
(osteíte) ou a medula óssea (mielite). Osteomielite é a agres­
:-;ão sinnilt:.inea sobre <linhos - 1nedula e córtex. 
O osso, en1 vida, reage a essas infecções por dois cami­
nhos. Pode ser removido por ação osteoclástica ou pode ser 
depositado por atividade osteoblástica. O mais comum é 
que ambas as atividades ocorram no interior da área infec­
tada, criando uma estrutura recém-organizada. A área 
infectada, geralmente, terá osso removido, criando sulcos, 
depressões, canais ou cloacas. Ao redor dessas áreas, um 
novo osso pode-se formar. Irá apresentar-se primeiramente 
poroso e áspero, situado sobre o asso cortical original, apa­
recendo co1no uma fina camada de osso rendilhado. Com o 
passar do tempo, todavia, mais osso poderá ser depositado, 
e, então, aquele osso sedimentado sob condições infeccio­
sas torna-se 1nais dificil de distinguir. Unia vez que todas as 
infecções desencadeiam a mesma resposta no osso, a iden­
tificação do tipo específico da infecção - sem disponibilida­
de de tecido mole para análise, igualmente - é feita por um 
exame da distribuição e do padrão das lesões24
•
37
• 
As infecções mais severas são: 1) osteomielite piogênica; 
2) tuberculose; 3) treponematoses. A osteomielite piogênica é 
usualmente a conseqüência da exposição do osso à contami­
nação bacteriana por um abscesso ou injúria. A infecção pode­
se propagar através do sistema circulatório para outra região 
do corpo. O agente mais comum é o estafilococo hemolítico 
(Staphylococcus aureus), mas muitos microorganismos co-
1nuns podem produzir o mesmo efeito. Freqüentemente, a 
osteomielite prejudica o suprimento sanguíneo vascular, pro­
duzindo necrose da região afetada e destacamento de fragmen­
tos de osso desvitalizado, conhecidos como seqüestros. 
A penetração repetida do córtex por agentes infecciosos 
pode produzir cavitações que servem para promover a disper­
são da infecção, através da formação de fistulas com drena­
ge111. As cartilagens cpifisárias são muito resistentes à 
infecção bacteriana e, algu111as vezes, servem para limitar 
a propagação da destruição óssea. Isso reduz a1nplamentc o 
acometimento articular e detém o envolvimento ósseo. Outras 
vezes, a infecção torna-se aprisionada por fibrose e reparo ós­
seo, para criar um abscesso localizado. O osso ao redor do 
abscesso pode ser mais denso que o normal, talvez favore­
cendo o isolamento da lesão, e áreas de osso mais espesso 
( esclerôtico) são prontamente vistas em ossos que foram 
acometidos de osteomielite crônica. 
47 
A tuberculose se espalha através do siste111a circulatório 
par;1 a n1edula ússca, onde ;i inli..:cc;fio erúnica caraclcri:->­
tieatnente 1nais <lestrutiva e resistente que a osteon1ielite 
piogênica - pode-se estabelecer. Usuailncnte, a infCcção en­
volve grandes áreas da cavidade medular, com necrose exten­
sa, 1núltiplos seios e canais que penetram os tecidos 1nolcs 
de revestimento. A cartilagem epifisária não é tão resistente 
a esse microorganismo, e <lcfonnidades incapacitantes acon1-
panham a infecção avançada. Quando a tuberculose acome­
te a colUna espinhal, produz ftaturas de compressão (doença 
de Pott) e destruição dos discos intervertebrais. 
Microorganismos pertencentes ao gênero Trepone1na 
causam uma série de doenças, incluindo sífilis e bouba. A 
sífilis congênita ataca fundamentalmente a junção da 
metáfise com a epífise ou o periósteo. O Trepone1na 
pa/lidum pode destruir a cartilagem epifisária e deixar um 
tecido granuloso nas superfícies diafisárias e entre o 
periósteo e o osso cortical. A osteocondrite e a periostite 
sifilíticas afetam todos os ossos, embora as lesões do na­
riz pela déstruição do vô1ner (nariz e1n sela) e da tíbia (tíbia 
e1n sahre) sejam 1nai!.; distintivas2
Q. 
Na~ !Ormas adquiridas das treponc1natoscs, alé111 das le­
sões do periósteo, ocorrem os tumores moles - go1nas - na 
cavidade nledular, que po<lc111-se estender pelo tecido celu­
lar subcUtâneo até atingir a pele. As gomas são lesões nodu­
lares granulo1natosas com necrose central, de caráter benigno, 
bastante variáveis em número e tamanho, que sobrevên1 tanto 
no estágio terciário da bouba corno na sífilis tardia. 
A ·sífilis adquirida, doença sexuailnentc tra.nsmissível. te111 
uma probabilidade 1naior de produzir osteo1nielite si li lítica no 
crânio, na coluna vertebral e nos ossos longos, particular­
mente a tíbia. A bouba é uma doença dos trópicos, raramen­
te encontrada fora da faixa de 60° do equador, e se dissemina 
pela contaminação de um corte ou de uma escoriação pores­
piroquetas a partir de uma lesão drenada de um indivíduo 
infectado. As moscas e o contato pessoal poden1 fornecer o 
vetor para a infecção. 
Anrltes 
O termo artrite refere-se a uma infla111ação das articula­
cyflcs, que pode exibir carúter agudo ou crônico, sendo iden­
tificada uma 1nultiplicidadc de tipos: artrite aguda produzida 
por trauma na articulação; artrite séptica; gotosa; reumática~ 
reumatóide; degenerativa; espondilite anquilosante e osteo­
fitose, entre outras. Em alguns casos, o crescimento e1n vol­
ta da margem articular pode-se fundir com um componente 
ósseo adjacente, resultando em anquilose da junta. As desor­
dens artríticas são diferenciadas com base na causa da infla­
mação, nas articulações afetadas e na natureza específica das 
alterações destrutivas. 
Dessas, a artrite degenerativa (osteoartrite) ocorre com 
mais freqüência e está associada com os processos de enve­
lhecimento da cartilagem articular. Heine ( 1926), Ortncr e 
Putschar (1981 ), referidos por Ubelakcr3'. afirmaram que o joe­
lho é, usualmente, a articulação mais comprometida, seguido 
cm ordem de incidência pelo quadril, pelo ombro, pelo cotove­
lo e pelas articulações acromioclavicular e estemoelavicular. 
48 
Siio características típicas da ostcoartritc. co1110 doença 
dcgL·111.:rativa das arlicula~·tics: a lahia~·iio 111arginal da supcr­
licic articular (ta111bi:111 cha111ada de csporiio ósseo ou dcscn­
volvi1ncnto osteo11tico), a porosidade da face articular e a 
ebumação. 
A labiaçào constitui a formação de uma estrutura seme­
lhante a u1n lábio. como ocorre ao nível da extremidade arti­
cular de un1 osso, por depressão de sua supcrl1cic de contato 
e conseqüente desenvolvimento de hipercrescimento ósseo 
ao redor das margens da articulação. 
A ebumaçào é o polimento ósseo induzido pela abrasão 
mecânica das superficies articulares - decorrente do atrito 
- associado à produção localizada de osso cortical, que 
ocorre como conseqüência da degeneração da cartilagem. 
Outras patologias menos freqüentes também podem dei­
xar suas marcas nos ossos. Entre elas, podemos destacar: 
Distúrbios Circulatórios 
Podc1n ser encontradas áreas de infarto ósseo, mais co-
111u1ncntc en1 111crgulhndorcs, con10 co111plicac;fio da doença de 
<lesco111prcssào. São úreas cn1 que os ostcócitos 111orrcn1 por 
obstrução do fluxo sanguíneo durante a fonnação das bo­
lhas. Mais tar<le, essas :.íreas poden1 !Onnar zonas de densi­
dade n1aior aos raios X pela deposição de cálcio nos focos 
de necrose.Doenças Endócrinas, Metabólicas e Nutricionais 
O re111odela111e11to e o crescin1cnto ósseos são 1nuito sen­
síveis a alterações da função endócrina. Um excesso da fun­
ção do paratonnônio (eomumente associado a hiperplasia 
ou neoplasia das glândulas paratiróides) prod.uz um pro­
gressivo adelgaça1nento e fibrose do osso, denominada 
osteite fibrosa cistica (doença de Von Recklinghausen). 
Condições dessa natureza causan1 áreas focais onde osso 
esponjoso e cortical são substituídos por cistos ou tecido 
fibroso (granulo111as de cC\ulas gigantes repnrativas). O 
ali11a111ento <lo córtex do osso pode resultar cn1 arquca-
111cnto e fratura. 
Distúrbios da hipófise podc1n alterar a produção dos hor-
11Hlllios do cn:sci11H:ntu. N.i inl:inria, Hill excesso do honnô­
nio do crcscilncnto resulta c111 uni au1ncnto proporcional da 
estatura (gigantis1no) devido tanto ao crescimento epifisário 
quanto ao aposicional. E1n u1n cresciinento desencadeado na 
fase adulta ocorre estin1ulação no tecido conjuntivo, cartila­
gem e osso aposicional subperiósteo, causando alongamento 
dos ossos do crânio e da face, do carpo e tarso. com um au-
111ento progressivo das extremidades do corpo (acromcgalia). 
No crânio, há u1n espessamento (compactação) do toro su­
pra-orbital. palato. 1nandíbula e occipitaJ2<1. 
A deficiência de hom1ônio do crescin1ento na infància 
produz o nanismo. O anão hipofisário ten1 uma proporciona­
lidade nonnal. 1nas um corpo pequeno. 
Anonnalidades bioquín1icas ou a ingestão inadequada de 
vitaminas C e D podc1n conduzir a uma deficiência na mine­
ralização óssea para manter o rit1no de crescimento com a sín­
tese de osso novo (recC1n-fonnado). e então produzem osso 
inadequadamente 1nineralizado ou osso co1n córtex anon11al-
1nente fino. O escorbuto resulta de tuna ingcsta deficiente de 
:icido nscôrbico (vita1nina ('). essencial para a ati\·idade ns­
teoblástica nonnal. No crescin1cnto de ossos longos. fraturas 
transversas irão co1nun1cntc ocorrer prôxilno da placa 
1nctalisúria. (lnde ti (lSso i11adeqi1:ul:1111l·n1l· 1ni11cr;1\i:1:uhi l"Sl:1r;·1 
concentrado. Nos ossos de adultos, c1n 4uc o crcs1.:i1ncnto cstú 
completo, os efeitos do escorbuto serão muito menores. com 
fulturns con1umente restritas às cxtre1nidadcs das costelas. 
Raquitisn10 - oc;:1sion;1do por ingcstn ou produ1r·1io ina­
dequadas de vita1nina D - tc.:111 uni n1aior cli:ito osteoporótico 
penetrante sobre o esqueleto. E1n crianças até 2 anos. a abó­
bada craniana pode desenvolver finas úreas nos ossos 
parietais e no occipital. Nos ossos longos. o raquitis1no pode 
ser caracteriz3do por córtex fino e quebradiço e trabcculação 
esponjosa esparsa, ou por ossos subrnineralizados, os quais 
exibem urna cavidade medular estreitada e uma elasticidade 
intensificada. O crescimento de ossos longos també111 pode 
ser mais lento em jovens aco1nctidos de raquitismo. particu­
larmente no temur, e as extremidades metafisárias podem es­
tar alargadas e em forma de xícara (copo). segundo Ortner e 
Putschar ( 1981 )". Em adultos, a deficiência de vitamina D cria 
uma condição conhecida co1no osteomalacia, a qual - da 
mesma forma que no raquitismo - resulta cm osso ostco­
porótico. E1n casos cxtren1os. podcn1 ocorrer fraturas e 
plasticidade do osso. 
Displasias 
A osteogt}nesc in1perll:ita trans111itida pnr uni gen1.: au-
tossômico dominante ( con1 expressão variável) - se consti­
tui em um defeito na síntese do colágeno. Co1110 resultado. 
existe menos matriz entre os osteócitos. o que acarreta a pro­
dução de osso cortical muito fino (delgado) e trabéculas ina­
dequadas. Isso produz ossos fracos, pobremente formados 
e com tendência a fraturas. 
Discondroplasia refere-se a uni crcscin1ento cartilagino­
so anonnal. Pode ocorrer o cresci1nento de c:.irtilage1n na 
superficie externa, produzindo múltiplas exostoses cartilagi­
nosas, ou a incorporação de fragmentos da placa epifisária 
no interior da massa cartilaginosa anormal, que pode cal­
cificar posteriormente. Elas também possuem uma tendên­
cia à malignização. 
A acondroplasia, fonna mais co1nu1n de nanisn10, é unia 
anonnalidade na conversão da cartilagem e1n osso que afe­
ta, principahnente, <1s epilises dos ossos longos. Produz l11na 
redução acentuada e desproporcional de alguns ossos do 
corpo. Essa doença é decorrente de um gene do111inante que 
se caracteriza pela falha na proliferação de cClulas 
cartilaginosas e fecha1nento precoce das placas de cresci­
mento. Os ossos que exibem u1n precursor 1ne1nbranoso não 
são afetados (face, crânio). Geraln1ente o resullado é uni 
anão, com a cabeça e o tronco de tamanho nonnal, porém 
com braços e pernas encurtados. 
A osteopetrose (doença de Alpers-Schõnberg - ossos 
marmóreos) é tima condição hereditária caracterizada por uma 
hipermineralização do córtex e estreitamento da medula, resul­
tando em osso quebradiço, que se fratura facilmente. 
Displasia fibrosa é um erro na remodelação óssea que pro­
duz áreas onde o osso reabsorvido é substituído por tecido 
lihroso e osso 1nalformado. Os focos mais comuns estão no 
1t:1nur. na tíbia, no 1naxilar e no crjuio. Lesões iniciais surgem 
co111 a substituição do estroina local de tecido fibroso por osso 
111cn1hranoso pnhre111c11te fon11ado. sc1n cstn1tura lamelar inter­
na. (Ju;.111do os ossos da Jhce estão envolvidos, pode1n estar· 
presentes distorções severas da órbita, do nariz e do maxilar. 
Neoplasias 
Os ossos, fonnados por vários tipos de tecidos, são sede 
possível de ncoplasias originadas cm células ósseas, çartila­
ginosas, libroblásticas, vasculares e n1edulares. Em c6rpos 
csqueletizados. obviamente, as partes não-calcificadás das 
neoplasias são perdidas durante as fases da putrefação. Por 
isso. os dados morfológicos utilizados pelos patologistas no 
diagnóstico diferencial macro e microscópico ficam muito pre­
judicados. Contudo, havendo informação da presença de uma 
ncoplasia óssea em vida, é preciso fazer a busca no esque­
leto, na mes1na região comprometida pelo tumor na pessoa 
desaparecida. 
Assim, neoplasias malignas, invasivas e destrutivas dei­
xarão apenas falhas no osso comprprnetido, uma vez que são 
constituídas, c1n geral, por tecidos moles, que desaparecem 
n:i evolução do processo de putrefl1i.:ão. Mes1nll o sarco111a 
ostcogênico apresenta áreas extensas constituídas por teci­
dos de células polimorfas atípicas cm meio a necrose, a va­
sos sanguíneos e a hcn1orragia . .lú o 1niclo111a 1núltiplo, tu1nor 
111aligno de eêlulas plas1núticas, que <1co111clc as cavidades. 
111cdulares dos ossos afetados, é prontamente reconhecível 
por deixar múltiplas e características lesões osteolíticas de 
fonnato ovalar. principalmente no crânio. 
Então, o mais importante é examinar a cavidade medular, 
ou as falhas na estrutura do osso onde estava o tecido neoplá­
sico. Geralmente, a superficie do osso é muito irregular. Mas 
a localização desses defeitos é extremamente valiosa porque se 
sabe da prclCrência de certas neoplasias por regiões especificas 
nos ossos, por exemplo, zona metafisária (osteossarco.ma), 
epifises (condroblastomas) e diáfises (sarcoma de Ewing). 
Em se tratando de neoplasias fonnadas por osso 1nais 
maduro, é possível encontrar o próprio tecido neoplásico, 
1nas isso não é comu1n. Até o osteocondroma, tumor benig­
no constituído por tecidos ósseo e cartilaginoso maduros, 
pode estar parcialmente destruído, já que as cartilagens tam­
bê1n são deterioradas pelo processo de esquclctização. 
TAFONOMIA 
A Tafonon1ia, do grego taphos (= sepultar) e nomus 
(= leis). está incluída no rol das atividades da moderna 
Pah:ontologia, ciência que estuda o registro de vida no pas­
sado geológico, através da prospecção e identificação de 
fósseis. Pode ser definida como o estudo dos processos geo­
lógicos e biológicos que influenciam ou contaminam mate­
riais orgânicos - tais como o osso - após a morte. Os 
arqueologistas reconheceram a importância do entendimen­
to dos processos tafonômicos na interpretação apropriada de 
49 
1nodificaçõcscm materiais orgânicos hu1nanos. E1n geral, três 
categorias de variáveis podem ser identificadas como impor­
tantes nos estudos tafonô1nicos: 1) fatores individuais e 
111odo de vida, como características fisicas ou comporta1nen­
.tos de animais cujos restos estão sob questão; 2) variações 
climáticas que afetam os despojos, tais con10 o transporte de 
água e atividade de predadores; 3) quando o objeto de anú­
Iise C um ser humano, devem-se adicionar as influências cul­
turais e sociais, con10 o preparo do inorto e1n práticas de 
sepulta1nento5•1!. ~4 •37 • 
Recente1nente, a avaliação tafonô1nica tem crescido con10 
u1n co1nponente importante e vital na análise antropológica 
forense. O contexto forense necessita, e1n particular, da re­
construção dos processos peri111orte111 e posl 111or1e111 e da 
discriininação entre as 111odilicaçõcs decorrentes de proces­
sos naturais e os trau1nas induzidos pelo ho111en1. 
Após o .evento niorte, 1nuitas transfonnações po<le111 al­
terar a aparência de ossos e 111ateriais orgânicos relacionados. 
Existem fatores físicos, químicos, 1ninerais e anin1ais que, 
atuando isoladan1ente ou em conjunto, costu1na1n modificar 
os despojos, gerando confusão na interpretação da causa da 
1norte. Entre os fatores qup interfere1n no transporte e conse­
qüente dispersão dos elementos esqueléticos estão incluídos 
a ação de ani1nais, co1no pisadas, roedura, mastigação e di­
gestão; o movimento das águas no solo e aspectos fluviais; 
a força da gravidade; a queda de rochas e1n encostas; ten1-
pestades de areia; estado at1nosférico; diagênese; ondas de 
choque vulcânicas; sepulta1nento; ataque ácido de raízes; 
congelan1ento e 1nineralização pelos componentes do terreno. 
Restos hu1nanos ou de animais, quando expostos e1n lo­
cais abertos, exibe1n u1n padrão similar de desarticulação e de 
dispersão produzidos por pisadelas e atividade de carnívo­
ros. Esse conhecin1ento pode ser usado no rcstabclecin1c11-
tu da cCna do achado dos despojos e na intcrprct:.1çüo dt.: 
fragn1entos desaparecidos. Alé1n disso, as alterações provo­
cadas pelas pisadas, garras ou pelos dentes dos anin1ais são 
cvcntuahnenlc perceptíveis e caracterizadas por 111últiplas 
estriações finas, sulcos ou entalhes e111 fonna de V e outras 
depressões 1naiores ou 111es1no fraturas cn1 espiral, que e1n 
111uito se assemclha1n àquelas produzidas por artefatos hu111a­
nos (/,.ig. 5.3). As vezes, inclusive sob anúlise 111icroscópica, 
é bastante <lificil estabelecer se essas 111arcas fora111 decor­
rentes de ação ani1nal ou sccundúri:.1s ú utilizaç;io de ICrr;1-
111entas de corte ou objetos contundentes, induzidos por 
trauma hun1ano, distinção crítica na análise forense. 
Os processos tafonô1nicos relacionados às variações das 
condições atmosféricas, como temperatura, sol, chuvas, ven­
tos, innidade etc., reprcsenta1n a resposta do osso ao 1neio 
a1nbi~nte iinediato, auxiliando na con1preensào e reconstitui­
ção do intervalo post 111orten1. Os diversos graus de desgas­
te pelo ten1po confere111 progressivos padrões <le rachadura 
na supcrficie óssea e 1nudanças e1n sua textura. E1nbora nos 
casos forenses esse intervalo seja 1nuito 111ais curto do qut.: 
110 contexto paleonlolúgico, o conhcei1nc1110 das ;dlcr;u,:ôcs 
;.unbientais pode ser h{1bil para <lescurtar tn.1u111a peri111or1<.·1u. 
Na estin1ativa do intervalo post n1orte111, o estudo de 
artrópodes e de outros fatores relativos à fauna cadavérica 
associados com os despojos, realizado por cnto1nologistas. 
50 
pode contribuir para essa dctenninação. Existe unia certa 
predileção na aposição das larvas de insetos nccrófagos 
nos orifícios naturais do corpo, como também em cavida­
des neofonnadas. produzidas por trau1na relacionado à 
tnortc, orientando o investigador forense. Todavia, sabe-se 
que a taxa de decon1posiçào é bastante variável entre as 
diferentes regiões geográficas e entre os 1nicroa111bicntcs 
dentro de cada região. Fatores que influenciam na veloci­
dade da deco1nposição podc1n ser: te111peratura ambiente, 
quantidade de chuva, vestes, espécie de sepultamento, 
profundidade do cntcrra1nento, extensão da mordedura 
anin1al e desarticulação, di1nensão do traun1a peri111orte111, 
reso corporal e condições clin1áticas e111 geral. Fcnô1nenos 
cadavéricos conscrvativos nnturais, con10 a 111un1ilicuçào 
e .a adipocera. são basicanu:nte decorrentes de clinu1s ári­
dos ou ú111idos, respcctiva111ente. Já en1 clilnas tropicais, 
ten1 sido <locun1entada esquclctizaçào quase con1pleta en1 
apenas duas senu1nasn. 
APLICAÇÕES NA ANTROPOLOGIA FORENSE 
Muitos dos princípios paleontológicos e arqueológicos 
tê1n utilidade direta na Antropologia Forense. Com relação à 
aplicação forense, intercssa1n a estiinativa do intervalo post 
1norte1u (tempo desde a 1norte) e a diferenciação entre as al­
terações tafonônlicas e as trau1náticas 1 ~. 
A avaliação tafonô1nica de restos hu1nanos difere daquela 
de anin1ais, não son1ente por causa das diferenças estruturais 
entre an1bos - que pode influenciar a resposta às forças 
tafonô111icas -, 1nas cspcciahnentc porque no ser humano 
nonnallncnte está envolvido o trata1nento posl 111orte1n do 
ii1dividuo falecido. Então, con1 hu1nanos, a interpretação do in­
tervalo posl 111orte111 inclui, alé111 dos possíveis efeitos a111bien-
.. l<1is e lisicos, o .. :111balsa111a1nc11to, a crc111:.iç:.io e outros tipos 
de quein1adura, sepultaincnto, fCchan1cnto e111 caixões e 1nui­
tos outros fatores culturais. 
Na prática <la Antropologia Forense, çonsiderações 
tafo11ô111icas tê111 sido utilizadas para a interpretação global de 
todos os eventos que afeta1n os despojos entre·ª 111ortc e a 
descoberta. Unia vez que a 111aioria dos antropologistas fo­
renses ta1nbén1 é experiente e1n aspectos de Arqueologia. 
.eles torna111-sc 1nais qualilieados parn tais averiguações. E111 
1nqitos casos. a avaliat,:t"io taro11ó111icn representa a 111ais iln­
portanle contribuiçüo !Cita por antropologistas. Isso é cspc­
ciahnente verdadeiro na interpretação de evidências ósseas 
decorrentes de traun1as. 
Estimativa do Intervalo Post morrem 
En1bora o estudo de artrópodes associados con1 os des­
pojos e outros ratores possa111 contribuir para a estin1ativa do 
intervalo post 11u1rte111. usuahnentc tais interpretações cn1 res­
lllS hu111<11H1s an1pl:1111e11tc csq11elL·ti1.:ul11s 11ii11 envolve111 essa 
nvalia~·:io. l'L·squisa l"L'CL'lllL' 1.· 1.".\JK'riéucias 10111 docu111e11l<1do 
qu;io vari:.ívcl a ta:"a de dcco1nposiç:.io pode ser. Alguns ll1-
torcs capazes de influenciar essas variações são: te111peratura 
<Hnbicntc, quantid;:ide de chuva. \'estes. espécie·de scpulta­
n1cnto, profundidade do enterra111cnto. extensão da n1ordedu-
ra aniinal e desa11iculação, extensão do trau111a peri111or1en1, 
peso corporal e condições :.unbientais gerais". 
O padrão das alterações 11ost 111orten1 varia regionahnen­
te e entre os 1nicroa111bientcs dentro de cada região geográ­
fica. Galloway et ai. ( 1989) documentaram evaporação rápida 
e extensiva rnun1ificação no clin1a seco do Sudeste do Arizona. 
Cli1nas tropicais podcnt acarretar csquclctizaçào c111 duas sc-
1nanas. Congela111ento e <lcscongelan1ento, assiin conto injú­
ria 1necânica, pode111 influenciar no processo. A fonnação de 
adipocera e1n clin1as ú111idos pode conduzir a lnna excepcio­
nal prcscrvaç:io por longo tr.:111po. 
O padrão geral de desarticulação e desgaste ósseo docu­
mentado em estudos experiinentais que serven1 de base para 
os interesses paleontológicos a\gutnas vezes é aplicado 
iguahncntc a hu111:1nos. l)e rato, Bielcnstcin ( 1990) dc111011s­
trou que os estágios de 13ehrcns1neyer ( 1978) relativos à se­
qüência de desgaste ósseo se equivalem ou são n1uito 
similares aos dos n1odernos casos forenses~.i~. 
Anin1ais diferentes gcnun padrões distintos de 111arcas de 
dentes cn1 ossos hun1anos. A quantidade de atividade carní­
vora varia consideravehnente devido às circunstâncias que 
abriga1n os despojos ao acesso do ani111al e à densidade de 
população lnnnanana úrca. Co111 restos lnnnanos, l·laglund 
et ai. 12 docu111entan1 cinco estágios de alteração seqüencial 
devido à varredura por canídeos: l) se1n envolvin1ento ósseo; 
2) dano no tórax ventral, co111 tuna ou a1nbas as extre1nidades 
superiores removidas; 3) envolvi1nento da extren1idadc 111ais 
infl::rior; 4) son1cntc scg111i:ntos vi:rtcbrais pcnnanccendo ar­
ticulados~ 5) total desarticulação. 
Obviamente, a ocorrência de u1n trau1na prévio nos des­
pojos e outros ll1tores poui.:o 1.:0111uns pode1n inllucnciar a 
seqüência de 1nudança. 
Pesquisa da Universidade do Tennesse en1 Knoxville 
demonstrou que a gordura - ácidos graxos voláteis pro­
duzidos pela decomposição de partes tnoles - e ânions e 
cátions, também derivados de partes moles, poden1 ser de­
tectados no interior do solo en1 1neio aos restos hun1anos. 
A medida desses fatores en1 an1ostras controladas pode per-
1nitir estilnar, con1 acuidade, intervalos post 111orten1 en1 algu­
mas circunstâncias46
• 
Dlaj!nóstlco Diferencial entre Alterações 
Tafonômicas e Traumáticas 
Urna variedade de eventos peri111orte111 e processos posl 
111orte111 pode ser deduzida através do estudo da cor dos os­
sos, dos detalhes de superlicie e do fonn<1lo dos 111cs111os. 
Crc1nação, cscalpel:uncnto e criação de <llnulctos a partir de 
despojos ancestrais constitue111 alguns cxc1nplos de n1uitas 
das condutas culturais que podc111 estar relli...:tidas en1 :unos­
tras esqueléticas antigas. Aspectos quínticos, biológicos e li­
sices do a1nbiente deposicional tarnbé111 deixa1n assinaturas 
diagnósticas nos restos recuperados. Entre os tnais co1nuns 
desses agentes estão as condições erosivas do solo e roe­
duras por animais. Tais 1nudanças pode1n revelar infonnação 
importante concernente aos eventos perilnorten1. Cadáveres 
expostos sobre ou sob o solo - isentos de técnicas para se­
pultamento,· por exe1nplo-111ostram evidências da atividade 
de carnívoros ou insetos, assi1n co1no tnudanças na cor e na 
textura do osso12..i2..i4• 
Algu1nas vezes é dificil distinguir mudanças post 111orten1 
daquelas que ocorreram antes da morte. Depressões ovais 
que resultam da ação de insetos e acidificação do solo têrn 
sido freqüentemente confundidas com os efeitos de doenças 
que produze111 reabsorção óssea anormal. 
Será abordada a seguir urna variedade de meios pelos 
quais os ossos podem ser alterados a partir da morte, com 
ênfase sobre as 1nudanças 111ais cornurnente observadas em 
111ah::riais nurte-an1ericanos. Essa aprcscntaçào descreve 1nu­
danças típicas na cor, na textura da superfície e no aspecto, 
correlacionando os estados alterados cotn fatores causais es­
pecí licos, tais con10 calor, exposição à luz solar e n1ordcdura 
de a11i111ais. 
TIPOS DE ALTERAÇÃO 
Cor 
Ossos frescos (não-tratados) exibem urna cor de marfim. 
Un1a variedade de agentes, abrangendo objetos colocados 
junto ao corpo, rituais 1nortuários e o meio onde se fez o se­
pulta1nento, pode causar 1nudanças na sua cor. Exposição a 
calor (carbonização), quer acidental, quer intencional, ou 
co1no parte de um procedimento de enterro (cre1nação), causa 
tnudanças sistemáticas de cor que dão informação sobre a 
rontc do calor e sua intensidade. /\ tc1nperalura pode ser cs­
ti1nada pelo fato de que o osso queimado a te1nperaturas re­
lativa1nente baixas (200 a 300"C) assume urna condição 
acastanhada ou preta, con1 aspecto "esliunaçado'', e·nquanto 
em te1nperaturas mais elevadas o osso toma-se cinza-.azulado 
ou branco calcinado (800"C)'·". 
A padronização das mudanças de cor induzidas pelo au-
1nento de temperatura pode também dar informações sobre a 
condição dos cadáveres no momento da incineração. Áreas 
dos ossos protegidas pelas partes moles costumam resistir 
1nais às altas temperaturas; por isso, a coloração difere da dos 
seg1nentos expostos por ser sugestiva de temperaturas mais 
baixas (Figs. 5.4A e B e 5.5). 
Objetos de metal enterrados com os despojos podem pro­
duzir 1nanchas nos ossos. O nrais co1nun1 em 1nateriais 
inun1ados é a observação de uma coloração avermelhada pró­
pria do contato com o cobre40
• 
O osso 1nuitas vezes muda de cor em resposta à presen­
ça de bactérias, fungos, vegetais e 1nincrais do solo que es­
tão presentes no a1nbicntc. /\. 1naioria desses agentes irú 
escurcccr o osso, eonfCrindo tonalidades 111:.11Ton1-avcnnelha­
da, esverdeada, cinza ou enegrecida. En1 contraste, a exposi­
ç:io aos cf"citos alvejantes da luz solar ou o conlnto 
prolongado con1 a água do 1nar poderão levar o osso a assu-
1nir urna cor calcária, extrabranca. 
Algu1nas condições específicas, tais como a espécie. de 
tnadeira utilizada na confecção do caixão, o uso de detenni­
nados 1netais para lacrar a uma funerária, a existência de res­
taurações dentárias no cadáver, à base de amálgama ou ouro, 
e o encontro de corpos estranhos no interior do corpo -
co1110 próteses, órteses ou projéteis de arma de fogo-, cos-
51 
tumam impregnar o esqueleto com manchas características 
que necessitam de análise criteriosa, feita por pessoal treina­
do, iniciando-se pelo exame do local40•46• 
Mudanças de Superfície 
A textura da superficie do osso pode ser alterada porca­
lor, raízes de plantas, insetos, vennes, características do se­
dimento do solo, animais escavadores e atividade humana. 
Objetivando a apreciação completa da natureza das altera­
ções de superficie, o observador é encorajado a usar lentes 
de aumento ou microscópio de baixo poder de resolução sob 
luz brilhante. 
Quando os ossos são expostos a calor suficiente para 
induzir calcinação, sua superficie externa tende a estalar e 
apresentar fendas. Se o contingente ósseo está incluído en1 
um componente orgânico significativo e é queimado, as su­
perficies externas passam a apresentar fendas transversais 
e longitudinais (Fig. 5. 6). Tal evidência de queimadura de 
ossos frescos contrasta com aqueles queimados se1n a 1na­
téria orgânica. O padrão resultante da queimadura de osso 
seco apresenta tipicamente menor intensidade na modifica­
ção da superficie, fundamentalmente com rachaduras rasas, 
par~lelas ao eixo principal, isto é, o osso irá lascar longitu­
dinalmente5. 
Raízes de plantas em contato com os ossos podem pro­
duzir padrões dendríticos semelhantes às impressões de va­
sos sanguíneos. Essas trilhas de raiz podem tornar-se 
descoloridas por meio da descalcificação ácida. Esses sulcos 
não devem ser mal interpretados como evidência de patolo­
gia ou atividades culturais. 
Os insetos, vermes e outros animais da microfauna da 
cova podem produzir depressões ósseas ovais que mimetizam 
a reabsorção óssea anormal. Nos casos de lesão e1n vida, é 
possível ver focos de reação óssea. 
O osso exposto no terreno será desgastado pelos fatores 
atmosféricos, de acordo com uma seqüência definida. Inicia 
com pequenas rachaduras superficiais e termina com verdadei­
ras lascaduras5·12
• Tais alterações não sofrem influências locais. 
Marcas de dentes, tanto de carnívoros como de herbí­
voros (basicamente roedores), são comumente observadas 
sobre restos humanos. Os carnívoros atacam, tipicamente, 
as epífises de ossos longos, onde podem ser vistos sulcos, 
marcas de furos e pequenas depressões cuneiformes, que 
fazem o diagnóstico. As costelas também estão sujeitas à 
ação dos carnívoros. 
Marcas de corte poden1 fornecer indício de escalpela1ncn­
to ou preparação de cadáveres durante o curso de um ritual 
mortuário. As produzidas durante descamamento e dcsme111-
bra1ncnto co1n freqüência agrupa111-se ao redor <le regiões 
anatômicas específicas, tais como inserção de tendões e liga­
mentos. O tipo de ferramenta usada para remover a carne 
pode ser deduzido por 111eio do cx~1111c de u111a scc(,:ão da :'irca 
de corte. Secções transversais em forma de V estão associa­
das com lâminas de pedra ou facas de 1nctal. Fcrr::uncntas do 
tipo goiva usualmente produzen1 contornos an1plos e rasos. 
Cortes e arranhões produzidos durante a escavação podem 
ser distinguidos dos eventos perin1ortc111 ou imediatamente 
52post 111orte111 pela inspeção da cor do osso na base do corte. 
Marcas recentes terão cor mais clara, enquanto procedimen­
tos mais antigos são evidenciados por estarem manchados, 
sujos ou modificados pelas deposições ambientais e, conse­
qlientcmente, equiparam-se ao restante do osso38
•
42
• 
Modificações de Forma 
Diversos fatores 11eri111orten1 e post 111orte1n podem cau­
sar 1nudanças na fonna do osso. A pressão do solo pode in­
duzir deformação, especialmente em crânios jovens, em que 
pequenas compressões podem alterar o resultado das medi­
ções dos diâmetros cefálicos. Do mesmo modo, ossos fres­
cos queiinados a temperaturas elevadas com freqüência 
tomam-se arqueados e podem encolher. 
Algumas das causas de fratura 11ost 111orten1 são: desidra­
tação, acúmulo de sal, carbonização, pressão exercida pelo 
solo, ação de animais carniceiros e esmagamento por pisadas. 
É importante distingui-las das fraturas produzidas por seres 
humanos, à época da morte. Uma vez que fraturas· em espiral 
podem resultar tanto de traumas induzidos pelo homem como 
da atividade de animais, elas são indicativas de eventos 
ante111arte111ou11eri111orte111. Quando a fratura ocorre 1nuito 
te1npo após a morte, e1n tecidos co111 baixo teor de colágeno, 
tipicamente têm as bordas quadradas, com ângulos perpen­
diculares à superfície óssea, enquanto fraturas peritnorte111 
tendem a fonnar ângulos oblíquos. 
Outros sinais de atividade humana podem ser encontra­
dos como lesões características, produzidas por instrumen­
tos diversos, tais co1no: 111artclos, 1nachados, enxadas, cientes 
de scn·a, thcas e projéteis de anna de fogo, tanto antes co1110 
depois da morte (Figs. 5. 7 e 5.8). 
Os ossos foram utilizados por um longo período de tem­
po, seja co1110 elc1ncntos inalterados ou cm formas esculpi­
das, co1no ornan1cntos ou ferra1nentas. Crânios, dentes e 
ossos longos eram os espécimes preferidos para decoração 
através de pinturas e esculturas, ou então modificados para 
criar máscaras, pingentes ou outras formas de adorno. Uten­
sílios do tipo furadores, flautas, castiçais, pratos e xícaras 
também estiveram em moda, feitos a partir de ossos humanos. 
Fratura post 111orte111, próxima ao forâmen magno ou sobre 
~mbos os lados da abóbada craniana - acompanhada por 
sinais de desgaste pelo tempo -, pode servir como evidên­
cia de que um crânio foi colocado sobre uma estaca ou usa­
do como um suporte de prateleira. 
DIAGNÓSTICO DA ESPÉCIE: HUMANO OU 
ANIMAL 
A idcntilicaç~o isolada de fi·agn1cntos ósseos pode ser 
uma tarefa difícil, mesmo para tnn especialista. Em algumas 
situações, restos humanos são encontrados junto aos de ani­
n1ais e, :is vezes, 111ostr:11n-sc tão :ilterados pcln exposição 
an1biental, prática de sepultamento ou exposição a tempera­
turas elevadas, que os traços anatôn1icos característicos da 
nossa espécie fica1n pouco distinguíveis. 
Das amostras forenses a1ncricanas subn1etidas a exame, 
cerca de 10 a 15o/o não são humanas37
• En1 nosso meio, não 
encontramos anúlise estatística a respeito. Frcqücnte1ncnte, 
são enviados aos Institutos de Medicina Legal ossos de ani­
mais domésticos, tais corno cães, gatos, aves e também de 
bovinos, suínos e caprinos. Alé111 disso, pode1n estar 1nistu­
r;;u.los a objetos diversos, a 111aioria representada por pedaços 
de pedra, madeira, vidro, plástico etc. Logo, o pri1neiro pro­
blen1a a ser resolvido qunndo chega tnna "ossada" C a dife­
renciação entre ossos humanos e de aniinais. 
A base técnica para o reconhecimento de ossos humanos 
é o conhecimento detalhado das particularidades anatômicas 
de nosso esqueleto. Também é conveniente conhecer 1nelhor 
a estrutura macro e microscópica dos ossos das espécies 
mais comuns de animais, com o objetivo de estabelecer pa­
râmetros comparativos. 
Em geral, os ossos longos da 1naioria das outras espécies 
de animais adultos - com tamanho comparável à humana -
têm arquitetura óssea diferente e, usuahnente, aprcsenta1n 
aspecto externo mais grosseiro, com ca1nadas corticais mais 
compactas (Fig. 5.9). Todavia, o critério da comparação pelo 
tamanho entre ossos hu1nanos e de ani1nais não deve ser le­
vado em consideração caso se trate de esqueleto humano 
imaturo oujuveni1-i.J9, 
Em res_u1no, se o osso não é hu1nano, ou não parece 
ser, o primeiro ponto a ser considerado nas amostras ani­
mais é o seu tamanho. A seguir, deve-se sempre ter atenção 
con1 respeito ao grau de crcsci1ncnto e dcscnvolvin1cnto ós­
seos, através do estudo das 111etúlises para avaliar a idade 
do espécime. 
Quando os restos encontram-se extremamente fragmen­
tados, ou quando os traços norn1ais sofreram nlternções 
signilicalivas, con10 observado e1n certas doenças, inten1-
péries climáticas ou procedimentos cirúrgicos, o diagnósti­
co só poderá ser realizado pelo aspecto 1nicroscópico do 
osso cortical. 
Em humanos, os ósteons, unidade histológica do osso 
cortical, acham-se espalhados, dispersos, com um certo 
espaçamento no interior do osso \a1nelar circunferencial, o 
qual exibe uni aspecto con1 disposição cn1 ca111adas. En1 1nui­
tos outros animais, os ósteons tende111 a se alinhar em filei­
ras limitadas por bandas ou e1n estruturns de fonnato 
retangular, Chamadas de osso plexifom1e. Etnbora o encontro 
de um padrão plexiforme possa afastar a possibilidade de ser 
humano, a grande variação entre as diversas espécies, inclu­
sive entre os ossos de un1 1nesn10 ani1nal, faz con1 que a dis­
persão de ósteons seja inconclusiva7
•
27
• 
A existência de diferentes padrões ússeos entre hu111anos 
e ani1nais tc1n que ser ben1 estab!!lecida. ()osso pl!!xifonnc é 
definido pe.lo seu modo de organização regular, retangular e 
horizontal, sendo comumente visto em mamíferos. Todavia, 
raramente pode ser observado em ossos humanos, especial­
mente em crianças. Outros tipos de modelagem óssea são 
mais dificeis para o estabelecimento da distinção entre huma­
nos e animais. 
Os ósteons secundários ou sistemas de Havers consti­
tuem pequenos pacotes de osso lamelar que circundam um 
canal de Havers, estando limitados por unia linha de cimen­
to. Os ósteons secundários substitue1n o osso primário e po­
dem aparecer isolados, dispersos ou densamente agrupados, 
porérn há urna tendência para a distribuição ao acaso. Embora 
a maioria dos vertebrados não exiba um padrão de osso 
haversiano denso, como nos seres humanos, estudos com­
parativos revelam que nem sempre é possível uma identifica­
ção positiva pelo encontro desse padrão. 
Uma organização linear dos sistemas haversianos em os­
sos de ani1nais, em que os óstcons se alinh:.un cm fileiras, tem 
sido relatada; entretanto, não foi quantificada. A presença ou 
ausência de faixas de ósteons deverá ser registrada. Quando 
esses tipos de bandas estiverem presentes nas amostras, as 
espécies poderão ser diferenciadas. 
Nos estudos realizados em porcos, ovelhas e cães, as 
secções ósseas humanas e não-humanas têm exibido várias 
diferenças 1nicroscópicas. A maioria dos ossos de animais foi 
pronta1nente distinguida dos ossos humanos pela presença 
difundida de osso plexiforme. A falta de formação de ósteons 
nas an1ostras animais pode ser parcialmente atribuída à ida­
de jovem dos espécimes. Os animais mais velhos precisam 
ser pesquisados em estudos ulteriores para analisar possíveis 
padrões de bandeamento27
• 
A capacidade de identificar diferenças histológicas sutis 
entre ossos humanos e não-humanos pode ser de grande im­
portância nas análises forenses, particularmente em casos em 
que somente pequenos fragmentos ósseos estão disponíveis. 
Em alguns casos, ossos de animais podem ser facilmente di­
ferenciados pela presença ele osso plcxifonne. Se un1 frag-
111ento niio apresentar esse indicador conliúvcl, todavia, 
outros fatores como padrões de bandeamento deverão ser 
úteis para a sua identificação. · 
DETERMINAÇÃO DO SEXO 
O diagnóstico correto do sexo pode ser realizado c1n 
100% dos casos, desde que: 
l) o esqueleto se encontre completo e em bom estado de 
conservação;2) o indivíduo seja .adulto; 
3) a variabilidade 111or!On1étrica intragrupal da população 
a que pertence o espécime seja conhecida. 
As diferenças sexuais começam a se desenvolver no e.s­
queleto antes mesmo do nascin1ento. A largura da chanfra­
dura isquiática da pelve, a qual constitui um dos traços mais 
distintivos enl adultos, aumenta n1ais rapidamente em mulhe­
res durante o cresciinento fcta137• 
Por todo o período da infância e durante a adolescência, 
o di1norfisn10 sexual vai-se tomando mais marcado com o 
passar do te1npo, e os 1nétodos de reconhecimento· do sexo 
a partir de restos esqueléticos adquirem maior precisão. O 
fato de que as mulheres crescem mais rapidamente e amadu­
recem mais precocemente do que o homem faz com que seja 
necessário considerar a idade, quando se está estimando sexo 
em indivíduos jovens. 
Para adultos, o pesquisador deve considerar a morfologia 
do esqueleto como um todo, porém valorizando mais os de­
talhes da pelve. As estimativas de sexo baseadas no exame 
cuidadoso de uma pelve bem conservada costumam ter pre­
cisão de aproximadamente 100%. Se a pelve está fragmenta­
da ou desaparecida, outros critérios devem ser utilizados, 
53 
mas os resultados serão menos confiáveis. Se so1nente o crâ­
nio estiver presente e1n u111 contexto populacional desconhe­
cido ou se o indivíduo é i111aturo, o grau <lc confiança pode 
oscilar entre 80 e 90o/o. A faixa etária entre os 15 e os 18 anos 
constitui um limite a partir do qual a estimativa do sexo tem 
1naior exatidão6·14•37• 
Usualmente, o grau de robustez é empregado na qua­
lificação do aspecto sexual diferenciador. Essa caracterís­
tica pode estar relacionada ao tamanho do crânio, ao 
desenvolvimento das inserções musculares, a vários índi­
ces que expressan1 a relação da Jargura/diâ1netro con1 o 
comprimento, à espessura cortical, ao peso ósseo (abso­
luto ou relativo ao tamanho) ou a urna combinação de 
quaisquer desses fatores. 
5UBADULTOS: CRIANÇAS E JOVENS 
O sexo de subadultos deve ser estimado pela compara­
ção do estágio de formação e erupção dos dentes com o 
estágio de maturação do resto do esqueleto, excetuando-se 
o crânio (esqueleto pós-craniano). O 111étodo est:'! baseado 
no fato de que os esqueletos pós-cranianos an1adurece111 
mais lentamente en1 1neninos do que en1 111eninas, enquan­
to o percentual de calcificação dos dentes é quase o n1es­
mo. Logo, o sexo pode ser deduzido pela comparação entre 
o desenvolvimento dentário e o do esqueleto pós-craniano. 
Como ocorre um envelhecimento independente da dentição 
em relação ao esqueleto pós-craniano, usam-se os padrões 
estabelecidos para masculinos ao se examinar um subadulto 
desconhecido. Se as duas estimativas concordan1, o esque­
leto é provavelmente 1nasculino. Por outro lado, se os resul­
tados divergem largamente, o indivíduo desconhecido é 
provavelmente fen1inino. 
~111 razão da fragilidade dos esqueletos 111uito jovens, ge­
ralmente encontrados incompletos, hú necessidade de se es­
tabelecerem critérios para a detenninação do sexo por ossos 
isolados. As investigações de H. Schutkowsky (1993), cita­
do· por Cuencar', realizadas em u1n cen1itério infantil na Ingla­
terra, pennitira1n a definição de u1na série de características <la 
mandíbula e do ilíaco que possibilitam uma precisão no diag­
nóstico do sexo em cerca de 70 a 90o/o dos casos. Entretan­
to, a 111aioria dos antropologistas reconhece a diliculdadc no 
diagnóstico <lo sexo de u1n esqueleto jove1n. 
ADULTOS 
A partir da idade de aproxi1nada1nente 18 anos, as diferen­
ças ::;exuais são bem definidas no esqueleto, e as distinções 
podem, freqüentemente, ser feitas com confiança. As diferen­
ças 111ais significativas são de dois tipos: 1) tan1anho; 2) for-
111<1 relacionada ú li.111ção. · 
E1n geral, os ossos de ho1nens são 1nais longos, 1nais ro­
bustos, e exibem aspectos mais ásperos do que os fe1nininos. 
Também existem diferenças estruturais que são especiahnente 
pronunciadas na pelve, refletindo os trabalhos de parto en1 
mulheres. Abordaremos, sucessivamente, a pelve, o crânio, 
os ossos longos e as equações para cálculo a partir de n1e­
dições'.· e alterações devidas à parturição. 
54 
Pelve 
/\ pelve fornece os dados 111ais abundantes e lidedignos 
para a esti1nativa <lo sexo. De acordo con1 o dimorfis1no se­
xual, as 1nulheres possuem um corpo de tamanho menor que 
o dos ho1nens e, conseqüentemente, um púbis e toda a pelve 
geralmente mais delicados e mais leves; todavia, é observa­
da tuna extensão 1naior das ditnensões horizontais, sendo ver­
ticalmente 1nais curta. Diferenças entre esqueletos masculinos 
e fe1nininos são ben1 acentuadas e têm sido confirmadas por 
considerável nú111ero de pesquisadores. 
As diferenças sexuais ficam 1nais evidentes na porção 
anterior da bacia, visto que as alterações ocorrem principal­
mente na região mediana do púbis. Na porção posterior, a 
metamorfose na articulação sacroilíaca afeta ambos os os­
sos (sacro e ílio), e as mudanças são mais variáveis. O cres­
ci1nento adicional da superficic medial da sínfise pubiana 
amplia o canal pélvico das mulheres, configurando um ân­
gulo subpúbico largo e arredondado. Em geral, depois da 
fusão do ramo isquiopubiano, usualmente feita aos 7 a 8 
anos de idade, não são apreciados outros centros de crcs­
citnenlo na porção anterior da bacia. Ao nível da região ace­
tabular do púbis, que iguahncnte inicia seu processo de 
fusão por volta <la 111esn1a idade, ta1nbé111 se -n1anifesta1n 
poucos sinais de au1nento. Co1no conseqüência dessas mu­
danças, o arco subpúbico fen1inino é aberto e arredondado 
(nos homens forn1a Ulll ângulo agudo, mais fechado), e a 
sínfise é projetada e quadrangular, con1 uma pequena área 
triangular de osso adicional e1n sua margem ântero-inferior 
e co1n um evidente achata1nento de seu ra1no anterior. Por 
sua vez, a sínfise púbica 1nasculina é grossa, curta e 1nais 
triangular. Finahnente, con10 resultado da reabsorção da 
borda 1nedial do forâ1nen obturador - mais do. que por um 
alonga1nento do púbis-, sua fonna triangular é mais comum 
nas 1nulhercs de idade. 
Os li1nites descritos a seguir são pronta1nente perceptíveis 
e suficientes para a identificação prelin1inar5·6•3<•.37• 
• Tatnanho: a pelve feniinina é 111ais larga, ainda que a 
pelve 1nasculina possa ser 111ais pesada e n1ais robusta. 
• Chanfradura isquiática ou grande incisura isquiática 
(Fig,. 5./0A e 8 e 5.11): está localizada na junção entre o ílio 
. (plll'\':io plana, hori:t.onlal e :u:hatad;1, 111ais superior da pelve) 
e o isquio (porção 1nais baixa da pelve). E111 fe111ininos, a 
chanfradura é larga, ampla, grande, usualmente fonnando 
um ângulo de cerca de 60". Em 1nasculinos, é tipicamente 
inais estreita e fonna un1 ângulo de cerca de 30". Todavia, sua 
fbnna não é un1 bo1n indicador do sexo, tanto como a confor­
mação da região subpúbica, devido a uma série de fatores, 
incluindo a tendência de a incisura ser mais estreita em 
1nulhercs portadoras de osteo1na\{1ci:1, sen1elhanten1cnlc 
:ios ho1nt:ns. O ilíaco deverú ser segurado e1n posição ver­
tical, co1n a junção sacroilíaca direcionada para cima e a 
sínfise para baixo. 
• Área auricular: é a porção 111cdial do ílio, que se arti­
cula co1n o sacro. Tende a ser 111ais plana e1n ho1nens que 
e1n 111ulheres. 
• Sulco pré-auricular: é u1n entalhe entre a área auricular 
e_ a chanfradura isquiática. Quase sempre ocorre e111 femini-
nos, sendo rara cn1 1nasculinos. Se presente en1 hotnc:ns, é 
111ais raso do que cn1 1nulhercs. A Fig. 5.12 111ostr~1 un1 slii­
co pré-auricular. Ele c:stá localizado na borda in!Crior da su­
perfície auricular do ílio, estendendo-se na direção da 
incisura isquiática. Quando ausente, sua superfície é lisa 
ou discrcta1nente áspera, relacionada :l fixação dos liga-
1nc:ntos e 111úsculos. 
• Acetábulo: o acetábulo é tuna depressão arredondada 
na face lateral do osso ilíaco, onde se encaixa a cabeça do 
fêmur. É 1nais ampla en1 hon1cns do que e1n n1ulhcres. En­
contra-se situado en1tuna disposição 1nais anteriorizada en1 
indivíduos fe1nininos. 
• Púbis: o púbis é 1nais alongado en1 111ulheres, e o ângu­
lo subpúbico é mais aberto. Tais características guardam re­
h1ção co111 o processo de parturição. Na região subpúhica, 
devem ser observadas três estn1turas e1n particular: a 1narca­
ção do arco ventral, a concavidade subpúbica e a crista do 
ramo isquiopubiano (Fig.1·. 5. J 3 e 5. J 4). 
O arco \'entrai (ou crista do arco ventral) é u1na discreta 
elevação linear da 111arge111 do osso sobre a superficie ventral 
do púbis, que se inicia próxiino ao centro e se estende para 
baixo e para dentró. Sua 1narge1n 1nais inferior está separada 
da face sinfisiana por alguns milítnetros de osso. E1n ho1nens, 
essa elevação .está tipicamente ausente; lnna linha pode oca­
sionalmente ser observada - etn correspondência ao sítio do 
arco em mulheres-, e a sua margem inferior nunca se en­
contra separada da face sinfisiana, con10 acontece e1n fen1i­
ninos. Esse traço deve ser observado posicionando-se o 
osso com o púbis orientado com sua face ventral virada di­
retamente para o observador. 
A concavidade subpúbica é urna depressão na borda 
medial do ramo isquiopubiano, logo abaixo da sínfise. Em 
femininos, a borda inferior do ramo mostra urna concavidade 
larga e evidente, enquanto em masculinos ela está usual­
mente ausente ou tende a ser convexa. Essa observação 
deve ser feita com o osso sendo visto por sua face dorsal 
(Fig. 5. 13). 
A crista do ra1no isquiopubiano é a superficie 1nedial do 
ramo isquiopubiano imediata1nente abaixo da sínfise, que for­
ma urna elevação linear e estreita e1n 111ulhcres. Essa estn1tu­
ra é larga e plana nos homens. A porção 1ncdial do ra1110 
isquiopubiano é usualmente plana em homens. Como o grau 
de variação é elevado, esse traço é menos útil para a estima­
tiva do sexo do que o arco ventral ou a concavidade sub­
púbica (Fig. 5. J 4). 
De acordo co111 Phenice, citado por Buikstra~ e Ubc­
laker17, o arco ventral é o 1nclhor indicador, e a crista do 
ramo isquiopubiano é o índice de n1enor confiabilidade. 
Essas três características são suficientemente distintivas 
para permitir a Ídentificação correta em cerca de 96% dos 
espécimes modernos examinados, sendo mais evidentes 
no sexo feminino. 
Não há dúvida de que os ossos do quadril represen­
tam os indicadores mais confiáveis para a determinação do 
sexo no esqueleto humano. Em seu estudo, dá-se maior 
ênfase aos atributos da região subpúbica, à presença ou 
ausência de sulcos pré-auriculares e à fonna da grartdc 
incisura isquiútica. 
A pelve adulta é o 1nelhor indicador do sexo. Na adoles­
cência, a bacia feminina se alarga corno um meio de prepara­
ç<io para o parto, n1odificando a forma e o tamanho de muitas 
de suas partes, convertendo a cintura pélvica em um indica­
dor fidedigno ao término dessa metamorfose. Radiografias 
sugcrcn1 que esse período se estende aproximadamente por 
1 R. 1ncsc:s e linaliz:i ao:-: 15 anos de idade. 
Articulação Sacroi/íaca 
lscan e Derricd, citados por Cuenca<', desenvolveram um 
1nétodo visual para a determinação sexual na articulação 
sacroilíaca que correlaciona a metade posterior do osso 
iliaco e sua articulação com o sacro. As diferenças sexuais 
são analisadas c1n três estruturas dessa articulação e, de 
acordo cu111 os autores, aprcscnta1n a seguinte <licotoniia 
diferencial: 
1) sulco pré-auricular: nos indivíduos masculinos, é mui­
to raro. Nas tnulhcrcs, é profundo, largo, e engloba uma gran­
de extensão da borda auricular. Esse sulco pode desaparecer 
con1 a idade, quando a elevação auricular colapsa; 
2) espaço pós-auricular: nos homens é estreito; eventual­
mente, pode estar presente uma superficie articular adicional 
localizada na parte superior da tuberosidade ilíaca, que tem 
un1a fon11a ondulada. Nas 111ulheres, o espaço é muito gran­
de; os dois ossos não têm contato mútuo, exceto na super­
ficie articular. Ver Fig. 5.12; 
3) tubcrosid::tc.le ilíacu: no hon1cn1, é observada u1na estru­
tura ondulada. Nas mulheres, é mais variável, mas não se in­
clui a fonna ondulada; geralmente é cortante ou pode estar 
ausente. Se ocorrer esse último fenômeno, manifesta-se uma 
grande cavidade e a tuberosidade ilíaca se estende ao longo 
da crista. 
Sacro 
É outro osso de particular interesse para o diagnóstico 
do sexo em razão da sua situação posterior na cintura pél­
vica. É também o setor exclusivo da coluna vertepral a apre­
sentar dimorfismo sexual. Durante a adolescêntja, quando 
se fusionam suas partes laterais com o corpo, é o único sí­
tio que incrementa a largura pélvica posterio'f, e o que 
alarga o sacro, por sua vez, são as suas superfici~s laterais 
ou aladas. · 
O sacro 1nasculino é mni.s longo e mais e.'>treitQque o fe-
111ini110, 01lé1n de ter, às vezes, u1n sexto scgmcnto,110 que ja­
tnais ocorre no da mulher. Fazendo-se a inspeç~o de sua 
base, é possível observar que o diâmetro transverso da pri­
meira vértebra é maior no homem, com relação àS asas do 
osso, do que na mulher. Nesta, o diâmetro ocupa uriia exten­
são proporcionalmente menor, conforme visto rias Figs. 
5./5A e B. Por isso, alguns autores desenvolvera~ íntjices 
de proporcionalidade que discri1ninam bem os dais sexos 
(Stewart, 1968; Kimura, 1982 citados por Knight17) Ambos 
são calculados por uma fração em que o denominjl.dor é a 
largura da base e o numerador, o produto de 100, nmltipli­
cado pela largura de urna das asas (Kimura) ou do ~arpo de 
S 1 (Stcwa11)''. 
55 
Índice de Kimura 
Sexo Raça 
Masculino 
Feminino 
Negróides 
65,8 +/· 10, 1 
79,7 +/· 12,0 
Japoneses 
76,2 +!· 10,9 
92,2 +/· 10,0 
Caucasóides 
66, 7 +!· 15,3 
86,4 +/· 11 ,4 
Índice de Kimura: largura da asa x 100 
largura da base 
Crânio 
A estimativa do sexo feita por meio do crânio não é tão 
precisa como aquela baseada na pelve, mas deve ser usada 
na ausência de dados pélvicos. E111 geral, ho111ens exihc1n pro­
cessos n1astóidcs n1aiorcs, cristas supra-orbitárias 1nais sali­
entes e marcas de inserção muscular mais exuberantes e mais 
ásperas, especialmente sobre o osso occipital. Embora as di­
ferenças sexuais na morfologia craniana se diversifiquem ou 
se alterem pouco entre as populações, um antropologista fí­
sico experiente deve ser consultado. Um especialista pode 
identificar o sexo por meio do exame do crânio com uma pre­
cisão de 80 a 90%. Kalmey e Rathbum (1996), referidos por 
Ubelaker-n, forneceram um método empregando somente a 
porção petrosa do osso temporal. 
Apesar de os homens apresentarem crânios de dimensões 
maiores e de aspecto n1ais robusto do que as mulheres, a deter­
minação do sexo baseada nos caracteres morfológicos cranianos 
é uma tarefa desafiadora. A estimativa do sexo pela morfologia 
do crânio é viável em alguns grupos, enquanto para outros não. 
Dimorfismo Sexual do Crânio 
Aparcnte1nente, as 111u<lanças 1nais signilicalivas no crflnio 
restringem-se aos rapazes no período da adolescência tardia. 
enquanto as meninas 1nantêm o aspecto juvenil. A face 1nas­
culina torna-se alongada, os arcos superciliares (incluindo os 
seios frontais) aumenta1n, e o mento fica mais proeminente e 
quadr.1do. Ao mes1no tcn1po en1 que se a1nplia a espessura dos 
arcos superciliares, diminui a altura orbitária, sua borda supe­
rior torna-s~ mais encorpada e a ôrhita cm geral a<lquirc Ulll<l 
forma quack-angular. A chanfradura supra-orbital lica 111ais pro­
funda e pc:xie desembocar em um forâmen. Essas alterações 
conduzem~também a modificações na raiz e na fosseta nasal, 
levando a unia queda abrupta na linha que une o frontal aos 
ossos nasais, no násion, com proe1ninência da glabela. 
Embo·a existam descrições sobre tabelas <.:0111 111ediçõcs 
de diversos segmentos e acidentes ósseos do crânio e da 
face para' avaliação do din1orfismo sexual e do padrão racial 
dos cspétimes esqueléticos estudados, há outros atributos 
111:.~is siirplcs relacionados ao t:.1111anho, ~1 fonna e il rohustL'/. 
do crânio que devem ser considerados em ordem, con1 a fi­nalidade de desenvolver-se um critério para a estimativa do 
sexo a p:1rlir d:i 111orfologia eraniana. A 111;iioria dos auh1n·s 
thí l;nl~tsi! a cinco aspectos 1nor!'ológicos: a proe111i11ê11cia <la 
glabela; a agudeza da margem supra-orbital; a existência de 
crista nu::al (ou robustez da linha da nuca); o tamanho do pro­
cesso 111,1,stóiJc e a projeção da cn1inência 1ncntoniana='· 17
• 
56 
Observando-se o crânio de lado, o contorno do osso fron­
tal é liso e reto nas 111ulhcres. con1 pouca ·ou nenhuma 
prnjeção tíssea da linha 111édia. Nos ho1nens. há u111a proe-
111inência evi<lente <la glabela para fora da linha 111édia supra­
orbital, conferindo uma inclinação ao oss.o frontal e 
formando uma projeção arredondada em forma de colina, 
com freqüência associada a rebordas orbitais bem desenvol­
vidas (Figs. 5. l 6A e 8). 
tv\arQcn1 Supra-orbital 
Por 1neio da palpação da margem superior da órbita até a 
parte lateral externa do forâmcn supra-orbital, notam-se uma 
espessura menor e bordas cortantes nas mulheres, enquan­
to nos homens a margem é mais espessa e romba. 
Crista da Nuca 
Visualiza-se o perfil do occipital e palpa-se a superfície do 
osso ao nível das linhas de inserção muscular posterior; nas 
1nulhercs, a superfície extenHt do occipital é lisa. con1 111ínin1a 
projeção ôssea visível quando observada latcrahncnlc; nos 
hon1ens. há rugosidade na superfície, a protuberância é mais 
111arcada. podendo definir urna forte crista na nuca. às vezes 
em fonna de gancho (Figs. 5.17 e 5.18). 
Processo 1\·\astóidc 
J)eve-sc co111parar o seu ta1nanho co111 as estruturas que 
·o circundain, con10 o 111eato auditivo externo e o processo zigo­
mático do osso tc1nporal. A variável de niaior importância na 
marcação desse traço é o volu111e do processo mastóide, e 
não proprian1cntc o seu tamanho. Uni processo n1astóidc 
n1uito pequeno, que se projeta apenas a u1na distânciu n1íni­
ma para baixo da n1arge1n inferior do 1neato acústico externo 
e da ranhura digá'itrica, é comu1n en1 mulheres; já u1n processo 
111nstóide 111aciço. co1n con1prin1cnto e largura n1uito niaiorcs 
que o n1c;.1\o acüstico externo, deve ser assinalado <.:01110 
111asculino (/-'ig. 5.168). 
111111ll'I11 i.J .\ \c 'J lli li ll.111.J 
Seguran<lo-sc a 111andíbula <.:0111 os dedos polegares sobre 
o 111cnto e n1ovi111entando-os en1 direção às bordas laterais, 
ohserva1n-se pouca .projc1.;·ão óssea cin.·undanlc e u1n fonna-
to arredondado nas 1nulhcres; nos hotncns. há tuna projeção 
111:1inr e u111 fonnato quadrangular (Fig. 5. l'J). 
Dr/rrminaç-'10 dn Sf'\r> a fl.lr/ir do /?uram nco11it.il 
A base do crânio, especialmente a porção da região oc­
cipital co1nprCendida pelo forJ.1ncn e côndilos occipitais, cons­
titui uma área diferenciadora para o diagnóstico do padrão 
racial e dimorfismo sexual (Holland, 1986, citado por 
Cuenca6
), a partir de uma série de mensurações especificas. 
Sua utilização é válida em crânios frag1nentados que tenhmn 
conservado essa parte intacta e se não existirem outras fon-: 
tes de informação. 
E1n um estudo realizado por Teixeira (citado por Cuenca") 
en1 crânios brasileiros, foi encontrado que ;.1 úrca de super11-
cie dos indivíduos 111asculinos alcançou unia cifra igual 
ou superior a 963 111111 2 : nos fctnininos, igual ou inferior a 
805 1111112
• Vitória e (Jalv:io (1996) analisar:un os diün1etros 
sagital e transversal do buraco occipital de 114 cninios co­
nhecidos e concluíram que há dismorfis1no sexual; mas o ín­
dice de acertos no diagnóstico de cada indivíduo deixou a 
desejar. O 1nelhor dado discrin1inante encontrado foi o diân1c­
tro :-;agitai. 1nas con1 pour.:a eliciência: 5.1,58 4 ~·11 nas 111ulhcrcs 
e 65,52o/o nos hon1cns"x. 
OSSOS LOnl!OS 
As diferenças sexuais no esqueleto apendicular estão 
bem documentadas, e1nbora sejam 1nenos consistentes do 
que aquel:.1s sobre a pelve e o cninio. Apesar de os ossos 
1nasculinos tcndcrc1n a ser n1aiorcs e n1ais úsperos, a precisão 
da identificação sexual é reduzida, devido a u1na justaposição 
entre as séries de masculinos e femininos em u1na mesma po­
pulação e pela variação entre populações diferentes. 
No entanto, as 1nedições do diân1etro 111áxiino da cabeça 
do úmero e do fêtnur são especialmente vantajosas na esti­
mativa do sexo8.1 1..1''. 
De acordo con1 dados da literatura, poden1os construir a 
Tabela 5.1 para detenninação do sexo pelo diâ1netro vertical 
da cabeça do fêmur e do úmero. Corresponde a um plano per­
pendicular ao colo do osso. 
iitjfflj@ijl 
O estudo de Pearson, citado por Knight11
, foi feito _com 
inl:!leses do século XVII e, por isso, deve ser usado co1n cau­
tt:la, pois parece que a população teve au111ento do porte in­
dividual desde então. O estudo de Galvão foi feito em 102 
esquclctos de u111 cetnitério de Salvador (13A). sendo 52_ 111as­
culinos e 50 femininos. Sua taxa de erro foi de 4,88% para as 
mulheres e de 5,77º/o para os homens8
• ·• 
O diâmetro máximo da cabeça do Temur, ú1nero e rádio é ni­
tida111ente bom indicador do sexo e1n adultos, quando ele se 
acha fora de uma zona de coincidência4
• A inclinação que o eixo 
longitudinal do !emur faz com a vertical também serve como 
diferencial. O feminino é mais inclinado que o masculino. 
A esti1nativa do sexo pelos metatarsos é in1portante em si­
tuações forenses, unia vez que costumam estar bem preserva­
dos, sendo freqi.icnten1cnte recuperados do interior de 1neias 
e sapatos, os quais fomece1n proteção contra as intempéries 
clin1áticas e animais carniceiros e são facilmente recobradoS se 
os restos estão espalhados. Alé1n disso, a natureza robusta 
dos 111etatarsos làz co111 que eles se lorne1n úteis e1n contextos 
bioarqueológicos porque geraln1ente pennanecem intactos30
• 
Parturição 
E111 virtude da ilnportância dada à esti1nativa de tCcundi­
dade c1n estudos forenses e paleoden1ográficos. não é de sur­
preender que várias tentativas tenham sido feitas para 
docu1nentar o:-; c!Citos do parto sobre os ossos. A dctcnni­
nação do nú1ncro de partos pelo estudo da pelve feminina: é 
de relevante valor nos processos de identificação utilizados 
pela Antropologia Forense. 
As alterações são 1111.1is evidentes ao redor da sínfise, 
onde a gravidez força a fixação dos músculos e tendões da 
parede abdominal central, onde também, durante o trabalho 
de parto, os ligamentos arqueado e interpúbico são esti- · 
rados e rompidos. Cistos (bolsas) e nós de fibrocartilagem 
segue1n-se às roturas e pequenas hemorragias que ocor­
rem sob os ligamentos, especialmente sobre a superfície 
1nais interna, separada do canal do parto somente pelas 
paredes da bexiga. Sobre a face anterior da sínfise púbica, 
todavia, desenvolvem-se exostoses não diferentes daque­
las vistas c1n artrite de esqueletos mais idosos de ambos 
Determinação do Sexo a partir do Diâmetro Vertical da Cabeça do Fêmur e do Úmero (mm} 
Osso <:/ .9 7 •'1" 
Fêmur 
Pearson* < 41.5 41.5-43,5 43.5-44,5 44.5-45.5 > 45.5 
Galvão' < 42.8 42.8 > 42.8 
Maltby < 37 < 43 43-46 > 46 > 56 
úmero 
Dwight 42,67 48.76 
Galvão 39,05 45.46 
*Citado por Knight17 • 
'Fêmur direito 
57 
os sexos. Abaixo do tubérculo púbico, começa a se desen­
volver, após um ou dois nascimentos, u1na pequena fos­
sa chan1ada de espiral37
• 
De acordo com Ubelaker37, dados e opiniões adicionais 
fornm fornecidos por Stewart ( 1970-1972), Nemcskéri ( 1972), 
Ullrieh ( 1975), Bergfelder e Hemnann ( 1978) e Holt ( 1978). Já 
fora1n descritas as seguintes alterações: afundamento na 
1nargc1i1 ventral do púbis, alterações na parte superior da 
1nargen:i dorsal do púbis, depressões associadas co1n o sul­
co pri.:-auricular do ilíaco e entalhes sobre a 111arge111 
auricular do sacro. 
Mas Sud1ey el ai. ( 1979), referidos por Ubelaker 17
, encon­
traram pouca correlação entre o nú1nero de gestações a ter­
tno e a extensão do entalhamento dorsal do púbis. Notaran1 
que algumas 111ulhcres nulíparas tinha1n afunda111cnto de 111é­
dio a grande, enquanto outras, co111 várias gestações a tenno. 
careciamde 1nudanças ósseas. As alterações au111entavan1 
co1n a idade ao 1norrere1n, intlepentlente111ente tio nú1nero de 
gestações; entretanto, tornavam-nas u1n forte indicador do 
sexo feminino. 
DETERMINAÇÃO DA IDADE 
Estabelecidos o diagnóstico da espécie humana e o sexo 
do indivíduo, o próxilno passo é detenninar a que faixa etá­
ria pertence. Para a esti1nativa da idade, deve-se considerar 
um conjunto de características morfológicas do esqueleto 
que apresentam mudanças ao longo da vida. Essas altera­
ções não acontecem simultaneamente e no mesmo grau nos 
diferentes ossos e articulações. 
Desde o nasci1nenlo alé a adolescência, pode-se diagnos­
ticar a idade com boa aproximação por 1neio da observação 
da forma e do grau de 1netamorfose dos centros de ossifica­
ção, pela formação e erupção dentária, pela progressão do fe­
cha1nento metafisário e, tambétn, pelo comprimento dos 
ossos longos. 
A partir da puberdade, deve1n ser pesquisados a análise 
da bacia, através das particularidades 1norfológicas da 
sínfise pubiana e da superfície auricular da articulação 
sacroilíaca, o exame macros-cópico das extre1nidades das 
costelas em sua articulação condro-costal, o fecha1nento 
das suturas cranianas e o grau de desgaste dentário. 
O estudo microscópico da idade, denominado ta1nbé1n aná­
lise histomorfométrica mediante a contagem de ós-teons en1 
cortes finos de osso, é um tanto n1ais complicado e exibe un1a 
série de dificuldades, entre as quais iinpõem-se a destruição 
dos ossos longos para a extração dos cortes e, igualmente, a 
tàlta de equipa1nento e de pes-soal treinado. E111bora possa 
apresentar esses inconvenientes, é de grande utilidade quan­
do os ossos estão muito frag1nentados, tomando diflcil estin1ar 
a idade 111acros-copican1entc. 
EM JOVENS 
A estilnativa da idade de morte de u1n esqueleto i111aturo 
c.onsiste na tentativa de estabelecer a idade fisiológica do 
esqueleto e então correlacioná-la con1 a idade cronológica. 
A idade fisiológica de um esqueleto jove1n deve ser obtida 
58 
através de un1 ou n1ais dos seguintes siste1nas: aparecimento 
e_ união das epífises, ta1nanho ósseo, perda de dentes decíduos, 
erupção dos dentes permanentes e calcificação dentária. 
!deahncnte, todos esses sistemas deve1n ser consultados 
para tuna avaliação global da idade. 
O desenvolviinento dos dentes, o comprimento dos os­
s~s longos e a união das epífises são os principais critérios 
para a detenninação da idade em subadultos. o·desenvolvi-
1ncnto dentário fon1cce os resultados 111ais precisos. cspccial­
n1entc.: entre o nasci111c.:11to e os 1 O anos; todavia, todos os 
dados esqueléticos deve1n ser e1nprcgados1i.-11• 
Desenvolvimento Dentário 
/\ fonnação do dente (calciíicaçào) e a sua _en1ergência 
(erupção) pc.:la gengiva constituen1 os indicadores n1ais 
precisos de idade cronológica en1 subadultos. O dcscnvol­
vi111e11to dcntúrio e forte111enle controlado por fatores ge­
néticos, con1 influência 111inin1a do 111cio an1bicnte. E1nbora 
doenças cspccíticas -- con10 o hipopituitarisn10 e a sífilis 
-- possa111 n1otlilícar a taxa de desenvolvilnento dentário, 
a 1naioria das doenças afeta pouco os dent~s co1no un1 
todo, ainda que outras partes do esqueleto possam estar 
grande1ncntc alteradas. Tc111 sido de1nonstrado que desor­
dens endócrinas e outros proble1nas de desenvolvimento 
atinge1n os dentes so111ente en1 1/4, se con1parados co1n o 
resto do esqueleto. 
A literatura crescente sobre calcificação dentária te1n 
fon1ecido dados consideráveis para a sua utili:z;açào na esti-
111ativa ela idade. tanto para a dentição pri1nária (decídua) 
co1110 para os dcntt.:s pcnnanenles. 111ostrando, inclusive, que 
<1s dilCrenças sexuais aun1entan1 con1 a idade e que são 1naio­
rcs no canino 1nandibular. Pesquisas indica1n que a erupção 
de.ntal é 1nais afetada por influência nutricional, doença, va­
riação populacional e perda pre111atura de dentes. do que a 
fonnaçào do dente propriamente dita (Tabela 5.2). 
Estudos 1nais detalhados deverão ser realizados por odon­
tologistas forenses. 
Tamanho ósseo - comprimento de Ossos 
Lon!!os 
Na ausência de dentição, a detenninação da idade em 
crianças e adolescentes pode ser feita utilizando-se os com­
pri1nentos dos ossos longos. Esse 1nétodo não é muito exa­
to. unia vez que as taxas de crescitnento variam a1nplamentc 
entre populações e. inclusive. entre indivíduos de um mcs-
1110 grupo social. Contudo. a sua avaliação aproximada é es­
pccialincnte utilizada para crianças niuito jovens ou eni 
111atcrial !Ctal. quando a calciticaçào inco1nplcta f..'lz con1 que 
os dentes seja111 facihncnte perdidos ou quebrados. Padrões 
para a estiinativa do con1prin1ento ICtal e. subscqiicnte1nente. 
da idade de ossos individuais foran1 desenvolvidos por 
Fazekas e Kósa ( 1978) (Tahcla 5 . .3). 1-lú equações de regres­
são para calcular direta1nentc a idade da 111ortc pelo con1-
prin1cnto do fên1ur. da tibia. do lin1ero. do rádio e da ulna.17. 
Tahclas baseadas cn1 cxan1e de ultra-sonografia podc111 ser 
vistas para con1paração no Capítulo 29. 
1Ffiffê4fl 
Seqüência e Época da Erupção Dentária (Fonte: Mckern TW, sem data, citado por Steele e Bramblett, 1988)35 
Dentes Deciduos 
Idade 
Dentes 
lnc. Cent. lnf. 
lnc. Cent. Sup. 
lnc. Lat. Sup. 
lnc. Lat. Jnf. 
1° PM Sup. 
1° PM lnf. 
Can. (Sup. & lnf.) 
2' PM Sup. 
2' PM lnf. 
7,5 
Meses 
+ 
Ano 
+ 
+ 
+ 
2 
Anos 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
3 
Anos 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
Erupção (meses) 
6a8 
9 a 12 
12 a 14 
14 a 15 
15 a 16 
15 a 16 
20 a 24 
30 a 32 
30 a 32 
Dentes Permanentes 
Dentes 
1º Molar lnf. 
1° Molar Sup. 
lnc. Cent. lnf. 
lnc. Cent. Sup. 
Jnc. Lat. lnf. 
lnc. Lat. Sup. 
1° PM Sup. 
Canino lnf. 
1º PM lnf. 
2' PM Sup. 
2' PM lnf. 
Canino Sup. 
2° Molar lnf. 
20 Molar Sup. 
30 Molar lnf. 
3º Molar Sup. 
Meninos (anos) 
4,6 a 7,7 
4,8 a 7,9 
5,0 a 8,0 
5,8 a 9,0 
5,9 a 9.4 
6,7 a 10,5 
7,5 a 12,2 
8,3 a 13,2 
7,9 a 13,7 
8,1a14,2 
8,1a14,7 
9,0 a 14,3 
9.4 a 14,7 
9,9 a 15,3 
16,5 a 27,0 
16,5 a 27,0 
E111 que pese111 as alegações de Fazekus e Kósa de 4uc o 
erro raramente excede a nlctade de un1 111ês lunar, suas equa­
ções parecem considcravehncntc n1enos precisas quando 
aplicadas a amostras oriundas de populações diferentes e 
para contextos arqueológicos e forenscs~ 1 • 
U1na série <lc publicações está disponível para possibili­
tar a csti111ativa da idade pelo 1:11nanho dos ossos L'lll L'riant;as 
111ais velhas, c.:0111 dados dL·rivados prinL·ipal111entL' dc radio­
grafias, algu1nas vezes t.:onrlitantcs quanto ao grau de di-
1norfis1110 sexual. 
Aparecimento dos Centros de Ossificação e 
União das Epífises 
O aparecilnenlo dos centros de ossificação ten1 sido 
amplamente estudado por diversos aulores, en1 idades que 
variam desdé o período fetal até acima dos 15 anos. Toda­
via. os <lados relacionados ao surgirncnlo desses centros 
de ossificação são raran1entc empregados na ciência foren­
se, uma vez que são extremamente frágeis, facilmente 
quebráveis e. com freqüência, nem chegam a ser recupe­
rados. Mesmo quando esses elen1entos estão presentes. 
a 111aioria dos inv.cstigadon:s prerere esti111ar a idade a p;.ir-
Meninas (anos) 
4,3 a 7,5 
4,6 a 7,7 
5,6 a 8,7 
5,6 a 8,7 
5,6 a 9,0 
6,2 a 10,1 
7,1 a 12,9 
7,3 a 12,3 
7,3 a 13,0 
7,8 a 13,9 
7,5 a 14,1 
8,2 a 13,6 
8,9 a 14,3 
9,5 a 14,9 
16,5 a 27,0 
16,5 a 27,0 
tir do desenvolvin1ento dentário ou pelo comprimento d.os 
ossos longos. 
Até a adolescência, as hastes dos ossos longos (diáfises) 
estão separadas de suas cabeças ósseas (epífises) em ambas 
as extremidades. Próximo à puberdade. as epífises se unem 
con1 as diálises, terminando o crescimento longitudinal do 
osso e o conseqi.icnle au1nento da estatura. U1na vez que ocor­
rL'lll c111 tc111pos distintos sobre os diferentes ossos, cssas uni­
ücs são hust<.ulle úteis para se esli111ar a idade, espccialn1entc 
entre 1 O e 20 anos, quando os dados sobre dentição e compri­
mento dos ossos longos apresentam um valor limitado. 
A união das epífisesé fácil de ser observada porque.a 
superfície diafisária separada é caracteristicamente áspera e 
de aspecto irregular. 
Os registros existentes sobre a união das epífises são os 
1nais utilizados em Antropologia Forense, especialmenté na 
adolescência (Fig. 5.20). Existem na literatura padrões dispo­
nibilizados para a clavícula, 1não, punho e joelho. Quase lo­
dos os trabalhos se referem a u1na acentuada difcrcnçu 
sexual na época da união epifisária, ocorrendo mais precoce­
mente no sexo feminino em cerca de um ou dois anos em re­
lação ao sexo masculino. Deve-se notar, ainda, que a união 
t.:oniet;a 111ais t.:edo e1n 1nulhcrcs que cn1 hon1ens c que cn1 
59 
•M@'ii' 
Correlação entre a Média do Comprimento do Corpo 
Fetal e a Idade em Meses Lunares (Fazekas e Kósa, 
1978, Referidos por Ubelaker, 1999)37 
Média do Comprimento Idade em 
do Corpo (centímetros) Meses Lunares 
9,5 3 
12,3 3\/2 
17,3 4 
22,0 4Y2 
25,6 5 
27,3 5Y2 
30,6 6 
32,6 6Y2 
35,4 7 
37,5 7Y, 
49,0 B 
42,4 81" 
45;6 9 
48,0 9y, 
51,5 10 
ambos os sexos existe u1na vari~ão de dois a seis anos en­
tre os indivíduos. A junção aparece mais precoce1nentc no 
tornozelo e quadril, seguida pelo joelho e cotovelo e, final­
mente, pelo ombro e punho (Tabela 5.4). 
1M®'it1 
Idade do Início da União em Diversos Ossos (Ubelaker, 1999)37 
·Epífise 
Clavícula 
Escápula 
Úmero 
Rádio 
Ulna 
ir10 
Ísquio 
Fêmur 
Tíbia 
Fíbula 
60 
Extremidade Medial 
Acrômio 
Cabeça 
Grande Tuberosidade 
Tróclca 
Epicôndilo Lateral 
Epicôndilo Medial 
Cabeça 
Extremidade Distal 
Extremidade Distal 
Crista Ilíaca 
Púbis 
Tuberosidade lsquiática 
Cabeça 
T rocânter Maior 
T rocânter Menor 
Extremidade Distal 
Extremidade Proximal 
Extremidade Distal 
Extremidade Proximal 
Extremidade Distal 
Então, se possível, o sexo deve ser detenninado antes da 
idade por causa da união epifisária. Se o sexo for desconheci­
do, ;i cstilnativa devcní c111prcp.ar ;unhos os padrfics 1nasculino 
e IC111inino, con1 a inclusão <lc u111a 111argc1n apropriada de cm>. 
Vários problemas devem ser considerados quando dados 
sobre a união epifisária são aplicados a casos forenses. Com­
parando-se os dados de vários pesquisadores, têm sido re­
veladas diferenças de dois ou mais anos para a maioria das 
grandes epífises. indicando uma variação considerável na 
époc11 do !Cch.an1cnto 111ctalls:írio no interior de popula~·ôcs 
distintas. Stewart, referido por Ubelakerl7, tan1bém observou 
que a inspeção da união, grosso 111odo, geralmente produzes­
tin1ativas ligeiramente mais elevadas do que a avaliação ra­
diográfica, porque em muitos locais podem persistir linhas 
radiológicas que mimetizam uma união incompleta. 
A demonstração de que nonnalmente existe um lapso 
temporal entre o início e o término do fechamento faz com 
que seja enfatizada a importância da definição do estágio exa­
to da união de cada epífise, sendo mais apropriado que o uso 
de uma simples pontuação de "fechado" ou "aJ:>erto". O mes­
mo estudo também mostra que as diversas epífises não apre­
scntan1 u111 valor unifonnc para a csti111ativa da idade. Sf\o 
considerados os niclhorcs indicadores: o ú1nero proximal, o 
cpicôndilo 1ncdial do ú1ncro. o r..ídio distal, a cabeça do fêmur. 
o l'ê1nur distal, a crista ilíaca, a clavícula 1ncdial, os 3/4 <la jun­
ção sacra e as articulações sacrais laterais. Pode-se citar 
co1no exemplo a extremidade proxin1al do osso fêmur, que exi­
be três estágios no processo de soldadura. 
E1n resumo. quatro fatores devem ser considerados quan­
do se for utilizar a união cpifisária para o estabelecimento da 
Idade do Início da União 
Homens Mulheres 
18 a 22 17 a 21 
14 a 22 13 a 20 
14 a 21 14 a 20 
2a4 2a4 
11a15 na 13 
11 a 17 10 a 14 
15 a 18 13 a 15 
14 a 19 13 a 16 
16 a 20 16 a 19 
18 a 20 16 a 19 
17 a 20 17 a 19 
7a9 7a9 
17 a 22 16 a 20 
15 a 18 13 a 17 
16a 18 13 a 17 
15 a 17 13 a 17 
14 a 19 14 a 17 
15 a 19 14 a 17 
14 a 18 14 a 16 
14 a 20 14 a 18 
14 a 18 13 a 16 
idade: 1) o estágio exato da união de cada cpilisr.:; 2) o sr.:xo 
do in<livi<luo; 3) o li1nitr.: <lr.: variaç~o quanto ús épocas de 
união; 4) as difCrenças possíveis entre un1 exan1e grosseiro e 
os tnétodos radiográlicosh.n.~ 1 • 
EM ADULTOS 
Próxi1no à idade de 20 anos, a 1naioria dos dentes está 
completamente formada e erupcionada, a 1naioria das 
epífises está unida, e o crescimento longitudinal do osso 
está tenninado. Conseqüentemente, outros critérios deve111 
ser empregados para se estimar a idade e111 adultos. Dois ti­
pos de métodos são utilizados: 1nacroscópicos e tnicroscó­
picos. Os macroscópicos são mais rápidos e não envolve111 
destruição dos espéci111es. Os 1nicroscópicos rcquerc1n u111 
tempo 1naior, Cquipa1nento e experiência. necessitando de 
algun1a destruição, porém dão resultados mais precisos. 
As principais alterações 1nacroscópicas progressivas são 
a 1neta1norfose da sínfise pubiana; as alterações na supcrfi­
cie auricular _do ílio; a 1nodificação da extremidade anterior 
das costelas na junção condrocostal; o fechan1ento e apaga-
1nento das suturas no crânio; alterações degenerativas naco­
luna, articulaçOcs e crünio; rcahson;;io de osso esponjoso L' 
perda dos dentes. Vários cletnl!ntos t:squeléticos que se 
fusionam mais tardiamente, como as epífises esternais da cla­
vícula, a crista ilíaca e a sincondrose csfcnobasi\ar. são igu<1l-
1nen tc úteis para a distinção cntrt: adultos jovens e 
indivíduos mais velhos. Os li1nitcs de confiabilidade são di­
ferentes para cada método na dctenninação da idade. 
A Pelve 
O ilíaco ou osso i110111inado, pela deno1ninação inglesa, é 
composto por três ossos separados: o ílio. situado e1n sua 
pa11c superior; o isquio, póstero-inferior ou dorsal. e o púhis. 
anterior ou ventral. Esses três elcnientos pri1núrios da bacia 
se fusion1.1111 ao nível do acetúbulo, e111 torno dos 13 anos de 
idade nas 111eninas e dos 14 anos eni 111cninos (J·'ig. 5.21). /\ 
união final do ísquio com o púbis, no ângulo póstero-inferi­
or do forâmen obturador. e do ílio e ísquio - na chanfradura 
ciútica --·· se realiza próxinio <.1os 17 anos. /\. epííise iliaca ou 
lábio da crista ilíaca, centro secundário de ossiíicaçào loca­
lizado e111 sua porção extenia, aparece en1 tomo dos 12 anos. 
cn1 1ncninas, e dos 13 anos, nos n1l!ninos. O início de sua 
obliteração se. faz aproxiinadamente aos 15 anos e se completa 
perto dos 20 anos de idade (Figs. 5.22 e 5.23). 
A pelve é um excelente foco para a estimativa da idade, 
por alguns motivos: l) a fusão dos centros está relacionada 
com a idade de adulto jovem; 2) a sínfise púbica se relacio­
na com a maturidade alcançada na terceira, quarta e quinta 
décadas de vida dos indivíduos. Além disso, esses períodos 
correspondem, aproximada1ncnte, às mudanças cm outras 
regiões do corpo: 1) com a união das epífiscs dos ossos do 
cotovelo e, possivehnente, a obliteração da sutura esfeno­
basilar; 2) com o fecha1nento metafisário da mão, do on1bro. 
do joelho e da tenninação cstcrnal da clavícula; 3) está ta111-
bém correlacionada, ainda que eni menor grau. con1 o fecha­
mento das suturas cranianas. 
Sli1/ise Ptíbica 
Uni dos n1elhorcs critérios post 111orte1n para a avaliação 
da idade e1n restos humanos de adultos é a observação das 
niudanças niorfológicas progressivas que ocorrem na face 
sinfisiana do osso púbis, isto é, a superficie na qual um púbis 
se articula com o outro. Para a aplicação dos modelos utili­
zados nessa técnica de aferição da idade, deve-se atentar 
para a orientação adequada do osso púbis em relação ao ob­
servador e também estar suficientemente treinado para esta­
belecer o reconhecimento de certos caracteres morfológicos 
funda1nentais. São eles: sistemas de estrias e sulcos, 1nargem 
dorsal, plataforma dorsal, rampa ventral, nódulos ossificados, 
limites das bordas e extremidades. A Fig. 5.24 ilustra a po­
sição correta para a observação desses atributos. 
E1n adultos jovens, essa úrea apresenta-se muito áspera, 
coni cristas e sulcos profundos.À medida que os sulcos vão 
sendo graduahnente preenchidos para criar urna superfície 
plana, fonna-se uma elevação sobre a superfície mais ventral. 
Depois que a crista está completa e a superficie lisa ou pla­
na, u1na borda de osso é fabricada ao longo da circunferên­
cia tnais externa da face. Finalmente, a face sinfisiana começa 
a se dctcriornr. 
T. W. 'l'odd ( 1920) estu<lou unia cole-rão de esqueletos 
de hornens brancos com idades conhecidas e conseguiu 
identificar dez estágios entre as idades de 18 a 50 anos. 
Postcrionncntc, c1n 1921. ele relatou que as 1ncs1nas altera­
ções gerais caracterizava1n ho1nens negros e mulheres ne­
gras e brancas, mas que elas ocorriam cerca de dois a três 
anos mais precoce1nente nessas populações do que em ho-
1ncns brancos5•36·37• 
Uni método alternativo para a estimativa da idade de ho-
111ens adultos à época da morte através da face sinfisiana do 
púbis foi apresentado por McKem e Stewart (1957), citados 
por Ubelaker.J7
• O sistema deles colocava em evidência três 
aspectos 111orf'ológicos da face sinfisiana: 1) a hemiface dor­
sal; 2) a rampa ventral; 3) a borda sinfisiana. Eles mostraram 
qu1.: tais co111poncntcs sufria1n alterações isoladas indcpen­
denten1ente, em proporções diferentes, e que o método de 
Todd simplificava, superestimando as mudanças, a expensas 
da exritidão. O sisten1a de McKem e Stewart envolvia a gra­
duação de cada co1nponente em uma escala de O a 5 e adicio­
nava os três valores numéricos para fornecer uma ·pontuação 
total que poderia ser correlacionada a u1na detern1inada ida­
de. 
Segundo Ubelaker37, em 1986, Angel et ai., aplicando os 
padrões de Todd e de McKem e Stewart a 739 indivíduos 
masculinos de idade conhecida, provenientes de Los Angeles, 
Califórnia, revelaram uma variabilidade tão alta que não reco­
mendaram a utilização, para homens, do sistema de Todd. Es~ 
tudos realizados por Suchey et ai. (1986) também indicaram 
que a face sinfisiana masculina não é um indicador confiável 
para idades acima dos 40 anos37• 
Gilbert e McKem, segundo Ubelaker37, propuseram que 
as diferenças sexuais na metamorfose da sínfise pubiana ef?m 
niais acentuadas do que o indicado por Todd, mostrando dis­
crepâncias de idade quando padrões originados de homens 
eram aplicados a mulheres de mesma idade, com aparência 
61 
1nais jovc111 se baseados na n.unpa ventral ou 111ais velha se 
baseados no platô dorsal. Então, o método de Gilbert e 
McKem deve ser usado da mesma maneira que o de McKem 
e Stewart, estabelecendo correlações e definições diferentes 
de estágios para o sexo feminino. Assim como nos métodos 
anteriores, há grande variabilidade nas mudanças, limitando 
a sua acuidade37• 
A necessidade de cuidado na aplicação dos padrões fe­
mininos existentes é enfatizada pela elevada taxa de erro ob­
tida de uma grande série da Califórnia de ossos púbicos de 
idade conhecida. Discussão adicional sobre revisões na es­
timativa de idade foi realizada por Suchey5•37• 
Outro sistema de marcação de Suchey-Brooks para a de­
terminação da idade de morte também é baseado na mor­
fologia da sínfise pubiana, podendo ser aplicado para ambos 
os sexos5• O uso de moldes plásticos feitos a partir dos os­
sos analisádos nos diferentes estágios de evolução etária 
é utilizado para comparação, realçando a acuidade do niéto­
do (Fig. 5.25)~. 
.'.)i)lc1na de '.:luthcy-13rc1c1k'-> paro a Sín1isc l)ubianJ" 
Fase 1 - A face sinfisiana tem superfície ondulada, cons­
tituída por rugosidades e sulcos, de disposição transversal, 
que incluem o tubérculo pubiano, com ausência de delirnita­
ção das extremidades sup,çrior e inferior. 
Fase 2 - A superfície da face sinfisiana mostra um de­
senvolvimento da sua borda, com ou sen1 nódulos calci11-
cados em suas extremidades, que começam a se definir. O 
esboço de um bisei ventral sugere a formação inicial de u1na 
rampa ventral, a partir da extensão de urna ou de ambas as 
extremidades. 
Fase 3 - A face da sínfise pubiana pode ser lisa ou apre­
sentar estriações nítidas. Sua extremidade superior exibe nó­
dulos ósseos fusionados que se estendem ao longo da borda 
ventral. Sua extremidade inferior e a rampa ventral apresen­
tam-se em estágio final de definição. A formação do platô 
dorsal Cstá cornplctada. A 1nargc1n dorsal da sínlisc não n1os­
tra labiação ou ligamentos ósseos em crescimento. 
Fase 4 - A fase sinfisiana é estreita e fin:.uncntc granu­
lada, embora remanescentes de estrias possa1n estar presen­
tes, mostrando borda nítida. Urna linha oval de demarcação 
ex.tema encontra-se visível, podendo ocorrer uma interrupção 
ao nível de sua extremidade superior, en1bora delinida e bc1n 
delimitada. Na parte inferior do osso pubiano, ao nível da 
borda ventral adjacente à face sinlisiana, podc1n ocorrer cres­
cimentos ósseos ligamentosas. enquanto em sua borda dor­
sal podem aparecer labiações discretas. 
Fase 5 - A face sinfisiana apresenta bordas completa­
mente formadas e com depressões suaves em sua superfí­
cie. Uma labiação moderada é usuahncnte encontrada cn1 sua 
borda dorsal, com crescimentos ósseos ligamentosas pro­
eminentes na borda ventral, a qual pode exibir pouca ou ne­
nhu1na erosão. 
r·ase 6 - A face sinfisiana 1nostra depressões progres­
sivas e bordas erodidas, mais acentuadas na margem ven­
tral. O tubérculo púbico pode aparecer como unia projeção 
ôssea isolada. Sua superfície pode ser est.:av;1d;t ou poro-
62 
sa. eonJ'crindo-lhe unta :.iparl:ncia desfigurada enquanto 
estiver em processo contínuo de ossificação irregular (Ta­
bela 5.5). 
A Superficie Auricular do Ílio 
A área auricular é a porção ilíaca da articulação sacroi­
líaca. Urna série de componentes que aparecem para susten­
tar as mudanças regulares que ocorrem com a idade foi 
identificada por Lovejoy et ai. (1985), citados por Ubelakec", 
por nicio do estudo de uma ampla arnostra obtida da coleção 
de Todd en1 Cleveland. Ohio. A importância desse discri­
minante está baseada no fato de que essa parte posterior da 
bacia freqüentemente se acha mais preservada que o púbis, 
tanto em coleções arqueológicas corno em alguns casos fo­
renses. em que a sínfise se encontra destruída. 
Ainda que o grau de exatidão na determinação da idade 
de crianças e jovens possa oscilar entre uns poucos meses 
:itL~ '2 ou ~anos. a nHIQ!Cln de c1To cnt adultos varia :.11npl:1111cn­
te. na dt:pL'IHiê1u.:ia dL' sua situa"'·:io nutricional. do tipo de 
prorissfio e do sexo. /\ 111aioria dos critérios existentes para 
o diagn6stico da idade en1 adultos tcn1 suas lilnitaçõcs, e é 
quase que inaplicável em indivíduos maiores de 50 anos. 
Vários estudos evidenciam que existe uma forte correlação 
entre a idade e a 1ncta1norfose da superfície auricular do ílio, 
com a grande vantagem de que a conservação dessa articu­
lação é maior do que em outras áreas do corpo por estar mais 
protegida e. portanto. poder ser apreciada cm espécimes in­
cinerados e em maiores de 50 anos de idade. À exceção do 
acentuado desenvolvimento do sulco pré-auricular, observa­
do nos indivíduos do sexo feminino, as rnudança1i· que ocorrem 
na superfície auricular do ílio praticamente não apresentam 
diferenças sexuais. 
A Fig. 5.26 ilustra as particularidades da região auricular 
sacroilíaca que são utilizadas para a marcação das alterações 
associadas com a idade. A terminologia usada no estudo de 
Lovejoy et ai. ( 1985) compreende as seguintes definições, 
segundo Buikstra e Ubclakcr': 
• superfície auricular: representa a área do osso subcon­
dral que fonna a pon;:io ilíaca da articulação sacroilíaca. cujo 
fonnato é scn1clhante a u1n burncranguc; 
iitjff§@iii 
Relação Encontrada entre as Fases da Sínfise Pubiana e 
a Idade Cronológica no Material Estudado por Suchey e 
Brooks, 1990 (Citado por Mays, 1998)24 
Fase 
Ili 
IV 
V 
VI 
Idade Mulheres 
15 a 24 
19 a 40 
21 a 53 
26 a 70 
25 a 83 
42 a 87 
-·-·----
Idade Homens 
15 a 23 
19 a 34 
21 a 46 
23 a 57 
27 a 66 
34 a 86 
D 
2 6 
3 4 6 
Wif+J Desenho esquemático do sistemade Suchey-Brooks para determinação da idade pela análise da sínfise pubiana. A fileira su-
perior para o sexo feminino e a inferior para o masculino (segundo Buikstra e Ubelaker, 1994). 
• ápice: área de contato da superfície auricular com a parte 
posterior da linha arqueada; 
• hemiface superior: porção da articulação situada aci1na 
do ápice: 
• hcnül~u.:e inferior: porção <la articulação abaixo <lo ;.ípicc; 
• área retroauricular: região localizada entre a porção pos­
terior da superfície auricular e a espinha ilíaca inferior. onde 
se inserem os ligamentos lombossacro e sacroilíaco; 
• porosidade: são perfurações ovais do tecido subcondral 
da superfície. auricular, de tamanhos variáveis desde quase 
i111pcrccptívcis até 1 O 111111 de difunetro, que não dcve111 ser 
confundidas con1 a erosão surgida po.w 11u1r1e111, 11c111 co111 as 
seqi.ielas de patologias collltl a osteopcnia e <1 hiperostosc: 
• granulosidade: refere-se à aparência rudin1entar da 
superfície com relação à sua estrutura fina e compacta. 
Uma superfície fortemente granular é similar ã textura de 
uma lixa fina; 
• ondulação: leva-se em consideração a presença ou 
inexistência de tabiques transversos na superfície, de dimen­
sões variadas quando presentes; 
•densidade: está relacionada à aparência e não à quanti­
dade de osso presente. Un1a superfície densa signilica aquela 
em que o osso subcondral aparece compacto, liso e não-gra­
nular (e mostra un1a significativa ausência de granulosidade) 
(Fig. 5.26 ). 
Os intervalos de idade são classificados e1n oito fases, de 
acordo corn <?sscs parân1etros gerais propostos, rcgistrandn­
se separadamente os lados direito e esquerdo. 
Fase I - 20 a 24 anos. A superfície exibe unia textura 
granulosa fina e u111a acentuada organização transversa. 
Não há porosh.lade, ni..:111 atividade retroauricuh1r ou apical. 
Tem aspecto jovem, devido às ondulações largas e bem de­
finidas, de disposição transversal, que cobrem a maior par­
te da articulação. 
Fase li - 25 a 29 anos. Não são observadas mudanças 
substanciais en1 relação i1 fase anterior. Corncça a perda pro­
gressiva da ondulação, que vai sendo substituída por estrias. 
A granulação é levemente mais grosseira. Ainda não existem 
atividades apical ou retroauricular, nem porosidade. A aparên­
cia da superfície continua sendo jovem em razão da acentua­
da disposição transversa. 
f'a.w' Ili - 30 a 34 anos. A111has as hcn1ifaccs pcrmanc­
ce111 i..:111 repouso, con1 algu111a perda <la organiZaC{ãO lransvcr­
sal. A 01H.1ulai;ão se redu:t. bastante, sendo substituída por 
estrias definitivas. A superfície é mais áspera e nitidamente 
mais granular do que nas fases anteriores, com quase ne­
nhuma alteração no ápice. Podem surgir pequl?nas áreas 
de microporosidade e discreta atividade retroauricular. Em 
geral, ocorre uma substituição das ondulações pelo aspecto 
granuloso áspero. 
Fase IV- 35 a 39 anos. Ambas as hemifaces se tomam 
ásperas e unifonnemente granulares. Há uma redução s·igni­
licativa da ondulação e das estrias, ainda que essas últimas 
possatn persistir. A organização transversa está presente, po­
ré1n mal definida. Há pouca atividade retroauricular, geralmen­
lc de grau leve. Mudanças 111íni1nas são vistas no ápice, a 
n1icroporosidade é leve e a macroporosidade está ausente. Pe­
ríodo inicial da granulosidade uniforme. 
Fase V - 40 a 44 anos. Transição da granulação grossei­
ra para superfície densa. Não há ondulações e as estrias po­
dc111 estar presentes. ainda que vagamente definidas. A face 
apresi..:nta-se p:.1rciali11cntc granula<l:.i, con1 perda da organiza-
63 
ção transversa. O aumento na densidade da superfície se alia 
à perda de granulação. Há uma atividade retroauricular de 
leve a moderada, acompanhada de macroporosidade ocasio­
nal e atípica. Pequenas mudanças podem ser apreciadas no 
ápice, e a microporosidade pode aumentar, na dependência do 
grau de adensamento do osso. 
Fase VI - 45 a 49 anos. Nota-se perda importante da 
granulosidade, que é substituída por tecido ósseo denso e 
liso. Não são evidenciadas ondulações, estrias ou organiza­
ção transversa. As mudanças no ápice estão sempre presen­
tes, embora de grau leve a moderado. A microporosidadc 
perde-se total ou parciahnente co1no conseqüência da 
densificação do osso. Há aumento da irregularidade das bor­
da<>, com atividade retroauricular moderada e pouca ou nenhu­
rna macroporosidade. 
Fase Vil - 50 a 59 anos. Como traço característico 
dessa fase, ressalta-se a irregularidade da superfície. A 
hemifacc inferior exibe labiação cm sua porção situada atrás 
do corpo do coxal. As alterações apicais são quase invari­
áveis e podem ser significativas. Aumenta a irregularidade 
das bordas. A n1acroporosidadc pode ainda estar presente 
em alguns casos. 
Fase VIII - 60 anos ou mais. Superfície irregular, não­
granular, com sinais evidentes de destruição subcondral. Há 
perda completa de todos os aspectos observados nas fases 
jovens: ondulação, organização transversa, estrias e gra­
nulosidade. A macroporosidade está presente em cerca de 
1/3 dos casos. A atividade apical geralmente é acentuada, 
rrias não um requisito para essa categoria de idade. As bor­
das tomam-se mais irregulares e com labiação, indicando 
degeneração articular. A área retroauricular encontra-se be1n 
definida por intermédio de osteófitos de relevo baixo a 1110-
derado. 
·o crânio 
Atualmente, em razão da ampla variação observada quan­
to ao dimorfismo sexual, à miscigenação racial e ao tipo pro­
fissional, os diagn6sticos de idade baseados nas suturas 
cranianas e no dcsgastc.,dcntário continua1n a ser ac~itos, 
•mwE111 
porém são de pouca confiabilidade, sendo úteis quando uti­
lizados cm conjunto com outros indicadores de idade no es­
queleto. No entanto, são de grande aplicabilidade quando se 
dispõe somente do crânio para exame - fato que se apresen­
ta com grande freqüência em nosso meio -, constituindo a 
única fonte de infonnação para a deteqninação da idade6• 
Fechamento das Suturas Cranianas 
Suturas são linhas ou junções entre os 22 ossos que com­
põem o crânio. Em adultos jovens e subadultos, elas são cla­
ra1ncntc visíveis. Ao longo da vida adulta. elas dcsaparcccn1 
graduallnente pela união dos ossos adjacentes. En1 indivíduos 
idosos, muitas delas tomam-se completamente obliteradas. 
Todd e Lyon ( 1924. 1925). referidos por Ubclakcrn, len­
tararn quantificar as alterações que ocorriam no fechamen­
to das suturas pelo exame detalhado de cada sutura em 514 
crflnios de ho1ncns e 1nulhcrcs, brancos e negros, de idades 
conhecidas. Eles notara1n as nicsmas 111udanças gerais na 
111aioria das suturas. independentcn1ente do sexo ou da raça. 
() f'ccha1ncnto, usuahncnte. co111cça na parte interna da ah6-
bada (endocraniahnentc) e prossegue eclocraniallncntc (e111 
direção ao exterior). Embora essas características fossem 
capazes de correlacionar os padrões de fechamento com a 
idade, a variabilidade individual na progressão da união das 
suturas é muito extensa, não se constituindo em um valio­
so marcador etário, a não ser quando associadas com ou­
tros fatores. 
Refina1nentos desenvolvidos por Meindl e Lovejoy, cita­
dos por Uberlakern, através do estudo de 236 crânios naco­
leção de Hamann-Todd em Cleveland, Ohio, apontaram a 
exntidão do fech:uncnto das suturas cranianas con10 u1n in­
dicador de idade. Na detcrrninação da idade por essa a1nos­
tra, eles encontraram uma confiabilidade maior das suturas 
ântcro-latcrais quando comparadas às suturas da abóbada e 
o fcchaincnto cctocranial con10 sendo superior ao fechamento 
endocranial. Também constataram que as mudanças etárias 
cra111 as mesmas para ambos os sexos e para diferentes gru­
pos raciais. O n1étodo por eles proposto e111prcga dez scg-
1nc11tos e quatro cst;.1gios de fechan1ento~· 11 • Os locais estão 
Idade Estimada à Morte Usando-se o Fechamento das Suturas Ectocranianas da Abóbada [Meindl e Lovejoy (1985), 
Referidos por Ubelaker, 1999]37 
Pontuação Média de Desvio· DesvioFaixa 
Composta N' Idade padrão Médio Etária 
O (Aberta) 24 -49 
1, 2 12 30,5 9,6 7,4 18 a 45 
3,4,5,6 30 34,7 7.8 6.4 22 a 48 
7, 8, 9, 10, 11 50 39,4 9, 1 7,2 24 a 60 
12, 13, 14. 15 50 45,2 12,6 10.3 2 fl 75 
16, 17, 18 31 48,8 10,5 8.3 30 a 71 
19, 20 26 51,5 12,6 9.8 23 a 76 
21 (Fechada) 13 40-
236 
64 
Idade Estimada à Morte Usando o Fechamento das Suturas Ectocranianas Ântero-laterais [Meindl e Lovejoy (1985), 
Citados por Ubelaker, 1999]37 
Pontuação Mêdia de 
Composta N' Idade 
O (Aberta) 42 
1 18 32,0 
2 18 36,2 
3, 4, 5 56 41, 1 
6 17 43.4 
7,8 31 45,5 
9, 10 29 51,9 
11, 12, 13, 1'1 24 5G,? 
15 (rccllada) 
236 
agrupados e1n dois sisten1as, que deven1 ser examinados 
com o auxílio de lupa: 
Segmentos do Sistema da Abóbada ( nq. 5.lll 
l) Médio-lambdóide: ponto médio de cada metade da su­
tura lambdóide. 
2) Lan1hda: ponto de interseção entre o 111cio da sutura 
larnbdóidc con1 a sutura sagital. 
3) Obélion: meio do terço distal da região sagital. 
4) Sagital anterior: junção do terço anterior com os dois 
terços posteriore·s do comprimento da sutura sagital. 
5) Bregma: ponto de interseção entre o meio da sutura 
coronal com a sutura sagital ou o ponto médio de encontro 
das duas suturas. 
6) Médio-coronal: ponto médio de cada metade da sutu­
ra coronal. 
7) Ptérion: usualmente é o ponto no qual a sutura parie­
toesfenoidal (região superior da grande asa do esfenóide) 
encontra o osso frontal. 
Segmentos do Sistema Ântero-lateral 1 Fig. 5.27) 
6) Médio-coronal. 
7) Ptérion. 
8) Esfenofrontal: ponto médio da sutura csfenofrontal. 
9) Esfenotemporal inferior: interseção da sutura esfeno.­
temporal co1n un1a linha de conexão entre :.unhos os tuhén:u­
los articulares da articulação temporomandibular. 
10) Esfenotemporal superior: um ponto situado 2 cm abai­
xo de sua junção co111 o osso parietal. 
Cada segmento está definido por uma área de 1 cm da-; su­
turas, conf9nne representado nas Figs. 5.27 e 5.28, sendo 
classificados dentro de u1n dos seguintes estágios de união: 
O) aberto: sem evidência de qualquer fechatncnto cctocra­
niano local; 
1) 1níni1110: grau 111íni1110 <le fccha111ento. <lcs<lc que haja 
pelo n1enos u1na única ponte ôssea cruzando a sutura até cer­
ca <lc 50'~, <lc sinostosc do scg111c1110; 
Desvio- Desvio Faixa 
padrão Médio Etária 
-50 
8,3 6,7 19 a 48 
6,2 4,8 25 a 49 
10,0 8,3 23a68 
10,7 8,5 23 a 63 
8,9 7,4 32 a 65 
12,5 10,2 33 a 76 
íl,5 6,3 3'1a68 
2) significativo: com um grau acentuado de fechamento, 
mas con1 permanência de algumas porções não-fusionadas 
completamente; 
3) obliteração completa: o local está completamente fusio­
nado, com apagamento da sutura (Fig. 5.28). 
Para estimar a idade de morte, a cada um dos lados em 
qualquer dos dois sistemas ou em ambos, deverá ser atri­
huída a pontuação de O a 3. O somatório dos pontos de cada 
sistc1na deverá ser co1nparado nas Tabelas 5.6 e 5.7 para a 
determinação da idade. Por exemplo, uma pontuação com­
binada de l O no sistema ântero-lateral sugere uma idade 
média de 51,9 anos, com um desvio padrão de 12,5 e um li­
mite de 33 a 76 anos. 
Scqmcntos do Sistema das Suturas Endocranianas 
U111a avaliação independente sugere que o fechamento 
endocraniano forneça dados mais confiáveis. Se o crânio en­
contra-se inteiro, as suturas internas podem ser observadas, 
indiretamente, utilizando-se uma pequena lanterna e um es­
pelho dentaP7• São marcadas de acordo com os seguintes 
segmentos: 
A) sagital: sutura sagital completa; 
B) lambdóide: porção média da parte lâmbdica e parte in­
termediária da sutura lambdóide esquerda; 
C) coronal: porção média da parte bregmática e parte com­
plicata da sutura coronal esquerda. 
Sistema das Suturas do Palato Duro (Fig. 5.lfJJ 
São marcadas e1n todo o seu comprimento. 
Alguns autores também recomendam a utilização de um 
terceiro sistema, baseado na avaliação do fechamento das 
suturas palatai."i: 
11) sutur.1 incisiva: transversal, separando a maxila (com ca­
ninos. pré-inalares e molares) da pré-maxila (so1nente incisivos); 
12) suturJ. anterior n1édia do palato: longitudinal, com mar­
cação de todo o comprimento da maxila, pareada entre o fo­
râ111cn incisivo e o osso palatino; 
65 
13) sutura posterior média do palato: também longitudinal, 
c1n que a marcação é feita ao longo de toda a extensão dos 
ossos palatinas pareados; 
14) sutura transversa do palato: a marcação é realizada 
por toda a extensão entre os ossos da maxila e do palato. 
Para a estimativa da idade de cada indivíduo adulto, 
considera-se a seguinte classificação didática: Adulto: jovem 
- 20 a 34 anos; maduro - 35 a 49 anos; senil - 50 anos 
em diante5• 
A região ântero-lateral do crânio tem provado ser um me­
lhor indicativo da idade cronológica do que os locais de mar­
cação na abóbada craniana5• 
As suturas endocranianas e palatinas também podem ser­
vir de base para a estimativa da idade. Nos adultos jovens, 
a sutura incisiva já se encontra fechada, com evidente ativi­
dade de fechamento em segmentos da palatina transversa e 
da palatina posterior média5• 
O fechamento das suturas incisiva, transversa do pala­
to e posterior média do palato - com a sutura anterior 1né­
dia do palato permanecendo parcialmente aberta - é 
característico de adulto maduro. A fusão completa é típica 
de adultos senis. 
O fechan1ento das suturas endocranianas coronal, sagital 
e lambdóide começa na fase de adulto joven1. Estágios avan­
çados, n1as inco1nplctos de tCchan1cnlo, são característicos de 
adultos maduros, enquanto suturas totalmente soldadas são 
tipicamente encontradas em senis confonne Buikstra e 
Ubelaker)'. 
Etn casos atnbíguos, 111aior peso deverá ser dado aos ca­
racteres do resto do esqueleto, do que à pontuação das su­
turas cranianas. Deve-se considerar ta1nbé1n a união epifisária, 
o grau de desgaste dentário, as artrites, a ossificação de car­
tilagens, os tendões e ligamentos, assirn como a observação 
microscópica de mudanças relativas à idade. 
Alterações De!!enerativas 
As alterações degenerativas no esqueleto serve1n, de 
igual moe.lo, como u1n <los 1nuitos indicadores gerais da idade 
de morte, mas três características são dignas de nota: 
labiação, ebumação e ossificação de cartilagens. 
Stewart (1958), citado por Ubelaker", chamou a atenção 
para a utilidade da lahiaçcio, ou seja, do <lcsenvolvilncnto da 
osteoartrite vertebral con10 un1 indicador geral da idade. À 
1nedida que envelhecemos, fonnatn-se os cresci1nentos ósseos 
externos, cha111ados ostcófitos, que se prolonga111 para as 
1nargens dos corpos vertebrais (porções arredondadas das 
vértebras), especialmente onde a 1nobilidade da junção inter­
vertebral é maior (Fig. 5.30). 
Tipos semelhantes de ossificação e extensões ósseas apa­
recem cm outrns partes do esqueleto co111 o avanço da ida­
de. A maioria das articula~ões, espcciahnente as do cotovelo 
e do joelho, desenvolve pequenos depósitos de osso ou de­
pressões nas superfícies articulares. Ocasionahnentc, esses 
depósitos cresccn1 o suficiente para destruir a cartilage111. 
Quando isso acontece, os ossos começam a entrar e1n con­
tato, produzindo abrasão ou polimento dessas superfícies. 
Esse efeito de polimento é chamado de eburnação. 
66 
As extensões ósseas pode1n-se desenvolver sobre ou­
tras superfícies, usuahncnte através da cartil<igem de os­
sificação. Elas são freqüente1nente encontradas no ísquio, 
calcâneo e, especialmente, sobre as extre1nidades esternais 
das costelas. 
Todas essas alterações são indicadores gerais de idade 
avançada. Entretanto, alguns cuidados devem ser tomados 
para evitar confusão con1 os efeitos de trauma local. Uma fra­
tura, luxação ou, inclusive, infecções podem. conduzir a 
uma ossificação da cartilage111 ou a extensões ósseas que se 
asse1nelha1n àquelas produzidas pelo processo de envelhcci-
1nento nom1al. Se o esqueleto está suficientemente preserva­
do, o fato observado é o de que os efeitos tral;lmáticos estão 
usuahnente confinados a tuna área, enquantoas mudanças 
etárias estão distribuídas por todo o corpo, fornecendo uma 
base para a sua distinção. 
Reabsorção de Osso Esponjoso 
A cavidade medular (porção central do osso) aumenta 
à custa do osso 1nedular nas extremidades proximais do 
úmero e do fêmur. Entre as idades de 41 e 50 anos, a extre­
tnidade 1nais superior da cavidade medular no Iemur expan­
de-se c1n direção ao colo cirlirgico. Entre as idades de 61 e 
74 anos, a cavidadc alcança a linha epitisúria. Assiin, o grau 
de expansão fornece tuna indicação geral da idade. O diân1e­
tro da cavidade 1ncdular ta1nbé1n ;.uunenta co1n a idade, pro­
duzindo por fin1 tnn adelgaça1nento extremo das paredes, 
condição osteoporótica que caracteriza muitos ossos lon­
gos de pessoas idosasJ7• 
Estudos de radiografias do fê1nur proxi1nal, úmero proxi­
mal, clavícula e calcâneo de 130 indivíduos de idade conhe­
cida à 1nortc - na coleção de Ha1nann-Todd - mostrara1n 
que a n1ais elevada correlação co1n a idade achava-se ao ní­
vel da clavícula, seguida de perto pelo fê1nur proxi1nal. 
Extremidades Esternais das Costelas 
U111a nova técnica para avaliação de idade usando alte­
rações nas extren1idades esternais das costelas foi intro­
duzida em 1984 por lscan, Loth e Wright, baseada no 
exan1e de 230 quartas costelas direitas retnovidas durante 
nec1ópsia dc b1ancos dc sexo e idade conhecidos. roran1 
testados a1nbos os padrões, 1nasculino e fcn1inino, e clas­
sificados c111 oito fases confonne a faixa etária, e se achou 
ser o niétodo de confiança, rclativan1ente fúcil de cn1pregar 
e ocasionalinentc afetado pela experiência e trcina111cnto 
do observador5•37 • 
O exan1e macroscópico das extren1idades das costelas, em 
sua articulação con1 o osso esterno, em virtude de sua posi­
ção e função, constitui 1.1111 sítio excelente para a observação 
das 111oc.lilicações que ocorren1 durante a vida do indivíduo. 
A junção costocondral te1n uma localização relativamente 
est;ível, pouco sujeita aos efeitos da loco111oção, da gravi­
dez, do parto e do pcso da pessoa. Esses fatores afcta1n o 
~iagnóstico a partir da sínfise pubiana, superficie auricular 
do ílio e dos ossos longos (Iscan e Loth, 1989, referidos 
por Cucnca<•). 
i@ifflj@ij:I 
Estatísticas Descritivas sobre as Fases Metamórficas Correlacionadas às Mudanças na Extremidade Esternal das 
Costelas com a Idade (lscan et ai., 1987 - Referidos por Ubelaker, 1999)37 
Homens 
Mêdia de Desvio- Inter. Cont. 
Fase Idade padrão 95% 
17,3 0,50 16,5 a 18,0 
2 21,9 2,13 20.8a23,1 
3 25,9 3,50 24,1 a27,7 
4 28,2 3,83 25.7 a 30,6 
5 38,8 7,00 34,4 a 42,3 
6 50,0 11, 17 44,3 a 55,7 
7 59,2 9,52 54,3a64,1 
8 71,5 10,27 65,0 a 78,0 
Inter. Conf. = Intervalo de confiança com 95º/o de probabilidade. 
As exlre1nidades esternais das costelas estão conectadas 
ao esterno por cartilagem. Na infância, as extre1nidades das 
costelas são relativamente ron1bas, con1 n1argens arredonda­
das e superfície plana. No adulto jove1n, a superfície articu­
lar tem ondulações transversais e vai progressiv:.uncnte se 
tomando escavada, assumindo uni aspecto em fonna de V, 
constituído pelas hordas anterior e posterior da articula<;ãn 
condrocostal. 
Na n1aturidade, a depressão articular é notavehnente pro­
funda. com um forn1ato de U largo; suas paredes são tinas. 
co111 111argcnx gradativ:1111t•ntc t"tlrlanlt's t111 agu1.:adas. h:ivt·n­
Uo irrcgularhJac..lc e ca\cilicw.;:üo c..las borllas da canilagc111. por 
projeções ósseas que se alargam em direção ao osso ester­
no (Fig. 5.31). 
Em idosos, o fundo da depressão na superfície articular 
pode estar ausente ou preenchido por projeções ósseas: 
suas paredes são extremamente finas. frágeis e quebradiças. 
com margens aguçadas, apresentando porosidade acentua­
da. Uma progressão similar acontece a partir do esterno 
(Tabela 5.8): 
Pesquisas adicionais sugeriram que as mudanças com a 
idade são específicas de cada população. Contudo. aplican­
do-se os padrões para outras costelas. for:.un reveladas dife­
renças entre os lados esquerdo e direito, assim como entre a 
quarta costela direita e as outras. sugerindo cautela se outras 
costelas !Orc1n cxan1inadas~··11 • 
Atrito Dentário 
O atrito dentário, ou desgaste resultante da mastigação, 
ctn geral progride durante a vida e tc111 sido usado para dc­
tcnninar a idade. 
Diferenças na extensão do desgaste dentário entre os 
molares - assim como entre outros dentes - pode1n ser 
usadas para determinar a taxa de desgaste para cada indiví­
duo. Aplicando graus diferentes para a quantificação do atri­
to sobre as superfícies oclusais, é possível chegar-se a uma 
estimativa da idade de morte. 
Mulheres 
MSdia de Desvio- Inter. Conf. 
Idade padrão 95% 
14,0 
17,4 1,52 15,5 a 19,3 
22,6 1,67 20,5 a 24,7 
27,7 4,62 24,4 a 31,0 
40,0 12,22 33,7 a 46,3 
50,7 14,93 43,3 a 58,1 
65,2 11,24 59,2 a 71,2 
76,4 8,83 70,4 a 82,3 
Método Microscópico 
A rnacroscopia fornece dados úteis e rápidos para a es­
tin1ativa da idade de adultos, os ~1uais são suficientemente 
precisos para permitir uma classificação da idade ao moITer. 
No entanto, em certos casos, há necessidade de métodos 
tnais corretos. como os desenvolvidos para a utilização das 
alter:.1~·t1es 111icrosc6picas que ocorrc1n no c6rtcx dos ossos 
longos e dos dentes. Embora a'i habilidades e os equipamen­
tos não sejam do pleno domínio da maioria dos profissionais 
forenses. a discussão resu1nida das técnicas indica como uma 
111aior quantidade de i11for111;11~ão pode ser obtida e enfatiza :i 
in1portância de preservar restos humanos esqueletizados, ain­
da que fragmentados. 
Remodelação Cortical dos Ossos Longos 
Nas fases iniciais, o córtex dos ossos longos consiste, 
principalmente, em camadas finas, paralelas e levemente on­
duladas, conhecidas como osso lamelar circunferencial. Es­
sas camadas, desde os primeiros meses de vida, são 
parcialmente reabsorvidas por osteoclastos (células que 
destroe1n o tecido ósseo), que formam túneis longitudinais. 
Em secção transversal, esses túneis assemelham-se a orifí­
cios circulares ou levemente ovais. Durante o processo 
natural de 1naturação, esses orifícios são preenchidos gra­
dualmente por camadas concêntricas de osso, pela ativida­
de dos osteoblastos. Uma pequena abertura, chamada de 
canal de Havers, permanece no centro. Esse canal conduz 
uni pequeno vaso sanguíneo e um filete nervoso, tomando­
sc u111 agente ativo das trocas químicas com a área adjacente. 
A estrutura inteira (círculos concêntricos e canal de Havcrs) 
é conhecida como um óstcon. O lin1ite externo de cada 
ósteon está delimitado por uma camada mais densa de 
osso, chamada de linha reversa porque marca o limite onde 
a tunelização osteoclástica inicial tern1inou e onde con1eçou 
o preenchimento de osso novo formado pelos osteoblas­
tos. O processo de formação de ósteons continua ao 
67 
longo da vida, de IOnna que o seu nú1nero aun1enta co111 a 
idade. Un1a vez que sua distribuição ocorre ao acaso, uma 
quantidade maior de ósteons implica a maior probabilidade 
de que os novos virão a incidir sobre os outros mais anti­
gos. O resultado desse processo é prontamente observável 
ao microscópio. 
Em 1965, Kerley15 descreveu um método para estimativa 
da idade baseado no processo de formação de ósteons, a 
partir do estudo de 126 cortes transversais, retirados das 
diáfises de fêmures, tíbias e fibulas de pessoas de idade co­
nhecida à morte, variando desde o nascimento até 95 anos. 
Envolvia a contagem de quatro tipos de estruturas: ósteons 
completos, fragmentos de ósteons, percentagem restante de 
osso la1nelar circunferencial e canais não-haversianos. Es­
tes eram formados pela inclusão de vasos sanguíneos 
subperiósticos no interior do osso, devido à expansão rá­
pida do diâmetro do córtex. Em 1978, Kerley e Ubelaker"' 
rccxa1ninara111 os dados originais e produzira1n tabelas atua­
lizadas e equayôes de rcgress:io 1nais adequadas. 
Microestrutura Dentária 
Em 1950, Gustafson (citado por Ubelaker")propôs um 
método de determinação da idade ao morrer usando sete ca­
racterísticas da microestrutura dentária: atrito, aposição do 
cimento (cementum), reabsorção da raiz, periodontose, 
aposição de dentina secundária, transparência da raiz e fecha­
mento do canal da raiz. Quando observadas em conjunto, al­
terações nesses aspectos propiciam estimativas de idade que 
exibem uma margem de erro de apenas 3,6 anos37
• 
Usando o método de transluminescência, Lamendin et ai. 
( 1992)19 desenvolvera1n uma variação no estudo de uma atnos­
tra de autópsias francesas com sexo e idade conhecidos, em­
pregando dois caracteres dentários: 
1) a altura da periodontose multiplicada por 100, dividida 
pela altura da raiz; 
2) translumincscência da raiz. 
O método de translu1ninescência consiste c1n colocar-se 
o dente contra uma fonte de luz e avaliar-se o grau de trans­
parência da raiz e a periodontose. São atribuídos valores 
distintos ao grau de transparência e de periodontose, deter­
minando a idade à 1norte de indivíduos adultos (acima de 25 
anos) por meio <lc uma equação: 
1 = (0,18 XP)+ (0,42 X T) + 25,53, 
e1nque: 
l = idade 
P = altura da periodontose x 100, dividida pela altura 
da raiz 
T = translu1ninescência da raiz x 100, dividida pela 
allura da raiz. 
A margem 1nédia <lc erro dessa técnica é <lc son1ente 8,4 
anos, e sua acuidade é maior acima dos 40 anos de idade. 
ESTIMATIVA DA ESTATURA 
A estatura, porte ou disposição de pé é definida co1no a 
;.1ltura con1prcendida entre o vértice (ponto 111ais elevado da 
68 
cahcc,:a) e o solo eon1 o individuo de pé. L)eve ser alCrida 111c­
diante u1n antropô1netro ou régua graduada e expressa em 
ccntímctros6·~ 5•37 • 
É possível calcular-se a estatura que a pessoa teria cm 
vida por 1ncio de <lados obtidos no cadáver fresco, levan­
do-se em conta que entre as duas alturas, a do indivíduo 
vivo e a do cadáver. costuma haver uma diferença de 2 cm. 
Outros autores confirmaram essa relação, estabelecendo a 
diferença cn1 2,35 c1n. Isso pode ser explicado c1n razão do 
achatan1cnto dos discos intervertebrais na posição bipede 
do vivo, fato que não é verificado no cadáver nem no vivo 
em decúbito dorsal45
•25·37 • 
Outro ponto a ser considerado no cálculo da estatura 
a partir das dimensões ósseas é que os ossos secos são 
discretamente menores do que os ossos .frescos - em 
cerca de 2 mm -, diferença provada por Rollet há mais de 
100 anos. 
A estatura é u1n dado peculiar à espécie hun1ana porque 
os outros ani1nais n;io assunH!lll u111a postura ereta habitual 
e lisiolúgica. ()cpende de vúrios si.:g111entos: cellílico (altura 
basibrcg1nática), raquidiano (altura da coluna), pélvico e cx­
tre1nidades inferiores. Urna série de fatores contribui para a 
detenninação da altura do individuo ao serem considerados 
idade, sexo, raça, condições socioeconô1nicas e psicossociais 
e, final1nente, tendências históricas. 
Como o crescimento longitudinal do esqueleto predomi­
na sobre o transversal, usam-se, preferencialmente, os com­
pri1nentos da extremidade inferior, da coluna e da extremidade 
superior. 
A variabilidade racial e sexual da estatura pode ser com­
preendida tanto pelos distintos ritmos de crescimento como 
pela diferença nas proporções corporais. É fato de conheci­
mento geral que a estatura das populações tem apresentado 
alterações evolutivas ao longo do tempo. O aumento da es­
tatura 1nédia dos povos recentes reflete uma mudança global 
decorrente de maior 1novimentação, intercâmbios genéticos, 
melhoria da ali1nentação, progressos médicos e diferentes fa­
tores a1nbicntais de eslresse. 
Finalmente, há que se considerar o incremento secular 
da estatura. observável nas sociedades industriais, que 
ocorreu nas duas ou três últin1as gerações. AO que pare­
ce, a estatura nláxima é alcançada em nlédia em uma idade 
ínais precoce. en1 torno dos 21 anos. enquanto no século 
XIX era apri.:ciada aos 25 anos nos ho1ncns, 1nudança <lo­
cu1ncntada e1n vários países europeus e americanos, inclu­
sive na Colômbia6
• 
Os resultados das técnicas estabelecidas para popula­
ções não-recentes poderão dar resultados falsos quando 
aplicadas na atualidade, em razão desse maior crescimento 
do ho111e1n contc1nporâneo. 
ME"rooo ANATÔMICO 
/\ 111aioria dos autores que ten1 analisado as dificuldades 
pritlicas co111.:crne11les il reco11struc,::io da estatura vc1n ex­
pressando suas reservas quanto à aplicação de fórmulas de 
regressão que pcnnita1n a obtenção de estimativas apropria­
das l'lll 111olk·lus csqul·l0til·os. Essas fúr11111las se haseia111, 
geralmente. en1 coeficientes de correlação entre o con1prin1ento 
dos ossos longos e a estatura, publicadas no fim do século 
XIX (Manouvrier e Pearson) e princípios do século XX 
(l·lrdlickn). Outros utilizan1 a totalidade dos ossos iinplicados 
no somatório estatura!, incluindo os segmentos cefálico e 
raquidiano e os membros inferiores. Nesse sentido, é consen­
so geral atribuir ao método anatômico os melhores resultados, 
:iinda que não possa ser aplicúvcl na 111aioria dos casos por 
faltarem elementos ósseos6.ls.37 • 
O caminho mais simples para estimar a estatura é pela 
mensuração dos comprimentos de ossos relevantes, adicio­
nando-se um fator para os componentes não-ósseos (de par­
tes ou tecidos moles). 
Usando Todos os Ossos Componentes 
IJc acordo co1n Ubclakcr 17
, as 111cdidas b;"1sicas para ;1pli­
cação do 1nétodo anatôn1ico para a dctcnninação da estatu­
ra, segundo Fully, são as seguintes: 
1) altura basibrc.:g1nútica do crünio (dist;incia entre os 
pontos craniométricos básio e bregma). O básio é o ponto 
médio de uma linha i1naginária que passa sobre a 1nargcn1 
anterior do forâmen magno, situado na base do crânio. O 
bregma é o ponto médio exocraniano situado na interseção 
das suturas coronal e sagital; 
2) altura máxima da linha 1nédia dos corpos vertebrais 
entre C2 (cervical) e L5 (lombar); 
3) altura anterior de S 1, obtida cn1 sua linha 111édia; 
4) comprimento bicondilar (fisiológico do fêtnur); 
5) comprimento da tíbia sem a eminência intercondilar; 
6) altura do tálus e do calcâneo articulados. 
Os seguintes fatores de correção deveriam ser adiciona­
dos ao somatório dessas medidas para estimar a estatura 
em vida: 
• 10,0 cm, se o somatório fosse 153,5 cm ou menos; 
• 10,5 cm, se o somatório estivesse entre 153,6 e 165,4 cn1; 
• 11,5 cm, se o so1natório fosse 165,5 c1n ou niais. 
A aplicação dessa fórmula a indivíduos do sexo fen1inino 
ou pertencentes a outros grupos raciais não é adequada, vis­
to que ela é derivada de franceses masculinos.17
• 
Usando Ossos Representativos 
Tem-se observado que o tamanho de muitos ossos, espe­
cialmente vértebras, acha-se fortemente correlacionado. Fully 
e Pineau ( 1960), citados por Cucnca'' e Ubclakcr17
, concluír;un 
que seria ncccss{irio n1cdir son1cntc uns poucos ossos repn.:­
sentativos. Eles fomecera111 duas fónnulas: 
Estatura= 2,09 x (F + SVL) + 42,67 ± 2,35 K 
Estatura= 2,32 x (T + SVL) + 48,63 ± 2,54 K 
Em que: F =comprimento do fêmur 
T = comprimento da tíbia 
SVL =soma.das alturas dos corpos das cinco vértebras 
lombares 
K = correção para partes moles. 
Eles notaram que essas fórmulas podian1 ser de maior 
praticidade, uma vez que muitos esqueletos eram encontra­
dos incompletos ou apresentavam ossos danificados. 
MÉTODO MÉTR1co: USANDO Ossos Dos 
MEMBROS 
Todos os demais 111étodos para o c'ílculo da estatura cm 
vida estão baseados na correlação entre a altura corporal e 
o comprimento dos membros6•2J.n. A variação consideráyel 
entre populações diferentes na relação entre comprimento de 
ossos longos e estatura faz co111 que se torne ncccssúrio gc­
rar fõnnulas população-específicas. Para o cálculo correto da 
estatura, é necessário consultar tabelas ou aplicar fórmulas 
de regressão criadas para esse propósito, de acordo com as 
populações a que pertencem os restos esqueléticos em ques­
tão. Deve haver uma semelhança sexual, racial. étnica oµ am­
biental e, sobretudo, temporal. 
A aferição docomprimento de ossos longos é feita com 
o auxílio de uma placa osteométrica, que consiste cm um 
dispositivo ronnadu por duas túbuas pc:rpc:ndicularcs ao 
plano no qual é colocado o osso, sendo uma delas desli­
zante (Fig. 5.32). 
Oulro fator que: incide nos cálculos co1nparativos entre a 
estatura estimada e aquela que as pessoas tinham em vida é 
apreciado nos erros observados e obtidos a partir da medi­
da antropométrica. Existe uma diferença média de até 2,5 cn1 
entre a estatura medida pela manhã, quando o organismo se 
encontra relaxado, e aquela obtida à tarde, como conseqüên­
cia da perda de tonicidade dos discos intervertebrais. Tarri­
bém se observam diferenças na obtenção da altura por 
proble1nas técnicos, sobretudo pela ausência de equipamen­
to antropométrico nas oficinas de controle e pela posição in-
correta do indivíduo. ·' 
A Tabela 5.9 apresenta equações desenvolvidas por 
Trotter (1970), após ter estudado aproximadamente 850 es­
queletos documentados na coleção de Terry, no Museu Na­
cional de História Natural de Washington e em cerca de 
4.100 homens mortos durante a Segunda Guerra Mundial, 
de acordo com Ubelaker37
• Todas as medidas consistiam no 
con1primento 111áximo em centímetros e deviam ser obtidas 
usando tnna tábua osteométrica17 • Em virtude dos erros de-
1nonstrados nas aferições da tíhia fornecidas por Trqtter, 
esse osso deve ser evitado. Se for o único osso disponível. 
instruções mais precisas poderão ser obtidas em trabalho 
de I 995, feito por Jantz, Hunt e Meadows (citados por Bass' 
e Ubelaker37). 
Para usar as fórmulas, deve-se medir o comprimento do 
osso na 1n<ineira correta, 1nultiplicar o resultado pelo fator na 
fónnula e: adicionar a quantidade especificada. Por exe1nplo, 
se: u1n fên1ur é suspeito de tc.:r pertencido a un1 ho1ncm 1ncxi­
cano, poder-se-ia medir o comprimento máximo do fêmur e1n 
centímetros, multiplicar essa medida por 2,44 e adicionar 
58,67. Cada fórmula está acompanhada por uma margem de 
erro, refletindo o fato de que a proporção entre o comprirrien­
to de um osso longo e a estatura varia no interior das popu­
lações. O erro padrão de 2,99 significa que somente cerca de 
213 das estimativas estarão dentro de 2,99 cm n1ais alto ou 
1nais baixo que a estatura efetiva. Un1 terço será 2,99 cn1 1nais 
alto ou mais baixo do que o estimado. O erro parece ser mai­
or quando as fórmulas são aplicadas a populações diferen­
tes. Outras correções devem ser feitas para indivíduos com 
69 
iftjif§Efji 
Equações para a Estimativa da Estatura em Vida (cm) a partir dos Ossos Longos de Homens e Mulheres com Idade 
entre 18 e 30 Anos [Trotter (1970), Citado por Ubeakerp1 • 
Homens Brancos 
3,08 
3,78 
3,70 
2,38 
2,52 
2,68 
1,30 
X 
X 
X 
X 
X 
X 
X 
Úmero 
Rádio 
Ulna 
Fêmur 
+ 
+ 
+ 
+ 
Tibia + 
Fibula + 
(Fêmur + Tíbia) + 
Mulheres Brancas 
3,36 
4,74 
4,27 
2,47 
2,90 
2,93 
1,39 
X' 
X 
X 
X 
X 
X 
X 
Úmero 
Rádio 
Ulna 
+ 
+ 
+ 
Fêmur + 
T1bia + 
Fíbula + 
(Fêmur + Tíbia) + 
Homens Asiáticos 
2,68 
3,54 
3,48 
2,15 
2,39 
2,40 
1,22 
X 
X 
X 
X 
X 
X 
X 
Úmero 
Rád'10 
Ulna 
Fêmur 
T1bia 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
Fíbula + 
(Fêmur + Tibia) + 
70,45 
79,01 
74,05 
61,41 
78,62 
71,78 
63,29 
57,97 
54,93 
57,76 
54,10 
61,53 
59,61 
53,20 
83,19 
82,00 
77,45 
72,57 
81,46 
80,56 
70,37 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
4,05 
4,32 
4,32 
3,27 
3,37 
3,29 
2,99 
4,45 
4,24 
4,30 
3,72 
3,66 
3,57 
3,55 
4,25 
4,60 
4,66 
3,80 
3,27 
3,24 
3,24 
Homens Negros 
3,26 x Úmero 
3,42 x Rádio 
3,26 x Ulna 
2, 11 x Fêmur 
2, 19 x Tibia 
2, 19 x Fibula 
1, 15 x (Fêmur + Tíbia) 
Mulheres Negras 
3,08 x Úmero 
3.67 x Rádio 
3,31 x Ulna 
2,28 x Fêmur 
2,45 . x Tibia 
2,49 x F1bula 
1,26 x (Fêmur+ Tíbia) 
Homens Mexicanos 
2,92 x úmero 
3,55 x Rádio 
3,56 x Ulna 
2,44 x Fêmur 
2,36 x Tibia 
2,50 x Fibula 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
+ 
62,10 
81,56 
79,29 
70,35 
86,02 
85,65 
71,04 
64,67 
71,79 
75,38 
59,76 
72,65 
70,90 
59,72 
73,94 
80,71 
74,56 
58,67 
80,62 
75,44 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
± 
'± 
± 
± 
± 
4,43 
4,30 
4,42 
3,94 
3,78 
4,08 
3,53 
4,25 
4,59 
4,83 
3,41 
3,70 
3,80 
3,28 
4,24 
4,04 
4,05 
2,99 
3,73 
3,52 
Obs.: Para estimar a estatura em indivíduos mais velhos, deve-se subtrair 0,06 x (idade em anos - 30) cm. 
Para estimar a estatura em cadáveres, deve-se adicionar 2,5 cm. 
Estatura em morte (cm) = [E máxima - 0,06 x (idade - 30)]. 
idade superior a 30 anos e para cadáveres. As tabelas for­
necidas por Trotter para a estatura máxima esperada de 
homens e mulheres pretos e brancos dos EUA estão repro­
duzidas na Tabela 5.9. 
Numerosas outras fórmulas têm sido desenvolvidas 
usando-se diferentes amostras e aproximaçõesn. 
Fórmulas de Regressão de Mendonça 
70 
Sexo Feminino 
EST 
EST 
EST 
[64,26 + 0,3065 CTUI 
[55,63 + 0,2428 CFF] 
[57,86 + 0,2359 CPF] 
± 
± 
± 
EST= Estatura que pretendemos estimar (cm). 
CTU = Comprimento total do úmero (mm). 
CFF = Comprimento fisiológico do fêmur (mm). 
CPF = Comprimento perpendicular do fêmur (mm). 
7,70 
5,92 
5.96 
Deve-se enfatizar a necessidade de haver uma simila­
ridade entre a composição da população representada 
pelos casos forenses e a população usada para criar as fór­
, 1nulas. Processos usados para a estimativa da estatura es­
tão também disponibilizados por dados de computador 
utilizando-se o Forensic Data Base31
• Os resultados são mais 
EST 
EST 
EST 
Sexo Masculino 
[59,41 + 0,3269 CTU) 
[47,18 + 0,2663 CFF) 
[46,89 + 0,2657 CPFI 
± 
± 
± 
8,44 
6,90 
6,96 
iffi@4i"' 
Estimativa da Estatura a partir do Comprimento dos Ossos Longos (Mendonça, 1999)2$ 
Sexo Masculino 
Úmero Estatura Média Fêmur 
Comprimento Total (cm) Comprimento Fisiológico Comprimento Perpendicular 
(mm) 
286 153 
289 154 
292 155 
295 156 
299 157 
302 158 
305 159 
308 160 
311 161 
314 162 
317 163 
320 164 
323 165 
326 166 
329 167 
332 168 
335 169 
338 170 
341 171 
344 172 
347 173 
351 174 
354 175 
357 176 
360 177 
363 178 
366 179 
369 180 
372 181 
375 182 
378 183 
381 184 
384 185 
387 186 
390 187 
393 188 
396 189 
399 190 
precisos se o sexo e o padrão racial já tiverem sido estima­
dos com confiança. 
Outras investigações têm incluído populações euro­
péias, oferecendo fórmulas apropriadas para caucasóides 
e negróides6• Mendonça ( 1999) estabeleceu fórmulas de 
regressão e tabelas de consulta baseadas na população 
portuguesa atual que, por proximidade geográfica e simi­
laridade étnica. podem ser aplicadas na Espanha e -
por extensão histórica - também ao Brasil25 (Tabelas 5.1 O 
e5.Il). 
(mm) (mm) 
397 
401 
405 
409 
412 
416 
420 
424 
427 
431 
435 
439 
442 
446 
450 
454 
457 
461 
465 
469 
472 
476 
480 
484 
487 
491 
495 
499 
503 
506 
510 
514 
518 
521 
525 
529 
533 
536 
399 
403 
407 
411 
414 
418 
422 
426 
429 
433 
437 
441 
445 
448 
452 
456 
460 
463 
467 
471 
475 
478 
482 
486 
490 
493 
497 
501 
505 
509 
512 
516 
520 
524 
527 
531 
535 
539 
Aqui e em muitos outros países em desenvolvimento, a de­
tenninação da estatura de restos humanos esqueletizados tem 
sido realizada a partir de ossos longos íntegros, mediante a apli­
cação de métodos referentes a populações antigac; e estrangeirac;, 
fato que gera dúvidas quanto à confiabilidade dos resultados. 
Quanto ao nível de representatividade estatística das 
fórmulas, cabe ressaltar que a nlaioria foi obtida a partir 
de amostras pequenas, e, por conseguinte, as equações de 
Trotter-Gleser constituem-se nas mais apropriadas para a re­
construção da estatura. 
71 
i@iffl1fijll 
Estimativa da Estatura a partir do Comprimento dos Ossos Longos (Mendonça, 1999)25 
Sexo Feminino 
úmero Estatura Média Fêmur 
Comprimento Total (cm) Comprimento Fisiológico Comprimento Perpendicular 
(mm) 
257 143 
. 260 144 
263 145 
267146 
270 147 
273 148 
276 1~9 
280 150 
283 151 
286 152 
290 153 
293 154 
296 155 
299 156 
303 157 
306 158 
309 159 
312 160 
316 161 
319 162 
322 163 
325 164 
329 165 
332 166 
335 167 
338 168 
342 169 
345 170 
348 171 
352 172 
355 173 
358 174 
361 175 
365 176 
368 177 
371 178 
374 179 
378 180 
RECONSTRUÇÃO DA ESTAlURA EM Ossos 
FRAGMENTADOS 
Os esqueletos expostos ao ambiente, sob a ação de pre­
dadores e aqueles enterrados em solos ácidos apresentam, 
com freqüência, um grau de decomposição tal que muitos de 
seus ossos - particulannente as vértebras - se fragmentan1. 
impedindo a reconstrução da estatura segundo métodos tra­
diCionais anatômicos e métricos. Nessas situações, rcco1ncn­
da-se a utilização de métodos que levem em conta o estado 
fragmentado do material ósseo. 
Para superar o problema apresentado pela condição 
danificada de muitos ossos em contextos arqueológicos e 
forenses, alguns autores propuseran1 fórmulas para a esti-
72 
(mm) (mm) 
360 
364 
368 
372 
376 
380 
385 
389 
393 
397 
401 
405 
409 
413 
418 
422 
426 
430 
434 
438 
442 
446 
450 
455 
459 
463 
467 
471 
475 
479 
483 
488 
492 
496 
500 
504 
508 
512 
361 
365 
369 
374 
378 
382 
386 
391 
395 
399 
403 
408 
412 
416 
420 
425 
429 
433 
437 
441 
446 
450 
454 
458 
463 
467 
471 
475 
480 
484 
488 
492 
497 
501 
505 
509 
514 
518 
n1ativa do co1nprimento original de um osso, a partir da aná­
lise de um fragmento. Segundo Ubclaker ( 1999), Holland ofe­
receu urna técnica que possibilita que a estatura cn1 vida 
possa ser estin1ada pelas rnc<liçõcs da cxtrc1nidade proxi1nal 
da tíbia·17
• 
De acordo com Cuenca6
, Steele e McKem ( 1969), utili­
zando os ossos fên1ur e tíbia, aperfeiçoaram o método de 
Müller p<tra o coík:ulo da estatura en1 ossos fr<tgrncntados. ba­
seado na pcrcentage111 de cada segmento na composição to­
tal do osso. Utilizaram como população de referência uma 
an1ostra an1eríndia escavada entre St. Francis e o rio 
Mississippi no Arkansas. EUA ( 117 exe1nplares). Posterior­
n1ente. Steele ( 1970) elaborou outras fórmulas aplicáveis a 
caucasóidcs e ncgróidcs". 
iitjif§@ijfj 
Equações de Regressão para Estimativa do Comprimento de Fetos a partir do Comprimento da Diáflse de Ossos 
Longos (Fazekas e Kósa, 1978 - Referidos por Ubelaker, 1999)37 
Úmero Comprimento (cm) X 
Úmero Largura (cm} X 
Rádio Comprimento (cm) X 
Ulna Comprimento (cm) X 
Fêmur Comprimento (cm) X 
Fêmur Largura (cm) X 
Tibia Comprimento (cm) X 
Fibula Comprimento (cm) X 
REcoNSTRUÇÃo DA EsrAruRA EM ESQUEIDOS IMAruRos 
/\. esti111ativa da estatura e111 indiviLluos i111aturos torna-se 
bastante complicada pela ausência das epíliscs distal e pro­
xiJnal, o que i1npede a 1nensuração total do osso, jü que se 
acha apenas a diáfise. 
Um dos estudos mais completos concernentes à recons­
trução da estatura em fetos foi elaborado por Fazecas e Kósa 
( 1978), citados por Ubalakcr", os quais propuseram várias 
fórmulas de regressão a partir do comprimento diafisário dos 
ossos (Tabela 5.12). 
Ubelaker" refere que Ortner e Putshar ( 1981) utilizaram 
um comprimento de 80 mm para o fêmur como critério distin­
tivo entre o material fetal (< 80 mm) e o pós-fetal (> 80 mm). 
A ausência do calcâneo. do tálus. do cubóide e das cpíliscs 
distal do fêmur, proximal da tíbia e proximal do úniero ajuda 
a determinar a idade fetal. Para o cálculo da estatura e1n ma­
terial ameríndio, recomenda-se a utilização da tabela de 
Ubelakcr (1999)". 
Finalmente, para a reconstrução da estatura fetal e infantil, 
deve-se considerar a taxa de crescimento desigual nos prinici­
ros anos de vida, o que por sua vez niodifica os resultados. 
parliculanncntc d<1s et;1pas iniciais: 
1) pri1nci_ra inftincia (do nasein1e1110 ;1os 6 nnos): nos pri­
niciros anos apresenta un1 cresci111ento niuilo nípi<lo, que se 
desacelera gradual111ente; 
2) 1nédia infância (dos 6 aos 10 anos): cresci1ncnto lento 
e uniforme; 
3) puberdade (dos 10 aos 15 anos nas meninas; dos 10 
aos 16 anos nos meninos): crescimento niuito rápido; 
4) adolescência (até 21 anos): caracteriza-se por ser essa 
a idade cm quC se obté111 95% da estatura adulta. 
SINAIS PARTICULARES 
Quando um corpo é descoberto em deconiposição, por 
vezes já esquelctizado, todos os esforços dcvein ser direcio­
nados visando à sua identificação. Critérios de aprcciução 
quanto à espécie, à idade. ao sexo e à estatura estarão dis­
poníveis mediante aferições niétricas e através do cotejo de 
dados concludentes. 
Entretanto. se o indivíduo desaparecido apresentar algu111 
sinal particular no esqueleto. previan1ente conhecido e regis-
7,52 + 2,47 
28,30 + 3,95 
10,61 2, ,, 
8,20 + 2,38 
6,44 + 4,51 
22,63 + 7,57 
7,24 + 4,90 
7,59 + 4,68 
trado por história clínica, cirurgia, fotografia, ficha dentária, 
exanie radiol6gico, tomografia ou qualquer outro método 
co111plen1cntar baseado cni i111agen1, tal cin.:unslância será <lc 
extre1na importância no processo de investigação. 
Unia vez que a ocorrência de caracteres morfológicos no 
crânio e na face pode variar desde discretas particularidades 
até verdadeiras deformidades. torna-se necessária a sua 
avaliação qualitativa. A persistência da sutura metópica no 
adulto, situada na linha niédia do osso frontal (do ponto 
bregma até o násio), que costuma fechar aos 8 anos de ida­
de (Fig. 5.33), a presença de entalhes ou orifícios na margem 
supra-orbitária do osso frontal, suturas infra-orbitárias, 
buracos nos ossos malares, maxilares e mandíbula, foramens 
parietais (obeliônicos) que interessam a tábua óssea externa 
e a existência de ossículos em pontos específicos das sutu­
ras da abóbada craniana (bregmática, coronal, sagital, apical, 
lambdóide, asteriônica etc.) podem constituir sinais identi­
licadores5. 
O osso inca. que consiste em um defeito na fusão <los 
centros de ossificação primária da porção escamosa do osso 
occipital, encontra-se separado do mesmo por uma sutura 
transversa (sutura de Mendoza}, localizada acima da linha 
nucal. e não deve Sl!r confundido co1n ossos supranun1er:.í­
rios da sutura la1nhdóidc. ()utn1 variação possível seria o en­
contro de unia 1nudança na direção <la Jlexura do sulco sagital 
superior do osso occipital, em bifurcação ou virada para a es­
querda, a qual se localiza comumente posicionada à direita. 
O achado de sulcos, pontes, nódulos e pr9eminências 
ósseas (toro), particularmente na mandíbula - embora de 
niaior incidência entre os esquimós -, também pode ser no­
tado. O toro auditivo é uma exostose que se desenvolve no 
interior do meato interno. produzindo diferentes graus de oclu­
são do canal. 
A conformação peculiar dos seios pneumáticos dos os­
sos da face geralincntc é intlivi<lual, podendo servir conio 
forte indicador na identificação, desde que seja possível efe­
tuar o confronto radiológico entre as radiografias do esque­
leto e as porventura realizadas previamente na pessoa 
desaparecida" (ver Capítulo 4). 
Entre as alterações patológicas, podemos citar os desvios 
do septo nasal (/<'i.~. 5.34), as fissuras p;.tlatinas e alvcolopa­
Jatinas (lábio leporino), os diferentes tipos de prognati~mo 
(11n1xilar. n1andihular e dentário) e as anomalias dentárias (de 
73 
vohune, de nún1ero, de fonna e estrutura, de posição e de 
erupção) (Fig. 5.35). 
O estudo dos arcos dentários superior e inferior, ou seja, 
do conjunto de todos os dentes, apresenta considerável i111-
po11t1ncia no esclarcciincnto de alguns proble1nas 111édico-le­
gais, tanto no que se refere à identificação de víti1nas e 
criminosos como à interpretação de lesões observadas no ca­
dáver, uma vez que representam instrumentos corto-contun­
dentes, podendo-se ainda reconhecer - pelo tipo de tnarca 
deixada - qual a espécie de animal que a produziu. Podem 
ser analisados quanto a fonnato, a di1nensões, à curvatura e 
a inclinações3•
4
• 
As alterações dentárias adquiridas são inúmeras e deve1n 
ser inspecionadas por odontologistas forenses. Algumas 
vezes, podemos deparar-nos compróteses semi1nóveis ou fi­
xas (implante por pinos), passíveis de simples observação vi­
sual ou radiográfica. 
Assim como no crânio, nos demais ossos do esqueleto é 
igualmente possível verificar a existência de orificios aces­
sórios, pontes, cristas, sulcos e nódulos ósseos variantes 
c ossos cxtranu1nerúrios. ·rndavia, o c1H.:ontro dc calos c111 
úrcas de consolidação de f'raturas (/'(!!.· 5.36), incis(1cs ús­
scas características co1no trcpanaçõcs, a presença de placas 
e parafusos metálicos para a fixação de focos trau1náticos, 
ou de fios cirúrgicos não-absorvíveis constituem elementos 
hábeis para a identificação, quando o passado cirúrgico pos­
sa ser documentado junto a terceiros (médicos, dentistas ou 
fam.iliares )6•24•43• 
DNA (DEOXYRIBONUCLEIC AC/D) 
DESOXIRRIBONUCLEICO 
ÁCIDO 
Quando os despojos humanos se apresentatn muito de­
teriorados, carbonizados, esquartejados ou reduzidos a 
pequenos fragtnentos ósseos, situações nas quais os parâ­
metros antropométricos não podem ser aplicados de modo 
confiável, cabe, então, a análise do material genético - DNA 
- para a sua identificação. 
TÉCNICAS DE (OLETA E ARMAZENAMENTO 
As amostras dcvc1n ser 111anipuladas con1 o uso de luv;.1s 
e instru1nental litnpo para evitar conta111inação ou 111istura de 
material biológico durante a fase de coleta. Existem instruções 
técnicas específicas para a coleta, confonne o tipo de n1atc­
rial examinado. Em restos putrefeitos e corpos carbonizados, 
poderão ser recolhidos ossos, dentes, 1núsculos e outros te­
cidos internos encontrados em áreas n1enos afetadas pelo 
calor ou pelo processo putrefativo. No caso de ossadas, 
deve-se aplicar o mesmo critério empregado para ossos e 
dentes. São os seguintes os métodos utilizados para coleta 
e armazenamento1
•
13
•
2º: 
• ossos: realizar duas secções transversais de 5 a 1 O cn1 
em diáfises de ossos longos; 
··dentes: dá-se preferência à retirada de cinco molares ou 
pré-molares; 
• 1núsculos e outros tecidos: coletar dois a quatro Ji·ag­
mentos de l cm3• 
74 
Os ossos e dentes deve1n ser lavados e111 [1gua corrente, 
secos à ten1pcratura arnbiente e, a seguir, estocados em en­
velopes de papel, sob igual te1npcratura. Os frag1ncntos de 
tecidos 1noles devcn1 ser acondicionados c111 saCos plásticos 
1in1pos e annazenados ú temperatura de -20"C. 
Nas circunstâncias cm que somente são encontrados ca­
belos, pêlos, co111 ou scn1 bulbo capilar, e unhas, convén1 secá­
los à te1nperatura an1biente e guardá-los en1 envelopes de 
papel, sendo n1antidos cn1 local seco sob te1nperatura a111-
biente. Se tais condições de annazenan1ento não forem pos­
síveis, procede-se, então, ao acondiciona1nento em sacos 
plásticos, mantidos à temperatura de -20ºC, não sendo ne­
cessária a secage1n prévia do material. 
Por ocasião do achado de 1nanchas ou vestígios de ma­
terial biológico (sangue, saliva, espen11a) e1l1 suportes sólidos 
re1novíveis, tais co1110 vestes, papel, preservativos, louças, 
talheres, alin1entos, objetos, annas etc., o procedin1ento uti­
lizado é o 1nes1110 para pêlos e unhas. Se tais 1nanchas forc111 
observadas c111 suportes sólidos e fixos, con10 tetos, paredes, 
pisos, 111úveis, veículos etc., deve-se coletar o 111atcrial bioló­
gico con1 o auxilio de algod:io u111edccido con1 soro llsio­
lúgico ou cotonete. <) 111étodo de ;irn1azL·n;n11ento é o 111csn10 
dos descritos antcrionnente. 
FUNDAMENTOS BÁSICOS 
Durante o seu desenvolvimento, o homem evoluiu de 
um ser constituído por uma única célula (ovo ou zigoto)- um 
ovócito (óvulo) fertilizado por un1 espcrn1atozóide - para 
uni organisn10 alta1nente cotnplcxo, contendo trilhões de cé­
lulas individuais. A 1naioria dessas células é substituída ao 
longo da vida por processos de 1nultiplicação próprios, ge­
rando um ciclo celular cuja duração é variável de acordo com 
os diferentes tipos de tecidos. 
Quase todas as células são formadas por um núcleo, 
i1nerso em um líquido, o citoplasma, onde há diversas 
organelas providas de funções específicas (Figs. 5.37A e B). 
O conjunto é revestido por tuna membrana ou parede, atra­
vés da qual se efetuam as trocas com o tneio externo. No inte­
rior do núcleo celular existe t1111a substiincia dcno1ninada 
cro1natina, que lhe confere u111 aspecto granular. Antes do 
início da 111ultiplicação celular, a cro111atina se condensa para 
· li.ff1nar pequenos corpos corúvcis, designados cron1osson1os. 
Os genes - unidades básicas da herança - transmitidos 
dos genitorcs para a prole estão contidos nos cromosso1nos. 
Os genes são co1npostos de ácido desoxirribonucleico 
(DNA), que é o precursor para a formação de todas as pro­
teínas do corpo. Desse tnodo, os genes são os responsáveis 
pelos aspectos cstn1turais e funcionais de todo o organisn10. 
Afravés de sua trans111issão de tnna geração a outra é que as 
características tisicas, con10 tipo de cabelo, cor da pele e dos 
olhos, por exe1nplo, são herdadas nas fa1nilias. U1n erro ou 
111utação cn1 un1 ou e1n vários desses genes pode conduzir ao 
aparecilnento de doenças hereditárias, transn1issíveis à prole. 
E111 cada cro1nosso1110, há tuna única n1olécula de DNA 
enrolada ao redor de un1 cerne de proteínas (histonas). A 
nuilécula de l)NJ\ te111 três co1nponentcs funda1ncntais: u1n 
açúcar - a dcsoxirribose, lllna pentose; un1 grupo fosfato e 
4 
~5 
3 
6 
iji!fffZ.1 Esquema de uma célula: 1) núcleo; 2) retículo endoplasmático; 3) aparelho de Golgi; 4) mitocôndria; 5) lisossoma; 6) 
citossol. 
::::::::::::::::==========::::::i Membrana 
Face trans e d> 
<(:::=:::::::::;@L~z (<~===} 
U Face eis 
Citossol 
Espaço perinuclear 
Núcleo 
Aparelho de Golgi 
Retículo endoplasmático 
Membrana externa 
Membrana interna 
lif!lifi:I Esquema das estruturas celulares. A membrana nuclear é um envelope duplo em que a parte externa se continua com o 
retículo endoplasmático, onde se acham os ribossomas. Tanto o reticulo como o aparelho de Golgi estão imersos no citossol, o líquido 
citoplasmático. Adaptado de Lewin, 199422• 
75 
quatro tipos de bases nitrogenadas (assim denominadas pela 
sua capacidade de combinação com íons hidrogênio cm so­
luções ácidas): adenina. citosina. guanina e timina. As bases 
citosina e timina exibem, em sua estrutura química. um anel de 
carbono e nitrogênio, sendo chamadas de piri111idinas; as 
outras duas, adenina e guanina, são anéis duplos de carbo-
Purina 
: 1 ~ 
-""e 
N ,:/' "-cH 
1 li 
HC'-.. /CH 
o N 
no e nitrogênio. designadas purina.\·. As quatro bases cos-
1u1nan1 ser representadas por suas prin1ciras letras cm maiús­
culo: A, C. G e T"· "(Fig. 5.38A). 
No século passado, Watson e Crick propuseram um mo­
delo estrutural para demonstrar como esses três componen­
tes estão montados para formar o DNA: o famoso modelo de 
e 
HN/ "-cH 
1 li 
C /CH 
"-N 
H 
Citosina Uracila Pirimidina Timina 
Wijl:f•I Fórmula das bases nitrogenadas que integram os ácidos nucleicos. São duas purinas e três pirimidinas. A uracila só está 
presente no RNA, e a t1m1na, apenas no DNA. Adaptado de B. Lew1n, 199422. 
5\ 
' ,. 
t:' o ' .í 
CH, 
Arcabouço de 
açúcar e fosfato 
~ o 
Pirimidina 
1 
' 
1 
' ' ' 
1 
o 
3· 
Purina 
iji!fjf:!:I Estrutura básica do DNA, formada por um arcabouço constituido por uma pentase - a desoxirribose - radicais fosfato e 
bases nitrogenadas. Adaplado de 8. Lewin. 1 g94n, 
76 
dupla hélice, no qual o DNA seria representado por un1a cs­
c:.1da rchircida, L'Olll as liµat\(-lL'S quí1niL·as constituindo os tk·­
graus. Caúa la<lo <la csc;.1da ê co111posto de fosf;.1tos e 
açúcares, unidos entre si por fortes ligações fosfodiéster. As 
hases nitroµ~nadas scri:1111 projc1,;úcs internas de cada u111 dos 
lados <la escada. cm intervalos regulares, ligando-se aos pa­
n:s por 1ncio <lc pontes de hidrogênio rclativan1cntc fracas. 
forn1an<lo os Jegraus Ja cscaJa (l•'igs. 5.388 e O e 5.39 ). 
Pirimidina 
CH,OH 
1, o 1 
•
OH 
3·monofosfato 
O pareamento complementar de bases é obrigatório. 
l .ogo. a adcnina sd pode se unirà ti mina e a guanina. somcn-
Purina 
I 
1 
OH 
S·monofosfato 
Ut!fjl:!ri Os nucleotideos podem ligar-se a radicais fosfato tanto pelo carbono 3' como pelo carbono 5'. Qualquer das bases pode 
unir-se a qualquer desses carbonos. Adaptado de B. Lewin, 199422 . 
3' 
' 
H \ 
H-N/ \ 
;c..,_c'~ .~ N li CH 
1 e-ri 1 
HC.,,,~ ~ 
5' 
' ' ' ' , .O 
o 
QÇfjl:!tl A largura da dupla hélice é constante por causa do pareamento necessário das bases púricas com as pirimídicas. Adapta-
do de B. Lewin, 199422• 
77 
te à citosina. As ligações químicas entre as bases por pon­
tes de hidrogênio são constituídas por três pontes de H+ en­
tre os pares citosina-guanina e por duas pontes entre os 
pares adenina-timina (Fig. 5.38D). A extremidade de cada fita 
da dupla hélice - pontas da escada - termina com nume­
rações 3' ou 5'. derivadas da ordem na qual são nu1ncrados 
os cinco áton1os de c;irhono que co111põe111 a c..lesoxirribosc 
(Fig. 5.380). Cada subunidade de DNA, chamada de 1111-
cleotfdeo, consiste em uma desoxirribose, un1 fosfato e unia 
ba•e (Fig. 5.38C) "'. 
A visão espacial da dupla hélice do DNA assemelha­
se a uma roda em torno de um eixo e apresenta depressões 
- maior e menor - devido ao pareamento de bases piri­
midinas e purinas, diferentes em tamanhos, com estrutura 
química contendo, respectivamente, um ou dois anéis de 
carbono. Esse pareamento imperativo na composição das 
duas bases· é o responsável pela estabilidade da molécula 
porque mantém constante a distância entre as duas fitas 
(Fig. 5.39). 
Duas moléculas de DNA são idênticas quanto ao forma­
to, e o que diferencia cada DNA é a ordenação de suas ba­
ses, produzindo um seqüenciamento de bases pareadas. 
princípio da identificação pelo DNA. Então, seqüências di­
ferentes de bases dos nucleotídeos especificam proteínas 
diferentes (p. ex., ACCAAGTGC). 
1 Eixo 
\'.) 
Oo o 
coco 
('.; 
5' 
A dupla hélice do DNA não se encontra esticada no inte­
rior da célula, pois cada molécula tem qua•e 2 m de comprimen­
to. Para comprimir todo o DNA de modo a que ele caiba em um 
minúsculo núcleo celular •. é necessário unfempacotamento 
progressivo da molécula ao redor de proteínas, pelo sistema de 
hclicoidização do DNA. Esses solcnclidcs são organizados 
c111 alças de cro111atin<1. ligadas :.i u111 arcabouço proteico. 
Co111 a sucessiva 111ultiplicação das células para ronnar 
outras novas. deverão ser feitas cópias idênticas do seu 
DNA, para que seja111 incorporadas às células-fi~ha, falo que 
comprova o DNA como sendo o material genético básico. 
A replicaçüo do DNA significa que durante a divisão ce­
lular, ao longo do crornossomo, haverá um ro1npimento das 
fracas pontes de hidrogênio entre as bases, deixando um 
único filamento de DNA com suas bases não-pareadas -
denominado 1110/de. Assim. o pareamento consistente de ade­
nina-timina e de citosina-guanina constituirá a base para a 
replicação correta. Dessa fonna, uma parte de um filamento 
único (1nolde) com a seqüência de bases TATGCT irá unir-se 
a uma série de nucleotídeos livres com as bases ATACGA, 
construindo um filamento complementar. Ao ténnino da repli­
cação, haverá uma nova molécula bifilamentar, idêntica à que 
lhe deu origem (Fig. 5.40). 
Uma série de enzimas age na replicação do DNA: uma de­
senrola a dupla hélice, outra separa os filamentos e as demais 
Sulco menor 
Sulco maior 
() 
3· 
Qii§I Esquema tridimensional da dupla hélice do DNA. As bases nitrogenadas são representadas pelas placas e o arcabouço de 
pentase-fosfato, pelas esferas. Adaptado de Griftiths, 2ooorn. 
78 
3'-S-P-S-P-S-P-S-P-S-P-s s-í 
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Nucleotideos livres 
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1 1 1 1 1 _,. p 
. - P-S-P-S- P-S-P-S-P-S-?-5 1 Nucleolideos livres 
c-S 
hfftiUI Esquema da replicação do ONA pela enzima polimerase. A seta indica o sentido da separação dos filamentos que servirão de 
molde para a duphcação. Adap!ado de Gnlhths. 2000"'. 
cxccuta111 atividades específicas. A DNA-poli111erase é u111a 
das principais cnzi1nas envolvidas nesse 111ecanisn10. através 
da adição de nucleotídeos livres ao molde, e, tan1bén1. faz unia 
espécie de .revisão. conferindo se o novo nuclcotídco incluí­
do é de l~1to co111ple1ne11tar à hase do n1olde. Mas. n1esn10 co111 
toda essa precisão. poderão ocorrer erros de rcplil.'o.u;ão que 
irão produzir n1utn~·õcs. 
Existcn1 três diferenças siinples entre o RNA e o DNA: na 
con1posição do RNA o açúcar é a ribose e1n vez da desoxir­
ribose; uma de suas quatro bases é a uracila, em vez da 
tin1ina. e. por último, o fato de que, em geral, o RNA é cons­
tituído por uni fil:.unento único. 
Ao mesmo tempo em que o DNA guarda o seu longo ~ó­
digo genético no interior do núcleo da célula. registrado na 
seqüência de suas bases nitrogenadas. estando implícita a 
programação de um ou mais caracteres hereditários, vai ocor­
rendo no citoplasn1a a síntese de proteínas. Para que isso 
aconteça, a inforn1ação contida no DNA deve ser. portanto. 
transportada para o citoplasma, a fi1n de ditar a co1nposição 
de cada proteína. l.'\so envolve dois proccs.'\O.'\ distintos: a 
1ra11scriçc70 e a rraduçcio. o.unhas 111cdiadas por un1 outro i.Íci­
do, o rihonuclcico (RNA). 
Durante o processo de transcriçüo, fonna-sc uma seqüên­
cia de RNA, o RNAprecursor, a partir de um molde.de DNA. 
Segmentos desse RNA (íntrons) são removidos por:·enzitnas 
nucleares, e as porções restantes (éxons) são reunidas para 
fonnar o RNA mensageiro (RNAm), que irá codificar as proteínas 
no ciloplasma pelo processo de tradução (Figs. 5.41 e 5.42). 
As proteínas são grandes moléculas constituídas por uni 
ou mais polipeptídeos, os quais são compostos de seqüên­
cias de aminoácidos que, por sua vez, são especificados por 
trincas de bases nitrogenadas, denominadas códons. 
O RNA 1ncnsageiro fornece un1 111ol<lc para a sínlcsc de 
un1 polipcplí<lco, interagindo con1 outra espécie de RNA. o 
ANA recém-formado Filamento modelo de DNA 
T G ç _S-P-S-P-S-P-S-P-S-P-S-P-S-P-
1 / S...... 1 1 l 1 1 1 1 8-.....p 
5'-P-S-P-s_ p s'' ~ t3. ~ ! ~ ~ ~ 1 "'.., 
"'s' P,/ f ~ !ij LJ ~ y ? J l e/ ',o, DNA de hélice dupla 
<f P,8 1 1 1 1 p J ~ .,_ 8 
3._5-p_s-p·, -P-s-P-S-P-S-p-s-p-s- -s-P-s-p,, .,r 1 '"-s-P-s-P-S-P- 5. 
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5
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. P-S-P-S_ p._( e,\,/ p-s- P-S-p-s- 3' 
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T G T A T G T ~ ç/'i> u- I 1 1 1 1 1 1 5.-/ P-s- p-S- P-S-p-S- P-5- P-S- P-s-?-
@fjll Esquema da formação do ANA a partir do filamento do DNA. Adaptado de Griffiths, 2000 10
• 
79 
Éxon 1 intron 1 Éxon 2 intron 2 Éxon 3 
DNA '\:'\,'\. '\. '\; ' ' ' . \ . ' '\. '\. '\. 
D Síntese de ANA 
ANA 
11!. União 
mANA 
D Sintese de proteína 
.Proteína é(Jóó 
<~-~> 
Q!fjtj Os genes interrompidos são expressos por meio do ANA precursor, do qual são retirados os íntrons para que os éxons pos­
sam ser unidos na seqüência natural do ANA mensageiro (RNAm). Adaptado de B. Lewin, 199422• 
RNA transportador (RNAt), pois não pode ligar-se direta­
mente a aminoácidos. O RNAt possui o anticódon do RNA 
mensageiro (trincas de bases pareadas), especificando a se­
qüência correta de aminoácidos para fonnar determinada pro­
teína (Fig. 5.43). 
Chama-se de ribossomo a estrutura citoplasmática onde 
acontece a síntese de proteínas, através do RNA ribossomal 
e de diversas enzimas, finalizando a tradução do código ge­
nético. Em resumo, pode-se concluir que os DNA são os "pro­
gramadores" genéticos, enquanto os RNA são os 
"executores" dessas progra1nações, por meio

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