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Teatro do Oprimido e Palhaçaria Conversas e Convergências Palhaça Assuntina Comparsaria das Façanhas Grupo de Pesquisa Teatral Realejo EnCena 2021 Ficha Técnica Aline Helena Elingen Déia Alencar Araxane Jardim Isaque Conceição Jaqueline Iepsen Pesquisadores Edição do documentário Henrique Dallmeyer Eduardo Teixeira Identidade visual DOPROJETO: Realização: Financiamento Identidade visual e ediçãoDO E-BOOK:ISAQUE CONCEIÇÃO COORDENAÇÃO GERAL Jaqueline Iepsen Divulgação nas redes sociaisaline helena elingen SU MÁ RIO APRESENTAÇÃOAPRESENTAÇÃO TEATRO DO OPRIMIDOTEATRO DO OPRIMIDO TEATRO FÓRUMTEATRO FÓRUM PALHAÇARIAPALHAÇARIA CORINGACORINGA A PESQUISAA PESQUISA A GRAÇA ENGRAÇADA DA DESGRAÇAA GRAÇA ENGRAÇADA DA DESGRAÇA A FELICIDADE DA PESQUISA NÃO É VIRTUAL, É REALA FELICIDADE DA PESQUISA NÃO É VIRTUAL, É REAL MAS AFINAL, O QUE É TEATRO DO OPRIMIDO?MAS AFINAL, O QUE É TEATRO DO OPRIMIDO? VOCÊVOCÊ CONHECE A ÁRVORE DO TEATRO DOCONHECE A ÁRVORE DO TEATRO DO OPRIMIDO?OPRIMIDO? VOCÊ SABE O QUE É TEATRO FÓRUM?VOCÊ SABE O QUE É TEATRO FÓRUM? O QUE É CURINGA OU CORINGA?O QUE É CURINGA OU CORINGA? E A PALHAÇARIA, O QUE É?E A PALHAÇARIA, O QUE É? SUMÁRIOSUMÁRIO [Jaqueline Iepsen] [Aline Helena Elingen e Isaque Conceição] CONVERSASCONVERSAS EXERCÍCIOSEXERCÍCIOS NOTAS DA MINHA EXPERIÊNCIA COM TEATRO DONOTAS DA MINHA EXPERIÊNCIA COM TEATRO DO OPRIMIDOOPRIMIDO PRATICANDO OS JOGOS E EXERCÍCIOSPRATICANDO OS JOGOS E EXERCÍCIOS BREVES REFLEXÕES ENTRE TEATRO DO OPRIMIDO EBREVES REFLEXÕES ENTRE TEATRO DO OPRIMIDO E PALHAÇARIAPALHAÇARIA TÁ RINDO DE QUE MESMO?TÁ RINDO DE QUE MESMO? RISO, ACOLHIMENTO E OUTRAS INSPIRAÇÕES DORISO, ACOLHIMENTO E OUTRAS INSPIRAÇÕES DO TEATRO DO OPRIMIDO EM CONFLUÊNCIA COM ONDASTEATRO DO OPRIMIDO EM CONFLUÊNCIA COM ONDAS DE PALHAÇARIADE PALHAÇARIA COMO RELACIONAR TEATRO DO OPRIMIDO COMCOMO RELACIONAR TEATRO DO OPRIMIDO COM PALHAÇARIA?PALHAÇARIA? PALHAÇO - ANALISADOR PRIVILEGIADOPALHAÇO - ANALISADOR PRIVILEGIADO LEVEZA E HUMOR NO MUNDO DA OPRESSÃOLEVEZA E HUMOR NO MUNDO DA OPRESSÃO ENCONTRO COM GESTARENCONTRO COM GESTAR CONVERGÊNCIASCONVERGÊNCIAS ÁLBUM DE FOTOSÁLBUM DE FOTOS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASREFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [Araxane Jardim] [Déia Alencar] [Silvia Balestreri] [Tefa Polidoro] [Alexandre Penha] [Jaqueline Iepsen] [José Benetti] [Patrícia Sacchet ] [Nathy Ananias] APRE SEN TA ÇÃO Com alegria e curiosidade iniciamos nossa pesquisa: os pontos em comum entre duas linguagens artísticas, O Teatro do Oprimido e a Palhaçaria. Somos um grupo de cinco artistas de Guaíba/RS: Jaqueline Iepsen (Palhaça Assuntina), Andréia Alencar e Araxane Jardim (Ponto de Cultura Biguá) e Aline Helena Elingen e Isaque Conceição (Grupo de Pesquisa Teatral Realejo EnCena). Nosso objetivo é pesquisar, registrar e divulgar publicamente as possibilidades de conversas (acreditamos que elas existam!!!) entre estes dois temas. E para iniciar essa pesquisa, em primeiro lugar nos enchemos de PERGUNTAS: APRESENTAÇÃO 8 (F ot o: C ha rli ne Ie ps en ) Quais relações seriam possíveis entre o TO - Teatro do Oprimido (método teatral de autoria do dramaturgo brasileiro Augusto Boal) e a Palhaçaria? Podemos reconhecer origens semelhantes entre elas, no campo da ética, da política, da história, da filosofia, da pedagogia, da psicologia? De que maneira essa junção poderá impactar no trabalho de palhaças, palhaços e fazedores de teatro? 9 (F ot o: Ch ar lin e Ie ps en ) U I SA A PES Q E como chego nas palavras deste TÍTULO? Em um de nossos encontros on-line para realizar esse projeto, nós conhecemos a Dona Marlene, que é mãe da Déia. Nesta ocasião, a Déia a estava visitando e a D.Marlene acabou dando um “oizinho” para a equipe, pela tela do celular. Na sequência, ficamos comentando sobre a simpatia e alegria dela, e a Déia completou “a minha mãe nunca estudou, nem fez curso, nem leu nada sobre palhaçaria, mas ela tem a GRAÇA de uma palhaça.” Foi então que fiquei com essa palavra grudada na minha cabeça. Pesquisei então na internet: um substantivo feminino oriundo do termo em latim ‘gratia’ e significa benevolência, mercê, estima ou um favor que se dispensa ou recebe. Também pode corresponder a características agradáveis de uma pessoa. Alguém que tem graça, agrada e atrai outras pessoas através das suas palavras e atitudes. substantivo feminino; gracejo ou piada; comportamento, dito ou gesto repleto de graça ou que causa riso; Boniteza; algo ou alguém cuja aparência encanta. A graça engraçada da desgraça Por algum tempo pensei nessa junção da Palhaçaria com as técnicas do Teatro do Oprimido, por estar envolvida e trabalhar com as duas linguagens, embora extraoficialmente já fizesse isso, desejei de forma oficial registrar uma pesquisa nesse sentido. Digo que já fazia essa junção por que depois que se é palhaça não se deixa de ser nem por um minuto, e em tudo o que se faz, colocamos os conceitos da palhaçaria em prática, ainda que inconscientemente. E assim acontecia nas turmas do Teatro de Fato* com a Comparsaria das Façanhas, um pouco de humor aqui, um pouco de graça ali... Nos juntamos então, eu, Deia, Araxane, Isaque e Aline e começamos a assuntar. No início a ideia era ‘aproveitar’ os jogos e exercícios criados por Boal e pelos grupos com os quais ele trabalhou, para contribuir no aperfeiçoamento de grupos de palhaços. Mas com as conversas aqui e ali a respeito, percebemos que os pontos de convergências que buscávamos eram mais amplos, não só referentes à didática de ensino e ao método, mas às questões relacionadas a ética, ao nosso papel social e a nossa ação contra as opressões. Eu não conheci Augusto Boal. De tantas entrevistas e textos que lemos para realizar esta pesquisa, algumas das características dele, eram ditas e repetidas por diferentes pessoas que o conheceram: “ele era bem humorado, generoso e gentil”. Para mim, características fundamentais de um bom palhaço. Dona Marlene Significado de Graça: Significado de Gracinha: 11 Conclui então: “quanta graça tem a Dona Marlene, que gracinha que ela é!” Relacionando essa conversa com nosso trabalho, fiquei refletindo: Qual é a GRAÇA do palhaço? Como ele pode atrair compaixão, pode gerar afeto, justamente pelo que tem de mais torto, desalinhado, desacertado e frágil? Seria essa a GRAÇA do palhaço? Acredito que sim. Como o palhaço não é dono de nada, ele nos oferece de GRAÇA aquilo que ele é, simplesmente. Ele nos presenteia mostrando suas fissuras, suas incompetências. Isso não o torna vítima por que ele não é vencido, nem dominado. Ele é límpido e transparente ao se expor e deixar que os outros o vejam como ele é. E como tendo essa “graça”, de ser benevolente e não querer nada em troca (oferece de graça) ele fica todo “EN – GRAÇA – DO” e estando assim em estado de graça pra gente, sua DES – GRAÇA, que reflete a de todos nós também, fica mais leve para ser suportada e vivida. E assim, o palhaço acaba de fazer seu papel: nos ajudar a curar nossas feridas. Voltando a Augusto Boal, a palavra ‘Oprimido’ tem muitas percepções a respeito do seu significado, Boal descreve como “pessoas não capazes porque estão em uma relação de força desfavorável, não sendo capazes de se desenvolver, de dizer o que pensam e de realizar seus desejos”. Sobre a metodologia do Teatro do Oprimido, ele diz: “ é como um conjunto de instrumentos práticos, uma arma que ajuda aqueles que já estão lutando pelos direitos”. Podemos adicionar aqui neste conjunto, a graça e o humor? A pessoa que está oprimida de alguma maneira, por uma pessoa, por sua família, pelo governo, por uma instituição ou por qualquer outra forma de opressão, esta pessoa estaria desprovida de sua graça de viver? Essa pessoa pode estar DES – GRAÇADA? Se no trabalho com a palhaçaria, com graça e humor, junto ao método do Teatro do Oprimido, pudermos deixar a realidade mais leve e suportável, nos espelhando no palhaço que expõe suas DES-GRAÇASmas que não é vencido e nem dominado por elas... Se com a graça e o humor da palhaçaria, pudermos nos fortalecer e nos encorajar na luta contra as opressões... Se todo o arsenal de técnicas e métodos corporais e expressivos puder ajudar palhaços a profissionalizar e potencializar sua arte... ...creio que seremos todos AGRACIADOS com esta junção : TO e Palhaçaria. E esperamos que vocês façam bom proveito, de toda essa boa misturança!! Jaqueline Iepsen (Palhaça Assuntina) *Teatro de Fato é um curso criado e executado desde 2010 pelo grupo Comparsaria das Façanhas (Guaíba/RS), e tem como criadores Andreia Alencar e Araxane Jardim, com os quais aprendi e desenvolvi as técnicas de TO, me tornando uma das multiplicadoras. 12 ARTE não é adorno PALAVRA não é absoluta SOM não é ruído e as IMAGENS falam! (Augusto Boal – A Estética do Oprimido) 13 O caminho a seguir era apenas um: explorar todas as possibilidades que o ambiente virtual pudesse nos oferecer. Conseguimos estabelecer uma boa rotina de trabalho e um cronograma razoável de execução. Partindo desta organização, entendemos que o que antes parecia limitação, na prática se apresentou como uma solução na medida para o que estávamos pretendendo durante o percurso da pesquisa. Estando livres de limites geográficos conseguimos expandir os horizontes e sincronizar agendas, a ponto de, cada um em seu espaço de trabalho, atravessarmos, por pelo menos duas vezes, o Oceano Atlântico e percorrer o país. Conversas e trocas de conhecimento que seriam inviáveis do ponto de vista geográfico e financeiro, só foram possíveis devido ao uso da tecnologia e das ferramentas disponíveis e acessíveis no momento. Vale destacar que as ferramentas virtuais utilizadas, tanto para a comunicação quanto para o armazenamento do material das entrevistas eram de uso gratuito. Por meio desta rede de troca de informações criada a partir deste projeto, tivemos a oportunidade de conversar com o francês Jean-Pierre Besnard, que estava na Bélgica, com o auxílio da tradutora, também francesa, Laetitia, que estava no Rio de Janeiro, enquanto nós estávamos em Guaíba/RS, nossa base de trabalho de onde conseguimos contato também com Celso Willusa, na Alemanha, com Alexandre Penha em Maringá/PR, com Cláudio Thebas em São Paulo/SP, com a Tefa Polidoro em Florianópolis/SC, e com Silvia Balestreri, Tânia Farias, Patrícia Sacchet e Guilherme Comelli em Porto Alegre/RS. A tecnologia também nos possibilitou divulgar A FELICIDADE DA PESQUISA NÃO É VIRTUAL, É REAL Quando fomos convidados para este projeto ficamos, além de muito felizes, surpresos com a possibilidade de ser uma pesquisa com fomento público, algo bastante raro, ainda mais em tempos de enfrentamento a ciência. Em tempos cada vez mais líquidos e voltados para o produto final, o trabalho de pesquisa vem se tornando um ato de resistência exercido por profissionais em condição praticamente de marginalidade. Nosso ato de resistência partiu do desejo de encontrar pontos convergentes entre duas linguagens cênicas distintas mas que lidam diretamente com os sentimentos humanos ligados tanto à individualidade quanto à coletividade. Assim, como outros tantos trabalhos de pesquisa, igualmente relevantes, o intuito deste projeto não é encontrar respostas definitivas, mas sim revisitar antigas questões e elaborar novas perguntas, para dessa forma contribuir com a construção de conhecimento baseado nas experiências passadas, nas vivências do presente e com os olhos no futuro. Tendo dito isto, torna-se praticamente redundante falar sobre a importância do fomento público aos ambientes de pesquisa, sejam eles nas Universidades, nos laboratórios, ou nas iniciativas independentes que busquem mapear, criar e difundir conhecimentos, técnicas e tecnologias. A proposta de execução do projeto nos apresentado pela Jaqueline Iepsen de cara nos colocava diante de uma situação inusitada: como, durante uma pandemia*, encontrar a melhor forma de pesquisar e testar as conversas e convergências existentes entre o Teatro do Oprimido e a Palhaçaria? De que forma tornar e manter vivo um trabalho que, a priori, exige a presença física? 14 Aline Helena Elingen (Grupo Realejo EnCena) de pesquisa de campo e troca efetiva de informações. Quanto tempo levaria, há poucos anos, até que conseguíssemos uma troca de conhecimentos com um grupo francês, por exemplo? Chegando ao final desse processo de investigação tão abrangente e comunicativo, não poderíamos concluir esta etapa de maneira diferente. Decidimos encerrar com uma oficina, testando os limites da técnica em um ambiente virtual, e uma live coroando o espírito deste trabalho: a conversa. Muito além de fazer uma pesquisa, fizemos amigos, encontramos companheiros, e tivemos a oportunidade de conversar com um francês na Bélgica, um brasileiro, que foi quase atropelado horas antes, na Alemanha, um casal de palhaços com suas cachorras, e uma gaúcha que não estava aprendendo a dirigir em Florianópolis. Escutamos histórias divertidas emocionantes que poderiam servir de inspiração tanto para um número de Palhaço quanto para uma discussão em Teatro Fórum. Nos emocionamos até chorar de rir. Contamos histórias pessoas, vistas, vividas e inventadas. A pesquisa é feliz! os caminhos percorridos ao longo da pesquisa. Além de nos ajudar a propagar conceitos ligados ao universo das duas linguagens nas quais estamos debruçados, nos trouxe a possibilidade de conhecer outros trabalhos e de alguma forma sermos transpassados por estes na mesma medida em que podemos contribuir. Este foi o caso do encontro com A Grupa Gestar, um momento de interação viabilizado pela repercussão nas redes sociais que nos proporcionou este encontro com o grupo formado por mulheres que estudam as técnicas do Teatro do Oprimido e também da Palhaçaria, em diversas partes do pais. Rompendo com os limites geográficos e com o auxílio da tecnologia, neste encontro foi possível realizar essa troca de saberes e de vivências dos dois grupos que ali estavam, contribuindo para a nossa pesquisa. Embora os jogos do Teatro do Oprimido geralmente contem com a presença física, neste encontro pudemos realizar alguns jogos de forma virtual, sem a necessidade do contato físico com o outro, proporcionando um ambiente de entrega, divertimento e descobertas, prestigiando uma atmosfera de absorção de informações, propícia para testar técnicas e repassar conhecimento. Como ponto negativo, podemos dizer que a ausência da presença física ainda causa algumas limitações à melhor execução da pesquisa em seus diferentes caráteres. Entretanto, a experiência virtual nos trouxe outras possibilidades de trabalho dentro das condições atuais e que sem dúvida permearão nossas práticas presenciais em momento propício. A linha de trabalho fortalecida pela aproximação facilitada por meio da tecnologia é um benefício que veio para ficar, abrindo o leque de possibilidades - Isaque Conceição (Grupo Realejo EnCena) *No ano de 2020, o mundo foi sacudido por uma pandemia de Covid-19. Está catástrofe planetária fez com que as atividades sofressem muitas adaptações, sendo inviabilizadas em muitos casos. 15 "Transgredir é burlar o conhecimento como forma de encontrar-se a si mesmo, como um ser risível, como possibilidade na arte clownesca, da renovação cômica do conhecimento, sem limites, atravessando o outro lado do espelho, a outra margem do rio, virando o outro lado da moeda, encontrando o coração corajoso e forte daqueles que dedicam suas vidas a criar personagens cômicos, que desde os primórdios, tem como objetivo inverter a ordem pré estabelecida, construindo uma capacidade de parodiar e de rir das situações humanas. Assim, o riso provocado na plateia pelo clown, mostra a realidade olhando de outro ponto de vista. Esta seria a função do desmascaramento do convencionalismo: desenha-o com apenas um traço e o põe à distância. O riso questiona os hábitos e os lugares comuns da linguagem". Ana Elvira Wuo, palhaça, escritora e educadora. (Wuo, Ana Elvira. A linguagem secretado clown. Revista Integração. Ensino. Pesquisa. Extensão. Ano XV. jan/fev/mar. n.56, 2009.) 16 TEA TRO P D ODIM IRO O Mas afinal, o que é Teatro do Oprimido? onhecido como TO, o Teatro do Oprimido é um método teatral criado pelo dramaturgo brasileiro Augusto Boal (1931- 2009), no início da década de 70. Iniciou no Brasil, e foi se alastrando para países da América Latina até ser conhecido em quase todo o mundo. Nasceu como resposta a uma situação política da época no Brasil, em que pelas circunstâncias não era permitido fazer teatro diretamente para o povo. Neste método, Boal sistematizou várias técnicas teatrais, todas elas tendo como base e fundamento a luta social e política. Sendo elas aplicáveis na psicoterapia, na pedagogia, na cidade ou no campo, no trato com problemas pontuais ou globais. E quando se fala em questões sociais e políticas, fala-se em desigualdades, injustiças, miséria, abandono, exclusões e OPRESSÕES. O TO fala das relações entre Opressores e Oprimidos, fazendo teatro,levando ao palco situações vividas. Segundo Boal “todo teatro é necessariamente político, o teatro é uma arma muito eficiente”. Na metodologia do TO todo ser humano é ATOR, porque age, e é ESPECTADOR, porque observa. Somos TODOS “ESPECT- ATORES”, segundo Boal. Todos podemos ser atores! O TO em todas as suas formas busca sempre a transformação da sociedade, no sentido da libertação dos oprimidos. O espetáculo criado a partir das técnicas propostas é um ensaio para a ação na vida real, e não um fim em si mesmo, é um início, é preparação para ações futuras. Em seu livro “Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas”, Boal cita Marx: “Não basta interpretar a realidade, é necessário transformá-la”. Conheça mais sobre o TO: Instituto Augusto Boal: http://augustoboal.com.br/ Centro de Teatro do Oprimido: https://www.ctorio.org.br/ c Augusto Boal 18 (F ot o: In st iti to A ug us to B oa l) https://l.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Faugustoboal.com.br%2F%3Ffbclid%3DIwAR3pkROTycHwESj5qiZoJvl726tFCCvygRpLXOFCwFTcTagr36b-5E1Zzwg&h=AT1x_sldISKGzGw2FETwuiLG44dIMx7do4CxNiYjwG6LlFq2L6lcMR-nd5qzRiCZ51XUwowLFWis9GZUYS6QFrVYKW1yT4fwqHBnOtGeWiCESPtWYflxo3O8shL5YX2JhWgcg3aQkwDvFm2xiLo3&__tn__=-UK*F https://l.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Faugustoboal.com.br%2F%3Ffbclid%3DIwAR3pkROTycHwESj5qiZoJvl726tFCCvygRpLXOFCwFTcTagr36b-5E1Zzwg&h=AT1x_sldISKGzGw2FETwuiLG44dIMx7do4CxNiYjwG6LlFq2L6lcMR-nd5qzRiCZ51XUwowLFWis9GZUYS6QFrVYKW1yT4fwqHBnOtGeWiCESPtWYflxo3O8shL5YX2JhWgcg3aQkwDvFm2xiLo3&__tn__=-UK*F https://l.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Faugustoboal.com.br%2F%3Ffbclid%3DIwAR3pkROTycHwESj5qiZoJvl726tFCCvygRpLXOFCwFTcTagr36b-5E1Zzwg&h=AT1x_sldISKGzGw2FETwuiLG44dIMx7do4CxNiYjwG6LlFq2L6lcMR-nd5qzRiCZ51XUwowLFWis9GZUYS6QFrVYKW1yT4fwqHBnOtGeWiCESPtWYflxo3O8shL5YX2JhWgcg3aQkwDvFm2xiLo3&__tn__=-UK*F https://www.ctorio.org.br/?fbclid=IwAR3YmUecCiIxMjTW2kS6T9Vi4kf0UktzFoWPapRm6TjvXHkhLbtHJ_XwHSM https://www.ctorio.org.br/?fbclid=IwAR3YmUecCiIxMjTW2kS6T9Vi4kf0UktzFoWPapRm6TjvXHkhLbtHJ_XwHSM Conhece a "O método do Teatro do Oprimido abraça uma enorme diversidade de técnicas e de suas aplicações possíveis. E na luta social e política, na psicoterapia, na pedagogia, [...] no trato com problemas pontuais de uma região ou nos grandes problemas econômicos do país inteiro - não se afastou, nunca [...] de sua proposta inicial que é o apoio decidido do teatro às lutas dos oprimidos (Veja na RAÍZ da ÁRVORE). Essa diversidade não é feita de técnicas isoladas [...] mas guardam estreita relação entre si, e tem a mesma origem no solo fértil da ÉTICA e da POLÍTICA, da HISTÓRIA e da FILOSOFIA, onde a nossa Árvore vai buscar a sua nutriente seiva. E dentro dessa 'Estética do Oprimido' [...] busca desenvolver entre os participantes a capacidade de perceber o mundo através de todas as artes e não apenas do teatro: PALAVRA - escrever poemas e narrativas; IMAGEM - pintura, escultura e fotografia; SOM - invenção de novos instrumentos e de novos sons. Cada folha dessa Árvore dela faz parte indissolúvel até alcançar as raízes e a terra!!". (trechos do livro "Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas" de Augusto Boal) Ilustração de Araxane Jardim. Você árvore do Teatro do Oprimido? 19 FÓ RUM TE A TRO TEATRO FÓRUM é uma técnica utilizada na Metodologia do Teatro do Oprimido, onde se leva para o palco (de qualquer formato) e se discute (encenando) uma situação baseada na vida real, que retratam relações de opressão vividas em geral pelos próprios alunos/atores. A peça, construída de forma AUTORAL E COLETIVA pelos alunos/atores é apresentada, logo após vem o SEGUNDO ATO, onde o público é convidado a participar entrando no lugar do oprimido, dentro do contexto exposto na peça, onde ele acredita que consiga mudar aquela situação problema e possa dar alguma resolução para ela. É um tipo de Teatro-Jogo onde a plateia torna-se Espectator (ESPECT-ATOR: observa e age). Há uma preparação dos atores para contracenarem com os espectatores que farão as substituições dos atores (papéis de oprimidos e seus aliados). O público é provocado no sentido racional e sensível, sendo convidado pelo coringa a entrar em cena. O coringa faz a intermediação entre o público e os atores. O público intervém principalmente por identificação, analogia ou por solidariedade. Chama-se Teatro-Fórum porque promove um DEBATE, um diálogo, uma REFLEXÃO e consciência sobre o tema. Você sabe o que é o Teatro Fórum? 21Teatro de Fato 2019. CO R IN GA No Teatro do Oprimido e dentro da Modalidade Teatro Fórum (ver postagem anterior) CORINGA é aquele que ORIENTA e PREPARA os atores e o público para o momento do Fórum. É o “Joker”, é a carta do baralho, a “carta na manga”, que auxilia a encaminhar ou resolver as situações presenciadas ou que estão por vir na encenação (que é baseada em fatos reais), antecede possíveis situações e problemáticas e ao mesmo tempo tem de solucionar os imprevistos no caminho. É um encenador, um agitador cultural, um motivador das discussões que tem que se servir de muita escuta e protagonizar as técnicas do TO. Busca ele, de forma lúdica, engajada, provocar a reflexão, é quem faz perguntas e abre caminho para as respostas. É o que tem a função de motivar o público a se mover das suas cadeiras e tornarem-se Expectadores de si mesmos. O QUE É CURINGA OU CORINGA*? * Não confundir com o sistema coringa que é outra coisa. 23 PA LHA AIR AÇ E a Palhaçaria, o que é? É um tema histórico e atual, universal e individual, complexo e simplesmente encantador!! Temos na arte da palhaçaria uma variedade de referências ao longo da história. Embora possa ser considerada uma modalidade teatral, a gente sabe que o arquétipo da (o) palhaça (o) é mais antigo que o teatro e que o circo. Arquétipo é um conceito que representa o primeiro modelo de algo, protótipo, modelos ideais que temos registrado na nossa memória. Um tipo, um paradigma. São tantos os tipos de palhaças (os): as habilidades, os figurinos, os que falam, os que nada falam, os da rua, da praça, os que vão aos hospitais, às escolas, tem do circo, no teatro, no cinema, com ou sem o nariz vermelho. Para o artista que escolhe a palhaçaria como OFÍCIO, é uma arte que chama para autoavaliação antes mesmo de chamar para o treinamento de técnicas e habilidades. SER palhaça (o) trata-se da ordem íntima, pessoal, pois cada artista/pessoa tem a sua, o seu. A maquiagem (ou a ausência dela), o figurino e seus detalhes, a história a ser contada, a forma de andar e de reagir, TUDO vem de dentro para fora, baseado na sua forma de enxergar a vida. Se a pessoa vai mudando, se transformando, a palhaça (o) também vai... Para quem escolhe ser o ESPECTADOR, ri...ou chora, ou as duas coisas. E rindo ou chorando, se emociona, se transforma, porque se reconhece naquela criatura que é a (o) palhaça (o), que ama o mundo, que tem uma lógica própria, que cai, levanta, cai de novo, mas não desiste... erra, acerta e depois erra de novo... como é a vida. Só queuma vida mais mágica, mais florida, mais viva, mais corajosa. A palhaçaria presenteia o público quando o faz sair do peso da vida real, sem anestesiar, mas atingindo e mexendo com o coração, a imaginação e o pensamento. E é claro, provocando a gargalhada! 25Assuntina e Bombom. Foto de Charline Iepsen (F ot o: L uc ia ne P ire s) Uma (um) palhaça (o) antes de tudo quer construir relações e identificação com o público, e para isso se mostra como é, de verdade, na sua total humanidade. E só depois disso, ou junto com isso, treina e demonstra suas habilidades e técnicas, sejam elas quais forem. Pode ser, por exemplo, a habilidade de colocar uma linha na agulha ou se equilibrar em cima de dezenove cadeiras, não importa, cada palhaça (o) tem as suas, tudo isso para presentear o Respeitável Público. Uma palhaça (o) pode dizer: Minha matéria prima sou eu! E o prazer de ser sua própria matéria prima é um ‘mergulho’ sem volta. _________________ Texto por Jaqueline Iepsen 26 (Foto: Charline Iepsen) CON VER SAS Depois disso fui viajar. Fiz também Teatro do Oprimido Ponto a Ponto, ministrado pelo CTO nos anos de 2006, junto aos movimentos socias, uma parte no SindBancários e outra no Odomodê-Afro- Sul, onde foi bastante abordada A Estética Do Oprimido. Última Técnica e Livro que Boal deixou em Vida. Tive um experiência exitosa com os jogos com o grupo Patota Bacana, constituído por ampla maioria de meninas de periferia, onde eu e minha companheira fomos aplicando os jogos e o Teatro Fórum num ambiente lúdico de três anos, que motivou o surgimento do Curso Teatro de Fato, executado e consolidado em Guaíba com 10 edições, ocorrendo anualmente, proporcionando vários aprendizados, alegrias, acolhimentos, realizações e reconhecimentos, regados por diálogos profundos e conhecimento de diversas realidades e construção de saídas coletivas para transformações sociais. Atualmente estamos aqui com esta pesquisa trocando ideias com outras experiências tão relevantes para continuar a multiplicar o método, para continuarmos esperançando. NOTAS DA MINHA EXPERIÊNCIA COM TEATRO DO OPRIMIDO As primeiras vezes que tive contato com Teatro do Oprimido foi através da leitura dos livros Teatro do Oprimido e Outras Poéticas, um polígrafo de xerox, um livrinho azul dos jogos e exercícios do T.O, e Técnicas Latino-americanas do Teatro do Oprimido, este ganhei de uma grande amiga, todos escritos por Augusto Boal. Já fazia teatro militante em tempos de abertura política com esquetes, intervenções Agitprop, e alguma experiência com teatro de rua com dois grupos: Deram Godot in nóis e Contestattores, neste fiz minha carta de inscrição e finalmente fui fazer as aulas com o próprio Boal e CTO- Rio no ano de 1999. Boal era uma lenda em Porto Alegre e finalmente estava ali, ao vivo na Usina do Gasômetro, na minha frente, passando técnicas, dialogando. Tenho boas lembranças dele. Achei a sua condução muito generosa aos oficinandos e de bom humor, muito engraçado na maneira de fazer sua crítica e muito inteligente também. Didático e respeitoso com as pessoas. Lembro que na aula de dramaturgia coletiva ele falava que é melhor ter uma explosão de ideias para colocar em prática e depois enxugar. Lembro também que numa das aulas ele pediu que alguém fizesse algo com as mãos para provocar o riso. Pedi para me aproximar, então a surpresa, fiz cócegas na sua barriga. Foi um atrevimento meu. Araxane Jardim (Teatro de Fato) 28 "As escolas em geral, teimam que há uma vida à parte da própria vida. Lá dentro nos ensinam a lição para depois nos darem provas. Mas a vida real, que acontece fora desses reinos imaginários, a coisa acontece ao contrário. O tempo todo a vida nos dá provas, para que delas a gente extraia as lições". Cláudio Thebas, palhaço, escritor e educador. 29 Durante a prática nos deparamos em alguns obstáculos como: grupo pequeno para a realização de alguns exercícios, adaptação devido os protocolos de saúde contra a COVID -19 (geralmente os jogos exigem o toque no corpo do companheiro e aproximação), limitações corporais, dúvidas em relação ao exercício teoricamente proposto à sua prática. Por outro lado, conseguimos descobrir nossos corpos, desfrutar da integração e da cooperação, nos permitir o sentir e, sem menos importância, brincar muito. Os jogos e exercícios devem também estar incorporados ao brincar, pois o brincar é algo prazeroso que permite o acordar das habilidades adormecidas pela responsabilidade do mundo contemporâneo. O brincar estimula a criatividade, imaginação e também reflete no comportamento diante da realidade. Enquanto somos criança a brincadeira se baseia na imaginação de entrar no universo adulto. Porém, enquanto adulto, ela está na imaginação de tentarmos realizar coisas que na realidade muitas vezes são impossíveis ou simplesmente não temos PRATICANDO OS JOGOS E EXERCÍCIOS Quando iniciamos as oficinas de teatro do oprimido, em geral, grande parte do grupo não se conhece e não tem experiência com o teatro. As pessoas chegam tímidas, silenciosas, com corpos enrijecidos, mecanizados pela a rotina de suas profissões e muitas vezes apresentando dificuldades em se relacionar com o próprio corpo. Diante disso os jogos e exercícios sistematizados por Boal são essenciais para favorecer a integração do grupo, divertir, despertar a consciência corporal, “desmecanizar” o corpo e o pensamento. Para Augusto Boal “O ser humano antes de tudo é um corpo” (1996, p. 42) e os exercícios e os jogos permitem que este corpo experiencie sensações e emoções para torná-lo mais expressivo e atuante. Ao longo desta pesquisa (os jogos e exercícios para atores e não atores de Augusto Boal para a palhaçaria) pudemos experimentar os diferentes exercícios e jogos dentro das categorias que eles se encontram (I Sentir tudo que se toca; II Escutar tudo que se ouve; III Ativando vários sentidos; IV Ver tudo que se olha; V Memória dos sentidos). 30 coragem. Nesse sentido, o brincar está intimamente ligado ao Teatro do Oprimido e ao universo do palhaço. Pois, propõem representações do que é real, em muitos casos de maneira cômica, e, ao mesmo tempo, reflete sobre o olhar que temos do mundo, a forma de pensar e buscar alternativas. Ainda sobre as práticas dos jogos e exercícios, reprisar o mesmo jogo nos fez compreender melhor o objetivo de cada um, a sensação que eles podem provocar no corpo e nas emoções e o motivo pelo qual Augusto Boal fez questão de dividi-los nas cinco categorias. Compreendemos que quando um corpo é ativado por todos os sentidos suas potencialidades aparecem juntamente com muitas possibilidades que desabrocham através da palavra, da imagem e do som. Para o ator, não ator e palhaço, tais possibilidades conduzem à quebra de toda forma de opressão que impede o encontro da liberdade. Déia Alencar (Teatro de Fato) 31 "A arte do palhaço e o teatro do Oprimido, ao meu ver, são antes de tudo artes dos encontros, e operam no mundo em consonância com a vida real. Ao propiciar encontros verdadeiros, possibilitam que todos os envolvidos possam sair da experiência em outro patamar de consciência de si, do outro e do mundo". Cláudio Thebas, palhaço, escritor e educador. 32 importantes de minhas alianças. Postos esses lugares reconhecíveis – certamente há outros menos evidentes – espalho alguns respingos que a interseção dos temas Teatro do Oprimido e Palhaçaria suscitou. O primeiro impulso que me surgiu sobre o tema da pesquisa Teatro do Oprimido e Palhaçaria se referia ao que vi e experimentei em oficina, conversas, textos e vídeos do grupo francês Caravane Théãtre, dirigido por Jean-Pierre Besnard. Segundo minha percepção de quase duas décadas atrás, eles inserem o clown junto aos espect-atores do teatro do oprimido, o palhaço reage aos diferentes momentos de uma sessão de teatro-fórum, por exemplo, lado a lado dos espect-atores. Também em uma oficina da qual participei percebi que o clown – conforme nomenclatura utilizada pelo grupo francês – ou palhaço imprime uma levezae humor aos exercícios e jogos, refinando um pensamento sobre o que está sendo proposto e como está sendo executado. Essas percepções ressoam a ideia de que o clown/palhaço engendra um exercício micropolítico, cuja explicação cabe desenvol- RISO, ACOLHIMENTO E OUTRAS INSPIRAÇÕES DO TEATRO DO OPRIMIDO EM CONFLUÊNCIA COM ONDAS DE PALHAÇARIA Esse texto procede de vários lugares e tempos, para falar de coisas simples, a maior parte das quais desaguaram em uma conversa gostosa, uma das atividades da pesquisa que originou esse e-book. Um texto dissertativo, com início, meio e fim, é muitas vezes árduo de escrever, porque significa entrar em uma lógica de pensamento que nem sempre nos serve, por isso lançarei drops, balas ou respingos de algumas ideias que brotaram nesse divertido diálogo. Como começo, adianto aqui algumas procedências que me ajudaram a trazer essas ideias. Minha inserção nos movimentos do teatro do oprimido (TO) vem de longe, pois tive a alegria de participar do Plano Piloto da Fábrica de Teatro Popular, desenvolvido por Augusto Boal nos CIEPs do estado do Rio de Janeiro, em sua volta do exílio, em 1986. Poucos anos depois, com outros cinco participantes dessa experiência, fundamos o Centro de Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro (CTO-Rio), com a direção do Boal. Desde 1994, quando ingressei no magistério superior – primeiramente no curso de Psicologia da UFRJ, depois nos cursos de Teatro da UFRGS, utilizo o TO em minhas aulas e ministro cursos em disciplinas especialmente criadas para a difusão dessas técnicas. Minha experiência com palhaçaria, por outro lado, é indireta, seja como espectadora de apresentações e intervenções, seja como orientadora de graduação e pós-graduação, em projetos como Clown e Micropolítica - iniciação científica sobre o grupo francês Caravane Théâtre, com os bolsistas Ítalo Cassará e Juliana Morosini -, ou a dissertação “Da discussão ‘clown ou palhaço’ às permeabilidades de clownear-palhaçar”, de Patrícia Sacchet, para citar os exemplos mais Primeira Edição Teatro de Fato em Guaíba 2010 33 https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/17730 moleculares que podem estar funcionando de outro modo. Há que atentar para a agitação não visível de partículas em movimento incessante, para as micropolíticas. A palhaçaria, então, faz deslizar e multiplica os sentidos que podemos dar às situações de opressão e às formas vislumbradas para sair dela. Agita as moléculas dos corpos físico e social. Compreendi, entretanto, que a ênfase da pesquisa desse projeto se dá mais no caminho inverso: quais exercícios e jogos do teatro do oprimido podem contribuir/servir para os estudos e práticas de palhaçaria? Talvez possamos pensar que todos servem, no sentido de que aguçam uma atenção, uma escuta, um olhar para si e para os outros, que podem ajudar palhaços, palhaças e palhaces a “receberem, acolherem” o mundo – os mundos interior e exterior – e criarem outros tantos. Quando eu trabalhava com Boal, pude vê-lo criando alguns exercícios nas oficinas, alguns dos quais me lembro bem de onde surgiram, lembro a história de alguns jogos; era muito instigante nele essa liberdade de criação. Nas oficinas mais longas, ele pedia para os participantes trazerem exercícios ou jogos e brincadeiras de criança, para mostrar e propor aos demais. Daí, acabava transformando aquilo trazido pelos alunos e incorporando ao arsenal do teatro do oprimido. Creio que outras pesquisas podem fazer a mesma coisa. No caso, ele incorporava a nova atividade aos objetivos das categorias do TO ou poderia vir a criar uma categoria nova, desde que coerente com sua proposta de utilizar o teatro para a igualdade social, enfim, para mudar o mundo. Conforme o grupo que se trabalhava – estou falando do CTO-Rio do início dos anos 1990 -, o arsenal de exercícios prontos, às vezes, virava quase jogo de salão, porque muitas pessoas não estavam mais acostumadas a brincar... Eram adultos, sindicalistas ou de ver um pouco, como mais uma de minhas “procedências”. Essa diferenciação entre micro e macropolítica vem de uma crítica a partir de uma falência das revoluções e das militâncias do século XX e do entendimento de como alguns movimentos revolucionários se tornaram regimes totalitários e genocidas. Num pensamento que privilegia o movimento e a mutação constantes, macropolítica é aquela dos territórios reconhecidos, das grandes definições identitárias, dos partidos, associações e dos embates em torno do Poder de Estado. Para o teatro, por exemplo, diz respeito a seus territórios estabelecidos, às grandes categorizações, já quase “naturalizadas”: O Diretor, O Ator, O Texto... Micropolítica é a dos desmanchamentos, da agitação das partículas que compõem os territórios existenciais e outros, das assim chamadas linhas de fuga, que desfazem essas territorialidades conhecidas, propiciando ou forçando a composição de novos territórios. Pode-se, então, dizer que exercícios micropolíticos de e em uma realidade são as agitações moleculares que a fazem fugir por todos os lados, das grandes categorizações que eventualmente a aprisionam, abrindo ocasião para a emergência do novo, não como mera novidade, mas como deslizamento e criação incessantes de mundos. Por isso, as revoluções não podem ser apenas macropolíticas, porque há agitações Primeira Edição Teatro de Fato em Guaíba 2010 34 Esse tipo de preparo da atuação-curinga serve para o palhaço, determinadas atividades que exercitam uma atenção pra si e uma atenção para os outros, um acolhimento. Há exercícios que mobilizam capacidades de improvisar a partir da escuta e observação do outro, e é possível fazer mudanças nos próprios exercícios a favor da palhaçaria. Dito de outro modo, no teatro do oprimido, é importante ficar à vontade para receber o outro, não só nos exercícios e jogos, mas também, por exemplo, na prática do Teatro Fórum: poder ouvir, poder receber, para devolver. E o palhaço devolve de um outro jeito, o palhaço tem isso de conseguir deixar chegar, de escutar, de prestar atenção e de devolver de um outro jeito. Juliana Jardim, artista-pesquisadora de São Paulo e do mundo, que também trabalha com palhaçaria, fala de “desdramatizar”. Percebo que o palhaço desdramatiza... Nesse caso, me inspiro também na pesquisa de mestrado de Domenico Ban Jr, que ressalta o quanto a gente dramatiza a vida. O drama como a gente conhece, com início, meio e fim, que tem um conflito, que se desdobra, se tornou um modus operandi nas nossas vidas, que impregna o nosso modo de viver. Por outro lado, a gente tem, no Brasil, uma riqueza, uma propensão para a brincadeira, que põe, ao nosso alcance, meios de fazer essa desdramatização, a gente tem recursos pra isso, na nossa cultura, na nossa vida, na nossa infância. Percebo que o palhaço é um dos que podem galvanizar esse caldo cultural e ser uma grande força a desdramatizar a vida. O Boal, por sua vez, apesar de ser um professor de drama, que muito jovem foi estudar nos Estados Unidos porque queria ser dramaturgo, ao mesmo tempo que conhecia essas leis do drama e trazia isso para o seu teatro, algo nele tinha um outros grupos para quem as brincadeiras em grupo envolvendo, ritmo, movimento e criações entre os corpos tinham ficado na infância. Isso, por si, já é libertador, retirar os corpos de seu preparo para a produção e exploração. Em uma entrevista no início do livro 200 Exercícios e Jogos, no clima das lutas dos anos 1960 e 1970, Boal fala da desmecanização dos corpos proposta pelo teatro do oprimido, que alcançou uma dimensão de alegria do brincar depois que os exercícios e jogos extravasaram do meio teatral para outras realidades mais duras. Nas oficinas de teatro do oprimido, as pessoas riem bastante e se soltam muito, brincam, porque não há a exigência de uma performance modelar e Boal sempre frisou que não era pra ninguém sofrer executando os exercícios, as descobertas e experimentações devem ser prazerosas. A brincadeira em si já é algo revolucionário, e o Boal sabia disso, mas alguns de seus seguidores não sabiam. Boal sedivertia com o jogo de atores, com as entradas em cena e curtia isso, não necessariamente precisando o teatro fórum ter o tempo todo um debate político totalmente direto e explícito, porque ele via a política também nessa entrada em cena, nesse jogo e na alegria. Podemos pensar em um tempo livre ocupado de modo não produtivo, liberto da subserviência ao capital. Eu senti, depois de trabalhar com teatro do oprimido, que Boal criou um modo da gente “estar à vontade” de fato, porque não há uma busca de excelência na performance ou um virtuosismo, mas o contato entre atores, atrizes e com o público é o principal. Isso o teatro de rua proporciona também, dependendo da linhagem, é preciso estar preparado, porque tem algumas situações de teatro do oprimido e de teatro de rua que são uma prova de fogo. E quem exerce a palhaçaria se expõe assim o tempo todo. 35 movimentos da vida, e ver que essa distinção entre pessoal e social não diz tudo do que acontece nos movimentos e transformações em vários níveis. Costumo pensar isso também para trabalhos de pesquisa e escrita na universidade, diferenciar quando um TCC, uma dissertação, uma tese, por exemplo, giram em torno do umbigo do autor – considerando pejorativamente o umbigo – e quando isso que parece uma escrita pessoal está grávida de mundos. Alguns orientandos comentam sobre suas teses um medo: “eu vou ficar falando só de mim?”, e eu digo que às vezes “o de ti é algo que é prenhe de mundos”, porque está fazendo sentido pra mais gente além de si mesmo, e as pessoas alcançam isso, vai contagiar outras pessoas, porque aquilo não é só de quem viveu o que está ali escrito... No caso do palhaço se pode perceber também isso: o quanto aquilo que parece ser um riso acerca de uma característica daquela vida que o encarna ou uma atividade extremamente cotidiana, até aparentemente banal, está grávida de mundos, evoca e ressoa pequenos mundos de tantas gentes, diz de modos de viver, ri deles e instiga a criação de outros mundos. O palhaço é grávido de mundos, porque ele absorve e devolve o tempo todo. Então, às vezes algo que parece ser um problema da torneira da pia da cozinha com a qual ele faz graça, para usar um exemplo surgido na conversa que originou esse texto, está atravessado de questões que falam de todo mundo, do humano, da tentativa de conciliar, de ser eficiente, uma série de coisas que não encantamento da experimentação, do humor, que atravessavam o próprio drama e faziam uma política molecular da alegria. Boal era encantado com o humor, ele ria dele mesmo, dos próprios planejamentos que davam errado. A militância não tem que ser um drama, porque o drama favorece o poder. No caso do tema da pesquisa que inspirou esse texto, usar a experiência e sensibilidade como palhaço e desdramatizar os problemas já ajuda muito. A brincadeira é uma realidade, a realidade não precisa ter uma lógica racional, cartesiana, que favorece o produtivismo e promove a nossa miséria. Michel Foucault escreveu um prefácio a um livro que eu gosto muito, ”O Anti-Édipo: uma introdução à vida não fascista”, em que uma das dicas é: “não se apaixonem pelo poder”, e Nietzsche nos ensina a diferenciar poder de potência. Entendo poder como esse poder instituído que está a favor da manutenção de hierarquias, e potência essa que nos bota na vida, as mudanças que de fato mudam alguma coisa são aquelas que acionam as nossas potências. Na nossa cultura, temos muita potência, potência de desdramatizar e de parar de buscar uma vida apenas produtiva, libertador é sair fora da lógica da produtividade e surfarmos as ondas e fluxos de criação. Ailton Krenak diz que a vida não é útil no sentido de não ser utilitária. O palhaço nos inspira e nos ensina a não ter vergonha das inutilidades. Apesar de sermos constantemente instados a fazer o discurso da utilidade, do para quê serve, dos objetivos, o grande alívio é que “A vida não é útil”, e temos, tão perto de nós, os povos originários nos ensinando e vivendo isso. Sobre a impressão de algumas pessoas de que o palhaço trabalha questões pessoais, enquanto o teatro do oprimido trabalharia questões mais sociais e, por isso, teria maior eficácia política, podemos aguçar o olhar, a escuta, nossas percepções dos micro- Primeira Edição Teatro de Fato em Guaíba 2010 36 podemos reduzir a um julgamento de que é pessoal demais, por isso não seria político. Há política em cada gesto nosso, há molecularidades que nos arrastam a viver de determinados jeitos sobre os quais às vezes a gente nem se dá conta, o palhaço nos traz essa percepção pelo corpo, pelas sensações. Cruzando todos esses pensamentos, uma força dessa pesquisa, que pode durar toda uma vida, seria, na prática, pegar, a cada vez, o detalhe de quando um exercício de teatro do oprimido aciona exatamente a gravidez de mundos. Ou, inspirados nos modos que o Augusto Boal tinha de criar, engravidar de mundos exercícios e jogos já existentes. Teatro do oprimido e palhaçaria são práticas que se recusaram a se tornar mercadoria, ainda que possam se tornar muitas vezes, porque quando é só mercadoria, aquilo acaba ali, compra-se ela e acabou, mas quando é uma prática que envolve um tipo de iniciação também, traz um aprendizado de um modo de ser, tem uma repercussão. O mundo está numa fase extremamente produtivista e o capitalismo duro demais. Essa aliança proposta pela pesquisa tem uma força, porque o palhaço, de um modo inusitado, pode ser revolucionário, algo que o teatro do oprimido sempre almejou. Silvia Balestreri UFRGS ALIANÇAS EXPLICITADAS (VULGO REFERÊNCIAS) BALESTRERI, Silvia. 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Pensar a desdramatização a partir de uma aliança (e alguns risos) com Sotigui Kouyaté: um texto-fala em sete fragmentoos. aParte. São Paulo, v. 4, p. 49-61, set. 2011. KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. SACCHET, Patricia de O. F. Da discussão "clown ou palhaço" às permeabilidades de clownear- palhaçar. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas). Porto Alegre: UFRGS, 2009. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/17730 37 "A troca viva, íntegra, aberta e divertida que tive com as pessoas do Grupo Realejo EnCena, da Comparsaria das Façanhas do Ponto de Cultura Biguá, e com Jaqueline Iepsen, a palhaça Assuntina, me renovaram a esperança e certeza, de que por mais que o fascismo tente, é impossível aprisionar o vôo da arte autêntica e genuína". Cláudio Thebas, palhaço, escritor e educador. 38 Eles esperam que desconstruamos ou, minimamente, repensemos nossas estruturas corporais, psíquicas, sociais para que possamos ampliar nosso leque de possibilidades do “ser”. Por último gostaria de salientar a importância da elaboração de discurso a partir deste retorno a si que ambos podem sugerir. As narrativas criadas para a cena, na maioria das vezes – pelo menos pensando a partir das palhaçarias feministas que tenho acompanhado nos últimos anos - são impressões pessoais sobre determinado assunto. Investe-se nas situações vivenciadas ou observadas no contexto social de cada participante, contribuindo para que estes/estas possam se expressar, evidenciar,denunciar. Neste sentido, a pedagogia da cena não está em “assistir a um espetáculo e captar sua moral” mas “pensar e agir”. Aprende-se agindo. Boal tem uma frase que, para mim, pode ser aplicada tanto no TO quanto na palhaçaria, que é: “Pode ser que o teatro não seja revolucionário em si mesmo, mas não tenham dúvidas: é um ensaio da revolução!” Abraços à equipe, e meu muito obrigada por ser lembrada e convidada para estar aqui com vocês. COMO RELACIONAR TEATRO DO OPRIMIDO COM PALHAÇARIA? Não sou especialista em nenhum dos dois assuntos, embora ambos apareçam em minhas pesquisas e práticas cênico- pedagógicas. Assim, para elaborar esta formulação partirei de alguns princípios que reconheço em ambos. Pensar em palhaçaria, para mim, significa reconhecer a possibilidade que ela oferece de um retorno a si. Não pela perspectiva neoliberal de um “si” isolado do todo, justamente o contrário, um “si” que dialoga a todo o momento com o coletivo e que, por isso, carrega o coletivo conSIgo. Por identificar-se no/com o coletivo, consegue questionar, criticar, enaltecer aspectos da estrutura social a partir de “si” e das relações que tece com o todo. O Teatro do Oprimido também trabalha sob esta perspectiva na medida em que tem como uma de suas primeiras preocupações democratizar as ferramentas cênicas para que todos/todas/todes possam, a partir de “si”, falar do seu contexto. Acho que este, pra mim, é o primeiro aspecto que me chama atenção na relação entre os dois assuntos. O segundo é o potencial revolucionário que ambos oferecem, se pensarmos na autonomia e libertação que podem propiciar quando instigam este “retorno a si”. Um sistema como o Capitalista, cujo jargão é “Time is Money”, pressupõe a otimização, a eficiência e a objetivação das funções, justamente porque lhe interessa em produzir mais com tempo mínimo. Desta forma, é necessário que todo o corpo do/da trabalhador/a esteja imerso no ato de produzir, sem desvio de foco e atenção, para garantir total aproveitamento de tempo. O que o Teatro do Oprimido e a Palhaçaria propõem, neste sentido, está na contramão do que o sistema espera dos/das sujeitos/as. Tefa Polidoro Pesquisadora 39 "[...] ter sentido de humor é dispor de um poder no difícil jogo da existência. O humor é uma forma de jogar, de brincar e se rebelar diante da humilhação e do desamparo. É também, a capacidade simbólica de gerar prazer onde, geralmente, ocorreria a dor". Abrão Slavutzky, médico psicanalista. (Trechos do livro “Humor é coisa séria” Editora Arquipélago) 40 classes, produzindo ações que sejam para todos e que tenham um aproveitamento coletivo. Nesse sentido, podemos observar a própria explicação de Boal (2009) sobre o propósito do Teatro do Oprimido enunciado como um teatro que busca favorecer a compreensão de problemas pessoais e comunitários pelos participantes e promover a busca conjunta de alternativas para a resolução desses problemas. Assim, o TO não se restringia há um fazer artístico apenas preocupado com a experimentação ou qualidade estética, mas um teatro que pudesse ser um meio mais efetivo de comunicação e transformação social. A partir disso, entendemos que a perspectiva e acumulo teórico produzido pelo TO podem auxiliar e contribuir para maiores reflexões sobre a função atual da palhaçaria na sociedade. A arte dos palhaços, com suas características próprias, pode ter relevância para além de questões estéticas e entretenimento, com uma atuação mais ativa para promoção do bem comum, uma arte mais presente no cotidiano social. Atualmente, observamos a presença de diversos grupos de palhaços atuando em espaços de vulnerabilidade social, sendo o BREVES REFLEXÕES ENTRE TEATRO DO OPRIMIDO E PALHAÇARIA A contribuição de Augusto Boal para o teatro é de dimensões mundiais. No Brasil, suas reflexões sobre arte e sociedade ainda reverberam de maneira exponencial e sua conceituação estética conhecida como Teatro do Oprimido (TO) ainda é prática presente em diversos grupos. Segundo Sanctum (2012, p. 45), o TO é “praticado em mais de setenta países, onde muitos artistas e ativistas sociais utilizam os jogos e técnicas criados ou sistematizados por Boal para redescobrir a arte adormecida e reprimida por uma sociedade capitalista, acelerada e opressiva”. Para nossa reflexão, que visa buscar possíveis relações entre o TO e a palhaçaria, é fundamental registrar que o trabalho de Boal esteve centralizado na arte teatral. Entretanto, nossos apontamentos se fazem diante das possibilidades de interdisciplinaridade que nos permite utilizar diversos aspectos teóricos e práticos apontados por Boal como alternativas para também pensar a palhaçaria. Nesse sentido, objetivamos expor três pontos do pensamento de Boal refletidos no TO e que, ao nosso ver, são importantes e contribuem para a arte dos palhaços: a) a arte como política; b) popularização da arte; e c) a questão da didática para melhor qualificação artística. O primeiro aspecto que apresentamos é sobre a questão política do teatro de Boal e que é central para o entendimento de sua teoria. Boal (2009) postulava a arte teatral como uma prática política, suas ideias são construídas diante do conceito original da própria palavra, a saber que o significado dessa é melhor expresso como “arte do bem comum”. Ou seja, política é todo conhecimento que tem como caráter objetivo o benefício da sociedade, buscando a aproximação das ideias, evitando distinção de Treinamento com o grupo S.O.S Sorriso, alunos de medicina da UNINGÁ 41 exemplo a comparação entre o teatro e o futebol. Esse esporte era utilizado como referência pelo seu caráter popular e por carregar dois aspectos de relevância política: o conhecimento simplificado e coletivo das regras e habilidades por todos (até dos que não praticam) e a facilidade de acesso do aprendizado e dos espaços de prática. Pontos que são fundamentais para entender sua adesão e poder de envolvimento social. Assim, a reflexão e prática de Boal com o TO também buscava a proposição dessas características no fazer teatral. Em relação ao acesso para aprendizado e prática, a proposição voltou-se para uma didática que facilitaria o compartilhamento de habilidades e técnicas teatrais para serem ensinadas para atores e “não-atores”, nos mais diversos locais e para os mais diversos objetivos, e que falaremos mais adiante; no outro aspecto, o TO tinha como princípio um teatro que buscou extrapolar a prática e aprendizado dos espaços convencionais (escolas e palcos teatrais), incentivando a prática teatral em diversos espaços, como escolas, igrejas, fóruns, ruas e quaisquer outros lugares. Assim, permitindo o acesso e descentralizando os espaços de atuação, a popularização dessa arte teria como consequência um aumento exponencial de praticantes, se tornando uma arte para o bem comum. Nesse sentido, observamos que a reflexão de Boal cabe muito bem para entendermos a popularização da palhaçaria nas últimas três maior exemplo a atuação nos hospitais2. Nesse sentido, essa prática artística pode ser vista como uma forma de buscar novas maneiras de pensar a saúde pública e a democratização da arte, uma vez que para muitos pacientes a presença de palhaços nesses espaços representa um dos poucos momentos de contato com arte presencial; bem como, a atuação dos palhaços ser entendida como uma nova forma de promoção de saúde, além dos conhecimentos tradicionais. Podemos citar um outro exemplo, que é o da atuação de palhaços em espaços jurídicos3, no qual a intervenção artística pode ser um meio de colaboração para processos conciliatórios. Assim, é notório que a palhaçaria tem assumido novas funções sociais e explorado outros espaços públicos; portanto, na perspectiva de uma arte que busca o bem comum, algumas práticas da palhaçaria tem relações com a proposição do TO. 2 No Brasil, a primeira iniciativa estruturada de palhaços em hospitais surgiu na década de 90 os Doutores da Alegria, de São Paulo. Atualmente, o país tem milhares de grupos, destacando grupos exponenciais como: InstitutoHahaha, de Minas Gerais; projeto Terapia da Alegria, do Paraná; e Ong Esquadrão da Alegria, do Rio Grande do Sul. 3 A principal referência no país é o grupo Palhaços sem juízo, de São Paulo, que atuam com a figura dos palhaços como paródia de advogados. O segundo ponto que objetivamos apresentar refere-se à importância da popularização da arte dentro da teoria do TO, a reflexão de como e porque um conhecimento é e se torna popular. Isso é um fundamento, pois dentro da teoria de Boal uma arte só será política se estiver sobre o domínio e a prática popular. Assim, como nos conta o ator Celso Frateschi (2020), Boal explicava a necessidade da popularização artística utilizando como Treinamento com o grupo Esquadrão da Alegria 2018 42 atualidade, existam algumas escolas, cursos e oficinas que se propõem a democratização da arte do palhaçaria, muito do que é praticado é feito sem o conhecimento básico das regras e técnicas. O que é possível questionar se essa popularização produziu muitos palhaços ou muitas pessoas vestidas de palhaço? A partir desse questionamento, é que apresentamos o último ponto de reflexão, a saber a questão da didática proposta pelo TO e que, talvez, seja o principal aspecto que possa influenciar e ser utilizado pela palhaçaria pelo entendimento do processo de ensino e aprendizagem que essa teoria teatral propõe. Por justamente ter como base um teatro como prática popular ativa na sociedade, o TO desenvolveu um método composto de exercícios e jogos teatrais que buscam a democratização das habilidades e técnicas dessa arte, uma forma de ensinar teatro para atores e não-atores, para todos. Junto a isso, como exposto por Boal (1999), além da parte prática, o conceito de que todo o ensinamento deveria ser acessível e de linguagem fácil, no qual a construção do conhecimento deveria ter como princípio básico a vivência e acúmulo dos próprios aprendizes, sem o uso de termos e expressões que só são codificados por artistas profissionais e que, nesse aspecto, produz exclusão. Essa perspectiva tem relação direta com as propostas do educador Paulo Freire (2017), através da Pedagogia do Oprimido, buscando uma educação igualitária e mais acessível, evitando relações de poder e opressão. Portanto, ao observamos o método didático do TO podemos nos basear nesse para que o ensino e aprendizado das habilidades e técnicas da palhaçaria sigam os princípios de uma linguagem que seja acessível em suas práticas e teorias para todos, evitando frases de efeito, modos de explicação e codificações décadas, principalmente com grupos que atuam em hospitais, a qual entendemos ser justificada pela descentralização da prática dessa arte dos espaços tradicionais como o circo e o teatro. Como consequência, houve uma expansão dessa prática artística para além de artistas, palhaços profissionais. Ou seja, é interessante notar que a popularização da arte da palhaçaria foi motivada pela possibilidade de sua prática em um espaço não convencional, o que gerou um maior acesso de pessoas que desejavam ser palhaços, mas que não tinha um espaço para a prática dessa arte; tal fato é observável no Brasil pelo número de projetos de palhaços em hospitais, uma diversidade de artistas palhaços profissionais e amadores vinculados a ong’s, universidades, igrejas, associações cíveis e outras instituições. Há outro aspecto sobre a popularização da palhaçaria que está vinculada a uma maior divulgação midiática dessa arte, principalmente relacionado aos espaços de saúde, no qual essa atuação artística está vinculada a rótulos de promoção de humanização e voluntariado, questões discutíveis que não iremos desenvolver aqui mas que notadamente são observáveis como motivos de atração para pessoas buscarem a arte da palhaçaria. Entretanto, ao nosso ver, essa popularização que é consequência de uma democratização do espaço da prática da palhaçaria, não foi tão efetiva no aspecto de popularização do conhecimento das habilidades dessa arte. Ainda que, na Treinamento com o grupo Esquadrão da Alegria 2018 43 que são apenas entendidos por palhaços de profissão e longa pesquisa. Vale ressaltar que, com a popularização da palhaçaria, sua prática tem um número maioritário de amadores e principiantes. Nesse sentido, é possível a adaptação do próprio método proposto por Boal e sua utilização para etapas de aprendizado da palhaçaria, resguardando os aspectos técnicos que são singulares dessa arte e que a diferenciam do teatro. É recomendável o caminho proposto pelo TO, principalmente, em relação à descoberta do corpo como instrumento de comunicação. Citamos, como indicativo, o processo apresentado por Boal (1999) que segue um lógica com alguns tópicos de exercícios muito potenciais: aquecimento físico, aquecimento ideológico, aquecimento vocal, aquecimento emocional, jogos de integração, exercícios de máscaras e rituais e quebra de repressão. São etapas que muito bem dialogam e podem ser adaptadas para o fazer prático da palhaçaria e que, pela escassez de métodos próprios, podem ser aproveitados por professores de palhaçaria e aprendizes. Portanto, afirmamos que pelo caráter popular e ativo do TO, suas reflexões e práticas servem muito bem como apoio para a palhaçaria que a cada dia tem sido mais praticada, por diversos motivos e meios. Na perspectiva da interdisciplinaridade, a adaptação dos conceitos, exercícios e jogos do TO para o desenvolvimento de palhaços abre espaço para uma qualificação dessa arte. E, assim como pensava Boal (1999), a arte servirá não só para mostrar como é o mundo, mas também para mostrar porque é assim e como pode ser transformado. Alexandre Penha Pesquisador REFERÊNCIAS BOAL, Augusto. A Estética do Oprimido. Editora Garamond: Rio de Janeiro, 2009. ____. Jogos para Atores e não Atores. Editora Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1999. FRATESCHI, Celso. Formas de resistência do teatro no tempo das ditaduras na América Latina. Youtube, 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch? v=2KYApPaa2-4 Acesso: 20 jul. 202. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017. SANCTUM, F. Do negativo social à transformação do real - Aproximações entre Boal e Adorno. Sala Preta, [S. l.], v. 12, n. 2, p. 45-50, 2012. DOI: 10.11606/issn.2238- 3867.v12i2p45-50. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/salapreta/article/vi ew/57485. Acesso em: 26 jul. 2021. 44 "[...] o diálogo se impõe como caminho pelo qual os homens ganham significação enquanto homens. Por isto, o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidariza o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de ideias a serem consumidas pelos permutantes. [...] Não é também discussão guerreira, polêmica, entre sujeitos que não aspiram a comprometer-se com a pronúncia do mundo, nem com buscar a verdade, mas com impor a sua. Porque é encontro de homens que pronunciam o mundo, não deve ser doação do pronunciar de uns a outros. É um ato de criação[...]". Paulo Freire, educador Do livro “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire, Editora Paz e Terra, 17ª edição. 1987. 45 objetivo esclarecer e superar as problemáticas individuais e grupais. Esta técnica aplica-se também nos campos pessoais, profissionais e institucionais. É a injeção de humor nos processos de transformação. O objetivo é tentar transformar, com a ajuda do clown, situações difíceis de viver. O Clown torna-se parceiro, solidário, e também ator de intervenção social educativa, militante, medicinal ou terapêutica. O princípio é utilizar todos os recursos do Clown (a empatia, a relação com os outros, a criatividade, a consciência das diferenças) para procurar alternativas para os problemas sociais (higiene alimentar, segurança, catástrofes naturais, globalização, etc) ou individuais (mal estar, dificuldades pessoais, crises existenciais, etc.). O Clown revela insatisfações,necessidades, desejos nos níveis pessoal, social ou institucional.. Através do conjunto dos dispositivos de improviso e de fórum, o Clown acompanha a pessoa, os outros, o mundo, para uma transformação poética e intercultural. O Clown abre-se cada vez mais sobre o público (o que é uma das contribuições do TEATRO FÓRUM). Caravane Theatre experimenta o fato de dar suas oficinas “Clowning” no meio da praça PALHAÇO - ANALISADOR PRIVILEGIADO Jean-Pierre Besnard é ator, Curinga de TEATRO FORUM e formador Clown. Faz parte do CARAVANE THÉÂTRE (www.caravane-theatre.com). Sua formação em Teatro do Oprimido foi diretamente com Augusto Boal, quando se conheceram. Criou técnicas originais mesclando CLOWN e Teatro Fórum: o Clowning, que desenvolve na França e em outros países. No seu manual: “CLOWNMUNICAR: do desenvolvimento pessoal à intervenção social Manual pedagógico: Jogos, exercícios e estruturas de improviso” (Tradução para o Português: Rosa Rockenbach), Jean Pierre apresenta 3 níveis da “Clownmunicação” que estão ligados ao domínio das técnicas clownescas: 1º A descoberta do clown pessoal 2º O clown descobre o mundo 3º O Clown transforma o mundo No terceiro nível é que ele descreve sobre o Clowning, é quando o clown se torna um ATOR SOCIAL: O Clown toma seu lugar no coração da sociedade. Ele pode ser então: cuidador, terapeuta, técnico, assistente social, no nível pessoal. Educador, militante, professor, político, no nível social. Suas três principais funções: CATALISAR: o Clown aciona e revela carências, desejos, necessidades. ANALISAR: o Clown sustenta a análise dos participantes fazendo surgir a informação em diferentes assuntos problemáticos. TRANSFORMAR: o Clown inicia, induz e acompanha a mudança. O lema do Clown: “fazer rir a verdade” O Clowning é uma técnica de comunicação interativa baseada na arte do TEATRO FÓRUM e na arte do Clown, que tem por Fotos do acervo da Caravane Théâtre 46 http://www.caravane-theatre.com/ https://www.facebook.com/CaravaneTheatre/photos/ Jean-Pierre Besnard Caravane Théâtre pública, os espectadores tornam-se então Espect-Atores que não hesitam em misturar- se aos jogos e aos exercícios e, algumas vezes, a colocar o nariz. Jean Pierre considera o palhaço um ANALISADOR PRIVILEGIADO. Ele diz que “o palhaço não apenas vê e mostra, mas revela o que não é visto com frequência, ou nunca. Traz à tona o não dito, o não conhecido, o não-fato, e assim permite aos espect-atores agitarem seus esquemas perceptuais, cognitivos e práxicos. E com isso, gerar novas ações e conscientização.” Fotos do acervo da Caravane Théâtre 47 https://www.facebook.com/CaravaneTheatre/photos/ "[...] revela o outro lado das coisas, goza de tudo em busca de uma visão mais leve do mundo. Entretanto, o humor não dá respostas, mas faz boas perguntas e ajuda a pensar [...]". Abrão Slavutzky, médico psicanalista. (Trechos do livro “Humor é coisa séria” Editora Arquipélago) 48 podemos esperar que as emoções se manifestem “livremente” através do corpo do ator, se tal instrumento (nosso corpo) está mecanizado, muscularmente automatizado e insensível em 90% das suas possibilidades? Uma nova emoção, quando a sentimos, corre o risco de ser cristalizada pelo nosso comportamento mecanizado, pelas nossas formas habituais de agir e de nos expressar." Para criar algo novo, é necessário romper com esses automatismos, trabalhar com a plasticidade do corpo e das emoções. Na palhaçaria, pelas experiências que tive, tanto como oficinando quanto como espectador, noto um longo trabalho de descondicionamento também. Esse trabalho começa com jogos que também são relativamente simples, mas naturalmente vão se aprofundando e exigindo mais dos/as aspirantes a palhaço/a, uma vez que o aprofundamento e a dedicação se tornam necessários para um trabalho de qualidade, com sensibilidade, entrega, vulnerabilidade (valor muito caro à palhaçaria, me parece). Nesse ponto me parece que há a relação entre as duas linguagens, talvez não tanto no sentido de linguagens que são apresentadas ao público, mas sim em termos de processo. São processos, me parece, simples, mas que LEVEZA E HUMOR NO MUNDO DA OPRESSÃO Teatro do Oprimido e Palhaçaria: É uma relação sobre a qual eu não tinha pensado até ver a pesquisa de vocês. Em princípio, parecem caminhos bem diferentes, especialmente se "julgamos pela capa", ou seja, o que "teatro do oprimido", que deve tratar de questões sérias, de opressão, dominação e medo, tem a ver com a palhaçaria, que deve tratar do riso, da brincadeira, da leveza? Fui então, revisitar os exercícios de Teatro do Oprimido e comecei a ver muitas relações. Ou seja, talvez em termos de "resultado", se pensarmos em uma gague de palhaço(a) vs. uma peça de Teatro Fórum, por exemplo, não parece haver muita semelhança. Mas quando conhecemos a história do Augusto Boal e do Teatro do Oprimido de modo geral, vemos que para se "chegar" a uma peça, todo o processo é longo, artesanal, cheio de nuances. E aí, em termos de jogos, podemos ver relações e semelhanças. Vejo, por exemplo, a questão da simplicidade de ambas as linguagens. Simplicidade no sentido de que não se exige que quem entre pela palhaçaria ou pelo TO seja alguém com uma longa trajetória no teatro ou nas artes. O Boal trabalhava direto com o que ele chamava de "não atores" e os exercícios que ele propunha - ao menos aqueles a que tive acesso nas aulas com a professora Silvia Balestreri, na UFRGS, com o professor Celso Velusa, no NETO (Núcleo de Estudos de Teatro do Oprimido) e com o livro Jogos para Atores e Não Atores - são, em sua grande maioria, bastante acessíveis a quem nunca fez teatro. Esses exercícios, como o Boal dizia, serviam para "quebrar o gelo", para mostrar que é possível fazer movimentos simples com o corpo e isso já desautomatizar nosso corpo, tirando-o da inércia e da atrofia. Disse ele, neste livro que citei acima: "Como 49 Encontro sobre (e com) performance meditativa na EMEF Walmir Martins, de Sapucaia do Sul. processos internos profundos. Por que não? Respondendo à questão de quais exercícios ou técnicas do TO podem contribuir para a palhaçaria, eu diria que quase todos dessa série de "desbloqueio" que o Boal propõe (Sentir tudo o que se toca; Escutar tudo o que se ouve; Ver tudo o que se olha) podem ser facilmente praticados em processos de construção de palhaço(a)s. Quando falamos de Jogos de Integração, também acredito que em sua maioria, podem ser experimentados por quem está buscando descobrir seu(sua) palhaço(a). Lembro especialmente do Urso de Poitiers, um dos que mais usei nas aulas de teatro. "Um participante é escolhido para ser o urso de Poitiers (cidade francesa onde se pratica esse jogo). Dá as costas aos outros, que são os lenhadores. Estes devem estar trabalhando, em mímica. O urso deve emitir um enorme rugido, e todos os lenhadores cairão no chão ou ficarão imóveis mesmo de pé, sem fazer o menor movimento, totalmente congelados. O urso se aproximará de cada um deles, rugirá quanto quiser, poderá tocá- los, fazer cócegas, empurrá-los, tudo o que puder para fazer com que se mexam, riam, para obrigá-los a mostrar que estão vivos. Se isso acontecer, o lenhador se transformará em urso também, e os dois ursos irão fazer a mesma coisa com os outros lenhadores, que continuarão tentando não se mexer. Em seguida três, quatro ursos etc." (Boal, Augusto. Jogos para atores e não atores (Portuguese Edition) (Locais do Kindle 1882- 1883). Edição do Kindle) Imagino esse exercício sendo realizado no processo de palhaçaria e penso que pode muito bem ativar a sensibilidade - paralisados pelo medo - e desbloquear risos. Agora, quando começam a adentrar jogos mais específicos do universo do Teatro guardam ao mesmo tempo uma profundidade e uma delicadeza que começam a transparecer não tanto porque os exercícios ficam mais complexos e exigentes - talvez em alguns casos, em algumas abordagens, pode ser que sim, uma vez que não tive contato com muitas abordagens da palhaçaria, embora tenha notícias de métodos mais emais exigentes - mas acredito que mais porque, pela repetição, persistência, paciência com aquele exercício simples mesmo, a profundidade, a delicadeza, a leveza e o humor surjam. Vamos pegar, por exemplo, um dos exercícios mais populares do TO, "a cruz e o círculo". Começo pelo exercício que é, teoricamente, o mais fácil de fazer, mas que, por causa das mecanizações psicológicas e físicas, é difícil de realizar na prática. Como não há necessidade de preparação, os não atores se entregam sem medo; e, se forem prevenidos de que é quase impossível realizá-lo bem, não terão receio de não consegui-lo e se sentirão livres para tentar. Pede-se que façam um círculo com a mão direita, grande ou pequeno, como puderem: é fácil e todo mundo faz. Pede-se, depois, que façam uma cruz com a mão esquerda; é ainda mais fácil, todos conseguem. Pede-se, então, que façam as duas coisas ao mesmo tempo. É quase impossível. Em um grupo de umas trinta pessoas, às vezes uma consegue. Dificilmente dois, e três é o recorde. Quaisquer figuras diferentes para cada mão também servirão, além do círculo e da cruz." (Boal, Augusto. Jogos para atores e não atores (Portuguese Edition) (Locais do Kindle 1596-1599). Edição do Kindle) Esse exercício desbloqueia automatismos, pode nos fazer rir e, se for repetido de forma persistente, paciente, pode fazer descortinar 50 Fórum, Teatro Imagem, Teatro Invisível, Teatro Legislativo e Arco-Íris do Desejo, parece-me que há uma distância maior entre as linguagens, uma vez que se tratam de jogos de improvisação com mais estrutura de personagens, algo que, até onde conheço a palhaçaria, não é muito enfatizado. Já ouvi de mais de uma professora de palhaçaria que palhaço não é personagem, mas que se encontra mais próximo da persona, no limiar entre o que "somos" e o que "pretendemos ser". Embora em termos de jogos e processo haja essa distância nesse ponto, em termos de democratização ou proximidade com as "pessoas comuns", ou seja, com quem não necessariamente faz teatro ou se vê parte desse universo, as duas abordagens são especialmente felizes e convergentes. Boal teve a façanha de chegar a muitas comunidades, em muitos estratos sociais, em muitos e diversos contextos e foi categórico em afirmar que todo mundo já faz teatro na sua própria vida. O que ele - e aqueles e aquelas que o acompanharam e acompanham - fez foi desenvolver uma linguagem para que esse teatro que já é realizado seja consciente, estruturado, passível de ser comunicado e vivenciado por mais e mais pessoas. No caso da palhaçaria, a ênfase em todos os jogos e processos por uma busca interna, por um "desabrochar do/a palhaço/a interno/a" muito mais do que a criação de algo externo me parece casar com essa abordagem de Boal e da Pedagogia do Oprimido. Em termos de contribuição mútua entre as linguagens, penso que o Teatro do Oprimido poderia se beneficiar muito da forma leve, bem humorada, divertida que a palhaçaria oferece. Pessoalmente, confesso que sempre me incomodei com a noção de "oprimido", pois num primeiro momento tal noção pode José Benetti Artista e professor de Artes reforçar a ideia de que há um culpado pela opressão e uma vítima. Quando aprofundamos na descoberta desse universo, contudo, e especialmente a partir das reflexões que o próprio Boal fez, vemos que se trata muito mais de um processo fluido, plástico, dinâmico. Paulo Freire, praticante ativo e teórico da educação, cujas ideias convergem muito com as de Boal dizia que "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor." No fundo, acredito e vejo que o ponto para Boal era esse, mas temo (e vejo isso acontecendo) que a abordagem do "oprimido" seja utilizada mais de forma a reforçar separações, sectarismo, diferenças e pouco em promover mudanças. Talvez a palhaçaria, por trabalhar com questões internas, íntimas, das quais todos e todas, como seres humanos, compartilhamos, possa contribuir para uma sensibilização nesse trabalho tão importante que é o de dissolver as barreiras que nos dividem cada vez mais. Por essa razão, celebro e agradeço a pesquisa de vocês e o convite - que muito me alegra e me honra - para dela fazer parte! Um forte abraço! 51 Augusto BOAL dizia, referente ao TEATRO FÓRUM: “Todo o Mundo pode fazer Teatro, até mesmo os atores, pode-se fazer teatro em todos os lugares, até mesmo nos teatros”. Adotamos inteiramente esta posição no que se refere ao Clown. O Clown que nós queremos desenvolver propõe-se a transformar as injustiças, na sua escala, graças às armas de que dispõe. Eu presto uma profunda homenagem a Augusto Boal, com quem eu me formei no TEATRO FORUM. Ele soube transmitir- me este maravilhoso adágio: “Tenhamos a coragem de ser felizes”. Jean-Pierre Besnard, Caravane Théâtre 52 corriqueiro abismo social, mas naquele momento a palhaçaria usou da sua capacidade de construir pontes. Na filosofia aristotélica a Política é a ciência que tem por objetivo a felicidade humana e divide-se em ética, que se preocupa com a felicidade individual da pessoa na pólis, e na política propriamente dita, que se preocupa com a felicidade coletiva da pólis. Instâncias do individuo e da sociedade como partes que compõe uma totalidade. Já, para os filósofos Deleuze e Guattari “tudo é político, mas toda política é ao mesmo tempo macropolítica e micropolítica”. Embora estes conceitos sejam bastante complexos, podemos definir resumidamente que as macropolíticas envolvem as estruturas sociais, movimentos, classes, sexos, poderes institucionalizados, organizações coletivas formais ou não. Já as micropolíticas são compostas pelas tiranias pessoais, lutas cotidianas diárias travadas ao existirmos e resistirmos no terreno da percepção, da afecção, da conversa, que continuamente modifica os grandes conjuntos (macros), esvaziando a distinção entre o social e o individual. Micro e macropolítica, portanto, operam de formas diferentes, mas uma não existe sem a outra. A partir destes conceitos apresentados, podemos pensar que a criação artística como TÁ RINDO DE QUÊ MESMO? Quando penso na relação do TO (Teatro do Oprimido) com a Palhaçaria, me vem na memória uma cena: saída de palhaçaria pela Rua dos Andradas (centro da cidade de Porto Alegre/RS), acompanhadxs da Profa. Ana Wuo, em algum dia do ano de 2001. Músicos na rua (peruanos) tocam na flauta “Solo le pido a Diós¹... Que el dolor no me sea indiferente, Que la resseca muerte no me encuentre, Vacia e Sola sin haber hecho el suficiente...“. (A música de León Gieco, famosa na voz de Mercedes Sosa, vale uma escuta mais atenta por ser parte da cena e complementar esta escrita. Sua letra menciona responsabilidade social, justiça e uma fé que só ganha sentido acompanhada de ação). Ondina, a palhaça em mim, inebriada pelo som, passa por uma banca de flores na calçada, vê uma rosa branca, saúda a atendente, que a presenteia com a rosa. A emoção do momento cria a imagem em câmera lenta, zoom na mão da palhaça recebendo a rosa. Por uns instantes, há apenas o comemorar o presente apaixonadamente dançando, palhaça e flor, parceiras de vida. O olhar retorna do zoom, abrindo, girando, girando e girando na dança até ganhar a rua. Ondina adentra no coletivo dançante de colegas da palhaçaria, criam uma pista de dança em frente aos músicos, festa colorida, alegria pulsando. Passantes passam, cachorros latem, ambulantes vendem, e olhares são capturados pela alegria da cena e sua vibração. Um homem engravatado, sapato lustroso de terno adentra e dança, um morador de rua, com roupas simples, rasgadas, pés descalços, também se achega pra dançar. Dança. Dançam. Dançamos. Esta junção inusitada só existe por que no espaço democrático da rua todas as pessoas ali presentes se sentiram convidadas a estar. Entre o sujeito engravatado e o morador de rua há um 53Ondina e Tufone O TO vê como sentido o uso da arte como ferramenta de inclusão social. Será que somos realmente capazes de optar por desenvolver uma arte cômica que se comporta como a caravana do filme “A Viagem do CapitãoTornado”², agregando as pessoas dos diferentes recortes sociais, ainda que em contínuo movimento, sem deixar nada e ninguém pra trás? Podemos dizer que o TO e a Palhaçaria fazem intersecção quando trazem às suas práticas a consciência sobre os recortes de camadas sociais, de gênero, raciais, suas tensões, suas (in)tenções. Quem eram os atores/espectatores do Teatro do Oprimido? As hoje chamadas “minorias”. A quem interessa tecer o manto de invisibilidade que é lançado sobre tais pessoas? Opressores que não querem abrir mão do conforto de seus lugares de privilégios. Seria possível a construção de uma comicidade que não adote o lugar do opressor, que, portanto, não se serve das chamadas minorias como material humano risível? Para as mulheres a resposta é sim. Estão se fazendo fortes ocupando espaços tanto no TO, como na Palhaçaria. Barbara Santos e o Teatro das Oprimidas, a Grupa Gestar, que, além de pesquisar o Teatro das Oprimidas, este tem incluído na pesquisa a própria palhaçaria também feita por mulheres. Jaqueline Iepsen, palhaça Assuntina e provocadora da temática deste artigo, conheceu Nathy Ananias (Grupa Gestar) em uma oficina de palhaçaria no Festival Palhaças do Sul³, o qual tive o prazer de produzir junto ao coletivo Baphônicas. potência se dá no âmbito da micropolítica, porém a sua reverberação, afetar ou outras artes e artistas, espectadores, crítica, mídia, vai necessariamente modificar, de alguma forma, o tecido macropolítico das relações sociais. Fazer arte é, portanto, fazer política a cada escolha profissional. Ser artista significa, inevitavelmente, existir dentro de algum tipo de coletividade. Mesmo que um artista da comicidade prefira trabalhar solo, ele precisará contar com algum tipo de parceria ou colaboração para realizar uma produção. Nosso material de trabalho como artista é, portanto, orgânico, subjetivo e visceral. Nossas obras, cenas, números, espetáculo, gag, performances, existem a partir de experiências compartilhadas, criações, afetos, reflexões, espectadores, grupos, cias, coletividades, que se forjam em debates constantes. Qualquer escolha, portanto, é política, até mesmo quando tal escolha é sonegada publicamente. Inclusive é uma escolha ou posicionamento político silenciar, se isentar para talvez passar uma ideia de neutralidade. Se, por um lado, o tão comum discurso de “eu faço humor, não faço política” não mais se sustenta, por outro lado, podemos observar o aumento considerável de reverberação quando é possível enxergar, conscientizar e até criticar a dimensão política do seu trabalho. Logo, através de uma lupa, é possível observar um tecido poroso, arejado de atravessamentos múltiplos. Criadora & criatura, artista e obra, passam a flertar com o risco ao questionar o status quo, e, por fim, destronar o (micro)poder vigente. Pode ser uma vida de (micro)conquistas e geralmente o é. Somos as florezinhas silvestres que brotam por entre as frestas do asfalto. A arte é sempre uma forma de salvar, artistas e espectadores da aridez de sentidos. (A viagem do capiatão Tornado,1990) 54 A discussão sobre o riso e ética para artistas cômicxs e ridentes atualmente está amplamente difundida, talvez amplificada pelas polêmicas que se desdobram em opiniões e julgamentos nas redes sociais. As minorias e suas vozes ganhando maior espaço passam a serem mais visíveis como pautas. Leis que as defendem passam a serem votadas no congresso, temos mandatos coletivos, regime de cotas de gênero, cotas raciais ou cotas para deficientes, em universidades, para empregos, cotas para mulheres em partidos políticos, etc. No entanto, tais avanços, assim como enfrentam resistência de grupos conservadores, também vão encontrar dentro da própria comicidade. Nem todos os artistas estão dispostos a repensar criticamente e alterar o seu repertório de chistes, piadas, etc. Ainda hoje ouvimos a ampla defesa de piadas desrespeitosas, preconceituosas. O argumento que prevalece é “por que é engraçado”, como se o fato de ser engraçado legitimasse de um tudo. Mas, as tensões sociais neste lugar da comédia vai aumentar para quem ainda está relutante, e nem todos parecem estar bem preparados para serem criticados. Para cada ação considerada desrespeitosa, temos as mais diversas reações, punições, xingamentos, cancelamentos e os chamados “linchamentos virtuais” no tribunal da internet. Alguns artistas reclamam de se sentirem cerceados na sua antiga liberdade, perseguidos por uma “patrulha” que está em todo o lugar e não descansa. E, de certa forma, está. É importante considerar que a tal “patrulha” pode cometer alguns exageros e até agressões, criando um verdadeiro exército de “haters”, destilando ódio, por vezes realmente desproporcionais. Aniquilar pessoas ou suas reputações certamente não é saudável para o debate democrático e contribui muito para a toxidade dos ambientes, mesmo que a Estamos bem conectadas e, ativas. A Palhaçaria, em especial a Feminina ou Feminista, a partir das últimas décadas, vêm colocando em foco a comicidade da mulher palhaça, trazendo para a pauta as questões de gênero e suas diversas implicações. Para muito além de usar a comicidade para denunciar a nvisibilidade, submissão e silenciamento sofrido por mulheres na palhaçaria tradicional, a palhaçaria feminina se desdobra em movimentos plurais e diversos que geram apropriações das mulheres de lugares de poder tanto nas suas vidas, como na cena circense, teatral, audiovisual. Mulheres cômicas passam a defender nestes e noutros âmbitos, os seus espaços de protagonistas, descartando os antigos moldes e buscando novas referências que realmente são capazes de atender às suas demandas. Na tese “O sorriso da palhaça: pedagogias do riso e do risível, a pesquisadora Ana Fuchs relembra Karla Conká dizendo que “a palhaça não é palhaço”. Fuchs coloca que a máscara da palhaça se assemelha à máscara do palhaço no que tange a sua função, no entanto difere-se em muitos aspectos, pois trata-se de outras sujeitas e de suas subjetividades com muitas e muitas mais camadas de possibilidades cômicas, que, por sua vez, devem suscitar um outro riso. Tal riso ela acrescenta na tese, ainda está por ser experimentado, ou ensinado ou aprendido, já que é, como todo o riso, fruto de uma construção cultural. 4 Pensar o riso como performance, em sua condição pedagógica, é lançar um olhar constante à capacidade de romper ou reiterar modelos, é indagar o quanto seu caráter inventivo está presente mobilizando ridentes a se articularem de outras formas diante de sistemas sociais que delimitam formas de ser ou o quanto, simplesmente, ainda ratifica condutas que reafirmam essas normativas. (FUCHS, 2020, P.252) Mas, afinal, estamos rindo de quê mesmo? 4 55 momentos. Os limites são por vezes nebulosos, com fronteiras borradas que marcam aonde finda a liberdade de expressão e inicia o desrespeito. Em alguns casos não se trata de oposições simples, é importante considerar certa porosidade do corpo cômico. Alice Viveiros de em seu livro “O Elogio da Bobagem” sobre ética do riso enfatizou o incômodo da tarefa de achar este limite: “Meu pai, que era um sábio, gostava de dizer - e dizia em espanhol porque fica mais bonito: Hay límites. Yo no los conosco, pero que los hay, los hay”. Para a autora o riso pode ser transgressor ou opressor, libertar e reprimir. E, então, a autora conclui: "causa” sendo nobre: defender minorias. No entanto, não se pode deixar de considerar um avanço positivo o fato de que cada vez mais a luta por equidades está mais intolerante com as intolerâncias e, portanto, atenta e pronta para denunciar tudo e todos que venham a reforçar comportamentos racistas, misóginos, sexistas, capacitistas, preconceituosos atacando as minorias. No filme documentário “O Riso dos Outros”, do diretor Pedro Arantes (2012), diversos artistas opinam sobre o tema que envolve a ética do riso, sobre o que norteia os seus trabalhos, as escolhas cômicas são mostradas em cena e as opiniões sobre cuidado e respeito divergem muito, o que torna o filmemuito rico. Alguns artistas que ainda resistem a enxergar o seu trabalho como violento, preconceituoso, nitidamente tentam inverter a lógica da opressão e relatam serem as verdadeiras vítimas de perseguição. Dizem que “o politicamente correto está acabando com o humor”. Mas qual é o humor que está sendo criticado? Um humor que agride, diminui pessoas? Tal humor poderia ser defendido como inocente? “Politicamente correto” pode aqui ser traduzido como “respeito às minorias”. Para acontecer o riso há um pacto, e neste pacto quem propõe inicialmente os termos e as regras são a/os artistas. É responsabilidade, portanto, na condição de artista (proponente), a partir da compreensão da sua sociedade (desigual, injusta e terrivelmente preconceituosa), escolher se fica do lado do opressor ou do oprimido. Quem será a vítima da sua crítica? Seriam as pessoas já cansadas de serem oprimidas, ou seria o objeto de riso a própria sociedade perversa que as oprime? Será que há somente certo ou errado nestas escolhas, e sempre é nítida esta percepção? Não. Por vezes não é nada fácil demarcar as fronteiras do que é ético ou não em alguns (...) tudo depende do momento e de como e quem o provoca e para quem, com quem e de quem se ri. Riso ou escárnio? (...) O contraponto para o deboche repressor e constrangedor é a sensibilidade e a consciência do cômico, daquele que pretende provocar o riso alheio. (...) A grande diferença entre humilhar e brincar é a que existe entre rir de e rir com. (Viveiros de Castro, p.261) Não há como o artista se ver como ser político, identificar invisibilidades e opressões no contexto social que habita, e depois simplesmente apertar o botão do “desver”, “desentender”. Há pela frente um espinhoso caminho sem volta. Por vezes de erros, de reparações. (Re)pensar na arte que fazemos, é um convite a cada instante, a cada criação. O que protejo, ao que dou voz, o que critico? O TO vem, por fim, convidar a palhaçaria a olhar e mexer nos alicerces da comicidade que produzimos, a nos questionarmos se estamos realmente dispostos a nos rever e observar se está havendo desrespeito a outres nas nossas produções. Saber acolher apontamentos neste sentido já pode ser um bom caminho. E, enquanto espectadores que 5 56 também somos. Nós rimos de quê? Escolher não rir daquelas pessoas que a sociedade só fez excluir é sim educarmos o riso, por que o riso também é resultante de práticas da nossa cultura. Sobre a Caravana do Capitão Tornado, a vida segue, mas podemos enxergar peculiaridades para ativar o “modo-inclusão”: ralentar, acelerar, diminuir a altura, esticar os braços, esperar quem tiver dificuldades para subir, acessar... Ao lapidar um corpo poroso artisticamente aos atravessamentos diversos, é possível nos tornarmos corporalmente o próprio acesso, o que se faz ponte. No exercício da nossa liberdade poética, podemos fazer da utopia uma realidade nstantânea. Somos um corpo de gelo lapidado por fogo, maçarico começa a derreter pelo lado inverso, o de dentro, derretendo e cauterizando, cauterizando e derretendo as próprias feridas, espelho de todas as que abrimos em outras pessoas, por Patrícia Sacchet Artista e professora vezes narcisicamente. O esforço contínuo contra a própria estrutura que nos forjou, e que ainda alimenta nossos privilégios, vai provavelmente nos transformar em pessoas melhores, e as artes e as relações e as comicidades que produzimos também. Que este esforço seja potente e contínuo, e nos leve até que o suor pingue poesia. NOTAS ¹Solo le pido a Diós: música do cantor argentino León Gieco. O autor criou a composição sobre o conflito entre Argentina e Chile pelo “Canal de Beagle”. Uma das músicas mais emblemáticas de Gieco, chegou a ser gravada internacionalmente em diversos idiomas. ²O filme é dirigido por Ettore Scola, sendo mais uma adaptação da obra de Théophile Gautier para o cinema. Trata de uma época de declínio da “commedia dell’arte” pela Europa, inserindo o espectador no clima onírico e teatral daquelas mambembes apresentações. França, 1774. ³O Festival Palhaças do Sul aconteceu março de 2021 e reuniu palhaças do RS, do Brasil e do mundo (no formato virtual, devido à Covid19). O evento beneficiou diretamente mais de 90 mulheres. O projeto foi realizado com o recurso da Lei nº14.017/2020. Realização: Baphônicas Produções, com Ana Fuchs, Patrícia Rocha, Patrícia Sacchet e Tiana Moon. Proponente: Teatro Hebraica. Karla Concá é fundadora do grupo As Marias da Graça, que realiza, dentre outros projetos, o Festival Este Monte de Mulher Palhaça, no Rio de Janeiro. Ministra oficinas de palhaçaria feminina e também trabalha em projetos de palhaçaria relacionados com mulheres em situação de vulnerabilidades diversas. O filme documentário foi dirigido por Pedro Arantes e teve sua estreia em 01/12/2012 ( Brasil ). Discute questões polêmicas do limite do humor, sobre liberdades, respeito e ofensas, relacionadas à ética do riso, a partir de entrevistas de artistas cômicos e outras personalidades reconhecidas que muito podem contribuir com o tema. 4 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs - capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro; São Paulo: Ed. 34, 1995-1997, 5.v. FUCHS, Ana Carolina Müller. O Sorriso da Palhaça: pedagogias do riso e do risível. Tese de doutorado. Porto Alegre. Faculdade de Educação. UFRGS. 2020. VIVEIROS DE CASTRO, Alice. O Elogio da Bobagem – palhaços no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro. Ed. Família Bastos. 2007 57 Palhaça Ondina "[...] A auto-suficiência é incompatível com o diálogo. Os homens que não têm humildade ou a perdem, não podem aproximar-se do povo. Não podem ser seus companheiros de pronúncia do mundo. Se alguém não é capaz de sentir-se e saber-se tão homem quanto os outros, é que lhe falta ainda muito que caminhar, para chegar ao lugar de encontro com eles. Neste lugar de encontro, não há ignorantes absolutos, nem sábios absolutos: há homens que, em comunhão, buscam saber mais [...]". Paulo Freire, educador Do livro “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire, Editora Paz e Terra, 17ª edição. 1987. 58 ENCONTRO COM GESTAR "Sou Nathy Ananias, artista educadora, palhaça, poeta e pesquisadora do TO. Através da participação em uma das "Jornadas Internacionais de Teatro do Oprimido e Universidade - JITOU , conheci algumas mulheres e criamos a Grupa GESTAR. Somos de São Paulo, Brasília e Bahia, mulheres que estudam o Teatro das Oprimidas, estudo da multiplicadora de TO Bárbara Santos. Eu encontrei o grupo de pesquisa "TO e Palhaçaria: Conversas e Convergências" no instagram, e fiquei extremamente curiosa. Entrei em contato com a equipe. Continuei acompanhando e a cada postagem fico mais empolgada com a ideia dessa junção incrível. Com isso, estou agora também pesquisando sobre, junto com minha parceira de pesquisa, Márcia Panda. Já realizamos um encontro on-line com as mulheres dessa pesquisa e a Grupa Gestar, estamos planejando continuar nos encontrando.". Nathy Ananias Palhaça e Pesquisadora 59 "Palhaçaria e TO, os dois lidam com o cotidiano, com o dia a dia do sorriso e da lágrima. Com a política que é natural em todas as pessoas, que já nasce latente, e que se manifesta com mais intensidade em sociedades desiguais. Palhaçaria e TO fazem um raio x da existência, da vida do ser humano como ele é , sem tantos filtros. Trata e se nutre da liberdade de ação, sempre respeitando o espectador, que é de onde surgem as maiores inspirações.". Guilherme Comelli – Palhaço Tufoni 60 CON VER C IAS GÊN PONTOS DE CONVERGÊNCIAS PALHAÇARIA TEATRO DO OPRIMIDO A FORMA DE LIDAR COM TEMAS SOFRÍVEIS, TRÁGICOS E DIFÍCEIS Com leveza, enxerga e lida com as adversidades de um outro ponto de vista, com uma lógica própria. Pelo riso, acessa aspectos extremamente trágicos e sofríveis da vida. Propõe a encenação de temas considerados TABUS em muitas sociedades, de uma forma artística, que de outra maneira seria complexo de lidar. POPULARIZAÇÃO DE ESPAÇOS Atualmente, o local de atuaçãode palhaços praticamente não tem limites. Além dos tradicionais espaços de circo e teatro, a rua, os hospitais, escolas, empresas, zonas de conflito, lares geriátricos, audiovisual, entre outros. Esta sempre foi a proposta da metodologia do TO, que os cursos, encontros, apresentações, acorram e ocupem espaços populares e de fácil acesso aos participantes e ao público, como salões comunitários, escolas, clubes, praças, entre outros. DIDÁTICA DE ENSINO Existe hoje no Brasil algumas escolas especializadas nessa linguagem. Para citar algumas: Escola de Formação dos Doutores da Alegria (SP), Escola de Palhaços (Maringá/PR), Escola de Palhaças (Teatro da Mafalda - SP), Escola de Palhaços do Circo da Dona Bilica (Florianópolis/SC). Além de cursos e vivências, nas mais variadas linhas de atuação e pensamento. No entanto, segundo Alexandre Penha "enquanto a palhaçaria ganhou muitos espaços, a didática de ensino de habilidades e técnicas, não conseguiu acompanhar o número de pessoas (que cresceu exponencialmente) e que hoje ocupam esses espaços. Ou seja, ainda não é super acessível para se estudar a palhaçaria. Possue um MÉTODO, que é simples, acessível, com regras claras e adequadas ao "mundo" real de quem está participando. Qualquer idade (da fase adulta, pelos temas abordados), qualquer tipo de corpo, classe social ou nível escolar pode ter acesso aos treinamentos desta metodologia. A ideia de Boal era "ensinar teatro para quem não era do teatro", e ainda "a conquista dos meios de produção teatral" por pessoas "não profissionais do teatro". SIMPLICIDADE / ACESSIBILIDADE Menos acadêmico, menos formal. Linguagem simples, apresentações que se aproximam do povo. Estão para o povo, são pensadas e realizadas para o povo, de materiais humanos que vieram do povo, das pessoas. Conquista dos meios de produção teatral por pessoas comuns. "Poética do Oprimido", a partir do que os alunos/atores/participantes entendem da vida. 62 PONTOS DE CONVERGÊNCIAS PALHAÇARIA TEATRO DO OPRIMIDO DAR PODER DE FALA A QUEM PRECISA Acreditamos que o palhaço é um ser encorajador. Vamos pensar na atuação da palhaçaria hospitalar, especialmente. Se fizermos uma análise das relações de poder dentro de um hospital, o paciente está no pé dessa pirâmide, pois está desprovido de sua saúde integral, com horários definidos por outros, com seu tempo gerenciado por outros, muitas vezes sem poder mover-se ou falar. Ao receber a visita de um palhaço, poderá dizer-te, se assim quiser, "saia daqui!" com apenas um gesto ou grunhido, e ser atendido pelo palhaço. Embora esse fulgaz instante possa ter alterado o ambiente, e embora o paciente possa ter gostado do jogo e mudado de ideia: "ei, palhaço, volta aqui!!". Imagine uma pessoa que passa sistematicamente por uma opressão, tendo muitas vezes feito a tentativa dela de fugir, por variadas formas e caminhos, e ainda assim ser oprimida por órgãos que deveriam ajudá-la. Pensemos que expor sua opressão vivida para um grupo e depois ainda encená-la artisticamente, utilizando-se de variados recursos como música, poesia, figurinos e iluminação, possa ser para esta pessoa um grandioso poder de fala!! LIBERDADE DE CRIAÇÃO Para o artista palhaço, a matéria prima do seu trabalho é muito íntima, particular. Se os palhaços são PARÓDIAS da humanidade, cada palhaço é a paródia do seu próprio criador, ou seja, do artista que o criou e que lhe empresta corpo e alma. Nesse sentido, tem a liberdade de criação para o que deseja falar. Muito frequentemente, são os próprios artistas/palhaços quem escrevem seus roteiros, e mesmo tendo um roteiro, não se apegam a ele, usando-o apenas como um fio condutor. São livres da quarta parede, tendo sempre o público como cúmplice. Segundo Boal,"os jogos* possuem uma característica metafórica, pois têm REGRAS, assim como a sociedade possui LEIS, que são necessárias para que se realizem...MAS necessitam de liberdade criativa para que o JOGO, ou a VIDA, não se transforme em servil obediência. Sem regras, não há JOGO, sem liberdade não há VIDA!" Na metodologia do TO, após (e ao mesmo tempo) a etapa dos jogos, em que o corpo vai desenferrujando e aprendendo a se expressar, o roteiro das histórias a serem encenadas vai surgindo com as próprias improvisações de cenas reais vividas por eles. *ver o capítulo "Jogos e Exercícios de Boal". 63 PONTOS DE CONVERGÊNCIAS PALHAÇARIA TEATRO DO OPRIMIDO DESEJO E VONTADE O palhaço está sempre com desejos de "algo" e sempre na luta para atender estes desejos, evidenciando suas limitações. Exemplos: "QUERO ser amado por ela , MAS sou tão esquisito."; "QUERO comer isso aqui, MAS não tenho dinheiro para pagar."; "QUERO subir naquele muro, mas sou tão baixinho.". Passa sua vida nesses "quereres", nessas vontades e tentativas, em erros e acertos, sem JAMAIS desistir ou perder a ESPERANÇA. Vontade e Contra vontade. Em muitos relatos de opressões que vivênciamos ao multiplicar a metodologia de Boal, nos deparamos com as VONTADES de mudança e contra vontades dos oprimidos. Exemplos: "QUERO sair de casa pois apanho do meu marido. MAS, como irei sustentar meus filhos?"; "QUERO denunciar os abusos do meu patrão. MAS como ficarei sem trabalho, se for demitida?". Em TODOS há os desejos e vontades de transformar, de interromper a opressão, ou de não deixá-la se perpetuar. TRANSGRESSÃO (não confundir com subversão) rompimento de um conhecimento cristalizado. Ação humana de atravessar, exceder, ultrapassar noções que pressupõem a existência de uma norma que estabelece e demarca limites. "...construir o aprendizado da capacidade cômica exige da pessoa o rompimento de um conhecimento cristalizado, solidificado na inteligência, na esperteza, no sucesso, mostrando um outro ponto de vista social, estético e cultural ao avesso, transgredindo com arte, valores pré estabelecidos pela sociedade..." (Wuo, Ana Elvira. A linguagem secreta do clown. Revista Integração. Ensino. Pesquisa. Extensão. Ano XV.jan/fev/mar.n.56, 2009). Não deixa de ser uma transgressão, representar uma opressão vivida (não só a sua particular, mas a de uma classe, um gênero, um grupo) usando seu corpo, sua voz, artisticamente, com uma plateia. COLETIVO X INDIVIDUALIDADE Micro e macro política. Fala de si, mas fala de todos, parodeia a humanidade, e mostrando suas peripécias e trapalhadas rotineiras está mostrando também como é o coletivo. *Veja sobre o conceito de política nos textos de Alexandre Penha e Patrícia Sachett. Micro e macro política. Aborda nas aulas/encontros temas de opressão vividos individualmente pelos envolvidos no processo. Entretanto, ao serem encenados no palco, estão representando um grupo, uma classe, um gênero, uma coletividade que vive o mesmo drama. 64 PONTOS DE CONVERGÊNCIAS PALHAÇARIA TEATRO DO OPRIMIDO FAZ ARTE NO ATO DE BRINCAR Palhaças e palhaços são seres essencialmente brincantes. Segundo Boal "teatro é o que temos dentro de nós, toda a criança sabe disso, pois começa a viver no mundo fazendo teatro, depois cresce e começa a levar a vida mais a sério, e é repreendida, e deixa para trás esse instrumento de comunicação e conhecimento tão valioso e poderoso que é o teatro[...]. Fazer teatro é uma volta à infância, trazer aquilo que a gente perdeu[...]a criatividade, a imaginação, a capacidade de inventar". MULTIPLICIDADE DE CAMPO DE ATUAÇÃO e ESTUDO Podemos reconhecer nestas duas linguagens algumas origens similares no campo da ética, da política, da história, da filosofia, da pedagogia e da psicologia. 65 Palhaçaria Hospital ONG ESQUADRÃO da ALEGRIASaída de Palhaços do NIC Núcleo de Investigação Clownesca Teatro de Fato 2019 Teatro de Fato 2018 (Foto: Divulgação Esquadrão da Alegria) "[...] pois o humor não se pretende salvador, mas sim, trata de aliviar o peso, é um curativo da alma, assim como a arte [...]". Abrão Slavutzky, médico psicanalista (Trechos do livro “Humor é coisa séria” Editora Arquipélago 66 EXE C Í RC IOS No entanto, os jogadores se envolvem fisicamente, o corpo inteiro pensa. Na batalha do corpo contra o mundo, os sentidos sofrem, e começamos a sentir muito pouco daquilo que tocamos, a escutar muito pouco daquilo que ouvimos, a ver muito pouco daquilo que olhamos. Nossos corpos vão se adaptando ao trabalho que devem realizar no nosso dia a dia. E essa adaptação leva às atrofias. Então Boal escolheu exercícios físicos e jogos que ele chamou de DES – ESPECIALIZAÇÃO. Para des-alienar o corpo. Para diminuir as distâncias entre os sentidos, ou seja, de fato enxergar o que estamos vendo, e assim por diante, criou 5 CATEGORIAS de JOGOS: 1) Sentir tudo que se toca; 2) Escutar tudo que se ouve; 3) Ativando os vários sentidos; 4) Ver tudo que se olha; 5) A memória dos sentidos. Neste capitulo, descrevemos alguns jogos que testamos nas quatro primeiras categorias. E a PALHAÇARIA com os JOGOS de BOAL? Para um palhaço - que não necessariamente é um ator ou atriz – faz total sentido tudo o que Boal fala dos sentidos e da dês-alienação do corpo. JOGOS E EXERCÍCIOS PARA ATORES E NÃO ATORES, PARA PALHAÇAS, PALHAÇOS, NÃO PALHAÇAS E NÃO PALHAÇOS Augusto Boal, fala sobre os jogos no livro Teatro do Oprimido e outras Poéticas. Descrevemos abaixo, alguns trechos: No tronco da Árvore do TO (veja no texto da página 26) surgem primeiro os jogos, por que reúnem duas características essenciais da vida em sociedade: possuem REGRAS, assim como a sociedade possui LEIS, que são necessárias para que se realizem, mas necessitam de liberdade criativa para que o jogo, ou a VIDA, não se transforme em servil obediência. Sem regras não há JOGO, sem liberdade não há VIDA! Os jogos ajudam na DESMECANIZAÇÃO do corpo e da mente, que estão alienados às tarefas repetitivas do dia a dia, especialmente às do trabalho e às condições econômicas, ambientais e sociais de quem as pratica. Os jogos facilitam e obrigam a essa desmecanização, sendo diálogos sensoriais onde, dentro da disciplina necessária, exigem a criatividade que é a sua essência. No Teatro Imagem, dispensamos o uso da palavra – a qual no entanto, reverenciamos – para que possamos desenvolver outras formas perceptivas. Usamos o corpo, fisionomias, objetos, distâncias e cores, que nos obrigam a ampliar nossa visão sinalética. Boal dizia que “um movimento corporal é um pensamento. Um pensamento também se exprime corporalmente. As ideias, as imagens mentais, as emoções, se revelam fisicamente. Exemplo: a ideia de comer algo pode provocar a salivação”. Já existem muitos estudos que comprovam que nosso físico e psíquico estão interligados. Os cinco não existem em separado. Nós cantamos com o corpo todo, respiramos com o corpo todo (embora o aparelho respiratório seja prioritário). Boal dava o exemplo do jogo de xadrez, que é muito intelectual e cerebral. 68 O palhaço se comunica e se expressa basicamente com seu corpo, suas expressões, movimentos, gestos... é assim que ele diz que está com fome, apavorado, triste ou apaixonado. Então, concluímos que praticamente todos os jogos propostos por Boal são muito relevantes e necessários para o treinamento e aprimoramento das técnicas da palhaçaria. Além disso, os exercícios que descrevemos aqui, também sofreram adaptações para serem aplicados no formato digital, e sem aglomerações (devido a Pandemia COVID-19, que todos enfrentam nesse momento em que este livreto está sendo escrito). A seguir, a descrição com nossos comentários de alguns jogos e exercícios de Boal, do seu livro Jogos para Atores e Não Atores, editora Civilização Brasileira, 5ª edição 2002. 69 JOGOS E EXERCÍCIOS BOAL chamava de exercícios os MONÓLOGOS CORPORAIS e de JOGOS os DIÁLOGOS CORPORAIS. FIQUE ATENTO! Sempre que você ver este palhaço com a bunda pra cima, são nossos comentários relacionados especialmente à palhaçaria. Categoria 1 SENTIR TUDO QUE SE TOCA (Nº pessoas: qualquer, individual e coletivo) É um exercício preparatório, é importante não começar com aqueles mais difíceis, cansativos ou violentos. E é exatamente isso, espreguiçar-se em pé, como se estivesse deitado na cama, ao acordar. “Acordar” o corpo, aquecer, deixar vir os sons de bocejo, e outros sons que vierem ao espreguiçar. Deixar acontecer por alguns minutos. Em um primeiro momento, com a atenção somente para si, pode-se fazer também caminhando e ocupando o espaço onde estiverem. Depois observar também os outros. Ao ver o outro se espreguiçando, sem julgamentos de certo e errado, já vai trazendo uma graça, um riso, pois não é uma ação que frequentemente vemos o outro fazer. Ao fazer em grupo, de forma espontânea, já gera uma certa cumplicidade. 1. Espreguiçar em pé 70 O exercício gera riso em um grupo, pois é quase impossível de realizar. Dificilmente alguém consegue fazer sem erros. Cria um ambiente de igualdade, dividir suas inabilidades e incapacidades com o outro, é umas das prerrogativas da palhaçaria. 2. A cruz e o círculo Pede-se que desenhem um círculo no ar com a mão direita ou esquerda (ou seja, sua mão dominante), grande ou pequeno, como quiserem. É fácil e todo mundo faz. Pede-se, depois, que desenhem uma cruz no ar com a outra mão, é ainda mais fácil, todos conseguem. Pede-se agora, que façam as duas coisas ao mesmo tempo, é quase impossível. Variantes: a)Pode-se desenhar quaisquer outras figuras no ar; b)Desenhar um círculo no ar, com o pé direito, durante mais ou menos um minuto. Continue a fazer o círculo, mas agora, escrever seu nome no ar, com a mão direita, ao mesmo tempo. É quase impossível. O pé tende a seguir a mão e a escrever o nome também. Pode-se experimentar e variar, mão direita com pé esquerdo, mão esquerda com pé direito. (Nº pessoas: qualquer, individual e coletivo) 71 Cada um estuda todas as posições que permitam ao seu corpo tocar o menos possível o chão, usando de todas as variações possíveis. Por exemplo, os pés e as mãos, um pé e uma mão sobre o rosto, a barriga, as costas, nádegas. É necessário que, num momento ou noutro, toda a superfície do corpo toque o chão, uma parte de cada vez. A passagem de uma posição a outra deve ser feita muito lentamente, a fim de estimular todos os músculos que intervêm na transição e permitir observar-se. Devemos sentir a força da gravidade que nos joga contra o chão, e lutar contra ela. Variante: No primeiro momento apenas observar-se, após um tempo, observar o outro e em um terceiro momento formar duplas, aleatoriamente. Em duplas, cada um deve tocar o outro na menor superfície possível de ambos os corpos e tocar o solo também o mais minimamente possível. Cada um deve equilibrar o outro. Os dois devem mover-se lentamente, sem interrupção, tentando descobrir a cada vez uma nova posição, uma nova figura que deva em seguida ser mudada para outra e ainda outra. Pode-se ainda formar trios, quartetos ou o grupo todo. Como em outros exercícios de comunicação corporal, falar é totalmente dispensável, a comunicação precisa ser visual somente. Não é preciso fazer proezas, ser heroico, ou tentar ser melhor que os outros, nada de riscos. Na medida do possível, pode-se fazer tudo que se puder fazer, sem obrigar ninguém a nada, sem forçar. 3. A menor superfície (Nº pessoas: qualquer, individual e coletivo) (Local: de preferência em um piso macio e não frio, em um gramado seria interessante.) Neste exercício não devemos ter pressa ao realizá-lo, as possibilidades aumentam a medida que testamos, com paciência, as variações de posições corporais. Aos poucos, o corpo vai ganhando independência e não mais necessita do racional para mover-se. O corpo vai ‘falando’, desenhando, sozinho. O exercício diverte, ao brincar com variadas formas de posições corporais, fora do nosso cotidiano, e brincar com as possibilidades do corpo é um dos importantes passos rumo à palhaçaria. 72 É interessante que haja uma evolução no grau de inclinação, o que se torna mais “emocionante”, sem ser um risco para a queda. Importante e bonito observar como algumas pessoas se entregam totalmente aomovimento, se ‘deixando levar’, já para outras, este processo de confiar pode ser mais demorado. Este exercício requer silêncio e presença atenta de quem está sustentando a pessoa que está ao centro, é preciso transmitir confiança para que ela possa deixar seu corpo inclinar-se, sem medo. Formar um círculo no espaço, com as pessoas em pé, cuidando para não deixar o círculo muito grande, o ideal seria no máximo 8, pode-se formar mais de um círculo, se tiver um número grande de pessoas. Um voluntário vai ao centro, fecha os olhos, respira profundamente e para iniciar deixa-se inclinar para frente, para trás ou para um dos lados (como a Torre de Pisa), sem dobrar a cintura, arquear as costas, dobrar os joelhos ou levantar os calcanhares. Todos os outros do círculo devem sustentá-lo com as mãos, permitindo-lhe inclinar-se, em seguida recolocá-lo novamente ao centro, porém deixando-o tombar em outra direção, sendo seguro por, pelo menos, três companheiros. Aos poucos ir conduzindo, e deixando quem está no meio inclinar-se cada vez mais próximo ao chão. Ao fim, pode-se ajudar o protagonista do centro a rolar em círculo, pelas mãos dos companheiros, em vez de retorná-lo em direção ao centro. VARIANTE: em trio, duas pessoas sustentam uma terceira que está no meio deles, deixando-a tombar para frente e para trás. 4. João Bobo ou João teimoso (Nº pessoas: no mínimo três) Relacionamos aqui a vida do palhaço, sempre em risco, no limiar, na corda bamba, andando na cumeeira da casa, muitas vezes sem ter a menor noção do perigo. Entretanto para o artista/palhaço que opta pela comicidade física/corporal, o treinamento de técnicas torna-se muito importante, para garantir sua integridade física. 73 Não se deve ter pressa, explore todas as possibilidades em que seu corpo pode “carregar” esse objeto, sem que seja do jeito convencional que é “com as mãos”. Encontre em si e nos outros posições engraçadas, risíveis, estranhas, que podem ser utilizadas de alguma forma pelo seu palhaço. Encontramos muitas possibilidades de comicidade corporal ao “brincar” com estas posições variadas. 5. Equilíbrio de objetos com o corpo Pega-se um objeto qualquer: uma bola, um caderno, uma caneta, uma panela, uma caixa de papelão, uma bola de papel amassado. Não escolher objetos de vidro ou louça que possam quebrar ao cair. Procura-se todas as posições e estruturas corporais nas quais se possa equilibrar este objeto, usando-se todas as relações possíveis entre o corpo e o objeto (na cabeça, nas costas, na barriga, com o pé, na coxa, no queixo, etc...). O importante é estudar a relação CORPO-OBJETO-GRAVIDADE. Usar as mãos apenas o mínimo indispensável. Após alguns minutos, se estiverem em dupla ou grupo, cada um pode trocar de objetos com o outro, sem usar as mãos, podem ir fazendo essas trocas entre todos os participantes, variadas vezes, até que todos encontrem novamente seus objetos. (Nº pessoas: sozinho, em dupla ou em grupo) Observe também, a si e ao outro, as reações quando o objeto cai, por que SIM!! ELE VAI CAIR MUITAS VEZES, não ignore suas reações, aceite e compartilhe com o outro sua decepção ao deixar o objeto cair, ria dessas situações! 74 Este exercício/jogo demanda bastante equilíbrio, estimula todos os músculos do corpo. Observar em si e no outro as reações ao desequilibrar-se e principalmente quando as expressões faciais acompanham esse esforço de manter-se equilibrado e muitas vezes não conseguindo, as caras e bocas que fazemos nessa tentativa. Enquanto palhaços, podemos refazer a corrida com a nossa máscara (o nariz vermelho), exagerando e potencializando estas reações e expressões. 6. Corrida em câmera lenta Ganha o último a chegar. Os corredores se posicionam em fileira (ombro a ombro). Depois de ser “dada a largada”, os corredores não poderão interromper seus movimentos, que deverão ser executados o mais lentamente possível. Cada um deverá alongar as pernas ao máximo a cada passo. O pé para passar adiante da outra perna deve passar sempre acima da altura do joelho. É preciso que, ao avançar, estique bem o seu corpo, por que com esse movimento o pé vai romper o equilíbrio e, a cada centímetro que caminhar, uma nova estrutura muscular vai se organizar, instintivamente, ativando certos músculos adormecidos. Outra regra: os dois pés jamais poderão estar ao mesmo tempo no chão, quando um pé pousar no chão, o outro deve imediatamente subir. (Nº pessoas: em dupla ou em grupo) Segundo Boal, entre todas as mecanizações, a maneira de andar é, talvez, a mais frequente. Temos nossa maneira individual de andar, sempre igual, quer dizer, mecanizada. Mas é verdade que adaptamos nossa maneira de andar ao lugar onde estamos caminhando, por exemplo: na areia, no piso quente, ao passear ou com pressa. Mudar nossa maneira de andar nos faz ativar certas estruturas musculares pouco utilizadas e nos torna mais conscientes do nosso próprio corpo e de suas potencialidades. SÉRIE DE CAMINHADAS: 75 ALERTA!! A caminhada da bicharada pode provocar dores nas coxas, uma certa canseira, ficamos ofegantes!!! Para nós, o passo do elefante foi o mais difícil de acertar. 7. A caminhada dos bichos Caranguejo: As duas mãos e os dois pés no chão. Anda-se como os caranguejos, para a esquerda e para a direita. Nunca para frente ou para trás. Macaco: Caminhar para frente com as mãos sempre tocando o chão, como os macacos que se deslocam melodiosamente. Saltar obstáculos, observar as coisas que vê. Camelos: O passo do camelo é assim: pé direito e mão direita, pé esquerdo e mão esquerda. O camelo avança primeiro um lado do corpo e depois o outro. Elefante: O passo do elefante é ao contrário do camelo: pé direito com a mão esquerda, pé esquerdo com a mão direita. É assim que anda o elefante. Canguru: Abaixar-se e pegar os tornozelos com as mãos. Andando para a frente e saltando como um canguru. (Nº pessoas: sozinho ou em grupo) (Local: qualquer local) 76 Uma maneira de variar as caminhadas e encontrar formas inusitadas e engraçadas de andar é focando nos pés. Variar a parte do pé que toca o chão, por exemplo, caminhar somente com os calcanhares, depois somente com as pontas dos pés (os dedos), com a parte externa do pé, depois com a parte interna. 8. CAMINHADA “Como quiserdes” Caminhar pelo espaço disponível, das mais variadas formas, exceto a cotidiana e habitual. Variando ritmos, bichos e velocidades. Variando níveis, ou seja, em pé, agachado ou encurvado. (Nº pessoas: sozinho ou em grupo) 77 Dois grupos, frente a frente, ou se for em trio, uma pessoa em frente a uma dupla. Um líder diante de cada grupo, ou no caso do trio, o líder é quem estará sem a dupla. O líder age como se empunhasse uma “espada de pau”. A brincadeira funciona assim: cada um (quando for o líder) pode dar seis (6) golpes diferentes com a espada IMAGINÁRIA, e todos os outros quando forem os adversários, devem defender-se dos golpes. GOLPE 1) Fingindo que vai cortar a garganta dos seus “adversários”. Então é preciso que o golpe seja na garganta do adversário, que deve se abaixar com rapidez, junto com sua dupla ou equipe. GOLPE DOIS) Tentando atingir seus pés, quando o adversário e sua equipe tem de pular todos ao mesmo tempo. GOLPE TRÊS) Dando um golpe à esquerda, quando todos devem se esquivar, saltando para a direita. GOLPE QUATRO) Dando um golpe à direita, quando todos devem saltar para a esquerda. GOLPE CINCO) Um golpe bem no meio do grupo, ou da dupla, quando metade deve se esquivar para um lado e metade para o outro. GOLPE SEIS) Avança para a frente com sua espada, quando o grupo adversário deve saltar para trás. Os golpes devem ser bem revezados (DOIS, UM, QUATRO, UM, etc) para tornar bem dinâmico e com o fator surpresa. Cada grupo pode dar vários golpes em sequência, e depois troca para o outro grupo, ou ainda, cada grupo dá um golpe e já troca para o outro. É importante sempre revezar os papéis de líderes, para que todos possam experimentar. Variar também as velocidades dos golpes. Testamos este jogo em trio. Enquanto um erao líder, outros dois eram os adversários que reagiam aos golpes da espada. É também um jogo que provoca muito riso ao cometermos os erros. Por exemplo, ao receber um golpe para cortar a garganta, se ao invés de abaixarmos, errarmos o movimento e dermos um pulo, daí já era...a espada acabou de cortar fora as pernas. Em grupos maiores, o erro torna-se ainda mais engraçado, alguns se esquivando para um lado, outros para o outro e acabam se “trombando”. 9. A Espada de pau Parisiense (Nº pessoas: em trio ou em grupo) 78 79 É um jogo que agita, esquenta, é uma disputa, como se estivéssemos brincando de duelar com espadas, como antigamente. Exige atenção, olho vivo no “adversário”, um “estado de presença” no aqui e agora, não dá pra deixar pra depois. Nossa tendência nesse jogo é começar atacando, com rapidez...no entanto, não é questão de velocidade e sim de estratégia, de esperar o momento certo. 10. Os três duelos irlandeses PRIMEIRO DUELO: face a face, os dois jogadores separam seus joelhos e se comportam como se estivessem sentados no ar. Protegem cada joelho com apenas uma das mãos, ora uma mão protege um ou outro joelho, e a outra mão fica nas costas, devem trocar de mãos com frequência. Fazendo isso, tornam-se vulneráveis, deixando os joelhos descobertos, e o objetivo do companheiro em frente deve ser o de tocar-lhe os joelhos sem ter os seus próprios tocados pelo adversário. SEGUNDO DUELO: face a face, devem se equilibrar em apenas um pé, mas podem trocá-lo com frequência: com o outro pé, o que está no ar, devem tentar tocar o pé com o qual se equilibra seu companheiro – a ideia é tocar seu companheiro sem ser por ele tocado. TOCAR, NÃO DAR PONTAPÉS! TERCEIRO DUELO: face a face, cada um tem o braço direito estendido e o indicador apontando o adversário, e cada um tem a mão esquerda atrás do corpo, às costas, a palma aberta. Devem “lutar” como se portassem espadas imaginárias, tentando, com a mão direita e o indicador, tocar a palma da mão esquerda da sua dupla. (Nº pessoas: em dupla) 80 É lúdico, divertido, contribui para melhorar a percepção, o ritmo e a escuta. Além da escuta, é muito importante que não se esqueça do olhar entre os participantes. Nos momentos de UNIFICAÇÃO dos movimentos/sons, é necessário saber CEDER e não impor, o que prevalece é o caminho tomado pelo grupo e não individualmente. O ideal é iniciar com um movimento simples e dedicar-se a ele. No início, a nossa tendência é usar mais o racional, pensar antes de fazer, mas aos poucos outros movimentos vão surgindo de forma mais natural e orgânica. 11. Jogo de ritmo e movimento Testamos em trio. Cada um começa a fazer individualmente um som e um movimento ritmados, o que lhe ocorrer no momento. Estando por um ou dois minutos cada um com o seu movimento e som, o grupo passa a unificar esses movimentos, ritmos e sons. Sem pausas, reproduzimos por mais um ou dois minutos o que foi unificado (ou seja, os movimentos e sons de um dos componentes do grupo), aos poucos vai transformando em outros movimentos e sons individuais, depois reunifica novamente, e assim por diante. (Nº pessoas: trios ou grupos grandes) Categoria 2 ESCUTAR TUDO QUE SE OUVE Deve-se atentar no movimento que vai fazer, pois por ser um exercício de repetição, dependendo do movimento, pode se tornar muito cansativo. O exercício pode ser utilizado para complementar uma cena teatral ou número de palhaço. 81 É um jogo de improvisação, ele estimula a criatividade, a percepção e a escuta e, desenvolve a consciência corporal. É divertido e também político, pois suas variações podem acompanhar temas e emoções. É um jogo de cooperação. Neste jogo é muito importante observar com atenção o movimento de todos para ver onde melhor encaixar o seu. Como é um jogo, um treinamento, pode-se alterar seus movimentos e sons para se ajustar e se conectar melhor a máquina, caso o primeiro movimento não tenha funcionado. A máquina precisa funcionar, os movimentos tem que estar conectados, não valorizar habilidades individuais, entretanto, encontrar o seu ritmo dentro da máquina. Importante realizar um movimento que sustente até o final do jogo. Os sons dessa máquina em seu total funcionamento são inclusive, poéticos. Este jogo fica muito bonito para ser utilizado como parte ou complemento de uma cena. 12. A máquina de ritmos (ou Engrenagens) Um jogador vai até o centro do espaço e imagina que é uma peça de engrenagem de uma máquina. Faz um movimento ritmado com seu corpo e, ao mesmo tempo, o som que essa peça da máquina deve produzir. Os outros participantes (não importa quantos) ficam ao redor observando. Após esse primeiro jogador definir bem seu movimento e som e o fizer por alguns segundos, um segundo jogador se aproxima e, com seu próprio corpo, acrescenta uma segunda peça à engrenagem dessa máquina, com outro som e outro movimento que sejam complementares e não idênticos. Um terceiro jogador faz o mesmo, até que todo o grupo esteja integrado em uma mesma máquina, múltipla, complexa e harmônica. Quando todos estiverem integrados na máquina, quem está de fora instruindo, pode dizer ao primeiro jogador para acelerar o ritmo – e todos devem tentar seguir essa alteração na velocidade. Quando a máquina estiver próxima à explosão, o primeiro jogador diminui o ritmo até que todas as pessoas terminem juntas, como se a máquina parasse de funcionar. (Nº pessoas: a partir de três) 82 O jogo estimula a imaginação, o “faz de conta”. Desenvolve o ritmo sonoro e corporal, a observação, a criatividade, a capacidade de imitação, atenção e consciência corporal. É um jogo de integração. Percebemos que, ao “trocarmos de bola com alguém”, qualquer movimento ou som que façamos diferente, esta pessoa poderá não encontrá-la de volta. A imaginação é como um músculo a ser treinado, quanto mais a gente brinca de faz de conta, mais a gente fica disponível para brincar. 13. Jogo de bolas peruano Cada jogador imaginará estar de posse de uma bola – de futebol, tênis, ping- pong, balão, qualquer tipo de bola. Devem imaginar o tipo de material usado na sua confecção, seu tamanho, peso, textura. Estabelecem um ritmo corporal e sonoro, jogando essa bola, com todo o corpo envolvido nesse jogo, não apenas mãos e pés. A voz vai reproduzindo, ritmicamente, o som produzido pelas bolas ao serem tocadas. Todos os participantes começam a jogar a sua bola, por alguns minutos, com atenção somente em si. Após um tempo, dois jogadores se aproximam um do outro, e começam a observar o jogo do companheiro (sem parar de jogar), observar nos detalhes. Ao sinal do instrutor, a dupla formada irá trocar de bolas e cada um irá adotar os sons e movimentos do outro, o mais exatamente que puderem. Se o grupo for grande, pode-se fazer várias trocas, até que cada um encontre sua bola original. (Nº pessoas: a partir de uma dupla) 83 O jogo trabalha a atenção, ritmo, coordenação. Desperta a consciência corporal, a criatividade. O jogo será sempre mais interessante se os sons e gestos rítmicos forem realmente diferentes um do outro, com o uso do corpo todo. Os erros na contagem de 1 a 3, o que parece algo bem simples, geram risos e divertem. Quando é acelerado podemos nos perder e errar a sequência, o que também é bem divertido. 14.Um, Dois, Três de BRADFORD Em duplas, de frente um para o outro. Etapa 1: os dois da dupla contam até 3, em voz alta, alternadamente. Desta forma: o primeiro dirá “um”, o segundo dirá “dois”, o primeiro dirá “três”, o segundo dirá novamente “um”, o primeiro dirá “dois”, o segundo “três”, e assim por diante. Devem aos poucos aumentar a velocidade desta contagem. Etapa 2: em vez de dizer “um”, o primeiro participante vai substituir por um gesto e um som rítmicos, e nenhum dos dois usará mais a palavra “um”. Então após o primeiro fazer esse gesto com som, o segundo dirá “dois”, o primeiro dirá “três”, o segundo fará o som e o gesto criados pelo primeiro, o primeiro dirá “dois”, o segundo dirá “três”, e assim por diante. O som e o gesto (ação corporal) criados pelo primeirono início dessa segunda sequência devem ser repetidos fielmente sempre no lugar do “um”. Etapa 3: Agora, além de um som e de um movimento entrarem no lugar do “um”, o segundo irá inventar outro som e outro movimento para serem feitos toda vez que se for falar o “dois”. A dupla jogará por alguns minutos, tentando ser o mais dinâmica possível. Etapa 4: enfim, o “três” será substituído por outro som e outro gesto. Então teremos um tipo de dança, somente com sons e movimentos rítmicos, sem nenhuma palavra. (Nº pessoas: dupla ou mais) 84 No início, é um jogo bem difícil, até que todos encontrem seu ritmo unificado. É necessário escuta, olhar, ceder a vez, recuar se for preciso. 15.As duas vassouras Dois jogadores, frente a frente, seguram duas vassouras (ou dois bastões). As vassouras estão em posição horizontal. A mão direita de um corresponde à mão esquerda do outro, e vice versa. Começam fazendo um movimento de tic-tac, uma vassoura levanta ao máximo, enquanto a outra desce ao máximo, sem que se solte das mãos. Os participantes que estão de fora observando a dupla, iniciam uma caminhada pelo espaço, e um de cada vez, passam por entre as duas vassouras sem serem tocados e sem diminuir ou aumentar a velocidade. É importante que o movimento não seja interrompido, ou seja, passar por entre as vassouras sem alterar o ritmo da caminhada. Se a dupla que está com as vassouras aumentar a velocidade do tic-tac, os que estão caminhando também devem alterar seu ritmo. (Nº pessoas: a partir de um trio) 85 O jogo do espelho é como um diálogo visual, sem palavras. A atenção e o cuidado com o outro, são fundamentais. É preciso ser generoso com as possibilidades reais do outro. Na palhaçaria, reconhecer e reagir as manifestações emocionais do nosso público ou da nossa dupla, também é fundamental, para que haja o diálogo, o jogo, a troca. 16. Jogos de espelho A dupla fica frente a frente, dependendo do número de pessoas, pode-se fazer duas fileiras. Uma pessoa da dupla é A e a outra pessoa é B. Quem é A fica designada como SUJEITO, quem é B é a IMAGEM. O exercício começa e cada SUJEITO inicia uma série de movimentos e de expressões fisionômicas, em câmera lenta, que devem ser reproduzidas nos mínimos detalhes pela imagem que tem em frente. O sujeito não deve considerar-se inimigo da imagem, não se trata de competição, de fazer movimentos bruscos, impossíveis de serem seguidos. Pelo contrário, trata-se de buscar uma sincronização de movimentos. Após alguns minutos, a exatidão e a sincronização conquistadas pela dupla faz com que um observador externo não seja capaz de distinguir quem origina os movimentos e quem o reproduz. È importante que se preste a atenção aos detalhes do corpo todo e da fisionomia. Depois de um tempo, SUJEITO e IMAGEM trocam os papéis. E depois de um tempo ambos são sujeito e imagem, havendo uma alternância fluida e orgânica. (Nº pessoas: a partir de uma dupla) Categoria 3 VER TUDO QUE SE OLHA 86 A linguagem da palhaçaria é muito visual e sensorial. Como é uma linguagem universal, palhaços de qualquer lugar do mundo podem fazer rir pessoas de qualquer lugar do mundo, sem o uso da fala. Jogos e exercícios como este da MODELAGEM são excelentes para treinar a comunicação não falada. 17.Modelagem ETAPA 1: Cada pessoa diante da outra. Uma é a ESCULTORA, a outra é a ESTÁTUA. É necessário que o escultor toque na estátua para esculpí-la, conforme quiser. Por exemplo: levanta um dos braços, gira a cabeça para um dos lados, dobra um dos joelhos. A estátua apenas obedece ao toque. ETAPA 2: Escultores e Estátuas agora se distanciam. Escultores continuam a modelar, só que à distância. As estátuas que antes viam e sentiam os gestos, agora continuam a ver, mas sem sentir. No entanto, continuam a responder como se ainda os estivessem sentindo. Neste exercício, os escultores são tentados a cometer três erros: primeiro, o de se reaproximar da estátua (para fazê-la compreender o que deseja). Segundo, a tentação de fazer sinais simbólicos do tipo “chega pra lá”, “mais para trás”, “não é assim”. Terceiro, a tentação de FALAR, o que deve ser evitado, já que corta a comunicação visual. Já a estátua/modelo tem a tendência de realizar movimentos que não foram comandados pelo escultor. (Nº pessoas: a partir de uma dupla) 87 Nós testamos esse jogo de duas maneiras. Uma delas é a marionete abandonando o gesto anterior, como se a marionetista cortasse aquela linha e depois puxasse outra em outra parte do corpo. A outra maneira possível é a marionete mantendo todas as posições causadas pela marionetista com a linha. Assim como nos jogos do espelho e da modelagem, aqui o importante é a comunicação visual. 18.Marionete com fios MARIONETISTA e MARIONETE estão a uma certa distância. A marionetista faz o gesto de suspender uma linha, e a marionete responde com o movimento correspondente. Esta linha imaginária parte diretamente da mão da marionetista para uma das articulações do corpo da marionete. A marionetista direciona o olhar para certa parte do corpo da marionete (cotovelo, joelho, cabeça, ombro, pé, pulso...) e puxa a linha imaginária, a marionete deve corresponder a este movimento. (Nº pessoas: a partir de uma dupla) 88 Desafiar, despertar e estimular a função seletiva da audição é um dos objetivos deste jogo. Como nós testamos em trio, quem estava fora da dupla reproduzia variados sons para confundir quem estava no papel de cego. A audição fica realmente muito aflorada neste jogo, com a anulação da visão. A sensação de apenas ouvir e seguir um som que é repetido, foi muito prazerosa. 19. Floresta de sons Na dupla, um será o guia, o outro estará com os olhos fechados. O guia emite um som qualquer - pode ser imitando algum animal, seu parceiro escuta com atenção. Quem está cego, com os olhos fechados, cruza os braços a sua frente para não bater em nada. Todas as duplas fazem no espaço ao mesmo tempo. Os guias começam então a emitir os sons, que devem ser seguidos pelos cegos. Quando o guia para de fazer o som, o cego também deve parar de andar. O guia é responsável pela segurança do parceiro cego e deve parar de fazer sons se a sua dupla estiver prestes a esbarrar em outro, por exemplo. O guia deve variar volume, posição e distância para desafiar sua dupla. O cego, por sua vez, deve se concentrar somente no som e seguir o seu guia. Quanto mais duplas tiver no espaço, mais desafiador será para os cegos seguirem seus guias. Após um tempo, trocam-se os papéis. (Nº pessoas: a partir de uma dupla) Categoria 4 ATIVANDO OS VÁRIOS SENTIDOS 89 Ao testarmos esse jogo, observamos algumas reações. A tendência de quem guia é empurrar o carro cego, o que não deve ser feito, o carro é que deve reagir ao toque. É preciso antes, estar atento às regras desse jogo, nos combinados do motorista com o carro. Podemos também brincar mais e inventar outros comandos, como a buzina ser um toque no topo da cabeça por exemplo. Observamos que quem estava mais atento ao jogo, é quem estava sem a visão. Sem um dos sentidos, nosso corpo desenvolve melhor os outros, que ficam mais ativados. 20.Carro cego Uma pessoa está a um passo atrás da outra, esta é a MOTORISTA, quem está na frente é o CARRO CEGO, que deve ficar de olhos fechados. Por trás, o motorista guiará os movimentos do carro cego, com os seguintes SINAIS pré-combinados, com uma leve pressão dos dedos: No meio das costas: O carro segue em frente No ombro esquerdo: O carro vira à esquerda – quanto mais próximo do ombro, mais fechada será a curva. O mesmo para o ombro direito, curva para direita. No pescoço: O carro dá marcha à ré. O carro só deve parar quando o motorista parar de tocá-lo. A velocidade será controlada pela maior ou menor pressão dos dedos nas costas. Se o grupo for grande, e tiver muitos carros cegos circulando, é preciso evitar colisões. (Nº pessoas: dupla ou mais) 90 "Monstra Opressão" (Ilustração de Araxane Jardim) 91 FO TOS BUM ÁL de 93 94 95 96 97 98 99 100 101 "Em marcha" (Ilustraçãode Araxane Jardim) 102 RE F E RÊN C I AS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOAL, Augusto, 1931-2009. A estética do oprimido / Augusto Boal. – Rio de Janeiro: Garamond, 2009. BOAL, Augusto, 1931. Jogos para atores e não-atores / Augusto Boal. – 5ª edição ver. e ampliada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. BOAL, Augusto, 1931-2009. Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas / posfácio de Julián Boal. – São Paulo: Editora 34, 2019. DUNKER, Christian. O palhaço e o psicanalista: como escutar os outros pode transformar vidas / Christian Dunker, Cláudio Thebas. – São Paulo: Planeta do Brasil, 2019. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido / Paulo Freire. – 17ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. SLAVUTZKY, Abrão. Humor é coisa séria / Abrão Slavutzky. – Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2014. WUO, Ana Elvira. A linguagem secreta do clown. Revista Integração. Ensino. Pesquisa. Extensão. Ano XV. jan/fev/mar. n.56, 2009. 104 Abrão Slavutzky Alexandre Penha Ana Elvira Wuo Celso Welusa Cláudio Thebas Eduardo Teixeira Guilherme Comelli Henrique Dallmeyer Jean Pierre Besnard “Um dos segredos do humor é ser um dos fatores decisivos na construção de um novo sentido, pois consegue pôr a realidade em suspenso, sem anestesiá-la......ele alivia a dor, pois não há vida sem sofrimentos...logo, como as dores acompanham a vida, o humor tem seu futuro assegurado” Com esta frase de Abrão Slavutzky encerramos esta publicação, mas não encerramos o assunto. Muito ainda pode ser “assuntado” dentro destas duas linguagens vivas, orgânicas e transformadoras. Sabemos que ainda há muitas convergências a serem citadas, que não descrevemos aqui. Sabemos também, que ainda há muitas pessoas que trabalham com estas artes e precisamos ainda conhecê-las e chamar para uma conversa. Para nós foi uma honra ter encontrado pelo caminho, pessoas tão generosas que nos ouviram, falaram, refletiram e escreveram sobre o teatro do Oprimido e Palhaçaria. Que estas duas linguagens possam cada vez mais se abraçar e estarem juntas com aqueles que necessitam aliviar e lutar contra as opressões, rindo da opressão e não dos oprimidos. E que nosso entusiasmo possa ir longe, até chegar aos... Atores e não atores / Mulheres Palhaças e não palhaças / Palhaços e não palhaços / Letrados e não letrados / Acadêmicos e não acadêmicos / Doutores e não doutores / centros urbanos e não urbanos / zona rural e não rural / Todas e todos. Agradecemos carinhosamente a quem contribuiu com a pesquisa e/ou com esta publicação: José Guilherme Benetti Laetitia Birbes Nathy Ananias Patrícia Sacchet Sandra Alencar Silvia Balestreri Tânia Farias Tefa Polidoro Esta pesquisa continua... Abraços da equipe! Teatro do Oprimido e Palhaçaria - Conversas e Convergências ENCERRAMENTO DA ETAPA E AGRADECIMENTOS 105 Teatro do Oprimido e Palhaçaria: Conversas e Convergências @toepalhacaria to.palhacaria@gmail.com Palhaça Assuntina @palhaca_assuntina jaque.iepsen.correa@gmail.com Ponto de Cultura Biguá - Espaço Livre @espacolivrebigua espacolivrebigua@gmail.com Grupo Realejo EnCena @grupoteatralrealejoencena grupoteatral.realejoencena@hotmail.com