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AULA 1 NEUROPSICOFARMACOLOGIA Profª Adriana Christoff 2 TEMA 1 – NEUROCIÊNCIA E A PSICOFARMACOLOGIA Neste estudo, teremos o desafio de compreender os mecanismos celulares e teciduais relacionados ao Sistema Nervoso e suas divisões, para a compreensão de patologias de cunho psicológico e neurológico e para responder à grande questão norteadora e proposta principal do presente estudo: como os medicamentos psiquiátricos e neurológicos podem afetar o comportamento do estudante e o processo de aprendizagem? É fato que essa é uma vertente importante no contexto do processo ensino e aprendizagem, isso porque a incidência de doenças psiquiátricas e neuronais que afetam os indivíduos, especialmente crianças e adolescentes, vem crescendo nos últimos anos de forma exponencial. Sabe-se que, para o desenvolvimento dessas patologias, existem inúmeras situações consideradas fatores predisponentes, uma vez que a grande maioria dessas doenças é multifatorial. Um exemplo é o quadro depressivo maior, considerada a forma mais grave de depressão, na qual um dos sintomas preponderantes são tentativas concretas e/ou pensamentos suicidas (DSM V). Um adolescente que apresente esse quadro tem perda do humor e, consequentemente, da motivação para uma tarefa que já é considerada por essa faixa etária difícil e árdua, que é o “estudar”. E dentro dessa perspectiva, o tratamento antidepressivo vem com o objetivo de melhorar o humor, reduzir pensamentos relacionados à incapacidade mental e motora e, consequentemente, melhorar o quadro educacional. Parece perfeita a situação na qual um aluno com diagnóstico de depressão, medicado, evolua no processo de aprendizagem, mas a vivencia prática não nos mostra os achados teóricos e as metas impostas pelos profissionais da saúde. Um exemplo é a baixa eficácia dos antidepressivos (De Nucci, 2021), a falta de adesão por parte dos pacientes (Correr; Otuki, 2013) e o abandono do tratamento em função de reações adversas e colaterais, os quais inclusive podem afetar o aprendizado. Dessa forma, é importante perceber que os medicamentos, de uma forma geral, podem afetar o aprendizado de forma direta ou indireta, e os psicofármacos estão entre os de maior potencial. A interferência direta está relacionada com a própria ação do fármaco, ou seja, do seu mecanismo de ação. Um exemplo seria o uso de algum benzodiazepínicos, a exemplo do Diazepam, que provoca depressão do Sistema Nervoso Central (SNC), afetando a concentração e 3 causando sonolência. Da mesma forma, tem-se o fenobarbital (Gardenal ®), um medicamento usado para tratamento da epilepsia que causa a perda da capacidade de concentração e atenção, raciocínio e sonolência, afetando de forma negativa o aprendizado. Alguns medicamentos podem afetar de maneira indireta, como o metilfenidato, mais conhecido pelo seu nome comercial (Ritalina ®), que vem com o objetivo de melhorar o foco e a atenção, mas causa como reação adversa euforia, aumento dos batimentos cardíacos, sinais que podem reduzir o aprendizado. Essa situações nos fazem pensar que todo o medicamento tem uma ação esperada e considerada essencial, a qual chamados de efeito ou eficácia, quando em modelo experimental, ou efetivo, quando usado no mundo real. Dentro desse contexto, o profissional da pedagogia precisa ter que lidar com todas essas situações, pois, certamente, são rotineiras e, por essa razão, dentro desta aula, serão trabalhos conceitos básicos de neuropsicofarmacologia para que você possa resolver problemas, começando pelo entendimento das suas causas e consequências. E para alcançar esse objetivo, precisamos adentrar na neurociência, que abrange um conjunto de disciplinas que discorrem sobre o Sistema Nervoso (Lent, 2008). Entre elas está a neuropsicologia e a neuropsicofarmacologia. TEMA 2 – CONCEITOS BÁSICOS EM NEUROPSICOLOGIA Essa área da neurociência está também dentro da psicologia e se propõe a estudar as relações entre o SNC, o funcionamento cognitivo, ou seja, o processo de aprendizagem e memória e o comportamento do indivíduo. A neuropsicologia atua de maneira abrangente, realizando o diagnóstico complementar e propondo intervenções clínicas voltadas para o tratamento de diversos quadros patológicos decorrentes da alteração do SNC (Miotto et al., 2017), ou mesmo no tratamento de sinais e sintomas relacionados ao quadro patológico e até ao tratamento farmacológico. Envolve também pesquisas experimentais, randomizadas e observacionais com o intuito de realizar uma verificação sob o aspecto clínico na presença ou ausência de patologias. Claro que está conectada a áreas da neurologia, psicologia, geriatria, pediatria, psiquiatria, fonoaudiologia, pedagogia, forense e economia e marketing (Miotto et al., 2017). 4 A neuropsicologia, no contexto clínico que nos interessa nesta etapa, tem como objetivo auxiliar no diagnóstico diferencial de quadros neurológicos, como epilepsia, desordens autoimunes e quadros psiquiátricos como a depressão, transtornos de ansiedade e esquizofrenia. Também atua no monitoramento dessas condições, na investigação da natureza e do grau das alterações encontradas sob o ponto de vista cognitivo e comportamental, na seleção de tratamentos voltados para a reabilitação do paciente implementando ou orientando os programas voltados para as alterações cognitivas e comportamentais para melhorar a qualidade de vida do paciente. O profissional dessa área pode compreender e propor hipóteses sobre o diagnóstico, identificar o tipo e a extensão da alteração cognitiva, realizando a discriminação de áreas preservadas e lesionadas, avaliando a presença de alterações cognitivas e comportamentais, tais como alterações do humor e o impacto desses achados na sua rotina diária, levando em conta o social, o ocupacional e o pessoal (Miotto et al., 2017). Normalmente, a avaliação neuropsicológica envolve a utilização de escalas específicas e entrevista clínica para obter informações detalhadas sobre o quadro atual, frequência e intensidade dos problemas encontrados, com o cuidado de averiguar o histórico pessoal e familiar. Em relação ao uso de escalas, pode-se citar a de Beck tanto para a avaliação de sinais e sintomas de depressão quanto de ansiedade (Beck et al., 1996; Beck; Steer, 1990). Mas o que de fato importa é que, durante a anamnese, conhecer e avaliar o histórico de uso de drogas é de fundamental importância. Como já é sabido, as drogas podem modificar a resposta comportamental, como o humor e a cognição, de maneira positiva ou negativa, e caso os sinais e sintomas apresentados pelo paciente não sejam correlacionados com o uso de drogas, isso certamente levará a erros de diagnóstico e tratamento. Sinais específicos como fadiga, insônia, deficiências motoras, aumento da pressão arterial (PA), agitação, retardo psicomotor, alterações sensoriais, entre outros, são comuns no uso de uma droga. Quando citamos aqui a palavra “drogas”, estamos nos referindo a qualquer substância química conhecida que possa ter ou não aplicação terapêutica. Assim, fármacos como clonazepam, dipirona e drogas de abuso como o álcool e a cocaína são todas consideradas drogas. Interessante pontuar que as alterações cognitivas avaliadas pelo profissional na neuropsicologia são: memória, atenção, raciocínio, capacidade de 5 julgamento, alteração das emoções e comportamento, fatores fortemente influenciados pelo uso de drogas (especialmente as de abuso) e, assim, o profissional, seja ele médico, psicólogo ou pedagogo, precisa avaliar essas relações para o entendimento real da situação e para intervir com sucesso. TEMA 3 – NEUROPSICOFARMACOLOGIA Essa é uma área do conhecimento que envolve a neurofarmacologia voltada para o estudo do tratamentofarmacológico de doenças neuronais, o que exige, de fato, um conhecimento prévio sobre neurofisiologia, pois é necessário entender o funcionamento do SNC em condição não patológica para, depois, estudá-lo em condições patológicas. Para tal para tal, compreender o efeito dos fármacos em nível celular, tecidual e em circuitos mais complexos, como entre as sinapses, atuando em receptores celulares, modulando a produção e a liberação de neurotransmissores, é imprescindível para a total compreensão do efeito e da segurança desse fármaco. Essa é uma ramificação da farmacologia que vem crescendo muito por duas razões: a primeira porque, na última década, tivemos um avanço do número de pacientes com comorbidades neuronais e psiquiátricas; a segunda pelo fato de que essas condições clínicas se manifestam, geralmente, de forma a afetar e prejudicar a rotina dos pacientes. Quando essas doenças se apresentam na infância, podemos citar a redução da capacidade cognitiva, afetando diretamente o aprendizado e a memória. Já em idosos, podem levar a estágios diversos de demência, colocando em risco a autonomia do idoso e prejudicando a vida produtiva da população economicamente ativa (Mioto, 2017). É fato que houve uma evolução no sentido da compreensão da patologia, dos fatores causais e das diferentes formas de evolução das doenças, e isso ocorreu graças aos avanços das técnicas laboratoriais, como na área de biologia molecular, o que possibilitou o estudo da influência genética na manifestação e evolução das comorbidades centrais, exames de imagens e técnicas de sequenciamento genômico rápido que possibilitam relacionar os efeitos de um fármaco às alterações genômicas na célula-alvo. Assim, como consequência desses achados, houve também avanços na própria farmacologia, pois com o conhecimento mais detalhado da patologia, foi possível – e ainda é – o desenvolvimento de novos fármacos mais específicos, o que significa afirmar que esse tem menor risco de provocar efeitos colaterais e 6 adversos, muitas vezes responsáveis por problemas na terapêutica devido ao abandono do tratamento. Fármacos mais específicos e seletivos, no geral, são mais seguros e, assim, apresentam menor risco de causar efeitos desagradáveis, o que favorece o tratamento. É fato que já estamos nesse caminho, mas ainda muito precisa ser feito para a melhoria da terapêutica farmacológica. Infelizmente, a realidade que ainda prevalece é a de que muitos medicamentos são eficazes, mas ainda provocam reações indesejáveis, como aquelas que estamos interessados em estudar para avaliar se o comportamento e aspectos cognitivos do nosso aluno estão relacionados com a doença, aos sinais e sintomas dela ou se são decorrência do uso do medicamento. Para que possamos evoluir nessa discussão, precisamos revisitar conceitos de neurofisiologia, especialmente os do SNC. TEMA 4 – SISTEMA NERVOSO O sistema nervoso contém mais de 10 bilhões de neurônios, os quais, em sua grande maioria, realizam conexões sinápticas responsáveis pela condução das informações, o que confere um alto grau de complexidade a esse sistema. São essas conexões que conferem desde reflexos primitivos até respostas e sentimentos mais complexos, como o aprendizado, a memória e a linguagem (Golan et al., 2016). 4.1 Neurônios e neurotransmissão Como já citado, a principal célula do sistema nervoso é o neurônio, o qual produz e conduz impulsos elétricos. Eles podem variar de acordo com o tamanho e a forma, mas, usualmente, apresentam três estruturas básicas: dendritos, corpo celular e axônio (figura 1). 7 Figura 1 – Estruturas do neurônio Crédito: MattLphotography/Shutterstock. O corpo celular contém o núcleo da célula e é responsável pela sobrevivência do neurônio, pois é o local no qual são produzidas macromoléculas. Os corpos celulares que estão localizados dentro do SNC são reunidos formando o que chamamos de núcleos. Os dendritos são ramificações que transmitem o impulso nervoso ao corpo celular, e o axônio conduz impulso para longe do corpo celular e vai para outro extremo do neurônio, região na qual ocorrerá a liberação de um neurotransmissor. Os neurônios podem ser classificados de acordo com a sua função e estrutura. Em relação à função, eles podem ser classificados em neurônios sensitivos ou aferentes, responsáveis pela condução, por exemplo, de informações da periferia, sensoriais até o SNC; já os neurônios motores, também conhecidos como eferentes, conduzem o impulso do SNC para a periferia, normalmente levando uma resposta a ser executada diante de um acontecimento. Por exemplo, quando colocamos a mão sobre uma superfície quente, são neurônios sensitivos que percebem a temperatura elevada, por meio da ativação de proteínas encontradas nos dendritos chamados receptores. Esses são ativos diante de uma infinidade de situações, como cortes e trauma mecânico (batidas). 1 1 (dendritos) 2 (corpo celular) 2 3 (axônio) 3 Legenda: 8 Dependendo de quão quente está a placa do tempo de processamento dessa informação, a resposta é para retirar a mão na placa. Essa resposta chega até os músculos da mão através dos neurônios eferentes, que partem da medula espinhal (veja adiante) e vão até o músculo esquelético. Lá, são liberadas moléculas, conhecidas como neurotransmissores, que são responsáveis pela execução da contração muscular para que ocorra a retirada da mão. Caso tenha havido queimadura, ainda vem a percepção emitida por regiões especificas do cérebro, a dor. Um nervo é um feixe de axônios localizados fora do SNC e pode ser composto por neurônios motores e sensitivos, sendo que alguns são apenas sensitivos, como aqueles relacionados à percepção e ao controle dos sentidos, como a visão e a audição, por exemplo (Fox, 2007). 4.2 Sistema nervoso O sistema nervoso é classicamente subdividido em dois de acordo com a sua composição e função: SNC e periférico (SNp). O SNC é formado pelo cérebro e a medula espinhal, enquanto o SNp é formado por neurônios sensitivos e motores que podem partir da medula espinhal e invervar todos os órgãos e tecidos ou sair dos órgãos e tecidos e chegar até a medula espinal. O SNC tem como principal função transmitir e processar sinais recebidos do sistema nervoso periférico, o que resulta em respostas que são formuladas e transmitidas à periferia, tudo por intermédio das conexões neuronais. Anatomicamente, esse sistema é dividido em sete principais regiões: hemisférios cerebrais, diencéfalo, cerebelo, mesencéfalo, ponte, medula oblonga e medula espinhal. De uma forma resumida, o mesencéfalo, a ponte e a medula oblonga são conhecidos como tronco encefálico e, juntos, conectam a medula espinhal com o restante: cérebro, cerebelo e diencéfalo (Golan et al., 2014). 4.3 Cérebro Os hemisférios cerebrais constituem a maior divisão do cérebro humano e são subdivididos em direito e esquerdo, sendo conectados pelo corpo caloso. A região do córtex cerebral é subdividida em lobos frontal, temporal, parietal e occipital e basicamente controla funções relacionadas à percepção sensorial, como exemplo o tato, o olfato, o paladar e funções de planejamento, coordenação 9 da função motora, aprendizado e memória, linguagem e raciocínio. Muitos medicamentos, como os ansiolíticos e anticonvulsivantes, afetam essas regiões, podendo trazer inúmeros efeitos colaterais, como a redução da capacidade de raciocínio e aprendizado. É importante pontuar que, ao redor do córtex, está situada uma região importante para as nossas discussões, conhecida como sistema límbico. Esse sistema complexo é formado por estruturas chamadas de giro do cíngulo, hipocampo e amigdala. Esse sistema é o responsável pelas emoções e pelo comportamento social, controle autônomo, dor e memória (Golan et al., 2014). Um exemplo de doença relacionadaa essas estruturas é o Alzheimer, que afeta determinado tipo de neurônio, responsável pela produção de um neurotransmissor chamado acetilcolina, importante para o aprendizado e a memória. Nessa doença, como ocorre a perda desses neurônios, há uma redução das memórias de curto prazo no início da doença, progredindo para outros tipos de memórias. Um outro exemplo são as drogas psicotrópicas que acabam promovendo um efeito relacionado ao desenvolvimento de propriedade reforçada, o que faz com que os indivíduos queiram repetir a experiência utilizando a substância novamente, o que leva à perda de controle sobre o uso (Rang et al., 2016; Brunton et al., 2019). 4.4 Diencéfalo Essa estrutura é dividida em tálamo e hipotálamo. O primeiro funciona como uma espécie de receptor de sinais capaz de filtrar e modular informações sensoriais; já o hipotálamo tem várias funções importantes, como controle sobre a liberação de hormônios pelas glândulas do corpo, controle da temperatura corpórea e das sensações de fome e saciedade. 4.5 Cerebelo O cerebelo é a estrutura que controla o movimento voluntário e o equilíbrio, controla os movimentos oculares e está envolvido na aprendizagem das tarefas motoras e de certas funções cognitivas. Alguns fármacos podem afetar o equilíbrio, por exemplo, atuando sobre o cerebelo. 10 4.6 Tronco encefálico O primeiro ponto importante é que o tronco encefálico conecta a medula espinhal ao tálamo e ao córtex e, de lá, parte a grande maioria dos nervos cranianos, estando envolvidos na audição, equilíbrio e paladar. São os nervos cranianos que controlam a expressão facial, a mastigação, a deglutição e o movimento ocular. Além disso, encontra-se no tronco encefálico estruturas que controlam a respiração, como o centro respiratório. Alguns fármacos, como os ansiolíticos da classe dos benzodiazepínicos, o álcool, anestésicos gerais e analgésicos opioides podem reduzir a frequência respiratória atuando nessa porção cerebral. 4.7 Medula espinhal A medula espinhal representa a divisão caudal do SNC, pois estende-se desde o tronco encefálico até a primeira vértebra da lombar. Os neurônios da medula espinhal incluem os sensitivos e os motores. Basicamente, os sensitivos transmitem a informação da periferia para o encéfalo, enquanto os neurônios motores transmitem comandos oriundos das áreas motoras do córtex e do tronco encefálico para os músculos periféricos. 4.8 Sistema nervoso periférico Esse sistema é formado por três subtipos, sendo eles o autônomo, o muscular e o entérico. Para resolver a questão que permeia nosso estudo, faz-se necessário o entendimento do funcionamento geral do sistema nervoso autônomo. 4.8.1 Sistema nervoso autônomo A importância desse sistema dá-se em função do controle sobre as respostas involuntárias do músculo liso e do tecido glandular, ou seja, ele está envolvido, por exemplo, no controle sobre a contração que acontece de forma involuntária no trato gastrointestinal enquanto estamos digerindo um alimento e o controle sobre a liberação de substâncias como saliva e o suor. O sistema nervoso autônomo é subdividido em autônomo simpático (SNAs) e parassimpático (SNAp). O simpático é responsável por respostas relacionadas 11 ao processo de luta e fuga, que é coordenado pelo central. Vamos a um exemplo: imagine a situação de um assalto. No momento que a ação é identificada pelo sujeito que está recebendo a ação, o cérebro reage ativando o SNAs e provocando uma liberação alta de noradrenalina, a qual prepara nosso corpo para uma resposta imediata. Essa resposta inclui: aumento da pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos, vasoconstrição, aumento da capacidade ventilatória por meio da broncodilatação e contração da musculatura lisa. Os neurônios que compõem esse sistema partem das regiões medianas da medula espinhal (torácica e lombar) e inervam muitos tecidos, provocando esses efeitos citados acima por meio da liberação de noradrenalina nos tecidos-alvo. Já o sistema nervoso parassimpático tem seus neurônios partindo das porções extremas da medula espinhal, como crânio e sacro. Esses neurônios vão encontrar muitos tecidos periféricos, promovendo ações como redução da pressão arterial, redução dos batimentos cardíacos, aumento da contração do útero, bexiga e de toda a musculatura lisa do tecido gastrointestinal. Esse último efeito, por exemplo, é responsável pelo processamento do alimento e da absorção de nutrientes pelo intestino delgado e excreção das fezes. Essas ações são possíveis porque os neurônios do SNAp liberam nos tecidos um outro neurotransmissor chamado acetilcolina. Um exemplo do funcionamento do SNAp seria no momento da fome. Quando diante dessa situação, já ocorre um aumento de aceltilcolina por meio das fibras parassimpáticas, que vão promovendo o aumento da liberação da saliva e a produção de ácido clorídrico no estômago. Quando o alimento por fim chega, a acetilcolina promove o aumento da contração da musculatura lisa do trato gastrointestinal. TEMA 5 – NEUROPLASTICIDADE Esse é um termo extremamente importante para o conhecimento, de acordo com o que nos propusemos a estudar, pois será um termo recorrente em nosso estudo. Todo o sistema nervoso sofre plasticidade, termo que se refere a sua capacidade de alterar de modo mais ou menos prolongado a sua função ou mesmo a sua forma. Quando pensamos em atividades neuronais centrais, muitas vezes, entendemos que ela sempre ocorre na mesma forma, em todos os seres 12 humanos, mas isso não é verdade. É diferente para outros tecidos, como o tecido cardíaco, que sempre opera da mesma forma, em indivíduos saudáveis e na ausência de patologias ou substâncias estressoras, sempre será dessa forma, e até em diferentes organismos. Isso não ocorre no SNC. Nossos neurônios são capazes de se ajustar ao meio imposto, ao estilo de vida, à educação, aos cuidados tomados pela mãe no período gestacional, às drogas que o indivíduo venha a usar, sendo prescritas ou não e estamos aqui nos referindo às drogas de ação central, ou seja, aquelas que agem no SNC. Ainda, o SNC molda-se de forma diferente frente a alimentos, música e drogas de uso passivo, como a exposição à fumaça do cigarro e a exposição a agente tóxicos, como poluentes e agrotóxicos, os quais podem afetar o indivíduo de forma ocupacional ou não. É fato que a neuroplasticidade, de um modo geral, ocorre com mais frequência durante o desenvolvimento do que na fase adulta. São exemplos de neuroplasticidade na fase adulta a neurogênese, que ocorre em algumas regiões do cérebro adulto, como dito anteriormente, influenciado por fenômenos ambientais, genética e exposição. Quando essa neurogenese é bem-sucedida, em geral, ela tem papel de proteção, mas, às vezes, são alterações malsucedidas que podem estar relacionadas ao aparecimento de respostas terapêuticas não esperadas, tóxicas ou de doenças neurológicas e/ou psiquiátricas. Mas é importante pontuar que essa plasticidade é benéfica em muitos casos. É um processo necessário envolvido na geração de memórias, tanto em adultos quanto em crianças. O sistema nervoso é formado durante o período embrionário e pós-natal, mas muitas estruturas demoram para amadurecer por completo, como a região tegmetal ventral, que fica completamente madura no final da adolescência. A formação e o amadurecimento do SNC obedece a regras impostas pelo genoma de cada espécie, mas é extremamente susceptível a modulações oferecidas pelo ambiente. Essa interação forma o que chamados de plasticidade ontogenética (Lent, 2008). Após o período de desenvolvimento, o sistema nervoso não perde a capacidade de mudar, mas deixa de ser ontogenética e passa a ser celular e molecular, principalmente nas sinapses, região exata em que acontece a transmissão e o processamento da informação.13 Em geral, essas alterações podem manifestar-se de três formas: morfológica, na qual ocorrem alterações nos axônios ou dendritos; funcional, quando ocorrem alterações na fisiologia neuronal e sináptica; comportamental, mediante alterações relacionadas com os fenômenos de aprendizado e memória (Lent, 2008). As alterações morfológicas que ocorrem durante o desenvolvimento de um feto ou já na criança podem estar relacionados com doenças desde epilepsia até graus variáveis de deficiência intelectual. Mas nem todas se tornam doentes, o que nos faz pensar que existem mecanismos de plasticidade compensatória. O uso de drogas de abuso pela mãe ou medicamentos prescritos que possam ser teratogênicos também podem estar relacionados com alterações morfológicas na criança. A plasticidade sináptica é a prevalente no cérebro de indivíduos adultos e é por meio dela que podemos gerar memórias. Portanto, a plasticidade está envolvida com proteção e reparo e, como mencionado, com a geração de memórias. Mas vamos focar nos problemas relacionados à plasticidade. Como já foi descrito, algumas doenças podem ser provocadas pela plasticidade que ocorre durante o desenvolvimento embrionário e até após o nascer. Outro fato importante é que muitos psicofármacos podem provocar plasticidade e alterar o comportamento, o humor e a cognição. Um exemplo clássico são as drogas de abuso, e nos referimos a todas elas, incluindo o álcool. Essas drogas, durante o uso agudo, podem gerar mudanças no padrão de comunicação neuronal, podendo gerar comportamentos de abuso e procura repetida pela droga, ou seja, pode estar relacionado com o desenvolvimento da dependência. O indivíduo jovem é mais vulnerável a essas mudanças, pois ainda não apresenta a maturidade completa do SNC, e, aliado a questões de comportamentos típicos da idade e influência do meio, ele pode ser mais susceptível à dependência do que quando comparado com um indivíduo adulto. Ainda, diagnósticos não assertivos, com prescrição de medicamentos sem a real necessidade, ou a busca por fármacos por meio de meios ilícitos, podem envolver a formação de plasticidade e desenvolvimento de comorbidade ou até piora de uma quadro clínico já diagnosticado. A população brasileira tem uma crença errônea de que medicamentos não fazem mal, mas, muitas vezes, eles são a causa para o desenvolvimento de problemas sérios, como transtorno de ansiedade generalizado, fobias, depressão, 14 mania, entre outros. Os medicamentos estão disponíveis para tratar doenças, trazer alívio de sinais e sintomas, mas sempre são escolhidos pelo profissional, sendo prescritos respeitando uma linha muito tênue, especialmente em se tratando de fármacos de ação central, entre os riscos e benefícios do tratamento. Portanto, vamos estabelecer nas próximas etapas os riscos associados ao uso de psicofármacos e estudar as reações e problemas que podem ser encontrados, especialmente os relacionados ao processo de ensino e aprendizagem, com o uso de psicofármacos. 15 REFERÊNCIAS BECK, A. T.; STEER, R. A.; Brown, G. K. Beck depression inventory. São Paulo: Pearson, 1996. BECK, A. T.; STEER, R. A. Beck anxiety inventory. São Paulo: Pearson, 1990. MIOTTO, E. C.; LUCIA, M. C. S. D.; SCAFF, M. Neuropsicologia clínica. 2. ed. Grupo GEN, 2017. BRUNTON, L. L. et al. As bases farmacológicas da terapêutica. 13. ed. Rio de Janeiro: McGraw Hill, 2019. CORRER, J. C.; OTUKI, M. F. A prática farmacêutica na farmácia comunitária. São Paulo: Grupo A, 2013. GOLAN, D. E. et al. Princípios de farmacologia: a base fisiopatológica da farmacoterapia. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. FOX, S. I. Fisiologia humana. São Paulo: Manole, 2007. DE NUCCI, G. Tratado de farmacologia clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021. LENT, R. Neurociência da mente e do comportamento. São Paulo: Grupo GEN, 2008. RANG, H. P. et al. Farmacologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.