Prévia do material em texto
Aula 01 Natália Gindri Fiorenza Maria Paula de Souza Sampaio Citopatologia Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Diretora Editorial ANDRÉA CÉSAR PEDROSA Projeto Gráfico MANUELA CÉSAR ARRUDA Autor EDUARDO NASCIMENTO DE ARRUDA Desenvolvedor CAIO BENTO GOMES DOS SANTOS NATÁLIA FIORENZA Olá. Meu nome é Natália Fiorenza. Sou formada em Ciências Biológicas, com mestrado e doutorado na área de Ciências da Saúde. Passei por diferentes laboratórios de pesquisa, publicando trabalhos científicos e participando de muitos Congressos e Cursos em diferentes área de saúde e educação. Fui professora universitária e tutora durante 4 anos do curso de medicina, onde me conectei com minha paixão pela docência e por metodologias ativas de ensino. Sou ávida por aprender e ensinar e por trocar conhecimentos quer na área científico-acadêmica, quer na área de desenvolvimento humano e autoconhecimento. Recebi com muita alegria o convite da Editora Telesapiens para integrar seu elenco de autores independentes, pois tenho como propósito transmitir aquilo que sei e auxiliar outras pessoas no início de sua jornada profissional. Estarei com você nessa caminhada de muito estudo e trabalho. Conte comigo! As Autoras MARIA PAULA DE SOUZA SAMPAIO Meu nome é Maria Paula, sou graduada em Biomedicina, habilitada em Citopatologia. Além da prática com a minha habilitação, pude realizar um curso avançado em Citopatologia Cérvico-Vaginal. Atualmente, sou voluntária de um projeto de pesquisa na Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) sobre Patologia Mamária Comparada, onde fiz iniciação científica por um ano. Em minha jornada de aprendizado contínuo pude participar ativamente de congressos e projetos de estudo, e sempre tive uma paixão por ensinar. Junto com Natália, pretendo transmitir todo o ensinamento que obtive até aqui, buscando sempre aprender mais. Estamos juntos nesse aprendizado! INTRODUÇÃO: para o início do desenvolvimen- to de uma nova competência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser prioriza- das para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e inda- gações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofun- damento do seu conhecimento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma ativi- dade de autoapren- dizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; Iconográficos Olá. Meu nome é Manuela César de Arruda. Sou a responsável pelo pro- jeto gráfico de seu material. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: SUMÁRIO Compreendendo a Citopatologia e sua importância clínica 12 Introdução a Citopatologia 12 O Estudo da Citopatologia 15 Padrões citológicos em diversos órgãos 15 Mama 15 Tireoide 16 Pulmão 16 Líquidos 17 Cérvice-vaginal 17 Técnicas de coleta de materiais biológicos 19 A escolha do método adequado 19 Punção 20 Raspagem 22 Imprints 23 Lavados 24 Escovados 24 Materiais espontâneos 25 Processos pós-coleta 26 Pré-fixação 27 Centrifugação 27 Cell Blocks (blocos celulares) 27 Fixação 27 Técnicas de coloração das amostras biológicas 29 O processamento da amostra e a fase pré-analítica 29 Coloração de Papanicolau 30 Coloração de Hematoxilina-Eosina (HE) 32 Método de May-Grünwald-Giemsa (MMG) 33 Coloração pelo azul de toluidina 34 Técnicas rápidas de Diff-Quick (DQ) e de Panótico 34 Coloração de Shorr 35 Colorações especiais 36 Montagem 36 Conhecendo a citopatologia dos processos inflamatórios 38 Em que consiste o processo inflamatório? 38 Inflamação Exsudativa 40 Inflamação Alterativa 41 Inflamação Produtiva/Proliferativa 41 Principais achados de alterações inflamatórias 42 Psicofarmacologia Clínica 9 UNIDADE 01 Citopatologia10 O exame citopatológico é uma ferramenta diagnóstica valiosa, por ser minimamente invasiva, segura, simples, de custo acessível e apresentar rapidez e eficácia na determinação do resultado. Como a solicitação desses exames é cada vez maior por parte dos profissionais de saúde, os citopatologistas também têm se tornado mais experientes, levando a um melhor desempenho qualitativo e quantitativo. A citopatologia possui uma importante atuação nos processos inflamatórios, reconhecendo as lesões, avaliando a intensidade da reação inflamatória, acompanhando a evolução e podendo determinar o patógeno causador. O exame citológico tem ainda relevância clínica no diagnóstico precoce das neoplasias, facilitando o planejamento cirúrgico e o estabelecimento dos protocolos terapêuticos. O amplo espectro de análise dos mais diversos materiais levou ao desenvolvimento de inúmeras técnicas de coleta, preparo e coloração das amostras, garantindo resultados mais conclusivos e aumentando a abrangência dos exames disponíveis no mercado. Sendo assim, cresceu nos últimos anos a demanda por profissionais especializados na área e a procura por cursos técnicos e de pós-graduação que contemplem de forma criteriosa esse vasto universo da citopatologia. Você começará agora essa jornada de muito sucesso! Estaremos juntos com você! INTRODUÇÃO Citopatologia 11 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso objetivo é auxiliar você no atingimento dos seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos: 1. Compreender a relevância clínica da citopatologia no diagnós- ticos de algumas patologias, e estudar o perfil das células saudáveis em diferentes órgãos humanos. 2. Aprender sobre diferentes técnicas de coleta de material biológico, associando cada técnica ao tipo de material biológico a ser coletado. 3. Compreender as diferentes técnicas de coloração utilizadas em citopatologia e identificar a técnica mais apropriada para cada tipo celular. 4. Diferenciar o padrão citopatológicos dos processos inflamatórios exsudativos, alterativos e produtivos, assim como identificar as principais alterações citológicas presentes nos quadros inflamatórios. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conheci- mento? Ao trabalho! OBJETIVOS Citopatologia12 Compreendendo a Citopatologia e sua importância clínica INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você será capaz de entender os fundamentos básicos de citopatologia, sua importância clínico-diagnóstica e os padrões citológicos em diferentes órgãos humanos. Este capítulo é fundamental para iniciar seus estudos em citopatologia, uma vez que é necessário conhecer os processos básicos da técnica, assim como o perfil citológico das células saudáveis, para que você possa compreender as alterações celulares que acompanham cada patologia. Esse conhecimento é indispensável para todas as etapas de um exame citopatológico adequado. Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos começar! Introdução a Citopatologia A citopatologia é uma área de conhecimento, dentro das ciências da saúde, que compreende o estudo das células e suas alterações em processos patológicos. Ou seja, é através dela estudamos as patologias humanas e animais, do ponto de vista celular, levando em consideração as características do núcleo e do citoplasma. O advento de técnicas de coloração para o estudo das células, em citologia, e a introdução de novas tecnologias, como o microscópio óptico, possibilitaram um melhor detalhamento da célula e de suas estruturas internas. Esse foio pontapé inicial para o desenvolvimento da citopatologia. Alguns métodos complementares, como técnicas de biologia molecular e sistemas computacionais auxiliam o exame citológico tradicional, trazendo maior qualidade e confiabilidade diagnóstica. O holandês Antonie von Leeuwenhoek (1632-1723) é considerado por muitos como o pai da microscopia óptica, mas foram os também holandeses Hans Janssen e Zacharias Janssen, fabricantes de óculos, que inventaram o microscópio no final do século XVI. As observações realizadas por eles, demonstraram que a montagem de duas lentes em um cilindro, possuía a capacidade de aumentar o tamanho das imagens, permitindo dessa forma que objetos invisíveis a olho nu, fossem observados de forma detalhada. Citopatologia 13 A atribuição equivocada dessa descoberta à Leeuwenhoek se deve ao fato dele ter sido o primeiro a utilizar o microscópio óptico para fins científicos. Leeuwenhoek observou e descreveu os procariontes; o espermatozoide de insetos, cães e humanos; fibras musculares; glóbulos vermelhos; capilares sanguíneos; protozoários; rotíferos e o parasita intestinal Giardia lamblia, isolado de suas próprias fezes, através de um microscópio de fabricação própria. Com certeza, Leeuwenhoek deixou um grande legado para o estudo das ciências médicas e biológicas. No ano de 1838, Johannes Muller obteve um raspado de tumores e o visualizou no microscópio, identificando células malignas. Mais adiante, o francês Lebert utilizou o microscópio para avaliar citologicamente espécimes de secreções, efusões, urina e traqueobrônquico. Henri Lebert registrou o aspecto morfológico de células aspiradas de tumores, em 1845. Em 1853, Donaldson descreveu as características citológicas de amostras obtidas da superfície de corte de tumores num reporte sobre a aplicação prática do microscópio para o diagnóstico de câncer. Os patologistas Aurel Babes, George Papanicolaou e James Ewing, no ano de 1920, utilizaram a citologia esfoliativa e aspirativa, dando um grande avanço na citopatologia. Aurel Babes estabeleceu que o método era aplicável no diagnóstico de cânceres precoces, que ainda não tinham invadido o estroma. Ele descreveu claramente as alterações citológicas no câncer cervical. Dez anos depois, em 1930, o exame citológico já estava sendo utilizado como método diagnóstico de tumores de diversos órgãos. Figura 1: George Papanicolaou (1883-1962) Fonte: Getty Images Citopatologia14 A citopatologia tem uma grande importância na identificação, através dos esfregaços, de células atípicas cancerosas ou de células pré- cancerosas, ou seja, nos seus estágios de desenvolvimento. As doenças potencialmente cancerosas podem ser definitivamente curadas, quando diagnosticadas em suas fases iniciais, impedindo sua progressão para malignidade. O câncer do colo do útero é o terceiro mais incidente na população feminina brasileira, excetuando-se os casos de câncer da pele não melanoma. O exame colpocitológico (Papanicolaou) é pouco invasivo e é utilizado para detectar, nas mulheres, tumores de colo de útero. O exame permite identificar a existência de lesões ou patologias, previamente à realização da biópsia, determinando se há a necessidade de realizar a punção ou não. É uma ferramenta importante no diagnóstico de tumores, função hormonal e infecções parasitárias. A citologia permite a análise individual das células do tecido coletado e, diferente do exame histopatológico, não possibilita visualizar a organização das células, apenas as características de cada uma e os componentes encontrados na lâmina. O resultado da biópsia é mais preciso, entretanto, a amostra citológica pode ter bastante precisão. A biópsia excisional, ou seja, a remoção do tumor inteiro, na maioria das vezes, é o tratamento necessário para remoção de um câncer. Para alguns tipos tumorais, uma amostra citológica ou uma biópsia, seja endoscópica, por agulha ou incisional, pode ser a melhor opção a ser escolhida. Deve-se levar em consideração o tipo específico tumoral e o órgão em que está instalado. A citopatologia está envolvida diretamente com a histologia, suas técnicas auxiliam no diagnóstico de doenças que acometem tanto os seres humanos, quanto os animais. As técnicas citológicas se assemelham às técnicas histológicas, havendo diferenciação de acordo com o tipo do material e sua forma de coleta, fixação de amostras, processamento, coloração e leitura de lâminas. Enquanto a citopatologia SAIBA MAIS: Os estudos de Julius Vogel (1843) representam o primeiro relato da aplicação da citologia no meio diagnóstico. Ele identificou células malignas em líquido de uma fístula drenando um grande tumor mandibular. Citopatologia 15 avalia as alterações celulares, a histologia observa as a arquitetura tecidual, possibilitando verificar se há perda da organização tecidual e a relação do tumor com os tecidos adjacentes. Sendo assim, as duas áreas trabalham juntas, contribuindo para o diagnóstico, conduta terapêutica e prognóstico das patologias tumorais. Ela também está associada à microbiologia, tendo em vista que as técnicas citológicas permitem a visualização da microbiota presente em diversos órgãos, quando são analisados. Além de detectar patógenos específicos de diferentes sítios do organismo. O Estudo da Citopatologia A citopatologia estuda as alterações, estruturas e funções celulares. Núcleo, citoplasma, membrana e matriz extracelular constituem os quatro elementos básicos para o estudo do diagnóstico citológico. Enquanto o núcleo representa o estado de saúde da célula, demonstrando se ela está normal, com inflamação, se está havendo degeneração, ou alterações hiperplásicas, metaplásicas ou neoplásicas, o citoplasma representa a origem da célula e sua função, como células glandulares que produzem muco ou células escamosas que protegem. Padrões citológicos em diversos órgãos Mama A mama humana fica localizada na parte anterior do tórax e apresenta uma auréola e uma papila na região central. É formada por um lóbulo, um grande sistema ductal e divide-se em quinze a vinte lobos mamários separados por tecido fibroso. Os lobos possuem via de drenagem que utilizam o sistema ductal para convergir até a papila. A mama é composta por dois tipos celulares, as células epiteliais e mioepiteliais. As células epiteliais possuem função de secreção e absorção, e sua espessura é composta por uma ou duas células. Já as células mioepiteliais são contráteis e, ao realizarem a contração, movem o leite (produto da secreção) através do sistema ductal. Citopatologia16 Figura 2. Células ductais benignas. Fonte: wikimedia commons Tireoide A glândula tireoide é constituída por dois lobos laterais conectadas por um istmo. O folículo é sua unidade funcional que é composto por células epiteliais foliculares (ao redor) e glicoproteína coloide (centro). Produz hormônios tireoidianos e os armazena. Esses hormônios são responsáveis pelo metabolismo do organismo. Para uma adequabilidade da amostra é necessário que haja pelo menos seis grupos de células foliculares bem visualizadas, ou seja, bem coradas, sem sobreposição ou distorção. Com pelo menos dez células por grupo. Pulmão O tecido pulmonar possui, dentre os principais componentes vistos nos preparados citológicos, células do epitélio respiratório e macrófagos. É importante entender e saber como o espécime foi obtido, como foi feito o processamento da amostra e qual o tipo de amostra utilizada para a interpretação citológica do trato respiratório. Tendo em vista que a morfologia das células e sua precisão diagnóstica variam de acordo com cada item citado. As amostras podem ser escarro ou espécimes brônquicas. Citopatologia 17 Líquidos O pulmão é revestido por uma membrana serosa delicada, chamada pleura visceral, e possui a pleura parietal, que reveste a parede interna torácica. As pleurasestão em continuidade e formam um espaço virtual entre elas. A pleura normal é composta por uma única camada de células mesoteliais e uma pseudomembrana em que repousa o tecido conjuntivo. No espaço pleural há uma pequena quantidade de líquido que atua como lubrificante para facilitar os movimentos respiratórios. No tecido conjuntivo há a presença de arteríolas, vênulas e nervos periféricos, simpáticos e parassimpáticos. O pericárdio e peritônio possuem estruturas e funções similares às da pleura. Cérvice-vaginal A cérvice é representada pela ectocérvice, que é revestida por epitélio escamoso estratificado não queratinizado, e pela endocérvice, que é revestida por epitélio colunar simples. Também há a presença de células endometriais e elementos não-celulares, como hemácias e piócitos. A junção escamocolunar (JEC) é a união entre esses dois epitélios. A colheita das amostras citológicas no teste de Papanicolaou é realizada na ectocérvice e endocérvice, na maioria das vezes. Nas próximas unidades abordaremos mais especificamente a citopatologia de cada um desses órgãos. Figura 3. Endocérvice normal. Fonte: http://bit.ly/38fenYj Citopatologia18 E então? As noções básicas de citopatologia já estão na ponta da língua? Ainda não? Então vamos rever tudo aqui de forma resumida. A citopatologia estuda as alterações celulares, através da análise do citoplasma e do núcleo, de órgãos ou tecidos doentes. Exames citopatológicos têm uma grande relevância para a identificação de hiperplasias e tumores em diferentes estágios de desenvolvimento e na investigação de processos inflamatórios em geral. O desenvolvimento de novas tecnologias, como o microscópio óptico e a interdisciplinaridade com áreas como a biologia molecular, a microbiologia e a histologia permitiram o avanço e auxiliam o exame citopatológico, possibilitando maior eficácia no diagnóstico de doenças. Porém, antes de mais nada, é importante conhecer os padrões citológicos normais dos diferentes tecidos para que se tenha base de comparação para amostras citopatológicas. A mama é composta por 2 camadas de células epiteliais, com função secretora e absortiva, e mioepiteliais contráteis que realizarem a movimentação do leite. A glândula tireoide tem como unidade funcional o folículo formado por células epiteliais foliculares (ao redor) e glicoproteína coloide (centro). O tecido pulmonar é composto por células epiteliais e macrófagos, e enquanto a pleura apresenta uma única camada de células mesoteliais e uma pseudomembrana em que repousa o tecido conjuntivo. A cérvice é dividida em ectocérvice, revestida por epitélio escamoso estratificado, e endocérvice, revestida por epitélio colunar simples. SAIBA MAIS: Para saber mais sobre as práticas em citopatologia, recomendamos o acesso ao “Manual de gestão da qualidade para laboratórios de citopatologia.” do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva - INCA (2016), acessível pelo link: http://bit.ly/2PCp6pu Citopatologia 19 Técnicas de coleta de materiais biológicos INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você terá aprendido sobre as principais técnicas de coleta de materiais biológicos, suas principais características e a que tipo de espécimes se destinam. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão, pois te auxiliará a produzir amostras satisfatórias, aprimorando o diagnóstico clínico. Muitos profissionais enfrentam problemas no que diz respeito a coleta de espécimes biológicos, principalmente pela utilização equivocada do material disponível. Para que isso não aconteça, vamos “arregaçar as mangas” e estudar cada uma dessas técnicas! A escolha do método adequado Como já mencionado anteriormente, a citopatologia estuda as células individualizadas, presentes em materiais biológicos, que são removidos, expelidos ou descamados da superfície de diferentes órgãos ou tecidos. Os materiais biológicos possuem diferentes composições e características e, devido a isso, existem métodos específicos para coleta de cada um deles. A quantidade e qualidade do material citológico são fatores determinantes na precisão diagnóstica e estão diretamente relacionados ao uso de técnicas adequadas de amostragem e ao processamento apropriado dos espécimes. Os materiais biológicos utilizados para o exame podem ser divididos de acordo com a sua obtenção, como mostra a tabela abaixo: Tabela 1: Os métodos de coleta e sua aplicação para diferentes tipos de espécimes. Método da coleta Origem do material Punção Líquidos pleural, peritoneal ou ascético, pericárdico, estomacal, sinovial; lavados brônquico, vesical; abscessos, massas necróticas, sangue, líquor espinhal Raspagem Colpocitologia, olhos, lavado brônquico Imprints Lesões cutâneas, biópsias, peças cirúrgicas Citopatologia20 Lavados Lavados broncoalveolar, brônquico, peritoneal, gástrico, esofágico Escovados Líquidos sinovial, peritoneal ou ascítico Espontâneo Escarro, urina, secreção mamária A seguir, vamos falar mais detalhadamente sobre cada um desses métodos: Punção Método simples e seguro, com boa precisão diagnóstica. É de rápida realização e complicações não são comuns (sangramento, hematomas, processos inflamatórios). Antes de realizar o procedimento, é necessária a preparação do paciente e a realização da antissepsia do local a ser puncionado. Para órgãos mais profundos pode-se utilizar anestesia. A punção não deverá ser feita caso haja a presença de distúrbios de coagulação e/ou uso de anticoagulantes, tosse (em punção de tireoide ou transtorácica), cisto hidático (fígado) e tumor do corpo carotídeo (pelo risco de hemorragia). A punção pode ser feita de forma aspirativa por agulha fina (PAAF) ou por capilaridade. Punção aspirativa por agulha fina - PAAF Obtêm-se amostras de nódulos ou tumores, seja de órgãos superficiais (mama, tireoide, linfonodos e glândulas salivares), seja de órgãos profundos (pulmão e fígado). Órgãos como pâncreas e retroperi- tônio são guiados por métodos de imagem para a adequada localização (ultrassonografia, tomografia computadorizada). O método de PAAF foi utilizado como teste diagnóstico pela primeira vez em 1926, pelos americanos Martin e Ellis para a análise de 65 casos de tumores em diferentes órgãos humanos. Utilizam-se agulhas de pequeno calibre (entre 0,5 mm e 0,7 mm) porém, em materiais espessos ou purulentos, podem ser utilizadas agulhas de 0,8 mm. Seringa plástica descartável de 10 ml ou 20 ml, luvas cirúrgicas, gaze estéril, solução de álcool iodado para antissepsia, lâminas de vidro para microscopia com extremidade fosca e fixador integram o restante do material necessário para realizar o procedimento. Citopatologia 21 Figura 4. Porta–seringa. Instrumento utilizado para apoiar o conjunto de seringa e agulha. Fonte: http://bit.ly/3ch5UqO Para realizar a técnica da PAAF deve-se manter o êmbolo na posição zero, introduzir a agulha na lesão perpendicularmente à superfície da pele, promover forte pressão negativa no interior da seringa, deslocando o êmbolo para estabelecer vácuo, mantendo-o; efetuar movimentos de “vai e vem” com a agulha na lesão, em diversas direções e profundidades, mantendo a pressão negativa, até aparecer material no início da seringa. Soltar o êmbolo da seringa, desfazendo a pressão negativa, ainda com a agulha na lesão. Retirar a agulha da lesão e comprimir o local com uma gaze e retirar a agulha da seringa com o êmbolo na posição zero. Puxar o êmbolo da seringa, fazendo vácuo, acoplar a agulha na seringa empurrando o êmbolo, para, em seguida, depositar o material na lâmina e preparar o esfregaço, fixando-o em seguida. Veja o exemplo na Figura 2. Figura 5. Representação da técnica PAAF. Fonte: http://bit.ly/3ch5UqO Citopatologia22 Materiais líquidos necessitam de centrifugação prévia para utilizar o sobrenadante na confecção do esfregaço. A técnica de confecção dos esfregaçosserá escolhida de acordo com o tipo de amostra obtida. Punção por capilaridade Também conhecida como punção por agulha fina, é uma técnica não aspirativa, de sensibilidade diagnóstica semelhante a PAAF, porém deve ser priorizada como método de escolha para os tecidos muito vascularizados, a fim de minimizar a contaminação por sangue periférico e hemodiluição da amostra. Os aparatos utilizados neste procedimento são os mesmos empregados na PAAF, sem o uso da seringa acoplada. A técnica da punção por capilaridade consiste nos seguintes passos: 1. Localizar o nódulo a ser coletado; 2. Fazer assepsia do local, 3. Introduzir a agulha e fazer movimentos rápidos de “vai e vem” em várias direções; 4. Remover a agulha quando perceber a presença do material no bisel; 5. Acoplar a agulha com o material numa seringa de 10ml e distribuir pequenas quantidades do material em várias lâminas. Raspagem Obtém-se os raspados de superfícies cutâneas ou mucosas (pele, boca, uretra, canal anal), utilizando-se swabs, lâminas de bisturi, espátulas ou escovas apropriadas. É bastante utilizada em canais ou fístulas, regiões inacessíveis a outros métodos de coleta. Recomenda-se não fazer assepsia prévia na lesão, nem usar medicações tópicas, pois poderá prejudicar a qualidade das amostras. O material deverá ser colhido através de duas a três raspagens da lesão, de uma forma que não cause sangramentos, e deverá ser suavemente estendido sobre uma lâmina de vidro limpa, em uma fina camada, e imediatamente fixado em álcool a 95% ou com spray fixador. Lesões vesiculares devem ser rompidas com uma pequena incisão, fazendo a raspagem de suas margens, já que o material existente na base dificulta o diagnóstico devido ao fato de ser mal preservado. Ao aplicar previamente uma compressa de solução fisiológica, em lesões não ulceradas, causará uma maior descamação e melhor preservação celular. Faz-se a distensão sobre a lâmina de vidro ou corta- se a cabeça da escova para imergir em solução salina ou em conservante apropriado. Citopatologia 23 Figura 6. Distensão sobre uma lâmina de vidro uma leve camada de fluidos corpóreos e fixação para o exame ao microscópio. Fonte: http://bit.ly/3alpOiF Imprints São impressões teciduais onde a área lesionada do tecido é colocada em contato com a lâmina de vidro. As células superficiais da lesão passam para a superfície da lâmina, podendo ser observadas microscopicamente. É apropriado para superfícies planas, em lesões ulcerativas e exsudativas. Figura 7. Impressão tecidual em lâmina Fonte: http://bit.ly/3alpOiF A técnica oferece informações diagnósticas complementares nos estudos das lesões da mama, de órgãos do aparelho digestivo, pele e medula óssea. Porém, possui algumas limitações, em tumores de textura fibrosa (fibromas e fibrossarcomas). Quando a técnica é realizada em lesões ulceradas, a amostra pode conter restos celulares, bactérias e células inflamatórias, o que poderá ocasionar em um mascaramento da etiologia da lesão e processos tumorais. Nesses casos, recomenda-se a utilização de outros métodos (como a citologia aspirativa ou raspagem), caso haja áreas sólidas, para aumentar o número de células esfoliadas. Citopatologia24 Lavados O material da cavidade é colhido através de um cateter de instilação para lavagem, contendo solução salina. Exemplos: lavado broncoalveolar (LBA), brônquico (LB), peritoneal, entre outros. Os lavados possuem pouca celularidade. � Lavado brônquico: “Lavar” a mucosa com a instilação de 3 ml a 10 ml de solução salina e, em seguida, aspirar o líquido que deverá ser centrifugado, utilizando-se o concentrado para fazer esfregaços. � Lavado broncoalveolar: Lavagem das vias aéreas distais com várias alíquotas de solução salina estéril. É um método útil para o diagnóstico das infecções oportunistas nos pacientes imunocompro- metidos. � Lavado peritoneal: Deve ser colocado em recipientes heparinizados e refrigerados a 4º C até a confecção do esfregaço. � Lavado gástrico: Obtido de áreas suspeitas da mucosa gástrica sob visão endoscópica direta. � Lavado esofágico: Realizado durante o exame de endoscopia digestiva alta. Após a coleta, colocar o material em etanol a 50% ou 70% ou em solução de Carbowax, na proporção de 1:1. O tipo de amostra (líquida, pastosa ou sólida) definirá o tipo de coleta e o modo de preparo do material de acordo com a técnica apropriada. Escovados A técnica consiste na coleta por esfoliação da superfície de mucosas, utilizando-se uma escova. O material pode ser colhido das mucosas da boca, do esôfago, estômago e brônquios. Esses últimos podem ser obtidos através de aparelhos endoscópicos que possibilitam a visualização direta da lesão a ser estudada. Muitas vezes, este método é mais eficaz em detectar neoplasias malignas do que a biopsia brônquica. A amostra obtida pode ser distendida sobre a superfície de uma lâmina de vidro, ou cortando-se a cabeça da escova e imergindo-a em solução salina ou em líquido conservante apropriado. Citopatologia 25 Materiais espontâneos Urina Antes de realizar a coleta, o paciente deve esvaziar a bexiga pois a primeira urina não é adequada para o exame citológico. Então, deverá ingerir água o suficiente para coletar a próxima urina no recipiente coletor, de preferência no laboratório. Volumes entre 25 e 100 ml de urina espontânea ou cateterizada são suficientes e o processamento deve ser imediato ou realizado em até seis horas após a coleta, caso seja realizado depois, preservar a urina em etanol a 50% ou mantê-la refrigerada. Através da análise da urina é possível detectar lesões pré- cancerosas e patologias da pelve renal, bexiga, ureter e uretra. Escarro Figura 8. Escarro espontâneo ou induzido para coleta do material Fonte: http://bit.ly/3alpOiF Um dos materiais mais utilizados para o diagnóstico citológico das lesões do trato respiratório, devido à relativa facilidade para sua obtenção e por provocar pouco desconforto ao paciente. Seus componentes são elementos celulares e não celulares. A adequabilidade da amostra é estabelecida pela presença de células cilíndricas ciliadas e de numerosos macrófagos alveolares, indicativos de que o trato respiratório inferior foi representado. Amostras colhidas em dias consecutivos, múltiplas, aumentam a sensibilidade (91% com cinco amostras), que também varia com a localização do tumor maligno, sendo de 46% a 77% para lesões centrais e de apenas 31% a 47% para as lesões periféricas. A especificidade do método é alta, variando de 96%-99%. Citopatologia26 A coleta deve ser realizada de preferência pela manhã, em jejum matinal, após rigorosa higiene bucal (escovação dos dentes e da língua), geralmente em três dias consecutivos. O paciente é induzido a tossir várias vezes eliminando a secreção diretamente em um recipiente, a fim de obter material de origem pulmonar. Caso haja dificuldade em conseguir escarro espontâneo, pode-se fazer nebulização simples ou inalação com indutores da tosse. O material coletado deverá ser levado ao laboratório ou ser conservado por até no máximo 12 horas, na geladeira, e os esfregaços fixados em etanol a 95%. Quando a preparação imediata não é possível, deve-se fazer uma prefixação do escarro com etanol a 50% ou 70%, ou utilizar solução de polietilenoglicol a 2% (Carbowax) em etanol a 50%. Secreção mamária A avaliação citológica das secreções mamárias é realizada com o objetivo de auxiliar o diagnóstico de infecções agudas, papiloma ductal, dilatação cística ductal e, mais raramente, o diagnóstico de neoplasias. É realizada em pacientes que não apresentam massas palpáveis nem anormalidades na mamografia e em pacientes apresentando secreção sanguinolenta. A coleta do material é feita a partir da compressão suave da área subareolar e do mamilo entre os dedos polegar e indicador. Colocar a secreção diretamente na lâmina,sem fazer pressão, próxima à extremidade fosca, estendendo o material com o auxílio de outra lâmina. Fixar imediatamente em álcool a 95% ou deixar secando ao ar. Processos pós-coleta Fatores que interferem na adequabilidade da amostra: Vaginismo, obesidade, posicionamento da cérvice uterina, fixação inadequada, escassez de material, etc. VOCÊ SABIA? É possível diagnosticar tumores centrais da árvore brônquica e, menos frequentemente, tumores periféricos menores ou até mesmo detectar lesões precursoras do carcinoma escamoso. Citopatologia 27 Pré-fixação A pré-fixação vai garantir a preservação de espécimes por dias ou mesmo meses, se necessário, mantendo a morfologia celular até a confecção do esfregaço. Entretanto pode ocorrer coagulação de proteínas, condensação da cromatina, obter menor adesão celular e limitação ao uso de certas técnicas de coloração. O etanol 50% é o mais utilizado para este fim. Centrifugação A centrifugação inicia o processamento de líquidos de qualquer espécie, com o objetivo de concentrar os elementos celulares no sedimento que se forma no fundo do tubo da centrífuga. Podem ser utilizadas a centrífuga convencional ou a citocentrífuga, a depender do tipo de material. Cell Blocks (blocos celulares) Um dos métodos mais antigos, complementando o estudo dos fluidos, permite visualizar histologicamente as patologias, devido a presença da arquitetura tecidual. Permite a realização de múltiplos cortes, além de fornecer amostras adicionais para colorações especiais. Os blocos celulares podem ser processados pelos métodos do ágar, sedimento fixado e plasma-trombina. Fixação As amostras utilizadas precisam ser fixadas para que as características morfológicas e das células e suas afinidades tintoriais sejam preservadas, visando facilitar a permeabilidade dos corantes, prevenir ressecamento, além de conservar a composição química presente. Existem alguns tipos de fixação, dentre eles: � Fixação seca; � Fixação por líquidos; � Fixação por revestimento A fixação seca é utilizada para a coloração de May-Grunwald- Giemsa, com a ação do metanol como fixador na solução corante. É Citopatologia28 utilizada para distensão de células sanguíneas, imprint de baço, gânglios linfáticos, entre outros. O fixador citológico mais utilizado é o etanol 95%, que vai desidratar a célula, fazendo que haja uma diferenciação entre núcleo e citoplasma após a coloração. Os fixadores por revestimento são constituídos de polietilenoglicol (Carbowax) e álcool e fixam por gotejamento ou por spray, sendo que deve ser respeitada uma distância mínima de 15cm em spray para que não haja perda de material. As amostras são secas em temperatura ambiente, visto que o álcool fixa e evapora, enquanto o polietilenoglicol forma uma película que protege e preserva a amostra. Figura 9. Fixação da amostra]] Fonte: http://bit.ly/3alpOiF Como você pôde ver são muitas as técnicas de coleta utilizadas em citopatologia. Difícil memorizar todas elas? Então vamos agora fazer um resumo para complementar o estudo deste capítulo. A escolha do método de coleta apropriado precisa levar em consideração o órgão/tecido de análise e o tipo de material a ser coletado. A PAAF é uma técnica precisa, rápida e segura, sendo bastante utilizada para a coleta de amostras de nódulos ou tumores. Porém, em tecidos bastante vascularizados, deve-se optar pela punção por capilaridade, a fim de se evitar hemodiluição da amostra. A raspagem pode ser utilizada em superfícies cutâneas ou mucosas e canais ou fístulas, utilizando-se swabs, lâminas de bisturi, espátulas ou escovas apropriadas. O imprint é utilizado para lesões ulcerativas ou exsudativas planas, que permitam o contato da lâmina com o tecido. O material biológico de cavidades pode ser melhor obtido através do método de lavagem, utilizando o cateter de instilação. Esse método é bastante utilizado para a coleta de Citopatologia 29 amostras do trato respiratório e digestório. A escovação ou esfoliação é um método também utilizado em superfícies mucosas, útil na detecção de neoplasias malignas. Materiais espontâneos, tais como urina, escarro e secreção mamária também podem ser utilizados para exames citopatológicos, por conterem amostras celulares do trato/tecido a que estão associados. Após a coleta, é necessário que o espécime seja processado para posterior coloração e análise. O processo pós-coleta utilizado também dependerá do tipo de material biológico em questão. Técnicas de coloração das amostras biológicas INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você conhecerá as diferentes técnicas de coloração utilizadas e será capaz de identificar a técnica mais apropriada para cada tipo de amostra. Esta unidade é de fundamental importância, dentro do estudo da citopatologia, uma vez que a escolha da coloração é crucial para o sucesso da análise citológica. Além disso, a falta de um treinamento profissional adequado é responsável pela grande quantidade de laudos inconclusivos, o que gera transtorno aos pacientes e insatisfação por parte dos profissionais de saúde. Tenho a certeza que o seu comprometimento no estudo deste capítulo podem nos ajudar a reverter esse quadro. Vamos lá? O processamento da amostra e a fase pré- analítica Após a coleta, o material será processado. Existe uma variedade de técnicas de coloração que podem ser utilizadas em citologia, tanto para o processamento de rotina como para situações especiais (imunocitoquímica). As etapas do processamento da amostra podem ser divididas em 3 fases: pré-analítica, analítica e pós-analítica, sendo que a analítica e pós-analítica compreendem as fases de análise de dados e entrega dos resultados, respectivamente. Citopatologia30 A fase pré-analítica corresponde à etapa desde o recebimento do material, conferindo a identificação e o preenchimento correto da ficha, até a coloração e confecção da lâmina. É a etapa crucial para que as próximas etapas possam ser concluídas com êxito. Amostras não fixadas, lâminas quebradas ou erro na identificação do material pode fazer com que ele seja rejeitado e devolvido ao local de realização da coleta. A qualidade da coloração está relacionada com as características tintoriais dos corantes, com o processamento e fixação. Os esfregaços citológicos podem ser corados pelas técnicas de Papanicolaou, Shorr, mucicarmin de Mayer, May-Gruenwald-Giemsa, hematoxilina e eosina, ácido periódico Schiff (PAS) ou Grocott. Porém, a técnica de Papanicolaou é a mais empregada e visa evidenciar as variações na morfologia e os graus de maturidade e de atividade metabólica celular. Figura 10. Modelo recomendado para a distribuição das amostras citológicas na lâmina de vidro. Material da endocérvice, ectocérvice e do fundo de saco posterior da vagina. Fonte: http://bit.ly/2PFMaDF As técnicas de coloração envolvem procedimentos pré-estabele- cidos, que fazem parte da rotina dos laboratórios. Por isso, você não precisa “decorar” todos as etapas de cada um desses métodos. O mais importante aqui é entender quando cada técnica deve ser utilizada e que é fundamental seguir à risca todos os passos do protocolo, para se alcançar o resultado esperado. Coloração de Papanicolau A coloração de Papanicolau está dividida em várias etapas: hidratação, coloração nuclear, desidratação, coloração citoplasmática, Citopatologia 31 desidratação, clarificação e selagem. Esse método utiliza um conjunto de corantes e tem como objetivo a evidenciação dos graus de maturidade e de atividade metabólica celular e das variáveıs na morfologia. Baseia- se nas ações de um corante básico, a Hematoxilina de Harris, que possui afinidade pelo núcleo das células, um corante ácido, o Orange G, que tem afinidade com o citoplasma das células queratinizadas, e um corante policromático, EA-65, que oferece tonalidades de cores diferentes no citoplasma das células.Figura 11. Coloração de Papanicolaou Fonte: http://bit.ly/2uLmTRb Tabela 1: Protocolo aplicado no Serviço de Patologia e Citopatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco. Protocolo de coloração Papanicolaou Água destilada Lavar Hematoxilina de Harris 1’40’’ Água corrente Lavar Carbonato de lítio 15’’ Água corrente Lavar Etanol absoluto 1 banho Etanol absoluto 1 banho Orange G 1 mergulho rápido Etanol absoluto 1 banho Etanol absoluto 1 banho EA-65 3’ Etanol absoluto 1 banho Etanol absoluto 1 banho Xilol 15-30’ Citopatologia32 Deve ser tomado cuidado com o espécime endocervical, já que as células glandulares dessa mucosa são mais frágeis e suscetíveis a artefatos técnicos. Coloração de Hematoxilina-Eosina (HE) Mais utilizada na coloração de blocos celulares e de esfregaços de amostras obtidas por PAAF, o citoplasma é corado em rosa e o núcleo em azul, à semelhança do que se observa nos esfregaços histológicos. O citoplasma não fica tão transparente e o núcleo não é tão bem definido quanto na coloração de Papanicolaou. Figura 12. Coloração de Hematoxilina-Eosina Fonte: http://bit.ly/38cOHLR Tabela 3 - Protocolo padrão de coloração de Hematoxilina-Eosina Coloração HE Lavar em água destilada 15 mergulhos Hematoxilina de Harris 2 min Lavar em água corrente 1 min Ácido-álcool (1,5 ml de HCI concentrado em 650 ml de etanol a 70%) 2 a 3 mergulhos Lavar em água corrente 30s Solução de Carbonato de Lítio 1 min Lavar em água corrente 15 mergulhos Etanol a 50% 15 mergulhos Citopatologia 33 Eosina 20s Água corrente 1 min Etanol a 95% 15 mergulhos Etanol a 95% 15 mergulhos Etanol absoluto 15 mergulhos Etanol absoluto 1 min Xilol 15 mergulhos Xilol 15 mergulhos Xilol 5 a 10 min Já a Coloração rápida com Hematoxilina Eosina (HE) é mais utilizada em preparações obtidas por PAAF. Com objetivo de aferir a celularidade da amostra após a coleta ou fornecer diagnóstico imediato. Os esfregaços devem estar fixados em solução de álcool-formaldeído. Alguns erros podem acontecer nas etapas da coloração, como excesso de algum corante (hematoxilina, orange G), ou coloração insuficiente (trazendo um esfregaço sem cor), prejudicando a visualização microscópica. Método de May-Grünwald-Giemsa (MMG) É utilizado para a análise de elementos figurados do sangue periférico, medula óssea, ou elementos celulares colhidos por punção, esfoliação, imprint de tecidos ou concentrado de líquidos celulares, por meio de dois corantes: solução estoque de May-Grunwald e solução estoque de Giemsa. As lâminas devem ser cobertas com a solução de MMG por seis minutos. Sem escorrer a solução corante, deve-se adicionar água destilada por quatro minutos. O próximo passo é lavar as lâminas em água corrente e deixar secar à temperatura ambiente ou em estufa a 40º C. Para finalizar, deve-se clarificar com dois banhos de xilol. Pode ser feita uma variação do método de MMG, onde os esfregaços corados são fixados a seco. As soluções devem ser diluídas em metanol e em água destilada. Os esfregaços devem ser mergulhados em cada solução por 5 minutos, lavados em água corrente e secos ao ar ou em estufa a 40º C. Pode-se clarificar com xilol antes da montagem das lâminas. Citopatologia34 Coloração pelo azul de toluidina A coloração é utilizada para diagnósticos imediatos e para constatar a adequabilidade da amostra com relação à celularidade, podendo indicar a repetição do procedimento. Pode ser utilizada em líquidos serosos, lavados pélvicos, peritoneais ou brônquicos, amostras de PAAF, imprints, urina, aspirados de fundo de saco vaginais e espécimes ovarianos. As preparações são coradas a fresco. As células se coram em azul púrpura, mas em tons definidos de coloração para o núcleo e o citoplasma, o nucléolo pode ser identificado com uma coloração mais intensa. 1. Realiza-se o processamento de líquidos através da centrífuga (2000 rpm de 7-10’), decanta-se o sobrenadante. Com a alça de platina, retirar 1-2 gotas da camada superior e transferir para lâmina. Adicionar 1 gota de azul de toluidina e homogeneizar. 2. Caso o material tenha sido obtido por PAAF ou tenha sido material não-líquido, colocar 1 gota do espécime do centro da lâmina e 1 gota azul de toluidina sobre ele. Homogeneizar com a lamínula ou com alça de platina. Colocar a lâmina sobre o espécime e montar sem deslocá-la, para que não haja distorção celular. Depois de examinadas, as lâminas devem ser fixadas em álcool a 95% e posteriormente coradas pelo Papanicolaou. Técnicas rápidas de Diff-Quick (DQ) e de Panótico A coloração de DQ é uma técnica de coloração rápida, utilizada para verificar a adequabilidade dos espécimes, sobretudo aqueles obtidos por PAAF. É realizada em esfregaços secos ao ar e emprega soluções aquosas contendo eosina, azul de metileno e Azure A. Sua vantagem é a facilidade de interpretação da morfologia celular devido à ênfase no tamanho, na forma e no arranjo celular. A coloração é permanente e deve ser evitada em preparados de fluidos coletados com conservantes. Outra técnica rápida, a coloração de Panótico é utilizada com amostras obtidas por PAAF, e avalia a celularidade do material. Os esfregaços devem ser secos ao ar antes de serem submetidos à coloração. Utiliza três soluções de corantes (Instant Prov I, II e III) e o tempo de processamento é de apenas 15 segundos. Citopatologia 35 Coloração de Shorr É um método com resultado semelhante ao Papanicolaou porém é menos utilizada por conta da perda dos detalhes nucleares e da transparência citoplasmática. Tabela 3: Protocolo padrão de Shorr Coloração de Shorr Etanol 80% 5-10 mergulhos Etanol 70% 5-10 mergulhos Etanol 50% 5-10 mergulhos Água destilada 5-10 mergulhos Água destilada 5-10 mergulhos Hematoxilina de Harris 1-5’ Água destilada 5-10 mergulhos Álcool-ácido 3 mergulhos Banho de água amoniacal 5-10 mergulhos Água destilada 5-10 mergulhos Etanol 50% 5-10 mergulhos Etanol 60% 5-10 mergulhos Corante de Shorr 6’ Etanol 95% 5-10 mergulhos Etanol 95% 5-10 mergulhos Etanol 95% 5-10 mergulhos Etanol 100% 5-10 mergulhos Etanol 100% 5-10 mergulhos Etanol 100% 5-10 mergulhos Xilol 5-10 mergulhos Xilol 5-10 mergulhos Xilol 5-10 mergulhos Fatores que influenciam na reação de coloração: Tipo de fixador, fórmula dos corantes, duração dos banhos, características da água corrente, pH do espécime. Citopatologia36 Colorações especiais Métodos de coloração que permitem visualizar determinadas substâncias ou estruturas, auxiliando no diagnóstico de certas condições patológicas. � Alcian Blue: coloração de carboidratos, cora os núcleos em azul claro. � PAS (Ácido Periódico de Schiff): cora carboidratos e fungos, conferindo-lhes a cor magenta. Os núcleos coram-se em preto e o “fundo” do esfregaço em verde. � Prata Metanamina (Método de Grocott): identifica fungos e Pneumocystis carinii, corados em preto. Glicogênio e mucina são corados em rosa a cinza e o “fundo” em verde. � Azul da Prússia (Método de Perls): demonstra depósitos de hemossiderina, corando-os em azul. O núcleo e outras estruturas se coram em vermelho. � GRAM: identifica bactérias classificando-as em Gram positiva ou negativa. � Ziehl-Neelsen: identifica os bacilos álcool-ácido-resistentes (BAAR). Montagem Protege o material celular contra o dessecamento e contra retração celulares, além de prevenir o desbotamento dos corantes nas células. Também protege a amostra para o armazenamento adequado e possibilita melhor visualização dos detalhes celulares. Os materiais mais utilizados são o Bálsamo do Canadá e o Entellan, que permitem a ligação entre a lâmina e a lamínula. Após retirar a lâmina do xilol, colocar 1-2 gotas do meio de montagem sobre a lamínula. Colocar suavemente a lamínula sobre a lâmina exercendo uma leve pressão. Escorrer o excesso do meio de montagem e limpar com xilol. Afastar as bolhasque se formaram com bastão de vidro ou pinça. Deixar secar por alguns minutos antes de iniciar a leitura microscópica. Citopatologia 37 Artefatos técnicos podem surgir devido a montagem e podem interferir na leitura do esfregaço, prejudicando a avaliação diagnóstica. Alguns Interferentes que podem causar artefatos são: bálsamo espesso com o passar do tempo, excesso de bálsamo, uso de lamínulas mofadas e processo de montagem demorado. Figura 13: Lâmina com artefatos de montagem (marrom) Fonte: http://bit.ly/3ch5UqO Depois de tanta informação e de todas essas tabelas descritivas, vamos agora resumir os pontos mais importantes do capítulo. Como já dissemos, o mais importante é que você entenda quando utilizar cada técnica e a importância de seguir o protocolo-padrão. Existe uma variedade de técnicas de coloração que podem ser utilizadas em citologia, porém a coloração pelo método de Papanicolaou é universalmente recomendada para rotinas citológicas. Esse método utiliza um conjunto de corantes e tem por objetivo evidenciar os graus de maturidade e de atividade Metabólica, assim como a morfologia celular. A coloração de Hematoxilina-Eosina é mais utilizada na técnica de cell blocks e com esfregaços de amostras obtidas por PAAF. O método de MMG é bastante utilizado para a análise de elementos figurados do sangue periférico, medula óssea, ou elementos celulares colhidos por punção, esfregaço (fixados a seco) ou imprint. A coloração de toluidina é utilizada para diagnósticos imediatos em líquidos serosos, lavados pélvicos, peritoneais ou brônquicos, amostras de PAAF, imprints, urina, aspirados de fundo de saco vaginais e espécimes ovarianos. Com relação à técnica de DQ, sua vantagem é a facilidade de Citopatologia38 interpretação da morfologia celular devido à ênfase no tamanho, na forma e no arranjo celular. Além das técnicas convencionais, existem técnicas de coloração especiais para a detecção de substâncias específicas. Conhecendo a citopatologia dos processos inflamatórios INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você será capaz de diferenciar o padrão citopatológicos e as principais características dos processos inflamatórios exsudativos, alterativos e produtivos, assim como identificar as principais alterações citológicas presentes nos quadros inflamatórios. O estudo deste capítulo é muito importante para o citopatologista, uma vez que cabe ao citopatologia reconhecer lesões, geradas por patógenos ou não, e avaliar a intensidade da resposta inflamatória associada. Neste sentido, saber identificar os diferentes perfis citopatológicos associações à inflamação é crucial para a análise correta do material biológico. E então? Pronto para começar? Em que consiste o processo inflamatório? O conjunto de reações causadas por qualquer agressão ao tecido, seja por microorganismos patógenos (bactérias, vírus, parasitos), pós-trauma, agentes químicos (substâncias tóxicas) ou físicos (calor e irradiação), diminuição ou interrupção do fluxo sanguíneo, caracteriza a inflamação. A citopatologia possui uma importante atuação nos processos inflamatórios, reconhecendo as lesões, avaliando a intensidade da reação inflamatória, acompanhando a evolução e podendo determinar o patógeno causador. Qualquer processo inflamatório provoca o aparecimento de exsudato inflamatório. Esse exsudato é composto por células, como leucócitos e histiócitos, e fenômenos de necrose celular que irão modificar o aspecto dos esfregaços citológicos, tornando mais difícil o diagnóstico de células epiteliais. A presença de polimorfos nucleares (PMN) pode indicar o grau da inflamação. Citopatologia 39 A presença de neutrófilos está associada a uma inflamação aguda, enquanto a presença de neutrófilos e linfócitos pode indicar uma inflamação crônica. O quadro abaixo indica detalhadamente o quadro histológico das inflamações e sua duração: Duração/Quadro Histológico das Inflamações Superaguda Horas a dias - Aguda Dias a semanas Predomina fenômenos vasculares - exsudativos (hiperemia ativa patológica, edema, e infiltrado de PMN) Subaguda Semanas a meses Caracteriza-se por fenômenos tanto vasculares - exsudativos quanto proliferativos, ocorrendo hiperemia, edema, proliferação fibroblástica e angioblástica, com infiltrado de PMN e também de mononucleares. Crônica Meses (> 3) a anos Predomina fenômenos proliferativos (proliferação fibroblástica e angioblástica, e infiltrado de células mononucleares. Crônica Ativa - Trata-se da inflamação crônica com superposição de fenômenos vasculares exsudativos em área inflamada cronicamente. Os PMN podem ser em grande quantidade, isolados ou aglomerados. Os linfócitos são mais presentes em lesões crônicas e suas formas podem estar presentes desde o pequeno linfócito até o linfoblasto. Os macrófagos são frequentes nas inflamações crônicas e a sua presença com citoplasma carregado de pigmentos sanguíneos demonstra a existência de sangramentos crônicos. A presença de hemácias também está associada aos fenômenos inflamatórios. O trato genital feminino possui inflamação de acordo com a idade da mulher e a localização anatômica. Em crianças e mulheres após a menopausa, com o epitélio atrófico, reações inflamatórias ocorrem com mais facilidade. Em mulheres em idade de reprodução o epitélio escamoso serve como uma barreira contra as lesões, devido a sua alta proliferação. A endocérvice e o endométrio são susceptíveis a agentes infecciosos, principalmente quando há ectopia, já que a mucosa do epitélio colunar simples da endocérvice é exposta à flora vaginal. Citopatologia40 O tipo da inflamação vai variar de acordo com o tipo morfológico predominante da resposta inflamatória. Os processos inflamatórios podem ser divididos em Inflamação Exsudativa, Alterativa ou Produtiva. Inflamação Exsudativa É caracterizada pela saída de elementos do sangue (plasma e células) para o espaço do interstício, levando ao acúmulo de líquido na região da inflamação - exsudato. Os exsudatos serão classificados de acordo com as suas características. Quando o exsudato produzido é aquoso, límpido e pobre em células é classificado como seroso. Os exsudatos serosos podem se subdividir em vesícula e bolha. Quando a inflamação tem elevação na superfície de diâmetro igual ou inferior a 5 mm, e é circunscrita de epitélio de revestimento, gerando um exsudato seroso, é conhecida como vesícula. Já quando ocorre essa mesma inflamação, porém com diâmetro superior a 5 mm, é conhecida como bolha. O exsudato é catarral ou mucosal quando é viscoso, com alto teor de mucina, e sua cor e celularidade são variáveis. Quando o exsudato é cremoso, amarelo-esverdeado, com muitos PMNs e células necróticas é conhecido como purulento ou supurado. O processo inflamatório de uma pericardite viral, no seu início, será chamado seroso, porque teremos predomínio somente de água e eletrólitos, que é como começam os processos inflamatórios de origem viral. Tabela 2: Tipos de exsudatos purulentos Exsudatos Purulentos Pústula Advinda da camada superficial da derme ou da espessura da epiderme, com diâmetro ≤ 5 mm Furúnculo Advinda da derme ou hipoderme, afetando folículo piloso Antraz Conjunto de furúnculos com necrose na superfície externa e em tecidos ao redor. É um processo grave Abscesso Cavidade neoformada (às custas de necrose liquefativa) e pus Fleimão/ Flegmão Inflamação difusa e infiltrativa do tecido conjuntivo. Não se forma uma membrana piogênica e o exsudato é muito fluido, devido à exagerada coliquação enzimática dos tecidos. Coleção de pus Acúmulo de pus em cavidades naturais, em consequência de inflamações purulentas nas serosas ou mucosas que as revestem ou de fistulação para dentro da cavidade de algum abscesso visceral. Citopatologia 41 Quando o exsudato é filamentoso, com celularidade variável e rico em fibrina é conhecido como fibrinoso. Podemocorrer crostas ou pseudomembranas a partir desse exsudato fibrinoso. Se o exsudato for avermelhado e rico em hemácias, ele é hemorrágico. Quando há dois ou mais tipos de exsudatos, ao mesmo tempo, é denominado misto. Inflamação Alterativa As inflamações alterativas se caracterizam pela ocorrência de degeneração e necrose tecidual e podem ser classificada em: � Erosiva – quando é advinda de epitélio de revestimento, com degeneração e necrose. A descamação não atinge a submucosa. � Ulcerativa – quando é advinda de epitélio de revestimento, com degeneração, descamação e necrose profunda, atingindo a submucosa. Provoca hemorragias. � Atrofiante/hipotrofiante – quando a inflamação é crônica, com tendência à involução. Comum em mucosas e glândulas, com proliferação ou não de tecido conjuntivo fibroso e metaplasia escamosa. � Necrosante – quando a necrose atinge uma maior parte do foco da inflamação, de forma primária ou secundária, por ação do agente agressor ou em consequência da própria reação inflamatória, respectivamente. � Gangrenosa – quando os tecidos inflamados e necrosados, por consequência de inflamações necrosantes, sofrem ação de agentes exógenos em partes do organismo em comunicação com o exterior, havendo contaminação. Inflamação Produtiva/Proliferativa É a fase final da inflamação e caracteriza-se pela proliferação local de vasos e células. É a tentativa do organismo de reparar as alterações causadas pela agressão e pela fase exsudativa. Pode ser classificada em: Hipertrofiante/Hiperplasiante É uma inflamação crônica, acomete com mais frequência as mucosas, tem proliferação conjuntiva-vascular podendo evoluir para crescimentos papilares e poliposos. Às vezes possui aspecto tumoral vegetante, papilar ou poliposo. Citopatologia42 Esclerosante Inflamação crônica, acomete com maior frequência parênquimas. Antes de encerrar o processo inflamatório, com o processo de reparação, ocorre a produção excessiva de colágeno, o que resulta em alterações na morfologia e fisiologia dos órgãos. Granulomatosa Caracteriza-se pela formação de estruturas nodulares com arqui- tetura histológica de nódulo. É uma reação de macrófagos a agentes não imunogênicos ou a agentes imunogênicos. Muitas vezes permite o diagnóstico da patologia. A inflamação tem graus de intensidade. Pode ser leve ou discreta quando o tecido ou órgão afetado tem sua função alterada levemente, de modo a não comprometer seriamente o organismo como um todo; moderada se o tecido/órgão afetado tem sua função alterada de modo a comprometer razoavelmente o organismo como um todo, sem risco de vida; e grave/severa quando o órgão afetado tem sua função muito alterada, comprometendo seriamente o organismo como um todo. Alterações celulares são comuns nos processos inflamatórios, sejam elas citoplasmáticas ou nucleares. No citoplasma incluem vacuolização, halos perinucleares, anfofilia, pseudoeosinofilia, limites citoplasmáticos mal definidos, entre outros. Com relação ao núcleo pode ocorrer tumefação ou retração, perda da demarcação bem definida das suas bordas, perda dos detalhes de cromatina conferindo uma aparência homogênea ao núcleo, hipo ou hipercromasia. Como sinais de necrose podem ser vistos picnose, cariorrexe e cariólise. Todas essas alterações podem ser visualizadas microscopicamente, graças ao exame citopatológico. O tipo de inflamação definirá o tipo de espécime a ser coletado e a técnica a ser utilizada. A seguir, abordaremos sobre cada uma dessas alterações. Picnose é a cromatina condensada, enquanto cariorrexe é a fragmentação nuclear e cariólise a dissolução do núcleo. Principais achados de alterações inflamatórias A inflamação é diferente de acordo com o local onde se encontra e as alterações celulares variam de célula para célula. Veremos abaixo alguns exemplos dessas alterações: Citopatologia 43 Halo perinuclear Presença de halo em volta do núcleo Figura 14. Halo perinuclear Fonte: http://bit.ly/2x5TK4d Cariomegalia Aumento de núcleo com aumento de cromatina Figura 15. Cariomegalia Fonte: http://bit.ly/2uHrCDo Vacuolização Presença de vacúolos dentro do citoplasma Figura 16. Vacuolização Fonte: http://bit.ly/2uHrCDo Citopatologia44 Apagamento das bordas citoplasmáticas As bordas do citoplasma da célula ficam apagadas Figura 17. Apagamento das bordas citoplasmáticas Fonte: http://bit.ly/39hC8jJ Fagocitose Englobamento de partículas com atividade fagocítica Figura 18. Fagocitose Fonte: http://bit.ly/2x5TK4d Pseudoeosinofilia Coloração eosinofílica em células que em condições normais teria o citoplasma cianofílico Figura 19. Pseudoeosinofilia Fonte: http://bit.ly/2x5TK4d Citopatologia 45 Cariopicnose Condensação nuclear em células superficiais Figura 20. Cariopicnose Fonte: http://bit.ly/2x5TK4d Cariorrexe Ausência de membrana nuclear e cromatina em partículas Figura 21. Cariorrexe Fonte: http://bit.ly/2uHrCDo Metaplasia Substituição de um tipo celular por outro. Figura 22. Metaplasia Fonte: http://bit.ly/2uHrCDo Citopatologia46 Citólise Ruptura (lise) da célula. Figura 23. Citólise Fonte: http://bit.ly/2x5TK4d Binucleação e multinucleação Presença de um ou mais núcleos na célula. Figura 24. Binucleação e multinucleação Fonte: http://bit.ly/2x5TK4d Em resposta à inflamação ou à radiação, multinucleação e células gigantes multinucleadas podem ser vistas. Algumas vezes as células podem apresentar mais que uma alteração. Por exemplo, célula escamosa apresentando pseudoeosinofilia, discreto halo perinuclear, apagamento de borda citoplasmática e cariomegalia. Alterações reativas estão relacionadas à hipercromasia, espessa- mento uniforme da borda nuclear, cromatina com granulação mais grossa, bi ou multinucleação, nucléolo às vezes proeminente, principalmente nas células endocervicais. Citopatologia 47 Características da cromatina Fina Grossa Regular Geralmente normal Plasmócitos, carcinoma in situ Irregular Adenocarcinoma Carcinoma de células escamosas Quando essas alterações são intensas, podem ser sugestivas de malignidade, como pode ser visto na tabela abaixo: Tabela 3: Diagnóstico diferencial de um processo inflamatório e de um câncer. Diagnóstico diferencial citológico Inflamação Câncer Grupos Ordenados (em linhas, fileiras), arranjos planos. Pouco coesos, desordenados, sobrepostos Células Poucas células isoladas, tem coesão Muitas células isoladas e sem coesão Citoplasma Relação núcleo/citoplasma adequada, policromasia Aumento da relação núcleo/ citoplasma, monocromasia, queratinização Núcleo Hipocromático, fino, mais claro Hipercromático, grosseiro, escuro Cromatina Regular e hipocromática Irregular e hipercromática Fundo do esfregaço Limpo com células inflamatórias Diátese tumoral Nucléolo Macronucléolos semelhantes Varia entre as células Essas características celulares podem indicar resposta a infecções, alterações fisiológicas e metabólicas, além de auxiliarem na diferenciação de neoplasias e inflamação, e de suas características. A presença de inflamação citológica tem sido documentada e, apesar de ser um achado benigno, deve ser levada em consideração. Aqui você aprendeu sobre a classificação dos processos inflamatórios. Agora vamos resumir um pouquinho para facilitar a compreensão e fixação do conhecimento. O processo inflamatório se caracteriza pelo conjunto de reações causadas por qualquer agressão ao tecido, seja por microorganismos patógenos, traumas, agentes químicos ou físicos. Há a presença de exsudato inflamatório e o perfil citológica desse auxilia na indicação do grau/tempo de inflamação – linfócitos são mais presentes em quadros crônicos, por exemplo.- A inflamação exsudativa pode ser mais líquida e Citopatologia48 pobre em células (serosa), mais viscosa, com cor e celularidade variadas (mucosa), cremosa, amarelo-esverdeada, com alta celularidade(purulenta ou supurada), mais filamentosa, mais consistente (fibrosa), avermelhada, rica em hemácias (hemorrágica) ou mista. A inflamação alterativa se caracteriza pela degeneração e necrose tecidual e pode ser classificada em: erosiva, ulcerativa, atrofiante, necrosante e gangrenosa. A inflamação produtiva é a fase final do processo inflamatório e caracteriza-se pela proliferação local de vasos e células. Ela pode ser classificada em: hipertrofiante, esclerosante e granulomatosa. A presença de alterações citológicas já bem caracterizadas, tais como cariomegalia, vacuolização e fagocitose auxilia no diagnóstico de um processo inflamatório. Citopatologia 49 BIBLIOGRAFIA Alterações Celulares Inflamatórias. (16 de 07 de 2019). Fonte: Portal Educação: http://bit.ly/2PG6VyX Caputo, L. F., Mota, E. M., & Gitirana, L. d. (17 de 07 de 2019). Técnicas citológicas. Fonte: Fiocruz: http://bit.ly/3alpOiF Citopatologia do colo do útero - atlas digital. (16 de 07 de 2019). Fonte: Interantional Agency for Research on Cancer: http://bit.ly/2x5TK4d Citopatologia: a técnica de Papanicolaou. (17 de 07 de 2019). Fonte: Kasvi: http://bit.ly/2uLmTRb Coloração e leitura da lâmina. (17 de 07 de 2019). Fonte: Portal Educação: http://bit.ly/2Ib04cH Inflamação Exsudativa. (16 de 07 de 2019). Fonte: Portal Educação: http://bit.ly/2Tj1NmV A citologia no diagnóstico de tumores. (18 de 07 de 2019). Fonte:Tecsa: http://bit.ly/2x4H915 Lima., A. H. (2016). Citopatologia convencional e citologia em meio líquido: uma revisão integrativa. Revista Saúde e Desenvolvimento., vol.10, nº5. Magalhães, A. M., Ramadinha, R. R., Barros, C. S., & V., P. (janeiro de 2001). Estudo comparativo entre citopatologia e histopatologia no diagnóstico de neoplasias caninas. Pesquisa Veterinária Brasileira, pp. 21(1):23-32. Pinto, F. R., & Brasília., L. M. (2012). Citopatologia não ginecológica. Caderno de referência 2 - Ministério da Saúde, Rio de Janeiro: CEPESC. Processamento de amostras de citologia em laboratório. (17 de 07 de 2019). Fonte: Eurocytology: http://bit.ly/3cqRVPa Silva, I. N. (2016). Manual de Gestão da qualidade para laboratório de citopatologia. Rio de Janeiro: INCA. Consolaro, M.L., Maria-Engler, S. (2012). Citologia Clínica Cérvico- Vaginal – Texto e Atlas. São Paulo:Roca. Caputo, L., Mota, E., Gitirana, L. Conceitos e métodos para a formação de profissionais em laboratórios de saúde. Vol 4. Fiocruz. Citopatologia50 Lopes, C., Hematoxilina & Eosina – Pathologika. Available at: http://bit.ly/38cOHLR Koss, L.G, Gompel, C. (2006). Introdução a Citopatologia Ginecoló- gica com Correlações Histológicas e Clínicas. São Paulo: Roca. Montanari, T. (2016). Histologia: texto, atlas e roteiro de aulas práticas. Tatiana Montanari. – 3. ed. – Porto Alegre: Edição do Autor. Barros, A.L.S, Lima, D.N.O, Azevedo, M.D., Oliveira, M.L. (2012). Citopatologia Ginecológica. Caderno de Referência 1 – Ministério da Saúde, Rio de Janeiro: CEPESC. Molinaro, E.M. (2010). Conceitos e métodos para a formação de profissionais em laboratórios de saúde: volume 2 - Rio de Janeiro: EPSJV; IOC. Vasconcelos, A.C. (2000). Patologia Geral emHipertexto. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, Minas Gerais.