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Copyright © 2023 por Marcos Arrais
Publicado por Aprisco
Edição de texto Abner Arrais
Capa Marcus Nati
Diagramação Luciana Di Iorio
Ilustração de capa Tiago Elias
Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei nº 9.610, de 19/02/1998, que torna ilegal a reprodução total ou parcial deste livro,
por quaisquer meios (PDFs, eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação e outros), ou o seu compartilhamento, mesmo sem fins
lucrativos, sem prévia autorização, por escrito, da editora.
Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram retiradas da Nova Versão Internacional (NVI). Os grifos são de
responsabilidade do autor.
CIP-Brasil. Catalogação na publicação
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
A773
Arrais, Marcos
Restaurados: O retorno da humanidade ao plano original de Deus / Marcos Arrais — 1. ed. — Rio de Janeiro: GodBooks, 2023.
112 p.
ISBN 978-65-89198-53-6
1. Teologia. 2. Bíblia. 3. Estudos bíblicos. 4. Espiritualidade. I. Título
CDD: 241
CDU: 242
Categoria: Teologia
Publicado no Brasil com todos os direitos reservados por:
GodBooks Editora
Rua Almirante Tamandaré, 21/1202, Flamengo
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, CEP 22210-060
Telefone: (21) 2186-6400
Fale conosco: contato@godbooks.com.br
www.godbooks.com.br
1ª edição: março de 2023
Ao Lourenço Emanuel, meu neto amado, rebento bendito do Senhor. Que sua vida seja uma marca
de verdadeira humanidade em Cristo num mundo assolado pelo pecado.
Sumário
Agradecimentos
Prefácio
Introdução
Parte 1 — A Criação
1. Como olhar para esse texto?
2. Quem é o homem?
Parte 2 — A Queda
3. A realidade do pecado
4. Gesara e a corrosão do humano
5. O Gesareno e o paradigma da humanidade caída
Parte 3 — A Redenção
6. Como o evangelho restaura a humanidade
7. Quem sou eu?
Conclusão
Sobre o autor
O amor os ressuscitara [...]. Mas aqui já começa outra história, a história da renovação gradual de
um homem, a história do seu paulatino renascimento, da passagem progressiva de um mundo a
outro, do conhecimento de uma realidade nova, até então totalmente desconhecida.
FIÓDOR DOSTOIÉVSKI
Agradecimentos
E screvi este livro em um momento muito difícil. O mundo ainda caminhava para o fim de uma
pandemia, carregando cicatrizes e feridas abertas. Isso teve impacto em aspectos econômicos,
sociais, políticos, culturais — e pessoais. O mundo mostrou quão instável é. Na mesma época,
presenciamos um cenário político conturbado e uma guerra brutal com repercussões internacionais
assustadoras. Também não saí ileso de tudo isso. Como pastor, senti o peso de pastorear uma igreja
nesses tempos desafiadores e, como pai e marido, precisei reunir forças de onde não as tinha para
conduzir a minha família. Minha gratidão a Deus tem como base o fato de eu estar escrevendo estas
linhas. É sinal de que atravessei esse vale com saldos, e este livro faz parte disso.
Agradeço a Deus por minha esposa, Edilian, que me sustenta e não desiste de mim. Seu caráter
firme, temperamento estável e apoio incondicional têm fortalecido um melancólico as-sumido.
Louvo a Deus por meus filhos, Abner e João Marcos. São meus companheiros — não mais
aprendizes, mas companheiros. É maravilhoso vê-los caminhando no Senhor e dando frutos no seu
Reino. Abner me deu suporte editorial e incentivo moral para que eu prosseguisse com este projeto.
João Marcos é inspirador, entusiasta, muito inteligente e contribuiu com várias ideias. Louvo a Deus
por minha nora, Victoria, a quem nutro carinho e alegria por vê-la crescendo no Senhor e dando
frutos de vida cristã autêntica. Seu coração de serva sempre me faz lembrar de Jesus.
Sou grato a Deus pela Comunidade Bíblica do Calvário, igreja à qual sirvo desde 2012 e que me
permite ser pastor presidente desde então. Pastoreá-los é inspirador e ao mesmo tempo desafiador.
Vocês me inspiram a cada semana e me desafiam a buscar em Deus coisas melhores do que as que
eu tenho para lhes oferecer.
Sou grato ao meu querido irmão em Cristo e amigo Fabiano Medeiros, que, com sua experiência
no mercado editorial, proporcionou o encontro deste autor com a GodBooks, que faz com que meu
trabalho tenha sido coroado com a publicação por uma editora de excelência. Sou grato a Deus por
ter me permitido escrever este livro, principalmente aquelas páginas em que eu não tinha certeza se
estava descrevendo o homem gesareno ou a mim mesmo. Certamente, a misericórdia do Senhor
tem me sustentado cada vez que meus pulmões inspiram o oxigênio da vida. Ele é quem me
sustenta, mesmo quando meus pés vacilam.
Soli Deo gloria.
Prefácio
Q uando a natureza humana se corrompeu, por meio do pecado, o caos se instaurou por
completo. Em seu desespero, a busca incansável por alívio da dor ou por qualquer remédio
que pudesse pelo menos minorar a angústia, o homem foi mergulhando em um abismo
existencial cada vez mais profundo. É como alguém que se debate na tentativa de sair da areia
movediça, quase que ouvindo a música fúnebre ressoar nos ouvidos enquanto tenta, sem sucesso.
Houve um período da história — tão bem aprofundado pelo autor —, após o fim da Idade Média,
ou Era das Trevas, em que sábios que se autodenominaram “iluminados” propuseram organizar a
sociedade com base nos fundamentos da razão, da ciência e dos experimentos. Assim, se
autodefiniam porque acreditavam haver encontrado em seus raciocínios a luz necessária para se
responder à pergunta acerca de qual seria o sentido da vida. Pensavam possuir a chave do
conhecimento como fruto dos esforços humanos respaldados no que de bom pudesse ser
encontrado no próprio homem — na razão, nos pensamentos e na capacidade de enxergar o mundo
de forma melhor, em comparação aos anos anteriores (que, aos seus olhos, não passavam de um
período de trevas).
Mal sabiam eles que as trevas não se limitavam a um período da história apenas. Elas estavam
muito mais próximas deles do que imaginavam; na verdade, dentro deles mesmo — e quão
profundas eram essas trevas! Era assim, por mais que seus raciocínios bem elaborados pudessem
trazer uma falsa sensação de que o problema existencial do homem estava resolvido. Não estava! Os
séculos seguintes provaram que seus melhores pensamentos não produziram uma sociedade melhor
— que o digam os sepulcros, aos milhares, de vozes caladas em nome da razão e do falso saber,
oriundos de guerras e conflitos incessantes promovidos por sofismas, ou seja, pela mentira com
roupagem de verdade.
Mas a desgraça humana nunca foi o destino de apenas um período da história, aqui ou ali. Caim
continuou matando Abel de geração em geração. Quantos projetos de torres de Babel terão de ser
confundidos para que o homem entenda quanto está perdido em sua busca de respostas para o seu
vazio?
De geração em geração, encontramos homens e mulheres sem rumo, despidos de dignidade,
autoflagelando-se em suas cadeias e correntes, enquanto clamam dia e noite em seu desespero,
longe da casa do Pai, sem saber como voltar.
Em meio a essa tragédia humana é que encontramos o endemoninhado de Gesara, tão bem
analisado pelo autor deste livro. Confesso meu leve e momentâneo ceticismo — mesmo que por
apenas poucos minutos —, de achar que essa história já não tinha mais nada a oferecer, a partir da
ótica de quem já a tinha estudado e pregado sobre ela por tantas vezes, embora não subestimando a
capacidade do meu amigo por um segundo sequer. No entanto, qual não foi a minha grata surpresa
ao descobrir percepções novas e muito profundas ao me debruçar sobre o conteúdo já a partir das
primeiras linhas.
A maneira como somos levados a conhecer a dor do gesareno e quanto do seu sofrimento
também é o sofrimento de todo homem sem Deus — ainda que com roupagens diferentes —, foi
extremamente exitosa. Que satisfação perceber quão feliz foi o meu amigo Marcos Arrais, pastor e
professor, ao comparar o homem dos sepulcros com a realidade da humanidade igualmente morta
em seus delitos e pecados. Acima de tudo, que honra poder participar deste projeto tão especial,
onde temos o privilégio de concluir que Cristo nos revelou aresposta que os filósofos não
encontraram no caminho dos nossos sepulcros.
Não tenho dúvidas de que este livro conduzirá seus leitores a uma reflexão profunda acerca do
caos humano e a sua real e genuína saída para ele.
Boa leitura!
WILSON MAIA DOS SANTOS
Pastor da Igreja Voz, em Ribeirão Preto (SP)
Introdução
O que separa o pior criminoso do melhor cidadão? As respostas são variadas: condições
socioeconômicas, índole ou até mesmo desajustes mentais e psicológicos. Houve um período
em que a conduta de um indivíduo era associada a questões raciais. Assim, dependendo do grupo
étnico a que pertencia, o sujeito era considerado mais ou menos tendencioso a determinados
comportamentos desviantes. As ciências sociais compreendem esses fatores como resultado de
conjunturas sistêmicas, ou seja, as condições socioeconômicas como a falta de acesso aos bens
econômicos ou as oportunidades sociais e culturais como fatores que produzem criminalidade,
condutas desviantes e comportamentos periculosos.
A pergunta que desejo fazer não é o que separa esses grupos, mas se há algo que realmente os separa.
Somos mesmo tão diferentes ou seria apenas uma reação cínica de quem tem igual potencial
destrutivo e só aguarda uma condição favorável para pôr para fora todos os impulsos pecaminosos
que já se encontram dentro de nós? Sentimo-nos chocados quando nos deparamos com casos que
trazem comoção nacional como se fossem “nós e eles”. Nós, bons cidadãos, e eles, “seres
degenerados”. Estaria certa a tese de Jean-Jacques Rousseau, filósofo francês do século 18, de que o
homem é intrinsecamente bom, mas corrompido pela sociedade? Ou somos bestas feras à solta,
domados pelas normas sociais, mas que de vez em quando, ao nos soltarmos delas, somos capazes
de despedaçar-nos uns aos outros?
São notórios em nosso país crimes que chocaram a sociedade e trouxeram comoção pública,
como o caso de Suzane Von Richthofen, jovem de classe média alta que, na década de 1990,
conspirou contra os próprios pais, planejando o assassinato brutal de seus progenitores. Também
não ficou sem menor notoriedade o que ocorreu com o médico geneticista mais famoso do país,
dr.Roger Abdelmassih, que violentou não menos que 37 pacientes enquanto elas se encontravam
sedadas para a realização do procedimento de inseminação artificial. O caso Isabella Nardoni, uma
menina morta aos cinco anos de idade, também deixou a nação sob choque. A criança foi jogada da
janela de um apartamento no 6º andar de um condomínio. Seu pai e sua madrasta cumprem pena
até hoje por terem sido acusados de tamanha barbaridade.
Outros casos também dão história para filme, como foi com Elize Matsunaga, que, em 2012,
matou e esquartejou o seu marido Marcos Kitano Matsunaga, presidente de uma grande companhia
alimentícia, acomodando as partes do seu corpo dentro de uma mala e abandonando-a em um
matagal. Nesse pacote de horrores, podemos incluir linchamentos, abandonos, espancamentos,
estupros, assassinatos. E, ainda, os crimes de corrupção que lesam o país, por parte da elite política,
maus tratos a vulneráveis, destruição gananciosa do meio ambiente e exploração de trabalhadores.
Sim, estou falando de coisas que acontecem todos os dias bem debaixo do nosso nariz; e, sim, é o
nosso mundo, país, círculo de amigos, vizinhos, familiares e — porque não imaginar — nós
mesmos!
Este não é um livro policial ou sociológico. Tenho certeza de que encontraremos cada um desses
casos escritos e analisados em obras bem documentadas para esse fim. Este é um livro que busca
entender, à luz da Palavra de Deus, como criaturas criadas à imagem e semelhança de Deus
chegaram aqui. É certo que não podemos jogar tudo na conta de um único fator: seja ele
econômico, social, cultural ou mental. Crimes, atrocidades e até mesmo pequenos desvios, como
infrações de trânsito, ocorrem em todos os grupos sociais e culturais.
Podemos dizer que a maldade é universal, assim como o pecado (Rm 3.23). E, em termos
ontológicos, não há nada que separe o melhor dos cidadãos do pior dos criminosos. Algo une, em
uma única categoria, todas as pessoas: eu, você, Suzane, Roger, Alexandre Nardoni, Anna Carolina
Jatobá, Madre Teresa de Calcutá, o místico João de Deus e Martin Luther King Jr. Instrução cultural,
O HOMEM GESARENO
É O ARQUÉTIPO DA
HUMANIDADE
DETERIORADA QUE
TEM UM ENCONTRO
COM O SENHOR E,
ENTÃO, A SUA
VERDADEIRA
HUMANIDADE É
RESTAURADA.
condição econômica, saúde psicológica e antecedentes criminais não dão conta de explicar a
realidade disso. Algo que transcende sistemas políticos, avanços tecnológicos, conjunturas culturais
e até mesmo crenças religiosas.
É sobre isto que trata este livro: o que deu errado com a humanidade. A imagem escolhida por
este autor é a de um homem ordinário numa cidade ordinária: um homem endemoninhado,
degenerado social, cultural e espiritualmente e, por que não dizer, humanamente. O homem
gesareno é o arquétipo da humanidade deteriorada que tem um encontro com o Senhor e, então, a
sua verdadeira humanidade é restaurada.
O meu objetivo é demonstrar, pela história do gesareno, como
chegamos até aqui e como podemos fazer o caminho de volta à nossa
humanidade conforme criada por Deus. Para isso, quero convidar você
a refazer comigo o caminho perdido lá no Éden para compreendermos
como Jesus vem ao nosso encontro e nos conduz à restauração da
imagem divina perdida.
Com o intuito de lhe proporcionar boa leitura, estruturei os
capítulos deste livro no que chamo de “hermenêutica da redenção”.
Ele segue a ordem linear da história da salvação — Criação, Queda,
Redenção e Consumação —, conduzindo sua percepção ao grande
plano de Deus: a restauração da ordem criacional. A história do
homem gesareno segue essa lógica de maneira sublime, o que a tira de
um mero encontro pontual e a coloca no cerne da própria história
humana.
Navegaram para a região dos gesarenos, que fica do outro lado do lago, frente à Galileia. Quando Jesus pisou
em terra, foi ao encontro dele um endemoninhado daquela cidade. Fazia muito tempo que aquele homem não
usava roupas, nem vivia em casa alguma, mas nos sepulcros. Quando viu Jesus, gritou, prostrou-se aos seus
pés e disse em alta voz: “Que queres comigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te que não me atormentes!”.
Pois Jesus havia ordenado que o espírito imundo saísse daquele homem. Muitas vezes ele tinha se apoderado
dele. Mesmo com os pés e as mãos acorrentados e entregue aos cuidados de guardas, quebrava as correntes, e
era levado pelo demônio a lugares solitários.
Jesus lhe perguntou: “Qual é o seu nome?”.
“Legião”, respondeu ele; porque muitos demônios haviam entrado nele. E imploravam-lhe que não os
mandasse para o abismo.
Uma grande manada de porcos estava pastando naquela colina. Os demônios imploraram a Jesus que lhes
permitisse entrar neles, e Jesus lhes deu permissão. Saindo do homem, os demônios entraram nos porcos, e toda
a manada atirou-se precipício abaixo em direção ao lago e se afogou.
Vendo o que acontecera, os que cuidavam dos porcos fugiram e contaram esses fatos, na cidade e nos
campos, e o povo foi ver o que havia acontecido. Quando se aproximaram de Jesus, viram que o homem de
quem haviam saído os demônios estava assentado aos pés de Jesus, vestido e em perfeito juízo, e ficaram com
medo. Os que o tinham visto contaram ao povo como o endemoninhado fora curado. Então, todo o povo da
região dos gesarenos suplicou a Jesus que se retirasse, porque estavam dominados pelo medo. Ele entrou no
barco e regressou.
O homem de quem haviam saído os demônios suplicava-lhe que o deixasse ir com ele; mas Jesus o mandou
embora, dizendo: “Volte para casa e conte o quanto Deus lhe fez”. Assim, o homem se foi e anunciou a toda a
cidade o quanto Jesus tinha feito por ele.
LUCAS 8.26-39
1 Como olhar para esse texto?
N ossa perspectiva sobre as Escrituras faz total diferença, tanto em sua leitura quanto em como
vivenciá-las. É necessário, portanto, afirmar de início minhas principais convicções sobre elas e
me certificar de quevocê, ao ler este livro, buscará fazê-lo com o mesmo olhar. Isso é importante
não apenas para que compreenda o que proponho neste trabalho, mas também porque considero
importante saber como olhar para a Bíblia.
O que é a Bíblia e para o que ela serve
A Bíblia é um livro salvífico. Isso significa que por meio dela encontramos o plano de salvação divina
para o homem perdido. Certamente, nenhum escritor dos livros da Bíblia enfrentou reinos
poderosos ou deu sua vida apenas para nos transmitir bons ensinos motivacionais, dicas de bem-
estar emocional, fazer de nós empreendedores de sucesso, formular sistemas políticos ou nos fazer
pessoas melhores. A Bíblia é mais do que tudo isso junto! É o livro da revelação de um Deus que
intervém em favor de suas criaturas, revelando tanto seu plano eterno quanto seu caráter na medida
de nossa compreensão.
Apesar de ser composta por 66 livros em diferentes estilos literários, escritos por diversos autores
(estima-se 40) em diferentes lugares e culturas em um intervalo de 1.900 anos, seu conteúdo salvífico
não diverge entre si, pelo contrário, converge para uma única pessoa: a pessoa bendita de Jesus
Cristo. Cada livro, personagem e evento registrados evidenciam o plano divino para libertar o
homem das correntes do pecado e da morte, restaurando-o à condição de ser criado à imagem e
semelhança de Deus e, portanto, alvo de seu amor, devolvendo-lhe, assim, ao relacionamento
original com o Criador.
Por esse motivo, não podemos nem devemos reduzir as Escrituras a temas secundários. Imagine
Deus descendo no Sinai e dando a Moisés as tábuas da lei apenas para nos dar padrões éticos e
morais que em si mesmos resolveriam os nossos problemas. Ou o profeta Isaías e Jeremias sofrendo
perseguição até morte para nos deixar dicas práticas de resiliência; ou João na ilha de Patmos
escrevendo o Apocalipse para nos ensinar resistência política a um reino passageiro; ou Paulo
colocando em risco sua cabeça contra um império poderoso e religiosos enfurecidos para nos falar
sobre competências socioemocionais e gestão de carreira. Ou, talvez, imagine Jesus dizendo aos seus
seguires: “É isso aí, minha gente! Tudo o que estava escrito ao meu respeito era para que vocês
fossem bons empresários, aprendessem uma melhor didática ou fossem pessoas mais amorosas e
compreensivas!” Em vez disso, após ressuscitar, ele disse a dois discípulos que estavam perdidos em
sua leitura das Escrituras:
“Como vocês custam a entender e como demoram a crer em tudo o que os profetas falaram!
Não devia o Cristo sofrer estas coisas, para entrar na sua glória?” E começando por Moisés e
todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras.
LUCAS 24.25-27
Não devemos olhar para nenhum fato ou texto da Bíblia isolado de seu tema central, apartado do
enredo da redenção. Se assim o fizermos, correremos o risco de apequenar ou distorcer a grande
narrativa redentora. Devemos olhar para cada milagre, cura, parábola, libertação, ensino, visão e
profecia na Bíblia conectados a um fio condutor, de Gênesis a Apocalipse, que nos revela algo muito
maior.
EXPOR-SE À BÍBLIA É
MAIS QUE VOLTAR-SE
PARA PRINCÍPIOS
ÉTICOS E MORAIS. É
PÔR ORDEM DIVINA AO
CAOS HUMANO,
TRAZER O GOVERNO
CELESTIAL À
DESORDEM CÓSMICA,
TER RESTAURADA A
ORDEM CRIACIONAL.
O QUE VEMOS NO
EPISÓDIO DESSE
Logos
A Bíblia é mais que uma compilação de livros ou dados culturais e literários. Ela carrega a própria
Palavra Criativa de Deus (Hb 11.3).
Na doutrina da criação, compreendemos que Deus, por meio de sua Palavra, trouxe à existência
tudo o que existe. Em outras palavras, o universo foi formado pela boca de Deus. Sim, todas as
coisas visíveis e invisíveis passaram a existir pela verbalização do Todo-poderoso.[Nota 1] No primeiro
capítulo do livro de Gênesis, encontramos Deus, por meio de sua Palavra, criando ex nihilo, ou seja,
“a partir do nada”, sem qualquer matéria-prima preexistente (Rm 4.17). Essa Palavra continuou
ecoando pela boca dos santos profetas (cf.Lc 1.17; At 3.1; 2Pe 2.3) até que a própria Palavra, o Logos
eterno, Jesus Cristo, encarnou no mundo dos homens (Jo 1.1,14).
Na criação, encontramos a própria Trindade — Pai, Filho e Espírito
Santo — envolvida nesse ato sublime: o Pai falando e o universo vindo
a existir (Sl 33.6-9); o Filho, que é a própria Palavra, sendo pronunciado
e trazendo à existência todas as coisas (Jo 1.1-3); e o Espírito pairando,
de modo a preparar e proteger o núcleo caótico da criação para trazer à
existência a realidade divina (Gn 1.2).
Portanto, expor-se à Bíblia é mais que voltar-se para princípios éticos
e morais. É pôr ordem divina ao caos humano, trazer o governo
celestial à desordem cósmica, ter restaurada a ordem criacional. Ela
não só expõe nossa desordem, mas a submete ao governo de Deus que
sustenta a nova ordem (Hb 1.3).
Deus não pode ser dissociado de sua Palavra, sendo um intrínseco
ao outro. Quando Deus fala, ele cria e põe ordem no caos, mas
também se doa. Daí, podemos inferir que a Palavra é tanto de Deus
quanto o próprio Deus.
Entendendo a Escritura pela Escritura
Quero convidá-lo a olhar para o texto de Lucas 8.26-36 não apenas como um milagre isolado, uma
situação excepcional ou um punhado de ensinos e princípios que devemos assimilar para obter
vitória em áreas específicas de nossa vida, mas como a própria história humana, o que chamamos de
“drama da redenção”. Aqui, entenda “drama” como uma maneira de explicitar a condição humana e
a intervenção divina na história. Um drama é uma peça, uma obra de arte encenada. O drama da
redenção, porém, não se acaba quando os personagens se inclinam, recebem os aplausos da plateia e
as cortinas se fecham. Ele continua há milhares de anos.
Na verdade, ele existe desde a eternidade, antes mesmo da criação do tempo — ainda que para
nós comece em Gênesis — encontrando o seu ponto alto nos Evangelhos e seu desfecho em
Apocalipse. Essa perspectiva nos ensina a olhar para a Bíblia como o relato inspirado de como Deus
intervém na história humana em pelo menos três atos: Criação, Queda e Redenção. Lei, Profetas,
Escritos, Evangelhos, Atos, Epístolas e Apocalipse — toda a Escritura é esse grande tratado universal
de como o Deus criador conduz seu plano eterno de acordo com sua infinita sabedoria.
O que vemos no episódio desse homem, habitante da cidade de
Gesara, é nossa história — minha, sua e de todos os seres humanos,
que vieram e um dia virão a esse mundo caído. Esse homem não é
apenas um indivíduo degenerado em uma pequena cidade a cerca de
HOMEM, HABITANTE DA
CIDADE DE GESARA, É
NOSSA HISTÓRIA —
MINHA, SUA E DE TODOS
OS SERES HUMANOS,
QUE VIERAM E UM DIA
VIRÃO A ESSE MUNDO
CAÍDO.
50 quilômetros do lago de Genesaré, na Galileia, há mais de dois mil
anos. Antes, é o retrato do primeiro Adão, da criatura separada do
Criador.
É assim que convido você a enxergar esse acontecimento. Portanto,
é imperativo que olhemos para esse evento não como um incidente,
mas como o esboço do que ocorreu no jardim do Éden e do que
ocorrerá segundo Apocalipse.
Mergulhe comigo no fascinante enredo bíblico da redenção, no qual
a história do homem gesareno busca nos localizar. Esse enredo se
desenvolve em três atos, que correspondem às três partes principais
deste livro: Criação, Queda e Redenção.
Notas do Capítulo
Nota 1 - Para mais sobre a doutrina da criação, veja Gregg R. Allison. 50 verdades centrais da fé cristã: Um guia para compreender e
ensinar teologia. São Paulo: Vida Nova, 2021. [Voltar]
2 Quem é o homem?
Q ue ser estranho e complexo é esse que surge nas planícies terrestres locomovendo-se sobre
seus dois membros inferiores, abstraindo o mundo material ao seu redor, dominando a
natureza, criando cidades, organizando-se social e politicamente, produzindo arte e poesia,
escravizando, matando e expandindo o seu mundo sobre outros mundos?
Toda a ciência está mobilizada em busca dessa pergunta. Os grandes pensadores da história
procuraram defini-lo e compreendê-lo, artistas e poetas o idealizam e o romantizam,outros o
demonizam. Afinal, somos animais que enlouqueceram? Somos demônios que invadiram o paraíso?
Somos anjos que caíram do céu? Somos um aglomerado de células e sinapses condicionado às
alterações ambientais e sociais e determinado pelos instintos ou contextos culturais? Somos bons ou
maus?
A fé cristã define o ser humano a partir de um evento denominado “Criação”. Vejamos:
Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.
Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a
terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem
à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
GÊNESIS 1.26-27
O cristianismo define a identidade humana a partir da sua origem, ou seja, somos criação de
Deus, ou, como o apóstolo Paulo define: “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus
para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos” (Ef
2.10).
A perda dessa compreensão da nossa origem nos faz sair em busca de quem somos em lugares
errados. Na melhor das hipóteses, nos leva a encontrar apenas aspectos ou dimensões dessa
complexa identidade. Cada ramo da ciência busca decifrar o humano em sua perspectiva, seja
biológica, cultural, política, social, geográfica, linguística, metafísica etc. Mas, ao buscar compreender
apenas uma parte, reduzimos toda a realidade àquela esfera. Por exemplo, somos animais políticos,
como afirmou Aristóteles, mas não apenas isso. Somos animais que fabricam, como afirmou Marx,
mas também não apenas isso.
A ciência moderna tem se empenhado ao máximo tanto ao analisar o mundo microbiológico,
quanto ao empreender observações e viagens espaciais na busca da compreensão de nossa origem.
Somos poeira estelar? Somos uma espécie complexa que se formou a partir de organismos
unicelulares que foram se desenvolvendo diante de condições climáticas e biológicas específicas?
É possível que sejamos tudo o que cada ramo da ciência afirma sermos, mas não somos apenas
isso. Portanto, nenhuma resposta será suficientemente satisfatória se não for compreendida à luz de
Gênesis. Governos já gastaram e ainda gastarão trilhões buscando decifrar nossa identidade,
centenas de milhares de livros foram e ainda serão escritos sobre o assunto e debates acalorados
acontecerão em busca de decifrar esse mistério. A resposta, porém, está bem diante dos nossos
olhos: na Bíblia Sagrada. Talvez ela não nos dê as respostas para tudo o que queremos, mas,
certamente, nela temos as respostas para tudo o que precisamos.
A afirmação categórica e indubitável da Bíblia é que fomos criados por Deus. Não a partir de
elementos isolados da natureza que se desenvolveram de maneira espontânea e independente. E isso
não é tudo: Deus não apenas nos criou, mas nos fez a partir de si mesmo! Esse fato bíblico está
carregado de implicações para entendermos a natureza humana.
APESAR DE O PECADO
TER CORROMPIDO A
NOSSA NATUREZA, ELE
NÃO ANIQUILOU
ATRIBUTOS
COMUNICÁVEIS DE
DEUS QUE FORAM
INFUNDIDOS EM NOSSA
IDENTIDADE POR SUA
GRAÇA COMUM.
Os seres humanos compartilham a essência divina
A visão bíblica de imago Dei deveria ser chocante para os povos antigos, uma vez que apenas reis
eram considerados deuses ou filhos dos deuses. Isso assegurava o poder daqueles que o detinham,
como era o caso de Roma, em que os seus imperadores eram adorados como divindades, ou da
China antiga, onde o monarca também era assim considerado. O mesmo ocorria no antigo Egito,
onde faraó era venerado como filho do Deus Sol. Na mitologia grega, os seres humanos são
retratados como uma espécie de marionetes manipuladas ao bel-prazer dos entes divinos. Portanto,
afirmar que qualquer mortal trazia em si marcas da divindade era tão absurdo quanto um egípcio
naqueles dias pensar que faraó, rei do Egito, era tão somente um homem.
Ser imago Dei é o fundamento para o que hoje conhecemos como direitos humanos, pois, apesar
de o pecado ter corrompido a nossa natureza, ele não aniquilou atributos comunicáveis de Deus que
foram infundidos em nossa identidade por sua graça comum. Ainda podemos, por exemplo, amar,
doar-nos, sentir empatia, solidarizar-nos, indignar-nos com a injustiça e desejar a verdade.
Quando afirmamos que Deus compartilha sua vida conosco, não estamos falando de qualquer
tipo de vida, como a biológica. Todos os seres vivos existentes no planeta têm um tipo de vida
compartilhada: “Quando sopras o teu fôlego, eles são criados, e renovas a face da terra” (Sl 104.30);
“porque ele mesmo dá a todos vida, o fôlego e as demais coisas” (At 17.25).
Todos os seres vivos são dependentes de certas condições para
existirem, seja luz, oxigênio, proteínas ou quaisquer outros
componentes orgânicos e inorgânicos. Faltando-lhes essas substâncias,
encerra-se a vida.
Os teólogos, contudo, costumam distinguir dois sentidos de vida:
bios, vida animal, e zoe, vida eterna . A qualidade de vida que Deus deu
aos seres humanos, para além da bios, diz respeito à sua própria
natureza compartilhada, sua zoe: “Então o Senhor Deus formou o
homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o
homem se tornou um ser vivente.” (Gn 2.7).
Sim, fomos criados. Não foi, porém, uma criação impessoal por
parte de um deus impessoal. Somos parte do alento de um Deus
amoroso que nos criou de maneira tão peculiar, a partir de si mesmo.
Isso não nos torna deuses, mas certamente faz de nós criaturas sem
igual. Ao ler as notícias diárias ou até mesmo ao dar uma olhada no espelho, pode ser difícil
acreditar que em algum lugar dentro desses seres decaídos que todos nós nos tornamos havia uma
lâmpada divina acesa no que hoje é uma escuridão mórbida, um sol de justiça brilhando com toda a
sua força em um deserto gelado, uma pulsação eterna vital em nosso peito ou uma alegre sinfonia
em nossos tímpanos. Mas, hoje, mesmo sem nos darmos conta, carregamos o vazio dessa condição
perdida.
É por essa e outras razões que não acredito que o resgate de nossa identidade passe por um mero
ajuste comportamental. É por isso que precisamos ler a Bíblia como um livro de salvação e descobrir
o plano divino de como voltarmos à nossa condição perdida.
Os seres humanos podem relacionar-se com Deus
Apenas seres de uma mesma espécie conseguem se relacionar como pares. Assim, quando Deus nos
criou a partir de si, ele o fez para que desfrutássemos de um relacionamento pleno com ele.
Se os seres humanos foram criados para se relacionar com Deus, a falta desse relacionamento tem
um efeito devastador. Certamente conhecemos aqueles casos trágicos de pessoas que deixaram de
conviver com seus parentes e amigos, ao mesmo tempo em que se confinavam com animais de
estimação até perderem completamente os vínculos com os seus semelhantes. Não é preciso ser um
especialista em psicologia para concluir que se trata de um comportamento doentio que certamente
os levará ao pior quadro psíquico.
Deus nos criou com capacidade de nos relacionarmos com ele como semelhantes, ou seja, sendo
nutridos com o amor, a segurança, a aceitação e tudo o mais de que necessitamos para que a nossa
identidade fosse alimentada de maneira saudável. Mas há mais: quando pensamos em
relacionamento, precisamos imaginar algo que é uma via de mão dupla. Isso quer dizer que Deus
também se deleitava com esse relacionamento, não porque fosse uma necessidade, mas porque por
meio desse relacionamento ele era glorificado.
Não é à toa que Jesus chamava Deus de Pai. Ao chamá-lo assim, Jesus mostrou o relacionamento
correto que deveríamos ter com Deus. Também mostrou que, se queremos nos relacionar com
Deus como Pai, devemos nascer espiritualmente dele, pois somente ao compartilhar de sua natureza
podemos desfrutar dessa relação: “Em resposta, Jesus declarou: ‘Digo-lhe a verdade: Ninguém pode
ver o reino de Deus, se não nascer de novo’” (Jo 3.3); “porque todos os que são guiados pelo Espírito
de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).
Em outras palavras, somente nascidos de Deuspodem ser guiados por ele e se relacionar com ele,
desfrutando das bênçãos do seu Reino.
É nesse ponto que a fé cristã é necessária para a compreensão da natureza humana, pois, se
definimos “humanidade” a partir do entendimento de nossa origem conforme descrita em Gênesis,
ser plenamente humano está ligado a viver em comunhão com Deus e desfrutá-lo por meio de um
relacionamento pessoal com ele. Essa compreensão tem sido considerada tão fundamental na
história do cristianismo que um de seus principais catecismos diz:
Pergunta: Qual é o fim principal do homem?
Resposta: O fim principal do homem é glorificar a Deus, e desfrutar dele para sempre.[Nota 1]
Os seres humanos refletem ou espelham Deus na criação
Ser “imagem” significa que “derivamos de”. Uma “imagem” é uma imagem “de algo ou de alguém”.
Assim, a imagem não existe por si mesma, mas é reflexo de um original, no sentido de origem.
Assim como um quadro ou uma escultura que partem de uma fonte originária, de uma categoria
pré-existente, não sendo formada a partir do nada ou da aleatoriedade, os seres humanos também
derivam de uma fonte originária e essa fonte é Deus. Portanto, nossa autenticidade está em
refletirmos a imagem de Deus, em sermos imago Dei. Se refletirmos qualquer outra imagem,
distorceremos o nosso propósito original.
Não é difícil vermos na beleza dos pássaros, das flores e das paisagens um reflexo da beleza do
próprio Deus. Não estamos falando, porém, apenas do aspecto estético, visual, mas também do
moral e da forma com que nos relacionamos com as coisas criadas. Portanto, refletir a Deus significa
doar-nos como Deus, com-padecer-nos como Deus e amarmos como Deus.
O aspecto fundamental aqui está no fato de que só podemos refletir aquilo que contemplamos.
Os seres humanos refletiam Deus porque o contemplavam. A Criação se sujeitava ao homem não
apenas porque era homem, mas porque nesse ser estava estampada a imagem do próprio Criador.
A CRIAÇÃO SE
SUJEITAVA AO HOMEM
NÃO APENAS PORQUE
ERA HOMEM, MAS
PORQUE NESSE SER
ESTAVA ESTAMPADA A
IMAGEM DO PRÓPRIO
CRIADOR.
Sob essa ótica, é fácil concluirmos a razão pela qual a criação tem se
voltado contra nós. As imagens de satélites não mostram apenas as
terríveis devastações ambientais, as gigantescas clareiras em nossas
florestas, as imensas manchas de poluição em nossas águas e os
enormes buracos em nossa atmosfera. Essas imagens também expõem
os deuses que passamos a contemplar e a espelhar: a ganância, a cobiça
e o egoísmo. Fazendo uma analogia com o nosso papel-moeda,
estamos devastando a natureza criada por Deus e estampando-a em
nossas cédulas apenas para dizer o que tudo isso significa para nós:
poder.
Refletir a imagem divina não é uma tarefa apenas individual, mas
comunitária. Não é uma questão apenas de meio ambiente, mas de como espelhamos essa imagem
uns para os outros. Tanto homem quanto mulher, por terem sido criados à imagem de Deus,
representavam igualmente essa imagem um para o outro: “Criou Deus o homem à sua imagem, à
imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.27); “Este é o registro da descendência
de Adão: Quando Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez; homem e mulher os criou.
Quando foram criados, ele os abençoou e os chamou Homem” (Gn 5.1-2).
Os seres humanos representam Deus na criação
Dizer que somos imago Dei significa compreendermos que somos mordomos, ou seja, somos
responsáveis por administrar, em nome de Deus, as coisas criadas. A figura de um mordomo ou
administrador é bastante rica nas Escrituras, principalmente nas parábolas de Jesus. Ela nos adverte
para o fato de que, embora desfrutando abundantemente de toda provisão de que necessitamos,
devemos nos servir dela com a consciência de que não somos seus donos, mas seus administradores.
Dentre várias figuras bíblicas que nos chamam atenção para esse ponto, a que mais me
impressiona é a de José no Egito. Na casa de seu senhor Potifar:
O Senhor estava com José, de modo que este prosperou e passou a morar na casa do seu
senhor egípcio. Quando este percebeu que o Senhor estava com ele e que o fazia prosperar
em tudo o que realizava, agradou-se de José e tornou-o administrador de seus bens. Potifar
deixou a seu cuidado a sua casa e lhe confiou tudo o que possuía.
Desde que o deixou cuidando de sua casa e de todos os seus bens, o Senhor abençoou a casa
do egípcio por causa de José. A bênção do Senhor estava sobre tudo o que Potifar possuía,
tanto em casa como no campo. Assim, deixou ele aos cuidados de José tudo o que tinha, e não
se preocupava com coisa alguma, exceto com sua própria comida. José era atraente e de boa
aparência.
GÊNESIS 39.2-6
Na casa de faraó:
Disse, pois, o faraó a José: “Uma vez que Deus lhe revelou todas essas coisas, não há ninguém
tão criterioso e sábio como você. Você terá o comando de meu palácio, e todo o meu povo se
sujeitará às suas ordens. Somente em relação ao trono serei maior que você”. E o faraó
prosseguiu: “Entrego a você agora o comando de toda a terra do Egito”. Em seguida o faraó
tirou do dedo o seu anel de selar e o colocou no dedo de José. Mandou-o vestir linho fino e
colocou uma corrente de ouro em seu pescoço.
GÊNESIS 41.39-42
Na casa de seu pai: Então o faraó disse a José: “Seu pai e seus irmãos vieram a você, e a terra
do Egito está a sua disposição; faça com que seu pai e seus irmãos habitem na melhor parte da
terra. Deixe-os morar em Gósen.
E se você vê que alguns deles são competentes, coloque-os como responsáveis por meu
rebanho”.
GÊNESIS 47.5-6
Que figura esplêndida! Mesmo em meio a um mundo caído, Deus deixou pistas ou marcas de sua
obra nas coisas e pessoas criadas para que pudéssemos desejar a realidade plena estabelecida na
criação.
Ao enviar Jesus, Deus trouxe novamente a possibilidade de nos tornarmos plenos administradores
ou mordomos, legítimos representantes seus neste mundo, aqueles que carregam o seu anel de
selar. Cristo, portanto, é o supremo administrador da casa de Deus:
Moisés foi fiel como servo em toda a casa de Deus, dando testemunho do que haveria de ser
dito no futuro, mas Cristo é fiel como Filho sobre a casa de Deus; e esta casa somos nós, se é
que nos apegamos firmemente à confiança e à esperança da qual nos gloriamos.
HEBREUS 3.5-6
Mas não é apenas isso, pois Cristo nos devolveu a condição de mordomos fiéis: “Portanto, que
todos nos considerem como servos de Cristo e encarregados dos mistérios de Deus. O que se requer
destes encarregados é que sejam fiéis” (1Co 4.1-2); “Cada um exerça o dom que recebeu para servir
aos outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas” (1Pe 4.10).
Os seres humanos, portanto, são definidos a partir da sua semelhança com o seu Criador.
Somente eles podem compartilhar da sua natureza, relacionar-se com ele, refleti-lo e representá-lo.
Notas do Capítulo
Nota 1 - Breve Catecismo de Westminster, pergunta 1. Disponível em:
<http://www.monergismo.com/textos/catecismos/brevecatecismo_westminster.htm>. Acesso em: 26 de out. de
2022. [Voltar]
3 A realidade do pecado
C
A IDOLATRIA TAMBÉM
SUBSTITUI O TODO PELA
PARTE, FAZENDO-NOS
ASSIMILAR APENAS
ASPECTOS ISOLADOS DA
CRIAÇÃO OU MESMO DO
PRÓPRIO DEUS,
LEVANDO-NOS A
DISTORÇÕES PERIGOSAS.
hegamos ao acontecimento mais trágico da história: o pecado. Não quero que você pense na
Queda apenas como um termo técnico usado em livros e dicionários de teologia, mas como
uma realidade na qual estamos imersos desde o momento em que fomos concebidos no ventre de
nossa mãe (Sl 51.5). Essa realidade é tão brutal que encerrou em cadeias toda a Criação:
A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados.
Pois ela foi submetida à futilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade
daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da
escravidão da decadência em que se encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto.
ROMANOS8.19-22
O pecado é subversão
Isso significa que a ordem estabelecida por Deus foi subvertida a tal ponto que todas as coisas criadas
se corromperam drasticamente, experimentando a morte e a destruição, após ter vivido em terrível
sofrimento e rebelião. Se compararmos Gênesis 3 com Romanos 1, por exemplo, teremos um
quadro de causa e efeito que trará náuseas aos leitores atentos. Por causa da Queda, a realidade foi
alterada e distorcida. Nossas noções sobre Deus, sobre nós mesmos e sobre o mundo ao nosso redor
sofreram profundo abalo, a tal ponto que Deus teve de intervir pessoalmente para resgatar-nos.
Caso contrário, jamais encontraríamos o caminho de volta.
O pecado foi um golpe humano contra a nossa dependência de Deus. Não só a criação fora
afetada, mas o próprio homem teve a imagem divina distorcida nele, pois separou-se da vida do
Deus Criador: “mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que
dela comer, certamente você morrerá” (Gn 2.17).
O pecado é idolatria
A subversão do pecado configurou-se na substituição da nossa lealdade a Deus ao mudar o objeto de
nossa devoção. Toda substituição da glória que só pertence a Deus é o que chamamos de “idolatria”
ou “prostituição espiritual”. O idólatra é aquele que inverte a imagem no original e passa a conduzir
a sua vida não mais a partir da verdade, mas da ilusão, do engano e da distorção. Ela faz com que
cópia e original troquem de lugar, dando, portanto, à cópia o status mais importante.
A idolatria também substitui o todo pela parte, fazendo-nos assimilar
apenas aspectos isolados da criação ou mesmo do próprio Deus,
levando-nos a distorções perigosas. O agravante da idolatria é que ela
tem o poder de degenerar cada vez mais o idólatra, porque esse
começa a refletir a imagem da cópia que, por sua vez, vai se
distorcendo quando novas cópias vão sendo reproduzidas e refletidas,
até se distanciarem completamente de sua origem, perdendo
inteiramente as suas referências iniciais. Pense no homem gesareno
como essa imagem feita a partir da cópia, da cópia, da cópia... até
chegar à realidade que lemos no Evangelho de Lucas.
Em Romanos 1, como mencionei acima, Paulo demonstra pelo
menos sete inversões que o pecado causou na humanidade:
O PECADO,
PORTANTO, NÃO
DESTRUIU ESSES
ASPECTOS ESSENCIAIS
DA VIDA HUMANA, MAS
OS DISTORCEU, DANDO
A ELES OUTRAS
FINALIDADES.
• A inversão da verdade pela injustiça (v. 18)
• A inversão do conhecimento de Deus pela futilidade do pensamento (v. 21)
• A inversão da sabedoria pela loucura (v. 22)
• A inversão da glória de Deus por imagens de homens e animais (v. 23)
• A inversão da verdade de Deus pela mentira (v. 25)
• A inversão da criatura em Criador (v. 22)
• A inversão das virtudes pelos vícios (v. 26-31)
Todo pecado, por princípio, é pecado de idolatria. Foi o reformador João Calvino quem disse que
o coração do homem é uma fábrica de ídolos1 e o ídolo tem o poder de moldar os nossos afetos e
desejos para aquilo que lhe agrada. O ídolo distorce os nossos desejos porque distorce a imagem de
Deus em nós. Mesmo que seja um sentimento bom, ou até mesmo um aspecto legítimo da criação,
quando elevado à categoria de soberano sobre nós tem o poder de arruinar-nos.
O pecado é rebelião contra Deus
O pecado não destruiu as coisas boas que Deus fez. Ainda temos a natureza exuberante, o gosto pela
arte e pela beleza. Preferimos a paz e não a desordem e as guerras. Sentimos compaixão pelos fracos
e necessitados. Indagamos sobre nosso propósito na vida, desejamos algo além deste mundo.
Amamos, sentimos ternura, nos indignamos com a injustiça. Todavia, o pecado mobilizou nossos
desejos e vontades em aberta rebelião contra Deus.
Permanecemos fabris, ou seja, trabalhadores produtivos, mas o
trabalho se tornou fonte de angústia, sofrimento e exploração. Ainda
somos gregários, gostamos de estar em sociedade, mas nos tornamos
hostis ao diferente e criamos muitos problemas. Somos criativos, mas
inventamos máquinas e métodos de destruição. O sexo, por exemplo,
foi banalizado e usado para fins egoístas. O pecado, portanto, não
destruiu esses aspectos essenciais da vida humana, mas os distorceu,
dando a eles outras finalidades.
O pecado foi concebido sob o apelo de não precisarmos mais de
Deus: “Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se
abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal”
(Gn 3.5). Toda manifestação do pecado tem como objetivo nossa
independência de nossa fonte vital: é rebelião aberta contra a ordem criacional e desejo perverso de
substituirmos Deus por nós mesmos. O pecado, em última análise, é substituição do senhorio de
Deus por nosso senhorio.
Mas não fomos criados para viver separados de Deus. Por isso, a palavra “separação” é traduzida
por “morte”. É isso que acontece quando nos rebelamos contra o Senhor: somos desplugados da
fonte vital que nos alimenta e da qual dependemos a cada segundo. Paulo deixa esse fato claro
quando escreve aos cristãos efésios:
Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais costumavam viver, quando
seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está
atuando nos que vivem na desobediência. Anteriormente, todos nós também vivíamos entre
eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como
os outros, éramos por natureza merecedores da ira.
EFÉSIOS 2.1-3
O pecado é a vida autocentrada
Em Gênesis 3, a proposta da serpente é nos tornar deuses de nós mesmos para não precisarmos do
Deus verdadeiro. O pecado não nos tirou as afeições nem os talentos dados por Deus. Ele os usou de
maneira errada, dando-lhes novos rumos, distorcendo-os, porque mudou o eixo do qual estávamos
fixados, o centro gravitacional em torno do qual orbitávamos. Passamos a viver para a
autossatisfação e a autoafirmação, expondo a medonha rebeldia de nossos corações e lançando-nos à
pior de todas as desgraças: o banimento da presença de Deus:
Por isso o Senhor Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora
tirado. Depois de expulsar o homem, colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma
espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida.
GÊNESIS 3.23-24
4 Gesara e a corrosão do humano
O
UM DOS PAPÉIS DAS
LEIS É CONTER O
PECADO NO HOMEM,
NA MEDIDA EM QUE
ELAS IMPÕEM LIMITES
PARA A AÇÃO HUMANA.
MAS DEFINITIVAMENTE
ELAS NÃO MUDAM
NOSSO ESTADO DE
PECAMINOSIDADE.
quadro que observamos na cidade de Gesara é apenas uma amostra da humanidade sem Deus.
Nada separa daquele homem os moradores da cidade. Ambos estão debaixo da mesma condição
de iniquidade e degradação espiritual e moral. Aliás, nada nos separa daquele homem, nem nos faz
melhores do que ele ou nos isenta de chegarmos à mesma situação a que chegara.
Quando pensamos tanto no estado deplorável em que aquele homem se encontrava quanto na
aparente normalidade da cidade — todos indo aos seus trabalhos e cultivando a aparente
normalidade da vida — é como se houvesse um enorme abismo entre um e outro. No entanto,
quem expulsou Jesus da cidade não foi o homem endemoninhado, mas os cidadãos de bem que
moravam ali. Isso mesmo: ambos estavam do mesmo lado do abismo, ambos viviam na mesma
condição de iniquidade e degeneração humana (Rm 3.23), diferenciados apenas pelo que chamamos
de “civilidade”. Pois enquanto os moradores daquele lugar ainda eram contidos pelas leis e regras
sociais, aquele homem havia perdido todos os filtros, revelando a realidade mais cruenta de nossa
condição decaída.
Em Ensaio sobre a cegueira,[Nota 1] o escritor português José Saramago
demonstra que, deixado à própria sorte, o ser humano é capaz de
cometer as piores atrocidades. Isso ocorre porque, quando perdemos a
noção das leis e das normas sociais, nos tornamos bestas-feras prontas a
devorarmos uns aos outros. Um dos papéis das leis é conter o pecado
no homem, na medida em que elas impõem limites para a ação
humana. Mas definitivamente elas não mudam nosso estado de
pecaminosidade.As leis podem regular a convivência, mas não
transformam o nosso coração.
Particularmente, sou um entusiasta da educação. Acredito piamente
que, quando ampliamos os nossos conhecimentos, somos capazes de
educar nossa mente e nosso comportamento. Acredito que uma razão
esclarecida pode nos tirar das trevas da ignorância e ampliar o nosso
mundo. Mas, definitivamente, a educação não nos torna mais humanos
no sentido intrínseco ou ontológico da palavra. É bastante possível que subamos muitos degraus no
conhecimento técnico e desçamos outros na compreensão do humano.
A história testemunha civilizações avançadas em ciência, artes e técnica que se entregaram à
barbárie. A cultura e as leis roma-nas não foram suficientes para não produzirem pessoas hediondas
como, por exemplo, os imperadores Nero e Calígula. Também não puderam conter o estilo de vida
degenerado daquela civilização que acabou indo abaixo, mesmo sendo o maior império da época.
O início do século 20 também testemunhou as duas Grandes Guerras Mundiais, em que as
maiores potências do mundo civilizado promoveram as piores carnificinas da história. Isso pôs
abaixo o projeto iluminista com sua fé na razão humana como promessa de redenção. A Alemanha
nazista e a União Soviética socialista criaram os maiores campos de concentração humanas e de
trabalho forçado da história, além de desenvolverem os métodos mais nefastos de morte em massa.
Vimos até onde podemos chegar quando os EUA lançaram duas bombas nucleares sobre duas
cidades japonesas, Hiroshima e Nagazaki, incinerando milhões de pessoas instantaneamente.
O que dizer ainda do holocausto judeu e armênio? O que dizer de tiranos como Saddam Hussein,
no Irã; de Muamar Kadafi, na Líbia; Mao Tsé-Tung, da China; Kim Jongil, na Coreia do Norte;
Mobutu Sese Seko, no Zaire, e isso sem contar os clássicos Adolf Hitler, Josef Stalin, Benito
Mussolini, dentre tantos. Poderíamos falar sobre as políticas desumanas promovidas por diversos
QUANDO A NOSSA
IDENTIDADE NÃO ESTÁ
ANCORADA EM DEUS,
VAMOS ACEITANDO
países, como o Apartheid, na África do Sul, as políticas de segregação racial na América do Norte,
que promoviam o ódio racial, e as políticas de eugenia, até mesmo ações terroristas como a que
ocorreu em 11 de setembro pela Al-Qaeda e continuam ocorrendo pelo grupo Estado Islâmico.
Não é preciso ir tão longe. Todos nós conhecemos histórias horríveis de “cidadãos normais” que
assassinaram pais, filhos ou cônjuges. Pessoas que pagam impostos, levam cãezinhos para passear e
reciclam o seu lixo, mas que escondem dentro de si as piores podridões. Todos os dias, pessoas ainda
são brutalmente mortas; mulheres, estupradas; inocentes, escravizados; frágeis, espancados; e tantos
milhões são submetidos à fome, à sede e a toda forma de condições desumanas. Diariamente, vendo
as notícias do mundo afora, dirigindo pelas ruas da cidade ou mesmo realizando tarefas cotidianas
como fazer compras, tenho a impressão de que estamos à beira do caos. Tenho a sensação de que
qualquer fagulha pode acender o pavio desse enorme barril de pólvora que chamamos de civilização
e que não somos em nada diferentes dos moradores daquela cidade e muito menos daquele homem.
Talvez você pense que a minha visão sobre a humanidade seja pessimista — e em parte o é.
Como cristão, meu entendimento de pecado original me obriga a compreender a natureza humana
pecaminosa como um charco cheio de torpezas, suscetível ao pecado e que engole facilmente a
nossa identidade até desaparecer na caricatura que estamos buscando compreender neste homem.
Se estamos debaixo da influência do pecado e não de Cristo, nosso coração esconde as piores coisas,
que estão apenas esperando o momento para se manifestarem: “Pois do coração saem os maus
pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos
e as calúnias” (Mt 15.19).
A diferença entre o homem endemoninhado e os cidadãos daquela cidade é que o evangelho nos
permite enxergarmos um sem os filtros do pecado, enquanto os outros se mostram como cidadãos
decentes que só querem trabalhar e pagar suas contas. Aquele homem retrata a realidade espiritual
da cidade, pois ambos estavam igualmente separados de Deus.
A perda de si
O problema do homem contemporâneo é a perda do conhecimento de si mesmo, a alienação ou o
alheamento de quem somos em razão de termos perdido a referência de quem fomos criados para
ser.
Vivemos uma epidemia de transtornos de personalidade e crises agudas de ansiedade. Uma das
razões é que não sabemos mais quem somos. O texto diz: “Jesus lhe perguntou: ‘Qual é o seu
nome?’. ‘Legião’, respondeu ele; porque muitos demônios haviam entrado nele” (Lc 8.30).
Uma pergunta tão simples, que trouxe à tona um problema tão complexo: “qual é o seu nome?”.
Quando eu leio o evangelho, me encanto com a imensa sabedoria e simplicidade do nosso Senhor.
Ele poderia ter perguntado tantas coisas, mas começou pelo fato mais básico: quem ele era. Seu
objetivo era resgatar a identidade soterrada sob camadas e mais camadas de iniquidade, uma
identidade perdida e esquecida que se apagara com a legião de demônios que habitava aquele
homem.
Quando a nossa identidade não está ancorada em Deus, vamos
aceitando todas as influências e imposições que se apresentam a nós,
até que um dia nos olhamos no espelho e não sabemos mais quem
estamos contemplando ali. Simplesmente fomos permitindo que as
outras pessoas ou o mundo como um todo fossem imprimindo marcas
estranhas ao que Deus nos criou para sermos. Vamos perdendo nossa
TODAS AS INFLUÊNCIAS E
IMPOSIÇÕES QUE SE
APRESENTAM A NÓS.
O QUE VEMOS NO
TEXTO QUE LEMOS É O
QUE CONHECEMOS POR
CORROSÃO DA
IDENTIDADE, QUE NOS
LEVA À PERDA DA
NATUREZA HUMANA
CONFORME FOMOS
CRIADOS PARA TER.
originalidade, nossa peculiaridade tão própria de quem somos, até nos
tornarmos desconhecidos para nós mesmos, invasores habitando os
próprios corpos, embrutecidos e alheios a quem realmente somos.
A perda da identidade ou alienação de si mesmo é a pior forma de
opressão demoníaca. O homem gesareno respondeu que seu nome era
“Legião”. Havia tantos “eus” que nele habitavam, tantos desejos conflitantes, que nenhum resíduo
de si se encontrava mais ali. Como insetos em enxame ou soldados em legião, ele havia perdido o
senso de individualidade, aquilo que lhe era próprio e o orientava como pessoa, para dar lugar a
uma espécie de instinto de manada, que o impulsionava a fazer o que fazia sem consciência de quem
era.
Todos os dias, somos submetidos a mecanismos de controle que
buscam padronizar nossos comportamentos, roubando nossa
subjetividade. Tais mecanismos exercem poderosas forças que impõem
valores e padrões estranhos aos de Deus sobre nossa mente. Eles
buscam redirecionar nossas afeições, fazendo-nos amar o que
deveríamos odiar e odiar o que deveríamos amar. Tais mecanismos são
quase onipresentes, pois se apresentam nas leituras que fazemos, nos
filmes a que assistimos, nas músicas que ouvimos, nos rótulos dos
produtos, na estética, na arte, muitas vezes estampados em nossas
roupas. São os conceitos em que somos levados a acreditar e que
muitas vezes mentem sobre nós, sobre a realidade e sobre Deus. Tais
padrões estão por toda par-texto que lemos te: em nossos trabalhos,
escolas, faculdades, academias e até mesmo dentro de casa. Quando
dormimos, o nosso cérebro vai processar todas essas informações, organizando-as e mobilizando
nossos desejos na direção apontada por esses artifícios até que nossa personalidade seja inteiramente
moldada. O que vemos no texto que lemos é o que conhecemos por corrosão da identidade, que nos
leva à perda da natureza humana conforme fomos criados para ter.
Mesmo pensadores seculares reconhecem que enfrentamos esse risco iminente e que precisamos
enfrentá-lo. Ainda que com outros nomes e olhares e não reconhecendo o problema do pecado, tais
pensadores denunciam formas de desumanizações promovidas por fatores externos a nós, que
disputam nossas vontades e nos submetem a formas de embrutecimento. SigmundFreud,
conhecido como o pai da psicanálise, afirmava que todos trazemos transtornos de personalidade ou
neuroses responsáveis por desajustes de comportamentos. Para ele, isso ocorre na medida em que o
superego, uma forma de imposição de normas sociais no processo de socialização, se impõe sobre
nossos instintos, suprimindo nosso id, o “animal instintivo dos seres humanos”. Nossos desejos ou
pulsões são suprimidos pela civilização e isso nos faz criar os tabus.
O pensador Karl Marx chamou de “alienação” o processo em que os seres humanos, despossuídos
de sua mão de obra e alheios ao próprio trabalho, são submetidos à despossessão de si mesmos, na
medida em a consciência do que estão produzindo é subtraída deles. O filósofo alemão Friedrich
Nietzsche, no final do século 19, acusava o cristianismo por ter imposto a “moral dos fracos” sobre
os fortes, impedindo que um “super-homem” emergisse na civilização. Os existencialistas do século
20 condenavam toda forma de escapismo do mundo em troca de uma felicidade futura. Para eles, a
nossa essência é construída pela existência, podendo ser alterada ao longo da vida, a cada passo que
damos. Daí surgem as ideias de Simone de Beauvoir sobre a construção social do sexo. Jean-Paul
Sartre chamava de “má-fé” a transferência de nossas responsabilidades mundanas para terceiros.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman analisou a fluidez da identidade do homem pós-moderno,
marcado pelo consumis-mo e pela desintegração dos valores sólidos antes presentes na
modernidade. Isso nos trouxe ao relativismo presente em nossos dias, somando-se ao pessimismo e
ao desencantamento com os grandes sistemas políticos e econômicos, bem como as instituições
tradicionais, como a religião e o Estado. Tal postura transformou a ideia de relativismo em
“diversidade”, ou “pluralidade”, afirmando que a identidade humana, assim como o mundo, de
modo geral, não é algo monolítico, uniforme, sólido, mas marcado sobretudo pela relativização das
normas e dos valores humanos, estando a identidade incluída nessas categorias.
Poderíamos gastar páginas e mais páginas trazendo as ideias desses e outros pensadores que se
debruçaram sobre o problema humano, no entanto, eles não chegam nem perto do nosso real
dilema, uma vez que alguns deles podem até acertar algumas consequências, mas ignoram sua
verdadeira causa: a nossa alienação ou separação em relação a Deus. O fato é que a natureza
humana foi corrompida e corroída no Éden!
Notas do Capítulo
Nota 1 - São Paulo: Companhia das Letras, 2020. [Voltar]
5 O gesareno e o paradigma da
humanidade caída
A
NÃO ERA MAIS O
HOMEM QUE REFLETIA A
IMAGEM DO DEUS
TRINO, MAS O HOMEM
QUE TRAZIA A IMAGEM
DO PECADO E A
DEFORMIDADE DOS
DEMÔNIOS ESTAMPADA
NO SEU ROSTO.
partir daqui, voltaremos para o que este livro se propõe: olhar para o processo de corrupção e
restauração da identidade humana, tendo como arquétipo o que Lucas narra no seu Evangelho;
todavia, o faremos à luz do drama da redenção, pois estamos diante de algo muito maior do que um
caso isolado.
“Foi ao encontro dele um endemoninhado daquela cidade” (v. 27)
No Éden havia uma relação de perfeita harmonia entre Deus e o homem. Criador e criatura se
deleitavam mutuamente, um por cumprir o seu propósito de ser imagem e semelhança do Senhor
de todo o universo, outro por ver a própria imagem refletida naquele a quem criara. Esse cenário
refletia a plena ordem da criação e cada vez que o homem se encontrava com o seu Criador, a
imagem do Senhor era ainda mais refletida na criação, tornando o homem representante legítimo de
Deus na terra. Não é difícil de imaginarmos esse quadro nas palavras de Paulo: “E todos nós, que
com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo
transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito” (2Co 3.18).
O homem podia ver a Deus sem os filtros da cultura e do pecado, podia contemplar o seu Criador
e desfrutar de sua presença renovada e cada vez mais gloriosa. Não é difícil imaginarmos o
deslumbre do homem diante da santidade de Deus, a quem adorava e, por isso, era mais e mais
iluminado. Não é difícil imaginarmos que a cada encontro o Senhor se deparava com um homem
cada vez mais parecido com ele e que refletia mais a sua glória na criação. Era um encontro diante
do qual a criação observava atentamente, pois ali Deus se relacionava com alguém criado à própria
imagem e semelhança. Eram seres que compartilhava a mesma natureza.
Mas, ao voltarmos a Gesara, vemos um cenário completamente diferente. Não era mais um
homem glorificado, mas degenerado, não se tratava mais do homem coroado, mas humilhado, não
era mais o homem que refletia a imagem do Deus trino, mas o homem que trazia a imagem do
pecado e a deformidade dos demônios estampada no seu rosto. É isso o que o pecado faz conosco:
ele deforma a imagem do Criador em nós.
Esse evento nos faz lembrar do último encontro entre Deus e o homem no jardim: “Ouvindo o
homem e sua mulher os passos do Senhor Deus que andava pelo jardim quando soprava a brisa do
dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim” (Gn 3.8).
Como no Éden, aqui temos um novo encontro entre o Criador e a
criatura, no entanto, a natureza desse novo encontro era
completamente diferente, pois Criador e criatura não estavam mais
unidos e em perfeita comunhão, senão separados pelo pecado. Ali
estava o primeiro Adão diante do último Adão.
Um trazia a imagem de Deus, o outro trazia a deformidade de
Satanás; um era o modelo de quem Deus nos criou para sermos; o
outro, o que o pecado fez de nós; um trazendo a imagem da vida, o
outro a imagem da morte; um era a imagem do celestial, o outro a
imagem do terreno; um exalava o cheiro de morte, o outro o perfume
da vida.
Que cena incrível, mas precisamos pensar nesse reencontro como o
reflexo da missão de Jesus: “Pois o Filho do homem veio buscar e
salvar o que estava perdido” (Lc 19.10); “Jesus lhes respondeu: ‘Não são os que têm saúde que
precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores ao
A DEGENERAÇÃO
arrependimento’” (Lc 5.31-32).
Ao contemplarmos esta cena com as lentes do evangelho, podemos compreender que a
restauração da identidade humana passa pela restauração da imagem de Deus em nós: “e se
revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador” (Cl
3.10).
Cristo Jesus, Aquele que é a “imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Cl
1.15), “o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser” (Hb 1.3) é o projeto divino que
se contrapõe ao projeto do pecado que aquele homem representa.
“Fazia muito tempo que aquele homem não usava roupas” (v. 27)
No âmbito da cultura, sabemos que o vestuário é uma das forças mais poderosas, uma vez que as
roupas (ou a falta delas), principalmente em sociedades mais tradicionais, definem a civilidade e a
que grupo social o indivíduo pertence. As roupas são também sinais de como nos encaixamos (ou
não) nas normas de moralidade estabelecidas em cada cultura. Todavia, aquele homem estava
despido não apenas de roupas, mas, sobretudo, da noção da própria civilidade. Embrutecido como
um animal selvagem, não se atinha mais às normas de conduta tão próprias de seres racionais.
Voltando a uma espécie de estado de natureza, as regras sociais não lhes eram mais úteis e sequer
podiam ser assimiladas por ele.
Fico preocupado com certos discursos que vão de encontro às normas culturais. Tais discursos
encorajam as pessoas a subverterem as regras socialmente aceitas e muitas vezes são facilmente
comprados pelos mais jovens que ainda não estão com sua identidade bem consolidada, tornando-se
ativistas (ou “passivistas”?) contra tudo aquilo que consideram opressor. Esse foi o caso dos
movimentos contraculturais dos anos 1960, que apregoavam a subversão dos valores “burgueses” e
“capitalistas”. Com o lema “sexo, drogas e rock and roll”, aqueles jovens inconformados com o
“sistema” e revoltados com asinstituições tradicionais, como a família, o Estado e a igreja,
entregaram-se a um comportamento quase primitivo, em que os instintos tinham mais lugar do que
as normas sociais. Com a justificativa de “liberdade” e “emancipação”, outros grupos na atualidade
acusam a civilização de reprimirem os seus desejos, impondo prisões culturais que não levam em
conta a diversidade das pessoas, obrigando-os a se adequarem a padrões pré-estabelecidos e
normatizadores por parte daqueles que dominam.
Não nego que há certa legitimidade nas lutas emancipatórias. Isso está provado pela própria
história, que testemunha a luta de grupos e minorias cujos direitos lhes eram negados por questões
como origem social, racial, cultural ou de gênero, por exemplo. Ocorre que aquilo que chamamos
de liberdade pode ser, ao contrário do que o discurso progressista afirma, um retrocesso em relação
ao avanço civilizacional que a humanidade alcançou até aqui, e que esse retrocesso ocorre na
medida em que passamos a questionar e negar que os seres humanos se diferenciam dos animais,
entregues aos instintos, também pela maneira como se compreende o mundo simbólico em que
estão imersos. Regras e tratos, por exemplo, são anti-instintivos, pois são freios morais que nos
distinguem dos animais irracionais e que sustentam a nossa espécie. Isso faz parte da subjetividade
humana, um atributo que somente nós possuímos e que nos faz olhar para o mundo à nossa volta e
buscar sentido nas coisas que nos cercam.
Portanto, aquilo que chamamos de progresso e civilidade pode ser
justamente o contrário, pois, dependendo do grau a que eleva-mos
esses comportamentos, podemos promover a corrosão do humano
MORAL QUE ESTÁ EM
CURSO NA HUMANIDADE
ADVÉM DA MANEIRA
COMO TRATAMOS A
IMAGEM DE DEUS A
QUAL REPRESENTAMOS.
como seres criados à imagem de Deus e, por isso, imbuídos de
subjetividade, sentido e espiritualidade, marcas que nos fazem
transcender a um mero estado de natureza. No texto de Romanos 1, ao
demonstrar essa corrosão, Paulo denuncia os humanos, porque
“trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a
semelhança do homem mortal” (v. 23). Observe como a degeneração
moral que está em curso na humanidade advém da maneira como
tratamos a imagem de Deus a qual representamos.
Contudo, temos uma causa essencial para esse comportamento. No jardim, homem e mulher
estavam nus (Gn 2.25), no entanto, revestidos com a glória de Deus. Acontece que o pecado fez com
que o homem perdesse a imagem do celestial, restando-lhe perceber a sua fragilidade e insuficiência
em ser dono de si (Gn 3.7-8). Foi nessa condição que o homem se percebeu, nu e desamparado, e é
assim que ele se reencontra com o seu Criador: na mesma condição que O viu face a face pela
última vez. “Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de
figueira para cobrir-se” (Gn 3.7).
Faz parte do plano divino proposto na redenção que Deus nos devolva as vestes das quais fomos
despidos pelo pecado. Cristo vestiu-se de carne, sim, a mesma carne decaída de que estamos
vestidos. Sua carne foi dilacerada e morta pelos golpes da crucificação, mas ressuscitada num estado
de glória, a mesma glória na qual fomos criados para viver e a mesma glória na qual nos
revestiremos quando ressuscitarmos!
Enquanto isso, gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação celestial, porque,
estando vestidos, não seremos encontrados nus. Pois, enquanto estamos nesta casa, gememos
e nos angustiamos, porque não queremos ser despidos, mas revestidos da nossa habitação
celestial, para que aquilo que é mortal seja absorvido pela vida.
2CORÍNTIOS 5.2-4
[...] num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta
soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados. Pois é necessário
que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista
de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que
é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “A morte foi destruída
pela vitória”.
1CORÍNTIOS 15.52-54
Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas
práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do
seu Criador.
COLOSSENSES 3.9-10
É pelo “despir-se” de Cristo, ao despojar-se de sua glória celestial (Fp 2.7-8), que podemos nos
revestir dele, tornados novamente imagem de Deus e tendo restaurada a nossa humanidade original
perdida.
“Nem vivia em casa alguma, mas nos sepulcros” (v. 27)
O RESULTADO DESSE
ESVAZIAMENTO FOI O
ESPAÇO ABERTO PARA A
POSSESSÃO DEMONÍACA.
Sabemos como a convivência familiar é fundamento para a formação e sustentação da nossa
personalidade. Não sabemos qual a idade desse homem, se era um jovem ou alguém que havia
chegado ao estágio de maturidade, mas isso não importa, pois a nossa formação, enquanto seres
humanos, dura a vida inteira; no entanto, aquele homem havia sido privado desse ambiente tão
essencial e, por isso, o seu processo se formação fora interrompido ao mesmo tempo em que passou
a habitar “nos sepulcros”.
Alguém em sã consciência jamais escolheria um cemitério para
morar, contudo, vemos o nosso personagem banido da vida em
sociedade, privado do ambiente familiar que lhe proporcionaria
aceitação, confiança, valor, afeto e tudo o mais que é indispensável
para o desenvolvimento humano, ao mesmo tempo em que esse
conteúdo é esvaziado dele, rompendo as âncoras nas quais fixava a sua
personalidade. O resultado desse esvaziamento foi o espaço aberto
para a possessão demoníaca.
Sua vida sem rumo, sua mente em profunda perturbação e seu coração completamente separado
de Deus o levaram a vagar num looping sem sentido, servindo, quiçá, de espetáculo para aquela
cidade. Expulso de casa, perambulava pelas ruas a urrar como uma fera até que o seu grito foi
ouvido.
O que vemos aqui é a história da própria humanidade. Expulsa de casa, ou seja, do jardim, e
condenada a ser andarilha pela vida:
Por isso o Senhor Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora
tirado. Depois de expulsar o homem, colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma
espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida.
GÊNESIS 3.23-24
Por causa do pecado, um dia fomos expulsos de casa e passamos a habitar entre os mortos (Ef 2.1-
2). Nosso caminhar errante nos distanciava cada vez mais de Deus até que por nós mesmos não
tínhamos mais como voltar. Desaprendemos sobre Deus, esquecemos quem um dia fomos e
ficamos completamente perdidos, a não ser que o próprio Criador nos resgatasse. Foi para isso que
Cristo estava ali, o próprio Criador estava de volta para levá-lo ao lugar de onde ele fora expulso.
Não andaria mais em completo desamparo, mas, assim como eu e você que fomos achados nus e
sem guarida, as mãos misericordiosas do Senhor se estenderam para nós e nos resgataram do vazio e
da solidão para habitarmos para sempre no lar celestial. “Deus dá um lar aos solitários, liberta os
presos para a prosperidade, mas os rebeldes vivem em terra árida” (Sl 68.6).
Muitas vezes nos sentimos deslocados neste mundo. Mesmo cercados de pessoas e cheios de
tarefas, nossos olhos são postos no infinito como se estivessem buscando encontrar algo que
perdemos em algum momento. A saudade de casa é tema de músicas e poesias que nos comovem
porque, de certa forma, todos somos andarilhos nesta vida, à procura do lar celestial. Leia
atentamente o que o autor de Hebreus escreve sobre a condição de quem sabe que procura um
lugar para habitar eternamente:
Pela fé, Abraão — e também a própria Sara, apesar de estéril e avançada em idade — recebeu
poder para gerar um filho, porque considerou fiel aquele que lhe havia feito a promessa.
Assim, daquele homem já sem vitalidade originaram-se descendentes tão numerosos como as
estrelas do céu e tão incontáveis como a areia da praia do mar. Todos estes ainda viveram pela
fé,e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-nas de longe e de longe as
saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Os que assim falam
mostram que estão buscando uma pátria. Se estivessem pensando naquela de onde saíram,
teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a
pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, pois
preparou-lhes uma cidade.
HEBREUS 11.11-16
Abraão é o nosso exemplo por excelência de quem sabia que procurava uma pátria e por isso
aceitou o chamado de andar pela fé. Como esse homem de Deus e tantos outros, somos também
chamados a sair do meio dos sepulcros, do lugar de morte e de trevas, para andarmos na luz em
direção ao lar celestial: “A vereda do justo é como a luz da alvorada, que brilha cada vez mais até à
plena claridade do dia” (Pv 4.18).
O livro O peregrino, de John Bunyan,[Nota 1] é uma história arrebatadora que nos convida a
caminhar com o personagem chamado Cristão em direção à Cidade Celestial. Quando leio esse
célebre livro, sinto-me caminhando ao lado desse personagem, ainda que nem sempre consiga me
dar conta dos perigos que me assaltam pelo caminho. Todavia, o que deve nos manter firmes nessa
caminhada é lembrarmos que existe uma morada eterna aguardando por nós: “Sei que a bondade e
a fidelidade me acompanharão todos os dias da minha vida, e voltarei à casa do Senhor enquanto eu
viver” (Sl 23.6).
Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de
meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar. E
se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu
estiver.
JOÃO 14.1-3
A partir daquele encontro com Jesus, o homem gesareno tinha um lugar para voltar!
“Mesmo com os pés e as mãos acorrentados e entregue aos cuidados de
guardas, quebrava as correntes” (v. 29)
Ao ser expulsos do Éden, o ser humano buscou criar mecanismos artificiais para conter a sua
natureza destrutiva. Usando a linguagem sapiencial de Provérbios, encostamos “uma faca à própria
garganta” para não desejarmos as iguarias enganosas que nos oferecem (23.2-3). As leis são uma
forma de frear o impulso iníquo presente nos homens, punindo os transgressores de acordo com as
suas ações.
Ao longo da história, precisamos criar meios de contenção para “acorrentar nossas mãos e pés”,
criando disciplinas, regras, exércitos e o próprio Estado. Isso mesmo, somos destrutivos e estamos
prontos a transgredir o tempo todo, procurando a menor brecha para fazê-lo. Logo após o capítulo 3
de Gênesis, vemos o relato da corrupção do gênero humano. Um irmão assassina o outro e um
homem mata outro porque lhe pisou no pé. A realidade na perspectiva divina era a seguinte: “O
Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos
pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal” (Gn 6.5).
Foi preciso criarmos a “civilização”, uma forma artificial de respeitarmos uns aos outros e
buscarmos o bem comum. O que chamamos de “civilização” é, portanto, uma tentativa de suprimir-
mos nossos instintos mais sombrios e nos preservarmos em meio ao caos do pecado. Criamos
poderes civis e estruturas jurídicas e militares, contudo, a história testemunha a conturbada
trajetória humana em busca da condição em que um dia viveu. Ergueram-se grande impérios e
poderosos exércitos, criamos regimes políticos e leis, mas nada disso foi suficiente e, como as
correntes nas mãos e pés daquele homem, arrebentávamos todas as estruturas que prometiam nos
civilizar. Aliás foram as nações que se diziam civilizadas que promoveram os maiores massacres da
história.
Tornamo-nos feras indomáveis, absolutamente incontidas e entregues à nossa natureza perversa.
Guerras, impiedades, injustiças, explorações e toda forma de horror passaram a fazer parte do
cotidiano humano. Todos os dias nos deparamos com as piores atrocidades cometidas por aqueles
que se dizem seres racionais. No século 18, período conhecido como Iluminismo ou Era das Luzes, a
humanidade acreditou que a educação e o aprimoramento técnico e científico finalmente nos
conduziriam a uma espécie de evolução civilizacional, desvencilhando-nos da obscuridade em que
vivíamos. Contudo, o que a história presenciou foi exatamente o contrário: no século 19,
continentes inteiros foram brutalmente colonizados e, no século 20, as duas Grandes Guerras
mostraram o lado ainda mais perverso da humanidade. Usamos a razão e a ciência justamente para
fazermos aquilo de que elas prometiam nos livrar. A razão e a ciência foram instrumentaliza-das a
serviço do pecado e o Estado se tornou a pior ameaça. Leis desumanizantes foram legitimadas nos
parlamentos de países que se diziam livres e democráticos e poderes totalitários se ergueram para
esmagar povos inteiros.
Hoje, em pleno século 21, ainda convivemos com o fantasma de uma Terceira Guerra Mundial
(bélica, biológica, química e cibernética), de novas barbáries promovidas por ideologias radicais, do
terrorismo nacional e internacional, da destruição ambiental, do esgotamento dos recursos naturais,
da degradação da camada de ozônio, da fome que assola bilhões de pessoas, das pestes e novas
doenças criadas por supervírus e superbactérias além da nossa capacidade de conter e da própria
aniquilação da raça humana. A aposta atual é nos novos aparatos tecnológicos e científicos, tais
como nanotecnologia, inteligência artificial, energia limpa, engenharia genética, os meios cada vez
mais aprimorados de comunicação, viagens espaciais, física quântica, dentre outros. Não duvido que
todos esses aparatos e descobertas trarão muitos benefícios à humanidade, afinal de contas, são parte
do dom de Deus e de sua graça comum que ainda opera nos seres humanos, mas, por outro lado,
não resta dúvida de que esses recursos, por si sós, não resolverão o problema do pecado que corroeu
profunda-mente a nossa natureza.
Mas não precisamos ir muito longe para conferir esse fato. Todos os dias nos cercamos de
mecanismos artificiais, como aquele homem que era inutilmente contido pelas correntes. Achamos
que o nosso problema pode ser resolvido se reprogramarmos nossas mentes por meio de técnicas e
terapias que prometem nos tornar pessoas mais produtivas e felizes. Não negamos a contribuição
valiosa que esses meios podem trazer, mas certamente não são eficientes contra o problema do
pecado, pois esse mal somente o evangelho de Jesus Cristo pode resolver.
A história bíblica dá provas de como o povo judeu se cercou de leis morais e cerimoniais a fim de
se sustentar. Isso é algo semelhante àquelas edificações no processo de construção onde as
estruturas, ainda não prontas, são sustentadas ou escoradas por madeiras e outros materiais mais
frágeis até que possam ser retiradas. Acontece que ninguém pode viver para sempre confiando em
escoras, pois, mais cedo ou mais tarde, elas não suportarão o peso da edificação.
NINGUÉM PODE VIVER
PARA SEMPRE
CONFIANDO EM
ESCORAS, POIS, MAIS
CEDO OU MAIS TARDE,
ELAS NÃO SUPORTARÃO
O PESO DA EDIFICAÇÃO.
Nas páginas das Escrituras estão registradas as inúmeras quebras de
aliança com Deus que o povo de Israel acabou promovendo com a sua
desobediência. Quando o verdadeiro Tabernáculo de Deus, Jesus
Cristo, veio para o mundo, Israel preferiu continuar confiando nas
antigas escoras: “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo
1.11). eles preferiam o templo construído pelo perverso rei Herodes do
que desejar a promessa feita por Deus desde que o homem havia
pecado. Jesus mesmo havia afirmado que daquele templo, feitos por
mãos humanas, não restaria pedra sobre pedra (Mc 13.2) e que em três
dias ele levantaria o templo eterno de Deus (Jo 2.19).
Paulo afirmou aos crentes gálatas que a lei de Moisés cumpriu o
propósito de conduzir-nos a Cristo, não sendo mais necessário que ficássemos presos aos seu
cumprimento:
Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei,nela encerrados, até que a fé que
haveria de vir fosse revelada. Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos
justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do
tutor. Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo
foram batizados, de Cristo se revestiram
GÁLATAS 3.23-27
Cada vez que o povo de Israel quebrava as cláusulas da lei e se lançava no pecado, Deus enviava
os seus profetas para persuadi-lo ao arrependimento. Davi mesmo, após ter quebrado sua aliança
com Deus, orou: “Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável” (Sl
51.10), e ainda diz no mesmo salmo, versículo 17: “Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito
quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás” (Sl 51.17). Aquelas escoras
estavam se exaurindo, aliás, Deus mesmo se mostra exausto dos sacrifícios do povo: “De que me serve
o incenso trazido de Sabá, ou o cálamo aromático de uma terra distante? Os seus holocaustos não são
aceitáveis nem me agradam as suas ofertas” ( Jr 6.20, cf. Is 1.11-17). A recorrentes quebras de aliança
deveriam levar o povo a desistir das suas falsas confianças e buscarem a solução definitiva para a sua
natureza pecaminosa, mas, em vez disso, a rejeitaram.
Da mesma forma como Jesus chegou àquele homem, cansado e desesperado de tantas amarras,
também chegou até nós, trazendo o sacrifício superior e suficiente para os nossos pecados: “Ora,
aqueles são feitos sacerdotes em maior número, porque são impedidos pela morte de continuar; este, no
entanto, porque continua para sempre, tem o seu sacerdócio imutável. Por isso, também pode salvar totalmente
os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.23-25). O livro de Hebreus,
aliás, é o testemunho da superioridade de Jesus em relação aos frágeis suportes nos quais
buscávamos confiar: o sacerdócio de Jesus é maior do que o de Arão (7.11), seu sacrifício é completo
comparado aos dos animais (9.13,14), a sua aliança é superior a aliança mosaica (8.6-13) e o seu
corpo é eterno, comparado ao tabernáculo no deserto (9.11). “Agora, porém, o ministério que Jesus
recebeu é superior ao deles, assim como também a aliança da qual ele é mediador é superior à
antiga, sendo baseada em promessas superiores” (Hb 8.6).
Aquele pobre homem, cujas escoras haviam desmoronado, estava diante de quem podia lhe dar
vida, oferecendo-lhe a verdadeira estrutura em lugar da velha estrutura corroída e destruída pelo
pecado.
O ISOLAMENTO
REVELA A CONDIÇÃO
DE NOSSA NATUREZA
PECAMINOSA QUE,
POTENCIALIZADA POR
SATANÁS, CONTRARIA
A ORDEM CRIACIONAL
DIVINA DE QUE “NÃO É
BOM QUE O HOMEM
ESTEJA SÓ”.
“E era levado pelo demônio a lugares solitários” (v. 29)
Não se constrói humanidade sem interação social saudável, por isso, desde o momento em que
nascemos, precisamos de um ambiente acolhedor onde possamos nos construir enquanto seres
humanos. Esse é um processo que se estende por toda a vida e que agrega à nossa natureza valores
que são necessários para sustentar nossa personalidade. Ocorre que, na medida em que esse
elemento nos é negado ou de alguma forma interrompido, vamos perdendo as âncoras da nossa
alma e, à deriva, nos tornamos suscetíveis a forças estranhas ao propósito divino, somos arrastados
por correntezas sombrias que nos tiram dessas águas tranquilas e nos põem num verdadeiro abismo.
A consequência é a perda da nossa humanidade conforme Deus nos criou para ser, o que ocorreu no
Éden e continua em processo ainda hoje.
Estamos diante de um quadro espiritualmente semelhante aos nossos dias: a crise da solidão. Essa
é uma condição presente na maioria das pessoas que, mesmo cercadas de outras pessoas e aparatos
tecnológicos, continuam a sentir-se sozinhas. Vivemos em grandes e populosas cidades, mas cada
um dentro da sua própria bolha. A solidão não é apenas uma crise, mas uma epidemia moderna que
vai se alastrando entre adultos, jovens e até mesmo entre crianças. Somos parte de um mundo com
mais de oito bilhões de seres humanos que se sentem cada vez mais sozinhos.
Buscando a solução para a falta de liberdade, abrimo-nos a um individualismo existencial crônico
que nos puxa cada vez mais para “lugares solitários”. O mercado descobriu esse nicho de pessoas, a
quem exploram comercialmente com entretenimento, comidas, pacotes para viagens, streams,
dentre outros. A mensagem é: “sozinho é melhor”. A indústria pornográfica explora de forma
doentia essas pessoas, que caem na armadilha do vício sexual, tornando-se compulsivos por imagens
eróticas que não as satisfazem. O ramo imobiliário também descobriu nesse público uma tendência
mundial, trazendo alternativas de moradias que de tão pequenas desencorajam a companhia.
Assim como no caso do personagem da nossa história, sabemos que essa tendência ao isolamento
revela a condição de nossa natureza pecaminosa que, potencializada por Satanás, contraria a ordem
criacional divina de que “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Pessoas individualistas criam
uma sociedade atomizada em que o senso de coletividade e pertencimento vão se deteriorando para
dar lugar a um mundo cada vez mais egoísta que busca autossatisfação, mesmo que custe o bem-
estar alheio.
É muito comum entre os jovens de hoje ouvir que querem cuidar de
suas carreiras e, por isso, não têm qualquer desejo de constituir família
para que ela “não atrapalhe os seus planos”. A maior tragédia é que os
próprios jovens da igreja de Cristo, secularizados, vão sendo
absorvidos pelo “espírito que agora está atuando nos que vivem na
desobediência” (Ef 2.2). É desesperador assistir como jovens cristãos
têm comprado essa ideia perversa e contribuído para a condição em
que se acelera este mundo. A família e a companhia dos outros crentes
é projeto de Deus para um viver saudável. Muito das cartas pastorais
no Novo Testamento são escritas para esse fim: como pecadores
redimidos podem experimentar relacionamentos transformadores que
gerem santificação, serviço na obra de Deus, diversidade nos dons e
cuidado mútuo. O texto de Efésios, citado acima, explicita a fonte dessa
condição: “o príncipe do poder do ar”, referindo-se a Satanás, busca
subverter o projeto divino de formar um povo que povoe o mundo com os valores do Reino.
Não estou me referindo àquela solitude necessária à contemplação e ao autoconhecimento.
Retirar-nos para a oração e a contemplação é necessário. Às vezes, precisamos sair um pouco do
barulho do mundo, do lugar comum, e silenciar as muitas vozes que gritam a todo tempo em nossas
mentes. Jesus fez isso e nós precisamos também fazê-lo com o intuito de colocar coisas no lugar e
buscar a Deus em oração. Contudo, o lugar solitário a que esse homem era impelido o levava a uma
condição de corrosão da humanidade que lhe restava. A vida solitária apagava em sua memória a
lembrança de que ele havia sido criado à imagem do Deus trino e de quão único e especial ele era na
comunidade humana.
Essa condição de extrema solidão se contrasta com a fala dos demônios que revelaram serem
“muitos” (v. 30). A solidão daquele homem abriu-lhe espaço para se tornar hospedeiro de toda sorte
de sentimentos e comportamentos destrutivos. Despersonalizar-nos para nos habitar é o propósito
do reino das trevas, pois, na medida em que nos faz esquecer quem somos e para o que fomos
criados, nos tornamos terreno fértil para Satanás.
Algumas vezes, o deserto é retratado na Bíblia como habitação de demônios, de toda sorte de
animais ferozes que estão à espreita para devorar aqueles que se aprofundam nele: “Mas as criaturas
do deserto lá estarão, e as suas casas se encherão de chacais; nela habitarão corujas e saltarão bodes
selvagens” (Is 13.21); “Criaturas do deserto se encontrarão com hienas, e bodes selvagens balirão uns
para os outros; ali também descansarão as criaturas noturnas e acharão para si locais de descanso” (Is
34.14); “As feras do deserto se encontrarão com as hienas, e os sátiros clamarão unspara os outros;
fantasmas ali pousarão e acharão para si lugar de repouso”(Is 34.14); “Quando um espírito imundo
sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso e não encontra” (Mt 12.43).
No entanto, estamos falando de como Deus mesmo, na pessoa de seu bendito Filho, veio para
nos resgatar da corrosão da nossa humanidade edênica, indo ele mesmo ao abismo onde nos
encontrávamos. Foi no deserto que Jesus enfrentou o tentador e o venceu por nós. O diabo veio a
Jesus questionando a sua natureza de Filho: “Se você é o Filho de Deus” (Mt 4.3), mas foi derrotado!
Na cruz do Calvário, Jesus expôs publicamente a estratégia de Satanás para que não fôssemos
enganados e rasgou o escrito de dívida que era contra nós, tornando-nos nova criação, filhos e filhas
de Deus conforme ele nos criou para ser (Cl 2.14-15; Rm 8.15-17)!
Notas do Capítulo
Nota 1 - São José dos Campos: Fiel, 2019. [Voltar]
6 Como o evangelho restaura a
humanidade
A
PÔR AS LENTES DO
EVANGELHO É DE
FUNDAMENTAL
IMPORTÂNCIA PARA
QUE A NOSSA LEITURA
BÍBLICA NÃO SEJA
ENVIESADA POR NOSSAS
PREFERÊNCIAS
CULTURAIS OU MORAIS.
ntes de seguirmos a diante, é muito importante colocarmos as lentes do evangelho. É por meio
dele que devemos olhar para a Bíblia, investigando todos os fatos ali narrados por essa chave,
caso contrário a Escritura não teria nada de diferente de outros grandes livros da história. Não é
objetivo da Escritura elaborar uma teoria de Estado, ou mesmo ser um tratado sobre política, ou
ética, ou moral, ou economia, ou cultura, muito menos de literatura ou história antiga, embora
esses temas sejam inevitavelmente transversais em suas páginas. Não podemos reduzir a Palavra de
Deus a aspectos da vida humana que, embora importantes e até mesmo fundamentais, não passam
de recortes da totalidade da existência. Portanto, reduzir a Bíblia a quaisquer aspectos da criação
seria rebaixá-la a outras obras e tratados que abordam esses temas de forma magistral.
Como já afirmei anteriormente, a Bíblia é um livro de “salvação” que conta a epopeia de um
Deus salvador em busca do homem pecador. Para isso, ele separa um homem, Abraão, por meio de
quem gera um povo para ser uma nação sacerdotal e sinal escatológico do reino do Messias que
havia de vir. Por fim, envia seu Filho unigênito para resgatar a humanidade perdida por sua morte e
ressurreição, formando um novo povo, não mais étnico, mas universal, de todas as tribos, línguas,
povos e nações, em todos os tempos e lugares. Esse povo é a igreja de Jesus, aqueles a quem ele
redimiu por seu sangue e selou com o seu Espírito, dando-lhe a gloriosa tarefa de mais uma vez
povoar a terra com filhos e filhas de Deus pela pregação do evangelho.
Portanto, pôr as lentes do evangelho é de fundamental importância
para que a nossa leitura bíblica não seja enviesada por nossas
preferências culturais ou morais. Se não for assim, seria como assistir a
um filme em 3D sem aqueles óculos próprios para esse fim e então
veríamos apenas borrões sujeitos a quaisquer interpretações por parte
dos espectadores. Contudo, ao colocarmos os óculos, teremos maior
nitidez e noção de profundidade, podendo acompanhar a história de
maneira mais precisa.
É com esse entendimento que a compreensão do evangelho é
condição sine qua non para entendermos a narrativa bíblica. Segundo
esse entendimento, devemos olhar para o evangelho como:
A única e toda-suficiente solução de Deus para o único
problema do homem
Deus não tem várias soluções para vários problemas, mas uma única e toda-suficiente solução, Jesus,
para o grande problema do homem, o pecado. Não quero que me interprete como se eu estivesse
sendo reducionista. Todos sabemos que a vida é complexa, que a natureza humana é complexa e
que os dilemas são igualmente complexos, contudo, é preciso reconhecermos que todos os
problemas que criamos têm origem em nossa natureza pecaminosa. Isso mesmo, o pecado está na
base da natureza humana, deformando-a e degenerando-a. Isso significa que os nossos problemas,
tanto de ordem individual quanto familiar ou social, derivam da raiz do pecado infundido em nossa
alma.
A única e toda-suficiente solução de Deus está no sacrifício do seu Filho, Jesus Cristo, tomando o
nosso lugar na cruz do Calvário e outorgando-nos o seu Espírito para criar em nós uma natureza
redimida, conforme o plano original de Deus. Essa verdade é descrita nas páginas dos evangelhos,
do livro de Atos do Apóstolos, das cartas apostólicas e do Apocalipse. Quando Deus fez isso, ele
eliminou todas as possibilidades de batermos em portas erradas buscando a salvação em caminhos
enganosos. Paulo deixa essa verdade clara quando escreve aos cristãos gálatas: “Mas a Escritura
encerrou tudo debaixo do pecado, a fim de que a promessa, que é pela fé em Jesus Cristo, fosse dada
aos que creem” (3.22).
A solução total de Deus para a totalidade dos problemas humanos
O evangelho não é uma espécie de seguro para a alma após a mor-te, deixando a nosso critério o
que faremos com os demais aspectos de nossa vida. Afirmo isso porque muitas vezes é assim que
agimos, como se o evangelho tratasse de assuntos relacionados à salvação, sem, contudo,
contemplar questões como casamento, finanças, trabalho, sentimentos, sexualidade,
relacionamentos etc.
A cruz de Cristo é tão abrangente quanto os aspectos das nossa vida e, assim como o pecado
atingiu todos as esferas da nossa existência, Jesus veio resgatar essas esferas: “Pois o Filho do homem
veio buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19.10). Isso significa que não há nada que diga respeito
a mim e a você que Deus já não tenha provido salvação por meio do seu Filho; aliás, essa é a
mensagem da cruz: ela mostra quão longe fomos com o nosso pecado e quão longe Deus foi para
resgatar-nos. Não importa quão “seculares” pareçam determinados aspectos de nossa vida, ali deve
estar o evangelho, trazendo-os de volta à ordem criacional divina.
Não há, portanto, uma única área que tenha sofrido ranhuras pelo pecado que Cristo não queira
redimir. Enquanto você lê essas linhas, pense em trazer tudo o que diz respeito a você para a
centralidade de Cristo, pois a totalidade do que somos está contemplada na cruz do Calvário.
A definitiva solução de Deus para o definitivo problema humano
Não podíamos ir mais longe do que fomos, nem ser mais rebeldes ou mais egoístas. O nosso pecado
extrapolou todos os limites impostos pelo Criador. Insultamos a Deus declarando abertamente que
somos os nossos próprios deuses, senhores de nós mesmos, embora não pudéssemos dar um só
fôlego sem que ele colocasse ar em nossos pulmões. Assim, o pecado foi o problema definitivo que
nos trouxe a consequência definitiva: a morte (Gn 2.17; Rm 3.23). Não havia estado pior para nós,
muito menos uma condição que fosse tão irreversível do ponto de vista humano como aquela em
que nos encontrávamos.
Todavia, Deus interveio com sua mão poderosa, indo até onde ninguém estava disposto a ir,
assumindo o nosso lugar na punição do nosso pecado e, dessa forma, resolvendo definitivamente o
nosso problema. Hebreus 10.10 nos afirma que o sacrifício de Jesus Cristo foi “de uma vez por
todas” e que “ainda se assim fosse, Cristo precisaria sofrer muitas vezes, desde o começo do mundo.
Mas agora ele apareceu uma vez por todas no fim dos tempos, para aniquilar o pecado mediante o
sacrifício de si mesmo” (Hb 9.26).
Uma solução toda suficiente, abrangente e definitiva para pecadores perdidos! Se isso não nos faz
exultar, não há nada mais que nos faça. Esse é o caráter do evangelho de Jesus Cristo, a “boa nova”
de salvação: “Esta afirmação é fiel e digna de toda aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os
pecadores, dos quais eu sou o pior” (1Tm 1.15)
Você não acha que reduzir essa grandiosa mensagem a questões meramente cotidianas e de
caráter meramente mundano não seria empobrecer o evangelho?
O evangelho não é apenas o início da caminhada, mas todo o caminho a ser
PARAR NO CAMINHO É
PARAR NO EVANGELHO.
SAIR DO CAMINHO É
SAIR DO EVANGELHO.
CONTINUAR NOCAMINHO É
CONTINUAR NO
EVANGELHO.
percorrido
Jesus não disse que ele é apenas a porta (Jo 10.7,9), mas o caminho (Jo 14.6). Portanto, a sua
grandiosa obra não se resume a um lugar de entrada, mas se estende a um percurso glorioso que
deve ser trilhado por seus peregrinos.
O evangelho deve moldar cada pensamento, palavra e atitude
daqueles que abraçam a fé em Cristo. Como já afirmei antes, não deve
haver uma única área de nossa vida que não deva ser governada por
Jesus. Quando compreendemos essa verdade, buscamos caminhar
passo a passo e etapa por etapa de modo a sermos moldados pelos
princípios do evangelho. Parar no caminho é parar no evangelho. Sair
do caminho é sair do evangelho. Continuar no caminho é continuar no
evangelho.
É bom lembrarmos que antes de os primeiros discípulos de Jesus
serem chamados de “cristãos”, eles se chamavam de os do “Caminho”
(At 9.2; 24.14). Isso é muito significativo porque mostra que esses
primeiros irmãos viam a vida com Jesus como uma caminhada, a qual
muitas vezes era marcada por lutas, provações, perseguições e até mesmo morte, mas que traria
recompensa àqueles que perseverassem até o fim (Ap 2.26).
Em O Peregrino, ao abandonar a Cidade da Destruição, Cristão descobre como sua vida ainda era
moldada pelos valores terrenos, os quais deveriam ser abandonados na medida em que a estrada em
que trilhava revelava o que havia em seu coração. É isso o que o evangelho faz conosco. Ele vai
revelando o que há de terreno dentro de nós, na medida em que nos ensina a acertar os nossos
passos no caminho que é Jesus.
Como Jesus devolve a humanidade perdida Jesus vem ao encontro
Jesus “desembarcou” neste mundo para nos resgatar e essa verdade nos leva diretamente para o fato
de sua encarnação. “Logo ao desembarcar, veio da cidade ao seu encontro um homem possesso de
demônios...” (v. 27).
Não há evangelho sem a encarnação de Jesus e isso significa que Deus mesmo, na pessoa de seu
bendito Filho, veio a este mundo como um de nós, sujeito às mesmas tentações e limites da
natureza humana. Embora seja Deus, ele se autolimitou, tornando-se como um de nós,
identificando-se com nossos dilemas e dores para que, como um de nós, porém sem pecado algum,
fosse oferecido na cruz em nosso lugar, tornando-se o sacrifício perfeito e pagando o preço do nosso
resgate (Fp 2.6-8).
O Evangelho de João começa com a narrativa da vinda de Jesus ao mundo numa perspectiva do
alto. Diferentemente de Ma-teus e Lucas, João propõe olharmos para Jesus do ponto de vista da
encarnação, como o “Verbo” ou a “Palavra” que “estava com Deus e era Deus” (1.1). Esse modo de
olhar a encarnação é desenvolvido em todo o Evangelho de João: “Aquele que é a Palavra tornou-se
carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e
de verdade” (Jo 1.14); “Aquele que vem do alto está acima de todos; aquele que é da terra pertence à
terra e fala como quem é da terra. Aquele que vem do céu está acima de todos” (Jo 3.31); “Mas ele
continuou: ‘Vocês são daqui de baixo; eu sou lá de cima. Vocês são deste mundo; eu não sou deste
mundo’” (Jo 8.23); “Eu vim do Pai e entrei no mundo; agora deixo o mundo e volto para o Pai” (Jo
16.28) A encarnação é a doutrina que torna a fé cristã diferente de todas as religiões do mundo. Em
A ENCARNAÇÃO
APONTA PARA O DEUS
ETERNAMENTE
PERFEITO E
INFINITAMENTE SANTO
QUE DESCEU AO MAIS
PROFUNDO ABISMO
PARA NOS RESGATAR.
nenhuma outra religião, o deus cultuado vem ao mundo para sofrer em lugar de mortais
desprezíveis, muito menos tornar-se como um deles, tomando o seu lugar numa condição de
vergonhosa morte. Nas religiões deste mundo, os deuses exigem que alguém morra por eles, mas no
cristianismo é Deus quem morre por nós. Tire a verdade da encarnação de Jesus e não teremos mais
cristianismo, nada mais fará sentido, nem a cruz fará sentido, nem a ressurreição, nem a nossa
redenção, nem a santificação, nem a esperança da vida eterna, as cartas apostólicas, ou Atos dos
Apóstolos, ou o Apocalipse. Todos esses livros se tornariam tão obscuros que não valeria a pena lê-
los.
A encarnação aponta para o Deus eternamente perfeito e infinitamente santo que desceu ao mais
profundo abismo para nos resgatar (Ef 4.9). Aqui ele sentiu na própria pele a grande enrascada em
que nos metemos, sentiu o forte cheiro do pecado impregnado em nossa natureza e foi levado à
cruz pelo mesmo pecado pelo qual veio aqui para nos resgatar.
É esse Deus infinitamente santo, puro, justo e majestoso que
desembarca naquela pequena cidade de criadores de porcos. O Rei da
glória entrando numa fétida pocilga, atolando seus pés em lama podre,
sentindo o terrível cheiro do pecado e vindo em direção a alguém cuja
humanidade estava se apagando completamente. Acredito que ele não
podia encontrar algo mais terrível do que a própria desumanização
retratada naquele homem, desumanização essa ainda presente em
nossos dias na vida de milhões de pessoas que vagueiam pela existência
sem saber como vieram parar nela.
A encarnação proclama a verdade de que Deus mesmo, em pessoa,
veio encontrar-se conosco. O texto diz que “veio da cidade ao seu
encontro” (v. 27). Isso mesmo, ao desembarcar neste mundo, o homem
perdido pôde vir ao encontro do seu Criador e voltar para casa! A mensagem do evangelho de Jesus
é a mensagem do reencontro entre Criador e criação, pois é isso o que Jesus veio fazer: promover
um encontro divino. Creio que aquele momento estava marcado na eternidade, não apenas com
aquele homem, mas com todos os que estavam longe de Deus.
Esse é um encontro mútuo porque demanda que respondamos ao amor de Deus ofertado por sua
graça a todos nós. Embora a salvação seja pela graça, ela demanda que nos aproximemos do nosso
Benfeitor e correspondamos ao seu amor: “Achegue-mo-nos, portanto, confiadamente, junto ao
trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião
oportuna” (Hb 4.16). Não sabemos exatamente onde Deus termina e nós começamos na experiência
de salvação, mas, ainda que seja Deus a prover o sacrifício, o arrependimento e até mesmo o
despertamento de que precisamos, somos nós que devemos nos aproximar dele.
A presença de Jesus é tão transformadora que, mesmo alguém estando num estado de tamanho
embrutecimento, veio ao seu encontro, e foi nesse momento que o processo de corrosão, que já
estava no fim, foi interrompido, fazendo com que a brisa refrescante da graça tocasse no rosto
daquele homem. Não é essa a mensagem do evangelho?
Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais costumavam viver, quando
seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está
atuando nos que vivem na desobediência. Anteriormente, todos nós também vivíamos entre
eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como
os outros, éramos por natureza merecedores da ira. Todavia, Deus, que é rico em
O SENHOR VEIO
VINDICAR AQUILO QUE É
SEU POR DIREITO DE
CRIAÇÃO E POR DIREITO
DE REDENÇÃO.
misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo,
quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos.
EFÉSIOS 2.1-5
Jesus exerce a sua autoridade (v. 28-29a)
“Quando viu Jesus, gritou, prostrou-se aos seus pés e disse em alta voz: ‘Que queres comigo, Jesus,
Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te que não me atormentes!’ Pois Jesus havia ordenado que o espírito
imundo saísse daquele homem” (v. 28-29a). Reconhecendo ou não, todos nós, seres humanos,
prestamos reverência a alguém ou a alguma coisa. Nossa natureza essencialmente religiosa é
inclinada a devotar-se a um objeto de adoração que exigirá obediência absoluta (Mt 6.24). Na
medida em que adoramos, nossa própria natureza molda-se ao ídolo, se for o caso de nos
devotarmos a aspectos ou elementos da criação, ou a Deus, quando o amamos e o servimos de todo
o nosso coração.
Acontece que, na medida em que nos afastamos de Deus, pondo o nosso coração em outras
coisas e rejeitandoo seu senhorio, a imago Dei estampada em nós é substituída pela imagem do ídolo
a quem servimos. Vale a pena lembrarmos que “ídolo” é tudo aquilo que tem a nossa obediência em
vez de Deus, sejam elementos da natureza física, sejam ideologias humanas, sejam pessoas,
sentimentos ou apegos que subtraem o nosso amor pelo Senhor ao mesmo tempo em que o
canalizam para ele, o próprio ídolo. Um ídolo pode ser denunciado a partir da pergunta: “há algo em
minha vida que tem roubado meu amor e obediência a Cristo, fazendo-me abandoná-lo ou relegá-lo
a um segundo plano?”. Se a resposta for “sim”, então é preciso que nos voltemos a Deus em
arrependimento, antes que a imagem dele seja deformada em nós.
Dois reinos se confrontavam nesse momento: o reino de Deus manifestado em Cristo e o reino
das trevas manifestado por meio de Satanás. Desde que o homem se afastou de Deus na Queda, a
história bíblica se desenvolve explicitando o conflito irreconciliável entre duas sementes (a dos justos
e a dos ímpios), duas linhagens (a de Caim e a de Abel), dois povos (Jacó e Esaú), duas cidades (a de
Deus e a dos homens), duas naturezas (a divina e a humana caída), dois princípios (a carne e o
espírito), duas realidades (a celestial e o mundo corrompido).
É no momento em que Jesus chega para reclamar o seu direito como Criador e Redentor que o
inferno entra em convulsão. Diante da autoridade do Senhor, nenhum demônio resiste. Antes,
prostra-se e reconhece que ele é o “Filho do Deus Altíssimo”. Tiago afirma esse fato quando escreve
que “... até os demônios creem e tremem” (Tg 2.19). Essa imagem dos demônios se submetendo à
autoridade de Jesus é vista ao longo de todo o seu ministério terreno (cf. Mt 9.32; 12.22; 17.18; Mc
1.39; 5.13; Lc 4.35; 7.18-23; 8.32; 11.14) e não deixa de ser um ato escatológico, antecipatório do fim
dos tempos, quando tudo será submetido ao seu senhorio para todo o sempre (Mt 22.44; 1Co 15.25;
Hb 10.13; Ap 11.15).
Isso mesmo, o Senhor veio vindicar aquilo que é seu por direito de
criação e por direito de redenção. Tudo pertence a ele, pois, por meio
dele, todas as coisas foram feitas e vieram a existir (Rm 11.36; Cl 1.16),
mas também porque por sua morte e ressurreição todas as coisas lhe
foram sujeitas (Hb 2.8; Ef 1.22). Não há nada que não pertença a ele e
qualquer palmo que Satanás ocupe, ele não passa de um intruso que
deve ser expulso pelo poder de Jesus!
Os versículos 31 ao 33 reforçam a autoridade de Jesus sobre homens
É NESSE MOMENTO
QUE A SUA
HUMANIDADE PERDIDA
COMEÇA A REACENDER
EM SEU SER.
e animais. Nem mesmo os demônios podem escolher para onde vão sem que Jesus os autorize e isso
porque toda autoridade lhe foi dada “no céu e na terra” (Mt 28.18) e somente ele tem o domínio
absoluto de todas as coisas criadas (Cl 1.15-19). Entrar nos porcos não torna esses animais imundos,
mas demonstra que Jesus tem poder sobre demônios, homens e animais. Tanto céu como terra
estão ao seu inteiro dispor e obedecem à palavra do seu poder: “ele, que é o resplendor da glória e a
expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito
a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão
superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles” (Hb 1.3-4); “Chegada a tarde,
trouxeram-lhe muitos endemoninhados; e ele meramente com a palavra expeliu os espíritos e curou
todos os que estavam doentes” (Mt 8.16); “Com autoridade ele ordena aos espíritos imundos, e eles
lhe obedecem!” (Mc 1.27)
Satanás nunca negou a autoridade absoluta de Jesus como Filho do Deus Altíssimo, mas sempre
buscou e buscará desviar o nosso foco para outras direções. O seu propósito é nos fazer adorar a
criatura em vez do Criador (Rm 1.25), subvertendo, dessa forma, a ordem e o propósito da criação.
Até agora, aquele miserável homem era um prisioneiro de Satanás (Lc 13.16), mas, ao ver
aproximar-se o Senhor da glória, cai de joelhos, confessando o seu senhorio. É aqui que o gesareno
volta o seu olhar para o objeto da sua verdadeira adoração. Sua visão, antes obscurecida pelo pecado
e por Satanás, é aberta diante da majestade fulgurante do Rei dos reis e Senhor dos senhores. É nesse
momento que a sua humanidade perdida começa a reacender em seu ser e, num momento de
lucidez, ele enche os seus lábios da declaração mais poderosa e mais doce que um ser criado por
expressar: “Jesus, Filho do Deus Altíssimo” !
É aqui que a nossa humanidade, agora embrutecida, encontra-se com a nossa humanidade, antes
perdida. Jesus não está ali apenas para livrar aquele homem de tamanho tormento, mas para ser o
próprio modelo de humanidade que ele e nós devemos nos tornar, pois somente por meio dele nos
tornamos plenamente humanos.
Portanto, é somente pelo reconhecimento do senhorio de Cristo que
as correntes do pecado e da idolatria são desfeitas. É diante desse fato
que o homem, ao ver Jesus, se prostra e reconhece quem ele é. Paulo
sintetiza esse princípio quando escreve aos cristãos filipenses: “para que
ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da
terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de
Deus Pai” (Fp 2.10-11).
7 Quem sou eu?
V
A MODERNIDADE FOI
CONSTRUÍDA SOBRE ESSE
FUNDAMENTO
HUMANISTA QUE
DESTITUIU AS VERDADES
DIVINAS, AO MESMO
TEMPO EM QUE
CONSTITUIU A RAZÃO
HUMANA, DIVORCIADA
DOS PRESSUPOSTOS
ivemos cercados de questões para as quais ainda não encontramos respostas, mas é possível que
as perguntas mais perturbadoras não estejam relacionadas ao universo, ou mesmo ao mundo
material e imaterial, senão a nós mesmos. Na proporção em que buscamos explorar o cosmos, os
oceanos e até mesmo o mundo microbiológico, nos afastamos das questões mais essenciais acerca
da nossa natureza. Não que a busca por esses mundos, por si mesma, cause esse afastamento, mas é
no mínimo contraditório construirmos naves espaciais que nos levem a milhões de quilômetros da
Terra, lentes e telescópios tão potentes que podemos enxergar galáxias a anos-luz e bactérias de
tamanho infinitesimais, ao mesmo tempo em que nos tornamos estranhos a nós mesmos.
A nossa ânsia por desvendar os segredos do mundo e manipular as forças da natureza tem
esbarrado na ignorância sobre nós mesmos, por isso é tão problemático responder quem de fato
somos e é aqui, quando partimos para as últimas páginas deste livro, que voltamos para as questões
iniciais dele, pois não há como responder a essa pergunta sem sabermos para o que fomos criados,
aliás, sem saber que fomos “criados”.
Jesus devolve a identidade (v. 30)
Ao perguntar o nome daquele homem, Jesus não estava buscando saber nenhum dado de
nascimento dele, mas mostrar-lhe quanto ele havia se perdido de si: “Jesus lhe perguntou: ‘Qual é o
seu nome?’”. Isso não é nada diferente dos dias que vivemos. A quantidade de ferramentas para
autoconhecimento só nos mostra quão pouco sabemos sobre nós e é possível que esse fosso esteja
ficando cada vez maior na medida em que buscamos respostas em direções opostas a Deus.
Os debates sobre sexualidade e gênero, por exemplo, só evidenciam que, na medida em que
mergulhamos nesse universo humano sem Deus, nos encontramos na mais absoluta escuridão. Isso
ocorre, em parte, porque partimos de uma referência errada, quando usamos o humanismo como
unidade de medida para todas as coisas. Sei que essa discussão já foi amplamente realizada por
pensadores ao longo dos últimos séculos, mas vez por outra ela precisa ser remexida com
honestidade. Foi o filósofo sofista Protágoras (481 a 411 a.C.) quem afirmou que “o homem é a
medida de todas as coisas”. A partir daí nascia o relativismo como forma de compreensão da
existência, pois, se o homem é a medida de tudo, somos nós que estabelecemos o que é a verdade e
se somos nós quem estabelecemos o que é verdade, então cada um tem a própria verdade. Segundo
essa maneira de enxergar, não há verdade externa, objetiva, pois ninguém pode nos dizer o que é
certo e errado a não ser a nossa consciência.Nós é que determinamos o que é certo ou errado e isso
a partir dos próprios valores.
A modernidade foi construída sobre esse fundamento humanista,
que destituiu as verdades divinas, ao mesmo tempo em que constituiu
a razão humana, divorciada dos pressupostos teocêntricos. O homem
renascentista e iluminista é produto dessa mentalidade. A vida centrada
no homem, portanto, se constitui no fundamento sobre o qual
edificamos a civilização moderna. É a partir desse momento que
pensadores se esforçam para provar que associar crença em Deus e
razão humana é algo completamente irreconciliável, aliás, absurdo. É
daí onde surge a ideia de “Estado laico” com a proposta aparente de
não misturar religião com vida pública, sendo ambas esferas distintas
uma da outra. Ocorre que o que vemos atualmente, por parte daqueles
que defendem a ideologia de laicidade, é a imposição da vida privada
TEOCÊNTRICOS.
“QUAL É O SEU NOME?”
NÃO É UMA PERGUNTA
DE QUEM NÃO SABE
QUEM SOMOS, É A MÃO
sobre a esfera pública, além do que, como é evidente, essa laicidade é
seletiva, sobretudo quando se trata do cristianismo, uma vez que os
cristãos são ferozmente criticados quando adentram no debate público.
O fato é que na medida em que, essas discussões se ampliam, descobrimos o imenso vazio no qual
nos encontramos e do qual não conseguimos sair.
O materialismo histórico marxista, o niilismo nietzschiano e o existencialismo sartriano são
exemplos de sistemas de pensamento já divorciados da compreensão divina da existência. “A
existência produz a consciência” e não o contrário, diziam. Dessa forma, nos construímos e nos
reconstruímos na medida em que as condições históricas vão determinando a consciência e
formatando a nossa natureza. A crença em Deus se tornou coisa de gente infantil que precisa
recorrer a uma força maior para justificar aquilo que é responsabilidade humana. Nietzsche vai além
ao condenar a civilização cristã por ter abandonado os fundamentos da cultura ocidental,
instaurando o que ele chama de “moral dos fracos”; a imposição dos valores cristãos sobre desejos e
pulsões humanas.
O resultado dessa equação é a nossa geração, desencantada, desesperançada e sem qualquer
sentido, pois, na medida em que os antigos fundamentos foram demolidos, os que foram colocados
em seu lugar não eram suficientes para sustentar e nem responder às perguntas que fazíamos,
perguntas essas que, aliás, continuavam as mesmas: “Ora, destruídos os fundamentos, que poderá
fazer o justo?” (Sl 11.3). A psicanálise freudiana e a psicologia moderna também não foram
suficientes para responder essa pergunta tão essencial, uma vez que os seus pressupostos ainda estão
desvinculados das verdades teocêntricas. A busca por uma verdade se torna inútil, pois não
existiriam valores absolutos. Não sabemos quem somos, aliás, nem é possível encontrarmos esse
tipo de resposta.
Num mundo onde somos tratados por nossos números de contribuintes, onde nos tornamos mais
um na multidão, ainda encontramos a pergunta de Jesus ecoando em nossos ouvidos: “Qual é o seu
nome?”. Atordoados e atolados nas muitas camadas sob as quais afundamos, ouvimos essa pergunta
sem saber o que responder. São tantos os sedimentos culturais e ideológicos sobre nossa identidade
que sinceramente não sabemos por onde começar a retirada desses entulhos de nossa alma. Como
uma antiga cidade soterrada sob outras cidades construídas por cima dela, nos vemos fazendo um
trabalho minucioso de arqueólogo, afastando terra com pinceis e colheres em busca de algum
vestígio de quem um dia fomos e o melhor que podemos encontrar são ruínas e cacos do nosso eu.
Dessa forma, nos tornamos um enigma indecifrável para nós mesmos.
A resposta do homem endemoninhado foi: “Legião” (v. 30) e a justificativa é dada na descrição
que Marcos faz em seu Evangelho: “porque somos muitos” (5.9). Somos tantos ao mesmo tempo em
que não somos nós mesmos, aliás, não somos ninguém. Buscamos nossa real identidade nos
identificando com modas e visuais cada vez mais excêntricos (ou tentando apagá-la no anonimato),
consumindo cada vez mais na busca por inserção social, aceitação pessoal e identificação.
Extrapolamos todos os limites da erotização e da exposição nas redes sociais que nos parece não
restar mais como retrocedermos de tamanha degradação moral.
É a partir daqui que nos deparamos com alguém que realmente se
preocupa conosco, que olha em nossos olhos e busca lá no fundo do
nosso ser a essência outrora perdida. “Qual é o seu nome?” não é uma
pergunta de quem não sabe quem somos, é a mão estendida de quem
nos conhece e sabe para o que fomos criados. Perguntar o nome de
alguém é convidar para um relacionamento e, no episódio em questão,
ESTENDIDA DE QUEM
NOS CONHECE E SABE
PARA O QUE FOMOS
CRIADOS.
PRECISAMOS
CONSTANTEMENTE
VOLTAR-NOS PARA A
PALAVRA A FIM DE QUE
A NOSSA IDENTIDADE
ESTEJA FORMADA A
PARTIR DOS VALORES
ETERNOS.
um relacionamento que fora quebrado lá atrás, no Éden.
Para Deus não basta que ele tenha nos criado, pois ele o fez para nos
relacionarmos com ele. Jesus estava ali para lembrar a sua criação de
quem ela era e que só seria possível resgatar a humanidade original
perdida quando ela reconhecesse que a sua identidade deriva de quem
a criou.
Jesus não nos trata como mais um “fulano”, mas como alguém que tem um nome e uma história,
uma assinatura única. Não sabemos como aquele homem veio parar naquela situação. Muitos
fatores poderiam ter contribuído para aquilo, mas não vamos aqui fazer qualquer especulação a não
ser afirmar aquilo que o texto bíblico nos permite conhecer: ele era um “endemoninhado” (v. 27).
Contudo, ele tinha uma casa e isso significa que tinha uma família, uma história, quem sabe uma
vida social deixada para trás.
Não é difícil imaginarmos que diante de tal pergunta Jesus evoca a sua história. Ela a tira do fundo
do poço, escava as suas lembranças já apagadas pela sobreposição de outras personalidades em sua
natureza. Fazendo assim, Jesus resgata os laços afetivos que firmaram a sua identidade. É possível
que todos nós esteja-mos em algum ponto desse processo de perda de identidade. Há exemplos na
Bíblia como o do patriarca Jacó: “Perguntou-lhe, pois: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó. Então,
disse: Já não te chamarás Jacó, e sim Israel, pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens e
prevaleceste” (Gn 32.27-28).
“Como te chamas?” é como o toque de um despertador para alguém que está num profundo
sono. Jacó tem a sua vida devassada por aquela pergunta numa noite de agonia e luta. Ali a sua
trajetória de vida é evocada e os seus pecados vêm à tona. Jacó estava tão perdido nos seus próprios
caminhos que foi preciso Deus sacudi-lo com a sua presença. Era preciso lembrar dos seus votos a
Deus (Gn 28.11-22) e retomar a sua caminhada em direção ao plano divino de fazer dele uma grande
nação da qual surgiria o Salvador.
É fácil perder-nos de nós mesmos e esquecermos quem Deus nos criou para ser, por isso,
precisamos constantemente voltar-nos para a Palavra a fim de que a nossa identidade esteja formada
a partir dos valores eternos. A Palavra de Deus é o espelho de quem devemos ser, por isso,
precisamos sempre nos perceber sob sua ótica, caso contrário, a imago Dei em nós vai
empalidecendo até desaparecer: “Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante,
assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se
contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência”(Tg 1.23-24).
Jacó precisou admitir o seu pecado para receber um novo nome:
“Israel” e assim recomeçar a sua história com Deus. No caso do
homem gesareno, ele teve de reconhecer que não era mais ele, que não
sabia mais quem era para assim ter a sua vida recuperada. Ao
reconhecer quem somos (ou não somos), recebemos um novo nome,
uma nova natureza, pela qual seremos reconhecidos na eterna glória.
“Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao
vencedor darei do maná escondido. Também lhe darei uma pedra
branca com um novo nomenela inscrito, conhecido apenas por aquele que o
recebe” (Ap 2.17); “Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se
submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus” (Lc
10.20).
Recomendo que você faça um estudo de como Deus tratou com homens e mulheres na Bíblia a
QUANDO SEGUIMOS A
JESUS, E NA MESMA
MEDIDA EM QUE O
FAZEMOS, O TRAZEMOS
PARA OS ÂMBITOS MAIS
ÍNTIMOS E DIVERSOS DO
NOSSO VIVER.
partir do nome de cada um, ou chamando-os pelos nomes, ou mudando os seus nomes. O resultado
logo se vê no versículo 35: “e o povo foi ver o que havia acontecido. Quando se aproximaram de
Jesus, viram que o homem de quem haviam saído os demônios estava assentado aos pés de Jesus,
vestido e em perfeito juízo, e ficaram com medo”.
Quando nos encontramos em Cristo, ele recupera a sua imagem perdida em nossa natureza,
tornando-nos nova criação (2Co 5.17). Certamente isso se tornará evidente para aqueles que estão à
nossa volta, pois testemunharão a transformação realizada em nosso coração e saberão que “o
homem de quem haviam saído os demônios” agora está “em perfeito juízo” , ou seja, é sabedor de si
mesmo e de Deus e recuperou o seu lugar na criação: “assentado aos pés de Jesus”. Nossa nudez
espiritual e humana foi devidamente resolvida quando Cristo nos devolveu nossas vestes de glória, a
nova natureza (Ef 4.24).
Jesus o manda de volta para casa (v. 38-39)
O texto nos informa: “O homem de quem haviam saído os demônios suplicava-lhe que o deixasse ir
com ele; mas Jesus o mandou embora, dizendo: ‘Volte para casa e conte o quanto Deus lhe fez’.
Assim, o homem se foi e anunciou a toda a cidade o quanto Jesus tinha feito por ele” (Lc 8.38-39).
Em primeira análise, nos parece estranho que Jesus não tenha permitido o homem segui-lo, pelo
contrário, o mandou de volta para casa. Levar aquele homem consigo, poderíamos pensar, seria um
tremendo testemunho para o próprio Jesus, uma espécie de evidência do que ele podia fazer na vida
de alguém, contudo, Jesus fez um movimento contrário: o enviou de volta para casa. Havia outros
planos no coração do Senhor: não era o homem quem iria com Jesus, mas era Jesus quem iria com ele!
Olhar nessa perspectiva é fundamental para sabermos o que fazer logo em seguida à nossa
experiência com Deus.
Por diversas vezes vemos o Senhor desafiando os seus inter-locutores a segui-lo (Mt 8.26; 9.9;
16.24; 19.21; Mc 2.14; 10.21; Lc 9.59; 18.22; Jo 1.43; 21.22), mas, aqui, Jesus veta essa possibilidade e o
manda de volta para casa. O convite para seguir a Cristo é o convite ao discipulado e certamente
esse homem passou por essa experiência. O versículo 35 descreve o homem “assentado aos pés de
Jesus”. Na linguagem bíblica, sabemos que essa é uma descrição para aqueles que estão
comprometidos com o ensino do seu mestre, contudo, existe um outro movimento realizado no
processo de discipulado que nos é mostrado aqui, quando Jesus o envia de volta para casa e é o fato
de que, quando seguimos a Jesus, e na mesma medida em que o fazemos, o trazemos para os
âmbitos mais íntimos e diversos do nosso viver.
Fazendo isso, o Senhor estava dizendo para aquele homem: “eu
quero que você me siga, mas não esqueça que este é um caminho de
comprometimento pessoal em que, enquanto eu o levo para o céu,
você me leva por onde for”. Não há lugar mais desafiador para
manifestarmos a nova vida como aquele em que estamos mais
desarmados e desprovidos das máscaras, a saber, a nossa casa. É aí
onde as maiores feridas frequentemente são abertas e nos
vulnerabilizamos para sermos quem somos de fato. Ser uma nova
pessoa seguindo Jesus estrada fora pode ser mais confortável do que
trazer Jesus para dentro de casa, pois é aí onde nosso lado obscuro deve
ser confrontado e transformado. Não sabemos as experiências que
aquele homem tivera em casa, muito menos se a sua triste história teve um ponto de partida ou
gatilhos na relação familiar, mas sabemos que havia algo que o Senhor queria fazer nele e por meio
dele no âmbito da sua intimidade.
Esse movimento nos remete para o episódio em que Jesus, ao encontrar um homem chamado
Zaqueu, o convida a descer de uma árvore e o desafia a levá-lo para a sua casa: “Quando Jesus
chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce de-pressa, pois me convém ficar
hoje em tua casa” (Lc 19.5). Também nos lembra de quando Saulo teve um encontro com ele na
estrada para Damasco e aguardou na “casa de Judas” que Ananias viesse até ele: “Então, o Senhor
lhe ordenou: ‘Dispõe-te, e vai à rua que se chama Direita, e, na casa de Judas, procura por Saulo,
apelidado de Tarso; pois ele está orando” (At 9.11).
Como já afirmei, a casa é um lugar de intimidade, de autenticidade. É ali onde nos fragilizamos e
baixamos a guarda, por isso, devemos voltar e deixar Jesus tratar conosco exatamente nesse lugar. O
relato bíblico não diz que Jesus fora fisicamente com aquele homem, mas certamente ele o levou
consigo em sua experiência, em seu coração. Se ele era casado, sua esposa ganhou um novo marido
e seus filhos, um novo pai. Se morava com seus pais, certamente eles receberam um novo filho e,
mais do que isso, o céu recebeu um homem regenerado!
Por falar em “o céu recebeu”, permitam-me ir um pouco além: “volte para casa” nos soa como a
voz do Criador convidando a sua criação resgatada a voltar para a “casa celestial”! Creio ser essa
uma declaração que o próprio Deus aguardava fazer, um momento para o qual a história caminha e
que o universo aguarda. Será o momento mais glorioso que qualquer salvo em Jesus já
experimentou em toda a sua vida, quando ouvirá do próprio Senhor: “Vinde, benditos de meu Pai!
Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34b).
Você se alegra com essas palavras? Pode sentir seu coração exultando enquanto imagina esse
momento glorioso? Experiência semelhante teve o homem que fora crucificado ao lado de Jesus:
“Então ele disse: ‘Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino’. Jesus lhe respondeu: ‘Eu
lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso’” (Lc 23.42-43)
É com essas palavras, na cruz, que Jesus expressa para o que veio e fora crucificado: para levar
pecadores arrependidos de volta ao lar eterno! Sim, àquele lugar que um dia ocupamos e de onde,
por causa do pecado, fomos expulsos. Contudo, retornaremos não mais na condição em que o
primeiro Adão nos deixou, senão na posição em que o “último Adão”, Cristo Jesus, no outorgou por
sua morte e ressurreição! Podemos voltar para casa, despidos da imagem do terreno e, agora,
trazendo a imagem do celestial, a nossa humanidade original restaurada: “Assim como tivemos a
imagem do homem terreno, teremos também a imagem do homem celestial” (1Co 15.49).
Jesus o envia a anunciar o evangelho
“[…] e conte o quanto Deus lhe fez. Assim, o homem se foi e anunciou a toda a cidade o quanto
Jesus tinha feito por ele” (v. 38-39). Tenho aprendido ao longo dos anos que uma verdadeira
experiência com Deus nos impele a anunciar o que Cristo fez por nós. Uma real experiência com o
Senhor não estaciona naquilo que aconteceu conosco, mas se estende àqueles que estão ao nosso
redor, pois a verdadeira essência do evangelho não está apenas no que ocorre em nosso interior,
mas em como exteriorizamos o que Deus está fazendo em nós. Deus fez e continua fazendo algo em
você? Então “conte o quanto Deus lhe fez”, não se cale, exteriorize, manifeste-se como um filho e
filha da luz.
Deus quer inaugurar o seu reino em cada coração, em cada pessoa que ouve as suas boas novas
de salvação e as recebe alegre-mente. Não importa para onde vamos, se vamos, então anuncie-mos
VOCÊ E EU ESTAMOS
VOLTANDO PARA CASA
E DEVEMOS CONTAR
AO MUNDO O QUE
CRISTO FEZ POR NÓS.
o que Deus está fazendo: “Os que haviam sido dispersos pregavam a palavra por onde quer que fossem” (At
8.4)
Enquanto voltamos para a casa celestial, devemos “contar”, anunciar, pregar, testemunhar,
proclamar o evangelho que restaura a identidade humana e nos devolve à condição para a qual
fomos criados, mas observe: “o homemse foi e anunciou a toda a cidade o quanto Jesus tinha feito por ele”.
É enquanto voltamos para casa que alcançamos nossas cidades. Talvez seja por isso que em
Apocalipse vemos uma “cidade” (capítulo 21). Deus tem uma paixão pelas cidades, e, embora a sua
fundação tenha acontecido por motivo de rebelião contra ele, é lá onde vidas destruídas pelo pecado
se encontram e agonizam todo dia como aquele homem agonizava. É na cidade onde o pecado com
todas as suas perversões e distorções se potencializa, degradando ainda mais os seres humanos.
Contudo, embora a cidade seja um antro de demônios e de toda sorte de maldade, é aí onde o
evangelho floresce e finca suas raízes, tornando o inabitável habitável, as trevas em luz, a morte em
vida, o ódio em amor, a culpa em graça, o choro em alegria e o sofrimento em vida abundante.
Não esqueça disto: você e eu estamos voltando para casa e devemos contar ao mundo o que
Cristo fez por nós. E aqui está uma grande mudança que o evangelho realiza em nós: um senso de
inadequação com este mundo, um desconforto agonizante com o status quo em que vivíamos, ao
mesmo tempo que coloca um anseio pela nossa casa celestial, enquanto anunciamos as maravilhas
de Deus: “Para sempre anseio habitar na tua tenda e refugiar-me no abrigo das tuas asas.” (Sl 61.4);
“Sei que a bondade e a fidelidade me acompanharão todos os dias da minha vida, e voltarei à casa do
Senhor enquanto eu viver” (Sl 23.6).
Perceba como o anseio de voltar para casa está diretamente ligado
ao desejo de que outros conheçam o evangelho. O caminho para o céu
não é um caminho solitário, mas acompanhado por todos aqueles que
um dia foram tornados filhos de Deus. O livro de Salmos contém os
salmos de degraus ou de romagem (120 a 134). Essas orações eram
recitadas enquanto o povo de Deus subia a Jerusalém para as festas do
Senhor. Era enquanto se dirigiam ao lugar que representa a nossa
eterna habitação que o povo proclamava as maravilhas de Deus,
cantando, orando, celebrando e lembrando quem era e para onde ia.
É aqui onde retomo o ponto anterior: “volta para casa” também é um chamado a experimentar a
comunhão da igreja, pois é aí onde vivemos a antecipação ou antegozo da casa celestial em
companhia de outros santos, sendo mutuamente edificados enquanto proclamamos ao mundo as
grandezas de Deus.
Todo crente em Jesus tem uma casa para habitar, um lugar onde possa crescer em santificação,
prestar contas a outros irmãos, cultuar a Deus em comunidade e proclamar as boas-novas de
salvação. É nesta casa que conhecemos outros que, como nós, um dia tiveram a sua humanidade
original restaurada e refletem ao mundo a imagem daquele que nos criou. Estar na “casa da igreja”,
portanto, é nos preparar para voltarmos ao nosso jardim celestial de delícias eternas onde
habitaremos eternamente com outros salvos na presença do nosso Deus.
Jesus veio para nos devolver a humanidade perdida. Ele veio para nos fazer mais humanos e isso
significa devolver-nos a identidade perdida no Éden como seres criados à imagem e semelhança de
Deus.
Conclusão
O que Jeffrey Dahmer tem a ver comigo?
A Netflix adaptou para uma minissérie em dez episódios a ma-cabra história de Jeffrey Dahmer, réu
confesso do assassinato de 17 homens e garotos, entre os anos 1978 e 1991, nos EUA. Não é o
primeiro filme sobre o caso. Na versão original, em inglês, o título aparece como: Dahmer —
Monster: The Jeffrey Dahmer Story [Dahmer — Monstro: A história de Jeffrey Dahmer]. Após atrair
suas vítimas, o jovem as sedava, estuprava e as matava. Então, dissecava seus corpos, cometia
canibalismo e guardava partes deles em formol para comê-los depois. O clima do filme é pesado,
não tanto pelas cenas, mas porque nos traz para dentro da natureza humana caída com todas as suas
implicações.
Assistir àqueles angustiantes episódios me fez pensar em quão longe o pecado pode nos levar e
em quão longe de Deus e de sua graça podemos ir. No episódio oito, Lionel, pai de Jeffrey e um
típico americano conservador, confessa que, em épocas passadas, também teve pensamentos
homicidas e, por isso, se culpava pelo estado do filho. Aos prantos, ele diz à sua esposa, Shari: “ele
tem meu gene, Shari. Metade daquele menino sou eu e eu já tive pensamentos iguais aos dele. Tive
sim. Eu tentava fazer explosivos. E eu usava fogos de artifício e amarrava um soldadinho neles. Um
dia, levei uma bomba caseira para a escola e joguei ela pela droga da janela, pelo amor de Deus!”.
Diante do protesto de Shari de que isso não é a mesma coisa, ele a interrompe e confessa: “Eu tinha
fantasias como ele também, acho. Tinha uma menina no bairro e ela morava na nossa quadra e eu
tentei hipnotizá-la, porque… Eu não sei… Para ela fazer o que eu quisesse. E eu ficava na igreja,
pensando em como seria matar alguém, assassinar”.
A questão que se impõe é complexa e inevitável: Jeffrey nasceu ou se tornou assim? Como
explicar — se é que isso é possível — que um ser humano possa ter cometido tamanhas atrocidades?
E ainda: há mais “Jeffreys” por aí? Nós também abrigamos essas potencialidades degeneradas em
nós? Não temos dúvida de que algo de errado aconteceu. Mas quando e como isso aconteceu? Essa é
uma questão proposta pelo diretor do filme.
Como qualquer criança, Jeffrey teve pais com problemas no casamento. Aliás, sua mãe, Joyce
Dahmer, teve depressão pós-parto e era dependente de psicotrópicos. O menino também sofria
bullying na escola. Qual desses fatores foi o responsável? Ou terá sido o somatório deles? Quiçá sua
personalidade introspectiva? Jeffrey recusou o diagnóstico de problema mental e afirmou que todos
os seus crimes foram cometidos em sã consciência, embora tenha sido clinicamente constatado o
seu quadro de transtorno de personalidade esquizotípica e transtorno psicótico.
Após morrer, o cérebro de Jeffrey foi alvo de uma disputa judicial entre sua mãe, que era a favor
de que o órgão fosse entregue para estudos científicos, a fim de identificar e evitar que o mesmo
ocorresse novamente, e seu pai, que era a favor de sua destruição, cumprindo o desejo do falecido.
Lionel ganhou a disputa e o cérebro de Jeffrey foi incinerado, ficando a dúvida no ar.
Sabemos que o caso esbarra em uma questão médica, patológica. Não podemos afirmar que
pessoas que se convertem a Cristo têm seus problemas de ordem mental necessariamente curados.
Ainda lidamos com toda sorte de debilidades emocionais e mentais como depressão, transtornos de
ansiedade e de atenção, quadros de borderline, bipolaridade, esquizofrenia e tantas outras patolo-
gias de ordem mental para as quais a ciência tem se debruçado e alcançado significativos avanços em
seus tratamentos. Não há razão para concluir que todos esses problemas serão definitivamente
resolvidos. Mas sinto-me confortável, à luz do que foi demonstrado neste livro, em afirmar que o
pecado causou sérios danos à natureza humana, danos que estão além da compreensão da ciência.
No entanto, esse não precisa ser o desfecho de todas as histórias, pois, como vimos, não há abismo
no qual a graça de Jesus não possa nos alcançar e nos resgatar.
A Bíblia e a história estão fartas de outros “Jeffreys” que não tiveram o mesmo fim, que tiveram
seu curso de vida alterado por um encontro transformador com o Criador e que tiveram sua
humanidade recuperada. Sabemos que ainda lutamos contra áreas que nos parece terem sido mais
afetadas pelo pecado. Mas, como afirmado na epígrafe deste livro: “O amor os ressuscitara [...]. Mas
aqui já começa outra história, a história da renovação gradual de um homem, a história do seu
paulatino renascimento, da passagem progressiva de um mundo a outro, do conhecimento de uma
realidade nova, até então totalmente desconhecida”.[Nota 1]
Todos os dias, mais e mais dessa humanidade perdida nos é de-volvida, restaurada, recuperada,
transformada pelo toque gracioso de Jesus e pela ação santificadora do seu Espírito Santo (2Co 3.18).
Notas do Capítulo
Nota 1 - Fiódor Dostoiévski, Crime e castigo. São Paulo: Editora 34, 2009. [Voltar]
Sobre o autor
Marcos Arraisé pastor-fundador e presidente da Comunidade Bíblica do Calvário, em São Paulo
(SP). Mestre em Divindade pelo Seminário Servo de Cristo, é pós-graduado em Filosofia pela Uni-
fesp e graduado em Sociologia, com especialização em Teologia e História do Protestantismo
Brasileiro, pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Iniciou seu ministério de tempo integral,
em 1993, no Amazonas, trabalhando com tribos e populações ribeirinhas nos rios Negro, Solimões e
Amazonas. Promoveu apoio a igrejas locais, com projetos de evangelização, ação social e
treinamento de obreiros para o ministério junto com a esposa, Edilian. Pastoreou igrejas em
Manaus, Fortaleza e São Paulo. É pai de Abner e João Marcos e avô de Lourenço. Contatos:
marcoslarrais@gmail.com; marcosarrais.com.br; twitter.com/marcosarrais;
instagram.com/marcoslarrais.
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	Sumário
	Agradecimentos
	Prefácio
	Introdução
	Parte 1
	Como olhar para esse texto?
	Quem é o homem?
	Parte 2
	A realidade do pecado
	Gesara e a corrosão do humano
	O gesareno e o paradigma da humanidade caída
	Parte 3
	Como o evangelho restaura a humanidade
	Quem sou eu?
	Conclusão
	Sobre o autor

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