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Copyright © 2023 por Marcos Arrais Publicado por Aprisco Edição de texto Abner Arrais Capa Marcus Nati Diagramação Luciana Di Iorio Ilustração de capa Tiago Elias Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei nº 9.610, de 19/02/1998, que torna ilegal a reprodução total ou parcial deste livro, por quaisquer meios (PDFs, eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação e outros), ou o seu compartilhamento, mesmo sem fins lucrativos, sem prévia autorização, por escrito, da editora. Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram retiradas da Nova Versão Internacional (NVI). Os grifos são de responsabilidade do autor. CIP-Brasil. Catalogação na publicação Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ A773 Arrais, Marcos Restaurados: O retorno da humanidade ao plano original de Deus / Marcos Arrais — 1. ed. — Rio de Janeiro: GodBooks, 2023. 112 p. ISBN 978-65-89198-53-6 1. Teologia. 2. Bíblia. 3. Estudos bíblicos. 4. Espiritualidade. I. Título CDD: 241 CDU: 242 Categoria: Teologia Publicado no Brasil com todos os direitos reservados por: GodBooks Editora Rua Almirante Tamandaré, 21/1202, Flamengo Rio de Janeiro, RJ, Brasil, CEP 22210-060 Telefone: (21) 2186-6400 Fale conosco: contato@godbooks.com.br www.godbooks.com.br 1ª edição: março de 2023 Ao Lourenço Emanuel, meu neto amado, rebento bendito do Senhor. Que sua vida seja uma marca de verdadeira humanidade em Cristo num mundo assolado pelo pecado. Sumário Agradecimentos Prefácio Introdução Parte 1 — A Criação 1. Como olhar para esse texto? 2. Quem é o homem? Parte 2 — A Queda 3. A realidade do pecado 4. Gesara e a corrosão do humano 5. O Gesareno e o paradigma da humanidade caída Parte 3 — A Redenção 6. Como o evangelho restaura a humanidade 7. Quem sou eu? Conclusão Sobre o autor O amor os ressuscitara [...]. Mas aqui já começa outra história, a história da renovação gradual de um homem, a história do seu paulatino renascimento, da passagem progressiva de um mundo a outro, do conhecimento de uma realidade nova, até então totalmente desconhecida. FIÓDOR DOSTOIÉVSKI Agradecimentos E screvi este livro em um momento muito difícil. O mundo ainda caminhava para o fim de uma pandemia, carregando cicatrizes e feridas abertas. Isso teve impacto em aspectos econômicos, sociais, políticos, culturais — e pessoais. O mundo mostrou quão instável é. Na mesma época, presenciamos um cenário político conturbado e uma guerra brutal com repercussões internacionais assustadoras. Também não saí ileso de tudo isso. Como pastor, senti o peso de pastorear uma igreja nesses tempos desafiadores e, como pai e marido, precisei reunir forças de onde não as tinha para conduzir a minha família. Minha gratidão a Deus tem como base o fato de eu estar escrevendo estas linhas. É sinal de que atravessei esse vale com saldos, e este livro faz parte disso. Agradeço a Deus por minha esposa, Edilian, que me sustenta e não desiste de mim. Seu caráter firme, temperamento estável e apoio incondicional têm fortalecido um melancólico as-sumido. Louvo a Deus por meus filhos, Abner e João Marcos. São meus companheiros — não mais aprendizes, mas companheiros. É maravilhoso vê-los caminhando no Senhor e dando frutos no seu Reino. Abner me deu suporte editorial e incentivo moral para que eu prosseguisse com este projeto. João Marcos é inspirador, entusiasta, muito inteligente e contribuiu com várias ideias. Louvo a Deus por minha nora, Victoria, a quem nutro carinho e alegria por vê-la crescendo no Senhor e dando frutos de vida cristã autêntica. Seu coração de serva sempre me faz lembrar de Jesus. Sou grato a Deus pela Comunidade Bíblica do Calvário, igreja à qual sirvo desde 2012 e que me permite ser pastor presidente desde então. Pastoreá-los é inspirador e ao mesmo tempo desafiador. Vocês me inspiram a cada semana e me desafiam a buscar em Deus coisas melhores do que as que eu tenho para lhes oferecer. Sou grato ao meu querido irmão em Cristo e amigo Fabiano Medeiros, que, com sua experiência no mercado editorial, proporcionou o encontro deste autor com a GodBooks, que faz com que meu trabalho tenha sido coroado com a publicação por uma editora de excelência. Sou grato a Deus por ter me permitido escrever este livro, principalmente aquelas páginas em que eu não tinha certeza se estava descrevendo o homem gesareno ou a mim mesmo. Certamente, a misericórdia do Senhor tem me sustentado cada vez que meus pulmões inspiram o oxigênio da vida. Ele é quem me sustenta, mesmo quando meus pés vacilam. Soli Deo gloria. Prefácio Q uando a natureza humana se corrompeu, por meio do pecado, o caos se instaurou por completo. Em seu desespero, a busca incansável por alívio da dor ou por qualquer remédio que pudesse pelo menos minorar a angústia, o homem foi mergulhando em um abismo existencial cada vez mais profundo. É como alguém que se debate na tentativa de sair da areia movediça, quase que ouvindo a música fúnebre ressoar nos ouvidos enquanto tenta, sem sucesso. Houve um período da história — tão bem aprofundado pelo autor —, após o fim da Idade Média, ou Era das Trevas, em que sábios que se autodenominaram “iluminados” propuseram organizar a sociedade com base nos fundamentos da razão, da ciência e dos experimentos. Assim, se autodefiniam porque acreditavam haver encontrado em seus raciocínios a luz necessária para se responder à pergunta acerca de qual seria o sentido da vida. Pensavam possuir a chave do conhecimento como fruto dos esforços humanos respaldados no que de bom pudesse ser encontrado no próprio homem — na razão, nos pensamentos e na capacidade de enxergar o mundo de forma melhor, em comparação aos anos anteriores (que, aos seus olhos, não passavam de um período de trevas). Mal sabiam eles que as trevas não se limitavam a um período da história apenas. Elas estavam muito mais próximas deles do que imaginavam; na verdade, dentro deles mesmo — e quão profundas eram essas trevas! Era assim, por mais que seus raciocínios bem elaborados pudessem trazer uma falsa sensação de que o problema existencial do homem estava resolvido. Não estava! Os séculos seguintes provaram que seus melhores pensamentos não produziram uma sociedade melhor — que o digam os sepulcros, aos milhares, de vozes caladas em nome da razão e do falso saber, oriundos de guerras e conflitos incessantes promovidos por sofismas, ou seja, pela mentira com roupagem de verdade. Mas a desgraça humana nunca foi o destino de apenas um período da história, aqui ou ali. Caim continuou matando Abel de geração em geração. Quantos projetos de torres de Babel terão de ser confundidos para que o homem entenda quanto está perdido em sua busca de respostas para o seu vazio? De geração em geração, encontramos homens e mulheres sem rumo, despidos de dignidade, autoflagelando-se em suas cadeias e correntes, enquanto clamam dia e noite em seu desespero, longe da casa do Pai, sem saber como voltar. Em meio a essa tragédia humana é que encontramos o endemoninhado de Gesara, tão bem analisado pelo autor deste livro. Confesso meu leve e momentâneo ceticismo — mesmo que por apenas poucos minutos —, de achar que essa história já não tinha mais nada a oferecer, a partir da ótica de quem já a tinha estudado e pregado sobre ela por tantas vezes, embora não subestimando a capacidade do meu amigo por um segundo sequer. No entanto, qual não foi a minha grata surpresa ao descobrir percepções novas e muito profundas ao me debruçar sobre o conteúdo já a partir das primeiras linhas. A maneira como somos levados a conhecer a dor do gesareno e quanto do seu sofrimento também é o sofrimento de todo homem sem Deus — ainda que com roupagens diferentes —, foi extremamente exitosa. Que satisfação perceber quão feliz foi o meu amigo Marcos Arrais, pastor e professor, ao comparar o homem dos sepulcros com a realidade da humanidade igualmente morta em seus delitos e pecados. Acima de tudo, que honra poder participar deste projeto tão especial, onde temos o privilégio de concluir que Cristo nos revelou aresposta que os filósofos não encontraram no caminho dos nossos sepulcros. Não tenho dúvidas de que este livro conduzirá seus leitores a uma reflexão profunda acerca do caos humano e a sua real e genuína saída para ele. Boa leitura! WILSON MAIA DOS SANTOS Pastor da Igreja Voz, em Ribeirão Preto (SP) Introdução O que separa o pior criminoso do melhor cidadão? As respostas são variadas: condições socioeconômicas, índole ou até mesmo desajustes mentais e psicológicos. Houve um período em que a conduta de um indivíduo era associada a questões raciais. Assim, dependendo do grupo étnico a que pertencia, o sujeito era considerado mais ou menos tendencioso a determinados comportamentos desviantes. As ciências sociais compreendem esses fatores como resultado de conjunturas sistêmicas, ou seja, as condições socioeconômicas como a falta de acesso aos bens econômicos ou as oportunidades sociais e culturais como fatores que produzem criminalidade, condutas desviantes e comportamentos periculosos. A pergunta que desejo fazer não é o que separa esses grupos, mas se há algo que realmente os separa. Somos mesmo tão diferentes ou seria apenas uma reação cínica de quem tem igual potencial destrutivo e só aguarda uma condição favorável para pôr para fora todos os impulsos pecaminosos que já se encontram dentro de nós? Sentimo-nos chocados quando nos deparamos com casos que trazem comoção nacional como se fossem “nós e eles”. Nós, bons cidadãos, e eles, “seres degenerados”. Estaria certa a tese de Jean-Jacques Rousseau, filósofo francês do século 18, de que o homem é intrinsecamente bom, mas corrompido pela sociedade? Ou somos bestas feras à solta, domados pelas normas sociais, mas que de vez em quando, ao nos soltarmos delas, somos capazes de despedaçar-nos uns aos outros? São notórios em nosso país crimes que chocaram a sociedade e trouxeram comoção pública, como o caso de Suzane Von Richthofen, jovem de classe média alta que, na década de 1990, conspirou contra os próprios pais, planejando o assassinato brutal de seus progenitores. Também não ficou sem menor notoriedade o que ocorreu com o médico geneticista mais famoso do país, dr.Roger Abdelmassih, que violentou não menos que 37 pacientes enquanto elas se encontravam sedadas para a realização do procedimento de inseminação artificial. O caso Isabella Nardoni, uma menina morta aos cinco anos de idade, também deixou a nação sob choque. A criança foi jogada da janela de um apartamento no 6º andar de um condomínio. Seu pai e sua madrasta cumprem pena até hoje por terem sido acusados de tamanha barbaridade. Outros casos também dão história para filme, como foi com Elize Matsunaga, que, em 2012, matou e esquartejou o seu marido Marcos Kitano Matsunaga, presidente de uma grande companhia alimentícia, acomodando as partes do seu corpo dentro de uma mala e abandonando-a em um matagal. Nesse pacote de horrores, podemos incluir linchamentos, abandonos, espancamentos, estupros, assassinatos. E, ainda, os crimes de corrupção que lesam o país, por parte da elite política, maus tratos a vulneráveis, destruição gananciosa do meio ambiente e exploração de trabalhadores. Sim, estou falando de coisas que acontecem todos os dias bem debaixo do nosso nariz; e, sim, é o nosso mundo, país, círculo de amigos, vizinhos, familiares e — porque não imaginar — nós mesmos! Este não é um livro policial ou sociológico. Tenho certeza de que encontraremos cada um desses casos escritos e analisados em obras bem documentadas para esse fim. Este é um livro que busca entender, à luz da Palavra de Deus, como criaturas criadas à imagem e semelhança de Deus chegaram aqui. É certo que não podemos jogar tudo na conta de um único fator: seja ele econômico, social, cultural ou mental. Crimes, atrocidades e até mesmo pequenos desvios, como infrações de trânsito, ocorrem em todos os grupos sociais e culturais. Podemos dizer que a maldade é universal, assim como o pecado (Rm 3.23). E, em termos ontológicos, não há nada que separe o melhor dos cidadãos do pior dos criminosos. Algo une, em uma única categoria, todas as pessoas: eu, você, Suzane, Roger, Alexandre Nardoni, Anna Carolina Jatobá, Madre Teresa de Calcutá, o místico João de Deus e Martin Luther King Jr. Instrução cultural, O HOMEM GESARENO É O ARQUÉTIPO DA HUMANIDADE DETERIORADA QUE TEM UM ENCONTRO COM O SENHOR E, ENTÃO, A SUA VERDADEIRA HUMANIDADE É RESTAURADA. condição econômica, saúde psicológica e antecedentes criminais não dão conta de explicar a realidade disso. Algo que transcende sistemas políticos, avanços tecnológicos, conjunturas culturais e até mesmo crenças religiosas. É sobre isto que trata este livro: o que deu errado com a humanidade. A imagem escolhida por este autor é a de um homem ordinário numa cidade ordinária: um homem endemoninhado, degenerado social, cultural e espiritualmente e, por que não dizer, humanamente. O homem gesareno é o arquétipo da humanidade deteriorada que tem um encontro com o Senhor e, então, a sua verdadeira humanidade é restaurada. O meu objetivo é demonstrar, pela história do gesareno, como chegamos até aqui e como podemos fazer o caminho de volta à nossa humanidade conforme criada por Deus. Para isso, quero convidar você a refazer comigo o caminho perdido lá no Éden para compreendermos como Jesus vem ao nosso encontro e nos conduz à restauração da imagem divina perdida. Com o intuito de lhe proporcionar boa leitura, estruturei os capítulos deste livro no que chamo de “hermenêutica da redenção”. Ele segue a ordem linear da história da salvação — Criação, Queda, Redenção e Consumação —, conduzindo sua percepção ao grande plano de Deus: a restauração da ordem criacional. A história do homem gesareno segue essa lógica de maneira sublime, o que a tira de um mero encontro pontual e a coloca no cerne da própria história humana. Navegaram para a região dos gesarenos, que fica do outro lado do lago, frente à Galileia. Quando Jesus pisou em terra, foi ao encontro dele um endemoninhado daquela cidade. Fazia muito tempo que aquele homem não usava roupas, nem vivia em casa alguma, mas nos sepulcros. Quando viu Jesus, gritou, prostrou-se aos seus pés e disse em alta voz: “Que queres comigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te que não me atormentes!”. Pois Jesus havia ordenado que o espírito imundo saísse daquele homem. Muitas vezes ele tinha se apoderado dele. Mesmo com os pés e as mãos acorrentados e entregue aos cuidados de guardas, quebrava as correntes, e era levado pelo demônio a lugares solitários. Jesus lhe perguntou: “Qual é o seu nome?”. “Legião”, respondeu ele; porque muitos demônios haviam entrado nele. E imploravam-lhe que não os mandasse para o abismo. Uma grande manada de porcos estava pastando naquela colina. Os demônios imploraram a Jesus que lhes permitisse entrar neles, e Jesus lhes deu permissão. Saindo do homem, os demônios entraram nos porcos, e toda a manada atirou-se precipício abaixo em direção ao lago e se afogou. Vendo o que acontecera, os que cuidavam dos porcos fugiram e contaram esses fatos, na cidade e nos campos, e o povo foi ver o que havia acontecido. Quando se aproximaram de Jesus, viram que o homem de quem haviam saído os demônios estava assentado aos pés de Jesus, vestido e em perfeito juízo, e ficaram com medo. Os que o tinham visto contaram ao povo como o endemoninhado fora curado. Então, todo o povo da região dos gesarenos suplicou a Jesus que se retirasse, porque estavam dominados pelo medo. Ele entrou no barco e regressou. O homem de quem haviam saído os demônios suplicava-lhe que o deixasse ir com ele; mas Jesus o mandou embora, dizendo: “Volte para casa e conte o quanto Deus lhe fez”. Assim, o homem se foi e anunciou a toda a cidade o quanto Jesus tinha feito por ele. LUCAS 8.26-39 1 Como olhar para esse texto? N ossa perspectiva sobre as Escrituras faz total diferença, tanto em sua leitura quanto em como vivenciá-las. É necessário, portanto, afirmar de início minhas principais convicções sobre elas e me certificar de quevocê, ao ler este livro, buscará fazê-lo com o mesmo olhar. Isso é importante não apenas para que compreenda o que proponho neste trabalho, mas também porque considero importante saber como olhar para a Bíblia. O que é a Bíblia e para o que ela serve A Bíblia é um livro salvífico. Isso significa que por meio dela encontramos o plano de salvação divina para o homem perdido. Certamente, nenhum escritor dos livros da Bíblia enfrentou reinos poderosos ou deu sua vida apenas para nos transmitir bons ensinos motivacionais, dicas de bem- estar emocional, fazer de nós empreendedores de sucesso, formular sistemas políticos ou nos fazer pessoas melhores. A Bíblia é mais do que tudo isso junto! É o livro da revelação de um Deus que intervém em favor de suas criaturas, revelando tanto seu plano eterno quanto seu caráter na medida de nossa compreensão. Apesar de ser composta por 66 livros em diferentes estilos literários, escritos por diversos autores (estima-se 40) em diferentes lugares e culturas em um intervalo de 1.900 anos, seu conteúdo salvífico não diverge entre si, pelo contrário, converge para uma única pessoa: a pessoa bendita de Jesus Cristo. Cada livro, personagem e evento registrados evidenciam o plano divino para libertar o homem das correntes do pecado e da morte, restaurando-o à condição de ser criado à imagem e semelhança de Deus e, portanto, alvo de seu amor, devolvendo-lhe, assim, ao relacionamento original com o Criador. Por esse motivo, não podemos nem devemos reduzir as Escrituras a temas secundários. Imagine Deus descendo no Sinai e dando a Moisés as tábuas da lei apenas para nos dar padrões éticos e morais que em si mesmos resolveriam os nossos problemas. Ou o profeta Isaías e Jeremias sofrendo perseguição até morte para nos deixar dicas práticas de resiliência; ou João na ilha de Patmos escrevendo o Apocalipse para nos ensinar resistência política a um reino passageiro; ou Paulo colocando em risco sua cabeça contra um império poderoso e religiosos enfurecidos para nos falar sobre competências socioemocionais e gestão de carreira. Ou, talvez, imagine Jesus dizendo aos seus seguires: “É isso aí, minha gente! Tudo o que estava escrito ao meu respeito era para que vocês fossem bons empresários, aprendessem uma melhor didática ou fossem pessoas mais amorosas e compreensivas!” Em vez disso, após ressuscitar, ele disse a dois discípulos que estavam perdidos em sua leitura das Escrituras: “Como vocês custam a entender e como demoram a crer em tudo o que os profetas falaram! Não devia o Cristo sofrer estas coisas, para entrar na sua glória?” E começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras. LUCAS 24.25-27 Não devemos olhar para nenhum fato ou texto da Bíblia isolado de seu tema central, apartado do enredo da redenção. Se assim o fizermos, correremos o risco de apequenar ou distorcer a grande narrativa redentora. Devemos olhar para cada milagre, cura, parábola, libertação, ensino, visão e profecia na Bíblia conectados a um fio condutor, de Gênesis a Apocalipse, que nos revela algo muito maior. EXPOR-SE À BÍBLIA É MAIS QUE VOLTAR-SE PARA PRINCÍPIOS ÉTICOS E MORAIS. É PÔR ORDEM DIVINA AO CAOS HUMANO, TRAZER O GOVERNO CELESTIAL À DESORDEM CÓSMICA, TER RESTAURADA A ORDEM CRIACIONAL. O QUE VEMOS NO EPISÓDIO DESSE Logos A Bíblia é mais que uma compilação de livros ou dados culturais e literários. Ela carrega a própria Palavra Criativa de Deus (Hb 11.3). Na doutrina da criação, compreendemos que Deus, por meio de sua Palavra, trouxe à existência tudo o que existe. Em outras palavras, o universo foi formado pela boca de Deus. Sim, todas as coisas visíveis e invisíveis passaram a existir pela verbalização do Todo-poderoso.[Nota 1] No primeiro capítulo do livro de Gênesis, encontramos Deus, por meio de sua Palavra, criando ex nihilo, ou seja, “a partir do nada”, sem qualquer matéria-prima preexistente (Rm 4.17). Essa Palavra continuou ecoando pela boca dos santos profetas (cf.Lc 1.17; At 3.1; 2Pe 2.3) até que a própria Palavra, o Logos eterno, Jesus Cristo, encarnou no mundo dos homens (Jo 1.1,14). Na criação, encontramos a própria Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo — envolvida nesse ato sublime: o Pai falando e o universo vindo a existir (Sl 33.6-9); o Filho, que é a própria Palavra, sendo pronunciado e trazendo à existência todas as coisas (Jo 1.1-3); e o Espírito pairando, de modo a preparar e proteger o núcleo caótico da criação para trazer à existência a realidade divina (Gn 1.2). Portanto, expor-se à Bíblia é mais que voltar-se para princípios éticos e morais. É pôr ordem divina ao caos humano, trazer o governo celestial à desordem cósmica, ter restaurada a ordem criacional. Ela não só expõe nossa desordem, mas a submete ao governo de Deus que sustenta a nova ordem (Hb 1.3). Deus não pode ser dissociado de sua Palavra, sendo um intrínseco ao outro. Quando Deus fala, ele cria e põe ordem no caos, mas também se doa. Daí, podemos inferir que a Palavra é tanto de Deus quanto o próprio Deus. Entendendo a Escritura pela Escritura Quero convidá-lo a olhar para o texto de Lucas 8.26-36 não apenas como um milagre isolado, uma situação excepcional ou um punhado de ensinos e princípios que devemos assimilar para obter vitória em áreas específicas de nossa vida, mas como a própria história humana, o que chamamos de “drama da redenção”. Aqui, entenda “drama” como uma maneira de explicitar a condição humana e a intervenção divina na história. Um drama é uma peça, uma obra de arte encenada. O drama da redenção, porém, não se acaba quando os personagens se inclinam, recebem os aplausos da plateia e as cortinas se fecham. Ele continua há milhares de anos. Na verdade, ele existe desde a eternidade, antes mesmo da criação do tempo — ainda que para nós comece em Gênesis — encontrando o seu ponto alto nos Evangelhos e seu desfecho em Apocalipse. Essa perspectiva nos ensina a olhar para a Bíblia como o relato inspirado de como Deus intervém na história humana em pelo menos três atos: Criação, Queda e Redenção. Lei, Profetas, Escritos, Evangelhos, Atos, Epístolas e Apocalipse — toda a Escritura é esse grande tratado universal de como o Deus criador conduz seu plano eterno de acordo com sua infinita sabedoria. O que vemos no episódio desse homem, habitante da cidade de Gesara, é nossa história — minha, sua e de todos os seres humanos, que vieram e um dia virão a esse mundo caído. Esse homem não é apenas um indivíduo degenerado em uma pequena cidade a cerca de HOMEM, HABITANTE DA CIDADE DE GESARA, É NOSSA HISTÓRIA — MINHA, SUA E DE TODOS OS SERES HUMANOS, QUE VIERAM E UM DIA VIRÃO A ESSE MUNDO CAÍDO. 50 quilômetros do lago de Genesaré, na Galileia, há mais de dois mil anos. Antes, é o retrato do primeiro Adão, da criatura separada do Criador. É assim que convido você a enxergar esse acontecimento. Portanto, é imperativo que olhemos para esse evento não como um incidente, mas como o esboço do que ocorreu no jardim do Éden e do que ocorrerá segundo Apocalipse. Mergulhe comigo no fascinante enredo bíblico da redenção, no qual a história do homem gesareno busca nos localizar. Esse enredo se desenvolve em três atos, que correspondem às três partes principais deste livro: Criação, Queda e Redenção. Notas do Capítulo Nota 1 - Para mais sobre a doutrina da criação, veja Gregg R. Allison. 50 verdades centrais da fé cristã: Um guia para compreender e ensinar teologia. São Paulo: Vida Nova, 2021. [Voltar] 2 Quem é o homem? Q ue ser estranho e complexo é esse que surge nas planícies terrestres locomovendo-se sobre seus dois membros inferiores, abstraindo o mundo material ao seu redor, dominando a natureza, criando cidades, organizando-se social e politicamente, produzindo arte e poesia, escravizando, matando e expandindo o seu mundo sobre outros mundos? Toda a ciência está mobilizada em busca dessa pergunta. Os grandes pensadores da história procuraram defini-lo e compreendê-lo, artistas e poetas o idealizam e o romantizam,outros o demonizam. Afinal, somos animais que enlouqueceram? Somos demônios que invadiram o paraíso? Somos anjos que caíram do céu? Somos um aglomerado de células e sinapses condicionado às alterações ambientais e sociais e determinado pelos instintos ou contextos culturais? Somos bons ou maus? A fé cristã define o ser humano a partir de um evento denominado “Criação”. Vejamos: Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. GÊNESIS 1.26-27 O cristianismo define a identidade humana a partir da sua origem, ou seja, somos criação de Deus, ou, como o apóstolo Paulo define: “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos” (Ef 2.10). A perda dessa compreensão da nossa origem nos faz sair em busca de quem somos em lugares errados. Na melhor das hipóteses, nos leva a encontrar apenas aspectos ou dimensões dessa complexa identidade. Cada ramo da ciência busca decifrar o humano em sua perspectiva, seja biológica, cultural, política, social, geográfica, linguística, metafísica etc. Mas, ao buscar compreender apenas uma parte, reduzimos toda a realidade àquela esfera. Por exemplo, somos animais políticos, como afirmou Aristóteles, mas não apenas isso. Somos animais que fabricam, como afirmou Marx, mas também não apenas isso. A ciência moderna tem se empenhado ao máximo tanto ao analisar o mundo microbiológico, quanto ao empreender observações e viagens espaciais na busca da compreensão de nossa origem. Somos poeira estelar? Somos uma espécie complexa que se formou a partir de organismos unicelulares que foram se desenvolvendo diante de condições climáticas e biológicas específicas? É possível que sejamos tudo o que cada ramo da ciência afirma sermos, mas não somos apenas isso. Portanto, nenhuma resposta será suficientemente satisfatória se não for compreendida à luz de Gênesis. Governos já gastaram e ainda gastarão trilhões buscando decifrar nossa identidade, centenas de milhares de livros foram e ainda serão escritos sobre o assunto e debates acalorados acontecerão em busca de decifrar esse mistério. A resposta, porém, está bem diante dos nossos olhos: na Bíblia Sagrada. Talvez ela não nos dê as respostas para tudo o que queremos, mas, certamente, nela temos as respostas para tudo o que precisamos. A afirmação categórica e indubitável da Bíblia é que fomos criados por Deus. Não a partir de elementos isolados da natureza que se desenvolveram de maneira espontânea e independente. E isso não é tudo: Deus não apenas nos criou, mas nos fez a partir de si mesmo! Esse fato bíblico está carregado de implicações para entendermos a natureza humana. APESAR DE O PECADO TER CORROMPIDO A NOSSA NATUREZA, ELE NÃO ANIQUILOU ATRIBUTOS COMUNICÁVEIS DE DEUS QUE FORAM INFUNDIDOS EM NOSSA IDENTIDADE POR SUA GRAÇA COMUM. Os seres humanos compartilham a essência divina A visão bíblica de imago Dei deveria ser chocante para os povos antigos, uma vez que apenas reis eram considerados deuses ou filhos dos deuses. Isso assegurava o poder daqueles que o detinham, como era o caso de Roma, em que os seus imperadores eram adorados como divindades, ou da China antiga, onde o monarca também era assim considerado. O mesmo ocorria no antigo Egito, onde faraó era venerado como filho do Deus Sol. Na mitologia grega, os seres humanos são retratados como uma espécie de marionetes manipuladas ao bel-prazer dos entes divinos. Portanto, afirmar que qualquer mortal trazia em si marcas da divindade era tão absurdo quanto um egípcio naqueles dias pensar que faraó, rei do Egito, era tão somente um homem. Ser imago Dei é o fundamento para o que hoje conhecemos como direitos humanos, pois, apesar de o pecado ter corrompido a nossa natureza, ele não aniquilou atributos comunicáveis de Deus que foram infundidos em nossa identidade por sua graça comum. Ainda podemos, por exemplo, amar, doar-nos, sentir empatia, solidarizar-nos, indignar-nos com a injustiça e desejar a verdade. Quando afirmamos que Deus compartilha sua vida conosco, não estamos falando de qualquer tipo de vida, como a biológica. Todos os seres vivos existentes no planeta têm um tipo de vida compartilhada: “Quando sopras o teu fôlego, eles são criados, e renovas a face da terra” (Sl 104.30); “porque ele mesmo dá a todos vida, o fôlego e as demais coisas” (At 17.25). Todos os seres vivos são dependentes de certas condições para existirem, seja luz, oxigênio, proteínas ou quaisquer outros componentes orgânicos e inorgânicos. Faltando-lhes essas substâncias, encerra-se a vida. Os teólogos, contudo, costumam distinguir dois sentidos de vida: bios, vida animal, e zoe, vida eterna . A qualidade de vida que Deus deu aos seres humanos, para além da bios, diz respeito à sua própria natureza compartilhada, sua zoe: “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente.” (Gn 2.7). Sim, fomos criados. Não foi, porém, uma criação impessoal por parte de um deus impessoal. Somos parte do alento de um Deus amoroso que nos criou de maneira tão peculiar, a partir de si mesmo. Isso não nos torna deuses, mas certamente faz de nós criaturas sem igual. Ao ler as notícias diárias ou até mesmo ao dar uma olhada no espelho, pode ser difícil acreditar que em algum lugar dentro desses seres decaídos que todos nós nos tornamos havia uma lâmpada divina acesa no que hoje é uma escuridão mórbida, um sol de justiça brilhando com toda a sua força em um deserto gelado, uma pulsação eterna vital em nosso peito ou uma alegre sinfonia em nossos tímpanos. Mas, hoje, mesmo sem nos darmos conta, carregamos o vazio dessa condição perdida. É por essa e outras razões que não acredito que o resgate de nossa identidade passe por um mero ajuste comportamental. É por isso que precisamos ler a Bíblia como um livro de salvação e descobrir o plano divino de como voltarmos à nossa condição perdida. Os seres humanos podem relacionar-se com Deus Apenas seres de uma mesma espécie conseguem se relacionar como pares. Assim, quando Deus nos criou a partir de si, ele o fez para que desfrutássemos de um relacionamento pleno com ele. Se os seres humanos foram criados para se relacionar com Deus, a falta desse relacionamento tem um efeito devastador. Certamente conhecemos aqueles casos trágicos de pessoas que deixaram de conviver com seus parentes e amigos, ao mesmo tempo em que se confinavam com animais de estimação até perderem completamente os vínculos com os seus semelhantes. Não é preciso ser um especialista em psicologia para concluir que se trata de um comportamento doentio que certamente os levará ao pior quadro psíquico. Deus nos criou com capacidade de nos relacionarmos com ele como semelhantes, ou seja, sendo nutridos com o amor, a segurança, a aceitação e tudo o mais de que necessitamos para que a nossa identidade fosse alimentada de maneira saudável. Mas há mais: quando pensamos em relacionamento, precisamos imaginar algo que é uma via de mão dupla. Isso quer dizer que Deus também se deleitava com esse relacionamento, não porque fosse uma necessidade, mas porque por meio desse relacionamento ele era glorificado. Não é à toa que Jesus chamava Deus de Pai. Ao chamá-lo assim, Jesus mostrou o relacionamento correto que deveríamos ter com Deus. Também mostrou que, se queremos nos relacionar com Deus como Pai, devemos nascer espiritualmente dele, pois somente ao compartilhar de sua natureza podemos desfrutar dessa relação: “Em resposta, Jesus declarou: ‘Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o reino de Deus, se não nascer de novo’” (Jo 3.3); “porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14). Em outras palavras, somente nascidos de Deuspodem ser guiados por ele e se relacionar com ele, desfrutando das bênçãos do seu Reino. É nesse ponto que a fé cristã é necessária para a compreensão da natureza humana, pois, se definimos “humanidade” a partir do entendimento de nossa origem conforme descrita em Gênesis, ser plenamente humano está ligado a viver em comunhão com Deus e desfrutá-lo por meio de um relacionamento pessoal com ele. Essa compreensão tem sido considerada tão fundamental na história do cristianismo que um de seus principais catecismos diz: Pergunta: Qual é o fim principal do homem? Resposta: O fim principal do homem é glorificar a Deus, e desfrutar dele para sempre.[Nota 1] Os seres humanos refletem ou espelham Deus na criação Ser “imagem” significa que “derivamos de”. Uma “imagem” é uma imagem “de algo ou de alguém”. Assim, a imagem não existe por si mesma, mas é reflexo de um original, no sentido de origem. Assim como um quadro ou uma escultura que partem de uma fonte originária, de uma categoria pré-existente, não sendo formada a partir do nada ou da aleatoriedade, os seres humanos também derivam de uma fonte originária e essa fonte é Deus. Portanto, nossa autenticidade está em refletirmos a imagem de Deus, em sermos imago Dei. Se refletirmos qualquer outra imagem, distorceremos o nosso propósito original. Não é difícil vermos na beleza dos pássaros, das flores e das paisagens um reflexo da beleza do próprio Deus. Não estamos falando, porém, apenas do aspecto estético, visual, mas também do moral e da forma com que nos relacionamos com as coisas criadas. Portanto, refletir a Deus significa doar-nos como Deus, com-padecer-nos como Deus e amarmos como Deus. O aspecto fundamental aqui está no fato de que só podemos refletir aquilo que contemplamos. Os seres humanos refletiam Deus porque o contemplavam. A Criação se sujeitava ao homem não apenas porque era homem, mas porque nesse ser estava estampada a imagem do próprio Criador. A CRIAÇÃO SE SUJEITAVA AO HOMEM NÃO APENAS PORQUE ERA HOMEM, MAS PORQUE NESSE SER ESTAVA ESTAMPADA A IMAGEM DO PRÓPRIO CRIADOR. Sob essa ótica, é fácil concluirmos a razão pela qual a criação tem se voltado contra nós. As imagens de satélites não mostram apenas as terríveis devastações ambientais, as gigantescas clareiras em nossas florestas, as imensas manchas de poluição em nossas águas e os enormes buracos em nossa atmosfera. Essas imagens também expõem os deuses que passamos a contemplar e a espelhar: a ganância, a cobiça e o egoísmo. Fazendo uma analogia com o nosso papel-moeda, estamos devastando a natureza criada por Deus e estampando-a em nossas cédulas apenas para dizer o que tudo isso significa para nós: poder. Refletir a imagem divina não é uma tarefa apenas individual, mas comunitária. Não é uma questão apenas de meio ambiente, mas de como espelhamos essa imagem uns para os outros. Tanto homem quanto mulher, por terem sido criados à imagem de Deus, representavam igualmente essa imagem um para o outro: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.27); “Este é o registro da descendência de Adão: Quando Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez; homem e mulher os criou. Quando foram criados, ele os abençoou e os chamou Homem” (Gn 5.1-2). Os seres humanos representam Deus na criação Dizer que somos imago Dei significa compreendermos que somos mordomos, ou seja, somos responsáveis por administrar, em nome de Deus, as coisas criadas. A figura de um mordomo ou administrador é bastante rica nas Escrituras, principalmente nas parábolas de Jesus. Ela nos adverte para o fato de que, embora desfrutando abundantemente de toda provisão de que necessitamos, devemos nos servir dela com a consciência de que não somos seus donos, mas seus administradores. Dentre várias figuras bíblicas que nos chamam atenção para esse ponto, a que mais me impressiona é a de José no Egito. Na casa de seu senhor Potifar: O Senhor estava com José, de modo que este prosperou e passou a morar na casa do seu senhor egípcio. Quando este percebeu que o Senhor estava com ele e que o fazia prosperar em tudo o que realizava, agradou-se de José e tornou-o administrador de seus bens. Potifar deixou a seu cuidado a sua casa e lhe confiou tudo o que possuía. Desde que o deixou cuidando de sua casa e de todos os seus bens, o Senhor abençoou a casa do egípcio por causa de José. A bênção do Senhor estava sobre tudo o que Potifar possuía, tanto em casa como no campo. Assim, deixou ele aos cuidados de José tudo o que tinha, e não se preocupava com coisa alguma, exceto com sua própria comida. José era atraente e de boa aparência. GÊNESIS 39.2-6 Na casa de faraó: Disse, pois, o faraó a José: “Uma vez que Deus lhe revelou todas essas coisas, não há ninguém tão criterioso e sábio como você. Você terá o comando de meu palácio, e todo o meu povo se sujeitará às suas ordens. Somente em relação ao trono serei maior que você”. E o faraó prosseguiu: “Entrego a você agora o comando de toda a terra do Egito”. Em seguida o faraó tirou do dedo o seu anel de selar e o colocou no dedo de José. Mandou-o vestir linho fino e colocou uma corrente de ouro em seu pescoço. GÊNESIS 41.39-42 Na casa de seu pai: Então o faraó disse a José: “Seu pai e seus irmãos vieram a você, e a terra do Egito está a sua disposição; faça com que seu pai e seus irmãos habitem na melhor parte da terra. Deixe-os morar em Gósen. E se você vê que alguns deles são competentes, coloque-os como responsáveis por meu rebanho”. GÊNESIS 47.5-6 Que figura esplêndida! Mesmo em meio a um mundo caído, Deus deixou pistas ou marcas de sua obra nas coisas e pessoas criadas para que pudéssemos desejar a realidade plena estabelecida na criação. Ao enviar Jesus, Deus trouxe novamente a possibilidade de nos tornarmos plenos administradores ou mordomos, legítimos representantes seus neste mundo, aqueles que carregam o seu anel de selar. Cristo, portanto, é o supremo administrador da casa de Deus: Moisés foi fiel como servo em toda a casa de Deus, dando testemunho do que haveria de ser dito no futuro, mas Cristo é fiel como Filho sobre a casa de Deus; e esta casa somos nós, se é que nos apegamos firmemente à confiança e à esperança da qual nos gloriamos. HEBREUS 3.5-6 Mas não é apenas isso, pois Cristo nos devolveu a condição de mordomos fiéis: “Portanto, que todos nos considerem como servos de Cristo e encarregados dos mistérios de Deus. O que se requer destes encarregados é que sejam fiéis” (1Co 4.1-2); “Cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas” (1Pe 4.10). Os seres humanos, portanto, são definidos a partir da sua semelhança com o seu Criador. Somente eles podem compartilhar da sua natureza, relacionar-se com ele, refleti-lo e representá-lo. Notas do Capítulo Nota 1 - Breve Catecismo de Westminster, pergunta 1. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/catecismos/brevecatecismo_westminster.htm>. Acesso em: 26 de out. de 2022. [Voltar] 3 A realidade do pecado C A IDOLATRIA TAMBÉM SUBSTITUI O TODO PELA PARTE, FAZENDO-NOS ASSIMILAR APENAS ASPECTOS ISOLADOS DA CRIAÇÃO OU MESMO DO PRÓPRIO DEUS, LEVANDO-NOS A DISTORÇÕES PERIGOSAS. hegamos ao acontecimento mais trágico da história: o pecado. Não quero que você pense na Queda apenas como um termo técnico usado em livros e dicionários de teologia, mas como uma realidade na qual estamos imersos desde o momento em que fomos concebidos no ventre de nossa mãe (Sl 51.5). Essa realidade é tão brutal que encerrou em cadeias toda a Criação: A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à futilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. ROMANOS8.19-22 O pecado é subversão Isso significa que a ordem estabelecida por Deus foi subvertida a tal ponto que todas as coisas criadas se corromperam drasticamente, experimentando a morte e a destruição, após ter vivido em terrível sofrimento e rebelião. Se compararmos Gênesis 3 com Romanos 1, por exemplo, teremos um quadro de causa e efeito que trará náuseas aos leitores atentos. Por causa da Queda, a realidade foi alterada e distorcida. Nossas noções sobre Deus, sobre nós mesmos e sobre o mundo ao nosso redor sofreram profundo abalo, a tal ponto que Deus teve de intervir pessoalmente para resgatar-nos. Caso contrário, jamais encontraríamos o caminho de volta. O pecado foi um golpe humano contra a nossa dependência de Deus. Não só a criação fora afetada, mas o próprio homem teve a imagem divina distorcida nele, pois separou-se da vida do Deus Criador: “mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá” (Gn 2.17). O pecado é idolatria A subversão do pecado configurou-se na substituição da nossa lealdade a Deus ao mudar o objeto de nossa devoção. Toda substituição da glória que só pertence a Deus é o que chamamos de “idolatria” ou “prostituição espiritual”. O idólatra é aquele que inverte a imagem no original e passa a conduzir a sua vida não mais a partir da verdade, mas da ilusão, do engano e da distorção. Ela faz com que cópia e original troquem de lugar, dando, portanto, à cópia o status mais importante. A idolatria também substitui o todo pela parte, fazendo-nos assimilar apenas aspectos isolados da criação ou mesmo do próprio Deus, levando-nos a distorções perigosas. O agravante da idolatria é que ela tem o poder de degenerar cada vez mais o idólatra, porque esse começa a refletir a imagem da cópia que, por sua vez, vai se distorcendo quando novas cópias vão sendo reproduzidas e refletidas, até se distanciarem completamente de sua origem, perdendo inteiramente as suas referências iniciais. Pense no homem gesareno como essa imagem feita a partir da cópia, da cópia, da cópia... até chegar à realidade que lemos no Evangelho de Lucas. Em Romanos 1, como mencionei acima, Paulo demonstra pelo menos sete inversões que o pecado causou na humanidade: O PECADO, PORTANTO, NÃO DESTRUIU ESSES ASPECTOS ESSENCIAIS DA VIDA HUMANA, MAS OS DISTORCEU, DANDO A ELES OUTRAS FINALIDADES. • A inversão da verdade pela injustiça (v. 18) • A inversão do conhecimento de Deus pela futilidade do pensamento (v. 21) • A inversão da sabedoria pela loucura (v. 22) • A inversão da glória de Deus por imagens de homens e animais (v. 23) • A inversão da verdade de Deus pela mentira (v. 25) • A inversão da criatura em Criador (v. 22) • A inversão das virtudes pelos vícios (v. 26-31) Todo pecado, por princípio, é pecado de idolatria. Foi o reformador João Calvino quem disse que o coração do homem é uma fábrica de ídolos1 e o ídolo tem o poder de moldar os nossos afetos e desejos para aquilo que lhe agrada. O ídolo distorce os nossos desejos porque distorce a imagem de Deus em nós. Mesmo que seja um sentimento bom, ou até mesmo um aspecto legítimo da criação, quando elevado à categoria de soberano sobre nós tem o poder de arruinar-nos. O pecado é rebelião contra Deus O pecado não destruiu as coisas boas que Deus fez. Ainda temos a natureza exuberante, o gosto pela arte e pela beleza. Preferimos a paz e não a desordem e as guerras. Sentimos compaixão pelos fracos e necessitados. Indagamos sobre nosso propósito na vida, desejamos algo além deste mundo. Amamos, sentimos ternura, nos indignamos com a injustiça. Todavia, o pecado mobilizou nossos desejos e vontades em aberta rebelião contra Deus. Permanecemos fabris, ou seja, trabalhadores produtivos, mas o trabalho se tornou fonte de angústia, sofrimento e exploração. Ainda somos gregários, gostamos de estar em sociedade, mas nos tornamos hostis ao diferente e criamos muitos problemas. Somos criativos, mas inventamos máquinas e métodos de destruição. O sexo, por exemplo, foi banalizado e usado para fins egoístas. O pecado, portanto, não destruiu esses aspectos essenciais da vida humana, mas os distorceu, dando a eles outras finalidades. O pecado foi concebido sob o apelo de não precisarmos mais de Deus: “Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.5). Toda manifestação do pecado tem como objetivo nossa independência de nossa fonte vital: é rebelião aberta contra a ordem criacional e desejo perverso de substituirmos Deus por nós mesmos. O pecado, em última análise, é substituição do senhorio de Deus por nosso senhorio. Mas não fomos criados para viver separados de Deus. Por isso, a palavra “separação” é traduzida por “morte”. É isso que acontece quando nos rebelamos contra o Senhor: somos desplugados da fonte vital que nos alimenta e da qual dependemos a cada segundo. Paulo deixa esse fato claro quando escreve aos cristãos efésios: Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais costumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência. Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira. EFÉSIOS 2.1-3 O pecado é a vida autocentrada Em Gênesis 3, a proposta da serpente é nos tornar deuses de nós mesmos para não precisarmos do Deus verdadeiro. O pecado não nos tirou as afeições nem os talentos dados por Deus. Ele os usou de maneira errada, dando-lhes novos rumos, distorcendo-os, porque mudou o eixo do qual estávamos fixados, o centro gravitacional em torno do qual orbitávamos. Passamos a viver para a autossatisfação e a autoafirmação, expondo a medonha rebeldia de nossos corações e lançando-nos à pior de todas as desgraças: o banimento da presença de Deus: Por isso o Senhor Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora tirado. Depois de expulsar o homem, colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida. GÊNESIS 3.23-24 4 Gesara e a corrosão do humano O UM DOS PAPÉIS DAS LEIS É CONTER O PECADO NO HOMEM, NA MEDIDA EM QUE ELAS IMPÕEM LIMITES PARA A AÇÃO HUMANA. MAS DEFINITIVAMENTE ELAS NÃO MUDAM NOSSO ESTADO DE PECAMINOSIDADE. quadro que observamos na cidade de Gesara é apenas uma amostra da humanidade sem Deus. Nada separa daquele homem os moradores da cidade. Ambos estão debaixo da mesma condição de iniquidade e degradação espiritual e moral. Aliás, nada nos separa daquele homem, nem nos faz melhores do que ele ou nos isenta de chegarmos à mesma situação a que chegara. Quando pensamos tanto no estado deplorável em que aquele homem se encontrava quanto na aparente normalidade da cidade — todos indo aos seus trabalhos e cultivando a aparente normalidade da vida — é como se houvesse um enorme abismo entre um e outro. No entanto, quem expulsou Jesus da cidade não foi o homem endemoninhado, mas os cidadãos de bem que moravam ali. Isso mesmo: ambos estavam do mesmo lado do abismo, ambos viviam na mesma condição de iniquidade e degeneração humana (Rm 3.23), diferenciados apenas pelo que chamamos de “civilidade”. Pois enquanto os moradores daquele lugar ainda eram contidos pelas leis e regras sociais, aquele homem havia perdido todos os filtros, revelando a realidade mais cruenta de nossa condição decaída. Em Ensaio sobre a cegueira,[Nota 1] o escritor português José Saramago demonstra que, deixado à própria sorte, o ser humano é capaz de cometer as piores atrocidades. Isso ocorre porque, quando perdemos a noção das leis e das normas sociais, nos tornamos bestas-feras prontas a devorarmos uns aos outros. Um dos papéis das leis é conter o pecado no homem, na medida em que elas impõem limites para a ação humana. Mas definitivamente elas não mudam nosso estado de pecaminosidade.As leis podem regular a convivência, mas não transformam o nosso coração. Particularmente, sou um entusiasta da educação. Acredito piamente que, quando ampliamos os nossos conhecimentos, somos capazes de educar nossa mente e nosso comportamento. Acredito que uma razão esclarecida pode nos tirar das trevas da ignorância e ampliar o nosso mundo. Mas, definitivamente, a educação não nos torna mais humanos no sentido intrínseco ou ontológico da palavra. É bastante possível que subamos muitos degraus no conhecimento técnico e desçamos outros na compreensão do humano. A história testemunha civilizações avançadas em ciência, artes e técnica que se entregaram à barbárie. A cultura e as leis roma-nas não foram suficientes para não produzirem pessoas hediondas como, por exemplo, os imperadores Nero e Calígula. Também não puderam conter o estilo de vida degenerado daquela civilização que acabou indo abaixo, mesmo sendo o maior império da época. O início do século 20 também testemunhou as duas Grandes Guerras Mundiais, em que as maiores potências do mundo civilizado promoveram as piores carnificinas da história. Isso pôs abaixo o projeto iluminista com sua fé na razão humana como promessa de redenção. A Alemanha nazista e a União Soviética socialista criaram os maiores campos de concentração humanas e de trabalho forçado da história, além de desenvolverem os métodos mais nefastos de morte em massa. Vimos até onde podemos chegar quando os EUA lançaram duas bombas nucleares sobre duas cidades japonesas, Hiroshima e Nagazaki, incinerando milhões de pessoas instantaneamente. O que dizer ainda do holocausto judeu e armênio? O que dizer de tiranos como Saddam Hussein, no Irã; de Muamar Kadafi, na Líbia; Mao Tsé-Tung, da China; Kim Jongil, na Coreia do Norte; Mobutu Sese Seko, no Zaire, e isso sem contar os clássicos Adolf Hitler, Josef Stalin, Benito Mussolini, dentre tantos. Poderíamos falar sobre as políticas desumanas promovidas por diversos QUANDO A NOSSA IDENTIDADE NÃO ESTÁ ANCORADA EM DEUS, VAMOS ACEITANDO países, como o Apartheid, na África do Sul, as políticas de segregação racial na América do Norte, que promoviam o ódio racial, e as políticas de eugenia, até mesmo ações terroristas como a que ocorreu em 11 de setembro pela Al-Qaeda e continuam ocorrendo pelo grupo Estado Islâmico. Não é preciso ir tão longe. Todos nós conhecemos histórias horríveis de “cidadãos normais” que assassinaram pais, filhos ou cônjuges. Pessoas que pagam impostos, levam cãezinhos para passear e reciclam o seu lixo, mas que escondem dentro de si as piores podridões. Todos os dias, pessoas ainda são brutalmente mortas; mulheres, estupradas; inocentes, escravizados; frágeis, espancados; e tantos milhões são submetidos à fome, à sede e a toda forma de condições desumanas. Diariamente, vendo as notícias do mundo afora, dirigindo pelas ruas da cidade ou mesmo realizando tarefas cotidianas como fazer compras, tenho a impressão de que estamos à beira do caos. Tenho a sensação de que qualquer fagulha pode acender o pavio desse enorme barril de pólvora que chamamos de civilização e que não somos em nada diferentes dos moradores daquela cidade e muito menos daquele homem. Talvez você pense que a minha visão sobre a humanidade seja pessimista — e em parte o é. Como cristão, meu entendimento de pecado original me obriga a compreender a natureza humana pecaminosa como um charco cheio de torpezas, suscetível ao pecado e que engole facilmente a nossa identidade até desaparecer na caricatura que estamos buscando compreender neste homem. Se estamos debaixo da influência do pecado e não de Cristo, nosso coração esconde as piores coisas, que estão apenas esperando o momento para se manifestarem: “Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias” (Mt 15.19). A diferença entre o homem endemoninhado e os cidadãos daquela cidade é que o evangelho nos permite enxergarmos um sem os filtros do pecado, enquanto os outros se mostram como cidadãos decentes que só querem trabalhar e pagar suas contas. Aquele homem retrata a realidade espiritual da cidade, pois ambos estavam igualmente separados de Deus. A perda de si O problema do homem contemporâneo é a perda do conhecimento de si mesmo, a alienação ou o alheamento de quem somos em razão de termos perdido a referência de quem fomos criados para ser. Vivemos uma epidemia de transtornos de personalidade e crises agudas de ansiedade. Uma das razões é que não sabemos mais quem somos. O texto diz: “Jesus lhe perguntou: ‘Qual é o seu nome?’. ‘Legião’, respondeu ele; porque muitos demônios haviam entrado nele” (Lc 8.30). Uma pergunta tão simples, que trouxe à tona um problema tão complexo: “qual é o seu nome?”. Quando eu leio o evangelho, me encanto com a imensa sabedoria e simplicidade do nosso Senhor. Ele poderia ter perguntado tantas coisas, mas começou pelo fato mais básico: quem ele era. Seu objetivo era resgatar a identidade soterrada sob camadas e mais camadas de iniquidade, uma identidade perdida e esquecida que se apagara com a legião de demônios que habitava aquele homem. Quando a nossa identidade não está ancorada em Deus, vamos aceitando todas as influências e imposições que se apresentam a nós, até que um dia nos olhamos no espelho e não sabemos mais quem estamos contemplando ali. Simplesmente fomos permitindo que as outras pessoas ou o mundo como um todo fossem imprimindo marcas estranhas ao que Deus nos criou para sermos. Vamos perdendo nossa TODAS AS INFLUÊNCIAS E IMPOSIÇÕES QUE SE APRESENTAM A NÓS. O QUE VEMOS NO TEXTO QUE LEMOS É O QUE CONHECEMOS POR CORROSÃO DA IDENTIDADE, QUE NOS LEVA À PERDA DA NATUREZA HUMANA CONFORME FOMOS CRIADOS PARA TER. originalidade, nossa peculiaridade tão própria de quem somos, até nos tornarmos desconhecidos para nós mesmos, invasores habitando os próprios corpos, embrutecidos e alheios a quem realmente somos. A perda da identidade ou alienação de si mesmo é a pior forma de opressão demoníaca. O homem gesareno respondeu que seu nome era “Legião”. Havia tantos “eus” que nele habitavam, tantos desejos conflitantes, que nenhum resíduo de si se encontrava mais ali. Como insetos em enxame ou soldados em legião, ele havia perdido o senso de individualidade, aquilo que lhe era próprio e o orientava como pessoa, para dar lugar a uma espécie de instinto de manada, que o impulsionava a fazer o que fazia sem consciência de quem era. Todos os dias, somos submetidos a mecanismos de controle que buscam padronizar nossos comportamentos, roubando nossa subjetividade. Tais mecanismos exercem poderosas forças que impõem valores e padrões estranhos aos de Deus sobre nossa mente. Eles buscam redirecionar nossas afeições, fazendo-nos amar o que deveríamos odiar e odiar o que deveríamos amar. Tais mecanismos são quase onipresentes, pois se apresentam nas leituras que fazemos, nos filmes a que assistimos, nas músicas que ouvimos, nos rótulos dos produtos, na estética, na arte, muitas vezes estampados em nossas roupas. São os conceitos em que somos levados a acreditar e que muitas vezes mentem sobre nós, sobre a realidade e sobre Deus. Tais padrões estão por toda par-texto que lemos te: em nossos trabalhos, escolas, faculdades, academias e até mesmo dentro de casa. Quando dormimos, o nosso cérebro vai processar todas essas informações, organizando-as e mobilizando nossos desejos na direção apontada por esses artifícios até que nossa personalidade seja inteiramente moldada. O que vemos no texto que lemos é o que conhecemos por corrosão da identidade, que nos leva à perda da natureza humana conforme fomos criados para ter. Mesmo pensadores seculares reconhecem que enfrentamos esse risco iminente e que precisamos enfrentá-lo. Ainda que com outros nomes e olhares e não reconhecendo o problema do pecado, tais pensadores denunciam formas de desumanizações promovidas por fatores externos a nós, que disputam nossas vontades e nos submetem a formas de embrutecimento. SigmundFreud, conhecido como o pai da psicanálise, afirmava que todos trazemos transtornos de personalidade ou neuroses responsáveis por desajustes de comportamentos. Para ele, isso ocorre na medida em que o superego, uma forma de imposição de normas sociais no processo de socialização, se impõe sobre nossos instintos, suprimindo nosso id, o “animal instintivo dos seres humanos”. Nossos desejos ou pulsões são suprimidos pela civilização e isso nos faz criar os tabus. O pensador Karl Marx chamou de “alienação” o processo em que os seres humanos, despossuídos de sua mão de obra e alheios ao próprio trabalho, são submetidos à despossessão de si mesmos, na medida em a consciência do que estão produzindo é subtraída deles. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, no final do século 19, acusava o cristianismo por ter imposto a “moral dos fracos” sobre os fortes, impedindo que um “super-homem” emergisse na civilização. Os existencialistas do século 20 condenavam toda forma de escapismo do mundo em troca de uma felicidade futura. Para eles, a nossa essência é construída pela existência, podendo ser alterada ao longo da vida, a cada passo que damos. Daí surgem as ideias de Simone de Beauvoir sobre a construção social do sexo. Jean-Paul Sartre chamava de “má-fé” a transferência de nossas responsabilidades mundanas para terceiros. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman analisou a fluidez da identidade do homem pós-moderno, marcado pelo consumis-mo e pela desintegração dos valores sólidos antes presentes na modernidade. Isso nos trouxe ao relativismo presente em nossos dias, somando-se ao pessimismo e ao desencantamento com os grandes sistemas políticos e econômicos, bem como as instituições tradicionais, como a religião e o Estado. Tal postura transformou a ideia de relativismo em “diversidade”, ou “pluralidade”, afirmando que a identidade humana, assim como o mundo, de modo geral, não é algo monolítico, uniforme, sólido, mas marcado sobretudo pela relativização das normas e dos valores humanos, estando a identidade incluída nessas categorias. Poderíamos gastar páginas e mais páginas trazendo as ideias desses e outros pensadores que se debruçaram sobre o problema humano, no entanto, eles não chegam nem perto do nosso real dilema, uma vez que alguns deles podem até acertar algumas consequências, mas ignoram sua verdadeira causa: a nossa alienação ou separação em relação a Deus. O fato é que a natureza humana foi corrompida e corroída no Éden! Notas do Capítulo Nota 1 - São Paulo: Companhia das Letras, 2020. [Voltar] 5 O gesareno e o paradigma da humanidade caída A NÃO ERA MAIS O HOMEM QUE REFLETIA A IMAGEM DO DEUS TRINO, MAS O HOMEM QUE TRAZIA A IMAGEM DO PECADO E A DEFORMIDADE DOS DEMÔNIOS ESTAMPADA NO SEU ROSTO. partir daqui, voltaremos para o que este livro se propõe: olhar para o processo de corrupção e restauração da identidade humana, tendo como arquétipo o que Lucas narra no seu Evangelho; todavia, o faremos à luz do drama da redenção, pois estamos diante de algo muito maior do que um caso isolado. “Foi ao encontro dele um endemoninhado daquela cidade” (v. 27) No Éden havia uma relação de perfeita harmonia entre Deus e o homem. Criador e criatura se deleitavam mutuamente, um por cumprir o seu propósito de ser imagem e semelhança do Senhor de todo o universo, outro por ver a própria imagem refletida naquele a quem criara. Esse cenário refletia a plena ordem da criação e cada vez que o homem se encontrava com o seu Criador, a imagem do Senhor era ainda mais refletida na criação, tornando o homem representante legítimo de Deus na terra. Não é difícil de imaginarmos esse quadro nas palavras de Paulo: “E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito” (2Co 3.18). O homem podia ver a Deus sem os filtros da cultura e do pecado, podia contemplar o seu Criador e desfrutar de sua presença renovada e cada vez mais gloriosa. Não é difícil imaginarmos o deslumbre do homem diante da santidade de Deus, a quem adorava e, por isso, era mais e mais iluminado. Não é difícil imaginarmos que a cada encontro o Senhor se deparava com um homem cada vez mais parecido com ele e que refletia mais a sua glória na criação. Era um encontro diante do qual a criação observava atentamente, pois ali Deus se relacionava com alguém criado à própria imagem e semelhança. Eram seres que compartilhava a mesma natureza. Mas, ao voltarmos a Gesara, vemos um cenário completamente diferente. Não era mais um homem glorificado, mas degenerado, não se tratava mais do homem coroado, mas humilhado, não era mais o homem que refletia a imagem do Deus trino, mas o homem que trazia a imagem do pecado e a deformidade dos demônios estampada no seu rosto. É isso o que o pecado faz conosco: ele deforma a imagem do Criador em nós. Esse evento nos faz lembrar do último encontro entre Deus e o homem no jardim: “Ouvindo o homem e sua mulher os passos do Senhor Deus que andava pelo jardim quando soprava a brisa do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim” (Gn 3.8). Como no Éden, aqui temos um novo encontro entre o Criador e a criatura, no entanto, a natureza desse novo encontro era completamente diferente, pois Criador e criatura não estavam mais unidos e em perfeita comunhão, senão separados pelo pecado. Ali estava o primeiro Adão diante do último Adão. Um trazia a imagem de Deus, o outro trazia a deformidade de Satanás; um era o modelo de quem Deus nos criou para sermos; o outro, o que o pecado fez de nós; um trazendo a imagem da vida, o outro a imagem da morte; um era a imagem do celestial, o outro a imagem do terreno; um exalava o cheiro de morte, o outro o perfume da vida. Que cena incrível, mas precisamos pensar nesse reencontro como o reflexo da missão de Jesus: “Pois o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19.10); “Jesus lhes respondeu: ‘Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores ao A DEGENERAÇÃO arrependimento’” (Lc 5.31-32). Ao contemplarmos esta cena com as lentes do evangelho, podemos compreender que a restauração da identidade humana passa pela restauração da imagem de Deus em nós: “e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador” (Cl 3.10). Cristo Jesus, Aquele que é a “imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Cl 1.15), “o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser” (Hb 1.3) é o projeto divino que se contrapõe ao projeto do pecado que aquele homem representa. “Fazia muito tempo que aquele homem não usava roupas” (v. 27) No âmbito da cultura, sabemos que o vestuário é uma das forças mais poderosas, uma vez que as roupas (ou a falta delas), principalmente em sociedades mais tradicionais, definem a civilidade e a que grupo social o indivíduo pertence. As roupas são também sinais de como nos encaixamos (ou não) nas normas de moralidade estabelecidas em cada cultura. Todavia, aquele homem estava despido não apenas de roupas, mas, sobretudo, da noção da própria civilidade. Embrutecido como um animal selvagem, não se atinha mais às normas de conduta tão próprias de seres racionais. Voltando a uma espécie de estado de natureza, as regras sociais não lhes eram mais úteis e sequer podiam ser assimiladas por ele. Fico preocupado com certos discursos que vão de encontro às normas culturais. Tais discursos encorajam as pessoas a subverterem as regras socialmente aceitas e muitas vezes são facilmente comprados pelos mais jovens que ainda não estão com sua identidade bem consolidada, tornando-se ativistas (ou “passivistas”?) contra tudo aquilo que consideram opressor. Esse foi o caso dos movimentos contraculturais dos anos 1960, que apregoavam a subversão dos valores “burgueses” e “capitalistas”. Com o lema “sexo, drogas e rock and roll”, aqueles jovens inconformados com o “sistema” e revoltados com asinstituições tradicionais, como a família, o Estado e a igreja, entregaram-se a um comportamento quase primitivo, em que os instintos tinham mais lugar do que as normas sociais. Com a justificativa de “liberdade” e “emancipação”, outros grupos na atualidade acusam a civilização de reprimirem os seus desejos, impondo prisões culturais que não levam em conta a diversidade das pessoas, obrigando-os a se adequarem a padrões pré-estabelecidos e normatizadores por parte daqueles que dominam. Não nego que há certa legitimidade nas lutas emancipatórias. Isso está provado pela própria história, que testemunha a luta de grupos e minorias cujos direitos lhes eram negados por questões como origem social, racial, cultural ou de gênero, por exemplo. Ocorre que aquilo que chamamos de liberdade pode ser, ao contrário do que o discurso progressista afirma, um retrocesso em relação ao avanço civilizacional que a humanidade alcançou até aqui, e que esse retrocesso ocorre na medida em que passamos a questionar e negar que os seres humanos se diferenciam dos animais, entregues aos instintos, também pela maneira como se compreende o mundo simbólico em que estão imersos. Regras e tratos, por exemplo, são anti-instintivos, pois são freios morais que nos distinguem dos animais irracionais e que sustentam a nossa espécie. Isso faz parte da subjetividade humana, um atributo que somente nós possuímos e que nos faz olhar para o mundo à nossa volta e buscar sentido nas coisas que nos cercam. Portanto, aquilo que chamamos de progresso e civilidade pode ser justamente o contrário, pois, dependendo do grau a que eleva-mos esses comportamentos, podemos promover a corrosão do humano MORAL QUE ESTÁ EM CURSO NA HUMANIDADE ADVÉM DA MANEIRA COMO TRATAMOS A IMAGEM DE DEUS A QUAL REPRESENTAMOS. como seres criados à imagem de Deus e, por isso, imbuídos de subjetividade, sentido e espiritualidade, marcas que nos fazem transcender a um mero estado de natureza. No texto de Romanos 1, ao demonstrar essa corrosão, Paulo denuncia os humanos, porque “trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal” (v. 23). Observe como a degeneração moral que está em curso na humanidade advém da maneira como tratamos a imagem de Deus a qual representamos. Contudo, temos uma causa essencial para esse comportamento. No jardim, homem e mulher estavam nus (Gn 2.25), no entanto, revestidos com a glória de Deus. Acontece que o pecado fez com que o homem perdesse a imagem do celestial, restando-lhe perceber a sua fragilidade e insuficiência em ser dono de si (Gn 3.7-8). Foi nessa condição que o homem se percebeu, nu e desamparado, e é assim que ele se reencontra com o seu Criador: na mesma condição que O viu face a face pela última vez. “Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de figueira para cobrir-se” (Gn 3.7). Faz parte do plano divino proposto na redenção que Deus nos devolva as vestes das quais fomos despidos pelo pecado. Cristo vestiu-se de carne, sim, a mesma carne decaída de que estamos vestidos. Sua carne foi dilacerada e morta pelos golpes da crucificação, mas ressuscitada num estado de glória, a mesma glória na qual fomos criados para viver e a mesma glória na qual nos revestiremos quando ressuscitarmos! Enquanto isso, gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação celestial, porque, estando vestidos, não seremos encontrados nus. Pois, enquanto estamos nesta casa, gememos e nos angustiamos, porque não queremos ser despidos, mas revestidos da nossa habitação celestial, para que aquilo que é mortal seja absorvido pela vida. 2CORÍNTIOS 5.2-4 [...] num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados. Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “A morte foi destruída pela vitória”. 1CORÍNTIOS 15.52-54 Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador. COLOSSENSES 3.9-10 É pelo “despir-se” de Cristo, ao despojar-se de sua glória celestial (Fp 2.7-8), que podemos nos revestir dele, tornados novamente imagem de Deus e tendo restaurada a nossa humanidade original perdida. “Nem vivia em casa alguma, mas nos sepulcros” (v. 27) O RESULTADO DESSE ESVAZIAMENTO FOI O ESPAÇO ABERTO PARA A POSSESSÃO DEMONÍACA. Sabemos como a convivência familiar é fundamento para a formação e sustentação da nossa personalidade. Não sabemos qual a idade desse homem, se era um jovem ou alguém que havia chegado ao estágio de maturidade, mas isso não importa, pois a nossa formação, enquanto seres humanos, dura a vida inteira; no entanto, aquele homem havia sido privado desse ambiente tão essencial e, por isso, o seu processo se formação fora interrompido ao mesmo tempo em que passou a habitar “nos sepulcros”. Alguém em sã consciência jamais escolheria um cemitério para morar, contudo, vemos o nosso personagem banido da vida em sociedade, privado do ambiente familiar que lhe proporcionaria aceitação, confiança, valor, afeto e tudo o mais que é indispensável para o desenvolvimento humano, ao mesmo tempo em que esse conteúdo é esvaziado dele, rompendo as âncoras nas quais fixava a sua personalidade. O resultado desse esvaziamento foi o espaço aberto para a possessão demoníaca. Sua vida sem rumo, sua mente em profunda perturbação e seu coração completamente separado de Deus o levaram a vagar num looping sem sentido, servindo, quiçá, de espetáculo para aquela cidade. Expulso de casa, perambulava pelas ruas a urrar como uma fera até que o seu grito foi ouvido. O que vemos aqui é a história da própria humanidade. Expulsa de casa, ou seja, do jardim, e condenada a ser andarilha pela vida: Por isso o Senhor Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora tirado. Depois de expulsar o homem, colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida. GÊNESIS 3.23-24 Por causa do pecado, um dia fomos expulsos de casa e passamos a habitar entre os mortos (Ef 2.1- 2). Nosso caminhar errante nos distanciava cada vez mais de Deus até que por nós mesmos não tínhamos mais como voltar. Desaprendemos sobre Deus, esquecemos quem um dia fomos e ficamos completamente perdidos, a não ser que o próprio Criador nos resgatasse. Foi para isso que Cristo estava ali, o próprio Criador estava de volta para levá-lo ao lugar de onde ele fora expulso. Não andaria mais em completo desamparo, mas, assim como eu e você que fomos achados nus e sem guarida, as mãos misericordiosas do Senhor se estenderam para nós e nos resgataram do vazio e da solidão para habitarmos para sempre no lar celestial. “Deus dá um lar aos solitários, liberta os presos para a prosperidade, mas os rebeldes vivem em terra árida” (Sl 68.6). Muitas vezes nos sentimos deslocados neste mundo. Mesmo cercados de pessoas e cheios de tarefas, nossos olhos são postos no infinito como se estivessem buscando encontrar algo que perdemos em algum momento. A saudade de casa é tema de músicas e poesias que nos comovem porque, de certa forma, todos somos andarilhos nesta vida, à procura do lar celestial. Leia atentamente o que o autor de Hebreus escreve sobre a condição de quem sabe que procura um lugar para habitar eternamente: Pela fé, Abraão — e também a própria Sara, apesar de estéril e avançada em idade — recebeu poder para gerar um filho, porque considerou fiel aquele que lhe havia feito a promessa. Assim, daquele homem já sem vitalidade originaram-se descendentes tão numerosos como as estrelas do céu e tão incontáveis como a areia da praia do mar. Todos estes ainda viveram pela fé,e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-nas de longe e de longe as saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Os que assim falam mostram que estão buscando uma pátria. Se estivessem pensando naquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, pois preparou-lhes uma cidade. HEBREUS 11.11-16 Abraão é o nosso exemplo por excelência de quem sabia que procurava uma pátria e por isso aceitou o chamado de andar pela fé. Como esse homem de Deus e tantos outros, somos também chamados a sair do meio dos sepulcros, do lugar de morte e de trevas, para andarmos na luz em direção ao lar celestial: “A vereda do justo é como a luz da alvorada, que brilha cada vez mais até à plena claridade do dia” (Pv 4.18). O livro O peregrino, de John Bunyan,[Nota 1] é uma história arrebatadora que nos convida a caminhar com o personagem chamado Cristão em direção à Cidade Celestial. Quando leio esse célebre livro, sinto-me caminhando ao lado desse personagem, ainda que nem sempre consiga me dar conta dos perigos que me assaltam pelo caminho. Todavia, o que deve nos manter firmes nessa caminhada é lembrarmos que existe uma morada eterna aguardando por nós: “Sei que a bondade e a fidelidade me acompanharão todos os dias da minha vida, e voltarei à casa do Senhor enquanto eu viver” (Sl 23.6). Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar. E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver. JOÃO 14.1-3 A partir daquele encontro com Jesus, o homem gesareno tinha um lugar para voltar! “Mesmo com os pés e as mãos acorrentados e entregue aos cuidados de guardas, quebrava as correntes” (v. 29) Ao ser expulsos do Éden, o ser humano buscou criar mecanismos artificiais para conter a sua natureza destrutiva. Usando a linguagem sapiencial de Provérbios, encostamos “uma faca à própria garganta” para não desejarmos as iguarias enganosas que nos oferecem (23.2-3). As leis são uma forma de frear o impulso iníquo presente nos homens, punindo os transgressores de acordo com as suas ações. Ao longo da história, precisamos criar meios de contenção para “acorrentar nossas mãos e pés”, criando disciplinas, regras, exércitos e o próprio Estado. Isso mesmo, somos destrutivos e estamos prontos a transgredir o tempo todo, procurando a menor brecha para fazê-lo. Logo após o capítulo 3 de Gênesis, vemos o relato da corrupção do gênero humano. Um irmão assassina o outro e um homem mata outro porque lhe pisou no pé. A realidade na perspectiva divina era a seguinte: “O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal” (Gn 6.5). Foi preciso criarmos a “civilização”, uma forma artificial de respeitarmos uns aos outros e buscarmos o bem comum. O que chamamos de “civilização” é, portanto, uma tentativa de suprimir- mos nossos instintos mais sombrios e nos preservarmos em meio ao caos do pecado. Criamos poderes civis e estruturas jurídicas e militares, contudo, a história testemunha a conturbada trajetória humana em busca da condição em que um dia viveu. Ergueram-se grande impérios e poderosos exércitos, criamos regimes políticos e leis, mas nada disso foi suficiente e, como as correntes nas mãos e pés daquele homem, arrebentávamos todas as estruturas que prometiam nos civilizar. Aliás foram as nações que se diziam civilizadas que promoveram os maiores massacres da história. Tornamo-nos feras indomáveis, absolutamente incontidas e entregues à nossa natureza perversa. Guerras, impiedades, injustiças, explorações e toda forma de horror passaram a fazer parte do cotidiano humano. Todos os dias nos deparamos com as piores atrocidades cometidas por aqueles que se dizem seres racionais. No século 18, período conhecido como Iluminismo ou Era das Luzes, a humanidade acreditou que a educação e o aprimoramento técnico e científico finalmente nos conduziriam a uma espécie de evolução civilizacional, desvencilhando-nos da obscuridade em que vivíamos. Contudo, o que a história presenciou foi exatamente o contrário: no século 19, continentes inteiros foram brutalmente colonizados e, no século 20, as duas Grandes Guerras mostraram o lado ainda mais perverso da humanidade. Usamos a razão e a ciência justamente para fazermos aquilo de que elas prometiam nos livrar. A razão e a ciência foram instrumentaliza-das a serviço do pecado e o Estado se tornou a pior ameaça. Leis desumanizantes foram legitimadas nos parlamentos de países que se diziam livres e democráticos e poderes totalitários se ergueram para esmagar povos inteiros. Hoje, em pleno século 21, ainda convivemos com o fantasma de uma Terceira Guerra Mundial (bélica, biológica, química e cibernética), de novas barbáries promovidas por ideologias radicais, do terrorismo nacional e internacional, da destruição ambiental, do esgotamento dos recursos naturais, da degradação da camada de ozônio, da fome que assola bilhões de pessoas, das pestes e novas doenças criadas por supervírus e superbactérias além da nossa capacidade de conter e da própria aniquilação da raça humana. A aposta atual é nos novos aparatos tecnológicos e científicos, tais como nanotecnologia, inteligência artificial, energia limpa, engenharia genética, os meios cada vez mais aprimorados de comunicação, viagens espaciais, física quântica, dentre outros. Não duvido que todos esses aparatos e descobertas trarão muitos benefícios à humanidade, afinal de contas, são parte do dom de Deus e de sua graça comum que ainda opera nos seres humanos, mas, por outro lado, não resta dúvida de que esses recursos, por si sós, não resolverão o problema do pecado que corroeu profunda-mente a nossa natureza. Mas não precisamos ir muito longe para conferir esse fato. Todos os dias nos cercamos de mecanismos artificiais, como aquele homem que era inutilmente contido pelas correntes. Achamos que o nosso problema pode ser resolvido se reprogramarmos nossas mentes por meio de técnicas e terapias que prometem nos tornar pessoas mais produtivas e felizes. Não negamos a contribuição valiosa que esses meios podem trazer, mas certamente não são eficientes contra o problema do pecado, pois esse mal somente o evangelho de Jesus Cristo pode resolver. A história bíblica dá provas de como o povo judeu se cercou de leis morais e cerimoniais a fim de se sustentar. Isso é algo semelhante àquelas edificações no processo de construção onde as estruturas, ainda não prontas, são sustentadas ou escoradas por madeiras e outros materiais mais frágeis até que possam ser retiradas. Acontece que ninguém pode viver para sempre confiando em escoras, pois, mais cedo ou mais tarde, elas não suportarão o peso da edificação. NINGUÉM PODE VIVER PARA SEMPRE CONFIANDO EM ESCORAS, POIS, MAIS CEDO OU MAIS TARDE, ELAS NÃO SUPORTARÃO O PESO DA EDIFICAÇÃO. Nas páginas das Escrituras estão registradas as inúmeras quebras de aliança com Deus que o povo de Israel acabou promovendo com a sua desobediência. Quando o verdadeiro Tabernáculo de Deus, Jesus Cristo, veio para o mundo, Israel preferiu continuar confiando nas antigas escoras: “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1.11). eles preferiam o templo construído pelo perverso rei Herodes do que desejar a promessa feita por Deus desde que o homem havia pecado. Jesus mesmo havia afirmado que daquele templo, feitos por mãos humanas, não restaria pedra sobre pedra (Mc 13.2) e que em três dias ele levantaria o templo eterno de Deus (Jo 2.19). Paulo afirmou aos crentes gálatas que a lei de Moisés cumpriu o propósito de conduzir-nos a Cristo, não sendo mais necessário que ficássemos presos aos seu cumprimento: Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei,nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada. Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor. Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram GÁLATAS 3.23-27 Cada vez que o povo de Israel quebrava as cláusulas da lei e se lançava no pecado, Deus enviava os seus profetas para persuadi-lo ao arrependimento. Davi mesmo, após ter quebrado sua aliança com Deus, orou: “Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável” (Sl 51.10), e ainda diz no mesmo salmo, versículo 17: “Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás” (Sl 51.17). Aquelas escoras estavam se exaurindo, aliás, Deus mesmo se mostra exausto dos sacrifícios do povo: “De que me serve o incenso trazido de Sabá, ou o cálamo aromático de uma terra distante? Os seus holocaustos não são aceitáveis nem me agradam as suas ofertas” ( Jr 6.20, cf. Is 1.11-17). A recorrentes quebras de aliança deveriam levar o povo a desistir das suas falsas confianças e buscarem a solução definitiva para a sua natureza pecaminosa, mas, em vez disso, a rejeitaram. Da mesma forma como Jesus chegou àquele homem, cansado e desesperado de tantas amarras, também chegou até nós, trazendo o sacrifício superior e suficiente para os nossos pecados: “Ora, aqueles são feitos sacerdotes em maior número, porque são impedidos pela morte de continuar; este, no entanto, porque continua para sempre, tem o seu sacerdócio imutável. Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.23-25). O livro de Hebreus, aliás, é o testemunho da superioridade de Jesus em relação aos frágeis suportes nos quais buscávamos confiar: o sacerdócio de Jesus é maior do que o de Arão (7.11), seu sacrifício é completo comparado aos dos animais (9.13,14), a sua aliança é superior a aliança mosaica (8.6-13) e o seu corpo é eterno, comparado ao tabernáculo no deserto (9.11). “Agora, porém, o ministério que Jesus recebeu é superior ao deles, assim como também a aliança da qual ele é mediador é superior à antiga, sendo baseada em promessas superiores” (Hb 8.6). Aquele pobre homem, cujas escoras haviam desmoronado, estava diante de quem podia lhe dar vida, oferecendo-lhe a verdadeira estrutura em lugar da velha estrutura corroída e destruída pelo pecado. O ISOLAMENTO REVELA A CONDIÇÃO DE NOSSA NATUREZA PECAMINOSA QUE, POTENCIALIZADA POR SATANÁS, CONTRARIA A ORDEM CRIACIONAL DIVINA DE QUE “NÃO É BOM QUE O HOMEM ESTEJA SÓ”. “E era levado pelo demônio a lugares solitários” (v. 29) Não se constrói humanidade sem interação social saudável, por isso, desde o momento em que nascemos, precisamos de um ambiente acolhedor onde possamos nos construir enquanto seres humanos. Esse é um processo que se estende por toda a vida e que agrega à nossa natureza valores que são necessários para sustentar nossa personalidade. Ocorre que, na medida em que esse elemento nos é negado ou de alguma forma interrompido, vamos perdendo as âncoras da nossa alma e, à deriva, nos tornamos suscetíveis a forças estranhas ao propósito divino, somos arrastados por correntezas sombrias que nos tiram dessas águas tranquilas e nos põem num verdadeiro abismo. A consequência é a perda da nossa humanidade conforme Deus nos criou para ser, o que ocorreu no Éden e continua em processo ainda hoje. Estamos diante de um quadro espiritualmente semelhante aos nossos dias: a crise da solidão. Essa é uma condição presente na maioria das pessoas que, mesmo cercadas de outras pessoas e aparatos tecnológicos, continuam a sentir-se sozinhas. Vivemos em grandes e populosas cidades, mas cada um dentro da sua própria bolha. A solidão não é apenas uma crise, mas uma epidemia moderna que vai se alastrando entre adultos, jovens e até mesmo entre crianças. Somos parte de um mundo com mais de oito bilhões de seres humanos que se sentem cada vez mais sozinhos. Buscando a solução para a falta de liberdade, abrimo-nos a um individualismo existencial crônico que nos puxa cada vez mais para “lugares solitários”. O mercado descobriu esse nicho de pessoas, a quem exploram comercialmente com entretenimento, comidas, pacotes para viagens, streams, dentre outros. A mensagem é: “sozinho é melhor”. A indústria pornográfica explora de forma doentia essas pessoas, que caem na armadilha do vício sexual, tornando-se compulsivos por imagens eróticas que não as satisfazem. O ramo imobiliário também descobriu nesse público uma tendência mundial, trazendo alternativas de moradias que de tão pequenas desencorajam a companhia. Assim como no caso do personagem da nossa história, sabemos que essa tendência ao isolamento revela a condição de nossa natureza pecaminosa que, potencializada por Satanás, contraria a ordem criacional divina de que “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Pessoas individualistas criam uma sociedade atomizada em que o senso de coletividade e pertencimento vão se deteriorando para dar lugar a um mundo cada vez mais egoísta que busca autossatisfação, mesmo que custe o bem- estar alheio. É muito comum entre os jovens de hoje ouvir que querem cuidar de suas carreiras e, por isso, não têm qualquer desejo de constituir família para que ela “não atrapalhe os seus planos”. A maior tragédia é que os próprios jovens da igreja de Cristo, secularizados, vão sendo absorvidos pelo “espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência” (Ef 2.2). É desesperador assistir como jovens cristãos têm comprado essa ideia perversa e contribuído para a condição em que se acelera este mundo. A família e a companhia dos outros crentes é projeto de Deus para um viver saudável. Muito das cartas pastorais no Novo Testamento são escritas para esse fim: como pecadores redimidos podem experimentar relacionamentos transformadores que gerem santificação, serviço na obra de Deus, diversidade nos dons e cuidado mútuo. O texto de Efésios, citado acima, explicita a fonte dessa condição: “o príncipe do poder do ar”, referindo-se a Satanás, busca subverter o projeto divino de formar um povo que povoe o mundo com os valores do Reino. Não estou me referindo àquela solitude necessária à contemplação e ao autoconhecimento. Retirar-nos para a oração e a contemplação é necessário. Às vezes, precisamos sair um pouco do barulho do mundo, do lugar comum, e silenciar as muitas vozes que gritam a todo tempo em nossas mentes. Jesus fez isso e nós precisamos também fazê-lo com o intuito de colocar coisas no lugar e buscar a Deus em oração. Contudo, o lugar solitário a que esse homem era impelido o levava a uma condição de corrosão da humanidade que lhe restava. A vida solitária apagava em sua memória a lembrança de que ele havia sido criado à imagem do Deus trino e de quão único e especial ele era na comunidade humana. Essa condição de extrema solidão se contrasta com a fala dos demônios que revelaram serem “muitos” (v. 30). A solidão daquele homem abriu-lhe espaço para se tornar hospedeiro de toda sorte de sentimentos e comportamentos destrutivos. Despersonalizar-nos para nos habitar é o propósito do reino das trevas, pois, na medida em que nos faz esquecer quem somos e para o que fomos criados, nos tornamos terreno fértil para Satanás. Algumas vezes, o deserto é retratado na Bíblia como habitação de demônios, de toda sorte de animais ferozes que estão à espreita para devorar aqueles que se aprofundam nele: “Mas as criaturas do deserto lá estarão, e as suas casas se encherão de chacais; nela habitarão corujas e saltarão bodes selvagens” (Is 13.21); “Criaturas do deserto se encontrarão com hienas, e bodes selvagens balirão uns para os outros; ali também descansarão as criaturas noturnas e acharão para si locais de descanso” (Is 34.14); “As feras do deserto se encontrarão com as hienas, e os sátiros clamarão unspara os outros; fantasmas ali pousarão e acharão para si lugar de repouso”(Is 34.14); “Quando um espírito imundo sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso e não encontra” (Mt 12.43). No entanto, estamos falando de como Deus mesmo, na pessoa de seu bendito Filho, veio para nos resgatar da corrosão da nossa humanidade edênica, indo ele mesmo ao abismo onde nos encontrávamos. Foi no deserto que Jesus enfrentou o tentador e o venceu por nós. O diabo veio a Jesus questionando a sua natureza de Filho: “Se você é o Filho de Deus” (Mt 4.3), mas foi derrotado! Na cruz do Calvário, Jesus expôs publicamente a estratégia de Satanás para que não fôssemos enganados e rasgou o escrito de dívida que era contra nós, tornando-nos nova criação, filhos e filhas de Deus conforme ele nos criou para ser (Cl 2.14-15; Rm 8.15-17)! Notas do Capítulo Nota 1 - São José dos Campos: Fiel, 2019. [Voltar] 6 Como o evangelho restaura a humanidade A PÔR AS LENTES DO EVANGELHO É DE FUNDAMENTAL IMPORTÂNCIA PARA QUE A NOSSA LEITURA BÍBLICA NÃO SEJA ENVIESADA POR NOSSAS PREFERÊNCIAS CULTURAIS OU MORAIS. ntes de seguirmos a diante, é muito importante colocarmos as lentes do evangelho. É por meio dele que devemos olhar para a Bíblia, investigando todos os fatos ali narrados por essa chave, caso contrário a Escritura não teria nada de diferente de outros grandes livros da história. Não é objetivo da Escritura elaborar uma teoria de Estado, ou mesmo ser um tratado sobre política, ou ética, ou moral, ou economia, ou cultura, muito menos de literatura ou história antiga, embora esses temas sejam inevitavelmente transversais em suas páginas. Não podemos reduzir a Palavra de Deus a aspectos da vida humana que, embora importantes e até mesmo fundamentais, não passam de recortes da totalidade da existência. Portanto, reduzir a Bíblia a quaisquer aspectos da criação seria rebaixá-la a outras obras e tratados que abordam esses temas de forma magistral. Como já afirmei anteriormente, a Bíblia é um livro de “salvação” que conta a epopeia de um Deus salvador em busca do homem pecador. Para isso, ele separa um homem, Abraão, por meio de quem gera um povo para ser uma nação sacerdotal e sinal escatológico do reino do Messias que havia de vir. Por fim, envia seu Filho unigênito para resgatar a humanidade perdida por sua morte e ressurreição, formando um novo povo, não mais étnico, mas universal, de todas as tribos, línguas, povos e nações, em todos os tempos e lugares. Esse povo é a igreja de Jesus, aqueles a quem ele redimiu por seu sangue e selou com o seu Espírito, dando-lhe a gloriosa tarefa de mais uma vez povoar a terra com filhos e filhas de Deus pela pregação do evangelho. Portanto, pôr as lentes do evangelho é de fundamental importância para que a nossa leitura bíblica não seja enviesada por nossas preferências culturais ou morais. Se não for assim, seria como assistir a um filme em 3D sem aqueles óculos próprios para esse fim e então veríamos apenas borrões sujeitos a quaisquer interpretações por parte dos espectadores. Contudo, ao colocarmos os óculos, teremos maior nitidez e noção de profundidade, podendo acompanhar a história de maneira mais precisa. É com esse entendimento que a compreensão do evangelho é condição sine qua non para entendermos a narrativa bíblica. Segundo esse entendimento, devemos olhar para o evangelho como: A única e toda-suficiente solução de Deus para o único problema do homem Deus não tem várias soluções para vários problemas, mas uma única e toda-suficiente solução, Jesus, para o grande problema do homem, o pecado. Não quero que me interprete como se eu estivesse sendo reducionista. Todos sabemos que a vida é complexa, que a natureza humana é complexa e que os dilemas são igualmente complexos, contudo, é preciso reconhecermos que todos os problemas que criamos têm origem em nossa natureza pecaminosa. Isso mesmo, o pecado está na base da natureza humana, deformando-a e degenerando-a. Isso significa que os nossos problemas, tanto de ordem individual quanto familiar ou social, derivam da raiz do pecado infundido em nossa alma. A única e toda-suficiente solução de Deus está no sacrifício do seu Filho, Jesus Cristo, tomando o nosso lugar na cruz do Calvário e outorgando-nos o seu Espírito para criar em nós uma natureza redimida, conforme o plano original de Deus. Essa verdade é descrita nas páginas dos evangelhos, do livro de Atos do Apóstolos, das cartas apostólicas e do Apocalipse. Quando Deus fez isso, ele eliminou todas as possibilidades de batermos em portas erradas buscando a salvação em caminhos enganosos. Paulo deixa essa verdade clara quando escreve aos cristãos gálatas: “Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, a fim de que a promessa, que é pela fé em Jesus Cristo, fosse dada aos que creem” (3.22). A solução total de Deus para a totalidade dos problemas humanos O evangelho não é uma espécie de seguro para a alma após a mor-te, deixando a nosso critério o que faremos com os demais aspectos de nossa vida. Afirmo isso porque muitas vezes é assim que agimos, como se o evangelho tratasse de assuntos relacionados à salvação, sem, contudo, contemplar questões como casamento, finanças, trabalho, sentimentos, sexualidade, relacionamentos etc. A cruz de Cristo é tão abrangente quanto os aspectos das nossa vida e, assim como o pecado atingiu todos as esferas da nossa existência, Jesus veio resgatar essas esferas: “Pois o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19.10). Isso significa que não há nada que diga respeito a mim e a você que Deus já não tenha provido salvação por meio do seu Filho; aliás, essa é a mensagem da cruz: ela mostra quão longe fomos com o nosso pecado e quão longe Deus foi para resgatar-nos. Não importa quão “seculares” pareçam determinados aspectos de nossa vida, ali deve estar o evangelho, trazendo-os de volta à ordem criacional divina. Não há, portanto, uma única área que tenha sofrido ranhuras pelo pecado que Cristo não queira redimir. Enquanto você lê essas linhas, pense em trazer tudo o que diz respeito a você para a centralidade de Cristo, pois a totalidade do que somos está contemplada na cruz do Calvário. A definitiva solução de Deus para o definitivo problema humano Não podíamos ir mais longe do que fomos, nem ser mais rebeldes ou mais egoístas. O nosso pecado extrapolou todos os limites impostos pelo Criador. Insultamos a Deus declarando abertamente que somos os nossos próprios deuses, senhores de nós mesmos, embora não pudéssemos dar um só fôlego sem que ele colocasse ar em nossos pulmões. Assim, o pecado foi o problema definitivo que nos trouxe a consequência definitiva: a morte (Gn 2.17; Rm 3.23). Não havia estado pior para nós, muito menos uma condição que fosse tão irreversível do ponto de vista humano como aquela em que nos encontrávamos. Todavia, Deus interveio com sua mão poderosa, indo até onde ninguém estava disposto a ir, assumindo o nosso lugar na punição do nosso pecado e, dessa forma, resolvendo definitivamente o nosso problema. Hebreus 10.10 nos afirma que o sacrifício de Jesus Cristo foi “de uma vez por todas” e que “ainda se assim fosse, Cristo precisaria sofrer muitas vezes, desde o começo do mundo. Mas agora ele apareceu uma vez por todas no fim dos tempos, para aniquilar o pecado mediante o sacrifício de si mesmo” (Hb 9.26). Uma solução toda suficiente, abrangente e definitiva para pecadores perdidos! Se isso não nos faz exultar, não há nada mais que nos faça. Esse é o caráter do evangelho de Jesus Cristo, a “boa nova” de salvação: “Esta afirmação é fiel e digna de toda aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior” (1Tm 1.15) Você não acha que reduzir essa grandiosa mensagem a questões meramente cotidianas e de caráter meramente mundano não seria empobrecer o evangelho? O evangelho não é apenas o início da caminhada, mas todo o caminho a ser PARAR NO CAMINHO É PARAR NO EVANGELHO. SAIR DO CAMINHO É SAIR DO EVANGELHO. CONTINUAR NOCAMINHO É CONTINUAR NO EVANGELHO. percorrido Jesus não disse que ele é apenas a porta (Jo 10.7,9), mas o caminho (Jo 14.6). Portanto, a sua grandiosa obra não se resume a um lugar de entrada, mas se estende a um percurso glorioso que deve ser trilhado por seus peregrinos. O evangelho deve moldar cada pensamento, palavra e atitude daqueles que abraçam a fé em Cristo. Como já afirmei antes, não deve haver uma única área de nossa vida que não deva ser governada por Jesus. Quando compreendemos essa verdade, buscamos caminhar passo a passo e etapa por etapa de modo a sermos moldados pelos princípios do evangelho. Parar no caminho é parar no evangelho. Sair do caminho é sair do evangelho. Continuar no caminho é continuar no evangelho. É bom lembrarmos que antes de os primeiros discípulos de Jesus serem chamados de “cristãos”, eles se chamavam de os do “Caminho” (At 9.2; 24.14). Isso é muito significativo porque mostra que esses primeiros irmãos viam a vida com Jesus como uma caminhada, a qual muitas vezes era marcada por lutas, provações, perseguições e até mesmo morte, mas que traria recompensa àqueles que perseverassem até o fim (Ap 2.26). Em O Peregrino, ao abandonar a Cidade da Destruição, Cristão descobre como sua vida ainda era moldada pelos valores terrenos, os quais deveriam ser abandonados na medida em que a estrada em que trilhava revelava o que havia em seu coração. É isso o que o evangelho faz conosco. Ele vai revelando o que há de terreno dentro de nós, na medida em que nos ensina a acertar os nossos passos no caminho que é Jesus. Como Jesus devolve a humanidade perdida Jesus vem ao encontro Jesus “desembarcou” neste mundo para nos resgatar e essa verdade nos leva diretamente para o fato de sua encarnação. “Logo ao desembarcar, veio da cidade ao seu encontro um homem possesso de demônios...” (v. 27). Não há evangelho sem a encarnação de Jesus e isso significa que Deus mesmo, na pessoa de seu bendito Filho, veio a este mundo como um de nós, sujeito às mesmas tentações e limites da natureza humana. Embora seja Deus, ele se autolimitou, tornando-se como um de nós, identificando-se com nossos dilemas e dores para que, como um de nós, porém sem pecado algum, fosse oferecido na cruz em nosso lugar, tornando-se o sacrifício perfeito e pagando o preço do nosso resgate (Fp 2.6-8). O Evangelho de João começa com a narrativa da vinda de Jesus ao mundo numa perspectiva do alto. Diferentemente de Ma-teus e Lucas, João propõe olharmos para Jesus do ponto de vista da encarnação, como o “Verbo” ou a “Palavra” que “estava com Deus e era Deus” (1.1). Esse modo de olhar a encarnação é desenvolvido em todo o Evangelho de João: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14); “Aquele que vem do alto está acima de todos; aquele que é da terra pertence à terra e fala como quem é da terra. Aquele que vem do céu está acima de todos” (Jo 3.31); “Mas ele continuou: ‘Vocês são daqui de baixo; eu sou lá de cima. Vocês são deste mundo; eu não sou deste mundo’” (Jo 8.23); “Eu vim do Pai e entrei no mundo; agora deixo o mundo e volto para o Pai” (Jo 16.28) A encarnação é a doutrina que torna a fé cristã diferente de todas as religiões do mundo. Em A ENCARNAÇÃO APONTA PARA O DEUS ETERNAMENTE PERFEITO E INFINITAMENTE SANTO QUE DESCEU AO MAIS PROFUNDO ABISMO PARA NOS RESGATAR. nenhuma outra religião, o deus cultuado vem ao mundo para sofrer em lugar de mortais desprezíveis, muito menos tornar-se como um deles, tomando o seu lugar numa condição de vergonhosa morte. Nas religiões deste mundo, os deuses exigem que alguém morra por eles, mas no cristianismo é Deus quem morre por nós. Tire a verdade da encarnação de Jesus e não teremos mais cristianismo, nada mais fará sentido, nem a cruz fará sentido, nem a ressurreição, nem a nossa redenção, nem a santificação, nem a esperança da vida eterna, as cartas apostólicas, ou Atos dos Apóstolos, ou o Apocalipse. Todos esses livros se tornariam tão obscuros que não valeria a pena lê- los. A encarnação aponta para o Deus eternamente perfeito e infinitamente santo que desceu ao mais profundo abismo para nos resgatar (Ef 4.9). Aqui ele sentiu na própria pele a grande enrascada em que nos metemos, sentiu o forte cheiro do pecado impregnado em nossa natureza e foi levado à cruz pelo mesmo pecado pelo qual veio aqui para nos resgatar. É esse Deus infinitamente santo, puro, justo e majestoso que desembarca naquela pequena cidade de criadores de porcos. O Rei da glória entrando numa fétida pocilga, atolando seus pés em lama podre, sentindo o terrível cheiro do pecado e vindo em direção a alguém cuja humanidade estava se apagando completamente. Acredito que ele não podia encontrar algo mais terrível do que a própria desumanização retratada naquele homem, desumanização essa ainda presente em nossos dias na vida de milhões de pessoas que vagueiam pela existência sem saber como vieram parar nela. A encarnação proclama a verdade de que Deus mesmo, em pessoa, veio encontrar-se conosco. O texto diz que “veio da cidade ao seu encontro” (v. 27). Isso mesmo, ao desembarcar neste mundo, o homem perdido pôde vir ao encontro do seu Criador e voltar para casa! A mensagem do evangelho de Jesus é a mensagem do reencontro entre Criador e criação, pois é isso o que Jesus veio fazer: promover um encontro divino. Creio que aquele momento estava marcado na eternidade, não apenas com aquele homem, mas com todos os que estavam longe de Deus. Esse é um encontro mútuo porque demanda que respondamos ao amor de Deus ofertado por sua graça a todos nós. Embora a salvação seja pela graça, ela demanda que nos aproximemos do nosso Benfeitor e correspondamos ao seu amor: “Achegue-mo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna” (Hb 4.16). Não sabemos exatamente onde Deus termina e nós começamos na experiência de salvação, mas, ainda que seja Deus a prover o sacrifício, o arrependimento e até mesmo o despertamento de que precisamos, somos nós que devemos nos aproximar dele. A presença de Jesus é tão transformadora que, mesmo alguém estando num estado de tamanho embrutecimento, veio ao seu encontro, e foi nesse momento que o processo de corrosão, que já estava no fim, foi interrompido, fazendo com que a brisa refrescante da graça tocasse no rosto daquele homem. Não é essa a mensagem do evangelho? Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais costumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência. Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira. Todavia, Deus, que é rico em O SENHOR VEIO VINDICAR AQUILO QUE É SEU POR DIREITO DE CRIAÇÃO E POR DIREITO DE REDENÇÃO. misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos. EFÉSIOS 2.1-5 Jesus exerce a sua autoridade (v. 28-29a) “Quando viu Jesus, gritou, prostrou-se aos seus pés e disse em alta voz: ‘Que queres comigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te que não me atormentes!’ Pois Jesus havia ordenado que o espírito imundo saísse daquele homem” (v. 28-29a). Reconhecendo ou não, todos nós, seres humanos, prestamos reverência a alguém ou a alguma coisa. Nossa natureza essencialmente religiosa é inclinada a devotar-se a um objeto de adoração que exigirá obediência absoluta (Mt 6.24). Na medida em que adoramos, nossa própria natureza molda-se ao ídolo, se for o caso de nos devotarmos a aspectos ou elementos da criação, ou a Deus, quando o amamos e o servimos de todo o nosso coração. Acontece que, na medida em que nos afastamos de Deus, pondo o nosso coração em outras coisas e rejeitandoo seu senhorio, a imago Dei estampada em nós é substituída pela imagem do ídolo a quem servimos. Vale a pena lembrarmos que “ídolo” é tudo aquilo que tem a nossa obediência em vez de Deus, sejam elementos da natureza física, sejam ideologias humanas, sejam pessoas, sentimentos ou apegos que subtraem o nosso amor pelo Senhor ao mesmo tempo em que o canalizam para ele, o próprio ídolo. Um ídolo pode ser denunciado a partir da pergunta: “há algo em minha vida que tem roubado meu amor e obediência a Cristo, fazendo-me abandoná-lo ou relegá-lo a um segundo plano?”. Se a resposta for “sim”, então é preciso que nos voltemos a Deus em arrependimento, antes que a imagem dele seja deformada em nós. Dois reinos se confrontavam nesse momento: o reino de Deus manifestado em Cristo e o reino das trevas manifestado por meio de Satanás. Desde que o homem se afastou de Deus na Queda, a história bíblica se desenvolve explicitando o conflito irreconciliável entre duas sementes (a dos justos e a dos ímpios), duas linhagens (a de Caim e a de Abel), dois povos (Jacó e Esaú), duas cidades (a de Deus e a dos homens), duas naturezas (a divina e a humana caída), dois princípios (a carne e o espírito), duas realidades (a celestial e o mundo corrompido). É no momento em que Jesus chega para reclamar o seu direito como Criador e Redentor que o inferno entra em convulsão. Diante da autoridade do Senhor, nenhum demônio resiste. Antes, prostra-se e reconhece que ele é o “Filho do Deus Altíssimo”. Tiago afirma esse fato quando escreve que “... até os demônios creem e tremem” (Tg 2.19). Essa imagem dos demônios se submetendo à autoridade de Jesus é vista ao longo de todo o seu ministério terreno (cf. Mt 9.32; 12.22; 17.18; Mc 1.39; 5.13; Lc 4.35; 7.18-23; 8.32; 11.14) e não deixa de ser um ato escatológico, antecipatório do fim dos tempos, quando tudo será submetido ao seu senhorio para todo o sempre (Mt 22.44; 1Co 15.25; Hb 10.13; Ap 11.15). Isso mesmo, o Senhor veio vindicar aquilo que é seu por direito de criação e por direito de redenção. Tudo pertence a ele, pois, por meio dele, todas as coisas foram feitas e vieram a existir (Rm 11.36; Cl 1.16), mas também porque por sua morte e ressurreição todas as coisas lhe foram sujeitas (Hb 2.8; Ef 1.22). Não há nada que não pertença a ele e qualquer palmo que Satanás ocupe, ele não passa de um intruso que deve ser expulso pelo poder de Jesus! Os versículos 31 ao 33 reforçam a autoridade de Jesus sobre homens É NESSE MOMENTO QUE A SUA HUMANIDADE PERDIDA COMEÇA A REACENDER EM SEU SER. e animais. Nem mesmo os demônios podem escolher para onde vão sem que Jesus os autorize e isso porque toda autoridade lhe foi dada “no céu e na terra” (Mt 28.18) e somente ele tem o domínio absoluto de todas as coisas criadas (Cl 1.15-19). Entrar nos porcos não torna esses animais imundos, mas demonstra que Jesus tem poder sobre demônios, homens e animais. Tanto céu como terra estão ao seu inteiro dispor e obedecem à palavra do seu poder: “ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles” (Hb 1.3-4); “Chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados; e ele meramente com a palavra expeliu os espíritos e curou todos os que estavam doentes” (Mt 8.16); “Com autoridade ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem!” (Mc 1.27) Satanás nunca negou a autoridade absoluta de Jesus como Filho do Deus Altíssimo, mas sempre buscou e buscará desviar o nosso foco para outras direções. O seu propósito é nos fazer adorar a criatura em vez do Criador (Rm 1.25), subvertendo, dessa forma, a ordem e o propósito da criação. Até agora, aquele miserável homem era um prisioneiro de Satanás (Lc 13.16), mas, ao ver aproximar-se o Senhor da glória, cai de joelhos, confessando o seu senhorio. É aqui que o gesareno volta o seu olhar para o objeto da sua verdadeira adoração. Sua visão, antes obscurecida pelo pecado e por Satanás, é aberta diante da majestade fulgurante do Rei dos reis e Senhor dos senhores. É nesse momento que a sua humanidade perdida começa a reacender em seu ser e, num momento de lucidez, ele enche os seus lábios da declaração mais poderosa e mais doce que um ser criado por expressar: “Jesus, Filho do Deus Altíssimo” ! É aqui que a nossa humanidade, agora embrutecida, encontra-se com a nossa humanidade, antes perdida. Jesus não está ali apenas para livrar aquele homem de tamanho tormento, mas para ser o próprio modelo de humanidade que ele e nós devemos nos tornar, pois somente por meio dele nos tornamos plenamente humanos. Portanto, é somente pelo reconhecimento do senhorio de Cristo que as correntes do pecado e da idolatria são desfeitas. É diante desse fato que o homem, ao ver Jesus, se prostra e reconhece quem ele é. Paulo sintetiza esse princípio quando escreve aos cristãos filipenses: “para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.10-11). 7 Quem sou eu? V A MODERNIDADE FOI CONSTRUÍDA SOBRE ESSE FUNDAMENTO HUMANISTA QUE DESTITUIU AS VERDADES DIVINAS, AO MESMO TEMPO EM QUE CONSTITUIU A RAZÃO HUMANA, DIVORCIADA DOS PRESSUPOSTOS ivemos cercados de questões para as quais ainda não encontramos respostas, mas é possível que as perguntas mais perturbadoras não estejam relacionadas ao universo, ou mesmo ao mundo material e imaterial, senão a nós mesmos. Na proporção em que buscamos explorar o cosmos, os oceanos e até mesmo o mundo microbiológico, nos afastamos das questões mais essenciais acerca da nossa natureza. Não que a busca por esses mundos, por si mesma, cause esse afastamento, mas é no mínimo contraditório construirmos naves espaciais que nos levem a milhões de quilômetros da Terra, lentes e telescópios tão potentes que podemos enxergar galáxias a anos-luz e bactérias de tamanho infinitesimais, ao mesmo tempo em que nos tornamos estranhos a nós mesmos. A nossa ânsia por desvendar os segredos do mundo e manipular as forças da natureza tem esbarrado na ignorância sobre nós mesmos, por isso é tão problemático responder quem de fato somos e é aqui, quando partimos para as últimas páginas deste livro, que voltamos para as questões iniciais dele, pois não há como responder a essa pergunta sem sabermos para o que fomos criados, aliás, sem saber que fomos “criados”. Jesus devolve a identidade (v. 30) Ao perguntar o nome daquele homem, Jesus não estava buscando saber nenhum dado de nascimento dele, mas mostrar-lhe quanto ele havia se perdido de si: “Jesus lhe perguntou: ‘Qual é o seu nome?’”. Isso não é nada diferente dos dias que vivemos. A quantidade de ferramentas para autoconhecimento só nos mostra quão pouco sabemos sobre nós e é possível que esse fosso esteja ficando cada vez maior na medida em que buscamos respostas em direções opostas a Deus. Os debates sobre sexualidade e gênero, por exemplo, só evidenciam que, na medida em que mergulhamos nesse universo humano sem Deus, nos encontramos na mais absoluta escuridão. Isso ocorre, em parte, porque partimos de uma referência errada, quando usamos o humanismo como unidade de medida para todas as coisas. Sei que essa discussão já foi amplamente realizada por pensadores ao longo dos últimos séculos, mas vez por outra ela precisa ser remexida com honestidade. Foi o filósofo sofista Protágoras (481 a 411 a.C.) quem afirmou que “o homem é a medida de todas as coisas”. A partir daí nascia o relativismo como forma de compreensão da existência, pois, se o homem é a medida de tudo, somos nós que estabelecemos o que é a verdade e se somos nós quem estabelecemos o que é verdade, então cada um tem a própria verdade. Segundo essa maneira de enxergar, não há verdade externa, objetiva, pois ninguém pode nos dizer o que é certo e errado a não ser a nossa consciência.Nós é que determinamos o que é certo ou errado e isso a partir dos próprios valores. A modernidade foi construída sobre esse fundamento humanista, que destituiu as verdades divinas, ao mesmo tempo em que constituiu a razão humana, divorciada dos pressupostos teocêntricos. O homem renascentista e iluminista é produto dessa mentalidade. A vida centrada no homem, portanto, se constitui no fundamento sobre o qual edificamos a civilização moderna. É a partir desse momento que pensadores se esforçam para provar que associar crença em Deus e razão humana é algo completamente irreconciliável, aliás, absurdo. É daí onde surge a ideia de “Estado laico” com a proposta aparente de não misturar religião com vida pública, sendo ambas esferas distintas uma da outra. Ocorre que o que vemos atualmente, por parte daqueles que defendem a ideologia de laicidade, é a imposição da vida privada TEOCÊNTRICOS. “QUAL É O SEU NOME?” NÃO É UMA PERGUNTA DE QUEM NÃO SABE QUEM SOMOS, É A MÃO sobre a esfera pública, além do que, como é evidente, essa laicidade é seletiva, sobretudo quando se trata do cristianismo, uma vez que os cristãos são ferozmente criticados quando adentram no debate público. O fato é que na medida em que, essas discussões se ampliam, descobrimos o imenso vazio no qual nos encontramos e do qual não conseguimos sair. O materialismo histórico marxista, o niilismo nietzschiano e o existencialismo sartriano são exemplos de sistemas de pensamento já divorciados da compreensão divina da existência. “A existência produz a consciência” e não o contrário, diziam. Dessa forma, nos construímos e nos reconstruímos na medida em que as condições históricas vão determinando a consciência e formatando a nossa natureza. A crença em Deus se tornou coisa de gente infantil que precisa recorrer a uma força maior para justificar aquilo que é responsabilidade humana. Nietzsche vai além ao condenar a civilização cristã por ter abandonado os fundamentos da cultura ocidental, instaurando o que ele chama de “moral dos fracos”; a imposição dos valores cristãos sobre desejos e pulsões humanas. O resultado dessa equação é a nossa geração, desencantada, desesperançada e sem qualquer sentido, pois, na medida em que os antigos fundamentos foram demolidos, os que foram colocados em seu lugar não eram suficientes para sustentar e nem responder às perguntas que fazíamos, perguntas essas que, aliás, continuavam as mesmas: “Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (Sl 11.3). A psicanálise freudiana e a psicologia moderna também não foram suficientes para responder essa pergunta tão essencial, uma vez que os seus pressupostos ainda estão desvinculados das verdades teocêntricas. A busca por uma verdade se torna inútil, pois não existiriam valores absolutos. Não sabemos quem somos, aliás, nem é possível encontrarmos esse tipo de resposta. Num mundo onde somos tratados por nossos números de contribuintes, onde nos tornamos mais um na multidão, ainda encontramos a pergunta de Jesus ecoando em nossos ouvidos: “Qual é o seu nome?”. Atordoados e atolados nas muitas camadas sob as quais afundamos, ouvimos essa pergunta sem saber o que responder. São tantos os sedimentos culturais e ideológicos sobre nossa identidade que sinceramente não sabemos por onde começar a retirada desses entulhos de nossa alma. Como uma antiga cidade soterrada sob outras cidades construídas por cima dela, nos vemos fazendo um trabalho minucioso de arqueólogo, afastando terra com pinceis e colheres em busca de algum vestígio de quem um dia fomos e o melhor que podemos encontrar são ruínas e cacos do nosso eu. Dessa forma, nos tornamos um enigma indecifrável para nós mesmos. A resposta do homem endemoninhado foi: “Legião” (v. 30) e a justificativa é dada na descrição que Marcos faz em seu Evangelho: “porque somos muitos” (5.9). Somos tantos ao mesmo tempo em que não somos nós mesmos, aliás, não somos ninguém. Buscamos nossa real identidade nos identificando com modas e visuais cada vez mais excêntricos (ou tentando apagá-la no anonimato), consumindo cada vez mais na busca por inserção social, aceitação pessoal e identificação. Extrapolamos todos os limites da erotização e da exposição nas redes sociais que nos parece não restar mais como retrocedermos de tamanha degradação moral. É a partir daqui que nos deparamos com alguém que realmente se preocupa conosco, que olha em nossos olhos e busca lá no fundo do nosso ser a essência outrora perdida. “Qual é o seu nome?” não é uma pergunta de quem não sabe quem somos, é a mão estendida de quem nos conhece e sabe para o que fomos criados. Perguntar o nome de alguém é convidar para um relacionamento e, no episódio em questão, ESTENDIDA DE QUEM NOS CONHECE E SABE PARA O QUE FOMOS CRIADOS. PRECISAMOS CONSTANTEMENTE VOLTAR-NOS PARA A PALAVRA A FIM DE QUE A NOSSA IDENTIDADE ESTEJA FORMADA A PARTIR DOS VALORES ETERNOS. um relacionamento que fora quebrado lá atrás, no Éden. Para Deus não basta que ele tenha nos criado, pois ele o fez para nos relacionarmos com ele. Jesus estava ali para lembrar a sua criação de quem ela era e que só seria possível resgatar a humanidade original perdida quando ela reconhecesse que a sua identidade deriva de quem a criou. Jesus não nos trata como mais um “fulano”, mas como alguém que tem um nome e uma história, uma assinatura única. Não sabemos como aquele homem veio parar naquela situação. Muitos fatores poderiam ter contribuído para aquilo, mas não vamos aqui fazer qualquer especulação a não ser afirmar aquilo que o texto bíblico nos permite conhecer: ele era um “endemoninhado” (v. 27). Contudo, ele tinha uma casa e isso significa que tinha uma família, uma história, quem sabe uma vida social deixada para trás. Não é difícil imaginarmos que diante de tal pergunta Jesus evoca a sua história. Ela a tira do fundo do poço, escava as suas lembranças já apagadas pela sobreposição de outras personalidades em sua natureza. Fazendo assim, Jesus resgata os laços afetivos que firmaram a sua identidade. É possível que todos nós esteja-mos em algum ponto desse processo de perda de identidade. Há exemplos na Bíblia como o do patriarca Jacó: “Perguntou-lhe, pois: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó. Então, disse: Já não te chamarás Jacó, e sim Israel, pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste” (Gn 32.27-28). “Como te chamas?” é como o toque de um despertador para alguém que está num profundo sono. Jacó tem a sua vida devassada por aquela pergunta numa noite de agonia e luta. Ali a sua trajetória de vida é evocada e os seus pecados vêm à tona. Jacó estava tão perdido nos seus próprios caminhos que foi preciso Deus sacudi-lo com a sua presença. Era preciso lembrar dos seus votos a Deus (Gn 28.11-22) e retomar a sua caminhada em direção ao plano divino de fazer dele uma grande nação da qual surgiria o Salvador. É fácil perder-nos de nós mesmos e esquecermos quem Deus nos criou para ser, por isso, precisamos constantemente voltar-nos para a Palavra a fim de que a nossa identidade esteja formada a partir dos valores eternos. A Palavra de Deus é o espelho de quem devemos ser, por isso, precisamos sempre nos perceber sob sua ótica, caso contrário, a imago Dei em nós vai empalidecendo até desaparecer: “Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência”(Tg 1.23-24). Jacó precisou admitir o seu pecado para receber um novo nome: “Israel” e assim recomeçar a sua história com Deus. No caso do homem gesareno, ele teve de reconhecer que não era mais ele, que não sabia mais quem era para assim ter a sua vida recuperada. Ao reconhecer quem somos (ou não somos), recebemos um novo nome, uma nova natureza, pela qual seremos reconhecidos na eterna glória. “Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vencedor darei do maná escondido. Também lhe darei uma pedra branca com um novo nomenela inscrito, conhecido apenas por aquele que o recebe” (Ap 2.17); “Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus” (Lc 10.20). Recomendo que você faça um estudo de como Deus tratou com homens e mulheres na Bíblia a QUANDO SEGUIMOS A JESUS, E NA MESMA MEDIDA EM QUE O FAZEMOS, O TRAZEMOS PARA OS ÂMBITOS MAIS ÍNTIMOS E DIVERSOS DO NOSSO VIVER. partir do nome de cada um, ou chamando-os pelos nomes, ou mudando os seus nomes. O resultado logo se vê no versículo 35: “e o povo foi ver o que havia acontecido. Quando se aproximaram de Jesus, viram que o homem de quem haviam saído os demônios estava assentado aos pés de Jesus, vestido e em perfeito juízo, e ficaram com medo”. Quando nos encontramos em Cristo, ele recupera a sua imagem perdida em nossa natureza, tornando-nos nova criação (2Co 5.17). Certamente isso se tornará evidente para aqueles que estão à nossa volta, pois testemunharão a transformação realizada em nosso coração e saberão que “o homem de quem haviam saído os demônios” agora está “em perfeito juízo” , ou seja, é sabedor de si mesmo e de Deus e recuperou o seu lugar na criação: “assentado aos pés de Jesus”. Nossa nudez espiritual e humana foi devidamente resolvida quando Cristo nos devolveu nossas vestes de glória, a nova natureza (Ef 4.24). Jesus o manda de volta para casa (v. 38-39) O texto nos informa: “O homem de quem haviam saído os demônios suplicava-lhe que o deixasse ir com ele; mas Jesus o mandou embora, dizendo: ‘Volte para casa e conte o quanto Deus lhe fez’. Assim, o homem se foi e anunciou a toda a cidade o quanto Jesus tinha feito por ele” (Lc 8.38-39). Em primeira análise, nos parece estranho que Jesus não tenha permitido o homem segui-lo, pelo contrário, o mandou de volta para casa. Levar aquele homem consigo, poderíamos pensar, seria um tremendo testemunho para o próprio Jesus, uma espécie de evidência do que ele podia fazer na vida de alguém, contudo, Jesus fez um movimento contrário: o enviou de volta para casa. Havia outros planos no coração do Senhor: não era o homem quem iria com Jesus, mas era Jesus quem iria com ele! Olhar nessa perspectiva é fundamental para sabermos o que fazer logo em seguida à nossa experiência com Deus. Por diversas vezes vemos o Senhor desafiando os seus inter-locutores a segui-lo (Mt 8.26; 9.9; 16.24; 19.21; Mc 2.14; 10.21; Lc 9.59; 18.22; Jo 1.43; 21.22), mas, aqui, Jesus veta essa possibilidade e o manda de volta para casa. O convite para seguir a Cristo é o convite ao discipulado e certamente esse homem passou por essa experiência. O versículo 35 descreve o homem “assentado aos pés de Jesus”. Na linguagem bíblica, sabemos que essa é uma descrição para aqueles que estão comprometidos com o ensino do seu mestre, contudo, existe um outro movimento realizado no processo de discipulado que nos é mostrado aqui, quando Jesus o envia de volta para casa e é o fato de que, quando seguimos a Jesus, e na mesma medida em que o fazemos, o trazemos para os âmbitos mais íntimos e diversos do nosso viver. Fazendo isso, o Senhor estava dizendo para aquele homem: “eu quero que você me siga, mas não esqueça que este é um caminho de comprometimento pessoal em que, enquanto eu o levo para o céu, você me leva por onde for”. Não há lugar mais desafiador para manifestarmos a nova vida como aquele em que estamos mais desarmados e desprovidos das máscaras, a saber, a nossa casa. É aí onde as maiores feridas frequentemente são abertas e nos vulnerabilizamos para sermos quem somos de fato. Ser uma nova pessoa seguindo Jesus estrada fora pode ser mais confortável do que trazer Jesus para dentro de casa, pois é aí onde nosso lado obscuro deve ser confrontado e transformado. Não sabemos as experiências que aquele homem tivera em casa, muito menos se a sua triste história teve um ponto de partida ou gatilhos na relação familiar, mas sabemos que havia algo que o Senhor queria fazer nele e por meio dele no âmbito da sua intimidade. Esse movimento nos remete para o episódio em que Jesus, ao encontrar um homem chamado Zaqueu, o convida a descer de uma árvore e o desafia a levá-lo para a sua casa: “Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce de-pressa, pois me convém ficar hoje em tua casa” (Lc 19.5). Também nos lembra de quando Saulo teve um encontro com ele na estrada para Damasco e aguardou na “casa de Judas” que Ananias viesse até ele: “Então, o Senhor lhe ordenou: ‘Dispõe-te, e vai à rua que se chama Direita, e, na casa de Judas, procura por Saulo, apelidado de Tarso; pois ele está orando” (At 9.11). Como já afirmei, a casa é um lugar de intimidade, de autenticidade. É ali onde nos fragilizamos e baixamos a guarda, por isso, devemos voltar e deixar Jesus tratar conosco exatamente nesse lugar. O relato bíblico não diz que Jesus fora fisicamente com aquele homem, mas certamente ele o levou consigo em sua experiência, em seu coração. Se ele era casado, sua esposa ganhou um novo marido e seus filhos, um novo pai. Se morava com seus pais, certamente eles receberam um novo filho e, mais do que isso, o céu recebeu um homem regenerado! Por falar em “o céu recebeu”, permitam-me ir um pouco além: “volte para casa” nos soa como a voz do Criador convidando a sua criação resgatada a voltar para a “casa celestial”! Creio ser essa uma declaração que o próprio Deus aguardava fazer, um momento para o qual a história caminha e que o universo aguarda. Será o momento mais glorioso que qualquer salvo em Jesus já experimentou em toda a sua vida, quando ouvirá do próprio Senhor: “Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34b). Você se alegra com essas palavras? Pode sentir seu coração exultando enquanto imagina esse momento glorioso? Experiência semelhante teve o homem que fora crucificado ao lado de Jesus: “Então ele disse: ‘Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino’. Jesus lhe respondeu: ‘Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso’” (Lc 23.42-43) É com essas palavras, na cruz, que Jesus expressa para o que veio e fora crucificado: para levar pecadores arrependidos de volta ao lar eterno! Sim, àquele lugar que um dia ocupamos e de onde, por causa do pecado, fomos expulsos. Contudo, retornaremos não mais na condição em que o primeiro Adão nos deixou, senão na posição em que o “último Adão”, Cristo Jesus, no outorgou por sua morte e ressurreição! Podemos voltar para casa, despidos da imagem do terreno e, agora, trazendo a imagem do celestial, a nossa humanidade original restaurada: “Assim como tivemos a imagem do homem terreno, teremos também a imagem do homem celestial” (1Co 15.49). Jesus o envia a anunciar o evangelho “[…] e conte o quanto Deus lhe fez. Assim, o homem se foi e anunciou a toda a cidade o quanto Jesus tinha feito por ele” (v. 38-39). Tenho aprendido ao longo dos anos que uma verdadeira experiência com Deus nos impele a anunciar o que Cristo fez por nós. Uma real experiência com o Senhor não estaciona naquilo que aconteceu conosco, mas se estende àqueles que estão ao nosso redor, pois a verdadeira essência do evangelho não está apenas no que ocorre em nosso interior, mas em como exteriorizamos o que Deus está fazendo em nós. Deus fez e continua fazendo algo em você? Então “conte o quanto Deus lhe fez”, não se cale, exteriorize, manifeste-se como um filho e filha da luz. Deus quer inaugurar o seu reino em cada coração, em cada pessoa que ouve as suas boas novas de salvação e as recebe alegre-mente. Não importa para onde vamos, se vamos, então anuncie-mos VOCÊ E EU ESTAMOS VOLTANDO PARA CASA E DEVEMOS CONTAR AO MUNDO O QUE CRISTO FEZ POR NÓS. o que Deus está fazendo: “Os que haviam sido dispersos pregavam a palavra por onde quer que fossem” (At 8.4) Enquanto voltamos para a casa celestial, devemos “contar”, anunciar, pregar, testemunhar, proclamar o evangelho que restaura a identidade humana e nos devolve à condição para a qual fomos criados, mas observe: “o homemse foi e anunciou a toda a cidade o quanto Jesus tinha feito por ele”. É enquanto voltamos para casa que alcançamos nossas cidades. Talvez seja por isso que em Apocalipse vemos uma “cidade” (capítulo 21). Deus tem uma paixão pelas cidades, e, embora a sua fundação tenha acontecido por motivo de rebelião contra ele, é lá onde vidas destruídas pelo pecado se encontram e agonizam todo dia como aquele homem agonizava. É na cidade onde o pecado com todas as suas perversões e distorções se potencializa, degradando ainda mais os seres humanos. Contudo, embora a cidade seja um antro de demônios e de toda sorte de maldade, é aí onde o evangelho floresce e finca suas raízes, tornando o inabitável habitável, as trevas em luz, a morte em vida, o ódio em amor, a culpa em graça, o choro em alegria e o sofrimento em vida abundante. Não esqueça disto: você e eu estamos voltando para casa e devemos contar ao mundo o que Cristo fez por nós. E aqui está uma grande mudança que o evangelho realiza em nós: um senso de inadequação com este mundo, um desconforto agonizante com o status quo em que vivíamos, ao mesmo tempo que coloca um anseio pela nossa casa celestial, enquanto anunciamos as maravilhas de Deus: “Para sempre anseio habitar na tua tenda e refugiar-me no abrigo das tuas asas.” (Sl 61.4); “Sei que a bondade e a fidelidade me acompanharão todos os dias da minha vida, e voltarei à casa do Senhor enquanto eu viver” (Sl 23.6). Perceba como o anseio de voltar para casa está diretamente ligado ao desejo de que outros conheçam o evangelho. O caminho para o céu não é um caminho solitário, mas acompanhado por todos aqueles que um dia foram tornados filhos de Deus. O livro de Salmos contém os salmos de degraus ou de romagem (120 a 134). Essas orações eram recitadas enquanto o povo de Deus subia a Jerusalém para as festas do Senhor. Era enquanto se dirigiam ao lugar que representa a nossa eterna habitação que o povo proclamava as maravilhas de Deus, cantando, orando, celebrando e lembrando quem era e para onde ia. É aqui onde retomo o ponto anterior: “volta para casa” também é um chamado a experimentar a comunhão da igreja, pois é aí onde vivemos a antecipação ou antegozo da casa celestial em companhia de outros santos, sendo mutuamente edificados enquanto proclamamos ao mundo as grandezas de Deus. Todo crente em Jesus tem uma casa para habitar, um lugar onde possa crescer em santificação, prestar contas a outros irmãos, cultuar a Deus em comunidade e proclamar as boas-novas de salvação. É nesta casa que conhecemos outros que, como nós, um dia tiveram a sua humanidade original restaurada e refletem ao mundo a imagem daquele que nos criou. Estar na “casa da igreja”, portanto, é nos preparar para voltarmos ao nosso jardim celestial de delícias eternas onde habitaremos eternamente com outros salvos na presença do nosso Deus. Jesus veio para nos devolver a humanidade perdida. Ele veio para nos fazer mais humanos e isso significa devolver-nos a identidade perdida no Éden como seres criados à imagem e semelhança de Deus. Conclusão O que Jeffrey Dahmer tem a ver comigo? A Netflix adaptou para uma minissérie em dez episódios a ma-cabra história de Jeffrey Dahmer, réu confesso do assassinato de 17 homens e garotos, entre os anos 1978 e 1991, nos EUA. Não é o primeiro filme sobre o caso. Na versão original, em inglês, o título aparece como: Dahmer — Monster: The Jeffrey Dahmer Story [Dahmer — Monstro: A história de Jeffrey Dahmer]. Após atrair suas vítimas, o jovem as sedava, estuprava e as matava. Então, dissecava seus corpos, cometia canibalismo e guardava partes deles em formol para comê-los depois. O clima do filme é pesado, não tanto pelas cenas, mas porque nos traz para dentro da natureza humana caída com todas as suas implicações. Assistir àqueles angustiantes episódios me fez pensar em quão longe o pecado pode nos levar e em quão longe de Deus e de sua graça podemos ir. No episódio oito, Lionel, pai de Jeffrey e um típico americano conservador, confessa que, em épocas passadas, também teve pensamentos homicidas e, por isso, se culpava pelo estado do filho. Aos prantos, ele diz à sua esposa, Shari: “ele tem meu gene, Shari. Metade daquele menino sou eu e eu já tive pensamentos iguais aos dele. Tive sim. Eu tentava fazer explosivos. E eu usava fogos de artifício e amarrava um soldadinho neles. Um dia, levei uma bomba caseira para a escola e joguei ela pela droga da janela, pelo amor de Deus!”. Diante do protesto de Shari de que isso não é a mesma coisa, ele a interrompe e confessa: “Eu tinha fantasias como ele também, acho. Tinha uma menina no bairro e ela morava na nossa quadra e eu tentei hipnotizá-la, porque… Eu não sei… Para ela fazer o que eu quisesse. E eu ficava na igreja, pensando em como seria matar alguém, assassinar”. A questão que se impõe é complexa e inevitável: Jeffrey nasceu ou se tornou assim? Como explicar — se é que isso é possível — que um ser humano possa ter cometido tamanhas atrocidades? E ainda: há mais “Jeffreys” por aí? Nós também abrigamos essas potencialidades degeneradas em nós? Não temos dúvida de que algo de errado aconteceu. Mas quando e como isso aconteceu? Essa é uma questão proposta pelo diretor do filme. Como qualquer criança, Jeffrey teve pais com problemas no casamento. Aliás, sua mãe, Joyce Dahmer, teve depressão pós-parto e era dependente de psicotrópicos. O menino também sofria bullying na escola. Qual desses fatores foi o responsável? Ou terá sido o somatório deles? Quiçá sua personalidade introspectiva? Jeffrey recusou o diagnóstico de problema mental e afirmou que todos os seus crimes foram cometidos em sã consciência, embora tenha sido clinicamente constatado o seu quadro de transtorno de personalidade esquizotípica e transtorno psicótico. Após morrer, o cérebro de Jeffrey foi alvo de uma disputa judicial entre sua mãe, que era a favor de que o órgão fosse entregue para estudos científicos, a fim de identificar e evitar que o mesmo ocorresse novamente, e seu pai, que era a favor de sua destruição, cumprindo o desejo do falecido. Lionel ganhou a disputa e o cérebro de Jeffrey foi incinerado, ficando a dúvida no ar. Sabemos que o caso esbarra em uma questão médica, patológica. Não podemos afirmar que pessoas que se convertem a Cristo têm seus problemas de ordem mental necessariamente curados. Ainda lidamos com toda sorte de debilidades emocionais e mentais como depressão, transtornos de ansiedade e de atenção, quadros de borderline, bipolaridade, esquizofrenia e tantas outras patolo- gias de ordem mental para as quais a ciência tem se debruçado e alcançado significativos avanços em seus tratamentos. Não há razão para concluir que todos esses problemas serão definitivamente resolvidos. Mas sinto-me confortável, à luz do que foi demonstrado neste livro, em afirmar que o pecado causou sérios danos à natureza humana, danos que estão além da compreensão da ciência. No entanto, esse não precisa ser o desfecho de todas as histórias, pois, como vimos, não há abismo no qual a graça de Jesus não possa nos alcançar e nos resgatar. A Bíblia e a história estão fartas de outros “Jeffreys” que não tiveram o mesmo fim, que tiveram seu curso de vida alterado por um encontro transformador com o Criador e que tiveram sua humanidade recuperada. Sabemos que ainda lutamos contra áreas que nos parece terem sido mais afetadas pelo pecado. Mas, como afirmado na epígrafe deste livro: “O amor os ressuscitara [...]. Mas aqui já começa outra história, a história da renovação gradual de um homem, a história do seu paulatino renascimento, da passagem progressiva de um mundo a outro, do conhecimento de uma realidade nova, até então totalmente desconhecida”.[Nota 1] Todos os dias, mais e mais dessa humanidade perdida nos é de-volvida, restaurada, recuperada, transformada pelo toque gracioso de Jesus e pela ação santificadora do seu Espírito Santo (2Co 3.18). Notas do Capítulo Nota 1 - Fiódor Dostoiévski, Crime e castigo. São Paulo: Editora 34, 2009. [Voltar] Sobre o autor Marcos Arraisé pastor-fundador e presidente da Comunidade Bíblica do Calvário, em São Paulo (SP). Mestre em Divindade pelo Seminário Servo de Cristo, é pós-graduado em Filosofia pela Uni- fesp e graduado em Sociologia, com especialização em Teologia e História do Protestantismo Brasileiro, pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Iniciou seu ministério de tempo integral, em 1993, no Amazonas, trabalhando com tribos e populações ribeirinhas nos rios Negro, Solimões e Amazonas. Promoveu apoio a igrejas locais, com projetos de evangelização, ação social e treinamento de obreiros para o ministério junto com a esposa, Edilian. Pastoreou igrejas em Manaus, Fortaleza e São Paulo. É pai de Abner e João Marcos e avô de Lourenço. Contatos: marcoslarrais@gmail.com; marcosarrais.com.br; twitter.com/marcosarrais; instagram.com/marcoslarrais. Publique seu livro no Brasil e no exterior godbooks.com.br/publique-seu-livro Adquira nossos livros impressos em 190 países godbooks.com.br/onde-encontrar Fale conosco aprisco@godbooks.com.br Sumário Agradecimentos Prefácio Introdução Parte 1 Como olhar para esse texto? Quem é o homem? Parte 2 A realidade do pecado Gesara e a corrosão do humano O gesareno e o paradigma da humanidade caída Parte 3 Como o evangelho restaura a humanidade Quem sou eu? Conclusão Sobre o autor