Prévia do material em texto
Mimetismo O mimetismo é outro fenômeno relacionado à interação entre seres vivos e que evidencia a ocorrência da seleção natural. Há vários tipos de mimetismo. Uma das formas mais conhecidas refere-se a situa- ções de camuflagem, em que alguns organismos apresentam características similares às de seu meio. É o caso, por exemplo, dos bichos-pau (grupo de insetos que parecem um graveto) ou dos insetos-folha (grupo de insetos que parecem uma folha), que têm características morfológicas semelhantes às das plantas em que vivem. Dessa forma, eles se camuflam no ambiente e seus predadores apresentam dificuldades para iden- tificá-los (figura 1.22). Além desse tipo de camuflagem visual, há estudos que evidenciam como orga- nismos podem se mimetizar “quimicamente”, como a rã Lithodytes lineatus, que vive na Amazônia. Essas rãs utilizam os ninhos das formigas saúvas do gênero Atta para se abrigar e se reproduzir. Nenhuma outra espécie de anfíbio ou vertebrado consegue sobreviver nesses ninhos. Experimentos envolvendo o uso de extrato da pele de Lithodytes lineatus em ou- tra espécie de rã evidenciaram que as substâncias produzidas pela Lithodytes fazem com que as formigas não ataquem a outra espécie. Acredita-se que essas substân- cias são similares às que as formigas utilizam para se reconhecer quimicamente. Essa característica dessa espécie leva a uma diminuição de ataques de predadores aos adultos, aumentando a sobrevivência dos indivíduos e garantindo a eles um lugar protegido para que depositem os ovos, de forma a intensificar seu sucesso reprodutivo. Outros organismos apresentam mecanismos semelhantes, como bac- térias que vivem no intestino humano. Em outro tipo de mimetismo, as espécies evoluem e tornam-se semelhantes a ou- tras que apresentam algum tipo de defesa – em geral, contra predação. Por exem- plo, a borboleta monarca (Danaus plexippus) alimenta-se de compostos tóxicos, aos quais é resistente, e os retêm em seus tecidos. Predadores que ingerem essa borbo- leta apresentam enjoo e, por isso, acabam por evitá-la. A borboleta vice-rei (Lime- nitis archippus) não é tóxica, porém, é bastante parecida com a borboleta monarca, como mostra a figura 1.23. Assim, a pressão seletiva favorece a sobrevivência de indivíduos da população de vice-rei mesmo que essa espécie não seja tóxica como a monarca, já que os predadores não diferenciam visualmente as duas espécies e, consequentemente, não atacam indivíduos da população de vice-rei. Mas as situações de mimetismo podem ser complexas do ponto de vista evolutivo e surpreender. Em 2016, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP) e da Universidade de Brasília (UnB-DF) publicaram um estudo com duas espécies de borboleta: Heraclides anchisiades capys e Pa- rides anchises nephalion. A primeira não apresenta toxicidade para os predadores e é muito rápida, enquanto a segunda é lenta e muito venenosa. Apesar dessas diferenças, as duas espécies têm um padrão de coloração muito parecido. À primeira vista, seria de se esperar que a borboleta não venenosa tivesse sofrido pressão seletiva e desenvol- vido coloração semelhante à da borboleta venenosa (figura 1.24) e que essa estratégia de defesa a protegeria contra predadores. Isso significa que o último ancestral comum da borboleta não tóxica teria mimetizado a borboleta tóxica e que essa vantagem adaptativa teria permitido que ela se espalhasse nas Américas. Porém, dados do estudo indicaram o contrário, isto é, que a borboleta venenosa imitou a borboleta não tóxica e rápi- da, minimizando assim as chances de predação, já que aves atacavam menos frequentemente a borboleta de voo rápido, pois tinham menos chance de capturá-la. # Figura 1.22 – O bicho-pau (ordem Phasmatodea; espécies variam de 3 a 30 centímetros de comprimento) assemelha- se a um graveto e, assim, consegue camuflar-se. # Figura 1.23 – (a) Borboleta vice-rei (Limenitis archippus; cerca de 7,5 centímetros de envergadura); (b) Borboleta monarca (Danaus plexippus; cerca de 10 centímetros de envergadura). # Figura 1.24 – Borboletas Parides anchises (à esquerda) e Heraclides anchisiades (à direita), ambas com cerca de 9 centímetros de envergadura. (a) (b) d v a n d e /S h u tt e rs to ck L e e n a R o b in s o n /S h u tt e rs to ck F o to s : a ls lu ts k y /S h u tt e rs to ck(a) (b) 29Fundamentos dos processos evolutivos 010a040_V2_CIE_NAT_Mortimer_g21Sc_U1_Cap1_LA.indd 29010a040_V2_CIE_NAT_Mortimer_g21Sc_U1_Cap1_LA.indd 29 21/09/2020 18:5921/09/2020 18:59 ARTICULAÇÃO DE IDEIAS 1. Leia o texto a seguir e responda às perguntas. Parecidos, mas diferentes Na maior parte dos rios na América do Sul é comum encontrar grupos de pequenos cascudos – co- nhecidos entre os aquaristas como “limpa fundo” – que, à primeira vista, parecem iguais. Mas, apesar de muito parecidos, não pertencem à mesma espécie, segundo estudo publicado na edição desta quin- ta-feira (6/1) da revista Nature [...]. A pesquisa, feita por cientistas do Brasil e do Reino Unido, revelou que comunidades de cascudos, ainda que possuam exemplares com padrões e cores praticamente idênticas, podem conter três ou mais espécies diferentes. O estudo observou que as espécies adotam o chamado mimetismo mülleriano, no qual os exem- plares são tanto modelos como mímicos, adotando padrões e cores semelhantes para o benefício de todos, como na defesa contra predadores. A convivência entre as espécies é notável. “Embora aparentemente idênticos em termos de padrão de cores, nossa análise aprofundada das relações genéticas, da dieta, da forma corporal e de outros padrões revelou que 92% das comunidades analisadas continham espécies que não competiam entre elas por alimentos”, disse Markos Alexandrou, da Universidade Bangor, no Reino Unido, um dos autores do estudo. Apesar de evoluírem para uma aparência similar, as espécies continuam distintas, com linhagens genéticas diferentes, concluiu o estudo [...]. PARECIDOS, mas diferentes. Agência Fapesp, São Paulo, 6 jan. 2011. Disponível em: http://agencia.fapesp.br/parecidos-mas-diferentes/13282/. Acesso em: 1o jul. 2020. a) Interprete o signi� cado de “exemplares modelo” e “exemplares mímicos”. b) Considerando os estudos de Müller no século XIX, quais seriam as vantagens evolutivas da ocorrência de várias espécies com aspectos morfológicos em comum? c) Como o resultado de que “92% das comunidades analisadas continham espécies que não competiam entre elas por alimentos” é interpretado, tomando como base as ideias sobre mimetismo de Müller? Outro caso complexo de mimetismo foi apresentado na década de 1870 por Fritz Müller (1822-1897), naturalista alemão radicado no Brasil. Ele identi� cou duas espécies de borboletas tóxicas e com coloração semelhante, o que o deixou intrigado. Se as duas espécies eram tóxicas, qual seria a vantagem evolutiva de apresentarem semelhanças morfológicas? Os estudos de Müller indicaram ser vantajoso para uma espécie tóxica rara parecer-se com uma espécie tóxica abundante, pois essa característica aumentaria as chances de sobrevivência da espécie rara (� gura 1.25). Em sua obra Ituna e Thyridia: a remarkable case of mimicry in butterfl ies (1878), Müller a� rmou que: [...] Em vez de uma dedução geral, o que é, por sinal, extremamente simples, vou dar um exemplo. Podem viver em determinada área duas espécies não palatáveis; 10 mil indivíduos de uma primeira espécie e 2 mil de uma segunda. Os predadores vivendo na mesma área podem comer por ano 1 200 in- divíduos de cada espécie até passar a evitá-la. Cada espécie perderia essa quantidade de indivíduos se tivessem aparência diferente; mas se elas fossem muito similares, de modo que a experiência de uma das espécies benefi ciasse a outra, então, a primeira espécie perderia 1 000 indivíduos e, a segunda, 200. A primeira espécie, portanto, ganharia com essa similaridade porque 200 indivíduos seriam poupados, ou 2% do número total, porém, a segundaganharia 1 000 indivíduos, o que é 50% de seu número total. Com base nessa consideração conclui-se ainda que, provavelmente, em alguns casos (por exemplo, o da Thyridia e da Ituna), a questão de qual das espécies é a original e qual é a cópia é uma questão irrelevan- te; cada uma tem uma vantagem de se tornar similar a outra; elas poderiam ter convergido entre si. [...] MÜLLER, Fritz. Ituna and Thyridia: a Remarkable Case of Mimicry in Butterfl ies. Trans. Entomol. Soc. Lond, 1879. (Texto traduzido pelos autores.) # Figura 1.25 – Borboletas Ituna ilione (à esquerda; cerca de 12 centímetros de envergadura) e Thyridia psidii aedesia (à direita; cerca de 10 centímetros de envergadura). D a rr e ll G u lin /D a n it a D e lim o n t/ A la m y /F o to a re n a a ls lu ts k y /S h u tt e rs to ck 30 Cap’tulo 1 010a040_V2_CIE_NAT_Mortimer_g21Sc_U1_Cap1_LA.indd 30010a040_V2_CIE_NAT_Mortimer_g21Sc_U1_Cap1_LA.indd 30 21/09/2020 18:5921/09/2020 18:59