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1° PERÍODO: 1895‑1918 B R E V E H I S T Ó R I A D A PSICANÁ LISE 1911 Nessa época, psicanálise é essencialmente sinônimo de “pensamento de Freud”. Seus marcos são, por um lado, a publicação dos Estudos sobre a histeria, a redação do Projeto de uma psicologia científica e a interpretação do sonho de Irma (1895); por outro, o fim da Primeira Guerra Mundial e a publicação das Lições de introdução à psicanálise de 1916- 7. Durante esse período, Freud escreve os textos que servem ainda hoje de fundamento para a disciplina, nas quatro vertentes que a compõem (metapsicologia, teoria do desenvolvimento, psicopatologia e teoria do processo analítico), e reúne à sua volta o grupo de discípulos que forma o núcleo do movimento analítico, consolidado com a fundação em 1911 da Associação Psicanalítica Internacional (ipa). 2° PERÍODO: 1918‑39 Esta segunda fase se caracteriza pela presença simultânea da figura de Freud — que continuava a construir seu pensamento e a introduzir nele alterações significativas — e de fatores cuja operação conjunta tende a favorecer a existência de focos de produção psicanalítica autônomos, embora ainda não suficientemente organizados para que se possa falar de tendências ou escolas claramente diferenciadas. O resultado dessa constelação é o surgimento de debates importantes — dentro da psicanálise — acerca de questões teóricas, clínicas e institucionais, enquanto anteriormente predominavam as discussões entre a psicanálise e o meio exterior (psiquiátrico, filosófico, psicológico, etc.) INÍCIO DA DIVERSIDADE a) fatores de ordem clínica: a psicanálise se estende a situações e a patologias estudadas por Freud, mas sem que este as tenha quase “esgotado”, como foi o caso da teoria dos sonhos ou da teoria das neuroses (exemplos: análise de crianças e de psicóticos, terapia em instituições). As novas situações exigem enquadramentos diversos, e formas novas de abordagem, o que suscita discussões acaloradas (por exemplo, entre Melanie Klein e Anna Freud a respeito da análise infantil). Outros problemas de técnica adquirem relevância (por exemplo, a ordem das interpretações — do superficial para o profundo, como queria Wilhelm Reich, ou o inverso, como faziam Klein e Otto Fenichel). b) fatores de ordem institucional: a organização sistemática da formação e as incessantes disputas a este respeito (exemplo: formação restrita a médicos ou aberta a não médicos), bem como a progressiva institucionalização dos grupos psicanalíticos, criaram um canal para a multiplicação dos psicanalistas que já não dependia do contato direto com Freud, e também um espaço para discussões igualmente independente da arbitragem dele, embora o peso da sua opinião permanecesse sempre considerável. Considerável, porém não mais decisivo. c) fatores de ordem teórico‑conceitual: a diversidade geográfica trazida pela implantação da psicanálise em países exteriores à sua área de nascença, somada a uma estrutura mais rígida de organização e à variedade de experiências clínicas, favorece o surgimento de diferentes vertentes na interpretação da obra de Freud, que acentuarão esta ou aquela dimensão, este ou aquele conjunto de noções, este ou aquele período ou estilo dentre a massa de escritos freudianos. A princípio pouco evidentes, esses matizes de interpretação vão fazer surgir aos poucos o “Freud americano”, o “Freud kleiniano”, o “Freud húngaro”, todos reivindi cando com maior ou menor veemência a exclusividade da leitura correta daquilo que em breve se poderá chamar de “herança” freudiana. Outro aspecto centrífugo consiste no fato de que, em determinadas questões, a opinião de Freud já não é aceita unanimemente (por exemplo, a ideia de pulsão de morte, ou sua leitura da sexualidade feminina). O jogo combinado de uma série de recortes privilegiados e do confronto com determinados conceitos de áreas afins (nem sempre as mesmas, aliás, e nem sempre escolhidas pelos mesmos critérios) irá redundar na elaboração de hipóteses cada vez menos diretamente dedutíveis do corpus freudiano: está aberto o caminho para a formação das “escolas”.. 3° PERÍODO: 1940‑70/5 Esta é propriamente a “era das escolas”: a psicanálise apresenta- se dividida em tendências que seguem uma evolução própria, impulsionada por fatores por assim dizer endógenos. Formam- se núcleos de teorização divergentes e maneiras estandartizadas de praticar a análise; a diversidade já presente na segunda fase se cristaliza em torno de autores centrais, que são ao mesmo tempo os protagonistas de embates institucionais no interior das diversas associações nacionais. Sem pretender à exatidão nas minúcias, pode-se dizer que se organizam quatro grandes correntes: a psicologia do ego, a tendência kleiniana, a escola das “relações de objeto” e o lacanismo, que seguem trajetórias próprias, como que desdobrando as potencialidades contidas em seus respectivos focos teóricos e clínicos. Observa- se uma relativa impermeabilidade entre essas trajetórias, ao menos no nível das formulações oficiais: poucas são as citações recíprocas, a formação codificada privilegia os autores e textos canônicos em cada tendência, etc. Há por vezes interesse no que se faz em outras paragens, mas geralmente polêmico (o caso mais evidente é do lacanismo frente à psicologia do ego e à obra de Melanie Klein). 4° PERÍODO: 1975/80 ATÉ HOJE Na atualidade se defrontam duas grandes vertentes na psicanálise. A primeira parece prolongar o período das escolas, como se a barra dos anos 1970 não tivesse existido: nela encontramos os ortodoxos de todos os matizes. Para esta vertente, tudo se passa como se com Lacan, Klein ou quem quer que seja seu líder espiritual a psicanálise tivesse atingido um cume intransponível, restando aos pósteros apenas a tarefa de manter intacta a herança que cada qual reputa verdadeira. Daí o aspecto repetitivo de suas contribuições, reduzidas no mais das vezes ao comentário e à ilustração, embora ocasionalmente brilhantes. São escritos de epígonos, um pouco à maneira dos que se reuniam em torno de Freud. A segunda vertente é constituída por diversos autores que têm em comum mais uma postura que uma ligação doutrinal: são aqueles que ou transitam por diversos campos “escolásticos” para, com o resultado dessas excursões, construir seu pensamento (por exemplo, André Green e Joyce McDougall), ou então escolheram trilhar uma trajetória própria, um pouco à margem das escolas institucionalizadas (por exemplo, Conrad Stein, Piera Aulagnier, Wilfred Bion, Heinz Kohut, Christopher Bollas). Constroem-se assim obras que têm uma coerência própria, mas que não cobrem o conjunto de problemática psicanalítica, nem pretendem ser o ponto de convergência de uma corrente institucionalizada, embora possam ser extraordinariamente influentes de um modo mais difuso. SIGMUND FREUD (1856- 1939) B R E V E H I S T Ó R I A D A PSICANÁ LISE PRIMEIROS DISCÍPULOS Foi talvez Stefan Zweig, em 1942, quem redigiu um dos retratos mais realistas de Freud: “Não se podia imaginar um indivíduo de espírito mais intrépido. Freud ousava a cada instante expressar o que pensava, mesmo quando sabia que inquietava e perturbava com suas declarações claras e inexoráveis; nunca procurava tornar sua posição menos difícil através da menor concessão, mesmo de pura forma. Estou convencido de que Freud poderia ter exposto, sem encontrar resistência por parte da universidade, quatro quintos de suas teorias, se estivesse disposto a vesti-las prudentemente, a dizer “erótico” em vez de “sexualidade”, Eros em vez de “libido” e a não ir sempre até o fundo das coisas, mas limitar-se a sugeri-las. Mas, desde que se tratasse de seu ensino e da verdade, ficava intransigente; quanto mais firme era a resistência, tanto mais ele se afirmava em sua resoluçãol.” Abraham, Karl (1877-1925) Adler, Alfred (1870-1937) Stekel, Wilhelm (1868-1940) Rudolf Reitler (1865-1917) Max Kahane (1866-1923) Federn, Paul (1871-1950) Rank, Otto, né Rosenfeld (1884- 1939) REFERÊNCIAS DA SEGUNDA GERAÇÃO Ferenczi, Sandor (1873-1933)Freud, Anna (1895-1982), filha de Sigmund Freud Jones, Ernest (1879-1958) Klein, Melanie, née Reizes (1882-1960) Jung, Carl Gustav (1875-1961) Pfister, Oskar (1873-1956) Reich, Wilhelm (1897-1957) Reik, Theodor (1888-1969) Spitz, René Arpad (1887-1974) Strachey, James (1887-1967) Tausk, Viktor (1879-1919) Hartmann, Heinz (1894-1970) Kris, Ernst (1900-1957) Loewenstein, Rudolph (1898- 1976) EGO PSYCHOLOGY FREUD, ANNA (1895-1982) Foi no campo da psicanálise de crianças que Anna Freud ingressou no movimento. Em 1922, apresentou à Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV) um primeiro trabalho, intitulado “Fantasias e devaneios diurnos de uma criança espancada”. Cinco anos depois, publi cou sua obra principal, O tratamento psicanalítico das crianças. Paralelamente, assumiu a edição das obras do pai, Gesammelte Schriften, concluída em 1924. No ano seguinte, foi eleita diretora do novo instituto de psicanálise de Viena, recém- criado. Assim, começou a assumir as responsabilidades institucionais que iriam fazer dela a grande representante da ortodoxia vienense.CULTURALISMO Horney, Karen, née Danielsen (1885-1952) Sullivan, Harry Stack (1892-1949) Margaret Mead*, Abram Kardiner*, Clara Thompson (1893-1958) WINNICOTT, DONALD WOODS (1896-1971) Melanie Klein foi o principal expoente do pensamento da segunda geração psicanalítica mundial. Deu origem a uma das grandes correntes do freudismo, o kleinismo, e graças a Ernest Jones, que a chamou para a Grã- Bretanha, contribuiu para o desenvolvimento considerável da escola inglesa de psicanálise. Transformou totalmente a doutrina freudiana clássica e criou não só a psicanálise de crianças, mas também uma nova técnica de tratamento e de análise didática, o que fizera dela uma chefe de escola. Sua obra, composta essencialmente de cerca de cinqüenta artigos e de um livro, A psicanálise de crianças, foi traduzida em quinze línguas e reunida em quatro volumes. KLEIN, MELANIE, NÉE REIZES (1882-1960) Dotado de um excepcional gênio clínico, esse grande pediatra, considerado por seus colegas como um espírito independente, e muitas vezes comparado na França a Françoise Dolto, foi o fundador da psicanálise de crianças na Grã-Bretanha, antes da chegada a Londres de Melanie Klein. Posição paradoxal, pois em geral eram as mulheres que ocupavam esse lugar na história do freudismo. Por sua obra e suas posições no seio do Grupo dos Independentes, diante dos kleinianos, por um lado, e dos annafreudianos, por outro, deixou uma herança conceitual fundamental, embora nunca tivesse fundado escola ou corrente LACAN, JACQUES, NÉ JACQUES-MARIE (1901-1981) BION, WILFRED RUPRECHT (1897-1979) Clínico erudito e brilhante, reformador da psiquiatria militar, grande clínico das psicoses e do borderline, Wilfred Ruprecht Bion foi o aluno mais turbulento de Melanie Klein, cujo dogmatismo rejeitou para construir uma teoria sofisticada do self e da personalidade, fundada em um modelo matemático e repleta de noções originais — pequenos grupos, função alfa, continente/conteúdo, objetos bizarros, pressupostos de base, grade etc. — que, em certos aspectos, se assemelhavam às de Jacques Lacan, seu contemporâneo. Como este, tentou dar um conteúdo formal à transmissão do saber psicanalítico, apoiando-se em fórmulas e na álgebra e, também como ele, apaixonou-se pela linguagem, pela filosofia e pela lógica, mas com uma perspectiva nitidamente cognitivista. Dentre os grandes intérpretes da história do freudismo, Jacques Lacan foi o único a dar à obra freudiana uma estrutura filosófica e a tirá-la de seu ancoramento biológico, sem com isso cair no espiritualismo. O paradoxo dessa interpretação inovadora única é que ela reintroduziu na psicanálise o pensamento filosófico alemão, do qual Sigmund Freud se tinha voluntariamente afastado. Essa poderosa contribuição fez de Lacan verdadeira referência da psicanálise na França Referências: MEZAN, R. (2014). O tronco e os ramos São Paulo: Companhia das Letras. ROUDINESCO E PLON. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.