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1 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 3 2 INTRODUÇÃO AO TEMA ........................................................................... 4 3 PROCESSO SAÚDE-DOENÇA .................................................................. 6 4 SAÚDE INDÍGENA ..................................................................................... 7 4.1 A saga das reformas da saúde indígena (1967-2004) ......................... 8 5 POLÍTICA INDIGENISTA NO BRASIL ...................................................... 10 5.1 A Lei Arouca e a criação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena ............................................................................................................13 6 POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO À SAÚDE DOS POVOS INDÍGENAS ...................................................................................................................16 6.1 Diretrizes gerais ................................................................................. 18 6.2 Diretrizes operacionais ....................................................................... 19 7 A MOBILIZAÇÃO INDÍGENA POR MUDANÇAS DO MODELO DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE .......................................................................................... 21 8 PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DOS POVOS INDÍGENAS NO BRASIL ...... 23 9 DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITÁRIAS ......................................... 25 9.1 Tuberculose ........................................................................................ 25 9.2 Malária ................................................................................................ 26 9.3 Hepatites virais ................................................................................... 27 10 INFECÇÕES RESPIRATÓRIAS AGUDAS, DOENÇAS DIARREICAS E PARASITISMO INTESTINAL .................................................................................... 29 11 DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS E DOENÇAS E AGRAVOS RELACIONADOS AO ESTADO NUTRICIONAL .................................... 31 12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................... 34 2 13 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ....................................................... 39 3 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro - quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 4 2 INTRODUÇÃO AO TEMA Fonte: Pixabay.com No Brasil, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vivem mais de 890 mil índios, distribuídos em todos os estados e correspondendo a 0,4% da população brasileira. Esse grupo, distribuído em 505 terras indígenas, ocupa 12,5% do território nacional. Apesar do contingente populacional não tão expressivo em relação ao total da população brasileira, esses povos apresentam imensa sociodiversidade, incluindo 305 grupos étnicos falantes de 274 idiomas. Torna-se importante destacar aqui o quadro epidemiológico, que, guardadas as particularidades de cada povo, em termos gerais é marcado por indicadores de saúde amplamente desfavoráveis frente ao restante da população brasileira (MENDES et al 2018). Anteriormente à reformulação da Constituição brasileira, em 1988, os povos indígenas eram tutelados pelo Estado. Privados de direitos, a trajetória esperada era uma progressiva assimilação pelo restante da população brasileira. Essa postura impedia que esses grupos protagonizassem as tomadas de decisão de acordo com suas reais necessidades. Assim, a Constituição de 1988 teve grande impacto sobre a criação de políticas públicas voltadas aos povos indígenas, considerando a iniciativa 5 de retirar de seu texto a tutela para torná-los cidadãos de fato e de direito. Entre os direitos concedidos está a garantia de atenção diferenciada à saúde (MENDES et al 2018). A conferência internacional de Alma-Ata, em 1978, foi um marco nas discussões relacionadas ao desenvolvimento da atenção primária à saúde (APS) como base para a efetivação da saúde enquanto direito fundamental e a redução das desigualdades estabelecidas entre povos. Nesse conceito, a APS se dá através de ações que têm foco na articulação entre diferentes setores, considerando um conceito ampliado de saúde (MENDES et al 2018). Sendo assim, cabe aos governos, em conjunto com as práticas de participação social, estabelecer normas e políticas que regulem estratégias para reduzir as iniquidades e desigualdades relacionadas à saúde e que se reflitam, de forma direta, no desenvolvimento dos países. Essas iniciativas, com base na situação local, devem promover a integralidade da assistência, compreendendo o acesso aos serviços e aos cuidados de diferentes profissionais, incluindo os “praticantes tradicionais” (MENDES et al 2018). Diversos movimentos foram instituídos nos anos 1980 no Brasil em prol de mudanças no sistema de saúde brasileiro, resultando na criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Mobilizações nesse sentido também foram realizadas pelo segmento indígena, que não conseguia se ver inserido nas propostas generalistas do SUS e que possuía necessidades específicas. A Declaração de Alma-Ata já trazia como objeto de discussão a implementação de ações de APS visando à redução das desigualdades em saúde com foco nas especificidades de cada povo, proposta seguida no processo de construção do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI) a partir das conferências de saúde protagonizadas pelos povos indígenas (MENDES et al 2018). 6 3 PROCESSO SAÚDE-DOENÇA Fonte: Pixabay.com Qualquer discussão sobre o processo saúde-doença dos povos indígenas precisa levar em consideração a sociodiversidade existente (COIMBRA et al 2007). Os povos indígenas no Brasil apresentam um complexo e dinâmico quadro de saúde que, associado às particularidades socioculturais de cada etnia, está diretamente relacionado a processos históricos de mudanças sociais, econômicas e ambientais atreladas à expansão de frentes demográficas e econômicas da sociedade nacional, nas diversas regiões do país. Ao longo dos séculos, essas frentes exerceram importante influência sobre os determinantes dos perfis da saúde indígena, quer seja por meio da introdução de novos patógenos, especialmente vírus, ocasionando graves epidemias; quer seja pela usurpação de territórios, dificultando ou inviabilizando a subsistência, e/ou pela perseguição e morte de indivíduos ou mesmo de comunidades inteiras. No presente, emergem outros desafios à saúde dos povos indígenas, que incluem as doenças crônicas não-transmissíveis, a contaminação ambiental e a dificuldade de sustentabilidade alimentar, para citar poucos exemplos (COIMBRA et al 2007). Para compreendermos o processo de saúde-doença dos povos indígenas, énecessário lançar mão de múltiplas perspectivas, oriundas da história, da antropologia e da saúde pública. É preciso olhar para o passado a fim de entender as dinâmicas contemporâneas. Configura-se fundamental atentar para a cultura desses povos, sua 7 riqueza e seus conhecimentos, assim como para as formas de interação com a sociedade nacional, de modo a entendermos como os povos indígenas respondem às doenças em seu cotidiano (COIMBRA et al 2007). 4 SAÚDE INDÍGENA Fonte: Pixabay.com A política de saúde para os povos indígenas é uma das questões mais delicadas e problemáticas da política indigenista oficial. Sensíveis às enfermidades trazidas por não-indígenas e, muitas vezes, habitando regiões remotas e de difícil acesso, as populações indígenas são vítimas de doenças como malária, tuberculose, infecções respiratórias, hepatite, doenças sexualmente transmissíveis (DST), entre outras (BRASIL 2018). Desde a criação da Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1967, diferentes instituições e órgãos governamentais se responsabilizaram pelo atendimento aos índios. As diretrizes foram alteradas diversas vezes, mas, com exceção de casos pontuais, em nenhum momento a situação sanitária nas aldeias foi realmente satisfatória (BRASIL 2018). Em 1999, uma política de descentralização do atendimento, mediante a assinatura de convênios com prefeituras e instituições da sociedade civil, reduziu a 8 ação direta do Estado e implementou 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), gerando alguns resultados positivos (BRASIL 2018). O subsistema de saúde indígena do Sistema Único de Saúde (SUS) era então gerido pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que, durante anos, foi alvo de denúncias ligadas a corrupção e deficiências no atendimento. O movimento indígena lutou para que a gestão da saúde indígena passasse às mãos de uma secretaria específica, diretamente vinculada ao Ministério da Saúde – demanda que foi atendida pela presidência da República no ano de 2010 (BRASIL 2018). Os DSEIs são, atualmente, de responsabilidade da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), e foram delimitados a partir de critérios epidemiológicos, geográficos e etnográficos. Cada DSEI possui um conjunto de equipamentos que permite a realização do atendimento de casos simples, ficando as ocorrências de alta complexidade a cargo de hospitais regionais, implicando em um aparato para remoção dos doentes (BRASIL 2018). O controle social se dá por meio dos Conselhos Indígenas de Saúde (Condisi), que garantem, ao menos no plano da legislação, a participação dos índios na gestão dos DSEIs. Os conselheiros são escolhidos pelas comunidades atendidas e participam de reuniões periódicas organizadas pelos gestores de cada DSEI. Na prática, a relação entre os povos indígenas e esses gestores é tensa, permeada por problemas relacionados à gestão e a aplicação de recursos (BRASIL 2018). 4.1 A saga das reformas da saúde indígena (1967-2004) • 1967 – Criação da Fundação Nacional do Índio (Funai). Ações de saúde esporádicas através das equipes volantes criadas em cada Delegacia regional da Funai. O Ministério da Saúde colaborava com o controle das principais endemias e a Funai assinou, ao longo dos anos, convênios com entidades governamentais e não governamentais de modo a remediar a falta de estrutura adequada. No entanto, em escala e capacidades operacional e administrativa insuficientes, esta atividade foi se atrofiando até a sua paralisação. • 1986 – I Conferência Nacional de Proteção à Saúde do Índio. Afirmou: a necessidade urgente de implantação de um modelo de atenção que garanta aos índios o direito universal e integral à saúde; a importância de respeitar as 9 especificidades étnicas e socioculturais e as práticas terapêuticas de cada grupo; a necessidade de garantir a participação indígena nas políticas de saúde; a criação de uma agência de saúde específica para assuntos indígenas. Primeira proposição do modelo dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis) sob a gerência do Ministério da Saúde. • 1988 - Promulgação da Constituição Federal que estabeleceu em seu artigo 198 as regras gerais do Sistema Único de Saúde (SUS) (regulamentado pelas leis n° 8.142/90 e 8.080/90): No âmbito da União, a gestão será exercida pelo Ministério da Saúde. Os direitos indígenas são de competência federal. • 1991 – Criação da Coordenação da Saúde do Índio (COSAI), subordinada ao Departamento de Operações da Fundação Nacional de Saúde (DEOPE/FNS) para atender ao Decreto nº 23/91 que transfere da Funai para o Ministério da Saúde (MS) a responsabilidade pela coordenação das ações de saúde para as populações indígenas. Criação do Distrito Sanitário Yanomami pela FNS. • 1992 – Criação da Comissão Intersetorial de Saúde do Índio (CISI) pela Resolução n° 11 de 13/10/1992. A CISI, formada por representantes do Governo Federal (Ministérios da Saúde e da Justiça), de Universidades e de organizações não-governamentais (ONGs) e por representantes indígenas, tem por atribuição assessorar o Conselho Nacional de Saúde/CNS na elaboração de princípios e diretrizes de políticas governamentais no campo da saúde indígena. • 1993 – II Conferência Nacional de Saúde para os Povos Indígenas reitera a defesa do modelo dos Dseis como base operacional, no nível do SUS, para o modelo de atenção à saúde das populações indígenas, os quais deveriam ser ligados diretamente ao MS e administrados por Conselhos de Saúde com participação indígena. Definiu o Governo Federal como instância responsável pela saúde indígena do país, não sendo excluídas as contribuições complementares dos estados, dos municípios ou de outras instituições governamentais ou não-governamentais. Defende a criação de uma secretaria especial do MS para a gestão da política de atenção à saúde para os povos indígenas. 10 • 1994 – Decreto nº 1.141/94. Revoga o Decreto n° 23/1991. Constitui a Comissão Intersetorial de Saúde e devolve, na prática, a coordenação da saúde indígena para a Funai, que fica responsável pela recuperação dos índios doentes enquanto o MS se encarrega das ações de prevenção. • 1999 – Decreto nº 3156/99 e “Lei Arouca” (n° 9.836). A saúde volta a ficar a cargo do MS: “O Ministério da Saúde estabelecerá as políticas e diretrizes para a promoção, prevenção e recuperação da saúde do índio, cujas ações serão executadas pela Funasa.” São definidos e implantados 34 Dseis em todo Brasil, cujos serviços de atenção básica à saúde e prevenção são executados através da estratégia de descentralização via convênios firmados com organizações da sociedade civil - associações indígenas e indigenistas - e alguns municípios. • 2004 – A Funasa divulga as portarias n° 69 e 70 determinando as novas diretrizes da saúde indígena. Com essa ação a Funasa recupera a execução direta do atendimento e reduz o papel das conveniadas, limitando-as à contratação de pessoal, à atenção nas aldeias com insumos, ao deslocamento de índios das aldeias e à compra de combustível para a realização desses deslocamentos (BRASIL 2018). 5 POLÍTICA INDIGENISTA NO BRASIL Fonte: Pixabay.com 11 A chamada política indigenista, ou seja, a política do Estado dirigida às populações indígenas foi caracterizada, ao longo da história do Brasil, pela forte interveniência do poder público, ainda que consorciado a entidades religiosas e civis, com vistas a promover a assimilação dos povos indígenas à sociedade brasileira. Essa política tinha como base o pressuposto de que paulatinamente os indígenas deixariam de existir como grupos culturalmente diferenciados. Porém, o passar dos anos mostrou que tal presunção era infundada, pois, longe de desaparecer, as sociedades indígenas tiveram grande crescimento demográfico, mostraram grande vitalidade cultural e ampliaram suas pautas de reivindicaçãopor direitos ligados à diferenciação étnica (GARNELO 2012). A atuação direta das instituições públicas na política indigenista se deu inicialmente através do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que foi substituído a partir de 1967 pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI), uma entidade estatal criada pela ditadura militar. Ambos os órgãos tinham como atribuições a prestação de assistência aos povos indígenas nos mais diversos campos da vida social tais como saúde, educação, direitos fundiários, proteção aos conhecimentos tradicionais, desenvolvimento econômico e outros (GARNELO 2012). Em que pese o perfil previsto para sua atuação, tais instituições jamais chegaram a cumprir plenamente suas atribuições. Em parte isso se deveu à ideia de que as sociedades indígenas seriam um objeto transitório da atenção das políticas públicas, posto que se extinguiriam fisicamente, ou sobreviveriam de forma indiferenciada em relação à sociedade brasileira como um todo, dispensando, portanto, a atuação indigenista (OLIVEIRA, 1998). Um dos aspectos mais negativos da política indigenista adotada no Brasil foi a prática da tutela, uma medida jurídica que delegava para o órgão indigenista oficial o direito de decidir pelas comunidades, tirando dos indígenas a possibilidade de protagonizar os rumos de suas vidas. No campo da saúde os órgãos indigenistas enfrentaram a falta de suporte técnico e financeiro para o desenvolvimento das ações sob sua responsabilidade, o que redundou em baixa qualidade e insuficiência na assistência sanitária ofertada nas aldeias. As restrições e inadequações da política indigenista geraram um acúmulo de insatisfações dos indígenas e das entidades não governamentais que os apoiavam, produzindo reivindicações por mudanças nas ações de governo (GARNELO, MACEDO & BRANDÃO, 2003). 12 Esse cenário foi significativamente alterado pela Constituição de 1988, que reconheceu os direitos dos povos originários às suas terras, a políticas sociais diferenciadas e adequadas às suas especificidades culturais, à autorrepresentação jurídico-política e à preservação de suas línguas e culturas. Tais avanços constitucionais repercutiram positivamente na política indigenista e na sociedade brasileira em geral, sedimentando a premissa de que um tratamento diferenciado às minorias étnicas pelo poder público representa um direito e não uma ação caritativa (LIMA & BARROSO-HOFFMAN, 2002). Ainda que a autonomia nativa permaneça limitada pela persistente assimetria social e econômica entre indígenas e não indígenas, os avanços políticos propiciados pela Constituição são inegáveis. Dentre eles destacamos a ampliação e consolidação do associativismo indígena que hoje é um dos mais importantes vetores de interveniência na definição de rumos e prioridades da política indigenista no país. No campo da saúde destacamos a criação de um subsistema específico para o atendimento a essas minorias (GARNELO 2012). No início da década de 1990, um conjunto de decretos da Presidência da República retirou da FUNAI boa parte de suas atribuições nas áreas de saúde, educação e de preservação cultural. Tais responsabilidades foram repassadas para os ministérios equivalentes, os quais já tinham ingerência sobre essas políticas públicas para o conjunto da população brasileira. A medida ampliou o conjunto de instituições de governo atuantes na questão indígena, tornando mais complexo o cenário político do indigenismo (GARNELO, MACEDO & BRANDÃO, 2003). Outro elemento relevante nesta conjuntura foi a emergência das Organizações não Governamentais, as chamadas ONGs. A presença crescente dessas entidades ao longo da década de 1990 ampliou o leque de alianças ao alcance do movimento indígena. Se antes as igrejas – católica e protestante – representavam a principal presença não governamental no mundo indígena, esse leque se diversificou com a participação de entidades com os mais diversos propósitos e matizes políticos. Parte desse universo é representada pelas ONGs organizadas pelos próprios índios, que vêm atuando em paralelo, ou complementarmente, às entidades de defesa dos direitos à diferença étnica (GARNELO, MACEDO & BRANDÃO, 2003). A interação entre associações indígenas e ONGs não indígenas tem viabilizado a provisão de assessoria e parceria para o desenvolvimento de intervenções em 13 diversos aspectos da vida social, tais como saúde, educação, direito, desenvolvimento econômico (sustentável ou não), comunicação social, registro escrito e audiovisual de produções culturais, qualificação técnica profissionalizante, e muitas outras. Tem sido marcante a atuação das ONGs na Amazônia, particularmente pela íntima vinculação que se estabeleceu entre a defesa da preservação da floresta e a das culturas indígenas (Garnelo, 2006a). Na Amazônia legal, região com grande densidade populacional indígena, persistiu, ou mesmo recrudesceu, ao longo da década de 1990 e anos subsequentes, a tensão entre índios e não índios, particularmente em áreas reconhecidas como fronteiras econômicas, nas quais tornou-se ainda mais acirrada a disputa por terras, jazidas minerais e outras riquezas naturais (GARNELO 2012). À medida que se consolidaram, as organizações indígenas sofreram inflexões nas suas finalidades. Concebidas inicialmente como meios de defesa da identidade indígena e instrumentos de luta pela demarcação das terras, as associações tiveram que rever seu perfil de atuação no final do século XX, porque novos campos da política indigenista se abriram e estas entidades foram chamadas a participar da gestão de políticas sociais nos mais variados campos (GARNELO & SAMPAIO, 2005). A mudança em seu perfil de atuação demandou também a ampliação da qualificação técnica dos líderes indígenas, muitos dos quais passaram a exercer cargos executivos, tanto em órgãos públicos quanto em entidades indígenas envolvidas com a execução de políticas sociais. Um dos campos em que isto ocorreu de modo mais visível foi na área da saúde, após a instituição do subsistema de saúde indígena, que, em seu período de implantação, firmou convênios com entidades de defesa dos direitos indígenas para a realização de atendimento sanitário à população indígena (VIANNA, 2006; GARNELO, 2006b). 5.1 A Lei Arouca e a criação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena O Subsistema de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas foi criado em 1999, por meio da Lei nº 9.836/99, conhecida como Lei Arouca. Ele é composto pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas/Dseis que se configuram em uma rede de serviços implantada nas terras indígenas para atender essa população, a partir de critérios geográficos, demográficos e culturais. Seguindo os princípios do SUS, esse 14 subsistema considerou a participação indígena como uma premissa fundamental para o melhor controle e planejamento dos serviços, bem como uma forma de reforçar a autodeterminação desses povos (ALTINI et al 2013). Em 1997 a Comissão Intersetorial de Saúde Indígena do Conselho Nacional de Saúde (CISI/CNS) solicitou a intervenção do Ministério Público Federal (6ª CCR/MPF) em razão da omissão do governo federal em implementar uma política adequada de assistência à saúde indígena. A audiência pública realizada em novembro de 1997 concluiu que a responsabilidade estabelecida na Constituição Federal pela atenção à saúde indígena era do Ministério da Saúde no âmbito federal, e que “a recusa das instituições ligadas ao SUS em prestar esta assistência configurava ato ilícito passível de ser confrontado nas vias competentes” (ALTINI et al 2013). Como consequência do aumento das pressões, o governo federal editou em 1999 o Decreto nº. 3.156 e promoveu junto ao Congresso Nacional a aprovação da “Lei Arouca” (Lei nº. 9.836, de 23 de setembro de 1999). Esta lei foi escrita pelo Deputado Sérgio Arouca, um dos líderes da ReformaSanitária, regulamentando as diretrizes aprovadas na II Conferência Nacional de Saúde Indígena, e estava engavetada no Congresso Nacional desde 1994. A política de saúde indígena passou a ser responsabilidade exclusiva do Ministério da Saúde: “O Ministério da Saúde estabelecerá as políticas e diretrizes para a promoção, prevenção e recuperação da saúde do índio, cujas ações serão executadas pela Funasa”. A Lei Arouca determinou que o governo federal instituísse o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI- SUS), tendo por base os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). Foram então criados os 34 DSEIs através da Portaria 852/1999 (ALTINI et al 2013). Em 1999 foi constituído pela Secretaria de Políticas do Ministério da Saúde um grupo de trabalho para a elaboração da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, constituído por representantes do governo, universidades, CIMI e organizações indígenas. Esta política foi aprovada em caráter preliminar pelo Conselho Nacional de Saúde em dezembro de 2000, e oficializada pelo Ministério da Saúde através da Portaria nº. 254 em 31 de janeiro de 2002. O propósito da política era garantir aos povos indígenas o acesso à atenção integral à saúde, de acordo com os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde, contemplando a sua diversidade social, cultural, geográfica, histórica e política (ALTINI et al 2013). 15 Com a criação do SASI-SUS e dos DSEIs, quase todos os serviços de saúde (atenção básica, prevenção e saneamento) passaram a ser executados através de convênios firmados com organizações da sociedade civil - organizações indígenas e indigenistas - e com alguns municípios. A perspectiva, no âmbito do Ministério da Saúde, era de que a União deveria transferir as suas responsabilidades no tocante à gestão e execução das ações em saúde indígena para terceiros. Esta política de parceria proposta pelo governo foi aceita por muitas organizações indígenas e indigenistas com a condição de que seria uma solução temporária, e com base no compromisso assumido pelo governo de trabalhar na construção de um marco regulatório para a relação com estas organizações, e no aprimoramento da capacidade gestora do governo para a execução direta das ações de saúde indígena. Infelizmente isto não foi cumprido até hoje pelo governo federal (ALTINI et al 2013). A partir destas mudanças, as deliberações das Conferências Nacionais de Saúde se tornaram inócuas e os Conselhos de Saúde Indígena, em muitos lugares, entes figurativos diante das ações e decisões das entidades conveniadas. O controle social foi sendo paulatinamente desconsiderado por grande parte dos gestores, ampliando com isso os problemas nos espaços de organização dos serviços de saúde. Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas, que seriam a base de toda a política, tornaram-se apenas uma espécie de referência geográfica para que a Funasa pudesse definir os tipos de convênios e as atribuições dos prestadores de serviços. A terceira Conferência Nacional de Saúde Indígena realizada em 2001 foi conduzida pelos agentes da Funasa com o objetivo de referendar a perspectiva da terceirização e a diminuição ou restrição à participação indígena no controle social (ALTINI et al 2013). No ano de 2004 a Funasa, através das portarias n° 69 e 70, estabeleceu novas diretrizes para a saúde indígena, visando recuperar a execução direta e reduzir o papel das conveniadas, limitando-as à contratação de pessoal, à atenção nas aldeias com insumos, ao deslocamento dos indígenas das aldeias, e à compra de combustível para a realização desses deslocamentos. No ano de 2006 foi instituído o Fórum de Presidentes dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena para atuar em caráter consultivo e propositivo, e em consonância com as demais instâncias decisórias do SUS (ALTINI et al 2013). 16 No processo de realização da quarta Conferência Nacional de Saúde Indígena realizada em 2006, várias conferências distritais apresentaram a proposta de criação da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), em razão do agravamento dos problemas recorrentes de má gestão, autoritarismo, uso político e corrupção nas coordenações regionais e instâncias centrais da Funasa. Esta proposta foi levada ao plenário da etapa nacional da conferência, e acabou derrotada por uma pequena margem de votos, motivando a denúncia por grande parte da delegação indígena de manipulação nos trabalhos da conferência (ALTINI et al 2013). Em 17 de outubro de 2007 foi editada pela Funasa a polêmica Portaria nº. 2.656, que dispunha sobre a regulamentação dos Incentivos de Atenção Básica e Especializada aos Povos Indígenas, revogando a Portaria nº 1.633/GM, de 14 de setembro de 1999. Esta portaria gerou grandes manifestações dos povos indígenas, insatisfeitos com a política que tinha como gestora a Funasa, que reivindicaram a criação de um modelo de política compatível com a Lei Arouca e com as diretrizes da II Conferência Nacional de Saúde Indígena. A portaria, além de fortalecer a Funasa, abria perspectivas concretas para a municipalização da saúde indígena, exatamente na contramão do que pretendiam os povos indígenas (ALTINI et al 2013). 6 POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO À SAÚDE DOS POVOS INDÍGENAS Fonte: Pixabay.com 17 O propósito dessa Política consiste em "(...) garantir aos povos indígenas o acesso à atenção integral à saúde, de acordo com os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde, contemplando a diversidade social, cultural, geográfica, histórica e política de modo a favorecer a superação dos fatores que tornam essa população mais vulnerável aos agravos à saúde de maior magnitude e transcendência entre os brasileiros, reconhecendo a eficácia de sua medicina e o direito desses povos à sua cultura (...)" (FUNAI 2018). Para o alcance desse propósito são estabelecidas as seguintes diretrizes, que devem orientar a definição de instrumentos de planejamento, implementação, avaliação e controle das ações de atenção à saúde dos povos indígenas (FUNAI 2018): • Organização dos serviços de atenção à saúde dos povos indígenas na forma de Distritos Sanitários Especiais e Pólos-Base, no nível local, onde a atenção primária e os serviços de referência se situam; • Preparação de recursos humanos para atuação em contexto intercultural; • Monitoramento das ações de saúde dirigidas aos povos indígenas; • Articulação dos sistemas tradicionais indígenas de saúde; • Promoção do uso adequado e racional de medicamentos; • Promoção de ações específicas em situações especiais; • Promoção da ética na pesquisa e nas ações de atenção à saúde envolvendo comunidades indígenas; • Promoção de ambientes saudáveis e proteção da saúde indígena; • Controle social. As ações de Educação em Saúde na Funasa são integradas às ações de saneamento na prevenção e controle de doenças e outros agravos à saúde, e à atenção integral à saúde dos povos indígenas (FUNAI 2018). Afirma-se a necessidade da inserção da Instituição na lógica da ação horizontal e Inter setorial. Portanto, ao incorporar a influência das dimensões sociais, econômicas, políticas e culturais na saúde, a Instituição supera o conceito de “educação sanitária” e passa a buscar a mudança de práticas de vida nos indivíduos e na população (FUNAI 2018). 18 O Ministério da Saúde outorgou à Funasa a responsabilidade de gerir o Subsistema de atenção à Saúde Indígena, articulado com o Sistema Único de Saúde (SUS), instituindo, a partir de agosto de 1999, a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, preconizada na Constituição e na Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/1990) (FUNAI 2018). Em sua nova missão, em estudo no processo de realinhamento institucional, a Funasa propõe “realizar ações de saneamento ambiental em todos municípios brasileiros e de atenção integralà saúde indígena, promovendo a saúde pública e inclusão social, com excelência de gestão, em consonância com o SUS e com as metas de desenvolvimento do milênio”. Esta missão demanda à Funasa um papel de normalização e assessoramento técnico que permita o fortalecimento de estados e municípios, de modo que cada um deles possa desenvolver suas próprias ações seguindo as diretrizes estabelecidas pela Funasa, adaptadas às peculiaridades regionais (FUNAI 2018). As diretrizes da Política de Educação em Saúde da Funasa, visando à promoção da saúde e melhoria da condição de vida da população, devem estar estruturadas nos seguintes pilares (FUNAI 2018): • Os fundamentos teóricos da educação; • Os princípios do Sistema Único de Saúde e o Controle Social; • Financiamento; • Convênios; • Estudos e pesquisas. Nesses pilares está estruturada a Educação em Saúde, tendo sua missão institucional como base sustentadora e orientadora de todo processo. A partir daí, a Educação em Saúde passa a ter como diretrizes para as ações ligadas ao saneamento ambiental e à atenção integral à saúde indígena (FUNAI 2018): 6.1 Diretrizes gerais • Formular a política e as diretrizes de Educação em Saúde no âmbito de atuação da Funasa, em consonância com o Ministério da Saúde e o Sistema Único de Saúde, e implementá-las; 19 • Gerenciar e implementar as ações de Educação em Saúde integradas às demais áreas técnicas da Funasa; • Estabelecer parcerias e articulações com os diversos ministérios, governos estaduais e municipais, organizações da sociedade civil, de modo a fomentar a formulação e desenvolvimento de políticas públicas saudáveis nas três esferas de governo, com ênfase em Saneamento Ambiental e Atenção à Saúde Integral dos Povos Indígenas; • Elaborar instrumentos de planejamento, de acompanhamento e de avaliação de planos, programas e projetos de Educação em Saúde; • Garantir o incremento ao apoio logístico e de recursos humanos às áreas de Educação em Saúde das Coordenações Regionais da Funasa por intermédio da aquisição de equipamentos e insumos, de recursos financeiros e materiais visando o cumprimento de projetos e ações propostas. • Desenvolver e fomentar a cooperação técnica, estudos e pesquisas de processos metodológicos inovadores de interesse da área; • Fomentar a produção e desenvolver metodologias de produção, testagem e avaliação de materiais de apoio à prática educativa e dar parecer em materiais instrucionais produzidos ou financiados pela Instituição (FUNAI 2018). 6.2 Diretrizes operacionais • Apoiar tecnicamente estados e municípios na elaboração, implementação e avaliação de projetos de Educação em Saúde e Mobilização Social e no exercício do controle social nas diversas etapas de planejamento, implantação e operação das obras e serviços de engenharia de saúde pública, no âmbito do SUS e seu subsistema; • Promover ações educativas junto às comunidades Quilombolas, Ribeirinhas, Extrativistas, Assentados, Indígenas e outras populações de interesse das políticas públicas de governo, que busquem a construção e reconstrução de conhecimentos e o controle social, utilizando metodologias participativas/problematizadoras, respeitando os princípios étno-culturais, os atores do processo e em consonância com os princípios e diretrizes do SUS; 20 • Realizar diagnóstico situacional, considerando o perfil demográfico, social, econômico, cultural, epidemiológico, a acessibilidade geográfica, organizacional e de comunicação de forma participativa, articulando as lideranças municipais e locais, formalmente constituídas; • Promover processos educativos com pessoas e grupos para serem agentes transformadores da realidade, assegurando a sustentabilidade dos projetos implantados e o fortalecimento do controle social; • Utilizar a Internet e outros veículos de comunicação como instrumentos de Educação em Saúde; • Avaliar continuamente as ações educativas junto aos projetos de saneamento ambiental e de saúde indígena e outras populações constantes da missão da Funasa; • Desenvolver, juntamente com as comunidades beneficiadas com o projeto “Água na Escola”, ações educativas em articulação com gestores e profissionais envolvidos, tendo em vista a atuação corresponsável de todos e a sustentabilidade do projeto, inclusive estabelecendo indicadores; • Promover ações educativas considerando as formas de organização e fóruns de discussão e de controle social já existentes nas comunidades; • Fomentar a participação dos órgãos de controle social na elaboração, implementação e avaliação dos projetos de Educação em Saúde nas ações de Saneamento Ambiental nos estados e municípios. • Criar mecanismos para a avaliação das ações de Educação em Saúde desenvolvidas na perspectiva da promoção da saúde das comunidades contempladas com projetos de Saneamento Ambiental; • Promover as ações educativas de forma a contribuir para o fortalecimento dos conselhos locais de Saúde e os conselhos de saúde indígena; • Incentivar a participação das comunidades no exercício do controle social em todas as etapas dos Projetos de Educação em Saúde (FUNAI 2018). 21 7 A MOBILIZAÇÃO INDÍGENA POR MUDANÇAS DO MODELO DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE Fonte: Pixabay.com Somente em agosto de 2008, depois das constantes manifestações realizadas pelo movimento indígena contra a Funasa, e das inúmeras denúncias de corrupção e de descaso na execução das ações e serviços nas áreas indígenas que vinha gerando avassaladora mortalidade infantil e alastramento de doenças, o ministro da Saúde resolveu ouvir as reclamações e propostas dos povos indígenas. Neste mesmo período, o Tribunal de Contas da União (TCU) desenvolveu uma auditoria sobre a Funasa, com ênfase nas questões relativas à gestão da política de saúde indígena. Concomitante a isso, a Justiça do Trabalho determinou que o governo federal fosse o responsável e, portanto, o gestor da política de saúde, e que a terceirização era uma prática ilegal (ALTINI et al 2013). No final do ano de 2008, foi apresentado o Projeto de Lei nº. 3.958 com vistas a alterar a Lei nº. 10.683/2003 que dispõe sobre a organização da Presidência da República e dos Ministérios e criar a Secretaria de Atenção Primária e Promoção da Saúde, na qual ficaria abrigada a saúde indígena. Na exposição de motivos deste projeto, o ministro da Saúde propôs a transferência das competências e atribuições exercidas pela Funasa para essa secretaria. Ainda fruto das pressões dos povos indígenas, constituiu-se um Grupo de Trabalho com a participação de lideranças indígenas (portarias 3.034/2008 e 3.035/2008 - GAB/MS), cujo objetivo foi o de discutir 22 e apresentar propostas, ações e medidas a serem implantadas no âmbito do Ministério da Saúde, no que se refere à gestão dos serviços de saúde oferecidos aos povos indígenas (ALTINI et al 2013). Depois de dois anos de espera, o governo editou a Medida Provisória nº. 483, aprovada pelo Congresso Nacional e transformada na Lei nº. 12.314/2010 e no dia 19/10/2010 foi editado o Decreto nº. 7.336/2010 que oficializou a criação da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Este período de transição para a implantação da nova gestão da saúde indígena caracterizou-se por uma gestão compartilhada entre Sesai e Funasa, e apesar do governo ter determinado um prazo de três meses para o detalhamento de sua estrutura e demais providências para torná-la operacional, a situação se arrastou por mais de três anos enquanto a assistência à saúde nas comunidades passava por momentos críticos (ALTINI et al 2013). Em 12 de agosto de 2011, foi publicado pela Sesai o edital de chamamento público nº 01/2011 visando à seleção de entidades privadas sem fins lucrativos para execução, por meio de convênios, das ações complementares na atenção à saúde dos povos indígenas.As entidades selecionadas foram a Sociedade Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) com sede em São Paulo que ficou responsável por 14 Distritos Sanitários Indígenas (DSEIs), o Instituto Materno Infantil de Pernambuco (IMIP), com sede em Recife, responsável por 5 DSEIs, e a Missão Evangélica Caiuá com sede em Campo Grande, responsável por 15 DSEIs. Esta concentração enorme de recursos e responsabilidades sobre as ações da saúde indígena em apenas três organizações, assim como a falta de transparência na execução deste modelo de relação convenial, têm sido motivo de duras críticas do movimento indígena em todo o país (ALTINI et al 2013). O novo modelo de gestão da saúde indígena passou a partir de então a contar com uma secretaria especial, vinculada diretamente ao Ministério da Saúde e de caráter executivo, que deveria atuar de forma descentralizada por meio dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). Entre as atribuições da Sesai estão: criar as condições necessárias para que os distritos tenham autonomia administrativa e financeira e sejam, com isso, transformados em unidades gestoras do SUS; garantir orçamentos próprios e administrados através dos Fundos Distritais de Saúde; ter um plano de carreira específico para os profissionais de saúde indígena, com condições trabalhistas adequadas às complexas e diferentes realidades dos DSEIs; assegurar 23 que os chefes ou coordenadores dos distritos sejam aprovados pelos conselhos distritais; garantir que o controle social seja efetivo, com participação indígena legítima em todas as instâncias de decisão; formar um quadro estável de recursos humanos (servidores públicos), adequado às necessidades estratégicas da gestão, através de concurso público diferenciado e que assegure a participação indígena nos processos de seleção; e assegurar que no órgão gestor da saúde indígena os servidores tenham perfil técnico independente das ingerências políticas (ALTINI et al 2013). 8 PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DOS POVOS INDÍGENAS NO BRASIL Fonte: Pixabay.com O perfil epidemiológico dos povos indígenas é desconhecido no Brasil. Isso ocorre em decorrência da exiguidade e execuções de pesquisas, bem como censos condignos correspondentes à realidade dos povos indígenas, por isso, os sistemas de informações são precários em relação a morbidade e mortalidade dos povos indígenas no Brasil. Além disso, pensar na saúde indígena, tem que pensar, na sociodiversidade existente nestes povos, isso significa que promover a saúde pública a eles, é também considerar como eles pensam a saúde (SANTOS & COIMBRA JÚNIOR, 2005). A sociodiversidade dos povos indígenas envolve centenas de etnias, com centenas de línguas falantes, em processos de interação com o meio ambiente natural 24 intrínsecos e com outro processo de interação com as comunidades de humanos não- indígenas presentes. Na Amazônia, São Paulo, Campo Grande e outros, há grupos isolados, grupos em processo de interação e outros já com franca interação com os humanos não-indígenas, sejam em territórios rurais, sejam em territórios urbanos, isto é, os poucos dados disponíveis faz com que não se possa traçar o perfil epidemiológico dos povos indígenas e por sua vez, a ausência de elementos quantitativos, para embasar análises, dados gerais e também em casos específicos, tornando cada vez mais, a saúde indígena precária (SANTOS & COIMBRA JÚNIOR, 2005). A concepção de saúde-doença pela população indígena é claramente diferente da percepção da medicina ocidental. Isso acarreta dificuldade na articulação conjunta dessas duas formas de cuidado, tornando-se uma problemática frequente. Essa dificuldade muitas vezes é acarretada pela falta de compreensão, dificuldades relacionadas à linguagem e discriminação. Desta maneira, os profissionais precisam possuir sensibilidade para conseguir lidar da melhor forma possível com essas diferenças (BARRETO, 2017). A partir disso, entende-se que a atenção à saúde indígena precisa ser diferenciada, no parâmetro de equidade do SUS, para que essa população possua o mesmo nível de atendimento que a população não indígena. Porém, no Brasil ainda não há uma produção sistemática de assuntos que contemplem estes assuntos de diferenças étnicas e raciais (RIBEIRO et al 2016). Apesar da carência e fragmentação de registros históricos sobre a trajetória de contato dos povos indígenas com outros grupos populacionais no Brasil, sabe-se que os reflexos dessa interação sobre os perfis de adoecimento e morte foram significativos e resultaram em importante redução numérica dos grupos nativos que vivem no país. Nesse contexto, houve grave desestruturação sociodemográfica que, não raro, provocou o desaparecimento de um número expressivo de etnias (GARNELO 2012). Entre as principais causas de morte relatadas nesse período podemos destacar as relacionadas à violência externa (decorrentes de guerras, genocídios, descimentos, (entre outros) e à disseminação de doenças infecciosas como a gripe, o sarampo, a varíola e a tuberculose. A redução populacional dos indígenas foi tão expressiva, sobretudo ao longo do século XIX e durante as primeiras décadas do século XX, que, 25 por algum tempo, chegou-se a aceitar a ideia de extinção gradual desses povos (GARNELO 2012). Contrariando essas expectativas, nas últimas décadas do século XX, observou- se de maneira consistente e em várias regiões do país uma importante recuperação populacional dos grupos indígenas. Como consequência do sustentado e progressivo aumento populacional desses povos, diversos desafios vieram à tona, em especial para a área de saúde, expressando-se por meio de sensíveis transformações nos perfis de adoecimento e morte (GARNELO 2012). 9 DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITÁRIAS Fonte: Pixabay.com Apesar da ocorrência de importantes modificações no perfil de saúde e adoecimento dos povos indígenas no Brasil, especialmente nas últimas quatro décadas, o conjunto de doenças infecciosas e parasitárias continua sendo uma das principais causas de adoecimento e morte (GARNELO 2012). 9.1 Tuberculose A tuberculose é uma doença sistêmica contagiosa, causada por uma bactéria denominada Mycobacterium tuberculosis, também conhecida como bacilo de Koch, 26 em referência a Robert Koch, o cientista alemão que a identificou pela primeira vez, em 1882 (GARNELO 2012). A forma clínica de acometimento mais comum é a pulmonar, observada em 80% a 90% dos casos. Durante a tosse, o espirro, o canto, a fala, o portador da doença elimina gotículas de saliva de vários tamanhos, contaminadas com o bacilo de Koch. As mais pesadas vão ao chão, enquanto as mais leves permanecem suspensas no ar. Quando uma pessoa inala as pequenas partículas contaminadas, o bacilo pode se alojar no interior dos pulmões, e a partir daí desenvolver uma reação inflamatória e dar início à infecção. Em linhas gerais, cerca de 5% das pessoas infectadas com o bacilo de Koch irão desenvolver tuberculose; no restante o sistema imunológico conterá a multiplicação bacilar e a pessoa não manifestará a doença. Estima-se que uma pessoa doente portadora da forma clínica pulmonar bacilífera (aquela em que se observa o M. tuberculosis no exame direto de escarro – baciloscopia) infecte de 10 a 15 pessoas por ano na comunidade em que vive (GARNELO 2012). Para dimensionar o impacto da tuberculose entre os indígenas no Brasil, mais uma vez esbarramos na precariedade de informações sistematizadas e disponíveis sobre o tema. De acordo com Ruffino-Netto (1999), os primeiros registros históricos da presença de tuberculose no país são provenientes de relatos dos jesuítas no início da colonização. Informações consolidadas na forma de indicadores de saúde encontram-se disponíveis apenas após a implantação do Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas – SUSA, a partir da décadade 1950 (GARNELO 2012). Infelizmente as altas taxas de adoecimento e morte descritas por Nutels e seus colaboradores na época ainda são muito atuais. Recentes estudos, conduzidos em diferentes grupos étnicos e regiões do país, revelam altas incidências, não deixando dúvidas sobre a relevância sanitária da tuberculose entre os indígenas no Brasil (GARNELO 2012). 9.2 Malária A malária é uma doença infecciosa, na maioria dos casos febril e aguda, causada por um parasita, o plasmódio. Em seres humanos foram descritas quatro espécies (Plasmodium falcipauram, P. vivax, P. Malarie e P. ovale) que são transmitidas de pessoa a pessoa pela picada da fêmea do mosquito Anófeles. A 27 doença tem ampla distribuição no território nacional, entretanto concentra-se na região conhecida como Amazônia Legal, que incorpora nove unidades federadas do país: Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins (GARNELO 2012). Sua contribuição para delinear os perfis de adoecimento e morte entre os povos indígenas no Brasil é imensa e inquestionável. Anualmente, milhares de pessoas adoecem por malária, e em algumas localidades a letalidade da doença ainda é elevada (GARNELO 2012). Os padrões de disseminação de alguns agravos, como a malária, guardam estreita relação com alterações produzidas no meio ambiente. Para que se dê a ocorrência de malária em uma dada localidade são necessários: a) condições ambientais favoráveis à reprodução do mosquito vetor (criadouros); b) reservatórios do agente infeccioso (pessoas doentes); e c) pessoas suscetíveis à nova infecção. Este conjunto de atributos configura a cadeia de transmissão da doença (GARNELO 2012). Alguns estudos têm identificado o Anopheles darlingi como principal vetor de transmissão da doença. Esse mosquito pica predominantemente fora do ambiente domiciliar, fato que favorece a transmissão da malária em alguns contextos. Por exemplo, durante a realização de tarefas cotidianas (tais como caça, pesca, trabalhos nas roças, banhos às margens de rios e igarapés, entre outros) as populações indígenas parecem estar particularmente expostas às picadas de anofelinos (GARNELO 2012). Além dessa contribuição (diríamos natural) na transmissão da doença, a exposição às frentes de expansão econômica na Amazônia, especialmente no que diz respeito a obras para construção de hidroelétricas e abertura de estradas, às atividades de mineração e aos garimpos ilegais, expõe os povos indígenas a elevados riscos de adoecimento e morte por malária (GARNELO 2012). 9.3 Hepatites virais As hepatites virais são causadas por diferentes agentes etiológicos, mesmo assim apresentam características clínicas e laboratoriais semelhantes, ainda que com particularidades epidemiológicas bem definidas. A transmissão das hepatites B e C 28 costuma ocorrer por meio da relação sexual ou com seringas, agulhas, sangue e secreções que contenham vírus. Estas formas podem evoluir para a cronicidade, com quadros de cirrose e câncer hepático. A cronicidade faz com que o ser humano seja o maior reservatório desses vírus, e também o responsável pela disseminação da doença (GARNELO 2012). As hepatites A e E, cujo principal modo de transmissão se dá por contato fecal- oral, ainda que não evoluam para formas crônicas, são endêmicas e podem causar grandes epidemias em regiões que apresentem condições sanitárias precárias (GARNELO 2012). Além dos sinais e sintomas clínicos comumente observados nos portadores de hepatites virais (tais como náuseas, vômitos, febre, icterícia, colúria, acolia fecal, entre outros), a doença pode ser detectada e ter sua evolução monitorada por meio de marcadores sorológicos. Os padrões epidemiológicos de infecção crônica pelo vírus da hepatite B (VHB), em uma determinada região, tendem a ser definidos com base na prevalência dos seguintes marcadores: HBsAg, anti-HBc e anti-HBs (GARNELO 2012). O HBsAg é um indicador de infecção crônica e demonstra a presença do vírus na corrente sanguínea. Já o anti-HBc total é um anticorpo produzido pelo organismo e indica a presença de infecção prévia, mas inativa no momento do exame. O anti- HBs é um anticorpo que é interpretado como marcador de imunidade adquirida à doença (GARNELO 2012). Segundo o Guia de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde (FUNASA, 2002a), uma área é considerada de alta endemicidade para hepatite B quando as prevalências de HBsAg encontram-se acima de 7%, ou acima de 60% para o anti-HBc total. Nas áreas de endemicidade moderada encontram-se prevalências de 2 a 7%, e 20 a 60% de HBsAg e anti-HBc, respectivamente. E nas áreas de baixa endemicidade, observam-se prevalências abaixo de 2% e 20% para HBsAg e anti- HBc, respectivamente. No Brasil as áreas de alta endemicidade concentram-se na região Amazônica, no Espírito Santo e no oeste de Santa Catarina (GARNELO 2012). Em linhas gerais, os estudos revisados indicam que a transmissão dos vírus B e D nas populações indígenas examinadas ocorre precocemente, principalmente entre as crianças de 5 a 12 anos e adultos jovens, provavelmente em decorrência de práticas culturais de cunho ritualístico, cosmético ou curativo (tais como 29 escarificações, tatuagens, sangrias, perfurações etc.), ou por meio de contato familiar e sexual (GARNELO 2012). Muitos autores indicam que a vacinação precisa ser ampliada, principalmente, entre os menores de um ano de idade, e que maior atenção deve ser dada aos indivíduos do sexo masculino, em que são observadas as maiores prevalências, provavelmente em decorrência de alguns costumes culturais, tais como perfuração das orelhas, consumo de bebidas alcoólicas e repetidas viagens para fora do ambiente da aldeia (GARNELO 2012). 10 INFECÇÕES RESPIRATÓRIAS AGUDAS, DOENÇAS DIARREICAS E PARASITISMO INTESTINAL Fonte: Pixabay.com Mundialmente, a pneumonia e as doenças diarreicas costumam ser responsáveis por cerca de 40% das causas de morte entre crianças menores de cinco anos, sobretudo, em regiões sabidamente desfavorecidas do ponto de vista socioeconômico, como o continente africano e o sudeste asiático (GARNELO 2012). Como era de se esperar, as doenças relacionadas ao trato respiratório e as doenças diarreicas também costumam despontar como uma das principais causas de morbidade ou adoecimento das crianças indígenas menores de cinco anos de idade, impactando negativamente nos perfis de mortalidade e se assemelhando ao perfil 30 encontrado para outras populações que estão em franca desvantagem socioeconômica (GARNELO 2012). Contudo, antes mesmo de apresentarmos alguns dados sobre morbidade ambulatorial fornecidos pela FUNASA, para o ano de 2002 (FUNASA, 2003), entendemos que é de fundamental importância lembrar que, apesar do elevado potencial desse tipo de registro para o planejamento e aplicação de recursos, suas limitações são evidentes. Tanto no que se refere a clientela que demanda esse serviço; a frequência e a qualidade das classificações de doenças em morbidade; assim como, as dificuldades em se definir, com precisão, os numeradores e denominadores que compõem a base do cálculo de alguns indicadores e taxas (GARNELO 2012). No ano de 2002, segundo relatório publicado pela FUNASA (FUNASA, 2003), foram registrados 614.822 atendimentos ambulatoriais. Desse total, aproximadamente 70% foram classificados, como sendo relacionados as doenças infecciosas e parasitárias e as doenças do aparelho respiratório. No conjunto de doenças infecciosas e parasitárias predominaram as intercorrências por verminoses (42,7%) e diarreias (28,8%) (GARNELO 2012). Tanto o parasitismo intestinal como as diarreias são conhecidas causas de morbidade entre os povos indígenas do Brasil, especialmente entre as crianças. Vários estudos sustentam que essas condições estão, em maior ou menor grau,associadas a precárias condições de saneamento, a crescente degradação ambiental, a restrição territorial, a inadequações e a baixa efetividade dos programas de controle do parasitismo intestinal e das diarreias em área indígena (GARNELO 2012). Entre as doenças do aparelho respiratório, os atendimentos por Infecções das Vias Aéreas Superiores (IVAS) foram mais frequentes, respondendo por um total de 90,5% dos registros, seguidos pelas pneumonias (3,7%). A expressiva concentração de atendimentos ambulatoriais por IVAS, sugere não só o sub-registro das pneumonias, como também, a baixa capacidade dos serviços de saúde em diagnosticar e tratar adequada e oportunamente essas demandas. Não é demais lembrar que na ausência ou mesmo com um inadequado diagnóstico as IVAS podem evoluir para casos de pneumonia e resultar não só no aumento da gravidade da doença, como também, em episódios de internação hospitalar e óbitos, passíveis de prevenção (GARNELO 2012). 31 Na última década, motivados pelas deficiências existentes nas bases e nos sistemas de informação em saúde do Brasil, o que inclui o SIASI, alguns autores têm buscado gerar informações alternativas acerca dos perfis de morbidade dos povos indígenas mediante a análise de registros de internações hospitalares. Esses estudos têm demonstrado que parcela significativa das hospitalizações ocorre entre os menores de cinco anos de idade e que a principal causa de internação recai justamente sobre as doenças do aparelho respiratório, sobretudo, aquelas do trato respiratório inferior como as pneumonias (GARNELO 2012). 11 DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS E DOENÇAS E AGRAVOS RELACIONADOS AO ESTADO NUTRICIONAL Fonte: Pixabay.com O quadro até aqui delineado permanece indicando as doenças infecciosas e parasitárias como as principais causas de morbidade e mortalidade entre os indígenas no Brasil. No entanto, nas últimas décadas, tem ficado cada vez mais evidente a crescente importância que as doenças crônicas não transmissíveis (hipertensão, diabetes tipo II e câncer, por exemplo) têm ocupado nesse complexo cenário (GARNELO 2012). Os poucos estudos disponíveis sobre o comportamento dos níveis de pressão arterial entre os povos indígenas no Brasil sugerem tratar-se de um problema de 32 saúde emergente e com elevado potencial de expansão, ainda que parte desses estudos tenham encontrado baixas ou mesmo nulas prevalências de hipertensão arterial (GARNELO 2012). Sinalizando na mesma direção das informações acima descritas, as estatísticas sobre atendimentos ambulatoriais da FUNASA também acusam a presença da hipertensão arterial entre indígenas, dado que os atendimentos por causas relacionadas ao aparelho circulatório responderam por, aproximadamente, 3% do total no ano de 2002 (FUNASA, 2003). Vale lembrar que se esses dados fossem desagregados e analisados com um olhar específico sobre os maiores de 30 anos esse percentual de atendimentos relacionados ao aparelho circulatório, provavelmente, aumentaria e retrataria de modo mais preciso a dimensão do problema (GARNELO 2012). O diabetes tipo II e a síndrome da resistência à insulina foram registrados nas Américas há mais de 30 anos entre indígenas e também figuram como importantes componentes do complexo perfil epidemiológico. No Brasil, apesar dos poucos estudos existentes se restringirem a um reduzido grupo de comunidades indígenas, é cada vez mais comum o surgimento de novas evidências relativas a importância da pressão exercida pelo diabetes tipo II e pela síndrome da resistência à insulina sobre os perfis de saúde e adoecimento desses povos (GARNELO 2012). De modo geral, estudos específicos sobre o tema costumam relacionar tanto a hipertensão quanto o diabetes tipo II e a síndrome da resistência à insulina a importantes mudanças no estilo de vida desses povos. Como exemplo, pode-se mencionar a adoção de hábitos sedentários, os quais resultam na redução dos padrões de atividade física; assim como, as importantes alterações observadas em seus padrões de consumo alimentar, que passaram a incorporar progressiva e crescentemente em suas rotinas alimentares itens como o açúcar refinado, o sal de cozinha, frituras, doces, refrigerantes entre outros (GARNELO 2012). Apesar da grande variabilidade de sua magnitude entre as diferentes regiões e etnias no país, outra importante causa de morbidade entre os indígenas adultos no Brasil é a obesidade. A principal preocupação é que ela é um grande fator de risco para a manifestação futura de doenças metabólicas (resistência à insulina e diabetes tipo II) e cardiovasculares (coronariopatias e acidentes vasculares cerebrais) (GARNELO 2012). 33 Vale destacar que a problemática da obesidade e do sobrepeso não está restrita aos indígenas adultos. Os adolescentes e as crianças, em uma proporção menor, também estão incluídos nesse paradoxal quadro de saúde (GARNELO 2012). No caso específico das crianças somam-se aos problemas nutricionais de obesidade e sobrepeso os já conhecidos e por vezes alarmantes problemas de desnutrição e anemia (Orellana et al 2009). Ainda que alguns estudos em comunidades específicas, assim como os próprios dados da FUNASA, sugiram uma redução nos valores da desnutrição infantil nos últimos anos, é oportuno assinalar que essa tendência não é forte, nem disseminada o suficiente para que a desnutrição infantil deixe de ser considerada como um dos principais componentes do perfil de morbimortalidade das crianças indígenas no país. Também não se pode ignorar que as taxas de desnutrição observadas nas crianças indígenas são bem superiores às médias nacionais, inclusive em regiões de reconhecida vulnerabilidade como o Norte e o Nordeste rural (GARNELO 2012). Todavia, sem desconsiderarmos as peculiaridades de cada etnia e a possível multiplicidade de perfis epidemiológicos existentes no país, pode-se dizer que, de modo geral, o perfil nutricional dos povos indígenas no Brasil parece ser bem delicado e com nuances bastante singulares e complexas. Coexistem de um lado velhos problemas de saúde como as doenças carenciais como a anemia entre as crianças e mulheres em idade reprodutiva, e de outro novos problemas de saúde, principalmente entre adultos, como o diabetes tipo II, a hipertensão, as dislipidemias, a obesidade e o sobrepeso (GARNELO 2012). 34 12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTINI, Emília et al. A Política de Atenção à Saúde Indígena no Brasil: Breve recuperação histórica sobre a política de assistência à saúde nas comunidades indígenas. Conselho Indigenista Missionário. Outubro de 2013. BARRETO, João Paulo. Bahserikowi - Centro de Medicina Indígena da Amazônia: concepções e práticas de saúde indígena. Periódicos UFPA, Amazônia, 2017. 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