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1 
 
 
SUMÁRIO 
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 3 
2 INTRODUÇÃO AO TEMA ........................................................................... 4 
3 PROCESSO SAÚDE-DOENÇA .................................................................. 6 
4 SAÚDE INDÍGENA ..................................................................................... 7 
4.1 A saga das reformas da saúde indígena (1967-2004) ......................... 8 
5 POLÍTICA INDIGENISTA NO BRASIL ...................................................... 10 
5.1 A Lei Arouca e a criação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena
 ............................................................................................................13 
6 POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO À SAÚDE DOS POVOS INDÍGENAS
 ...................................................................................................................16 
6.1 Diretrizes gerais ................................................................................. 18 
6.2 Diretrizes operacionais ....................................................................... 19 
7 A MOBILIZAÇÃO INDÍGENA POR MUDANÇAS DO MODELO DE 
ASSISTÊNCIA À SAÚDE .......................................................................................... 21 
8 PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DOS POVOS INDÍGENAS NO BRASIL ...... 23 
9 DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITÁRIAS ......................................... 25 
9.1 Tuberculose ........................................................................................ 25 
9.2 Malária ................................................................................................ 26 
9.3 Hepatites virais ................................................................................... 27 
10 INFECÇÕES RESPIRATÓRIAS AGUDAS, DOENÇAS DIARREICAS E 
PARASITISMO INTESTINAL .................................................................................... 29 
11 DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS E DOENÇAS E 
AGRAVOS RELACIONADOS AO ESTADO NUTRICIONAL .................................... 31 
12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................... 34 
 
2 
 
13 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ....................................................... 39 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
1 INTRODUÇÃO 
Prezado aluno! 
 
O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante 
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro - quase improvável - um 
aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma 
pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é 
que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a 
resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas 
poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em 
tempo hábil. 
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa 
disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das 
avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora 
que lhe convier para isso. 
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser 
seguida e prazos definidos para as atividades. 
 
Bons estudos! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
2 INTRODUÇÃO AO TEMA 
 
Fonte: Pixabay.com 
No Brasil, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e 
Estatística (IBGE), vivem mais de 890 mil índios, distribuídos em todos os estados e 
correspondendo a 0,4% da população brasileira. Esse grupo, distribuído em 505 terras 
indígenas, ocupa 12,5% do território nacional. Apesar do contingente populacional não 
tão expressivo em relação ao total da população brasileira, esses povos apresentam 
imensa sociodiversidade, incluindo 305 grupos étnicos falantes de 274 idiomas. 
Torna-se importante destacar aqui o quadro epidemiológico, que, guardadas as 
particularidades de cada povo, em termos gerais é marcado por indicadores de saúde 
amplamente desfavoráveis frente ao restante da população brasileira (MENDES et al 
2018). 
Anteriormente à reformulação da Constituição brasileira, em 1988, os povos 
indígenas eram tutelados pelo Estado. Privados de direitos, a trajetória esperada era 
uma progressiva assimilação pelo restante da população brasileira. Essa postura 
impedia que esses grupos protagonizassem as tomadas de decisão de acordo com 
suas reais necessidades. Assim, a Constituição de 1988 teve grande impacto sobre a 
criação de políticas públicas voltadas aos povos indígenas, considerando a iniciativa 
 
5 
 
de retirar de seu texto a tutela para torná-los cidadãos de fato e de direito. Entre os 
direitos concedidos está a garantia de atenção diferenciada à saúde (MENDES et al 
2018). 
A conferência internacional de Alma-Ata, em 1978, foi um marco nas 
discussões relacionadas ao desenvolvimento da atenção primária à saúde (APS) 
como base para a efetivação da saúde enquanto direito fundamental e a redução das 
desigualdades estabelecidas entre povos. Nesse conceito, a APS se dá através de 
ações que têm foco na articulação entre diferentes setores, considerando um conceito 
ampliado de saúde (MENDES et al 2018). 
Sendo assim, cabe aos governos, em conjunto com as práticas de participação 
social, estabelecer normas e políticas que regulem estratégias para reduzir as 
iniquidades e desigualdades relacionadas à saúde e que se reflitam, de forma direta, 
no desenvolvimento dos países. Essas iniciativas, com base na situação local, devem 
promover a integralidade da assistência, compreendendo o acesso aos serviços e aos 
cuidados de diferentes profissionais, incluindo os “praticantes tradicionais” (MENDES 
et al 2018). 
Diversos movimentos foram instituídos nos anos 1980 no Brasil em prol de 
mudanças no sistema de saúde brasileiro, resultando na criação do Sistema Único de 
Saúde (SUS). Mobilizações nesse sentido também foram realizadas pelo segmento 
indígena, que não conseguia se ver inserido nas propostas generalistas do SUS e que 
possuía necessidades específicas. A Declaração de Alma-Ata já trazia como objeto 
de discussão a implementação de ações de APS visando à redução das 
desigualdades em saúde com foco nas especificidades de cada povo, proposta 
seguida no processo de construção do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena 
(SASI) a partir das conferências de saúde protagonizadas pelos povos indígenas 
(MENDES et al 2018). 
 
 
6 
 
3 PROCESSO SAÚDE-DOENÇA 
 
Fonte: Pixabay.com 
Qualquer discussão sobre o processo saúde-doença dos povos indígenas 
precisa levar em consideração a sociodiversidade existente (COIMBRA et al 2007). 
Os povos indígenas no Brasil apresentam um complexo e dinâmico quadro de 
saúde que, associado às particularidades socioculturais de cada etnia, está 
diretamente relacionado a processos históricos de mudanças sociais, econômicas e 
ambientais atreladas à expansão de frentes demográficas e econômicas da sociedade 
nacional, nas diversas regiões do país. Ao longo dos séculos, essas frentes exerceram 
importante influência sobre os determinantes dos perfis da saúde indígena, quer seja 
por meio da introdução de novos patógenos, especialmente vírus, ocasionando graves 
epidemias; quer seja pela usurpação de territórios, dificultando ou inviabilizando a 
subsistência, e/ou pela perseguição e morte de indivíduos ou mesmo de comunidades 
inteiras. No presente, emergem outros desafios à saúde dos povos indígenas, que 
incluem as doenças crônicas não-transmissíveis, a contaminação ambiental e a 
dificuldade de sustentabilidade alimentar, para citar poucos exemplos (COIMBRA et 
al 2007). 
Para compreendermos o processo de saúde-doença dos povos indígenas, énecessário lançar mão de múltiplas perspectivas, oriundas da história, da antropologia 
e da saúde pública. É preciso olhar para o passado a fim de entender as dinâmicas 
contemporâneas. Configura-se fundamental atentar para a cultura desses povos, sua 
 
7 
 
riqueza e seus conhecimentos, assim como para as formas de interação com a 
sociedade nacional, de modo a entendermos como os povos indígenas respondem às 
doenças em seu cotidiano (COIMBRA et al 2007). 
4 SAÚDE INDÍGENA 
 
Fonte: Pixabay.com 
A política de saúde para os povos indígenas é uma das questões mais 
delicadas e problemáticas da política indigenista oficial. Sensíveis às enfermidades 
trazidas por não-indígenas e, muitas vezes, habitando regiões remotas e de difícil 
acesso, as populações indígenas são vítimas de doenças como malária, tuberculose, 
infecções respiratórias, hepatite, doenças sexualmente transmissíveis (DST), entre 
outras (BRASIL 2018). 
Desde a criação da Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1967, diferentes 
instituições e órgãos governamentais se responsabilizaram pelo atendimento aos 
índios. As diretrizes foram alteradas diversas vezes, mas, com exceção de casos 
pontuais, em nenhum momento a situação sanitária nas aldeias foi realmente 
satisfatória (BRASIL 2018). 
Em 1999, uma política de descentralização do atendimento, mediante a 
assinatura de convênios com prefeituras e instituições da sociedade civil, reduziu a 
 
8 
 
ação direta do Estado e implementou 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas 
(DSEIs), gerando alguns resultados positivos (BRASIL 2018). 
O subsistema de saúde indígena do Sistema Único de Saúde (SUS) era então 
gerido pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que, durante anos, foi alvo de 
denúncias ligadas a corrupção e deficiências no atendimento. O movimento indígena 
lutou para que a gestão da saúde indígena passasse às mãos de uma secretaria 
específica, diretamente vinculada ao Ministério da Saúde – demanda que foi atendida 
pela presidência da República no ano de 2010 (BRASIL 2018). 
Os DSEIs são, atualmente, de responsabilidade da Secretaria Especial de 
Saúde Indígena (Sesai), e foram delimitados a partir de critérios epidemiológicos, 
geográficos e etnográficos. Cada DSEI possui um conjunto de equipamentos que 
permite a realização do atendimento de casos simples, ficando as ocorrências de alta 
complexidade a cargo de hospitais regionais, implicando em um aparato para remoção 
dos doentes (BRASIL 2018). 
O controle social se dá por meio dos Conselhos Indígenas de Saúde (Condisi), 
que garantem, ao menos no plano da legislação, a participação dos índios na gestão 
dos DSEIs. Os conselheiros são escolhidos pelas comunidades atendidas e 
participam de reuniões periódicas organizadas pelos gestores de cada DSEI. Na 
prática, a relação entre os povos indígenas e esses gestores é tensa, permeada por 
problemas relacionados à gestão e a aplicação de recursos (BRASIL 2018). 
4.1 A saga das reformas da saúde indígena (1967-2004) 
• 1967 – Criação da Fundação Nacional do Índio (Funai). Ações de saúde 
esporádicas através das equipes volantes criadas em cada Delegacia regional 
da Funai. O Ministério da Saúde colaborava com o controle das principais 
endemias e a Funai assinou, ao longo dos anos, convênios com entidades 
governamentais e não governamentais de modo a remediar a falta de estrutura 
adequada. No entanto, em escala e capacidades operacional e administrativa 
insuficientes, esta atividade foi se atrofiando até a sua paralisação. 
• 1986 – I Conferência Nacional de Proteção à Saúde do Índio. Afirmou: a 
necessidade urgente de implantação de um modelo de atenção que garanta 
aos índios o direito universal e integral à saúde; a importância de respeitar as 
 
9 
 
especificidades étnicas e socioculturais e as práticas terapêuticas de cada 
grupo; a necessidade de garantir a participação indígena nas políticas de 
saúde; a criação de uma agência de saúde específica para assuntos indígenas. 
Primeira proposição do modelo dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas 
(Dseis) sob a gerência do Ministério da Saúde. 
• 1988 - Promulgação da Constituição Federal que estabeleceu em seu artigo 
198 as regras gerais do Sistema Único de Saúde (SUS) (regulamentado pelas 
leis n° 8.142/90 e 8.080/90): No âmbito da União, a gestão será exercida pelo 
Ministério da Saúde. Os direitos indígenas são de competência federal. 
• 1991 – Criação da Coordenação da Saúde do Índio (COSAI), subordinada ao 
Departamento de Operações da Fundação Nacional de Saúde (DEOPE/FNS) 
para atender ao Decreto nº 23/91 que transfere da Funai para o Ministério da 
Saúde (MS) a responsabilidade pela coordenação das ações de saúde para as 
populações indígenas. Criação do Distrito Sanitário Yanomami pela FNS. 
• 1992 – Criação da Comissão Intersetorial de Saúde do Índio (CISI) pela 
Resolução n° 11 de 13/10/1992. A CISI, formada por representantes do 
Governo Federal (Ministérios da Saúde e da Justiça), de Universidades e de 
organizações não-governamentais (ONGs) e por representantes indígenas, 
tem por atribuição assessorar o Conselho Nacional de Saúde/CNS na 
elaboração de princípios e diretrizes de políticas governamentais no campo da 
saúde indígena. 
• 1993 – II Conferência Nacional de Saúde para os Povos Indígenas reitera a 
defesa do modelo dos Dseis como base operacional, no nível do SUS, para o 
modelo de atenção à saúde das populações indígenas, os quais deveriam ser 
ligados diretamente ao MS e administrados por Conselhos de Saúde com 
participação indígena. Definiu o Governo Federal como instância responsável 
pela saúde indígena do país, não sendo excluídas as contribuições 
complementares dos estados, dos municípios ou de outras instituições 
governamentais ou não-governamentais. Defende a criação de uma secretaria 
especial do MS para a gestão da política de atenção à saúde para os povos 
indígenas. 
 
10 
 
• 1994 – Decreto nº 1.141/94. Revoga o Decreto n° 23/1991. Constitui a 
Comissão Intersetorial de Saúde e devolve, na prática, a coordenação da 
saúde indígena para a Funai, que fica responsável pela recuperação dos índios 
doentes enquanto o MS se encarrega das ações de prevenção. 
• 1999 – Decreto nº 3156/99 e “Lei Arouca” (n° 9.836). A saúde volta a ficar a 
cargo do MS: “O Ministério da Saúde estabelecerá as políticas e diretrizes para 
a promoção, prevenção e recuperação da saúde do índio, cujas ações serão 
executadas pela Funasa.” São definidos e implantados 34 Dseis em todo Brasil, 
cujos serviços de atenção básica à saúde e prevenção são executados através 
da estratégia de descentralização via convênios firmados com organizações da 
sociedade civil - associações indígenas e indigenistas - e alguns municípios. 
• 2004 – A Funasa divulga as portarias n° 69 e 70 determinando as novas 
diretrizes da saúde indígena. Com essa ação a Funasa recupera a execução 
direta do atendimento e reduz o papel das conveniadas, limitando-as à 
contratação de pessoal, à atenção nas aldeias com insumos, ao deslocamento 
de índios das aldeias e à compra de combustível para a realização desses 
deslocamentos (BRASIL 2018). 
5 POLÍTICA INDIGENISTA NO BRASIL 
 
Fonte: Pixabay.com 
 
11 
 
A chamada política indigenista, ou seja, a política do Estado dirigida às 
populações indígenas foi caracterizada, ao longo da história do Brasil, pela forte 
interveniência do poder público, ainda que consorciado a entidades religiosas e civis, 
com vistas a promover a assimilação dos povos indígenas à sociedade brasileira. 
Essa política tinha como base o pressuposto de que paulatinamente os indígenas 
deixariam de existir como grupos culturalmente diferenciados. Porém, o passar dos 
anos mostrou que tal presunção era infundada, pois, longe de desaparecer, as 
sociedades indígenas tiveram grande crescimento demográfico, mostraram grande 
vitalidade cultural e ampliaram suas pautas de reivindicaçãopor direitos ligados à 
diferenciação étnica (GARNELO 2012). 
A atuação direta das instituições públicas na política indigenista se deu 
inicialmente através do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que foi substituído a partir 
de 1967 pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI), uma entidade estatal criada pela 
ditadura militar. Ambos os órgãos tinham como atribuições a prestação de assistência 
aos povos indígenas nos mais diversos campos da vida social tais como saúde, 
educação, direitos fundiários, proteção aos conhecimentos tradicionais, 
desenvolvimento econômico e outros (GARNELO 2012). 
Em que pese o perfil previsto para sua atuação, tais instituições jamais 
chegaram a cumprir plenamente suas atribuições. Em parte isso se deveu à ideia de 
que as sociedades indígenas seriam um objeto transitório da atenção das políticas 
públicas, posto que se extinguiriam fisicamente, ou sobreviveriam de forma 
indiferenciada em relação à sociedade brasileira como um todo, dispensando, 
portanto, a atuação indigenista (OLIVEIRA, 1998). 
Um dos aspectos mais negativos da política indigenista adotada no Brasil foi a 
prática da tutela, uma medida jurídica que delegava para o órgão indigenista oficial o 
direito de decidir pelas comunidades, tirando dos indígenas a possibilidade de 
protagonizar os rumos de suas vidas. No campo da saúde os órgãos indigenistas 
enfrentaram a falta de suporte técnico e financeiro para o desenvolvimento das ações 
sob sua responsabilidade, o que redundou em baixa qualidade e insuficiência na 
assistência sanitária ofertada nas aldeias. As restrições e inadequações da política 
indigenista geraram um acúmulo de insatisfações dos indígenas e das entidades não 
governamentais que os apoiavam, produzindo reivindicações por mudanças nas 
ações de governo (GARNELO, MACEDO & BRANDÃO, 2003). 
 
12 
 
Esse cenário foi significativamente alterado pela Constituição de 1988, que 
reconheceu os direitos dos povos originários às suas terras, a políticas sociais 
diferenciadas e adequadas às suas especificidades culturais, à autorrepresentação 
jurídico-política e à preservação de suas línguas e culturas. Tais avanços 
constitucionais repercutiram positivamente na política indigenista e na sociedade 
brasileira em geral, sedimentando a premissa de que um tratamento diferenciado às 
minorias étnicas pelo poder público representa um direito e não uma ação caritativa 
(LIMA & BARROSO-HOFFMAN, 2002). 
Ainda que a autonomia nativa permaneça limitada pela persistente assimetria 
social e econômica entre indígenas e não indígenas, os avanços políticos propiciados 
pela Constituição são inegáveis. Dentre eles destacamos a ampliação e consolidação 
do associativismo indígena que hoje é um dos mais importantes vetores de 
interveniência na definição de rumos e prioridades da política indigenista no país. No 
campo da saúde destacamos a criação de um subsistema específico para o 
atendimento a essas minorias (GARNELO 2012). 
No início da década de 1990, um conjunto de decretos da Presidência da 
República retirou da FUNAI boa parte de suas atribuições nas áreas de saúde, 
educação e de preservação cultural. Tais responsabilidades foram repassadas para 
os ministérios equivalentes, os quais já tinham ingerência sobre essas políticas 
públicas para o conjunto da população brasileira. A medida ampliou o conjunto de 
instituições de governo atuantes na questão indígena, tornando mais complexo o 
cenário político do indigenismo (GARNELO, MACEDO & BRANDÃO, 2003). 
Outro elemento relevante nesta conjuntura foi a emergência das Organizações 
não Governamentais, as chamadas ONGs. A presença crescente dessas entidades 
ao longo da década de 1990 ampliou o leque de alianças ao alcance do movimento 
indígena. Se antes as igrejas – católica e protestante – representavam a principal 
presença não governamental no mundo indígena, esse leque se diversificou com a 
participação de entidades com os mais diversos propósitos e matizes políticos. Parte 
desse universo é representada pelas ONGs organizadas pelos próprios índios, que 
vêm atuando em paralelo, ou complementarmente, às entidades de defesa dos 
direitos à diferença étnica (GARNELO, MACEDO & BRANDÃO, 2003). 
A interação entre associações indígenas e ONGs não indígenas tem viabilizado 
a provisão de assessoria e parceria para o desenvolvimento de intervenções em 
 
13 
 
diversos aspectos da vida social, tais como saúde, educação, direito, desenvolvimento 
econômico (sustentável ou não), comunicação social, registro escrito e audiovisual de 
produções culturais, qualificação técnica profissionalizante, e muitas outras. Tem sido 
marcante a atuação das ONGs na Amazônia, particularmente pela íntima vinculação 
que se estabeleceu entre a defesa da preservação da floresta e a das culturas 
indígenas (Garnelo, 2006a). 
Na Amazônia legal, região com grande densidade populacional indígena, 
persistiu, ou mesmo recrudesceu, ao longo da década de 1990 e anos subsequentes, 
a tensão entre índios e não índios, particularmente em áreas reconhecidas como 
fronteiras econômicas, nas quais tornou-se ainda mais acirrada a disputa por terras, 
jazidas minerais e outras riquezas naturais (GARNELO 2012). 
À medida que se consolidaram, as organizações indígenas sofreram inflexões 
nas suas finalidades. Concebidas inicialmente como meios de defesa da identidade 
indígena e instrumentos de luta pela demarcação das terras, as associações tiveram 
que rever seu perfil de atuação no final do século XX, porque novos campos da política 
indigenista se abriram e estas entidades foram chamadas a participar da gestão de 
políticas sociais nos mais variados campos (GARNELO & SAMPAIO, 2005). 
A mudança em seu perfil de atuação demandou também a ampliação da 
qualificação técnica dos líderes indígenas, muitos dos quais passaram a exercer 
cargos executivos, tanto em órgãos públicos quanto em entidades indígenas 
envolvidas com a execução de políticas sociais. Um dos campos em que isto ocorreu 
de modo mais visível foi na área da saúde, após a instituição do subsistema de saúde 
indígena, que, em seu período de implantação, firmou convênios com entidades de 
defesa dos direitos indígenas para a realização de atendimento sanitário à população 
indígena (VIANNA, 2006; GARNELO, 2006b). 
5.1 A Lei Arouca e a criação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena 
O Subsistema de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas foi criado em 1999, 
por meio da Lei nº 9.836/99, conhecida como Lei Arouca. Ele é composto pelos 
Distritos Sanitários Especiais Indígenas/Dseis que se configuram em uma rede de 
serviços implantada nas terras indígenas para atender essa população, a partir de 
critérios geográficos, demográficos e culturais. Seguindo os princípios do SUS, esse 
 
14 
 
subsistema considerou a participação indígena como uma premissa fundamental para 
o melhor controle e planejamento dos serviços, bem como uma forma de reforçar a 
autodeterminação desses povos (ALTINI et al 2013). 
Em 1997 a Comissão Intersetorial de Saúde Indígena do Conselho Nacional de 
Saúde (CISI/CNS) solicitou a intervenção do Ministério Público Federal (6ª CCR/MPF) 
em razão da omissão do governo federal em implementar uma política adequada de 
assistência à saúde indígena. A audiência pública realizada em novembro de 1997 
concluiu que a responsabilidade estabelecida na Constituição Federal pela atenção à 
saúde indígena era do Ministério da Saúde no âmbito federal, e que “a recusa das 
instituições ligadas ao SUS em prestar esta assistência configurava ato ilícito passível 
de ser confrontado nas vias competentes” (ALTINI et al 2013). 
Como consequência do aumento das pressões, o governo federal editou em 
1999 o Decreto nº. 3.156 e promoveu junto ao Congresso Nacional a aprovação da 
“Lei Arouca” (Lei nº. 9.836, de 23 de setembro de 1999). Esta lei foi escrita pelo 
Deputado Sérgio Arouca, um dos líderes da ReformaSanitária, regulamentando as 
diretrizes aprovadas na II Conferência Nacional de Saúde Indígena, e estava 
engavetada no Congresso Nacional desde 1994. A política de saúde indígena passou 
a ser responsabilidade exclusiva do Ministério da Saúde: “O Ministério da Saúde 
estabelecerá as políticas e diretrizes para a promoção, prevenção e recuperação da 
saúde do índio, cujas ações serão executadas pela Funasa”. A Lei Arouca determinou 
que o governo federal instituísse o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI-
SUS), tendo por base os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). Foram 
então criados os 34 DSEIs através da Portaria 852/1999 (ALTINI et al 2013). 
Em 1999 foi constituído pela Secretaria de Políticas do Ministério da Saúde um 
grupo de trabalho para a elaboração da Política Nacional de Atenção à Saúde dos 
Povos Indígenas, constituído por representantes do governo, universidades, CIMI e 
organizações indígenas. Esta política foi aprovada em caráter preliminar pelo 
Conselho Nacional de Saúde em dezembro de 2000, e oficializada pelo Ministério da 
Saúde através da Portaria nº. 254 em 31 de janeiro de 2002. O propósito da política 
era garantir aos povos indígenas o acesso à atenção integral à saúde, de acordo com 
os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde, contemplando a sua diversidade 
social, cultural, geográfica, histórica e política (ALTINI et al 2013). 
 
15 
 
Com a criação do SASI-SUS e dos DSEIs, quase todos os serviços de saúde 
(atenção básica, prevenção e saneamento) passaram a ser executados através de 
convênios firmados com organizações da sociedade civil - organizações indígenas e 
indigenistas - e com alguns municípios. A perspectiva, no âmbito do Ministério da 
Saúde, era de que a União deveria transferir as suas responsabilidades no tocante à 
gestão e execução das ações em saúde indígena para terceiros. Esta política de 
parceria proposta pelo governo foi aceita por muitas organizações indígenas e 
indigenistas com a condição de que seria uma solução temporária, e com base no 
compromisso assumido pelo governo de trabalhar na construção de um marco 
regulatório para a relação com estas organizações, e no aprimoramento da 
capacidade gestora do governo para a execução direta das ações de saúde indígena. 
Infelizmente isto não foi cumprido até hoje pelo governo federal (ALTINI et al 2013). 
A partir destas mudanças, as deliberações das Conferências Nacionais de 
Saúde se tornaram inócuas e os Conselhos de Saúde Indígena, em muitos lugares, 
entes figurativos diante das ações e decisões das entidades conveniadas. O controle 
social foi sendo paulatinamente desconsiderado por grande parte dos gestores, 
ampliando com isso os problemas nos espaços de organização dos serviços de 
saúde. Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas, que seriam a base de toda a 
política, tornaram-se apenas uma espécie de referência geográfica para que a Funasa 
pudesse definir os tipos de convênios e as atribuições dos prestadores de serviços. A 
terceira Conferência Nacional de Saúde Indígena realizada em 2001 foi conduzida 
pelos agentes da Funasa com o objetivo de referendar a perspectiva da terceirização 
e a diminuição ou restrição à participação indígena no controle social (ALTINI et al 
2013). 
No ano de 2004 a Funasa, através das portarias n° 69 e 70, estabeleceu novas 
diretrizes para a saúde indígena, visando recuperar a execução direta e reduzir o 
papel das conveniadas, limitando-as à contratação de pessoal, à atenção nas aldeias 
com insumos, ao deslocamento dos indígenas das aldeias, e à compra de combustível 
para a realização desses deslocamentos. No ano de 2006 foi instituído o Fórum de 
Presidentes dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena para atuar em caráter 
consultivo e propositivo, e em consonância com as demais instâncias decisórias do 
SUS (ALTINI et al 2013). 
 
16 
 
No processo de realização da quarta Conferência Nacional de Saúde Indígena 
realizada em 2006, várias conferências distritais apresentaram a proposta de criação 
da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), em razão do agravamento dos 
problemas recorrentes de má gestão, autoritarismo, uso político e corrupção nas 
coordenações regionais e instâncias centrais da Funasa. Esta proposta foi levada ao 
plenário da etapa nacional da conferência, e acabou derrotada por uma pequena 
margem de votos, motivando a denúncia por grande parte da delegação indígena de 
manipulação nos trabalhos da conferência (ALTINI et al 2013). 
Em 17 de outubro de 2007 foi editada pela Funasa a polêmica Portaria nº. 
2.656, que dispunha sobre a regulamentação dos Incentivos de Atenção Básica e 
Especializada aos Povos Indígenas, revogando a Portaria nº 1.633/GM, de 14 de 
setembro de 1999. Esta portaria gerou grandes manifestações dos povos indígenas, 
insatisfeitos com a política que tinha como gestora a Funasa, que reivindicaram a 
criação de um modelo de política compatível com a Lei Arouca e com as diretrizes da 
II Conferência Nacional de Saúde Indígena. A portaria, além de fortalecer a Funasa, 
abria perspectivas concretas para a municipalização da saúde indígena, exatamente 
na contramão do que pretendiam os povos indígenas (ALTINI et al 2013). 
6 POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO À SAÚDE DOS POVOS INDÍGENAS 
 
Fonte: Pixabay.com 
 
17 
 
O propósito dessa Política consiste em "(...) garantir aos povos indígenas o 
acesso à atenção integral à saúde, de acordo com os princípios e diretrizes do Sistema 
Único de Saúde, contemplando a diversidade social, cultural, geográfica, histórica e 
política de modo a favorecer a superação dos fatores que tornam essa população mais 
vulnerável aos agravos à saúde de maior magnitude e transcendência entre os 
brasileiros, reconhecendo a eficácia de sua medicina e o direito desses povos à sua 
cultura (...)" (FUNAI 2018). 
Para o alcance desse propósito são estabelecidas as seguintes diretrizes, que 
devem orientar a definição de instrumentos de planejamento, implementação, 
avaliação e controle das ações de atenção à saúde dos povos indígenas (FUNAI 
2018): 
• Organização dos serviços de atenção à saúde dos povos indígenas na forma 
de Distritos Sanitários Especiais e Pólos-Base, no nível local, onde a atenção 
primária e os serviços de referência se situam; 
• Preparação de recursos humanos para atuação em contexto intercultural; 
• Monitoramento das ações de saúde dirigidas aos povos indígenas; 
• Articulação dos sistemas tradicionais indígenas de saúde; 
• Promoção do uso adequado e racional de medicamentos; 
• Promoção de ações específicas em situações especiais; 
• Promoção da ética na pesquisa e nas ações de atenção à saúde envolvendo 
comunidades indígenas; 
• Promoção de ambientes saudáveis e proteção da saúde indígena; 
• Controle social. 
As ações de Educação em Saúde na Funasa são integradas às ações de 
saneamento na prevenção e controle de doenças e outros agravos à saúde, e à 
atenção integral à saúde dos povos indígenas (FUNAI 2018). 
Afirma-se a necessidade da inserção da Instituição na lógica da ação horizontal 
e Inter setorial. Portanto, ao incorporar a influência das dimensões sociais, 
econômicas, políticas e culturais na saúde, a Instituição supera o conceito de 
“educação sanitária” e passa a buscar a mudança de práticas de vida nos indivíduos 
e na população (FUNAI 2018). 
 
18 
 
O Ministério da Saúde outorgou à Funasa a responsabilidade de gerir o 
Subsistema de atenção à Saúde Indígena, articulado com o Sistema Único de Saúde 
(SUS), instituindo, a partir de agosto de 1999, a Política Nacional de Atenção à Saúde 
dos Povos Indígenas, preconizada na Constituição e na Lei Orgânica da Saúde (Lei 
nº 8.080/1990) (FUNAI 2018). 
Em sua nova missão, em estudo no processo de realinhamento institucional, a 
Funasa propõe “realizar ações de saneamento ambiental em todos municípios 
brasileiros e de atenção integralà saúde indígena, promovendo a saúde pública e 
inclusão social, com excelência de gestão, em consonância com o SUS e com as 
metas de desenvolvimento do milênio”. Esta missão demanda à Funasa um papel de 
normalização e assessoramento técnico que permita o fortalecimento de estados e 
municípios, de modo que cada um deles possa desenvolver suas próprias ações 
seguindo as diretrizes estabelecidas pela Funasa, adaptadas às peculiaridades 
regionais (FUNAI 2018). 
As diretrizes da Política de Educação em Saúde da Funasa, visando à 
promoção da saúde e melhoria da condição de vida da população, devem estar 
estruturadas nos seguintes pilares (FUNAI 2018): 
• Os fundamentos teóricos da educação; 
• Os princípios do Sistema Único de Saúde e o Controle Social; 
• Financiamento; 
• Convênios; 
• Estudos e pesquisas. 
Nesses pilares está estruturada a Educação em Saúde, tendo sua missão 
institucional como base sustentadora e orientadora de todo processo. A partir daí, a 
Educação em Saúde passa a ter como diretrizes para as ações ligadas ao 
saneamento ambiental e à atenção integral à saúde indígena (FUNAI 2018): 
6.1 Diretrizes gerais 
• Formular a política e as diretrizes de Educação em Saúde no âmbito de atuação 
da Funasa, em consonância com o Ministério da Saúde e o Sistema Único de 
Saúde, e implementá-las; 
 
19 
 
• Gerenciar e implementar as ações de Educação em Saúde integradas às 
demais áreas técnicas da Funasa; 
• Estabelecer parcerias e articulações com os diversos ministérios, governos 
estaduais e municipais, organizações da sociedade civil, de modo a fomentar 
a formulação e desenvolvimento de políticas públicas saudáveis nas três 
esferas de governo, com ênfase em Saneamento Ambiental e Atenção à Saúde 
Integral dos Povos Indígenas; 
• Elaborar instrumentos de planejamento, de acompanhamento e de avaliação 
de planos, programas e projetos de Educação em Saúde; 
• Garantir o incremento ao apoio logístico e de recursos humanos às áreas de 
Educação em Saúde das Coordenações Regionais da Funasa por intermédio 
da aquisição de equipamentos e insumos, de recursos financeiros e materiais 
visando o cumprimento de projetos e ações propostas. 
• Desenvolver e fomentar a cooperação técnica, estudos e pesquisas de 
processos metodológicos inovadores de interesse da área; 
• Fomentar a produção e desenvolver metodologias de produção, testagem e 
avaliação de materiais de apoio à prática educativa e dar parecer em materiais 
instrucionais produzidos ou financiados pela Instituição (FUNAI 2018). 
6.2 Diretrizes operacionais 
• Apoiar tecnicamente estados e municípios na elaboração, implementação e 
avaliação de projetos de Educação em Saúde e Mobilização Social e no 
exercício do controle social nas diversas etapas de planejamento, implantação 
e operação das obras e serviços de engenharia de saúde pública, no âmbito 
do SUS e seu subsistema; 
• Promover ações educativas junto às comunidades Quilombolas, Ribeirinhas, 
Extrativistas, Assentados, Indígenas e outras populações de interesse das 
políticas públicas de governo, que busquem a construção e reconstrução de 
conhecimentos e o controle social, utilizando metodologias 
participativas/problematizadoras, respeitando os princípios étno-culturais, os 
atores do processo e em consonância com os princípios e diretrizes do SUS; 
 
20 
 
• Realizar diagnóstico situacional, considerando o perfil demográfico, social, 
econômico, cultural, epidemiológico, a acessibilidade geográfica, 
organizacional e de comunicação de forma participativa, articulando as 
lideranças municipais e locais, formalmente constituídas; 
• Promover processos educativos com pessoas e grupos para serem agentes 
transformadores da realidade, assegurando a sustentabilidade dos projetos 
implantados e o fortalecimento do controle social; 
• Utilizar a Internet e outros veículos de comunicação como instrumentos de 
Educação em Saúde; 
• Avaliar continuamente as ações educativas junto aos projetos de saneamento 
ambiental e de saúde indígena e outras populações constantes da missão da 
Funasa; 
• Desenvolver, juntamente com as comunidades beneficiadas com o projeto 
“Água na Escola”, ações educativas em articulação com gestores e 
profissionais envolvidos, tendo em vista a atuação corresponsável de todos e 
a sustentabilidade do projeto, inclusive estabelecendo indicadores; 
• Promover ações educativas considerando as formas de organização e fóruns 
de discussão e de controle social já existentes nas comunidades; 
• Fomentar a participação dos órgãos de controle social na elaboração, 
implementação e avaliação dos projetos de Educação em Saúde nas ações de 
Saneamento Ambiental nos estados e municípios. 
• Criar mecanismos para a avaliação das ações de Educação em Saúde 
desenvolvidas na perspectiva da promoção da saúde das comunidades 
contempladas com projetos de Saneamento Ambiental; 
• Promover as ações educativas de forma a contribuir para o fortalecimento dos 
conselhos locais de Saúde e os conselhos de saúde indígena; 
• Incentivar a participação das comunidades no exercício do controle social em 
todas as etapas dos Projetos de Educação em Saúde (FUNAI 2018). 
 
21 
 
7 A MOBILIZAÇÃO INDÍGENA POR MUDANÇAS DO MODELO DE 
ASSISTÊNCIA À SAÚDE 
 
Fonte: Pixabay.com 
Somente em agosto de 2008, depois das constantes manifestações realizadas 
pelo movimento indígena contra a Funasa, e das inúmeras denúncias de corrupção e 
de descaso na execução das ações e serviços nas áreas indígenas que vinha gerando 
avassaladora mortalidade infantil e alastramento de doenças, o ministro da Saúde 
resolveu ouvir as reclamações e propostas dos povos indígenas. Neste mesmo 
período, o Tribunal de Contas da União (TCU) desenvolveu uma auditoria sobre a 
Funasa, com ênfase nas questões relativas à gestão da política de saúde indígena. 
Concomitante a isso, a Justiça do Trabalho determinou que o governo federal fosse o 
responsável e, portanto, o gestor da política de saúde, e que a terceirização era uma 
prática ilegal (ALTINI et al 2013). 
No final do ano de 2008, foi apresentado o Projeto de Lei nº. 3.958 com vistas 
a alterar a Lei nº. 10.683/2003 que dispõe sobre a organização da Presidência da 
República e dos Ministérios e criar a Secretaria de Atenção Primária e Promoção da 
Saúde, na qual ficaria abrigada a saúde indígena. Na exposição de motivos deste 
projeto, o ministro da Saúde propôs a transferência das competências e atribuições 
exercidas pela Funasa para essa secretaria. Ainda fruto das pressões dos povos 
indígenas, constituiu-se um Grupo de Trabalho com a participação de lideranças 
indígenas (portarias 3.034/2008 e 3.035/2008 - GAB/MS), cujo objetivo foi o de discutir 
 
22 
 
e apresentar propostas, ações e medidas a serem implantadas no âmbito do Ministério 
da Saúde, no que se refere à gestão dos serviços de saúde oferecidos aos povos 
indígenas (ALTINI et al 2013). 
Depois de dois anos de espera, o governo editou a Medida Provisória nº. 483, 
aprovada pelo Congresso Nacional e transformada na Lei nº. 12.314/2010 e no dia 
19/10/2010 foi editado o Decreto nº. 7.336/2010 que oficializou a criação da Secretaria 
Especial de Saúde Indígena (Sesai). Este período de transição para a implantação da 
nova gestão da saúde indígena caracterizou-se por uma gestão compartilhada entre 
Sesai e Funasa, e apesar do governo ter determinado um prazo de três meses para o 
detalhamento de sua estrutura e demais providências para torná-la operacional, a 
situação se arrastou por mais de três anos enquanto a assistência à saúde nas 
comunidades passava por momentos críticos (ALTINI et al 2013). 
Em 12 de agosto de 2011, foi publicado pela Sesai o edital de chamamento 
público nº 01/2011 visando à seleção de entidades privadas sem fins lucrativos para 
execução, por meio de convênios, das ações complementares na atenção à saúde 
dos povos indígenas.As entidades selecionadas foram a Sociedade Paulista para o 
Desenvolvimento da Medicina (SPDM) com sede em São Paulo que ficou responsável 
por 14 Distritos Sanitários Indígenas (DSEIs), o Instituto Materno Infantil de 
Pernambuco (IMIP), com sede em Recife, responsável por 5 DSEIs, e a Missão 
Evangélica Caiuá com sede em Campo Grande, responsável por 15 DSEIs. Esta 
concentração enorme de recursos e responsabilidades sobre as ações da saúde 
indígena em apenas três organizações, assim como a falta de transparência na 
execução deste modelo de relação convenial, têm sido motivo de duras críticas do 
movimento indígena em todo o país (ALTINI et al 2013). 
O novo modelo de gestão da saúde indígena passou a partir de então a contar 
com uma secretaria especial, vinculada diretamente ao Ministério da Saúde e de 
caráter executivo, que deveria atuar de forma descentralizada por meio dos Distritos 
Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). Entre as atribuições da Sesai estão: criar as 
condições necessárias para que os distritos tenham autonomia administrativa e 
financeira e sejam, com isso, transformados em unidades gestoras do SUS; garantir 
orçamentos próprios e administrados através dos Fundos Distritais de Saúde; ter um 
plano de carreira específico para os profissionais de saúde indígena, com condições 
trabalhistas adequadas às complexas e diferentes realidades dos DSEIs; assegurar 
 
23 
 
que os chefes ou coordenadores dos distritos sejam aprovados pelos conselhos 
distritais; garantir que o controle social seja efetivo, com participação indígena legítima 
em todas as instâncias de decisão; formar um quadro estável de recursos humanos 
(servidores públicos), adequado às necessidades estratégicas da gestão, através de 
concurso público diferenciado e que assegure a participação indígena nos processos 
de seleção; e assegurar que no órgão gestor da saúde indígena os servidores tenham 
perfil técnico independente das ingerências políticas (ALTINI et al 2013). 
8 PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DOS POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 
 
Fonte: Pixabay.com 
O perfil epidemiológico dos povos indígenas é desconhecido no Brasil. Isso 
ocorre em decorrência da exiguidade e execuções de pesquisas, bem como censos 
condignos correspondentes à realidade dos povos indígenas, por isso, os sistemas de 
informações são precários em relação a morbidade e mortalidade dos povos 
indígenas no Brasil. Além disso, pensar na saúde indígena, tem que pensar, na 
sociodiversidade existente nestes povos, isso significa que promover a saúde pública 
a eles, é também considerar como eles pensam a saúde (SANTOS & COIMBRA 
JÚNIOR, 2005). 
A sociodiversidade dos povos indígenas envolve centenas de etnias, com 
centenas de línguas falantes, em processos de interação com o meio ambiente natural 
 
24 
 
intrínsecos e com outro processo de interação com as comunidades de humanos não-
indígenas presentes. Na Amazônia, São Paulo, Campo Grande e outros, há grupos 
isolados, grupos em processo de interação e outros já com franca interação com os 
humanos não-indígenas, sejam em territórios rurais, sejam em territórios urbanos, isto 
é, os poucos dados disponíveis faz com que não se possa traçar o perfil 
epidemiológico dos povos indígenas e por sua vez, a ausência de elementos 
quantitativos, para embasar análises, dados gerais e também em casos específicos, 
tornando cada vez mais, a saúde indígena precária (SANTOS & COIMBRA JÚNIOR, 
2005). 
A concepção de saúde-doença pela população indígena é claramente diferente 
da percepção da medicina ocidental. Isso acarreta dificuldade na articulação conjunta 
dessas duas formas de cuidado, tornando-se uma problemática frequente. Essa 
dificuldade muitas vezes é acarretada pela falta de compreensão, dificuldades 
relacionadas à linguagem e discriminação. Desta maneira, os profissionais precisam 
possuir sensibilidade para conseguir lidar da melhor forma possível com essas 
diferenças (BARRETO, 2017). 
A partir disso, entende-se que a atenção à saúde indígena precisa ser 
diferenciada, no parâmetro de equidade do SUS, para que essa população possua o 
mesmo nível de atendimento que a população não indígena. Porém, no Brasil ainda 
não há uma produção sistemática de assuntos que contemplem estes assuntos de 
diferenças étnicas e raciais (RIBEIRO et al 2016). 
Apesar da carência e fragmentação de registros históricos sobre a trajetória de 
contato dos povos indígenas com outros grupos populacionais no Brasil, sabe-se que 
os reflexos dessa interação sobre os perfis de adoecimento e morte foram 
significativos e resultaram em importante redução numérica dos grupos nativos que 
vivem no país. Nesse contexto, houve grave desestruturação sociodemográfica que, 
não raro, provocou o desaparecimento de um número expressivo de etnias 
(GARNELO 2012). 
Entre as principais causas de morte relatadas nesse período podemos destacar 
as relacionadas à violência externa (decorrentes de guerras, genocídios, descimentos, 
(entre outros) e à disseminação de doenças infecciosas como a gripe, o sarampo, a 
varíola e a tuberculose. A redução populacional dos indígenas foi tão expressiva, 
sobretudo ao longo do século XIX e durante as primeiras décadas do século XX, que, 
 
25 
 
por algum tempo, chegou-se a aceitar a ideia de extinção gradual desses povos 
(GARNELO 2012). 
Contrariando essas expectativas, nas últimas décadas do século XX, observou-
se de maneira consistente e em várias regiões do país uma importante recuperação 
populacional dos grupos indígenas. Como consequência do sustentado e progressivo 
aumento populacional desses povos, diversos desafios vieram à tona, em especial 
para a área de saúde, expressando-se por meio de sensíveis transformações nos 
perfis de adoecimento e morte (GARNELO 2012). 
9 DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITÁRIAS 
 
Fonte: Pixabay.com 
Apesar da ocorrência de importantes modificações no perfil de saúde e 
adoecimento dos povos indígenas no Brasil, especialmente nas últimas quatro 
décadas, o conjunto de doenças infecciosas e parasitárias continua sendo uma das 
principais causas de adoecimento e morte (GARNELO 2012). 
9.1 Tuberculose 
A tuberculose é uma doença sistêmica contagiosa, causada por uma bactéria 
denominada Mycobacterium tuberculosis, também conhecida como bacilo de Koch, 
 
26 
 
em referência a Robert Koch, o cientista alemão que a identificou pela primeira vez, 
em 1882 (GARNELO 2012). 
A forma clínica de acometimento mais comum é a pulmonar, observada em 
80% a 90% dos casos. Durante a tosse, o espirro, o canto, a fala, o portador da doença 
elimina gotículas de saliva de vários tamanhos, contaminadas com o bacilo de Koch. 
As mais pesadas vão ao chão, enquanto as mais leves permanecem suspensas no 
ar. Quando uma pessoa inala as pequenas partículas contaminadas, o bacilo pode se 
alojar no interior dos pulmões, e a partir daí desenvolver uma reação inflamatória e 
dar início à infecção. Em linhas gerais, cerca de 5% das pessoas infectadas com o 
bacilo de Koch irão desenvolver tuberculose; no restante o sistema imunológico 
conterá a multiplicação bacilar e a pessoa não manifestará a doença. Estima-se que 
uma pessoa doente portadora da forma clínica pulmonar bacilífera (aquela em que se 
observa o M. tuberculosis no exame direto de escarro – baciloscopia) infecte de 10 a 
15 pessoas por ano na comunidade em que vive (GARNELO 2012). 
Para dimensionar o impacto da tuberculose entre os indígenas no Brasil, mais 
uma vez esbarramos na precariedade de informações sistematizadas e disponíveis 
sobre o tema. De acordo com Ruffino-Netto (1999), os primeiros registros históricos 
da presença de tuberculose no país são provenientes de relatos dos jesuítas no início 
da colonização. Informações consolidadas na forma de indicadores de saúde 
encontram-se disponíveis apenas após a implantação do Serviço de Unidades 
Sanitárias Aéreas – SUSA, a partir da décadade 1950 (GARNELO 2012). 
Infelizmente as altas taxas de adoecimento e morte descritas por Nutels e seus 
colaboradores na época ainda são muito atuais. Recentes estudos, conduzidos em 
diferentes grupos étnicos e regiões do país, revelam altas incidências, não deixando 
dúvidas sobre a relevância sanitária da tuberculose entre os indígenas no Brasil 
(GARNELO 2012). 
9.2 Malária 
A malária é uma doença infecciosa, na maioria dos casos febril e aguda, 
causada por um parasita, o plasmódio. Em seres humanos foram descritas quatro 
espécies (Plasmodium falcipauram, P. vivax, P. Malarie e P. ovale) que são 
transmitidas de pessoa a pessoa pela picada da fêmea do mosquito Anófeles. A 
 
27 
 
doença tem ampla distribuição no território nacional, entretanto concentra-se na região 
conhecida como Amazônia Legal, que incorpora nove unidades federadas do país: 
Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e 
Tocantins (GARNELO 2012). 
Sua contribuição para delinear os perfis de adoecimento e morte entre os povos 
indígenas no Brasil é imensa e inquestionável. Anualmente, milhares de pessoas 
adoecem por malária, e em algumas localidades a letalidade da doença ainda é 
elevada (GARNELO 2012). 
Os padrões de disseminação de alguns agravos, como a malária, guardam 
estreita relação com alterações produzidas no meio ambiente. Para que se dê a 
ocorrência de malária em uma dada localidade são necessários: a) condições 
ambientais favoráveis à reprodução do mosquito vetor (criadouros); b) reservatórios 
do agente infeccioso (pessoas doentes); e c) pessoas suscetíveis à nova infecção. 
Este conjunto de atributos configura a cadeia de transmissão da doença (GARNELO 
2012). 
Alguns estudos têm identificado o Anopheles darlingi como principal vetor de 
transmissão da doença. Esse mosquito pica predominantemente fora do ambiente 
domiciliar, fato que favorece a transmissão da malária em alguns contextos. Por 
exemplo, durante a realização de tarefas cotidianas (tais como caça, pesca, trabalhos 
nas roças, banhos às margens de rios e igarapés, entre outros) as populações 
indígenas parecem estar particularmente expostas às picadas de anofelinos 
(GARNELO 2012). 
Além dessa contribuição (diríamos natural) na transmissão da doença, a 
exposição às frentes de expansão econômica na Amazônia, especialmente no que diz 
respeito a obras para construção de hidroelétricas e abertura de estradas, às 
atividades de mineração e aos garimpos ilegais, expõe os povos indígenas a elevados 
riscos de adoecimento e morte por malária (GARNELO 2012). 
9.3 Hepatites virais 
As hepatites virais são causadas por diferentes agentes etiológicos, mesmo 
assim apresentam características clínicas e laboratoriais semelhantes, ainda que com 
particularidades epidemiológicas bem definidas. A transmissão das hepatites B e C 
 
28 
 
costuma ocorrer por meio da relação sexual ou com seringas, agulhas, sangue e 
secreções que contenham vírus. Estas formas podem evoluir para a cronicidade, com 
quadros de cirrose e câncer hepático. A cronicidade faz com que o ser humano seja 
o maior reservatório desses vírus, e também o responsável pela disseminação da 
doença (GARNELO 2012). 
As hepatites A e E, cujo principal modo de transmissão se dá por contato fecal-
oral, ainda que não evoluam para formas crônicas, são endêmicas e podem causar 
grandes epidemias em regiões que apresentem condições sanitárias precárias 
(GARNELO 2012). 
Além dos sinais e sintomas clínicos comumente observados nos portadores de 
hepatites virais (tais como náuseas, vômitos, febre, icterícia, colúria, acolia fecal, entre 
outros), a doença pode ser detectada e ter sua evolução monitorada por meio de 
marcadores sorológicos. Os padrões epidemiológicos de infecção crônica pelo vírus 
da hepatite B (VHB), em uma determinada região, tendem a ser definidos com base 
na prevalência dos seguintes marcadores: HBsAg, anti-HBc e anti-HBs (GARNELO 
2012). 
O HBsAg é um indicador de infecção crônica e demonstra a presença do vírus 
na corrente sanguínea. Já o anti-HBc total é um anticorpo produzido pelo organismo 
e indica a presença de infecção prévia, mas inativa no momento do exame. O anti-
HBs é um anticorpo que é interpretado como marcador de imunidade adquirida à 
doença (GARNELO 2012). 
Segundo o Guia de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde 
(FUNASA, 2002a), uma área é considerada de alta endemicidade para hepatite B 
quando as prevalências de HBsAg encontram-se acima de 7%, ou acima de 60% para 
o anti-HBc total. Nas áreas de endemicidade moderada encontram-se prevalências 
de 2 a 7%, e 20 a 60% de HBsAg e anti-HBc, respectivamente. E nas áreas de baixa 
endemicidade, observam-se prevalências abaixo de 2% e 20% para HBsAg e anti-
HBc, respectivamente. No Brasil as áreas de alta endemicidade concentram-se na 
região Amazônica, no Espírito Santo e no oeste de Santa Catarina (GARNELO 2012). 
Em linhas gerais, os estudos revisados indicam que a transmissão dos vírus B 
e D nas populações indígenas examinadas ocorre precocemente, principalmente 
entre as crianças de 5 a 12 anos e adultos jovens, provavelmente em decorrência de 
práticas culturais de cunho ritualístico, cosmético ou curativo (tais como 
 
29 
 
escarificações, tatuagens, sangrias, perfurações etc.), ou por meio de contato familiar 
e sexual (GARNELO 2012). 
Muitos autores indicam que a vacinação precisa ser ampliada, principalmente, 
entre os menores de um ano de idade, e que maior atenção deve ser dada aos 
indivíduos do sexo masculino, em que são observadas as maiores prevalências, 
provavelmente em decorrência de alguns costumes culturais, tais como perfuração 
das orelhas, consumo de bebidas alcoólicas e repetidas viagens para fora do 
ambiente da aldeia (GARNELO 2012). 
10 INFECÇÕES RESPIRATÓRIAS AGUDAS, DOENÇAS DIARREICAS E 
PARASITISMO INTESTINAL 
 
Fonte: Pixabay.com 
Mundialmente, a pneumonia e as doenças diarreicas costumam ser 
responsáveis por cerca de 40% das causas de morte entre crianças menores de cinco 
anos, sobretudo, em regiões sabidamente desfavorecidas do ponto de vista 
socioeconômico, como o continente africano e o sudeste asiático (GARNELO 2012). 
Como era de se esperar, as doenças relacionadas ao trato respiratório e as 
doenças diarreicas também costumam despontar como uma das principais causas de 
morbidade ou adoecimento das crianças indígenas menores de cinco anos de idade, 
impactando negativamente nos perfis de mortalidade e se assemelhando ao perfil 
 
30 
 
encontrado para outras populações que estão em franca desvantagem 
socioeconômica (GARNELO 2012). 
Contudo, antes mesmo de apresentarmos alguns dados sobre morbidade 
ambulatorial fornecidos pela FUNASA, para o ano de 2002 (FUNASA, 2003), 
entendemos que é de fundamental importância lembrar que, apesar do elevado 
potencial desse tipo de registro para o planejamento e aplicação de recursos, suas 
limitações são evidentes. Tanto no que se refere a clientela que demanda esse 
serviço; a frequência e a qualidade das classificações de doenças em morbidade; 
assim como, as dificuldades em se definir, com precisão, os numeradores e 
denominadores que compõem a base do cálculo de alguns indicadores e taxas 
(GARNELO 2012). 
No ano de 2002, segundo relatório publicado pela FUNASA (FUNASA, 2003), 
foram registrados 614.822 atendimentos ambulatoriais. Desse total, 
aproximadamente 70% foram classificados, como sendo relacionados as doenças 
infecciosas e parasitárias e as doenças do aparelho respiratório. No conjunto de 
doenças infecciosas e parasitárias predominaram as intercorrências por verminoses 
(42,7%) e diarreias (28,8%) (GARNELO 2012). 
Tanto o parasitismo intestinal como as diarreias são conhecidas causas de 
morbidade entre os povos indígenas do Brasil, especialmente entre as crianças. 
Vários estudos sustentam que essas condições estão, em maior ou menor grau,associadas a precárias condições de saneamento, a crescente degradação ambiental, 
a restrição territorial, a inadequações e a baixa efetividade dos programas de controle 
do parasitismo intestinal e das diarreias em área indígena (GARNELO 2012). 
Entre as doenças do aparelho respiratório, os atendimentos por Infecções das 
Vias Aéreas Superiores (IVAS) foram mais frequentes, respondendo por um total de 
90,5% dos registros, seguidos pelas pneumonias (3,7%). A expressiva concentração 
de atendimentos ambulatoriais por IVAS, sugere não só o sub-registro das 
pneumonias, como também, a baixa capacidade dos serviços de saúde em 
diagnosticar e tratar adequada e oportunamente essas demandas. Não é demais 
lembrar que na ausência ou mesmo com um inadequado diagnóstico as IVAS podem 
evoluir para casos de pneumonia e resultar não só no aumento da gravidade da 
doença, como também, em episódios de internação hospitalar e óbitos, passíveis de 
prevenção (GARNELO 2012). 
 
31 
 
Na última década, motivados pelas deficiências existentes nas bases e nos 
sistemas de informação em saúde do Brasil, o que inclui o SIASI, alguns autores têm 
buscado gerar informações alternativas acerca dos perfis de morbidade dos povos 
indígenas mediante a análise de registros de internações hospitalares. Esses estudos 
têm demonstrado que parcela significativa das hospitalizações ocorre entre os 
menores de cinco anos de idade e que a principal causa de internação recai 
justamente sobre as doenças do aparelho respiratório, sobretudo, aquelas do trato 
respiratório inferior como as pneumonias (GARNELO 2012). 
11 DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS E DOENÇAS E AGRAVOS 
RELACIONADOS AO ESTADO NUTRICIONAL 
 
Fonte: Pixabay.com 
O quadro até aqui delineado permanece indicando as doenças infecciosas e 
parasitárias como as principais causas de morbidade e mortalidade entre os indígenas 
no Brasil. No entanto, nas últimas décadas, tem ficado cada vez mais evidente a 
crescente importância que as doenças crônicas não transmissíveis (hipertensão, 
diabetes tipo II e câncer, por exemplo) têm ocupado nesse complexo cenário 
(GARNELO 2012). 
Os poucos estudos disponíveis sobre o comportamento dos níveis de pressão 
arterial entre os povos indígenas no Brasil sugerem tratar-se de um problema de 
 
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saúde emergente e com elevado potencial de expansão, ainda que parte desses 
estudos tenham encontrado baixas ou mesmo nulas prevalências de hipertensão 
arterial (GARNELO 2012). 
Sinalizando na mesma direção das informações acima descritas, as estatísticas 
sobre atendimentos ambulatoriais da FUNASA também acusam a presença da 
hipertensão arterial entre indígenas, dado que os atendimentos por causas 
relacionadas ao aparelho circulatório responderam por, aproximadamente, 3% do total 
no ano de 2002 (FUNASA, 2003). Vale lembrar que se esses dados fossem 
desagregados e analisados com um olhar específico sobre os maiores de 30 anos 
esse percentual de atendimentos relacionados ao aparelho circulatório, 
provavelmente, aumentaria e retrataria de modo mais preciso a dimensão do 
problema (GARNELO 2012). 
O diabetes tipo II e a síndrome da resistência à insulina foram registrados nas 
Américas há mais de 30 anos entre indígenas e também figuram como importantes 
componentes do complexo perfil epidemiológico. No Brasil, apesar dos poucos 
estudos existentes se restringirem a um reduzido grupo de comunidades indígenas, é 
cada vez mais comum o surgimento de novas evidências relativas a importância da 
pressão exercida pelo diabetes tipo II e pela síndrome da resistência à insulina sobre 
os perfis de saúde e adoecimento desses povos (GARNELO 2012). 
De modo geral, estudos específicos sobre o tema costumam relacionar tanto a 
hipertensão quanto o diabetes tipo II e a síndrome da resistência à insulina a 
importantes mudanças no estilo de vida desses povos. Como exemplo, pode-se 
mencionar a adoção de hábitos sedentários, os quais resultam na redução dos 
padrões de atividade física; assim como, as importantes alterações observadas em 
seus padrões de consumo alimentar, que passaram a incorporar progressiva e 
crescentemente em suas rotinas alimentares itens como o açúcar refinado, o sal de 
cozinha, frituras, doces, refrigerantes entre outros (GARNELO 2012). 
Apesar da grande variabilidade de sua magnitude entre as diferentes regiões e 
etnias no país, outra importante causa de morbidade entre os indígenas adultos no 
Brasil é a obesidade. A principal preocupação é que ela é um grande fator de risco 
para a manifestação futura de doenças metabólicas (resistência à insulina e diabetes 
tipo II) e cardiovasculares (coronariopatias e acidentes vasculares cerebrais) 
(GARNELO 2012). 
 
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Vale destacar que a problemática da obesidade e do sobrepeso não está 
restrita aos indígenas adultos. Os adolescentes e as crianças, em uma proporção 
menor, também estão incluídos nesse paradoxal quadro de saúde (GARNELO 2012). 
No caso específico das crianças somam-se aos problemas nutricionais de 
obesidade e sobrepeso os já conhecidos e por vezes alarmantes problemas de 
desnutrição e anemia (Orellana et al 2009). Ainda que alguns estudos em 
comunidades específicas, assim como os próprios dados da FUNASA, sugiram uma 
redução nos valores da desnutrição infantil nos últimos anos, é oportuno assinalar que 
essa tendência não é forte, nem disseminada o suficiente para que a desnutrição 
infantil deixe de ser considerada como um dos principais componentes do perfil de 
morbimortalidade das crianças indígenas no país. Também não se pode ignorar que 
as taxas de desnutrição observadas nas crianças indígenas são bem superiores às 
médias nacionais, inclusive em regiões de reconhecida vulnerabilidade como o Norte 
e o Nordeste rural (GARNELO 2012). 
Todavia, sem desconsiderarmos as peculiaridades de cada etnia e a possível 
multiplicidade de perfis epidemiológicos existentes no país, pode-se dizer que, de 
modo geral, o perfil nutricional dos povos indígenas no Brasil parece ser bem delicado 
e com nuances bastante singulares e complexas. Coexistem de um lado velhos 
problemas de saúde como as doenças carenciais como a anemia entre as crianças e 
mulheres em idade reprodutiva, e de outro novos problemas de saúde, principalmente 
entre adultos, como o diabetes tipo II, a hipertensão, as dislipidemias, a obesidade e 
o sobrepeso (GARNELO 2012). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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