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FUNDAM ENTOS André Barcellos FÍSICA de FUNDAMENTOS André Barcellos FÍSICAde ISBN 978-65-5821-142-6 9 786558 211426 Código Logístico I000594 Fundamentos de Física André Barcellos IESDE BRASIL 2022 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2022 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito do autor e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Creation/Shutterstock - SergeyBitos/Shutterstock - rawf8/Envato Elements CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ B218f Barcellos, André Fundamentos de física / André Barcellos. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2022 156 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-142-6 1. Física - Estudo e ensino (Superior). I. Título. 22-77655 CDD: 530 CDU: 53 André Barcellos Mestre em Ensino de Física e licenciado em Física pela Universidade de Brasília (UnB). Divulgador científico no portal Eureka Brasil, no qual é colunista e editor. Redator, editor e analista de material didático. Parecerista de revistas da área de ensino e educação. Professor na rede privada de ensino e na Secretaria de Educação do Distrito Federal. Professor colaborador/formador da rede de professores do ICTP-SAIFR/ Perimeter Institute desde 2019. Pesquisador na linha de Formação de Professores de Ciências, com especial interesse por aspectos concernentes à formação identitária desses sujeitos na contemporaneidade. Vencedor da edição 2020 do Prêmio Educador Nota 10. Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO 1 Conceitos básicos da física 9 1.1 A física e o compromisso com a medida 10 1.2 Tipos de medidas em física 12 1.3 Conceitos básicos 14 1.4 Sistema Internacional de medidas 18 1.5 Métricas de tempo 20 1.6 Métricas de espaço 22 1.7 Métricas de velocidade 25 1.8 Métricas de aceleração 28 2 Mecânica 32 2.1 A queda dos corpos segundo Aristóteles 32 2.2 Superando Aristóteles: uma nova abordagem para a queda dos corpos 34 2.3 A causa do movimento segundo Newton 44 2.4 Trabalho e energia 49 3 Ondas 60 3.1 O que são ondas? 60 3.2 Fenômenos ondulatórios 68 3.3 Interferência 79 3.4 Uma conversa sobre o som 84 3.5 Uma conversa sobre a luz 90 4 Calor e temperatura 96 4.1 Temperatura e calor medidos macroscopicamente 96 4.2 Quantidade de calor 107 4.3 Temperatura e calor medidos microscopicamente 111 4.4 Noções de termodinâmica 115 5 Eletricidade e magnetismo 120 5.1 Carga elétrica e processos de eletrização 120 5.2 Força elétrica 126 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! 6 Fundamentos de Física 5.3 Eletrodinâmica: compreendendo circuitos elétricos 130 5.4 Magnetismo 137 5.5 Eletromagnetismo 142 Resolução das atividades 147 A Física, como ciência bem constituída atualmente, é herdeira de duas tradições de conhecimento com milênios de idade: a astronomia e a filosofia natural. Apesar dos interesses diversos e dos métodos de investigação diferentes, essas áreas dão origem a uma ciência que tem como principais características o compromisso com a medida e a busca por leis gerais e modelos explicativos para muitos fenômenos. É sobre esse pano de fundo que pretendemos desenvolver neste livro um diálogo bastante profícuo acerca do que se avançou nos primeiros 300 e poucos anos de história da Física, o que se conhece como Física Clássica. Neste diálogo abordaremos, inicialmente, alguns conceitos fundamentais nas teorias físicas, tais como espaço, tempo, referencial, movimento e repouso, trajetória, velocidade e aceleração. Com base neles, constituímos um primeiro grande campo de pesquisa que são os fenômenos mecânicos que envolvem entes portadores de massa e as relações entre eles. Fundamentalmente, nesse ponto, investigaremos a queda dos corpos, um problema clássico que enunciamos a partir da leitura de Aristóteles e a contrapondo à leitura de Newton, passando por Galileu Galilei. Aqui, a articulação entre os conceitos básicos ficará evidente. Em seguida, passamos a investigar fenômenos que envolvem entes sem massa. É necessário, logo de partida, pensar uma Física na qual as leis de Newton não podem ser aplicadas. Somos apresentados à Física Ondulatória e sua enorme potência explicativa e preditiva sobre fenômenos envolvendo a luz, o som e outras formas de propagação de energia. Investigaremos, após apresentar os rudimentos e conceitos básicos dessa teoria, o som e a luz. Um destaque especial para o conceito “luz” que será compreendido como sinônimo de espectro eletromagnético (que inclui a luz visível). No capítulo seguinte, exploramos uma primeira interação luz-matéria conversando sobre calor e temperatura. Após distinguir os dois conceitos, construímos uma teoria capaz APRESENTAÇÃOVídeo 8 Fundamentos de Física de explicar fenômenos mais intrincados, por exemplo, o vapor d’água e as transições de fase. Nessa altura, temos duas teorias que dão conta de muitos fenômenos. Uma teoria que lida com entes dotados de massa e suas relações e outra para entes sem massa e como se relacionam. Há, entretanto, pelo menos uma outra propriedade da matéria que deve ser investigada com mais cuidado: a carga elétrica. No último capítulo deste livro, conversamos sobre fenômenos eletromagnéticos. Uma primeira visita ao eletromagnetismo, desde o conceito fundamental de carga elétrica e processos de eletrização até o magnetismo e como são constituídos campos magnéticos, passando, ainda que rapidamente, pela eletrodinâmica de circuitos elétricos. Desejamos a todos uma excelente leitura e bons momentos de aprendizagem! Conceitos básicos da física 9 1 Conceitos básicos da física Neste capítulo pretendemos apresentar o campo da física como uma ciência que tem um compromisso inexorável com a medida. Isso significa, entre outras coisas, que todas as afirmações, teorias, equações etc. preci- sam, de alguma maneira, se referir a uma realidade mensurável por meio de instrumentos de medida. Falando assim pode parecer uma ciência que se reduz a uma espécie de “experimentalismo”, mas não se engane! Há um espaço enorme para imaginação, criatividade e muita curiosidade. Esses últimos aspectos virão à tona à medida que formos sendo apresen- tados às grandes questões que movimentaram a física nos seus primeiros séculos de desenvolvimento. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender como fazer medidas em física e qual a importância delas; • identificar se uma grandeza é de natureza escalar ou vetorial; • discriminar as características de uma grandeza vetorial; conhecer o conceito primitivo de espaço e tempo e o conceito de massa e corpo; • expressar as unidades de grandezas físicas no SI; • compreender as diferentes métricas de tempo; • distinguir as diferentes métricas de espaço; • conhecer as métricas de velocidade escalar e vetorial; utilizar as métricas de tempo e espaço para medir velocidade; • conhecer as métricas de aceleração escalar e vetorial; usar as métricas de tempo e velocidade para medira aceleração. Objetivos de aprendizagem 10 Fundamentos de Física 1.1 A física e o compromisso com a medida A física como a conhecemos é o desenvolvimento de um ramo da filosofia conhecido como filosofia natural. Esse termo refere-se, es- sencialmente, à busca pelas causas e pelos princípios do mundo na- tural. Muitos pensadores trabalharam nessa tarefa – como Platão, Parmênides etc. –, e um se destaca entre eles, o famoso Aristóteles. Seu projeto de encontrar na empiria (mundo concreto/mundo real), o único juiz razoável para a verdade, foi decisivo para a criação do que hoje chamamos de ciência. A história vai longe, mas, em síntese, a ideia central é a de que todas as afirmações sobre a natureza precisam es- tar respaldadas por (ou se referirem a) uma observação do mundo na- tural. Aristóteles não chegou a realizar experimentos e medidas, mas inaugurou uma forma de pensar que pauta a ciência moderna. Para termos uma ideia do que significa essa forma de pensar aristotélica, tomemos como exemplo o caso do sistema universal de Aristóteles. A Antiguidade é um vasto repositório de explicações sobre o Universo, os planetas, as estrelas e tudo mais. Uma das questões mais importantes da época era a centralidade do Universo, isto é, qual seria a sua origem e, portanto, o centro sobre o qual tudo giraria em torno. Apesar de ser muito popular, a história de que os modelos mais antigos são geocêntricos (a Terra no centro do Universo) é equivoca- da! Na verdade, os registros mais antigos sobre o assunto remontam a cerca de 3.500 a.C., na Suméria – e, pasme, tratava-se de um sistema heliocêntrico (o Sol no centro do Universo)! As razões que colocaram o Sol no centro do Universo na época eram muito diferentes das que levaram, por exemplo, Johannes Kepler, no século XVII, a fazê-lo. Atualmente, nós observamos cuidadosamente as estrelas, os planetas e demais astros a fim de compreender a dinâ- mica de seus movimentos com base em evidências. Quem inaugura esse esforço é Aristóteles. Segundo ele, nós somos o centro do Uni- verso, sem dúvida, isso porque observamos o Sol nascendo no Leste e se pondo no Oeste, as estrelas no sentido contrário e os planetas de modo semelhante. Tudo está girando em torno de nós! É claro que ele estava equivocado, como sabemos. Porém, isso só ficou evidente Aristóteles, (384 a.C-322 a. C) nascido na antiga cidade grega de Estagira e falecido em Cálcis, também na Grécia, foi um importante pensador da Antiguidade. Suas ideias e teorias vigoraram com for- ça por quase 2.000 anos após seu falecimento. Uma grande contribuição sua para a ciência moder- na foi seu projeto de in- vestigação natural movido pelo objetivo de procurar a verdade na empiria, palavra grega que significa o mundo conhecido por meio da experiência e de nossos sentidos (também chamado de mundo sen- sível – aquele com o qual podemos interagir por meio de nossos sentidos). Biografia Vídeo Conceitos básicos da física 11 muitos séculos depois, após uma grande quantidade de dados sobre o movimento dos astros e o trabalho de pessoas como Tycho Brahe, Kepler, Galileu Galilei, Giordano Bruno, Isaac Newton, entre outros. No século XVII, a Revolução Científica, entre outras coisas, centrou-se em refutar as explicações aristotélicas da natureza e do Universo. Notadamente o problema da queda dos corpos deu ori- gem à noção de inércia já com Galileu e mais consolidadamente com Newton um século depois. Foquemos como a física mede o mundo, agora que já entendemos a importância disso para o empreendimento científico moderno. A medida é uma etapa importante na investigação científica. É sobre ela (ou a partir dela) que pensam os cientistas e é quem confirma ou nega uma hipótese, por exemplo. Podemos, didaticamente, separar as observações em duas grandes categorias: 1. Observações qualitativas: observações das qualidades envolvidas no fenômeno estudado. Propriedades organolépticas – como as constatadas em uma reação química e nos materiais – são exemplos interessantes desse tipo de medida. 2. Observações quantitativas: observações das quantidades envolvidas no fenômeno estudado. O comprimento de determinado objeto e a aferição de sua massa, velocidade, peso etc. são exemplos desse tipo de observação. São comumente chamadas de medidas. As observações qualitativas, evidentemente, são mais genéricas e vagas e, portanto, não são tão decisivas no processo de confirmação/ negação de uma hipótese. Especialmente em física, nós nos concen- tramos em realizar medidas, observações quantitativas, sobre o que estudamos. Damos, inclusive, um nome especial a elas. As característi- cas físicas que podem ser medidas são chamadas de grandezas físicas, como massa, velocidade, aceleração, tempo, distância, entre muitas outras. Notamos que são características que podem ser quantifica- das, ou seja, é possível atribuir um valor, um número que as represen- te. Por exemplo, 2 kg ou 200 kg de uma mesma madeira representam quantidades de madeira bastante diferentes, não? A Suméria é a mais antiga civilização conhecida do Sul da Mesopotâmia, região dos rios Tigre e Eufrates, próximo ao Egito. Registros que datam entre 3000 e 3500 a.C. dão conta de uma representação de um Universo heliocêntrico. Saiba mais Na ta lii a Py zh ov a/ Sh ut te rs to ck Propriedades organolépticas são aque- las características dos materiais percebidos por nossos sentidos: odor, sabor, cor e textura. Saiba mais Os sumérios, há 3000 a.C, já representavam um sistema heliocêntrico. Le- vamos mais de 4.500 anos até Tycho Brahe e Kepler produzirem um modelo heliocêntrico moderno. No meio do caminho, diversos modelos geocêntricos foram propostos, como o de Ptolomeu. Reflita e pesquise mais sobre esta questão: como é possível um modelo heliocêntrico aparecer tanto tempo an- tes de ser aceito pelo mun- do ocidental moderno? Para refletir 12 Fundamentos de Física 1.2 Tipos de medidas em física Detenhamo-nos um tempo a mais nas chamadas grandezas físicas. Para podermos discutir sobre elas, façamos uma lista com todas as ca- racterísticas de um objeto que podem ser medidas. Vejamos a seguir uma lista de exemplo (não deixe de fazer a sua também, ok?): • massa; • tempo; • distância; • velocidade; • aceleração; • força; • luminosidade; • temperatura; • altura; • intensidade sonora. Agora, vamos olhar com mais cuidado para o que aparece nessa lista. Notemos que algumas dessas características (a partir daqui co- meçaremos a chamá-las de grandezas físicas) são completamente bem caracterizadas apenas com duas informações: um número e uma uni- dade de medida. Por exemplo: Exemplo de medida de massa -> 1 kg Exemplo de medida de tempo -> 20 horas Exemplo de medida de temperatura -> 22 ºC Você percebeu que, além dessas informações, outras medidas pre- cisam de uma orientação? Por exemplo: Exemplo de medida de força -> 20 kgf para a direita Exemplo de medida de velocidade -> 80 km/h para o Norte O caso da velocidade, como veremos mais adiante, merece mais de- talhamentos, pois, como sabemos, em algumas situações um número e uma unidade de medida bastam (vide o velocímetro dos carros). De toda forma, o argumento aqui é que essas medidas (força e velocidade) permitem a indicação de uma orientação, enquanto as anteriores não. Faz algum sentido para você, por exemplo, dizer que um corpo possui uma temperatura de 50 ºC para a esquerda? Ou que outro corpo possui 20 kg de baixo para cima? Dizemos que medidas completamente bem definidas apenas indican- do um número e uma unidade de medida são grandezas escalares. Já as medidas que – além de um número e uma unidade de medida – permitem (ou exigem) a indicação de uma orientação são grandezas vetoriais. Vídeo Conceitos básicos da física 13 Uma grandeza escalar – como temperatura, massa e tempo – possui sempre um valor, um número, uma intensidade ou ainda um módu- lo (nome preferido pelosfísicos) que a representa. Além disso, requer uma unidade de medida. Chamamos unidade de medida o padrão com o qual comparamos nossa medida. No caso do sistema métrico, por exemplo, o padrão para medidas de distância é o metro, enquanto que no sistema imperial é o pé ou a jarda. Figura 1 Exemplo de uma grandeza do tipo escalar 1 hora Número; que também pode ser chamado de: intensidade, módulo ou valor. Unidade de medida; dá o significado físico ao número Fonte: Elaborada pelo autor. Uma grandeza vetorial – como força e velocidade – possui sempre um módulo, uma unidade de medida e uma orientação. Uma maneira bas- tante usual de representar grandezas vetoriais é utilizando setas. O ta- manho da seta representa seu módulo, e para onde ela está apontando indica sua orientação. Veja os exemplos a seguir para entender melhor. Figura 2 Exemplo de uma grandeza do tipo vetorial 60 km/h para a direita Número Também chamado de: • intensidade; • módulo; • valor. Unidade de medida Dá significado físico ao número. Orientação Fonte: Elaborada pelo autor. Figura 3 Representação de um vetor velocidade v Essa é uma representação bastante usual de um vetor (no caso, de velocidade). O tamanho da seta indica o módulo da grandeza física e para qual direção ela está apontando, a sua orientação. Note ainda que há uma seta em cima da letra v. Ela é um sinal gráfico utilizado para denotar que se trata de uma grandeza vetorial. Anotado? Fonte: Elaborada pelo autor. 14 Fundamentos de Física Há ainda um terceiro caso, que é a medida representada apenas por um número, como os coeficientes e os índices. Como exemplos temos os coeficientes de atrito, índice de refração, coeficiente de restituição, entre muitos outros. Em geral, são obtidos a partir de uma razão entre duas ou mais grandezas físicas, de maneira que o numerador e o denominador possuem as mesmas unidades de medida. Figura 4 Exemplo de um coeficiente n velocidade da luz no meio velocidade da luz no vácuoA = A Observe que nA (índice de refração) à esquerda não possui uma unidade de medida, pois é o resultado da divisão de duas velocidades (a da luz no meio A e a da luz no vácuo). Fonte: Elaborada pelo autor. Em síntese, podemos medir uma grandeza física de maneira escalar (apenas um número e uma unidade de medida) ou vetorial (incluindo tam- bém uma orientação). Além disso, utilizamos coeficientes com frequência para representar medidas adimensionais (sem unidade de medida). 1.3 Conceitos básicos Vídeo Agora que compreendemos um pouco melhor como são as medi- das em física, está na hora de aprendermos os conceitos mais funda- mentais utilizados. A estrutura das teorias em física é axiomática, isto é, os conceitos utilizados em cada afirmação são derivados de outros conceitos. Evidentemente, alguns não se derivam de outros, sendo cha- mados de primitivos. Comecemos por eles. À medida que os temas exigirem, discutiremos outros conceitos igualmente importantes. Os aqui listados são os mais básicos, especial- mente tempo e espaço, que são primitivos. 1.3.1 Tempo Tempo é um conceito primitivo em física, ou seja, ele não pode ser definido em função de outros conceitos. Perguntar o que é o tempo admite muitas respostas, todas incompletas de alguma maneira. Tudo bem, não sabemos o que é o tempo. Então, por que o usamos em física? E como é possível usar o tempo sem saber o que ele é? São questões muito importantes. Vamos a elas. As medidas são importan- tes na ciência moderna. É muito comum, inclusive, que novas medidas sur- jam ao longo do desenvol- vimento de uma pesquisa. Como você imagina que os cientistas desenvolvem novas medidas? O que seria preciso para que isso acontecesse? Para refletir Conceitos primitivos são aqueles que não precisam ou não podem ser defini- dos em função de outros. Um exemplo canônico vem da matemática. O que é um ponto? Bem, um ponto é um ponto, certo? Não conseguimos definir o que ele é em função de outros conceitos, por isso, na matemática, o ponto é um conceito primitivo e dele se deriva, por exemplo, o conceito de reta (que é um conjunto de pontos). Saiba mais Conceitos básicos da física 15 Uma maneira interessante de conversar sobre esse tema é por meio da bela canção do eterno Caetano Veloso chamada Oração ao tempo. Tempo parece aquele tipo de coisa que só a arte é capaz de captar. Vamos refletir sobre tempo na letra dessa canção? Caetano não responde à questão sobre o que é o tempo, mas nos aponta algumas de suas características. No trecho “Tambor de todos os ritmos”, por exemplo, revela uma das mais importantes caracterís- ticas do tempo e que o faz ser tão importante em física: serve para demarcar eventos. Ele é capaz de organizar os eventos, pois “bate” sempre no mesmo ritmo. Além disso, é contínuo, como dito no trecho “Por seres tão inventivo // E pareceres contínuo”. O tempo também é unidirecional, só vai para a frente. O tempo ainda tem outra caracterís- tica maravilhosa: passa para todos de maneira igual. Esta última é alvo de controvérsias mais atualmente, mas para todos os fins deste livro, essa é uma ideia que podemos aceitar tranquilamente. O tempo é contínuo, uniforme, unidirecional e passa igual para todo mundo, é justamente por isso que é tão importante. Ele é a melhor maneira de que dispomos para organizar os fenômenos observados. Não à toa, nós, sempre que podemos, medimos as coisas em relação ao tempo. Tomemos como exemplo a velocidade, que nada mais é do que a quantidade de espaço percorrido ao longo do tempo. Em síntese, não sabemos o que é o tempo, mas isso não é impor- tante para a física, pois sabemos medi-lo. Além disso, o tempo tem ca- racterísticas únicas que o fazem o melhor parâmetro conhecido para estudar os fenômenos naturais, em muitos casos. 1.3.2 Espaço Não conseguimos definir o espaço utilizando outros conceitos, por isso é um conceito primitivo. Mas sabemos o que é espaço, certo? Sabemos que é o lugar no qual os corpos existem. Todos os corpos ocupam um lugar no espaço, o qual chamamos de posição – algo que exploraremos mais adiante. Assim como o tempo, o conceito de espaço ganhou novos contor- nos, especialmente com a teoria de Albert Einstein no século XX. Sabe- mos pouco sobre o que é o espaço, mas se lembre de que nosso único compromisso aqui é com a medida! Somos perfeitamente capazes de medir o espaço (assunto para mais adiante). Você pode ouvir a músi- ca Oração ao tempo no link a seguir. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v= HQap2igIhxA. Acesso em: 25 jan. 2022. Música O livro Por que o tempo voa: uma investigação sobretudo científica, escrito pelo jornalista Alan Burdick, é fascinante so- bre o tempo. Nele, o autor explora a questão que mais o importuna na vida: o que é o tempo? Para tentar respondê-la, visitou muitos locais e culturas. Vale a pena a leitura! São Paulo: Todavia, 2020. Livro https://www.youtube.com/watch?v=HQap2igIhxA https://www.youtube.com/watch?v=HQap2igIhxA https://www.youtube.com/watch?v=HQap2igIhxA 16 Fundamentos de Física 1.3.3 Trajetória e referencial Na esteira do que discutimos anteriormente, todo corpo ocupa um lugar no espaço, certo? Mas também é possível se movimentar no es- paço, isto é, ocupar diferentes posições ao longo do tempo. Chamamos o conjunto de todas as posições ocupadas por um móvel ao longo do tempo de trajetória. Imaginemos a seguinte situação: uma pessoa dentro de um trem em movimento observa uma mala cair no chão do alto do vagão. Uma pessoa na plataforma também observa esse evento, ao mesmo tem- po. As duas pessoas viram a queda dessa mala da mesma maneira? A resposta é não! Cada uma viu a mala realizar uma trajetória diferente, como ilustra a figura a seguir. Para a pessoa ou para um referencial localizado no vagão, a trajetória da mala será uma reta vertical. Pessoa no vagão em movimento O observador na plataforma verá a trajetória da mala como um arco de parábola, poisao mesmo tempo em que a mala se desloca para a direita, ela cai em movimento vertical. Observador na plataforma Figura 5 Representação de um movimento em diferentes referenciais Ie sd e Br as il S/ A Conceitos básicos da física 17 Esse exemplo ilustra um dos conceitos mais centrais em física: o referencial. Dizemos que um referencial é um ponto de vista que adotamos para observar determinado fenômeno ou evento (a mala caindo, por exemplo). Vemos que a trajetória depende do referencial adotado. Isso acontece muitas vezes – como veremos na sequência. No final das contas, o movimento (e o repouso) depende sempre do referencial adotado. 1.3.4 Corpo O termo corpo é bastante utilizado nas ciências naturais. Um sinôni- mo coloquial poderia ser coisa ou objeto. Quando dizemos, por exem- plo, que “uma bola cai de certa altura” ou “um gato cai de certa altura”, podemos reescrever essas frases dizendo simplesmente que “um cor- po cai de certa altura”. Esse termo possui algumas definições bem claras. Um corpo deve possuir massa (tema sobre o qual discutiremos mais profundamente adiante) e ter certas propriedades, como: Impenetrabilidade Divisibilidade Inércia Darko 1981/shutterstock Compressibilidade Elasticidade Dois corpos não podem ocupar a mesma posição no espaço ao mesmo tempo. Um corpo pode ser dividido em partes menores sem perder suas propriedades (até o limite atômico/molecular). Tendência dos corpos de manter certos estados de movimento. Ao ser submetido à força suficientemente intensa, o corpo pode ser deformado. Ao deformar um corpo, ele apresenta uma força restauradora que possui capacidade de tender a retomar o estado original. Um corpo ainda pode ser classificado por sua extensão espacial. Se ele for suficientemente pequeno em relação ao referencial adota- do, pode ser considerado um corpo sem extensão, ou seja, um ponto. Chamamos esse corpo de pontual ou puntiforme. Por exemplo, ao so- brevoarmos uma cidade de avião, somos capazes de enxergar prédios, 18 Fundamentos de Física carros e até pessoas. A mais de 10 mil metros de altura, uma pessoa e até um carro nos parecem um ponto. Se desse referencial quisermos estudar o movimento desse corpo, podemos considerá-lo puntiforme. Outro exemplo excelente são as estrelas que vemos no céu. Algumas possuem milhares de vezes o tamanho do Sol, mas, como estão bas- tante longe, nós as vemos do nosso referencial (Terra) como um ponto. Entretanto, se o referencial adotado é próximo suficiente do corpo, suas dimensões não podem ser desprezadas, e quando isso acontece, classificamos o corpo de extenso. O mesmo carro ou a pessoa do exem- plo anterior pode ser um corpo extenso, para isso, basta que estejamos em um referencial mais próximo. Se, por exemplo, estivermos dentro de um carro que derrapa na pista, experimentaremos a rotação desse corpo (o que não é possível em um ponto). Em síntese, corpo é um objeto que possui massa e certas proprieda- des (impenetrabilidade, compressibilidade etc.) e pode ser classificado como corpo pontual (ou puntiforme) e extenso. 1.4 Sistema Internacional de medidas Vídeo Nesta seção, abordaremos o famoso Sistema Internacional de medi- das (SI), uma vez que o tema medidas é central neste capítulo. Trata-se de um esforço internacional de padronizar todas as medidas, assim, 1 metro no Brasil é igual a 1 metro na China. A importância disso é máxima em pelo menos dois campos: nas ciências e no comércio. Imaginemos o pesadelo que seria se o comprimento das coisas não fosse padroniza- do. O comércio seria praticamente inviabilizado, pelo menos da forma que praticamos hoje. Assim como o comprimento, todo tipo de medida precisa ser padronizado, para que todos estejam se entendendo. Uma descoberta científica, por exemplo, para ser comunicada, precisa dessa padronização; de outra maneira, não tem o mesmo significado para ou- tras pessoas em outros locais no mundo. Existe um laboratório que centraliza e produz as duplicatas (ou as maneiras de produzir as duplicadas, isto é, as réplicas dos objetos que padronizam o metro, o quilograma etc.) para várias regiões no mundo: o Escritório Internacional de Pesos e Medidas, que fica na cidade de Conceitos básicos da física 19 Saint-Cloud, na França. Nele, cientistas trabalham para definir e atuali- zar as mais diversas medidas. Um exemplo muito legal é o trabalho que fazem para medir o tempo. Há diversas estações de coleta de dados ao redor do mundo que medem a passagem de tempo utilizando relógios atômicos. No Escritório Internacional, esses dados são compilados e, mensalmente, o “tamanho” de um segundo é atualizado. Sempre fomos, como humanidade, obcecados por medir a passagem do tempo. Calendários e relógios de vários formatos e estratégias diferentes são incrivelmente comuns em todos os tempos e lugares de nossa breve história no planeta Terra. De uns tempos para cá, centramo-nos na tarefa de medir o tempo de maneira mais precisa. Isso significa ser capaz de per- ceber intervalos de tempo cada vez menores, literalmente “fatiar” o tempo em porções menores. O auge dessa busca é o relógio atômico. Trata-se de um equipamento capaz de contar o decaimento de um elemento radioa- tivo (césio-133, em geral). Dessa forma, é possível estipular e padronizar o tamanho do segundo (padrão de medição de tempo no SI). Atualmente, 9.192.631.770 oscilações detectadas pelo relógio equivalem a 1 segundo. Acontece que nem todos os relógios atômicos realizam essas oscilações no mesmo tempo, por isso é preciso atualizar o tamanho de um segundo medindo diariamente quanto tempo leva para os vários relógios atômicos espalhados no mundo contarem todas essas oscilações do césio-133 e afe- rir uma média. Todos os meses o tamanho do segundo muda ligeiramente, para mais ou para menos. Incrível, não é? ge og if/ Sh ut te rs to ck 20 Fundamentos de Física O conjunto dessas medidas denominamos Sistema Internacional, cuja abreviação é SI. É ele quem nos diz qual é a unidade de medida padrão para se realizar uma medida. Vejamos o quadro a seguir, que indica as unidades de medida padrões do SI para algumas grandezas físicas. Quadro 1 Grandezas físicas: unidades e respectivos símbolos Grandeza Unidade Símbolo Comprimento metro m Massa quilograma kg Tempo segundo s Corrente elétrica ampère A Temperatura Kelvin K Quantidade de substância mol mol Intensidade luminosa candela cd Fonte: Elaborado pelo autor. Nós, sempre que possível, utilizaremos o SI de medidas para repre- sentar as grandezas físicas que estamos estudando. Dessa forma, sem- pre vamos preferir medir distâncias em metros em vez de centímetros ou quilômetros. Massa em quilograma, tempo em segundo, e assim por diante. Não se preocupe, sempre indicaremos a unidade do SI de cada grandeza que aparecer. 1.5 Métricas de tempo Vídeo Já apresentados os conceitos mais fundamentais em física, nos aprofundaremos em como medir, principalmente, dois entre eles, nes- ta e na próxima seção: tempo e espaço. Comecemos com o tempo. A menor porção de tempo chamamos de instante de tempo e repre- sentamos com a letra t minúscula. Outra maneira de definir um instante de tempo é dizer que se trata do me- nor tempo entre dois eventos. Há um exemplo muito bom! Você conhece a psicofísica? Trata-se de uma área da ciência que utiliza os métodos da física para medir certas carac- terísticas psicológicas/comportamentais. Uma das medidas mais impor- (Continua) Até hoje alguns países no mundo resistem a aderir ao sistema métrico (siste- ma padrão do SI). O mais notável são os EUA, que até hoje utilizam o siste- ma imperial de medidas. Eles medem temperatura em ºF e distância em pés, jardas, milhas etc. Que tal pesquisar os motivos mais prováveis de isso acon- tecer e quais seriam os benefícios potenciais de eventualmente adotarem o sistema métrico? Desafio Conceitos básicos da física 21 tantes que essa área foi capaz de produzir é o famoso tempo de reação.Como o nome sugere, é a medida de quanto tempo leva para que reajamos a determinado estímulo. Em média, um ser humano típico (e sóbrio) tem tempo de reação de 0,2 s. Isso significa que não percebemos nada que acontece em tempos menores que esse, pois é o tempo mínimo de processamento de uma informação pelo cérebro. Podemos dizer, então, que um instante para o ser humano tem dura- ção de 200 ms. É evidente que esse tempo não é o mesmo para todos. Tente capturar uma mosca com suas mãos e perceba que é uma tarefa muito com- plicada. Isso porque, para o inseto, um instante tem duração muito menor, o que o possibilita reagir muito mais rapidamente aos nossos movimentos. Nós chamamos a duração (o tempo decorrido) entre dois eventos de intervalo de tempo e simbolizamos essa grandeza com a letra grega delta (Δ) seguida da letra t minúscula. Portanto, Δt é o intervalo de tempo entre dois eventos e é determinado pela subtração entre o instante final e o inicial. Δt = tfinal – tinicial Apesar de ser possível, em casos reais, pensar que um instante de tempo possui duração (t = Δt), matematicamente essa igualdade não faz sentido. Por isso, a partir de agora faremos uma distinção bastante clara entre instante de tempo (t) e intervalo de tempo (Δt). Para tanto, usaremos uma semirreta orientada para a direita (em geral) graduada com números reais a partir de zero. No SI, a unidade padrão para o tempo é o segundo [s]. Figura 6 Representação gráfica de instantes de tempo 0 1 2 3 4 t Fonte: Elaborada pelo autor. Cada número representa um instante de tempo. Dessa maneira, um intervalo de tempo é a distância entre dois números dessa se- mirreta. Notemos ainda que há um t à direita da semirreta. É assim que dizemos o que esses números representam, no caso, métricas de tempo. Compreendido? 22 Fundamentos de Física 1.6 Métricas de espaço Vídeo Com o espaço procederemos de uma maneira muito parecida com a que procedemos com o tempo. Podemos medir o espaço de algumas maneiras e, diferentemente do tempo, podemos medir vetorialmente. Comecemos com a ideia de posição. A menor porção de espaço é chamada de posição, e em outras palavras, podemos dizer que o con- junto de todas as posições é chamado de espaço (semelhante ao ponto e à reta na matemática). Utilizamos a letra s para simbolizar a posição e podemos representar o conjunto de posições em uma reta (incluindo os números negativos) orientada, como ilustra a figura a seguir. Figura 7 Representação gráfica de posições 0 1-4 2-3 3-2 4-1 S Fonte: Elaborada pelo autor. O número zero representa o referencial adotado para realizar essa medição, ou seja, as posições podem ser entendidas como a distância em linha reta até o referencial. Por exemplo, a posição 4 m (S = 4) re- presenta um lugar que está a quatro metros à direita do referencial. Uma posição negativa, portanto, representa um lugar à esquerda do referencial. Faz sentido? Tomemos como exemplo a foto de uma sala. JR -s to ck /S hu tte rs to ck Como poderíamos caracterizar a posição ocupada pelo telescópio? Em primeiro lugar, é necessário estabelecer um referencial. Vamos Conceitos básicos da física 23 adotar, como exemplo, o sofá. Inserimos no sofá um ponto da cor ver- melha para ficar mais fácil a visualização. JR -s to ck /S hu tte rs to ck Uma vez o referencial estabelecido, podemos dizer a que distância está o telescópio desse referencial. No caso, está a 3 m na diagonal es- querda do sofá (referencial), como ilustra a figura. Como a orientação pode ser um tanto complicada de descrever, nesses casos, preferimos representar com uma seta, como na figura a seguir. JR -s to ck /S hu tte rs to ck 3 m Dessa forma, podemos definir um vetor de posição s. Em geral, quando as posições já estão representadas em uma reta orientada, interessa-nos apenas o módulo desse vetor. Por isso, podemos repre- sentar a posição de maneira escalar S. Assim como com o tempo, podemos medir o espaço entre duas posições, chamado de variação de posição ou intervalo de posições. O 24 Fundamentos de Física representamos com a letra grega delta (Δ) seguida da letra S maiúscula. Essa medida também é chamada de deslocamento, e pode ser repre- sentada com um d com uma seta em cima, denotando que se trata de um vetor: d . Sendo assim, ΔS ou d é determinado pela subtração entre a posição final e a posição inicial. ΔS = d = Sfinal – Sinicial Por fim, podemos medir a trajetória entre duas posições, que cha- mamos de distância. Representamos essa grandeza com a letra d mi- núscula. Observemos que se trata de uma grandeza do tipo escalar. A distância entre as duas posições não precisa ser orientada. Por exem- plo, a altura de uma pessoa é a medida da distância entre a sola dos pés e a ponta da cabeça e, no entanto, não dizemos que ela é orientada para baixo ou para cima. Entende? É fundamental compreendermos a diferença entre deslocamento e distância. Exploraremos um exemplo para esclarecer essa diferen- ça e o motivo pelo qual podemos medir o espaço entre duas posi- ções dessas duas maneiras. Imaginemos duas casas, representadas por A e B na Figura 8, distan- tes uma da outra. Para sair de A e chegar a B, uma pessoa de carro deve pegar uma estrada de 50 km de comprimento, portanto, a distância (o espaço efetivo entre esses dois pontos) é 50 km. Notemos que não precisamos dizer para qual direção é essa distância, basta dizer que é entre A e B. Por isso, é uma grandeza escalar. Podemos medir o espaço que separa esses dois pontos utilizando o deslocamento. Representamos esse espaço com uma seta que liga o ponto A ao B. Dessa forma, o módulo do deslocamento, no exemplo, se- ria 30 km (a distância em linha entre A e B). Além do mais, precisamos orientá-lo, dizendo que está de A para B ou, simplesmente, para a direita. Ie sd e Br as il S/ A A B 50 km de distância 30 km Deslocamento Figura 8 Representação da diferença entre distância e deslocamento Fonte: Elaborada pelo autor. Conceitos básicos da física 25 E por que utilizamos essas duas maneiras de medir espaço? A respos- ta é simples: nem sempre temos a informação de todas as posições que separam dois pontos no espaço. Nesses casos, só é possível determinar um deslocamento. Pensemos, por exemplo, nas estrelas que vemos no céu à noite. Elas não ficam visíveis na maior parte do tempo, durante o dia, certo? Isso porque o Sol as ofusca. Nesse caso, não temos a infor- mação das posições que elas ocupam durante 12 horas do dia. Então, podemos apenas medir deslocamentos. Faz sentido? Na verdade, temos meios, atualmente, de rastrear o movimento das estrelas, uma vez que temos observatórios espalhados em todo o mundo. No SI a unidade pa- drão para o espaço é o metro [m]. 1.7 Métricas de velocidade Vídeo Uma importante medida que, inclusive, está bastante presente no nosso dia a dia é a velocidade. Usamos essa medida para aferir o mo- vimento de um móvel. Dizemos, então, que a velocidade é a taxa com que as posições de um móvel variam no tempo. Notemos que velocida- de é um conceito derivado de espaço e tempo. Podemos representar essa ideia matematicamente da seguinte forma: V �� � � � S t Vemos que a variação de posições representada por ∆S e ∆t denota a variação do tempo. Mas o que significa velocidade fisicamente? Pense e responda: qual é a diferença entre dois móveis com ve- locidades diferentes? A resposta parece óbvia: um é mais rápido que o outro, isto é, um é capaz de percorrer maiores distâncias em um mesmo intervalo de tempo que o outro. Observemos que essa característica do movimento, que chamamos de rapidez, não inclui uma orientação. Por isso, podemos representar outra grandeza fí- sica chamada de rapidez, que é a taxa com que distâncias são per- corridas por intervalo de tempo. Podemos representar essa ideia matematicamente da seguinte forma: v d t � � Temos, assim, duas velocidades, uma que leva em conta o desloca- mento e outra que leva emconta a distância – a primeira uma velocida- de vetorial e a segunda uma velocidade escalar. 26 Fundamentos de Física Em geral, quando tratamos de velocidade estamos nos referindo à velocidade vetorial (deslocamento dividido por duração). A rapidez é comumente chamada de velocidade escalar. Vejamos um exemplo. Um móvel que se encontrava em uma posição A se desloca até uma posição B, como ilustra a figura a seguir. Ie sd e Br as il S/ A A B 80 km 20 km Sabendo que ele levou 60 minutos para realizar essa trajetória, calcule: a. a rapidez do movimento. b. a velocidade do movimento. Resolução: primeiro, vamos determinar ∆S e d. Para tanto, basta observar- mos a figura e as representar. ∆S = 20 km de A para B. d = 80 km. Além disso, 1 hora (60 minutos) é o intervalo de tempo. Portanto: a. a rapidez é: v d t � � v = 80 1 =�80�km / h b. a velocidade vetorial é: v = S t ∆ ∆ v = 20 1 =20�km / h Na prática Conceitos básicos da física 27 Ao medir velocidade, temos duas possibilidades: ou medimos a ve- locidade de móvel em um instante ou em um intervalo de tempo. No primeiro caso, chamamos essa medida de velocidade instantânea. Como o nome sugere, trata-se da velocidade aferida em determinado instan- te. Matematicamente podemos representá-la da seguinte maneira: • v t inst � �S , na forma vetorial, conhecida como velocidade veto- rial instantânea. • v d tinst = , na forma escalar, conhecida como velocidade escalar instantânea ou rapidez instantânea. Essa é a velocidade que observamos, por exemplo, quando olha- mos para um velocímetro. A velocidade representada é atualizada a cada instante. A segunda métrica de velocidade chamamos de velocidade média. Trata-se da medida do espaço percorrido em determinado intervalo de tempo (maior que um instante). Em outras palavras, ou se mede uma velocidade média ou se mede uma velocidade instantânea. Matemati- camente temos: • v S t média � � � , na forma vetorial, conhecida como velocidade veto- rial média ou velocidade média. • v tmédia � d � , na forma escalar, conhecida como velocidade esca- lar média ou rapidez média. Se voltarmos ao exemplo resolvido, notaremos que calculamos ve- locidades médias. O cálculo de velocidades instantâneas requer o do- mínio de matemática diferencial e integral, que lida exatamente com a ideia de infinito e infinitesimal. No SI a unidade padrão para velocidade é o metro por segun- do [m/s]. No nosso dia a dia, entretanto, a unidade [km/h] é muito mais presente. Por isso, é importante sabermos como se converte [km/h] em [m/s]. A ideia é bem simples: quantos m/s são 1 km/h? Isto é, quantos me- tros são 1 km e quantos segundos são 1 hora? A resposta é de fácil obtenção: 1 km são 1.000 m e 1 hora são 3.600 segundos, certo? Basta, então, substituir km por m e h por segundo. Logo: 1km h 1.000�m 3.600�s 1�m 3,6�s = = 28 Fundamentos de Física Ajudando a entender esse resultado: 3,6 é o fator de conversão en- tre [km/h] para [m/s]. Se queremos converter de m/s para km/h, multi- plicamos por 3,6. Se, pelo contrário, queremos converter de km/h para m/s, dividimos por 3,6. Faz sentido? Deixamos esse raciocínio esque- matizado a seguir. m/s km/h x 3,6 / 3,6 Vejamos um exemplo de conversão desses valores. Quantos m/s equivalem à velocidade de 72 km/h? Resolução: uma maneira de realizar essa conversão é, novamente, transfor- mar quilômetros em metros e horas em segundos. Dessa forma, temos: 72 km h = 72�·�1.000�m 3.600�s = 72�m 3,6�s = 20�m / s Podemos simplesmente dividir 72 km/h por 3,6 para obter o resultado 20 m/s. Na prática 1.8 Métricas de aceleração Vídeo A última, mas não menos importante, medida que usamos muito para estudar o movimento é a aceleração. Ela é, assim como a velo- cidade, uma grandeza física muito cotidiana. No senso comum, ace- lerar significa aumentar a velocidade, certo? Em física é isso e mais um pouco. Trataremos dela mais profundamente adiante, por isso aqui apresentamos a aceleração mais do ponto de vista matemático do que físico. Lembremos de que velocidade é um vetor, por isso é preciso pensar sempre na orientação, ok? Aceleração é a taxa de variação de veloci- Conceitos básicos da física 29 dade ao longo de determinado tempo. Quando nos referimos à varia- ção de velocidade, a variação pode ser tanto o módulo da velocidade aumentando ou diminuindo quanto a sua orientação. Como dito, vol- taremos a essa ideia mais adiante. Até lá, concentremo-nos em com- preender como medimos a aceleração. Matematicamente podemos representar essa ideia da seguinte maneira: a V t � �� � � � , aceleração vetorial Assim como a velocidade, podemos representar a aceleração veto- rial e a aceleração escalar: a � � � V t , aceleração escalar De maneira também muito semelhante à velocidade, podemos cal- cular uma aceleração média e uma instantânea. Matematicamente são representadas da seguinte maneira: • a V t inst � �� � � , na forma vetorial, conhecida como aceleração veto- rial instantânea. • a V tinst � � , na forma escalar, conhecida como aceleração escalar instantânea ou rapidez instantânea. • a V t média � �� � � � , na forma vetorial, conhecida como aceleração ve- torial média ou simplesmente velocidade média. • a V tmédia � � � , na forma escalar, conhecida como aceleração mé- dia ou rapidez média. No SI a unidade padrão para aceleração é o metro por segundo ao quadrado [m/s²]. Vejamos outro exemplo. Um carro, partindo do repouso, atinge 20 m/s em 10 segundos. Calcule sua aceleração escalar média. Resolução: Anotando as quantidades conhecidas: Vinicial = 0 m/s Vfinal = 20 m/s ∆t = 10 s Na prática (Continua) 30 Fundamentos de Física Sabemos que a aceleração média é: a = V tmédia ∆ ∆ Logo: a = 20 - 0 10média a = 2 m / s²média CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, conhecemos alguns “modos de pensar” em física. Descobrimos que essa ciência tem um compromisso inadiável com as medidas. Isso significa, essencialmente, que apenas o que pode ser mensurado (direta ou indiretamente) é objeto de estudo da física. Por esse motivo, dedicamo-nos a conhecer o que significa medir em física. Estudamos os tipos de grandezas físicas (escalares e vetoriais) e como são medidas. Além disso, conhecemos o Sistema Internacional de me- didas, que padroniza as medidas de todas as grandezas físicas e ao qual devemos sempre nos atentar. Aproveitamos o ensejo para apresentar conceitos fundamentais em fí- sica, tais como tempo, espaço, referencial, velocidade e aceleração. Como veremos, é por meio deles que somos capazes de articular explicações mais robustas sobre diversos fenômenos físicos. ATIVIDADES Atividade 1 Qual é o deslocamento realizado por uma pessoa que se move 4 m para o Leste e, em seguida, 3 m para o Norte? Atividade 2 Em uma manhã de domingo, dois ciclistas pedalam em uma ciclovia. Cada um viaja com velocidade de módulo de 2 m/s, mas em sentidos opostos. Em determinado momento, eles estão separados por 40 m de distância. Sabendo que o movimento acontece com velocidades constantes, quanto tempo levarão para se encontrar? Conceitos básicos da física 31 Atividade 3 Usain Bolt é o recordista dos 100 m rasos. Sua impressionante performance é alvo de estudos contínuos dos cientistas do es- porte. A seguir é representado um gráfico de velocidade em cada instante de tempo durante uma corrida de Bolt. Tempo (s) Velocidade em função do tempo em uma corrida de 100 m rasos 0 0 2 4 6 8 10 12 2 4 6 8 10 Ve lo ci da de (m /s ) Qual é a aceleração média entre 0 s e 9 s, aproximadamente, de acordo com esse gráfico? REFERÊNCIAS BURDICK, A. Por que o tempo voa: uma investigação sobretudo científica. São Paulo: Todavia, 2020. FEYNMAN, R. P.; LEIGHTON, R. B.; SANDS, M. Lições de física de Feynman: a edição definitiva. Porto Alegre: Bookman, 2008. HEWITT, P. G. Fundamentos de física conceitual. Porto Alegre: Bookman, 2000. 32 Fundamentos de Física 2Mecânica Nós nos esforçamos para compreender o papel principal das medidas em física e, em última análise, nas ciências naturais modernas. O compro- misso inadiável com as evidências que a ciência moderna tem, sabemos, surgiu ainda na Antiguidade, principalmente com o trabalho de Aristóteles. Ele volta a ser um personagem importante neste capítulo, pois o trabalho fundante da física moderna é – dito de maneira simples – um esforço para superar as explicações aristotélicas do movimento e do Universo. Não é, entretanto, o propósito deste capítulo esgotar e explorar cada detalhe dessa fascinante história, mas apresentar as principais questões que motivaram pessoas como Galileu Galilei, Tycho Brahe, Johannes Kepler e Isaac Newton a fornecerem respostas que mudaram o curso do desenvolvimento da humanidade (e isso não é um exagero). Esperamos que você se sinta convidado e motivado a se aprofundar nesses temas. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • conhecer a física de Aristóteles e confrontá-la com a cinemática de Galileu e a mecânica de Newton; • entender a cinemática de Galileu em dois casos de movimento retilí- neo (um acelerado uniformemente e outro sem aceleração); • compreender algumas importantes questões que originaram a me- cânica newtoniana; • identificar situações de equilíbrio mecânico; • conhecer as três leis de Newton; • compreender os conceitos de energia e trabalho. Objetivos de aprendizagem 2.1 A queda dos corpos segundo Aristóteles Vídeo Um dos problemas centrais que motivou a Primeira Revolução Científica no século XVI foi a queda dos corpos. Na época, havia à dis- posição as explicações de Aristóteles sobre esse assunto. Para enten- dermos essa intrincada teoria do filósofo, apresentamos brevemente qual é o seu pano de fundo. Mecânica 33 Aristóteles era adepto de uma crença muito conhecida, chamada de teoria dos cinco elementos, iniciada por Empédocles. Segundo essa teo- ria, as coisas do mundo são feitas de uma mistura dos elementos terra, água, ar, fogo e éter (este último adicionado por Aristóteles às explica- ções de Empédocles). Esses elementos podem ser lidos como lemos os elementos químicos da tabela periódica, salvada as devidas proporções. Quando falamos, por exemplo, que uma pedra era feita, predominante- mente, do elemento terra, não estamos nos referindo à terra em que se planta uma árvore, mas a um elemento primordial que compõe a maté- ria. Conseguiu compreender? O interessante é que Aristóteles imaginava que os elementos se or- ganizavam em esferas concêntricas, como ilustra a Figura 1. Cada camada dessa esfera é denominada lugar natural, o lugar próprio de cada elemen- to. Por exemplo, o lugar natural do elemento terra fica debaixo dos nossos pés; já o lugar natural do elemento ar fica acima das nossas cabeças. Figura 1 Representação das esferas de Aristóteles Fogo Ar Terra Água O éter é uma substância, para Aristóteles, que permeia todo o universo e tem seu lugar natural além da esfera fogo. Fonte: Elaborada pelo autor. Voltemos ao interesse do capítulo, que é compreender o movimen- to, e façamos isso principalmente estudando a queda dos corpos. Para Aristóteles, existiam apenas dois tipos de movimento: o movimento natural e o movimento violento (ou não natural). O primeiro é aquele que acontece quando um objeto feito, predominan- temente, de determinado elemento é abandonado e lhe é permitido movimentar-se sem impedimentos. Nesse caso, se soltarmos uma pe- dra de determinada altura, ela cai, certo? Segundo a teoria aristotélica, Galileo di Vincenzo Bonaulti de Galilei foi um italiano nascido em Pisa, em 15 de fevereiro de 1564, e falecido em Florença, em 8 de janeiro de 1642. Seu trabalho é de imensa importância para a ciência moderna, não apenas por seus resulta- dos, mas essencialmente por suas questões e seu método de investigação que inspiraram seus su- cessores. Ele se dedicava à investigação natural, mas não se restringia a ela. De fato, Galileu era uma pessoa bastante polímata (que conhece muitas ciên- cias), chegando a lecionar Astrologia na universidade, por exemplo, além, é claro, de seus importantes tra- balhos nas áreas da física, engenharia e astronomia. Biografia 34 Fundamentos de Física isso acontece porque a pedra é feita predominantemente do elemento terra e, por isso, seu lugar natural está debaixo dos nossos pés. Detalhe importante: essa queda acontece sempre em linha reta (trajetória re- tilínea) e com rapidez constante (uniforme), e quanto mais pesado for o corpo, maior será a velocidade com que ele cai. É claro que o autor não disse nesses termos, mas é uma boa aproximação, utilizando uma linguagem mais moderna. Já o segundo é diferente. Acontece quando alguém ou alguma coisa tira um objeto de seu lugar natural. Levantar uma pedra do chão, por exemplo, é um movimento violento, pois ela é feita de terra e, se está no chão, está no seu lugar natural, portanto movê-la só poderia ser por meio de um movimento violento. Notemos que, nesse caso, o movi- mento não precisa ser retilíneo, evidentemente, podemos movimentar a pedra da maneira que bem entendermos. É bastante sofisticada a explicação sobre a razão do movimento das coisas para Aristóteles, não acha? Se você ficou curioso e quer saber mais, leia o artigo A metafísica e a física de Aristóteles, do professor doutor Antony Marco Mota Polito, publicado na revista Physicae Organum. Nesse trabalho, o destaque vai para as análises e os contextos históricos que permitem com- preender como surgiu a teoria aristotélica do movimento e para o esforço do autor em fazer correlações com as noções atuais do movimento. Acesso em: 31 jan. 2022. https://periodicos.unb.br/index.php/physicae/article/view/13341/11674 Artigo 2.2 Superando Aristóteles: uma nova abordagem para a queda dos corpos Vídeo Apesar da sofisticação de seu argumento, Aristóteles não reali- zou nenhuma experiência ou fez qualquer medida do que estudava. Era uma coisa da época, ninguém dava muita importância para as medidas. Por volta de 1600 d.C., Galileu desafiou as explicações de Aristóteles para a queda dos corpos. Seu trabalho é tão importante que ele entrou para a história como o pai da Física. O principal méri- to de Galileu foi, adivinhe, realizar medidas! Galileu realizou alguns trabalhos que desafiavam Aristóteles. Des- tacamos um, e mais fundamental para nós, que é a queda dos corpos. https://periodicos.unb.br/index.php/physicae/article/view/13341/11674 Mecânica 35 Primeiro, temos que entender o que significa um movimento retilíneo e uniforme (M.R.U.), proposição de Aristóteles para a queda dos corpos. 2.2.1 O movimento retilíneo e uniforme (M.R.U.) O movimento retilíneo e uniforme, como o nome sugere, é um mo- vimento que acontece realizando uma trajetória em linha reta e com rapidez constante. Observemos bem os termos que utilizamos aqui. Se você não lembra do que é trajetória e rapidez, talvez seja uma boa ideia revisá-las, ok? Aproveite e dê uma boa olhada nos conceitos de distância e deslocamento, pois serão muito importantes neste capítulo. Uma trajetória retilínea significa que a velocidade do móvel não muda de direção. Um movimento uniforme significa que a rapidez não muda de módulo. Logo, podemos dizer simplesmente que a velocidade (V S t �� � � � ) permanece constante. Você percebeu que se a trajetória é retilínea, o módulo do desloca- mento é igual à distância? Vamos compreender isso com um exemplo, observando o movimento de um inseto 1 1 , como a famosa Aphantochilus rogersi – que é uma aranha que imita uma formiga. Se tivéssemos que fazer um desenho que representasse a trajetória desse inseto, como seria? Marcando essa reta com posições (tipo uma régua), teríamos algo assim: -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 S (cm) Dessa maneira, poderíamos medir o espaço percorrido pela aranha nesse tempo. O mais importante agora é o seguinte: o tamanho me- dido é exatamente igual ao módulo dodeslocamento do inseto (pois a trajetória é retilínea), isto é, d = ΔS. Digamos que a aranha partiu de uma posição Sinicial = 3 cm nessa reta e que chegou, em trajetória retilí- nea, a uma posição Sfinal = -4 cm. Qual é a distância percorrida? -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 S (cm) Posição final Posição inicial Simples, o espaço efetivamente percorrido que separa essas posi- ções é 7 cm (3 cm + 4 cm), ou seja, a aranha, efetivamente, percorreu 7 cm O filme A vida de Galileu é um romance que conta a história de Galileu Galilei explorando, especialmente, sua conflituosa relação com a Igreja Católica da época (século XVII). Direção: Joseph Losey. EUA: American Film Theatre, 1975. Filme Da n Ol se n/ Sh ut te rs to ck Aphantochilus rogersi ou aranha-formiga é uma aranha que mimetiza uma formiga, o que lhe atribui vantagens interessantes. Ela parece tanto com for- migas do gênero Cephalotes que estas só percebem que se trata de uma aranha quando é tarde demais. As formigas são o cardápio mais frequente dessa aranha. Além disso, ela encontra proteção no formigueiro quando preci- sa. Interessante, né? Curiosidade Caso queira observa o movimento do inseto mais detalhadamente, acesse o link a seguir. Disponível em: https://elements. envato.com/pt-br/ant-KWWTJNG. Acesso em: 11 maio 2022. 36 Fundamentos de Física neste exemplo. E qual é o deslocamento? Como sabemos, deslocamen- to é a distância em linha reta entre duas posições (ΔS = Sfinal – Sinicial) e é orientado da posição inicial para a final, como demonstrado a seguir. -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 S (cm) Posição final Posição inicialDs Assim, o deslocamento é 7 cm para a esquerda. Faz sentido? En- tende agora o que significa dizer que a distância é igual ao módulo do deslocamento em um movimento retilíneo? Isso significa também, claro, que a rapidez média é igual, em mó- dulo, à velocidade média. Mas notemos que a velocidade/rapidez ins- tantânea no caso da aranha-formiga não é constante, isso porque não é um movimento uniforme. Precisamos, então, de outro exemplo de movimento retilíneo que seja uniforme, e o melhor exemplo está den- tro de uma academia de ginástica. Você, certamente, já usou uma esteira ergométrica, certo? É um aparelho que tem a seguinte função: movimentar uma esteira com ve- locidade constante e em linha reta para que alguém possa – realizando um movimento em sentido contrário – ficar em repouso. Quanto mais rápida estiver a esteira, mais rápida a pessoa deverá correr em cima dela para ficar em repouso, em relação ao solo. Lembremos de que o movimento depende do referencial. Do ponto de vista de alguém que está no chão da academia, a pessoa que faz exercícios na esteira está parada, mas se o referencial for a esteira móvel, a pessoa está em mo- vimento. Consideremos esse referencial para análise. É por meio dele, por exemplo, que a máquina é capaz de estimar quantos metros uma pessoa que se exercita nela anda em determinado tempo. A principal observação aqui é a seguinte: a velocidade média é igual à velocidade instantânea (o mesmo para a rapidez, porque o movimento é retilíneo). Para iniciar o exercício na esteira, temos que informar ao aparelho a qual velocidade desejamos correr. Então, essa velocidade é constante até que se mude, isto é, em todos os instantes, a velocidade tem exa- tamente o mesmo valor. Se “medirmos” a média, ela tem esse mesmo valor. Para entendermos melhor, consideremos o seguinte exemplo: Mecânica 37 Imagine que você é avaliado na escola com quatro provas, todas valendo até 10 pontos. Se você tirou 0 em duas e 10 em outras duas, sua média aritmética é 5 0 + 0 + 10 + 10 4 � � � � � �, certo? E se você tirou 5 em todas as provas, sua média será quanto? Também 5 5 + 5 + 5 + 5 4 � � � � � �, certo? Nesse caso, podemos dizer que suas notas são uniformes, ou seja, a nota instantânea (a nota de cada avaliação) permanece com o mesmo valor sempre (o que não acontece no primeiro caso). Essa é uma característica de qualquer “coisa” uniforme. No caso do movimento, como a métrica que usamos para aferi-lo é a velocidade, podemos, da mesma forma, dizer que a velocidade média é igual à velocidade instantânea para um M.R.U. Podemos representar essas ideias matematicamente. No caso da posição, representamos a posição ocupada por um móvel que realiza M.R.U. em qualquer instante utilizando a seguinte relação: Sfinal = Sinicial + V · t Sabemos que a velocidade instantânea é igual à velocidade média, logo: Vinstantânea = Vmédia = V Para simplificar, podemos simplesmente chamar de V; então: V S t � �� � � Mas ΔS = Sfinal – Sinicial e Δt = tfinal – tinicial; assim: V S S t t final inicial final inicial � � � �� � �� � � � Em geral, nos aproveitamos do fato de o tempo nunca poder ser negativo e ter uma origem, logo podemos iniciar a contagem do tempo a qualquer momento e dizer que tinicial = 0; assim, a equação fica: V S S t final inicial� � � �� � � � Observemos que tfinal virou apenas t , por economia mesmo. Multipli- cando os dois membros dessa última equação por t e isolando Sfinal; temos: V · t = Sfinal – Sinicial Sfinal = Sinicial + V · t 38 Fundamentos de Física O que essa equação significa? O que ela calcula está claro, certo? Uma coisa que podemos verificar com essa relação é que em tempos iguais se percorre distâncias iguais. Lembrando que � � � ��S S Sfinal inicial� � , pode- mos reescrevê-la da seguinte forma: �S V t� � ·� Como V é constante, a cada intervalo de tempo t igual, a multiplicação entre este e V será sempre proporcional. Digamos, por exemplo, que a velocidade de determinado móvel seja 2 m/s. Podemos medir o espaço percorrido em cada segundo de movimento usando essa relação. A tabela a seguir reúne cada resultado entre 0 e 10 s. Tabela 1 Exemplo de M.R.U. para um móvel a 2 m/s de velocidade Velocidade Intervalo de tempo Distância percorrida em cada intervalo de tempo Distância total 2 m/s Entre 0 e 1 s (Dt = 1 s) 2 m 2 m 2 m/s Entre 1 e 2 s (Dt = 1 s) 2 m 4 m 2 m/s Entre 2 e 3 s (Dt = 1 s) 2 m 6 m 2 m/s Entre 3 e 4 s (Dt = 1 s) 2 m 8 m 2 m/s Entre 4 e 5 s (Dt = 1 s) 2 m 10 m 2 m/s Entre 5 e 6 s (Dt = 1 s) 2 m 12 m 2 m/s Entre 6 e 7 s (Dt = 1 s) 2 m 14 m 2 m/s Entre 8 e 9 s (Dt = 1 s) 2 m 16 m 2 m/s Entre 9 e 10 s (Dt = 1 s) 2 m 18 m Fonte: Elaborada pelo autor. Desenhando os dados dessa tabela, temos: 1 s M ic ha l S an ca /S hu tte rs to ck 2 m 2 m Ds 2 m Ds 2 m Ds 2 m Ds 1 s 4 m 1 s 1 s 6 m 8 m Consegue ver que os espaços percorridos são iguais (2 m) desde que tenha se passado tempos iguais (1 s)? Mecânica 39 Vamos a alguns exercícios resolvidos sobre o M.R.U. para vermos como isso pode ser aplicado. Em determinado instante no qual se inicia a contagem do tempo, um corpo encontra-se na posição 5 m em relação a um referencial. Esse corpo se move a uma velocidade de 2 m/s no sentido positivo do referencial. A alternativa que representa corretamente a função horária da posição desse móvel é: a. S = 5 + 2t b. S = 2 + 5t c. S = 5t + 5t² d. S = 2t – 5t² Resolução: sabemos que para o M.R.U.: Sfinal = Sinicial + V · t Substituindo V = +2 m/s (observemos que o sinal de + indica sentido positi- vo) e Sinicial = 5 m, temos: Sfinal = 5 + 2 · t Ou simplesmente: S =5 + 2 t · Resposta: letra a. Uma ave consegue voar a enormes distâncias enquanto migra. Suponha que ela consiga voar com velocidade constante de 5 m/s durante o período de 4 horas. Qual terá sido a distância, em quilômetros, percorrida pela ave durante esse período? Resolução: há vários caminhos. Podemos simplesmente utilizar: V�= S t D D Como V = 5 m/s e Δt = 14.400 segundos (4 horas em segundos), temos: 5 �=� S 14.400 D ΔS = 72.000 m ou 72 km Ou ainda utilizamos a equação horária das posições: Sfinal = Sinicial + V · t Sabemos que DS =��S � ��Sfinal inicial- , então: DS = V · t Como V = 5 m/s e Δt = 14.400 segundos (4 horas em segundos), temos: DS =5.14400� DS = 72.000 �m�ou�72�km� Na prática 40 Fundamentos de Física Conseguiu compreender o raciocínio? Continuaremos a tratar do movimento na sequência. 2.2.2 O movimento retilíneo uniformemente variado (M.R.U.V.) Agora que entendemos exatamente o que significa a afirmação de Aristóteles sobre a queda dos corpos (que eles caem em M.R.U.), pode- mos prosseguir. Galileu é um dos que revolucionou a maneira como pensamos a natureza, introduzindo à investigação natural o que já discutimos: as medidas. Ele tentou medir a queda dos corpos. Para tanto, foi preciso: 1. medir o tempo de queda; 2. medir as posições ocupadas em cada instante medido; 3. inferir/calcular a velocidade em cada instante. Parece simples, mas é um grande desafio! O primeiro grande desafio é medir o tempo de queda. Lembremos de que estamos falando de 1600 d.C., não existiam cronômetros muito precisos. Tudo de que dispunha Galileu eram ampulhetas (que inclu- sive ele aperfeiçoou para poder realizar suas medidas). É bem famosa a experiência supostamente realizada por ele com um assistente na Torre de Pisa, na qual demonstrou que a queda dos corpos não depen- de da massa deles, como acredita- va Aristóteles. Além disso, ensaiou uma explicação para o fato de que esses objetos caem em linha reta em vez de formarem um arco e caírem um pouco atrás do ponto no qual de fato caem, como acre- ditavam aqueles detratores de um modelo da Terra rotacionando so- bre si mesma. É aqui que surgiram as primeiras noções do que veio a ser conhecido como inércia. Al ex an de r_ P/ Sh ut te rs to ck Clepsidra ou relógios d’água são relógios muito antigos que medem a passagem do tempo com base na vazão de água de um recipiente. Muito seme- lhante a uma ampulheta, as clepsidras foram muito utilizadas na Antiguidade. Galileu construiu sua pró- pria versão desse relógio, que servia especialmente para medir pequenos intervalos de tempo. Sua vantagem em relação a ampulhetas de areia é que estas, pelo fato de a areia ser granular, eram menos precisas e confiáveis. Saiba mais Figura 2 Representação da experiência de Galileu na Torre de Pisa Iesde Brasil S/A Mecânica 41 Além da experiência de Pisa, gostaríamos de dar destaque para o que pode ser considerada a experiência mais engenhosa da época. Medir as posições e os tempos de queda é um desafio grande. Hoje em dia dispomos de aparelhos que fazem isso praticamente sem esforço. Tire com o seu celular uma foto estroboscópica 2 Conjunto de fotos tiradas em instantes diferentes compostas de um único quadro. 2 de um objeto caindo e você encontrará um resultado mais ou menos como o da figura a seguir. Veja que legal! Um objeto que cai livremente (queda livre) não realiza um M.R.U, porque os espaços percorridos em tempos iguais são di- ferentes. Mas como Galileu descobriu isso sem um celular com acesso à internet? Ele pensou em uma maneira de fazer a queda de um corpo ficar em slow motion. O estudioso percebeu que um objeto que cai em um plano inclinado (uma rampa) leva cada vez mais tempo quanto menos inclinado for esse plano. No limite, se a rampa estiver a 90º em relação ao chão, a queda é livre e muito rápida, o suficiente para ser (quase) impossível de medir razoavelmente na épo- ca do Galileu. Porém, à medida que se vai di- minuindo a inclinação da rampa, o tempo de queda aumenta. Dessa forma, ele foi capaz de estudar a queda de um corpo “em câmera lenta”. Não é mais que genial? Com o tempo, Galileu foi percebendo que os espaços percorridos em tempos iguais eram diferentes. Para aferir isso, instalou si- nos ao longo do percurso e foi modificando a posição deles até que fosse capaz de escutar badaladas em tempos iguais. Assim, bastava medir a posição de cada sino. As figuras a se- guir ilustram a montagem. 0 1 4 9 16 25 36 49 64 81 100 Figura 3 Posições e tempos de queda Ie sd e Br as il S/ A 42 Fundamentos de Física A) B) Figura 4 Representação da montagem experimental de Galileu Ie sd e Br as il S/ A O resultado? Espaços que aumentam progressivamente à medida que o tempo passa, como ilustra a figura a seguir. Figura 5 Representação do resultado da experiência de Galileu Mas ele foi além. Era preciso compreender a fundo esse fenômeno. Galileu quis saber a exata relação entre posição ocupada e instante de tempo e como a velocidade se comporta nesse caso. Vejamos a seguir uma tabela com dados próximos dos reais para uma queda livre. Estão representadas as posições ocupadas ao longo do tempo de queda. Mecânica 43 Tabela 2 Resultados encontrados na experiência: posição em função do instante de tempo. Instante de tempo (t) em segundos Posição ocupada (S) em metros 0 0 1 5 2 20 3 45 4 80 5 125 6 180 Fonte: Elaborada pelo autor. Percebeu como a posição aumenta com o passar do tempo? Em outras palavras, o que você precisa fazer com a primeira coluna para encontrar a segunda? Você deve ter chegado à seguinte conclusão: é preciso elevar o tempo ao quadrado e multiplicar por 5, certo? Guarde esse número, pois ele é importante. Galileu descobriu que o movimento de queda, na verdade, é unifor- memente variado, isto é, à medida que o tempo passa, a velocidade aumenta, ou seja, o movimento é acelerado, o que explica o porquê de à medida que o tempo passa o deslocamento em um mesmo tempo aumentar. Se adicionarmos uma terceira coluna a essa tabela mostran- do o deslocamento entre duas posições consecutivas, esse comporta- mento será mais evidente. Tabela 3 Resultados encontrados na experiência: posição e deslocamento em função do tempo. Instante de tempo (t) em segundos Posição ocupada (S) em metros Deslocamento (DS) em cada intervalo de tempo em metros 0 0 – 1 5 5 2 20 15 3 45 25 4 80 35 5 125 45 6 180 55 Fonte: Elaborada pelo autor. 44 Fundamentos de Física As equações de Galileu para esse movimento são: • Para a posição em cada instante: S S V t a t final inicial inicial� � � ²· � � � · 2 • Para a velocidade em cada instante: Vfinal = Vinicial + a · t • Para a aceleração em cada instante: a = constante Um fato interessante é que a queda acontece de maneira acelerada. Mas que aceleração é essa? De onde ela vem? Quem está acelerando esse objeto? A origem, para Aristóteles, deveria ser o lugar natural, mas Galileu abriu caminho para uma explicação completamente nova: a gravidade. Po- rém, não sem antes medir essa aceleração, claro; segundo seus cálculos, aproximadamente 9,8 m/s². Esse resultado é muito importante. Esta ficaria conhecida, principalmente depois de Newton, como aceleração gravitacio- nal. Lembra-se do resultado 5 que encontramos na experiência com a ram- pa? Olhando a equação da posição para um M.R.U.V., consegue enxergar o termo � ²a t · 2 ? Veja que a 2 5= , ou seja, a = 10 m/s², mais precisamente 9,8 m/s². Entende como Galileu chegou a esse valor? É ou não é genial? 2.3 A causa do movimento segundo Newton Vídeo O problema de como os corpos caem havia sido enfrentado por Galileu, que obteve um êxito incrível na tarefa. Além dos resultados importantes, o método de investigação do pesquisador estreou uma nova era de descobertas, a da ciência moderna. Porém, restava uma questão: por que os corpos caem? Qual é a causa do movimento? Novamente, Aristóteles tinha uma explicação para isso (vide mo- vimento natural e violento), mas Galileu, apesar de desconfiar que Aristóteles também estava errado sobre isso, não foi capaz (ou não teve tempo/disposição) de encontrar uma explicação mais robusta. Essa tarefa ficou para Newton e seus colegas, cerca de um século depois de Galileu. O trabalho de Newton só teve a relevância que teve porque foi ca- paz de explicar o que Galileu não conseguiu, bem como a causa dos Mecânica 45 movimentos dos astros celestes que haviam sido bem determinados por Brahe e Kepler, no início dos anos 1600. Vale a pena conhecer essa história! Na sequência, abordaremosas contribuições de Newton sobre a questão do movimento das coisas na superfície terrestre. 2.3.1 O famoso problema do disparo da flecha Um dos problemas mais famosos que confrontava a explicação aris- totélica para o movimento das coisas é o problema do disparo da fle- cha. Imaginemos um arqueiro disparando uma flecha contra um alvo a certa distância. Para que ele consiga acertar, sabemos que é preciso que ele mire um pouco acima do alvo, pois a flecha fará um movimento primeiro ascendente e, depois, descendente, até acertar o alvo. A figura a seguir ilustra isso. Ie sd e Br as il S/ A Trajetória da �echa Linha de visada Figura 6 Representação do problema do disparo da flecha. Como a teoria do movimento de Aristóteles explica esse movimen- to? A flecha é predominantemente feita do elemento terra e seu lugar natural é debaixo dos nossos pés. Assim, quando ela fosse lançada, deveria cair em linha reta com velocidade constante em direção ao chão. Mas ela não só não realiza esse movimento como sobe, como se fosse feita do elemento ar, e, como se não fosse suficiente, depois desce, como se fosse feita do elemento terra. O que está acontecen- do? Como Aristóteles explica isso? O estudioso e seus sucessores tiveram trabalho para explicar isso. Na verdade, a explicação deles não chega a convencer. Olhe que inusitado: uma crença muito presente na Antiguidade era a de que a natureza tem “horror ao vácuo”, ela não admite o vazio. Então, no caso da flecha, o No romance histórico A harmonia do mundo, o famoso professor doutor Marcelo Gleiser nos convida a compreender o impor- tante trabalho de Kepler, astrônomo alemão que, com base no trabalho de Brahe, desvendou um dos mistérios mais importantes da época: o movimento dos astros celestes. GLEISER, M. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. Livro 46 Fundamentos de Física que acontece é o seguinte: ela, em seu movimento progressivo (para a frente), “corta o ar”, produzindo uma região de vácuo atrás dela. Como a natureza não admite o vazio, rapidamente esse espaço é preenchido com ar, o que empurra a flecha, fazendo-a manter seu curso. Ie sd e Br as il S/ A Figura 7 Explicação de Aristóteles para o problema do disparo da flecha Se não te convenceu, saiba que você não é o único. Muitos contes- taram essa explicação. Acontece que é bastante difícil propor outra no lugar sem ter que produzir uma teoria robusta, que explique tudo mais que a teoria de Aristóteles era capaz de fazer (o que inclui, literalmente, o Universo). É aqui que a mecânica de Newton brilha, porque é exa- tamente isso: uma teoria capaz de explicar tudo, o mundo celeste e o mundo terrestre. 2.3.2 As leis de Newton para o movimento A primeira contribuição importante de Newton para a questão, que já havia sido aventada por Galileu anos antes, é a possibilidade de um corpo permanecer em movimento mesmo que nada interaja com ele. É o que ficou conhecido como princípio da inércia. A questão era: o que faz a flecha permanecer se movimentando? A resposta (um tanto frustrante) é: nada. É uma tendência natural dos corpos que, na au- sência de algo que os force a mudar seu movimento, permaneçam em movimento retilíneo e uniforme. Isso ficará mais claro daqui a pouco. Antes, precisamos abordar a ideia de força. A teoria de Newton baseia-se na ideia de força. Para ele, força é uma interação entre dois sistemas físicos. Reflita um pouco sobre o signifi- cado de uma interação. Mecânica 47 Força é a interação que acontece entre dois corpos (ou sistemas físicos), logo só há força enquanto houver interação. Voltemos ao caso do disparo da flecha. O arqueiro interage com a corda do arco. Dize- mos que o arqueiro exerce força sobre a corda do arco. Essa corda, por sua vez, interage com a flecha, que é forçada a se movimentar para a frente. Quando ela sai do arco, não existe mais interação entre o arco/arqueiro e a flecha. Assim, não há mais força. Isso significa que a flecha permanece em movimento para a frente, mesmo na ausência de uma força que a faça realizar esse movimento. É claro que nesse caso há uma força que a faz descer, conhecida como força gravitacional, mas por ora foquemos o movimento para a frente. Uma maneira de escrever essa ideia matematicamente é dizer que se a soma de todas as forças (de todas as interações) resulta em algo diferente de zero, isto é, se um corpo é efetivamente forçado a se mo- vimentar, então ele será acelerado. E essa aceleração depende de sua massa. A ideia aqui é simples, é muito mais difícil acelerar um corpo de grande massa do que um corpo de massa pequena, logo é preciso mais força para acelerar um corpo de massa maior do que um de massa menor. Faz sentido? Essa é a famosa relação que vem a ser conhecida como segunda lei de Newton ou lei fundamental da dinâmica. F =m a� · resultante� Se a força resultante (a soma de todas as forças que atuam sobre um corpo) for zero, a aceleração sofrida por esse corpo também é zero. Isso significa que a velocidade não varia, o que implica duas possibili- dades de movimento: 1. repouso (velocidade = 0); 2. M.R.U. ( V = constante). A primeira possibilidade é óbvia: se um corpo está em repouso e não é forçado a se movimentar, ficará em repouso. A segunda também é razoável: se um corpo em movimento passa a não ser acelerado, a velocidade (módulo e orientação) não muda. Isso só vai acontecer no M.R.U. Esta é a conhecida primeira lei de Newton ou lei da inércia. F é força, m é massa e a é aceleração. A unidade de medida no SI é [kg · m/s²] ou [N], em homenagem a Newton. 48 Fundamentos de Física Um corpo sob ação de força resultante igual a zero ficará ou em repouso, se sua velocidade é zero, ou em movimento retilíneo uniforme, se sua velocidade é diferente de zero. Matematicamente podemos dizer: Se Fresultante��=�0 ⇒ V = 0 (repouso) ou V = constante (M.R.U.). Essa condição ( Fresultante��=�0) é conhecida como equilíbrio. Por fim, voltemos à ideia de que força é interação. Pensemos em uma interação entre dois corpos. Para entendermos isso melhor, é interessante fazermos a seguinte analogia: quando uma pessoa namora com outra, esta última também namora com a primeira, certo? Há até uma piadinha muito comum entre adolescentes quando um diz “Ah! Estou namorando com fulana!” e quase imediatamente alguém responde “E ela sabe disso?”. Essa piadinha é engraçada justamente pelo absurdo que é uma pessoa namorar outra sem esta última saber. Isso é impossível, já que toda a in- teração acontece em dois sentidos, um corpo A que faz força (interage) em um corpo B sofre também uma força (interação) do corpo B. Esta é conhecida a terceira lei de Newton ou lei da ação e reação. Se um corpo realiza força em outro, sofrerá uma reação de igual módulo, na mesma direção, mas em sentido oposto. Além disso, a ação e a reação são sempre em corpos diferentes. Imaginemos uma pessoa fazendo flexões. O exercício consiste em empurrar o chão para baixo e, ao fazer isso, se elevar, isto é, a pessoa sofre força para cima. A figura a seguir ilustra a terceira lei de Newton em ação. –F F Ie sd e Br as il S/ A Figura 8 Pessoa fazendo flexões. Mecânica 49 A força de ação (pessoa empurra chão) é feita no chão e a força de reação (chão empurra pessoa) é feita na pessoa. É por isso que há movimento, porque se essas forças estivessem no mesmo corpo – por possuirem mesmo módulo e direção, mas sentidos opostos – a soma resultaria em zero. 2.4 Trabalho e energia Vídeo O conceito de energia é amplamente utilizado até hoje nos mais diversos contextos e com os mais variados significados. Na nossa his- tória, esse conceito configura-se, de fato, um enorme avanço no campo das investigações naturais. Mais adiante pensaremos juntos sobre en- tes físicos que não possuem massa, nesse caso, o que eles são, como interagem etc. Energia, entretanto, não fica restrita apenas a esses ca- sos. É possível (e até desejável) pensarsobre as energias envolvidas nas interações entre corpos (possuidores de massa, portanto). Na época de Newton, por volta de 1700, muitas questões estavam sendo debatidas acerca das leis naturais. O contexto favorecia isso imensamente. Um século antes, Kepler e Brahe haviam descoberto as leis celestes, que explicavam os movimentos dos astros celestes, um enorme avanço no campo da astronomia. Restava, então, a descoberta das leis que regem o mundo terrestre, sublunar, que, a princípio, não precisariam ter a ver com as leis do mundo celeste (assim como acredi- tava Aristóteles). Sabemos que o trabalho de Newton não só determi- nou leis para o mundo terrestre, mas sua mecânica também explicou as observações astronômicas, reunindo em uma única teoria os mun- dos supra e sublunar. No entanto, Newton não trabalhou sozinho nessa empreitada. Mui- tos outros o auxiliaram. Um personagem “esquecido” e que, ao que consta, sugeriu um tratamento diferente para alguns problemas nos quais Newton também estava interessado é Gottfried Leibniz. Ele de- senvolveu uma teoria chamada vis viva (ou força viva) enquanto estu- dava colisões mecânicas. A ideia é que quando um corpo colide contra outro, alguma coisa é transmitida e conservada. Essa constatação acabou evoluindo para o que hoje conhecemos como energia mecâ- nica. Ela rivalizava com a leitura newtoniana, que também verificava que alguma coisa era transferida e conservada em colisões. A diferença 50 Fundamentos de Física fundamental que nos interessa aqui é que enquanto o tratamento de Newton para o problema envolvia grandezas vetoriais (força e momen- to linear), o de Leibniz envolvia grandezas escalares. Essas grandezas são as energias cinética, potencial, dissipada e mecânica, objeto de es- tudo desta última seção. 2.4.1 Definindo energia e trabalho Você certamente já viu um carro em funcionamento, e sabe tam- bém que para que ele funcione é preciso combustível. Constatação semelhante aparece quando pensamos sobre o movimento do nos- so corpo, que para acontecer é preciso de alimento, ou ainda sobre a necessidade de energia elétrica para o funcionamento de um ventila- dor, por exemplo. O que todos esses casos têm em comum? Em todos (e muitos outros) verificamos uma fonte de energia, uma origem da energia da qual determinado sistema físico necessita para funcionar. Afinal de contas, o que é energia senão uma “coisa que faz as coisas funcionarem”. Vamos mais a fundo nesses casos. Você já notou que quando um carro está em funcionamento o motor esquenta e faz barulho? Que quando uma pessoa corre seu corpo se aquece? Que quando um ven- tilador está ligado faz barulho? Nada disso – aquecimento e barulho – é um produto desejável do processo de consumir energia, ou seja, o objetivo do combustível que usamos nos carros é fazê-los se movi- mentar e não produzir calor. Essa energia desperdiçada (a que produz o barulho e o aquecimento, nesses exemplos) chamamos de energia dissipada. E a energia utilizada para o propósito da máquina (andar, no caso do carro) é conhecida como energia útil. A soma dessas energias chamamos de energia mecânica (no caso de sistemas mecânicos). Pode- mos escrever essa ideia matematicamente da seguinte maneira: Emecânica = Eútil + Edissipada Sabemos que a energia total (energia mecânica) de um sistema é uma quantidade que não pode ser perdida nem aumentada, apenas transformada. A energia é conservada. Esse é um princípio primor- dial da física moderna. A energia útil é aquela utilizada para realizar a tarefa para a qual a máquina foi construída. Chamamos essa “tarefa” de traba- Mecânica 51 lho e a definimos muito objetivamente para sistemas cuja tarefa é movimentar-se. No caso de um objeto que se movimenta, teremos deslocamento. Logo, dizemos que um trabalho é gerado quando uma força é aplicada na direção do deslocamento. Notemos que uma força pode ser aplicada no sentido do movimento ou contrário a ele. Assim, dizemos que todas as forças que contribuem para o movimento realizam trabalho motor, enquanto aquelas forças que atrapalham o movimento realizam trabalho resistente. Imaginemos uma pessoa realizando um exercício de barra. Ela desloca-se ora para cima, ora para baixo. No movimento ascendente, a força de seus braços é responsável pelo deslocamento para cima, en- quanto que o seu peso atrapalha esse movimento. Dizemos, então, que a força de seus braços realiza trabalho motor, enquanto a força peso realiza trabalho resistente, e no movimento descendente, o contrário. Figura 9 Pessoa se exercitando. Ie sd e Br as il S/ A Agora imaginemos uma pessoa empurrando um carrinho de com- pras em um supermercado, realizando um deslocamento de uma po- sição A para uma posição B. A força que a pessoa faz sobre o carrinho realiza trabalho motor, enquanto a força de atrito que o chão faz no carrinho realiza trabalho resistente. 52 Fundamentos de Física F d A B Figura 10 Pessoa empurrando um carrinho de compras. Ie sd e Br as il S/ A Dessa maneira, podemos representar trabalho matematicamente da seguinte forma: �� � � · � � F d Em que τ é trabalho, F é força e d é deslocamento. O sinal de mais (+) indica trabalho motor, já o sinal de menos (–) trabalho resisten- te. Um detalhe importante: para realizar essa multiplicação, F e d precisam estar sempre na mesma direção. A unidade de medida de trabalho no SI é [N.m] ou [J], em homenagem a um grande cientista de sobrenome Joule. Vejamos alguns problemas resolvidos para exercitar essa ideia. Em uma superfície sem atrito, uma pessoa arrasta uma caixa de duas ma- neiras distintas, conforme ilustrado em (a) e (b). Em ambas as situações, o módulo da força exercida pela pessoa é o mesmo e mantém-se constante ao longo de um mesmo deslocamento. F ( a ) Ie sd e Br as il S/ A Na prática (Continua) Mecânica 53 ( b ) F Ie sd e Br as il S/ A Sobre essa situação, é correto afirmar que: a. o trabalho realizado pela força F em (a) é igual ao trabalho realizado em (b). b. o trabalho realizado pela força F em (a) é maior que o trabalho realizado em (b). c. o trabalho realizado pela força F em (a) é menor que o trabalho realizado em (b). d. não se pode comparar os trabalhos, porque não se conhece o valor da força. Resolução: o deslocamento nas duas situações é o mesmo, então, para verificar o trabalho, basta decidir em qual situação a força na direção do deslocamento é maior, uma vez que: τ = ± �F · d A diferença entre a situação (a) e a situação (b) é a direção em que a força é aplicada no bloco. Nossa intuição é dizer que na situação (a) a força é “mais bem aplicada” se o propósito é movimentar o bloco na horizontal, não é? Isso porque na situação (b) a força é aplicada parcialmente para baixo e para a direita (resultando na diagonal para a direita). Consegue ver isso? Essa análise implica que na situação (a) uma quantidade maior de força está na mesma direção do deslocamento, significando que o trabalho realizado é maior. Resposta: letra b. Uma barra de cereal pode fornecer 300 cal para quem a consome. Uma pessoa que se alimentou dessa barra precisou empurrar um carro. Com a energia obtida da barra de cereal, a pessoa conseguiu empurrar o veículo por 10 m. Determine a força necessária para a realização dessa atividade. Dados: 1 cal = 4,2 J. (Continua) 54 Fundamentos de Física Resolução: como sabemos: τ = ± �F d · Substituindo τ por 1.260 J (300 cal x 4,2) e d por 10 m, temos: 1.260 = F · 10 Notemos que os sinais aqui importam. A energia é sempre positiva, pois é um escalar. Já a força e o deslocamento podem ser tanto positivos quanto negativos, pois seus sentidos podem ser para um lado ou para o contrário. Nesse caso, a força e o deslocamento estão no mesmo sentido, portanto possuem o mesmo sinal. Optamos por mantê-los positivos, mas podería- mos representar as duas grandezas com sinais negativos também. Resposta: resolvendo a equação, temos: F =126�N Em síntese, chamamos de trabalho a energia útil, isto é, aquela in- vestida para realizar a tarefa que o sistema pretende fazer. No entanto, sempre há uma parte dessa energia que é utilizada para realizar outras tarefas, chamada de energia dissipada. A soma dessas duas energias é conhecida como energia total ou energia mecânica (no caso de sistemas mecânicos). 2.4.2 Trabalho, energia cinética e energia potencial Voltemos à relação de energia mecânica: Emecânica = Eútil + Edissipada Focaremos o termo Eútil. O que é energia útil no caso de um sistema mecânico? Em primeiro lugar, a energia que faz o sistema se movimen- tar, como vimos na seção anterior. Mas há algo a mais: a energia que está armazenada também é útil. É de lá que surge a energia para o movimento. Dessa forma, temos dois tipos de energia útil: 1. Energia cinética (Ecinética): associada ao movimento, depende de dois fatores: a. massa do objeto: quanto maior o objeto, maior a energia cinética; b. velocidade do objeto: quanto maior a velocidade do móvel, maior a sua energia cinética. Mecânica 55 2. Energia potencial (Epotencial): energia armazenada, estocada. Pode ser de várias naturezas, como: a. gravitacional; b. elástica; c. elétrica. Lembremos de que energia útil é trabalho, podemos, então, relacio- nar energia cinética e potencial com o trabalho. Assim, reescrevemos a equação para a seguinte forma: Emecânica = Ecinética + Epotencial + Edissipada Em alguns sistemas físicos a energia dissipada pode ser desprezada, pois é muito pequena ou mesmo inexistente. Chamamos esses siste- mas de conservativos, pois nenhuma energia é perdida, apenas trans- formada. Neles temos que: Emecânica = Ecinética + Epotencial A ideia é simples: ao realizar trabalho sobre um sistema, sua energia cinética/potencial varia: � Ecinética ��� -�Epotencial O sinal de menos (-) na variação de energia potencial é uma questão de referencial, representando a relação que verificamos entre energia cinética e potencial. Quando uma cresce, a outra decresce. Para enten- der essa ideia, voltemos à queda dos corpos. Consideremos um objeto caindo de certa altura a partir do repou- so (Vinicial = 0). Parece razoável afirmar que a velocidade com que esse objeto chegará no chão é maior quanto maior for a altura da queda? Dito de outra maneira: se tivéssemos que escolher entre as duas situa- ções a seguir, qual escolheríamos? 1. Atingir a sua cabeça com uma bola de boliche que caiu, a partir do repouso, de 10 cm de distância. 2. Atingir a sua cabeça com uma bola de boliche que caiu, a partir do repouso, de 10 m de distância. É claro que ninguém quer que caia uma bola de boliche na sua cabeça, mas a situação 1 é muito mais confortável do que a situação 2. Isso porque você sabe/intui que se a bola cai de uma altura maior, 56 Fundamentos de Física ela te atingirá com maior velocidade, além, é claro, da massa do ob- jeto (se fosse uma bola de tênis, a história seria diferente). Percebe a relação entre altura e velocidade? Gravidade Figura 11 Ilustração de uma queda livre Ie sd e Br as il S/ A Em termos de energia, podemos estabelecer que quanto maior é a altura da queda e quanto maior é a massa do objeto, maior é a quanti- dade de energia armazenada (Epotencial). Isto é: Epotencial gravitacional = m · g · h Em que Epotencial gravitacional é a conhecida energia potencial gravitacional, m é a massa, g é a aceleração gravitacional e h é a altura. Vemos que g entrou na equação, pois sabemos que as coisas caem em M.R.U.V., significando que a aceleração com que caem é relevante. Dito de outra maneira, se a mesma (desagradável) experiência com a bola de boliche acontecesse na Lua, o dano seria bastante menor, pois a aceleração gra- vitacional é de cerca de 1,6 m/s², enquanto na Terra é de 9,8 m/s². Obser- vemos ainda que quanto menor é a altura, menor é a energia potencial, ou seja, à medida que o objeto vai caindo (e sua altura diminuindo, por- tanto), a energia potencial gravitacional vai diminuindo. E para onde vai essa energia? Ela é usada para aumentar a velocidade do objeto. Em ou- tras palavras, à medida que o objeto cai, sua energia cinética aumenta. Mecânica 57 Por falar em energia cinética, faltou mencionarmos como ela é calculada. Não demonstraremos de onde essa relação sai, mas é re- lativamente fácil deduzi-la por meio da definição de trabalho. Energia cinética, matematicamente, é: E m v cinética = · 2 2 Finalmente, podemos representar matematicamente o fato de que enquanto a energia potencial diminui, a cinética aumenta: ΔEcinética = -ΔEpotencial No caso de uma queda livre partindo do repouso, sabemos que a energia cinética inicial é zero (porque Vinicial = 0) e que a energia poten- cial gravitacional final é zero (porque h = 0). Logo: Ecinética final – Ecinética inicial = -(Epotencial final – Epotencial inicial) Ecinética final = -(-Epotencial inicial) Ecinética final = Epotencial inicial Legal, não é? Observemos um problema resolvido para entender- mos melhor essa ideia. Um objeto de massa m cai, a partir do repouso, de uma altura de 51,2 m. Com qual velocidade esse objeto chega ao solo? Resolução: sabemos que: Ecinética final = Epotencial inicial Então: m · v 2 = m · g · h 2 Na prática Dividindo os dois lados da equação por m e substituindo h por 51,2 m e g por 10 m/s², temos: v 2 = g·h 2 v 2 = 10·51,2 2 v2 = 512.2 Resposta: v m s= =1 024 32. �� � / 58 Fundamentos de Física Vimos nesta seção que a energia útil pode ser, ainda, de dois tipos: armazenada, que chamamos de potencial, ou manifestada, que chama- mos de cinética. Isso implica uma relação entre trabalho e essas ener- gias, explicitada nos teoremas trabalho-energia. CONSIDERAÇÕES FINAIS Reunimos neste capítulo algumas importantes contribuições para a in- vestigação natural da física de corpos dotados de massa ou, simplesmen- te, física de um corpo. A ideia central foi desenvolver respostas para duas perguntas fundamentais: como os corpos se movimentam e por que eles se movimentam. As causas e as consequências aqui, evidentemente, es- tão restritas ao domínio da mecânica. Adiante incluiremos no nosso repertório a física de entes sem massa, a física ondulatória. Veremos que, apesar de não terem massa, as ondas possuem energia. É preciso, por isso, uma física própria, capaz de desven- dar fenômenos que fogem do domínio da mecânica newtoniana. ATIVIDADES Atividade 1 Segundo a teoria do movimento de Aristóteles, por que a fumaça de uma fogueira sobe? Atividade 2 Tente encontrar a relação entre o ângulo de inclinação da rampa e a velocidade em cada instante na experiência de Galileu. Atividade 3 No caso de uma pessoa empurrando o chão, por que só a pessoa se move e o chão permanece parado (ou quase parado)? Mecânica 59 REFERÊNCIAS FEYNMAN, R. P.; LEIGHTON, R. B.; SANDS, M. Lições de física de Feynman: a edição definitiva. Porto Alegre: Bookman, 2008. GLEISER, M. A harmonia do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. HELOU, R.; BISCUOLA, G. J.; BÔAS, N. V. Tópicos de física. São Paulo: Saraiva, 2007. v. 2. POLITO, A. M. M. A metafísica e a física de Aristóteles. Physicae Organum – Revista dos estudantes de física da UnB, Brasília v. 1, n. 2, p. 1-16, 2015. Disponível em: https:// periodicos.unb.br/index.php/physicae/article/view/13341. Acesso em: 31 jan. 2022. RAMALHO JÚNIOR, F.; FERRARO, N. G.; TOLEDO, P. A. de. Os fundamentos da física. São Paulo: Moderna, 2004. v. 1. WALKER, J. et al. Fundamentos de física. Hoboken: Wiley, 2014. https://periodicos.unb.br/index.php/physicae/article/view/13341 https://periodicos.unb.br/index.php/physicae/article/view/13341 Br et t A lle n/ Sh ut te rs to k Br et t A lle n/ Sh ut te rs to k 3 Ondas No senso comum, energia trata-se da “coisa” que faz as “coisas” fun- cionarem, não é mesmo? A escolha da palavra coisa foi proposital. Energia é um conceito primitivo em Física, isto é, não pode ser escritaem termos de outros, assim como os conceitos de espaço e tempo. E assim como espaço e tempo, energia é um conceito central nas ciências físicas. Com o uso, vai ficando claro o valor desse conceito, ok? Neste capítulo, nos esforçaremos para compreender fenômenos que não envolvem massa, sendo assim as leis de Newton não podem ser aplicadas. A luz e o som são excelentes exemplos desse tipo de fenômeno, ao qual damos o nome de fenômenos ondulatórios. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • definir pulsos e ondas; compreender os elementos constituintes de uma onda; • conhecer o modelo ondulatório e sua necessidade empírica; conhecer os principais fenômenos ondulatórios; • reconhecer fenômenos que envolvam interferência; • conhecer princípios fundamentais de acústica; • conhecer aspectos das ondas eletromagnéticas; conhecer o espectro eletromagnético. Objetivos de aprendizagem 3.1 O que são ondas? Vídeo Quando você escuta ou lê a palavra onda, o que lhe vem à mente? Talvez uma praia com o mar agitado, como na imagem a seguir? 6060 Fundamentos de FísicaFundamentos de Física Ondas 61 De fato, usamos a palavra onda no nosso dia a dia com diferentes acepções. Podemos estar nos referindo a uma agitação, como em uma onda do mar, ou a uma grande quantidade de determinada coisa che- gando, como em onda de calor, ou ainda à ocorrência de novos eventos, como em uma nova onda de uma doença, por exemplo, a Pandemia de Covid-19. Na Física, entretanto, esse termo possui uma definição bas- tante restrita e rígida, significando uma sucessão periódica de pulsos. Vamos entender isso com calma? Primeiro, o que é um pulso para a Física? Se esticarmos uma corda e a movimentarmos para cima e para baixo uma única vez, veremos algo como o que está representado na figura a seguir. Figura 1 Propagação de um pulso em uma corda Ie sd e Br as il S/ A Claramente vemos na figura que algo foi transmitido da mão para a outra extremidade da corda. Mas o que, exatamente, propagou-se nes- se caso? Essa é uma pergunta muito importante, logo, vamos pensar nela de forma mais meticulosa. É importante notarmos que, durante todo o processo, a corda se- gue sendo segurada, isto é, o que saiu da mão e se propagou não foi a corda, mas o movimento que foi realizado nela. Logo, se não foi a mas- sa que se propagou, então dizemos que foi a energia. Portanto, nesse 62 Fundamentos de Física caso, o movimento é entendido como energia, consegue compreender essa ideia? Esse único movimento, ou agitação, feito na corda é chamado de pulso. Uma sequência periódica dele compõe o que chamamos, em Fí- sica, de onda. A figura a seguir ilustra essa ideia. Figura 2 Ilustração de um pulso se propagando em uma corda em comparação com uma onda se propagando nela Ie sd e Br as il S/ A v v Pulso Onda Uma outra maneira de compreender o que é uma onda é pensar que ela é uma perturbação periódica de um meio. Assim, é possível percebermos que esse formato característico (senoide) é produzido quando sacudimos uma corda (para cima e para baixo, por exemplo) de maneira periódica. Essa agitação é o que chamamos de onda. Chamamos de fonte o que dá origem à onda, nesse caso a mão que sacode a corda, essa é outra definição importante. Como veremos adiante, uma onda terá as mesmas características da fonte, sendo esta uma questão básica e fundamental. Que tal conhecermos mais sobre as ondas? Notemos que essa onda precisa de um meio para se propagar, no caso a corda. Porém, nem sempre isso acontece. Algumas são capazes de se propagar no vácuo. Trataremos desse assunto no fim deste capí- tulo, por ora veremos a classificação das ondas em relação aos meios de propagação: 1. Ondas mecânicas: precisam de um meio material para se propagar. Por exemplo, aquelas produzidas em uma corda. 2. Ondas eletromagnéticas: não precisam de um meio material para se propagar, um exemplo é a luz visível, como a luz do Sol que chega até nós. Ela se origina no Sol e se propaga no espaço (vácuo) antes de chegar aqui. Ondas 63 Além disso, pulsos podem ser formados de maneiras diferentes agi- tando o meio em diferentes direções. Como resultado, ondas com di- ferentes características são produzidas. Por exemplo, podemos agitar o meio para cima e para baixo e produzir essas ondas típicas em uma corda, provocando pulsos que oscilam em uma direção perpendicular à propagação da onda – o que é classificado como ondas transversais. Por outro lado, quando agitamos o meio para frente e para trás, produ- zimos pulsos na mesma direção em que a onda se propaga – esses são chamados de ondas longitudinais. Podemos verificar esse fenômeno nas imagens a seguir. Figura 3 Representação de ondas transversais e longitudinais em uma mola b) Onda longitudinal a) Onda transversal Fo ua d A. S aa d/ Sh ut te rs to ck Podemos ainda criar uma onda agitando o meio para cima e para baixo e para frente e para trás, o que produz agitações circulares em cada ponto que compõe o meio agitado. Como resultado, teremos a produção de ondas mistas, como ilustrado a seguir. Figura 4 Ondas mistas Ie sd e Br as il S/ A 64 Fundamentos de Física 3.1.1 Elementos de uma onda Agora que sabemos o que é uma onda, iremos mostrar alguns ele- mentos que sempre estão presentes e que usaremos para caracterizá-la. Para ser mais fácil de visualizar, utilizaremos como exemplo uma onda transversal, mas os mesmos elementos podem ser encontrados tam- bém em ondas longitudinais, tudo bem? O primeiro elemento é o chamado eixo de equilíbrio. Trata-se da representação do estado de repouso da onda ou, melhor ainda, do eixo sobre o qual as oscilações acontecem. As ondas transversais são um eixo longitudinal, e as ondas longitudinais um eixo transversal. Observemos a representação do eixo de equilíbrio em uma onda trans- versal na Figura 5. Figura 5 Eixo de equilíbrio de uma onda transversal Eixo de equilíbrio Fonte: Elaborada pelo autor. A partir do eixo de equilíbrio, vemos que há pontos mais afasta- dos acima e abaixo. Eles são chamados respectivamente de crista (ou cumes) e vale, como representado a seguir. Figura 6 Cristas (ou cumes) e vales Eixo de equilíbrio Cumes Vales Fonte: Elaborada pelo autor. Ondas 65 A distância entre um cume ou vale até o eixo de equilíbrio é chama- da de amplitude. Há amplitudes positivas, quando a distância é entre um cume e o eixo de equilíbrio, ou negativas, quando a distância é até um vale. A Figura 7 ilustra essa ideia. Figura 7 Amplitudes positiva e negativa Fonte: Elaborada pelo autor. Amplitude negativa Amplitude negativa Amplitude negativa Amplitude positiva Amplitude positiva Dizemos ainda que um pulso pode ter fase positiva ou negativa. Isto é, se a amplitude do pulso é positiva, dizemos que a sua fase é positiva. Caso contrário será uma fase negativa. Outra medida importante é o comprimento de onda, sendo a dis- tância horizontal (no caso das ondas transversais) entre dois pontos que se repetem de uma onda – a distância entre dois cumes ou entre dois vales, por exemplo. Conforme mostra a figura a seguir. Figura 8 Comprimento de onda Fonte: Elaborada pelo autor. Comprimento de onda Comprimento de onda Comprimento de onda 66 Fundamentos de Física Além disso, um outro ponto que precisamos entender é que o com- primento de uma onda depende da frequência da fonte. Isto é, se a fonte “sacode” a corda com mais rapidez, veremos uma onda com com- primento de onda menor, conforme ilustrado a seguir. Figura 9 Comparação entre ondas transversais de diferentes frequências Fonte: Elaborada pelo autor. Por isso, frequência é um parâmetro importante, já que ela indica quantas vezes por unidade de tempo uma onda completa um ciclo; ou – dito de outra maneira – quantos pulsos por unidade de tempo uma onda possui. Podemos representar matematicamente essa ideia com a seguinte expressão: F n t � � Nesse caso, o F é a frequência, n o número de repetições/ciclos/pulsos, e Δt o intervalo de tempo. No S.I., a unidade de medida de fre- quência é o [s-1] ou rotações por segundo [r.p.s] ou, ainda, o hertz [Hz]. Outro parâmetro muito utilizado que transmite uma ideia seme- lhante é o período, o qual dizemos ser o tempo necessário para com- pletar uma volta/ciclo/rotação (n=1). Essa ideia pode ser representada matematicamente pela seguinte expressão: T t n � � Ondas 67 Nesse caso, T é o período, n o número de repetições/ciclos/pulsos, e Δt o intervalo de tempo. No S.I., a unidade de medida de frequência é o [s]. Notemos ainda que frequência e período são inversos. Isto é: T F = 1 Utilizamos os seguintes símbolos para cada um desses elementos de onda: λ = Comprimento de onda medido no S.I. em metros. A = Amplitude medida no S.I. em metros. T = Período medido no S.I. em segundos. F = Frequência medida no S.I. em hertz. 3.1.2 Equação fundamental da ondulatória Como já sabemos, uma onda é uma sequência periódica de pulsos, e um pulso se propaga ao longo de um meio material (no caso de uma onda mecânica). Por isso, é possível medir a velocidade de onda. Isto é, medir quanto espaço uma onda percorre em um determinado tem- po. Esse movimento do pulso é retilíneo e uniforme, ou seja, mantém uma única direção e uma rapidez constante. Por isso, podemos dizer que a velocidade instantânea de uma onda é igual à sua velocidade média ou simplesmente que a velocidade de uma onda é: v S t � � � O espaço percorrido por um pulso no sentido de sua propagação, como vimos anteriormente, é o comprimento de onda (λ), e o tempo entre dois pulsos iguais é o que chamamos de período (T). Substituindo essas informações na equação anterior, temos que: v T � � Ou ainda, considerando que F T = 1 : v = λ . F Esta é a famosa equação fundamental da ondulatória. 68 Fundamentos de Física Exercício (Mackenzie, SP, 2006, com adaptações) As antenas das emissoras de rádio emitem ondas eletromagnéticas que se propagam na atmosfera na veloci- dade da luz (aproximadamente 3.108 m/s) e em frequências que variam de uma estação para a outra. Uma determinada estação emite uma onda de frequência 90 MHz, qual é aproximadamente o comprimento de onda das ondas emitidas? Resolução Sabemos que a velocidade de uma onda é determinada pela seguinte relação: v = λ . F Substituindo os valores fornecidos no enunciado, e lembrando que 1 mega é 106 unidades, temos: 3 .108 = λ . 90 . 106 � � 3.10 90.10 8 6 ��� 10 3 �m��ou��3,3� metros Resposta: 3,3 metros. Na prática Uma informação interessante para pensarmos sobre é o fato de que, quanto maior é a frequência, menor é o comprimento de onda. Percebemos então que, se essa proporção for linear (isto é, enquanto um dobra, o outro é cortado pela metade ou, quando um triplica, o outro é reduzido para um terço etc.), a velocidade é sem- pre constante. Isso mesmo! A velocidade de uma onda é sempre constante em um mesmo meio material. Mas devemos lembrar que ela vai variar se o meio mudar, ok? 3.2 Fenômenos ondulatórios Vídeo Aprendemos o que é uma onda e suas principais características, então, agora, entenderemos como esses conhecimentos podem ser úteis para que compreendamos fenômenos reais, o que vai além de uma corda sendo sacudida. Pense em ocasiões nas quais uma “coisa” é transmitida de um ponto a outro sem que haja transporte de matéria, como pulsos em uma corda. Faça uma lista com o que você imaginou. Ondas 69 Vamos compartilhar a nossa lista para conversarmos sobre isso. Vejamos: • O som que escutamos do celular quando ele está tocando nossas músicas preferidas. • Mensagens instantâneas que trocamos com um amigo pelo computador. • O eco que escutamos quando falamos em uma sala vazia. • A luz do farol do carro que está atrás quando dá sinal para nos ultrapassar. • A voz de uma pessoa que está na sala ao lado quando a escutamos “através” da parede. • Terremotos sentidos a vários quilômetros de distância de seu epicentro. • O calor que sentimos ao nos aproximarmos de uma fogueira. Fo rg em /S hu tte rs to ck Como ficou sua lista? Alguma dessas coisas apareceu? Certamente há muito mais exemplos nos quais há transmissão de uma “coisa”/in- formação/energia sem que haja transporte de matéria. Mas, para esta análise, vamos usar as ocasiões da lista apresentada. Em todas as situações, algo foi transmitido de uma fonte até um re- ceptor. No exemplo do calor da fogueira, a fonte é a madeira queiman- do, e o receptor é a pele que sente o calor. Já nos exemplos da voz de uma pessoa ou do eco em uma sala vazia ou até mesmo da luz alta do carro de trás, quem são a fonte e o receptor? No caso das mensagens instantâneas, por exemplo, podemos perceber que não há dúvida de quem enviou e de quem recebeu. Há, entretanto, algumas diferenças importantes. Vamos pensar se- paradamente em alguns desses exemplos e aproveitar para discutir o que chamamos de fenômenos ondulatórios (como o nome sugere: fenô- menos que envolvem ondas). 3.2.1 Reflexão e eco Peguemos um primeiro exemplo: “o eco que escutamos quando fa- lamos em uma sala vazia”. Nesse caso, a fonte e o receptor somos nós mesmos; mais precisamente a fonte é o sistema fonador, e o receptor os ouvidos/sistema auditivo. Isso porque o som se propaga em uma 70 Fundamentos de Física direção, e quando encontra um obstáculo intransponível (paredes) ele volta para onde veio. O que chamamos de eco, nada mais é do que on- das refletidas. A figura a seguir nos mostra essa ideia. Figura 10 Representação das frentes de onda sendo refletidas e produzindo o fenômeno do eco Ie sd e Br as il S/ A Podemos representar o som como ondas bidimensionais, como as que são formadas em um lago tranquilo no qual jogamos uma pedra. Na Figura 10, cada traço representa uma frente de onda, isto é, as cris- tas ou vales de uma onda bidimensional. Note que ela se propaga em uma direção, encontra um obstáculo intransponível e é refletida. É isso que caracteriza uma reflexão. Esse fenômeno pode ser observado em muitos casos. Os morcegos, por exemplo, são conhecidos por serem “cegos”, mas exímios caçado- res noturnos. Isso porque usam um sofisticado sistema de navegação com base no eco produzido por seu potente sistema fonador, que é capaz de produzir sons inaudíveis para os seres humanos e que tem seu reflexo captado por seus sistemas auditivos sensíveis. O princípio é fascinante: quanto menor é o tempo entre a emissão e a recepção do som, mais próximo está o objeto, o qual pode ser grande, como o tronco de uma árvore, ou bem pequeno, como suas presas voadoras: os insetos. O notável é a precisão e a sensibilidade de seu sofisticado sistema de ecolocalização, que é capaz de “ler” o movimento do objeto, tal qual fazemos com nossa visão. Isso porque, se a velocidade relativa entre o morcego e sua presa for maior, a onda formada tem maior Ondas 71 frequência (menor comprimento de onda), se a velocidade for menor, a frequência aferida será menor. Impressionante, não? Figura 11 Representação da geração de eco em diferentes situações Ie sd e Br as il S/ A Essa mesma ideia é usada para construir sonares em embarcações, por exemplo. Ela é útil para muitas coisas, como aferir a profundidade do local por onde a embarcação está navegando ou ainda verificar a aproximação/afastamento de um objeto. Figura 12 Representação do funcionamento de um sonar Ie sd e Br as il S/ A Esse princípio também é aplicado em exames de ultrassom. Como sabemos, a velocidade de uma onda depende do meio em que ela se propaga. Sabemos também que o nosso corpo é feito de muitos “meios” diferentes: ossos, músculos, sangue etc. Cada um é diferen- te, por isso verificamos em cada um deles velocidades de propaga- ção diferentes. Somos capazes de construir então um aparelho que, como os morcegos, é capaz de emitir e receber um som inaudível, conhecido como ultrassom. Esse som se propaga dentro do nosso corpo e encontra diferentes obstáculos emdiferentes posições, pro- duzindo variadas ondas refletidas. O aparelho então infere, assim 72 Fundamentos de Física como os morcegos, as posições relativas de cada “coisa”. Produzindo assim, aquelas imagens típicas de um ultrassom. Genial, não é? Figura 13 Imagem produzida por um aparelho de ultrassom Vamos ver, em um exercício, a aplicação do que estamos tratando: Exercício Uma pessoa que está de mudança acaba de esvaziar sua sala. Ela grita para seu ajudante, que se encontra em outro cômodo, e percebe que sua voz ecoa. Curiosa, com auxílio de um aplicativo de celular, ela mede o tempo entre o som emitido e o eco recebido. Sua medida indica que esse tempo é de 0,03 segundos. Sabendo que a velocidade de propagação do som no ar é de, aproximadamente, 340 m/s, determine o tamanho, aproximado, da sala dessa pessoa. Resolução Como sabemos, o eco é a reflexão do som em um obstáculo intransponível, como é o caso das paredes da sala dessa pessoa. O som, portanto, viaja do emissor até a parede a uma distância “d” e retorna percorrendo a mesma distância. O tempo para esse percurso é de 0,03 s. Além disso, sabemos que a velocidade do som no ar é constante. Isso implica: v = 2.d t∆ Substituindo os valores conhecidos: 340 = 2.d 0,03 d ≃ 5,1 metros Resposta: 5,1 metros, aproximadamente. Na prática Ga gl ia rd iP ho to gr ap hy /S hu tte rs to ck Ondas 73 Se observarmos melhor o que acontece com o pulso refletido, va- mos notar uma coisa bem interessante: dependendo de como for o obstáculo, a onda se comportará diferente. Para entender isso, volte- mos ao exemplo da corda. Se produzirmos um pulso em uma corda que está fixa em uma pa- rede, o pulso refletido terá fase invertida em relação ao pulso inciden- te. (Lembrando: fase é o nome que damos para a posição do pulso; se tem amplitude positiva, então sua fase é positiva; se sua amplitude é negativa, dizemos que sua fase é negativa). Figura 14 Representação de um pulso incidente e de um pulso refletido em extremidade fixa Ie sd e Br as il S/ APulso incidente Pulso refletido Extremidade fixa Entretanto, se a extremidade que segura a corda é móvel, como no caso de uma argola, o pulso refletido possui a mesma fase. Figura 15 Representação de um pulso incidente e de um pulso refletido em extremidade móvel Ie sd e Br as il S/ A Pulso incidente Pulso refletido Extremidade móvel Sabendo como é o pulso refletido, seremos capazes, portanto, de indicar algumas características do obstáculo. Ficou claro? 74 Fundamentos de Física Pi xe ls pi el er /S hu tte rs to ck 3.2.2 Refração A refração é outro importante fenômeno ondulatório caracteriza- do pelo fato de uma onda que se propagava em um meio passar a se propagar em outro. Sendo um fenômeno ondulatório, todas as ondas podem sofrer refração. A refração da luz, por exemplo, é bem comum para todos nós. Olhe atentamente a foto a seguir. É um canudo dentro de um copo com água. O que você notou de especial? Há duas observações a fazer. A primeira, e mais óbvia, é que a porção do canudo que está imersa na água está um tanto “desviada” em relação à porção fora d’água. Esse fenômeno é comumente visto no nosso dia a dia, não acha? Por exemplo, em uma pis- cina, em um rio ou mar, em aquários etc. Podemos in- ferir que a luz que sai do objeto imerso na água segue uma trajetória diferente daquela que sai da porção do objeto imerso no ar. Concorda? A segunda observação, também óbvia, mas muito importante: a cor do canudo não muda. Isso significa que pelo menos uma caracterís- tica da onda permanece igual, estando a luz se propagando no ar ou na água. Como veremos no final deste capítulo, essa característica é a frequência da onda – que no caso da luz, nos permite a sensação das cores. No caso da refração sonora, notamos algo bem semelhante acon- tecer. Imagine que estamos em nosso quarto com a porta fechada. Alguém grita da cozinha que o almoço está pronto. Como somos ca- pazes de escutá-la? Bem, a onda sonora, de alguma maneira, foi capaz de sair da fonte (pessoa gritando) e chegar ao receptor (nós, dentro de um quarto fechado). Isso só é possível graças ao fato de que uma onda pode refratar, isto é, mudar de meio. Nesse caso, a onda sonora passa pelas paredes até chegar a nós. É evidente que nesse processo parte da intensidade é perdida, não é? Mas ainda assim somos capazes de saber quem está gritando, certo? Inferimos então que, nesse caso, uma característica da onda permanece inalterada. Aqui, novamente é a frequência da onda que permanece. Como veremos em breve neste Ondas 75 capítulo, a frequência de uma onda sonora é o que nos permite a sen- sação da altura do som (sons graves e agudos). Em síntese, a refração é caracterizada pelo fato de a onda mudar de meio de propagação. Nesse fenômeno, entretanto, a frequência da onda sempre permanece inalterada. O que muda, pela equação fundamental da ondulatória, portanto, é o comprimento de onda e a velocidade! V = λ . F F v � � (onde F é constante) Podemos fazer uma experiência com duas cordas diferentes para ve- rificar como um único pulso refrata: prendendo as duas cordas e provo- cando um pulso em uma delas. Nesse caso, é muito interessante notar a presença de um pulso refletido. Isso acontece toda vez que uma onda/ pulso encontra um obstáculo, parte da onda é refratada, e a outra parte é refletida. As figuras a seguir representam essa ideia. Pulso incidente VB VA VA Pulso refratado Pulso refletido Pulso incidente VB VA VA Pulso refratadoPulso refletido Ie sd e Br as il S/ A Ie sd e Br as il S/ Ab) Representação de um pulso incidente, um pulso refletido e um refratado para uma onda mecânica e transversal quando o meio passa a ser menos denso. a) Representação de um pulso incidente, um pulso refletido e um refratado para uma onda mecânica e transversal quando o meio passa a ser mais denso. Figura 16 Representações de pulsos incidentes – ambientes mais e menos densos 76 Fundamentos de Física A fase do pulso refletido depende dos meios nos quais os pulsos incidente e refratado se propagam. Interessante, não? Toda a vez que uma onda interage com um obstáculo, três fenôme- nos são observados: 1. A onda é parcialmente refletida. 2. A onda é parcialmente refratada. 3. A onda é parcialmente absorvida. A depender do obstáculo, a onda pode ser também difratada (tema do nosso próximo tópico). Figura 17 Fenômenos ondulatórios de refração, reflexão e absorção simultaneamente Ie sd e Br as il S/ A Som incidente Som refratado Som refletido Absorção do som A Figura 17 ilustra essas observações sobre a refração para o caso do som, mas o mesmo acontece para todas as outras ondas. 3.2.3 Difração Quando o obstáculo encontrado por uma onda é próximo do ta- manho do comprimento de onda desta (isto é, d ≈ λ onde d é o tama- nho do obstáculo), acontece um fenômeno conhecido como difração. Trata-se de um fenômeno caracterizado pelo fato de uma onda, após encontrar o obstáculo, mudar de forma e sentido de propagação. Por exemplo, imagine ondas bidimensionais cujas frentes de onda sejam retas se propagando em uma direção; por exemplo, uma bandeira tre- mulando ou um lençol sendo sacudido. Ondas 77 Essas ondas podem ser representadas como na Figura 18. Figura 18 Representação de frentes de onda de uma onda bidimensional Fonte: Elaborada pelo autor. Lembre-se de que frentes de onda são os pontos mais altos (cristas) de uma onda bi ou tridimensional, ok? Essas ondas podem ser forma- das na água quando sacudida para frente e para trás, como em uma cuba de ondas (ilustrada a seguir). Figura 19 Representação de uma cuba de ondas Ie sd e Br as il S/ A Fontes de energia Tanque raso de água Pás oscilantes Padrões de ondas vistas em uma tela ou mesa Iluminação 78 Fundamentos de Física Independentemente de como forem produzidas, se essas ondas en- contram um obstáculo cujo tamanho seja próximo ao comprimentode onda dessas ondas, veremos que essa onda passa a se propagar com outro formato, como ilustrado a seguir. Figura 20 Representação da difração acontecendo quando uma onda encontra um obstáculo de tamanho próximo ao seu comprimento de onda Ie sd e Br as il S/ A Esse obstáculo pode também ser uma fenda, cujo tamanho seja aproximadamente igual ao comprimento de onda da onda incidente, como vemos a seguir. Figura 21 Representação da difração acontecendo quando uma onda encontra uma fenda de tamanho próximo ao seu comprimento de onda Ie sd e Br as il S/ A O fenômeno da difração pode ser visto em diversas situações do nosso cotidiano. De fato, ele não é muito fácil de verificar, mas está presente! Olha que legal essa foto de um arrecife que possui uma aber- Or io l D om in go /S hu tte rs to ck OndasOndas 7979 tura com tamanho próximo ao comprimento de onda das ondas que incidem nele. Esse novo padrão de onda produzido após a onda encontrar um obstáculo com tamanho próximo ao seu comprimento de onda é de- terminado com base no que chamamos de interferência, sendo o tema da nossa próxima seção! Dm itr is 1/ W ik im ed ia c om m on s 3.3 Interferência Vídeo Quando dois corpos se encontram muito próximos de uma mesma posição, acontece o que chamamos de colisão. Nesse caso, devido à impossibilidade de ocuparem a mesma posição, eles interagem mutua- mente, forçando-se a mudar sua velocidade. Pensemos, por exemplo, em um acidente de trânsito ou em um jogo de sinuca. Nessas situações (e em muitas outras), o que foi descrito acontece, certo? 80 Fundamentos de Física Com as ondas, entretanto, como não possuem massa, observamos um fenômeno diferente. A primeira grande diferença é que não existe a impossibilidade de ondas ocuparem a mesma posição, isso porque o princípio da impenetrabilidade (dois corpos não podem ocupar o mes- mo lugar no espaço) não se aplica a entes sem massa, como é o caso das ondas. Isso significa que elas não colidem. Dizemos assim que elas, quando ocupam a mesma posição no espaço, interferem-se. Para entendermos como as ondas se interferem, voltemos às cor- das. Imagine que, a partir de cada extremidade da corda, produz-se um pulso, de tal forma que os dois pulsos estejam se propagando em sentidos contrários, como representado a seguir. Figura 22 Representação de pulsos se propagando em direções opostas em uma mesma corda Fonte: Elaborada pelo autor. Evidentemente chegará um instante em que esses pulsos estarão sobrepostos. Vamos ver o que acontece? Figura 23 Representação de pulsos com mesma fase se propagando em direções opostas em uma mesma corda e se interferindo Fonte: Elaborada pelo autor. Ondas 81 Diferentemente de uma colisão mecânica, esses pulsos passam um pelo outro como se o outro não existisse. Além disso, no exato instan- te em que eles se sobrepõem, a amplitude é somada, produzindo um único pulso de amplitude igual à soma das amplitudes de cada pulso, percebeu? Esse é visto em todos os casos em que haja interferência: o pulso resultante da soma de pulsos interferentes possui uma amplitu- de que é a soma das amplitudes de cada um desses pulsos. Lembre-se que é possível que um pulso tenha amplitude negativa. Nesse caso, a interferência ocorre da seguinte maneira. Figura 24 Representação de pulsos com fase opostas se propagando em direções opostas em uma mesma corda e se interferindo Ie sd e Br as il S/ A Toda vez que um pulso com amplitude positiva encontra outro com amplitude também positiva, dizemos que há interferência construti- va. Se os pulsos interferentes têm amplitudes de sinal trocados, então há interferência destrutiva. A Figura 25 ilustra essa ideia. 82 Fundamentos de Física Figura 25 Representação de interferências construtivas e destrutivas com pulsos. Construtiva Destrutiva V V V V V V V V Fonte: Elaborada pelo autor. Se acontece para um único pulso, sabemos então que acontece tam- bém para uma onda – que nada mais é que uma sucessão periódica de pulsos. Dessa maneira, uma interferência entre ondas segue exatamente a mesma lógica que a de um único pulso, como mostra a figura a seguir. Figura 26 Representação de interferência construtivas com ondas A A 2A Onda 2 Onda 1 Onda resultante Fonte: Elaborada pelo autor. Ondas 83 A figura a seguir mostra um exemplo de uma interferência total- mente destrutiva entre ondas. Figura 27 Representação de interferência destrutiva com ondas A –A Onda 2 Onda 1 Onda resultante Fonte: Elaborada pelo autor. Porém, sabemos que as ondas podem ter diferentes comprimentos de onda. Isso significa que nem sempre uma interferência será total- mente construtiva ou destrutiva. Isso pode ocorrer parcialmente, como ilustrado a seguir. Figura 28 Representação de interferências mistas com ondas + = Fonte: Elaborada pelo autor. No site do Phet Colorado você encontrará um simulador muito interes- sante que, entre outras coisas, mostrará a soma de ondas em diferentes frequências. Vale a pena investir um tempinho para explorar esse excelente App. Veja um exemplo: Observe que a soma da onda em vermelho com a onda em verde, em cada posição é sempre par- cialmente construtiva ou destrutiva, nesse caso. Disponível em: https://phet. colorado.edu/sims/html/fourier- -making-waves/latest/fourier- making-waves_en.html Acesso em: 11 fev. 2022. Site https://phet.colorado.edu/sims/html/fourier-making-waves/latest/fourier-making-waves_en.html https://phet.colorado.edu/sims/html/fourier-making-waves/latest/fourier-making-waves_en.html https://phet.colorado.edu/sims/html/fourier-making-waves/latest/fourier-making-waves_en.html https://phet.colorado.edu/sims/html/fourier-making-waves/latest/fourier-making-waves_en.html 84 Fundamentos de Física As ondas são entes físicos que representam fenômenos que en- volvem propagação de energia. Por esse motivo, quando elas se en- contram em uma mesma posição, ao invés de acontecer uma colisão clássica, como em corpos dotados de massa, o que ocorre é interferên- cia. Nesta seção, aprendemos a identificá-la e a classificá-la. 3.4 Uma conversa sobre o som Vídeo O som é uma onda do tipo mecânica e longitudinal, ou seja, é uma onda que necessita de um meio material para se propagar e tem seu sentido de vibração igual ao sentido de propagação. A primeira afirma- ção – a de que o som precisa de um meio material para se propagar – é bem famosa. Parte da fantasia dos filmes Star Wars, por exemplo, é ser capaz de escutar os lasers disparados pelas naves no espaço, onde não há um meio material no qual o som possa se propagar. Já a segunda afirmação – a de que o som é uma onda longitudinal – vamos precisar de mais conversa para entender bem. O som se pro- paga à medida que comprime e descomprime (rarefeita) o meio em que está se propagando. Pensemos na propagação do som no ar, por exemplo. O som produzido em uma fonte é capaz de comprimir as mo- léculas de ar que estão na sua frente e, ao fazer isso, criar uma região rarefeita (de baixa pressão), o que força essas moléculas a retornarem à sua posição original, comprimindo uma nova região e retornando ao ciclo de vibrações, conforme vemos na Figura 29. Figura 29 Representação da propagação de onda longitudinal, no caso uma onda sonora Ie sd e Br as il S/ A Amplitude Moléculas do ar Rarefação Compressão Comprimento de onda Comprimento de onda Ondas 85 Talvez a maneira mais fácil de entendermos esse processo é vendo essa propagação acontecer de verdade. Os tubos de Kundt são apara- tos especialmente projetados para que seja possível ver essa propaga- ção. Trata-se de um tubo transparente que contém pequenas bolas de isopor. Quando o som se propaga dentro desse tubo é possível ver es- sas bolinhas vibrarem longitudinalmente! 1 Caso queira ver em de- talhes esse experimento, acesse o link a seguir. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=qUiB_ zd9M0k&t=46s. Acesso em: 11 maio 2022. 1 Vejamoso quão fascinante é essa experiência: Quando escutamos um som, somos capazes de perceber algumas características dele: 1. Intensidade: o volume do som. A diferença entre um grito e um sussurro, por exemplo, é percebida pois um tem grande intensidade, e o outro pequena intensidade. 2. Altura: “agudeza” do som. A diferença entre uma voz típica feminina e uma voz típica masculina. Ainda que a frase falada seja a mesma, percebemos que uma voz é mais aguda, ou grave, do que a outra. 3. Timbre: “identidade” do som. Ao escutarmos uma pessoa falando, sabemos se a conhecemos ou não. Quando escutamos uma música, sabemos se está sendo tocada no violão ou no piano. Essa característica é o que nos permite diferenciar uma fonte de outra, damos a isso nome de timbre. Cada uma dessas características se refere a um atributo da onda recebido por nosso sistema auditivo. A altura do som, por exemplo, refere-se à frequência da onda sonora. Um ouvido humano típico pode ouvir sons acima de 20 Hz e abaixo de 20.000 Hz. À medida que vamos envelhecendo, essa faixa se estreita, principalmente para os sons mais agudos. A região de sons abaixo dos 20 Hz é denominada infrassom, e a região acima dos 20.000Hz ultrassom. A intensidade do som se refere à amplitude da onda sonora. Se a am- plitude é grande, percebemos um som muito intenso; já se a amplitude é pequena, percebemos um som pouco intenso. A intensidade sonora é medida como a razão entre a potência do som (energia por segundo) e a área na qual a frente de onda do som se propaga. Podemos representar matematicamente essa ideia por meio da seguinte fórmula: I P A = https://www.youtube.com/watch?v=qUiB_zd9M0k&t=46s https://www.youtube.com/watch?v=qUiB_zd9M0k&t=46s https://www.youtube.com/watch?v=qUiB_zd9M0k&t=46s 86 Fundamentos de Física Onde I é a intensidade sonora, P a potência e A a área da superfície das frentes de onda. No caso em que o som é produzido por uma fonte pontual e se pro- paga em três dimensões, temos que a superfície A é a de uma esfera. Calculamos essa área usando a relação: ASuperfície da Esfera = 4.π. r2. Logo, podemos reescrever a última equação da seguinte forma: I P r � 4 2. .� , onde r é a distância até a fonte sonora. Imaginemos uma fonte sonora que produz frentes de onda tridi- mensionais como mostra a imagem a seguir. Figura 30 Representação de uma onda tridimensional Ie sd e Br as il S/ A Fonte sonora Podemos fazer um recorte de uma seção dessas frentes de onda para perceber que, quanto mais longe da fonte, mais espalhada está a energia da onda. Vejamos a Figura 31. Ondas 87 Figura 31 Representação de uma seção de uma onda tridimensional Ie sd e Br as il S/ A r 2r 3r Nesse caso, a razão potência/área diminui conforme nos afastamos da fonte. É exatamente isso que percebemos ao se afastar de uma fon- te sonora, certo? Vamos progressivamente verificando a intensidade sonora diminuir. Ainda sobre a percepção da intensidade sonora, a lei de Weber-Fechner é um importante resultado da psicofísica. Trata-se da descoberta de como nós percebemos o som. Ernst Heinrich Weber e Gustav Theodor Fechner fizeram, no século XIX, importantes experi- mentos que demonstraram que nossa percepção não aumenta linear- mente com o estímulo físico. Isto é, em algum momento, ao dobrarmos a amplitude da onda sonora, por exemplo, não perceberemos o som com o dobro de volume. Isso ocorre porque nossa percepção cresce em uma proporção logarítmica, e não linear. O mesmo ocorre com ou- tras percepções, como a intensidade luminosa e as sensações táteis, relacionadas à pressão etc. Interessante, não? https://pt.wikipedia.org/wiki/Ernst_Heinrich_Weber https://pt.wikipedia.org/wiki/Gustav_Fechner 88 Fundamentos de Física Gráfico 1 Gráfico de intensidade da sensação sonora X intensidade do estímulo físico ψ – In te ns id ad e da s en sa çã o S – Intensidade do estímulo físico Fonte: Elaborada pelo autor. Por fim, algumas palavras sobre o timbre. Essa é uma caracterís- tica fascinante do som, sendo o que distingue uma fonte sonora de outra, ainda que essas fontes emitam sons de mesma frequência e intensidade. Para entender como isso é possível, precisamos compreender que o som que escutamos de uma fonte sonora na realidade é com- posto da soma de muitas (até infinitas) ondas. Cada fonte é capaz de produzir um conjunto específico de ondas de diferentes frequências e intensidades, chamadas de harmônicas, e a soma destas resulta em uma única onda, que é percebida dessa maneira. De fato, evo- luímos de maneira tal que somos muito bons em perceber essas pequenas diferenças entre as vozes humanas, mas não somos tão bons em perceber a diferença de timbre entre cães da mesma raça e idade, por exemplo. Mas ela existe, sendo possível aferi-la. Pensemos no som de dois instrumentos musicais diferentes, um piano e um violino, por exemplo, e que eles emitem sons de mes- ma altura e intensidade. Se fizermos a espectroscopia (o exame das diferentes ondas, que somadas resultam no som percebido) desses sons, veremos algo parecido com o que está representado na Figura 32. Ondas 89 Figura 32 Representação de ondas produzidas por diferentes instrumentos Ie sd e Br as il S/ A Instrumento 1 Instrumento 2 x 0,39-0,39 0 4 3 2 1 0 -1 -2 -3 -4 So m a x 0,39-0,39 0 1 -1 0,5 -0,5 H ar m ôn ic os 0 x 0,39-0,39 0 4 3 2 1 0 -1 -2 -3 -4 So m a x 0,39-0,39 0 1 -1 0,5 -0,5 H ar m ôn ic os 0 Ao compararmos a onda produzida pelo instrumento 1 e 2, a dife- rença é nítida. Figura 33 Representação da soma de ondas produzidas por diferentes instrumentos Ie sd e Br as il S/ A Instrumento 1 Instrumento 2 x 0,39-0,39 0 4 3 2 1 0 -1 -2 -3 -4 So m a x 0,39-0,39 0 4 3 2 1 0 -1 -2 -3 -4 So m a Essas diferenças entre frequências e amplitudes são o que chama- mos de timbre. 90 Fundamentos de Física 3.5 Uma conversa sobre a luz Vídeo A luz é algo do qual muitos cientistas se ocuparam (e ainda se ocu- pam) em estudar. Ela é um exemplo clássico de onda, isto é, trans- porte de energia, então, certamente, ela não possui massa. O que resultados do final do século XIX mostraram, entretanto, é que ela pode ser observada como um corpo (e não uma onda) em determina- dos experimentos. Nesta última seção do capítulo, vamos estudar a luz como uma onda e indicar algumas questões importantes que mais recentemente estão cercando a sua natureza, mas sem nos aprofun- darmos nessas questões. A luz classicamente é uma onda eletromagnética, portanto se pro- paga de maneira transversal, ou seja, para isso, não precisa de um meio material e suas vibrações acontecem perpendicularmente ao sentido de propagação. A primeira afirmação é bastante estranha se pensarmos bem. Como é possível uma onda sem meio material? Como é possível uma onda se propagar em uma corda, sem que haja corda? Ou som, sem que haja ar? Bem, de fato, até o século XX, imaginou-se um meio no qual as ondas eletromagnéticas se propagam: o éter. Sim! O Éter ima- ginado por Aristóteles, mas não exatamente o mesmo proposto por ele. A ideia é que existiria um meio material chamado éter luminífero, que permeia todo o universo e permitiria a existência das ondas eletromagnéticas. Porém, experimentos, como o de Michelson-Mor- ley, mostraram a impossibilidade de detectar o éter, sendo isso um grande problema para a ciência, pois, se não podemos medir, não podemos dizer nada a respeito. Desse modo, por mais estranho que pareça, a ideia de uma onda se propagar sem um meio material, no caso específico das ondas eletromagnéticas, fazia as equações do ele- tromagnetismo serem muito mais simples. Portanto, isso convenceu a comunidade científica a aceitar essa ideia um tanto bizarra de uma onda que se propaga sem a necessidade de um meio material. Aceite- mos essa explicação por ora e voltemos a investigar a luz. A luz que enxergamos, assim como o som que escutamos, possui certas características quenos ajudam a distinguir suas diferentes fon- tes, tais como: Ondas 91 1. Intensidade: medida que se refere à quantidade de energia de uma fonte luminosa. 2. Cor: sensação percebida a partir da luz (re)emitida de diferentes fontes. A intensidade luminosa é muito parecida com a intensidade sonora, tratando-se da razão entre potência e área; porém, há diferentes manei- ras de medi-la. O padrão do S.I. é a candela, que faz alusão ao método original de medir intensidade luminosa (comparar a intensidade da fonte à intensidade de uma vela padrão). Seja como for, a intensidade luminosa está relacionada com a amplitude da onda, assim como no caso do som. Já a cor é uma característica que precisa ser discutida com um pou- co mais de cuidado. Primeiramente, a cor é uma sensação. Isto é, não podemos medir a cor de um objeto (de uma luz), pois cor não é grande- za física. Há, entretanto, uma relação possível entre frequência e sen- sação. A luz visível com menor frequência é, em geral, percebida como mais avermelhada, já a luz visível de maior frequência como mais para o azul ou violeta, como mostra a Figura 34. Figura 34 Representação do espectro eletromagnético visível Em re T er im /S hu tte rs to ck Espectro visível da luz 400 nm 500 nm 600 nm 700 nm As cores do arco-íris são percebidas nessa ordem, pois a luz, ao re- fratar, desvia-se em diferentes ângulos, a depender da frequência da luz incidente. Por esse motivo, vemos as luzes separadas. De fato, utilizamos comumente na Física profissional uma denomi- nação um tanto rígida para cada faixa de frequência, dizendo que de- terminada frequência é luz vermelha ou verde, por exemplo. Se você já usou um laser, deve ter percebido que há uma tarja com especificações em algum lugar da caneta, como na figura a seguir. 92 Fundamentos de Física Ye llo w Ca t/ Sh ut te rs to ck Figura 35 Caneta laser Tais especificações, entre outras características importantes, como a potência do laser, indicam o comprimento de onda (ou a frequência) do laser. Nesses equipamentos é comum a indicação de que se trata de um laser vermelho com comprimento de onda X ou de um laser verde com comprimento de onda Y. Esses são apenas rótulos utilizados para denotar determinados intervalos de comprimento de onda, e não de fato medidas da cor da luz. O quadro a seguir mostra alguns valores e seus respectivos rótulos. Quadro 1 Relação entre “cores” e comprimentos de onda Cor Comprimento de Onda Vermelho 625 nm ~ 750 nm Laranja 590 nm ~ 625 nm Amarelo 565 nm ~ 590 nm Verde 500 nm ~ 565 nm Azul 440 nm ~ 495 nm Violeta 380 nm ~ 440 nm Fonte: Elaborado pelo autor. No entanto, há muito mais “cores” do que nós somos capazes de ver. Isto é, a luz pode ter frequências diferentes daquelas que somos capazes de enxergar. A luz com frequência imediatamente menor do que a luz vermelha (na região de 4.1014 Hz), chamamos de luz infraver- melha. A luz de frequência imediatamente maior do que a luz violeta (na região de 7.1014 Hz), chamamos de luz ultravioleta. Ondas 93 Sugerimos a leitura do artigo Aspectos sobre a visão humana em uma abor- dagem interdisciplinar no ensino médio. Nele, o autor explora o potencial instrucional do mecanismo de fototransdução (o processo que nos permite enxergar as coisas do mundo). O trabalho mostra que é preciso ir muito além da Física para compreender como enxergamos as cores dos objetos. Acesso em: 13 jan. 2022. https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/76672/47325 Artigo Mas não para por aí. Há muitas outras frequências acima da luz ul- travioleta e abaixo da luz infravermelha. A figura a seguir ilustra essa ideia. Figura 37 Representação do espectro eletromagnético Espectro visível da luz Em re Te rim /S hu tte rs to ck 400 nm 500 nm 600 nm 700 nm Luz visível Raios gama Raios-X Ultra- violeta Infravermelho Ondas de rádio Radar TV FM AM 0.0001 nm 0.01 nm 10 nm 1000 nm 0,01 cm 1 cm 1 m 100 m Fonte: Elaborada pelo autor. O conjunto de todas as “cores” da luz, isto é, o conjunto das ondas de diferentes frequências possíveis detectadas para a luz, é chamado de espectro eletromagnético. https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/76672/47325 94 Fundamentos de Física CONSIDERAÇÕES FINAIS Vimos neste capítulo a teoria da Física Ondulatória, importante teoria que versa sobre fenômenos que envolvem entes que não são dotados de massa. Isto é, fenômenos que envolvem apenas transporte de ener- gia. Cada “pedaço” desse transporte de energia é chamado de pulso, e o conjunto desses pulsos é chamado de onda. Vimos também que as ondas refletem, refratam e são absorvidas quando encontram um obstáculo. Terminamos nossa conversa detalhando o som e a luz e como é possível relacionar características das ondas ao que percebemos. ATIVIDADES Atividade 1 A seguir é apresentada uma onda transversal e dois de seus elementos representados por X e Y. Qual é o nome de cada um desses elementos e o que eles significam? X Y Atividade 2 Um radar é um dispositivo que funciona de maneira semelhante a um sonar. A diferença é que em um radar utiliza ondas eletro- magnéticas. Explique, portanto, o funcionamento de um radar evidenciando qual é o fenômeno ondulatório envolvido. Atividade 3 A frequência de onda eletromagnética pode ser relacionada á sensação de cor. Assim como a frequência de onda mecânica pode ser relacionada com a altura do som, caso essa onda mecânica seja sonora. O que podemos dizer em relação à amplitude? Tanto no caso das ondas eletromagnéticas, como a luz, quanto no caso do som. Ondas 95 REFERÊNCIAS PHET COLORADO. Fourier: Making Waves. Simulador On-line. Disponível em:https://phet. colorado.edu/sims/html/fourier-making-waves/latest/fourier-making-waves_en.html. Acessado em: 20/12/2021. BEZZEGHOUD, M. Lições de Física - Volume 2. Universidade de Évora, 2012. RAMALHO JÚNIOR. F.; FERRARO, N. G.; SOARES, P. A. T. Os fundamentos da física 2. 11. ed. São Paulo: Moderna, 2015. 96 Fundamentos de Física 4 Calor e temperatura Neste capítulo, conversaremos sobre alguns fenômenos que envol- vem temperatura e calor. Nosso objetivo, em primeiro lugar, é distinguir ambos para, em seguida, compreendermos como esses conceitos nos auxiliam a entender alguns fenômenos naturais interessantes. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender temperatura e calor com base em parâmetros macro e microscópicos; • produzir escalas termométricas e suas respectivas conversões para escalas Celsius e Kelvin; • explicar a produção de vapor d’água em condições de baixas temperaturas; • calcular quantidade de calor em diversas situações; • compreender os processos físicos envolvidos nas transições de fase; entender que a determinação de um estado termodinâmico envol- ve também a pressão. Objetivos de aprendizagem 4.1 Temperatura e calor medidos macroscopicamente Você provavelmente já escutou ou usou uma destas frases (ou similares): “Hoje está um dia quente!” “Abaixa a temperatura do ar-condicionado, por favor!” “Acima de 38 ºC já é febre…” “Sua mão está fria/quente.” Nós utilizamos no nosso dia a dia os termos temperatura e calor indiscriminadamente, quase como sinônimos. No entanto, são con- ceitos diferentes, apesar de próximos. Nesta seção, vamos, por meio Vídeo Calor e temperatura 97 Vl ad ys la V Tr av el p ho to /S hu tte rs to ck de alguns exemplos, fazer uma primeira apro- ximação ao tema, definindo-o de maneira um pouco menos rigorosa do que faremos ao fi- nal deste capítulo. Recentemente, passamos a conviver quase diariamente com termômetros. Uma das medidas de segurança sanitária adotadas em muitos lugares no Brasil, por conta da Pandemia de Covid-19, foi a aferição da temperatura das pessoas, para que pudés- semos frequentar estabelecimentos comerciais, teatros etc. Mas o termômetro digital mede, exatamente, o quê? O que significa uma temperatura corporal de 36,2 ºC, por exemplo? Paraentendermos isso de modo satisfeito, vamos pensar em um termômetro mais simples e mais antigo: o termô- metro analógico de dilatação. Você já viu e/ou usou um desses? Os que utilizavam mercúrio saíram de circulação após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibir a fabricação, a importação e a comercialização dos termômetros (e medidores de pressão) que utilizam coluna de mer- cúrio para diagnóstico em saúde. Essa proibição deveu-se ao risco à saúde do contato e/ou da ingestão do mercúrio – um metal pesado que não é metabolizado por nosso corpo. Apesar disso, ainda en- contramos termômetros analógicos que utilizam outras substâncias no lugar do mercúrio, em geral, uma mistura alcoólica. De toda ma- neira, por muitos anos esses termômetros foram a única opção do- méstica para medir a temperatura das pessoas. Seu funcionamento é bastante simples: colocamos o termômetro (a parte metálica de uma das pontas) em contato com o corpo da pessoa, normalmente debaixo do braço, aguardamos um tempo e, com auxílio de uma escala impressa no corpo do termômetro, aferimos a temperatura do termômetro. Vamos pensar sobre isso com mais cuidado? Primeiramente, queremos chamar atenção para o fato de que sen- timos o termômetro frio no primeiro contato com o nosso corpo. Essa sensação vai, aos poucos, diminuindo, até o momento em que não a sentimos mais. Do ponto de vista da física, dizemos que o que acon- Figura 1 Termômetro digital https://www.shutterstock.com/pt/g/witty 98 Fundamentos de Física St en ko V la d/ Sh ut te rs to ck St en ko V la d/ Sh ut te rs to ck tece é a transmissão de energia de um corpo para outro. Chamamos essa energia em transferência de um corpo para outro de calor. Isto é, calor é energia em trânsito de um sistema físico para outro. Pense, por exemplo, o que acontece quando colocamos gelo dentro de um copo com água natural. Nesse caso, o gelo derrete, e a água fica mais gelada, certo? Di- zemos, então, que o calor fluiu da água, que perdeu energia para o gelo, o qual ganhou energia. Quando sentimos o “calor” de uma fogueira, por exemplo (ou melhor: quando sentimos a sensação de quente ao nos aproximarmos de uma fogueira), nosso corpo está recebendo energia. Quando sentimos frio ao tocarmos em uma pe- dra de gelo, estamos perdendo energia. Energia esta que chamamos energia térmica. Em síntese, sobre o calor, sabemos que: • Cada corpo tem uma certa quantidade de energia térmi- ca que podemos perder ou ganhar. • Quando nosso corpo per- de energia térmica, expe- rimentamos a sensação de frio. • Quando nosso corpo ganha energia térmica, experimen- tamos a sensação de quente. • Chamamos de calor apenas a energia em transição de um corpo para outro. Isso significa que um corpo não possui calor. Um corpo, ou seja, um sistema físico, possui energia térmica. Bem, agora que a gente tem uma ideia do que é calor, que tal con- versarmos sobre temperatura? Quando um corpo perde ou ganha energia térmica, algumas conse- quências podem ser observadas. Uma pedra de gelo, por exemplo, ao ganhar energia térmica suficiente, derrete; uma porção de água, ao ser colocada no congelador e ceder energia térmica, endurece e congela. Calor e temperatura 99 Consegue imaginar outras consequências de ganhar ou ceder energia térmica? Tente fazer uma lista das que você imagina. Como já fizemos anteriormente, compartilharemos a nossa: Fo rg em /S hu tte rs to ck • Uma barra metálica, ao ser esquentada, aumenta de tamanho. • Ao esquentar o leite, é possível diluirmos mais o açúcar na solução. • Ao esfriarmos ou esquentarmos o suficiente uma substân- cia líquida, é possível fazê-la mudar de estado. • Esquentar um resistor elétrico típico aumenta a sua resis- tência elétrica. O primeiro fenômeno que listamos é bastante interessante, é co- nhecido como dilatação e é caracterizado pelo fato de, ao ceder ou ga- nhar energia térmica, um corpo diminui ou aumenta de tamanho. Já percebeu, por exemplo, que, em geral, uma calçada apresenta espaços entre placas cimentícias? Esse espaçamento é importante para preve- nir que, ao dilatarem por receberem energia térmica, quebrem-se. na di a_ if/ Sh ut te rs to ck O mesmo acontece em trilhos de trem e metrô. Cada segmento de trilho é separado do próximo segmento por um pequeno espaço, para evitar que os trilhos, ao dilatarem, acabem se forçando mutuamente e se entortem. 100 Fundamentos de Física A dilatação é, portanto, uma consequência de per- der ou ganhar energia térmica. Se um corpo ganha uma quantidade de energia térmica, então a tendên- cia é que ele dilate (existem algumas exceções im- portantes, por exemplo, a borracha). Se a quantidade de energia é maior, então a dilatação também será. Dessa forma, é possível inferir a quantidade de ener- gia térmica que se ganhou ou se perdeu apenas obser- vando o quanto o corpo dilata ou contrai. Exatamente isso que é o termômetro analógico. A coluna da substância no interior do tubo de vidro, ao receber energia térmica, dilata, e com o auxílio de uma escala podemos medir o tamanho dessa dilatação. Chamamos essa medida de temperatura. Em outras palavras, a temperatura é a medida da conse- quência de ganhar ou perder energia térmica. W ik im ed ia C om m on s Em 1986, o ônibus espacial Challenger explodiu em pleno ar, matando os sete tripulantes e marcando toda uma geração de espectadores es- tadunidenses. O acidente do Challenger foi investigado, e as causas re- veladas com o tempo. Uma das mais importantes foi o uso de borracha para vedação. Diferentemente da maior parte dos materiais, a borracha, quando aquecida, contrai-se em vez de se expandir. Isso produziu, ao longo do uso das turbinas da espaçonave, estresse na estrutura da nave, o que culminou no fatídico acidente. Você pode conhecer a histó- ria completa na excelente série Challenger: the final flight (Challenger: o último voo), disponibilizada pela Netflix. Assim como o tamanho, outras características podem se alterar quando há troca de calor. A solubilidade, por exemplo, é afetada nesses casos. Isto é, a quantidade de uma substância que pode ser Um exemplo dessa dilatação ocorreu com os passageiros de um trem em Melbourne, na Austrália, que levaram um susto depois que o trem passou por um segmento dos trilhos que havia se entortado devido às temperaturas sem pre- cedentes daquele verão. O momento foi gravado e você pode ver no vídeo a seguir. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=_LoXgN1QWZM. Acesso em: 4 maio 2022. Curiosidade Fa lk 2/ W ik im ed ia C om m on s Fa lk 2/ W ik im ed ia C om m on s Calor e temperatura 101 misturada em um solvente aumenta quanto maior for a energia tér- mica do sistema (até um limite, evidentemente). Você sabe como é feito, tradicionalmente, o doce de leite? O cozinheiro ou a cozinheira mistura açúcar ao leite frio até que se forme corpo de fundo, ou seja, acumule-se açú- car não diluído no fundo da mistura. Em seguida, passa a esquentar a mistura e o que se observa é que o corpo de fundo começa a ser diluído. Acres- centa-se mais açúcar e se repete o procedimento até que seja produzida uma mistura bem quente e açucarada. Depois, desliga-se o fogo e deixa a mistura esfriar (isto é, perder energia térmica para o meio). Como produto temos uma solução super- saturada de leite e açúcar, conhecida como doce de leite. Legal, não é? Veja que, nesse caso, é possível também inferirmos a quantidade de energia térmica recebida medindo a solubilidade da solução. Vir- tualmente, então, poderíamos construir um termômetro com base na solubilidade, semelhante aos termômetros de dilatação. Acontece que medir a solubilidade é muito mais complicado do que medir a dilação, então, na prática, não existem termômetros baseados na solubilidade. Mas há outros alternativos à dilatação que utilizam, por exemplo, o au- mento/diminuição da resistência elétrica de um resistor elétricopara produzirem um termômetro que funciona a partir da medida dessa grandeza física. Conhece? São os termômetros eletrônicos. Figura 3 Termômetro eletrônico De ni s Pr ok of ev /S hu tte rs to ck Na maior parte dos casos, ao usarmos um termômetro, precisamos esperar um tempo, por quê? W S- St ud io /S hu tte rs to ck 102 Fundamentos de Física Podemos introduzir agora um conceito central em termolo- gia e termodinâmica: equilíbrio térmico. A ideia é a seguinte: ao ceder ou ganhar energia térmica, a temperatura do corpo se altera. Além disso, o calor fluirá sempre do corpo de maior temperatura para o de menor temperatura. É por isso que o café quentinho que a gente esquece na mesa esfria, e o gelo deixado na pia da cozinha derrete. No primeiro caso, o café está a uma temperatura superior à temperatura do ar (meio), isso implica que o calor fluirá do café para ele, esfriando o café e aque- cendo o meio. No caso do gelo, o contrário: a temperatura do gelo é menor que a do meio, fazendo com que o calor flua dele para o gelo, esquentando o gelo e esfriando ar. E até quando o calor permanecerá fluindo de um corpo para o outro? Até quando a temperatura dos dois corpos for a mesma. Cha- mamos esse estado de equilíbrio térmico, isto é, o estado no qual dois corpos apresentam a mesma temperatura e, portanto, não observa- mos a presença de calor. No caso do termômetro de dilatação, por exemplo, devemos esperar um tempo até aferir a temperatura, pois é preciso que o termômetro entre em equilíbrio térmico com o corpo de maneira que a temperatu- ra do termômetro seja a mesma do corpo que está em contato. 4.1.1 Escalas termométricas Agora que sabemos a diferença entre calor e temperatura, esta- mos prontos para compreender as escalas termométricas. Trata-se das escalas usuais para medir a temperatura. Aqui no Brasil utiliza- mos a escala Celsius (ºC), nos Estados Unidos, a escala Fahrenheit (ºF) é a mais comum. Vamos compreender como elas são construídas? Voltamos ao termômetro analógico de dilatação como exemplo, mas o procedimento é muito semelhante para qualquer termômetro. O procedimento clássico para construção da escala Celsius é bem simples. De posse de um termômetro analógico de dilatação, Br ai nC ity Ar ts /S hu tte rs to ck FrioQuente Calor e temperatura 103 fazemos com que ele entre em contato térmico com uma amostra de água em fusão, ou seja, congelando. Marcamos o tamanho da coluna do líquido interno. Para padronizar a medida, é importante que isso seja feito à pressão do nível do mar, pois sabemos que a pressão afeta a mudança de estado físico das substâncias. Figura 5 Água congelando à pressão do nível do mar St on e3 6/ Sh ut te rs to ck Em seguida, colocamos o termômetro em água fervente e espera- mos o equilíbrio térmico. Marcamos, então, o tamanho da coluna do termômetro. O mesmo cuidado com a pressão deve ser tomado aqui pelos mesmos motivos. Figura 6 Água fervendo à pressão do nível do mar Ne w Af ric a/ Sh ut te rs to ck Figura 4 Coluna de um termômetro de dilatação quando em equilíbrio térmico com água fundente Pa nd un /S hu tte rs to ck 104 Fundamentos de Física De posse das duas marcações referentes à água fundente e à água fervente, basta subdividirmos o espaço entre esses pontos. Na escala Celsius, convencionou-se dividir em 100, por isso tam- bém é conhecida como escala centígrada. Dizemos, portanto, que a marca referente à água fundente é o 0 ºC da escala, e a marca da água fervente 100 ºC. É claro que podemos ter outras referências e fazer outras subdivi- sões. A escala Fahrenheit é um exemplo famoso. O procedimento origi- nal exato e as razões para as escolhas não são muito claras, especula-se que o zero da escala Fahrenheit foi o recorde de temperatura baixa de determinada localidade, dessa forma, seria uma escala que usualmen- te não marca temperaturas negativas. Outras pessoas especulam que o procedimento foi semelhante ao do Celsius, mas, em vez da água, usava-se uma mistura que congelava a temperaturas menores e fervia a temperaturas maiores. Seja como for, 32 ºF na escala Fahrenheit equiva- le a 0 ºC na escala Celsius, e 212 ºF equivale a 100 ºC. Um procedimento possível para realizarmos a conversão entre essas escalas é o seguinte: escrevemos as duas escalas para um mes- mo tamanho de coluna do termômetro, representando também os pontos referentes conhecidos, conforme ilustramos na figura a seguir: Figura 8 Comparação entre dois termômetros, um na escala Celsius e outro na escala Fahrenheit 100 °C tC 0 °C 200 °F tF 32 °F Pa nd un /S hu tte rs to ck Depois disso, basta realizarmos a proporção entre as escalas. Isto é, o espaço entre tc-0 é equivalente ao espaço entre tF-32, e o espaço entre 100-0 na escala Celsius é equivalente ao espaço entre 212-32 na escala Fahrenheit. Ou seja: t tc F� � � � � 0 100 0 32 212 32 Figura 7 Coluna de um termômetro de dilatação quando em equilíbrio térmico com água fervente Pa nd un /S hu tte rs to ck Calor e temperatura 105 Isolando uma das temperaturas, temos: t tc F 100 32 180 � � t t c F� �� � � � � �100 32 180 t t c F� �� � � � � �5 32 9 Exercício Qual temperatura na escala Celsius equivale a 50 ºF? Resolução Basta utilizarmos a relação que demonstramos há pouco, na qual: t t c F� �� � � � � �5 32 9 Substituindo pelos valores dados, temos: t c� �� � � � � �5 50 32 9 t c� � � � � � �5 18 9 tc = 5∙2 tc = 10 °C Na prática Porém, em ambas as escalas aparecem temperaturas negativas e isso é um problema para cálculos científicos que levam em conta a tempera- tura de um sistema. Problema semelhante ao da possibilidade de instan- tes de tempos negativos, por exemplo. Outro problema, talvez até mais inoportuno, é o fato de que com muita facilidade essas escalas registram temperaturas iguais a 0. No cálculo em que a temperatura aparece no denominador, uma temperatura igual a 0 é um problema, consegue ver? Por isso, os cientistas criaram uma escala em que não existem tem- peraturas negativas e o zero é, na prática, inatingível. Trata-se da famo- sa e importante escala Kelvin. A ideia é atribuir o 0 da escala à menor temperatura teoricamente possível. O procedimento será mais detalhado posteriormente neste capí- tulo. Por ora, basta sabermos converter uma temperatura na escala Celsius para uma temperatura na escala Kelvin. O processo é o mesmo, escrevemos as duas escalas para um mesmo tamanho de coluna do 106 Fundamentos de Física termômetro, representando também os pontos referentes conhecidos, como apresentamos na figura a seguir: Figura 9 Comparação entre dois termômetros, um na escala Celsius e outro na escala Kelvin 100°C tC 0 °C 373 K tK 273 K Pa nd un /S hu tte rs to ck Temos então que: t tc K� � � � � 0 100 0 273 373 273 Resolvendo para a temperatura em Kelvin, temos: t tc K 100 273 100 � � tK = tC + 273 Qual é o lugar mais frio do universo? Você sabe qual é o lugar mais frio do universo? Bem, sabemos que a tempera- tura média do Universo é de cerca de 2 K ( -271 ºC, aproximadamente), o que está relacionado ao fato de o Universo ser – em média – um lugar bastante vazio. Como vimos, pressão e temperatura são grandezas dependentes. Logo, perguntar-se sobre o lugar mais frio do Universo, também é perguntar-se sobre qual seria o lugar mais vazio conhecido. Tem ideia de qual seja? O lugar mais frio do Universo conhecido, até recentemente, fica a cerca de 100 m debaixo da terra, na fronteira entre a França e a Suíça! Está em um laboratório chamado European Organization for Nuclear Research, o CERN. Em aceleradores de partículas de última geração, é preciso manter as tem- peraturas muito baixas para que os componentes elétricos funcionem em regime de supercondutividade (em que as perdas de energia são mínimas). Por isso, em algumas máquinas, as temperaturas atingem abaixo de 2 K. Novas observações do observatório Alma,no Chile, registraram tempe- raturas em uma nebulosa de cerca de 1 K (aproximadamente -272 ºC). Seguimos procurando o zero absoluto. 4.2 Quantidade de calor Vídeo Voltemo-nos agora para o calor. A exemplo do que fizemos com a temperatura, nesta seção conversaremos sobre como calcular a quan- tidade de calor envolvida em algumas situações clássicas. Você já esteve em uma praia num dia bem quente? Você se lembra da sensação de pisar com os pés descalços na areia? E de pisar na água do mar? Normalmente, a areia está bem quente, e a água do mar, fresqui- nha. A sua percepção foi essa? Essa é uma situação interessante! Senti- mos a areia muito quente, pois sua temperatura é alta, e a água do mar fresca, pois sua temperatura é mais baixa que a do nosso corpo. Porém, percebamos que tanto a areia quanto a água do mar estão recebendo a mesma quantidade de energia térmica do sol. O que isso nos diz? Le dy X/ Sh ut te rs to ck E à noite? Você já esteve na praia à noite? Qual foi a sensação ao tocar a areia e, em seguida, o mar? Normalmente, a areia está bem gelada, e a água do mar, morna. Também já teve essa percepção? O que essas duas situações nos dizem? A variação de temperatura certamente, com base nessas experiências, depende do corpo, correto? Ou seja, ao receber a mesma quantidade de calor, a areia e o mar variam suas temperaturas de maneiras diferentes. Representamos essa observação com a ja kk ap an /S hu tte rs to ck ja kk ap an /S hu tte rs to ck Calor e temperaturaCalor e temperatura 107107 O motivo do 0 º Celsius equivaler a 273 K será explorado mais para o final deste capítulo. O que precisamos entender agora é a lógica da conversão de temperaturas entre termômetros. Ficou clara a ideia de como fazer isso? No Sistema Internacional de Medidas (SI), a unidade de medida para temperatura é o Kelvin [K]. 108 Fundamentos de Física grandeza física chamada capacidade térmica (C). A capacidade térmica de um corpo é a razão entre a quantidade de calor recebida e a varia- ção de temperatura sofrida. Matematicamente: C Q T � � Onde C é a capacidade térmica, Q é a quantidade de calor e ΔT a variação de temperatura sofrida. No SI, a unidade de medida para a capacidade térmica é [J/K]. Podemos compreendê-la, portanto, como a quantidade de ener- gia necessária para aumentar ou diminuir 1 K. No SI, sabemos que o Joule [J] é a unidade de medida para energia, também é muito usual utilizar a caloria [cal] para medidas de energia. 4.2.1 Quantidade de calor sensível No caso da areia e da água do mar, quem tem maior capacidade tér- mica? Isto é, quem é capaz de variar mais sua temperatura ao receber a mesma quantidade de energia térmica? A areia, certo? Notemos, entretanto, que estamos negligenciando um outro fator importante: há muito mais água no mar do que areia na praia. Isso deve ser levado em conta, pois sabemos que esquentar 1 litro de água requer muito menos energia do que esquentar 1000 litros de água, cor- reto? Podemos, então, afirmar que a capacidade térmica de um corpo depende não apenas do material de que é feito, mas também da quan- tidade de massa que ele tem. Matematicamente, podemos representar essa ideia da seguinte forma: C = m∙c Onde C é a capacidade térmica, m é a massa e c é o calor específico. Calor específico é a grandeza que usamos para representar a ca- pacidade que um material ou uma substância tem de variar sua temperatura com determinada quantidade de calor. Se substituirmos a segunda equação na primeira, temos que: m c Q T � � � c Q m T � �� Calor e temperatura 109 Logo, a unidade de medida para o calor específico é J/kg∙K no SI. É usual utilizarmos também o cal/g∙°C, pois, como se trata de uma variação de temperatura, tanto faz utilizar a escala Kelvin ou a escala Celsius, visto que ambas são escalas centígradas. E o que significa calor específico? Podemos compreendê-lo como a quantidade de calor necessária para fazer 1 g da substância aumentar 1 ºC. Por exemplo, o calor específico da areia é cerca de 0,2 cal/g∙°C, enquanto o da água é 1 cal/g∙ºC. Isto é, para fazer 1 g de areia variar 1 ºC é preciso apenas 0,2 cal, já para fazer o mesmo com 1 g de água, precisamos de 5 vezes mais calor (1 cal). Interessante, né? Finalmente, podemos calcular a quantidade de calor isolando Q na última equação. Isto é: Q = c.m.ΔT Chamamos essa quantidade de calor de quantidade de calor sensível, pois ela gera uma variação de temperatura. Exercício Calcule a quantidade de calor necessária para fazer a 0,5 kg de água, inicialmente a 20 ºC, atingir 80 ºC. Dados: calor específico da água = 1 cal/g.°C Resolução Primeiro, convertemos as unidades de medida para ficarem coerentes, isto é: m = 0,5 kg = 500 g c = 1 cal/g.ºC Tinicial= 20ºC Tfinal= 80ºC Em seguida, substituímos na expressão: Q = c.m.ΔT Q = 1500.(80 – 20) Q = 30000 cal Na prática Até aqui, pensamos no calor necessário para aumentar ou diminuir a temperatura de um corpo, mas notemos que em nenhum caso há troca de estado físico. Se olharmos com cuidado para essa situação, perceberemos que precisamos refinar nosso modelo. 110 Fundamentos de Física 4.2.2 Quantidade de calor latente Observamos algo muito curioso com relação ao calor nas mudan- ças de fases. Para representar isso, mostraremos uma representação de um resultado experimental para a água pura mantida à pressão ao nível do mar. Gráfico 1 Quantidade de calor X temperatura para a água pura à pressão ao nível do mar T (°C) 100 -20 0 A B C D E Q Fonte: Elaborado pelo autor. Observe que a 0 ºC e a 100 °C, temperatura de congelamento e de fervura da água respectivamente, há platôs. Isso significa que nessas temperaturas, por um tempo, ao ceder ou ganhar energia térmica, a temperatura da substância não varia. O que acontece apenas nas mudanças de fase, conforme podemos observar, representadas pelas letras B e D no gráfico. As regiões denotadas A, C e E permanecem se- guindo a lógica que abordamos há pouco. E para as mudanças de fase? Como calcular a quantidade de ca- lor necessária? Aqui cabe o conceito da física conhecido como calor latente. Trata-se da quantidade de calor necessária para fazer 1 uni- dade de massa mudar de fase. Ou seja: L Q m = Onde L é o calor latente, Q a quantidade de calor e m a massa. No SI, o calor latente é medido em J/kg, mas é usualmente representado por cal/g. Calor e temperatura 111 Se desejamos calcular a quantidade de calor necessária para fazer uma quantidade de determinado material mudar de fase basta, por- tanto, isolarmos Q na equação: L Q m = Q = L.m Onde Q é conhecido como quantidade de calor latente. Exercício Calcule a quantidade de calor necessária para fazer 200 g de gelo a 0 ºC derreter. Dados: calor latente do gelo = 80 cal/g Resolução Verificamos que as unidades de medidas estão coerentes entre si, então, nesse caso, basta substituir na equação de quantidade de calor latente: Q = 80.200 Q = 16000 cal Para diferenciar essas quantidades, costumamos utilizar um sub índice, da seguinte forma: QL = L.m para a quantidade de calor latente Qs = m.c.ΔT para quantidade de calor sensível Na prática Mas o que será que acontece, microscopicamente, com o calor rece- bido? Esse é o tema da nossa próxima seção. 4.3 Temperatura e calor medidos microscopicamente Vídeo A observação de que nas mudanças de fase ganhar/ceder energia térmica não altera a temperatura (para substâncias puras) é um tanto desconcertante. Por que isso acontece? Quais mecanismos justifica- riam essa observação? As respostas foram encontradas ao investigar- mos o fenômeno do ponto de vista microscópico. Primeiro gostaríamos de alertar que a interpretação microscópica do que é calor e temperatura é construída com base em observações 112 Fundamentos de Física indiretas. Ou seja, não vemos, de fato, os átomos e as moléculas di- retamente, mas somos capazes de inferi-los. Esse é um ponto muito importante, pois nos permite compreenderque há ainda muito espa- ço para novas interpretações e novos modelos. Dito isso, gostaríamos de apresentar o modelo microscópico do que é calor e temperatura e como ele pode ser útil para compreendermos alguns fenômenos. A mecânica estatística foi desenvolvida no fim do século XIX e início do século XX com o objetivo de modelar fenômenos que en- volvem muitos corpos. A história é fascinante, não conseguiremos abordar os detalhes, mas fundamentalmente era o que faltava para que a ciência admitisse seriamente uma interpretação atomística da natureza, isto é, a crença de que as coisas são feitas de átomos. Pode parecer estranho, mas até muito recentemente (início do sécu- lo XX) não existia um consenso científico em torno dessa abordagem atomística. O trabalho do físico austríaco Ludwig E. Boltzmann, que desenvolveu as bases para a mecânica estatística, foi fundamental para isso. Imagine um gás confinado em determinado volume. Considere que esse gás é feito de um número muito grande de moléculas. Imagine ainda, um caso ideal, no qual essas partículas não interagem entre si, a não ser mecanicamente, ou seja, não há atração ou repulsão elétrica e todas as colisões são perfeitamente elásticas (não há perda de ener- gia). Esse gás é conhecido como gás ideal e é o nosso modelo inicial. Figura 10 Representação de um gás ideal confinado Fonte: Elaborado pelo autor. Cada partícula apresenta uma velocidade aleatoriamente, em ou- tras palavras, cada partícula está se movimentando com módulo e orientação aleatória. A figura a seguir ilustra esse movimento: Calor e temperatura 113 Figura 11 Representação do movimento de partículas de um gás confinado Fonte: Elaborado pelo autor. O pressuposto aqui é o seguinte: macroscopicamente esse gás não está se movimentando, isso significa que a soma das velocidades das partículas que o compõem deve ser zero. Além disso, sabemos que o movimento de uma partícula com massa pode ser compreendido como energia cinética. Dizemos então que a temperatura, microscopicamente, é a medida da energia cinética mé- dia das partículas que compõem um sistema físico. Quanto maior for a velocidade média das partículas, maior será a temperatura aferida no sistema. A figura a seguir apresenta essa ideia: Figura 12 Representação do movimento de partículas de um gás confinado em diferentes temperaturas Menor temperatura Maior temperatura Fonte: Elaborada pelo autor. E o que seria o calor? Sabemos que calor é energia em transição de um corpo para outro, não é? Calor, portanto, é a energia que um sistema físico cede ou ganha ao ter contato térmico com outro siste- 114 Fundamentos de Física ma. Para ficar mais clara essa relação de energia dentro do sistema e fora do sistema, criamos uma nova grandeza física denominada ener- gia interna, trata-se da soma das energias das partículas dentro de um sistema físico. Dessa forma, ao trocar calor, um sistema físico tem sua energia interna aumentada ou diminuída. Fez sentido? Notemos ainda que as partículas podem rotacionar. Temos, então, dois possíveis movimentos para cada partícula: translação e rotação. O movimento de translação é medido na temperatura, mas e o movimen- to de rotação? Veja que a energia interna é a soma das energias das partículas que compõem o sistema físico, isto é: energia cinética de rotação + energia cinética de translação + energias potenciais. A energia que aumenta ou diminui a rotação das partículas, portan- to, não afeta a medida da temperatura do sistema. Isso soa familiar? Sim, é o que observamos nas transições de fase: o calor latente. Outro fenômeno que essa interpretação nos permite entender é a formação de vapor d’água (ou vapor de qualquer outro líquido). Obser- vamos, com certa facilidade, que há água no ar. Um experimento que podemos fazer em casa é o seguinte: encher uma garrafa metálica com água gelada e tampá-la. Muito rapidamente veremos surgir água líqui- da do lado de fora da garrafa como se ela estivesse suando, já viu isso? Aquela água estava no ar. Como é possível ter água gasosa no ar a temperaturas muito mais baixas que o ponto de ebulição? Figura 13 Representação de partículas de um líquido com velocidade suficientemente grande para escaparem do volume do líquido As moléculas de alta energia escapam da superfície. Fonte: Elaborada pelo autor. Mais uma vez a interpretação microscópica nos dá uma resposta. Lembremo-nos de que as partículas que compõem o sistema estão em 4.4 Noções de termodinâmica Vídeo Nas seções anteriores, sempre que pertinente, acentuamos a ne- cessidade de se manter uma “pressão a nível do mar”. Isso porque a pressão é um importante fator, por exemplo, para determinar o estado físico de um sistema. Um exemplo canônico é o ponto de ebulição da água, isto é, a temperatura a partir de que observamos a água ebulir. Essa temperatura, quando no nível do mar, é de 100 ºC, afinal, é assim que a definimos na escala Celsius, lembra? Então, se tentarmos ferver água em uma localidade que esteja a 1.000 metros de altura em rela- ção ao nível do mar (em Brasília, por exemplo), observamos uma coisa interessante: nesse local a água ebule, aproximadamente, aos 98 ºC. E se formos para mais alto ainda, como o Monte Everest, que fica a cerca de 8.800 metros acima do nível do mar, o ponto de ebulição da água é de aproximadamente 72 ºC. Vejamos, a única diferença aqui é a pressão sobre a amostra d’água. Por que isso acontece? Conversare- mos sobre isso nesta seção. Pressão, temperatura e volume são conhecidos como variáveis ter- modinâmicas. Isto é, são grandezas físicas que caracterizam o estado de determinado sistema físico. Notemos, por exemplo, que para determinar- mos o estado físico de uma substância, só conhecer a temperatura não Monte Everest, cerca de 8.800 metros acima do nível do mar. Vi xi t/ Sh ut te rs to ck Vi xi t/ Sh ut te rs to ck Calor e temperaturaCalor e temperatura 115115 velocidades diversas. Algumas, inclusive, a velocidades comparáveis às velocidades médias de gases. Essas partículas eventualmente são capa- zes de escapar do líquido e se misturar no ar formando o vapor d’água. Legal, não é? 116 Fundamentos de Física é suficiente. Água a 99ºC está em que estado físico? Depende, certo? No nível do mar é líquida, em Brasília ou no Monte Everest é gasosa. Uma maneira de explorar essa relação é estudando um curiosíssimo fenômeno conhecido como ponto triplo 1 Caso queira saber mais sobre esse fenômeno e vê-lo na prática, acesse o link a seguir. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=BLRqpJN9zeA. Acesso em: 6 maio 2022. 1 . Nesse experimento, utilizan- do por exemplo uma amostra de Terc-Butanol, – um álcool cujo ponto de ebulição ao nível do mar é 82 ºC – percebemos que não há nenhu- ma fonte de calor, isso significa que durante todo o processo, a amos- tra se mantém na mesma temperatura. E como é possível alterar o estado físico dessa substância? Apenas variando a pressão sobre a qual ela estava submetida. O mais interessante nesse experimento é que em determinada tem- peratura e determinada pressão é possível encontrar os três estados físicos da matéria convivendo simultaneamente. Isso é absoluta- mente incrível. O gráfico a seguir ilustra esse comportamento: Gráfico 2 Gráfico de ponto triplo de uma substância típica Curva de fusão/solidificação Curva de vaporização/ condensação Ponto crítico T Ponto triplo Curva de sublimação Líquido Vapor Sólido P Fonte: Elaborado pelo autor. Observemos que há a produção de três regiões, denotadas pelas palavras sólido, vapor e líquido. Tratam-se de valores de temperatura e pressão para os quais é possível encontrar a substância nesses de- terminados estados. Para a água, é possível encontrar um ponto triplo à temperatura de aproximadamente 0 ºC e a uma pressão de 4,5 mmHg, como ilustra o gráfico a seguir: http://youtube.com/watch?v=BLRqpJN9zeA http://youtube.com/watch?v=BLRqpJN9zeA Calor e temperatura117 Gráfico 3 Gráfico de ponto triplo para a água T 760 4,58 0 0 0,01 100 Líquido Vapor Sólido p (mmHg) T (ºC) Fonte: Elaborado pelo autor. Observemos outra coisa importante: o gráfico não toca os eixos das abcissas nem das ordenadas. Ou seja, a região próxima à origem dos eixos é difícil de obter experimentalmente. Ao extrapolarmos a curva para fazer encontrar a origem dos eixos, descobrimos que se refere a uma temperatura de -273,1 ºC e uma pressão de 0 mmHg. Esse é o me- nor valor teoricamente possível para temperaturas e pressões. É daqui que vem a escala Kelvin, inclusive. Podemos ver essa ideia no Gráfico 4: Gráfico 4 Ponto tripo da água na escala Kelvin 218 Sólido Líquido Vapor Gás Ponto crítico Ponto triplo 1,0 273,15 273,16 373 674 0,0006 P (atm) A B C O T (K) Fonte: Elaborado pelo autor. 118 Fundamentos de Física A ideia é refazer a escala das temperaturas fazendo com que na origem coincida um número 0 na escala. Dessa forma, a temperatura de ponto triplo da água é 273,1 nessa escala Kelvin. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, conversamos sobre certos fenômenos que envolvem temperatura e calor. Vimos que, para alguns deles, é preciso ir além e também pensar sobre o volume e a pressão. Conhecemos o modelo ma- croscópico para temperatura e calor e entendemos a necessidade de uma abordagem microscópica ao problema. Ao compreendermos essa questão como propagação e transformação de energia, fomos capazes de construir modelos potentes o suficiente para descrevermos fenômenos observados, entendermos observações desafiadoras e, com alguma sor- te, vislumbrarmos as questões que permanecem em aberto. ATIVIDADES Atividade 1 A temperatura típica do corpo humano é em torno de 36 ºC. A partir de 37,5 ºC já consideramos febre. Acima de 41 ºC, hipertermia e risco elevado de complicações. Um estudante, pensando em facilitar a identificação da febre, pretende construir um termômetro cuja escala vai de 0 a 10, em que 0 corresponde a 36 ºC, e 10 a 41 ºC. A partir de qual temperatura dessa escala consideramos febre? Atividade 2 A água, substância tão importante e preciosa para nós, é uma das mais misteriosas substâncias conhecidas. Um comportamento muito peculiar, conhecido como comportamento anômalo da água, pode ser verificado com uma experiência simples. Ao esquentar- mos uma amostra de 100 g de água, inicialmente a 0 ºC, observa- mos que, diferente de quase tudo, em vez de dilatar aumentando de tamanho ela se contrai. Isso é visto até os 4 ºC. Após essa temperatura, ela volta a se comportar como o esperado. Sabemos que o calor específico da água é de 1 cal/g.ºC. Quanto calor é necessário darmos a essa amostra de água para não observarmos mais esse comportamento anômalo? Calor e temperatura 119 Atividade 3 O diagrama PxV que mostramos na Seção 4.4 (reproduzido nova- mente a seguir) representa um interessante fenômeno conhecido como ponto triplo da água. T 760 4,58 0 0 0,01 100 Líquido Vapor Sólido p (mmHg) T(ºC) A partir de qual pressão é possível, apenas aumentando ou dimi- nuindo a temperatura, a água passar do estado sólido diretamente para o gasoso sem haver um estado líquido intermediário? REFERÊNCIAS FEYNMAN, R. P.; LEIGHTON, R. B.; SANDS, M. Lições de física de Feynman: edição definitiva. Porto Alegre: Bookman, 2008. HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de Física: gravitação, ondas e termodinâmica. v. 2 . Barueri: Grupo Gen-LTC, 2000. ZEMANSKY, M. W. Calor e termodinâmica. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1978. 120 Fundamentos de Física Ra ylu i3 21 /S hu tte rs to ck 5 Eletricidade e magnetismo Neste capítulo, investigaremos alguns casos que envolvem eletricida- de e magnetismo. Após, compreenderemos como esses fenômenos es- tão relacionados. O eletromagnetismo – como são chamados atualmente os fenômenos elétricos e magnéticos – é essencial para a produção das tecnologias mais modernas que moldam nosso estilo de vida na contem- poraneidade. Sem ele, as telecomunicações como são feitas atualmente simplesmente seriam impossíveis. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • definir carga elétrica e força elétrica; • calcular força elétrica para situações de cargas estáticas • construir circuitos elétricos simples; • entender as origens dos campos magnéticos em diversas situações; • compreender a necessidade de investigar os fenômenos elétricos com o eletromagnetismo. Objetivos de aprendizagem 5.1 Carga elétrica e processos de eletrização Vídeo Ao esfregar um balão de festas contra o cabelo de uma pessoa, é possível observar um fenômeno interessante acontecer: o balão passa a ser capaz de atrair os fios. O mesmo acontece com uma régua que, após ser atritada contra o cabelo, passa a ser capaz de atrair pequenos pedaços de papel – uma famosa experiên- cia. Mas por que isso acontece? Esses são exemplos de ele- tricidade estática, um fenô- meno que acontece quando há Eletricidade e magnetismo 121 acúmulo de cargas elétricas. Nesta seção, entenderemos o que signifi- ca isso, começando com o conceito mais fundamental: a carga elétrica. A busca por compreender fenômenos que envolvem a eletricidade é de longa data. Essa observação – de que quando atritamos certos objetos contra outros eles passam a ter uma propriedade temporária de atração ou repulsão – já havia sido documentada na Grécia Antiga. Modernamente, somos capazes de relacionar essas experiências a fe- nômenos aparentemente desconexos, como o magnetismo, o que só é possível devido ao que chamamos de carga elétrica. Trata-se de uma propriedade de um corpo, assim como massa e energia. Entretanto, é uma quantidade que pode ser positiva ou ne- gativa, o que indica a possibilidade de repulsão e atração entre cor- pos carregados eletricamente, não sendo vista no caso da massa, por exemplo. Um corpo, portanto, pode estar carregado eletricamente com cargas positivas ou negativas. O que descobrimos é que um cor- po neutro (aquele que não está carregado eletricamente) na verdade possui um mesmo número de cargas positivas e negativas, como ilus- tra a figura a seguir. Figura 1 Processo de eletrização por atrito M uh am m ad A hs an A sh fa q/ Sh ut te rs to ck Ra nc un g/ Sh ut te rs to ck fa d8 2/ Sh ut te rs to ck Um corpo é carregado eletricamente quando, de alguma maneira, o número de cargas elétricas positivas ou negativas supera as cargas de Representação de cargas elétricas de um corpo neutro, no caso, um casaco de lã e um balão de plástico. 122 Fundamentos de Física sinal oposto. Um corpo é carregado eletricamente por um dos seguin- tes processos de eletrização: • eletrização por contato; • eletrização por atrito; • eletrização por indução. A eletrização por contato acontece quando um corpo já carregado entra em contato com outro eletricamente neutro. Nesse caso, as car- gas em excesso são distribuídas de maneiras, mais ou menos, unifor- mes por toda a extensão dos corpos. Por exemplo, imagine um corpo A e um corpo B de mesmo tama- nho e material. O corpo A possui uma carga elétrica de +3 coulombs ( unidade de medida de carga elétrica, que logo entenderemos de onde vem) e o corpo B está neutro. Quando esses corpos entram em con- tato, a carga elétrica é distribuída igualmente por toda a extensão de ambos, fazendo com que, nesse caso, a carga final de cada um seja de 1,5 coulomb para cada. Figura 2 Cargas antes e depois do contato Antes QA Neutro Depois Q’B Q’A Fonte: Elaborada pelo autor. Em outro experimento, um corpo A é duas vezes maior que um cor- po B feito do mesmo material. O corpo A está inicialmente carregado com +9 coulombs e o corpo B está neutro. Após o contato, as cargas elétricas serão distribuídas de maneira uniforme ao longo da extensão desses corpos. Como o corpo B é menor, ele “acomoda” uma quanti- Eletricidade e magnetismo 123 dade menor de excesso de cargas, ficando, nesse caso, distribuído da seguinteforma: carga do corpo A depois do contato = +6 coulombs e carga do corpo B depois do contato = +3 coulombs. A figura a seguir ilustra essa ideia. Figura 3 Distribuição de carga no segundo exemplo ContatoAntes Corpo inicialmente neutro Depois Corpo eletrizado Fonte: Elaborada pelo autor. O mesmo raciocínio aplicamos a cargas negativas. Ao final do pro- cesso, os dois corpos possuem mesma carga elétrica. Nesse caso, nota- mos a presença de uma força elétrica repulsiva. A eletrização por atrito acontece quando dois corpos, inicialmente neutros, são atritados entre si e ocorre um deslocamento de cargas de um sinal para um dos corpos, fazendo com que um deles esteja carre- gado negativamente, e outro positivamente, conforme figura a seguir. Contudo, é importante notar que isso não acontece com quaisquer materiais. Figura 4 Simulador “balões e eletricidade estática” M uh am m ad A hs an A sh fa q/ Sh ut te rs to ck Ra nc un g/ Sh ut te rs to ck fa d8 2/ Sh ut te rs to ck No caso do balão sendo atritado contra o casaco de lã, vemos que o balão possui cargas negativas em excesso, e o casaco cargas positivas. Isso acontece porque o material de que são feitos favorece o movimen- Representação da distribuição de cargas elétricas após atritar um balão contra um casaco de lã. Note que o balão possui cargas negativas em excesso e o casaco cargas positivas. 124 Fundamentos de Física to das cargas negativas do casaco para o balão. Aliás, essa é uma das coisas mais interessantes que descobrimos no início do século XX, que os portadores de cargas elétricas são os elétrons (carga negativa) e os prótons (carga positiva). Além disso, sabemos que os elétrons possuem mais mobilidade que os prótons, pois são cerca de 2.000 vezes meno- res. Em geral, o deslocamento de cargas elétricas de um corpo para outro é sempre de cargas elétricas negativas. Além disso, como um corpo está carregado negativamente e outro positivamente, notamos que no final do processo, ambos possuem car- gas elétricas de sinal oposto. Nesse caso, notamos a presença de uma força elétrica atrativa. Figura 5 Força atrativa entre o balão e o casaco de lã após serem atritados. M uh am m ad A hs an A sh fa q/ Sh ut te rs to ck Ra nc un g/ Sh ut te rs to ck fa d8 2/ Sh ut te rs to ck Por fim, o último processo de eletrização é conhecido como indução, no qual um corpo carregado eletricamente induz um corpo eletrica- mente neutro a ficar, temporariamente e localmente, eletrizado. Isso não acontece com qualquer material, já que alguns parecem não ofere- cer trânsito livre para a passagem dos elétrons com facilidade. Nesses casos, mesmo em contato físico, não há contato elétrico. Um exemplo Eletricidade e magnetismo 125 muito emblemático pode ser visto com o mesmo balão eletrizado por atrito contra um casaco de lã. Se encostamos esse balão na parede, por exemplo, vemos que ele fica grudado, mas a parede permanece neutra! Isso acontece porque o balão carregado eletricamente induz localmente a parede a ficar carregada com sinal oposto, como mostra a figura a seguir. Figura 6 Cargas elétricas da parede Representação das cargas elétricas da parede eletricamente neutra. fa d8 2/ Sh ut te rs to ck – R an cu ng /S hu tte rs to ck Representação das cargas elétricas da parede e do balão quando ocorre eletrização por indução. Note que a parede permanece com o mesmo número de cargas elétricas positivas e negativas, isto é, eletricamente neutra. Entretanto, a presença do balão faz com que aconteça polarização (acúmulo de cargas positivas próximo a ele e acúmulo de cargas negativas mais distante dele). Um experimento famoso foi capaz de demonstrar que a carga elé- trica de um corpo é, na verdade, determinada pelo excesso de elétrons ou prótons. Trata-se da experiência de Millikan 1 Caso queira ver mais detalhadamente como funciona a experíência de Milikan, acesse o link a seguir. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=6CR_ K94X9us. Acesso em: 6 maio 2022. 1 , em que o físico Robert Andrews Millikan borrifou óleo dentro de um recipiente especialmente construído para eletrificar as gotas do líquido que foram produzidas no seu interior. Ao aplicar uma força elétrica sobre as gotas eletricamente carregadas, foi possível mensurar o valor da carga elétrica delas. O físi- co percebeu que todas as medições eram sempre múltiplas do mesmo https://www.youtube.com/watch?v=6CR_K94X9us https://www.youtube.com/watch?v=6CR_K94X9us https://www.youtube.com/watch?v=6CR_K94X9us 126 Fundamentos de Física valor, 1,6.10-19, conhecido como carga elementar. Assim, a carga elétrica de um corpo é determinada por: Q = n · e Em que Q é a carga elétrica do corpo, n é o número de prótons ou elétrons em excesso, e é a carga elementar. No SI, a unidade de medida de carga elétrica é o coulomb [C]. 5.2 Força elétrica Um experimento famoso conduzido pelo físico francês Charles Augustin de Coulomb, no século XVIII, foi capaz de mostrar como dois corpos carregados interagem entre si, ou seja, como determi- nar a força de atração ou repulsão elétrica que surge entre corpos eletricamente carregados 2 Para saber mais sobre o experimento de Coulomb, Acesse o link a seguir. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=PHrN5AlwkRQ. Acesso em: 6 maio 2022. 2 . Coulomb utilizou uma balança de torção na qual seria possível carregar pequenas esferas metálicas mantidas eletricamente iso- ladas umas das outras. Ao carregá-las, notou uma torção, sendo possível inferir o valor da força elétrica produzida. O físico notou que a força diminuía na proporção da distância ao quadrado en- tre as esferas. Além disso, a força dependia do valor das cargas elétricas dos corpos envolvidos e do meio em que esse processo aconteceu. Matematicamente, podemos representar essa ideia da seguinte forma: F k Q Q delétrica = · ·1 2 2 Em que F é a força elétrica, k é a constante dielétrica do meio (uma grandeza que representa a facilidade ou dificuldade de acon- tecer atração/repulsão elétrica em determinado meio), Q1 e Q2 são as cargas elétricas dos corpos 1 e 2, respectivamente, e d é a dis- tância entre esses corpos. Veja um exemplo a seguir. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=PHrN5AlwkRQ https://www.youtube.com/watch?v=PHrN5AlwkRQ Eletricidade e magnetismo 127 Exercício Considere um corpo A distante 2 cm de um corpo B. O corpo A está carregado eletricamente com +8µC, e o corpo B com +2µC. Qual é a força elétrica entre esses corpos? Considere que estejam no vácuo, em que a constante dielétrica é 9.109 N.m²/C². Resolução Como os corpos estão carregados positivamente, aparecerá uma força repulsiva entre eles de módulo determinado pela expressão: F k Q Q d elétrica � � � 1 2 2 Substituindo pelos valores fornecidos (atente às unidades de medida), temos: Felétrica � � � � � � �� � � � � 9 10 8 10 2 10 2 10 9 6 6 2 2 Felétrica = 720 N Na prática Note que a força elétrica pode ser repulsiva, quando as cargas en- volvidas tiverem mesmo sinal, ou atrativa, quando as cargas envolvidas tiverem sinais opostos. A figura a seguir ilustra essa ideia. Figura 7 Representação de forças elétricas – q + q Atração + q + q Repulsão – q – q Repulsão d Ar tis ho k/ Sh ut te rs to ck 128 Fundamentos de Física Exercício Três corpos (A, B e C) são posicionados em três vértices de um quadrado de lado igual a 20 cm, conforme ilustrado a seguir. A C B Ar tis ho k/ Sh ut te rs to ck 20 cm Sejam +2µC, –3µC e 4µC as cargas de A, B e C respectivamente, calcule a força elétrica resultante no corpo A. Considere k = 9.109 N.m²/C². Resolução Note que as forças em A são orientadas da seguinte maneira, dadas as cargas dos corpos envolvidos: A C B Ar tis ho k/ Sh ut te rs to ck 20 cm FB,A FC,A Em que FC,A é a força feita por C em A, uma força repulsiva, e FB,A é a força feita por B em A, uma força atrativa. Noteainda que essas forças são perpendiculares entre si. Na prática (Continua) Há um aspecto importante de lembrarmos: uma vez que forças elétri- cas são forças e, portanto, capazes de produzir uma aceleração em massas, a presença de uma ou mais forças não implica movimento sempre. Eletricidade e magnetismo 129 Determinando o módulo de cada uma das forças: F k Q Q d B A A C , � � � 2 FB A, � � � � � � �� � �� � � � � 9 10 2 10 3 10 20 10 9 6 6 2 2 FB,A = 2,7 N F k Q Q d C A A B , � � � 2 FC A, � � � � � �� � �� � � � � 9 10 2 10 4 10 20 10 9 6 6 2 2 FC,A = 3,6 N Finalmente, para determinar a força resultante, basta somar FC,A e FB,A. FB,A FRFC,A Note que se forma um triângulo, cujo FR é a hipotenusa. Logo: F F FR C A B A 2 2 2� �, , FR 2 2 23 6 2 7� � � � � �, , FR = 4,5 N Além disso, a força elétrica é uma força, portanto está sujeita às leis de Newton. Isso implica a força elétrica ser capaz de acelerar um corpo de massa m, segundo a lei fundamental da dinâmica. Também um corpo eletricamente carregado pode experimentar equilíbrio es- tático e dinâmico, conforme a lei da inércia. E toda força elétrica pos- sui reação de mesmo módulo, mesma direção, mas sentidos opostos. 5.3 Eletrodinâmica: compreendendo circuitos elétricos Vídeo Voltemos a nossa atenção para o movimento das cargas elétricas. Ao acendermos uma lâmpada, por exemplo, cargas elétricas são mo- vimentadas e esse movimento, de alguma maneira, acaba produzindo luz. O mesmo movimento de cargas elétricas acontece no resistor do chuveiro elétrico, mas nesse caso é produzido calor. Esses são exem- plos de circuitos elétricos, sistemas físicos fechados em que há a passa- gem de cargas elétricas. A primeira coisa que precisamos notar é que, como dito, os elétrons se movimentam com mais facilidade que os prótons. Imaginemos que o movimento é de cargas negativas. Assim como fizemos anteriormente, quando pensamos no movimento de um corpo, tratamos do movimen- to das cargas elétricas em função do tempo. Dessa maneira, definimos corrente elétrica como a razão entre a quantidade de cargas elétricas que passam por determinada seção transversal por unidade de tempo. Matematicamente, podemos representar da seguinte maneira: I Q t � � Em que I é a corrente elétrica, Q é a quantidade de cargas elétricas que passam e ∆t é o intervalo de tempo. No SI, a unidade de medida de corrente elétrica é o coulomb por segundo [C/s] ou o ampère [A], esta em homenagem ao cientista francês André-Marie Ampère. Ei gh t P ho to /S hu tte rs to ck 130130 Fundamentos de FísicaFundamentos de Física Eletricidade e magnetismo 131 Exercício Em determinada seção transversal de um condutor elétrico passam 1015 elétrons por segundo. Calcule a intensidade da corrente elétrica desse movimento. Considere a carga elementar igual a –1,6.10–19 C. Resolução Sabemos que a corrente elétrica é: I Q t � � E que a carga elétrica é: Q = n · e Logo: I n e t � � � Substituindo os valores conhecidos, temos: I� � � �� ��10 16 10 1 15 19, I = –1,6.10–4 C Na prática Note que a corrente elétrica pode ter dois sinais (positivo ou nega- tivo), devido às cargas elétricas serem positivas ou negativas. Os sinais aqui indicam o sentido da corrente elétrica e devem ser cuidadosamen- te analisados caso a caso. Antes da descoberta do elétron e de suas características físicas, os cientistas imaginavam que o movimento era de uma carga positiva. Isso acabou causando certa confusão, pois se criou uma tradição no campo pela noção de que o movimento era de prótons e não de elétrons. Para entender isso, vamos pensar um pouco sobre o que promove o movimento de cargas elétricas em um circuito elétrico simples, representado na figura a seguir. Figura 8 Circuito elétrico simples Bl ue Ri ng M ed ia /S hu tte rs to ck 132 Fundamentos de Física Todo circuito elétrico necessita de um gerador, no caso, uma pilha ou bateria. Você deve ter notado que há, quase sempre, uma indicação nos polos de uma bateria com sinais de + e –, como na figura a seguir. Figura 9 Polos positivo e negativo Os sinais indicam os polos elétricos da bateria, isto é, na região si- nalizada com + há mais prótons que elétrons, portanto é uma região carregada eletricamente com cargas positivas; já na região sinalizada com – há um excesso de elétrons carregando eletricamente com car- gas negativas. No caso das baterias e pilhas, esse processo é químico do tipo anodo-catodo, mas existem outras maneiras de produzir essa polarização. Seja como for, a ideia fundamental é esta: uma bateria é um elemento de um circuito elétrico capaz de repelir cargas em um dos polos e atrair essas mesmas cargas em outro polo. Com o auxílio do simulador Kit para montar circuito DC – Lab Virtual, do site PhET Colorado, é possível ilustrar essa ideia. Figura 10 Gerador aberto Bi ja nS to ck /S hu tte rs to ck No século XIX, a eletricida- de começa a ser utilizada de maneira doméstica. Os primeiros aparelhos elétricos começam a ser produzidos. A lâmpada, em destaque, começa a comparecer na casa dos primeiros norte-america- nos. Há, entretanto, um temor a respeito da ele- tricidade, que, sabemos, pode ser letal para um ser humano. Além disso, a produção e principalmen- te a distribuição era um grande problema. A partir de uma engenhosa ideia de um cientista chamado Nikola Tesla, essas ques- tões foram superadas. Mas não sem resistência. O filme A Batalha das Cor- rentes retrata parte dessa história. Direção: Alfonso Gomez-Rejon. EUA: Film Rites, 2019. Filme M ed ia B ay /S hu tte rs to ck Aqui vemos uma bateria (também chamada de gerador), fios, um interruptor (que está aberto) e uma lâmpada. Além disso, estão representados os elétrons que, nesse momento, estão estáticos. Ao fechar o circuito, observamos que o polo nega- tivo do gerador repele os elétrons enquanto o polo positivo os atrai, movimentando-os, dessa maneira, ao longo do circuito, como representado por setas vermelhas na figura a seguir. Eletricidade e magnetismo 133 Figura 11 Sentido real da corrente elétrica Bi ja nS to ck /S hu tte rs to ck i Esse é o sentido real da corrente elétrica, ou seja, o sentido do movimento dos elétrons. Como comentamos, inicialmente os cientistas imaginavam que o movimento era de cargas positivas. O raciocínio, no entanto, é no sentido contrário, o polo positivo repele e o polo negativo atrai as cargas elétricas em movimento, produzindo uma corrente elé- trica no sentido contrário, conhecido como sentido convencional, que é representado na figura a seguir. Bi ja nS to ck /S hu tte rs to ck Figura 12 Sentido convencional da corrente elétrica 134 Fundamentos de Física Em geral, fazemos a distinção entre sentido real e sentido conven- cional. Entretanto, tendemos a considerar o sentido da corrente elétri- ca como padrão no sentido convencional, isto é, pensamos por padrão que o movimento acontece por cargas positivas. Além do motivo histó- rico, sobre o qual já conversamos, há o fato de que, pensando no movi- mento de prótons, a corrente elétrica sempre fornece valores positivos, o que pode ser mais confortável para manipular matematicamente. Seja como for, essa é a tradição da área. A depender da bateria, temos uma maior ou menor concentração de cargas nos polos, e a diferença entre essas quantidades é conhecida como diferença de potencial elétrico. O potencial elétrico é a grandeza que usamos para representar a quantidade de energia potencial elétri- ca por unidade de carga que determinada carga elétrica (ou conjunto de cargas elétricas) é capaz de gerar. Para compreendermos a energia potencial elétrica, podemos pensar na quantidade de energia que pode ser transformada em energia cinética, a qual é fornecida à carga elétri- ca, ou seja, o potencial de movimentar as cargas elétricas. Matematica- mente, representamos da seguinte maneira: V E q potencialelétrica= � Em que V é o potencialelétrico gerado por uma carga elétrica, Epotencial elétrica é a energia potencial elétrica e q é a quantidade de carga elétrica que está gerando esse potencial elétrico. O que nos importa aqui, no caso de um circuito elétrico, é a diferença entre esses poten- ciais gerados em cada polo do gerador. Logo: UAB = VA – VB Em que UAB é a diferença de potencial entre os pontos A e B e VA e VB são os potenciais elétricos nos pontos A e B, respectivamente. Representamos um gerador em um circuito elétrico usando o se- guinte símbolo: + – Em que a barra menor representa o polo negativo (–) e a barra maior o polo positivo (+). Eletricidade e magnetismo 135 Exercício Um corpo eletricamente carregado com uma carga de 5µC sofre um trabalho de 10 J do gerador e é transportado entre dois pontos de um circuito elétrico fechado. Calcule a diferença de potencial entre esses dois pontos. Resolução Sabemos que o potencial elétrico de um único ponto é determinado por: V E q potencial létricae= � Além disso, sabemos que a diferença de potencial é: UAB = VA – VB Substituindo a primeira equação na segunda, temos: U E q E qAB potencial elétrica A potencial elétricaB� �� � � � O fator comum aqui é q, então: U q E EAB potencial elétrica A potencial elétricaB� � �� �1 U q EAB potencial elétrica AB� �� �1 � No entanto, pelo teorema trabalho-energia, sabemos que: τ = –ΔEpotencial elétrica AB Isto é: U qAB � �� O sinal negativo aqui não nos interessa muito, apenas indica que esse trabalho é realizado no sentido oposto ao do movimento das cargas elétricas. Para decidir o sentido da corrente elétrica, é melhor fazer a análise que fizemos quando tratamos do sentido real e convencional. Substituindo pelos valores fornecidos, temos: UAB � � � � 10 5 10 6 UAB = –2.106 Na prática Outro elemento importante e quase sempre presente em circui- tos elétricos é a resistência elétrica. Ela representa a resistência à passagem da corrente elétrica. Quanto menor a resistência elétri- 136 Fundamentos de Física ca do circuito, maior a intensidade da corrente elétrica. Além disso, quanto maior a diferença de potencial, maior a intensidade da cor- rente elétrica. Essas observações podem ser representadas mate- maticamente da seguinte forma: U = R · i Em que U é a diferença de potencial elétrico, R é a resistência elé- trica e i é a corrente elétrica. No SI, a unidade de medida de resistência elétrica é o volt por ampère [V/A] ou o ohm [Ω], este em homenagem ao físico alemão Georg Simon Ohm. Simbolizamos uma resistência elétrica em um circuito elétrico com o seguinte símbolo: Exercício Um circuito simples, constituído apenas de um gerador e de um resistor elétrico, é representado a seguir: R Sendo a diferença de potencial gerada pelo gerador de 100 V e o valor de resistência elétrica R igual a 50 Ω, determine o valor e o sentido da corrente elétrica que passa em R. Resolução Sabemos que: U = R · i Logo: 100 = 50 · i Na prática (Continua) Eletricidade e magnetismo 137 Isto é: i = 2A E o sentido convencional da corrente elétrica é representado pela figura a seguir: R i i De modo geral, quando não for dito explicitamente que se trata do sentido real da corrente, estamos sempre pensando no seu sen- tido convencional. 5.4 Magnetismo Vídeo O magnetismo é um fenômeno conhecido há muito tempo. Os pri- meiros registros escritos datam do século VI a.C. por Tales de Mileto, que havia dito que algumas rochas possuíam alma e, por esse motivo, eram capazes de movimentar outras rochas. Ele se referia ao que hoje conhecemos como magnetita, que tem esse nome por ter sido encon- trada originalmente na região de Magnésia, na Grécia. A magnetita é uma rocha que apresenta, naturalmente, propriedades magnéticas. De fato, é o mineral mais magnético de todos os minerais encontrados na Terra. Essa propriedade foi utilizada para a fabricação de bússo- las na China e, posteriormente, na Europa. O nome dessa rocha vem da região onde ela era encontrada na Grécia Antiga, a Magnésia. Trata-se de um mineral formado pelos óxidos de ferro II e III (FeO.Fe2O3), cuja fórmula química é Fe3O4. Ph ot oo bz or /S hu tte rs to ck https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%93xido 138 Fundamentos de Física An dr ea P ag gi ar o/ Sh ut te rs to ck Os chineses também tinham conhecimento das rochas capazes de atrair outras rochas e metais. É conhecido que no século I d.C. esse povo já utilizava a bússola (Figura 13), instrumento por meio do qual é possível se orientar (quase) sempre na mesma direção, sendo muito útil para nave- gação. As primeiras bússolas de que temos notícia eram bem diferentes das portáteis atuais. A magnetita era esculpida em for- ma de concha com uma alça que, ao ser disposta em um prato metálico, apon- tava para uma direção específica. Certamente ímãs não são rochas do- tadas de alma. Mas qual é a origem do magnetismo? Muitos séculos depois da descoberta do magnetismo, compreendemos o fenômeno e sua relação com a eletricidade na forma atual. Ao observar atentamente os materiais magnéticos e magnetizáveis, percebemos que alguns são mais fortemente atraídos ou repelidos, en- quanto outros são menos. Deve haver um motivo na composição do próprio material que justifique isso. Passamos a tentar produzir ímãs artificiais com base no que sabíamos dos naturais e descobrimos que eram materiais predominantemente metálicos que, em geral, eram bons condutores elétricos. Imaginou-se que internamente nesses ma- teriais havia pequenos ímãs que tipicamente estavam desalinhados e produzindo, na soma, um campo magnético (região na qual se ob- serva magnetismo) nulo. Dividimos, então, o corpo em várias regiões denominadas domínios magnéticos. Trata-se de regiões em que, local- mente, observamos alinhamento dessas partículas magnéticas, como ilustra a figura a seguir. Figura 13 Bússola chinesa antiga Observamos que os domínios magnéticos entre si estão desalinhados. Fonte: Elaborada pelo autor. Figura 14 Domínios magnéticos de um material não magnético Eletricidade e magnetismo 139 Em outros experimentos verificamos que somos capazes de tornar alguns materiais, notadamente ferrosos, ímãs temporários. O proce- dimento é relativamente simples, apenas deixamos o material não magnetizado próximo a um ímã. Depois de um tempo, ao retirar o ímã, percebemos que o material passa a exibir a mesma capacidade de atrair e repelir, como um ímã permanente. Esse fenômeno é conhecido como histerese magnética. Isso acontece porque a presença de um cam- po magnético externo é capaz de alinhar os domínios magnéticos de tal maneira que a soma dos campos magnéticos gerados passe a não ser nula. A figura a seguir ilustra essa ideia. Percebemos que isso acontece em intensidades diferentes para va- riados tipos de material, de modo que somos capazes de agrupá-los em, pelo menos, quatro categorias: • Materiais ferromagnéticos: materiais cujos domínios magnéti- cos já estão praticamente alinhados. Na presença de um ímã per- manente, são fortemente atraídos. O ferro é o melhor exemplo dessa classe de materiais. • Materiais antiferromagnéticos: materiais cujos domínios magnéticos se alinham. Na presença de um ímã externo, são fortemente repelidos. O manganês e o cromo são exemplos de materiais antiferromagnéticos. • Materiais diamagnéticos: materiais que na presença de um ímã permanente são fracamente repelidos. O alumínio é um bom exemplo de material diamagnético. • Materiais paramagnéticos: materiais que na presença de um ímã permanente são fracamente atraídos. O ouro é um bom exemplo de material paramagnético. Figura 15 Representação dos domínios magnéticos de um material Fonte: Elaborada pelo autor. 139139 Fundamentos de FísicaFundamentos de Física 140 Fundamentos de Física Uma observação muito interessante sobre os ímãs é o fato de que sempre têm um “lado” que atrai e outro que repele. Logo, um ímã é sempre um dipolomagnético. Chamamos, por motivos históricos, um dos polos de norte e outro de sul. Representamos o campo magnético gerado por um ímã com linhas contínuas que saem de um polo e en- tram em outro. Dessa forma, identificamos o polo norte de um ímã por linhas de campo que saem do ímã e o polo sul por linhas que entram no ímã, como na figura a seguir. Figura 16 Representação de um campo magnético gerado por um ímã natural. DK N0 04 9/ Sh ut te rs to ck Na presença de um segundo ímã, o polo norte é atraído pelo polo sul de outro e vice-versa. Voltando à bússola, agora somos capazes de compreender como funciona esse utensílio tão intrigante, um ímã que é deixado livre para rotacionar sobre um eixo. Modernamente, produzimos pequenas agulhas imantadas mantidas presas a uma espécie de relógio, como ilustrado a seguir. So lo m in A nd re y/ Sh ut te rs to ck Figura 17 Bússola moderna Eletricidade e magnetismo 141 Sabemos que os ímãs são atraídos ou repelidos por outros, cer- to? No caso da bússola, quem é que interage com a pequena agulha magnetizada? O próprio campo magnético gerado pela Terra! Somos capazes de determinar a orientação do campo magnético do planeta utilizando uma bússola e o conhecimento de que o polo norte de um ímã é atraído pelo polo sul de outro ímã. O que se convencionou cha- mar de direção norte, que é apontada pelo polo norte da agulha do ímã, é a região do Polo Sul magnético da Terra, conforme a figura a seguir. Figura 18 Representação do campo magnético da Terra Si be ria n Ar t/ Sh ut te rs to ck Resta ainda compreendermos o que são esses “pequenos ímãs” que compõem os materiais. A resposta a essa questão surgiu quan- do compreendemos que os fenômenos magnéticos e elétricos estão sempre relacionados, tema da próxima seção. 142 Fundamentos de Física 5.5 Eletromagnetismo Vídeo Por volta de 1820, o cientista dinamarquês Hans Christian Ørsted conduziu, para uma plateia da Academia Real de Ciências da França, seu famoso experimento capaz de demonstrar uma relação entre ele- tricidade e magnetismo. Ao fazer passar uma corrente elétrica próximo a um ímã permanente, verificou-se que o ímã foi defletido como se sen- tisse a presença de outro ímã. A figura a seguir ilustra uma montagem experimental desse fenômeno. Figura 19 Representação de eletromagnetismo Se rg ey M er ku lo v/ Sh ut te rs to ck O experimento de Ørsted é uma evidência de que eletricidade e magnetismo são fenômenos relacionados. Com base nisso, eles passa- ram a ser investigados como um fenômeno único, o eletromagnetismo. Eletricidade e magnetismo 143 O experimento de Ørsted foi capaz de mostrar que a passagem de corrente elétrica é capaz de gerar um campo magnético que, ao interagir com outro campo magnético, é capaz de forçá-lo (atrati- va ou repulsivamente). Para o caso de um condutor retilíneo, verifi- camos que a força magnética depende da intensidade da corrente elétrica, da intensidade do campo magnético do ímã externo e do comprimento do fio. Matematicamente, podemos expressar essa ideia da seguinte forma: Fmagnética = B · i · L · senΘ Em que B é o campo magnético externo, i é a corrente elétrica, L é o comprimento do fio e Θ é o ângulo formado entre a direção da corrente elétrica e do campo magnético externo. O termo senΘ está aqui para representar uma observação prática de que essa força magnética sur- ge sempre perpendicular ao plano formado pela corrente elétrica e pelo campo magnético externo. O sentido do campo magnético gerado por uma corrente elétrica em um condutor retilíneo pode ser determinado pela regra da mão direita. Para isso, alinhe o polegar direito no sentido da corrente elé- trica e feche a mão nesse eixo. O sentido do movimento dos outros dedos é o sentido do campo magnético gerado. A figura a seguir ilustra essa ideia. Figura 20 Ilustração da regra da mão direita aplicada ao sentido do campo magnético gerado por um condutor retilíneo. ru m ru ay /S hu tte rs to ck No SI, a unidade de medida de campo magnético é o tesla [T]. 144 Fundamentos de Física Exercício Um fio retilíneo condutor de corrente elétrica tem 10 m de comprimen- to. Por ele passa uma corrente elétrica contínua, igual a 2 A, em um local onde existe um campo magnético perpendicular e uniforme, cujo módulo vale B = 0,5 T, como é ilustrado na figura a seguir. Determine o módulo da força magnética exercida pelo campo magnético sobre o fio. LL BB II II Resolução Basta aplicar a relação que aprendemos: Fmagnética = B · i · L · senΘ Como i e B são perpendiculares, Θ = 90°. Logo: Fmagnética = 0,5 · 2 · 10 · sen90 Fmagnética = 0,5 · 2 · 10 · 1 Fmagnética = 10 N Na prática A descoberta de que corrente elétrica gera campo magnético lançou nova luz ao motivo pelo qual materiais como a magnetita possuíam campo magnético. Suspeitava-se que esse campo se deve ao fato de que esses materiais possuem cargas elétricas em movimento interna- Eletricidade e magnetismo 145 mente. Esse movimento acabava por produzir um dipolo magnético, que são os “pequenos ímãs” a que nos referimos. Foi só no final do sé- culo XIX, com as descobertas do elétron e do próton, que essa suspeita acabou sendo confirmada. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, abordamos a eletricidade e o magnetismo e como esses fenômenos, na realidade, são faces de uma mesma coisa, conheci- da como eletromagnetismo. O que estudamos, evidentemente, foi apenas uma introdução do tema. Há muito mais a ser discutido e, mais importan- te, muitas questões em aberto. Um exemplo disso é a resposta à pergunta do porquê não existe um monopolo magnético. Dito de outra maneira, por que um ímã sempre apresenta dois polos? Ou ainda por que as linhas de campo magnético são fechadas? ATIVIDADES Atividade 1 Descreva um procedimento, ainda que apenas teoricamente possível, para eletrizar um corpo por indução, de maneira que, após retirar o corpo eletrizado que induziu uma eletrização tempo- rária, o corpo eletrizado por indução permaneça eletrizado. Atividade 2 Um circuito elétrico composto de três resistores e um gerador é representado a seguir: R1 R2 U R3 Qual é o sentido real da corrente? E o sentido convencional? 146 Fundamentos de Física Atividade 3 Conhecendo a origem do magnetismo, a partir do eletro- magnetismo, levante uma hipótese sobre a origem do campo magnético terrestre. REFERÊNCIAS FEYNMAN, R. P.; LEIGHTON, R. B.; SANDS, M. Lições de física de Feynman: a edição definitiva. Porto Alegre: Bookman, 2008. GRIFFITHS, D. J. Eletrodinâmica. 3. ed. São Paulo: Pearson, 2011. HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física: eletromagnetismo. Trad. de Ronaldo Sérgio de Biasi. Rio de Janeiro: LTC, 2009. v. 3. Resolução das atividades 1 Conceitos básicos da física 1. Qual é o deslocamento realizado por uma pessoa que se move 4 m para o Leste e, em seguida, 3 m para o Norte? Como referência, podemos representar cada ponto cardeal da seguinte maneira: Norte Oeste Sul Leste Dessa forma, podemos representar esse movimento com dois vetores, como os mostrados a seguir: O primeiro deslocamento (4 m para o Leste): 4 m O segundo deslocamento (3 m para o Norte): 3 m Lu pi ta R oj as S ol is /S hu tte rs to ck Resolução das atividades 147 Notemos que a pessoa sai de uma posição (inicial) e, após os deslocamentos sucessivos, encontra-se em outra (final). Podemos representar essa situação da seguinte forma: 4 m 3 m Sinicial Sfinal Como sabemos, o deslocamento é DS, isto é, o segmento de reta orientado que conecta as posições final e inicial: 4 m DS 3 m Sinicial Sfinal Notemos que o deslocamento é a hipotenusa do triângulo retângulo de catetos 4 e 3. Logo: DS² = 4² + 3² DS = 5�m 2. Em uma manhã de domingo, dois ciclistas pedalam em uma ciclovia. Cada um viaja com velocidade de módulo de 2 m/s, mas em sentidos opostos. Em determinado momento, eles estão separados por 40 m de distância. Sabendoque o movimento acontece com velocidades constantes, quanto tempo levarão para se encontrar? 148 Fundamentos de Física Podemos representar a situação da seguinte maneira: Ie sd e Br as il S/ A V1 40 m V2 V1 é a velocidade do ciclista que anda para o sentido positivo e V2 é a velocidade do ciclista que anda para o sentido negativo. Vemos que essa situação, na qual os dois ciclistas estão em movimento, só é assim para um referencial específico. Se mudarmos o referencial, a situação pode ser bem diferente. Por exemplo, se o referencial é o ciclista 1, então, a situação muda. A velocidade dele para ele mesmo é zero, isso porque ele, para ele mesmo, não está em movimento. Isso implica perceber a velocidade do ciclista 2 como a soma das velocidades na primeira situação. É exatamente isso que sentimos quando estamos em um carro em uma pista de mão dupla. Os carros que andam na contramão parecem estar muito mais rápidos do que os carros que andam na mesma mão. Podemos representar esse novo referencial da seguinte maneira: Ie sd e Br as il S/ A V1’ = 0 40 m V2’ A velocidade do ciclista 2 nesse novo referencial tem módulo igual a 4 m. Dessa forma, é bastante simples encontrar o tempo necessário para se percorrer os 40 m que os separam, pois: V d t � � �t d V � �t � 40 4 �t s�10� Resolução das atividades 149 3. Usain Bolt é o recordista dos 100 m rasos. Sua impressionante performance é alvo de estudos contínuos dos cientistas do esporte. A seguir é representado um gráfico de velocidade em cada instante de tempo durante uma corrida de Bolt. 0 0 2 4 6 8 10 2 4 6 8 10 12 Velocidade em função do tempo em uma corrida de 100m rasos Tempo (s) Qual é a aceleração média entre 0 s e 9 s, aproximadamente, de acordo com esse gráfico? Pelo gráfico, em 9 s a velocidade é de, aproximadamente, 11 m/s. Em 0 s, a velocidade é de 0 m/s. Logo: a V t �� � � a V V t t final inicial final inicial �� � � a�� � � 11 0 9 0 a m s� � , � / ²= 11 9 12 2. Mecânica 1. Segundo a teoria do movimento de Aristóteles, por que a fumaça de uma fogueira sobe? A fumaça sobe, pois seria feita predominantemente do elemento ar, e o lugar natural desse elemento é acima de nossas cabeças. 2. Tente encontrar a relação entre o ângulo de inclinação da rampa e a velocidade em cada instante na experiência de Galileu. Consideremos um plano inclinado com ângulo Θ, como ilustra a figura a seguir. Ve lo ci da de (m /s ) 150 Fundamentos de Física Plano inclinado Θ Consideremos ainda que desliza sobre ele, sem atrito, um objeto. Este, dotado de massa, possui peso orientado verticalmente para baixo, como ilustra a figura a seguir. N P Podemos decompor o vetor P de maneira que parte dele esteja orientada no sentido da rampa e outra na direção perpendicular a ela, como ilustra a figura a seguir. x P Px Py N y θ θ Notemos que Py, componente do peso, que é perpendicular ao plano inclinado, está no sentido contrário de N e possui mesmo módulo que N. Dessa maneira, nessa direção, a força resultante é zero. Resta apenas Px, componente do peso, que está na mesma direção do plano inclinado. Usando geometria dos triângulos formados, temos que: P = P · senθ Vemos que Px é a força resultante, e pela segunda lei de Newton sabemos que Fr = m · a, logo: m · a = P · senθ Sabendo que P = m · g, temos: m · a = m · g · senθ Resolução das atividades 151 Dividindo os dois lados por m, temos finalmente a relação que procurávamos: a = g · senθ Isso porque a = V t D D . 3. No caso de uma pessoa empurrando o chão, por que só a pessoa se move e o chão permanece parado (ou quase parado)? Não se trata de o chão ficar parado, o caso é que a aceleração impressa pela força aplicada nele é tão pequena que é (quase) imperceptível. A diferença fundamental aqui são as massas. A mesma força é aplicada em cada um dos corpos. Acontece que a massa do chão é muitíssimo superior à massa da pessoa que o empurra. 3 Ondas 1. A seguir são apresentadas uma onda transversal e dois de seus elementos, representados por X e Y. Qual é o nome de cada um desses elementos e o que eles significam? X Y X é o comprimento de onda, que é a distância horizontal (no caso das ondas transversais) entre dois pontos equivalentes e contíguos de uma onda. Y é a amplitude da onda, que é a distância vertical (no caso das ondas transversais) entre o ponto de equilíbrio e o cume/vale. 2. Um radar é um dispositivo que funciona de maneira semelhante a um sonar. A diferença é que um radar utiliza ondas eletromagnéticas. Explique, portanto, o funcionamento de um radar, evidenciando qual é o fenômeno ondulatório envolvido. O fenômeno ondulatório envolvido é a reflexão, caracterizada pelo fato de uma onda incidente, ao encontrar um obstáculo intransponível, retornar por onde veio. Dessa forma, um radar emite uma onda eletromagnética que é refletida ao encontrar um obstáculo. 152 Fundamentos de Física A onda refletida, então, é recebida pelo radar que infere a distância, velocidade etc. do objeto, sabendo que a velocidade de propagação dessa onda se mantém constante em módulo. 3. A frequência de onda eletromagnética pode ser relacionada à sensação de cor, assim como a frequência de onda mecânica pode ser relacionada com a altura do som, caso ela seja sonora. O que podemos dizer em relação à amplitude, tanto no caso das ondas eletromagnéticas, como a luz, quanto no caso do som? A amplitude de uma onda está relacionada ao que percebemos como intensidade. No caso do som, intensidade sonora, e no caso das ondas eletromagnéticas, intensidade luminosa. 4 Calor e temperatura 1. A temperatura típica do corpo humano é em torno de 36 ºC. A partir de 37,5 ºC já consideramos febre. Acima de 41 ºC, hipertermia e risco elevado de complicações. Um estudante, pensando em facilitar a identificação da febre, pretende construir um termômetro cuja escala vai de 0 a 10, em que 0 corresponde a 36 ºC, e 10 a 41 ºC. A partir de qual temperatura dessa escala consideramos febre? Utilizamos o mesmo procedimento que vimos na primeira seção deste capítulo. Isto é: T TC Eº � � � � � 36 41 36 0 10 0 T TC Eº � � 36 5 10 (T°C – 36) . 2 = TE Conforme o enunciado, sabemos que é considerado febre a partir de 37,5 ºC, logo: (37,5 – 36) . 2 = TE (1,5) . 2 = TE TE = 3 2. A água, substância tão importante e preciosa para nós, é uma das mais misteriosas substâncias conhecidas. Um comportamento muito peculiar, conhecido como comportamento anômalo da Resolução das atividades 153 água, pode ser verificado com uma experiência simples. Ao esquentarmos uma amostra de 100 g de água, inicialmente a 0 ºC, observamos que, diferente de quase tudo, em vez de dilatar aumentando de tamanho, ela se contrai. Isso é visto até os 4 ºC. Após essa temperatura, ela volta a se comportar como o esperado. Sabemos que o calor específico da água é de 1 cal/g.ºC. Quanto calor é necessário darmos a essa amostra de água para não observarmos mais esse comportamento anômalo? Sabemos que o calor envolvido, neste caso, é apenas calor sensível, pois não há mudança de fase. Logo: Q = c . m . ΔT Substituindo pelos valores fornecidos: Q = 1 . 100 . (4 – 0) Q = 400 cal 3. O diagrama PxV que mostramos na Seção 4.4 (reproduzido novamente a seguir) representa um interessante fenômeno conhecido como ponto triplo da água. T 760 4,58 0 0 0,01 100 Líquido Vapor Sólido p (mmHg) θ (ºC) A partir de que pressão é possível, apenas aumentando ou diminuindo a temperatura, a água passar do estado sólido diretamente para o gasoso sem haver um estado líquido intermediário? A pressão de ponto triplo é 4,58 mmHg. Pelo gráfico, observamos que em qualquer pressão abaixo dessa os únicos estados físicos da matéria possíveis são o sólido e o gasoso. 154 Fundamentos de Física 5 Eletricidade e magnetismo 1. Descreva um procedimento, ainda que apenas teoricamente possível, para eletrizar um corpo por induçãode maneira que, após retirar o corpo eletrizado que induziu uma eletrização temporária, o corpo eletrizado por indução permaneça eletrizado. Uma possibilidade é se valer do fato de que os elétrons, portadores de carga negativa, possuem mais mobilidade que os prótons, portadores de carga elétrica positiva. Eletriza-se por indução um objeto inicialmente neutro: A B A B Com o objeto eletrizado por indução, o ligamos a um corpo que pode fornecer cargas elétricas de maneira a neutralizar um dos polos, procedimento conhecido como fio terra: A B Ao final, teremos um corpo negativo eletricamente carregado. Resolução das atividades 155 2. Um circuito elétrico composto de três resistores e um gerador é representado a seguir: R1 R2 U R3 Qual é o sentido real da corrente? E o sentido convencional? O sentido real da corrente é o sentido no qual os elétrons estão, efetivamente, se movimentando, ou seja, saindo do polo de menor potencial elétrico para o de maior potencial elétrico: R1 R2 U R3 ireal ireal Já o sentido convencional é o oposto a esses, imaginando o movimento dos prótons: R1 R2 U R3 iconvencional iconvencional 3. Conhecendo a origem do magnetismo, a partir do eletromagnetismo, levante uma hipótese sobre a origem do campo magnético terrestre. Esta é uma resposta pessoal. Especulava-se que a Terra era um enorme sólido magnetizado, como a magnetita. Após a descoberta de que a corrente elétrica é capaz de gerar campo magnético, especulou-se que havia internamente no planeta Terra o movimento de cargas elétricas. A questão aqui é que, para isso acontecer, é necessário que a Terra esteja rotacionando em torno de si, o que não é nem óbvio nem fácil de verificar. Graças ao conhecimento da inércia associado a algumas observações, foi possível compreender que o planeta rotaciona em torno de si, condição importante para que haja movimento interno de cargas elétricas. Foi preciso, entretanto, compreender a estrutura interna da Terra, o que só veio no século XIX e XX com o estudo dos terremotos e a determinação de que o núcleo do planeta é consideravelmente mais denso e massivo do que a superfície, indicando a presença de substâncias como ferro e níquel. 156 Fundamentos de Física FUNDAM ENTOS André Barcellos FÍSICA de FUNDAMENTOS André Barcellos FÍSICAde ISBN 978-65-5821-142-6 9 786558 211426 Código Logístico I000594 Página em branco Página em branco