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ORIENTAÇÕES ESPECÍFICAS | 237 Perspectivas p. 22-23 As atividades desta seção têm como objetivo auxiliar os es- tudantes a compreenderem as condições de produção e cir- culação de um texto, relacionando-o a seu contexto sócio- -histórico, o que colabora com o desenvolvimento das habilidades EM13LGG101 e EM13LP01. Com isso, o estudan- te pode ampliar as possibilidades de sentido, reconhecendo as marcas discursivas que indicam diferentes pontos de vista, o que atende a habilidade. 5. Caso os estudantes não tenham conhecimento sobre a obra, conte a eles que a escritora foi des- coberta por acaso pelo jornalista Audálio Dantas na favela do Canindé, na cidade de São Paulo, onde ela morava. O encontro despertou o interesse do jornalista pelo extenso diário da escritora. Após essa contextualização, converse com a turma sobre a escrita de um diário. Carolina de Jesus registrou a fome, o dia a dia na favela, a rotina diária para garantir seu sustendo. A próxima pergunta buscará verificar a experiência pessoal dos estudantes com a escrita de diário. 6. Espera-se que o estudante perceba que há várias maneiras de falar de si e manter registros pessoais, seja por meio de escritos, de pinturas, de dese- nhos, de fotografias, entre outros. Trilha de Língua Portuguesa � Repertórios e análises p. 24 A competência específica 4 e diversos campos de atuação de Língua Portuguesa são mobilizados nesta seção. Ao relacionar o texto com o contexto de produção e com questões históri- co-sociais, o estudante desenvolve as habilidades EM13LGG401 e EM13LP01, pois pode perceber que as narrativas se vinculam ao tempo e espaço em que são produzidas. A leitura dos contos de Graciliano Ramos e de Ondjaki am- pliam o repertório de literatura de língua portuguesa, desen- volvendo da habilidade EM13LP52. Além disso, ao identificar as marcas de modalização presentes e elementos de estilo dos gêneros autobiografia e autoficção, as habilidades EM13LP02 e EM13LP07 são mobilizadas. O estudo ainda fa- vorece o reconhecimento das assimilações de elementos pró- prios do movimento literário de que fez parte, o que contri- bui para o desenvolvimento da habilidade EM13LP48. Junto a isso, soma-se a habilidade EM13LP06, que é trabalhada quando o estudante verifica o uso expressivo de certas expres- sões e reconhece as variedades linguísticas existente no por- tuguês de Luanda, o que contribui para o desenvolvimento também das habilidades EM13LP10, por envolver a análise da variedade linguística em sua dimensão intercontinental. A Trilha de Língua Portuguesa deste capítulo está focada no estudo dos gêneros autobiografia e autoficção, considerados textos que possuem a memória reelabora- da como matéria literária. Os autores abordados traba- lham com memórias de infância e, em muitas entrevistas, afirmam que as lembranças são as descritas nas obras, mas pode haver enganos, substituição e até supressões de algo. Verifique se os estudantes já tiveram contato com o tema, destacando que a escrita desses gêneros, normal- mente, ocorre em dois planos: o da memória do vivido e do comentário do contexto em que se está. Autobiografia p. 24 1/2. As perguntas tem por objetivo propor uma reflexão sobre memória e escrita presentes nas autobio- grafias e autoficções, pois nem sempre é possí- vel trazer à lembrança cenas tão precisas do que aconteceu na infância. Nesse sentido, parece haver sempre uma margem para a ficção, pois aquilo de que não se lembra pode ser inventado, ou melhor, pode ser preenchido com a ficção. p. 26 5. Verifique se os estudantes percebem a diferença na escolha das palavras utilizadas para valorizar uma e depreciar a outra escola. Assim o leitor fica conhecendo a escola em que ele começou os estudos e como era. Conte à turma que Graciliano Ramos ainda narra outros acontecimentos vividos na escola. Quando pessoa pública, o escritor viria a se tornar um defensor da escola e construtor de algumas delas. 7. Verifique se os estudantes reconhecem a importân- cia da seleção lexical para a descrição do espaço da escola e, também, um certo desalento que aparece na voz do narrador; parece não haver nada de bom para contar sobre esse lugar. 9. Retome com os estudantes o início do capítulo: o narrador tinha nove anos e era quase analfabeto, por isso, a aproximação do livro lhe soava “repug- nante”, já que aquele “objeto” não lhe pertencia; era um universo completamente desconhecido para ele. p. 27 12. a. É possível reconhecer a frustração do narrador pelo uso das palavras e expressões como: de- cepção, “a maravilha se quebrasse”, “reduziu a cacos”, “minha desgraça”, “desespero”, “sensa- ção de perda e ruína”, “covardia”. b. Verifique se os estudantes conseguem perceber que os sentimentos ganham maior proprieda- de, existindo uma escolha das palavras exatas para nomeá-los, sendo possível perceber uma reflexão e um distanciamento dos fatos. Além V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_233a280_MPE.indd 237V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_233a280_MPE.indd 237 29/09/2020 11:2529/09/2020 11:25 238 disso, destaque a progressão que ele cria: o desespero a princípio, em seguida a covardia, depois a certeza de que os encantamentos não seriam duráveis para ele. 13. Ressalte para os estudantes que essa metáfora da escuridão em que ele se encontrava até chegar fachos de luz como as palavras se desenvolve ao longo da narrativa. É possível também recuperar a analogia da prima Emília: os astrônomos tam- bém, inicialmente, olharam para o céu e viram a escuridão com pontos de luz e foram tentando desvendar, assim como ele fez ao longo do relato dessa memória. 14. O autor teve como matéria literária histórias de gente sofrida com a seca, com as injustiças do mundo, os tipos e as paisagens do Nordeste brasi- leiro e os problemas sociais ali presentes. Exemplos de literatura autobiográfica podem ser Angústia (1936) e Memórias do Cárcere (1953). p. 28 • Programa Mestres da Literatura - Graciliano Ramos literatura, sem bijouterias (vídeo, 27 min). Disponível em: https://youtu.be/2HZ9Rf8OprQ. Acesso em: 20 jul. 2020. Se possível, assista com a turma ao vídeo sobre Graciliano Ramos. Destaque que o autor ficou conhecido pela seleção lexical apurada, quase isenta de adjetivos. SUGESTÃO DE VÍDEO Prosa de memórias ou de autoficção p. 29 p. 30 15. Verifique se os estudantes reconhecem a tentativa do menino de descrever o riso do tio que chega- va a causar cócegas nele, usando a imagem de cascata e trovão, que produzem sons bastante diferentes. Aponte que essa aproximação reforça o som dessa gargalhada tão contagiante. Destaque as alternâncias entre as imagens do texto sobre o Cão Tinhoso e as sensações experimentadas pelo narrador. Destaque os marcadores temporais “Eu lembrava-me de tudo” para introduzir as imagens e “E agora de repente” para indicar a sensação de desconforto com a possibilidade de rever essas cenas durante a leitura em voz alta. p. 31 16 b. Verifique se os estudantes conseguem reconhe- cer as diferenças nas formas de narrar. A escolha do discurso direto, indireto e indireto livre está relacionado à intencionalidade da narrativa, dar voz ou não aos personagens trata-se de uma estratégia de escrita bastante explorada por diversos escritores. 18. O narrador elenca os aspectos mais impactantes da história por meio da descrição de elemen- tos centrais do todo, depois traz pontualmente: “pressão-de-ar”; “feridas penduradas”; “olhos do cão”; “Fiquei atrapalhado”. 19. Na oitava série, chorar diante dos colegas era “proibido”, ou seja, não era aceitável nem de bom tom, podia ser vexaminoso. Ao destacar com tama- nha ênfase esse acordo tácito entre os estudantes daquela época, o narrador sugere que no presente é aceitável emocionar-se até as lágrimas diante de uma história muito triste. E isso diferencia esse nar- rador do presente daquele personagem de oitava sériede tempos atrás. 20. No segundo plano, o narrador conta a história do Cão Tinhoso, mostra o que seria a introdução, depois sintetiza o sofrimento do cão ao reforçar as feridas que ele tinha. O narrador pode ter consi- derado importante contar uma parte da história para um leitor eventualmente que não a conhe- cesse entender a comoção durante a leitura. Comente com os estudantes que a Associação Protec- tora do Anonimato dos Gambuzinos, citada pelo escritor Ondjaki, não existe. O gambuzino é um animal imaginário. • Umas Palavras 2013 | Ep. 06: Ondjaki (vídeo, 27 min 26 s). Disponível em: https://youtu.be/Yqi3lLpAtZc. Acesso em: 20 jul. 2020. Se possível, assista com a turma a essa entrevista com o escritor Ondjaki. SUGESTÃO DE VÍDEO � Atividade complementar: O afeto da leitura Para que os estudantes reflitam sobre as formas como as histórias produzem afetos em seus leito- res, proponha a eles as questões a seguir. 1. Releia o trecho: “Os olhos do Ginho. Os olhos da Isaura. A mira da pressão-de-ar nos olhos do Cão Tinhoso com as feridas dele penduradas. Os olhos do Olavo. Os olhos da camarada professora nos meus olhos. Os meus olhos nos olhos da Isaura nos olhos do Cão Tinhoso.” • Os olhos são um elemento recorrente. O que eles representam? Que efeito isso traz para a narrativa? O narrador aponta os olhos como um elemento- chave da história, tanto do cão quanto dele. O sofrimento estava marcado pelo olhar, entre os olhares de uma certa compaixão com o desti- no do cão e a preocupação com os olhares dos amigos sobre os seus próprios olhos, prestes a chorar com o final da história do cão tinhoso. Por meio dos olhos, a história do Cão Tinhoso se junta à do personagem, unindo os planos da narrativa. V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_233a280_MPE.indd 238V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_233a280_MPE.indd 238 29/09/2020 11:2529/09/2020 11:25