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C E N TR A L P R E S S /G E TT Y IM A G E S O Tribunal de Nuremberg levou ao banco dos réus alguns dos mais proeminentes líderes nazistas. Na foto, de 1946, ao centro, inclinado para a frente, Rudolf Hess, o braço direito de Hitler, acompanha seu julgamento em Nuremberg (Alemanha). À sua esquerda, Hermann Göring, o poderoso comandante-chefe da Luftwaffe. Das atrocidades da guerra à Declaração Universal dos Direitos Humanos O século XX foi marcado por duas grandes guerras que produziram um rastro de violência. Estima-se que a Primeira Guerra tenha deixado cerca de 17 milhões de mortos. O saldo de vidas perdidas no decorrer da Segunda Guerra foi ainda maior: historiadores calculam que entre 55 e 80 milhões de seres humanos pereceram, muitos deles nos campos de extermínio nazistas. Desde a ocupação da Polônia e da Tchecoslováquia pelas tropas alemãs no final da década de 1930, discutia-se na Europa a punição dos criminosos de guerra do Terceiro Reich. Porém, apenas a partir de 1943 a campanha pela punição dos crimes do Eixo ganhou força entre os Aliados. Assim, tão logo a Segunda Guerra terminou, juízes e políticos das potências aliadas reuniram-se para definir as bases legais para o julgamento e a punição dos crimes nazistas. As decisões foram registradas na Carta de Londres, e, apenas alguns meses depois, tiveram início os julgamentos das principais lideranças nazistas na cidade alemã de Nuremberg. O tribunal foi constituído de “juízes” nomeados pelas quatro potências vencedoras do con- flito: Estados Unidos, União Soviética, Grã-Bretanha e França. Sem um júri, a própria corte pre- sidiu o tribunal e definiu os vereditos. Em dez meses de julgamento, centenas de testemunhas foram ouvidas e milhares de documentos foram examinados. No total, 24 líderes e importantes colaboradores do regime nazista foram indiciados. Dos 22 réus efetivamente julgados, 12 foram condenados à morte por enforcamento, 7 foram condenados à prisão, e 3 foram absolvidos. Após a rendição do Japão, em setembro de 1945, as potências aliadas iniciaram na região do Pacífico os procedimentos para a punição dos crimes cometidos pelo Império japonês durante a guerra. O resultado foi a criação, em janeiro de 1946, do Tribunal Militar para o Extremo Oriente, mais conhecido como Tribunal de Tóquio. O julgamento iniciou-se em maio de 1946 e teve a duração de três anos e meio. O tribunal do Extremo Oriente recebeu muitas críticas durante o processo de julgamento e após o término dos trabalhos; foi acusado de espetacularizar as sessões e de servir para aliviar a culpa dos Estados Unidos pela detonação da bomba atômica no Japão. O veredito final, anunciado em novembro de 1948, declarou culpados os 25 comandantes militares japoneses levados à cadeira dos réus. Sete deles foram condenados à morte na forca, um deles, à pena de 20 anos, e os demais, à prisão perpétua. Os tribunais de Nuremberg e de Tóquio foram decisivos na construção do direito penal inter- nacional e pioneiros na responsabilização de governantes e funcionários do Estado por crimes cometidos no exercício da função. Até a Segunda Guerra Mundial, as atrocidades cometidas por indivíduos em conflitos militares e civis eram tratadas como custo inevitável das guerras. Além disso, não se separava o sujeito que praticava os crimes do Estado que ele representava. Com os tribunais de Nuremberg e de Tóquio, pela primeira vez governantes, oficiais militares e colabo- radores civis acusados de crimes de guerra ou de violação dos Direitos Humanos fundamentais foram responsabilizados individualmente, julgados e condenados. Os dois tribunais demoliram o argumento, reiteradamente apresentado pela defesa, de que os réus agiram em nome do Estado, seguindo suas ordens e protegendo os interesses dele. R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 101 A criação da ONU e a defesa dos Direitos Humanos O rastro de horror deixado pela Segunda Guerra Mundial despertou na comunidade internacional o sentimento de que era necessário construir um organismo capaz de ga- rantir a paz entre as nações e proteger as populações de atos contra os Direitos Humanos fundamentais. A ideia não era nova; ela esteve presente na criação da Liga das Nações, organismo internacional fundado pelas potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial. Porém, como a Liga das Nações havia fracassado em evitar a Segunda Guerra Mundial, os países aliados voltaram a discutir, durante as principais conferências e em outros encontros, a importância de constituir uma entidade internacional mais poderosa e representativa. O resultado de várias negociações foi a Carta das Nações Unidas, documento ela- borado por representantes de 50 países presentes na Conferência sobre Organização Internacional, realizada na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, entre abril e junho de 1945. Em 24 de outubro daquele ano, o documento fundador da Organização das Nações Unidas foi ratificado por Estados Unidos, China, Grã-Bretanha, União Soviética e França, e a data foi adotada como a do nascimento oficial da ONU. Ratificar: validar; confirmar. Lei Maria da Penha: lei brasileira voltada para o tratamento dos casos de violência contra a mulher. Estatuto da Criança e do Adoles- cente: lei brasileira voltada para a proteção integral de crianças e adolescentes. M IZ O U LA /I S TO C K /G E TT Y IM A G E S Sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, com as bandeiras de alguns Estados-membros hasteadas na fachada do edifício. Foto de 2016. A ONU é regida por uma série de princípios e objetivos que devem ser respeitados por todos os países-membros. Os objetivos principais da organização são: • manter a paz e a segurança internacionais; • promover relações amistosas entre as nações; • impulsionar a cooperação entre as nações para resolver os problemas mundiais de caráter econômico, social, cultural e humanitário, promovendo o respeito aos Direitos Humanos e às liberdades fundamentais; • ser um centro destinado a harmonizar a ação dos povos para a execução desses ob- jetivos comuns. A Declaração Universal dos Direitos Humanos Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a criação da Organização das Nações Uni- das, em 1945, a ideia de direitos humanos conquistou o caráter abrangente, universal e inalienável que conhecemos hoje. O documento que se transformou em símbolo dessa mudança foi a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em Paris, em 10 de dezembro de 1948. A DUDH estabeleceu pela primeira vez a obrigação dos Estados-membros da entidade de pro- mover a proteção universal e efetiva dos Direitos Humanos. Após sua promulgação, uma série de documentos foi elaborada para efetivar e expandir os direitos garantidos na Declaração dos Direitos Humanos, influenciando diretamente na formulação de leis em diversos países. No Brasil, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres, de 1979, foi a base legal e reivindicatória do movimento feminista para a proposição do projeto que resultou na aprovação da Lei Maria da Penha (Lei no 11.340), em 2006. Já a Convenção sobre os Direitos da Criança, de 1989, orientou a elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em nosso país, em 1992. Para navegar Declaração Universal dos Direitos Humanos Disponível em <https:// www.ohchr.org/EN/ UDHR/Pages/Language. aspx?LangID=por>. Acesso em 4 ago. 2020. Esse documento da ONU já foi traduzido para mais de 500 línguas e o arquivo com a versão em português pode ser acessado no site oficial das Nações Unidas. 102 R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . https://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=por https://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=porhttps://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=por https://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=por (BNCC) Competências específicas: 1, 5 e 6 Habilidades: EM13CHS103 EM13CHS502 EM13CHS503 EM13CHS504 EM13CHS604 EM13CHS605 Imagine... • Imagine que você tenha sido convidado para participar de uma atividade promovida pela ONU voltada para jovens de todo o mundo. Nesse encontro, os jovens proferirão um discurso analisando a situação dos Direitos Humanos em seus países e apontando ações que ajudem em sua promoção e difusão. Como seria o seu discurso? Como você avalia a situação dos Direitos Humanos no Brasil? Esses direitos têm sido garantidos? Quais são ainda nossos desafios e como podemos superá-los? Redija um discurso com sua análise sobre a situação dos Direitos Humanos no Brasil e sobre possíveis ações voltadas para sua promoção e sua difusão na sociedade brasileira. A Declaração dos Direitos Humanos representou um avanço no estabelecimento de direitos e na difusão de valores liberais e democráticos. Apesar de seu texto ter orientado a elaboração de leis e constituições em diversos países, ainda estamos distantes de ver todos eles efetiva- dos. Fatores como guerras, pobreza, perseguições religio- sas e políticas ainda são um entrave para a implementação efetiva deles. B R E N T LE W IS /T H E D E N V E R P O S T/ G E TT Y IM A G E S Os direitos humanos são uma importante bandeira de luta em todo o mundo. Na foto, Array Mohamad, de 12 anos, examina seu exemplar da autobiografia de Malala, a paquistanesa que, em 2002, foi vítima de um atentado por causa de sua defesa do direito das mulheres de frequentar escolas e ter acesso à educação. Colorado, Estados Unidos, 2015. Os direitos civis, nascidos das revoluções burguesas do século XVIII e influenciados pelas ideias iluministas, representaram uma mudança importante na relação dos homens com o Estado. Eles versam sobre as liberdades individuais, o direito de ir e vir, de propriedade privada, de livre pensamento, de liberdade religiosa e de justiça, e estão calçados nas noções de igualdade jurídica e de liberdade. Os direitos políticos, de acordo com Marshall, nasceram sob influência do movimento organizado de trabalhadores da Inglaterra, no final do século XIX. A atividade política, que durante séculos esteve restrita à elite, começou a ser transformada com a mobilização e a organização da classe trabalhadora. Diante da situação de exploração a que estavam sujeitos, os trabalhadores reconheceram que a participação política era um dos prin- cipais mecanismos na luta pela conquista ou ampliação de direitos. Por meio da organização de partidos e sindicatos, eles passaram a escolher seus dirigentes e representan- tes e a decidir coletivamente sobre suas demandas. Os direitos políticos, portanto, referem-se ao direito dos indivíduos de participar, direta ou indiretamente, no processo político, organizando-se em partidos, votando e candidatando-se, por exemplo. Os direitos sociais foram sendo consolidados e ex- pandidos ao longo do século XX. Eles se fundamentam na premissa de que os indivíduos precisam ter garanti- das condições mínimas de bem-estar, capazes de lhes assegurar uma vida digna e proporcionar as condições necessárias para usufruírem dos direitos civis e políticos existentes. A construção dos direitos sociais está dire- tamente relacionada à mobilização de diversos grupos que, ao longo do tempo, conseguiram transformar suas reivindicações em ações políticas e legislações. Podem ser considerados direitos sociais os direitos a educação, moradia, saúde, seguridade social, lazer, trabalho, segu- rança, alimentação, entre outros. No entanto, a consumação desses direitos ainda está distante. Nos Estados Unidos, por exemplo, a conquista dos direitos civis e políticos dos negros só ocorreu a partir de inúmeras lutas, e ainda hoje sua efetivação encontra barreiras. No Brasil, muitos direitos sociais garantidos por lei permanecem inacessíveis para uma enorme parcela da população, como o direito à moradia e à segurança. A construção de um país verdadeiramente democrá- tico e capaz de garantir a cidadania para sua população exige reflexão, debate, conhecimento e, sobretudo, ação. A consolidação de uma sociedade em que todos os indi- víduos possam exercer plenamente seus direitos e seus deveres é uma responsabilidade do Estado e, também, de todos nós. Os direitos civis, políticos e sociais Ao estudar sobre o processo histórico de construção da cidadania na Inglaterra, o sociólogo inglês T. H. Marshall (1893-1981) propôs a divisão dos direitos em três cate- gorias: civis, políticos e sociais. Apesar de seu modelo interpretativo não ser universal, já que nem todas as socie- dades o alcançaram da mesma forma, ele é um importante referencial para nossa compreensão de como os direitos são pensados na atualidade. R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 103 Para assistir A história dos Direitos Humanos Disponível em <https:// www.youtube.com/ watch?v=uCnIKEOtbfc& t=273s>. Acesso em 1o maio 2020. Produção: United Human Rights Duração: 9 min 30 s Vídeo sobre a história e a evolução dos Direitos Humanos, bem como sobre seus problemas de efetivação no mundo contemporâneo. Para ler Quarto de despejo: diário de uma favelada Autora: Carolina de Jesus. São Paulo: Editora Ática, 2007. O livro retrata o duro dia a dia de Carolina de Jesus, uma catadora de metal e lixo, que vive na favela do Canindé, em São Paulo. Falácia do equívoco A falácia do equívoco ocorre por causa da ambiguidade. As palavras ou frases utilizadas no argumento têm mais de um sentido no próprio argumento, causando confusão, pois o argumento pode parecer válido sem sê-lo. A maioria das palavras tem, em seu uso corrente ou na linguagem comum, vários significados ou sentidos. Por exemplo, “manga” pode designar tanto uma fruta quanto uma parte de uma camisa; “preciso” pode significar algo feito com rigor e precisão ou ser a declinação do verbo “precisar” na primeira pessoa do indicativo. A falácia do equívoco acontece quando essa ambiguidade está pre- sente na argumentação, por exemplo, utilizando a mesma palavra com sentidos diferentes em uma premissa e em uma conclusão. Nesses casos, pode-se chegar a afirmações absurdas. Veja o exemplo a seguir. “Os assassinos de crianças são desumanos. Portanto, os humanos não matam crianças.” Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Equívoco>. Acesso em 16 jul. 2020. Note que há um jogo com a palavra “humano”. Na primeira frase, ela tem sentido moral: não é moralmente aceitável que o ser humano mate crianças. Na segunda, essa palavra tem a significação biológica, de espécie humana. É a ambiguidade em relação ao termo que permite a falácia do equívoco. É comum nesse tipo de falácia a utilização de termos relativos que, conforme o contexto, possuem significados diferentes, como “alto”, “baixo”, “pequeno”, “grande”, “bom” e “mal”. Exercitar a argumentação • Analise os argumentos a seguir e explique como a falácia do equívoco pode ser percebida nos três casos. A1: “O fim de uma coisa é a sua perfeição; a morte é o fim da vida; logo, a morte é a perfeição da vida”. COPI, Irving M. Introdução à lógica. São Paulo: Mestre Jou, 1978. p. 91. A2: Uma pulga é um animal; logo, uma pulga grande é um animal grande. A3: Pablo é um bom cientista; deve ser uma boa pessoa. Aprender a argumentar Registre em seu caderno (BNCC) Competências específicas: 1, 4, 5 e 6; Habilidades: EM13CHS103 EM13CHS402 EM13CHS404 EM13CHS502 EM13CHS601 EM13CHS606 De olho no presente Educação, direito e cidadania “Uma série de indicadores educacionais da população preta ou parda apresentou trajetória de melhora entre 2016 e 2018. [...] Com vistas a ampliar e democratizar o acesso ao ensinosuperior, uma série de medidas foi adotada a partir dos anos 2000: na rede pública, a institucionalização do sistema de cotas, que reserva vagas a candidatos de determinados grupos popula- cionais, o Programa de Apoio a Planos de Reestrutu- ração e Expansão das Universidades Federais – Reuni e o Sistema de Seleção Unificada – SiSU; e, na rede privada, a expansão dos financiamentos estudantis, como o Fundo de Financiamento Estudantil – FIES e o Programa Universidade para Todos – Prouni. [...] Com a trajetória de melhora nos indicadores de adequação, atraso e abandono escolar, estudantes pretos ou pardos passaram a compor maioria nas instituições de ensino superior da rede pública do País (50,3%), em 2018.” IBGE. Desigualdades Sociais por cor ou raça no Brasil. In: Estudos e Pesquisas • Informação Demográfica e Socioeconômica. Rio de Janeiro, 2019, p. 7-9. Disponível em <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/ liv101681_informativo.pdf>. Acesso em 4 maio 2020. 1. Você é favorável às medidas tomadas pelo poder público para viabilizar o acesso ao ensino superior no Brasil a partir dos anos 2000? Explique seu posicionamento. 2. Qual é a importância de garantir o acesso ao ensino superior de pretos e pardos? 3. Por que podemos afirmar que esse dado é um marco da cidadania no Brasil? Registre em seu caderno 104 R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . https://www.youtube.com/watch?v=uCnIKEOtbfc&t=273s https://www.youtube.com/watch?v=uCnIKEOtbfc&t=273s https://www.youtube.com/watch?v=uCnIKEOtbfc&t=273s https://www.youtube.com/watch?v=uCnIKEOtbfc&t=273s https://pt.wikipedia.org/wiki/Equívoco https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101681_informativo.pdf https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101681_informativo.pdf Atividades (BNCC) Competências específicas: 5 e 6; Habilidades: EM13CHS502 EM13CHS504 EM13CHS605 Registre em seu caderno Doc. 1 A representação política em crise “Frequentemente se afirma que a representação política está passando por uma crise nos países ocidentais. Durante décadas, a representação parecia estar fundamentada em uma forte e estável relação de confiança entre o eleitorado e os partidos políticos [...]. Hoje, porém, o eleitorado tende a votar de modo diferente de uma eleição para a outra, e as pesquisas de opinião revelam que tem aumentado o número dos eleitores que não se identificam com par- tido algum. [...] No passado, os partidos propunham aos eleitores um programa político que se comprometiam a cumprir, caso chegassem ao poder. Hoje, a estratégia eleitoral dos candidatos e dos partidos repousa, em vez disso, na construção de imagens vagas que projetam a personalidade dos líderes. [...] Os políticos chegam ao poder por causa de suas aptidões e de sua experiência no uso dos meios de comunicação de massa, não porque estejam próximos ou se assemelhem aos seus eleitores. O abismo entre o governo e a sociedade, entre repre- sentantes e representados, parece estar aumentando.” MANIN, Bernard. As metamorfoses do governo representativo. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 10, n. 29, p. 1, 1995. Doc. 2 Cidadania e cultura “Se o Estado não é produtor de cultura nem instru- mento para seu consumo, que relação pode ele ter com ela? Pode concebê-la como um direito do cidadão e, portanto, assegurar o direito de acesso às obras cultu- rais produzidas, particularmente o direito de fruí-las, o direito de criar as obras, isto é, produzi-las, e o direito de participar das decisões sobre políticas culturais. Que significa o direito de produzir obras culturais? Se considerar-se a cultura como o conjunto das belas-artes, então se poderia supor que esse direito significaria, por exemplo, que está aberto a todos o direito de ser pintor. [...] Se, portanto, nem todos são pintores, mas pratica- mente todos amam as obras da pintura, não seria melhor que essas pessoas tivessem o direito de ver as obras dos artistas, fruí-las, serem levadas a elas? Não caberia ao Estado garantir o direito dos cidadãos de ter acesso à pintura – aos pintores garantir o direito de criá-la; aos não pintores, o direito de fruí-la? Ora, essas mesmas pessoas, que não são pintoras nem escultoras nem dançarinas, também são produtoras de cultura [...] autores da sua própria memória. Por que não oferecer condições para que possam criar formas de registro e preservação da sua memória, da qual são os sujeitos? [...] Finalmente o direito à participação nas decisões de política cultural é o direito dos cidadãos de intervir na definição de diretrizes culturais e dos orçamentos públicos, a fim de garantir tanto o acesso quanto a produção de cultura pelos cidadãos. Trata-se, pois, de uma política cultural definida pela ideia de cidadania cultural, em que a cultura não se reduz ao supérfluo, entretenimento, aos padrões do mer- cado, à oficialidade doutrinária (que é ideologia), mas se realiza como direito de todos os cidadãos, direito a partir do qual a divisão social das classes ou a luta de classes possa manifestar-se e ser trabalhada porque no exercício do direito à cultura, os cidadãos, como sujeitos sociais e políticos, se diferenciam, entram em conflito, comunicam e trocam suas experiências, recusam formas de cultura, criam outras e movem todo o processo cultural.” CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia. Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Buenos Aires, ano 1, n. 1, p. 53-76, jun. 2008. Compreender Doc. 1 1. A que fatores o autor atribuiu a crise de represen- tação política dos países ocidentais? 2. Quais são as principais diferenças nas formas de representação política no passado e no presente? 3. Quais são as consequências para a democracia do “abismo entre o governo e a sociedade”? Doc. 2 4. Como pode ser entendida a noção de cidadania cultural defendida pela autora do texto? 5. Por que é importante a população participar das decisões sobre a política cultural no país? Analisar Docs. 1 e 2 6. A efetivação dos direitos promulgados na Declara- ção Universal dos Direitos Humanos da ONU ainda encontra muitos obstáculos. Com base nessa infor- mação, forme dupla com um colega de classe e criem um quadro chamado “expectativa × realidade”. Após escolherem dois direitos contemplados na DUDH, utilizem fotos, desenhos ou colagens para ilustrar como vocês imaginam que esses direitos deveriam ser e como eles se manifestam na realidade. Retomar 7. Responda às questões-chave do início do capítulo. • Quais são os principais desafios das sociedades democráticas contemporâneas? O que é ser ci- dadão? Quais são os nossos direitos? R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 105 Laboratório de ciências humanas e sociais aplicadas