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Em 2019, foi registrado aumento de casos de violência policial na cidade do Rio de Janeiro (RJ), o que levou movimentos populares às ruas. Na foto, manifestantes saem em protesto à morte de uma criança de 8 anos, atingida por bala perdida em uma operação policial, em setembro de 2019. C r a l D e S o u z a /A F P Em um sistema internacional em que os Estados se mostram fortemente preo- cupados com a própria integridade territorial – uma das bases da segurança nacional –, essa polarização também serviu para qualificar o “outro”, definido sempre em contraposição ao que é considerado nacional, ou seja, “nosso”. Os discursos sobre a alteridade muitas vezes classificaram os de fora como “ami- gáveis” ou “ameaçadores”, o que direcionaria o comportamento do Estado-nação perante esse “outro”. A questão da segurança nacional foi influenciada por essa lógica, o que levou à distinção dos demais territórios e de sua correspondente população em próxi- mos ou distantes. Esses termos não são usados apenas em seu sentido físico; eles estabelecem, sobretudo, fronteiras sociais e simbólicas com base na origem geográfica das pessoas. Disso decorrem a naturalização e as justificativas de preconceitos e discri- minações, que se desdobram em mecanismos de inclusão ou exclusão. Em um mundo globalizado, marcado pela intensificação de fluxos migratórios interna- cionais, a persistência da distinção e da classificação do que é outro, diferente e distante intensifica e contribui para a hierarquização social fundamentada na origem geográfica, promove desigualdades econômicas e restringe o acesso aos direitos humanos e a garantia deles. Contudo, nem sempre o que é classificado pelo Estado como ameaçador está “fora” e é externo ao território nacional. Muitas vezes, o Estado elege ideais, grupos e movimentos sociais que não estão alinhados ao seu discurso e classifica-os de inimigos. Ao construir essa imagem, o Estado evoca a ideia de que esses grupos são antipatrióticos e devem ser combatidos pelo país como um todo. Isso muitas vezes justifica o uso da violência por parte dos aparelhos estatais contra a própria população, como foi o caso da perseguição aos judeus no contexto da Alemanha nazista (1933-1945). Outro exemplo é a ação estatal brasileira nas favelas, locais que, frequentemente identificados com o crime organizado, sofrem com a violência policial. segurança nacional interesse e atribuição do Estado-nação. Consiste em assegurar a segurança do território, da população, de seus interesses e modos de vida, bem como defender os interesses nacionais contra qualquer tipo de ameaça ou agressão, seja ela interna, seja externa. alteridade caracterização do que é distinto ou diferente, estabelecida por meio de uma base de contraste; por exemplo, eu versus outro. 25 V2_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a039_LA.indd 25V2_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a039_LA.indd 25 9/21/20 2:13 PM9/21/20 2:13 PM Também há guerras civis, grupos terroristas, paramilitares e separatistas que ameaçam a integridade territorial do Estado, mas defendem, por exemplo, a união cultural, linguística ou religiosa de seu povo. Essa ameaça não é necessa- riamente identificada com um Estado territorial, não sendo, por isso, alvo claro da ação militar internacional. Um exemplo é o Estado Islâmico, grupo fundamentalista criado no início dos anos 2000 e que pratica ações terroristas. O grupo tinha como reivindicação o es- tabelecimento de um califado nas regiões de maioria sunita no Iraque e na Síria. Nos territórios controlados pelo grupo, a população é obrigada a se converter ao islamismo, viver de acordo com a interpretação sunita da religião e seguir as leis da xaria, o direito islâmico que se baseia no Alcorão. Aqueles que se recusam a cumprir suas ordens são banidos, torturados e, muitas vezes, condenados à morte. O Estado Islâmico também disputa poder e territórios com outros grupos de ideo- logias divergentes, como os terroristas jihadistas, que promovem a luta armada contra os “infiéis” e a guerra santa para a expansão do islamismo. Esses grupos ocupam territórios na África, no Oriente Médio e na Ásia e têm células para recru- tamento de pessoas nos Estados Unidos e na Europa. Como estão territorialmente difusos, sua localização e seu combate por parte de Estados se tornam mais difí- ceis, pois atuam em áreas de soberania de diversos países. grupo paramilitar grupo armado e com estrutura semelhante à militar, mas que não faz parte das Forças Armadas. Geralmente, tem objetivos político- -partidários, religiosos ou ideológicos, e usa táticas militares para alcançá-los. califado representa a unidade e liderança política no mundo islâmico. Seu líder seria o sucessor da autoridade política de Maomé, criador do islamismo. sunita é o maior ramo do Islã. Os sunitas acreditam na unidade da comunidade islâmica, seguindo as práticas do profeta Maomé. Alcorão livro sagrado do Islã, que contém as palavras que Deus teria revelado a Maomé. Jihad é uma palavra que aparece no Alcorão e remente à ideia de “luta”, “esforço”. Designa o esforço interno do fiel para não cometer pecados e seguir as orientações do livro sagrado. O termo, porém, foi apropriado por grupos que adotam o princípio de que o esforço deve ultrapassar os muros da individualidade e que promovem ações para determinar o comportamento e a religiosidade de outros grupos sociais. OBSERVE QUE . . . Diante do exposto, vale questionar o significado de segurança. Que segurança interessa ao Estado? A resposta parece ser a própria segurança e integridade territorial, o que não significa segurança humana ou ecológica, por exemplo. É importante superar essa perspectiva e buscar a formação de territórios marca- dos pelo respeito às diferenças e pela democracia. TERRITORIAL IDADE DE GRUPOS TERRORISTAS J IHADISTAS (2015) 0° Tr óp ic o de Câ nc er M er id ia n o d e G re en w ic h Província Líbia Frente de Apoio ao Levante Cairo Bengasi Província Iêmen Al-Qaeda na Península Arábica Al-Shebab Sana Riad Áden Boko Haram Nova Délhi Mumbai Mogadíscio Mossul Aleppo Argel Tombuctu Abuja N'Djamena Niamei Iaundê Bagdá Islamabad Duchambe Cabul Al-Qaeda em guerra santa no subcontinente indiano Província Argélia Trípoli Túnis Al-Qaeda no Magreb islâmico Al-Mourabitoune e grupos associados Emirado Islâmico do Cáucaso Estado Islâmico Província Egito Província Arábia Saudita Al-Qaeda Central Beirute Damasco Telavive Amã NÍGER NIGÉRIA CHADE ARGÉLIA MALI TUNÍSIA LÍBIA EGITO ARÁBIA SAUDITA CAMARÕES AFEGANISTÃO TAJIQUISTÃO ÍNDIA CHINA IRAQUE IÊMEN RÚSSIA SÍRIA PAQUISTÃO SOMÁLIA LÍBANO ISRAEL PALESTINA JORDÂNIA OCEANO ÍNDICO OCEANO ATLÂNTICO Mar de Aral Mar Negro M ar Cáspio Golfo Pérsico M ar Verm elho Mar Mediterrâneo Mar do Norte Movimento do califado Movimento autônomo Movimento Al-Qaeda 0 690 km Diferentes grupos terroristas possuem territorialidades, isto é, controlam, usam e exercem poder no espaço geográfi co. Entretanto, sua territorialidade é difusa, fl exível e móvel, sem fronteiras defi nidas. A luta contra o terrorismo é um desafi o aos Estados territoriais justamente pela difi culdade de responder às questões: Onde exatamente está o território dos grupos terroristas? Quais localidades devem ser atacadas? Fonte: elaborado com base em LES TERRES de jihad en 2015 (selon Philippe Migaux). SciencesPo: Atelier de Cartographie. Paris, 2015. Disponível em: http://cartotheque.sciences-po.fr/media/Les_ terres_de_jihad_en_2015_selon_Philippe_Migaux/734/. Acesso em: 9 jun. 2020 E ri c s o n G u il h e rm e L u c ia n o /A rq u iv o d a e d it o ra 26 V2_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a039_LA.indd 26V2_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a039_LA.indd 26 9/21/20 2:13 PM9/21/20 2:13 PM