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QUESTÕES EM FOCO Moradia, trabalho e aprendizado As mudanças nas formas de produção e o desenvolvimento tecnológico têm impactos que vão muito além dos econômicos. Antes da Revolução Industrial, a habitação era também lugar de trabalho, tanto na zona rural quanto na urbana. Aprendizes moravam nas casas dos mestres para aprender seu ofício; negociantes montavam lojas em suas moradias; professores ensinavam na própria residência ou na dos alunos; camponeses lavravam a terra, teciam e fiavam no espaço doméstico, quase sempre em casas de propriedade dos senhorios; criados moravam nas casas de seus senhores; castelos da nobreza eram também o espaço da política. Isso mudou para a maior parte das pessoas nos séculos seguintes, dependendo dos processos de industrialização de cada país. Estaríamos nós, também, sujeitos a novas mudanças nas formas de morar, trabalhar e apren- der? Veja a pintura a seguir e, com um grupo de colegas, faça as atividades. os contratos de trabalho assalariado eram pessoais, e não familiares, como no cam- po. Casar ou não casar passou a ser uma escolha individual, e casavam-se os que tinham condições de pagar por uma moradia. A família extensa ou multigeracional começava a dar lugar à família nuclear. Mesmo com todas essas modificações, as pesquisas históricas, sociológicas e an- tropológicas evidenciam a formidável capacidade de resistência e adaptação da ins- tituição familiar. Ela se manteve, em diferentes concepções e composições, como a base das sociedades industriais. E continua se modificando e se adaptando até hoje. R e p ro d u ç ã o /J o h n n y v a n H a e ft e n G a ll e ry , L o n d re s , In g la te rr a A visita à fazenda, de Pieter Brueghel, o Jovem (c. 1564-1636), c. 1610 (óleo sobre madeira, de 41 cm 3 57 cm). O cenário dessa pintura é a casa de uma família de camponeses flamengos do fim do século XVI. É possível, pelo vestuário, que pessoas de outro grupo social estivessem visitando a habitação. Era costume em várias partes da Europa que famílias abastadas deixassem os filhos com amas de leite até cerca de 2 anos de idade. Para ser capaz de produzir leite, a camponesa precisava ter dado à luz no mesmo período. 1. Na imagem, identifiquem ações ou situações que retratem a habitação como lugar de trabalho e a com- posição dos membros da família. 2. Pesquisem as transformações por que passaram a moradia, o ambiente de trabalho e o ambiente de ins- trução das pessoas entre os séculos XIX e XX. Então, elaborem um resumo das características. 3. A situação representada na pintura é bastante diferente da vivida pela maioria das pessoas hoje. Porém, para muitos, local de moradia e de trabalho se misturam. Vocês conhecem casos assim? Entrevistem ao menos uma pessoa que esteja nessa situação e perguntem quais são os motivos disso e as condições de trabalho. 4. Com base nos relatos reunidos pelo grupo, escrevam uma reportagem que trate dos desafios, das dificul- dades e das vantagens de trabalhar em casa. 117 P4_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap5_106a129_LA.indd 117P4_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap5_106a129_LA.indd 117 8/31/20 11:38 AM8/31/20 11:38 AM PAPÉIS FAMILIARES: UM EXEMPLO AFRICANO Se o estudo diacrônico da família no Oci- dente nos permite compreender que ela pas- sou por grandes transformações, um olhar para organizações familiares de culturas não ocidentais nos revela uma diversidade ainda maior de famílias. No continente africano, por exemplo, há um verdadeiro mosaico étnico- -cultural, com sistemas familiares, matrimo- niais e de parentesco, mesmo após o aumen- to da influência ocidental na região. Tome-se como exemplo o povo igbo, ou ibo. Habitando o sudeste da atual Nigéria, por muito tempo cada aldeia ou vilarejo desse povo tinha sua própria chefia. Pela tradição dessa sociedade, as divisões de trabalho, as estruturas de poder político e as relações de parentesco eram definidas de acordo com a linhagem e com uma hierarquia etária. Em 1987, a antropóloga nigeriana Ifi Amadiume (1947-) publicou um estudo em que tentava explicar a perda de influência das mulheres na comunidade igbo de Nnobi, onde fazia sua pesquisa de campo. Para isso, anali- sou a sociedade igbo antes da dominação da re- gião pelos ingleses, no fim do século XIX. Nessa sociedade não havia um chefe ou rei com poder sobre todas as aldeias igbos. Os casamentos eram exogâmicos: uniam-se noivos de aldeias diferentes, e a esposa se mudava para a aldeia do marido, que podia ser poligâmico, ou seja, ser casado com mais de uma mulher. A casa do marido, a Obi, era um lugar exclusivamente masculino, onde ele recebia convidados para encontros e discussões. Entradas e muros especiais demarcavam o lugar de cada membro da família. Até mesmo as refeições, embora preparadas pelas mulheres, eram feitas separadamente: homens com homens e mulheres com mulheres e crianças. Também havia distinção na herança. Além das terras comunais para caça, pesca e coleta, cada chefe de família do sexo masculino tinha terras particulares para ati- vidades agrícolas. Essas terras deviam, a princípio, ser passadas de pai para filho. Nelas, homens e mulheres plantavam inhame, mas o produto era de propriedade exclusiva do chefe de família. No entanto, cada esposa liderava uma casa e sua prole, formando uma uni- dade economicamente autossuficiente. Os filhos do sexo masculino seriam inse- ridos na comunidade do marido quando crescessem, mas mantinham vínculos familiares apenas com os irmãos de mesma mãe, embora os demais também fossem seus parentes. Esse sistema é chamado de matrifocal. Além disso, as mulheres podiam cultivar alimentos específicos nas terras do marido, e o produ- to era de sua propriedade. Elas também participavam ativamente do comércio, em particular do comércio ambulante. Algumas acumulavam riquezas, transmi- tindo ensinamentos e bens às filhas mulheres. Quando uma mulher bem-sucedida não conseguia ter filhos, podia tomar ou- tra mulher em casamento, que trabalhava para ela e até concebia filhos que se- riam considerados herdeiros da “mulher-marido”. Não se tratava de uma relação homoafetiva, pois não envolvia atração sexual: o objetivo era aumentar o poder e o prestígio da mulher-marido e transmitir seu legado. Porém, quando a admi- nistração colonial britânica passou a negociar com chefes do sexo masculino e a impor o cristianismo, essas prerrogativas das mulheres foram combatidas. M ic h a e l G ra h a m -S te w a rt /B ri d g e m a n I m a g e s /F o to a re n a Família de Ovonramwen Nogbaisi (c. 1857-1914), também chamado Overami, o último obá do reino do Benin (na atual Nigéria, sem relação com o Benin atual), em imagem da primeira década do século XX. Com a ocupação da região pelos britânicos, Overami e sua família se exilaram em Calabar. A seu lado estão suas esposas, as rainhas Egbe (à esquerda) e Aighobahi (à direita); atrás, seus filhos, dois dos quais trajam roupas ocidentais. Meio sol amarelo ADICHIE, Chimamanda Ngozi. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. Um garoto pobre saído do campo para a cidade grande, uma mulher rica em busca de sua ancestralidade e um jornalista inglês apaixonado pela arte igbo narram uma história atravessada pelos dilemas de uma Nigéria recém- -independente e às voltas com uma guerra separatista. F I C A A D I C A 118 P4_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap5_106a129_LA.indd 118P4_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap5_106a129_LA.indd 118 8/31/20 11:38 AM8/31/20 11:38 AM