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Patrícia Luzia Cecatto do Prado Acadêmica da Universidade Paranaense – UNIPAR Rua Wenceslau Braz, 410 – Centro, Dois Vizinhos - PR, CEP: 85660-000 patycecatto@hotmail.com Samara Cecilia Bólico Strassburg Acadêmica da Universidade Paranaense – UNIPAR Av. Rio Grande do Sul, 1745 – Centro, Planalto – PR, CEP: 85750-000 PSICOPATIA E PRÁTICAS CRIMINOSAS: uma revisão sistemática da literatura PSYCHOPATHOLOGY AND CRIMINAL PRACTICES: a systematic review of literature PSICOPATIA E PRÁTICAS CRIMINOSAS Artigo de estudo teórico apresentado à disciplina de Trabalho de Conclusão do Curso para Universidade Paranaense como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em psicologia. Orientadora: Profª. Ms. Everline Bedin Camargo Francisco Beltrão 2018 PSICOPATIA E PRÁTICAS CRIMINOSAS: uma revisão sistemática da literatura PSYCHOPATHOLOGY AND CRIMINAL PRACTICES: a systematic review of literature PSICOPATIA E PRÁTICAS CRIMINOSAS Artigo de estudo teórico apresentado à disciplina de Trabalho de Conclusão do Curso para Universidade Paranaense como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em psicologia. Orientadora: Profª. Ms. Everline Bedin Camargo Francisco Beltrão 2018 1 Resumo A psicopatia é considerada como uma alteração em aspectos da personalidade. Esses indivíduos se destacam pela capacidade de não sentir empatia, ausência do sentimento de culpa e impulsividade, dificuldades em seguir regras sociais, não observância a consequências dos seus atos e não responsabilização por eles. Dessa forma apresentam um perfil com tendência a se envolver em práticas criminosas. O presente artigo, por meio de uma revisão teórica da literatura, tem por objetivo discutir a psicopatia, a fim de relacioná-la com a segunda variável. Apesar da escassez de estudos, devido à complexidade do assunto, a pesquisa obteve resultados conclusivos, pois como é apontado pelos autores, percebe-se a existência de personalidades psicopáticas que se destacam em seus crimes, como agressores sexuais, conjugais e homicidas. Palavras-Chave: psicopatia, psicopatas, práticas criminosas, psicologia forense. Abstract Psychopathy is considered as a change in aspects of personality. These individuals stand out because of their lack of empathy, guilt and impulsivity, difficulties in following social rules, not observing the consequences of their actions and not being responsible for them. In this way they present a profile with a tendency to involved in criminal practices. This article, through a theoretical review of the literature, aims to discuss psychopathy in order to relate it to the second variable. Despite the lack of studies, due to the complexity of the subject, the research obtained conclusive results, because as it is pointed out, it is possible to notice the existence of psychopathic personalities that stand out in their crimes, as sexual, marital and homicidal aggressors. Keywords: psychopathy, psychopaths, criminal practices, forensic psychology. 3 A psicologia forense ou psicologia jurídica, como também é conhecida por alguns pesquisadores, se caracteriza como uma interface entre a psicologia e o direito (GOMIDE, 2016) o psicólogo desta área deve buscar estudar o comportamento humano para aplicar os conhecimentos psicológicos ao sistema legal, de forma a auxiliá-lo em aspectos como psicopatia, inimputabilidade, avaliação de risco, danos pessoas e responsabilidade civil (HUSS, 2011). São muitas as atividades possíveis de serem realizadas pelos psicólogos forenses, uma das mais comumente realizadas são avaliações em casos de inimputabilidade, sendo que “essas avaliações são necessárias para determinar se os acusados exibiam aptidão mental suficiente no momento de seus crimes para serem responsabilizados por eles” (HUSS, 2011, p.25). A Psicologia do Crime é apresentada como uma das áreas de atuação dentro da psicologia forense, esta é entendida como a ciência que estuda os comportamentos de jovens e adultos infratores, aspectos de como o comportamento é adquirido, evocado, mantido e modificado. Além disso, “A psicologia criminal examina e avalia a prevenção, intervenção e estratégias de tratamento direcionadas a reduzir o comportamento criminoso e antissocial” (GOMIDE, 2016, p. 21). A preocupação da Psicologia Forense, mais especificamente dentro da Psicologia do Crime, envolve questões acerca do criminoso psicopata. Por ser um tema complexo e ainda envolto de questionamentos, reconhecer e avaliar esses indivíduos é um desafio para a área, devido não só as características específicas que eles apresentam, mas como também a falta de instrumentos para tal avaliação (DAVOGLIO & ARGIMON, 2010). A psicopatia é um assunto que vem ganhando destaque da mídia, pela capacidade desses sujeitos em fazer mal às outras pessoas, mesmo tendo total juízo da realidade, por isso é cada vez mais complexo de se conceituar, diagnosticar e tratar. Sabe-se que os psicopatas constituem uma porcentagem significativa da população atual, e grande parte apresentam violação das regras sociais, tornando-se criminosos, no entanto é interessante lembrar que muitos estão fora das prisões usando de sua habilidosa personalidade adaptativa e manipulativa para espalhar a devastação na 4 sociedade, passando por cima de quem for necessário, sem medir as consequências de seus atos (HARE, 2013). Entende-se a psicopatia como uma grave alteração da personalidade pelas características peculiares encontradas nesses sujeitos, sendo algumas delas, a falta de empatia, a ausência de culpa e impulsividade, ou seja, eles não possuem capacidade de prever as consequências dos seus atos ou de se sentir responsabilizados por eles, não se adaptando as regras socialmente impostas, por isso, apresentam tendência a desenvolver comportamentos antissociais e por assim, se envolver em práticas criminosas (MORANA; STONE; ABDALLA-FILHO, 2006). Apesar de serem reconhecidos por sua insensibilidade frente a outros e apresentar tendência a se envolver em práticas criminosas, é importante lembrar que, nem todos seguem esse padrão (GONÇALVES & SOEIRO, 2010). Neste sentido, buscar conhecer melhor o tema dentro da psicologia forense, através de um revisão da literatura acerca do tema, é importante para se conhecer os aspectos que constituem a personalidade desse sujeito e de que forma eles se apresentam, assim o estudo tem a proposta de agregar positivamente as pesquisas dentro da área forense e criminal, e também para conhecimento da sociedade. Além disso, dentro da área carcerária, o estudo é significativo com esse público para fins de identificação e maior atenção relativa a seus respectivos comportamentos, para que esses indivíduos não afetem os demais, além de alertar para o cuidado com o que eles apresentam, diante da grande probabilidade de reincidência que esse público registra. METODOLOGIA A presente pesquisa constitui-se como um estudo teórico-bibliográfico com três fases distintas: começando pela revisão sistemática de literatura, após uma avaliação crítica dos artigos e pôr fim a síntese dos resultados. A pesquisa é composta de artigos científicos e livros que falassem da psicopatia, desde o seu constructo à sua identificação e avaliação. Os artigos foram pesquisados nas bases de dados on-line Bireme, Scielo.org, Lilacs, utilizando-se de descritores como: psicopatia 5 e criminoso psicopata. No entanto, houve limitação da pesquisa a artigos nacionais ou que tivessem o texto traduzido para o português, bem como, posteriormente, com os trabalhos encontrados um processo de análise e elegibilidade foi realizado. Os artigos foram, inicialmente, selecionados por título, utilizando-se os trabalhos que referenciassem psicopatia principalmente no âmbito criminal. Emseguida, foi feita a leitura dos resumos dos artigos, nos quais, além das mesmas palavras-chaves devendo estar presentes no texto, procuramos relevância com a proposta do estudo, ou seja, trabalhos com estrutura metodológica apropriada e resultados que agregassem de alguma forma ao assunto desta pesquisa. Por último, foi realizada a leitura completas de seus conteúdos. Todos os artigos encontrados utilizaram de metodologia própria, seja ela de revisão bibliográfica ou pesquisa de campo, devido à escassez de pesquisas com resultados nessa área, não adotamos, como critério de exclusão, a metodologia dos trabalhos, dessa forma, os artigos encontrados foram explorados de forma a obter compreensão a respeito da Psicopatia, assim como, seu conceito, suas características e as consequências causadas por estes indivíduos na sociedade, principalmente nas situações envolvendo criminosos perigosos, levando em conta a metodologia adotada pelos artigos selecionados. ASPECTOS CONCEITUAIS DA PSICOPATIA As literaturas e estudos indicam que a psicopatia se apresenta como uma série de condutas, que são resultados de fatores biológicos e da personalidade, mas que também são influenciados por antecedentes familiares e acontecimentos do ambiente. Por isso, definir psicopatia é um trabalho complexo, pois esta foi alvo de inúmeras evoluções no meio científico e também de muitas suposições estabelecidas pelo senso comum. Em seu estudo, Gonçalves e Soeiro (2010), apresentam o estado da arte do conceito da psicopatia e explicam que Pinel (1809) foi o primeiro a introduzir o conceito de forma mais específica, chamou-o inicialmente de “mania sem delírio”, para aqueles 6 pacientes que tinham características de um quadro de mania, mas não apresentavam delírios ou problemas cognitivos. Os autores ainda apresentaram em seu estudo as contribuições de outros autores na construção do constructo e mostraram que apesar de discordarem em alguns pontos, observa-se um consenso entre os indicadores desse constructo. Como resultado, definem o conceito de psicopatia como um conjunto de características ou traços de personalidade, apresentadas pelos autores Ckeckley e Hare, podendo estas, estar presentes tanto em indivíduos criminosos como em indivíduos sem histórico criminal, que se inicia na infância, piorando na adolescência e persistindo na fase adulta (GONÇALVES & SOEIRO, 2010). Porém, são encontradas em várias pesquisas informações que como na tese de Evangelista (2015) foi Kraepelin (1904) que introduziu oficialmente o termo de “personalidade psicopática”, o autor encontrou um subgrupo de indivíduos que “se caracterizavam pela sua eloquência e charme, mas detentores de uma total ausência de moralidade ou lealdade para com os outros”, ressaltando que esses sujeitos teriam tendência a se envolver em vários tipos de fraudes, pois possuem vasto talento em manipulação. A autora conclui então que a psicopatia é um constructo que foi construído ao longo de décadas, baseado em pesquisas científicas e também em opiniões clínicas, por isso, a dificuldade em claramente defini-lo, mas possível de ser avaliado, com os instrumentos disponíveis para esse fim. Além disso, são inúmeros os estudos encontrados que apresentaram contribuições para a evolução do conceito e do diagnóstico da psicopatia, por exemplo, vários autores destacam em seus trabalhos, o estudo de Cleckley, como um dos pioneiros a apresentar as características desses indivíduos em seu mais famoso livro “The Mask of Sanity” (1941) no qual, apresentou o perfil da psicopatia, indicando traços marcantes da perturbação (GONÇALVES & SOEIRO, 2010; DAVOGLIO & ARGIMON, 2010), sendo eles, (1) Encanto superficial e boa inteligência; (2) Inexistência de alucinações ou de outras manifestações de pensamento irracional; (3) 7 Ausência de nervosismo ou de manifestações neuróticas; (4) Ser indigno de confiança; (5) Ser mentiroso e insincero; (6) Egocentrismo patológico e incapacidade para amar; (7) Pobreza geral nas principais relações afectivas; (8) Vida sexual impessoal, trivial e pouco integrada; (9) Ausência de sentimentos de culpa ou de vergonha; (10) Perda específica da intuição; (11) Incapacidade para seguir qualquer plano de vida; (12) Ameaças de suicídio raramente cumpridas; (13) Raciocínio pobre e incapacidade para aprender com a experiência; (14) Comportamento fantasioso e pouco recomendável com ou sem ingestão de bebidas alcoólicas; (15) Incapacidade para responder na generalidade das relações interpessoais; (16) Exibição de comportamentos anti-sociais sem escrúpulos aparentes (CLECKLEY, 1941, citado por GONÇALVES & SOEIRO, 2010, p. 229). Cleckley (1941/1976) destaca ainda, que para ele a principal característica do indivíduo psicopata seria a falta de resposta afetiva em relação às outras pessoas, o que daria então abertura para o envolvimento com comportamentos antissociais. O estudo deste autor foi a base para as mais recentes definições acerca do conceito de psicopatia, pois são critérios apresentados pelo autor que fizeram parte da base inicial das investigações desenvolvidas (GONÇALVES & SOEIRO, 2010). As contribuições do autor influenciaram na época, as definições existentes no DSM-III (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e a psicopatia acabou sendo limitada ao conceito de Transtorno de Personalidade antissocial, que entende como necessário, para seu diagnóstico, a presença obrigatória de crimes e delitos (DAVOGLIO & ARGIMON, 2010; SILVA, VASCONCELLOS, DAVOGLIO, GAUER, KOSSON, 2012). Os demais DSMs seguiram basicamente a mesma linha, apresentaram critérios para o diagnóstico que se assemelham muito das características propostas por Cleckley e Hare (SHINE, 2000). 8 Entretanto, apesar da confusão acerca de alguns sintomas entre psicopatia e Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA), conforme está apresentado no DSM-V (APA, 2013). Os critérios de transtorno de personalidade se limitam a avaliar apenas características comportamentais antissociais da psicopatia, deixando de observar questões afetivas e interpessoais de destaque nesses indivíduos (VASCONCELLOS, SILVA, DIAS, DAVÓGLIO, GAUER, 2014). Dessa forma, embora psicopatia, TPA e sociopatia compartilhem alguns sintomas, elas funcionaram segundo Shine (2000) como categorias sobrepostas e complementares. Com o objetivo de avançar nos estudos acerca da definição e do diagnóstico, no ano de 1976, Hare, Hart e Harpur com base nos estudos de Cleckley complementam seus critérios, apresentando novas características e deixando o conceito e o diagnóstico ainda mais complexo, envolvendo tanto aspectos interpessoais e afetivos da personalidade, como comportamentos de desvio social (DAVOGLIO & ARGIMON, 2010), e assim, [...] a Psicopatia ficou caracterizada pela presença de problemas de conduta na infância; inexistência de alucinações e delírios; ausência de manifestações neuróticas; impulsividade e ausência de autocontrole; irresponsabilidade; encantamento superficial, notável inteligência e loquacidade; egocentrismo patológico, autovalorização e arrogância; incapacidade de amar; grande pobreza de reações afetivas básicas; sexualidade impessoal e pouco integrada; falta de sentimento de culpa e vergonha. Além disso, a pessoa se apresenta como indigna de confiança; com falta de empatia nas relações interpessoais; faz manipulação do outro através de recursos enganosos; mente e não é sincero. Há perda específica da intuição; incapacidade para seguir qualquer plano de vida; conduta antissocial sem arrependimento aparente; ameaças não cumpridas de suicídio e incapacidade de 9 aprender com a própria experiência (GAUER & CATALDO NETO, 2003, apud DAVOGLIO & ARGIMON, 2010, p. 112). Sendo assim, Hare foi um importante autor a evoluir nos estudosiniciados por Cleckley (1941) e deu um passo adiante ao transformar as definições conceituais do autor em algo objetivo, possível de ser mensurado, quantificado e identificado, por meio de ferramentas estatísticas. Em seu livro Sem Consciência apresentou relatos de sua experiência com esses indivíduos, assim como exemplificou suas características, uma por uma, separando-os em primários e secundários, além disso, demostrou os cuidados a serem tomados por nós, profissionais da área ou não, ao encontrarmos pessoas com tais traços (HARE, 2013). Atualmente, dentro da psicologia forense a psicopatia é entendida como “[...] um grupo de traços ou alterações de conduta em sujeitos com tendência ativa do comportamento, tais como avidez por estímulos, delinquência juvenil, descontroles comportamentais, reincidência criminal, entre outros” (AMBIEL, 2006, p. 265). Sendo assim, é considerada como uma das mais graves alterações de personalidade, pois boa parte desses indivíduos é responsável por um grande número de crimes violentos. O autor, enfatiza em sua pesquisa a atenção que os profissionais devem ter ao lidar com esse público, pois são eles que possuem os maiores índices de reincidência encontrados. Os autores Cooke, Michie, Hart e Clark (2004) citado por Filho, Teixeira, Dias (2009), em seu estudo defendem há possibilidade de que determinados sintomas da psicopatia seriam a causa do aparecimento de condutas antissociais, por exemplo, os sintomas interpessoais de grandiosidade explicariam os psicopatas a desenvolverem atos criminosos sádicos, movidos pelo desejo de controle, sintomas como os de ausência de empatia e ansiedade resultam na dificuldade de se controlar os pensamentos violentos, e a impulsividade estaria relacionada ao fato do sujeito cometer atos criminosos sem ter total entendimento das consequências dos seus atos. Dessa forma, propondo que se pensasse se os comportamentos antissociais poderiam ser consequências da psicopatia e não sintomas. 10 Essa questão, atualmente, ainda não apresenta nenhum estudo concreto, entretanto segundo os autores, que posteriormente também influenciaram os trabalhos de Hare, McCord e McCord (1964, apud SOEIRO & GONÇALVES, 2010), a psicopatia estaria ligada a incapacidade de amar e a ausência de sentimento de culpa e essas características seriam a base do surgimento dos comportamentos antissociais apresentados por esses indivíduos. Os autores ainda destacaram algumas outras importantes características e definiram o psicopata como um indivíduo com personalidade desajustada, que é regulada por desejos primitivos e pela incansável busca por diferentes sensações. Com base nas características apresentadas por Hare (2013), ao longo de muitos anos de estudos, destacamos algumas delas do perfil emocional. Os psicopatas se apresentam como sujeitos eloquentes e superficiais, o que significa que eles podem apresentar uma conversa divertida e envolvente, são capazes de contar histórias improváveis, mas convincentes. Também, são egocêntricos e grandiosos, ou seja, possuem uma visão narcisista e extremamente vaidosa de si mesmos, se colocam como seres superiores, que vivem conforme as próprias regras. Além disso, características como a ausência de remorso ou culpa significa que eles não se preocupam nem um pouco com os efeitos de suas ações sobre os outros, e não veem o porquê de se preocupar, isso relaciona-se estreitamente com a sua falta de empatia, neste sentido Hare (2013) descreve, Os psicopatas, no entanto, apresentam uma falta generalizada de empatia. São indiferentes aos direitos e ao sofrimento de estranhos e também aos próprios familiares. Quando mantêm algum laço com a esposa e filhos, isso acontece apenas porque consideram os membros da própria família como um bem que lhes pertence, como aparelhos de som ou automóveis (HARE, 2013, p. 60). Complementando a descrição acima, os autores McCord e McCord (1964) ao apresentarem seis descritores para a então denominada Personalidade Psicopática e enfatizaram que as falhas nos 11 processos emocionais de sentimento de culpa e empatia se traduzem em uma forma peculiar de ver os outros, ou seja, tratando-os como objetos, que servem apenas de meio para se atingir um fim (EVANGELISTA, 2015, p. 24). Também, os aspectos como mentir, enganar e manipular são talentos naturais desses indivíduos, eles dificilmente ficam constrangidos quando pegos em suas mentiram, apenas mudam a história, mostrando-se consistentes em suas mentiras (HARE, 2013). Em seu estudo sobre as expressões faciais e emoções emitidas por indivíduos psicopatas os autores Vasconcellos et al (2014) consideram implausível que esse público seja incapaz de reconhecer e compreender as emoções alheias, incluindo é claro a alta capacidade de manipulação que possuem. Além disso, concluíram, através da análise dos métodos e dos resultados dos estudos, que foi possível identificar fatores que podem estar relacionados à ausência de identificação em um mesmo ponto, quanto às emoções específicas que psicopatas teriam dificuldade de reconhecer. Muitos dos resultados sugerem indícios de déficits maiores no emocional de indivíduos psicopatas ou com traços de psicopatia, indicando que esses déficits não estão restritos apenas às emoções de medo e tristeza. Agora, sobre os aspectos comportamentais, alguns autores os apresentam como impulsivos, ou seja, além de não pensarem nas consequências de seus atos, dificilmente se preocupam com o futuro. Também se ofendem facilmente, se mostrando agressivos, manifestando, por vezes, explosões de raiva sem grandes motivos, isso devido a sua pouca capacidade de controle de comportamentos. Além disso, necessitam estar sempre “em alta velocidade”, viver no limite, gostam da adrenalina, alguns criminosos até contam que cometer crimes é um “barato”. Outro importante aspecto é que geralmente esses indivíduos apresentam problemas precoces de comportamento, é comum apresentarem “mentiras persistentes, fraudes, roubos, [...] vandalismo, violência, bullying, fuga e sexualidade precoce” (HARE, 2013. p. 79), eles geralmente têm experiências sexuais entre 10 ou 12 anos. Um fato interessante sobre o perfil desses indivíduos, refere-se as diferenças entre gêneros, as pesquisas apontam que não há diferenças significativas, os autores, mostraram demais dados de 12 pesquisas realizadas em homens e mulheres, ressaltando que há peculiaridades entre os gêneros que apresentam psicopatia, mas essas diferenças estão relacionadas a incidência, comportamentos e com idade de manifestação. No que se refere a incidência e prevalência do transtorno nas mulheres em comparação com os homens, esse número é menor, não sendo nem metade do público feminino com esse diagnóstico quando comparado com a incidência em públicos do gênero masculino (GOMES & ALMEIDA, 2010). Porém, encontram-se se dados que demostram diferenças no que se refere a violência cometida entre os gêneros, crimes violentos são menores entre o público feminino, pois no que se refere a atos violentos a insensibilidade emocional o sexo masculino apresentou destaque (GOMES & ALMEIDA, 2010). Diante disso, é importante ressaltar, como é apontado por Araújo (2011), que a psicopatia apresenta níveis variados de gravidade, podendo ser leve, moderado ou grave, permitindo então que as características transtorno se manifestem de formas variadas, neste sentido, nem todos os sujeitos psicopatas irão apresentar as mesmas características e muito menos em graus iguais, como Babiak e Hare (2006 citado por EVANGELISTA, 2015) afirmaram em seus estudos, a existência de psicopatas “bem-sucedidos” principalmente no meio empresarial, que haja uma prevalência de 3,5%, no entanto é ainda mais difícil de identificá-los, uma vez que o meio é favorável para suas características, e ele é visivelmente capaz de usá-las a seu favor. AVALIAÇÃODA PSICOPATIA NO TRABALHO DO PSICÓLOGO O trabalho dos psicólogos forenses com esses indivíduos é complexo, as dificuldades são encontradas desde à avaliação, como identificá-los e reconhecer os traços de psicopatia, até o tratamento. Arton e Toni (2014) em seu estudo, entrevistaram psicólogos da área que já tiveram em algum momento contato com esses indivíduos, e concluíram através de suas falas, que é necessário um amplo conhecimento a respeito dos instrumentos que serão utilizados, da PCL- R por exemplo, como também estudos acerca do psiquismo. Além disso, um dos participantes destacou que o trabalho não pode se limitar apenas as avaliações e dados obtidos com o indivíduo, pois é um 13 trabalho extenso, que exige do profissional responsabilidades, sendo necessário que este busque outras fontes, para coletar dados, que convivem ou conviveram com o indivíduo, a fim de obter informações mais concretas, pois é necessário encontrar critérios exatamente da forma como as pesquisas os relataram. Os pesquisadores Kosson, Steuerwald, Forth e Kirkhart (1997) explicam que é mais difícil e complexo avaliar e mensurar a dimensão interpessoal e afetiva do que a dimensão comportamental, pois traços interpessoais exigem maior habilidade do avaliador (SILVA et al, 2012). É importante ressaltar que esses sujeitos são extremamente manipuladores, portanto, é comum que tentem controlar a entrevista, simulando e dissimulando respostas e reações, a fim de “burlar” o processo de avaliação psicológica, por isso, destaca-se a importância da observação atenta do comportamento desses indivíduos desde o momento que entram na sala de exame (MORANA, STONE e ABDALLA-FILHO, 2006). Os autores, Filho, Teixeira e Dias (2009) concluíram em sua pesquisa que embora a dificuldade de limitação quanto a definição do conceito do constructo, a psicopatia pode ser avaliada por instrumentos psicométricos. Atualmente, os instrumentos têm sido de grande auxílio para o avanço das pesquisas, possibilitando relaciona-los com outras variáveis aprofundando assim os conhecimentos científicos, neste sentido, A criação de instrumentos de avaliação de psicopatia trouxe avanços para a área, pois exigiu que os pesquisadores estabelecessem critérios operacionais para definir o construto. Além disso, o uso de instrumentos possibilitou que a estrutura do construto fosse analisada através de técnicas estatísticas como análises fatoriais exploratórias e confirmatórias (FILHO, TEIXEIRA, DIAS, 2009, p.339). Neste sentido o instrumento que está adaptado e validado para a utilização no Brasil, é o do autor Robert Hare, que ao avançar em seus estudos criou uma ferramenta que ajudasse na identificação desses indivíduos, a Escala Hare PCL - R: Critérios para a pontuação de psicopatia, 14 que foi adaptada para o Brasil por Hilda Morana. Em sua tese de doutorado de psiquiatria a autora buscou identificar o ponto de corte para a versão brasileira, e assim entender a partir de qual pontuação o sujeito poderia ser considerado como psicopata (AMBIEL, 2006). Dessa forma o PCL - R “é o primeiro exame padronizado exclusivo para o uso no sistema penal do Brasil, pretende avaliar a personalidade do preso e prever a reincidência criminal, buscando separar os bandidos comuns dos psicopatas” (AMBIEL, 2006, p. 265). Neste sentido, a autora, em sua tese apresenta que não é o tipo do crime que vai definir a probabilidade da reincidência, mas a personalidade do criminoso, e por isso a importância da utilização de instrumentos para a identificação da personalidade dos sujeitos encarcerados (MORANA. 2003). Entretanto, Hare (2013) alerta que a escala corresponde a um instrumento complexo e que exige um amplo estudo por parte do aplicador, além de ser necessário um treinamento para que se esteja apto para realizar um diagnóstico preciso, e chama a atenção para o fato de a psicopatia corresponder a um conjunto de sintomas, e que sendo assim, não devem ser trabalhados de forma separada. A escala então é constituída por vinte características referentes aos aspectos encontrados na psicopatia e utiliza-se de uma pontuação para cada sintoma, determinando assim, um escore total mínimo a ser atingido para configurar a psicopatia do indivíduo. Porém, mais adiante ela foi aprimorada pelo próprio Hare, tornando-se o meio mais utilizado para o diagnóstico de psicopatia (OLIVEIRA, 2011). O PCL-R é, então, uma lista de 20 sintomas e requer um julgamento clínico de um especialista para pontuar cada um. Cada termo é avaliado em uma escala de 3 pontos, variando de 0 a 2. Um escore de 0 indica a ausência de um sintoma, 1 indica a possível presença de um item e 2 é pontuado se o sintoma for apresentado sem dúvidas pelo examinado. Se o sujeito marca 30 pontos ou mais, já é considerado psicopata. Além disso, Hare dividiu os elementos em dois fatores: o 15 Fator 1 possui 8 itens, e é rotulado como o fator interpessoal/afetivos porque é composto de itens que, em grande parte, se relacionam ao comportamento interpessoal e à expressão emocional. Já o Fator 2 é o fator do estilo de vida socialmente desviante/antissocial, com itens baseados no comportamento (OLIVEIRA, 2011, p. 6-7). Neste sentido, atualmente o PCL-R tem como objetivo diferenciar os psicopatas dos não psicopatas, a fim de identificar os sujeitos que apresentam maior probabilidade de reincidência criminal, constituindo-se como, além de um instrumento para o diagnóstico que ajuda na tomada de decisão sobre o processo do condenado no sistema, mas que também possibilita a separação desses indivíduos dos demais que não apresentam tais condições de forma a não prejudicar a reabilitação dos criminosos tidos como comuns (AMBIEL, 2006). Entretanto, os autores em sua pesquisa, explicaram que os psicopatas possuem a capacidade de despertar reações no entrevistador, que muitas vezes são imperceptíveis por ele no momento da entrevista, reações como “ansiedade (medo/preocupação), raiva, ou até mesmo desconcentração com a narrativa envolvente do paciente”, isso acontece porque as características interpessoais dos sujeitos se manifestam e é direcionada ao avaliador, por isso a avaliação exige um grau maior de dedução do próprio avaliador, podendo ser facilmente afetada pela subjetiva deste (SILVA, et al, 2012). Dessa forma, os autores Davoglio, Gauer, Vasconcellos, Lühring (2011) apontam para a importância de se observar os comportamentos que esses indivíduos apresentam durante o processo de avaliação, os autores então em seu estudo realizaram a observação direta do comportamento interpessoal e demostraram como é importante para a descrição e diagnóstico da personalidade psicopática. Sendo assim, utilização como ferramenta complementar a Medida Interpessoal de Psicopatia (Interpersonal Measure of Psychopathy - IM-P), este constitui-se como um instrumento psicométrico, ainda em fase de testes no Brasil, que é composto por 21 itens, desenvolvido por Kosson (1993), para ser utilizado como complemento de outras escalas de avaliação da psicopatia, 16 neste caso com a PCL-YV. Este instrumento, tem seu foco, especificamente, nos comportamentos interpessoais e aspectos não verbais que aparecem na interação entre o entrevistador com indivíduos que apresentam características psicopáticas. Os autores realizaram uma pesquisa com adolescentes infratores que se encontravam sob medidas socioeducativas, e privação de liberdade, obtendo resultados satisfatórios, bom grau de concordância inter avaliadores entre a maioria dos itens, e sendo assim, a escala se mostrou confiável. Além disso, uma característica importante na aplicação de instrumento, refere-se ao fato de que o avaliador deste não pode ser o mesmo que aplica a entrevista ou a outra escala, necessita então de um avaliador exclusivo que mantenha sua atenção exatamente nos itens da escala e não seja afetadopelo comportamentos de manipulação que podem ser manifestados pelo indivíduo psicopata (DAVOGLIO, et al, 2011). Dada a complexidade do assunto Abdalla-Filho (2004) explica que a avaliação se deve basear em aspectos da história de vida do sujeito, sem perder a objetividade dos instrumentos padronizados. O autor sugere um equilíbrio entre as duas vertentes, clínica e técnica, de forma que uma complemente a outra. PRÁTICAS CRIMINOSAS E PSICOPATIA Embora nem todos os psicopatas sejam criminosos e nem todos os criminosos sejam psicopatas, é muito comum que em algum momento de sua vida alguns deles entrem em conflito com a sociedade, sendo assim, suas atividades criminosas são muito variadas, vão desde pequenos furtos e roubos maiores à assassinatos, crimes, espionagem e terrorismo. Dessa forma, eles são responsáveis por crimes muito superiores quando relacionados a média de outros infratores, e correspondem por mais de 50% dos crimes graves cometidos (HARE, 2013). Além disso, outros autores também afirmam que a psicopatia tem sido um dos mais fortes, se não o mais forte, dos preditores da violência em diferentes públicos, entre os quais estariam os abusadores sexuais, agressores criminais gerais, além de entre os consumidores de substâncias e 17 pacientes psiquiátricos, em diferentes países (HUSS & LANGHINRICHSEN-ROHLING, 2006 apud MARTINS, 2013). Neste sentido, Babiak e Hare (2006 citado por Evangelista, 2015, p. 26) afirmam que, “os crimes cometidos por indivíduos psicopatas são tendencialmente mais violentos do que os cometidos por indivíduos não psicopatas, o seu comportamento em geral é controlador, agressivo, ameaçador e abusivo”. Os autores ainda explicam de que forma os crimes cometidos por eles se apresentam, ou seja, As agressões perpetradas por eles tendem a ter uma natureza predatória, fria e calculista, desprovida da intensidade emocional, que estaria associada às circunstâncias, para a maioria das pessoas. Exercem violência instrumental, ou seja, apenas como um meio para atingir os seus objetivos, ignorando o sofrimento que causam. São indivíduos com uma elevada taxa de reincidência, sendo que, os autores estimam que a taxa de prevalência da patologia, na população mundial seja de apenas 1%, no entanto, são responsáveis por pelo menos metade da criminalidade violenta e reincidente na américa do norte (BABIAK e HARE, 2006 apud EVANGELISTA, 2015, p.26). Dessa forma, apresenta-se a violência sexual como um bom exemplo de violência por parte dos psicopatas, por ser geralmente um crime frio e egoísta, isso não quer dizer que todos os abusadores sejam psicopatas, alguns se apresentam como indivíduos perturbados, com inúmeros problemas psiquiátricos e psicológicos. Entretanto, é muito provável que pelo menos metade dos estupradores reincidentes sejam psicopatas, “seus atos resultam de uma combinação potente: expressão desinibida dos desejos e fantasias sexuais, anseio por poder e controle e percepção de que as de as vítimas são objetos de prazer ou satisfação” (HARE, 2013, p. 105). Para além dos estupradores, estão os assassinos em série conhecidos pelo termo serial killer, se relacionam com muitos aspectos apresentados na psicopatia, por exemplo, em um estudo 18 realizado por Stone, 85,6% dos serial killer, preencheram boa parte dos critérios da escala PCL-R de Hare, no estudo ainda evidenciou-se, como um adicional, a presença do Transtorno de personalidade sádica em 87, 5% dos homens (MORANA, STONE, ABDALLA-FILHO, 2006), no estudo os autores entendem como serial killer, homens que cometeram três ou mais homicídios sexuais em sequência, separados por diferentes intervalos de tempo, este tipo de crime está associado a vários fatores, sendo eles, biológicos, psicológicos e sociológicos. Ainda, segundo os autores Hazelwood e Michaud (2006) citados por Morana, Stone e Abdalla-filho (2006), a maioria dos serial killer revela-se psicopata, pois muitos deles mostram habilidades em enganar suas vítimas, apresentando o aspecto de serem sujeitos confiáveis, para levá-las a locais onde elas não encontrem recursos para se defenderem. E quando presos, estes possuem ampla capacidade de manipulação não só sobre outros colegas encarcerados, mas como de funcionários e profissionais da saúde, fazendo-os acreditar que mudou e que estariam prontos a reiniciarem a vida em sociedade, quando esse erro é cometido, eles voltam e continuam a fazer mais e novas vítimas, sobre isso a literatura está repleta de exemplos. Da mesma forma, como é apresentado por Hare (2013), este descreve em seu livro, o caso de Ted Bundy, um serial killer muito famoso nos EUA responsável por uma série de assassinatos brutais de jovens mulheres. Ele convencia as vítimas a entrarem em seu carro para levá-las ao local no qual iria matá-las, e ele mesmo confessou ter aperfeiçoado sua técnica ao longo dos anos. Para certa situação Ted Bundy comprou um par de muletas e montou uma farsa com gesso na perna, assim, pedia ajuda a alguma jovem que estava passando, e está prontamente ajudava o homem de perna quebrada, e ele sempre variava suas estratégias, pedia então que elas o ajudassem a chegar no carro, era definitivamente uma manobra genial, ocasionalmente a manobra falhava, mas Ann Rule, na maioria das vezes funcionava muito bem. Um fato curioso sobre eles refere-se ao que Casoy (2004) apresentou, a existência de dois tipos de assassinos em série, sendo possível dividi-los conforme suas práticas, o primeiro seria aquele que é organizado, pois prepara cuidadosamente a cena do crime, não deixando vestígio 19 algum que possa ligá-lo ao crime, funciona como um jogo, sendo difícil a identificação do autor dos crimes. O segundo são assassinos desorganizados, impulsivos e descuidados, não se preocupam com os erros e rastros deixados que possam ligá-los ao crime cometido, não se atentam em acompanhar investigações dos seus crimes. Em outros estudos encontrados, como o de Martins (2013), esta realizou uma pesquisa com agressores conjugais encarcerados, a fim de encontrar a correlação entre eles a psicopatia. Sobre isso, em seu livro Sem Consciência, Hare (2013, p. 105) apresenta o psicopata enquanto agressor conjugal, e “embora as causas e a dinâmica do espancamento de mulheres sejam complexas e envolvam uma miríade de fatores econômicos, sociais e psicológicos, há certas evidências de que os psicopatas constituem uma proporção significativa desses espancadores reincidentes”. Neste sentido, o autor realizou ainda um estudo com amostra de homens que estavam participando, de forma voluntária ou por ordem judicial, de um programa de tratamento para agressores de esposas. Ele, juntamente com seus alunos aplicaram a Psychopathy checklist, e o resultado foi interessante, mostrou que 25% deles apresentavam a psicopatia, porcentagem essa que se aproxima à encontradas em prisões. E em sua pesquisa Martins (2013), apresenta a forma que Garrido (2005) refere-se a essa provável ligação, reconhecendo possíveis atitudes e comportamentos frequentes dessa classe, tais como, [...] desapego relativo aos filhos ou uma educação muito punitiva, exigências irracionais, conduta errática, palavras ou ações violentas, utilização de mentira, abuso de álcool e drogas, regra geral é um parasita que vive dependente da mulher e familiares, mantém relações interpessoais superficiais e manipulador, com capacidade de levar a companheira a situações limite (GARRIDO, 2005 apud MARTINS, 2013). 20 Ao longo de sua pesquisa, em sua revisão da literatura a autora apresenta muitos estudos realizados ao longo dos anos com indivíduos com histórico de agressão a mulheres, entre eles, o de Echeburúa e Fernández-Montalvo (2007) citados por Martins (2013) que aplicaram um estudo com 162 reclusos espanhóis, que era acusado de violência conjugal, na tentativa de traçar um perfildo agressor psicopático, os autores obtiveram como resultado que, 12% do total da amostra se revelaram psicopatas, ou apresentavam traços, e ao comparam com o perfil do restante dos participantes, concluem que estes agressores são mais novos e impulsivos, menos empáticos e com baixa autoestima. E em seu estudo, realizado com uma amostra de 11 participantes, reclusos masculinos de Montijo e Lisboa, acusados de agressão conjugal e adicionais crimes, sendo que mais da metade afirmaram ter sido vítima de atos abusivos e uma infância violenta, no entanto apenas um deles atingiu a classificação “moderada” na escala PCL-SV, e os demais tiveram uma pontuação muito baixa. Apesar disso, três sujeitos descreveram não sentir remorsos pelas suas atitudes, e 4 deles também reconheceram seus atos como impulsivos. Entretanto, devido à exígua amostra, a autora não conseguiu inferir e geral conclusões em relação a hipótese de seu estudo (MARTINS, 2013). Em demais estudos, como na tese de Serafim (2005), este buscou encontrar relação entre a impulsividade e ansiedade nos homicidas psicopatas em comparação aos demais homicidas. Dos 105 sujeitos, 38 faziam parte do grupo de homicidas psicopatas, a maioria tinham o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Antissocial, e pela escala PCL-R de Hare (1991), dos 38, 35 preencheram as características de psicopatia e apenas estes foram incluídos na amostra, e os demais foram divididos em grupos, sendo eles, homicidas não psicopatas e o grupo controle. Como resultado o autor obteve que, homicidas psicopatas apresentam as médias mais baixas no aspecto ansiedade em relação aos não psicopatas, isso indicaria uma redução de preocupação antecipatória e de medo, comparado aos outros homicidas. Além disso, ainda podemos destacar mais resultados importantes, como, os homicidas não psicopatas reconheceram que cometeram atos violentos, que agiram por impulso e não conseguiram parar a conduta violenta, da mesma forma 21 que demonstram arrependimentos, não só pela agressão, mas por estragarem as suas vidas e a de seus familiares, e geralmente as vítimas eram conhecidas dos agressores. Enquanto em homicidas psicopatas, esses dificilmente conheciam suas vítimas, seus crimes eram destacados com características do tipo, brutalidade e crueldade. Nos 35 indivíduos que obtinham o diagnóstico de psicopatia, o autor constatou aspectos de comportamento violento, com a presença de sadismo, violência gratuita, ou seja, aquela sem explicação, além da indiferença emocional e grande tendência em responsabilizar suas vítimas, por fim, a intensa busca por novidades. Essas características se relacionam com aquelas apresentadas por Hare (2013) e Cleckley (1941), (SERAFIM, 2005). Com base nos seus resultados, o autor afirma que “indivíduos que apresentam acentuação ou redução de determinados traços de personalidade possivelmente se apresentem com maior risco à expressão de condutas criminosas, observação esta que corrobora as concepções de Hart e Hare (1996)” (SERAFIM, 2005, p. 99). Diante do que foi apresentado, ainda é possível citar o estudo Morana (2003) apresentou além do ponto de corte da escala PCL-R para utilização no Brasil, como verificou que psicopatas cometem todos os tipos de crimes e os não psicopatas é que tendem a se limitar mais em algum tipo específico, tais como homicídio ou estupro. Neste sentido, o autor Gonçalves (1999) confirma a hipótese apresentada pelo outro autor, ao descrever que, embora os psicopatas tenham a tendência em serem violentos e não apresentarem remorso ou culpa, isso não significa que eles se limitam a um tipo único de crime, e pelo contrário, apresentam-se como versáteis e aproveitam as oportunidades que lhes aparecem. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente artigo teve como objetivo entender e compreender por meio do levantamento bibliográfico dos principais artigos encontrados, se há relação entre o transtorno de psicopatia e práticas criminosas, verificando em quais principais práticas as características encontradas nesses 22 indivíduos aparecem com maior frequência. Para tanto, este estudo procurou inicialmente evidenciar qual é o estado atual de conhecimento sobre o tema, indicando as evidências apresentadas pelas pesquisas, sendo elas de caráter bibliográfico e empírico, assim como os principais conceitos acerca dos descritores propostos relacionados a psicopatia e os resultados obtidos nas pesquisas encontradas até então, atendo-se especificamente para o que os autores desses estudos apresentaram como sendo característico desses indivíduos. Então, os psicopatas possuiriam tendência ao que se refere no envolvimento em práticas criminosas? Diante dos conceitos apresentados pelos autores, pode se considerar essa hipótese como implausível, observou-se a existência de convergência acerca de que indivíduos considerados psicopatas tem uma personalidade que influencia seu envolvimento em crimes, e dependendo do grau em que se apresenta também interfere na gravidade dos crimes cometidos. Além disso, capacidade de manipulação, ausência de culpa e falta de empatia fazem parte dele um perfil nocivo para a sociedade, e pessoas de convívio. Esses indivíduos são frequentemente ativos em crimes que envolvem abusos de violência sexual ou conjugal, além de crimes classificados como homicidas. Emitindo um alerta para a necessidade de pesquisas nesse assunto, pois o nível de reincidência apresentados por indivíduos psicopatas aumenta consideravelmente quando comparados aos demais criminosos (CASOY, 2004; AMBIEL, 2006; HARE, 2013). Contudo, é importante ressaltar as limitações deste estudo, devido à escassez de amostras significativas com esse público e nesse contexto, considerando aqui as pesquisas brasileiras. É importante salientar que devem ser realizadas mais pesquisas sobre os indivíduos psicopatas sem distinção de gênero e a alta probabilidade de aproximação com crimes violentos, tendo em vista o impacto gerado para a sociedade, considerando ainda que é fundamental ter um maior conhecimento sobre os danos que esses indivíduos podem causar. Após este estudo, ficou evidente a importância de serem realizadas mais pesquisas na área da Psicologia Forense, principalmente dentro deste complexo assunto que é a psicopatia, para possibilitar que as discussões sobre o tema sejam mais amplas, resultando na maior consistência em 23 relação conceito que é encontrado na literatura. Acredita-se ainda que os dados trazidos possam fomentar a busca por novas pesquisas brasileiras a respeito da temática trazida neste artigo. 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