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Painel / Meus cursos / Fundamentos do Patrimônio (A_N) / Geral / Verificação de aprendizagem Iniciado em quarta, 19 jun 2024, 14:12 Estado Finalizada Concluída em quarta, 19 jun 2024, 14:17 Tempo empregado 5 minutos 21 segundos Avaliar 10,00 de um máximo de 10,00(100%) Questão 1 Correto Atingiu 2,00 de 2,00 Leia as assertivas abaixo e marque a opção correta. A. A noção de patrimônio é consensual entre pesquisadores e envolve atualmente apenas o conjunto de bens arquitetônicos a serem preservados. B. A noção de patrimônio cultural vem substituindo progressivamente o debate inicial da década de 50 sobre patrimônio natural. C. A noção de patrimônio pressupõe o reconhecimento do valor de um determinado bem, na transposição de passado e da memória para o presente, envolvendo também a projeção de um devir. a. Todas as assertivas estão corretas. b. As assertivas B e C estão corretas. c. A assertiva C está correta. d. A assertiva A está correta. Sua resposta está correta. A resposta correta é: A assertiva C está correta. https://ead.cead.uff.br/my/ https://ead.cead.uff.br/course/view.php?id=679§ion=0 https://ead.cead.uff.br/course/view.php?id=679§ion=0 https://ead.cead.uff.br/mod/quiz/view.php?id=46380 Questão 2 Correto Atingiu 2,00 de 2,00 Questão 3 Correto Atingiu 2,00 de 2,00 Leia as assertivas abaixo e marque a opção correta. a. No plano internacional, o debate sobre patrimônio foi iniciado pela OMT na década de 80. b. No plano das Nações Unidas , a UNESCO tem papel fundamental no debate sobre patrimônio e seus desdobramentos em políticas públicas. c. O Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento são as instituições que definem as regras para financiamento dos processos de manutenção dos bens de valor universal. Sua resposta está correta. A resposta correta é: No plano das Nações Unidas , a UNESCO tem papel fundamental no debate sobre patrimônio e seus desdobramentos em políticas públicas. Leia as assertivas abaixo e marque a opção correta. a. A Convenção sobre Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural da UNESCO representa o principal marco global para orientar o debate sobre o tema. b. O debate internacional sobre patrimônio natural foi iniciado no âmbito do Acordo de Paris vinculado à Convenção do Clima. c. A Convenção sobre a Diversidade Biológica pactuada na década de 70 define importantes regras para a proteção do patrimônio natural e estabelece os critérios para o seu reconhecimento pela UNESCO. Sua resposta está correta. A resposta correta é: A Convenção sobre Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural da UNESCO representa o principal marco global para orientar o debate sobre o tema. Questão 4 Correto Atingiu 2,00 de 2,00 Questão 5 Correto Atingiu 2,00 de 2,00 Selecione C para as assertivas corretas e E para as assertivas erradas. Segundo a Convenção sobre Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural, não podem ser considerados como de valor universal os bens mistos pois a questão cultural deve estar sempre dissociada da questão natural para o processo de tomada de decisões. A Convenção sobre Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural defende que um bem natural deve ter sempre prioridade sobre um bem cultural em políticas públicas. A Convenção sobre Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural define critérios para o reconhecimento e proteção dos bens culturais, naturais e mistos de valor universal. E E C Sua resposta está correta. A resposta correta é: Segundo a Convenção sobre Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural, não podem ser considerados como de valor universal os bens mistos pois a questão cultural deve estar sempre dissociada da questão natural para o processo de tomada de decisões. → E, A Convenção sobre Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural defende que um bem natural deve ter sempre prioridade sobre um bem cultural em políticas públicas. → E, A Convenção sobre Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural define critérios para o reconhecimento e proteção dos bens culturais, naturais e mistos de valor universal. → C. Leias as assertivas e marque a opção correta. a. As áreas protegidas brasileiras são limitadas em termos de numero e área e o Brasil tem apenas limitada importância global nesse debate pois não é signatário da Convenção sobre Diversidade Biológica. b. O Brasil é um país estratégico em termos de megadiversidade biológica e as áreas protegidas representam dispositivos fundamentais para a conservação da biodiversidade nacional. c. A UNESCO define as regras para a identificação e criação de áreas protegidas em todo o mundo. Sua resposta está correta. A resposta correta é: O Brasil é um país estratégico em termos de megadiversidade biológica e as áreas protegidas representam dispositivos fundamentais para a conservação da biodiversidade nacional. ◄ Fundamentos e Dimensões do Patrimônio Natural Seguir para... Perguntas e dúvidas sobre o conteúdo da disciplina ► https://ead.cead.uff.br/mod/resource/view.php?id=46406&forceview=1 https://ead.cead.uff.br/mod/url/view.php?id=46403&forceview=1 Coordenadoria de Educação a Distância Rua Mário dos Santos Braga, s/nº Valonguinho – Niterói – RJ CEP: 24.020-140 HORÁRIO DE FUNCIONAMENTO: DAS 9H AS 17H contato: contatocead@gmail.com mailto:contatocead@gmail.com Marta de Azevedo Irving Fundamentos e Dimensões do Patrimônio Natural Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 2 3 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural MINISTÉRIO DO TURISMO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL Luíz Inácio Lula da Silva MINISTRA DE ESTADO DO TURISMO Daniela Mote de Souza Carneiro SECRETÁRIO-EXECUTIVO Wallace Nunes da Silva SECRETÁRIO NACIONAL DE PLANEJAMENTO, SUSTENTABILIDADE E COMPETITIVIDADE NO TURISMO Marcelo Lima Costa DIRETOR DE QUALIDADE, SUSTENTABILIDADE E AÇÕES CLIMÁTICAS NO TURISMO Leandro Luiz de Jesus Gomes COORDENADOR-GERAL DE QUALIDADE NO TURISMO Daniel Wills COORDENAÇÃO DE QUALIFICAÇÃO DE PRESTADORES DE SERVIÇOS TURÍSTICOS (COPRES) COORDENADORA DE QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL DO TURISMO Jéssica de Oliveira Queiroga Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 4 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE REITOR Antonio Claudio Lucas da Nóbrega VICE-REITOR Fabio Barboza Passos DIRETORA DO CEAD/UFF Regina Célia Moreth Bragança DIRETOR DA FACULDADE DE TURISMO E HOTELARIA João Evangelista Dias Monteiro CHEFE DO DEPARTAMENTO DE TURISMO Fábia Trentin COORDENADORA DO PROJETO Fábia Trentin Vice-coordenador Carlos Lidizia Equipe LabPGTUR Beatriz Cardoso Lays Evangelista Maria Eduarda Teixeira Rafaellen Franklin Revisoras: Nathália de Ornelas N. de Lima Camila Louzada Coutinho Capa e Designer: Paulo Carvalho 5 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural Direitos desta edição reservados ao Laboratório de Políticas, Governança e Turismo (LabPGTUR) e a Coordenação de Educação a Distância (CEAD/UFF) Todo o conteúdo é de responsabilidade dos autores. É permitida a reprodução total ou parcial desta obra desde que citada a fonte. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Irving, Marta de Azevedo Fundamentos e dimensões do patrimônio natural [livro eletrônico] / Marta de Azevedo Irving. -- Niterói, RJ : Laboratório de Políticas, Governança e Turismo (LabPGTUR) : Coordenação de Educação aDistancia (Cead/UFF), 2024. -- (Guia de turismo) PDF Bibliografia. ISBN 978-65-84620-40-7 1. Biodiversidade 2. Cultura 3. Patrimônio natural - Brasil 4. Turismo I. Título. II. Série. 24-211745 CDD-333.9516 Índices para catálogo sistemático: 1. Patrimônio natural : Conservação e proteção : Recursos biológicos : Economia 333.9516 Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415 6 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural Marta de Azevedo Irving E-mail: marta.irving@mls.com.br CEAD/UFF (LabPGTUR) 2023 7 Marta de Azevedo Irving Professorasênior do Programa de Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social (EICOS/IP/ UFRJ) e do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED/IE/UFRJ). Coordenadora da Cátedra de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Colégio Brasileiro de Altos Estudos, vinculada ao Fórum de Ciência e Cultura (CBAE/FCC/UFRJ), e pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT- PPED/CNPq). Professora Visitante da Universidade Federal de Juiz do Fora. Perfil acadêmico Interdisciplinar, com graduação em Biologia (UFRJ) e em Psicologia (UERJ). Mestrado em Gestão Costeira (Southampton University) e Doutorado em Ciências (Universidade de São Paulo). Pós-Doutorado em Gestão Social da Biodiversidade no Département d’Écologie et Gestion de la Biodiversité do Musée d´Histoire Naturelle (MNHN) e no CRBC/ École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) da França. Professora e pesquisadora convidada do Département Hommes, Natures et Sociétés do MNHN e do IREST/Paris 1 (França), além do Departamento de Geografia da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) e do Oslo and Akershus College of Applied Sciences (Noruega). Lattes: https://lattes.cnpq.br/1912229324377473 ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2677-818X E-mail: marta.irving@mls.com.br UFRJ) e do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED/IE/UFRJ). Coordenadora Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 8 9 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural Sumário 1. Introdução: turismo na conexão entre naturezas e culturas? _______________________________________ 10 2. O conceito pulsante e controverso de patrimônio: entre naturezas e culturas _______________________________ 13 3. Da Convenção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural à Convenção sobre Diversidade Biológica ____________ 13 4. O contexto brasileiro de sítios de patrimônio mundial e as áreas protegidas: megadiversidade biológica como inspiração ao turismo, em bases sustentáveis _________ 21 5. Considerações Finais ____________________________ 28 Referências Bibliográficas __________________________ 29 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 10 1. Introdução: turismo na conexão entre naturezas e cultu- ras? Refletir sobre patrimônio natural e seu significado no cotidiano do guia de turismo requer, em primeiro lugar, um exercício de desconstrução de uma visão equivocada de mundo, que dissocia natureza e cultura, tendência essa resultante de uma leitura cartesiana da realidade e das dinâmicas que orientaram o modo de funcionamento das sociedades industriais e pós-industriais, desde a sua origem, conforme previamente discutido por Irving (2017) e Irving et al. (2016). Partindo dessa afirmação, a intenção desse e-book, concebido a partir dos argumentos defendidos em inúmeras publicações anteriores sobre o tema (Irving e Azevedo, 2002; Irving, 2008; Azevedo et al., 2018; Zarattini e Irving, 2012; Irving, 2014; Prates e Irving, 2015; Irving, 2017; Irving, 2018a e 2018b; Fragelli, Irving e Oliveira, 2020; Irving, 2023), é problematizar, sinteticamente, a noção de patrimô- nio natural para, em um segundo momento, contextualizar a temática da conser- vação da biodiversidade, com foco nas áreas protegidas, em sua articulação com o turismo, partindo das tendências globais para se chegar ao contexto nacional. Espera-se com essa reflexão fornecer subsídios ao guia de turismo para uma prática engajada e, também, para sensibilizá-lo com relação ao seu papel de agente de transformação social, em sintonia com os principais desafios a serem transpostos nos planos global e nacional para o desenvolvimento do turismo, em bases sustentáveis, conforme defendido no e-book Turismo e Sustentabilidade, anteriormente elaborado para apoiar o processo de formação do guia de turismo, segundo uma perspectiva de atuação engajada e cidadã (Irving, 2023). Mas por que insistir na indissociabilidade entre natureza e cultura para de- codificar a noção de patrimônio natural? Muitos são os argumentos que se con- trapõem a essa tendência. Em primeiro lugar, porque o turismo representa um fenômeno contemporâneo complexo, associado a inúmeras dimensões econô- micas, socioculturais, ambientais, éticas, políticas e simbólicas que estão intrin- secamente conectadas, o que implica, por pressuposto, para a sua interpretação, uma leitura teórica multidimensional e interdisciplinar, mediada por uma pers- pectiva política crítica (Irving et al., 2016; Fragelli, Irving e Oliveira, 2020). Mas, apesar disso, os termos natureza e cultura são, frequentemente, apropriados e tra- duzidos pelo setor turístico, de maneira instrumental, como “insumos” ou, em lin- guagem do turismo, como “atrativos”, para alimentar o processo e as estatísticas 11 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural dos distintos “segmentos”, previamente formatados para atender a uma demanda induzida e ávida por novidades (Irving et al., 2016). Essa demanda é assim artifi- cialmente construída e retroalimentada, com base em uma visão fragmentada de mundo, imaginários e sonhos de uma sociedade em crise, cada vez mais distante de si mesma. Mas não se pode desconsiderar nesse debate que “a natureza nos fabrica tanto quanto nós a fabricamos” (Moscovici, 2002). Sendo assim, o turismo precisaria ser interpretado de uma outra maneira, segundo a premissa de indis- sociabilidade entre culturas e naturezas. Importante também resgatar que, para muitos pensadores contemporâneos como Moscovici (2002) e Morin (2011), a cri- se de civilização decorre, entre outras causas, da cisão histórica entre sociedade e natureza. Assim, o religare entre sociedade e natureza, no compartilhamento de um destino comum, na Terra Pátria, tende a ser o primeiro passo para o caminho da transformação necessária (Morin e Kern, 1993; Morin, 2011). Mas como reinter- pretar o turismo nessa urgência do “religare” entre sociedade e natureza? Como decodificar o sentido de patrimônio natural na conexão com a inerente dinâmica cultural? Por mais evidente que possa parecer, essa discussão é ainda recente, ape- sar dos inúmeros movimentos nesse sentido, iniciados a partir da Rio-92 e seus desdobramentos, também no caso do turismo, como a própria Carta de Lanza- rote (OMT, 1995). No entanto, embora a preocupação naquele momento tenha sido trazer à cena principal o debate sobre sustentabilidade no turismo, o texto do documento se sustentava, ainda, na salvaguarda de proteção do patrimônio, segundo a lógica de cisão entre natureza e cultura e de uma leitura fragmentada de patrimônio natural e cultural. Patrimônio, nesse caso, é interpretado como in- sumo para o próprio desenvolvimento do setor, progressivamente orientado pelo qualitativo “sustentável”. Mas, apesar disso, o documento inova em seu discurso ao advogar o desenvolvimento turístico baseado em princípios de solidariedade, no respeito mútuo e no compromisso de participação de todos os atores envolvi- dos no processo e na valorização do patrimônio (natural e cultural). Nesse sentido, importante também mencionar que, em geral, nos documen- tos oficiais, o turista é prioritariamente interpretado como o “consumidor” final do “cardápio” diversificado de “produtos” oferecidos pelo trade turístico, entre os quais, natureza e cultura. Além disso, as populações locais são, frequentemente, entendidas como “provedoras de serviços” ou como “vitrines de atrativos”, desco- nectadas da dinâmica do ambiente visitado. Em outras palavras, uma engrena- Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 12 gem de consumo turístico de naturezas e culturas. Mas naturezas e culturas são indissociáveis na dinâmica da vida humana. Assim, parece fundamental que se repense o turismo, a partir de uma visão integrativa sobre o significado de patri- mônio, na reconexão entre naturezas e culturas. 2. O conceito pulsantee controverso de patrimônio: entre naturezas e culturas Pelas razões anteriormente expostas, a discussão sobre o significado de pa- trimônio vem se transformando nos últimos anos, sendo pulsante e, em alguns casos, até mesmo contraditória. Para alimentar esse debate e tentar problemati- zar pelo menos parte das complexas questões envolvidas, pretende-se, a seguir, sintetizar alguns pontos de reflexão sobre o tema, principalmente a partir dos argumentos de Ferreira (2006), Scifoni (2006), Zarattini e Irving (2012) e Azevedo et al. (2018). Ferreira (2006), com base em diversos autores, enfatiza que o conceito de patrimônio resulta de um longo processo histórico e vem sofrendo inúmeras re- formulações desde as concepções em sua origem, tanto em termos conceituais como em termos de estratégias de conservação para a sua salvaguarda. Até o século XIX, patrimônio era apenas definido como um conjunto de edificações, objetos e documentos de valor artístico ou histórico e apenas no século XX outras nuances foram acrescidas ao debate sobre patrimônio histórico. Para a autora, o termo patrimônio envolve um conjunto de expressões e uma multiplicidade de sentidos e traduz um sentido de permanência do passado e a necessidade de se resguardar do desaparecimento algo significativo no campo das identidades. Nesse caso, o sentido de patrimônio poderia ser compreendido como o esforço constante de se buscar resguardar o passado no futuro. E, para que exista patri- mônio, é necessário que ele seja reconhecido e que lhe seja conferido valor, o que se materializa no âmbito das relações sociais e simbólicas. Assim, as noções de tempo e identidade se expressam, simultaneamente, para o reconhecimento de determinado patrimônio que, por pressuposto, é portador de tempo e vivências. Em síntese, a noção de patrimônio, mais do que traduzir a busca de reconstrução de um passado supostamente conservado ou retido, se expressa na preocupação em se garantir o presente e projetá-lo em um devir. A noção de patrimônio natural, por sua vez, para Scifoni (2006), é relativa- 13 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural mente contemporânea, tendo sido consolidada internacionalmente somente na década de 1970, sob os auspícios da UNESCO, com a Convenção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural (UNESCO, 1972), como produto do universo da cul- tura, por meio de duas vias interpretativas. No plano global, patrimônio natural é considerado como expressão de grandiosidade e valor das paisagens naturais que advém de um sentido de monumentalidade como preocupação estética, pressupondo a intocabilidade, ou seja, os grandes testemunhos da natureza pou- pados da intervenção humana. No caso brasileiro, em particular, as experiências regionais, por sua vez, contribuíram para que o significado de patrimônio natural passasse a ser entendido como conquista da sociedade, com um sentido ligado às práticas sociais e à memória coletiva. Portanto, entende-se que o patrimônio natural compõe a dinâmica da vida humana, e não a ela se opõe. A autora propõe, assim, que essa noção seja problematizada por meio dessa dupla significação, uma vez que não há consenso nesse debate. Cabe também enfatizar uma controvérsia recorrente que vem caracterizan- do, desde a origem, a reflexão sobre patrimônio, com importantes consequências nas maneiras pelas quais o tema é em geral abordado em políticas públicas. Isso porque, como sintetizado por Ferreira (2006), essa questão tende a ser abordada de maneira dicotômica, opondo a obra do homem àquela da natureza, o cons- truído ao natural, ou consagrando, de um lado, o respeito da autenticidade pelo monumento histórico, e de outro, a manutenção da integridade para o espaço natural. Assim, revela-se uma falsa dicotomia entre natureza e cultura que tende a gerar distorções, também, em planejamento turístico. 3. Da Convenção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural à Convenção sobre Diversidade Biológica Como anteriormente discutido, esse debate pulsante no plano internacional se formaliza e se consolida somente a partir da Convenção do Patrimônio Mun- dial Cultural e Natural (UNESCO, 1972), pactuada em Paris no início da década de 70, que, segundo Azevedo et al. (2018), resulta de um longo processo histórico, principalmente com o fim da Primeira Grande Guerra Mundial, com o objetivo de se criar um movimento internacional para a proteção de sítios de reconhecida importância internacional, em razão do reconhecimento dos riscos à integridade desse patrimônio de valor global. Assim, foi iniciada uma campanha internacio- Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 14 nal, com a participação financeira inicial de cinquenta países, para a salvaguarda de alguns monumentos históricos em diversas regiões do mundo. Apenas pos- teriormente, esses esforços foram ampliados para envolver a proteção de sítios naturais, por sugestão dos Estados Unidos e por influência também dos desdo- bramentos decorrentes do campo da Biologia da Conservação1. Para Azevedo et al. (2018), a Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural (UNESCO, 1972) traduziu, assim, a síntese de alguns acontecimentos marcantes na década de 1970, entre os quais a Conferência de Estocolmo em 1972, a partir da qual foram delineadas algumas propostas que vieram a servir de base para a própria Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Mundial. Por todas as razões mencionadas, a Convenção da UNESCO de 1972 foi até mesmo qualificada como a “Cruz Vermelha do Tempo de Paz”, sendo conside- rada, desde então, como um pacto estratégico de políticas públicas globais, com relação à salvaguarda do patrimônio global. Segundo as autoras, a partir de então diversas funções passaram a ser atribuídas à UNESCO: a) estimular a cooperação internacional no domínio da conservação do patrimônio; b) acompanhar o esta- do de conservação dos bens da Lista do Patrimônio Mundial localizados em seus territórios; c) apoiar os Estados na preservação de tais bens, mediante assistência técnica e formação profissional; e d) fornecer assistência técnica para a preserva- ção dos bens do Patrimônio Mundial em risco. Passou a ser atribuição da UNESCO, também, a definição de alguns conceitos e critérios para orientar o processo, considerando-se patrimônio cultural como o conjunto de monumentos, edificações e sítios com valor histórico, estético, ar- queológico, científico, etnológico ou antropológico, e patrimônio natural como o conjunto de formações físicas, biológicas e geológicas notáveis ou áreas de ex- cepcional valor do ponto de vista da ciência, da conservação ou da beleza natural, e os habitats de espécies animais e vegetais ameaçadas. Por meio desse instrumento, segundo Zarattini e Irving (2012), passaram a ser identificados bens do patrimônio mundial − naturais, culturais ou mistos, sen- do estes últimos caracterizados por seu valor agregado entre cultura e natureza. Esses bens são considerados singulares e estão distribuídos em todo o mundo, 1 A Biologia da Conservação representa um campo de investigação desenvolvido como resposta ao reconhecimento da pressão sobre a diversidade biológica, a partir da premis- sa de que as disciplinas tradicionais aplicadas ao estudo da biodiversidade não seriam suficientemente abrangentes para abordar as ameaças à sua integridade. 15 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural mas têm em comum o reconhecimento de sua importância global. Por essa razão, a sua proteção é considerada como fundamental para a humanidade e o seu re- conhecimento tem como princípio norteador resguardar para as gerações futuras elementos de valor universal excepcional, do ponto de vista da história, da arte, da natureza e da ciência. Resgatando o texto da Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural da UNESCO, as autoras mencionam serem passíveis de reconhecimento: a) monumentos (obras arquitetônicas, esculturas ou pinturas monumentais, estruturasde caráter arqueológico, inscrições, gru- tas e grupos de elementos com valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência); b) conjuntos (grupos de construções isoladas ou reunidas que, em virtude da sua arquitetura, unidade ou integração na paisagem, têm valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciên- cia); c) locais de interesse coletivo (obras do ser humano ou obras conjugadas do ser humano e da natureza, incluindo os locais de interesse arqueológico, com um valor universal excepcional do ponto de vista histórico, estético, etnológico ou antropológico); d) monumentos naturais constituídos por formações físicas e biológicas ou por grupos de tais formações com valor universal excepcional do ponto de vista estético ou científico; e) formações geológicas e fisiográficas e as zonas estritamente delimitadas que constituem habitat de espécies animais e ve- getais ameaçadas, com valor universal excepcional do ponto de vista da ciência ou da conservação; f ) locais de interesse natural ou zonas naturais estritamente delimitadas, com valor universal excepcional do ponto de vista da ciência, da con- servação ou em termos de beleza natural. Essa Convenção parte também do pressuposto de que o patrimônio (cultural e natural) está cada vez mais ameaçado, não apenas pelas causas tradicionais de degradação, mas também pela evolução da vida social e econômica que agrava esse contexto. Por essa razão, a comunidade internacional é convidada a ampliar esforços para identificar esses bens e assegurar a sua salvaguarda. Com base nessas orientações, segundo Azevedo et al., (2018), os países sig- natários da Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natu- ral passaram a reconhecer que, sem prejuízo da sua soberania ou do direito de propriedade, os bens localizados em seus limites territoriais, se inscritos na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, constituem patrimônio de valor global, cuja proteção é de responsabilidade de toda a comunidade internacional. Com essa perspectiva, para apoiar a implementação desse pacto, um conjunto de elemen- Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 16 tos representativos foi também definido para orientar a seleção de bens a serem chancelados pela UNESCO, em função de seu valor excepcional, cuja síntese está apresentada no Quadro 1, a seguir. Quadro 1 – Quadro-síntese dos elementos representativos para registro de bens de patrimônio natural na Lista do Patrimônio Mundial Elementos Representativos - Registros dos importantes testemunhos dos estágios da história da Ter- ra, de processos geológicos ligados ao desenvolvimento das formas terrestres ou de elementos geomórficos ou fisiográficos de grande sig- nificação; - Registros de processos ecológicos e biológicos em curso da evolução e ligados ao desenvolvimento dos ecossistemas e comunidades de plan- tas e animais terrestres, aquáticos, costeiros e marinhos; - Fenômenos naturais ou áreas de beleza natural de importância estética excepcional; - Habitats naturais mais representativos para a conservação in situ da di- versidade biológica onde também sobrevivam espécies de excepcio- nal valor universal (do ponto de vista da ciência ou da conservação) e que estejam ameaçadas de extinção. Fonte: Adaptado de Irving e Azevedo (2002) e Azevedo et al. (2018). Mas como seria de se esperar, apesar de sua importância global, essa Con- venção tem sido alvo de inúmeras críticas desde a sua origem, principalmente pelo fato de ter sido orientada, prioritariamente, pelos interesses dos países do denominado “Norte Global”, o que vem exigindo, também, um contínuo realinha- mento do sistema de registro de bens de valor universal. Importante mencionar, nesse sentido, desde o início do processo, a predominância de bens qualificados como culturais em detrimento dos naturais, como seria de se esperar pelas razões anteriormente discutidas. Além disso, cada vez mais, situações de riscos e ameaças são registradas com relação aos bens inscritos na Lista de Patrimônio Mundial da Humanidade, como consequência de questões políticas e geopolíticas, o que parece traduzir um aler- ta para os anos que virão, também em relação à necessidade de salvaguardas 17 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural para assegurar a integridade desses bens. Da mesma maneira, a evolução do de- bate sobre a reafirmação da indissociabilidade entre natureza e cultura vem in- fluenciando a UNESCO, cada vez mais, a reconhecer os denominados bens mistos ou ainda as denominadas paisagens culturais de valor universal. Mas, apesar de todas as críticas mencionadas, é necessário reconhecer a evolução e a importância desse pacto global, principalmente desde a década de 1990, no pós Rio-92. Assim, como resultado desse movimento, atualmente são contabilizados, na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, 1.199 sítios em 168 países, dos quais 933 são qualificados como culturais, 227 como naturais e 35 como mistos (UNESCO, 2024), conforme esquema pedagógico apresentado na Figura 1, a seguir. Figura 1 − Esquema Pedagógico da distribuição global dos sítios de Patrimô- nio Mundial (UNESCO) Fonte: UNESCO (2024). Disponível em: <https://whc.unesco.org/en/wh-gis/> Acesso em 08 de mai. 2024. A Figura 1 ilustra, com clareza, a magnitude dos desafios a serem superados nos anos que estão por vir, para a salvaguarda do patrimônio natural, também em articulação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 (UN, 2015a), ao Acordo de Paris (UN, 2015b) e ao Marco Global de Kunming-Montreal (CBD, 2022), que, no âmbito da Convenção sobre a Diversidade Biológica (UN, Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 18 1992), estabelece como uma das metas globais, no horizonte de 2030, a proteção de pelo menos 30% de todos os biomas do mundo. Mas, no debate sobre a salvaguarda do patrimônio natural especificamente, a Convenção sobre Diversidade Biológica − CDB (UN, 1992), acordada no âmbito da Rio-92, representa um marco global fundamental no plano de políticas públi- cas, conforme discutido por Irving (2010), Prates e Irving (2014), Medeiros, Irving e Garay (2004), entre outros pesquisadores. Segundo os argumentos de Prates e Irving (2015) resumidos a seguir, a CDB resultou no reconhecimento global da perda alarmante de biodiversidade, sen- do classificada, no sistema da ONU, como Convenção-Quadro, uma vez que não define regras obrigatórias a serem cumpridas e não impõe sanções aos países signatários que descumprem as diretrizes pactuadas. Ela representa, portanto, um compromisso histórico para a conservação da diversidade biológica, a utiliza- ção sustentável dos recursos biológicos e a repartição equitativa dos benefícios resultantes da utilização dos recursos genéticos. Importante também mencionar que o texto dessa Convenção, conforme discutido pelas autoras, reconhece, pela primeira vez no direito internacional, que a conservação da biodiversidade cons- titui uma “preocupação comum da humanidade”. Em sua dinâmica de implemen- tação, metas para a conservação da biodiversidade vêm sendo pactuadas, a cada dois anos, nas denominadas Conferências das Partes – COPs, quando o processo é avaliado e são tomadas decisões para o cumprimento dos objetivos acordados. Nesse processo, em 2010, em Nagoya (Japão), foi aprovado o Plano Estratégico 2011-2020 (CBD, 2010), portanto, para a década passada, envolvendo 20 metas, que foram denominadas Metas de Aichi. Paralelamente a esse movimento, foi lan- çada pela ONU a “década da biodiversidade”, em setembro de 2010, quando esse tema passou, definitivamente, a compor a agenda internacional, em termos prio- ritários. Mas, em razão dos limitados resultados alcançados com relação a esse compromisso, na COP 15, finalizada em 2022, em Montreal, foi pactuado o Marco Global Kunming-Montreal (CBD, 2022), que estabeleceu, entre as metas acorda- das, o compromisso de proteção de 30% dos biomas do mundoaté 2030. Por razões óbvias, esse contexto precisa ser bem entendido pelo guia de turismo em seu cotidiano de visitação às áreas protegidas (APs), que adquirem cada vez mais centralidade para a salvaguarda do patrimônio natural em território nacional e no plano global. Uma área protegida na CDB é entendida como “uma área geograficamente 19 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural definida, que é designada ou regulamentada e gerida para alcançar objetivos es- pecíficos de conservação”. Nesse sentido, o documento Protected Planet Report (UNEP, 2016) enfatiza a necessidade de reconhecimento de sua importância para a saúde humana e para o bem-estar, tendo em vista a intensificação da pressão humana sobre as espécies e os ecossistemas globais. E segundo o mesmo docu- mento, orientado pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 e pelas Metas de Aichi, nunca foi tão essencial a necessidade de se conser- var a biodiversidade e a herança cultural, como nos dias de hoje. Mas esse desa- fio depende da mobilização engajada de todos os setores da sociedade, sendo esse compromisso fundamental para que as APs possam se tornar os núcleos de paisagens sustentáveis no plano global. As APs são também interpretadas como vitais para os modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais, para a manutenção da qualidade do ar e da água, como importante mecanismo de combate às mudanças climáticas e aos desastres naturais, e para a geração de be- nefícios socioeconômicos, por meio do turismo e de outras atividades humanas a elas potencialmente associadas. Além disso, as APs estão distribuídas em toda a superfície da terra, o que as torna um dispositivo essencial com o objetivo de conservação da biodiversidade no plano global. Segundo a Base de Dados Mun- dial sobre Áreas Protegidas (WDPA), em 2020 já haviam sido registradas 260.000 APs em 245 países (IUCN/UNEP-WCMC (2020), o que ilustra, de maneira clara, a importância da integração das estratégias de conservação da biodiversidade e desenvolvimento turístico no plano de políticas públicas. Nesse sentido, vale enfatizar que, no documento da UNEP (2016) anterior- mente mencionado, já se estimava um total de 8 bilhões de visitantes/ano apenas em APs terrestres, com a geração de receitas de aproximadamente 600 bilhões de dólares/ano. Esse é, portanto, um dado ainda subdimensionado, tendo em vista que não foram consideradas nessa estimativa as áreas marinhas e inúmeras áreas protegidas, principalmente nos países em desenvolvimento, ainda não incorpora- das aos cadastros oficiais de alcance global ou à oferta turística. Segundo a mesma fonte, o Parque Nacional de Yellowstone (USA), por exem- plo, recebe em torno de 4 milhões de visitantes todo ano, e o Parque Nacional Ma- rinho de Grande Recife de Corais (Austrália) atrai aproximadamente 2,5 milhões de visitantes, anualmente. Nesse sentido, a Organização Mundial do Turismo esti- ma que o turismo em APs deve continuar a crescer em 3,3% ao ano até 2030. Por essa razão, em termos de escala e magnitude, reconhece-se ser o turismo moti- Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 20 vado pela experiência em APS uma via essencial não só para o cumprimento de inúmeras metas pactuadas no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica, mas também para a sensibilização da sociedade, em geral para o valor da biodi- versidade. Além de se constituírem em fontes de atração para o turismo, as APs representam oportunidades reais para a mudança comportamental com relação à natureza e para as ações de educação dos visitantes, a partir da vivência na na- tureza, de estudos e pesquisas, de iniciativas lúdicas de interpretação ambiental, entre outras possibilidades. Com base nesse reconhecimento, cabe lembrar que, conforme anteriormen- te discutido (Irving, 2018b), em 2015, o Secretariado da CDB, em articulação com o Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (PNUMA), lançou o documento Apoiando a Biodiversidade: um manual para a aplicação das Diretrizes da CDB em Biodiversidade e Desenvolvimento Turístico (CBD, 2015), que resultou desse longo processo de reflexão e debate sobre o uso turístico dessas áreas, a partir do entendimento do turismo como alternativa possível para o uso sustentável da biodiversidade. Ou seja, esse documento representa um esforço de tradução de diretrizes para ações concretas, capazes de consolidar o turismo como via poten- cial para a conservação da biodiversidade. Assim, não se pode minimizar a importância das APs e demais áreas de na- tureza preservada e/ou conservada como motivação para o turismo global. Mas a questão que se coloca nessa reflexão é de que maneira os compromissos estabe- lecidos pela Convenção do Patrimônio Cultural e Natural da UNESCO e a Conven- ção sobre Diversidade Biológica poderiam ser incorporados, também, às políticas de turismo, no contexto brasileiro. 21 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 4. O contexto brasileiro de sítios de patrimônio mundial e as áreas protegidas: megadiversidade biológica como inspira- ção ao turismo, em bases sustentáveis O Brasil representa um país emblemático na discussão sobre a salvaguarda do patrimônio natural, também em articulação às estratégias de planejamento e desenvolvimento turístico. Nesse sentido, cabe lembrar que, já em 2017, o World Economic Forum, no ranking global de competitividade para o setor de viagens e turismo (WEF, 2017), reconhecia o Brasil como o primeiro país do mundo em recursos naturais e o oitavo no ranking em recursos culturais (WEF, 2017). Mas, ainda assim, chama a atenção a posição, apenas periférica do país no ranking glo- bal do turismo. Em outras palavras, parece haver um claro descompasso entre as inúmeras possibilidades de desenvolvimento do turismo e a realidade de imple- mentação das demais políticas públicas setoriais. Como anteriormente situado, com relação às potencialidades do país no plano da oferta, um dos importantes dispositivos de políticas públicas globais que orientam o uso do conjunto patrimonial brasileiro para o turismo é a Lista de Sítios do Patrimônio Mundial, estabelecida a partir da Convenção sobre Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural da UNESCO (UNESCO, 1972). Mas cabe lembrar que, segundo Scifoni (2006), a legislação sobre patrimô- nio, bem como o surgimento do próprio conceito de monumento natural, surgiu no Brasil apenas nos anos 30 do século XX, sendo que foi a partir da Constituição de 1937 (Brasil, 1937) que os monumentos naturais foram elevados à qualidade de patrimônio nacional2. Mas parece ter sido a Constituição de 1988 (Brasil, 1988) o divisor de águas para o reconhecimento da importância do patrimônio natural para a sociedade brasileira, uma vez que nela ficou estabelecido o direito ao ambiente ecologica- mente equilibrado, de uso comum, sendo o mesmo reafirmado como essencial para a saúde e para a qualidade de vida, portanto sob a responsabilidade con- junta do Poder Público e da sociedade, em geral, para a sua salvaguarda, para as presentes e futuras gerações. 2 Um marco nesse debate foi a criação do primeiro parque nacional do Brasil, o Parque Nacional de Itatiaia, em 1937. Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 22 Considerando apenas os bens brasileiros incluídos na Lista de Patrimônio Mundial reconhecidos pela UNESCO, o Quadro 2 (Bens Culturais ou Mistos) e o Quadro 3 (Bens Naturais ou Mistos), a seguir, sintetizam esse conjunto patrimo- nial. Quadro 2 − Sítios de patrimônio cultural ou mistos do Brasil, registrados na Lista de Patrimônio Mundial da UNESCO até março de 2024 Sítios do Patrimônio Cultural ou Misto Ano de estabelecimento Local Cidade histórica de Ouro Preto 1980 Ouro Preto/MG Centro histórico de Olinda 1982 Recife/PE Missões Jesuíticas Guarani 1983 Ruínas de São Miguel das Missões/RS e Argentina Centro Histórico de Salvador 1985 Salvador/BA Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos 1985 Congonhasdo Campo/ MG Plano Piloto de Brasília 1987 Brasília/DF Parque Nacional Serra da Capivara 1991 São Raimundo Nonato/ PI Centro Histórico de São Luís 1997 São Luís/MA Centro Histórico de Diamantina 1999 Diamantina/MG Centro Histórico da Cidade de Goiás 2001 Goiás/GO Praça de São Francisco 2010 São Cristóvão/ SE Rio de Janeiro, paisagens cariocas entre a montanha e o mar 2012 Rio de Janeiro/ RJ Conjunto Moderno da Pampulha 2016 Belo Horizonte/MG Sítio Arqueológico Cais do Valongo 2017 Rio de Janeiro/RJ Sitio Roberto Burle Max 2021 Rio de Janeiro/RJ Fonte: UNESCO. Patrimônio Mundial no Brasil. 2024. Disponível em: <http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/culture/world-heritage/list-of-world-heritage-in-brazil/#c1048555>. Acesso em: 03 mar. 2024. 23 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural São quinze os bens culturais ou mistos do Brasil que compõem a Lista de Patrimônio Mundial da UNESCO, envolvendo principalmente conjuntos patrimo- niais nos núcleos urbanos do país. Contudo, pode-se afirmar que alguns deles são ainda pouco divulgados nos circuitos de turismo brasileiro ou no plano inter- nacional. Além disso, pouco se discute sobre a dinâmica das regiões de inserção desses sítios, muitas vezes próximos ou em sobreposição às Unidades de Conser- vação e/ou Terras Indígenas e territórios tradicionais que compõem o conjunto de APs do país. Segundo Azevedo et al. (2018), um caso emblemático dessa lista que ilus- tra a argumentação anterior e, também, os paradoxos do processo, é o Parque Nacional da Serra da Capivara, que compõe o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (Brasil, 2000 e 2002), mas, ironicamente, é classificado como bem cultural pela UNESCO devido à sua importância, em termos de pintu- ras rupestres. Mas não seria o Parque Nacional da Serra da Capivara um bem na- tural e também cultural? Como esse são inúmeros os questionamentos sobre esta lista oficial da UNESCO, claramente influenciada, em sua origem, pela equivocada leitura da cisão entre natureza e cultura. Contudo, não se pode deixar de considerar, nessa análise, o contexto da pactuação da própria Convenção que deu origem à Lista do Patrimônio Mundial, fortemente influenciada pelas demandas do denominado “Norte Global” e pela urgência de salvaguardas para a proteção de patrimônio material (histórico e ar- quitetônico). Esse movimento, apenas progressivamente, passou a absorver as premissas da Biologia da Conservação, baseada, em sua origem, na perspectiva do Mito Moderno da Natureza Intocada (Diegues, 1996), como inspiração para a proteção do patrimônio natural. Com base nessa mesma controvérsia, os bens do patrimônio natural ou mis- tos – oito, no caso brasileiro – em sua maioria, envolvem parques nacionais e de- mais unidades de conservação, abrigando extensos conjuntos territoriais – mas não são capazes de traduzir a importância da biodiversidade nacional, conforme se pode verificar no Quadro 3, a seguir. Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 24 Quadro 3 − Sítios de patrimônio natural e mistos do Brasil registrados na Lista de Patrimônio Mundial da UNESCO até março de 2024 Sítios do Patrimônio Natural Ano de estabelecimento Local Parque Nacional de Iguaçu 1986 Foz do Iguaçu, Paraná (Brasil) e Argentina Mata Atlântica 1999 Reservas da Mata Atlântica do Sudeste, São Paulo e Paraná Costa do Descobrimento 1999 Reservas da Mata Atlântica, Bahia e Espírito Santo Complexo de áreas protegidas da Amazônia Central 2000 Amazonas Complexo de áreas protegidas do Pantanal 2000 Mato Grosso e Mato Grosso do Sul Áreas protegidas do Cerrado (Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e Parque Nacional das Emas) 2001 Goiás Ilhas Atlânticas Brasileiras (Parque Nacional de Fernando de Noronha e Atol das Rocas) 2001 Pernambuco Paraty e Ilha Grande: Cultura e Biodiversidade 2019 São Paulo e Rio de Janeiro Fonte: UNESCO. Patrimônio Mundial no Brasil. 2024. Disponível em: <http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/culture/world-he- ritage/list-of-world-heritage-in-brazil/#c1048555>. Acesso em: 03 mar. 2024. O que também parece contraditório nesse processo é que, apesar da condi- ção de megadiversidade biológica do país, a sua representação é ainda periférica na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, embora conjuntos relevantes que 25 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural envolvem grandes extensões territoriais, e não apenas sítios individuais propria- mente ditos, sejam reconhecidos como de valor universal. Além disso, o paradoxo nessa lista é que, associada a todos os sítios naturais mencionados, existe uma rica diversidade cultural que deixa de ser considerada por esse mecanismo, em ter- mos de visão estratégica, uma vez que esse dispositivo, embora venha evoluindo significativamente nos últimos anos, tende a dissociar natureza e cultura desde a origem do processo, como já discutido por Zarattini e Irving (2012). De acordo com a mesma fonte, é importante resgatar, ainda, que o conceito de patrimônio natural teve a sua gênese no universo cultural, mas processo tem sido dinâmico e controverso, em termos do debate teórico. Sendo assim, durante um longo período de tempo, as ações com o intuito de proteção da natureza fo- ram conduzidas pelas regras, pela lógica e pelos procedimentos adotados para a proteção de monumentos e bens materiais. Entretanto, da mesma maneira que no caso da cultura, o significado de patrimônio natural vem sendo também res- significado em políticas públicas, sobretudo em decorrência do reconhecimento da importância dos valores sociais e culturais, associados aos processos de prote- ção da natureza (Zarattini e Irving, 2012). Além disso, não seriam esses bens naturais também culturais por pressupos- to? Em suas áreas de inserção não são expressas subjetividades e não acontecem expressões culturais de toda ordem? Seria possível dissociar natureza e cultura, no caso brasileiro? Esses foram alguns dos argumentos que inclusive resultaram no registro da Paisagem Cultural do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro − Paisagens Cariocas entre a Montanha e o Mar [2012]) e, posteriormente, Paraty e Ilha Gran- de − Cultura e Biodiversidade (2019), na Lista de Patrimônio Mundial da UNESCO, em 2012. Esses exemplos ilustram, também, o movimento para a integração entre naturezas e culturas nas ações da própria UNESCO. Cabe também lembrar que o Brasil é o líder global em megadiversidade bio- lógica e, até recentemente, exercia um importante protagonismo na cena global, no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica − CDB (UN, 1992). Além disso, a partir de 2000, quando foi estabelecido o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Brasil, 2000 e 2002), o país tem alcançado grande visibilidade no plano global, por seu papel na diplomacia e pelos resultados alcançados no sen- tido de construção e consolidação de um sistema nacional de grande amplitude com esse objetivo, representativo dos diversos biomas brasileiros e sintonizado com o compromisso de inclusão social. Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 26 O Quadro 4 ilustra a amplitude do SNUC e a sua caracterização em termos de esferas de gestão e categorias de manejo. Quadro 4 − Matriz-síntese com a caracterização do Sistema de Unidades de Conservação do Brasil por categoria de manejo Fonte: MMA. Cadastro Nacional de Unidades de Conservação (CNUC). 2024. Disponível em: <https://cnuc.mma.gov.br/> Acesso em: 08 de mai. 2024. Como pode ser observado no Quadro 4, segundo os dados oficiais do Cadas- tro Nacional de Unidades de Conservação – CNUC (MMA, 2024), o Brasil dispõe, atualmente, de 2446 UCs, envolvendo 2552.197 Km², sendo dessas 777 de Prote- ção Integral e 1669 de Uso Sustentável. No entanto, essa cobertura é bastante he- terogênea, em termos dos biomas brasileiros. Nesse conjunto chama a atenção o fato de alguns biomas continentais, como a Amazônia (28,6%) e a Mata Atlânti- ca (10,9%), abrigarem maiores extensões doterritório em UCs, enquanto outros, como o cerrado, a caatinga e o pampa, estarem sub-representados em termos de área. A área marinha, por sua vez, representa 23,1% de extensão territorial prote- gida e, nos últimos anos, um grande esforço da gestão pública vem ampliando, significativamente, essa cobertura. Cabe ainda lembrar, também, que, além das unidades de conservação, ou- tras áreas protegidas estão no centro do debate sobre conservação da biodiver- sidade em articulação ao direito de povos e populações tradicionais, como Terras Indígenas, Territórios de Remanescentes de Quilombos, entre outros, e esse tema precisaria ser melhor abordado e considerado em planejamento turístico. Com relação aos povos indígenas, esses representam 0,83% da população brasileira, segundo o último Censo do IBGE (IBGE, 2022), e as 739 Terras Indígenas equiva- lem a 13,9% do território nacional. Segundo o Ministério Público Federal (Brasil, 2023), mais de 650.000 famílias se declaram como povos e comunidades tradicio- 27 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural nais no Brasil, sendo essa estimativa provavelmente subestimada nos cadastros federais que, até o momento, classificam apenas 7 das 29 categorias de povos tradicionais reconhecidas pela União. Esse contexto socioambiental complexo ilustra, uma vez mais, a necessidade de se articular natureza e cultura nas estratégias de planejamento turístico, prin- cipalmente quando se discute a dinâmica de visitação em APs. Cabe também enfatizar que apenas os cinco parques nacionais mais visita- dos do Brasil (PN Tijuca, PN Iguaçu, PN Jericoacoara, PN Bocaina e PN Fernando de Noronha) receberam, em 2023, 9.085.540 visitantes (ICMBio, 2024). Nesse balan- ço, o PNT superou a marca dos 4.464.257 visitantes no mesmo ano, o que o apro- xima das estatísticas dos parques mais visitados do mundo. Esses dados traduzem apenas uma fração do potencial de visitação dos 74 parques nacionais do Brasil, apenas na esfera federal. Por todas essas razões, conforme anteriormente discutido (Irving, 2018a), os argumentos defendidos até aqui não deixam dúvidas sobre as potencialidades e os inúmeros obstáculos ainda a serem transpostos para que o turismo em APs no Brasil possa se concretizar. Mas um dos principais problemas a ser enfrentado com esse direcionamento é o total desconhecimento sobre o perfil do turista e/ ou visitante e as suas motivações para a visita às UCs. Além disso, do outro lado da equação turística estão as populações das localidades onde estão inseridas as unidades de conservação. Frequentemente marginalizadas desde o início do processo de criação dessas áreas protegidas e das próprias estratégias de de- senvolvimento turístico, essas populações demandam melhoria de qualidade de vida e, ao mesmo tempo em que alimentam essa expectativa, tendem a ex- pressar sentimentos contraditórios, ora de fascínio, ora de rejeição aos visitantes que usufruem de seu cotidiano e de “sua natureza preservada”, muitas vezes sem qualquer compromisso. Nesse sentido, é importante que sejam realizadas pesqui- sas que possam apreender a percepção local sobre o turismo e influenciar novos caminhos para as políticas publicas. Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural 28 5. Considerações Finais A salvaguarda do patrimônio natural representa uma questão estratégica para o país nos próximos anos. Também por essa razão e, apesar da importância do turismo no contexto de um país de megadiversidade biológica, não se pode negligenciar os inúmeros riscos dele decorrentes nesses ambientes vulneráveis de natureza protegida, se não forem incorporadas às ações de planejamento tu- rístico as dinâmicas territoriais envolvidas, na articulação entre natureza e cultu- ra. Apenas por essa via será possível assegurar as estratégias de conservação da biodiversidade, valorização da cultura e inclusão social no país, em articulação ao desenvolvimento turístico, em bases sustentáveis, nos próximos anos. Mas dados essenciais sobre esse tema são ainda limitados ou indisponíveis e precisam estar acessíveis para todos os profissionais de turismo. Além disso, a dinâmica de im- plementação de políticas públicas tende a ser ainda fragmentada e pouco adap- tada à realidade dos territórios envolvidos. Por todas essas razões parece funda- mental que o guia de turismo tenha oportunidade contínua de capacitação para que possa se atualizar, permanentemente, para melhor exercer a sua função, de maneira crítica e engajada na relação com os visitantes, que veem a riqueza do patrimônio nacional como a sua principal motivação de viagem. E, nesse caso, o guia de turismo tem um papel essencial como “porta-voz” da sociobiodiversidade brasileira e como protagonista para a construção de caminhos para a sua salva- guarda. 29 Fundamentos e Dimensões de Patrimônio Natural Referências Bibliográficas AZEVEDO, J.; IRVING, M. A.; ARRUDA, T. O.; AMARAL, B. B. Turismo Cultural no Brasil: entre potencialidades, desafios e incertezas. In: IRVING, M.A.; AZEVEDO, J.; LIMA, M. A. A.G. (Orgs.) Turismo: ressignificando sustentabilidade. 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