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FUNDAMENTOS DA HARMONIA AULA 3 Prof. Anderson Roberto Zabrocki Rosa 2 CONVERSA INICIAL A formação e a classificação de tríades e tétrades é a base para o trabalho prático com a harmonia. Nesta aula, iremos abordar desde a estrutura básica de um acorde (tríades e tétrades) até o acréscimo de tensões – notas complementares que não alteram a função harmônica de um acorde, mas agregam em sua sonoridade. Também estudaremos as inversões dos acordes, a identificação de acordes arpejados, os acordes (sus4) e os acordes de sexta e, por fim, as vozes de um acorde. TEMA 1 - TRIADES E TÉTRADES Quando tocamos simultaneamente três ou mais notas sobrepostas em terças temos um acorde. Os acordes de três notas nomeamos tríades e os acordes de quatro notas, tétrades. Devemos levar em conta que outras notas também podem ser acrescentadas aos acordes para enriquecer suas sonoridades: nonas, décimas primeiras e décimas terceiras; a décima quinta é a repetição da fundamental, como podemos ver na Figura 1: Figura 1 – Sobreposição de terças Fonte: Almada, 2012, p. 35. O som que sucede a fundamental do acorde é a terça; na sequência, a quinta, a sétima, a nona, a décima primeira e a décima terceira, conforme explica Almada (2012, p. 36). Apenas os acordes com três e quatro sons possuem aplicação prática na Harmonia Funcional. São chamados respectivamente de tríades e tétrades. As tríades são formadas por fundamental, terça e quinta. Já as tétrades, além das mesmas notas-funções, possuem também a sétima em sua constituição. Os demais intervalos (os compostos, não por acaso), nona, décima primeira e décima terceira, podem ser eventualmente incorporados a tríades ou tétrades (veremos mais adiante em quais condições), sem que isso modifique a natureza desses acordes. 3 Geralmente, para a representação dos acordes em exemplos, utilizamos a sua forma mais sintética, com terças sobrepostas a partir da fundamental, como mostra a Figura 2. Figura 2 – Tétrade: Dó com sétima maior Fonte: Acervo do autor. Porém, ao tocarmos os acordes dados pelas cifras, podemos realizá-los de maneira livre, não sendo necessário manter a ordem (fundamental, terça, quinta, sétima etc). No exemplo a seguir (Figura 3), podemos observar algumas possibilidades de realização do acorde de C7M: Figura 3 – Diferentes posições do acorde de dó maior com sétima Fonte: Baseado em Almada, 2012, p. 46-47. 1.1 Tríades Há quatro possibilidades para a formação de tríades: 1) Tríades maiores. 2) Tríades menores. 3) Tríades diminutas. 4) Tríades aumentadas. Veja a representação dessa formação na Figura 4. 4 Figura 4 – Formações de tríades Fonte: Baseado em Almada, 2012, p. 36-37. Segundo Almada (2012, p. 36), podemos classificar as tríades em dois grupos: as tríades perfeitas e as tríades com quintas alteradas: 1) As duas primeiras tríades, em razão de serem justas as suas quintas, são denominadas, respectivamente, acordes perfeito maior e perfeito menor, ou, simplificando, maior e menor (isto é, seus nomes derivam da primeira terça). 2) Tanto a terceira quanto a quarta tríade possuem quintas alteradas. Sendo assim, diferentemente dos acordes anteriores, é de suas quintas que são tirados os seus nomes, respectivamente, tríade diminuta e tríade aumentada. Veja na Figura 5 o campo harmônico de Dó Maior (tríades): Figura 5 – Campo harmônico de dó maior (tríades) Fonte: Acervo do autor. 1.1.1 Identificação de tríades arpejadas Tão comum quanto a escrita de acordes em blocos é a escrita de acordes arpejados. Neste último tipo, nem sempre a primeira nota do arpejo será a nota fundamental do acorde. Para a identificação de um acorde arpejado, podemos recorrer a uma técnica muito simples e eficaz, que consiste em identificar as notas do acorde que formam um intervalo de quinta e deduzir qual delas será a fundamental (lembrando que um acorde é sempre formado de terças sobrepostas). Analise a Figura 6 para compreender melhor. 5 Figura 6 – Tríades arpejadas Fonte: Baseado em Almada, 2012, p. 40. 1.2 Tétrades As tétrades são acordes de quatro sons, originadas da inclusão de mais um intervalo de terça sobre as tríades – a sétima do acorde. O procedimento de estruturação das tétrades ocorre de maneira semelhante ao da formação das tríades, com o acréscimo de mais um intervalo de terça maior, menor ou diminuta. Há sete possibilidades para a formação de tétrades: 1) Tétrade maior com sétima maior. 2) Tétrade maior com sétima. 3) Tétrade menor com sétima maior. 4) Tétrade menor com sétima. 5) Tétrade menor com sétima e quinta diminuta. 6) Tétrade menor com sétima diminuta e quinta diminuta (podendo ser chamada apenas de sétima diminuta). 7) Tétrade aumentada com sétima maior. Figura 7 – Tétrades Fonte: Baseada em Almada, 2012, p.41-43. a) b) c) d) e) f) g) 6 Observação: O acorde com sétima também recebe o nome de acorde dominante. Observe a Figura 8. Figura 8 – Campo harmônico de Dó Maior (tétrades) Fonte: Acervo do autor. 1.2.1 Identificação de tétrades arpejadas Para a identificação dos acordes de tétrades arpejados, é preciso encontrar os intervalos de sétima ou segunda no arpejo. Esses intervalos irão oferecer uma indicação de qual será a nota fundamental do acorde, conforme demonstrado na Figura 9. Figura 9 – Tétrades arpejadas Fonte: Baseada em Almada, 2012, p. 45. TEMA 2– INVERSÕES DE ACORDES Para Carlos Almada (2012, p.47), as inversões são usadas com pelo menos dois propósitos: 1) Suavizar a sonoridade de um acorde (por exemplo, ao invés de repetirmos literalmente um acorde surgido um pouco antes, podemos apresentá-lo invertido, o que faz com que, embora possua exatamente as mesmas notas do original, soe ligeiramente variado em relação à aquele). 2) Criar para a voz do baixo, linhas que se aproximem de verdadeiras melodias, e não meras sequências de saltos de fundamentais. Nas inversões passamos a ter a terça, a quinta ou a sétima do acorde como nota mais grave deste. Chamamos de primeira inversão quando a terça do 7 acorde é a nota mais grave; de segunda inversão quando temos a quinta no baixo; e de terceira inversão, quando temos a sétima no baixo. No exemplo a seguir (Figura 10), temos: Tétrade em estado fundamental (G7). Sol com sétima em primeira inversão (G7/B). Sol com sétima em segunda inversão (G7/D). Sol em terceira inversão (G/F). Figura 10 – Inversões de tétrade de Sol maior Fonte: Almada, 2012, p.47. Agora, vejamos na Figura 11 um exemplo de harmonização utilizando inversões de acorde. Na primeira linha temos a melodia cifrada e na linha abaixo, a formação dos acordes. Figura 11 – Partitura Se esta rua fosse minha Se esta rua fosse minha Mário Lago e Roberto Martins Fonte: Acervo do autor. Melodia e cifras: Formação dos acordes: 8 2.1 As vozes Quando falamos das vozes em harmonia, nos referimos às diferentes possibilidades de distribuição das notas de um acorde e à transição de um acorde para o outro. Há regras gerais para a condução de vozes em harmonia, sendo as mais conhecidas: Mover as vozes por graus conjuntos ou saltos de até uma oitava. Que as vozes se movam de maneira independente umas das outras. Evitar movimentos paralelos consecutivos, pois eles tornam as trocas de acordes “duras” e monótonas. Essas regras são geralmente atribuídas à harmonia tradicional, mas também muito bem-vindas à harmonia popular ou funcional, pois garantem mais diversidade e sutilezas nas sucessões de acordes. Na Figura 11 podemos observar um exemplo muitointeressante. Figura 11 – Exemplo de diferentes disposições de vozes em um acorde de C7M Fonte: Baseada em Almada, 2012, p. 46-47. Agora, vejamos um exemplo de movimento das vozes em mudanças de acordes seguindo algumas regras básicas. Figura 12 – Exemplo de movimentos mínimos entre as vozes: poucos saltos e movimentos contrários entre as vozes Fonte: Acervo do autor. 9 2.2 O acorde (sus 4) e o acorde com sexta Estes acordes são aqueles que, aparentemente, escapam da regra fundamental de estruturação harmônica por sobreposição de terças. O primeiro deles é o acorde (sus4), que pode ser visto na Figura 13 e que Almada (2012, p.49) considera: derivado de um acorde maior (seja tríade ou tétrade), o assim chamado acorde sus4 é obtido substituindo-se a terça maior pela quarta justa em relação à fundamental. É uma estrutura derivada de procedimentos contrapontísticos na harmonia dos períodos barroco e clássico: a quarta era originalmente uma suspensão (daí a razão da abreviatura “sus”) que resolvia na terça de uma determinada tríade maior. Tal procedimento, por uso frequente, acabou por conquistar status de fórmula cadencial, o que fez com que o acorde sus4 se tornasse uma entidade harmônica independente, como é atualmente conhecido. Figura 13 – O acorde sus4 Observação: Como tétrade, substitui o acorde dominante tradicional (ou seja, é formado por fundamental, quarta, quinta e sétima). Fonte: Almada, 2012, p. 48-49. Além dos exemplos notados na Figura 13 G(sus4) e G7(sus4) a cifragem do acorde (sus4) também pode aparecer na forma G4 e G74, conforme mostra a Figura 14. Figura 14 – O acorde com sexta Fonte: Almada, 2012, p. 49-51. Vejamos agora um exemplo de harmonização utilizando os acordes com sexta (dó e ré menor) e o (sus4) no último compasso (Figura 15). 10 Figura 15 – Partitura da canção Samba lelê Fonte: Acervo do autor. Assim como no acorde (sus4), o acorde de sexta ocorre por uma substituição na estrutura de tétrade: substitui-se a sétima por uma sexta. O acorde de sexta pode substituir acordes maiores, com sétima maior, e menores, com sétima; a sexta do acorde de sexta é sempre maior, como explica Almada (2012, p. 51). Vários motivos podem justificar a troca da sétima pela sexta: para buscar por exemplo, uma sonoridade harmônica mais suave ou leve, principalmente no caso dos acordes maiores. Não é por acaso que tétrades com sexta são as preferidas pelos compositores de bossa nova, pois elas possuem um sabor “arredondado”, sem as angulosidades que as sétimas maiores conferem aos acordes. A substituição também se justifica para evitar que uma situação bem específica: a harmonização por um acorde de sétima maior de uma nota que seja idêntica a sua fundamental. Quando isso acontece, estabelece-se um choque intervalar de semitom (ou nona menor, caso melodia e harmonia estejam em oitavas diferentes) entre a nota e a sétima maior do acorde, choque que é indesejável numa estrutura harmônica que, como veremos mais adiante, deve expressar estabilidade e repouso. A troca de sétima maior pela sexta resolve o problema: o intervalo em questão transforma-se então em terça (ou décima) menor. 2.3 Tensões acrescentadas As tensões harmônicas são notas que fazem parte da escala de um acorde e podem ser agregadas a ele. Entretanto, não são consideradas parte da estrutura harmônica e, sim, notas que podem contribuir com a densidade e o colorido harmônico de um acorde. 11 Deste modo, podemos encontrar inúmeras formações de tríades e tétrades com acréscimos de tensões, como nos mostra o exemplo da Figura 16. Figura 16 – Acordes com acréscimos de tensões Fonte: Baseada em Almada, 2012, p. 52. Na figura, podemos observar as seguintes formações: Dó menor com sétima e nona. Sol com nona. Lá menor com sétima e décima terceira bemol. Ré maior com sexta, nona e décima primeira aumentada. NA PRÁTICA Vamos praticar a canção Se esta rua fosse minha com diferentes possibilidades de harmonização, partindo da mais simples, acrescentando algumas inversões e, então, com o acréscimo de tensões. Por fim, criemos a nossa própria harmonização, buscando fazer uso de inversões e outras formações de acordes trabalhados nesta aula. 1ª versão: Harmonização com os três acordes principais da tonalidade: Am, Dm e E7 (tônica, subdominante e dominante). Se esta rua fosse minha Mário Lago e Roberto Martins Fonte: Acervo do autor. a) b) c) d) 12 2ª versão: Harmonização com acordes em estado fundamental e inversões. No segundo e terceiro compassos da segunda linha é acrescentado um A7, um acorde dominante secundário (V7/ii – Dominante de Dm); um dos temas a serem abordados na aula 5. Se esta rua fosse minha Mário Lago e Roberto Martins Fonte: Acervo do autor. 3ª versão: harmonização com notas de tensão, acordes sus4 e inversões. Se esta rua fosse minha Mário Lago e Roberto Martins Fonte: Acervo do autor. 4ª versão: Faça a sua própria harmonização da música, se possível, utilizando os recursos harmônicos desenvolvidos nesta aula – inversões, acorde sus4, acorde com sexta e acordes com tensões acrescentadas. 13 Se esta rua fosse minha Mário Lago e Roberto Martins Fonte: Acervo do autor. FINALIZANDO Nesta aula trabalhamos a formação dos acordes de tríades e tétrades em suas diversas possibilidades: com inversões e acréscimo de tensões. Além disso, vimos que os acordes também podem ser apresentados em formato arpejado, formato em que nem sempre a primeira nota é a fundamental, sendo necessárias algumas estratégias para identificar tais acordes. Também trabalhamos a ideia de vozes em harmonia, que se referem à maneira de distribuir as notas de um acorde e o trabalho de transição entre as vozes de um acorde para o outro. Por fim, estudamos os acordes (sus4) e de sexta que, a princípio, parecem fugir da regra de sobreposição de terças e tiveram seus usos e possíveis origens detalhados. 14 REFERÊNCIAS ALMADA, C. Harmonia funcional. 2 ed. Campinas: Ed. Unicamp, 2012. GUEST, I. Harmonia 1: método prático. São Paulo: Irmãos Vitale, 2010.