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UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS
Faculdade de Direito e Relações Internacionais
Curso de Relações Internacionais - FADIRI
Ana Roberta Dias Rossi
Laura Frederico
Mariana Alonso
CONSIDERAÇÕES ACERCA DA AULA 1 DO LIVRO “CURSO DE
INTRODUÇÃO À ECONOMIA POLÍTICA” DE PAUL SINGER
Dourados - MS
2023
Teorias do Valor
Neste trabalho serão apresentadas duas teorias sobre a definição dos
valores de produtos no mercado, as quais apresentam dicotomia no estudo da
economia, de acordo com o economista e autor do livro “Curso de introdução à
Economia Política”, Paul Singer. Desse modo, veremos que uma teoria não
anula a outra e ambas possuem suma importância acadêmica para o
entendimento do Mercado. Tanto a teoria da Economia Marginalista, quanto a
teoria da Economia Marxista buscam explicar o fenômeno da atribuição de
valores de maneiras diferentes e razoavelmente complementares uma à outra.
Assim, serão analisadas suas aplicações teóricas e cotidianas para melhor
compreensão de seus efeitos na sociedade.
Na primeira teoria, chamada de Valor-utilidade, leva-se em consideração
a satisfação direta do homem em relação às suas necessidades. Portanto, o
homem como indivíduo define quanto vale um produto de acordo com suas
próprias necessidades e preferências. Esta teoria é extremamente individualista,
levando em consideração apenas o indivíduo e sua relação com o objeto.
Deste modo, consideram-se vontades, gostos e preferências, ou seja,
aspectos extremamente subjetivos, que não podem ser medidos. Apesar de
poderem ser analisados, não trarão respostas exatas. No entanto, como
mencionado pelo autor do texto, as vontades podem ser manipuladas pelas
grandes empresas, trazendo uma falsa sensação de felicidade ao adquirir o
produto e distorcendo o conceito de necessidade.
Podemos usar de exemplo marcas como Coca-cola, Apple, Nestlé, entre
muitas outras, que são conhecidas por fazer com que os espectadores sintam a
necessidade de comprar seus produtos, através de propagandas super
produzidas. Porém, esse fator não é considerado pela teoria marginalista.
Essa teoria é sim importante para analisarmos qual produto devemos
oferecer dependendo do tipo de consumidor, principalmente em Relações
Internacionais. Por exemplo: que valor tem a carne bovina para a Índia?
Nenhum, pois não consomem tal produto. Porém, em outros países, esse mesmo
produto pode ter valores altíssimos. No entanto, essa ideia contraria a afirmação
de que a teoria valor-utilidade não considera o momento histórico, pois a cultura
e costumes estão sempre em mudança. Porém, ela não é aplicável na economia
como um todo, podendo ser usada apenas em situações muito específicas entre o
vendedor e o consumidor, como no exemplo da Índia.
Já na segunda teoria, chamada de Valor-trabalho, leva-se em consideração
uma relação entre os homens, medindo o valor do objeto pela quantidade de
horas trabalhadas para sua produção. Essa teoria parte da ideia de que a
economia é coletiva e deve ser estudada por esse olhar, visto que envolve não só
um homem, mas toda uma sociedade que participa, mesmo que indiretamente,
em qualquer interação no mercado.
Assim, quando compramos algo, há muitos atores envolvidos: as pessoas
que produziram tal objeto, os vendedores, os possíveis compradores, os
entregadores, etc. Observa-se então que a atividade econômica é coletiva e
podemos afirmar que ela tem estrita relação com a divisão social do trabalho.
Ainda, afirma que o trabalho é uma atividade essencial para o ser humano
e que o qualifica como tal, ao contrário da teoria valor-utilidade que enxerga o
trabalho como um sacrifício do ócio para a satisfação de necessidades.
Entende-se que ambas estão corretas até certo ponto. O trabalho é comumente
entendido como um meio para um fim, trabalha-se para que algo necessário
possa ser comprado. No entanto, não é suficiente apenas essa necessidade para
explicar a necessidade do trabalho, pois, hoje, além da satisfação das
necessidades, os homens buscam o lucro para satisfazer também seus luxos e
extravagâncias.
Além disso, o marginalismo justifica o fenômeno do desemprego pela
falta de vontade de sacrificar o ócio. Porém, não leva em consideração contexto
histórico e social, de forma a culpabilizar os indivíduos por problemas que
muitas vezes são estruturais do sistema capitalista. É preciso que haja
desemprego para que o capitalismo possa funcionar, de modo que a mão de obra
seja cada vez mais barata, aumentando consequentemente o lucro.
Outra diferença explícita entre essas duas teorias é que, como dito
anteriormente, na teoria valor-utilidade, não há uma forma de medir o valor,
pois este é extremamente subjetivo, enquanto na teoria valor-trabalho, o valor
pode sim ser medido e calculado pelas horas trabalhadas para a produção do
objeto ou serviço a ser pago.
Ainda, outro conceito em que essas teorias se diferem é o de excedente
social. Segundo a teoria do valor-utilidade, o excedente social é o que a
sociedade produz e que não se destina ao consumo imediato, como as matérias
primas. O excedente social é interpretado como uma renúncia ao consumo
imediato a favor de um consumo futuro, ou seja, alguns indivíduos não gastam
tudo o que ganham em consumo e guardam uma parte, criando-se uma
poupança, que terá o valor investido para futuramente obter um valor maior.
Assim, o excedente é considerado um sacrifício em prol da sociedade e, por este
motivo, os indivíduos devem ser remunerados por meio de uma taxa de juros
para gerar mais estímulo ao investimento na poupança. Os juros crescem na
medida em que o tempo passa.
A produção do excedente social explica o próprio crescimento da
economia, pois é a reutilização do capital deste excedente que faz a economia
crescer. No entanto, essa teoria não leva em consideração o acúmulo desse
excedente detido por uma pequena parcela da sociedade, gerando desigualdade
social acentuada. Todo o comportamento do Estado, na economia, não se
explica pela teoria do valor-utilidade.
Já para a teoria do valor-trabalho, o excedente social é fixado de acordo
com o tipo de sociedade que se analisa. Numa sociedade centralmente planejada
hoje em dia, a fixação do excedente é uma decisão coletiva, discutida. Se há um
sacrifício, ele é coletivamente assumido. Numa economia capitalista, o
excedente decorre essencialmente da produtividade do trabalho e do custo de
reprodução da força de trabalho. Dessa maneira, é fundamental somar todos os
recursos necessários para qualificar os trabalhadores para exercerem funções
diferenciadas definidas pela divisão social do trabalho. Somando isto ao custo
de subsistência da população trabalhadora, há a parcela do produto social que
Marx chamou de “produto necessário”, ou seja, sem a qual a economia não pode
crescer e se reproduzir.
Por outro lado, o produto social total é dado pela produtividade da força
de trabalho, que, geralmente, quando efetivamente usada, produz certa
quantidade de recursos maior do que o mínimo (o produto necessário).
Deduzindo do produto social total o produto necessário, o que resta é o
excedente.
Dessa forma, entende-se que essas duas teorias possuem certa
complementaridade, mesmo que afirmem visões diferentes. Isso porque uma, a
teoria do Valor-Trabalho, é essencialmente macroeconômica, levando em
consideração contexto social e histórico, mudanças ao longo do tempo e a
coletividade em que a economia existe, não sendo útil para situações meramente
cotidianas, enquanto a teoria Valor-utilidade não dá conta de uma visão macro,
ela tem seu enfoque no dia-a-dia do mercado, uma vez que é subjetiva, pessoal e
individualista.
Em síntese, Paul Singer busca em seu livro reunir a grande dicotomia
presente na teoria do valor, que se divide em duas correntes de pensamento
econômico, sendo elas a Escola Marginalista e a Escola Marxista. Explica
também a existência de um conflito entre as duas principais escolas de
pensamento econômico, o que não é incomum pelo fato de serem antagônicas.
Por esta razão, uma tenta apagar a outra, ou agir como seuma não tivesse
relação com a outra.
A teoria do valor, na economia, é o que possibilita a quantificação deste
campo científico. É importante tratar a economia como uma ciência não
objetiva, pois se trata de uma ciência social, ao contrário do que pensam os
debates positivistas. Apesar disso, existe a possibilidade de quantificação de
suas teorias de maneira que outra ciência social não tem: “{...} ela é capaz de
quantificar, senão a atividade econômica pelo menos seus frutos, ou seja, o
produto social. ” Logo, produto social é caracterizado por tudo que a atividade
econômica gera.
O valor-utilidade e o valor-trabalho são as duas teorias da ciência
econômica moderna que definem o que é VALOR. O valor-utilidade define que
o valor que atribuímos a algo (nesta perspectiva, um produto) está relacionado
com a necessidade subjetiva (ou comportamento subjetivo) do indivíduo. Esta
necessidade ou comportamento, por sua vez, é composta por fatores objetivos,
que podem ser quantificados e estudados, mas isso não é o que interessa na
teoria de valor-utilidade. Nesta escola de pensamento econômico, não foi
possível ter a precisão ou mapeamento da vontade absoluta do indivíduo,
portanto, surge o conceito de publicidade e propaganda, onde as empresas
“empurram” e manipulam esta vontade no elemento central que sustenta este
sistema, o consumidor. Ainda, trata-se de uma forma mais individualista de
enxergar a economia, baseado na relação de um indivíduo e a forma como ele
enxerga aquele produto e qual o papel deste produto na satisfação de suas
necessidades. “Quanto vale um copo d’água no deserto? ” Em contrapartida, na
teoria de valor-trabalho, a atividade econômica é essencialmente coletiva e
social. Ou seja, o que um indivíduo faz em seu trabalho tem impacto na vida de
outro indivíduo trabalhador, cada um desempenhando uma função especializada
e complementar, contribuindo para o funcionamento da divisão social do
trabalho.
Logo, nesta escola de pensamento o VALOR é caracterizado pelo
produto social que advém da atividade laboral coletiva. Por fim, cada teoria
atribui um significado para o conceito de VALOR, a escola marginalista o
considera subjetivo, enquanto a escola marxista o considera objetivo. Além
disso, se divergem na conceituação do produto social, que para a escola
marginalista é caracterizado pelas avaliações dos agentes econômicos e as
movimentações do mercado, enquanto a escola marxista considera produto
social a relação entre tempo e força de trabalho gastos na produção de
mercadorias.
Em última análise, é abordado a maneira de enxergar e lidar com o
excedente social em ambas as teorias. Para a teoria marginalista, o excedente
social começa com quem poupa seu salário. Em contrapartida, a teoria marxista
defende que o excedente social é “a diferença entre o produto social total,
resultado da força de trabalho e o produto necessário” (ou, de maneira breve, o
investimento necessário na infraestrutura de uma sociedade e na
profissionalização de seus indivíduos). Cabe questionar: numa análise moderna
da sociedade, como poupar sabendo que os gastos que o povo tem apenas para a
subsistência não são suficientes? Para onde vão os lucros exponenciais das
empresas capitalistas se sua mão de obra não está ganhando o suficiente para
viver dignamente? Para Karl Marx, este fenômeno é conhecido como
mais-valia, que se define pela diferença entre o custo da mão de obra e o lucro
que isso gera ao burguês (dono do meio de produção), que parte de uma
premissa de acúmulo de riquezas, e é aí que encontramos de fato o excedente
social. Encontramos também investimentos privados de multinacionais em
países subdesenvolvidos onde a mão de obra custa menos que em seu país de
origem.
A sociedade capitalista em que nos encontramos, onde estas situações são
a forma de sustentação da mesma, infelizmente nos faz vivenciar a desigualdade
social, injustiças frequentes, aumento do desemprego e consequentemente da
criminalidade, além da massificada exploração da natureza em busca de
matérias primas sempre visando lucro, mas a troco de quê? Este sistema, que
evoluiu desde o livro de Paul Singer, nos deixa questionamentos válidos sobre a
forma que estamos vivendo e por qual razão normalizamos certos absurdos.
Pensar a economia como aliada do bem estar social da sociedade como um todo
é o primeiro passo para que possamos evoluir e viver mais dignamente.