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GESTÃO ESTRATÉGICA DE RECURSOS HUMANOS II Professor Esp. Eudes Cristiano Vargas Reitor Márcio Mesquita Serva Vice-reitora Profª. Regina Lúcia Ottaiano Losasso Serva Pró-Reitor Acadêmico Prof. José Roberto Marques de Castro Pró-reitora de Pesquisa, Pós-graduação e Ação Comunitária Profª. Drª. Fernanda Mesquita Serva Pró-reitor Administrativo Marco Antonio Teixeira Direção do Núcleo de Educação a Distância Paulo Pardo Coordenador Pedagógico do Curso Henrique Nieddermeyer Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico B42 Design *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Universidade de Marília Avenida Hygino Muzzy Filho, 1001 CEP 17.525–902- Marília-SP Imagens, ícones e capa: ©envato, ©pexels, ©pixabay, ©Twenty20 e ©wikimedia BOAS-VINDAS Ao iniciar a leitura deste material, que é parte do apoio pedagógico dos nossos queridos discentes, convido o leitor a conhecer a UNIMAR – Universidade de Marília. Na UNIMAR, a educação sempre foi sinônimo de transformação, e não conseguimos enxergar um melhor caminho senão por meio de um ensino superior bem feito. A história da UNIMAR, iniciada há mais de 60 anos, foi construída com base na excelência do ensino superior para transformar vidas, com a missão de formar profissionais éticos e competentes, inseridos na comunidade, capazes de constituir o conhecimento e promover a cultura e o intercâmbio, a fim de desenvolver a consciência coletiva na busca contínua da valorização e da solidariedade humanas. A história da UNIMAR é bela e de sucesso, e já projeta para o futuro novos sonhos, conquistas e desafios. A beleza e o sucesso, porém, não vêm somente do seu campus de mais de 350 alqueires e de suas construções funcionais e conectadas; vêm também do seu corpo docente altamente qualificado e dos seus egressos: mais de 100 mil pessoas, espalhados por todo o Brasil e o mundo, que tiveram suas vidas impactadas e transformadas pelo ensino superior da UNIMAR. Assim, é com orgulho que apresentamos a Educação a Distância da UNIMAR com o mesmo propósito: promover transformação de forma democrática e acessível em todos os cantos do nosso país. Se há alguma expectativa de progresso e mudança de realidade do nosso povo, essa expectativa está ligada de forma indissociável à educação. Nós nos comprometemos com essa educação transformadora, investimos nela, trabalhamos noite e dia para que ela seja ofertada e esteja acessível a todos. Muito obrigado por confiar uma parte importante do seu futuro a nós, à UNIMAR e, tenha a certeza de que seremos parceiros neste momento e não mediremos esforços para o seu sucesso! Não vamos parar, vamos continuar com investimentos importantes na educação superior, sonhando sempre. Afinal, não é possível nunca parar de sonhar! Bons estudos! Dr. Márcio Mesquita Serva Reitor da UNIMAR Que alegria poder fazer parte deste momento tão especial da sua vida! Sempre trabalhei com jovens e sei o quanto estar matriculado em um curso de ensino superior em uma Universidade de excelência deve ser valorizado. Por isso, aproveite cada minuto do seu tempo aqui na UNIMAR, vivenciando o ensino, a pesquisa e a extensão universitária. Fique atento aos comunicados institucionais, aproveite as oportunidades, faça amizades e viva as experiências que somente um ensino superior consegue proporcionar. Acompanhe a UNIMAR pelas redes sociais, visite a sede do campus universitário localizado na cidade de Marília, navegue pelo nosso site unimar.br, comente no nosso blog e compartilhe suas experiências. Viva a UNIMAR! Muito obrigada por escolher esta Universidade para a realização do seu sonho profissional. Seguiremos, juntos, com nossa missão e com nossos valores, sempre com muita dedicação. Bem-vindo(a) à Família UNIMAR. Educar para transformar: esse é o foco da Universidade de Marília no seu projeto de Educação a Distância. Como dizia um grande educador, são as pessoas que transformam o mundo, e elas só o transformam se estiverem capacitadas para isso. Esse é o nosso propósito: contribuir para sua transformação pessoal, oferecendo um ensino de qualidade, interativo, inovador, e buscando nos superar a cada dia para que você tenha a melhor experiência educacional. E, mais do que isso, que você possa desenvolver as competências e habilidades necessárias não somente para o seu futuro, mas para o seu presente, neste momento mágico em que vivemos. A UNIMAR será sua parceira em todos os momentos de sua educação superior. Conte conosco! Estamos aqui para apoiá-lo! Sabemos que você é o principal responsável pelo seu crescimento pessoal e profissional, mas agora você tem a gente para seguir junto com você. Sucesso sempre! Profa. Fernanda Mesquita Serva Pró-reitora de Pesquisa, Pós-graduação e Ação Comunitária da UNIMAR Prof. Me. Paulo Pardo Coordenador do Núcleo EAD da UNIMAR 006 Aula 01: 014 Aula 02: 023 Aula 03: 029 Aula 04: 036 Aula 05: 045 Aula 06: 051 Aula 07: 064 Aula 08: 077 Aula 09: 088 Aula 10: 098 Aula 11: 107 Aula 12: 114 Aula 13: 124 Aula 14: 137 Aula 15: 142 Aula 16: Dualidade Gestão de Pessoas Gestão Estratégica de Pessoas Falando de Competência Gestão Pública Core Competence Mapeamento das Competências Organizacionais Recrutamento por Competências Processo Seletivo Avaliação com Foco em Competências Capacitação e Desenvolvimento de Pessoas por Competências Valorização e Remuneração por Competências Sistemas de Gestão de Pessoas nas Organizações Preparação da Matriz de Competências Metodologia de Implantação do Modelo de Competências RH como Centro de Planejamento e de Resultados 01 Dualidade 6 Olá, prezados! Antes de iniciarmos nossas discussões sobre gestão de competência, precisamos fazer uma breve re�exão sobre o contexto social e a perspectiva do senso comum que está �xada em nossa mente. Provavelmente, você faz parte dos mais de 99,9% de pessoas no mundo que acredita que o contrário de “competência” é “incompetência”. Essa visão, entretanto, é distorcida e incorreta do ponto de vista organizacional. Assim, nesta aula, vamos expandir um pouco essa visão dual das coisas, tentando mostrar essa incongruência que é muito comum ao ser humano. A dualidade do ser humano é razão de inúmeras publicações desde Platão até os dias atuais. Portanto, não pretendemos aqui esgotar e discutir sobre o assunto, mas sim realizar um compilado de ideias que nos dará maior luminosidade sobre o assunto e que também nos auxiliará na compreensão e condução da gestão de competências. A Dualidade Filosófica de Platão Platão (428/427 a.C. - 348/347 a.C.) foi um dos maiores pensadores da Grécia Antiga. O �lósofo e matemático manuscreveu diversos “diálogos”, inclusive abordando as ideias de seus mestres: Sócrates, Pitágoras e Heráclito, entre outros. Platão também 7 Busto de Platão e pintura da Academia de Atenas no Vaticano Fonte: Wikimedia. foi fundador da Academia de Atenas, considerada a primeira instituição de ensino superior do ocidente (BURNETT, 2006). Obviamente não vamos nos aprofundar nas ideias de Platão, mas é preciso conhecê-las para dar seguimento ao nosso propósito. Platão compreendia o ser humano como um ser imortal formado por duas partes distintas –corpo e alma – em que o corpo signi�caria a parte física de nossa existência, mas a alma pertenceria ao mundo imaterial. Veja que a separação feita por Platão não está vinculada à religiosidade por meio da qual hoje compreendemos a alma, mas ao intelecto individual. Portanto, fariam parte dessa “alma” a cognição, caráter, personalidade, inteligência, etc. (BURNET, 2006) A ideia de dualidade �losó�ca a�rmava que a alma era incapacitadade se unir completamente ao corpo, estando assim “encarcerada” por ele, e somente estaria livre totalmente ao abdicar de uma vez de toda natureza física – ou seja, a inteligência, caráter, personalidade humana só poderia ser enxergada totalmente após a morte do corpo físico. (JOLIF, 1970) Veja que, pelas ideias de Platão, podemos compreender que a união corpo/alma é um fenômeno de limitação da alma; é como se um pássaro vivesse agarrado a uma pedra, e só poderia voar livremente a partir do momento que a abandonasse. O 8 René Descartes e sua ilustração do dualismo Fonte: Wikipedia. pássaro então iria em direção ao céu, e a pedra em direção a terra. Seguindo esta linha de raciocínio, o também �lósofo René Descartes (1596 - 1650) admite a união de substâncias corpóreas e espirituais que ele traduz como corpo- mente. Descartes também a�rma a divisão do ser humano em duas partes distintas e separáveis: o cérebro (parte física) e a consciência (parte mental), a�rmando que a mente é imortal e pode existir fora do corpo, enquanto toda a parte material e física só existem a partir da existência da mente, pois o corpo não pode funcionar nem pensar por si só (LÉVY, 2010). 9 Sabia que Descartes foi um dos pioneiros no desenvolvimento das teorias do comportamento humano? Leia mais em: Assim, segundo as ideias �losó�cas de Platão e Descartes, o corpo (material) é uma carga que a consciência/alma carrega ao longo de sua trajetória. Ambos coexistem, porém, são antagônicos e contrastantes – e guarde essa informação! Pois, mais adiante, faremos outras discussões sobre este assunto. A Dualidade Contemporânea A dualidade contemporânea (ou psicanalítica, como também é conhecida) deriva das ideias de Freud, em que se entende que existem forças opostas agindo sobre o mesmo objeto. Essa concepção é basicamente pautada pelo con�ito in�nito entre id, ego e superego dentro de cada indivíduo. 10 https://go.eadstock.com.br/yT Yin & Yang Fonte: Pixabay. Segundo Azevedo (2016), o id é a parte mais básica da personalidade do ser humano e quer grati�cação instantânea para os nossos desejos e necessidades. O ego lida com a realidade e tenta satisfazer os desejos do id de uma forma socialmente aceitável pela sociedade, e o superego é baseado na moral e julgamentos sobre o certo e o errado; é a nossa voz da razão. A dualidade contemporânea também está muito próxima da cultura oriental que a�rma que dentro de cada um de nós existem o bem e o mal, conceito claramente representado pelo Yin e Yang (�gura a seguir). Aqui, entende-se que a oposição é algo natural do ser humano e, por isso, as essências de cada uma se contrapõem constantemente. Não existe espaço para o consenso, assim, uma não se subordina à outra. Por isso, a vitória de um signi�ca o sofrimento do outro; a escolha de uma ação “a”, de alguma maneira, prejudica o indivíduo ao perder a escolha “b” (ASSOUN, 1983). Perceba, caro aluno, que aqui também estamos falando em contrapontos, como a própria de�nição de dualidade é encontrada na psicanálise, que a�rma que se trata de “forças opostas”. 11 Para entender melhor a abordagem psicanalítica, veja, por exemplo, a ansiedade. Você tem inseguranças quanto a con�itos inexistentes, mas acredita que serão reais no futuro, e isso afeta o seu corpo. Veja que nada é palpável ou ao menos verídico, mas mesmo assim nos sentimos apertados, sufocados e com medo. Até aqui, minha intenção foi mostrar a visão dual de como nós somos treinados a enxergar as coisas em um universo totalmente bidimensional, ou seja, sempre pensamos em antagonismos (oposições). Branco e preto, bem e mal, cara ou coroa, céu e terra, etc. Se olharmos para nosso passado recente no ambiente político, por exemplo, havia um con�ito entre dois tipos de eleitores, apelidados de “coxinha” e “pão com mortadela”, e se você não fosse um, automaticamente era o outro. Nossa sociedade está condicionada a uma interpretação unicamente dual das coisas, e a todo o momento somos bombardeados por pensamentos duais do tipo: se não está correto é porque está errado, ou gosto da comida x ou não gosto, fazenda ou praia? Calor ou frio? Em uma discussão de casal, quem está certo: um ou o outro? Veja que existem alternativas a esses exemplos que mostrei. Preferir ir à praia não quer dizer que não goste de fazenda, inclusive minha escolha poderia variar em decorrência do momento vivido, da companhia que teria, do clima, entre outras variáveis. Entenda que esse olhar dual nos limita e nos impossibilita de enxergar as coisas como realmente são, pois aquilo que se enxerga como dual (oposto), na verdade são complementares e indissociáveis; são partes de um mesmo processo. Veja que não existe vitória se não houver a derrota, e como irei saber quem é meu amigo se não tiver inimigos? Qual seria a preciosidade da vida se não existisse a morte? Portanto, essa aparente oposição não signi�ca contrariedade, pois só consigo enxergar a mim, porque existe o outro que por ser diferente posso entender que não sou eu. Isso então torna-se muito mais um ciclo que uma linha reta que separa o um do outro. 12 Você estar certo não quer dizer que o outro esteja errado. Sempre há duas versões da história, e o juízo de valor depende da percepção de cada um, in�uenciado pela experiência individual e social vivida. Portanto, a partir de agora, ao discutir com alguém, sempre pense em como o outro está enxergando aquilo! Finalizando, minha intenção nesta primeira aula foi tentar mostrar a incongruência dessa visão e quebrar esse paradigma, pois ao falarmos sobre gestão de pessoas e ambiente organizacional, não podemos ter esse preconceito internalizado, visto que a gestão de pessoas pressupõe o desenvolvimento individual e organizacional em prol de objetivos. 13 Gestão de Pessoas 02 14 Caro aluno, nesta aula vamos falar um pouco sobre um assunto que vem ganhando bastante destaque nas organizações: a gestão de pessoas, começando pela sua evolução. A evolução histórica da gestão de pessoas, assim como em outras áreas da administração, é densa e complexa, visto que sempre ela tem como pano de fundo a própria complexidade da sociedade e os contextos históricos desta. Assim, nosso objetivo aqui é tentar apresentar essa evolução de maneira mais sistemática e simples, abordando os pontos mais signi�cativos e importantes. É importante destacar que a Gestão de pessoas não é um conceito acabado e de�nido, como dissemos anteriormente, a gestão de pessoas evolui juntamente com a sociedade, portanto, ela ainda encontra-se em desenvolvimento. Apesar de apresentar um conjunto de processos, a gestão de pessoas não pode ser de�nida e limitada a isto, pois é mais abrangente e considera o colaborador como parceiro da organização. Assim, o conceito de�nido por Chiavenato é de um “conjunto de políticas e práticas necessárias para conduzir os aspectos da posição gerencial relacionados com as pessoas ou recursos humanos” (CHIAVENATO, 2018). Veja então que o próprio autor não informa apenas processos, mas também inclui as políticas – em outras palavras, política aqui é o modo de pensar as estratégias da organização. Essas estratégias utilizam recursos e técnicas para conciliar os objetivos individuais (do colaborador) com os objetivos empresariais (do empregador). Mas para que hoje nós tivéssemos essa visão sobre gestão de pessoas, houve um histórico de desenvolvimento contínuo, com momentos marcantes, desde a Revolução Industrial em meados do século XVIII até hoje. Nesse sentido, apenas para �ns didáticos, faremos uma segmentação em três períodos, que chamaremos de fase industrial, fase pós-industrial e fase moderna. 15 Fase Industrial A fase industrial é marcada pela ascensão da industrialização, que teve início na França e se espalhou mundo afora, concentrada entre a segunda metade do século XVIII até meados do século XX. A excelência do negócio estava focada em “produzir mais no menor tempo possível”. Portanto, o foco era a produtividade, algo que contribuiu, inclusive, para os primeirosprincípios da teoria organizacional. Foram personagens marcantes desse período Frederick W. Taylor, Henri Fayol, Henry Ford e Max Weber (GIL, 2014). Nesse período, foram instituídos os primeiros princípios da administração: conhecer, prever, organizar, comandar, coordenar e controlar. “Taylor, com base em observações diretas, feitas em o�cinas, concluiu que, de modo geral, os operários produziam muito menos do que poderiam produzir. A partir daí, desenvolveu seu sistema de Administração Cientí�ca” (GIL, 2014, p. 18). A partir dessa concepção, nota-se que os esforços desse período se concentravam em racionalizar cada vez mais o trabalho em busca de coordenação para aumentar a produtividade e, consequentemente, o lucro. A relação dessa questão com a evolução da gestão de pessoas está em compreender que nessa fase as preocupações estavam voltadas totalmente para a tarefa e, posteriormente, para o processo. 16 Produção em linha do automóvel Fonte: Pixabay. Na denominada “Grande Indústria”, não existia ênfase ou preocupação com as pessoas que trabalhavam nas fábricas Tal feito era rati�cado pelo comportamento da sociedade da época que, fortemente marcada pelo êxodo do campo para a cidade, tinha mão de obra disponível, mesmo que sem quali�cação, para atuar nas fábricas. Assim, os encarregados das indústrias recrutavam aqueles dotados de melhor porte físico para atuar em suas estruturas, ou seja, os �sicamente mais fortes. Esse cenário, impulsionado pela falta de regulamentação trabalhista, representa um dos principais quadros de exploração de mão de obra da sociedade no que diz respeito ao trato das pessoas em organizações. O ponto principal aqui é compreender que a prática de gestão de pessoas (que nessa fase não existia) é impulsionada pelos elementos que compõem o cenário vivenciado pelas organizações, suas prioridades e necessidades. E foi o que aconteceu em meados do século XX que, segundo Gil (2014), representa um momento em que esse quadro de falta de preocupação com os trabalhadores começou a mudar com o fortalecimento dos sindicatos e, no caso do Brasil, com o surgimento da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). 17 Fase Pós-industrial A fase pós-industrial vai da década de 1950 até 1990, período em que as organizações tiveram que buscar uma forma “mais organizada” de gerir os seus empregados, cumprindo, principalmente, com os parâmetros previstos em lei. Conforme mencionado anteriormente, o fortalecimento dos sindicatos e o surgimento da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) no Brasil contribuíram para esse cenário. Segundo Gil (2014), as estruturas da época voltadas à administração de pessoal precisaram se modi�car, originando, assim, a partir da década de 1950, o departamento de relações industriais, que alterou, inclusive, o per�l requerido para aqueles que exercessem esse cargo. O novo per�l de “Gerente de Relações Industriais” exigia um pro�ssional atuante como advogado dos empregados, que se relacionasse com os movimentos sindicais trabalhistas em busca de direitos e vantagens que se materializassem na folha de pagamento. Esse é um dos motivos pelos quais as “che�as de pessoal” da época eram advogados ou bacharéis em Direito, o que se prolongando até o �nal da década de 1970 (BARBIERI, 2012; ARAUJO; GARCIA, 2010). O Departamento de Relações Industriais (DRI) tinha por objetivo atender as exigências dos Sindicatos. As atividades desse departamento voltavam-se para as condições de trabalho e também a concessão de benefícios aos empregados. Mais 18 tarde, o DRI tornou-se Administração de Recursos Humanos (ARH), abarcando também as atividades de Departamento de Pessoal (contratação, demissão, pagamentos), que antes eram desenvolvidas separadamente (MARRAS, 2011). Essa junção das atividades do DRH se deu ao �nal da década de 1960, quando as tarefas do denominado Gerente de RH transcenderam as tarefas burocráticas e legais, exigindo dele também a execução de atividades operacionais e táticas, tais como recrutamento, seleção, treinamento, avaliação, remuneração, higiene e segurança do trabalho (CHIAVENATO, 2010; BARBIERI, 2012; GIL, 2014). Fazendo um viés com as teorias organizacionais, percebe-se a sua contribuição para esse cenário. O Movimento de Relações Humanas, por exemplo, trouxe uma nova abordagem para o ser humano nos contextos organizacionais, tendo como destaque os pensadores: Elton Mayo, Abraham Maslow, Douglas McGregor e Frederick Herzberg. Fase Moderna Sabemos que a partir da década de 1990 inúmeras transformações incidiram sobre a sociedade, repercutindo diretamente nas organizações, em seus processos e tecnologias, bem como na forma de tratar as pessoas que fazem parte desses ambientes. 19 De acordo com Gil (2014), as formas de tratamento dos indivíduos nas organizações e os modelos de gestão perpassaram por questionamentos que repercutem até os dias de hoje. A própria nomenclatura da área ainda é alvo de críticas, visto que, se tratadas como “recursos”, as pessoas devem ser meramente administradas em busca do maior rendimento possível. É o que se discute hoje no RH estratégico. Complementando essa ideia, Chiavenato (2010) diz que as equipes de gestão com pessoas surgiram para substituir os departamentos de recursos humanos. Para que isso aconteça, tarefas operacionais são delegadas aos gerentes responsáveis por cada departamento da organização, enquanto as tarefas burocráticas não essenciais são terceirizadas. Para Marras (2011), as áreas de RH comumente terceirizadas são: treinamento, restaurante, transporte, segurança e medicina no trabalho, segurança patrimonial e limpeza. Podem ser adicionados a essa lista os processos de recrutamento e seleção, que devem contar com pro�ssionais especializados como psicólogos, por exemplo. Evidencia-se, assim, que o RH das organizações assume um papel estratégico e de orientação global, de forma que as pessoas sejam vistas e tratadas como parceiras de negócio e tenham mais autonomia no desenvolvimento de suas atividades, algo extremamente necessário na chamada Era da Informação (CHIAVENATO, 2010). O autor (2010, p. 42) a�rma ainda que “na Era da Informação, lidar com as pessoas deixou de ser um problema e passou a ser a solução para as organizações. Deixou de ser um desa�o e passou a ser vantagem competitiva para as organizações bem sucedidas”. Ou seja, organizações de sucesso são aquelas que enxergam em seu pessoal a possibilidade de inovação, mudança e prosperidade. Assim, não se fala mais em modelos estáticos de gestão de pessoas, mas em um processo dinâmico de interação entre pessoas e organizações. Corroborando essa a�rmação, Armstrong (2009) diz que, em uma abordagem estratégica, a gestão de pessoas se dedica a promover, de maneira integrada e coerente, o desenvolvimento do bem-estar das pessoas que trabalham nas organizações. 20 Para isso, o foco da área é o sucesso organizacional, com e por meio das pessoas que integram a organização. São necessários pro�ssionais especializados para desenvolver e aplicar ferramentas de RH cada vez mais e�cazes e coerentes com o contexto dinâmico das organizações, mas as atividades da área devem se expandir para além dos limites de um departamento que faz parte do organograma da empresa. As discussões em torno dessas novas formas de enxergar as pessoas nos contextos organizacionais levam ao conceito de gestão de pessoas, bem como a uma mudança de perspectiva da área: do foco operacional para o estratégico (MARRAS, 2011). Fala-se, ainda, em Gestão de Talentos, Gestão do Capital Humano, Gestão do Capital Intelectual e outras nomenclaturas para a área que cuida das pessoas na organização. Vai depender do estilo da organização, ramo de atividade ou mesmo do per�l de gestores que fazem parte do seu quadro (CHIAVENATO, 2010; MARRAS, 2011; BARBIERI, 2012). 21 É importante compreender que as atividades de gestão de pessoas são uma incumbência de todas as lideranças das organizações, e essas lideranças contam com os serviços especializados dos pro�ssionaisque compõem o órgão de RH – que continua existindo nas organizações –, mas com um novo papel no contexto organizacional. 22 Gestão Estratégica de Pessoas 03 23 Olá novamente! Com base nas discussões propostas até o momento, compreendemos que a área de RH passou por mudanças signi�cativas, principalmente nas últimas décadas. São modi�cações que geram discussões e dividem opiniões de pro�ssionais e estudiosos da área, mas que detém como premissa comum a necessidade de reconhecimento do potencial de cada pessoa do contexto organizacional. Segundo Chiavenato (2010), o RH assume um novo papel nas organizações e para os seus colaboradores, sem se limitar a um único departamento de atividades operacionais, mas atuando enquanto suporte aos gerentes de linha, ou seja, uma atividade de sta�. Os gerentes de linha são os responsáveis pelos departamentos existentes na organização: gerentes de marketing, de compras, �nanceiros, de produção, etc. Essa nova concepção da gestão de pessoas tem como premissa que quem supervisiona e toma decisões sobre os empregados da empresa são os seus supervisores diretos. “[...] gerir pessoas é uma responsabilidade de cada gerente que deve receber orientação do sta� a respeito das políticas e procedimentos adotados pela organização” (CHIAVENATO, 2010, p. 23). Maximiano (2004) a�rma que a função de sta� é situada ao lado das unidades de linha (departamentos) com o intuito de assessoria. O foco da assessoria está em prestar serviços de suporte aos gerentes de linha, tais como: auxiliá-los no desenvolvimento de atividades com os seus públicos e fornecer informações pertinentes à tomada de decisão. O sta� é uma função de apoio às linhas de comando das organizações, e o órgão de RH transita pela estrutura organizacional e atua como ponto de apoio para os gerentes na tomada de decisão e na formulação de estratégias. Esses gerentes contam, então, com a assessoria e a consultoria do órgão de RH que, por meio dos princípios de gestão de pessoas, fornece os meios e os serviços de apoio que se mostrarem necessários para se chegar aos objetivos esperados (CHIAVENATO, 2010). 24 Complementando, nesse contexto de mudanças, os pro�ssionais de sta� precisam conviver com os gerentes de linha e conhecer melhor suas atividades e departamentos (Barbieri, 2012). Tal convivência possibilita ainda que os gerentes sejam estimulados a conhecer mais os planos, políticas, procedimentos, metodologias e ferramentas do órgão de RH. Enquanto sta�, o RH torna-se uma espécie de coaching para os gerentes de linha, estimulando-os a fazer o mesmo com as suas equipes em busca do melhor desempenho. É necessário ver a função de sta� do RH como detentora de um papel orientador que estimula o desenvolvimento adequado das pessoas e de novas estratégias organizacionais. Esse papel de suporte do RH nas organizações acarreta uma atuação estratégica de Gestão de Pessoas. Um conceito que, segundo Marras (2011), leva o órgão de RH a participar e assessorar na formação e no desenvolvimento de macrodiretrizes organizacionais dando subsídio cognitivo à cúpula da empresa em questões administrativas e comportamentais. 25 Chegamos, assim, ao conceito de gestão estratégica de pessoas nos mais diversos contextos organizacionais, conceito que abarca, inclusive, o nosso tema central, que é a gestão de competências. Vamos compreender quais são os elementos essenciais da abordagem estratégica de gestão de pessoas. Cada vez mais, as empresas buscam modernizar seus modelos de gestão de pessoas a �m de atender às novas demandas do mercado de trabalho e, principalmente, ter em suas estruturas indivíduos satisfeitos e engajados com a organização. Os modelos de Gestão de Pessoas são as formas “escolhidas” pelas empresas para gerenciar e orientar o comportamento humano no trabalho (Fischer, 2002) O comportamento humano detém grande relevância para o sucesso organizacional, assim, há a necessidade de modelos de Gestão de Pessoas estrategicamente coerentes com o negócio da empresa. Para isso, é preciso que estejam explícitos os princípios, as políticas e os processos do RH: Princípios: são os valores que orientam os comportamentos das pessoas e, consequentemente, as suas decisões. Atuam como uma espécie de bússola moral da organização. Políticas: são elementos que de�nem as macro diretrizes que balizam a atuação do RH e integram os princípios e processos. Processos: são as formas de operacionalização das atividades de RH, ou seja, como os produtos do RH são viabilizados (recrutamento, seleção, socialização, etc.) (Fischer, 2002). Compreender esses três elementos é mostra importante, pois são eles que dão sustentabilidade para o desenvolvimento de um modelo de gestão de pessoas alinhado à estratégia organizacional, mediante o desenvolvimento de competências (pessoais e organizacionais) que agreguem valor à organização. Vamos falar mais desses tipos de competências posteriormente. Complementando as discussões aqui propostas, o RH se torna estratégico quando participa do processo de de�nição da estratégia empresarial, de forma que sejam concebidas práticas de RH que se ajustem a essa estratégia (Ulrich, 2003). Logo, é necessário conceber uma estrutura de gestão de pessoas que seja compatível e alinhada às demandas estratégicas da organização. 26 Nesse novo papel de assessoria nas organizações, é necessário (e indispensável) que o RH da empresa tenha uma visão sistêmica e realmente esteja integrado com a cúpula organizacional. Somente dessa maneira que a estratégia organizacional será compreendida adequadamente e que as ferramentas e práticas de gestão de pessoas estarão voltadas a ela. Para atuar nesse novo papel, o RH precisa desenvolver o seu planejamento a partir e em consonância com a estratégia corporativa. Veja na �gura a seguir como pode ocorrer essa integração das estratégias de RH com as estratégias organizacionais. 27 Fe ed ba ck Feedback Estratégia da empresa Visão de negócio Definição da missão Análise do ambiente Análise das capacidades Definição dos objetivos organizacionais Definição de macropolíticas Elementos estratégicos críticos Seleção e desenvolvimento da estratégia Implementação Estratégia de RH Desenvolvimento da compreensão e do comprometimento com a visãi do negócio Missão da ARH Análise do ambiente de RH Análise dos recursos humanos Definição dos objetivos de RH Definição de políticas de RH Elementos estratégicos críticos de RH Estratégia de RH para inclusão no Plano Estratégico da empresa Fonte: Adaptado de Albuquerque, 2002. Os elementos da �gura mostram a forma pela qual deve acontecer a integração entre as estratégias de RH e as estratégias organizacionais. Ressalta-se, ainda, a importância do feedback contínuo durante todas as etapas do processo, que ocorre por meio das avaliações de resultados ao longo de seu desenvolvimento (Albuquerque, 2002). Por meio dessa integração, podemos falar em modelos estratégicos de gestão de pessoas. Enfatizo isso porque é preciso ter cuidado ao propor ou tentar implantar modelos de Gestão de Pessoas contemporâneos em organizações que não operacionalizam adequadamente os processos primários de RH. Re�ro-me aqui aos processos de recrutamento, seleção, avaliação de desempenho, etc. E necessário fazer a lição de casa, ou seja, compreender e executar primeiramente os processos operacionais de maneira adequada, para posteriormente desenvolver um modelo de gestão estratégica de pessoas, na qual está contida a abordagem de competências, assunto que falaremos na próxima aula. Até lá! 28 Falando de Competência 04 29 Olá! A abordagem de competências na gestão de pessoas é um importante componente estratégico nos ambientes das organizações. Isso porque, quando utilizada, representa um diferencial para a organização no que diz respeito à vantagem competitiva e ao aumento do valor do negócio. São diversos os conceitos sobre competências, mas no que se refere à gestão de pessoas, a tipologia conhecimento, habilidades e atitudes– o conhecido CHA – é a mais abordada por tornar possível instrumentalizar a aplicação das competências. Essa perspectiva da competência foi desenvolvida por Benjamin Bloom em 1956, no intuito de analisar e avaliar, no campo da educação, informações que fosse além do aprendizado mecânico e repetitivo. Complementando esse entendimento, a competência é entendida como o estoque de recursos que um indivíduo detém, ou seja, as capacidades pessoais que justi�cam, inclusive, a sua performancepro�ssional (Fleury, 2002). Esse conceito de estoque de recursos aplicado aos indivíduos pode se estender a cargos, setores e organizações como um todo. Essa perspectiva da competência está vinculada à aprendizagem, pois não se pode falar em desenvolvimento de competências, sejam individuais ou organizacionais, sem falar em aprendizagem. 30 Para Fleury e Oliveira Jr (2002, p. 134), a aprendizagem é compreendida como “um processo de mudança provocado por estímulos diversos e mediado por emoções que podem ou não produzir mudança no comportamento da pessoa”. Quando levamos isso à dimensão de competências na gestão de pessoas, compreende-se que, ao instrumentalizar a aplicação de competências, pessoas e organização desenvolvem- se por meio da aprendizagem. Fleury (2002, p. 55) ressalta que “[...] competência é o conjunto de aprendizagens sociais e comunicacionais nutridas a montante pela aprendizagem e pela formação, e a jusante pelo sistema de avaliações”. Ou seja, a competência está interconectada com a aprendizagem dos indivíduos e grupos nos mais diversos ambientes em que estiverem inseridos, mas sempre contextualizada. Quando o RH esta a par das estratégias empresariais e determina as estratégias de gestão de pessoas, identi�ca-se o gap – a lacuna – entre as competências existentes e as que se fazem necessárias para consolidar o planejamento estratégico da empresa. É nesse contexto que a aprendizagem tem o seu papel fundamental. Quando uma organização adota a abordagem de competências na gestão de pessoas, ela consegue identi�car as competências de seus trabalhadores de forma a avaliar a efetividade e uso dessas competências para atingir as metas organizacionais delimitadas no plano estratégico da empresa. Ademais, por meio dessa identi�cação, é possível identi�car quais competências precisam ser desenvolvidas e/ou agregadas à organização. Feito isso, são desenvolvidas e aplicadas ferramentas de gestão de pessoas voltadas à estratégia empresarial. Assim, e necessário que os gestores de RH conheçam a fundo o conceito de competências e como esse conceito vem se desenvolvendo na atualidade. O conceito de competência vem sendo explorado em discussões realizadas por estudiosos da área de gestão de pessoas e por pro�ssionais que utilizam essa ferramenta em ambientes corporativos. Embora não sejam discussões recentes, seu processo de compreensão e desenvolvimento se mostra muito contemporâneo, e esse é um dos motivos que levam o conceito a ser considerado como “em construção”. Isso porque a competência volta-se para pessoas e ambientes organizacionais, que, em períodos tão contingenciais, perpassam por transformações contínuas. Assim, caro(a) acadêmico(a), iniciaremos as nossas discussões a partir da percepção de estudiosos da área a respeito do conceito de competência. Luft (2000), no dicionário de língua portuguesa, enfatiza em sua de�nição de competência aspectos 31 voltados a: autoridade, aptidão, habilidade e saber. Esses aspectos são percebidos, principalmente, quando a palavra competência e utilizada no senso comum, buscando classi�car uma pessoa como quali�cada ou não para fazer algo. Embora essa seja uma de�nição válida, compreenderemos a dimensão que o conceito de competência toma, principalmente quando se volta às pessoas e às organizações. Não podemos, assim, reduzir o conceito de competência à quali�cação (ou não) para a execução de uma atividade, pois há outros elementos que devem ser considerados ao explorar o seu signi�cado. A proposta de forma estruturada do conceito de competência ocorreu, pela primeira vez, em 1973, quando David McClelland buscava uma abordagem mais efetiva para os processos seletivos das organizações, que tinham os testes de inteligência como procedimento de escolha do novo empregado. Assim, a competência foi percebida por McClelland como uma característica subjacente a uma pessoa e que poderia, casualmente, estar relacionada a um desempenho superior ao realizar uma tarefa ou enfrentar uma situação (Fleury e Fleury, 2001). Ou seja, haveria outras dimensões de avaliação das pessoas, além dos testes de inteligência, que demonstravam também as suas capacidades. Durante a década de 1980, o conceito de competência começou a ser pensado como um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes, ou seja, um conjunto de capacidades humanas (Fleury e Fleury, 2001). Essas capacidades acabariam por 32 de�nir e justi�car o alto desempenho dos indivíduos fundamentado em sua inteligência e personalidade. É como se a competência passasse a ser vista como o estoque de recursos que uma pessoa detém. O autor Zari�an (2001) apresenta três mutações essenciais do mundo do trabalho que acabam por justi�car essa expansão do modelo de competência para a gestão das organizações, de forma que �ca ainda mais clara a sua expansão para além da quali�cação: anoção de incidente, a comunicação e o serviço. A noção de incidente está ligada ao fato de que o ambiente não é estático, mas dinâmico, e pode levar a imprevistos e situações não programadas. Ou seja, a competência não pode se restringir à tarefa, e as pessoas precisam estar aptas a mobilizar recursos diante das novas situações de trabalho. A comunicação esta voltada à necessidade de interação entre pessoas e organizações, e o serviço precisa ser considerado diante da necessidade de atender clientes externos e internos, além de estar presente em todas as atividades. Competência pode ser compreendida como uma forma de inteligência prática das pessoas para enfrentar as situações vivenciadas por elas, e essa inteligência se apoia em conhecimentos adquiridos, mas que são fortemente transformados conforme aumenta a complexidade das situações vivenciadas por esses indivíduos (Zari�an, 2001). Nessa mesma linha de pensamento, de que a competência pode ser percebida e avaliada a partir de uma situação, Le Boterf (2003) relaciona a competência com a capacidade do indivíduo de agir com pertinência, ou seja, saber o que fazer em situações distintas. A noção de comportamento automático, nesse caso, e deixado de lado e o saber agir mostra-se vinculado com a capacidade de o indivíduo ser capaz de interpretar e compreender, antes de sua ação. “A competência e uma ação ou um conjunto de ações �nalizado sobre uma utilidade, sobre uma �nalidade que tem um sentido para o pro�ssional” (Le Bortef, 2003, p. 47). 33 Competência não pode ser de�nida apenas pelo conhecimento ou pela habilidade de um indivíduo, mas pela sua capacidade de saber se mobilizar em um contexto e utilizar adequadamente o conhecimento e a habilidade nos diferentes ambientes e/ou situações. Assim, as competências das pessoas são as suas capacidades individuais que, compostas pelos seus conhecimentos, habilidades e experiências, contribuem para a organização e enriquecem as competências organizacionais. Para compreendermos melhor esse enlace entre pessoas e organizações, vejamos a citação a seguir de Dutra (2001, p. 27): “[...] são as pessoas que, ao colocarem em prática o patrimônio de conhecimentos da organização, concretizam as competências organizacionais e fazem sua adequação ao contexto”. A partir dessa concepção do autor, compreendemos que organização e pessoas, quando bem integradas, propiciam um processo contínuo de troca de competências, o que promove enriquecimento para ambas as partes. No que diz respeito à sua composição, a competência possui três recursos: conhecimento (saber), habilidades (saber fazer) e atitudes (saber ser). Esses três recursos levam ao conceitode CHA, do qual já falamos brevemente, um termo bastante enfatizado quando se fala na implementação desse modelo de gestão nas organizações. Veja o quadro a seguir: 34 Fonte: Adaptado de Rabaglio (2001, p. 6). CONHECIMENTOS HABILIDADES ATITUDES C H A Saber Saber fazer Querer fazer Conhecimentos técnicos, escolaridade, cursos, especializações etc. Experiência nos conhecimentos técnicos, colocar em prática o saber. Ter atitudes compatíveis para se chegar à e�cácia em relação aos conhecimentos e habilidades adquiridos ou a serem adquiridos. A partir desse ponto de vista multifacetado do conceito de competência, cabe a a�rmação do autor Le Boterf (2003) ao dizer que a competência não deve ser compreendida como um estado de conhecimento que se tem ou como um elemento resultante de treinamento, mas como a mobilização de conhecimentos e experiências para atender demandas e exigências especí�cas de um contexto de relações de trabalho, cultura da empresa, limitação de tempo, recursos e imprevistos. 35 Gestão Pública 05 36 Historicamente, a Administração no Brasil passou por três fases distintas e bem demarcadas conceitualmente: antes da Revolução de 1930, a administração pública era patrimonialista; com a criação do Departamento de Administração do Serviço Público - DASP, em 1938, �cou conhecida como administração pública burocrática; e a partir da década de 1950 teve um enfoque mais expressivo no cidadão, nos resultados e na descentralização dos serviços, sendo denominada administração pública gerencial. Contudo, é importante destacar que a criação do DASP demonstra a primeira investida do governo em pro�ssionalizar efetivamente o setor público. Como medidas de maior ênfase nesse período, destacam-se: A constituição de carreiras baseadas no mérito; A criação de sistemáticas de classi�cação de cargos; A estruturação de quadros de pessoal. Embora o DASP tenha sido criado na década de 1930, foi nos anos 60, com a edição da Lei Federal n° 3.780, de 12 de julho de 1960 e o posterior Decreto Federal n°200, de 25 de fevereiro de 1967, que se con�gura um importante movimento de reforma administrativa, pautado em princípios de planejamento, descentralização, delegação de autoridade, a coordenação e controle. Tal decreto marca a descentralização funcional que transferiu as atividades para autarquias, fundações e sociedades de economia mista (ENAP, 2006). Em 1970, cria-se a Lei Federal n°5647, que institui um novo sistema de classi�cação de cargos, originando o chamado PPC – Plano de Classi�cação de Cargos, atual Plano Geral de Cargos do Poder Executivo (PGPE), criado pela Lei 11.357/2006. Nos anos de 1970, o SIPEC – Sistema de Pessoal Civil da Administração Federal é criado. Esse sistema tem como funções básicas mostrar um panorama dos recursos humanos no setor público federal, tendo como funções básicas a classi�cação e redistribuição de cargos e empregos, o recrutamento e a seleção, o cadastro e a lotação, o aperfeiçoamento e a legislação de pessoal (ENAP, 2006). Já nas décadas de 1980 e 90, dois novos sistemas foram criados, o SIAPE – Sistema Integrado de Administração de Recursos Humanos e o SIAFI – Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal, os quais constituem a base de dados o�cial do poder executivo no que se refere a informações orçamentárias, �nanceiras, contábeis e de pessoal. Todavia, a criação desses sistemas não foi acompanhada por investimentos em treinamento e desenvolvimento de pessoal, tampouco por 37 metodologias mais contemporâneas de planejamento. Basicamente, os sistemas organizaram e mostraram a real situação de recursos humanos e �nanceiros do poder executivo (ENAP, 2006). A partir de 1995, o setor público brasileiro tem buscado desenvolver uma gestão pública “mais voltada para o cidadão e para a sociedade do que para a burocracia” e, com isso, “dar à gestão pública as características da gestão contemporânea – de excelência ou de classe mundial – sem, contudo ferir sua essência pública” (LIMA, 2009, p. 2). Porém, ainda é necessária uma mudança, e essa transformação será possível quando ocorrer uma ruptura com os modelos tradicionais de administração dos recursos públicos e introduzida uma nova cultura de gestão (Guimarães, 2000). É nesse sentido que se trata de uma alternativa de mudança tendo como foco as pessoas, que é a gestão por competências no setor público. A gestão pública brasileira atualmente precisa ser compreendida em conjunto com o processo de transformação da sociedade, pois é inevitável compreender e gerenciar organizações públicas brasileiras sem entender a relação existente entre seus escopos de atuação, novas tecnologias e necessidades de investimentos em capital humano. Gestão por Competências na Área Pública Para entender o que é gestão por competências na área pública, é importante introduzir brevemente o que são competências. E embora o termo seja usado há algum tempo, desde a discussão de core competence por Prahalad e Hamel (1997), há uma pluralidade de compreensões associadas ao termo. Logo, para �ns desta disciplina, vamos nos ater a algumas explicações para deixar claro o que é competência. 38 Para Leboyer (1997), a noção de competência refere-se aos conjuntos de comportamentos que pessoas ou organizações dominam mais do que outras, o que as torna e�cazes e competitivas em relação a outras. Já para Gilbert e Parlier (1984), o signi�cado de competências vai além de comportamentos, pois compreende um conjunto de conhecimentos, capacidade de ação e comportamentos estruturados, disponíveis para atingir um objetivo ou meta na busca de resultados. Mello (2009), ao estudar competências no âmbito da educação e do trabalho, destaca a polissemia do termo e remete competências mais como modismo na educação, termo ainda nebuloso, que não parece sobrepor o sentido de quali�cação. Seu estudo revela a essência descritiva das competências, que desconsidera os atributos subjacentes que não podem ser isolados das práticas reais de trabalho, necessárias ao desempenho em situações especí�cas, algo que está no âmago do sentido de competências. Em se tratando de competência, devemos ter claro o reconhecimento das contribuições das pessoas para se diferenciarem nos resultados organizacionais. Compreendido o conceito de competências para este estudo, é importante apresentar as concepções relativas à gestão por meio das competências, e não mais por cargos ou funções. Gramigna (2007) traça um panorama em que a gestão por competências implica participação, pois compartilha a tomada de decisões, o que leva a uma responsabilidade coletiva e institucional, e que esse modelo traz vantagens competitivas às organizações. Segundo pesquisas realizadas pela autora, a adoção 39 desse modelo traz aumento do nível de satisfação dos colaboradores, gerando um clima de trabalho mais humano, com retenção de talentos internos e identi�cação de pro�ssionais com potencial para possíveis sucessões. A aceitação desse modelo forma uma massa crítica e gera desenvolvimento de práticas inovadoras na empresa, redução signi�cativa nos custos dos programas de capacitação, obtenção de desempenhos e resultados mais destacados (GRAMIGNA, 2007), e esses resultados contribuem para o conhecimento do potencial das pessoas e da possibilidade de formar equipes diferenciadas. O efeito é o aumento do moral e elevação da motivação, instigando a satisfação no trabalho, pois como salienta Gramigna (2007, p. 4) “equipes competentes, felizes e produtivas fazem a diferença e geram resultados inimagináveis”. Além do enfoque com a satisfação dos colaboradores, outra marca da gestão por competências se refere aos esforços em quali�car as funções da administração. A gestão por competências, por concepção, propõe-se a orientar esforços para planejar, captar, desenvolver e avaliar, nos diferentes níveis da organização e das pessoas que dela participam (Brandão e Guimarães, 2001). Nesse contexto, tem-se propiciado a criação de um clima favorável para promover o desenvolvimentodas competências das pessoas nas organizações. Tal desenvolvimento, que ocorre por processos de aprendizagem, permite que os indivíduos possam assumir atribuições e responsabilidades mais complexas. Para isso, as organizações precisam criar mecanismos para ampliar a capacidade e o compartilhamento da aprendizagem (DUTRA, 2008). A elaboração de mecanismos efetivos para estimular a motivação dos servidores, assim como o alinhamento das atividades de gestão de pessoas às estratégias organizacionais e às diretrizes traçadas pelos governos passam a con�gurar emergentes desa�os para a política de gestão de recursos humanos no setor público. 40 A Emergência da Gestão por Competências no Setor Público A gestão por competências tornou-se referencial para a gestão de pessoas do setor público federal desde a publicação do Decreto nº 5.707, de 23 de fevereiro de 2006, que estabeleceu a Política Nacional de Desenvolvimento de Pessoal (PNDP). Em 2006, por meio do Decreto, a Política Nacional de Desenvolvimento de Pessoal da administração pública federal, direta, autárquica e fundacional adotou o modelo de gestão por competências como referência para a gestão de pessoal no setor público (BRASIL, 2006). Ao longo dos últimos anos, diversas organizações públicas brasileiras adotaram planos para implementar os modelos de gestão por competências, como é o caso da Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (PAZ, 2009). Além disso, Pires et. al. (2005) destacam algumas experiências como resultado de uma mesa redonda realizada por essas instituições, as quais compartilharam seus estágios de implementação e suas di�culdades. Dentre as di�culdades, as organizações salientam: Barreiras culturais; Di�culdades metodológicas de mapeamento de competências; Baixo envolvimento da alta administração e níveis gerenciais; Di�culdade de articulação das novas práticas aos subsistemas de gestão de pessoas; Carência de pessoal quali�cado; Desconhecimento do tema. Mesmo assim, outras organizações estão adotando o modelo por competências com sucesso. A Universidade Federal do Tocantins (UFT) instituiu o Plano de Desenvolvimento dos Integrantes do Plano de Cargos dos Técnico-Administrativos em Educação (PDIPCCTAE) que possui como base o Programa “Gestão de Pessoas por Competências”, que tem consonância com o planejamento estratégico da instituição e diretrizes do Ministério da Educação. O plano tem como objetivo viabilizar ações de capacitação aos servidores públicos e concede ao programa de gestão por competências articulação das pessoas com a estratégia, a partir do sistema cíclico composto por: descrição de cargos e funções, seguida dos �uxogramas setoriais, do dimensionamento das necessidades de 41 pessoal e modelo de alocação de vagas, da avaliação de desempenho e da formalização do Plano de Capacitação e Desenvolvimento (DUARTE, FERREIRA e LOPES, 2009). Outros exemplos no setor público são encontrados no documento elaborado pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos - OCDE (2010): Petrobras; Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES; e Ministério da Fazenda. Na Petrobras, o sistema de gestão de recursos humanos reporta-se diretamente ao CEO e está bem integrada aos sistemas de negócios da empresa, tendo a gestão por competência como chave nesse processo. O BNDES está em uma fase inicial, e há pouco tempo a área de gestão de recursos humanos desenvolveu seu plano estratégico e a gestão por competências está sendo central nesse processo e nos demais subsistemas da área. A etapa de avaliação das necessidades do modelo já foi realizada e mesmo o modelo estando ainda na fase inicial, sabe-se que será relacionado ao Balanced Scorecard, mas terá um desa�o voltado à seleção. O Ministério da Fazenda também já iniciou o desenvolvimento da gestão por competências e está analisando as funções de acordo com as competências essenciais. As competências também são levadas em consideração quando há transferência de pessoal. O maior objetivo destacado é integrar a gestão por competências ao Banco de Talentos a partir da elaboração de um instrumento de avaliação de desenvolvimento (OCDE, 2010). Além desses, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários – ANTAQ é outro exemplo no setor público com avanços na adoção do modelo de gestão por competências. Esta agência tem por �m regular, supervisionar e �scalizar as atividades de prestação de serviço de transporte aquaviário e de exploração da infraestrutura portuária e aquaviária (GRAMIGNA, 2007). Sua �nalidade parece favorecer a prática da gestão de competências, tendo em vista que órgãos reguladores têm tanto a função de accountability – prestação de contas – quanto à busca de resultados, aliando os processos às estratégias organizacionais. Assim, a própria estrutura da ANTAQ, enquanto personalidade jurídica de direito público, mas com independência �nanceira, administrativa e funcional revela também um modelo estrutural inovador de gestão pública, assim como a gestão por competências se apresenta como modelo organizacional inovador. 42 Percebe-se pelos exemplos apresentados que há um espaço para o desenvolvimento e para a implementação da Gestão por Competências no setor público, porém, a literatura e as pesquisas realizadas nesse universo também consideram que a adoção não é simples, pois exige superar di�culdades como, por exemplo, fazer cumprir a legislação a partir da “renovação” da cultura do serviço público. A legislação vigente aponta para a importância da etapa de sensibilização no processo de implantação do modelo junto aos servidores. Além disso, é preciso deixar claro que a implantação da gestão de competências não implica o processo de avaliação de desempenho apenas. O decreto federal n° 5.707/2006 deixa claro que a implantação da gestão por competências visa à capacitação. A gestão por competências, o plano anual de capacitação e seu relatório de execução são instrumentos da política nacional de desenvolvimento de pessoal. Logo, o decreto de�ne as diretrizes dessa política, em especial a capacitação, processo permanente e deliberado de aprendizagem, de modo a contribuir para o desenvolvimento de competências individuais e institucionais. Porém, mesmo assim é necessário salientar que existe outra di�culdade, e talvez a mais complexa, que é a mudança da cultura organizacional do serviço público, pois o sucesso para a gestão por competências pressupõe comprometimento e ação, migrando de um modelo burocrático para um modelo gerencial de resultados. 43 Isso implica mudar a gênese do setor público e, para tanto, essa metodologia de gestão precisa estar alinhada à estratégia da instituição. Nesse sentido, é fundamental analisar e considerar os fundamentos e objetivos do órgão público em questão para que se possa desenvolver o correto mapeamento das competências necessárias, assim como daquelas já existentes. Os estudos realizados em diversos órgãos públicos indicam que os principais obstáculos que se impõem à aplicação deste modelo são (Camões, 2010): As barreiras culturais; A falta de incentivo à participação em programas de treinamento; A inexistência de um sistema de informações bem estruturado; A falta de oportunidade de se aplicar, na prática, o conhecimento adquirido. Esses problemas acabam se tornando um empecilho, uma vez que este modelo requer uma cultura aberta ao conhecimento e que possa manter um aprendizado contínuo, em um ambiente �exível, em que se possam aplicar as novas habilidades adquiridas e onde exista os recursos estruturais necessários para alcançar os resultados de�nidos nos objetivos estratégicos. Conforme Kerr (2006), a gestão por competências demanda atenção prioritária aos fatores qualitativos em se tratando de investimento em pessoas, o que remete ao desenvolvimento de pro�ssionais, de competências e a organização. A aplicação do modelo traz vantagens a partir da formação de equipes por competências. Assim, o aprendizado coletivo é difundido, poisa troca de informações e de experiências é inevitável quando as pessoas trabalham juntas (Gramigna, 2007). A partir disso, a gestão do conhecimento torna-se parte da cultura do grupo, e o estímulo à cooperação diminui a prática da competição, valorizando estratégias que contribuam para o aumento de produtividade e a melhoria do clima de trabalho. 44 Core Competence 06 45 Como vimos, caro acadêmico, o conceito de competência pode ser apresentado e analisado a partir de diferentes perspectivas. A primeira que discutiremos será denominada dimensão estratégica da competência e volta-se às competências organizacionais. Segundo Dias et al. (2012), as perspectivas da expressão competência estão associadas a eixos conceituais especí�cos. O eixo no qual se desenvolve a dimensão estratégica tem sido considerado uma importante alternativa para o desenvolvimento de competitividade organizacional e provém do conceito de Core Competence, dos autores Prahalad e Hamel (2000). Prahalad e Hamel (2000) de�nem Core Competence como as competências de sustentação do negócio, aquelas que se mostram essenciais. Objetivando a avaliação de sua capacidade de sustentação, as competências estabelecidas devem responder a três critérios: ser difíceis de imitar, oferecer benefícios aos consumidores e prover acesso a diferentes mercados. Rati�cando tal ideia, há a necessidade de combinação de varias competências que uma empresa tem, orientadas para desenvolver e levar produtos e serviços ao seu público-alvo. Ou seja, a competência pode ser entendida como “[...] a capacidade de combinar, misturar e integrar recursos em produtos e serviços” (FLEURY; FLEURY, 2000, p. 23). Assim, as competências organizacionais emergem como fatores que delineiam a escolha das estratégias de competição da empresa, que tem como princípio o desenvolvimento de competências organizacionais extraordinárias que viabilizem diferenciais competitivos sustentáveis (DIAS et al., 2012). Esse eixo conceitual é apresentado como um desdobramento da corrente Resource Base View (RBV) ou, em português, Visão Baseada em Recursos (VBR), proposta por Edith Penrose em 1959, que defende a ideia de que os recursos internos da organização constituem seus principais fatores de competição. Nessa concepção, o conjunto de recursos da organização e empregado produtivamente de forma a gerar riqueza para a empresa (DIAS et al., 2012; FERNANDES; FLEURY e MILLS, 2006). 46 Os teóricos que investigam a RBV classi�cam os recursos da organização, de maneira geral, como em físicos e humanos. Os físicos são constituídos pelos prédios, equipamentos, recursos e matéria-prima, enquanto os humanos são constituídos pelos empregados da organização, redes de relacionamento, valores, cultura e conhecimento. Sob essa perspectiva, percebemos que na RBV os recursos precisam ser mobilizados de maneira adequada para que, assim, promovam a melhoria da performance organizacional. Nesse contexto, Paiva, Barbosa e Gonçalves (2008, p. 28) a�rmam que: “[...] a RBV propõe que o processo de formulação estratégica deve ser concebido de ‘dentro para fora’, ou seja, através da análise dos recursos e capacidades da organização que podem ser fonte de vantagem competitiva”. Essa mobilização e coordenação de recursos é que pode ser denominada competência organizacional – ou seja, a competência organizacional surge quando os recursos que compõem a estrutura organizacional são coordenados adequadamente, de forma a agregar valor à organização, por meio da criação de fatores-chave de sucesso, aqueles difíceis de imitar e que tenham impacto positivo sobre o desempenho organizacional (FERNANDES; FLEURY; MILLS, 2006). 47 Continuando o raciocínio sobre o desenvolvimento de competências organizacionais, nota-se que elas acabam afetando o desempenho da organização. Dessa forma, pesquisadores da área demonstram a necessidade de mensurar o desempenho organizacional e, assim, o Balanced Scorecard (BSC) torna-se uma ferramenta bastante utilizada. Apresentado como um método de avaliação da performance organizacional, o Balanced Scorecard (BSC) foi proposto na década de 1990 pelos professores Robert S. Kaplan e David P. Norton, da Faculdade de Administração de Harvard, com o objetivo demonstrar uma forma de monitoramento das atividades da empresa quanto ao alcance da estratégia empresarial (KAPLAN; NORTON, 2004). Por meio do BSC, é possível medir de que forma as unidades de negócio criam valor para clientes atuais e futuros. Assim, o interesse pelo desempenho �nanceiro e mantido ao mesmo tempo em que o BSC revela com clareza os vetores de desempenho superior e que criam valor para a organização. A proposta a partir do BSC é de que as organizações monitorem constantemente o seu desempenho, considerando quatro perspectivas: �nanceira, clientes, processos internos e aprendizagem. Veja essas perspectivas a seguir: 48 Objetivos e estratégia da empresa Financeira: estratégia de conhecimento, realidade e risco. Processos internos: estratégias de negócios voltadas à satisfação para os clientes e acionistas. Aprendizado e crescimento: disponibilidade para a mudanã organizacional, inovação e crescimento. Clientes: criação de valor e diferenciação sobre a perspectiva do cliente. Fonte: o autor. Ao estudar a �gura, notamos que o BSC é uma ferramenta de avaliação conjunta, pois direciona para o uso de ferramentas de medição (indicadores) no intuito de cumprir com a missão e atingir os objetivos organizacionais. As quatro perspectivas apresentadas dão aos executivos um panorama da situação atual da organização, por intermédio de instrumentos de avaliação especí�cos para cada uma delas. Exempli�cando, em uma perspectiva de Recursos Humanos, o BSC permite a integração das ferramentas de Gestão de Pessoas com os seus objetivos de longo prazo considerando indicadores quantitativos que avaliem as questões voltadas à 49 Gestão de Pessoas e que causem impacto no comportamento dos funcionários (FRANCA, 2009; MASCARENHAS, 2008). Alguns instrumentos de avaliação que podem ser utilizados são: pesquisa de clima organizacional, avaliação de programas de capacitação e avaliação da e�cácia do recrutamento e da seleção. O mais importante aqui, caro acadêmico, é que as ferramentas de avaliação sejam implementadas de forma a veri�car o alinhamento adequado dessas ações com a estratégia da organização. Assim, o BSC é uma ferramenta de avaliação constante, que fornece subsídios e alinhamento de informações para a determinação das competências organizacionais. A partir do momento em que os resultados desejados pela empresa estão articulados com os vetores (meios), é possível ter maior foco nas atividades e canalizar habilidades e conhecimentos especí�cos dos membros da organização para o alcance de objetivos em longo prazo (Kaplan e Norton, 2004). Cabe ainda ressaltar a análise de Fernandes, Fleury e Mills (2006), que relacionarem o BSC com as competências organizacionais. Para esses autores, as competências organizacionais são percebidas no desempenho manifestado por meio dos indicadores escolhidos para avaliar as perspectivas do BSC supracitadas. Ademais, os resultados dessas avaliações oferecem subsídios que servem de sustentação para o desenvolvimento de novas competências organizacionais que tragam valor ao negócio, que sejam difíceis de serem copiadas pela concorrência e que proporcionem vantagem competitiva sustentável. O mapeamento das competências organizacionais será abordado na aula seguinte. Até Lá! 50 Mapeamento das Competências Organizacionais 07 51 Olá a todos! Até aqui, percebemos que as competências organizacionais devem trazer vantagem competitiva e sustentação à organização. Para isso, é necessário mapeá-las, ou seja, identi�car e avaliar as competências adequadamente, bem como formular conclusões sobre quais delas de�nem a estrutura da organização. Primeiramente, é preciso compreender que a formação das competências organizacionais deve estar alinhada à de�niçãoe ao conhecimento da estratégia de negócio. Ou seja, é necessário ter clareza sobre a estratégia da empresa para que as competências organizacionais mapeadas tenham realmente efetividade e “força”. Esse processo constitui uma via de mão dupla, conforme a concepção de Fleury e Fleury (2000). De acordo com os autores, quando uma empresa de�ne a sua estratégia competitiva, torna-se possível identi�car as competências essenciais do negócio, como também aquelas que se mostram necessárias em cada função; um processo cíclico que possibilita novas estratégias para a empresa e vice-versa. O que os autores querem dizer, caro acadêmico, é que a de�nição das competências essenciais depende da estratégia do negócio, que deve estar clara. Mas, por outro lado, como as competências organizacionais dão sustentação e vantagem competitiva ao negócio, elas também podem levar ao aprimoramento e desenvolvimento de novas estratégias. Percebemos, assim, um ciclo constante de re�namento e inovação organizacional. Mas como fazer com que esse processo de interconectividade ocorra de maneira adequada e as competências elencadas representem �elmente a realidade do negócio? Este e o desa�o: utilizar ferramentas adequadas para a identi�cação das competências organizacionais. Vamos conhecer algumas formas de levantamento de dados a seguir. 52 Levantamento de Dados no Mapeamento de Competências Organizacionais Em um trabalho de mapeamento realizado em uma empresa do ramo de software, Behr (2010) destacou a necessidade de delinear adequadamente o caminho para a de�nição das competências organizacionais. Assim, ao buscar um conjunto de técnicas para realizar esse mapeamento, o autor utilizou-se de análise documental e entrevistas com o sócio diretor da empresa em busca de elementos para o entendimento do setor e também para melhor de�nir o roteiro de entrevista a ser utilizado com gestores e clientes. Foram analisados, também, documentos comerciais da empresa e, por �m, entrevistados todos os gestores da empresa estudada e alguns clientes indicados por ela. O quadro a seguir apresenta os assuntos tratados e algumas das perguntas realizadas por Behr (2010), ao entrevistar sócios diretores, gestores e clientes da empresa estudada. 53 ENTREVISTADOS ASSUNTOS TRATADOS E EXEMPLO DE PERGUNTAS Sócios diretores Conhecimento da empresa e do ramo de negócio. Identi�cação de fatores críticos de sucesso. Identi�cação de pontos fortes e fracos. Identi�cação de oportunidades e ameaças. Identi�cação da visão dos sócios diretores acerca do conceito de competências. Gestores Há quanto tempo trabalha na empresa? Qual a principal atividade na empresa? Quais as responsabilidades? Quais aspectos que podem gerar diferenciação ou ameaçar a sobrevivência do negócio? Quais os pontos fortes da empresa e que podem gerar vantagem competitiva? Quais ameaças podem ser identi�cadas? Quais oportunidades podem ser identi�cadas? Clientes Quais aspectos levam em consideração quando busca um produto ou serviço similar ao que esta empresa oferece? Quais os pontos fortes dessa empresa? O que esta empresa faz de melhor? Quais pontos fortes esta empresa não possui e deveria ter ou desenvolver? Como vê o produto/serviço da empresa? Assim, percebemos o cuidado em elaborar e trabalhar com instrumentos de coleta de dados adequados para identi�car as competências organizacionais. A fase de levantamento de dados e que acaba por determinar as competências que serão de�nidas ao �nal e os pilares de sustentação estratégica do negócio. Lembrando que esses instrumentos foram elaborados levando em consideração a realidade estudada e que, neste momento, servem de parâmetro para que você possa preparar instrumentos adequados a identi�car as competências do seu contexto organizacional. 54 A esses instrumentos, acrescento ainda como forma de levantamento de dados a observação no contexto organizacional e o uso de questionários. Realizado esse mapeamento – levantamento de dados – e necessário classi�car as competências mapeadas de maneira adequada. Dentre os pesquisadores e estudiosos do tema, existe uma serie de classi�cações que podem ser utilizadas, mas vamos concentrar nossas discussões nos autores Gramigna (2007), Fleury e Fleury (2000), conforme abordado a seguir. Classificação das Competências Organizacionais Vale ressaltar que, quando falamos do mapeamento de competências, vem à tona uma variação de terminologias sobre o conceito, de acordo com a perspectiva e concepção de pesquisadores e estudiosos diferentes. Sobre essa variação de terminologias, Dias et al. (2012) destacam algumas expressões utilizadas para tratar do assunto, que são: core competence competências essenciais competências organizacionais competências funcionais competências distintivas competências seletivas competências básicas competências grupais competências de suporte competências dinâmicas competências quali�cadoras Embora todas essas expressões não signi�quem exatamente a mesma coisa, é preciso ampliar o debate acerca da con�guração das competências estratégicas ou organizacionais, de forma a dar-lhe sustentação (Dias et al., 2012). Mas como nosso propósito aqui e estudar o mapeamento e a classi�cação das competências organizacionais, elas serão chamadas de Diferenciais, Essenciais e Básicas (GRAMIGNA, 2007); e de Negócio, Técnico-Pro�ssionais e Sociais (FLEURY; FLEURY, 2000). Vejamos essa classi�cação a seguir. 55 Segundo Gramigna (2007), o modelo de competências é baseado em quatro indicadores organizacionais: 1. de�nição do negócio 2. de�nição da missão 3. de�nição da visão de futuro 4. identi�cação dos valores organizacionais. Essa concepção vem ao encontro do que foi tratado anteriormente sobre retroalimentação, que acontece entre a de�nição das estratégias organizacionais e de�nição das competências. Gramigna (2007, p. 21) ainda destaca que “[...] é o domínio de determinadas competências que leva pro�ssionais e organizações a fazerem a diferença no mercado”. Assim, a tentativa de determinar escores de competências para pessoas e organizações é algo que já acontece faz algum tempo. Fala-se em competências genéricas, referenciais, gerenciais, etc., mas o mais importante nesse processo e identi�car os desdobramentos de competências para a sustentação do negócio. As competências de suporte que são aquelas que sustentam as competências técnicas, ou seja, as que são exigidas dos pro�ssionais para cumprir funções especí�cas. Tais competências são denominadas de Diferenciais, Essenciais e Básicas: Diferenciais – consideradas estratégias, estabelecem vantagem competitiva da empresa. São identi�cadas no estabelecimento da missão empresarial e descritas de forma genérica. São constituídas por um conjunto de capacitações que auxiliam a empresa a alcançar seus resultados a fazer o diferencial no mercado. Essenciais – são identi�cadas e de�nidas como as mais importantes para o sucesso do negócio e devem ser percebidas pelos clientes. 56 Básicas – necessárias para manter a organização funcionando, são percebidas no ambiente interno; além disso, estimulam e alicerçam o clima de produtividade. Veja que as competências de suporte estão alinhadas ao presente e ao futuro da organização, pois consideraram os elementos que envolvem a estratégia da empresa (que falamos anteriormente) e, com isso, as orientações as ações da empresa em prol de suas perspectivas futuras. Ademais, a partir da concepção de Gramigna (2007), são considerados elementos diretamente ligados à performance organizacional, que vimos anteriormente ao falar das perspectivas do Balanced Scorecard (BSC): os processos internos, os clientes, o aprendizado e o crescimento. Levando a percepção de alinhamento das competências organizacionais, com a dimensão estratégica da competência, assunto principal deste tópico. Exempli�cando, apresentarei, a seguir, algumas competências de suporte elencadas na fase de mapeamento, de acordo com Gramigna (2007): Adaptação e �exibilidade: capacidade de conseguirse adaptar de maneira oportuna as diferentes exigências do meio e ser capaz de rever a postura organizacional diante de novas realidades. Autodesenvolvimento e gestão do conhecimento: capacidade de aceitar as próprias necessidades de desenvolvimento investindo tempo e energia em aprendizagem continua. Comunicação e interação: capacidade de interação com as pessoas, apresentando facilidade em ouvir, processar e compreender a mensagem. Capacidade de argumentação com coerência e clareza e promoção de feedback quando necessário. Criatividade e inovação: capacidade de conceber soluções inovadoras, viáveis e adequadas para as situações apresentadas. Visão sistêmica: capacidade de perceber a interação e interdependência das partes que compõem o todo, visualizando tendências e possíveis ações capazes de in�uenciar o futuro. Em um contexto organizacional, essa lista pode ser in�nita. Isso porque, como vimos anteriormente, as competências de uma organização devem estar alinhadas a sua estratégia e vice-versa. 57 Percebendo esse processo como um ciclo contínuo de inovação, torna-se perceptível também o fato de que sempre haverá o surgimento de novas competências, enquanto outras serão substituídas. Por esse motivo, o mapeamento e identi�cação contínuos se mostram importantes. Outro ponto que merece ser mencionado e o de que as competências estão ligadas sempre a “capacidade de algo”. Assim, compreendemos porque muitos dos estudos sobre competências organizacionais estão ligados a temas como Aprendizagem e Gestão do Conhecimento. Complementando as nossas discussões sobre o assunto, Fleury e Fleury (2000) ressaltam que as competências organizacionais podem ser organizadas em três blocos que envolvem a relação do indivíduo com toda a empresa, a partir de uma perspectiva sistêmica. As características dos três blocos são apresentadas a seguir: De negócio – competências relacionadas à compreensão do negócio, seus objetivos na relação com mercado, clientes e competidores, assim como com o ambiente político e social, exemplo: conhecimento do negócio e orientação para o cliente. Técnico-pro�ssionais – competências especí�cas para certa operação, ocupação ou atividade, como, por exemplo: desenho técnico, conhecimento do produto, �nanças. Sociais – competências necessárias para interagir com as pessoas, como, por exemplo, comunicação, negociação, mobilização para mudança, sensibilidade cultural, trabalho em times. 58 Considerando as características acima apresentadas, notamos que as perspectivas de Fleury e Fleury (2000) e de Gramigna (2007) estão relacionadas entre si e podem ser vistas como complementares. Ao conceberem os desdobramentos das competências organizacionais, as duas perspectivas dão enfoque ao caminho que se inicia na concepção das estratégias organizacionais e termina em elementos comportamentais, como a capacidade de comunicação, por exemplo. Ademais, ambas as abordagens trazem “a capacidade de algo” como elemento central das competências apresentadas. Como forma de instrumentalizar esse processo de mapeamento de competências organizacionais, o Quadro x, apresentado a seguir, trará os signi�cados atribuídos aos blocos de competência elencados por Fleury e Fleury (2000). 59 COMPETÊNCIAS SIGNIFICADOS ATRIBUÍDOS Competências de negócio Visão estratégica Conhecer o negócio, o ambiente interno e externo da empresa, identi�cando oportunidades, ameaças, pontos fortes e fracos. Ter clareza e comprometimento sobre objetivos e valores e auxiliar pro�ssionais na descoberta do signi�cado de sua área de atividade, suas responsabilidades e contribuições esperadas. Identi�car a necessidade de mudanças e as competências necessárias para enfrentar os desa�os do negócio. Assumir responsabilidades e mobilizar os demais pro�ssionais nos projetos de transformação organizacional. Planejamento Capacidade de estruturar e sistematizar ações para aproveitar oportunidades e pontos fortes e minimizar ameaças e pontos fracos. Estabelecer mecanismos de controle e avaliação das ações, otimizando recursos existentes Competências técnicas Conhecimentos especí�cos Deter informações e conhecimentos técnicos relativos à sua área; utilizá- los constantemente, visando ao cumprimento de atividades, resolução de problemas ou desenvolvimento de projetos/produtos. Disponibilizar os novos conhecimentos desenvolvidos interna ou externamente, garantindo sua circulação. 60 Competências Sociais Comunicação Compreender o processo de comunicação em sua totalidade, garantindo o entendimento das mensagens pelos membros da organização. Capacidade de expressar ideias de modo claro, utilizando técnicas de comunicação apropriadas para cada situação. Negociação Ter capacidade de discutir, estimular e in�uenciar positivamente outras pessoas a colaborarem, efetivamente, para atingir os objetivos organizacionais. Conduzir processos de obtenção de consenso, objetivando resultados satisfatórios para as partes envolvidas e para a organização. Capacidade de argumentação e convencimento na venda de ideias e pontos de vista diferentes. Trabalho em equipe Criar e trabalhar grupos de pessoas que detenham habilidades e conhecimentos diversos e complementares, propiciando, assim, a sinergia. Habilidade em manter os grupos trabalhando em conjunto, e�cientemente, controlando participações excessivas e convidando membros silenciosos a participar, resolvendo con�itos. 61 Por meio do quadro, notamos um conjunto de competências que são desenvolvidas pelas pessoas que atuam na organização (FLEURY; FLEURY, 2000); competências essas que, ao serem alinhadas às estratégias de negócio, constituem as competências essenciais da organização e revelam sua vantagem competitiva perante a concorrência. Sob essa perspectiva, as competências re�etem a soma dos conhecimentos presentes nas habilidades individuais e nas unidades de negócio da organização, de forma a diferenciar a organização das demais e levar vantagem competitiva sustentável. “Os recursos estratégicos fundamentais são o conhecimento e as habilidades que uma organização adquire com o tempo” (KING; FOWLER; ZEITHAML, 2002, p. 37). Ademais, nesse processo de mapeamento e identi�cação das competências organizacionais, a participação dos gerentes se torna fundamental. Isso porque, na avaliação do valor das competências existentes ou potenciais, os gerentes acabam tendo grande interesse em determinar até que ponto a vantagem competitiva sustentável é realmente possível. Considerando tais pontos de vista, enfatizo, caro acadêmico, a necessidade de preparar adequadamente o ambiente organizacional para o mapeamento de competências. Equipes de gestores, colaboradores e alta cúpula da empresa precisam estar alinhados e munidos de ferramentas adequadas para que as competências organizacionais sejam realmente mapeadas. Complementando essa ideia de necessidade de integração na formação de competências, Fleury e Fleury (2004) asseveram que as competências essenciais, que são aquelas distintivas percebidas pelos clientes, são decorrentes do mapeamento adequado das competências organizacionais e são formadas a partir da combinação de: recursos da organização e competências dos indivíduos. 62 Partindo do pressuposto de que as competências organizacionais são um produto da interação e da combinação existente entre recursos da organização e competências individuais, o mapeamento adequado desses elementos torna-se fundamental para a constituição da estratégica organizacional. Percebemos, assim, que as competências individuais dos colaboradores de uma organização são de suma importância para a formação das competências e estratégias organizacionais, nos levando à “Dimensão de Gestão de Pessoas” da competência. Sobre essa vertente, que aborda, inclusive, o mapeamento das competências individuais, falaremos posteriormente, pois ela está condicionada aos sistemas de Gestão de Pessoas das organizações, assunto de nossa próxima unidade de estudo. Até lá! 63 Recrutamento por Competências 0864 Quando falamos em projeto de cargos e recrutamento por competências, nos referimos ao delineamento das funções dos cargos existentes na empresa e na captação de pessoas, tendo como base as competências organizacionais que já de�nimos na aula anterior. Quando de�ne o seu modelo de negócio, suas estratégias e objetivos corporativos, uma organização acaba oferecendo subsídios também ao planejamento de recursos humanos, já que as ações passam a se orientar de acordo com os elementos estratégicos da organização. Por esse motivo, temos que falar, mesmo que brevemente, do planejamento de RH antes de abordar as competências individuais. Segundo Maximiano (2014), quando o planejamento de recursos humanos está alinhado à estratégia corporativa, torna-se possível de�nir os tipos de competências necessárias para viabilizar o modelo de negócio e, assim, capacitar a organização para os desa�os e perspectivas de futuro. Tomando essa concepção como base, notamos que o entendimento das competências organizacionais deve ser o cerne principal dos gestores de RH. Tal entendimento se faz necessário para que os gestores possam orientar as ferramentas e os processos voltados às pessoas pelas competências. Os gestores devem ser vistos como elementos de ligação entre as expectativas organizacionais e as competências individuais, vislumbrando, dessa maneira, a valorização de suas competências como um uni�cador entre pessoas e organização (Bundchen, Rossetto e Silva, 2001). Mas como podemos iniciar esse alinhamento dos processos de RH com as competências organizacionais? Qual a ação seguinte ao mapeamento das competências organizacionais quando falamos em ação dos gestores de RH? Vamos abordar, a seguir, dois processos de RH que precisam estar alinhados um com o outro para que a dimensão Gestão de Pessoas da competência seja desenvolvida adequadamente: o projeto de cargos e o recrutamento. 65 Projeto de Cargos por Competências O projeto de cargos diz respeito a um processo de construção das atividades que precisam ser desempenhadas pelas pessoas em uma organização, não somente para o seu funcionamento, mas, principalmente, para a sua sustentabilidade no mercado em que opera. Tal projeto pode ser aninhado em dois modelos de Gestão de Pessoas: o primeiro modelo, mais tradicional, é aquele em que o projeto de cargos visa fornecer dados sobre os cargos existentes na empresa para o processo seletivo, sendo este realizado para atender aos requisitos do cargo. Já o segundo modelo de Gestão de Pessoas tem um enfoque mais estratégico e se utiliza do desenho de cargos como uma forma de avaliar, descrever e especi�car as funções de cada cargo da organização, de forma a promover alinhamento com as competências organizacionais e, principalmente, fornecer informações para a operacionalização dos processos de RH subsequentes. E é nesse segundo modelo que devemos concentrar os nossos estudos. Segundo Maximiano (2014), o projeto de cargos consiste em de�nir o conjunto de tarefas e responsabilidades que vem compor o trabalho individual em um contexto organizacional. Ou seja, a de�nição dos componentes que serão combinados em um processo de transformação para executar tarefas e produzir resultados. 66 Nesse ínterim, uma característica intrínseca dos cargos é a necessidade de competências que o ocupante deve ter ou adquirir para executar as tarefas. Toda pro�ssão e/ou cargo exige conhecimentos e competências gerais e especi�cas em algum grau. A essa ideia do autor acrescento também competências que possam ser desenvolvidas em cada pessoa. As competências correspondem a materiais de construção dos cargos, pois, no desenho de cargos, são utilizadas as de�nições do planejamento de RH, para que sejam especi�cadas as competências desejadas das pessoas ocupantes dos cargos da organização. Complementando, Banov (2011) destaca que essa preocupação das organizações com a competência surge em resposta ao atual ambiente competitivo no qual estão inseridas as pessoas e as organizações. Assim, faz-se necessário que as empresas busquem modelos de negócios que levem ao alinhamento das competências individuais as metas organizacionais e, consequentemente, a missão, a visão e aos valores da empresa. Dessa maneira, o mapeamento das competências do cargo precisa estar atrelado às competências organizacionais previamente de�nidas, ao mesmo tempo em que são personalizadas para cada cargo ou setor da organização. Essa ação é realizada por meio da descrição das competências necessárias para a execução das principais atribuições do cargo. Maximiano (2014) ainda complementa que algumas competências podem ser comuns a todos os cargos da organização, outras a cargos similares e cargos especí�cos. O importante é que quanto mais acentuadas as diferenças existentes entre as tarefas desempenhadas, mais numerosas serão as competências exigidas. A �m de esclarecer esse processo de diagnose dos cargos e suas atribuições dentro da organização, a seguir serão brevemente abordados três elementos que precisam ser compreendidos e diferenciados, tendo por base Gil (2014): Análise de cargo: estudo que se faz para obter informações sobre as tarefas e atribuições de um cargo. 67 Descrição de cargo: exposição ordenada das tarefas ou atribuições de cargo, de forma a descrever o que o ocupante do cargo faz, como e por que faz. Especi�cação do cargo: identi�cação dos requisitos necessários para o desempenho das tarefas ou atribuições de um cargo. Abrange conhecimento, habilidades e responsabilidade para o ocupante do cargo, bem como as condições de trabalho e riscos que o envolvem. Por meio dessas três ações, o gestor de RH tem em mãos conteúdo sobre os cargos da organização que lhe permitem avaliar o alinhamento desses com as competências organizacionais, com as competências individuais de seus ocupantes e, principalmente, oferecer subsídios para outros processos de RH tais como recrutamento, seleção e capacitação de pessoas, por exemplo. No processo de recrutamento, a contribuição está em fornecer dados exatos para auxiliar na elaboração de anúncios, escolha das fontes de recrutamento, elaboração de requisitos para os candidatos, escolha dos canais de divulgação, etc. Na seleção, o conhecimento sobre o cargo auxilia na ação de fazer a �ltragem de maneira re�nada dos candidatos que chegam a essa etapa, podendo avaliar as suas competências individuais de acordo com as do cargo. Quando falamos em capacitação de pessoas, a análise, a descrição e a especi�cação do cargo contribuem para orientar os gestores de RH na elaboração dos programas de treinamento e desenvolvimento (T&D) para atuais e futuros ocupantes dos cargos em questão. Não nos aprofundaremos nesse tema, pois não trata de nosso assunto central, mas, em vias gerais de orientação sobre como executar a análise, descrição e especi�cação de cargos, Gil (2014) a�rma que podem ser cumpridas as seguintes etapas: 1. Determinação dos dados requeridos. 2. Coleta de dados sobre o conteúdo dos cargos. 3. Análise dos dados coletados. 68 4. Descrição e especi�cação dos cargos da organização. Essas etapas servem de orientação para a operacionalização desse processo tão importante para o mapeamento das competências de cada cargo dentro das organizações, pois e por meio dessa ação podemos identi�car as competências próprias de cada cargo e, assim, orientar quanto à escolha do per�l comportamental e pro�ssional de seus ocupantes. Para esclarecer o assunto, veja um exemplo resumido da descrição de um cargo: GERENTE KEY CUSTOMER (CLIENTE-CHAVE) DA VOLVO BUS AMÉRICA LATINA Requisitos mínimos Superior completo e desejável pós-graduação. Necessário inglês e espanhol avançado. Experiência em gestão de projetos. Visão estratégica. Boa comunicação e trabalho em equipe. Habilidade em relacionamento interpessoal. Experiência no relacionamento com clientes. Disponibilidade para viagens. Atividades Zelar pelos interesses dos clientes-chave dentro de toda a organização. Alinhar os processos internos para assegurarque cada departamento da organização atue adequadamente no tratamento das necessidades e problemas dos clientes-chave. Liderar e desenvolver grupos de trabalho multifuncionais com acompanhamento de planos de ação. Organizar programas de relacionamento. 69 O quadro serve de orientação para a elaboração da descrição de cargos. Por meio dele, observamos que os requisitos mínimos podem ser vistos como competências técnicas e comportamentais do cargo, e as atividades representam ações que, para serem desenvolvidas, requerem as competências elencadas nos requisitos mínimos. Além disso, tanto os requisitos mínimos quanto as atividades do cargo precisam estar alinhados às competências organizacionais previamente de�nidas. Ademais, por meio da análise e descrição de cargos, torna-se possível: de�nir tarefas e responsabilidades do trabalhador; implementar e manter sistemas de remuneração; prever a necessidade de mão de obra; orientar processos tais como recrutamento, seleção, orientação e treinamento; outras utilidades na Gestão de Pessoas (Maximiano, 2014). Assim, conforme já mencionado, o projeto de cargos não visa “engessar” os requisitos e as competências pertinentes a cada cargo, promovendo um “encaixe” das pessoas neles, mas, sim, promover a avaliação, a comparação e o alinhamento das competências organizacionais, competências dos cargos e competências individuais dos atuais e futuros ocupantes. Quando partimos dessa concepção, o projeto de cargos pode, então, ser percebido a partir de um enfoque “por competências” e, com isso, atuar enquanto elemento estratégico para as pessoas e para a organização. Vamos abordar agora como o projeto de cargos atua como suporte para a execução do recrutamento sob o enfoque de competências. 70 Sabemos que o recrutamento corresponde à captação de pessoas e que pode acontecer dentro da própria estrutura organizacional (recrutamento interno) ou fora da empresa, buscando novos talentos no mercado de trabalho (recrutamento externo). Em alguns casos, os gestores das organizações utilizam as duas modalidades, realizando um recrutamento misto. Mas como o recrutamento pode ser realizado sob o enfoque de competências? Um dos pontos de destaque que pode auxiliar no alcance da resposta para essa questão é o fato de que, na atualidade, o recrutamento não pode mais ser visto somente como uma atividade operacional. A ação de recrutar pessoas para atuar na empresa deve ser amparada em elementos estratégicos e em uma visão apurada por parte daqueles que a executam. Assim, da mesma forma que o projeto de cargos passa a ter um enfoque estratégico na organização, os responsáveis pelo recrutamento devem se utilizar estrategicamente das informações fornecidas pelo projeto de cargos de forma a municiar adequadamente a etapa seguinte, que é a seleção dos candidatos. Conforme ressalta Banov (2011), em uma perspectiva contemporânea de Gestão de Pessoas, ao se realizar o recrutamento e a seleção por competências, o enfoque maior está nos candidatos e não mais nos cargos. É necessário mapear adequadamente as competências individuais para saber se elas atendem de imediato as necessidades da empresa ou se precisam ainda ser desenvolvidas naqueles candidatos em potencial. Mas esse mapeamento depende intrinsecamente do levantamento do per�l da vaga, ou seja, das informações contidas no projeto de cargos. Assim, o pro�ssional responsável pelo recrutamento e seleção precisa atuar em consonância com o gestor do departamento/área em que a vaga foi aberta (BANOV, 2011). Esse trabalho em conjunto possibilita uma descrição apurada na abertura da vaga, candidatos mais alinhados às competências requeridas e, consequentemente, melhores candidatos para a etapa de seleção. Plano de Cargos como Suporte para o Recrutamento 71 Complementando, Rabaglio (2001) enfatiza que, ao elaborar o mapeamento de competências para cada cargo da organização, torna-se possível fornecer ferramentas especí�cas para a identi�cação desse per�l de competências nos candidatos a vaga, como também oferecer informações para a avaliação dos colaboradores que já fazem parte da organização. Nesse sentido, torna-se importante falar sobre três elementos que devem ser considerados ao estruturar o projeto de cargos da organização sob o enfoque de competências: a entrega, a complexidade e o espaço ocupacional. Entrega, Complexidade e Espaço Ocupacional O conceito de entrega abordado por Dutra (2001) diz respeito à forma pela qual um pro�ssional se dedica à execução de uma atividade, em que ele é valorizado por seus atos e realizações, e não pela descrição formal de suas funções ou atividades. Veja um exemplo do referido autor que esclarece a compreensão sobre o conceito de entrega: [...] tenho dois funcionários em minha equipe com as mesmas funções e tarefas, que são remunerados e avaliados por esses parâmetros. Um deles, quando demandado para resolver um problema, traz a solução com muita e�ciência e e�cácia e, portanto, uma pessoa muito valiosa. O outro não deixa o problema acontecer. Este e muito mais valioso, só que na maioria das vezes não e reconhecido pela che�a ou pela empresa. (DUTRA, 2001) No exemplo, notamos uma situação típica de nosso dia a dia nos ambientes de trabalhos: pessoas que se dedicam de maneira diferente ao exercício de suas funções, mas que são reconhecidas da mesma maneira ou, em alguns casos, até mesmo de forma injusta. 72 É necessário fazer a análise das ações das pessoas nos ambientes organizacionais quando nos propomos a mapear as competências individuais. Isso é importante, pois, ao se considerar as pessoas pela sua capacidade de entrega, e possível ter uma perspectiva mais adequada para avalia-la, orientar o seu desenvolvimento, estabelecer recompensas e identi�car as suas competências individuais (DUTRA, 2001). Além disso, a entrega pode ser vista ainda como a agregação de valor do indivíduo ao patrimônio de conhecimentos da organização, não pelo alcance de metas, mas por contribuir para a melhoria dos processos de trabalho e das atividades da empresa. A complexidade é vista por Dutra (2001) como uma forma de avaliação das atribuições e responsabilidades de cada cargo quando se discute a questão da competência. Para esse autor, no decorrer das décadas de 1980 e 1990, os cargos deixaram de ser elementos diferenciadores nos processos de avaliação de desempenho para promoções ou remanejamento, por exemplo. Isso porque as mudanças ocorridas - e cada vez mais aceleradas – levaram ao aumento e a modi�cações da complexidade das responsabilidades e atribuições dos indivíduos quando inseridos em um contexto organizacional. Esse é um fato que justi�ca a relação da complexidade com o conceito de competência. Ou seja, para avaliar as competências individuais de um colaborador, é necessário conhecer a complexidade de suas responsabilidades e atribuições e, com isso, perceber a sua capacidade de entrega. Reforçando essa ideia sobre a complexidade vinculada ao conceito de competência, Fleury e Fleury (2001) ressaltam que o trabalho deixa de ser apenas um conjunto de tarefas associadas descritivamente ao cargo ocupado e passa a ser um prolongamento das competências que o indivíduo ocupante desse cargo mobiliza diante das situações pro�ssionais vivenciadas; situações essas que tornam o imprevisto cada vez mais presente no cotidiano e as tarefas cada vez mais complexas e mutáveis. 73 Nesse contexto de análise, a competência do indivíduo torna-se a inteligência prática diante de situações vivenciadas por ele. Tal inteligência é sustentada por conhecimentos adquiridos transformados conforme aumenta a complexidade de suas responsabilidades e as situações (Zari�an, 2001). Ainda sobre a complexidade, Dutra (2004) a�rma que esse conceito tornou-se muito importante para se compreender a realidade da Gestão de Pessoas nas organizações contemporâneas. Ao se considerar a complexidade em um processo de avaliação das competências individuais, é possível perceber com maior nitidez o processo de desenvolvimentopro�ssional dos indivíduos conforme as suas atividades desenvolvidas. Ou seja, há maior evolução quando as pessoas têm a oportunidade de lidar com atribuições e responsabilidades de maior complexidade. Assim, a análise da complexidade e da entrega contribui para a construção de um sistema de desenvolvimento a partir dos seguintes desdobramentos: Análise das pessoas a partir de suas individualidades. Análise das de�ciências individuais. Análise da efetividade das ações de desenvolvimento. Adequação das ações de desenvolvimento. Notamos, assim, que ao considerar complexidade e entrega em um processo de avaliação de competências individuais, cria-se um cenário no qual ocorre a integração de indivíduo, cargo, responsabilidades e organização, podendo ainda ser mencionados padrões de remuneração e de�nições de carreira. Para compreender melhor esse cenário de integração, vamos falar do espaço ocupacional. O espaço ocupacional surgiu, a princípio, como uma expressão que designava o conjunto de atribuições e responsabilidades das pessoas, mas, conforme o conceito foi amadurecendo, tornou-se uma forma de estabelecer correlação entre 74 complexidade e entrega na avaliação dos indivíduos no ambiente organizacional (DUTRA, 2004). Diante de tal ideia, quando uma pessoa assume responsabilidades e atribuições mais complexas, ela agrega valor à sua atividade e à organização, e essa ampliação do nível de atribuições e responsabilidades não está necessariamente vinculada a uma promoção do indivíduo e/ou mudança de cargo, mas pode signi�car uma ampliação do seu espaço ocupacional, decorrente das necessidades da organização e do desenvolvimento de competências individuais e coletivas. Os conceitos de complexidade e espaço ocupacional acabam por complementar o conceito de competência ao permitir uma visão mais nítida da realidade da Gestão de Pessoas nas empresas mais modernas. Esse aprendizado conduz ainda ao pensamento de integração dos sistemas de Gestão de Pessoas com as estratégias empresariais (DUTRA, 2004). Sobre os sistemas de Gestão de Pessoas, falaremos na próxima unidade. Diante desses conceitos, notamos que o projeto de cargos de uma organização sob o enfoque de competências considera elementos comportamentais dos indivíduos que vierem a ocupá-los. Não bastam, assim, as características técnicas ou experiências anteriores ao exercício da função, é necessário considerar a dedicação esperada, os critérios que determinam a complexidade das atividades e a de�nição exata do conjunto de atribuições e responsabilidades. 75 Ademais, ao realizar o recrutamento sob o enfoque de competências, a análise do repertório comportamental dos candidatos sempre será orientada pelas estratégias e competências organizacionais. E a análise desse repertório comportamental é feita por meio de ferramentas que permitem mapear e analisar per�s individuais e indicar os que mais se aproximam das competências requeridas pelas empresas. Mas quais ferramentas de RH podem ser utilizadas para fazê-la? Vamos abordar na aula seguinte, caro acadêmico, dois processos de RH que são fundamentais nessa etapa de mapeamento das competências individuais: o processo seletivo, que se volta aos novos candidatos à vaga, e a avaliação com foco em competências, que atua como ferramenta de competências individuais para aqueles que já atuam na organização. 76 Processo Seletivo 09 77 O mapeamento das competências individuais corresponde a um processo de levantamento de informações acerca das capacidades técnicas e comportamentais dos indivíduos, para, posteriormente, relacioná-las com as competências requeridas do cargo pretendido ou ocupado, como também com as competências da organização. Sob essa perspectiva interacional, Dutra (2001, p. 27) a�rma que “[...] o estabelecimento das competências individuais deve estar vinculado à re�exão sobre as competências organizacionais, uma vez que há uma in�uência mútua entre elas”. Considerando essa a�rmativa, para se realizar a avaliação das competências individuais mapeadas, o responsável por essa ação – geralmente o RH – deve conhecer claramente os elementos estratégicos da organização com um olhar apurado para as competências organizacionais. Na concepção de Le Boterf (2003), a competência individual de um pro�ssional pode ser descrita como a sua capacidade de “navegação” na complexidade de suas atribuições e responsabilidades, considerando, para isso, os elementos que envolvem a sua função e as imposições existentes. Percebemos, assim, uma relação da complexidade, que já falamos anteriormente, com a competência individual enquanto forma de desenvolvimento de competências, visto que se baseia nas práticas organizacionais. Vamos tratar aqui do processo seletivo como uma ferramenta de identi�cação e análise dos talentos “entrantes” na organização. Ou seja, como formas de mapeamento de competências individuais das pessoas que foram captadas e triadas durante o recrutamento por apresentarem características que melhor se aproximam das competências procuradas pela organização ou, ainda, por terem sido notadas competências que podem ser desenvolvidas. A seleção de pessoas diz respeito a um processo de recursos humanos que tem o intuito de escolher, entre os candidatos à vaga, aquele que tem o per�l mais adequado para ocupá-la. Para Franca (2009, p. 34), “[...] e a escolha do(s) candidato(s) mais adequado(s) para a organização, dentre os candidatos recrutados, por meio de vários instrumentos de análise, avaliação e comparação de dados”. 78 Assim, seleção é um elemento do continuum existente entre os processos de Gestão de Pessoas na empresa (FRANCA, 2009). Em um enfoque de competências, o pro�ssional de RH pode se valer de duas ferramentas vistas como estratégicas para realizar a seleção: (1) entrevista comportamental e (2) técnicas vivenciais. A entrevista comportamental torna-se cada vez mais utilizada por pro�ssionais da área de RH em parcerias com gestores das organizações. Por meio dessa modalidade de entrevista, torna-se possível avaliar o comportamento manifestado pelos candidatos diante de situações descritas por eles, possibilitando, assim, um mapeamento de suas competências individuais. Segundo Rabaglio (2001), a principal �nalidade da entrevista comportamental é descobrir como um indivíduo se comportou em uma situação especí�ca no seu passado e, a partir daí, prever como ele se comportaria em uma situação similar no futuro. Para isso, as perguntas feitas pelo entrevistador na entrevista comportamental devem objetivar respostas que apresentem contexto, ação e resultado (CAR). 79 No CAR, o contexto corresponde à descrição de uma situação de maneira compreensível, a ação corresponde às atitudes do indivíduo diante de tal contexto e o resultado corresponde ao esclarecimento sobre os resultados alcançados por meio da ação, ou seja, como a história foi �nalizada. Um ponto importante sobre as técnicas do CAR é que o entrevistador esteja atento à identi�cação desses três elementos durante a realização da entrevista, ou seja, o CAR deve estar e ser completo (Rabaglio, 2001). Para isso, é necessário ter bastante cuidado na elaboração das perguntas, pois elas precisam ser pontuais e suscitar respostas que possibilitem ao selecionador o mapeamento das competências individuais dos candidatos por meio de suas respostas. Veja a seguir alguns tipos de perguntas que podem ser realizadas pelo entrevistador em uma entrevista comportamental. 1. Descreva uma situação em seu emprego anterior em que �que clara a sua capacidade de trabalhar em equipe. Qual foi o papel nesse caso? 2. A capacidade de comunicação é determinante para este cargo, relate uma situação que demonstre a comunicação como um diferencial do seu per�l pro�ssional. 3. É necessário lidar com os con�itos de ideias com as lideranças. Apresente uma situação em seu antigo trabalho em que o bom relacionamento com o líder foi determinante para alcançar objetivos. Esses modelos de questões têm o intuito de demonstrar como podemosquestionar os candidatos a �m de identi�car os elementos de contexto, ação e resultado. Ademais, essa é uma modalidade de entrevista que pode ser muito vantajosa também nos casos de primeiro emprego, pois, mesmo que o candidato não tenha experiência pro�ssional, podem ser solicitadas situações de seu cotidiano escolar, familiar e/ou social. 80 Corroborando, o objetivo da entrevista comportamental é investigar o passado do pro�ssional, já que o princípio dessa modalidade de entrevista tem como base que uma pessoa tem tendências de apresentar comportamentos similares quando exposta, no futuro, ao mesmo estímulo vivenciado no passado. Mesmo assim, essa não é uma verdade absoluta, já que as pessoas amadurecem e modi�cam seus comportamentos conforme ganham experiência e conhecimento. Sendo assim, a entrevista comportamental requer alguns cuidados para que os seus resultados sejam �dedignos (LEME, 2007). Tais cuidados se resumem em: Analisar os comportamentos manifestados pelo candidato e compará-los com as competências requeridas pela função a ser desempenhada. Perceber se as competências individuais anotadas podem ser amadurecidas ou modi�cadas. Perceber se as competências percebidas nas situações apresentadas não se mostram especi�cas somente aquela necessidade. Diante dessas informações, ressalta Leme (2007, p. 79) que a entrevista comportamental com foco em competências apresenta como de�nição: “identi�car na experiência recente do candidato evidências de comportamentos que constatem se ele possui ou não uma determinada competência”. Assim, notamos que o selecionador deve ter o cuidado de buscar experiências mais recentes da vida do candidato, principalmente diante da possibilidade de mudanças de comportamentos apresentadas por ele ao longo de suas experiências de vida e pro�ssionais, conforme citado anteriormente. 81 Complementando, Pierry (2006) a�rma ainda que o entrevistador precisa se preparar previamente para a realização da entrevista a �m de que as informações mais importantes sejam coletadas e extraídas sem constrangimentos ao entrevistado ou ao entrevistador, e aproveitadas adequadamente. Mas como deve ser o per�l doselecionador? Estamos falando da identi�cação de competências individuaisde candidatos, mas quais seriam as competências essenciais ao entrevistadorpara a realização da entrevista comportamental? A seguir, apresento algumasdessas competências com base nas ideias de Banov (2011): 82 O selecionador deve possuir conhecimento sobre os subsistemas que integram a organização, a cultura organizacional, o mercado de trabalho e sobre os processos e instrumentos que podem ser utilizados na seleção. O selecionador deve ter as seguintes habilidades: descrever cargos e mapear competências, correlacionar o per�l do cargo com as competências dos candidatos, veri�car a coerência entre per�l do cargo e comportamento individual, trabalhar em conjunto com o requisitante do cargo. São atitudes pertinentes ao selecionador: adaptar práticas conforme as necessidades da organização, fazer networking com outros selecionadores, criar novas práticas, ser sigiloso, ser ético com a pro�ssão, com a empresa, com os candidatos e demais pessoas envolvidas no processo seletivo. Por meio das características do selecionador apresentadas, torna-se possível identi�car um per�l adequado para as pessoas que realizarão o processo seletivo. E precisamos nos atentar ainda a elementos subjetivos da entrevista, ou seja, aqueles que se voltam mais a percepção pessoal do selecionador do que a racionalidade, por exemplo, simpatia por um candidato ou outro. Tais elementos subjetivos podem “cegar” o selecionador no momento da decisão, tornando-se, assim, uma armadilha durante o processo. Dessa maneira, quanto mais o selecionador se amparar em técnicas e recursos que identi�quem características do candidato de forma objetiva, mais pertinentes serão suas escolhas. 83 Leme (2007) a�rma que, para vencer a fragilidade da subjetividade, o entrevistador pode se utilizar de indicadores para o direcionamento das competências que ele precisa pesquisar durante a entrevista comportamental. Por exemplo, se o selecionador deseja identi�car no candidato evidências de comportamentos que constatem a competência criatividade. Listam-se 4 indicadores voltados a competência criatividade: (1) criar estratégias que conquistem o cliente; (2) trazer soluções criativas para os problemas que pareçam difíceis; (3) buscar alternativas de procedimento para as limitações técnicas do produto; (4) trazer soluções quando faltarem recursos para um projeto. Ainda, para Leme (2007), os indicadores devem ser considerados na preparação das questões a serem utilizadas na entrevista comportamental. O quadro a seguir apresenta essa relação descrita pelo autor. 84 INDICADOR PERGUNTA COMPORTAMENTAL (1) Criar estratégias que conquistem o cliente. Em seu último emprego, quais estratégias você criou para conquistar os clientes? (2) Trazer soluções criativas para os problemas que parecem difíceis. Conte uma situação em que você trouxe soluções criativas para alguns problemas que eram difíceis de serem resolvidos. (3) Buscar alternativas de procedimento para as limitações técnicas do produto. Relate alternativas de procedimentos que você criou ou sugeriu para resolver algum problema de limitação técnica de alguns produtos da empresa em que você trabalhou anteriormente. (4) Trazer soluções quando faltam recursos para um projeto. Cite um projeto em que você estava participando e faltaram recursos para dar continuidade a esse projeto. Quais foram as alternativas e soluções que você apresentou? Notamos que com os indicadores em mãos, o selecionador pode planejar as questões para a entrevista comportamental de maneira a direcionar esforços em identi�car a competência “Criatividade” na resposta dos candidatos. Outra forma de mapeamento das competências individuais no processo seletivo são as técnicas vivenciais. Segundo Franca (2009, p. 44), essas “[...] criam situações para os candidatos interagirem e participarem ativamente, de forma a ser avaliado seu comportamento social em situações pré-selecionadas”. Dessa forma, quando utilizamos essa ferramenta em processos seletivos, torna-se possível identi�car expressões e projetá-las para comportamentos em cargos futuros. Além disso, por serem atividades que envolvem a atuação dos candidatos diante dos fatos apresentados, o controle da situação pelo candidato �ca diminuído, fazendo com que os resultados sejam mais visíveis e espontâneos. 85 Vale destacar que as técnicas vivenciais devem ser previamente estruturadas e aplicadas por pro�ssionais que estejam realmente quali�cados para fazê-las e que sejam capazes de controlar as situações que venham a surgir, como con�itos ou descontrole emocional por parte de algum candidato (FRANCA, 2009). Veja a seguir três técnicas vivenciais que podem ser utilizadas em processos seletivos com enfoque em competências. PROVAS SITUACIONAIS Estão relacionadas ao cargo. Exemplos: testes de digitação, direção ou operação de um equipamento especí�co. DINÂMICA DE GRUPO Envolve jogos, situações estruturadas relacionadas ou não ao cargo, ao levantamento de problemas, às discussões e às soluções de questões polêmicas, opiniões e relacionamentos. PSICODRAMA Tem como pressuposto a expressão da personalidade mediante um papel social atribuído, de forma que o candidato se expresse de acordo com a linguagem e as dimensões desse papel. Considerando as técnicas vivenciais apresentadas juntamente com a entrevista comportamental, observamos que essas ferramentas oferecem ao selecionador meios de mapear adequadamente as competências individuais dos candidatos. Para isso, é necessário ter preparo, conhecimento das técnicas utilizadas e comprometimento com o processo, pois somente assim os resultados alcançados serão realmente vantajosos. Vale ainda ressaltar que o mapeamento das competências individuais no processo seletivo permite identi�car per�s empotencial para atuar na organização. Por exemplo, um candidato pode não apresentar as competências procuradas para a ocupação de um cargo especi�co, mas manifestou competências que, estimuladas e desenvolvidas adequadamente, representam ganhos signi�cativos para ele e para a organização. Falaremos mais sobre essa questão posteriormente, ao tratar do desenvolvimento de pessoas sob o enfoque de competências. 86 Assim, caro acadêmico, conhecemos formas de mapeamento das competências individuais no processo de entrada das pessoas na organização. Mas como mapear as competências daqueles que já fazem parte dessa estrutura? Falaremos na aula seguinte sobre a avaliação como uma ferramenta estratégica de mapeamento de competências dos colaboradores de uma organização. 87 Avaliação com Foco em Competências 10 88 Olá novamente! Como vimos, caro acadêmico, o mapeamento de competências individuais corresponde a um processo de levantamento de informações acerca do comportamento dos indivíduos diante de situações vivenciadas. Esses comportamentos são “traduzidos” em competências individuais e avaliados em busca de sincronismo com as competências organizacionais. Quando falamos dos pro�ssionais que já fazem parte do ambiente organizacional, a essência para a identi�cação das competências individuais continua a mesma, e modi�camos apenas a ferramenta a ser utilizada que, nesse caso, sai do foco no processo seletivo e passa aos instrumentos de avaliação. A avaliação de desempenho se mostra como o principal instrumento de avaliação dos colaboradores nos ambientes organizacionais. Embora a abordagem por competências não tenha o desempenho como foco principal da avaliação, vamos compreender, brevemente, as características dessa ferramenta. Como o próprio nome diz, a avaliação de desempenho corresponde à análise das atividades desenvolvidas pelos colaboradores em um contexto especí�co da organização. Para que essa avaliação seja realizada, é necessário levar em consideração as especi�cações do cargo, a capacitação oferecida ao indivíduo e as suas competências individuais. De acordo com Franca (2009), o intuito da avaliação de desempenho dentro da organização está em diagnosticar e analisar o desempenho individual e grupal dos funcionários, de forma a promover o melhor desempenho e, consequentemente, o crescimento pessoal e pro�ssional. Cada sistema de avaliação tem as suas particularidades e apresenta pontos fortes e fracos. É necessário que o RH, juntamente com os gestores das organizações, pense em cada sistema e opte por aquele que melhor se adapta aos objetivos e contextos da organização ou departamento (Franca, 2009). São diversas as formas de avaliação 89 de desempenho. Não nos aprofundaremos em cada uma delas por esse não constituir o nosso objetivo principal. Trataremos aqui da avaliação de pessoas sob o enfoque de competências. A avaliação com foco em competências faz uma mensuração sob medida das competências individuais dos colaboradores, relacionando-as com as competências organizacionais e as de cada função anteriormente identi�cadas. Por meio dessa comparação, é possível visualizar o gap do colaborador em relação à função e às competências que precisam ser desenvolvidas para preenchê-lo (Leme, 2005). A partir dessa ideia, notamos que o enfoque não está na avaliação da forma como o indivíduo desenvolveu a sua tarefa e no resultado alcançado, ou seja, no seu desempenho, mas, sim, nas competências do colaborador e nas suas relações com as responsabilidades e atribuições pertencentes a ele. Sob essa perspectiva, o desempenho é percebido como um resultado do alinhamento adequado entre as competências individuais, as especi�cações do cargo e o atendimento às competências organizacionais, conforme cada um executa a sua atividade. Assim, Leme (2005) destaca que a avaliação com foco em competências abre um leque de possibilidades em sua realização. Nesse tipo de avaliação, não é somente o superior que avalia o colaborador, já que mais pessoas podem contribuir com suas observações sobre o mesmo colaborador. 90 Trata-se de mais um trabalho que deve ser bem estruturado. Os indicadores de competência, por exemplo, podem funcionar como norteadores da avaliação ao permitir uma observação mais direcionada. Ou seja, essa é uma metodologia de avaliação com foco e objetivos de�nidos, fugindo, assim, da visão generalista de avaliações mais tradicionais (Leme, 2005). E como realizar a avaliação? Veja quatro tipos de avaliações por competências que podem ser realizadas: 1. Autoavaliação: o avaliado faz a sua própria avaliação. 2. Avaliação superior: somente o superior imediato avalia o subordinado. 3. Avaliação conjunta: o superior imediato avalia o subordinado e este também faz a sua autoavaliação, conhecida também como 180º. 4. Avaliação de múltiplas fontes: várias pessoas, como superiores, pares de trabalho, clientes, fornecedores, respondem à avaliação de um mesmo avaliado. Essa avaliação é conhecida também como 360º. Essas modalidades de avaliação também podem ter o foco no desempenho do trabalho de uma pessoa, mas podem ter o foco em competências, de maneira que seja possível chegar a um cenário livre de distorções ou até mesmo discriminações que uma única fonte pode gerar. Mas quais são as contribuições da avaliação com foco em competências? Notamos, caro acadêmico, que ao realizar esse tipo de avaliação, a organização tem um levantamento apurado das competências de seus colaboradores, ou seja, o mapeamento que vimos tratando ao longo de nossas discussões é realizado. 91 Com esse mapeamento, os gestores organizacionais podem construir o seu banco de talentos e, assim, elencar todas as competências existentes na organização. Esse banco de talentos pode contribuir para o desenvolvimento do plano de carreira na organização, planejamento de quadros de substituição, como também servir de subsídio para os processos de capacitação de pessoas. Ademais, com o mapeamento das competências individuais por meio da avaliação com enfoque em competências, o RH, juntamente com os demais gestores organizacionais, inclusive os da alta cúpula, pode aferir a proximidade ou afastamento das competências existentes com as competências da organização. E, assim, contribuir para o desenvolvimento do planejamento estratégico organizacional e planejamento de RH. Leme (2005) corrobora essa a�rmação ao dizer que a de�nição e a análise do nível de competências do colaborador deverão mensurar: (1) o nível de competências para a função e o (2) o nível de competências para a organização. Tais pontos precisam ser identi�cados justamente para contribuir para o destino da organização e do plano de desenvolvimento que será adotado com o avaliado. Utilizando o conceito de competência, é necessário de�nir quais serão os parâmetros considerados para que a avaliação possa subsidiar a tomada de decisão em Gestão de Pessoas (Fernandes e Hipólito, 2012). Para isso, esses autores descrevem que as avaliações podem se centrar em: conhecimentos, habilidades e atitudes; metas e objetivos; desenvolvimento do pro�ssional e análise do per�l e de potencial. Vejamos as características principais de cada uma delas. a. Conhecimentos, habilidades e atitudes: se apoia na listagem e na descrição desses elementos exigidos dos pro�ssionais e que, se manifestados, dariam sustentação a um padrão diferenciado de performance no exercício de sua atividade. b. Metas e objetivos: para medir a agregação de valor, são estipuladas metas às pessoas, alinhando-as com suas necessidades principais, fazendo uso de indicadores que permitam mensurar o desempenho e, principalmente, identi�car as competências individuais manifestadas. c. Desenvolvimento do pro�ssional: está ligado ao conceito de complexidade estudado, anteriormente, ou seja, a evolução pro�ssional do indivíduo vai sendo avaliada, na medida em que aumenta, a complexidade de sua atividade também aumenta. Nesse contexto, a sua capacidade de entrega deve ser percebida para identi�car ascompetências manifestadas. 92 d. Análise do per�l e do potencial: instrumentos voltados a identi�car traços e características que, quando trabalhados, adequadamente, permitem a harmonia entre o pro�ssional e sua atuação na empresa, geralmente, os testes psicológicos. São dimensões de análise que, apesar de revelarem mais aptidões do que competências, podem sinalizar para a predisposição ao exercício de algumas competências. A partir desses aspectos, notamos que o processo de avaliação com enfoque em competências apresenta uma diversidade de elementos e formas de operacionalização. O mais importante é que haja planejamento e, principalmente, objetivos bem delimitados que orientem a execução desse processo. Nesse ínterim, pro�ssionais capacitados e conhecedores do negócio da empresa são primordiais para que ambas as partes (pessoas e organização), ao �nal, sejam bene�ciadas e tenham as suas expectativas atendidas. Assim, os instrumentos de avaliação acabam por propiciar aos gestores organizacionais a possibilidade de análise estruturada sobre as características e contribuições pro�ssionais das pessoas alocadas em suas equipes e, assim, sustentar a tomada de decisão a respeito dos principais processos de RH e a sua operacionalização (Fernandes e Hipólito, 2012). São exemplos de competências individuais mapeadas no processo de avaliação: capacidade de trabalhar em equipe; capacidade de rápida aprendizagem; criatividade, visão holística; capacidade de inovação; per�l empreendedor; autocontrole emocional; proatividade; domínio de conhecimentos técnicos associados ao cargo ou função; iniciativa, resiliência e �exibilidade diante de novas situações; comprometimento; boa comunicação, entre outras. Na avaliação e identi�cação, as competências individuais podem ser categorizadas em três grandes blocos que envolvem a relação do indivíduo com todo o contexto organizacional, oferecendo, assim, uma perspectiva sistêmica dessa relação. Veja: 93 Fonte: Fleury e Fleury, 2000. Competências de negócio Competências relacionadas à compreensão do negócio, seus objetivos na relação com mercado, clientes e competidores, assim com o ambiente político e social. Exemplo: conhecimento do negócio, orientação para o cliente. Competências Técnico-pro�ssionais Competências especí�cas para certa operação, ocupação ou atividade, como por exemplo, desenho técnico, conhecimento do produto, �nanças. Competências sociais Competências necessárias para interagir com pessoas, como, por exemplo, comunicação, mobilização para mudança, sensibilidade cultural, trabalho em times. Ao analisar as competências individuais apresentadas, percebe-se que essas podem ser identi�cadas sempre que o mapeamento for realizado, seja na avaliação dos colaboradores ou, ainda, no processo seletivo. O importante é que tais competências individuais sejam analisadas considerando, para isso, as competências organizacionais, conforme tratamos anteriormente. Notamos, assim, que a avaliação sob o enfoque de competências tem caráter subjetivo, pois considera elementos comportamentais e habilidades implícitas dos indivíduos. Mesmo assim, a objetividade desse tipo de avaliação é clara, já que o intuito maior está em aproximar as competências individuais das competências organizacionais e, dessa maneira, as pessoas e a organização. O mais importante, caro acadêmico, é que sejam utilizados procedimentos adequados para a sua realização, sejam formulários próprios, entrevistas e/ou observação. Quando tais procedimentos estiverem adequados ao contexto, no qual estão sendo aplicados, a possibilidade de acerto e sucesso se torna in�nitamente maior. Em resumo, a construção da dimensão de Gestão de Pessoas na gestão por competências pode ser representada da seguinte forma: 94 Conhecimento da estratégia organizacional Conhecimento da estratégia organizacional Conhecimento sobre o projeto de cargos da empresa AVALIAÇÃO E ATUALIZAÇÃO CONSTANTES Novos profissionais (recrutamento e seleção) Colaboradores (avaliação das competências) Mapeamento das competências organizacionais Informações para outros processos de RH: treinamento, desenvolvimento e remuneração de pessoas O esquema acima mostra o processo para implementar um modelo de Gestão de Pessoas com base em competências. Enfatizo o elemento “avaliação e atualização constantes” nesse processo, pois, como vimos ao longo de nossas aulas, as competências organizacionais e individuais se transformam ao longo dos tempos. As organizações desenvolvem novas competências, inovam competências anteriores ou, então, abdicam daquelas que não se mostram mais importantes, de acordo com o cenário em que estão inseridas. Já as pessoas, pelos próprios processos de RH e também in�uenciadas pelo ambiente que as cercam, desenvolvem novas competências e/ou aprimoram competências anteriores. 95 Assim, caro acadêmico, quando falamos em Gestão de Pessoas com enfoque em competências, falamos de um processo dinâmico e evolutivo, no qual o gestor de RH tem papel fundamental, contribuindo para o processo de mudança organizacional e desenvolvimento individual. E, ao utilizar a abordagem por competências, a Gestão de Pessoas �ca mais alinhada com expectativas e necessidades das organizações e dos indivíduos, gerando ganhos para ambas as partes (Dutra, 2001): GANHOS PARA ORGANIZAÇÃO GANHOS PARA AS PESSOAS Simplicidade, �exibilidade e transparência. Otimização de recursos e da massa salarial. Direcionamento e otimização dos investimentos no desenvolvimento pro�ssional. Capacidade de atração, retenção e potencialização de talentos. Flexibilidade do modelo para adaptar-se às mudanças de estrutura, organização do trabalho e tecnologia. Equilíbrio entre remuneração e agregação de valor. Horizontes pro�ssionais claros com critérios de acesso de�nidos. Remuneração compatível com a complexidade das atribuições e das responsabilidades e com o mercado. Estímulo ao autodesenvolvimento do espaço de atuação. Condições claras e objetivas para a mobilidade entre as carreiras que o modelo abrange. Percebem que os benefícios da Gestão de Pessoas por competências re�etem sobre os indivíduos e as organizações? Mesmo assim, a implantação dessa abordagem nos ambientes organizacionais é um trabalho minucioso que exige análise, re�exão e quebra de paradigmas. Mas outros processos de RH também precisam ser mencionados quando falamos de Gestão de Pessoas com foco em competências: as formas de desenvolvimento dos colaboradores, os processos operacionalizados por meio dos programas de Treinamento e Desenvolvimento (T&D) e as formas de valorização dos colaboradores, ou seja, os planos de Remuneração. Vamos falar das especi�cidades desses dois processos, quando realizados com foco em competências, na próxima unidade. 96 Por �m, ressalto, caro acadêmico, que, para implantar a abordagem por competências nos ambientes organizacionais é necessário estar com a “lição de casa” em dia: os sistemas de Gestão de Pessoas precisam estar bem amadurecidos e fundamentados. Também abordaremos sobre a implantação desses sistemas na próxima unidade de estudo. 97 Capacitação e Desenvolvimento de Pessoas por Competências 11 98 Olá, acadêmicos! A capacitação e o desenvolvimento de pessoas podem ser vistos como uma extensão do ciclo de identi�cação, avaliação e desenvolvimento de competências individuais. Isso porque é por meio desta etapa que se torna possível preencher o gap identi�cado no processo de comparação das competências individuais e das que se mostram necessárias ao desenvolvimento da função. Os processos de treinamento e desenvolvimento (T&D) não representam uma novidade nas organizações. Sabemos que, de tempos em tempos, os gestores das organizações capacitam os seus colaboradores para o exercício de suas atividades e promovem o desenvolvimento de novas habilidades. Mas como esses processos ocorrem sob o enfoque de competências? Vamos às nossas discussões. Perspectivas Sobre Capacitação, Desenvol�mento eEducaçãoCorporativa As ações de educação, formação, treinamento e desenvolvimento de pessoas são processos voltados ao alcance de resultados (Maximiano, 2014), e estes são de�nidos pela aprendizagem adquirida nesses processos. Assim, é necessário compreender a diferença entre três elementos: treinamento, desenvolvimento e educação. 99 O treinamento compreende atividades que promovem aprendizagem de competências relacionada ao desempenho das tarefas do cargo, enquanto o desenvolvimento promove o conhecimento de competências relacionado com o futuro da organização e da pessoa. Já a educação diz respeito a um processo mais amplo que abarca os dois anteriores. Partindo da perspectiva de Fernandes e Hipólito (2012), a capacitação e o desenvolvimento de pessoas no ambiente organizacional são sustentados pelos resultados obtidos por meio dos instrumentos de avaliação das competências que estudamos anteriormente. Para esses autores, a tomada de decisão adequada sobre a operacionalização das atividades que envolvem os trabalhadores da organização só será e�ciente e e�caz se o mapeamento das competências individuais (avaliação) tiver sido realizado adequadamente. Notamos, assim, caro acadêmico, mais uma vez, a interconectividade existente entre os processos de RH, da qual já falamos. Não há como trabalhar os processos, isoladamente, de maneira a desconsiderar a etapa anterior ou não se preocupar com a etapa seguinte. E o gestor de RH deve estar atento a esse fato. O �uxo apresentado a seguir demonstra tal conexão. 100 1. Estabelecer objetivos estratégicos 2. Identificar competências necessárias 3. Mapear competências atuais 4. Identificar o gap a ser preenchido 5. Planejar ações para preencher o gap 6. Selecionar novos talentos, treinar os atuais 7. Apurar os resultados AVALIAÇÃO DE COMPETÊNCIAS AVALIAÇÃO DE COMPETÊNCIAS AVALIAÇÃO DE COMPETÊNCIAS (PROGNÓSTICO) Ao considerarmos o �uxo apresentado na �gura acima e reforçando a ideia de que os instrumentos de avaliação acabam por propiciar aos gestores organizacionais a possibilidade de análise estruturada sobre as características e contribuições pro�ssionais das pessoas alocadas em suas equipes e, assim, sustentar a tomada de decisão a respeito dos principais processos de RH e a sua operacionalização. Alem disso, as etapas apresentadas auxiliam o gestor de RH e os gestores organizacionais a perceber como ocorre o desenvolvimento de um processo de Gestão de Pessoas por competências, considerando estratégias e competências 101 organizacionais, os talentos existentes na organização e o alinhamento entre esses dois elementos para se chegar aos resultados esperados. Podemos dizer, assim, que, na Gestão de Pessoas com enfoque em competências, a capacitação volta-se à educação dos colaboradores considerando competências individuais e organizacionais requisitadas em sua função. Aí está a diferença desse processo de RH trabalhado sob o enfoque de competências, e não somente de maneira tradicional. Maximiano (2014, p. 306) destaca que “[...] a educação pode ser vista como a instituição social que oferece oportunidades de aquisição e desenvolvimento de competências, que tornem o indivíduo útil para si mesmo e para a sociedade”. Sendo assim, as atividades de educação dos indivíduos devem estar alinhadas à estratégia corporativa. E esse alinhamento se inicia pela identi�cação e análise de necessidades, originadas da organização, dos cargos e dos próprios indivíduos (Maximiano, 2014). E quais necessidades são essas? Dentro desse contexto de competências que vimos discutindo, são aquelas necessidades reveladas por meio da comparação das competências individuais e organizacionais. O gap mencionado anteriormente. Complementando essa ideia, Dutra (2004) diz que os processos de desenvolvimento de pessoas visam estimular e criar condições para o desenvolvimento dos indivíduos e da organização e se mostram mais sensíveis à abordagem de competências pelas seguintes possibilidades: 102 1. De�nir o desenvolvimento pro�ssional do indivíduo, como a capacidade para assumir atribuições e responsabilidades em níveis crescentes de complexidade. 2. Atrelar os conceitos de competência, complexidade e espaço ocupacional à ideia de trajetória pro�ssional. 3. Criar as bases para a conciliação de expectativas entre as pessoas e a organização. 4. Construir um sistema de gestão do desenvolvimento considerando: análise das pessoas com base na individualidade, análise das de�ciências individuais, análise da efetividade das ações de desenvolvimento e adequação das ações de desenvolvimento. 5. Oferecer bases para o processo sucessório. 6. Aprimoramento da entrega ou ampliação da complexidade das atribuições e responsabilidades dos indivíduos. 7. Avaliar as pessoas nas organizações. Esses sete pontos mostram, mais uma vez, o processo cíclico das atividades de Gestão de Pessoas sob o enfoque em competências. Quando o último ponto apresentado pelo autor fala em “avaliar as pessoas nas organizações”, voltamos ao processo de identi�cação de novas competências ou das competências anteriores renovadas. E, assim, inicia-se um novo ciclo de avaliação, desenvolvimento e aprendizagem. 103 Ao utilizar a abordagem de competência na gestão do desenvolvimento das pessoas, os gestores da organização agregam alto grau de precisão e qualidade nesse processo, pois ao tomar as competências como base, desenvolvimento do colaborador passa a ser percebido de forma concreta e passível de mensuração. Nesse contexto de desenvolvimento, as Universidades Corporativas (UC) surgiram como um veículo e�caz para o alinhamento e o desenvolvimento dos talentos humanos em relação às estratégias empresariais. Os processos de educação corporativa favorecem a inteligência e o alto desempenho da organização na busca incansável por bons resultados (Eboli, 2001). Veja um esquema sobre a Educação Corporativa e a possibilidade de integração de diversas esferas da organização. 104 EDUCAÇÃO CORPORATIVA OBJETIVOS E SONHOS INDIVIDUAIS COMPETÊNCIAS EMPRESARIAIS ATUAÇÃO COMPETÊNCIAS HUMANAS CULTURA COMPETÊNCIA RESULTADO RESULTADO DO NEGÓCIO MÉTRICA PERFORMANCE INDIVIDUAL VISÃO, MISSÃO, ESTRATÉGIAS DIRECIONAMENTO GESTÃO DE PESSOAS PARA COMPETITIVIDADE Veja que a �gura traz elementos que já vimos em nossas aulas, tais como as competências organizacionais e individuais, a performance, as expectativas e sonhos individuais e os elementos estratégicos (missão, visão, valores). Por meio de tais elementos, caro acadêmico, reforço o aspecto de integração e interdependência das “partes” da organização quando a Gestão de Pessoas é baseada em competências. A atuação do gestor de RH, nesse contexto, é de extrema importância, já que ele é o detentor do conhecimento especializado dos processos voltados aos colaboradores da organização. A autora Eboli (2001, p. 113) corrobora essa a�rmação: “Com relação à área de RH, é fundamental que tenha uma atuação estratégica por intermédio de uma gestão por competências que permita o alinhamento de atuação entre competências humanas e empresariais”. 105 As formas de capacitar e desenvolver os colaboradores são diversas, partindo desde atividades realizadas no próprio ambiente da empresa até eventos em que as pessoas tenham que se deslocar para fora da organização. O mais importante é que haja engajamento, planejamento e, principalmente, acompanhamento dessas atividades, pois somente assim será possível identi�car se o real papel de trabalhar as competências individuais e o seu alinhamento com as competências organizacionais está sendo cumprido adequadamente. Percebemos, dessa forma, que os gestores de RH precisam conhecer a fundo os processos tradicionais de T&D, para que possam utilizar-se deles na abordagem de competências, pois tal conhecimento propiciará a base de sustentação para o processo de RH seguinte à capacitação e desenvolvimento de pessoas, que é o delineamento do sistema de remuneração. Em nossas discussões, abordaremos esse processocomo valorização e remuneração por competências. Vamos lá! 106 Valorização e Remuneração por Competências 12 107 Como vimos, atrelada à capacitação e ao desenvolvimento está a valorização das pessoas no ambiente organizacional. Essa valorização é medida pelas recompensas recebidas pelos colaboradores devido ao seu trabalho para a organização (Dutra, 2004), ou seja, o enfoque de competências deve atingir também os planos de remuneração da organização. Não vamos falar aqui sobre planos e modalidades de remuneração – até mesmo porque esse é um assunto denso e com uma riqueza de detalhes, que pede discrição e discussões criteriosas que fogem ao assunto central de nosso livro didático. Sendo assim, abordaremos os aspectos que devem ser levados em consideração no quesito remuneração, quando da Gestão de Pessoas por competências. No que diz respeito à valorização das pessoas, trata-se de uma questão fundamental a ser discutida pelos gestores das organizações (Dutra, 2004). É necessário que a organização crie critérios para diferenciar, por meio das recompensas oferecidas, as pessoas que atuam em seus ambientes. Lembra-se da capacidade de entrega que abordamos, anteriormente? Então, essa se tornou um elemento de diferenciação no momento de estabelecer as recompensas dos indivíduos nos ambientes organizacionais, visto que cada um tem “entrega” diferente de outrem, assim como a complexidade das funções desempenhadas. Sabe-se que, ao determinar as formas de remuneração, muitas organizações insistem em manter critérios de recompensa baseados unicamente no mercado. Esses padrões ajudam a empresa a se posicionar e a manter uma relação competitiva que permita atrair e reter pessoas (Dutra, 2004). Contudo, com o tempo, essa estratégia pode se mostrar obsoleta e gerar nas pessoas um sentimento de injustiça no que diz respeito à sua remuneração, justamente porque o mercado é instável e oscila na medida em que as relações de oferta e demanda se modi�cam – e a sensação de injustiça pode ser mais danosa do que a inadequação da recompensa em relação ao mercado. Por esse motivo, em uma abordagem de competências, as organizações tendem a considerar padrões internos de equidade de remuneração, ou seja, a contraprestação oferecida ao colaborador pelo seu trabalho e condizente com suas competências individuais. A concepção de Plothow e Hipólito (2012, p.127) corrobora essa a�rmação: “A revisão do modelo de recompensas de uma empresa está intimamente ligada ao estudo das competências das pessoas, suas responsabilidades e complexidade do seu trabalho”. 108 A gestão da remuneração e recompensas, de forma mais especí�ca e, em uma perspectiva mais ampla, tem sido aspecto fundamental da Gestão de Pessoas. Dessa forma, a possibilidade de sustentar diferenciações salariais com base nas pessoas e não nos cargos acaba por valorizar os pro�ssionais por suas capacidades e reconhecer a importância de sua atuação no desenvolvimento de seu trabalho e na obtenção de resultados (Plothow; Hipólito, 2012). Ademais, ao valorizar e recompensar as pessoas pelo que elas podem fazer a partir de suas competências individuais, e não somente pelo que elas estão fazendo no desempenho de sua função, estimula a aquisição e o desenvolvimento de novas competências e agrega valor à organização (Dutra, 2004; Plothow; Hipólito, 2012). Mesmo assim, essa dimensão da Gestão de Pessoas ainda enfrenta resistências, impulsionada por alguns fatores, dentre os quais: Diversidade de formas como o modelo vem sendo trabalhado nas organizações, podendo instituí-lo ou não como parâmetro consistente para suportar decisões de remuneração. Experiências de insucesso que “alimentam” a descrença em relação à aproximação entre competências e remuneração. Preocupações com a legislação trabalhista. Rompimento com parâmetros que, tradicionalmente, suportam a gestão da remuneração, tirando o foco de análise do cargo para a pessoa. 109 Essas são preocupações que nos orientam a discussões sobre essa modalidade de remuneração mais estratégica. Nesse ínterim, cabe re�etir juntamente com Plothow e Hipólito (2012, p. 135): “Para remunerar por competências, deve-se observá-las a partir de sua manifestação concreta e real, ou seja, mediante a observação dos comportamentos das pessoas e dos resultados obtidos”. Podemos notar, a partir da concepção dos autores, que, assim como a instauração de outros processos de Gestão de Pessoas, a remuneração por competências é um romper de paradigmas nos ambientes organizacionais, que precisam ser devidamente sustentados por ferramentas adequadas. E são diversas as formas de concretizar essas ações de recompensa. O reconhecimento pode ser formalizado por meio de um elogio, carta ou prêmio ou, então, um aumento salarial e/ou promoção para funções organizacionais que representem desa�os maiores (Dutra, 2004). Além disso, Plothow e Hipólito (2012) apresentam como características do modelo de remuneração por competência: 110 Possibilidade de sinalizar por meio das competências o que a empresa espera das pessoas. Expectativas essas que estão alinhadas às suas competências organizacionais. Foco direto na contribuição e na responsabilidade dos colaboradores e não somente em atividades. A lógica de complexidade passa a ser linha de frente desse sistema de remuneração, esclarecendo para as pessoas a partir de qual desenvolvimento a progressão salarial ocorre. Maior clareza e estabilidade dos critérios que balizam a relação dos colaboradores com a organização, visto que os padrões de responsabilidade não se alteram na mesma intensidade que o foco em atividades. A partir desses pontos apresentados, podemos ter uma perspectiva das principais diferenças entre um modelo de remuneração baseado em competências (que tem a pessoa como foco) e um modelo funcional de remuneração (em que o foco está no cargo). Complementando as nossas discussões, Maximiano (2014) destaca que, atualmente, é preciso valer-se de métodos analíticos para a de�nição da remuneração. Esses métodos decompõem os cargos em diversos fatores compensáveis ou remuneráveis, que são relacionados com as competências exigidas do ocupante, além das quali�cações e responsabilidades para o exercício da função. Exempli�cando, são fatores utilizados nos métodos analíticos para a de�nição da remuneração: habilidade exigida, esforço exercido, complexidade das tarefas, responsabilidade, treinamento ou quali�cações exigidas, condições de trabalho etc. (Maximiano, 2014). Mas em quais situações o modelo de competências se mostra mais e�ciente que o modelo funcional, baseado nas características do cargo? Para responder a essa questão, vamos considerar quatro pontos elencados por Plothow e Hipólito (2012), que são: 111 1. Se as descrições de cargos se mostrarem inadequadas e insu�cientes para retratar as expectativas da organização, no que diz respeito às contribuições esperadas de seus ocupantes. 2. Em ambientes em que predominam pro�ssionais com alta especialidade ou, então, em que a atração e a retenção desses pro�ssionais sejam um elemento crítico. 3. Em ambientes nos quais se espera alta mobilidade e �exibilidade na atuação dos pro�ssionais. 4. Em organizações em que a �loso�a de Gestão de Pessoas esteja baseada em participação e con�ança. O mais importante é que a organização estabeleça padrões de recompensa e valorização que estejam alinhados às suas possibilidades e, principalmente, às necessidades e expectativas de seus colaboradores. A complexidade da função que abordamos é um critério muito utilizado para a diferenciação da remuneração a partir das atividades desempenhadas pela pessoa dentro da organização. As formas de concretizar as recompensas nas organizações devem estimular respostas positivas das pessoas para a empresa, tornando-se fundamentais para o desenvolvimento contínuo dos colaboradores e da organização. Dutra (2004) destaca a relação das recompensas com o desenvolvimento do pro�ssional a partir dos seguintes aspectos: O desenvolvimento do indivíduoé recompensado pelo seu vínculo à maior capacidade de agregar valor para a empresa. O aumento da remuneração, na forma de salário maior, diferenciação de benefícios ou serviços oferecidos pela empresa. Acesso a programas de capacitação ou linhas de subsídio para formação pro�ssional ou pessoal. 112 Quando analisamos esses aspectos citados pelo autor, percebemos que a valorização do indivíduo nos ambientes organizacionais leva também ao seu melhor desenvolvimento. O que vai re�etir em seu desempenho e produtividade, não somente por estar mais bem preparado para fazê-lo, mas, principalmente, pela satisfação que o envolve, a partir da valorização dada a ele pela organização. As organizações obtêm grandes benefícios de seus colaboradores ao instituírem programas de recompensa considerando também as suas competências. É sabido que estamos em um contexto cada vez mais dinâmico e de transformação, sendo assim, os processos voltados aos colaboradores da organização também precisam se alinhar a tal contexto. Embora o assunto da remuneração baseada em competências não seja tão recente, ainda representa uma novidade para muitos gestores organizacionais. Mas a partir do momento em que são percebidos os seus benefícios, essa forma de valorização dos colaboradores mostra-se muito vantajosa. Com isso, a valorização e remuneração de pessoas fecha o ciclo de constituição da Gestão de Pessoas por competências nas organizações. Mas somente conhecer esses parâmetros não é su�ciente. É necessário compreender sobre a implantação de sistemas de Gestão de Pessoas nas organizações, para, assim, concebê-lo e executá- los adequadamente. Até a próxima! 113 Sistemas de Gestão de Pessoas nas Organizações 13 114 Nesta aula, vamos falar da abordagem metodológica para a concepção e implementação de sistemas de Gestão de Pessoas, o que inclui um sistema baseado em competências, que é o nosso assunto central. Esses sistemas não serão vistos como softwares de gestão, mas, sim, como formas de conduzir os processos de Gestão de Pessoas nas organizações, ou seja, a sua abordagem metodológica. Tal abordagem metodológica representa um aspecto essencial para que o sistema implantado seja continuamente adequado às necessidades da empresa e das pessoas por ele abrangidas: “um sistema de gestão de pessoas é sempre pensado para atender às necessidades percebidas pela empresa e pelas pessoas que com ela mantêm relação de trabalho” (Dutra, 2004, p. 89). Assim, esses sistemas representam uma forma de transformação organizacional que abrange todos os critérios existentes na empresa e envolve: Critérios de valorização de pessoas. Posicionamento na estrutura de poder. Padrões de mobilidade entre carreiras. Acesso a condições concretas de desenvolvimento e reconhecimento pro�ssional. Padrões de relacionamento da empresa. Sobre a transformação organizacional, a autora e pesquisadora Fischer (2002) diz que se trata de uma profunda alteração da visão de mundo e do conteúdo ideológico dos modelos de gestão das organizações. Sendo assim, a ideia de transformação pressupõe que os esforços de uma organização devem estar voltados para o seu aperfeiçoamento contínuo e não para a estabilidade de normas, padrões e regras instaurados e enraizados, tornando-se rotineiros – e sistemas enraizados e fragmentados tornam-se verdadeiras blindagens para a 115 implementação de novos sistemas de Gestão de Pessoas nas organizações. Assim, há a necessidade de quebrar paradigmas e estimular a mudança e a transformação em nossos ambientes organizacionais. Porém, caro acadêmico, sabemos que na prática essa não é tarefa fácil, mas, considerando as discussões ao longo deste livro, pode-se dizer que há elementos su�cientes para que tal mudança seja justi�cada de maneira sustentável no que diz respeito à Gestão de Pessoas na organização. Para a implantação da transformação organizacional, vamos considerar uma metodologia constituída de etapas interdependentes. Segue: 116 - Mapeamento de aptidões à mudança - Mapeamento dos agentes do contexto interno e externo - Levantamento de percepções (o que restringe e alavanca) - Identificação de projetos e ações de aperfeiçoamento em andamento - Levantamento de opiniões e sugestões Auscultação - Diretrizes estratégicas da organização - Mobilização de grupos – tarefa - Valores compartilhados - Plano de ação e projetos de aperfeiçoamento - Definição do perfil para os gestores organizacionais - Concepção da disseminação Concepção e modelagem - Difusão de objetivos e estratégias para os diferentes atores organizacionais - Emprego de sistemas e instrumentos de gestão para promover a mudança - Absorção e internalização de objetivos e estratégias - Monitoramento de resultados - Revitalização de compromissos - Aperfeiçoamento contínuo Disseminação e sustentação Fonte: Fischer, 2002. Como estamos falando da implantação de sistemas de Gestão de Pessoas, considerar o processo de transformação organizacional torna-se relevante para que seja oferecida uma base sobre como implementar esses sistemas. As etapas do processo acima apresentado descrevem fases e características que devem ser vistas como orientadoras para a sua implementação em um ambiente organizacional. 117 Assim, Fischer (2002) destaca que as fases não representam uma sucessão de etapas de mudanças isoladas, já que podem se sobrepor umas às outras ou, então, serem conduzidas paralelamente. O importante é que observemos essas fases como orientadoras para a transformação organizacional, como também, para a implementação de sistemas de Gestão de Pessoas. Conhecidas as etapas de um processo de transformação organizacional, partiremos à concepção de Dutra (2004), ao a�rmar que, com a implantação de sistemas de Gestão de Pessoas, por meio de etapas, é possível o desenvolvimento de uma proposta de intervenção nas organizações de maneira clara e objetiva, levando, assim, à constituição de aspectos metodológicos quando esses ambientes são analisados. Além disso, algumas premissas auxiliam na criação de métodos e técnicas que garantam a efetividade do sistema de Gestão de Pessoas: 1. O sistema gerado deve ter legitimidade, sendo esta obtida e conservada na medida em que as necessidades das pessoas e da empresa são atendidas. 2. O sistema nunca pode ser considerado uma obra acabada, o processo deve ser contínuo e gerar ao longo do tempo novas con�gurações e modelos. 3. O sistema deve dar suporte ao desenvolvimento da empresa e das pessoas, valorizando aspectos positivos encontrados na cultura organizacional. Fonte: Dutra, 2004 Essas premissas auxiliam na concepção do sistema de Gestão de Pessoas, permitindo uma avaliação prévia do que se deseja implantar. Ao considerá-las, é possível criar uma base de sustentação forte para o novo sistema, além de possibilitar a sua manutenção e atualização ao longo do tempo. 118 Outro ponto que vale ressaltar é que, a partir do momento em que há um acompanhamento do sistema de Gestão de Pessoas, as mudanças e atualizações vão sendo implementadas, gradativamente, reduzindo, assim, o esforço e/ou dispêndio de recursos quando for necessário melhorá-lo. E, na medida em que o sistema de Gestão de Pessoas é melhorado, cada vez mais ele atende às expectativas dos indivíduos e da organização como um todo. Os sistemas de Gestão de Pessoas servem de parâmetro para a constituição das Políticas de Gestão de Pessoas de uma organização, representando o delineamento dos seus processos de RH e, com isso, a representação clara dos processos voltados às pessoas que fazem parte desses ambientes, ou seja, os colaboradores. Sobre as políticas de Gestão de Pessoas, Armstrong (2009) diz que representam uma forma de de�nir qual o posicionamento, as expectativas e os valores da organização, de modo que retratam as ações de GP desenvolvidas pelos gestores nos ambientes das organizações. Dessa forma, as políticas de GP devem estar alinhadas com a estratégia da empresa. Mas quais seriam as políticas de Gestão de Pessoas de uma organização?A autora Demo (2012) destaca que as principais políticas de Gestão de Pessoas implementadas nas organizações são: recrutamento e seleção; treinamento e desenvolvimento; educação; condições de trabalho; avaliação de desempenho; competências; recompensas. 119 Sob essa perspectiva, reforça as políticas de Gestão de Pessoas detêm um papel estratégico na realidade competitiva atual das organizações, voltando-se à criação de capacidades organizacionais que elevam tal competitividade. Esse papel é otimizado, por assim dizer, quando as políticas de GP são concebidas sob o enfoque de competências. Assim sendo, o processo para concepção e implementação de sistemas de Gestão de Pessoas na organização, para Dutra (2004), é concebido em quatro etapas: 1. De�nição dos Parâmetros do Sistema de Gestão de Pessoas; 2. Modelagem do Sistema; 3. Implementação inicial do sistema e Capacitação do Corpo Gerencial; 4. Monitoramento do Sistema. Estude as características de cada etapa: 120 ETAPAS CARACTERÍSTICAS De�nição dos parâmetros do sistema de gestão de pessoas Engloba as atividades para estabelecimento dos objetivos e premissas que norteiam a modelagem do sistema e dos resultados a serem obtidos com a sua implantação. São delimitados nesta fase: objetivos, premissas e resultados: abrangência do sistema; indicadores. As atividades que envolvem esta fase são: levantamento de dados por meio de pesquisas e análise de documentos e entrevistas com pessoal da empresa; reuniões com direção e equipes de trabalho; identi�cação das necessidades da empresa; análise da cultura organizacional; avaliação das políticas e práticas existentes na empresa; de�nição de grupos de trabalho. Modelagem do sistema Incentivo à interação entre os gestores envolvidos para a discussão de questões organizacionais abrangentes. São de�nidos nesta etapa: princípios e diretrizes do sistema, sistemas de carreira e remuneração; parâmetros orientadores para dimensionamento do quadro de pessoal, conjuntos de instrumentos de Gestão de Pessoas. As atividades que envolvem esta fase são: workshops, reuniões com grupos envolvidos, análise de dados da organização, estabelecimento de compromissos entre empresa, gestores e pessoas abrangidas no sistema. Implementação inicial do sistema e Capacitação do Enquadra as pessoas nos parâmetros estabelecidos pelo sistema delineado nas etapas anteriores. Esta ação demonstra gaps entre o valor agregado dos pro�ssionais e o requisito do sistema, dando subsídios para a construção de um plano de ação. 121 Corpo Gerencial São de�nidos nesta etapa: instrumentos de divulgação do sistema; capacitação das equipes de trabalho; estabelecimento de estratégia e cronograma de disseminação do sistema. As atividades que envolvem essa fase são: suporte na identi�cação dos gaps existentes na organização; reuniões para estabelecimento de meta; reuniões com direção e grupos de trabalho; elaboração de material para divulgação do sistema. Monitoramento do sistema Processo de acompanhamento da implementação e concepção das propostas de reformulação, por meio da avaliação dos fatores decisivos de sucesso previamente estabelecidos. São avaliados nesta etapa: os impactos provocados no contexto cultural da empresa; diferenças de ritmos de compreensão e incorporação dos objetivos propostos; resistências quanto à recon�guração das relações internas. As atividades operacionais desta etapa compreendem: avaliação da aceitação do sistema, identi�cação de aspectos a serem revistos, condução de reuniões de sensibilização e orientação no intuito de ampliar a receptividade e a compreensão do sistema por gestores e pessoas abrangidas. A partir das etapas apresentadas, nota-se que a concepção e a implementação de um sistema de Gestão de Pessoas perpassam uma série de momentos no ambiente organizacional. Esses momentos são fortemente marcados pela participação da direção da empresa e de equipes de trabalho, o que dá legitimidade ao sistema. Além disso, notamos que as atividades desenvolvidas em cada etapa procuram atender às necessidades do ambiente organizacional, bem como das pessoas envolvidas no processo. Atividades essas que compreendem discussões 122 estruturadas entre gestores, equipes de trabalho e direção da empresa, para avaliação e con�guração do sistema de Gestão de Pessoas. Vimos, assim, que há a necessidade de envolvimento de todos que fazem parte da empresa, para que o sistema de Gestão de Pessoas se torne integrado e estratégico, fortalecendo os laços entre pessoas e organização, pois passa a haver reciprocidade nessa relação. Dutra (2004) reforça essa ideia ao dizer que sistemas integrados favorecem maior sinergia entre suas partes, reforçam-se mutuamente e garantem maior efetividade, coerência e consistência. Além disso, essa articulação dá ao sistema legitimidade e credibilidade por agregar valor tanto para a organização quanto para as pessoas que fazem parte da estrutura organizacional. Sendo assim, a concepção e a implementação de um sistema de Gestão de Pessoas devem, além de envolver todas as pessoas que fazem parte da organização, considerar as suas competências individuais. E, como estamos falando de um processo de construção de um modelo de Gestão de Pessoas, já vimos como essas competências individuais podem ser mapeadas. Por �m, destaco, caro acadêmico, que o delineamento dos sistemas de Gestão de Pessoas forma a base para a construção do modelo baseado em competências e, em alguns casos, representa uma atualização do sistema de Gestão de Pessoas já existente. Conhecidas tais características, na próxima e na última unidade, falaremos, metodologicamente, sobre a implantação do modelo de Gestão de Pessoas baseado em competências nas organizações. 123 Preparação da Matriz de Competências 14 124 Nesta aula, trataremos sobre a avaliação das competências mapeadas em todo o processo de desenvolvimento desse modelo de Gestão de Pessoas, ou seja, aquelas competências individuais e organizacionais de que tratamos em outras aulas serão, a partir de agora, o instrumento principal para a constituição da matriz por competência. Quando falamos em matriz de competências, vale destacar, caro acadêmico, que não há uma fórmula mágica e/ou uma de�nição padrão para todas as organizações. Assim, essa matriz vai depender da forma como a organização estiver estruturada e, principalmente, do mapeamento adequado de competências. Para isso, deve haver pessoas especí�cas na realização desses trabalhos. Os responsáveis pela elaboração da matriz de competências precisam promover a integração entre as competências corporativas, especí�cas e as individuais, ou seja, alinhar todos os elementos da competência que já vimos anteriormente. Algo que acaba acontecendo, muitas vezes, são organizações que elencam um rol exagerado de competências para a constituição da matriz de competências, mas que não re�etem a sua realidade. De acordo com Leme (2005), não há quantidade ideal de competências para uma organização, pois, da mesma forma que as pessoas são diferentes, as empresas também são. Esse ponto pode parecer óbvio, mas, realmente, ainda representa um grande erro cometido por alguns gestores organizacionais. Mesmo que as empresas estejam no mesmo segmento de mercado, cada qual terá seus próprios objetivos, crenças, 125 valores e público-alvo especí�co (Leme, 2005). Neste momento, caro acadêmico, você deve estar se perguntando, mas por onde começar o delineamento da matriz de competências? Quais são as etapas para implantação? Para respondê-las, vamos considerar aqui dois momentos que auxiliam na operacionalização dessa atividade: 1. Identi�cação da intenção estratégica. 2. Análise das competências organizacionais e individuais. Vamos falar de cada um deles. Identificação da Intenção Estratégica Ao falar da intenção estratégica de uma empresa, me re�ro à identi�cação de missão, visão, valores organizacionais. Sabemos que toda organização tem a sua razão de existência, no entanto, nem sempre essa razão é explicitadaaos colaboradores, clientes, fornecedores e demais públicos com quem a organização se relaciona. Estou falando aqui, caro acadêmico, da missão da empresa. De acordo com Chiavenato e Sapiro (2009), a missão de uma empresa é a declaração de seu propósito de existência e deve ser de�nida em termos de satisfazer alguma necessidade do ambiente externo e não em oferecer algum produto ou serviço. Para isso, esses autores ressaltam que a constituição da missão deve contemplar os seguintes aspectos: 126 A razão de ser da organização. O papel da organização na sociedade. A natureza do negócio da organização. O valor que a organização constrói para seus públicos de interesse. Os tipos de atividades em que a organização deve concentrar seus esforços no futuro. Dessa forma, se desejamos implantar o modelo de Gestão de Pessoas baseado em competências em uma organização, o conhecimento e a análise da missão se mostram necessários. É importante que a missão seja trabalhada com todos os públicos da organização. Caso a empresa não tenha a missão de�nida, será necessário constituí-la para, posteriormente, desenvolver a matriz de competências. No que diz respeito à visão da empresa, Chiavenato e Sapiro (2009) dizem que se trata da imagem que a empresa tem de si própria no futuro, ou seja, aonde ela quer chegar. Um ponto importante, nesse caso, é o de que a visão deve ser consistente com o padrão de comportamento da empresa no presente, para que, assim, tenha credibilidade. Os valores organizacionais correspondem ao conjunto de conceitos, �loso�as e crenças que uma organização respeita e pratica em seu dia a dia. Valores representam o conjunto de ideais que servem de orientação e inspiração para os públicos da organização, manifestando aquilo de que a empresa não está disposta a abrir mão, ou seja, as suas virtudes, princípios e ideologias (Chiavenato e Sapiro, 2009). Veja a seguir exemplos de missão, visão e valores de duas empresas conhecidas no mercado. 127 McDonald’s Missão Servir comida de qualidade, proporcionando sempre uma experiência extraordinária. Visão Duplicar o valor da companhia, ampliando a liderança. Valores A experiência dos consumidores está no centro de tudo o que fazemos. Temos um compromisso com as nossas pessoas. Acreditamos no sistema McDonald’s Franqueados Companhia e Fornecedores. Gerimos e desenvolvemos o nosso negócio de forma ética. Retribuímos às nossas comunidades. Desenvolvem o nosso negócio com rentabilidade. Procuramos melhorar continuamente. 128 Natura Missão Criar e comercializar produtos e serviços que promovam o bem- estar/estar bem. Visão Ser uma marca de expressão mundial, identi�cada com a comunidade das pessoas que se comprometem com a construção de um mundo melhor mediante a melhor relação consigo mesmas, com o outro, com a natureza da qual fazem parte e com o todo. Valores Relações humanas. Promoção do desenvolvimento dos indivíduos. Compromisso com a verdade como caminho para a qualidade das relações. Quanto maior a diversidade das partes, maior a riqueza e a vitalidade do todo. Veja que a missão de uma empresa deve expressar signi�cado e, para isso, não são necessários textos extensos e confusos, mas a manifestação exata do porquê de sua existência. Aprendemos, assim, caro acadêmico, que, na constituição da missão, “menos pode ser mais”. A visão transmite o desejo de futuro, e os valores, os elementos que sustentam a organização em relação aos seus princípios e ideologias. Nesse sentido, precisamos entender a respeito de tais elementos para constituir a matriz de competências, porque juntos, missão, visão e valores de�nem a intenção estratégica de uma organização, que precisa estar clara, quando se deseja adotar o modelo de Gestão de Pessoas baseado em competências. 129 A de�nição de missão, visão, valores e estratégia de uma organização é fundamental para orientar e validar todo o processo de de�nição de competências, pois é a partir do que está expresso nesses elementos que as competências da organização serão identi�cadas e desenvolvidas adequadamente (Leme, 2005). Começamos, então, a pensar nas competências necessárias para que a missão, a visão e os valores se cumpram. Para isso, vamos à etapa que trata da comparação e análise das competências organizacionais e individuais. Análise das Competências Organizacionais e Indi�duais Já vimos como mapear as competências organizacionais e individuais. Agora, chegamos ao momento de “colocá-las” juntas para, assim, decidir quais ações de Gestão de Pessoas mostram-se necessárias para desenvolver indivíduos e, consequentemente, a empresa. Para isso, é indispensável criar um cenário comparativo/analítico das competências organizacionais e individuais da organização. É nessa etapa que são retomadas todas aquelas informações identi�cadas com o mapeamento de competências. Para facilitar o trabalho do responsável pela preparação da matriz de competências, sugiro a elaboração de um quadro no qual estejam claramente identi�cadas as competências diferenciais, essenciais e básicas do negócio. O quadro a seguir traz exemplos de competências organizacionais mapeadas de acordo com a classi�cação e você pode utilizá-lo para elencar as competências da sua organização. 130 Competências Características Diferenciais Inovação constante dos produtos Pesquisa de mercado Criatividade Diversi�cação de produtos e serviços Competitividade Essenciais Estímulo à criatividade e à inovação Recompensas estimulantes e melhoria contínua do desempenho pro�ssional Capacitação constante dos colaboradores Estímulo à pesquisa, ao desenvolvimento e à inovação Básicas Preço compatível com o mercado Atendimento diferenciado aos diversos públicos Acessibilidade Pro�ssionais capacitados Tecnologia de ponta Estrutura inovadora Com esse quadro o responsável pelo desenho da Matriz de Competências tem condições de apresentar a estrutura de sustentação do negócio. Perceba que as competências elencadas devem estar alinhadas a cada classi�cação. Em caso de dúvida sobre essa classi�cação das competências, volte à aula 2, na qual tratamos do assunto. Chega-se ao momento, então, de classi�cação e análise das competências individuais. Vimos, nas unidades anteriores, que o mapeamento dessas competências é realizado por meio das ferramentas de RH, diversi�cando as ferramentas de acordo com o público que terá as competências mapeadas. Para a avaliação e a identi�cação das competências individuais vamos utilizar a classi�cação de Fleury e Fleury (2000), que vimos na unidade III, conforme o quadro a seguir. Assim, você pode utilizar esse modelo para mapear as competências 131 individuais dos colaboradores de uma organização e/ou unidade de negócio. Classi�cação das competências individuais Exemplos de competências individuais Competências de negócio Conhecimento do negócio Orientação para o cliente Competências técnico- pro�ssionais Especialidade na função, e ainda se atualizando. Conhecimento aprofundado do produto / serviço da empresa. Alto padrão de desempenho Competências sociais Boa comunicação Capacidade de negociação com públicos diversos. Mobilização para mudança Relacionamento interpessoal Proatividade e Inovação Perceba, caro acadêmico, que utilizei a expressão unidade de negócio porque sabemos que, quando se trata de grandes corporações, o mapeamento das competências individuais �ca ainda mais complexo. Então, uma ação adequada seria realizar a identi�cação e a análise das competências individuais por departamentos/setores. No caso de empresas de menor porte, que não sejam tão setorizadas, as competências individuais podem ser mapeadas e classi�cadas considerando a empresa como um todo. A seguir, é apresentado um modelo de formulário que você pode utilizar para elencar as competências individuais. 132 Departamentos / Classi�cação das competências individuais Competências de Negócio Competências Técnico- pro�ssionais Competências Sociais Departamento de RH Departamento de MarketingDepartamento Financeiro Departamento de Vendas Departamento de Produção Essa análise por unidade de negócio também pode ser realizada para a análise das competências organizacionais. Para isso, você pode utilizar o formulário representado no quadro a seguir: 133 Veja, caro acadêmico, que meu intuito aqui é demonstrar a forma de operacionalização da elaboração da matriz de competências, e ressalto que a preparação vai depender de cada contexto organizacional. Você pode elaborar a matriz observando a organização como um todo ou por departamentos. Tudo vai depender da realidade organizacional. Lembre-se sempre da necessidade de identi�car qual é o contexto considerado para a análise. Assim sendo, o próximo quadro demonstra um exemplo de formulário que pode ser utilizado para a preparação da matriz de competências, observando a organização como um todo, no caso de grandes corporações; e também para a análise de Unidades de negócio /análise de competências Organizacionais Individuais Essenciais Básicas Diferenciais De negócio Técnico- pro�ssionais Sociais Departamento de RH Departamento de Marketing Departamento Financeiro Departamento de Vendas Departamento de Produção 134 organizações menores, que não sejam tão departamentalizadas, permitindo a análise por departamentos, conforme anteriormente demonstrado. EMPRESA Competências organizacionais Diferenciais Essenciais Básicas Competências individuais De negócio Técnico- pro�ssionais Sociais Realizadas essas etapas, a matriz de competências está praticamente pronta. Como optei por exempli�car por meio de formulários a construção e a análise dos elementos da matriz de competências, veja uma forma de apresentação da matriz �nalizada. 135 EMPRESA Missão Visão Valores Competências organizacionais Diferenciais Essenciais Básicas Competências individuais De negócio Técnico- pro�ssionais Sociais É necessário sempre considerar o contexto organizacional que será analisado. Sabemos que modelos de gestão são formas de orientação aos processos organizacionais, mas que cada empresa tem uma realidade diferente da outra e, por esse motivo, todos os seus elementos devem ser levados em consideração antes de se escolher as estratégias de gestão que serão implementadas em seu ambiente. Na aula a seguir, vamos estudar a metodologia para a implementação de um modelo de Gestão de Pessoas baseado em competências. 136 Metodologia de Implantação do Modelo de Competências 15 137 Quando falamos em metodologia para executar algo, trata-se de identi�car quais devem ser as etapas a serem seguidas e ferramentas empregadas para se alcançar o objetivo esperado. O nosso objetivo aqui é saber como implantar um modelo de competências na organização, para isso, nos basearemos na metodologia de Gramigna (2007), que é constituída de cinco blocos: Bloco 1: Sensibilização. Bloco 2: De�nição de per�s. Bloco 3: Avaliação de potencial e formação de banco de talentos. Bloco 4: Capacitação. Bloco 5: Gestão de desempenho. Gramigna (2007) destaca que os blocos representam maneiras de intervenção no ambiente organizacional e que se sucedem de forma simultânea ou passo a passo. Vai depender dos elementos que forem surgindo no ambiente, da realidade organizacional, e também do responsável por seu desenvolvimento. No bloco de Sensibilização, são realizadas atividades que promovem o envolvimento e a adesão de pessoas-chave da administração da empresa e dos postos de trabalho. O intuito dessa etapa é buscar comprometimento das lideranças organizacionais. A sensibilização pode acontecer de formas variadas, conforme segue: Reuniões de apresentação e discussão do modelo para prováveis adaptações à cultura da empresa. Fóruns de discussão sobre o assunto. Seminários para gestores e formadores de opinião. Convite para participação de palestras e cursos externos que tratem do tema. Uso de veículos internos de comunicação, como jornais, boletins, revistas, etc. 138 Legenda T( Talentos): alto potencial e desempenho correspondente ao esperado. FT (Futuros Talentos): alto potencial e desempenho abaixo do esperado. M (Mantenedores): potencial abaixo do esperado e bom desempenho. AM ( Abaixo da Média): baixo potencial e baixo desempenho. FT T AM M DESEMPENHO PO TE N CI A L O mais importante na sensibilização é eliminar possíveis pré-conceitos que venham a se estabelecer sobre o modelo de competências que será implantado. Ao passar por esse bloco, as pessoas da empresa se tornam menos resistentes à mudança e, assim, aceitam melhor as novas práticas que serão implantadas. No segundo bloco, a De�nição de per�s, é a fase de elaboração da matriz de competências, algo que já tratamos em nosso tópico anterior. Essa etapa exige alto comprometimento e participação daqueles colaboradores que tenham informações essenciais da organização. No terceiro bloco, é realizada a Avaliação de potencial e formação do banco de talentos, aquela fase de mapeamento das competências individuais que vimos, anteriormente. Esse bloco prevê entrevistas, diagnósticos e seminários de identi�cação de potenciais, que resultam no Banco de Identi�cação de Talentos (BIT). O quarto bloco corresponde à fase de Capacitação, ou seja, como a �loso�a do modelo de competências se ancora na crença do potencial ilimitado de desenvolvimento do indivíduo, é possível distribuir as pessoas em grupos distintos, de acordo com o seu potencial. Depois dessa distribuição, torna-se possível planejar o treinamento e o desenvolvimento dessa pessoa, assunto estudado anteriormente. A �gura a seguir mostra a possibilidade de distribuição dos talentos em quatro grupos distintos, conforme Gramigna (2007). Por meio da abordagem utilizada pela autora para a classi�cação de talentos, é possível de�nir e/ou alinhar as estratégias de capacitação a serem utilizadas, partindo da premissa de que cada grupo de pessoas exige intervenções com objetivos diferentes. Ou seja, sabendo quem são os talentos da empresa, em termos de potencial e desempenho, é possível implantar programas de capacitação especí�cos de acordo com as suas necessidades. 139 Destaco que distribuição deve considerar as competências organizacionais (existentes e almejadas) para que as capacitações realizadas voltem também a atendê-las. O quinto e último bloco trata da Gestão do Desempenho, ou seja, depois de mapear e de�nir per�s, veri�car performances, montar o banco de identi�cação de talentos e capacitar, é chegada a hora de avaliar os resultados (Gramigna, 2007). Para isso, o foco dessa etapa está em avaliar o desempenho das pessoas, que fazem parte da organização, assunto abordado na unidade III. Todas as ferramentas e práticas de RH que estudamos aqui nesta disciplina são utilizadas na prática, ou seja, percebemos a importância de abordar cada uma delas sob o enfoque de competências. Trabalhados esses pontos, temos um panorama geral da implantação do modelo de competências em organizações, que é representado a seguir. 140 Identificação da intenção estratégica (missão visão valores) Análise das competências organizacionais e individuais Sensibilização da equipe Avaliação do potencial de talentos e elaboração de planos de capacitação Gestão do desempenho e avaliação do processo Na �gura acima, notamos a junção de todos os elementos tratados durante as nossas discussões ao longo deste livro didático. Ao observar o diagrama elaborado, pode parecer algo simples, mas sabemos que o processo de desenvolvimento, de implantação e de gestão do modelo de competências é uma tarefa complexa e que envolve toda a organização. É necessário, assim, que a sua implantação seja pautada em um trabalho integrado entre as pessoas que fazem parte desse contexto, principalmente os administradores, gestores, lideranças, supervisores,ou seja, aqueles que in�uenciam os demais membros da organização. E, agora que você já conhece todo o processo de implantação do modelo de competências em uma organização, vamos tratar da nova con�guração do RH nesse contexto. 141 RH como Centro de Planejamento e de Resultados 16 142 Sabemos do papel essencial do RH em todo o contexto da organização e, principalmente, quando tratamos da abordagem de competências. Mas é necessário, ainda, criar uma ideologia organizacional que tenha o RH como um centro de planejamento e de resultados. Gramigna (2007, p. 13) a�rma que “a integração das diversas funções de recursos humanos, apoiada por um processo de gestão efetivo, é o passo fundamental para a geração de resultados”. É necessário que a abordagem tradicional da prática de recursos humanos seja substituída por uma abordagem estratégica, em que as ações voltadas às pessoas respondam às diretrizes organizacionais. Para isso, o RH da empresa não pode ser visto como mero departamento de operacionalização de atividades, mas, sim, como um centro de integração entre pessoas e organização. O RH da empresa precisa se inteirar das estratégias organizacionais, para, assim, implementar práticas que se voltem a aumentar o valor da organização, que é o caso do modelo de competências, por exemplo. Os pro�ssionais de RH precisam reconhecer as necessidades de mudança e, assim, buscar caminhos que ajudem a resgatar os espaços que deixaram de ser preenchidos pela área de RH ao longo dos tempos e, segundo a autora, este é o momento. Em plena era de diversas transformações sociais, humanas e organizacionais, ainda é grande a di�culdade enfrentada pelas empresas no que diz respeito aos seus colaboradores. É necessário implementar práticas que venham a auxiliar a transpor esses desa�os no quesito pessoas. Dessa maneira, a gestão por competências tornou-se um processo de forte impacto nos resultados organizacionais e, principalmente, para as pessoas que fazem parte desse ambiente. E a comprovação dessa validade da ferramenta vem com os resultados alcançados pelas empresas nos mais diversos cases que são apresentados em eventos, livros e periódicos da área (Gramigna, 2007; Leme, 2005). 143 Complementando essa ideia, Maximiano (2014) diz que os modelos de competências precisam ser vistos como sistemas que estruturam as competências necessárias aos mais diferentes tipos de pro�ssionais, como também identi�cam aquelas mais existentes. Esses modelos são elaborados com o intuito de aperfeiçoar práticas de RH para desenvolver as competências dos indivíduos de maneira alinhada às competências e estratégias organizacionais. O RH, assim, passa a ser visto sob uma nova perspectiva, como um centro de planejamento de ações estratégicas e, consequentemente, como gerador de resultados para a organização. Marras (2011) de�ne essa nova perspectiva como uma nova postura para o gestor de RH, que está relacionada também ao seu per�l cognitivo e cultural. As novas diretrizes que rede�nem o RH dentro das organizações, implicando políticas e mudanças de paradigmas, são (Marras, 2011): 144 repercutem nos resultados organizacionais, otimizando-os por meio de índices de qualidade e produtividade; esses índices são alavancados pelo desempenho humano; modi�cam o per�l cultural da organização, promovendo um redesenho de acordo com valores e crenças compartilhados; geram ambientes participativos, comprometidos e com objetivos em comum. Assim, caro acadêmico, notamos a necessidade de que os pro�ssionais da área de RH estejam abertos a desa�os e a quebras de paradigmas. Não basta termos um conjunto de práticas, modelos de gestão e abordagens contemporâneas dos processos de RH, se os pro�ssionais que atuam nessa área não estiverem também abertos a esses novos conceitos. Ao tratarmos do modelo de competências, precisamos que o RH adote uma postura orgânica na empresa, atuando como elemento integrador e tendo como objetivo: “participar e assessorar na formação das macrodiretrizes da empresa, de modo a alterar o per�l dos resultados e, portanto, dos lucros da empresa, agregando valor por meio do capital humano existente na organização” (Marras, 2011, p. 254). Assim, a atuação dos pro�ssionais de RH se estende aos mais diversos contextos e perspectivas da empresa. Dessa forma, encerramos esta disciplina! Espero que o conteúdo aqui trabalhado possa auxiliá-lo não somente na implantação do modelo de competências, mas, principalmente, em toda a sua jornada acadêmica e pro�ssional na área de recursos humanos. 145 Conclusão Chegamos ao �nal de mais uma etapa, mas também ao início de uma nova jornada, com novos conhecimentos, re�exões, percepções acadêmicas e pro�ssionais. Encerramos aqui, caro acadêmico, as discussões acerca da Gestão de Competências, propostas nesta disciplina, tão importante para a sua formação. Espero que você tenha aprendido um pouco mais com os temas abordados neste material. Sei que os assuntos que foram aqui tratados não se esgotam nestas linhas, mas já fornecem uma base coerente para re�exões e implementação dessa abordagem da Gestão de Pessoas nas organizações. Minha preocupação foi sempre oferecer subsídios teóricos e práticos a respeito do tema, de forma que o levasse a re�etir e identi�car em sua realidade de trabalho como os conceitos poderiam ser aplicados. Aqui, tive o intuito de provocar re�exões acerca da evolução da Gestão de Pessoas, enquanto conceito e área nas organizações. Abordei alguns aspectos que demonstram ainda a resistência existente dentro das empresas e por pro�ssionais em aceitar o enfoque estratégico que tem o RH. Com as discussões propostas, concluímos que competências individuais e organizacionais estão (ou deveriam estar) interligadas e que a sua identi�cação e desenvolvimento levam a organização a obter vantagem competitiva perante o mercado. Também tratamos da capacitação e da valorização das pessoas sob o enfoque de competências e, ainda, dos sistemas de Gestão de Pessoas como uma forma de estruturação das atividades de RH na empresa. E, por �m, fechamos as nossas discussões, concluindo que a implantação do modelo de competências exige o conhecimento dos processos de RH, dos elementos do contexto organizacional e, principalmente, das características das pessoas que fazem parte dele, ou seja, as competências individuais. Espero ter contribuído para o seu desenvolvimento. Muito sucesso em sua jornada! 146 Referências ALBUQUERQUE, L. G. A gestão estratégica de pessoas. In.: LIMONGI-FRANÇA, A. C. et al. As pessoas na organização. São Paulo: Editora Gente, 2002. ARAUJO, L. C. G.; GARCIA, A. A. Gestão de Pessoas: edição compacta. São Paulo: Atlas, 2010. ARMSTRONG, M. Armstrong’s handbook of human resource management practice. 11ª ed. London: British Library, 2009. AZEVEDO, T. Dez exemplos de id, ego e superego agindo na vida diária. 2016, on-line. Disponível em: https://psicoativo.com/2016/07/exemplos-de-id-ego-e-superego.html. Acesso em: 10 fev. 2021. BANOV, M. R. Recrutamento, seleção e competências. 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