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ESTUDOS MORFOSSINTÁTICOS CAPÍTULO 2 – COMO UTILIZAR AS SÍLABAS PARA FORMAR UM MORFEMA? Luiz Fernando Hilleshein INICIAR Introdução Antes de iniciarmos nossos estudos, é importante que pensemos sobre o que é análise. Em sua opinião, o que quer dizer essa palavra? O que, de fato, é passível de análise? Na Biologia, na Química e em outras ciências, elementos e fenômenos são constantemente submetidos a análises. Na Linguística, as estruturas componentes de uma língua, da palavra à frase, também passam por análises. Esses procedimentos analíticos, realizados a partir de princípios e conceitos determinados, servem justamente para que possamos compreender o funcionamento da língua ou da linguagem. Dessa forma, neste capítulo, conheceremos alguns princípios e conceitos relacionados à análise linguística do ponto de vista da Morfologia. Elucidaremos as bases conceituais e teóricas do morfema, bem como da análise mórfica. As classes de verbo e advérbio também servirão de objeto de estudo, visto sua relevância e a proximidade gramatical entre ambos. Vamos aos estudos! 2.1 O morfema De acordo com Rosa (2000), diante das bases do Estruturalismo, o morfema é concebido como uma unidade básica comunicativa. Ele perfaz a menor unidade provida de significante e significado, constituindo, então, a categoria básica da morfologia. Além da comutação — princípios básicos da análise mórfica —, há, ainda, aqueles que são chamados de princípios auxiliares: a alomorfia e a neutralização. O termo “alomorfia” é utilizado para descrever o morfema quando representado através de um morfe (forma) diferente. Segundo Silva e Koch (2005), pode ou não ser fonologicamente condicionada, sendo que, quando não condicionada, a alomorfia se apresenta em variações livres, a exemplo da alternância vocálica no radical do verbo “fazer” nas formas “faz”, “fez” e “fiz”. Já quando apresenta implicação fonológica, a alomorfia se dá com a aglutinação de fonemas, acarretando em mudanças fonéticas e, por ocorrer entre fonemas, alterando o plano mórfico. Esse tipo de alomorfia trata de uma mudança morfofonêmica e, como exemplo, podemos citar a redução do prefixo “in” para “i”, quando precede uma consoante nasal, como em “incorreto” e “imaginável”. VOCÊ SABIA? Os estudos morfológicos das palavras não são recentes. Há diferentes investigações acerca da história das línguas. Podemos notar que, na gramática de Panini (século VI a. C.), já havia uma preocupação acerca da estrutura das palavras, sendo vista, naquele tempo, a partir de dois elementos: raízes e afixos. Essa informação, que se tornou de grande utilidade para os estudos realizados acerca da morfologia, pode ser constatada posteriormente à descoberta do Sânscrito, no século XVIII (MEIER, 1989). O segundo princípio auxiliar da análise mórfica, a neutralização, manifesta-se com a perda da oposição entre unidades significativas diferentes (SILVA; KOCH, 2005). É o fenômeno oposto à alomorfia, ao passo que, ao contrário desta, consiste no fato de um mesmo morfe representar morfemas distintos. A neutralização pode ocorrer apenas no plano mórfico, por exemplo, a primeira e a terceira pessoas gramaticais em tempos verbais como em “(eu) amava” e “(ele) amava”. Contudo, também pode apresentar influência fonológica, como é o caso representado pela perda da tonicidade da vogal temática “i” nos verbos de terceira conjugação, que passa a ser representada pela vogal; e vogal temática dos verbos de segunda conjugação, através do processo de neutralização “(ele) come” (verbo “comer” – segunda conjugação) e “(ele) dorme” (verbo “dormir” – terceira conjugação). Agora que estudamos e entendemos conceitos imprescindíveis à análise mórfica, como no caso da neutralização, seguiremos ao estudo mais analítico dos elementos mórficos. 2.1.1 Análise mórfica De acordo com Silva e Koch (2005), analisar morficamente um vocábulo mórfico significa descrever sua estrutura, depreendendo suas formas mínimas ou morfemas, considerando, para tanto, a significação e a função atribuídas a cada uma dessas formas, dentro da significação e da função total do vocábulo. A análise mórfica dos vocábulos segue dois tipos de princípios: o básico e os auxiliares. Como princípio básico da análise mórfica, temos a operação denominada comutação. Segundo Câmara Júnior (2011), essa operação consiste na substituição de uma invariante por outra, resultando em um novo vocábulo formal. O processo de comutação pode ocorrer de dois modos, que se distinguem por alterar ou não a significação lexical. Silva e Koch (2005) explicam que ela se trata de uma operação contrastiva através da permutação de elementos para a qual são necessárias segmentar o vocábulo em blocos e haver pertinência paradigmática entre os elementos a serem permutados. Vejamos analisar dois exemplos. Consideremos, primeiro, as formas verbais “amava”, “amaria” e “amasse”. Procedendo a análise mórfica dessas estruturas, teremos: 1. AMAVA = AM (radical) + A (vogal temática) + VA (desinência modo-temporal) 2. AMARIA = AM (radical) + A (vogal temática) + RIA (desinência modo-temporal) 3. AMASSE = AM (radical) + A (vogal temática) + SSE (desinência modo-temporal) Percebemos que, nesse exemplo, a comutação ocorre através do elemento mórfico que representa a desinência modo-temporal, alterando o modo e o tempo das estruturas verbais (pretérito imperfeito do indicativo, futuro do pretérito do indicativo, pretérito do subjuntivo, respectivamente). Logo, a mudança ocorrida pela comutação não alterou a significação lexical. Agora, considere a análise mórfica das formas verbais “amava” e “andava”: 1. AMAVA = AM (radical) + A (vogal temática) + VA (desinência modo-temporal) 2. ANDAVA = AND (radical) + A (vogal temática) + VA (desinência modo-temporal) Assim, vemos que, embora os elementos mórficos da vogal temática (VT) e da desinência modo-temporal (DMT) sejam os mesmos, a comutação ocorrida no elemento mórfico representativo do radical fez com que houvesse a alteração da significação lexical. Os princípios auxiliares da análise mórfica, por sua vez, são a alomorfia, a neutralização e a cumulação. A alomorfia consiste no fato de que um morfema poder ser representado por morfes diferentes, configurações fonemáticas diferentes. Já a neutralização, ou homonímia, é um processo inverso ao da alomorfia. Na neutralização, um único morfe representa dois ou mais morfemas diferentes, cujas oposições fonológicas foram eliminadas. Em outras palavras, os diferentes significados de dois morfemas se anulam no plano de expressão, mantendo-se a distinção no plano do conteúdo. É o que se pode perceber nos exemplos “menin – a –s” e “cant –a –s”, em que os morfes “–a” e “–s” apresentam o mesmo plano de expressão, mas são diferentes no plano do conteúdo (CÂMARA JUNIOR, 2001). Diante dos esclarecimentos feitos à cerca dos princípios básicos e auxiliares, podemos prosseguir para o próximo tópico, no qual estudaremos os tipos de morfema à luz das categorias flexionais e derivacionais. 2.2 Os tipos de morfemas Um ponto importante na análise mórfica é reconhecer os tipos de morfemas, que Silva e Koch (2005) trazem como classificatórios, flexionais, derivacionais e relacionais. Os morfemas chamados de classificatórios são representados pelas vogais temáticas (a, e, i), cuja função é enquadrar os vocábulos em classes de nomes (“casa”, “dente”, “livro”) ou verbos, caracterizando sua conjugação (“andar”, “comer”, “partir”). As palavras terminadas em consoante, por sua vez, são caracterizadas como atemáticas, dada a ausência do morfema classificatório (“mar”, “lar”, “cor”). Os morfemas flexionais, por sua vez, dividem-se em cinco subtipos: Aditivos: como a própria denominação já indica, são o resultado do acréscimo de um ou mais fonemas ao morfema lexical, indicando, por exemplo, a noção de gênero (professor/professora) ou de número (rapaz/rapazes). Podem, ainda, ser cumulativos e indicar duas noções gramaticais em uma forma indivisível, como em “(nós) morávamos”, em que os segmentos “va”e “mos” foram conjuntamente acrescentados ao tema (radical + vogal temática) “mora” para indicar, respectivamente, as noções de modo-tempo e número-pessoa do verbo. O processo cumulativo pode acontecer, também, em palavras como “alunas”, em que “a” indica gênero e “s” indica número; Subtrativos: ao contrário dos aditivos, são resultado da supressão de um elemento fônico do morfema lexical. Como exemplo, temos o par “órfão/ órfã”, em que a noção de gênero é constituída pela subtração do segmento “o”; Alternativos: resultam de uma permuta ou alternância fonêmica dentro de um vocábulo. Alguns exemplos são a alternância da vogal tônica “ô” do masculino para a vogal átona “ó” do feminino, como em “bondoso/bondosa”; e na mudança do singular para o plural, como em “ovo/ovos”. O traço morfológico marcado pela alternância dos fonemas é considerado secundário, pois tem a função de complementar as flexões de gênero e número. Esses morfemas podem ser considerados redundantes. Como exceção, quando estamos diante do par “avô/avó” e suas formas derivadas, não temos morfemas redundantes, pois, ao contrário do que acontece com os outros vocábulos que apresentam a mudança da vogal tônica para a vogal átona, em “avô” e “avó” a marca de gênero não está representada, logo, é a alternância do fonema que caracteriza a mudança do gênero masculino para o feminino; Morfema-zero: ocorre quando a ausência da marca para expressar uma determinada categoria assume a significação gramatical através da oposição. Em vocábulos como “escritor” e “escritora”, por exemplo, a ausência da marca “a” em “escritor” caracteriza o vocábulo como pertencente ao gênero masculino. O mesmo ocorre na comparação entre “escritor” e “escritores”, em que a ausência de “es” no vocábulo “escritor” caracteriza seu número como singular; Morfema latente ou alomorfe Ø: também é caracterizado pela ausência de uma marca para designar uma categoria gramatical, entretanto, difere do morfema-zero, pois ocorre em termos em que não há contraste entre categorias gramaticais, a exemplo de vocábulos como “lápis” e “artista”. Os morfemas derivacionais são aqueles responsáveis pela criação de novos vocábulos a partir de uma palavra primitiva. Ele não é sistemático como o flexional e pode ser exemplificado através da palavra “casa”, da qual, através de morfemas derivacionais, se torna “caseiro”, “casarão”, “casinha” ou “casebre”. Por fim, os morfemas relacionais são responsáveis pela concatenação dos elementos lexicais dentro das frases. Eles são representados pelas preposições, pelas conjunções e pelos pronomes relativos, ou seja, estão relacionados a uma função sintática. Dentro dessa discussão, temos, ainda, que os vocábulos formais estão posicionados em dois diferentes sistemas: aberto e fechado. O primeiro agrupa as palavras que representam lexemas, enquanto que o segundo comporta as palavras que representam gramemas. Cabe ressaltar que a compreensão do vocábulo formal e de suas classificações pode ser tida como o ponto de partida para a análise mórfica. Segundo Câmara Júnior (2011), os vocábulos formais se classificam em: Formas livres: quando funcionam como comunicação suficiente de modo isolado, apresentando autonomia tanto formal quanto fonológica. A palavra “sim” no contexto a seguir representa uma forma livre: “Você comeu o bolo? Sim!”. Outros exemplos são palavras como “lua” e “sol”, que não constituem apenas um elemento mórfico; e “passatempo” e “guarda-chuva”, que se dividem em duas unidades significativas, ou seja, dois morfemas; Formas presas: só funcionam ligadas a formas livres, não apresentando, portanto, nem autonomia formal, nem fonológica. Os morfemas flexionais e derivacionais são exemplos de formas presas, como “(ele) cantava”, “(eles) amam”, “infeliz” e “garota”; Formas dependentes: não são livres porque não podem funcionar isoladamente, mas também não são presas, pois se associam a formas livres para formar vocábulos fonológicos e, entre elas e as livres, podem ser acrescentadas outras formas livres. As formas dependentes são representadas, geralmente, pelos artigos, pelas preposições, pela partícula e outras. Considerando a estrutura “um menino”, podemos intercalar entre a forma dependente “um” e a forma livre “menino” com outra forma livre, como “belo”, tendo “um belo menino”. Com base na observação das três formas de funcionamento do vocábulo formal nas estruturas frasais, Câmara Júnior (2011, p. 69) o define como “[...] a unidade a que se chega, quando não é possível nova divisão em duas ou mais formas livres”. Os vocábulos formais — formas livres, presas e dependentes — também se inserem em dois grupos distintos: o aberto e o fechado (RIBEIRO, 2009). O sistema aberto é composto por um número ilimitado de palavras, representadas por lexemas, ou seja, substantivos, adjetivos, verbos e advérbios. Já o sistema fechado é composto por um número limitado de palavras, que não pode ser ampliado e do qual fazem parte os gramemas, isto é, pronomes, numerais, artigos, preposições e conjunções. Conforme adquirimos os conceitos referentes à tipologia mórfica, considerando suas formas livres, presas ou dependentes, dirigimo-nos ao estudo do papel que o “verbo” exerce na morfologia e na morfossintaxe. 2.3 O verbo Devo dizer “Já faz dez anos que não te vejo!” ou “Já fazem dez anos que não te vejo!”? É correto dizer “Chegarei de tarde” ou “Chegarei à tarde”? O que significa dizer que o verbo está no modo subjuntivo? Como vou saber quando devo usar o futuro do pretérito? Eu digo “Se tiver chegado a encomenda ficarei feliz!” ou “Se tiver chego a encomenda ficarei feliz!”? Nós achamos fácil identificar um verbo na frase, afinal, desde cedo fazemos isso na escola sem grandes dificuldades; mas, em geral, quando estamos diante do papel e temos que escrever um texto, muitas dúvidas aparecem. O tempo, o modo verbal mais adequado, quando flexionar o verbo para concordar com determinada palavra da frase, qual a regência deste ou daquele verbo e mais tantas outras questões sobre as vozes e as pessoas do verbo, a transitividade dos verbos etc. Isso ocorre porque os verbos são muito importantes na estrutura frasal. Prova disso é a quantidade de trabalhos voltados para seus estudos, não apenas em uma perspectiva frasal, mas, inclusive, nos estudos sobre o discurso, os textos, a enunciação, a semântica e a pragmática. Podemos dizer que todas as vertentes teóricas da linguística, da gramática e da filologia dedicam uma parte dos seus estudos aos verbos. Observaremos em seguida a morfossintaxe dos verbos na estrutura simples de uma frase, deixando os demais enfoques citados para sua pesquisa de aprofundamento. 2.3.1 A morfossintaxe e a estrutura dos verbos A palavra latina verbum significa literalmente “palavra”. No meio jurídico ainda é muito utilizada a expressão verbo ad verbum ou “palavra por palavra” para dizer que um documento é a cópia fiel de outro, ou seja, para afirmar sua autenticidade. Já nas gramáticas latinas, o verbo é qualquer palavra. Assim, uma classe específica dos verbos indica que essas palavras são, de fato, autênticas ou, em termos menos jurídicos, o protótipo das palavras. Isso ocorre, talvez, pela razão dos verbos apresentarem um grande repertório de flexões, maior do que qualquer outra classe de palavras. Além disso, eles exercem funções importantes na oração, no discurso e na comunicação. Entretanto, agora, vamos focar apenas nas funções que o verbo exerce na oração, em uma estrutura frasal simples. Vamos, então, entender um pouco melhor sobre a morfossintaxe dos verbos, como de costume, a partir dos estudos da gramática tradicional e dos estudos linguísticos estruturalistas e gerativistas. Não deixe de observar em que ponto esses três enfoques concordam e em que aspecto discordam, acrescentado, desse modo, outro olhar para a morfossintaxe dos verbos. É possível dividir a gramática de maneira didática entre a morfologia e a sintaxe. O termo “morfologia”, no que concerne a sua formação, vem da junção de dois radicais gregos:morphêe e logos, indicando o estudo da forma. Sob a perspectiva da gramática tradicional, vimos que a morfologia abrange o estudo da estrutura interna das palavras. Nesse ponto, a preocupação da morfologia se volta para a Figura 1 - O verbo é a chave das línguas naturais, assim como o elemento principal de análise da morfossintaxe. Fonte: Happy Stock Photo, Shutterstock, 2018. D e sl iz e s o b r e a i m forma como as palavras se constituem, o processo por meio do qual as palavras se formam e a classificação a ser atribuída aos vocábulos de uma língua (ROSA, 2000). Sob a perspectiva da linguística, a morfologia não necessariamente se define em oposição à sintaxe, como postulado dentro da gramática tradicional, mas, também, dentro de uma relação complementar com a sintaxe. Quando complementares, portanto, a morfologia e a sintaxe dão origem ao termo “morfossintaxe”, que pode ser exemplificado a partir da noção de concordância, sintática por excelência, mas que ocorre por meio de processos morfológicos (ROSA, 2000). A sintaxe, por sua vez, pode ser entendida como o conjunto de princípios de organização das construções desenvolvidas pelo processo de derivação e flexão (palavras) em construções mais vastas, de espécies diversas. Nem sempre é clara a distinção entre morfologia e sintaxe. Para algumas línguas, essa definição de sintaxe é razoável, enquanto que, para outras, levanta dificuldades consideráveis. Não é, porém, possível uma discriminação mais satisfatória que abranja as línguas em geral (ROSA, 2000). Conforme as gramáticas tradicionais, os termos básicos da oração são o sujeito (o ser de quem se diz algo, que possui predicado) e o predicado (aquilo que se diz do sujeito da oração). O sujeito da oração é constituído de um núcleo — geralmente um substantivo — e seus complementos, que pode ser um artigo ou um adjetivo, como na oração “A casa amarela precisa de uma pintura nova”. O predicado da oração, por sua vez, pode ser nominal, verbal ou verbo-nominal. Como estamos interessados, agora, na sintaxe dos verbos, deixemos o predicado nominal para outro momento e fixemos nossa atenção nos predicados verbais. Todo predicado verbal tem como núcleo um verbo, acompanhado ou não de outros elementos, como um advérbio. Isso vai depender da transitividade do verbo que compõe a oração. A noção de transitividade já era discutida nas gramáticas gregas e latinas. Os latinos falavam em transitividade das orações, que podiam transitar entre a forma passiva e ativa; e a transitividade dos verbos em relação a sua extensão na oração, o predicado (KURI, 2000). De acordo com a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), os verbos são classificados em relação aos seus predicados. Desse modo, os verbos são classificados como transitivo direto, transitivo indireto e transitivo direto e a g e m p a ra Z o o m indireto quando “pedem” um predicado verbal, definido como aquele em que o verbo demonstra uma ação ou um processo. Podemos citar alguns exemplos para ilustrar essa ideia: O cavalo come maçãs. Gabriela confia nas amigas. Paulo pediu um presente ao pai. Os verbos também podem ser classificados como sendo de ligação, quando ocorrem apenas no predicado nominal, definido como aquele em que o verbo indica um estado ou uma característica. Por exemplo: Eu vou fazer um bolo hoje. Janaína é feliz. Temos, ainda, que os verbos podem ser intransitivos quando não solicitam nenhum complemento obrigatório, sendo específico de um grupo seleto de verbos. Nesses casos, o verbo pode vir acompanhado de um adjunto adverbial, ou seja, está ligado ao predicado verbal, mas isso não é obrigatório. Por exemplo: Carlos morreu. Fernanda riu. Ele dormiu. Os complementos verbais são aqueles em que o verbo obriga ou exige sua existência para que a frase não seja agramatical, sendo que os adjuntos podem ou não figurar na frase. Poderia ser acrescentado, sem que isso seja obrigatório, adjuntos em: Carlos morreu de rir. Fernanda riu de você ontem. Ele dormiu muito hoje. Por outro lado, nos exemplos anteriores, não podemos deixar de “atender os pedidos do verbo”, ou, do contrário, tornamos nossa frase agramatical. Podemos, então, questionar se em “Calos morreu de rir”, “de rir” funciona como adjunto adverbial ou complemento? Podemos dizer que, nesse contexto, o verbo “morrer” é intransitivo? Tal discussão é considerada um dos limites da classificação proposta pela NGB. É possível constatar, a partir das definições de Bechara (2003) e Lima (2011), uma flutuação entre o critério semântico e sintático na classificação dos verbos transitivos e intransitivos, sendo ela: Transitivos: são os que necessitam de verbos de delimitação da sua extensão semântica, ou, em outras palavras, precisam de complementos verbais que indiquem sua interpretação, uma vez que sua predicação é incompleta. Por exemplo: “Os meninos viram (o quê?) o carro”, “A professora pediu (o quê?) a opinião (de quem?) dos alunos” e “O médico socorreu (a quem?) a criança”. Intransitivos: são os que possuem, sozinhos, a capacidade de representar a predicação, ou que “[...] apresentam significado lexical referente a realidades bem concretas não necessitam de outros signos léxicos” (BECHARA, 2003, p. 415). Em outras palavras, sua extensão semântica é bem delimitada pela realidade, por isso, não precisam de outros elementos que façam isso. Para Lima (2011), esses verbos possuem predicação completa. Por exemplo: “Alice não trabalha”, “A atriz morreu”, “O palhaço riu” e “Eu acordei”. Mesmo após a publicação da NGB, é possível encontrar divergências em relação à classificação dos verbos e seus complementos. A questão da transitividade na oração, portanto, ainda levanta debates entre os gramáticos. Resumindo a questão da classificação dos verbos, segundo a ótica tradicional, temos o seguinte quadro: Diante do enfoque Estruturalista, Câmara Júnior apresenta, em grande parte de suas obras, estudos sobre a fonologia e a morfologia do português. É possível encontrar em seus livros, por exemplo, considerações sobre a sintaxe, em especial no “Princípios de Linguística Geral”, de 1964, e na obra “História e Estrutura da Língua Portuguesa”, lançado em 1975. Nessas publicações, o linguista define que as frases podem ser nominais ou verbais, conforme a natureza do predicado. Na frase verbal, o sujeito é determinado pelo predicado (seu determinante), por isso, de acordo com o autor, “[...] o sujeito é um substantivo (nome ou pronome), que serve de tema, ou ponto de partida, da comunicação frasal” (CÂMARA JÚNIOR, 1975, p. 235). O predicado verbal, por sua vez, pode ser constituído por um complemento, ou não, conforme determina a regência verbal. Câmara Júnior (1975, p. 247, grifos do autor) ainda utiliza o critério semântico para definir a regência verbal: “[...] é a significação gramatical de ‘direção’ que explica, por exemplo, a preposição a na regência do complemento do verbo aspirar”. Sua preocupação com a expressividade e intenção do falante que constrói a frase é vista como uma influência da estilística de Charles Baly, herdeiro do estruturalismo francês; e como um afastamento do estruturalismo americano. Uma contribuição importante do estruturalismo para a compreensão do papel- chave dos verbos na estrutura frasal está no conceito desenvolvido por Lucian Tèsniere (1966), dentro da sua sintaxe estrutural. A sintaxe estrutural está dividida em três partes: Conexão: relação que se estabelece entre as palavras na oração; Junção: ligação de elementos que possuem a mesma função na oração; Translação: permite que palavras de classes distintas assumam a mesma função sintática na oração. Essa visão é baseada na observação de que as palavras, mesmo que formalmente pertençam a classes específicas, ao mudarem de função na oração, mudam de classe ou categoria. Isto é, na frase, as palavras podem se transferir de uma Quadro 1 - Classificação dos verbos e seus complementos. Fonte: Elaborado pelo autor, baseado em BECHARA, 2003 e LIMA, 2011. D e sl iz e s o b r e a i m a ge m p a ra Z o o m categoria para outra. A noção de nó verbal de Tèsniere (1966) foi fundamental para a elaboração da Gramática de Valências, segundo a qual o verbo é o centro da oração e o sujeito é um complemento, assim como o predicado. Nessa perspectiva, o verbo exige, obrigatoriamente, o número e a natureza de seus complementos. Por exemplo, o verbo “gostar” exige a presença de um complemento que exerça a função de sujeito (agente) e de um complemento que exerça a função de objeto direto, como em “Ele gosta de maçãs”. Em outras palavras, cada verbo pode ocorrer em um contexto limitado de construções, o que é chamado de valência do verbo. O termo “valência” é usado na química para expressar quantas e quais tipos de combinação o átomo de um elemento pode ter com outro. De forma semelhante, os verbos possuem uma valência, ou as construções possíveis na língua com aquele verbo, sua capacidade de se ligar a outros elementos da oração. Assim, existem as relações obrigatórias e as livres, que podem ou não ocorrer, como é o caso do verbo “morrer”, que exige, obrigatoriamente, o complemento do sujeito (experienciador), mas pode vir acompanhado de um segundo complemento, como na frase “Ele morreu ontem”, em que “ele” é um complemento exigido pelo verbo, porém “ontem” não é uma exigência para que a comunicação se realize. A visão de Tèsniere (1966) sobre o papel central do verbo na estruturação da oração é retomada atualmente por linguistas funcionalistas, o que nos mostra como o estruturalismo europeu possui fortes aspectos funcionalistas, diferentemente dos estudos estruturalistas norte-americanos. Considerando o entendimento no que tange aos verbos na morfossintaxe, abordaremos, na sequência, a seletividade da classificação verbal mediante os preceitos do enfoque gerativista, ou seja, considerando elementos especificadores, adjuntos, argumentos internos e externos etc. 2.3.2 Classificação dos verbos e abordagem gerativista Já sabemos que os verbos formam o núcleo do sintagma verbal, o que equivale a dizer, em uma visão mais tradicional, que eles ocupam a função sintática de núcleo do predicado. Além disso, os verbos admitem várias configurações sintáticas, as quais estão relacionadas com o número de termos a eles ligados. Os verbos, então, exigem termos que a eles se vinculam, e é a partir desses termos que a sentença se estrutura. Por ser o elemento central da estrutura do predicado — e, por conseguinte, de toda a frase —, os verbos também são conhecidos por serem predicadores. Por predicador se entende os elementos em torno dos quais a sentença se organiza, ou seja, são os núcleos dos sintagmas, exercendo as funções sintáticas. Substantivos, adjetivos, preposições e verbos podem, portanto, serem predicadores, já que constituem os núcleos dos sintagmas nominais, adjetivais, preposicionais e verbais, respectivamente. Os predicadores, portanto, dão forma à sentença ao requererem a presença de outros termos na frase para que ela tenha sentido. Esses termos exigidos pelos núcleos predicadores são denominados argumentos. Os complementos nominais e os objetos direto e indireto, por exemplo, são argumentos de nomes e verbos predicadores, respectivamente. Sentenças têm, portanto, termos núcleos (predicadores) e complementos (argumentos), sendo assim estruturada de acordo com o gerativismo. Nessa visão, os determinantes ocupam a função de especificadores, enquanto que os advérbios possuem estatuto de adjuntos. Para o gerativismo, as funções sintáticas ficam reduzidas a núcleos predicadores, seus respectivos argumentos que os complementam, especificadores que estabelecem as propriedades referenciais e os adjuntos que fornecem as informações acessórias. Temos, então, que os verbos podem ser classificados de acordo com o número de argumentos que exigem. Um primeiro argumento que os verbos podem exigir é o sujeito gramatical, que, por essa razão, é denominado argumento externo, enquanto que os complementos são os argumentos internos. Com isso em mente, podemos ter uma ideia de como os verbos podem ser classificados: Verbos que não exigem nenhum argumento: são os chamados verbos inargumentais, os quais, na gramática tradicional, são conhecidos como impessoais. Exemplo: “Nevou no vale ontem” ou “Na África, chove bastante no inverno”. Verbos que exigem apenas o argumento externo, que exerce a função de sujeito: são os verbos monoargumentais, tradicionalmente conhecidos como intransitivos. Exemplo: “Paulo morreu” ou “Joaquim corre na praia todas as manhãs”. Verbos que exigem o argumento externo e apenas um argumento interno: são os verbos transitivos e os de ligação da gramática tradicional, sendo que, no primeiro caso, o complemento é um objeto (direto e indireto) e, no segundo, o complemento é um predicativo. Exemplo: “Flávia recebeu o prêmio pela vitória” ou “Henrique foi um belo atleta olímpico”. Nesse ponto, é preciso dizer que, para a gramática gerativa, pouco importa se o complemento é regido ou não de preposição, ou seja, a distinção entre transitivo direto e indireto não é relevante. Além disso, verbos que tomam complementos indicadores de lugar, como o verbo “ir” e “vir”, são considerados transitivos e não intransitivos, como na gramática tradicional. Verbos que exigem um argumento externo e dois argumentos internos: são os verbos triargumentais, ou predicadores de três lugares, conhecidos na gramática tradicional como verbos bitransitivos. Exemplo: “Paulo deu o livro de presente a Rita” ou “Beto deixou Ana na escola”. Ao lado desses, o gerativismo admite, ainda, outras classificações para os verbos. Um exemplo seria a dos verbos ergativos, que são aqueles em que há uma alternância entre o agente da ação, como em “Jair quebrou o copo” e “O copo quebrou”. Outro caso é o dos verbos que tomam como argumento uma mini- oração — chamadas de small clauses —, como em “Jackie considera a cidade de Sampa a melhor do Brasil”. Temos, também, os verbos inacusativos, que são aqueles em que o argumento interno se desloca para ocupar a posição de sujeito/argumento externo, como em “Lúcio parece cansado”. Esses verbos, para serem bem compreendidos, requerem um conhecimento mais aprofundado da teoria gerativa. VOCÊ QUER LER? A obra “Palavras de classe aberta: gramática do português culto falado no Brasil”, organizado por Rodolfo Ilari, apresenta um amplo e aprofundado estudo sobre o verbo do português brasileiro, que, juntamente à “Gramática de Valências: teoria e aplicação”, de Mário Vilela, perfazem duas leituras fundamentais para a compreensão do papel dos verbos na estruturação da oração. Em suma, a NGB classifica os verbos em relação ao seu predicado e retoma o conceito de transitividade do verbo herdado das gramáticas greco-latinas. Segundo a tradição gramatical, a oração é sempre dividida em sujeito e predicado, ou seja, em termo determinado e termo determinante. Os verbos, quando exercem a função de núcleo do predicado, de acordo com sua transitividade, podem pedir certo número e tipo de complementos: objeto direto, objeto indireto e objeto direto-indireto. Além dos complementos obrigatórios, o predicado pode ter em sua composição os adjuntos nominais e adverbiais. Segundo o enfoque estruturalista de Tèsniere (1966), o verbo é o núcleo de toda a oração, sendo o sujeito um complemento do verbo. Desse modo, a frase não é dividida em duas porções como a gramática normativa apresenta. O conceito de nó verbal, nesse caso, permitiu a elaboração posterior da Gramática de Valência, que explica a relação do verbo com seus complementos na estruturação da oração. A gramática gerativa, por sua vez, enfoca o papel dos verbos na organização das frases. É partir deles que a sentença é construída, sendo as propriedades dos diferentes tipos de verbos determinantes para a presença dos demais constituintes. A gramática gerativa também dá outra forma para os termos tradicionais da oração, definindo-os em termos de sua ligação com o verbo e com os demais predicadores. Com base em tudo que vimos sobre osverbos na morfossintaxe, estamos preparados para seguir nossos estudos e adentrar uma classe de palavra que está diretamente ligada aos verbos: os advérbios. 2.4 O advérbio Devemos dizer “Aonde você vai”, ou “Onde você vai”? A palavra “hoje” é um substantivo ou um advérbio? “Caro” é um adjetivo ou um advérbio? “Muito” é um pronome adjetivo indefinido ou é um advérbio? Quando devo escrever “de que tipo” ou “de qual tipo”? Em nossas conversas diárias, não lidamos com essas questões, sendo que, geralmente, só pensamos sobre o assunto diante de uma situação de comunicação formal ou, como mostra Possenti (1998), quando fazemos piada da estrutura de nossa língua. Isso porque a peculiaridade sintático-semântica do advérbio nos leva a titubear diante de textos formais, orais ou escritos, assim como rir diante de uma piada. A seguir, vamos entender, então, a morfossintaxe dos advérbios na estrutura simples de uma frase. 2.4.1 Morfossintaxe dos modificadores - advérbios Como vimos, a palavra latina verbum significa “palavra”, e o termo ad significa “ao lado”, portanto, o advérbio, nesse sentido, seria “a palavra ao lado do verbo”. Essa definição é conservada nas gramáticas tradicionais ao mesmo tempo em que é revista por linguistas, gramáticos e filólogos que se dedicam ao estudo da morfossintaxe. Diante da abordagem tradicional, geralmente, os advérbios são definidos pela gramática como uma palavra invariável que modifica o verbo, um adjetivo, outro advérbio ou uma oração. Além disso, o advérbio é definido como aquele que expressa circunstância. Segundo Neves (2005), essa definição geral da classe dos advérbios como modificadora tem sua origem na obra de Apolônio Díscolo, “Dos advérbios”. Vejamos três dessas definições com o quadro a seguir. Quadro 2 - Conceitos de advérbios de acordo com os gramáticos. Fonte: Elaborado pelo autor, baseado em BECHERA, 2003; LIMA, 2011; e LUFT, 2002. D e sl Como podemos observar, Bechara (2003), Lima (2011) e Lu� (2002) definem o advérbio como uma palavra que modifica o verbo e que pode modificar, também, semanticamente, outras palavras na frase. Bechara (2003) e Lu� (2002), inclusive, reconhecem a possibilidade de haver advérbios modificadores de oração, como é o caso de frases do tipo “Infelizmente, chegarei tarde hoje”, “Lamentavelmente, não estarei com vocês amanhã” e “Ele é jovem ainda”. Quanto ao aspecto funcional, os autores se distinguem dos demais por reconhecerem nos advérbios a possibilidade de funcionarem como nome ou pronome. A maioria das definições que encontramos parte do critério sintático para definir os advérbios, sendo que pouco se fala do critério formal. Na verdade, esse é um aspecto importante. Dizer que o advérbio é um nome invariável não esclarece casos como o uso do sufixo “mente”, por exemplo, que torna os advérbios uma classe aberta. Apesar de advérbios como “talvez” serem invariáveis, há advérbios que não se comportam exatamente assim, como os que admitem gradação, a exemplo de “mal/pior” e “mais/menos/pouco”. É muito difícil estabelecer todas as posições que um advérbio pode ocupar em uma oração, visto sua heterogeneidade de classe. Nesse sentido, Eliseu (2008) nos dá dois exemplos esclarecedores: o advérbio de tempo “ontem”, que pode ocupar qualquer lugar na oração; e o advérbio de negação “não”, que só ocupa uma posição na oração, ou seja, a de anteceder um verbo. VOCÊ SABIA? Em certas variantes regionais, o advérbio de negação “não” pode ocupar a posição depois do verbo em situações de comunicações particulares, como a de resposta a uma pergunta ou quando o advérbio ocupa duas posições na frase. Por exemplo: “Você vai para casa hoje? Vou não” ou “Eu não vou não para casa hoje”. Porém, é válido dizer que tais usos não estão normatizados pela gramática tradicional. Bechara (2003) considera, durante a exposição do que sejam advérbios, as dificuldades em delimitar essa classe gramatical do ponto de vista semântico como aquele que expressa circunstância. Geralmente, o critério semântico é sl iz e s o b r e a i m a g e m p a ra Z o o m preferido para classificar os advérbios em tipos. Tradicionalmente, os tipos de advérbios, de acordo com a circunstância que expressam, são de afirmação, dúvida, intensidade, lugar, modo, negação e tempo. Sobre a classificação dos advérbios, Lima (2011) não considera a existência de advérbios de afirmação e negação. Bechara (2003), inclusive, também não inclui em sua lista o advérbio de afirmação, mas acrescenta a várias circunstâncias passíveis de serem expressas por advérbios ou por locuções adverbiais: assunto, causa, companhia, concessão, condição, conformidade, dúvida, fim, instrumento, intensidade, lugar, modo, referência, tempo e negação. Nos dois casos, os gramáticos não utilizam critérios funcionais ou formais na classificação dos advérbios, apenas o semântico. Encontramos em Lu� (2002), porém, uma classificação que não se pauta apenas no critério semântico. O autor classifica os advérbios considerando primeiro a sua funcionalidade, dividindo-os em nominais e pronominais; e, depois, o sentido veiculado: nominais (lugar, tempo, modo, dúvida e afirmação), pronominais (lugar, tempo, modo) e quantificativos, que são os tradicionalmente chamados de advérbios de intensidade. Cabe dizer que os advérbios, no interior de um complemento nominal, seguem a estrutura básica: Sintagmas adjetivais: advérbio de intensidade + adjetivo + complemento nominal. Por exemplo: “Ele é extremamente incompetente”. Sintagmas adverbiais ou locução adverbial: advérbio de intensidade + advérbio + completo nominal. Por exemplo: “Ele estava muito bem acompanhado”. Cabe, ainda, comentar sobre a questão dos advérbios diante do enfoque da gramática estrutural. A seguir, faremos uma breve análise dessa temática em contraste com a abordagem gerativista. Figura 2 - O advérbio é a palavra que exprime várias naturezas capazes de modificarem o valor verbal. Fonte: TungCheung, Shutterstock, 2018. D e sl iz e s o b r e a i m a g e m p a ra Z o o 2.4.2 Enfoque estruturalista e os advérbios Câmara Júnior (1964) nos explica que as classes de palavras se organizam em nomes, pronomes e verbos. As palavras que a gramática tradicional categoriza como advérbios são, segundo o linguista, nomes ou pronomes que, em determinada frase, exercem função adverbial ou função de modificadores. Nessa ótica, não existem advérbios como classe de palavras, mas como função sintática. Baseado em Jespersen, Câmara Júnior (1964) ainda classifica os vocábulos de acordo com sua hierarquia funcional: primários (elemento determinado), secundários (elemento determinante) e terciários (elemento determinante de outro determinante). Nessa classificação, os advérbios são nomes ou pronomes que exercem função de elementos terciários, ou seja, “[...] o advérbio é o determinante de outro determinante: modifica assim o adjetivo, o verbo ou o verbo conjugado com seus complementos essenciais, porque este [...] é determinante de um nome ou pronome sujeito” (CÂMARA JÚNIOR, 1964, p. 160). Na obra “Estrutura da língua portuguesa”, de 1976, o linguista explica que palavras como “aqui”, “ali” e “lá” — definidos pela tradição gramatical como advérbios de lugar — são, na verdade, pronomes demonstrativos com função adverbial. Bomfim (1988, p. 36) também classifica essas palavras como pronomes (dêiticos), que, inclusive, podem exercer função de sujeito da oração, confome vemos nos exemplos a seguir: Aqui é o melhor para ler (locativo espacial). Lá é muito frio (locativo espacial). Hoje é dia de festa (locativo temporal). Amanhã será um lindo dia (locativo temporal). Na perspectiva de Bomfim (1988), os advérbios não são apenas intensificadores de adjetivos ou de outros advérbios, nem apenas expressam circunstância, mas indicam a posição enunciativa do falante, como no caso dos advérbios de dúvida, afirmação e negação. Essa posição será retomada pela linguística sociointeracionista, que considera os advérbios como modalizadores no nível enunciativo do texto. mSobre os advérbios interrogativos, Bomfim (1988, p. 14, grifos do autor) menciona que “[...] considerar estes vocábulos simplesmente como advérbios de tempo, de lugar, etc. implica considerar as interrogações indiretas como orações substantivas sem conectivos”. Segundo Tesnière (1966), a frase é organizada hierarquicamente em torno no verbo, seu elemento central. Os elementos diretamente subordinados ao verbo são os actantes (elementos obrigatoriamente exigidos pelo verbo e que são de número limitado) e os circunstantes (elementos não exigidos pelo verbo que podem ou não aparecer e de número ilimitado). Os advérbios são considerados, portanto, elementos circunstantes que descrevem as circunstâncias do processo expresso pelo verbo, de número ilimitado e não previstos, necessariamente, pelo verbo. Em todos os casos, o enfoque estruturalista não considera o advérbio uma classe de palavras, mas uma função que os nomes e pronomes podem exercer na oração. Essa posição esclarece a heterogeneidade que os gramáticos tradicionais se deparam quando categorizam as palavras como advérbios, sendo importante para o desenvolvimento de estudos de enfoque funcionalista da gramática e teorias sobre os textos e o discurso. Em face ao foco estruturalista que estudamos, seguiremos com o próximo item a partir da visão da gramática gerativa no que concerne aos advérbios. 2.4.3 Abordagem gerativista e os advérbios É importante lembrar que, na perspectiva gerativista, o quadro das funções sintáticas da gramática tradicional pode ser reduzido de forma a contemplar apenas as funções de núcleo (que são os predicadores, isto é, os elementos em torno dos quais a sentença se organiza), argumentos (que são os complementos dos predicadores, ou seja, são os elementos por eles exigidos), especificadores (que são os determinantes, os quais determinam as propriedades referenciais) e adjuntos. Sobre estes últimos, chegou o momento de discorrermos a respeito, pois os advérbios, além de constituírem por si só um tipo de sintagma (no caso, um sintagma adverbial, SAdv), atuam na estrutura da sentença como adjuntos. Isso significa que eles podem assumir propriedades bastante interessantes, tanto no que se refere às suas características sintáticas quanto às suas características semânticas. Para o gerativismo, adjuntos são sintagmas que não têm a sua presença na sentença exigida por um predicador. Em outras palavras, isso quer dizer que os adjuntos não se ligam diretamente a um predicador, mas podem se conectar (ou, para sermos mais precisos, adjungir-se) a qualquer sintagma na sentença. A partir daí, eles podem ocupar diversas posições na estrutura sintática. Do ponto de vista semântico, os adjuntos trazem consigo informações complementares às trazidas pelos argumentos, fazendo com que eles “modifiquem”, de algum modo, os termos a que se referem. Noam Chomsky concedeu uma entrevista em que fala sobre como a linguagem se modifica com o passar do tempo, bem como ilustra que o ideal da existência de uma língua nacional é um fenômeno moderno. Com essa entrevista, é possível se aprofundar nos conceitos do gerativismo e compreender que as linguagens perfazem sistemas de comunicação enraizadas na natureza humana. Veja o vídeo completo em: <https://www.rtp.pt/noticias/mundo/noam-chomsky-entrevistado-pela-rtp_v828624 (https://www.rtp.pt/noticias/mundo/noam-chomsky-entrevistado-pela-rtp_v828624)>. No caso dos advérbios, ao funcionarem na sentença como adjuntos adverbiais, atuam como termos modificadores. Tradicionalmente, tem-se dito que eles modificam o verbo, acrescentando ao sintagma verbal uma circunstância de tempo, modo, lugar, causa etc.; mas alguns exemplos mostram que não é bem assim: [Certamente Marcos] foi aprovado no concurso. Marcos [certamente foi aprovado] no concurso. Marcos foi aprovado [certamente no concurso]. [Marcos foi aprovado no concurso certamente]. VOCÊ QUER VER? https://www.rtp.pt/noticias/mundo/noam-chomsky-entrevistado-pela-rtp_v828624 https://www.rtp.pt/noticias/mundo/noam-chomsky-entrevistado-pela-rtp_v828624 Da leitura da primeira oração, depreende-se facilmente que o advérbio “certamente” se liga ao sintagma nominal “Marcos”, dando à frase a interpretação de que não há dúvidas de que Marcos foi aprovado. Na segunda frase, o advérbio se liga ao verbo, como na visão tradicional, e o sentido da frase é que Marcos, com certeza, foi aprovado (e não reprovado, desclassificado, eliminado etc.). Na terceira sentença, o sentido é o de que foi no concurso que Marcos passou, e não no ENEM ou em qualquer outra coisa, visto que o advérbio está adjungido ao sintagma preposicional “no concurso”. Por fim, na última frase, o advérbio está ligado a toda a oração, em que se conclui que o significado da oração é o de que é certo que Marcos (e não Paulo, Rubens, ou outro qualquer) foi aprovado no concurso. A seguir, vamos acompanhar um caso prático para compreender o tema de forma mais abrangente. CASO Durante uma de suas aulas de Língua Portuguesa, o professor Roberto seguia o conteúdo de morfossintaxe e introduziu o conteúdo referente à classe dos advérbios. Ao término da aula, um de seus alunos, Fernando, lançou o seguinte questionamento: mas, afinal, qual é a origem da palavra “advérbio”? Conforme veio à tona a possibilidade de o professor ligar a pergunta do aluno ao conteúdo que trata da formação das palavras na morfologia, Roberto propôs um desafio: os estudantes deveriam responder à pergunta de Fernando com base no que haviam visto nas aulas de morfologia até aquele momento. Na aula seguinte, boa parte dos alunos havia conseguido chegar as origens do vocábulo “advérbio”. A pedido do professor, Fernando, então, foi ao quadro e representou sua resposta da seguinte forma: Ao final, Fernando concluiu que o advérbio está “junto ao verbo”, ou seja, relacionado a ele, atribuindo-lhe novos valores ou, ainda, modificando completamente o sentido do verbo em questão. Como se vê, o advérbio pode se ligar a qualquer outro sintagma na frase, e não apenas ao sintagma verbal. Isso porque, sendo um adjunto, possui posição livre na sentença, o que não aconteceria se fosse um complemento, que, por ser um argumento, tem de ficar sempre próximo ao seu predicador. Repare que essa é uma característica puramente sintática dos adjuntos, que os opõem aos complementos sem fazer menção ao conteúdo semântico, como é usual na gramática tradicional. Assim, classificar os advérbios (bem como os adjuntos adverbiais e as orações subordinadas adverbiais) na base de seu valor semântico esconde as reais propriedades sintáticas desses elementos, além de provocar confusões com os complementos, como mostram os exemplos a seguir: Ana foi [ao mercado]. Carlos deve uma grana [ao mercado]. Luís andou de casa [ao mercado]. Aprendemos na gramática tradicional, que, se um termo expressa um sentido de lugar (ou de tempo, causa, modo etc.), ele deve ser classificado como um advérbio, exercendo a função sintática de adjunto adverbial. Isso seria o caso do termo entre colchetes nas frases acima. Entretanto, apesar de “ao mercado” indicar um lugar, ele não é advérbio nas três frases. Na primeira, é complemento do verbo, já que “ir” é um verbo que exige um argumento (a sentença sem “ao mercado” fica totalmente sem sentido, o que mostra que “ir” é um verbo de um argumento interno). Portanto, “ao mercado” é objeto de “ir”. Na segunda frase, a situação é análoga, uma vez que “dever” é um verbo que exige dois argumentos internos, e o termo entre colchetes é um desses argumentos, junto com “uma grana”. Somente na terceira frase temos um advérbio de lugar, pois “andar” é um verbo monoargumental, só exigindo o argumento externo, o que faz com que “ao mercado” seja um adjunto não requerido na frase. Dessa forma, alguns pontos da descrição tradicional sobre os advérbios são questionados na perspectiva gerativa. Em primeiro lugar, eles não se adjungem somente ao verbo, mas, sim, a todo o sintagma verbal e mesmo a outros sintagmas. Eles fazem isso por seremadjuntos e terem posição livre na sentença. Essas diferentes posições acarretam sentidos diversos para as sentenças, em que se conclui que, mais importante do que o conteúdo semântico interno ao advérbio (se ele é de tempo, modo etc.) é o sentido que ele confere às frases de acordo com a posição que nela ocupam. Em segundo lugar, o que distingue os advérbios dos complementos não é o valor semântico que possuem, mas o fato de que, sendo os primeiros argumentos, os complementos serão sempre exigidos por um predicador, enquanto que os advérbios, sendo adjuntos, não são exigidos por nenhum predicador. Repare que isso pouco têm a ver com a ideia de que adjuntos adverbiais, por serem termos acessórios, carregam informações menos importantes do que as dos termos essenciais, sendo, até mesmo, dispensáveis na sentença. Observe na frase abaixo que a retirada do adjunto adverbial deixa a frase completamente sem sentido, visto que ele traz, notadamente, a informação principal: Em João Pessoa ocorrem festas. A obra “A gramática: história, teoria e análise, ensino”, de Maria Helena de Moura Neves, oferece um estudo da gramática desde sua origem greco-latina até as teorias linguísticas atuais dos fenômenos gramaticais, além de fornecer uma reflexão importante sobre seu ensino. Já a linguista e filóloga Eneida Bomfim, em seu livro “Advérbios”, traz uma interpretação para os estudos das classes de palavras. VOCÊ QUER LER? Outra coisa importante sobre os adjuntos adverbiais é que nem sempre eles são sintagmas cujo núcleo é um advérbio. Muitas vezes, sintagmas preposicionais podem atuar como adjuntos em uma sentença. Mesmo as orações adverbiais, que também são sempre adjuntos, em muitos momentos, não possuem advérbios, sendo o seu valor semântico dado pela conjunção que as encabeçam. Veja o esquema a seguir, em que o sintagma preposicional (SPREP), está ligado ao sintagma verbal (SV), funcionando como adjunto adverbial: A gramática tradicional tem mostrado algumas inconsistências na descrição tradicional dos advérbios, procurando se aproximar mais das reais características e funções dessa classe. Nesse sentido, visa a apontar = suas propriedades estritamente sintáticas em detrimento da ênfase na sua semântica, o que tem sido marca da doutrina tradicional sobre o assunto. Diante das contribuições que a abordagem gerativa revelou, até agora, foi que a classe dos advérbios possui usos que tornam possível o estabelecimento de vários sentidos para as frases, conforme a posição em que se ligam os adjuntos adverbiais. Figura 3 - Os sintagmas e seu funcionamento nas sentenças. Fonte: Elaborada pelo autor, 2018. Figura 4 - As contribuições da gramática gerativa alcançam todas as línguas naturais, bem como as artificiais. Fonte: ARudolf, Shutterstock, 2018. Síntese Ao término deste capítulo sobre a morfossintaxe, com foco nos verbos e advérbios, pudemos perceber que muitos conceitos estão presentes quando falamos sobre análise mórfica. O primeiro ponto discutido foi sobre a classificação dos vocábulos formais como formas livres, presas ou dependentes. A partir dessa classificação, chegamos à definição do vocábulo formal como uma unidade que não pode ser mais dividida em duas formas livres. Neste capítulo, você teve a oportunidade de: D e sl iz e s o b r e a i m a g e m p a ra Z o o m D e sl iz e s o b r e a i m a g e m p conceber que o verbo, no gerativismo, está estreitamente ligado ao modo como essa teoria concebe a estruturação da sentença; trabalhar com a noção de predicador, da gramatica gerativa, tornando possível apontar os núcleos a partir dos quais vai se formando a sentença; conhecer os diferentes tipos de verbo, podendo não apenas identificar os demais elementos sintagmáticos presentes nas frases e orações, mas também perceber como será sua estrutura; estudar sobre os verbos, correlacionando-os a representação estrutural e as funções sintáticas; compreender a importância dos verbos e seu uso efetivo na geração das sentenças; internalizar que, do ponto de vista sintático, o advérbio é definido como uma palavra que modifica o verbo, mas que também pode modificar um adjetivo, outro advérbio ou uma oração; definir a classe de palavras, visto que esse é um aspecto importante para compreender a morfossintaxe dos advérbios; frisar, em uma perspectiva estruturalista, que os advérbios não formam uma classe de palavras autônoma; contemplar que todas as palavras consideradas pela gramática tradicional são nomes ou pronomes que exercem a função adverbial na oração. 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