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Elementos de
Antropologia Filosófica
N.Cham. 128 M741h 13. ed. / 2008
Autor: Mondin, Battista
Título: O homem, é ele? : elemento
582237
EX.IO IPM UPM-EI
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AC. 207713
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•
I
A DIMENSÃO CORPÓREA DO HOMEM
(Homo somaticus)
1. Reflexão metodológica
A expressão "homo somaticus", hoje, é um tanto quanto rara; era, no
entanto, comum nos tempos de São Paulo e Filão Alexandrino. Esses e
outros autores daquele período distinguem no homem dois elementos: um
psíquico e outro somático, dizendo respeito à alma, o outro ao corpo.
Nós nos serviremos das expressões "homo sapiens", "homo vivens",
"homo religiosus" etc., para denominar as dimensões da vida, do conheci
mento, da religiosidade etc. Por conseqüência, nos valeremos da expres
são "homo somaticus" para identificar a dimensão corpórea do homem.
Existe uma reflexão filosófica sobre o corpo humano em quase toda
parte da história do pensamento. Achamo-la em Platão, Aristóteles, Filão,
Santo Agostinho, Santo 'Ibmás, Descartes, Spinoza, Leibnitz, Schopen
hauer, Nietzsche, Bergson, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, Marcel e
muitos outros ainda. Em geral, porém, salvo os existencialistas, esses au
tores não consideram o corpo em si mesmo, mas o vêem exclusivamente
em relação com a alma. Ademais, não se ocupam do corpo no inicio de suas
reflexões antropológicas, mas no fim. Tal procedimento não é seguido ape
nas pelos platónicos (Platão, Plotino, Descartes, Leibnitz), os quais, iden
tificando o homem com a alma, logicamente estudam antes de tudo e so
bretudo esta; mas também pelos aristotélicos (Aristóteles, 'lbmás, Locke),
que no entanto vêem no corpo uma parte essencial do homem. Isso é devi
do a exigência metodológica: tanto os platónicos como os aristotélicos, em
antropologia, se valem do método metafisico, o qual exige que se estudem
antes as causas e depois os efeitos, antes as coisas mais perfeitas e depois
aquelas menos perfeitos. E, dado que tanto os platónicos como os aris
totélicos sustentam que a alma seja mais perfeita que o corpo e que exerça
sobre ele uma atividade causal, logicamente concentram suas atenções
sobretudo na alma.
28 Fenomenologia do homem
No nosso estudo não seguiremos o procedimento tradicional, porque
da alma, neste ponto, não sabemos ainda nada. No início do estudo do
homem a primeira realidade que encontramos é a dimensão corpórea. É
nela, pois, que concentraremos nossa atenção. Procuraremos olhar esta
dimensão com aquela atitude de curiosidade e maravilha que é própria do
filósofo; cuidaremos de captar na corporeidade todos aqueles convites que
ela nos apresenta para ir além das aparências e penetrar na profundidade
do homem.
Antes, porém, de empreender o estudo da corporeidade, há outra ques
tão preliminar para ser resolvida, qual seja, a questão do método a ser
utilizado para o estudo dessa dimensão do homem.
O corpo é obviamente uma realidade física, material. Significa isso,
porventura, que o método acertado para o seu estudo é o experimental,
que é propriamente o método de que se vale o cientista no estudo das
coisas materiais?
N a época moderna, a partir de Descartes até Pavlov e Watson, vigo
rou o costume, também entre os filósofos, de aplicar o método experimen
tal ao estudo da dimensão da corporeidade. Mas, desse modo, acabou-se
por reduzir o corpo a uma coisa, a uma máquina, com leis mecânicas per
feitamente calculáveis.
Mas o corpo do homem não pode ser reduzido a uma coisa.
Descartes e outros filósofos modernos foram induzidos a conceber o
corpo dessa maneira por causa da sua confiança cega no método científico,
o qual reconhece como verdadeiro e real só o que é experimentável, ou
seja, os abjetos físicos e as coisas materiais.
No início do nosso século, porém, houve uma vigorosa reação contra
as pretensões da ciência de monopolizar toda a esfera do saber. Como su
blinhamos na introdução, Bergson, James, Dilthey, Russerl e Scheler
mostraram que existem outros modos de conhecimento tão precisos quan
to o da ciência.
A aplicação da distinção entre método científico e método "experiencial"
para o estudo do corpo (feita por Dilthey, Russerl, Scheler, Sartre, Merleau
Ponty, Marcel e outros) deu origem a duas considerações diferentes do
fenômeno da corporeidade: a consideração científica, a qual estuda o cor
po-coisa, o corpo objeto, o corpo situado no mundo, o corpo como se mani
festa aos outros, aquilo que os alemães chamam Korper; e a consideração
fenomenológica, que estuda o próprio corpo, como é sentido, experimenta
do, vivido. Essa modalidade do corpo os alemães chamam Leib.
Dessa distinção, hoje, deve tomar partido qualquer estudo sério da
somaticidade, porque existem efetivamente dois aspectos do corpo. De um
lado, temos uma realidade física que se descobre em sua estrutura coisal
A dimensão corpórea do homem 29
objetiva; de outro, temos o vivido imediato da consciência, sem distância
ou objetivação, uma estrutura próxima da subjetividade constantemente
operante no seu relacionamento com o mundo. Com relação ao Leib, ainda
que eventualmente excluíssemos toda função dos sentidos externos, e por
tanto não pudéssemos de modo nenhum ver, ouvir, tatear o nosso Leib, o
fenômeno do nosso Leib não se anularia, porque dele conservaríamos ain
da a "consciência interna". Mas, com relação ao Korper, se faltam as per
cepções externas, ele desaparece do mundo real e começa a fazer parte do
mundo dos sonhos e da fantasiai.
Portanto, pode-se efetuar dupla investigação sobre o corpo, científica
e fenomenológica. Nós, naturalmente, nos dedicaremos neste estudo à se
gunda, sem, no entanto, ignorar totalmente a primeira, a qual, embora
não podendo dar-nos uma resposta conclusiva com relação ao problema da
somaticidade humana, pode, por outro lado, fornecer-nos informações im
portantes e significativas.
Por isso, antes de procedermos à análise filosófica da corporalidade
humana, interroguemos a ciência para que ela nos diga o que é este com
plexo físico tão importante que é o corpo humano e como ele se distingue
do de outros animais.
2. Propriedades do corpo humano
Proponhamos, desde já, que o conhecimento que a ciência tem do cor
po humano é ainda muito limitado e imperfeito: "o volume da nossa igno
rl\ncia supera o de nossos conhecimentos"2.
Todavia, o que já sabemos é mais que suficiente para deixar-nos estu
p fatos e maravilhados. Sobretudo o que nos surpreende e encanta é o seu
III canismo, perfeitíssimo tanto no conjunto quanto em suas partes singu
(IIros: a perfeição do aparelho circulatório, dos tecidos nervosos, da estrutura
dos olhos e ouvidos; a própria posição dos olhos, do nariz, da boca, das unhas,
dOA órgãos reprodutores, das mãos etc. é de sabedoria extraordinária3.
1 r. P. Sartre, L'essere e ii nulla, II Saggiatore, Milão, 1965, pp. 287-288.
W A. SalmanoIT, Segreti e saggezza dei corpo, Bompiani, Milão, 1963, p. 7; cf. pp. 7-10.
ii r. P. Chauchard, La scienza dei cervello, Bompiani, Milão, 1968. A. Carrel, Man. The unknown,
1 II ,. pp. 58ss.
'n lculou-se que o cérebro humano é composto por cerca de 9 bilhões de células nervosas, enquan-
11111 ('''rpo humano é formado por um trilhão de células. Dentre os muitos dados que podem documen·
1111 " complexidade do organismo humano relembraremos os seguintes: "O comprimento total dos
VII.". 'opilares de um homem normal alcança os 100 mil quilômetros, o comprimento dos vasos capi-
1111 I •• dos rins é de 60 km, a dimensão dos capilares abertos e distendidos em superfície forma um total
" II ,O()O metros quadrados, a superfície dos alvéolos pulmonares em extensão formam quase 8.000
111111,,," quadrados" (A. SalmanoIT, o.c., p. 11).
30 Fenomenologia do homem
Outro fato surpreendente diz respeito ao desenvolvimento do corpo
humano. Enquanto o animal nasce, geralmente, com corpo já perfeito, in
teiramente pré-fabricado, pelo qual torna-se independente desde os primeiros dias (cf. o pintinho, o bezerrinho, o leãozinho), o homem nasce com
um corpo que está ainda em fase de estruturação. É ainda um corpo extre
mamente frágil, privado de qualquer autonomia, de modo algum senhor
de si mesmo. SegundoA. Portmann, o homem representa um "nascimento
fisiologicamente precoce"4. Para ele, o homem vem ao mundo com doze
meses de antecipação. Só depois de um ano atinge finalmente aquele grau
de formação que um mamífero de uma espécie correspondente à humana
pode apresentar já no momento do seu nascimento.
Mas enquanto o corpo do animal não é mais capaz de desenvolver-se
ulteriormente de modo apreciável (ele realiza desde o início certas opera
ções, mas somente aquelas em que é especializado), o corpo humano é
dotado de um poder de desenvolvimento maravilhoso. O homem é capaz
de manejar seu corpo, adestrá-lo e torná-lo apto a realizar movimentos de
uma perfeição admirável. Basta ver o que sabem fazer os instrumentistas
e os prestidigitadores com as mãos, os dançarinos e as bailarinas com os
pés, os artistas com os dedos, etc. O homem não só é senhor de seu corpo,
como também graças a ele torna-se senhor do mundo. Particularmente
com o instrumento que lhe é fornecido pelas mãos, o homem pode formar o
mundo, mudá-lo, transformá-lo, dominá-lo.
Nessa carência inicial de completamento orgânico própria do homem
e no seu enorme desenvolvimento posterior, graças ao qual ele consegue
superar no exercício de suas atividades qualquer outro animal, alguns
estudiosos contemporâneos (Portmann, Gehlen, Luckmann) vêem a dife
rença específica do homem com relação aos animais, e por isso definem o
homem como o ser não especializado. Enquanto o animal é, sempre, espe
cialista em determinada função orgânica (seja a da visão, da audição, ou
do olfato, ou do paladar, ou do tato, ou do movimento de migração), o ho
mem é, por sua vez, uniformemente dotado nesse ponto. Asua especializa
ção regride em face à do animal. Acrescente-se, ademais, a sua pobreza de
instintos que, para uma reação imediata às situações concretas da natu
reza, deixa o homem inteiramente carente. Pense-se, por exemplo, no pin
tinho, que é realmente um animal jovem quejá possui, desde o nascimen
to, uma forma completamente madura de sua figura, o que o faz parecer
uma edição rejuvenescida do animal adulto e lhe permite prover inteira
mente suas necessidades; agora pense-se na criança recém-nascida, a qual
é ainda por completo impotente e, sem os cuidados da mãe, está condena-
• A. Portmann, Biologische Fragmente zu einer Lebre vom Menschen, Basiléia, 1944, p. 45.
A dimensão corpórea do homem 'li
da a morrer dentro de poucos dias. Enfim, o homem está, do ponto de visLa
fisiológico e psicológico, desprotegido, privado de garantias perante as s i
tuações da natureza. Ele não é posto em segurança no mundo, mas nel
abandonado. Do ponto de vista do animal e da funcionalidade dominante
na natureza, parece, por isso, suficientemente justificada essa caracteri
zação do homem como ser carente, não especializado. Entretanto, o que o
homem não tem no início como dádiva da natureza, pode conquistar em
seguida graças ao seu engenho.
O elemento fisiológico que lhe permite atingir e também superar to
das as várias especializações dos animais é o cérebro. Com esse órgão, que
nele é superdesenvolvido em relação ao dos animais, ele compensa abun
dantemente a sua deficiência inicial. O cérebro aparece aqui como fator de
equilíbrio biológico. A compensação da carência com a formação do cérebro
aparece como hipercompensação de inferioridade biológica constitucional.
Sobre esta base é exigida para o homem especialização orgânico-funcional
sobre o fundamento do seu cérebro. O homem torna-se, então, um ser es
pecializado no cérebro.
Essas observações nos autorizam a concluir que a deficiente especia
lização orgânica e a fraca provisão de instintos não é de modo algum defei
to do ponto de vista do homem, mas e, antes, a condição preliminar que
lhe permite tomar iniciativas, desenvolver ações conscientes e livres, cons
truir para si o seu mundo. "Quando o homem deve conquistar e procurar
de per si o que o animal doméstico possui e obtém imediatamente, quando
deve procurar o seu alimento, confeccionar a sua vestimenta, construir
sua habitação, é então que chega, precisamente com isso, com essa auto
nomia e autoformação necessárias para ele, a um ponto bem mais longe
que o animal. E isso com base em nenhum outro fundamento que não este:
que para ele é possível libertar-se desses liames específicos e concretos
com o ambiente, e de responder não só a determinadas situações, mas a
Lodas as situações em gera1'5.
Outro aspecto que caracteriza o corpo humano e o distingue nitida
mente de todos os corpos dos animais é a sua posição vertical. Essa postu
ra do homem implica, naturalmente, uma correspondente formação do
'orpo, e portanto, mudança radical perante o animal na estrutura somática,
que diz respeito não só às partes do corpo com seus correspondentes signi
ficados funcionais, mas a toda construção corpórea com todas as suas par
L s. A construção corpórea dá, porém, só a predisposição ao porte ereto: ele
não é um fato adquirido desde o nascimento. Com efeito, a primeira coisa
lue a criança deve aprender (e com quanto esforço) é ficar de pé e cami-
• L. Gabriel, Uomo e mondo in decisione, Marietti, Muram, 1972, p. 40.
32 Fenomenologia do homem
nhar. A posição vertical e o porte ereto são, portanto, ato livre e consciente
do homem6•
A postura vertical vale portanto como característica distintiva do ho
mem. Enquanto os animais apresentam um equilíbrio horizontal, o ho
mem tem a postura ereta. E esta posição lhe é tão essencial que basta
invertê-la por algum tempo para provocar a morte do homem. No antigo
Egito, alguns condenados à morte eram simplesmente suspensos de cabe
ça para baixo. Ao contrário da posição horizontal, o porte ereto é sinal de
vida, de saúde, de vigília, de força. Por esse motivo a posição vertical assu
miu importantes conotações simbólicas. As nações, as cidades, as regiões
competem entre si para ver quem constrói os edifícios mais altos: a torre
de Babel, a torre Eiffel, o Empire State Building etc. Os soberanos "sobem
ao trono". E. .. todos os povos consideram o céu o lugar onde habita a divin
dade?
3. Funções da corporeidade em geral
Depois dessas primeiras aquisições, tiradas da experiência ordinária
e da pesquisa científica sobre a estrutura da somaticidade, demos um pas
so à frente em direção a uma compreensão mais profunda da dimensão
somática, estudando suas principais funções. Essas são múltiplas. Pode
se mesmo dizer que elas se referem a toda atividade humana, já que não
há nenhuma operação do homem que não tenha uma componente somática
mais ou menos visível. Assim, a somaticidade é componente fundamental
do existir, do viver, do conhecer, do desejar, do fazer, do ter etc. Ou seja, o
corpo é elemento essencial do homem. Sem ele:
- não pode alimentar-se
- não pode reproduzir-se
- não pode aprender
- não pode comunicar
- não pode divertir-seBo
É mediante o corpo que o homem é um ser social. Os fantasmas as
sustam-nos justamente porque não têm corpo.
É mediante o corpo que o homem é um ser no mundo: "Être au monde
à travers un corps'>9.
6 A. Portmann, Die Biologie UM das neue Menschenbild, Fromm Verlag, Berna, 1942.
7 E. Barbotin, Humanité de l'homme, Aubier, Paris, 1970, pp. 57-70.
sE. Mounier, II personalismo, Ave, Roma, 1964, pp. 38-39.
9 M. Merleau-Ponty, Phenoménologie de la perception, GaIlimard, Paris, 1945, p. 357.
A dimensão corp6rea do homem 33
Entre essas funções, algumas têm grande importância para a com
preensão da natureza específica do ser humano: assim as funções de
«mundanização", de individuação, de autocompreensão, de posse, e outras
mais. Por isso as estudaremos pormenorizadamente.
4. Função mundanizante
Uma das principais funções da somaticid~de é a de "mundanizar"o
homem, isto é, de o fazer um ser-no-mundo. E por obra do corpo que o
homem faz parte do mundo; ele se reconhece constituído dos mesmos ele
mentos do mundo, sujeito às mesmas sortes e às mesmas leis, por causa
do seu corpo.
Esta verdade, que não foi ignorada pela filosofia clássica (ainda ~~e
Platão e Aristóteles hajam-na interpretado de maneira oposta), adqulrlu
nova clareza e profundidade graças aos estudos dos existencialistas
(Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty). Eles mostraram que a somatici?ade
nos situa no mundo das coisas e nos faz participantes de suas restrIções
spaciais. ,..
Como qualquer outro corpo, o nosso tambem se msere em uma situa
ção espacial bem definida e deve ocupar sempre determinada P?rção do
cspaço. Não lhe é possível estar, nem em qualquer lugar que queIra, nem
m lugar nenhum, mas pode estar apenas em certo lugar. Sair do. es?aço
significa abandonar o próprio corpo, desencarnar-se, cessar de eXIstir no
mundo.
Não hesitamos em considerar mortos os perdidos, os passageiros de
um navio ou de um avião do qual se tenham frustrado todas as tentativas
de localizá-los ou estabelecer onde foi parar.
A somaticidade faz do homem um ser-no-mundo: ela lhe designa de
terminada posição no espaço e o condiciona a ter relações ônticas apenas
com as realidades que lhe estão especialmente próximas. Apenas estas
cntram junto com nosso corpo a fazer parte de nossa vida. ''Motivado por
uma necessidade original, o meu corpo é o ponto de referência em relação
110 qual cada coisa toma seu lugar e torna-se situada; eis-me, pois, trans
formado em centro de imenso círculo - o meu "ambiente": cada raio seu
define, para mim, uma perspectiva, e a sua circunferência é o meu "hori
zonte". No interior deste círculo uma coisa qualquer não se transforma em
objeto (objectum) para mim, senão quando se encon:ra lá, defronte ao ~eu
·orpo, a uma distância variável. O meu corpo é aqUIlo para que e medIan
t o qual os objetos existem ... O meu cor?o é o centro e o .foco de.todo o meu
universo espacial; o ambiente geométnco do meu ambIente VItal; graças
34 Fenomenologia do homem
ao meu corpo localizado, atraio para mim todos os pontos do espaço; os
concentro, os recapitulo, os interiorizo. Em compensação, adquirindo im
pulso desta posição me projeto em direção a todos os pontos do meu hori
zon~e. Graças a este ritmo o universo inteiro reside em mim, enquanto eu
habIto todo o universo"Io.
Também a dimensão das coisas é relacionada com nosso corpo (quan
do éramos crianças a cadeira era mais alta ... ). Assim também o movimen
to das coisas tem como ponto de referência o nosso corpo.
5. Função epistemológica
~.ue o corpo seja um instrumento necessário do conhecer foi sempre
admItIdo, ao menos no que concerne ao conhecimento sensitivo ou seja o
conhecimento do nosso mundo. Mas os estudos recentes mostr;ram qu~ a
contribuição da somaticidade ao conhecimento (função gnosiológica) é muito
mais vasta e importante do que se admitia na filosofia clássica.
Foi demonstrado que a somaticidade é, antes de tudo, instrumento
necessário para a autoconsciência. Não é de fato verdadeiro que na auto
consciência nós podemos nos desfazer do corpo, como afirmava Descartes.
Realmente a autoconsciência se cristaliza sempre na cinestesia: o senti
mento fundamental que nós possuímos do nosso ser, o qual se qualifica
sistematicamente mediante as condições e disposições somáticas: sinto
me bem ou mal, confortável ou não, sereno ou preocupado etc. Quanto é
importante a somaticidade como fator de autoconsciência se vê quando
estamos indecisos se alguma coisa está acontecendo ao nosso ser ou se se
trata de situações puramente imaginárias, sonhadas ou reais. Então apal
pamos o nosso corpo: esta é a verificação do nosso ser. Se encontramos a
cabeça, as mãos, os pés onde e como devem ser, damos um suspiro de
alívio e voltamos a ficar tranqüilos.
Outra coisa que foi bem evidenciada pelos fenomenólogos contempo
râneos é o caráter fortemente somático que tem o nosso conhecimento do
mundo (e não raramente também de Deus). O mundo é sistematicamente
retalhado sobre categorias somáticas. "O meu corpo divide o universo à
sua imagem e projeta sobre ele os 'significados de que é ele mesmo a ori
gem. Um~ intencionalidade primitiva, inata, reside no meu corpo e não
cessa de hbertar-se em direção às diversas partes do universo. Eu tomo
consciência dele apenas nos momentos de tontura, de desorientação, quando
10 E. Barbotin, O.C., p. 39.
A dimensão corpórea do homem 35
o universo cambaleia em volta de mim porque cesso de impor-lhe este ou
aquele significado. O meu corpo é o lugar privilegiado no qual o mundo se
divide, recebe múltiplos significados e torna-se o universo humano. Mas
ao mesmo tempo que decompõe o universo, o meu corpo não pára de o
reunir; em ato simples, inseparável do seu ser, ele junta e recompõe inces
santemente em si mesmo o que constantemente se divide, reagrupa em
uma única harmonia os significados diferentes nos quais divide o mundo.
Alto e baixo, na frente e atrás, direita e esquerda constituem, graças ao
corpo totalidade orgânica. O meu corpo determina o centro do universo; é
o ponto indivisível no qual se opera a análise e a síntese de tudo; o seu
aparecimento assinala o de espaço e de universo novos"n.
Para fazer-se uma idéia de quão forte é a incidência da somaticidade
na nossa concepção das coisas, basta que demos uma olhada num dicioná
rio de qualquer língua e leiamos os verbetes dedicados aos termos princi
pais de nossa anatomia: descobriremos que esses termos são transferidos
sistematicamente à denominação das coisas. Fala-se do pé da mesa, da
cabeça do prego, do coração da alcachofra, etc. Isto mostra que nós lemos,
pensamos e exprimimos o mundo não só mediante as categorias da razão,
mas também mediante o nosso corpo vivido, tomado como princípio e for
ma de organização concreta. A nossa linguagem torna-se então algo de
fenomenológica, empírica e óbvia.
Mas, observa justa e agudamente Barbotin, "esta informação", esta pré
compreensão do mundo por meio do meu corpo apresenta dois aspectos in
versos e complementares. Com o primeiro movimento, eu projeto defronte a
mim a minha estrutura corpórea, olho e interpreto o mundo por meio dela.
e me encontro bem no mundo é porque lhe impus, a cada instante, a mi
nha imagem ... Mas esta projeção da minha estrutura corpórea sobre as coi
sas se completa com o movimento inverso. Ao mesmo tempo em que impri
mo a minha imagem, somática sobre o mundo, atraio o mundo para mim, o
aproprio e o domestico"12. Mas esta operação de apropriação e assimilação
não fica sem profundas conseqüências para o meu ser, o qual vem assumir
certas conotações semelhantes às do mundo com o qual está regularmente
om contato: os campos marcam profundamente o modo de agir do campo
nês, o mesmo faz o mar com o marinheiro, a montanha com o alpinista etc.
Graças à somaticidade, que emparenta tão estreitamento o homem
com o mundo, realiza-se troca duradoura e substâncial de propriedades de
uma parte e de outra. "Devido à sua subjetividade e sua objetividade insepa
ráveis, meu corpo é mediador entre o meu "Eu" e o mundo das coisas,
11 E. Barbotin, O.C. , pp. 54-55.
12 E. Barbotin, O.C., pp. 22-23.
36 Fenomenologia do homem
lugar de encontro entre minha consciência e o universo dos objetos. Como
é preciso esquecer o corpo, segundo Descartes, para poder repelir o mun
do, assim basta reconhecer a experiência vivida pelo corpo para superar o
dualismo sujeito-objeto e todos os impasses do idealismo"13.
6. Função económica ou de posse
Além das funções de situar e encarnar o homem no mundo e de forne
cer-lhe um esquema de interpretação deste último, o corpo desenvolve tam
bém uma função insubstituível referente ao possuir (l'avoir, segundo a
terminologia de G. Marcel), ao qual damos o nome de função econômica.
O corpo é antes de tudo indispensável para possuir existência. Eu
existo possuindoum corpo; quando o perco, morro, ou seja, paro de existir.
Não apenas o possuir de cada coisa passa através do corpo. Com efeito,
apenas aquilo com que posso entrar em contacto por meio do meu corpo
pode ser por mim reclamado como meu. "Também a conquista de determi
nada região do universo, já conhecida pela ciência, não se cumpre sem o
movimento do corpo humano. Enquanto o corpo do homem não transferiu
'lá embaixo' ou mesmo 'lá em cima' para transformar esses lugares em
'aqui', o mundo não é, ainda, completamente conquistado. Os vários obje
tos lançados no espaço celeste ou terrestre não são nada além dos precur
sores do homem: a rena voadora dos meninos - seguida assim ardente
mente com o olhar - o laboratório espacial habitado pelos estudiosos, a
sonda dos astronautas e dos espeleólogos exprimem a ambição de verda
deira viagem que consinta ao homem tomar posse, por meio de seu corpo,
de novo domínio: então o espaço torna-se efetivamente nosso"14.
Com o exercício da função de posse, nós temos a impressão que ocorre
uma dilatação do nosso corpo, da nossa dimensão somática. Por esse moti
vo nós consideramos as coisas como possíveis prolongamentos do nosso
corpo: na forma de instrumentos de alimentos ou até de objetos de consu
mo. "Quando uma pessoa aprende a guiar um automóvel, de início tem a
impressão de estar sentada com seu pequeno corpo em uma grande má
quina que não conhece. Mas depois, aprende a identificar-se com essa
máquina, adquire o sentido da massa externa do seu veículo. Funde-se
com seu carro em uma unicidade de movimento. O veículo torna-se o seu
corpo. Se logo depois sofrer um acidente não dirá: 'O outro bateu no meu
carro com o seu', mas sim: 'O outro me bateu'. E freqüentemente sentirá
13 E. Barbotin, O.C., p. 84.
14 E. Barbotin, O.C., pp. 75·76.
 dimensão corp6rea do homem 37
1110 como uma ofensa pessoal e lhe será necessária certa reflexão para
poder reobter uma vantagem do seu carro danificado e entregá-lo às com-
r.
nhias de seguro. O carro, como se vê, não é considerado apenas como
nltrumento de locomoção, como 'basem6vel', mas sim como parte do pró-
rio Eu. O motorista não é apenas o patrão de seu carro; este realmente
sobre ele, quase como se fosse o seu corpo, e lhe confere a sua marca.
á loga dilatação da autoconsciência está no trabalho numa fábrica, no
ritório, no hospital, na leitura dos jornais ou sentando defronte ao tele
Yi oro O material ao redor do qual alguém trabalha é também o meio no
ual ele se expõe. A sua existência se desenrola no jogo combinado entre
1 e o seu ambiente. Torna-se-Ihe, por isso, sempre mais difícil distinguir
ntre si e o ambiente que lhe foi edificado pelos homens; de fato, os seus
inltrumentos não são apenas os meios dos quais se serve de maneira sobe-
na; eles são, juntos, parte de sua figura, assim como ele é parte da deles.
relação que existe entre o homem e a máquina, se entendermos aqui a
'máquina' no sentido lato de obra humana, não é a relação entre sujeito e
lúeto, mas antes uma nova figura que une o homem e a máquina"15.
Órgão específico da função econômica como também da mundanizante
mão: é com ela que tomamos posse das coisas, e é também com a mão
moldamos e transformamos as coisas. Na mão se atua sobretudo o
movimento bivalente que notamos acima: do homem para o mundo e do
mundo para o homem. De fato, com a mão ao mesmo tempo "manipula
mos" e "incorporamos" as coisas.
7. Função ascética
Filósofos, moralistas, escritores de coisas espirituais têm sempre insti
tuído alguma relação entre perfeição moral e espiritual, de uma parte, e uso
O próprio corpo, de outra. Mas o fizeram de duas maneiras opostas. Al
,"ns (Platão, Plotino, Agostinho) pensaram que o corpo, com as suas pai
xc'los, os seus instintos, as suas misérias e fraquezas constitua um peso ou
u m laço para a alma e a impeça de ascender para o mundo do espírito e,
ortanto, sugeriam aos que aspiravam a um grau elevado de vida moral e
. piritual a mais completa separação do corpo. Outros (Aristóteles, To
más, Rosmini), ao contrário, creram que o corpo, enquanto constitutivo
MOncial do homem, seja diretamente envolvido na sua perfeição: ela depende
m grande parte dos hábitos somáticos que uma pessoa consegue atingir.
lO J . Moltmann, Uomo, Queriniana , Bréscia, 1972; cf. também M. McLuhan, Understanding Me·
,II .... the extensions af man, The New American Library, Nova York, 1964.
Para nós, este não é ainda o momento de discutir o valor das perspec
tivas antropológicas opostas em que se inspiram as sobreditas teorias. Fá
lo-emos amplamente mais adiante. Por enquanto, procuraremos qual seja
efetivamente a função ascética própria do corpo, reportando-nos imedia
tamente à experiência ordinária. Ora, essa nos diz claramente que o nosso
corpo é diretamente envolvido, seja nas suas boas ações como nas más . . ,
seJa nos víCIOS como nas virtudes. A experiência cotidiana nos diz que o
exercício de uma virtude, como a prática de um vício, são em larga medida
devídos aos hábitos que conseguimos adquirir com o nosso corpo. Por exem
plo, os vícios do fumo e da bebida dependem essencialmente de hábito
somático. Outro tanto vale também a prática da castidade, que para alguns
parece tão árdua e mesmo impossível: também essa é uma questão de
hábito somático. Quem controla por muito tempo os instintos do próprio
corpo o habitua a ser continente. E como no corpo do não fumante se esta
belece uma aversão ao fumo, assim no corpo do continente se forma uma
repugnância pelo prazer carnal.
Não há, pois, nenhuma dúvida que o corpo tenha uma função capital
a desenvolver também em relação ao ascetismo e à vida espiritual.
8. Implicações anta-antropológicas
Entendemos por implicações onto-antropológicas da análise feno
menológica de uma dada dimensão do homem as implicações relativas ao
ser do homem contidas em tal análise.
As principais implicações da análise da somaticidade são:
I. A importância capital de que a dimensão somática se reveste para o
homem: a somaticidade é uma componente essencial do ser do homem. Sem
a corporeidade o homem não é mais homem, porque não pode mais reali
zar muitas atividades que são tipicamente suas, como o sentir, o falar, o
cantar, o jogar, o trabalhar, etc.
Essa verdade foijá ressaltada por Santo 'Ibmás nos seguintes termos:
"O homem é o ser que realiza as operações do homem. Mas nós demons
tramos que o sentir não é operação efetuada apenas pela alma. Sendo, pois,
o sentir operação do homem, se bem que não seja a sua operação própria e
específica, é claro que o homem não é apenas alma, mas conjunto, que
resulta composto por alma e corpo"16. A mesma verdade foi ulteriormente
rebatida pelos filósofos do nosso tempo, sobretudo pelos existencialistas.
16 'Ibmás de Aquino, Summa Theologiae, l , q. 75, a . 4.
Eis, pois, a primeira importantíssima implicação contida nas nossas in
vestigações precedentes: o corpo é parte essencial do homem, "Eu sou o
meu corpo", afirma justamente Merleau-Ponty. Graças à minha soma
tlcidade, eu estou situado em determinada posição, estou fechado dentro
de certos confins, sou diferente dos outros seres: sou eu mesmo e não ou
tras coisas; tenho a minha personalidade.
II. Todavia, eu sou infinitamente mais do que me consente ser o meu
corpo. Há dentro de mim alguma coisa que me faz superar os confins que
me são prescritos pelo corpo. Enquanto fisicamente sou pequeníssimo, in
tencionalmente posso tornar-me todas as coisas. Eu supero incessante
mente o meu corpo: estou sempre além de mim mesmo e, não obstante a
pequenez da minha configuração corpórea, consigo fazer minha a imensidão
do universo.
Como diz Sartre, "o corpo é perfeitamente o superado (dépassé). O
corpo é aquilo além do qual eu estou, no momento em que estou ime
diatamente presente ao corpo ou à mesa ou à árvore longínqua que
vejo"17.
Eu posso estar presente em qualquer ponto do espaço com o meu pen
l amento, enquanto o meu corpo continuaimóvel aqui ao lado da escriva
ninha. O homem é capaz de pensar a imensidão: isso supõe um esforço de
transcendência com relação aos limites que o restringem, uma superação
da matéria e dos seus condicionamentos. Eu posso trazer no espírito a
totalidade da extensão, apesar da extrema exiguidade das minhas medi
das ... Abraço com o pensamento, comprimo e domino essa totalidade que
me circunda, me oprime e nele achata. Ao contrário do animal, que não
possui nem geometria nem geografia, o homem é geómetra e geógrafo:
pode pensar o infinitamente grande e o infinitamente pequeno e torna-se
presente a esses extremos opostos: não é talvez esse o sinal de uma condi
ção que transcende a ordem da dimensão e da matéria, do transformar-se
e da morte, o sinal próprio do espírito?"18
Transcendendo o homem a dimensão da somaticidade, mostra a voca
ção à universalidade. Já no seu porte ereto se evidencia essa libertação em
direção ao todo. Isso lhe é dado não só pelas duas mãos livres, mas tam
bém pelo olhar aberto, que atinge até o céu, nas infinitas vastidões do
cosmo. Esse amplo olhar, que não é olhar dos sentidos, mas do espírito,
supera a vastidão do espaço físico. E o espírito é o que transcende e supera
O espaço e o temp019.
17 J . P. Sartre, L'etre et la néant, Gallimard, Paris, 1943, p. 390. I. E. Barbotin, o.e., p. 79.
1. Cf. L. Gabriel, Uomo e mondo in deeisione, cit., p. 428S.
40 Fenomenologia do homem
Portanto, a somaticidade, não obstante o seu recolhimento intrínseco,
não impede o homem de possuir abertura radical, abertura que não olha
somente para a frente, mas também para o alto: a somaticidade é trans
cendida tanto na direção horizontal quanto na vertical. O homem é um ser
excêntrico. Para ser si mesulO, não só sai de si mesmo no mundo, mas a
partir desse mundo que torna próprio procura superar-se, segundo a di
mensão hiperbólica da verticalidade. "O homem é corporeamente ligado
ao mundo que o traz. Mas é o seu centro movente. Todas as direções de
sentido, para a frente e para trás, em distância e em proximidade, à direi
ta ou à esquerda, são relativas à totalidade do seu eu corpóreo. Centro
contingente e absoluto, relaciona tudo consigo mesmo no olhar, tocar ou
simplesmente caminhar, move-se no espaço ambiente. A dimensão hori
zontal oferece-lhe o campo que se estende diante dele. Ele aí ostenta a sua
potência, ordena-a e lhe dá sentido. A horizontalidade é o terreno das suas
possibilidades e das suas realizações. Ele aí mostra a própria vida no ime
diato. Aí se move incansável, senhor de quanto o circunda, dando forma
aos seus desejos e às suas idéias ... Mas o seu desejo, o seu pensamento e a
sua linguagem se lançam sem trégua para além do mundo dos objetos ou
se voltam para a sua origem, para a nascente originária de que surgem'>2o.
III. Embora essencial ao homem e embora revelativo do mistério pro
fundo que o homem traz em si mesmo (o corpo é a epifania desse mistério),
o corpo não é o homem. Eis as razões principais:
- mesmo perdendo uma parte de meu corpo, sinto-me ainda subs
tancialmente o mesmo;
- o corpo sem vida, ainda que permanecendo por algum tempo subs
tancialmente o de antes, não é mais homem;
- a autoconsciência distingue nitidamente o nosso ser do nosso corpo
(Descartes);
- nas nossas atividades há um aspecto físico e um aspecto psíquico
(por exemplo, quando movo um braço há o movimento do braço e a cons
ciência de tal movimento; o que não se dá no caso dos fantoches e dos robôs
etc.).
IV. Outra implicação muito significativa contida na nossa análise
fenomenológica da somaticidade diz respeito à profunda unidade do corpo.
A nossa análise pôs em evidência como o corpo, apesar da pluralidade das
aberturas, da multiplicidade das posições, das muitas perspectivas das per
cepções, seja dotado de profunda unidade. Antes, é justamente sua unidade
que torna possível a multiplicidade dos perfis, das perspectivas. Com efeito,
"no momento em que eu recomponho a identidade do objeto na alteridade
20 A. Vergote, La teologia e la sua archeologia Esperienze, Fossano, 1974, pp. 79-80.
41
perfis e essa na diversidade das posições ativas e passivas do corpo, eu
1aciono a diversidade das operações à identidade de um pólo-sujeito; esses
diversos perfis aparecem de fato para mim, isto é, para essa unidade e
kt ntidade do pólo-sujeito, que está de qualquer mod? atrás da diversida
do fluxo dos perfis, atrás do fluxo das posições .. . E assim que a minha
l o pode mudar de posição sem que eu mude de lugar; é isso que Descartes
tendia quando dizia que a alma é conjunta a todo o corpo. A alma move-se
IId qualquer modo" com o corpo; isso significa que o eu, como pólo idêntico
todos os atos, é onde o corpo é considerado como totalidade'>21 .
V. O corpo humano denota melhor que qualquer outra coisa o estado de
"nitude, contingência e indigência para que tende todo ser humano, não só
la necessidade de ser nutrido, protegido e defendido, mas também pela
ua própria estrutura. É dotado de mãos e pés justamente para fazer fren
aos limites e às necessidades que lhe são impostas por seu próprio ser.
"Somos bípedes e bímanos por causa de nossa indigência; temos ne
IIsidade de explorar o mundo, conquistá-lo, dominá-lo. A mão esticada
ntecipa o encontro com o objeto desejado e intencionalmente dele toma
IIse; enquanto se caminha, ela previne o choque com um obstáculo e
IIse modo já o supera'>22.
Em dois célebres passos do Timeu, Platão contrapõe o mundo completo
m si mesmo, esférico e dotado de movimento circular, o qual torna as mãos
os pés supérfluos, ao' homem constrangido a movimentar-se e~ toda e2~pé
I de lugares, graças ao apoio que lhe oferecem as suas extremIdades .
VI. Além de ser indício e causa da nossa finitude e indigência, o corpo
também motivo de ambigüidade e dissimulação. "Nós sabemos que o
homem pode esconder-se atrás do próprio rosto, pode pôr uma máscara e
presentar um papel que não lhe é próprio: com as suas palavras ele pode
nAo só manifestar, mas também ocultar as próprias idéias e intenções. A
corporeidade do homem atesta-nos que ele pode distânciar-se de si mes
mo, fechar-se, recusar-se ao outro. O homem experimenta sobretudo a pró
pria incapacidade de produzir a harmonia que deveria existir entre corpo
alma: em seu corpo ele não consegue ser ele mesmo. O corpo, de fato, na
ua 'dadidade' não é nunca expressão. Ele opõe, então, sempre certa resis
tência ao espírito; não é apenas espírito e expressão do homem mas tam
bém o seu escondimento e impenetrabilidade"24.
Mas a finitude, a contingência, a corrupção não parecem ser a última
palavra da somaticidade humana. A somaticidade em si mesma parece
" P. Ricoeur, Finitudine e colpa, cit., pp. 93-94 .
.. E. Barbotin, a.c., pp. 178-179.
lO Timeo, 33 d; 44 doe.
24 W. Kasper, Oesu ii Cristo, Queriniana, Bréscia, 1975, p. 279.
42 Fenomenologia do homem
inexoravelmente bloqueada entre certos confins e exposta à corrupção.
Mas, ao mesmo tempo, a somaticidade humana traz consigo alguns sinais
que contrastam com essas misérias. É uma somaticidade cheia de consciên
cia, aberta no ser, estendida para a felicidade mais completa. É uma
somaticidade que transcende a própria natureza da somaticidade e se trans
forma em epifania do espírito.
A somaticidade humana é efetivamente "fenômeno", ou seja, manifes
tação de alguma coisa que a ultrapassa; é símbolo de uma realidade mais
profunda, que a permeabiliza e transforma totalmente, à qual nós damos o
nome de alma. É dessa realidade íntima e profunda que ela ao mesmo
tempo esconde e revela, que a somaticidade manifesta as condições e o
estado definitivos. É no corpo que lemos a bondade, a malícia, o prazer, a
serenidade, a astúcia, a preguiça, a luxúria, a avareza etc. de um homem.
Por isso, por mais necessário e esclarecedor seja o estudo da cor
poreidade para a determinação do ser do homem, esse estudo não pode ser
suficiente: com efeito, não apenas não bastapara revelar-nos o ser total do
homem, porém não nos faz nem conhecer a verdadeira natureza da so
maticidade humana. Ela poderá ser revelada apenas através do estado
daquela realidade íntima, de que o corpo é a epifania, ou seja, a alma.
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II
A VIDA HUMANA
(Homo vivens)
Uma das propriedades fundamentais e mais evidentes do ser huma
no é a vida. O homem é homo vivens: ele é humano enquanto é vivo. En
quanto, porém, o fenômeno da vida é dado certo e óbvio, o seu significado,
a sua verdadeira natureza e a sua origem são coisas muito complexas,
obscuras e misteriosas.
A vida é fenômeno bastante rico e complexo: abrange uma gama
vastíssima de seres (dos moluscos, às plantas, aos animais, aos homens) e
se apresenta com propriedades marcantemente diversas nos grupos em
separado. Isso propõe o problema de descobrir no fenômeno da vida aque
le mínimo denominador comum que se realiza em todos os seres viventes
e os separa dos não viventes.
O estudo do fenômeno da vida reveste-se de especial interesse para o
homem. Da sua solução depende toda a própria cosmovisão, o próprio modo
de ver as coisas no plano filosófico, ético, religioso, político, pedagógico.
Conceber a vida de modo mecanicista ou vitalista significa iniciar a pró
pria existência segundo regras éticas e religiosas diametralmente apos
tas. Por isso, o estudo da vida dificilmente pode ser conduzido de modo
frio, fragmentado, desapaixonado. Muito alta é a aposta em jogo!
O problema do método (científico ou mesmo experimental) de que se
reveste, como já vimos, toda a antropologia, torna-se agudo e explosivo
quando se enfrenta o problema da vida. De fato, se nem para o estudo da
somaticidade do homem basta o método positivo ou experimental, e deve
mos recorrer ao método fenomenológico, "experiencial", o que se deve di
zer do estudo da vida?
Foi pela impossibilidade de interpretar adequadamente essa estru
tura da existência humana que se desfez a ilusão do positivismo de conse
guir explicar tudo mediante o método experimental. Bergson, James,
Dilthey, Heidegger, Sartre, Marcel, Canguilhem, Barbotin mostraram que
a vida não pode ser analisada, seccionada, quantificada, objetivada. Exis-
44 Fenomenologia do homem
te, indubitavelmente, também uma abordagem científica do problema da
vida, mas essa abordagem pode colher apenas alguns aspectos superficiais.
Para abordar a vida em toda a sua plenitude e originalidade, é preci
so vivê-la, senti-la, percebê-la.
Em nosso estudo acolheremos os principais resultados que a pesquisa
científica põe à nossa disposição sobre o fenômeno da vida; mas depois
usaremos o método filosófico para tentar encontrar uma explicação mais
completa e apropriada deste fenômeno complexo e maravilhoso.
1. História do problema: vitalismo e mecanismo
o que é a vida? Essa interrogação sempre apresentou-se à mente hu
mana, mas sem que se tenhajamais encontrado uma resposta definitiva e
inequívoca. Os estudiosos de toda a história se enfileiraram em duas fren
tes apostas: alguns considera!ll a vida um fenômeno absolutamente origi
nário, irredutível à matéria. E o grupo dos vitalistas. Outros, pelo contrá
rio, sustentam que a vida seja fenômeno derivado, que encontra na matéria
todas as razões suficientes para o seu aparecimento. É o grupo dos
mecanicistas.
Para toda a antigüidade, a Idade Média e grande parte do período mo
derno, a tendência geral foi a de sustentar que a vida é fenômeno originá
rio, irredutível à matéria: ele tem como origem o alto, o Uno, o Nous, o
Logos, Deus, ou então é considerado como fenômeno primário (Aristóteles),
uma das formas primordiais das coisas.
A essa forma primordial se dá comumente o nome de "princípio vital".
Segundo Barthez, um dos maiores expoentes do vitalismo no séc. XVIII, o
princípio vital do homem "é a causa que produz todos os fenômenos da
vida no corpo humano. O nome dessa causa é absolutamente indiferente e
pode ser escolhido segundo o gosto de cada um. Da minha parte, eu prefiro
o nome impetum facies (to enormón, em grego) que lhe foi conferido já por
Hipócrates"l.
As principais razões que os vitalistas aduzem como sustentáculo da
sua tese são as seguintes:
- A irredutibilidade dos organismos vivos a máquinas. No organis
mo vivo se confrontam fenômenos de autoconstrução, de autoconservação,
de auto-regulação, de auto-reparação que nas máquinas não existem. "No
caso da máquina, a construção lhe é estranha e supõe a engenhosidade do
1 Barthez, Nuevenux éléments de la science de I'homme, Paris, 1778.
A vida humana 45
mecânico: a conservação exige a vigilância e a inspeção constante do ma
quinista, e é notório até que ponto certas máquinas complicadas podem
ficar completamente perdidas por falta de atenção ou de vigilância. Quan
to à regulação e à reparação, elas também supõem a intervenção periódico
da ação humana. Existem, sem dúvida, dispositivos de auto-regulação, mas
se trata de outra máquina acrescida pelo homem à máquina. A construção
de servo-mecanismos ou de instrumentos eletrônicos automáticos muda
de lugar a relação do homem com a máquina sem alterar seu sentido"2.
- O comportamento muito diferente das máquinas e dos organismos.
As máquinas funcionam, talvez perfeitamente, somente nas condições
ideais, quando tudo está a postos. O organismo vivente, por sua vez, tem
uma enorme capacidade de adaptação. "A máquina, produto de cálculo,
verifica as normas do cálculo, normas racionais de identidade, de cons
tância e de previsão, enquanto o organismo vivo age segundo certo
empirismo. A vida é experiência, ou seja, improvisação, utilização das
circunstâncias; é tentativa em todos os sentidos"3.
-As máquinas são invenções do homem, como imitação dos organis
mos vivos, dos quais não estão nunca em condições de atingir a perfeição.
Por isso a máquina é posterior ao organismo em todos os sentidos, históri
cos e ontológicos, e, por isso, o organismo nunca poderá ser reduzido a
máquina.
- Além disso, "se o animal não é outra coisa que uma máquina e de
lua mesma natureza, por que tantos esforços do homem em reduzir o ani
mal a máquina?"4
O contínuo rejuvenescimento do vitalismo apesar das descobertas mais
recentes e mais espetaculares da ciência. A ciência não sepultou realmen
te o vitalismo. Ele tornou a florescer depois do positivismo com Bergson,
Dilthey, James, Heidegger; e reconquistou seu prestigio também depois
do neopositivismo com Teilhard de Chardin, Polanyi, Gadamer, Canguilhem
muitos outros5•
Com o triunfo da matemática e da física, porém, primeiro alguns filó
lofos (Descartes, Gassendi) depois muitíssimos cientistas sustentaram ser
possível dar uma interpretação mecanicista da vida, aplicando à biologia
modelos tirados da mecânica clássica ou da ciência física em geral.
O entusiasmo pela mecânica galileana inspirou a corrente dos "iatro
mecânicos", que procuraram individualizar nos organismos e nas suas
partes sistemas análogos às máquinas. Os iatro-mecânicos são os primei-
I G Canguilhem, La connaissance de la vie, Vrin, Paris,1969, p. 116.
I G. Canguilhem, a.c., p. 118.
• G. Canguilhem, a.c., p. 87.
• F. Crick, Uomini e molecole, Zanichelli, Bolonha, 1970, pp. 7288, fala-nos do vitalismo atual.
46 Fenomenologia do homem
ros "mecanicistas" e os únicos a quem o nome se adequa exatamente. En
tre eles se distinguem Giovanni Alfonso Borelli, aluno de Galileu, fisiólogo,
físico e astrônomo que o próprio Newton reconheceu como um dos precur
sores da teoria da gravitação universal. Ele observou que o corpo animal é
uma máquina bem ajustada com as suas alavancas (ossos) com uma bom
ba (coração), o seu fole (pulmões) etc.
A analogia entre organismos e máquinas e em particular entre orga
nismos e relógios, foi proposta justamente por Descartes, e teve grande
repercussão até os nossos dias.
Porém, com o progredir da ciência, desenvolveram-se novas e mais
engenhosas teorias mecanicistas. Hoje a teoria mais seguida é a da biolo
gia molecular, a qual considera a vida como uma disposição particular
mente complexa de certo tipo de moléculas.
Os principais argumentos que os mecanicistas aduzem como susten
táculo da sua tese são os seguintes:
- O vitalismo não tem provas a seu favor, mas somente suposições e
preconceitos; investiga forças recônditas que nenhuma demonstração ou
verificação científica pode documentar.
"O conhecimento exato é inimigo do vitalismo'os.
- O vitalismo é vítima do antropomorfismo.
"O vitalismo interfere no nosso estudo da vida, porque nós somos se
res viventes e nos sentimos comprometidos como objeto de estudo. A disso
lução do vitalismo é prosseguimento da revolução copernicana, que come
çou a eliminar o antropomorfismo do estudo do céu; sucessivamente ao
estudo do mundo físico, foi sendo pouco a pouco eliminado aquele tipo; de
antropomorfismo que consistia em considerar privilegiado o lugar em que
nos achamos e o tempo em que agimos; agora se trata de abandonar a
idéia de que seja privilegiada a esfera dos viventes, à qual pertencemos.
Positivamente, se trata de afirmar e adotar de modo sempre amplo o grande
princípio da indiferença da natureza"7.
- Enfim, o vitalismo é máscara que serve de cobertura a certas con
cepções metafísicas, éticas e religiosas das coisas, ou da defesa de certas
teorias políticas, de certos valores morais etc.8
Como resulta dos dois grupos de argumentação que apresentamos, a
disputa entre mecanicistas e vitalistas é iminentemente disputa entre dois
modos diferentes e contrastantes de ver as coisas: o modo rigorosamente
científico e o modo extracientífico (metafísico, filosófico, experiencial). O
• F. Crick, O.C., p. 14l.
7 D. Insolera, Introdução à F. Crick, O.C., p. 44.
• Cf. D. Insolera, o.c. ; G. Canguilhem, O.C., pp. 87-88.
A vida humana 47
primeiro, em atenção aos cânones das ciências naturais, reconhece como
real somente o que é susceptível de verificação experimental e de determi
nação objetiva, portanto, só o que é físico, material, sensível, quantificável;
fixa certos esquemas de compreensibilidade e permanece insatisfeito até
que as coisas não se ajustem a eles e, por isso, recusa-se a reconhecer como
real o que não se adequa com esses esquemas. Por sua vez, o segundo
modo de ver (o extracientífico) não tem a pretensão de impor nenhum
esquema às coisas, mas é aberto e disposto a aceitá-las e a reconhecê-las
assim como são, também se se trata de dados obscuros, impalpáveis, mis
teriosos.
Ora, se se leva em conta que vitalismo e mecanicismo são antes de
tudo e sobretudo dois diferentes pontos de vista e que esses dois pontos de
vista não são tão incombatíveis entre si como comumente se crê (tratando
se de visões parciais, ao menos no caso do ponto de vista científico), então
é legítimo concluir que o próprio estudioso tem a possibilidade de ser
mecanicista (quando assume o ponto de vista científico) e vitalista, quan
do ultrapassa o ponto de vista científico e busca uma explicação exaustiva
do fenômeno da vida.
2. Informações científicas
Do ponto de vista científico, a vida é particular organização da maté
ria. A biologia molecular demonstrou que a substância vivente se distin
gue da não-vivente graças a um modo diferente e muito mais complexo de
estruturação: a substância não-vivente (ou inorgânica) é constituída de
moléculas extremamente simples, por exemplo, a molécula da água é for
mada de um só átomo de oxigênio e de dois de hidrogênio; a substância
vivente ou orgânica, por sua vez, é constituída de moléculas extremamen
te organizadas e complexas.
As moléculas da substância vivente são formadas em noventa e nove
por cento pela associação dos átomos pertencentes a quatro elementos:
carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio. O resultado da sua associação
representado pelos constituintes orgânicos que são denominados car
boidratos, gorduras, proteínas, ácidos nucléicos, os quais são os constituin
tes fundamentais da célula. Cada um desses complexos desenvolve, no
harmonioso equilíbrio do ciclo vital, uma tarefa bem específica. Os car
boidratos e as gorduras são as fontes principais de energia das células. A
reunião ou síntese de moléculas de substâncias realiza-se graças ao estí
mulo e ao comando de um tipo particular de proteínas: as enzimas. Trata
"0 de moléculas químicas muito complexas, que cada célula produz segun-
do as substâncias que deve desagregar ou sintetizar. A enzima pode ser
considerada como um verdadeiro e próprio laboratório químico que toma
certas substâncias e as elabora segundo certo programa; o seu poder de
ação é notabilíssimo. Por exemplo, uma única molécula de certas lipases
(ou enzimas propostas à desagregação das gorduras) está em condições de
elaborar, em um minuto, cinco milhões de moléculas de gordura, a zero
graus de temperatura.
No que tange aos ácidos nucléicos, a eles cabe a tarefa de conservar e
de transmitir o código genético. O ácido que exerce essa função chama-se
DNA (ácido desoxirribonucléico). As moléculas desse ácido fundamental
para a vida concentram-se em número relevante em todas as células de
todos os seres vivos: no camundongo, por exemplo, cada célula tem tantas
moléculas de DNA que dão para formar um cordão de setenta centímetros
de comprimento; no homem, cada célula tem tanto que dá para formar um
cordão de cerca de dois metros de comprimento. Se tomássemos as molé
culas de DNA de todas as células do nosso corpo, obter-se-ia uma de com
primento semelhante ao diâmetro do sistema solar. Por isso as moléculas
de DNA têm a capacidade de registrar muitíssimas informações. Por exem
plo: "usando as moléculas de DNA contidas numa única célula espermática,
se encheriam cerca de quinhentos grandes volumes, todos diferentes en
tre si'>!!.
Os cofres que contêm as filas intermináveis de moléculas de ácido
iesoxirribonucléico são os cromossomos nucleares. Eles formam uma ca
leia cujos anéis são constituídos de genes, isto é, por moléculas que fun
:ionam como depositários dos caracteres hereditários tanto do indivíduo
:omo da espécie. DNA e genes assinalam, portanto, os confins estáveis
mtre as várias espécies de seres viventes e entre os seres viventes e os
Ião viventes. Por exemplo, o DNA de rã é mais rico de informações genéti
:as do que o DNA da lombriga. O ovo da rã, o embrião da rã, a rã em qual
luer estágio de desenvolvimento, é sempre mais evoluída que a lombriga,
~orque é sempre constituída de células que contém DNA de rã e não DNA
le lombriga.
O menor organismo vivente é a célula. Os estudos destes últimos anos
)useram mais em evidência que ela é um pequeno mundo, extremamente
lomplexo e ordenado, muito mais do que poderiam supor os biólogos dos
empos passados. As estruturas microscópicas que já se conheciam, como
núcleo, nucléolo, cromossomos, o microscópio eletrônico revelou estrutu-
as mais diminutas, como os cromossomos, o DNA e outras.
9 F. Criek, O.C., pp. 106·107.
Mas nestes últimos anos a biologia nuclear deu passos gigantescos
o lIomente na direção de maior conhecimentoda célula, mas também no
lIua parcial reconstrução. Lemos com freqüência nos jornais ou nas re
vi tas sobre a reprodução por síntese desta ou daquela parte da célula ejá
fa la de uma eventual produção da vida enquanto tal pelo homem. Entre
descobertas mais recentes lembramos a de um gene e de um lisoma ar
tificiais que foram sintetizados em laboratórios, por alguns estudiosos da
Universidade de Madison, em Wisconsin. Certamente se trata de desco-
rta ainda modesta, se se tem presente na memória que cada célula huma
n contém pelo menos quarenta e seis cromossomos e que em cada cro
mossomo existem pelo menos cento e cinqüenta mil genes e se se lembra,
demais, que o gene sintetizado pelos estudiosos americanos contém se
nta e sete nucleótidos, enquanto o material genético da célula humana
m cerca de três milhões, ainda que nem todos sejam funcionais. Já é,
porém, um passo importante e significativo. Outra descoberta importante
a realizada por alguns estudiosos da Rockfeller University de Nova York:
criação em laboratório da enzima ribonuclease, que é a enzima preposta
cisão do ácido ribonucléico, o qual, como sabemos, é a molécula química
que serve de mensageiro para transferir o código genético que se atua
quando uma célula se reproduz. O edificio químico da enzima "ribonuclease"
composto de uma cadeia de cento e vinte e quatro aminoácidos. Trata-se
da menor enzima conhecida. A maior tem uma cadeia de dez mil peças.
Essas descobertas geniais não devem, porém, criar a ilusão de que
IItamos próximos da criação da vida em síntese. "O que fica bem claro é
que a célula é objeto muito complicado e que será decerto extremamente
difícil para nós sintetizá-la de ponta a ponta. Não será fácil, pois, para nós
criar a vida em sentido estrito. Porém, se examinamos o mecanismo peça
por peça, e vemos como é feito e como funciona, parece que não deve haver
nenhuma dificuldade de princípio para sintetizá-lo nós mesmos, partindo
de compostos químicos simples"lO.
3. Aprofundamento filosófico
O que é a vida de ponto de vista não científico e, mais especificamen
te, do ponto de vista filosófico?
Se propusermos a questão assim, em geral, ao homem da rua, com
toda probabilidade ele nos responderá: a vida é amor, a vida é luta, a vida
é dor, a vida é esperança, ou qualquer coisa semelhante.
10 F. CrieI<, O.C., pp. 104-105.
50 Fenomenologia do homem
Ora, a vida do homem é, indubitavelmente, tudo isso e muitas outras
coisas ainda, e apenas tomando em conta essas múltiplas expressões da
vida é possível alcançar determinação de sua verdadeira natureza e, por
conseguinte, a elaboração de antropologia filosófica que passe pela porta
da vida.
Todavia, a vida não é fenômeno peculiar ao homem, mas um fenôme
no que se manifesta em muitíssimas outras coisas. E aquilo que nós que
remos conhecer antes de tudo é a natureza da vida entendida como proprie
dade comum a todos os seres animados e não como qualidade própria do
homem. Nós nos perguntamos: o que é esta propriedade singular e extraor
dinária pela qual dizemos que uma planta é viva, enquanto uma viga,
uma pedra dizemos serem mortas? É possível desenvolver uma feno
menologia da vida?
A fenomenologia, já sabemos, não é a especulação abstrata, mas ob
servação concreta: é exame de casos particulares com o fito de tomar-lhes
o sentido profundo e universal. Por isso, fazer fenomenologia da vida sig
nifica escolher determinado grupo de seres viventes e observar as proprie
dades das suas manifestações vitais.
Para primeira aproximação, podemos pôr em confronto um ser segu
ramente não vivente com um ser seguramente vivente, por exemplo, um
bloco dec mármore com um cão.
O bloco de mármore é parado, inerte, sem reação, sem mudanças, não
cresce nem diminui se não é exposto a influxos externos, não se estraga,
não se desfaz. Por sua vez, o cão move-se, ingere outras substâncias, assi
mila-as, desenvolve-se, gera outros cães e se multiplica, reage a luz, aos
rumores, ao contato com os outros corpos, late, zanga-se, morde ... adoece e
morre. Essa fenomenologia, bastante sumária, nos diz que o vivente e o
não vivente têm propriedades essencialmente diferentes, de cujo confron
to podemos derivar certa idéia da vida.
A vida caracteriza-se como:
- Poder de crescer e desenvolver-se, tomando certa quantidade de
matéria do ambiente circundante e reorganizando-a segundo as estrutu
ras da substância orgânica. Na escolha do material conveniente para o
próprio desenvolvimento, o organismo vivente revela habilidade e sagaci
dade excepcionais. Se, por exemplo, lhe tomamos a matéria de que ordina
riamente se alimenta para o seu crescimento, o organismo produz as ne
cessárias associações com matérias complementares e rapidamente se
reorganiza para atingir o mesmo escopo por outro caminho. Esse singular
comportamento mostra que a vida é dominada pelo principio do finalismo.
"A incorporação de matéria estranha ao organismo e a sua oportuna sele
ção e utilização, assim como a secreção dos refugos inutilizáveis (metabo-
A vida humana 51
lismo como assimilação e dissimilação) mostram uma soberana disposição
no mundo material, lógica e funcional em grau máximo; graças à qual no
organismo se manifesta uma inegável finalidade"l1.
- Poder de responder aos estímulos externos ou capacidade de excitação.
Com ela o organismo ordena a sua relação com os objetos circundantes,
que o golpeiam com os seus estimulas. Ele se relaciona com eles não de
forma passivo, mas se insere ativamente no mundo, que se torna, assim, o
seu ambiente.
- Poder de se reproduzir segundo a própria espécie12.
Dado que crescer, reproduzir-se, irritar-se são formas de movimento,
os filósofos definem geralmente a vida como uma espécie de movimento.
Rush diz que "l'essence de la vie est le changement, le processos, l'activité
continuel"13. Asimov considera a vida como "capacidade de fazer um esfor
ço". "Também o mundo vegetal, afirma Asimov, faz uma série de esforços;
quando a flor se abre, quando um broto se projeta ao alto na direção do sol,
ou uma raiz se insinua no terreno procurando água. Nenhuma pedra, ne
nhum objeto sem vida faz o esforço que até a mais simples forma de vida
necessita fazer. Isso, pelo menos, nos sugere a experiência e poderemos
começar com certificar que a diferença entre 'vida' e 'não vida' consista
nessa capacidade de fazer esforço. Poderemos, depois, definir a morte como
a perda dessa capacidade"14.
Segundo Santo 'lbmás, "o nome 'vida' se usa para indicar uma substân
cia à qual cabe mover-se por si mesma por força de sua própria natureza"15.
Porém, o movimento que caracteriza a vida não é movimento qualquer;
ele possui propriedades bem precisas. Quanto à origem, o movimento da
vida é espontânão, ou seja, não vem do exterior, mas sim do interiol' (é um
motus ab intrínseco). No entanto, não é totalmente espontâneo: a ação vital
não é um inicio absoluto sob todos os aspectos; ela depende, sim, dé diversos
fatores, condições e causas externas. 'lbdavia, esses fatores, essas causas
externas não bastariam para produzi-la se o ser já não fosse vivo. )
Quanto ao seu ponto final, o seu término, o movimento vital é imanente
(é um movere seipsum). Isso é entendido por oposição à ação transitiva,
que passa de um paciente diferente do agente. Na ação imanente, o agen
te age sobre si mesmo, é ele o término de sua ação. Mas devemos nova
mente observar que essa imanência não é absoluta. Apenas ocorre mu
dança, movimento, nos encontramos defronte a principio metafísico
11 L. Gabriel, Uomo e mondo in decisione.
" Cf. F. Crick O.c., pp. 64ss; J . H. RU8h, L'origine de la vie, Payot, Paris, 1959, pp. 72s8.
IS J . H. Rush, o.c., p. 16. .
" I. Asimov, La vita e l'energia, Zanichelli, Bolonha, 1970, p. 4.
" S. 'lbmás, Summa Thea/ogiae, l , 18, 2; CF., ln N sent, 49, 1,2 sol.
52 Fenomenologia do homem
fundamental: quidquid movetur ab alio movetur (tudo o que se move é
movido por terceiros). Mascomo é salvaguardado tal princípio quando se
trata de seres viventes? A solução, segundo Aristóteles, é a seguinte: em
um ser vivente, uma parte move a outra, porque é ser organizado que
comporta diversos tipos de órgãos; mas se trata sempre de partes de um só
ser, de modo que, considerando-o em seu todo, se vê que a sua ação, o seu
movimento fica no sujeito.
Nesse sentido, a vida é essencialmente movimento. Mas se se reco
nhece isso e também que se trata de movimento que não é causado pelo
exterior, e sim pelo interior, é fácil compreender como tal movimento não é
explicável senão reconhecendo a existência de principio intrínseco, fonte
interna que o produz. A esse princípio interior das manifestações vitais,
dos tempos mais remotos, os filósofos e o homem da rua deram o nome de
almal6.
A esse propósito, recolhendo os resultados de tradição plurimilenar,
Santo Tomás escreveu: "São viventes aqueles entes que se movem por si
mesmos, seja o termo moto tomado no sentido próprio, ato de coisa imper
feita, isto é, de coisa que se encontra em potência, seja em sentido mais
amplo, enquanto ato de coisa perfeita; nesse sentido também o entender e
o sentir são chamados moto, como afirma Aristóteles. E assim chamare
mos viventes todos os seres que se determinam iguais ao movimento ou a
qualquer outra operação: aqueles entes, por sua vez, que por sua natureza
não podem determinar-se iguais ao movimento ou à operação, não podem
dizer-se viventes a não ser por certa analogia ... Princípio da vida nos ani
mais é a alma: de fato, chamamos animados os entes viventes e inanima
dos os privados de vida .. . Porém a alma não é princípio qualquer de opera
ção vital, de outro modo precisar-se-ia dizer que o olho com relação à vista
é alma, como também os outros órgãos. Mas por alma costumamos enten
der o princípio primeiro da vida. Agora, um corpo pode certamente ser, de
qualquer maneira, um princípio vital; assim, por exemplo, o coração; mas
nunca o princípio primeiro. Se um corpo é principio vital não o é nunca
enquanto corpo: senão cada corpo o seria. É principio vital motivado por
qualidade especial, que possui devido a principio que é chamado o seu ato.
E, então, a alma é o principio da vida; ela não é realidade corpórea, mas o
ato de um corpo"l7.
Portanto, a alma é o principio primeiro do movimento vital. Dado,
porém, que ocorrem movimentos vitais profundamente diferentes nas plan-
16 Por alma não se entende, aqui, nenhum "espectro na máquina" (Ryle), mas simplesmente a
forma, ou seja, o principio organizador de um corpo que tem como característica a de ser a fonte dos
seus próprios movimentos.
17 S. 'lbmás, Summa Theologi.ae, I, 75, 1.
A vida humana 53
tas, nos animais e nos homens, parece correto distinguir três principais
tipos de alma: sensitiva, vegetativa e intelectiva, como fizeram a maioria
dos filósofos. Desta divisão encontramos claro testemunho em Santo To
más. Ele diz que a razão da divisão em três almas "está no fato de que as
almas se distinguem segundo o modo diferente com o qual as operações
vitais ultrapassam as operações das coisas corpóreas: os corpos, de fato,
são inferiores à alma e servem-na, como matéria ou como instrumentos.
Aí está, portanto, uma operação da alma que transcende de tal maneira a
realidade corpórea que não haveria sequer a necessidade de um órgão
material.para tornar-se explicita. E essa é a operação da alma racional.
Há outra operação da alma, inferior à precedente, que se exercita median
te órgão material, porém não mediante qualidade corpórea. Tal é a opera
ção da alma sensitiva .. . A mais baixa entre as operações da alma é a que se
desenvolve mediante órgão corpóreo e em virtude de certas qualidades
físicas. Também essa ultrapassa a operação da realidade material, porque
os movimentos dos corpos são originados por movimento externo, enquan
to as operações em palavras são originarias de movimento interno: aspec
to comum, esse, a todas as operações da alma, porque todo ente animado
de qualquer maneira move a si mesmo. Assim se apresenta a operação da
alma vegetativa"l8.
4. Origem da vida
Também no que concerne à origem da vida manteremos a nossa dis
tinção entre discurso científico e discurso filosófico. Só que neste caso pre
ferimos inverter a ordem do estudo e começamos com o filosófico ao invés
do científico.
Sob o aspecto filosófico, o problema da origem da vida não apresenta
dificuldades singulares.
Concordamos que a vida tem como seu último principio a alma. Ago
ra, mesmo não havendo ainda explorado a natureza última desse princi
pio e a sua origem, uma coisa é clara: ela não pode ter origem de baixo; da
matéria, porque se fosse assim não se compreenderia porque apenas uma
parte e não toda a matéria é dotada de alma. Precisa-se então admitir que
a alma tenha origem do alto, mediante a ação de um ser inteligentel9. As
18 S. 'lbmás, De anima, II, 4.
19 Sobre a origem não mecanicista da vida, me parece decisivo o seguinte argumento de Gabriel:
"A vida não pode ser explicada mecanicisticamente, porque esse desenvolver para algo qualitativa·
mente novo, como é a forma impressa como representação, não é explicável mecanicisticamente. A
causalidade mecânica não obtém outro efeito que não seja um reagrupamento de elementos que ficam
54 Fenomenologia do homem
recentes descobertas parecem confirmar essa hipótese. Que o homem con
siga sintetizar a vida constitui um argumento a favor e não contra a tese
de que a alma surge mediante a ação de um ser inteligente: o homem, de
fato, é um ser inteligente!
Quanto, porém, à modalidade seguida por aquele ser inteligente que
por primeiro deu origem à vida (seja por criação direta ou indireta, seja
por evolução, mediante intervenção programada ou mesmo mediante ge
ração espontânea) para a filosofia ela se mantém matéria opinável e dis
cutível, da qual se sustenta não poder dizer a última palavra.
As coisas se complicam notavelmente quando entramos no aspecto
científico. Aqui o problema da origem da vida é, hoje, mais aberto do que
nunca e parece que não existem perspectivas de solução próxima. Crick,
prêmio Nobel de medicina, nos informa que a verdadeira dificuldade está
no fato de que "as provas do que aconteceu estão há muito desaparecidas.
Tudo o que resta é um pouco de história congelada nos organismos como
os vemos hoje. Isso acabará por tornar o argumento averso a tratamento
científico, porque inevitavelmente existirão mais teorias do que dados de
fato para negá-las. Creio poder prever que a discussão, em vez de desen
volver-se de modo certamente científico, se tornará quase teológica: nas
cerão diversas escolas com teorias diversas, cada uma das quais será sus
tentada com paixão, mas pode ser que os dados de fato sejam insuficientes
para permitir-nos uma escolha. Os cientistas que trabalharão nesse cam
po deverão proceder com pés de chumbo ao propor novas idéias e deverão
esforçar-se ainda mais do que o normal para procurar provas experimen
tais, se não quiserem que seu trabalho atole irremediavelmente em pân
tano de teorias não demonstradas'>2O.
Ao problema da origem da vida os cientistas (mas não só. eles) de
ram muitas soluções, que, contudo, podem-se reduzir a quatro tipos funda
mentais:
1. criação direta por Deus;
2. evolução segundo plano estabelecido por Deus;
3. geração espontânea;
4. geração ou evolução por puro acaso.
A solução da criação direta por Deus foi acolhida também por muitos
cientistas do passado (inclusive Darwin, que atribuía à ação direta de Deus
sempre os mesmos, também na mutação exterior espacial, como quando alguém troca de lugar os
móveis que estão em seu quarto, com a convicção de ter obtido, assim, novo quarto. A vida, ao contrá
rio, opera no interior do espaço, não recebendo simp~esmente o seu conteúdo do espaço, mas inserindo
ai, "com o tempo, uma forma ainda não presente. E a vida que cria o espaço. Ele é o lugar onde se
desenvolve a força criadora da formaçãoda vida" (L. Gabriela, Uorrw e rrwndo in decisione, cit., p. 28).
20 F Crick o.c., pp. 117·118.
A uida humana 55
a origem de quatro ou cinco protótipos viventes) e foi rigorosamente rea
firmada por alguns cientistas contemporâneos, particularmente por
Servier.
A solução da geração espontânea afirmou -se no início da época moder-
na, conquistando de improviso todo o mundo científico, incluindo pensado
res de talento como Descartes e Newton. Essa solução afirma que a vida é
originária da transformação espontânea da matéria inerte em matéria
vivente. Quando foi postulada essa teoria, os teólogos não ergueram obje
çóes precisas, chegando a observar, na pessoa do padre jesuíta John Tumr
berville Needham, que a geração espontânea e continua não é necessaria
mente contrastante com o Gênesis. O que está escrito nesse texto da Bíblia,
de fato, é que Deus ordenou à terra e às águas trazerem à luz plantas e
animais: não é, portanto, heresia pensar que tal processo não se tenha nun
ca interrompido, mas tenha continuado permanentemente sem pausas.
O ataque à teoria da geração espontânea teve inicio por obra dos mes
mos homens da ciência, que no século XVII começaram a pô-la em discus
são e a fazê-la objeto de ataques sempre mais decididos. O primeiro golpe
partiu do cientista italiano Francisco Redi, o qual mostrou que nem na
carne, colocada em uma rede metálica para protegê-la das moscas, se ge
ravam vermes quando de sua putrefação. Porém, observou que as moscas
vinham, em grande número, a pousar sobre o reparo metálico e também
que depositavam os seus pequenos ovos brancos. Essa simples experiên
cia convenceu Redi de que a assim dita geração esp0!ltânea dos vermes
não provinha de nada além de um erro de observação. A mesma conclusão
deveriam chegar as sucessivas experiências do abade Spallanzani e de
Luis Pasteur. Então, a tese da geração espontânea foi definitivamente
afastada21 •
Neste século, foi proposta e reproposta por vários cientistas a teoria
da geração de vida da matéria por acaso. Em resumo, essa teoria afirma
que através de uma combinação casual de elementos químicos formou-se
a primeira célula viva; por ela foi estabelecido, imediatamente, um código
genético fmmado por uma série de moléculas de DNA, que assegurou de
finitivamente a transmissão da vida.
Mas como ocorreu a distinção entre todos os seres vivos que conhece
mos? Isso é devido ao puro acaso. "Através de uma série de gerações e
seleções, uma molécula de DNA, que no início poderia dizer tantas coisas,
acabou sendo associada a um dado sistema de moléculas, que todas juntas
constituem as células do organismo por nós chamado formiga: aquele DNA
se reproduzirá sempre idêntico, associar-se-á sempre às mesmas molécu-
21 Cf. J . H. Rush, L'origine de /'ani""" Payot, Paris, 1959, pp. 83·99.
56 Fenomenologia do homem
las e se encontrará sempre nas células de formiga e nunca em outras. Por
isso dizemos que é o DNA da formiga'>22.
A hipótese da origem da vida por acaso encontrou recentemente um
convicto e válido adepto em Jean Monod, autor de ensaio muito discutido
intitulado O acaso e a necessidade. Ensaio de filosofia natural da biologid
contemporânea23•
A tese de Monod afirma que a vida e toda a ordem dos seres vivos teve
origem casual. Não existe nenhum "plano" na natureza, nenhuma "inten
cionalidade". Segundo Monod, admitir "planos", "projetos", "direções" na
natureza indica mentalidade primitiva, animista. Isso quer dizer que ele
recusa, em nome da ciência, não apenas todas as concessões religiosas
que afirmam leis orientadas para atingir determinados objetivos mas tam~
bém todos os sistemas fllosóficos que não explicam os seres vi~os apenas
com o "puro acaso".
S:gun~o Monod, o que permitiu ao acaso dar origem ao processo
evolutiVO fOI o DNA (ácido desoxirribonucléico), o elemento da célula que é
portador da informação de que dependem os caracteres hereditários. Ora,
o ~N~, enqu~nto conserva aquela estrutura, controla, devido a processos
qUlmlcos e fíSICOS, os caracteres dos quais leva a informação. Mas poderia
acontecer, como na realidade acontece, que ocorreram "erros" ou "muta
rões" dos cromossomos, ou seja, no código genético. Esses erros, afirma
Monod, ocorrem ao acaso; mas nos indivíduos em que acontecem, ocorre
lma vantagem, comparando-os com os que não se modiflcaram; os primei
~os se multiplicam mais facilmente e acabam por suplantar os segundos.
)s erros, por acaso, se multiplicam e a seleção escolhe. E assim de "erro"
'm "e "f:'d d I I : rro., avorecl as e propaga as pe a se eção, se formaram todas as
ormas Viventes, com todos os seus tecidos, aparatos e órgãos, inclusive as
nanifestações superiores do homem, como a inteligência, a consciência e
I vontade.
É natural- reconhece Monod - que tal concepção desconcerta mui
os contemporâneos, acostumados a admitir algo de transcendente e a dar
1m sentido à vida em relação a isso e, em relação a esse sentido, estabele
er certos "valores". Mas devem acostumar-se a "considerar o universo
:élido da solidão, privado de todo e qualquer objetivo" (p. 136). Monod
onclui afirmando: "A antiga aliança é rompida; o homem fmalmente sabe
ue está só na imensidão indiferente do Universo do qual surgiu por
caso. O seu dever, como o seu destino, não está escrito em lugar nenhum"
l. 143).
ln D. lnaolera,o.c., p. 42.
.. Mondadori, Millo, 1970.
57
O que se pode dizer dessa teoria tão radical? Dela são discutíveis tan
to a tese que a vida e a ordem dos seres vivos tiveram origem casual,
qUIEllll,U o princípio da "objetividade da natureza" que atua como platafor
dessa tese.
Eis a tese: "Apenas o acaso é a origem de cada novidade, de cada
criação da biosfera. O acaso puro, apenas o acaso, a liberdade absoluta,
cega, para a raiz própria do prodigioso edifício da evolução: hoje essa
Dação central da biologia não é mais uma hipótese entre muitas possíveis
· pelo menos, concebíveis enquanto é a única compatível com a realida
a qual no-la mostram a observação ea experiência" (pág. 96).
Essa tese não é aceita por muitos outros cientistas, os quais também
em nome da ciência e da experiência. Ademais, é tese que não pode
mos aceitar por quatro razões:
a) Porque refugiar-se no acaso para explicar algo não é nada mais do
recusar-se a dar uma explicação. É o mesmo que se à pergunta: Quem
quebrou este vidro; respondêssemos que ele se quebrou por acaso.
b) Em segundo lugar, é absurdo que do mero acaso, ou seja, da irra
, cionalidade, tenha-se originado o racional. Mas na evolução se dá o apare
cimento de um ser racional: o homem.
c) Os acontecimentos casuais não se repetem. Assim, por exemplo,
pode acontecer-me de ganhar milhões de reais na loteria esportiva. Mas
eaae acontecimento afortunado não me ocorrerá nunca mais.
d) Enfim, a tese é contraditória, porque de um lado ela postula a
Irreversibilidade do primeiro DNA, enquanto de outro pretende que o DNA
~a passível de erros, para poder explicar a origem de novas espécies de
: .. res vivos24•
Também o princípio no qual Monod baseia sua teoria: "A pedra angu
lar do método científico é o postulado da objetividade da natureza, isso
tqüivale à recusa sistemática de considerar a possibilidade de chegar a
, um conhecimento 'verdadeiro' mediante qualquer interpretação dos fenô
menos em termos de causa, isto é, de projeto" (ib., p. 29), é um princípio
Ixtremamente redutivo: ele elimina a possibilidade de colher o "sentido" e
• intencionalidade de qualquer coisa.
A concepção de Monod recebeu muitas aprovações, mas também nu
merosas críticas.
Entre aqueles que repudiaram com maior firmeza a concepção mate
rialista da origem da vida, merece uma citação especial o etnólogo francês
I< CC. M. Orai80n, II CIl80 e lo lIita, SEI, Turim, 1971; M. Barthelemy Madaule, L'idioIO{!ie du haBard
• dilo nécl!B8itl, Seuil, Paris, 1972. Veja-ae, fmalmente, a recente obra de V. Marcom, Caso e finalitil.
"ueimo, Milão, 1976, que quer demonstrarque toda causa eficiente deve ter por fmalidade oonstitui
,ao de determinados órgãos e organismOll, antes que de outros, lato é, não dependente. do acaso.
58 Fenomenologia do homem
Jean Servier. Ele afirma que a única hipótese admissível, também cienti
ficamente, no que concerne ao problema da origem da vida é aquela que
afirma que ela tem origem por criação. A seu ver, a tese contrária, a da
origem da vida por evolução, ou ainda pior, aquela da origem por acaso,
não tem nenhum valor científico, porque não possui nenhum argumento a
seu favor.
Eis alguns passos eloqüentes nos quais ele formula esse grave juízo.
"Poderia parecer que os vírus constituíssem a ponte entre o inanima
do e o organizado: muitos, de fato, são cristalizáveis como as proteínas.
Nessas condições o organismo vivente deveria comportar-se como simples
composto químico e a sua reprodução em laboratórios não deveria apre
sentar dificuldade nenhuma".
"Outrossim, todos os vírus que conhecemos são parasitas vivos e se
desenvolvem às custas de organismos mais complexos, como o tabaco, a
videira, os animais e o homem. Não temos exemplos de vírus auto-suficien
tes: não podem, então, ser considerados como formas primárias de vida,
não obstante a aparente simplicidade de suas estruturas
"Se, de tempos em tempos, os cientistas pensam que podem produ
zir a vida in vitro, não fazem nada além de prolongar por um ou dois
séculos a velha teoria da geração espontânea. Os vírus que eles querem
fazer nascer em um cristalizador são os descendentes diretos dos camun
dongos, que, segundo os filósofos do século XVI, se formavam do contâto
de uma camisa suja com uma porção de sêmens, isto é, de quimeras.
Nem mesmo a síntese das proteínas dará a chave do mistério da re
produção".
"Os biólogos, para explicar o seu erro, afirmam que a síntese química
da vida foi possível, em um momento indefinidamente longo no tempo -
'a juventude da terra' - que não é possível recriar em laboratório e por
tanto não é possível verificar. No fundo, isso eqüivale à paráfrase do pri
meiro versículo do Gênesis: 'O espírito de Deus equilibrava-se sobre a água'.
Mas que necessidade há, então, de falar de pesquisas, de ciências e de
provas?"
"Os termos físico-químicos são ilusórios: continuam parciais e marca
ram mal a nossa ignorância no avaliar a única verdadeira incógnita da
equação: a Vida, que nenhum sistema pode resolver em termos de maté
ria, apesar de muitos séculos de pesquisas".
"Afirmamos a priori que a matéria estava na origem da vida, sem
imaginar por um só instante que esse ponto de partida pudesse ser falso e
que talvez uma proposição inversa explicasse melhor os fatos"25.
2' J . Servier, L'uorno e l 'inuisibile, Saggia di etnologia, Borla, 'furim, 1967, pp. 16·17
A vida humana 59
"Nunca, no estado atual de nossos conhecimentos, a vida pôde nascer
da matéria em laboratório, enquanto, pelo contrário, podemos constatar
correntemente que a matéria pode nascer da vida"26.
Das considerações precedentes, Servier tira a seguinte conclusão:
"A humanidade está para a animalidade assim como a vida está para
a matéria: um estado novo. Se nos parece possível a passagem da vida para
a matéria e o homem pode algumas vezes tocar a animalidade, nada nos
permite sustentar o processo inverso, da matéria para a vida, do animal
até o homem, passando materialmente do plano inferior para o plano su
perior'>27.
"Nada nos mostra na natureza uma evolução contínua semelhante a
um rio que segue o seu curso, do inorgânico ao orgânico, do orgânico ao
organizado, do organizado ao consciente. Distinguimos planos entre si que
no momento fogem à experiência. As relações entre o homem e o macaco
são tão numerosas quanto as diferenças. Nada nos permite fazer desapa
recer umas em beneficio das outras.
Talvez aí esteja uma passagem espiritual entre a vida, a matéria e o
homem. Talvez o homem possa ajudar o animal no plano espiritual, assim
como todos os homens crêem ser ajudados pelo invisível. São outros tantos
atos de fé que não arriscam ser desmentidos pela experiência sensível,
desde o momento que não procuram o seu apoio"28.
Uma teoria que segue um caminho médio entre a concepção da ori
gem da vida por criação direta de Deus e a aposta, que afirma uma origem
por acaso ou por geração espontânea, é a professada por vários autores
cristãos: ela afirma que a vida teve origem por evolução programada, ou
seja, a evolução se realiza segundo um programa preestabelecido por Deus,
e Deus estabeleceu que das forças de que dotou inicialmente a matéria em
certo momento surgisse a vida.
Essa hipótese parece-nos filosoficamente aceitável; quanto ao seu valor
científico, parece-nos que o cientista não está em condições de refutá-la
com nenhum argumento válido e decisivo.
5. A vida humana
O homem é um ser vivente. Esse é fato indiscutível que tomamos em
consideração desde as primeiras páginas do presente capítulo. Antes, o
homem é o vivente por antonomásia. Com efeito, embora havendo tantas
2. J. Servier, o.c., p. 19.
27 J. Servier, o.c., p. 2.
26 J . Servier, o.c., pp. 29·30.
60 Fenomenologia do homem
coisas que classificamos como viventes, entre todas há uma que conside
ramos particularmente rica de vida: o homem. De outro lado, sabemos que
privar o homem da vida e destruir o seu próprio ser são a mesma coisa.
Isso significa que o homem é essencialmente vivente: a vida faz parte de
sua essência. Por isso, para compreender o homem é necessário com
preender antes o que é a vida.
Mas o estudo da vida em geral que efetuamos aqui não parece lançar
muita luz sobre o ser humano. A filosofia tem dito somente que é um ser
dotado de movimento interior, autógeno, particularmente rico, variado e
intenso.
Em geral acolhemos favoravelmente as informações que a ciência vem
acumulando acerca do fenômeno da vida, na medida que se apresentem
como seguras e definitivas. Se refutamos certas explicações científicas,
fizemo-lo somente porque se trata de pseudo-explicações. Assim, quando
alguns cientistas nos dizem que a origem da vida tem início por acaso, não
podemos estar de acordo com eles, porque isso não é dar uma solução ao
problema, mas tapar os olhos e recusar-se a vê-lo.
Por isso, se queremos compreender o homem através da janela da
vida, não podemos contentar-nos com informações ainda muito incomple
tas que nos fornece a ciência e tampouco com os poucos e magros dados
que nos ofereceu até agora a filosofia.
Para tomar o homem através da janela da vida não devemos tomar
em consideração a vida em geral, ou seja, as propriedades de que a vida se
reveste em qualquer ser vivente, do molusco ao homem mas devemos
examinar a vida humana como tal. É a vida humana qu'e caracteriza o
homem e é, portanto, dela que é necessário partir se se quer ter compreen
são autêntica do seu ser.
O homo uiuens destaca-se nitidamente dos outros seres viventes pelo
tipo de vida que o caracteriza, uma vida consciente de si mesma. "L'homme
c'est le vivant séparé de la vie par la science et s'essayant à rejoindre la
vie à travers la science"29.
A vida do homem é especificamente diferente da dos animais e das
plantas. A linguagem ordinária mostra essa conseiência quando diz de um
homem que leva a vida de um animal. Platão declara que assinalar como
fim da vida humana o prazer é reduzir o homem a molusco.
A vida humana se distingue da dos animais e dos outros seres viven
tes pelos níveis espirituais que atinge e pelas dimensões sociais que alcan
ça: por isso se pode falar em vida espiritual, vida intelectual, vida social,
vida política, etc.
20 G. Canguilhem, a.c., p. 86.
A vida humana 61
Distingue-se, além disso, pela atitude nova que o homem possui nos
confrontos da vida: o homem propõe-se o problema da vida, aprecia a bele
za da vida, deseja melhorar a sua forma de vida, tende a transcender os
limites do espaço e do tempo nos quais sua vida está confinada. Ele pode
elaborar o seu próprioconceito de vida perfeita e é por essa vida que ele
sente fascínio ardente. O homem é dono da própria vida, pode em larga
escala controlá-la, dirigi-la, aperfeiçoá-la.
A vida humana caracteriza-se, enfim, por uma riqueza e variedade
estupendas. Os animais, mesmo os mais evoluídos, fazem sempre as mes
mas coisas: comem, bebem, dormem, reproduzem-se e o fazem sempre do
mesmo modo, com extrema monotonia. Ao contrário, os homens têm uma
vida variadíssima: dormem, mas são capazes de resistir ao sono por dias e
dias, em caso de necessidade; bebem e comem, mas servindo-se da maior
variedade de comidas e bebidas e segundo os mais diversos modos; diver
tem-se combinando continuamente os próprios passatempos: estudando,
trabalhando, pensando, rezando etc.
Em suma, a vida humana é vida que atinge níveis espirituais muito
elevados, níveis que procura sempre superar. O seu olhar está sempre
apontado para a frente. Por isso, o seu verdadeiro significado pode ser
colhido apenas descobrindo a finalidade para a qual é orientada. Qual é a
finalidade última da vida humana? Ainda é cedo para descobri-la; existem
muitas coisas para estudar no homem antes de arriscar uma resposta
para esse difícil problema. Mas o resultado é certo: o significado último da
vida humana não pode ser tratado nem de baixo nem do passado, porque
ela aponta sempre para o alto e para o futuro.
Outro resultado importante do que vimos dizendo é que a vida, esse
fenômeno extraordinário, é ostensiva do ser próprio do homem apenas se
for tomada em toda a sua riqueza e complexidade, riqueza e complexidade
distendidas para transbordar sistematicamente todos os confins que lhe
são impostos pelo ambiente sociocultural no qual se encontra.
BIBLIOGRAFIA
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III
o CONHECER SENSITIVO E INTELECTIVO
(Homo sapiens)
o homem é um ser dotado de conhecimento: é homo sapiens. No co
nhecer, de modo particular, ele se destaca dos outros seres que o circun
dam e os supera imensamente.
Para compreender a verdadeira natureza do homem, é, portanto, irn
prescindível pesquisa aprofundada desta sua característica. Trata-se, po
rém, de pesquisa difícil e de proporções vastíssimas, porque o conhece
humano tem muitas ramificações.
Nós organizaremos a nossa pesquisa do seguinte modo:
1. fenomenologia do conhecer;
2. psicologia das várias atividades cognitivas;
3. principais características do conhecimento intelectivo;
4. implicações antropológicas do conhecimento humano.
1. Fenomenologia do conhecer em geral
Conhecer é ser consciente de alguma coisa. Conheço a maçã quand
estou consciente desse objeto com estas determinadas propriedades qu
chamo maçã. Conheço meu tio quando estou consciente dessa pessoa e d
lP"au de parentesco que ela tem comigo.
O conhecimento humano abarca tudo isto de que o homem pode to!
nar-se consciente mediante as suas faculdades, seja pelas sensitivas, sej,
pelas intelectivas.
À primeira vista, superficial e aproximadamente, resulta que o hc
mem tem tríplice forma de conhecimento:
- sensitivo
- imaginativo
- intelectivo
64 Fenomenologia do homem
É distinção que achamos em todos os filósofos, de Platão em diante
(Platão, Aristóteles, Agostinho, Santo Tomás, Bacon, Descartes, Locke,
Rume, Kant).
Quanto ao conhecimento racional, ele assume três formas principais:
ordinária, científica e filosófica 1.
- ordinária: é a de que todos os homens podem dispor, sem recorrer
a particulares sagacidades, sem força de sistematização etc. É conheci
mento mais intuitivo do que raciocinativo;
- científica: é conhecimento organizado e disciplinado que busca es
tabelecer relações constantes entre os fenômenos . Ele coliga os fenômenos
e por isso permanece em nível horizontal e definitivamente "superficial";
- filosófica: é conhecimento que visa a dar uma explicação última de
todos os fenômenos . Ela é o prolongamento natural do conhecimento ordi
nário e científico. A razão, com efeito, procura conhecer sempre mais pro
fundamente e mais exaustivamente as coisas. Esta busca profunda e exaus
tiva das coisas constitui a filosofia. Temos a confirmação disso nas definições
que nos deram dessa disciplina Platão, Aristóteles, os estóicos e muitos
outros autores. Valha por todas a definição de Cícero. Ele, no De officiis
(II, 2), diz que a filosofia "é a ciência das coisas humanas e divinas e de
suas causas" (rerum humanarum et divinarum causarumque quibus hae
res continentur scientia).
2. Conhecimento sensitivo
o conhecimento sensitivo é, obviamente, aquele que se obtém através
dos sentidos (visão, audição, tato, fantasia etc.). Ele diz respeito às coisas
materiais na sua singularidade: os sentidos colhem sempre, de fato, obje
tos materiais, reais ou aparentes e os tomam na sua singularidade, quer
se trate do objeto em seu todo, quer se trate de uma sua parte, de uma
qualidade. Assim, por exemplo, vejo essa ou aquela cor, essa ou aquela
árvore, não a cor, a árvore. Ouço este ou aquele assobio e não o assobio;
imagino esse ou aquele automóvel, mas não o automóvel.
Para a aquisição do conhecimento sensitivo, o homem dispõe, antes
de tudo, de cinco sentidos externos: visão, audição, tato, paladar e olfato.
Chamam-se sentidos externos porque os órgãos pelos quais eles realizam
a sua ação acham-se na superfície externa do corpo. Os sentidos externos
se distinguem entre si, além de pelo dispositivo fisiológico diferente (o
1 Para essa tríplice divisão do conhecimento racional e sobre o valor filosófico do conhecimento
ordinário ver J. Maritain, A Preface to Metaphysics, Sheed & Ward, Londres, 1948, pp. 29ss.
o conhecer sensitivo e intelectivo 65
aparelho visual é diferente do olfativo etc.), também pelo objeto percebido.
Cada um dos sentidos percebe um aspecto diferente das coisas: a visão
percebe as cores; a audição, os sons; o paladar, os sabores etc.
Além de sentidos externos, o homem (e também muitos animais) é
dotado de alguns sentidos internos. Mas a sua existência e sobretudo o seu
número não são coisas óbvias. Para reconhecê-los é necessária certa dose
de atenção e de reflexão. Santo Tomás prova que o homem e os animais
l uperiores são dotados de quatro sentidos internos (sentido comum, me
mória, fantasia e instinto) do seguinte modo: "A natureza não é nunca
carente do que é necessário; precisa, por isso, admitir no homem tantas
operações quantas bastem à vida do animal perfeito. Aquelas, pois, dessas
atividadesque não podem reconduzir-se a um principio imediato único
requerem potências diferentes, pois que as potências da alma não são ou
tra coisa que os principios próximos das suas operações. É necessário, por
tanto, considerar não só a percepção do objeto quando ele está presente,
mas também quando está ausente. De outro modo, o animal não se move
ria para procurar uma coisa ausente, visto que o movimento e a ação dos
animais seguem a percepção; de maneira aposta, vemos verificar-se o con
trário especialmente nos animais perfeitos, que se movem de um lugar
para outro, porque eles se movem de um lugar para objetos conhecidos,
mas não presentes. É, portanto, necessário que o animal, por força da
alma sensitiva, não só receba as imagens das coisas sensíveis, quando
las o golpeiam com a sua presença, mas que seja também capaz de retê
las e de conservá-las. Ora, receber e reter são funções que nos seres
corpóreos pertencem a princípios diferentes: de fato, os corpos úmidos re
cebem bem e retêm mal; o contrário, por sua vez acontece com os corpos
lacos. Por isso, sendo a potência sensitiva ato de um órgão corpóreo, é
preciso que aí esteja uma potência para receber as imagens das coisas
sensíveis e para conservá-las. - Observe-se, além disso, que se os ani
mais se movessem somente porque uma sensação é agradável ou desagra
dável, bastaria admitir neles apenas o conhecimento das formas percebi
das com os sentidos, em frente aos quais sentem prazer ou repulsa. O
animal tem, por sua vez, necessidade de buscar ou de fugir de algumas
coisas, não apenas porque são ou não são agradáveis às sensações, mas
ainda para outras funções e utilidades, ou então, para certos danos. Assim
a ovelha, vendo o lobo, foge, não porque lhe desagrada a cor ou a figura,
mas porque é seu inimigo natural; igualmente, o pássaro recolhe os
gravetos, não porque são agradáveis aos sentidos, mas porque úteis na
fabricação do ninho. É, pois, necessário que o animal perceba esses dados
intencionais que não se enquadram nos sentidos externos. Por isso é ne
C ssário reconhecer que existe principio operativo distinto dessas percep-
66 Fenomenologia do homem
ções, pois elas não derivam das transmutações dos sentidos, como a per
cepção das qualidades sensíveis.
"Concluindo, para apreender as qualidades sensíveis servem os senti
dos próprios e o senso comum. - Para recolher, porem, e para conservar
essas percepções, temos a fantasia ou imaginação; e sendo propriamente
a fantasia ou a imaginação, que são a mesma coisa, uma espécie de recep
táculo das formas apreendidas através dos sentidos. - Para, por sua vez,
apreender dados intencionais, que fogem aos sentidos (próprios), temos a
estimativa. - Finalmente, para conservar esses últimos temos a memó
ria, que é como um receptáculo desses dados intencionais. Entre esses
dados intencionais vai também computada a percepção do passado en
quanto tal, que é objeto da memória.
"Deve-se notar ainda que, no que diz respeito às percepções dos senti
dos, não há diferenças entre o homem e os outros animais; análogas, de
fato, são as mudanças que os objetos sensíveis e externos sofreram. Há
uma diferença, no entanto, quanto aos dados intencionais supramencio
nados: pois que os outros animais os percebem só por certo instinto natu
ral, enquanto o homem pode alcançá-los mediante uma espécie de arra
zoado. Por certo, esta faculdade, que nos outros animais é chamada
estimativa natural, no homem denomina-se cogitativa, visto que reagrupa
essas imagens intencionais através de um tipo de raciocínio. Eis porque
essa faculdade, à qual os médicos dão como órgão determinado a parte
central do cérebro, é também chamada razão particular; ela recolhe os
dados cognitivos concretos, como a razão intelectiva recolhe os universais.
- Quanto à memória, o homem não só possui, como os outros animais, a
capacidade de recordar espontaneamente o passado, mas possui, também,
a reminiscência, mediante a qual busca evocar as recordações com um
procedimento quase silogístico a respeito de dados cognitivos concretos e
indi viduais"2.
Dentre os sentidos, atenção especial merece a fantasia, pelo papel
extraordinário que desempenha na consciência humana. Por esse motivo
lhe reservamos um estudo adequado. Aqui, faremos estudo de algumas
questões que dizem respeito a todo conhecimento sensitivo em geral. An
tes de tudo estudaremos a questão concernente ao seu caráter intencio
nal. Do conhecer intelectivo e também do imaginativo podemos duvidar
que tenham uma referencia objetiva (e é isso que se entende por caráter
intencional). Uma dúvida desse tipo já não pode ser feita nos confrontos
do conhecer sensitivo. Berkeley observa que "por mais poder que eu tenha
sobre os meus pensamentos, devo constatar que as idéias percebidas com
2 S w nma TILeologiae I, 78, 4.
o conhecer sensitivo e intelectivo
67
os sentidos não dependem de minha vontade. Quando na luz plena do dia
eu abr~ os olhos.' não é meu o poder de escolher se verei ou não, ou o de
d~termmar. quaIs os objetos particulares que se apresentarão à minha
~Ista; e aSSIm também com a audição e com os outros sentidos as idéias
Impressas neles não são criadas por minha vontade"3. '
0.utra questão concerne ao modo como os sentidos tornam-se cientes
?as COIsas. A e~se ~robl~~a fo_ram dadas várias soluções. Segundo alguns,
ISSO ocorre deVIdo ,a asslmllaçao: toma-se consciência da lua, da casa, do ca
valo,. porque partIc~las dessas ,coisas são captadas e retidas pelos nossos
sentIdo~. E, a so.luçao de Anaxagoras e dos atomistas. Segundo outros, a
percepçao e deVIda a uma espécie de vibração: as coisas transmitem cer
tas ~ndas eletro~agnética~ ou sonoras, de outro tipo, que provocam nos
sentI~os essas vI~rações . E a solução proposta por muitos cientistas, de
um seculo par~ ca. Se~ndo a maior parte dos filósofos, de todas as épo
cas, .a percepçao das COIsas, pelo contrário, ocorre por imitação: as coisas
suscIta~ ~os sentidos uma imag~m de si ~esmas; mediante essa imagem
de que Imita e re?rod~z, os sentIdos adqUIrem conhecimento das coisas.
. Outra q~e.stao cal sobre o significado e sobre a importância do conhe
CImento ~e~sItIvo. Que importância tem o conhecimento que nos é forneci
do pela VIsao, pela audição, pelo paladar etc.?
. ~m geral, ~s filósofos estão de acordo no reconhecer que sem a contri
b~Içao dos s~m~Idos o homem não pode adquirir conhecimento algum. Tam
bem os plat~~Icos, que sustentam uma origem inata do conhecer racional
devem admItIr que o homem não pode tomar consciência desse conheci
ment? de outro mo?o a não ser mediante uma investigação pelos sentidos.
A ~alOr parte, _pore~, está de acordo com Aristóteles, o qual afirmava que
no m~electo nao .exlste nenhum conhecimento que não seja transmitido
atraves dos sentIdos. Com efeito, a experiência nos diz que mesmo não
sendo completamente reduzido aos sentidos, o conhecimento encontra neles
O seu pon~o de p~r~i?a. Aquele que não possui a vista ou não ouve encon
tra-se na ImpossIbIlIdade de formar certas idéias.
. <?s filósofos, algumas vezes, também discutem qual seria o sentido
mals.lmportante.: a v~são é melhor que a audição? No pensamento filosófi
co OCIdental, de msplração helênica, dá-se sempre a supremacia à visão.
Valha por todos o testemunho de Aristóteles. Ele, no início da Metafísica
(980 a), escreve: "Os homens, por instinto, desejam o saber. A prova está
no fato de que neles o prazer é acompanhado das sensações por si mesmas
sobre todas as outras ressalta-se a da visão. De fato, nós preferimos
dontre todas as sensações a da vista, não apenas quando precisamos dela
" G. Berkeley, Tratato dei principi deUa conoscenza umana, Sansonl, Florença, 1933, n. 29.
68 Fenomenologia do homem
para agir, mas também quando não nos propomos nenhuma ação. Ajusti
ficação desse fato é devida à maior contribuição de conhecimento que a
vista nos fornece, mostrando múltiplos aspectos de um objeto". Ao contrá
rio, nopensamento árabe, hebraico e hindu, em geral, surge a supremacia
da audição. A razão desta diversidade deve ser procurada na que vem a
ser considerada como fonte suprema de verdade no mundo helênico e no
mundo oriental. Para o mundo helênico, a fonte suprema é a natureza, a
qual está diante de nós como algo para contemplar, para ver, e não para
ouvir. De modo contrastante, no mundo religioso oriental a fonte suprema
de verdade é a divindade, a qual é invisível, mas pode entrar em contato
conosco mediante a palavra e, então, nós podemos atingir a verdade me
diante o ouvir, por meio da audição.
Anteriormente, observamos que o conhecimento sensitivo é dom tan
to dos animais como também é dom dos homens. Mas é fácil constatar que
esse dom não é distribuído da mesma maneira. De um lado, no que concerne
aos sentidos singulares, encontramos que existem animais que possuem
conhecimento superior ao do homem. O cachorro, por exemplo, possui 01-
fato mais perfeito; o morcego, tato mais sensível; o lince, visão mais agu
da. No entanto, no seu conjunto, como no uso dos sentidos singularmente,
o homem os supera de longe. Sobretudo ele os supera porque sabe inven
tar instrumentos para adquirir sensações que nenhum outro animal, se
quer mesmo os mais equipados de vista, de audição, de tato etc., está em
condições de compreender.
3. Conhecer imaginativo e atividade estética
a) A fantasia e as suas funções
Na seção precedente viu-se que o homem é dotado de vários sentidos
internos dos quais o mais importante é a fantasia. Com essa faculdade,
ele retém as percepções das coisas adquiridas pelos sentidos externos,
apresenta-se-as quando quer e as combina como melhor lhe agrada. A
fantasia é, por isso, assim definida: "é a faculdade ou a atividade mental
que produz, conserva, reproduz e cria (entendendo a criação no seu sentido
impróprio) imagens, também independentemente da presença dos obje
tos aos quais as imagens próprias correspondem. Tal faculdade ou ativi
dade, devido ao seu poder de formar imagens, foi também chamada de
imaginação"4.
• Enciclopédia fi losófica, I ed., voI. 11, coI. 264 .
o conhecer sensitivo e intelectivo 69
Com a fantasia, por exemplo, não podemos apenas trazer à mente a
imagem de um grande edifício como o edifício Itália, em São Paulo, mas
podemos, também, facilmente representar-nos uma cidade inteira feita de
arranha-céus, como o edifício Itália. A fantasia não se satisfaz em repro
duzir o mundo assim como o percebemos, mas pode também inventar no
vos mundos, diferentes e melhores que o nosso; ela é por natureza livre e
criadora.
Usualmente distinguimos quatro funções ou formas principais de fan
tasia: onírica, estética, prática e especulativa.
N a função onírica (ou seja, aquela relativa aos sonhos) a fantasia com
bina imagens sem que nós, conscientemente, as dirijamos. O sono e as fan
tasias de quando estamos dormindo, mas quase acordados, nos surpreen
dem freqüentemente pelas combinações inesperadas que fazem acontecer.
São verdadeiras e próprias sínteses, também aqui, de objetos, de fatos, de
discursos, de aventuras através de todas as formas e de todos os graus do
fantástico, do maravilhoso e do irreal.
Na função estética ou artística, os elementos formados pelo livre jogo
da fantasia acabam por concretizar-se em combinações harmoniosas, que
exprimem o estado de espírito do autor em uma forma nova, capaz de sus
citar sentimentos parecidos também nos outros. No caso das produções
artísticas, a atividade da fantasia transforma-se verdadeiramente em in
venção, criação, síntese em geral.
Na função prática, a fantasia completa o pensamento lógico. Um
homem de finanças, um homem da política, um comandante, em suas fun
ções podem exprimir tanta fantasia como os artistas nas combinações ou
sínteses artísticas. Não se pode chegar a certas soluções de problemas
concretos mediante cálculo exato e com o frio raciocínio, mas sim com
a perspicaz intuição da fantasia. O pensamento estruturado logica
mente, poderia, igualmente, responder às mesmas soluções, mas reque
reria freqüentemente tempo muito maior. Por exemplo, o general que
prepara os seus planos para batalha recorre, freqüentemente, ao uso da
fantasia.
Na função especulativa, a fantasia pode concorrer para a formação
das construções intelectuais da ciência e da filosofia. Nesses campos, cada
projeto é preparado pela fantasia, especialmente no que concerne à for
mulação das hipóteses.
À fantasia nem todos os filósofos atribuem a mesma importância. Para
a lguns, por exemplo Hume, é a principal faculdade do homem. Segundo
Hume, é mediante a fantasia que se obtém todos os conhecimentos mate
máticos, geométricos e científicos. Ela opera segundo algumas leis cons
luntes e universais, que lhe permitem construir certos esquemas estáveis
70 Fenomenologia do homem
da experiência. Por exemplo, associando várias sensações relativas ao ca
lor do fogo, ou mesmo da umidade da água, a fantasia chega à idéia de que
o fogo esquenta e que a água molha.
Porém, a maior parte dos filósofos confere à fantasia lugar intermediá
rio entre os sentidos e a razão, ou intelecto. Todavia, quanto à importância
de sua função, não são todos do mesmo parecer. Os platônicos (Platão,
Plotino, Agostinho, Descartes, Spinoza, Leibnitz) são um tanto quanto crí
ticos nos confrontos da fantasia, porque, para seu juízo, ela ao invés de se
aproximar da realidade, leva a mente ainda mais longe dela. Segundo
Platão, a realidade é o mundo das idéias; o mundo físico já é uma cópia; as
percepções sensitivas são copias de segundo grau; as imagens da fantasia,
enfim, de terceiro.
Por outro lado, os aristotélicos e os kantianos consideram a atividade
da fantasia como momento essencial do conhecimento racional, ou, en
quanto vêem nas imagens fantásticas (fantasmas) o material do qual o
intelecto extrai os conceitos (Aristóteles), ou também porque vêem nessas
imagens os primeiros esquemas das percepções sensitivas, que precedem
e possibilitam as classificações do intelecto (Kant).
Ao nosso juízo, a fantasia é faculdade extremamente importante e
característica do homem, porém mais por sua contribuição teleológico-prá
tica do que pela gnosiológico-especulativa. Sem dúvida é importante tam
bém essa última, porque a fantasia serve como ponte entre os sentidos e a
razão; mas é importante sobretudo a primeira contribuição, porque com
seus sonhos, seus projetos e suas visões utópicos, a fantasia alimenta aquele
impulso de autotranscendência que move continuamente o homem e o
empurra mais para diante.
Por esse motivo, recentemente alguém quis definir o homem como ser
immaginicus5• Segundo H. Cox, graças à fantasia o homem possui a capa
cidade "de reviver e de antecipar, de refazer o passado e de criar um futuro
completamente novo. A fantasia é o húmus de onde se desenvolve a capa
cidade do homem de inventar e de renovar. A fantasia é a fonte mais rica
da criatividade humana"6. Fantasia, sustenta Cox como muitos outros
estudiosos dos séculos XVIII e XIX, quer dizer mais do que imaginação.
Essa última se limita a abrir as portas das situações que nos estão nor
malmente fechadas, mas pertencem a mundo já conhecido e familiar. Ao
contrário, a fantasia as introduz em mundo completamente novo. "Ela
suspende não só as regras do viver civil, mas toda a estrutura da 'realida
de' cotidiana. Na fantasia não só transformamo-la na forma ideal de nós
'A {esta dos foliões, Ed. Vozes, Petrópolis , 1974.
6 II . Cox, o.c., p . 59.
o conhecer sensitivo e intelectivo 71
mesmos, mas também em seres completamente diferentes. Abolimos os
limites das nossas possibilidades e do nosso conhecimento"7.
b) A arte: sua natureza e funções
Já vimos que entre as funções fundamentais desenvolvidas pela fan
tasia aparece também a estética. Ademais, todos os grandes teóricos do
fenômeno estético (Vico, Hegel, Croce e outros) estão de acordo em consi
derar a arte como produto da fantasia. Portanto,é oportuno, nesse ponto,
aprofundarmo-nos um pouco no fenômeno estético, que é certamente um
dos mais tipicamente humanos e também um dos mais sugestivos da na
tureza espiritual do ser do homem.
Perguntar-nos-emos, portanto: O que é a arte? Quais são os procedi
mentos com os quais o homem obtém as produções artísticas? Qual a fun
ção e o valor da arte?
Arte é tudo o que é belo: a arte tem como objeto o belo, assim como a
ciência tem por objeto o verdadeiro, a moral, o bem, a técnica, o útil. Nesse
ponto a concordância dos filósofos é próxima do absoluto. Mas pratica
mente a concordância acaba aqui, porque a disparidade é grande nas opi
niões em torno do belo, acerca das faculdades que estão comprometidas na
sua produção e na sua percepção, acerca da função e do valor da arte,
/lcerca de suas relações com outras manifestações culturais como a filoso
fia, a religião, a política, a moral etc.
Na Antigüidade e na Idade Média
Os pensadores da Antigüidade e da Idade Média, não consideravam a
nrte como atividade primária do espírito: ela é, certamente, inferior à ciên
('ia, à filosofia, à moral e à religião. Os antigos põem em primeiro lugar a
v rdade e designam a supremacia das faculdades humanas que mais se
IIproximam da verdade. Tais são: a ciência e a filosofia, do ponto de vista
ospeculativo; a moral e a religião, do ponto de vista prático. Em vez disso,
II arte, do ponto de vista especulativo, pode apenas fornecer certas imita
t;( s (a arte é, de fato, essencialmente uma mimes is, uma imitação); en
quanto do ponto de vista prático, muitas vezes constitui um obstáculo para
IIlcançar a verdade. E é daqui que surgem as ásperas críticas de Platão e
ti Santo Agostinho a tantas manifestações artísticas.
Quanto ao belo, que, como foi já visto, é objeto da arte, os filósofos
rf gos e medievais o definem como o que é agradável à vista (pulchrum
• Ht quod visum placet) e fazem depender tal prazer (a satisfação estética)
, II . Cox, O.c., p . 62.
72 Fenomenologia do homem
de algumas qualidades do objeto, em particular da integridade, da ordem,
da harmonia e do esplendor. Eles consideram a beleza parte da verdade e
da bondade; concebem-na, portanto, como relação de conveniência, de har
monia, porém não mais entre as coisas e as faculdades apetitivas como a
bondade, ou entre as coisas e a inteligência como na verdade, mas sim
entre o objeto e a vista; daqui a definição: belo é o que dá prazer à vista.
Enquanto Platão e Aristóteles concebem a arte essencialmente como
imitação da natureza, os pensadores cristãos da Antigiiidade e da Idade
Média a interpretam como imitação de Deus. Por conseguinte, "unidade,
harmonia, proporção, integridade, congruência, conveniência da bela for
ma, em suma todos os conceitos estéticos que os cristãos haviam herdado
da época clássica adquirem novo timbre na sua reexecução: todas elas são
reconhecidamente conhecidas como beleza para eles, porquanto perten
cem ao ato que expressa e manifesta o Espirito absoluto que contém o
mundo na sua potência criadora e por isso o faz belo. Nenhuma coisa seria
bela se não viesse de Deus: é o motivo que recorre das Confissões de Santo
Agostinho no ltinerarium de São Boaventura. O Deus cristão é o 'gênio' da
nova estéticas.
No Renascimento
Durante o Renascimento, que é também a época de ouro das artes
figurativas, não poderiam faltar investigações em torno da natureza da
obra de arte. Tais investigações, em alguns casos, são desenvolvidas pelos
próprios autores dos mais célebres trabalhos da pintura, escultura, arqui
tetura de todos os tempos: Leon BattistaAlberto, Leonardo da Vinci, Girgio
Vasari e outros. As suas considerações baseiam-se, além de Aristóteles,
também, antes e sobretudo em Platão. Dele se apreciam, sobretudo, as
doutrinas sobre o amor (eros), sobre a geração criativa (todos) e sobre o
entusiasmo lírico (mania).
A concepção estética de Vico
Desenvolvimento decisivo da história da estética foi registrado por
Giambattista Vico. Para ele, a arte não é mais concebida segundo a ma
neira mimética, e sim como modo fundamental e original de exprimir, pelo
homem, determinada fase de seu desenvolvimento. Segundo Vico, como é
conhecido, tal desenvolvimento comporta três fases ou idades: do sentido,
da fantasia e da razão. A arte é o modo característico de exprimir-se na
idade da fantasia: nessa idade o homem deu expressão à sua maneira d
entender a realidade, nas criações da fantasia, nos poemas, nos mitos etc.
8 L. Stcfunini, Estetica, Studium, Roma, 1953, p. 19.
o conhecer sensitivo e intelectivo 73
"A sabedoria do paganismo devia começar de uma metafísica não racional
e abstrata, como é a dos Doutrinados, mas sentida e imaginada como o era
por esses primeiros homens".
A mente dos homens antigos, incapaz de usar a razão lógica e rebelde
ao esforço da abstração e do raciocínio, é naturalmente levada a substituir
ou antecipar ? proc:ss~ ~bstrativo mediante a fantasia. E de modo tal, que
em.vez de umversalS logrcos se formam universais fantásticos, fantasmas
?u, ~magens qu~ ficam com o lugar de verdadeiros universais, ou seja, das
IdeIas ou conceItos elaborados pela razã09•
A concepção estética de Vico, combatida asperamente em seu primeiro
~arecer, porquanto se chocavam com o preconceito cartesiano então
lm~erante, segundo o qual a razão pode atingir a verdade das coisas, foi
maIS ~arde. calorosame~te aceita e amplamente seguida pelos românticos e
pel?s ld~ahstas (S~helhng e Hegel), os quais, reagindo contra os excessos do
raclOnahsmo e do Iluminismo, atribuíam grande importância às faculdades
da fantasia e do sentimento com relação ao conhecimento da verdade.
Kant elabora nova teoria sobre as obras de arte
Te.o~ia ~ingular.da natureza das obras de arte, teoria em parte ditada
~or eXIgencIas de sIstemas, foi elaborada por Kant, na obra Crítica do
Juízo. Nessa obra, o autor procura mostrar que a obra de arte não é nem
uma i~itação da natureza e muito menos uma interpretação metafísica
?a reahdade e que, portanto, não é produzida nem pela fantasia nem pelo
mtelecto. Ela, ao contrário, é e~sencial~ente fruto do sentimento, o qual,
na obra, de arte ?ercebe e exprIme o umversal no particular, o inteligível
no sens~vel, o numeno no fenômeno. E assim faz surgir o prazer estético
que satIsfaz todo o homem enquanto produz profunda harmonia entre as
faculdades opostas dos sentidos e do intelecto lO•
O problema estético segundo Benedetto Croce
O pr~ble~a estético ocupa lugar de singular relevância nas especula
ç es ~os Ideahstas e dos não-hegelianos (Croce, Gentile). O seu objetivo é
fundIr os motivos mais originais das teorias de Vico e de Kant. Do primei
ro extr.aem, a tese segundo a qual a arte representa um momento preciso e
II capItal Importância na história da humanidade; do segundo, tomam a
li se segundo a qual a arte é representação do Absoluto em forma sensível.
. ~enção à parte merece Benedetto Croce, porque, a meu ver, conse
I{IIlU SItuar alguns aspectos essenciais do fenômeno estético. Croce define
,: Mondin, História da Filosofia, Paulus, São Paulo.
Ib., pp. 218-220.
74 Fenomenologia do homem
a arte como "intuição lírica do particular". De tal definição resulta que os
elementos constituintes da arte são dois: a intuição (ou representação fan
tástica ou imagem) e a liricidade (ou sentimento, estado de animo). A arte
é, antes de tudo, intuição, ou seja, percepção imediata e direta do objeto. A
arte "não classifica os objetos, não os diz reais ou imaginários, não os defi
ne; sente-os, representa-os. Nada mais. E, por isso, enquanto é o conheci
mento concreto e não abstrato, e de tal maneira que colhe o real sem alte
rações e falsificações , a arte é intuição; e enquanto o oferece em sua
imediaticidade não se deve dizer ainda intuição pura, isto é, interposto e
esclarecido pelo conceito: eis a arte"ll.
A arte, além disso, possui caráter lírico, porque está compenetrada de
sentimento, de paixão.Do sentimento surge a liricidade. Graças à combi
nação do sentimento com a intuição, adquire valor a definição da arte
como intuição lírica do particular.
Na síntese ou combinação da imagem com os sentimentos, esses últi
mos desenvolvem o papel te elemento material e a imagem o formal. Sen
timento e imagem constituem por isso um todo inseparável. A arte não é
matéria mais forma, ou forma mais matéria, como dois elementos belos e
feitos que se conjugam um com o outro com a aplicação mecânica da forma
ou da intuição ao sentimento: a arte é síntese de matéria e forma. Da arte
se pode repetir o que Kant falava sobre os juízos sintéticos a priori: o sen
timento sem imagem é cego, e a imagem sem sentimento é vazia. "Sem
qualquer coisa para intuir e para exprimir, o que seria do poeta? e seria
poeta se repetisse materialmente alguma coisa, sem transformá-la em in
tuição pura?"12
Segundo Croce, a arte é uma das quatro atividades fundamentais do
Espírito, o qual nessa atividade age segundo a dialética do belo e do feio
(enquanto na lógica, age segundo a dialética do verdadeiro e do falso, na
economia, do útil e do inútil, e na ética, do bem e do mal).
O significado da arte para os modernos
O significado espiritual da arte foi posto repetidas vezes em questão
durante o último século por autores que se inspiram mais ou menos dire
tamente no positivismo. Alguns, como Taine, reconduzem a arte a teorema
de mecânica psicológica, ligada aos três fatores concorrentes da raça, do
ambiente e do momento, outros, como Marx, vêem na arte uma superes
trutura determinada pelas relações entre os meios de produção internos
de sociedade particular; outros, como Freud, consideravam a arte como
11 B. Croce, Nuoui saggi di estetica, Bari, 1919, p. 28.
12 B. Croce, Logica come scienza dei coneetto puro, Bari, 1909, p . 154.
o conhecer sensitivo e intelectivo 75
sublimação do instinto sexual; outros, enfim, como Dverak, consider am a
arte como critério hermenêutico da história da cultura.
Contra essas interpretações positivistas da arte, tomaram posição os
filósofos da Gestaltschule (escola da figura) . Segundo esses autores, o co
nhecimento de condições histórico-psicológicas não ajuda, de fato, a com
preender uma obra de arte. A única coisa que importa é a figura sensível,
isto é, importam os valores táteis ou os da pura visibilidade, ou até os
elementos contrapontistas e tonais da execução musical, tomados global
mente, como um todo, e não fragmentariamente.
Atualmente muitos filósofos que se inspiram no neopositivismo e os
analistas da linguagem não enfrentam mais o problema da natureza da
arte em si mesma, mas de maneira muito indireta, procurando estabele
cer qual seja o sentido da linguagem estética e se existem critérios válidos
para certificar-lhe a presença (como determinar, também, o significado
objetivo das proposições científicas existem os critérios da verificação ex
perimental ou mesmo da falsificabilidade).
Valor criativo e espiritual da arte
A lição que podemos colher, ao fim dessas breves notas em torno da
história do problema da natureza e da função da arte, parece-me que pode
ser a seguinte. A arte não é simples imitação de idéias arquetípicas ou de
fatos naturais. Para caracterizar-se como esteticamente bela, uma obra
deve ser algo mais e diferente do que já existe no mundo da natureza, ou
mesmo da cultura. Para se fazer uma obra de arte, precisa-se de originali
dade, criatividade. A arte é, em certo sentido (certo que não no sentido
literal) uma criação, mais precisamente transformação radical dos ele
mentos que o artista tem à sua disposição: os elementos que lhe são forne
cidos pela técnica, pela observação, pela inspiração. O que resulta é quali
ficado como belo se apresenta traços de absoluta novidade. O trabalho do
artista pode ser comparado com o da abelha: ele não cria, mas assimilan
do elementos já existentes, produz uma realidade absolutamente nova. A
arte pode absorver várias finalidades (pedagógica, moral, religiosa,
metafísica, política etc.), porém tem finalidade intrínseca, propriamente
sua: exprimir em maneira lírica (com palavras, sons, cores etc.) uma in
tuição singular e surpreendente da realidade. A arte é fruto da imagina
ção, porque dessa são dotados também os animais, os quais, todavia, não
produzem obras de arte. A arte faz supor uma imaginação fecundada pela
razão; por isso, o fenômeno artístico é especificamente humano. A arte é
uma síntese de imaginação, sentimento e genialidade. Isso explica porque
os grandes artistas são sempre superdotados no que concerne à imagina
ção, ao sentimento e à genialidade.
76 Fenomenologia do homem
Anteriormente assinalamos o fato de que na arte se torna claro o ca
ráter espiritual do ser humano. Isso é verdadeiro sobretudo nas. grandes
obras-primas da humanidade. Quem não é impelido para o honzon_te do
espírito das grandes obras-primas da humanidade: da contemplaçao da
Basílica de São Pedro, do Moisés ou da Pietà de Michelangelo, da Transfi
guração de Rafael, do Palácio dos D~ges, do Monastério de Zagorsk, das
igrejas do Krêmlin, das Tragédias de Esquilo, de Sófocles, de S~akespeare,
da leitura das obras de Dante, Petrarca, Manzoni, Goethe, NIetzsche, de
ouvir as músicas de Bach, Beethoven, Verdi, Wagner e outros?
N as obras artísticas o homem cumpre o maior esforço para ultrapas
sar cada confim espacial e temporal e procura impulsionar-se para o abso
luto, para o perfeitíssimo, o sublime, o eterno. ~a a~te transparece melhor
que em qualquer outra atividade humana o dmamIsmo da autotranscen
dência. Sobre o significado de tal dinamismo, para o ser do homem, nos
ocuparemos na segunda parte deste ensaio.
4. Conhecer intelectivo
Além do conhecer sensitivo e do imaginativo, o homem é dotado de
conhecer de outro tipo, que não tem mais como objeto o particular, ~ sensí
vel, o material na sua particularidade e como concretude nos dOIS casos
precedentes, mas sim o universal e o abstrato. ,
A existência na mente humana dessa outra forma de conhecer e docu
mentada por muitos fatos. Antes de tudo pela posse de idéias u~iversais .
O homem, por exemplo, não conhece apenas esta ou aquela maça, est~ ou
aquele livro, este ou aquele pinheiro, mas a maçã enquanto tal: o .h~o
enquanto tal; o pinheiro enquanto tal. Além disso, o hom~m pOSsUI a IdeIa
da bondade, da virtude, do esporte, do trabalho, da socIedade etc. Tod.as
são idéias que não se referem a nada de material ou de concreto, mas SIm
a algo de universal e abstrato. O conhecer intelectivo é documentad~, ~am
bém pela capacidade de julgar e de raciocinar. O homem formula JUIZOS,
, ." d" "o fogo proposições universais, leis geraIS, como os corpos pesa os caem ,
queima", "o vidro, também se é transparente, é impenetrável" etc. ,O ~o
mem raciocina: chega a certas idéias refletindo sobre outras, chega a eXIS
tência de algo pela existência de outra coisa. Como último documento do
conhecer intelectivo recordamos a ciência. O homem sabe coordenar os
conhecimentos de forma sistemática; divide-os, classifica-os segundo os
seus argumentos e obtém, assim, teorias gerais para as várias esferas da
realidade, como o quer a ciência.
o conhecer sensitivo e intelectivo 77
a) Origem do conhecimento intelectivo
Para o conhecimento sensitivo existem faculdades adequadas que o
produzem. Por exemplo, os sons são percebidos pela faculdade da audição;
as cores pela visão. Igualmente, cabe admitir para o conhecimento que
descrevemos até aqui: é necessária uma fonte que gere em nossa mente
essas idéias, esses juízos, esses raciocínios, esses grupos ordenados de co
nhecimento. Qual é essa fonte?
Sobre essa questão, os filósofos dividiram-se profundamente. Alguns
(os platônicos) afirmam que o conhecimento intelectivo não é produzido pelo
homem, mas sim recebido de uma fonte superior. Outros (os aristotélicos e
os kantianos) afirmam que ele é fruto da ação do intelecto humano.
As razões que induziramos platônicos (Platão, Agostinho, Descartes,
Leibnitz, Malebranche, Rosmini, Gioberti) a dar origem divina ao conhe
cer intelectivo são duas.
Em primeiro lugar, o desejo de dar fundamento seguro, garantia absolu
ta, capaz de dissipar qualquer dúvida, ao conhecimento humano. Em segun
do lugar, certas propriedades, como a absoluta necessidade, imutabilidade,
universalidade que apresentam alguns de nossos conhecimentos, que a men
te humana, finita e mutável, não parece em condições de assegurar. Eis como
Agostinho, em uma célebre passagem de O livre-arbítrio I3 , formula estas
razões: "Se essa verdade fosse da mesma natureza que a nossa mente, seria
também ela, sujeita ao devir. Se a verdade permanece sempre inalterada,
não ganha nada quando a vemos mais claramente, mas intacta e sã conti
nua a iluminar os que têm o olhar fixo sobre ela, e, de modo contrário, pune
com a escuridão os que viram o olhar para outro lugar. Além disso, julgamos
o nosso conhecimento mediante a verdade, mas não podemos nunca subme
ter ajuízo a própria verdade. Dizemos, por exemplo, que a nossa mente en
tende menos daquilo que deveria entender, ou então que não compreende
quanto deveria compreender; porém a mente deveria compreender mais
enquanto se aproxima e entra em contacto com a verdade eterna. Portanto,
se a verdade não é nem inferior nem igual à nossa mente, ela deve ser mais
levada e mais nobre". Essa verdade eterna, segundo Agostinho, é inculcada
m nossa mente por iluminação. Do mesmo parecer de Agostinho são tam
bém Malebranche e Rosmini. Ao contrário, Platão ensinara que a mente ti
nhajá contemplado as Idéias no Hiperurânio, antes de descer sobre a terra;
aqui, a sua tarefa é a de trazê-las de volta à memória. Quanto a Descartes e a
Leibnitz, afirmam que o conhecimento intelectivo é inato: posto por Deus
m nossa mente desde o nascimento.
13 II, c. 13, n. 3499.
78 Fenomenologia do homem
Aristóteles, Kant e todos os seus numerosos discípulos não acharam
plausível a explicação platónica da origem do conhecimento intelectivo,
sobretudo por três motivos:
a) porque não temos consciência de uma origem, externa a nós de tal
consciência;
b) porque uma origem externa não perceberia nem os seus defeitos,
nem a sua progressividade;
c) porque entregar a uma fonte diversa do homem a origem do conhe-
cimento intelectivo é privar o homem daquela que é, indiscutivelmente, a
sua atividade mais nobre e mais original.
Santo 'lbmás julga insustentável a posição platónica pelas seguintes
razões: "Primeiro porque, se a alma tem noção natural de todas as coisas,
não parece possível que caia em tanto esquecimento desse conhecer natu
ral, de ignorar até que possui tal conhecer. Ninguém, de fato, esquece o que
conhece por natureza, que o todo, por exemplo, é maior do que sua parte e
outras verdades do gênero. Mas a coisa é ainda mais insustentável se admi
timos que para a alma é natural estar unida ao corpo, como já demonstra
mos. É absurdo, com efeito, que a atividade natural de um ser seja total
mente impedida por aquilo que lhe compete por natureza. Segundo, a
falsidade de tal teoria aparece claramente no fato de que quando nos falta
certo sentido, vem a nos faltar a ciência das coisas que são percebidas por
meio desse sentido; assim, aquele que nasce cego não pode ter noção algu
ma das cores. Ora, isso não aconteceria se na alma fossem inatos os conhe
cimentos de todas as coisas inteligíveis. Devemos, então, concluir que a alma
não conhece os seres materiais servindo-se de idéias nela inatas".14
Hoje a solução platónica não encontra mais protetores. As razões,
porém, são, pelo menos em parte, diferentes daquelas em que se basea
vamAristóteles, Santo Tomás e Kant para rejeitá-la. A razão principal é a
visão moderna, secularizada pela realidade, a qual nos impede de postu
lar a intervenção de seres extramundanos para explicar acontecimentos
deste mundo. Hoje estamos profundamente convencidos de que as causas
do que ocorre neste mundo se encontram no próprio âmbito do mundo e,
portanto, que as causas do que ocorre no homem se encontram também no
mundo e, sobretudo, no homem. Outra razão é a constatação de que, de
pois de tudo, o nosso conhecimento não é dotado daquele caráter de abso
luta certeza, de imutabilidade, de eternidade que lhe atribuía Platão. Hoje
estamos mais do que conscientes dos limites do nosso conhecer. Sabemos
que ele é, em todos os casos, finito e mutável, parcial e relativo e que
comporta sempre uma boa dose de opinião.
14 8U1nma Theologiae, I, 84, 3; cf. também o artigo 5.
o conhecer sensitivo e intelectivo 79
Ficam, pois, assim as coisas: admitindo o fato de um conhecer huma
~o po.rtad~r de caráter intelectivo - isto é, não redutível aos sentidos e à
Ima~naçao -_e excluída a possibilidade de explicar a origem, a priori,
com ~ntervençao extramundana, devemos concluir que a fonte de tal co
nheCImento se encontra no próprio homem. Essa fonte se chama intelec
to ou então razão ou mesmo mente. Por meio dessa faculdade o homem
~o~.segue ti.ra~, ~ parti~ dos dados que lhe são fornecidos pelo~ sentidos,
Id~Ias gera:s, JU~zo.s unIversais, sistemas de informação. Obtém isso com
tres ope~açoes dIstmtas: aprendizagem, juízo e raciocínio. Na aprendiza
gem, .0 ~~telecto a?st,r~i a idéi~ universal; no juízo, associa ou separa
duas Id:I~S; no raclOcmlO, extraI uma nova idéia das idéias precedentes.
. ArIstoteles e ?S escolástic_os c~stumam distinguir duas funções, uma
atIva e outra paSSIva. N~ f~nçao.atIva, elabora a idéia universal, na passi
v~, re~ebe ; conserva a IdeIa unIversal. O intelecto que desenvolve a fun
çao atIva e chamado intelecto agente e aquele que desenvolve a função
passivo é chamado intelecto possível.
" Eis como ~a?to 'lb~ás demonstra a existência do intelecto agente:
. Devemos admItir tambem um intelecto agente. Efetivamente sendo o
mtelec~o. possível. em potê~ci~ com respeito aos inteligíveis (as idéias), é
necessarlO que sejam o~ propnos inteligíveis a fazer algo. Ora, o inteligível
po~qua~to depende d~ mtelecto possível não possui existência própria, ou
seJa" nao se torna ,eXIstente como inteligível. De fato, o que o intelecto
pos~Ivel apreen~e e o extrato de muitas coisas e se encontra existente em
mUltas dess~s COIsas. Mas tal coisa não é encontrada no reino da natureza.
E~fim.' se o mtelect? po~sí,vel deve. ser movido pelo inteligível, este deve,
pnmeIro, tornar-se mtehgIvel medIante um intelecto. E, não podendo isso
ocorrer m~diante ~ próprio intelecto possível, precisa-se pór além do inte
lecto p~sslvel um lI~telecto agente, que transforma os inteligíveis em ato,
os .quaIs m~vem o mtelect~ ~ossível. O i~telecto agente gera os inteligí
veI~, abst:aI~d.o-os ~a matena e das condIções materiais, que são os prin
CíplO.S da mdIvIdu~hzação. O que é possível porque a natureza da espécie
con~Id~ra~~ em SI pró~ria não possui algo que a torne multiplicável em
váriOS mdIVIduos e, por ISSO, a razão da individualização encontra-se exter
namen~_ da própri~ ~spé~ie .. E.ntão,. o intelecto pode receber a espécie sem
a condIçao ou.co~d~çoes mdIvIduahzantes, ou seja, como algo de idêntico
para todos os mdIVIduos. Pela mesma razão, o intelecto recebe a natureza
d.o gên~ro abstraindo as diferenças específicas, como alguma coisa de idên
tIco eXIstente em muitas espécies de onde é extraído"I5.
16 De anima, c. 4.
80 Fenomenologia do homem
A existência das operações e das faculdades do conhecer é negada
pelos positivistas e pelos behavioristas. Às suas objeções, Bernard Loner
gan replica eficazmente com o seguinte argumento: "Não obstante as
dúvidas e as negações dos positivistas e dos behavioristas, ninguém, a
menos que lhe falte algum dos órgãos, falará que na sua vida nunca
teve uma experiência de ver ou ouvir, de tocar ou de cheirar ou de de
gustar, de imaginar ou de perceber, de provar sentimentos ou de mover
se C .. ). Em breve, as operações cônscias e intencionais existem, e quem
se propõea negar a existência, não faz nada além de qualificar a si
mesmo como irresponsável, irracional, como sonâmbulo não inteligen
te" (H. Lonergan, Il metodo in teologia, Queriniana, Bréscia, 1975, pp.
39-40).
b) Propriedades do conhecer intelectivo
O conhecer intelectivo qualifica-se graças a várias características;
dessas, algumas encontraram maior consideração nos filósofos dos sécu
los passados e outras nos filósofos de nosso tempo. As mais importantes
são: universalidade, intencionalidade, mundanidade, perspectividade,
personalidade, historicidade.
Universalidade
A primeira qualidade que se encontra no conhecimento intelectivo é a
universalidade. Enquanto os sentidos e a fantasia representam-nos este
ou aquele banco, este ou aquele livro, este ou aquele homem, isto é, sem
pre um objeto particular, o intelecto representa-nos o banco, o livro, o ho
mem, ou seja, um sujeito universal.
Aqui não nos ocuparemos mais de como a mente adquire idéias dota
das dessa propriedade, questão de que nos ocupamos amplamente na se
ção precedente. Limitar-nos-emos a observar que esse dom não pode ser
desconhecido, a menos que se parta do preconceito empirista, segundo o
qual na mente não pode existir nada que já não exista nas coisas e, dado
que as coisas são singulares, eis que se torna necessário concluir que as
idéias são sempre singulares.
Com efeito, o caráter universal do conhecimento intelectivo encontra
amplo reconhecimento dos filósofos pertencentes às correntes mais diver
sas: entre os platônicos e os aristotélicos, entre os idealistas, entre os
espiritualistas e os marxistas. Devido à sua distância (não apenas espiri
tual!) aqui nos referiremos ao parecer de Platão e ao de Marcuse.
Em uma célebre página do Banquete, Platão descreve assim o cará
ter universal da idéia de beleza: "Ela é sempre, não se torna, não perece;
o conhecer sensitivo e intelectivo 81
não aumenta, não diminui. Em certo sentido é bela, em outro sentido,
feia, de modo que para alguns surge como bela e para outros feia. Não se
deverá, ainda, pensar nessa beleza possuidora de rosto, de mãos, ou de
qualquer outra coisa pertencente ao corpo. Certamente ela não é discur
so, e nem menos cognição. Não existe qualquer outra coisa, não em seres
viventes, não na terra, não no céu, não em qualquer outro elemento.
Desta Beleza nós participamos de modo misterioso. Mas as coisas belas
nascem e morrem. A Beleza nada sofre, por nada, maior ou menor tor
na-se ... "!6.
Marcuse, no seu famoso One dimensional men, primeiro define o
conceito como representação mental, na qual, "conteúdo e significado
são idênticos e, todavia, diferentes, comparando-os com os objetos reais
da experiência imediata. 'Idêntico' enquanto o conceito denota a mesma
coisa; 'diferente', enquanto o conceito é resultado de reflexão que captou
a coisa no contexto (e na luz) de outras coisas que não compareciam na
experiência imediata e que 'explicam' a coisa (mediação)"!? Depois ex
plica que "se o conceito não denota nunca coisa particular concreta, se é
sempre abstrato, em geral isso ocorre porque compreende tudo de uma
coisa particular; compreende também alguma condição ou relação uni
versal que é essencial na coisa particular, determinando a forma na qual
surge como objeto concreto de experiência. Se o conceito de coisa concre
ta qualquer é o produto de classificação, organização e abstração men
tais, esses processos levam à compreensão apenas à medida que
reconstituem a coisa particular na sua condição e relação universal, trans
cendendo de tal modo a sua aparência imediata em direção à sua reali
dade"!B.
Como exemplo de conhecimento universal, Marcuse analisa a propo
sição "os salários são muito baixos" (belo exemplo marxista!). "O sujeito
da proposição é 'salários', não a particular retribuição de um particular
operário encarregado de serviço particular. O homem que assim se expri
me não podia pensar em nada além de sua experiência individual, porém,
nas formas em que se exprime, ele transcende tal experiência individual...
A proposição é abstrata. Refere-se a condições universais que nenhum caso
particular pode substituir; o seu significado 'transitivo' (ou seja, vai além
da referência descritiva de fatos particulares), contrariamente ao signifi
cado de qualquer caso particular"!9.
16 Convlvio, 210 e 211 b.
17 H. Marcuse, Ideologia da sociedade industrial, Zahar, Rio, 1967).
18 H. Marcuse, o.c., pp. 122-123.
'9 H. Marcuse, o.c., p. 129.
82 Fenomenologia do homem
Intencionalidade
Por intencionalidade, entende-se a propriedade do conhecimento de
se transferir para qualquer coisa diferente de si mesma, ou seja, de tender
para um objeto. Esse conceito já está implícito na etimologia do termo
"intencionalidade" o qual deriva da tendere-in.
Essa característica praticamente nunca fora posta em dúvida até
Descartes, que foi o primeiro a considerar as idéias como objeto imediato
da consciência. Essa tese, depois, tornou-se popular em toda a filosofia
moderna. Berkeley, Hume, Kant, Fichte, Hegel resolvem o conhecimento
na autoconsciência, na reflexão do sujeito sobre si mesmo: ela não é mais
abertura em direção ao ser, tampouco representação das coisas.
A intencionalidade foi descoberta novamente nestes últimos cem anos
por obra dos fenomenólogos e dos existencialistas, em particular por obra
de Brentano, Husserl, Sartre, Heidegger.
Heidegger, em seu Sein und Zeit, demonstrou que a idéia de consciên
cia fechada em si mesma pode-se demonstrar somente a partir do momen
to em que o Dasein (o Ser-aqui, ou seja, o homem) libertou-se do movimen
to de transcendência que em cada momento o leva a libertar-se de si mesmo
e o esqueceu. É na auto-superação, neste andar além e fora de si (Existenz),
nesse ser presente, ser aberto e não na consciência enquanto subjetivida
de que, segundo Heidegger, consiste o ser do homem. Mas para o pensa
mento moderno, que procura tirar os Dasein desse sair de si mesmo em
direção às coisas, a consciência repousa inteiramente sobre si mesma e é
auto-suficiente. A verdade dessa consciência, à qual qualquer outra ver
dade é reduzida, é definida como certeza, a qual mistura-se mediante a
presença do eu a si mesmo. É, portanto, o grau de transparência da cons
ciência que revela o nível de sua verdade. Tal é a ontologia do subjetivismo,
o qual não é nada além de esforço dirigido para descartar inteiramente a
antologia, fazendo-a cair no esquecimento. Heidegger assumiu como pro
grama filosófico o de operar inversão radical dessa posição, e o que ele
chama de "destruição da metafísica" tem como objetivo relevar e reen
direitar os momentos sucessivos dos desvios que conduziram ao erro do
subjetivismo, erro esse que, negando a intencionalidade do conhecimento,
afirma, como Hegel e os idealistas, a identidade e a coincidência da pre
sença e do que é presente, da consciência e do ser.
Ainda mais claro, também se menos profundo, é o redescobrimento
da intencionalidade de conhecimento em Sartre. O autor de L'être et le
néant20 nos diz que, se interrogamos o plano da experiência imediata e
20 J . P. Sartre, L'essere e ii nulla, 11 Saggiatore, Milão, 1965.
o conhecer sensitivo e intelectivo 83
espontânea do mundo, deveríamos admitir facilmente que "nós não havía
mos jamais percebido nada além do universo objetivo"21. A experiência
revela diretamente objetos vistos e tocados, jamais simples sensações vi
síveis e táteis, dados exclusivamente como modificações do nosso estado
interior, sem referência a um objeto. Mesmo querendo ressurgir do mundo
perceptivo normal e já constituído, já profundamente cheio de matéria, de
conhecimentos, aos elementos primeiros da percepção, não se encontrarão
nunca impressões puras, pontuais e dissociadas, sem nenhuma indicação
sobre o objeto a que se referem; encontrar-se-ão, ao contrário, já manifes
tações de objetos, qualidade reveladora das coisas. "Reconhecer-se-á, sem
dúvida - nos diz Sartre - que nós nãoencontraríamos nunca, em nós,
aquela impressão fantasma e rigorosamente subjetiva que é a sensação;
admitir-se-á que eu não percebo outra coisa além do verde desse caderno,
ou daquelas folhas, mas nunca a sensação do verde, e tampouco do quase
verde que Husserl põe como matéria hilética que a intenção anima em
verde-objeto"22.
A experiência não autoriza, de forma alguma, a pôr entre a consciência
( o mundo o reparo das sensações ou das idéias. A percepção é ato global e
indivisível da consciência, que põe em contato diretamente com o objeto; é
"intuição originariamente oferente", que revela a coisa como tal. Não pode
mos concebê-la nem como mosaico de sensações atomistas dissociadas, e
t,lImpouco como o resultado da animação intencional de matéria passiva
mente colhida; ao contrário, é ato de transcendência de para-si que se
Hupera como imediata presença à coisa. O conhecimento é, de fato, para
Hnrtre, essencialmente intuitivo e a mesma noção de intuição implica a idéia
du presença imediata e sem reparos da coisa como ela é23.
Mas como foi dito no inicio, a intencionalidade é qualidade que os
1116sofos da Antigüidade e da Idade Média sempre reconheceram no co
nhecimento humano. Santo Tomás, por exemplo, dá hipótese contrária
\ gundo a qual os sentidos e o intelecto teriam como objeto as próprias
mpressões, diz: "Tal opinião é claramente falsa por dois motivos. Primei
ro, porque o objeto do nosso conhecimento se identifica com o objeto das
\,1 ncias. Logo, se nós conhecêssemos somente as espécies intencionais
pr sentes em nossa alma, resultaria que todas as ciências não teriam por
uhj to as causas reais existentes fora da alma, mas somente as espécies
(III se encontram nela. De fato, os platônicos, os quais pensavam que as
c\ ias fossem inteligíveis em ato, achavam que as ciências tivessem por
" J . P. Sartre, O.C., p. 391.
., J . P. Sartre, O.C., p. 392.
13 f. J . P. Sartre, O.C., p. 233.
84 Fenomenologia do homem
objeto as idéias. Segundo, porque disso resultaria o erro daqueles filósofos
antigos, os quais afirmavam que 'a verdade é o que parece a cada um'; e
assim seriam verdadeiras também as asserções contraditórias. De fato, se
uma faculdade conhece somente as próprias impressões, pode dar juízo
somente sobre elas. Logo um objeto parecerá (de um modo ou de outro)
segundo as disposições da potência cognitiva. Por isso, a potência cognitiva
será levada a julgar o próprio objeto, ou seja, as próprias impressões, se
gundo o modo de ser deles; logo, todos os julgamentos serão verdadeiros.
Se, por exemplo, o paladar percebe somente a própria impressão quando
alguém de gosto sadio julga que o mel é doce, dará julgamento verdadeiro,
mas dará julgamento igualmente verdadeiro um doente de gosto corrupto,
que o julga amargo; porque tanto um como outro julga segundo as disposi
ções do próprio gosto. E, assim, cad~ opinião e, em geral, cada ponto de
vista seria igualmente verdadeiro. E por isso necessário afirmar que as
espécies inteligíveis são o meio de que o intelecto se serve para conhecer (e
não o objeto conhecido) ... Portanto, a imagem ou semelhança do objeto
perceptível é o meio de que se utiliza a vista para ver e a semelhança do
objeto inteligível- isto é, a idéia - é a forma de que se serve o intelecto
para entender"24.
Mundanidade
A mundanidade (os alemães chamam-na Weltlichkeit) é a caracterís
tica pela qual a nossa consciência tem sempre uma relação com o mundo,
uma referência mundana25.
Essa qualidade é a conseqüência lógica e necessária da intencionali
dade: o conhecimento é essencialmente abertura, tendência em direção ao
ser e o ser que se acha ao seu alcance, é o mundo.
Isso é claro não somente para o conhecimento sensitivo, que não pode
ter outro objeto que não sejam as coisas materiais, mas também para o
conhecimento intelectivo. Todavia, há duas grandes correntes filosóficas,
a platônica e a idealista, que não reconhecem na consciência intelectiva o
dom da mundanidade; os platônicos porque acham esse conhecimento de
tal modo sublime, puro, incontaminado, absoluto para excluir toda mistu
ra com o mundo; já os idealistas, porque não dão ao conhecimento outro
objeto que não seja o próprio sujeito.
Mas a mundanidade do conhecimento que forajá abertamente afirma
da por Aristóteles foi novamente reconhecida pela filosofia contemporânea,
24 Summa Theologiae, I, 85, 2 .
.. Para uma análise cuidadosa do conceito de mundo ver E. Fink, II gioco, simbolo dei mondo,
Lerici, Roma, 1969, pp. 52·62, 259·281. Com relação ao conceito heideggeriano de "ser· no-mundo"
veja.se M. Heidegger, Lettera sull'umanesimo, S.E.I. , Turim, pp. 117· 118.
o conhecer sensitivo e intelectivo 85
não somente pelas correntes de pensamento como o positivismo, o
neopositivismo, o marxismo, o estruturalismo, as quais reduzem o raio do
conhecimento humano às coisas deste mundo, mas também pelas correntes
xistencialistas, personalistas ou a qualquer endereço que elas pertençam.
Essa qualidade fundamental do conhecimento humano foi excelente
mente ilustrada por Barbotin na sua obra Humanité de l'homme, onde ele
trata da polaridade entre visão e mundo. Entre outras coisas, escreve: "A
minha visão é visão de alguma coisa e essa coisa vem sempre situar-se no
horizonte sensível e intelectual que é o meu. O mundo conquistado, interpre
tado, admirado pela minha visão é inseparável disso. Essa simbiose da mi
nha visão e do mundo, para mim é, em suma, a história da minha existência:
inaugura-se nos primeiros instantes da vida, prossegue as suas mutações,
intensas e profundas, durante a juventude e a idade madura, estabiliza-se
IIIl velhice, cessa, enfim com a morte, ruptura entre o mundo e eu. É claro
lJue se, de uma parte, a minha visão me projeta em direção ao mundo, de
outra parte esse mundo, tal qual eu o vejo, retorna na minha direção, reflui
para a minha visão da qual não cessa de nascer, reflete-se no meu rosto e
modela as minhas feições. A visão diferencia-se como a palavra e a mão, no
marinheiro, no camponês, no montanhês e no homem da cidade. Da mesma
fhrma que o sol imprime a sua impressão de fogo sobre o rosto que o enfren
t.n , a visão e a contemplação-sensível e intelectual- exercitam poder trans
fhrmador. Não observa Platão que o contemplador das Idéias as limita e
torna-se nelas parte similar? Cada homem transfigura-se, assim, segundo
imagem que se tornou real. Como sou, assim vejo o mundo, mas também
vir -versa: como vejo o mundo, tal me torno. Em certos momentos este mundo
I'unfirma o significado que à primeira vista lhe dei e o que dou a mim mes-
1110, em outros ele os contesta e ajuda-me a modificá-los. Existir é ser si
III mo através de um corpo que vê (corps voyant) e um mundo que é visto
til/onde vu). Cada rosto é o espelho de um mundo'>26.
I ', 'rspectividade
Uma qualidade do conhecimento humano que ultimamente foi posta
'lar as é a da perspectividade. Ela, segundo o significado primeiro do
111' 010, denota a incapacidade de tomar todo o objeto de uma só vez, por
'I"' possuindo ele muitos aspectos e visto que quem os observa deve si
tllnr-se em perspectiva particular, não pode ser percebido inteiramente.
lIj{undo um significado mais profundo, perspectividade indica, absolu
tlim nte, a faculdade do conhecimento humano de adquirir só consciência
I I/II' 'ial da realidade. Devido a essa propriedade, também os sistemas filo-
I~ .C., pp. 235·236.
86 Fenomenologia do homem
sóficos mais ambiciosos permanecem sempre perspectivas, pontos de vis
ta que não exaurem todo o ser, mas dele representam apenas uma face.
Esse dom de nosso conhecimento não foi ignorado pelos filósofos do
passado, mas eles o consideravam quase apenas em relação a Deus. Sobre
seus atributos, diziam que são pontos de vista humanos, limitados e im
perfeitos. Spinoza considera os atributos do pensamento e da extensão
como dois pontos de vista, os únicos que a mente humana pode possuir da
Substância divina.Quem pôs às claras o caráter essencialmente perspectivo de todos os
conhecimentos humanos foram alguns filósofos do nosso século, particu
larmente Sartre, Ricoeur, Gadamer e Schillebeeckx.
Sartre mostra-nos que a realidade, o mundo é sempre dado a partir
de uma situação: a idéia do conhecimento sem ponto de vista, do conheci
mento "puro", é contraditório enquanto seria "conhecimento do mundo posto
por princípio externamente ao mundo".27 Não existe outra coisa que não a
consciência "empenhada" a partir de um ser-aí necessária para a cons
ciência e indistinguível dela: "Ser para a realidade humana é 'ser-aí'; isto
é, 'aí na cadeira', 'aí sobre aquela mesa', 'lá em cima daquela montanha
com aquelas dimensões, aquela orientação etc.' É necessidade ontológica''28.
O mundo, como também os objetos singulares, é dado através de perfis;
ele não se oferece jamais no absoluto da sua aparição global e incondi
cionada, mas sempre como "visto de", e portanto visto só em parte, em um
seu aspecto entre os infinitos possíveis que não podem ser nunca dados
contemporaneamente; se, com efeito, isso pudesse acontecer, se, isto é, a
consciência pudesse atingir contemporaneamente o mundo de todos os
pontos de vista possíveis, ela excederia o mundo, seria de todo desvinculada
dele e não seria mais consciência-do-mundo; correlativamente, o mundo
como tal se obliteraria como totalidade articulada e sempre aberta de ob
jetos, para se tornar, por sua vez, o en-soi indiferenciado, "indistinto pri
mitivo", "identidade de indiferença", "residuum inominável e impensável",
que é pura coisidade despida de toda referência organizadora. "Não pode
ocorrer - diz Sartre - que eu não tenha um lugar, pois, de outro modo,
eu me encontraria com relação ao mundo num estado de superação e o
mundo não se manifestaria mais de nenhum modo".29
Nesse texto de Sartre há um conceito de mundo como en-soi amorfo,
tenebroso, irracional muito discutível, que, definitivamente, provém de
influências idealistas; contudo, isso não compromete a verdade fundamen-
27 Uessere e ii nulla, O.C., p. 384.
28 lb., p. 384.
2· lb., p. 392.
o conhecer sensitivo e intelectivo 87
tal da sua observação de que o nosso conhecimento tem caráter essencial
mente perspectivo.
Ricoew: d:senvolve todo o seu sistema filosófico partindo da constatação
da p~rspectIV1dad~ do con~ecer, da qual ele dá uma descrição eficaz nos
segumtes termos: Eu .nascI em algum lugar; uma vez 'posto no mundo', eu
perc:bo de ~gora em ~Iante o mundo através de uma sucessão de mutações
e de movaçoes a partIr deste lugar que eu não escolhi e que não posso recu
perar n~ recordação. O meu ponto de vista destaca-se, então, de mim como
um destmo que governa de fora a minha vida"30. Por isso, também a filoso
fia é necessariamente uma reflexão feita de um ponto de vista. Portanto
"não existe uma ~losofia sem pressupostos ... a filosofia é o pensamento já
pressuposto. A mmha tarefa para ela não é a de começar mas, no meio da
palavra, de se recordar: recordar-se para poder começar"31.
_ T~~~ém nessas considerações de Ricoeur é preciso separar a obser
vaçao mIclal sobre a perspectiva do conhecer, que nos parece irrepreensível,
da tese que professa que a filosofia "é pensamento já pressuposto". Pare
?e-~os que essa tese seja dificilmente sustentável, porque vai contra o ob
JetIvo especifico da filosofia, que é o de explorar os últimos fundamentos
os pressupostos de todos os pressupostos. '
. Nós somos do parecer de que a perspectividade é qualidade do conhe
CImento de tal modo indiscutível que é como se pudéssemos tocá-la com a
mão. E é, ademais, ao nosso juízo uma qualidade importante, para mantê
la bem presente quando se fala dos limites do conhecimento humano da
sua falibilidade, da sua relatividade. A ampla zona de mistério que cirdun
da o m~ndo encontra a sua última explicação na perspectividade do nosso
conheCImento. Porém, não estamos dispostos a fazer da perspectividade o
cavalo d~ Tróia do ceticismo. A perspectividade, com efeito, não compro
mete radICalment~ o nosso conhecer. A esse respeito estamos plenamente
de acordo com SchIllebeeckx, quando observa que estamos cientes da sua
perspectividade e que buscamos superá-la em tensão constante em dire
ç~o ao absoluto. "Partindo de ponto de vista finito, limitado, sempre cam
bIante, numa palavra, histórico, nós possuímos de fato abertura para o
absoluto, do qual, além disso, nos é impossível, por natureza, apoderarmo
nos. A esse resp~ito_se~ia f~lso dizer que a verdade muda (que aquilo que
uma vez era, hOJe nao e maIS; até mesmo as "nossas expressões da verdade
não mudam, não envelhecem); é o ponto de vista sobre a realidade que
muda, se desenvolve constantemente e é assim que o nosso conhecimento
se desenvolve do interior. Todo o conhecimento humano está, ao mesmo
:~ P. Ricoeur, Finitudine e colpa, II Mulino, Bolonha, 1970, p . 95.
lb., pp. 624-625.
88 Fenomenologia do homem
tempo, dirigido ao absoluto e marcado pelo ponto de vista particular. Mas
o fato de que nós estamos cientes desse 'perspectivismo' do conhecimento
é a prova de que nós evitamos o relativismo".32
Personalisticidade
Anteriormente vimos que há a mundanidade essencial do conheci
mento, devido à sua intencionalidade, à sua necessária referência aos ob
jetos, às coisas, ao mundo. Porém, ao mesmo tempo o nosso conhecimento
continua sempre humano, talhado à medida do homem, segundo as suas
exigências, o seu ambiente, a sua cultura. Ele é, portanto, dotado não so
mente de mundanidade, mas também de personalisticidade. Isso ocorre
sempre com uma participação pessoal do cognoscente na realidade conhe
cida, uma imersão, um entranhamento do ser humano na esfera da coisa
conhecida. Por exemplo, não podemos aprender a guiar automóvel somen
te lendo o guia, devemos também praticar cada operação particular até
quando tenhamos o hábito de realizar certos atos, até quando fazer aquilo
torna-se, para nós, uma segunda natureza. Só então podemos dizer que
sabemos guiar automóveis.
Isso é verdade também para o conhecimento mais abstrato, universal,
científico, como provou M. Polanyi na sua obra-prima Personal Knowledgé3•
Nessa obra famosa ele nos adverte contra um preconceito muito difundido,
segundo o qual a ciência seria um conjunto de proposições absolutamente
objetivas controláveis por todos através da observação, que, de fato, tam
bém o nosso conhecimento científico tem uma forte dose de participação
pessoal. Essa aparece "na apreciação das probabilidades e da ordem nas
ciências exatas e existe em medida ainda maior quando as ciências descriti
vas devem contar com a habilidade e com a pericia. Em todos esses casos o ato
de conhecer implica apreciação; e esse coeficiente pessoal que acompanha
todo o conhecimento de fato elimina a ruptura entre subjetividade e objeti
vidade'>34 ao total de tempo gasto pelos estudantes de química, biologia e me
dicina nos cursos práticos mostra como essas ciências dependem amplamen
te da transmissão de técnicas e de habilidades do professor ao discípulo"35.
Outra manifestação da participação pessoal no conhecimento cientí
fico ocorre no fato de que "não se dá nenhuma asserção objetiva sincera
que não seja acompanhada de satisfação intelectual ou de desejo de persua
dir e de sentido de responsabilidade pessoal".36 Por isso, é preciso concluir
32 E. Schillebeecky, Revelação e Teologia, Paulu5, São Paulo, 1969.
33 Rutledge, Londres, 1962.
" Ib., p. 17.
• 6 Ib., p. 55.
• 6 Ib .. p . 27 .
o conhecer sensitivo e intelectivo 89
que "o objetivismo falsificou completamente o nosso conceito de verdade,
exaltando o que podemos conhecer e provar e mascarando com expressões
ambíguas o que conhecemos, porém não podemos provar, apesar de esse
último conhecimento estar na base e deva pôr o seu sinete em tudo o que
podemos provar. Procurando reduzir o nosso conhecimento às poucas coi
sas que são demonstráveis, e por isso explicitamente dubitáveis, eleigno
rou as escolhas acústicas que determinam todo o ser das nossas mentes e
nos tornou incapazes de reconhecer essas escolhas vitais"37.
As observações de Polanyi confirmam o ponto de vista que antes
dele expressaram Bergson, Dilthey, Heidegger, Marcel, Ricoeur, Gadamer
e muitos outros, de que o conhecimento humano não pode ser resolvido
no conhecimento científico, experimental. Além dessa, há também uma
forma de conhecimento "experiencial". Ela consiste na aproximação in
tencional da realidade, feita de participação pessoal, de intuição e de sen
timento. É com esse procedimento que se atinge a realidade de maneira
concreta, intima, profunda, viva. Disso se vale o homem continuamente
na experiência ordinária, estética, ética, religiosa e também filosófica.
Essas duas diferentes formas de conhecimento se obtêm apertando mais
ou menos o botão da mundanidade ou da personalidade. No primeiro
caso temos obviamente, o conhecimento experimental, no segundo, o
xperiencial38.
llistoricidade
Outro dom do nosso conhecimento que foi totalmente sublinhado pelo
pensamento moderno é a historicidade.
Por historicidade, com referência ao conhecimento, entende-se a pro
priedade que ele possui de ser profundamente marcado pelo selo do tem
po. Por isso, asseverar a historicidade do conhecimento não significa so
mente dizer que ele varie objetivamente, segundo o período histórico ao
qual o sujeito cognoscente pertence: os conhecimentos do homem do sécu
lo XX são diferentes dos do século XII ou do século XVI. Essa influência da
história é incontestável. Mas significa também e sobretudo que o próprio
poder cognitivo do homem sofre transformação interior. Segundo os par ti.,
da rios da historicidade gnosiológica, o passado sedimenta-se no sujeit
c:ognoscente, plasma as suas faculdades cognitivas e influi, portanto, so
hr cada uma das suas atividades. Logo, a mente humana não é nunca
lima tabula rasa in qua nihil scriptum est, mas é, antes, um substrato qu
t.1 m já sua forma a priori. Essa, porém, não é nem a idéia do ser nem a
87 lb ., p. 286 .
M L. Bogliolo, L'uomo nel mondo, Città Nuova, Roma, 1911, pp. 1155 .
90 Fenomenologia do homem
categorias kantianas, nem as idéias inatas de Descartes ou as verdades
eternas de Agostinho, mas simplesmente a herança do passado.
O pensamento clássico concebera o homem como um ser natural, do
tado de propriedades constantes e imutáveis como a natureza. O pensa
mento moderno rejeitou essa concepção e pôs à luz o papel essencial que
cabe à historicidade entre os elementos que constituem o ser do homem.
Dessa maneira o homem moderno adquiriu consciência da sua histo
ricidade. Segundo Gadamer, "o aparecimento de tomada de consciência
histórica é provavelmente a mais importante das revoluções por nós sofri
das depois do surgimento da época moderna. O seu alcance espiritual ul
trapassa provavelmente a que nós reconhecemos nas realizações das
ciências naturais, realizações que visivelmente transformaram a superfí
cie do nosso planeta. A consciência histórica que caracteriza o homem con
temporâneo é privilégio (ou talvez antes fardo) que não foi dado a nenhu
ma das gerações precedentes"39.
Ora, a tomada de consciência da própria historicidade implica revi
são profunda não só da ciência histórica, mas também da teoria do conhe
cimento. Essa última já não pode ser concebida nem como espelhamento
direto da realidade, como queriam os realistas antigos e modernos (inclu
sive os positivistas), nem como criação original do Eu (como afirmavam os
idealistas), mas é entendida como interpretação de situações: um ser his
tórico compreende a si mesmo e aos outros apenas interpretando. Ele faz
necessariamente parte de um circulo hermenêutico: são-lhe oferecidas pelo
passado tradições que ele recebe interpretando e de novo as comunica a
outros, os quais, por sua vez, delas se apropriam interpretando-as.
O homem colhe a sua realidade histórica somente interpretando-a
por duas razões. Antes de tudo porque a história é essencialmente movi
mento e no movimento há algo que permanece e algo que muda; por isso,
para remontar ao sentido original das tradições é preciso passar através
dos vários desenvolvimentos. Em segundo lugar, porque o passado não me
é estranho, mas faz parte do ser atual da minha vida, porém faz parte da
minha densidade subjetiva apenas mediante a interpretação. Eu sou o
herdeiro de tradições que não são simples informações por registrar, mas
fazem parte da minha própria vida, determinam a minha perspectiva e as
minhas projeções, o meu modo de ver e o meu modo de agir. "Compreender
é realizar uma mediação entre o passado e o presente, é desenvolver em si
mesmo toda a série contínua das perspectivas através das quais o passado
se apresenta e se volta a nós"40.
39 H. Gadamer, Il problema della conscienza storica, Guida, Nápoles, 1969, p. 27.
.0 H. Gadomer, a.c., p. 93.
o conhecer sensitivo e intelectivo 91
) O "novo" conceito de hermenêutica
Neste ponto parece claro como o conceito de hermenêutica adquira
nos autores recentes significado de todo novo, muito mais vasto e rico do
que o usual: a hermenêutica não é mais limitada à explicação dos textos
obscuros d0s clássicos gregos e latinos e dos escritores sacros ou das tradi
ções orais. Ela se estende também "a tudo o que nos é entregue pela histó
ria; assim falaremos, por exemplo, da interpretação de acontecimento his
tórico, ou, ainda, da interpretação das expressões espirituais, mímicas, da
interpretação de comportamento etc. Com isso queremos sempre dizer que
O sentido do dado, oferecido à nossa interpretação, não se desvela sem
mediação, e que é necessário sempre olhar para além do sentido imediato
para poder descobrir o 'verdadeiro' significado escondido"41.
Presentemente se dão dois modos principais de conceber a "nova
hermenêutica": um de cunho psicanalítico (= hermenêutica arqueológica),
que se inspira em Freud e outro de cunho fenomenológico (= hermenêutica
xistencial), que se inspira em Heidegger.
A nova hermenêutica de inspiração freudiana (seguida sobretudo pe
los psicanalistas e pelos estruturalistas) insiste na necessidade de efetuar
uma análise das teorias, das estruturas, dos modos de agir do indivíduo e
da sociedade não em si mesmas nem em direção e à luz do passado, e sim
na direção e à luz do "profundo". Há uma componente "arqueológica" em
todas as nossas expressões culturais, que se não é explorada e elucidada
nos impede de captar o seu verdadeiro significado. No nosso pensar há
uma sedimentação que permanece no estado inconsciente, de conteúdos
de pensamento, de imagens, de mitos, que determinam ademais de modo
decisivo as perspectivas, as idéias, os juízos que nós formulamos atual
mente. Tarefa de "pensar hermenêutico" (ou seja, da hermenêutica) é re
velar esses subterrâneos de pensamento que trazemos conosc042.
A nova hermenêutica de Heidegger
A nova hermenêutica de inspiração heideggeriana move-se em direção
histórica43•
Segundo Heidegger, o homem não é dotado de essência ou natureza
imutável, mas é, pelo contrário realidade sempre enformada de novo pela
41 H. Gadamer, O.C., p. 29.
42 Cf. P. Ricoeur, De l'interpretation. Essai sur Freud, Seuil, Paris, 1969; A. Vergote, Teologia e la
_lia archeologia, Esperienze, Fossano, 1974.
' 3 Para dizer a verdade, Heidegger desenvolveu duas concepções da hermenêutica. Em primeiro
lompo (Primeiro Heidegger), concebe a hermenêutica como fenomenologia do homem; em segundo
I.llmpo (Segundo Heidegger) considera a hermenêutica como escutar o Ser, ou mais precisame~te do
Di z r originário. A primeira concepção acha-se lucidamente expressa no segumte trecho de Sem und
92 Fenomenologia do homem
história. Por isso, ele não se acha defronte da história como a um objeto
para ser contemplado do exterior, mas como a alguma coisa que faz parte de
si mesmo. Isso significa que uma fonte histórica não transmite somente
fatos, mas fornece indicações acercadas possibilidades da existência hu
mana. Por conseguinte, "compreender historicamente" (ou seja, interpre
tar) significa não só ajustar e fixar os fatos como acontecem uma vez, mas
significa justamente tomar consciência das propriedades do ser humano
passado e torná-las presentes como possibilidades da existência humana.
O último motivo para se ocupar da história não é o de reconstruir os acon
tecimentos passados, mas tornar-se conscientes das possibilidades hu
manas. A medida da compreensão de uma fonte depende conseqüente
mente da própria existência. O postulado fundamental da hermenêutica
de inspiração heideggeriana é, portanto, o seguinte: "No encontro com a
história trata-se de textos e fontes, portanto, de fatos e eventos do passa
do, mas eu não posso entender esses textos e fontes, esses fatos e eventos
do passado de modo tal que os deva considerar no esquema do pensamen
to articulado em sujeito-objeto, com exclusão da minha própria existência.
No encontro com a história e com os textos históricos trata-se sempre da
plena efetivação da vida e da resolução decisiva"44.
A hermenêutica histórica segundo Gadamer
Entre os que mais contribuíram para o aprofundamento e para o de
senvolvimento da hermenêutica histórica de inspiração heideggeriana, o
primeiro lugar cabe sem dúvida a Hans Gadamer. Esse homem fez da
hermenêutica a sua vocação, dedicando a ela todas as suas pesquisas e
publicações45. É, portanto, natural que para conhecer o que se entenda
Zeit: "A fenomenologia do Dasein (Ser-aqui = Homem) é hermenêutica no significado mais originário
da palavra, porquanto com ela se designa o pôr em ato da interpretação. Mas, pois, que é através do
pôr em ato o sentido do Ser-aqui e das estruturas fundamentais desse mesmo Ser-aqui que, em linhas
gerais, vem aberto o horizonte para qualquer ulterior pesquisa ontológica sobre o ente, não conforme
o Ser-aqui, essa hermenêutica torna-se então "hermenêutica" no sentido de elaboração das condições
que tornam possível qualquer investigação ontológica. E, finalmente, enquanto o Ser-aqui ostenta
uma primazia ontológica sobre cada um dos outros entes (enquanto entidade com possibilidade de
existência), a hermenêutica, como interpretação do ser do Ser-aqui, obtém terceiro significado especi
fico (que filosoficamente considerado é primário): aquele da analítica existencialidade da existência".
(M. Heidegger, Essere e tempo, Bocca, Milão, 1953, p. 48). A segunda concepção encontramos exposta
no Unterwegs zur Sprache. onde lemos entre outras coisas: "A expressão 'hermenêutica' deriva do
verbo grego ermeneuein. Esse une-se ao substantivo ermeneus. substantivo que se pode ligar ao nome
do deus Hermes, em umjogo do pensamento que está mais vinculado ao rigor da ciência. Hermes é o
mensageiro dos deuses. Ele conduz a mensagem do destino: ermeneuein é aquele expor que o anúncio
traz, enquanto está em condições de escutar uma mensagem .. . De tudo isso resulta claro que ermeneuein
não significa, primariamente. o interpretar. mas. antes disso. o levar uma mensagem. o trazer um
anúncio". (M. Heidegger, ln cammino verso illinguaggio, Mursia, Milão, 1973, pp. 104-105).
" H. Zahrnt, Alie prese con Dio, Queriniana, Bréscia, 1969, p. 246.
" As obras principais de H. Gadamer são: Verdade e método; O problema da consciência histórica;
Hermenêutica e metódica.
o conhecer sensitivo e intelectivo 93
por caráter histórico do nosso conhecimento e por "pensar hermenêutico"
nós nos voltemos a esse autor.
Segundo Gadamer, a hermenêutica histórica é regida por três princi
pios fundamentais.
O primeiro reza que cada conhecimento é a resposta a uma pergunta.
O que significa que o conhecer é sobretudo interrogar, e esse último, se
gundo Gadamer, é sempre determinado por situação particular: "Não ao
juízo mas à indagação cabe o primado da lógica, como demonstram histo
ricamente o diálogo platônico e a origem dialética da lógica grega. Mas o
primado da indagação sobre a proposição significa que a proposição é, por
natureza, resposta. Não há proposição que não seja uma espécie de res
posta e, por isso, não se pode entender uma proposição senão reformulan
do-a nos critérios intrínsecos da indagação de que é uma resposta ... Cer
tamente não é fácil achar a indagação de que uma dada proposição é
cfetivamente resposta, sobretudo porque uma indagação não é nunca algo
de simples e primeiro, a que se possa chegar quando se quer: cada interro
gação é ainda uma resposta e essa é a dialética na qual estamos emara
nhados. Cada interrogação é motivada e também o seu significado não é
nunca dado inteiramente nela"46.
Concluindo, "o horizonte de cada proposição é o surgimento de uma
situação problemática" e "um conhecimento mostra-se fecundo enquanto
facilita uma situação problemática"47.
Posição análoga é a sustentada por K. Popper em Epistemologia,
racionalidade e liberdade e em outras obras.
O segundo postulado reza que qualquer documento histórico, qual
quer texto literário e também todos os monumentos artísticos, as institui
ções sociais, políticas e religiosas são o registro de certas experiências, as
quais, como quer a dialética do conhecimento, representam as respostas
I S perguntas que os seus autores se fizeram em certas situações. Portan
to, para compreender tais documentos é necessário alcançar as respostas
que eles contêm no contexto, no horizonte das interrogações de que saí
rum, um horizonte que continha a possibilidade de muitas outras respos
tús48. Qualquer seja a maneira da formulação que elas assumiram, deve
II r reconduzida ao movimento da conversação. Essa é a tarefa da
h rmenêutica: "tirar o texto do estado de alienação em que jaz (por causa
do. forma imóvel que assumiu na composição escrita) e levá-lo de volta ao
)
.6 H. Gadamer, Che co'e la verità, "Rivista di filosofia", 1956, p. 265.
., Ib. , p. 262.
48 uMan versteht den Text ja nur in seinem Sinn, indem man den Fragehorizont gewinnt. der aIs
.nl ·hcr notwendigerweise auch andare mõglicheAntworten umfasst", (H. Gadamer, Verità e metodo,
...r., p. 352).
94 Fenomenologia do homem
presente vivo do diálogo, cuja forma original é sempre a de pergunta e
t "49 respos a . . , " "''-
O terceiro postulado reza que nenhum conheCImento e . ~uro, nao
preconcebido", mas é sempre "misto", acompanhad? e condICIOnado por
"preconceitos" (Vorurteile, praejudicia)50. Esse terCeiro post~lado, no pa
recer de Gadamer, é a conseqüência lógica da sua concepçao .do ho~em
como ser histórico e, por isso, ligada a certas tradições, pers~e~tIvas, sItua
ções. Os preconceitos correspondem justamente a tais tradlçoes, perspec-
tivas e situações.
Como se vê, Gadamer dá ao termo "preconceito" significado q~e s.e
afasta substâncialmente do usual por duas razões. Antes de tudo n? SIgnI
ficado usual o preconceito é "conhecimento errado" que impede a VIsão ~ o
julgamento retos em certas situações. Ora, para Gad~mer _o preconceito
não tem essa conotação negativa de falsidade e de falslficaçao. Para ele, o
preconceito é apenas um "conhecimento prévio" que ~ode ser tanto verda
deiro quanto falso. A segunda razão é que, na acepçao comum, o preco~
ceito é algo de contingente, algo, portanto, que se pode superar, n:utrah
zar. Para Gadamer, no entanto, isso é impossível pois com~ se dIsse, os
preconceitos fazem parte da historicidade do homem. e p~r IS.SO ~compa
nham necessariamente a sua existência. O que, todaVIa, nao sIgnIfica que
o conhecimento humano deva ser escravo dos preconceitos. Isso não ocor
re antes de mais nada, porque o homem pode tomar conhecimento deles
e, 'assim, de qualquer maneira pode dominá-los e, em segundo lugar, por-
que de certos preconceitos pode também des~azer-se. . "
Mas como é possível para o intérprete saIr do hOrIzonte dos seus pr~
conceitos" e pôr-se em comunicação com o horizonte de outrem, em parti
cular em comunicação com o de um texto que pertence a outros tempos
que estão longe do seu? Não existe, porv~ntu~~,entre ?assado e presente
abismo intransponível? Além disso, a hIstorICIdade nao prend~ ~e~essa~
riamente o intérprete no beco estreito e sem saída do seu subJetIvlsmo .
Gadamer, embora reconhecendo e afirmando alteridade e?tre.p.assa
do e presente, contesta que entre eles exis~a ~isã? completa. A ~I~:OrICldadc
exige antes o contrário, ela faz com que a dI~ta~cla temp~ral seJ~ cumulada
pela continuidade da tradição e da transmlssao graças as quaIS tudo o qu
. . 1 ' "51 é transmItido se reve a para nos .
Mas nem mesmo o fato de que o horizonte gnosiológico do intérpret
seja circunscrito por "preconceitos" é suficiente para prendê-lo no seu
4. Ib., p. 350.
60 Ib., pp. 250S8.
" Ib., p. 281.
O conhecer sensitivo e intelectivo 95
subjetivismo e impedi-lo de encontrar-se com outros horizontes. Com efei
to, os "preconceitos" não são todos "egocêntricos" e, sobretudo, os precon
ceitos não são a primeira coisa: além e sob os "preconceitos" existe um
"acordo fundamental" que Gadamer chama "acordo portante" (tragendes
Enverstandnis). Segundo o autor de Verdade e Método esse "ponto de esta
bilidade", essa sólida plataforma que torna possível o encontro e a fusão
dos vários horizontes (Horizontverschmelzung) é fornecida pela lingua
gem. "Eu creio que a linguagem realize a síntese perene entre o horizonte
do passado e o do presente. Nós nos entendemos reciprocamente, porque
nos falamos, porque ainda que o nosso discurso se desenvolva em planos
diferentes e não convergentes, no fim, por meio das palavras conseguimos
pôr-nos reciprocamente frente a frente das coisas ditas com as palavras"52.
Como se vê, na interpretação gadameriana da historicidade do co
nhecimento humano se encontra esforço notável de superar o cachopo do
historicismo, do relativismo e do subjetivismo no qual tropeçavam geral
mente as precedentes interpretações do mesmo fenômeno.
De fato, a propriedade da historicidade não justifica necessariamente
lima interpretação cética do conhecimento. Com efeito, o que é a história?
I'; apenas devir sem permanecer, seqüência de mudanças sem nenhuma
('onstante?
A natureza da história e, por conseguinte, da historicidade não pode
()r diferente da do tempo. Ora, o tempo, nos diz Bergson, é essencialmen
I ( duração. Por isso, a história, mais que sucessão de acontecimentos de
II/ltureza diversa, é tradição de fatos, de ações e, portanto, tem corro sua
I'uracterística essencial a permanência de um elemento de fundo comum,
IIp sar de todas as possíveis mudanças. A história não é pura sucessão
('uHual de acontecimentos desconexos e descontínuos, mas fluxo, transcor-
1111' de uma mesma substância fundamental; não é devir ocasional e frag
IlIontário, mas desenvolvimento orgânico e contínuo.
Concluindo, reconhecemos sem dúvida que o nosso conhecimento é
111111' ado pelo selo do tempo, mas afirmamos que, como o tempo tem três
I I I,rios (passado, presente e futuro), assim também o nosso conhecimen
III 1.( m tríplice extensão: uma em direção ao passado, uma em direção ao
I'lIfllro e uma voltada para o presente. Ademais, o nosso conhecimento
fi"" d considerável superioridade com relação a esses três estágios, pois
1"1110 stender o seu olhar além de cada horizonte assinalado pelo passado
plllo futuro e projetar-se em direção à eternidade. Assim, também nessa
Illlltlidl1de como também nas outras, o homem manifesta excepcional ca
I"",idude de autotranscendência.
I II. .odamer, Che cos'e la uerità, cit., p . 265.
96 Fenomenologia do homem
d) Conhecimento intelectivo das coisas materiais
Examinando as qualidades das coisas essenciais do nosso conheci
mento, vimos que ele é dotado entre outras coisas de universalidade e de
mundanidade. Isso significa que ele é feito para atingir as coisas mate
riais sub specie universitatis
Mas de que modo ocorre esse encontro universalizante da mente hu
mana com as coisas materiais, as quais, por sua natureza, são singulares?
A essa questão, três são as respostas principais fornecidas pelos filó
sofos: o encontro ocorre por via raciocinativa, por via reflexiva, por via
indicativa. A primeira resposta é a de Locke e Campanella, a segunda é a
de Aristóteles e Santo Tomás e a terceira é a de Kant.
Segundo Locke e Campanella, nós reunimos as coisas materiais par
tindo da constatação de que as nossas idéias provêm das sensações e que ·
essas não são produzidas por nós, porque são acompanhadas de experiên
cia de passividade. Portanto, não podem ser causadas senão pelas coisas.
Segundo Kant, o conhecimento intelectivo das coisas materiais ocor
re no juízo, o qual consiste na aplicação de uma ou mais categorias aos
dados da sensação.
Segundo Aristóteles e Tomás, o conhecimento intelectivo das coisas
materiais na sua singularidade não ocorre mediante a aplicação de cate
goria especial e nem de arrazoamento mais ou menos artificioso, mas com
a simples reflexão sobre fantasmas (as imagens da fantasia), com os quais
o intelecto se acha em constante relacionamento.
Parece-nos que a solução aristotélico-tomista possa ser considerada
satisfatória também no nosso tempo, e pelas mesmas razões adotadas por
Tomás, que são duas.
"Primeiro, sendo o intelecto uma faculdade inorgânica e imaterial, de
nenhuma maneira seria impedido no seu ato pela diminuição de um órgão
corpóreo, se para a sua operação não se fizesse necessário o ato de uma
potência orgânica. Ora, potências orgânicas são os sentidos, a fantasia e
as outras faculdades da parte sensitiva, não só na aquisição de novos co
nhecimentos, mas também no uso da ciência adquirida. Vemos, de fato,
que o homem se tornou incapaz de entender as coisas conhecidas quando
a lesão de um órgão impede a operação da imaginação, como nos loucos
furiosos, ou a operação da memória, como nos dementes.
"Segundo, cada um pode experimentar em si mesmo este fato: quan
do se esforça para entender qualquer coisa, constrói fantasmas à guisa de
exemplos, e neles busca encontrar o que tenta compreender. E mesmo
quando queremos explicar uma coisa a outra pessoa, propomos-lhe exem
plos, pelos quais ela possa formar imagens próprias para compreender.
o conhecer sensitivo e intelectivo 97
"A razão (profunda) disso é que a potência cognitiva deve ser propor-
ional ao objeto cognoscível.. . Ora, o objeto próprio do intelecto humano
unido ao corpo são as qualidades ou naturezas, que têm a sua atual exis
t ncia na matéria corpórea, e, mediante essas qualidades das coisas visí
veis, o homem pode chegar a certo conhecimento das coisas invisíveis.
Mas a própria noção dessas naturezas exige que elas tenham concreta
lIubsistência em determinados indivíduos; e isso não se pode verificar sem
n matéria. Assim, a noção da natureza da pedra exige a sua subsistência
concreta nesta determinada pedra; e a da natureza do cavalo exige a sub
lIistência concreta de dado cavalo, e assim por diante. Não se pode, pois,
onhecer de maneira completa e verdadeira ou de qualquer outro ser ma
terial se não é conhecido na sua existência particular e concreta. Ora, nós
IItingimos o particular mediante o sentido da imaginação. Por isso, para
que o intelecto possa conhecer o seu próprio objeto é necessário que se
volte para os fantasmas e apreenda assim a natureza'üniversal subsistente
m cada ser particular.
"Se, por outro lado, objeto do nosso intelecto fossem as formas separa
das, ou então se as naturezas das coisas sensíveis possuíssem uma sua
"ubsistência independentemente dos seres particulares, como queriam os
platónicos, não seria necessário que o nosso intelecto, cada vez que enten
d ,se voltasse sempre para os fantasmas"53.
Além da questão do como se conhecem as coisas materiais, os filósofos
l stão divididos também na questão do quanto: até que ponto a mente hu
mana está em condições de conhecê-las?
De uma vista de olhos geral sobre a história da filosofia se tem a
impressão que os estudiosos da Antigüidade e da Idade Média sustentam
" r possível o conhecimentoda essência verdadeira e profunda das coisas
materiais, enquanto, ao contrário, os filósofos modernos afirmam que isso
impossível e que nós conseguimos somente tomar certas propriedades
('onstantes das coisas. Já Locke afirmava que para a nossa vida não é
nocessário o conhecimento da essência das coisas; basta-nos a da sua qua
lidade.
Sem querer aprofundar o problema, parece-nos que devemos dar ra-
1. o aos filósofos modernos e confessar com eles que a existência das coi
" IIS, no sentido clássico do termo, ou seja, no sentido de um princípio radi
('ul que constitui o ser imutável, próprio e exclusivo de determinada coisa,
llj a inacessível. E,sse é fato amplamente testemunhado pela experiência.
Por mais que a nossa análise de alguma coisa seja avançada e profunda,
n la há sempre alguma parte, algum aspecto que foge à nossa total com-
03 S umma Theologiae, !, 84, 7.
98 Fenomenologia do homem
preensão. Somos sempre constrangidos a olhá-la numa perspectiva, num
corte, parcialmente. Mesmo quando de algo procuramos subtrair os ele
mentos atípicos, singulares, individuais, para tomar o que nele há de cons
tante, universal, não conseguimos fazer melhor do que colecionar certas
qualidades estáveis, permanentes, mas o elemento essencial, último, foge
nos sistematicamente.
No entanto, a posição dos filósofos antigos e medievais a respeito do
problema do conhecimento das coisas materiais não é por nada tão ingê
nua e uniforme como comumente parece. Eles distinguem o que de fato a
mente do homem conhece e o que deveria conhecer. Enquanto na lógica,
que fIxa as normas do reto conhecimento, ou seja, de como e o que se deve
ria conhecer, eles lhe dão como tarefa a defInição da essência das coisas,
na fenomenologia do conhecer eles reconhecem abertamente que a mente
humana não está quase nunca em condições de realizar essa tarefa. 'Ib
más diz que "cognitio nostra est adeo debilis quod nullus philosophus potuit
umquam perfecte investigará naturam unius muscae: unde legitur quad
unus philosophus fuit triginta annis in solitudine, ut cognosceret naturam
apis"54.
Essa extrema difIculdade de atingir a essência das coisas 'Ibmás a
atribui a três causas principais: "Sobretudo isso é devido ao fato de que o
intelecto humano é produzido pelo nada e por isso é privado da lucidez do
intelecto incriado ... Em segundo lugar porque o nosso intelecto aprende
indagando, através do espaço e do tempo (per continuum et tempos) ...
EnfIm, isso é devido ao pecado, ao qual seguiu a corrupção da carne que
pesa sobre a alma"55.
e) Conhecimento de si ou autoconsciência
Na filosofIa moderna o problema da autoconsciência é dos mais vivos
e mais debatidos. Ele ocupajá o primeiro lugar na especulação de Descar
tes, Hume, Kant Fichte e Hegel. Mas depois, mais tarde, com o eclipsar-se
do idealismo, ele passou ao segundo plano e em alguns casos foi até mes
mo esquecido. Recentemente, porém, retornou prepotentemente à ribalta,
como conseqüência da imponente tentativa realizada pelos filósofos do
nosso século para superar o dualismo entre sujeito-objeto e trazer de volta
a pesquisa filosófIca ao momento primordial em que tal dualismo não ti
nha, ainda, feito a sua aparição. Entre os que se distinguiram no fenôme
no da autoconsciência recordo em particular os existencialistas Heidegger,
54 ln symbolum apostolorum expositio, Prol., n. 864; in Opuscula theologica, II, p. 194.
55 ln II sento d. 23, q. 2, a. 1, ad 3 m.
o conhecer sensitivo e intelectivo 99
Merleau-Ponty, Sartre e Marcel, o cientista-fenomenólogo Michael Polanyi
o fIlósofo-teólogo Bernard Lonergan.
Dado que todos os filósofos supracitados concordam e~ distinguir duas
formas de autoconsciência (uma concomitante e uma refletida) co~sidera
r mos sobretudo a sua análise da consciência concomitante e depois, num
lIegundo momento, a análise da refletida.
1. A autoconsciência concomitante
N os seus atos intencionais, normalmente o homem tem consciência
xplícita do objeto, mas não de si mesmo. Por exemplo, quando olho uma
asa, a minha atenção está voltada para o objeto-casa e não para o meu
oto de ver a casa ou para mim, que vejo a casa. E no entanto, cada ato
xplícito de consciência de qualquer objeto é acompanhado de ato implíci
to de consciência de si, do sujeito. Por exemplo, quando olho um livro,
Illém do livro, estou consciente de mim mesmo, pois noto que o livro é
outra coisa que não eu. "A visão, diz Merleau-Ponty, atinge a si mesma e
M reúne consigo mesma na coisa vista. É necessário para a visão tomar a
Mi mesma, porque se não o fIzesse não seria visão de nada; mas é necessá
rio que se tome em uma espécie de ambigüidade e de obscuridade, porque
ola não se possui de fato, mas, ao contrário, se subtrai continuamente na
coisa vista"56.
Polanyi exemplifIca o mesmo fenômeno da autoconsciência conco
mitante referindo-se ao que ocorre quando se prega um prego com martelo
na parede: "Quando usamos martelo para pregar um prego, prestamos
Iltenção tanto no prego quanto no martelo e também na nossa mão, mas
II modo diferente. Estamos atentos ao efeito dos nossos golpes sobre o
progo e buscamos apertar o martelo de tal modo que golpeie o prego da
maneira mais efIcaz possível. Quando abaixamos o martelo não temos a
Monsação de que o seu cabo golpeou a palma da nossa mão, mas que a sua
cabeça golpeou o prego. E também, em certo sentido prestamos, sem dúvi
da, atenção nas sensações da palma da mão e dos dedos que apertam o
martelo. Esses últimos nos guiam a apertá-lo efIcazmente e o grau de aten
Çl o que adotamos para o prego adotamo-Io também, de outro modo, para
I asas sensações. A diferença pode ser expressa dizendo que essas últimas
niio são, como o prego, objetos da nossa atenção, mas os seus instrumen
tos. Não são consideradas diretamente em si mesmas; consideramos dire
tllmente qualquer coisa de diferente, enquanto ao mesmo tempo estamos
' 6 M. Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception, Gallimard, Paris, 1945, p. 432; cf. também
II 429. Sobre este ponto veja-se também a ampla e profunda fala de B. Lonergan, L'intelligenza, Ed.
I'ooline, Roma, 1961, pp. 359-388. .
100 Fenomenologia do homem
também intensamente conscientes delas. Tenho consciência subsidiária
da sensação da ,palma da mão que é imersa na consciência focal do pregar
o prego"57 ..
N~xistência dessa forma indireta de autoconsciência é afirmada tam
bém por Heidegger e por Sartre. Porém, enquanto o segundo nos seus
exemplos insiste, como Merleau-Ponty na autoconsciência que acompa
nha a visã058, o primeiro põe mais em relevo o alcance universal do fenô
meno da autoconsciência indireta: ela está presente em toda parte, no
ouvir (Befindlichkeit), no falar (Sprechen), e no conhecer (versthen)59.
Mas qual é o conteúdo exato dessa forma de autoconsciência? Em
direção ao que aponta? O que compreende? É endereçada para o sujeito to
mado globalmente ou para uma dimensão particular, a coenvolta na ação
naquele momento?
Nas duas passagens citadas acima vimos que tanto Merleau-Ponty
quanto Polanyi assinalam como conteúdo imediato da autoconsciência in
direta a parte do sujeito que é coenvolta na ação naquele momento par
ticular: são a vista, a mão etc., que são conscientes de si mesmas. Porém,
esses mesmos fenomenólogos admitem que esse tipo de autoconsciência
vai além das faculdades operativas e se lança em direção ao sujeito in
teiro. Esse último, todavia, não é apreendido como algo de preciso, com
confins bem delineados, mas como algo de indeterminado e confuso. Se
gundo Merleau-Ponty, é todo o arco da temporalidade do sujeito, porém
sem distinções cronológicas, que constitui o conteúdo da consciência indi
reta e por isso chama tal conteúdo o intemporal que define como isso que,
enquanto retoma o passado e coenvolve o futuro, é presumivelmente de
todos os tempos e, portanto, não transcende de fato o tempo. O intemporal
é o adquirido'>6O. Como ilustração do intemporal, Merleau-Ponty recordao
efeito que a vista de um quadro de van Gogh produz na nossa formação
artística. Em conseqüência de tal visão, "a pintura de van Gogh se insta
lou dentro de mim para sempre; realizei um passo do qual não posso mais
voltar atrás e, mesmo se não conservo nenhuma recordação precisa dos
quadros que vi, toda a minha experiência será dai em diante a de alguém
que conheceu a pintura de van Gogh"61. Disso Merleau-Ponty conclui que
"o que vivemos permanece sempre em nós" e faz parte do conteúdo da
consciência concomitanté2•
57 M. Polanyi, Personal Knowledge, O.C., p. 65
58 J. P, Sartre, The transcendence ofthe Ego, The Noonday Press, Nova York, 1957, pp. 49ss.
69 M. Heidegger, Sein und Zeit, M. Niemeyer VerIag, Thbinga, pp. 130ss.
60 M. Merleau-Ponty, a.c., p. 450.
61 Ib.
82 Ib.
o conhecer sensitivo e intelectivo 101
Mediante a análise do conteúdo da autoconsciência concomitante, o
fenomenólogos puderam também fixar as principais características dessll
forma de saber.
Sobretudo trata-se de um saber concomitante, ou seja, que se desen
volve contemporaneamente ao saber explícito relativo ao objeto.
Em segundo lugar, trata-se de saber não-posicional (ou não tético):
não põe de fronte a si o sujeito de maneira que possa contemplá-lo como
objeto. Portanto, é também saber opaco, indeterminado, obscur063.
Ademais, é saber direto, obtido sem o concurso da mediação da espé
cie inteligível. E, por isso, dado que nessa forma de autoconsciência o su
jeito não está presente a si mesmo como objeto, o eu e o conteúdo da au
toconsciência concomitante formam uma só coisa (''To be and to be aware
of itself are one and the sarne thing for consciousness")64.
A ausência da espécie inteligível é a razão última do fato de que a
consciência concomitante é confusa e vaga, "silenciosa e indeclinável", como
diz com propriedade Merleau-Ponty65.
Outra característica é a espontaneidade: a consciência concomitante
não exige nenhum esforço, nenhuma concentração; apresenta-se por si
toda vez que o sujeito desenvolve qualquer atividade intencional. É por
isso que a autoconsciência concomitante tem prioridade absoluta sobre a
r fletida, a qual exige sempre concentração, certo esforç066.
Há, enfim, outra qualidade que Sartre considera própria dessa forma
ti saber, mas que os outros fenomenólogos não admitem de fato: é a
impessoalidade. Segundo o existencialista francês, a autoconsciência conco
mitante é impessoal, não pertence a um sujeito, a um eu. E isso porque
"não é ela mesma o seu objeto. Esse último é por natureza fora da cons
(:iência, e esse é o motivo pelo qual a consciência põe e ao mesmo tempo
C/terra o objeto com um único ato. A consciência conhece a si mesma ape
nas como absoluta interioridade ... Agora nos perguntamos: há lugar para
um Eu em tal consciência? A resposta é óbvia: claro que não'>67. Sartre
Hustenta que quando eu leio, tenho consciência do livro e não do meu eu:
"( nquanto estava lendo, havia consciência do livro, dos heróis do romance;
IHIlS o Eu não ocupava tal consciência. Era consciência apenas do objeto e
('onsciência não-posicional de si mesmo. Agora posso transformar esses
,'osultados aprendidos ateticamente em objeto de uma tese e declarar: na
63 J. P. Sartre, a.c., pp. 45ss; M. Polanyi, a.c., pp. 55ss.
o. J. P. Sartre, a.c., p. 83. .
80 M. MerIeau-Ponty, a.c., pp. 462ss.
60 "Le cogito tacite, la presence de soi à soi, étant l'existence meme, est anterieure à tout
I'hllosophie". (MerIeau-Ponty, o.c., p. 463. Vide também G. Marcel, Le mystere de l'être, vol. I, Aubior,
I'lIrls, 1951, pp. 59S8).
07 J. P. Sartre, o.c., p. 41.
102 Fenomenologia do homem
consciência irrefletida não ocorre nenhum eu'IGs. A palavra "Eu" na frase
"Eu leio o livro", segundo Sartre é totalmente isenta de conteúdo: "É sim
plesmente conceito vazio destinado a permanecer vazio. Por isso se requer
ser exatos, não se deve dizer: 'Eu tenho consciência deste livro', mas: 'Há
consciência deste livro' ". De tal modo, Sartre conclui: a vida pessoal tem
lugar só num plano refletido; pelo contrário, no plano irrefletido a vida
tem ainda caráter impessoa169•
Porém, contrariamente a Sartre, todos os outros fenomenólogos vêem
na autoconsciência concomitante a forma de conhecer maximamente pes
soal, porque é a que atinge o eu mais imediata e diretamente. Merleau
Ponty, Marcel, Heidegger e Polanyi estão mais dispostos a pôr em dúvida
o caráter pessoal da autoconsciência refletida do que da autoconsciência
concomitante, pois na primeira já se insinua a distinção entre sujeito e
objeto e, por conseqüência, o perigo de reduzir o sujeito a objeto, o que não
se dá no caso da autoconsciência concomitante.
Parece-nos que Merleau-Ponty, Marcel, Heidegger e Polanyi estejam
certos e Sartre errado. A tese sartriana não é o fruto de observação
fenomenológica, mas a conclusão de opção metafísica de cunho idealístico
segundo a qual o ser se identifica com o ser posto. É essa opção que induz
Sartre a afirmar que não exista eu pessoal até que não é posto como objeto
da consciência.
II. Autoconsciência refietida
A autoconsciência refletida é o momento do conhecimento em que o
homem concentra a sua atenção sobre si mesmo, sobre as próprias ações,
sobre os próprios atos, sobre o próprio ser, desviando-a do mundo, das
coisas, dos objetos. Por exemplo, quando, olhando um livro, a minha aten
ção não se fixa sobre o livro mas sobre o meu olhar o livro, por força
desse debruçar-se da atenção sobre mim mesmo, realizo uma forma de
autoconsciência, que traz justamente o nome de autoconsciência refle
tida.
De que modo essa forma de consciência se distingue da precedente?
Quais são as suas características?
68 J. P. Sartre, o.c., pp. 46-47.
69 J. P. Sartre, o.c., p. 53ss. As mesmas doutrinas são propostas por Sartre em Situations (Paris,
1947) e L'être et te néant (Paris, 1947). N a segunda, ele elabora a célebre doutrina da consciência como
nada. Segundo tal doutrina, a consciência não seria nada além da posição do objeto exterior e a não·
posição de si mesma: seria, pois, o que não é (isto é, o objeto) e não o que é (ela mesma), um vazio, umu
falta, um nada que surge da nulificação do ser. Portanto, quando a consciência quer se colocar como
objeto, coloca-se em conflito com sua própria natureza. Esse é o motivo pelo qual é impossíve.l que 8
consciência alcance o seu ideal, isto é, a identificação de si mesma (pour soi) com o ser (en SOl). Vido
L'être et le néant, cit., p. 128.
o conhecer sensitivo e intelectivo 103
A primeira característica, que todos os fenomenólogos sublinham, é a
Impossibilidade de dissociar a reflexão sobre o sujeito da percepção de um
bjeto. Na autoconsciência refletida, a atenção traz em primeiro plano o
l ujeito, mas sem separá-lo do objeto. Pelo qual, enquanto o sujeito é obser
vado diretamente, in obliquo é considerado também o objeto. Assim, quando
transporto a minha atenção do livro para mim mesmo, o livro não desapa
r ce da cena, mas permanece ali fixando os contornos, delimitando o hori
lonte do meu ato de autoconsciência. Dai Merleau-Ponty tira a conclusão
ue "la seule maniêre de penser la pensée, c'est d'abord de penser quelque
hose"70.
Outra característica, que emana da precedente, é a impossibilidade
da autoconsciência refletida de agarrar totalmente o sujeito. Ela pode
branger os atos singulares, as faculdades, as operações do sujeito, pode
tomar consciência de que o sujeito está de posse desta ou daquela capaci
dade, desta ou daquela perfeição, mas não está em condições de aferrar
ompletamente toda realidade do sujeito. Isso porque, como se viu, a
utoconsciência refletida se realiza no âmbito do horizonte que lhe é im
posto pelo objeto com o qual o ato de autoconsciência está estreitamente
ligado.
Sobre essa inexauribilidade do sujeito com relação à autoconsciência
refletida, Merleau-Ponty escreveu páginas muito belas. Limitar-me-ei a
itar uma particularmente significativa, na qual lemosentre outras coi
aas: "Para que fosse possível uma evidência absoluta e sem pressuposto
1I1gum; para que o meu pensamento pudesse penetrar em si mesmo e pu
desse atingir um puro 'consenso de si a si', seria necessário, para usar a
linguagem dos kantianos, que ele cessasse de ser acontecimento e fosse
totalmente ato, ou, para usar a linguagem dos escolásticos, que a sua rea
lidade formal fosse incluída na sua realidade objetiva, ou então, para falar
'orno Malebranche, que ela cessasse de ser 'percepção', 'sentimento', ou
'contato' com a verdade para tornar-se pura 'idéia' e 'visão' da verdade.
H ria necessário, em outras palavras, que no lugar de ser eu mesmo, eu
me tornasse puro conhecedor de mim mesmo e que o mundo cessasse de
xistir em volta de mim para se tornar puro objeto diante de mim. Defron
t ao que somos de fato, às nossas aquisições e a esse mundo que nos é
preexistente, nós temos certamente o poder de suspensão e isso basta para
que não sejamos determinados por ele. Posso fechar os olhos, tapar os
uuvidos, mas não posso cessar de ver pelo menos o negro dos meus olhos e
II ouvir pelo menos o silêncio; de modo semelhante, posso pôr entre pa
r nteses as minhas opiniões e as minhas crenças adquiridas, quaisquer
lO O.c., p. 453.
104 Fenomenologia do homem
sejam os meus pensamentos ou as minhas decisões, eu o faço sempre com
o pano de fundo do que eu cri ou fiz precedentemente"71.
Outra característica, que é essencialmente ligada e dependente da
precedente, é a "inobjetibilidade" da autoconsciência. O seu modo de conhe
cer é essencialmente diferente do conhecimento objetivo. Este último pre
sume poder aferrar completamente o objeto, analisá-lo em todos os seus
componentes. A autoconsciência não pode ter essa propriedade, porque,
como observa Heidegger, "a unidade da pessoa exige constituição essen
cialmente diferente da característica das coisas naturais". Scheler atribui
não só à autoconsciência mas a qualquer ato cognitivo esse dote de inob
jetibilidade: "Um ato não é nunca ao mesmo tempo objeto porque pertence
à essência do ser do ato cognitivo se.r experimentado apenas no seu ser
vivido e o ser dado apenas na reflexão. Os atos são algo de não psíquico. O
ser da pessoa é tal que existe somente na realização do ato intencional; ele
não pode, pois, ser absolutamente nunca objeto possível. Cada objetivação
psíquica, do mesmo modo que cada concepção do ato como algo de psíqui
co, coincide com a despersonalização"72.
Última característica da autoconsciência refletida é ser dotada de certa
publicidade, publicidade, porém, apenas parcial. As razões dessa sua
semipublicidade são duas.
Antes de tudo, como se viu, ela não pode realizar-se senão em relação
a um ato particular. Ora, a maior parte de nossos atos são públicos. O eu
existe por si mesmo, mas em larga medida também pelos outros, os quais
podem vê-lo, tocá-lo, ouvi-lo etc.73
Em segundo lugar, na autoconsciência refletida temos consciência do
que os outros dizem de nós mesmos. Tanto é assim que, para conhecer
melhor a nós mesmos, nos voltamos para os outros74•
III. Natureza da reflexão
Até este ponto nos limitamos, com relação à autoconsciência, a exa
minar as duas formas principais que ela assume, a concomitante e a refle
tida. Agora devemos dar um passo à frente e procurar estabelecer qual
seja a natureza essencial do ato reflexivo e fixar-lhe o alcance, ou seja,
determinar o raio de informações que ele nos oferece a respeito do ser do
homem.
Antes de mais nada, qual é a natureza do ato reflexivo: é ato material
ou imaterial?
71 M. Merleau-Ponty, o.c., p. 453; cc. p. 458.
72 M. Heidegger, a.c., pp. 47-48; M. Merleau-Ponty, a.c., pp. 433-434.
73 J. P. Sartre, o.c., pp. 94-95.
" M. Heidegger, a.c., pp. 11788.
o conhecer sensitivo e intelectivo 105
Foi dito por muitíssimos filósofos, pertencentes às correntes mais di
versas e aos períodos mais distantes, que a autoconsciência, concebida
não como mera associação de sutilíssimos grãos de poeira da percepção
(Hume), mas como autêntica introspecção, é ato finamente imaterial,
spiritual e, de fato, é assim. Se a autoconsciência atinge o próprio fun
do ontológico, isso significa que o ato de auto conhecimento é totalmente
transparente. Não é transparência mediada, isto é, obtida através de
um mecanismo operativo que purifica o ato de autocompreender-se de
condicionamentos ou de estofos operativos. Tal mediação não poderia se
não implicar uma aporia fundamental e, isto é, na não validez da experiên
cia íntima da autoconsciência, que quer ser verdadeiro e autêntico domí
nio de si, porque o que é mediado é condicionado pelo que configura a própria
mediação e, desse modo, a mediação abre por si processo indefinido; pelo
que, para eliminar semelhante movimento seria requerida pela própria
natureza da mediação metamediação que, pela sua natureza, constitui a
origem do mediador como tal. Portanto, o que vive além da mediação deve
ser íntima transparência, radical Clareza, simples presença ontológica,
dons estes que se adicionam somente ao que é investido de natureza
imaterial, espiritual, pois a autoconsciência é ato finamente imaterial,
spiritual.
Daí, não parece possível conceber a autoconsciência de maneira
mpírica e materialista, como forma derivada de conhecimento através de
processo de associação de percepções sensoriais e isto por dois motivos.
Antes de tudo porque tal processo suporia, além disso, outra ativida
de responsável pelo processo associativo, a menos que se queira fazer dele
teatro de marionetes manobrado do exterior de modo mecânico e tirânico.
Em segundo lugar, porque tal processo não daria aquela unidade ime
diata e profunda do eu que a autoconsciência nos testemunha_
Do ponto de vista da unidade da autoconsciência, deve-se dar razão a
Kant e postular a existência de eu transcendental, repelindo a teoria
Ilssociacionística de Hume. Por outro lado, a autoconsciência não nos re
v la nenhum eu puro, mas sempre e somente eu impregnado do que expe
rimentamos e vivemos. Por isso, desse ponto de vista, devemos estar de
Ilcordo com Hume na afirmação de que a reflexão é também resultado da
nossa experiência.
IV Implicações onto-antropológicas da autoconsciência
Depois de haver examinado a natureza e as propriedades da autocons
ciência, perguntamo-nos: Qual é o seu alcance? Que informações nos ofe
r ce com relação ao nosso ser? Na autoconsciência, o que alcançamos de
nós mesmos? O que a autoconsciência nos diz que somos?
106 Fenomenologia do homem
o estudo da autoconsciência dá-nos os seguintes resultados acerca da
natureza do ser do homem:
- O homem é autoconsciência: é um ser que pensa a si mesmo (Des
cartes, Fichte, Teilhard);
- O homem é um ser encarnado: é consciente de ter corpo e todos os
seus atos de autoconsciência são filtrados através do corpo (Aristóteles,
Merleau-Ponty, Marcel);
- O homem é um ser social: ele se conhece no encontro com os outros
(Marx, Mounier, Buber, Marcel, Scheler, Nédoncelle); .
- O homem é um ser finito: pois que nasce e morre, é conSCIente de
que o seu Eu não coincide com o Ser (Guardini, Wittgenstein, Adorno);
- No homem, há profunda distinção entre o que é e o que pode ser:
ele tem consciência de que o que é atualmente não é tudo o que pode e
deve ser (Heidegger, Bloch); .
- O homem é livre: ele sabe que é dono do próprio ser, da próprIa
vida, do próprio futuro (Sartre, Garaudy); .
- É, porém, um ser condicionado: depende da natureza e da socIeda
de no seu ser e no seu agir (Spinoza, Marcuse, Lévi-Strauss);
- Em certa medida, é também alienado: sente-se diferente, pior do
que deveria ser (Hegel, Marx, Nietzsche, Tillich, Heidegger); _ .
- Transcende a matéria, o tempo, o espaço, o absoluto (Platao, ArIS
tóteles Plotino, Fichte, Barbotin, Buber, Heschel).
C~ncluindo, podemos dizer com Guardini: - A autoconsciência é es
pia da verdade do ser do homem. De fato, a autoconsciência :evela pr~se~
çadeterminada ao ser, inserimento no ser do qual derIva a .proP:Ia
positividade e a própria consistência. Isso implica na exclusão da IdentIfi
cação de si mesmos com o ser. Assim que a consciência transpa~en:te .se
torna garantia da distinção, por um lado do ser, por causa da proprIa In
confundível modalidade do ser e, por outro, a própria indeclinável deriva
ção do ser, para o qual a experiência imediata do ato de si em si ~esmo,
reveladora do radical fundo de si a si mesmo e de si mesmo mamfesta a
condição ontológica do próprio ato, isto é, o ato de si em alguma coisa que
foi lançado no ser: a não-identificação com o ser é o indício do s.er criado.
- O homem, atingindo a si mesmo por si mesmo, revela a SI mesmo a
radical "dadidade" de si em toda a sua condição ontológica.
- "Eu não sou eu por essência - observa Guardini - mas sou a mim
'dado'. Eu recebi, portanto, a mim mesmo. No princípio da minha existên
cia - 'princípio' não em sentido cronológico, mas essencial? como sua raiz
e sua causa - não está minha própria decisão de ser. Ainda menos eu
existia simplesmente sem necessidade de nenhuma decisão a esse respei
to. Tal suficiência de decisão existe somente em Deus. Portanto, no princí-
o conhecer sensitivo e intelectivo 107
pio da minha existência está uma Iniciativa, um Alguém que me deu a
mim mesmo. Dado absolutamente e como determinado. Não como homem
simplesmente mas como este homem, pertencente a este povo, a este tem
po, deste tipo e com estas atitudes. Até as últimas determinações que se
dão apenas uma vez, ou sela, em mim; até a especialíssima forma que faz
com que reconheça a mim mesmo em tudo o que faço e que se exprime no
meu nome"75.
Em breve, a autoconsciência realiza plenamente a si mesma, isto é,
esgota a própria compreensão, somente abrindo-se até a percepção de Deus.
Esta grande verdade sempre afirmada por uma das mais antigas, autori
zadas e duradouras correntes filosóficas, a platônico-agostiniana (que tira
sua origem de Sócrates ou Platão, prossegue com Plotino e Agostinho e
nos tempos modernos é validamente representada por Descartes, Leibnitz,
Hegel, Rosmini, BIondel e outros), parece ser a única resposta adequada
ao movimento de autotranscendência situada em cada conhecimento inte
lectual, em particular no conhecimento de tipo reflexivo.
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IV
VONTADE - LIBERDADE - AMOR
(Homo volens)
"Homem de vontade", ''homem de caráter", "homem decidido", "ho
mem livre" são expressões comuns na nossa linguagem para designar um
tipo ideal de homem. Todavia, vontade, decisão, caráter e liberdade não
são qualidades que se acham somente em poucos homens excepcionais,
mas pertencem ao homem enquanto tal. Ele, além de dotado de somatici
dade, de vida e de inteligência se nos apresenta também dotado de vonta
de: é Homo volens.
O homem não está imobilizado em estado de quietude permanente,
mas é cheio de dinamismo e os seus movimentos, as suas atitudes e ati
vidades não são determinadas por fatores, por agentes externos, como
contece com uma pedra que se move, ou com um automóvel, e também
não se explicam tais movimentos e ações com o automatismo que encon
tramos nos animais e nas plantas. A ação do homem nasce das suas deci
liões. Ele estuda porque quer estudar, ama porque quer amar, escreve
porque quer escrever, vai ao Rio ou a Salvador porque quer ir ao Rio ou a
Salvador.
Esse querer, essa capacidade de autodeterminação caracteriza o ho
m m tão profunda e especificamente quanto o conhecer, o falar, o traba
lhar. Antes, muitos estudiosos vêem no querer (mais do que no conhecer
nu no falar) a verdadeira característica especifica do homem. Por essa ra
r. o, é nosso dever ocuparmo-nos com particular atenção dessa dimensão
nntropológica, a fim de tomar dela toda a grandeza e complexidade.
1. Definições e divisões
Em geral se define o querer como uma forma de inclinação, de ten
ncia ou de apetite. Por apetite (appetitus), entende-se qualquer inclina
o para o bem (bonum), ou seja, em direção a "ao que todas as coisas
110 Fenomenologia do homem
desejam"l. O bem é o objeto, a coisa que suscita, provoca e estimula a
inclinação, o apetite.
Como justamente observou Spinoza2, cada coisa é dotada de um
conatus essendi, de um nisus de preservação e de auto-realização funda
mental ("Conatus, quo unaquaeque res in suo esse perseverará conatur,
nihil est praeter ipsius rei actualem. essentiam"). A que coisa seja efetiva
mente dirigido esse conatus pode ser objeto de discussão, mas o fato da
sua existência é mais do que certo.
Esse conatus essendi fundamental, na filosofia clássica, é geralmente
chamado apetitus naturalis ou inclinação natural porque é ínsito na pró
pria natureza da coisa e não exige nenhum conhecimento para se acabar.
A pedra, por exemplo, tem um conatus, um apetitus naturalis para cair, a
planta para crescer e estender-se, a mola para expandir-se. Não há necessidade de conhecimento prévio por esses apetites ou tensões fundamen
tais. Segundo Aristóteles, Santo Tomás e muitos outros filósofos, essas
tendências são inscritas na forma própria da coisa e a levam para a sua
completa realização. Por isso, "a cada forma corresponde uma inclinação
própria"3.
Mas os seres possuidores de conhecimento, além de apetite natural,
são dotados também de apetites elícitos, apetites, inclinações originadas
pelos objetos que são vez por vez conhecidos. Por exemplo, o gato que vê a
carne sobre a mesa, sente imediatamente atração, inclinação em direção a
ela. Todos observamos como as mães que não querem que os meninos es
traguem este ou aquele objeto (um livro, uma fotografia etc.) retiram-no
de suas vistas e, assim, impedindo de conhecê-lo, obstaculizam a emer
gência do apetite relativo a tal objeto.
Nos animais, obviamente, não pode existir senão um apetite sensiti
vo, dotados, como são, somente de conhecimento sensitivo. E como esse é
sempre circunscrito a coisas particulares e materiais, também as suas in
clinações tomam sempre essa característica. O cão não sente atração pela
carne em geral, mas por este ou aquele pedaço de carne sobre o fogão ou
sobre a mesa; o burro não deseja a erva, mas esta erva aqui neste campo.
Também no homem certamente existe um apetite sensitivo que s
forma sobre o rastro do conhecimento sensitivo. Mas o homem tem de seu,
como se viu no capítulo anterior, também um conhecimento intelectivo,
universal, abstrato. Ele sabe o que é o pão, a carne, o vinho (por isso pod
prescrever e encomendar o pão, a carne, o vinho etc.) e tem inclinaçõ 1:1
1 Aristóteles, Ethica Nicomachea, 1. I, c. L
2 Ethica, III, prop. 7.
• Summa Theologiae, I, 80, 1.
Vontade - Liberdade - Amor
111,
relativas ao. ~ão, ~ carne e ao vinho. Ele conhece, além disso, coisas nbs
t~atas e esplntu~Is c~mo a glória, a virtude, a bondade, a coragem, a li Ii
cld~de e tem aspI,raçoes a e~as. Por isso, o homem além de apetite sensiti
VOte dotadho bt~mbem e especificamente de apetite intelectivo. A esse último
os amos a !tuados a chamar de vontadé.
2. A vontade do homem
d d
A análi~e fenomen?lógica da vontade humana mostra que ela é dota
a as segumtes propnedades:
- Human!dade: a vontade é do homem, antes, é o homem mesmo
Daquele que na~ tem vontade dizemos que é efeminado desmiolad .
- Mundamdade: é constantemente referida ao ~undo pola~~ad
Homp:e para aquele objeto, o qual pertence ou, de alguma ~aneira di:
r speIto ao mundo. '
b' t- Volubilidade: não é concentrada constantemente sobre o mesmo
'; ~e o, mas muda e se diri~e para objetos diversos com extrema facilida
(I ' ' ort~ quer estudar, ora brmcar, ora quer comer, ora ler o jornal ora quer
I ISCU Ir, ora repousar etc. '
- Alienação: a vontade descobre-se em querer coisas que não deveria
1,1)(~resreegur ~u em I não conseguir querer o que, ao contrário, deveria procurar
. Ir e a cançar.
- C?nformismo: adapta-se facilmente ao que querem os outros ' quer
UH espetaculos a moda t - ' , , os cos umes, os campeoes, os governantes etc
11" os outros querem. .,
.- Tr~nscendência: quer também as coisas espirituais a perfei ão a
, I6na, a VIrtude,. o sacrificio, o bem aos outros; transcende todas as ~it~a-
~ s de fato; por ISSO contesta e rebela-se ' transcende enfi .
11" . d <' • " m, a SI mesmo e
: :n~IS o que. eletIvamente consegue; como observou Blondel há um
'1UI~Idbno, uma dIferença permanente entre vontade que quer e ~ontade
11" n a.
- Liberdade:,rei.vindica para si clara autonomia: sente-se dona e res
Jlllll s~vel pelos propnos atos e tem a percepção do ser independente das
'lI'ossoes que vêm do exterior e do interior.
lu v;~~;~~an~~~::::~o:~::t:~:s ~~::::, ::::~:l: g~;:~~~o~~~:
I HOrn dtuvdlda, a hberdade. A ela, por isso, dirige-se particularmente o
/1 111180 es u o.
• r. I&., I, 80, aa. 1-2.
•
112
Fenomenologia do homem
3. A liberdade
"Liberdade" é termo que usamos todos os dias como "amor", "ódio",
"d "" ""J'ustiça" "tempo" etc. pensando conhecer claramente o seu
or, paz, " , dT '1 d lhe
significado; mas a um exame mais cuidadoso ve~os que e. IICI ar·
uma definição precisa e unívoca, tão variados e dIversos sao os ~asos em
que nós o usamos. Todavia, exis~e u~ núcleo funda~entalmente Igual que
ocorre constantemente: é a ausenCIa do constrangImento.
a) Definição
Geralmente com a palavra "liberdade" entendemo~ ausência d.e cons·
trangimento (immunitas a coactione, diziam os escolástI~os? A c.oaçao ~~de
depender de diversas causas e, po~ i~so,. po~em .ser dIstIn~Idos var~os
tipos de liberdade, dos quais os prInCIpaIS sao: hberdade (~s~c.a (qu.e e a
isenção de constrangimento físico), liberdade mora: (~ue e a I~e?çaO ~a
pressão de forças relativas à ord~m moral: co~o p~emlO~, pumçoes, leIS:
ameaças etc.), liberdade psicológ~ca (que e a Isençao de ~mpulsos de.ou
tras faculdades humanas sobre a vontade para fazê.~a .agIr de d~t~rmIn~'
da forma), liberdade política (é a isenç~o. de deter~~msmos polItIcos), h·
berdade social (é a ausência de determInISmOS SOCiaIS).
Mais exatamente, a liberdade psicológica (que é .aquela da qual nos
ocupamos no presente capítulo) define-se como cap~cIdad: que o h~mem
possui de fazer ou não determinada coisa, de cumpr~r ou nao de~ermInada
ação quando já subsistem todas as condições requendas para agIr. E o con
trol~ soberano sobre a situação, de fonua que a vontade tenha ~as suas
mãos o poder de fazer pender a agulha da bal~nça de um lado ,ou . o ou~ro.
E a senhoria absoluta, o domínio completo de SI mesmo, das pro?nas açoes,
de tudo o que nos diz respeito. Por exemplo, tenho o que precIso p~ra ado
quirir uma enciclopédia ou uma bicicleta ou uma roupa, e tod~s sao com·
ras que me interessam muito; comprar uma, a outra ou a ter~eIra depe~~
~xclusivamente da minha decisão. Nessa possibilidad.e r~d~ca! de deCIdIr
por si mesmo é que consiste a essência da liberdade pSIcologIca .
b) História do problema
Foi observado diversas vezes que a filosofia grega a? e~tud~ do pro
blema da liberdade não forneceu contribuição igualmente .sI~~ficatIva co~o
a de muitos outros problemas da filosofia. ''Tomando a hIst~na da filoso III
no seu conjunto, escreve Daudin, vê-se que alguns temas Impuseram- ,
, L. Gabriel, Uomo e mondo in decisione, Marietti , Turim, 1972, pp. 17855.
Vontade - Liberdade - Amor 113
desde as origens e em todos os tempos, ao estudo das mentes filosóficas,
como o da verdade do conhecimento sensível" e, particularmente do inte
lectual, fonte da filosofia; o da orientação da vida humana (Górgias), fonte
da moral. Esse não é o caso do tema da liberdade da vontade, o qual, por
assim dizer, está ausente das filosofias pagãs da antigüidade, também
nas maiores, possantes e completas. Ele, ao contrário, assume importân
'ia considerável nas filosofias cristãs do final da antigüidade e em todo o
pensamento medieval. E, na época moderna, o lugar que ele ocupa na
filosofia não cessa de se ampliar, enquanto se diversificam e se opõem
sempre mais as tentativas de solução, que crescem mais e mais'IS.
As principais razões pelas quais o pensamento grego não conseguiu
r alizar uma investigação satisfatória do problema da liberdade são três:
a) porque considera todas as coisas sujeitas ao destino, vontade abso
luta, superior aos homens e aos deuses, que determina consciente ou in
conscientemente a ação; por isso, definitivamente os homens estão isentos
II qualquer responsabilidade das ações. Eurípedes desculpa Helena por
que foi constrangida pelo destino a ceder às lisonjas de Páris;
b) porque conforme o pensamento grego, o homem faz parte da natu
r za e é sujeito às leis gerais que a governam, pelo que ele não pode com
portar-se diversamente;
c) porque o homem é escravo da férrea engrenagem da história, que é
I'oncebida pelo pensamento grego como movimento cíclico, no qual tudo se
I'opete regularmente em certo período de tempo.
O problema da liberdade adquiriunova dimensão e atraiu enorme
IIteresse no pensamento cristão, para o qual o destino não existe mais,
te ndo cedido o seu lugar a um Deus, Pai previdente e amoroso; a natureza
I II história não estão mais acima do homem, mas são postas ao seu servi
'o. "É o Deus das Escrituras, declara Agostinho, que nos revela que o ho·
/II m tem livre escolha da vontade"7.
Mas, nos dois milênios da reflexão filosófica cristã sobre a liberdade,
II problema não foi encarado sempre do mesmo modo e nem recebeu solu
\' () única.
Durante o período patrístico e medieval o problema foi visto da pers
III ·tiva teocêntrica; a liberdade é sobretudo uma relação entre o homem e
lIous e a esse propósito nós nos perguntamos: por que Deus criou o ho·
/11l lm livre, sabendo que ele abusaria desse dom (Agostinho)? Como é pos-
Iv 1, pois, que o homem seja livre se Deus é a causa principal e última de
nda coisa (Tomás)?
n II. Oaudin, La liberté de la uolonté, presses Universitaires de France, Paris, 1950, p. 2.
I I)e gratia et libero arbCtrio C. 2, PL 44, 882.
114 Fenomenologia do homem
No período moderno, a perspectiva teocêntrica ced~ lugar à .antro
pocêntrica: o homem toma consciência da sua autonomIa e, por ISSO, a
liberdade não constitui mais problema para as relações com Deus, mas
somente para as relações com as outras faculdades (sobretudo com as pai
xões) e com os outros indivíduos, com a sociedade, o Estado. Daí os estu
dos de Descartes, Spinoza, Hume, Freud e de muitos outros autores que
estudaram as paixões, e mais recentemente de Marx, Comte, Mill, Croce,
Russell, Marcuse e outros, sobre as relações entre indivíduo e sociedade.
No período contemporâneo, o fenômeno da socialização e das s~as
conseqüências leva a considerar a liberdade sobretu~o do ~)Qnto de vl~ta
social. O problema hoje é: de que forma se pode ser amda hvres na sO~le
dade atual, na qual os sistemas políticos, os instrumentos de comumca
ção, os produtos da tecnologia tornaram-se todos meios potentes de opres
são? Hoje, a liberdade não é mais comprometida por forças extramundanas
ou infra-humanas, mas por forças sociais, criadas pelo próprio homem, .e
que agora viram-se contra ele. O problema é encontrar a forma de conCI
liar o progresso com a liberdade.
c) Soluções principais
Aqui indicaremos, de forma extremamente esquemática, as soluções
mais significativas que foram oferecidas através dos séculos para o pro
blema da liberdade.
Há, antes de tudo, a solução determinista, que nega que o homem seja
livre.
O determinismo é justificado de diversas formas, alegando razões in-
trínsecas à natureza do homem ou mesmo razões extrínsecas! Por conse
guinte, dão-se duas formas de determinismo: extrínseco e i~t:ínseco. Mas
desses dois determinismos apresentam-se dIversas subespecIes.
Existem, antes de tudo, duas formas de determinismo extrínseco: mi
tológico e teológico. O primeiro nega que o homem seja livre por razões
mitológicas: são o fado, os astros, ~s demônio~ ~tc. que impedem ao ho
mem ser dono das próprias ações. E o determmIsmo da filosofia grega. e
também de alguns autores medievais. O segundo nega que o homem seJa
livre por razões teológicas: a onipotência ~e Deu~ ?ão deixa e~paço ne
nhum ao exercício da liberdade humana. E a posIçao da teolOgia muçul-
mana e protestante. .
Existem, também, diversas formas de determinismo intrínseco: fisw-
lógico (definido por Lambroso e por muitos cientistas ~odernos, q~e vê:m
nos movimentos da vontade simples reações a determmadas combmaçoes
químicas entre as células dos tecidos humanos); sociológico (defendido pelos
Vontade - Liberdade - Amor 115
struturalistas, por Marcuse e por muitos outros, segundo os quais todo o
ngir humano é determinado pela pressão exercida pela sociedade e pelas
auas estruturas sobre os indivíduos); psicológico (sustentado por Leibnitz,
Freud e outros: segundo Leibuitz, Sócrates e Platão, a ação da vontade é
inteiramente determinada pelo intelecto e pelos seus conhecimentos; se
gundo Freud, a ação da vontade é telecomandada pelos instintos); metafísico
(formulado por Spinoza e Schopenhauer, os quais vêem na vontade huma
na nada mais do que um momento e um modo da vontade Suprema e da
Substância divina); político (é a submissão da vontade dos cidadãos à do
lIoberano ou da classe governante: foi teorizado sobretudo por Maquiavel
(l por Hobbes).
Do lado oposto, encontramos a solução indeterminista, que afirma
que o homem é livre. Porém, desta solução também se dão várias interpre
tações, das quais as principais são as seguintes.
A respeito da demonstrabilidade que o homem é livre (e portanto do
ponto de vista gnosiológico) temos a versão postulatória e a versão
IIssertória: A primeira é a de Kant, o qual afirma que o homem é livre, mas
110 mesmo tempo sustenta que não é possível elaborar uma demonstração
t orética dessa verdade. A segunda é a sustentada por Aristóteles, Orígenes,
Agostinho, Anselmo, Tomás, Locke: ela diz que o homem é livre e que essa
verdade pela qual se podem aduzir muitas provas decisivas.
Do ponto de vista ontológico, quer dizer, a respeito da correlação en
tre a liberdade e a natureza profunda do ser humano, existem também
duas soluções. Segundo uma que tem muitíssimos adeptos a liberdade é
qualidade essencial do homem, mas não constitui a sua própria essência;
IIssim a pensaram Aristóteles, Agostinho, Escoto, Tomás, Kant e muitos
outros. Segundo a outra solução, a liberdade constitui a própria essência
da natureza humana: é a tese de Descartes e Sartre.
ti) Existência da liberdade
De todas as soluções enumeradas acima, a mais fidedigna nos pare
('CU a que se pode demonstrar que o homem é livre e que a liberdade,
mesmo não se identificando com a natureza humana, faz parte da sua
(lssência.
Para provar a existência da liberdade, podem-se aduzir efetivamente
- e foram aduzidas - muitíssimas argumentações. Alguns autores recor
.. m ao testemunho da consciência, outros à constituição intelectiva do ser
humano pelo qual ele goza de alguma Superioridade sobre as coisas, ou
tros, enfim, a conseqüências absurdas e desastrosas que o conhecimento
da liberdade traz consigo.
116 Fenomenologia do homem
Entre os textos mais eloqüentes a favor da liberdade, é com prazer
que nós nos lembramos dos quatro autores que s~o ~uito ~istân:iados no
tempo e, por esse motivo, são particularmente sIgnIficativos. Sao textos
de Clemente Alexandrino, Tomás de Aquino, Kant e J. P. Sartre.
Clemente afirma insistentemente que o homem é livre. Algumas ve
zes a essa afirmação dá uma justificação teológica, recorrendo para a au
toridade da Escritura. "Nós sabemos pela Escritura, diz Clemente, que o
homem recebeu de Deus a capacidade de escolher e de rejeitar alguma
coisa"8. Porém, com muito mais freqüência, oferece-nos argumentos racio
nais. Em particular, ele insiste sobre o argumento ex a~surdis: d~s co~se
qüências absurdas que resultariam caso se nega~se ~ hberdad~. ElOgiOS,
repreensões, recompensas, punições não seriam mtelramente Justa~ se a
alma não tivesse a faculdade de querer ou de não querer e cumprisse o
mal involuntariamente ... Suposto que os pecados têm início na nossa es
colha e no nosso desejo e que às vezes reina no nosso espírito uma opinião
errada devido à ignorância e à indiferença e nós não fazemos nada para
eliminá-la Deus tem razão de nos condenar pela nossa iniqüidade, ainda
que não a ~uisemos aberta e diretamente. Não se te~ culpa se nã,o se pega
a febre voluntariamente; mas, se ela é pega voluntariamente, se e merece
dor de censura. Evidentemente, não escolhemos o mal enquanto mal, mas
seduzidos pelo prazer que o acompanha, cremos boa uma ~oisa : a. esco
lhemos. Todavia, está em nosso poder nos libertarmos da Ignorancla, da
escolha do objeto ruim mas encantador, e, sobretudo, não dar o nosso con
senso a imagens falazes'>!!.
Tomás afrontou o problema da liberdade em muitas obras preocupan
do-se em demonstrar, antes de tudo, a sua existênciae depois, também,
em esclarecer a sua verdadeira natureza, determinando com precisão as
suas correlações com o intelecto e com as outras faculdades da alma. Tam
bém ele, como Clemente, dá muita importância ao argumento das conse
qüências absurdas. Contr~ os que sus~entam que" a vonta~e. ~umana s
move por ação das neceSSIdades, Tomas escreve: Essa oplmao deve ser
contada entre as alheias (extraneas) à filosofia, porque não é somente con
traditória à fé mas subverte também todos os princípios da filosofia mo
ral. De fato, s~ nós partirmos para a ação, necessariamente, se suprime O
deliberação, a exortação, o comando, o louvor e a reprovação, que são as
coisas pelas quais existe a filosofia moral.. . Tais opiniões, que destroem os
princípios de alguma parte da filosofia, dizem-se posições extravagantol:l
(positiones extraneae), como a afirmação de que nada se move, a qual
8 Stromati, II, c. 4, n. 21.
• lb ., I, 17, nn. 83·84.
Thntade - Liberdade - Amor 117
demole os alicerces da ciência natural"lO. Contra os que afirmam que as
ações humanas são determinadas pelos astros, Santo Tomás faz a seguin
te declaração, muito aguda: "A nenhum ser é dada em vão uma faculdade.
Logo, o home~ tem a faculda~e de julg~r e de refletir sobre tudo o que
pode ope~a:, s«:!Ja no uso das COIsas exteriores, como no favorecer ou rejei
tar as palXoes mternas; e isso seria inútil se o nosso querer fosse originado
pelos ast~os e não em nossa faculdade. Não é, portanto, possível que os
astros sejam causa da nossa eleição voluntária"ll. Mas a razão mais pro
funda ~om que Tom~s justifica a presença da liberdade na determinação
das açoes humanas e outra e tem como base a possibilidade que o homem
tem de avaliar os limites e as carências das coisas que se oferecem à sua
atenção e, conseqüentemente, de repeli-las. Eis o seu fino raciocínio: "A
leição _humana não é necessária. E isso porque nunca é necessário o que
p~de na~ ser. Ora, pode-se demonstrar que é coisa indiferente eleger ou
nao partmdo das faculdades que o homem possui. Efetivamente, o homem
t m a faculdade de querer, ou de cumprir, esta ou aquela coisa. E disso
temos a confirmação na mesma estrutura da razão humana. De fato, a
vontade pode tender para as coisas que a razão aprende sob aspecto de
b ~. Ora, a ra~ão po~e considerar como bem não somente o querer e o
gIr, mas tambem o nao querer e o não agir. Além disso, em todos os bens
particulares a razão pode observar o aspecto bom de uma coisa ou as suas
arê~cias de bem, que se apresentam como mal; e, com base ~isso, pode
onslderar cada um de tais bens como digno de eleição ou de fuga. Somen
o bem perfeito, ou seja, a felicidade, não pode ser considerado pela ra
I o co~o mal ou defeito. E é por isso que o homem, por necessidade, quer
beatItud~ e não pode querer a infelicidade e a miséria. Mas a eleição não
t ~ por ob~eto o fim, e sim os meios; não diz respeito ao bem perfeito, ou
l OJa a beatitude, mas aos outros bens particulares. Por isso, o homem não
umpre uma eleição necessária, mas livre"12.
Kant, como é notório, sustenta que a razão na sua função teorética
nnda pos~a ~izer ~e definitivo sobre o problema da liberdade, porque ele
diz respeIto a reahdade como é em si mesma, enquanto o objeto próprio da
IIZã? teorétic~ são os fenômenos. Kant afirma também que na sua função
rAtIca, ou seja, como fonte da moralidade, a razão não pode absoluta
I~ nte prescindir da .liberdade, porque "sem a liberdade ... não é possível
I I moral, tampouco Imputação segundo essa lei"13. De fato, "os dois con
I itos (moral e liberdade) são interligados tão inseparavelmente, que a
10 De malo, c. 6, in corpo
" Contra GeMi/es, III, c. 85.
12 Summa Theologiae, I·II, q. 13, a. 6.
" I. Kant, La critica della ragion pratica, Laterza, Bari, 1924, p. 115.
118 Fenomenologia do homem
liberdade prática se poderia também definir mediante a independência da
vontade de toda outra coisa, menos da lei moral"14. Mas, então, se pode
provar a existência da liberdade? Não, podemos somente postu~á-Ia. '~A
liberdade de uma coisa eficiente, especialmente no mundo senslvel, nao
pode ser de modo algum conhecida quanto à sua possibilidade (e, por isso,
muito menos quanto à sua existência): somos bem afortunados se pode
mos ser suficientemente seguros apenas de que não há nenhuma demons
tração da sua impossibilidade, e se mediante a lei moral que po~tula essa
possibilidade, somos constrangidos a admiti-la precisamente por ISSO, tam
bémjustificados para assim o fazer"15.
Entre os autores do nosso tempo, o que afirmou com maior vigor a
existência da liberdade foi J.P. Sartre. Segundo o célebre existencialista
francês, "o homem está condenado a ser livre"16. "A escolha é possível em
algum sentido, mas o que não é absolutamente possível é nã? escolh:r. Eu
posso sempre escolher, mas devo saber que se não escolho, aInda aSSIm eu
escolho"17. "É graças à liberdade que o pour-soi (para-si) foge ao seu ser e
à sua essência, é em virtude da liberdade que ele é sempre algo diferente
do que o que se pode dizer dele, porque pelo menos ele é o que foge a essa
mesma denominação, o que já está além do nome que a ele se dá, a pro
priedade que se lhe reconhece. Dizer que o pour-soi há de s:r 0A qu~ é, dizer
que é o que não é com o não ser o que é, dizer que nele a eXIstencIa prece
de e condiciona a essência ou inversamente, segundo a fórmula de Hegel,
que para ele ''Wesen ist was gewesen ist", é dizer, uma só e idêntica coisa,
ou seja, que o homem é livre. Pelo simples fato, efetivamente, de ~ue ~u
tenho consciência dos motivos que solicitam minha ação, esses motivos Já
são objetos transcendentes para a minha consciência, estão fora; em vão
tentarei agarrar-me: supero-os mediante minha própria existência. Sou
condenado a existir sempre além de minha essência, além dos moventes
e dos motivos do meu ato: sou condenado a ser livre. O que significa que
não se conseguirá encontrar outros limites à minha liberdade senão ela
mesma ou, se se prefere, que nós não somos livres para cessar de ser
livres"18.
Em seguida, teremos que fazer amplas reservas sobre a identificação
que Sartre propõe entre liberdade e essência do ~o~e~, ma~ aqui não
podemos dissentir das suas observações sobre a eXIstencIa da lIberdade o
a sua presença em tudo o que o homem cumpre.
14 Ib., p. 112.
" Ib., p. 112.
' 6 L'être et le néant, Gallimard, Paris, 1957, p. 530.
17 L'esistenzialisme e un umanesimo, Mursia, Milão, 1968, pp. 75-76.
' 8 L'être et te néant, cit., p. 515.
\0ntade - Liberdade - Amor
119
Antes de concluir essas considerações sobre a existência da liberda
de, nós ~ue~íamos voltar, ainda que brevemente, sobre um dos argumen
tos queJa fOI esboçado em algumas ocasiões: o que serve de alavanca sobro
a própria es~rutura da vontade humana. Esta, comojá vimos, é faculdade
paralela ao mteleto. Enquanto, porém o fim do intelecto é a verdade não
esta ou aquela ve:-dade, mas a v~rdade enquanto tal, a verdade absoiuta,
o fim da vontade e o bem, mas nao este ou aquele bem particular e sim o
bem absoluto, universal. É somente no bem absoluto que a vontad~ encon
tra a perfeita satisfação, a felicidade, a paz. Somente quando encontra
ss~ bem não pode li?ertar-se da sua atração irresistível e o segue neces
sanamente. Nesta VIda, porém, o intelecto não propõe nunca à vontade
um be~ concreto que possua todos os carismas do bem absoluto, univer
sa~, .e SIm somente bens particulares, limitados, defeituosos e, por isso,
sUjeItos a serem descartados ou rejeitados. Aqui está a razão profunda
pela qu~l a vontade humana não é livre: a sua potente propensão para o
bem umversal e a sua permanente insatisfação frente a qualquer bem
concreto deste mundo.
I') Natureza da liberdade
Para compreender a natureza da liberdade, é necessário antes de tudo
ostabelecer de que .maneira se desenvolve o ato livre. Por exemplo, quan
do escolho ler um hvro antes de fazer qualquer outra coisa como chego a
ossa determinação?'
Santo Thmás e muitos outros autores distinguem no ato livre três
momentos principais: deliberação, juízo e eleição.
. A deli~eração é a fa~e .da exploração, da procura, da indagação a res
PClt~ do obJeto por adqumr ou da ação por cumprir. O juízo é a fase da
nvahação. A eleição é a fase da decisão. Geralmente entre as três fases a
d!s~inção é muito clara, mas, de qualquer modo, as três fases são muito
vlzmhas, quase que juntas.
O ato .livr~ exige, antes ?e tudo, que se conheça o que se quer fazer e,
po~tanto, Imphca exame cUl9-adoso da ação que se quer cumprir ou do
ubJeto que se quer alcançar. E o que fazemos normalmente. Se, por exem
plo, nos v;m à mente adquirir uma enciclopédia, informamo-nos do que se
l,rata, se e bo~, quanto custa, etc. Adquiridas suficientes informações, ava
Itamos os ~ros ~ ~ontras: se vale a pena ou não, por exemplo, adquirir
I~quela enclCI~pedIa. Mas também a avaliação positiva não comporta ipso
lacto o cumpr~me_nto da ação ou a escolha do objeto, porque se pode tratar
/lInda de avahaçao abstrata, que não me diz respeito neste determinado
momento. Para que ao juízo siga a eleição é necessário que o juízo sej a
120 Fenomenologia do homem
juízo prático: deve valer a pena para mim neste momento. Se o juízo assu
me essas características, então emite o ato de eleição.
O ato livre, que conclui na eleição, é ato complexo, resultado de um
diálogo entre o intelecto e a vontade. De fato, na eleição ou escolha "con
correm um elemento de ordem cognitiva e um elemento de ordem apetitiva:
da parte da potência cognitiva requer-se o conselho, com o qual se julga
qual seja o partido a ser preferido; da parte, por outro lado, da potência
apetitiva solicita-se que seja aceito mediante o desejo como é julgado me
diante o conselho (consilium). Por essa razão, Aristóteles deixa suspensa
a questão de se a escolha pertence mais à faculdade apetitiva ou à cogniti~a:
diz, de fato, que a escolha é 'ou uma intelecção apetitiva ou um apetite
intelectivo' ". Ele, porém, na Ética propende para o apetite intelectivo"19.
Também Santo Tomás pensa que o ato livre pertença substâncialmente à
vontade, ainda que dependendo essencialmente também do intelecto. Eis
o seu raciocínio a esse respeito: "O termo eleição ou escolha implica ele
mentos que cabem à razão ou ao intelecto, e elementos que cabem à vonta
de ... ora, se dois elementos concorrem para formar uma coisa, um deles é
o elemento formal com relação ao outro. E , na verdade, São Gregório de
Nissa afirma que a eleição 'por si mesma não é o apetite e também não é o
único conselho, mas a sua combinação. Como dizemos que o animal é com
posto de alma e corpo, não de corpo ou de alma separadamente'. Ora, é
preciso considerar que um ato da alma que pertence substancialmente a
uma dada potência ou a um dado hábito recebe a forma e a espécie de uma
potência e de um hábito superior na proporção em que o inferior é subordi
nado ao superior; se um, por exemplo, cumpre ato de força por Deus, ma
terialmente o seu ato é ato de força, formalmente de caridade. Ora, é evi
dente que a razão é de algum modo superior à vontade e que ordena os
seus atos, ou seja, enquanto a vontade tende ao próprio objeto segundo a
ordem de razão, pelo fato de que a faculdade de conhecer apresenta à
apetitiva o próprio objeto. Assim, então, o ato com o qual a vontade propende
para alguma coisa que lhe é proposta como bem, sendo ordenado pela ra
zão para um fim, materialmente é ato de vontade, formalmente da razão.
Efetivamente, a substância do ato se comporta como matéria relativamente
à ordem imposta pela potência superior. Por esse motivo, a eleição subs
tancialmente não é ato da razão, mas da vontade; de fato, a eleição consis
te em movimento da alma em direção ao bem escolhido. Logo, é claro que
ela é ato de potência apetitiva"2o.
,. S. 'Ibmás, 8 umma Theologiae, l , q. 83, 8 . 3.
20 8U1nma Theologiae, IIII, q. 13, 8. 1.
Vontade - Liberdade - Amor
12 1
4. Limites da liberdade: as paixões
Precedentemente, tratando da existência da liberdade tivemos oca.
8i~0.de .nos referirmos ao pensamento de J .P. Sartre. Um dos 'aspectos ma is
orlgmals desse pensador é a tese do poder infinito, ilimitado da liberdad
Ora, essa tes.e singular encontra apoio muito fraco entre os filósofos. São, no
ntant~, mUlto numerosos os que sustentam que a vontade humana não é
nunca lIvre, mas sempre determinada. Porém, vimos que essa tese também
refutada por ampla série de argumentos difíceis de serem contestados.
. O homem é livre~ m~s .não totalmente livre como quer Sartre. Que a
liberdade ~lUmana seja lImItada resulta dos seguintes argumentos:
- A lI.berdade não se identifica com o ser do homem, mas constitui
uma proprIedade fundamental dele, junto a outras propriedades também
fundamentais como o viver, o pensar, o trabalhar. Por isso também a liber
dade é sujeita aos mesmos limites aos quais são sujeitos o viver, o pensar
o trabalhar, porque é por eles condicionada.
. - O homem não é livre de ser corpóreo, sociável, sexuado etc. Não é
hvre de usa.r a lingua~e~ a seu bel-prazer, do contrário a linguagem não
alcança maIS o seu obJetIvo, que é o da comunicação com os outros. Para
lcançar este resultado, deve-se usar a linguagem conforme os significa
dos que lhe foram impostos e seguindo as regras estabelecidas.
. - O homem não é livre de propender em direção ao bem: seria o suicí
dIO da vontade e do seu ser, porque, como o intelecto tende naturalmente
para a verdade, a vontade tende naturalmente para o bem. A tendência da
vontade para o bem é necessária, mas natural e não forçada. A liberdade
xerce-se no interior do horizonte da tendência natural em direção ao bem.
Sobre esse ponto santo 'Ibmás tem razão quando afirma ''Voluntas nihil
fllcit nisi secundom quod est mota per suunm objectum quodest bonum
appetibile"21.
. - O homem não pode subtrair-se a certa dependência do mundo da
"ocledade e da história. O peso do mundo, da sociedade e da história s~bre
os indivíduos é tão óbvio e tão grave que alguns filósofos 'e sociólogos (Lévi
Htrauss, McL,uhan, Marcuse, Gurvitch e outros) estão hoje mais propen
"OS a d~nunclar o estado de profunda escravidão em que se encontra a
humamdade presente, em vez de exaltar a sua liberdade como faz Sartre
Na Antigüidade e na Idade Média o maior obstáculo à liberdade human~
ra representado pelos "determinismos cósmicos" (influxo do Fado, dos
()eus~s, da Natureza, dos astros, dos demônios etc.), hoje, ao contrário é
('onstItuído pelos "determinismos sociais". '
21 De ueritate, q. 14, 8. 2.
122 Fenomenologia do homem
- A liberdade humana, enfim, é condicionada pelas paixões. Esse
último condicionamento foi sempre tomado em consideração pelos filóso
fos. Encontramos tratados sobre paixões em todos os períodos da história
da filosofia, no grego e no medieval como nos modernos e contemporâneos.
Este fato basta sozinho para testemunhar quanto é importante uma inda
gação sobre as paixões, a fim de estabelecer em que medida elas podem
condicionar no homem o exercício da liberdade. Por este motivo, nos pre
paramos agora para fazer um discurso bastante longo a respeito da natu
reza, acerca da divisão das paixões e sobre o seu influxo sobre a vontade.
a) Definição das paixões
Aristóteles, na Metafísica22
, distingue quatro sentidos de pathos, ne
nhum dos quais, porém, é próprio ao caso das paixões da alma. Estas, ao
contrário, são genericamente definidas como "alterações sobre a base or
gânica". Em seguida esse conceito foi retomado pela patrística e pela
escolástica.
Santo Tomás distingue vários significados do termo "paixão". O signi
ficado próprio e primário tem-se quando "algo é recebido no paciente atra
vés de movimentos ... e dos vários movimentos o que interessa à paixão é o
movimento de alteração"23. Aqui vale a pena lembrar que Aristóteles e
Tomás distinguem quatro tipos fundamentais de movimento ou devir:
substâncial, que é o da geraçãoe corrupção de uma substância; quantita
tivo, que é o do crescimento ou da diminuição de alguma coisa; local, que é
a passagem de um lugar para outro; qualitativo, que é a alteração de uma
qualidade, ou seja, de uma forma acidental. Portanto, dizendo que a pai
xão é alteração, Aristóteles e Tomás querem dizer que ela é modificação de
uma qualidade, de uma disposição da alma ou de uma sua parte.
Segundo Tomás, o termo "paixão" é próprio, antes de tudo, ao apetite
sensitiv024. Mas ele pode ser atributo também da alma. Aqui, porém, é
preciso distinguir três significados da paixão: comum, próprio e translato.
No significado comum quer dizer suportar, receber (receptio); no significa
do próprio quer dizer alteração e no translato quer dizer proibição. Feitas
essas distinções, Tomás conclui: "No sentido comum, a paixão encontra-se
na alma, como também em qualquer criatura, porquanto qualquer criatu
ra tem em si mesma algo de potencial e, por isso, cada criatura, subsistent
é receptiva de alguma coisa. Segundo o sentido próprio, paixão encontra
se somente onde há movimento e contrariedade. Ora, o movimento encon-
22 Metafisica, V, 21.
23 De ueritate, q. 26, a. 1.
2' Cf. Summa Theologiae, 1/11, p . 22, a. 3; III VII physicorum, Lect. 4, n. 1833.
\0ntade - Liberdade - Amor 123
tra-se somente nos corpos e a contrariedade das formas e das qualid d H
/lomente nas coisas mais geráveis e corruptíveis. Por isso, somente d SSUH
coisas se pode dizer que sofrem. E, portanto, a alma, sendo incorp6r 0,
não se pode dizer que sofre deste modo: e também se recebe algo, isso não
acontece ~ediante transmutação de um contrário ao outro, mas s6 por
causa do mfluxo do agente, do mesmo modo que o ar é iluminado pelo sol.
Enfim, segundo o sentido translato, a paixão 'pode ser dita também da
alma: ela sofre quando a sua operação é impedida' "25.
De.scartes, Spinoza e Hume conservam o conceito clássico de paixão,
ontendIda como modificação passiva da alma. Kant é o primeiro a desen
volver a idéia ativa de paixão. Ele distingue entre Affekt (afeição) e Lei
denschaft (paixão). Esta última é concebida como desejo intenso que se
torna tendência estável e despótica da alma, de modo tal a tornar difícil
Honão impossível, o domínio da razão. Esse conceito encontrou o favor do~
pensadores do nosso tempo, em particular de Nietzsche Freud Adler
I leidegger e Bloch. ' , ,
A partir de Freud, muitos autores viram na esfera da afetividade ou
II da, na esfera das paixões, a parte mais importante da atividade hu~a
na, de interesse ainda maior do que a do conhecer, do querer, do falar e do
t.rabalhar e sustentaram poder dar explicação conclusiva ao fenômeno
human~ r~conduzindo-o a uma paixão fundamental. Para Freud é a pai
xão da lzbldo; para Adler, o desejo de potência; para Marcuse, o instinto do
prazer; para Bloch, a fome; para Ricoeur, a coragem (thymós); para Hei
d gger, a angústia.
I,) Divisão das paixões
Muitíssimos filósofos interessaram-se pela classificação das paixões:
':'atão, ~istóteles, Tomás, Descartes, Spinoza, Hume, Kant, Freud,
Hcheler, RlCoeur e muitos outros.
Por razões de espaço nos limitaremos a citar as divisões de São To
lilás, Spinoza, Kant e Ricoeur, que são representativas de diversas épocas.
Tomás considera as paixões como movimentos do apetite sensitivo e,
cindo que esse é de dois tipos, concupiscível (propenso a um bem que se
pode atingir facilmente) e irascível (propenso a um bem árduo de atingir),
"is que as paixões se dividem em dois grandes grupos: paixões do apetite
('oncupiscível e paixões do apetite irascível. Cada grupo compreende seis
pnix?es fundamentais. No grupo do apetite concupiscível temos: ardor,
d seJo e prazer, que são posturas relativas a um bem em perspectiva; ódio,
~. De ueritate, q. 26, a. 1.
124 Fenomenologia do homem
fuga e tristeza (tristitia), que são atitudes relativas a um mal iminente.
No grupo do apetite irascível temos: esperança, audácia e ira, que são dis
posições para um bem de difícil realização; desespero, medo e preguiça,
que são disposições para um mal a que é difícil poder subtrair-se26.
Para Spinoza27, as paixões fundamentais são a alegria e a tristeza: a
primeira é a paixão que se tem quando se passa de um estado de perfeição
menor a um maior; a segunda, quando acontece o contrário. Quando a
alegria e a tristeza são acompanhadas pela idéia de uma causa externa,
dão origem às paixões do amor e do ódio, graças às quais o homem procura
o que lhe traz alegria e foge do que lhe traz tristeza. Dessas quatro pai
xões fundamentais, Spinoza deriva todas as outras28.
Kant distingue três paixões principais: valer (Ehrsucht), poder (Herr
sucht), haver (Habsucht)29
Scheler distingue quatro tipos principais de sentimentos: sentimentos
sensoriais (Sinnliche Gefühle) , sentimentos vitais (Lebensgefühle), senti
mentos psíquicos (Seelische Gefühle) e sentimentos espirituais (Geistige
Gefühle). Com análise fenomenológica comparativa, Scheler procura evi
denciar a irredutibilidade específica dos vários tipos de sentimentos e, por
tanto, a impossibilidade de derivação de uns a partir de outros por asso
ciação, fusão, variação de intensidade etc., enquanto ao mesmo tempo
sublinha a sua constante referência ao eu, à pessoa: os sentimentos, segun
do Scheler, são inerentes ao eu, por natureza, e se dissolvem como tais quanto
mais direta e voluntariamente se procura considerá-los de modo reflexiv030•
Ricoeur distingue no homem três atividades principais: conhecer,
querer e sentir. Cada uma dessas faculdades é determinada mediante a
explicitação do seu objeto. O conhecer é a faculdade que se relaciona com o
seu objeto na sua qualidade de poder ser apreendido como verdadeiro. O
querer é a faculdade que se relaciona com o objeto na sua qualidade de
poder ser desejado como bom. O sentir é a faculdade que se relaciona com
o objeto na sua qualidade de poder mostrar, de estimular, de manifestar,
de revelar mediante a relação com um objeto a intimidade do próprio eu.
Segundo Ricoeur, a mais importante das três faculdades é a última, o sen
timento: ela e a esfera dos desejos e das paixões.
Ricoeur distingue na dimensão afetiva três partes principais, carac
terizadas por três desejos essencialmente distintos: desejo de prazer
2. Summa Theologiae, I/II, q. 23, a. 4.
27 Por paixão, Spinoza entende uma modificação do nosso corpo, da qual nós não somos a causa
adequada; trata-se, por isso, de uma modificação na qual somos, parcialmente, passivos. À passio elo
contrapõe a emoção da actio. (Cf. Spinoza, Ethica IV, Def. III).
28 Cf. Ethica, IV parte.
29 Cf. Kant, Antropologia da um punto di vista pragmático, nn. 80ss.
30 Cf. M. Scheler, Der Formalismus in der Ethik, 4' ed., Berna, 1954.
\Vntade - Liberdade - Amor 125
(Epithymia), ao qual correspondem as afeições vitais; desejo de amor (Eras),
ao qual correspondem as afeições espirituais; desejo de conquista (Thymós),
o qual compreende toda a afetividade que serve de ponte entre o viver e o
pensar, entre o Bios e o Logos. À esfera do Thymós pertencem as paixões
tipicamente humanas do ter, do poder e do valer. Por sua vez, à esfera do
omor pertencem as paixões que caracterizam e exprimem a abertura fun
damental do homem para o ser, como a amizade (abertura em direção aos
próprios semelhantes), devoção (abertura em direção ao mundo das Idéias,
Il Transcendência), deleite e náusea, alegria e tristeza, serenidade e mal
ostar, vivacidade e gravidade, que são tonalidades das duas paixões prin
cipais: a amizade e a devoçã031•
Essas divisões nos oferecem o ponto de partida para algumas consi
d rações. Antes de tudo, a classificação tomista, ainda que nítida e pre
('isa, parece-nos carente porque muito ligada à divisão entre apetite con
cupiscível e irascível, pelo qual não tem na devida conta o fato de que a
nfetividade invade todo o homem e investe também as suas dimensões
mais altas e espirituais, como o intelecto e a vontade.A divisão de Spinoza está viciada por uma perspectiva muito egoísta,
p la qual todos os sentimentos seriam determinados exclusivamente pelo
{'onatus essendi, do instinto de autoconservação.
Também a divisão kantiana parece por demais restrita e negligencia
muitos sentimentos importantes do homem.
A classificação de Ricoeur parece, sem dúvida, a mais satisfatória,
porém está prejudicada pela tese de que só a afetividade pode garantir ao
homem uma ponte para a Transcendência. Ricoeur funda essa tese mais
,.obre razões de sistema que sobre argumentos persuasivos: a razão últi
ma é a sua vontade de abrir ao homem uma porta para a Transcendência,
II pois que essa possibilidade fora colhida do ponto de vista teorético. Todo
II 'onjunto do pensamento ricoeuriano parece por demais viciado por moti
vos kantianos.
Porém, também se as divisões recentes das paixões não são perfeitas,
II ln resultado foi seguramente adquirido pela filosofia contemporânea: a
Importância da afetividade do homem. Ela tem importância capital no
qu concerne ao reconhecimento do ser em si mesmo e do ser próprio do
homem. A afetividade conota todas as várias posições que o homem assu
III diante das coisas, diante dos outros e diante de si mesmo. Por isso, um
tlxnme atento e aprofundado dos sentimentos pode ser extremamente fe
('lindo e o provaram Heidegger, Sartre, Marcel, Merleau-Ponty com as
nnálises da angústia, da náusea, da fidelidade e da sexualidade.
" Cf. P. Ricoeur, Finitudine e colpa, II Mulino, Bolonha, 1960, pp. 166s8.
126 Fenomenologia do homem
A fenomenologia das paixões não é, portanto, algo de periférico e aci
dental na antropologia filosófica, mas representa uma das suas tarefas
principais e imprescindíveis.
c) Influência das paixões sobre a vontade
A influência das paixões sobre a vontade não pode ser mascarada por
que se trata de fato que experimentamos em nós mesmos tod?s os dias.
Ela deu origem a ditos famosos como: video bona proboque, deterlO~a autem
secuor" (Ovídio); "non enim quod volo bonum, hoc ago; sed quod OdI malum,
illud facio" (São Paulo).
Mas quanto pesa essa influência sobre as nossas decisões~ ~olhe-nos
toda a liberdade e nos torna completamente escravos das palXoes como
afirmaram Spinoza, Hume, Freud? Parece-nos que essa tese seja inad
missível porque contrária à experiência, a qual nos diz que em situações
normais as paixões exercem, sim, sobre nós forte influência, mas ao mes
mo tempo testemunha que não somos escravos delas, porquanto podem~s
combatê-las e rechaçá-las. Por isso mesmo, os argumentos sobre os quaIs
Spinoza, Hume e Freud baseiam a sua tese não sã~ inatacáve~s. _ .
Para Spinoza o estado de escravidão é determmado pela Ignorancla,
mas essa pode ser 'vencida olhando as coisas "sub lumine aet:rn~t~tis",.ou
seja olhando as vicissitudes humanas como as olha a SubstancIa mfimta
e se 'conformando com o seu querer. Por isso, o império das paixões sobre a
vontade não é absoluto nem definitivo, como queria deixar entender o filó
sofo hebreu no quarto livro da Ethica.
Em Hume a tese da escravidão das paixões é ligada a arbitrária e
contraditório n~gação de todo o poder da razão. A essa, Hume gostaria de
contestar qualquer incidência sobre a prática e quereria, ademais, sub
traí-la também de toda a esfera das ciências experimentais: todo o conhe
cer experimental e todo o agir humanó seriam obra da fantasia e dos ins
tintos. Mas este é postulado carente de qualquer fundamento justificado
apenas por incrível prevenção no que diz respeito à ra~ão. ,
Quanto à teoria de Freud, segundo a qual todo o agir humano e deter
minado pela libido, ela encontra hoje apoios sempre menos numerosos;
até a psicanálise, o célebre método freudiano para a cura das neuroses,
nestes últimos tempos entrou. em profunda crise. Isso é testemunhado,
entre outros por Fromm, um dos mais autorizados psicanalistas do nossO
tempo. Ele escreve: "N ão há nenhuma dúvida de que a psic~nál~se se acha
em crescente estado de crise, o que se tornou sempre maIS eVIdente du
rante os últimos dez anos. Essa crise abrange tanto os aspectos teóricofl
quanto clínicos da psicanálise. Teoricamente, o conceito de libido e o prin-
Vontade - Liberdade - Amor 127
cípio do prazer são considerados superados, não apenas pelos psicanalis
tas que não pertencem à escola freudiana, mas também por muitos segui
dores de Freud, especialmente pelos membros do grupo principal dos teó
ricos freudianos, o dos psicólogos do Eu (Ego-psychologists), os quais
também admitem que esses princípios estão em conflito com as descober
tas mais recentes da neuro-fisiologia ... Além de uma fenda teórica da psi
canálise clássica, nota-se forte desapontamento quanto aos seus resulta
dos terapêuticos. Com teoria superada, com procedimento terapêutico
quase que inalterado e com fundo de pretensões otimistas acerca das pos
lI ibilidades terapêuticas, os psicanalistas começaram a duvidar, freqüen
temente apenas de modo inconsciente e a perder a confiança no seu méto
do; ao mesmo tempo, o número dos pacientes desiludidos faz-se sempre
maior ... "32.
Hoje, na América, no lugar do método freudiano de psicanálise ou
psicoterapia está encontrando sempre maior número de adeptos o método
da terapia do condicionamento (Conditioning Therapy ou Conditionet
Hellex Therapy), o qual se baseia no principio de que "os problemas emo
'ionais humanos são o resultado de má educação (miseducation) pes
oal"33. O seu objetivo é o "de superar as neuroses aplicando o processo de
IIprendizagem na direção oposta, a fim de que qualquer conduta indesejá
v I que foi aprendida seja desaprendida"34.
Por isso, para demolir a teoria freudiana da libido basta afastar o seu
,'nráter totalizante, mostrando que a dimensão afetiva humana não é de
fato redutível à libido. É o que fez com grande agudeza Paul Ricoeur, o
'Iual mostrou que três paixões específicas do homem (haver, poder e valer)
"na sua essência são não-libidinais"35.
Concluindo, é preciso reconhecer que a influência da parte afetiva
obre o resto do homem é real e profunda, tanto para o bem quanto para o
lIIa1. Ela fornece uma tonalidade a cada atividade humana; pode sustentá
III ou impedi-la, favorecê-la ou obstá-la, porque para tudo o que o homem
roaliza existem tendências afetivas contrastantes: amor-ódio, alegria-tris
lt\za, esperança-temor etc.
Porém, não obstante essa forte pressão afetiva, a vontade em condi
\'0 s normais permanece livre e soberana com relação a todas as outras
!'lIculdades do homem. Como já observava Platã036, o conflito entre pai-
"' E. Fromm, "The present erisis in psiehoanalysis", in Praxis, 1967, pp. 70-71.
33 Ib., p. 21.
R. The conditioning therapies, eoord. de J. Wolpe A Salter e L. J. Reyna, Nova York, Holt, Rinebart
, Winston, 1965, p. 10.
Mp. Rieoeur, De l'interpretation. Essai sur Freud, Seuil, Paris, 1965, pp. 488ss.
AO Summa Theologiae, I!Il, q. 10, a. 3.
128 Fenomenologia do homem
xões e vontade é sinal evidente de que a vontade é livre defronte às pai
xões. No entanto, em circunstâncias particulares, algum indivíduo pode
tornar-se escravo de uma paixão, mas então não é mais considerado nor
mal e é fechado em asilo ou em casa de cura ou em manicõmio ou em
prisão.
Santo Tomás especifica que a vontade enquanto tal não pode nunca
ser determinada pelas paixões, enquanto o pode ser o homem tomado glo
balmente. De fato, "ou o movimento da vontade não tem lugar e domina
exclusivamente a paixão, ou dá-se ao movimento da vontade e então ela
não segue necessariamente o impulso da paixão"37. As paixões podem exer
cer sobre a vontade só uma influência indireta, através do seu objeto que
é apresentado à vontade pelo intelecto.
5. Relações entre intelecto e vontade
Hoje, a disputa das relações entre intelecto e vontade é pouco senti
da. Ao contrário, no passado, quando se atribuía pouca importância a
algumas atividades humanas como o sentir, como o falar, como o traba
lhar e se caracterizavao homem exclusivamente através do pensar e do
querer, a questão do primado entre intelecto e vontade foi muito viva e
algumas vezes assumiu aspectos polêmicos muito ásperos, Muitos auto
res (Agostinho, Boaventura, Duns Escoto, Lutero, Kant, Schopenhauer)
pronunciaram-se a favor do primado da vontade; outros (Aristóteles,
Avicena, Alberto Magno, Locke, Maritain) declararam-se a favor do pri
mado do intelecto.
Na história da filosofia é comum se apresentar Tomás como in
telectualista e como o expoente principal do intelectualismo, enquanto se
considera Escoto como o porta-voz do voluntarismo. Mas se se olha um
pouco para dentro das coisas, acha-se que elas não são exatamente assim,
pelo menos, no que concerne a Tomás.
Escoto professa seguramente o primado absoluto da vontade sobre o
intelecto e isso por várias razões. Antes de tudo, porque a vontade pod
comandar também o intelecto. Em segundo lugar, porque a corrupção da
vontade é mais grave e deletéria do que a corrupção do intelecto. Em ter
ceiro lugar, porque odiar a Deus (e este é ato da vontade) é pior do que não
conhecê-lo. Enfim, porque o amor (que e ato da vontade) é um bem superior
ao conheciment0 38.
38 Cf. E. Gilson, Duns Seot, Vrin, Paris, 1952, pp. 591·601.
Vontade - Liberdade - Amor 129
, A posição de Tomá~, por ~ua vez é muito mais obscura. Ele acha que
ha aspectos para os quaIS o prImado cabe ao intelecto, mas existem outros
aspectos para os quais a supremacia cabe à vontade. Porém, falando absolu
t?mente, o p~imado cabe ao intelecto, porque "o objeto do intelecto é mais
SImples e maIS absoluto do que o da vontade: sendo o objeto do intelecto a
o objeto da vontade é o bem apetecível cuja idéiajá se acha no intelecto"39
S~, pelo co~trário, se consideram as duas faculdades em relação a deter~
~l1nados obJ~tos, pode acontecer que a vontade seja superior ao intelecto:
quando a cOI~a em qu~ o bem .se acha é mais nobre do que a alma na qual
se acha a sua u~agem mt~lectIva, a vontade é superior ao intelecto,justa
mente em, relaçao a tal COIsa. Quando, por sua vez, a coisa em que se acha
O bem. es~! so~ a alma, então_ o i~telecto.é superior à vontade em relação a
t?l COlS? . Ainda, em relaçao a causahdade eficiente, a vontade é supe
rIOr ao mtelecto, visto que ela comanda todas as faculdades da alma in
clusive o intelecto: "Em todos os atos do homem o primado (principaÍita
t~m) ~abe à vontade, pelo fato de que ela, enquanto libérrima, inclina em
dlreçao aos seus a~os todas as potências ... Assim, por exemplo, o intelecto
pode estudar ou nao estudar, segundo o movimento da vontade· outro tan
to deve s~r dito do apetite concupiscível. E isso vale até os ato: exteriores
da capaCIdade motora, como caminhar, não caminhar falar ou calar e as-
. d · t "41 v· ' SIm por Ian e... . Ice-versa, em relação à causalidade final o primado
cabe .ao intelecto: "deste modo é o intelecto que move a vontade porque o
bem mtelectual conhecido é o objeto da vontade e a move como flm"42.
Na filosofia contemporânea, a partir de Kant, a disputa acerca do pri
mado das faculdades da alma sofreu desvio: antes que o intelecto e a von
tade, ela diz respeito à teoria e à prática, à verdade e à ação. A tendência
geral dos pensadores contemporânãos é de erigir, pois, como critério su
premo de valoração, o fazer, o agir.
P~rece-nos ~bsurdo esse modo de conceber as relações teoria e práti
ca. Se e verdadeIro que, na condição atual da nossa existência a teoria e a
v rdade nã? po~em ser tom~das como fins últimos do nosso a~r, mas são
urdenadas a açao, com tudo ISto esta última, sem a reflexão e sem a verda
de, ~erm,anece cega, carente de luz, sem sentido. É a teoria que guia a
prática. E a verdade que dá à ação uma meta.
Por isso, o homem se realiza na ação, mas primeira entre todas as
lições .é a que dá ordem e sentido a todas as outras: a ação cognitiva,
t orétIca.
•• Summa Theologiae, l , q. 82, a . 3.
' 0 [b.
" [fi II sent, d. 35, q. I , a. 4, sol.
'2 S ltmma Theologiae, l , q. 82, a. 4.
130 Fenomenologia do homem
6. O amor: virtude e paixão
Na esfera da afetividade humana, quase todos os filósofos estão de
acordo em assinalar papel fundamental ao amor. Isso foi feito sobretudo
por Platão, Aristóteles, Agostinho, Spinoza, Hobbes, Freud, Sartre, Blondel
e Marcel.
Platão situa o amor numa moldura metafísica que potencia a sua fun
ção e o seu alcance espiritual. Ele se desenvolve entre dois pólos, o Bem e
as Idéias por uma parte e a alma (a psyché) por outra. É a alma, carente de
felicidade e estabilidade que sente a aspiração, o desejo (eras), a atração
do Bem e do mundo ideal e imortal. A alma, pela sua afinidade com as
Idéias, adverte obscuramente a sua presença e experimenta no contacto
com o belo sensível um arrepio misterioso: a ascensão do amor inicia-se
com ato irracional, que tem todos os caracteres de uma loucura (mania)
que aliena o homem de si mesmo e lhe anuncia valor transcendente. Dian
te das formas belas pode o homem assumir duas posturas fundamentais:
aceita e ama a bela aparência como realidade absoluta e deseja possuí-la,
porque não procura nada além dela, porque não entrevê nada além do
sensível: esse é o amor sexual, terreno, inferior, que perde a alma, é a
Afrodite pandêmica ou vulgar; ou então ama enquanto reconhece o invisí
vel e, por isso, transcende a bela aparência para possuir noeticamente (ou
seja, intelectualmente) não o que morre, mas o que é eterno: esse é o amor
puro, o amor que salva, é a Afrodite celeste43. E a dialética do amor, como
processo cognitivo, é ascensão gradual: do amor de corpo belo se passa a
amar a beleza de todos os corpos belos, una e idêntica para todos; da bele
za dos corpos se sobe depois à beleza das almas, das instituições, das leis e
das ciências, até que se chega à única ciência que tem por objeto o Belo
absoluto: aqui a alma se acalma, porque acha o seu bem e a sua felicidade.
Trata-se de ascensão longa e fatigante. "Para o homem que haja participa
do das celestes iniciações em tempos muito remotos ou para o homem
corrompido, não é lícito transportar-se facilmente daqui até lá, até a pura
Beleza objetiva, no momento em que se contemplam as coisas belas quo
dela recebem o nome. Ele olha e a sua alma não é pervadida por um gene
roso ímpeto de veneração"44. Mas quando o filósofo consegue libertar-s
dos grilhões deste mundo sensível e atinge o sumo vértice da ciência do
amor, "contemplando em ordem sucessiva e com justo método todas as
coisas belas, atinge finalmente a consumação da ciência amorosa. E en
tão, por súbita visão, ele contemplará algo divinamente belo na sua natu-
• 3 Convívío, 1800.E.
.. Fedro, 250 E.
Wmtade - Liberdade - Amor 131
reza objetiva: a Beleza, razão primeira e meta de todos os precedentes
exercícios fatigantes"45.
O conceito platônico do amor entendido como privação e desejo é man
tido inalterado também na metafísica de Aristóteles: é o amor que move a
matéria e todas as coisas deste mundo em direção ao seu objetivo final,
Deus. Mas além de princípio metafísico, o amor desempenha na filosofia
aristotélica papel fundamental também como valor moral. De fato, a ami
zade, à qual Aristóteles dá o primeiro lugar entre as virtudes morais, ba
seia-se essencialmente no amor: ela não é nada senão o amor desinteres
sado de outra pessoa.
Conceito absolutamente novo do amor aparece com o cristianismo; o
próprio nome é mudado: não eras, mas agápe, caridade. No pensamento
J,rrego, o amor era o sinal da pobreza espiritual, acompanhado do desejo;
IlO contrário, no cristianismo o amor é positividade e perfeição do ser:
quanto mais o indivíduo é perfeito, mais ele ama. O próprio Deus ama ("Deus
'aritas est", escreve o evangelista João). A vida íntima de Deus é amor:
relação de amor entre Pai e Filho é o Espírito Santo; com ato de amor
I eus cria o mundo; por amor Deus assume a natureza humana e a tira da
morte. Cristo, o Verbo de Deus feito carne, é o amor feito carne. Além debase da vida de Deus, o amor é base da vida dos que crêem nele. A ética
I:ristã exprime-se em termos de amor: amar a Deus sobre todas as coisas'
limar o próximo como a si mesmos. Mas a caritas não é sentimento pathos'
fato natural como o eros platônico na sua origem primeira: é, ~im, at~
d liberdade potenciado pela Graça divina. Por isso, ele não abarca ape
nas os parentes e os amigos, mas também os inimigos. No cristianismo,
IImor quer dizer ''benevolência'' e a caridade se resolve em fazer o bem ,
( m ser útil, benéfico, misericordioso, como o próprio Deus, que faz surgir
C) sol para os bons e para os maus. Na caridade se reúnem todas as virtu
d s e perfeições: "A caridade não diminui nunca; as profecias termina
ruo; as línguas cessarão; a ciência acabará em nada... Somente estas
três coisas perduram: fé, esperança e caridade, mas a maior de todas é a
(·nridade"46.
Agostinho põe o amor na base da sua visão da história: ela tem ori
H m e se desenvolve por dois tipos diferentes de amor, o amor próprio e o
IIInor de Deus. Do primeiro surge a ciuitas terrena, do segundo a ciuitas
J) i. "O que anima a sociedade terrena (ciuitas terrena) é o amor próprio
II vado ao ponto de desprezar Deus; o que anima a soc;'Jdade divina (ciuitas
C'/I lestis) é o amor de Deus levado ao ponto de se desprezar a si mesmo.
'5 Convívio, 210 E .
' 0 São Paulo, 1Cor 13,8-12 .
132 Fenomenologia do homem
Uma tem o seu orgulho em si mesma, o orgulho da outra está em Deus;
uma procura a glória entre os homens, a outra afirma que o conhecimento
de Deus é a glória mais alta"47.
O progresso das ciências físico-matemáticas na id~d: modern~ de
mole o mito grego do eros, motor do mundo, e o subStitUI pelas le1s da
mecânica e da dinâmica; além disso, a afirmação da autonomia da filo
sofia com relação à fé e à teologia leva a ignorar a caritas cristã, mola
fundamental da vida espiritual: o seu lugar é tomado pelo dever, pela
justiça, pela igualdade, pela tolerância e, para alguns, a~é p:l~ força :
pela potência. A partir de Hobbes e de Spmoza, o amor e pa1Xa? que e
estudada com o mesmo rigor científico com que se estudam os fenomenos
físicos e as figuras geométricas e passa, por isso, a fazer parte dos qua
dros de uma sistemática racional. Desvinculado de qualquer premissa
metafísica ou teológica, o amor é reconduzido ao seu objeto particular
imediato, à sensação e à idéia correspondente (Spinoza); individuado no
homem o impulso instintivo (o "desejo") para o próprio bem-estar concre
to e individual, como condição natural de todas as paixões, o amor é vis.to
em relação com um complexo sensível que parece bom naquela dada C1r
cunstância e suscita aquele sentimento com uma necessidade natural
(Hobbes) .
Com Freud, o amor retoma o seu lugar de impulso fundamental de
tudo o que o homem pensa e faz; mas não é mais concebido co~o o er.os
platônico, essencialmente orientado para o Bem, nem com? a c.antas ~f1~
tã, participante do amor divino, mas simplesmente como mstmto fislOlo
gico, como paixão sexual, como pura libido. Freud, demolindo qualquer
estrutura metafísico-religiosa, vê nos diversos aspectos do amor (eras pla
tônico, caritas cristã, amor filial etc.) degeneração ou sublimação do im
pulso sexual originário.
No existencialismo ateu de J. P. Sartre também o amor perde todo o
significado: desgarrado o homem do universo, de Deus e da humanidade,
o amor não tem nenhum fundamento metafísico nem terreno objetivo,
mas se dobra de modo vão sobre si mesmo. O outro não é nunca amigo
para amar e nem igual para respeitar; é simplesmente rival, inimigo
para odiar e eliminar. Por isso, para Sartre, as relações humanas não
levam senão à má-fé: "os outros são o nosso inferno" (L'enfer c'est le.~
autres) .
Nas filosofias de inspiração cristã de Blondel e de Marcel, o amor
conserva o valor de ato vital por excelência, um ato que o homem exerCI
livremente e que, portanto, pode ser endereçado tanto ao bem quanto ao
" Santo Agostinho, De ciuitate Dei, XIV, c. 28.
Thntade - Liberdade - Amor
mal. Mas o homem consegue a felicidade apenas orientando o amor pum
Deus, que é o Bem absoluto e para o próximo, que é a imagem viva d
Deus. Para Blondel, "o ser é amor; não se conhece nada senão se ama ...
Excluir-se de si com a abnegação é, portanto, gerar a vida universal m
si ... Só a caridade, pondo-se no coração de todos, vive acima das aparên
cias, comunica-se até a intimidade das substâncias e resolve inteiramente
O problema do conhecimento do ser".48 Para Marcel, o amor é veículo e
revelação existencial, que não só nos põe em contado com o mundo das
coisas e dos espíritos, mas nos torna, sobretudo, participantes do 'lU abso
luto, de Deus, condicionando a fé e a esperança, que derrubam as barrei
ras que nos escondem o Princípio misterioso do Ser49.
Dessa breve panorâmica histórica podem ser extraídos alguns im
portantes ensinamentos acerca do amor, da sua natureza e do papel que
lhe cabe na vida humana. Antes de tudo, o amor constitui dimensão fun
damental da natureza humana: é a mola de cada desejo e de cada ação.
Em segundo lugar, o amor pode ser explicado de modos diferentes, dada
n complexa natureza do homem: de modo espiritual (é a caritas de que
falam os autores cristãos) ou de modo carnal (é a libido de que trata
f<'reud); de modo egoísta ou altruísta (é secundário se é voltado para si
mesmo ou para os outros) . Ainda, sendo o amor um sentimento primár io,
le possui um dinamismo instintivo, mas, já que o homem é dotado tam
bém de razão e de liberdade, pode controlá-lo e exercê-lo livremente.
Enfim, o amor não constitui ipso facto um valor: a sua bondade ou malí-
ia é determinada pelo objeto (pela pessoa) a que é voltado e, outrossim,
p los motivos para os quais é exercido. Dessas breves considerações
d ssume-se que, não importa a visão das coisas que alguém possui, assi
nala ao amor âmbitos e funções diversas. Assim, por exemplo, o amor
.orá entendido diferentemente pelo cristão e pelo marxista, pelo exis
L ncialista e pelo tomista, pelo estruturalista e pelo freudiano. E tam
b m os seus juízos sobre ações realizadas por amor serão muito con
trastantes. Nós, por enquanto, não estamos em condições de formular
uízos concludentes sobre a natureza e sobre o alcance do amor. Podere
IIIOS fazê-lo somente no fim da nossa exploração fenomenológica e
III tafísica. Então, conhecendo melhor que é o homem e a qual destino
I é chamado, poderemos pronunciar uma palavra mais clara também
.!Obre a dimensão do amor.
. 8 M. Blondel, L'azionce, Vallecchi, Florença, 1932, vol. II, p. 310.
'0 G. Marcel, Du réfus à /'inuocation, Aubier, Paris, 1940, p. 192.
134 Fenomenologia do homem
7. Implicações anta-antropológicas
o estudo da vontade nos fez constatar que ela caracteriza o homem
essencialmente: o homem é decididamente Homo volens. Ele se distingue
dos outros seres sobretudo porque é dotado de vontade. São-lhe tributados
elogios e inflingidos castigos porque as suas ações são guiadas e determi
nadas pelo seu querer.
Mas o nosso estudo foi interessante não só porque nos fez ver imedia
tamente que a vontade caracteriza o homem com relação aos outros seres,
mas também porque na vontade e em toda a esfera afetiva recolhemos
indícios da complexidade e do mistério do ser humano. Esse não se esgota
no que aparece.
A vontade e a afetividade humanas surpreenderam-nos pela sua
insaciabilidade. A nossa vontade não está nunca contente com o que reali
zou ou adquiriu. Há nela impulso potente para autotranscender-se que
não se aplaca nunca. Continua a escolher e a descartar, a fazer e a aban
donar. Dilata-se sobre todas as coisas e sobre todos os projetos realizados,
com soberania ilimitada.
Esse poder ilimitado de autotranscender-se não se registra apenas na
esfera da vontade, mas também na das paixões. "Nas grandes paixões há
intenção transcendente que não pode proceder senão da atração infinita
da felicidade. Só um objeto suscetível derepresentar o todo da felicidade
pode atrair tanta energia, elevar o homem acima das suas faculdades or
dinárias e torná-lo capaz de sacrificar o seu prazer e de viver dolorosa
mente ... É, portanto, ao desejo de felicidade que se deve ligar a paixão e
não ao desejo de viver; na paixão, de fato, o homem põe toda a sua energia,
todo o seu coração, porque um sujeito de desejo se tornou tudo para ele"50.
Sobre as interrogações pungentes e as sugestões estimulantes pro
postas pelo fenômeno do autotranscender-se do querer humano voltare
mos a tratar novamente na segunda parte do nosso estudo, destinada à
metafísica do homem, isto é, à procura de uma explicação exaustiva do
seu ser profundo.
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v
o PROBLEMA DA LINGUAGEM
(Homo loquens)
Do homem são dados muitas definições: ser racional, ser livre, ser
moral fabricante de instrumentos etc. ,
Uma das definições que hoje aparece mais freqüentemente, ~orem, .e
a que caracteriza o homem como ser falante: homo loquen~. Ela e defim
ção particularmente bem ajustada, porque, de fato, a propnedade de falar
distingue nitidamente o homem dos animais e de qualquer outro ser deste
mundo e faz dele um ser totalmente singular. . .
Esse fato já fora notado também pelos filósofos gr~gos e medIeva~s
mas sem atribuir-lhe muita importância. Mas ele polanzou, pelo contra
rio a atenção dos filósofos do nosso século sobre si, de tal modo que se
tor'nou o assunto principal das suas investigações. .
Por quais motivos hoje se insiste tanto sobre essa propn~dad.e, .an~es
que sob~e a da espiritualidade, da liberdad~, d,a vontade,.da mtehge~cIa?
Há toda uma série de razões que contnbUlram para enfase especIal à
dimensão lingüística do homem. Mas a decisiva foi a direção lingüística
que assumiu nos últimos decênios a filosofia. _.. .
Como é sabido, na filosofia clássica a preocupaçao pr~ncIpal dI~ res
peito à metafísica; a filosofia, para todo o pensamento antigo e medIeva l,
era essencialmente metafísica: estudo do ser.
Depois, com Descartes e os filósofos modernos, a filosofia ass~me ~ov~ ,
dimensão, direção crítica; o conhecimento torna-se a p~eocupaçao prmcl
paI. O estudo do ser é subordinado ao estu?o do CO?heCImento. .
Mas, como a filosofia antiga no que dIZ respeIto ao problema .do s I ,
também a filosofia moderna com relação ao problema do conhecImento
deixou-se seduzir por mil hipóteses arbitrárias e contraditórias.
Recentemente, portanto, se operou nova reviravolta na investi?aç o
filosófica e ela foi orientada para o estudo da linguagem. Alguns filosof()"
(a partir 'de Moore, Wittgenstein, Russell e a e~cola de_Viena) pensar~ 1lI
que os problemas filosóficos não são outra COIsa senao problemas lIn
o problema da linguagem 137
güísticos. Nasceu, assim, a orientação essencialmente lingüística da filo
sofia contemporânea.
A favor dessa orientação dirigiram-se não só os neopositivistas e os
analistas anglo-americanos, mas também os estruturalistas os exis
tencialistas discípulos de Heidegger, os criadores da Nova Her~enêutica
(Gadamer, Ricoeur) e também muitos outros seguidores de Tomás e de
Karl Marx.
É natural que a orientação lingüística da filosofia tenha levado à re
velação do aspecto lingüístico do ser humano e ao estudo mais aprofundado
do homo loquens. Alguns autores chegaram ao ponto de construir toda a
antropologia partindo desse aspecto.
Nas páginas que seguem, nós nos propomos traçar um quadro geral
da complexa problemática que diz respeito à linguagem, efetuar uma fe
nomenologia da linguagem humana e assinalar as principais implicações
que o fenômeno lingüístico comporta para o ser último do homem.
Começamos com brevíssimo aceno à história da filosofia da linguagem.
1. História da Filosofia da linguagem
. O estudo da linguagem teve início já nos tempos dos pré-socráticos, os
quaIS formulam claramente as duas principais questões que, nessa maté
ria, ocuparão os filósofos por vários milênios.
a) a questão da origem da linguagem (recebida dos deuses ou elabora
do. pelo homem?).
b) a questão da natureza da linguagem (as palavras são signos con
v ncionais ou naturais das coisas?) .
. Enqua~to alguns ~ré-socráticos (Pitágoras, Demócrito, Empédocles)
nvam a hnguagem dIretamente da natureza ou mesmo da divindade e
concebem como um espelho direto e imediato das coisas, os sofistas con
.ideram convencional tanto a sua origem quanto a sua função. Aristóteles
()ncebe a linguagem como instrumento do pensamento, e dado que o pen
IlImento retorna à coisas, também a linguagem tem, em última análise a
I\mç~o de representar ~s coisas, mas a escolha deste ou daquele som pa~a
liKmficar uma dada COIsa depende da decisão do homem. A linguagem é,
urtanto, natural na sua função, mas convencional na sua origem.
Plotino explora as virtualidades da linguagem humana especialmen
no que concerne ao Uno, e mostra que ele se subtrai completamente a
unlquer designação humana. É absolutamente inefável.
Santo Agostinho estuda a relação da linguagem humana com as coi
"" e com o verbo interior (que ele identifica com o Verbo divino) e subordi-
138 Fenomenologia do homem
na a linguagem antes de tudo às coisas, mas definitivamente ao Verbo
divino, que é a fonte de toda verdade. . . , .
Os escolásticos estudam sobretudo a problemática do SIgnO, dIstm
guindo os signos naturais dos artificiais; mas ocupam-se tam~ém do p~o
blema da linguagem, pondo clara distinção entre linguagem hteral e 1m-
guagem analógica e simbólica. .
O período romântico marca o início do renaSCImento dos est~dos
filológicos e filosóficos da linguagem. A atenção é, novamente, desvIada
para o problema da origem da linguagem, que é julgada ~atural (H~rd.er) ,
e ao problema da relação entre linguagem e cultura: a lmguagem e Vlsta
como expressão de um povo (Humboldt). .. ,
No nosso século, com a ascensão da linguagem na hIerarqma dos m
teresses dos filósofos, até ocupar o primeiro lugar, a problemática da lin
guagem é abordada de muitos ângulos, em particular do semân~i~o. (em
que se busca um critério geral de significação: é o caso dos neoposltIVlstas
e dosanalistas da linguagem); do gnosiológico (para os novos hermeneutas
e em particular para Gadamer, reunindo a ~erança do passad?, ~ lingua
gem constitui a fonte primária do con~eclmento); do on~olo,!wo (para
Heidegger, o segredo do ser revela-se na hnguage~); do socwl (~o ~specto
que mais interessa aos marxistas e aos estruturahstas, os quaIS veem na
linguagem a estrutura que sustenta e clarifica todas as outras est~t~~as
da sociedade); do psicanalítico (para os discípulos de Freud, os mIsterlOS
do subconsciente vêm à luz na linguagem).
2. Importância da linguagem
Hoje, a importância da linguagem em si e, por conseguinte, ~ambém
como argumento de reflexão filosófica é universalmente re~onhecIda .• N II
há nenhum aspecto da realidade e nenhum problema filosofico que nao Bt
ache possível resolver abordando-o do ponto de ;ista lingüistico .. Nã~ s6 II
palavra nos permite falar de tudo, mas tambem achar a ex~hcaçao dt
tudo: dos problemas do subconsciente aos da estrutura da SOCIedade, do
problemas do conhecimento aos do ser, dos problemas da arte aos da cu l
tura, da política, da história, da religião etc. Para documentar essa COII
vicção geral, referir-me-ei aosjuízos de Huxley, Cassirer, Gusdorf, Polany
e Heidegger.
Huxley pergunta-se: O que faz do homem o que ele é? Ele susten! II
que a única resposta válida seja a linguagem. COI~ efeito, "? que é senão II
poder da linguagem - essa linguagem que lhe da. a cap~cIda~e de re I
trar a sua experiência e torna, assim, cada geraçao maIS sábIa do qu /I
o problema da linguagem 139
que a precedeu e mais em sintonia com a ordem estabelecida do universo?
O que é, senão este poder da linguagem de registrar a própria experiência,
que coloca o homem em condição de ser homem - permitindo-lhe olhar
para frente e para trás e apreender, em um sentido obscuro, o mecanismo
deste maravilhoso universo? O que é senão a linguagem que distingue o
homem de todo o mundo dos animais?"1
Cassirer, que produziu um estudo magistral acerca das formas sim
bólicas, a propósito da importância da linguagem, exprime-se do seguinte
modo: "A lin~agem é um dos meios fundamentais do espírito, graças ao
q~~l se reahza a nossa passagem do mundo da sensação ao mundo da
vlsao e da representação. Ela compreende já em germe o trabalho intelec
tual, que em seguida se exprimirá na formação do conceito enquanto con-
it? científico e como unidade lógica da forma. Aqui se registra o primeiro
InícIO da função geral do dividir e do compor, a qual achará a mais alta
xpressão consciente na análise e na síntese do pensamento científico'r.!.
Gusdorf, em admirável estudo sobre a linguagem, escreve: "A inven
ç o da linguagem é a primeira das grandes invenções, a que contém em
I!! tado embrionário todas as outras, talvez menos sensacional que a
domesticação do fogo, porém, mais decisiva. A linguagem apresenta-se como
mais original das técnicas. Constitui uma disciplina original da mani
ulação das coisas e dos seres. Uma palavra é com freqüência mais útil
que um utensílio ou uma arma para a tomada de posse do real. De fato, a
ulavra é estrutura do universo: ela procede a uma reeducação do mundo
utural que, graças a ela, torna-se a sobre-realidade, proporcional à nova
xistência que a suscitou"3.
Polanyi evidencia a importância da linguagem mostrando como nela
dá um salto qualitativo entre o homem e o animal: "A enorme superio
dade do homem com relação aos animais é devida paradoxalmente a
l11a vantagem quase imperceptível no momento inicial nas suas faculda
H inarticuladas. A situação pode ser retomada nos três pontos seguin-
K: a Superioridade intelectiva do homem deve-se quase exclusivamente
" uso da linguagem. O dom da palavra, porém, não se pode dever a van
"'ns pré-lingüísticas. Todavia, se se deixam de lado os elementos lin
íH tico~,. os homens acham-se minimamente avantajados na resolução
espeCIes de problemas que nós submetemos aos animais. Disso decor
que as faculdades inarticuladas - as potências - com as quais o ho-
I T. II. Huxley, Man's Place in Nature and other Essays, Every man's Library, Londres, 1933, p.
I .,;. Cossirer, Filosofia del/e/orme simboliche: lllinguaggio, Nuova Italia, Florença, 1961, p. 147.
O. Gusdorf, FLlosofia deI IInguaggio, Città Nuova, Roma, 1970, p . 15.
140 Fenomenologia do homem
mem supera os animais e que, produzindo a linguagem, explicam a supe
rioridade intelectiva do homem, em si mesmas são quase imperceptíveis"4.
Heidegger chamou a atenção sobretudo para a importância "metafí
sica" da linguagem, buscando mostrar que ela constitui a primeira e mais
importante epifania do Ser; porém, ao mesmo tempo, também sublinhou
fortemente o seu valor antropológico fundamental. Assim, no estudo A
caminho da linguagem ele afirma: "O homem fala. Nós falamos na vigilia
e no sono. Falamos sempre, até quando não proferimos nenhuma palavra,
mas escutamos ou lemos, mas nos dedicamos a um trabalho ou nos perde
mos no ócio. De um modo ou de outro, falamos ininterruptamente. Fala
mos porque o falar nos é inato. O falar não nasce de ato particular da
vontade. Diz-se que o homem é de natureza falante e é próprio dele, ao
contrário das plantas e dos animais, é o ser vivente capaz de falar. Dizen
do isso, não se pretende afirmar apenas que o homem possui, ao lado de
outras faculdades, também a de falar.
Pretende-se dizer que propriamente a linguagem faz do homem o ser
vivente que é enquanto homem"5.
Dada a importância que a dimensão lingüística tem para a compreen
são da realidade autêntica e profunda do homem, é lógico que nos interro
guemos sobretudo o que seja a linguagem, que procuremos compreender O
que seja em si mesma, quais sejam os seus constituintes essenciais, quais
as suas funções principais e quais, enfim, sejam as sugestões que ela ofe
rece para a compreensão do homem.
3. Definição e divisão da linguagem
Como primeira tentativa de definição da linguagem, podemos dizer
que é sistema de signos que torna possível a comunicação entre os ho
mens. Também Lalande propõe essa definição como definição geral da lin
guagem6•
• M. Polanyi, Personal Knowledge, cit., pp. 69-70.
5 M. Heidegger, ln cammino verso illinguaggio, Mursia, Milão, 1973, p. 27. O mesmo conceito
afirmado, mais adiante, de maneira ainda mais incisiva: "Segundo uma tradição antiga, nós, nÓ.
mesmos, somos os seres que estão em condição de falar e, por isso, já possuem a linguagem. A faculd~1
de do falar não é apenas uma capacidade que se coloca ao lado das outras, no mesmo plano destas. I':,
pelo contrário, a faculdade que faz do homem um homem. Essa característica é o perfil próprio do 80 11
ser. O homem não seria homem se não lhe fosse concedida a capacidade de falar - de dizer 'é'
ininterruptamente, por qualquer motivo, com referência a qualquer coisa, nas formas mais diverSlUt
e , na maioria das vezes, ficando calado. Enquanto a linguagem concede isso, o ser do homem se ap lu
nela. Desde o início estamos, então, na linguagem e com a linguagem" (lh., p. 189).
• A definição de Lalande diz: "No sentido mais amplo, por linguagem se entende todo e qualqu(w
sistema de signos que pode servir como meio de comunicação" (A. Lalande, Dicionario critico di filoBo
fia, Isedi, Milão, 1971, p. 479).
o problema da linguagem 141
Por signo entende-se algo que existe por outra coisa diferente, que
indica algo diverso de si mesmo: por ex~mplo, a fumaça supõe o fogo, a
pomba traz à mente a idéia da paz etc.7 E, portanto, da essência do signo
o ter caráter intencional: quer dizer, atrai a atenção não sobre si, mas
lIobre a coisa de que é signo.
Graças a esse remeter, a esse transferir, o signo torna-nos presentes
outras coisas. Isso vale Iminentemente para o signo lingüístico, para as
palavras em geral.
"Em cada discurso, oral ou escrito, eu estou presente a todas as coisas
d que falo - sejam elas passadas, presentes ou futuras, próximas ou
longínquas"B.
Existem muitas espécies de signos. Entreos mais importantes lem
braremos:
a) a distinção entre signos naturais e artificiais: são naturais, por
xemplo, a fumaça como signo do fogo, as nuvens como signo de chuva
iminente; são artificiais, por exemplo, a pomba como signo da paz etc.
b) a distinção entre símbolos não lingüísticos: por exemplo, os gestos
xpressivos, os semáforos, a sinalização rodoviária; e os símbolos lin
KiHsticos: são os da língua, tanto escrita como falada.
c) a distinção entre signos irônicos e convencionais: são irônicos os
melhantes àquilo que denotam (por exemplo, os quadros, o som
onomatopaico, a escrita hieroglífica etc.) e convencionais os pontos e li
nhas do alfabeto Morse, as palavras em geral etc.9
A linguagem é, portanto, um sistema de signos artificiais e convencio
nnis destinados à comunicação. Ela comporta estrutura essencialmente
ntencional. Com efeito, a linguagem quer significar intenções, idéias, sen
timentos, coisas etc. Pode-se até dizer com justa razão que a linguagem é
o instrumento ideal da intencionalidade essencial do homem. Ele é fun
dllmentalmente um ser aberto e em contínuo movimento, orientado para
7 De signo, Santo Agostinho dá a célebre definição: "Signum est enim res, praeter speciem quam
hlj(ortt sensibus, aliud aliquid ex se faciens in cogitationem ventre" (De doctrina christiana II, 1,1). E
1 •• lande diz: "Objeto material, figura ou som, que substitui uma coisa ausente ou impossível de ser
Imf cbida, e que serve, seja para evocá-la à mente (por exemplo, os signos que representam os me
t .II), seja para combinar-se com outros signos do mesmo gênero para efetuar certas operações (sim
pl"~ ou complexas, precisas ou n.ão tanto precis~s) sobre relações das coisas significativas" (A. Lalande,
/lllIonarw cnttco di filosofia, Ctt., p. 787). MUlto bela é a seguinte definição de S. Kierkegaard: "Um
. I"no é a negação da imediação, o ser segundo que difere do ser primeiro. Com isso não queremos dizer
'til O signo não possui valor imediato; dizemos que é um signo, e isso o que ele é enquanto signo não
,n diato ou, como signo, é diferente do imediato que é. Uma bóia é um sinal. Em sentido imediato
1" 0 pode ser qualquer coisa, um farol, um poste etc., mas não é um signo em sentido imediato; o fato
,I. ·10 é diferente do que ele é imediatamente" (S. Kierkegaard, Scuola di cristianesimo Edizioni
C 'utnunità, Milão, 1950, '
ft E. Barbotin, Humanité de l'homme, Aubier, Paris, 1970, p. 140.
u Cc. S. UlImann, La semlintica, II Mulino, Bolonha, 1966, pp. 30-36.
142 Fenomenologia do homem
toda a realidade que o circunda e supera. Tal abertura dispõe à comunica
ção, e a comunicação efetua-se principalmente mediante a linguagem.
Esclarecida a noção de linguagem enquanto signo, antes de passar ao
estudo dos problemas singulares, é oportuno que nos detenhamos breve
mente sobre três distinções que assumiram grande importância nas dis
cussões sobre a linguagem, quais sejam as distinções entre linguagem
língua, entre língua e fala e entre significado e significante.
Linguagem usa-se freqüentemente em oposição a língua para distin
guir a função de se exprimir, em geral com a palavra, dos vários sistema/:!
lingüísticos fixos em uma sociedade determinada (as línguas). É assim
que se contrapõe a questão da origem da linguagem (na humanidade) à do
origem de talou tal outra língua, como o francês e o português10.
A língua é distinta, por sua vez, da fala. A língua é o sistema
supraindividual de signos graças aos quais os homens podem comunicar
se entre si: o sistema segundo as regras estabelecidas pela gramática e pela
sintaxe e segundo os significados gerais registrados no dicionário. Por sua
vez, a fala é a forma concreta e individual assumida do sistema, segundo O
uso de determinada pessoa, segundo os significados pessoais, subjetivos O
emotivos por ela desejados.
Temos, enfim, a distinção entre significante e significado. Significant
quer dizer uma realidade como é denotada e estruturada pela linguagem,
enquanto o significado indica o modo sempre parcial e histórico em que LI
língua falada atualiza o significante. Por exemplo, "pai" é significante qu
tem sentido próprio graças às relações interiores na constelação familiar.
O significado representa a atualização desse significante em determinado
discurso e em cultura determinada.
4. Origem da linguagem
Sobre a questão da origem da linguagem as alternativas são duas: Oll
a linguagem foi recebida (de Deus ou da Natureza), ou então foi inventadtl
pelo homem (imitando a natureza ou artificialmente). Ambas as soluçõ H
encontraram a adesão de numerosos adeptos, tanto na antigüidade quan·
to nos nossos dias. Enquanto, porém, a primeira solução era largament<
acolhida no passado, hoje encontra raros consensos.
Um dos seus últimos célebres propugnadores foi Humboldt. Ele d •
clara com grande segurança que é necessário "considerar a língua como
posta imediatamente no homem".
10 A. Lalande. Dizionario critico di filosofia, cit., p. 478.
problema da linguagem 143
Segundo Humboldt, a linguagem não pode ter sido inventada pelo
r6prio homem, porque "o homem é homem somente mediante a lingua
m; ora, para inventar a linguagem, ele deveria já ser homem"ll.
Hoje, porém, a tese mais comum é que a linguagem tenha tido origem
r evolução. Mas há modos diferentes de interpretar esse evento. Alguns
atentam que a evolução tenha sido determinada pela onomatopéia; ou
s, pelo contrário, assinalam como a parte principal o acaso e a convenção.
A teoria segundo a qual a linguagem nasce pela formação de sons
nomatopaicos (ou seja, pela imitação de sons já existentes na natureza,
r exemplo, o silvo do vento, o murmúrio da água, o canto dos pássaros,
.) forajá aventada pelos estóicos e mais tarde por Leibnitz, mas foi pro
Bta pela primeira vez de modo científico só por Herder, o qual já na sua
IIC de doutoramento afirmava: "O primeiro vocabulário constitui-se de sons
ados de todas as partes do mundo. De cada objeto natural que emite um
m tira-se o seu nome; a alma humana vale-se de tais sons como signos
ra indicar as coisas"12.
Recentemente a tese de Herder foi fixada com abundante argumen
ção por Bruni. Segundo esse estudioso, "a tese da origem natural da
I n,.,ruagem, mediante a onomatopéia é a única cientificamente sustentá
y 1"13. "Os glotólogos e os psicólogos, que sustentam ter a linguagem uma
igem natural, sempre pensaram que a onomatopéia fosse a mãe mais
cunda das palavras. Renan afirmou que nas línguas semíticas e espe-
ulmente no hebraico, a formação pela onomatopéia é sensibilíssima para
nnde número de raízes, e sobretudo para as que tem um caráter espe
ui de antigüidade e de monossilabismo"14.
Do parecer de Bruni também é Merlo. Ele afirma que "as primeiras
IIlavras criadas pelo homem foram certamente onomatopaicas, imitativas
OH sons que ressoavam nos nossos ouvidos; onomatopaicas são as primei-
IIH palavras que a criança cria e que depois rapidamente esquece pelas
lu reditárias. O léxico indo-europeu abunda de palavras onomatopaicas;
luitas delas aparecem também no léxico latino; e por que não teriam
Y lido a se juntar às hereditárias outras, e muitas outras, na idade latina
rdia, e em cada uma das línguas românicas?"15
Segun40 muitíssimos estudiosos tem, pelo contrário, uma origem con
VI IIcional. E o homo sapiens que inventa certos sons para cumprir deter
minadas operações. A essa teoria deu expressão fidedigna Wittgenstein
11 W. Von Humboldt, Ueber das uergleichende Sprachstudium, par. 2.
l i Cito in H. Arens, Sprachwissenschaft, K. Albert Verlag, Friburgo-Munique, 1955, p. 108.
I! F. Bruni, L'origine dellinguaggio, Studium, IWma, 1958, pp. 6-7.
U F. Bruni, a.c., p. 7.
lG C. Merlo, Citado por Bruni, a.c., p. 8.
144 Fenomenologia do homem
nas suas Philosophical Investigations. Nessa obra ele susten~a qu: a,a~ri
buição de nomes às coisas é arbit~ária d.o mesmo ~o~o ~omo e arbl~rano o
acordo sobre as regras de determmado Jogo.A propna lmguagem e conce
bida por Wittgenstein como um jogo (Sprachspiel). Como exemplo da for
mação do jogo lingüístico, Wittgenstein cita o caso ~o acordo que se esta
belece entre um pedreiro e o seu servente com relaçao a ~erta ferrament~.
"Suponha que uma ferramenta usada por um pedr~lro para constrUIr
possua um certo sinal, uma etiqueta. Quando o pedreIro mostra ao ser
vente o sinal (a etiqueta), o servente lhe traz a ferrame.nt~ que te,m .aquele
sinal. É aproximadamente desse modo que um nome slgn~fica e e vmcula
do a uma coisa. Revelar-se-á muito útil em filosofia repetIr de qu~ndo em
quando que denominar é operação semelhante a afivelar uma etIqueta a
uma coisa"16.
A nosso juízo essas duas teses sobre a origem da linguagem não são
necessariamente contraditórias e podem integrar-se mutuamente.
Dando por certo que a linguagem é invenção do ?ome~ e não dom da
natureza ou de um ser superior, parece-nos que essa mvençao tenha a.con
tecido mediante a imitação dos sons emitidos pelos animais e pelas COIsas.
Assim, para designar o cão, repete-se o latido do cão; para designar o 10?0,
repete-se o uivo do lobo; para o vento, r:pete-se o ru.mor do :en~o e ass~m
do mesmo modo para muitas outras COIsas. Essa ongem pnmelr~ da lm
guagem é confirmada pela grande quantidade de sons onomatopalcos pre
sentes em todas as línguas. E é também confirmada pelo modo com que a
criança aprende a falar, imitando os sons que ouve da mãe ..
Mas sobre essa base onomatopaica o homem em seguIda manobrou
com liberdade e genialidade, investigando sons novos, ou então combi?~n
do de maneira diferente sons velhos (por exemplo, automóvel, televlsao,
aeroplano etc.). Dá-se, assim, que grande parte da linguagem atualmente
em uso tenha origem convencional.
5. Condições transcendentais da linguagem
A linguagem pressupõe três condições transcendentais, três constan-
tes ou componentes absolutas:
- sujeito que fala (e se exprime falando);
_ objeto de que se fala (e se representa mediante a palavra);
_ interlocutor a quem se fala e com quem se quer comunicar falando.
16 L. Wittgenstein, Philosophical Investigations, MacMilIan, Nova York, 1957, n. 15.
o problema da linguagem 145
Se ocorre faltar uma só dessas condições ou componentes, a lingua
gemjá não pode ter lugar. É claro que não há linguagem se não há alguém
que fala. Mas ele não fala se não tem nada para dizer e não há alguém
para quem dizê-lo.
Com razão, pois, MacQuarrie afirma que a linguagem é complexo de
relações fundadas sobre três termos: "os três termos são obviamente a
pessoa que diz alguma coisa, a matéria de que se fala e a pessoa ou as
pessoas às quais se fala .. . É a linguagem que faz o papel de intermediário
para a relação triádica, e é propriamente isso que a constitui"l?
6. Funções e valor da linguagem
Até alguns anos atrás costumava-se apresentar uma divisão dico
tômica das funções da linguagem. Nela se distinguiam, de uma parte, uma
função descritiva ou cognitiva ou denotativa ou representativa ou sim
bólica, e de outra, uma função emotiva, performativa, existencial ou pes
soal. Assim Ogden-Richards, Carnap, Ayer, Stevenson, Austin e muitos
outrosl8.
Ultimamente, porém, tornaram-se sempre mais numerosos os auto
res que propõem uma divisão tricotômica, juntando às funções preceden
tes a comunicativa ou inter-subjetiva. São desse parecer Schokel, Polanyi,
Barbotin, Ullmann e vários outros estudiososl9.
Achamos essa última divisão mais justificada do que a primeira, por
quanto ela resulta das três componentes essenciais constitutivas da lin
guagem, que vimos ser o sujeito que fala, aquilo de que se fala e a pessoa
à qual se fala. A linguagem exerce três diferentes funções no que tange às
suas três componentes:
17 J. MacQuarrie, Ha senso parlare di Dio?, Borla, Turim, 1969, pp. 66-67.
, 18 Express~o e comuni~ação: essas duas funções foram amplamente estudadas por Gusdorf em
Mlosofia dei LmguaggLO, Clttà Nuova , Roma, 1970, pp. 51-92. Ogden e Richards propõem uma subdi
vlsAo das funções da linguagem em dois grupos: é possível "demonstrar como muitas famosas contro
vérsias científicas derivam de uma conclusão entre essas funções, sendo adotadas as mesmas pala
vrAS ao mesmo tem!,o para fazer afirmações e para provocar atitudes. Não é possível evitar equívocos
do tal modo determmantes sem compreender quais são as funções da linguagem. Ao invés, quando j á
.tI o compreend~u, surgem controvérsias como as que surgiram entre o fatalismo e o mecanicismo,
"ntre o materiahsmo e o idealismo, entre a religião e a ciência, e vem, além disso, a reconstituírem-se
"(lOdições tais que tornem possível um renascimento geral da poesia" (Ogden-Richards II significato
,Ir l significa to, II Saggiatore, Milão, 1966, p. 17). '
19 "Pour être significatif, le discours doit être à la fois expression, représentation et communi
l'ltUon. 8'11 n'y a pas d'expression, le discours n'existe pas. S'il n'y 8 pas de représentation, iI est vide.
H'II n:y a ~a.z de communication, il es~ vain" (G. Caussee de Maulde, "Analyse linguistique et langage
, . II8'leux , ln Nouvelle revue théologlque, 1969, p. 194). Cf. E . Barbotin, Humanité de I'homme, cit. ,
1'1>. 1428s.
146 Fenomenologia do homem
_ tem função representativa ou descritiva nos confrontos do objeto;
_ tem função expressiva ou existencial ou emotiva nos confrontos do
sujeito;
_ tem função comunicativa ou intersubjetiva nos confrontos da pes-
soa a que se dirige o discurso. .
Relacionada com a questão da divisão das funções da lmguagem, apre
senta-se também a da sua importância. Essa, entre todas as questões que
concernem à linguagem hoje, é a mais assiduamente e calorosamente de
batida. Dela se ocupam todos os filósofos (tanto os existencialistas quanto
os instrumentalistas tanto os tomistas quanto os marxistas) e também os
teólogos e os cientist~s. Mas as soluções a que chegam são muito dis~~ra
tadas. Segundo alguns autores a função mais importante é a descntIva;
segundo outros autores a função mais importante é a existencial; segundo
outros ainda é a comunicativa. Procuramos ilustrar brevemente cada uma
dessas soluções.
a) Função descritiva
Uma densa corrente filosófica do nosso tempo, a corrente neopositivista
e analítica dá valor absoluto à função denotativa (descritiva, cognitiva,
objetiva) e'condena como insignificantes e carent~s de se~~ido as outras
funções . Segundo tal corrente, só a função den~ta:lVa hablht~ o homem a
alcançar e a transmitir a verdade. Essa fu~çao e desenvo~v~da de modo
excelente pela linguagem científica, a qual e dotada da ~axlm~ clareza,
precisão e objetividade. Qualquer outra lin~agem adq,:ure ,maIS ou m~
nos valor à medida que se conforma com a hnguagem cIentifica. A razao
da excelência dessa última está na simplicidade do seu critério de signifi
cação, que é a verificação experimental. Isso pr~screve reconh~cer signifi
cado somente às proposições que são traduzíveIs em uma cadela de dados
sensitivos.
A teoria dos neopositivistas e dos analistas ingleses suscitou fortís-
simas reações dos filósofos de todas as escolas, os quais pudera~ prova~ t:I
sua falta de fundamentos através de vários argumentos, dos quaIS os prm-
cipais são os seguintes: . .
I. O critério da verificação experimental é postulado metafísIco pnva-
do de qualquer fundamento, é proposição metafísica sensacional, que so
desqualifica sozinha porque é inverificávepo.
20 Eis algumas críticas radicais contra o princípi? da verifi~ação.ex~erimental: o critério da verin
cação experimental reduz ao absurdo seja o conheCimento seja o Significado.:. por~ue a mtenç.ão (lu
referir-se a qualquer coisa que transcende a experiência imedi~ta é da .essê~cla, ~eJa do ~onheClmon .
to, seja do significado (C. r. Lewis, "Experience and Meaning" m Readmgs m Ph,losop/ucal Altalysl.
o problema da linguagem 147
II. A preferência pela linguagem científica é de todo injustificada, por
que há muitas outras linguagens que paraa existência humana são tão
Importantes quanto a científica, por exemplo, a linguagem ordinária, a
linguagem ética, a linguagem artística, a linguagem poética e a lingua-
m mística21.
III. A preferência pela função descritiva ou cognitiva da linguagem é
conseqüência de tradição intelectualista e racionalista que foi extrema
mente danosa porque criou uma imagem deformada e empobrecida do
homem22.
Reconhecida a insustentabilidade do critério da verificação experi
mental, alguns epistemólogos, tendo Karl Popper à frente, propuseram
omo critério a falsificabilidade. Esse critério prescreve reconhecer signi
ficado cognitivo (descritivo) só às proposições que podem ser falsificadas,
u seja, se existem casos em que podem tornar-se falsas. "Apenas se podes
izer-me de qual modo a tua teoria possa ser refutada ou falsificada, pode
mos aceitar a pretensão de que a tua teoria tenha o caráter de teoria
mpírica"23.
Segundo essa citação, Karl Popper não teve a intenção de propor a
r futabilidade como critério de significação, mas somente como critério de
marcação entre teorias científicas e não científicas: são científic'as ape
nas as dotadas de falsificabilidade. Mas, no meu entender, mesmo ainda
n sse sentido mais restrito o critério de falsificabilidade vale bem pouco.
Ele propõe distinguir entre teorias falsas e teorias falsificáveis. As primei-
IIS são as que, submetidas aos necessários controles, caíram por terra e
ustamente por isso são falsas. As segundas, por sua vez, são as que conti
nuam ainda a resistir.
Ora, à esfera das teorias falsificáveis pertencem todos os conhecimen
tos humanos (e nisso eles se distinguem dos revelados) tomados como ver
ndeiros: tanto os científicos como os filosóficos, os históricos como os reli
iosos, os metafísicos como os éticos e jurídicos. Em todos os casos se trata
dI conhecimentos que não se revestem de nenhum caráter absolutista e
t m, pelo contrário, uma notável dose de opinião. Isso é verdadeiro sobre
Ludo para as hipóteses metafísicas. Também elas são falsificáveis, como
(It'orreu para quase todas as metafísicas elaboradas no passado. E são
rlllsificáveis, como mostrou J. Hick, também as doutrinas religiosas.
I ""d. por H. Feigl e W. Sellars, Appleton-Century-Crofts, Nova York, 1949, p. 113). "O princípio da
vflI'IOcação é proposição metafísica 'sensacional' em (J. Wisdom, Philosophy alld Psychoa/Ullysis, Oxford,
Itln3, p. 245). CC. também J. Mac Quarrie, Ha se,..o parlare di Dio?, cito
l ' M. Gadamer, "Che cos'" la verità" in Riuista di filosofia, 1956, pp. 257-260.
a. CC. M. Gadamer, Art. cit., pp. 253ss; P. Ricoeur, Finitudine e colpa, cito
18 K. Popper, Seienza e filosofia, Einaudi, Turim, 1969, p. 131.
148 Fenomenologia do homem
Portanto, é de todo paradoxal assumir tal critério de demarcação da
quilo que é científico do que não o é, um critério como falsificabilidade, o
qual não pode dizer outra coisa senão isso: Não é de fato científico o que foi
demonstrado ser falso (mesmo se antes que isso ocorresse, era considera
do científico, como por exemplo, a concepção ptolemaica). Quanto a todo o
resto, ele não está em condições de fornecer nenhum argumento para di
zer se é falsificável ou não, e se deve, portanto, presumir, à guisa de prin
cípio, que seja sem dúvida falsificável. Quem, com efeito, pode negar que
qualquer conhecimento humano, seja ordinário, seja científico ou filosófi
co, é falsificável? Quem não haja previamente decretado (de modo total
mente arbitrário) que certas zonas do conhecimento humano são falsi
ficáveis e outras não, se leva em conta a falibilidade, a finitude, a múltipla
especificitude e historicidade do nosso conhecimento, não pode sustentar
que a propriedade da falsificabilidade pertence exclusivamente ao conhe
cimento científico, mas deve admitir que é propriedade que diz respeito a
todo o nosso conhecer, inclusive histórico, metafísico, ético e jurídico.
b) Função comunicativa
Desses argumentos ressalta que não se pode atribuir valor somente à
função cognitiva, mas se deve reconhecer também a importância funda
mental que têm as outras funções, seja a expressiva, seja a comunicativa.
Ademais, é bastante fácil frisar que a linguagem humana não tem
apenas e sequer principalmente valor por causa de sua função cognitiva
(descritiva ou denotativa). A sua função principal é de fato comunicativa e
a comunicação, em muitíssimos casos, não pretende, com efeito, oferecer
descrições de objetos, coisas, fenômenos, leis da natureza, mas afetos, sen
timentos, desejos, comandos.
É sobretudo nesse ponto que os estudos mais recentes lançaram nova
luz. Aqui nos limitaremos a referir alguns resultados adquiridos por
Barbotin no seu sábio, profundo, rico e iluminante Humanité de l'homme.
Nessa obra ele põe em evidência o valor comunicativo, existencial e práti
co. A linguagem é o instrumento privilegiado da comunicação e também
da presença da sociabilidade.
O homem, ao contrário das coisas que são fechadas em e sobre si mes
mas, é aberto, se quer dar aos outros e dos outros quer receber, se quer
tornar presente. A palavra transforma a nossa presença puramente física
e passiva - simples justaposição no espaço - em presença ativa que nos
empenha reciprocamente.
"Eu estou presente a mim mesmo enquanto estou fora de mim, em
movimento de doação que me torna livre. A palavra, pela precisão, é doa-
o problema da linguagem 149
dora; além dos propósitos, ela visa ao intercâmbio dos dois 'Eus'; na oraç
ou-me, entrego-me a Deus, jogo-me nas suas mãos"24.
Esse poder existencial da palavra, esse poder de tornar-nos presentes
os outros e os outros a nós mesmos foi maravilhosamente reforçado pelas
modernas descobertas do rádio, do telefone, dos gravadores etc. Conseguir
hoje gravar as vozes de pessoas que nos são caras, ou então de persona
ns importantes, modifica sensivelmente o salto, o abismo da morte e as
ossas relações com os defuntos: poder reouvir as suas vozes dá-nos a
nsação de que a morte não tenha realizado uma separação completa
ntre nós e eles.
A função fundamental da linguagem é, pois, a da comunicação. Toda
via devemos constatar que é uma comunicação que a linguagem não nos
nsente nunca realizar plenamente. "A palavra trocada, diz bem Barbotin,
6e em comunicação entre si, ela desperta, mantém e consagra a abertura
cíproca; mas ao mesmo tempo conserva algo de inexprimível. E isso não
deve à duplicidade, mas sim à inefabilidade da pessoa, das suas inten
es, da sua liberdade: a palavra deixa filtrar algum raio, mas dele conser
va, por força, secreto o centro de atividade. Sempre desigual no que concerne
o que manifesta, a palavra é conseqüentemente por força múltipla - se
fosse perfeita seria, pelo contrário, única - e provoca no interlocutor in-
rrogações infinitas; ela ouve o espírito, mas não o saciajamais"25.
Que a linguagem tenha aspectos ambíguos é algo evidente e foi repe
tidamente sublinhado já pelos filósofos da Antigüidade, em particular por
latão, Aristóteles e Agostinho. Ela é instrumento de formação (educa
o), mas se presta também muito facilmente à deformação e à corrupção,
orno frisava Sócrates contra os sofistas. Em capítulo célebre de O ser e o
t mpo, Heidegger mostrou como a inautenticidade dos indivíduos é devida
IObretudo à linguagem: a maior parte dos homens não pensa em si mes
ma, não julga com a própria cabeça, não decide por conta própria, mas
nsa, julga, decide etc. segundo o que ouve dos outros.
) Função e valor existencial
A linguagem é importante não apenas pela função descritiva e comu
nicativa, mas também pela função existencial. Ela, com efeito, além de
doscrever objetos e comunicar sentimentos serve outrossim para testemu
nhar aos outros e a nós mesmos a nossa existência. Suponhamos, por exem
plo, que alguém tenha se perdido em uma floresta ou numa montanha. A
.. E. Barbotin, a.c. , p. 139.
16 E. Barbotin, o.c., p. 141. Sobre os limites da linguagem vide também G. GusdorfFilosofia dei
lIrI/(uaggio, cit., pp. 78-92. '
150 Fénomenologia do homem
mim ocorreu isso uma vez durante uma escalada. Eramjá as dez da noite
e não havíamos ainda alcançado um refúgio que deveria estar por perto.
Estava muito escuro e a certo momento percebemos ter perdido completa
mente a pista; então começamos a gritar com a esperança de que alguém
do refúgio nos ouvisse. De fato, foi isso que ocorreu. De cima nos responde
ram algumas vozes fortes. Elas nos bastaram para libertar-nos da angús
tia, restituindo-nos de certo modo a confiança e o domínio sobre a monta
nha. Aquelas vozes repentinas invadiram todo o espaço que nos circundava,
conquistaram o mundo silencioso das coisas e o transformaram dando-lhe
um significado novo. Assim aconteceu que um universo sem vozes, no qual
nos achávamos extraviados, tornou-se um universo em que o homem fala.
Certamente o extravio não acontece somente onde o homem não fala;
isso ocorre em lugares onde são demasiados os que falam, fazendo barulho
e confusão. E no entanto também nesses casos é de novo uma voz, uma voz
familiar que nos reassegura da nossa existência. Pense-se no caso de uma
criança que se extravia em lugar cheio de gente ... Basta que a um certo
momento ouça a voz do pai e da mãe que a chama de longe para que
readquira a serenidade e a paz.
Portanto, a palavra testemunha a minha existência a mim mesmo e
aos outros. E não se trata de testemunho vago, indeterminado, genérico,
mas determinado, preciso e qualificado. Com efeito, quando estou irritado
adoto tom particular de voz e certo tipo de linguagem, que são de todo
diferentes dos que uso quando rezo ou então quando ensino. Fazer cor
responder perfeitamente certa linguagem com os vários modos de ser das
suas personagens é especialidade dos atores. Mas o que esses últimos es
tão em condições de fazer, ou seja, muitas personagens, nós o fazemos
todos os dias para a personagem que cada um de nós é naturalmente.
A palavra adquire densidade essencial sobretudo através do nome.
Ter um nome significa possuir uma existência. Mas por causa da publi
cidade do nome, por meio dele também a minha existência adquire certa
publicidade. Observa-o bem Barbotin quando escreve: "O nome que me
revela me exprime para os outros, franqueando-lhes o acesso ao meu ser.
Eu não existo verdadeiramente senão para aqueles que conhecem o meu
nome; o anonimato, o incógnito são álibis que adicionam às vantagens
da presença física em determinado lugar o benefício de certa 'ausência
socia!' ... Porém, se o meu nome me exprime aos outros, ao mesmo tempo
ele me entrega a eles, me põe em seu poder. Declarando o meu nome,
renuncio à parte da minha autonomia; de agora em diante os outros me
dominam e me possuem. A primeira preocupação do diretor de um inter
nato não é porventura a de aprender o nome dos seus rapazes para con
trolar as suas iniciativas e manter a disciplina? Os serviços de polícia
o problema da linguagem 151
não desenvolvem uma atividade vigilante para conhecer os nomes e 0 8
múltiplos apelidos das pessoas suspeitas para, assim, poder controlar
lhes os movimentos?"26
Está claro que o nome serve sempre de sustentáculo à presença de
uma pessoa. Onde quer que o seu nome seja conhecido, pronunciado,
r~cordado, tem lugar a sua presença intencional junto aos outros, e sa
tisfaz de qualquer modo o desejo de ubiqüidade que é inato em cada
homem. Mas além de superar os limites do espaço, o nome consente-nos
também suplantar os confins do tempo: a nossa presença perdura até
depois da morte, enquanto a lembrança do nosso nome permanece viva.
Isso explica o desejo que todos nós temos de que o nosso nome se torne
famoso, adquira notoriedade: dessa maneira queremos garantir-nos cer
ta eternidade.
d) Função ontológica: valor do mito
O segundo Heidegger chamou a atenção dos estudiosos sobre outra
função capital da linguagem, a dos confrontos com o Ser.
Na opinião de Heidegger, se considerarmos em profundidade o fenô
meno lingüístico, se refletirmos sobre a linguagem enquanto linguagem,
II , ao invés de explicarmos a linguagem como coisa, ou aquela coisa, pro-
urarmos prestar atenção ao que seja a linguagem em si própria, "se vol
tarmos a atenção unicamente para a linguagem", então conseguiremos a
lIua natureza artistica que é propriamente a do Sagen (dizer) enquanto
Zeigen (mostrar): "O que faz existir a linguagem como linguagem é o dizer
original (die Sage) enquanto Mostrar (die Zeige)"27.
A linguagem original, precisa Heidegger, tem uma força, um poder
todo especial, uma força que funda o próprio ser das coisas, poder-se-ia
mesmo dizer uma força criativa. Essa linguagem não se baseia em qual
quer signo nem muito menos é simples conjunto de signos; pelo contrá
rio, todos os signos têm sua origem nela. Ela é a força original e primor
dial do aparecer, do se mostrar". Quando se olha para a estrutura do
Dizer original, não é possível atribuir e mostrar nem exclusivamente
II m preeminentemente ao agir humano. O mostrar-se enquanto apare
c r é o traço distintivo do ser presente ou ausente do ente seja qual for a
ua espécie ou grau. Até onde o mostrar realiza-se graças a nosso dizer,
há sempre um deixar-se mostrar que precede esse nosso mostrar como
llgir e relevar"28.
2ft E. Barbotin, Humanité de l'homme, cit., p. 155.
" M. Heidegger, ln cammino verso illinguaggio, cit., p 199.
~61b.
152 Fenomenologia do homem
Por certo, se fIxamos a atenção exclusivamente sobre o falar humano,
se o considerarmos simplesmente como a manifestação da interioridade
do homem, se considerarmos o falar assim concebido como a verdadeira
realidade da linguagem, então a essência da linguagem pode continuar a
nos aparecer somente como expressão e atividade do homem. Mas o falar
humano, enquanto falar dos mortais, não tem seu próprio fundamento em
si mesmo. Antes do falar dos mortais há outro falar, um falar originário,
do qual procede qualquer outro falar.
O falar originário está na base de todo o movimento do universo: é a
relação de todas as relações. "Ele contém, sustenta, oferece como um dom,
e torna ricas as quatro regiões do mundo (terra e céu, Deus e homem) no
seu ser, uma defronte à outra, rege-as e as guarda, enquanto ele - o
Dizer original - permanece em si mesmo. Portanto, fIcando em si mes
mo, a Linguagem, qual Dizer originário do quadrado do mundo, alcança
e inclui na sua esfera a nós, nós que, enquanto mortais, somos parte do
quadrado, nós que podemos falar só enquanto correspondemos à Lin
guagem"29.
O falar originário "alcança todas as regiões do que se pode fazer pre
sente, faz que delas apareça ou desapareça o que de vez em vez se faz
presente"30.
Como se vê, Heidegger atribui à linguagem originária uma densidad
ontológica fundamental: a palavra não é somente habilitação e signo, maa
também fonte e sustentáculo do ser das coisas. Isso, porém, não é inter
pretado em termos de causalidade efIciente: não signifIca que a palavrll
produza o ser das coisas, porque, segundo Heidegger, em tal caso a pala
vra se tornaria, por sua vez, coisa. Ao contrário de realidade subsistent(\
que gera outras realidades, Heidegger propõe considerar o falar originá
rio como "relação", "a relação fundamental", "a relação de todas as rela
ções", uma espécie de lei suprema: "a palavra é a relação que cada v 'I.
mais incorpora e retém em si a coisa de modo que ela 'é' uma coisa"3I.
Como se disse anteriormente, segundo o pensamento de Heidegger /1
palavra originária comunica o ser, mas não no sentido causal criativo. A
palavra não cria o ser, mas o diz. E dizer "signifIca mostrar, fazer apar<
cer, manifestar iluminando-ocultando, no sentido de oferecer o que ch/l
mamos mundo. Esse oferecer o mundo, que é ao mesmo tempo iluminar n
ocultar ou velar, é a viva essência do dizer"32.
29 Ib. , p. 169.
30 Ib., p. 200.
31 Ib., p. 135.
32 Ib., p. 157.
o problema da linguagem
153
Do original Sagen da lingua . . , .
zer tem origema lin~age h gem ongm~na que é essencialmente di-
cialmente escutar e pode tomrnarumad~a, que amda antes de dizer é essen-
M -se Izer somente de . d . ,
as o que escuta o homem? ObVl'am t I' pOlS e ser Ja escutar.
to· • • en e a mguagem a q I '
101 VIsto não é nem coisa nem pess I ' ,ua , porem, como
mo tempo mantém distintas e unI·od
a
, mas l~me fundamental que ao mes-
Se ndo H . . as as COIsas.
ai ' . gu . e1degger e mUItos outros fIlósofos depois dele o D' .
..-nano, ou seja a palavra dotad d . ,lzer on-
mental a que n;s referimos e' ~t aquela denSIdade ontológico-funda_
, omlO.
Durante estes últimos d • . b
problema do mito adquiriu i~e~~~, s~ retu~o por causa de Bultmann, o
mas também para a fIlosofIa. ~n ~~~~~ capI~al, não só para a teolo~a,
representa degeneração da ra· q t' por:m, para Bultmann o mIto
t . zao e, por anto lmguag I '
umdo-se em representaçã d rd ' . em a lenante consti-
ficas, fantásticas e metafísi~as~3rea I ~e.:edlante categorias pré-cientí
muitos outros34 o m't ' ,para. e1 egger, Eliade, Ricoeur, Vergote
I o e a expressao real d' t · .
portanto também mais autêntica da realidade Ire a, ImedIata, original e
Das duas hipóteses qual ' t . .
Yordade? e a cer a: a do mito-fábula ou a do mito-
Achamos que não será nunca ' I
IIrigem da linguagem e mal's . d dPoss~ve estabelecê-lo com certeza. A
. am a o mIto está en I' d ' .
no, que nenhuma técnica fIlosófIca . ,v~ VI a em veu de m1S-
dI strinchar. ou pSlCanalItlCa conseguirá jamais
Parece-nos, por outro lado certo que a li '.
nll tafísico. Mas tal correlativ ' t nguagem ImplIque correlativo
nte e em cada dimensão do ho
o
encon :amos em toda parte, em qualquer
mem' nao somente r mil é saber se a explicação para tal ~orrel . , na m~agem. O proble-
(u qual, depois de tudo é pur . I atlVo e a sugenda por Heidegger
, ,. ,a e slmp es reexumaçã d t . I . .
• /l 1l IdeIas): se isto é a eX1'st' . d . o a eona p atomca , , enCla e uma lmgua
1111 nte ser linguagem derivada d' . gem que mostra clara-
'umo o é propriamente a lin 'aseec;,~ ana, dependente, fIni~a, imitativa,
IIngem primeira, originária ~u:danteumana, ~o.stule a realIdade de Hn-
.,. v ser buscada alhures.' , arquetIp1ca ou então se a solução
Não é nossa intenção propor solu • .
II I/ I. Contentamo-nos com te I Ç~do para este espmhosíssimo proble-
r esc arecI o o que . "
II ~ stiva tese de Heidegger relativa à d' • seJ~ opm~vel a, ~e .resto,
Illll{Uagem. Imensao e a funçao ontologIca da
.1 R Bultmann Nuouo Testa t . .
.,. 'r. M. Eliad~, Mito e realt:~o~l! ~ofogz~, Queriniana, Bréscia, 1970.
,'/u}(la, e la sua archeologia, cito ' ,rIm, 966; P. Rlcoeur, Finitudine e colpa; A. Vergote, La
154 Fenomenologia do homem
7.Relação da linguagem com o pensamento,
com as coisas e com os interlocutores
Passamos agora a considerar o problema do valor da linguagem de
outro ponto de vista: o das suas relações com o pensamento, com as coisas
e com os interlocutores. É argumento quejá tocamos no ponto precedente,
mas que, todavia, é bom retomar para tratá-lo mais explicitamente e de
ângulo diferente.
À linguagem se atribui valor diferente segundo o modo de conceber a
sua relação com os três elementos sobreditos. Há quem se preocupa ex
clusivamente com o pensamento e concebe a palavra como espelho das
idéias' outros se interessam sobretudo pelas coisas, privilegiando a fun-,
ção descritiva da linguagem; outros, enfim, se preocupam somente com os
interlocutores, vendo na linguagem o instrumento do seu encontro. Na
análise lingüística a preocupação é concentrada nas coisas; no existen
cialismo é concentrada no sujeito pensante; na hermenêutica, no per
sonalismo e no estruturalismo é concentrada nos interlocutores.
Em todos os três casos se dão, porém, duas alternativas (e algumas
vezes até três).
Para a relação pensamento-linguagem a solução comum é ver na lin
guagem instrumento subordinado e secundário do pensamento. Hoje, os
estruturalistas e os hermeneutas tendem a subverter essa relação e a pôr
o pensamento ao serviço e à dependência da linguagem. Parece-nos que a
tese desses últimos não possa ser plenamente acolhida, porque todos ex
perimentamos pensamentos para os quais não conseguimos encontra ,'
palavras exatas para exprimirmo-nos. E, todavia, é tese que contém algo
de verdade, porquanto entre pensamento e linguagem intercorre relação
muito profunda. Com linguagem nítida, também o pensamento ganha em
clareza e precisã035.
Também para o que concerne às relações entre linguagem e ser hi\
duas tendências apostas. Geralmente se reconhece na linguagem valo/"
semântico, indicativo, assinalador do ser. Hoje, estruturalistas e herma
neutas querem atribuir à linguagem densidade ontológica muito mais pro
funda: o ser encontra a sua epifania na linguagem; sobretudo o ser do
homem tem a sua sustentação, o seu modelo na linguagem.
Também a esse propósito parece-nos não podermos acolher a segundu
tese integralmente porque, se levada às últimas conseqüências, se trans
forma inevitavelmente em nova forma de idealismo; todavia, é também
.. E. Barbotin, o.c., pp. 133-144.
o problema da linguagem 155
tese que contém importante núcleo de verdade: ela exprime o caráter his
tórico e criativo do homem36.
Quanto ao terceiro tipo de relações, as que se estabelecem entre lin
guagem e interlocutores, dão-se também aqui duas teses apostas: uma
que afirma o valor essencial da linguagem para a intersubjetividade, va
lor esse que é tanto mais importante porquanto hoje se vê no homem um
ser essencialmente intersubjetivo; hoje, a pessoa humana não é mais en
tendida em visão egocêntrica, cartesiana, mas numa visão social comuni
cativa. A outra tese atribui pequeno valor intersubjetivo à linguagem, por
que parte de concepção egocêntrica, angélica do homem.
Nós sustentamos que efetivamente a linguagem tenha importância
apitaI pela função intersubjetiva que desenvolve. Tal importância pro
vém do que foi dito precedentemente sobre a função comunicativa da lin
guagem. Concluindo, parece-nos certo afirmar que a importância da lin
iUagem esteja sobretudo na sua função comunicativa, a qual tem caráter
mais prático do que descritivo, e em cada caso traz consigo forte dose de
lementos pessoais (subjetivos, emotivos).
8. Implicações anta-antropológicas da linguagem
Nessa última seção recolhemos as principais implicações que a análi-
110 da dimensão lingüística contém com relação ao ser do homem.
Observou-se desde o início que a linguagem possui extraordinário
poder revelador do que é o ser profundo do homem. E, com efeito, o estudo
dossa propriedade revelou muitas coisas acerca do seu ser. Delas, as mais
. ignificativas são três.
I. A linguagem distingue de modo nítido o homem dos animais, põe
I rn evidência a sua superioridade intelectual, dá-lhe a possibilidade de
viver tipo muito mais perfeito de sociabilidade, põe-no em condições de
dI senvolver técnicas para o domínio e a função da natureza que no mundo
lIuimal são de fato desconhecidas. Observa justamente Gusdorf: "se o chim
Jlnnzé tem a possibilidade da linguagem (como demonstra a fisiologia) mas
11110 a sua realidade, é sinal de que a função da palavra, na sua essência,
11110 é função orgânica, mas função intelectual e espiritual"37.
II. A linguagem revela a natureza complexa do ser do homem; ela
nivela claramente como nenhum outro fenômeno a interação e a inter
rlopendência do físico e do conceptual na existência humana. A esse res-
11<1 f. r. Mancini, Linguaggio e saluezza, Vita e Pensiero, Milão, 1964, pp. 14ss.
"' G. Gusdorf, Filosofia dellinguaggio, cit., p. 10 .
156 Fenomenologia do homem
peito escreve egregiamente Barbotin o que se segue: "Fenômeno e fonema,
sensível, sonoro, a palavra parece-se com os corpos, possui realidade física
cujas propriedades a ciência estuda. Não é, porventura, o sopro vital que a
sustenta, o ar que a transmite aos ouvidos dos outros? E todavia essa
palavra não se deixa reduzirao de que tem origem: ela é sopro como alma
(anima), como o espírito (animus, pneuma), nasce de duas fontes, o corpo
e a alma, ou, antes, desta fonte única e invisível: o espírito encarnado, a
alma incorporada; ela pode agitar as profundezas mais instintivas da sen
sibilidade como as culminâncias mais elevadas do espírito. Dizemos, mais
precisamente, que a inteligência de quem fala enforma essa matéria nova:
a voz, e a articula em palavra distinta. É o espírito, a inteligência e a li
berdade que suscitam a palavra, criam-na, governam-na e fazem dela o
seu instrumento privilegiado"38.
III. Enfim, estudada nas suas várias manifestações, sobretudo nas
formas poéticas, místicas, religiosas, a linguagem desvela incomensu
rabilidade essencial da capacidade expressiva nos confrontos com a reali
dade e a tensão do homem a suplantar-se continuamente, a autotrans
cender-se e a transcender tudo o que disse e é capaz de dizer. "O falar
entendido na sua plenitude significante transcende sempre a dimensão
físico-sensível do som. A linguagem, como significado feito som e signo
escrito, é algo essencialmente supra-sensível, algo que perenemente ul
trapassa o puramente sensível. A linguagem, assim entendida, é, por SUII
natureza constitutiva, metafísica"39.
Portanto, as tentativas de enclausurar a linguagem humana nos eA
quemas da ciência estão votados à falência, assim como faliram todas a
tentativas de explicar a realidade humana através de procedimentos ex
clusivamente científicos. Para compreender o homo loquens é necessário
ultrapassar os confins da ciência e voltar-se à metafísica.
BIBLIOGRAFIA
Para maior comodidade dividimos a Bibliografia acerca da linguagem em quatro grtlpH.
1. Estudos gerais sobre linguagem
2. Teoria neopositivista e analítica
3. Teoria hermenêutica
4. Teoria estruturalista
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VI
A DIMENSÃO SOCIAL E POLÍTICA DO HOMEM
(Homo socialis)
A sociabilidade é a propensão do homem para viver junto com os ou
tros e comunicar-se com eles, torná-los participantes das próprias expe
riências e dos próprios desejos, conviver com eles as mesmas emoções e os
mesmos bens.
A politicidade é o conjunto de relações que o indivíduo mantém com
fi outros, enquanto faz parte de grupo social.
Sociabilidade e politicidade são, então, dois aspectos correlativos de
nico fenômeno: o homem é sociável e, por isso, tende a entrar em contacto
1m os seus semelhantes e a formar com eles certas associações estáveis;
Irém, começando a fazer parte de grupos organizados, torna-se um ser
Ilítico, ou seja, membro de uma pólis, de uma cidade, de um estado, e,
Imo membro de tal organismo, adquire certos direitos e assume certos
veres.
Sociabilidade e politicidade são duas dimensões fundamentais do
AO'nE~m. Já Aristóteles dizia: "O homem é, por natureza, animal político (e,
. ... "'), também sociável). Quem, por natureza, não possui estado, é supe
ou mesmo inferior ao homem, quer dizer: ou é Deus ou mesmo ani
"1. O homem sente exigência imprescindível de encontrar-se em rela
com outros seres de sua própria espécie e sente sentimento particular
"lItisfação quando consegue realizar essa sua disposição.
omo é essencialmente homo sapiens, volens, loquens ele é também,
... ·'ClH;sa:nalmen.te, homo socialis; ou melhor, é homo social is porque é, an
Il tudo, sapiens, volens, loquens. O conhecer, de fato, coloca-o em
lições de adquirir conhecimento dos outros, de apreciar a sua presen
cIo reconhecer a importância de unir-se a eles; a linguagem conseqüen
nte consente-lhe entrar em comunicação com os seus semelhantes;
I ,IHtótoles, Politica 1253 a, 27-29. Não menos célebre é a expressão de Cícero (De Officiis I, 4):
1l0LUrB, vi rationis, hominem conciliat homini et ad orationis et ad vitse societatem".
160 Fenomenologia do homemenfim, a vontade o incita a entrar em contato com eles e a trabalhar junto
a eles.
Aqui apresentaremos breve documentação dos fenômenos da sociabi
lidade e da politicidade. Depois, exporemos as principais interpretações
que nos deram os filósofos antigos e modernos. E finalmente, explorare
mos as implicações que tal fenômeno comporta para o ser humano. O nos
so não será tratado de sociologia ou de política, pois o que nós nos propuse
mos estudar não é a sociedade, as suas origens e seus desenvolvimentos,
mas o que constituiu o fundamento próprio da sociedade, que é, propria
mente, a sociabilidade.
1. O fenômeno da sociabilidade
O homem é essencialmente sociável; sozinho não pode vir a este mun
do, não pode crescer, não pode educar-se; sozinho não pode nem ao meno~
satisfazer suas necessidades reais elementares nem realizar as suas aspi
rações mais elevadas; ele pode obter tudo isso apenas em companhia do
outros. Por isso, desde o seu primeiro aparecimento, sobre a terra, encoll
tramos o homem sempre posto em grupos sociais, inicialmente muito p(
quenos (a família, o clã, a tribo) e, depois, sempre maiores (a aldeia, "
cidade, o estado). Enquanto o nível cultural da humanidade se eleva, "
dimensão da sociabilidade se expande e se enriquece. Hoje, ela alcanç()1I
horizonte sem fim: de nacional tornou-se, primeiro, internacional, depo
intercontinental e agora está assumindo proporções planetárias.
Os modernos meios de comunicação puseram cada um de nós II I
contacto com os acontecimentos (importantes ou insignificantes) que ocO!
rem em qualquer parte do mundo. A vida de cada um de nós, hoje, "POdl l
ser abalada de alto a baixo por causa de um fato que acontece em qualqulII
parte do mundo, parte onde não pusemos nunca o pé e de onde, talv( '~ .
façamos uma idéia muito vaga"2. "O menor ato humano e, qualquer r II I
dade, por menor que seja, são coenvoltas em regime social, que os dirigi' I
compenetra em cada parte. Não posso cumprir o menor ato comercial, I (I
ceber o menor salário, regrar o contrato mais elementar sem que me H II
ta, imediatamente, cercado por toda parte - e também sustentado - PI,II'
solidariedade econômica, social e jurídica, que constituem a própria b/l -I
de meu contrato, de meu trabalho, de meu comércio, independentemollf.
e além das minhas intenções.
2 G. Marcel, L'uomo probLematico, Borla, 'furim, 1967, p. 143.
A dimensão social e política do homem
161
E isso em intercalar-se que d
~~~~~~;: ~~~:::: r~~: i~::~nc~~: ee~~::~:~:o~:~~I~~U:~~is~~~
nhã a minha pequ~na e~ resa
ue
eu ~e mt~resse, o meu capital, e ama
tornante da indústria jap!esa ~oc;::na rUIr sob a ~oncorrência trans-
utro setor"3. Quanto a interaçã~ soci~s::je s; v~::: :;;~f~~~: ~ualquer
rou-o recentemente o embargo do petróleo E . I ' emons-
s bast ' '. . sse sImp es achado dos ára-
róprio ~:n~:~~ p;; ::;~::~ ~z:e:~d:~~t~: ~a civiliz
l
a.ção de consumo, o
idental. esenvo Vlmento do mundo
A sociabilidade durante o nosso século '.
~~:~:~e:, le~ti~ament.e, considerada fe~;~:~~ :í~~c~~;~:;~~St:~
~s ocultar so:o :or;;:s ;:::::::~:~:~:s::~receu'ICom dificuldade pode-
p;e~;~:~~~ea;:~r~::a~:c~;s o~tros e, _gra~~:: ~:l:~i~::,s:~r~~::~
terra. O isolacionismo p hoje ~::I?OS sa? dI~lgados aos quatro cantos
nneira, sobreviver, está 'claro 'que s~tr~sV1~Ivel. Se d~vemos, de qualquer
t AI ' h veremos so como membros ou ros. lU a entre o privado e o públ' t . uns
Bem ou mal esta n . " lCO orna-se sempre maIS confu-
social, ~~ p~opr~:r:~ :::::1 ee~:~;~::: i~l~~~:::n:lo, d:: ~ssis-
~ lIl ims;oes~ultlUaclOnals.Acapacidade do indivíduo de agir t ' d rga-
I .s:e~~~~~f::~~:~~~~~:~:~:~t:mb:::e social.ou contr~:t:n~o ec~::~:
o nosso ideal de liberdade e de ·~~ciedadue~. dIzer, ~mtre outras. coisas,
IIte, definido nos termos de uma in_dep:s ~~e~ napo pode ser, sImples-
d . '. n enCla. ara o homem con-
nesse r:o::e~~~a:::o~r:I~e ~?; a sua capacidade ?e não se transfor
idade nada seria além de n IVI. uo ~ d? qual a mdependência, na
IIU do Estado _ m . uma Impotencla perante a gigantesca má-
. ~s SIm uma pessoa que possa encontrar _ não er
- .a SI mesma ~a I~dependência da comunidade. O conteúdo d p -
vllçao com respeIto a sociedade consiste para o home d e sua
a si m , m mo erno, no
relação de e~:':':rc;:;~:J~so~ que, deliberadamente, decide a favor de
II' zajá é a de fa '.1 /ncla com o~ outros; sabedor de que a sua
. . ze o en rar em relaçao com os seus semelh t I
'I p~SItIvamente, essa interdependência antes que com t
an
es, e e
( vldo às . d' ' por ar-se as-
, "N ,p~;ssoes e sua epoca. A alternativa do "Eles" não é o "Eu" "um o os . ,
• M. D. Chenu, L'euangile rians L t D C
'.' A 'I' Rob ' l / . e emps, u erf, Paris, 1964 pp. 89-90
" Inson, corpo, Gn baudi, 'lUrim, 1967, pp. 20.21: .
162 Fenomenologia do homem
2. Interpretações do fenômeno da sociabilidade
Já nos dois máximos filósofos da Antigiiidade, Platão e Aristóteles, se
delineavam duas interpretações opostas da dimensão social do homem:
segundo a interpretação de Platão, trata-se de um fenômeno contingente
enquanto segundo a interpretação de Aristóteles se trata de propriedade
essencial. Essa divergência profunda nasce da sua concepção diversa do
homem. Esse, segundo Platão, é essencialmente alma; ele realiza a sua
perfeição e chega a alcançar sua felicidade na contemplação das Idéias,
que povoam o Riperurânio; nessa atividade não necessita de ninguém.
Cada alma existe e se realiza por sua própria conta, independentemento
das outras. Mas, devido a grande culpa, as almas perderam sua condição
original de absoluta espiritualidade e caíram na terra, onde teriam sido
obrigadas a assumir corpo para pagar as próprias culpas e purificar-soo
Agora o corpo comporta toda uma série de necessidades que podem seI'
satisfeitas apenas com a ajuda dos outros. A sociabilidade é, portanto, con
seqüência da corporeidade, e dura apenas até que as almas estejam liga
das ao corpo.
De maneira oposta, segundo Aristóteles o homem é essencialmenio
constituído de alma e corpo e, movido por tal constituição, é necessaria
mente ligado aos vínculos sociais. Sozinho, com efeito, ele não pode satiA
fazer suas próprias necessidades, e nem realizar suas próprias aspiru
ções. É, portanto, a própria natureza que induz o indivíduo a associar-sI!
com os outros indivíduos e a organizar-se em sociedade.
"É evidente, nos diz Aristóteles, que o estado é criatura da natureza I!
que o homem é, por natureza, animal político. E aquele que, por natur01.11
e não apenas acidentalmente, não tem estado, é superior ou inferior 110
homem"5. O motivo pelo qual nasce o estado, precisa o Estagirita, é o d(.
tornar possível a vida e também uma vida feliz. De fato, a meta final ti"
vida humana é a felicidade. Por isso, a razão de ser do estado é facilitar o
acesso a essa meta.
No cristianismo, a dimensão social adquire horizonte infinitamentn
mais vasto e profundo do que no pensamento grego, porquanto ultrapal:lHII
o plano natural e se estende também ao sobrenatural, suplanta os confill
do tempo e abrange também a eternidade. No cristianismo, além da AO
ciabilidade fundada sobre a razão, dá-se também sociabilidade baseudll
na graça: essa estabelece entre os crentes comunhão de vida, de intenç (III,
de amor totalmente aplicada para fazer deles um só "corpo", o "corpo m
• Aristóteles, Politica 1253 a, 1-4.
A dimensão social e política. do homem
tico de Cri~to". Os homens formam uma só família, porque são filhos do
m~smo paI, Deus, e irmãos do Filho de Deus que se fez homem, Jesus
CrIsto.
~ssa concepção cristã da sociabilidade humana teve profundas repor-
ussoes também no plano político e social. Ela contribuiu, de modo decisi
vo para a superação das instituições (por exemplo, a escravidão) e de de si
~aldades (como a entre o homem e a mulher) que feriam gravemente a
dlI~en~~o da sociabilidade. Além disso, aprofundou as próprias bases da
soclablhdade, expondo à luz valores fundamentais,como a liberdade e a
pessoa.
Senão vejamos: entre os primeiros cristãos ocorreu a tendência de
onsiderar a sociabilidade natural, institucionalizada na sociedade civil (o
sta?-o) e _a sobrenat~ral, institucionalizada na comunidade religiosa (a
greJa), nao como do~s aspectos de uma única dimensão integradas al-
t rnadamente, mas SIm como duas encarnações opostas da sociabilidade
uma devida ao pecado (o estado) e a outra à graça (a igreja). A essa inter~
rotação santo Agostinho deu célebre formulação.
Se~~do o b~sp? de Ripona, dão-se duas grandes associações de espí
lio: a CWltas del (CIdade de Deus) e a civitas terrena (cidade terrena ou
Htado). Ambas são fundamentadas no amor, mas enquanto a cidade de
I>I'US se fundament~ no. amor de D~us, amor de tal modo altruísta que não
( me chegar ao SaCrIfíCIO total de SI mesmo, da própria vida, a cidade ter
( na é fundamentada no amor próprio, um amor totalmente cego, egoísta
\I chega até o ponto de desprezar e renegar a Deus. "O que anima a so
le dade terrena (civitas terrena) é o amor de si mesmo levado ao ponto de
I Aprezar Deus; o que anima a sociedade divina (civitas coelestis) é o amor
I Deus levado ao ponto de desprezar a si mesmo. Uma baseia seu or
alho em si mesma, o orgulho da outra está em Deus; uma procura a gló
/I ntre os homens, a outra afirma que a consciência de Deus é a maior
16ria"6.
. O ess~ncial do ~eino terreno (como também do reino espiritual) é o
d,,/lttus fims, quer dIzer, o objetivo que provém da natureza intrínseca da
ilHa : ?ortanto, nesse caso a realização de valores puramente terrenos.
,"1106 m~luem, para começar, "o corpo e os seus bens, isto é, uma boa saú
I, so~tIdos apurados, f~rça física e beleza, parte deles essenciais para
11111 VIda melhor, e por ISSO mais desejáveis, e outra parte com menos
/1101'. De~ois, a lib~rda~e, no sentido que a pessoa crê ser livre quando é
1111/1 de SI mesma, IStO e, no sentido desejado pelos escravos. Em terceiro
I"HIII', os progenitores, as mães, uma mulher e as crianças, os vizinhos, os
• Af(Ostinho, De ciuitate Dei XIV, c. 28.
164 Fenomenologia do homem
parentes, os amigos, e para os que dividem conosco o nosso modo de ver
(greco-romano), a pertença a um estado e não só as honras, as recompen
sas e o que é chamado favor popular. Finalmente, o dinheiro, entendendo
com isso tudo o que possuímos legalmente, e que temos o poder de vender
ou de que podemos, de algum modo, dispor"7.
Segundo Agostinho, historicamente a origem da civitas terrena re
monta à queda dos progenitores; mas ela encontra a primeira expressão
emblemática na torre de Babel. Como na torre de Babel, também na civitas
terrena, reinam constantemente a confusão, a violência, a malvadeza, a mi
séria. Mas no parecer de Agostinho, a expressão mais monstruosa da civitas
terrena que alcançou o Império Romano, exemplo supremo de brutal con
quista e fruição, que se pode descrever como "saques em grande escala".
Em situação histórica muito diversa daquela de Agostinho (já caíra o
Império Romano e o seu lugar já fora ocupado pelo Sacro Império Roma
no) e com concepção do homem e do estado que não se inspira mais em
Platão, mas sim em Aristóteles, Santo Tomás oferece interpretação do fe
nômeno da sociabilidade e da sua atuação nas instituições políticas que
muito pouco possui em comum com a de Agostinho. Como Aristóteles, To
más considera que o homem é naturalmente sociável: para viver e para
realizar-se plenamente é destinado a unir-se a outros indivíduos da sua
própria espécie. Portanto, a sociedade política deriva a sua origem direta
mente das exigências naturais da pessoa humana. Segundo Tomás, o es
tado é sociedade, porque é "coadunatio plurium ad aliquil communiter
agendum" (reunião de muitos para fazer alguma coisa em comum). É soei -
dade perfeita, porque tem fim próprio, o bem comum, e possui os meioM
suficientes para realizar regime de vida tal que permita a todos os cida
dãos possuir o que é necessário para viver como homens. É evidente, poiA,
que para Tomás a sociedade, o estado, está a serviço da pessoa humana, I
o instrumento essencial para a sua plena realização, e não o contrário,
Tomás, como cristão, sabe pertencer não só à sociedade civil mas tambélll
a uma sociedade religiosa, a Igreja. Falta-nos, então, enfrentar também II
problema (que, por outro lado, em seu tempo era muito discutido) du"
relações entre estado e igreja. A seu juízo, seja o estado ou seja a igreja s III
sociedades perfeitas, cada uma possuidora de finalidade própria e de meio"
adequados para alcançá-la. A finalidade do estado é o bem-estar dos cidll
dãos neste mundo; a finalidade da igreja é a salvação eterna das almllH,
Os meios da igreja são as pregações e os sacramentos; os meios do estado
são as casas, os hospitais, as escolas, as forças armadas etc. Por isso o
estado não pode ser sujeitado à igreja, nem a igreja ao estado. Todavio,
7 Agostinho, De libero arbitrio I, 15, 32.
A dimensão social e política do homem
165
Tomás afirma que existe certa d d"
ja, dependência a que ele cham:P~~ s:~~~ ~o es!a~o c~m respeito à igre
essa tese do seguinte modo Se d ~maçao mdlreta. Ele justifica
O estado goza de perfeita a~to:o o .u~ socledad,e perfeita, .no seu âmbito,
é o bonum supernaturale e é ent t;lla. o~o, ~orem, a finalIdade da igreja
rar a igreja como sociedade ~ . ao, s:~enor a do estado, deve-se conside
ser subordinado à igreja em t ~IS per elta do que o estado, e o estado deve
do homem. O estado por iss~ dO o q~ c?n~~rne à finalidade sobrenatural
da igreja. Em Tomá~ as relaço-eePsen te m Itretamente e não diretamente
, en re es ado e' . - . .
relações entre filosofia e teologia O t d' I~eJa sao SImIlares às
concerne à finalidade última co~o ae~t °fie s?bo~dm~do à igreja no que
que concerne à verdade absoiuta' I oso la e su ordmada à teologia no
na autonomia, assim como a filo~o~:: no seu .cam.po ~ ~sta?o goza de ple
pendente da teolocria Em qual m 'Ibseu ambIto e mtelramente inde-
o' . quer caso m' '1
ntre estado e igreja, compara-as à I' _ as,. para I ustrar as relações
alma: "O poder temporal está "t re açao. e.xlstente entre o corpo e a
Por isso, não existe usur a ão SUJeI o ao :sp~ntual como o corpo à alma.
I! mescla à esfera tem o~af no de competencI,a se ~ autoridade espiritual
de temporal lhe é subr::etida ouqluhe c?ncerne
l
as COIsas em que a autorida-
D ' e e, por e a, confiada"B.
urante a epoca moderna . t -
. ociabilidade encontrou ade sã: I:e e~r;taç~o ~Iatônica do. fundamento da
Spinoza, Hobbes, Locke, Leibnitz, ViC~I eO~ Ilosofos, partIcularmente de
,li~eram clara distinção entre o estado natu~:t~eau. 'Ibd~s esses autores
(VII. No primeiro cada homem s ' I a humamdade e o estado
I -' , mgu armente era plena t t nte e nao precisava de aliXI'l' d ' men e au o-sufi-
Lo 10 os outros "O est d d
cke, possui uma lei, ensina a toda a hum~nidad a o e .natureza, escreve
ue ela o consulta que sendo tod . . . e a partIr do momento em
unificar o outro ~m sua existênc~; I:a:s e m~ependentes, ~inguém deve
lia propriedade'>9 As . ,ua saude, em sua lIberdade e em
. SIm, em certo momento h . d
lmpleto suicídio, decidiu organizar-se em ~ ~ ~ma;I ade, para evitar o
UU, ou a um grupo restrito, a autoridades~~I~e;s~~~ ::c::!o ~ um
t
adPes
( xercer o governo sobre o gru o . I' . e e o os e
\I mediante um "contrato soci~l"sOCI~ . mtelro. Desse modo, vale dizer
Jobbes, Locke Leibnitz Vico e R ,0ngIn~u-se o estado civil. Spinoza,
, , ousseau nao estã d d
lIlccber o estado de natureza e o t d "1 o e acor o no modo de
es a o CIVI Mas em t
t lO de acordo: que a sociabilidad 'fi" um pon o todos
A tese implícita nessa conce ~~ ::o~eno secundário" derivado.
/I prioridade absoluta do indi 'd pç b onge~ do estado e a afirmação
VI uo so re a SOCIedade: o estado está intei-
: li. 'lbmás, Summa Theologiae 2/2, q. 60, a. 6.
l.ocko, Do .. tratados sobre o governo, II, 6, 6,
Há milênios que os filósofos e os cientistasestudam o homem e procuram
dar uma definição aceitável de sua globalidade: natureza, origem e fim
último. Desde o "Conhece-te a ti mesmo" de Sócrates até as profundas
motivações do Renascimento, até a forma marcada mente antropológica
da filosofia mais recente.
Com o início da época moderna (Descartes, Espinoza), a pesquisa
antropológica abandona a impostação cosmocêntrica dos filósofos gregos
e a teocêntrica dos autores cristãos para enveredar pela antropocêntrica: o
homem como ponto de partida da pesquisa filosófica . Existencialistas e
estruturalistas, marxistas e tomistas, evolucionistas e espiritualistas, ateus e
cristãos, todos são concordes em atribuir uma importância fundamental ao
estudo do homem. O autor, mediante uma análise ampla e refletida, examina
(na primeira parte da obra: Fenomenologia do homem) o fenõmeno
"homem" sob os pontos de vista mais importantes, procurando ver antes
de mais nada o que ele é: corporeidade, cultura, trabalho, jogo, religião.
Somente depois dessa ampla fenomenologia das aparências é que ele
procura decifrar e explicar o sentido profundo e completo do homem
(segunda parte: Metafísica do homem) .
.. '.",
-
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