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Nietzsche leitor de Shakespeare
cadernos Nietzsche 31, 2012 173
 
* Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: Pedro.
sussekind@terra.com.br.
1 Cf. SÜSSEKIND, P. Shakespeare, o gênio original. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
Nietzsche leitor de 
Shakespeare
Pedro Süssekind*
Resumo: O artigo analisa, a partir de referências feitas por Harold 
Bloom em seu estudo Shakespeare: a invenção do humano, passagens nas 
quais Nietzsche propõe interpretações de duas tragédias de Shakespeare. 
Uma dessas passagens, retirada de Aurora, defende uma compreensão 
de Macbeth que escape da avaliação moralista do protagonista. A outra 
passagem é do primeiro livro de Nietzsche, O nascimento da tragédia, e 
diz respeito a uma das questões mais debatidas na recepção de Hamlet: 
o motivo da hesitação do príncipe, sua demora em agir diante das 
circunstâncias que lhe são apresentadas no primeiro ato da tragédia.
Palavras-chave: Nietzsche – Shakespeare – Macbet - Hamlet
1. Antigos e shakespearianos
Duas referências fundamentais demarcaram a política cultural 
na Alemanha a partir de meados do século XVIII: os gregos antigos 
e o teatro shakespeariano. Por um lado, desde Winckelmann, o 
modelo da Grécia clássica foi considerado como ideal artístico e 
humanista a ser imitado. Por outro lado, a partir da proposta de um 
novo paradigma para o teatro nacional, feita por Lessing, a obra de 
Shakespeare se converteu no impulso para a revolução promovida 
pelo Sturm und Drang e pelo movimento romântico.1
A respeito do peso que teve o “helenismo” para o desen vol-
vimento cultural daquele período, considero bastante instrutivo o 
título de um importante estudo sobre o tema, publicado em 1958: 
Süssekind, P.
cadernos Nietzsche 31, 2012174
A tirania da Grécia sobre a Alemanha, de Eliza Marion Butler. Com 
base em suas análises de Goethe, Schiller, Hölderlin e outros, a 
autora constata: “a Grécia de Winckelmann foi o fator essencial 
no desenvolvimento da poesia alemã ao longo da segunda metade 
do século XVIII e de todo o século XIX”.2 Só que essa “tirania” é 
ainda mais ampla do que a frase indica, porque a obrigatoriedade do 
modelo grego não se restringiu à poesia; ela se desenvolveu também 
em outras áreas da cultura, repercutindo nos desdobramentos da 
Filosofia da História e da Filologia Clássica ao longo do século XIX. 
Sob a ótica da tradição poética, filosófica e filológica cons-
tituída na Alemanha, Nietzsche certamente pode ser considerado 
como herdeiro daquele reinado tirânico da Grécia como modelo 
cultural. Isso fica evidente em seu primeiro livro – publicado, aliás, 
quando ele era professor de filologia –, no qual ele mencionava a 
“nobilíssima luta de Goethe, Schiller e Winckelmann pela cultura” 
como o tempo em que o espírito alemão se esforçou com mais vigor 
para aprender dos gregos (GT/NT 20, KSA 1.131).3 Se a aspiração de 
“chegar por uma mesma via à cultura e aos gregos” tinha se tornado 
cada vez mais fraca na Alemanha ao longo do século XIX, o autor 
concebia o projeto filosófico de O nascimento da tragédia como 
um aprofundamento do esforço de seus precursores. Nesse caso, 
uma crítica do escopo do helenismo alemão sob a responsabilidade 
dos filólogos do século XIX está por trás das teses de Nietzsche, 
interessado em resgatar a luta pela cultura contida no projeto 
winckelmanniano de imitação dos antigos.4
Entretanto, em contraposição ao helenismo que marcou a hito-
riografia, a filosofia e a poesia na Alemanha, o modelo shakes-
peariano foi proposto justamente como uma ruptura moderna em 
relação à necessidade de imitar os clássicos. Para usar a metáfora 
2 Butler, E. M.. The tiranny of Greece over Germany. Cambridge: University Press, 1935, p. 6.
3 Tradução brasileira, p.121 (vide “referências bibliográficas”). 
4 Convém lembrar a polêmica despertada pelo livro entre os filólogos da época. Cf. Nietzsche 
e a polêmica sobre O nascimento da tragédia, longo debate entre os filólogos da época.
Nietzsche leitor de Shakespeare
cadernos Nietzsche 31, 2012 175
empregada por Butler, pode-se afirmar, então, que se trata de uma 
contestação da tirania do classicismo. Pioneiro nessa proposta, em 
suas Cartas sobre a nova literatura, de 1759, Lessing considerava 
que os autores de seu país se equivocavam ao seguir o ideal de 
teatro rigoroso importada da França e da Itália. Assim, Shakespeare 
constituía um antídoto contra a normatividade do teatro clássico, 
baseado nas regras poéticas provenientes da leitura de Aristóteles 
feita por Castelvetro, Boileau e Corneille5. A valorização do 
dramaturgo inglês como um poeta moderno que não segue as regras 
da arte – portanto de um gênio artístico definido pela originalidade 
– marcou época a partir da proposta de Lessing, como constatamos 
pelos desdobramentos da questão nas obras de Herder e Goethe 
relacionadas ao Sturm und Drang, nos textos de Friedrich Schlegel 
e de outros teóricos do Romantismo, ou mesmo nas filosofias do 
trágico desenvolvidas por Schelling, Hegel e Schopenhauer.
Embora essa referência não seja, em sua obra, um tema tão 
frequente nem tão importante quanto o helenismo, Nietzsche tam -
bém pode ser considerado um herdeiro dessa tradição “shakes-
peariana” alemã que marcou profundamente o surgimento do 
Romantismo. Há comentários sobre Hamlet, Macbeth ou Rei Lear 
espalhadas pelas obras do filósofo, cada um deles subordinado 
a um contexto e a um objetivo específicos. Mas encontram-se 
tam bém, igualmente dispersas, algumas breves e contundentes 
observações sobre o dramaturgo, expressas num tom que remete às 
analogias de Lessing, Herder e Goethe, em seus textos de defesa 
apaixonada do interesse por Shakespeare na Alemanha moderna, 
contra o privilégio exclusivo do teatro antigo6. A mais digna de 
nota entre essas observações gerais feitas por Nietzsche talvez 
5 Apresentei a proposta de Lessing no livro Shakespeare, o gênio original, op.cit., p. 35-44.
6 Cf. LESSING, G. E.. De teatro e literatura. São Paulo, Editora Herder, 1964; HEDER. 
“Shakespeare”. In: ROSENFELD, A. Autores pré-românticos alemães. Trad. João Hamann. 
São Paulo: EPU, 1992; GOETHE. “Para o dia de Shakespeare”. In: Escritos sobre literatura. 
Trad. Pedro Süssekind. Rio de Janeiro: 7letras, 2000.
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seja a passagem de Além do bem e do mal em que Shakespeare 
é avaliado como “estupenda síntese hispano-moura-saxã do gosto, 
que faria um antigo ateniense das relações de Ésquilo morrer de 
riso e de raiva”.7 Mas para “nós”, diz o filósofo, para os alemães, 
para os “homens do sentido histórico”, para os “homens modernos 
semi-bárbaros”, cai bem a “selvagem policromia” do teatro 
shakespeariano, essa “miscelânea do que é mais delicado, mais 
selvagem e mais artificial” (JGB/BM 224, KSA 5.159). 
Considero que as observações a respeito das peças de 
Shakespeare na obra de Nietzsche podem ser lidas segundo duas 
perspectivas distintas: é possível recorrer às questões extraídas do 
universo shakespeariano para delinear, com contornos precisos, 
as imagens de pensamento elaboradas pelo filósofo; ou é possível 
descobrir, naqueles comentários, indicações que permitem enxer-
gar dimensões novas, perspectivas críticas de interpretação e de 
compreensão das questões apresentadas nos próprios dramas. 
Segundo a primeira perspectiva, de um leitor de Nietzsche, os 
trechos sobre Shakespeare não só ilustram, como também inten-
sificam determinados temas, tomando emprestados o vigor e a 
complexidade dos personagens das peças. De acordo com a se-
gunda perspectiva, de um leitor de Shakespeare, em que pese o 
estilo polêmico e incisivo de Nietzsche como intérprete, os seus 
comentários constituem vias de reflexão que põem em xeque toda 
uma tradição de leitura constituída sobre as bases das concepções 
morais que articularam e articularam os juízos estéticos. 
A segunda perspectiva me interessa mais aqui, pois a proposta 
deste estudo é justamente pensar Nietzsche comoleitor de 
Shakespeare. E um indício claro da importância de sua leitura é a 
presença das interpretações propostas pelo filósofo, ainda hoje, nos 
estudos shakespearianos. Para exemplificar essa presença, recorro 
a um dos mais conhecidos e divulgados desses estudos, Shakespeare: 
7 Tradução brasileira, p.129-30 (vide “referências bibliográficas”).
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a invenção do humano, livro publicado em 1998, no qual Harold 
Bloom menciona diversas vezes observações de Nietzsche que são 
decisivas especialmente para entender a psicologia dos grandes 
protagonistas trágicos. Comentários sobre Hamlet e Macbeth 
extraídos de O nascimento da tragédia e de Aurora são usados pelo 
autor para aprofundar as análises dessas tragédias, nos capítulos 
do estudo dedicados a elas. E esse uso, da maneira como é feito, me 
parece indicar não só a relevância e a atualidade, como também a 
profundidade da leitura elaborada nas passagens citadas. 
De um modo geral, quando defende a hipótese de uma “invenção 
do humano” – ou seja, de que as criações poéticas shakespearianas 
podem ser lidas como uma espécie de nascimento da compreensão 
do ser humano tal como o entendemos na época moderna –, Bloom 
talvez demonstre afinidade com procedimentos genealógicos da 
filosofia nietzschiana. Mas essa afinidade permanece implícita, e 
o que chama a atenção nas referências diretas ao filósofo em 
Shakes peare: a invenção do humano é outro aspecto, que diz res-
peito à maneira de ler as tragédias. Evidentemente, o propósito 
original dos trechos citados pelo crítico não era o mesmo de um 
“shakespearianólogo”, cujos comentários minuciosos de cada 
peça constituem um foco central e um ponto de partida para o 
desenvolvimento de uma reflexão abrangente sobre a obra do 
dramaturgo. Trata-se mais de um procedimento de apropriação, 
pois imagens e personagens shakespearianos são usadas pelo 
filó sofo para caracterizar ou exemplificar determinadas ideias. 
Entretanto, os comentários em questão descortinam elementos 
das criações literárias de Shakespeare que permaneciam ocultos, 
seja por leituras superficiais, seja por uma tradição de avaliações 
anteriores à qual escapava, muitas vezes, o essencial. 
Nietzsche desafia o leitor a entender as tragédias de 
Shakespeare para além de juízos de valor posteriores. Com ele se 
aprende que a moralidade e a sensibilidade de épocas refinadas 
podem impedir a interpretação da verdadeira natureza dos grandes 
protagonistas trágicos. Se, como leitor de Hamlet e Macbeth, ele 
Süssekind, P.
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pode ser considerado um herdeiro do debate alemão em torno do 
dramaturgo, é porque leva às últimas consequências esse desafio 
crítico. Pois, na revisão pela qual a obra shakespeariana passou na 
Alemanha, a partir do final do século XVIII, justamente a noção 
de uma finalidade moral, ou efeito moral – ideia que pautava as 
poéticas classicistas no século XVII – tinha contribuído para as 
avaliações negativas do dramaturgo inglês que ainda dominavam 
a teoria do teatro quando Lessing passou a valorizá-lo e quando 
começou a despontar o movimento romântico. 
 
2. O demoníaco em Macbeth
O momento em que o apreço de Harold Bloom pelas inter-
pretações propostas por Nietzsche se torna mais evidente é, com 
certeza, a análise de Macbeth, na Parte VI (“As grandes tragédias”) 
de Shakespeare: a invenção do humano. Nesse capítulo, ele cita 
todo o longo parágrafo da seção 240 de Aurora intitulado “Da 
moralidade da cena”, no qual o filósofo alemão interpretava a 
questão da ambição do protagonista Macbeth, portanto o tema 
central da tragédia. Adotando, no parágrafo citado, a posição de 
um estudioso de Shakespeare, Nietzsche dialoga diretamente com 
toda uma tradição de leituras que consideravam o personagem 
segundo a ótica da moralidade: “Aquele que imagina que o teatro 
de Shakespeare produziu efeito moral e que a visão de Macbeth 
afasta irresistivelmente dos perigos da ambição engana-se” (Cf. 
M/A, KSA 3.201)8. 
Nietzsche contesta a visão de que a peça tem um efeito moral, 
uma mensagem pedagógica, de acordo com a expectativa horaciana 
das poéticas classistas de que o bom teatro deve “unir o útil ao 
8 Cf. BLOOM, H. A invenção do humano. Trad. José Roberto O’ Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 
2001, p. 651. O trecho citado na edição brasileira é da tradução portuguesa de Rui Magalhães 
(Nietzsche. Aurora. Porto: Rés, s.d., p. 155-6). 
Nietzsche leitor de Shakespeare
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agradável”.9 A tendência tradicional seria a de ler a tragédia como 
se ela veiculasse o ensinamento de que é preciso afastar-se dos 
perigos da ambição desenfreada. Mas, segundo o filósofo, o sentido 
da força poética de Macbeth é justamente o inverso: quem possui 
uma ambição furiosa, ainda que velada, contempla no protagonista 
shakespeariano a sua própria imagem. O personagem exerceria, 
assim, uma “atração demoníaca” capaz de impelir naturezas seme-
lhantes a imitá-lo, ou seja, a seguir sua obsessão, a tomar “o mais 
condimentado ingrediente na bebida ardente desta volúpia” que se 
desenvolve na cena. 
Desse modo, segundo a avaliação de Nietzsche, um poeta 
trágico como Shakespeare não previne contra os riscos inerente à 
vida, mas considera como o encanto dos encantos essa existência 
apaixonada, mutável, perigosa, sombria, que a própria vida se 
mostra. “Demoníaco” significa, aqui, o modo de agir que despreza 
interesse e sobrevivência em benefício de uma ideia e de um instinto. 
Seria esse o cerne da ambição, como Nietzsche argumenta a partir 
de outro exemplo literário: “Pensais pois que Tristão e Isolda deram 
uma lição contra o adultério porque morreram os dois?”, pois muito 
pelo contrário. Esse tipo de avaliação moral seria “virar os poetas 
de cabeça para baixo”, e justamente os poetas, sobretudo grandes 
criadores como Shakespeare, “são apaixonados da paixão em si e de 
modo algum das disposições mórbidas que acompanham quando o 
coração não tem na vida mais do que uma gota no fundo do corpo”10.
Do ponto de vista de seu propósito no contexto da filosofia 
de Nietzsche, esse comentário tem o sentido de criticar não só a 
moralidade da nossa tradição, na qual se baseia uma avaliação falsa 
das situações humanas, como também o tempo presente, no qual 
essa perspectiva moralista impede a compreensão da força poética 
9 Segundo a fórmula de Horácio: “Arrebata todos os sufrágios quem mistura o útil e o 
agradável, deleitando e ao mesmo tempo instruindo o leitor”. Cf. Horácio. Arte poética. In: A 
poética clássica, p. 65.
10 BLOOM, H. A invenção do humano, op. cit., p. 651.
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de Shakespeare. O final da seção menciona a dimensão temporal, 
contrapondo à visão debilitada do presente (no caso, o final do 
século XIX) o vigor da época em que a peça foi escrita. Shakespeare 
nos falaria desde o “interior de uma época agitada e forte que semi-
embriaga e atordoa com a sua abundância de sangue e de energia, – 
de uma época pior do que a nossa”. Por isso, como explica filósofos, 
“nós”, os homens modernos civilizados com escrúpulos morais da 
época de Nietzsche, seríamos “obrigados a modificar e a adaptar 
a nós o objetivo de um drama shakespeariano”. E isso significa 
simplesmente “não o compreender”11.
Quando Harold Bloom cita essa passagem, ele pretende exa-
tamente explicar uma espécie de simpatia irracional que o leitor 
sente por Macbeth, embora o personagem seja talvez o mais 
sanguinário dos tiranos-vilões shakespearianos. O mistério desse 
protagonista, um herói épico que se torno vilão, estaria ligado 
ao efeito extraordinário de identificação com aquilo mesmo que, 
do ponto de vista moral, aparece como terrível e condenável.12 
Nessa interpretação da dignidade trágica de Macbeth, Bloom de-
mons tra que nossa capacidade de percebê-la depende da capa-
cidade que “o personagem tem de fazer valer a sua percepção 
de formas de vida desconhecidas,de forças que estão além de 
Hécate e das bruxas”. Tais forças diriam respeito à tragicidade 
em sua forma mais pura e assustadora, ligada ao destino. Assim, 
segundo o crítico, Shakespeare investiga em Macbeth a presença 
demoníaco no próprio homem. À maneira de um espelho, como 
indicava Nietzsche, o absurdo e a falta de sentido da ambição de 
Macbeth mostram-se demasiadamente humanos, não como traços 
condenáveis de um vilão que o leitor julga à distância, mas como o 
resultado de forças que assumem o comando da peça e diante das 
quais os preconceitos da moralidade são irrelevantes. Essas forças 
11 Ibid.
12 Ibid., p. 652.
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nos aterrorizam, mas ao mesmo tempo trazem alegria, “um imenso 
prazer que se deixa contaminar pelo demoníaco”, como diz Bloom, 
porque elas se revelam no coração do homem e não em qualquer 
instância externa ou transcendente.
Macbeth deseja demais, e por isso mesmo não deseja nada. É 
a interpretação de Nietzsche que permite ao crítico compreender 
o personagem para além de uma leitura moralizante, como essa 
figuração do homem que exprime uma negatividade radical. Desse 
modo, é a concepção do demoníaco indicada por Nietzsche que 
funciona como uma chave para a compreensão daquela “marcha 
fúnebre niilista”, como a caracteriza Harold Bloom,13 que se expressa 
na famosa fala do protagonista após a morte de Lady Macbeth: 
Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nesta passada 
trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do 
registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que 
iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, 
apaga-te, chama breve! A vida não passa de uma sombra que caminha, 
um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco – faz isso por 
uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada 
por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado14 .
3. Hamlet e o homem dionisíaco
Em Shakespeare: a invenção do humano, Harold Bloom elogia 
a “memorável interpretação de Hamlet” feita por Nietzsche,15 
referindo-se ao trecho de O nascimento da tragédia em que o filó-
sofo adota a postura do protagonista da peça de Shakespeare como 
um símbolo de um dos principais elementos da sua concepção do 
13 Ibid., p
14 Shakespeare. Macbeth, Ato V, Cena 5.
15 BLOOM, H. op. cit., p. 490.
Süssekind, P.
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trágico. Nietzsche se interessa especialmente pela situação descrita 
no início de Hamlet, porque se trata de circunstâncias nas quais 
repousa, sob uma aparente felicidade, uma verdade profunda e 
terrível. Por trás das condições exteriores do reino da Dinamarca, 
por trás da ilusão, por trás da beleza e da ordem disfarçadas pela 
festividade das bodas dos soberanos, esconde-se “algo podre”: o 
assassinato do rei legítimo por seu próprio irmão usurpador, um 
regicídio e um fratricídio ao mesmo tempo, o pior crime que se 
poderia imaginar. 
Segundo a perspectiva de Nietzsche, o lado terrível da 
existência, com suas motivações violentas, avassaladoras e 
inconfessáveis, sustentaria o mundo das aparências em que os 
homens desempenham seus papéis. Hamlet, como um personagem 
altamente filosófico, é quem conhece essa verdade mais profunda e, 
por isso mesmo, encara com enfado ou horror a situação à sua volta. 
Esse caráter filosófico se evidencia, em Hamlet, já na primeira 
ce na em que o protagonista se manifesta, de olhos baixos e com 
nuvens sombrias em seu semblante, de luto em meio à celebração 
geral, antes mesmo de ouvir o fantasma de seu pai lhe revelar o que 
há por trás da situação. “Não conheço o parece”, afirma Hamlet, 
quando responde à rainha, que fizera uma pergunta sobre o fato de 
a morte, algo natural, parecer-lhe tão singular16. Nessa perspectiva 
melancólica do príncipe, a essência – o lado sombrio e aterrador da 
existência, o horror e o absurdo, a atração do suicídio – se opõe às 
ilusões da bela aparência, à ordem, aos limites frágeis em que se 
apóiam as convenções humanas. 
Na conhecida caracterização de Nietzsche em O nascimento 
da tragédia, o impulso artístico dionisíaco, descrito por analogia 
com a embriaguez, consiste inicialmente num estado de êxtase, 
na harmonia de todos os seres, no esquecimento e na fusão com a 
natureza, portanto na perda da individualidade que se revela tão 
16 Hamlet, Ato I, Cena 2.
Nietzsche leitor de Shakespeare
cadernos Nietzsche 31, 2012 183
importante para os valores heróicos da arte grega. Esse impulso 
se opõe àquele do sonho, que caracteriza por analogia o apolíneo 
como um impulso artístico de formação de imagens, de beleza, 
de ordenamento. As manifestações do dionisíaco teriam vindo de 
fora da Grécia, pois estavam presentes nas celebrações asiáticas 
caracterizadas por uma desenfreada licença sexual, pela perda de 
todo ordenamento social e dos laços familiares, por “uma horrível 
mistura de volúpia e crueldade” (GT/NT 2, KSA 1.33)17. Trata-se, 
assim, de um impulso que tende a ser aniquilador e que, depois de 
ter levado à desagregação determinados povos do oriente, ameaçava 
a cultura apolínea da Grécia Antiga. Em “A visão dionisíaca do 
mundo”, um texto preparatório para seu livro sobre o nascimento 
da tragédia, Nietzsche associava o dionisíaco ao mundo titânico 
das Górgonas e Eríneas, que na mitologia grega se encontram 
em conflito com os deuses olímpicos. As divindades dionisíacas, 
titânicas, são pensadas como essencialmente impiedosas, sem traço 
de compaixão ou reparação, “parentes da verdade”, da noite, do 
so frimento e da morte. Numa primeira imagem do efeito que tais 
divindades produzem, o filósofo afirma que todas elas são como a 
Medusa, pois contemplar seu aspecto terrível transforma em pedra 
(DW/VD 2, KSA 1.560). Com essa metáfora, ele procura expressar 
como a invasão da torrente dionisíaca seria algo de insuportável e 
aniquilador, algo que paralisa, porque quando alguém enxerga o 
cerne da terrível ação destrutiva da história universal e da crueldade 
insaciável da natureza, toda e qualquer ação se mostra vã. 
É justamente no trecho de O nascimento da tragédia sobre esse 
tema que Nietzsche recorre a Hamlet. O príncipe dinamarquês é 
comparado ao “homem dionisíaco”, porque “ambos lançaram alguma 
vez um olhar verdadeiro à essência das coisas, ambos passaram 
a conhecer e a ambos enoja atuar”. E o filósofo complementa sua 
comparação: “pois sua atuação não pode modificar em nada a eterna 
17 Tradução brasileira, p.33 (vide “referências bibliográficas”).
Süssekind, P.
cadernos Nietzsche 31, 2012184
essência das coisas”, e tanto Hamlet quanto o homem dionisíaco, 
citando a célebre frase acerca do tempo fora dos eixos, “sentem 
como algo ridículo e humilhante que se lhes exija endireitar de 
novo o mundo que está desconjuntado” (GT/NT 7, KSA 1.57)18.
Segundo esse argumento, quem olhou na essência das coisas 
tem nojo de agir e permanece imobilizado: “O conhecimento mata 
a atuação, para atuar é preciso estar velado pela ilusão”, confirma 
Nietzsche, expressando a lição hamletiana que está por trás da 
constatação de que a verdade dionisíaca, como a Medusa, ameaça 
petrificar quem a contempla. Hamlet configuraria assim, como uma 
espécie de personagem conceitual, a ideia do “homem dionisíaco” 
que Nietzsche desenvolve em seu primeiro livro. A hesitação do 
protagonista mais famoso de Shakespeare exemplifica o estado de 
paralisia associado ao conhecimento de uma verdade por trás do 
mundo das aparências. 
Por outro lado, como dá a entender Harold Bloom ao recorrer a 
Nietzsche em sua análise de Hamlet, na parte VI de Shakespeare: a 
invenção do humano, o filósofo faz um exercício de crítica literária 
ao se posicionar, em seu primeiro livro, em relação a uma das mais 
polêmicas questões discutidas no contexto da recepção da tragédia: 
o verdadeiro motivo da hesitação do príncipe dinamarquês. Para 
Nietzsche, em sua “memorável interpretação”, é preciso descartara visão do personagem como um sonhador que pensa demais e que, 
devido ao excesso de opções, não consegue agir. Não se trata de 
pensar demais, como explica Bloom com base em Nietzsche, e sim 
de pensar com extrema clareza: é o próprio conhecimento que mata 
a ação, pois ela precisa dos véus da ilusão para ser realizada, “esta 
é a doutrina” (GT/NT 7, KSA 1.57)19. 
18 Tradução brasileira, p.56 (vide “referências bibliográficas”).
19 Ibid., p. 56. Cf. BLOOM, H. op. cit. p. 490
Nietzsche leitor de Shakespeare
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4. A filosofia de Hamlet
Caracterizado como um homem que contempla a verdade, o 
personagem de Shakespeare pode ser considerado um autêntico 
filósofo, não como símbolo da abstração que se afasta da realidade, 
mas como expressão de um conteúdo mais profundo do saber. 
Essa interpretação de Hamlet como filósofo não é explicitada 
diretamente no Nascimento da tragédia, mas sim quando Nietzsche 
volta a avaliar a peça em Ecce Homo, um dos seus últimos livros, no 
qual ele faz um balanço de sua vida e de sua obra. No capítulo “Por 
que sou tão esperto”, o autor pergunta: “Compreende-se Hamlet?”. 
E a resposta para essa pergunta que anuncia uma interpretação a 
contrapelo vem em seguida, numa única frase: “Não a dúvida, a 
certeza é que enlouquece” (EH/EH, “Por que sou tão esperto, 4,  
KSA  6.287)20. É assim que Nietzsche compreende Hamlet, con-
forme já indicava a leitura feita em O nascimento da tragédia. 
O grande personagem de Shakespeare, apesar de todas as 
suas hesitações, reflexões e dúvidas sobre o curso das ações, é 
atormentado não pela falta, não pela indecisão, mas justamente 
pela certeza, ou seja, pela confirmação da verdade. É por saber que 
ele parece insensato, é seu conhecimento que o atormenta. “Mas é 
preciso ser fundo, ser abismo, filósofo, para assim sentir”, Nietzsche 
diz, pois “todos nós tememos a verdade”. É preciso ser filósofo para 
assim sentir o Hamlet e, portanto, para compreender a verdade da 
peça, pois trata-se aqui, em Ecce Homo, do peso e do risco inerentes 
à filosofia. Por outro lado, para quem pretende interpretar a peça 
de Shakespeare, a passagem indica que o próprio Hamlet precisa 
ser um filósofo para sentir a verdade desta inversão: não a dúvida, a 
certeza é que enlouquece. Afinal, é com base nessa convicção que 
o príncipe adotará como lema a ideia de que “a prontidão é tudo” 
20 Tradução brasileira, p.143 (vide “referências bibliográficas”).
Süssekind, P.
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e,21 no último ato, será capaz de expressar em ação, no desfecho 
trágico da peça, aquela verdade terrível que só ele conhecia. 
Como todo protagonista trágico de Shakespeare, Hamlet não é 
um personagem estanque, ele passa por uma mudança ao longo da 
tragédia. Com isso, depois de confirmar por meio de um artifício 
teatral a culpa do rei usurpador, de confrontar sua mãe e de, sem 
intenção, sujar suas mãos com o sangue de Polônio, o príncipe 
do último ato já deixou de lado as hesitações suicidas de seus 
solilóquios anteriores. O Hamlet que retorna de uma aventura com 
piratas e que contempla o exército de Fortimbrás assume, afinal, a 
realização da tarefa que lhe fora imposta. De acordo com uma ótica 
nietzschiana, a transformação do personagem no decorrer da peça 
pode ser interpretada como a aceitação de uma visão dionisíaca do 
mundo, como um gesto afirmativo diante do terror, uma ação capaz 
de fazer o veneno que corrompia o reino da Dinamarca destronar o 
próprio agente desse veneno, que usurpava o trono, para dar lugar a 
um sucessor com a tarefa de restabelecer a ordem. O resto é silêncio, 
mas cabe a Horácio transmitir para a posteridade o que nós como 
espectadores já sabemos: a verdade aterrorizante e imobilizadora 
que se esconde por trás da cena trágica.
Abstract: This paper analyzes, based on references made by Harold 
Bloom in his study Shakespeare: the invention of the human, pas-
sages in which Nietzsche proposes ways to read and understand two 
Shakespearean tragedies. One of these passages, taken from Aurora, jus-
tifies an understanding of Macbeth that escapes from the moral evalua-
tion of the protagonist. The other passage is from Nietzsche’s first book, 
The Birth of Tragedy, and concerns the interpretation of one of the most 
debated issues in the reception of Hamlet: the reason for the hesitation 
of the prince, under the circumstances presented in the first act of the 
tragedy.
Keywords: Nietzsche – Shakespeare – Macbeth - Hamlet
21 Hamet. Ato V, Cena 2.
Nietzsche leitor de Shakespeare
cadernos Nietzsche 31, 2012 187
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Artigo recebido em 08/06/2011.
Artigo aceito para publicação em 10/08/2011.