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Indaial – 2021 Ética Profissional em serviço social Profª. Vera Lúcia Hoffmann Pieritz 2a Edição Impresso por: Copyright © UNIASSELVI 2021 Elaboração: Profª. Vera Lúcia Hoffmann Pieritz Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. P618e Pieritz, Vera Lúcia Hoffmann Ética profissional em serviço social. / Vera Lúcia Hoffmann Pieritz. – Indaial: UNIASSELVI, 2021. 227 p.; il. ISBN 978-65-5663-542-2 ISBN Digital 978-65-5663-537-8 1. Ética e Serviço Social. – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 170 aPresentação Caro acadêmico! Iniciamos os estudos de Ética Profissional em Serviço Social. Entraremos no mundo intrínseco do relacionamento e do comportamento humano e suas regras de conduta, no qual trabalharemos a questão da formação dos princípios morais e éticos dos homens que vivem em sociedade. Portanto, esta disciplina aborda a compreensão dos significados dos princípios norteadores da ética, além de propiciar um conhecimento dos fundamentos ético-morais do exercício profissional do Assistente Social e promover uma reflexão e uma discussão sobre as questões ético-morais, na relação indivíduo e sociedade. Esta disciplina pretende, também, fomentar o debate sobre as diversas dimensões ético-morais da vida social e profissional, promover uma consciência crítica referente aos valores e princípios norteadores do exercício profissional e apresentar os fundamentos e significados do código de ética dos Assistentes Sociais. Para que você possa compreender estes conceitos de ética, valores e moral e os assuntos pertinentes às questões éticas do cotidiano profissional do Assistente Social, proporcionaremos uma reflexão acerca do espaço da ética na relação indivíduo e sociedade, de modo que você possa trabalhar estes conceitos, permitindo que os mesmos interajam nas dimensões ético- morais da vida social e profissional. De modo prático, sobre os assuntos abordados, esta disciplina será dividida em três unidades principais. Na Unidade 1, proporcionaremos uma reflexão dos “fundamentos e principais características da ética”, em que destacaremos os sentidos da ética, refletindo sobre a problemática da moralidade e ética, o significado e a formação do sujeito ético-moral, como também desvelaremos os fundamentos éticos. Aprofundaremos os conhecimentos acerca da ética na vida cotidiana, buscando compreender as diferenças da ética e moral, como também elucidar as questões relativas à consciência moral no desenvolvimento humano e à conduta moral do ser humano, refletindo sobre o bem e o mal, o certo e o errado. Ampliaremos a percepção referente aos valores e a moral, proporcionando um momento de discussão a respeito da essência da moral e dos valores e princípios morais. Discorreremos sobre a questão da ética na atualidade, perpassando por algumas questões polêmicas referente à ética na contemporaneidade, além de fazer algumas reflexões sobre a ética, a liberdade e o compliance. Na segunda unidade, você conhecerá os fundamentos ético-morais do exercício profissional dos Assistentes Sociais; promoverá a reflexão e discussão sobre as questões ético-morais na relação indivíduo e sociedade; fomentará o debate sobre as diversas dimensões ético-morais da vida social e profissional e promoverá uma consciência crítica referente aos valores e princípios norteadores do exercício profissional do Assistente Social. No Tópico 1, abordaremos, com detalhes, a natureza, o significado e as características fundamentais da ética profissional, além de trabalhar as questões relativas ao cotidiano da prática profissional e das finalidades ético- morais da reprodução social. No Tópico 2, trabalharemos como se processa o espaço da ética na relação indivíduo versus sociedade, no qual perpassamos por alguns aspectos históricos da construção ética-moral da sociedade. Demonstramos, ainda, a inter-relação natural do comportamento moral entre os homens, principalmente na questão da construção subjetiva do homem, ou seja, o homem como ser individual. No Tópico 3, trabalharemos os vários aspectos das relações entre o trabalho, a ética e o ser social, verificando as relações éticas no mundo do trabalho. No Tópico 4, abordaremos a questão da ética profissional do serviço social e seu projeto ético-político, no qual se trabalhou como se processam as intervenções éticas na prática profissional do Assistente Social e seu objeto de trabalho, as expressões da questão social. Na terceira unidade, você compreenderá os fundamentos e significados do código de ética dos Assistentes Sociais. Além de ter um link com os Conselhos de Fiscalização do Serviço Social. No Tópico 1, abordaremos os principais fundamentos e significados do código de ética dos Assistentes Sociais. No Tópico 2, abordaremos uma discussão referente aos direitos e deveres gerais do Assistente Social. Direitos e deveres assegurados pelo Código de Ética do Assistente Social. No Tópico 3, somente apresentaremos, na íntegra, o Código de Ética do Assistente Social. No Tópico 4, apresentaremos os diversos Conselhos de Fiscalização do Serviço Social, o CFESS – Conselho Federal do Serviço Social e o CRESS – Conselho Regional do Serviço Social. Prontos para começar a compreender o significado da ética profissional em serviço social? Então, mãos à obra! Bons estudos, e sucesso! Profª. Vera Lúcia Hoffmann Pieritz Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complemen- tares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! LEMBRETE Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um forma- to mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagra- mação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institu- cionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de De- sempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA sumário UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA ............ 1 TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA .......................................................................................... 3 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................................................3 2 A PROBLEMÁTICA DA MORALIDADE E ÉTICA ..................................................................... 4 3 O SIGNIFICADO, FUNDAMENTOS E A FORMAÇÃO DO SUJEITO ÉTICO-MORAL ....... 8 RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 21 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 23 TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA ...... 25 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 25 2 COMPREENDENDO AS DIFERENÇAS DA ÉTICA E MORAL ............................................ 27 3 A ESSÊNCIA DA MORAL .............................................................................................................. 34 4 OS VALORES E PRINCÍPIOS MORAIS ..................................................................................... 37 5 A CONSCIÊNCIA E O SENSO MORAL NO DESENVOLVIMENTO HUMANO ............. 40 5.1 OS ESTÁGIOS DA CONSCIÊNCIA ÉTICA E MORAL: AS ETAPAS DA EVOLUÇÃO HUMANA.............................................................................................................. 43 5.1.1 Primeiro estágio: medo, punição e obediência ............................................................... 45 5.1.2 Segundo estágio: recompensa ............................................................................................ 46 5.1.3 Terceiro estágio: aprovação social ..................................................................................... 48 5.1.4 Quarto estágio: manutenção da ordem social ................................................................. 49 5.1.5 Quinto estágio: proteção do bem-estar coletivo .............................................................. 50 5.1.6 Sexto estágio: zelo pelos princípios éticos universais .................................................... 52 6 A CONDUTA MORAL: O BEM E O MAL, O CERTO E O ERRADO ................................... 54 RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 63 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 66 TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE ........................................................ 69 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 69 2 ALGUMAS QUESTÕES POLÊMICAS SOBRE A ÉTICA NA CONTEMPORANEIDADE ............................................................................................................. 70 2.1 OS DILEMAS NO ÂMBITO DA FAMÍLIA ............................................................................... 73 2.2 REFLEXÕES SOBRE A SOCIEDADE CIVIL ............................................................................. 74 2.3 PONDERAÇÕES SOBRE OS DILEMAS DO ESTADO .......................................................... 75 3 REFLEXÕES SOBRE A ÉTICA E LIBERDADE ........................................................................... 76 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 83 RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 88 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 90 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 91 UNIDADE 2 – A ÉTICA E OS FUNDAMENTOS DA PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL ..................................................................................... 93 TÓPICO 1 – OS FUNDAMENTOS ÉTICO-MORAIS DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL ......................................................... 95 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 95 2 A NATUREZA E OS FUNDAMENTOS DA ÉTICA PROFISSIONAL ................................... 95 3 O SIGNIFICADO DA ÉTICA PROFISSIONAL ......................................................................... 97 4 ÉTICA, O COTIDIANO E A PRÁTICA PROFISSIONAL ........................................................ 99 LEITURA COMPLEMENTAR 1 ....................................................................................................... 102 LEITURA COMPLEMENTAR 2 ....................................................................................................... 103 RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 107 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 109 TÓPICO 2 – O ESPAÇO DA ÉTICA NA RELAÇÃO INDIVÍDUO E SOCIEDADE ............ 111 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 111 2 AS BASES HISTÓRICAS DA SOCIEDADE NA CONSTRUÇÃO DA ÉTICA .................. 111 LEITURA COMPLEMENTAR 1 ....................................................................................................... 114 LEITURA COMPLEMENTAR 2 ....................................................................................................... 115 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 120 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 121 TÓPICO 3 – A RELAÇÃO ENTRE TRABALHO, SER SOCIAL E ÉTICA .............................. 123 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 123 2 O QUE É TRABALHO? ................................................................................................................... 123 3 A ÉTICA DO TRABALHO ............................................................................................................. 124 LEITURA COMPLEMENTAR 1 ....................................................................................................... 127 LEITURA COMPLEMENTAR 2 ....................................................................................................... 128 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 131 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 133 TÓPICO 4 – A ÉTICA PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL E SEU PROJETO ÉTICO-POLÍTICO.................................................................................... 135 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 135 2 AS INTERVENÇÕES ÉTICAS NA PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL ................................................................................................................... 135 3 O OBJETO DA PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL ........................... 136 LEITURA COMPLEMENTAR ......................................................................................................... 141 RESUMO DO TÓPICO 4...................................................................................................................153 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 155 UNIDADE 3 – O CÓDIGO DE ÉTICA DOS ASSISTENTES SOCIAIS BRASILEIROS E OS CONSELHOS DE FISCALIZAÇÃO .......................................................... 157 TÓPICO 1 – FUNDAMENTOS E SIGNIFICADOS DO CÓDIGO DE ÉTICA DOS ASSISTENTES SOCIAIS ................................................................................. 159 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 159 2 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA ................................................... 160 2.1 LIBERDADE ................................................................................................................................ 160 2.2 DIREITOS HUMANOS .............................................................................................................. 162 2.3 CIDADANIA ............................................................................................................................... 164 2.4 DEMOCRACIA ........................................................................................................................... 166 2.5 EQUIDADE E JUSTIÇA SOCIAL ............................................................................................. 167 2.6 RESPEITO À DIVERSIDADE .................................................................................................... 168 2.7 PLURALISMO ............................................................................................................................. 169 2.8 PROJETO PROFISSIONAL ....................................................................................................... 170 2.9 MOVIMENTOS SOCIAIS .......................................................................................................... 171 2.10 QUALIDADE DOS SERVIÇOS PRESTADOS....................................................................... 172 2.11 INDISCRIMINAÇÃO ............................................................................................................... 173 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 175 RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 180 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 184 TÓPICO 2 – DOS DIREITOS E DAS RESPONSABILIDADES GERAIS DO ASSISTENTE SOCIAL ............................................................................................... 187 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 187 2 DOS DIREITOS GERAIS DO ASSISTENTE SOCIAL ............................................................ 187 3 DOS DEVERES GERAIS DO ASSISTENTE SOCIAL ............................................................. 188 4 O QUE O ASSISTENTE SOCIAL NÃO PODE FAZER ............................................................ 189 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 191 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 192 TÓPICO 3 – O CÓDIGO DE ÉTICA DO ASSISTENTE SOCIAL BRASILEIRO .................. 193 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 193 2 O CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL DOS/DAS ASSISTENTES SOCIAIS ................ 196 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 209 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 210 TÓPICO 4 – OS CONSELHOS DE FISCALIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL ...................... 211 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 211 2 CFESS – CONSELHO FEDERAL DO SERVIÇO SOCIAL ...................................................... 211 3 CRESS – CONSELHO REGIONAL DE SERVIÇO SOCIAL ................................................... 214 4 OUTRAS ENTIDADES CORRELACIONADAS AO SERVIÇO SOCIAL ........................... 216 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 217 RESUMO DO TÓPICO 4................................................................................................................... 223 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 224 REFERÊNCIAS ................................................................................................................................... 225 1 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • aprofundar os conhecimentos acerca dos sentidos da ética; • compreender a problemática da moralidade e ética; • desvelar o significado e a formação do sujeito ético-moral; • ampliar a percepção referente aos fundamentos éticos; • perceber as nuances da ética na vida cotidiana; • compreender as diferenças da ética e moral; • elucidar a consciência moral no desenvolvimento humano; • refletir sobre a conduta moral, o bem e o mal, o certo e o errado; • desenvolver uma compreensão sobre os valores e a moral; • perceber a essência da moral; • compreender os valores e princípios morais; • elucidar a questão da ética na atualidade; • compreender algumas questões polêmicas sobre a ética na contemporaneidade; • fazer reflexões sobre a ética e a liberdade; • elucidar o compliance no cotidiano profissional. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – OS SENTIDOS DA ÉTICA TÓPICO 2 – A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA TÓPICO 3 – A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 — UNIDADE 1 OS SENTIDOS DA ÉTICA FIGURA 1 – OS DIVERSOS SENTIDOS DA ÉTICA FONTE: <https://www.previsc.com.br/etica/images/etica.png>. Acesso em: 3 nov. 2020. “Ética é a concepção dos princípios que eu escolho, moral é a sua prática”. Mario Sergio Cortella 1 INTRODUÇÃO Prezado acadêmico, neste tópico, será realizada uma discussão acerca dos sentidos da ética, perpassando por uma reflexão a respeito da problemática da moralidade e ética, desvelando o significado e a formação do sujeito ético-moral e seus fundamentos éticos. Ofereceremos subsídios a você, para compreender a questão da ética na vida cotidiana, apresentando elementos para elucidar as diferenças da ética e moral, pois isso se torna vital para que possamos viver e conviver em sociedade. Nessa discussão, outro aspecto fundamental é a questão relativa à consciência moral no desenvolvimento humano, para que o ser humano possa desenvolver uma vida diga e respeitosa perante a sociedade a qual faz parte, já que a conduta moral do ser humano faz toda a diferença no desenvolvimento de sua qualidade de vida, refletindo na sua dignidade, pois é importante sabermos o que faz bem ou mal, o que é certo e errado em nossas ações cotidianas perante nossosgrupos sociais, bem como diante de toda a sociedade. UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA 4 Realizaremos uma discussão acerca dos valores e da moral, desmistificando suas características, conceitos e diferenças, para, assim, podermos verificar como é importante decodificar a essência da moral e dos valores e princípios morais na vida de cada cidadão brasileiro. Todos nós temos uma concepção e desenvolvimento de vida diferente, todos nós temos uma visão de mundo diferente e, por fim, todos nós temos uma base moral advinda dos laços familiares diferentes uns dos outros, isso gera o nosso comportamento ético perante a sociedade a qual pertencemos. Por fim, verificaremos, ainda neste tópico, algumas questões relativas à ética na atualidade, discutindo e refletindo algumas questões polêmicas da ética no cotidiano da vida em sociedade, além de fazer algumas reflexões referentes à ética, à liberdade e ao compliance. Vamos lá, compreender sobre os sentidos da ética! 2 A PROBLEMÁTICA DA MORALIDADE E ÉTICA No que tange às questões relativas à ética e à moralidade, nota-se que ambas estão atreladas implicitamente na própria condição de ser, do agir das pessoas mediante o meio social em que vivem e convivem cotidianamente. A consciência moral do certo e do errado, do bem e do mal é formada pela composição histórica dos nossos costumes e das nossas ações em sociedade, formando uma moralidade e uma ética implícita nas ações do ser humano e refletida no seu convívio social. Nesse sentido, pode-se expor que a moral e a ética estão presentes na nossa vida o tempo todo, pois nossas decisões cotidianas estão repletas de valores morais e éticos, segundo Tavares (2013, p. 4) “no nosso dia a dia, a ética tem presença garantida, porque ela faz parte do ser humano em todas as suas atividades, funções, espaço, ou seja, na família, no trabalho, no lazer, enfim, onde o ser humano interage com outro, a ética aí se faz presente”. Então, a questão da ética e da moral está além dos seus conceitos preeminentes, já que é um conceito vivo, moldando-se no nosso comportamento diário que permuta o conceito para a prática das relações humanas e sociais, pois, na visão de Tomelin e Tomelin (2002, p. 89) “a ética é uma das áreas da filosofia que investiga sobre o agir humano na convivência com os outros [...]” e, assim, nosso comportamento ético e moral são objetos do estudo da própria filosofia, que busca investigar a racionalidade do comportamento humano perante a sociedade e procura compreender os princípios fundamentais dos seres humanos que permeiam a nossa vida cotidiana. Ressalva-se ainda que a ética, segundo Cunha (2011, p. 140), é o “ramo do conhecimento cuja finalidade é estabelecer os melhores critérios para o agir”. Critérios estes, que são estabelecidos socialmente e que norteiam o convívio do ser humano em sociedade, pois a ética é compreendida como “normas e princípios que dizem respeito ao comportamento do indivíduo no grupo social a que pertence” (GUIMARÃES, 2016, p. 377). TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA 5 De acordo com Leyser (2018, p. 3), “na linguagem comum, frequentemente utilizamos as palavras ética e moral (e antiético e imoral) de forma intercambiável. Isto é, falamos da pessoa ou ato como ético ou moral”. Segundo Solomon (2006, p. 12), “estudar ética não é escolher entre o bem e o mal, mas é se sentir confortável diante da complexidade moral”, buscando aprofundar o conhecimento acerca do nosso agir perante a sociedade em que vivemos, faz-se necessário realizar um estudo das nossas atitudes éticas e morais, para, assim, podermos refletir e entender essas questões balizares das nossas atitudes e comportamentos. Mediante esse contexto inicial, Pieritz (2013, p. 3) expõe que: Com relação aos problemas éticos e morais do comportamento humano, observamos que a ética não é facilmente explicável, ao sermos indagados, mas todos nós sabemos o que é, pois está diretamente relacionada aos nossos costumes e às ações em sociedade, ou seja, ao nosso comportamento, ao nosso modo de vida e de convivência com os outros integrantes da sociedade. Assim, pode-se expor que é na convivência humana e social que refletimos os nossos valores éticos e morais, que foram construídos historicamente na sociedade e grupo social da qual fazemos parte, esses valores éticos e morais são concebidos de acordo com a visão de mundo de cada um, dentro do seu contexto social, pois cada um de nós possui uma visão do que é o bem e o mal, do que é certo e errado. Leyser (2018, p. 4) nos complementa expondo que: Quando falamos de pessoas como sendo morais ou éticas, geralmente queremos dizer que elas são pessoas boas, e quando falamos delas como sendo imorais ou antiéticas, queremos dizer que elas são pessoas más. Quando nos referimos a certas ações humanas como sendo morais, éticas, imorais ou antiéticas, queremos dizer que elas estão certas ou erradas. A simplicidade dessas definições, contudo, termina aqui, pois como definimos uma ação certa ou errada ou uma pessoa boa ou má? Quais são os padrões humanos pelos quais tais decisões podem ser tomadas? Estas são as questões mais difíceis que constituem a maior parte do estudo da moralidade [...]. Contudo, essa consciência moral do ser humano, segundo Pieritz (2013, p. 4), “é determinada por um consenso coletivo e social, ou seja, o conjunto da sociedade é que formula e compõe as normas de conduta que o regem”. Permitindo, assim, um regramento comportamental empírico, ditado pelos comportamentos éticos e morais e pelos regramentos e normativas institucionais, balizados em regras e normas legais do legislativo, executivo e judiciário. Todas as normas de comportamento social se encontram balizadas na Constituição Federal. UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA 6 Caro acadêmico, na esfera dos regramentos e normativas institucionais, convido-lhe a aprofundar os seus conhecimentos relativos aos princípios e valores constitucionais. Nesse sentido, sugerimos a leitura dos Artigos 1º, 3º e 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 1988. Acesse o site: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. DICAS Segundo Leyser (2018, p. 4), “o importante é lembrar aqui que moral, ética, imoral e antiético signifi cam, essencialmente, o bom, o certo, o mau e o errado, com frequência dependendo se alguém está se referindo às próprias pessoas ou as suas ações”. Então, nessa discussão, acerca da problemática da moralidade e da ética, estamos oferecendo subsídios para compreender que existem dois lados da mesma moeda, quando falamos do comportamento ético e moral dos seres humanos, essas direções podem ser observadas e compreendidas no Quadro 1, que expõe os dois campos dos problemas teóricos da ética e da moral. Vejamos! QUADRO 1 – CAMPOS DO PROBLEMA TEÓRICO DA ÉTICA E DA MORAL CAMPOS CARACTERÍSTICAS PROBLEMAS GERAIS E FUNDAMENTAIS Tais como: • Liberdade; • Consciência; • Bem e Mal; • Valor; • Lei e outros. PROBLEMAS ESPECÍFICOS Na aplicação concreta, como os problemas da: • Ética profi ssional; • De ética política; • De ética sexual; • De ética matrimonial; • De bioética etc. FONTE: Adaptado de Valls (2003, p. 8) Deste modo, destaca-se que a ética e a moral permeiam em nossas vidas cotidianas, desde nossas ações mais fundamentais e básicas, que é o processo de decisão do que é o certo e o errado a se fazer, dos nossos valores e princípios morais, até nas ações mais específi cas, que estão refl etidas no nosso modo operante de fazer as coisas e se relacionar com o outro em sociedade. CARACTERÍSTICAS TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA 7 Resumindo, a questão da ética e moral é a base norteadora das nossas relações humanas e sociais, pois, é mediante esses princípios que agimos no meio social em que vivemos e convivemos com o outro. Acadêmico, esse é um bom questionamento, não achas? Vale refletirmoso seguinte! Os problemas éticos são os mesmos problemas morais? Vejamos: devemos compreender que a problemática da ética e da moral possuem características genéricas que as distinguem uma da outra, como podem verificar suas diferenças e aspectos comuns no Quadro 2. QUADRO 2 – CARACTERÍSTICAS GENÉRICAS DA MORAL E DA ÉTICA QUESTÃO CARACTERÍSTICAS ESPECÍFICAS COMUNS MORAL • A moral se caracteriza pelos PRO- BLEMAS DA VIDA COTIDIANA. • A moral faz pensar as CONSEQUÊNCIAS GRUPAIS, adverte para normas culturalmente formuladas ou pode estar fundamentado num princípio ético. • O que há de comum entre elas é fazer o homem pensar sobre a RESPONSABILI- DADE das consequências de suas ações. Contudo, como saber o que é certo e errado? Se estamos fazemos o bem ou o mal? FIGURA – O QUE É CERTO E ERRADO? FONTE: <https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/428683-escolha-moral-etica-nos-negocios-e- tentacao>. Acesso em: 24 nov. 2020. IMPORTANTE UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA 8 ÉTICA • A ética faz pensar sobre as CONSEQUÊNCIAS UNIVERSAIS, sempre priorizando a vida presente e futura, local e global. • A ética pode, desta forma, pautar o comportamento moral. FONTE: Adaptado de Tomelin e Tomelin (2002, p. 90) Assim, pode-se verificar que na desmistificação das propriedades conceituais da ética e da moral, observamos que ambas possuem características genéricas e comuns, tanto na ética como na moral é a questão da responsabilidade das consequências de nossas ações que refletem o nosso agir perante a sociedade em que estamos inseridos, sejam elas de âmbito micro (grupo intrafamiliar e amizades pessoais) ou macro (regional, comunitário, empresarial e social). Segundo Leyser (2018, p. 3): A moralidade reivindica nossas vidas. Faz reivindicações sobre cada um de nós que são mais fortes do que as reivindicações da lei e tem prioridade sobre o interesse próprio. Como seres humanos que vivem no mundo, temos deveres e obrigações básicas. Há certas coisas que devemos fazer e certas coisas que não devemos fazer. Em outras palavras, há uma dimensão ética da existência humana. Como seres humanos, experimentamos a vida em um mundo de bem e mal e entendemos certos tipos de ações em termos de certo e errado. A própria estrutura da existência humana dita que devemos fazer escolhas. A ética nos ajuda a usar nossa liberdade de maneira responsável e a compreender quem somos. E, a ética dá direção em nossa luta por responder às perguntas fundamentais que questionam como devemos viver nossas vidas e como podemos fazer escolhas certas. Nesse sentido, tanto a ética como os princípios morais nos devem auxiliar na reflexão sobre a responsabilidade das consequências advindas de nossas ações perante o meio familiar e social a que vivemos e convivemos, norteando as nossas decisões de fazermos o que é certo ou errado, o que faz bem ou mal para nós e para o outro. 3 O SIGNIFICADO, FUNDAMENTOS E A FORMAÇÃO DO SUJEITO ÉTICO-MORAL Agora, realizaremos uma reflexão a respeito do campo da ética em si, perpassando pelo seu significado e como se dá a formação do sujeito ético- moral. Assim, poder-se-á desmistificar as características conceituais da ética, para podermos compreender como a ética permeia a nossa vida cotidiana em sociedade. Pronto? Vamos lá! TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA 9 Segundo Pieritz (2013, p. 5, grifos nossos): Todos os homens fazem parte de uma sociedade, de um grupo social, portando, podemos dizer que os homens em sociedade convivem em grupo. Cada grupo social possui diferentes características culturais e morais, como, por exemplo: os povos indígenas, os orientais, os africanos, os alemães, os franceses, os italianos, os americanos, os brasileiros, entre muitos outros. Cada sociedade possui suas normas de conduta comportamental e seus princípios morais, ou seja, cada grupo social constituiu o que é certo e errado, o que é o bem e o mal para o seu povo, portanto, nem sempre o que é certo para nós pode ser certo para outro grupo social e vice-versa. Importante compreendermos que se fazemos parte de uma comunidade, de um grupo social ou grupo familiar, ou seja, de uma sociedade, devemos entender que todos nós somos diferentes e possuímos valores e princípios éticos e morais diferenciados, sendo que cada etnia possui seu próprio jeito de ser e conviver, instituindo regras sociais, políticas, econômicas e jurídicas de convivência. Então, caro acadêmico, a compreensão do que é certo e errado e do que é fazer o bem ou o mal para um grupo ou etnia, pode ser diferente para a outra composição social. Tudo depende da formação dos valores e princípios éticos e morais sócio-históricos da comunidade a que pertencemos. Segundo Tavares (2013, p. 3), “a ética e a moral são os condutores para a sustentabilidade de uma sociedade mais humana, mais justa, mais igualitária. É o bem comum que subsidia as condições para as condutas morais, para a manutenção de valores que coadunam com o interesse coletivo”. Demostramos, assim, que de acordo com o desenvolvimento sócio- histórico dos valores e princípios éticos e morais de um determinado grupo social, essa comunidade em si, desenvolve seu próprio jeito de ser, seu comportamento social e moral, formatando socialmente sua tradição, costumes, hábitos e cultura. Vejamos, na Figura 2, um exemplo visual da diversidade cultural do povo brasileiro: “[...] Existem algumas sociedades indígenas em que a mãe, ao dar à luz, embrenha-se na mata sozinha e se o filho não for perfeito, segundo os seus princípios morais, ela o abandona a sua própria sorte. À luz de nossos princípios morais, esta ação seria considerada um crime de abandono” (PIERITZ, 2013, p. 6). INTERESSANTE UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA 10 FIGURA 2 – DIVERSIDADE CULTURAL FONTE: <https://definicao.net/wp-content/uploads/2019/05/diversidade-cultural-1.jpg>. Acesso em: 4 nov. 2020. Se você quiser saber mais sobre o comportamento moral desses grupos sociais/povos, pesquise, na internet, a cultura de cada povo. Assim, você poderá observar as diferenças culturais de cada um e identificar seus princípios morais. DICAS Agora que você já compreendeu que cada grupo social possui uma composição diferente de costumes e valores éticos e morais, e que ele foi construído historicamente pelos integrantes do seu provo, resta compreender o significado intrínseco da ética. Nesse sentido, indagamos: TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA 11 Vejamos! De acordo com Leyser (2018, p. 3, grifos nossos): Ética vem do termo grego ethike que provém de ethos, que por sua vez deriva de duas matizes distintas, uma que designa costumes normativos e outra que ensina constância do comportamento, hábito ou caráter. Na verdade, o termo ethos é uma transposição metafórica de um termo que denota a morada dos animais (VAZ, 2006). Os gregos antigos ao fazerem essa transposição queriam se referir ao mundo humano, quanto aos seus costumes e o próprio agir humano que constituiria sua morada e, simultaneamente, seu caráter. Nesse sentido, Tomelin e Tomelin (2002, p. 89) complementam expondo que “a palavra ética provém do grego ethos e significa hábitos, costumes e se refere à morada de um povo ou sociedade. A palavra moral provém do latim morális e significa costume, conduta”. Demonstrando que: A principal função da ética é sugerir qual o melhor comportamento que cada pessoa ou grupo social tem ou venha a ter. Indicando o que é certo ou errado, o que é bom ou mau. Porém, este comportamento sempre partirá do ponto de vista dos princípios morais de cada sociedade, ou seja, seu grupo social. A ética auxilia no esclarecimento e na explicação da realidade cotidiana de cada povo, procurando sempre elaborar seus conceitos conforme o comportamento correspondente de cada grupo social (PIERITZ, 2013, p. 7). Assim, pode-se compreender que a ética reflete os hábitos e costumes gerais de uma sociedade,suas normativas e convenções, que fora institucionalizada pelo coletivo social, e a moral é a forma que conduzimos nossos atos perante o outro, ou seja, é a conduta em si. Desse modo, o Quadro 3 apresenta a definição de ética. QUADRO 3 – O QUE É ÉTICA? ÉTICA é: • ESTUDO DOS JUÍZOS de apreciação que se referem à conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal. • Conjunto de NORMAS E PRINCÍPIOS que norteiam a boa conduta do ser humano. FONTE: Adaptado de Houaiss (2009, p. 324) Vázquez (2005, p. 20) complementa expondo que “o ético transforma-se assim numa espécie de legislador do comportamento moral dos indivíduos ou da comunidade”, em outros termos, a ética verifica a conduta dos homens em sociedade, pois “a ética é teoria, investigação ou explicação de um tipo de experiência humana ou forma de comportamento dos homens [...]” (VÁZQUEZ, 2005, p. 21). UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA 12 De tal modo, que “o valor de ética está naquilo que ela explica – o fato real daquilo que foi ou é –, e não no fato de recomendar uma ação ou uma atitude moral” (PIERITZ, 2013, p. 7), pois, a ética está posta para nos explicar o nosso agir junto à comunidade e grupo social em que vivemos e convivemos. Ética é a ciência da conduta humana, segundo o bem e o mal, com vistas à felicidade. É a ciência que estuda a vida do ser humano, sob o ponto de vista da qualidade da sua conduta. Disto precisamente trata a Ética, da boa e da má conduta e da correlação entre boa conduta e felicidade, na interioridade do ser humano. A Ética não é uma ciência teórica ou especulativa, mas uma ciência prática, no sentido de que se preocupa com a ação, com o ato humano (ALONSO; LÓPEZ; CASTRUCCI, 2006, p. 3). No entanto, a ética é considerada uma ciência que estuda a conduta humana, suas normas e comportamentos reais, para proporcionar a melhoria da qualidade de vida dos seres humanos. Salienta-se ainda que “existem grandes transformações históricas no decorrer dos tempos em nossa sociedade. Com estas mudanças, o nosso comportamento também muda e, consequentemente, os nossos princípios morais também” (PIERITZ, 2013, p. 7). Essas transformações sociais ao longo da história da humanidade advêm da própria existência humana, pelas suas relações sociais com o outro, pois a ética vem demostrando pelo seu estudo e regulação, que determinadas ações e atitudes morais devam ser revistas e adaptadas à nova realidade social, pois estamos em constantes transformações humanas e sociais. Outro fator que não podemos esquecer, segundo Pieritz (2013, p. 7), “é a questão de julgar o comportamento dos outros grupos sociais, pois a realidade cotidiana destes foi formada por outro conjunto de normas e princípios morais, diferente dos nossos. Mesmo que em alguns aspectos esses princípios se pareçam com os nossos”. Após, estas breves reflexões sobre a ética, vale ressaltar que se pode definir a ética sobre três vertentes, expostas no Quadro 4, vejamos! QUADRO 4 – VERTENTES DO CONCEITO DE ÉTICA A ética é DESCRITIVA Que corresponde a JUÍZO DE VALOR, ou seja, quem tem boa conduta pode ser considerado como uma pessoa ética, ou seja, uma pessoa virtuosa e íntegra. Enquanto quem não condiz com as expectativas sociais pode ser considerado ‘sem ética’. TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA 13 Nesse sentido, a ética assume uma ideia simplista reduzida a um VALOR SOCIAL, ou apenas um adjetivo. A ética é PRESCRITIVA A ética como “SISTEMA DE NORMAS MORAIS ou a um CÓDIGO DE DEVERES” (SOUR, 2011, p. 19), ou seja, os padrões morais que deveriam conduzir categorias sociais ou organizações passam a se chamar de CÓDIGO DE ÉTICA. Nesse sentido de prescrição a ética e moral tornam-se SINÔNIMO INDISTINGUÍVEL. A ética é REFLEXIVA Que corresponde à TEORIA DE UM ESTUDO SISTEMÁTICO como objeto de INVESTIGAÇÃO que, ao transitar por diferentes áreas, pode ser considerada como: • ÉTICA FILOSÓFICA – que reflete sobre a melhor maneira de viver (ideais morais). • ÉTICA CIENTÍFICA – que estuda, observa, descreve e explica os fatos morais (a moralidade como fenômeno). FONTE: Adaptado de Tavares (2013, p. 7) Prezado acadêmico, segundo Tavares (2013, p. 7, grifos nossos): “A ética filosófica quer refletir sobre a maneira de viver”. “A ética científica quer observar e descrever a maneira de viver”. IMPORTANTE No que tange aos ideais éticos, principalmente a investigação dos seus fun- damentos, da sua essência, devemos compreender que a ética está além das normas socialmente constituídas, pois existem muitos elementos norteadores do compor- tamento humano, podemos apresentar na Figura 3 algumas de suas características balizares, para assim elucidar o que compõe o conceito holístico da ética. UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA 14 FIGURA 3 – CARACTERÍSTICAS BALIZARES DA ÉTICA FONTE: A autora Todas essas características expostas na Figura 3, fundamentam a essência da ética humana como um todo, numa visão holística, pois, como já discorremos anteriormente, a ética faz com que o ser humano reflita e indague sobre seus atos, comportamentos e costumes, para, assim, poder agir no seu meio social. Outro aspecto pertinente nesse debate sobre as concepções do conceito da ética, vem da indagação de Valls (2003, p. 43) em que ele faz esta provocação para podermos refletir sobre o nosso comportamento ético: “será que agir moralmente significaria agir de acordo com a própria consciência?” Será? Vejamos: A ética não se restringe somente a normas e leis instituídas pelos poderes legislativos, executivos e judiciário! A ética vai além das normativas impostas, pois leva em consideração a construção histórica do comportamento humano em sociedade, sua conduta, hábitos e costumes. IMPORTANTE TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA 15 É salutar compreender que o nosso agir deve ser consciente e estar conectado com a realidade do mundo em que vivemos, ou seja, precisamos perceber em que contexto social, político e econômico estamos, quais são as regas e normativas vigentes, quais são nossos direitos e deveres, quais são as nossas responsabilidades e obrigações, para assim podermos agir coerentemente, respeitando as convenções socialmente construídas. De tal modo, são as nossas escolhas que refletem a nossa conduta, do certo e errado, do bem e do mal, do ético ou do antiético. Assim, mediante essa reflexão, ampliamos a percepção relativa ao significado da ética, no qual, pode-se perceber que a ética oportuniza uma reflexão do nosso jeito de viver e conviver historicamente em sociedade, compreendendo os nossos costumes de hoje, de ontem e como poderá se moldar amanhã. Para encerrarmos o Tópico 1, convidamos você, acadêmico, a fazer a leitura do texto Ética e moral de Sandro Denis. ÉTICA E MORAL Sandro Denis Existe alguma confusão entre o Conceito de Moral e o Conceito de Ética. A etimologia destes termos ajuda a distingui-los, sendo que Ética vem do grego ethos, que significa modo de ser, e Moral tem sua origem no latim, que vem de “mores”, significando costumes. Esta confusão pode ser resolvida com o estudo em paralelo dos dois temas, sendo que, Moral é um conjunto de normas que regulam o comportamento do homem em sociedade, essas normas são adquiridas pela educação, pela tradição e pelo cotidiano. É a “ciência dos costumes”. A Moral tem caráter normativo e obrigatório. Já a Ética é “conjunto de valores que orientam o comportamento do homem em relação aos outros homens na sociedade em que vive, garantindo, assim, o bem-estar social”, ou seja, Ética é a forma que o homem deve se comportar no seu meio social. A Moral sempre existiu, pois todo ser humano possui a consciência Moral que o leva a distinguir o bem do mal no contexto em que vive. Surgindo realmente quando o homem passou a fazer parte de agrupamentos, isto é, surgiu nas sociedades primitivas, nas primeiras tribos. A Ética teria surgido com Sócrates, pois se exige maiorgrau de cultura. Ela investiga e explica as normas morais, pois leva o homem a agir não só por tradição, educação ou hábito, mas principalmente por convicção e inteligência. Ou seja, enquanto a Ética é teórica e reflexiva, a Moral é eminentemente prática. Uma completa a outra. UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA 16 Em nome da amizade, deve-se guardar silêncio diante do ato de um traidor? Em situações como essa, os indivíduos se deparam com a necessidade de organizar o seu comportamento por normas que se julgam mais apropriadas ou mais dignas de ser cumpridas. Tais normas são aceitas como obrigatórias e, desta forma, as pessoas compreendem que têm o dever de agir desta ou daquela maneira. O comportamento é o resultado de normas já estabelecidas, não sendo, então, uma decisão natural, pois todo comportamento sofrerá um julgamento. A diferença prática entre Moral e Ética é que esta é o juiz das morais, assim, Ética é uma espécie de legislação do comportamento Moral das pessoas. Ainda podemos dizer que a ética é um conjunto de regras, princípios ou maneiras de pensar que guiam ou chamam para si a autoridade de guiar, as ações de um grupo em particular ou, também, o estudo da argumentação sobre como nós devemos agir. A simples existência da moral não significa a presença explícita de uma ética, entendida como filosofia moral, pois é preciso uma reflexão que discuta, problematize e interprete o significado dos valores morais. Podemos dizer, a partir dos textos de Platão e Aristóteles, que, no Ocidente, a ética ou filosofia moral se inicia com Sócrates. Para Sócrates, o conceito de ética iria além do senso comum da sua época, o corpo seria a prisão da alma, que é imutável e eterna. Existiria um “bem em si” próprios da sabedoria da alma e que podem ser rememorados pelo aprendizado. Esta bondade absoluta do homem tem relação a uma ética anterior à experiência, pertencente à alma e que o corpo para a reconhecer terá que ser purificado. Aristóteles subordina sua ética à política, acreditando que, na monarquia e na aristocracia, encontrara-se a alta virtude, já que esta é um TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA 17 privilégio de poucos indivíduos. Também diz que na prática ética, nós somos o que fazemos, ou seja, o homem é moldado à medida que faz escolhas éticas e sofre as influências dessas escolhas. O Mundo Essencialista é o mundo da contemplação, ideia compartilhada pelo filósofo grego Aristóteles. No pensamento filosófico dos antigos, os seres humanos aspiram ao bem e à felicidade, que só podem ser alcançados pela conduta virtuosa. Para a ética essencialista, o homem era visto como um ser livre, sempre em busca da perfeição. Esta, por sua vez, seria equivalente aos valores morais que estariam inscritos na essência do homem. Dessa forma, para ser ético, o homem deveria entrar em contato com a própria essência, a fim de alcançar a perfeição. Costuma-se resumir a ética dos antigos ou ética essencialista, em três aspectos: 1) o agir em conformidade com a razão; 2) o agir em conformidade com a Natureza e com o caráter natural de cada indivíduos; e 3) a união permanente entre ética (a conduta do indivíduo) e política (valores da sociedade). A ética era uma maneira de educar o sujeito moral (seu caráter) no intuito de propiciar a harmonia entre ele e os valores coletivos, sendo ambos virtuosos. Com o cristianismo romano, através de São Tomás de Aquino e Santo Agostinho, incorpora-se a ideia de que a virtude se define a partir da relação com Deus e não com a cidade ou com os outros. Deus, nesse momento, é considerado o único mediador entre os indivíduos. As duas principais virtudes são a fé e a caridade. Através deste cristianismo, afirma-se na ética o livre-arbítrio, sendo que o primeiro impulso da liberdade se dirige para o mal (pecado). O homem passa a ser fraco, pecador, dividido entre o bem e o mal. O auxílio para a melhor conduta é a lei divina. A ideia do dever surge nesse momento. Com isso, a ética passa a estabelecer três tipos de conduta; a moral ou ética (baseada no dever), a imoral ou antiética e a indiferente à moral. As profundas transformações que o mundo sofre a partir do século XVII, com as revoluções religiosas, por meio de Lutero; científica, com Copérnico e filosófica, com Descartes, oprimem um novo pensamento na era Moderna, caracterizada pelo Racionalismo Cartesiano – agora a razão é o caminho para a verdade e para chegar a ela é preciso um discernimento, um método. Em oposição à fé, surge o poder exclusivo da razão de discernir, distinguir e comparar. Esse é um marco na história UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA 18 da humanidade que, a partir daí, acolhe um novo caminho para se chegar ao saber: o saber científico, que se baseia num método e o saber sem método é mítico ou empírico. A ética moderna traz à tona o conceito de que os seres humanos devem ser tratados sempre como fim da ação e nunca como meio para alcançar seus interesses. Essa ideia foi contundentemente defendida por Immannuel Kant. Ele afirmava que: “não existe bondade natural. Por natureza somos egoístas, ambiciosos, destrutivos, agressivos, cruéis, ávidos de prazeres que nunca nos saciam e pelos quais matamos, mentimos, roubamos”. De acordo com esse pensamento, para nos tornarmos seres morais, era necessário nos submetermos ao dever. Essa ideia é herdada da Idade Média na qual os cristãos difundiram a ideologia de que o homem era incapaz de realizar o bem por si próprio. Por isso, ele deve obedecer aos princípios divinos, cristalizan- do, assim, a ideia de dever. Kant afirma que se nos deixarmos levar por nossos impulsos, apetites, desejos e paixões não teremos autonomia ética, pois a Natu- reza nos conduz pelos interesses de tal modo que usamos as pessoas e as coisas como instrumentos para o que desejamos. Não podemos ser escravos do desejo. No século XIX, Friedrich Hegel traz uma nova perspectiva complementar e não abordada pelos filósofos da Modernidade. Ele apresenta a perspectiva Homem – Cultura e História, sendo que a ética deve ser determinada pelas relações sociais. Como sujeitos históricos culturais, nossa vontade subjetiva deve ser submetida à vontade social, das instituições da sociedade. Desta forma, a vida ética deve ser “determinada pela harmonia entre vontade subjetiva individual e a vontade objetiva cultural”. Através desse exercício, interiorizamos os valores culturais de tal maneira que passamos a praticá-los instintivamente, ou seja, sem pensar. Se isso não ocorrer, é porque esses valores devem estar incompatíveis com a nossa realidade e, por isso, devem ser modificados. Nesta situação, podem ocorrer crises internas entre os valores vigentes e a transgressão deles. Já, na atualidade, o conceito de ética se fundiu nestas duas correntes de pensamento: A ética praxista, cuja visão o homem tem a capacidade de julgar, ele não é totalmente determinado pelas leis da natureza, nem possui uma consciência totalmente livre. O homem tem uma corresponsabilidade frente as suas ações. TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA 19 A ética Pragmática, com raízes na apropriação de coisas e espaços, na propriedade, tem como desafio a alteridade (misericórdia, responsabilização, solidariedade), para transformar o Ter, o Saber e o Poder em recursos éticos para a solidariedade, contribuindo para a igualdade entre os homens: “distribuição equitativa dos bens materiais, culturais e espirituais”. O homem é visto como sujeito histórico-social, e como tal, sua ação não pode mais ser analisada fora da coletividade. Por isso, a ética ganha novamente um dimensionamento político: uma ação eticamente boa é politicamente boa e contribui para o aumento da justiça, distribuição igualitária do poder entre os homens. Na ética pragmática, o homem é politicamente ético, – “todos os aspectos da condição humana têm alguma relação com a política” – há uma corresponsabilidadeem prol de uma finalidade social: a igualdade e a justiça entre os homens. Na Contemporaneidade, Nietzsche atribui a origem dos valores éticos, não à razão, mas à emoção. Para ele, o homem forte é aquele que não reprime seus impulsos e desejos, que não se submete à moral demagógica e repressora. Para coroar essa mudança radical de conceitos, surge Freud com a descoberta do inconsciente, instância psíquica que controla o homem, burlando sua consciência para trazer à tona a sexualidade represada e que o neurotiza. Em momento algum Freud afirma dever o homem viver de acordo com suas paixões, apenas buscar equilibrar e conciliar o id com o super ego, ou seja, o ser humano deve tentar equilibrar a paixão e a razão. Hoje, em uma era em que cada vez mais se fala de globalização, da qual somos todos funcionários e insumos de produção, o conhecimento de nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento de outras culturas. Entretanto, essa tarefa antropológica não é suficiente para o homem comum superar a crise da ética atual conhecendo o outro e suas necessidades para se chegar a sua convivência harmônica. Ao contrário, ser feliz hoje é dominar progresso técnico e científico, ser feliz é ter. Não há mais espaço para uma ética voltada para uma comunidade. Hoje se aposta no individualismo, no consumo, na rapidez de produção. No momento histórico em que vivemos, existe um problema ético-político grave. Forças de dominação tem se consolidado nas estruturas sociais e econômicas, mas através da crítica e no esclarecimento da sociedade, seria possível desvelar a dissimulação ideológica que existe nos vários discursos da cultura humana, sabendo disso, essas mesmas forças têm procurado controlar a mídia. UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA 20 Em lugar da felicidade pura e simples, há a obrigação do dever e a ética fundamenta-se em seguir normas. Trata-se da “Ética da Obediência”. Que impede o Homem de pensar e descobrir uma nova maneira de se ver, e assim encontrar uma saída em relação ao conformismo de massa que está na origem da banalidade do mal, do mecanismo infernal em que estão ausentes o pensamento e a liberdade do agir. Assim determina Vásquez (1998) ao citar Moral como um “sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livres e conscientemente, por uma convicção íntima, e não de uma maneira mecânica, externa ou impessoal”. Enfim, Ética e Moral são os maiores valores do homem livre. O homem, com seu livre arbítrio, vai formando seu meio ambiente ou o destruindo, ou ele apoia a natureza e suas criaturas ou ele subjuga tudo que pode dominar, e assim ele se forma no bem ou no mal neste planeta. FONTE: Adaptado de <Http://Circulocubico.Wordpress.Com/2008/04/04/Tica-E-Moral/>. Acesso em: 17 nov. 2020. 21 Neste tópico, você aprendeu que: • Propiciamos uma compreensão da problemática da moralidade e ética, verificamos que a consciência moral do certo e do errado, do bem e do mal é formada pela composição histórica dos nossos costumes e das nossas ações em sociedade. • A moral e a ética estão presentes na nossa vida cotidiana o tempo todo, pois nossas decisões diárias estão repletas de valores morais e éticos. • A questão da ética e da moral está além dos seus conceitos postos, já que é um conceito vivo, moldando-se no nosso comportamento diário que permuta o conceito para a prática das relações humanas e sociais. • O nosso comportamento ético e moral é objeto do estudo da filosofia, que procura investigar a racionalidade do comportamento humano perante a sociedade, procurando compreender os princípios fundamentais dos seres humanos, que permeiam a nossa vida cotidiana. • É na convivência humana e social que refletimos os nossos valores éticos e morais, e que eles foram construídos historicamente na sociedade e grupo social da qual fazemos parte. • Esses valores éticos e morais são concebidos de acordo com a visão de mundo de cada um, dentro do seu contexto social, pois cada um de nós possui uma visão do que é o bem e o mal, do que é certo e errado. • A ética e a moral permeiam em nossas vidas cotidianas, desde nossas ações mais fundamentais e básicas, que é o processo de decisão do que é o certo e o errado a se fazer, dos nossos valores e princípios morais, até nas ações mais específicas, que estão refletidas no nosso modo operante de fazer as coisas e se relacionar com o outro em sociedade. • A ética e a moral são a base norteadora das nossas relações humanas e sociais, pois é mediante esses princípios que agimos no meio social em que vivemos e convivemos com o outro. • No que tange às propriedades conceituais da ética e da moral, ambas possuem características genéricas e comuns, mas tanto na ética como na moral é a questão da responsabilidade das consequências de nossas ações que refletem o nosso agir perante a sociedade em que estamos inseridos, sejam elas de âmbito micro (grupo intrafamiliar e amizades pessoais) ou macro (regional, comunitário, empresarial e social). RESUMO DO TÓPICO 1 22 • Tanto a ética como os princípios morais nos devem auxiliar na reflexão sobre a responsabilidade das consequências advindas de nossas ações perante o meio familiar e social em que vivemos e convivemos. • Fazemos parte de uma comunidade, de um grupo social ou grupo familiar, ou seja, de uma sociedade, a qual devemos entender que todos nós somos diferentes e possuímos valores e princípios éticos e morais diferenciados, sendo que cada etnia possui seu próprio jeito de ser e conviver, instituindo regras sociais, políticas, econômicas e jurídicas de convivência. • A concepção do certo e errado, do fazer o bem ou o mal para um grupo ou etnia, pode ser diferente para a outra composição social. Tudo depende da formação dos valores e princípios éticos e morais sócio-históricos da comunidade a que pertencemos. • De acordo com o desenvolvimento sócio-histórico dos valores e princípios éticos e morais de um determinado grupo social, essa comunidade em si, desenvolve seu próprio jeito de ser, seu comportamento social e moral, formatando socialmente sua tradição, costumes, hábitos e cultura. • A ética reflete os hábitos e costumes gerais de uma sociedade, suas normativas e convenções, que fora institucionalizada pelo coletivo social, e a moral é a forma que conduzimos nossos atos perante o outro, ou seja, é a conduta em si. • A ética está posta para explicar o nosso agir junto à comunidade e grupo social em que vivemos e convivemos. • A ética é considerada uma ciência que estuda a conduta humana, suas normas e comportamentos reais, para proporcionar a melhoria da qualidade de vida dos seres humanos. 23 1 Na atualidade, o que tange às questões relativas à ética e à moralidade, vimos que ambos os conceitos fazem parte do dia a dia das populações civilizadas e ambas estão atreladas implicitamente na própria condição de ser, do agir das pessoas mediante o meio social em que vivem e convivem cotidianamente. A consciência moral do certo e do errado, do bem e do mal é formada pela composição histórica dos nossos costumes e das nossas ações em sociedade, formando, assim, uma moralidade e uma ética implícita nas ações do ser humano e refletida no seu convívio social. Sobre o conceito de ética, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Ética é o ramo do conhecimento cuja finalidade é estabelecer os melhores critérios para o agir. Critérios que são estabelecidos socialmente e que norteiam o convívio do ser humano em sociedade, pois a ética é compreendida como as normas e princípios que dizem respeito ao comportamento do indivíduo no grupo social a que pertence. b) ( ) Ética é o ramo do conhecimento cuja finalidade é estabelecer os princípios de fragilidades do comportamento humano e os critériospara o agir. Critérios que são estabelecidos pela Constituição Federativa do Brasil. c) ( ) Ética é o ramo do conhecimento da psicologia que estuda os desvios de conduta dos cidadãos na sociedade, assim como as formas de tratamento. d) ( ) Ética é o ramo do conhecimento que estuda e define as formas de agir e princípios transmitidos pelas diversas religiões existentes. Busca trazer os conceitos puramente na visão filosófica das religiões. 2 A ética é um dos grandes valores que as pessoas têm e, por isso, vemos, na atualidade, uma população desacreditada em diversas áreas como as políticas, bancárias, entre outras que, historicamente, trazem condições conflitantes com os bons costumes e diretrizes éticas das pessoas. Com base no exposto, analise as sentenças a seguir: I - Estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal. II - Conjunto de normas e princípios que norteiam a boa conduta do ser humano. III - Tem caráter normativo e obrigatório e são definidos pelas leis existentes nos países. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. AUTOATIVIDADE 24 25 TÓPICO 2 — UNIDADE 1 A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA FIGURA 4 – A ÉTICA E A MORAL NA VIDA COTIDIANA FONTE: <https://gestaodesegurancaprivada.com.br/etica-moral-e-cidadania-o-que-sao/>. Acesso em: 4 nov. 2020. “Na ética o mal é uma consequência do bem, assim na realidade da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angústia de hoje, ou as agonias que são têm sua origem nos êxtases que poderiam ter siso”. Edgar Allan Poe 1 INTRODUÇÃO Prezado acadêmico, agora que já compreendes os diversos sentidos conceituais da ética, suas principais características e fundamentos, sua problemática junto às questões da moral e a formação do sujeito ético-moral, chegou o momento para desvelar e compreender as nuances relativas à ética e à moral na vida cotidiana do ser humano em sociedade. Vamos relembrar! 26 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA FIGURA 5 – PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DE ÉTICA E MORAL FONTE: A autora Pautados nas supracitadas características, este tópico trabalhará os conhecimentos relativos à ética e à moral na vida do dia a dia das pessoas, que vivem e convivem em grupos sociais, buscando compreender as diferenças entre a ética e a moral, como também esclarecer as questões da consciência moral no desenvolvimento humano e a conduta moral do ser humano, refletindo sobre o bem e o mal, o certo e o errado, ou seja, as responsabilidades individuais e coletivas do agir humano. Assim, aprofundaremos o nosso conhecimento acerca dos Fundamentos ontológico-sociais da dimensão ético-moral da vida social e seu rebatimento na ética profissional. Acadêmico, neste tópico, ainda desenvolveremos uma análise referente aos valores e à moral, proporcionando um momento de discussão a respeito da essência da moral e dos valores e princípios morais. FIGURA 6 – VALORES MORAIS E SUA IMPORTÂNCIA NA SOCIEDADE FONTE: <http://meon.com.br/files/media/originals/maos_unidas_representando_os_valores_ morais.jpg>. Acesso em: 4 nov. 2020. TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 27 “Mesmo que tenham filosofias diferentes, as religiões defendem valores semelhantes para a conduta ética e trazem a mesma mensagem de amor, compaixão e perdão”. Dalai Lama Demonstrando assim, sua importância para a sociedade em que estamos inseridos, pois a intensão aqui é desvelar os conceitos e características pertinentes aos valores e virtudes morais, evidenciando que eles é que formam os princípios norteadores da ética, como já estudamos anteriormente. Vamos lá, acadêmico, compreender sobre a ética, valores, princípios e a moral na vida cotidiana das pessoas! 2 COMPREENDENDO AS DIFERENÇAS DA ÉTICA E MORAL Para iniciarmos esta discussão, faz-se necessário sedimentar os diversos aspectos conceituais que proporcionam o entendimento das diferenças entre a ética e a moral. Nesse sentido, pode-se dizer que “a ética estuda e investiga o comportamento moral dos seres humanos e essa moral é constituída pelos diferentes modos de viver e agir dos homens em sociedade, que é formada por suas diretrizes morais da vida cotidiana, transformando-se no decorrer dos tempos” (PIERITZ, 2013, p. 19). Demostrando, assim, que a ética e a moral permeiam em nosso agir perante a sociedade, desde o estudo do comportamento até a sua prática real cotidiana das relações humanas e sociais. Afinal, o que é a moral? Segundo Aranha e Martins (2003, p. 301, grifos nossos): A moral vem do Latim mos, moris, que significa “costume”, “maneira de se comportar regulada pelo uso”, e de moralis, morale, adjetivo referente ao que é “relativo aos costumes”. Portanto, podemos considerar que a moral é “um conjunto de regras de conduta admitidas em determinada época ou por um grupo de pessoas. Vejamos, no Quadro 5, o que Cunha (2011) nos expõe sobre o que é a ética e a moral: QUADRO 5 – O QUE É A ÉTICA E MORAL ÉTICA é: • Ciência cujo objetivo é a moral. • Ramo do conhecimento cuja finalidade é estabelecer os melhores critérios para o agir. 28 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA MORAL é: • Conjunto de regras e princípios morais. • A dimensão ideal da moralidade. • Relativo à dignidade, ao decoro e à honra. FONTE: Adaptado de Cunha (2011, p. 140-196) Diante desta visão conceitual de ética e moral, ficou demonstrado que ambos estão correlacionados a uma ciência, um estudo do comportamento e das normas de conduta, e que esse conjunto de regras e princípios éticos-morais propiciem a honra, o decoro e a dignidade da pessoa humana. No entanto, segundo Cunha (2011, p. 197), a moralidade é um “processo social costumeiro, concernente à melhor forma de comportamento”. Sendo que esta conduta moral só é possível, se tiver um estudo dos hábitos e costumes do homem em sociedade no seu convívio histórico-social. É a ética que realiza esta ciência das dimensões morais, propiciando transparecer nos diversos códigos de condutas, regramentos e legislações como devemos proceder e se comportar perante o meio social em que vivemos e convivemos. Essa é uma condição socialmente construída ao longo da história da humanidade. Sendo aprimorada conforme o desenvolvimento humano. Depois dessas reflexões iniciais, já podemos buscar elementos que apresentem algumas diferenças entre a ética e a moral. Vejamos: QUADRO 6 – DIFERENÇAS ENTRE ÉTICA E MORAL FONTE: <https://bit.ly/39MHBlE>. Acesso em: 3 dez. 2020. ÉTICA MORAL • É a ciência que estuda a moral. • É a reflexão sistemática sobre o comportamento moral. • É a parte da filosofia que trata da reflexão dos princípios universais da humanidade. • São os valores humanos universais e fundamentais. • É a teoria do comportamento moral. • É a compreensão subjetiva do ato moral. • É o modo de viver e agir de cada povo, em cada cultura. • É o conjunto de normas, prescrição e valores reguladores da ação cotidiana. • Varia no tempo e no espaço. • São os valores concernentes ao bem e ao mal, permitindo ou proibindo. • Conjunto de normas e regras regu- ladoras da relação entre os homens de uma determinada comunidade. • Nasce da necessidade de ajudar cada membro aos interesses coletivos do grupo. FONTE: Adaptado de Tomelin e Tomelin (2002, p. 89-90) TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 29 O quadro das diferenças entre a ética e a moral, só comprova o que já colocamos até o presente momento, de que o comportamento ético-moral é estudado como ciência, para proporcionar melhor qualidade de vida ao cidadão brasileiro e mundial. Então, demonstramos que é a nossa consciência das obrigações e deveres morais,ou seja, o caráter e o modo de ser dos homens em sociedade que formam a ética. Assim, compreendemos que a ética é a ciência que procura estudar e compreender as nuances relativas aos princípios morais, que são constituídos historicamente. Já a moral retrata nossos costumes e hábitos cotidianos, pois seu caráter é social e está pautado na história, cultura e natureza dos seres humanos, pois a moral está compreendida como um conjunto de normativas, regras, leis, regulamentos e princípios que são instituídos pelo coletivo social, mas individualizada na consciência dos homens e mulheres que vivem e convivem em sociedade. Então, destacamos que moral são princípios comportamentais adquiridos com a herança histórica da humanidade e preservados pelas pessoas que vivem em grupos sociais. Assim, no Quadro 7 demostraremos um balanço comparativo da ética e moral, do que estudamos até agora. QUADRO 7 – BALANÇO COMPARATIVO ENTRE ÉTICA E MORAL FONTE: A autora Esse balanço comparativo entre a ética e a moral demonstra que as duas estão amplamente conectadas, mas apresentam sutis diferenças, porque a ética denota um conceito subjetivo e teórico sobre a consciência das regras sociais, já a moral se apresenta mais de cunho prático e objetivo, proporcionando uma tratativa da conduta humana por intermédio de regras e códigos de condutas socialmente constituídos. 30 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA A ética sempre procurará conhecer as formas das tratativas do bem e do mal no âmbito holístico, do coletivo social, já a moral busca tratar o agir humano de forma individualizada, tratando o certo e o errado nos seus regulamentos e normas institucionalizadas. Contudo, ressalva-se que os seres humanos não nascem com os conhecimentos éticos e postura moral, eles se tornam éticos no decorrer do seu desenvolvimento intelectual ao longo de sua história e colocam seus princípios morais de acordo com o empoderamento de suas conotações e convívio sociais. É na socialização e interação com o outro em sociedade que construímos a nossa postura ética individual e profissional. Vale destacar ainda que a ética é aprendida pelo estudo do comportamento humano em sociedade, e a moral necessita ser imposta pelos regramentos sociais de convívio humano. A ética é manifestada a partir do interior das pessoas, de sua consciência, já a moral expressa-se no exterior do indivíduo, na conduta dos seus atos. Como vivemos em constantes transformações humanas e sociais, percebe-se que a ética e a moral sempre estarão em evolução, aprimorando-se constantemente, pois o comportamento humano muda e suas regras de conduta também mudam ao longo da história. Na prática da vida cotidiana, como se apresentam as questões éticas e morais? Convidamos você a refletir sobre algumas situações do dia a dia, demostrado em algumas charges, para refletir sobre o nosso comportamento ético-moral. Vejamos! FIGURA 7 – ÉTICA Lembre-se que um dia a escravidão já foi considerada um comportamento “normal” e hoje a escravidão é considerada um crime. Demostrando, assim, que as regras mudam conforme a mudança do comportamento e normativas socialmente constituídas. INTERESSANTE TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 31 FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/431641945509586866/>. Acesso em: 20 jun. 2020. FIGURA 8 – UM SÁBADO QUALQUER FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/455637687295581746/>. Acesso em: 20 jun. 2020. FIGURA 9 – MOISÉS CHARGES E CARTOONS FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/716283515704220437/>. Acesso em: 20 jun. 2020. 32 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA FIGURA 10 – ÉTICA E MORAL: CONCEITOS, DIFERENÇAS E EXEMPLOS FONTE: <https://bit.ly/3odSAc7>; <https://bit.ly/3mqnsp1>. Acesso em: 20 jun. 2020. As charges apresentadas anteriormente demostram algumas situações, muitas vezes, corriqueiras em nosso convívio social da vida cotidiana, que nem nos damos conta, desvirtuando os preceitos ético-morais socialmente constituídos. Se você parar para pensar um pouco, em cinco minutos, quantas situações similares aparecem em sua mente? Muitas, com certeza! Levando-nos a refletir sobre outra questão, o outro lado dessa moeda ética-moral, a ausência e os contrários à ética e à moral. Nesse sentido, discutiremos agora os sentidos inversos da moral e da ética, mas, antes, verifique sua terminologia no Quadro 8. QUADRO 8 – AUSÊNCIA E CONTRÁRIOS A ÉTICA E A MORAL FONTE: A autora Assim, podemos compreender que quando falamos da ausência de alguma coisa, estamos nos referindo a falta, a deficiência, a carência e a insuficiência. Levando esses conceitos supracitados para a ética e a moral, pode-se perceber que essa ausência denota: TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 33 • Na ética: uma pessoa aética, ou seja, um indivíduo que não possui ou é deficiente da consciência do coletivo, dos atos e costumes gerais do meio em que vive e convive. Possui insuficiência ou carência da compreensão dos estudos históricos da composição dos juízos de valores. o Aqui a palavra-chave é a consciência do todo. • Na moral: uma pessoa amoral, ou seja, um indivíduo que não possui ou é deficiente na forma que conduz seus atos perante a sociedade que vive e convive, pele simples fato de lhe faltar a compreensão de como agir perante os regramentos impostos. Possuindo assim, insuficiência ou carência na sua forma de agir, na sua atitude e conduta, na sua aplicação da norma, pois não a compreende. o Aqui a palavra-chave é a atitude individual. Já quando falamos na questão das pessoas que são contrárias a alguma coisa, estamos nos referindo a seres humanos que são adversos, antagônicos, avessos, desfavoráveis e opostos a alguma situação. Repassando esses conceitos supracitados para a ética e a moral, pode-se perceber que essas atitudes contrárias a alguma coisa denotam: • Na ética: uma pessoa antiética, ou seja, um indivíduo que possui argumentos no sentido contrário da consciência coletiva do que é certo e errado, do que é fazer o bem ou o mal, demostrando estar em oposição aos atos e costumes gerais da sociedade em que está inserido, como também é avesso ao estudo dos juízos de valores constituído historicamente. o Aqui a palavra-chave é a contrariedade. • Na moral: uma pessoa imoral, ou seja, um indivíduo que não segue as regras de conduta socialmente constituídas pelo coletivo social, pelo seu livre arbítrio. É fazer, ser oposto ou querer o contrário das normas. São avessas a qualquer código de conduta, por consciência de querer contrariá-la. o Aqui a palavra-chave é a atitude consciente. Por fim, agora que aprofundamos nosso conhecimento acerca dos dois lados desta moeda ética-moral, é importante sedimentarmos esses conhecimentos adquiridos numa síntese conceitual. Assim, segue o quadro síntese para a sua reflexão final das concepções e diferenças da ética e moral. 34 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA QUADRO 9 – SÍNTESE DAS PRINCIPAIS CATEGORIAS DA ÉTICA E MORAL FONTE: A autora Nessa síntese das categorias analíticas da ética e moral, pode-se perceber as nuances relativas às diferenças e semelhanças entre elas, mas o principal é que ambas estudam e regulam o nosso agir pessoal e profissional e que são constituídas historicamente nas relações humanas e sociais. 3 A ESSÊNCIA DA MORAL Aqui realizaremos um debate entorno da essência da moral, mas com embasamentos éticos para a vida cotidiana das pessoas que vivem em sociedade, procurando desvelar o cerne e coração dessa questão da moral do ser humano. Segundo Pieritz (2013, p. 35), “partimos do entendimento de que todo homem pode ser considerado um ser ético e que nossas raízes éticas advêm da nossa própria história por meio do trabalho”, assim, pode-se questionar como se dá a sua forma de ser e conviver com o outro. Em outros termos, indaga-se: • Qual a natureza da moraldo ser humano? • Por que a moral é necessária para a vida cotidiana? • E como a moral é? Partimos do princípio de que sabemos que “a (re)produção da vida social coloca necessidades de interação entre os homens, modos de ser constitutivos da cultura, produtos do trabalho, tais como a linguagem, os costumes, os hábitos, as atividades simbólicas, religiosas, artísticas e políticas” (BARROCO, 2000, p. 25). Diante deste contexto, no Quadro 10, apresentaremos alguns exemplos dessa necessidade humana de interação e contato com os outros. TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 35 QUADRO 10 – EXEMPLOS DAS NECESSIDADES DE INTERAÇÃO ENTRE OS HOMENS PARA A REPRODUÇÃO DA VIDA COTIDIANA QUESTÃO DE NECESSIDADE PARA A REPRODUÇÃO DA VIDA COTIDIANA CARACTERÍSTICAS BÁSICAS LINGUAGEM, HÁBITOS E COSTUMES • Observa-se que toda região do Brasil, como no mundo, desenvolve-se ao longo de suas próprias histórias diversos grupos, que são ligados por seus costumes e hábitos da vida cotidiana, tais como: O O nosso tipo de comida. o O estilo de vida. o As atitudes. • A qual, estes costumes e hábitos propiciam a determinação do nosso convívio social. Desenvolvendo assim, uma linguagem e dialeto próprio. ATIVIDADES SIMBÓLICAS • Aqui o lúdico de uma realidade abstrata e simbólica positivada, denotam um aspecto muito importante para o desenvolvimento das pessoas, para assim poderem se espelhar naquela atividade. • Pois, a simples aplicação de leituras de histórias de conto de fadas serve para o desenvolvimento emocional de crianças. ARTÍSTICA • As cenas representativas dos atos da vida cotidiana reforçam aspectos intrínsecos da personalidade das pessoas. • Assim, qualquer atividade artística, como por exemplo a dança, a pintura, o teatro exercem sobre o ser humanos, a possibilidade do desenvolvimento criativo e a liberação do imaginário. FONTE: A autora De acordo com o conjunto de possibilidades e necessidades de cada grupo socialmente constituído, ter-se-á a criação e desenvolvimento dos valores, seja individual ou coletivos, institucionalizando um padrão do que é considerado certo ou errado, bom ou mau. Então, o que poderemos considerar como configurações de ser da moral? Vejamos! Barroco (2000, p. 25-26) expõe que: 36 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA [...] o campo da moral é um espaço de criação e realização de normas e deveres, de atitudes, desejos e sentimentos de valor. Na vida cotidiana, julgamos as ações práticas como corretas ou incorretas; fazemos juízo de valor sobre nosso comportamento e dos outros; nos deparamos com situações em que ficamos em dúvida sobre a melhor escolha; projetamos nossa vida a partir de valores que julgamos positivos e negamos as ações que se orientam por valores que consideramos negativos. Nesse cenário da vida cotidiana da nossa existência, observa-se pessoas “que não respeitam as normas de conduta da sociedade em que vivem, por isso, elas possuem um comportamento imoral ou antiético, ou seja, negam as normas e diretrizes morais constituídas e legitimadas pela própria sociedade” (PIERITZ, 2013, p. 36). Demostrando, assim, que existem os dois lados da moeda do comportamento moral, os que são adeptos do comportamento ético-moral e os contrários a ele, demostrando a liberdade da escolha da conduta humana. Assim, de acordo com Barroco (2000, p. 26): Todos esses julgamentos, sentimentos, escolhas e desejos constituem o campo da moral; referem-se a valores, normas e deveres que orientam o comportamento dos indivíduos em sociedade, reproduzindo um dever ser que possa fazer parte do seu ethos, de seu caráter, determinando sua consciência moral, influenciando as escolhas, os projetos, as ações práticas dirigidas à realização do que se considera bom. É também no âmbito da moral que falamos do senso moral, pois se considera que os indivíduos estão socializados quando têm capacidade para se autodeterminar em face de situações de conflito, podem distinguir o que é bom e o que não é, podem ser responsabilizados pelos seus atos. Complementando, Pieritz (2013, p. 38) expõe que se pode perceber “que a moral sugere, constantemente, a valorização de nossas ações e de nossos comportamentos em sociedade, mas é a moral que determina quais são os nossos direitos e deveres perante a sociedade em que vivemos”. Assim, regulando o nosso agir perante o grupo social a que pertencemos. Todavia, salienta-se que tanto os direitos como os deveres e obrigações socialmente constituídos, denotam responsabilidade sobre os atos praticados, pois ambos estão diretamente associados ao nosso modo de ser e conviver em sociedade. Que responsabilidades são estas? São as responsabilidades sobre nossos: • sentimentos; • escolhas; • desejos; • atitudes; • posicionamentos diante da realidade; • juízo de valor; • senso moral; • consciência moral. TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 37 Em outros termos, somos responsáveis diretos por todos os nossos atos, sejam de ação ou omissão. Segundo Pieritz (2013, p. 39), “não podemos esquecer que a moral, seus hábitos, princípios e costumes são constituídos em sociedade e no decorrer de nossa história. Essas construções são baseadas no dia a dia das relações sociais que compõem a produção e reprodução da vida em sociedade”. O qual, compreendemos que todas as pessoas possuem consciência e responsabilidade sobre os atos que praticam no seu cotidiano, tanto individualmente como socialmente. 4 OS VALORES E PRINCÍPIOS MORAIS Realizaremos, neste momento, uma discussão relativa aos valores e princípios morais, o qual, é importante, neste primeiro momento, segundo Pieritz (2013, p. 39), “compreender o significado de valor, pois ao refletir sobre ética, também falamos dos nossos valores e virtudes e, consequentemente, no comportamento dos homens”. Sendo que, ao discutirmos as questões éticas- morais, estamos nos reportando diretamente à “vida moral dos homens, e esta moralidade social é permeada de valores, valores estes também constituídos em sociedade” (PIERITZ, 2013, p. 39). No entanto, o que pode ser considerado um valor dos princípios morais? Vejamos! José Paulo Netto coloca-nos que Agnes Heller menciona que “valor é tudo aquilo que contribui para explicar e para enriquecer o ser genérico do homem, entendendo como ser genérico um conjunto de atributos que constituiriam a essência humana” (PAULO NETTO,1999 apud BONETTI et al., 2010, p. 22-23). Nesse sentido, valor é aquele atributo essencial do comportamento ético- moral, que explica a subjetividade humana, suas preferências e modo de ser. Esses atributos na perspectiva de Heller são: QUADRO 11 – ATRIBUTOS NA PERSPECTIVA DE HELLER OBJETIVAÇÃO • Que expressa prioritariamente por intermédio do trabalho. • Que proporciona sair do subjetivo e passar para o real e concreto. SOCIALIDADE • Que se expressa com a convivência com o outro, em grupo. • Aprendizagem com o outro. • Assimilação de normas sociais. 38 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA CONSCIÊNCIA • Tomar ciência dos fatos ou de alguma coisa. • Reconhecimento da realidade. • Descoberta de algo. • Capacidade de perceber as coisas. UNIVERSALIDADE • Universal. • O todo. • Fazer parte de um determinado grupo. LIBERDADE • Livre-arbítrio. FONTE: Adaptado de Paulo Netto (1999 apud BONETTI et al., 2010, p. 23) Entretanto, você sabe as diferenças entre os valores e os princípios? Destacaremos as nuances relativas às concepções conceituais dos valores e dos princípios, para poder visualizar suas diferenças. • Valores: é o sentido intrínseco da moral e do comportamento, o seu conjunto de qualidades individuais, que transmite o modo de ser das pessoas, ou seja, cada um de nós possuímos subjetividades que alimentam a conduta humana em sociedade, propiciando a definição da personalidade e preferência das pessoas. Por exemplo, a humildade,bondade, respeito e assim por diante. • Princípios: são os parâmetros, preceitos, normas, leis e marcos de referência universais, que definem as regras de conduta social e consente a medição das consequências do comportamento humano. É um pressuposto que está conectado diretamente à nossa consciência e modo de agir. Por exemplo, o princípio da igualdade, imparcialidade, moralidade, liberdade etc. Mediante esse debate, pôde-se compreender que “a ética é formada pelo estudo e investigação do comportamento e dos juízos de valores, estabelecendo ponderações de valor para o que está de acordo ou não com as normas e regras de convivência dos homens em sociedade” (PIERITZ, 2013, p. 41), demostrando que são os valores e princípios ético-morais que moldam a postura comportamental do ser humano. No entanto, o que são os valores sociais? Segundo Pieritz (2013, p. 41, grifos nossos): “Estes atributos, segundo muitos estudiosos, são os elementos constitutivos do ser humano, do ser social” (PIERITZ, 2013, p. 41). IMPORTANTE TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 39 Diariamente, analisamos e fazemos julgamentos de valores tanto de coisas como dos seres humanos. Por exemplo, “Aquela flor tem muitos espinhos, pode me machucar”. “Este sabonete é ruim para mim, pois me dá alergia”. “Este chocolate é ruim, pois derrete fácil”. “Gosto muito daquele chocolate, porque é muito gostoso”. “Acho que a Samanta agiu bem ao ajudar você no trabalho de aula”. “Aquele profissional é competente”. Essas afirmações se referem ao juízo de valor da realidade em que estamos inseridos, pois quando partimos do fato que a flor, o sabonete, o chocolate, a moça e o profissional existem realmente, atribuímos algumas qualidades a eles, que podem nos atrair ou repelir. É a qualidade que empregamos as coisas e ações, que definem seus valores. No nosso dia a dia, de acordo com Pieritz (2013, p. 41), “empregamos diversos tipos de valores, tais como: utilidade, estético, afetividade, do bem e mal, religiosos, aspectos econômicos, sociais e políticos”. Vejamos, agora, nas Figuras 11 e 12, alguns exemplos de virtudes ou valores humanos, como também de princípios e valores. FIGURA 11 – EXEMPLOS DE VIRTUDES OU VALORES HUMANOS FONTE: < https://demodelando.files.wordpress.com/2014/05/valores.gif?w=450&h=217>. Acesso em: 4 nov. 2020. FIGURA 12 – EXEMPLOS DE PRINCÍPIOS E VALORES FONTE: <http://www.kipique.com.br/imagens/vantagens.jpg>. Acesso em: 4 nov. 2020. 40 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA 5 A CONSCIÊNCIA E O SENSO MORAL NO DESENVOLVIMENTO HUMANO Agora, adentraremos numa breve discussão da gênese da consciência e do senso moral, discutindo a questão da necessidade deles no desenvolvimento humano em sociedade. Para isso, ofereceremos subsídios relativos às origens, constituição, formação, geração ou bases e princípios fundamentais da existência humana, em outros termos, a gênese da consciência e do senso moral do homem que vive e convive em sociedade, aquilo que nos possibilita sermos considerados seres humanos. Contudo, é salutar lembrar de um velho ditado popular, no qual expõe que “O homem é homem, porque é um ser racional!”. “A questão não é tão simples assim, pois não podemos dizer que a ética só depende da razão e que a racionalidade é o seu fator constituinte” (PIERITZ, 2013, p. 21). Esta racionalidade advém da consciência e empoderamento dos valores e princípios éticos-morais adquiridos no decorrer da história da humanidade e refletem diretamente no senso e na consciência moral do ser humano. Entretanto, antes de tudo, precisamos compreender o significado das ações ético-morais na vida dos seres humanos, indagando se o simples fato de pensar e estabelecer normas de conduta da realidade cotidiana pode ser compreendido como a realização de uma atividade prática em sua vida, ou seria possível que a vida dos homens fosse estabelecida apenas por sua racionalidade ou pela composição de regras, normas e valores sociais? (PIERITZ, 2013, p. 21-22). Lembre-se que nós seres humanos vivemos num mundo real, palpável, pulsante e em constantes transformações, e que constantemente estamos estabelecendo novas e diversas relações com a própria natureza, este contato propicia sua própria transformação, modificando-a de acordo com suas necessidades reais de sobrevivência. Segundo Pieritz (2013, p. 22): Os seres humanos estão ligados à natureza e dela dependem para se constituírem como seres sociais, pois, à medida que utilizam sua consciência sobre a natureza, desenvolvem necessidades práticas de sobrevivência, ou seja, não basta apenas pensar e observar, faz- se necessário que os homens ajam sobre sua realidade cotidiana, realizem seus desejos e vontades e transformem a sua vida conforme suas necessidades e as necessidades de sua sociedade. Nesse sentido, Marx e Engels (1987, p. 22) nos colocam que: [...] o primeiro pressuposto de toda existência humana e, portanto, de toda história, é que os homens devem estar em condições de viver para poder fazer história, mas para viver, antes de tudo comer, beber, ter habitação, vestir-se e algumas coisas a mais. O primeiro ato histórico TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 41 é, portanto, a produção dos meios que permitam a satisfação destas necessidades, a produção da própria vida material, e de fato este é um ato histórico, uma condição fundamental de toda a história, que ainda hoje, como há milhares de anos, deve ser cumprida todos os dias e todas as horas, simplesmente para manter os homens vivos. De tal modo, a realização de nossas atividades e necessidades humanas é entendida como um fato social, que é historicamente constituído, este fato relativo à relação e convívio social, torna-se primordial para compreendermos a própria existência humana. Agora, aprofundaremos nosso conhecimento acerca da própria existência da ética na nossa vida cotidiana. Para isso, a filósofa Marilena Chauí, agracia-nos com uma linda reflexão, apresentando-nos algumas situações da vida cotidiana trazendo um debate relativo ao senso moral e à consciência moral. QUADRO 12 – REFLEXÃO DA EXISTÊNCIA ÉTICA NOSSOS SENTIMENTOS E NOSSAS AÇÕES EXPRIMEM NOSSO SENSO MORAL SITUAÇÕES de vida • VIVEMOS CERTAS SITUAÇÕES, ou sabemos que foram vividas por outros, como situações de extrema aflição e angústia, situações felizes e de prazer. • Denotando a consciência destas situações advindas dos fatos históricos vividos pelo homem, a qual, buscamos no espirar e moldar. • Situações como essas - mais dramáticas ou menos dramáticas – de alegria e de tristeza – de sucessos e fracasso - surgem sempre em nossas vidas. DECISÕES na vida • NOSSAS DÚVIDAS quanto à DECISÃO CERTA A TOMAR não manifestam nosso senso moral, mas também põem a prova nossa consciência moral, pois exigem que decidamos o que fazer, que justifiquemos para nós mesmos e para os outros as razões de nossas decisões e que assumimos todas as consequências delas, porque somos responsáveis por nossas opções. • Quantas vezes, levados por algum impulso incontrolável ou por alguma emoção forte (medo, orgulho, ambição, vaidade, covardia), fazemos alguma coisa que, depois, sentimos vergonha, remorso, culpa. Gostaríamos de voltar atrás no tempo e agir de modo diferente. • Esses sentimentos também exprimem nosso SENSO MORAL. 42 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA SENSO MORAL CONSCIÊNCIA MORAL Conjunto de SENTIMENTOS de indignação, de administração ou de responsabilidade por nossa conduta ou de outros. MANEIRA como avaliamos a conduta e a ação de outras pessoas. Conjunto de AVALIAÇÕES de conduta que nos levam a tomar decisões por nós mesmos, a agir em conformidade com elas e a responder por elas. CAPACIDADE DE DECIDIR o que fazer, de justificar as razões de nossas decisões e de assumir as consequências delas. O senso moral e a consciênciamoral referem-se a: • VALORES de justiça, honradez, espírito de sacrifício, integridade, generosidade. • SENTIMENTOS provocados pelos valores, de admiração, vergonha, culpa, remorso, contentamento, cólera, amor, dúvida, medo. • DECISÕES que conduzem a ações com consequências para nós e para os outros. Embora os conteúdos dos valores variem, podemos notar que estão se referindo a um valor mais profundo, mesmo que apenas subentendido: o bom ou o bem. O SENSO E A CONSCIÊNCIA MORAL dizem respeito a valores, sentimentos, intenções, decisões e ações referidos ao bem e ao mal e ao desejo de felicidade. Dizem respeito às relações que mantemos com os outros e, portanto, NASCEM E EXISTEM COMO PARTE DA NOSSA VIDA SUBJETIVA. JUÍZO DE FATO Dizem o porquê as coisas são o que são, como são e por que são. JUÍZO DE VALOR São avaliações sobre coisas, pessoas e situações, e são proferidos na moral, nas artes, na política, na religião. Se referem ao que devem ser. AGENTE MORAL Homem, dotado de razão, capaz de ver, julgar e agir na realidade em que está inserido. A EXISTÊNCIA ÉTICA é constituída por dois polos internamente relacionados: • o AGENTE ou O SUJEITO moral (o homem); e • os VALORES MORAIS ou os FINS ÉTICOS. Além disso, é constituída também pelos MEIOS MORAIS. FONTE: Adaptado de Chauí (2016, p. 312 e 319) TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 43 No quadro anterior, a filósofa Marilena Chauí (2016) expõe com sensatez como as nossas emoções, anseios, ações e sentimentos exprimem o nosso senso ético-moral nas diversas situações da vida cotidiana, além de desmistificas as nuances relativas à consciência e senso moral. No senso e na consciência moral dos seres humano estão estampados nossas intenções e desígnios, como também nossos valores, emoções e sentimentos, relativos à concepção do bem e do mal. 5.1 OS ESTÁGIOS DA CONSCIÊNCIA ÉTICA E MORAL: AS ETAPAS DA EVOLUÇÃO HUMANA Refletiremos, agora, a questão da classificação dos estágios da consciência ética e do julgamento moral dos seres humanos, desvelando e buscando compreender as etapas e níveis da evolução humana. Primeiramente, vejamos o que Alves (2017, p. 1) indaga nessa discussão: • “Como nos tornamos seres morais?” • “Como aprendemos distinguir entre o certo e o errado?” Alves (2017, p. 1) complementa, expondo que “as respostas filosóficas são tão díspares quanto interessantes”. Agostinho afirmava que já nascemos depravados e inclinados a naturalmente escolher o mal, enquanto Rousseau contesta que originalmente o ser humano é bom, mas nos corrompemos mediante o contato social. Mais tarde, em uma abordagem psicodinâmica, Freud dava explicações, como a repressão das pulsões (a influência do superego) para a origem da moral. O psicólogo Jean Piaget deu um grande passo ao notar que a formação moral é construída e difere entre a construção da moralidade extrínseca e a internalizada (ALVES, 2017, p. 1). Assim, tudo depende da consciência que o ser humano tem dos seus próprios atos e ações perante o meio em que vive e convive, e que eles são constituídos historicamente pela sua socialização junto a outras pessoas que estão ao seu entorno. Nesse sentido, Aveline (2019, p. 1) expõe que “o psicólogo norte- americano Lawrence Kohlberg (1981) afirma que o desenvolvimento moral do ser humano tem seis estágios, mas, atualmente, são poucos os que alcançam o patamar mais elevado”. Esses estágios da consciência ética são desenvolvidos durante o percurso histórico da evolução humana e psicológica de qualquer pessoa, independentemente de raça, cultura ou etnia. Complementando, Alves (2017, p. 1) expõe que: 44 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Em um notável experimento, Kohlberg (1981) descobriu que a construção da moral ocorre por estágios, paralelos aos estágios desenvolvimentais então estudados por Piaget. Ainda mais, para uma criança atingir certo estágio de desenvolvimento moral, deveria antes alcançar um estágio intelectual que a permitisse assimilar as questões morais e produzir seu próprio raciocínio. De tal modo, pode-se considerar que a base destes seis estágios da consciência ética e do julgamento moral dos seres humanos se encontra na fase do desenvolvimento intelectual do mesmo, para assim possibilitar o discernimento e compreensão dos fatos e das coisas, possibilitando seu empoderamento do intelecto e tomadas de decisão, do que é certo ou errado, do que é fazer o bem ou o mal. Vale frisar que “os seis estágios também coexistem entre si. A vida é contraditória. Cada pessoa possui vários níveis de motivos para agir corretamente, e diversos tipos de definição do que é correto” (AVELINE, 2019, p. 1). Logo, Aveline (2019, p. 1) expõe que “em cada indivíduo ou grupo social, há alguns níveis de consciência ética que predominam sobre os outros”, possibilitando, assim, que todos nós possamos ser diferentes, pois temos o livre arbítrio da escolha do caminho que desejamos seguir, mediante o desenvolvimento da nossa consciência ética e moral. Na Figura 9, serão expostos os seis estágios da consciência ética e do julgamento moral que foram propostos por Lawrence Kohlberg (1981), o qual demostrarão as motivações que levam para cada nível e estágio do desenvolvimento humano. FIGURA 13 – KOHLBERG E OS ESTÁGIOS DA CONSCIÊNCIA ÉTICA FONTE: <https://www.filosofiaesoterica.com/Kohlberg (1981)-e-os-estagios-da-consciencia-etica/>. Acesso em: 6 nov. 2020. Contudo, antes de aprofundar nossos conhecimentos acerca de cada um destes seis estágios da consciência ética e moral que foram propostos por Kohlberg (1981), devemos compreender que eles foram classificados em três grandes níveis, que são denominados de pré-convencional, convencional e pós-convencional. TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 45 QUADRO 13 – CLASSIFICAÇÃO GERAL DOS NÍVEIS DOS ESTÁGIOS DA CONSCIÊNCIA ÉTICA E MORAL PROPOSTOS POR KOHLBERG (1981) Nível 1 ou A Nível 2 ou B Nível 3 ou C Raciocínio e Moralidade PRÉ-CONVENCIONAL Raciocínio e Moralidade CONVENCIONAL Raciocínio e Moralidade PÓS-CONVENCIONAL Nível PRÉ-MORAL, estágio mais básico e inferior Estágio 1 e 2 Nível da CONFORMI- DADE com os papéis sociais Estágio 3 e 4 Nível da ACEITAÇÃO dos princípios morais universais Estágio 5 e 6 Sem código de conduta Leal as regras e normas Raciocinam para melhorar o mundo • Ainda não compreende o que é certo e errado, o que é fazer o bem e o mal. • Não teve internalização das normas e convenções sociais. • Segue as regras e as normas de condutas socialmente constituídos pela sociedade que estão inseridas. • Teve plena internalização das normas e convenções sociais. • Não se baseia nos padrões dos outros. • Baseia-se nos seus princípios individuais abstratos. FONTE: A autora Agora que observamos que os seus estágios são classificados em três grandes níveis, convido-lhes a compreender cada um desses seis estágios da consciência ética e moral que foram propostos por Kohlberg (1981). 5.1.1 Primeiro estágio: medo, punição e obediência Esse primeiro estágio da consciência ética e do julgamento moral dos seres humanos, que foi proposto por Kohlberg (1981), busca compreender o nível mais básico da consciência, do raciocínio do intelecto da própria evolução humana. De acordo com a pirâmide de Kohlberg (1981), a ação do ser humano é “motivada pelo medo da punição e pela obediência” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos), como também, está considerada no primeiro nível da classificação geral, possuindo um raciocínio e moralidade consideradas pré-convencionais, conforme exposto no Quadro 13. 46 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Nesse primeiro nível, as pessoas ainda não compreendem o que é certo e errado, o que é fazer o bem e o mal. Como também, não tiveram a internalização das normas e convenções sociais instituídas legalmente e que nãoseguem um código de conduta. Esse primeiro estágio da consciência e raciocínio da evolução humana, foi denominado como a fase do medo, punição e obediência, pois, segundo Alves (2017, p. 1), “as consequências das ações determinam o certo e o errado”, e, de acordo com Aveline (2019, p. 1, grifos nossos) “a ação certa é a ação que não é punida”, pois “a prioridade é não ser punido, e por isso há uma obediência. A ação errada é aquela que recebe castigo. Se não houver castigo, não haverá consciência de que algo errado foi feito” (AVELINE, 2019, p. 1). Assim, pode-se verificar que a base da pirâmide está norteada por orientações de obediência, para, assim, evitar a punição, demostrando que o medo de não obedecer ao socialmente posto, gera temor do castigo que possa ter, e assim segue com um comportamento de obediência, pois tem medo que seja descoberto algo considerado errado pela sociedade que vive e convive. As questões desse primeiro estágio são as seguintes: • Se não obedecer, serei punido ou castigado? • Quais serão as consequências de minha ação ou omissão? Desse modo, segundo Carvalho (2011, p. 1), no Estágio um, “a criança obedece literalmente a regra, pois sua interpretação é que, obedecer a autoridade é evitar castigo. Cumpre, portanto, por obediência ao adulto e para não sofrer sanções, nesse caso, o castigo.” Salienta-se que são as consequências das ações que demostram o comportamento em si, a ação comportamental, ou seja, não é a ação que predomina, e sim o medo das consequências que a ação poderá gerar. Gerando obediência por medo de punição e castigo. A palavra aqui é obediência à regra posta! 5.1.2 Segundo estágio: recompensa O segundo estágio da consciência ética e moral das pessoas no seu convívio social, que foi sugerido por Kohlberg (1981), busca também compreender o nível basilar da consciência, do raciocínio do intelecto da própria evolução do ser humano. Segundo a pirâmide de Kohlberg (1981), a ação do ser humano é “motivada pela obtenção e recompensa” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos), como também, está considerada no primeiro nível da classificação geral, possuindo um raciocínio e moralidade consideradas pré-convencionais, conforme exposto no Quadro 13. TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 47 Reforça-se que nesse primeiro nível, os indivíduos ainda não compreendem o que é certo e errado, o que é fazer o bem e o mal. Como também não tiveram a internalização das normas e convenções sociais instituídas legalmente e que não seguem um código de conduta. Vale salientar, que neste estágio da evolução do intelecto e comportamento humano, foi denominado como a fase da recompensa, pois, segundo Alves (2017, p. 1), no estágio dois, as ações estão pautadas no “hedonismo instrumental ingênuo. O individualismo e a transação passam a serem consideradas”. “A ação correta é definida como ‘aquela que serve aos interesses de cada um’. O objetivo é obter uma recompensa. Ocorre aqui o ‘toma lá, dá cá’. Vale a negociação caso a caso, a troca de favores, o apoio mútuo em ações de curto prazo” (AVELINE, 2019, p. 1). Esse desejo imediato da realização individual do prazer é compreendido como um instrumento egocêntrico do ser humano, para sua própria satisfação. No segundo estágio da consciência ética e moral das pessoas no seu convívio social, a orientação comportamental aponta para o contentamento dos próprios desejos ou de outros. As questões do segundo estágio são as seguintes: • O que posso ganhar ou obter com minha ação ou omissão? • O que ganho em troca? Assim, as ações humanas, no seu convívio social, estão pautadas no prazer individual, desprovida de malícia, e na transação ou negociação de barganha para conseguir o que deseja — ações única e exclusivamente para satisfação pessoal. Segundo Carvalho (2011, p. 1), esse segundo estágio denota que o ser humano “age pelo próprio interesse (individualismo), [pois] a obediência consiste em fazer só aquilo que lhe interessa e até na relação com os outros não é movido por respeito ou por lealdade, mas pelo interesse de ‘uma mão lava a outra’, uma troca de favores”. Vejamos seus significados: Hedonismo – “Tendência a considerar que o prazer individual e imediato é a finalidade da vida” (FERREIRA, 2008, p. 448, grifos nossos). Ingênuo – “Sem malícia, franco. Em que há inocência, pureza, singelo, pueril” (FERREIRA, 2008, p. 478, grifos nossos). Egocêntrico – “Que ou quem refere tudo ao próprio eu. Egoísta (FERREIRA, 2008, p. 334, grifos nossos). NOTA 48 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Nesse sentido, ressalva-se que, o objetivo desse comportamento é a reciprocidade restrita em obter uma recompensa. A palavra aqui é buscar recompensa! 5.1.3 Terceiro estágio: aprovação social O terceiro estágio da consciência ética e do julgamento moral dos seres humanos, que foi proposto por Kohlberg (1981), denota que tenhamos um raciocínio ético-moral convencional, pois propicia ser um nível conectado com a conformidade dos papéis sociais, ou seja, a lealdade dos homens com as regras e normas socialmente constituídas. De acordo com a pirâmide de Kohlberg (1981), a ação do ser humano é “motivada pela aprovação social” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos), como também está considerada no segundo nível da classificação geral, possuindo um raciocínio e moralidade consideradas convencionais, conforme exposto no Quadro 13. Ressalva-se que nesse segundo nível, as pessoas procuram seguir as regras e as normas de condutas socialmente constituídos pelo grupo social a qual faz parte. São leais às regras e normas. Neste sentido, esse terceiro estágio da consciência e raciocínio da evolução humana foi denominado como a fase da aprovação social, pois, segundo Alves (2017, p. 1, grifos nossos), este é o estágio das “relações interpessoais. [Onde existe] o ideal de ‘bom garoto’, ou seja, o que agrada aos outros é bom”. Aveline (2019, p. 1) complementa expondo que, neste terceiro estágio: A criança (ou o adulto) demonstra ter bom caráter. É a etapa do “bom garoto”. A meta é a aprovação social, ou o apoio sincero dos mais velhos e dos mais poderosos. Aqui vale a frase “faça aos outros o que gostaria que eles lhe fizessem”. A pessoa desenvolve um sentido de justiça e reciprocidade. A compaixão é compreendida e até certo ponto vivenciada. Também pode ocorrer um conformismo: mas existe um sentido de compromisso ético verdadeiro (grifos nossos). Segundo Aveline (2019, p. 1, grifos nossos), “os dois estágios iniciais da moralidade humana são chamados de ‘pré-convencionais’, porque neles não há um código de conduta. As ações são vistas de modo mais ou menos isolados. Predomina o casuísmo”. IMPORTANTE TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 49 Demostrando que nas relações interpessoais, buscar ser considerado uma boa pessoa é um bom negócio, para ter um convívio social pleno e ser aprovado socialmente. Aqui, procuramos nos orientar pelos valores socialmente constituídos, manter-nos íntegros, conforme as normativas, regras e legislações vigentes, mas, sempre no intuito de agradar o grupo social a que fazemos parte, e não pelo simples fato de seguir as normas. As questões desse terceiro estágio permeiam em: • Se seguir as normas sociais, estou agradando e sou aprovado socialmente? • Como sou considerado nas minhas relações interpessoais, agrado a todos? • Será que tenho bom caráter, se sigo fielmente a legislação vigente? De tal modo que nossa atitude em relação às ações humanas deva estar pautada nas normativas socialmente constituídas, e que nos orientam se podemos ser considerados bons ou maus seres humanos, e se assim agradamos e somos aprovados socialmente. Vale salientar que, as ações que agradam o coletivo são consideradas boas, e que o caráter humano é reconhecido por estes atos compartilhados e positivados nas relações interpessoais. A palavra aqui é agradar o outro!5.1.4 Quarto estágio: manutenção da ordem social No quarto estágio da consciência ética-moral das pessoas que vivem e convivem em sociedade, que foi apresentado por Kohlberg (1981), o qual é possível propiciar a você, que este estágio do raciocínio da ética e da moral é convencional, para demostrar que este nível está conectado com a harmonia dos papéis sociais, ou seja, a lealdade dos homens com as regras e normas socialmente constituídas. Segundo a pirâmide de Kohlberg (1981), a ação do ser humano é “motivada pela manutenção da ordem social” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos) e está considerada no segundo nível da classificação geral, possuindo um raciocínio e moralidade consideradas convencionais, conforme exposto no Quadro 13. Pontua-se que nesse segundo nível, os seres humanos procuram seguir as regras e as normas de condutas socialmente constituídos pela sociedade em que vivem e convivem. São leais às regras e normas. Assim sendo, este quarto estágio da consciência e raciocínio da evolução humana, foi denominado como a fase da manutenção da ordem social, pois, de acordo com Aveline (2019, p. 1, grifos nossos) “o quarto estágio é o da Lei e da Ordem. Nesse ponto o respeito ao líder, ao chefe, ao professor, é algo central. O 50 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA importante é cumprir o dever. Cabe respeitar as normas e obedecer às autoridades – sem questioná-las”. Importante salientar que é a “autoridade [que] mantém a ordem social. Atitude deontológica, cumprir os deveres” (ALVES, 2017, p. 1). Pode-se destacar que nesta etapa, o nosso comportamento social é orientado pelas normas, leis, regras e ordem social. Procurando manter os valores e princípios socialmente constituídos. Aqui, é a manutenção das leis e normas e o respeito às lideranças que propiciam a promoção do bem-estar social da população, já que as questões do quarto estágio estão em torno das seguintes indagações: • Se seguir as normas vigentes, estou mantendo a ordem e o bem-estar social? • Será que estou respeitando minhas lideranças e suas decisões? • Estou cumprindo meus deveres e minhas obrigações sociais? Ainda, torna-se importante refletirmos na questão da Lei e da Ordem, pois: Quem está nesse estágio realmente acredita que a lei, a ordem social, a justiça e outros valores são reais, são partes do gênero humano, neste sentido o correto é cumprir seu dever na sociedade, preservar a ordem social, e manter o bem-estar da sociedade ou do grupo (CARVALHO, 2011, p. 1, grifos nossos). Aqui, o importante sempre será o cumprimento da Lei e da Ordem, cumprindo nossos deveres e obrigações para com a sociedade em que fazemos parte, além de respeitar os processos decisórios de nossos gestores, pois assim, proporcionaremos a promoção do bem-estar social. As palavras aqui são respeito e cumprimento das leis, da ordem e da liderança! 5.1.5 Quinto estágio: proteção do bem-estar coletivo Este quinto estágio da consciência ética e do julgamento moral dos seres humanos, que foi proposto por Kohlberg (1981), busca compreender a questão do raciocínio e da moralidade no âmbito pós-convencional, no nível da aceitação dos princípios morais universais, em que os seres humanos procuram raciocinar para melhorar a qualidade de vida no mundo. De acordo com Aveline (2019, p. 1, grifos nossos), “As etapas três e quatro são chamadas de ‘convencionais’, porque nelas o indivíduo é sinceramente leal às normas e às orientações coletivas”. IMPORTANTE TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 51 Portanto, de acordo com a pirâmide de Kohlberg (1981), a ação do ser humano, no quinto estágio, é “motivada pela proteção do bem-estar coletivo” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos) e está considerada no terceiro nível da classificação geral, possuindo um raciocínio e moralidade consideradas pós- convencional, conforme exposto no Quadro 13. É importante destacar que, no terceiro nível da classificação geral da pirâmide de Kohlberg (1981), devemos compreender que as pessoas já possuem plena internalização das normas e convenções sociais, e que não se baseiam nos padrões dos outros, mas se baseiam nos seus princípios individuais abstratos. Aqui, no terceiro nível, devemos partir do princípio de que “agora as crianças ou adultos respeitam às normas, leis e convenções, mas ao mesmo tempo enxergam além delas e procuram aprimorá-las” (AVELINE 2019, p. 1, grifos nossos). Vale fazermos uma reflexão! Prezado acadêmico, reflita conosco o que Sigmund Freud (2005, p. 53, grifos nossos) escreveu: […] Não é necessário ser um anarquista para ver que as leis e as normas não podem ser consideradas como algo sagrado ou inquestionável, ou para compreender que elas são com frequência formuladas de modo inadequado e ferem o nosso sentido de justiça, ou virão a ser injustas dentro de algum tempo, e que, considerando a lentidão das autoridades, muitas vezes o único meio de corrigir estas leis tolas é tendo a coragem de violá-las. Além disso, se desejamos manter o respeito pelas leis e normas, é aconselhável só promulgá-las quando se pode vigiar e saber se são obedecidas. Você conseguiu observar na fala de Freud (2005), que as leis e normas podem ser reformuladas e modificadas no decorrer da própria evolução humana, por conta da transformação social? Que elas podem ter sido feitas de formas equivocadas, não atingindo seu propósito? Que podem ter perdido sua validade, por conta do tempo de promulgação? Que bom que você compreendeu essa questão! Pois, isso é fundamental para compreender este estágio, como o sexto também. Nesse sentido, este quinto estágio da consciência e raciocínio da evolução humana, foi denominado como a fase da proteção do bem-estar coletivo, pois, na visão de Aveline (2019, p. 1, grifos nossos), esta é uma fase que demonstra o “desenvolvimento ético, [onde] o indivíduo percebe que as leis e os costumes estabelecidos podem ser injustos. [E], quando necessário, ele busca uma mudança para melhor. Faz isso através de meios legítimos, democráticos, moralmente aceitáveis, eticamente responsáveis”. Demonstrando que é possível realizar a mudança normativa, desde que devidamente justificada e legal, pois quem está nesta fase, consegue enxergar além das normativas postas, pois procura aprimorar o contrato social posto. 52 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Aqui, neste estágio, as pessoas se orientam pela melhoria constante do contrato social e suas normativas institucionalizadas, procurando o exercício do respeito aos direitos civis, sociais e individuais, no intuito de protegê-las e verificarem sua eficácia, para angariar a promoção do bem-estar do coletivo social. Segundo Alves (2017, p. 1), o contrato social é compreendido como “acordos democraticamente alcançados sobre se os valores são bons, cabendo ao indivíduo determinar o certo e o errado dentro dos parâmetros desses valores”. Nessa concepção, esse aprimoramento legislativo do contrato social denota os seguintes questionamentos: • Será que podemos ir além do contrato social instituído, tendo uma visão ampliada de sua eficácia e propor aprimoramento, quando necessário? • Como podemos exercer nossa cidadania para proteger o bem-estar coletivo? Já Carvalho (2011, p. 1) complementa expondo que as pessoas desse estágio possuem uma “visão que no mundo as pessoas são diferentes, têm opiniões, direitos e valores também diferentes e o correto é apoiar os direitos, valores e contratos jurídicos de uma sociedade, mesmo quando estão em conflito com as normas concretas do grupo”. Ou seja, procuram ir além do socialmente posto, para poder contribuir a melhoria de qualidade vida dos cidadãos, pois entendem que somos todos diferentes. As palavras aqui são proteção do bem-estar coletivo e melhoria do contrato social. 5.1.6 Sexto estágio: zelo pelos princípios éticos universais Por fim, o sexto e último estágio da consciênciaética-moral das pessoas, que foi apresentado por Kohlberg (1981), procurou presentar uma reflexão relativa ao raciocínio e à moralidade no âmbito pós-convencional, no nível da aceitação dos princípios morais universais, em que os seres humanos procuram raciocinar para melhorar a qualidade de vida no mundo. Exemplos desse nível de moral (assim como do sexto nível) são Mahatma Gandhi, na Índia, Martin Luther King, nos Estados Unidos e, no Brasil, Chico Mendes, o defensor da Floresta Amazônica. Os três líderes sociais deram um exemplo de altruísmo e foram assassinados precisamente por defenderem ideais nobres e uma ética superior, contrariando as estruturas da ignorância organizada. Na quinta etapa, busca-se um contrato social eficiente e justo para todos (AVELINE 2019, p. 1). INTERESSANTE TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 53 Nesse sentido, a pirâmide de Kohlberg (1981) demonstra que a ação do ser humano, no sexto estágio, é “motivada pelo zelo dos princípios éticos universais” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos) e está considerada no terceiro nível da classificação geral, possuindo um raciocínio e moralidade consideradas pós-convencional, conforme exposto no Quadro 13. Vale frisar que neste terceiro nível da classificação geral da pirâmide de Kohlberg (1981), é importante compreender que as pessoas já possuem plena internalização das normas e convenções sociais, e que não se baseiam nos padrões dos demais cidadãos, mas baseiam-se nos seus princípios individuais abstratos. Portanto, neste terceiro nível, partiremos do princípio de que “agora as crianças ou adultos respeitam as normas, leis e convenções, mas ao mesmo tempo enxergam além delas e procuram aprimorá-las” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos). Assim, o sexto estágio da consciência e raciocínio da evolução humana, foi denominado como a fase do zelo dos princípios éticos universais, pois, segundo Aveline (2019, p. 1), “na sexta etapa de desenvolvimento moral, o indivíduo – ou o povo – vive os princípios universais da consciência ética. Hoje são pouco numerosos os seres humanos firmemente estabelecidos neste estágio. São os precursores. Preparam o futuro. Abrem o caminho”. As questões do sexto e último estágio estão em torno das seguintes indagações: • Qual o caminho que podemos trilhar para zelar os princípios éticos universais? • Com podemos aprimorar os preceitos éticos e morais, para ir além do socialmente posto? Aqui, nesta fase, as pessoas se orientam pelos princípios éticos universais, a qual procuram zelar pelos valores éticos-morais ao longo da história da humanidade. Lembre-se que a ética reflete os hábitos e costumes gerais de uma sociedade, suas normativas e convenções, que fora institucionalizada pelo coletivo social, e a moral é a forma que conduzimos nossos atos perante o outro, ou seja, é a conduta em si. Alves (2017, p. 1) coloca-nos que “os princípios de justiça e ética são parte da consciência, sendo questões de escolhas individuais dentro de princípios axiológicos universais, mesmo que contra as leis e regras socialmente estabelecidas”. Vale lembrar que “a pessoa desenvolve um padrão moral baseado nos direitos humanos universais. Quando confrontado com um conflito entre a lei e a consciência, a pessoa seguirá a consciência, ainda que essa decisão envolva risco pessoal, e tem a capacidade de ver-se no lugar do outro” (CARVALHO, 2011, p. 1). Assim, somos incitados a zelar por esta consciência dos princípios éticos e de justiça universais que refletem as nossas condutas na sociedade em que estamos inseridos. 54 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Lembre-se de que estamos aqui para melhorar o mundo em que vivemos, mas precisamos compreender e zelar os nossos valores e princípios éticos-morais que foram historicamente concebidos pelo coletivo social. As palavras aqui são zelo dos valores e princípios éticos-moras e universais, pois a ética é para o coletivo social, para todos. 6 A CONDUTA MORAL: O BEM E O MAL, O CERTO E O ERRADO No que tange a nossa conduta moral, em relação ao fazer o bem ou o mal, em fazer o certo ou o errado, pode-se dizer que chegamos agora num dilema, pois no nosso próprio comportamento ético-moral é a nossa consciência, das coisas e dos fatos, que irá determinar o caminho a seguir, pois indaga-se: • Como saber o que devemos fazer? Para que lado ir? • O que é certo ou errado perante a sociedade? • O que é fazer o bem e como evitar o mal? Respondendo a esses três questionamentos, Valls (2003, p. 67-68) expõe que: Agir eticamente é agir de acordo com o bem. A maneira de como se definirá o que seja este bem, é um segundo problema, mas a opção entre o bem e o mal, distinção levantada já há alguns milênios, parece continuar válida. [...] Neste sentido, poderíamos continuar dizendo que uma pessoa ética é aquela que age sempre a partir da alternativa bem ou mal, isto é, aquela que resolveu pautar seu comportamento por uma tal opção, uma tal disjunção. E quem não vive dessa maneira, optando sempre, não vive eticamente. Prezado acadêmico, para Kohlberg (1981) “nem todos progrediam por esses estágios. Somente uns poucos (citou Gandhi, Thoureau e Martin Luther King) chegam ao Estágio 6, mas todos em potencial podem alcançar esses estágios, que progridem conforme a idade” (ALVES, 2017, p. 1). De acordo com Carvalho (2011, p. 1): Kohlberg (1981) acreditava que estes níveis e estágios ocorrem numa sequência: • Antes dos nove anos, a maioria das crianças seguem caminhos pré-convencionais (nível 1). • Na primeira adolescência, eles raciocinam de uma maneira mais convencional (nível 2). A maioria no Estágio 3, com apenas sinais dos Estágios 2 e 4. • No início da fase adulta, um pequeno número de indivíduos arrazoa (raciocinam) de maneira pós-convencional. IMPORTANTE TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 55 Assim, se agirmos no intuito de fazer o bem, estamos agindo com uma postura ética-moral, ela proporcionará uma conduta direcionada para o certo, mas sempre pautada no que fora instituído socialmente. Então, pode-se dizer que os seres humanos são aquelas pessoas que desenvolvem uma conduta ou um comportamento baseado em alternativas, podendo escolher em fazer o bem ou o mal, que quem faz o bem é considerado ético, e quem faz o mal é antiético. De acordo com Pieritz (2013, p. 23-24): Para efetuarmos um julgamento concreto sobre alguma situação da vida em sociedade, devemos nos pautar sobre todos os pressupostos éticos daquela sociedade em si, ou seja, seus princípios morais e seus costumes. Entretanto, sem esquecer que o que todo ser humano busca em suas ações cotidianas na sociedade é fazer sempre e somente o bem, pois é por causa e em nome deste bem maior que eles realizam tudo. De tal modo, que necessitamos compreender a realidade social, política e econômica do grupo social a que pertencemos, principalmente seus preceitos éticos-morais para, assim, podermos tomar a decisão de que postura teremos em relação aos outros que vivem e convivem conosco. [Pois], sempre que uma decisão ou uma escolha deve ser feita com relação ao comportamento, a decisão moral será aquela que trabalha para a criação de confiança e integridade nos relacionamentos. Deve aumentar a capacidade dos indivíduos para cooperar, e aumentar a sensação de autorrespeito no indivíduo. Atos que criam desconfiança, suspeita e mal-entendidos, que constroem barreiras e destroem a integridade, são imorais. Eles diminuem o senso de autorrespeito do indivíduo e, ao invés de produzir uma capacidade de trabalhar juntos, separam as pessoas e rompem a capacidade de comunicação (KIRKENDALL, 1961, p. 6). Nesse sentido, é importante compreender que: Todas as nossas ações possuem um propósito, ou seja, um fim. Este fim somente é alcançado quando os homens realizam uma atividade para alcançá-lo, vão em busca de seus objetivos e metas. Portanto, serealmente existe um motivo que visa tudo o que fazemos, este fim só poderá ser realizado se nós, seres humanos, o realizarmos através de ações/atividades. Elas, por sua vez, sempre estão na busca constante da realização do bem e da verdade e procurando a felicidade e o prazer (PIERITZ, 2013, p. 24). Neste contexto indaga-se: o que é a moralidade? A moralidade, segundo Cunha (2011, p. 197), é compreendida como o “processo social costumeiro, concernente à melhor forma de comportamento”. A qual, exprime a qualidade do comportamento moral do cidadão, suas regras e princípios. Nesse sentido, segundo Pieritz (2013, p. 35), “a moralidade dos homens é um reflexo direto do modo de ser e conviver em sociedade, no qual o caráter, os sentimentos e os costumes determinam o seu comportamento individual e social, que foi ou está sendo perpetuado num espaço de tempo”. 56 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Assim, adentramos na questão do princípio da moralidade, mas você sabe o que é um princípio? Um princípio, segundo Ferreira (2008, p. 654), é “o momento ou local ou trecho em que algo tem origem.” Então, pode-se expor que o princípio da moralidade exprime a origem do comportamento moral de nossa sociedade ou grupo social, pois, o princípio da moralidade denota que as pessoas estão vinculadas pelas normas e diretrizes do comportamento moral. É o agir segundo os preceitos éticos e morais socialmente constituídos. Caro acadêmico, sugerimos que faça a leitura do texto de Israel Alexandria, intitulado Ética e moral uma reflexão sobre a ética e os padrões de moralidade ocidental. ÉTICA E MORAL UMA REFLEXÃO SOBRE A ÉTICA E OS PADRÕES DE MORALIDADE OCIDENTAL Israel Alexandria 1 A MORALIDADE ENQUANTO OBJETO DA ÉTICA Gosto não se discute. Correntemente essa frase é utilizada quando se quer estabelecer a ideia de que gosto é algo radicalmente subjetivo e imutável. Ora, a imensa variedade de sujeitos com preferências e opiniões distintas entre si e o fato de um mesmo sujeito mudar de preferências e opiniões fazem prova de que a complexa estrutura psíquica humana é capaz de aprender e de modificar o que se aprendeu. Subjetividade não combina com imutabilidade, logo a frase em questão é contraditória. Diz-se também que personalidade vem da natureza. Quando atribuímos à natureza a existência de alguma coisa, estamos simplesmente dizendo que esta coisa não foi criada pela cultura, nasce-se com ela. Não há necessidade de aprender o que é natural. O natural é inato. Essa coisa chamada personalidade é inerente à pessoa. Pessoa e personalidade vêm da mesma palavra: persona. Ninguém nasce pessoa. Ninguém se refere a um bebê como "aquela pessoa", pois sabe-se que personalidade tem a ver com um sistema mais ou menos definido de gostos, preferências que se vai adquirindo com o tempo. Embora as preferências e as condições que formam a personalidade sejam tão subjetivas e mutáveis, há uma constante que não podemos desprezar. É o princípio do prazer. Todo ser dotado de sensibilidade tem a propensão natural de afastar o que lhe está associado à dor e buscar o que lhe é prazeroso. O gato morde o homem que lhe pisa a cauda e o vegetal cresce em direção ao sol. Para o gato é bom que não lhe pisem na cauda. Para a planta, é bom crescer em direção ao sol. O ser humano não foge a essa regra. O bebê humano é capaz de manifestar sua percepção de prazer e dor e essa capacidade não se perde com a idade. O que TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 57 muda é a forma como se dá essa manifestação e o objeto do prazer ou o da dor que, por sua vez, dependem das circunstâncias. O que permanece imutável é o fato de os sujeitos estarem sempre buscando o que lhes parece bom, e afastando o que lhes parece mal. É sobre esses dois conceitos que trata a ética. A ética é uma ciência comprometida com a busca aprofundada das relações entre o homem e os conceitos de bem e de mal. Trata-se de uma ciência da qual não podemos nos esquivar, pois o bem e o mal, o certo e o errado impregnam nossa conduta prática. Embora a maioria não pense no assunto, o comportamento humano é uma contínua resposta às questões éticas. É nesse ponto que nasce a distinção entre ética e moral. O dicionarista e pensador Nicola Abbagnano (1901-1990) afirma que moral é "atinente à conduta" (1982, p. 652) enquanto a ética é "a ciência com vistas a dirigir e disciplinar a mesma conduta" (1982, p. 360). A moral seriam as regras práticas e a ética, o fundamento teórico da moral. Dizem-se moral aristotélica, moral kantiana para enfatizar os respectivos aspectos práticos; ética aristotélica, ética kantiana estariam mais relacionados aos seus aspectos teóricos. Alguns autores, entretanto, ressaltam que, embora haja uma infinidade de morais: moral cristã, moral judaica, moral platônica, moral kantiana etc., a ética seria uma só. É que, sendo esta uma ciência, trabalha apenas com conceitos universais. Basicamente, são três os modelos de moralidade: aristocrático, utilitarista e kantiano. 2 A MORAL ARISTOCRÁTICA A moral aristocrática visa fazer com que o indivíduo se aproxime, cada vez mais, de um homem ideal e transcendente. Nesse sentido, são morais aristocráticas a moral judaica, baseada no modelo de homem de fé (Abraão), a moral cristã, no amor ao próximo (Jesus), a moral platônica, no ascetismo (filósofo-rei), a moral budista, na eliminação dos desejos (Buda). Na maioria das vezes, esses modelos ideais são apenas descrições sem referências a nomes de personagens históricos. A moral aristocrática propõe que cada indivíduo seja dotado das virtudes adequadas (a palavra virtude vem de virtu, que significa força) para imitar o modelo ou um ideal de vida proposto. A felicidade plena é obtida quando o indivíduo realiza o ideal proposto. Quanto mais virtuoso for o indivíduo, maior o seu grau de felicidade. Sócrates (470-399 a.C.) inventou o ideal cínico (palavra derivada de canino), cuja principal virtude é o desprezo às comodidades, às riquezas e às convenções sociais, enfim a tudo aquilo que afasta o homem da simplicidade natural de que dão exemplo os animais (no caso o cão). Cínico é aquele que vive o descaramento da vida canina. Relata-se que Sócrates caminhava nos mercados apenas para saber do que ele não precisava. Outros curiosos relatos envolvendo Diógenes, tais como o da "visita do imperador", "a mão e a cuia", "a lanterna" etc. indicam que este teria sido o maior cínico da história. 58 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Platão (428-348 a.C.) propôs o ideal asceta. A prática da ascese consiste em viver na contemplação do mundo das ideias ao tempo que se afasta de tudo o que é corpóreo. "É evidente que o trabalho do filósofo consiste em se ocupar mais particularmente que os demais homens em afastar sua alma do contato com o corpo" (PLATÃO, 1999, p. 125). O sábio educa-se para a morte, ou seja, para o dia em que sua alma se separará definitivamente do corpo, migrando para o outro mundo. Aristóteles (384-322 a.C.) definia o homem ideal como aquele que consegue pôr em prática tanto a sua animalidade natural como a sua sociabilidade natural, pois o homem é um animal social por natureza. "Mesmo quando não precisam da ajuda dos outros, os homens continuam desejando viver em sociedade" (ARISTÓTELES, s.d., s.p.). Reprimir a animalidade ou a sociabilidade distancia o homem da felicidade. Para encontrar um termo médio entre essas duas naturezas, o homem vale-se da razão. Os estoicos são outro exemplo de moral aristocrática. No século IV a.C., acredita-se que o nome estoico tenha sido inspirado no local onde Zenão de Cício (335-263 a.C.) ensinava: os pórticos (stoa, em grego). Costuma-se atribuir a razão do surgimento dessa doutrina ao fato da cidade de Atenas haver perdido sua independência para os macedônicos, prolongada depois pelo império romano. O estoicismo foi uma espécie de refúgio espiritual,uma via filosófica para se conseguir a independência em nível individual. Não obstante, o estoicismo atravessou séculos, sendo adotado pelos cristãos e até pelo imperador romano Marco Aurélio (121-180 d.C.). Segundo os estoicos, nenhum evento acontece por acaso (teoria da necessidade). Até mesmo o trajeto de uma folha que se desprende da árvore já foi milimetricamente traçado pelo Logos, princípio inteligente do cosmos. O ideal de sabedoria estoica é a completa apatia: indiferença-acomodação diante dos acontecimentos da vida, é o que revela Sêneca (4 a.C. 65 d.C.) um dos expoentes do estoicismo. Toda a vida é uma escravidão. É preciso, pois, acostumar-se à sua condição, queixando-se o menos possível e não deixando escapar nenhuma das vantagens que ela possa oferecer: nenhum destino é tão insuportável que uma alma razoável não encontre qualquer coisa para consolo. Vê-se frequentemente um terreno diminuto prestar-se, graças ao talento do arquiteto, às mais diversas e incríveis aplicações, e um arranjo hábil torna habitável o menor canto. Para vencer os obstáculos, apela à razão: verás abrandar-se o que resistia, alargar-se o que era apertado e os fardos tornarem-se mais leves sobre os ombros que saberão suportá-los (1973, p. 216). Não se interprete indiferença por alienação: um sábio pode engajar-se na vida política até mesmo porque estava escrito. Nesse ponto, os povos muçulmanos parecem estar em franco acordo com a doutrina estoica pois regularmente repetem a expressão maktub (estava escrito), particípio passado do verbo catab (escrever). A virtude do sábio é o controle absoluto de suas emoções. Segundo sua parenética (termo que diz respeito aos aconselhamentos práticos), quando as circunstâncias tornam impossível o controle das emoções, é aconselhável a prática do suicídio. TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 59 Epicuro de Samos (341-270 a.C.) criou o modelo de sábio epicurista: o homem que pratica plenamente a virtude da ataraxia (despreocupação; ausência de aborrecimentos, de dores ou medos). Nem a posse das riquezas nem a abundância das coisas nem a obtenção de cargos ou o poder produzem a felicidade e a bem-aventurança; produzem- na a ausência de dores, a moderação nos afetos e a disposição de espírito que se mantenha nos limites impostos pela natureza. A ausência de perturbação e de dor são prazeres estáveis; por seu turno, o gozo e a alegria são prazeres de movimento, pela sua vivacidade. Quando dizemos, então, que o prazer é fim, não queremos referir-nos aos prazeres dos intemperantes ou aos produzidos pela sensualidade, como creem certos ignorantes, que se encontram em desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimentos do corpo e de perturbações da alma (EPICURO, 1993, p. 25). Efetivamente, a ideia de que os epicuristas pregavam a volúpia do corpo é falsa. Eles praticavam uma espécie de otimismo profilático que se aproxima muito do famoso "jogo do contente" da personagem Poliana. Eram iconoclastas em relação aos mitos sobre morte, religião e política. Isolados em jardins afastados das agitações da vida citadina, cultivavam a amizade (a prática de viver em seletos círculos de amigos era considerada condição fundamental na vida do sábio epicurista). O modus vivendi de Epicuro e seus discípulos foi chamado de áurea mediocritas (mediocridade dourada) por Horácio. 3 A MORAL UTILITARISTA A moral utilitarista caracteriza-se pela ausência do transcendente e de modelos a priori a serem imitados. Todas as ações devem ser medidas pelo bem maior para o maior número. Ao definir o utilitarismo, o filósofo irlandês Francis Hutcheson (1694-1746) assim se expressa: "a melhor ação é aquela que produz a maior felicidade ao maior número de pessoas". O utilitarismo é a moral dos números. Nicolau Maquiavel (1469-1527), pensador italiano, tem sobre si a culpa de haver defendido que os fins justificam os meios embora, segundo o Dicionário de Filosofia de Abbagnano (1962, p. 614), tal máxima tenha origem jesuíta. A injustiça que recai sobre Maquiavel vem da dificuldade que se tem de separar o mero descrever e o opinar. Ele tinha horror a governos de ocasiões, golpes sucessivos, casuísmos, enfim à política do dia a dia que tanto permeava a agitada vida nos bastidores políticos de Florença. Em O Príncipe ele faz uma descrição em forma de aconselhamento, com base em seus conhecimentos de história, da conduta do governante que pretende permanecer no poder por um tempo relativamente longo, mas chega mesmo a confessar que, para atingir tal permanência, o ideal 60 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA seria que as coisas não ocorressem da forma como a história demonstrara. Não obstante, a tradição nos legou o termo maquiavélico como designativo de um modelo que se firmou como um dos marcantes exemplos de moral utilitarista: a que visa um maior número de dias no poder. Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo inglês, parte do princípio de que quanto menor for o número de invasões, mortes violentas e desapossamentos mútuos, mais feliz será a espécie humana. Esta condição só pode ser arranjada com a existência de um contrato social e de um Leviatã. Vamos explicar melhor: para Hobbes, o homem é, naturalmente, o lobo do homem (homo homini lupus), ou seja, não é um ser naturalmente cordial e sociável, não está naturalmente aparelhado para sentir-se incomodado com a dor alheia quando sua sobrevivência está em jogo. "Se dois homens desejam a mesma coisa, ao mesmo tempo que é impossível ela ser gozada por ambos, eles se tornam inimigos" (HOBBES, 1651, p. 43). Relegados ao estado de natureza, os homens promovem uma guerra de todos contra todos (bellum omnium contra omnes), guerra inútil porque põe em risco a própria conservação humana. Os homens, portanto, perceberam e admitiram entre si a vantagem em cada um reprimir sua animalidade natural em prol de uma mútua convivência pacífica, bem mais útil, produtiva, confortável e segura. A civilização nasce desse contrato social. Essa nova situação, entretanto, só pode ser mantida com a existência de um Leviatã (monstro amedrontador e forte) que se expressa preferencialmente na figura de um rei, comandante autoritário e único que gera em todos o sentimento generalizado de medo da punição, garantindo assim a continuidade do estado civil. A base da moral utilitária de Hobbes sofreu inúmeras críticas, a principal partiu de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo suíço, que via na animalidade humana não lobos e sim cordeiros. Tais quais cordeiros livres, os homens, no estado de natureza, vivem em plena felicidade. Foi a civilização que fez com que muitos cordeiros se tornassem violentos e pensassem ser lobos. A soberania do Leviatã não é desejável porque além de retirar do homem a sua liberdade natural impossibilita a construção de uma liberdade civil, que só é possível quando a vontade geral é soberana. A conquista da liberdade civil estaria na reeducação por meio de leis "corderiais" que, metaforicamente, fizessem com que os cordeiros reconhecessem que são cordeiros. Ainda a respeito da dicotomia lobo/cordeiro, há outras observações curiosas. Para Frederich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, a natureza produz homens-lobos e homens-cordeiros e não podemos ignorar que lobos estão aparelhados para devorar cordeiros. Quando só restarem lobos, as forças naturais produzirão superlobos que devorarão antigos lobos numa progressão infinita de vidas cada vez mais fortes. A moral nietzschiana é a da exuberância da força e do vitalismo das potências naturais ou super-humanas. É uma moral que pretende ir além do bem e do mal (se é que isso é possível). Nietzsche afirma que dicotomia entre bem e mal não passa de invencionice resultante do ressentimento e da fraqueza dos cordeiros. "Toda moral é [...] uma espécie de tirania contra a 'natureza' e também contra a 'razão'" (NIETZSCHE, 1886,p. 110). TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA 61 Michel Foucault (1926-1984) diria que lobos e cordeiros habitam cada um de nós e ambos teriam desenvolvido estratégias de sobrevivência que tornariam extremamente complexa a luta entre os dois, uma complexidade tal que o cordeiro, em determinados momentos, poderia estar sob a condição de ataque. Nesse caso, a questão moral só poderia ser definida dentro de um contexto muito específico onde se levariam em conta os sujeitos envolvidos, suas estratégias, suas relações de poder... Foucault é o criador da microética. 4 A MORAL KANTIANA A moral kantiana é a concebida por Immanuel Kant (1724-1804), filósofo prussiano. Sua intuição principal foi que o indivíduo deve estar livre para agir "não em virtude de qualquer outro motivo prático ou de qualquer vantagem futura, mas em virtude da ideia de dignidade de um ser racional que não obedece a outra lei senão àquela que ele mesmo simultaneamente se dá" (KANT, 1785, p. 16). A ação moral exige a autonomia do agente. Ser autônomo é obedecer a si mesmo ou ao que vem de dentro. É o inverso do heterônomo (o que obedece a ordem do outro, obedece ao que vem de fora). Não se pode falar em ética sem autonomia pois a ação heterônoma (cuja vontade vem de fora) não é uma ação ética. A moral aristocrática e a utilitarista não são eticamente válidas porque dependem de algo exterior: a primeira, de ideais transcendentes e a segunda, de ideais imanentes. Para realizar a autonomia, a ação moral deve obedecer apenas ao imperativo categórico: o bom senso interior que todos nós temos de perceber que não somos instrumentos e sim agentes. Nunca instrumentalizar o homem é a exigência maior do imperativo categórico. Kant fornece uma regra para saber se uma decisão nossa obedece ou não ao imperativo categórico: indague a si mesmo se a razão que te faz agir de determinada maneira pode ser convertida em lei universal, válida para todos os homens. Se não puder, esta tua ação não é digna de um ser racional, não é eticamente boa porque falta-te a autonomia, estás agindo premido por circunstâncias exteriores a ti. O bem ético é um bem em si mesmo. Ao realçar a exigência da autonomia da ação moral, Kant desperta a questão da liberdade ética. O conceito de liberdade ética parte da distinção entre ação reflexa e ação deliberada. A ação deliberada é aquela que resulta de uma decisão, de uma escolha, é o mesmo que ação autônoma. A ação reflexa é "instintiva", independe da vontade do agente. Apenas as ações deliberadas podem ser analisadas sob o ponto de vista ético. Voltemos ao exemplo do gato que morde o homem que lhe pisou a cauda. O gato tentou afastar o que lhe era um mal, mas não podemos dizer que ele escolheu morder o homem. Logo, não se pode dizer que o gato agiu de forma imoral ou antiética. A questão da liberdade ética pode ser assim resumida: Levando-se em conta que somos animais e ocasionalmente agimos de forma reflexa, em que condições nossa ação pode ser considerada uma ação deliberada? 62 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Henri Bergson (1859-1941) e Jean-Paul Sartre (1905-1980) respondem a essa pergunta de forma radical: O livre-arbítrio é a qualidade que melhor define o homem. A própria condição humana exige que todo ato humano seja um ato de escolha, seja uma ação deliberada. O homem está condenado à liberdade porque nunca pode decidir não escolher. Diante da consciência de que nos vemos forçado a realizar algo por imposição exterior, passamos a ter liberdade de escolher entre entregar-se à ação ou ir de encontro a ela. FONTE: Adaptado de <http://ialexandria.sites.uol.com.br/textos/israel_textos/etica_e_moral.htm>. Acesso em: 20 jun. 2020. 63 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A ética e a moral permeiam em nosso agir perante a sociedade, desde o estudo do comportamento, até a sua prática real cotidiana das relações humanas e sociais. • A ética e a moral estão correlacionadas a uma ciência, um estudo do comportamento e das normas de conduta. • A moral retrata nossos costumes e hábitos cotidianos, pois seu caráter é social e está pautado na história, cultura e natureza dos seres humanos. • A moral está compreendida como um conjunto de normativas, regras, leis, regulamentos e princípios, que são instituídos pelo coletivo social, mas individualizada na consciência dos homens e mulheres que vivem e convivem em sociedade. • A moral são princípios comportamentais adquiridos com a herança histórica da humanidade e preservadas pelas pessoas que vivem em grupos sociais. • O balanço comparativo entre a ética e a moral demonstrou que as duas estão amplamente conectadas, mas apresentam sutis diferenças, porque a ética denota um conceito subjetivo e teórico sobre a consciência das regras sociais, já a moral se apresenta mais de cunho prático e objetivo, proporcionando uma tratativa da conduta humana por intermédio de regras e códigos de condutas socialmente constituídos. • A ética sempre procurará conhecer as formas das tratativas do bem e do mal no âmbito holístico, do coletivo social, já a moral busca tratar o agir humano de forma individualizada, tratando o certo e o errado nos seus regulamentos e normas institucionalizadas. • Os seres humanos não nascem com os conhecimentos éticos e postura moral, eles se tornam éticos no decorrer do seu desenvolvimento intelectual ao longo de sua história. • A ética é aprendida pelo estudo do comportamento humano em sociedade, e a moral necessita ser imposta pelos regramentos sociais de convívio humano. • A ética é manifestada a partir do interior das pessoas, de sua consciência, já a moral expressa-se no exterior do indivíduo, na conduta dos seus atos. • Uma pessoa aética, é um indivíduo que não possui ou é deficiente da consciência do coletivo, dos atos e costumes gerais do meio em que vive e convive. Possui insuficiência ou carência da compreensão dos estudos históricos da composição dos juízos de valores. 64 • Uma pessoa amoral, é um indivíduo que não possui ou é deficiente na forma que conduz seus atos perante a sociedade que vive e convive, pele simples fato de lhe faltar a compreensão de como agir perante os regramentos impostos. Possuindo, assim, insuficiência ou carência na sua forma de agir, na sua atitude e conduta, na sua aplicação da norma, pois não a compreende. • Uma pessoa antiética, é um indivíduo que possui argumentos no sentido contrário da consciência coletiva do que é certo e errado, do que é fazer o bem ou o mal. Demostrando estar em oposição aos atos e costumes gerais da sociedade em que está inserido, como também é avesso ao estudo dos juízos de valores constituído historicamente. • Uma pessoa imoral, é um indivíduo que não segue as regras de conduta socialmente constituídas pelo coletivo social, pelo seu livre arbítrio. É fazer, ser oposto ou querer o contrário das normas. São avessas a qualquer código de conduta, por consciência de querer contrariá-la. • Fizemos uma breve discussão da gênese da consciência e do senso moral, discutindo a questão da necessidade deles no desenvolvimento humano em sociedade. • Estudamos a questão da classificação dos estágios da consciência ética e do julgamento moral dos seres humanos, desvelando e buscando compreender as etapas e níveis da evolução humana. • A base dos seis estágios da consciência ética e do julgamento moral dos seres humanos se encontra na sua fase do desenvolvimento intelectual, para possibilitar o discernimento e compreensão dos fatos e das coisas, possibilitando seu empoderamento do intelecto e tomadas de decisão, do que é certo ou errado, do que é fazer o bem, ou o mal. • Os seis estágios da consciência ética e moral que foram propostos por Kohlberg (1981), são: o Primeiro estágio: medo, punição e obediência: denominado como a fase do medo, punição e obediência, que está norteada por orientações de obediência, para,assim, evitar a punição, demostrando que o medo de não obedecer ao socialmente posto, gera temor do castigo que possa ter, e assim segue com um comportamento de obediência, pois tem medo de ser descoberto que possa ter feito algo considerado errado pela sociedade que vive e convive. o Segundo estágio: recompensa: denominado como a fase da recompensa, estão pautadas no prazer individual, desprovida de malícia, e na transação ou negociação de barganha para conseguir o que deseja. Ações única e exclusivamente para satisfação pessoal. O objetivo desse comportamento é a reciprocidade restrita em obter uma recompensa. o Terceiro estágio: aprovação social: denominado como a fase da aprovação social, demostrando que nas relações interpessoais, buscar ser considerado uma boa pessoa é um bom negócio, para ter um convívio social pleno e ser aprovado socialmente. Aqui, procuramos nos orientar pelos valores 65 socialmente constituídos, buscando mantê-los íntegros, conforme as normativas, regras e legislações vigentes, mas sempre no intuito de agradar o grupo social a que fazemos parte, não pelo simples fato de seguir as normas. As ações que agradam o coletivo são consideradas boas, e que o caráter humano é reconhecido por estes atos compartilhados e positivados nas relações interpessoais. o Quarto estágio: manutenção da ordem social: denominado como a fase da manutenção da ordem social, pois, nesta etapa, o nosso comportamento social é orientado pelas normas, leis, regras e ordem social. Procura manter os valores e princípios socialmente constituídos. Aqui, é a manutenção das leis e normas e o respeito às lideranças que propiciam a promoção do bem-estar social da população, pois, o importante, aqui, sempre será o cumprimento da lei e da ordem, cumprindo nossos deveres e obrigações com a sociedade em que fazemos parte, além de respeitar os processos decisórios de nossos gestores, pois assim proporcionaremos a promoção do bem-estar social. o Quinto estágio: proteção do bem-estar coletivo: denominado como a fase da proteção do bem-estar coletivo, demonstrando que é possível realizar a mudança normativa, desde que devidamente justificada e legal, quem está nesta fase, consegue enxergar além das normativas postas, pois procuram aprimorar o contrato social posto. Aqui, neste estágio, as pessoas se orientam pela melhoria constante do contrato social e suas normativas institucionalizadas, procurando o exercício do respeito aos direitos civis, sociais e individuais, no intuito de protegê-las e verificarem sua eficácia, para angariar a promoção do bem-estar do coletivo social. As pessoas procuram ir além do socialmente posto, para poder contribuir a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, pois entendem que somos todos diferentes. o Sexto estágio: zelo pelos princípios éticos universais: denominado como a fase do zelo pelos princípios éticos universais, cujas pessoas se orientam pelos princípios éticos universais, a qual procuram zelar por esses valores éticos-morais ao longo da história da humanidade, pois se lembra que a ética reflete os hábitos e costumes gerais de uma sociedade, suas normativas e convenções, que fora institucionalizada pelo coletivo social, a moral é a forma que conduzimos nossos atos perante o outro, ou seja, é a conduta em si. Assim, somos incitados a zelar por esta consciência dos princípios éticos e de justiça universais que refletem as nossas condutas na sociedade em que estamos inseridos. 66 1 A ética e a moral muitas vezes são confundidas em sua definição, mas tem nuances importantes a serem entendidas pelos profissionais. Todos precisamos estar cientes que precisamos viver em sociedade e por isso mesmo precisamos agir de forma moral e termos uma ética a zelar. Sobre os conceitos de ética e moral, associe os itens, utilizando o código a seguir: I- Ética II- Moral. ( ) É a ciência que estuda a moral. ( ) É o conjunto de normas, prescrição e valores reguladores da ação cotidiana. ( ) É a reflexão sistemática sobre o comportamento moral. ( ) Conjunto de normas e regras reguladoras da relação entre os homens de uma determinada comunidade. ( ) Retrata nossos costumes e hábitos cotidianos, pois seu caráter é social e está pautado na história, cultura e natureza dos seres humanos ( ) É a parte da filosofia que trata da reflexão dos princípios universais da humanidade. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) I – II – I – II – II – I . b) ( ) II – I – II – I – I – I . c) ( ) I – II – II – II – II – I. d) ( ) II – II – I – I – II – II. 2 Assistimos constantemente nos telejornais situações relacionadas a descaminhos que diversas pessoas têm na sociedade, como roubos, subornos, perversões diversas acometidas contra o outrem, situações muitas vezes corriqueiras em nosso convívio social da vida cotidiana, que nem damos conta, desvirtuando os preceitos éticos-morais socialmente constituídos. Sobre estes conceitos, associe os itens apresentados, utilizando o código a seguir: I - Aético. II - Amoral. III - Antiético. IV - Imoral. ( ) Ausência de ética. ( ) Contrário a ética. ( ) Contrário a moral. ( ) Ausência de moral. AUTOATIVIDADE 67 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) IV – I – III – II. b) ( ) II – I – III – IV. c) ( ) I – III – IV – II. d) ( ) III – II – I – I V. 68 69 TÓPICO 3 — UNIDADE 1 A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE FIGURA 14 – DILEMAS ÉTICOS FONTE: <http://arquidiocesebh.org.br/noticias/etica-entre-o-conhecimento-e-a-acao/amp/>. Acesso em: 5 nov. 2020. “Os axiomas éticos são encontrados e testados não muito diferentemente dos axiomas da ciência. A verdade aparece com o teste da experiência”. Albert Einstein 1 INTRODUÇÃO Prezado acadêmico, neste tópico, realizaremos uma reflexão dos dilemas éticos que vivemos no nosso cotidiano da vida pessoal e profissional, discutindo a questão da ética na atualidade, perpassando por algumas questões polêmicas sobre a ética na contemporaneidade, além de fazer algumas reflexões sobre a ética, a liberdade e o compliance. Também procuraremos abordar a questão do livre-arbítrio, da escolha e suas consequências e responsabilidades, para, assim, perceber a liberdade como uma das capacidades humanas, bem como algumas questões consideradas polêmicas referentes à ética, como a ética na atualidade, na família, na sociedade civil e no estado. Vamos lá, mas antes, reflita! “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explica e ninguém que não entenda”. Cecília Meireles 70 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA 2 ALGUMAS QUESTÕES POLÊMICAS SOBRE A ÉTICA NA CONTEMPORANEIDADE Acadêmico, neste momento, refletiremos sobre algumas polêmicas e dilemas éticos na contemporaneidade. Antes, vejamos o que Valls (2003, p. 70) nos apresenta: [...] a ética foi reduzida a algo de privado. [...] Ora, nos tempos da grande filosofia, a justiça e todas as demais virtudes éticas referiam- se ao universal (no caso, ao povo ou à polis), eram virtudes políticas, sociais. Numa formulação de grande filosofia, poderíamos dizer que o lema máximo de ética é o bem comum. E se hoje a ética ficou reduzida ao particular, ao privado, isto é um mau sinal. Sob este bem comum, na visão de Valls (2003), estamos saindo das concepções universais, do todo, para um comportamento individualizado, privado, centralizando nossas ações aos fatos particulares de nossa vida em sociedade e não somente no contexto ético-moral universal. Assim, segundo Pieritz (2013, p. 49-50): Não se pode esquecer que os valores, os hábitos e os princípios formam a consciência moral dos seres humanos, e esta consciência moral torna- se um fator preocupante nos dias de hoje, pois os indivíduos possuem suas responsabilidades individuais e coletivas perante a sociedade em que vivem, contudo, muitas vezes, o dever ético respalda muito mais no indivíduodo que na coletividade, mesmo que os valores éticos sejam constituídos pela sociedade como um todo. Denotando, assim, que o ser humano está muito mais preocupado com seus direitos e deveres individuais, deixando, muitas vezes, o coletivo de lado, lembre-se de que os princípios éticos-morais foram constituídos pelo coletivo social a que pertencemos. Assim, o nosso agir individual continua pautado nessas normativas sociais universais. Agora, questionamos: • O que é ter uma vida ética nos dias de hoje? • Você conhece alguns dilemas éticos? Antes de responder, vejamos alguns exemplos dos dilemas éticos e morais que vivenciamos em nossa sociedade nos tempos de hoje: Dilemas éticos e morais: • compliance; • as formas de reprodução humana, como a reprodução assistida; • o aborto; • a inteligência artificial; TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE 71 • a clonagem; • a corrupção, sonegação; • a transfusão de sangue nos pacientes de certas religiões; • o suicídio assistido – eutanásia; • os alimentos transgênicos, que são geneticamente modificados. • ter filhos apenas como um meio de ganhar alguma coisa; • filho órfão já na concepção, por intermédio da reprodução humana além da vida de um dos pais, a fertilização in vitro; • a substituição do ser humano pela tecnologia; • cirurgia robótica; • terapias alternativas; • a histerectomia. Poderíamos estender esta lista de exemplos, mas não é o caso, o importante é fazer com que você compreenda que a nossa sociedade está permeada por dilemas éticos-morais, nas mais diversas esferas, e que eles são frutos do livre- arbítrio das escolhas humanas. Nesse sentido, Valls (2003, p. 71) expõe que “a liberdade se realiza eticamente dentro das instituições históricas e sociais, tais como a família, a sociedade civil e o Estado”. Portanto, possuímos a liberdade de escolher fazer o certo ou o errado, fazer o bem ou o mal, mas sempre pautados pelos princípios éticos-morais universais do nosso contexto social. Muitas vezes adentramos num dilema, indagando-nos a qual caminho devemos seguir? Compreendemos que um dilema é “uma situação difícil, na qual é preciso escolher entre duas alternativas contraditórias ou antagônicas ou insatisfatórias” (FERREIRA, 2008, p. 319). Essas situações de conflito, em que temos que escolher é realmente um grande dilema ético-moral para a humanidade, pois sempre teremos vários caminhos a percorrer, mas sempre devemos fazer três indagações antes de agirmos, como: Convidamos você a fazer um exercício de reflexão! Atividade: pegue um bloco de anotações e coloque, no mínimo, cinco dilemas éticos e morais que você possa detectar no seu bairro, município e estado. Esta atividade é para você poder refletir sobre eles com seus colegas no próximo encontro! Boa reflexão e debate! UNI 72 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA • Eu quero fazer ou não? • Eu devo fazer ou não? • Eu posso fazer ou não? Esses questionamentos ajudarão no posicionamento da nossa postura ética-moral, colaborando no esclarecimento do dilema das escolhas que podemos ou devemos fazer. Vale ressaltar que, nos dilemas das escolhas éticas-morais, perpassam três questões fundamentais, que são os dilemas dos valores, destinatários e meios. Vejamos! • Dilema dos valores: aqui, apresentam-se os conflitos dos valores éticos- morais, ou seja, as escolhas dos valores éticos, de ser ético ou antiético. Este é o dilema da escolha de seguir ser leal, de honrar o compromisso, de ser solidário, tolerante ou não. Ser justo ou injusto. Ser honesto ou desonesto. Também são os vários caminhos a seguir, por exemplo: honrar o nosso compromisso de pagar uma conta, uma dívida ou com este mesmo recurso, colaborar com a melhoria de qualidade de vida de uma família em situação de vulnerabilidade social, deixando, assim, de cumprir com um compromisso pessoal para amparar o outro. • Dilema dos destinatários: são aqueles dilemas e situações difíceis correlacionadas com as pessoas que irão se beneficiar com a ação da tomada de decisão, ou não. É relacionada aos agentes envolvidos, cuja situação conflitante está na escolha do destinatário da ação ou omissão, ou seja, quem será beneficiado ou prejudicado. • Dilema dos meios: aqui, o fator gerador da escolha da alternativa contraditória está única e exclusivamente na maneira de se alcançar o resultado desejado, ou seja, o meio, mecanismos e instrumentos utilizados para realizar a atividade e atingir seu fim. Esses meios são classificados por sua validação e legitimidade ética-moral. Esses dilemas, concernentes aos valores, destinatários e meios, devem ter por premissa o coletivo social, ou seja, devem prevalecer os interesses universais sobre os grupais e individuais, mesmo se as instâncias destes grupos menores possam ser feridas. Nesse processo de tomada de decisão individual ou coletiva, ainda temos mais dois aspectos a compreender, que são os sensos do dever e da importância da decisão a ser tomada: • Senso do dever: denota uma ética relacionada ao cumprimento dos deveres, tarefas e obrigações, ou seja, a consciência do dever de fazer ou não fazer alguma coisa. • Senso da importância: transmite uma ética permeada pelo seu desígnio, propósito e razão, denotando para que resultados queremos ter com nossa ação ou omissão, e qual a importância desses resultados para a vida cotidiana. TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE 73 Assim, os sensos do dever e da importância da decisão a ser tomada são muito importantes nessa discussão dos dilemas éticos-morais que vivenciamos o tempo todo, para podermos mediar o nosso comportamento nas relações humanas e sociais. 2.1 OS DILEMAS NO ÂMBITO DA FAMÍLIA Agora, realizaremos uma breve reflexão de algumas questões polêmicas sobre a ética na contemporaneidade no âmbito da família, oferecendo um momento para retratar as situações difíceis e algumas indagações que permeiam em nossa sociedade contemporânea. Iniciaremos essa discussão a partir de alguns questionamentos, vejamos! QUADRO 14 – INDAGAÇÕES REFLEXIVAS SOBRE A FAMÍLIA INDAGAÇÕES REFLEXIVAS SOBRE A FAMÍLIA Em relação à família, hoje se colocam de maneira muito aguda as questões das exigências éticas do amor. O amor não tem de ser LIVRE? O que dizer então da noção tradicional do amor livre? Ele é realmente livre? E como definir, hoje, o que seja a VERDADEIRA FIDELIDADE, sem identificá- la como formas criticáveis de possessividade masculina ou feminina? Como fundamentar, a partir dos progressos das ciências humanas, os compromissos do amor, como se expressam na resolução (no sim) matrimonial? E como desenvolver uma nova ética para as novas formas de relacionamento heterossexual? E como fundamentar hoje as preferências por formas de vida celibatária, casta ou homossexual? Fonte https://www.cubatel.com/blog/actualidad/cuando-llegara-el-nuevo-codigo-de-familia- -a-cuba/ FONTE: Adaptado de Valls (2003, p. 71) 74 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA São tantas indagações, certo! Pois bem! É assim mesmo! Já que estamos em constantes transformações humanas e sociais e essas mudanças refletem diretamente na relação entre pais e filhos e nas composições e configurações das novas estruturas familiares. Não trataremos das configurações familiares aqui, pois a intensão é somente demostrar que existe uma série de dilemas e indagações inerente à própria existência do homem na terra, principalmente nas suas relações intrafamiliares. Neste contexto, podemos observar que: As transformações histórico-sociais exigem, hoje, igualmente reformulações nas doutrinas tradicionais éticas sobre o relacionamento dos pais com os filhos. Novos problemas surgiram com a presença maior da escola e dos meios de comunicação na vida diária dos filhos. As figuras tradicionais, paterna e materna, não exigem, hoje, uma nova reflexão sobre os direitos e os deveres dos pais e dos filhos? Em especial, a reflexão sobre a dominaçãodas chamadas minorias sociais chamou a atenção para a necessidade de novas formas de relacionamento dentro do próprio casal. O feminismo, ou a luta pela libertação da mulher, traz em si exigências éticas, que até agora não encontraram talvez as formulações adequadas, justas e fortes. A libertação da mulher, a libertação de todos os grupos oprimidos, é uma exigência ética, das mais atuais. E, como lembraria Paulo Freire, em seu Pedagogia do Oprimido, a libertação não se dá pela simples troca de papéis: a libertação da mulher liberta igualmente o homem (VALLS, 2003, p. 72). Assim, pode-se perceber que os valores e princípios éticos e morais vão sendo renovados e reconfigurados conforme a própria evolução humana na terra, pois a humanidade vem se transformando ao longo da sua história. 2.2 REFLEXÕES SOBRE A SOCIEDADE CIVIL O objetivo, aqui, é fazer algumas reflexões polêmicas da ética-moral do dia a dia da sociedade civil, aprofundando o conhecimento acerca dos dilemas concernentes ao mundo do trabalho e à propriedade. Convidamos você a compreender mais essas novas configurações familiares. Nesse sentido, procure pesquisar sobre o tema e leve os resultados de sua pesquisa para o seu próximo encontro de sua turma. No entanto, procure debater esse assunto à luz dos princípios éticos e morais já estudados. DICAS TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE 75 Nesse sentido, Valls (2003, p. 72) expõe o seguinte: Como falar de ética num país onde a propriedade é um privilégio tão exclusivo de poucos? E não é um problema ético a própria falta de trabalho, o desemprego, para não falar das formas escravizadoras de trabalho, com salários de fome, nem da dificuldade de uma autorrealização no trabalho, quando a maioria não recebe as condições mínimas de preparação para ele, e depois não encontram, no sistema capitalista, as mínimas oportunidades para um trabalho criativo e gratificante? Num país de analfabetos, falar de ética é sempre pensar em revolucionar toda a situação vigente. Pieritz (2013, p. 51) expõe que nesse contexto se faz “necessário algumas reformas políticas e éticas, no que tange às regras de conduta referente ao modo de aquisição da propriedade e do trabalho. Essa reforma deve partir da reformulação dos nossos princípios morais e éticos e através da vontade política de nossos governantes”. Ainda, segundo Valls (2003, p. 73): Crítica atual insiste muito mais, agora, sobre a injustiça que reside no fato de só alguns possuírem os meios da riqueza, e a crítica à propriedade se reduz sempre mais apenas aos meios de produção. [...] A propriedade particular aparece agora, nas doutrinas éticas, principalmente como uma forma de extensão da personalidade humana, como extensão do seu corpo, como forma de aumentar sua segurança pessoal, e de afirmar a sua autodeterminação sobre as coisas do mundo. 2.3 PONDERAÇÕES SOBRE OS DILEMAS DO ESTADO Proporcionaremos, agora, uma reflexão de algumas questões polêmicas sobre o comportamento ético-moral na contemporaneidade relativo ao Estado. O Estado denota “ser muito mais complexo, pois os ideais políticos são um tanto mais complicados de se compreender” (PIERITZ, 2013, p. 51). Sobretudo, quando abordamos da questão liberdade. De acordo com Valls (2003, p. 74): Prezado acadêmico, convidamos-lhes a compreender mais essas novas configurações do mundo do trabalho e suas relações trabalhistas. Assim, procure pesquisar os dilemas profissionais da profissão que você está exercendo hoje, e leve os resultados de sua pesquisa para o próximo encontro de sua turma. Contudo, procure debater esse assunto à luz dos princípios éticos e morais já estudados. DICAS 76 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA [...] a liberdade do indivíduo só se completa como liberdade do cidadão de um Estado livre e de direito. As leis, a Constituição, as declarações de direitos, definição dos poderes, a divisão destes poderes para evitar abusos, e a própria prática das eleições periódicas aparecem hoje como questões éticas fundamentais. Ninguém é livre, numa ditadura [...]. Assim, indaga-se: qual é a função do Estado? Valls (2003, p. 75) complementa expondo que “os Estados que existem de fato são a instância do interesse comum universal, acima das classes e dos interesses egoístas privados e de pequenos grupos. [...] Em outras palavras, o Estado real resolve o problema das classes, ou serve a um dos lados, na luta de classes?”. 3 REFLEXÕES SOBRE A ÉTICA E LIBERDADE Primeiramente, gostaríamos de contar a história A águia e a galinha, uma adaptação da fábula contada por Leonardo Boff no livro a Águia e a galinha. A ÁGUIA E A GALINHA Numa tarde sonolenta de verão, voltava um criador de cabras do alto de uma planura verde. Quando passava ao pé de uma montanha, encontra um ninho de águias todo estraçalhado. Semicoberta por gravetos, havia uma jovem águia ferida na cabeça, parecia morta. Era uma águia-harpia brasileira, ameaçada de extinção no Brasil. Recolheu a águia com cuidado e pensou em levá-la ao seu vizinho, que empalhava animais. Ele ficou admirado por se tratar de uma águia-harpia. Também supôs que estivesse morta e a colocou ternamente debaixo de uma cesta. Na manhã seguinte, teve grata surpresa. Percebeu que a águia mexia levemente. Havia feridas em várias partes do corpo e a águia estava cega. Sentiu muita pena da jovem águia. Por misericórdia, quase quis sacrificá- la. Até encontrava razões para isso, visto que matam muitos animais pequenos, especialmente macacos, preguiças, lebres e patos. Sabia que, na Austrália, as águias são mortas às centenas por serem prejudiciais aos cangurus e outros animais pequenos. Pensou muito, mas lembrou-se da tradição espiritual de Buda e veio-lhe à mente: “escolha a vida e viverá”. TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE 77 Por todos esses argumentos, decidiu preservá-la e tratá-la com carinho. Todo dia partia-lhe pedaços de pão e carne e a alimentava com dificuldade. Depois de um ano, começou a perceber que os sentidos despertavam para a vida. Primeiro os ouvidos. Depois, começou a se mover por si mesma. Andava pela sala e pelo jardim. Recuperou sua voz, mas continuava cega. Os olhos são tudo para uma águia. Seu olhar vê oito vezes mais que o olho humano. Por fim, o empalhador decidiu colocá-la junto às galinhas. Durante dois anos circulava cega entre elas. Andava com dificuldade, pois suas garras não foram feitas para andar. Eis que um dia, a águia começou a enxergar. Depois de três anos de paciente cuidado, ela recuperara seu corpo de águia, porém, vivia como uma galinha. Certo dia, um casal de águias passou por ali. Deu voos rasantes. Ao perceber as águias no céu, a águia-galinha espalmava as asas e sacudia a cauda. Seu coração de águia voltava a pulsar aos poucos. Passado algum tempo, o empalhador recebeu a visita de um naturalista, que ficou perplexo ao ver a águia-galinha. Decidiram fazer um teste. O empalhador colocou-a no braço e falou-lhe: — Águia, nunca deixará de ser águia, estenda suas asas e voe. Vendo as galinhas, a águia deixou-se cair pesadamente. Fizeram nova tentativa, no terraço de sua casa, mas não funcionou. Aí ambos se lembraram da importância do sol para uma águia e a levaram no alto da montanha, de frente para o sol. O empalhador sustentou fortemente a águia sob o olhar confiante do naturalista e disse: — Águia, você é amiga da montanha, filha do sol, eu lhe suplico: desperte de seu sono! Revele sua força interior. Abra suas asas e voe para o alto! A águia ergueu-se soberba sobre o próprio corpo, abriu as longas asas, esticou o pescoço e alçou voo. Voou na direção do sol nascente. Voou até fundir- se no azul do firmamento. FONTE: BOFF, L. A águia e a galinha. In: TOMELIN, J. F.; TOMELIN, K. N. Do mito para a razão: uma dialética do saber. 2. ed. Blumenau: Nova Letra, 2002. p.129-130. Nesta história da águia e a galinha, podemos verificar que a vida é feita de escolhas, e elasnos conduzirão para o nosso destino, mas a essência humana fala mais alto, ou seja, os valores e princípios éticos e morais são os nossos guias de comportamento e são eles que revelam a nossa força interior. 78 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Caro acadêmico, faça como a águia, abra suas asas e voe para o alto! Tenha seu livre-arbítrio em suas escolhas! Compreendendo seus princípios éticos- morais para ter um comportamento socialmente condizente com os preceitos preestabelecidos. Afinal, o que é esta tal liberdade? QUADRO 15 – O QUE É LIBERDADE? O que é a liberdade? Luísa Guimarães Liberdade é um conceito encarado com bastante controvérsia. Um assunto que é discutido por muitos, os quais procuram uma resposta que parece inalcançável. Sempre foi, é, e penso que sempre será, uma das maiores questões da humanidade. Somos livres ou é uma mera ilusão? Temos limites e o outro tem limites? Todos procuramos a liberdade, sendo que a falta desta apresenta uma das mais temíveis ameaças. Será que somos realmente livres? O livre arbítrio é um apelo a essa liberdade, que se traduz no direito de agir de segundo própria vontade, na sensação de não depender de ninguém e no prazer de poder escolher, analisando antes as hipóteses que se encontram ao nosso dispor e ponderando sobre a nossa decisão final. Este é um tema que, mesmo podendo não parecer, é bastante complexo, até para alguns filósofos. Ninguém aparenta ter a capacidade para responder à “simples” questão: O que é a liberdade? uma pergunta intrigante que revela a complexidade de toda uma realidade com a qual não estamos habituados a conviver. Quando fazemos este tipo de questões a nós próprios, apercebemo-nos de que talvez não prestemos a devida atenção à maioria dos assuntos que nos rodeiam, dos mais simples aos mais labirínticos e, por vezes, desprezamo-los quando, na verdade, podem ser dos mais importantes. A liberdade está intimamente relacionada com a Ética uma vez que, agindo livremente, nós devemos ser responsabilizados pelos nossos atos e por isso devemos comportarmo-nos, em sociedade, da melhor forma para que ninguém seja prejudicado. Este é um assunto que deve ser discutido por todos nós para que possamos ter um contacto mais cuidado e atento com as diferentes realidades que dão vida ao nosso mundo e para que possamos entender o outro e agir da melhor forma. FONTE: <https://osraciociniosdeninguem.blogspot.com/2019/04/o-que-e-liberdade_22.html>. Acesso em: 25 jun. 2020. Assim, compreendemos que a liberdade é uma capacidade humana de tomar decisões perante os grupos sociais a que pertencemos, pois, segundo Pieritz (2013, p. 52): TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE 79 Devemos sempre partir do princípio de que a ética denota regras, normas e responsabilidades, mas também não podemos esquecer que a ética é um espaço de reflexão sobre a nossa vida cotidiana. Esta vida, que está pautada nos alicerces da moral humana em sociedade, deve também supor que todos os homens sejam livres. A partir disso tudo, o que é liberdade? QUADRO 16 – LIBERDADE FONTE: <https://bit.ly/36ztu13>. Acesso em: 18 nov. 2020. A LIBERDADE é: • A capacidade de determinar. • A posse das próprias faculdades. • Poder agir segundo próprio discernimento. • É o direito de fazer tudo quando quanto as leis permitem. • A obediência à lei que nós mesmos nos prescrevemos. • A faculdade de só obedecer a leis externas às quais pude dar o meu assentimento. • A segurança tranquila no exercício do direito. FONTE: Adaptado de Cunha (2011, p. 185) Pieritz (2013, p. 52) complementa expondo que: Quantas vezes tivemos o sentimento de estarmos presos, ou seja, não tendo liberdade para fazer aquilo que realmente desejamos; ou simplesmente poder escolher entre uma ou mais opções; ou ainda sentir-se livre para querer realizar as nossas mais subjetivas necessidades, tais como: escolher uma boa comida, comprar aquela roupa desejada, fazer aquele curso desejado e não imposto pela família ou sociedade, andar de bicicleta, fazer um esporte etc. Nesse contexto, observemos, no Quadro 17 e no texto a seguir, alguns aspectos importantes referentes à liberdade e às concepções da ética: 80 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Liberdade e ética Liberdade e ética, binômio fascinante. A mentalidade medíocre vê apenas uma face do ser humano. A mentalidade sábia vê o ser humano em todos os seus aspectos. A mediocridade é disjuntiva: liberdade ou ética, ética ou liberdade. A sabedoria é conjuntiva: liberdade com ética é ética com liberdade. A visão estreita fragmenta o ser humano. A visão ampla é arquitetônica. Engloba liberdade e ética. Liberdade e ética possuem reciprocidade positiva. Intercomunicam- se e se interfecundam. A liberdade acelera a ética e a ética tonifica a liberdade. Interligadas, estimulam a “mútua criação”. A ética pressupõe a liberdade. A pedra, a planta, o animal e o homem coagido não exercem ato ético, porque não dispõem de liberdade para a atividade ética. Por outra parte, sem ética, a liberdade pode adotar procedimentos tortuosos. A liberdade requisita referenciais éticos para mover- se com legitimidade. A ética oferece balizas aos passos livres. Valores éticos são flechas que apontam rumos à liberdade. A ética sinaliza trânsito aberto ou fechado para a arrancada da liberdade. Liberdade e ética não são infalíveis. Podem tropeçar no percurso da vida. Estão sujeitas a falhas e a deformações. O eticismo é vazio de sentido. O autoritarismo ético veta inovações. A ética negativa proíbe iniciativas QUADRO 17 – CONCEITO DE ÉTICA FONTE: <https://bit.ly/36ztu13>. Acesso em: 18 nov. 2020. A ÉTICA é: • A moral individual ou subjetiva, por oposição à moral social. • A filosofia da moral. • É a ciência cujo objeto é a moral. • O ramo do conhecimento cuja finalidade é estabelecer os melhores critérios para o agir. FONTE: Adaptado de Cunha (2011, p. 140) Vejamos, agora, uma breve leitura sobre a liberdade e a ética. Boa leitura! TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE 81 construtivas e condena atitudes lícitas. O fundamentalismo ético revela rigorismo patológico. Por outra parte, o libertarismo torna ilimitável pretensões abusivas da liberdade. E não leva em conta a liberdade e os direitos dos outros. Também a liberdade pode ensandecer na irracionalidade. A ética ditatorial avisa: “Aqui mando eu”. E a liberdade destemperada ameaça: “Sou livre e faço o que quero”. Ora, a ética tem a função de encaminhar a liberdade, e não de bloqueá-la arbitrariamente. E, por sua vez, a liberdade nem sempre pode justificar-se a si mesma, porque acerta, mas também desacerta. Não basta ser livre para ter o direito de fazer tudo o que é executável. Com liberdade fazem-se maravilhas, mas também se faz o pior. Se bastasse ser livre para agir retamente, então matar com liberdade, estuprar com liberdade e rapinar dinheiro público com liberdade seriam procedimentos legítimos, mas são execráveis. Apesar de livres, são totalmente imorais. Pico della Mirandola, protagonista do “humanismo orgulhoso”, confessa que se pode fazer “uso funesto da livre escolha”. Todo ser humano honesto reconhece que o direito à liberdade não sanciona ações criminosas praticadas livremente. Sartre mostra que a liberdade é inerente ao ser humano. E, ao mesmo tempo, aponta o caráter ético da liberdade ao escrever que o “homem é livre porque, lançado no mundo, é responsável por tudo quanto fizer”. A liberdade possibilita a ética, e a ética salvaguarda a liberdade. Liberdade madura não dispensa a ética, e ética lúcida não amordaça a liberdade. O sujeito humano unifica, em si, liberdade e ética. Não se deve divorciá-las. Há que mantê-las organicamente articuladas. Orientar eticamente a liberdade não é aprisioná-la, mas consolidá-la. O mundo atual pede mais liberdade e mais ética. Juntas, contribuem para que a humanidade seja autônoma e justa. Sem liberdade, a humanidadeé submetida à escravidão. E, sem ética, é submetida a crueldades repugnantes. Rousseau diz que “só a liberdade moral torna o homem senhor de si mesmo”. A humanidade, quanto mais livre, deve ser mais ética. E quanto mais ética, deve ser mais livre. E concretizemos, com o pensamento e as mãos, a utopia de uma nova humanidade livremente ética e eticamente livre. “O que mais irrita um tirano é a impossibilidade de pôr a ferros também o pensamento do homem”. Poul Volarey. FONTE: Adaptado de <http://www.qir.com. br/?p=6180>. Acesso em: 18 nov. 2020. De acordo com Pieritz (2013, p. 54): Sabemos que todos os homens necessitam de liberdade. Os animais também precisam dela. A liberdade pode ser entendida como um processo de poder fazer escolhas. Estas escolhas devem ser sempre pautadas sobre os nossos princípios morais e éticos, para que, assim, não possamos prejudicar os outros. 82 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Barroco (2000, p. 54) complementa expondo que: A liberdade como capacidade humana é, portanto, o fundamento de ética. Assim, agir eticamente, em seu sentido mais profundo, é agir com liberdade, é poder escolher conscientemente entre alternativas, é ter condições objetivas para criar alternativas e escolhas. Por sua importância na vida humana, a liberdade é também um valor, algo que valorizamos positivamente, de acordo com as possibilidades de cada momento histórico. Por tudo isso, podemos perceber que a liberdade é também uma questão ética das mais importantes, pois nem todos os indivíduos sociais têm condições de escolher e de criar novas alternativas de escolha. Nesse contexto, Pieritz (2013, p. 54) expõe ainda que: O formato da vida em que estamos inseridos demonstra a situação de que os homens estão sempre tomando decisões sobre onde, como, para onde, o que estão fazendo ou vão realizar. A nossa própria existência pode ser considerada instável e incerta, porque mudamos de opinião o tempo todo. O mundo está em constante transformação e, por consequência, os nossos hábitos e costumes também, devido ao fato de que os seres humanos estão o tempo todo em movimento. Segundo Pieritz (2013, p. 54), “não sabemos se choverá amanhã ou fará sol, não sabemos realmente o que pode acontecer no dia seguinte e nem o caminho que vamos tomar daqui para frente”. De acordo com Tomelin e Tomelin (2002, p. 128): Posso existir se constitui a cada dia, pois o homem não é algo pronto e acabado, é um ser em movimento e que tem possibilidades de escolha. O nosso existir revela uma escolha. Uma escolha de nossos pais, ao terem um filho e uma escolha nossa, de optarmos todos os dias pela vida. Ainda, de acordo com Pieritz (2013, p. 54): Podemos compreender que somos livres, temos o poder de escolha entre as inúmeras possibilidades que o universo nos proporciona. Só que não podemos esquecer que toda escolha denota uma responsabilidade, não vivemos isolados, mas numa sociedade e, perante ela, podemos, de certa maneira, influenciar os outros conforme as nossas próprias escolhas. Vale ressaltar que toda escolha que fazemos determinará a nossa própria existência junto ao grupo social que fazemos parte. Por fim, de acordo com Pieritz (2013, p. 55): A moral, por meio das normas de conduta, determina como devemos agir perante a sociedade em que vivemos. E se devemos agir deste modo, conforme as diretrizes morais e éticas, é porque existe a possibilidade de as pessoas fazerem o contrário, ou seja, não agirem conforme as normas de conduta preestabelecidas pela sociedade. [...] Temos a liberdade de escolha, pois muitas vezes nos indagamos se realmente devemos obedecer ou não a estas regras, pois cabe a cada um de nós decidirmos o que é certo ou errado, o que é fazer o bem ou o mal. É claro, esta decisão deve ser tomada à luz de nossos valores e princípios éticos, que foram e são constituídos pela sociedade como um todo. TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE 83 Prezado acadêmico, para encerrar a Unidade 1, trazemos uma leitura complementar sobre o compliance, aqui, está apenas uma síntese, um extrato do artigo completo estará disponível para você, quando estudares o Estudo Transversal VI – Compliance. Boa Leitura! Msc. Dra. Vera Lucia Hoffmann Pieritz Compliance é um termo que tem tido grande repercussão nos últimos anos, principalmente pelos fatos que têm ocorrido nos meios políticos e com as suas relações com as empresas. O termo Compliance possui a sua origem do inglês do verbo to comply, que conforme o Dicionário Collins define, é agir conforme ou de acordo com uma regra definida, uma norma interna, um comando ou uma instrução passada. Os princípios e ideias-bases do compliance surgem com a evolução da sociedade moderna e a industrialização, e esses princípios foram amadurecendo conforme surgiam casos/escândalos que chocavam a comunidade ou, ainda, por questões políticas relacionadas a controles necessários para o bem-estar da população. Conforme destacado por Ribeiro e Diniz (2015, p. 87), compliance tem como o âmbito o foco empresarial e é uma expressão que se volta para as “ferramentas de concretização da missão, da visão e dos valores de uma empresa”. As autoras ainda complementam que “Não se pode confundir o Compliance com o mero cumprimento de regras formais e informais, sendo o seu alcance bem mais amplo”. Conforme a ABBI – FEBRABAN (2019), um dos primeiros documentos que iniciou a ideia de programas de Compliance teve sua origem nos Estados Unidos, no ano de 1913, quando fora criado o Federal Reserve System (Banco Central dos EUA), o qual teve como foco principal desenvolver um sistema financeiro mais estável, seguro e adequado às leis americanas, evitando assim fraudes no sistema bancário. LEITURA COMPLEMENTAR 84 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA Com a promulgação no congresso Brasileiro da Lei nº 12.846/2013 (Lei Anticorrupção Empresarial – também conhecida como LAC), o termo Compliance vem sendo mais utilizado por nós, brasileiros, e somente mais recentemente devido aos problemas de escândalos em nível político, que gerou como consequência uma nova visão jurídica tanto em nível empresarial como político, gerando uma conscientização para uma nova realidade jurídica nacional de repressão à corrupção. Apesar dessa nova empreitada empresarial e jurídica, vimos o Compliance amadurecendo no país de forma consistente há alguns anos, com as agências reguladoras, Banco Central e leis criadas para regular questões nos mais variados âmbitos e que trabalham para proteger a população, as empresas e os integrantes dos governos sobre a égide da ética e boa governança das ações como um todo. Para controlar e gerir todas essas questões legais e desenvolver a política de compliance nas organizações, elas têm desenvolvido o conceito de Governança Corporativa e a sua eficiência deve se basear: [...] numa análise criteriosa da adequação dos processos, da cultura e da disciplina organizacional, recursos humanos e tecnologia, e na aplicação de controles rigorosos, preventivos e detectivos no gerenciamento dos Riscos. Deve pautar-se, ainda, em uma atuação conjunta com os gestores na avaliação, gestão e monitoração dos mecanismos de medição de informações de desempenho (ABBI – FEBRABAN, 2019, p. 8). Conforme Perez e Brizoti (2016), ABBI – Febraban (2019), Ribeiro e Diniz (2015), ao desenvolver uma política de compliance, a organização trabalha o dever de respeitar, de estar em conformidade (conforme terminologia utilizada na ISO 9000 e em meios jurídicos) para fazer cumprir por todos os seus funcionários e colaboradores tanto os regulamentos internos da organização, como os externos, leis e diretrizes de mercado que podem ser uma regulação – fiscal-financeiro- contábil, sempre com transparência e ética, conforme são os preceitos determinantes às atividades em que a organização empresarial desenvolve os seus trabalhos. Temos diversas referênciasque citam as principais leis, normas e regulamentos, que um compliance deve se basear dependendo da área de ação da organização. Assim, as principais são apresentadas no Quadro 1. QUADRO 1 – EXEMPLOS DE POLÍTICAS, NORMAS INTERNAS, LEIS PARA REFERÊNCIA AO COMPLIANCE Políticas e Normas internas – produzidas pela organização: • Códigos de Conduta. • Política de Segurança Corporativa. • Normas Internas. • Normas ISSO. • Termos de Responsabilidade. TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE 85 • Termos de Confidencialidade. • Termos de Aceitação e Uso. • Políticas de Responsabilidade Social e Ambiental etc. Legislação Nacional e Regulamentar – Leis, Decretos, Portarias, Resoluções, Instruções Normativas, Pareceres: • Lei Anticorrupção Brasileira (12.846/2013). • Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011). • Lei de Conflito de Interesses (Lei nº 12.813/2013). • Lei das Estatais (Lei nº 13.303/2016). • Lei das S.A. (6.404/1976). • Código de Processo Civil (13.105/2015). • Código Civil (10.406/2002). • Lei de Informática e Automação (8.248/1991). • Lei do Desenvolvimento e Inclusão Social (13.146/2015). • Leis e normas que regulamentam Condomínios residenciais e comerciais etc. Regulação de Mercado Nacional e Internacional: • Código de Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC. • Instruções Normativas da CVM (Comissão de Valores Mobiliários). • Instruções Normativas da RFB (Receita Federal Brasileira). • Instruções Normativas Setoriais (ANS, ANSINE, IBAMA, INSS etc.). • Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária CONAR. • Práticas exigidas, baseadas na Lei Norte-Americana FCPA (Foreign Corrupt Practices Act) anticorrupção. • Diretrizes da OCDE sobre governança corporativa para empresas de controle estatal etc. Normativas Técnicas Nacionais e Internacionais – produzidas por Entidades e Institutos: • Normas Técnicas ABNT NBR – ISO/IEC e as internacionais. • Norma IFRS (International Financial Reporting Standards) para práticas de contabilidade em padrão internacional. • Norma COPC® (Metodologia para gestão de Call Center). • Padrão Normativo MPS-br (Modelo para qualidade definido como “Melhoria de Processos do Software Brasileiro” – baseado nas normas ISO/ IEC 12207 e ISO/IEC 15504 e compatível com o CMMI). • Padrão PMBOOK (Project Management Body of Knowledge): guia baseado em um conjunto de práticas para a gestão de projetos, organizado pelo instituto PMI. • Padrão PCI DSS (Payment Card Industry Data Secutity Standart) é um amplo requerimento para quem opera cartões de crédito. 86 UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA • Requisitos Normativos BM&FBOVESPA Supervisão de Mercados (BSM). • Padrão Normativo CERFLOR para manejo florestal (CERFLOR conta com acervo normativo, e utiliza normas internacionalmente aceitas como as Diretrizes para auditorias de sistema de gestão (ABNT NBR ISO 19011): • NBR 14789:2012 – Manejo Florestal – Princípios, Critérios e Indicadores para Plantações Florestais. • NBR 14790:2014 – Manejo Florestal – Cadeia de Custódia (baseada na PEFC ST 2002:2013). • NBR 14792 – NBR 14793:2008 – NBR 15789:2013 – NBR 16789:2014 – NBR 15753:2009 – NBR 17790:2014 etc. FONTE: Adaptado de Perez e Brizoti (2016, p. 9 -11) Como você pôde ver no Quadro 1, são muitos os marcos legais nos quais uma organização precisa se aprofundar para desenvolver o setor de Compliance, e esse quadro só traz uma amostra para o seu conhecimento ao iniciar a trabalhar, se esse for o seu caso. Assim, o desenvolvimento do compliance dentro das organizações empresariais deve envolver todos os seus funcionários e gestores para desenvolverem um trabalho ético e reto, mas nessa visão está claro que o exemplo precisa vir de cima, dos diretores e executivos das empresas, como também ressalta a responsabilidade apregoada na lei anticorrupção. Com relação aos controles internos e à estrutura da organização, Peres e Brizoti (2016, p. 11) descrevem: A Estrutura da Organização (EO) deve apresentar quatro categorias de objetivos, o que permite às organizações se concentrar em diferentes aspectos dos controles internos (CI), como segue: Segurança – Esse aspecto está relacionado aos processos operacionais, de divulgação e de conformidade, promovendo a avaliação contínua de riscos e sua gestão, nas medidas preventivas de proteção, dos ambientes corporativos, das tecnologias empregadas, da segurança das informações, dos recursos humanos e na manutenção da continuidade dos negócios para a perenidade da organização. Operacional – Esse aspecto relaciona-se à eficácia e à eficiência das operações da empresa, inclusive as metas de desempenho financeiro e operacional e a salvaguarda de perdas de ativos. Divulgação – Esse aspecto relaciona-se a divulgações financeiras e não financeiras, internas e externas, podendo abranger os requisitos de confiabilidade, oportunidade, transparência ou outros termos estabelecidos pelas autoridades normativas, órgãos normatizadores reconhecidos, ou às políticas internas da organização. Conformidade – Esse aspecto relaciona-se ao cumprimento de leis, normas e regulamentações às quais a organização está sujeita. TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE 87 Logo, o compliance deve ser trabalhado constantemente para mitigar futuros problemas devido a possíveis desvios que possam ocorrer, e em grandes organizações, mesmo os pequenos desvios podem gerar prejuízos enormes em diversas frentes para o negócio. A Gestão de Compliance, trabalhando em conjunto com as outras áreas da organização, formam os pilares da Governança Corporativa, bem como um Sistema de Controles Internos e externos efetivos desenvolvem um sistema robusto de compliance empresarial, dando maior segurança jurídica ao negócio. Podemos concluir que o desenvolvimento das práticas de Compliance permitem que as organizações, conforme expresso por Peres e Brizoti (2016), permite identificar de forma proativa os possíveis desvios operacionais e de conduta humana, permitindo assim serem corrigidos, de modo que sejam minimizados os impactos no negócio, seja por perda de tempo, falhas em processos, desvios financeiros e, principalmente, de imagem no mercado. FONTE: PIERITZ, V. L. H. Compliance. Indaial: Uniasselvi, 2020. 88 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Estamos saindo das concepções universais, do todo, para um comportamento individualizado, privado, centralizando nossas ações aos fatos particulares de nossa vida em sociedade e não somente no contexto ético-moral universal. • O ser humano está muito mais preocupado com seus direitos e deveres individuais, deixando, muitas vezes, o coletivo de lado, mas lembre-se de que os princípios éticos-morais foram constituídos pelo coletivo social a que pertencemos e assim, o nosso agir individual continua pautado nessas normativas sociais universais. • Alguns exemplos dos dilemas éticos e morais que vivenciamos em nossa sociedade nos tempos de hoje, tais como: compliance; as formas de reprodução humana, como a reprodução assistida; o aborto; a inteligência artificial; a clonagem; a corrupção, sonegação; a transfusão de sangue nos pacientes de certas religiões; o suicídio assistido – eutanásia; os alimentos transgênicos, que são geneticamente modificados; ter filhos apenas como um meio de ganhar alguma coisa; filho órfão já na concepção, por intermédio da reprodução humana além da vida de um dos pais, a fertilização in vitro; a substituição do ser humano pela tecnologia; cirurgia robótica; terapias alternativas; e a histerectomia. • Possuímos a liberdade de escolher fazer o certo ou o errado, fazer o bem ou o mal, mas sempre pautados pelos princípios éticos-morais universais do nosso contexto social. Muitas vezes adentramos num dilema, indagando-nos a qual caminho devemos seguir? • Situações de conflito em que temos que escolher é realmente um grande dilema ético-moral para a humanidade, pois sempre teremos várioscaminhos a percorrer, mas sempre devemos fazer três indagações antes de agirmos: o Eu quero fazer ou não? o Eu devo fazer ou não? o Eu posso fazer ou não? • Os dilemas das escolhas éticas-morais perpassam três questões fundamentais, que são os dilemas dos valores, destinatários e meios. • O dilema dos valores apresenta os conflitos dos valores éticos-morais, ou seja, as escolhas dos valores éticos, de ser ético ou antiético, e que este é o dilema da escolha de seguir ser leal, de honrar o compromisso, de ser solidário, tolerante ou não. Ser justo ou injusto. Ser honesto ou desonesto. Também são os vários caminhos a seguir, como por exemplo: horar o nosso 89 compromisso de pagar uma conta, uma dívida ou, com este mesmo recurso, colaborar com a melhoria de qualidade de vida de uma família em situação de vulnerabilidade social. Deixando assim de cumprir com um compromisso pessoal para amparar o outro. • O Dilema dos destinatários são aqueles dilemas e situações difíceis correlacionadas às pessoas que irão se beneficiar com a ação da tomada de decisão, ou não. É relacionada aos agentes envolvidos, em que, a situação conflitante está na escolha do destinatário da ação ou omissão, ou seja, quem será beneficiado ou prejudicado. • No dilema dos meios o fator gerador da escolha da alternativa contraditória está única e exclusivamente na maneira de se alcançar o resultado desejado, ou seja, o meio, mecanismos e instrumentos utilizados para realizar a atividade e atingir seu fim. Esses meios são classificados por sua validação e legitimidade ética-moral. • Os dilemas concernentes aos valores, destinatários e meios, devem ter por premissa o coletivo social, ou seja, deve prevalecer os interesses universais sobre os grupais e individuais, mesmo se as instâncias destes grupos menores possam ser feridas. • Nesse processo de tomada de decisão individual ou coletiva, ainda temos mais dois outros aspectos a compreender, que são os sensos do dever e da importância da decisão a ser tomada: o Senso do dever: denota uma ética relacionada ao cumprimento dos deveres, tarefas e obrigações, ou seja, a consciência do dever de fazer ou não fazer alguma coisa. o Senso da importância: transmite uma ética permeada pelo seu desígnio, propósito e razão, denotando para que resultados queremos ter com nossa ação ou omissão, e qual a importância destes resultados para a vida cotidiana. • Os sensos do dever e da importância da decisão a ser tomada são muito importantes na discussão dos dilemas éticos-morais que vivenciamos o tempo todo, para podemos mediar o nosso comportamento nas nossas relações humanas e sociais. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 90 1 A humanidade e as pessoas neste limiar de século estão vivenciando diversos limites éticos tanto em nível pessoal como na própria convivência em grupos. Isso nos traz diversos dilemas vivenciais que geram conflitos pessoais. Disserte sobre o tema Dilemas e conflitos pessoais na contemporaneidade. AUTOATIVIDADE 91 REFERÊNCIAS ALONSO, F.; LOPEZ, F. G.; CASTRUCCI, P. L. Curso de ética em administração. São Paulo: Atlas, 2006. ALVES, L. M. Os estágios morais de Kohlberg (1981). Ensaios e Notas, 2017. Disponível em: https://wp.me/pHDzN-3To. Acesso em: 20 jul. 2020. ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Temas de filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2005. AVELINE, C. C. Kohlberg (1981) e os estágios da consciência ética: compreendendo as etapas da evolução humana. Filosofia Esotérica. 2019. Disponível em: https:// www.filosofiaesoterica.com/Kohlberg (1981)-e-os-estagios-da-consciencia-etica/. Acesso em: 2 jul. 2020. BARROCO, M. L. S. Ética e sociedade. Brasília: CFESS, 2000. BITTENCOURT, S. Comentários à lei anticorrupção: Lei nº 12.846, de 1 de agosto de 2013. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014. BONETTI, D. A. et al. Serviço social e ética: convite a uma nova práxis. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2010. BRASIL, Lei ordinária nº 12.846, de 1 de agosto de 2013. Dispõe sobre a respon- sabilização administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública, nacional ou estrangeira, e dá outras providências. Disponí- vel em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/ lei/l12846.htm. Acesso em: 18 nov. 2020. CARVALHO, F. A ética segundo Kohlberg (1981). 2011. Disponível em: https:// blogdoenem.com.br/a-etica-segundo-Kohlberg (1981)-filosofia-enem/. Acesso em: 25 jul. 2020. CHAUÍ, M. Iniciação à filosofia. São Paulo: Ática, 2016. CUNHA, S. S. Dicionário Compacto de Direito. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. FERREIRA, A. B. H. Miniaurélio: o minidicionário da Língua portuguesa. 7. ed. Curitiba: Ed. Positivo, 2008. FREUD, S. No ensaio The Question of Lay Analysis. In: FREUD, S. (Org.). The Question of Lay-Analysis: an Introduction to Psycho-Analysis 1947. London: Imago Publishing Co, 2005. Disponível em: http://www.yorku.ca/dcarveth/ LayAnalysis.pdf. Acesso em: 18 nov. 2020. 92 GUIMARÃES, D. T. Dicionário Técnico Jurídico. 19. ed. São Paulo: Rideel, 2016. HOUAISS, A. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. KIRKENDALL, L. A. Premarital intercourse and interpersonal relationships. New York: Julian Press, 1961. Disponível em: https://goo.gl/8W46Tk. Acesso em: 18 ago. 2020. KOHLBERG, L. Essays On Moral Development. Volume 1. The Philosophy Of Moral Development. São Francisco, Harper & Row, 1981. LEYSER, K. D. dos S. Ética. Indaial: Uniasselvi, 2018. PIERITZ, V. L. H. Compliance. Indaial: Uniasselvi, 2020. PIERITZ, V. L. H. Ética profissional em serviço social. Indaial: Uniasselvi, 2013. SOLOMON, R. C. Ética e excelência. Cooperação e integridade nos negócios. São Paulo: Civilização Brasileira, 2006. TAVARES, F. R. Ética, política e sociedade. Indaial: Uniasselvi, 2013. TOMELIN, J. F.; TOMELIN, K. N. Do mito para a razão: uma dialética do saber. 2. ed. Blumenau: Nova Letra, 2002. p. 89-90. VALLS, A. L. M. O que é ética. São Paulo: Brasiliense, 2003. VÁZQUEZ, A. S. Ética. 26. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. 93 UNIDADE 2 A ÉTICA E OS FUNDAMENTOS DA PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Esta unidade tem por objetivos: • conhecer os fundamentos ético-morais do exercício profissional do Assistente Social; • promover a reflexão e discussão sobre as questões ético-morais, na relação indivíduo e sociedade; • fomentar o debate sobre as diversas dimensões ético-morais da vida social e profissional; • promover uma consciência crítica referente aos valores e princípios norteadores do exercício profissional. A Unidade 2 está dividida em quatro tópicos. Ao final de cada um deles, você terá a oportunidade de fixar seus conhecimentos, realizando as atividades propostas. TÓPICO 1 – OS FUNDAMENTOS ÉTICO-MORAIS DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL TÓPICO 2 – O ESPAÇO DA ÉTICA NA RELAÇÃO INDIVÍDUO E SOCIEDADE TÓPICO 3 – A RELAÇÃO ENTRE TRABALHO, SER SOCIAL E ÉTICA TÓPICO 4 – A ÉTICA PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL E SEU PROJETO ÉTICO-POLÍTICO 94 95 TÓPICO 1 OS FUNDAMENTOS ÉTICO-MORAIS DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Com a própria evolução histórica da humanidade, pode-se dizer que, hoje em dia, quando tratamos das questões éticas e morais, estamos falando que o comportamento social dos homens vem atravessando todos os espaços da vida social do mesmo. Pautando-se neste comportamento que vem se transformando constantemente, encontramos muitos desafios no exercício profissional do Assistente Social. Neste tópico, abordaremos, com detalhes, a natureza e as características fundamentais da ética profissional, além de trabalhar as questões relativasao cotidiano da prática profissional e das finalidades ético-morais da reprodução social. 2 A NATUREZA E OS FUNDAMENTOS DA ÉTICA PROFISSIONAL Sabe-se que o principal problema da ética é a definição do que é certo ou errado, bom ou mau, e que todos os homens desejam fazer o bem e a justiça, observando sempre que esta problemática permeia toda a história da humanidade. Compreendemos que “fazer o bem” pode ser considerado uma virtude social. Porém, o que é fazer o bem? Todos os nossos atos, que permeiam nosso comportamento social, são frutos diretos e indiretos de uma consciência social e esta, por sua vez, é constituída sobre os valores, princípios e hábitos morais do povo que a compõe. Existe uma ligação química e muito forte no modo comportamental subjetivo de cada homem, com relação à sociedade em que vive, pois se nossas ações visam, constantemente, fazer o bem perante os outros, então, estamos sendo eticamente bons sem, necessariamente, ser bom ou mau para alguém ou vice e versa. Contudo, devemos compreender que não existe um bem ou mal absoluto, pois as diversas subjetividades humanas apresentam inúmeras diferenças, ou seja, a subjetividade é relativa de acordo com a visão de mundo e sociedade de cada ser humano. UNIDADE 2 | UNIDADE 2 96 Neste contexto, observa-se que a ética trabalha e avalia as diferentes alternativas de preferência dos homens que vivem em sociedade, principalmente no que tange à indicação do que devemos realmente fazer, ou não, em vez do que devíamos ter feito, ou não, pois não podemos deixar de lado que todos os atos dos homens que vivem em sociedade possuem suas restrições e consequências. Estas, por sua vez, devem ser avaliadas constantemente, principalmente no que tange à questão da escolha entre as diversas alternativas que estão postas pela própria sociedade em que vivemos. Portanto, compreende-se que a ética avalia as diversas escolhas conscientes dos homens e trabalha com as consequências subjetivas de cada ser humano em sociedade. Estas escolhas e suas consequências podem ser consideradas objeto da prática profissional do Assistente Social. Como expõe Barroco 2008a, p. 67: [...] a ética profissional é um modo particular de objetivação da vida ética. Suas particularidades se inscrevem na relação entre o conjunto complexo de necessidades que legitimam a profissão na divisão sociotécnica do trabalho, conferindo-lhe determinadas demandas [...]. Ou seja, estas demandas, fruto direto das escolhas subjetivas dos homens e suas consequências, é que legitima o agir ético profissional do Assistente Social. Pois, a consciência moral é formada pelos valores culturais de uma determinada sociedade, e estes são legitimados pela própria sociedade, ou seja, pelos seus integrantes. No qual, criam e recriam constantemente novas necessidades, papéis e valores sociais. Neste sentido, segundo Barroco (2008a, p. 68), o “ethos profissional é um modo de ser constituído na relação complexa entre as necessidades socioeconômicas e ídeo-culturais e a possibilidade de escolha inseridas nas ações ético-morais, o que aponta para sua diversidade, mutabilidade e contraditoriedade.” Assim, observa-se que a ética profissional do Assistente Social está recheada de conflitos e contradições sociais que se remodelam ao passar dos tempos. AUTOATIVIDADE Baseado(a) nas informações adquiridas até o presente momento, forme uma equipe, de no máximo quatro acadêmicos, e escreva quais os principais CONFLITOS e CONTRADIÇÕES SOCIAIS que os seres humanos enfrentam na atualidade. TÓPICO 1 | UNIDADE 2 97 Podemos, assim, compreender que, o conhecimento concebido pelos homens propicia o seu modo de vida e de convivência em sociedade, pois buscam, constantemente, seus fundamentos e suas posturas críticas da realidade em que estão inseridos, além de transformar sua própria realidade. Complementando, Lukacs (apud BARROCO, 2008b, p. 16) expõe que: [...] o homem torna-se um ser que dá respostas precisamente na medida em que – paralelamente ao desenvolvimento social e em proporção crescente – ele generaliza, transformando em perguntas seus próprios carecimentos e suas possibilidades de satisfazê-los; e quando, em sua resposta ao carecimento que a provoca, funda e enriquece a própria atividade com tais mediações bastante articuladas. De modo que não apenas a resposta, mas também a pergunta é um pouco imediato na consequência que guia a atividade. Podemos compreender, então, que a ética supõe a compreensão e análise da subjetividade do seres humanos e de suas relações sociais, através da formação da práxis humana como um todo e não somente compreendida como a formação de um conhecimento, ou seja, a ética está baseada nos relacionamentos, comportamentos e práticas sociais tanto dos homens quanto das mulheres em seu convívio cotidiano, no qual forma uma consciência moral global. 3 O SIGNIFICADO DA ÉTICA PROFISSIONAL Agora, prezados(as) acadêmicos(as) iremos estudar diversos significados da ética na práxis profissional do Assistente Social. De acordo com Sá (2001, p. 129): [...] a expressão profissão provém do Latim professione, do substantivo professio, que teve diversas acepções naquele idioma, mas foi empregado por Cícero como “ação de fazer profissão de”. O conceito de profissão, na atualidade, aquele que aceito, representa: “trabalho que se pratica com habitualidade a serviço de terceiros”, ou seja,”‘prática constante de um ofício”. ESTUDOS FU TUROS Você verá, no Tópico 3, A Relação entre Trabalho, Ser Social e Ética, uma reflexão mais profunda referente à ética no trabalho. UNIDADE 2 | UNIDADE 2 98 O que vem a ser, então, a ética profissional? Segundo Brites e Sales (2000, p. 8): A ética das profissões não está dissociada do contexto sociocultural e do debate filosófico. A ética profissional guarda uma profunda relação com a ética social e, consequentemente, com os projetos sociais. Não há, portanto, um hiato entre a ética profissional e a ética social, pois seria cindir a própria vida do homem na sua totalidade, isto é, em seus diversos pertencimentos: trabalho, gênero, família, ideologia, cultura, desejos etc. Na verdade, é o “homem inteiro”, na acepção lukacsiana, que participa da cotidianidade. Isto significa que o homem, no processo de produção de sua vida material e cultural, constrói valores que passam nortear as relações consigo mesmo e com os outros homens, constituindo-se, assim, como sujeito ético no processo de sociabilidade. Observamos, então, que a constituição de um homem, enquanto indivíduo, só pode ser feita por meio de suas relações com os outros. E é nesta interação social que o indivíduo forma sua consciência moral, além de constituir seus anseios, desejos e sonhos, fazendo suas escolhas de certo ou errado perante a sociedade em que vive. Assim, pode-se dizer que é por meio da ética que o homem é um ser de consciência, pois valora seus atos de forma autônoma e responsável, qualificando e enriquecendo todo o processo complexo de produção e reprodução humana. Partindo deste entendimento, verificamos que a ética proporciona maior visibilidade no esclarecimento da direção social e, em consequência, da qualificação da prática profissional de uma determinada sociedade, ou seja, por meio da ética, existe todo um posicionamento social que forma e determina seus valores, hábitos e princípios e estes, por sua vez, compõem as normas e diretrizes profissionais daquela comunidade. Nesta perspectiva, Brites e Sales (2000, p. 9) colocam-nos que: [...] a ética profissional tem a ver com a imagem que a profissão quer que seja reconhecida pela sociedade. [...] Em outras palavras, a profissão constrói, historicamente, uma identidade e adquire uma legitimidade social tanto a partir da explicação da função social da profissão quanto dos contornos éticos que assume otrabalho profissional. Esse processo é atravessado por contradições e tensões que envolvem disputas políticas e ideológicas na sociedade. Não esqueçamos que o nosso exercício profissional realiza-se numa sociedade capitalista, logo, há demandas diferenciadas ou entendimentos diversos do que seja a função social da profissão, no que concerne aos interesses das classes em relação. Desse modo, há vários projetos societários em confronto e o posicionamento da categoria, ao qual nos referimos, expressando exatamente a opção por um determinado projeto social. TÓPICO 1 | UNIDADE 2 99 AUTOATIVIDADE Tudo isto nos leva a fazer a seguinte indagação: Será que quando estou exercendo minhas atividades laborais, estou reforçando diretamente um projeto ético de sociedade? Reflita esta questão em um dos encontros presenciais. 4 ÉTICA, O COTIDIANO E A PRÁTICA PROFISSIONAL “A cabeça da gente é uma só e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.” (Guimarães Rosa) Conforme a frase de Guimarães Rosa, é a partir da totalidade, que podemos entender as particularidades subjetivas de cada ser humano, pois é a sociedade como um todo que forma e constitui todos os nossos princípios e valores ético-morais. Contudo, quais as correlações entre o Código de Ética, o projeto profissional do Assistente Social e sua práxis? O que deve ficar bem claro aqui é que o objeto da prática profissional se dá no dia a dia de nossa sociedade, ou seja, são nos diversos modos comportamentais dos homens que se formam as questões sociais, ou seja, o objeto da práxis profissional do Assistente Social. O que é esta tal de questão social? Pois bem, a questão social, a priori, forma-se na relação direta do trabalho versus capital, principalmente na formação moral do trabalhador (classe operária), perante a sociedade, o qual almeja ser reconhecido como tal por parte dos detentores do capital (os patrões), ou seja, é nas contradições deste relacionamento (trabalhador x patrão) que se forma o objeto de trabalho do Assistente Social. Esta contradição é estabelecida diretamente na produção, reprodução e apropriação da riqueza constituída em sociedade, ou seja, os trabalhadores, por meio do trabalho, produzem a riqueza, em contrapartida, os patrões apropriam-se dela. Portando, nesta dinâmica, o trabalhador não tem muitas vezes a possibilidade de usufruir e obter as riquezas que produziu. Complementando, Iamamoto (1997, p. 14) define o objeto do Serviço Social nos seguintes termos: Os assistentes sociais trabalham com a questão social nas suas mais variadas expressões quotidianas, tais como os indivíduos as experimentam no trabalho, na família, na área habitacional, na UNIDADE 2 | UNIDADE 2 100 saúde, na assistência social pública etc. Questão social que sendo desigualdade é também rebeldia, por envolver sujeitos que vivenciam as desigualdades e a ela resistem, se opõem. É nesta tensão entre produção da desigualdade e produção da rebeldia e da resistência, que trabalham os assistentes sociais, situados nesse terreno movido por interesses sociais distintos, aos quais não é possível abstrair ou deles fugir porque tecem a vida em sociedade. [...] a questão social, cujas múltiplas expressões são o objeto do trabalho cotidiano do Assistente Social. Voltando à questão principal, pode-se observar que a vida cotidiana dos seres humanos denota certa alienação dos mesmos ao sistema societal que estão inseridos, ou seja, devemos saber distinguir as nossas ações de prática profissional das atividades cotidiana em que estamos envolvidos. De acordo com Heller (apud BRITES; SALES, 2000, p. 69): [...] o cotidiano é o território da espontaneidade, das motivações efêmeras e particulares, da fixação repetitiva do ritmo e da rigidez do modo de vida. Consequentemente, o pensamento cotidiano é um pensamento fixado, tão somente, na experiência, na dimensão empírica da realidade e dos acontecimentos da vida; logo, pragmático e ultrageneralizador, assentado na unidade imediata entre pensamento e ação. Opera, portanto, corretamente, num nível de aproblematicidade em detrimento da razão e das intimações humano-genéricas. Contudo, o que é alienação? Compreendemos que é por meio do trabalho que se forma a consciência moral dos homens, denotando a sua sobrevivência social. Porém, como esta atividade laboral pode ser considerada uma alienação de sua própria constituição moral? Podemos considerar que a alienação proporciona uma diminuição da capacidade do agir consciente dos seres humanos, ou seja, os homens, muitas vezes, não conseguem assimilar o seu próprio comportamento e suas atitudes perante sua própria produção e reprodução social, no qual acabam bloqueando sua autonomia de agir. No que tange à alienação social, podemos citar que muitas vezes os seres humanos não se dão conta que são eles que produzem as riquezas de sua sociedade, por meio de suas atividades laborativas. Diante disto, apresentam duas posturas, tais como: veem este processo de produção de riquezas como uma ação natural e espontânea ou rejeitam esta situação, verificando que nós possuímos muito mais capacidades de julgamento do que simplesmente acatar tudo o que vem dos donos do capital (os patrões). TÓPICO 1 | UNIDADE 2 101 Nos dois casos, de acordo com Brites e Sales (2000, p. 69) “a sociedade é o outro (alienus), algo externo a nós, separado de nós, diferente de nós e com poder total ou nenhum poder sobre nós.” Segundo Brites e Sales (2000, p. 69): No debate da práxis profissional, vemos, então, as possibilidades de atuação dos assistentes sociais, consideradas particularmente, inseridas nas contradições e tensões do cotidiano, mas vincadas e içadas pelo projeto ético-político profissional – uma vez assimiladas com consciência as suas exigências – ao plano do humano genérico. A riqueza e desafios das situações radicalmente humanas posta pelo exercício profissional listam aqueles a se orientar e conduzir sua vida pela vida da eticidade; logo, a se posicionar diante de alternativas e a realizar escolhas, postas na esfera do cotidiano, submetendo a sua particularidade ao genérico. Heller (apud BRITES; SALES, 2000, p. 69) expõe ainda que: [...] quanto maior é a importância da moralidade, do compromisso pessoal, da individualidade e do risco (que vão sempre juntos) na decisão acerca de uma alternativa dada, tanto mais facilmente essa decisão eleva-se acima da cotidianidade e tanto menos se pode falar de uma decisão cotidiana. Então, pode-se observar que não existe um divisor entre o comportamento cotidiano e do não cotidiano, pois o desenvolvimento da práxis profissional está interligado com a convivência do dia a dia do grupo social em que estamos inseridos, ou seja, o trabalho profissional do Assistente Social se dá sobre as questões sociais advindas deste convívio em sociedade. Contudo, não podemos confundir que a prática profissional seja também as atividades cotidianas que realizamos, pois estas se transformam na práxis profissional só quando nós tomamos consciência deste fato. No entanto, de acordo com Brites e Sales (2000, p. 70) “a práxis aqui reivindicada decorre de uma construção coletiva expressa na direção social do projeto ético-político do Serviço Social e que ganha tessitura e substância por meio da adesão consciente e crítica aos princípios e valores presentes no código de ética dos assistentes coletivos desenvolvidos país afora”. UNIDADE 2 | UNIDADE 2 102 LEITURA COMPLEMENTAR 1 ÉTICA NO COTIDIANO A.Augusta Soares [...]O nosso país está [sempre] nos chamando para comparecermos às urnas, período de mudanças políticas [...]. Período propício para questionamentos, principalmente sob um aspecto cultural importante: a Ética em nosso cotidiano e as consequências de nossas ações. Vivemos em sociedade, influenciamos e somos influenciados, através da mídia escrita e falada (rádio, TV, jornais, propagandas e revistas), convivemos e interagimos socialmente, portanto, cabe pensarmos e respondermos, intimamente, a seguinte pergunta: Como agimos em nosso cotidiano perante os Outros? Trata-se de uma pergunta fácil de ser formulada, mas difícil de ser respondida. Está intimamente ligada à questão ÉTICA e, consequentemente, ao julgamento do caráter moral de uma determinada pessoa. Sabemos que a ética está presente em todos os povos, independente de raça. Ela é um conjunto de regras, princípios, formas de pensar e se expressar. A palavra de origem grega pode ser traduzida, dentro da sociedade, como propriedade de caráter. Ser ético envolve integridade, honestidade em qualquer situação, coragem para assumir seus erros e decisões, tolerância, flexibilidade, humildade, posturas e procedimentos que não causem prejuízo ao meio social em que está inserido. É estar tranquilo com a consciência pessoal, cumprindo com os valores no espaço em que vive, ou seja, onde mora, trabalha, estuda e convive socialmente. A ética reflete diretamente sobre as ações, diferentemente de MORAL, que estabelece regras para garantir a ordem social, sem levar em conta as fronteiras geográficas. Mas é através da ética que o indivíduo é levado a refletir, questionar, percorrer sobre todas as causas e consequências de suas ações no exercício de uma PROFISSÃO, postura que deve ser iniciada antes mesmo da prática profissional, a que está se propondo a exercer. Ser ético, ter postura ética, é fazer algo que te beneficie e, no mínimo, não prejudique o “outro”, ou o meio social em que convive. FONTE: SOARES, A. Augusta. Ética no cotidiano. Disponível em: <http://www.revistafatosregionais. com.br/conteudo/edicao-002/etica-no-cotidiano.html>. Acesso em: 25 fev. 2009. TÓPICO 1 | UNIDADE 2 103 LEITURA COMPLEMENTAR 2 ÉTICA E PROFISSIONALISMO Maria Elizabete Silva D`Elia Ética e profissionalismo deveriam andar de mãos dadas, principalmente, num mundo em que qualidade é sobrevivência. Deveria ser algo implícito, explícito e matéria obrigatória do Ensino Fundamental ao Superior. Mesmo que haja, atualmente, um movimento de resgate da ética e discussão sobre a sua importância em todos os segmentos da sociedade, a distância entre o discurso e a prática é ainda muito grande. Como profissionais de desenvolvimento humano, um dos nossos compromissos é trazer sempre à tona a Ética, mostrando-a de forma simples, didática, como prática diária em nossa casa, escritório, grupo, comunidade e a sociedade como um todo. A Ética permeia todas as relações e colabora decisivamente para o bem- estar individual, coletivo e também atua diretamente na “ecologia” do ambiente e do universo. Empresas e profissionais vencedores têm expresso em sua missão e “tatuado” nas atitudes o valor da ética, como característica primordial para o sucesso e felicidade. Por ser a Ética um assunto complexo, amplo e de entendimento subjetivo, uma grande maioria associa seu entendimento e prática como algo distante, filosófico, de responsabilidade do governo, da Sociedade, isentando-se de trazê-la para o seu cotidiano e para o âmbito da sua responsabilidade, enquanto cidadão. Quando deixamos à Ética num plano muito filosófico, abrimos mão do nosso poder de praticá-la e passamos a colocar “a culpa” da falta de ética no país, nos governantes, nas leis, ou seja, sempre no “outro”. O grande desafio é colocar a Ética como parte do nosso “ritual de qualidade diária”. Quando nos cuidamos, nos respeitamos, respeitamos o outro, o meio ambiente, estamos praticando a Ética. O Conceito que está na nossa esfera de atuação e que pode ser exercitado 24 horas por dia é entender Ética como “o bem comum”. UNIDADE 2 | UNIDADE 2 104 Quando queremos saber se algo ou alguma atitude é ética, basta que questionemos se ela atende ao bem comum. Se a resposta for SIM, a ética está presente. Esclarecendo o sentido de Bem comum para situações do dia a dia: ● É bom para a empresa e para o cliente? ● É bom para o profissional e para a empresa? ● É bom para a empresa, para os profissionais, para os clientes, para a sociedade, para o meio ambiente? Se só um dos lados for beneficiado, não houve ética. Logo, entende-se que o bem comum passa pela negociação ganha-ganha, pelo diálogo, pela transparência. E esses quesitos fazem parte hoje do que se exige de um profissional. Dentro do nosso cotidiano, há zonas claras de entendimento coletivo, sobre situações que são entendidas como falta de ética. Exemplos: ● Falar mal da empresa e/ou de alguém da empresa para o cliente. ● Reclamar de salário ou de condições de trabalho para o cliente. ● Fazer confidências da vida pessoal para o cliente. ● Pedir algo para o cliente (favor, presente, empréstimo etc.). ● Revelar informações confidenciais para ter favoritismo ou demonstrar poder. ● Legislar em causa própria, por ter acesso a dados de salário da empresa, por conta da função. - Aceitar presentes, para favorecer um fornecedor ou cliente. - Sabotar informações, por questões pessoais. - Prejudicar a equipe, os pares, por “fazer fofocas” pessoais e/ou profissionais. - Outros similares. Há outras situações, consideradas cinzentas, que são também antiéticas, mas que podem gerar dúvidas. Exemplos: ● Avançar o limite saudável entre relação “amistosa” com o cliente para uma relação próxima e privada. TÓPICO 1 | UNIDADE 2 105 ● Não colaborar com uma ideia ou projeto, por “não gostar” do dono da ideia. ● Tratar com parcialidade pessoas da equipe ou pares, simplesmente, por ter mais afinidade pessoal. ● Abrir mão de contribuir com a qualidade de relacionamento do seu ambiente. ● Ficar passivo e/ou concordar com críticas feitas a colegas e/ou a procedimentos da empresa. ● Utilizar mala direta da empresa e/ou dados do negócio, para fins particulares. ● Usar para fins particulares materiais da empresa (papel, impressora, disquete etc.). ● Usar telefone da empresa, sem reembolsar despesas, para responder recados de celular particulares, para ligações interurbanas etc. ● Usar Internet para fins particulares, sem autorização do Coordenador/Gerente. ● Outras situações similares. Outro direcionamento que confirma se há ou não ética é o exercício diário da missão e valores da empresa em que atua e dos próprios valores como pessoa. Profissionalismo é a simbiose entre competência técnica e humana. E sem ética, é impossível ter competência humana. Esses princípios devem estar presentes na conduta diária, junto a clientes, equipe, coordenadores, gerentes, Diretoria, parceiros. Ética dá lucro e faz bem a todos. Se tivermos dúvida de alguma situação, o diálogo é sempre bem-vindo. O Clube Rotary dá uma excelente contribuição sobre Ética nos seus princípios. Podemos também nos inspirar nos valores que pregam, que se baseiam em três perguntas: É bom? É verdade? É justo? A ajuda coletiva e o respeito mútuo são irmãos gêmeos da ética e, sem dúvida, podem ser a diretriz para o bem-estar e para a ecologia do nosso planeta. FONTE: D’ELIA, Maria Elizabete Silva. Ética e profissionalismo. Disponível em: <www.betedelia. com.br>. Acesso em: 25 fev. 2009. UNIDADE 2 | UNIDADE 2 106 DICAS Para um melhor aprendizado, sugerimos a leitura do seguinte artigo e do livro. Assista, também, ao filme indicado. ● Artigo: Questão Social: Objeto do Serviço Social? De Ednéia Maria Machado. Disponível em: <http://www.ssrevista.uel.br/c_v2n1_quest.htm>. ● Livro:COUTO, Wanderley. O que é alienação. São Paulo: Brasiliense, 1992. ● Filme: Conduta de Risco ● Livro: BRITES, Cristina Maria; SALES, Mione Apolinário. Ética e práxis profissional. 2. ed. Brasília: CFESS, 2000. 107 RESUMO DO TÓPICO 1 Abordamos, neste tópico, as questões fundamentais da ética, no que tange ao exercício profissional do Assistente Social. Assim, tratamos os seguintes assuntos: Hoje em dia, quando tratamos das questões éticas e morais, estamos falando que o comportamento social dos homens vem atravessando todos os espaços da vida social do mesmo, ao longo de sua história. Verificamos que o principal problema da ética é a definição do que é certo ou errado, bom ou mau, e que todos os homens desejam fazer o bem e a justiça. Compreendemos que “fazer o bem” pode ser considerado uma virtude social. Todos os nossos atos, que permeiam nosso comportamento social, são frutos diretos e indiretos de uma consciência social e, esta, por sua vez, constituída sobre os valores, princípios e hábitos morais do povo que a compõe. Não existe um bem ou mal absoluto, pois as diversas subjetividades humanas apresentam inúmeras diferenças, ou seja, a subjetividade é relativa de acordo com a visão de mundo e sociedade de cada ser humano. Compreendemos que a ética avalia as diversas escolhas conscientes dos homens e trabalha com as consequências subjetivas de cada ser humano em sociedade. Estas escolhas e suas consequências podem ser consideradas objeto da prática profissional do Assistente Social. Observamos que a ética profissional do Assistente Social está recheada de conflitos e contradições sociais que se remodelam ao passar dos tempos. A ética está baseada nos relacionamentos, comportamentos e práticas sociais tanto dos homens como das mulheres em seu convívio cotidiano, no qual forma uma consciência moral global. Observamos que a constituição de um homem, enquanto indivíduo, só pode ser feita por meio de suas relações com os outros em sociedade. E é nesta interação social que o indivíduo forma sua consciência moral, além de constituir seus anseios, desejos e sonhos. 108 A ética proporciona maior visibilidade no esclarecimento da direção social e, em consequência, da qualificação da prática profissional de uma determinada sociedade, ou seja, por meio da ética, existe todo um posicionamento social que forma e determina seus valores, hábitos e princípios e estes, por sua vez, compõem as normas e diretrizes profissionais do homem. É a partir da totalidade que podemos entender as particularidades subjetivas de cada ser humano, pois é a sociedade como um todo que forma e constitui todos os nossos princípios e valores ético-morais. O objeto da prática profissional se dá no dia a dia de nossa sociedade, ou seja, são nos diversos modos comportamentais dos homens, que se formam as questões sociais e estas, por sua vez, são o objeto da práxis profissional do Assistente Social. A questão social forma-se na relação direta do trabalho versus capital. A vida cotidiana dos seres humanos denota certa alienação dos mesmos ao sistema societal que estão inseridos, pois, muitas vezes, os seres humanos não se dão conta que são eles que produzem as riquezas de sua sociedade, por meio de suas atividades laborativas. Verificamos que o trabalho profissional do Assistente Social se dá sobre as questões sociais advindas do convívio em sociedade. Contudo, as nossas atividades cotidianas se transformam na práxis profissional só quando nós tomamos consciência deste fato. 109 AUTOATIVIDADE Em equipe, de no máximo quatro acadêmicos, liste todas as questões sociais que conseguirem identificar. Em seguida, realizem um debate, no grande grupo, sobre esse tema. 110 111 TÓPICO 2 O ESPAÇO DA ÉTICA NA RELAÇÃO INDIVÍDUO E SOCIEDADE UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, trabalhar-se-á como se processa o espaço da ética na relação indivíduo versus sociedade, no qual perpassaremos por alguns aspectos históricos da construção ética-moral da sociedade. Assim, segundo Barroco (2008b, p. 19): [...] é nesse processo histórico que são tecidas as possibilidades de o homem se comportar como um ser ético: enquanto o animal se relaciona com a natureza a partir do instinto, o ser social passa a construir mediações – cada vez mais articuladas –, ampliando seu domínio sobre a natureza e sobre si mesmo. Desse modo, sem deixar de se relacionar com a natureza – pois precisa dela para se manter vivo –, vai moldando sua natureza social. Demonstrando, ainda, a inter-relação natural do comportamento moral entre os homens, principalmente na questão da construção subjetiva do homem, ou seja, o homem como tal, ser individual. 2 AS BASES HISTÓRICAS DA SOCIEDADE NA CONSTRUÇÃO DA ÉTICA Pelo comportamento humano e, principalmente, por meio de seu modo de ser, hábitos e costumes é que determinamos e consolidamos nossa moral e, por conseguinte, a ética. A sua constituição advém historicamente das relações do dia a dia de cada ser humano que vive em sociedade. Complementando, Barroco (2008b, p. 20) escreve que: A história não é uma abstração dotada de uma existência independente dos homens. Os homens reais – entre suas relações entre si e com a natureza – são os portadores da objetividade sócio-histórica. E nesse sentido pode-se dizer que o ser social fundamenta-se em categorias ontológico-sociais, pois os modos de ser que o caracterizam são construções sócio-históricas que se interdeterminam de forma complexa e contraditória, em seu processo de constituição. UNIDADE 2 | UNIDADE 2 112 Então, podemos compreender que o homem social nasce da natureza e de sua inter-relação com os outros de sua espécie, em que suas habilidades e aptidões são desenvolvidas por ele no decorrer de seu processo de humanização, ou seja, é o próprio homem o autor e produto da sua construção. FIGURA 7 – FRASE REFLEXIVA FONTE: A autora Nesta perspectiva, podemos citar que o homem desenvolve suas capacidades de forma consciente e livre. E, por meio do trabalho, ele é capaz de transformar a natureza, em consequência ao seu meio e a si próprio, mantendo sua própria vida em sociedade. Então, podemos dizer que “[...] o trabalho é, antes de tudo, em termos genéricos, o ponto de partida da humanização do homem, do refinamento de suas faculdades, processo do qual não se deve esquecer o domínio sobre si mesmo” (LUKÁCS apud BARROCO, 2008b, p. 21). Portanto, a sociabilidade humana pode ser compreendida como o berço da constituição do homem social ou ser social, pois é por meio de nossas atividades humanas que nos constituímos como homens e, assim, nos perpetuamos historicamente. De acordo com Barroco (2008b, p. 22) “constituir-se cada vez mais socialmente quer dizer dominar a natureza, criar novas alternativas, dar respostas sociais, e daí decorre a transformação de todos os sentidos humanos.” Isto só pode ser viável, se o homem tiver consciência de seus atos e de sua própria transformação social. Contudo, qual o papel da consciência humana na prática profissional dos mesmos? Antes de tudo, precisamos compreender o significado da consciência humana. Portanto, segundo Cavalcanti (2007, p. 2) para Susan Greenfield, pesquisadora da Universidade de Oxford: TÓPICO 2 | UNIDADE 2 113 A consciência não é um lampejo, mas um contínuo de conexões dos seus [...] [...] neurônios, que vão ocorrendo do momento em que você nasce até o fim da experiência, seu cérebro faz uma representação mental que é armazenada da sua vida. A cada nova em sua memória. Ao comer uma comida diferente, por exemplo, surgiria uma mudança nas conexões do seu cérebro. Quanto mais o mundo passa a ter significado para você, mais conexõessão feitas em seu cérebro. Ou seja, é por meio da constituição de consciência que analisamos, calculamos e aspiramos ideias, realizando um processo de escolha do que pode ou não ser feito, do que é bom ou não para nós e para os outros. Então, se partirmos do princípio de que a nossa constituição ético-moral advém do trabalho, podemos assim dizer que a nossa prática profissional só se processa quando a realizamos de forma consciente em prol da realização do bem. Portanto, por meio da transformação consciente da natureza, o homem cria sempre novas alternativas de valorações em seu processo de escolha e tomada de decisões, pois as realizam conscientemente, por meio de comparações do certo e errado, do fazer o bem ou o mal. Assim, Barroco (2008b, p. 25-26) expõe que: [...] quando os homens transformam um dado elemento da natureza, por exemplo, um pedaço de madeira criando fogo ou um instrumento de trabalho, passa a instituir alternativas antes inexistentes. Os instrumentos de trabalho não modificam apenas a atividade humana; transformam toda a vida dos homens, instituindo novas possibilidades. No caso do fogo, alteram-se todos os sentidos – pois com o alimento cozido, por exemplo, o paladar, o tato, o olfato etc. são modificados; atendem-se a necessidades, pois é possível aquecer-se com o fogo; criam-se hábitos culturais, desencadeando novos sentimentos e comportamentos; a natureza já não se apresenta como um mistério; o homem se vê como sujeito de sua transformação. Acarretando, assim, para o homem, a possibilidade de realizar suas escolhas de forma livre e consciente. E estas escolhas podem ser consideradas a constituição da liberdade humana. Para Lukács (apud BARROCO 2008b, p. 26): A liberdade, bem como sua possibilidade, não é algo dado por natureza, não é um dom do “alto” e nem sequer uma parte integrante – de origem misteriosa – do ser humano. É o produto da própria atividade humana, que decerto sempre atinge concretamente alguma coisa diferente daquilo que se propusera, mas que nas suas consequências dilata – objetivamente e de modo contínuo – o espaço no qual a liberdade se torna possível. Finalizando, podemos observar que a liberdade de escolha dos homens proporciona autonomia. E esta autonomia denota que o ser humano é um ser livre, tendo plena consciência em suas escolhas. Portanto, por meio do trabalho, o ser humano se constitui um homem consciente e livre. UNIDADE 2 | UNIDADE 2 114 LEITURA COMPLEMENTAR 1 “DECIFRA-ME OU TE DEVORO”: O ENIGMA DA ESFINGE Maria Lúcia Silva Barroco Na tragédia grega clássica Édipo Rei, escrita por Sófocles, Édipo se encaminha para Tebas, quando uma esfinge, monstro que devora a todos que não conseguem decifrar seus enigmas, profere-lhe um enigma. De sua resposta depende a vida da cidade e também o seu destino [...]. Antes de se deparar com a esfinge, Édipo já consultara o oráculo, forma de comunicação com os deuses através de uma consulta que também deve ser decifrada. No caso de Édipo, o oráculo já dissera a seu pai, Laio, que seu filho o mataria e se casaria com a própria mãe, ou seja, com a mulher de Laio. Para evitar este destino trágico, Laio abandonara Édipo nas montanhas, com os pés atravessados por um ferro e ligados por uma tira de couro (daí seu nome Édipo, que significa “pés inchados”). Adotado por Pólipo, Édipo, já adulto, resolve consultar o oráculo sobre sua origem. O oráculo repete a previsão anterior: Édipo mataria o pai e se casaria com a mãe. Édipo foge de Pólipo para que não se cumprisse o destino. No caminho para Tebas, encontra Laio e, numa briga, mata o rei e sua comitiva. Em seguida, encontra a esfinge, que lhe propõe o enigma que nenhum homem conseguira responder até então: “Qual é o ser que anda de manhã com quatro patas, no meio do dia com duas e à noite com três e que, contrariamente à lei mais geral, é mais fraco quando tem mais pernas?”. Édipo responde: “É o homem que engatinha quando criança, quando adulto usa suas duas pernas e quando velho usa uma bengala”. Diante disso, a esfinge morre e os tebanos reconhecem Édipo como rei, oferecendo-lhe a viúva de Laio como esposa. Passados muitos anos, uma peste assola a cidade e o oráculo novamente é consultado. Quando Édipo indaga sobre as causas da peste, obtém a resposta de que a morte de Laio não fora vingada e que o responsável era ele, Édipo. Ao descobrir que matara o próprio pai e que Jocasta, sua mulher, é sua mãe, Édipo arranca os olhos com uma joia de Jocasta, que se enforca. Então sai, cego, errante pelo mundo, acompanhado por uma de suas filhas, Antígona. Assim, Édipo não teve êxito em suas sucessivas tentativas de fugir do seu destino. Determinado pelos deuses, o destino não pode ser transformado pelos homens, como bem mostra Sófocles. Porém, é parte da natureza humana, dizem também os mitos, questionar o poder dos deuses; por isso, mesmo que a palavra divina seja revelada através do oráculo, os humanos sempre buscam um desvio desse caminho “predestinado”. Mais adiante, veremos como tudo isso tem a ver com a concepção ética dos gregos, herança fundamental da civilização ocidental. TÓPICO 2 | UNIDADE 2 115 E você, acredita em destino? FONTE: BARROCO, Maria Lúcia Silva. Ética: fundamentos sócio-históricos. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2008. p. 47-48. Agora, prezado(a) acadêmico(a), vamos verificar no texto a seguir a questão da discussão em torno de uma ética universal para toda a sociedade contemporânea. Então leia com atenção esta leitura complementar 2, pois ela propiciará um panorama geral desta ética universal. LEITURA COMPLEMENTAR 2 ÉTICA E SOCIEDADE: EM BUSCA DE UMA ÉTICA UNIVERSAL José Carlos S. de Mesquita ÉTICA: Do grego, ETHOS. Significa costumes, extrai-se Ética. Do latim, MORES. Donde moral. Ciência da moral. "Estudo dos juízos de apreciação referente à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto."¹. "Em outras palavras, ética e moral referem-se ao conjunto de costumes tradicionais de uma sociedade."² INTRODUÇÃO A Ética moral, enquanto ciência que estuda as virtudes da humanidade, vem sendo especulada desde os tempos antigos até os nossos dias, pelos mais ilustres filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Rousseau, Kant, Hegel, Kierkegaard e outros. Contudo, sabemos que o primeiro código ético, enquanto regras a serem cumpridas, data, segundo a Bíblia, dos tempos do antigo testamento com os Dez Mandamentos, mas mesmo assim já havia quem os transgredia. Ainda dentro de uma visão bíblica, entende-se que o descumprimento das leis divinas, tem origem desde a criação da terra com Adão e Eva. Há quem fale que o contraste de moralidade hoje, reflete o pecado cometido no início dos tempos. Numa abordagem mais filosófica, comentaremos sobre o ético na concepção de alguns filósofos, fazendo entre eles uma relação de modo a deixar claras as divergências e convergências de pensamentos no que tange as suas concepções de Ética. Abordaremos também, a partir de um prisma mais social, as desigualdades de pensamento que legitimam a relativização do comportamento ético, desde as sociedades gregas, fazendo uma reflexão histórica nas épocas que mais transpareceu o amoral. Ainda numa visão sociológica, analisaremos alguns fatores que fortalecem o descaso da virtude moral com as sociedades de hoje. Entraremos no Brasil de 64 relembrando a mobilização e o sofrimento dos contras- 1. HOLANDA, Aurélio B. de. Novo dicionário da língua portuguesa. 2 . CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia, p. 340. UNIDADE 2 | UNIDADE 2 116 ditadura por uma realidade social igualitária e chegaremos até o Brasil dos anos 90 abordando verdadeiros exemplos de cidadania expressa na mobilização da sociedade por uma política Ética. A ÉTICA E SOCIEDADE: Em buscade uma Ética universal A ÉTICA como "[...] reflexão científica, filosófica e até teológica [...]"³ , vem sendo estudada desde a antiguidade pelos mais renomados filósofos. Sócrates, consagrado "fundador da moral"4, destacou-se nesta área da filosofia por buscar em suas indagações, a convicção pessoal dos transeuntes para obter uma melhor compreensão da justiça. Sócrates acreditava nas leis, mas como pensador capaz de pôr em prova o próprio subjetivo, às questionava, gerando um descontentamento aos conservadores gregos da época. A condenação de Sócrates a beber veneno ainda é um questionamento, cuja resposta possa estar nas entrelinhas dos argumentos conservadores do poder: "[...] as leis existiam para serem obedecidas e não para serem justificadas."5 Já Platão (427-347 a.C.), admirável discípulo de Sócrates, articulava em suas inspirações teóricas a ideia de se encontrar a felicidade no centro das questões éticas. A sabedoria para Platão, não está expressa no saber pelo saber, ou melhor, não se identifica o sábio pela sua grandeza de conhecimentos teóricos, mas pela sua grandeza de virtudes. O homem virtuoso tende a encontrar e contemplar o mundo ideal. Aristóteles (384-322 a.C.), também pensador da Grécia antiga, fundamentou maior parte de seu postulado teórico no empirismo onde, baseado no tipo de sociedade, desenvolveu algumas obras que enfocam as questões éticas daquele tempo: Ética a Eudemo, Ética a Nicômaco e uma Magna Moral. Aristóteles não descarta a relação entre Ser e o Bem, porém enfatiza que não é um único bem, mas vários bens, e que esse bem deve variar de acordo com a complexidade do ser. Para o homem, por exemplo, há a necessidade de se ter vários bens, para que este possa alcançar a felicidade humana. A virtude em Aristóteles está entre os melhores dos bens. Com o cristianismo, percebemos que se encerra o papel da filosofia moral enquanto determinante do que é ou não ético. As ações humanas agora se norteiam na divindade de um único Deus, e não mais no politeísmo como na cultura grega. O ético reflete agora a consciência interior de cada um, é o que estabelece o coração do indivíduo. Em coerência com essa visão cristã de ação moral, Rousseau, já, por volta do século XVIII, argumenta que a moralidade é obra divina. O agir naturalmente dentro dos mais puros princípios éticos, reflete a existência de Deus em nossos corações. Em Rousseau, ao obedecermos ao dever externo, estamos obedecendo aos nossos corações. Para ele, os homens nascem puros e bons, a sociedade é quem os corrompe. "[...] se o dever parece ser uma imposição e uma obrigação externa, imposta 3. Álvaro L. M. VALLS, O que é Ética, p. 7. 4. Id. Ibid., p. 17. 5. Idem. TÓPICO 2 | UNIDADE 2 117 por Deus aos humanos, é porque nossa bondade foi pervertida pela sociedade quando criou a propriedade privada e os interesses privados [...]".6 Em oposição a essa concepção, encontramos Kant no final do séc. XVIII. Kant se contrapõe a Rousseau por negar a existência da "bondade natural"7. Nos corações dos homens só existem sentimentos negativos e para conseguirmos superar todos esses males, devemos almejar uma Ética racional e universal identificada no dever moral. Ao contrário de Rousseau e Kant, vamos encontrar Hegel, que encara a questão Ética de outro prisma. Opondo-se ao argumento do coração como determinante da vontade individual de Rousseau, e a da moral racional de Kant, Hegel diz que somos seres indissociáveis. O ser humano é histórico e vive o coletivo em todas as suas ações, associado aos seus costumes e as suas manifestações culturais. É por esse ângulo que Hegel argumenta sobre a vontade coletiva que guia nossas ações e comportamentos. A família, o trabalho, a escola, as artes, a religião etc. norteiam nossos atos morais e determinam o cumprimento do dever. É também por essa linha de pensamento que tentaremos direcionar nosso raciocínio enfocando as relações éticas no contexto político-social, expondo a relativização do comportamento ético nos últimos tempos. A Ética, como conjunto de normas e valores que regem uma sociedade deve necessariamente refletir a consciência e as ações desse povo, assim como trazer consigo o tipo de organização que alimenta essa sociedade. Acreditamos na universalidade do comportamento e das ações éticas, assim como na sua transformação relativa às transformações das sociedades que as impera, mas se voltarmos às sociedades da Grécia antiga e fizermos o percurso histórico até os nossos dias, vamos encontrar diversidade de virtudes e comportamentos, ao ponto de colocarmos em cheque essa virtude que tanto sonhamos para todos. Se analisarmos a educação espartana e a ateniense, ambas vividas numa mesma época, e entrarmos no feudalismo e verificar o contraste entre os servos e os senhores feudais, os dogmas da Igreja enquanto posicionamento do clero como meio de conservar seu poder em detrimento à vida dos que questionavam tais dogmas, continuar caminhando até o séc. XVIII e nos depararmos com as injustiças sociais nas quais a miserável classe proletariada subordinava-se em plena revolução industrial, trabalhando 14 a 15 horas por dia, sem restrição de cor, raça, sexo e idade, com alguns ficando até neuróticos em decorrência do volume de trabalho que havia, e tudo para beneficiar um pequeno grupo de capitalistas que emergia em detrimento à vida dos necessitados. Nesse caso, seria essa a Ética do capitalismo? E no caso do clero, a Ética da Igreja? Sim, certamente, mas é importante também refletirmos sobre o lado moral e o princípio Ético universal idealizado por Kant. Os costumes e as regras morais impostas pelo clero na idade média e pelos capitalistas no sec. XVIII, não refletiam com certeza, a consciência da maioria da população, de suas respectivas épocas, nem tão pouco, o dever moral dos submissos não atendia e nem atende aos interesses dos dominadores. 6. CHAUÍ, Marilena, Convite à filosofia, p. 344. 7. Idem. UNIDADE 2 | UNIDADE 2 118 Hoje, à beira do século XXI, ainda nos deparamos com situações que fogem aos anseios de uma Ética universal, onde pessoas injustiçadas perdem a vida, morrem de fome, passam as piores necessidades e situações de constrangimento por serem negras ou pobres. Instituições como a família, Igreja e organizações culturais ainda cultivam no seio de suas atividades valores representativos de uma Ética padrão e de valores condizentes com a noção humanitária de vida, porém por outro lado, sentimos na pele ações de uma minoria que infringe as normas legais e ultrapassam as barreiras do Ético na ânsia de adquirir ou conservar seu poder. Em apoio e como cúmplice deste processo de decadência moral, encontramos os meios de comunicação de massa. Com enorme força de poder de conscientização, eles funcionam de maneira a levar aos lares da sociedade, as situações mais ilusórias e pervertidas do social, fazendo com que seu público caia no abismo do amoral. Lamentavelmente, a televisão como meio de comunicação que atinge em maior proporção a população em todas as camadas, desponta na frente como meio que mais distorce a realidade e infiltra na população a ideologia dominante, quando ao invés disso, poderia utilizar tal poder no sentido de esclarecer, educar e conscientizar a população, almejando uma sociedade igualitária onde o branco, o negro, o rico e o pobre tenham direitos iguais. Particularmente, o Brasil dos últimos 50 anos enfrentou algumas altas e baixas no que tange à liberdade de vida de maneira digna. A que mais repercutiu foi o golpe de 64 que originou o despertar da comunidade estudantil e da sociedade em geral para questões primárias como liberdade e democracia. A repressão originada pelo golpe sacrificou toda uma geração com todos os meios possíveis de tortura e constrangimento.Uns mortos, outros torturados e outros para não serem mortos ou presos passaram a viver no exílio, mesmo assim não escapavam das perseguições. Os quase 10 mil brasileiros que viviam no exterior, principalmente na América latina, não se intimidaram com essas repressões, mesmo exilados em países diferentes, formaram uma corrente contraditadura não deixando o espírito do patriotismo morrer. Pessoas como Paulo Freire, Gilberto Gil, Herbert de Souza e outros, trouxeram do exílio verdadeiras lições de vida e conhecimentos, contribuindo com a educação, cultura e dando sua participação de solidariedade humana. Está expresso aí nas ações dessa gente o verdadeiro significado de comprometimento moral com a sociedade. Hoje, final da década de 90, sentimos que alcançamos algumas melhorias na sociedade, principalmente no que tange à conscientização de uns poucos para as questões morais que norteiam a sensibilidade do homem às situações críticas e polêmicas da sociedade. Projetos como a “Ação da cidadania contra a miséria e pela vida” e a própria tentativa de dar um basta na corrupção política do país, resgatou a confiança do povo para um Brasil melhor onde habita o dever do valor moral e de uma postura socialmente Ética Com certeza, disparidades sociais são vividas em todo o mundo. A existência de dominantes e dominados parece ser o requisito principal para se viver em sociedade. Mas estamos caminhando para essa superação, e certamente, a educação é a melhor maneira de montarmos a nossa estratégia no sentido de alcançarmos uma padronização nas ações e comportamentos dos homens. TÓPICO 2 | UNIDADE 2 119 DICAS Para compreendermos melhor o que acabamos de estudar, sugerimos que você realize a seguinte leitura e assista ao filme indicado: ● BARROCO, Maria Lúcia Silva. Ética: fundamentos sócio-históricos. 6. ed. v.4 São Paulo: Cortez, 2008. ● A PROCURA DA FELICIDADE. Gênero: Drama. Tempo de Duração: 117 minutos. Ano de Lançamento (EUA): 2006. Site Oficial: <www. aprocurada felicidade.com.br>. Direção: Gabriele Muccino. Elenco: Will Smith (Chris Gardner), Jaden Smith (Christopher), entre outros. O ideal seria alcançarmos o idealismo kantiano, de uma Ética universal onde todos sejam norteados pelos mesmos princípios e eticamente puros. Entendemos que isso há de ser conseguido aos poucos dentro de um processo educativo e cauteloso. A nosso ver, é somente através da educação, que conseguiremos concretizar o nosso projeto de "homenização" e de adquirirmos essa conscientização política. BIBLIOGRAFIA VALLS, Álvaro L. M. O que é Ética, Coleção primeiros passos, 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. SOUZA, Herbert de & RODRIGUES, Carla. Ética e cidadania. Coleção polêmica, 4. ed. Moderna, 1994. RIOS, Terezinha Azevedo. Ética e competência. Coleção questões da nossa época. V.16. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1994. CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia in filosofia moral. São Paulo: Ática, 1994. FONTE: MESQUITA, José Carlos S. de. Ética e sociedade: em busca de uma ética universal. Disponível em: <http://www.doutrina.linear.nom.br/cientifico/Filosofia/%C9TICA%20E%20SO- CIEDADE.htm>. 120 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, trabalhou-se como se processa o espaço da ética na relação indivíduo versus sociedade, abordando alguns aspectos históricos da construção ético-moral dos homens em sociedade. Demonstrando que: É pelo comportamento humano e, principalmente, por meio de seu modo de ser, hábitos e costumes que determinamos e consolidamos nossa moral e, por conseguinte, a ética. Esta constituição advém da história de cada ser humano que vive em sociedade. O homem social nasce da natureza e de sua inter-relação com os outros de sua espécie, em que suas habilidades e aptidões são desenvolvidas no decorrer de seu processo de humanização. É o próprio homem o “autor e produto” de sua construção. O homem desenvolve suas capacidades de forma consciente e livre. Por meio do trabalho, o homem é capaz de transformar a natureza, o seu meio e a si próprio, mantendo sua própria vida em sociedade. A sociabilidade humana pode ser compreendida como o berço da constituição do homem social ou ser social. É por meio de nossas atividades humanas que nos constituímos como homens, perpetuando-nos historicamente. É por meio da constituição de consciência que analisamos, calculamos e aspiramos ideias, realizando um processo de escolha do que pode ou não ser feito, do que é bom ou não para nós e para os outros. O homem tem a possibilidade de realizar suas escolhas de forma livre e consciente. E estas escolhas podem ser consideradas a constituição da liberdade humana. A liberdade de escolha dos homens proporciona autonomia. A autonomia dos homens denota que o ser humano é um ser livre e tem o poder de escolha. As escolhas humanas devem ser sempre conscientes. É por meio do trabalho que o ser humano se constitui um homem consciente e livre. 121 AUTOATIVIDADE Baseado(a) na afirmação que “O homem é que escreve sua própria história”, responda: a) O que você compreende por SOCIABILIDADE HUMANA? b) O que você compreende por liberdade incondicional e livre-arbítrio? c) A partir do conceito de liberdade, interprete o ditado: “Se eu não for por mim mesmo, quem será por mim? Se eu for apenas por mim, que serei eu? Se não agora – quando?” d) Qual o papel da CONSCIÊNCIA HUMANA na prática profissional dos homens? Justifique. 122 123 TÓPICO 3 A RELAÇÃO ENTRE TRABALHO, SER SOCIAL E ÉTICA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, prezado(a) acadêmico(a), iremos desvendar as questões do mundo do trabalho, e como o homem, enquanto um ser social se comporta e se desenvolve como ser social por intermédio do trabalho, além de verificarmos como a ética está envolvida neste processo. O processo de trabalho é atividade dirigida com o fim de criar valores de uso, de apropriar os elementos naturais às necessidades humanas; é condição necessária do intercâmbio material entre o homem e a natureza; é condição natural e eterna da vida humana, sem depender, portanto, de qualquer forma dessa vida, sendo antes comum a todas as suas formas sociais. (MARX, 1987, p. 27). Verificamos que a ética e o trabalho podem ser considerados uma extensão do exercício profissional, que denota uma ação real, concreta, transformadora da realidade da sociedade em que estamos inseridos. A ética e o trabalho vêm se transformando historicamente, pois nossos costumes, princípios e hábitos se transformam no decorrer dos tempos. Neste contexto, abordaremos vários aspectos das relações entre o trabalho, a ética e o ser social. 2 O QUE É TRABALHO? Pode-se compreender que é por meio do trabalho dos homens que a sociedade se forma, se organiza tanto política, econômica e socialmente. É o trabalho que estrutura as nossas relações sociais. O trabalho se torna fundamental para o desenvolvimento dos princípios ético-morais de uma sociedade, pois é ele que medeia todas as nossas relações. Em outras palavras, o trabalho é a mola propulsora da vida em comunidade. De acordo com Gonçalves e Wyse (1997, p. 61-62): O trabalho pode ser visto como lugar de autorrealização do homem, extensão de sua personalidade, espaço de criatividade, onde ele fala de si, mostra-se diante do seu grupo social, expressa sua identidade, presta um serviço social e contribui para o bem comum. Mas também pode ser encarado como uma maldição, lugar de tortura, suportado pela necessidade do salário ao final do mês. 124 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 Por meio do trabalho, desenvolvemos vínculos tanto sociais como comunitários com as outras pessoas. Estas relações sociais podem ser consideradas a base fundamental à própria vida dos seres humanos. Segundo Tomelin e Tomelin (2002, p. 118) “através do trabalho, o homem se diferenciou dos outros animais, produzindobens e transformando a natureza. Pelo trabalho o homem fundamentou a sua vida cultural e a civilização. Para os outros animais, o trabalho visa satisfação imediata e instintiva, sem acúmulo de saberes”. Complementando, Aranha e Martins (2003, p. 24) colocam-nos que: O trabalho humano é uma ação transformadora da realidade, dirigida por finalidades conscientes. Ao reproduzir técnicas já usadas e ao inventar outras novas, a ação humana se torna fonte de ideias e, portanto, experiência propriamente dita. Por isso dizemos que o animal não trabalha – mesmo quando cria resultados materiais com essa atividade –, pois sua ação não é deliberada, intencional. Dessa forma, o animal não produz propriamente sua existência, apenas a conserva agindo instintivamente ou, quando se trata de animal de maior complexidade orgânica, resolvendo problemas por meio da inteligência concreta. [...] Esses atos visam a defesa, a procura de alimentos e de abrigo. Assim, não devemos pensar que o castor, ao construir o dique, e o João-de- barro, a sua casinha, estejam “trabalhando”. Portanto, pode-se observar que quando o homem transforma a natureza por meio do trabalho, ele próprio está se transformando. IMPORTANTE Lembra da história do LOLO BARNABÉ, de Eva Furnari, que você leu na Unidade 1 deste Caderno? O mesmo demonstra claramente esta transformação da natureza. Então, aproveite para rever a história. (FURNARI, Eva. Lolo Barnabé. São Paulo: Moderna, 2000). 3 A ÉTICA DO TRABALHO Com a evolução humana e, em consequência, com a evolução da própria sociedade, observamos que, por intermédio do trabalho, começou a surgir uma nova concepção de classe social, denominada burguesia, a qual desenvolve novos hábitos, princípios e valores morais perante a sociedade, mediando, diretamente, as relações sociais entre todos os seres humanos. TÓPICO 3 | UNIDADE 2 125 Estes novos interesses, que dependem diretamente do trabalho e do desenvolvimento de uma produção que garanta a expansão do comércio, na produção incondicional de novas riquezas, acabaram exigindo, dos seres humanos, uma dedicação exclusiva ao trabalho, no intuito de angariar maior produtividade e prosperidade dos detentores do capital. De acordo com Gonçalves e Wyse (1997, p. 23), “a nova classe em ascensão tem como característica as virtudes de laboriosidade, honradez, puritanismo, amor à pátria e à liberdade, em contraposição aos vícios da aristocracia – desprezo ao trabalho, ociosidade, libertinagem”. Portanto, o trabalho, hoje, se tornou um fato social que determina a própria existência do homem em sociedade, legitimando-o como um ser humano. Segundo Gonçalves e Wyse (1997, p. 23-24): Antes, o trabalho sempre foi visto de forma negativa. Na sua origem, a palavra trabalho vem do Latim tripalium, que significa um instrumento de tortura. Mesmo na Bíblia o trabalho é proposto como castigo pela culpa de Adão e Eva (nos termos bíblicos, o homem é condenado a trabalhar e a ganhar o pão com o suor do seu rosto, ficando a mulher condenada ao trabalho de parto). Na Grécia Antiga e na Idade Média, [o trabalho] é desvalorizado por estar reservado aos escravos e aos servos. A sociedade moderna declara o trabalho uma expressão de liberdade, uma vez que, por meio dele (seja pela força física, pela ciência, pelas artes) o homem modifica a natureza, inventa a técnica, cria nova realidade, enfim, altera o curso das coisas, alterando a si próprio e a sociedade onde ele vive. Outro fator relevante nesta discussão é a questão de que, por meio do trabalho, os homens constituem seus laços sociais, pois começam a pertencer a um determinado grupo social, acontecendo de acordo com o poder aquisitivo, status que o trabalhador obtém por meio de seu trabalho, ou seja, conforme o seu salário e sua formação do capital, este trabalhador estabelece determinados vínculos sociais, que determinam a que classe social eles pertencem. Por meio do comportamento humano nas relações de trabalho, e seu papel em sociedade, desenvolve-se a ética do trabalho. IMPORTANTE A ÉTICA DO TRABALHO consiste em entender essa atividade – o trabalho – como fator fundamental à construção da identidade e da realização pessoal e ao estabelecimento de uma ordem social, onde prevaleçam relações fundadas na dignidade, na liberdade e na igualdade entre os homens. (GONÇALVES; WYSE, 1997, p. 24). 126 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 Verificamos que o trabalho denota alguns valores morais que são constituídos pela própria sociedade (capitalista) em que estamos inseridos, tais como: disciplina, obediência, atenção e segurança pessoal. Porém, como fica a questão da liberdade, igualdade e autonomia do trabalhador? Observamos que, na modernidade, a questão da autonomia, liberdade e igualdade entre os seres humanos são tidas como uma condição da própria natureza humana. E que este valor é considerado como um fator necessário para o desenvolvimento da ética do trabalho. Entretanto, será que, por natureza, os homens são realmente iguais entre si? Historicamente, podemos observar que todos os homens apresentam muitas diferenças, pois cada um possui um modo de vida, uma etnia e visão de mundo diferentes, como: opção sexual, etnia, religião, força física, sonhos, desejos, objetivos de vida, entre muitas outras diferenças, que são resguardadas como direito de igualdade em nossa sociedade. É só observar o que prediz a nossa Constituição Federal. NOTA Caro(a) acadêmico(a), para compreender melhor esta questão, sugerimos a releitura dos artigos 1º, 3º e 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao. htm>. Segundo Gonçalves e Wyse (1997, p. 25-26), “na defesa desses interesses, o homem moderno lança Mão de uma teoria – a teoria liberal – que utiliza os conceitos de igualdade e de liberdade natural para justificar sua prática social, sua ordem econômica e inclusive, a forma de organização do estado moderno”. Finalizando, podemos entender que esta teoria liberal, por sua vez, formula e regula suas próprias leis com relação à economia de uma sociedade, na qual estas leis e normas preconizam um equilíbrio das relações de mercado, de compra e venda. TÓPICO 3 | UNIDADE 2 127 LEITURA COMPLEMENTAR 1 TRABALHO E REALIZAÇÃO HUMANA Silvio Gallo Se, por um lado, o trabalho torna-se elemento de alienação do homem, não tornando possível a ele uma participação ativa na transformação do objeto, percebemos, por outro lado, que o trabalho pode ser motivo de realização do ser humano. Para Marx, o homem se define pela produção. Pelo simples fato de o homem produzir, ele se diferencia dos animais, porque a realidade humana é explicada por fatores reais: produção em relação ao humano. Por isso, ao produzir seus meios de vida, o homem produz indiretamente sua própria vida, material e espiritual. Desde que há homem, há produção e desde que ele produz e transforma a natureza, há história. Uma história real: nem essência humana indiferente à vida social, humana e histórica e nem existência separada da essência e, sim, a essência que só pode ser descoberta na existência social e histórica dos indivíduos. Mas a essência do homem nunca se manifestou de fato ao longo da história, porque sua existência sempre foi negada ante sua essência, porque o homem encontrou-se sempre alienado ao trabalho. A essência é concebida no trabalho; num trabalho oposto ao alienado, no trabalho criador, consciente e livre. Se o trabalho é fonte de alienação e não de criação, o homem desumaniza-se. Marx viu a essência do trabalho com os olhos de um artista. O trabalho deve espelhar a atividade artística: uma expressão da criatividade e da inteligência humanas,que possibilita a transformação da natureza, constituindo uma fonte de prazer e alegria. No mundo atual, e da forma como as relações de trabalho estão constituídas, são poucos os que podem participar efetivamente da alegria do trabalho. Há um trabalho maldito, desgastante e sofrido. E o próprio Marx denunciou isso, dizendo que não há salário que possa pagar a degradação do corpo e da alma, o uso do ser humano para fins lucrativos. Para que a história não seja a da negação do homem, precisamos entender que a relação existente entre essência e existência é uma relação dominada por interesses que regem uma sociedade. Trata-se, portanto, dos homens e das relações entre eles. No caso da sociedade capitalista, esses homens são os burgueses, de um lado, e os operários, de outro. Como vimos anteriormente, o burguês é o dono do objeto, e o operário é o dono da força de produção que vai transformar o objeto em riquezas para a sociedade. Portanto, o homem é um ser produtor que produz e transforma os objetos e que não participa deles, porque o produto pertence a outro homem, dominante nas relações sociais. Mas os homens são os sujeitos dessas relações, e estas podem ser transformadas pela própria ação humana, de modo a possibilitar o exercício de um trabalho livre e criativo, expressão da grandeza humana. 128 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 O trabalho é, portanto, em primeiro lugar, um processo de transformação material entre a natureza e o homem. Num segundo momento, é o processo pelo qual ele realiza, regula e controla sua ação física de necessidades e consumos produtivos. E, num terceiro momento, o trabalho se encontra como um elemento importante de realização humana, pois pela ação humana no trabalho o objeto se transforma e o trabalhador também, pois é da sua força de produção que o objeto ganha forma, arte e riqueza que serão marcadas e contempladas pela existência humana através dos tempos [...]. FONTE: GALLO, Silvio (coord.) Ética e cidadania: caminhos da filosofia. Campinas: Papirus, 1999. p. 49. LEITURA COMPLEMENTAR 2 A seguir, disponibilizamos a letra da Música Construção, do cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda. Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de cimento e tráfego Sentou pra descansar como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo Bebeu e soluçou como se fosse máquina Dançou e gargalhou como se fosse o próximo E tropeçou no céu como se ouvisse música E flutuou no ar como se fosse sábado TÓPICO 3 | UNIDADE 2 129 E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas E se acabou no chão feito um pacote tímido Agonizou no meio do passeio náufrago Morreu na contramão atrapalhando o público Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado Morreu na contramão atrapalhando o sábado. FONTE: HOLLANDA, Chico Buarque de. Construção. Disponível em: <http://www.chicobuar- que.com.br/discos/mestre.asp?pg=construcao_71.htm>. Acesso em: 18 mar. 2009. DICAS Para melhorar o seu entendimento sobre todos os assuntos que discutimos neste tópico, utilize as seguintes sugestões de leitura e filme: ● Artigo: A estrutura da vida inteira e os embaraços da alienação, de José César dos Santos. Disponível em: <http://www.insite.pro.br/2005/31-A%20estrutura%20da%20vida%20 inteira%20e%20os%20embara%C3%A7os%20da%20aliena%C3%A7%C3%A3o.pdf>. ● GONÇALVES, Maria H.B; WYSE, Nely. Ética e trabalho. Rio de Janeiro: Ed. SENAC Nacional, 1997. 130 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 O DIABO VESTE PRADA Gênero: Comédia. Tempo de Duração: 109 minutos. Ano de Lançamento (EUA): 2006. Site Oficial: <www.devilwearspradamovie.com>. Direção: David Frankel. Elenco: Meryl Streep (Miranda Priestly), Anne Hathaway (Andrea “Andy” Sachs), Emily Blunt (Emily), Stanley Tucci (Nigel) entre outros. TEMPOS MODERNOS (dir. Charles Chaplin). Título Original: Modern Times. Gênero: Comédia. Tempo de Duração: 87 minutos. Ano de Lançamento (EUA): 1936. Estúdio: United Artists / Charles Chaplin Productions. Distribuição: United Artists. Direção: Charles Chaplin. Elenco: Charles Chaplin (Trabalhador) e outros. POESIA: “O operário em construção” de Vinicius de Moraes. Disponível em: <http://letras.terra. com.br/vinicius-de-moraes/87332/>. ou pelo livro: MORAES, Vinicius. O operário em construção. Don Quixote, 2001. 131 RESUMO DO TÓPICO 3 Em se tratando da relação entre trabalho, ser social e ética, demonstramos que: A ética e o trabalho podem ser considerados uma extensão do exercício profissional. A práxis profissional denota ser uma ação real, concreta, transformadora da realidade da sociedade em que estamos inseridos. A ética e o trabalho vêm se transformando historicamente, pois nossos costumes, princípios e hábitos se transformam no decorrer dos tempos. É por meio do trabalho dos homens que a nossa sociedade se forma, se organiza tanto política, econômica e socialmente. É o trabalho que estrutura as nossas relações sociais. O trabalho se torna fundamental para o desenvolvimento dos princípios ético- morais de uma sociedade, pois é ele que medeia todas as nossas relações sociais. O trabalho é a mola propulsora da vida em sociedade. Por meio do trabalho, desenvolvemos vínculos tanto sociais como comunitários com os outros homens que também vivem em sociedade. As relações sociais entre os homens podem ser consideradas a base fundamental à própria vida dos seres humanos. Quando o homem transforma a natureza por meio do trabalho, ele próprio está se transformando. Por intermédio do trabalho, começou a surgir uma nova concepção de classe social, denominada burguesia, a qual desenvolve novos hábitos, princípios e valores morais perante a sociedade, que medeia diretamente as relações sociais entre todos os seres humanos. Os interesses burgueses dependiam diretamente do trabalho e do desenvolvimento de uma produção que garantisse a expansão do comércio e a produção incondicional de novas riquezas. O trabalho, hoje, tornou-se um fato social que determina a própria existência do homem em sociedade e assim o legitima como um ser humano. Por meio do trabalho, os homens constituem seus laços sociais, pois começam a pertencer a um determinado grupo social, isto acontece de acordo com o poder aquisitivo, status que o trabalhador obtém por meio de seu trabalho. 132 Por meio do comportamento humano nas relações do trabalho e seu papel em sociedade, desenvolve-se a ética do trabalho. Os homens apresentam muitas diferenças entre si, pois cada um possui um modo de vida, uma etnia e visão de mundo também diferente, como: opção sexual, etnia, religião, força física, sonhos, desejos, objetivosde vida, entre muitas outras diferenças. Estas diferenças são resguardadas como direito de igualdade em nossa sociedade. Podemos entender, então, que a teoria liberal, por sua vez, formula e regula suas próprias leis com relação à economia de uma sociedade, na qual estas leis e normas preconizam um equilíbrio das relações de mercado, de compra e venda. 133 1 A partir da leitura dos dois textos de apoio (Trabalho e realização humana, de Silvio Gallo, e Construção, de Chico Buarque de Hollanda), reflita sobre o TRABALHO ALIENADO na sociedade em que vivemos. Analise se as questões expostas nestes dois textos estão relacionadas à nossa vida do dia a dia em sociedade, com nossa família, nosso trabalho, nossos amigos, na escola etc. No dia de seu encontro presencial, discuta esta questão com os seus colegas de sala de aula. 2 Leia o texto a seguir: As mais significantes ações que afetam o crédito de um homem devem ser consideradas. O som de teu martelo às cinco da manhã, ou às oito da noite, ouvido por um credor o fará conceder-te seis meses a mais de crédito; ele procurará, porém, por seu dinheiro no dia seguinte, se te vir em uma mesa de bilhar ou escutar tua voz, em uma taverna, quando deverias estar no trabalho; exigi-lo-á de ti antes que possa dispor dele. Isto mostra, além do mais, que estais consciente do que possuis; fará com que pareças um homem tão cuidadoso quanto honesto e isto ainda aumentará mais o teu crédito. (Retrato da Cultura Americana, Benjamin Franklin) Você pode perceber que o texto manifesta valores que o autor atribui ao trabalho. Após essa constatação, responda: a) Quais são esses valores? b) Até que ponto esses valores são compatíveis com aqueles propostos pela ética da modernidade (ética do trabalho)? AUTOATIVIDADE 134 135 TÓPICO 4 A ÉTICA PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL E SEU PROJETO ÉTICO-POLÍTICO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Verificamos que o homem possui uma necessidade de interagir com os outros homens em sociedade, pois, por meio do trabalho, o homem produz e reproduz sua vida na sociedade em que está inserida. Só assim, os seres humanos desenvolvem sua cultura, hábitos e costumes, além de seu poder de valorar seu próprio comportamento, decidindo o que é certo ou errado, bom ou mau nas relações dentro da comunidade de vivência. Desta relação advém as questões sociais, objeto da prática profissional do Assistente Social, que é regulada por meio de seu projeto ético-político. Portanto, prezado(a) acadêmico(a), agora estudaremos como se processam as intervenções éticas dos profissionais do serviço social e qual é o seu objetivo de sua práxis profissional. 2 AS INTERVENÇÕES ÉTICAS NA PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL A prática profissional do Assistente Social dos últimos anos ganhou grande relevância teórica, política e ética, após a promulgação do Código de Ética Profissional dos Assistentes Sociais, através da Resolução CFESS nº 273, de 13 de março de 1993 (BRASIL, 2009a). Esta resolução determina os princípios e valores determinantes para a prática profissional do Assistente Social, diretamente inseridos em seu projeto ético-político profissional. ESTUDOS FU TUROS Você verá na próxima unidade um debate acerca do Código de Ética do Assistente Social (Resolução CFESS nº 273, de 13 de março de 1993). 136 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 O projeto ético-político profissional do Assistente Social, de acordo com Iamamoto (1999, p. 12) trata de um “projeto profissional indissociável da democracia, da equidade, da liberdade, da defesa do trabalho, dos direitos sociais e humanos, contestando discriminações de todas as ordens”. Nesta perspectiva, a práxis profissional do Assistente Social está permeada numa direção social, ou seja, nas questões sociais advindas das relações comportamentais dos homens em sociedade, mais precisamente de suas contradições. 3 O OBJETO DA PRÁTICA PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL Como já observamos anteriormente, o objeto da prática profissional do Assistente Social são as expressões das questões sociais. Contudo, o que é uma questão social? E o que é uma expressão da questão social? Podemos compreender que a questão social está diretamente vinculada aos conflitos advindos do capital versus trabalho, ou seja, são todos os problemas sociais, políticos e econômicos que surgem das relações cotidianas do trabalho, formando as desigualdades sociais. De acordo com Iamamoto e Carvalho (1996, p. 77): A questão social não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia, a qual passa a exigir outros tipos de intervenção mais além da caridade e repressão. Teles (1996, p. 85), complementa, afirmando que: [...] a questão social é a aporia das sociedades modernas que põe em foco a disjunção, sempre renovada, entre a lógica do mercado e a dinâmica societária, entre a exigência ética dos direitos e os imperativos de eficácia da economia, entre a ordem legal que promete igualdade e a realidade das desigualdades e exclusões tramada na dinâmica das relações de poder e dominação. Também se torna relevante pontuarmos que estas desigualdades sociais se apresentam de forma diferente no decorrer da própria história da humanidade, pois o modo de produção, o desenvolvimento e a dinâmica econômica, política e social vêm se transformando conforme a própria evolução do homem em sua convivência em sociedade. TÓPICO 4 | UNIDADE 2 137 Em cada momento histórico, as questões sociais vão ganhando novas formas. Formas estas que chamamos de expressões da questão social, ou seja, a questão social sempre foi a mesma desde os tempos mais remotos da humanidade e independem de classe social. O que vem mudando são suas formas de apresentação, pois, de acordo com as transformações do modo de produção, vão surgindo contradições sociais, que se transformam nas diversas formas de expressão da questão social. Então, as expressões da questão social se apresentam de formas diferentes conforme a classe social em que o homem está inserido. Estas expressões se formam diretamente nas contradições da produção e apropriação da riqueza que foi e é gerada pela sociedade, pois nem sempre o trabalhador que produz esta riqueza pode usufruir da mesma. Citamos, nos quadros a seguir, as questões sociais e algumas de suas expressões: QUADRO 2 – QUESTÕES SOCIAIS TRABALHO HABITAÇÃO ALIMENTO SAÚDE SEGURANÇA EDUCAÇÃO JUSTIÇA POLÍTICA FONTE: A autora QUADRO 3 – EXPRESSÕES DA QUESTÃO SOCIAL QUESTÃO SOCIAL EXPRESSÕES DA QUESTÃO SOCIAL Trabalho • a pobreza; • o trabalho escravo; • o trabalho infantil; • o trabalho informal; • o desemprego; • a doença ocupacional; • a inadimplência; • entre outros. Família • brigas conjugais; • violência doméstica; • delinquência juvenil; • pedofilia; • estupro; • divórcio; • discórdias familiares; • entre outros. 138 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 Habitação • favelas; • moradores de ruas; • movimento dos Sem-Terra (MST); • reforma agrária; • entre outros. Saúde • saúde pública; • alimento; • fome; • desnutrição; • a falta de leitos em hospitais; • drogas; • alcoolismo; • mortalidade infantil; • entre outros. Segurança • violência; • a delinquência juvenil; • criminalidade; • entre outros. Educação • a baixa escolarização; • analfabetismo; • entre outros. Justiça • a ineficiência da justiça; • questão da igualdade de direitos e deveres; • entre outros. Política • analfabetismo político; • política do Idoso; • política da infância e juventude; • política da assistência social; • entre outros. FONTE: A autora Será quea QUESTÃO SOCIAL é realmente objeto profissional do Assistente Social? TÓPICO 4 | UNIDADE 2 139 Iamamoto (1997, p. 14) define o objeto do Serviço Social nos seguintes termos: Os assistentes sociais trabalham com a questão social nas suas mais variadas expressões quotidianas, tais como os indivíduos as experimentam no trabalho, na família, na área habitacional, na saúde, na assistência social pública etc. Questão social que sendo desigualdade é também rebeldia, por envolver sujeitos que vivenciam as desigualdades e a ela resistem, se opõem. É nesta tensão entre produção da desigualdade e produção da rebeldia e da resistência, que trabalham os assistentes sociais, situados nesse terreno movido por interesses sociais distintos, aos quais não é possível abstrair ou deles fugir, porque tecem a vida em sociedade. [...] a questão social, cujas múltiplas expressões são o objeto do trabalho cotidiano do Assistente Social. De acordo com Faleiros (1997, p. 37): [...] a expressão questão social é tomada de forma muito genérica, embora seja usada para definir uma particularidade profissional. Se for entendida como sendo as contradições do processo de acumulação capitalista, seria, por sua vez, contraditório colocá-la como objeto particular de uma profissão determinada, já que se refere a relações impossíveis de serem tratadas profissionalmente, através de estratégias institucionais/relacionais próprias do próprio desenvolvimento das práticas do Serviço Social. Se forem as manifestações dessas contradições o objeto profissional, é preciso também qualificá-las para não colocar em pauta toda a heterogeneidade de situações que, segundo Netto, caracteriza, justamente, o Serviço Social. Finalizando, podemos afirmar que é imprescindível que o serviço social intervenha também na esfera das desigualdades sociais, em suas mais diversas expressões, pois sua atuação se dá intrinsecamente na busca constante das transformações da sociedade, através da luta dos direitos sociais e de cidadania, desejando o equilíbrio e a mediação dos conflitos advindos da relação do trabalho versus capital, por meio de diversas políticas sociais do Estado. DICAS Como leitura complementar deste tópico, sugiro que você leia o texto intitulado “A Construção do Projeto Ético-Político do Serviço Social”, de José Paulo Netto. Você pode encontrar este texto no seguinte site: <http://www.fnepas.org.br/pdf/servico_social_saude/ texto2-1.pdf>. 140 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 DICAS Para aprofundarmos o nosso estudo sobre tudo o que vimos nesse tópico, sugiro que você leia o seguinte texto: BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. A Questão Social no Brasil. Disponível em: <http:// www.hottopos.com/vdletras3/vitoria.htm>. Acesso em: 27 mar. 2009. BARROCO, Maria Lúcia Silva. Ética e serviço social: fundamentos ontológicos. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2008. SÁ, Antônio Lopes de. Ética Profissional. 4. ed.. São Paulo: Atlas, 2001. E os seguintes livros: TÓPICO 4 | UNIDADE 2 141 LEITURA COMPLEMENTAR O DEBATE SOBRE O OBJETO DO SERVIÇO SOCIAL: REFLEXÃO SOBRE A ATUAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL FRENTE À QUESTÃO SOCIAL Andréia Cristina da Silva ALMEIDA INTRODUÇÃO A grande discussão que ocorre no campo da profissão do Serviço Social, diz respeito a seus elementos constituintes, sendo o objeto, a teoria, o método e a especificada. Vários são os autores que discutem as questões, porém cada qual com seus argumentos e defesas. Pensar no objeto do Serviço Social requer conhecimento e estudo e reflexões, embasadas teoricamente na direção dos pensamentos dos estudiosos referente ao Serviço Social. A questão social vem sendo posta como objeto do Serviço Social desde a nova proposta do currículo profissional, marcado com vários debates, contradições e afinidades entre aqueles que discutem o referido tema. Aqui, neste breve estudo, trataremos sobre alguns pensamentos de autores sobre o objeto do serviço social, levantando sobre as defesas e contradições postas nas principais bases teóricas que o Serviço Social possui em seu acervo teórico. Também elucidaremos a importância do método de intervenção do assistente social sobre esse objeto, sendo este um assunto de fundamental relevância para enriquecer a prática profissional. Contudo, esse breve estudo, objetiva refletir sobre alguns posicionamentos defendidos pelos estudiosos, autores e militantes que abordam a questão do objeto do Serviço Social. É objetivo também desse artigo discutir sobre a relação do Serviço Social com a questão social, visto que este fenômeno é colocado como objeto de intervenção da profissão, conforme defendido na base teórica elaborada por Marilda Vilela Iamamoto e demais autores que apoiam esse pensamento. Diante desse objetivo, é fundamental afirmar que compreendemos o objeto de intervenção do Serviço Social sendo este construído e reconstruído, mediante a intencionalidade da atuação do profissional e a realidade que intervém, devendo este ser desvelado, ou seja, eliminado as impregnações e os fetiches existentes sobre este objeto. O objeto do Serviço Social deve ser desmistificado, através de aproximações sucessivas, saindo do concreto aparente e indo para o concreto pensado. Compreendemos também que, pensar nos elementos que fundamentam o Serviço Social, requer compreender suas particularidades, uma vez que é imprescindível o aprofundamento intelectual da base teórica referente a esses elementos. Assim, é possível perceber uma precarização do conhecimento teórico 142 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 da profissão, no interior da categoria, ficando aparente o desconhecimento do real espaço de intervenção, diante das contradições que operam o Serviço Social. No circuito dinâmico, as mudanças globalizadas do mundo do trabalho, com o impacto da reestruturação produtiva, a introdução da tecnologia e da informatização, a consciência dos empresários referente à produção e ao trabalho, onde objetivam cada vez mais a rentabilidade do capital. Tais provocam significantes mudanças na prática dos profissionais, incluindo o Serviço Social que lida diretamente na relação capital e trabalho. Assim, pensar o objeto da profissão do serviço social requer cautela e principalmente coerência ao mercado de trabalho que este profissional está inserido, sem deixar para traz os princípios éticos e as lutas e defesas assumidas deste profissional, conforme é posto na legislação que permeia a profissão: Projeto Ético Político, Código de Ética e Lei que Regulamente a Profissão. Por outro lado, o assistente social necessita ter uma prática sustentada por uma teoria calcada em certeza, coerências, compromissos e princípios éticos, para que no cotidiano a prática profissional não se torne um mero “fazer por fazer”, distanciando assim de uma prática com compromisso ético-político-social. I - O SERVIÇO SOCIAL E SEU OBJETO Discutir sobre o objeto de intervenção do Serviço Social é sempre um grande desafio, uma vez que as profissões são originadas para atender às necessidades dos homens, diante de um contexto histórico e de uma sociedade em constante movimento. Esse movimento da sociedade traz novas demandas, novas necessidades sociais e consequentemente novas exigências profissionais, além de novas profissões, onde umas emergem e outras desaparecem, num movimento dialético. O Serviço Social nessa lógica vem ao longo de sua história, principalmente após o movimento de reconceituação, um lugar de destaque nas discussões, debates e reflexões acerca da sua composição. Tratando, mais especificamente do objeto do Serviço Social, muitas são as divergências e debates entre os autores, uns defendem que a profissão não possui um objeto próprio como afirma Montaño (2007, p. 136) que define da seguinteforma: “... o Serviço Social não possui um objeto de conhecimento próprio” outros debatem dizendo que o Serviço Social possui um objeto específico, como afirma Iamamoto. (2000, p. 62). O objeto de trabalho (...) é a questão social. É ela em suas múltiplas expressões, que provoca a necessidade da ação profissional junto à criança e ao adolescente, ao idoso, a situações de violência contra a mulher, à luta pela terra etc. Essas expressões da questão social são a matéria-prima ou o objeto do trabalho profissional. TÓPICO 4 | UNIDADE 2 143 Também, nessa direção a questão social é afirmada como posto por Yasbeck (1999, p. 91) “é a matéria-prima e a justificativa da constituição do espaço do Serviço Social na divisão sociotécnica do trabalho e na construção/atribuição da identidade da profissão”. Também essa defesa é apresentada por Guerra (2000) que destaca que o aparecimento do Serviço Social como profissão surge com o agravamento das expressões da questão social. “O Serviço Social, sendo um trabalho, e como tal de natureza não liberal, tem nas questões sociais a base de sustentação da sua profissionalidade e sua intervenção se realiza pela mediação organizacional de instituições públicas, privadas ou entidades de cunho filantrópico.” (GUERRA, p. 18). Nas perspectivas de outros autores, como Ezequiel Ander-Egg (apud, MONTAÑO, 2007, p. 132) concede que haja efetivamente um objeto próprio do Serviço Social, no entanto, este é construído pelo profissional por meio da sua perspectiva interdisciplinar, por outro lado, a autora Josefa Batista (apud, MONTAÑO, 2000, p. 132) contradiz, afastando a “qualquer hipótese no sentido da apropriação pelo Serviço Social, ao nível do real, de um fenômeno social que seja de sua única e especifica competência, como se fosse possível um divisão real do real” Sobre a perspectiva de Ezequiel Ander-Egg, a construção do objeto do Serviço Social, também é defendida por Bachelard (apud MONTAÑO 2007, p. 133) onde defende a ideia de que o “objeto é construído” por cada profissão a partir de determinada “perspectiva”, que lhe outorgaria sua especificidade. Essa especificidade, compreendida como “formas particulares assumidas pela disciplina nesta relação, é o próprio projeto na sua totalidade” (BATISTA LOPES, apud MONTAÑO, 2007, p. 133). A autora ainda afirma que “só identificando a especificidade identifica-se o objeto”. Percebe-se, portanto, na ideia de Batista Lopes, compreende que as realidades como resultantes de um processo de construção, tornam-se objeto do Serviço Social quando este propõe a essas realidades, uma relação de conhecimentos e intervenção, sempre direcionados por uma perspectiva. (idem: p. 134). Diante dessa defesa da autora, na direção da construção do objeto diante de uma “perspectiva”, existe uma discussão em que Carlos Montaño (2007, p. 134) define da seguinte forma: Na medida em que se entende que o objeto de estudo e intervenção de uma dada profissão é construído a partir de certa “perspectiva” esta é construída a partir de uma relação que o sujeito estabelece com a realidade, mediada pelo projeto profissional e na medida em que se suponha que esta dita “perspectiva” própria a cada profissão, demarca sua “especificidade”, então estará se realizando também um “recorte” da realidade. Recorte este que, no entanto, poderá nesta perspectiva “reconstruir” a totalidade do real desde que se trabalhe interdisciplinarmente. 144 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 Na direção de um trabalho interdisciplinar, soma-se a essa ideia, as defesas de Mitjavila, (apud, MONTAÑO, 2007, p. 132) em que o “trabalhador social constrói um objeto próprio a partir de um ponto de vista interdisciplinar”. Em síntese, são várias as discussões pertinentes ao Serviço Social, que percorrem sobre seu objeto, sua especificidade, suas teorias, sendo que cada autor apresenta suas ideias e suas defesas, contribuindo para um debate com muita riqueza, que nos propicia refletir sobre tais elementos pertinentes a essa profissão. O Serviço Social compreendido como uma profissão que tem uma função social, inserida na divisão social do trabalho, de caráter sociopolítico, interventivo e crítico, é imprescindível conhecer, discutir sobre qual objeto se debruça, ou seja, qual o objeto de trabalho a profissão nos dias de hoje? Tais questionamentos são debatidos desde o início do Serviço Social no Brasil (1937) onde definiu o homem caracterizado como pobre, favelado, marginalizado, dentre outros, como sendo o objeto de sua intervenção, cuja finalidade da profissão era moldá-lo, enquadrá-lo na filosofia neotomista. Posteriormente a esse período, a profissão pôde perceber que essa ideia de homem era equivocada, transferindo a ele uma noção de resultado das situações que exigia a intervenção do Serviço Social e não objeto dessa profissão. Na década de 70, pós-movimento de reconceituação, e com as manifestações populares contra a ditadura, o Serviço Social na busca do seu objeto de intervenção, equivocadamente define a transformação social, sendo o real objeto de sua intervenção. Com esse equívoco, que não se efetivou, foi possível a profissão buscar, então, à aproximação com as lutas e defesas dos interesses das classes subalternas e excluídas pelo capitalismo, o que permanece até os dias de hoje. Nessa lógica, no processo de reconceituação o Serviço Social orientado pela lógica da teoria marxista, se apropria da questão social, como objeto de sua intervenção. Tal discussão, ainda presente nos dias de hoje, é compreendido por alguns autores de formas distintas, o que enriquece a teoria do Serviço Social frente a discussões de seu objeto. II - A INTERVENÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NAS EXPRESSÕES DA QUESTÃO SOCIAL – DEFENDIA COMO OBJETO DO SERVIÇO SOCIAL A questão social, compreendida como um fenômeno que emerge no século XIX, com a era da industrialização, concomitante com a pauperização, na contradição do modo de produção capitalista, onde uma parcela da sociedade (trabalhadores) produz a riqueza, enquanto outra parcela (capitalistas) se apropria dela, na qual o trabalhador não usufrui da riqueza que produz. TÓPICO 4 | UNIDADE 2 145 Discutir sobre a questão social nos obriga entender o seu conceito, onde nos apropriamos das explicações apresentada por Iamamoto (2000) que é considerada uma das concepções mais difundidas do Serviço Social. A questão social não é senão as expressões do processo da formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia, a qual passa a exigir outros tipos de intervenção mais além da caridade e repressão. (CARVALHO; IAMAMOTO, 2000, p. 77). Nesse contexto, é possível contextualizar a questão social não somente diante das desigualdades sociais, mas também perante o processo de resistência das lutas dos movimentos dos trabalhadores, ou seja, das classes subalternas, em busca da garantia dos seus direitos. Pensando na questão social, também tratamos de refletir sobre aspectos da pobreza, favelização, fome, analfabetismo, trabalho escravo, violência, desemprego, trabalho infantil, dentre outros, que são consideradas expressões da questão social, provocada por um modelo econômico totalmente excludente e desigual. Marilda Iamamoto (2000, p. 38) afirma que tais expressões da questão social “vêm afetando não só os direitos sociais, mas o próprio direito à vida”, mesmo com os esforços e lutas dos movimentos das classes subalternas em busca de impedir que esse quadroagrave e se amplie. Tratando da questão social e o serviço social, nos apropriamos, mais uma vez, das reflexões de Iamamoto (2000) que afirma que o assistente social trabalha diretamente com as expressões da questão social nas mais variadas expressão do cotidiano, ou seja, nas diversas áreas de atuação profissional: saúde, educação, habitação, criança e adolescente, dentre outras. Afirma ainda que esse fenômeno é “a matéria-prima do trabalho profissional, sendo a prática profissional compreendida como uma especialização do trabalho participe de um processo de trabalho”. (IAMAMOTO, 2000, p. 59). É nesse contexto que ocorre a intervenção do assistente social, diante desse cenário de acúmulo de capital em que poucos têm acesso e muitos vendem sua força de trabalho, para sobreviver, ou seja, uma relação desigual entre capital e trabalho, caracterizado como um campo de tensão e desconforto, na qual exige o envolvimento do Assistente Social, apreendendo formas de mediar essa relação. Um fator de fundamental importância nessa discussão é compreender que a questão social como “lócus” de trabalho do Serviço Social, traz para este profissional, grandes desafios em sua atuação. Tais desafios referem-se às diversas expressões manifestadas na vida individual e/ou coletiva dos sujeitos, e que de certa forma, estes sujeitos se rebelam com resistências e rebeldias, como forma de manifestação contraria as tais expressões. É aí que se exige do assistente social alguns requisitos do assistente social a fim mediar essa relação entre capital e trabalho. 146 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 Esse sujeito é o principal elemento para demonstrar os agravantes que a questão social provoca na vida individual e coletiva, violando seus direitos, desprotegendo-os de uma vida com segurança de renda, de alimentação, de saúde, de educação, de segurança pública, enfim de segurança de uma vida com digna. Pensar na intervenção do Serviço Social, tendo como objeto a questão social, é relevante aclarar qual o posicionamento necessário desse profissional, diante do direcionamento de sua prática. Compreendo que a partir da década de 70, a categoria profissional, na perspectiva de ruptura com o conservadorismo, “propõe colocar a profissão a serviço dos interesses dos explorados e dominados, buscando novos fundamentos, novos conteúdos e objetivos e novas bases de legitimação da ação profissional”. (SILVA, 2007, p. 15). Diante disso, o profissional é possibilitado a construir ações no horizonte dos interesses das classes subalternas, com inovações e com perspectivas de criação de um espaço profissional renovado, que desmistifica a sua neutralidade diante das ações profissionais. Reconhecemos que para essa propensa “ruptura” com o conservadorismo, é necessário que profissionais capacitados para criar outras formas de desvelamento da realidade, das expressões da questão social, apreender a questão social é também captar as múltiplas formas de pressão social, de inversão e de reinversão da vida, construídas no cotidiano, pois é no presente que estão sendo recriadas as novas formas de viver, que apontam um futuro que está sendo germinado. (IAMAMOTO, 2000, p. 28). Nessa direção, ressaltamos que dar conta das expressões da questão social requer muito mais que os instrumentos práticos, já utilizados no cotidiano profissional, como: técnicas, reuniões, entrevistas, dentre outros, mas sim conhecimentos, acúmulo de saberes, novas habilidades, além da capacidade de manter envolver sistematicamente com os debates referentes às expressões da questão social e as proposições relativas às políticas sociais, compreendido uma exigência fundamental dada ao assistente social. A apropriação de conhecimento deve ser um exercício constante como suporte para o profissional desvelar a realidade da qual o individuo vive, além de apresentar novas propostas de superação da desigualdade social, “solidárias ao modo de vida daqueles que a vivenciam, não só como vitimas, mas como sujeitos que lutam pela preservação e conquista da sua vida, da humanidade.” (IAMAMOTO, 2000, p. 75). O conhecimento da realidade em que essa profissão intervém é fundamental, pois “se não tem domínio da realidade que é objeto do trabalho profissional, como é possível construir propostas de ações inovadoras? Construí- las, com base em quê?” (IAMAMOTO, 2000, p. 41) [...] o conhecimento não é só um verniz que se sobrepõe superficialmente à prática profissional, podendo ser dispensado: mas é um meio pelo qual é possível decifrar a realidade e clarear a condução do trabalho a ser realizado. (IAMAMOTO, 2000, p. 63). TÓPICO 4 | UNIDADE 2 147 Os assistentes sociais são profissionais capazes de manter um acervo de informações e saberes suficientes para conhecer como essas expressões da questão social se manifestam e como o individuo experimenta tais expressões em seu cotidiano. Para tanto, compreende-se que o conjunto de conhecimentos, teórico- metodológico e empírico são elementos fundamentais para descobrir novas formas de desvelamento da realidade, bem como criar em seu cotidiano, espaços democráticos e participativos, pois é imprescindível a necessidade de um profissional com conhecimentos e habilidades aprimorados, visto que este deve ser apropriado em seu cotidiano, iluminando e aprimorando sua intervenção, e também contribuir para a leitura da realidade em que está inserida. Para tanto, o processo de desvelamento da realidade requer conhecimento e capacidade profissional, além de envolvimento com o sujeito e/ou grupo em que está ser relacionando, podendo exemplificar com o trabalho do assistente social no campo da política de assistência social, mais especificamente no CRAS – Centro de Referência de Assistência Social, localizado em um território onde os indivíduos se encontram em situação de vulnerabilidade social, exigindo do profissional conhecimento da realidade, das necessidades e das expectativas da comunidade local, e para tal conhecimento se faz necessário envolvimento, Iamamoto, Marilda V., O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional, 3º ed.; São Paulo, Cortez, 2000, p. 75, articulação, compromisso ético-político, além de capacidade de apresentar junto a essa comunidade, propostas de superação da realidade vivenciada e novas alternativas de superação. Importante salientar que, na perspectiva de apontar novas propostas de superação das expressões da questão social, requer do profissional a capacidade de acompanhar o movimento da sociedade, que se altera e apresenta, a cada momento, novas características e necessidades diferenciadas, vivenciadas pelos sujeitos e pelo coletivo, alterando também o direcionamento metodológico e intelectual do profissional, ou seja, requer do assistente social novos olhares, novos conhecimentos e novas práticas, conforme a realidade e o momento histórico em que está intervindo. Para tanto o assistente social deve se apresentar como um agente político crítico, capacitado, informado, culto e crítico, deixando de ser somente um mero executor das ações, e assumindo um papel de propositor de propostas de superação das expressões da sociedade que se manifesta na vida dos sujeitos. Diante dessas requisições, se faz necessário o rompimento o teoricismo, bem como romper com “o fazer por fazer”, compreendendo que prática e a teoria são condições que requer a apropriação um da outra. “A teoria do Serviço Social como “sistematização abstrata que deve ser remetida ao campo das Ciências Sociais ou do marxismo, em particular, e entendem que o nível do conhecimento do ser social, objeto da construção teórica, 148 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 é o mesmo nível de intervenção da ação profissional, ficando desautorizadaa separação metodologia do conhecimento e metodologia da ação”. (SILVA, 2007). Contudo, é justo afirmar que tais competências, configuram-se como um dos elementos essenciais para novas respostas profissionais, capaz de construir espaços democráticos, e incentivar, bem como fortalecer, lutas e movimentos sociais, direcionados a conquistas de uma sociedade justa e democrática. III - O ASSISTENTE SOCIAL E O MÉTODO DE DESVELAMENTO DA REALIDADE Diante do contexto da necessidade de acumulo de saberes, envolvimento profissional, enfim uma prática pensada, rumo à construção de possibilidades em descobrir e conhecer a realidade da qual está intervindo, é imprescindível abordarmos sobre o método na qual possibilitará o alcance desse objetivo. Para tanto, é necessário ir além do que é “visível”, ou seja, buscar aprofundar, conhecer, apreender os fenômenos, para que de fato conheça a realidade que irá intervir, assim o assistente social precisa incorporar um método de trabalho, na qual possa lhe dar respostas a estes questionamentos. Nessa direção, o autor Reinaldo Nobre Pontes (1995, p. 16) destaca, para a ação profissional se manter dentro do estatuto de profissional idade, tem que compor o suporte de um corpo de conhecimento científico, expresso na seguinte matriz: 1 – a teoria social traz no seu bojo um método, um arcabouço categorial organizadamente articulado, propiciador de um conhecimento do ser social, bem como da possibilidade de captação de direções a serem assumidas na intervenção no real; 2 – o projeto de sociedade constitui a utopia (LÖWY, 1987), que se deseja atingir, ou melhor, a direção teleológica que busca a construção de uma ordem social superior. É, portanto, uma dimensão de natureza eminentemente teórico-política; 3 – o projeto profissional não se identifica com o anterior, como querem alguns segmentos da profissão, porque esta dimensão ilumina a especificidade mesma da profissão; sua inserção socioconstitutiva; sua particularidade em face da divisão sociotécnica do trabalho; a complexa relação entre demanda institucional e demanda profissional; as perspectivas teórico-metodológicas próprias dos vários projetos profissionais particularizados no interior da profissão; as perspectivas historicamente construídas pelos profissionais no direcionamento político- institucional da área de intervenção privilegiada no âmbito das políticas sociais; a assistência social; 4 – o instrumental teórico-técnico de intervenção constitui o corpo de conhecimento imediatamente ligado à dimensão operativa propriamente dita da profissão. TÓPICO 4 | UNIDADE 2 149 Esses são os domínios necessários, compreendido pelo autor, para propiciar ao assistente social um plano cognitivo-operativo em sua atuação, o que também depende do projeto societário que o profissional apresenta, sendo esses elementos fundamentais para direcionar a atuação profissional. Portanto, a mediação possibilita o profissional ir além da operacionalização, conhecer as particularidades dessa realidade, desvelando o que se está “oculto”, além de revelar os nexos entre a teoria e a prática profissional, pois o conhecimento adquirido na ação cotidiana, no campo empírico não traz um conhecimento pronto e acabado, requer ser sustentado por embasamento da teoria, compreendendo assim que o conhecimento empírico se constrói, traduz, codifica e decodifica um conjunto de questões que se colocam à prática profissional em determinado momento (BAPTISTA, 1986: 4), e dela extrai um saber. O cotidiano deve ser compreendido como um espaço a ser explorado como “campo de conhecimento”, onde o assistente social possa desenvolver suas ações, sob uma prática pensada, com possibilidades da construção do “novo” e da apropriação de saberes. Para tanto, a ação profissional perante o seu objeto, requer um método de trabalho que possibilite sair do concreto, daquilo que está aparente, visível, e limitado, possibilitando a reconstrução desse objeto. Perante a esse contexto, é necessário conhecer as categorias de analise que o Assistente Social se apropria para decodificar o seu objeto de trabalho, visto que a mediação é a categoria principal da pratica do Assistente Social, compreendida como: “componente estrutural do ser social” (PONTES, 1995, p. 77) e ainda “expressões históricas das relações que o homem edificou com a natureza e consequentemente das relações sociais daí decorrentes, nas várias formações sócio-humanas que a historia registrou”. Também definida por LuKács (apud PONTES, 1995, p. 79), a categoria medição na dimensão ontológica: Pontes, Reinaldo Vieira, Mediação e Serviço Social, São Paulo, Cortez Editora; Belém, Pa: Universidade da Amazônia, 1995, p. 17. Suguihiro, Vera. L. T. A ação investigativa na prática cotidiana do Assistente Social, disponível em: <http://www.ssrevista.uel.br/c_v2n1_invest. htm>. Acesso em: 29 jul. 2009. Não pode existir nem na natureza, nem na sociedade nenhum objeto que neste sentido [...] não seja mediato, não seja resultado de mediações. Deste ponto de vista, a mediação é uma categoria objetiva, ontológica, que tem que estar presente em qualquer realidade, independente do sujeito (1979). E ainda, segundo Pontes (1995, p. 95). A categoria mediação foi introduzida no discurso profissional inicialmente pela via da análise política, na sua articulação no bojo das políticas sociais e de uma inserção sócio-profissional. A pressão das demandas postas pela realidade à profissão pode-se afirmar, foi a geradora da discussão metodológica da mediação enquanto categoria teórica. 150 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 Na questão da mediação perante os debates dos autores de Serviço Social, Reinaldo Nobre Pontes (1995), em seu livro Mediação e Serviço Social, apresenta as ideias de Faleiros que, aponta uma preocupação com o “teoricismo”, ou seja, a categoria mediação discutida entre os intelectuais, mas que não chega à prática profissional, como afirma nesse trecho: O que mais me intriga na discussão desta categoria (mediação) é que ela não passa a fazer parte da análise de nenhum objeto da prática profissional, ela é usada por intelectuais, não se incorporando no cabedal da prática, o que, aliás, é uma das características do teoricismo dito reconceituado, que é incapaz de incorporar esta categoria na prática. (FALEIROS, 1992). Assim, diante dessa citação de Faleiros, compreende-se que, devemos evitar sim o “teoricismo”, mas também por outro lado o “pratiquismo”, que deve ser abolido na profissão, pois as necessidades atuais requerem um profissional que ofereça uma prática pensada, com embasamento teórico, desmistificando o velho pensamento de que “teoria e prática não se combinam” ou “na prática é outra coisa”, mostrando uma ideia que a prática não se apropria da teoria, e nem vice-versa, assim, nesta direção, deve-se buscar uma apropriação de saberes profissionais, na qual a discussão sobre mediação é elemento primordial. Perante a categoria mediação, ainda são necessários estudos, pesquisas, que possibilitem a ampliação da base teoria sobre esse assunto, pois, sabe-se que somente no final da década de 80, se inicia uma discussão mais avançada sobre Pontes, Reinaldo Vieira, Mediação e Serviço Social, São Paulo, Cortez Editora; Belém, Pa: Universidade da Amazônia, 1995, p. 95, esse tema, onde até os dias de hoje, a discussão é ainda tímida, porém, percebe-se mais presente, nas propostas de aquisição de novos saberes profissionais. As categorias mediação na prática do Serviço Social são imprescindíveis e necessárias, a fim de possibilitar um pensamento crítico profissional, a qualidade nas respostas oferecidas à realidade que intervém, a melhor compreensão da totalidade do objeto, a possibilidade de sair do imediatismo,do visível e ir para uma prática pensada, embasada teoricamente e com possibilidade de construção de novos conhecimentos. Em síntese, as categorias são elementos fundamentais para desmistificarem, explicarem e reconstruírem o objeto de intervenção, como afirma Iamamoto (2000, p. 191), é meio de “detectar as dimensões da universalidade, particularidade e singularidade na análise dos fenômenos presentes no contexto da prática profissional.” Assim, a categoria mediação é um elemento fundamental para conhecer o objeto de intervenção em sua totalidade, bem como reconstruir o objeto através de uma prática pensada, saindo do imediato, do visível, do aparente. V- CONSIDERAÇÕES FINAIS Compreendo que em se tratando do objeto do serviço social, a relação dessa profissão com a questão social vem sendo afirmada desde o currículo de 1982, porém com muita ênfase nos pressupostos das novas diretrizes curriculares de 1996, uma vez que a questão social é defendida como fundamento do processo TÓPICO 4 | UNIDADE 2 151 histórico da profissão, porém tal afirmação requer precaução e maior discussão para ser defendidas nos diversos processos de trabalho do Serviço Social. Compreendo que a relação do serviço social com a questão social, não deve ser vista como um posicionamento único e acabado, pois é uma discussão que deve acompanhar o movimento da própria realidade, aonde novas demandas e novas atribuições vai surgindo à profissão. Assim entendo que os assistentes sociais trabalham com as expressões da questão social em seu cotidiano, trabalham também diretamente com os sujeitos que vivenciam as expressões da questão social, que requer um profissional criativo, competente, e que desvele as expressões da questão social, como também desvele quais as alternativas, opções e caminhos para revertê-la. As demandas que o Serviço Social tem foco a atender são diversas, portanto todas emergidas do sistema capitalista, onde a divisão de classe tem sido cada vez mais fortalecida e diferenciada. Assim o profissional tem várias dimensões para atender as necessidades que esse sujeito, grupos, comunidades, enfim esse público requer, como a organização em grupos para o acesso e defesa dos direitos civis, sociais e políticos; a melhoria das condições de vida da comunidade; a ampliação de espaços democráticos e participativos, dentre outros. Para isso, busca-se um profissional capacitado, criativo e comprometido, a fim de romper com o feitiço da caridade, da ajuda, do filantropismo. O trabalho do assistente social está interligado às relações sociais vigentes nessa sociedade, onde o desenvolvimento capitalista traz muitas alterações na realidade em que intervém. Em fim, compreendo que a profissão tem sua intervenção direcionada, principalmente, pelos parâmetros ético-políticos coletivamente construídos, na direção de afirmação dos direitos sociais, e para a contribuição de uma sociedade que supere a questão social como matéria de trabalho, a fim de se conquistas uma sociedade mais justa e igualitária. BIBLIOGRAFIA CAPACITAÇÃO em Serviço Social e política social: módulo 1: a crise contemporânea, questão social e serviço social. Brasília. Ed. Da UnB. Centro de Educação Aberta, Continuada a Distância, 1999. CAPACITAÇÃO em serviço social e política social: módulo 2 : reprodução social, trabalho e serviço social. Brasília: Ed. da UnB, Centro de Educação Aberta, Continuada a Distância, 1999. GUERRA, Yolanda. Instrumentalidade do processo de trabalho e serviço social. In Serviço Social e Sociedade. São Paulo: Cortez, n. 62, Ano XX, março 2000, p. 05-34. 152 UNIDADE 2 | UNIDADE 2 IAMAMOTO, Marilda V. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 3. ed. São Paulo, Cortez, 2000. __________. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológico. 13. ed. São Paulo, Cortez; (Lima, Peru): CELATS, 2000. MONTAÑO, Carlos. A natureza do serviço social, São Paulo, Cortez, 2007. NETO, José P. Ditadura e serviço social: uma analise do Serviço Social no Brasil pós 64, 12. ed., São Paulo, Cortez, 2008. __________. Capitalismo monopolista e serviço social, 6. ed., São Paulo, Cortez, 2007. PONTES, Reinaldo Vieira, Mediação e Serviço Social, São Paulo, Cortez Editora; Belém, Pa: Universidade da Amazônia, 1995, p. 17. SILVA, Maria O. da S.; O serviço social e o popular: resgate teórico-metodológico do projeto profissional de ruptura, 4. ed., São Paulo, Cortez, 2007. SUGUIHIRO, Vera. L.T. A ação investigativa na prática cotidiana do assistente social. Disponível em: <http://www.ssrevista.uel.br/c_v2n1_invest.htm>. Acesso em: 29 jul. 2009. FONTE: ALMEIDA, Andreia Cristina da Silva. O debate sobre o objeto do serviço social: reflexão sobre a atuação do serviço social frente à questão social. Disponível em: <http://intertemas. unitoledo.br/revista/index.php/ETIC/article/viewFile/2167/2347>. Acesso em: 20 set. 2011. 153 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico trabalhamos as questões éticas do profissional do Serviço Social e seu projeto ético-político. Para tanto, abordamos os seguintes assuntos: ● Verificamos que o homem possui uma necessidade de interagir com os outros homens, em sociedade. ● É por meio do trabalho que o homem produz e reproduz sua vida na sociedade em que está inserido. ● Só por meio da interação social os seres humanos desenvolvem sua cultura, hábitos e costumes. ● Da relação dos homens em sociedade é que advém as questões sociais, objeto da prática profissional do Assistente Social, regulada por meio de seu projeto ético-político. ● O Código de Ética do Assistente Social, Resolução CFESS nº 273, de 13 de março de 1993 (BRASIL, 2009a), determina os princípios e valores determinantes para a prática profissional do Assistente Social, que estão diretamente inseridos em seu projeto ético-político profissional. ● A práxis profissional do Assistente Social está permeada nas questões sociais advindas das relações comportamentais dos homens em sociedade, mais precisamente, de suas contradições. ● A questão social está diretamente vinculada aos conflitos advindos do capital versus trabalho. ● Todos os problemas sociais, políticos e econômicos, que surgem das relações cotidianas do trabalho, formam as desigualdades sociais. ● As desigualdades sociais apresentam-se de forma diferente no decorrer da própria história da humanidade, pois o modo de produção, o desenvolvimento e a dinâmica econômica, política e social vêm se transformando conforme a própria evolução do homem em sua convivência em sociedade. ● Em cada momento histórico, as questões sociais vão ganhando novas formas, que chamamos de expressões da questão social. 154 ● A questão social sempre foi a mesma desde os tempos mais remotos da humanidade, independentemente da classe social. ● Conforme as transformações do modo de produção, surgem contradições sociais e estas, por sua vez, se transformam nas diversas formas de expressão da questão social. ● O serviço social intervém na esfera das desigualdades sociais, em suas mais diversas expressões, pois sua atuação se dá intrinsecamente na busca constante das transformações da sociedade. ● Com a práxis profissional, o Assistente Social vem buscando sempre o equilíbrio e a mediação dos conflitos advindos da relação do trabalho versus capital. 155 ● Reflita e debata no grande grupo, a partir de sua própria experiência, sobre as suas escolhas e projetos individuais, além de expor o que você espera da sociedade em que vive. AUTOATIVIDADE 156 157 UNIDADE 3 O CÓDIGO DE ÉTICA DOS ASSISTENTES SOCIAIS BRASILEIROS E OS CONSELHOS DE FISCALIZAÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Esta unidade tem por objetivos: • apresentar os fundamentos e significados do Código de Ética dos Assistentes Sociais; • apresentar conteúdosde ligação com os Conselhos de Fiscalização do Serviço Social. A Unidade 3 está dividida em quatro tópicos. Ao final de cada um deles, você terá a oportunidade de fixar seus conhecimentos, realizando as atividades propostas. TÓPICO 1 – FUNDAMENTOS E SIGNIFICADOS DO CÓDIGO DE ÉTICA DOS ASSISTENTES SOCIAIS TÓPICO 2 – DOS DIREITOS E DAS RESPONSABILIDADES GERAIS DO ASSISTENTE SOCIAL TÓPICO 3 – O CÓDIGO DE ÉTICA DO ASSISTENTE SOCIAL BRASILEIRO TÓPICO 4 – OS CONSELHOS DE FISCALIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL 158 159 TÓPICO 1 FUNDAMENTOS E SIGNIFICADOS DO CÓDIGO DE ÉTICA DOS ASSISTENTES SOCIAIS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO A Conduta Profissional do Assistente deverá ser regida por seu Código de Ética, especialmente, pelos seguintes princípios e valores: QUADRO 4 – PRINCÍPIOS E VALORES FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA DO ASSISTENTE SOCIAL FONTE: A autora Além destes princípios e valores morais que determinam o modus operandi dos Assistentes Sociais, o código de ética do Assistente Social possui onze princípios fundamentais que norteiam sua prática profissional, no qual trataremos a seguir cada um deles. Princípios e Valores Fundamentais do Código de Ética do Assistente Social UNIDADE 3 | UNIDADE 3 160 2 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA São princípios fundamentais do Código de Ética: QUADRO 5 – PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA DO ASSISTENTE SOCIAL Princípios Fundamentais do Código de Ética do Assistente Social Liberdade Respeito à Diversidade Direitos Humanos Pluralismo Cidadania Projeto Profissional Democracia Movimentos Sociais Indiscriminação Equidade e Justiça Social Qualidade dos serviços prestados FONTE: A autora 2.1 LIBERDADE FIGURA 8 – REPRESENTAÇÃO DO SENTIMENTO DE LIBERDADE FONTE: Disponível em: <www.casaldogalo.com>. Acesso em: 25 fev. 2009. TÓPICO 1 | UNIDADE 3 161 “Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas a ela inerentes – autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais”. (BRASIL, 2009a) Observamos, na Unidade 2 deste Livro Didático, que todo homem pode fazer suas escolhas de forma livre e consciente, em que podem ser consideradas a constituição da liberdade humana. A liberdade é constituída no relacionamento direto entre os homens em sociedade, por meio de suas atividades humanas. Podemos considerar que o ser humano é um ser livre e tem o poder de escolha, desde que seja sempre consciente. Portanto, por meio do trabalho, o ser humano se constitui um homem consciente e livre. IMPORTANTE “LIBERDADE, essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que a entenda.” (Cecília Meireles) Contudo, o que é liberdade? No que tange à questão de liberdade, vejamos o que prediz Tomelin e Tomelin (2002, p. 127), quando tratam desta questão em seu livro “Do mito para a razão: uma dialética do saber”. Você, por muitas vezes, deve ter se sentido preso, sem liberdade para sair de casa ou fazer o que quer. Ou que, muitas vezes, ao ser livre para querer, acabam-se querendo o que os outros querem que se queira. [...] A liberdade sempre foi uma questão fundamental na história da humanidade. Todos nós queremos ser livres. Através da história, percebemos que muitas pessoas tiveram que pagar um preço alto pela sua liberdade. Muitos queimados em fogueiras, outros presos, perseguidos e torturados. Todos necessitam de liberdade. Até os animais. Você já reparou como o cachorro fica feliz quando o soltamos para correr? Podemos assim compreender que a liberdade é um poder de escolhas. Nesta perspectiva, observamos que a existência do ser humano, nas suas relações cotidianas, acaba revelando escolhas, ou seja, todos os dias escolhemos entre inúmeras possibilidades postas pela sociedade, o que é bom ou mau para nós e para os outros. Assim, podemos considerar que todo homem é livre para escolher, por si só, uma determinada possibilidade e renunciar outras. UNIDADE 3 | UNIDADE 3 162 Não podemos esquecer de que vivemos em sociedade, portanto, todas as nossas escolhas, direta ou indiretamente, influenciarão os demais membros da comunidade em que estamos inseridos. As nossas decisões refletem também diretamente sobre nós, ou seja, se por ventura eu decidir não mais estudar e trabalhar, isso influenciará diretamente a minha vida e a da minha família e dos amigos. Nesta perspectiva, Tomelin e Tomelin (2002, p. 128) expõem que “[...] quando escolho, torno-me humano, e escolho não apenas a mim, mas a toda humanidade. Nossas escolhas é que determinarão o nosso existir”. Partindo desta premissa, os profissionais do Serviço Social tomam como uma de suas bases fundamentais, para a práxis profissional, a LIBERDADE, conforme estabelecido no Código de Ética que regulamenta sua profissão (BRASIL, 1997). Podemos observar que a liberdade é tida como um valor ético, que determina, como um todo, a atuação profissional do Assistente Social, principalmente na tratativa das demandas políticas, buscando, constantemente, autonomia, desenvolvimento e emancipação dos indivíduos que vivem em sociedade, procurando sempre melhorar sua qualidade de vida. 2.2 DIREITOS HUMANOS FIGURA 9 – DIREITOS HUMANOS FONTE: Disponível em: <www.pedrowilson.com.br>. Acesso em: 25 fev. 2009. “Defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritarismo.” (BRASIL, 2009a). Outro princípio fundamental do Código de Ética Profissional do Assistente Social é a defesa e conservação incondicional dos direitos humanos. Direitos, estes, inscritos na Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 2009), que foi promulgada pela ONU – Organização das Nações Unidas, em 1948. TÓPICO 1 | UNIDADE 3 163 DICAS Como sugestão, entre no site da ONU/Brasil – Nações Unidas no Brasil, seu link é: <http://www.onu-brasil.org.br> , e procure mais informações referente a este assunto. Conforme o preâmbulo desta declaração, o Assistente Social, em sua prática profissional, deve desenvolver atividades laborais a partir das seguintes considerações: CONSIDERANDO que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo, CONSIDERANDO que o desprezo e o desrespeito pelos direitos do homem resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade, e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade, CONSIDERANDO ser essencial que os direitos do homem sejam protegidos pelo império da lei, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão, CONSIDERANDO ser essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações, CONSIDERANDO que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos do homem e da mulher, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla, CONSIDERANDO que os Estados Membros se comprometeram a promover, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos e liberdades fundamentais do homem e a observância desses direitos e liberdades, CONSIDERANDO que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso. (ONU, 2009, p. 1). DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS Versão Popular de Frei Betto Todos nascemos livres e somos iguais em dignidade e direitos. Todos temos direitos à vida, à liberdade e à segurança pessoal e social. Todos temos direito de resguardar a casa, a família e a honra. Todos temos direito ao trabalho digno e bem remunerado. Todos temos direito ao descanso,ao lazer e às férias. Todos temos direito à saúde e assistência médica e hospitalar. Todos temos direito à instrução, à escola, à arte e à cultura. Todos temos direito ao amparo social na infância e na velhice. Todos temos direito à organização popular, sindical e política. UNIDADE 3 | UNIDADE 3 164 Todos temos direito de eleger e ser eleito às funções de governo. Todos temos direito à informação verdadeira e correta. Todos temos direito de ir e vir, mudar de cidade, de Estado ou país. Todos temos direito de não sofrer nenhum tipo de discriminação. Ninguém pode ser torturado ou linchado. Todos somos iguais perante a lei. Ninguém pode ser arbitrariamente preso ou privado do direito de defesa. Toda pessoa é inocente até que a justiça, baseada na lei, prove o contrário. Todos temos liberdade de pensar, de nos manifestar, de nos reunir e de crer. Todos temos direito ao amor e aos frutos do amor. Todos temos o dever de respeitar e proteger os direitos da comunidade. Todos temos o dever de lutar pela conquista e ampliação destes direitos. FONTE: DHNET. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: <http://www. dhnet.org.br/direitos/deconu/textos/integra.htm>. Acesso em: 26 mar. 2009. Portanto, podemos dizer que os direitos humanos norteiam a base ética profissional do Assistente Social, pois estes desenvolvem suas atividades com base na liberdade, igualdade, justiça e paz do mundo e na defesa dos direitos fundamentais dos seres humanos, procurando sempre promover o progresso social e a ampliação da qualidade de vida de cada cidadão. 2.3 CIDADANIA FIGURA 10 – CIDADANIA FONTE: Disponível em: <www.vivaterra.org.br>. Acesso em: 26 mar. 2009. TÓPICO 1 | UNIDADE 3 165 “Ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial de toda a sociedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e políticos das classes trabalhadoras.” (BRASIL, 2009a). Podemos entender que, cidadania é um conjunto de direitos e deveres que denotam e fundamentam as condições do comportamento de cada indivíduo em relação à sociedade, ou seja, a cidadania designa normas de conduta para o convívio social, determinando nossas obrigações e direitos perante os outros integrantes da nossa sociedade. Ser cidadão é respeitar e participar das decisões da sociedade, para melhorar suas vidas e a de outras pessoas. Ser cidadão é nunca esquecer das pessoas que mais necessitam. A cidadania deve ser divulgada através de instituições de ensino e meios de comunicação, para o bem-estar e desenvolvimento da nação. A cidadania consiste desde o gesto de não jogar papel na rua, não pichar os muros, respeitar os sinais e placas, respeitar os mais velhos (assim como todas as outras pessoas), não destruir telefones públicos, saber dizer obrigado, desculpe, por favor e bom-dia quando necessário [...], até saber lidar com o abandono e a exclusão das pessoas necessitadas, o direito das crianças carentes e outros grandes problemas que enfrentamos em nosso país. “A revolta é o último dos direitos a que deve um povo livre para garantir os interesses coletivos: mas é também o mais imperioso dos deveres impostos aos cidadãos.” Juarez Távora - Militar e político brasileiro. (WEB CIÊNCIA, 2009, p. 1) Podemos observar três dimensões da cidadania: Cidadania civil: são aqueles direitos advindos da liberdade de cada indivíduo, como, por exemplo: o livre-arbítrio para expressar nossos pensamentos; o direito de propriedade (venda e compra de um imóvel, um bem ou serviço); entre outros. Cidadania política: podemos considerar que a cidadania política se legitima quando os homens exercem seu poder político de eleger e ser eleito para o exercício do poder político, independentemente da instituição pública ou privada na qual venha exercer suas atribuições. Cidadania social: compreendida como o conjunto de direitos concernentes ao conforto de cada cidadão, no que tange à sua vida econômica e social, ou seja, do seu bem-estar social. E é nesta perspectiva da garantia dos direitos e deveres de cada cidadão, que o Assistente Social desenvolve sua prática profissional. UNIDADE 3 | UNIDADE 3 166 2.4 DEMOCRACIA FIGURA 11 – DEMOCRACIA FONTE: Disponível em: <www.mises.org.br>. Acesso em: 16 mar. 2009. “Defesa do aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participação política e da riqueza socialmente produzida.” (BRASIL, 2009a). Podemos considerar que a democracia nada mais é do que um sistema de governo, no qual o povo governa para sua própria sociedade. Este sistema de governo democrático possui formatos diferentes nas diversas sociedades, pois, em cada uma, existem regas e normas diferentes e isto acontece por causa da constituição dos princípios ético-morais de cada localidade. Então, podemos dizer que, num governo democrático, o povo determina suas relações de poder sobre os demais integrantes, mas, mesmo assim, podemos distinguir a democracia em duas formas distintas: Democracia direta: na qual o povo decide diretamente, por meio de referendo/ plebiscito, se aceita ou não determinadas questões políticas e administrativas de sua localidade, Estado ou país. Democracia indireta: nesta, o povo participa democraticamente, por meio do voto, elegendo seu representante político, ou seja, uma pessoa que os represente nas diversas esferas governamentais, para tomar decisões cabíveis em nome do povo que os elegeu. Outro fator que não podemos esquecer é que, quando falamos em democracia, também falamos de distribuição democrática, das riquezas socialmente produzidas por meio do trabalho dos homens. TÓPICO 1 | UNIDADE 3 167 Assim, o Assistente Social possui a premissa de defender, incondicionalmente, a democracia política, econômica e social da sociedade, na qual desenvolve suas atividades por meio da socialização direta dos direitos de participação democrática em todas as esferas de poder. 2.5 EQUIDADE E JUSTIÇA SOCIAL FIGURA 12 – EQUIDADE FONTE: Disponível em: <www.sericosocialhoje.blogsport.com>. Acesso em: 26 mar. 2009. “Posicionamento em favor da equidade e justiça social, que assegure universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como, sua gestão democrática.” (BRASIL, 2009a). Podemos dizer que a equidade nada mais é do que fazer justiça com imparcialidade, pois todos os seres humanos possuem direitos e deveres perante a sociedade em que vivem. Estes direitos, por sua vez, denotam um conjunto de princípios morais, que acabam igualando todos os homens de uma mesma sociedade. IMPORTANTE Equidade é a igualdade de direitos entre os iguais. Contudo, devemos tomar cuidado, pois muita gente pensa que equidade é sinônimo de igualdade, mas não é bem assim, pois a equidade é vista por dois prismas: UNIDADE 3 | UNIDADE 3 168 Equidade horizontal: denota que existe um tratamento igualitário para todos os indivíduos, ou seja, não há distinção, pois o problema a ser resolvido é o mesmo, independentemente da classe social. Equidade vertical: denota que existem tratamentos diferentes para determinados grupos sociais, ou seja, dependendo da situação social do homem, o mesmo problema é tratado de forma diferente. Então, podemos dizer que a prática profissional do Assistente Social se processa na garantia da equidade e da justiça social, procurando assegurar a universalidade de direitos e o acesso aos bens produzidos por meio do trabalho a todos os indivíduos, sem distinção de cor, raça, etnia e classe social. 2.6 RESPEITO À DIVERSIDADE FIGURA 13 – DIVERSIDADE FONTE: Disponível em: <www.planetaeducacao.com.br>. Acesso em: 26 mar. 2009. “Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminadose à discussão das diferenças.” (BRASIL, 2009a). Conforme exposto nesta citação do Código de Ética Profissional do Assistente Social, podemos observar que outro princípio fundamental de sua práxis profissional se processa na mediação direta com todos os indivíduos de uma determinada sociedade, com intuito de eliminar toda e qualquer forma de preconceito e discriminação, seja ele racial, étnico, cultural, religioso entre outros, além de incentivar, constantemente, o respeito às diferenças e diversidades humanas. Entretanto, o que é diversidade? Pois bem, ao tratarmos da questão da diversidade, devemos, primeiramente, compreender o significado de tolerância, porque a diversidade denota que todos os homens devem aceitar e compreender as diferenças humanas. TÓPICO 1 | UNIDADE 3 169 IMPORTANTE Nenhum homem na face da Terra é igual a outro homem. Neste sentido, podemos compreender que o respeito à diversidade humana não significa apenas tolerar o outro, mas respeitá-lo como ele realmente é. Devemos olhar o outro, por meio dos olhos dele e não por meio dos nossos olhos, ou seja, devem-se compreender as diferenças do outro, ver como ele realmente é, qual são seus princípios e valores morais. Nunca devemos ver o outro a partir de nossa visão de mundo, de nossos valores morais, pois, assim, acabamos prejulgando-o. Assim, podemos afirmar que o respeito às diferenças humanas também pode ser compreendido como o respeito às diversas identidades que compõe uma sociedade, pois cada ser humano possui sua singularidade, ou seja, suas características pessoais. 2.7 PLURALISMO FIGURA 14 – PLURALISMO FONTE: Disponível em: <www.lacoctelera.com>. Acesso em: 26 mar. 2009. UNIDADE 3 | UNIDADE 3 170 “Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais democráticas existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o constante aprimoramento intelectual.” (BRASIL, 2009a). Podemos compreender que o pluralismo é reconhecer a existência da diversidade humana. Diversidade que pode ser cultural, religiosa, política, econômica, ambiental e social. IMPORTANTE Não existe uma realidade única e absoluta. O pluralismo denota que não existe somente uma concepção conceitual, ou seja, existem várias referências e doutrinas conceituais, pois, como abordamos anteriormente, todos os seres humanos são diferentes, possuem diversas subjetividades, que denotam visões de mundo diferenciadas, ou seja, sobre um mesmo fato, uma mesma realidade poderá suscitar diversas opiniões, diversos conceitos, porque cada homem analisa um fato conforme sua constituição moral. Nesta perspectiva, pode-se dizer que a prática profissional do Assistente Social deve, constantemente, buscar e garantir o pluralismo conceitual, para seu constante aperfeiçoamento pessoal e intelectual. 2.8 PROJETO PROFISSIONAL FIGURA 15 – PROJETO PROFISSIONAL FONTE: Disponível em: <www.cress-ms.org.br>. Acesso em: 26 mar. 2009. TÓPICO 1 | UNIDADE 3 171 “Opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação-exploração de classe, etnia e gênero.” (BRASIL, 2009a). Com relação ao projeto profissional do Assistente Social, podemos citar que o mesmo possui um caráter sociopolítico, crítico e interventivo, que vem, historicamente, utilizando um instrumental técnico operativo multidisciplinar, para análise e intervenção junto às inúmeras expressões da questão social, como na educação, justiça, saúde, lazer, previdência, habitação, assistência social, entre outros. O Assistente Social busca sempre prestar seus serviços em prol do desenvolvimento e da construção de uma sociedade mais justa, igualitária e sem discriminação e exploração das classes sociais e suas diversidades. ESTUDOS FU TUROS Você verá mais adiante, em outra disciplina, a questão do instrumental técnico operativo do Assistente Social. DICAS Como sugestão, leia o artigo: A Construção do Projeto Ético-Político do Serviço Social, por José Paulo Netto. Disponível em: <http://www.fnepas.org.br/pdf/servico_social_ saude/texto2-1.pdf>. 2.9 MOVIMENTOS SOCIAIS FIGURA 16 – MOVIMENTOS SOCIAIS FONTE: Disponível em: <www.spsoul.blogspot.com>. Acesso em: 26 mar. 2009. UNIDADE 3 | UNIDADE 3 172 “Articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos trabalhadores.” (BRASIL, 2009a). Porém, o que é um movimento social? Podemos compreender que um movimento social denota a organização de um grupo social que possue interesses comuns, que, de forma estruturada, busca desenvolver suas atividades, conforme suas finalidades e objetivos. Conforme Gohn (1995, p. 44), movimentos sociais: [...] são ações coletivas de caráter sociopolítico, construídas por atores sociais pertencentes a diferentes classes e camadas sociais. Eles politizam suas demandas e criam um campo político de força social na sociedade civil. Suas ações estruturam-se a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em situações de: conflitos, litígios e disputas. As ações desenvolvem um processo social e político- cultural que cria uma identidade coletiva ao movimento, a partir de interesses em comum. Esta identidade decorre da força do princípio da solidariedade e é construída a partir da base referencial de valores culturais e políticos compartilhados pelo grupo. DICAS Como sugestão, leia o artigo: O Papel dos Movimentos Sociais na Construção de Outra Sociabilidade, de Sandra Maria Marinho Siqueira. Disponível em: <http://www.anped. org.br/reunioes/25/excedentes25/sandramariamarinhosiqueirat03.rtf>. Nesta perspectiva, os assistentes sociais também desenvolvem suas atividades laboratoriais em prol da articulação e mediação constante entre a sociedade civil, os diversos movimentos sociais e o Estado. 2.10 QUALIDADE DOS SERVIÇOS PRESTADOS FIGURA 17 – QUALIDADE DOS SERVIÇOS PRESTADOS FONTE: Disponível em: <www.verzani.com.br>. Acesso em: 26 mar. 2009. TÓPICO 1 | UNIDADE 3 173 “Compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população e com aprimoramento intelectual, na perspectiva da competência profissional.” (BRASIL, 2009a). Esta questão é indiscutível, pois todo trabalho, produto ou prestação de serviço deve ter, como premissa, a qualidade, ou seja, todo profissional deve exercer sua profissão com ética, responsabilidade e qualidade. Por meio de seu desempenho profissional, o Assistente Social proporcionará, ao seu público-alvo, possibilidades de melhoria de qualidade de vida, além de mediar, com serenidade e propriedade, as expressões da questão social, objeto de seu trabalho. 2.11 INDISCRIMINAÇÃO FIGURA 18 – INDISCRIMINAÇÃO FONTE: Disponível em: <www.infinitoemaisalem.blogs.sapo.pt>. Aces- so em: 26 mar. 2009. “Exercício do Serviço Social sem ser discriminado, nem discriminar, por questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, opção sexual, idade e condição física.” (BRASIL, 2009a). Para entendermos esta questão da indiscriminação, faz-se necessário compreendermos o significado de preconceito. Então, o que é preconceito? Bem, o preconceito pode ser compreendido como uma atitude, um julgamento de valores, formação de juízo ou ideias preconcebidas, a partir do qual nós recriminamos ou rotulamos uma situação, lugares, pessoas, objetos e culturas, conforme nossos valores ético-morais, ou seja, nós, seres humanos, geralmente UNIDADE 3 | UNIDADE 3 174 quando nos deparamos com “o diferente”, o repulsamos e discriminamos, sem, muitas vezes, conhecer melhor a pessoa ou situação que estamos julgando. Existem muitas formas de discriminação ou preconceito, mas podemos citar que hoje, na sociedade em que vivemos, as questões raciais, sociais, sexuais e religiosas sãoas principais formas de preconceito que enfrentamos. Finalizando, podemos expor que o PRECONCEITO HUMANO leva os homens a agirem de forma violenta, acarretando discriminação e marginalização dos homens. NOTA Caro(a) acadêmico(a), para aprofundar os seus conteúdos com relação aos princípios e valores gerais dos cidadãos brasileiros, sugerimos a releitura dos artigos 1º, 3º e 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao.htm>. DICAS Como sugestão, leia o seguinte livro: BONETTI, Dilséia Adeodata et al. Serviço social e ética: convite a uma nova práxis. 11ª Edição. São Paulo: Cortez, 2010. TÓPICO 1 | UNIDADE 3 175 LEITURA COMPLEMENTAR ÉTICA PROFISSIONAL Edite Jendreick Franke [...] No momento em que se diz que o Brasil está passando por uma crise ética, oportuno se faz falar sobre a Ética Profissional. Necessário se faz lembrar que, quem não tem ética pessoal, não terá ética profissional. A palavra Ética, do grego ethos, designa: os costumes; a condução da vida; as regras de comportamento. A Ética é o estudo da moralidade do agir humano; é o estudo da bondade ou da maldade dos atos humanos, a retidão dos atos humanos frente à ordem moral. É justificada pela Moral enquanto esta estabelece regras que são assumidas pela pessoa, como uma forma de garantir o bem viver, um agir segundo o bem, remetendo estas regras ao agir humano, aos comportamentos cotidianos, às escolhas existenciais [...] [...] a Ética se coloca como um questionamento sobre o agir, uma reflexão sobre o que é preciso fazer, uma procura pelo que é bom ou justo. A Ética não estabelece regras, mas propõe uma reflexão sobre a ação humana, sobre sua retidão frente à ordem moral. A Ética, espontaneamente, gera: 1. Questionamentos: a ética nos leva a refletir sobre as normas ou regras de comportamento, nos leva a analisar princípios, valores que fundamentam nossa obrigação na sociedade. 2. Sistematização da reflexão: encontrada em teorias ou escolas que tratam da moral e da ética, ou o conjunto de normas de grupos específicos, como é o caso dos códigos de ética profissional. 3. Prática concreta: ou a realização de valores que exige o processo de deliberação, a decisão, a atitude subjacente e a ação propriamente dita. UNIDADE 3 | UNIDADE 3 176 Toda herança da reflexão sobre a Ética e a Moral se apresenta subjacente à Ética Profissional. Isto é, a Ética Profissional só se efetivará se houver a Ética Pessoal. Importante identificarmos, refletirmos aqui: quem é o Sujeito Ético? Sujeito Ético é todo ser humano que se depara com a necessidade de decidir, pois onde há [...] decisões a serem tomadas; reflexões a serem feitas; e liberdades a serem alcançadas [...] há a Ética. A Ética não existe sem a responsabilidade. Uma Ética de Responsabilidade é a do sujeito livre, autônomo, que reflete, dotado de prudência, coragem e convicção. A responsabilidade dá cada vez mais lugar à interrogação e à discussão democrática. Assim, cada vez mais a Ética recorre à prudência, que é vigilância e previsão, e à solidariedade. A Ética profissional pode ser definida como: A reflexão sobre as exigências do profissional em sua relação: com o cliente/usuário; com o público; com seus colegas; com sua corporação; com os demais profissionais. (DURAND, p. 85). Estas exigências remetem ao conjunto de direitos e de obrigações expressos no Código de Ética da profissão. A reflexão sobre as ações realizadas no exercício de uma profissão, [...] no que consistem [...], [...] a quem se destinam [...], [...] para que se destinam [...], deve iniciar antes da prática profissional . A fase da escolha profissional, ainda durante a adolescência, muitas vezes, já deve ser permeada por esta reflexão. A escolha por uma profissão é optativa, mas ao escolhê-la, o conjunto de deveres profissionais passa a ser obrigatório. Geralmente, quando se é jovem, escolhe-se a carreira sem conhecer o conjunto de deveres que está prestes a assumir ao se tornar parte daquela categoria que escolheu. TÓPICO 1 | UNIDADE 3 177 Toda a fase de formação profissional, [...] o aprendizado das competências e habilidades referentes à prática específica numa determinada área, [...] deve incluir a reflexão, desde antes do início dos estágios práticos. Ao completar a formação em nível superior, a pessoa faz um juramento, que significa sua adesão e comprometimento com a categoria profissional em que formalmente ingressa. Isto caracteriza o aspecto moral da chamada Ética Profissional. Seja, esta adesão, voluntária a um conjunto de regras estabelecidas como sendo as mais adequadas para o seu exercício. No período de formação e mesmo depois no decorrer da prática, o profissional deve estar sempre se perguntando: 1. Que deveres assumi? O que a entidade, a chefia, e o usuário esperam de mim? Estes deveres são compatíveis com a profissão? Ou é a chamada exigência generalista do mercado? 2. Estou assumindo uma função institucional ou a profissão mesma? 3. Como estou conduzindo os deveres assumidos? Como estou cumprindo minhas responsabilidades? Estou me conduzindo nos valores previstos pelo Código de Ética da Profissão? 4. O que devo fazer e como fazer? Planejo, organizo, sistematizo, avalio minhas ações? Que resultados produzo? Em benefício de quem? 5. E tão importante quanto os aspectos acima: Estou sendo bom profissional? Competente, coerente? Estou agindo adequadamente nas relações pessoais e profissionais? Isto inclui: ● respeitar e exigir respeito; ● atitudes de generosidade e cooperação, trabalho em equipe; ● uma postura pró-ativa (que é compromisso/ é contribuir para o engrandecimento do trabalho); ● estar preocupado, com as PESSOAS, que é ser coerente com os deveres profissionais. Acredito na profissão de Assistente Social a qual defendi durante toda minha vida de prática profissional e como docente. Sempre busquei apresentar o quanto é importante e bom ser Assistente Social, e como se faz necessário o esmerado preparo profissional e o compromisso com a realidade, alvo de nossa intervenção. O trabalho profissional não permite acomodação e o profissional comprometido não se acomoda. UNIDADE 3 | UNIDADE 3 178 Só se acomoda e se arrisca a virar fóssil aquele que não tem amor por si mesmo e pelo próximo. O Serviço Social é uma profissão que tem sua legitimidade regulamentada em Lei e fundamentada em seu Código de Ética, e este defende a equidade e a justiça social. O processo de renovação pelo qual o Serviço Social tem passado, no transcorrer de sua história, vem compromissado com esses valores e princípios que são defendidos por seus profissionais, na conquista de direitos sociais, na defesa dos direitos já alcançados e na ampliação destes. Apegados a estes valores, não poderemos deixar de ser Éticos. ● Ser Assistente Social é fazer Serviço Social: A identidade profissional é construída pelos grupos profissionais de que fazemos parte. Como o grupo existe? Passa a existir através das relações que estabelecem seus membros entre si e com o meio em que vivem, isto é, pela sua prática, seu agir, seu trabalhar, fazer, pensar, sentir [...]. O indivíduo (Assistente Social) vai sendo representado previamente na graduação e vai assimilando em um processo interno a representação desta identidade. Esta identidade pressupõe o fazer, as práticas de serviço social que realiza, mas é a aceitação da identidade que força comportamentos, ações compatíveis com a profissão. É a aceitação que leva a assumir a postura ética exigida pela profissão. Por isto, a identidade precisa ser continuamente re-posta, que significa “agir como”. Comparecer perante o outro como portador de um papel, mas comorepresentante de si e de um grupo profissional. ● Ser Assistente Social ético exige: Competência técnica, aprimoramento constante, respeito às pessoas, confidencialidade, privacidade, tolerância, flexibilidade, fidelidade, envolvimento, afetividade, correção de conduta, boas maneiras, relações genuínas com as pessoas, responsabilidade, corresponder à confiança que lhe é depositada [...] pois o comportamento ético de um profissional reflete em todos os demais da profissão. Vale lembrar que comportamento eticamente adequado e sucesso continuado são indissociáveis! TÓPICO 1 | UNIDADE 3 179 Empregabilidade é sinônimo de bom profissional. E só pode ser ético profissionalmente aquele que o é pessoalmente. Lembro aqui a passagem de Lucas, que em seu Capítulo 16, traz a palavra de Jesus: “Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas, também é injusto nas grandes.” (BRASIL, 16:10). Obrigada, e vamos em frente pela Ética agora e sempre! FONTE: FRANKE, Edite Jendreick. Ética Palestra proferida na III Jornada de Estágio do Curso de Serviço Social da UEPG (PR), Ponta Grossa, 25 set. 2007. Disponível em: <http://www.uepg.br/ uepg_departamentos/deservi/pdf/TEXTOS%20PARA%20REFLEXAO%2002.pdf>. Acesso em: 26 mar. 2009. 180 Com relação aos princípios fundamentais do Código de Ética dos Assistentes Sociais, abordamos, neste tópico, as seguintes questões: ● Vimos que o Código de Ética do Assistente Social possui onze princípios fundamentais que norteiam sua prática profissional. Estes princípios são: Liberdade: ● Observamos que todo homem pode fazer suas escolhas de forma livre e consciente. ● A liberdade é constituída no relacionamento direto entre os homens em sociedade, por meio de suas atividades humanas. ● O ser humano é um ser livre e tem o poder de escolha, feita de maneira consciente. ● Por meio do trabalho, o ser humano se constitui um homem consciente e livre. ● A liberdade é um poder de escolhas. ● Vimos que os profissionais do serviço social tomam como uma de suas bases fundamentais, para a práxis profissional, a LIBERDADE. ● A liberdade é tida como um valor ético, que determina, como um todo, a atuação profissional do Assistente Social. Direitos Humanos: ● Outro princípio fundamental do Código de Ética Profissional do Assistente Social é a defesa e conservação incondicional dos direitos humanos. ● Direitos inscritos na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU – Organização das Nações Unidas. ● Os direitos humanos norteiam, diretamente, a base ética profissional do Assistente Social. ● Os Assistentes Sociais desenvolvem suas atividades com base na liberdade, igualdade, justiça e paz do mundo e na defesa dos direitos fundamentais dos seres humanos, procurando sempre promover o progresso social e a ampliação da qualidade de vida de cada cidadão. RESUMO DO TÓPICO 1 181 Cidadania: ● A cidadania é um conjunto de direitos e deveres que denotam e fundamentam as condições do comportamento de cada indivíduo, em relação à sociedade em que está inserido. ● A cidadania designa normas de conduta para o convivio social, em que determina nossas obrigações e direitos perrante os outros integrantes da nossa sociedade. ● Temos três dimensões da cidadania: civil, política e social. ● E é nesta perspectiva da garantia dos direitos e deveres de cada cidadão, que o Assistente Social desenvolve sua prática profissional. Democracia: ● A democracia nada mais é do que um sistema de governo, no qual o povo governa para sua própria sociedade. ● Este sistema de governo democrático possui formatos diferentes nas diversas sociedades. ● Temos a democracia direta e indireta. ● Quando falamos em democracia, também falamos de distribuição democrática das riquezas socialmente produzidas, por meio do trabalho dos homens. ● O Assistente Social possui a premissa de defender incondicionalmente a democracia política, econômica e social da sociedade. Equidade e Justiça Social: ● A equidade nada mais é do que fazer justiça com imparcialidade. ● Todos os seres humanos possuem direitos e deveres iguais perante a sociedade em que vivem. ● Estes direitos, por sua vez, denotam um conjunto de princípios morais, que acabam igualando todos os homens de uma mesma sociedade. ● Equidade é a igualdade de direitos entre os iguais. ● A prática profissional do Assistente Social processa-se na garantia da equidade e da justiça social, em que procura assegurar a universalidade de direitos e o acesso aos bens produzidos por meio do trabalho de todos os indivíduos, sem distinção de cor, raça, etnia e classe social. 182 Respeito à Diversidade: ● Outro princípio fundamental da práxis profissional do Assistente Social se processa na mediação direta com todos os indivíduos de uma determinada sociedade, com o intuito de eliminar toda e qualquer forma de preconceito e discriminação. ● A diversidade denota que todos os homens devem aceitar e compreender as diferenças humanas. ● Nenhum homem na face da Terra é igual a outro homem. ● O respeito à diversidade humana não significa apenas tolerar o outro, mas respeitá-lo como ele realmente é. ● Devemos olhar o outro por meio dos olhos dele e não por meio dos nossos olhos. Pluralismo: ● O pluralismo significa reconhecer a existência da diversidade humana. ● A diversidade pode ser: cultural, religiosa, política, econômica, ambiental e social. ● Não existe uma realidade única e absoluta. ● O pluralismo denota que não existe somente uma concepção conceitual, ou seja, existem várias referências e doutrinas conceituais. ● A prática profissional do Assistente Social deve, constantemente, buscar e garantir o pluralismo conceitual, para seu constante aperfeiçoamento pessoal e intelectual. Projeto Profissional: ● O projeto profissional do Assistente Social possui um caráter sociopolítico, crítico e interventivo, no qual vem, historicamente, utilizando um instrumental técnico operativo multidisciplinar, para análise e intervenção junto às inúmeras expressões da questão social. ● O Assistente Social busca sempre prestar seus serviços em prol do desenvolvimento e da construção de uma sociedade mais justa, igualitária e sem discriminação e exploração das classes sociais e suas diversidades. 183 Movimentos Sociais: ● Um movimento social denota a organização de um grupo social que possui interesses comuns, que, de forma estruturada, busca desenvolver suas atividades conforme suas finalidades e objetivos. ● Nesta perspectiva, os Assistentes Sociais também desenvolvem suas atividades laboratoriais, em prol da articulação e mediação constante entre a sociedade civil, os diversos movimentos sociais e o Estado. Qualidade dos Serviços prestados: ● Todo trabalho, produto ou prestação de serviço deve ter, como premissa, a qualidade, ou seja, todo profissional deve exercer sua profissão com ética, responsabilidade e qualidade. Indiscriminação: ● O preconceito pode ser compreendido como uma atitude, julgamento de valores, formação de juízo ou ideias preconcebidas, a partir do qual nós recriminamos ou rotulamos uma situação, lugares, pessoas, objetos e culturas, conforme nossos valores ético-morais. ● Quando nos deparamos com “o diferente”, o repulsamos e discriminamos, sem, muitas vezes, conhecer melhor a pessoa ou a situação que estamos julgando. ● Existem muitas formas de discriminação ou preconceito. Hoje, as questões raciais, sociais, sexuais e religiosas são as principais formas de preconceito que enfrentamos. ● O preconceito humano leva os homens a agirem de forma violenta, acarretando na discriminação e marginalização dos homens. 184Em grupo, reflitam sobre cada um dos onze Princípios Fundamentais do Código de Ética do Assistente Social. Em seguida, realizem as seguintes atividades. 1 Explique a frase: “A liberdade é um poder de escolhas”. ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 2 Escolha dois dos direitos humanos expostos na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU – Organização das Nações Unidas – e explique-os. ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 3 Temos três dimensões da cidadania: a civil, a política e a social. Explique cada uma delas. ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 4 O que você compreende por democracia? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 5 Equidade é a igualdade de direitos entre os iguais. Justifique esta indagação. ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 6 A diversidade denota que todos os homens devem aceitar e compreender as diferenças humanas. Exemplifique esta indagação. AUTOATIVIDADE 185 ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 7 Será que existe uma realidade única e absoluta? Justifique. ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 8 Quando nos deparamos com “o diferente”, o repulsamos e discriminamos, sem, muitas vezes, conhecer melhor a pessoa ou a situação que estamos julgando. O que você faria nesta situação, ou seja, como você agiria diante de uma pessoa que você não conhece? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ 186 187 TÓPICO 2 DOS DIREITOS E DAS RESPONSABILIDADES GERAIS DO ASSISTENTE SOCIAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Observamos que o Código de Ética do Assistente Social foi constituído na perspectiva de garantir os princípios fundamentais da profissão, além de dispor sobre os direitos e deveres do profissional, mas, também, prediz como se devem processar, eticamente, as relações diretas com os usuários. Neste tópico, abordar-se-á uma discussão referente aos direitos e deveres gerais do Assistente Social. Direitos e deveres assegurados pelo Código de Ética do Assistente Social - Resolução CFESS nº 273, de 13 de março de 1993 (BRASIL, 1997). 2 DOS DIREITOS GERAIS DO ASSISTENTE SOCIAL Art. 2º - Constituem direitos do Assistente Social: a) garantia e defesa de suas atribuições e prerrogativas, estabelecidas na Lei de Regulamentação da Profissão e dos princípios firmados neste Código; b) livre exercício das atividades inerentes à Profissão; c) participação na elaboração e gerenciamento das políticas sociais, e na formulação e implementação de programas sociais; d) inviolabilidade do local de trabalho e respectivos arquivos e documentação, garantindo o sigilo profissional; e) desagravo público por ofensa que atinja a sua honra profissional; f) aprimoramento profissional de forma contínua, colocando-o a serviço dos princípios deste Código; g) pronunciamento em matéria de sua especialidade, sobretudo quando se tratar de assuntos de interesse da população; h) ampla autonomia no exercício da Profissão, não sendo obrigado a prestar serviços profissionais incompatíveis com as suas atribuições, cargos ou funções; i) liberdade na realização de seus estudos e pesquisas, resguardados os direitos de participação de indivíduos ou grupos envolvidos em seus trabalhos. FONTE: Brasil (2011) 188 UNIDADE 3 | UNIDADE 3 Como vocês observaram, o Artigo 2 do Código de Ética do Assistente Social compreende que os direitos gerais do Assistente Social prediz todas as atribuições e prerrogativas que compõe o regulamento da profissão (Lei n° 8.662, de 7 de junho de 1993), garantindo-os. O Assistente Social poderá exercer sua atividade profissional de forma ética e livre, participando constantemente do desenvolvimento, elaboração e gestão de políticas sociais. Também é garantido o sigilo profissional e a dignidade do Assistente Social, ou seja, não é permitido que haja violação tanto do local de trabalho quanto dos arquivos e documentos provenientes da prática profissional, além da segurança à honra profissional do Assistente Social. Todo Assistente Social deve ter como premissa fundamental o constante aprimoramento técnico operativo. Buscando sempre novas formas de melhoramento de sua prática profissional. Somos corresponsáveis pela divulgação direta dos assuntos correlacionados à nossa prática, ou seja, devemos fazer declarações públicas de matérias pertinentes ao interesse da sociedade. Finalizando, podemos expor que todo Assistente Social possui plena autonomia e liberdade na execução de sua prática profissional, não sendo obrigado ou coagido a fazer algum serviço que não seja pertinente à sua capacidade técnico- operativa, cargo ou função. 3 DOS DEVERES GERAIS DO ASSISTENTE SOCIAL Art. 3º - São deveres do Assistente Social: a) desempenhar suas atividades profissionais, com eficiência e responsabilidade, observando a legislação em vigor; b) utilizar seu número de registro no Conselho Regional no exercício da profissão; c) abster-se, no exercício da Profissão, de práticas que caracterizem a censura, o cerceamento da liberdade, o policiamento dos comportamentos, denunciando sua ocorrência aos órgãos competentes; d) participar de programas de socorro à população em situação de calamidade pública, no atendimento e defesa de seus interesses e necessidades. FONTE: Brasil (2011) TÓPICO 2 | UNIDADE 3 189 Como exposto no Artigo 3 do Código de Ética do Assistente Social, o Assistente Social deve realizar sua prática profissional com eficiência,eficácia e responsabilidade, mas sempre norteado pelas normas e princípios ético-morais. Para atuação da prática profissional, todo Assistente Social deve se registrar no Conselho Regional do Serviço Social (CRESS) de sua região de atuação, para, assim, se legitimar enquanto profissional. Todo Assistente Social deve se abster da prática profissional que seja contra os princípios fundamentais de sua conduta profissional, ou seja, afastar-se e denunciar, aos órgãos competentes, as ações que cerceiam os direitos de liberdade, democracia, cidadania, igualdade, direitos humanos, equidade e justiça social. Devemos sempre estar prontos e aptos a participar ativamente de programas e projetos de socorro emergencial à sociedade que esteja em situação de risco, calamidade pública, no intuito de atender e defender os interesses e as necessidades da comunidade. 4 O QUE O ASSISTENTE SOCIAL NÃO PODE FAZER Art. 4º - É vedado ao Assistente Social: a) transgredir qualquer preceito deste Código, bem como da Lei de Regulamentação da Profissão; b) praticar e ser conivente com condutas antiéticas, crimes ou contravenções penais na prestação de serviços profissionais, com base nos princípios deste Código, mesmo que estes sejam praticados por outros profissionais; c) acatar determinação institucional que fira os princípios e diretrizes deste Código; d) compactuar com o exercício ilegal da Profissão, inclusive nos casos de estagiários que exerçam atribuições específicas, em substituição aos profissionais; e) permitir ou exercer a supervisão de aluno de Serviço Social em Instituições Públicas ou Privadas que não tenham em seu quadro Assistente Social que realize acompanhamento direto ao aluno estagiário; f) assumir responsabilidade por atividade para as quais não esteja capacitado pessoal e tecnicamente; g) substituir profissional que tenha sido exonerado por defender os princípios da ética profissional, enquanto perdurar o motivo da exoneração, demissão ou transferência; h) pleitear para si ou para outrem emprego, cargo ou função que estejam sendo exercidos por colega; 190 UNIDADE 3 | UNIDADE 3 i) adulterar resultados e fazer declarações falaciosas sobre situações ou estudos de que tome conhecimento; j) assinar ou publicar em seu nome ou de outrem trabalhos de terceiros, mesmo que executados sob sua orientação. FONTE: Brasil (2011) Conforme o Artigo 4 do Código de Ética do Assistente Social, observou-se que o Assistente Social possui algumas atribuições que não podem ser exercidas, como: não levar a sério ou não respeitar o que prediz o Código de Ética da profissão e seu Regulamento; não ter posturas antiéticas no seu exercício profissional; não praticar crimes e contravenções penais, na realização da prática profissional; nunca aceitar ou praticar ações impostas, muitas vezes, pelas organizações, que infrinjam as diretrizes do Código de Ética; nunca condescender ou aceitar práticas profissionais que sejam ilegais, ou seja, contra os princípios legais da profissão; nunca devemos assumir responsabilidades de coisas e ações que não estejam norteadas por nossas capacidades técnicas operativas, ou seja, só devemos exercer as atividades das quais possuímos conhecimento técnico. DICAS – Para um aprofundamento destes temas, sugiro que você leia os seguintes livros: SOUZA, Herbert. Ética e cidadania. São Paulo: Moderna, 2000. GALLO, Silvio. Ética e cidadania: caminhos da filosofia. Papirus, 2002. 191 Observamos que o Código de Ética do Assistente Social prediz como se devem processar, eticamente, as relações diretas com usuários, principalmente no que se refere aos direitos e deveres gerais do Assistente Social. Portanto, neste tópico abordamos que: Os direitos gerais do Assistente Social predizem todas as atribuições e prerrogativas que compõe o regulamento da profissão, garantindo-os. O Assistente Social poderá exercer sua atividade profissional de forma ética e livre. É garantido o sigilo profissional e a dignidade do Assistente Social. Todo Assistente Social deve ter, como premissa fundamental, o constante aprimoramento técnico operativo. Devemos fazer declarações públicas de matérias pertinentes ao interesse da sociedade. Todo Assistente Social possui plena autonomia e liberdade na execução de sua prática profissional, não sendo obrigado ou coagido a fazer algum serviço que não seja pertinente à sua capacidade técnico-operativa, cargo ou função. O Assistente Social deve realizar sua prática profissional com eficiência, eficácia e responsabilidade. Todo Assistente Social deve se registrar no Conselho Regional do Serviço Social (CRESS). Todo Assistente Social deve se abster da prática profissional que seja contra os princípios fundamentais de sua conduta profissional. Devemos sempre estar prontos e aptos a participar ativamente de programas e projetos de socorro emergencial à sociedade que esteja em situação de risco e calamidade pública. O Assistente Social possui algumas atribuições que não podem ser exercidas, como: não levar a sério ou não respeitar o que prediz o Código de Ética da profissão e seu Regulamento; não ter posturas antiéticas no seu exercício profissional; não praticar crimes e contravenções penais, na realização da prática profissional; nunca aceitar ou praticar ações que infrinjam as diretrizes do Código de Ética; nunca aceitar práticas profissionais ilegais; só devemos exercer as atividades que possuímos conhecimento técnico. RESUMO DO TÓPICO 2 192 AUTOATIVIDADE Escreva o que você compreendeu a respeito dos direitos e deveres gerais dos Assistentes Sociais. 193 TÓPICO 3 O CÓDIGO DE ÉTICA DO ASSISTENTE SOCIAL BRASILEIRO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, somente apresentaremos, na íntegra, o Código de Ética do Assistente Social. Mas, primeiramente, apresentamos uma síntese histórica do seu surgimento e adaptações. O Código de Ética profissional dos assistentes sociais brasileiros já passou por diversas edições e atualizações. Agora, prezados acadêmicos, lhes apresentarei uma síntese de casa fase. Primeira edição: Em setembro de 1947 foi aprovado em São Paulo pela Assembleia Geral da Associação Brasileira de Assistentes Sociais (ABAS), o primeiro Código de Ética Profissional dos Assistentes Sociais no Brasil – que foi um marco histórico para a categoria profissional do Serviço Social. Apresentava somente: • os deveres fundamentais do assistente social; • os deveres para com o beneficiário do serviço social; • os deveres para com os colegas; • os deveres para com a organização onde trabalha. Segunda edição: aprovada em 8 de maio de 1965 pelo Conselho Federal de Assistentes Sociais (CFAS), em que baseado nos direitos fundamentais do homem e as exigências do bem comum da sociedade brasileira institui um novo código de ética, que apresentava: • a profissão; • os deveres fundamentais do assistente social; • o segredo profissional; • os deveres para com as pessoas, grupos e comunidades atingidos pelo serviço social; UNIDADE 3 | UNIDADE 3 194 • os deveres para com os serviços empregadores; • os deveres para com os colegas; • as associações de classe; • o trabalho em equipe; • a responsabilidade e da preservação da dignidade profissional; • a aplicação e observância do código. Terceira edição: aprovado em 30 de janeiro de 1975, pelo Conselho Federal de Assistentes Sociais (CFAS), em que nos traz toda uma introdução ao Código de Ética Profissional do Assistente Social. Esta apresenta os princípios e valores fundamentais para a atuação profissional que são: autodeterminação, participação, subsidiariedade, bem comum e justiça social. Em que apresentou: • os direitos e deveres do assistente social – em que se trabalharam os direitos com relação ao exercício e status profissionale os deveres no que tange as questões do exercício profissional, nas relações com os clientes, colegas, entidades de classe, instituições, comunidade, justiça, à publicação de trabalhos científicos, além de apontarem o que o assistente social não poderia fazer. • o segredo profissional; • as medidas disciplinares. UNI Segundo Paiva et. al (APUD BONETTI ET AL, 2010, p. 159-160), “desde a primeira formulação do nosso Código de ética Profissional, em 1947, até a reelaboração de 1975, permaneceram vigentes as mesmas concepções filosóficas assentadas no neotomismo, a partir das quais consagrávamos valores abstratos e metafísicos como “BEM COMUM” e “PESSOA HUMANA”. E somente com a reformulação de 1986 essas concepções foram superadas, com a explicitação de PRINCÍPIOS ÉTICOS HISTORICAMENTE SITUADOS: foram negados conceitos abstratos e indicada a urgência de objetivar os sujeitos históricos para apreender suas necessidades concretas.” Quarta edição: aprovado em 9 de maio de 1986, pelo Conselho Federal de Assistentes Sociais (CFAS), que também nos traz uma breve introdução e nos apresenta: TÓPICO 3 | UNIDADE 3 195 • os direitos e das responsabilidades gerais do assistente social; • o sigilo profissional; • as relações profissionais (com: usuários, instituições, entre profissionais do serviço social, entidades da categoria e demais organizações da classe trabalhadora, justiça; • a observância, aplicação e cumprimento do código de ética. Quinta edição: foi feita uma revisão do código de ética em 1991 no Seminário Nacional de ética. Sexta edição: também o código de ética foi revisto em 1992, pelos encontros estaduais, além da 7ª CBAS, XII ENESS, XX Encontro nacional CFESS/CRESS. Sétima edição: resolução CFESS N.º 273/93, de 13 março 1993, que Institui o Código de Ética Profissional dos Assistentes Sociais e dá outras providências, promulgado pelo Conselho Federal de Serviço Social (CFESS). Que primeiramente apresenta os princípios fundamentais da profissão e depois: • os direitos e das responsabilidades gerais do assistente social; • as relações profissionais, com o usuário, instituições empregadoras e outras, assistentes sociais e outros profissionais, entidades da categoria e demais organizações da sociedade civil; • o sigilo profissional. Oitava edição: em 1996 o Código de Ética foi revisitado e ampliado. Buscou-se enriquecê-lo, incluindo as características da Resolução do CFESS nº 333/96, que incidiu sobre o Art. 25 do Código de Ética, de acordo com a deliberação do XXV Encontro Nacional CFESS/CRESS (Setembro de 1996 - Fortaleza/CE). UNI Nesta nova edição tivemos o intuito também de apresentar uma nova programação visual deste instrumento normativo, que possa propiciar uma percepção mais completa e imediata dos valiosos conteúdos que emanam dos artigos, alíneas e incisos aqui reunidos. Assim sendo, a concepção da capa não é, em absoluto, aleatória. A figura lendária de Arthur Bispo do Rosário significa a homenagem do CFESS a cada usuário das políticas e serviços sociais, em nome do respeito, qualidade e responsabilidade nos termos dos princípios firmados por este Código que nossa ética profissional pretende assegurar. A imagem de Bispo procura ainda reconhecer e enaltecer os esforços dos vários segmentos sociais, políticos e profissionais que se mobilizam pelo compromisso ético com a liberdade, equidade e democracia. Fonte: Conselho Federal de Serviço Social – CFESS Gestão 1996/99. UNIDADE 3 | UNIDADE 3 196 Nona edição: em 2011, o Código de ética sofreu nova modificação, pois: A 9ª edição do Código de Ética do/a Assistente Social [vem] Incorporando as alterações discutidas e aprovadas no 39º Encontro Nacional do Conjunto CFESS/CRESS, realizado em setembro de 2010 em Florianópolis (SC), a nova edição do documento foi publicada pelo CFESS nesta sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011. [...] As alterações no Código de Ética se adéquam às correções formais e de conteúdo, conforme consignadas na Resolução CFESS 594, de 21 de janeiro de 2011, publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 24 de janeiro deste ano. "As correções formais dizem respeito à incorporação das novas regras ortográficas da língua portuguesa, assim como à numeração sequencial dos princípios fundamentais do Código e, ainda, ao reconhecimento da linguagem de gênero, adotando-se em todo o texto a forma masculina e feminina simultaneamente", [...] Além disso, houve mudanças de nomenclatura, com a substituição do termo "opção sexual" por "orientação sexual", incluindo ainda no princípio XI a "identidade de gênero", quando se refere ao exercício do serviço social sem ser discriminado/a nem discriminar por essa condição. Ainda, a 9ª edição do Código, conforme consta da Apresentação à Edição de 2011 do instrumento normativo, traz alterações que "reafirmam princípios e valores do Projeto Ético- Político e incorporam avanços nas discussões acerca dos direitos da população LGBT pela livre orientação e expressão sexual". (Código de Ética do/a Assistente Social. 9ª Edição Revista e Atualizada, 2011). 2 O CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL DOS/DAS ASSISTENTES SOCIAIS Prezados(as) acadêmicos(as)! Segue na íntegra a 9ª EDIÇÃO REVISTA E ATUALIZADA do Código de Ética profissional do/da assistente social, publicada em janeiro de 2011. Que foi Aprovado em 13 de março de 1993, mas segue com as alterações introduzidas pelas Resoluções CFESS nº290/94, 293/94, 333/96 e 594/11. Além do mais, o texto vem com adequação de LINGUAGEM DE GÊNERO, conforme deliberação do 39º Encontro Nacional CFESS/CRESS. TÓPICO 3 | UNIDADE 3 197 CÓDIGO DE ÉTICA DO ASSISTENTE SOCIAL RESOLUÇÃO CFESS Nº 273, DE 13 DE MARÇO DE 1993 Princípios Fundamentais I. Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas a ela inerentes – autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais; II. Defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritarismo; III. Ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial de toda a sociedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e políticos das classes trabalhadoras; IV. Defesa do aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participação política e da riqueza socialmente produzida; V. Posicionamento em favor da equidade e justiça social, que assegure universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como sua gestão democrática; VI. Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças; VII. Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais democráticas existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o constante aprimoramento intelectual; VIII. Opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação-exploração de classe, etnia e gênero; IX. Articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos trabalhadores; X. Compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população e com aprimoramento intelectual, na perspectiva da competência profissional; XI. Exercício do Serviço Social sem ser discriminado, nem discriminar, por questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, opção sexual, idade e condição física. UNIDADE 3 | UNIDADE 3 198 TÍTULO I – DISPOSIÇÕES GERAIS Artigo 1º - Compete ao Conselho Federal de Serviço Social: a) zelar pela observância dos princípios e diretrizes deste Código, fiscalizando as ações dos Conselhos Regionais e a prática exercida pelos profissionais, instituições e organizaçõesna área do Serviço Social; b) introduzir alteração neste Código, através de uma ampla participação da categoria, num processo desenvolvido em ação conjunta com os Conselhos Regionais; c) como Tribunal Superior de Ética Profissional, firmar jurisprudência na observância deste Código e nos casos omissos. Parágrafo único – Compete aos Conselhos Regionais, nas áreas de suas respectivas jurisdições, zelar pela observância dos princípios e diretrizes deste Código, e funcionar como órgão julgador de primeira instância. TÍTULO II – DOS DIREITOS E DAS RESPONSABILIDADES GERAIS DO ASSISTENTE SOCIAL Artigo 2º - Constituem direitos do Assistente Social a) garantia e defesa de suas atribuições e prerrogativas, estabelecidas na Lei de Regulamentação da Profissão, e dos princípios firmados neste Código; b) livre exercício das atividades inerentes à Profissão; c) participação na elaboração e gerenciamento das políticas sociais, e na formulação e implementação de programas sociais; d) inviolabilidade do local de trabalho e respectivos arquivos e documentação, garantindo o sigilo profissional; e) desagravo público por ofensa que atinja a sua honra profissional; f) aprimoramento profissional de forma contínua, colocando-o a serviço dos princípios deste Código; g) pronunciamento em matéria de sua especialidade, sobretudo quando se tratar de assuntos de interesse da população; h) ampla autonomia no exercício da profissão, não sendo obrigado a prestar serviços profissionais incompatíveis com as suas atribuições, cargos ou funções; TÓPICO 3 | UNIDADE 3 199 i) liberdade na realização de seus estudos e pesquisas, resguardados os direitos de participação de indivíduos ou grupos envolvidos em seus trabalhos. Artigo 3º - São deveres do Assistente Social: a) desempenhar suas atividades profissionais, com eficiência e responsabilidade, observando a legislação em vigor; b) utilizar seu número de registro no Conselho Regional no exercício da Profissão; c) abster-se, no exercício da Profissão, de práticas que caracterizem a censura, o cerceamento da liberdade, o policiamento dos comportamentos, denunciando sua ocorrência aos órgãos competentes; d) participar de programas de socorro à população em situação de calamidade pública, no atendimento e defesa de seus interesses e necessidades. Artigo 4º - É vedado ao Assistente Social: a) transgredir qualquer preceito deste Código, bem como da Lei de Regulamentação da Profissão; b) praticar e ser conivente com condutas antiéticas, crimes ou contravenções penais na prestação de serviços profissionais, com base nos princípios deste Código, mesmo que estes sejam praticados por outros profissionais; c) acatar determinação institucional que fira os princípios e diretrizes deste Código; d) compactuar com o exercício ilegal da Profissão, inclusive nos casos de estagiários que exerçam atribuições específicas, em substituição aos profissionais; e) permitir ou exercer a supervisão de aluno de Serviço Social em Instituições Públicas ou Privadas, que não tenham em seu quadro Assistente Social que realize acompanhamento direto ao aluno estagiário; f) assumir responsabilidade por atividade para as quais não esteja capacitado pessoal e tecnicamente; g) substituir profissional que tenha sido exonerado por defender os princípios da ética profissional, enquanto pendurar o motivo da exoneração, demissão ou transferência; UNIDADE 3 | UNIDADE 3 200 h) pleitear para si ou para outrem emprego, cargo ou função que estejam sendo exercidos por colega; i) adulterar resultados ou fazer declarações falaciosas sobre situações ou estudos de que tome conhecimento; j) assinar ou publicar em seu nome ou de outrem trabalhos de terceiros, mesmo que executados sob sua orientação. TÍTULO III – DAS RELAÇÕES PROFISSIONAIS CAPÍTULO I – Das relações com os Usuários Artigo 5º - São deveres do Assistente Social nas suas relações com os usuários: a) contribuir para a viabilização da participação efetiva da população usuária nas decisões institucionais; b) garantir a plena informação e discussão sobre as possibilidades e consequências das situações apresentadas, respeitando democraticamente as decisões dos usuários, mesmo que sejam contrárias aos valores e às crenças individuais dos profissionais resguardados os princípios deste Código; c) democratizar as informações e o acesso aos programas disponíveis no espaço institucional, como um dos mecanismos indispensáveis à participação dos usuários; d) devolver as informações colhidas nos estudos e pesquisas aos usuários, no sentido de que estes possam usá-las para o fortalecimento dos seus interesses; e) informar à população usuária sobre a utilização de materiais de registro audiovisual e pesquisas a elas referentes e a forma de sistematização dos dados obtidos; f) fornecer à população usuária, quando solicitado, informações concernentes ao trabalho desenvolvido pelo Serviço Social e as suas conclusões, resguardado o sigilo profissional; g) contribuir para a criação de mecanismos que venham desburocratizar a relação com os usuários, no sentido de agilizar e melhorar os serviços prestados; h) esclarecer aos usuários, ao iniciar o trabalho, sobre os objetivos e a amplitude de sua atuação profissional; TÓPICO 3 | UNIDADE 3 201 Artigo 6º - É vedado ao Assistente Social: a) exercer sua autoridade de maneira a limitar ou cercear o direito do usuário de participar e decidir livremente sobre seus interesses; b) aproveitar-se de situações decorrente da relação Assistente Social-usuário, para obter vantagens pessoais ou para terceiros; c) bloquear o acesso dos usuários aos serviços oferecidos pelas instituições, através de atitudes que venham coagir e/ou desrespeitar aqueles que buscam o atendimento de seus direitos. CAPÍTULO II – Das Relações com as Instituições Empregadoras e Outras Artigo 7º - Constituem direitos do Assistente Social: a) dispor de condições de trabalho condignas, sejam em entidade pública ou privada, de forma a garantir a qualidade do exercício profissional; b) Ter livre acesso à população usuária; c) Ter acesso a informações institucionais que se relacionem aos programas e políticas sociais, e sejam necessárias ao pleno exercício das atribuições profissionais; d) integrar comissões interdisciplinares de ética nos locais de trabalho do profissional, tanto no que se refere à avaliação da conduta profissional, como em relação às decisões quanto às políticas institucionais. Artigo 8º - São deveres do Assistente Social: a) programar, administrar, executar e repassar os serviços sociais assegurados institucionalmente; b) denunciar falhas nos regulamentos, normas e programas da instituição em que trabalha, quando os mesmos estiverem ferindo os princípios e diretrizes desse Código, mobilizando, inclusive, o Conselho Regional, caso se faça necessário; c) contribuir para a alteração da correlação de forças institucionais, apoiando as legítimas demandas de interesse da população usuária; d) empenhar-se na viabilização dos direitos sociais dos usuários, através dos programas e políticas sociais; UNIDADE 3 | UNIDADE 3 202 e) empregar com transparência as verbas sob a sua responsabilidade, de acordo com os interesses e necessidades coletivas dos usuários. Artigo 9º - É vedado ao Assistente Social: a) emprestar seu nome e registro profissional a firmas, organizações ou empresas para simulação do exercício efetivo do Serviço Social; b) usar ou permitir o tráfico de influência para obtenção de emprego, desrespeitando concurso ou processos seletivos; c) utilizar recursos institucionais (pessoal e/ou financeiro) para fins partidários, eleitorais e clientelistas. CAPÍTULO III – Das Relações com Assistentes