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A n d r e w M iller
H istöria
*TT DA
anos 0 a Î.000 d.C.
Volume 1
P refá cio
C omo é de conhecimento geral, a História chega até nós por meio dos 
livros. Eu examinei com cuidado os autores mais reconhecidos neste 
país1 e que considerei mais confiáveis. E embora haja muitas referências 
ao volume e página de onde foram extraídas, isso de forma alguma indica que 
todas as citações foram recolhidas dos livros que consultei. Seria impossível dizer 
quantos pensamentos, palavras e frases desses autores estão entrelaçados com os 
meus. As referências foram dadas não tanto para verificação, mas para induzir o 
leitor a estudá-las ou para que possa aproveitá-las de alguma maneira, quando 
tiver oportunidade. Os materiais são tão variados e abundantes que a dificuldade 
consiste em fazer uma seleção deles, mantendo uma linha histórica continua e 
desprezando o que não é proveitoso nem interessante.
Alguns de meus mais antigos e valiosos amigos, tais como Greenwood, 
Milman, and Craigie Robertson, concluíram seus livros sobre o século XIV; 
Waddington, DAubigne, and Scott, sobre os meados do século XVI; e Wylie 
encerrou sua História do Protestantismo com o estabelecimento deste no reinado 
de William e Mary. As histórias e biografias do Dr. M'Crie são extremamente 
valiosas; assim também com a História do Protestantismo na França, escrita 
por Felice, a História da Reforma no Países Baixos, de Brandt, a História 
Resumida da Idade Média e da Reforma, de Hardwick e também a História de 
Cunningham sobre a Igreja escocesa. No entanto, bons livros sobre a primeira 
parte do século XVI até o século XIX são difíceis de encontrar.
Meu objetivo e bem maior que fazer um relato histórico. O meu desejo 
é conectá-lo com Cristo e Sua Palavra para que o leitor receba a verdade e a
Nota do Tradutor: o autor se refere ao seu país de origem, ou seja, à Inglaterra.
bênção, através da graça, em sua alma. Como fica evidente, comecei com o 
propósito revelado pelo Senhor para Sua Igreja em Mateus 16. Outras partes 
do Novo Testamento foram examinadas meticulosamente no que diz respeito à 
implantação dos primeiros alicerces da Igreja. Tentei traçar a história da igreja 
cristã à luz das cartas dirigidas às sete igrejas na Ásia. Isso, é óbvio, teve de ser 
feito de uma maneira bem geral, pois desejei dar ao leitor uma visão da história 
eclesiástica tão ampla quanto possível, consistente, entretanto, com meu projeto 
e concisão.
Que as bênçãos do Senhor acompanhem o volume que está agora 
publicado.
4 I A Hlstúria da Igreja - Prefácio
Londres, Andrew Miller
Í n d ic e
Introdução......................................................................................9
As Sete Igrejas da Ásia ............................................................................... 11
1 A Pedra Angular..........................................................................15
A Fundação da Igreja ................................................................................ 16
A Abertura do Reino dos Céus ................................................................ 21
O Princípio Divino do Governo da Igreja ..............................................25
2 O Dia de Pentecostes................................................................ 31
A Ressurreição e Ascensão de Cristo .................................................... 33
A Descida do Espírito Santo ....................................................................34
O Chamado Dirigido aos Gentios ...........................................................39
O Primeiro Mártir Cristão ........................................................................43
3 A Perseguição e a Dispersão dos Discípulos....................47
Jerusalém e Samaria Unidas pelo Evangelho ........................................... 50
A Conversão de Saulo de Tarso................................................................ 53
4 Os Primeiros Missionários da Cruz....................................... 59
Os Doze Apóstolos ....................................................................................60
A Linhagem Real Herodiana .................................................................... 65
85
..87
..89
...92
111
114
120
126
147
151
1 c~»
154
161
180
187
190
198
201
203
206
209
216
219
229
238
241
244
O Apóstolo Paulo................................................
A Primeira Visita de Saulo a Jerusalém .............................
A Primeira Viagem Missionária de Saulo ..........................
A Terceira Visita de Paulo a Jerusalém ..............................
A Visita de Paulo a Atenas .................................................
A Terceira Viagem Missionária de Paulo.........
Paulo deixa Éfeso e parte para a Macedonia.....................
A Quinta Visita de Paulo a Jerusalém ...............................
Paulo diante do Sinédrio ....................................................
O Martírio de Paulo ...........................................................
O Incêndio de Roma...........................................
A Primeira Perseguição sob os Imperadores ......................
A Queda de Jerusalém ........................................................
A Verdadeira Causa da Perseguição ....................................
As Perseguições na França ..................................................
A História Interna da Igreja (107 a 245 d.C.)
Os Pais Apostólicos.............................................................
A Origem da Distinção entre Clero e Leigos ...................
A Origem das Dioceses ......................................................
De Cômodo à Ascensão de Constantino.........
A Perseguição na África ......................................................
A Mudança na Abordagem ao Cristianismo .....................
O Estado Geral do Cristianismo ......................................
Um Exame na Condição da Igreja....................................
Constantino..........................................................
A Condição na qual Constantino Encontrou a Igreja .....
Os Efeitos do Favor Real ...................................................
O Batismo e a Morte de Constantino ..............................
11 O C oncílio de N ic é ia ......................................................................253
O Concílio de T iro .................................................................................258
Os Invasores Bárbaros ............................................................................ 267
12 A H istória Interna da Igreja (2 4 5 a 451 d .C .) ..................... 273
Reflexões sobre a História do Batismo Infantil .................................... 278
A Primeira Sociedade dos Ascetas ..........................................................285
Reflexões sobre as Calamidades de R om a.............................................292
13 A Epísto la à Igreja de T iatira ......................................................305
Leão I, o Grande .................................................................................... 312
O Zelo Missionário de Gregório........................................................... 317
A Hierarquia Católica Estabelecida na Inglaterra ................................. 323
14 A Expansão do Cristianism o na E u ro p a ................................. 329
Os Primeiros Pregadores do Cristianismo na Irlanda............................ 330
Os Primeiros Pregadores do Cristianismo na Escócia ............................334
O Prenúncio do Homem da Iniquidade ...............................................345
15 M aom é, o Falso Profeta da A ráb ia ...........................................349
A Religião do Islã .................................................................................... 351
Os Sucessores de Maomé........................................................................354
O Segundo Concílio de Nicéia ............................................................. 365
16 A Linha Prateada da G raçaS o b e ra n a ..................................... 367
A Origem do Paulicianismo ...................................................................369
As Guerras Religiosas de Carlos Magno ................................................375
O Sistema Hierárquico Feudal ............................................................... 382
17 A P ropagação do C ristian ism o ................................................... 389
Luís, o Piedoso .........................................................................................391
Os Eslavônios Recebem o Evangelho .................................................... 393
Inglaterra, Escócia e Irlanda....................................................................395
In t r o d u ç ã o
Sabemos que muitos de nossos leitores não têm tempo nem 
oportunidade de ler os numerosos livros que são, periodicamente, 
escritos sobre a história da Igreja. No entanto, uma vez que ela tem sido 
o lugar da ação de Deus pelos últimos dois mil anos, sua História tem de ser 
objeto do mais profundo interesse por parte de Seus filhos. Falaremos da Igreja 
não como esta é apresentada na História, mas como está descritas nas Escrituras. 
Ali a vemos em seu caráter espiritual, como Corpo de Cristo, e como “habitação 
de Deus no Espírito” (Efésios 2:22).
Temos de ter em mente ao lermos o que se chama de História da Igreja 
que, dos dias dos apóstolos até agora, existem duas classes de pessoas totalmente 
diferentes na Igreja professa: os cristãos meramente nominais e os cristãos 
genuínos - os verdadeiros e os falsos. Isso foi predito. O apóstolo Paulo disse: 
“Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não 
pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando 
coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles” (Atos 20:29-30). Sua 
Segunda Epístola a Timóteo também está cheia de advertências e orientações 
acerca das variadas formas nas quais o mal se manifesta abertamente. Uma 
rápida mudança para pior aconteceu desde que Paulo escreveu a Timóteo pela 
primeira vez. Ele exorta aos piedosos que se mantenham separados dos que têm 
apenas uma capa de piedade, mas que negam o poder dela. “Destes afasta-te”, 
é a recomendação do apóstolo (2 Timóteo 3:5). Tais exortações são sempre 
necessárias e aplicáveis - tanto hoje quanto no tempo em que foram escritas. 
E impossível nos separarmos da cristandade professa sem, ao mesmo tempo, 
renunciarmos ao cristianismo. Mas podemos - e temos de - nos separar daqueles 
que o apóstolo chama de “vasos de desonra”. A promessa é que “se alguém se
purificar dessas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do 
Senhor, e preparado para toda a boa obra” (2 Timóteo 2:21).
É interessante — apesar de doloroso - perceber a nítida diferença entre a 
Primeira e a Segunda Epístola a Timóteo. Na Primeira, a Igreja é vista andando 
aqui no mundo de acordo com seu verdadeiro caráter e abençoada posição. E 
vista como casa de Deus — a coluna e firmeza da verdade para a humanidade 
(3:15). A Segunda Epístola mostra no que se tornou por causa do fracasso 
daqueles em cujas mãos Deus a confiou.
Tomemos uma passagem de cada Epístola como exemplo: (1) 1 Timóteo 
3:15: “Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te bem depressa; mas, se tardar, 
para que saibas como convém andar na casa de Deus... a coluna e firmeza da 
verdade”; (2) 2 Timóteo 2:20: “Ora, numa grande casa não somente há vasos de 
ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, 
para desonra”. Aqui tudo mudou - trágica mudança! Ao invés da ordem divina 
existe uma confusão desesperadora; ao invés de “casa de Deus, coluna e firmeza 
da verdade”, há uma “grande casa” - praticamente o “mistério da iniqüidade”. 
Em vez da casa ser mantida de acordo com a vontade de Deus e adequada a 
Ele, ela está arranjada e ordenada segundo a vontade do homem, para a própria 
vantagem e exaltação dos seres humanos. Portanto, desde o princípio houve 
males, que foram e são o pecado e a desgraça da cristandade. Porém isso servirá 
para o bem. O Espírito de Deus, em Sua grande misericórdia, tem nos suprido 
de claros direcionamentos para enfrentarmos o dia mais escuro da História da 
Igreja, e nos apontado o caminho da verdade em meio à pior época de todas, de 
um modo tal, que não temos desculpas. Os tempos e as circunstâncias mudam, 
mas não a verdade de Deus.
Os E r r o s d o s H i s t o r i a d o r e s em G e r a l
Alguns historiadores, infelizmente, ao fazer seus relatos não levam em 
consideração essa triste mistura de vasos de honra e desonra — os verdadeiros 
e os falsos cristãos. Eles próprios não são homens cuja mente é espiritual. 
Consequentemente, elegeram como principal objetivo registrar os abundantes 
e ímpios erros dos cristãos professos. Trabalham exaustiva e minuciosamente 
com as heresias que perturbam a Igreja, com os abusos que a maculam, e com 
as controvérsias que a desviam da rota. Ao invés disso, nos esforçaremos para 
localizar, por todas as longas e sombrias páginas da História, a linha prateada 
da graça de Deus na vida dos verdadeiros cristãos; embora, por vezes, os metais 
vis misturados ao celeste minério sejam tão predominantes que este se torna 
quase imperceptível.
10 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - Introdução
In t r o d u ç ã o j 11
Deus jamais deixa a Si mesmo sem testemunho. Ele tem os Seus amados 
e escolhidos, embora ocultos, em todos os lugares e épocas. Nenhum olho, 
além do de Deus, podia contemplar os sete mil que não se prostraram diante 
de Baal em Israel, nos dias de Acabe e Jezabel. Assim também com os milhares 
que mesmo durante a era das mais densas trevas do cristianismo, farão parte 
da “gloriosa Igreja”, a qual Cristo apresentará a Si mesmo no tão aguardado dia 
de Suas núpcias. Muitas pedras preciosas dentre a escória da “Idade Média” 
refletirão Sua graça e glória naquele dia sem par.
Abençoado pensamento! Ele enche a alma com júbilo e prazer. Senhor, 
apresse esse maravilhoso dia por amor de Seu próprio nome!
Os cristãos genuínos são instintivamente humildes. Em geral são reservados e 
a maioria deles não se destaca na multidão. Não há humilhação tão profunda e real 
como a produzida pelo conhecimento da graça. Tais cristãos humildes e anônimos 
ocupam um espaço ínfimo nas páginas históricas. Porém, os hereges agradáveis ou 
fervorosos e os fanáticos barulhentos e visionários fazem muito alarde; é impossível 
deixar de percebê-los. Por essa razão, os historiadores têm registrado com tanto 
cuidado os princípios tolos e as práticas malignas de tais pessoas.
Agora iremos mudar de assunto um pouco e entrar na primeira parte de 
nosso tema, que começa com as sete igrejas da Ásia.
Á s Sete Ig reja s d a Á sia
Essas sete epístolas irão guiar nossos estudos futuros. Cremos que não 
são apenas históricas, mas também proféticas. Sem dúvida, essas sete igrejas 
existiram de fato nas sete cidades mencionadas e nas condições descritas aqui. 
Isso tem de ser levado em consideração ao estudarmos o caráter profético dessas 
mensagens. Mas fica igualmente claro que Aquele que conhece o fim desde o 
início intencionou que tais cartas tivessem tanto uma aplicação histórica quanto 
um significado profético. Elas foram selecionadas entre muitas, dispostas e 
descritas para prenunciarem o que virá. Limitar a aplicação da mensagem às 
sete igrejas literais da Ásia seria desfigurar a unidade do Apocalipse, e perder a 
bênção prometida. “Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras 
desta profecia” (Apocalipse 1:3). A característica do livro inteiro é ser profético e 
simbólico. O segundo e terceiro capítulos não são exceção. Eles são apresentados 
pelo próprio Senhor no caráter místico deles. “O mistério das sete estrelas, que 
viste na minha destra, e dos sete castiçais de ouro. As sete estrelas são os anjos das 
sete igrejas, e os sete castiçais, que viste, são as sete igrejas” (Apocalipse 1:20).
Onúmero sete é peculiar. Ele marca um ciclo completo dos pensamentos ou 
guerras de Deus em um determinado tempo. Daí termos, os sete dias da semana, 
as sete festas de Israel, as sete parábolas do reino dos céus. Esse número é utilizado 
várias vezes por todo o livro, apontando judeus, gentios e a Igreja de Deus como 
responsáveis sobre essa terra. Temos sete igrejas, sete estrelas, sete candelabros, 
sete anjos, sete selos, sete trombetas, sete ais ou sete últimas pragas. Apenas nos 
capítulos 2 e 3 a Igreja é tida como responsável sobre a terra e como objeto do 
governo divino. Dos capítulos 4 a 19 ela já é vista nos céus. Ali ela aparece em plena 
glória manifesta com seu Senhor. “E seguiam-no os exércitos no céu em cavalos 
brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro” (Apocalipse 19:14).
No corpo do livro, especialmente a partir do capítulo 6, os judeus e 
gentios são colocados em evidência, e judicialmente tratados diante do trono 
de Deus nos céus. Isso não acontecerá até que a Igreja - a verdadeira Noiva 
de Cristo - seja arrebatada do mundo, e o falso e corrompido sistema religioso 
venha ser finalmente rejeitado.
A divisão do livro em três partes, feita pelo próprio Senhor, torna a ordem 
dos eventos quase óbvia e tem imenso peso como um princípio de interpretação 
no estudo de Apocalipse. No capítulo 1:19, Ele nos dá o conteúdo e o plano 
do livro inteiro: “Escreve as coisas que tens visto, e as que são, e as que depois 
destas hão de acontecer”. “As coisas que tens visto” se refere à revelação de Jesus 
mostrada a João no capítulo 1; “as que são” ao tempo e à condição da cristandade 
professa apresentados nos capítulos 2 e 3. “As que depois destas hão de acontecer” 
são mostradas do capítulo 4 até o final do livro. A terceira divisão começa no 
capítulo 4. Uma porta é aberta no céu, e o profeta é convidado a entrar por 
ela. “Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer.” A 
mesma frase está registrada no capítulo 4:1 e no 1:19. As coisas que são e as que 
acontecerão depois disso não podem ocorrer simultaneamente. E preciso que 
uma termine antes do início da outra.
Quando o número sete é usado em um sentido simbólico, sempre 
significa perfeição. Portanto, é desse modo que ele é usado nos capítulos 2 e 3. 
Havia muitas outras igrejas além das mencionadas; porém, apenas sete foram 
escolhidas e reunidas para apresentar uma figura completa do que se desenvol­
veria futuramente na história da Igreja sobre a terra. O Senhor previu que os 
mais importantes elementos morais que existiam então reapareceriam ao longo 
do tempo. Deste modo, temos uma figura perfeita, divina e composta de sete 
partes dos sucessivos estágios da Igreja professa durante todo o período de sua 
responsabilidade no mundo.
Agora iremos examinar de maneira resumida o perfil das sete igrejas, e ter 
uma idéia geral dos diferentes períodos na História aos quais elas se aplicam.
1 2 I A H is t ó r ia da Ig r e ja - Introdução
In t r o d u ç ã o 1 1 3
P erfil das Sete Igrejas
Éfeso. Em Éfeso o Senhor detecta a raiz da decadência. “Deixaste o teu 
primeiro amor”. Ela é ameaçada com a remoção do candelabro a menos que haja 
arrependimento. Período histórico - da era apostólica até o segundo século.
Esmirna. A mensagem de Éfeso é geral, já a de Esmirna é específica. E 
embora dirigida à assembléia que ali se reunia naquele tempo, seu conteúdo 
anuncia de maneira surpreendente as repetidas perseguições pelas quais os 
cristãos iriam passar debaixo das ordens de imperadores cruéis. Contudo, Deus 
pode ter usado o poder do mundo para deter o progresso do mal dentro da 
Igreja. Período histórico - do segundo século a Constantino.
Pérgamo. Aqui temos o estabelecimento do cristianismo como religião oficial 
do Estado. Isso foi realizado por Constantino. Ao invés de perseguir os cristãos, ele 
os favoreceu. Desse momento em diante, o declínio da Igreja foi rápido. Sua profana 
aliança com o mundo promoveu sua mais triste e profunda queda. Foi então que 
ela perdeu o verdadeiro senso de seu relacionamento com Cristo no céu, e de seu 
caráter de peregrina e forasteira neste mundo. Período histórico - do começo do 
quarto século ao sétimo século, quando o papado foi instituído2.
Tiatira. Em Tiatira temos a representação do poder papal durante a Idade 
Média, praticando todo tipo de impiedade, perseguindo os santos de Deus e 
isso sob um disfarce de zelo religioso, simbolizado por Jezabel. Entretanto, havia 
um remanescente temente a Deus em Tiatira; a quem o Senhor conforta com 
a brilhante esperança de Sua vinda, e com a promessa de poder sobre as nações 
quando Ele estabelecer Seu reino. Mas a palavra de exortação aos restantes é “O 
que tendes, retende-o até que eu venha”. Período histórico - do estabelecimento 
do papado até a vinda do Senhor. Ele continua até o fim, mas é particularmente 
caracterizado pela “Idade das trevas”.
Sardes. Aqui vemos a parte protestante da cristandade que levou a cabo a 
grande obra da Reforma. As tolas características do papado se desvanecem, mas o 
novo sistema não tem vida em si mesmo. “Tens nome de que vives, e estás morto.” 
Mas existem santos nesses sistemas inertes, e Cristo conhece todos eles. “Mas 
também tens em Sardes algumas pessoas que não contaminaram suas vestes, e 
comigo andarão de branco; porquanto são dignas disso.” Período histórico - do 
turbulento século XVI em diante. Protestantismo após a Reforma.
2 De acordo com o Dicionário de Datas de Haydn, o título “Papa” foi primeiramente adotado 
por Higino em 139. O Papa Bonifácio III induziu Flavius Phocas Augustus, imperador 
bizantino, a restringi-lo aos prelados de Roma em 606. Também com a conivência de Phocas, 
a supremacia do Papa sobre a Igreja cristã foi estabelecida.
Filadélfia. A Igreja de Filadélfia representa o fraco remanescente, mas 
que é fiel à palavra e ao nome do Senhor Jesus. A principal característica desse 
pequeno grupo era guardar a palavra da paciência de Cristo e não negar o Nome 
dEle. A condição deles não era marcada por nenhuma demonstração de poder 
nem nada externamente maravilhoso, mas por uma íntima comunhão pessoal 
com o Senhor. Ele estava no meio deles como o Santo e o Verdadeiro, e é repre­
sentado como Administrador da casa. Ele tem a “chave de Davi”. Os tesouros da 
palavra profética estão destrancados para os que habitam dentro de Sua casa. Os 
fiéis dessa igreja também compartilham de Sua paciência e esperam Sua vinda. 
“Como guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei da hora 
da tentação que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na 
terra - Ap 3:10.” Período histórico - especialmente desde a primeira parte do 
século XX, mas movimentos em todas as áreas estão rapidamente progredindo 
para as últimas fases da cristandade sobre o mundo.
Laodicéia. Em Laodicéia temos mornidão - indiferença - tolerância 
religiosa com as falsas religiões; temos também altas pretensões, um espírito 
vaidoso, e enorme auto-suficiência. Esse é o último estado dos que ostentam o 
nome de Cristo nessa terra. Só que isso é intolerável a Ele. O julgamento final 
se aproxima. Tendo separado para Si os poucos cristãos genuínos das corrupções 
da cristandade, o Senhor Jesus vomita o resto. Aquilo que era para ser doce ao 
Seu paladar se tornou nauseante e será expelido para sempre. Período histórico - 
começa após o tempo de Filadélfia, e registra, de modo especial, a cena final.
Tendo, portanto, uma visão geral das sete Igrejas, agora vamos nos 
esforçar, com a ajuda do Senhor, para visualizar essas diferentes fases na História 
da Igreja. E nosso propósito é examinar com mais detalhes cada uma das sete 
cartas à medida que avançarmos. Assim, por meio dessas mensagens poderemos 
averiguar que luz é lançada sobre os diversos períodos históricos; e até que ponto 
os fatos da História da Igreja ilustram o relato bíblico desses dois capítulos. Que 
o Senhor conduza, renove e abençoe Seus amados.
1 4 I A H is t ó ria d a Ig r e ja - Introdução
Capítulo 1
A P e d r a A n g u l a r
) iniciar o estudo de qualquer objeto, é bom averiguar suas origens -
a intenção ou plano original, e os primeiros passos em sua história. Em
nas Santas Escrituras. Ali estão não apenas a intenção original, mas os planos e 
especificações do Deus ETERNO, e a história primitiva da obra sob Sua direção. 
A fundação foi colocada e a obra continuou; mas o próprio Senhor ainda é o 
único Construtor: por isso, desde então, tudo tem sido real e perfeito.
Ao final da dispensação judaica, o Senhor acrescentou o remanes­
cente salvo de Israel à Igreja recém-formada. Porém, ao término desta atual 
dispensação, ou seja, a crista, Ele levará todos os que crêem em Seu nome para 
o céu com corpos glorificados. Nem sequer uma única pessoa que faz parte da 
Igreja será acrescentada à congregação dos santos no milênio. “Porque o mesmo 
Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de 
Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que 
ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar 
o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 
4:16-17). Essa será a maravilhosa cena final da história da igreja, a verdadeira 
Noiva de Cristo, sobre a terra: os mortos ressuscitarão, os vivos serão transfor­
mados e todos juntos, em seus corpos de glória, serão reunidos para encontrar o 
Senhor no ar. Portanto, temos os limites da Igreja definidos, e todo o período da 
história dela diante de nós. Agora voltaremos aos primórdios de seu surgimento 
no mundo.
relação à Igreja, temos isso de maneira totalmente clara e detalhada
1 6 A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 1
& * °k
A Fu n d a ç ã o d a Ig r eja
Utilizando a figura de um edifício, o Senhor apresenta o tema da Igreja. 
Suas palavras são infinitamente preciosas, e podemos usá-las como lema de toda 
a sua história. Elas têm sustentado o coração e reavivado a esperança de Seu povo 
em todas as eras e circunstâncias. Para sempre serão o lugar fortificado sobre o 
qual a fé poderá se apoiar. O que mais pode ser tão abençoado, tão animador 
e tão tranqüilizador que as seguintes palavras de Jesus: “SOBRE ESTA PEDRA 
EDIFICAREI A MINHA IGREJA, E AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERÃO 
CONTRA ELA” (Mateus 16:18).
Em Mateus 16, o Senhor questiona Seus discípulos quanto à opinião do 
povo sobre quem Ele era. Isso resultou na confissão de Pedro acerca de Sua 
divindade, e na graciosa revelação do Senhor concernente à Sua Igreja. Iremos 
reproduzir toda a conversa em nossas páginas, pois se relaciona de maneira 
intrínseca com o nosso tema.
“E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os 
seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E 
eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um 
dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, 
respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, 
disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne 
e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és 
Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não 
prevalecerão contra ela” (Mateus 16:13-18).
Temos aqui os dois principais elementos relacionados ao edifício planejado
- a Pedra angular (ou Pedra que serve de base, como referência, ao todo da 
construção), e o Construtor divino. “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja.” 
Mas alguns podem se perguntar ao que ou quem “esta pedra” se refere. A resposta 
é bem clara; a pedra se refere às palavras de Pedro e não ao próprio Pedro, como 
os apóstatas ensinam. De fato, havia uma pedra - uma pedra viva no novo templo. 
“Tu és Pedro” — ou seja, Pedro era uma pedra. No entanto, a revelação que Deus 
deu a Pedro acerca da glória da Pessoa de Seu Filho é a verdadeira fundação sobre 
a qual a Igreja é edificada. “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Porém, a glória 
da Pessoa de Seu Filho na ressurreição ainda é uma verdade encoberta aqui. “Bem- 
aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas 
meu Pai, que está nos céus.” Logo após a confissão de Pedro, o Senhor anuncia Seu 
intento de edificar Sua Igreja, e garante a eterna segurança dela. “Sobre esta pedra 
edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”
V e r d a d e s F u n d a m e n t a is 1
Ele mesmo, a Fonte da vida, não poderia ser vencido pela morte; mas, 
ao morrer, voluntariamente, como Substituto pelos pecadores, triunfou sobre a 
morte e a sepultura, e está vivo para sempre, como afirmou ao apóstolo João 
após Sua ressurreição: “Eu sou o primeiro e o último; e o que vivo e fui morto, 
mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte 
e do inferno” (Apocalipse 1:17-18). Que palavras majestosas e triunfantes! São 
palavras de um conquistador — de Alguém que tem poder, poder sobre a vida, a 
morte e o Hades: lugar dos espíritos separados da presença de Deus. As chaves
- símbolos de autoridade e poder - estão em Suas mãos. O ataque da morte 
pode recair sobre o cristão, mas o aguilhão dela foi retirado. Ela se torna uma 
espécie de mensageira de paz para conduzir os cansados peregrinos ao descanso 
da casa celestial. A morte, portanto, não mais governa sobre o cristão, ela o serve. 
“Tudo é vosso; seja Paulo, seja Apoio, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja 
a morte, seja o presente, seja o futuro; tudo é vosso; e vós de Cristo, e Cristo de 
Deus” (1 Coríntios 3:21-23).
Portanto, a Pessoa de Cristo, o Filho do Deus vivo - em Sua glória da 
ressurreição - é a fundação, sólida e imperecível, sobre a qual a Igreja é edificada. 
Como aquele que “foi morto e reviveu” (Apocalipse 2:8), Ele transmite vida 
ressurreta a todos os que estão edificados nEle. E isso o que fica evidente na 
mensagem da primeira epístola de Pedro. “E, chegando-vos para ele, pedra 
viva... Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual” (1 Pedro 
2:4-5). E no mesmo capítulo, ele afirma: “E assim para vós, os que credes, é 
preciosa” ou “uma honra”, em outras versões (v. 7). Que possamos entender 
essas duas mais preciosas verdades relacionadas à nossa “Pedra Angular” - a 
vida divina e a divina preciosidade. Ambas são dadas e se tornam posse de todos 
os que colocam sua confiança em Cristo. “Chegando-vos para ele”, e não para 
alguma coisa; é à Pessoa de Cristo que nos achegamos e nos relacionamos. Sua 
vida - vida ressurreta - se torna nossa. A partir desse momento, Ele é nossa vida. 
“E, chegando-vos para ele, pedra viva... Vós também, como pedras vivas, sois 
edificados casa espiritual.” A própria vida de Cristo, como Homem ressurreto, e 
tudo o que Ele herdou é nosso. Maravilhosa, extraordinária, abençoada verdade! 
Quem não deseja, sobre todas as coisas, esse tipo de vida, uma vida além do 
poder da morte — além das portas do Hades? A vitória eterna está gravada na 
vida ressurreta de Cristo, e ela jamais pode ser testada novamente; essa é a vida 
daquele que crê em Cristo.
No entanto, existe mais que vida para as pedras desse templo espiritual. 
Há também a preciosidade de Cristo. “E assim para vós, os que credes, é 
preciosa” (1 Pedro 2:7). Portanto, assim como a vida de Cristo se torna nossa 
quando passamos a crer nEle, assim ocorre com Sua preciosidade. O princípio é
o mesmo. A vida pode ser vista como nossa capacidade de desfrutar; e a precio­
sidade como nosso título para possuir ou herdar as riquezas do alto. As honras, 
títulos, dignidade, privilégios, posses e glórias de Cristo são nossas - todas 
nossas porque estamos nEle. “E assim para vós, os que credes, é preciosa.” Que 
pensamento surpreendente! “Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou 
por ela” (Efésios 5:25). Essa, portanto, é nossa Pedra Angular, e a felicidade de 
todos os que estão na Rocha.Todo o panorama das riquezas celestiais em graça 
e glória passou diante de Jacó na antiguidade, quando peregrino e estrangeiro 
descansou sobre a rocha no deserto (Gênesis 28).
C r ist o , 
o Ú n ic o C o n st r u t o r d a Ig r eja
Mas Cristo é também o Construtor de Sua Igreja. O edifício contra o 
qual nenhum artifício ou poder do inimigo pode prevalecer é obra do próprio 
Cristo, embora vários edificadores tenham participado do mesmo. “Sobre esta 
pedra edificarei a minha igreja.” Esse ponto tem de ficar bem claro, a fim de 
que não confundamos o que o homem constrói com o que Cristo constrói. 
Haverá grande confusão, em relação à verdade de Deus e ao presente estado da 
cristandade, a menos que essa distinção seja feita. E imprescindível que compre­
endamos que Cristo é o único Construtor de Sua Igreja; Paulo, Apoio, e todos os 
verdadeiros evangelistas são pregadores por meio dos quais os pecadores crêem. 
A obra do Senhor na alma dos crentes é perfeita. E uma obra real, espiritual e 
pessoal. Por intermédio de Sua graça no coração, eles se achegam a Cristo, como 
pedras vivas, e são edificados nEle, que ressuscitou dentre os mortos. Eles têm 
experimentado a graça divina. Tais são as pedras vivas com as quais o Senhor 
está edificando Seu santo templo; e as portas do inferno jamais podem prevalecer 
contra ele. Por essa razão, o próprio Pedro, todos os apóstolos e os verdadeiros 
crentes são edificados casa espiritual. Quando Pedro se refere a esse templo 
em sua primeira epístola não menciona nada sobre ser ele mesmo o construtor. 
Cristo é o Construtor. A obra é dEle, exclusivamente dEle. “Edificarei a minha 
igreja”, Ele afirma.
Vejamos agora na Palavra de Deus o que o homem edifica, quais materiais 
utiliza e como faz a obra. Em 1 Coríntios 3 e 2 Timóteo 2 temos essas coisas 
reveladas diante de nós. “Uma grande casa” é erguida pela instrumentalidade 
humana. Em certo sentido, ela também é a Igreja, e a casa de Deus. Em 1 
Timóteo 3:15, Paulo usa a expressão “casa de Deus, que é a igreja do Deus 
vivo”. Em Hebreus 3:6 fala-se sobre a casa de Cristo: “a qual casa somos nós”.
1 8 I A H ist ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 1
Mas repentinamente, a casa se toma terrivelmente corrompida pela fraqueza 
humana e patente impiedade. A autoridade da Palavra de Deus foi colocada de 
lado, e a vontade humana se tornou suprema. O efeito das filosofias sobre os 
ensinamentos de Cristo foi dolorosamente manifesto. Porém, a madeira, feno e 
a palha jamais podem ser misturados ao ouro, prata e pedras preciosas. A casa 
se torna grande no mundo; como a árvore de mostarda, em cujos galhos muitos 
encontram um abrigo conveniente. Estar ligado à “grande casa” dá às pessoas 
certo status no mundo, ao invés da rejeição e desprezo que o Mestre experimen­
tou aqui. O arcebispo está em uma posição próxima à realeza. Porém, a igreja 
professa não é apenas grande exteriormente, é mais ambiciosa e quer colocar o 
selo de Deus em sua própria obra profana. Essa é a maior impiedade dela e a 
fonte de sua cegueira, confusão e mundanismo.
Paulo, como o escolhido do Senhor para realizar tal obra, lançou as 
fundações do “edifício de Deus” em Corinto, e outros construíram sobre tais 
bases. Mas nem todos os materiais eram divinos. A fundação estava correta, e 
cada homem tem de prestar atenção como edifica depois disso. Alguns podem 
edificar com ouro, prata e pedras preciosas, outros com madeira, feno e 
palha. Ou seja, há pessoas que podem ensinar a sã doutrina, e que procuram a fé 
viva em todos com os quais têm comunhão; há também quem ensine doutrinas 
mentirosas e receba na comunhão da igreja pessoas que não têm a genuína fé — a 
mera observância de rituais substitui a fé e a vida eterna. É nessa situação que a 
instrumentalidade, responsabilidade e fracassos humanos aparecem. Contudo, 
o próprio construtor pode ser salvo se tiver fé em Cristo, mas sua obra será 
destruída.
Existe, porém, outra e terrível classe de construtores, que corrompem o 
templo do Senhor e destroem a si mesmos. Para a conveniência do leitor, iremos 
apresentar a passagem inteira, pois nada pode ser mais claro. “Segundo a graça 
de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro 
edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém 
pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.
E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras 
preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade 
o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja 
a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse 
receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas 
o tal será salvo, todavia como pelo fogo. Não sabeis vós que sois o templo de 
Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo 
de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo”
(1 Coríntios 3:10-17).
V e r d a d e s F u n d a m e n ta is | 1
Observemos também as palavras do Senhor: “Sobre esta pedra edificarei 
a minha igreja”. O Senhor Jesus não disse a Pedro que tinha edificado, ou que 
estava edificando. Ele lhe comunicou o que iria fazer. Ele edificaria a Igreja, e 
começou essa obra no dia de Pentecostes.
Mas existe outra verdade ainda mais intimamente conectada com a 
história da Igreja, ligada à condição e ao caráter dela sobre a terra, que temos de 
compreender antes de continuar analisando a mesma 1. Referimo-nos à verdade 
contida na seguinte expressão:
As C h av es d o R e in o d o s C éus
Isso leva à “grande casa” - já mencionada - da profissão de fé meramente 
externa. Ao mesmo tempo, temos de ter em mente que, embora intimamente 
ligados, o reino dos céus e a grande casa são totalmente distintos. Por direito, o 
mundo pertence ao Rei. “O campo é o mundo.” Seus servos estão prestes a iniciar 
a colheita. Mas na prática temos a “grande casa”, ou seja, a cristandade3.
Quando tudo o que é meramente nominal na cristandade for varrido pelo 
juízo divino, o reino será estabelecido em poder e glória. Isso será o milênio.
Ainda falando com Pedro sobre a Igreja, o Senhor acrescentou: “E eu te 
darei as chaves do reino dos céus” (Mateus 16:19). A Igreja edificada por Cristo e 
o reino do céus aberto por Pedro são duas coisas completamente diferentes. Esse 
é um dos maiores e mais comuns erros da cristandade: usar termos intercambia- 
velmente como se tivessem o mesmo significado. Teólogos de todas as épocas, ao 
assumirem que essas duas coisas são sinônimas, têm escrito de maneira confusa 
tanto sobre a Igreja quanto sobre o reino. A menos que tenhamos um conhe­
cimento sobre os caminhos dispensacionais de Deus, nunca poderemos dividir
20 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 1
3 Os termos “igreja”, “reino dos céus” , e “grande casa” são bíblicos e têm significados um 
pouco diferentes dependendo de quem os utiliza: se é o Senhor ou os apóstolos. A expressão 
“minha igreja” , usada pelo Senhor, abrange apenas os membros genuínos e vivos. O primeiro 
pensamento quanto ao “reino de Deus” certamente remete à autoridade do Senhor ressurreto. 
E todos os que se sujeitam a Ele são admitidos em Seu reino. N a “grande casa” vemos o mal 
em atividade, corroendo o corpo professo através da falha humana. Portanto, na prática, o 
resultado é sua coexistência com o reino dos céus e a igreja professa. Mas há outro termo 
em constante uso que não é encontrado na Bíblia. Esse termo é cristandade. Tal expressão é 
eclesiástica, e originalmente englobava todos os que foram cristianizados, ou aqueles lugares 
do mundo nos quais o cristianismo prevalece, em distinção aos países ímpios e às nações de 
maioria muçulmana. Mas hoje é usado como sinônimo dos três outros termos já considerados. 
De maneira geral, as quatro expressões são utilizadas intercambiavelmente, apesar de serem 
diferentes quanto ao significado e aplicação.corretamente Sua Palavra. Não podemos confundir o que Cristo está edificando 
com o que os servos estão edificando, por assim dizer, através da pregação e 
do batismo. A Igreja, corpo de Cristo, está fundamentada na confissão de que 
Ele é o Filho do Deus vivo, glorificado na ressurreição. Cada pessoa realmente 
convertida tem de se relacionar primeiramente com Cristo antes de ter algo a 
dizer à Igreja. O reino é um lugar mais amplo, e abrange cada indivíduo batizado
— todo o cenário cristão, quer seja verdadeiro ou não.
Cristo não estava dizendo a Pedro que lhe daria as chaves da Igreja ou as 
chaves do céu. Se o tivesse feito, haveria algum respaldo para o ímpio sistema do 
papado. Ele apenas disse: “E eu te darei as chaves do reino dos céus” - isto é, da 
nova dispensação. As chaves, como já dissemos, não são para construir templos, 
mas para abrir portas; e o Senhor incumbiu Pedro de abrir a porta do reino 
primeiro para os judeus, depois para os gentios (Atos 2, 10). Mas a linguagem 
de Cristo quando fala sobre Sua Igreja é de uma outra ordem. É simples, bela, 
enfática e inconfundível. “Minha igreja.” Que profundidade, que plenitude há 
nessas palavras: “Minha igreja” ! Quando o coração está em sintonia com Cristo 
acerca de Sua Igreja existe uma compreensão de Seus sentimentos em relação a 
ela que nenhuma palavra é capaz de expressar. Por isso, amamos ouvir essas duas 
palavras, “Minha igreja” ! Mas quem é capaz de perscrutar quanto do coração de 
Cristo está revelado nelas? Pensemos novamente em outras duas palavras: “Esta 
pedra”. E como se Ele estivesse dizendo que a glória de Sua Pessoa e o poder 
de Sua vida ressurreta formassem a sólida base de “Sua igreja”. E mais uma 
vez: “Edificarei”. Portanto, nessas cinco palavras vemos que tudo está nas mãos 
do próprio Cristo, pois Ele é “cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude 
daquele que cumpre tudo em todos” (Efésios 1:22-23).
* * *
A A b e r t u r a d o R e in o d o s C éus
A administração do reino do Senhor foi conferida a Pedro de uma maneira 
especial, como vemos nos primeiros capítulos de Atos. O termo é extraído do 
Antigo Testamento (Daniel 2 e 7). No capítulo 2 temos o reino; no capítulo 
7 temos o Rei. A expressão “reino dos céus” ocorre somente no Evangelho de 
Mateus, onde o evangelista escreve especialmente para os israelitas.
O estabelecimento do reino dos céus em poder e glória na terra, personifi­
cado na figura do Messias, era a expectativa natural de todo judeu piedoso. João 
Batista, como precursor do Senhor, pregou que o reino dos céus estava às portas. 
Mas, em vez dos judeus receberem seu Messias, eles O rejeitaram e O crucifi­
I
V e r d a d e s F u n d a m e n ta is | 21
caram; consequentemente, o reino, de acordo com as expectativas judaicas, foi 
colocado de lado. No entanto, o reino foi apresentado de outra forma. Quando
0 Messias rejeitado subiu para os céus, e tomou Seu lugar à destra de Deus, 
após ter triunfado sobre todos os Seus inimigos, o reino dos céus sobre a terra 
teve início. Agora o Rei está no céu, e como Daniel disse: “o céu reina” (4:26), 
embora não abertamente. E desde o tempo em que Ele subiu até quando retornar 
de novo, é o reino em mistério (Mateus 13:11). Quando Ele vier em poder e 
grande glória, será o reino manifesto.
Na nova dispensação, no novo sistema, Pedro teve o privilégio de abrir 
a porta para os judeus e gentios. E isso ele fez em suas pregações aos judeus 
(Atos 2), e em suas pregações aos gentios (Atos 10). Mas novamente, queremos 
chamar a atenção para o fato de que a Igreja, ou assembléia de Deus, e o reino 
dos céus não são a mesma coisa. Para começar, vamos ser bem claros quanto 
a esse ponto fundamental. Misturar os dois conceitos tem produzido grande 
confusão e pode ser considerado a origem do papado, do puseísmo4, e de todo 
sistema humano na cristandade. Os comentários abaixo sobre o campo de joio, 
extraídos dos Estudos sobre o Evangelho de Mateus, de William Kelly, tratam 
exatamente desse assunto, embora se refiram a um período posterior ao relatado 
nos primeiros capítulos de Atos.
A Pa r á b o la d o J o io
“Mateus 13:24-25: ‘Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus 
é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo; mas, dormindo 
os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se.’ E 
isso o que tem acontecido com os que professam a Cristo. Existem dois requisitos 
necessários para a invasão do mal no meio dos cristãos. O primeiro é o descuido 
dos próprios cristãos. Eles ficaram desatentos, caíram no sono, e o inimigo veio 
e semeou o joio. Isso começou nos primórdios da cristandade. Encontramos 
essas sementes até em Atos dos Apóstolos e mais evidentes ainda nas epístolas.
1 Tessalonicenses foi a primeira epístola inspirada que o apóstolo Paulo escreveu, 
a segunda foi escrita logo depois. Paulo diz aos tessalonicenses que o mistério 
da iniqüidade já estava operando, que outras coisas iriam acontecer, como a 
apostasia e o aparecimento do homem do pecado, e que quando a impiedade se 
manifestasse plenamente (ao invés de se manter oculta), então o Senhor colocaria 
um ponto final no iníquo e em tudo o que estivesse relacionado a ele. O mistério
22 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 1
4 O movimento que visa aproximar as igrejas anglicanas e católica romana”. O termo é pouco 
conhecido no Brasil, de modo geral.
da iniqüidade parece intimamente conectado à semeadura do joio relatada aqui. 
Algum tempo depois, ‘quando a erva cresceu e frutificou’, quando o cristianismo 
começou a se espalhar com tremenda velocidade sobre a terra, ‘apareceu também 
o joio’. Mas fica evidente que o joio foi semeado quase imediatamente após a 
boa semente. Não importa onde a obra de Deus esteja, Satanás sempre está no 
encalço dela. Quando o homem foi feito, ele deu ouvidos à serpente e caiu. 
Quando Deus deu a Lei, ela foi quebrada mesmo antes de ter sido confiada a 
Israel. Essa é sempre a história da natureza humana.
“O dano no campo foi feito, e jamais reparado. O joio não será tirado 
agora do campo: nesse momento ainda não haverá julgamento para ele. Isso quer 
dizer que temos de ter joio na igreja? Se o reino dos céus significa a igreja, não 
deve haver disciplina: a impureza da carne ou do espírito será permitida. Aqui 
está a importância de percebermos a distinção entre igreja e reino. O Senhor 
proíbe que o joio seja arrancado do reino dos céus: ‘Deixai crescer ambos juntos 
até à ceifa’ (v. 30), ou seja, até que o Senhor venha para julgar. Eu repito, caso o 
reino dos céus correspondesse à igreja, isso significaria uma coisa: que nenhum 
mal, flagrante ou comum, será extraído da igreja até o dia do julgamento. 
Vemos, portanto, a importância de fazer tal diferenciação, para a qual muitos 
não atentam. Ela é imprescindível para a verdade e santidade. Não existe nem 
mesmo uma única expressão na Palavra de Deus que possamos ignorar.
“Qual é, portanto, o significado dessa parábola? Ela não tem relação 
alguma com a questão da comunhão da igreja. E o ‘reino dos céus’ que está 
em evidência aqui - a totalidade dos que confessam a Cristo, quer essa confissão 
seja falsa ou genuína. Assim gregos, coptas, nestorianos, católicos romanos, 
protestantes, estão no reino dos céus; não apenas os verdadeiros crentes, mas 
também os ímpios que professam o nome de Cristo. Qualquer pessoa, não 
judia nem pagã, que confessa exteriormente o nome de Cristo está no reino dos 
céus. Pode ser imoral ou herege, ela não será tirada do reino dos céus. Mas seria 
correto recebê-la na mesa do Senhor? Deus proíbe tal coisa! Se uma pessoa que 
vive obstinadamente em pecado estiver na igreja, será excluída dela; mas não há 
como removê-la do reino dos céus. Isso só pode ser feito tirando-lhe a vida; pois 
significa arrancar o joio pela raiz. E foi nesse erro que o cristianismo mundano 
caiu, não muito tempo depois da morte dos apóstolos. As punições temporais 
surgiram para disciplina: leis foramfeitas com o propósito de submeter os 
obstinados ao poder civil. Se não honrassem a assim chamada igreja, aos deso­
bedientes não seria permitido viver. Deste modo, o mesmo mal contra o qual o 
Senhor estivera protegendo os discípulos, continuou; o imperador Constantino 
usou a espada para reprimir os ofensores da igreja. Ele e seus sucessores introdu­
ziram as punições temporais no intuito de lidar com o joio, prová-lo e arrancar 
suas raízes. Veja a igreja de Roma, onde se confunde totalmente a igreja com
V e r d a d e s F u n d a m e n ta is I
A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 1
o reino dos céus: ela afirmou que se alguém fosse considerado herege, deveria 
ser levado aos tribunais para ser queimado. Nunca confessou nem corrigiu seus 
próprios erros, pois se julga infalível. Supondo que as vítimas dela fossem mesmo 
joio, isso seria expulsá-las do reino. Se você arranca o joio do campo, você o 
mata. Pode haver pessoas profanando o nome de Deus; mas temos de deixar o 
próprio Deus lidar com elas.
“Isso não anula a responsabilidade cristã para com aqueles que estão à 
volta da mesa do Senhor. Encontraremos instruções quanto a isso nos escritos 
sobre a igreja. ‘O campo ê o mundo’, a igreja engloba apenas os membros do 
corpo de Cristo. Examinemos 1 Coríntios, onde o Espírito Santo mostra a 
verdadeira natureza da disciplina eclesiástica. Suponhamos que haja cristãos 
professos vivendo na prática de pecado; enquanto tais pessoas estiverem nessa 
condição, não pertencerão ao corpo de Cristo. Qualquer santo pode cair em 
pecado, mas a igreja, sabendo disso, é obrigada a intervir com o propósito de 
expressar o juízo de Deus sobre o pecado. Se ela deliberadamente permitisse 
a tal indivíduo participar da mesa do Senhor, na verdade faria do Senhor um 
cúmplice do pecado. A questão não é se tal pessoa é convertida ou não. Os 
não-convertidos não têm relação alguma com a igreja; quanto aos convertidos, 
o pecado não é para ser ignorado. Os culpados não são expulsos do reino dos 
céus, mas são retirados da igreja. O ensino da Palavra de Deus se torna ainda 
mais claro acerca dessas duas verdades. E errado usar punições mundanas para 
lidar com um hipócrita, mesmo quando este é descoberto. Devemos procurar 
o bem da alma dessa pessoa, porém isso não é desculpa para puni-lo. Mas se 
um cristão é culpado de pecado, a igreja não tem de suportá-lo, embora seja 
chamada para ser paciente no julgamento. Temos de deixar os culpados que não 
são convertidos serem julgados pelo Senhor em Sua vinda.
“Esse é o ensinamento da parábola do joio; e ela nos dá uma profunda 
visão do cristianismo. Tão certo como o Filho do homem semeou a boa semente, 
Seu Inimigo também semeou a má, que brotaria com o restante, e esse mal não 
pode ser retirado, pelo menos por enquanto. Existe uma solução para o mal que 
entre na igreja, mas não para o mal que está no mundo.”
Fica perfeitamente claro, tanto bíblica quanto historicamente, que o maior 
erro no qual o corpo professo incorreu foi ter confundido essas duas coisas - joio 
e trigo; ou seja: a Igreja concedeu todos os privilégios temporais e oficiais da 
igreja professa a certos indivíduos, simplesmente por terem passado pelo batismo, 
junto com os que realmente se converteram e se submeteram a Deus. Porém, a 
maior diferença entre o que chamamos de sistema sacramental e o sistema vital 
fica patente e pode ser claramente distinguida se estudarmos a história da igreja 
corretamente.
V e r d a d e s F u n d a m e n t a is
Como consequência, outro erro, igualmente sério, ocorre. O grande e 
visível corpo professo se tornou - aos olhos e na linguagem dos homens —, a igreja. 
Homens piedosos caíram nessa armadilha, e, portanto, a diferença entre igreja 
e reino rapidamente foi apagada. Todos os mais sagrados lugares e privilégios, 
no corpo professo, foram compartilhados tanto por pessoas piedosas quanto por 
ímpios. A Reforma fracassou totalmente em limpar a igreja dessa triste mistura. 
Isso também nos foi legado e os sistemas anglicanos, luteranos, presbiterianos, 
bem como as diversas formas de batismo e admissão de membros são provas 
cabais dessa herança. Em nossos dias, os sistemas sacramentais prevalecem de 
maneira abrangente e alarmante e estão aumentando rapidamente. O real e o 
formal, os vivos e os mortos estão mesclados indistintamente nas várias formas 
de protestantismo. Infelizmente, e como isso é sério, há muitos na igreja professa
- no reino dos céus - que jamais entrarão no próprio céu. Aqui encontramos o 
joio e o trigo, os servos maus e os fiéis, virgens néscias e virgens sábias. Embora 
todas as pessoas que se batizaram sejam incluídas no reino dos céus, apenas 
aquelas que foram vivificadas e seladas pelo Espírito Santo pertencem à Igreja 
de Deus.
Existe mais uma coisa relacionada com a igreja professa que merece um 
breve comentário aqui. E o princípio divino do governo da Igreja.
* * *
O Pr in c íp io D iv in o 
d o G o v e r n o d a Ig r eja
O Senhor não apenas deu a Pedro as chaves para que ele abrisse as portas 
da nova dispensação, mas também lhe confiou a administração interna da igreja. 
As palavras do comissionamento foram: “Tudo o que ligares na terra será ligado 
nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mateus 
16:19). A questão é o que elas significam. Cremos que significam autoridade e 
poder vindos de Deus para serem exercidos na e pela igreja, limitados em seus 
resultados a este mundo. Não há nas palavras do Senhor nenhuma insinuação 
sobre a igreja decidindo algo nos céus. Essa é uma interpretação falsa e um 
poderoso engano da apostasia. A igreja na terra pode não ter nada a dizer ou a 
fazer quanto ao que acontece no céu na questão de ligar e desligar. A esfera de 
sua atuação se restringe aos seus próprios limites e, quando age de acordo com 
a comissão de Cristo, ela tem a promessa de ratificação nos céus.
Temos de acrescentar que também não existe aqui nenhuma menção 
da igreja ou de qualquer de seus oficiais no papel de intermediário entre as
pessoas e Deus no que tange ao perdão eterno ou ao juízo eterno. Essa é a 
ousada blasfêmia de Roma. “Quem pode perdoar pecados, senão Deus?” 
(Marcos 2:7). Ele reserva esse poder somente para Si mesmo. Além disso, os 
indivíduos que estão sob o governo da igreja já são perdoados, ou, pelo menos, 
têm direito ao perdão. “Não julgais vós os que estão dentro?” Isso se aplica 
unicamente aos que estão no seio da igreja. “Mas Deus julga os que estão de fora” 
(1 Coríntios 5:12-13). É dito acerca de todos os crentes que estão no amplo 
terreno da cristandade: “Com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que 
são santificados” (Hebreus 10:14). Por esta razão, a atribuição da igreja de reter 
ou perdoar pecados é apenas para o momento presente, e tem um caráter estrita­
mente administrativo. Esse é o princípio divino de receber pessoas para fazerem 
parte da assembléia de Deus, devido ao bom testemunho de conversão, doutrina 
sã, e santidade de vida; e também é o princípio de expulsar os pecadores impe­
nitentes até que sejam restarurados pelo arrependimento verdadeiro.
Porém, alguns de nossos leitores podem ter a impressão de que tal poder 
foi concedido somente a Pedro e aos demais apóstolos e, consequentemente, 
cessou quando eles morreram. Isso é um erro. E verdade que ele foi dado a Pedro 
em primeiro lugar, como já vimos; e não há dúvidas que nos dias dos apóstolos 
foi manifestado um tamanho poder, como jamais havia sido visto antes. Mas 
a autoridade não era maior ou menor. A igreja tem a mesma autoridade agora 
que tinha naquele tempo no tocante à disciplina na assembléia, embora hoje lhe 
falte o poder. A palavra do Senhor permanece imutável. Cremos que apenas um 
apóstolo poderia falar como Paulo em 1 Coríntios 5. “Em nome de nosso Senhor 
Jesus Cristo, juntos vós e o meu espírito, pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo, 
seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no 
dia doSenhor Jesus” (w. 4-5). Essa foi a manifestação do poder espiritual sobre 
um indivíduo, não para julgamento da igreja5. O mesmo apóstolo, em referência 
ao mesmo caso, diz à assembléia: “Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (5:13). 
O ato de tirar não era um ato exclusivo do apóstolo, mas de toda a assembléia. 
Nesse caso, e dessa maneira, oa pecados da pessoa excomungada eram retidos,
5 “Entregar a Satanás é um ato de poder; expulsar uma pessoa é uma tarefa da assembléia 
vinculada à fidelidade. Sem dúvida alguma, excluir alguém da assembléia de Deus é algo 
muito sério e nos deixa expostos à dor e a vários transtornos vindos do inimigo; mas entregar 
uma pessoa diretamente a Satanás é um ato de poder inegável. Isso foi feito no caso de Jó 
para o bem deste. Isso foi feito por Paulo em 1 Coríntios 5, embora ele estivesse agindo 
dentro do contexto de uma assembléia estabelecida. Neste caso, o objetivo era a destruição 
da carne. Em 1 Timóteo 1, Paulo também entregou Himeneu e Alexandre a Satanás para 
que aprendessem a não blasfemar. Toda disciplina tem como alvo a correção do indivíduo, e 
também a manutenção da santidade da casa de Deus, e da pureza da consciência dos próprios 
santos” - trecho extraído do livro Present Testimony, volume 1.
2 6 j A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 1
V e r d a d e s F u n d a m e n ta is 27
embora, evidentemente, ela fosse convertidoa Em 2 Coríntios 2, encontramos tal 
homem totalmente restaurado. O arrependimento dele é aceito pela assembléia e 
seus pecados são perdoados. O extravasar do coração do apóstolo nessa ocasião 
e suas exortações à igreja são lições valiosas para todos os que estão envolvidos 
na administração da igreja. O alvo de Paulo era remover a terrível desconfiança 
com a qual na maioria das vezes os irmãos que erraram são reintegrados aos 
privilégios da assembléia. “Basta-lhe ao tal esta repreensão feita por muitos. De 
maneira que pelo contrário deveis antes perdoar-lhe e consolá-lo, para que o tal 
não seja de modo algum devorado de demasiada tristeza. Por isso vos rogo que 
confirmeis para com ele o vosso amor” (2 Coríntios 2:6-7). Aqui temos um 
caso pontual, ilustrativo do governo da assembléia de acordo com a vontade de 
Cristo. “Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares 
na terra será desligado nos céus.”
Esse P r in c íp io de G o v er n o d a Ig r eja 
A in d a é A plicável
A dificuldade de muitas pessoas é saber se e como tais princípios ainda 
podem ser aplicados hoje. Para isso temos de voltar à palavra de Deus. Temos 
de ser capazes e estarmos dispostos a proclamar: “Porque nada podemos contra 
a verdade, senão pela verdade” (2 Coríntios 13:8).
A autoridade administrativa e o poder sobre os quais falamos não foram 
dados apenas para Pedro e os demais apóstolos, mas também para a igreja 
como um todo. Em Mateus 18 temos a prática de um princípio estabelecido no 
capítulo 16: “E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a 
igreja, considera-o como um gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo 
o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será 
desligado no céu... Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, 
aí estou eu no meio deles” (Mateus 18:17-20).
Portanto, aprendemos que os atos de dois ou três, reunidos no nome de 
Cristo, têm a mesma sanção divina que a administração de Pedro. E novamente 
em João 20, o Senhor entrega o mesmo princípio de governo aos discípulos, não 
somente aos apóstolos, e isso após a ressurreição, onde a assembléia está realmente 
unida a Cristo como o Homem ressurreto. Isso é de suprema importância. O 
espírito de vida em Jesus Cristo torna os discípulos livres — cada discípulo livre
— da lei do pecado e da morte (Romanos 8:2). E a igreja é edificada sobre “esta 
rocha” - Cristo ressurreto, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. 
“Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas
onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e 
pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco. E, dizendo isto, mostrou-lhes as 
suas mãos e o lado. De sorte que os discípulos se alegraram, vendo o Senhor. 
Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, 
também eu vos envio a vós. E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: 
Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados lhes são 
perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos” (João 20:19-23).
Podemos considerar que aqui o Senhor estabelece e inicia de fato a nova 
criação. Os discípulos são cheios e revestidos de paz e do Espírito de vida em 
Cristo Jesus. Eles serão enviados como Seus mensageiros, partindo de Seu túmulo 
vazio devido à ressurreição, levando a abençoada mensagem de paz e vida eterna 
a um mundo devastado pelo pecado, dor e morte. O princípio da administra­
ção interna dessa nova criação também é estabelecido claramente: é exatamente 
essa administração que sempre dará à assembléia crista um caráter distintivo e 
celestial, tanto na presença de Deus quanto na presença dos homens.
O P r in c íp io de R eceber P essoas 
n o In íc io d a Ig r eja
Por ser este princípio a base correta para todas as congregações cristãs, 
é bom nos determos para observar como ele operava nos dias dos apóstolos. 
Certamente eles entendiam seu significado e como aplicá-lo.
No dia de Pentecostes, e por algum tempo depois disso, não parece que 
os novos convertidos fossem submetidos a algum exame quanto à realidade de 
sua fé, seja da parte dos apóstolos ou de outros. “De sorte que foram batizados 
os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase 
três mil almas” (Atos 2:41). Portanto, receber a palavra era a base do batismo e 
da comunhão, pois nesta ocasião a obra estava inteiramente nas mãos do próprio 
Cristo. “E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de 
salvar” (v. 47). A tentativa de enganar os apóstolos maquinada por Ananias e 
Safira foi detectada. Pedro fez o que deveria fazer, mas o Espírito Santo agiu com 
poder e majestade, e Pedro reconheceu isso. Por essa razão ele disse a Ananias: 
“Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito 
Santo...?” (Atos 5:3).
Mas esse virgem estado de coisas logo acabou. As falhas começaram - o 
Espírito Santo foi entristecido, e se tornou necessário examinar os que se diziam 
cristãos para verificar se as motivações, objetivos e estado de alma deles estavam 
de acordo com a mente de Cristo. Agora estamos nas condições descritas em 2
2 8 ) A H is t ó r ia da Ig r e ja - capítulo 1
V e r d a d e s F u n d a m e n t a is |I
Timóteo 2. Temos de ter comunhão apenas “com os que, com um coração puro, 
invocam o Senhor” (v. 22).
Depois que a igreja se tomou tão misturada devido à presença daqueles 
cuja confissão de fé era apenas nominal, um grande cuidado tormou-se 
necessário ao receber pessoas para participarem da comunhão. Não basta que 
alguém diga que se converteu e peça para fazer parte da igreja baseado em 
seu próprio discurso: tal candidato tem de se submeter ao exame de cristãos 
experientes. Quando um indivíduo diz que sentiu convicção de pecado, e foi 
levado ao arrependimento diante de Deus e à fé no Senhor Jesus Cristo, sua 
confissão tem de ser investigada por pessoas que passaram pelo mesmo tipo 
de experiência. E mesmo quando a conversão for notoriamente genuína, um 
cuidado piedoso e gentil tem de ser exercido na admissão desse indivíduo, pois 
alguém que desonre a Cristo, que seja prejudicial à própria congregação e que 
a enfraqueça, pode também ser acolhido, embora inconscientemente. Nesse 
momento é necessário discernimento espiritual. E essa é a maior manifestação 
de bondade ao candidato, e o imprescindível zelo pela honra de Cristo e pela 
pureza da comunhão. A comunhão cristã chegaria ao fim se as pessoas fossem 
recebidasbaseadas apenas nas opiniões delas mesmas.
Em Atos 9 vemos a prática desse princípio no caso da recepção do 
próprio apóstolo. E certamente se ele mesmo não foi oficialmente aceito sem 
um testemunho adequado, quem pode reclamar? E obvio que o caso dele foi 
peculiar, mas ainda pode ser tomado como ilustração prática do assunto que 
estamos tratando.
Encontramos Ananias em Damasco e toda a igreja em Jerusalém ques­
tionando a veracidade da conversão de Saulo, embora esta fosse miraculosa. É 
claro que ele foi um inimigo declarado dos que proclamavam o nome de Cristo, e 
isso tornava os discípulos ainda mais cautelosos. Ananias hesitou em batizá-lo até 
que estivesse plenamente convencido da conversão dele. Ele consultou ao Senhor 
sobre o assunto, e após ouvir Suas palavras, foi diretamente a Saulo; Ananias lhe 
assegurou que fora enviado pelo mesmo Jesus que aparecera a Saulo no caminho 
de Damasco, e confirmou a verdade do que ocorrera. Saulo foi grandemente 
reconfortado, recobrou a visão e foi batizado.
Então, quanto à reação da igreja em Jerusalém lemos: “E, quando Saulo 
chegou a Jerusalém, procurava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, 
não crendo que fosse discípulo. Então Barnabé, tomando-o consigo, o trouxe 
aos apóstolos, e lhes contou como no caminho ele vira ao Senhor e lhe falara, e 
como em Damasco falara ousadamente no nome de Jesus” (Atos 9:26-27). Paulo 
é um modelo para a igreja em muitas coisas, e nisso também. Ele é recebido
na assembléia - como todos os candidatos deveriam ser recebidos - com base 
em um testemunho condizente com a verdade de seu cristianismo proclamado. 
Porém, enquanto toda cautela piedosa tem de ser tomada para que pessoas 
como Simão, o mago (Atos 8), possam ser detectadas, é preciso demonstrar 
toda paciência e ternura para com os tímidos e fracos na fé. Porém, imediata­
mente após a recepção, a vida em Cristo e a consistência têm de serem buscadas 
(ver Romanos 14:15; 1 Coríntios 5 e 2 Coríntios 2). O caminho da igreja é 
sempre apertado.
O Papado mostra sua desesperada impiedade no uso indevido que 
tem feito da prerrogativa da igreja de reter ou perdoar pecados, daí todas as 
abominações da absolvição sacerdotal. O protestantismo foi para outro extremo
- provavelmente por temer a aparência do papado - e tem quase desprezado a 
disciplina. O caminho da fé é seguir a palavra de Deus.
O dia de Pentecostes - primeiro momento da história da igreja na terra - é 
a base que esclarece os grandes princípios fundamentais da igreja e do reino. A 
menos que compreendamos os princípios do cristianismo, jamais entenderemos 
sua história.
30 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 1
Capítu lo 1
O D ia d e P e n t e c o st e s
A festa judaica de Pentecostes pode ser chamada de o dia do nascimento 
da igreja cristâ. Essa era também a data em que se comemorava a 
^entrega das tábuas da lei a Moisés, no monte Sinai. Aparentemente, 
os judeus não comemoravam esse evento. Cinquenta dias após a ressurreição 
do Senhor, a igreja foi formada e sua história teve início. Os santos do Antigo 
Testamento não faziam parte dessa igreja do Novo Testamento. Ela nunca 
existiu de fato, até o dia de Pentecostes.
Todos os santos, desde o início, tiveram direito a mesma vida eterna, já que 
todos são filhos do mesmo Deus e Pai, e todos morarão no mesmo céu; mas os 
santos do Antigo Testamento pertencem a outras dispensações, que aconteceram 
antes da vinda de Cristo. Nas Escrituras, cada dispensação tem seu início, desen­
volvimento, declínio e término e todas terão seu próprio reflexo no céu. Tanto 
as pessoas quanto as dispensações em que elas viveram serão indistintas lá.
Por isso, em Hebreus 11, ao falar sobre os antigos heróis da fé, o apóstolo 
diz: “E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, 
provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não 
fossem aperfeiçoados” (vv. 39-40). Obviamente, se Deus proveu alguma coisa 
melhor para nós, tem de ser alguma coisa diferente também. Não nos oponhamos 
à própria palavra de Deus. Além disso, em Mateus 16 diz: “Sobre esta pedra 
edificarei a Minha igreja” (v. 18). E ao mesmo tempo, Ele deu as chaves para 
Pedro abrir as portas da nova dispensação. Até então, Ele não tinha edificado 
Sua igreja, e as portas do reino não estavam abertas. Mas a diferença entre o
antigo e o novo se tornará mais evidente quando falarmos dos grandes eventos 
do dia de Pentecostes. Vamos começar com os tipos de Levítico 23.
Foi ordenado aos fdhos de Israel que levassem ao sacerdote um feixe das 
primícias da colheita deles, para que ele o movesse diante do Senhor, a fim 
de que o povo fosse aceito por Deus (w. 9-11). Acreditamos que esse ritual 
prenunciava a ressurreição de nosso Senhor, na manhã seguinte ao sábado judeu, 
base da aceitação cristã diante de Deus no Cristo ressurreto. “Fala aos filhos de 
Israel, e dize-lhes: Quando houverdes entrado na terra, que vos hei de dar, e 
fizerdes a sua colheita, então trareis um molho das primícias da vossa sega ao 
sacerdote; e ele moverá o molho perante o Senhor, para que sejais aceitos; no dia 
seguinte ao sábado o sacerdote o moverá” (veja Mateus 28 e Marcos 16).
A festa de Pentecostes era celebrada sete semanas após o mover dos feixes. 
A oferta das primícias era considerada o primeiro dia da colheita na judéia, 
supostamente no dia de Pentecostes celebrava a colheita final do milho como 
totalmente realizada. Então eles tinham uma santa convocação. Dois pães, feitos 
com a farinha da nova colheita, caracterizavam essa festa. Os pães tinham de 
conter fermento e de serem trazidos de cada casa. Alguns pensam que esses dois 
pães prefiguravam a convocação para formar a igreja, composta tanto por judeus 
quanto pelos gentios. Pode ser, mas o que importa aqui é o número. Em Israel 
eram necessárias duas pessoas para validar um testemunho. O fermento indica, 
sem dúvida, o pecado que habita dentro do crente e, é claro, na igreja, vista em 
sua condição temporal.
Juntamente com a oferta movida - belo tipo do ressurreto Cristo puro 
e santo — eram oferecidos sacrifícios de aroma suave, mas nenhum sacrifício 
pelo pecado. Já com os dois pães — tipo dos que estão em Cristo - uma oferta 
pelo pecado se faz necessária, pois o pecado está presente e tem de ser coberto. 
Embora o perfeito e definitivo sacrifício de Cristo resolvesse totalmente a questão 
da natureza pecaminosa e dos pecados cometidos ao longo da vida, ainda na 
prática e na experiência, o pecado habita em nós e habitará enquanto estivermos 
neste mundo. Todos reconhecem isso, embora nem todos possam compreender a 
perfeição da obra de Cristo. O cristão foi aperfeiçoado para sempre através de uma 
única oferta, ainda que tenha de se humilhar e confessar a Deus cada falha.
O significado simbólico de Pentecostes ficou evidenciado de maneira 
notável na descida do Espírito Santo. Ele desceu para reunir os filhos de Deus 
que se achavam espalhados (João 11:52). Devido a esse grande evento, o sistema 
do judaísmo foi colocado de lado, e um novo vaso do testemunho - a igreja 
de Deus - foi introduzido ao mundo. Agora observe a ordem dos eventos. Em 
primeiro lugar, temos a ressurreição e ascensão de Cristo.
32 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
D e P e n t e c o s t e s a o M a r t ír io d e E st ev ã o I
* * *
A R essu r r eiç ã o e A scensão de C r ist o
Encarnação, Crucificação e Ressurreição são os grandes fatos ou 
verdades fundamentais da igreja e do cristianismo. A encarnação foi necessária 
à crucificação e ambas à ressurreição. E uma verdade bendita que Cristo morreu 
na cruz por nossos pecados, porém, é igualmente verdade que o crente morreu 
em Sua morte (Romanos 6; Colossenses 2). A vida cristã é vida na ressurreição. 
A igreja está edificada sobre o Cristo ressurreto. Nenhuma verdade pode ser 
mais abençoada e maravilhosa que a encarnação e a crucificação, mas a igreja 
está associada com a ressurreiçãoe glorificação de Cristo.
Em Atos 1 temos um quadro do que está relacionado à ressurreição e 
ascensão do Senhor; e também com os atos dos apóstolos antes da descida 
do Espírito Santo. O maravilhoso Senhor ainda fala e age por intermédio do 
Espírito Santo. Foi “pelo Espírito Santo” que Ele deu ordenanças aos apóstolos 
que escolhera. Isso é digno de nota por nos ensinar duas coisas:
1. O caráter de nossa união com Cristo; o Espírito Santo no cristão e no 
Senhor ressurreto os une um ao outro de maneira extraordinária. “Mas 
o que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito” (ICoríntios 6:17). 
Pelo “mesmo Espírito” ambos são unidos.
2. Esse importante fato chama a atenção para a abençoada verdade de 
que o Espírito Santo habita e age no cristão, também após este estar 
efetivamente na ressurreição. Naquele momento, Ele não terá — como 
tem agora - a carne em nós para combater, mas irá nos conduzir sem 
qualquer impedimento às glórias do céu - à jubilosa adoração, ao 
abençoado serviço, e à plenitude da vontade de Deus.
O Senhor ressurreto ordena aos apóstolos a aguardarem em Jerusalém 
pela “promessa do Pai, que (disse ele) de mim ouvistes. Porque, na verdade, João 
batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito 
depois destes dias” (Atos 1:4-5). Não se trata mais de uma questão de promessas 
temporais a Israel, isso será adiado para um dia futuro . A promessa do Pai em 
relação ao Espírito Santo era uma coisa inteiramente distinta, e com resultados 
radicalmente diferentes.
O Senhor falou muitas coisas relativas ao reino de Deus com Seus 
apóstolos, subiu aos céus e então uma nuvem impediu que eles O vissem. A 
volta do Senhor também é prenunciada de maneira clara e cristalina nessa 
mesma ocasião. “E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma 
nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos. E, estando com os olhos fitos no
céu, enquanto ele subia, eis que junto deles se puseram dois homens vestidos de 
branco. Os quais lhes disseram: Homens galileus, por que estais olhando para 
o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim 
como para o céu o vistes ir” (Atos 1:9-11). A partir dessas palavras fica evidente 
que Ele subiu pessoal, visível e corporalmente, e que é dessa mesma forma que 
Ele deverá vir - Ele aparecerá novamente entre as nuvens, e será manifesto aos 
povos sobre a terra, pessoal, visível e corporalmente; mas dessa vez com poder 
e grande glória.
Os apóstolos e discípulos tiveram de aprender duas coisas:
1. Que Jesus foi tomado desse mundo e levado aos céus.
2. Que Ele virá novamente. O testemunho deles se baseava sobre esses 
dois grandes fatos. Jerusalém seria o ponto de partida do ministério 
apostólico, e para isso teriam de esperar pelo poder de cima. Agora 
chegamos ao segundo grande evento, e mais importante de todos, que 
se relaciona à condição humana neste mundo - o dom do Espírito 
Santo. Já não seria Deus por nós, mas Deus em nós. Isso aconteceu no 
dia de Pentecostes.
* í; *
A D esc id a d o Espír it o Sa n t o
O tempo determinado chegara. A redenção tinha sido cumprida, Deus 
tinha sido glorificado - Cristo estava à destra do Pai no céu, e o Espírito Santo 
descera à terra. Deus inaugura a igreja e o faz de maneira condizente com Sua 
sabedoria, poder e glória. Um poderoso milagre foi realizado, um sinal exterior 
foi dado. O grande evento é registrado como segue abaixo.
Atos 2. “E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente 
no mesmo lugar; e de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e 
impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles 
línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E 
todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme 
o Espírito Santo lhes concedia que falassem. ” E bom fazermos uma pausa aqui 
para percebermos algumas coisas relacionadas à descida do Espírito Santo e à 
demonstração de Seu poder nesse importante dia.
Em primeiro lugar houve a consumação da promessa do Pai; o próprio 
Espírito Santo foi enviado dos céus. Essa era a grande verdade de Pentecostes. Ele 
veio do alto para habitar na igreja - o lugar preparado para Ele pela aspersão do
34 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
D e P e n t e c o s t e s a o M a r t ír io d e E stev ã o
sangue do Jesus Cristo. Houve também o cumprimento da palavra do Senhor 
aos apóstolos: “Vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois 
destes dias” (Atos 1:5). Os discípulos não tinham a menor idéia do significado 
dessa palavra, mas o fato estava consumado. A revelação total da doutrina de 
“um só corpo” aguardava os ensinamentos de Paulo. “Pois todos nós fomos 
batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer 
servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” (1 Coríntios 12:13).
Porém, além dos vários dons concedidos para o serviço do Senhor, temos 
algo mais bendito da perspectiva pessoal e inteiramente novo sobre a terra. O 
próprio Espírito Santo veio para habitar, não apenas na igreja, mas também 
em cada indivíduo que crê no Senhor Jesus. E, louvado seja o Senhor, que 
isso é tão verdadeiro hoje como foi no primeiro dia. Ele habita agora em cada 
crente que descansa na obra consumada de Cristo. Tendo em mente esse dia, o 
Senhor disse: “Vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós” (João 
14:17). Esses dois grandes aspectos da presença do Espírito foram cumpridos 
na íntegra no dia de Pentecostes. Ele veio habitar em cada cristão e na igreja, 
e agora - gloriosa verdade - sabemos que Deus não apenas é por nós, mas em 
nós e conosco.
Quando “Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com 
virtude” (Atos 10:38), Este apareceu em forma de pomba - belo emblema da 
pureza imaculada, da bondade e da humildade de Jesus. Ele não fazia ouvir Sua 
voz nas ruas, ou esmagava a cana quebrada, nem apagava o pavio que fumega 
(Isaías 42:3). Mas no caso dos discípulos que esperavam em Jerusalém, o que 
aconteceu foi totalmente diferente. O Espírito desceu como línguas de fogo e 
pousou sobre cada um. Isso foi característico. Foi uma demonstração do poder 
de Deus, não apenas para Israel, mas um prenúncio para todas as nações da 
terra. A Palavra de Deus também julgou tudo o que ocorreu antes disso - as 
línguas eram de fogo. O julgamento de Deus em relação ao homem por causa 
do pecado foi judicialmente expresso na cruz, e agora esse solene fato se tornará 
conhecido por toda a parte, devido ao poder do Espírito Santo. No entanto, a 
graça reina - reina através da justiça, da vida eterna por Cristo Jesus. O perdão 
é proclamado para o culpado, a salvação para o perdido, a paz para o atribulado, 
o descanso para o cansado. Todos os que crêem são, e sempre serão abençoados 
no e com o ressurreto e glorificado Cristo.
A surpresa e a consternação do Sinédrio e do povo judeu, sem dúvida 
foram enormes com o reaparecimento, em tal poder, dos seguidores do Jesus 
crucificado. Eles haviam concluído que, agora que o Mestre estava morto, 
os discípulos não iriam fazer mais nada. A maioria daqueles homens eram 
pessoas simples, sem educação. Mas como o povo deve ter ficado espantado
ao ouvir esses homens modestos pregando ousadamente nas ruas de Jerusalém, 
e convertendo milhares a um relacionamento vivo com Jesus! Mesmo sob o 
ponto de vista histórico, essa cena é cheia do mais emocionante interesse, e não 
encontra nenhum paralelo nos anais do tempo.
Jesus fora crucificado e, segundo a opinião popular, Suas declarações 
de que Ele era o Messias tinham sido sepultadas junto com Seu corpo. Os 
soldados que guardavam Seu sepulcro foram subornados para espalhar um falso 
testemunho acerca de Sua ressurreição; a excitação das pessoas já tinha passado; 
a cidade e a adoração no templo haviam retornado ao ritmo normal, como se 
nada tivesse acontecido. Porém, da parte de Deus, as coisas nãoseriam silencio­
samente ignoradas. Ele esperava o tempo determinado para defender Seu Filho, 
e fazer isso no mesmo lugar de Sua humilhação. Isso ocorreu de manhã cedo 
no dia de Pentecostes. Repentina e inesperadamente, Seus dispersos discípulos 
reapareceram com um miraculoso poder. Ousadamente acusaram os líderes e 
o povo pela prisão, julgamento e crucificação de Jesus e afirmaram com todas 
as letras que estes haviam assassinado o Messias prometido, mas que Deus O 
levantou para ser Príncipe e Salvador, assentando-O à Sua destra no céu. “Onde 
o pecado abundou, superabundou a graça” (Romanos 5:20).
Podemos dizer que a sentença sobre Babel foi o reverso desse maravilhoso 
dia. Através de diferentes línguas, as quais os homens receberam como 
condenação pela justa ira de Deus, a salvação foi proclamada. Essa poderosa e 
miraculosa obra divina atraiu a multidão. Todos estão assombrados, especulando 
o que seria aquela estranha cena. Cada um, na língua própria de seu país de 
origem, ouvia dos lábios de galileus iletrados as maravilhosas obras de Deus. 
Os judeus que moravam em Jerusalém, não entendendo as línguas estrangeiras, 
zombavam deles. Então Pedro se levantou e explicou em sua própria língua, 
provando com as Escrituras o verdadeiro caráter do que acontecia.
O P r im eir o A pelo de P ed r o ao s Ju d eu s
Lemos: “E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, 
de todas as nações que estão debaixo do céu. E, quando aquele som ocorreu, 
ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua 
própria língua. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: 
Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando? Como, pois, 
os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e 
medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto 
e Ásia, e Frigia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros
36 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, todos nós temos 
ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus. E todos se mara­
vilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer? 
E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto. Pedro, porém, pondo-se 
em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Homens judeus, e todos 
os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras. 
Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora 
do dia”, ou segundo nossa forma de contar o tempo, às nove da manhã - hora 
da oração no templo.
Então Pedro toma a liderança e explica aos judeus que as fantásticas coisas 
que viram e ouviram não eram resultado de embriaguês, mas o que foi predito 
pelas próprias escrituras proféticas dos judeus. “Mas isto é o que foi dito pelo 
profeta Joel.” Note o fundamento no qual Pedro se apóia e prega com tamanha 
audácia. Ele se baseia no fundamento da ressurreição e exaltação de Cristo. Isso é 
algo para ser cuidadosamente observado, pois demonstra a fundação sobre a qual 
a igreja descansa, e quando e onde a história dela começa. Esse foi o primeiro 
dia de sua existência, a primeira página de sua história, e os primeiros triunfos 
do inefável dom de Deus à humanidade.
“Deus ressuscitou a este Jesus, do que todos nós somos testemunhas. De 
sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do 
Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis. Porque Davi não 
subiu aos céus, mas ele próprio diz: Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te 
à minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés. Saiba, 
pois, com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, 
Deus o fez Senhor e Cristo.”
Citaremos as palavras de outro autor sobre os abençoados efeitos do 
primeiro sermão de Pedro e sobre a presença do Espírito Santo na terra:
“Não foi meramente uma mudança moral, mas um poder que deixou de 
lado todas as motivações que individualizavam os que o receberam, unindo-os 
em uma só alma e em uma só mente. Eles continuaram firmemente na doutrina 
dos apóstolos, estavam em comunhão uns com os outros, partiam o pão, 
passavam tempo em oração: a percepção da presença de Deus era poderosa entre 
eles; muitos sinais e maravilhas foram realizados pelas mãos dos apóstolos. Eles 
estavam unidos por íntimos vínculos, ninguém reclamava nada para si mesmo, 
mas todos dividiam suas posses com os que necessitavam. Estavam diariamente 
no templo, o lugar público de Israel para os exercícios religiosos, enquanto 
mantinham o próprio e reservado partir do pão nas casas. Comiam com alegria 
e singeleza de coração, louvando a Deus, e contando com o favor de todo o
D e P e n t e c o s t e s a o M a r t ír io d e E st e v ã o [
povo que os rodeava. Assim a assembléia foi formada, e o Senhor acrescentava 
todos os dias à igreja o remanescente de Israel, o qual seria salvo dos julgamentos 
que se abateriam sobre a nação que rejeitara o Filho de Deus, o Messias. Deus 
introduzia na assembléia - pela presença do Espírito Santo - os que Ele pouparia 
em Israel. Uma nova ordem de coisas começara, marcada pela presença do 
Espírito Santo. Aqui se encontra a presença e a casa de Deus, embora a antiga 
ordem de coisas ainda existisse até a execução do julgamento.
“A assembléia foi formada, portanto, pelo poder do Espírito Santo enviado 
do céu sobre o testemunho de que Jesus, anteriormente rejeitado, foi levado aos 
céus e feito Senhor e Cristo pelo próprio Deus. Era composta pelo remanes­
cente judeu que seria poupado, e dos gentios que Deus haveria de chamar para 
integrá-la.”6
Essa é a igreja de Deus; a união dos que Deus tem chamado no nome 
do Senhor Jesus, pelo Espírito de Deus. O amor governava e caracterizava a 
recém-formada assembléia. As poderosas vitórias que a graça alcançou naquele 
memorável dia atestaram cabalmente o poder do Senhor exaltado e a presença 
do Espírito Santo na terra. Três mil almas foram convertidas por um único 
sermão. Os que tinham sido inimigos declarados do Senhor, cúmplices de Seu 
assassinato, agonizavam debaixo do poder das palavras de Pedro. Alarmados 
com o terrível pensamento de terem matado o Messias prometido, e de que 
Deus, em cuja presença estavam, O exaltara à Sua destra no céu, eles clamaram: 
“Que faremos, homens irmãos?”
Pedro então procurou incutir as boas obras na alma deles, humilhando os 
antes orgulhosos e zombadores judeus. Ele diz: “Arrependei-vos, e cada um de 
vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis 
o dom do Espírito Santo”. Ele não diz simplesmente: “Creiam no Senhor Jesus 
Cristo e vocês serão salvos”, embora, é claro, a fé e o arrependimento sempre 
andem juntos onde a obra é genuína. Mas, neste caso, Pedro enfatizou o arre­
pendimento. A culpa do povo era enorme, e uma profunda obra moral na 
consciência deles era necessária para fazê-los se arrependerem. Eles tinham de ver 
sua culpa à luz de Deus, e receber a remissão de seus pecados aos pés dAquele a 
quem haviam rejeitado e crucificado. No entanto, tudo isso era graça. O coração 
deles fora tocado. Eles reconheceram que a sentença divina que os condenava era 
justa - mas se arrependeram de verdade, foram perdoados, e receberam o dom 
do Espírito Santo. A partir de então se tornaram filhos de Deus e têm a vida 
eterna: o Espírito Santo habita neles.
38 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
6 Sinopse dos Livros da Bíblia, por J. N. DARBY.
A realidade da transformação foi manifesta por uma completa mudança 
de caráter. “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a 
sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas, e perseveravam 
na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações” 
(Atos 2:41-42).
Batismo logo após a confissão de fé; ser recebido na assembléia; a ceia do 
Senhor, a comunhãodos santos e a oração eram os hábitos que os caracteriza­
va. Naquele momento, a oração do Senhor, “Para que sejam um” (João 17:11), 
foi respondida, como lemos no capítulo 4. “E era um o coração e a alma da 
multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era 
sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns” (v. 32). Agora iremos analisar 
o capítulo 10.
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O C h a m a d o D ir ig id o ao s G en t io s
Cornélio, o centurião, um homem piedoso, e os que estavam com ele são 
recebidos na assembléia de Deus. Pedro havia anunciado o chamado gentílico 
em seu primeiro discurso. De uma maneira especial e com indicações especiais 
do propósito divino, ele foi escolhido por Deus para abrir a porta para os gentios 
piedosos. Até aquele momento, a assembléia era composta principalmente, mas 
não unicamente, de judeus. Mas Deus lidou com Seu povo de forma amorosa no 
que se referia aos preconceitos nacionais. “Cornélio, centurião da coorte chamada 
italiana, piedoso e temente a Deus, com toda a sua casa, o qual fazia muitas 
esmolas ao povo, e de contínuo orava a Deus” (v. 1-2). A julgar pela conduta de 
Cornélio, os judeus não poderiam se opor a receber um homem assim. Deus é 
gracioso, bondoso e misericordioso. Mas Deus não deixou nenhuma dúvida na 
mente de Pedro quanto à Sua vontade. Com uma repreensão, Deus graciosa­
mente silenciou a argumentação interna do apóstolo e deu fim ao desconforto 
de Seu servo: “Não faças tu comum ao que Deus purificou” (v. 15).
Pedro faz o que lhe foi ordenado, embora com cautela, pois era uma 
obra nova para ele. Porém, nada parece surpreender Pedro mais do que o fato 
dos gentios receberem a bênção sem se tornarem judeus, ou se submeterem 
a qualquer das ordenanças da lei. Foi um imenso passo para Pedro e para os 
gentios. Isso aniquila pela raiz o Papado, o Puseísmo, a Sucessão Apostólica 
e todos os demais sistemas de ordenanças. Através desse fato uma torrente de 
luz é jogada sobre o caráter da atual dispensação. “E, abrindo Pedro a boca, 
disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; mas que
D e P e n t e c o s t e s a o M a r t í r i o d e E s t e v ã o j 39
lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo” 
(w. 34-35). Ficou totalmente evidente que não é necessário se tornar judeu, nem 
se submeter à ritos exteriores e cerimônias para se desfrutar as ricas bênçãos do 
céu. Sem a imposição das mãos dos apóstolos — embora o próprio Pedro estivesse 
presente cheio de poder e autoridade divinos -, antes mesmo de serem batizados 
com água, aqueles gentios foram batizados com o Espírito Santo. Enquanto a 
palavra de Deus saía dos lábios de Pedro, o Espírito Santo foi derramado sobre os 
ouvintes. No entanto, antes disso, uma obra maravilhosa operada pela graça divina 
tinha sido feita no coração de Cornélio: ele era uma alma divinamente vivificada.
Ser vivificado pelo Espírito é bem diferente de se ser selado com o Espírito. 
Para que o Espírito Santo possa selar, tem de haver algo sl selar. O Espírito 
não pode selar nossa velha natureza; é imperioso ter uma nova natureza 
para que Ele a sele. Portanto, existe um momento na história de cada cristão 
onde se é vivificado e não selado, mas cedo ou tarde a obra será completada 
(Efésios 1:13). Por exemplo, o filho pródigo foi vivificado, ou convertido, 
quando deixou o país estrangeiro no qual se encontrava, mas ainda era um 
estranho ao amor e à graça do Pai; e, consequentemente, não tinha a fé que 
descansa em Cristo por saber que Ele é a fonte de todas as bênçãos. A decisão que 
ele tomou, de voltar ao Pai, demonstra que mesmo incrédulo ele já estava tocado 
pelo Espírito. Quanto ao perdão e aceitação, certamente ele não fora selado pelo 
Espírito até que recebeu o beijo de reconciliação, ou o anel, símbolo do amor 
eterno. O Evangelho da salvação é mais que uma preocupação pela alma, ainda 
que seja legítima. Uma incredulidade que desonra a Cristo pode acompanhar, 
por um período, uma genuína obra do Espírito de Deus na alma de alguém. 
O filho pródigo possuía um tipo de fé, uma crença na bondade do coração de 
seu Pai, que o impulsionou a se aventurar a voltar para casa. Mas certamente 
lhe faltava a plenitude da fé evangélica. “Aquele que aceitou o seu testemunho, 
esse confirmou que Deus é verdadeiro” (João 3:33). Onde existe a fé em Cristo 
e em Sua obra existe o selo de Deus. O próprio Paulo permaneceu três dias em 
profundo tormento de alma, sem a paz e o descanso que o selo do Espírito Santo 
promove. “E esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu” (Atos 9:9).
Retornemos agora ao ponto principal.
O Selo d o s G en t io s
Note, pois, esse importante fato relacionado à entrada dos gentios na 
assembléia dos salvos - eles receberam o dom do Espírito Santo simplesmen­
te pela pregação da palavra. Os judeus em Jerusalém foram batizados antes
40 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
de terem recebido o Espírito Santo. Em Samaria, os samaritanos não apenas 
foram batizados, mas os apóstolos tiveram de impor as mãos sobre eles e orar e, 
depois disso, receberam o Espírito Santo. Mas, em Cesaréia, sem o batismo nas 
águas, sem a imposição de mãos, sem oração, a mais preciosa bênção cristã foi 
concedida aos gentios, embora a doutrina da igreja como corpo de Cristo não 
tivesse sido revelada ainda.
A graça de Deus assim demonstrada aos gentios no início desta dispensação 
tem sido sua principal característica desde então. Somos gentios, não somos 
samaritanos nem judeus. Por essa razão, os caminhos graciosos de Deus e Seus 
planos para os gentios têm uma aplicação especial para nós. Não há qualquer 
registro da parte dos historiadores inspirados sobre alguém ter sido batizado 
sem confessar a fé em Cristo; se formos seguir o padrão do que aconteceu em 
Cesaréia, temos de procurar pelo selo bem como pela vivificação - pela paz com 
Deus bem como pela fé em Cristo antes do batismo. O caso de Cornélio está no 
início da nossa dispensação; e foi a primeira expressão direta da graça concedida 
aos gentios; e sem dúvida, deve servir de modelo para os pregadores e discípulos 
gentios. Quando se crê hoje na mesma palavra de Deus que foi pregada naquela 
ocasião a Cornélio, podemos garantir que teremos o mesmo resultado, ou seja, 
a paz com Deus.
Pregação, fé na palavra pregada, selo, batismo é a hierarquia divina aqui. 
Deus e Sua palavra nunca mudam, embora os “tempos mudem”, as opiniões 
humanas mudem, os ritos religiosos mudem; mas a palavra de Deus jamais 
muda. Judeus, samaritanos e gentios professaram a fé em Cristo antes de serem 
batizados. De fato, o batismo presume vida eterna da qual nos apoderamos 
pela fé, e não transmitida após o ato de se batizar, como ensinam os católicos 
anglicanos. Eles dizem: “Graça é vida transmitida, a qual é transmitida pelos 
sacramentos, e somente efetivada por tais meios; independente de qualquer 
exercício do intelecto por parte da pessoa trazida à união. O batismo santo é o 
meio de se conferir ao receptor uma vida nova e espiritual”7.
Tais noções, nem precisamos dizer, são inteiramente opostas às Escrituras. 
O batismo não concede nada. A Bíblia ensina de maneira clara que a vida é 
concedida por outro meio. A conversão, ou o “nascer de novo”, é produzida em 
todos os casos, sem exceção, pelo Espírito Santo. Como lemos em 1 Pedro 1:22: 
“Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor 
fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração 
puro; sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, 
pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre”. Aqui a verdade do
7 A Igreja e o Mundo, páginas 178-188. Tradução livre.
D e Pe n t e c o s t e s a o M a r t ír io d e E st e v ã o [
Evangelho é vista como o meio, e o Espírito Santo como o poder para a conversão. 
Cristo, ou Deus em Cristo, é o novo objetivo da alma. E pelo Espírito e pela 
verdade de Deus que essa maravilhosamudança se efetiva. Aqueles que confiam 
no batismo nas águas como meio de transformação, infelizmente, confiam em 
uma grande e fatal mentira8.
No caso dos gentios, em questão aqui, antes do batismo ser administrado, 
eles já tinham muito mais que vida. Eles possuíam o selo de Deus. O batismo 
é um sinal da total libertação e salvação asseguradas ao crente pela morte e 
ressurreição de Cristo. Cornélio tinha vida, era um homem piedoso, mas teve 
de mandar buscar Pedro, e ouvir as palavras por meio das quais seria salvo ou 
plenamente liberto. Tanto o Antigo Testamento como o Novo Testamento
42 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
8 As breves declarações dos religiosos do quarto século sobre o tema do batismo registradas a 
seguir mostrarão aos nossos leitores as fontes, ou autoridades, de muito do que é dito e feito 
na atualidade pelo ritualistas. A autoridade das Escrituras é colocada inteiramente de lado. 
“N a páscoa, no Pentecostes, e em alguns lugares da Epifania, o ritual do batismo foi admi­
nistrado publicamente - ou seja, na presença dos fiéis —, a todos os neófitos daquele ano, 
exceto em alguns casos nos quais foi conveniente realizar a cerimônia sem demora, ou em 
que o tímido cristão a adiou até o fim da vida, após o exemplo de Constantino: uma prática 
condenada pelo clero por muito tempo e em vão. Mas, o fato do adiamento revela como a 
importância e a eficácia do ritual estão enraizados de forma profunda na mente cristã. Era uma 
completa purificação da alma. O neófito, ou novo convertido, emergia das águas do batismo 
em um estado de perfeita inocência. A pomba — o Espírito Santo - estava constantemente 
pairando sobre a fonte batismal, santificando as águas para a misteriosa lavagem de todos 
os pecados da vida passada. Se a alma não sofresse nenhuma mancha subseqüente, passava 
imediatamente à esfera da pureza e felicidade; isto é, o coração era purificado, o entendimento 
iluminado, o espírito revestido com imortalidade.
“Vestido de branco, emblema da pureza imaculada, o candidato se aproximava do batistério 
- nas igrejas maiores era uma estrutura separada. Ali pronunciava os votos solenes, por meio 
dos quais firmava um compromisso com sua religião. A personificação simbólica do Oriente 
era acrescentada à cerimônias importantes. O catecúmeno (um dos primeiros estágios da 
educação cristã) se voltava para o Ocidente, domínio de Satanás, e três vezes renunciava ao 
poder diabólico, então se virava para o Oriente, para adorar o Sol da Justiça e proclamar seu 
pacto com o Senhor da vida. O místico número três era predominante: os votos eram trinos, 
três vezes declarados. O batismo usualmente era por imersão; tirar as vestes era um símbolo 
do ‘despir-se do velho homem’, mas o batismo por aspersão também era permitido, segundo a 
ocasião exigisse. N a vívida linguagem da igreja, a água em si mesma se transformava no sangue 
de Cristo. Por uma analogia fantasiosa, se comparava ao Mar Vermelho: as ousadas metáforas 
de alguns dos líderes religiosos pareciam até mesmo asseverar uma transmutação na cor dela. 
“Quase todos os líderes da época — Basílio, os dois Gregórios, Ambrósio, etc —, têm tratados 
sobre o batismo e competem, por assim dizer, uns com os outros quanto à exaltação da 
importância e eficácia deste ritual. Gregório Nanziazeno quase esgotou a abundância da língua 
grega ao falar sobre o batismo.” Extraído de História do Cristianismo de Milman, volume 3.
D e P e n t e c o s t e s a o M a r t í r i o d e E s t e v ã o | 43
ensinam essa abençoada verdade de modo cristalino. Israel, como um grupo 
simbólico, foi batizado por Moisés na nuvem e no mar depois de serem trazidos 
a Deus e de se abrigarem debaixo do sangue do cordeiro no Egito. Desse modo, 
foram arrancados do Egito e viram a salvação do SENHOR. Depois, Noé e sua 
família foram salvos através do dilúvio - e não pelo dilúvio. Deixaram o velho 
mundo, passaram pelas águas da morte, e aportaram em um novo estado de 
coisas. “Que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo... 
pela ressurreição de Jesus Cristo” (Êxodo 14; 1 Pedro 3:21).
Mas qual foi a palavra que Pedro pregou e que trouxe tão notável bênção? 
Ele pregou a paz por meio de Jesus Cristo, Senhor de todos. O Cristo ressurreto, 
exaltado e glorificado foi o grande tema do testemunho dele. Ele resume tudo 
com as seguintes palavras: “A este dão testemunho todos os profetas, de que todos 
os que nele crêem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome" (Atos 10:43). 
A bênção continua. Os judeus presentes ficaram atônitos; mas se curvaram e 
reconheceram a bondade de Deus para com os gentios. “E, dizendo Pedro ainda 
estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis 
que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam- 
se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios. Porque 
os ouviam falar línguas, e magnificar a Deus. Respondeu, então, Pedro: Pode 
alguém porventura recusar a água, para que não sejam batizados estes, que também 
receberam como nós o Espírito Santo ? E mandou que fossem batizados em nome do 
Senhor. Então rogaram-lhe que ficasse com eles por alguns dias” (Atos 10:44-48).
Agora voltemos um pouco e vejamos alguns eventos importantes que 
precederam o capítulo 10.
i í -k i i
O P r im eir o M á r t ir C ristão
Estêvão, diácono e evangelista, é o primeiro a receber a coroa do martírio 
por amor ao nome de Jesus. Ele lidera o “nobre exército dos mártires”. Como 
símbolo, ele é perfeito - um proto mártir. Firme e inabalável em sua fé; ousado 
e destemido diante de seus acusadores; claro e fiel em sua defesa perante o 
Sinédrio; sem malícia em sua forte argumentação; cheio de compaixão por todos 
os homens, Estêvão selou seu testemunho com o próprio sangue, e em seguida 
dormiu em Jesus.
Em alguns aspectos, Estevão se parece com o próprio Senhor. “Senhor Jesus, 
recebe o meu espírito” (Atos 7:59) é semelhante à “Pai, nas tuas mãos entrego o 
meu espírito” (Lucas 23:46). “Senhor, não lhes imputes este pecado” (v. 60) é o
mesmo que “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34), com 
a diferença de que Estevão não alegou ignorância da parte de seus algozes.
Já vimos que problemas internos e externos atacavam a jovem assembléia. 
De fato, a palavra de Deus crescia, multidões se convertiam e um grande 
número de sacerdotes judeus obedecia à fé. Mas os gregos, ou helenistas (judeus 
de origem grega), murmuravam contra os judeus (naturais da Judéia), porque 
suas viúvas eram negligenciadas na distribuição diária de alimentos. Isso levou 
à escolha de sete diáconos. Tomando por base os nomes deles registrados em 
Atos 6, parece que os sete eram “gregos”, ou seja, pertenciam todos ao lado dos 
murmuradores. Com isso, o Espírito de Deus dominou em graça. Estêvão era 
um dos sete, e sua vida foi um exemplo da palavra do apóstolo: “Porque os 
que servirem bem como diáconos, adquirirão para si uma boa posição e muita 
confiança na fé que há em Cristo Jesus” (1 Timóteo 3:13). Ele era cheio de fé e 
poder, e fazia grandes maravilhas e milagres entre o povo. A energia do Espírito 
Santo se manifestava de maneira especial em Estêvão.
Em Jerusalém havia diferentes sinagogas em razão das diferentes origens 
dos judeus. Foi a sinagoga dos libertinos, e dos cireneus e dos alexandrinos, 
e a dos que eram da Cilicia e da Ásia que se opuseram a Estêvão. Mas “não 
podiam resistir à sabedoria, e ao Espírito com que falava” (Atos 6:9-10). Então 
aconteceu o que geralmente acontece com os que confessam a Jesus em todas 
as épocas: incapazes de responder, seus acusadores o levaram ao tribunal. Falsas 
testemunhas foram subornadas, as quais juraram que tinham ouvido Estêvão 
dizer “palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus”, além de afirmar que 
Jesus Nazareno haveria de destruir o templo e mudar os costumes que Moisés 
dera ao povo. O caso agora estava no Sinédrio - começa o julgamento. Porém,o que seus juizes devem ter pensado quando viram seu rosto brilhar, como a 
face de um anjo?
Temos diante de nós o nobre discurso de Estêvão aos líderes da nação. 
Convincente, perturbador, irresistível. Sem dúvida, tal discurso foi o testemunho 
do Espírito Santo aos judeus, pela boca de Estevão. E o cúmulo da humilhação 
para os orgulhosos israelitas foi ouvir dos lábios de um helenista sobre a 
condenação divina que lhes estava reservada. Mas o Espírito de Deus, quando 
desimpedido pelos esquemas humanos, age por meio de quem Ele quer.
Usando uma linguagem ousada, Estêvão recapitula os principais pontos da 
história nacional. Ele se refere em especial à história de José e de Moisés. Os pais 
do povo venderam o primeiro aos gentios; desprezaram o segundo como líder e 
juiz. Ele também os acusou de sempre resistirem ao Espírito Santo, de sempre 
desobedecerem à lei, e de agora terem traído e assassinado o Justo. Nesse ponto,
44 | A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
D e P e n t e c o s t e s ao M a r t ír io d e E st e v ã o
a fiel testemunha de Cristo foi interrompida. Não permitiram que ele terminasse 
seu discurso: uma figura, muito real, do tratamento dispensado aos mártires até 
hoje. A murmuração, a indignação e a fúria do Sinédrio ficaram fora de controle. 
“E, ouvindo eles isto, enfureciam-se em seus corações, e rangiam os dentes contra 
ele” (Atos 7:54). Porém, ao invés de continuar sua fala, Estevão tem uma visão de 
Jesus e fixa seus olhos no céu — casa e centro de reunião de Seu povo.
“Eis que vejo os céus abertos.” Ele está cheio de Espírito Santo quando 
olha para cima, e vê o Filho do homem em pé, pronto a receber o espírito de 
Seu servo. Alguém escreveu o seguinte: “Essa é a posição do verdadeiro crente
- posição celestial sobre a terra - na presença do mundo que rejeitou Cristo, 
o mundo assassino. O crente, vivo na morte, pelo poder do Espírito Santo 
perscruta o céu, e vê o Filho do homem à destra de Deus. Estêvão não disse 
‘Jesus’. O Espírito O mostrou como ‘Filho do homem’. Precioso testemunho à 
humanidade! Ele não testificou sobre a glória, mas sobre o Filho do homem na 
glória, e acerca dos céus abertos para ele... No que se refere ao objeto da fé e à 
posição do crente, essa cena é definitivamente característica”.
"Eis o proeminente, o mais próximo ao trono
Perfeitas vestes triunfais trajando
Aí está o que mais ao mestre se assemelha
Este santo, este Estêvão que se ajoelha
Fixando o olhar enquanto os céus
Se abriam aos seus olhos que se fechavam
Que, tal como lâmpada quase apagada retoma seu fulgor,
E faz vê-lo o que a morte esconde a rigor.
Ele, que parece estar na terra
Há de voar como pomba vera
E da amplitude do céu sem nuvens
Extrair o mais puro dos ares
Para que os homens contemplem sua face angelical
Plena do resplendor da graça celestial,
Mártir íntegro, apto a se conformar 
A morte de Jesus, vitória sem par!
(tradução livre da poesia constante da edição original em inglês)
Já examinamos, com certa minúcia, a primeira seção da história da 
igreja. Em geral, os livros sobre história da igreja começam com um período 
posterior. A maioria deles inicia onde as Escrituras terminam, pelo menos com
relação aos detalhes. Nenhum dos que vimos se refere a Mateus 16, e poucos 
fazem um exame crítico de Atos dos Apóstolos, que, acima de tudo, é a única 
parte da história da igreja que comanda nossa fé e a qual temos de obedecer 
absolutamente.
No capítulo 8 encontramos o Espírito Santo em Samaria agindo por meio 
de Filipe. Este tinha, por assim dizer, saído de Jerusalém. Isso marca uma época 
diferenciada na história da igreja, especialmente na ligação dela com Jerusalém. 
Por ora, vamos deixar os furiosos e atormentados judeus e seguir o caminho do 
Espírito até a cidade de Samaria. Mas temos de passar os olhos por um momento 
naquilo que alguns chamam de a terceira perseguição.
46 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
3
Á P er se g u iç ã o e 
a D isp e r sã o d o s D isc íp u lo s
Após a morre de Estêvão, uma grande perseguição teve inicio contra 
a Igreja (Atos 8). Os líderes judeus, convencidos de ter obtido uma 
 ̂grande vitória sobre os discípulos, estavam determinados a perseguir, 
o aparente triunfo, com todo o ímpeto. Mas Deus, que está acima de tudo e 
sabe como impor limites às paixões humanas, fez uso da oposição deles para o 
cumprimento de Sua vontade.
A humanidade ainda não aprendeu a verdade do provérbio que diz: “O 
sangue dos mártires é a semente da Igreja”. No caso do primeiro e mais nobre 
dos mártires, o provérbio foi sem dúvida comprovado. Entretanto, ao longo de 
todos esses séculos, a humanidade tem sido tardia em aprender ou acreditar 
nesse fato histórico tão simples. Em geral, as perseguições acabam promovendo 
as causas que procuram reprimir. Isso tem se provado verdadeiro na maioria dos 
casos, em qualquer tipo de perseguição ou de oposição. Resistência, convicção 
e firmeza têm a sua origem nesse tipo de tratamento. De fato, por causa da 
perseguição, as mentes tímidas e fracas podem ser levadas à apostasia por um 
tempo, mas é comum que essas pessoas, profundamente arrependidas, procurem 
voltar à condição anterior, enfrentando com ânimo os sofrimentos mais cruéis 
e demonstrando grande coragem em seus últimos momentos! E a perseguição, 
de uma forma ou de outra, é algo que os seguidores de Jesus já esperavam. Eles
foram e são exortados a tomar a cruz diariamente e segui-lO - um teste para a 
sinceridade de nossa fé, a pureza de nossas motivações, a força de nosso amor 
por Cristo e a medida de nossa confiança nEle.
Os que não amam verdadeiramente a Cristo abandonarão a fé no tempo 
da dura perseguição. O amor, porém, resistirá até o fim, quando não houver 
mais nada a fazer. Vemos isso perfeitamente no maravilhoso Senhor Jesus. Ele 
enfrentou a cruz, que vinha de Deus, e desprezou a vergonha, que vinha do 
homem. E foi em meio à vergonha e aos sofrimentos da cruz que a força de Seu 
amor se manifestou plenamente, e triunfou sobre tudo. Nada poderia afastar Seu 
amor do objeto deste, ou seja, do Pai, pois era mais forte que a morte. Nisso, 
e em todas as coisas, Ele nos deixou um exemplo para que andemos em Seus 
passos. Que sempre O sigamos de perto!
Em Atos, aprendemos com a história da Igreja que o resultado do martírio 
de Estêvão foi a imediata propagação da verdade, a qual os perseguidores 
tentavam impedir. As impressões deixadas por essa testemunha e por uma 
morte assim acabaram por derrotar os inimigos e convencer os imparciais e os 
indecisos. O último recurso da crueldade humana é a morte, mas a fé cristã em 
seu primeiro teste se provou mais forte que a morte, e esta manifestada em uma 
de suas mais terríveis facetas. O inimigo testemunhou essa vitória e jamais a 
esquecerá. Estêvão estava sobre a Rocha, e as portas do inferno não prevaleceram 
contra ela.
Nessa ocasião, toda a igreja de Jerusalém foi dispersa, com exceção dos 
apóstolos, e os cristãos iam por toda parte pregando a Palavra. Como a nuvem 
que se dissipa perante o vento, produzindo uma refrescante chuva que sacia 
a terra sedenta, os discípulos foram dispersos de Jerusalém pela tempestade 
da perseguição, levando a água viva às almas sedentas de terras distantes. 
“Fez-se, naquele dia, uma grande perseguição contra a igreja que estava em 
Jerusalém; e todos foram dispersos pelas terras da Judéia e da Samaria, exceto 
os apóstolos” (Atos 8:1). Alguns historiadores pensam que o fato de os apóstolos 
terem permanecido em Jerusalém depois que os discípulos fugiram comprova 
a sua grande firmeza e fidelidade à causa de Cristo. Nós, porém, temos outro 
pensamento: consideramos isso umfracasso, em vez de uma prova de fidelidade. 
A ordem que receberam do Senhor foi esta: “Ide, ensinai todas as nações, 
batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19). 
Antes disso, haviam sido alertados: “Quando [...] vos perseguirem nesta cidade, 
fugi para outra” (Mateus10:23). Até onde a Bíblia nos informa, essa ordem do 
Senhor jamais foi cumprida pelos Doze. No entanto, Deus agiu poderosamente 
na vida de Paulo para alcançar os gentios, e em Pedro, para chegar aos judeus.
48 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
D e E st e v ã o a o A p o s t o l a d o d e Pa u lo
O Espírito Santo agora deixa de manifestar o Seu poder visivelmente 
em Jerusalém — uma verdade solene! Mas a cidade culpada preferiu o apoio de 
Roma ao poder da ressurreição de seu Messias. “Os principais dos sacerdotes e os 
fariseus formaram conselho e diziam: Que faremos? Porquanto este homem faz 
muitos sinais. Se o deixamos assim, todos crerão nele, e virão os romanos e tirar- 
nos-ão o nosso lugar e a nação” (João 11:47-48). Eles rejeitaram o Messias em 
Sua humilhação, e agora rejeitavam o testemunho do Espírito Santo a respeito 
de Sua exaltação. A iniquidade deles era completa, e inimaginável a ira que lhes 
pairava sobre a cabeça. Mas, por ora, nossa tarefa, seguindo o curso da história 
da Igreja, é acompanhar o Espírito Santo em direção a Samaria. O caminho do 
Espírito é o fio de prata da graça salvadora.
O S TRIUNFOS DO EVANGELHO EM SAMARIA
Filipe, o diácono, cujo zelo e energia se igualavam aos de Estêvão, desce 
para Samaria. O Espírito Santo age por meio dele. Na sabedoria dos caminhos 
do Senhor, a desprezada Samaria é o primeiro lugar, fora da Judéia, em que 
o Evangelho foi pregado por Suas testemunhas escolhidas: “Descendo Filipe 
à cidade de Samaria, lhes pregava a Cristo. E as multidões unanimemente 
prestavam atenção ao que Filipe dizia, porque ouviam e viam os sinais que ele 
fazia [...] E havia grande alegria naquela cidade” (Atos 8:5-8). Muitos creram 
e foram batizados. Até Simao, o mago, reconheceu a presença de um poder 
diferente daquele que ele mesmo possuía e se curvou à força e à obra que o 
Espírito realizou no povo, embora a verdade nunca tivesse penetrado o seu 
coração nem a sua consciência. E, como já viajamos para outra parte do país, a 
esta altura é oportuno dizer algumas palavras sobre sua história.
A Terra Santa, a mais interessante de todas as nações do planeta, moral 
e historicamente, é bem pequena em tamanho: “E um território do tamanho 
ao País de Gales9, com menos de 224 quilômetros de comprimento e apenas 64 
quilômetros de largura”.10 A parte norte é a Galiléia; o centro, Samaria; ao sul, 
fica a Judéia. Ainda que geograficamente tão pequena, ela tem sido o cenário dos 
momentos mais importantes da história humana. Ali o Salvador nasceu, viveu 
e foi crucificado - e também foi sepultado e ressuscitou. Ali também os Seus 
apóstolos e mártires viveram, testificaram e sofreram. Pregou-se ali o primeiro 
sermão evangélico, e ali a Igreja teve seu início.
9 Algo equivalente à metade do estado de Alagoas, no Brasil.
10 William SM ITH , Smith’s Bible Dictionary.
A terra originariamente ocupada por Israel ficava entre os antigos impérios 
da Assíria e do Egito. Essa é a razão das frequentes menções ao “rei do norte” e ao 
“rei do sul” no Antigo Testamento. Em razão de estar posicionada no centro, ela 
era o campo de batalha dos dois reinos, e sabemos que será o palco do derradeiro 
conflito (Daniel 11). Muitas superstições têm sido criadas acerca da Terra Santa, 
objeto de cobiça e pretexto para guerras religiosas, desde os dias dos apóstolos, e 
quem pode calcular quanto sangue foi derramado e quantos tesouros foram des­
perdiçados nessas planícies sagradas? E tudo, diga-se, sob a égide de zelo religioso 
e sob os estandartes da cruz (emblema cristão) e do Crescente Fértil (emblema 
islâmico). E para lá que peregrinos de todas as épocas têm viajado, a fim de adorar 
no santo sepulcro e cumprir seus votos. Também é uma grande atração para 
turistas de todos os tipos e nacionalidades e o maior mercado de relíquias ditas 
miraculosas. Cristãos, historiadores e antiquários buscam-nas diligentemente e 
divulgam suas descobertas. Desde os dias de Abraão, a Terra Santa é o mais inte­
ressante e atraente ponto da superfície terrestre. E, para os estudantes da profecia 
bíblica, o futuro histórico dela será melhor que seu passado. Eles sabem que está 
chegando o dia em que toda essa faixa de terra será povoada novamente pelas doze 
tribos de Israel e estará cheia da glória e da majestade do Messias prometido. Então 
os seus habitantes serão reconhecidos como o principal povo do mundo. Mas 
voltemos a Samaria, com a nova vida e a alegria recebidas do Espírito Santo.
Os samaritanos, por meio da graça divina, creram prontamente no 
Evangelho pregado por Filipe. Os resultados da verdade, recebida de forma tão 
simples, foram imediatos e maravilhosos: “Havia grande alegria naquela cidade”, e 
muitos foram batizados. Quando se crê de fato, esses são necessariamente os efeitos 
do Evangelho, a menos que haja algum obstáculo de nossa parte. Onde existe a 
genuína simplicidade da fé, há também a genuína paz, verdadeira felicidade e uma 
obediência espontânea. Ficou patente o poder do Evangelho sobre um povo que 
durante séculos resistiu ao judaísmo. Nesse aspecto, o que a Lei não pôde fazer o 
Evangelho realizou. Alguém escreveu: “Samaria foi uma conquista que nem toda 
a força do judaísmo foi capaz de obter. Ela foi um novo e esplêndido triunfo do 
Evangelho. A subjugação espiritual do mundo pertencia à Igreja”.
* * *
J erusalém e Sa m a r ia 
U n id a s pelo Ev a n g elh o
A amarga rivalidade existente entre judeus e samaritanos havia se tornado 
proverbial, por isso lemos: “Os judeus não se comunicam com os samaritanos”
50 | A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
D f. E st ev ã o ao A p o s t o l a d o d e Pa u lo
(João 4:9). Mas agora, por causa do Evangelho da paz, a raiz de amargura 
desapareceu. Apesar disso, na sabedoria dos caminhos de Deus, os samaritanos 
tiveram de esperar pelas maiores bênçãos do Evangelho até que os crentes 
judeus, os apóstolos da igreja de Jerusalém, impusessem as mãos e orassem 
por eles. Nada é mais interessante que esse fato, considerando-se a rivalidade 
religiosa por tanto tempo manifesta de ambos os lados. Se Samaria não tivesse 
recebido essa oportuna lição de humildade, teria mantido a sua orgulhosa 
independência de Jerusalém. Mas o Senhor não permitiria isso. Os samaritanos 
creram, alegraram-se e foram batizados, mas ainda não haviam recebido o 
Espírito Santo. “Os apóstolos [...], que estavam em Jerusalém, ouvindo que 
Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João, os quais, 
tendo descido, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo. (Porque 
sobre nenhum deles tinha ainda descido, mas somente eram batizados em 
nome do Senhor Jesus.) Então, lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito 
Santo” (Atos 8:14-17).
A imposição de mãos tem por trás o conceito da identificação. Já o dom 
do Espírito Santo nos lembra da preciosa verdade da unidade da Igreja. Ambas 
são realidades fantásticas relacionadas ao progresso da Igreja. Assim, Samaria é 
introduzida numa abençoada união com sua antiga rival e se torna uma com 
a igreja de Jerusalém. Não há na mente de Deus nenhum pensamento sobre 
uma congregação ser independente da outra. Se a assembléia de Samaria e a 
de Jerusalém fossem abençoadas separada e independentemente, a rixa entre 
elas tenderia a se agravar. Desse momento em diante, não seria mais “neste 
monte nem em Jerusalém” (João 4:21), “mas uma Cabeça no céu, um corpo 
na terra, um. Espírito, uma família redimida adorando a Deus em espírito e 
em verdade, pois o Pai procura os que assim O adorem”.11 (Leia 2 Reis 17 
para saber mais sobre a origem da miscigenação do povo de Samaria e da 
adoração deles.)
Apesar de serem apenas judeus mestiços, os samaritanos vangloriavam-se 
de ser descendentes de Jacó. Consideravam sagrados os cinco livros de Moisés, 
mas subestimavam o restante das Escrituras. Eram circuncidados e, em certa 
medida, guardavam a Lei e esperavam o Messias prometido. A visita pessoal 
do Senhor a Samaria é de interesseprofundo e comovente. O poço no qual 
Ele descansou ficava no vale, entre dois famosos montes: o Ebal e o Gerizim, 
sobre os quais a Lei foi lida. No topo do monte Gerizim, estava o templo dos 
samaritanos, rival do templo de Jerusalém, que afligia os judeus mais zelosos por 
sua ousada oposição ao santuário escolhido no monte Moriá.
11 Veja W. KELLY, Lectures on the New Testament Doctrine o f the Holy Spirit [Estudos sobre a 
doutrina do Espírito Santo no Novo Testamento], estudo 6 sobre Atos 2, 8, 10 e 19.
O EUNUCO ETÍOPE RECEBE O EVANGELHO
Filipe é agora chamado a deixar a sua abençoada e interessante obra em 
Samaria e descer para Gaza - um deserto - e ali pregar o Evangelho a uma única 
pessoa. Nesse fato, sem dúvida, reside uma lição da maior importância para o 
evangelista, e não podemos passar pelo texto sem um breve comentário.
O pregador, no contexto do despertamento e da conversão que houve em 
Samaria, torna-se bastante interessado na obra, como era de se esperar. Deus 
colocara o Seu selo sobre o ministério da Palavra, aprovando as reuniões com a 
Sua presença. A obra do Senhor prospera. O evangelista está cercado de respeito 
e admiração, e os seus filhos na fé naturalmente o procuram em busca de mais 
luz e de instrução para o caminho. Muitos podem perguntar: como abandonar 
um campo de trabalho assim? Seria correto deixar tudo para trás? Sim, mas 
somente se o Senhor der ao Seu servo ordem para fazê-lo, como nesse caso. Mas 
como alguém pode ter certeza disso hoje? Se os anjos e o Espírito não falam, 
como falaram com Filipe? Embora possa não ser dito dessa maneira, é preciso 
buscar e esperar a orientação divina. A fé tem de ser o guia. As circunstâncias 
são guias incertos. Podem servir como meios de repreensão e correção, mas os 
olhos do próprio Deus têm de ser o meio pelo qual Ele nos direciona. A promessa 
é: “Instruir-te-ei e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir; guiar-te-ei com os 
meus olhos” (Salmos 32:8).
Só o Senhor sabe o que é melhor para o Seu servo e Sua obra. O evangelista 
em tal cenário poderia correr o risco de superestimar a própria importância, daí 
a conveniência, se não a necessidade, da mudança do local de trabalho.
“O anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te e vai para a banda 
do Sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserto. E 
levantou-se e foi. E eis que um homem etíope, eunuco, mordomo-mor de 
Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus 
tesouros e tinha ido a Jerusalém para adoração, regressava e, assentado no seu 
carro, lia o profeta Isaías. E disse o Espírito a Filipe: Chega-te e ajunta-te a esse 
carro” (Atos 8:26-29).
A obediência imediata de Filipe, sem questionamentos, é uma bela atitude. 
Ele não faz nenhuma pergunta acerca da diferença entre Samaria e Gaza nem 
sobre o fato de deixar o favorável campo de trabalho e ir para um lugar deserto, 
com o objetivo de falar da salvação a uma única pessoa. O Espírito de Deus 
estava com Filipe. E o único desejo do evangelista era obedecer ao comando do 
Espírito. Por falta de discernimento espiritual, o pregador pode ficar num lugar 
em que o Espírito já parou de agir e, assim, todo o seu trabalho será em vão.
52 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
D e E s t e v ã o ao A p o s t o l a d o d e Pa u lo
Deus, por Sua providência, cuida de Seu servo, enviando um anjo para 
mostrar a estrada que ele deveria tomar. Quando se trata do Evangelho e do 
trabalho com as almas, o Espírito assume a direção. “Disse o Espírito a Filipe: 
Chega-te e ajunta-te a esse carro”. Em toda a história da Igreja, não há nada 
mais interessante que a cena no caminho para Gaza. O anjo e o Espírito de 
Deus acompanharam o evangelista: o primeiro representando a providência 
de Deus, indicando a estrada a ser percorrida, o último representando o poder 
espiritual para lidar com as almas. E, como naquele tempo, assim é nos dia de 
hoje, apesar de estarmos mais acostumados a pensar na orientação do Espírito 
que na providência de Deus. Que possamos confiar em Deus em todas as coisas! 
Ele não mudou!
O Evangelho abre caminho rumo à Abissínia, na pessoa do tesoureiro da 
rainha. O eunuco crê, é batizado e, muito alegre, segue o seu caminho. O que 
havia procurado em vão em Jerusalém, enfrentando uma longa jornada até aquela 
cidade, ele encontrou no deserto. Belo símbolo da graça do Evangelho. A ovelha 
perdida é achada no deserto, as águas vivas fluem no deserto. Ele também é um 
belo exemplo de uma alma sedenta. Sozinho e com tempo livre, o tesoureiro lê o 
profeta Isaías. Medita sobre a profecia do sofrimento sem resistência do Cordeiro 
de Deus. Então chegou o momento da iluminação e da libertação. Filipe explica 
a profecia, e o eunuco é ensinado por Deus e crê. Imediatamente, sente o desejo 
de se batizar, e retorna à sua casa transbordante das boas-novas da salvação. Será 
que ele se calou acerca do que lhe acontecera? Certamente que não. Um homem 
com tal caráter e influência teria muitas oportunidades de divulgar a verdade. 
Mas tanto a Bíblia quanto a história silenciam com relação aos resultados desse 
acontecimento, e não nos arriscaremos a fazer especulações.
O Espírito ainda está com Filipe e o leva para bem longe. O apóstolo 
acha-se agora em Azoto e evangeliza todas as cidades pelo caminho, até chegar 
a Cesaréia.
Uma nova era na história da Igreja começa a raiar. Entra em cena um 
novo trabalhador, e em muitos aspectos o mais notável, que já serviu ao Senhor 
e Sua igreja.
* * *
A C o n v er sã o de Sa u lo de T a r so
Nenhum fato no desenvolvimento da Igreja afetou tão profunda e gracio­
samente a sua história quanto a conversão de Saulo de Tarso. De principal dos 
pecadores, ele se tornou o mais ilustre dos santos, do mais violento opositor de
Cristo, ele se tornou o mais zeloso defensor da fé. Como inimigo e perseguidor 
do nome de Jesus na terra, ele era o “chefe”, ao qual todos os outros, quando 
comparados a ele, eram inferiores (Atos 9; 1 Timóteo 1:15).
Fica evidente, a se considerar o que ele escreve sobre si mesmo, que Saulo 
acreditava que o judaísmo não era apenas divino, mas a religião perpétua e 
imutável que Deus legara ao homem. A não ser por essa crença, é difícil explicar 
a razão da força de seus preconceitos como judeu. Portanto, qualquer tentativa 
de rejeitar ou anular a religião dos judeus para introduzir outra crença era 
considerada por ele como algo proveniente do Inimigo, devendo ser combatida 
sem piedade. Ele ouviu o magnífico discurso de Estêvão e testemunhou a 
sua morte triunfante, mas a subsequente perseguição que promoveu contra os 
cristãos provou que a glória moral daquela cena não deixou o menor vestígio 
em sua alma. Saulo estava cego pelo zelo, mas o zelo pelo judaísmo, depois 
da vinda de Cristo, significava zelo contra o próprio Senhor. Nessa ocasião, 
ele estava “respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor” 
(Atos 9:1).
Ouvindo que alguns santos perseguidos haviam se escondido em 
Damasco, antiga cidade da Síria, ele decidiu ir até lá a fim de trazê-los para 
Jerusalém e julgá-los como criminosos. Para tal propósito, ele recebeu cartas do 
sumo sacerdote e apoio dos anciãos, para que os prendesse e os reconduzisse a 
Jerusalém, onde seriam punidos (Atos 22 e 26). Desse modo, Saulo tornou-se o 
próprio apóstolo judeu da maldade contra os discípulos de Jesus, mas ao fazer 
isso, sem o saber, estaria prestes a se tornar um ardoroso missionário deles.
Com a mente dominada por violento zelo perseguidor, ele prossegue 
em sua memorável jornada. Inabalável em sua visceral ligação com a religião 
de Moisés, e determinado a punir os convertidos ao cristianismo - por serem 
apóstatas da fé de seus ancestrais —, ele se aproxima de Damasco. Mas ali, no 
clímax de sua perversa missão, o Senhor Jesus o detém. Uma luz celestial, mais 
forte que a do Sol, o cerca e o subjuga com um brilho ofuscante. Ele cai ao 
chão - com a vontade quebrantada, a mentedominada e o espírito humilhado, 
prestes a ser transformado inteiramente. O coração dele agora está rendido à voz 
que lhe fala, na qual percebe autoridade e poder. Questionamento, desculpas, 
justificação: nada disso tem lugar na presença do Senhor.
Uma voz de excelente glória lhe diz: “Saulo, Saulo, por que me persegues? 
E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu 
persegues” (v. 4-5). Portanto, o próprio Jesus, embora esteja nos céus, declara-Se 
identificado com os Seus discípulos na terra. A unidade da Igreja com Cristo, 
o Cabeça dela nos céus, origem da maravilhosa verdade de “um só corpo”, é
5 4 1 A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 2
revelada aqui nestas poucas palavras: “Saulo, Saulo, por que me persegues? [...]
Eu sou Jesus, a quem tu persegues”. Declarar guerra aos santos é declarar guerra 
contra o próprio Senhor. Maravilhosa revelação para o crente; horrenda para o 
perseguidor!
A visão e a terrível descoberta resultante da experiência absorveram Saulo 
inteiramente. Ele ficou cego por três dias, nos quais não comeu nem bebeu. 
Entrou em Damasco cego, humilhado e sob severo juízo da parte do Senhor! 
Como sua entrada foi diferente da que imaginara! Agora iria se juntar ao grupo 
que estava decidido a exterminar. No entanto, ele ingressa nesse grupo pela porta 
e humildemente toma o seu lugar entre os discípulos do Senhor. Ananias, um 
discípulo piedoso, é enviado para confortá-lo. Saulo volta a enxergar, é cheio com 
o Espírito Santo e é batizado. Então se alimenta e é fortalecido.
E a opinião de muitos que, na conversão de Saulo, o Senhor dá um 
exemplo não apenas de Sua longanimidade, demonstrada a todos os pecadores, 
mas também um sinal da futura restauração de Israel. O próprio Paulo declara 
que ele mesmo obteve misericórdia por ter feito o que fez na ignorância e na 
incredulidade. Essa é a mesma base para a misericórdia a ser estendida a Israel 
no último dia. O Senhor mesmo orou por eles: “ Pai, perdoa-lhes, porque 
não sabem o que fazem” (Lucas 23:34). Pedro também afirmou: “Agora, 
irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também os vossos príncipes” 
(Atos 3:17).
Mas o apostolado de Paulo difere de muitas maneiras do apostolado dos 
Doze, e será preciso fazer um resumo disso aqui. A menos que tal diferença seja 
compreendida, teremos apenas um pálido vislumbre do verdadeiro caráter da 
atual dispensação.
O APOSTOLADO DE PAULO
A Lei e os Profetas vigoraram até João. Depois de João, o próprio Senhor 
ofereceu o reino a Israel, mas “os seus não o receberam” (João 1:11). Eles crucifi­
caram o Príncipe da vida, mas Deus O ressuscitou da morte e O fez assentar-se 
à Sua direita, nos lugares celestiais. Depois, tivemos os doze apóstolos. Eles foram 
revestidos com o Espírito Santo e deram testemunho da ressurreição de Cristo. 
Mas o testemunho dos Doze foi rejeitado, houve resistência ao Espírito Santo, e 
Estêvão foi martirizado. Israel recusou a última oferta de misericórdia, e agora o 
tratamento do Senhor à nação, na qualidade de povo escolhido, será interrompido 
por um período. O cenário de Siló se configura outra vez: Icabode é escrito sobre 
Jerusalém, e uma nova testemunha é convocada, como nos dias de Samuel.
D e E s t e v ã o a o A p o s t o l a d o d e P a u lo | 5 5
O grande apóstolo dos gentios agora está diante de nós. Ele nasce fora de 
tempo e de lugar. Seu apostolado não tem ligação alguma com Jerusalém nem 
com os Doze. Não há conexão alguma entre ambos. Sua chamada foi extraor­
dinária, feita diretamente do céu pelo Senhor. Ele teve o privilégio de apresentar 
um novo fato, ou seja, o caráter celestial da Igreja: Cristo e a Igreja são um, e 
o céu é a casa de ambos (Efésios 2). Enquanto Deus interagiu com Israel, essas 
maravilhosas verdades foram mantidas em segredo. “A mim, o mínimo de 
todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio 
do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo e demonstrar a todos qual 
seja a dispensação do mistério, que, desde os séculos, esteve oculto em Deus, 
que tudo criou”, diz Paulo em Efésios 3:8-9.
Não há dúvida quanto ao caráter da chamada do apóstolo, bem como de 
sua divina autoridade: “Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por 
homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dos 
mortos)”, assim ele se apresenta em sua Epístola aos Gálatas. “Não da parte 
dos homens” diz respeito à origem do chamado, que não se deu em nenhum 
sínodo humano. “Nem por homem algum” foi o meio pelo qual a sua comissão 
foi comunicada. Ele não era apenas um santo, mas um apóstolo chamado por 
Jesus Cristo e por Deus Pai, que ressuscitou o Filho dentre os mortos. Em alguns 
aspectos, seu apostolado era de ordem superior à dos Doze. Eles haviam sido 
chamados quando Jesus ainda estava na terra; ele foi chamado pelo ressurreto e 
glorificado Cristo no céu. E, portanto, sua vocação era celestial, não necessitando 
de sanção nem de reconhecimento dos outros apóstolos. “Mas, quando aprouve 
a Deus [...] revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não 
consultei carne nem sangue, nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já antes 
de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia e voltei outra vez a Damasco” 
(Gálatas 1:1, 15-17).
A maneira pela qual Saulo foi chamado para ser apóstolo é digna de 
nota, pois arrancou pela raiz o orgulho judaico e pode ser vista como um 
golpe mortal no fútil conceito da sucessão apostólica. Os apóstolos, escolhidos 
e comissionados enquanto o Senhor estava na terra, definitivamente não foram 
nem a fonte nem o canal da vocação de Saulo. Eles nem tiraram a sorte, como 
no caso de Matias — o que indica que eles não estavam tão afastados assim de 
sua base judaica, que costumava basear as suas decisões por meio de sortes, uma 
forma antiga de descobrir a vontade divina em certos assuntos. Mas a ênfase na 
declaração “Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem algum, 
mas por Jesus Cristo)” exclui a intervenção humana. A sucessão apostólica 
é ignorada. Somos santos por vocação e servos por vocação. E essa vocação 
tem de vir do céu. Paulo é posto diante de nós como o padrão para todos os
56 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 2
pregadores do Evangelho e para todos os ministros da Palavra. Embora fosse 
um grande apóstolo, nada é mais simples que o fundamento sobre o qual ele 
se firma como pregador: “Temos, portanto, o mesmo espírito de fé, como está 
escrito: Cri; por isso, falei. Nós cremos também; por isso, também falamos” (2 
Coríntios 4:13).
Imediatamente após ter sido batizado e fortalecido, ele começou a confessar 
a sua fé no Senhor Jesus e a pregar nas sinagogas que Jesus era o Filho de Deus. 
Isso era uma coisa nova. Pedro havia pregado que Ele fora exaltado à destra de 
Deus, que havia sido feito Senhor e Cristo, mas Paulo prega uma doutrina mais 
sublime acerca de Sua glória pessoal: Ele é o Filho de Deus. Em Mateus 16, o 
Pai revela Cristo aos discípulos como “o Filho do Deus vivo”. Mas agora Ele é 
revelado não apenas a Paulo, mas em Paulo: “Aprouve a Deus [...] revelar seu 
Filho em mim”. Mas quem é capaz de falar dos privilégios e bênçãos daqueles a 
quem o Filho de Deus é revelado dessa maneira? A dignidade e a segurança da 
Igreja repousam sobre essa abençoada verdade, bem como o Evangelho da glória, 
especialmente confiado a Paulo, ao qual ele chama de “meu evangelho”.
“No Filho assim revelado”, escreveu alguém, “fundamenta-se tudo que 
é peculiar à chamada e à glória da Igreja: sua santa prerrogativa; aceitação no 
Amado e perdão por meio de Seu sangue; acesso aos tesouros da sabedoria 
e do conhecimento, pois os mistérios da vontade de Deus nos foram feitos 
conhecidos; futura herança nEle e com Ele, no qual todas as coisas nos céus e 
na terra serão congregadas; e o atual selo e garantia dessa herança é o Espírito 
Santo. Essa fulgurante lista de privilégios é descrita pelo apóstolo como ‘bênçãos 
espirituais noslugares celestiais’. São bênçãos que fluem pelo Espírito e nos ligam 
a Jesus, Senhor nos céus (Efésios 1:3-14)”.12
Contudo, a doutrina da igreja e a sua unidade com Cristo - mistério de 
amor, graça e privilegio - não foi revelada até que Paulo a declarou. O Senhor 
havia falado a respeito dela e sobre a presença do Consolador que viria, ao 
afirmar: “Naquele dia, conhecereis que estou em meu Pai, e vós, em mim, e eu, 
em vós” (João 14:20). E novamente, quando Se dirigiu aos discípulos após a 
ressurreição: “Eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (João 
20:17). Paulo era o apóstolo especial e especialmente encarregado de declarar 
essa fulgurante lista de bênçãos.
Agora, precisamos deixar a história de Paulo por um tempo e voltar a Pedro, 
que ocupa a cena até que Saulo inicie seu ministério público, em Atos 13.
D e E s t e v ã o a o A p o s t o l a d o d e P a u lo j 57
12 Veja mais detalhes sobre esse assunto em John Gifford BELLET, Christian Witness [Testemunho 
cristão], v. 4, p. 221; William KELLY, Introductory Lectures on Galatians [Estudos introdutó­
rios sobre Gálatas], cap. 1.
4
Os P r im e iro s M issio n á r io s 
d a C ruz
C
m vez de comentar consecutivamente os capítulos restantes de 
Atos, julgamos mais interessante e instrutivo para os nossos leitores 
analisá-los em conexão com a história dos apóstolos, em especial com 
a dos dois grandes apóstolos. O Livro de Atos é quase integralmente dedicado 
aos atos de Pedro e de Paulo - sob a direção do Espírito Santo, obviamente. O 
primeiro como o grande apóstolo dos judeus; o segundo como o grande apóstolo 
dos gentios. Mas também devemos aproveitar a oportunidade para examinar de 
maneira resumida os primeiros companheiros e missionários escolhidos pessoal­
mente por nosso amado Senhor: os doze apóstolos.
Todavia, antes de traçar um perfil dessas interessantes vidas, seria melhor 
explicar o que temos em mente ao fazer isso. Estamos saindo um pouco do 
caminho usual. Em nenhuma das publicações sobre a história da Igreja que 
conhecemos consta a vida dos apóstolos apresentada de maneira ordenada, e é 
estranho que os grandes fundadores da Igreja não tenham lugar na história dela. 
Temos notado também, com certa surpresa, que a maioria dos textos encerra 
com o surgimento da Reforma. Sem dúvida, esse é o mais brilhante período da 
história eclesiástica - pelo menos desde os dias de Constantino - e uma época 
que sobressai a todas as outras, na qual o Espírito de Deus agiu poderosamente. 
Por isso, tem de ser a parte mais especial de sua história.
Ao mesmo tempo, com relação aos apóstolos, precisamos entender que, 
além da narrativa sagrada, há bem pouco material sobre o qual possamos nos 
apoiar. O tradicional e o escriturai, o certo e o incerto estão inseparavelmen­
te mesclados nos relatos sobre os Pais da Igreja. Valorizamos muito cada raio 
de luz histórico, mas temos de voltar às Escrituras para ter certeza das coisas. 
Entretanto, os escassos textos bíblicos sobre os apóstolos, somados ao que 
podemos coletar em outros lugares, quando reunidos podem dar ao leitor uma 
visão inteiramente nova da pessoa e da individualidade dos apóstolos. Outros, 
dignos de nota, surgirão diante de nós por estarem relacionados aos apóstolos, 
principalmente a Paulo. Assim, nossos leitores terão um perfil resumido, mas 
confiável, de quase todos esses nobres pregadores, mestres e mártires do Senhor 
Jesus mencionados no Novo Testamento.
•k * *
Os D o z e A p ó s t o lo s
Os doze eram Simão Pedro, André, Tiago e João (filhos de Zebedeu), 
Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago (filho de Alfeu), Tadeu, Simão Zelote 
e Matias, este escolhido para o lugar de Judas Iscariotes (veja Mateus 10; Lucas 
6; Marcos 3; Atos 1).
Paulo era também apóstolo por uma chamada direta do Senhor glorificado, 
no mais pleno sentido da palavra, como já vimos. Houve outros que foram 
chamados “apóstolos”, mais particularmente apóstolos das igrejas. Os Doze 
e Paulo foram preeminentemente os apóstolos do Senhor (compare com 2 
Coríntios 8:23; Filipenses 2:25; Romanos 16:7).
O título oficial, “apóstolo” significa “enviado”. “Jesus enviou estes doze” 
(Mateus 10:5). O título foi dado aos Doze pelo próprio Senhor: “ [Jesus] chamou 
a si os seus discípulos, e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de 
apóstolos” (Lucas 6:13). O conhecimento pessoal de todo o curso ministerial do 
Senhor era a qualificação original e necessária a um apóstolo. Isso foi declarado 
por Pedro antes da eleição de um sucessor para o lugar do traidor Judas: “E 
necessário [...] que, dos varões que conviveram conosco todo o tempo em que 
o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós, começando desde o batismo de João 
até ao dia em que dentre nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco 
testemunha da sua ressurreição” (Atos 1:21-22). Por esse relacionamento próximo 
com o Senhor, eles eram particularmente qualificados a serem testemunhas de 
Sua vida aqui no mundo e da sua ressurreição.
O próprio Senhor Jesus os descreve como: “E vós sois os que tendes 
permanecido comigo nas minhas tentações” (Lucas 22:28).
60 I A H ist ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 4
Os A p ó s t o l o s e o s P i o n e ir o s I 61
t
O número doze, assim acreditamos, estabelece distintivamente uma 
relação com as doze tribos de Israel. As fantasias dos Pais da Igreja, no tocante 
ao significado do número aqui escolhido, mostra quão pouco a mente deles era 
governada pelo contexto inerente. Agostinho pensava que o Senhor aqui fazia 
referência aos quatro cantos do mundo, que seriam alcançados pela pregação do 
Evangelho e que, multiplicados por três, denotando a Trindade, resultaria em 
doze. Por não ser feita a distinção entre Israel e a Igreja, há muita confusão em 
tais escritores.
Julgamos que o número doze nas Escrituras signifique a perfeição admi­
nistrativa no homem. Essa é a razão das doze tribos, dos doze apóstolos, e a 
promessa futura de que eles se sentariam em doze tronos para julgar as doze 
tribos de Israel (Mateus 19:28). Contudo, em Mateus 10 o Senhor limita, em 
termos mais simples, a missão dos Doze às ovelhas perdidas da casa de Israel. 
Eles não deveriam visitar os samaritanos nem ir pelo caminho dos gentios. A 
missão era estritamente judaica: “Não ireis pelo caminho das gentes, nem 
entrareis em cidade de samaritanos; mas ide, antes, às ovelhas perdidas da casa 
de Israel”. Nada pode ser mais claro. A chamada da Igreja não está inferida aqui. 
Isso aconteceu mais tarde, quando outro e extraordinário apóstolo foi escolhido 
com um propósito especial para os gentios. Depois, os Doze teriam seu lugar na 
Igreja, mas Paulo era o ministro qualificado e divinamente vocacionado.
Não podemos concordar com a idéia generalizada de que os Doze eram 
iletrados. Consideramos que a expressão “sem letras e indoutos” de Atos 
4:13 signifique apenas pessoas não educadas no saber rabínico e nas tradições 
judaicas. O termo “leigo” transmitiria a mesma idéia, ou seja, pessoas de 
educação comum, não envolvidas nos “negócios santos”, em contraste com 
os que receberam educação especial em escolas. Portanto, embora Pedro e 
João estivessem plenamente familiarizados com as Sagradas Escrituras e com 
a história de seu povo e de sua nação, ainda assim eram considerados pelo 
Concílio homens “sem letras e indoutos”. Tiago e João no mínimo tiveram todas 
as vantagens da criação por uma mãe piedosa e devotada, as quais costumam 
prestar um grande serviço à Igreja de Deus.
Apresentaremos agora um resumo da vida dos Doze, e o primeiro, pela 
ordem, é o apóstolo Pedro. Não há dúvida de que Pedro figura em primeiro 
lugar entre os Doze. O Senhor concedeu-lhe essa posição. Ele é o primeiro a ser 
nomeado em todas as listas dos apóstolos. Sabemos que tal precedência não se 
deve ao fato de ele ter conhecido o Senhor primeiro, pois nesse aspecto não foi 
o primeiro nem o último. André e provavelmente João conheceram o Senhor 
antes de Pedro. Analisemos mais detidamentea primeira reunião desses amigos, 
que seriam unidos para sempre (veja João 1:29-51).
João Batista deu testemunho de que Jesus era o Cordeiro de Deus que 
tira o pecado do mundo. Dois discípulos de João o deixaram para seguir a 
Jesus: “Era André, irmão de Simão Pedro, um dos dois que ouviram aquilo de 
João e o haviam seguido. Este achou primeiro a seu irmão Simão e disse-lhe: 
Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo). E levou-o a Jesus” (João 1:40-42). 
Esse foi o primeiro encontro entre Pedro e o Senhor e a fonte de sua eterna 
felicidade. E quão significativa foi essa primeira reunião! “E, olhando Jesus para 
ele, disse: Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas (que quer dizer 
Pedro).” Impulsivo por natureza, rápido em apoderar-se das coisas, mas pronto a 
desistir delas sob a força de qualquer pressão, Pedro firmou-se na graça de Deus 
concedida a ele, embora a sua personalidade sempre sobressaísse.
A primeira coisa que levou Pedro a uma posição de destaque foi a sua 
nobre confissão de que Cristo era o Filho do Deus vivo (Mateus 16). O Senhor 
honrou-o com as chaves do Reino dos céus e concedeu-lhe proeminência entre 
os seus irmãos. No entanto, como já examinamos essa parte da história de 
Pedro e alguns capítulos iniciais de Atos, iremos nos referir apenas ao que não 
foi mencionado até agora.
Não fizemos referência ao capítulo 4 de Atos, embora creiamos que nele 
esteja o relato do mais brilhante dia da história desse apóstolo, assim como o 
batismo de Cornélio, mais tarde, que coroou o seu ministério. Um elemento 
sempre presente no grande apóstolo é a mistura de força e fraqueza, de 
excelências e defeitos, e por isso é profundamente interessante seguir o caminho 
dele em meio às primeiras tormentas que assolaram a jovem Igreja. Mas não nos 
esqueçamos de que o grande segredo da ousadia, sabedoria e poder dos apóstolos 
não era o caráter natural deles, e sim a presença do Espírito Santo. Ele estava 
com eles e dentro deles e agia por meio deles. O Espírito Santo era a força do 
testemunho dos apóstolos.
Observe especialmente os abençoados efeitos de Sua presença em quatro 
aspectos distintos.
1. Na coragem demonstrada por Pedro e pelos outros: “Pedro, cheio 
do Espírito Santo, lhes disse: Principais do povo e vós, anciãos de 
Israel, visto que hoje somos interrogados acerca do benefício feito a 
um homem enfermo e do modo como foi curado, seja conhecido de 
vós todos e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o 
Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou 
dos mortos, em nome desse é que este está são diante de vós. Ele é a 
pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por 
cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também 
debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo
62 | A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 4
qual devamos ser salvos”. A grande e solene questão entre Deus e os 
líderes de Israel está formalmente expressa aqui. Nada pode ser mais 
claro. O testemunho de Deus não está mais com os sacerdotes do 
Templo, mas com os apóstolos do Messias exaltado.
2. Em Sua presença entre os discípulos reunidos como assembléia: 
“Tendo eles orado, moveu-se o lugar em que estavam reunidos; e todos 
foram cheios do Espírito Santo e anunciavam com ousadia a palavra de 
Deus”. Esse versículo ensina claramente o que já dissemos quanto ao 
fato de o Espírito estar com os discípulos e dentro deles. O lugar em que 
se reuniram foi sacudido: isso prova a Sua presença entre eles. E todos 
foram cheios do Espírito Santo - de tal forma que naquele momento 
não havia espaço para a carne atuar.
3. No grande poder para o serviço: “Os apóstolos davam, com grande 
poder, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles 
havia abundante graça”. Total disposição e energia caracterizavam os 
apóstolos.
4. Na dedicação sincera: “Não havia [...] entre eles necessitado algum; 
porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam 
o preço do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos”. 
No capítulo dois, os ricos ajudavam diretamente os pobres, ato que 
quase sempre faz aumentar a influência de quem está doando. Mas 
no capítulo 4 o rico entrega o seu dinheiro aos apóstolos. Podemos 
considerar essa atitude um sinal de crescente humildade e de maior 
devoção.
E também nesse rico e instrutivo capítulo que temos a famosa resposta de 
Pedro e João ao Concílio: “Julgai vós se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes 
a vós do que a Deus”. Desse dia em diante, os que confessavam verdadeiramente 
o nome de Jesus encontravam nessas palavras uma resposta apropriada aos seus 
inquisidores e opressores. Que diferença entre o homem sentado ao redor da 
fogueira no pátio do sumo sacerdote e o homem que toma a palavra em Atos 
4, entre o homem que desaba diante da acusação de uma empregada e o que 
faz a nação tremer com o seu discurso! O que mudou? A presença e o poder do 
irresistível e maravilhoso Espírito Santo explica tudo. E a fraqueza ou o poder 
de muitos em nossos dias também são devidos ao mesmo princípio. O poder 
que age no cristão é o Espírito de Deus. Que possamos experimentar a bem- 
aventurança de viver, andar e servir no poder salvífíco e santificador do Espírito 
Santo! “Não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o 
dia da redenção” (Efésios 4:30).
Os A p ó s t o l o s e o s P io n e ir o s 1
Agora chegamos à última seção da narrativa sagrada sobre a vida de Pedro. 
Em Atos 9.32—11.18, temos um relato de sua pregação e obras miraculosas. Mais 
uma vez, vemo-lo exercendo plena autoridade apostólica, com a cooperação do 
Espírito Santo. Sua missão nesse meio-tempo foi grandemente abençoada, tanto 
nas cidades de Israel quanto em Cesaréia. Toda a cidade de Lida e o distrito de 
Sarona parecem ter sido despertados. Os milagres realizados por meio de Pedro 
e o evangelho que ele pregou foram instrumentos de Deus para a conversão 
de muitos. “Viram-no todos os que habitavam em Lida e Sarona, os quais se 
converteram ao Senhor”. A bênção foi geral. E em Jope também, por causa da 
ressurreição de Dorcas, houve notável movimento divino e grande bênção. “Foi 
isto notório por toda a Jope, e muitos creram no Senhor.”
No capítulo 10, que já analisamos, os gentios são introduzidos na Igreja. 
E agora Pedro, tendo encerrado a sua missão nesses lugares, retorna a Jerusalém. 
Além do registro de sua libertação do poder de Herodes, no capítulo 12, não 
temos a continuidade da história do apóstolo da circuncisão.
Como Herodes Agripa, o rei idumeu, aparece diante de nós de maneira 
tão proeminente, seria oportuno analisar o papel desse governante. Ele 
professava grande zelo pela lei de Moisés e tinha certo respeito pela observação 
de seus aspectos externos. Portanto, motivado por uma suposta piedade, estava 
inclinado a ficar do lado dos judeus e contra os discípulos de Cristo. Essa era a 
sua política. Ele é um símbolo do rei adversário.
Foi por volta de 44 d.C. que Herodes tentou conquistar a amizade de 
seus súditos judeus perseguindo os indefesos cristãos. Não que houvesse algum 
afeto entre Herodes e os judeus, pois eles se detestavam visceralmente, mas nessa 
ocasião se uniram pelo ódio comum contra o testemunho celestial. Herodes 
matou Tiago e lançou Pedro na prisão. Seu plano malévolo era mantê-lo preso 
até depois da Páscoa, quando uma multidão de judeus vindos de toda parte 
estaria em Jerusalém, e então fazer da execução do apóstolo um espetáculo. 
Deus, porém, preservou e libertou o Seu servo, em resposta às orações dos santos, 
os quais possuíam armas de guerra que os governos do mundo desconhecem. 
Deus permitiu que Tiago selasse o seu testemunho com o próprio sangue, mas 
preservou Pedro para outro testemunho sobre a terra. Nosso Deus governa tudo 
e todos. Ele é o Governador das nações, independentemente da vontade ou do 
orgulho do ser humano. O poder pertence a Ele. De fato, o poder de qualquerinimigo é inútil quando Ele interfere. Herodes, confuso e perplexo pelas mani­
festações de um poder que não conseguia entender, condena os guardas da prisão 
à morte e deixa Jerusalém. Mas ele não imaginava que a sua morte precederia 
a de seus prisioneiros.
6 4 ] A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 4
Os A p ó s t o l o s e o s P io n e ir o s
Em Cesaréia, sede gentia de sua autoridade, Herodes promoveu um 
esplêndido festival em honra do imperador Cláudio. Um grande número de 
pessoas pertencentes à alta sociedade, provenientes de todo o império, estava ali. 
Na segunda manhã das festividades, o rei apareceu vestido com um brilhante 
traje prateado, que resplandecia com os raios do sol, ofuscando os olhos de todos 
e despertando a admiração geral. Sentado no trono, fez um discurso, e alguns 
bajuladores começaram a gritar: “E a voz de um deus!”. Em vez de repreender 
aquela ímpia adulação, que contagiou toda a platéia, Herodes a aceitou. Mas 
um senso do juízo de Deus penetrou o coração do rei no mesmo instante. Em 
tom de profunda melancolia, Ele disse: “O deus de vocês logo sofrerá a universal 
sina da mortalidade”. Na forte linguagem bíblica, é dito: “No mesmo instante, 
feriu-o o anjo do Senhor, porque não deu glória a Deus; e, comido de bichos, 
expirou”. Ele foi acometido de violentas dores internas e saiu carregado para o 
seu palácio. Agonizou durante cinco dias e morreu, em terrível angústia, na 
condição mais humilhante e asquerosa possível.
* * *
Á L in h a g e m R eal H e r o d ia n a
Não seria fora de propósito nem tedioso para o leitor um breve comentário 
sobre a linhagem real herodiana. Ela aparece com frequência, tanto na vida de 
nosso Senhor quanto na história da Igreja primitiva. E bem conhecido de todos, 
desde a infância, o massacre das crianças de Belém, ordenado por Herodes, 
rei da Judéia. E extraordinário o fato de Flávio Josefo, principal historiador de 
Herodes, não registrar esse evento. Uma explicação geralmente aceita é que o 
assassinato de algumas crianças numa vila obscura, comparado com outros atos 
de Herodes, tenha sido algo de menor importância, indigno de nota aos olhos 
de Josefo, mas não aos olhos de Deus: tanto o engano quanto a crueldade do 
traiçoeiro coração do rei estão expostos na história sagrada. Os olhos de Deus 
estavam sobre o “Menino” de Israel - a única fonte de esperança para todas as 
nações. Portanto, o cruel desígnio de Herodes foi frustrado.
Herodes, o Grande, primeiro rei idumeu a governar Israel, recebeu poderes 
do Senado de Roma, por influência de Marco Antônio. Isso aconteceu cerca de 
35 anos antes do nascimento de Cristo, e 37 antes de sua morte. Os idumeus 
eram uma ramificação dos antigos edomitas, que tomaram posse da parte sul 
de Israel, enquanto os judeus estavam no cativeiro babilónico e o país estava 
desolado. Eles se apoderaram de todas as terras pertencentes à tribo de Simeão 
e de metade da herança da tribo de Judá, ocupando desde então esse território. 
No decorrer do tempo, os idumeus foram conquistados por João Hircano, e se
converteram ao judaísmo. Após a conversão, foram circuncidados, submeteram- 
se às leis judaicas e acabaram por se integrar à nação dos judeus. Dessa maneira, 
tornaram-se judeus, embora não fizessem parte da linhagem original de Jacó. 
Esse processo alcançou o seu auge por volta de 129 a.C.. Como governantes, 
os idumeus eram espertos, audaciosos e cruéis. Tinham grande visão política, 
buscavam sempre o favor de Roma e se importavam apenas com o estabele­
cimento de uma dinastia própria. No entanto, com a permissão de Deus, a 
dinastia iduméia desapareceu com a destruição de Jerusalém, e o próprio nome 
de Herodes se desvaneceu entre as nações.
Além do massacre das crianças de Belém, ocorrido pouco antes de sua 
morte, Herodes também manchou as mãos no sangue da própria família e de 
muitos nobres da linhagem asmonéia. Sua inveja brutal contra a heróica família 
jamais sossegou. Um de seus últimos atos foi assinar a ordem de execução do 
próprio filho. Às portas da morte - que evidentemente foi um juízo de Deus, 
tal como no caso de seu neto, Herodes Agripa -, conseguiu levantar-se na cama 
para ordenar a execução de Antípater e nomear Arquelau seu sucessor no trono. 
Feito isso, caiu e morreu.
Era deste modo que os monarcas sempre morriam: distribuindo mortes 
com uma mão e reinos com a outra. Mas isso não é tudo. Na crua realidade da 
própria condição, eles terão de comparecer diante do tribunal de Deus. O manto 
púrpura não irá mais protegê-los. A justiça inflexível governa o trono divino. 
Julgados de acordo com os atos praticados por meio do corpo, serão banidos 
eternamente para o “abismo” que foi “posto” pelo juízo de Deus (Lucas 16:36). 
Ali lembrarão, em tormentos, cada instante de seu passado - os privilégios dos 
quais abusaram, as oportunidades que perderam e todo o mal que praticaram. 
Que o Senhor livre cada alma que estiver lendo estas páginas do terrível peso 
destas palavras: “lembrar”; “atormentado”; “posto”. Elas caracterizam o futuro 
estado das almas impenitentes (v. 19-31).
E provável que a seita dos herodianos fosse constituída dos partidários 
de Herodes e tivesse caráter estritamente político, cujo principal objetivo era a 
manutenção da independência nacional dos judeus em face do poder e da ambição 
de Roma. Talvez tenham pensado em usar Herodes para alcançar esse propósito. 
Na história evangélica, eles aparecem agindo de maneira maliciosa contra o 
Senhor, em conluio com os fariseus (Mateus 22:15-16; Marcos 12:13-14).
Mas retornemos à história de nosso apóstolo.
Em Atos 15, após uma ausência de cinco anos, aproximadamente, Pedro 
aparece outra vez. Durante esse tempo, nada sabemos sobre a sua vida nem 
sobre a sua obra. Ele desempenha um papel ativo na assembléia de Jerusalém e 
parece ter mantido o seu lugar original entre os apóstolos e anciãos.
66 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 4
P ed r o em A n t io q u ia
Logo depois, como lemos em Gálatas 2, ele visitou Antioquia. No entanto, 
a despeito da decisão dos apóstolos e da igreja em Jerusalém, a instabilidade 
característica de Pedro induziu-o à dissimulação. Uma coisa é estabelecer um 
princípio, outra é pôr em prática esse princípio. De fato, Pedro havia declarado 
diante de toda a assembléia que o evangelho que Paulo pregava, por revelação 
divina, era a mesma bênção, tanto para os judeus quanto para os gentios. E, 
enquanto estava sozinho em Antioquia, agiu de acordo com esse princípio, 
andando na liberdade da verdade celestial e comendo com os s;entios. Mas 
quando alguns cristãos judeus chegaram, enviados por Tiago, Pedro não mais se 
atreveu a usar tal liberdade. “Depois que chegaram, se foi retirando e se apartou 
deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimu­
lavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimula­
ção” (v. 12). Alguém lamentou: “Que triste coisa é o ser humano! Somos fracos 
na mesma proporção de nossa importância diante dos outros. Quando somos 
nada, podemos fazer todas as coisas, no que diz respeito à opinião humana [...]. 
Somente Paulo, incisivo e fiel, por meio da graça, permanece justo, e censura 
Pedro diante de todos”.
Desde então, de 49 ou 50 d.C., o seu nome não aparece mais nos Atos dos 
Apóstolos, e não temos nenhum conhecimento seguro de sua esfera de atuação.
No entanto, em sua primeira epístola ele se dirige aos cristãos hebreus da seguinte 
maneira: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, 
Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia”. Disso podemos inferir que ele trabalhou 
nesses países. Sua segunda epístola, datada de um período bem posterior, deve 
ter sido escrita pouco antes de sua morte. Deduzimos isso do que ele escreve 
no primeiro capítulo: “... sabendo que brevemente hei de deixar este meu 
tabernáculo, como também nosso Senhor Jesus Cristo já mo tem revelado” (v.
14; ver João 21:18-19).
A data exata da visita de Pedro aRoma tem sido objeto de grande con­
trovérsia entre escritores católicos e protestantes de todas as épocas. Mas agora 
podemos considerar como certo que Pedro nao visitou aquela cidade até bem 
próximo ao final de sua vida. A data de seu martírio é também incerta. O mais 
provável é que tenha ocorrido por volta de 67 ou 68 d.C., aos 70 anos de idade.
O incêndio de Roma, provocado por Nero, é datado do mês de julho de 64 d.C., 
aproximadamente, por Tácito. A perseguição aos cristãos se deu logo após, e foi 
durante essa perseguição que o apóstolo foi honrado com a coroa do martírio.
Ele foi sentenciado à crucificação, a morte mais severa e vergonhosa, 
mas quando viu a cruz, rogou aos oficiais que não fosse crucificado da maneira
Os A p ó s t o l o s e o s P io n e ir o s I 6 7
A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 4
comum, mas de cabeça para baixo, afirmando ser indigno sofrer na mesma 
postura que o seu amado Senhor e Mestre. O pedido foi atendido, e Pedro foi 
crucificado de cabeça para baixo. Ninguém sabe se isso aconteceu realmente ou 
se é mera lenda, mas a história combina com o temperamento impulsivo e com 
a profunda humildade do grande apóstolo.13
Vejamos agora o apóstolo André.
A história sagrada é pródiga em descrever os atos de Pedro, mas bastante 
frugal no que se refere ao irmão dele, André. Ambos trabalhavam no ramo de 
negócio do pai, ou seja, a pesca, e continuaram nesse trabalho até o Senhor 
chamá-los para serem “pescadores de homens”.
André, como outros jovens da Galiléia, era discípulo de João Batista. No 
entanto, ao ouvir o seu mestre afirmar duas vezes que Jesus era o Cordeiro de 
Deus, deixou João para seguir a Jesus. Logo depois, ele foi o instrumento que 
apresentou Pedro ao seu novo Mestre e teve a honra de ser o primeiro apóstolo 
a indicar Cristo a alguém (João 1). André aparece nos capítulos 6 e 12 de João, 
e no capítulo 13 de Marcos. Além dessas poucas informações, as Escrituras não 
relatam nada mais a respeito dele. Seu nome não aparece em Atos, exceto no 
primeiro capítulo.
As conjecturas e a tradição têm muito a dizer a respeito dele, mas falaremos 
apenas de fatos estabelecidos. É dito que ele pregou na Cítia e que viajou pela 
Trácia, Macedônia e Tessália, sofrendo martírio em Petra, na Acaia. Diz-se 
que a cruz, na qual morreu, era formada por dois pedaços de madeira que se 
cruzavam no meio, na forma da letra X, sendo por isso conhecida até hoje como 
“cruz de santo André”. Ele morreu orando e exortando o povo à constância e à 
perseverança na fé. O ano de sua morte é incerto.
Dos dois irmãos Pedro e André, passaremos agora a outro par de irmãos, 
Tiago e João. Os quatro também eram parceiros nos negócios.
E o primeiro a aparecer, pela ordem, é Tiago. Zebedeu e seus dois filhos, 
Tiago e João, estavam ocupados em sua atividade costumeira, no mar da Galiléia, 
quando Jesus passou por ali. Vendo os dois irmãos, Ele “logo os chamou. E eles, 
deixando o seu pai Zebedeu no barco com os empregados, foram após ele” 
(Marcos 1:20). Pedro e André estavam presentes nesse momento também. Foi 
nessa ocasião que o Senhor ordenou a Pedro que fosse para o alto-mar e lançasse 
a rede mais uma vez. Pedro argumentou que tinham sido malsucedidos na noite 
anterior. Contudo, sob a palavra do Senhor, a rede foi lançada, “e, fazendo assim,
13 Veja William CAVE, Lives o f the Apostles [A vida dos apóstolos]; Edward BU RTO N , Lectures 
upon the Ecclesiastical History, [Palestras sobre história eclesiástica]; William SM ITH , Smith’s 
Bible Dictionary.
Os A p ó s t o l o s e o s P io n e ir o s
colheram uma grande quantidade de peixes, e rompia-se-lhes a rede” (Lucas 
5:4-11). Maravilhado com o resultado da pesca, Pedro acenou, pedindo ajuda 
aos companheiros para levar a carga até a praia.
A plena convicção de que Jesus era o verdadeiro Messias havia dominado 
a mente dos quatro jovens. Talvez houvesse dúvidas antes, mas nenhuma agora. 
À chamada de Jesus, todos abandonaram tudo e se tornaram, para sempre, Seus 
discípulos. Dali por diante, seriam “pescadores de homens”. Em todas as listas 
que temos dos apóstolos, esses quatro nobres homens aparecem nos primeiros 
lugares. Eram os mais destacados entre os Doze (Mateus 4:17-20; Marcos 
1:16-20; Lucas 5:1-11).
Essa foi a chamada de Tiago para o discipulado. Cerca de um ano depois, 
ele foi convocado ao apostolado, com os outros onze (Mateus 10; Marcos 3; 
Lucas 6; Atos 1).
Pedro, Tiago, João, e ocasionalmente André eram os companheiros mais 
chegados do Senhor. Os três primeiros foram os únicos a ter permissão para 
testemunhar a ressurreição da filha de Jairo (Marcos 5; Lucas 8). Apenas os três 
estavam presentes na transfiguração (Mateus 17; Marcos 9; Lucas 9). Os três 
também viram a agonia do Senhor no Getsêmani (Mateus 26; Marcos 14; Lucas 
22). Mas os quatro - Pedro, Tiago, João e André - estavam reunidos quando 
perguntaram ao Senhor em particular sobre a destruição do templo (Marcos 13).
Como a mudança - ou o acréscimo — ao nome de Pedro, os filhos de 
Zebedeu são apelidados de Boanerges, “filhos do trovão”. A ousadia e a fidelidade 
de Tiago devem ter chamado a atenção de Herodes para este escolhê-lo como o 
primeiro a ser capturado e silenciado. Não é nenhuma surpresa que o “filho de 
trovão” e a “pedra” tenham sido os primeiros a ser presos. Em 44 d.C., Tiago 
teve a honra de receber a coroa do martírio antes de todos. Pedro foi miraculo­
samente resgatado.
A inveja de uma mãe e a ambição de seus filhos levou Salomé (mãe de 
Tiago e João) a pedir lugares de destaque para eles no Reino do Senhor. Jesus não 
levou o pedido em consideração, censurando-a de maneira suave, mas afirmou 
que Tiago e João beberiam de Seu cálice e seriam batizados com o Seu batismo. 
Tiago logo foi convocado para cumprir a profecia. Após a ascensão de Jesus, 
ele é visto na companhia dos outros apóstolos em Atos 1, depois desaparece da 
narrativa sagrada até a sua prisão e morte, em Atos 12. Na sucinta linguagem 
do historiador inspirado, é dito simplesmente que o rei Herodes matou Tiago, 
irmão de João, com a espada.
Clemente de Alexandria registra uma história concernente ao martírio 
de Tiago, a qual pode ser verossímil. Enquanto se dirigia ao lugar da execução,
o soldado ou oficial que o havia denunciado ao tribunal, mais exatamente seu 
acusador, ficou tão admirado com a coragem e a ousada confissão de Tiago 
durante o julgamento que se arrependeu do que fizera. Então ajoelhou-se aos pés 
do apóstolo, implorando perdão por tudo que dissera contra ele. Tiago, depois 
de se recuperar do espanto, colocou-o de pé, e o beijou e abraçou, dizendo: “Paz, 
meu filho! A paz seja contigo e o perdão de seus pecados!”. Imediatamente, o 
ex-inimigo confessou diante de todos que agora também era cristão, e os dois 
foram decapitados juntos. Assim caiu Tiago, o proto-mártir apostólico, bebendo 
alegremente do cálice, como o Senhor, muito tempo antes, lhe havia alertado.14
João era filho de Zebedeu e Salomé e irmão mais novo de Tiago. 
Embora seu pai fosse pescador, infere-se da narrativa bíblica que eles tinham 
boas condições financeiras. Alguns textos antigos informam que a família era 
rica, até mesmo nobre. Essas tradições não encontram respaldo nos fatos das 
Escrituras, contudo sabemos de seus empregados contratados, e é possível que 
fossem donos de mais de um barco. Salomé, sem dúvida, era uma das nobres 
mulheres que serviam ao Senhor com os seus bens. Além disso, João tinha casa 
própria (Lucas 8:2-3; João 19:27). Podemos concluir com segurança, tendo 
por base esses fatos, que a condição social deles estava consideravelmente acima 
da pobreza. Como muitos vão ao extremo de afirmar que os apóstolos eram 
iletrados e pobres, achamos melhor prestar atenção a essas poucas alusões das 
Escrituras sobre o assunto.
Nada sabemos sobre a pessoa de Zebedeu. Ele não fez objeção quando seus 
filhos o abandonaram para seguir a chamada do Messias, porém não ouvimos 
mais nada a seu respeito. Encontramos a mãe emcompanhia dos filhos, porém 
nenhuma menção é feita ao pai. A probabilidade é que ele tenha morrido logo 
depois que os seus filhos foram chamados por Jesus.
O evangelista Marcos, listando os doze apóstolos (Marcos 3:17-19), ao 
mencionar Tiago e João diz que o Senhor “pôs [neles] o nome de Boanerges, que 
significa: Filhos do trovão”. O que o Senhor pretendia comunicar com esse título 
é difícil determinar. Há muitas conjecturas. Alguns supõem que era pelo fato de 
ambos terem uma disposição mais impetuosa e resoluta, um temperamento mais 
ardente e apaixonado que os demais apóstolos. Mas não vemos base nos relatos 
evangélicos para tal suposição. No entanto, em uma ou duas ocasiões, o zelo deles 
foi desmedido. Isso aconteceu antes de terem entendido a natureza do chamado 
que receberam. E mais provável que o Senhor os tenha apelidado assim como um 
prognóstico do inflamado zelo com o qual proclamariam as grandes verdades do 
Evangelho, após tomarem pleno conhecimento delas. Isso transparece nos primeiros
70 | A H i s t ó r i a da Ig r e ja - capítulo 4
14 Veja William CAVE, Lives o f the Apostles.
Os A p ó s t o l o s e o s P io n e ir o s
capítulos de Atos, nos quais João, na companhia de Pedro, demonstra uma coragem 
inabalável diante das ameaças, que nenhuma oposição podia intimidar.
Presume-se que João tenha sido o mais jovem dos apóstolos e, a julgar por 
seus escritos, parece que tinha um temperamento singularmente afetuoso, brando 
e cordial. Era caracterizado como o “discípulo a quem Jesus amava”. Em várias 
ocasiões, admitiu ter livre e íntimo relacionamento com o Senhor (João 13).
“O que distinguia João”, escreve Neander, “era a combinação das mais 
opostas qualidades, como sempre observamos nos grandes instrumentos da 
propagação do Reino de Deus - a combinação de uma personalidade inclinada 
à profunda e silenciosa meditação com um zelo ardente, embora não impelido 
a realizar atividades tremendas e diversificadas no mundo exterior; um zelo não 
passional, que, segundo imaginamos, incitava Paulo antes de sua conversão. 
Também havia amor - não um amor suave e complacente, mas do tipo que 
se agarrava com todas as forças ao objeto de sua afeição, repelindo com vigor 
qualquer coisa que pudesse aviltá-lo ou que tentasse arrancá-lo de seu coração. 
Essa era sua característica principal”.
Pelo fato de a história de João estar tão intimamente ligada à de Pedro e 
Tiago, já analisadas, agora seremos muito breves. Esses três nomes raramente 
aparecem separados no relato bíblico. Mas existe uma cena em que João está 
sozinho, merecendo um comentário especial. Ele foi o único apóstolo que seguiu 
Jesus até o lugar da crucificação e ali foi honrado com o respeito e confiança 
de seu Mestre: “Ora, Jesus, vendo ali sua mãe e que o discípulo a quem ele 
amava estava presente, disse à sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois, disse 
ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua 
casa” (João 19:26-27).
Após a ascensão de Cristo e a descida do Espírito Santo no dia de 
Pentecoste, João tornou-se um dos principais apóstolos da circuncisão. Mas 
seu ministério acaba no final do primeiro século. Com a morte de João, a era 
apostólica naturalmente se encerra.
Há uma bem conhecida e geralmente aceita tradição, segundo a qual 
João permaneceu na Judéia até a morte de Maria, a mãe do Senhor. A data 
desse evento é incerta. Mas logo depois ele foi para a Ásia Menor. Ali fundou 
e pastoreou diversas igrejas, em diferentes cidades, mas fez de Efeso a sua base. 
Dali foi banido para a ilha de Patmos, perto do final do reinado de Domiciano. 
Foi onde escreveu Apocalipse (1:9). Com a ascensão de Nerva ao trono imperial, 
João foi libertado do exílio e retornou a Éfeso, cidade na qual escreveu seu 
evangelho e suas epístolas. Morreu aos 100 anos de idade, no terceiro ano do 
imperador Trajano, por volta de 100 d,€..
Das muitas tradições sobre João, selecionamos uma em especial, que 
consideramos a mais interessante, cujo conteúdo é verossímil. Como alguém 
incansável em seu amor e cuidado para com a alma humana, ele estava profunda­
mente triste pela apostasia de um jovem, por quem nutria um interesse singular. 
Ao visitar o lugar em que vivia o jovem, João soube que ele havia se juntado a 
um grupo de ladrões, tornando-se o chefe deles. Seu amor era tão grande por 
aquela alma que ele se propôs encontrá-lo. Assim, foi ao encalço dos ladrões e 
deixou-se capturar, implorando para que o levassem à presença do líder. Quando 
o rapaz viu a nobre aparência do velho apóstolo, a sua consciência foi abalada. A 
recordação do passado foi esmagadora, e ele fugiu consternado da presença de 
João. O apóstolo, cheio de amor paternal, correu atrás dele e suplicou-lhe que se 
arrependesse e voltasse atrás em seus caminhos, encorajando-o com a certeza do 
perdão dos pecados em nome do Senhor Jesus. A fantástica afeição e o profundo 
interesse de João por sua alma conquistaram o rapaz. Ele se arrependeu, voltou, 
foi restaurado e depois se tornou um membro importante da comunidade cristã. 
Que possamos fazer o mesmo para restaurar os que se desviaram!
Agora, chegou a vez do que podemos chamar de segundo grupo de quatro 
apóstolos. Assim como Pedro era o líder do primeiro grupo, Filipe liderava o 
segundo.
Filipe. Nos três primeiros evangelhos, ele aparece nessa ordem. Menciona-se 
que ele era de Betsaida, mesma cidade de André e Pedro (João 1:44). E bem mais 
que provável que Filipe estivesse entre os galileus daquele distrito que formavam 
multidões para ouvir a pregação de João Batista. Embora nenhuma outra 
região da Palestina tenha sido tão menosprezada quanto a Galiléia, foi dentre 
os desprezados, simples, fervorosos e devotados galileus que o Senhor escolheu 
os Seus apóstolos. “Es tu também da Galiléia? Examina e verás que da Galiléia 
nenhum profeta surgiu”, disseram os fariseus (João 7:52). Argumentos generaliza­
dos e superficiais, porém, na maioria das vezes não são verdadeiros. Um exemplo 
é a afirmação: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (João 1:46).
Na Bíblia, nada é dito a respeito da família ou da profissão de Filipe. 
É mais provável que ele fosse um pescador, trabalho mais comum naquela 
região. Pela similaridade existente na linguagem usada por Filipe e André e 
também pelo fato de sempre serem mencionados juntos, podemos concluir que 
o nosso apóstolo e os filhos de Jonas e Zebedeu eram amigos íntimos, e todos 
aguardavam o Messias prometido. De todo o círculo dos discípulos do Senhor, 
Filipe teve a honra de ser o primeiro convocado. Os três anteriores vieram a Cristo 
e conversaram com Ele antes de Filipe, mas voltaram às suas atividades, sendo 
chamados para seguir ao Senhor cerca de um ano depois. Mas Filipe o seguiu
72 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 4
Os A p ó s t o l o s e o s P io n e ir o s 7 3
imediatamente: “No dia seguinte, quis Jesus ir à Galiléia, e achou a Filipe, e 
disse-lhe: Segue-me” (João 1:43). A ordem: “Segue-me” é plena de significado 
e de riqueza para a alma, e cremos que foi dirigida pela primeira vez a Filipe. 
Quando os Doze foram separados para o apostolado, Filipe estava entre eles.
Imediatamente após seu chamado, ele encontra Natanael e o apresenta a 
Jesus. E evidente, pela alegre surpresa que transparece em sua informação, que 
ambos haviam conversado antes sobre o assunto. O coração de Filipe agora tinha 
total certeza da verdade, e, consequentemente, a alegria é estampada nas palavras: 
“Havemos achado aquele de quem Moisés escreveu na Lei e de quem escreveram 
os Profetas: Jesus de Nazaré, filho de José” (João 1:45). É evidente a sinceridade 
de Filipe, embora pouco seja dito sobre ele nos Evangelhos. Nosso último encontro 
com esse apóstolo é tão interessante quanto o primeiro. Percebendo que o Senhor 
Se referia repetidamente ao Pai em João 12-14, Filipe manifesta um grande 
desejo de conhecer melhor o Pai. As emocionantes palavras do Senhor acerca do 
Pai parecem marcar profundamenteo coração do discípulo: “Pai, salva-me desta 
hora” (João 12:27); “Pai, glorifica o teu nome” (12:28); “Na casa de meu Pai há 
muitas moradas” (João 14:2). Todas são palavras que por certo calaram fundo no 
coração dos discípulos. Mas há uma admirável simplicidade em Filipe, embora lhe 
falte entendimento: “Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta”. 
Percebe-se uma censura, ou mesmo uma repreensão, na resposta do Senhor a Filipe: 
“Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, 
Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai? [...] 
Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede-me, ao menos, por causa das 
mesmas obras” (João 14:8-11). A revelação do Pai estava na Pessoa de Jesus: Ele 
tomou o Pai conhecido. Ele passou muito tempo com os discípulos, e, portanto, 
eles devem ter percebido que Ele estava no Pai e que o Pai estava íiEle. Assim, 
sabiam para onde Ele estava indo, pois estava indo para o Pai. Eles tinham tanto 
as “palavras” quanto as “obras” do Filho para convencê-los de que o Pai habitava 
nEle. Os discípulos ouviram as Suas palavras, viram as Suas obras e testemunharam 
o Seu caráter. O objetivo de tudo isso era revelar o Pai. A Pessoa de Jesus era a 
resposta a qualquer pergunta. “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida”. Ele era o 
caminho - o único caminho para o Pai. Ele era a verdade - a verdade concernente 
a tudo e a todos. Ele era a vida — “a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi 
manifestada” (1 João 1:2). Contudo, é apenas pelo ensino e poder do Espírito que 
Ele, o “caminho, e a verdade e a vida”, pode ser conhecido e apreciado. E tem de 
HavêFlfma rendição a Cristo, se quisermos ser ensinados pelo Espírito.
Depois dessa interessante e instrutiva conversa com o Senhor, tudo é 
incerto com respeito à trajetória de Filipe - o nome dele desaparece da narrativa 
bíblica. A tradição tem confundido tanto Filipe, o evangelista, com Filipe, o
apóstolo, que nada pode ser afirmado com precisão. Entretanto, não há dúvida 
de que os seus últimos anos de vida foram gastos no serviço de seu Senhor e 
Salvador, mas é difícil dizer onde. Alguns acreditam que a Ásia foi o lugar em 
que Filipe trabalhou nos primeiros anos e que ele passou o período final de sua 
vida em Hierápolis, na Frigia, onde sofreu um martírio cruel.
Bartolomeu. Há um consenso entre os antigos e modernos estudiosos de 
que a história de Bartolomeu está oculta sob outro nome. É absolutamente claro 
que ele era um dos doze apóstolos, embora nada mais seja dito a respeito dele, a 
não ser a simples menção de seu nome. Nos três primeiros evangelhos, Filipe e 
Bartolomeu são mencionados em sequência; no evangelho de João, temos Filipe 
e Natanael. Isso tem dado origem à conjectura de que são diferentes nomes para 
a mesma pessoa - prática bastante comum na cultura judaica. Por exemplo, 
Simão Pedro era chamado “Bar-jonas”, que significa simplesmente “filho de 
Jonas”. “Bar-timeu” significa “filho de Timeu”, e “Bar-tolomeu” também é 
um nome dessa espécie. Não eram nomes próprios, e sim nomes que faziam 
referência à família. Sendo um costume tão difundido entre os judeus, às vezes 
é extremamente difícil identificar uma pessoa na história dos Evangelhos.
Portanto, presumindo-se que o Natanael de João seja o Bartolomeu dos 
evangelhos sinóticos, continuemos a examinar o que sabemos de sua história. 
Como os demais apóstolos, ele era galileu, mais exatamente de “Caná da Galiléia” 
(João 21:2). Já vimos que ele foi o primeiro a ser conduzido a Cristo por Filipe. 
Nesse encontro, o Senhor saudou-o com uma referência honrosa: “Eis aqui um 
verdadeiro israelita, em quem não há dolo”. Sem dúvida, ele era um homem 
simples e íntegro, alguém que aguardava a redenção de Israel. Surpreso com tão 
graciosa saudação e imaginando de onde Jesus poderia conhecê-lo, “disse-lhe 
Natanael: De onde me conheces tu? Jesus respondeu e disse-lhe: Antes que 
Filipe te chamasse, te vi eu estando tu debaixo da figueira”. Declaração solene 
e maravilhosa! Ele estava diante do único homem no mundo que conhecia os 
segredos de seu coração. Natanael foi plenamente convencido da divindade do 
Messias e Lhe atribuiu a mais alta glória ao chamá-lO “Filho de Deus” e “Rei 
de Israel” (João 1:47-49).
O caráter de Natanael e a forma em que foi chamado são considerados 
tipos do fiel remanescente de Israel no último dia. A alusão à figueira - 
conhecido símbolo de Israel - confirma essa interpretação, assim como o belo 
testemunho: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. O remanes­
cente salvo através dos juízos, visto e conhecido pelo Senhor, confessará sua fé 
nEle, como demonstram os profetas. E, de acordo com o salmo 8, todos os que 
reconhecerem o Messias verão a Sua glória universal na condição de Filho do 
homem. Esse dia vindouro e de glória sem precedentes é antecipado pelo Senhor
74 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 4
Os A p ó s t o l o s e o s P io n e ir o s
em Sua réplica a Natanael: “Na verdade, na verdade vos digo que, daqui em 
diante, vereis o céu aberto e os anjos de Deus subirem e descerem sobre o Filho 
do Homem” (João 1:51). Então os céus e a terra estarão reunidos, como na visão 
da escada de Jacó, Mas voltemos à história de nosso apóstolo.
A passagem mais distinta e conclusiva no que se refere ao seu apostolado 
é João 21. Aqui o encontramos na companhia dos outros apóstolos, aos quais 
o Senhor apareceu no mar de Tiberíades após Sua ressurreição. “Estavam 
juntos Simão Pedro, e Tomé, chamado Dídimo, e Natanael, que era de Caná 
da Galiléia, e os filhos de Zebedeu, e outros dois dos seus discípulos”, provavel­
mente André e Filipe.
Uma tradição geralmente aceita relata que Bartolomeu viajou até a índia 
a fim de pregar o Evangelho - talvez para a região mais próxima da Ásia. Depois 
de percorrer vários lugares divulgando o cristianismo, chegou a Albanópolis, 
na Armênia Maior, infestada pela idolatria. Ali foi preso pelo governador e 
condenado à crucificação. A data não pode ser determinada.
Mateus - também chamado Levi; filho de Alfeu. Acreditamos não ser a 
mesma pessoa que Alfeu, pai de Tiago (Mateus 10:3; Marcos 2:14; Lucas 5:27-29). 
Apesar de ser um oficial romano, ele era “um hebreu de hebreus”, provavelmen­
te galileu, mas de uma cidade ou tribo nao informada. Antes de ser chamado 
para seguir o Messias, Mateus era publicano, ou seja, um coletor de impostos a 
serviço de Roma. Parece que ele trabalhava em Cafarnaum, cidade marítima na 
orla do mar da Galiléia e era o que costumamos chamar “fiscal alfandegário”. 
Jesus encontrou-o nessa condição. Quando passava, Ele viu Mateus “e disse-lhe: 
Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu” (Mateus 9:9). Todavia, antes de 
continuar com a história de Mateus, discorreremos sobre o caráter de sua profissão, 
tão mencionada no Novo Testamento, mas cujo termo é realmente genérico.
Os publicanos, como são apropriadamente chamados, eram homens 
que arrecadavam taxas e impostos para os romanos. Em geral, eram pessoas 
ricas e de prestígio. Entre os romanos, era uma função nobre, concedida em 
especial aos cavaleiros. Sabino (pai do imperador Vespasiano) era o publicano 
das províncias asiáticas. Eles contratavam subordinados, na maioria das vezes 
nativos das províncias em que os impostos eram coletados, e sem dúvida Mateus 
pertencia a esse grupo.
Esses subalternos eram conhecidos por suas cobranças fraudulentas, mas 
para os judeus eles eram especialmente odiosos. Os judeus consideravam-se um 
povo livre, que recebera esse privilégio do próprio Deus. “Somos descendência de 
Abraão, e nunca servimos a ninguém”, vangloriavam-se (João 8:33). Por isso, os 
coletores de impostos de Roma eram a prova viva da escravidão a que estavam
submetidos e do vergonhoso estado da nação. Esse era o grilhão que os afligia e 
os incitava a muitos atos de rebelião contra os romanos. Por isso, os publicanos 
eram abomináveis aos judeus. Eles os viam como traidores e apóstatas,instru­
mentos a serviço do opressor. Além disso, os publicanos praticavam a extorsão e 
cometiam injustiças na cobrança dos impostos. Contudo, tendo a lei a seu favor, 
podiam arrancar o dinheiro do povo. Era tarefa deles examinar cada carrega­
mento de produtos importados ou exportados e calcular o tributo da maneira 
mais opressiva. Com base no que João Batista disse a eles, podemos deduzir que 
os publicanos cobravam em excesso sempre que tinham oportunidade: “Não 
peçais mais do que aquilo que vos está ordenado” (Lucas 3:13; veja também o 
caso de Zaqueu, em Lucas 19:9).
Sem dúvida, tais coisas eram mais que suficientes para fazer com que a 
classe inteira fosse profundamente detestada pelo povo. Mas vamos nos ater ao 
que aprendemos a respeito deles no Novo Testamento. O Espírito da verdade 
nunca exagera. Ali são equiparados aos pecadores (Mateus 9:11; 11:19), às 
meretrizes (Mateus 21:31-32) e aos gentios (Mateus 18:17). Como categoria, os 
publicanos não tinham direito aos privilégios do Santuário e da sociedade civil. 
No entanto, com todas essas desvantagens, de suas fileiras saíram os primeiros 
discípulos de João Batista e do Senhor. Eles eram menos hipócritas que os 
religiosos, não tinham a moralidade tradicional nem precisavam desaprender os 
costumes da falsa religião. Esses argumentos podem ser extraídos da parábola 
do fariseu e do publicano, em Lucas 18. A bondade convencional é o maior 
obstáculo à salvação da alma. E difícil alguém que se acha “bom” perceber que é 
um pecador perdido e decaído e permitir que a graça flua livremente e faça a sua 
obra abençoada e salvadora dentro dele. Quem quiser ser justificado por Deus 
terá de se colocar no lugar do publicano e clamar, como ele: “Ó Deus, tem 
misericórdia de mim, pecador!”. Mas voltemos à história de nosso apóstolo.
Com total prontidão, Mateus obedeceu ao chamado de Jesus. Abandonou 
a sua lucrativa função, e a sua conversão, tão completa e evidente, abençoou a 
muitos, pois despertou grande interesse entre os de sua classe: “Fez-lhe Levi um 
grande banquete em sua casa; e havia ali uma multidão de publicanos e outros 
que estavam com eles à mesa” (Lucas 5:29). Uma festa é símbolo de alegria e 
regozijo - consequência imediata de um coração rendido a Cristo. E digno de 
nota o fato de apenas Mateus, em seu evangelho, registrar a expressão pela qual 
era mais conhecido: nenhum dos outros evangelistas usa a alcunha de “Mateus, 
o publicano”. Ele era um dos escolhidos, um dos doze. Desde a sua chamada, 
Mateus permaneceu com o Senhor, como o restante dos apóstolos. Maravilhoso 
privilégio é acompanhar a Sua Pessoa, ser um espectador de Sua vida pública 
e privada, um ouvinte de Suas declarações e discursos, um observador de Seus
7 6 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 4
milagres, uma testemunha de Sua ressurreição e ascensão à glória. Mateus não 
registrou a ascensão, ainda que a tenha presenciado. Ele estava com os demais 
apóstolos no dia de Pentecostes e recebeu o dom do Espírito Santo. Não temos 
informação de quanto tempo ele permaneceu na Judeia depois disso. Acredita-se 
que o seu evangelho foi o primeiro a ser escrito, e é dirigido especialmente a 
Israel.
A Etiópia costuma ser apontada como o lugar de sua obra apostólica. 
Ali, afirmam alguns, pela pregação e pelos milagres realizados, Mateus triunfou 
poderosamente sobre o erro e a idolatria e foi o instrumento da conversão de 
muitos. Ele designou líderes espirituais e pastores para fortalecer e edificar os 
neófitos e trazer outros à fé. Ali também ele teria encerrado a sua carreira. Mas 
as fontes dessa informação não são confiáveis.
Tomé. O apóstolo Tomé foi chamado por nosso Senhor para o apostolado, 
e figura devidamente nas várias listas apostólicas. As Escrituras não nos 
informam o local de seu nascimento nem dizem quem eram os seus pais, mas 
segundo a tradição ele nasceu em Antioquia. Tudo que sabemos a respeito dele 
com fidedignidade é relatado por João. No entanto, apesar de nosso conheci­
mento ser limitado, entre os apóstolos não há caráter mais marcante que o dele. 
De fato, o nome de Tomé se tornou, no âmbito da Igreja e no mundo, sinônimo 
de dúvida e incredulidade. Um famoso artista, ao receber uma encomenda para 
pintar um quadro de Tomé, pôs uma régua na mão do apóstolo, simbolizando 
a justa medida da evidência e da argumentação. Sua mente era inquiridora, 
meditativa, lenta para crer. Ele sondava todas as dificuldades de uma questão 
e era inclinado a ver o lado negro de tudo. Mas contemplemos por um instante 
o retrato de Tomé que a pena inspirada pintou nas três passagens seguintes.
1. Em João 11, o seu verdadeiro caráter se manifesta de maneira clara. 
Não há dúvida de que ele tinha os mais sombrios pressentimentos 
quanto à viagem do Senhor à Judéia: “Disse [...] Tomé, chamado 
Dídimo, aos condiscípulos: Vamos nós também, para morrermos com 
ele” (v. 16). Em vez de acreditar que Lázaro seria ressuscitado, ele temia 
que todos fossem mortos na Judéia. Não conseguia esperar nada de 
bom daquela viagem, apenas um completo desastre. Contudo, ele não 
procurou dissuadir o Senhor, como os outros discípulos. Isso também 
é muito característico. Tomé nutria profunda afeição pelo Senhor, e 
essa devoção era tanta que, embora a jornada pudesse custar a vida de 
todos eles, ele estava disposto a ir.
2. A segunda menção é após a Última Ceia, em João 14. O Senhor 
falava de Sua ida para o Pai e das moradas que iria preparar para eles
Os A p ó s t o l o s e o s P io n e ir o s 1í
no céu, prometendo voltar para buscá-los, a fim de que eles pudessem 
estar para sempre com Ele. O Mestre acrescentou: “Mesmo vós sabeis 
para onde vou e conheceis o caminho” (v. 4). Todavia, para a mente de 
nosso apóstolo, essas belas promessas só fizeram despertar tenebrosos 
pensamentos sobre um futuro desconhecido e misterioso: “Disse-lhe 
Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais e como podemos saber 
o caminho?”. Evidentemente, ele estava ansioso para prosseguir e era 
sincero em seus questionamentos, mas o que realmente desejava era 
certificar-se do caminho antes de dar o primeiro passo. A resposta de 
Jesus foi: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao 
Pai senão por mim”. Enquanto os olhos estiverem fixos em Cristo, não 
é possível dar um passo errado. E é esse olhar simples que recebe a luz 
do céu, a qual resplandece e ilumina todo o caminho.
3. A terceira menção é após a ressurreição, em João 20. Ele estava 
ausente quando o Senhor apareceu pela primeira vez aos discípulos. 
Quando lhe disseram que tinham visto o Senhor, Tomé obstinadamen­
te se recusou a acreditar neles. Pelas suas palavras, podemos deduzir 
que ele contemplara o Senhor na cruz e que tal visão o havia marcado 
de maneira profunda. “Disseram-lhe [...] os outros discípulos: Vimos 
o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos em suas 
mãos, e não puser o dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha 
mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei.” Na semana seguinte, 
quando os discípulos estavam outra vez reunidos, Jesus apareceu e 
pôs-se no meio deles - Seu lugar de direito como centro da assembléia. 
Ele os saudou com as mesmas palavras do primeiro encontro: “Paz 
seja convosco”. Dirigindo-se a Tomé, como se este fosse o principal 
motivo de Sua aparição naquele dia, Ele disse: “Põe aqui o teu dedo e 
vê as minhas mãos; chega a tua mão e põe-na no meu lado; não sejas 
incrédulo, mas crente”. O efeito em Tomé foi imediato. Todas as suas 
dúvidas foram removidas, e com verdadeira fé ele exclamou: “Senhor 
meu, e Deus meu!”. Jesus retrucou: “Porque me viste, Tomé, creste; 
bem-aventurados os que não viram e creram”.
Alguns pensam que a fé de Tomé nesse instante se ergueu acima da dos 
outros discípulos e que nenhuma palavra tão sublime saiu de outros lábios 
apostólicos. Tal opinião, embora comum, não pode ser sustentada pelo contexto 
geral. Cristo, respondendo a Tomé, afirmou que os que não viram e ainda assim 
creram eramos mais abençoados. A atitude do apóstolo mal pode ser chamada 
“fé cristã”, como o Senhor sugere. A fé cristã consiste em crer nEle, a Quem não 
temos visto. Devemos andar por fé, não por vista.
78 I A H i s t ó r i a da I g r e ja - capítulo 4
Os A p ó s t o l o s e o s P io n e ir o s [
Não temos dúvidas de que Tomé representa a mente Incrédula e difícil dos 
judeus nos últimos dias, os quais só crerão quando O contemplarem (Zacarias 
12). Ele não estava presente na primeira reunião dos santos após a ressurreição. 
A razão disso não foi registrada. Mas quem pode avaliar as bênçãos perdidas 
pela ausência às reuniões dos santos? Tomé perdeu as maravilhosas revelações 
de Cristo quanto ao relacionamento: “Meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso 
Deus” (João 20:17). A fé de nosso apóstolo não estava conectada à condição de 
filho. Certo autor escreveu: “Ele não tinha o entendimento da eficácia da obra 
do Senhor nem do relacionamento com o Pai, no qual Jesus introduziu os Seus, 
a Igreja. Talvez ele tivesse a paz, mas perdera a revelação a respeito da Igreja. 
Quantas almas — almas salvas - estão nas mesmas condições!”.
As obras apostólicas de Tomé e o final de sua vida estão tão envoltos em 
histórias e lendas, de modo que não podemos distinguir o real da ficção. Alguns 
dizem que ele trabalhou na índia; outros, que foi para a Pérsia. Seu martírio, 
conforme a tradição, foi ocasionado por lanças e ainda é comemorado pela igreja 
latina, em 21 de dezembro, pela igreja grega, em 6 de outubro, e pelos indianos, 
em 1? de julho.
Tiago, filho de Alfeu. A identificação dos Tiagos, das Marias e dos irmãos 
do Senhor há muito tem sido um ponto de difícil consenso com os críticos. 
Aqui nao seria o lugar mais apropriado para analisar as teorias e argumentos 
deles. No entanto, depois de considerar os diferentes lados da questão, ainda 
acreditamos ser nosso apóstolo o Tiago que era o principal homem da igreja 
de Jerusalém, autor da Epístola de Tiago, também chamado “irmão do 
Senhor”, cognominado “o Justo” e “o Menor”, talvez por ter baixa estatura. A 
identificação exata de pessoas é extremamente difícil em tais relatos, em razão 
do costume, comum entre os judeus, de serem conhecidos pela alcunha dos 
parentes próximos, de irmãos ou irmãs, e também de quase todos terem dois 
ou mais nomes.
Nas quatro listas dos apóstolos, Tiago ocupa a mesma posição. Ele 
encabeça o terceiro grupo de quatro apóstolos. Pedro lidera o primeiro grupo, e 
Filipe, o segundo. Bem pouco é dito a respeito Tiago até depois da ressurreição. 
Pelo que Paulo diz em 1 Coríntios 15:7, fica evidente que o Senhor, antes de 
Sua ascensão, honrou Tiago com um encontro pessoal. Isso foi antes do dia de 
Pentecoste, e pode ter sido o ensejo para um encorajamento especial, orientação 
e fortalecimento do apóstolo. Iremos agora examinar as principais passagens das 
quais extrairemos o nosso conhecimento sobre Tiago.
No primeiro capítulo de Atos, ele e os demais aguardavam o cumprimento 
da promessa do Pai acerca do dom do Espírito Santo. Depois disso, nós o
perdemos de vista até o momento em que é visitado por Paulo (Gálatas 1:18-19), 
por volta do ano de 39 d.C.. Aqui ele ocupa uma posição igual à de Pedro como 
apóstolo. Na ocasião, Tiago era o supervisor da igreja em Jerusalém e estava no 
mesmo nível dos principais apóstolos. A medida da estima de Pedro por Tiago 
pode ser verificada no fato de que quando Pedro escapou da prisão, ele mandou 
que a informação fosse dada “a Tiago e aos irmãos” (Atos 12:17).
No ano 50 d.C., encontramo-lo no concílio apostólico, ocasião em que 
ele parece proferir a sentença da assembléia sobre a circuncisão dos gentios: 
“Julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem 
a Deus” (Atos 15:19). Nenhum dos outros apóstolos falou dessa maneira. Fica 
subentendido que Tiago conquistara uma elevada posição de autoridade no 
apostolado. Por volta de 51 d.C., ao visitar Jerusalém outra vez, Paulo reconhe- 
ceu-o como uma das “colunas” da Igreja e registrou o nome dele antes de Cefas 
e João (Gálatas 2:9). Já em 58 d.C., Paulo fez uma visita especial a Tiago na 
presença de todos os anciãos: “No dia seguinte, Paulo entrou conosco em casa 
de Tiago, e todos os anciãos vieram ali” (Atos 21:18). E fácil depreender desses 
poucos relatos que Tiago era um homem que desfrutava a mais alta estima entre 
os apóstolos e que ocupava o cargo mais importante na igreja em Jerusalém. Sua 
ligação com o judaísmo era profunda e intensa, e seu progresso no cristianismo 
parecer ter sido gradual e lento. Tiago era o oposto perfeito de Paulo, e Pedro 
era o meio-termo entre ambos.
O martírio de Tiago aconteceu por volta de 62 d.C., cerca de 30 anos após 
o dia de Pentecoste. Os testemunhos da Antiguidade são unânimes quanto à 
notável piedade e santidade dele. Sua humildade também era notória: apesar de 
ser meio-irmão - ou parente muito próximo — do Senhor, ele chama a si mesmo 
“servo de Jesus Cristo” e jamais se intitula apóstolo. Por causa da reputação de 
sua vida justa e santa, ele ganhou a alcunha de “Tiago, o Justo”. E, uma vez que 
ainda observava alguns dos costumes judeus, ele não se mostrava tão ofensivo 
aos olhos de seus conterrâneos incrédulos quanto o apóstolo dos gentios. Não 
obstante a alta reputação que desfrutava, sua vida foi prematuramente ceifada 
pelo martírio.
Temos uma enorme dívida para com Hegésipo, cristão de origem judaica 
que viveu na metade do século II, no que se refere ao registro da vida, caráter 
e morte de Tiago. De modo geral, Hegésipo é considerado um historiador 
fidedigno. Sua narrativa sobre o martírio de Tiago está relatada na íntegra, nas 
palavras dele próprio, no Smith’s Bible Dictionary, que apresentamos aqui em 
resumo:
80 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 4
Os A p ó s t o l o s e o s P io n e ir o s
Por meio dos esforços de Tiago, muitos líderes judeus e gente do povo se 
tornaram crentes em Jesus, e isso despertou a ira dos escribas e fariseus 
contra ele. Eles diziam que todo o povo creria em Jesus. Portanto foram ao 
encontro de Tiago e lhe disseram: “Nós te rogamos que detenhas o povo, 
pois estão se desviando para seguir a Jesus, como se Ele fosse o Messias.
Nós te rogamos que convenças a todos os que virão [a Jerusalém] para a 
Páscoa a respeito desse assunto. Convence o povo a não seguir a Jesus, 
porque todos, inclusive nós, costumamos dar atenção ao que tu falas.
Põe-te de pé no pináculo do Templo, para que todos te vejam e para que 
tuas palavras sejam ouvidas por todo o povo, pois todas as tribos e até 
os gentios estarão reunidos para a Páscoa”. Mas, em vez de falar o que 
lhe fora sugerido, ele proclamou com grande voz, aos ouvidos de todo o 
povo, que Jesus era o verdadeiro Messias, no qual cria firmemente, que 
Jesus agora estava no céu à destra de Deus e que retornaria com poder e 
grande glória. Muitos foram convencidos pela pregação de Tiago e deram 
glórias a Deus, bradando: “Hosana ao Filho de Davi!’’.
Quando os escribas e fariseus ouviram isso, disseram uns aos outros: 
“Erramos ao indicar tal testemunha de Jesus. Vamos jogá-lo lá de cima, 
para que o povo fique com medo e não creia nEle!”. Então gritaram, 
afirmando que até mesmo Tiago, o Justo, havia se desviado. Por fim, 
empurraram-no do pináculo do Templo. Mas como o apóstolo não 
morreu com a queda, eles passaram a apedrejá-lo. Um deles, que era 
tecelão, tomou um pisão [instrumento usado para dar consistência aos 
tecidosj e bateu com ele na cabeça de Tiago. O apóstolo então morreu 
e, como o proto-mártir Estêvão, enfrentou a morte orando por seus 
carrascos. Quase imediatamente, Vespasiano sitiou Jerusalém, a cidade 
manchada com o sangue de Cristo e dos seus fiéis, e o exército romano 
fez dela um cenário de desolação, ruínas e sangue.
Simão, o Zelote, também chamado Simão Cananeu, parece ser uma 
pessoa diferente de Simão, o irmão de Tiago. Não temos nenhum relato da 
vida dele na história evangélica.Apenas o seu nome aparece nos Evangelhos e 
no Livro de Atos e depois desaparece das páginas sagradas.
SupÕe-se que antes de ser chamado para o apostolado ele pertencia à seita 
conhecida entre os judeus como “os zelotes”. Eram famosos por sua veemente 
defesa dos rituais mosaicos. Eles se consideravam sucessores de Finéias, o qual, 
em seu zelo pela honra de Deus, matou Zinri e Cosbi (Números 25). Julgando 
seguir o exemplo desse sacerdote do passado, eles usurpavam o direito de
condenar à morte os blasfemos, os adúlteros e os criminosos sem as formalidades 
exigidas pela Lei. Diziam que Deus fizera uma aliança perpétua com Finéias e 
com a descendência deste, “porquanto teve zelo pelo seu Deus e fez propiciação 
pelos filhos de Israel”. Essas nobres alegações e intenções enganaram o povo e 
os líderes durante algum tempo. Além disso, a impetuosidade e o zelo deles pela 
lei de Moisés e pela libertação do povo do jugo romano fez com que obtivessem 
o favor de toda a nação. No entanto, como sempre acontece nesses casos, o zelo 
deles rapidamente degenerou em todas as formas de licenciosidade e extravagân­
cias absurdas. Os zelotes tornaram-se a praga de todas as classes da sociedade.
Alegando zelo por Deus, eles acusavam de blasfêmia ou de qualquer outro 
pecado grave qualquer um conforme desejassem e imediatamente assassinavam 
os “culpados”, apossando-se da propriedade deles. Josefo diz que eles deixaram 
de acusar alguns dos que pertenciam à “nata da sociedade” e, embora tenham 
conseguido tornar tudo uma confusão, não deixavam de pescar “em águas 
turbulentas”. Ele os classificou como a grande calamidade da nação. Várias 
tentativas, em diferentes épocas, foram feitas para suprimi-los, mas ao que parece 
o número deles nunca diminuiu. Os zelotes só foram varridos do mapa no cerco 
fatal empreendido pelos romanos.
Simao é frequentemente denominado Simão, o Zelote, e supostamente 
pertenceu a essa terrível facção. Talvez houvesse entre eles homens verdadeiros e 
sinceros, mas os bons e os maus recebiam igualmente o odioso título de “zelotes”. 
Nada é sabido com certeza sobre o trabalho desse apóstolo. Alguns dizem que, 
após viajar por um tempo pelo Oriente, ele retornou ao Ocidente, chegando às 
ilhas Britânicas, onde pregou, operou milagres, enfrentou muitas provações e 
por fim foi martirizado.
Judas, irmão de Tiago. Esse apóstolo também é chamado de Judas Tadeu, 
ou Lebeu. Seus diferentes nomes têm diferentes nuances quanto ao significado, 
mas o exame de tais minúcias não está na esfera deste livro. Judas era filho de 
Alfeu, e um dos parentes do Senhor, como lemos em Mateus 13:55: “Não é este 
o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e 
José, e Simão, e Judas?”
Quando ou como ele ingressou no apostolado não sabemos, e quase não 
há menção dele no Novo Testamento, exceto nas listas dos doze apóstolos. 
Seu nome aparece apenas uma vez na narrativa evangélica, quando ele faz a 
Jesus uma pergunta: “Disse-lhe Judas (não o Iscariotes): Senhor, de onde vem 
que te hás de manifestar a nós e não ao mundo?” (João 14:22). Fica evidente 
nessa pergunta que ele, assim como os seus companheiros, nutria a idéia de um 
reino temporal ou de uma manifestação do poder de Cristo sobre a terra que o
82 I A H is t ó r ia da Ig r e ja - capítulo 4
mundo inteiro pudesse contemplar. Eles ainda não compreendiam a dignidade 
do Messias. Estavam alheios à grandeza de Seu poder, à glória de Sua Pessoa e 
à natureza espiritual de Seu reino. Seus súditos são libertos, não apenas deste 
mundo perverso, mas do poder de Satanás e do domínio da morte e da sepultura: 
“Ele [o Pai] nos tirou da potestade das trevas e nos transportou para o Reino do 
Filho do seu amor” (Colossenses 1:13). A resposta de Cristo ao questionamento 
de Judas é de suma importância. O Senhor menciona as bênçãos que advêm da 
obediência. O discípulo obediente irá experimentar a doçura da comunhão com 
o Pai e com o Filho, na luz e no poder do Espírito Santo. Não se trata aqui do 
amor de Deus pelo pecador, mas do relacionamento entre o Pai e Seus filhos. 
Portanto, é na trilha da obediência que a manifestação do amor do Pai e de 
Cristo é encontrada (João 14:23-26).
Ao observar as perguntas e palavras dos apóstolos, precisamos ter em 
mente que o Espírito Santo ainda não lhes havia sido concedido, pois Jesus ainda 
não fora glorificado. Os pensamentos, sentimentos e expectativas dos apóstolos 
depois desse fato foram transformados. Por essa razão, encontramos o nosso 
apóstolo, como o seu irmão Tiago, intitulando-se “Judas, servo de Jesus Cristo 
e irmão de Tiago” (Judas 1). Ele não se apresenta como apóstolo nem como 
irmão do Senhor. Isso é humildade genuína, proveniente de um real senso da 
mudança de relacionamento com o Senhor exaltado. No dia de Pentecostes foi 
proclamado: “Saiba, pois, com certeza, toda a casa de Israel que a esse Jesus, a 
quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (Atos 2:36).
Nada pode ser tomado como certo na história posterior de nosso apóstolo. 
Alguns dizem que ele pregou primeiro na Judéia e na Galiléia, indo depois para 
Samaria, Iduméia e algumas cidades da Arábia. Já próximo ao final da vida, a 
Pérsia teria sido o lugar em que trabalhou e cenário de seu martírio.
Com base em 1 Coríntios 9:5, deduzimos que ele era um dos apóstolos 
casados: “Não temos nós direito de levar conosco uma mulher irmã, como 
também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?”
Existe uma tradição muito interessante e aparentemente verdadeira a 
respeito de dois netos de Judas. A história é contada por Hegésipo, judeu 
convertido a Eusébio. Domiciano, o imperador, tendo ouvido que existiam 
alguns membros da linhagem de Davi e parentes do Senhor ainda vivos, 
movido pela inveja, ordenou que eles fossem presos e trazidos para Roma. Dois 
netos de Judas foram levados à presença de Domiciano. Ambos confessaram 
abertamente pertencer à linhagem de Davi e serem parentes do Senhor. O 
imperador perguntou sobre os bens e o patrimônio deles. Eles responderam que 
possuíam apenas um pedaço de terra, cuja produção servia para pagamento de
Os A p ó s t o l o s e o s P io n e ir o s j 83
impostos e sustento próprio. As mãos deies foram examinadas: tinham calos e 
eram ásperas por causa do trabalho pesado. Então foram inquiridos acerca do 
Reino de Cristo, sobre quando e onde se manifestaria. Eles responderam que 
não se tratava de um reino temporal, mas de um reino espiritual e celeste, que 
não seria manifesto até que chegasse o final dos tempos. O imperador, satisfeito 
pelo fato de serem homens pobres e inofensivos, mandou-os embora e pôs 
fim à perseguição geral aos cristãos. Os dois netos de Judas retornaram para a 
Palestina, sendo recebidos pela igreja com grande emoção, por serem parentes do 
Senhor e também por terem confessado nobremente o Seu nome, o Seu Reino,
o Seu poder e a Sua glória.
Matias, o apóstolo eleito para ocupar o lugar deixado pelo traidor 
Judas. Não era um apóstolo da primeira eleição - chamado e escolhido pelo 
próprio Senhor. E bem provável que tenha sido um dos Setenta, alguém que 
acompanhou o Senhor Jesus durante todo o curso de Seu ministério. Essa era 
uma qualificação necessária para quem quisesse ser testemunha da ressurreição, 
segundo o que foi estabelecido por Pedro (Atos 1:20-26). Até onde sabemos, o 
nome de Matias não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento.
De acordo com algumas tradições antigas, ele pregou o Evangelho e 
sofreu martírio na Etiópia; outros acreditam que foi na Capadócia. Desse 
modo, aos grandes fundadores da Igreja foi designado passar da terra para o 
céu sem uma pena confiável que registrasse as suas obras, os seus últimos dias, 
as suas últimas palavras ou mesmo o local de descanso do corpo. Mas tudo 
está devidamente escrito no céu, e será mantido para lembrança eterna. Como 
os caminhos de Deus são maravilhosos e como são opostos aos caminhos dos 
homens!
A escolha desse apóstolo deu-se porsorteio - um antigo costume judeu. 
Os nomes dos candidatos foram colocados numa urna, e o de Matias foi retirado. 
Assim, ele se tornou um apóstolo divinamente escolhido: “Apresentaram dois: 
José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome o Justo, e Matias. E, orando, 
disseram: Tu, Senhor, conhecedor do coração de todos, mostra qual destes dois 
tens escolhido [...]. E, lançando-lhes sortes, caiu a sorte sobre Matias. E, por 
voto comum, foi contado com os onze apóstolos”. O método de lançar sortes era 
uma maneira de recorrer à decisão de Deus: “Arão lançará sortes sobre os dois 
bodes: uma sorte pelo SENHOR e a outra sorte pelo bode emissário”; “A sorte se 
lança no regaço, mas do SENHOR procede toda a sua disposição” (Levítico 16:8; 
Provérbios 16:33). E bom lembrar que os apóstolos ainda não haviam recebido o 
dom do Espírito Santo. Depois do dia de Pentecostes, esse procedimento nunca 
mais foi usado.
8 4 [ A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 4
Capítulo 5
O A p ó st o lo Pa u lo
^ “^ P ^ e n d o já descrito resumidamente a vida dos doze apóstolos, é natural
1 que cheguemos ao que pode ser chamado de o décimo terceiro 
apóstolo - o apóstolo Paulo.
No capítulo 3, falamos a respeito da “conversão” e do “apostolado” 
de Paulo'3. Agora iremos tentar traçar seu maravilhoso percurso, e examinar 
alguns aspectos distintivos de sua vida e obra. Mas, antes de tudo, reuniremos 
as informações que temos acerca dele.
A n t es de Sua C o n v er sã o
Fica evidente nas poucas linhas que temos na narrativa sagrada sobre a 
vida pregressa de Paulo que ele foi forjado de maneira notável, durante todo 
o período de estudos, para se tornar o que se tornaria, e para fazer o que lhe 
foi designado. Isso procedeu de Deus, que cuidou do desenvolvimento dessa 
maravilhosa mente desde a mais tenra infância (Gálatas 1:15). Nessa época, ele 
era conhecido como “Saulo de Tarso” - seu nome judeu, nome dado por seus 
pais judeus. Paulo era seu nome gentio. Portanto, iremos nos referir a ele como 
“Saulo” até que seja denominado “Paulo” pelo historiador sagrado.
Tarso era a capital da Cilicia e, como Paulo diz, “cidade não pouco 
célebre” (Atos 21:39), famosa por ser um local de intenso comércio e berço de
Páginas 53 e 55.
literatura. Os tutores tanto de Augusto e de Tibério, imperadores romanos, eram 
de Tarso. Mas ficou mais conhecida em todos os tempos por ser a cidade natal 
do grande apóstolo.
No entanto, apesar de ter nascido em uma localidade gentia, Saulo era 
“hebreu de hebreus”. Seu pai pertencia à tribo de Benjamim e à seita dos 
fariseus, mas estabeleceu-se em Tarso. Comprou a cidadania romana, e, por isso, 
seu filho pôde afirmar ao tribuno: “Eu o sou de nascimento” (Atos 22:28). Em 
Tarso, Saulo aprendeu a fazer tendas. Era um costume salutar entre os judeus 
ensinar a seus filhos algum ofício, ainda quando não houvesse muita perspectiva 
disso se tornar o ganha-pão deles.
Quando Paulo fez sua primeira defesa perante seus compatriotas 
(Atos 22), ele lhes disse que, embora tivesse nascido em Tarso, fora criado “aos 
pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais”. A História 
fala de Gamaliel como um dos mais eminentes doutores da lei; as Escrituras 
relatam que era moderado em suas opiniões e possuidor de grande sabedoria 
mundana. Mas o zelo perseguidor de seu pupilo contrasta fortemente com os 
conselhos do mestre pela busca da tolerância.
Na ocasião do martírio de Estevão, Saulo é descrito como um jovem 
que concordava com o que estava acontecendo e que guardava as roupas dos 
que apedrejavam o primeiro mártir da fé cristã. Supõe-se que sua conversão 
ocorreu por volta de dois anos após a crucificação de Jesus, mas a data exata é 
desconhecida.
Do relato de Atos 9 aprendemos que Saulo, após a conversão, não tardou 
em confessar aos que o rodeavam, sua fé em Cristo. “E esteve Saulo alguns dias 
com os discípulos que estavam em Damasco. E logo nas sinagogas pregava a 
Cristo, que este é o Filho de Deus” (w. 19-20). Esse novo testemunho é espe­
cialmente digno de nota. Pedro havia proclamado Jesus como Senhor e Cristo 
exaltado; Paulo o proclamava em Sua mais alta e pessoal glória: a de Filho 
de Deus. Mas o tempo para seu ministério público ainda não havia chegado, 
pois tinha de aprender muitas coisas, e, guiado pelo Espírito, ele se retira 
para a Arábia, permanecendo lá por três anos, retornando depois a Damasco 
(Gálatas 1:17).
Fortalecido e confirmado na fé durante seu retiro, ele prega com incrível 
ousadia, provando que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Os judeus, que daqui 
por diante seria seus impiedosos inimigos, em sua fúria guardavam os portões da 
cidade para matá-lo. Mas os discípulos o colocaram em um cesto e o desceram 
pelo muro (2 Coríntios 11:32-33). Então partiu para Jerusalém e, através do 
amigável testemunho de Barnabé, ele pôde ficar entre os discípulos. Maravilhoso 
e abençoado triunfo da graça soberana!
86 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 5
* * *
Á P r im e ir a V is ita de Sau lo a J erusalém 
(por volta de 39 d.C.)
O apóstolo agora está em Jerusalém - a santa cidade de seus antepassados, 
a capital da religião judaica, e o reconhecido centro do cristianismo, Mas como 
sua própria condição tinha sido alterada desde o começo da memorável jornada 
a Damasco!
A essa altura, temos que fazer uma pausa e olharmos por um momento 
para a respeitável cidade de Damasco. Ela está intimamente ligada à conversão, 
história e ministério de nosso apóstolo. Além disso, aparece repetidas vezes em 
toda a Escritura.
Damasco é supostamente a cidade mais antiga do mundo. De acordo 
com o historiador Josefo, ela foi fundada por Uz, filho de Arã, neto de Sem 
(Gênesis 10:23). E mencionada pela primeira vez nas Escrituras ligada ao nome 
de Abrão, cujo mordomo era um nativo desse lugar: “Então disse Abrão: Senhor 
DEUS, que me hás de dar, pois ando sem filhos, e o mordomo da minha casa é 
o damasceno Eliézer?” (Gênesis 15:2). Portanto, Damasco é uma conexão entre 
a era patriarcal e os tempos modernos. Sua beleza e opulência foram proverbiais 
por quatro mil anos. Os reis de Nínive, da Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma 
a conquistaram consecutivamente, mas a cidade prosperou sob cada dinastia, 
e sobreviveu a todas elas; porém Damasco deve seu resplendor e sua fama 
duradoura ao nome do apóstolo Paulo16.
Voltemos agora a Jerusalém. Após passar quinze dias com Pedro e Tiago, 
argumentando com os gregos, os irmãos “o acompanharam até Cesaréia, e o 
enviaram a Tarso. Assim, pois, as igrejas em toda a Judéia, e Galiléia e Samaria 
tinham paz, e eram edificadas; e se multiplicavam, andando no temor do Senhor 
e consolação do Espírito Santo” (Atos 9:30-31). Durante um tempo, o inimigo 
foi silenciado. A paz reinava por meio da bondade de Deus. A perseguição havia 
cumprido os propósitos de Sua graça. Os dois grandes elementos da bênção — o 
temor do Senhor e a consolação do Espírito Santo - prevaleciam nas assembléias. 
Andando no temor do Senhor e na consolação do Espírito Santo, elas eram 
edificadas e cresciam rapidamente em número.
Enquanto Saulo estava em Tarso, sua cidade natal, a boa obra do Senhor 
progredia muito em Antioquia. Entre os que foram dispersos pela perseguição
As D uas P rim eir a s V ia g en s d e Pa u l o j 8 7
16 Para os mais recentes e melhores relatos sobre a cidade e suas cercanias, indicamos Cinco Anos 
em Damasco, de Porter.
A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 5
desencadeada após a morte de Estêvão havia “alguns homens cíprios e cirenenses, 
os quais entrando em Antioquia falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus. 
E a mão do Senhor era com eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor” 
(Atos 11:19-21). Uma nova ordem de coisas se estabelece aqui. Até esse momento, 
o Evangelho não tinha sido pregado “senão somente aos judeus”. Quando a 
notícia dessa maravilhosa obra de Deus entre os gentios chegou a Jerusalém, 
Barnabé foi enviado a Antioquia pela igrejaem uma missão especial. “O qual, 
quando chegou, e viu a graça de Deus, se alegrou, e exortou a todos a que per­
manecessem no Senhor, com propósito de coração; porque era homem de bem e 
cheio do Espírito Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor” (19:23-24).
Conforme o trabalho crescia, Barnabé - sem dúvida impelido pela 
necessidade de ajuda - , pensou em Saulo; e, guiado pelo Senhor, partiu 
para encontrá-lo. Tendo achado Saulo, ambos foram para Antioquia, e ali 
trabalharam juntos “todo um ano”, tanto nas reuniões dos crentes, como entre 
o povo. Barnabé ainda detinha a liderança. Por isso, lemos “Barnabé e Saulo”. 
Mais adiante, a ordem muda e se registra “Paulo e Barnabé”.
Logo surge uma oportunidade para os jovens convertidos de Antioquia 
demonstrarem seu afeto para com os irmãos de Jerusalém. Um profeta “por 
nome Agabo, dava a entender pelo Espírito, que haveria uma grande fome em 
todo o mundo, e isso aconteceu no tempo de Cláudio César. E os discípulos 
determinaram mandar, cada um conforme o que pudesse, socorro aos irmãos 
que habitavam na Judéia. O que eles com efeito fizeram, enviando-o aos anciãos 
por mão de Barnabé e de Saulo” (11:28-30).
A S e g u n d a V is ita de S a u lo a Je ru sa lé m 
(por volta de 44 d.C.)
Encarregados desse serviço, Barnabé e Saulo vão a Jerusalém. Até 
então, Jerusalém era reconhecida como o centro da obra cristã, embora esta se 
estendesse rapidamente aos gentios. Mas a união estava preservada, e a conexão 
com a capital se fortalecia por meio da coleta enviada. Todavia, um novo centro, 
uma nova comissão, um novo caráter de poder relacionados à história da igreja 
surgem aqui diante de nós. Barnabé e Saulo, tendo cumprido a tarefa designada, 
retornam a Antioquia, levando com eles João, cujo era Marcos.
Atos 13 descortina um panorama inteiramente novo no que se refere à 
obra apostólica, e é proveitoso enfatizarmos essa mudança considerável. O grande 
fato a ser notado aqui é a posição que o Espírito Santo ocupa na separação e no 
envio de Barnabé e Saulo. Não é mais Cristo sobre a terra enviando os apóstolos
A s D uas P rim eir a s V ia g e n s d e Pa u l o
por Sua autoridade pessoal, mas, sim, o Espírito Santo. “Apartai-me a Barnabé 
e a Saulo para a obra a que os tenho chamado... E assim estes, enviados pelo 
Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre” (w. 2-4). 
E óbvio que a questão em pauta não é a mudança nem na autoridade nem no 
poder do Senhor ou do Espírito Santo, mas no método de ação dEles. O Espírito 
Santo na terra, ligado ao Cristo glorificado nos céus, agora se torna a fonte e 
o poder da obra que vemos, confiada a Barnabé e Saulo. Por isso, nesse ponto 
analisaremos a primeira viagem missionária de Saulo.
* * *
A P r im e ir a V iagem M issio n á r ia de S a u lo
(por volta de 48 d.C.)
E aqui, antes de partirmos com os apóstolos em sua jornada, temos de 
observar como tudo está mudado. Eles partem não do antigo centro, Jerusalém, 
mas de Antioquia, cidade gentia. Isso é significativo. Jerusalém e os doze 
perderam posição no que tange à autoridade exterior e ao poder. O Espírito 
Santo chama Barnabé e Saulo para a obra, os capacita e os envia sem a jurisdição 
dos doze.
Não se espera que em um livro, cujo conteúdo se propõe a ser resumido, 
possamos analisar detalhadamente todos os eventos ocorridos nas viagens de 
Paulo. O leitor poderá encontrá-los em Atos e nas epístolas. Tencionamos 
apenas traçar um esboço deles, e comentar certos marcos proeminentes, pelos 
quais o leitor será capaz de refazer os vários caminhos percorridos pelo maior 
dos apóstolos, o maior dos missionários, o maior dos servos que já viveu, exce­
tuando-se nosso maravilhoso Senhor. Mas, em primeiro lugar, observemos seus 
companheiros e o ponto de partida deles.
Barnabé foi por um tempo o companheiro mais constante de Saulo. Ele 
era levita, nascido na ilha de Chipre. Fora chamado cedo para seguir a Cristo, e 
“possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos 
apóstolos” (Atos 4:37). Comparando sua liberalidade com o belo testemunho 
que o Espírito Santo dá sobre ele, Barnabé nos é apresentado como um homem 
de caráter amoroso e extraordinário. E de seu imediato relacionamento com 
Saulo, e pela prontidão em apresentá-lo aos demais apóstolos, julgamos que era 
mais generoso e liberal que as pessoas educadas nas minúcias do judaísmo. No 
entanto, em termos de eficácia e determinação no serviço, ele perdia para seu 
companheiro Saulo.
A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 5
João Marcos era parente próximo de Barnabé - “o sobrinho de Barnabé” 
(Colossenses 4:10). Sua mãe era uma certa Maria que morava em Jerusalém, cuja 
casa parece ter sido um local de reunião para os apóstolos e primeiros cristãos. 
Quando Pedro foi libertado da prisão, seguiu direto para “casa de Maria, mãe 
de João, que tinha por sobrenome Marcos, onde muitos estavam reunidos e 
oravam” (Atos 12:12). Supõe-se que nessa ocasião tenha se convertido por 
meio da pregação de Pedro, pois este mais tarde se refere a ele como “meu filho 
Marcos” (1 Pedro 5:13).
Dessas passagens deduzimos que Marcos não era nem apóstolo nem um 
dos setenta discípulos, portanto, não havia acompanhado de perto o Senhor 
durante Seu ministério público. Mas podemos supor que estava ansioso para 
servir a Cristo, se juntando a Barnabé e Saulo, embora sua fé não estivesse à 
altura das tremendas dificuldades de uma vida missionária. “E, partindo de 
Pafos, Paulo e os que estavam com ele chegaram a Perge, da Panfília. Mas João, 
apartando-se deles, voltou para Jerusalém” (Atos 13:13). Marcos escreveu seu 
evangelho por volta de 63 d.C..
Antioquia, a antiga capital da Selêucia, foi fundada por Selêucio Nicator 
por volta de 300 a.C.. Era a segunda cidade em importância, perdendo apenas 
para Jerusalém, na história da igreja primitiva. O que Jerusalém havia sido 
para os judeus, Antioquia se tornou para os gentios. Era um ponto central. 
A partir desse momento, ela ocupou o principal lugar na propagação do cris­
tianismo entre os pagãos. Em Antioquia foi plantada a primeira igreja gentia 
(Atos 11:20-21). Foi ali também que os discípulos foram chamados pela primeira 
vez de cristãos (Atos 11:26). E onde, Saulo começou seu ministério público.
Agora retornemos à missão.
Barnabé e Saulo, acompanhados por João Marcos, são enviados pelo 
Espírito Santo. Os judeus, por causa da ligação deles com as promessas divinas, 
foram os primeiros a ouvir a pregação do Evangelho; mas a conversão de Sérgio 
Paulo assinala, de maneira especial, o início da obra entre os gentios. Assinala 
também uma crise, uma mudança na história de nosso apóstolo. Aqui seu nome 
é mudado de Saulo para Paulo e agora - exceto em Listra e Jerusalém (Atos 
14:14; 15:12-22), não é mais “Barnabé e Saulo”, mas “Paulo e seus companhei­
ros”. Ele toma a liderança; os outros são apenas os que o acompanham. Mas esse 
cenário também tem um caráter distinto.
O proconsul evidentemente era um homem cuidadoso, prudente e sentia 
a necessidade de sua alma. Ele chamou Barnabé e Saulo, pois desejava ouvir 
a Palavra de Deus. Mas Elimas, o encantador, se opunha a eles. Sabia muito 
bem que se o governador cresse na verdade que Paulo pregava, ele perderia sua
influência na corte. Portanto, procurava afastar Sérgio Paulo da fé. Mas Paulo, na 
plena dignidade e poder do Espírito Santo, “fixando os olhos nele”, com palavras 
esmagadoras, o repreendeu na presença do governador. “O filho do diabo, cheio 
de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás 
de perturbar os retos caminhos do Senhor? Eis aí, pois, agora contra ti a mão 
do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo... Então o proconsul, 
vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado da doutrina do Senhor” (Atos 
13:7-12). O impressionante poder de Deus acompanhava a palavra de Seu servo, 
e a sentença pronunciada é executada de imediato. Sérgio Paulo é dominado pela 
glóriamoral da cena, e se rende ao Evangelho.
Certo autor escreveu o seguinte: “Eu não tenho dúvidas que no ímpio 
Barjesus vemos uma figura dos judeus da atualidade, esmagados por uma 
cegueira temporária, devido à inveja da abrangência do Evangelho. Para 
completarem a medida da iniquidade deles, resistem que ele seja pregado aos 
gentios. A condição deles está julgada; a história deles demonstrada na missão de 
Paulo. Contrários à graça e tentando aniquilar os efeitos dela sobre os gentios, os 
judeus têm sido afligidos com cegueira; embora, apenas por um tempo”17.
Durante sua primeira missão entre os gentios, uma grande e magnífica 
obra foi realizada. Compare Atos 13 e 14. Muitos lugares foram visitados, 
igrejas foram plantadas, anciãos foram designados, a hostilidade dos judeus se 
manifestou, e o poder do Espírito Santo ficou patente no impacto e no progresso 
da verdade. Em Listra, o cristianismo foi confrontado pela primeira vez com o 
paganismo; mas em todos os lugares o evangelho triunfou, e os diversos dons 
de Paulo como obreiro brilharam de maneira abençoada. Quer se dirigindo aos 
judeus, os quais conheciam as Escrituras, ou a bárbaros ignorantes, ou aos cultos 
gregos, ou a multidões furiosas, ele provou ser um vaso escolhido e talhado 
divinamente para tão imensa obra.
Antioquia, na Pisídia, é digna de uma menção específica pelos fatos que 
aconteceram na sinagoga. Embora haja uma semelhança nos discursos de Paulo, 
de Pedro e de Estevão nos primeiros capítulos de Atos, podemos descobrir aqui 
certas marcas características de Paulo. Seu estilo conciliatório, a maneira com a 
qual apresenta Cristo, e sua ousada proclamação da justificação pela fé podem 
ser consideradas típicas de seus discursos e epístolas. Nenhum escritor sagrado 
fala da justificação pela fé como Paulo o faz. Sua tocante abordagem faz desse 
um dos textos bíblicos favoritos dos pregadores de todos os tempos. Em poucas 
palavras, ele descreve as bênçãos de todos os que recebem a Cristo, e o horrendo 
destino dos que O rejeitam; provando que não existe meio-termo ou terreno
A s D uas P rim eir a s V ia g en s d e Pa u l o )
Sinopse dos Livros da Bíblia, por J. N. DARBY.
neutro quando Cristo é a questão. “Seja-vos, pois, notório, homens irmãos, que 
por este se vos anuncia a remissão dos pecados. E de tudo o que, pela lei de 
Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê. 
Vede, pois, que não venha sobre vós o que está dito nos profetas: Vede, ó des- 
prezadores, e espantai-vos e desaparecei; porque opero uma obra em vossos dias, 
obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” (Atos 13:38-41).
O efeito que a primeira missão de Paulo causou sobre os discípulos de 
Jerusalém levou a uma grande crise na história da Igreja. A inveja das mentes 
farisaicas ficou tão excitada que uma divisão entre Jerusalém e Antioquia 
ameaçou esse primeiro período da história da Igreja. Mas Deus agiu em graça e a 
questão com Antioquia foi rapidamente resolvida. Porém o fanatismo dos crentes 
judeus era insuperável. Na própria igreja em Jerusalém eles ainda ligavam o cris­
tianismo às exigências da Lei, e procuravam impor isso aos crentes gentios.
Alguns dos mais fanáticos desceram a Antioquia e afirmaram para 
os novos convertidos que, a menos que se circuncidassem de acordo com os 
preceitos de Moisés e guardassem a Lei, jamais poderiam ser salvos. Paulo e 
Barnabé discutiram muito com eles; mas esse era um ponto significativo demais 
para ser solucionado pela autoridade apostólica de Paulo, ou apenas por uma 
resolução da igreja de Antioquia. Portanto, ficou acertado que uma delegação 
deveria ir a Jerusalém e expor a questão diante dos doze apóstolos e dos anciãos 
de lá. A escolha naturalmente recaiu sobre Paulo e Barnabé, por serem os mais 
ativos na propagação do cristianismo entre os gentios. E assim chegamos à
* * *
A T e r c e ir a V is ita de P a u lo a Je ru sa lé m 
(por volta de 50 d.C.)
Quando chegaram a Jerusalém encontraram a mesma coisa, não apenas 
nas mentes de uns poucos irmãos, mas no seio da própria Igreja. A fonte dos 
problemas não estava entre os judeus incrédulos, mas entre os que professavam 
o nome de Jesus. “Alguns, porém, da seita dos fariseus, que tinham crido, se 
levantaram, dizendo que era mister circuncidá-los e mandar-lhes que guardassem 
a lei de Moisés” (Atos 15:5). Essa afirmação trouxe todo o assunto à tona — com 
veemência -, e deu início a importantes deliberações. O capítulo 15 contém o 
relato do que ocorreu e de como a questão foi resolvida. Os apóstolos, anciãos, e 
todo o grupo da igreja em Jerusalém não somente estavam presentes unidos com 
um mesmo propósito, como também participaram da discussão. Os apóstolos
92 | A H is t ó r ia da Ig r e ja - capítulo 5
não assumiram nem exerceram o poder exclusivo sobre o assunto. Esse é 
geralmente chamado de “O Primeiro Concílio da Igreja”, mas também pode ser 
chamado de o último concílio da Igreja, o qual introduziu suas resoluções com 
as palavras: “Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (v. 28).
Muitos, segundo as modernas noções de “essencial e não-essencial”, dirão 
que o simples fato de circuncidar ou não uma criança não era relevante. Mas 
tinha importância decisiva de acordo com a mente de Deus. Era uma questão 
vital. Afetava os próprios fundamentos do cristianismo, os insondáveis princípios 
da graça, e toda a questão do relacionamento dos homens com Deus. A epístola 
de Paulo aos gálatas é um comentário sobre isso.
Não havia nenhuma cerimônia ou rito que um judeu convertido relutasse 
mais em abrir mão que a circuncisão. Ela era um selo de seu próprio relacio­
namento com SENHOR, e das bênçãos hereditárias da aliança para seus filhos. 
Uma opinião recorrente é que o batismo infantil foi introduzido na igreja para 
satisfazer esse forte preconceito judeu. Mas se o Senhor desejasse manter essa 
prática, o concílio em Jerusalém seria o lugar ideal para reafirmá-la. Isso iria 
eliminar completamente a dificuldade, resolver a questão e restaurar a paz 
e a unidade entre as duas congregações irmãs. Mas nenhum dos apóstolos 
mencionou isso.
Antes de virarmos a página dessa importante e sugestiva parte da história 
de nosso apóstolo, seria bom tratarmos de certos fatos que ele expõe em Gálatas 
capítulo 2, e não relatados em Atos. Foi nessa ocasião que Paulo viajou devido a 
uma revelação, levando Tito consigo. Em Atos temos o relato exterior de Paulo se 
curvando às motivações, desejos e objetivos dos homens; em Gálatas temos algo 
mais profundo, que regia o coração do apóstolo. Mas Deus sabe como combinar 
as circunstâncias exteriores com a orientação interior do Espírito Santo. O tema 
aqui era a liberdade cristã ou a escravidão legalista: se a lei de Moisés - e em 
particular a circuncisão - teria de ser imposta aos gentios convertidos. Paulo, 
guiado por Deus, vai a Jerusalém e leva Tito. Diante dos doze apóstolos, e de 
toda a igreja, ele apresenta Tito, um grego incircunciso. Introduzir um gentio, 
não circuncidado, ao coração do judaísmo intolerante foi um ato ousado! Mas 
o apóstolo foi a Jerusalém por revelação. Ele tinha instruções positivas de Deus 
quanto ao assunto. Esse foi o meio divino de decidir a querela, definitivamente, 
entre ele mesmo e os cristãos judaizantes. Tal passo foi necessário, como ele disse, 
“por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a 
espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão; 
aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade 
do evangelho permanecesse entre vós” (Gálatas 2:4).
A s D uas P r im eir a s V ia g e n s d e Pa u l o | 93
O apóstolo, tendo atingido seu principal objetivo e lhes comunicado 
seu evangelho em Jerusalém, parte com Barnabé e retorna aos cristãos gentios 
de Antioquia. Os dois companheiros, Judas e Silas, trazendo as resoluções do 
concílio, os acompanharam. Quando a multidão dos discípulos se reuniu eouviu 
o conteúdo da epístola, todos se alegraram e foram confortados.
Encerremos o primeiro concílio apostólico e a primeira controvérsia 
apostólica. E, do que extraímos disso em Atos, poderíamos concluir que a divisão 
entre os cristãos judeus e gentios foi completamente sanada pela decisão da 
assembléia; porém, as epístolas nos mostram que a oposição do grupo judaizante 
contra a liberdade dos cristãos gentios jamais arrefeceu. Logo iria se manifestar 
novamente, e Paulo teve de enfrentá-la e combatê-la constantemente.
A Se g u n d a V iag em M is s io n á r ia de Pau lo 
(cerca de 51 d.C.)
Depois de Paulo e Barnabé terem passado algum tempo com a igreja em 
Antioquia, outra viagem missionária foi proposta. “E alguns dias depois, disse 
Paulo a Barnabé: Tornemos a visitar nossos irmãos por todas as cidades em que 
já anunciamos a palavra do Senhor, para ver como estão. E Barnabé aconselhava 
que tomassem consigo a João, chamado Marcos. Mas a Paulo parecia razoável que 
não tomassem consigo aquele que desde a Panfília se tinha apartado deles e não 
os acompanhou naquela obra. E tal contenda houve entre eles, que se apartaram 
um do outro. Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre. E Paulo, 
tendo escolhido a Silas, partiu, encomendado pelos irmãos à graça de Deus. E 
passou pela Síria e Cilicia, confirmando as igrejas” (Atos 15:36-41).
Em uma jornada tão importante, tão cheia de dificuldades, que exigia 
coragem e perseverança, segundo a opinião de Paulo, eles não poderiam confiar 
em Marcos como companheiro de viagem. Paulo não conseguia desculpar 
alguém cujos laços familiares o tornaram infiel no cumprimento do serviço 
do Senhor. Quando a obra de Cristo estava em pauta, o apóstolo abria mão de 
todos os sentimentos e desejos pessoais, e queria que os outros fizessem o mesmo. 
Nessa oportunidade, a afeição natural pode ter compelido Barnabé a forçar 
seu sobrinho a acompanhá-los no ministério; mas o que caracterizava Paulo 
era uma total sinceridade. Os laços e relacionamentos humanos ainda tinham 
grande influência sobre o caráter compassivo de Barnabé. Isso fica evidente na 
atitude dele em Antioquia por ocasião da dissimulação de Pedro quando vieram 
os judaizantes de Jerusalém (Gálatas 2). A propagação do Evangelho em um 
mundo hostil era muito sagrada aos olhos de Paulo para que ele admitisse expe­
94 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 5
rimentos. Marcos preferiu Jerusalém ao ministério; Silas preferiu o ministério 
a Jerusalém. Esse foi o fator preponderante na escolha de Paulo, embora, sem 
dúvida, ele tenha sido guiado pelo Espírito Santo.
Barnabé leva Marcos, seu parente, e navega para Chipre, sua terra natal.
E aqui nos separamos de Barnabé, amado, santo e precioso servo de Cristo! Seu 
nome não é mencionado novamente em Atos. As palavras “parente” e “terra 
natal” têm de falar por si mesmas ao coração de cada leitor compreensivo destas 
páginas. Se meditarmos nessa dolorosa cena, ao invés de darmos um mero 
resumo da grande história, teremos muito a dizer sobre o assunto. Por hora, 
nos contentemos com duas reflexões: 1) Isso foi administrado de tal maneira 
que redundou em bênção para os gentios, pois as águas da vida agora fluiriam 
em duas direções, e não em uma só. Contudo, foi a bondade de Deus, e não 
significa aprovação às divisões dos cristãos; 2) Paulo fala posteriormente de 
Barnabé com total afeição, e deseja que Marcos viesse ao seu encontro, pois era 
útil para o ministério (1 Coríntios 9:6; 2 Timóteo 4:11). Não temos dúvida que 
a fidelidade de Paulo se tornou uma bênção para ambos. Mas o mel das afeições 
humanas jamais pode ser aceito no altar de Deus.
Tendo sido recomendados à graça de Deus pelos irmãos, eles partiram. 
Tudo é maravilhosamente simples. Nenhum desfile ou parada é feito pelos 
amigos na despedida, e nenhuma promessa é feita por eles mesmos quanto 
ao que estavam determinados a fazer. “Tornemos a visitar nossos irmãos” são 
palavras simples e modestas que conduziram Paulo à segunda e grande viagem 
missionária. O Mestre estava cuidando de Seus servos e providenciando tudo 
para eles. Não tiveram de ir muito longe para descobrir um novo companheiro: 
Timóteo, em Listra. Este supriu a lacuna deixada por Barnabé. Se Paulo perdeu 
a comunhão de Barnabé como amigo e irmão, encontrou em Timóteo, seu filho 
na fé, uma afeição e companheirismo que se encerrou somente com a morte 
do apóstolo. “Paulo quis que este fosse com ele”, mas antes, “tomando-o, o 
circuncidou, por causa dos judeus que estavam naqueles lugares; porque todos 
sabiam que seu pai era grego” (Atos 16:3). Paulo, nesta ocasião, se rendeu aos 
preconceitos dos judeus, e circuncida Timóteo.
Timóteo era fruto de uma daquelas uniões mistas, fortemente condenadas 
tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos. Seu pai era gentio, cujo nome 
nunca é mencionado. Sua mãe era uma judia piedosa. Supõe-se, a partir da 
ausência de qualquer referência tanto em Atos quanto nas epístolas, que o pai de 
Timóteo tenha morrido quando este ainda era criança. A educação de Timóteo 
foi evidentemente deixada a cargo de sua mãe Eunice, e de sua avó Lóide, que 
o ensinaram as Sagradas Escrituras. E das muitas alusões nas epístolas paulinas 
à ternura, à sensibilidade e às lágrimas de seu amado filho na fé, acreditamos
A s D uas P rim eir a s V ia g en s d e Pa u lo | 95
que ele manteve durante a vida inteira as marcas amorosas, santas e nobres de 
seu lar. O maravilhoso amor de Paulo por Timóteo, as doces lembranças do 
lar deste em Listra, e seu treinamento inicial ali foram o tema de algumas das 
mais tocantes passagens nos escritos do grande apóstolo. Quando já velho - na 
prisão, em necessidade e com o martírio diante de si-, ele escreve: “A Timóteo, 
meu amado filho: Graça, misericórdia, e paz da parte de Deus Pai, e da de 
Cristo Jesus, Senhor nosso. Dou graças a Deus, a quem desde os meus antepas­
sados sirvo com uma consciência pura, de que sem cessar faço memória de ti 
nas minhas orações noite e dia; desejando muito ver-te, lembrando-me das tuas 
lágrimas, para me encher de gozo; trazendo à memória a fé não fingida que em 
ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Lóide, e em tua mãe Eunice, e estou 
certo de que também habita em ti” (2 Timóteo 1:2-5). Ele anseia, e repete seu 
urgente convite para que Timóteo vá vê-lo. “Procura vir ter comigo depressa... 
Procura vir antes do inverno” (2 Timóteo 4:9 e 21). Cremos que a um filho 
tão amado assim foi permitido chegar a tempo de amenizar as últimas horas de 
seu pai em Cristo, receber os últimos conselhos e bênçãos, e testemunhar Paulo 
terminando sua carreira com alegria.
Silas, ou Silvano, aparece diante de nós primeiro como um mestre na 
igreja em Jerusalém; e provavelmente era um helenista e também cidadão 
romano, como o próprio Paulo (Atos 16:37). Ele foi apontado como um repre­
sentante para acompanhar Paulo e Barnabé no retorno a Antioquia com as 
resoluções do concílio. Porém, muitos detalhes da vida de Timóteo e de Silas 
surgirão naturalmente ao traçarmos o caminho do apóstolo, e, portanto, nada 
mais precisamos acrescentar no momento. Prossigamos com a jornada.
Paulo e Silas, com seu novo companheiro, “passando pelas cidades, lhes 
entregavam, para serem observados, os decretos que haviam sido estabelecidos 
pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém” (Atos 16:4). Os decretos eram deixados 
com as igrejas, para que os judeus conferissem a decisão dos líderes em Jerusalém 
de não impor a lei aos gentios. Após visitar e confirmar as igrejas já plantadas 
na Síria e Cilicia, eles viajaram pela “Frigia e pela província da Galácia”. Aqui 
faremos uma pausa e nos deteremos nessas palavras: “pela Frigia e pela província 
da Galácia”. Ambas não eram meras cidades, mas sim províncias, ou grandes 
distritos do país. E, apesar disso, Lucas usou poucas palavras para relatar a 
enorme obra feita ali. Como é diferente o estilo condensado do Espírito Santo 
do estilo enfatuado do homem! Estima-se que no séculoVI a.C., segundo alguns 
historiadores, havia 62 cidades somente na província da Frigia! E ao que parece, 
Paulo e os que com ele estavam percorreram todas elas.
As mesmas observações quanto à obra se aplicam à Galácia. E sabemos a 
partir do estudo da epístola aos gálatas que nessa ocasião Paulo estava sofrendo
96 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 5
As D uas P rim eir a s V ia g e n s d e Pa u lo
fisicamente. “E vós sabeis que primeiro vos anunciei o evangelho estando em 
fraqueza da carne.” Mas o poder de sua pregação contrastava tão fortemente com 
a debilidade de seu corpo que os gálatas foram movidos à uma simpatia e genero­
sidade singulares. “E não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação 
na minha carne, antes me recebestes como um anjo de Deus, como Jesus Cristo 
mesmo. Qual é, logo, a vossa bem-aventurança? Porque vos dou testemunho 
de que, se possível fora, arrancaríeis os vossos olhos, e mos daríeis” (Gálatas 
4:13-15). Os gálatas tinham origem celta, eram impulsivos e inconstantes18. A 
epístola inteira é uma deprimente ilustração da instabilidade deles e dos terríveis 
efeitos do grupo de judaizantes. “Maravilho-me de que tão depressa passásseis 
daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho; o qual não é 
outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de 
Cristo.” Retornemos agora à história em Atos.
O caráter e os resultados da ministração de Paulo, relatados nos capítulos 
16 a 20 dos Atos, são realmente maravilhosos. Impares na História. Todo servo 
de Cristo, e especialmente os pregadores deveriam estudá-los e relê-los com 
frequência. “O vaso do Espírito”, como alguém disse, “brilha com a luz celestial 
por toda obra do evangelho: ele condescende em Jerusalém, troveja na Gálacia 
quando as almas estavam sendo corrompidas, leva os apóstolos a decidir pela 
liberdade dos gentios, e ele mesmo usa toda a liberdade para ser judeu com os 
judeus, para os que não tinham lei como se ele também não tivesse, sempre 
sujeito a Cristo. Ele também tinha uma consciência” sem ofensa, tanto para 
com Deus como para com os homens” (Atos 24:16). Nada dentro dele impedia 
sua comunhão com. Deus, da qual Paulo extraía suas forças para ser fiel entre os 
homens. O apóstolo podia afirmar com toda confiança: “Sede meus imitadores, 
como também eu de Cristo” (1 Coríntios 11:1). E também podia dizer: 
“Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem 
a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” (2 Timóteo 2:10)19.
O modo como o Espírito lida com o apóstolo nesses capítulos também 
é notável. Somente Ele o direciona nessa maravilhosa jornada, e o sustenta em 
meio a várias provações e circunstâncias adversas. Por exemplo, Ele proíbe Paulo 
de pregar a Palavra na Ásia - não o permitindo ir à Bitínia, mas orienta Seu servo 
por uma visão a se dirigir para a Macedônia. “E Paulo teve de noite uma visão, 
em que se apresentou um homem da Macedônia, e lhe rogou, dizendo: Passa 
à Macedônia, e ajuda-nos. E, logo depois desta visão, procuramos partir para 
a Macedônia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o
18 História do Novo Testamento, de Smith.
19 Sinopse dos Livros dã Bíblia, por J. N. DARBY.
evangelho. E, navegando de Trôade, fomos correndo em caminho direito para a 
Samotrácia e, no dia seguinte, para Neápolis; e dali para Filipos, que é a primeira 
cidade desta parte da Macedônia, e é uma colônia; e estivemos alguns dias nesta 
cidade” (Atos 16:9-12).
Pau lo leva o Ev a n g elh o 
para a Euro pa
Isso marca um novo período na história da Igreja, na história de Paulo, e no 
progresso do cristianismo. Paulo e seus companheiros agora levam o Evangelho 
para a Europa. E aqui queremos pedir desculpas aos nossos leitores, pois vamos 
parar por um momento e relembrar alguns interessantes fatos históricos sobre os 
conquistadores macedônicos e suas conquistas. Vamos descansar na planície de 
Filipos, famosa também na história romana. A grande luta entre a república e 
o velho império havia terminado. Para comemorar tal evento, Augusto fundou 
uma colônia em Filipos. Essa foi a primeira cidade na qual Paulo entrou em sua 
chegada à Europa. É chamada de “primeira cidade desta parte da Macedônia, 
e é uma colônia”. Uma colônia romana era caracteristicamente uma miniatura 
de Roma; e Filipos era o local adequado, mais que qualquer outro no império, 
para ser considerado como um representante da Roma imperial.
Para muitos de nossos jovens e curiosos leitores, essa pequena digressão 
parecerá tediosa. Porém, o conhecimento de tais histórias é útil para os estudantes 
da profecia, pois são o cumprimento das visões de Daniel, especialmente do 
capítulo 7. A cidade de Filipos era em si mesma um monumento ao poder 
grego emergente, que estava esmagando o poder persa em declínio. Os gregos a 
chamavam de “Crenides”. Alexandre, o Grande, filho de Filipe, foi o conquista­
dor do grande rei Dario. O “Leopardo” da Grécia venceu o “Urso” da Pérsia20.
Ao olharmos para a época em que Paulo navegou da Ásia para a Europa, 
já haviam se passado cerca de quatro séculos desde que Alexandre navegara da 
Europa para a Ásia. Mas como eram opostas as motivações e os objetivos, os 
conflitos e as vitórias de cada um deles! O entusiasmo de Alexandre se devia às 
lembranças de seus antecessores, e por sua determinação em subverter as grandes 
dinastias do oriente, mas, inconsciente e involuntariamente, ele estava cumprindo 
os propósitos de Deus. Paulo tinha cingido sua armadura com outra intenção, e 
para obter maiores e mais duradouras vitórias. Ele foi enviado pelo Espírito Santo, 
não apenas para conquistar o ocidente, mas para trazer o mundo inteiro cativo
98 I A H is t ó r ia da Ig r e ja - capítulo 5
20 Notas no Livro de Daniel, por W. KELLY.
A s D uas P rim eir a s V ia g en s d e Pa u lo j 9 9
à obediência de Cristo. O cristianismo não é para uma nação ou povo somente, 
mas para todos os indivíduos do planeta. O próprio Paulo expressou isso em 
Colossenses 1:28: “Cristo... a quem anunciamos, admoestando a todo o homem, 
e ensinando a todo o homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo o 
homem perfeito em Jesus Cristo”. Essa é a missão e a abrangência do Evangelho.
Mas há outra coisa que temos de apreciar antes de continuarmos com a 
jornada de Paulo.
Lucas, o “médico amado”, historiador e evangelista, parece ter se juntado 
a Paulo nesse momento em particular. Do versículo 10 em diante, ele escreve 
na primeira pessoa do plural: “E, logo depois desta visão, procuramos partir para 
a Macedônia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o 
evangelho”. Supõe-se que era gentio e tenha se convertido em Antioquia. Ao 
que tudo indica, ele também permaneceu um fiel companheiro do apóstolo até 
o final dos labores e das aflições deste (2 Timóteo 4:11).
O s Efeito s da Pregaçã o de Pau lo 
em F ilip o s
O número de judeus em Filipos provavelmente era pequeno, pois não 
havia nenhuma sinagoga ali. Mas o apóstolo, como de costume, vai primeiro 
a eles, mesmo que “eles” fossem um grupo de poucas mulheres reunido na 
margem do rio (Atos 16). Paulo prega para elas, Lídia se converte, a porta é 
aberta, e outros também crêem. Aquele era um lugar simples, e para aquelas 
mulheres piedosas o Evangelho foi pregado pela primeira vez na Europa e ali foi 
batizada a primeira família21. Mas esse tranquilo começo e os calmos triunfos 
logo iriam ser transtornados pela malícia de Satanás e a avareza do homem. O 
Evangelho não avançaria fácil e confortavelmente em meio ao paganismo, mas 
com grande oposição e sofrimento.
Quando o apóstolo e seus companheiros iam para um lugar onde se 
costumava fazer orações, uma moça possessa de espírito maligno os seguia, e 
gritava, dizendo: “Estes homens, que nos anunciam o caminho da salvação,
21 “A ação do Espírito Santo no tocante à família parece ter sido notável entre os gentios; já 
entre os judeus, até onde sei,não ouvimos falar disso. Encontramos, porém, distritos judeus 
e também samaritanos que foram poderosamente marcados (para dizer o mínimo) pelo 
Evangelho. No entanto, entre os gentios, famílias parecem ter sido visitadas pela graça divina, 
segundo os registros do Espírito. A casa de Cornélio, a do carcereiro filipense, a de Estéfanas, 
e muitas outras. Isso é extremamente encorajador - especialmente para nós.” Extraído de 
Estudos Introdutórios aos Atos dos Apóstolos, de W. KELLY.
são servos do Deus Altíssimo”. No início, Paulo a ignorou. Continuava seu 
abençoado trabalho de pregar a Cristo e ganhar almas para Ele. Mas a pobre 
escrava persistia em segui-los, gritando a mesma coisa. Isso era uma tentativa 
maliciosa do inimigo de atrapalhar a obra de Deus colocando a ênfase nos 
ministros da Palavra. Observe que ela não deu testemunho de “Jesus” ou do 
“Senhor”, mas de Seus “servos” e do “Deus altíssimo”. Paulo não queria um 
testemunho para si mesmo, muito menos um vindo de um espírito maligno. Ele 
“perturbado, voltou-se e disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, te mando 
que saias dela. E na mesma hora saiu”.
Como a jovem não mais podia continuar a adivinhar, seus donos se viram 
privados dos lucros que ela dava. Irados com a perda de dinheiro, e reunindo 
a multidão a seu favor, eles prenderam Paulo e Silas e os arrastaram à presença 
dos magistrados. Apesar de saber que não havia acusação real contra os cristãos, 
eles suscitaram a velha desculpa de “perturbação da paz”, ou seja, que Paulo e 
Silas estavam tentando introduzir costumes judeus em uma colônia romana, 
ensinando práticas contrárias às leis de Roma. E, como tem acontecido desde 
então, o clamor da multidão foi aceito. Não houve qualquer evidência, exame 
ou deliberação. Os magistrados, sem nenhuma averiguação, ordenaram que eles 
fossem açoitados publicamente e lançados na prisão. E, como era de se esperar, 
esses abençoados servos de Deus, feridos, fracos e sangrando, foram entregues 
aos cuidados de um carcereiro cruel, o qual aumentou o sofrimento deles ao 
lhes prender os pés no tronco. Porém, em vez de se sentirem deprimidos pelos 
sofrimentos físicos e pela prisão, eles se alegraram de terem sido considerados 
dignos de sofrerem vergonha e dor por amor a Cristo. E, em vez do silêncio da 
meia-noite ser quebrado pelos suspiros e gemidos dos prisioneiros, “Paulo e Silas 
oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam”.
Se Satanás tem à disposição inúmeros recursos para exercer sua obra 
maligna, Deus tem à disposição infinitos recursos para exercer Sua boa obra. 
Nessa ocasião, Ele faz uso de tudo o que aconteceu para direcionar o progresso 
da obra do Evangelho, e para cumprir os propósitos de Seu amor. O carcereiro 
se converteria, a igreja seria reconfortada, e um testemunho seria estabelecido 
no coração do paganismo. A meia-noite, enquanto Paulo e Silas cantavam, e 
os prisioneiros ouviam esse som incomum, houve um grande terremoto. Deus 
entrou em cena com majestade e graça. Ele ergue sua voz e a terra treme: as 
paredes da prisão foram sacudidas, as portas se escancararam, e as algemas de 
todos os presos caíram. E agora, o que significam os grilhões e as cadeias? As 
legiões romanas? O que é o poder do inimigo? A voz de Deus é ouvida na 
tempestade (Salmo 29): mas a violência do turbilhão é substituída pela doce voz 
do Evangelho e pela paz celestial.
I
100 | A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 5
A s D uas P r im eir a s V ia g en s df. Pa u lo
Acordado repentinamente pelo terremoto, a primeira coisa que o carcereiro 
pensou foi nos prisioneiros sob sua tutela. Desesperado por ver as portas abertas, 
e imaginando que todos haviam fugido, ele desembainhou sua espada para se 
matar. “Mas Paulo clamou com grande voz, dizendo: Não te faças nenhum mal, 
que todos aqui estamos.” Essas palavras amorosas quebrantaram o coração do 
carcereiro. A serenidade de Paulo e Silas, a recusa deles em aproveitar a opor­
tunidade para escapar, a preocupação de ambos com o bem-estar do carrasco, 
tudo isso combinado fez aquele atordoado homem considerá-los seres de uma 
classe superior. Ele largou sua espada, pediu luz, entrou no cárcere interior; e, 
tremendo, se prostrou aos pés do apóstolo. A consciência dele foi tocada, seu 
coração quebrantado, e sua alma foi agitada com a violência de um terremoto. Ele 
se colocou na posição de pecador perdido, e clamou: “Senhores, que é necessário 
que eu faça para me salvar?”. Ele não diz como o doutor da lei: “Senhores, que 
farei para herdar a vida eterna?” (Lucas 10:25). Esse homem não questionou 
nada sobre fazer alguma coisa para obter vida-, ele perguntou sobre a salvação do 
perdido. O mestre da lei, como a maioria das pessoas, não se reconhecia como 
pecador perdido, pois não quis saber nada acerca da salvação.
Em resposta à pergunta mais importante feita por lábios humanos, 
“Que farei para herdar a vida eterna?”, o apóstolo direciona os pensamentos do 
carcereiro para Cristo: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa”. 
Deus concedeu Sua bênção, e toda a casa daquele homem creu, se alegrou, e 
foram batizados. E a partir de então tudo mudou; o carcereiro levou os prisio­
neiros para sua própria casa - a crueldade deu lugar ao amor, à compaixão, e à 
hospitalidade. Na mesma hora, ele lavou os vergões de Paulo e Silas, lhes deu 
comida, e se alegrou, crendo em Deus. Que noite agitada! Que transformação 
em tão pouco tempo! Que maravilhoso amanhecer para aquela família! A Deus 
toda a glória!
Como o rei Dario, os magistrados parecem ter tido uma noite incômoda. 
Talvez as notícias sobre o terremoto chegaram até eles, ou sobre a cidadania 
romana de Paulo e Silas. Seja como for, assim que o dia raiou, eles mandaram 
uma ordem ao carcereiro para que os soltasse. Este imediatamente os fez saber 
das novidades, e queria os despedir em paz. Mas Paulo se recusou a aceitar a 
liberdade sem o reconhecimento público do erro de que fora vítima. Também 
revelou que ele e Silas eram cidadãos romanos. As famosas palavras de Cícero 
se tornaram um provérbio, e tinham um peso enorme em todo o império: 
“Acorrentar um cidadão romano é um ultraje, açoitá-lo é um crime”. Os 
magistrados evidentemente haviam violado a lei romana. Paulo exigiu que, 
assim como ele e Silas tinham sido publicamente tratados como criminosos, os 
magistrados deveriam publicamente se retratar e declará-los inocentes. A última
parte os magistrados fizeram, percebendo o erro que cometeram. “E, vindo, lhes 
dirigiram súplicas; e, tirando-os para fora, lhes pediram que saíssem da cidade.” 
Paulo e Silas prontamente concordaram com o pedido das autoridades, saíram 
da prisão, foram à casa de Lídia, e, ao acabar de ver e confortar os irmãos, 
deixaram a cidade..
Antes de deixarmos para trás esse memorável capítulo de Atos, somente 
podemos acrescentar que é muito gratificante encontrar provas do vínculo que 
unia o apóstolo e os irmãos dessa cidade, o qual permaneceu desde o “princípio 
do evangelho” até a prisão de Paulo em Roma, conforme registrado na Epístola 
aos Filipenses. Seu afeto pelos amados filipenses era enorme. Paulo se dirigia a 
eles como “meus amados e mui queridos irmãos, minha alegria e coroa, estai 
assim firmes no Senhor, amados” (4:1). E reconhece, com grande regozijo, a 
incansável comunhão mútua que possuíam no evangelho, e as muitas provas 
práticas do amor e da afinidade para consigo. Quando o apóstolo ficou durante 
um período em Tessalônica, os filipenses se preocuparam com as necessidades 
dele. “Porque também uma e outra vez me mandastes o necessário a Tessalônica” 
(Filipenses 4:15-19).
Pa u lo em T essa lô n ic a e em B eréia
Paulo e Silas agora rumam para Tessalônica. Timóteo e Lucas parecem 
ter ficado um pouco mais em Filipos. Passando por Anfípolis e Apolônia, Paulo 
e Silas chegaram a Tessalônica, onde encontraram uma sinagoga. Tessalônica era 
uma cidade comercial de grande importância, na qual moravam muitos judeus. 
“E Paulo,como tinha por costume, foi ter com eles; e por três sábados disputou 
com eles sobre as Escrituras.” O coração de muitos foi tocado por sua pregação; 
uma grande multidão de gregos piedosos e de mulheres da sociedade creu. Mas os 
velhos inimigos de Paulo surgiram em cena novamente. “Mas os judeus desobe­
dientes, movidos de inveja, tomaram consigo alguns homens perversos, dentre os 
vadios e, ajuntando o povo, alvoroçaram a cidade, e assaltando a casa de Jasom, 
procuravam trazê-los para junto do povo. E, não os achando, trouxeram Jasom 
e alguns irmãos à presença dos magistrados da cidade, clamando: Estes que têm 
alvoroçado o mundo, chegaram também aqui; os quais Jasom recolheu; e todos 
estes procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei, Jesus.” 
Tais versículos são suficientes para nos mostrar o caráter da inimizade universal 
dos judeus contra o Evangelho e contra Paulo, seu principal ministro.
Obviamente o apóstolo tinha pregado aos tessalonicenses a verdade acerca 
da exaltação de Cristo, e Sua vinda futura em glória: “... dizendo que há outro rei,
102 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 5
A s D uas P r im eir a s V ia g e n s d e Pa u lo
Jesus”. Essa é a razão de suas constantes alusões à vinda do Senhor e ao “dia do 
Senhor” nas epístolas de Paulo a essa igreja. Aprendemos daquilo que Paulo relata 
em sua primeira epístola que suas obras foram mais abundantes e grandemente 
reconhecidas e abençoadas pelo Senhor. (1 Tessalonicenses 1:9-10; 2:10-11).
O apóstolo agora viaja para Beréia, onde os judeus eram mais nobres. Eles 
checavam na Palavra de Deus aquilo que ouviam. Houve uma grande bênção ali 
também. Muitos creram, mas os judeus, como caçadores perseguindo a presa, 
partiram apressadamente de Tessalônica para Beréia, insuflando um tumulto 
de tal proporção que obrigou Paulo a abandonar a cidade quase de imediato. 
Acompanhado por alguns bereanos convertidos, ele parte rumo a Atenas. Silas 
e Timóteo ficam para trás.
'-k i t
A V isita de Pa u lo a A ten a s
A estada do apóstolo em Atenas é um evento de grande importância em 
sua história. Atenas era, em alguns aspectos, a capital do mundo, além do centro 
da cultura e filosofia gregas; mas também era o ponto central da superstição e 
idolatria.
E interessante notar que o apóstolo não estava com pressa de iniciar seu 
trabalho ali. Ele tomou tempo para refletir. Pensamentos profundos, a análise 
de todas as coisas na presença de Deus e à luz da morte e ressurreição de Cristo 
enchiam a mente de Paulo. Sua intenção primordial era esperar pela chegada de 
Silas e Timóteo. Ele enviara uma mensagem a Beréia na qual pedia que ambos 
viessem encontrá-lo o mais rápido possível. Porém, quando se viu cercado de 
templos, altares, estátuas, e adoração idólatra, não pôde mais ficar em silêncio. 
Como de costume, ele procurou os judeus, mas também debatia diariamente 
com os filósofos no mercado. Portanto, cristianismo e paganismo se confronta­
ram abertamente. Um fato digno de nota é que o apóstolo do cristianismo estava 
sozinho em Atenas, lugar tão apinhado de apóstolos do paganismo e de objetos 
de adoração que certo observador disse: “Em Atenas é mais fácil encontrar um 
deus que um homem”.
Alguns zombavam do que Paulo falava; outros escutaram e desejaram 
ouvir mais. “E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele; 
e uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador 
de deuses estranhos; porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição.” Em seus 
debates diários, Paulo conseguiu chamar a atenção do povo e de diferentes classes 
de filósofos. Era por causa de “Jesus e a ressurreição”. Tais palavras causaram
uma impressão enorme, e permaneceram fortes na mente deles. Que novidade 
e que realidade maravilhosa para as almas! A Pessoa de Cristo; não uma teoria: 
o fato da ressurreição, e não uma incerteza sombria em relação ao futuro. O 
ministério de Cristo desnudou a terrível condição dos cultos atenienses aos olhos 
do verdadeiro Deus. Contudo, eles quiseram ter uma exposição mais completa e 
detalhada sobre esses misteriosos assuntos, e trouxeram Paulo ao Areópago.
O Areópago era o local mais conveniente e adequado para reuniões 
públicas. A mais solene tribuna de justiça se estabeleceu desde os tempos 
imemoriais na colina do Areópago. Os juizes se sentavam ao ar livre em assentos 
lavrados na rocha. Nesse lugar muitas questões importantes foram discutidas, 
e muitos casos solucionados, começando com o lendário julgamento de Marte, 
que deu ao local o nome de “Campo de Marte”.
Foi nesse cenário que Paulo se dirigiu à multidão. Não há momento na 
história do apóstolo ou na história do cristianismo primitivo mais interessante e 
mais conhecido que esse. Inspirado por sentimentos relacionados com a honra 
de Deus, e plenamente sabedor da condição da humanidade à luz da cruz, o que 
ele deve ter sentido ali, no Campo de Marte? Para onde quer que seus olhos se 
voltassem, os sinais da idolatria, em seus milhares de aspectos, gritavam diante 
de Paulo. Talvez ele, devido às circunstâncias, fosse induzido a falar de maneira 
severa; mas, controlou seus sentimentos e não usou uma linguagem intempestiva. 
Considerando o fervor de seu espírito, e a grandeza de seu zelo pela verdade, isso 
foi uma notável demonstração de domínio próprio. Seu Senhor e Mestre estava 
com ele, embora aos olhos humanos ele estivesse sozinho diante dos atenienses 
e dos muitos estrangeiros que afluíam àquele centro do saber universal.
Nos anais da história humana, não há nada semelhante ao discurso de Paulo 
no que se refere à sabedoria, prudência, argumentação e perfeita habilidade. Ele 
não começou atacando os falsos deuses dos gregos, nem denunciando a religião 
deles como um engano satânico, ou como objeto de sua total repugnância. 
Alguém com zelo, mas sem o conhecimento teria feito isso, e ficaria satisfeito 
com sua própria fidelidade. Contudo, no discurso paulino temos um exemplo 
da melhor maneira de abordar a mente e o coração das pessoas ignorantes e 
preconceituosas em todas as épocas. Que o Senhor conceda tal sabedoria aos 
Seus servos para seguir este exemplo!
Suas palavras de abertura são ao mesmo tempo cativantes e reprovadoras. 
“Homens atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos”. Ele começa 
reconhecendo que os atenienses tinham sentimentos religiosos, os quais estavam 
direcionados de maneira errada. Em seguida, Paulo se apresenta como uma pessoa 
disposta a levá-los ao conhecimento do único Deus verdadeiro. “Esse, pois, que 
vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio.” O apóstolo sabiamente
1 0 4 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 5
A s D uas P rim eir a s V ia g e n s d e Pa u l o 105
escolheu a inscrição “Ao DEUS DESCONHECIDO”. Isso lhe deu uma oportunida­
de de galgar o primeiro degrau da escada da verdade. Falou sobre a singularidade 
do Deus Criador, e do relacionamento da humanidade com Ele. Depois deixa 
a argumentação contra a idolatria e passa a pregar o Evangelho. Além disso, 
toma o cuidado de não introduzir o nome de Jesus em seu discurso público. Ele 
já havia feito isso em suas ministrações privadas; no entanto, estando cercado 
agora por discípulos e admiradores de nomes tais como Sócrates, Platão, Zeno 
e Epicuro, o apóstolo preserva o santo nome de Jesus do risco de ser comparado 
a Suas criaturas. Ele sabia muito bem que o nome do humilde Jesus de Nazaré 
era “loucura para os gregos” (1 Coríntios 1:23). E fácil perceber que, apesar de 
Seu nome não ser mencionado durante o discurso, a atenção de toda a audiência 
estava concentrada em Cristo Jesus homem. Paulo continua: “Mas Deus, não 
tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em 
todo o lugar, que se arrependam; porquanto tem determinado um dia em que 
com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso 
deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos”. Nesse ponto a paciência 
dosouvintes se esgotou — seu discurso foi interrompido. Mas a última impressão 
deixada na mente deles teve peso e importância eternos. O apóstolo inspirado 
se dirigiu, não ao intelecto ávido por informações, mas à consciência de seus 
ouvintes. A menção à ressurreição dos mortos e ao julgamento do mundo, com 
tamanho poder e autoridade, não podia deixar de incomodar aquelas pessoas 
orgulhosas e que buscavam apenas seu próprio prazer. O princípio essencial e 
objetivo mais elevado do epicurismo era gratificar a si mesmo; do estoicismo, a 
arrogante indiferença ao bem e ao mal, ao prazer e à dor.
Alguns zombaram, outros ficaram totalmente indiferentes. Será que 
devemos nos surpreender com o fato dessa notável reunião ter acabado dessa 
maneira? Mas, apesar de tudo, o cristianismo ganhou sua primeira e esplêndida 
vitória sobre a idolatria. E, quaisquer que tenham sido os resultados imediatos 
da fala de Paulo, sabemos que tem sido uma bênção para muitos desde então e 
que produziu numerosos frutos em numerosas almas e que continua a frutificar 
para a glória de Deus eternamente.
Logo após, Paulo vai embora da cidade. Não parece que ele tenha tomado 
essa decisão por causa do tumulto ou da perseguição. O maravilhoso Senhor 
lhe concedeu experimentar da alegria celestial, da alegria que os anjos sentem 
quando um pecador se arrepende: “Todavia, chegando alguns homens a ele, 
creram; entre os quais foi Dionísio, areopagita, uma mulher por nome Dâmaris, 
e com eles outros.” Porém, em Filipos - uma cidade militar, e em Tessalônica 
e Corinto - cidades comerciais, o número de conversões parece ter sido bem 
maior que na cultíssima e sofisticada cidade de Atenas. Isso é profundamente
humilhante para o orgulho humano, e para os vãos poderes da mente. Uma 
epístola foi escrita aos filipenses, duas aos tessalonicenses e duas aos coríntios; 
mas não há qualquer registro de Paulo ter escrito uma carta aos atenienses, e 
também não lemos acerca de uma segunda visita do apóstolo a Atenas.
A V isita de Pau lo a C o r in t o
A conexão de Corinto com a história, ensino e escritos de nosso apóstolo 
é quase tão íntima e importante quanto a que ele tinha com Jerusalém ou 
Antioquia. Ela pode ser considerada como a base de Paulo na Europa, Aqui Deus 
tinha “muito povo”, e aqui Paulo ficou “um ano e seis meses, ensinando entre 
eles a palavra de Deus” (Atos 18:11). Foi também em Corinto que ele escreveu 
suas primeiras cartas apostólicas: as duas Epístolas aos Tessalonicenses.
Corinto, a capital romana na Grécia, era uma grande cidade comercial, 
com estreitas ligações com Roma e a parte ocidental do Mediterrâneo, tendo 
Tessalônica e Efeso pelo lado do mar Egeu, e pelo lado leste Antioquia e 
Alexandria. Portanto, devido aos seus dois notáveis portos, Corinto recebia 
navios tanto dos mares ocidentais quanto dos orientais22.
Parece que Paulo viajou sozinho a Corinto. Se Timóteo se encontrou com 
Paulo em Atenas (1 Tessalonicenses 3:1), este o mandou de volta a Tessalônica, 
lugar pelo qual, como veremos em breve, o coração do apóstolo pulsava. Logo 
após sua chegada, ele inesperadamente encontrou dois amigos e companheiros 
de trabalho: Aquila e sua esposa, Priscila. Naquela ocasião em especial, havia um 
número maior de judeus em Corinto que o usual, “pois Cláudio tinha mandado 
que todos os judeus saíssem de Roma”. O Senhor usou o banimento de Áquila 
e Priscila para providenciar uma residência temporária para Seu servo solitário. 
Eles eram da mesma nação e tinham o mesmo ofício do apóstolo. “E, como 
era do mesmo ofício, ficou com eles, e trabalhava; pois tinham por ofício fazer 
tendas” (Atos 18:2-3).
Os caminhos do Senhor para com Seu servo eram maravilhosos e 
cheios de graça. Em uma cidade de riqueza e abundante comércio cercada por 
nativos gregos, colonizadores romanos, e judeus de todas as partes do mundo, 
Paulo trabalhava silenciosamente em seu ofício para não se tornar oneroso a 
ninguém. Aqui temos um exemplo da mais profunda e grandiosa espiritualidade
1 0 6 [ A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 5
22 Para detalhes geográficos completos e detalhados, veja A vida e as Epístolas de São Paulo, de 
Conybeare e Howson. Temos de acrescentar que essa é nossa fonte primordial no que se refere 
a datas. Provavelmente, esse é o melhor e mais abrangente livro sobre a história do grande 
apóstolo.
A s D uas Pr im eir a s V ia g en s d e Pa u lo
combinada com trabalho diligente nas coisas comuns da vida. E que exemplo! 
E que lição! A labuta diária não impedia sua comunhão com Deus. Poucos 
conheceram tão bem, e sentiram tão fortemente, o valor do Evangelho que 
traziam consigo: questões da vida e da morte estavam ligadas à essa mensagem, 
mas, ainda assim o mensageiro deveria se entregar ao trabalho cotidiano. E, com 
o mesmo fervor da pregação, Paulo fez isso para o Senhor e para Seus santos. Ele 
frequentemente mencionou isso em suas epístolas, falando desse trabalho como 
um dos privilégios que recebera. “E em tudo me guardei de vos ser pesado, e 
ainda me guardarei. Como a verdade de Cristo está em mim, esta glória não me 
será impedida nas regiões da Acaia” (2 Coríntios 11:9-1023).
Há uma outra coisa relacionada a essa peculiaridade da história do 
apóstolo, a qual é de grande interesse. Existe um consenso de que Paulo tenha 
escrito as duas Epístolas aos Tessalonicenses nesse período, e alguns acham que 
a Epístola aos Gálatas também. Ambas estão diante de nós como testemunhas 
da intimidade e da comunhão que ele tinha com Deus, enquanto se mantinha 
com o próprio trabalho. Mas chega o descanso sabático, a oficina é fechada, e 
Paulo vai para a sinagoga. Esse era seu costume. “E todos os sábados disputava 
na sinagoga, e convencia a judeus e gregos.” E enquanto Paulo estava ocupado, 
tanto nos dias da semana quanto aos sábados, Silas e Timóteo chegaram da 
Macedônia. E evidente que ambos trouxeram alguma ajuda, a qual supriu a 
necessidade do apóstolo naquela ocasião, e o aliviaram da constante labuta.
A chegada de Silas e Timóteo parece ter encorajado e fortalecido o 
apóstolo. Seu zelo e energia no Evangelho cresceram visivelmente. Ele “impulsio­
nado no espírito, testificando aos judeus que Jesus era o Cristo”; mas os judeus
23 Como muitos têm supervalorizado essa passagem, e outros a têm subestimado, será útil 
relatarmos o que cremos ser o significado real dela. A decisão do apóstolo de não ser pesado 
aos santos, como ele expressa de maneira forte aqui, aplica-se principal, senão exclusivamente, 
à igreja de Corinto. Um importante princípio estava envolvido, o qual não era geral, mas de 
particular aplicação ao caso de Paulo. Ele reconhece as dádivas das outras igrejas da forma mais 
grata possível (Filipenses 4). E, mais tarde, escrevendo aos coríntios, ele diz: “Outras igrejas 
despojei eu para vos servir, recebendo delas salário; e quando estava presente convosco, e tinha 
necessidade, a ninguém fui pesado, porque os irmãos que vieram da Macedônia supriram a 
minha necessidade; e em tudo me guardei de vos ser pesado, e ainda me guardarei” (2 Coríntios 
11:8-9). Sem dúvida, o apóstolo tinha a melhor das razões para não ter qualquer comunhão 
com a igreja em Corinto. Sabemos que ali havia muitos “falsos apóstolos” e inimigos; muitas 
graves e sérias desordens no meio deles, as quais reprovou com veemência e tentou corrigi- 
las. Sob tais circunstâncias, com receio de que seus motivos pudessem ser mal-interpretados, 
o apóstolo preferia trabalhar com as próprias mãos a receber suporte financeiro da igreja em 
Corinto. “Por quê? Porque não vos amo? Deus o sabe. Mas o que eu faço o farei, para cortar 
ocasião aos que buscam ocasião, a fim de que, naquilo em que se gloriam, sejam achados assim 
como nós” (2 Coríntios 11:11-12).
se opuseram à sua doutrina e blasfemaram. Isso estimulou Paulo a seguir seu 
caminho com grande ousadia e determinação. Ele sacudiu suas roupas como 
um sinal de estar livre do sangue daquelas pessoas, e lhes declarou que iria para 
os gentios.Em tudo isso ele foi dirigido por Deus e agiu de acordo com Sua 
mente. Ele pregou na sinagoga o quanto pôde, e quando não teve mais como 
permanecer ali, foi obrigado a usar um local mais conveniente. Em Efeso, pregou 
na escola de Tirano; em Roma, “ficou dois anos inteiros na sua própria habitação 
que alugara” (Atos 28:30); e aqui em Corinto, um prosélito chamado Justo 
abriu sua casa para hospedar o apóstolo rejeitado.
Nessa crise em particular, Paulo foi favorecido com outra especial 
revelação do próprio Senhor: “E disse o Senhor em visão a Paulo: Não temas, 
mas fala, e não te cales; porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti 
para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade. E ficou ali um ano e seis 
meses, ensinando entre eles a palavra de Deus”. Mas novamente seus impiedosos 
inimigos estavam ao derredor. O grande sucesso do Evangelho entre os gentios 
despertou a ira dos judeus contra Paulo; e eles procuraram usar Gálio, o novo 
governador, para executar suas más intenções.
Gálio era irmão de Sêneca, o filósofo, e, como este, inclinado à instrução. 
Como governador foi sábio, justo e tolerante, apesar de tratar as coisas sagradas 
com certo desprezo. Mas o Senhor, que estava com Seu servo conforme 
prometera, usou a indiferença de Gálio para arrasar os maliciosos desígnios 
dos judeus, e voltar as falsas acusações contra eles mesmos. Visto que os judeus 
tiveram seus maus propósitos frustrados, o apóstolo desfrutou de maior liberdade 
e menos incômodo na divulgação do Evangelho. Os abençoados frutos disso 
logo se manifestaram por toda a província da Acaia (1 Tessalonicenses 1:8-9).
A R á pid a V isita de Paulo a Éfeso
Chega o momento em que Paulo considera adequado deixar Corinto 
e revisitar Jerusalém. Ele tem um grande desejo de estar na festa que se 
aproximava. Mas antes de sua partida, ele se despede solenemente da jovem 
assembléia, prometendo que voltaria, se o Senhor assim o quisesse.
Em paz e acompanhado de Aquila e Priscila, o apóstolo deixa Corinto. 
Já no porto, aconteceu uma cerimônia que tem suscitado não pouca discussão. 
Paulo, tendo feito um voto, raspou a cabeça em Cencréia. Temos certeza de 
que em sua própria mente, e guiado pelo Espírito Santo, ele tinha convicção 
de estar muito além de uma religião de cerimônias e votos, mas em graça 
condescende com os costumes de sua nação. Ele se torna judeu para os judeus.
1 0 8 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 5
A s D u a s P r im e ira s V ia g e n s d e P a u l o | 109
A constante oposição dele às doutrinas judaizantes e a violenta perseguição dos 
judeus em relação a Paulo nunca enfraqueceu os sentimentos do apóstolo para 
com seu amado povo, pois certamente isso provinha de Deus. Enquanto buscava 
a energia do Espírito Santo para pregar aos gentios, por causa da fidelidade à 
Palavra de Deus, ele jamais se esqueceu de pregar antes de tudo aos judeus. 
Portanto, Paulo é um exemplo para nós da brilhante expressão da graça de Deus 
aos gentios e da persistente afeição para com os judeus.
A equipe missionária chega a Éfeso. Paulo vai à sinagoga e debate com os 
judeus. Estes parecem inclinados a ouvi-lo, porém o apóstolo tem um ardente 
desejo de ir a Jerusalém e participar da festa. Então “se despediu deles, dizendo: 
E-me de todo preciso celebrar a solenidade que vem em Jerusalém; mas querendo 
Deus, outra vez voltarei a vós. E partiu de Efeso”.
A Q u a r t a V is it a d e P a u lo a J eru sa lém
A narrativa sagrada não nos fornece qualquer informação acerca do que 
aconteceu em Jerusalém nessa ocasião. Ela simplesmente nos diz que Paulo “subiu 
a Jerusalém e, saudando a igreja, desceu a Antioquia”. No entanto, o intenso 
desejo do apóstolo de ir a Jerusalém pode nos assegurar da grande importância 
dessa visita. Talvez Paulo tenha sentido que chegara a hora dos judeus cristãos, 
reunidos para a festa, ouvirem um completo relato da recepção do Evangelho 
entre os gentios. As colônias romanas e as cidades gregas haviam sido visitadas, 
e Deus tinha realizado uma obra poderosa. Tudo isso seria perfeitamente natural 
e correto, mas nós não tentaremos remover o véu que o Espírito Santo colocou 
sobre esse episódio.
Paulo vai de Jerusalém para Antioquia, revendo todas as assembléias que 
formara e, de certo modo, unindo sua obra — Antioquia e Jerusalém. Até onde 
sabemos, essa foi a última visita de Paulo a Antioquia. Já vimos como novos 
centros de vida cristã foram estabelecidos por ele nas cidades gregas próximas ao 
Egeu. A trilha do Evangelho ruma cada vez mais para o ocidente, e depois de 
um curto período de profundo interesse na Judéia, a parte inspirada da biografia 
do apóstolo finalmente se concentra em Roma.
O R e t o r n o d e Pa u lo a A n t io q u ia
Após um período de viagens que abrangeu cerca de três ou quatro anos, 
nosso apóstolo retorna a Antioquia. Ele percorreu longas distâncias e disseminou 
o cristianismo em muitas cidades prósperas e populosas, e praticamente à
custa de seus próprios esforços. Se o leitor quiser manter o interesse na história 
de Paulo tem de marcar distintamente e conservar diante de si os principais 
períodos na vida de Paulo, e os pontos primordiais em suas diferentes jornadas. 
Mas antes de começar com Paulo em sua terceira viagem missionária, será muito 
útil observarmos outro grande pregador do Evangelho, o qual surge em cena 
exatamente nessa altura e cujo nome, abaixo de nosso apóstolo, talvez seja o mais 
importante no início da história da igreja.
Apoio era um judeu nativo de Alexandria. Ele era “homem eloquente e 
poderoso nas Escrituras... conhecendo somente o batismo de João”. Era piedoso, 
fervoroso e justo, confessando e pregando publicamente o que conhecia, e o 
poder do Espírito Santo era manifesto nele. Ao que parece, Apoio não tinha 
recebido mandato, ordenação ou autorização de qualquer tipo, seja dos doze ou 
de Paulo. Mas o Senhor que está acima de todos o chamara, agia nele e através 
dele. Portanto, vemos no caso de Apoio a manifestação do poder e da liberdade 
do Espírito Santo, sem nenhuma intervenção humana. Esse é um ponto que 
merece atenção. O conceito de um clericalismo exclusivo é a negação prática da 
liberdade que o Espírito Santo tem de agir por meio de quem Ele queira. No 
entanto, apesar do ardente zelo e poderosa retórica, Apoio conhecia somente 
aquilo que João havia ensinado aos seus discípulos. O Senhor sabia disso e 
providenciou mestres para Apoio. Entre os que ouviram os discursos dele, dois 
bem-instruídos discípulos de Paulo demonstraram um interesse especial. E 
apesar de ser erudito e eloquente, ele foi humilde o bastante para permitir que 
Áquila e Priscila o ensinassem. Eles o convidaram para a casa deles e, sem 
dúvida com toda a humildade, “lhe declararam mais precisamente o caminho 
de Deus”. Simples, espontâneo e belo! Tudo isso provinha de Deus. Ele fez com 
que Áquila e Priscila ficassem em Efeso, que Apoio estivesse ali e despertasse o 
povo de Efeso antes da chegada do apóstolo e que, após ter sido ensinado, fosse 
a Corinto para ajudar a boa obra iniciada lá por Paulo. Apoio regou o que Paulo 
plantou, e Deus deu abundante crescimento. Em Seu cuidadoso amor e gentil 
afeto, esses foram os maravilhosos caminhos do Senhor para com todos os Seus 
servos e todas as Suas assembléias.
110 j A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 5
6
A T e r c eir a 
V ia g em M issio n á r ia de Pa u lo
(em 54 d.C.)
epois de passar “algum tempo” em Antioquia, Paulo deixa esse centro 
V i 1 gentio e inicia outra viagem missionária. Desta vez nada é dito sobre 
v W seus companheiros. Ele “partiu, passando sucessivamente pela província 
da Galácia e da Frigia, confirmando a todos os discípulos” (Atos 18:23); e dando 
também instruções relativas à coleta destinada aos santos de Jerusalém (1 Coríntios 
16:1-2). Em pouco tempo chegou à base de seu trabalho na Ásia.
Éfeso. Nessa época era a maior cidade da Ásia Menor, e a capital da 
província. Devido à sua posiçãocentral, era um local de encontro de toda 
classe de gente. Apoios já havia partido de Corinto, mas doze remanescentes 
dos discípulos de João ainda estavam ali. Paulo fala sobre o estado ou condição 
deles. Temos de ver rapidamente o que aconteceu.
O batismo de João exigia arrependimento, mas não a separação da sinagoga 
judia. O Evangelho ensina que o cristianismo está baseado sobre a morte e res­
surreição de Cristo. O batismo cristão é um símbolo marcante e significativo 
dessas verdades. “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela 
fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Colossenses 2:12). 
Como aqueles homens estavam inteiramente alheios às verdades fundamentais
do cristianismo, supomos que jamais se misturaram com os cristãos. O apóstolo, 
sem dúvida, lhes explicou a eficácia da morte e ressurreição de Cristo, e também 
sobre a descida do Espírito Santo. Eles creram e receberam o batismo cristão. 
Então Paulo, em sua autoridade apostólica, impôs suas mãos sobre eles, foram 
selados com o Espírito, “e falavam línguas, e profetizavam” (Atos 19:6).
Imediatamente após a menção desse importante fato, nossa atenção 
é dirigida para o trabalho do apóstolo na sinagoga. Durante três meses, 
ousadamente pregou a Cristo ali, argumentando e tentando convencer seus 
ouvintes de todas as coisas “acerca do reino de Deus” (Atos 19:8). O coração 
de alguns permaneceu endurecido, ao passo que outros se arrependeram e 
creram; mas como muitos dos judeus se aliassem aos adversários, “falando mal 
do Caminho perante a multidão”, Paulo age da forma mais assertiva possível. 
Ele “separou os discípulos” da sinagoga judia, e os ajunta em um grupo distinto, 
reunindo-se com eles na “escola de um certo Tirano”. Essa atitude do apóstolo 
é bastante instrutiva e interessante, mas ele age na plena consciência do poder 
e da verdade de Deus. A Igreja em Éfeso agora está perfeitamente diferenciada 
dos judeus e dos gentios. Vemos aqui o que o apóstolo se referiu mais tarde em 
sua exortação: “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem 
aos gregos, nem à igreja de Deus” (1 Coríntios 10:32). Onde essa vital distinção 
não é percebida, há uma enorme confusão quanto à Palavra e os caminhos de 
Deus.
O apóstolo nos é mostrado como um instrumento do pode de Deus de uma 
maneira notável e impressionante. Por meio dele, o Espírito Santo é derramado 
sobre os doze discípulos de João, os discípulos de Jesus são separados e a Igreja 
em Éfeso é formalmente fundada. O testemunho de Paulo acerca do Senhor 
Jesus ressoa em toda a Ásia, tanto entre os judeus como entre os gregos; milagres 
espetaculares são feitos por suas mãos, muitos são curados apenas tocando nos 
lenços e aventais de Paulo. O poder do inimigo desaparece diante do poder 
que estava em Paulo, e o nome de Jesus é glorificado. Os espíritos malignos 
reconheciam tal poder, seus inimigos eram expostos à vergonha e à perda; a 
consciência dos ímpios era tocada e o domínio satânico sobre eles desfeito. O 
temor caiu sobre muitos que praticavam magia, a ponto de queimarem seus 
livros de mágica. O valor dos livros queimados era extraordinário. “Assim a 
palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia” (Atos 19:1-20). O poder 
do Senhor se revelou na pessoa e na obra de Paulo e seu apostolado ficou esta­
belecido de forma inquestionável.
O apóstolo passa cerca de três anos trabalhando intensamente em Éfeso. 
Ele mesmo diz isso ao se dirigir aos anciãos de Mileto: “Portanto, vigiai,
1 1 2 I A H is t ó r ia da Ig r e ja - capítulo 6
A T erc eir a V ia g em d e Pa u lo
lembrando-vos de que durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar 
com lágrimas a cada um de vós” (Atos 20:31). Alguns historiadores também 
acreditam que durante esse período ele fez uma curta visita a Corinto e tenha 
escrito a Primeira Epístola aos Coríntios.
O Tum ulto em Éfeso
Uma grande e abençoada obra está sendo realizada pelo poder do Espírito 
de Deus, por meio da instrumentalidade de Seu servo escolhido, Paulo. O 
Evangelho foi plantado na capital da Ásia, e dali se espalhou pela província 
inteira. O apóstolo sente como se seu trabalho naquele lugar tivesse acabado, 
e deseja ir para Roma, capital do ocidente e metrópole do mundo. A Grécia 
e a Macedônia já haviam recebido o Evangelho, mas ainda havia Roma. “E, 
cumpridas estas coisas, Paulo propôs, em espírito, ir a Jerusalém, passando pela 
Macedônia e pela Acaia, dizendo: Depois que houver estado ali, importa-me ver 
também Roma” (Atos 19:21).
Mas enquanto Paulo estava fazendo os preparativos para outra viagem, 
o inimigo também preparava um novo ataque. Os recursos satânicos ainda 
não tinham chegado ao fim. Demétrio incitou a multidão ignorante contra 
os cristãos. Um enorme tumulto se formou, os ânimos se exaltaram contra os 
instrumentos do testemunho de Deus. Os artesãos deram início à gritaria, não 
apenas porque o ganha-pão deles estava em jogo, mas porque o próprio templo 
da grande deusa Diana corria risco de ser desprezado. Quando a multidão ouviu 
essas coisas, se encheram de ira e bradaram: “Grande é a Diana dos efésios” 
(Atos 19:34). A cidade inteira foi tomada pela confusão, mas Paulo foi miseri­
cordiosamente preservado — por seus irmãos, e por alguns dos líderes na Ásia, 
os quais eram amigos dele — de aparecer no teatro.
Os judeus, evidentemente, começaram a temer que a perseguição se 
voltasse contra eles mesmos, pois a maioria não sabia por qual razão aquilo 
estava acontecendo. Eles, portanto, trouxeram para frente um certo Alexandre, 
talvez com a intenção de colocar a culpa nos cristãos; mas no instante em que 
os ímpios descobriram que Alexandre era judeu, a ira de todos se inflamou, 
e por um espaço de quase duas horas, o povo gritou: “Grande é a Diana dos 
efésios”. Felizmente para todas as partes, o escrivão da cidade era um homem de 
grande tato e admirável diplomacia. Ele acalmou, aliviou, lisonjeou e despediu 
a multidão. Mas nós, os que cremos, sabemos que foi Deus quem usou a 
eloqüência persuasiva daquele oficial ímpio para proteger Seu servo e muitos de 
Seus filhos ali.
O famoso templo de Diana era considerado pelos antigos como um das 
maravilhas do mundo antigo; dizia-se que não havia nada mais magnífico 
no percurso do sol que o templo de Diana. Ele era construído do mais puro 
mármore e levou cerca de 220 anos para ficar pronto. Mas com o crescimento 
do cristianismo entrou em decadência, e hoje nem sequer restam ruínas para 
que possamos determinar a sua localização original. O ofício de Demétrio era 
fazer miniaturas em prata desse templo, que eram colocadas nas casas, guardadas 
como memoriais ou usadas como amuleto em viagens. A introdução do cristia­
nismo necessariamente afetaria a venda dessas peças, e por isso os artesãos foram 
instigados por Demétrio para suscitar um clamor popular a favor de Diana e 
contra os cristãos.
* * *
Pa u lo d eix a Éfeso
E PARTE PARA A MACEDÔNIA
Atos 20. Depois que o tumulto cessou, o perigo acabou e os desordeiros 
foram dispersos, Paulo manda chamar os discípulos, se despede deles e parte 
para a Macedônia. Dois dos irmãos efésios, Tíquico e Trófimo, o acompanham e 
permanecem fiéis a ele durante todas as suas aflições. Ambos são freqüentemente 
mencionados, e aparecem no último capítulo da última epístola de Paulo, ou 
seja, 2 Timóteo 4:12 e 20.
O historiador sagrado é excessivamente conciso quanto ao relato dos pro­
cedimentos de Paulo nessa ocasião. Toda a informação que ele dá está resumida 
nas seguintes palavras: “E partiu para a Macedônia. E, havendo andado por 
aquelas terras, exortando-os com muitas palavras, veio à Grécia. E passando ali 
três meses... determinou voltar pela Macedônia”. Em geral se supõe que essas 
breves palavras cubram um período de nove ou dez meses — do início do verão 
de 57 d.C. à primavera de 58 d.C.. Mas essa falta de informações felizmente é 
suprida pelas cartas do apóstolo, que foram escritas durante suas viagens e quenos suprem com muitos detalhes históricos e nos dão um vívido quadro do que 
se passava no coração e na mente de Paulo.
Parece que Paulo tinha se preparado para encontrar Tito em Trôade, o 
qual trazia novidades de Corinto. Mas semana após semana se passava e Tito 
não vinha. Sabemos um pouco sobre a obra do apóstolo nesse período, a partir 
do que ele fala acerca de si mesmo: “Ora, quando cheguei a Trôade para pregar 
o evangelho de Cristo, e abrindo-se-me uma porta no SENHOR, não tive descanso 
no meu espírito, porque não achei ali meu irmão Tito; mas, despedindo-me
114 | A H is t ó r ia da Ig r e ja - capítulo 6
A T erc eir a V ia g em d e Pa u l o 1 1 5
deles, parti para a Macedônia” (2 Coríntios 2:12-13). Sua ansiedade, contudo, 
não o impediu de continuar com a grande obra do Evangelho. Isso fica evidente 
nos versículos 14 a 17.
Finalmente, o tão esperado Tito chegou à Macedônia, provavelmente 
em Filipos. E agora Paulo está aliviado e confortado. Tito traz boas novidades 
de Corinto, melhores até do que Paulo esperava ouvir. A reação é: “Grande é 
a ousadia da minha fala para convosco, e grande a minha jactância a respeito 
de vós; estou cheio de consolação; transbordo de gozo em todas as nossas 
tribulações. Porque, mesmo quando chegamos à Macedônia, a nossa carne 
não teve repouso algum; antes em tudo fomos atribulados: por fora combates, 
temores por dentro. Mas Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a 
vinda de Tito” (2 Coríntios 7:4-6).
Logo depois disso, Paulo escreve sua Segunda Epístola aos Coríntios, onde 
não se dirige apenas a eles, mas a todas as igrejas na Acaia. Todas foram mais ou 
menos afetadas pelo que acontecia em Corinto. Tito é de novo o servo enviado 
do apóstolo, não apenas para entregar a segunda carta à igreja em Corinto, 
mas como alguém que possuía um interesse especial nas ofertas que ali seriam 
recolhidas para os pobres. Paulo não somente deu instruções detalhadas a Tito 
acerca das ofertas, mas escreveu dois capítulos sobre esse assunto (8 e 9), embora 
isso fosse mais da alçada dos diáconos que propriamente dos apóstolos. Porém, 
ele havia dito em resposta à sugestão de Tiago, Pedro e joão que se lembraria 
dos pobres. “Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o 
que também procurei fazer com diligência’ (Gálatas 2:10).
O espaço que o apóstolo reserva a tudo o que se relaciona com a coleta para 
os pobres é singular, e merece nossa total atenção. Talvez algum de nós tenhamos 
ignorado essas passagens e, como consequência, sofrido perdas em nossas vidas 
espirituais. Note, por exemplo, o que ele diz de uma determinada igreja. Temos 
boas razões pra crermos que os filipenses, desde o início, se preocuparam com o 
apóstolo - eles o pressionaram a aceitar as contribuições para o seu sustento desde 
a primeira visita de Paulo a Tessalônica até sua prisão em Roma, sem falar na 
liberalidade deles para com os outros (2 Coríntios 8:1-4). Poderíamos imaginar, 
portanto, que eles eram uma congregação rica. Exatamente o oposto. Paulo nos 
diz como “no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância 
de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua 
generosidade” (2 Coríntios 8:2). Era justamente por causa da grande pobreza 
em que viviam é que davam com tamanha generosidade.
O que os filipenses eram nas epístolas, a viúva pobre era nos Evangelhos — 
duas moedinhas era tudo o que possuía. Ela poderia ter dado uma e ficado com 
a outra; mas a viúva não tinha um coração dividido e, portanto, deu as duas.
Ela, também, por causa de sua pobreza, deu generosamente, e onde o Evangelho 
for pregado, essa história será contada como um memorial à liberalidade dos 
filipenses e da viúva.
Depois de ter enviado Tito e seus companheiros, ele permaneceu na Grécia 
fazendo o trabalho de evangelista. Seu coração, no entanto, estava desejoso de 
ver os coríntios pessoalmente; mas ele deixou o tempo passar para que a carta 
que lhes enviou produzisse efeitos debaixo da benção de Deus. Um dos objetivos 
do apóstolo era preparar o caminho para sua ministração pessoal entre eles. 
Existe um consenso de que foi durante esse tempo de espera que ele pregou o 
Evangelho de Cristo “desde Jerusalém, e arredores, até ao Ilírico” (Romanos 
15:19). E provável que tenha chegado a Corinto no inverno, de acordo com 
sua expressa intenção: “E bem pode ser que fique convosco, e passe também o 
inverno” (1 Coríntios 16:6). Ali ficou por três meses.
Podemos dizer que é de opinião geral que nesses meses de inverno 
Paulo tenha escrito a grande Epístola aos Romanos. Alguns autores também 
afirmam que a Epistola aos Gálatas foi escrita ao mesmo tempo. Mas há 
uma diversidade de opiniões entre os cronologistas sobre esse ponto. Tomando 
como base a ausência de nomes e de saudações, tais como temos na Epístola 
aos Romanos, é difícil precisar a data. Mas se ela não foi escrita nesse período, 
deve ter sido um pouco antes, não depois. O apóstolo ficou surpreso com o 
rápido desvio da verdade. “Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele 
que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho” (Gálatas 1:6). Seu 
grande desapontamento é manifesto no calor do espírito com o qual escreve a 
epístola.
Mas retornemos à história de nosso apóstolo: as minúcias da cronologia 
não cabem em nossas “notas”. Porém, após compararmos os últimos escritos, 
relataremos o que acreditamos ser as datas mais confiáveis.
Pau lo d e ix a C o r in t o
O trabalho do apóstolo em Corinto agora chegou ao fim, e ele se prepara 
para deixar a cidade. Sua mente estava voltada para Roma; mas havia uma 
missão de caridade em seu coração, à qual ele tinha de cumprir em primeiro 
lugar. Somos brindados com as próprias palavras dele acerca dessas diferentes 
posições. “Mas agora, que não tenho mais demora nestes sítios, e tendo já há 
muitos anos grande desejo de ir ter convosco, quando partir para Espanha irei ter 
convosco; pois espero que de passagem vos verei, e que para lá seja encaminhado 
por vós, depois de ter gozado um pouco da vossa companhia. Mas agora vou a
116 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 6
Jerusalém para ministrar aos santos. Porque pareceu bem à Macedônia e à Acaia 
fazerem uma coleta para os pobres dentre os santos que estão em Jerusalém” 
(Romanos 15:23-26). Supõe-se que a lista de nomes em Atos 20:4 - Sópater, 
Aristarco, Segundo, Gaio, Timóteo, Tíquico e Trófimo — seja de irmãos respon­
sáveis pela coleta feita nos diferentes lugares mencionados. Ao invés de navegar 
direto para a Síria, eles voltaram pela Macedônia, por causa dos judeus que o 
aguardavam lá. Seus companheiros, por sua vez, o esperavam em Trôade, onde 
ele ficou por uma semana inteira, para ver os irmãos.
Temos de parar por um momento para observar o que acontece neste 
estágio da jornada de Paulo. Duas coisas, importantes para todo cristão, estão 
presentes aqui: o Dia do Senhor e a Ceia do Senhor. O escritor, que estava 
com Paulo neste instante, relata os detalhes daquele dia com uma minúcia 
incomum.
Fica evidente a partir dessa nota incidental que era um costume entre 
os cristãos primitivos se reunirem no “primeiro dia da semana” para “partir o 
pão”. Temos aqui o principal propósito e o tempo usual para se reunirem. “E no 
primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão, Paulo, 
que havia de partir no dia seguinte, falava com eles” (Atos 20:7; 1 Coríntios 
16:2; João 20:19; Apocalipse 1:10). Até mesmo o discurso do apóstolo, precioso 
como era, é colocado como algo secundário. A lembrança do amor do Senhor 
ao morrer por nós, e de tudo o que Ele conquistou ao ressuscitar, era, e é, o 
essencial. Se existe uma oportunidade para ministrar a Palavra, e para levar os 
pensamentos e sentimentos dos adoradores a Cristo, ela tem de ser aproveitada, 
porém, o partir do pão tem de ter a primazia e ser a razão primordial da reunião 
da assembléia. A celebração da Ceia do Senhor nessa ocasião se alongou até tarde 
danoite. Nos primeiros tempos, ela acontecia em alguns lugares durante o dia; 
em outros, após o pôr-do-sol. Mas aqui os discípulos não eram obrigados a se 
reunirem em segredo, “havia muitas luzes no cenáculo onde estavam juntos.” E 
Paulo continuou falando até a meia-noite, pois iria partir no dia seguinte. Era 
uma ocasião ímpar, e Paulo aproveitou para lhes falar a noite toda. Ainda não 
havia chegado o tempo no qual os ternos discursos do coração seriam cronome­
trados, quando a duração da ardente agonia do pregador pelas almas perdidas 
seria contada no relógio pela frieza ou indiferença dos cristãos mundanos. 
Eutico, um jovem, vencido pelo sono, “caiu do terceiro andar... e foi levantado 
morto”. Alguns têm considerado esse fato como um castigo pela desatenção, 
porém, um milagre foi realizado: o jovem foi resgatado da morte pelo poder e 
bondade de Deus por meio de Seu servo Paulo, e todos ficaram grandemente 
reconfortados.
A T e r c e i r a V iagem d e P a u lo | 1
Pa u lo em M ileto
O ponto mais importante desta viagem é Mileto, embora os diferentes 
lugares pelos quais passaram tenham sido cuidadosamente registrados pelo 
historiador sagrado. Paulo, cheio do Espírito Santo, dita os rumos da jornada. 
Seus companheiros voluntariamente o obedecem, não como a um senhor, mas 
como alguém impulsionado na humildade do amor e na sabedoria de Deus. Ele 
planeja não ir a Efeso, embora esse fosse um lugar central, pois tinha em seu 
coração estar em Jerusalém no dia de Pentecostes. Mas como o navio teria de se 
demorar algum tempo em Mileto, ele pede que os anciãos da igreja em Êfeso 
venham até seu encontro. A distância era de aproximadamente 48 quilômetros, 
portanto, seriam necessários dois ou três dias para ir a Mileto e voltar para Efeso, 
mas eles tinham tempo suficiente para essa reunião antes da partida do navio. 
O Senhor cuida de Seu servo e faz tudo cooperar juntamente para o bem dele 
e para Sua própria glória.
O discurso de Paulo aos anciãos de Efeso é singular e representativo. 
Requer nosso mais minucioso estudo. Ele demonstra a profunda e comovente 
afeição do apóstolo, a situação da igreja naquele período, e a obra do Evangelho 
entre as nações. Ele os exorta com incomum severidade e ternura; sabia que 
estava falando àqueles irmãos pela última vez, portanto, os relembra de como 
se portou entre eles, “servindo ao Senhor com toda a humildade, e com muitas 
lágrimas” (v. 19). Paulo os adverte contra os falsos mestres e as heresias — os lobos 
vorazes que penetrariam na igreja, e os homens que se levantariam entre eles 
mesmos falando coisas pervertidas com o propósito de arrebanhar seguidores. 
“E, havendo dito isto, pôs-se de joelhos, e orou com todos eles. E levantou-se 
um grande pranto entre todos e, lançando-se ao pescoço de Paulo, o beijavam, 
entristecendo-se muito, principalmente pela palavra que dissera, que não veriam 
mais o seu rosto. E acompanharam-no até o navio”.
O testemunho de Paulo é da maior importância e marca uma fase 
distinta na história da igreja, além de lançar a luz divina sobre todos os sistemas 
clericais. Por isso, a seguir estão registrados os pensamentos de certo autor sobre 
a abrangência e amplitude desse discurso.
“A igreja estava consolidada sobre uma extensa área do território, e em 
diversas partes, havia tomado a forma de uma instituição comum, como as 
outras tantas existentes. Anciãos eram estabelecidos e reconhecidos. O apóstolo 
os convocou para uma reunião. A autoridade deles também era reconhecida pelo 
apóstolo. Paulo fala de seu ministério como algo passado — pensamento solene! 
(...) Assim, o que o Espírito Santo coloca aqui diante de nós é que, no momento 
em que os detalhes do trabalho de Paulo de plantar igrejas são relatados como
1 8 I A H ís t ó r ia da Ig r e ja - capítulo 6
um panorama entre os judeus e gentios, ele diz adeus ao trabalho, em vez de 
dar a seus ouvintes uma nova direção e os deixa, em certo sentido, entregues 
a si mesmos. E um discurso que marca o fim de uma fase da igreja - a das 
obras apostólicas — e o começo de outra. Que enfatiza a responsabilidade da 
igreja de não esmorecer agora que o trabalho apostólico está terminado; que 
assinala o serviço dos anciãos, os quais o Espírito Santo constituiu bispos (v. 
28); explicita os perigos e as dificuldades que viriam como decorrência do fim 
da era apostólica, e que complicariam o trabalho dos anciãos, sobre quem a 
responsabilidade agora recairia.
“A primeira observação que flui do exame desse discurso é que a sucessão 
apostólica é inteiramente negada. Devido à ausência do apóstolo, muitas dificul­
dades surgiriam e não haveria ninguém no lugar dele para enfrentar ou prevenir 
tais problemas. Portanto, Paulo não tinha nenhum sucessor. Em segundo lugar, 
parece que esse poder, que restringe o espírito do mal, uma vez afastado, daria 
espaço para que lobos devoradores vindos de fora, juntamente com mestres de 
doutrinas pervertidas vindos do meio dos irmãos, levantassem suas cabeças e 
atacassem a simplicidade e a felicidade da igreja. Esta seria afligida pelos esforços 
de Satanás, sem ter a força apostólica para lhe opor resistência. Em terceiro 
e último lugar, o que de primordial deveria ser feito para impedir o mal era 
alimentar o rebanho, e vigiar, tanto por si mesmo como pelo rebanho. Então 
ele os encomenda (de tal maneira que elimina todos os recursos oficiais) - não a 
Timóteo ou a qualquer bispo, mas a Deus e à palavra de Sua graça. Nesse ponto 
ele deixa a Igreja. Os trabalhos do apóstolo dos gentios em liberdade haviam 
chegado ao final. Ele fora o instrumento escolhido de Deus para comunicar ao 
mundo os desígnios divinos quanto à igreja e estabelecer na mente do mundo 
esse precioso objeto de Seu amor. O que seria dela aqui?”24
Atos 21. Com vento favorável, Paulo e seus companheiros partiram de 
Mileto por navio, enquanto os pesarosos anciãos de Éfeso se preparavam para 
a viagem de volta. Navegaram para Cós, Rodes, de onde passaram a Pátara e 
Tiro. A partir do que ocorreu ali - tão similar à cena de Mileto -, é evidente que 
Paulo conquistou o coração dos discípulos. O apóstolo não conhecia os cristãos 
de Tiro, mas embora tenha ficado apenas uma semana, ganhou a afeição deles. 
“E, havendo passado ali aqueles dias, saímos, e seguimos nosso caminho, acom- 
panhando-nos todos, com suas mulheres e filhos até fora da cidade; e, postos 
de joelhos na praia, oramos.” O espírito de profecia foi derramado sobre esses 
afetuosos cristãos de Tiro, pois advertiram o apóstolo a não ir para Jerusalém. 
Após permanecer ali sete dias, foram para Ptolemaida, onde ficaram um dia.
A T erc eir a V ia g em d e Pa u lo | 1
2q The Present Testemony [O Atual Testemunho], v. 8, p. 405-407.
Em Cesaréia, se hospedaram na casa de Filipe, o evangelista. Este já nos é bem 
conhecido, mas é bastante interessante encontrá-lo novamente, cerca de vinte 
anos depois. Agora ele tinha sete filhas, virgens, que profetizavam. Aqui Ágabo, 
o profeta, falou sobre o aprisionamento de Paulo, e suplicou que o apóstolo não 
fosse para Jerusalém. Todos os discípulos disseram a mesma coisa, e lhe rogaram 
com muitas lágrimas a não subir. No entanto, por mais que o coração sensível e 
cuidadoso de Paulo tenha se comovido com as lágrimas e súplicas de seus amigos 
e filhos na fé, ele determinou a não mudar sua decisão nem a se afastar de seu 
propósito. Ele se sentia constrangido no espírito a ir, e estava pronto para deixar 
todas as conseqüências com Deus e Sua vontade.
A Q u in t a V is it a de P a u lo a Je ru sa lé m 
(por volta de 58 d.C.)
O apóstolo e seus companheiros foram muito bem recebidos na chegada 
a Jerusalém. “Lucas declara: “E, logo que chegamos a Jerusalém, os irmãos 
nos receberam de muito boa vontade.” No dia seguinte, os viajantes visitarem 
Tiago, em cuja casa os anciãos estavam presentes. Paulo, como orador principal, 
expunha particularmente as coisas que Deus havia realizado entre os gentios 
por intermédio de seuministério. Contudo, apesar de estarem grandemente 
interessados, e de louvarem ao Senhor pelas boas noticias, era evidente que eles 
se sentiam incomodados. Certa vez tinham chamado a atenção de Paulo para 
o fato de que um grande número de judeus que criam em Jesus como Messias 
eram zelosos observadores da lei de Moisés e tinham um enorme preconceito 
para com o próprio Paulo.
Como fazer cessar os preconceitos desses judeus cristãos se tornou, 
portanto, a questão mais urgente entre Paulo e os anciãos. Milhares de judeus, 
convertidos e não-convertidos, iriam se ajuntar assim que ouvissem sobre a 
chegada de Paulo. Eles acreditavam há muito tempo nas sérias e graves acusações 
contra ele, ou seja, “que ensinas todos os judeus que estão entre os gentios a 
apartarem-se de Moisés, dizendo que não devem circuncidar seus filhos, nem 
andar segundo o costume da lei”. O que teria de ser feito então? Os anciãos 
propuseram que Paulo mostrasse publicamente que obedecia à lei. Isso foi algo 
doloroso e desconcertante para o apóstolo dos gentios. O que ele pode fazer 
agora? Será que o mensageiro do Evangelho da glória - o ministro da chamada 
celestial, iria se render às regras dos votos nazireus? Essa é uma questão muito 
séria. Se ele se recusasse a ceder ao desejo deles, a suspeita dos judeus ficaria
120 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 6
A T e r c e i r a V iag e m d e P a u lo 1 2 1
confirmada; se ele concordasse, teria de se humilhar, colocar seu alto chamado 
em segundo plano, render-se à ignorância, preconceito e orgulho dos judaizantes. 
Porém o que mais ele poderia fazer? Paulo estava no centro do judaísmo fanático, 
e desejava sinceramente conquistar a igreja em Jerusalém para levá-la a um cris­
tianismo mais puro e superior.
Muitos têm sido bastante arbitrários ao criticar a atitude do apóstolo nessa 
ocasião. Mas embora seja nosso privilégio examinar com humildade tudo o que 
o historiador sagrado escreveu, tememos ter nos arriscado a dizer coisas muito 
duras sobre o apóstolo. Reverentemente podemos inquirir o quanto a vontade e 
os sentimentos de Paulo o influenciaram aqui, além das advertências do Espírito 
dera por meio dos irmãos; mas, com certeza, devemos nos manter dentro dos 
limites do que o próprio Espírito Santo relata. Agora iremos examinar com 
cuidado os fatos exteriores que levaram o apóstolo a esse momento turbulento 
de sua vida.
Roma estava há muito tempo na mente de Paulo. Ele tinha um grande 
desejo de pregar o Evangelho lá. Isso era certo, estava de acordo com a vontade 
de Deus, e não vinha dele mesmo, pois Paulo era o apóstolo dos gentios. Deus já 
operava ali grandemente, pois nem Paulo nem Pedro, ou qualquer outro apóstolo 
tinha visitado Roma. Paulo teve o privilégio de escrever uma epístola aos cristãos 
romanos, na qual expressa o mais profundo desejo de vê-los e de trabalhar entre 
eles. “Porque desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim 
de que sejais confortados.” Esse era seu estado de espírito e o objetivo que tinha 
diante de si, o qual nós também devemos manter em vista ao estudarmos essa 
parte da história paulina (Romanos 1:7-15; 15:15-33).
O F im d o s T r a b a lh o s de P a u lo 
em L ib erd ad e
Agora chegamos a uma importante questão, e ao ponto de virada na 
história futura de Paulo. Ele seguiria direto para Roma ou iria para o lado oposto, 
para Jerusalém? Tudo depende disso. Jerusalém também estava no coração 
de apóstolo. Mas se Cristo o tinha enviado aos gentios, o mesmo Espírito da 
parte de Cristo, o guiaria a Jerusalém? E acreditamos que foi aqui que o grande 
apóstolo se permitiu seguir os desejos de seu coração, desejos belos e corretos em 
si mesmos, mas não de acordo com a vontade de Deus para aquele momento. Ele 
amava essa nação profundamente, e em especial, os santos pobres de Jerusalém; 
e, tendo sido bastante mal-interpretado ali, Paulo queria provar seu amor pelos 
judeus pobres lhes trazendo pessoalmente as ofertas dos gentios. “Assim que,
concluído isto, e havendo-lhes consignado este fruto, de lá, passando por vós, irei 
à Espanha” (Romanos 15:28). Com toda certeza, isso era louvável e nobre. Sim, 
mas isso provinha de um lado apenas e, infelizmente, esse lado era o da carne, e 
não do Espírito. “E, achando discípulos, ficamos ali sete dias; e eles pelo Espírito 
diziam a Paulo que não subisse a Jerusalém” (v. 4). E bem claro, mas Paulo estava 
inclinado a cumprir sua vontade de suprir os “pobres dentre os santos que estão 
em Jerusalém” (Romanos 15:26). Acaso poderia existir um erro mais perdoável? 
Impossível! Foi o amor dele pelos pobres, e o prazer de levar-lhes as ofertas dos 
gentios que conduziu Paulo, em seu caminho para Roma, a dar a volta indo para 
Jerusalém. No entanto, isso continuou sendo um erro, erro esse que custaria a 
liberdade do apóstolo. Os trabalhos de Paulo em liberdade se encerram aqui. Ele 
deu vazão à carne, e Deus permitiu que os gentios lhe prendessem com grilhões. 
Essa foi a expressão do mais verdadeiro amor do Mestre por Seu servo. Paulo era 
muito precioso para que o Senhor o deixasse sem a justa disciplina nessa ocasião. 
Também provaria que a metrópole do cristianismo não era Jerusalém nem 
Roma. Cristo, o Cabeça da Igreja, está nos céus, e é somente onde a metrópole 
do cristianismo tem de ser. Jerusalém perseguiu o apóstolo, Roma o aprisionou e 
o martirizou. Contudo, o Senhor estava com Seu servo, agindo para o bem dele, 
para o avanço da verdade, a benção da igreja, e a glória de Seu excelso nome.
Pausa para fazermos uma reflexão aqui. Em quantas histórias, desde a 
quinta visita a Jerusalém, essa cena está gravada? Quantos santos têm estado 
agrilhoados por cadeias de diversos tipos, mas quem pode dizer o por quê ou 
por qual motivo? Todos nós diríamos - a menos que iluminados pelo Espírito 
Santo que o apóstolo não poderia ter atuado com a motivação mais nobre em 
ir para Jerusalém. Mas o Senhor havia dito para ele não fazer isso. Tudo giram 
em torno disso. Como é indispensável constatarmos, em cada passo de nossa 
jornada, que temos a Palavra de Deus como regra de fé, a obra de Cristo como 
motivação, e o Espírito Santo como guia. Agora voltemos aos fatos.
Deixamos Paulo com os anciãos reunidos na casa de Tiago. Eles haviam 
sugerido um processo de conciliação com os judeus crentes, e a refutação 
das acusações de seus inimigos. Deslealdade para com sua nação e para com 
a religião de seus pais eram as principais acusações contra ele. Mas sob a 
superfície dos eventos, e especialmente tendo a luz dos apóstolos iluminando a 
cena, descobrimos que a raiz de toda a questão está na inimizade do coração 
humano contra a graça de Deus. Para entendermos isso, temos de compreender 
que o ministério de Paulo era duplo: 1) sua missão era pregar o Evangelho “a 
toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” 
(Colossenses 1:23) - missão essa que não apenas ultrapassou os limites do 
judaísmo, mas era totalmente antagônica a ele: 2) Paulo também era ministro da
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A T e r c e ir a V ia g e m d f, P a u l o ! 123
í
Igreja de Deus, e pregava a exaltada posição dela e seus maravilhosos privilégios 
por estar unida a Cristo, o Homem glorificado nos céus. Essas benditas verdades 
tratarão de elevar a alma do crente muito acima da religião da carne, tão 
apurada, tão rica em cerimoniais e ritos. Votos de jejuns, festas, ofertas, purifi­
cações, tradições e filosofias são práticas consideradas inúteis diante de Deus, e 
opostas à própria natureza do cristianismo. Isso exasperava tantos os religiosos 
judeus, fortemente apegados às suas tradições, quanto aos incircuncisos gregos, 
com todas suas diversas filosofias. Ambos se uniram para perseguir o porta-voz 
desse duplo testemunho. E tem sido assim desde então. Os religiosos com suas 
ordgnancas e os ímpios com suas filosofias, por natureza, prontamente se opõem 
ao testemunho do cristianismo celestial.Veja Colossenses 1 e 2.
Se Paulo pregasse a circuncisão, a ofensa da cruz seria eliminada, pois isso 
daria aos judeus um espaço e uma oportunidade de ser e fazer alguma coisa, 
e até de participar com Deus de Sua religião. Nisso consistia o judaísmo, e era 
o que conferia ao judeu seu senso de importância. Mas o Evangelho da graça 
de Deus mostra os homens como criaturas já perdidas - “mortos em ofensas e 
pecados” (Efésios 2:1) - sem qualquer distinção entre judeus ou gentios. O sol 
no firmamento brilha para todos. Nenhuma nação, nenhuma família, língua 
ou povo fica excluído de seus raios. Pregar o Evangelho “a toda criatura que 
há debaixo do céu” é a ordem divina e o grande campo de trabalho de um 
evangelista; ensinar os que crêem nesse Evangelho acerca da perfeição que 
possuem em Cristo é privilegio e dever de todo ministro do Novo Testamento.
Tendo, portanto, esclarecido as motivações, objetivos e a posição do 
grande apóstolo, iremos resumir a história do restante de sua memorável vida. 
Chegou o tempo em que ele estaria diante de reis e governantes, e até mesmo 
diante do próprio César, por causa do nome de Jesus.
P a u lo n o T em plo
Obedecendo a proposta de Tiago e dos anciãos, Paulo agora segue para 
o templo, com “quatro homens que fizeram voto”. “Paulo, tomando consigo 
aqueles homens, entrou no dia seguinte no templo, já santificado com eles, 
anunciando serem já cumpridos os dias da purificação; e ficou ali até se oferecer 
por cada um deles a oferta”. Na conclusão do voto do nazireado, a Lei exigia que 
certas ofertas fossem oferecidas no templo. Tais ofertas envolviam uma grande 
soma de dinheiro, como vemos em Números 6. Considerava-se um ato de muita 
honra e piedade um irmão rico pagar tais ofertas para um irmão pobre e assim 
possibilitar que este completasse seu voto. Paulo não era rico, mas tinha um 
coração grande e generoso, e graciosamente se incumbiu das despesas dos quatro
nazireus pobres. Tal prontidão da parte de Paulo em agradar alguns e ajudar a 
outros deveria ter aquietado e aplacado os judeus e, provavelmente, teria se tão 
somente estivessem presentes os que estavam associados a Tiago, mas teve um 
efeito contrário nos inveterados zelotes: eles ficaram ainda mais furiosos com 
Paulo. A celebração da festa atraía multidões para Jerusalém, portanto, o templo 
estaria apinhado de adoradores de todas as partes do mundo.
Entre esses judeus estrangeiros estavam alguns vindos da Ásia, talvez 
inimigos antigos de Paulo, que moravam em Efeso e aguardavam apenas uma 
oportunidade para se vingar dele. Quase no final dos sete dias, nos quais os 
sacrifícios seriam oferecidos, esses judeus asiáticos viram Paulo no templo, e ime­
diatamente o agarraram, gritando: “Homens israelitas, acudi; este é o homem 
que por todas as partes ensina a todos contra o povo e contra a lei, e contra este 
lugar; e, demais disto, introduziu também no templo os gregos, e profanou este 
santo lugar... E alvoroçou-se toda a cidade, e houve grande concurso de povo; e, 
pegando Paulo, o arrastaram para fora do templo, e logo as portas se fecharam”. 
A cidade inteira agora estava em polvorosa, a multidão se dirigia furiosamente 
para o ponto de ataque. Todos estavam quase à beira da loucura, e se não fosse 
pelo zelo deles em não derramar sangue no lugar santo, Paulo seria despedaçado 
ali mesmo. O objetivo deles naquele momento era arrancar logo o apóstolo do 
edifício sagrado. Porém, antes que os planos homicidas fossem executados, a ajuda 
da parte divina chegou, e os judeus foram inesperadamente interrompidos.
Sem dúvida, os sentinelas dos portões comunicaram rapidamente à 
guarnição romana que se encontrava defronte do templo do tumulto próximo 
à coorte. O tribuno, Cláudio Lísias, correu pessoalmente para o local, levando 
soldados e centuriÕes consigo. Quando os judeus viram o tribuno e os soldados 
romanos se aproximando, pararam de bater em Paulo. Cláudio, percebendo que 
o apóstolo era a causa de toda aquela agitação, logo o prendeu. Atos 21:33.
Tendo feito isso, Lísias tentou saber qual a real causa do tumulto, mas 
como nenhuma informação exata poderia ser obtida da multidão ignorante e 
excitada, ele ordenou que Paulo fosse levado à fortaleza. A massa, desapontada, 
agora vai atrás de sua vítima com enorme ímpeto. Paulo foi arrancado das mãos 
da turba, a qual pressionou violentamente os soldados, a ponto de Paulo ter de ser 
carregado; enquanto gritos ensurdecedores vinham da multidão irada. A mesma 
coisa aconteceu trinta anos antes, só que com Jesus, quando o povo clamou: 
“Tira, tira, crucifica-o” (João 19:15).
Nesse momento de total interesse, o apóstolo conserva grande presença 
de espírito e controla perfeitamente a agitação de seus sentimentos. Ele age 
com prudência e sem comprometer a verdade. Assim que chegam à entrada
124 [ A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 6
A T e r c e ir a V ia g e m d e Pa u l o | 125
i
da fortaleza, Paulo se dirige com toda cortesia ao tribuno, e pergunta: “E-me 
permitido dizer-te alguma coisa? E ele disse: Sabes o grego? Não és tu porventura 
aquele egípcio que antes destes dias fez uma sedição e levou ao deserto quatro 
mil salteadores? Mas Paulo lhe disse: Na verdade que sou um homem judeu, 
cidadão de Tarso, cidade não pouco célebre na Cilicia; rogo-te, porém, que me 
permitas falar ao povo”. Por incrível que pareça, o pedido lhe foi concedido. 
Paulo já havia conquistado o respeito da autoridade romana. Mas a mão de 
Senhor estava nisso tudo; Ele estava cuidando de Seu servo. Paulo havia, por 
conta própria, se colocado nas mãos dos inimigos ao tentar agradar os crentes 
judeus; mas Deus estava com ele, e sabia como livrá-lo do poder deles, e usar 
seu servo para a glória de Seu próprio Nome (Atos 21:26-40).
O D isc u r so de Pa u io 
nas Esc a d a r ia s da Fortaleza
Ao tribuno, ele falou em grego; aos judeus, em hebraico. Esses pequenos 
gestos de consideração e gentileza são belas mesclas de amor e sabedoria, e 
servem como lição para nós. Ele estava sempre disposto a se fazer “servo de todos 
para ganhar ainda mais” (1 Coríntios 9:19). Vemos o surpreendente efeito da 
influência dele sobre a massa enfurecida, e também sobre o oficial comandante. 
No instante em que Paulo fala, toda a cena muda. O revoltoso mar de paixões 
humanas se acalma ao som das sagradas palavras. Foi como água fria na fervura; 
imediatamente se fez “grande silêncio”. Sua nobre defesa, dirigida aos seus irmãos 
e antepassados, é relatada detalhadamente em Atos 22:1-21.
Ao lermos o discurso, percebemos que seus conterrâneos escutaram com 
grande atenção enquanto Paulo falava sobre sua vida, a perseguição aos cristãos, 
sua embaixada em Damasco, a conversão miraculosa, a visão no templo, a 
conversa com Ananias, porém, no momento em que mencionou sua missão para 
com os gentios, um rompante de indignação explodiu na multidão, e silenciou 
o orador. Eles não podiam suportar a idéia da graça de Deus ser estendida aos 
gentios. Esse nome odiado os levou à fúria. O orgulho patriótico dos judeus 
se rebelou contra o raciocínio de que os incircuncisos gentios pudessem ser 
iguais aos filhos de Abraão. O povo rejeitou com desprezo qualquer argumento, 
humano ou divino, que poderia influenciar a opinião deles. Em vão, o apóstolo 
enfatizou muito o que aconteceu entre ele e o piedoso Ananias. Cada apelo era 
inútil, quando se tratava dos gentios. Seguiu-se então uma completa desordem. 
Os judeus tiraram suas vestes, lançaram pó para o ar, e “levantaram a voz, 
dizendo: Tira da terra um tal homem, porque não convém que viva”.
O tribuno, vendo a violência incontida do povo e não entendendo o que 
significava, ficou perplexo. Ele viu os resultados do discurso em hebraico - 
língua a qual talvez não compreendia -, e, naturalmente concluindo que seu 
prisioneiro deveria ser culpado de um crime horrível, ordenou que ele fosse 
acorrentado e açoitado para confessar sua culpa. Mas tal procedimento foi ime­
diatamente suspenso quando Paulodisse que era um cidadão romano.
Os soldados envolvidos na prisão se afastaram, alarmados, e avisaram para 
tribuno sobre o que ele estava prestes a fazer. Lísias veio e “disse-lhe: Dize-me, 
és tu romano? E ele disse: Sim. E respondeu o tribuno: Eu com grande soma 
de dinheiro alcancei este direito de cidadão. Paulo disse: Mas eu o sou de 
nascimento”. Lísias se encontrava agora em sérias dificuldades, pois violara a lei 
romana. Expor um cidadão a tal vexame era uma traição contra a grandiosidade 
do povo romano. Mas a única maneira de salvar a vida de Paulo era mantê-lo em 
custódia; e o tribuno planejou outra forma mais branda de investigar a natureza 
do crime de seu prisioneiro.
* * *
Pa u lo d ia n t e d o Sin é d r io
No dia seguinte, ele “mandou vir os principais dos sacerdotes, e todo o 
seu conselho; e, trazendo Paulo, o apresentou diante deles”. A diplomacia de 
Lísias aqui é interessante. Ele é ativo em reprimir o tumulto; protege um cidadão 
romano; demonstra deferência à religião e aos costumes dos judeus. Essa mistura 
de diplomacia e cortesia em um romano orgulhoso, sob tais circunstâncias, seria 
digna de reflexão, mas temos de prosseguir.
Paulo se dirige ao conselho com seriedade e respeito; mas com evidente 
expressão de integridade consciente. “E, pondo Paulo os olhos no conselho, disse: 
Homens irmãos, até ao dia de hoje tenho andado diante de Deus com toda a boa 
consciência”. Esse senso de justiça inflexível enfureceu Ananias, sumo sacerdote, 
a tal ponto, deste ordenar aos que estavam próximos de Paulo que o ferissem na 
boca. A violação arbitrária da lei por parte do líder do conselho mexeu tanto com 
os sentimentos do apóstolo que, sem temor, exclamou: “Deus te ferirá, parede 
branqueada; tu estás aqui assentado para julgar-me conforme a lei, e contra a lei 
me mandas ferir?” E óbvio que o sumo sacerdote não estava vestido de maneira 
que o diferenciasse dos demais; portanto Paulo se desculpa por ignorar o fato, e 
cita a proibição formal da lei: “Não dirás mal do príncipe do teu povo”.
O texto bíblico diz que o apóstolo percebeu que o conselho estava dividido 
em duas partes: saduceus e fariseus. Por essa razão, exclama: “Homens irmãos,
1 2 6 ] A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 6
eu sou fariseu, filho de fariseu; no tocante à esperança e ressurreição dos mortos 
sou julgado”. Tal declaração, quer tenha tido esse objetivo ou não, serviu para 
dividir a assembléia, e colocar uma parte contra a outra. E as divergências 
se tornaram tão impetuosas que alguns fariseus tomaram partido de Paulo: 
“Nenhum mal achamos neste homem, e, se algum espírito ou anjo lhe falou, não 
lutemos contra Deus”. A sala do julgamento imediatamente se transformou em 
palco de violenta discussão, e a presença de Cláudio Lísias se fez absolutamente 
necessária. Paulo mais uma vez é levado recluso à fortaleza.
Assim se desenrolou essa agitada manhã na história de nosso apóstolo.
À noite, sozinho, será que o coração dele estava desanimado? A partir de tudo 
o que acontecera, e da sombria situação que o cercava, podemos inferir que o 
apóstolo nunca precisou tanto do consolo e do ânimo que só a presença do 
Mestre traz. Quem poderia conhecer melhor a situação ou se compadecer mais 
profundamente do pobre prisioneiro a não ser o Senhor? Então, Ele aparece 
em maravilhosa graça para confortar e alegrar o coração de Seu servo. Foi um 
conforto divinamente cronometrado. O Senhor Se apresentou a ele, como fizera 
em Corinto, e como faria depois na viagem a Roma, e disse: “Paulo, tem ânimo; 
porque, como de mim testificaste em Jerusalém, assim importa que testifiques 
também em Roma” (Atos 18:9-10; 23:11; 27:23-24). Uma conspiração tramada 
por mais de quarenta homens para assassinar Paulo é descoberta, e todos os 
planos malignos, frustrados. Assim que ficou sabendo disso, Cláudio Lísias 
imediatamente chamou seus soldados e centuriões, e deu ordens rigorosas para 
que Paulo fosse levado em segurança a Cesaréia. Esse fato é relatado por Lucas 
com singular detalhamento (Atos 23:12-25).
P a u lo co m p arec e d ia n t e de Félix
Como alguns de nossos leitores puderam observar, o caráter do tratamento 
de Deus para com Seu servo muda um pouco aqui. Será útil pararmos por um 
momento, e em reverência, investigar as causas aparentes dessa mudança. E 
como muitos têm dado opiniões livremente sobre esse ponto difícil, iremos citar 
aqui algumas linhas de certo autor que parece ter captado a mente do Espírito.
“Eu creio, portanto, que a mão de Deus estava nessa jornada de Paulo; que 
em Sua soberana sabedoria, Ele quis que Seu servo a empreendesse, e também 
que tivesse bênçãos nela. Creio que o meio utilizado para conduzir Paulo a isso, 
de acordo com a soberana sabedoria, foi a afeição humana do apóstolo pelo povo 
ao qual pertencia; e que não foi levado a tal jornada pelo Espírito Santo agindo 
da parte de Cristo na assembléia. Esse apego ao seu povo, essa afeição humana,
A T e r c e i r a V iage m d e P a u lo 1 127
somou-se àquele sentimento que existia entre o seu povo, e isso o encaminhou. 
Humanamente falando, era um sentimento nobre; mas não provinha do poder 
do Espírito Santo fundado na morte e ressurreição de Cristo. Aqui, não há 
mais judeu nem gentio. A afeição de Paulo era boa em si mesma, porém, como 
atitude, não chegou ao nível da obra do Espírito, que, da parte de Cristo, o 
mandou se afastar de Jerusalém e ir para os gentios, a fim de revelar a Igreja 
como Seu corpo unido a Ele no céu. “Ele era um mensageiro da glória celestial, 
que revelou a doutrina da assembléia composta por gentios e judeus, unidos sem 
distinção no único corpo de Cristo, aniquilando assim o judaísmo; mas o amor 
por sua nação o impeliu, repito, ao próprio centro do judaísmo hostil - judaísmo 
enfurecido contra a igualdade espiritual.
“Contudo, a mão de Deus estava nisso. Paulo, como indivíduo, estava 
realizado.
“O que Paulo disse suscitou um tumulto, e o tribuno o tirou do meio 
dos judeus. Deus tem todas as coisas à Sua disposição. Um sobrinho de Paulo, 
jamais mencionado em nenhum outro lugar, ouve acerca de uma emboscada 
preparada para o tio, e vai avisá-lo. Paulo o envia ao tribuno, o qual acelera a 
saída de Paulo, sob escolta, para Cesaréia. Deus o protegia, mas tudo isso na 
esfera dos meios humanos e circunstanciais. Não houve um anjo, como no caso 
de Pedro, nem um terremoto como em Filipos. Perceptivelmente, estamos em um 
terreno diferente.”25
Os acusadores de Paulo não demoraram em se dirigir para Cesaréia. “E, 
cinco dias depois, o sumo sacerdote Ananias desceu com os anciãos, e um certo 
Tértulo, orador, os quais compareceram perante o presidente contra Paulo” (Atos 
24:1). Tértulo, com um discurso breve e cheio de bajulação, acusa Paulo de 
sedição, heresia e profanação do templo.
Félix, então, faz um sinal permitindo que Paulo falasse. E podemos 
dizer que agora o apóstolo dos gentios está no lugar certo. Apesar da situação 
humilhante, ele ainda é o mensageiro de Deus para os gentios, e Deus está 
com Seu amado servo. Os judeus foram silenciados e Paulo, com sua habitual 
franqueza, rebateu as acusações.
Ao que parece, Félix tinha um bom conhecimento sobre essas questões, e 
é evidente que ficou bastante impressionado. Muitos anos antes, o cristianismo 
havia penetrado no exército romano em Cesaréia (Atos 10). Então, provavelmen­
te ele sabia algo acerca disso, e estava convencido da veracidade das declarações 
de Paulo, mas não deu o devido valor às suas convicções e ao seu prisioneiro. Ele
128 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 6
25 Sinopse dos Livros da Bíblia, por J. N. DARBY.
A T e r c e ir a V ia g e m d e Pa u l o I 129
I
“adiou” o caso, dando como justificativa a vinda de Lísias. Nesse ínterim, deu 
ordens para que Paulo fosse tratado com brandura e respeito, e que seus amigos 
tivessem livre acesso a ele.
Poucos dias depois, Félix entrou na sala de julgamento acompanhado 
por sua esposa, Drusila, e mandou chamarPaulo. O casal evidentemente estava 
curioso para ouvi-lo falar “acerca da fé em Cristo”. Mas Paulo não era homem de 
satisfazer a curiosidade de um romano libertino, nem de uma princesa devassa.
O fiel apóstolo, ao pregar a Cristo, atingiu clara e ousadamente a consciência 
de seus ouvintes. Por suas cadeias, ele tinha agora uma oportunidade que talvez 
jamais tivesse de outra maneira. “E, tratando ele da justiça, e da temperança, 
e do juízo vindouro, Félix, espavorido, respondeu...”. Não é de se estranhar. 
Segundo os relatos de historiadores da época, Josefo e Tácito, nunca um casal tão 
imoral e dissoluto sentou diante de um pregador. Porém, embora sua consciência 
tenha sido afetada, Félix continuou impenitente. Terrível condição! “Por agora 
vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei.” Mas tal oportunidade jamais 
chegou, apesar de ter freqüentes encontros com o apóstolo, nos quais, sem 
dúvida, insinuou que um suborno garantiria a liberdade de Paulo. O governador 
romano sequer imaginou que sua justiça mercenária ficaria registrada no Livro 
de Deus, estampada para as gerações vindouras. Seu caráter é descrito como 
medíocre, cruel, dissoluto; capaz de qualquer impiedade, ele exerceu o poder de 
um rei com o temperamento de um escravo. “Mas, passados dois anos, Félix 
teve por sucessor a Pórcio Festo; e, querendo Félix comprazer aos judeus, deixou 
a Paulo preso.”
P a u lo co m p arece d ia n te 
d e F e s to e A g r ip a
Imediatamente após a chegada de Festo à província, este visitou Jerusalém.
Ali, os líderes judeus aproveitaram a oportunidade para pedir a volta de Paulo.
O argumento era que ele deveria ser julgado novamente no sinédrio, mas a 
real intenção era matá-lo no caminho. Festo recusou a petição. No entanto, os 
convidou para subir com ele a Cesaréia e lá acusar Paulo. O julgamento começou 
e se pareceu com o que ocorrera diante de Félix. E óbvio que Festo percebeu 
claramente que a ofensa de Paulo estava conectada com as opiniões religiosas 
dos judeus, e que não havia transgredido a lei. Mas, ao mesmo tempo, querendo 
angariar a simpatia dos judeus, pergunta se Paulo deseja ir para Jerusalém e ser 
julgado ali. Isso soava melhor que pedir que se oferecesse em sacrifício devido ao 
ódio dos judeus. Paulo, consciente disso, apela o imperador: “Apelo para César”.
Sem dúvida, Festo se surpreendeu com a dignidade e independência de 
seu prisioneiro. Era um privilégio de Paulo como cidadão romano ter sua causa 
transferida para o supremo tribunal do imperador em Roma. “Então Festo, tendo 
falado com o conselho, respondeu: Apelaste para César? para César irás.”
Até onde podemos ver em termos humanos, esse era o único recurso 
de Paulo, dada as circunstâncias. Mas a mão e o propósito de Deus estavam 
nisso. Paulo tinha de testemunhar sobre Cristo e a verdade em Roma também. 
Jerusalém havia rejeitado o testemunho aos gentios; Roma também teve sua 
parte ao rejeitar o mesmo testemunho e ao prender o mensageiro. Mas em todas 
essas coisas, Paulo foi grandemente favorecido pelo Senhor. A posição dele se 
parece com a do Mestre, quando Este foi entregue aos gentios por causa do ódio 
dos judeus; mas, apenas o Senhor foi perfeito em tudo, e Ele estava no lugar 
predeterminado por Deus. Ele veio para os judeus — essa era a missão dEle; 
Paulo foi liberado dos judeus — essa era a diferença. Cristo Se entregou: “Pelo 
Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus” (Hebreus 9:14). O 
Senhor descreveu parte da missão de Paulo nos seguintes termos: “Livrando-te 
deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio” (Atos 26:17). Mas o apóstolo 
voltou para o “povo” na força de seus sentimentos humanos, após ter sido levado 
para longe deles na força do Espírito Santo (Atos 26:17). Jesus o separou tanto 
dos judeus quanto dos gentios para exercer um ministério que unisse os dois em 
um só corpo, o de Cristo. Como o próprio Paulo afirma: “Assim que daqui por 
diante a ninguém conhecemos segundo a carne” (2 Coríntios 5:16). Em Cristo 
não há judeu nem grego.
Vamos resumir a história de nosso grande apóstolo.
Pa u lo co m pa rece d ia n t e 
de A g r ipa e B eren ice
Aconteceu nesse ínterim que Agripa, rei dos judeus, e sua irmã Berenice 
vieram fazer uma visita de cortesia a Festo. E este, não sabendo como relatar o 
caso de Paulo ao imperador, aproveitou a oportunidade para consultar Agripa, 
o qual estava melhor informado sobre os pontos em questão. O príncipe judeu, 
que deveria saber algo sobre o cristianismo e sobre o próprio Paulo, expressou o 
desejo de ouvi-lo falar. Festo prontamente consentiu. “Amanhã o ouvirás.”
O apóstolo agora tem o privilégio de testemunhar do nome de Jesus diante 
da mais nobre assembléia jamais reunida. Reis judeus, governadores romanos, 
oficiais militares, e os líderes de Cesaréia reunidos “com grande pompa” para 
ouvir o prisioneiro contar seu relato a Agripa. Não era uma audiência medíocre,
130 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 6
A T e r c e i r a V iag e m d e P a u lo 1 131
e fica perfeitamente evidente que eles não consideravam Paulo um prisioneiro 
comum. Festo, percebendo a dificuldade em que estava, submete a questão ao 
conhecimento do rei judeu. Agripa faz um sinal para que Paulo fale. Chegamos 
agora a um dos momentos mais interessantes de toda a história do apóstolo.
A dignidade de sua conduta diante dos juizes, embora acorrentado pela 
mão a um soldado, certamente impressionou bastante a todos. A profundida­
de de sua humilhação serviu para manifestar de forma ainda mais admirável 
a elevação moral da alma do apóstolo. Ele não falou sobre si mesmo nem 
sobre suas cadeias. Perfeitamente tranqüilo em Cristo, e cheio de amor pelos 
que os cercavam, o ego e as circunstâncias foram completamente esquecidos. 
Com muito respeito pela posição dos que ali estavam, por meio das genuínas 
declarações de boa consciência, ele se elevou muito além de todos os presentes. 
Ele se dirige à consciência dos ouvintes com a ousadia e retidão de um homem 
acostumado a andar com Deus e a obedecê-Lo. O caráter e a conduta daqueles 
líderes foram colocados em total contraste com o caráter e a conduta do apóstolo, 
e nos mostram o que o mundo é quando desmascarado pelo Espírito Santo.
Certo autor escreveu: “Não mencionarei a vaidade mundana que se revela 
em Lísias e Festo por meio da conjetura de toda classe de boas qualidades e boa 
conduta - mistura de uma consciência tocada e falta de princípios nos líderes - e 
do desejo de agradar os judeus, pela importância que tinham ou para facilitar 
o governo de um povo rebelde. A posição de Agripa e todos os detalhes da 
história têm o extraordinário cunho da verdade, cujos vários personagens são 
apresentados de maneira tão vívida que parece que estamos presenciando a cena 
aqui descrita, e vendo as pessoas se movendo nela. Além do mais, essa é uma 
característica marcante dos escritos de Lucas”.
Capítulo 26. Paulo fala com o rei Agripa como alguém versado nos 
costumes e questões predominantes entre os judeus; e relata sua miraculosa 
conversão e os fatos subseqüentes para tocar a consciência do rei. Pela clara e 
franca narrativa do apóstolo, Agripa estava bem próximo de ser convencido, 
pois sua consciência foi despertada, mas o mundo e suas próprias paixões o 
impediram. Festo o ridicularizou. Para ele, aquilo não passava de entusiasmo 
extravagante - um delírio. Ele interrompeu o apóstolo bruscamente, dizendo 
“em alta voz: Estás louco, Paulo; as muitas letras te fazem delirar”. A resposta de 
Paulo foi nobre e calma, mas intencionalmente franca e, com grande sabedoria e 
discernimento, por fim Paulo apela a Agripa. “Não deliro, ó potentíssimo Festo; 
antes digo palavras de verdade e de um são juízo. Porque o rei, diante de quem 
falo com ousadia, sabe estas coisas, pois não creio que nada disto lhe é oculto; 
porque isto não se fez em qualquer canto.”
Então, virando-se para o rei judeu, o qual estava ao lado de Festo, lhe 
fez um apelo direto e solene: “Crês tunos profetas, ó rei Agripa? Bem sei que
A >5cres .
“E disse Agripa a Paulo: Por pouco me queres persuadir a que me faça 
cristão!”
Naquele momento, o rei estava sendo conduzido pelo poder das palavras 
de Paulo, e pelos agudos ferrões de seus apelos. O apóstolo faz sua réplica - que 
permanece sem resposta. Ela é caracterizada pelo zelo, gentileza cristã, ardente 
amor pelas almas, e grande alegria no Senhor.
“E disse Paulo: Prouvera a Deus que, ou por pouco ou por muito, não 
somente tu, mas também todos quantos hoje me estão ouvindo, se tornassem 
tais qual eu sou, exceto estas cadeias.”
Com a expressão desse nobre desejo, a conferência foi encerrada. A 
assembléia se dissolveu. Agripa não queria ouvir mais nada. Os apelos tinham 
sido tão penetrantes, tão pessoais, tão misturados com dignidade, afeição e 
solicitude que ele foi vencido. “E, dizendo ele isto, levantou-se o rei, o presidente, 
e Berenice, e os que com eles estavam assentados.” Após uma breve conversa, 
Festo, Agripa e seus companheiros chegaram à conclusão de que Paulo não era 
culpado de nada digno de morte ou mesmo de prisão. “E Agripa disse a Festo: 
Bem podia soltar-se este homem, se não houvera apelado para César.”
Esse era o cuidado do Senhor para com Seu servo amado. Ele teve sua 
inocência provada e reconhecida por seus juizes, e completamente estabeleci­
da perante o mundo. Terminada a sessão, o rei e os demais líderes voltaram 
para suas posições e pompas no mundo, e Paulo para a sua cela. Mas, naquele 
momento seu coração estava feliz e cheio do Espírito de seu Mestre.
A V iagem de Pa u lo a R o m a
(60 AC.)
Atos 27. Agora é o momento da viagem de Paulo a Roma. O apóstolo 
ainda não tinha tido nenhum julgamento formal. E, sem dúvida, desgastado 
pela inflexível oposição dos judeus - e por dois anos de prisão em Cesaréia, 
com repetidos interrogatórios diante dos governadores e Agripa, ele exigiu um 
julgamento diante da corte imperial. Lucas, o historiador de Atos, e Aristarco 
de Tessalônica foram abençoados por acompanhá-lo. Paulo foi entregue aos 
cuidados de um centurião chamado Júlio, da guarda imperial; oficial que, em 
todas as ocasiões, tratou o apóstolo com grande cordialidade e consideração.
1 3 2 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 6
Ficou determinado que Paulo deveria seguir com outros prisioneiros para 
a Itália pelo mar. Lucas relata :“E, embarcando nós em um navio adramitino, 
partimos navegando pelos lugares da costa da Ásia, estando conosco Aristarco, 
macedônio, de Tessalônica. E chegamos no dia seguinte a Sidom, e Júlio, 
tratando Paulo humanamente, lhe permitiu ir ver os amigos, para que cuidassem 
dele”. Partindo de Sidom, eles foram forçados a navegar a sotavento de Chipre, 
por causa dos ventos contrários, e chegaram a Mirra, uma cidade de Lícia. Ali o 
centurião transferiu seus prisioneiros para um navio de Alexandria que navegava 
para a Itália. Nessa embarcação, depois de partir de Mirra, navegaram vagaro­
samente por muitos dias, pois o clima lhes era desfavorável. Mas rumando até 
Creta, chegaram em segurança a “Bons Portos”.
O inverno estava próximo, e isso se torna uma questão séria no que tangia a 
permanecer em Bons Portos durante o inverno ou a procurar um porto melhor.
Aqui temos de parar por um momento e examinar a maravilhosa posição 
de nosso apóstolo nessa séria consulta. Como anteriormente diante de Festo 
e Agripa, ele se apresenta diante do capitão, do mestre, do centurião, e de 
toda tripulação como alguém que conhece os pensamentos de Deus. Paulo 
aconselha, dirige e age como se realmente fosse o capitão do barco e não como 
um prisioneiro sob custódia. Ele os advertiu que deveriam permanecer onde 
estavam. Ele afirmou que iriam enfrentar um clima violento se se aventurassem 
no mar aberto, e que isso traria muito prejuízo ao navio, à carga, e até à vida dos 
que estavam a bordo. Mas o piloto e o capitão do navio, que tinham o máximo 
interesse no próprio navio, foram guiados pelas circunstâncias e não pela fé. Eles 
quiseram correr o risco de procurar um porto mais confortável para invernar, e o 
centurião naturalmente concordou com o julgamento deles. Tudo estava contra 
o conselho do homem de Deus, homem que falava e agia segundo Deus. Até 
mesmo o cenário que os rodeava parecia confirmar a opinião dos marinheiros, 
e não a palavra do apóstolo. Porém nada pode falsificar a palavra da fé. Ela é 
verdadeira independente de qualquer circunstância.
Portanto, ficou resolvido pela maioria que deveriam partir de Bons Portos 
e navegar para Fenice, um porto considerado mais seguro para o inverno. “E, 
soprando o sul brandamente...”. Eles estavam tão otimistas, como Lucas diz, 
que pensaram que o seu objetivo tinha sido alcançado (v. 13). De comum acordo, 
levantaram âncora e com uma suave brisa sul, o barco com “duzentas e setenta 
e seis almas” a bordo, deixou Bons Portos. Porém, mal navegaram cerca de nove 
quilômetros e um forte vento da costa alcançou o navio, e o agitou de tal modo que 
não foi possível ao timoneiro manter a rota. E como Lucas observa: “Nos deixamos 
ir à toa”, ou seja, nada havia mais a fazer senão serem impelidos pelo vento.
A T e r c e i r a V iagem d e P a u lo | 133
Mas nosso principal interesse aqui é com Paulo como homem de fé. O que 
seus companheiros de viagem estariam pensando e sentindo agora? Eles haviam 
confiado no vento, e nesse momento colhiam tempestade. As sérias advertências 
e conselhos da fé foram rejeitados. Infelizmente, muitos negligenciam as adver­
tências registradas aqui, e sob os agradáveis ventos das circunstâncias favoráveis, 
iniciam a grande viagem da vida rejeitando completamente a voz da fé. Porém, 
como o lisonjeiro vento que levou o barco para longe do porto, tudo logo se 
transforma em uma violenta tempestade no agitado mar da vida.
T em pestade n o M a r A d r iá t ic o
O termo “euro-aquilao” dado a esse fenômeno indica uma tempestade da 
máxima magnitude. Era acompanhada pela agitação e rodopio das nuvens, e por 
um forte abalo marítimo, com enormes ondas. O historiador sagrado prossegue 
escrevendo um apurado relato do que ocorreu no navio sob tal perigosa 
situação. Sendo empurrados para Clauda, eles puderam escapar por um pouco 
da violência da tempestade. Isso lhes deu a oportunidade de se prepararem para 
enfrentar a tormenta.
No dia seguinte, partiram de Clauda. A violência da tempestade continuava 
a mesma. Eles começaram a aliviar o navio de tudo o que poderia ser eliminado. 
Ao que parece todos ajudaram nessa tarefa. “E, andando nós agitados por uma 
veemente tempestade, no dia seguinte aliviaram o navio. E ao terceiro dia nós 
mesmos, com as nossas próprias mãos, lançamos ao mar a armação do navio. E, 
não aparecendo, havia já muitos dias, nem sol nem estrelas, e caindo sobre nós 
uma não pequena tempestade, fugiu-nos toda a esperança de nos salvarmos”.
Nada era mais apavorante para os marinheiros da antiguidade que um 
céu continuamente nublado, pois costumavam se guiar pela observação dos 
corpos celestes. Foi nesse momento de perplexidade e desespero que o apóstolo 
se colocou “em pé no meio deles” e levantou sua voz acima da tempestade. 
A partir de suas palavras de solidariedade, aprendemos que todos os outros 
sofrimentos deles foram agravados pela dificuldade de preparar comida. “E, 
havendo já muito que não se comia, então Paulo, pondo-se em pé no meio 
deles, disse: Fora, na verdade, razoável, ó senhores, ter-me ouvido a mim e não 
partir de Creta, e assim evitariam este incômodo e esta perda. Mas agora vos 
admoesto a que tenhais bom ânimo, porque não se perderá a vida de nenhum 
de vós, mas somente o navio. Porque esta mesma noite o anjo de Deus, de quem 
eu sou, e a quem sirvo, esteve comigo, dizendo: Paulo, não temas; importa 
que sejas apresentado a César, e eis que Deus te deu todos quantos navegam
1 3 4 ( A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 6
A T erc eir a V ia g em d e Pa u l o 135
contigo. Portanto, ó senhores, tende bom ânimo;porque creio em Deus, que há 
de acontecer assim como a mim me foi dito. E, contudo, necessário irmos dar 
numa ilha” (vv. 21-26).
O N a u fr á g io
O naufrágio não demorou. “E, quando chegou a décima quarta noite, sendo 
impelidos de um e outro lado no mar Adriático, lá pela meia-noite suspeitaram 
os marinheiros que estavam próximos de alguma terra. E, lançando o prumo, 
acharam vinte braças; e, passando um pouco mais adiante, tornando a lançar o 
prumo, acharam quinze braças.” Durante catorze dias e noites a tempestade não 
deu trégua, e nesse período o sofrimento daqueles homens foi indescritível.
No fim do décimo quarto dia, “lá pela meia-noite”, os marinheiros ouviram 
um som que indicava a proximidade de terra firme. O som, sem dúvida, era de 
ondas de arrebentação, que se quebram nos rochedos. Não havia tempo a perder; 
imediatamente lançaram quatro âncoras da popa, e ansiosamente esperaram pelo 
amanhecer. Aqui surge uma tentativa natural mas egoísta por parte da tripulação 
de salvar a própria pele. Eles baixaram o bote com o pretexto de lançar âncoras 
da proa, mas o que queriam de fato era abandonar o navio. Percebendo isso, e 
sabendo do real propósito deles, na mesma hora “disse Paulo ao centurião e aos 
soldados: Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos. Então os soldados 
cortaram os cabos do batel, e o deixaram cair”. Portanto, o conselho divino dado 
pelo apóstolo foi o meio de salvar todos a bordo. “Se estes não ficarem no navio, 
não podereis salvar-vos.” Não era mais no capitão ou na tripulação do navio que 
se buscava sabedoria ou segurança. Todos os olhos estavam postos em Paulo, 
o prisioneiro - o homem de fé, homem que acreditava e agia de acordo com a 
revelação de Deus. As circunstâncias sempre nos levam para o caminho errado 
quando olhamos para elas procurando orientação; somente a Palavra de Deus é 
nosso guia seguro, nos dias bons e maus.
Durante o tenso intervalo até o amanhecer, Paulo teve uma oportunidade 
de levantar a voz para testemunhar e encorajar. Como deve ter sido uma cena 
fantástica! A noite escura e tempestuosa; o frágil barco a ponto de naufragar ou ser 
despedaçado pelos rochedos. Mas havia uma pessoa a bordo perfeitamente em paz 
apesar da situação. O estado do barco, as águas revoltas, o som alarmante da arre­
bentação, enfim, nada o aterrorizava. Ele estava tranqüilo no Senhor, e em plena 
comunhão com Seus pensamentos e propósitos. Essa é a posição cristã em meio a 
quãlquiTwfmSttvèmÊora poucos a desfrutem, pois somente a fé pode alcançá-la. 
Tal foi a última exortação clêTaulo aos seus companheiros de viagem.
“E, entretanto que o dia vinha, Paulo exortava a todos a que comessem 
alguma coisa, dizendo: É já hoje o décimo quarto dia que esperais, e permaneceis 
sem comer, não havendo provado nada. Portanto, exorto-vos a que comais 
alguma coisa, pois é para a vossa saúde; porque nem um cabelo cairá da cabeça 
de qualquer de vós. E, havendo dito isto, tomando o pão, deu graças a Deus 
na presença de todos; e, partindo-o, começou a comer. E, tendo já todos bom 
ânimo, puseram-se também a comer” (vv. 33-36).
A única esperança deles era levar o navio à costa e escapar para a terra 
firme. Embora não vendo a costa, “enxergaram, porém, uma enseada que tinha 
praia”, e decidiram encalhar o navio ali. Então levantaram as âncoras, soltaram 
as amarras do leme, desfraldaram a vela maior e rumaram para a praia. O 
navio encalhou, a proa ficou encravada na areia, mas a popa se partiu devido à 
violência das ondas.
O barco havia chegado à costa; e mais uma vez o homem de fé foi o 
instrumento utilizado para salvar todos os prisioneiros. O centurião, grandemente 
influenciado pelas palavras de Paulo e ansioso pela segurança dele, impede que os 
prisioneiros fossem mortos pelos soldados, e dá ordens aos que sabiam nadar que 
pulassem no mar e alcançassem a terra. O restante deveria se agarrar aos pedaços 
do navio e nadar para a praia. “E assim aconteceu que todos chegaram à terra a 
salvo.” O livramento foi cumprido como Paulo tinha profetizado que seria.
Pau lo em M alta
Atos 28. Os habitantes da ilha receberam os náufragos com muita 
gentileza, e imediatamente acenderam uma fogueira para aquecê-los. O 
historiador sagrado nos pinta um quadro vívido da cena toda. Vemos as pessoas 
descritas se movendo nele: o apóstolo juntando lenha para a fogueira; a víbora 
mordendo sua mão; os nativos pensando nele primeiramente como um assassino, 
e depois como um deus, por ter escapado ileso da mordida. Públio, o principal 
líder da ilha, lhes hospedou gentilmente por três dias. O pai dele, que estava 
doente, foi curado pela imposição de mãos e oração de Paulo. O apóstolo pôde 
fazer muitos milagres durante sua estada na ilha; e todos os seus companheiros 
de viagem, por causa dele, receberam muitas honras. Vemos que Deus estava 
com Seu amado servo, o qual exerceu seu poder entre os habitantes de Malta. 
Como a parte final da jornada de Paulo a Roma foi tão próspera, quase não há 
nenhum incidente registrado, e, portanto, passaremos por ele com rapidez.
Após três meses em Malta, os soldados e os prisioneiros partiram rumo à 
Itália em um navio alexandrino. Alcançaram Siracusa, ficando ali por três dias;
1 3 6 [ A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 6
A T er c eir a V ia g em d e Pa u l o I 1 3 7
depois costearam até Régio, chegando no dia seguinte a Potéoli. Nesse lugar 
“achando alguns irmãos”, passaram com eles cerca de uma semana, desfrutando 
da comunhão fraternal, e as notícias da chegada do apóstolo atingiram Roma. 
Os cristãos saíram ao encontro de Paulo e seus amigos na Praça de Ápio e nas 
Três Vendas. Um belo exemplo e ilustração da comunhão dos santos. Como o 
apóstolo deve ter se sentido no primeiro encontro com os cristãos da igreja de 
Roma! Seu longo anseio por fim se cumpriu; seu coração se encheu com louvor; 
“deu graças a Deus e tomou ânimo”.
A C h eg a d a de P a u lo a R o m a
Paulo e seus companheiros muito provavelmente viajaram para Roma 
pela Via Ápia. Na chegada deles, “o centurião entregou os presos ao capitão 
da guarda26; mas a Paulo se lhe permitiu morar por sua conta à parte, com o 
soldado que o guardava”. Apesar de não ser liberado do constante incômodo de 
estar acorrentado a um soldado, todas as indulgências possíveis a um prisioneiro 
lhes foram concedidas.
Paulo agora tinha o privilégio de também anunciar o evangelho aos que 
estavam em Roma (Romanos 1:15); e executou sem demora a ordem divina: “... 
aos judeus primeiro”. Ele convocou os principais líderes judeus e lhes explicou 
sua verdadeira situação. Ele os assegurou de que não havia cometido nenhuma 
ofensa contra a nação, nem contra os costumes de seus antepassados. A razão 
de estar em Roma era para responder certas acusações feitas pelos judeus na 
Palestina, tão infundadas que o próprio governador romano estava disposto a 
liberá-lo, ao que se opunham os judeus. Como ele disse: “pela esperança de Israel 
estou com esta cadeia”. Seu único crime era sua sólida fé nas promessas de Deus 
a Israel por meio do Messias.
Os judeus romanos, em resposta, disseram a Paulo que nada acerca da 
questão havia chegado ao conhecimento deles, e que desejavam ouvi-lo declarar 
sua fé; e além disso, que em toda parte se falava mal dos cristãos. Foi marcada 
uma data para outra reunião na casa de Paulo. No dia designado, muitos 
vieram, “aos quais declarava com bom testemunho o reino de Deus, e procurava 
persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a 
manha até à tarde”. Mas os judeus de Roma, como os de Antioquia e Jerusalém, 
eram tardios de coração para crer. “E alguns criam no que se dizia; mas outros
26 O sábio e humano Burrus era o chefe da guarda pretoriana quando Júlio chegou com os 
prisioneiros. Ele era um romano íntegro e sempre tratou Paulo com a maior consideração e 
gentileza possível. — Dicionário de Biografias do Dr. Smith.
A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 6
não criam.”Como Paulo trabalhou sincera e incansavelmente para conquistar 
o coração deles para Cristo! Da manhã até à tarde não apenas pregou a Cristo, 
mas buscava convencê-los no tocante a Ele. Temos certeza de que o apóstolo 
procurou persuadi-los quanto à divindade e humanidade, o perfeito sacrifício, 
a ressurreição, ascensão e glória de Jesus. Que lição e que assunto para os 
pregadores de todas as épocas: persuadir os homens no que concerne a Jesus de 
manhã até à tarde!
A condição dos judeus nos é exposta pela última vez. O juízo pronunciado 
por Isaías estava prestes a cair sobre eles com todo o poder destruidor - um 
juízo debaixo do qual estão ainda hoje; um juízo que continuará até que Deus 
lhes dê arrependimento, e os liberte por Sua graça para glória do Seu nome. 
Mas, nesse ínterim, “a salvação divina é pregada aos gentios, e eles a ouvirão”, 
e como sabemos - louvado seja Seu nome -, eles a ouviram, pois nós mesmos 
somos testemunhas disso27.
“E Paulo ficou dois anos inteiros na sua própria habitação que alugara, e 
recebia todos quantos vinham vê-lo; pregando o reino de Deus e ensinando com 
toda a liberdade as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento 
algum.”
Essas são as últimas palavras de Atos. A cena na qual a cortina se fecha 
é bastante sugestiva: a oposição dos judeus incrédulos naquilo que se referia 
à salvação da alma deles, era infelizmente, uma amostra do que logo recairia 
sobre esse povo. E aqui também termina a história desse precioso servo de Deus, 
até onde é diretamente revelado. A voz do Espírito da verdade silencia no que 
tange a esse assunto. Nossas informações sobre a subseqüente história de Paulo 
têm de ser obtidas quase exclusivamente em suas epístolas. Nelas aprendemos 
muito mais que meros fatos históricos, pois nos dão uma fantástica visão dos 
sentimentos conflitantes e das emoções do grande apóstolo, além do estado geral 
da igreja de Deus até o período do martírio de Paulo.
O L iv r o de A to s T r a n sic io n a l
Paremos por um momento e observemos nosso apóstolo como prisioneiro 
na cidade imperial. O evangelho agora havia sido pregado de Jerusalém a Roma. 
Grandes mudanças aconteceram nos caminhos dispensacionais de Deus. O 
livro de Atos é transicional por natureza. Os judeus foram colocados de lado, 
ou melhor, eles mesmos se colocaram à parte por terem rejeitado o que Deus 
estava edificando. Os conselhos de Sua graça em relação a eles sem dúvida
27 Veja Estudos Introdutórios ao Livro de Atos, de W. Kelly.
permanecem para sempre; porém, nesse meio-tempo, foram rejeitados e outros 
vieram e se apossaram do maravilhoso relacionamento com Deus. Paulo era 
uma testemunha da graça divina a Israel, pois ele mesmo era um israelita, mas 
escolhido de Deus para introduzir algo totalmente novo: a Igreja, o Corpo de 
Cristo, “do qual fui feito ministro... me foi dada esta graça de anunciar entre 
os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e 
demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos 
esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo” (Efésios 
3:7-9). Essa novidade acabou com toda a distinção entre judeus e gentios como 
pecadores e na unidade desse corpo. Como temos visto, a hostilidade dos judeus 
quanto a tais verdades jamais diminuiu, e assim também são perceptíveis os 
resultados dessa inimizade. Os judeus desaparecem do cenário completamente, 
e a igreja se torna o vaso do testemunho de Deus na terra, e Sua habitação pelo 
Espírito (Efésios 2:22). E claro que indivíduos judeus que crêem em Jesus são 
abençoados por estarem em conexão com o Cristo celestial e Seu corpo, mas 
Israel é deixado sem Deus por um tempo e sem a presente comunicação com 
Ele. A Epístola aos Romanos e aos Efésios revelam claramente essa doutrina (em 
especial os capítulos 9 a 11 de Romanos).
Á O cupação de Paulo 
d u r a n t e seu C o n f in a m e n t o
Embora fosse um prisioneiro, a Paulo foi permitido ter livre comunicação 
com seus amigos e, portanto, estava cercado de muitos de seus mais antigos e 
fiéis companheiros. A partir das epístolas, vemos que Lucas, Timóteo, Tíquico, 
Epafras, Aristarco e outros estavam com o apóstolo naquele tempo. Temos de 
ter em mente que, como prisioneiro, vivia atrelado a um soldado e exposto a 
rude controle. Devido à longa demora em seu julgamento, o apóstolo ficou nessa 
condição por dois anos, durante os quais pregou o evangelho e descortinou 
as Escrituras às congregações que vinham ouvi-lo, além de ter escrito várias 
epístolas a igrejas de lugares distantes.
Tendo inteira e fielmente cumprido a tarefa para com os judeus, o povo 
favorecido de Deus, ele se dirige aos gentios, não tendo, contudo, excluído 
os judeus. A porta de sua casa estava aberta de manha à noite para todos 
os que quisessem entrar e ouvir as grandes verdades do cristianismo. E em 
alguns aspectos, Paulo nunca teve melhores oportunidades, porque os judeus 
não puderam mais incomodá-los devido ao fato dele estar sob a proteção dos 
romanos.
I
A T e r c eir a V ia g em d e Pa u l o 1 1 3 9
Os efeitos da pregação de Paulo por meio da benção do Senhor logo se mani­
festaram. A guarda romana, a casa de César e outros lugares foram abençoados por 
seu intermédio. “E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram 
contribuíram para maior proveito do evangelho; de maneira que as minhas 
prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana, e por todos os 
demais lugares” (Filipenses 1:12-13). E o apóstolo acrescenta: “Todos os santos 
vos saúdam, mas principalmente os que são da casa de César” (4:22). A bênção 
parece ter chegado em primeiro lugar ao pretório, ou entre os guardas pretorianos. 
“Minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana” — o 
alojamento dos guardas e das tropas. O evangelho da glória que Paulo pregava foi 
ouvido por todos eles. Até mesmo o gentil prefeito romano Burrus e seu amigo 
íntimo, Sêneca, tutor de Nero, devem ter ouvido o evangelho da graça de Deus. 
Os modos educados de Paulo e suas grandes habilidades, natas e adquiridas, eram 
totalmente adequadas para atrair tanto o estadista quanto o filósofo. Sua estada 
por dois anos ali deu-lhes inúmeras oportunidades.
Podemos dizer que a quase totalidade dos guardas deve tê-lo conhecido 
pessoalmente. A porta para o evangelho se alargava mais e mais com cada troca 
de guarda. Estando sempre acorrentado ao soldado que o vigiava, e sendo tal 
sentinela constantemente substituído, Paulo se tornou conhecido por muitos, 
e com que amor, ardor e eloqüência deve ter falado com eles sobre Jesus e da 
necessidade que tinham do Salvador! Mas teremos de esperar até a manhã da 
primeira ressurreição para ver os resultados da pregação de Paulo ali. O dia o 
declarará, e Deus terá toda a glória.
O apóstolo nos dá a entender também que o evangelho penetrou no 
próprio palácio. Havia santos na casa de César. O cristianismo foi plantado 
dentro das paredes imperiais, e “por todos os demais lugares”. Sim, nos “demais 
lugares”, diz o historiador sagrado. Não apenas Paulo estava trabalhando nos 
domínios imperiais, mas também seus companheiros, sem dúvida, pregavam o 
evangelho “por todos os demais lugares”, dentro e ao redor da cidade imperial. 
Portanto, o sucesso do evangelho pode ser atribuído ao esforço de outros, bem 
como às ações vigorosas e incansáveis do grande apóstolo em seu cativeiro.
O Escravo Fu g id o , O n é sim o
Mas de todos os convertidos que o Senhor deu ao apóstolo em suas 
cadeias, nenhum parece ter conquistado seu coração como o pobre escravo 
fugido, Onésimo. Bela figura de força, humildade, e do amor divino em um 
coração movido pelo Espírito, brilhando em todos os detalhes da vida de uma
140 | A H is t ó r ia da Ig r e ja - capítulo 6
A T er c eir a V ia g em d e Pa u lo 141
pessoa! O sucesso do apóstolo no palácio imperial não enfraqueceu seu interesse 
por um jovem discípulo da mais baixa camada dasociedade. Nenhuma porção 
da comunidade era mais depravada que os escravos; e como deveriam ser os 
companheiros de um escravo fugitivo em uma cidade devassa? No entanto, 
Onésimo é arrancado das profundezas por uma mão invisível de amor eterno. 
Ele cruza o caminho do apóstolo, ouve a pregação do evangelho, se converte, se 
consagra ao Senhor e à Sua obra, e encontra em Paulo um amigo e um irmão, 
bem como um líder e mestre. E agora refulgem as virtudes e o valor do cristia­
nismo. Bem como as doces ações da graça divina na vida de um escravo pobre, 
solitário, destituído e fugitivo.
Em vista dessa nova coisa em Roma, no mundo, podemos perguntar o 
que é o cristianismo e qual sua origem. Será que foi aos pés de Gamaliel que 
Paulo aprendeu a amar? Não, caro leitor, foi aos pés de Jesus. Quisera Deus que 
o eloqüente historiador de “O Declínio e a Queda do Império Romano” tivesse 
entrado em cena e aprendesse a valorizar, ao invés de ridicularizar o cristianismo 
divino! Se pensarmos um momento no esforço do apóstolo nesse período, na 
idade em que estava, em suas enfermidades, nas circunstâncias adversas, sem 
mencionar os elevados temas e as sublimes verdades fundamentais que ocupavam 
sua mente então, podemos admirar a graça que havia em cada detalhe do rela­
cionamento entre mestre e escravo, e as gentis considerações por cada pedido. 
A carta que enviou com Onésimo a Filemom, o proprietário prejudicado, é 
certamente a mais tocante que escreveu. Lendo-a por alto, perderemos a ternura 
e a veemência de seus sentimentos, a sensibilidade e justiça de seus pensamentos, 
e a sublime dignidade que permeia a epístola inteira.
Ep íst o la s Esc r it a s 
DURANTE O ENCARCERAMENTO
Não há dúvidas que as seguintes epístolas — Filemom, Colossenses, 
Efésios e Filipenses, foram escritas durante a parte final do encarceramento de 
Paulo em Roma. Ele se refere às suas “prisões” em todas elas, e repetidamente 
à expectativa de ser liberto (compare Efésios 3:1, 4:1, 6:20; Filipenses 1:7,25; 
2:24; 4:22; Colossenses 4:18; Filemom 2). Além disso, ele ficou tempo bastante 
em Roma para que as notícias de sua prisão chegassem aos afetuosos filipenses, 
e estes lhe mandassem algum refrigério.
SupÕe-se que as primeiras três tenham sido escritas na primavera de 62 dC e 
enviadas por meio de Tíquico e de Onésimo. Já a Epístola aos Filipenses foi escrita 
algum tempo depois, no outono, e entregue por Epafrodito. Paulo fala sobre um
assunto urgente o qual teve de ser resolvido em sua epístola a eles. “De sorte que 
espero vo-lo enviar logo que tenha provido a meus negócios. Mas confio no Senhor, 
que também eu mesmo em breve irei ter convosco” (Filipenses 2:23-24).
Alguns supõem também que a Epístola aos Hebreus tenha sido escrita nesse 
mesmo período, e cada exame leva à conclusão de que Paulo seja o autor dela. A 
expressão no fim da epístola, “os da Itália vos saúdam”, parece ser decisiva quanto 
ao lugar onde o escritor estava ao escrevê-la. As seguintes passagens parecem ser 
decisivas quanto ao tempo: “Sabei que já está solto o irmão Timóteo, com o 
qual, se ele vier depressa, vos verei”. Compare isso como que Paulo escreveu aos 
filipenses: “Espero no Senhor Jesus que em breve vos mandarei Timóteo... mas 
confio no Senhor, que também eu em breve irei ter convosco” (2:19, 24). E difícil 
acreditar que essas passagens foram escritas pela mesma pena ao mesmo tempo, 
e que se refiram aos mesmos planos. Mas não iremos insistir nesse ponto. Uma 
coisa, contudo, é evidente: que essa epístola foi escrita antes da destruição de 
Jerusalém em 70 d.C., pois o templo ainda estava de pé e a adoração continuava 
sem intercorrências. Compare Hebreus 8:4; 9:25; 10:11; 13:10-13.
A L ibertação de Paulo
Após quatro anos inteiros de prisão, parte na Judéia e parte em Roma, 
o apóstolo mais uma vez está em liberdade. Mas não temos detalhes quanto 
ao caráter de seu julgamento, ou do motivo de sua liberação. O historiador 
sagrado nos diz que Paulo morou dois anos em uma casa que alugara; mas não 
diz o que aconteceu no final desse período. Será que o apóstolo foi condenado e 
martirizado ou absolvido e libertado? Essa é uma pergunta crucial, e a resposta 
correta a ela tem de ser procurada primordialmente nas Epístolas Pastorais. A 
Primeira a Timóteo e a Tito parecem ter sido escritas quase ao mesmo tempo; 
e a Segunda a Timóteo um pouco depois.
Atualmente aceita-se como verdadeiro por todos os que são competentes 
para julgar tal questão que Paulo foi libertado, e passou alguns anos viajando, 
em perfeita liberdade, antes de ser novamente detido e condenado. E embora 
seja difícil rastrear as pegadas do apóstolo nesse período, podemos tirar certas 
conclusões a partir de suas cartas sem resvalar para a esfera da conjectura. E 
mais provável que ele tenha viajado rapidamente e visitado muitos lugares. No 
seu prolongado encarceramento, muitos danos foram feitos por seus inimigos nas 
igrejas que Paulo havia plantado. Elas precisavam da presença, do conselho, e do 
encorajamento do apóstolo. E do que sabemos sobre sua energia e zelo, temos 
certeza de que ele não poupou nenhum esforço ao visitá-las.
1 4 2 | A H is t ó r ia da Ig r e ja - capítulo 6
Pa u lo d e ix a a Itá lia
1. Quando escreveu aos romanos, antes de sua prisão, Paulo expressou 
o desejo de ir à Espanha. “Quando partir para Espanha irei ter 
convosco... assim que, concluído isto, e havendo-lhes consignado este 
fruto, de lá, passando por vós, irei à Espanha” (Romanos 15:24, 28). 
Alguns acham que ele foi imediatamente à Espanha após sua libertação.
A principal evidência a favor dessa hipótese é fornecida por Clemente, 
um colaborador mencionado em Filipenses 4:3, o qual depois se tornou 
bispo de Roma. O escritor afirma que Paulo pregou o evangelho do 
oriente ao ocidente-, que falou ao mundo todo (significando, sem dúvida, 
o Império Romano), e que também foi às extremidades do ocidente, ou 
seja, a Espanha. Como Clemente era discípulo e colaborador do próprio 
Paulo, seu testemunho é digno de crédito, ainda que não esteja nas 
Escrituras e, portanto, não conclusivo em si mesmo.
2. Transparece, a partir das cartas mais recentes de Paulo, que ele alterou 
seu planos, e deve ter desistido de ir à Espanha, pelo menos por um 
tempo. Recolhemos essa indicação principalmente nas Epístolas a 
Filemom e aos Filipenses. A Filemom ele escreveu: “E juntamente 
prepara-me também pousada, porque espero que pelas vossas orações 
vos hei de ser concedido” (v. 22). Aqui o apóstolo diz a Filemom para 
esperá-lo porque logo estaria com ele pessoalmente. Já aos Filipenses, 
falando sobre Timóteo, acrescenta: “E espero no Senhor que em breve 
vos mandarei Timóteo, para que eu também esteja de bom ânimo, 
sabendo dos vossos negócios... Mas confio no Senhor, que também eu 
mesmo irei ter convosco” (Filipenses 2:19, 23). Os planos do apóstolo 
e de seu amado Timóteo parecem bem claros nessas passagens. 
Evidentemente era propósito do apóstolo enviar Timóteo a Filipos 
assim que a provação que enfrentava tivesse acabado, permanecendo 
ele mesmo na Itália até que Timóteo retornasse com notícias deles.
3. E razoável esperar que Paulo tenha cumprido sua intenção que tão 
tardiamente expressou, e que tenha visitado as igrejas na Ásia Menor, 
algumas das quais jamais haviam visto seu rosto. Tendo realizado os 
objetivos de sua missão na Ásia Menor, alguns acham que, então, ele 
empreendeu sua tão aguardada jornada à Espanha; mas quanto a isso 
não temos nenhuma informação confiável, e meras conjecturas não 
têm qualquer valor.
A T er c eir a V ia g em d e Pa u lo | 1 4 3
4. Outra teoria é que ele foi direto da Itália para a Judéia, e dali para 
Antioquia, Ásia Menor e Grécia. Esse esquema é fundamentado 
principalmente sobre Hebreus 13:23-24. “Sabei que já está solto o 
irmão Timóteo, como o qual, se ele vier depressa, vos verei... Os da 
Itália vos saúdam.” Especula-se também que, enquanto esperava uma 
embarcação em Potéoli, na Itália, imediatamenteapós o retorno de 
Timóteo, chegaram notícias de que uma grande perseguição havia 
sido deflagrada contra os cristãos em Jerusalém. Essa terrível novidade 
contristou tanto o coração do apóstolo a ponto dele escrever de pronto 
sua famosa carta: a Epístola aos Hebreus. Pouco depois Timóteo teria 
chegado, e Paulo e seus companheiros navegaram para a Judéia28.
Lu g a r e s q u e Pa u lo V isit o u 
QUANDO EM LIBERDADE
Tendo mostrado as diferentes teorias acima para análise do leitor, iremos 
agora nos deter nos lugares mencionados por Paulo em suas epístolas.
1. Algum tempo depois de deixar Roma, Paulo e seus companheiros 
devem ter visitado a Ásia Menor e a Grécia. “Como te roguei, quando 
parti para a Macedônia, que ficasses em Efeso, para advertires a alguns, 
que não ensinem outra doutrina” (1 Timóteo 1:3). Talvez se sentindo 
um pouco ansioso quanto a Timóteo e ao peso da responsabilidade da 
posição dele em Efeso, o apóstolo lhe envia da Macedônia uma carta de 
encorajamento, conforto e autoridade: a Primeira Epístola a Timóteo.
2. Pouco depois disso, Paulo visitou a ilha de Creta em companhia de 
Tito,deixando-o ali. Logo também lhe mandou uma carta de instrução 
e autoridade: a Epístola a Tito. Timóteo e Tito podem ser considerados 
como representantes do apóstolo. “Por esta causa te deixei em Creta, 
para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade 
em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei” (Tito 1:5).
3. Paulo planejava passar o inverno em um lugar chamado Nicópolis. 
“Quando te enviar Ártemas, ou Tíquico, procura vir ter comigo a 
Nicópolis; porque deliberei invernar ali” (Tito 3:12).
4. Ele visitou Trôade, Corinto, e Mileto. “Quando vieres, traze a capa 
que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalmente 
os pergaminhos... Erasto ficou em Corinto, e deixei Trófimo doente 
em Mileto” (2 Timóteo 4:13, 20).
1 4 4 j A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 6
28 Para mais detalhes sobre essa perseguição, veja Josefo, Ant. 20, 9,1.
A T er c eir a V ia g em d e Pau lo
Á S e g u n d a P r isã o de Pa u lo em R o m a
Cogita-se que o apóstolo tenha sido preso em Nicópolis (onde pretendia 
passar o inverno) e dali levado como prisioneiro a Roma. Outros, porém, acham 
que, após passar o inverno em Nicópolis e visitar os lugares mencionados acima, 
retornou livre para Roma, mas foi preso durante a perseguição ordenada por 
Nero e foi lançado na prisão.
Não há como verificar com exatidão a acusação feita contra o apóstolo 
dessa vez. Talvez fosse simplesmente pelo fato dele ser cristão. A perseguição 
generalizada contra os cristãos estava atingindo limites extremos. Já não se 
tratava mais de questões sobre a lei mosaica, e não havia mais o humano e gentil 
Burrus para protegê-lo; Paulo agora era tratado como malfeitor, um criminoso 
comum: “Por isso sofro trabalhos e até prisões, como um malfeitor” (2 Timóteo 
2:9); prisões muito diferentes de seu primeiro encarceramento, quando morou 
em sua própria casa que alugara.
Cremos que Alexandre, de Efeso, deve ter algo relacionado com essa 
prisão. Se não era um de seus acusadores, no mínimo, era uma testemunha 
contra Paulo. Este escreveu a Timóteo: “Alexandre, o latoeiro, causou-me 
muitos males”. Dez anos antes, Alexandre declaradamente se colocou como 
um feroz antagonista do apóstolo em Efeso (Atosl9). Quem sabe agora ele 
tenha procurado sua vingança e dado queixa contra o apóstolo. Paulo advertiu 
Timóteo acerca desse mesmo Alexandre de Efeso: “Tu, guarda-te também dele” 
(2 Timóteo 4:14-15).
Durante seu primeiro e longo encarceramento, ele estava cercado por 
muitos de seus antigos e valorosos companheiros, a quem chamou de “coope- 
radores” e “prisioneiros comigo”. Por meio deles, seus mensageiros, apesar de 
acorrentado, ele manteve constante contatos com seus amigos por todo império, 
e com as igrejas gentias que ainda não o conheciam pessoalmente. Mas sua 
segunda prisão contrastava totalmente com a anterior. Ele foi separado de todos. 
Erasto ficou em Corinto, Trófimo estava doente em Mileto, Tito foi para a 
Dalmácia, Crescente para a Galácia, Tíquico havia sido enviado para Efeso, e 
Demas o abandonou, “amando o presente século” (2 Timóteo 4:10).
O apóstolo estava completamente sozinho. “Só Lucas está comigo.” 
Contudo, o Senhor pensou em Seu solitário e abandonado servo. Um raio 
de luz, vindo da fonte de amor, brilha em meio à escuridão e tristeza. Houve 
alguém que não o abandonou e nem se envergonhou das cadeias do apóstolo. 
Quão especialmente doce e reconfortante para o coração de Paulo deve ter sido 
o ministério de Onesíforo nesse período! Não se pode esquecer disso. Onesíforo
e sua casa, a qual Paulo relaciona a si mesmo, tem de ser lembrado sempre, e 
colherá o fruto de sua coragem e devoção ao apóstolo para sempre. “Estive na 
prisão, e fostes ver-me” (Mateus 25:31-46).
Não temos nenhuma informação fidedigna em relação às circunstâncias do 
julgamento de Paulo. Provavelmente na primavera de 66 ou 67 d.C. Nero tomou 
seu lugar no tribunal, cercado pelos membros do júri e pela guarda imperial; e 
Paulo foi trazido à sua presença. Temos razões para acreditar que o grande lugar 
estava cheio de uma mescla de judeus e gentios. O apóstolo ficou mais uma vez 
diante do mundo. Mais uma vez tinha a oportunidade de proclamar a todas 
as nações o motivo pelo qual estava preso: “Para que por mim fosse cumprida 
a pregação, e todos os gentios a ouvissem” (2 Timóteo 4:17). Imperadores e 
senadores, príncipes e nobres, e todos os poderosos da terra tinham de ouvir o 
glorioso evangelho da graça de Deus. Tudo o que o inimigo havia feito se tornou 
um testemunho para o nome de Jesus. Aqueles que, de outro modo, eram ina­
cessíveis ouviram o evangelho pregado com poder do alto.
Seria bastante proveitoso nos demorarmos nessa maravilhosa cena por 
alguns momentos. Jamais houve tal testemunha, e tal testemunho, na sala 
de julgamento de Nero. A sabedoria de Deus em tornar todos os esforços do 
inimigo em testemunho é profundíssima; Seu amor e graça no evangelho 
brilham indescritivelmente e da mesma forma para todas as classes de pessoas. 
O próprio apóstolo nos suscita admiração. Embora naquele período seu coração 
estivesse partido pela infidelidade da igreja, ele permaneceu firme no Senhor e 
na força do Seu poder. Embora tivesse sido abandonado pelos homens, o Senhor 
ficou ao seu lado e o fortaleceu. Paulo confrontou ousadamente seus inimigos, 
advogando em causa própria e do evangelho. Ele teve a oportunidade de falar 
de Jesus, de Sua morte e ressurreição, de modo que uma multidão de gentios 
pudesse ouvir o evangelho. A idade, as enfermidades, a aparência, os grilhões, 
enfim, tudo parecia enfraquecer o impacto da valorosa e franca eloqüência 
do apóstolo. Porém, felizmente, temos um relato de sua própria pena sobre a 
primeira audiência. Ele escreve a Timóteo imediatamente após isso: “Ninguém 
me assistiu na minha primeira defesa, antes todos me desampararam. Que isto 
lhes não seja imputado. Mas o Senhor assistiu-me e fortaleceu-me, para que por 
mim fosse cumprida a pregação, e todos os gentios a ouvissem', e fiquei livre da 
boca do leão” (2 Timóteo 4:16-17).
“Observe agora, e veja o santo escolhido de Cristo 
Em triunfo usar cadeias como seu Senhor;
Nenhum temor irá desviá-lo ou abatê-lo 
Sua vida é Cristo, sua morte é lucro.”
1 4 6 I A H is t ó r ia da Ig r e ja - capítulo 6
A T e r c e i r a V iag e m d e P a u lo 1 147
O M a r t ír io de Pau lo
Embora não tenhamos nenhum relato da segunda audiência, temos razões 
para acreditar que foi logo depois da primeira, e que acabou na condenação e 
morte de Paulo. A Segunda Epístola a Timóteo é o registro divino do que se 
passava em seu interior naquele solene momento. Apenas suas próprias palavras 
podem descrever seu profundo zelo pela verdade e pela igreja de Deus, seu 
tocante amor pelos santos, e em especial por seu amado filho Timóteo e sua 
triunfante esperança diantedo iminente martírio. “Porque eu já estou sendo 
oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo da minha partida está próximo. 
Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa 
da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele 
dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” 
(2 Timóteo 4:6-8).
O tribunal de Nero desvanece perante seus olhos. A morte em sua mais 
violenta forma não exerce terror sobre o apóstolo. Cristo na glória é o objeto de 
seus olhos e coração; a fonte de sua alegria e força. Sua missão está terminada, 
e sua amorosa labuta se finda. Embora prisioneiro e pobre; embora idoso e 
rejeitado; Paulo era rico em Deus, pois possuía a Cristo e, por meio dEle, 
todas as coisas. O mesmo Jesus que ele tinha visto na glória no começo de sua 
carreira, o mesmo que o conduzira por todas as provas e batalhas do evangelho, 
Ele mesmo era sua coroa e herança. O injusto tribunal de Nero e a espada 
manchada de sangue do carrasco eram para Paulo mensageiros da paz, os quais 
vinham encerrar sua longa e cansativa jornada e introduzi-lo na presença de 
Jesus na glória. Era o tempo do Senhor que o amava recolher Seu servo para 
Si. Paulo havia lutado o bom combate do evangelho até o fim, completara a 
carreira, e, portanto, para ele só resta ser coroado quando o Senhor, justo Juiz, 
vier em glória.
“M as em todas estas coisas somos mais do que vencedores.
Por aquele que nos amou.
Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida
Nem os anjos, nem os principados, nem as potestades
Nem o presente, nem o porvir
Nem a altura, nem a profundidade
Nem alguma outra criatura
Nos poderá separar do amor de Deus
Que está em Cristo Jesus nosso Senhor.”
Temos simultâneos testemunhos da antiguidade de que Paulo sofreu 
martírio durante a perseguição de Nero, mais provavelmente em 67 d.C.. Como 
cidadão romano, ele foi decapitado ao invés de ser açoitado e crucificado ou 
exposto às terríveis torturas que inventaram para os cristãos. Como seu Mestre, 
ele sofreu “fora da porta”. Há um local na Via Ostia, cerca de 3,5 quilômetros 
fora dos muros da cidade, onde supõe-se que tenha ocorrido seu martírio. Ali 
o último ato de crueldade humana foi executado, e o grande apóstolo deixou 
seu corpo para habitar com o Senhor (2 Coríntios 5:8). Seu ardoroso e forte 
espírito foi libertado de seu frágil e decrépito corpo; e o antigo desejo de seu 
coração finalmente se realizou: o “desejo de partir, e estar com Cristo, porque 
isto é ainda muito melhor” (Filipenses 1:23).
148 | A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 6
C r o n o l o g ia d a v id a de Paulo
Ano 36 - Conversão de Saulo de Tarso (Atos 9).
Anos 36 a 39 - Em Damasco: prega na sinagoga; vai para Arábia. Volta 
para Damasco. Foge de Damasco. Faz sua primeira 
visita a Jerusalém, três anos após sua conversão, e 
depois vai dali para Tarso (Atos 9:23-26; Gálatas 
1:18).
Anos 39 e 40 - Paz nas igrejas judias (Atos 9:31).
Anos 40 a 43 — Paulo prega o evangelho na Síria e na Cilicia (Gálatas 
1:21). Durante um período indeterminado, ele enfrenta 
a maior parte dos perigos e sofrimentos que relata aos 
coríntios (2 Coríntios 11). É trazido de Tarso para 
Antioquia por Barnabé, e fica ali um ano antes da 
grande fome (Atos 11:25-28).
Ano 44 - Segunda visita a Jerusalém, com as ofertas (Atos 
11:30).
Ano 45 - Paulo retorna à Antioquia (Atos 12:25).
Anos 46 a 49 - A primeira viagem missionária com Barnabé: vai 
para Chipre, Antioquia na Pisídia, Icônio, Listra, 
Derbe, retornando pelos mesmos lugares à Antioquia, 
onde permanece longo tempo. Dissensão e contenda 
sobre a circuncisão dos gentios (Atos 13 a 15).
Ano 51
Ano 52
Ano 53 
Ano 54 
Anos 54 a 56
Primavera do ano 57
Primavera do ano 58 
Anos 58 a 60
Ano 50 Terceira visita a Jerusalém com Barnabé, catorze anos 
depois de sua conversão (Gálatas 2:1). Eles participa­
ram do concílio em Jerusalém (Atos 15). Retorno de 
Paulo e Barnabé a Antioquia, com Judas e Silas (Atos 
15:32-35).
Segunda viagem missionária, com Silas e Timóteo. 
Ele parte de Antioquia e vai para Síria, Cilicia, Derbe, 
Listra, Frigia, Galácia, Trôade. Lucas se junta ao grupo 
apostólico (Atos 16:10).
Entrada do evangelho na Europa (Atos 16:11-13). Paulo 
visita Filipos, Tessalônica, Beréia, Atenas, Corinto, 
onde passa um ano e meio (Atos 18:11). Escreve a 
Primeira Epístola aos Tessalonicenses.
Escreve a Segunda Epístola aos Tessalonicenses. Paulo 
deixa Corinto e navega para Éfeso (Atos 18:18-19).
Quarta visita a Jerusalém por ocasião da festa. Retorna 
à Antioquia.
Terceira viagem missionária. Parte de Antioquia, visita 
a Galácia, Frigia e alcança Éfeso, onde fica dois anos e 
três meses. Ali Paulo separa os discípulos da sinagoga 
judia (Atos 19:8, 10). Escreve a Epístola aos Gálatas.
Escreve a Primeira Epístola aos Coríntios. Tumulto em 
Éfeso. Paulo vai para a Macedônia (Atosl9:23; 20:1). 
No outono, escreve a Segunda Epístola aos Coríntios 
(2 Coríntios 1:8; 2:13-14; 7:5; 8:1; 9:1). Paulo visita 
a região do Ilírico. Vai para Corinto, onde passa o 
inverno (Romanos 15:19; 1 Coríntios 16:6).
Escreve a Epístola aos Romanos (Romanos 15:25-28; 
16:21-23; Atos 20:4). Paulo deixa Corinto, atravessa a 
Macedônia, navega para Filipos, prega em Trôade, fala 
aos anciãos em Mileto, visita Tiro e Cesaréia (Atos 20; 
21:1-14).
Quinta visita a Jerusalém antes da festa de Pentecostes. 
Ele é preso no templo, trazido diante de Ananias e 
do sinédrio, enviado por Lísias à Cesaréia, e mantido 
cativo por dois anos.
A T er c eir a V ia g em d e Pa u lo j
Ano 60 — Paulo se defende perante Festo e Félix. Apela para 
César. Prega diante de Agripa, Berenice e dos líderes 
de Cesaréia. No outono navega para Itália. No inverno 
naufraga em Malta (Atos 27).
Primavera do ano 61 - Chega a Roma. Aluga uma casa, na qual mora por dois
anos.
Primavera do ano 62 - Escreve as Epístolas a Filemom, aos Colossenses e aos
Efésios. Escreve a Epístola aos Filipenses no outono.
Primavera do ano 63 - Paulo é libertado. Escreve a Epístola aos Hebreus. Faz
outra viagem, pretendendo visitar a Ásia Menor e a 
Grécia (Filemom 22; Filipenses 2:24).
Ano 64 - Visita Creta, onde deixa Tito. Exorta Timóteo a se 
estabelecer em Efeso. Escreve a Primeira Epístola a 
Timóteo e a Primeira Epístola a Tito.
Anos 64 a 67 - Planeja passar o inverno em Nicópolis (Tito 3:12).
Visita Trôade, Corinto, Mileto (2 Timóteo 4:13-20). 
Paulo é preso e mandado para Roma. Abandonado 
por todos os seus antigos companheiros, tinha apenas 
Lucas ao seu lado. Escreve a Segunda Epístola a 
Timóteo, provavelmente pouco antes de sua morte. 
Supõe-se que tais eventos e viagens tenham acontecido 
durante um período de três anos.
Ano 67 - Paulo é martirizado.
150 | A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 6
Capítulo 7
O I n c ê n d io de R o m a
C omo nossos dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo, sofreram martírio 
durante a primeira perseguição imperial pode ser interessante para 
muitos de nossos leitores conhecer as particularidades que culminaram 
nesse édito cruel.
Porém aqui, ainda que de modo relutante, teremos que deixar a fidedigna 
Palavra de Deus e nos voltarmos às incertas escritas dos homens. Neste momento 
passamos do terreno firme e sólido da inspiração divina para o fundamento 
inseguro de historiadores romanos e da história eclesiástica. Não obstante, todos 
os historiadores, antigos e modernos, cristãos e não-cristãos, estão de acordo sobre 
os principais fatos relativos ao incêndio de Roma e à perseguição dos cristãos.
No mês de julho do ano 64, um grande fogo começou em volta do Circo 
Máximo e continuou se espalhando até que transformou em ruínas toda a antiga 
grandeza da cidade imperial. Sendo Roma uma cidade de longas ruas estreitas e 
de colinas e vales, as chamas avançaram com grande rapidez. A força do vento 
ajudou o fogo a se alastrar e logo o caos se instalou. Em pouco tempo a cidade 
inteira parecia envolvida em um marde chamas ardentes.
Tácito, historiador romano da época, considerado um dos mais confiáveis 
de seu tempo, nos fala: “Das catorze áreas nas quais Roma era dividida, 
apenas quatro permaneceram inteiras, três foram reduzidas à ruínas e as sete 
restantes não eram nada mais que um amontoado de casas em escombros”. 
O fogo queimou furiosamente durante seis dias e sete noites. Palácios, templos,
monumentos, as mansões dos ricos e as habitações dos pobres pereceram neste 
fogo fatal. Mas isso não era nada comparado aos sofrimentos dos habitantes. As 
enfermidades dos idosos, a fraqueza dos jovens, o desamparo dos doentes, os 
pavorosos gritos e lamentações das mulheres se somaram às misérias desta cena 
terrível. Alguns fizeram o possível para se salvar, outros para salvar seus amigos, 
mas não havia onde encontrar qualquer lugar seguro. Ninguém podia dizer 
para onde ir ou o que fazer; o fogo ardia por todo lado, de maneira tal que as 
pessoas caíam prostradas na rua, abraçando uma morte voluntária e perecendo 
nas chamas.
A pergunta mais importante, ou seja, como o fogo se originou, era 
discutida agora em todos os lugares. Quase todos acreditavam que a cidade 
foi queimada por incendiários, e pelas ordens do próprio Nero. Era certo que 
vários homens foram vistos alimentando as chamas ao invés de extinguí-las; e 
eles afirmaram ousadamente que tinham autoridade para agir assim. Também 
foi relatado que, enquanto Roma ardia, o monstro Nero estava em uma torre 
de onde podia assistir o progresso do incêndio, divertindo-se tocando a “Queda 
de Tróia” em sua lira favorita.
Sem dúvida, muitos de nossos leitores se perguntarão que objetivo Nero 
poderia ter para queimar completamente a maior parte de Roma. Acreditamos 
que o objetivo dele talvez fosse reconstruir a cidade com maior esplendor, e 
chamá-la pelo próprio nome. E imediatamente ele tentou isso do modo mais 
impressionante. Mas tudo o que fez nao lhe restabeleceu o favor popular ou 
retirou a infame pecha de ter ateado fogo à cidade. E quando acabou toda a 
esperança de obter o favor das pessoas e dos deuses, Nero lançou mão de um 
expediente para colocar a culpa em outros. Ele sabia o bastante acerca da impo­
pularidade dos cristãos, tanto com os judeus como com os gentios, para decidir 
fazer deles seu bode expiatório. Logo foi espalhado um rumor que os incendiá­
rios tinham sido descobertos, e que os cristãos eram os criminosos. Muitos foram 
imediatamente presos e punidos à altura para satisfazer a indignação popular.
* * *
A P r im e ir a P er seg u içã o 
sob o s Im per a d o r es
Aqui teremos de parar um pouco e observar o progresso do cristianismo 
e o estado da igreja em Roma neste momento. Muito cedo, e sem a ajuda de 
qualquer apóstolo, o cristianismo penetrou em Roma. Sem dúvida, foi levado
1 5 2 I A H i s t ó r i a d a I g r e ja - capítulo 7
para lá por alguns que tinham se convertido por causa da pregação de Pedro 
no dia de Pentecostes. Entre seus ouvintes, os “forasteiros romanos, tanto 
judeus como prosélitos” são mencionados expressamente (Atos 2:10). E Paulo, 
em sua epístola para aquela igreja, agradece a Deus “porque em todo o mundo 
é anunciada a vossa fé” (Romanos 1:8). E nas saudações fala de “Andrônico 
e Júnia”, parentes dele e também prisioneiros, os quais eram líderes entre os 
apóstolos e cuja conversão acontecera antes da dele. Grandes maravilhas tinham . 
sido feitas pelo evangelho no período de trinta anos. Os cristãos se tornaram um 
povo marcado, separado, peculiar. Eles se distinguiam totalmente dos judeus, e 
eram amargamente condenados por eles.
Os esforços de Paulo e de seus companheiros durante os dois anos da prisão 
dele indubitavelmente foram abençoados por Deus e levaram à conversão de 
centenas. De forma que os cristãos nessa época não formavam uma comunidade 
secreta ou insignificante, mas contavam em suas fileiras tanto com judeus como 
com gentios, de todas as camadas e condições sociais, da casa imperial ao escravo 
fugitivo. Mas, como vimos, o sofrimento deles não era devido ao cristianismo.
Eles foram sacrificados por Nero para aplacar a fúria popular e apaziguar as 
divindades ofendidas.
Essa foi a primeira perseguição oficial aos cristãos; e algumas de suas 
características são ímpares nos anais da brutalidade humana. A criatividade 
dos perversos deu origem a modos novos de tortura para agradar o sanguinário 
Nero - o imperador mais brutal que já reinou. Os pacíficos, calmos e inofensivos 
seguidores do Senhor Jesus eram costurados nas peles de bestas selvagens e 
despedaçados por cachorros; outros foram vestidos com uma espécie de tecido 
coberto com cera, piche, ou outro material inflamável, tendo uma estaca 
debaixo do queixo para mantê-los na vertical e eram queimados ao entardecer 
para servirem como tochas nos jardins públicos de diversões populares. Nero 
emprestou os próprios jardins para tais exibições, e proporcionou entretenimento 
para as pessoas. Ele tomou parte ativa nos jogos; às vezes se misturando com 
a multidão e às vezes assistindo o terrível espetáculo de sua carruagem. Mas 
os romanos, acostumados com as execuções públicas e com os espetáculos 
dos gladiadores, passaram a se compadecer dos cristãos pelas crueldades sem 
precedentes infligidas a eles.
Eles começaram a ver que os cristãos sofriam, não para o bem público, 
mas para satisfazer a crueldade de um monstro. Contudo, por mais horrível que 
fosse a morte, ela terminaria logo, e para os primeiros mártires, sem dúvida, era 
o momento mais feliz de sua existência. Muito, muito tempo antes das chamas se 
apagarem no jardim de Nero, os mártires tinham chegado à casa e ao descanso
R o m a e se u s G o v e r n a n t e s (64 dG. - 177 dG.) | 153
celestiais, ao jardim florescente das delícias eternas de Deus. Aprendemos essa 
preciosa verdade a partir do que o Salvador disse ao ladrão penitente na cruz: 
“Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23:43).
Embora os historiadores não estejam de acordo sobre a extensão ou a 
duração desta perseguição horrenda, há razões muito boas para acreditarmos 
que abrangeu todo o império, e que durou até o fim da vida do tirano. No ano 
68 d.C., aproximadamente quatro anos depois do incêndio de Roma, e um ano 
depois do martírio de Pedro e Paulo, em completa miséria e desespero, Nero 
se matou. Já no final de seu reinado, debaixo das mais severas penalidades, 
até mesmo a de morte, exigia-se dos cristãos que oferecessem sacrifícios ao 
imperador e aos deuses pagãos. A perseguição deve ter continuado enquanto 
tais éditos vigoravam.
Depois da morte de Nero cessou a perseguição e os seguidores de Jesus 
desfrutaram uma paz relativa até o reinado de Domiciano, um imperador um 
pouco menos cruel do que Nero em maldade. Mas, nesse ínterim, temos que 
nos desviar por um momento e contemplarmos a realização da mais solene 
advertência de Deus.
k í ; 'k
A Q u ed a de Jerusalém 
(70 d.C.)
A dispersão dos judeus e a destruição total de sua cidade e templo são os 
próximos eventos para considerarmos no restante do primeiro século, embora, 
a rigor, essa terrível catástrofe não faça parte da história da igreja; pertence à 
história dos judeus. Porém, como era um cumprimento literal da profecia do 
Salvador e afetou imediatamente os que eram cristãos, merece um lugar em 
nossa história.
Os discípulos, antes da morte e ressurreição de Cristo, eram distintivamente 
judeus em todos os seus pensamentos e relacionamentos. Eles associavam o Messias 
ao templo. Pensavam que Ele iria libertá-los do poder dos romanos, e que todas 
as profecias sobre a terra, as tribos, a cidade e o templo seriam cumpridas. Mas 
os judeus rejeitaram o próprio Messias, e, por conseguinte, todas as esperanças 
e promessas que tinham nEle. Mais significativas e solenes são as palavras de 
Mateus 24: “Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra 
sobre pedra que não seja derrubada”. Agora o templo estava realmente vazio aos 
olhos de Deus.Tudo aquilo que tinha valor para Ele se foi. “Eis que a vossa casa 
vai ficar-vos deserta” (Mateus 23:38). Estava agora pronta para destruição.
154 I A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 7
“E, quando Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dele os seus 
discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo”. Eles ainda estavam 
ocupados com a grandeza e glória dessas coisas. “Não vedes tudo isto? Em 
verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada”.
Taís palavras foram literalmente cumpridas pelos romanos cerca de quarenta 
anos após terem sido proferidas, e exatamente da maneira como o Senhor 
havia dito. “Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de 
trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os lados; e te derrubarão, a ti 
e aos teus filhos que dentro de ti estiverem, e não deixarão em ti pedra sobre 
pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação (Lucas 19:43-44).
Após os romanos terem experimentado muitos fracassos e derrotas na 
tentativa de romper os muros, por causa da resistência desesperada dos judeus 
insurgentes e, embora houvesse pouca esperança de tomar a cidade, Tito mesmo 
assim conclamou um conselho de guerra. Foram discutidas três estratégias: atacar 
violentamente a cidade de imediato, consertar os aparatos militares e reconstruir 
as máquinas; ou sitiar e induzir a fome na cidade para forçar a rendição. A última 
foi escolhida e o exército inteiro trabalhou para “entrincheirar” toda a cidade.
Mas o cerco foi longo e difícil. Durou quase um ano. E nesse tempo, os sitiados 
experimentaram sofrimentos sem precedentes. Então o fim chegou, quando a 
cidade e o templo caíram nas mãos dos romanos. Tito estava ansioso para poupar 
o magnífico templo e seus tesouros. Mas, contrariando suas ordens, um soldado 
montado nos ombros de um dos companheiros ateou fogo em uma pequena 
porta dourada no pátio exterior. As chamas se espalharam. Tito, vendo isto, 
correu velozmente para o local; ele gritou, fez sinais para os soldados apagarem 
o fogo; mas ninguém notou por causa da terrível confusão. O esplendor do 
interior maravilhou Tito. E como as chamas ainda não tinham chegado ao lugar 
santo, ele fez um último esforço para salvá-lo e exortou os soldados para apagar o 
incêndio; mas era tarde demais. Labaredas ardentes voavam em todas as direções 
e a excitação feroz da batalha, com a esperança insaciável da pilhagem, tinha 
alcançado seu auge. Tito não conhecia o que Alguém maior já estabelecera: “Não 
ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada”. A Palavra de Deus, não 
os comandos de Tito, tem de ser obedecida. O templo foi inteiramente arrasado 
até às fundações, de acordo com a Palavra do Senhor.
No que se refere a quase todos os detalhes desse pavoroso cerco, estamos 
endividados com Josefo, o qual estava no acampamento romano e na ocasião era 
alguém próximo de Tito. Ele agiu como intérprete quando as condições foram 
negociadas entre Tito e os insurgentes. Os muros e as fortalezas de Sião pareciam 
inexpugnáveis ao romano, e ele se sentia compelido a chegar logo aos termos de 
paz; mas os judeus rejeitaram cada proposta e os romanos, enfim, triunfaram.
R o m a e se u s G o v e r n a n t e s (64 d.C. - 177 d.C.) | 155
Ao entrar na cidade, Josefo nos fala que Tito ficou surpreendido com a robustez 
dela. De fato, ao contemplar a espantosa altura das torres, a magnitude das 
pedras e a precisão com que eram edificadas, e ao ver como eram largas e altas, 
exclamou: “Seguramente, nós lutamos com Deus do nosso lado; e foi Deus quem 
arrancou os judeus dessas fortalezas, pois o que poderiam fazer mãos humanas 
ou máquinas contra estas torres?”. Tais foram as confissões do general gentio. 
Certamente foi o cerco mais terrível registrado em toda a história humana.
Os relatos dados por Josefo dos sofrimentos dos judeus durante o cerco 
são horríveis demais para serem transferidos para nossas páginas. Dos anos 67 
a 70 d.C., o número dos que morreram no país inteiro debaixo do domínio de 
Vespasiano, e debaixo de Tito na cidade, seja por escassez, facções internas ou 
pela espada romana chegou a 1.350.460 pessoas, além de cem mil vendidos 
como escravos29. Infelizmente, essas foram as graves conseqüências de não terem 
crido nas advertências solenes, sérias e apaixonadas do próprio Messias deles. 
Precisamos mesmo nos surpreender das lágrimas do Redentor derramadas pela 
cidade louca? E, hoje, é de surpreender as lágrimas do Pastor, quando Ele tenta 
atrair pecadores loucos, tendo em vista os julgamentos eternos que logo virão? 
Na verdade, o que surpreende é quão poucas lágrimas são derramadas pelos 
pecadores endurecidos, descuidados, e perdidos. Oh, que haja corações capazes 
de sentir como o Salvador e olhos para chorar como os Seus!
Os cristãos, com quem temos especialmente tratado, lembrando da 
advertência do Senhor, em grupo deixaram Jerusalém antes do cerco acontecer. 
Eles viajaram a Pella, uma aldeia além do Jordão, onde permaneceram até que 
Adriano lhes permitisse voltar às ruínas da cidade antiga. E isto nos traz ao final 
do Primeiro Século.
Durante os reinados mais moderados de Vespasiano e seu filho, Tito, o 
número de cristãos deve ter aumentado consideravelmente. Deduzimos tal coisa 
não de algum relato direto que tenhamos da prosperidade deles, mas de circuns­
tâncias incidentais que provam isso.
O C ruel R e in a d o de D o m ic ia n o
Domiciano, irmão mais novo de Tito, subiu ao trono no ano 81 d.C.. 
Mas ele tinha um temperamento totalmente diferente do pai e do irmão. Estes 
toleravam os cristãos, aquele os perseguiu. Possuía um caráter covarde, duvidoso 
e cruel. Ele começou uma perseguição contra os cristãos por causa de um
j A H is t ó r ia d a Ig r e ja - capítulo 7
29 História dos Judeus, de Dean Milman, livro 16, volume 2, página 380.
R o m a e se u s G o v e r n a n t e s (64 d.C. - 177 d.C.) I 1 5 7
medo vago e supersticioso que alimentava de que alguém nascido na Judéia, da 
família de Davi, iria conquistar o império do mundo. Domiciano não poupou 
nem mesmo os romanos de nascimento mais ilustre e alta posição que haviam 
abraçado o cristianismo. Alguns foram martirizados na mesma hora em que fora 
aprisionados, outros foram banidos para serem martirizados no exílio. A própria 
sobrinha dele, Domitila e seu primo, Flávio Clemente, para quem ela tinha sido 
dada em matrimônio, se tornaram vítimas de sua crueldade por terem abraçado 
o evangelho de Cristo. Assim nós vemos que o cristianismo, pelo poder de Deus, 
apesar de exércitos e imperadores, fogo e espada, estava se espalhando, não só 
entre as classes baixa e média, mas também entre mais altas da sociedade.
“Domiciano”, diz Eusébio, o pai da história eclesiástica, “tendo exercitado 
sua crueldade contra muitos, e assassinado injustamente um grande número de 
nobres e ilustres em Roma e tendo, sem causa, punido inúmeros homens ilustres 
com o exílio e o confisco de suas propriedades, por fim se estabeleceu como o 
sucessor de Nero no ódio e na hostilidade para com Deus. Ele também seguiu 
Nero ao se divinizar. Ele ordenou que sua própria estátua fosse adorada como 
um deus, reavivou a lei da traição e colocou em prática suas sinistras providên­
cias: sob tais circunstâncias, rodeado como estava de espiões e informantes, 
como deve ter sido essa segunda perseguição aos cristãos!30
Mas o fím deste tirano fraco, presunçoso e desprezível chegou logo. Ele 
tinha por hábito escrever em um rolo os nomes das pessoas a quem planejava 
matar, mantendo tal lista cuidadosamente consigo. E para desviar a atenção das 
futuras vítimas, ele as tratava com a maior consideração. Mas, certo dia, uma 
criança que brincava no aposento, retirou essa lista fatal de sob uma almofada na 
qual Domiciano se reclinara para dormir, e a levou à imperatriz. Ela ficou chocada 
e alarmada ao encontrar o próprio nome na lista negra, junto com outros que apa­
rentemente contavam com o alto favor do imperador. A imperatriz

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