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Dedico este trabalho à minha saudosa
e amada mãe, Rosa Ferreira Soares.
Sempre presente em minha vida, até
nos dias atuais, trago em meu coração
suas orientações, alegria, carinho,
ternura, preocupação, correções,
sorriso, amor. Quanta saudade! Dona
Rosa, muito obrigado!
Também dedico este trabalho ao meu
saudoso e amado pai, Geraldo Soares
Candeia, cujos ensinamentos,
conselhos, correções, amor
permitiram que até aqui chegasse. O
senhor é meu herói, matava um leão
por dia, correto, íntegro... o senhor é o
meu exemplo a ser seguido. Agradeço
a Deus a oportunidade de nossa
convivência. Geraldinho, muito
obrigado!
AGRADECIMENTOS
Quero agradecer a todos que participaram de
minha formação acadêmica, espiritual, moral,
pro�ssional, sentimental, pessoal... mas de
uma forma muito especial Rosa Ferreira
Soares (minha amada e saudosa mãe),
Geraldo Soares Candeia (meu amado e
saudoso pai), Alden Mangueira de Oliveira,
Benjamin Zymler, Daniel de Oliveira
Santiago (in memorian), Gustavo Sampaio
Telles Ferreira, Padre Ildefonso Escribano de
La Torre, Monsenhor Ildefonso Graciano
Rodrigues, Kátia Maria da Silva Bezerra (in
memorian), Rosilene Ferreira Soares da Silva.
A todos, meu muito obrigado!
Agradeço a Mariana de Oliveira
Pereira Candeia e a Daniela de
Oliveira Pereira Candeia, minhas
amadas �lhas. Que Deus e Nossa
Senhora Aparecida as protejam
sempre.
Muito obrigado!!!!
“Tudo posso naquele que me
fortalece” (Filipenses 4, 13).
Pai, dá-me a força de que necessito
para cada dia.
Paz e bem!
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ACO Ação Cível Originária
ADC Ação Declaratória de Constitucionalidade
ADCT Ato das Disposições Constitucionais Transitórias
ADPF
Arguição de Descumprimento de Preceito
Fundamental
AgInt no AREsp Agravo Interno no Agravo em Recurso Especial
AgR Agravo Regimental
Anatel Agência Nacional de Telecomunicações
ANEEL Agência Nacional de Energia Elétrica
ANP Agência Nacional do Petróleo
ANTAQ Agência Nacional de Transportes Aquaviários
ANTT Agência Nacional de Transportes Terrestres
Anvisa Agência Nacional de Vigilância Sanitária
AO Ação Originária - STF
Apex-Brasil
Serviço Social Autônomo Agência de Promoção de
Exportações do Brasil
APO Autoridade Pública Olímpica
AREsp Agravo em Recurso Especial
BCB Banco Central do Brasil
BDI Boni�cações e despesas indiretas
CADE Conselho Administrativo de Defesa Econômica
CARF Conselho Administrativo de Recursos Fiscais
CEPESC
Centro de Pesquisa e Desenvolvimento para a
Segurança das Comunicações
CC Código Civil
CCRF Conselho de Contribuintes da Receita Federal
CD Câmara dos Deputados
CE Conselho de Estado
CEIS Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e
Suspensas
CF Constituição Federal
CFC Conselho Federal de Contabilidade
CGC Cadastro Geral de Contribuintes
CGU Controladoria-Geral da União
CND Certidão Negativa de Débito
CNEP Cadastro Nacional de Empresas Punidas
CNJ Conselho Nacional de Justiça
CNMP Conselho Nacional do Ministério Público
COAF Conselho de Controle de Atividades Financeiras
COFEN Conselho Federal de Enfermagem
CONAB Companhia Nacional de Abastecimento
CONFEA Conselho Federal de Engenharia e Agronomia
CP Código Penal
CPC Código de Processo Civil
CPP Código de Processo Penal
CPI Comissão Parlamentar de Inquérito
CPP Código de Processo Penal
CRSFN
Conselho de Recursos do Sistema Financeiro
Nacional
CTEF
Contrato administrativo de execução ou
fornecimento
CVM Comissão de Valores Mobiliários
DEJT Diário Eletrônico da Justiça do Trabalho
DJ Diário da Justiça
DJe Diário da Justiça Eletrônico
DNIT
Departamento Nacional de Infraestrutura de
Transportes
DPC Direito Processual Civil
DPP Direito Processual Penal
EC Emenda Constitucional
EDcl no AgRg
no AREsp
Embargos de declaração no agravo regimental no
agravo em recurso especial
EFS Entidade de Fiscalização Superior
ES encargos sociais
FGP Fundo Garantidor de Parcerias Público-Privadas
FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
Fifa Federação Internacional de Futebol Associação
IBGE
Fundação Instituto Brasileiro de Geogra�a e
Estatística
IBPC Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural
ICTs Instituições Cientí�cas e Tecnológicas
IFES Instituições Federais de Ensino Superior
IPHAN
Instituto Brasileiro do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional
INMETRO
Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e
Qualidade Industrial
INTOSAI
Organização Internacional das Entidades
Fiscalizadoras
IRP Intenção de registro de preços
LAI Lei de Acesso à informação
LC Lei Complementar
LDO Lei de Diretrizes Orçamentárias
LIA Lei de Improbidade Administrativa
LICCB Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro
LINDB Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro
LOA l Lei Orçamentária Anua
LO/TCU Lei Orgânica do Tribunal de Contas da União
LRF Lei de Responsabilidade Fiscal
MI Mandado de Injunção
MP Medida Provisória
MP/TCU
Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da
União
MS Mandado de Segurança
OAB Ordem dos Advogados do Brasil
OBTV Ordem bancária de transferências voluntárias
OCDE
Organização Econômica para Cooperação e
Desenvolvimento
ONG Organização não governamental
OSCIP Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público
p. Página
PAC Programa de Aceleração do Crescimento
PAD Processo Administrativo Disciplinar
PAR Processo Administrativo de Responsabilização
PEF Programa de Estabilidade Fiscal
PGR Procuradoria-Geral da República
PNAE Programa Nacional de Alimentação Escolar
PNB Programa Nacional de Publicização
PNCP Portal Nacional de Contratações Públicas
pp. Páginas
PPA Plano Plurianual
PPP Parceria Público-Privada
RDC Regime Diferenciado de Contratações Públicas
REIDI Regime Especial de Incentivos para o
Desenvolvimento da Infraestrutura
Res. Resolução
Resp Recurso Especial
Reurb Regularização Fundiária Urbana
RHC Recurso Ordinário em Habeas Corpus
RI/TCU Regimento Interno do Tribunal de Contas da União
RMS Recurso Ordinário em Mandado de Segurança
SBDC Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência
SDE
Secretaria de Direito Econômico do Ministério da
Justiça
SEBRAE
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas
Empresas
SENAC Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
SENAI Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
SENAR Serviço Nacional de Aprendizagem Rural
SESC Serviço Social do Comércio
SESI Serviço Social da Indústria
SEST Serviço Social do Trabalho
SF Senado Federal
SIAFI
Sistema Integrado de Administração Financeira do
Governo Federal
SIASG Sistema de Administração e Serviços Gerais
SIC Serviço de Informações ao Cidadão
SICAF Sistema de Cadastro Uni�cado de Fornecedores
SICONV
Sistema de Gestão de Convênios e Contratos de
Repasse
Sicro Sistema de Custos Referenciais de Obras
Sinapi
Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da
Construção Civil
SIPAM Sistema de Proteção da Amazônia
SIVAM Sistema de Vigilância da Amazônia
SRP Sistema de Registro de Preços
STF Supremo Tribunal Federal
STJ Superior Tribunal de Justiça
STM Superior Tribunal Militar
SUS Sistema Único de Saúde
TADFT
Tribunal Administrativo no Distrito Federal e
Territórios
TAE Tribunal Administrativo no Estado
TCE Tribunal de Contas do Estado
TCM Tribunal de Contas dos Municípios
TCU Tribunal de Contas da União
TJ Tribunal de Justiça
TRE Tribunal Regional Eleitoral
TRF Tribunal Regional Federal
TRT Tribunal Regional do Trabalho
TSE Tribunal Superior Eleitoral
TST Tribunal Superior do Trabalho
NOTA À 1ª EDIÇÃO
Este livro aborda os principais temas de Direito Administrativo e
decorre de constante atividade laboral do autor, desde quando iniciou seus
trabalhos aos dezesseis anos de idade.
O Direito Administrativo, entendido como um subsistema do Direito,
está intimamente relacionado ao dia-a-dia da Administração Pública, pois é
nessa seara que os serviços públicos, como infraestrutura, saúde, segurança
pública, políticas públicas, são efetivamente prestados pelo Estado. Não há
falar em Estado ou em Administração Pública sem a prestação dos serviços
públicosque lhe são determinados pela Constituição Federal, como fonte
primária.
Todos os capítulos desenvolvidos tentaram estabelecer uma sequência
que mais bem se aperfeiçoasse à evolução dos assuntos tratados. Cônscio
está de que muito pode ser aprimorado, pois o aperfeiçoamento estará
constantemente na pauta do autor, a �m de que, a cada ano, a obra mais
re�ita a evolução, jurisprudencial e normativa, do Direito Administrativo,
com atualização constante deste livro e consequentemente como uma fonte
con�ável e segura do Direito Administrativo para aqueles que beberem
dessa fonte.
Embora faça parte, desde a origem, dos quadros de agentes públicos, há
solene compromisso em defender sempre o bom Direito. O bom Direito há
sempre de ser perene, estável e consentâneo ao Estado Democrático de
Direito.
O regime jurídico-administrativo está alicerçado em dois pilares
fundamentais: supremacia do interesse público sobre o privado e
indisponibilidade pela Administração do interesse público. Nesse sentido,
sempre que diante de duas situações igualmente válidas, deve haver
preponderância desses princípios fundamentais do Direito Administrativo.
Contudo, isso não afasta o reconhecimento e a defesa dos direitos
daqueles que se relacionem com o Estado, pois, se a Administração Pública
não tutelar os interesses e os direitos daqueles que com ela estabeleçam
relações jurídicas, não estará a privilegiar os mesmos princípios
fundamentais, o que revelaria antagonismo na própria essência e
fundamento do regime jurídico-administrativo.
A garantia fundamental, erigida à cláusula pétrea pelo poder
constituinte originário, do direito adquirido, do ato jurídico perfeito e da
coisa julgada são instrumentos para que sejam alcançadas a estabilidade e a
segurança jurídicas, imprescindíveis ao Estado Democrático de Direito e
busca constante do autor.
Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) registou no prefácio de seu livro
“Jesus de Nazaré”: “Todos são livres para me contradizer. Peço apenas aos
leitores e leitoras aquela simpatia antecipada, sem a qual não existe
nenhuma compreensão”. Nesse sentido, agradeço, antecipadamente, as
sugestões e as colaborações que manterão viva esta obra, que podem ser
enviadas para advremilsoncandeia@gmail.com.
Convido a prezada leitora e o prezado leitor para que conheçam a obra,
com a expectativa de que possa ser útil nas mais variadas necessidades
daqueles que beberem desta fonte.
Boa leitura!
Brasília-DF, 31 de janeiro de 2024.
REMILSON SOARES CANDEIA
PREFÁCIO
“Curso de Direito Administrativo” é o sétimo livro de Remilson Soares
Candeia, sendo os demais “Controle Jurisdicional dos Atos praticados por
CPI” (Editora Del Rey), “Lei 8.112 Comentada” (Editora Fórum),
“Convênios Celebrados com a União e suas Prestações de Contas” (Editora
NDJ), “Comentários ao Sistema Legal Brasileiro de Licitações e Contratos
Administrativos” (Editora NDJ) em coautoria com o professor e
desembargador Jessé Torres Pereira Junior, Curso de Convênios e Contratos
de Repasse Celebrados com a União (Editora Dialética), Curso de Licitações
e Contratos Administrativos (Editora Dialética).
Filho de Dona Rosa e Seu Geraldo, Remilson ingressou aos dezesseis
anos no curso de formação de sargentos da Força Aérea Brasileira em
Guaratinguetá/SP. Concluída essa etapa, foi lotado em Brasília, onde teve
seu primeiro contato com a Administração Pública.
Graduou-se em Língua Portuguesa pelo Uniceub (Brasília) - com
ênfase em Língua Portuguesa -, curso que lhe despertou a vocação para o
magistério: inicialmente ministrando aulas para seus próprios colegas de
Força que buscavam progredir nas �leiras da Aeronáutica; posteriormente
em faculdades e cursos preparatórios para concursos, já na área do Direito.
Conheci o autor em meados dos anos noventa, quando ainda ocupava
o cargo de Técnico de Controle Externo e foi lotado na Secretaria de
Recursos do Tribunal de Contas da União (TCU), unidade da qual eu era
titular.
De lá para cá, testemunhei sua notável trajetória pro�ssional.
Aprovado no concurso de Auditor Federal de Controle Externo e
estudante de Direito na Universidade de Brasília (UnB), na mesma época
em que assumi o cargo de Ministro-Substituto no TCU (igualmente pela
honrosa via do concurso público), passou a integrar minha assessoria por
volta do ano 2000.
Sua monogra�a de conclusão de graduação versou sobre os convênios
celebrados entre a União e os entes da Federação, matéria com a qual lidava
diuturnamente no TCU. Dessa simbiose entre experiência prática e estudos
acadêmicos, resultou um trabalho de grande densidade e utilidade prática,
qualidades estas raramente observadas em trabalhos de conclusão de
graduação.
Tive a honra de compor a banca examinadora perante a qual a
monogra�a foi defendida, juntamente com o renomado professor da UnB e
então Procurador-Geral do Ministério Público junto ao TCU Lucas Rocha
Furtado (orientador) e com o Subprocurador de Contas Paulo Soares
Bugarin.
A qualidade do trabalho apresentado permitiu a posterior publicação
do livro “Convênios Celebrados com a União e suas Prestações de Contas”, o
primeiro livro que tratou da matéria de forma sistemática, o que o tornou
uma referência para os gestores, sejam eles da União ou dos entes
recebedores de recursos federais.
Paralelamente a suas atividades no TCU, Remilson obteve o título de
mestre pelo Instituto de Direito Público (Brasília), sob a orientação do
jurista Inocêncio Mártires Coelho, e de doutor pela Universidade Veiga de
Almeida (Rio de Janeiro).
No seu novíssimo “Curso de Direito Administrativo”, o autor nos brinda
com um trabalho de fôlego, que abrange os diversos aspectos do Direito
Administrativo. São nada menos que trinta e nove capítulos, valendo citar,
dentre eles, os que examinam a organização da Administração Pública; os
agentes públicos; as entidades paraestatais e os consórcios públicos; a
prescrição administrativa; as licitações e os contratos administrativos; o
controle da Administração Pública; a improbidade administrativa; o
processo administrativo disciplinar; a concessão e permissão de serviços
públicos e a intervenção do Estado na propriedade privada.
Além de extensa, a obra que se segue aborda os temas em
profundidade, mas de forma isenta; colaciona a jurisprudência dos tribunais
superiores e do Tribunal de Contas da União, bem assim a doutrina mais
relevante. Mas não só isso: o autor não se furta a manifestar sua posição
pessoal sobre os temas polêmicos, ainda que divergente dos ensinamentos
doutrinários e da jurisprudência. Cito, como exemplo, o capítulo XVII, no
qual o doutrinador claramente se posiciona pela prescritibilidade das ações
de ressarcimento no TCU, contrariamente ao entendimento até aqui
dominante na Corte de Contas.
Todos esses elementos fazem do livro um valioso guia para quem
pretende desenvolver um estudo sistemático do Direito Administrativo ou,
quem sabe, apenas elucidar dúvidas pontuais.
O grande diferencial desta obra em relação aos demais manuais de
Direito Administrativo é sua origem: resulta tanto da incursão do autor na
doutrina e na jurisprudência dos tribunais superiores, quanto de seu
cotidiano de trabalho, no qual muitos dos temas abordados são examinados
e discutidos, como licitações e contratos, concessões e permissões, regime
jurídico dos servidores, convênios e outros instrumentos de repasse, entre
vários outros. Experiência esta que permitiu ao autor desenvolver o texto a
partir de uma visão própria, pragmática e calcada na jurisprudência mais
relevante e atual sobre as diversas matérias.
A vivência pro�ssional do autor, aliada à sua formação teórica, resultou
num manual que será de grande valia para os operadores e estudiosos do
Direito Administrativo (inclusive os pretendentes a um cargo público),
como também para os gestores públicos e para os administrados em geral,
em suas frequentes interações com o Poder Público.
A publicação desta obra consagra a trajetória ímpar de Remilson
Soares Candeia, que se �rma como um dos grandes nomes do moderno
DireitoAdministrativo brasileiro.
Benjamin Zymler
SUMÁRIO
Capa
Folha de Rosto
Créditos
I - DIREITO ADMINISTRATIVO
1.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA
1.2 NATUREZA JURÍDICA E CONCEITO
1.3 OBJETO
1.4 CODIFICAÇÃO
1.5 SISTEMAS ADMINISTRATIVOS: INGLÊS E FRANCÊS
1.6 SISTEMA ADMINISTRATIVO BRASILEIRO
II - JURISDIÇÃO NO DIREITO ADMINISTRATIVO
III - FONTES DO DIREITO ADMINISTRATIVO
3.1 CONSTITUIÇÃO
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3.2 TRATADOS E CONVENÇÕES INTERNACIONAIS SOBRE
DIREITOS HUMANOS
3.3 LEI
3.4 FONTES DO DIREITO ADMINISTRATIVO PREVISTOS NA
LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO
BRASILEIRO
3.4.1 ANALOGIA
3.4.2 COSTUME
3.4.3 PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO
3.5 JURISPRUDÊNCIA
3.6 DOUTRINA
3.7 NORMATIVOS INTERNOS DOS ÓRGÃOS E ENTIDADES
IV - CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO VERSUS SISTEMA DE
JURISDIÇÃO ÚNICA
V - COISA JULGADA ADMINISTRATIVA
VI - REGIME JURÍDICO-ADMINISTRATIVO
6.1 REGIME PRIVADO VERSUS REGIME PÚBLICO
6.2 FUNDAMENTO PRINCIPIOLÓGICO DO REGIME
JURÍDICO-ADMINISTRATIVO
6.3 REGIME JURÍDICO-ADMINISTRATIVO
VII - ORGANIZAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
7.1 CONCEITO, SENTIDOS E OBJETO
7.2 EVOLUÇÃO DOS MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA
7.2.1 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA PATRIMONIALISTA
7.2.2 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BUROCRÁTICA
7.2.3 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA GERENCIAL
7.3 FUNÇÕES DA ADMINISTRAÇÃO
7.4 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA
7.5 ORGANIZAÇÃO DO ESTADO, GOVERNO E
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
7.5.1 ESTADO
7.5.2 GOVERNO
7.5.3 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
7.6 ÓRGÃOS E ENTIDADES PÚBLICOS
7.7 ADMINISTRAÇÃO DIRETA
7.8 ADMINISTRAÇÃO INDIRETA
7.8.1 AUTARQUIAS
7.8.2 ENTIDADES EMPRESARIAIS - EMPRESAS
PÚBLICAS E SOCIEDADES DE ECONOMIA MISTA
7.8.3 FUNDAÇÕES
7.8.4 CONSÓRCIOS PÚBLICOS
7.8.5 AGÊNCIAS
7.8.5.1 Agências reguladoras
7.8.5.2 Agências executivas
7.8.6 HIERARQUIA ADMINISTRATIVA
VIII - ENTIDADES PARAESTATAIS - TERCEIRO SETOR
8.1 CONCEITO E INTRODUÇÃO
8.2 SERVIÇOS SOCIAIS AUTÔNOMOS
8.3 ORGANIZAÇÕES SOCIAIS
8.4 ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL DE INTERESSE
PÚBLICO
8.5 FUNDAÇÕES OU ENTIDADES DE APOIO
IX - CONSÓRCIOS PÚBLICOS
9.1 RESPONSABILIDADE DOS CONSORCIADOS E DOS
AGENTES PÚBLICOS
9.2 LICITAÇÕES APLICADAS AOS CONSÓRCIOS PÚBLICOS
9.3 ADMISSÃO DE PESSOAL
X - DESCENTRALIZAÇÃO, CENTRALIZAÇÃO,
DESCONCENTRAÇÃO E CONCENTRAÇÃO
10.1 DESCENTRALIZAÇÃO
10.1.1 DESCENTRALIZAÇÃO LEGAL
10.1.2 DESCENTRALIZAÇÃO POLÍTICA
10.1.3 DESCENTRALIZAÇÃO ADMINISTRATIVA
10.1.3.1 Descentralização por serviços ou
atividades
10.1.3.2 Descentralização territorial, local ou
geográ�ca
10.1.3.3 Descentralização em parceria
10.1.3.4 Descentralização contratual
10.2 CENTRALIZAÇÃO
10.3 DESCONCENTRAÇÃO
10.4 CONCENTRAÇÃO
XI - PRINCÍPIOS APLICÁVEIS AO DIREITO ADMINISTRATIVO
11.1 CONCEITO DE PRINCÍPIO E REGRA
11.2 APARENTE COLISÃO ENTRE PRINCÍPIOS
11.3 PRINCÍPIOS EXPRESSOS E IMPLÍCITOS
11.4 PRINCÍPIO DA SUPREMACIA DO INTERESSE PÚBLICO
SOBRE O INTERESSE PRIVADO
11.5 PRINCÍPIO DA INDISPONIBILIDADE PELA
ADMINISTRAÇÃO DO INTERESSE PÚBLICO
11.6 PRINCÍPIO DO INTERESSE PÚBLICO
11.7 PRINCÍPIO DO DEVIDO PROCESSO LEGAL
11.8 PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA
DEFESA
11.9 PRINCÍPIO DA FORMALIDADE
11.10 PRINCÍPIO DO FORMALISMO MODERADO
11.11 PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL
11.12 PRINCÍPIO DA LEGALIDADE
11.13 PRINCÍPIO DA IMPESSOALIDADE OU DA
FINALIDADE
11.14 PRINCÍPIO DA MORALIDADE ADMINISTRATIVA
11.15 PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE
11.16 PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA
11.17 PRINCÍPIO DA RAZOABILIDADE E
PROPORCIONALIDADE
11.18 PRINCÍPIO DA AUTOTUTELA
11.19 PRINCÍPIO DA CONTINUIDADE DO SERVIÇO
PÚBLICO
11.20 PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA
11.21 PRINCÍPIO DA MOTIVAÇÃO
11.22 PRINCÍPIO DA NÃO OBRIGAÇÃO DE PRODUÇÃO
DE PROVA CONTRA SI
11.23 PRINCÍPIO DA ISONOMIA
11.24 PRINCÍPIO DA COLEGIALIDADE
11.25 Princípio do duplo grau de jurisdição -
administrative review
11.26 PRINCÍPIO DA FUNGIBILIDADE RECURSAL
11.27 PRINCÍPIO DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO
PROCESSO
11.28 PRINCÍPIO DA HIERARQUIA FEDERATIVA
XII - PODERES DA ADMINISTRAÇÃO
12.1 PODER VINCULADO OU PODER REGRADO
12.2 PODER DISCRICIONÁRIO
12.3 PODER HIERÁRQUICO
12.4 PODER DISCIPLINAR
12.5 PODER REGULAMENTAR OU NORMATIVO
12.6 PODER DE POLÍCIA
12.6.1 POLÍCIA ADMINISTRATIVA E POLÍCIA
JUDICIÁRIA
12.6.2 REQUISITOS DO PODER DE POLÍCIA
12.6.3 CARACTERÍSTICAS
12.6.4 LIMITES DO EXERCÍCIO DO PODER DE POLÍCIA
12.7 USO E ABUSO DO PODER
XIII - DEVERES DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
13.1 DEVER DE AGIR
13.2 DEVER DE PROBIDADE
13.3 DEVER DE EFICIÊNCIA
13.4 DEVER DE PRESTAÇÃO DE CONTAS
XIV - ATOS ADMINISTRATIVOS
14.1 ATOS E FATOS JURÍDICOS
14.2 DISTINÇÃO ENTRE ATOS E FATOS DA
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
14.3 CONCEITO
14.4 REQUISITOS
14.4.1 COMPETÊNCIA
14.4.2 FORMA
14.4.3 FINALIDADE
14.4.4 MOTIVO
14.4.5 OBJETO
14.4.6 REQUISITOS VINCULADOS E
DISCRICIONÁRIOS DO ATO ADMINISTRATIVO
14.4.7 TEORIA DOS MOTIVOS DETERMINANTES
14.4.8 LIMITES DE CONTROLE DOS REQUISITOS DOS
ATOS VINCULADOS E DISCRICIONÁRIOS
14.5 ATRIBUTOS
14.5.1 IMPERATIVIDADE
14.5.2 PRESUNÇÃO DE LEGITIMIDADE E
LEGALIDADE
14.5.3 AUTOEXECUTORIEDADE
14.6 CONTROLE DOS ATOS ADMINISTRATIVOS
14.6.1 CONTROLE DE LEGALIDADE
14.6.2 CONTROLE DE MÉRITO
14.7 CLASSIFICAÇÃO DOS ATOS ADMINISTRATIVOS
14.7.1 QUANTO À VALIDADE OU EFICÁCIA -
PERFEITOS, NULOS, ANULÁVEIS, INEXISTENTES,
CONVALIDÁVEIS
14.7.2 QUANTO AOS EFEITOS - CONSTITUTIVOS,
DECLARATÓRIOS E ENUNCIATIVOS
14.7.3 QUANTO AOS DESTINATÁRIOS - GERAIS E
INDIVIDUAIS
14.7.4 QUANTO À LIBERDADE - DISCRICIONÁRIOS E
VINCULADOS
14.7.5 QUANTO ÀS PRERROGATIVAS - GESTÃO E
IMPÉRIO
14.7.6 QUANTO À AUTORIA - SIMPLES, COMPOSTOS
E COMPLEXOS
14.7.7 QUANTO À ABRANGÊNCIA - INTERNOS E
EXTERNOS
14.8 ATOS ADMINISTRATIVOS EM ESPÉCIE
14.8.1 ADMISSÃO
14.8.2 ALVARÁ
14.8.3 APROVAÇÃO
14.8.4 AUTORIZAÇÃO
14.8.5 AVISO
14.8.6 CERTIDÃO OU ATESTADO
14.8.7 CIRCULAR
14.8.8 CONCESSÃO
14.8.9 DECRETO
14.8.10 DECRETO COM EFEITO CONCRETO
14.8.11 DISPENSA
14.8.12 HOMOLOGAÇÃO
14.8.13 LICENÇA
14.8.14 OFÍCIO
14.8.15 ORDEM DE SERVIÇO
14.8.16 PARECER
14.8.17 PERMISSÃO
14.8.18 PORTARIA
14.8.19 RESOLUÇÃO
14.8.20 VISTO
14.9 EXTINÇÃO DO ATO ADMINISTRATIVO
14.9.1 ATINGIMENTO DOS EFEITOS
14.9.2 DESAPARECIMENTO DO SUJEITO
14.9.3 EXTINÇÃO DO OBJETO
14.9.4 CADUCIDADE
14.9.5 CASSAÇÃO
14.9.6 RENÚNCIA
14.9.7 NULIDADE E REVOGAÇÃO DO ATO
ADMINISTRATIVO
14.10 CONVALIDAÇÃO
14.11 MODULAÇÃO DOS EFEITOS DA NULIDADE DO ATO
ADMINISTRATIVO
14.12 PRINCIPAIS VÍCIOS REFERENTES AOS REQUISITOS
DO ATO ADMINISTRATIVO
14.12.1 VÍCIOS DE COMPETÊNCIA
14.12.2 VÍCIOS DE FORMA
14.12.3 VÍCIOS DE FINALIDADE OU DESVIO DE
FINALIDADE
14.12.4 VÍCIOS DE MOTIVO
14.12.5 VÍCIOS DE OBJETO
14.12.6. EFEITOS DA ANULAÇÃO DE ATOS EM RAZÃO
DOS VÍCIOS DE REQUISITOS
XV - TEMPESTIVIDADE, PRESCRIÇÃO, DECADÊNCIA E
PRECLUSÃO ADMINISTRATIVAS
XVI - PRESCRIÇÃO ADMINISTRATIVA
16.1 PRAZOS
16.2 DISTINÇÃO ENTRE PRESCRIÇÃO, DECADÊNCIA E
PRECLUSÃO
16.3 PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA NA LEI Nº
8.112/1990
16.4 PRESCRIÇÃO NA LEI Nº 9.784/1999
16.5 PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE
16.6 SUSPENSÃO E INTERRUPÇÃO
16.7 CONHECIMENTO DE OFÍCIO
XVII - PRESCRIÇÃO DA AÇÃO DE RESSARCIMENTO NO TCU
XVIII - CONTROLE DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
18.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
18.2 FUNDAMENTO
18.3 CONCEITO DE CONTROLE
18.4 SISTEMA DE FREIOS E CONTRAPESOS
18.5 FORMAS DE CONTROLE
18.6 EFICÁCIA, EFICIÊNCIA E EFETIVIDADE
18.7 CONTROLE PELA ADMINISTRAÇÃO
18.7.1 CONTROLE INTERNO
18.7.2 CONTROLE EXTERNO
18.7.3 AUTOTUTELA
18.7.4 CONTROLE DE MÉRITO VERSUS CONTROLE DE
LEGALIDADE
18.8 CONTROLE JUDICIAL DOS ATOS DA
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
18.8.1 LIMITE DE ATUAÇÃO DO PODER JUDICIÁRIO
EM FACE DOS ATOS ADMINISTRATIVOS
18.8.2 MANDADO DE SEGURANÇA
18.8.2.1 Considerações iniciais e histórico
18.8.2.2 Conceito e legitimidade
18.2.2.3 Espécies
18.8.2.4 Objeto
18.8.2.5 Prazo
18.8.2.6 Partes
18.8.2.7 Competência
18.8.2.8 Liminar
18.8.2.9 Prova
18.8.3 AÇÃO POPULAR
18.8.3.1 Conceito e legitimidade
18.8.3.2 Objeto
18.8.3.3 Partes
18.8.3.4 Competência
18.8.3.5 Liminar
18.8.3.6Sentença e coisa julgada
18.8.4 AÇÃO CIVIL PÚBLICA
18.8.4.1 Conceito e legitimidade
18.8.4.2 Objeto
18.8.4.3 Partes
18.8.4.4 Competência
18.8.4.5 Efeitos da decisão
18.8.4.6 Liminar
18.8.5 HABEAS DATA
18.8.5.1 Conceito e legitimidade
18.8.5.2 Objeto
18.8.5.3 Partes
18.8.5.4 Competência
18.8.5.5 Efeitos da decisão
18.8.5.6 Liminar
18.8.5.7 Prova
18.8.6 HABEAS CORPUS
18.8.6.1 Conceito e legitimidade
18.8.6.2 Objeto
18.8.6.3 Partes
18.8.6.4 Espécies
18.8.6.5 Competência
18.8.6.6 Efeitos da decisão
18.8.7 MANDADO DE INJUNÇÃO
18.8.7.1 Conceito e legitimidade
18.8.7.2 Objeto
18.8.7.3 Partes
18.8.7.4 Competência
18.8.7.5 Efeitos da decisão
18.8.7.6 Liminar
18.8.7.7 Prova
18.9 CONTROLE LEGISLATIVO
18.9.1 CONTROLE POLÍTICO
18.9.2 CONTROLE FINANCEIRO
18.9.3 COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO -
CPI
18.10 CONTROLE EXERCIDO PELOS TRIBUNAIS DE
CONTAS
18.11 LEI DE ACESSO À INFORMAÇÃO
18.11.1 ÓRGÃOS E ENTIDADES VINCULADOS À LAI
18.11.2 GRAU E PRAZO DE SIGILO
18.11.3 TRANSPARÊNCIA ATIVA
18.11.4 TRANSPARÊNCIA PASSIVA
18.11.5 DO PEDIDO DE ACESSO À INFORMAÇÃO
18.11.6 RECURSOS
18.11.7 RESPONSABILIDADE E SANÇÕES
18.12 CONTROLE SOCIAL
18.13 SILÊNCIO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
XIX - IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
19.1 CONCEITO E OBJETO
19.2 COMPETÊNCIA PARA PROCESSAR E JULGAR
19.3 SUJEITOS
19.3.1 SUJEITO ATIVO
19.3.2 SUJEITO PASSIVO
19.4 ESPÉCIES DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
19.4.1 ENRIQUECIMENTO ILÍCITO
19.4.2 PREJUÍZO AO ERÁRIO
19.4.3 VIOLAÇÃO A PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA
19.5 CELEBRAÇÃO DE ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO
CIVIL
19.6 DOLO E CULPA
19.7 SANÇÕES
19.8 PRESCRIÇÃO
19.9 PRESCRIÇÃO EM RELAÇÃO A RECURSOS PÚBLICOS
DOS PARTIDOS POLÍTICOS
19.10 VEDAÇÃO AO USO DA AÇÃO DE IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA
XX - TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO
20.1 NATUREZA JURÍDICA
20.2 COMPETÊNCIA
20.3 JURISDIÇÃO
20.4 INSTRUMENTOS DE CONTROLE
20.4.1 PARECER PRÉVIO
20.4.2 ATOS SUJEITOS A REGISTRO
20.4.3 FISCALIZAÇÃO DE ATOS E CONTRATOS
20.4.4 REPRESENTAÇÃO
20.4.5 DENÚNCIA
20.4.6 CONSULTA
20.4.7 PRESTAÇÃO DE CONTAS
20.4.8 TOMADA DE CONTAS ESPECIAL
20.5 ACÓRDÃOS E DELIBERAÇÕES DO TRIBUNAL
20.6 RECURSOS
20.6.1 EFEITOS
20.6.2 RECURSO DE RECONSIDERAÇÃO
20.6.3 PEDIDO DE REEXAME
20.6.4 RECURSO DE REVISÃO
20.6.5 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO
20.6.6 AGRAVO
20.7 MINISTÉRIO PÚBLICO JUNTO AO TCU
20.8 MINISTROS E AUDITORES
XXI - AGENTES PÚBLICOS
21.1 DISPOSIÇÕES CONSTITUCIONAIS
21.2 REGIME JURÍDICO
21.3 DIREITOS, DEVERES E PROIBIÇÕES
21.4 DISTINÇÃO ENTRE CARGOS, FUNÇÕES E EMPREGOS
PÚBLICOS
21.5 CARGOS PÚBLICOS
21.5.1 ACESSIBILIDADE
21.5.2 CLASSIFICAÇÃO
21.5.2.1 Cargos vitalícios
21.5.2.2 Cargos efetivos
21.5.2.3 Cargos em comissão
21.5.2.4 Cargos isolados
21.5.2.5 Cargos organizados em carreira
21.5.3 CRIAÇÃO, TRANSFORMAÇÃO E EXTINÇÃO
21.5.4 ACUMULAÇÃO DE CARGOS PÚBLICOS
21.5.5 PROVIMENTO - ORIGINÁRIO E DERIVADO
21.5.5.1 Nomeação
21.5.5.2 Promoção
21.5.5.3 Readaptação
21.5.5.4 Reversão
21.5.5.5 Aproveitamento
21.5.5.6 Reintegração
21.5.5.7 Recondução
21.5.6 VACÂNCIA
21.5.6.1 Exoneração
21.5.6.2 Demissão
21.5.6.3 Promoção
21.5.6.4 Readaptação
21.5.6.5 Aposentadoria
21.5.6.6 Posse em outro cargo inacumulável
21.5.6.7 Falecimento
21.5.7 CARGOS PÚBLICOS OCUPADOS POR
ESTRANGEIROS
21.6 CLASSIFICAÇÃO OU ESPÉCIES DE AGENTES
PÚBLICOS
21.6.1 AGENTES POLÍTICOS
21.6.2 SERVIDORES PÚBLICOS
21.6.2.1 Servidor público efetivo ou estatutário
21.6.2.2 Servidor público ocupante de cargo
público em comissão
21.6.2.3 Servidor público temporário
21.6.3 EMPREGADOS PÚBLICOS
21.6.4 AGENTES HONORÍFICOS
21.6.5 AGENTES DE FATO E AGENTES DE DIREITO
21.6.6 MILITARES
21.7 FUNÇÃO DE FATO VERSUS FUNÇÃO DE DIREITO
21.8 CONCURSO PÚBLICO
21.8.1 PRAZO DE VALIDADE
21.8.2 VAGAS PARA PORTADORES DE DEFICIÊNCIA
21.8.3 VAGAS PARA NEGROS
21.8.4 NOVO CONCURSO PÚBLICO COM OUTRO
AINDA VIGENTE
21.8.5 DIREITO SUBJETIVO À NOMEAÇÃO, POSSE E
EXERCÍCIO VERSUS EXPECTATIVA DE DIREITO
21.9 ESTÁGIO PROBATÓRIO
21.10 ESTABILIDADE
21.11 ESTABILIDADE VERSUS EFETIVIDADE
21.12 VITALICIEDADE VERSUS ESTABILIDADE
21.13 POSSE
21.14 EXERCÍCIO
21.15 FÉRIAS
21.16 TEMPO DE SERVIÇO
21.17 REMUNERAÇÃO
21.17.1 VENCIMENTO E REMUNERAÇÃO
21.17.2 SUBSÍDIO
21.17.3 INDENIZAÇÕES
21.17.3.1 Ajuda de custo
21.17.3.2 Diárias
21.17.3.3 Transporte
21.17.3.4 Auxílio-moradia
21.17.4 GRATIFICAÇÕES E ADICIONAIS
21.17.5 REMUNERAÇÃO DE OCUPANTE DE CARGO
EM COMISSÃO
21.17.6 TETO DE REMUNERAÇÃO E SUBSÍDIOS
21.17.7 ISONOMIA
21.17.8 IRREDUTIBILIDADE SALARIAL
21.17.9 REVISÃO DA REMUNERAÇÃO
21.17.10 LIMITES DE DESPESA COM PESSOAL
21.17.11 ACUMULAÇÃO DE REMUNERAÇÕES
21.18 LICENÇAS
21.18.1 LICENÇA POR MOTIVO DE DOENÇA EM
PESSOA DA FAMÍLIA
21.18.2 LICENÇA POR MOTIVO DE AFASTAMENTO
DO CÔNJUGE
21.18.3 LICENÇA PARA O SERVIÇO MILITAR
21.18.4 LICENÇA PARA ATIVIDADE POLÍTICA
21.18.5 LICENÇA PARA CAPACITAÇÃO
21.18.6 LICENÇA PARA TRATAR INTERESSE
PARTICULAR
21.18.7 LICENÇA PARA DESEMPENHO DE MANDATO
CLASSISTA
21.19 AFASTAMENTOS
21.19.1 AFASTAMENTO PARA SERVIR A OUTRO
ÓRGÃO OU ENTIDADE
21.19.2 AFASTAMENTO PARA EXERCÍCIO DE
MANDATO ELETIVO
21.19.3 AFASTAMENTO PARA ESTUDO OU MISSÃO
NO EXTERIOR
21.19.4 AFASTAMENTO PARA PARTICIPAÇÃO EM
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU
NO PAÍS
21.20 BENEFÍCIOS SOCIAIS
21.20.1 APOSENTADORIA
21.20.1.1 Aposentadoria por incapacidade
permanente para o trabalho
21.20.1.2 Aposentadoria compulsória
21.20.1.3 Aposentadoria voluntária
21.20.1.4 Aposentadoria de servidores com
de�ciência
21.20.1.5 Aposentadoria de professores
21.20.1.6 Aposentadoria da carreira policial
21.20.1.7 Aposentadoria para aqueles que
exerçam atividade de risco
21.20.1.8 Aposentadoria de servidor ocupante
de cargo em comissão
21.20.1.9 Acumulação de proventos
21.20.1.10 Revisão dos proventos
21.20.1.11 Limite dos proventos de
aposentadoria
21.20.1.12 Abono de permanência
21.20.1.13 Regras de transição
21.20.2 PENSÃO
21.20.3 AUXÍLIO-NATALIDADE
21.20.4 SALÁRIO-FAMÍLIA
21.20.5 LICENÇA PARA TRATAMENTO DE SAÚDE
21.20.6 LICENÇA À GESTANTE E À ADOTANTE
21.20.7 LICENÇA PATERNIDADE
21.20.8 LICENÇA POR ACIDENTE EM SERVIÇO
21.20.9 AUXÍLIO-FUNERAL
21.20.10 AUXÍLIO-RECLUSÃO
21.21 CONTRATAÇÃO TEMPORÁRIA
21.22 DIREITO DE GREVE
21.23 SINDICALIZAÇÃO
21.24 RESPONSABILIDADE DOS AGENTES PÚBLICOS
21.24.1 RESPONSABILIDADE CIVIL
21.24.2 RESPONSABILIDADE PENAL
21.24.3 RESPONSABILIDADE ADMINISTRATIVA
21.24.4 RESPONSABILIDADE DE PARECERISTA
21.24.5 CUMULAÇÃO E COMUNICAÇÃO DAS
RESPONSABILIDADES CIVIL, PENAL E
ADMINISTRATIVA
21.25 PENALIDADES
21.25.1 CIVIS
21.25.2 PENAIS
21.25.3 ADMINISTRATIVAS
21.25.4 ESPÉCIES DE SANÇÕES
21.25.4.1 Advertência
21.25.4.2 Suspensão
21.25.4.3 Demissão
21.25.4.4 Cassação de aposentadoria ou
disponibilidade
21.25.4.5 Destituição de cargo em comissão
21.25.4.6 Destituição de função comissionada
21.25.5 CUMULAÇÃO
21.25.6 PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA
21.25.7 REGISTRO DE FATOS PRESCRITOS NOS
ASSENTAMENTOS INDIVIDUAS
21.26 DIREITO DE PETIÇÃO
XXII - PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR E
SINDICÂNCIA
22.1 ESPÉCIES
22.1.1 PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR
22.1.1.1 Instauração
22.1.1.2 Inquérito administrativo
22.1.1.3 Julgamento
22.1.2 PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR
SUMÁRIO
22.1.3 SINDICÂNCIA
22.2 REVISÃO DO PROCESSO DISCIPLINAR
22.3 DEFESA TÉCNICA POR ADVOGADO
XXIII - PROCESSO ADMINISTRATIVO NA ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA FEDERAL - LEI Nº 9.784/1999
23.1 INTRODUÇÃO
23.2 APLICAÇÃO SUBSIDIÁRIA
23.3 PROCESSOS E PROCEDIMENTOS
23.4 PRINCÍPIOS
23.5 CONTAGEM DOS PRAZOS
23.6 DIREITOS DO ADMINISTRADO
23.7 DEVERES DO ADMINISTRADO
23.8 INTERESSADOS OU LEGITIMADOS
23.9 COMPETÊNCIA
23.10 IMPEDIMENTO E SUSPEIÇÃO
23.11 FORMA, TEMPO E LUGAR DOS ATOS DO PROCESSO
23.12 COMUNICAÇÃO DOS ATOS
23.13 FASES DO PROCESSO ADMINISTRATIVO
23.14 INÍCIO DO PROCESSO OU INTRODUTÓRIA
23.15 INSTRUÇÃO
23.16 DEVER DE DECIDIR
23.17 MOTIVAÇÃO
23.18 DESISTÊNCIA E EXTINÇÃO DO PROCESSO
23.19 ANULAÇÃO, REVOGAÇÃO E CONVALIDAÇÃO DOS
ATOS
23.20 RECURSOS23.21 SANÇÕES
23.22 PRESCRIÇÃO
23.23 PRIORIDADE NA TRAMITAÇÃO
23.24 DECISÃO COORDENADA
23.25 PROVAS
XXIV - LICITAÇÕES - LEI Nº 14.133/2021
24.1 FUNDAMENTO CONSTITUCIONAL
24.2 CONCEITO E DEFINIÇÕES
24.3 PESSOAS OBRIGADAS A LICITAR
24.3.1 PESSOAS NÃO VINCULADA À LEI Nº
14.133/2021
24.3.1.1 Sociedades de economia mista e suas
subsidiárias
24.3.1.2 Repartições públicas sediadas no
exterior
24.3.1.3 Recursos provenientes de organismos
internacionais
24.3.1.4 Banco Central do Brasil
24.3.1.5 Licitações e contratos previstos em
legislação especí�ca
24.3.1.6 Operação de crédito, interno ou
externo, e gestão de dívida pública
24.4 AGENTES PÚBLICOS
24.5 PROCESSO VERSUS PROCEDIMENTO
ADMINISTRATIVO
24.6 PRINCÍPIOS APLICÁVEIS AOS PROCESSOS
LICITATÓRIOS
24.6.1 PROBIDADE ADMINISTRATIVA
24.6.2 IGUALDADE
24.6.3 PLANEJAMENTO
24.6.4 TRANSPARÊNCIA
24.6.5 EFICÁCIA
24.6.6 SEGREGAÇÃO DE FUNÇÕES
24.6.7 MOTIVAÇÃO
24.6.8 VINCULAÇÃO AO EDITAL
24.6.9 JULGAMENTO OBJETIVO
24.6.10 COMPETITIVIDADE
24.6.11 PROPORCIONALIDADE
24.6.12 CELERIDADE
24.6.13 ECONOMICIDADE
24.6.14 DESENVOLVIMENTO NACIONAL E
SUSTENTÁVEL
24.7 LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO
BRASILEIRO
24.7.1 NORMA GERAL VERSUS NORMA ESPECÍFICA
24.7.2 VALORES JURÍDICOS ABSTRATOS
24.7.3 CONSEQUÊNCIAS JURÍDICAS E
ADMINISTRATIVAS
24.8 OBJETO DA LICITAÇÃO
24.9 PROCESSO LICITATÓRIO
24.9.1 FORMALIDADE DOS ATOS
24.9.2 PLANO DE CONTRATAÇÕES ANUAL
24.9.3 PUBLICIDADE
24.9.4 VEDAÇÃO À PARTICIPAÇÃO NAS LICITAÇÕES
OU NA EXECUÇÃO DO CONTRATO
24.9.5 PARTICIPAÇÃO DE CONSÓRCIOS
24.9.6 PARTICIPAÇÃO DE COOPERATIVAS
24.10 FASES DO PROCESSO LICITATÓRIO
24.10.1 PREPARATÓRIA
24.10.1.1 Procedimentos essenciais anteriores
para elaboração do edital e sua divulgação
24.10.1.1.1 Estudo técnico preliminar que
caracterize o interesse público envolvido
24.10.1.1.2 De�nição do objeto
24.10.1.1.3 Execução, pagamento e
recebimento do objeto
24.10.1.1.4 Orçamento estimado
24.10.1.1.5 Elaboração do edital
24.10.1.1.6 Margem de preferência
24.10.1.1.7 Elaboração da minuta do
contrato
24.10.1.1.8 Regime de fornecimento de
bens e prestação de serviços
24.10.1.1.9 Modalidades de licitação
24.10.1.1.10 Critérios de julgamento
24.10.1.1.11 Motivação de circunstância do
edital
24.10.1.1.12 Análise de riscos
24.10.1.1.13 Divulgação do orçamento da
licitação
24.10.2 DIVULGAÇÃO DO EDITAL DE LICITAÇÃO
24.10.2.1 Controle pela Assessoria Jurídica da
Administração
24.10.2.2 Dispensa do controle jurídico do edital
24.10.2.3 Publicidade
24.10.3 APRESENTAÇÃO DE PROPOSTAS E LANCES
24.10.3.1 Prazos
24.10.3.2 Modo de disputa
24.10.3.3 Apresentação de lances
24.10.3.4 Garantia de proposta
24.10.4 JULGAMENTO
24.10.4.1 Desclassi�cação
24.10.4.2 Vícios insanáveis e sanáveis
24.10.4.3 Inobservância de especi�cações
técnicas
24.10.4.4 Sobrepreço
24.10.4.5 Propostas inexequíveis
24.10.4.6 Garantia adicional
24.10.4.7 Critérios de desempate
24.10.4.8 Negociação de valor com o primeiro
colocado
24.10.5 HABILITAÇÃO
24.10.5.1 Habilitação jurídica
24.10.5.2 Habilitação técnica
24.10.5.3 Habilitação �scal, social e trabalhista
24.10.5.4 Habilitação econômico-�nanceira
24.10.5.5 Substituição ou apresentação de
novos documentos
24.10.6 RECURSAL
24.10.7 HOMOLOGAÇÃO
24.10.8 INVERSÃO DE FASES
24.11 CONTRATAÇÃO DIRETA VERSUS PROCESSO
LICITATÓRIO
24.12 CONTRATAÇÃO E PROCESSO DE CONTRATAÇÃO
DIRETA
24.12.1 LICITAÇÃO INEXIGÍVEL
24.12.2 LICITAÇÃO DISPENSÁVEL
24.12.2.1 Em razão do valor
24.12.2.2 Em razão do próprio certame
24.12.2.3 Em razão do objeto
24.12.2.4 Em razão de guerra, comoção interna
ou segurança nacional
24.12.2.5 Em razão de emergência ou
calamidade pública
24.12.2.6 Em razão da pessoa
24.12.2.7 Em razão de intervenção no domínio
econômico
24.12.2.8 Licitação dispensável na Lei nº
12.850/2013
24.12.3 LICITAÇÃO DISPENSADA
24.12.4 CONTRATAÇÃO DIRETA DE ESCRITÓRIO DE
ADVOCACIA E DE CONTABILIDADE
24.13 COMPRAS
24.14 OBRAS E SERVIÇOS DE ENGENHARIA
24.15 SERVIÇOS EM GERAL
24.16 LOCAÇÃO DE IMÓVEIS
24.17 LICITAÇÕES INTERNACIONAIS
24.18 ALIENAÇÕES
24.18.1 ALIENAÇÃO DE BENS IMÓVEIS
24.18.2 ALIENAÇÃO DE BENS MÓVEIS
24.19 EDITAL DE LICITAÇÃO
24.19.1 IMPUGNAÇÃO DO EDITAL
24.20 PROCEDIMENTOS AUXILIARES
24.20.1 CREDENCIAMENTO
24.20.2 PRÉ-QUALIFICAÇÃO
24.20.3 PROCEDIMENTO DE MANIFESTAÇÃO DE
INTERESSE
24.20.4 REGISTRO CADASTRAL
24.21 REVOGAÇÃO E ANULAÇÃO DO PROCESSO
LICITATÓRIO
24.21.1 REVOGAÇÃO DO PROCESSO LICITATÓRIO
24.21.2 ANULAÇÃO DO PROCESSO LICITATÓRIO
24.22 INFRAÇÕES E SANÇÕES ADMINISTRATIVAS
24.22.1 RESPONSABILIDADE CIVIL, PENAL E
ADMINISTRATIVA
24.22.2 INFRAÇÕES ENSEJADORAS DA SANÇÃO
24.22.3 CIRCUNSTÂNCIAS A SEREM CONSIDERADAS
NAS SANÇÕES
24.22.4 ESPÉCIES DE SANÇÕES
24.22.5 PROCESSO DE RESPONSABILIZAÇÃO
24.22.6 PRESCRIÇÃO
24.22.7 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE
JURÍDICA
24.22.8 REABILITAÇÃO DE LICITANTE O
CONTRATADO
24.22.9 RECURSOS
24.22.9.1 Recurso
24.22.9.2 Pedido de reexame
24.23 MICROEMPRESA E EMPRESA DE PEQUENO PORTE
NAS LICITAÇÕES
24.24 CONTROLE DAS LICITAÇÕES
24.24.1 RECURSOS ADMINISTRATIVOS
24.24.1.1 Recurso
24.24.1.2 Pedido de reconsideração
24.24.2 TRIBUNAIS DE CONTAS
24.24.3 REPRESENTAÇÃO
24.24.4 DENÚNCIA
24.24.5 TUTELA JURISDICIONAL
24.24.6 IMPUGNAÇÃO DO EDITAL
24.24.7 PEDIDO DE ESCLARECIMENTO
24.25 TEMAS POLÊMICOS EM LICITAÇÕES
24.25.1 TERMO DE REFERÊNCIA
24.25.2 PROJETO BÁSICO
24.25.3 PROJETO EXECUTIVO
24.25.4 PREÇO INEXEQUÍVEL
24.25.5 PARCELAMENTO DO OBJETO VERSUS
FRACIONAMENTO DA DESPESA
24.25.6 PRAZO DE VALIDADE DAS PROPOSTAS
24.25.7 CERCEAMENTO AO CARÁTER COMPETITIVO
24.25.8 MARCO INICIAL PARA O REAJUSTAMENTO
DOS PREÇOS CONTRATADOS
24.25.9 SUBCONTRATAÇÃO
24.25.10 ESPECIFICAÇÃO DE MARCA E
PADRONIZAÇÃO
24.25.11 ATESTADO DE EXCLUSIVIDADE E
COMPETÊNCIA PARA EXPEDI-LOS
24.25.12 FALTA DE PLANEJAMENTO E
CONTRATAÇÃO EMERGENCIAL
24.25.13 PRORROGAÇÃO DE CONTRATOS
EMERGENCIAIS
24.25.14 PARTICIPAÇÃO DE COOPERATIVAS
24.25.15 ADJUDICAÇÃO POR ITEM VERSUS
ADJUDICAÇÃO POR PREÇO GLOBAL
24.25.16 CRONOGRAMA FÍSICO-FINANCEIRO
24.25.17 PAGAMENTO ANTECIPADO DA DESPESA
24.26 DOS CRIMES EM LICITAÇÕES E CONTRATOS
ADMINISTRATIVOS
24.26.1 CONTRATAÇÃO DIRETA ILEGAL
24.26.2 FRUSTRAÇÃO DO CARÁTER COMPETITIVO
DE LICITAÇÃO
24.26.3 PATROCÍNIO DE CONTRATAÇÃO INDEVIDA
24.26.4 MODIFICAÇÃO OU PAGAMENTO IRREGULAR
EM CONTRATO ADMINISTRATIVO
24.26.5 PERTURBAÇÃO DE PROCESSO LICITATÓRIO
24.26.6 VIOLAÇÃO DE SIGILO EM LICITAÇÃO
24.26.7 AFASTAMENTO DE LICITANTE
24.26.8 FRAUDE EM LICITAÇÃO OU CONTRATO
24.26.9 CONTRATAÇÃO INIDÔNEA
24.26.10 IMPEDIMENTO INDEVIDO
24.26.11 OMISSÃO GRAVE DE DADO OU DE
INFORMAÇÃO POR PROJETISTA
24.26.12 DA APLICAÇÃO DE MULTA
24.27 VALOR ESTIMADO PARA CONTRATAÇÃO
24.28 ENCARGOS SOCIAIS
24.29 PORTAL NACIONAL DE CONTRATAÇÕES PÚBLICAS
XXV - SISTEMA DE REGISTRO DE PREÇOS
25.1 CONCEITO E DEFINIÇÕES
25.2 EDITAL
25.3 CONTRATAÇÃO DIRETA
25.4 HIPÓTESES DE ADOÇÃO DO SRP
25.5 INTENÇÃO PARA REGISTRO DE PREÇOS
25.6 ÓRGÃO GERENCIADOR E PARTICIPANTE
25.7 LICITAÇÃO PARA SRP
25.8 QUANTITATIVO DE AQUISIÇÃO NO SRP
25.9 ATA DE REGISTRO DE PREÇOS
25.10 ADESÃO À ATA DE REGISTRO DE PREÇOS
25.11 OBRIGAÇÃO DE AQUISIÇÃO DOS BENS E SERVIÇOS
RELACIONADOS EM ATA
25.12 REVISÃO E CANCELAMENTO DO REGISTRO DE
PREÇOS
25.13 DIREITOS E OBRIGAÇÕES DA EMPRESA
INTEGRANTE DA ATA DE REGISTRO DE PREÇOS
25.14 PENALIDADES
25.15 VIGÊNCIA DA ATA DE REGISTRO DE PREÇOS
25.16 ALTERAÇÃO OU ATUALIZAÇÃO DOS PREÇOS
REGISTRADOS
XXVI - LICITAÇÕES E CONTRATOS NAS EMPRESAS ESTATAIS -
LEI Nº 13.303/2016
26.1 NORMAS GERAIS
26.2 PUBLICIDADE DOS ATOS LICITATÓRIOS E DOS
CONTRATOS
26.3 ENTIDADES SUJEITAS À LEI Nº 13.303/2016
26.4 VALOR ESTIMADO DA CONTRATAÇÃO
26.5 PRÉ-QUALIFICAÇÃO
26.6 SISTEMA DE REGISTRO DE PREÇOS
26.7 FASES
26.7.1 PREPARAÇÃO
26.7.2 DIVULGAÇÃO
26.7.3 APRESENTAÇÃO DE LANCES OU PROPOSTAS
26.7.4 JULGAMENTO
26.7.5 VERIFICAÇÃO DE EFETIVIDADE DOS LANCES
OU PROPOSTAS
26.7.6 NEGOCIAÇÃO
26.7.7 HABILITAÇÃO
26.7.8 INTERPOSIÇÃO DE RECURSOS
26.7.9 ADJUDICAÇÃO DOOBJETO
26.7.10 HOMOLOGAÇÃO DO RESULTADO,
REVOGAÇÃO OU ANULAÇÃO DA LICITAÇÃO
26.8 LICITAÇÃO DISPENSÁVEL
26.9 LICITAÇÃO INEXIGÍVEL
26.10 LICITAÇÕES PARA OBRAS E SERVIÇOS DE
ENGENHARIA
26.11 CRITÉRIOS DE JULGAMENTO
26.12 CONTRATOS
26.12.1 CLÁUSULAS NECESSÁRIAS
26.12.2 GARANTIA
26.12.3 DURAÇÃO
26.12.4 ALTERAÇÕES
26.12.5 REVOGAÇÃO, ANULAÇÃO, RESCISÃO E
EXTINÇÃO
26.12.6 ENCARGOS SOCIAIS
26.12.7 SUBCONTRATAÇÃO
26.13 PREÇOS INEXEQUÍVEIS
26.14 CONTROLE
26.15 REGIMES DE EXECUÇÃO
26.15.1 EMPREITADA POR PREÇO UNITÁRIO
26.15.2 EMPREITADA POR PREÇO GLOBAL
26.15.3 TAREFA
26.15.4 EMPREITADA INTEGRAL
26.15.5 CONTRATAÇÃO SEMI-INTEGRADA
26.15.6 CONTRATAÇÃO INTEGRADA
26.16 SANÇÕES
26.17 DOS CRIMES E DAS PENAS
XXVII - CONTRATOS ADMINISTRATIVOS
27.1 CONCEITO
27.2 PRINCÍPIOS
27.3 FORMALIZAÇÃO
27.4 CLÁUSULAS NECESSÁRIAS
27.5 NATUREZA INTUITU PERSONAE
27.6 RESPONSABILIDADE CONTRATUAL E ENCARGOS
SOCIAIS
27.7 CONTRATO DE ADESÃO
27.8 PRERROGATIVAS DA ADMINISTRAÇÃO - CLÁUSULAS
EXORBITANTES
27.8.1 ALTERAÇÕES E REVISÕES CONTRATUAIS
27.8.1.1 Alterações unilaterais
27.8.1.2 Alterações por acordo entre as partes
27.8.2 GARANTIAS EXISTENTES NO CONTRATO
ADMINISTRATIVO
27.8.3 ANULAÇÃO DO CONTRATO
27.8.4 RETOMADA DO OBJETO
27.8.5 PODER DE FISCALIZAÇÃO
27.8.6 APLICAÇÃO DE PENALIDADES
27.8.7 Mitigação do princípio da exceptio non
adimpleti contractus
27.9 EXTINÇÃO DO CONTRATO
27.9.1 EXTINÇÃO DO CONTRATO POR ATO
UNILATERAL DA ADMINISTRAÇÃO
27.9.2 EXTINÇÃO CONSENSUAL DO CONTRATO
27.9.3 EXTINÇÃO DO CONTRATO POR DECISÃO
ARBITRAL, EM DECORRÊNCIA DE CLÁUSULA
COMPROMISSÓRIA OU COMPROMISSO ARBITRAL,
OU POR DECISÃO JUDICIAL
27.10 MEIOS ALTERNATIVOS DE RESOLUÇÃO DE
CONTROVÉRSIAS
27.11 RECEBIMENTO DO OBJETO
27.12 PAGAMENTO
27.13 DURAÇÃO DOS CONTRATOS
27.14 REAJUSTE DOS PREÇOS CONTRATADOS
27.15 REPACTUAÇÃO
27.16 EQUILÍBRIO ECONÔMICO-FINANCEIRO DO
CONTRATO
27.17 EXECUÇÃO DOS CONTRATOS
27.18 INEXECUÇÃO E EXTINÇÃO DOS CONTRATOS
27.19 SUBCONTRATAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DO
CONTRATO
27.20 CONTRATO DE SERVIÇO CONTINUADO
27.21 TERMOS DE PARCERIA
27.22 CONTRATO DE GESTÃO
27.23 CONTROLE DAS CONTRATAÇÕES
27.24 ALOCAÇÃO DE RISCOS
XXVIII - PARCERIAS PÚBLICO-PRIVADAS
28.1 INTRODUÇÃO E CONCEITO
28.2 OBJETO
28.3 NATUREZA JURÍDICA
28.4 MODALIDADES
28.5 LICITAÇÃO
28.6 CONTRATO
28.7 CONTRAPRESTAÇÃO, APORTE E GARANTIAS
28.8 FUNDO GARANTIDOR DE PARCERIAS PÚBLICO-
PRIVADAS
28.9 CARACTERÍSTICAS E DIRETRIZES
XXIX - CONCESSÃO E PERMISSÃO DE SERVIÇOS PÚBLICOS
29.1 INTRODUÇÃO
29.2 NATUREZA JURÍDICA E FUNDAMENTO
29.3 CONCEITO E MODALIDADES
29.4 FORMA DE OUTORGA
29.5 LICITAÇÃO
29.6 CONTRATO
29.7 PRAZOS E PRORROGAÇÕES DO CONTRATO
29.8 TARIFA
29.9 OUTRAS FONTES DO CONCESSIONÁRIO
29.10 PODERES DO CONCEDENTE
29.11 DIREITOS E OBRIGAÇÕES DOS USUÁRIOS
29.12 DIREITOS E OBRIGAÇÕES DA CONCESSIONÁRIA
29.13 EXTINÇÃO DA CONCESSÃO
29.14 SUBCONCESSÃO
XXX - BENS PÚBLICOS
30.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
30.2 CONCEITO
30.3 AFETAÇÃO E DESAFETAÇÃO
30.4 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À DESTINAÇÃO
30.4.1 BENS DE USO COMUM DO POVO
30.4.2 BENS DE USO ESPECIAL
30.4.3 BENS DOMINICAIS
30.5 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À TITULARIDADE
30.5.1 BENS FEDERAIS
30.5.2 BENS ESTADUAIS
30.5.3 BENS MUNICIPAIS
30.5.4 BENS DO DISTRITO FEDERAL
30.6 ESPÉCIES DE BENS PÚBLICOS
30.6.1 TERRAS DEVOLUTAS
30.6.2 TERRENOS RESERVADOS
30.6.3 TERRENOS DE MARINHA E SEUS ACRESCIDOS
30.6.4 TERRAS TRADICIONALMENTE OCUPADAS
PELOS ÍNDIOS
30.6.5 PLATAFORMA CONTINENTAL
30.6.6 FAIXA DE FRONTEIRAS
30.6.7 ILHAS
30.6.8 ÁGUAS PÚBLICAS
30.6.9 MINAS E JAZIDAS
30.6.10 ESPAÇO AÉREO
30.7 USO DOS BENS PÚBLICOS POR PARTICULARES
30.7.1 PERMISSÃO DE USO
30.7.2 AUTORIZAÇÃO DE USO
30.7.3 CONCESSÃO DE USO
30.7.4 CONCESSÃO DE USO ESPECIAL PARA FINS DE
MORADIA
30.8 ALIENAÇÃO
30.8.1 MODALIDADES DE ALIENAÇÃO
30.8.1.1 Venda
30.8.1.2 Permuta
30.8.1.3 Doação
30.8.1.4 Dação em pagamento
30.8.1.5 Investidura
30.8.1.6 Legitimação de posse
30.8.1.7 Legitimação fundiária
30.8.1.8 Concessão de direito real de uso
30.8.1.9 Retrovenda
30.9 REGIME JURÍDICO
30.9.1 IMPRESCRITIBILIDADE
30.9.2 IMPENHORABILIDADE
30.9.3 NÃO-ONERABILIDADE
XXXI - INTERVENÇÃO DO ESTADO NA PROPRIEDADE
PRIVADA
31.1 CONCEITO
31.2 PROPRIEDADE
31.3 FUNDAMENTO
31.4 SUPREMACIA DO INTERESSE PÚBLICO SOBRE O
PRIVADO
31.5 FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE
31.6 MODALIDADES
31.7 EXPROPRIAÇÃO
31.8 SERVIDÃO ADMINISTRATIVA
31.8.1 NATUREZA JURÍDICA E CONCEITO
31.8.2 FUNDAMENTO
31.8.3 COMPETÊNCIA
31.8.4 OBJETO
31.8.5 INSTITUIÇÃO
31.8.6 EXTINÇÃO
31.8.7 INDENIZAÇÃO
31.9 LIMITAÇÃO ADMINISTRATIVA
31.9.1 CONCEITO
31.9.2 FUNDAMENTO
31.9.3 CARACTERÍSTICAS
31.9.4 INDENIZAÇÃO
31.10 OCUPAÇÃO TEMPORÁRIA
31.10.1 CONCEITO
31.10.2 FUNDAMENTO
31.10.3 INDENIZAÇÃO
31.10.4 CARACTERÍSTICAS
31.11 REQUISIÇÃO ADMINISTRATIVA
31.11.1 CONCEITO
31.11.2 FUNDAMENTO
31.11.3 INDENIZAÇÃO
31.11.4 CARACTERÍSTICAS
31.12 TOMBAMENTO
31.12.1 CONCEITO
31.12.2 NATUREZA JURÍDICA
31.12.3 FUNDAMENTO
31.12.4 ESPÉCIES
31.12.5 INSTITUIÇÃO
31.12.6 EXTINÇÃO
31.12.7 INDENIZAÇÃO
31.12.8 EFEITOS
31.12.9 DIREITO DE PREFERÊNCIA
31.12.10 CARACTERÍSTICAS
31.13 DESAPROPRIAÇÃO
31.13.1 CONCEITO
31.13.2 FUNDAMENTO
31.13.3 NATUREZA JURÍDICA
31.13.4 COMPETÊNCIA
31.13.4.1 Competência legislativa
31.13.4.2 Competência declaratória
31.13.4.3 Competência executória
31.13.4.4 Competência revisional - autotutela e
judicial review
31.13.5 SUJEITOS ATIVO E PASSIVO
31.13.6 FASES
31.13.6.1 Fase declaratória
31.13.6.2 Fase executória
31.13.7 AÇÃO DE DESAPROPRIAÇÃO
31.13.8 IMISSÃO PROVISÓRIA NA POSSE
31.13.8.1 Conceito
31.13.8.2 Fundamento
31.13.8.3 Requisitos
31.13.9 CONTROLE JURISDICIONAL - AÇÕES EM FACE
DA DESAPROPRIAÇÃO
31.13.10 INDENIZAÇÃO
31.13.11 MODALIDADES DE DESAPROPRIAÇÃO
31.13.11.1 Desapropriação comum
31.13.11.2 Desapropriação indireta
31.13.11.3 Desapropriação privada
31.13.11.4 Desapropriação como sanção ou
con�scatória
31.13.11.4.1 Desapropriação como sanção
urbanística
31.13.11.4.2 Desapropriação rural como
sanção
31.13.11.4.3 Desapropriação como sanção
expropriatória ou de con�sco
31.13.12 DESISTÊNCIA DA DESAPROPRIAÇÃO
31.13.13 TREDESTINAÇÃO E RETROCESSÃO
XXXII- INTERVENÇÃO DO ESTADO NO DOMÍNIO ECONÔMICO
XXXIII - RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL OU CIVIL
DO ESTADO
33.1 INTRODUÇÃO
33.2 EVOLUÇÃO DA RESPONSABILIDADE DO ESTADO NO
ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO
33.3 TEORIAS
33.3.1 TEORIA DA IRRESPONSABILIDADE DO ESTADO
33.3.2 TEORIA DA RESPONSABILIDADE SUBJETIVA
DO ESTADO
33.3.3 TEORIA DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO
ESTADO
33.4 CONCEITO
33.5 REQUISITOS PARA RESPONSABILIZAÇÃO DO
ESTADO
33.6 CAUSAS EXCLUDENTES E ATENUANTES DA
RESPONSABILIDADE DO ESTADO
33.7 RESPONSABILIDADE POR ATOS LEGISLATIVOS
33.8 RESPONSABILIDADE POR ATOS JUDICIAIS
33.9 RESPONSABILIDADE POR ATOS COMISSIVOS DO
ESTADO
33.10 RESPONSABILIDADE POR ATOS OMISSIVOS DO
ESTADO
33.11 REPARAÇÃO DO DANO
33.12 DIREITO DE REGRESSO OU AÇÃO REGRESSIVA
XXXIV - RESPONSABILIDADE DE PESSOAS JURÍDICAS POR
DANOS CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA - LEI Nº
12.846/2013
34.1 NOÇÕES INTRODUTÓRIAS
34.2 ATOS LESIVOS À ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
NACIONAL OU ESTRANGEIRA
34.3 RESPONSABILIZAÇÃO ADMINISTRATIVA
34.4 PROCESSO ADMINISTRATIVO DE
RESPONSABILIZAÇÃO
34.5. ACORDO DE LENIÊNCIA
34.6 RESPONSABILIZAÇÃO JUDICIAL
34.7 CADASTRO NACIONAL DE EMPRESAS PUNIDAS -
CNEP
XXXV - RESPONSABILIDADE FISCAL
35.1 NOÇÕES INTRODUTÓRIAS
35.2 PLANEJAMENTO ORÇAMENTÁRIO
35.3 RECEITA PÚBLICA
35.4 DESPESA PÚBLICA
35.5 DESPESA OBRIGATÓRIA DE CARÁTER CONTINUADO
35.6 DESPESA COM PESSOAL
35.7 CONTROLE DA DESPESA COM PESSOAL
35.8 TRANSFERÊNCIAS VOLUNTÁRIAS
35.9 FISCALIZAÇÃO DA GESTÃO FISCAL
XXXVI - MUTAÇÃO ADMINISTRATIVA E CONSTITUCIONAL
XXXVII - CONVÊNIOS
37.1 CONCEITO
37.2 DISTINÇÃO ENTRE CONVÊNIOS E CONTRATOS
37.3 PARTÍCIPES
37.4 OBJETO
37.5 CONTRAPARTIDA
37.6 LICITAÇÕES E CONTRATOS APLICÁVEIS AOS
CONVÊNIOS
37.7 TEMAS POLÊMICOS NA GESTÃO DE CONVÊNIOS
CELEBRADOS COM A UNIÃO
37.7.1 MOVIMENTAÇÃO DE RECURSOS EM CONTA
CORRENTEDIVERSA DA ESPECÍFICA
37.7.2 INEXISTÊNCIA DE NEXO ENTRE RECEITA E
DESPESA NA APLICAÇÃO DOS RECURSOS
37.7.3 DESVIO DE OBJETO VERSUS DESVIO DE
FINALIDADE
37.7.4 RECURSOS APLICADOS EM OBJETO DIVERSO
DO AJUSTADO, MAS EM BENEFÍCIO DO ÓRGÃO OU
ENTIDADE CONVENENTE
37.7.5 PAGAMENTO ANTECIPADO DA DESPESA
37.7.6 APLICAÇÃO PARCIAL OU NÃO APLICAÇÃO DO
VALOR DA CONTRAPARTIDA
37.7.7 RECEBIMENTO DE RECURSOS INFERIORES AOS
NECESSÁRIOS À REALIZAÇÃO DO OBJETO
AJUSTADO
37.7.8 RESPONSABILIDADE DO GESTOR QUE
CELEBROU O CONVÊNIO E DO SEU SUCESSOR
37.7.9 CUIDADOS AO TRANSMITIR E AO RECEBER O
CARGO
37.7.10 DESPESAS FORA DA VIGÊNCIA DO
CONVÊNIO
37.7.11 DESPESAS COM MULTAS, TAXAS BANCÁRIAS,
JUROS OU CORREÇÃO MONETÁRIA
37.7.12 DESPESAS COM TAXA DE ADMINISTRAÇÃO,
DE GERÊNCIA OU SIMILAR VERSUS DESPESAS
ADMINISTRATIVAS
37.7.13 OMISSÃO NO DEVER DE PRESTAR CONTAS E
POSTERIOR ENCAMINHAMENTO DA PRESTAÇÃO DE
CONTAS
37.7.14 ADITAMENTO AO TERMO DE CONVÊNIO
37.7.15 DIREITO DE PROPRIEDADE DOS BENS
REMANESCENTES
37.7.16 PROJETO BÁSICO INSUFICIENTE PARA
REALIZAÇÃO DO OBJETO
37.7.17 SALDO REMANESCENTE NOS CONVÊNIOS
37.7.18 LIMITES PARA ALTERAÇÃO DO VALOR DO
CONVÊNIO
37.7.19 POSSIBILIDADE DE PARCELAMENTO DO
SALDO DEVEDOR NO ÂMBITO DO CONCEDENTE
37.7.20 TRANSFERÊNCIAS VOLUNTÁRIAS EM ANO
ELEITORAL
37.7.21 FOTOGRAFIAS COMO INSTRUMENTO
PROBATÓRIO
37.7.22 REALIZAÇÃO DE LICITAÇÃO ANTES DE
CELEBRADO O CONVÊNIO
37.7.23 CELEBRAÇÃO DE CONTRATO EM DATA
ANTERIOR À VIGÊNCIA DO CONVÊNIO
37.7.24 ATUALIZAÇÃO DOS DÉBITOS DECORRENTES
DE ACÓRDÃOS CONDENATÓRIOS
XXXVIII - CONTRATO DE REPASSE
XXXIX - CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
39.1 NOÇÕES INTRODUTÓRIAS DOS CRIMES CONTRA A
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
39.2 DOS CRIMES PRATICADOS POR FUNCIONÁRIO
PÚBLICO CONTRA A ADMINISTRAÇÃO EM GERAL
39.2.1 PECULATO
39.2.2 INSERÇÃO DE DADOS FALSOS EM SISTEMA DE
INFORMAÇÕES
39.2.3 MODIFICAÇÃO OU ALTERAÇÃO NÃO
AUTORIZADA DE SISTEMA DE INFORMAÇÕES
39.2.4 EXTRAVIO, SONEGAÇÃO OU INUTILIZAÇÃO
DE LIVRO OU DOCUMENTO
39.2.5 EMPREGO IRREGULAR DE VERBAS OU
RENDAS PÚBLICAS
39.2.6 CONCUSSÃO
39.2.7 EXCESSO DE EXAÇÃO
39.2.8 CORRUPÇÃO PASSIVA
39.2.9 FACILITAÇÃO DE CONTRABANDO OU
DESCAMINHO
39.2.10 PREVARICAÇÃO
39.2.11 CONDESCENDÊNCIA CRIMINOSA
39.2.12 ADVOCACIA ADMINISTRATIVA
39.2.13 VIOLÊNCIA ARBITRÁRIA
39.2.14 ABANDONO DE FUNÇÃO
39.2.15 EXERCÍCIO FUNCIONAL ILEGALMENTE
ANTECIPADO OU PROLONGADO
39.2.16 VIOLAÇÃO DE SIGILO FUNCIONAL
39.2.17 VIOLAÇÃO DO SIGILO DE PROPOSTA DE
CONCORRÊNCIA
39.3 DOS CRIMES PRATICADOS POR PARTICULAR
CONTRA A ADMINISTRAÇÃO EM GERAL
39.3.1 USURPAÇÃO DE FUNÇÃO PÚBLICA
39.3.2 RESISTÊNCIA
39.3.3 DESOBEDIÊNCIA
39.3.4 DESACATO
39.3.5 TRÁFICO DE INFLUÊNCIA
39.3.6 CORRUPÇÃO ATIVA
39.3.7 DESCAMINHO
39.3.8 CONTRABANDO
39.3.9 IMPEDIMENTO, PERTURBAÇÃO OU FRAUDE
DE CONCORRÊNCIA
39.3.10 INUTILIZAÇÃO DE EDITAL OU DE SINAL
39.3.11 SUBTRAÇÃO OU INUTILIZAÇÃO DE LIVRO OU
DOCUMENTO
39.3.12 SONEGAÇÃO DE CONTRIBUIÇÃO
PREVIDENCIÁRIA
XL - REFERÊNCIAS
I - DIREITO ADMINISTRATIVO
O Direito deve ser entendido como um sistema que se
autorregulamenta e autorreproduz como instrumento de regulação das
relações jurídicas, na concepção de sistemas autopoiéticos1 de origem nas
ciência biológicas por Maturana e Varella e trazido para as ciências sociais
por Niklas Luhmann.
Todos os sistemas, como, por exemplo, Biologia, Matemática, Física,
Política, Economia, inclusive o Direito, devem possuir codi�cação própria,
além de abertura cognitiva e fechamento operacional ou clausura
operacional. A abertura cognitiva permite que o sistema se comunique com
os demais sistemas que estão no entorno. O fechamento operacional permite
ao sistema que ele mesmo se organize e desenvolva-se, segundo suas
próprias regras. Essas duas características impedem que haja corrupção
sistêmica, em que um sistema determine o modus operandi de outro. Sempre
que houver interferência indevida de um sistema em outro, ocorrerá a
denominada corrupção sistêmica.
Mas deve ser enfatizado que a abertura cognitiva, ou seja, a
possibilidade de comunicação entre os diversos sistemas também possibilita
a autorreprodução do sistema que recebe a comunicação, segundo as regras
desse sistema receptor. Contudo, a mensagem recebida de outro sistema
deve ser traduzida para a linguagem do receptor, a �m de que possa ser
incorporada, conforme sua própria linguagem. Na hipótese de não haver
tradução da mensagem recebida para a linguagem do sistema receptor, não
haverá comunicação, e a mensagem não será processada. O sistema deve ser
autorreferente.
Acerca da indevida interferência de um sistema em outro, aqui
especi�camente do sistema político no sistema jurídico, Canotilho assim
trata o tema2 :
A ideia de um direito fundamentalmente jurisdicional - jurisdictio -
apontava já para um aspecto posteriormente salientado pela viragem
autopoiética: a de que o Direito não deve ser reduzido a uma componente
subordinada da regulação política, antes deve conceber-se como uma
regulação autônoma que age ao nível comunitário da realização concreta do
Direito e da arbitragem de con�itos.
Duguit entende o Direito como um instrumento capaz de promover a
garantia da solidariedade social, motivo por que só existiria uma lei legítima
quando promovesse essa solidariedade social3.
O Sistema Direito pode ser dividido em dois grandes grupos: Direito
Público e Direito Privado.
Pode-se reconhecer o Direito Privado como um instrumento de
regulação das relações jurídicas entre particulares ou entre pessoas que
tenham uma relação horizontal de direitos e obrigações, ou seja, esse ramo
do Direito desenvolve- se no âmbito das relações privadas.
O Direito Público, mais próximo da concepção de Duguit, regula as
relações jurídicas dentro do próprio Estado ou entre este e particulares,
porém com a característica da preponderância dos princípios da supremacia
do interesse público sobre o privado e da indisponibilidade pela
Administração do interesse público. A partir desses dois princípios, pode-se
conceber certa desigualdade entre as partes dentro do Direito Público, em
que se veri�ca relação vertical entre as partes. Por meio dessa verticalização,
devem ser reconhecidas prerrogativas da Administração Pública que fazem
com que ela se sobreponha ao particular que com ela se relaciona. Esse é o
traço distintivo entre o Direito Público e o Direito Privado: verticalização e
horizontalização nas relações jurídicas, respectivamente.
Ainda que se reconheça essa sobreposição de prerrogativas do Estado
em face do particular nas relações jurídicas, somente se tornam legítimas
quando exercidas em prol da busca de justiça social, em que o direito
coletivo deve sobressair-se em face de um direito individual, sem prejuízo de
resguardar os direitos do particular, tutelados pelo ordenamento jurídico
que se relaciona com a Administração. A verticalização existente no Direito
Público não pode ser instrumento para a prática de violações ao Sistema
Jurídico, tampouco impor ao particular ônus não previsto no ordenamento
jurídico. O bom Direito há de ser sempre preservado e privilegiado.
Ainda que haja possibilidade de a Administração Pública celebrar
contratos de natureza privada, determinadas prerrogativas da
Administração, constantes de normas de ordem pública, não poderão ser
afastadas pela vontade das partes. No regime privado, prevalece a vontade
entre as partes; no regime público, a previsão constante da lei. O princípio
da legalidade é um dos princípios fundamentais da Administração Pública,
conforme expressamente consagrado no caput do art. 37, da Constituição
Federal, do qual não pode afastar-se.
Dentro desse grande grupo do Direito Público, encontram-se, dentre
outros, o Direito Constitucional, o Direito Processual, o Direito Tributário, o
Direito Administrativo, que consiste no objeto de todo o desenvolvimento
deste livro.
1.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Pode-se compreender como marco importante para a formação do
Direito Administrativo a publicação da obra “O Espírito das Leis” de
Montesquieu, em 1748. Entretanto,a consolidação do Direito
Administrativo ocorre a partir da Revolução Francesa, em 1789, pois, além
de promover relevantes alterações na economia, na política e no campo
social daquele país, ganha destaque a transformação de um Estado
absolutista em um Estado de Direito, a consagrar a tripartição de poderes, já
mencionada por Montesquieu. Nesse sentido, pode-se dizer que o Direito
Administrativo nasceu na França.
Acerca da origem do Direito Administrativo na França, deve-se
colacionar lapidar pronunciamento de Diogenes Gasparini nos seguintes
termos4:
De fato, costuma-se dizer que a certidão de nascimento do Direito
Administrativo está consubstanciada em uma lei francesa de 1800,
conhecida por Lei de 28 do pluvioso ano VII (calendário da Revolução
Francesa). Em 1817, instituiu-se, na Universidade de Paris, a Cadeira de
Direito Administrativo, cuja regência foi atribuída a De Gérando, que, no
ano de 1829, editou o livro Institutes du droit administratif français. Além do
trabalho de De Gérando, destacam-se, entre outros, os de Macarel (Cours
d’administration et de droit administratif); Laferrière (Cours théorique et
pratique de droit administratif); Barthélemy (Traité élémentaire de droit
administratif); Haurion (Précis de droit administratif); Benoit (Le droit
administratif français). Da França, seu berço natal, o Direito Administrativo
difunde-se pela Europa e, a partir daí, para o resto do mundo.
Com a consagração tripartite dos Poderes do Estado, as funções
administrativas, judiciais, e legiferantes passam a ser exercidas
preponderantemente pelos Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo,
respectivamente. Ganha força, então, o Estado de Direito, que cria e se
submete às mesmas leis, em fortalecimento ao princípio da legalidade, em
contraponto ao decadente Estado Absolutista, em que o arbítrio ocorria
constantemente.
1.2 NATUREZA JURÍDICA E CONCEITO
A natureza jurídica do Direito Administrativo deve buscar os traços
que o caracterizam e o distinguem do regime jurídico de Direito Privado.
O regime jurídico-administrativo está alicerçado em dois princípios
basilares: supremacia do interesse público sobre o privado e
indisponibilidade pela Administração do interesse público. De uma singela
leitura desses dois princípios, emerge o interesse público latente. Não há
falar em regime jurídico-administrativo sem que se evidencie a
preponderância do interesse público. Essa preponderância não implica
reconhecer a possibilidade de a Administração Pública praticar atos em
desconformidade com o ordenamento jurídico ou em �agrante detrimento
de direito do particular que com ela se relaciona ou que esteja sob sua
jurisdição, o que seria uma falácia perante o interesse público.
Se o regime jurídico de Direito Privado tem como pedra fundamental a
igualdade na relação jurídica, ou seja, uma relação jurídica horizontal de
obrigações e deveres, o regime jurídico de Direito Público caracteriza-se
pela verticalização da sua relação jurídica com o particular sob sua
jurisdição, o que lhe permite valer-se de prerrogativas que não se estendem
ao particular ou ao jurisdicionado.
Outro traço distintivo entre o regime privado e o regime público diz
respeito à liberdade de vontade. Enquanto naquele as relações contratuais
são de�nidas por livre vontade entre as partes, no regime jurídico de Direito
Público deve prevalecer o disposto na lei, em atenção ao princípio da
legalidade expressamente consagrado na Constituição Federal. Em outras
palavras, se ao particular é lícito praticar tudo que não for proibido pela lei,
à Administração Pública somente será lícito praticar atos conforme a lei, lato
sensu.
São características da natureza jurídica do Direito Administrativo:
a) alicerce em dois princípios fundamentais;
b) verticalização nas relações jurídicas;
c) observância do princípio da legalidade em detrimento do acordo de
vontade entre as partes.
O regime jurídico do Direito Administrativo impõe a observância de
normas de Direito Público, mas isso não afasta eventual aplicação
subsidiária do Direito Privado, pois o Direito deve ser entendido como
único ou sistêmico e seus diversos ramos como subsistemas, que podem
buscar fundamento de decidir em qualquer um deles ou até mesmo em
outro sistema, desde que os inputs necessários para fundamentar suas razões
de decidir sejam traduzidos para linguagem do próprio subsistema Direito
Administrativo.
Acerca da possibilidade de aplicação subsidiária do Direito Civil ao
Direito Público, Seabra Fagundes assim leciona 5:
A de�ciência e a falta de sistematização dos textos de Direito Administrativo
embaraçam a construção da teoria das nulidades dos atos da Administração
Pública. Não é possível disciplinar a matéria, utilizando apenas os elementos
que tais textos fornecem. Faz-se necessário, supletivamente, recorrer aos
dispositivos da legislação civil (...). Não há dúvida de que os princípios do
Código Civil se podem aplicar, em parte, aos atos administrativos com
efeitos jurídicos, pois que reagem, de modo geral, os atos jurídicos.
Assim, Direito Administrativo pode ser conceituado como o conjunto
de normas que regem a Administração Pública em suas relações jurídicas
com ela mesma e com os particulares que com ela celebram acordos ou a ela
estejam jurisdicionados.
A partir desse conceito, devem ser explicitados os elementos que o
de�nem.
Conjunto de normas consiste em regras e princípios que
fundamentam a atuação da Administração Pública e deve ser entendido de
forma ampla, a abarcar toda e qualquer norma que lhe seja aplicável, seja ela
oriunda do Poder Legislativo, tenha ela origem no poder regulamentar do
órgão competente. Dessa forma, incluem-se em conjunto de normas as leis,
os decretos, as portarias, as resoluções, os regimentos interno, as decisões, as
instruções normativas e qualquer outro normativo que entre no
ordenamento jurídico de forma legal.
As relações jurídicas devem ser entendidas sob três perspectivas.
A primeira refere-se aos órgãos e entidades da própria Administração
Pública, pois não há desconsiderar a celebração de acordos dentro da
própria Administração Pública, aqui entendida como todos os Poderes da
União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, bem como das
suas respectivas administrações indiretas.
A segunda diz respeito aos acordos celebrados entre Administração
Pública e particulares. Podem ser celebrados, por exemplos, contratos,
convênios, contratos de repasse e até mesmo contratos regidos pelo Direito
Civil. O Direito Administrativo também visa regulamentar, disciplinar essas
relações jurídicas.
A terceira diz respeito à atuação da Administração Pública em
decorrência de um poder �scalizatório, a estabelecer sua relação com
entidades públicas ou privadas ou mesmo pessoas físicas, mas sob o efeito
da tutela jurisdicional administrativa, que, além de possibilitar a �scalização,
também lhe faculta impor sanções ou condenações para restituir o valor
apurado, com observância da garantia fundamental do devido processo legal
e dos seus corolários do contraditório e da ampla defesa, com os meios e
recursos a ela inerentes, em sede de um contencioso administrativo.
Maria Sylvia Zanella Di Pietro assim de�ne Direito Administrativo6:
O ramo do Direito Público que tem por objeto os órgãos, agentes e pessoas
jurídicas administrativas que integram a Administração Pública, a atividade
jurídica não contenciosa que exerce e os bens e meios de que se utiliza para a
consecução de seus �ns, de natureza pública.
José dos Santos Carvalho Filho conceitua Direito Administrativo da
seguinte forma7:
O conjunto de normas e princípios que, visando sempre o interesse público,
regem as relações jurídicas entre as pessoas e órgãos do Estado e entre este e
as coletividades a que devem servir.
1.3 OBJETO
Embora o Direito Administrativo seja um ramo do Direito Público,
isso não signi�ca que sua atuação restringe-se eminentemente às relações
jurídicas de Direito Público, pois existem situações em que a Administração
Pública também atua sobo regime de Direito Privado. Mencione-se, a título
de exemplo, atuação do Estado na exploração direta de atividade econômica,
principalmente no que tange a relevante interesse coletivo, como ocorre com
sociedades de economia mista ou mesmo com empresas públicas.
O traço distintivo do regime jurídico de Direito Público em que se
insere o Direito Administrativo pode ser identi�cado também pela
preponderância do interesse público sobre o privado ou pela
indisponibilidade do interesse público pela Administração, em que atua com
prerrogativas sobre o particular que com ela se relaciona, seja nos acordos
que com ele celebra, seja em sua atuação por força de alguma tutela
jurisdicional administrativa.
Quando a Administração Pública atua como entidade privada, atrai o
regime jurídico de Direito Privado, e se pode veri�car mitigação das
características distintivas do regime jurídico de Direito Público,
principalmente no que diz respeito à verticalização em suas relações
jurídicas, quando, então, prepondera a horizontalização em suas relações
jurídicas. Quando a Administração Pública, por exemplo, celebra contrato
de locação, como locatária, prepondera o regime jurídico de Direito
Privado.
Para o exercício de suas atividades, a Administração Pública deve
dispor de uma estrutura orgânica8 e outra material para o exercício das
atividades sob sua responsabilidade, que, em apertada síntese, pode ser
exempli�cada por meio dos órgãos, entidades e agentes públicos, e
atividades efetivamente prestadas ou desempenhadas pelo Estado,
respectivamente.
Ainda que se possa reconhecer a função do Poder Executivo na
administração do Estado, não há desconsiderar a competência dos Poderes
Legislativo e Judiciário em atividades administrativas também de interesse
do Estado.
Observe-se que existe uma gama considerada de atividades conferidas
aos Poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, nas
respectivas administrações direta e indireta, em que se aplica o Direito
Administrativo, que não consiste em prerrogativa exclusiva do Poder
Executivo.
Ao se agrupar toda a atribuição da Administração Pública, em seus
sentidos subjetivo e objetivo, bem como todos os atos necessários para
manter a estrutura necessária para cumprimento de suas funções, tem-se o
objeto do Direito Administrativo. O objeto do Direito Administrativo
consiste, portanto, nas relações jurídicas a serem estabelecidas entre a
própria Administração Pública, entre esta e as pessoas que com ela se
relacionam por meio de acordo ou em razão de sua atividade jurisdicional, e
seus agentes públicos, além da prática de todos os atos necessários para a
prestação dos serviços sob sua responsabilidade.
A partir desse conceito, podem ser exempli�cados como objeto do
Direito Administrativo:
a) ato administrativo;
b) gestão dos bens, direitos e obrigações;
c) relações jurídicas;
d) controle da Administração Pública;
e) agentes públicos;
f) Administração Pública, direta e indireta e em sentido subjetivo e
objetivo;
g) bens públicos;
h) responsabilidade do Estado e de seus agentes, bem como os efeitos
dela decorrentes;
i) processos administrativos para regular desenvolvimento do direito
adjetivo e substantivo.
1.4 CODIFICAÇÃO
O Direito Administrativo brasileiro não possui uma codi�cação tal
como, por exemplo, o Direito Civil, o Direito Processual Civil (DPC) ou o
Direito Processual Penal (DPP), motivo por que existem normas e
literaturas muito esparsas sobre os diversos temas tratados por esse ramo do
Direito. Ademais, o Direito Administrativo brasileiro sofre grande in�uência
do Direito Administrativo francês. Contudo, embora tenha sido
in�uenciado pelo Direito Administrativo francês, o Brasil não o adotou in
totum, pois o contencioso administrativo francês possui jurisdição
administrativa a operar o efeito da coisa julgada administrativa, com o
mesmo efeito da coisa jugada no âmbito do Poder Judiciário, que torna
imutável a decisão tomada pelo órgão do Sistema Contencioso
Administrativo francês, diversamente do que ocorre nos países que
adotaram o Sistema de Jurisdição Única, como o Brasil.
Existe certa polêmica entre os doutrinadores acerca da vantajosidade
ou não de existir uma codi�cação própria do Direito Administrativo. Com
as vênias daqueles que pensam em sentido diverso, parece que a codi�cação
acena na melhor hipótese9.
Semanticamente, codi�car o Direito Administrativo pode ser
compreendido como agrupar, sistemática, lógica, harmônica e
metodologicamente, normas que se re�ram a esse ramo do Direito.
A inexistência de codi�cação do Direito Administrativo impõe
reconhecimento de diversas leis editadas em múltiplos momentos e por
variados entes que tratam de temas afetos a esse ramo do Direito.
A autonomia dos entes da Federação possibilita que União, estados,
Distrito Federal e municípios tenham competência para legislar no âmbito
das atribuições de�nidas pela Constituição Federal, inclusive no que diz
respeito ao Direito Administrativo. Ao se percorrer o Texto Constitucional,
veri�ca-se competência privativa da União para legislar em determinados
temas (art. 22), e também competência concorrente entre União, estados e
Distrito Federal para legislar nos temas discriminados pelo art. 24. Da
leitura desses dois dispositivos, embora em nenhum deles seja expressa a
competência para legislar no âmbito do Direito Administrativo, diversos
temas estão intimamente relacionados a esse ramo do Direito, nas duas
competências discriminadas por esses dispositivos.
Embora não se tenha uma codi�cação do Direito Administrativo,
stricto sensu, não há desconsiderar a existência de diversos códigos atinentes
a temas do Direito Administrativo, na exata concepção semântica
mencionada anteriormente, em que se agrupa em uma única norma toda a
disciplina de determinado assunto. São exemplos de códigos, nesse sentido,
o Código de Trânsito Brasileiro (Lei nº 9.503/1997), o Código Brasileiro de
Aeronáutica (Lei nº 7.565/1986), o Código de Águas (Decreto nº
24.643/1934), o Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990).
1.5 SISTEMAS ADMINISTRATIVOS: INGLÊS E
FRANCÊS
Na França, vige o contencioso administrativo, também denominado
de dualidade de jurisdição ou sistema francês, ao lado da Jurisdição
Comum (Poder Judiciário). Aquele faz verdadeiramente coisa julgada, que,
embora proferida no âmbito do Direito Administrativo, possui o sentido
expresso pelo art. 46710 do Código de Processo Civil pátrio, pois a jurisdição
comum não tem competência para rever, diversamente do que ocorre no
Brasil, as decisões proferidas por esse contencioso. Das decisões proferidas
em sede do contencioso administrativo, cabe recurso para o Conselho de
Estado (CE), o qual se insere também no âmbito administrativo.
Ainda que exista esse Conselho de Estado, como instância última no
âmbito administrativo francês, três questões administrativas podem
transcender para o Poder Judiciário, desde que imprescindíveis ao interesse
da Administração, quais sejam 11: “a) litígios decorrentes de atividades
públicas com caráter privado; b) litígios que envolvam questões de Estado e
capacidade das pessoas e de repressão penal; c) litígios que se re�ram à
propriedade privada”.
A dualidade de jurisdição na França caracteriza-se pela coexistência da
Jurisdição Comum, formada pelos órgãos do Poder Judiciário para solução
dos litígios comuns, e da Jurisdição Administrativa, integrada pelos
tribunais administrativos com a respectiva jurisdição em matérias
administrativas.
Mesmo que o sistema administrativo brasileiro tenha grande in�uência
do sistema administrativo francês, com ele não se confunde, principalmente
em razão de naquele sistema haver dualidade jurisdicional, enquanto no
Brasil prevalece a unicidade de jurisdição expressamente consagrada na
Constituição Federal (art. 5º XXXV), que consagrou a inafastabilidade do
Poder Judiciário para apreciação de lesão ou ameaça a direito. Nesse sentido,
ainda que existam órgãos administrativos com competência para impor
sanções e condenar determinadapessoa a ressarcir os cofres públicos, dessa
decisão poderá haver a busca da tutela do Poder Judiciário, em razão de
suposta lesão ou ameaça a direito arguido pelo interessado.
O sistema inglês, também denominado unicidade de jurisdição é
aquele em que se privilegia a atuação do Poder Judiciário na apreciação de
lesão ou ameaça a direito com força da coisa julgada.
Por esse sistema, compete ao Poder Judiciário dizer o direito, de forma
de�nitiva, aos casos em que for suscitado a decidir o litígio, seja em assuntos
de Direito Administrativo, seja em assuntos da Justiça Comum. Ao Poder
Judiciário, portanto, compete o efeito da coisa julgada, em sua concepção
técnica entendida como decisão contra a qual não caiba mais recurso.
A unicidade de jurisdição, ou sistema inglês, não afasta a competência
de determinados órgãos para processar e julgar administrativamente os
assuntos afetos às respectivas competências de�nidas no Texto
Constitucional ou legal. Nesse sentido, ainda que esgotada toda a esfera
administrativa, ou seja, ainda que ocorram os efeitos da coisa julgada
administrativa contra a qual não caiba mais recurso administrativamente, o
particular que entender haver ocorrido lesão ou ameaça a direito poderá
buscar a tutela do Poder Judiciário para estabilizar a relação jurídica entre
ele e a Administração Pública, a �m de se alcançar o instituto da segurança
jurídica, imprescindível ao Estado de Direito.
Em razão da unicidade de jurisdição, ocorre a possibilidade de o Poder
Judiciário rever os atos administrativos, na exata compreensão da expressão
“judicial review”, ou seja, possibilidade de o Poder Judiciário rever os atos
praticados pelos demais Poderes.
Acerca da judicial review, duas espécies de controle emergem:
legalidade e mérito.
O controle de legalidade deve efetivar-se tanto por meio do Poder
Judiciário, em sua competência jurisdicional, quanto por meio do órgão que
praticou o ato eivado de vício, em razão do poder-dever de autotutela que
lhe compete. O reconhecimento da ilegalidade do ato praticado pela
Administração Pública faz com que o Poder Judiciário declare sua nulidade
e o devolva para que seja praticado sem os vícios ensejadores da declaração
de nulidade.
O controle de mérito não deve ser realizado pelo Poder Judiciário,
pois, se assim agir, estará a substituir o gestor em suas atribuições, o que não
deve ser admitido. Atos praticados com observância das normas que lhe são
aplicáveis não estão sujeitos ao controle de mérito pelo Poder Judiciário.
Não há falar, portanto, em controle de mérito pelo Poder Judiciário de ato
legalmente praticado pelos Poderes Executivo, Legislativo, ou mesmo pelo
Poder Judiciário em suas funções administrativas.
1.6 SISTEMA ADMINISTRATIVO BRASILEIRO
O sistema administrativo brasileiro não dispõe do instituto da força
julgada em sua concepção jurisdicional afeta exclusivamente ao Poder
Judiciário, na mesma compreensão do que os norte-americanos conceituam
como the final enforcing power, embora possua vários órgãos com
competência para, em última ou única instância administrativa, impor
sanções (com efeitos civis, administrativos e até mesmo sancionadores) aos
respectivos jurisdicionados com a força do trânsito em julgado
administrativo (CADE, TCU, CRSFN, CARF), ou seja, decisão contra a qual
não caiba mais recurso no âmbito administrativo.
Deve-se registrar, então, que o Brasil, embora tenha adotado o Sistema
de Jurisdição Única, dispõe de diversos órgãos administrativos que impõem
sanções a pessoas físicas ou jurídicas, cuja revisibilidade de suas decisões
pelo Poder Judiciário não adentra o mérito, mas, no máximo, a violação a
algum direito ou garantia fundamental, principalmente no que diz respeito
ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa. Admitir
intervenção do Poder Judiciário no mérito do ato administrativo acena em
irregular intervenção de um Poder no outro, além de não ser cabível a
substituição do gestor por qualquer ato jurisdicional.
A inexistência da força de coisa julgada no âmbito administrativo, em
seu sentido técnico, ocorre em razão de o Brasil adotar o Sistema de
Jurisdição Única, ou seja, nenhuma ameaça ou lesão de direito será excluída
da apreciação do Poder Judiciário por meio de lei, conforme disposto no art.
5°, XXXV, da Constituição Federal. Compete, portanto, ao Poder Judiciário
a última palavra sobre ameaça ou lesão a direito a que o interessado se sentir
violado.
Embora a pessoa possa recorrer ao Poder Judiciário antes de esgotadas
todas as vias administrativa para dizer o direito aplicável à sua pretensão,
existem circunstâncias em que se exige o exaurimento da via administrativa
ou, pelo menos, tentativa junto à Administração Pública, para se buscar a
tutela jurisdicional, como, por exemplo:
a) ato ou omissão da Administração Pública que contrariar enunciado
de súmula vinculante, negar-lhe vigência ou aplicá-la indevidamente
somente poderá ser objeto de reclamação junto ao Supremo Tribunal
Federal depois de esgotadas as vias administrativas (art. 7º, § 1º, da Lei nº
11.417/2006, que disciplina as súmulas vinculantes de competência do STF);
b) segundo entendimento do STF, o interesse de agir em ações em face
do INSS referentes à concessão de benefícios previdenciários somente
restará con�gurado mediante o prévio requerimento administrativo do
benefício, desde que não exista entendimento reiterado da Administração
em sentido contrário ao direito postulado pelo segurado. Também a decisão
do STF é expressa no sentido de que “a exigência de prévio requerimento
não se confunde com o exaurimento das vias administrativas”, o que não
afronta o Sistema de Jurisdição Única previsto no art. 5º XXXV, CF (RE
631240, de relatoria do Ministro Roberto Barroso, publicado in DJe de
10/11/2014, com repercussão geral sob o tema 350: “Prévio requerimento
administrativo como condição para o acesso ao Judiciário”);
c) as ações referentes à disciplina e às competições desportivas somente
poderão ser discutidas no Poder Judiciário depois de esgotarem-se as
instâncias da “justiça desportiva”12 (art. 217, § 1º, CF).
Também deve ser registrada a competência do Senado Federal para
processar e julgar Presidente e Vice-Presidente da República nos crimes de
responsabilidade, bem como Ministros de Estado e Comandantes da
Marinha, do Exército e da Aeronáutica nos crimes da mesma natureza
conexos com aqueles (art. 52, I, CF). Da regular decisão de impeachment do
Presidente ou do Vice-Presidente da República decorrente de decisão do
Senado Federal não caberá revisão judicial de mérito. O processo de
impeachment tem início na Câmara dos Deputados, que necessita da
aprovação de dois terços de seus membros para sua admissão e posterior
remessa ao Senado Federal para processamento e julgamento desse
impedimento, cuja presidência do processamento e julgamento caberá ao
Presidente do STF. Caso se trate de crimes comuns, ou seja, fora da esfera
administrativa, depois de admitida a acusação por dois terços dos membros
da Câmara dos Deputados, o julgamento ocorrerá perante o Supremo
Tribunal Federal.
1 A concepção do Direito como sistema autopoiético, na linha do entendimento de Luhmann, acena
no mesmo sentido do direito puro, na concepção da Teoria Pura do Direito de Kelsen.
2 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Coimbra: Livraria
Almedina, 3ª ed., 1999, p. 1291.
3 DUGUIT, Léon. Traté de droit constitutionnel. Paris: Anciènne Librairie Fontemoing, 3ª ed., 1927.
4 GASPARINI, Diogenes. Direito Administrativo. São Paulo: Saraiva, 10ª ed., 2005, p. 38.
5 FAGUNDES, M. Seabra. O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário. Rio de Janeiro:
Revista Forense, 3ª ed., 1957, p. 61.
6 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. São Paulo: Editora Atlas, 30ª ed., 2017,
pp. 78-79.
7 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Editora
Lumen Juris, 23ª ed. 2010, p. 9.
8 Estruturas orgânica e material serão desenvolvidas no CapítuloVII desta obra.
9 No mesmo sentido, Diogenes Gasparini assim se manifesta: “No Brasil, os nossos mais insignes
autores defendem a codi�cação do direito administrativo, já que, em termos de estágio (não-
codi�cação, codi�cação parcial e codi�cação), ultrapassamos o da classi�cação parcial. Com efeito,
parte da legislação, que é conteúdo do Direito Administrativo, já está codi�cada” (GASPARINI,
Diogenes. Direito Administrativo. São Paulo: Saraiva, 10ª ed., 2005, p. 32)
10 Art. 467. Denomina-se coisa julgada material a e�cácia, que torna imutável e indiscutível a
sentença, não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário.
11 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros Editores Ltda.,
34ª ed., 2008, p. 54.
12 Embora seja empregado o termo “justiça desportiva”, não se trata de órgão do Poder Judiciário,
mas sim administrativo.
II - JURISDIÇÃO NO DIREITO
ADMINISTRATIVO
Sem aspirar ao debate acerca da Teoria Geral do Processo, em que se
pode aprofundar a conceituação de jurisdição, impõe-se necessário
apresentar essa de�nição, a �m de subsidiar o debate sobre Jurisdição no
Contencioso Administrativo versus Jurisdição Una ou Sistema de Jurisdição
Única.
O Código de Processo Civil - CPC pátrio inaugura suas disciplinas com
o estabelecimento da competência relativa à jurisdição13. Estabelecem os
arts. 1º e 2º do CPC que a jurisdição será prestada, quando movimentada,
pelos juízes, na jurisdição civil contenciosa ou voluntária. Ocorre que existe
um contencioso administrativo em que alguns con�itos são resolvidos em
órgãos administrativos com competência constitucional ou legal para impor
ou restringir direitos e obrigações e aplicar sanções a terceiros com trânsito
em julgado administrativo de suas decisões, sem prejuízo de se buscar a
tutela jurisdicional consagrada no Sistema de Jurisdição Única.
Em contraponto ao Direito Civil, de origem preponderantemente
romana, o Direito Administrativo é relativamente novo, com codi�cação,
princípios e ritos próprios, mas ainda permeado por in�uência daquele,
conforme ensina Rivero14.
A partir do Estado de Direito, emerge a necessidade de haver um ente
apto a organizar a relação entre as pessoas e entre as pessoas e o Estado,
motivo por que estas, ao abrirem mão de certos direitos, garantem a
preservação dos mesmos por meio de uma força legitimada a solucionar os
con�itos, a �m de evitar que se retorne ao estado de natureza e cada um
queira solucionar seus con�itos por meio da força física. Assim, a jurisdição
foi concebida como âmbito de competência para o juiz dizer o direito a ser
aplicado ao caso concreto em face do litígio (jurisdição contenciosa), sem
prejuízo, também, da jurisdição voluntária, a �m de legitimar eventual
acordo entre as partes. É, então, por meio da tutela jurisdicional que se
pereniza e estabiliza determinado direito, a operar os efeitos do que hoje se
denomina coisa julgada.
Chiovenda15 assim de�ne jurisdição:
A função do Estado que tem por escopo a atuação da vontade concreta da lei
por meio da substituição, pela atividade de órgãos públicos, da atividade de
particulares ou de órgãos públicos, já no a�rmar a existência de vontade da
lei, já no torná-la, praticamente, efetiva.
Dinamarco16, na mesma linha do entendimento de Chiovenda,
consigna que jurisdição é “a função do Estado destinada à solução
imperativa de con�itos e exercida mediante a atuação da vontade do direito
em casos concretos”.
Carnelutti17, ao diferenciar legislação de jurisdição, assim se manifesta:
No fundo, a diferença entre elas [legislação e jurisdição] é verdadeiramente
funcional. A legislação é uma produção do direito sub specie normativa, isto
é, uma produção de normas jurídicas; poderíamos dizer uma produção do
preceito em série, para casos típicos, não para casos concretos. A jurisdição,
pelo contrário, produz preceitos, ministra direito para cada caso singular;
ousarei dizer, não trabalha para armazenar, mas por encomenda, sob
medida. Esta diferença, baseada no critério da lex genelaris e da lex specialis,
é bastante conhecida e exprime-se, quanto à jurisdição, na chamada
limitação dos efeitos do caso julgado, que é o nome por que designa o
produto da atividade jurisdicional.
Seabra Fagundes, ao mencionar Hauriou, leciona acerca da necessidade
de se distinguir contencioso administrativo de jurisdição administrativa, nos
seguintes termos18:
O contencioso administrativo, observa ele, compreende o conjunto de
processos suscitados pela atividade da Administração Pública. Jurisdição
administrativa é expressão que designa o conjunto de poderes de certos
tribunais para o conhecimento das causas do contencioso administrativo.
Tem um sentido semelhante ao das expressões jurisdição civil e jurisdição
penal. Nos países que adotam o chamado sistema de jurisdição única,
quando se fala de jurisdição ordinária se compreende o conhecimento pelas
autoridades judiciarias de quaisquer ações. Onde se adota o sistema oposto
(duplicidade jurisdicional), aparece completamente organizada, ao lado da
jurisdição comum ou ordinária, a administrativa compreendendo o
conhecimento das ações originárias de atos da Administração Pública.
Sem desconsiderar o tecnicismo que possa envolver o âmbito judicial
ou o administrativo, o vocábulo “jurisdição” consiste, portanto, em uma
palavra composta por justaposição de origem latina: juris (direito) + dicere
(dizer), ou seja, o termo jurisdição para os conservadores processualistas
implica dizer o direito na esfera judicial. Entretanto, nada obsta que também
seja aplicado o mesmo signi�cado no âmbito administrativo, a �m de
indicar o alcance da competência conferido aos diversos órgãos da
Administração Pública que pro�ram decisões a impor obrigação a agentes
públicos ou privados que, de alguma forma, sujeitem-se a essa jurisdição.
Jurisdição administrativa consiste na sujeição de determinadas
pessoa, física ou jurídica, à Administração Pública no exercício de atividade
de controle ou meramente administrativa, cuja consequência pode ensejar
algumas das características da potestade administrativa.
13 Os arts. 1º e 2º do CPC assim estão contemplados:
Art. 1º A jurisdição civil, contenciosa e voluntária, é exercida pelos juízes, em todo o território
nacional, conforme as disposições que este Código estabelece.
Art. 2º Nenhum juiz prestará a tutela jurisdicional senão quando a parte ou o interessado a requerer,
nos casos e forma legais.
14 RIVERO, Jean. Curso de Direito Administrativo Comparado. Tradução de José Cretella Júnior. São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1995, p. 31.
15 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de Direito processual Civil. Tradução de Paolo Capitanio.
Campinas: Bookseller, v. 2, 1998, p. 8.
16 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil. São Paulo: Malheiros
Editores, v. 1, 3ª ed., 2003, p. 309.
17 CARNELUTTI, Francesco. Teoria Geral do Direito. Tradução de A. Rodrigues Queirós e Artur
Anselmo de Castro. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural, 2006, p. 135.
18 FAGUNDES, M. Seabra. O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário. Rio de
Janeiro: Revista Forense, 3ª ed., 1957, p. 133.
III - FONTES DO DIREITO
ADMINISTRATIVO
O estudo das fontes abarca todos os ramos do Direito, motivo por que
deve integrar Teoria Geral do Direito. Quando agrupados todos os ramos do
Direito, podem ser reconhecidos dois grandes grupos: i) público e ii)
privado.
Contudo, ganha relevância o estudo das fontes do Direito
Administrativo, em razão das características que o distinguem do Direito
Privado e o colocam em posição de supremacia em face dos administrados.
Quando se busca uma classi�cação que abarque os grandes sistemas
jurídicos, emergem dois grandes grupos, quais sejam: Common Law e Civil
Law.
Sem desconsiderar que não constitui objeto do presente capítulo o
estudo desses dois sistemas jurídicos, pode-se dizer que um dos traços
distintivos entre os dois sistemas diz respeito à fonte primordial de sua
atuação. Enquanto o Sistema Common Law possuisua fonte principal na
jurisprudência, o Sistema Civil Law possui como principal fonte a lei.
Embora o sistema jurídico brasileiro adote a lei como sua principal
fonte, não se pode dizer que a jurisprudência não seja também uma fonte do
Direito brasileiro. Basta mencionar, a título de exemplo, a súmula vinculante
editada pelo Supremo Tribunal Federal, que terá efeito vinculante em
relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à Administração Pública
direta e indireta, nas esferas federal, estadual, distrital e municipal.
O Direito Administrativo brasileiro possui grande in�uência do Direito
Administrativo francês, cuja jurisprudência oriunda do Conselho de Estado
consiste em sua principal fonte. Ainda que se veri�que essa in�uência do
Direito Administrativo francês, o Direito Administrativo brasileiro possui
na lei sua principal fonte.
Ainda que não seja uníssono o estudo das fontes do Direito
Administrativo brasileiro, será seguida classi�cação que mais se adéqua ao
ordenamento jurídico pátrio.
3.1 CONSTITUIÇÃO
No ordenamento jurídico brasileiro, deve-se entender a Constituição
como Norma Fundamental que não possui sua origem ou fundamento em
nenhuma outra norma, encontrando-se no vértice do ordenamento jurídico
e servindo de fundamento para todas as normas situadas abaixo dela, na
mesma concepção da Norma Fundamental mencionada por Hans Kelsen19.
O Direito Administrativo brasileiro possui sua principal fonte na
Constituição Federal. Sem desconsiderar as diversas normas aplicáveis ao
Direito Administrativo, a Constituição Federal consiste no fundamento de
diversos institutos aplicáveis a esse ramo do Direito, motivo por que
compete ao ordenamento infraconstitucional apenas disciplinar esses
institutos, sem se afastar das linhas mestras norteadoras constantes do Texto
Constitucional.
Em contraponto ao Direito Privado, em que se faculta praticar tudo o
que a lei não proíbe, no âmbito do Direito Administrativo, somente se
podem praticar atos permitidos ou previstos em lei. É nesse sentido que
ganha relevância o princípio da legalidade no âmbito do Direito
Administrativo. Quando se fala em princípio da legalidade nessa esfera de
atuação, há verdadeira simbiose ou equivalência deste com princípio da
constitucionalidade ou constitucional. O princípio da legalidade deve
pautar todas as ações da Administração Pública, sem prejuízo do
preenchimento das lacunas da lei pela analogia, costumes e princípios gerais
do Direito, conforme expressamente consagrado na LINDB (art. 4º).
3.2 TRATADOS E CONVENÇÕES INTERNACIONAIS
SOBRE DIREITOS HUMANOS
Tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que
forem aprovados, em cada casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por
três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às
emendas constitucionais.
O status de emenda constitucional conferida a tratado ou convenção
internacional sobre direitos humanos confere-lhe equivalência à
Constituição Federal, o que garante sua observância por todas as normas
infraconstitucionais.
É importante destacar que tratado ou convenção internacional sobre
direitos humanos, para ter status de emenda constitucional, deve ter o
processo legislativo igual a esta, ou seja, aprovada em cada casa do
Congresso Nacional em dois turnos, com quórum de três quintos em cada
uma das casas legislativas. Deve-se registrar também que não é qualquer
tratado ou convenção internacional que pode adquirir status de emenda
constitucional, mas apenas os que versarem sobre direitos humanos e forem
aprovados com o rito de emenda constitucional. Se um tratado ou
convenção internacional, ainda que referentes a direitos humanos, não for
aprovado por três quintos de seus respectivos membros, em dois turnos
pelas duas casas do Congresso Nacional, não entra no ordenamento jurídico
brasileiro com status de emenda constitucional.
Acerca dos tratados internacionais, o STF entende haver três níveis de
hierarquia20.
O primeiro diz respeito aos tratados internacionais que versem sobre
direitos humanos, que tenham sido aprovados em cada casa do Congresso
Nacional, em dois turnos, com quórum de aprovação de 3/5 dos respectivos
membros. Nessa hipótese, são equivalentes a emendas constitucionais (art.
5º, § 3º, CF).
O segundo também se refere aos tratados internacionais sobre direitos
humanos, mas com aprovação por maioria simples (art. 47, CF). Nesse caso,
possuem status de lei supralegal, posicionando-se entre as leis e a
Constituição.
O terceiro refere-se a tratados que não versem sobre direitos humanos,
motivo por que ingressam no ordenamento jurídico pátrio com status de lei
ordinária. Enfatize-se que o STF entende que tratado internacional não pode
versar sobre mateira reservada à lei complementar.
3.3 LEI
Todos os vocábulos ou expressões referentes a lei (lei delegada, lei
complementar, lei...) serão tratados como lei para �ns de estudo das fontes
do Direito Administrativo.
Seja no âmbito do Direito Privado, seja na esfera do Direito Público, o
princípio da legalidade, ou seja, de observância e de busca do fundamento
de agir na lei teve especial atenção do poder constituinte originário. A
Constituição Federal contempla dois princípios da legalidade de forma
expressa.
O primeiro princípio da legalidade está contemplado no art. 5º, II, CF,
o qual estabelece que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer
alguma coisa senão em virtude de lei”. Esse princípio, inserto no título dos
“Direitos e Garantias Fundamentais”, parece destinar-se
preponderantemente às relações privadas, em que se pode praticar tudo o
que a lei não proíbe.
O segundo princípio da legalidade está inserido no caput do art. 37,
caput, CF, e parece destinar-se preponderantemente à Administração
Pública, no âmbito do Direito Administrativo, a ser entendido como a
possibilidade de a Administração praticar tão-somente os atos permitidos
em lei (lato sensu).
Seja em um signi�cado ou em outro, ambos aplicam-se ao Direito
Administrativo.
3.4 FONTES DO DIREITO ADMINISTRATIVO
PREVISTOS NA LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS
DO DIREITO BRASILEIRO
O Sistema Direito, entendido como autorreferente, operacionalmente
fechado e cognitivamente aberto, na concepção de sistema autopoiético
mencionado por Niklas Luhmann, não pode conter lacunas ou omissões,
diversamente do que ocorre com a lei, que, dentre suas funções, visa regular
as relações jurídicas públicas ou privadas, mas que possui omissões e
lacunas.
A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, com o objetivo de
reconhecer a existência de lacunas e omissões da lei, mas jamais do Sistema
Direito21, estabeleceu como fontes integradoras do Direito a analogia, os
costumes e os princípios gerais de Direito.
Nesse sentido, passa-se a essas fontes integradoras do Direito, com
ênfase em sua aplicação ao Direito Administrativo.
3.4.1 ANALOGIA
No âmbito do Direito, a analogia pode ser compreendida como a
aplicação de um fato não regulamentado por lei a uma situação semelhante.
A analogia possui bastante relevância no sistema Common Law, haja
vista os precedentes atuarem como verdadeiras fontes do Direito.
Entretanto, no sistema jurídico nacional, a analogia possui sérias restrições
de aplicação como solução do caso sujeito ao Poder Judiciário ou à
Administração Pública com poder decisório. No Direito Penal, por exemplo,
a analogia somente poderá ser empregada em benefício da parte, uma vez
que não pode ser utilizada in malam partem.
O princípio da legalidade ou o princípio da constitucionalidade, no
âmbito do Direito Administrativo, impede a analogia de ser sua fonte de
dizer o direito aplicável ao caso sob sua jurisdição.
3.4.2 COSTUME
O costume, como fonte do Direito, possui grande relevância no Sistema
Common Law. Entretanto, no Direito Administrativo pátrio, o costume sofre
grande mitigação ou mesmo quase que sua nulidade, como fonte do Direito,
senão vejamos.
A principal fonte do Direito Administrativo brasileiro consiste na lei,
motivo por que ganha relevância o princípio da legalidade nessaesfera do
Direito, princípio esse que pode ser confundido com o princípio da
constitucionalidade, já mencionado anteriormente.
Nesse sentido, pode-se dizer que o costume não consiste em fonte
primária do Direito Administrativo.
Embora o costume não seja fonte primária do Direito Administrativo,
não signi�ca dizer que a Administração Pública não deva observar costume,
principalmente oriundo do Direito Internacional, na prática que, de alguma
forma, com esse costume se relacione. 22
3.4.3 PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO
Não há desconsiderar a in�uência do Direito Administrativo francês no
Direito Administrativo brasileiro. Deve-se reconhecer que as decisões
proferidas pelo Conselho de Estado, instância máxima da jurisdição do
contencioso administrativo francês, constituíram verdadeiros comandos ou
decisões principiológicas, que fundamentavam suas decisões e passavam a
ser de observância obrigatória pela jurisdição administrativa.
A Administração Pública brasileira possui grande in�uência dos
princípios que norteiam seu agir. Tão-somente a título de exemplo, pode ser
mencionado o caput do art. 37 da Constituição Federal, o qual prevê que a
Administração Pública direta e indireta dos poderes da União, dos estados,
do Distrito Federal e dos municípios deverão observar os princípios da
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e e�ciência, além dos
demais preceitos que especi�ca esse dispositivo.
Como se veri�ca, o poder constituinte originário estabeleceu como
fonte do Direito Administrativo os princípios expressos e não expressos.
Ganha destaque a função integradora desses princípios administrativos,
pois, em face de um mesmo fato jurídico, pode haver aparente colisão de
princípios, por exemplo, igualmente constitucionais. No entanto, a aplicação
de um princípio em detrimento do outro não implica reconhecer a
inconstitucionalidade ou ilegalidade deste, mas sim aplicação de um e não
do outro. Deve ser rati�cada a impossibilidade de se declarar a
inconstitucionalidade ou a ilegalidade de um princípio, em razão de seu
aparente con�ito com outro princípio que tenha sido adotado pela instância
decisória, haja vista sua função integradora.
Além de a Constituição Federal haver mencionado expressamente
diversos princípios de observância obrigatória pela Administração Pública,
o ordenamento infraconstitucional também contempla diversos princípios a
serem observados quando da aplicação dessas normas especiais. A Lei nº
14.133/2021 - Estatuto das Licitações e Contratos - elenca princípios
inerentes exclusivamente às licitações e contratos, como, por exemplo, o
princípio da vinculação ao instrumento convocatório. A Lei nº 9.784/1999 -
Lei de Processo Administrativo federal - também menciona princípios de
observância obrigatória no âmbito do processo administrativo federal,
como, por exemplo, o princípio da razoabilidade, interesse público,
contraditório e ampla defesa.
Como se veri�ca, os princípios gerais do Direito consistem em fonte do
Direito Administrativo pátrio.
3.5 JURISPRUDÊNCIA
Ao se colocarem os dois grandes sistemas jurídicos do mundo
contemporâneo, podem ser identi�cados o Sistema Common Law e o
Sistema Civil Law. No Sistema Common Law, a jurisprudência consiste na
grande fonte do Direito, uma vez que os precedentes vinculam os casos
futuros.
De igual forma, no contencioso administrativo francês, a
jurisprudência também possui grande in�uência como fonte do Direito
Administrativo. O Conselho de Estado, que consiste na última instância
administrativa, dentro do sistema dual existente naquele país, ao dizer o
direito aplicado ao caso que lhe foi submetido, estabelece verdadeira
jurisprudência a ser observada pelos demais órgãos administrativos,
vinculando-os.
No sistema jurídico brasileiro, a jurisprudência vem aumentando sua
importância tanto no âmbito judicial, quanto na esfera administrativa.
A reforma constitucional introduzida por meio da Emenda
Constitucional nº 45/2004 (art. 102, § 2º) atribuiu a possibilidade jurídica de
efeito vinculante e e�cácia erga omnes em alguns julgados do STF, o que
reforça a jurisprudência como fonte do Direito, in verbis:
As decisões de�nitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal,
nas ações diretas de inconstitucionalidade e nas ações declaratórias de
constitucionalidade produzirão e�cácia contra todos e efeito vinculante,
relativamente aos demais órgãos do Poder Judiciário e à Administração
Pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal.
De igual forma, o poder constituinte derivado conferiu ao Supremo
Tribunal Federal a possibilidade de aprovar súmula com efeito vinculante
(súmula vinculante) em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à
Administração Pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual,
distrital e municipal, conforme preceitua o art. 103-A, da Constituição
Federal, introduzido por meio da Emenda Constitucional nº 45/2004, nos
seguintes termos:
O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante
decisão de dois terços dos seus membros, após reiteradas decisões sobre
matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua publicação na
imprensa o�cial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do
Poder Judiciário e à Administração Pública direta e indireta, nas esferas
federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou
cancelamento, na forma estabelecida em lei.
De acordo com o § 3º desse mesmo dispositivo, caberá reclamação ao
Supremo Tribunal Federal, em razão de ato administrativo ou decisão
judicial que contrariar súmula vinculante ou indevidamente a aplicar.
Apenas como exemplo de súmula vinculante, ou seja, de jurisprudência
como fonte do Direito a repercutir no âmbito do Direito Administrativo,
pode ser mencionada a Súmula Vinculante nº 523, a ser aplicada aos
processos administrativos disciplinares, nos seguintes termos: “A falta de
defesa técnica por advogado no processo administrativo disciplinar não
ofende a Constituição”. No mesmo sentido, a Súmula Vinculante nº 3, in
verbis: “Nos processos perante o Tribunal de Contas da União asseguram-se
o contraditório e a ampla defesa quando da decisão puder resultar anulação
ou revogação de ato administrativo que bene�cie o interessado, excetuada a
apreciação da legalidade do ato de concessão inicial de aposentadoria,
reforma e pensão”.
Outro exemplo de jurisdição a atuar como fonte do Direito
Administrativo consiste nas repercussões gerais. Uma das competências
recursais do Supremo Tribunal Federal consiste em processar e julgar os
recursos extraordinários nas hipóteses previstas na Constituição Federal, em
que poderá ser analisada repercussão geral, nos seguintes termos (art. 102,
§ 3º):
No recurso extraordinário, o recorrente deverá demonstrar a repercussão
geral das questões constitucionais discutidas no caso, nos termos da lei, a �m
de que o Tribunal examine a admissão do recurso, somente podendo recusá-
lo pela manifestação de dois terços de seus membros.
O Supremo Tribunal Federal conhecerá de recurso extraordinário
quando restar con�gurada questão constitucional com repercussão geral. A
repercussão geral, de apreciação exclusiva do Supremo Tribunal Federal,
estará demonstrada quando existentes questões relevantes do ponto de vista
econômico, político, social ou jurídico que ultrapassem os interesses
subjetivos do processo (art. 1.035, CPC). Há nítida vocação do STF para
afastar-se dos interesses individuais em favor dos interesses coletivos, no que
diz respeito ao conhecimento e processamento dos recursos extraordinários.
Também haverá repercussão geral sempre que o recorrente impugnar
acórdão que contrarie súmula ou jurisprudência dominante do Supremo
Tribunal Federal ou tenha reconhecido a inconstitucionalidade de tratado
ou de lei federal, nos termos do art. 9724 da Constituição Federal (art. 1.035,
§ 3º, CPC).
Quando o STF reconhecer a repercussão geral no recurso
extraordinário, o relator determinará a suspensão de todos os processos
pendentes,individuais ou coletivos, que tratem sobre a questão admitida
como repercussão geral e tramitem no território nacional. A decisão
proferida pelo Supremo Tribunal Federal em sede de repercussão geral
vincula todos os demais órgãos do Poder Judiciário e da Administração
Pública.
Quando for negada a repercussão geral, deverá ser negado seguimento
a todos os recursos extraordinários sobrestados na origem que tratem sobre
idêntica matéria por ato do presidente ou vice-presidente do tribunal de
origem, ou seja, produz e�cácia erga omnes em relação a todos os processos
de idêntica natureza.
Como se veri�ca, a jurisprudência consiste em fonte do Direito
Administrativo brasileiro.
3.6 DOUTRINA
Doutrina pode ser compreendida como o entendimento de um autor
acerca de determinada matéria, como, jurídica, �losó�ca, política,
matemática. Não há desconsiderar a relevância da doutrina quando da
elaboração normativa no âmbito do sistema em que se insere. Contudo, não
há confundir inspiração legislativa com fonte do Direito Administrativo.
Também não se deve desconsiderar a existência de doutrinas diversas
em face de um mesmo assunto, motivo por que considerar a doutrina como
fonte primária do Direito Administrativo pode ensejar antagonismos
indesejáveis em qualquer sistema, inclusive no jurídico e principalmente no
âmbito do Direito Administrativo.
A produção normativa em qualquer sistema também visa paci�car
determinada relação jurídica ou fato social relevante para esse mesmo
sistema.
Daí por que a doutrina deve ser considerada relevante para mens
legislatoris, em que a intenção do legislador constitui o móvel da formulação
de proposta legislativa. Ainda que sejam importantes os anais legislativos
(mens legislatoris), a norma, ao entrar no mundo jurídico, desvincula-se do
mens legislatoris e passa a ter espírito próprio da lei (mens legis).
Sem desconsiderar a relevância da doutrina em qualquer sistema,
inclusive com função de inspiração normativa, a doutrina não deve ser
considerada como fonte primária do Direito Administrativo.
3.7 NORMATIVOS INTERNOS DOS ÓRGÃOS E
ENTIDADES
A Administração Pública dispõe dos Poderes da Administração, a �m
de que possa bem exercer seu ofício. Dentre eles, há o poder regulamentar
também conhecido como poder normativo, que, como de�nido no item
12.5 desta obra, consiste na prerrogativa de que dispõe a Administração
Pública para disciplinar a lei no âmbito do exercício de suas atividades.
Sem desconsiderar a lei como fonte primária do Direito
Administrativo, também devem ser considerados como fonte do Direito
Administrativo atos normativos da própria Administração Pública.
Mencionem-se, a título de exemplo, os regimentos internos, portarias,
instruções normativas, resoluções, súmulas, avisos, provimentos dos
tribunais. Esses atos normativos dos órgãos e entidades da Administração
Pública que não contrariem a lei, stricto sensu, podem ser considerados de
observância obrigatória, quando editados no plexo de competências do
respectivo órgão ou entidade e sem exorbitar os limites de seu poder
normativo.
Observe-se que determinadas leis, como, por exemplo, a Lei nº
8.443/1992 - Lei Orgânica do Tribunal de Contas da União -, remetem a
disciplina de alguns assuntos ao seu regimento interno. Esse regimento
interno, editado na forma regulamentar, e desde que não crie obrigações não
previstas ou não remetidas a ele, consiste em verdadeira fonte do Direito a
ser aplicada aos processos ou atos sob sua tutela jurisdicional.
Os atos normativos editados pela Administração Pública vinculam a
própria Administração e as pessoas que se relacionam com esse órgão ou
entidade. Nesse sentido, os atos normativos sujeitam-se ao controle do
próprio órgão ou entidade que os editou, bem como do Poder Judiciário, em
caso de ilegalidade ou inconstitucionalidade.
19 KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. Tradução de João Baptista Machado. São Paulo: Martins
Fontes, 6ª ed., 1998
20 RE 466.343/STF/2008, de relatoria do Ministro Cezar Peluso, publicado em 5/6/2009.
21 Deve-se enfatizar que o Sistema Direito não possui lacunas. Lacunas e omissões mencionadas pela
LINDB referem-se à lei e não ao Sistema. Este não possui lacunas, como se pode perceber a partir
do preenchimento desses espaços conforme normas integradoras do próprio Sistema Direito.
22 Acerca da in�uência do costume no Direito Administrativo, Maria Sylvia Zanella Di Pietro assim
leciona: “Quando muito, os costumes vigentes em outros ramos do direito, como o internacional e
o comercial, devem ser observados pela Administração Pública. É o entendimento de iago
Marrara (2010:251-252), que adoto: “Se costumes de outra natureza forem considerados
verdadeiras fontes de direito, tais costumes também deverão ser considerados pelo Estado dentro
do bloco normativo que rege suas condutas. Imagine-se, assim, uma autoridade pública atuante no
campo dos direitos humanos. Ora, tal entidade, ao agir, respeita não somente o direito positivo
interno, mas também o direito internacional público nesse setor de atuação. Por essa razão,
costumes internacionais em matéria de direitos humanos, entendidos como fonte de direito, são
necessariamente de observação obrigatória na ação desse agente público. O mesmo se diga, por
exemplo, a respeito de costumes de direito comercial. Se tais costumes são fontes de direito, a
Administração Pública, ao atuar em matéria de direito comercial, tem a obrigação de considerá-los.
A�rmar que o costume administrativo não é fonte primária e vinculante de normas administrativas
não é, portanto, o mesmo que dizer que o Poder Público não deve respeitar costumes
eventualmente reconhecidos como fonte de normas vinculantes. Em suma: o costume
administrativo não é fonte relevante do Direito Administrativo; mas o costume em geral, quando
aceito como fonte, vincula a Administração Pública na medida em que constitui o bloco normativo
que rege suas condutas em alguns setores”. (DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito
Administrativo. São Paulo: Editora Atlas, 30ª ed., 2017, p. 69) (Grifou-se.)
23 A Súmula Vinculante nº 5 afasta a Súmula 343 do STJ, cujo verbete se reproduz: “É obrigatória a
presença de advogado em todas as fases do processo administrativo disciplinar”.
24 Art. 97. Somente pelo voto da maioria absoluta de seus membros ou dos membros do respectivo
órgão especial poderão os tribunais declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do
Poder Público.
IV - CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO
VERSUS SISTEMA DE JURISDIÇÃO
ÚNICA
O Direito Administrativo brasileiro sofre in�uência do Direito
Administrativo francês. Contudo, no que tange à imutabilidade das decisões
proferidas em seu âmbito, incorporou o Sistema de Jurisdição Única,
conforme expressamente consagrado na Constituição Federal25. Todavia,
existem diversos órgãos não integrantes do Poder Judiciário que produzem
decisões, por vezes, com força de título executivo extrajudicial, a impor
obrigações de fazer ou de não fazer ao jurisdicionado, conforme o caso, bem
como a impor sanções em decorrência de atos praticados com infração à
norma legal.
Na França, vige o Contencioso Administrativo ao lado da Jurisdição
Comum. Aquele faz verdadeiramente coisa julgada, no sentido expresso
pelo art. 502 do Código de Processo Civil pátrio, pois a Jurisdição Comum
não tem competência para rever, como ocorre no Brasil, as decisões
proferidas por esse Contencioso. Das decisões proferidas em sede do
Contencioso Administrativo, cabe recurso para Conselho de Estado26, o
qual se insere também no âmbito administrativo.
Seabra Fagundes leciona que poderia haver duas formas para se
controlar o ato administrativo, quais sejam: controle jurisdicional e “controle
por uma jurisdição especial”. Continua Fagundes27:
O outro sistema (chamado de jurisdição dúplice, por oposição ao primeiro)
implica num controle mediante tribunais especialmente instituídos para as
situações contenciosas em que seja parte a Administração. Os atos
administrativos não se submetem de modo algum, ou se submetemem
número reduzido, ao Poder Judiciário. Para o seu controle, existe, ao lado da
jurisdição comum, uma outra: a administrativa, que nele participa
absorventemente. Tanto num, como noutro sistema, há pleno controle
jurídico do exercício do Poder Executivo. O que neles difere é a organização
dos tribunais incumbidos de exercê-lo.
Enterría assim de�ne contencioso administrativo28:
Una via judicial plenaria y efectiva para que la Administración, como gestor
�duciario que es del pueblo, haga efectiva su responsabilidad o dácion de
cuenta ante los ciudadanos, eliminando todos los viejos obstáculos radicados
en la tradición de exención de la justicia del viejo Poder Público, lejano y
absoluto, y demoliendo todas las sucesivas y tenaces técnicas de impedir,
limitar o condicionar la plenitud del conocimiento judicial que durante dos
siglos han ido sucessivamente apareciendo.
Também o Conselho de Estado possui sua própria conceituação29:
Le Conseil d’État est le conseiller du Gouvernement pour la préparation des
projets de loi, d’ordonnance et de certains décrets. Il traite également ses
demandes d’avis et effectue à la demande du Gouvernement ou à sa propre
initiative des études. Depuis la réforme constitutionnelle du 23 juillet 2008, le
Conseil d’Etat peut également être saisi par le président de l’Assemblée
nationale ou du Sénat d’une proposition de loi élaborée par les
parlementaires. Depuis la loi organique n° 99-209 du 19 mars 1999, le
Conseil d’Etat est également consulté sur les projets ou les propositions de loi
du pays propres à la Nouvelle-Calédonie.
O Conselho de Estado30 francês contempla tríplice competência:
aconselhar o Governo31, julgar e gerenciar a jurisdição administrativa.
Quando se fala em Conselho de Estado, tem-se, em primeira ordem, a
ideia de uma Corte Administrativa francesa, no exercício da jurisdição
administrativa a operar os efeitos da coisa julgada nas matérias que digam
respeito à Administração Pública, tal como nos é conhecida por meio do art.
502 do Código de Processo Civil. Correta essa primeira ideia. Contudo, não
há esquecer que o Conselho também consiste em órgão consultivo32 do
governo francês. Além dessas duas atribuições, compete-lhe gerenciar a
jurisdição administrativa.
Observe-se que essa conceituação, em 2002, ocorreu um pouco depois
de dois séculos da Revolução Francesa, ocorrida em 1789, marco no ideário
dos movimentos de liberdade, igualdade e fraternidade e do contencioso
administrativo.
O contencioso administrativo tem sua origem no absolutismo francês,
no antigo regime (ancién regime). O Rei consistia na última palavra, ou seja,
a ele competia a revisão de�nitiva das decisões. Ainda no antigo regime, o
Rei resolveu distinguir a jurisdição administrativa da judicial, conforme hoje
prepondera a exegese. Assim, Henrique III, em 1578, instituiu o Conselho
de Estado com essa função típica de exercer a jurisdição administrativa.
Em que pese essa menção histórica acerca da criação de um Conselho
de Estado, não há desconsiderar que o contencioso administrativo, tal como
é conhecido atualmente, ganhou força e organização a partir da Revolução
Francesa e da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
A tripartição de poderes consagrada em Montesquieu foi mais rigorosa
a partir da dúplice via adotada pela França ao instituir o Contencioso
Administrativo em contraponto ao Sistema de Jurisdição Única, conforme
se extrai do Título III, Capítulo V, art. 3º, da Constituição francesa de 1791,
nos seguintes termos33:
Os tribunais não podem intrometer-se no exercício do Poder Legislativo ou
suspender a execução das leis, nem intervir nas funções administrativas ou
chamar para comparecer em juízo os administradores por razões inerentes
às suas funções.
Veri�ca-se, pois, com esse dispositivo, que o Contencioso
Administrativo34, na forma como concebido pela França, opera a coisa
julgada material, tal como discriminada pelo art. 502 do Código de Processo
Civil pátrio, no plexo de suas competências.
O contencioso administrativo brasileiro, sem a força da coisa julgada
material como ocorre no sistema francês e observado o Sistema de
Jurisdição Única adotado no Brasil, desenvolve-se nos órgãos que detêm
competência para proferir decisões que imponham ou restrinjam direitos ao
administrado. São exemplos de órgãos públicos que desenvolvem o
contencioso administrativo no Brasil: Tribunal de Contas da União,
Tribunais de Contas Estaduais, Tribunais de Contas dos Municípios,
Conselho Administrativo de Defesa Econômica, Conselho de Contribuintes
da Receita Federal, Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional.
Deve-se registrar que, no âmbito federal, o processo administrativo é
disciplinado pela Lei nº 9.784/1999, com o registro de que essa própria lei
manteve a disciplina dos processos administrativos pelas leis próprias que
regem os processos administrativos nos respectivos órgãos, motivo por que
se aplica a Lei de Processo Administrativo federal apenas subsidiariamente.
É o que ocorre, por exemplo, nos processos de competência de Tribunal de
Contas da União, cuja regência se dá por meio da Lei nº 8.443/1992, sua Lei
Orgânica, aplicando-se a Lei nº 9.784/1999 apenas subsidiariamente pelo
TCU.
25 O art. 5º, XXXV, da Constituição Federal, consagrou expressamente o Sistema de Jurisdição Única,
ao estabelecer, inclusive como cláusula pétrea, que “a lei não excluirá da apreciação do Poder
Judiciário lesão ou ameaça a direito”.
26 Acerca da possibilidade de se transcenderem questões administrativas para o âmbito do Poder
Judiciário, Hely Lopes Meirelles assim se pronuncia: “Embora caiba à jurisdição administrativa o
julgamento do contencioso administrativo (...), certas demandas de interesse da Administração
�cam sujeitas à Justiça Comum, desde que se enquadrem numa dessas três ordens: a) litígios
decorrentes de atividades públicas com caráter privado; b) litígios que envolvam questões de estado
e capacidade das pessoas e de repressão penal; c) litígios que se re�ram à propriedade privada.”
(MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros Editores Ltda.,
34ª ed., 2008, p. 54.) (Grifou-se.)
27 FAGUNDES, M. Seabra. O Controle dos atos administrativos. Rio de Janeiro: Revista Forense, 3ª
ed., 1957, p. 132.
28 ENTERRÍA, Eduardo García. La justicia administrativa en el cambio de siglo. In Revista da
Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Volume XLII nº 2. Lisboa: Coimbra Editora. 2002.
29 Fonte: http://www.conseil-etat.fr/fr/conseiller/
30 O Conselho de Estado teve seu plexo de competências alterado por meio do art. 3º, do Decreto n°
2003-543 de 24 de junho de 2003, que alterou as atribuições da Corte de apelação e modi�cou parte
da regulamentação do código de justiça administrativa, nos seguintes termos: “Les présidents des
cours administratives d'appel et les présidents des formations de jugement des cours peuvent, en
outre, par ordonnance, rejeter les conclusions à �n de sursis à exécution d'une décision
juridictionnelle frappée d'appel et les requêtes dirigées contre des ordonnances prises en
application des 1° à 6° du présent article. Ils peuvent, de même, annuler une ordonnance prise en
application des 1° à 5° du présent article à condition de régler l'affaire au fond par application de
l'une de ces dispositions”.
31 Deve-se mencionar que, tal como no Conselho de Estado francês, o Brasil também possui um
conselho consultivo em âmbito federal, nos termos dos arts. 89 e 90 da Constituição Federal, mas
que não se confunde com qualquer competência para processar e julgar os atos administrativos,
constituindo-se em um Conselho consultivo, in verbis:
Art. 89. O Conselho da República é órgão superior de consulta do Presidente da República, e dele
participam:
I - o Vice-Presidente da República;
II - o Presidente da Câmara dos Deputados;
III - o Presidente do Senado Federal;
IV - os líderes da maioria e da minoria na Câmara dos Deputados;
V - os líderes da maioria e da minoria no Senado Federal;
VI - o Ministro daJustiça;
VII - seis cidadãos brasileiros natos, com mais de trinta e cinco anos de idade, sendo dois nomeados
pelo Presidente da República, dois eleitos pelo Senado Federal e dois eleitos pela Câmara dos
Deputados, todos com mandato de três anos, vedada a recondução.
Art. 90. Compete ao Conselho da República pronunciar-se sobre:
I - intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio;
II - as questões relevantes para a estabilidade das instituições democráticas.
§ 1º - O Presidente da República poderá convocar Ministro de Estado para participar da reunião do
Conselho, quando constar da pauta questão relacionada com o respectivo Ministério.
§ 2º - A lei regulará a organização e o funcionamento do Conselho da República.
Em razão de a função consultiva do Conselho de Estado francês já encontrar similitude com o
Conselho da República, e por fugir ao escopo desta tese, �cará tão-somente registrado esse epíteto,
sem maiores aprofundamentos.
32 É o próprio Conseil d’État francês que de�ne sua competência consultiva, nos seguintes termos:
“Le Conseil d’État est le conseiller du Gouvernement pour la préparation des projets de loi,
d’ordonnance et de certains décrets. Il traite également ses demandes d’avis et effectue à la demande
du Gouvernement ou à sa propre initiative des études. Depuis la réforme constitutionnelle du 23
juillet 2008, le Conseil d’Etat peut également être saisi par le président de l’Assemblée nationale ou
du Sénat d’une proposition de loi élaborée par les parlementaires. Depuis la loi organique n° 99-209
du 19 mars 1999, le Conseil d’Etat est également consulté sur les projets ou les propositions de loi
du pays propres à la Nouvelle-Calédonie”. Fonte: http://www.conseil-etat.fr/fr/conseiller/
33 Tradução livre.
34 Seabra Fagundes, ao citar Hauriou, destaca a distinção entre contencioso administrativo e
jurisdição administrava, que, pela pertinência, impõe-se descrever: “Chama a atenção para a
conveniência de não confundir contencioso administrativo e jurisdição administrativa. O
contencioso administrativo, observa ele, compreende o conjunto de processos suscitados pela
atividade da Administração Pública. Jurisdição administrativa é expressão que designa o conjunto
de poderes de certos tribunais para o conhecimento das causas do contenciosos administrativo.
Tem um sentido semelhante ao das expressões jurisdição civil e jurisdição penal. Nos países que
adotam o chamado Sistema de Jurisdição Única, quando se fala de jurisdição ordinária se
compreende o conhecimento pelas autoridades judiciárias de quaisquer ações. Onde se adota o
sistema oposto (duplicidade jurisdicional), aparece completamente organizada, ao lado da
jurisdição comum ou ordinária, a administrativa compreendendo o conhecimento das ações
originárias de atos da Administração Pública. (FAGUNDES, M. Seabra. O Controle dos Atos
Administrativos pelo Poder Judiciário. Rio de Janeiro: Revista Forense, 3ª ed., 1957, p. 133.)
V - COISA JULGADA ADMINISTRATIVA
Em que pese o Direito Administrativo brasileiro haver-se inspirado no
Contencioso Administrativo francês, não se veri�ca a produção de coisa
julgada material pelo Direito Administrativo brasileiro nos moldes do
francês no plexo de suas competências. Contudo, não há desconsiderar a
produção de coisa julgada administrativa, conforme se verá em seguida.
As decisões proferidas pelo Tribunal de Contas da União, Conselho
Administrativo de Defesa Econômica ou Conselho de Recursos do Sistema
Financeiro Nacional, por exemplo, fazem coisa julgada administrativa, ou
seja, insuscetíveis de reapreciação no âmbito do próprio órgão que proferiu
a decisão ou de qualquer outro órgão administrativo. A de�nição de coisa
julgada administrativa pode ser a mesma anteriormente mencionada, tal
como concebida pelos processualistas, com a ressalva de que opera efeito
tão-somente no âmbito administrativo, ou seja, no órgão que a produziu e
não afasta eventual intervenção do Poder Judiciário, ante o Sistema de
Jurisdição Única adotado pelo Direito pátrio (art. 5º, XXXV, CF). Assim,
coisa julgada administrativa é a decisão proferida pelo órgão
administrativo competente insusceptível de mudança no âmbito de quem a
proferiu.
No Direito Administrativo, a coisa julgada administrativa opera efeitos
no mesmo sentido da de�nição insculpida no Código de Processo Civil
brasileiro35, com a diferença de que, por exemplo, no âmbito do Tribunal
Contas da União (âmbito administrativo, portanto), a decisão contra a qual
não caibam recursos restringe-se ao âmbito administrativo, ou seja, ao
próprio TCU. Tem-se, pois, nessa hipótese, a coisa julgada administrativa.
A esse respeito, ensina Diogenes Gasparini36: “Quando inexiste, no
âmbito administrativo, possibilidade de reforma da decisão, oferecida pela
Administração Pública, está-se diante da coisa julgada administrativa”.
No mesmo sentido, é o ensinamento de Hely Lopes Meirelles37:
A denominada coisa julgada administrativa, que, na verdade, é apenas uma
preclusão de efeitos internos, não tem o alcance da coisa julgada judicial,
porque o ato jurisdicional da Administração não deixa de ser um simples ato
administrativo decisório, sem a força conclusiva do ato jurisdicional do
Poder Judiciário. Falta ao ato jurisdicional administrativo aquilo que os
publicistas norte-americanos chamam the final enforcing power e que se
traduz livremente como o poder conclusivo da Justiça Comum. Esse poder,
nos sistemas constitucionais que não adotam o contencioso administrativo, é
privativo das decisões judiciais.
Celso Antônio Bandeira de Mello também consagra expressamente o
instituto da coisa julgada administrativa, ao mencionar que o Poder
Executivo também julga processos por meio, por exemplo, do Conselho
Administrativo de Defesa Econômica - CADE38.
Também ensina Amílcar de Araújo Falcão no mesmo sentido de que a
coisa julgada administrativa na verdade é uma preclusão, nos seguintes
termos39:
Mesmo aqueles que sustentam a teoria da chamada coisa julgada
administrativa reconhecem que, efetivamente, não se trata, quer pela sua
natureza, quer pela intensidade de seus efeitos de res judicata propriamente
dita, senão de um efeito semelhante ao da preclusão, e que se conceituaria,
quando ocorresse, sob o nome de irretratabilidade.
Emerge, então, a dicotomia Administração versus Judiciário a impor
obrigações a agentes públicos ou privados que se sujeitem àquela jurisdição,
bem como a revisibilidade das decisões proferidas no âmbito administrativo
brasileiro pelo Poder Judiciário, sob o aspecto da coisa julgada.
Há de se reconhecer que a jurisdição administrativa caracteriza-se por
possuir autonomia orgânica, ou seja, independente da do Poder Judiciário,
com codi�cação e rito próprios, cuja doutrina mais autorizada menciona
que, preenchidos os requisitos de constituição (competência, forma,
�nalidade, motivo, objeto), podem ser exercidos os atributos desse ato
(presunção de legitimidade, imperatividade, autoexecutoriedade40).
Contudo, não há desconsiderar as críticas que surgem desse “poder
decisório” de órgãos diversos do Poder Judiciário, tal como mencionado por
Venezia e Gaudemet41:
La prolifération d’institutions spécialisées de nature incertaine a provoquê,
sur la question de l’identi�cation de l’organe jurisdictionnel par rapport aux
organes administratifs, une abondante jurisprudence.
Em contraponto ao contencioso administrativo, vige no Brasil o
Sistema de Jurisdição Única, ou seja, compete ao Poder Judiciário pôr termo
à lide42, o que abarca a jurisdição administrativa e a jurisdição comum, nos
termos do art. 5º, XXXV, CF, em privilégio ao consagrado princípio da
inafastabilidade do Poder Judiciário ou unicidade de jurisdição.
O ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada podem ser
considerados como garantes da segurança e estabilidade jurídicas, motivo
por que foram petri�cados pelo poder constituinte originário como garantia
fundamental e com expressa previsão também na Lei de Introdução às
Normas do Direito Brasileiro, no sentidode serem respeitados mesmo em
razão de alterações no ordenamento legal (arts 5º, XXXVI, CF, e 6º, do
Decreto-Lei nº 4.657/1942).
Sem desconhecer o caráter decisório de algumas decisões proferidas
pela Administração Pública, compete ainda ao Poder Judiciário, ante o
Sistema de Jurisdição Única adotado no Brasil, apreciar eventual lesão ou
ameaça a direito do administrado (público ou particular) alcançado por
decisão administrativa.
35 Pela pertinência e pela atualidade do tema abordado por Seabra Fagundes em 1957, deve-se trazer
seus ensinamentos acerca do instituto da coisa julgada, nos seguintes termos (mantida a redação
original): “Consequência estritamente peculiar ao ato jurisdicional é a autoridade de coisa julgada.
Torna-se ele um pronunciamento de�nitivo e irretratável a propósito da contestação. Esse ‘caráter
de�nitivo do conteúdo do ato jurisdicional’ é consequência necessária da �nalidade característica
deste ato, que é pôr termo a uma situação de con�ito, anormal e transitória, na vida do Estado.
Assim, é preciso que o ato jurisdicional tenha seus efeitos perdurantes, de modo a que se não possa
reproduzir, nas mesmas circunstâncias e com o mesmo caráter, a situação contenciosa. Não poderia
haver estabilidade nas relações jurídicas, se estas pudessem estar, sucessivamente, à mercê das
mesmas impugnações pelos elementos do corpo social. A repetição, pelas mesmas pessoas, dos
mesmos obstáculos e impugnações à realização do direito, tornaria intermináveis as situações
contenciosas. É para que se restaure, e�cientemente, o equilíbrio social perturbado, que à sentença
são atribuídos, mediante certas condições e relativamente a cada caso, efeitos perpétuos. Ela
contém então, em virtude da lei, uma presunção absoluta de verdade”. (FAGUNDES, M. Seabra. O
Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário. Rio de Janeiro: Revista Forense, 3ª ed.,
1957, pp. 106-106.)
36 GASPARINI, Diogenes. Direito Administrativo. São Paulo: Saraiva, 10ª ed., 2005, pp. 775/776.
37 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros Editores Ltda.,
34ª ed., 2008, pp. 688/689.
38 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Malheiros
Editores, 25ª ed., 2008, pp. 33/34.
39 FALCÃO, Amílcar de Araújo. Introdução ao Direito Administrativo. Rio de Janeiro, 1960, p. 649.
40 Maria Sylvia Zanella Di Pietro acrescenta aos atributos a “Tipicidade”, assim conceituada: “(...) é o
atributo pelo qual o ato administrativo deve corresponder a �guras de�nidas previamente pela lei
como aptas a produzir determinados resultados. Para cada �nalidade que a Administração
pretende alcançar existe um ato de�nido em lei” (DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito
Administrativo. São Paulo: Editora Atlas, 30ª ed., 2017, p. 209.). Entretanto, esse atributo
(tipicidade) não é adotado pela maioria doa doutrinadores.
41 VENEZIA, J. C.; GAUDEMET, Y.Traité de Droit Administratif. Paris: Librairie Génerale de Droit et
de Jurisprudence, 1983, p. 242.
42 Não se a�gura despiciendo mencionar uma breve noção de interesse e pretensão para se chegar ao
conceito de lide, conforme leciona Humberto eodoro Júnior: “É importante, então, ter-se uma
noção segura do que seja interesse e pretensão, para se chegar ao domínio do conceito de lide.
Explica Carnelutti que interesse é a ‘posição favorável para a satisfação de uma necessidade’
assumida por uma das partes; e pretensão, a exigência de uma parte de subordinação de um
interesse alheio a um interesse próprio. Assim, o proprietário tem interesse na posse do bem que
lhe pertence, pois é por meio dela que consegue satisfazer necessidades como a de abrigo ou de
renda para sua sobrevivência. Também o inquilino tem interesse na posse do imóvel locado, pois
com ela satisfaz, por meio de bem de terceiro, a necessidade de habitação”. Conceitua, então, o
autor, mencionando Carnelutti, lide nos seguintes termos: “Para que haja, outrossim, a lide ou
litígio é necessário que ocorra ‘um con�ito de interesses quali�cado por uma pretensão resistida”.
(THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil. Rio de Janeiro: Editora
Forense, 38ª ed., 2002, pp. 30/31.)
VI - REGIME JURÍDICO-
ADMINISTRATIVO
Regime jurídico consiste no conjunto de direitos, obrigações,
prerrogativas, sanções, processualidade que rege as relações jurídicas. Daí
por que a imperiosa necessidade de se conhecer previamente o regime
jurídico que norteará a relação jurídica pretendida tanto no âmbito privado
quanto do âmbito público.
Os direitos, as obrigações, as prerrogativas, as sanções, a
processualidade deverão estar contemplados em normas aplicáveis às
relações jurídicas pretendidas. A depender do âmbito (público ou privado)
da relação jurídica a ser estabelecida, pode haver substanciais distinções
nesses institutos, cuja alegação de desconhecimento, se prevista em lei, não
poderá ser avocada.
A Administração Pública, no exercício de suas atribuições, poderá
sujeitar-se tanto ao regime jurídico de Direito Público quanto ao regime
jurídico de Direito Privado, conforme a relação jurídica que será
estabelecida. Nesse sentido, impõe-se distinguir a expressão “regime jurídico
da administração pública” de “regime jurídico-administrativo”.
Regime jurídico da Administração Pública é aquele que abarca todas
as relações jurídicas que o Estado pode celebrar, ou seja, envolve tanto o
regime jurídico de Direito Público quanto o regime jurídico de Direito
Privado.
Regime jurídico-administrativo caracteriza-se pelo conjunto de
direitos, obrigações, prerrogativas, sanções, processualidade inerente ao
Direito Administrativo, que norteia a supremacia da Administração Pública
em suas relações jurídicas.
6.1 REGIME PRIVADO VERSUS REGIME PÚBLICO
O regime jurídico privado estabelece direitos e obrigações recíprocas
nas relações jurídicas entre particulares e, eventualmente, no regime jurídico
da Administração Pública43, nas hipóteses em que atua sob esse regime.
Esse regime possui como traço característico a autonomia das
vontades, em que as partes estabelecem, por meio de livre acordo,
obrigações e direitos recíprocos.
Ainda que a Administração Pública possa ter relação jurídica
estabelecida pelo regime jurídico de Direito Privado, isso não afasta algumas
prerrogativas e obrigações. Por se tratar de ato administrativo lato sensu,
deve observar todos os seus requisitos de constituição e validade
(competência, forma, �nalidade, motivo e objeto), bem como algumas
regras de conduta, como, por exemplo, regular liquidação da despesa,
publicidade de seus atos, normas de licitações e contratos.
O regime jurídico privado a ser adotado pela Administração Pública
deve estar contemplado em lei especí�ca, sob pena de violação ao princípio
da legalidade em que a Administração deve praticar seus atos segundo as
normas regentes desses próprios atos. Ainda sob esse regime, a
Administração Pública jamais estará nivelada ao particular com quem
estabeleça a relação jurídica, podendo apenas serem mitigadas algumas de
suas prerrogativas.
Ó
6.2 FUNDAMENTO PRINCIPIOLÓGICO DO
REGIME JURÍDICO-ADMINISTRATIVO
O regime jurídico-administrativo, como se verá no item seguinte,
confere à Administração Pública prerrogativas não existentes no regime
jurídico privado, o que evidencia a potestade administrativa em face dos
administrados.
Toda essa supremacia da Administração Pública em suas relações
jurídicas, no âmbito do Direito Administrativo, deve assentar-se em normas
que amparem essas prerrogativas.
Nesse contexto, todo o regime jurídico-administrativo busca seu
fundamento de validade em dois princípios basilares: supremacia do
interesse público sobre o interesse privado e indisponibilidade pela
Administração do interesse público44.
6.3 REGIME JURÍDICO-ADMINISTRATIVO
O ordenamento jurídico pátrio contempla atuação da Administração
Pública em toda a Federação, nos Três Poderes. Deve-se reconhecer que a
Administração Pública, direta e indireta, submete-se ora a regime jurídico
de Direito Público,ora a regime jurídico de Direito Privado. A de�nição do
regime jurídico a nortear as relações jurídicas da Administração é
importante, a �m de que sejam de�nidos os contornos da legislação
aplicável à respectiva relação jurídica.
A Administração Pública, quando age de acordo com o Direito Público,
atua no desenvolvimento de suas atividades sob o regime jurídico-
administrativo, em que se denota toda a potestade administrativa. Quando
a Administração atua sob o regime jurídico-administrativo, sobressaem os
princípios da supremacia do interesse público sobre o privado e
indisponibilidade pela Administração do interesse público, que lhe
conferem exorbitância em suas relações jurídicas. As relações jurídicas sob
esse regime revelam relação vertical entre a Administração e o particular
que com ela se relaciona. Além disso, identi�cam-se nesse regime
prerrogativas que o distinguem do regime jurídico de Direito Privado, em
que as relações tendem a ser horizontais.
O princípio da supremacia do interesse público sobre o privado pode
ser exempli�cado, por exemplo, a partir da prerrogativa das cláusulas
exorbitantes45 presentes nos contratos administrativos.
O princípio da indisponibilidade pela Administração do interesse
público impõe-lhe que suas ações devem pautar-se sempre na lei,
diversamente do particular que pode praticar tudo o que a lei não proíbe.
Nesse sentido, a Administração Pública não pode adotar gestão de seus
bens, valores e dinheiros como se particular fosse. Ademais, o princípio da
impessoalidade veda conduta que tenha qualquer interesse que não seja o
público.
Além desses dois princípios que consistem em alicerce do regime
jurídico-administrativo, a Administração Pública deve observar os
princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
e�ciência, de envergadura constitucional, dos quais não pode afastar-se, sob
pena de praticar ato eivado de ilegalidade, sujeito a anulação pela própria
Administração ou pelo Poder Judiciário, conforme o caso. Esses princípios e
os demais que regem a Administração Pública serão mais bem estudados no
Capítulo XI desta obra.
43 Não confundir “regime jurídico da Administração Pública” com “regime jurídico-administrativo”.
44 Esses princípios estão desenvolvidos nos itens 11.4 e 11.5, cuja leitura se recomenda.
45 Vide item 27.8.
VII - ORGANIZAÇÃO DA
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
Ao se falar em Administração Pública, a partir da concepção de
tripartição de poderes consagrada em Montesquieu, pode-se compreender
que a Administração Pública, no sentido de movimentação estatal para
prestação de serviços públicos, compete ao Poder Executivo.
Isso não quer dizer que o Poder Legislativo e o Poder Judiciário não
executam atividades públicas. Contudo, esses Poderes possuem funções
típicas de produção normativa e de tutela jurisdicional, respectivamente. Já
o Poder Executivo, em sua função típica, é aquele que organiza a
Administração para que possam ser prestados serviços de infraestrutura,
saúde, segurança pública, dentre outros.
A atual organização da Administração Pública federal possui seu
fundamento principal, além dos dispositivos constitucionais, no Decreto-Lei
nº 200/1967, que também estabeleceu as diretrizes para a reforma
administrativa, dentre outras providências. A criação de novas entidades
não afasta a relevância, até os dias de hoje, desse normativo que reformou a
Administração Pública federal. Nesse sentido, esse Decreto-Lei consiste na
norma basilar da estrutura da Administração Pública federal, sem prejuízo
da incorporação de legislações que a aperfeiçoaram e que também serão
imprescindíveis no desenvolvimento deste Capítulo.
7.1 CONCEITO, SENTIDOS E OBJETO
A etimologia da palavra “administração” acena no sentido da seguinte
composição de origem latina: ad (junto) + manus ou mandare, cuja raiz é
man (direção, comando ao lado da ideia de servidão, obediência).
Administração Pública pode ser entendida como o aparato estatal
organizado para prestar, efetiva e concretamente, as atividades sob sua
responsabilidade contempladas na Constituição ou na lei. A partir desse
conceito, deve haver a divisão em duas partes.
A primeira parte destina-se ao aparato estatal, ou seja, à estrutura
orgânica, também conhecida como subjetiva ou formal. Dessa forma, pelo
critério orgânico, subjetivo ou formal, Administração Pública consiste no
conjunto de órgãos, entidade, agentes públicos responsáveis pelas atividades
desenvolvidas pelo Estado.
A segunda parte decorre da prestação do serviço propriamente dito, daí
por que denominar-se critério material, funcional ou objetivo da
Administração Pública, que consiste nas atividades efetivamente prestadas
ou desempenhadas pelo Estado. Esse critério identi�ca o exercício da
atividade pública estatal, que cabe preponderantemente ao Poder Executivo.
É a função administrativa como Administração Pública.
Canotilho assim conceitua Administração Pública46:
Neste sentido, uma caracterização aproximada de administração pública será
a seguinte: (1) prossecução permanente e autônoma de tarefas da
comunidade; (2) efetuada por órgãos do Estado, das regiões autônomas, do
Poder local e das demais formas de administração indireta do Estado e da
administração autônoma de caráter associativo ou institucional; (3) através
de medidas concretas; (4) juridicamente vinculadas a �ns (de interesse
público), constitucional e/ou legalmente pré-determinados.
Também se deve colacionar doutrina de Diogenes Gasparini, em que
aborda os critérios formal e material no conceito de Administração Pública,
nos seguintes termos47:
Pelo critério formal, também denominado orgânico ou subjetivo, a expressão
sub examine indica um complexo de órgãos responsáveis por funções
administrativas. De acordo com o material, também chamado de objetivo, é
um complexo de atividades concretas e imediatas desempenhadas pelo
Estado sob os termos e condições da lei, visando o atendimento das
necessidades coletivas.
7.2 EVOLUÇÃO DOS MODELOS DE
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
O plexo de atribuições para prestação e execução de serviços sob a
responsabilidade do Estado sofreu alterações no desenvolvimento da
Administração Pública.
A evolução do Estado e sua organização, principalmente no que tange a
esses modelos de Administração Pública, pode ser assim sintetizada nas
palavras de José Matias-Pereira48:
Observa-se que o Estado se apresenta concomitantemente como um sistema
político e uma organização. Ele nasce com o sistema político absoluto, passa
a ter um sistema político liberal ao longo do Século XIX, e adota a
democracia no Século XX. Por sua vez, como organização, o Estado nasce
como uma organização patrimonial, atravessa o Século XIX e chega quase
até o �nal do Século XX como burocrático. No �nal do Século XX, passa a
ser uma organização gerencial. (Grifou-se.)
A evolução da organização da Administração Pública decorre da
evolução do modelo de Estado, que começa em um sistema absoluto, passa
por um sistema liberal até chegar a um sistema democrático. Essas diferentes
formas de Estado fazem com que também surjam diferentes modelos de
Administração, adaptadas às respectivas formas e necessidades, motivo por
que não há como dissociar o modelo de Administração do respectivo
modelo de Estado.
A partir surgimento do Estado moderno, no que tange a essa prestação
de serviços públicos e à organização, podem ser identi�cadas três formas
bem distintas de atuação:
a) Administração Pública patrimonialista;
b) Administração Pública burocrática;
c) Administração Pública gerencial.
7.2.1 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA PATRIMONIALISTA
Administração Pública patrimonialista, intimamente relacionada ao
modelo de Estado absoluto, caracteriza-se por ser longa manus do Monarca,
motivo por que os cargos públicos são providos pela nobreza sem qualquer
critério objetivo e totalmente em decorrência de relações pessoais, a
funcionar como verdadeira recompensa. Esse modelo de Administração
favorece relação promíscua entre soberano e órgãos públicos por meio dos
agentes por elesnomeados, a favorecer corrupção e nepotismo.
A falência do Estado absoluto, bem como as relações promíscuas entre
soberano e órgãos públicos que favoreciam a prática de corrupção e
nepotismo, faz com que surja a necessidade de um novo modelo estatal e
consequentemente de novo modelo de Administração Pública:
Administração Pública burocrática.
7.2.2 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BUROCRÁTICA
Administração Pública burocrática consiste em instrumento de
reformulação da patrimonialista e de seus vícios. Nesse sentido,
Administração Pública burocrática consiste no modelo de sistematização
objetiva da Administração, por meio do desenvolvimento da
impessoalidade, objetividade, pro�ssionalização, hierarquia funcional,
carreira pública, valorização da lei, formalismo, dentre outros.
O Estado não mais podia estar pautado em uma Administração
corrupta, ine�ciente, ine�caz e permeada de abusos de poder. Esse modelo
também se caracteriza por excessivos requisitos formais, que, ao �nal de sua
existência, faziam com que as regras engessassem a tempestiva prestação dos
serviços sob sua responsabilidade.
A Administração Pública burocrática entra em declínio com o modelo
liberal em face da necessidade do surgimento de novo modelo, motivo por
que, em substituição à Administração burocrática, emerge a Administração
gerencial.
7.2.3 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA GERENCIAL
Administração Pública gerencial surge a partir da necessidade de
aperfeiçoamento da Administração burocrática e possui como traço
distintivo a descentralização da Administração Pública em nível de
execução, com a preservação do controle de resultados pelo Estado. Esse
modelo de Administração também preza pelo combate ao nepotismo e à
corrupção, mas sem a estruturação rígida do modelo anterior. A
meritocracia inaugurada no modelo burocrático não deixou de ser
privilegiada neste modelo, mas sem as rígidas formas de outrora. No Estado
brasileiro contemporâneo, vige o modelo preponderante de Administração
Pública gerencial.
7.3 FUNÇÕES DA ADMINISTRAÇÃO
Administração Pública deve valer-se de todos os instrumentos para que
bem possa desempenhar o efetivo exercício das suas atribuições. Nesse
sentido, o agir da Administração Pública também pode socorrer-se das
funções da Administração, aqui entendida como ciência e não como
Administração Pública, quais sejam: planejamento, organização, direção e
controle.
Planejamento pode ser compreendido como um instrumento por
meio do qual se antevê o resultado pretendido, com o estabelecimento do
itinerário para atingimento desse objetivo. É nessa fase que são de�nidos,
dentre outros, o objeto, a qualidade, a quantidade e a metodologia a serem
adotados para o atingimento do objeto que se pretende realizar. O
planejamento não pode ser rígido a ponto de impossibilitar alterações que se
�zerem necessárias durante a execução, sob pena de colocar em risco todo o
processo. A �exibilidade inerente ao planejamento também não deve ser
aquela que desnature o objeto, pois, se assim fosse, seria necessário novo
planejamento.
Organização consiste na melhor disposição humana e material para se
atingir o objeto pretendido. Mutatis mutandis, a organização pode ser bem
exempli�cada por meio de uma linha de montagem de veículo, em que cada
peça é colocada no seu momento, na sequência e na sua posição, conforme a
melhor disposição para atingimento do objeto de forma mais e�caz e
e�ciente. Assim também deve ocorrer na prestação dos serviços sob a
responsabilidade da Administração Pública.
Direção deve ser compreendida a partir de duas vertentes. A primeira
vertente consiste na condução das atividades, que se assemelha à
coordenação das atividades. A segunda vertente deve ser compreendida no
sentido de que todas as atividades devem estar voltadas para o atingimento
do objetivo pretendido. A partir dessas premissas, deve haver, tanto em uma
quanto em outra, unidade de direção. A existência de coordenações distintas
e con�itantes e a inexistência de sentido único para atingimento do objeto
comprometem toda a execução do que a Administração Pública pretende
alcançar.
Controle consiste em veri�car se a execução do objeto está de acordo
com o que foi planejado. O controle permeia todas as funções anteriores,
motivo por que pode ser prévio, concomitante ou posterior. O efetivo
controle permite corrigir eventuais desvios e aperfeiçoar o objeto que está a
ser executado. No controle exercido pela Administração Pública, além do
conteúdo material, também deve ser objeto de controle a conformidade com
a lei. Tem-se, pois, no controle exercido pela Administração Pública controle
de mérito é de legalidade.
As quatro funções da Administração são igualmente importantes no
processo da prestação das atribuições públicas. Entretanto, especial atenção
deve ser dada ao planejamento, pois é nessa fase que são de�nidos todos os
pontos necessários ao atingimento do objeto pretendido. Além disso, as
funções de organização, direção e controle estarão pautadas pelo prévio
planejamento. É nesse sentido que se deve dar especial atenção a essa função
da Administração. Planejamentos mal elaborados podem comprometer
todas as outras funções, e, por consequência, a atividade estatal que se
pretende realizar.
7.4 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
Além das funções da Administração, como ciência, mencionadas no
item anterior, a Administração Pública também deve pautar suas atividades
nos seguintes princípios fundamentais, conforme expressamente consagrado
no art. 6º, do Decreto-Lei nº 200/1967:
a) Planejamento;
b) Coordenação;
c) Descentralização;
d) Delegação de Competência;
e) Controle.
Observe que há intercessão entre os princípios fundamentais das
atividades da Administração Pública discriminados pelo Decreto-Lei nº
200/1967 e as funções da Administração mencionadas no item anterior.
Ao princípio fundamental do planejamento aplica-se a mesma
conceituação da função de planejamento em sede da Administração
entendida como ciência, mencionada no item anterior.
Esse princípio possui o condão de promover o desenvolvimento
econômico e social do país, além de assegurar a segurança nacional. O
planejamento deve compreender elaboração e atualização dos seguintes
instrumentos básicos (art. 7º):
a) plano geral de governo;
b) programas gerais, setoriais e regionais, de duração plurianual;
c) orçamento-programa anual;
d) programação �nanceira de desembolso.
De igual forma, ao princípio fundamental da coordenação aplica-se a
mesma conceituação da função da Administração de direção mencionada
no item anterior. A coordenação será exercida em todos os níveis da
Administração, ou seja, nos níveis estratégico, gerencial e de execução.
Quando envolver órgãos federais distintos em uma mesma área geográ�ca, a
coordenação deverá assegurar a programação e a execução integradas dos
serviços objeto desse princípio fundamental. Caso estejam envolvidos
órgãos federais, estaduais, distritais e municipais que exerçam atividades
idênticas, os órgãos federais deverão buscar integração com os demais
órgãos dos respectivos entes da Federação que tratam do mesmo tema,
inclusive com a possibilidade de celebração de convênios de cooperação.
O princípio fundamental da descentralização encontra-se em perfeita
harmonia com a Administração Pública gerencial, pois visa transferir a
outrem a execução de determinada atividade não exclusiva do Estado. Não é
demais recordar que a descentralização transfere a competência para a
prática de determinado ato a entidade fora da estrutura organizacional de
quem descentralizou. O sentido teleológico da descentralização consiste no
atingimento do objetivo pretendido com maior e�ciência e e�cácia, por
meio da execução de atividades que não sejam típicas de Estado por outrem.
A descentralização administrativa possui a característica de não
estabelecer hierarquia funcional entre descentralizante e descentralizado,
sem prejuízo do controle �nalístico por parte de quem descentralizou a
atividade.
A descentralização das atividades da AdministraçãoPública federal, de
acordo com multicitado Decreto-Lei, poderá ser colocada em prática em
três planos principais (art. 10):
a) dentro dos quadros da Administração Federal, distinguindo-se
claramente o nível de direção do de execução;
b) da Administração Federal para a das unidades federadas, quando
estejam devidamente aparelhadas e mediante convênio;
c) da Administração Federal para a órbita privada, mediante contratos
ou concessões.
Deve-se destacar que a descentralização das atividades da
Administração Pública federal pode envolver órgãos e entidades da própria
Administração Pública federal, órgãos e entidades da Administração Pública
estadual, distrital ou municipal e entidades privadas, mediante contratos,
concessões, convênios ou outros instrumentos hábeis que estabeleçam
direitos e obrigações assumidas pelas partes ou partícipes.
O Princípio fundamental da delegação de competência consiste no
“instrumento de descentralização administrativa, com o objetivo de
assegurar maior rapidez e objetividade às decisões, situando-as na
proximidade dos fatos, pessoas ou problemas a atender” (art. 11).
A delegação de competência está intimamente relacionada à
descentralização da atividade pública, com vistas à melhor prestação dos
serviços para os respectivos destinatários �nais. O instrumento de delegação
de competência não deve possuir lacunas, omissões ou contradições, motivo
por que deve conter, no mínimo e de forma clara, objetiva e precisa, as
autoridades delegante e delegada, o objeto, as obrigações e os direitos das
partes.
A delegação de competência não afasta a responsabilidade do delegante
por eventuais prejuízos causados na execução do objeto delegado, sem
prejuízo da responsabilização em primeira ordem do delegado.
Ao princípio fundamental do controle aplica-se a mesma análise do
controle em sede da função da Administração mencionada no item anterior.
Além disso, deve ser acentuada a pluralidade de controles incidentes sobre
um mesmo ato praticado pela Administração Pública. A �scalização de
primeira ordem encontra-se no âmbito do órgão ou entidade que praticou o
ato, principalmente por parte da che�a competente, que decorre do poder-
dever de autotutela inerente à Administração Pública. Também devem ser
mencionados os órgãos de controle, cujas funções derivam da Constituição
Federal ou da norma legal, como, por exemplo, Ministério Público, TCU,
CADE. Além desses controles, também deve ser mencionado o controle
social, ou seja, aquele realizado pelas pessoas físicas ou jurídicas que se
encontram na proximidade do ato praticado pela Administração Pública,
mas que não possuem vínculo estreito com a execução desse ato. Esse
controle é de grande valia para o Estado.
7.5 ORGANIZAÇÃO DO ESTADO, GOVERNO E
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
O estudo do Direito Administrativo passa necessariamente por esse
trinômio Estado, Governo e Administração Pública. Não constitui objetivo
deste item aprofundar o estudo de teoria do estado ou teoria do governo,
bem mais inerentes ao Direito Constitucional, mas inter-relacionar Estado,
Governo e Administração Pública nos temas afetos ao Direito
Administrativo.
Para mais bem entender o Direito Administrativo, faz-se necessário
compreender alguns aspectos do Estado, principalmente aquele constante da
Constituição Federal. De igual forma, também é importante entender o que
vem a ser governo. Depois dessa breve compreensão, certamente serão mais
bem entendidos os diversos institutos e preceitos do Direito Administrativo.
7.5.1 ESTADO
Antes de se adentrarem as breves considerações referentes a Estado,
impõem-se abordar alguns traços inerentes ao Estado.
Soberania49 e autonomia não se confundem. A soberania diz respeito
a um Estado politicamente organizado que se faz respeitar em suas relações
internacionais e dentro dos seus limites territoriais. Nesse sentido,
soberania consiste em pleno poder de autodeterminação, sem subordinação
a qualquer outro poder interno ou externo. Autonomia consiste na
competência para auto-administrar-se. É nesse contexto que a República
Federativa do Brasil possui soberania e autonomia, e os estados-membros
que a compõem possuem apenas autonomia, nos limites de�nidos na
Constituição Federal.
A evolução de um Estado unitário para um Estado federal necessita de
que haja descentralização política e administrativa para atingimento do
plexo de atribuições da Administração Pública com maior benefício para a
sociedade. A descentralização política deve estar expressamente consagrada
no Texto Constitucional do Estado, daí por que a Constituição promove a
repartição das atividades políticas e administrativas do Estado entre os entes
da Federação (União, estados, Distrito Federal e municípios). De igual
forma, a descentralização administrativa deve estar amparada em normativo
legal, que de�ne os contornos e os limites desse instituto.
A forma Federativa impõe que os estados-membros, o Distrito Federal
e os municípios participem da vontade política federal. É nesse sentido que
deve haver unicidade de direção na vontade de todos os entes que integram
a Federação, para atingimento dos ideais maiores republicanos.
O modelo de Federação, embora con�ra autonomia aos estados-
membros, Distrito Federal e município, nos limites do Texto Constitucional,
privilegia a soberania da nação, da qual fazem parte esses entes. Nesse
contexto, a República Federativa do Brasil possui o princípio de inexistência
de direito de secessão, expressamente consagrado no caput do art.1º, da
Constituição50.
As atividades do Estado podem ser agrupadas em três grandes funções:
administração, produção normativa e prestação da tutela jurisdicional. Essas
três funções do Estado estão em consonância com a tripartição de poderes
consagrada em Montesquieu, ou seja, nos Poderes Executivo, Legislativo e
Judiciário, respectivamente.
Feitas essas considerações propedêuticas, deve-se passar ao conceito de
Estado. Estado pode ser compreendido como uma entidade que possui a
�nalidade de estabelecer as relações no plano internacional e interno,
assentado em três pilares fundamentais51: governo soberano, povo e
território.
Estado Federal é assim conceituado por Paulo Gonet52:
É correto a�rmar que o Estado Federal expressa um modo de ser do Estado
(daí se dizer que é uma forma de Estado) em que se divisa uma organização
descentralizada, tanto administrativa quanto politicamente, erigida sobre
uma repartição de competências entre o governo central e os locais,
consagrada na Constituição Federal, em que os Estados Federados
participam das deliberações da União, sem dispor do direito de secessão. No
Estado Federal, de regra, há uma Suprema Corte com jurisdição nacional e é
previsto um mecanismo de intervenção federal, como procedimento
assecuratório da unidade física e da identidade jurídica da Federação.
A Constituição Federal (art. 1º) estabelece que a República Federativa
do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito. A concepção de
democracia passa necessariamente pela participação popular no poder, a
partir da própria etimologia da palavra “democracia”, de origem grega
(demos = povo + kratos = poder).
Estado Democrático consiste naquele em que existe participação do
povo no governo, na compreensão de “governo do povo e para o povo”. Essa
participação deve estar em consonância com a forma prevista na
Constituição Federal, mas, em especial, a partir da escolha dos
representantes junto aos respectivos Poderes Legislativos e Executivos, além
da possibilidade de sua participação no sufrágio universal e no voto direto e
secreto com valor igual para todos, mediante plebiscito, referendo e
iniciativa popular (art. 14, CF).
Em face de um Estado absolutista, a partir do século XIX, começa a
surgir um Estado de Direito que possui o objetivo de inibir as
arbitrariedades desse governo absolutista com a elaboração de normas
jurídicas a limitar esse poder e a promover a garantia dos cidadãos em face
dessas arbitrariedades então reinantes. Inicialmente, podia ser entendido
comoEstado de Direito aquele que tivesse uma norma fundamental e um
conjunto de normas criado sob sua in�uência e contra a qual não podiam
insurgir-se. Entretanto, atualmente, pode-se entender Estado de Direito53
como aquele regido por uma constituição e normas criadas sob sua
inspiração com o objetivo de estabelecer os limites de poder ou intervenção
do Estado em face do particular, bem como assegurar ao cidadão valores e
garantias de estaturas constitucionais ou legais com o objetivo de promover
a justiça e a paz social. Tem-se, portanto, um Estado que cria e se submete às
mesmas leis. O Direito Administrativo está intimamente relacionado ao
Estado de Direito, na medida em que atua preponderantemente nas relações
jurídicas que se estabelecem dentro do próprio Estado ou entre este e
terceiros.
Estado Social não é uma expressão consagrada na Constituição
Federal. Entretanto, não há desconsiderar que, ao lado dos termos
“democrático” e “de direito”, existe um amparo social que permeia todo o
Texto Constitucional. Estado social, então, caracteriza-se quando se veri�ca
um ente que traz em sua Constituição grande valoração dos direitos sociais.
A Constituição estabelece que “são direitos sociais a educação, a saúde, a
alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a
previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos
desamparados, na forma desta Constituição” (art. 6º). Como se veri�ca, esse
rol é meramente exempli�cativo, pois todas as ações do Estado estão
voltadas para, pelo menos, um desses direitos.
7.5.2 GOVERNO
Estado e Governo não se confundem. A pedra de toque que os
diferencia consiste na hierarquia existente entre eles. Governo consiste
simplesmente em uma das instituições do Estado, que possui a �nalidade de
administrá-lo. Enquanto o Estado é permanente, o governo caracteriza-se
por ser transitório, ou seja, com tempo determinado, e normalmente
exercido com amparo no sufrágio universal e periódico, com igualdade de
valor para todos. A alternância de governos é salutar e impede que se
instaure a tirania, malé�ca em todo e qualquer Estado, em decorrência de
longos períodos do mesmo governo no poder.
Também deve ser trazido o traço caracterizador da nação. Pode-se
entender nação como um agrupamento ou organização de pessoas que
possuam mesmo idioma, cultura, costumes, tradições, características... já
presentes em determinada tradição histórica.
7.5.3 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
O Direito Administrativo atua eminentemente sobre a Administração
Pública, uma vez que visa disciplinar as relações jurídicas dentro da própria
Administração ou com terceiros que com ela se relacionem.
Administração Pública pode ser compreendida como toda a
organização do Estado voltada para a execução dos serviços inseridos no
plexo de suas atribuições, que se destinem ao bem-estar da sociedade.
Entretanto, ao se falar em Administração Pública, como atividade
inerente ao Direito Administrativo, pode-se entendê-la intimamente
relacionada ao Poder Executivo. Nesse sentido, Administração Pública pode
ser compreendida a partir de duas perspectivas: subjetiva e objetiva.
Administração Pública, em sentido subjetivo, orgânico ou formal,
compreende o conjunto de órgãos e entidades de que dispõe o Estado para a
efetiva prestação dos serviços sob sua competência. Trata-se, portanto, da
estrutura organizacional do Estado. São exemplos de Administração
Pública, sob essa perspectiva, os ministérios, as secretarias, os postos de
saúde, as delegacias.
Administração Pública, em sentido objetivo, funcional ou material,
pode ser compreendida como um conjunto de atividades de que se vale o
Estado para prestar seus serviços, conforme as diversas políticas públicas ou
atividades sob sua responsabilidade. Administração Pública nessa
perspectiva deve ser compreendida como as atividades prestadas pelo Poder
Executivo em sua atividade típica, ou seja, que não se enquadrem na
produção normativa (atividade típica do Poder Legislativo), nem na
prestação da tutela jurisdicional (atividade típica do Poder Judiciário).
Ainda nessa perspectiva, podem ser mencionadas, como exemplos, as
atividades voltadas para a prestação de serviços de saúde, segurança pública,
infraestrutura, ensino.
Hely Lopes Meirelles entende Administração Pública a partir de três
perspectivas (formal, material e operacional), conforme se depreende de sua
doutrina, nos seguintes termos54:
Administração Pública - Em sentido formal, é o conjunto de órgãos
instituídos para consecução dos objetivos do Governo; em sentido material,
é o conjunto das funções necessárias aos serviços públicos em geral; em
acepção operacional, é o desempenho perene e sistemático, legal é técnico,
dos serviços próprios do Estado ou por ele assumidos em benefício da
coletividade.
Administração Pública também pode ser compreendida a partir de
dois sentidos: amplo e estrito.
Administração Pública em sentido amplo envolve os órgãos de
governo, as funções políticas, além dos órgãos e pessoas jurídicas no
exercício de funções simplesmente administrativas.
Administração Pública em sentido estrito deve incluir apenas os
órgãos e as pessoas jurídicas administrativos, bem como as funções por eles
desempenhadas, cuja natureza seja simplesmente administrativa, para
execução dos programas governamentais.
7.6 ÓRGÃOS E ENTIDADES PÚBLICOS
O exercício das atividades conferidas à Administração Pública ocorre
por meio de órgãos e entidades públicos, cuja distinção, principalmente para
os efeitos jurídicos, faz-se necessária.
De acordo com a Constituição Federal, compete privativamente ao
Presidente da República a iniciativa de projeto de lei que disponha sobre
criação e extinção de ministério e de órgãos da Administração Pública (art.
61, § 1º, II, e), que deverá ser analisado e aprovado pelo Congresso Nacional
(art. 48, XI), com posterior sanção presidencial. Criação ou extinção de
ministérios e órgãos deve passar por processo legislativo a cargo do
Congresso Nacional. Entretanto, também deve ser mencionada a
competência privativa do Presidente da República para, mediante decreto,
dispor sobre “organização e funcionamento da administração federal,
quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção de
órgãos públicos” (art. 84, VI, a, CF).
Órgãos públicos55 são unidades de efetivo exercício das atribuições da
atividade pública, vinculados à determinada pessoa jurídica, com
atribuições, cargos, quadro de pessoal próprios, conforme normativo
próprio. A vinculação a determinada pessoa jurídica impõe reconhecer que
os órgãos públicos são despersonalizados, ou seja, não possuem
personalidade jurídica própria, pois esta é da entidade a que se encontram
vinculados.
Hely Lopes Meireles assim conceitua órgãos públicos56:
Órgãos públicos - são centros de competência instituídos para o
desempenho de funções estatais, através de seus agentes, cuja atuação é
imputada à pessoa jurídica a que pertencem. São unidades de ação com
atribuições especí�cas na organização estatal. Cada órgão, como centro de
competência governamental ou administrativa, tem necessariamente funções,
cargos e agentes, mas é distinto desses elementos, que podem ser
modi�cados, substituídos ou retirados sem supressão da unidade orgânica.
(Grifos constantes do original.)
Ainda que órgãos públicos não sejam dotados de personalidade
jurídica, eles praticam atos com efeitos jurídicos em suas relações com
outros órgãos ou entidades ou com terceiros. Contudo, eventual
responsabilização dos órgãos públicos deverá ocorrer em face da entidade a
que estiverem vinculados. Nesse sentido, a representação jurídica dos órgãos
públicos ocorrerá por meio da respectiva entidade, ou seja, da pessoa
jurídica a que estiverem vinculados.
Os órgãos públicos devem fazer parte da estrutura organizacional de
determinada entidade, motivo por que existe vínculo hierárquico daqueles
em relação a esta.
A natureza dos órgãos públicos pode ser compreendida a partir de três
perspectivas ou de três teorias: subjetiva,objetiva e mista.
A perspectiva ou teoria subjetiva considera que os órgãos públicos
confundem-se com os agentes públicos, motivo por que ao deixar de
existirem estes, também deixa de existir o órgão. A crítica que surge nessa
teoria consiste em confundir órgão com pessoas físicas, ou seja, seus
agentes. Os agentes públicos possuem elevada relevância na prestação dos
serviços públicos, pois são eles que efetivamente executam as atividades
públicas. Entretanto, não há confundir serviço público ou atividade pública
com agentes públicos, pois são ontologicamente distintos. A ausência destes
não pode implicar ausência do órgão público no efetivo desempenho das
atribuições que lhe são conferidas.
A perspectiva ou teoria objetiva consiste em considerar órgãos
públicos como o plexo de competências a serem exercidas por eles. Nessa
teoria, órgãos públicos não se confundem com agentes públicos. Essa teoria
diverge da anterior, em razão de, mesmo em face da ausência do agente
público, sobrevivência do órgão. Em razão de a teoria desprestigiar o agente
público, também se impõem críticas, uma vez que não há falar em prestação
de serviços sem a imprescindível presença do agente público, já que órgãos
não se exprimem e nem possuem vontade própria.
Acerca das críticas a essa teoria, deve-se colecionar doutrina de
Diogenes Gasparini, nos seguintes termos57:
Aniquila a única razão de sua concepção, isto é, explicar o querer e o agir do
Estado. Com efeito, se o órgão é um complexo de poderes, continua
inexplicado como o Estado quer e age, dado que esse feixe de poderes não
tem vontade nem ações próprias.
A perspectiva ou teoria mista ou eclética consiste na junção dos dois
elementos imprescindíveis na concepção das teorias anteriores, ou seja, o
agente público (teoria subjetiva) e o plexo de competências (teoria objetiva).
Essa teoria, ao trazer para sua concepção os dois elementos caracterizadores
das outras duas teorias, teve o objetivo de eliminar as respectivas críticas.
Contudo, essa teoria também angariou críticas iguais às formuladas
individualmente nas anteriores58, que merecem algumas considerações.
O núcleo da prestação de serviço público compreende dois itens
indissociáveis: agente público (teoria subjetiva) e plexo de atribuições (teoria
objetiva). O plexo de atribuições isoladamente não possui vontade própria e
nem pratica atos. Por outro lado, somente com o agente público também
não haverá prestação de serviço público, pois necessitaria da legitimidade
conferida pelo plexo de atribuições do órgão. A teoria mista ou eclética, ao
incorporar os dois elementos das outras teorias, visa enaltecê-los e
considerá-los imprescindíveis na prestação das atribuições públicas. Não se
está a falar que, ausente o agente público, inexiste atividade pública. Da
mesma forma, não se está a compreender que a falta de vontade do plexo de
atribuições do órgão impede a prestação de serviço, pois este será exercido
pelo agente público competente. Nesse sentido, com as vênias de estilo de
quem diverge desse entendimento, pode-se compreender que a perspectiva
ou teoria mista ou eclética mais bem compreende a essência de órgãos
públicos, conforme a indissociabilidade entre plexo de atribuições e agentes
públicos.
Entidade pública consiste em unidade dotada de personalidade
jurídica própria dentro da estrutura organizacional da Administração
Pública.
As entidades públicas classi�cam-se em, conforme integrem a
Administração direta ou indireta:
a) entidades estatais;
b) autarquias;
c) empresas públicas;
d) sociedades de economia mista;
e) fundações públicas;
f) consórcios públicos.
Essa classi�cação será mais bem detalhada nos itens que se seguem.
7.7 ADMINISTRAÇÃO DIRETA
O Decreto-Lei nº 200/1967, que trata da reforma administrativa,
estabelece que a Administração direta consiste nos “serviços integrados na
estrutura administrativa da Presidência da República e dos Ministérios” (art.
4º, I). Atualmente, a Administração direta, entendida como organização
básica dos órgãos da Presidência da República e dos Ministérios, está
contemplada na Lei nº 14.600/2023.
A Administração direta atual consiste nos órgãos vinculados à
Presidência da República, assim discriminados no Capítulo I e II, da Lei nº
14.600/202359, que também consideram os órgãos de assessoramento e
consultivos do Presidente da República, nos seguintes termos:
a) Presidência da República;
b) Ministérios;
c) Casa Civil;
d) Secretaria-Geral;
e) Secretaria de Relações Institucionais;
f) Secretaria de Comunicação Social;
g) Gabinete Pessoal do Presidente da República;
h) Gabinete de Segurança Institucional;
i) Conselho de Governo;
j) Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável;
k) Conselho Nacional de Política Energética;
l) Conselho do Programa de Parcerias de Investimentos;
m) Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional;
n) Advogado-Geral da União;
o) Assessoria Especial do Presidente da República;
p) Conselho da República;
q) Conselho de Defesa Nacional.
Quando se fala em Administração direta, deve-se entender como
aquela prestada diretamente pelos entes que integram a Federação, ou seja, a
União, os estados, o Distrito Federal e os municípios, por intermédio dos
respectivos órgãos. O exercício das atividades pela Administração direta
revela o exercício de atividades centralizadas, diversamente do que ocorre
com a Administração indireta, que se caracteriza por ser o exercício de
atividade descentralizada do poder central.
7.8 ADMINISTRAÇÃO INDIRETA
Administração indireta consiste nas pessoas jurídicas de Direito
Público ou privado, criadas por lei, com personalidade jurídica própria,
patrimônio e receitas próprios, para a execução de atividades típicas da
Administração Pública, cujo funcionamento e gestão, administrativa e
�nanceira, serão mais bem desenvolvidos por meio da descentralização de
atribuições. Trata-se, pois, de entidades e não de órgãos.
A Administração indireta traz em si a característica da descentralização
administrativa, que consiste na transferência de competência para outra
entidade, diversa da delegante.
As entidades integrantes da Administração indireta possuem as
seguintes características60:
a) criação por meio de lei;
b) personalidade jurídica própria;
c) patrimônio e receita próprios;
d) vinculação ao ministério a que corresponda sua principal atividade;
e) sujeitas a controle �nalístico;
f) inexistência de vínculo hierárquico com o ministério ou a entidade
que as criou.
A partir do Decreto-Lei nº 200/1967 e dos normativos legais
posteriores, Administração Pública indireta é composta das seguintes
entidades:
a) autarquias;
b) empresas públicas;
c) sociedades de economia mista;
d) fundações públicas;
e) consórcios públicos61;
f) agências.
Dessas entidades, as sociedades de economia mista e as empresas
públicas possuem natureza jurídica de Direito Privado. As fundações e os
consórcios públicos podem ter personalidade jurídica de Direito Público ou
personalidade jurídica de Direito Privado, a depender dos termos �xados na
lei que os criou. As autarquias e agências possuem natureza jurídica de
Direito Público.
7.8.1 AUTARQUIAS
Etimologicamente, deve-se trazer lição de Maria Sylvia Zanella Di
Pietro, ao mencionar doutrina de José Cretella Júnior, nos seguintes
termos62:
(...) o termo autarquia, incorporado há cerca de três décadas no nosso léxico,
é formado de dois elementos justapostos: autós (= próprio) e arquia (=
comando, governo, direção), signi�cando, à letra, etimologicamente,
“comando próprio, direção própria, autogoverno”.
Embora o termo autarquia, em conceito muito próximo do que
concebido hoje, tenha ganhado mais evidência a partir da reforma
administrativa introduzida por meio do Decreto-Lei nº 200/1967, que
expressamente o conceituou, esse termo já era empregado tecnicamente no
Decreto-Lei nº 6.016/194363, que assim de�ne autarquia para �ns do que
dispõe: “serviço estatal descentralizado, com personalidade de Direito
Público, explícita ou implicitamente reconhecida por lei”(art. 2º).
O Código Civil de 1916 (Lei nº 3.071/1916) não incluiu entre as
pessoas jurídicas de Direito Público interno as autarquias, nos termos de seu
art. 16. O Código Civil atual (Lei nº 10.406/2002) expressamente
contemplou as autarquias no rol das pessoas jurídicas de Direito Público
interno (art. 41).
A Constituição Federal estabelece que autarquia somente poderá ser
criada por meio de lei especí�ca (art. 37, XIX). O Decreto-Lei nº 200/1967,
de�ne autarquia como “serviço autônomo, criado por lei, com
personalidade jurídica, patrimônio e receita próprios, para executar
atividades típicas da Administração Pública, que requeiram, para seu
melhor funcionamento, gestão administrativa e �nanceira descentralizada”
(art. 5º, I).
Autarquia consiste, portanto, em pessoa jurídica de Direito Público,
criada por meio de lei especí�ca, com personalidade jurídica, patrimônio e
receita próprios e capacidade de autoadministração, vinculada ao Ministério
a que corresponde sua principal atividade, sem vínculo hierárquico com
este, mas sujeita a controle �nalístico, para execução de atividades típicas da
Administração Pública.
A partir do Texto Constitucional e do Decreto-Lei nº 200/1967, podem
ser estabelecidas as seguintes características das autarquias:
a) criação por meio de lei;
b) personalidade jurídica própria;
c) patrimônio e receita próprios;
d) autoadministração;
e) vinculação ao Ministério a que corresponda sua principal atividade;
f) inexistência de vínculo hierárquico com o Ministério ou a entidade
que as criou;
g) sujeitas a controle �nalístico;
h) execução de atividades típicas da Administração Pública.
Autarquias, por força de mandamento constitucional e legal, somente
podem ser criadas por meio de lei64, em sentido estrito, ou seja, por meio
de projeto de lei encaminhado pelo Poder Executivo, análise e aprovação
pelo Congresso Nacional, sanção presidencial.
Personalidade jurídica própria de Direito Público confere à
autarquia natureza de entidade, ou seja, com capacidade processual para
agir em nome próprio na tutela dos seus interesses, sem que haja qualquer
necessidade de intervenção nessa busca dos seus direitos por parte da
entidade que a tenha criado.
Patrimônio e receita próprios possibilitam que as autarquias tenham
competência de autoadministração.
Autoadministração das autarquias implica reconhecer sua
competência para dispor sobre sua organização, quadro de pessoal e
procedimentos que digam respeito ao exercício das atividades típicas da
Administração Pública que lhe são estabelecidas por meio de lei. Essa
autonomia pode ser compreendida como corolário do patrimônio e receita
próprios.
Vinculação ao Ministério a que corresponda sua principal atividade
ocorre em razão de as atividades desenvolvidas pelas autarquias serem
eminentemente aquelas atribuídas à Administração Pública. A
Administração Pública, stricto sensu, compete ao Poder Executivo, que
poderá exercer suas atividades por meio da Administração direta ou indireta
e até mesmo com auxílio de entidades privadas. As atividades públicas sob a
competência do Poder Executivo são organizadas por meio dos seus
ministérios, daí por que a necessidade dessa vinculação, inclusive para que
sejam desenvolvidas as atribuições autárquicas em consonância com as
políticas públicas de competência do respectivo Ministério.
Inexistência de vínculo hierárquico com o Ministério ou a entidade
que criou a autarquia decorre do fato de suas atribuições serem conferidas
por meio de lei. Não há confundir, portanto, vínculo funcional com vínculo
hierárquico. O vínculo funcional está em consonância com a atividade
pública exercida, que deve ser coordenada por um determinado Ministério,
a quem compete o desenvolvimento da política pública da respectiva pasta.
Atribuir vínculo hierárquico entre autarquia e Ministério retiraria toda a
autonomia e independência da autarquia, cujas funções e atribuições devem
estar vinculadas à lei que as criou. Não há, portanto, vínculo hierárquico
entre autarquia e Ministério ou entidade que a criou
As autarquias estão sujeitas a controle �nalístico. O fato de não haver
vínculo hierárquico entre autarquia e Ministério não afasta a competência
deste para controlar �nalisticamente as atividades autárquicas. A
característica de autoadministração não pode ser óbice para controle
�nalístico de suas atribuições, pois, a�nal de contas, consistem em
atividades eminentemente afetas à Administração Pública. O modus
operandi das atividades desenvolvidas compete à própria autarquia, o que
não afasta o controle �nalístico de suas atribuições pelo Ministério a que se
encontra vinculada, tampouco o controle pelos diversos órgãos
constitucionais ou legais que tenham entre suas atribuições a �scalização
dessas atividades.
A lei que criar autarquia deverá conferir-lhe expressamente a execução
de atividades típicas da Administração Pública. A natureza jurídica das
atividades desenvolvidas pelas autarquias é essencialmente de caráter
público, ou seja, inerente à Administração Pública. Tão-somente para
exempli�car a natureza das atividades públicas de autarquia, podem ser
mencionadas as competências do Banco Central, autarquia federal,
disciplinadas por meio do art. 10, da Lei nº 4.595/1964.
7.8.2 ENTIDADES EMPRESARIAIS - EMPRESAS PÚBLICAS E
SOCIEDADES DE ECONOMIA MISTA
As atividades públicas deverão ser desenvolvidas por meio da
Administração direta ou indireta dos respectivos entes da Federação, de
acordo com o plexo de competências a ela conferido.
Entidades empresariais ou estatais é gênero que comporta as seguintes
espécies, além das respectivas subsidiárias:
a) empresas públicas;
b) sociedades de economia mista.
Como regra geral, o Estado não deverá atuar na exploração de
atividades econômicas. Entretanto, a Constituição Federal, ao tratar da
ordem econômica e �nanceira (Titulo VII), excepcionou a possibilidade de
atuação do Estado na exploração direta de atividade econômica, nos
seguintes termos (art. 173): “Ressalvados os casos previstos nesta
Constituição, a exploração direta de atividade econômica pelo Estado só
será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou
a relevante interesse coletivo, conforme de�nidos em lei”.
O poder constituinte originário elencou dois imperativos que
amparam a exploração de atividade econômica pelo Estado, conforme
de�nidos em lei:
a) segurança nacional;
b) relevante interesse coletivo.
Os imperativos de segurança nacional e de relevante interesse coletivo
deverão ser instrumentos para se atingir a função social, que fundamenta a
criação das entidades empresariais e deve estar expressamente mencionada
no normativo legal que autoriza sua criação. A função primordial das
entidades empresariais disciplinadas neste Capítulo consiste na prestação da
função social a que se destinam, sob pena de descaracterizar suas essências.
Quando se fala em relevante interesse coletivo, deve-se ter em mente a
orientação para atingimento do bem-estar econômico, a alocação de seus
recursos para atividades socialmente e�cientes, além do seguintes objetivos
(art. 27, § 1º, da Lei nº 13.303/2016):
I - ampliação economicamente sustentada do acesso de consumidores aos
produtos e serviços da empresa pública ou da sociedade de economia mista;
II - desenvolvimento ou emprego de tecnologia brasileira para produção e
oferta de produtos e serviços da empresa pública ou da sociedade de
economia mista, sempre de maneira economicamente justi�cada.
A exploração de atividades econômicas pelo Estado, observados os
imperativos de segurança nacional ou relevante interesse coletivo, poderá
ser exercida apenas pelas seguintes entidades:
a) empresas públicas;
b) sociedades de economia mista;
c) subsidiárias das empresas públicas ou das sociedades de economia
mista.
A constituição de empresa pública ou de sociedade de economia
mista deverá ocorrer por meio de lei, em que sejam especí�ca e claramente
mencionados o relevante interesse coletivo ou o imperativo de segurança
nacional. De igualforma, depende de autorização legislativa a criação de
subsidiárias de empresas públicas e de sociedade de economia mista.
A exploração de atividade econômica de produção ou comercialização
de bens ou de prestação de serviços pelo Estado, observados esses
imperativos, deverá ser desenvolvida por meio de empresas públicas ou
sociedades de economia mista, conforme os respectivos estatutos jurídicos
estabelecidos por meio de lei, que, nos termos do art. 173, § 1º, CF, com
redação dada pela EC 19/1998, deverá dispor sobre:
I - sua função social e formas de �scalização pelo Estado e pela sociedade;
II - a sujeição ao regime jurídico próprio das empresas privadas, inclusive
quanto aos direitos e obrigações civis, comerciais, trabalhistas e tributários;
III - licitação e contratação de obras, serviços, compras e alienações,
observados os princípios da Administração Pública;
IV - a constituição e o funcionamento dos conselhos de administração e
�scal, com a participação de acionistas minoritários;
V - os mandatos, a avaliação de desempenho e a responsabilidade dos
administradores.
Desde a Constituição de 1988, inclusive com a posterior alteração
introduzida por meio da Emenda Constitucional nº 19/1998, havia uma
lacuna legislativa acerca do regime jurídico próprio das empresas públicas e
sociedades de economia mista, em razão da falta de norma regulamentadora
dessas entidades. Não há desconsiderar a natureza híbrida dessas entidades,
pois, ao mesmo tempo que possuem personalidade jurídica de Direito
Privado, não deixam de integrar a Administração Pública, ainda que de
forma indireta. A �m de preencher essa lacuna e regulamentar o disposto no
art. 173, § 1º, CF, foi editada a Lei nº 13.303/2016 (Lei das Estatais), que
dispõe sobre o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de
economia mista e de suas subsidiárias para todos os entes da Federação, ou
seja, União, estados, Distrito Federal e municípios. Trata-se, portanto, de lei
nacional, de observância obrigatória por parte de todos os entes da
Federação, em consonância com o art. 22, I, CF, que estabelece a
competência privativa da União para legislar sobre Direito Civil, que
prepondera na atuação das empresas públicas e sociedades de economia
mista de todos os entes da Federação.
Ao mesmo tempo em que se reconhece uma natureza híbrida das suas
atividades, pública e privada ao mesmo tempo, deve-se também reconhecer
que o exercício de suas atividades é de natureza eminentemente privada e
que deve estar adequado ao regime privado, sob pena de di�cultar o regular
desenvolvimento de suas atividades no ambiente competitivo do mercado
privado em que se encontram. Essa natureza impõe que as empresas
públicas, as sociedades de economia mista e suas subsidiárias tenham que
adotar preponderantemente uma gestão privada, sem descurar dos
princípios basilares da Administração Pública.
Mencione-se, a título de exemplo, a necessidade ou não de as empresas
públicas e as sociedades de economia mista e suas subsidiárias observarem
as regras de licitações e contratos previstas no Estatuto das Licitações e
Contratos. As licitações realizadas por essas entidades sempre geraram
con�itos principalmente no que diz respeito ao controle de competência dos
tribunais de contas, justamente em razão da omissão legislativa. A Lei nº
13.303/2016 veio também atender à regulamentação das licitações e
contratos aplicáveis a essas entidades (arts. 28-84).
Licitações e contratos das empresas estatais mereceram especial
atenção do autor, que dedicou Capítulo especí�co sobre esse tema (XXVI -
licitações e contratos nas empresas estatais), cuja leitura se recomenda.
Empresa pública65 consiste na “entidade dotada de personalidade
jurídica de Direito Privado, com criação autorizada por lei e com
patrimônio próprio, cujo capital social é integralmente detido pela União,
pelos Estados, pelo Distrito Federal ou pelos Municípios” (art. 3º, Lei nº
13.303/2016).
Sociedade de economia mista consiste na “entidade dotada de
personalidade jurídica de Direito Privado, com criação autorizada por lei,
sob a forma de sociedade anônima, cujas ações com direito a voto
pertençam em sua maioria à União, aos Estados, ao Distrito Federal, aos
Municípios ou a entidade da administração indireta” (art. 4º, Lei nº
13.303/2016).
Acerca da composição do capital social da empresa pública e da
sociedade de economia mista, impõem-se as seguintes considerações:
a) o capital social da empresa pública é integralmente pertencente ao
ente da Federação que a criou. É possível a participação de outras pessoas
jurídicas de Direito Público interno, bem como de entidades da
Administração indireta da União, dos estados, do Distrito Federal e dos
municípios no capital da empresa pública, desde que a maioria do capital
votante da empresa permaneça em propriedade do ente da Federação que a
criou;
b) a sociedade de economia mista terá forma de sociedade anônima,
sendo que a maioria das ações com direito a voto devem pertencer à União,
aos estados, ao Distrito Federal, aos municípios ou à entidade da
Administração indireta. Em razão de seu capital envolver ações, o acionista
controlador deverá observar o disposto na Lei nº 6.404/1976. A sociedade de
economia mista com registro na Comissão de Valores Mobiliários também
se sujeita ao disposto na Lei nº 6.385/197666.
O princípio da publicidade também norteará as empresas públicas e
sociedades de economia mista, que deverão observar os seguintes requisitos
de transparência (art. 8º, Lei nº 13.303/2016):
I - elaboração de carta anual, subscrita pelos membros do Conselho de
Administração, com a explicitação dos compromissos de consecução de
objetivos de políticas públicas pela empresa pública, pela sociedade de
economia mista e por suas subsidiárias, em atendimento ao interesse coletivo
ou ao imperativo de segurança nacional que justi�cou a autorização para
suas respectivas criações, com de�nição clara dos recursos a serem
empregados para esse �m, bem como dos impactos econômico-�nanceiros
da consecução desses objetivos, mensuráveis por meio de indicadores
objetivos;
II - adequação de seu estatuto social à autorização legislativa de sua criação;
III - divulgação tempestiva e atualizada de informações relevantes, em
especial as relativas a atividades desenvolvidas, estrutura de controle, fatores
de risco, dados econômico-�nanceiros, comentários dos administradores
sobre o desempenho, políticas e práticas de governança corporativa e
descrição da composição e da remuneração da administração;
IV - elaboração e divulgação de política de divulgação de informações, em
conformidade com a legislação em vigor e com as melhores práticas;
V - elaboração de política de distribuição de dividendos, à luz do interesse
público que justi�cou a criação da empresa pública ou da sociedade de
economia mista;
VI - divulgação, em nota explicativa às demonstrações �nanceiras, dos dados
operacionais e �nanceiros das atividades relacionadas à consecução dos �ns
de interesse coletivo ou de segurança nacional;
VII - elaboração e divulgação da política de transações com partes
relacionadas, em conformidade com os requisitos de competitividade,
conformidade, transparência, equidade e comutatividade, que deverá ser
revista, no mínimo, anualmente e aprovada pelo Conselho de
Administração;
VIII - ampla divulgação, ao público em geral, de carta anual de governança
corporativa, que consolide em um único documento escrito, em linguagem
clara e direta, as informações de que trata o inciso III;
IX - divulgação anual de relatório integrado ou de sustentabilidade.
Além da publicidade que deve reger seus atos, as entidades estatais
observarão regras de i) governança corporativa, ii) transparência e de
estruturas, iii) práticas de gestão de riscos e de controle interno, iv)
composição da administração, v) mecanismos para sua proteção (quando
houver acionistas).
Sem prejuízo do imperativo que fundamenta sua criação (art. 173, CF),
a empresa pública e a sociedade de economia mista deverão elaborar cartaanual em que sejam explicitados os compromissos de realização dos
objetivos das políticas públicas da entidade que as criou.
O fato de as entidades estatais estarem sob o regime de Direito Privado
não as autoriza à prática de atos em discordância com aqueles praticados
por outra empresa do setor privado em que atuam. Entretanto, ainda assim,
a assunção de quaisquer obrigações e responsabilidades que extrapolem essa
atividade econômica deverá observar os seguintes dispositivos, em atenção à
vinculação à lei e ao regulamento que as disciplinam, bem como em
privilégio ao princípio da publicidade (art. 8º, § 2º, Lei nº 13.303/2016):
I - estar claramente de�nidas em lei ou regulamento, bem como previstas em
contrato, convênio ou ajuste celebrado com o ente público competente para
estabelecê-las, observada a ampla publicidade desses instrumentos;
II - ter seu custo e suas receitas discriminados e divulgados de forma
transparente, inclusive no plano contábil.
As empresas públicas e as sociedades de economia mista fazem parte
da Administração Pública indireta, motivo por que suas atuações não
poderão contrariar princípios e orientações basilares do Estado. Nesse
sentido, também deverão observar as boas práticas e os princípios da
atuação administrativa. Sem prejuízo dessa observância, a Lei nº
13.303/2016 estabelece, expressamente, que essas entidades deverão adotar
as seguintes práticas compatíveis com o mercado em que atuam (art. 27, §
2º):
a) sustentabilidade ambiental;
b) responsabilidade social corporativa compatíveis com o mercado em
que atuam.
Essas entidades estatais estarão sempre vinculadas a determinado
Ministério, principalmente no que tange à atividade social inserida na
política pública desse órgão. Para atingimento dessa função social, as
empresas públicas e as sociedades de economia mista poderão celebrar
convênios ou contratos de patrocínio com pessoas físicas ou jurídicas, para
promoção das seguintes atividades67 : culturais, sociais, esportivas,
educacionais e de inovação tecnológica. Nesse sentido, esses ajustes deverão
estar vinculados comprovadamente ao fortalecimento de sua marca,
observando, em qualquer hipótese, as normas de licitação, os dispositivos da
Lei nº 13.303/2016, as normas relativas a convênios e a legislação referente a
patrocínio.
7.8.3 FUNDAÇÕES
As Fundações públicas não estavam contempladas no rol de pessoas
jurídicas que integravam a Administração Pública indireta (art. 4º, I, DL nº
200/1967). Entretanto, com a alteração introduzida por meio da Lei nº
7.596/1987, foram expressamente incluídas na Administração indireta as
fundações públicas, cuja de�nição foi assim estabelecida (art. 5º, IV):
A entidade dotada de personalidade jurídica de Direito Privado, sem �ns
lucrativos, criada em virtude de autorização legislativa, para o
desenvolvimento de atividades que não exijam execução por órgãos ou
entidades de Direito Público, com autonomia administrativa, patrimônio
próprio gerido pelos respectivos órgãos de direção, e funcionamento
custeado por recursos da União e de outras fontes.
Ainda segundo o Decreto-Lei nº 200/1967 (art. 5º, § 3º), a aquisição de
personalidade jurídica das fundações públicas ocorre com a inscrição da
escritura pública de sua constituição no registro civil de pessoas jurídicas,
sem que a elas sejam aplicadas as disposições do Código Civil concernentes
às fundações. Esse dispositivo rati�ca o entendimento da natureza de pessoa
jurídica de Direito Público, mas com apenas a sua inscrição no registro civil
de pessoas jurídicas sob a regência do CC.
O Supremo Tribunal Federal tem diversos precedentes no sentido de
que a fundação terá caráter de pessoa jurídica de Direito Público quando
mantida por recursos orçamentários da União, estados, Distrito Federal ou
municípios, e por eles mantidas68. Além disso, nas palavras constantes do
seguinte excerto da ementa constante da ADI 191, de relatoria da Ministra
Cármen Lúcia:
A distinção entre fundações públicas e privadas decorre da forma como
foram criadas, da opção legal pelo regime jurídico a que se submetem, da
titularidade de poderes e também da natureza dos serviços por elas
prestados.
As fundações públicas com natureza de pessoa jurídica de Direito
Público possuem as mesmas características das autarquias, daí por que haver
menções a fundações autárquicas ou autarquias fundacionais69.
O atual Código Civil, adotado por meio da Lei nº 10.406/2002,
estabelece que as fundações são pessoas jurídicas de Direito Privado (art. 44,
III), além de disciplinar o tema mais especi�camente por meio dos arts. 62-
69.
Em síntese, são características das fundações com personalidade
jurídica de Direito Privado disciplinadas pelo Código Civil:
a) presença de instituidor;
b) criação por escritura pública ou testamento;
c) dotação de bens livres;
d) função social;
e) �ns �lantrópicos.
Essas entidades encontram-se bastante vinculadas ao instituidor, cujas
atribuições especi�cadas no art. 62, do Código Civil, impõem reconhecê-las
para desempenhar uma função social, que é incompatível com a obtenção
de lucros.
Ainda que exista certa polêmica acerca da natureza jurídica das
fundações - pública ou privada -, veri�ca-se a existência de normativos que
mencionam as fundações públicas como integrantes da Administração
indireta, com natureza jurídica de Direito Privado (arts. 4º, II, d, 5º, IV e §
3º, DL 200/1967), além do Código Civil (art. 44, III). Análise em conjunto e
em confronto com as mencionadas normas e o entendimento do Supremo
Tribunal Federal permite concluir que o traço distintivo para de�nir a
natureza jurídica da fundação será i) o instituidor, ii) a natureza dos serviços
prestados e iii) o �nanciamento das atividades por elas desenvolvidas. Caso
a fundação seja instituída por meio de lei para desenvolvimento de
atividades públicas, estar-se-á diante de uma entidade com personalidade
jurídica de Direito Público, a atrair o regime jurídico-administrativo. Se se
tratar de instituidor da fundação por pessoa privada, estar-se-á diante de
entidade com personalidade jurídica de Direito Privado, a ser regida pelo
regime privado.
A de�nição do regime jurídico a que pertence a fundação é importante
para de�nir o regime jurídico que norteará a prática de seus atos, inclusive
no que diz respeito à competência para solução de eventuais lides, por meio
da Justiça Federal ou da Justiça Comum, que envolvam pessoa jurídica de
Direito Público da União ou pessoa jurídica de Direito Privado ou de
Direito Público dos demais entes da Federação, respectivamente. Nesse
sentido, existem fundações de Direito Público e fundações de Direito
Privado.
A criação de fundações com natureza jurídica de Direito Público
ocorrerá por meio de lei especí�ca, com de�nição das áreas de sua atuação
por meio de lei complementar (art. 37, XIX, CF). Deve-se enfatizar a
redação original desse dispositivo nos seguintes termos: “somente por lei
especí�ca poderão ser criadas empresa pública, sociedade de economia
mista, autarquia ou fundação pública”. Entretanto, por meio da Emenda
Constitucional nº 19/1998, esse dispositivo passou a ter a seguinte redação:
“somente por lei especí�ca poderá ser criada autarquia e autorizada a
instituição de empresa pública, de sociedade de economia mista e de
fundação, cabendo à lei complementar, neste último caso, de�nir as áreas de
sua atuação”.
7.8.4 CONSÓRCIOS PÚBLICOS
Consórcios públicos consistem na associação pública ou pessoa
jurídica de Direito Privado, formados exclusivamente por entes da
Federação (União, estados, Distrito Federal e municípios) para realização de
objetivos de interesse comum.
A Lei nº 11.107/2005, alterada por meio da Lei nº 14.662/2023,
regulamenta os consórcios públicos e veio preencher lacuna no que diz
respeito às associações então de fato existentes entre esses entes da
Federação, mas que careciam de disciplina principalmente no que diz
respeito às obrigações, direitos e eventuais danos decorrentes da atuação
dessa associação de fato. Com a criação dos consórciospúblicos
regularmente por meio de lei, foram de�nidos esses contornos, que
proporcionaram segurança jurídica em relação aos atos por eles
desenvolvidos.
Neste item, devem ser incluídos apenas os consórcios públicos como
entes da Administração Pública indireta, pois será destinado um capítulo
especí�co para tratar sobre eles (Capítulo IX).
7.8.5 AGÊNCIAS
Os modelos de Administração Pública evoluíram da patrimonialista,
com passagem pela burocrática até chegar à gerencial. A adoção de agências
pelo Estado está em consonância com Administração Pública gerencial
(vide item 7.2.3 desta obra).
A prestação dos serviços públicos, aqui entendidos como aqueles
referentes à saúde, segurança pública, infraestrutura, dentre outros, compete
precipuamente ao Poder Executivo, que deverá organizar estrutura
destinada ao atingimento de suas atribuições.
A Lei nº 9.649/1998, que dispõe sobre a organização da Presidência da
República e dos ministérios, além de disciplinar outras providências,
estabelece a competência do Poder Executivo, por meio de ato do Presidente
da República (Decreto), para quali�car como agência executiva a autarquia
ou a fundação que tenha cumprido os seguintes requisitos (art. 51):
I - ter um plano estratégico de reestruturação e de desenvolvimento
institucional em andamento;
II - ter celebrado Contrato de Gestão com o respectivo Ministério
supervisor.
Acerca da origem das agências, deve-se colacionar doutrina de José dos
Santos Carvalho Filho, nos seguintes termos70:
Referidas agências encontram sua origem no regime norte-americano, que
há muito contempla as �guras das “independent agencies” e “independent
regulatory agencies”, destinadas à regulação econômica ou social. Outros
sistemas, como os da Inglaterra, Espanha e Argentina, também têm dado
ensejo à criação dessas entidades. Na França, foram criadas, a partir do
processo de descentralização de 1978, as “ autoridades administrativas
independentes” (“AAI - autorités administratives indépendantes”), que,
embora com idêntico objetivo que as agências, não tiveram sua natureza
jurídica muito bem delineadas pelo legislador.
Em razão da evolução do modelo de Administração Pública, veri�ca-se
a criação de uma entidade com atribuição de controlar entidades privadas
que tenham a incumbência de prestar serviços públicos e também a criação
de uma entidade para a efetiva prestação de atividades tipicamente
conferidas ao Estado. Tem-se, então, a criação das agências reguladoras e
agências executivas, respectivamente.
7.8.5.1 Agências reguladoras
O Estado deve prestar os serviços que lhe competem constitucional e
legalmente. Entretanto, devem ser distinguidas as atividades tipicamente de
Estado e aquelas que podem ser regularmente desenvolvidas com auxílio do
particular. As agências reguladoras encontram-se nestas atribuições que
podem ser prestadas por particulares. Por se tratar de uma atividade de
interesse público, as agências integram a Administração Pública indireta.
Sem desconsiderar a existência de entidades que, embora não tenham
sido denominadas como agência, desenvolviam atividades tipicamente
atribuídas às agências reguladoras em sua concepção contemporânea
(Instituto Nacional do Mate - 1938, Instituto de Defesa Permanente do Café
- 1923), a criação de agências ganhou força por meio da Lei nº 9.491/1997,
que alterou os procedimentos relativos ao Programa Nacional de
Desestatização, já criado por meio da Lei nº 8.031/1990, expressamente
revogada por aquele diploma.
A essência do Programa Nacional de Desestatização consiste em um
Estado mais e�ciente na prestação dos serviços públicos sob sua
competência, em que se privilegiem menor dispêndio de recursos
(humanos, materiais e �nanceiros), maior e�ciência nos serviços prestados
com crescimento e fortalecimento sustentável, que podem ser atingidos por
meio dos objetivos fundamentais discriminados no art. 1º, da Lei nº
9.491/1997, in verbis:
I - reordenar a posição estratégica do Estado na economia, transferindo à
iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público;
II - contribuir para a reestruturação econômica do setor público,
especialmente através da melhoria do per�l e da redução da dívida pública
líquida;
III - permitir a retomada de investimentos nas empresas e atividades que
vierem a ser transferidas à iniciativa privada;
IV - contribuir para a reestruturação econômica do setor privado,
especialmente para a modernização da infraestrutura e do parque industrial
do País, ampliando sua competitividade e reforçando a capacidade
empresarial nos diversos setores da economia, inclusive através da concessão
de crédito;
V - permitir que a Administração Pública concentre seus esforços nas
atividades em que a presença do Estado seja fundamental para a consecução
das prioridades nacionais;
VI - contribuir para o fortalecimento do mercado de capitais, através do
acréscimo da oferta de valores mobiliários e da democratização da
propriedade do capital das empresas que integrarem o Programa.
A desestatização do Estado para prestação de serviços que não sejam
considerados como típicos de suas atribuições passa pela necessidade da
criação de entidades com função regulatória e �scalizatória, conforme
expressamente consagrado na Constituição Federal, por meio de seu art. 21,
inciso XI, com redação dada pela Emenda Constitucional nº 8/1995, in
verbis: “explorar, diretamente ou mediante autorização, concessão ou
permissão, os serviços de telecomunicações, nos termos da lei, que disporá
sobre a organização dos serviços, a criação de um órgão regulador e outros
aspectos institucionais”.
Em essência com esse Estado mínimo em que lhe �cam reservadas as
atividades típicas de suas atribuições, torna-se mais exequível para a
Administração Pública direta o controle de apenas um órgão que
regulamente e �scalize a prática de determinadas atividades públicas
prestadas por particulares. A criação das agências reguladoras vai nesse
mesmo sentido.
Mesmo que haja uma vinculação funcional entre agência e
determinado Ministério em razão da atividade que os vincula, a agência
deve ter autonomia para desenvolver as atividades que lhe foram conferidas
por meio de lei, tanto em relação aos �scalizados, quanto em relação ao
órgão instituidor. A imposição de vínculo hierárquico poderia gerar
promiscuidade na relação entre Ministério e agência ou entre esta e os
�scalizados, o que descaracterizaria a essência dessas entidades. Sobre essa
relação entre agência e órgão criador, deve-se trazer doutrina de José dos
Santos Carvalho Filho, nos seguintes termos71:
A propósito, a relação entre agência reguladora e as entidades privadas sobre
o seu controle tem gerado estudos e decisões quanto à necessidade de afastar
indevidas in�uências destas últimas sobre a atuação da primeira, de modo a
bene�ciar-se as empresas em desfavor dos usuários do serviço. É o que a
moderna doutrina denomina de teoria da captura (“capture theory”, na
doutrina americana), pela qual se busca impedir uma vinculação promíscua
entre agência, de um lado, e o governo instituidor ou os entes regulados de
outro, com �agrante comprometimento da independência da pessoa
controladora.
A criação das agências deve ocorrer por meio de lei especí�ca, quando
devem ser expressamente de�nidas suas atribuições, organização, bem como
sua função controladora, conforme se depreende do disposto no art. 37,
XIX, CF. A mesma exigência legal para criação das agências estende-se aos
estados, Distrito Federal e municípios, em razão desse comando
constitucional que deve ser reproduzido nas respectivas constituições
estaduais ou leis orgânicas, por se tratar de poder constituinte decorrente.
A título de exemplo, podem ser mencionadas as seguintes leis que
criaram as respectivas agências: 9.782/1999 (Agência Nacional de Vigilância
Sanitária - Anvisa), 9.472/1997 (Agência Nacional de Telecomunicações -
Anatel), 9.427/1996 (Agência Nacional de Energia Elétrica - Aneel),
9.478/1997 (Agência Nacional do Petróleo - ANP), 10.233/2001 (Agência
Nacionalde Transportes Terrestres - ANTT e Agência Nacional de
Transportes Aquaviários - Antaq).
O regime jurídico dos servidores públicos integrantes das agências
federais, haja vista sua natureza autárquica, está disciplinado por meio da
Lei nº 8.112/1990, que consiste no regime jurídico dos servidores públicos
civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais. Nos
âmbitos estaduais, distrital e municipais, os agentes públicos integrantes das
respectivas agências serão regidos pelas normas dos entes da Federação que
a criarem.
7.8.5.2 Agências executivas
As agências executivas, que também possuem natureza jurídica de
autarquia, diversamente do que ocorre com as agências reguladoras que
possuem atribuição de regulação e de �scalização, têm a �nalidade precípua
de executar, prestar os serviços objeto da descentralização administrativa.
Trata-se, portanto, de uma entidade operacional, criada com o objetivo
precípuo de prestar um serviço público.
A criação, o regime jurídico dos servidores, a autonomia e a vinculação
funcional das agência executivas devem seguir a mesma natureza das
agências reguladoras.
A possibilidade de criação de agência executiva está expressamente
consagrada no art. 51, da Lei nº 9.649/1998, que versa sobre a organização
da Presidência da República e dos Ministérios. Segundo esse dispositivo,
exigem-se os seguintes requisitos para quali�cação como agência executiva
da autarquia ou fundação, a ser realizada por meio de ato do Presidente da
República (Decreto):
I - ter um plano estratégico de reestruturação e de desenvolvimento
institucional em andamento;
II - ter celebrado Contrato de Gestão com o respectivo Ministério
supervisor.
Pode-se mencionar, como exemplo de agência executiva, o Instituto
Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia - INMETRO, autarquia
federal criada por meio da Lei nº 5.966/1973, vinculada ao Ministério da
Economia, com as atribuições atuais de�nidas por meio do art. 1º, do Anexo
I, do Decreto nº 11.221/2022.
7.8.6 HIERARQUIA ADMINISTRATIVA
A Administração Pública possui prerrogativa de estabelecer os órgãos e
as entidades que prestarão atividades sob sua responsabilidade, a �m de
contemplar os níveis de competência das entidades e dos órgãos que a
integram. Nesse sentido, hierarquia administrativa deve ser compreendida
como a atribuição da Administração Pública para estabelecer os níveis de
competências entre seus órgãos e entidades, decorrente do poder
hierárquico de que dispõe.
Não se pode dizer, por exemplo, que existe hierarquia entre a União, os
estados o Distrito Federal e os municípios, pois todos esses entes da
Federação possuem autonomia para auto-organizarem-se. Entretanto, no
que tange à esfera legislativa, existem competências legislativas privativas da
União, que poderão ser complementadas por meio de legislações estaduais,
mas que não poderão contrariar norma federal. Em havendo disciplina de
determinado assunto por meio de lei federal naquelas competências
privativas da União, afasta-se a superveniência de legislação estadual que
verse sobre o mesmo assunto que a contrariar. Isso não signi�ca que todas as
leis estaduais, distritais ou municipais devem subordinar-se à legislação
federal, mas tão-somente nos temas constantes da Constituição Federal, a
teor, por exemplo, de seu art. 22, sem prejuízo da possibilidade jurídica de
lei complementar da União autorizar estados a legislarem sobre questões
especí�cas de matéria de competência privativa da União mencionadas
nesse dispositivo. Isso também não afasta a competência comum entre a
União, os estados, o Distrito Federal e os municípios, nos temas de�nidos na
Constituição (art. 23), além da competência concorrente para União,
estados e Distrito Federal legislarem concorrentemente nos temas
igualmente especi�cados no Texto Constitucional (art. 24). Acerca dessa
competência concorrente, devem ser mencionadas as seguintes
características (art. 24, §§ 1º, 2º, 3º e 4º):
a) a competência da União limitar-se-á a estabelecer apenas normas
gerais;
b) essa competência para estabelecer normas gerais não afasta a
competência suplementar dos estados;
c) em face da inexistência de norma geral federal, os estados exercerão
a competência legislativa plena;
d) em havendo lei federal sobre normas gerais, deve-se suspender a
e�cácia de legislação estadual naquilo que for contrário à norma federal.
Não se devem confundir soberania e autonomia. Soberania é exclusiva
da República Federativa do Brasil (art. 1º, CF). Autonomia consiste na
prerrogativa de todos os entes da Federação de auto-organizarem-se.
A Hierarquia administrativa privilegia os princípios fundamentais da
Administração Pública já mencionados no item 7.4 deste Capítulo, quais
sejam:
a) planejamento;
b) coordenação;
c) descentralização;
d) delegação de competência;
e) controle.
Administração direta tem o exercício de suas atividades públicas
também pautado pela hierarquia administrativa. Nesse sentido, os
ministérios e seus órgãos possuem uma linha condutora hierárquica até o
titular do Poder Executivo.
Já na Administração indireta não se veri�ca a hierarquia existente na
direta, pois ainda que exista vinculação funcional da entidade criada a um
Ministério, não se pode dizer que existe vínculo hierárquico entre eles, sem
prejuízo do controle �nalístico das atividades da entidade criada.
Não se veri�ca hierarquia administrativa ou funcional entre os Poderes
do Estado: Executivo, Legislativo e Judiciário. A tripartição de poderes
consagrada em Montesquieu de�ne as atribuições de cada um, sem prejuízo
do sistema de freios e contrapesos - checks and balances -, inerente à
tripartite distribuição das funções da Administração Pública em suas
atividades típicas, em que um Poder controla o outro de acordo com as
competências �xadas na Constituição Federal. Esse sistema de freios e
contrapesos, em hipótese alguma, confunde-se com qualquer espécie de
hierarquia entre os Poderes da República. Contudo, ao Poder Judiciário
compete dizer o direito aplicável às lides que lhe são submetidas, com efeito
vinculante inter partes ou erga omnes, conforme o caso, do qual o Executivo
e o Legislativo não podem negar cumprimento, salvo em decorrência do
emprego dos remédios processuais junto ao próprio Judiciário.
46 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Coimbra: Livraria
Almedina, 3ª ed., 1999, p. 604.
47 GASPARINI, Diogenes. Direito Administrativo. São Paulo: Saraiva, 10ª ed., 2005, p. 44.
48 MATIAS-PEREIRA, José. Curso de Administração Pública: Foco nas Instituições e Ações
Governamentais. São Paulo: Atlas, 4ª ed., 2014, p. 126,
49 Acerca da soberania, deve-se colacionar lapidar doutrina de Canotilho, nos seguintes termos: (...)
Em primeiro lugar, a qualidade de poder soberano. A soberania, em termos gerais e no sentido
moderno, traduz-se num poder supremo no plano interno e num poder independente no plano
internacional. Se articularmos a dimensão constitucional interna com a dimensão internacional do
Estado, poderemos recortar os elementos constitutivos deste: (1) poder político de comando; (2) que
tem como destinatários os cidadãos nacionais (povo = sujeitos do soberano e destinatários da
soberania); (3) reunidos num determinado território. A soberania no plano interno (soberania
interna) traduzir-se-ia no monopólio de edição do direito positivo pelo Estado e no monopólio da
coação física legítima para impor a efectividade das suas regulações e dos seus comandos. Nesse
contexto se a�rma também o caráter originário da soberania, pois o Estado não precisa de recolher
o fundamento das suas normas noutras normas jurídicas. A soberania internacional (termo que
muitos internacionalista se afastam preferindo o conceito de independência) é, por natureza,
relativa (existe sempre o alter ego soberano de outro Estado), mas signi�ca, ainda assim, a igualdade
soberana dos Estados que não reconhecem qualquer poder superior acima deles (superiorem non
recognoscem). (Grifos constantes do original) (CANOTILHO,J. J. Gomes. Direito Constitucional e
Teoria da Constituição. Coimbra: Livraria Almedina, 3ª ed., 1999, pp. 85-86.)
50 Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios
e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos (...).
(Grifou-se.)
51 Embora a doutrina majoritária contemple Estado com três elementos fundamentais (governo
soberano, povo e território), José Afonso da Silva acrescenta a esses três elementos um quarto, qual
seja: �nalidade. Nesse sentido, ainda que não seja a linha adotada por este autor, deve-se trazer
doutrina desse eminente Constitucionalista, em razão do compromisso acadêmico e doutrinário do
autor, in verbis:
Estado é, na justa de�nição de Balladore Pallieri, uma ordenação que tem por �m especí�co e
essencial a regulação global das relações sociais entre os membros de uma dada população sobre
um território, na qual a palavra ordenação expressa ideia de poder soberano, institucionalizado. O
Estado, como se nota, constitui-se de quatro elementos essenciais: um poder soberano de um povo
situado num território com certas finalidades. E a constituição, como dissemos antes, é o conjunto
de normas que organizam estes elementos constitutivo do Estado: povo, território, poder e fins.
(SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Malheiros Editores
Ltda., 38ª ed., 2015, pp. 99-100). (Grifos constante do original)
52 MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. São
Paulo: Saraiva, 9ª ed., 2014, p. 806.
53 Acerca do Estado de Direito, deve-se trazer ensinamento de Canotilho em que atribui quatro
dimensões a e Rule of Law: A interpretação do sentido da fórmula e Rule of Law foi variando,
mas é possível assinalar-lhe quatro dimensões básicas. e Rule of Law signi�ca, em primeiro lugar,
na sequência da Magna Charta de 1215, a obrigatoriedade da observância de um processo justo
legalmente regulado, quando se tiver de julgar e punir os cidadãos, privando-os da sua liberdade e
propriedade. Em segundo lugar, Rule of Law signi�ca a proeminência das leis e costumes do "país"
perante a discricionariedade do poder real. Em terceiro lugar, Rule of Law aponta para a sujeição de
todos os actos do executivo à soberania do parlamento. Por �m, Rule of Law terá o sentido de
igualdade de acesso aos tribunais por parte dos cidadãos, a �m de estes aí defenderem os seus
direitos segundo os princípios de direito comum dos ingleses (Common Law) e perante qualquer
entidade (indivíduos ou poderes públicos). (Grifos constantes do original e acréscimos, mantida a
redação original). (CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição.
Coimbra: Livraria Almedina, 3ª ed., 1999, pp. 89-90.)
54 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros Editores, 27ª ed.,
2002, p. 63.
55 A Lei nº 9.784/1999 (art. 1º, § 2º, II) assim de�ne órgão: “a unidade de atuação integrante da
estrutura da Administração direta e da estrutura da Administração indireta”.
56 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros Editores, 27ª ed.,
2002, p. 66.
57 GASPARINI, Diogenes. Direito Administrativo. São Paulo: Saraiva, 10ª ed., 2005, p. 46.
58 Nesse sentido, Maria Sylvia Zanella (DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. São
Paulo: Editora Atlas, 30ª ed., 2017, p. 674), Diogenes Gasparini (GASPARINI, Diogenes. Direito
Administrativo. São Paulo: Saraiva, 10ª ed., 2005, p. 47).
59 As alíneas “a” a “h” integram a Presidência da República. As alíneas “i” a “o" são órgãos de
assessoramento ao Presidente da República. As alíneas “p’ e ‘q" são órgãos consultivos do Presidente
da República.
60 Embora já tenham sido especi�cadas as características inerentes às entidades integrantes da
Administração indireta, pedem-se as vênias antecipadamente, em razão de as repetir na análise de
cada uma que será feita a seguir, pois essa repetição visa favorecer a leitura e a metodologia
adotadas no desenvolvimento desses temas.
61 Os consórcios públicos poderão adquirir personalidade jurídica de direito público ou de direito
privado, conforme o respectivo contrato de consórcio público. Entretanto, apenas o consórcio
público com personalidade jurídica de direito público integra a administração indireta de todos os
entes da Federação consorciados. Nesse sentido, enfatize-se, os consórcios públicos com
personalidade jurídica de direito privado não integram a administração indireta.
62 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. São Paulo: Editora Atlas, 30ª ed., 2017,
p. 536.
63 O Decreto-Lei nº 6.016/1943 "dispõe sobre a imunidade dos bens, rendas e serviços das autarquias
e dá outras providências”.
64 A título de exemplo, pode-se mencionar a criação do Banco Central do Brasil por meio da Lei nº
4.595/1964 (em sua redação original era Banco Central da República do Brasil), que lhe atribuiu
natureza jurídica de autarquia federal, nos mesmos moldes concebidos pela atual Constituição
Federal e também pelo Decreto-Lei nº 200/1967.
65 Mencione-se, a título de exemplo, a Caixa Econômica Federal, empresa pública criada por meio do
Decreto-Lei nº 759/1969, vinculada ao Ministério da Fazenda.
66 A Lei nº 6.385/1976 “dispõe sobre o mercado de valores mobiliários e cria a Comissão de Valores
Mobiliários”.
67 Trata-se, pois, de rol meramente exempli�cativo, uma vez que toda e qualquer atividade que se
encontre albergada por uma dessas espécies poderá ser objeto de convênio ou contrato de
patrocínio com vistas ao fortalecimento da marca da empresa pública, da sociedade de economia
mista ou de suas subsidiárias.
68 Nesse sentido, RE 215741, Relator Ministro Maurício Corrêa; ADI 191, Relatora Ministra Cármen
Lúcia; MS 32703 AgR, Relator Ministro Dias Toffoli; CJ 6728, Relator Ministro Carlos Madeira.
69 Nesse sentido, RE 183188, Relator Ministro Celso de Mello.
70 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Editora
Lumen Juris, 23ª ed. 2010, p. 530.
71 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Editora
Lumen Juris, 23ª ed. 2010, p. 532.
VIII - ENTIDADES PARAESTATAIS -
TERCEIRO SETOR
8.1 CONCEITO E INTRODUÇÃO
A Administração Pública, em suas atribuições não caracterizadas como
típicas de Estado, pode valer-se de entidades privadas sem qualquer vínculo
com o Estado para prestarem atividades de natureza pública. Essas
entidades, mesmo sem integrar a Administração Pública, prestam serviços
em diversos ramos de interesse público.
A partir da reforma administrativa, principalmente com o objetivo de
haver uma Administração Pública mais e�ciente e tempestiva na prestação
dos serviços sob sua responsabilidade não caracterizados como típicos de
Estado, cuja presença do Poder Público é indispensável, veri�cou-se
estímulo à participação de entidades paraestatais, integrantes do terceiro
setor, que não integram a Administração Pública, ou seja, trata-se de
entidades privadas sem �ns lucrativos, para prestação de serviços de
interesse da coletividade não exclusivos do Estado. Para execução desses
serviços, pode haver, inclusive, transferência de recursos e bens públicos por
parte do Poder Público competente.
A possibilidade jurídica de conferir a entidades privadas sem �ns
lucrativos a prestação de serviços não exclusivos do Estado, mas de interesse
coletivo da sociedade, deve estar amparada em lei. Diversos são os diplomas
aplicáveis à espécie. Entretanto, dois devem ser destacados na atividade
desenvolvida pelas entidades paraestatais:
a) Lei nº 9.790/1999, que trata da quali�cação de pessoas jurídicas de
Direito Privado, sem �ns lucrativos, como Organizações da Sociedade Civil
de Interesse Público;
b) Lei nº 13.019/2014, que estabelece o regime jurídico das parcerias
entre a Administração Pública e as organizações da sociedade civil, em
regime de mútua cooperação, para a consecução de �nalidades de interessepúblico e recíproco.
Deve-se enfatizar que a Lei nº 13.019/2014 consiste na Lei Geral das
Organizações da Sociedade Civil. Nesse sentido, sempre que houver lei
especí�ca a reger determinada classe ou entidade paraestatal, esta deve ser
aplicada em detrimento da lei geral, sem prejuízo de eventual aplicação
subsidiária, conforme o caso. Tão-somente a título de exemplo da aplicação
da lei geral em detrimento da norma geral, a Lei nº 13.019/2014 quali�ca
como organização da sociedade civil as sociedades cooperativas. Entretanto,
a Lei nº 9.790/1999, que trata sobre a quali�cação das pessoas jurídicas de
Direito Privado sem �ns lucrativos como Organizações da Sociedade Civil
de Interesse Público, é taxativa ao proibir a quali�cação como OSCIP das
cooperativas. Aplica-se, portanto, o brocardo jurídico lex specialis derogat
lex generali.
A palavra “paraestatais”, morfologicamente, é composta pelo pre�xo
grego “para”, que signi�ca ao lado, junto de, mais a palavra “estatal”, do latim
status, que signi�ca Estado. A partir dessa análise morfológica, entidades
paraestatais consistem em entidades privadas, sem �ns lucrativos, que
prestam serviços de interesse público ou coletivo. Hely Lopes Meirelles
assim conceitua entidades paraestatais72: “são pessoas jurídicas de Direito
Privado que, por lei, são autorizadas a prestar serviços ou realizar atividades
de interesse coletivo ou público, mas não exclusivos do Estado”.
Entidades paraestatais também são denominadas por alguns autores
como entidades de cooperação73 ou terceiro setor, cujas características são
as mesmas, porém terminologicamente distintas.
O traço caracterizador das entidades paraestatais, ou do terceiro setor,
conforme expressamente constante da Lei nº 13.019/2014, consiste no
regime de mútua cooperação, para a realização de �nalidades de interesse
público e recíproco.
Quando se fala em regime de mútua cooperação, deve-se ter em
mente a atuação de pessoa jurídica sem �ns lucrativos na consecução do
serviço objeto do reconhecimento da entidade como integrante desse
terceiro setor ou entidade paraestatal. Na hipótese, ainda que transversa, de
celebração de termos de cooperação, termos de fomento ou acordos de
cooperação em que se evidencie a contraprestação de serviços mediante
pagamento, restará descaracterizada a essência da parceria a ser estabelecida
entre Poder Público e entidade paraestatal, pois, se assim ocorrer, deverá ser
celebrado contrato, cuja natureza jurídica é bem distinta dos institutos
�rmados pelas entidades paraestatais para execução de serviços de interesse
coletivo não integrantes das atividades típicas de Estado.
A �nalidade dos ajustes celebrados deve ser sempre a realização de
serviço de interesse público e recíproco, ou seja, entre partícipes que tenham
entre as suas �nalidades a prestação do respectivo serviço. Esse é um dos
fundamentos pelos quais se exige a previsão no estatuto da entidade privada
da prestação dos serviços objeto da parceria que se pretende realizar.
São exemplos de entidades paraestatais:
a) serviços sociais autônomos;
b) organizações da sociedade civil;
c) organizações da sociedade civil de interesse público;
d) fundações ou entidades de apoio.
Ô
8.2 SERVIÇOS SOCIAIS AUTÔNOMOS
Serviços sociais autônomos, também conhecidos como “Sistema S”,
são entidades com personalidade jurídica de Direito Privado, instituídos por
lei, sem �ns lucrativos, com a �nalidade de prestar assistência, ensino,
desenvolvimento cientí�co ou tecnológico, mantidos por contribuições
para�scais.
Mencionem-se, a título de exemplo de serviços sociais autônomos, as
seguintes entidades: Agência de Promoção de Exportações do Brasil - Apex-
Brasil; Serviço Social da Indústria - SESI; Serviço Social do Comércio -
SESC; Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - SEBRAE;
Serviço Social de Transporte - SEST; Serviço Nacional de Aprendizagem
Rural - SENAR; Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial - SENAC.
A criação dos serviços sociais autônomos depende de autorização
legislativa (art. 37, XIX, CF)74, mesmo que não integrem a Administração
Pública indireta. Embora a criação dos serviços sociais autônomos dependa
de lei, a personalidade jurídica somente terá início com a inscrição do seu
estatuto no competente registro civil de pessoas jurídicas, nos exatos termos
do art. 45, do Código Civil, que versa sobre a existência legal das pessoas
jurídicas de Direito Privado.
Os estatutos dos serviços sociais autônomos deverão ter os contornos
iniciais de�nidos pela lei que autorizou a respectiva criação, onde devem
estar presentes, pelo menos, os departamentos ou diretorias organizacionais,
as atribuições, as fontes dos recursos e regras de prestação de contas.
A natureza jurídica dos serviços sociais autônomos consiste em pessoa
jurídica de Direito Privado, não integrantes da Administração Pública,
direta ou indireta, mas como pessoa jurídica que colabora em atividades de
interesse coletivo não exclusivas do Estado. É justamente essa atribuição de
atividades de interesse coletivo, porém não exclusivas da Administração
Pública, que lhes confere o título de entidades paraestatais em colaboração
com o Poder Público.
As atividades desenvolvidas pelos serviços sociais autônomos possuem
relevante interesse coletivo, daí a sua natureza paraestatal. O interesse
coletivo e a natureza paraestatal dessas entidades são traços distintivos entre
as suas atuações e a atividade empresarial. Esta visa ao lucro; aquela, à
prestação de serviços de interesse coletivo. É nesse sentido que se pode
a�rmar que os serviços sociais autônomos são entidades que cooperam com
Administração Pública e, por isso, caracterizam-se como entidades sem �ns
lucrativos. Não se desconhece que sua atuação deve estar compreendida nos
limites dos recursos compulsoriamente recolhidos das pessoas vinculadas
aos respectivos serviços sociais autônomos. Ao �nal da apuração do
exercício �nanceiro, eventuais excedentes de recursos não deverão ser
compreendidos como lucro, pois este está atrelado à atividade empresarial,
mas sim a superávit, que deve destinar-se à própria entidade com o objetivo
de aperfeiçoar ou mesmo estender suas atividades de interesse coletivo.
Para o regular desenvolvimento das atividades constantes da lei que
autoriza a criação, bem como das atribuições previstas nos respectivos
estatutos, os serviços sociais autônomos têm como fonte de recursos a
cobrança de contribuição dos empregadores e dos empregados vinculados
ao respectivo serviço social autônomo. Essa arrecadação é compulsória,
derivada de mandamento legal, daí por que dizer que a fonte que custeia o
“Sistema S” consiste em recurso de natureza para�scal. A natureza
compulsória e para�scal da arrecadação destinada a esses serviços decorre,
inclusive, de mandamento constitucional, nos termos de seu art. 240, cujo
verbete se reproduz: “Ficam ressalvadas do disposto no art. 195 as atuais
contribuições compulsórias dos empregadores sobre a folha de salários,
destinadas às entidades privadas de serviço social e de formação pro�ssional
vinculadas ao sistema sindical”. A natureza para�scal de suas arrecadações
possui, portanto, assento na Constituição Federal. É essa natureza para�scal
de sua arrecadação, ou seja, de natureza compulsória para as pessoas
vinculadas aos respectivos serviços sociais autônomos, que lhes impõe uma
natureza de gestão híbrida. Explica-se. Embora sejam entidades de natureza
jurídica de Direito Privado, estão sujeitas, pelo menos, à observância dos
princípios gerais que norteiam a Administração Pública, especialmente no
que diz respeito à prestação de contas, licitações e contratos e contratação de
pessoal.
Aplica-se aos serviços sociais autônomos o regime jurídico de Direito
Privado, uma vez que não integram a Administração Pública. Entretanto,
deve-se reconhecer um regime híbrido, ou seja, privado, mas com
características principiológicas no que diz respeito à realização de licitações,
prestação de contas, seleção e contratação de pessoal e tributária,como se
verá adiante.
A natureza de pessoa jurídica de Direito Privado dos serviços sociais
autônomos, integrantes do denominado “Sistema S”, já foi reconhecida pelo
Supremo Tribunal Federal e também pelo Tribunal de Contas da União,
conforme excerto do voto condutor do Acórdão nº 431/2020-Plenário, de
relatoria do Ministro Benjamin Zymler, publicado in Ata nº 6/2020, nos
seguintes termos:
Nos autos do TC-Processo 015.406/2009-6, no qual se apreciou incidente de
uniformização de jurisprudência suscitado pelo Ministério Público junto a
esta Corte de Contas, relativamente à necessidade de se exigir das unidades
do Sistema “S” a comprovação da regularidade com o sistema da seguridade
social, à luz do disposto no art. 195, § 3º, da CF/1988, tive a oportunidade de
registrar que o Supremo Tribunal Federal, em processo de repercussão geral,
decidiu que “os serviços sociais autônomos integrantes do denominado Sistema
“S”, vinculados a entidades patronais de grau superior e patrocinados
basicamente por recursos recolhidos do próprio setor produtivo beneficiado,
ostentam natureza de pessoa jurídica de Direito Privado e não integram a
Administração Pública, embora colaborem com ela na execução de atividades
de relevante significado social. Tanto a Constituição Federal de 1988, como a
correspondente legislação de regência (como a Lei 8.706/93, que criou o
Serviço Social do Trabalho - SEST) asseguram autonomia administrativa a
essas entidades, sujeitas, formalmente, apenas ao controle finalístico, pelo
Tribunal de Contas, da aplicação dos recursos recebidos (...) (RE nº
789.874/DF, Relator Ministro Teori Zavascki, DJe 19/11/2014 - grifou-se).
A natureza para�scal da fonte dos recursos dos serviços sociais
autônomos possui alguns desdobramentos, como, por exemplo, licitações,
prestações de contas ao TCU e contratação de pessoal, conforme se verá em
seguida.
O Estatuto das Licitações e Contratos aplica-se às Administrações
Públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, dos estados, do
Distrito Federal e dos municípios e abrange os órgãos dos Poderes
Legislativo e Judiciário da União, dos Estados e do Distrito Federal e os
órgãos do Poder Legislativo dos Municípios, quando no desempenho de
função administrativa, os fundos especiais e as demais entidades controladas
direta ou indiretamente pela Administração Pública. Ora, o art. 1º, da Lei nº
14.133/2021 elenca as pessoas sujeitas a esse diploma federal, nos seguintes
termos: “Esta Lei estabelece normas gerais de licitação e contratação para as
Administrações Públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios”. As pessoas jurídicas de
Direito Privado não estão sujeitas stricto sensu a esse diploma.
Embora as entidades integrantes do “Sistema S” não estejam vinculadas
aos estritos mandamentos o Estatuto das Licitações e Contratos, o STF e o
TCU possuem entendimento de que devem editar normativo próprio sobre
licitações e contratos, com a observância dos princípios que regem licitações
e contratos no âmbito da Administração Pública75, haja vista a natureza
para�scal de sua arrecadação.
Acerca das licitações e contratos aplicáveis aos serviços sociais
autônomos, deve-se enfatizar que, em razão de não integrarem a
Administração Pública, direta ou indireta, não estão sujeitos ao estrito
cumprimento do Estatuto das Licitações e Contratos, disciplinado por meio
da Lei nº 14.133/2021. Entretanto, essas entidades deverão observar os
princípios gerais contidos nesse Estatuto, bem como regulamento próprio de
licitações e contratos que não contrariem esses princípios básicos das
licitações e contratos, em razão da natureza dos recursos por eles
arrecadados.
Embora os serviços sociais autônomos não estejam vinculados aos
estritos dispositivos do Estatuto das Licitações e Contratos, o Tribunal de
Contas da União possui precedente no sentido de se sujeitarem ao disposto
no art. 170, § 4º, da Lei nº 14.133 /2021, o qual estabelece que “qualquer
licitante, contratado ou pessoa física ou jurídica poderá representar junto
aos órgãos de controle interno ou ao tribunal de contas competente contra
irregularidades na aplicação desta Lei”. O entendimento do Tribunal de
Contas da União privilegia o controle incidente nos processos de licitação e
contratos realizados por essas entidades.
Essa possibilidade de representação deve ocorrer em face do
regulamento próprio de licitações e contratos adotado pelos serviços sociais
autônomos e não em face dos dispositivos do Estatuto das Licitações e
Contratos. Há, dessa forma, reconhecimento da Corte de Contas Federal da
autonomia administrativa dessas entidades para disporem sobre seus
respectivos regulamentos de licitações e contratos. É esse regulamento que
vincula a realização de licitações e contratos dos serviços sociais autônomos,
motivo por que eventual representação, amparada no art. 170, § 4º, da Lei nº
14.133/2021, deve fundamentar-se em impropriedade ou irregularidade
praticada com violação ao respectivo regulamento.
A prestação de contas dos recursos gerenciados pelos serviços sociais
autônomos deve ocorrer perante o Tribunal de Contas da União, em razão
da natureza para�scal dos recursos por eles arrecadados.
Os empregados integrantes do quadro de pessoal dos serviços sociais
autônomos são regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho - CLT
(Decreto-Lei nº 5.452/1943). Não se lhes pode atribuir a natureza de
servidores públicos, nos estritos entendimentos constantes da Lei nº
8.112/1990 e na Constituição Federal. Entretanto, seleção e contratação de
pessoal devem ocorrer por meio de processo seletivo, em que sejam
evidenciados os princípios basilares do processo de seleção dos servidores
públicos, principalmente os da impessoalidade e da publicidade. Não se está
a falar que deverá ser realizado concurso público nos moldes constantes na
Lei nº 8.112/1990 ou na forma preconizada no art. 37, II, III e demais
dispositivos constitucionais aplicáveis à forma de provimento de cargos e
empregos públicos, mas a princípios que evidenciem, pelo menos,
impessoalidade, publicidade e requisitos objetivos de�nidos previamente à
realização do processo seletivo.
Acerca das licitações e contratos, prestação de contas e contratação de
pessoal dos serviços sociais autônomos, deve-se colacionar excerto do voto
condutor do Acórdão nº 431/2020-Plenário, de relatoria do Ministro
Benjamin Zymler, publicado in Ata nº 6/2020, em que são rea�rmados esses
pressupostos que envolvem essas entidades, nos seguintes termos76:
7. Mais recentemente, a jurisprudência deste Tribunal foi rea�rmada no
sentido de que as entidades do Sistema “S” se sujeitam ao controle desta
Corte de Contas, pois arrecadam e administram recursos públicos de
natureza tributária, advindos de contribuições para�scais e destinados
precipuamente ao atendimento do interesse público; entretanto, não se lhes
pode exigir a observância integral das disposições aplicáveis à Administração
Pública, tais como as relativas a licitações, contratos, convênios e até mesmo
as de seleção e contração de pessoal, mas o respeito às regras e aos princípios
gerais que envolvem tais institutos (cf. Acórdão 2165/2014-TCU-Plenário,
2.660/2014-Plenário e 2.079/2015-Plenário). (Grifou-se.)
O foro competente para solucionar as lides que envolvam os serviços
sociais autônomos é a Justiça Estadual. Uma vez que não integram a
Administração Pública federal, não há falar em solução de con�itos dessas
entidades na Justiça Federal. Nesse sentido, deve-se colacionar verbete da
Súmula 516, do Supremo Tribunal Federal, in verbis: “O Serviço Social da
Indústria - SESI - está sujeito à jurisdição da Justiça Estadual”.
Outro ponto que merece atenção diz respeito à imunidade tributária
que envolve os serviços sociais autônomos. De acordo com o art. 150 da
Constituição Federal, é proibido à União, aos estados, ao Distrito Federal e
aos municípios instituir impostos sobre “patrimônio, renda ou serviços dos
partidos políticos, inclusive suas fundações,das entidades sindicais dos
trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem �ns
lucrativos, atendidos os requisitos da lei”. Essa mesma vedação aplica-se à
instituição de impostos sobre patrimônio, renda ou serviços entre os entes
da Federação. Também deve ser mencionado que a imunidade tributária
entres União, estados, Distrito Federal e municípios, estende-se “às
autarquias e às fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público, no que
se refere ao patrimônio, à renda e aos serviços, vinculados a suas �nalidades
essenciais ou às delas decorrentes” (§ 2º). Nesse sentido, haja vista a
prestação de serviço de interesse coletivo da sociedade, educação para o
trabalho ou assistência social, aplica-se aos serviços sociais autônomos o
princípio da imunidade tributária mencionado nesses dispositivos.
Entretanto, haverá incidência de tributo quanto “ao patrimônio, à
renda e aos serviços, relacionados com exploração de atividades econômicas
regidas pelas normas aplicáveis a empreendimentos privados, ou em que
haja contraprestação ou pagamento de preços ou tarifas pelo usuário, nem
exonera o promitente comprador da obrigação de pagar imposto
relativamente ao bem imóvel” (§ 3º). Na hipótese de os serviços sociais
autônomos prestarem serviços da mesma forma que entidades empresariais,
devem ser aplicados os tributos inerentes aos empreendimentos privados.
Acerca da incidência tributária nas atividades dos serviços sociais
autônomos, José dos Santos Carvalho Filho formula síntese que bem retrata
os pontos abordados anteriormente, nos seguintes termos :
Entretanto, três observações se fazem necessárias. A primeira consiste em
que a imunidade alcança apenas a incidência de impostos, sendo devido, em
consequência, o pagamento de taxas e de contribuições (de melhoria, sociais,
de intervenção no domínio econômico etc.), quando presentes os respectivos
fatos geradores. Além disso, a imunidade limita-se apenas aos impostos
sobre renda, o patrimônio ou os serviços das entidades, mas não alcança,
logicamente, impostos de natureza diversa. Por último, a imunidade só
abrange as atividades estritamente vinculadas aos �ns essenciais das
entidades, tal como se dá com as autarquias (art. 25, § 2º, CF). Se a atividade
assim não se caracterizar, incidirá normalmente o tributo: é o caso, por
exemplo, em que a entidade alugue um imóvel de sua propriedade apenas
para o �m de obtenção de renda.
8.3 ORGANIZAÇÕES SOCIAIS
O Poder Executivo também poderá valer-se de organizações sociais
para prestação de determinados serviços de interesse coletivo e que não se
encontrem nas atividades típicas de Estado.
O Governo federal, em consonância com a promoção de
descentralização de atividades não caracterizadas como típicas de Estado,
mas de interesse público coletivo, criou o Programa Nacional de
Publicização - PNB (Lei nº 9.637/1998), com o objetivo de estabelecer
critérios e diretrizes para quali�cação de organizações sociais, a �m de que
essas entidades possam realizar atividades sob a responsabilidade de órgãos
e entidades públicas da União. É nesse sentido que foram concebidas as
organizações sociais.
Organizações sociais estão disciplinadas pela Lei nº 9.637/1998 e
consistem em “pessoas jurídicas de Direito Privado, sem �ns lucrativos,
cujas atividades sejam dirigidas ao ensino, à pesquisa cientí�ca, ao
desenvolvimento tecnológico, à proteção e preservação do meio ambiente, à
cultura e à saúde, atendidos aos requisitos previstos nesta Lei” (art. 1º).
Nesse sentido, as atividades efetivamente exercidas pelas organizações
sociais devem relacionar-se a:
a) ensino;
b) pesquisa cientí�ca;
c) desenvolvimento tecnológico;
d) proteção e preservação do meio ambiente;
e) cultura;
f) saúde.
Mesmo que determinada entidade tenha como atividade precípua
qualquer dessas áreas de atuação, conforme seu estatuto social, é
imprescindível que preencha os requisitos a seguir relacionados, a �m de
que possam habilitar-se como organização social (art. 2º):
I - comprovar o registro de seu ato constitutivo, dispondo sobre:
a) natureza social de seus objetivos relativos à respectiva área de
atuação;
b) �nalidade não-lucrativa, com a obrigatoriedade de investimento de
seus excedentes �nanceiros no desenvolvimento das próprias atividades;
c) previsão expressa de a entidade ter, como órgãos de deliberação
superior e de direção, um conselho de administração e uma diretoria
de�nidos nos termos do estatuto, asseguradas àquele composição e
atribuições normativas e de controle básicas previstas nesta Lei [Lei nº
9.637/1998];
d) previsão de participação, no órgão colegiado de deliberação
superior, de representantes do Poder Público e de membros da comunidade,
de notória capacidade pro�ssional e idoneidade moral;
e) composição e atribuições da diretoria;
f) obrigatoriedade de publicação anual, no Diário O�cial da União, dos
relatórios �nanceiros e do relatório de execução do contrato de gestão;
g) no caso de associação civil, a aceitação de novos associados, na
forma do estatuto;
h) proibição de distribuição de bens ou de parcela do patrimônio
líquido em qualquer hipótese, inclusive em razão de desligamento, retirada
ou falecimento de associado ou membro da entidade;
i) previsão de incorporação integral do patrimônio, dos legados ou das
doações que lhe foram destinados, bem como dos excedentes �nanceiros
decorrentes de suas atividades, em caso de extinção ou desquali�cação, ao
patrimônio de outra organização social quali�cada no âmbito da União, da
mesma área de atuação, ou ao patrimônio da União, dos Estados, do Distrito
Federal ou dos Municípios, na proporção dos recursos e bens por estes
alocados;
II - haver aprovação, quanto à conveniência e oportunidade de sua
quali�cação como organização social, do Ministro ou titular de órgão
supervisor ou regulador da área de atividade correspondente ao seu objeto
social e do Ministro de Estado da Administração Federal e Reforma do
Estado.
É vedada a quali�cação de organizações sociais para desenvolvimento
das seguintes atividades (art. 3º, Decreto nº 9.190/2017):
I - exclusivas de Estado;
II - de apoio técnico e administrativo à administração pública federal;
III - de fornecimento de instalação, bens, equipamentos ou execução de obra
pública em favor da administração pública federal.
A quali�cação de entidade privada sem �ns lucrativos como
organização social deve observar rito próprio, que compreende as seguintes
fases (art. 6º, Decreto nº 9.190/2017):
I - decisão de publicização;
II - seleção da entidade privada;
III - publicação do ato de quali�cação;
IV - celebração do contrato de gestão.
A seleção de entidade privada sem �ns lucrativos a ser quali�cada
como organização social deverá ser desdobrada nas seguintes etapas
realizadas pelo órgão supervisor ou pela entidade supervisora da área em
que se insere a atividade pretendida na parceria (art. 8º):
I - divulgação do chamamento público;
II - recebimento e avaliação das propostas;
III - publicação do resultado provisório;
IV - fase recursal;
V - publicação do resultado de�nitivo.
Ainda que a entidade privada sem �ns lucrativos execute atividades de
interesse recíproco objeto da celebração do contrato de gestão, deve estar
regular em todas as suas atividades, principalmente no que diz respeito à
regularidade de prestações de contas anteriores e que não tenha sido punida
por atos que evidenciem sua inidoneidade ou incompetência para gerenciar
recursos públicos. Nesse sentido, de acordo com o art. 9º, do Decreto nº
9.190/2017, não poderá participar do chamamento público, primeira fase
para seleção para quali�cação como organização social, entidade privada
sem �ns lucrativos que:
I - tenha sido desquali�cada como organização social, por descumprimento
das disposições contidas no contrato de gestão, nos termos do art. 16 da Lei
nº 9.637, de 1998, em decisão irrecorrível, pelo período que durar a
penalidade;
II - esteja omissa no dever de prestar contas de parceria anteriormente
celebrada;
III - tenha sido punidacom uma das seguintes sanções, pelo período que
durar a penalidade:
a) suspensão de participação em licitação e impedimento de contratar
com o órgão supervisor ou a entidade supervisora; e
b) declaração de inidoneidade para licitar ou contratar com a
administração pública federal;
IV - tenha tido contas de parceria julgadas irregulares ou rejeitadas por
Tribunal ou Conselho de Contas de qualquer ente federativo, em decisão
irrecorrível, nos últimos oito anos; e
V - não possuam comprovação de regularidade �scal, trabalhista e junto ao
Fundo de Garantia do Tempo de Serviço - FGTS, por meio de:
a) Certidão Negativa de Débitos Relativos a Créditos Tributários
Federais e à Dívida Ativa da União;
b) Certi�cado de Regularidade do FGTS;
c) Certidão Negativa de Débitos Trabalhistas.
As organizações sociais possuem natureza de pessoa jurídica de
Direito Privado, a serem regidas preponderantemente, então, pelo regime
do Direito Civil. Uma entidade privada sem �ns lucrativos, ainda que
desenvolva, conforme seu estatuto jurídico, atividades nas áreas de ensino,
pesquisa cientí�ca, desenvolvimento tecnológico, proteção e preservação do
meio ambiente, cultura e saúde, não nasce com a quali�cação de
organização social. Inicialmente, ela pode ser concebida, por exemplo, como
fundação ou associação sem �ns lucrativos. Para que possa adquirir esse
status, é imprescindível que preencha os requisitos de quali�cação
mencionados nos parágrafos anteriores. Além disso, também se faz
necessário ato do Poder Executivo que a quali�que, observados os
pressupostos contidos na Lei nº 9.637/1998, como organização social.
As pessoas jurídicas de Direito Privado, sem �ns lucrativos, serão
quali�cadas como organizações sociais quando declaradas como entidades
de interesse social e utilidade pública, para todos os efeitos legais.
O regime jurídico de Direito Privado das organizações sociais confere-
lhes a prerrogativa de atuar conforme o Direito Civil. Contudo, não há
desconsiderar que as organizações sociais prestam serviços de natureza
pública de interesse coletivo do Estado, conforme sua quali�cação
reconhecida pelo Poder Executivo. Além disso, essas entidades também
administram recursos públicos, que atraem, ainda que de forma mitigada,
dispositivos, controles, obrigações inerentes à Administração Pública. Na
gestão dos recursos públicos pelas organizações sociais, devem ser
observados os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade e e�ciência, expressamente consagrados no art. 37, caput, da
Constituição Federal. Deve-se registrar que a Lei nº 9.637/1998 também
estabelece a obrigatoriedade de as entidades quali�cadas como organizações
sociais observarem esses mesmos princípios constitucionais, conforme
expressamente consagrado em seu art. 7º. Nesse sentido, as organizações
sociais, ao administrarem recursos públicos federais, atraem os normativos
de Direito Público incidentes sobre esses recursos, ainda que de forma
mitigada.
A entidade quali�cada como organização social deve ter um
instrumento que estabeleça obrigações, direitos, bem como sua área de
atuação. Nesse sentido, contrato de gestão consiste no instrumento �rmado
em comum acordo entre o Poder Público e a entidade quali�cada como
organização social, em que sejam de�nidas atribuições, responsabilidades e
obrigações entre as partes, com o objetivo de que seja formada a parceria
entre as partes para fomento e execução de atividades nas áreas de ensino,
pesquisa cientí�ca, desenvolvimento tecnológico, proteção e preservação do
meio ambiente, cultura e saúde.
O contrato de gestão, depois de aprovado pelo conselho de
administração da entidade, deverá ser submetido ao Ministro de Estado ou
autoridade supervisora da área correspondente à atividade fomentada.
Quando da elaboração do contrato de gestão, devem ser observados os
princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade,
e�ciência, que são princípios basilares da Administração Pública, conforme
disposto no caput do art. 37, da Constituição Federal. Além disso, o contrato
de gestão deverá conter também a especi�cação do programa de trabalho, a
de�nição das metas a serem atingidas com os respectivos prazos de
execução, previsão de critérios objetivos de avaliação de desempenho a
serem utilizados, por meio de indicadores de qualidade e produtividade,
estipulação dos limites e critérios para despesa com remuneração e qualquer
vantagem a serem percebidas por seus dirigentes e empregados. Ao Ministro
de Estado ou autoridade supervisora da área de atuação da organização
social compete de�nir outras cláusulas do contrato de gestão de que seja
signatário. Dentro dessa atribuição de elaboração e confecção do contrato de
gestão, o órgão supervisor ou entidade supervisora deverá introduzir
cláusulas no contrato de gestão que disponham sobre (art. 17, Decreto nº
9.190/2017):
I - vinculação obrigatória dos recursos de fomento público com metas e
objetivos estratégicos previstos no contrato de gestão;
II - criação de reserva técnica �nanceira para utilização em atendimento a
situações emergenciais;
III - limite prudencial de despesas com pessoal em relação ao valor total de
recursos do contrato de gestão e mecanismos de controle sistemático pela
autoridade supervisora;
IV - de�nição de critérios e limites para a celebração de contratos de
prestação de serviços pela organização social com outros órgãos ou
entidades públicas e privadas ou de outros instrumentos de parceria.
Qualquer entidade que administre bens e valores públicos atrai para si
o controle incidente sobre órgãos e entidades da Administração Pública, no
que diz respeito a esses bens e valores públicos. Uma das funções da
Administração, inerentes a toda e qualquer gestão pública ou privada, diz
respeito ao controle, de competência primária da própria organização social,
à qual pode aplicar-se o poder-dever de autotutela dos seus respectivos atos.
Além desse controle de primeira ordem de atribuição da própria
organização social, incidem sobre elas diversos controles.
O Ministério, órgão ou entidade supervisora da área de atuação da
atividade fomentada deverá �scalizar toda a execução do contrato de gestão.
Diante de fundados indícios de qualquer irregularidade, ilegalidade ou
malversação de bens ou recursos de origem pública, os responsáveis pela
�scalização das organizações sociais deverão representar ao Ministério
Público, à Advocacia-Geral da União ou à Procuradoria da entidade, para
que seja requerida ao juízo competente a decretação da indisponibilidade de
bens da entidade, o sequestro de bens dos seus dirigentes, bem como do
agente público ou do terceiro que tenha de qualquer forma bene�ciado ou
causado dano ao patrimônio público.
O Tribunal de Contas da União dispõe de competência constitucional
para �scalizar a aplicação de qualquer recurso ou patrimônio público federal
administrado por pessoas públicas ou privadas. Além da obrigação de os
responsáveis pela �scalização da execução do contrato de gestão
comunicarem a esse órgão de controle o conhecimento de qualquer
irregularidade ou ilegalidade na administração de bens ou valores públicos
recebidos, o TCU poderá, por moto proprio ou por provocação, �scalizar a
regular aplicação de recursos públicos federais administrados pelas
organizações sociais.
Da mesma forma que o Poder Executivo tem competência para
quali�car determinada entidade como organização social, poderá promover
sua desquali�cação em razão do descumprimento das disposições contidas
no contrato de gestão. Em razão de a desquali�cação possuir essência de
uma sanção por inadimplemento contratual, deve ser antecedida de
processo administrativo em que sejam assegurados o contraditório e a
ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. Os dirigentes da
organização social desquali�cada respondem, individual e solidariamente,
pelos danos ou prejuízos decorrentes de sua atuação omissiva ou comissiva.
Caso se concretize a desquali�cação, depois do regular desenvolvimento do
processo administrativo,deverá haver reversão dos bens permitidos e dos
valores entregues à utilização da organização social, sem prejuízo de outras
sanções cabíveis.
As entidades quali�cadas como organizações sociais possuem as
seguintes características:
a) sem �ns lucrativos;
b) personalidade jurídica de Direito Privado;
c) atuação, na forma de seu estatuto, nas áreas de ensino, pesquisa
cientí�ca, desenvolvimento tecnológico, proteção e preservação do meio
ambiente, cultura ou saúde;
d) participação de representantes do Poder Público e de membros da
comunidade, de notória capacidade pro�ssional idoneidade moral, no órgão
colegiado de deliberação superior;
e) celebração de contrato de gestão entre o Poder Público e a entidade
quali�cada como organização social, em que devem ser observados os
princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade,
economicidade, com especi�cação do programa de trabalho, de�nição das
metas a serem atingidas e os respectivos prazos de execução, critérios
objetivos de avaliação de desempenho, mediante indicadores de qualidade e
produtividade, de�nição dos limites e critérios para despesa com
remuneração e qualquer outra vantagem de seus dirigentes e empregados;
f) ciência ao Tribunal de Contas da União por parte dos responsáveis
pela �scalização da execução do contrato de gestão, quando houver
conhecimento de qualquer irregularidade ou ilegalidade na aplicação de
recursos ou bens de origem pública pela organização social, sob pena de
responsabilidade solidária;
g) possibilidade de serem destinados recursos orçamentários e bens
públicos necessários ao cumprimento do contrato de gestão;
h) supervisão de atuação do Ministro de Estado competente;
i) possibilidade de serem contratadas por meio de licitação dispensável
para a execução de atividades contempladas em seu contrato de gestão (art.
75, XV, Lei nº 14.133/2021);
j) possibilidade de desquali�cação de organização social.
8.4 ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL DE
INTERESSE PÚBLICO
Além dos serviços sociais autônomos e das organizações sociais, a
Administração Pública também pode valer-se das Organizações da
Sociedade Civil de Interesse Público - OSCIP, para que, em regime de
colaboração, em consonância com a descentralização de atividades que não
sejam exclusivas de Estado, possam contribuir com a Administração
Pública. As OSCIPs estão disciplinadas por meio da Lei nº 9.790/1999,
regulamentada pelo Decreto nº 3.100/1999.
Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público são pessoas
jurídicas de Direito Privado, que tenham obtido esta quali�cação do
Ministério da Justiça, constituídas sem �ns lucrativos, criadas e em
funcionamento há, no mínimo, 3 (três) anos, que tenham uma das
�nalidades previstas na Lei nº 9.790/1999 em seu estatuto e que celebrem
termo de parceria para colaboração com o Poder Público.
São requisitos para que uma entidade privada possa ser considerada
OSCIP:
a) quali�cação pelo Poder Público;
b) pessoa jurídica de Direito Privado sem �ns lucrativos;
c) pessoa jurídica constituída e em funcionamento regular há, pelo
menos, 3 (três) anos;
d) pelo menos, uma das �nalidades contempladas no art. 3º, da Lei nº
9.790/1999 entre os objetivos sociais previstos em seus estatutos.
A quali�cação de OSCIP somente será conferida a pessoa jurídica de
Direito Privado sem �ns lucrativos, com observância do princípio da
universalidade dos serviços, que tenha entre seus objetivos sociais,
devidamente constantes dos respectivos estatutos, pelo menos uma das
seguintes �nalidades, contempladas no art. 3º, in verbis:
I - promoção da assistência social;
II - promoção da cultura, defesa e conservação do patrimônio histórico e
artístico;
III - promoção gratuita da educação, observando-se a forma complementar
de participação das organizações de que trata esta Lei;
IV - promoção gratuita da saúde, observando-se a forma complementar de
participação das organizações de que trata esta Lei;
V - promoção da segurança alimentar e nutricional;
VI - defesa, preservação e conservação do meio ambiente e promoção do
desenvolvimento sustentável;
VII - promoção do voluntariado;
VIII - promoção do desenvolvimento econômico e social e combate à
pobreza;
IX - experimentação, não lucrativa, de novos modelos sócio-produtivos e de
sistemas alternativos de produção, comércio, emprego e crédito;
X - promoção de direitos estabelecidos, construção de novos direitos e
assessoria jurídica gratuita de interesse suplementar;
XI - promoção da ética, da paz, da cidadania, dos direitos humanos, da
democracia e de outros valores universais;
XII - estudos e pesquisas, desenvolvimento de tecnologias alternativas,
produção e divulgação de informações e conhecimentos técnicos e
cientí�cos que digam respeito às atividades mencionadas neste artigo;
XIII - estudos e pesquisas para o desenvolvimento, a disponibilização e a
implementação de tecnologias voltadas à mobilidade de pessoas, por
qualquer meio de transporte.
Como se veri�ca, o rol de atividades passíveis de quali�cação de uma
entidade privada sem �ns lucrativos como OSCIP é bastante aberto.
Entretanto, não poderá haver execução de atividade distinta daquela
constante dentre os objetivos sociais previstos nos estatutos sociais da
entidade privada. Nesse sentido, por exemplo, se determinada entidade
privada possui em seu estatuto promoção da cultura, defesa e conservação
do patrimônio histórico e artístico como objetivo social, não poderá
celebrar termo de parceria com o Poder Público para o desenvolvimento de
atividades gratuitas de saúde, sob pena de violação do princípio da
�nalidade, ou seja, desvio de �nalidade.
Para quali�cação da entidade privada sem �ns lucrativos como OSCIP,
suas atividades sociais devem relacionar-se a pelo menos uma das
�nalidades mencionadas anteriormente, cujo objeto deverá constar do
termo de parceria. Além disso, o estatuto social dessas entidades deve estar
em consonância com as regras previstas na Lei nº 9.790/1999 e conter
expressamente normas que disponham sobre (art. 4º):
I - a observância dos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade, economicidade e da e�ciência;
II - a adoção de práticas de gestão administrativa, necessárias e su�cientes a
coibir a obtenção, de forma individual ou coletiva, de benefícios ou
vantagens pessoais, em decorrência da participação no respectivo processo
decisório;
III - a constituição de conselho �scal ou órgão equivalente, dotado de
competência para opinar sobre os relatórios de desempenho �nanceiro e
contábil, e sobre as operações patrimoniais realizadas, emitindo pareceres
para os organismos superiores da entidade;
IV - a previsão de que, em caso de dissolução da entidade, o respectivo
patrimônio líquido será transferido a outra pessoa jurídica quali�cada nos
termos desta Lei, preferencialmente que tenha o mesmo objeto social da
extinta;
V - a previsão de que, na hipótese de a pessoa jurídica perder a quali�cação
instituída por esta Lei, o respectivo acervo patrimonial disponível, adquirido
com recursos públicos durante o período em que perdurou aquela
quali�cação, será transferido a outra pessoa jurídica quali�cada nos termos
desta Lei, preferencialmente que tenha o mesmo objeto social;
VI - a possibilidade de se instituir remuneração para os dirigentes da
entidade que atuem efetivamente na gestão executiva e para aqueles que a ela
prestam serviços especí�cos, respeitados, em ambos os casos, os valores
praticados pelo mercado, na região correspondente a sua área de atuação;
VII - as normas de prestação de contas a serem observadas pela entidade,
que determinarão, no mínimo:
a) a observância dos princípios fundamentais de contabilidade e das
Normas Brasileiras de Contabilidade;
b) que se dê publicidade por qualquer meio e�caz, no encerramento do
exercício �scal, ao relatório de atividades e das demonstrações �nanceiras da
entidade, incluindo-se as certidões negativas de débitos junto ao INSS e ao
FGTS, colocando-os à disposição para exame de qualquer cidadão;
c) a realização de auditoria,inclusive por auditores externos
independentes se for o caso, da aplicação dos eventuais recursos objeto do
termo de parceria conforme previsto em regulamento;
d) a prestação de contas de todos os recursos e bens de origem pública
recebidos pelas Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público será
feita conforme determina o parágrafo único do art. 70 da Constituição
Federal.
Mesmo com rol de atividades bastante aberto, o estatuto das OSCIPs
preocupou-se em evitar a quali�cação de entidades privadas que não
estivessem bem atreladas à característica de entidades sem �ns lucrativos ou
que, de alguma forma, distribuíssem valores para os seus dirigentes ou
integrantes, que prestassem serviços de forma não gratuita ou que já fossem
alcançados por outras leis (como as organizações sociais). Nesse sentido, a
Lei nº 9.790/1999 é taxativa ao vedar a quali�cação de OSCIP das seguintes
pessoas, mesmo que exerçam as atividades anteriormente mencionadas (art.
2º):
I - as sociedades comerciais;
II - os sindicatos, as associações de classe ou de representação de categoria
pro�ssional;
III - as instituições religiosas ou voltadas para a disseminação de credos,
cultos, práticas e visões devocionais e confessionais;
IV - as organizações partidárias e assemelhadas, inclusive suas fundações;
V - as entidades de benefício mútuo destinadas a proporcionar bens ou
serviços a um círculo restrito de associados ou sócios;
VI - as entidades e empresas que comercializam planos de saúde e
assemelhados;
VII - as instituições hospitalares privadas não gratuitas e suas mantenedoras;
VIII - as escolas privadas dedicadas ao ensino formal não gratuito e suas
mantenedoras;
IX - as organizações sociais;
X - as cooperativas;
XI - as fundações públicas;
XII - as fundações, sociedades civis ou associações de Direito Privado
criadas por órgão público ou por fundações públicas;
XIII - as organizações creditícias que tenham quaisquer tipos de vinculação
com o sistema �nanceiro nacional a que se refere o art. 192 da Constituição
Federal77.
A quali�cação de OSCIP será obtida por meio de requerimento ao
Ministério da Justiça, que terá o prazo de 30 (trinta) dias para deferir ou não
o pedido, depois de veri�car a correlação entre os objetivos sociais da
entidade privada sem �ns lucrativos e as �nalidades de interesse coletivo
objeto dessa quali�cação, além dos demais requisitos discriminados na Lei
nº 9.790/1999. O requerimento formulado pela entidade aspirante à OSCIP
deverá estar acompanhado dos seguintes documentos (art. 5º):
I - estatuto registrado em cartório;
II - ata de eleição de sua atual diretoria;
III - balanço patrimonial e demonstração do resultado do exercício;
IV - declaração de isenção do imposto de renda;
V - inscrição no Cadastro Geral de Contribuintes.
Deferida a quali�cação da entidade privada sem �ns lucrativos como
Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, deve ser �rmado o
termo de parceria. Termo de parceria consiste no instrumento ajustado
entre Poder Público e entidades quali�cadas como OSCIP, que estabelece o
vínculo de cooperação entre as partes, com a �nalidade de fomentar a
execução do interesse público que fundamentou sua quali�cação, onde
estejam expressamente mencionados os direitos, as responsabilidades e as
obrigações dos signatários do ajuste.
O termo de parceria, cuja celebração deve ser precedida de consulta aos
conselhos de políticas públicas das áreas correspondentes de atuação, nos
respectivos tipos de governo, deverá conter cláusulas expressas que
estabeleçam os contornos dos direitos, das obrigações e das
responsabilidades das partes. Tantas quantas forem as cláusulas necessárias
devem ser inseridas no termo de parceria. Entretanto, são cláusulas
essenciais em todos os termos de parceria (art. 10, § 2º):
I - a do objeto, que conterá a especi�cação do programa de trabalho
proposto pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público;
II - a de estipulação das metas e dos resultados a serem atingidos e os
respectivos prazos de execução ou cronograma;
III - a de previsão expressa dos critérios objetivos de avaliação de
desempenho a serem utilizados, mediante indicadores de resultado;
IV - a de previsão de receitas e despesas a serem realizadas em seu
cumprimento, estipulando item por item as categorias contábeis usadas pela
organização e o detalhamento das remunerações e benefícios de pessoal a
serem pagos, com recursos oriundos ou vinculados ao Termo de Parceria, a
seus diretores, empregados e consultores;
V - a que estabelece as obrigações da Sociedade Civil de Interesse Público,
entre as quais a de apresentar ao Poder Público, ao término de cada
exercício, relatório sobre a execução do objeto do Termo de Parceria,
contendo comparativo especí�co das metas propostas com os resultados
alcançados, acompanhado de prestação de contas dos gastos e receitas
efetivamente realizados, independente das previsões mencionadas no inciso
IV;
VI - a de publicação, na imprensa o�cial do Município, do Estado ou da
União, conforme o alcance das atividades celebradas entre o órgão parceiro e
a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, de extrato do Termo
de Parceria e de demonstrativo da sua execução física e �nanceira, conforme
modelo simpli�cado estabelecido no regulamento desta Lei, contendo os
dados principais da documentação obrigatória do inciso V, sob pena de não
liberação dos recursos previstos no Termo de Parceria.
A entidade privada sem �ns lucrativos quali�cada como OSCIP deverá
promover a prestação de contas ao Tribunal de Contas da União, referente
aos recursos públicos federais por ela geridos, nos termos da �scalização
contábil, �nanceira, orçamentária, operacional e patrimonial de
competência desse Órgão constitucional, conforme estabelece o art. 70, da
Constituição Federal.
A OSCIP sujeita-se a diversos controles, inclusive com a obrigação de
prestação de contas dos recursos públicos recebidos, que deve ocorrer
perante o órgão da entidade estatal parceira. A prestação de contas deve
evidenciar a correta aplicação dos recursos públicos recebidos, além do
adimplemento do objeto do termo de parceria. A prestação de contas deve
conter os seguintes documentos, sem prejuízo de eventual complementação
solicitada pelo órgão da entidade estatal parceira, que deverá analisar, em
primeira ordem, a prestação de contas (art. 15-B):
I - relatório anual de execução de atividades, contendo especi�camente
relatório sobre a execução do objeto do Termo de Parceria, bem como
comparativo entre as metas propostas e os resultados alcançados;
II - demonstrativo integral da receita e despesa realizadas na execução;
III - extrato da execução física e �nanceira;
IV - demonstração de resultados do exercício;
V - balanço patrimonial;
VI - demonstração das origens e das aplicações de recursos;
VII - demonstração das mutações do patrimônio social;
VIII - notas explicativas das demonstrações contábeis, caso necessário;
IX - parecer e relatório de auditoria, se for o caso.
A perda da quali�cação de organização da sociedade civil de interesse
público poderá ocorrer mediante pedido expresso da entidade ou por meio
de decisão proferida em sede de processo judicial ou administrativo, de
iniciativa popular ou do Ministério Público. Na hipótese de perda desta
quali�cação em razão de processo judicial ou administrativo, deve ser
observado o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa com os
meios e recursos a ela inerentes - garantias fundamentais de estatura
constitucional.
O exercício da �nalidade que fundamentou a quali�cação de OSCIP
como entidade privada sem �ns lucrativo consiste em relevante interesse
público coletivo, inclusive com transferência de recursos públicos para o
atingimento dessa �nalidade. Ao gerenciar recursos públicos, a entidade
atrai, ainda que de forma mitigada, a disciplina do regime jurídico-
administrativo no que diz respeito à aplicação dos valores ou bens públicos
gerenciados. O inadimplemento do termo de ajuste, principalmente no
que diz respeitoà malversação ou desvio de bens e recursos de origem
pública, implica consequências tanto para a pessoa jurídica quanto para
determinadas pessoas físicas que participam da gestão da OSCIP, como:
a) decretação da indisponibilidade dos bens da entidade;
b) sequestro dos bens dos seus dirigentes;
c) sequestro de bens de agente público ou terceiro que tenha
enriquecido ilicitamente ou causado dano ao patrimônio público;
d) sanções constantes da Lei nº 8.429/1992 (improbidade
administrativa) e da Lei Complementar nº 64/1990 (inelegibilidade);
e) responsabilidade solidária do agente competente para realizar
�scalização que tem conhecimento de irregularidade e não comunica ao
Tribunal de Contas respectivo e ao Ministério Público.
8.5 FUNDAÇÕES OU ENTIDADES DE APOIO
As instituições federais de ensino superior (IFES) possuíam um
determinado setor que atuava como entidade privada e que também
prestava apoio ao desenvolvimento de diversas atribuições dessas
instituições. Havia, pois, a existência de um departamento com verdadeira
natureza jurídica de Direito Privado a atuar dentro de uma instituição
eminentemente sob o regime de Direito Público.
Um dos problemas das atividades desempenhadas por esse setor dizia
respeito à questão orçamentária e �nanceira, pois o ingresso de recursos
pelos serviços prestados pelas fundações de apoio (�nanceiro) nem sempre
correspondia à previsão orçamentária, o que di�cultava bastante a aplicação
desse dinheiro nas respectivas IFES. A partir dessa situação fático-jurídica,
foi permitido às fundações de apoio captar e receber diretamente recursos
�nanceiros necessários à formação e execução dos projetos de pesquisa,
desenvolvimento e inovação, sem ingresso na Conta Única do Tesouro
Nacional.
A �m de regulamentar situação híbrida existente nessas instituições
federais de ensino superior, foi editada a Lei nº 8.958/1994, a �m de
disciplinar “as relações entre as instituições federais de ensino superior e de
pesquisa cientí�ca e tecnológica e as fundações de apoio”.
Fundações ou entidades de apoio são pessoas jurídicas de Direito
Privado, sem �ns lucrativos, regidas pelo Código Civil e por seus estatutos,
que devem ser elaborados com observância dos princípios da legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade, economicidade e e�ciência.
As fundações de apoio sujeitam-se ao prévio credenciamento junto ao
Ministério da Educação e ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e
Comunicações, renovável a cada 5 (cinco) anos, e à �scalização pelo
Ministério Público, nos termos do Código Civil e do Código de Processo
Civil.
As relações de emprego das fundações de apoio regem-se pela
legislação trabalhista comum (CLT), já que seu quadro de funcionários
não integra a estrutura da Administração Pública, em qualquer de suas
espécies (direta ou indireta).
Quando as fundações de apoio aplicarem recursos que não sejam
públicos, as regras serão instituídas por sua instância superior, que deverão
estar disponíveis em seu sítio eletrônico, respeitados sempre os princípios da
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e e�ciência.
As fundações de apoio, em relação às instituições federais de ensino
superior e às demais instituições cientí�cas e tecnológicas, possuem a
�nalidade de “apoiar projetos de ensino, pesquisa, extensão,
desenvolvimento institucional78, cientí�co e tecnológico e estímulo à
inovação, inclusive na gestão administrativa e �nanceira necessária à
execução desses projetos” (art. 1º).
A atividade das fundações de apoio está intimamente relacionada à
atividade típica desses estabelecimentos de ensino, conforme se depreende
das atribuições mencionadas no parágrafo anterior. A atuação da fundação
de apoio em melhorias de infraestrutura nesses estabelecimentos de ensino
está limitada à realização de obras laboratoriais e aquisição de materiais,
equipamentos ou outros insumos relacionados às atividades de inovação e
pesquisa cientí�ca e tecnológica, cujos materiais e equipamentos passam a
integrar o patrimônio da contratante. A fundação de apoio não pode ser
contratada para prestação de qualquer serviço estranho a esses. Nesse
sentido, é proibido às fundações de apoio (art. 1º, § 3º):
I - atividades como manutenção predial ou infraestrutural, conservação,
limpeza, vigilância, reparos, copeiragem, recepção, secretariado, serviços
administrativos na área de informática, grá�cos, reprográ�cos e de telefonia
e demais atividades administrativas de rotina, bem como as respectivas
expansões vegetativas, inclusive por meio do aumento no número total de
pessoal;
II - outras tarefas que não estejam objetivamente de�nidas no Plano de
Desenvolvimento Institucional da instituição apoiada.
As IFES e as Instituições Cientí�cas e Tecnológicas - ICTs poderão
celebrar convênios79 e contratos, sempre por prazo determinado, com as
Fundações de apoio por meio de licitação dispensável, com amparo no
inciso XV, do art. 75, da Lei nº 14.133/202180. É importante registrar que os
órgãos e entidades vinculados ao Estatuto das Licitações e Contratos
poderão celebrar contratos mediante licitação dispensável com entidades
brasileiras sem �ns lucrativos, inclusive as fundações de apoio, que tenham
como função estabelecida em seu estatuto pesquisa, ensino ou
desenvolvimento institucional.
As fundações de apoio, quando da execução de convênios, contratos,
acordos e demais ajustes abrangidos pela Lei nº 8.958/1994, deverão adotar
regulamento especí�co para aquisições e contratações de obras e serviços, a
ser editado por meio de ato do Poder Executivo (art. 3º). A �m de
regulamentar essa lei, o Governo Federal editou o Decreto nº 7.423/2010 e
9.283/2018. Embora não se exija o estrito cumprimento do Estatuto das
Licitações e Contratos por parte das fundações de apoio quando da
aplicação de recursos públicos, a licitação por elas realizada deve observar
compatibilidade com os preços praticados no mercado, mediante cotação
prévia junto a, no mínimo, 3 (três) potenciais fornecedores ou executantes,
além dos princípios da impessoalidade, moralidade e economicidade, no
mínimo.
São vedações às fundações de apoio:
a) subcontratação total ou parcial dos objetos ajustados com as IFES e
ICTs;
b) contratar cônjuge, companheiro ou parente, em linha reta ou
colateral, por consanguinidade ou a�nidade, até o terceiro grau, de:
b.1 - servidor das IFES e demais ICTs que atue na direção das
respectivas fundações;
b.2 - ocupantes de cargos de direção superior das IFES e demais
ICTs por elas apoiadas;
c) contratar, sem licitação, pessoa jurídica que tenha como proprietário,
sócio ou cotista:
c.1 - seu dirigente;
c.2 - servidor das IFES e demais ICTs;
c.3 - cônjuge, companheiro ou parente em linha reta ou colateral,
por consanguinidade ou a�nidade, até o terceiro grau de seu dirigente ou de
servidor das IFES e demais ICTs por elas apoiadas;
d) utilizar recursos em �nalidade diversa da prevista nos projetos de
ensino, pesquisa e extensão e de desenvolvimento institucional, cientí�co e
tecnológico e de estímulo à inovação;
e) celebrar contrato com as IFES e ICTs para contratação de pessoal
administrativo, de manutenção, docentes ou pesquisadores para prestar
serviços ou atender a necessidades de caráter permanente das contratantes.
Em relação às IFES e ICTs contratantes, é vedado “o pagamento de
débitos contraídos pelas instituições contratadas na forma desta Lei e a
responsabilidade a qualquer título, em relação ao pessoal por estas
contratado, inclusive na utilização de pessoal da instituição” (art. 5º).
A aplicação de recursos em �nalidade diversa daquela originalmente
prevista implica irregularidade na execução do objeto. Na hipótese de tratar-
se de recursos públicos, essa irregularidade será objeto de instauração de
tomada de contas especial, com vistas a apurar os fatos, identi�car os
responsáveis e quanti�car o valor devido.
Em atenção ao princípio da publicidade, cujo sentido teleológico
consiste no controle dos atos praticados, as fundações de apoio deverão:
a) assegurar o acessodos órgãos e das entidades públicas concedentes
ou contratantes e do Sistema de Controle Interno do Poder Executivo
federal aos processos, aos documentos e às informações referentes aos
recursos públicos recebidos pelas fundações de apoio;
b) garantir o controle contábil especí�co dos recursos aportados e
utilizados em cada projeto, de forma a garantir o ressarcimento às IFES.
Também deverão ser divulgados no site das fundações de apoio, as
seguintes informações (art. 4º-A):
I - os instrumentos contratuais de que trata esta Lei, �rmados e mantidos
pela fundação de apoio com as IFES e demais ICTs, bem como com a FINEP,
o CNPq e as Agências Financeiras O�ciais de Fomento;
II - os relatórios semestrais de execução dos contratos de que trata o inciso I,
indicando os valores executados, as atividades, as obras e os serviços
realizados, discriminados por projeto, unidade acadêmica ou pesquisa
bene�ciária;
III - a relação dos pagamentos efetuados a servidores ou agentes públicos de
qualquer natureza em decorrência dos contratos de que trata o inciso I;
IV - a relação dos pagamentos de qualquer natureza efetuados a pessoas
físicas e jurídicas em decorrência dos contratos de que trata o inciso I;
V - as prestações de contas dos instrumentos contratuais de que trata esta
Lei, �rmados e mantidos pela fundação de apoio com as IFES e demais ICTs,
bem como com a FINEP, o CNPq e as Agências Financeiras O�ciais de
Fomento.
O pagamento exclusivo por meio eletrônico poderá ser
excepcionado, em razão de saques para pagamento em dinheiro destinados
exclusivamente a pessoas que não possuam conta bancária e a despesas de
pequeno vulto, conforme de�nido em regulamento especí�co, mas desde
que sejam adotados mecanismos que possibilitem a identi�cação do
bene�ciário �nal desses valores. A prestação de contas das fundações de
apoio deverá conter item especí�co destinado a essas despesas.
Tema relevante diz respeito à possibilidade de participação dos
servidores das IFES e ICTs contratantes nas fundações de apoio, a seguir
sintetizado:
a) as IFES e ICTs deverão ter normas aprovadas pelo órgão de direção
superior que estabeleçam limites e condições;
b) a participação de servidores das IFES e ICTs nas fundações de apoio
não gera vínculo empregatício com estas e somente poderá ocorrer quando
não houver prejuízo ao cumprimento de sua jornada de trabalho na
entidade de origem, ressalvada a hipótese de cessão especial prevista no
inciso II do § 4º do art. 20 da Lei nº 12.772, de 28 de dezembro de 201281;
c) as fundações de apoio contratadas poderão conceder bolsas de
ensino, de pesquisa e de extensão, de acordo com os parâmetros a serem
�xados em regulamento;
d) os servidores públicos federais não poderão participar das atividades
objetos de contrato com as fundações de apoio durante sua jornada de
trabalho, excetuada a colaboração esporádica, remunerada ou não, em
assuntos de sua especialidade;
e) os servidores ocupantes de cargo em comissão ou função de
con�ança nas IFES e demais ICTs poderão desenvolver atividades de ensino,
pesquisa e extensão no âmbito dos projetos apoiados pelas fundações de
apoio com recebimento de bolsas;
f) os servidores das IFES e ICTs poderão participar, sem remuneração,
dos órgãos de direção de fundações de apoio, não se lhes aplicando a
vedação de “participar de gerência ou administração de sociedade privada,
personi�cada ou não personi�cada, exercer o comércio, exceto na qualidade
de acionista, cotista ou comanditário” (art. 117, X, Lei 8.112/1990);
g) os servidores das IFES e ICTs ocupante de cargo em comissão ou
função de con�ança não poderão participar dos órgãos de direção de
fundações de apoio, aplicando-se-lhes, portanto, a vedação constante do art.
117, X, da Lei nº 8.112/1990.
A edição da Lei nº 8.958/1994 consiste em fundamental instrumento de
regulamentação da atividade das fundações de apoio, principalmente no que
tange a suas relações com as respectivas IFES e ICTs.
72 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros Editores, 27ª ed.,
2002, 65.
73 Nesse sentido: i) MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros
Editores, 27ª ed., 2002, p. 359; ii) GASPARINI, Diogenes. Direito Administrativo. São Paulo:
Saraiva, 10ª ed., 2005, p.417.
74 O Serviço Social da Indústria - Sesi teve a autorização para criação por meio do Decreto-Lei nº
9.403/1946.
75 Nesse sentido, RE 789.874/DF, de relatoria doMinistro Teori Zavascki; Acórdão 431/TCU-Plenário,
de relatoria do Ministro Benjamin Zymler.
76 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Editora
Lumen Juris, 23ª ed. 2010, p. 587.
77 Art. 192. O sistema �nanceiro nacional, estruturado de forma a promover o desenvolvimento
equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade, em todas as partes que o compõem,
abrangendo as cooperativas de crédito, será regulado por leis complementares que disporão,
inclusive, sobre a participação do capital estrangeiro nas instituições que o integram.
78 A própria Lei nº 8.958/1994 assim conceitua desenvolvimento institucional (art. 1º, § 1º): “Para os
�ns do que dispõe esta Lei, entendem-se por desenvolvimento institucional os programas, projetos,
atividades e operações especiais, inclusive de natureza infraestrutural, material e laboratorial, que
levem à melhoria mensurável das condições das IFES e demais ICTs, para cumprimento e�ciente e
e�caz de sua missão, conforme descrita no plano de desenvolvimento institucional, vedada, em
qualquer caso, a contratação de objetos genéricos, desvinculados de projetos especí�cos.” (Grifou-
se.)
79 Atualmente, os convênios celebrados pela União, em suas administrações direta e indireta, estão
disciplinados pela Portaria Conjunta MGI/MF/CGU nº 33, de 30 de agosto de 2023, que revogou a
Portaria Interministerial nº 424/2016.
80 Esse dispositivo estabelece a possibilidade de licitação dispensável “para contratação de instituição
brasileira que tenha por �nalidade estatutária apoiar, captar e executar atividades de ensino,
pesquisa, extensão, desenvolvimento institucional, cientí�co e tecnológico e estímulo à inovação,
inclusive para gerir administrativa e �nanceiramente essas atividades, ou para contratação de
instituição dedicada à recuperação social da pessoa presa, desde que o contratado tenha
inquestionável reputação ética e pro�ssional e não tenha �ns lucrativos”.
81 Esse dispositivo assim está descrito:
Art. 20. O Professor das IFE, ocupante de cargo efetivo do Plano de Carreiras e Cargos de Magistério
Federal, será submetido a um dos seguintes regimes de trabalho: (...)
§ 4º O professor, inclusive em regime de dedicação exclusiva, desde que não investido em cargo em
comissão ou função de con�ança, poderá:
IX - CONSÓRCIOS PÚBLICOS
Não raras vezes, era comum alguns entes da Federação “associarem-se”
para realizar objeto de interesse recíproco em regime de mútua cooperação.
Assim, alguns municípios, por exemplo, uniam-se para reparar uma rodovia
de acesso aos seus territórios, cuja importância para a região bene�ciaria as
respectivas populações e, portanto, de interesse comum dos partícipes.
Com o advento da Lei nº 11.107/2005, foi estabelecida a regra de
criação de pessoas jurídicas para execução de objeto de interesse recíproco
entre os consorciados, que podem assumir forma de duas espécies, quais
sejam: associação pública ou pessoa jurídica de Direito Privado.
A natureza jurídica do consórcio público, gênero que comporta as
espécies de associação pública ou pessoa jurídica de Direito Privado,
assemelha-se à natureza dos convênios e contratos de repasse celebrados por
órgãos ou entidades da Administração Pública federal, ou seja, visa à
realização de objeto de interesse comum em regime de mútua cooperação82,
83. Um ponto distintivo entre a natureza jurídica de convênios e consórcios
diz respeito às pessoas que os integram. Os convênios podem ser celebrados
com órgãos ou entidades públicas ou privadas sem �ns lucrativos. Já osconsórcios só podem ser ajustados exclusivamente entre os entes da
Federação, ou seja, entre União, estados, Distrito Federal e municípios.
Entretanto, o objeto permanece sendo de interesse comum ou recíproco
entre os entes consorciados.
Rati�ca essa exegese a possibilidade expressa contida na Portaria
Conjunta MGI/MF/CGU nº 33/2023 (art. 14). O concedente federal dará
preferência às transferências voluntárias para estados, Distrito Federal e
municípios, cujas ações sejam desenvolvidas por intermédio de consórcios
públicos, constituídos segundo o disposto na Lei nº 11.107/2005. Assim,
deve-se destacar a preferência pela celebração de convênios ou contratos de
repasse com consórcios públicos, quando houver igualdade de condições
entre estados, Distrito Federal, municípios e consórcios públicos para
recebimento de transferências de recursos oriundos de transferências
voluntárias, conforme estabelece a Lei de Diretrizes Orçamentárias.
Além da possibilidade de celebração de convênios ou contratos de
repasse com consórcios públicos, não há desconsiderar a possibilidade de o
convenente executar o objeto ajustado por intermédio do consórcio público
a que esteja consorciado.
Consórcio público84 é a pessoa jurídica formada exclusivamente por
entes da Federação, na forma da Lei nº 11.107/2005, em forma de associação
pública ou pessoa jurídica de Direito Privado para realização de objetivos de
interesse comum.
Dessa forma, o consórcio público regido pela Lei nº 11.107/2005 pode
ser um relevante instrumento para realização de objeto de interesse comum
em regime de mútua cooperação entre os consorciados.
Dada a natureza jurídica dos consórcios públicos, alguns temas
impõem-se.
9.1 RESPONSABILIDADE DOS CONSORCIADOS E
DOS AGENTES PÚBLICOS
Um ponto que merece destaque nas associações anteriores à Lei dos
Consórcios Públicos consistia no questionamento acerca da
responsabilidade por eventuais danos causados em decorrência dos atos
praticados pelos participantes dessa associação, uma vez que, comumente,
era difícil estabelecer a individualização da obrigação de reparar eventuais
prejuízos causados na execução do objeto da associação.
Contudo, com o advento da Lei nº 11.107/2005, foi espancada qualquer
dúvida acerca dessa responsabilidade, na medida em que os entes da
Federação envolvidos no interesse comum constituem uma pessoa jurídica
para responder pelo novel consórcio, que pode assumir duas espécies, quais
sejam: associação pública ou pessoa jurídica de Direito Privado.
Essa pessoa jurídica passou a ser responsável pela execução dos
objetivos pretendidos pelo consórcio, bem como pelas consequências
advindas dessa execução.
Em que pese a criação de uma pessoa jurídica, inclusive para efeito de
responsabilização por eventuais prejuízos, há de se ter em mente que a
constituição do consórcio público funciona como uma espécie de delegação
de competência para a consecução de um objeto de interesse comum em
regime de mútua cooperação, mas não afasta eventual responsabilidade dos
entes consorciados, tal como preconizado pelo art. 37, § 6º, da Constituição
Federal.
Ademais, a própria Portaria Conjunta MGI/MF/CGU nº 33/2023
estabelece que o termo do convênio ou contrato de repasse deve conter
cláusula obrigatória no sentido de estabelecer a responsabilidade solidária
dos entes consorciados, nos instrumentos que envolverem consórcios
públicos (art. 35, VI).
A própria Lei nº 11.107/2005 estabelece a responsabilidade de primeira
ordem do consórcio criado para execução do objeto de interesse comum
entre os consorciados, bem como a responsabilidade solidária dos entes
consorciados até que exista decisão a indicar os responsáveis para cada
obrigação. Essa responsabilidade solidária não afasta o direito à ação de
regresso em face dos entes eventualmente bene�ciados ou em face dos entes
que deram causa à obrigação, conforme estabelece o art. 37, § 6º, da
Constituição Federal.
Feitas essas considerações acerca da responsabilidade dos consórcios
públicos (pessoas jurídicas), deve-se analisar eventual responsabilidade dos
gestores.
Como regra geral, os agentes públicos, no exercício da gestão dos
consórcios públicos, não responderão pessoalmente pelas obrigações sob a
responsabilidade dos consórcios. Entretanto, em havendo violação à lei ou
ao estatuto dos consórcios, esses agentes públicos poderão responder por
eventuais prejuízos causados aos consórcios ou a terceiros. Dessa forma, a
responsabilidade dos agentes públicos decorrerá de violação à norma legal,
em que se incluem os respectivos estatutos dos consórcios.
Por �m, deve-se enfatizar que todo aquele que participa da cadeia
causal do dano responde na medida da respectiva participação. A
responsabilização deve ser individualizada, a �m de que sejam apurados o
fato, o dano e o nexo entre a conduta do agente e o dano causado, para que
seja efetivada a responsabilização pelo dano causado.
9.2 LICITAÇÕES APLICADAS AOS CONSÓRCIOS
PÚBLICOS
Como mencionado anteriormente, duas espécies de consórcios
públicos regidos pela Lei nº 11.107/2005 podem ser constituídos: associação
pública ou de pessoa jurídica de Direito Privado. Ainda que se trate de
pessoa jurídica de Direito Privado, não há desconsiderar a origem dos seus
integrantes, ou seja, são entes da Federação que se associam para realização
de objeto de interesse comum, com recursos públicos.
Uma vez relembrada a origem dos consorciados, deve-se ter em mente
toda a legislação regente da União, estados, Distrito Federal e municípios.
Daí por que a necessidade de observância dos processos licitatórios
aplicáveis aos consórcios públicos.
Sem perder de vista o disposto no art. 1º da Lei nº 14.133/2021, que
estabelece as pessoas sujeitas a esse diploma, o consórcio público com
personalidade jurídica de Direito Público ou privado deverá observar as
normas que regem licitações e contratos aplicáveis à Administração Pública,
nos exatos termos do art. 6º, § 2º, da Lei nº 11.107/2005, com a redação dada
pela Lei nº 13.822/2019.
Essas hipóteses até aqui mencionadas referem-se à execução do objeto
comum ajustado pelos consorciados no respectivo contrato de constituição
do consórcio. Entretanto, também deve ser mencionada a hipótese de
contratação do consórcio público por outros entes da Federação para a
realização do objeto integrante dos respectivos contratos de criação dos
consórcios. Caso um ente da Federação, por meio de sua Administração
direta ou indireta, pretenda contratar um objeto realizado por consórcio
público, pode ocorrer a contratação do consórcio púbico por meio de
licitação dispensável85.
9.3 ADMISSÃO DE PESSOAL
A associação de entes da Federação para a execução de objeto de
interesse comum mediante consórcios públicos necessita de pessoal para a
concretude dos objetos pactuados. Nesse sentido, deverá constar do contrato
de programa ajustado pelos entes da Federação na constituição do consórcio
a especi�cação da transferência ou não de pessoal dos entes para o
respectivo consórcio. A especi�cação da transferência de pessoal deverá
abranger os ônus relativos ao pagamento dos servidores cedidos, bem como
eventuais passivos referentes a eles.
É possível, portanto, haver consórcios públicos administrados
exclusivamente por servidores públicos dos entes consorciados, que, ao
término do objeto ajustado, devem retornar aos respectivos entes para o
exercício de suas atividades laborais.
Entretanto, também é possível haver contratação de pessoal pelo
consórcio, a �m de executar o objeto de interesse comum ajustado. Nessa
hipótese, o regime de contratação de pessoal será o da Consolidação das
Leis de Trabalho (CLT).
Os encargos sociais dos respectivos empregados contratados sob o
regime da CLT competem ao consórcio público, que, subsidiariamente,
podem ser cobrados dos respectivos entes integrantes do consórcio.
Caso haja terceirização da prestação de serviços, não é demais recordar
o disposto na Súmula 33186 do TST, que impõe responsabilidade subsidiária
do tomador de serviço integrante da AdministraçãoPública direta e indireta
no caso de inadimplemento das obrigações trabalhistas por parte do
empregador, no que tange às verbas decorrentes da condenação referentes
ao período da prestação laboral.
82 A professora Odete Medauar e Gustavo Justino de Oliveira entendem de forma diferente, in
Consórcios Públicos. Comentários à Lei 11.107/2005. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais,
2006, pp. 14/17.
83 Já o professor Bandeira de Mello registra que “convênios e consórcios diferem da generalidade dos
contratos administrativos porque, ao contrário destes, não há interesses contrapostos das partes,
mas interesses coincidentes”. (Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Malheiros Editores, 25ª
ed., 2008, p. 653.)
84 Recomenda-se leitura dos Decretos nos 5.741/2006, 10.032/2019, 11.531/2023, e Lei nº
11.107/2005.
85 Art. 2º, § 1º, III, da Lei nº 11.107/2005, e art. 75, XI, da Lei nº 14.133/2021.
86 Ver item 24.28 desta obra.
X - DESCENTRALIZAÇÃO,
CENTRALIZAÇÃO,
DESCONCENTRAÇÃO E
CONCENTRAÇÃO
À Administração Pública compete executar os serviços de sua
atribuição constitucional ou legal, que poderá ocorrer de forma direta ou
indireta.
Execução direta é aquela que se caracteriza quando a própria
Administração presta os serviços sob sua responsabilidade por meio de seus
agentes públicos lotados nos órgãos que compõem a estrutura do serviço
público.
Execução indireta caracteriza-se quando a Administração Pública
delega competência para execução de seus serviços a pessoas diversas, o que
poderá ocorrer por meio de descentralização.
Ainda que haja delegação de competência para execução de serviço por
meio de descentralização ou desconcentração, o Estado não tem afastada
sua responsabilização tanto pela execução do serviço como por eventual
dano causado a terceiros.
Ã
10.1 DESCENTRALIZAÇÃO
Descentralização consiste na transferência de competência para efetiva
prestação dos serviços para pessoas fora da estrutura hierárquica do
delegante. Para a execução dos serviços objeto de descentralização, o Estado
poderá delegar competência para outra entidade já existente ou até mesmo
criar uma nova entidade fora da Administração direta para executar esses
serviços. A descentralização também se caracteriza por envolver pessoas
jurídicas diversas, ou seja, entidades diferentes, com personalidades
jurídicas próprias. A descentralização administrativa está muito afeta ao
exercício da atividade pública por intermédio da Administração Pública
indireta.
Em sentido inverso, ou seja, quando a Administração Pública avoca a
efetiva prestação de serviço anteriormente descentralizado para entidade
diversa de sua estrutura organizacional, ocorre o instituto da centralização,
a caracterizar a atividade pública realizada pela Administração direta.
Na descentralização, não há vínculo hierárquico87 entre quem
descentraliza e quem efetivamente presta os serviços delegados, pois a
entidade que tem a competência para prestar efetivamente os serviços não se
encontra na estrutura orgânica da entidade delegante, daí por que a
inexistência de vínculo hierárquico.
Outro ponto relevante na descentralização diz respeito ao controle
incidente sobre a entidade que presta os serviços delegados. Há controle
�nalístico e não quanto ao modus operandi. Esse controle tão-somente
�nalístico decorre da inexistência de vínculo hierárquico no instituto da
descentralização. Não há confundir controle com hierarquia. O controle
ocorre nos limites da lei que autoriza a descentralização, diversamente do
que ocorre com a hierarquia, que consiste em um dos poderes conferidos à
Administração Pública (regulamentar, disciplinar, hierárquico e de polícia).
Sobre controle �nalístico, assim leciona Hely Lopes Meirelles88:
É o que a norma legal estabelece para as entidades autônomas, indicando a
autoridade controladora, as faculdades a serem exercitadas e as �nalidades
objetivadas. Por isso mesmo, é sempre um controle limitado e externo. Não
tem fundamento hierárquico, porque não há subordinação entre a entidade
controlada e autoridade ou órgão controlador. É um controle teleológico, de
veri�cação do enquadramento da instituição no programa geral do Governo
e de seu acompanhamento dos atos de seus dirigentes no desempenho de
suas funções estatutárias, para o atingimento das �nalidades da entidade
controlada.
A descentralização poderá ocorrer de diversas formas, como:
a) descentralização legal;
b) descentralização política;
c) descentralização administrativa.
10.1.1 DESCENTRALIZAÇÃO LEGAL
Descentralização legal é aquela que decorre de mandamento da lei,
que, além de prever a possibilidade jurídica de descentralização, também
pode disciplinar a criação de entidades, com personalidade jurídica própria,
para prestar o serviço objeto da descentralização. A Constituição Federal
contempla essa possibilidade, nos termos de seu art. 37, XIX, com a redação
dada pela EC 19/1998, in verbis: “somente por lei especí�ca poderá ser
criada autarquia e autorizada a instituição de empresa pública, de sociedade
de economia mista e de fundação, cabendo à lei complementar, neste último
caso, de�nir as áreas de sua atuação”.
A instituição dessas pessoas jurídicas por meio do dispositivo
mencionado no parágrafo anterior confere-lhes status de integrante da
Administração Pública indireta.
10.1.2 DESCENTRALIZAÇÃO POLÍTICA
A descentralização política consiste na distribuição de competências
próprias �xadas pelo Texto Constitucional. Essa descentralização é a que
ocorre com as atribuições dos entes da Federação. Nesse sentido, os estados-
membros, o Distrito Federal e os municípios têm competência própria para,
por exemplo, legislar nos assuntos de competência de�nidos na Constituição
e auto-organizarem-se.
Essa descentralização não caracteriza delegação de competência da
União, pois as competências exercidas por esses entes da Federação derivam
da Constituição Federal e não são de atribuições da União, trata-se,
portanto, de competência originária desses entes.
10.1.3 DESCENTRALIZAÇÃO ADMINISTRATIVA
A descentralização administrativa é a que mais ocorre no âmbito
estatal. Embora não haja uniformidade na doutrina pátria acerca de suas
modalidades, adotar-se-á classi�cação que mais se ajusta a essa forma de
descentralização, ou seja: por serviços, territorial, em parceria, contratual.
10.1.3.1 Descentralização por serviços ou atividades
A Administração Pública possui plexo de atribuições bastante variado,
motivo por que poderá agrupar determinados serviços, a �m de que possam
ser efetivamente prestados em razão desses serviços, para ser mais bem
prestados aos seus destinatários �nais.
Descentralização por serviço ocorre quando a Administração Pública
cria pessoa jurídica de Direito Público ou de Direito Privado para
efetivamente exercer ou prestar serviço especí�co.
As pessoas jurídicas de Direito Público ou de Direito Privado criadas
pelo poder estatal para prestação de determinados serviços integram a
Administração Pública, ainda que na modalidade indireta, como ocorre, por
exemplo, com as empresas públicas, sociedades de economia mista e
fundações.
A criação de pessoa jurídica diversa da entidade que descentraliza o
serviço confere-lhe autonomia e independência, nos termos da lei
instituidora, para que execute a atividade delegada, motivo por que não deve
haver interferências da entidade delegante nessas atividades, exceto no que
diz respeito ao controle de�nido na lei instituidora ou em norma especí�ca,
como ocorre, por exemplo, com o controle exercido pelos tribunais de
contas, no âmbito das respectivas competências constitucionais e legais.
10.1.3.2 Descentralização territorial, local ou geográ�ca
Descentralização territorial, local ou geográ�ca consiste na
transferência de atribuições por parte de um ente central para uma entidade
local com personalidade jurídica de Direito Público própria, a �m de que
possa exercer as atividades descentralizadas.
10.1.3.3 Descentralização em parceria
A descentralização em parceria ocorre quando delegante e delegadoajustam acordos para desenvolvimento de uma atividade inserida em
política pública daquele e que se ajusta aos interesses deste, mas que pode
ser realizada em regime de mútua cooperação entre os partícipes.
A descentralização em parceria pressupõe a atuação dos partícipes na
realização do objeto de interesse recíproco pretendido, cujos direitos e
deveres devem ser previamente �xados no termo que celebrar esse ajuste.
Exemplo dessa descentralização é a celebração de convênios ou contratos de
repasse, por exemplo, entre a União e os estados, Distrito Federal,
municípios ou entidades privadas sem �ns lucrativos. Enfatize-se que essa
descentralização em parceria pode ser realizada com entidades privadas sem
�ns lucrativos.
Nesse instituto, normalmente, há transferência de recursos �nanceiros
para a entidade delegada, a �m de que execute a atividade objeto da
descentralização, conforme legislação aplicável a essa execução. Por se tratar
de interesse recíproco em regime de mútua cooperação entre os partícipes,
não há possibilidade jurídica de haver pagamento ao delegado pela execução
das atividades de�nidas previamente, sob pena de não se tratar de
descentralização em parceria, mas sim de um contrato celebrado de forma
irregular.
Além dos convênios celebrados por entidades públicas, também
podem ser mencionados como exemplo os consórcios públicos,
disciplinados pela Lei nº 11.107/2005, uma vez que se destinam à realização
de objetivos de interesse comum entre os consorciados. Deve-se destacar
que os consórcios públicos podem ser celebrados tão-somente entre os entes
da Federação, ou seja, União, estados, Distrito Federal e municípios, não
havendo, portanto, possibilidade jurídica de consórcios públicos, regidos
por essa Lei, ajustados com entidades privadas com ou sem �ns lucrativos,
para os objetivos dessa Lei.
10.1.3.4 Descentralização contratual
A descentralização contratual89 consiste na transferência para
particulares da realização do serviço de competência do delegante, que
deverá ocorrer por meio de contrato administrativo, com a observância do
Estatuto das Licitações e Contratos ou de lei especí�ca que regulamente o
objeto a ser descentralizado.
Diversamente do que ocorre na descentralização em parceria, a
descentralização contratual contempla parcela �nanceira como
contraprestação pelo serviço prestado pela entidade delegada, pois há
prestação laboral mediante pagamento. Tem-se, nessa hipótese, o particular
em colaboração com a Administração Pública na prestação dos serviços sob
sua responsabilidade. São exemplos dessa descentralização concessão e
permissão de serviços públicos.
10.2 CENTRALIZAÇÃO
Em sentido contrário à descentralização, pode ocorrer a centralização,
ou seja, o restabelecimento da competência da entidade descentralizadora
das atribuições então descentralizadas para outra entidade. A centralização
deve ocorrer pela mesma forma em que se deu a descentralização.
10.3 DESCONCENTRAÇÃO
Desconcentração consiste na distribuição de atribuição para outro
órgão dentro da mesma estrutura organizacional em que essa atribuição é
executada. Em razão de o órgão delegante e o delegado encontrarem-se na
mesma estrutura orgânica de uma única entidade, remanesce vínculo
hierárquico do órgão delegado com o delegante, motivo por que incide
controle em todas as fases da prestação do serviço delegado, inclusive na
fase �nalística. Pode-se também dizer que a desconcentração é uma
distribuição interna de atribuições.
Um dos traços distintivos entre descentralização e desconcentração
consiste no fato de aquela operar-se entre entidades, com personalidades
jurídicas distintas, enquanto que nesta há distribuição de competências
entre órgãos de uma mesma estrutura organizacional, motivo por que
remanesce apenas uma personalidade jurídica.
Outro traço distintivo diz respeito ao controle. Enquanto na
descentralização existe controle tão-somente �nalístico; na desconcentração,
o controle ocorre em todas as fases da prestação do serviço delegado,
inclusive no controle �nalístico.
Ã
10.4 CONCENTRAÇÃO
A desconcentração possui a característica de atribuir competências
para a prática de determinados atos a órgãos integrantes da estrutura
organizacional de quem desconcentra, com a mantença de hierarquia entre
delegante e delegado, a ensejar controle �nalístico e do modus operandi do
órgão desconcentrado.
Concentração consiste em restabelecer a atribuição do órgão ou
entidade que houver promovido a desconcentração. A concentração deve
ocorrer pelo mesmo instrumento em que ocorreu a desconcentração.
87 Nas palavras de Celso Antônio Bandeira de Mello, "Pela descentralização, rompe-se uma unidade
personalizada e não há vínculo hierárquico entre a Administração Central e a pessoa estatal
descentralizada. Assim, a segunda não é "subordinada' à primeira”. (MELLO, Celso Antônio
Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Malheiros Editores, 33ª ed., 2016, p. 155.)
88 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros Editores, 27ª ed.,
2002, p.634.
89 José dos Santos Carvalho Filho de�ne essa descentralização como “descentralização negocial:
particulares em colaboração” (CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito
Administrativo. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 23ª ed. 2010, p. 375.)
XI - PRINCÍPIOS APLICÁVEIS AO
DIREITO ADMINISTRATIVO
A Declaração Universal dos Direitos Humanos90, proclamada e
adotada pela Resolução nº 217 A (III) da Assembleia Geral das Nações
Unidas, em 10 de dezembro de 1948, contempla o direito de todo ser
humano dispor dos remédios processuais dos tribunais contra os atos que
violem seus direitos e garantias fundamentais, por meio de um tribunal
isento, imparcial, independente, conforme se depreende de seus arts. 8º e 10,
in verbis:
Artigo 8º. Todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais
competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos
fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.
Artigo 10. Todo ser humano tem direito, em plena igualdade, a uma
audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial,
para decidir sobre seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer
acusação criminal contra ele.
Esses dispositivos da Declaração Universal dos Direitos Humanos,
além de rea�rmarem pressuposto do Estado Democrático de Direito,
especi�cam que todo ser humano tem direito à tutela estatal para garantir a
preservação dos seus direitos e garantias fundamentais sempre que se
julgarem lesados ou ameaçados. Assim, para mantença ou garantia desses
direitos, cabe ao Estado prestar tutela administrativa ou judicial, com vistas
ao regular desenvolvimento de processo sempre que houver insurgência por
parte do interessado em face de lesão ou ameaça a direito.
No que tange ao controle dos atos administrativos, atualmente, vigem
dois sistemas: jurisdição única e contencioso administrativo.
No Brasil vige o Sistema de Jurisdição Única, consagrado no art. 5º,
XXXV, da Constituição Federal, nas palavras de Seabra Fagundes, assim
especi�cado91:
Pelo primeiro sistema [jurisdição única], tem lugar a apreciação das
atividades administrativas do Estado, seja no âmbito do Direito Privado, seja
no do Direito Público, através do Poder Judiciário. Ou, em outras palavras,
toda ou quase toda a matéria do contencioso administrativo incide no seu
conhecimento como órgão jurisdicional. Por isso, é denominado, também,
Sistema de Jurisdição Única. Mas, embora excepcionalmente, algumas
relações jurídicas, em que um dos participantes seja a Administração
Pública, escaparão ao exame do Judiciário, pelo que preferimos não usar esta
denominação.
Já no que tange ao contencioso administrativo, o mesmo autor assim se
manifesta92:
O outro sistema (chamado de jurisdição dúplice, por oposição ao primeiro)
implica num controle exercido mediante tribunais especialmente instituídos
para as situações contenciosas em que seja parte a Administração. Os atos
administrativos não sesubmetem de modo algum, ou se submetem em
número reduzido, ao Poder Judiciário. Para o seu controle, existe, ao lado da
jurisdição comum, uma outra: a administrativa, que nele participa
absorventemente. Tanto num, como noutro sistema, há pleno controle
jurídico do exercício do Poder Executivo. O que neles difere é a organização
dos tribunais incumbidos de exercê-lo.
Seja por meio do Sistema de Jurisdição Única, seja por intermédio do
Contencioso Administrativo, cabe ao Estado satisfazer a pretensão do
particular que se insurge contra um ato praticado pela Administração que
lhe causa gravame. Contudo, a tutela jurisdicional perseguida há de ocorrer
de forma e�ciente, que, nesse caso, deve ser impessoal e tempestivamente
prestada, sob pena de perecer a e�cácia, a e�ciência de sua prestação, sem
prejuízo da observância dos princípios informadores do contencioso
administrativo.
Ganha evidência, no Contencioso Administrativo e no Sistema de
Jurisdição Única, a aplicação dos princípios gerais do Direito, que, como
consagrado na Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro93, têm
função integradora da norma, motivo por que serão tratados em seguida.
Antes de adentrar os princípios em espécie, faz-se necessária a
distinção entre regras e princípios, bem como a análise da aparente colisão
entre princípios.
11.1 CONCEITO DE PRINCÍPIO E REGRA
Pode-se compreender que o Sistema Direito Administrativo compõe-se
de um conjunto normativo, ora expresso, ora implícito, que norteia as
condutas do Estado e do cidadão, bem como entre eles, além de estabelecer
os limites daquele em face deste e de prever as obrigações e direitos de cada
um, como um garante contra intervenções arbitrárias ou violadoras de
direitos e garantias fundamentais por parte da Administração Pública.
A partir daí, surge uma discussão doutrinária sobre a diferença entre
regra e princípio. Para tanto, serão colacionados entendimentos de
administrativistas e constitucionalistas, a �m de subsidiar o
desenvolvimento deste Capítulo.
Nas palavras de Celso Antônio Bandeira de Mello94:
Princípio (...) é, por de�nição, mandamento nuclear de um sistema,
verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre
diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua
exata compreensão e inteligência exatamente por de�nir a lógica e a
racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá
sentido harmônico.
Daí por que, continua o autor95:
Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma
qualquer. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um
especí�co mandamento obrigatório, mas a todo o sistema de comandos. É a
mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade, conforme o
escalão do princípio atingido, porque representa uma insurgência contra
todo o sistema, subversão de seus valores fundamentais, contumélia
irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra.
Acerca da diferença entre norma, regra e princípio, Canotilho consigna
norma como gênero que comporta duas espécies: regras e princípios. A
partir dessa classi�cação, o próprio autor de�ne as espécies da seguinte
forma96:
Os princípios interessar-nos-ão, aqui, sobretudo na sua qualidade de
verdadeiras normas, qualitativamente distintas das outras categorias de
normas, ou seja, das regras jurídicas. As diferenças qualitativas traduzir-se-
ão, fundamentalmente, nos seguintes aspectos. Os princípios são normas
jurídicas impositivas de uma optimização, compatíveis com vários graus de
concretização, consoante os condicionalismos fácticos e jurídicos; as regras
são normas que prescrevem imperativamente uma exigência (impõem,
permitem ou proíbem) que é ou não é cumprida (...); a convivência dos
princípios é con�itual (...), a convivência de regras é antinômica; os
princípios coexistem, as regras antinômicas excluem-se. Consequentemente,
os princípios, ao constituírem exigências de optimização, permitem o
balanceamento de valores e interesses (não obedecem, como as regras, à
‘lógica do tudo ou nada’), consoante o seu peso e a ponderação de outros
princípios eventualmente con�ituantes; as regras não deixam espaço para
qualquer outra solução, pois se uma regra vale (tem validade) deve cumprir-
se na exacta medida das suas prescrições, nem mais nem menos. Como se
verá mais adiante, em caso de conflito entre princípios, estes podem ser
objecto de ponderação, de harmonização, pois eles contêm apenas
‘exigências’ ou ‘standards’ que, em ‘primeira linha’ (prima facie), devem ser
realizados; as regras contêm ‘�xações normativas’ definitivas, sendo
insustentável a validade simultânea de regras contraditórias. Realça-se
também que os princípios suscitam problemas de validade e peso
(importância, ponderação e valia); as regras colocam apenas questões de
validade (se elas não são correctas devem ser alteradas).
Também Inocêncio Mártires Coelho97, ao mencionar Robert Alexy,
leciona sobre a diferença entre regras e princípios, nos seguintes termos:
O ponto decisivo para a distinção entre regras e princípios reside em que os
princípios são normas ordenadoras de que algo se realize na maior medida
possível, dentro das possibilidades jurídicas e reais existentes. Portanto, os
princípios são mandatos de otimização, caracterizados pelo fato de poderem
ser cumpridos em diferentes graus, e a medida do seu cumprimento não
depende apenas das possibilidades reais, mas também das possibilidades
jurídicas. O âmbito dessas possibilidades jurídicas é determinado pelos
princípios e regras opostos. As regras, ao contrário, só podem ser cumpridas
ou não. Se uma regra é válida, então há de se fazer exatamente o que ela
exige, nem mais, nem menos. Por conseguinte, as regras contêm
determinações no âmbito do que é fática e juridicamente possível. Isto
signi�ca que a diferença entre regras e princípios é qualitativamente e não de
grau. Toda norma ou é uma regra, ou é um princípio.
Ao consolidar as diferenças entre princípios e regras, ao mencionar
ensinamento de Canotilho, continua Inocêncio Mártires Coelho a
estabelecê-las a partir dos seguintes critérios98 :
• grau de abstração: os princípios jurídicos são normas com um grau de
abstração relativamente mais elevado do que o das regras de direito;
• grau de determinabilidade na aplicação ao caso concreto: os princípios, por
serem vagos e indeterminados, carecem de mediações concretizadoras (e.g.,
do legislador ou do juiz), enquanto as regras são suscetíveis de aplicação
direta;
• caráter de fundamentalidade no sistema das fontes de direito: os princípios
são normas de natureza ou com um papel fundamental no ordenamento
jurídico devido à sua posição hierárquica no sistema das fontes (e.g., os
princípios constitucionais) ou à sua importância estruturante no sistema
jurídico (e.g., o princípio do Estado de Direito);
• proximidade da ideia de direito: os princípios são standards juridicamente
vinculantes, radicados nas exigências de justiça (Dworkin) ou na ideia de
direito (Larenz); as regras podem ser normas vinculantes com um conteúdo
meramente funcional;
• natureza normogenética: os princípios são fundamentos de regras, isto é,
são normas que estão na base ou constituem a ratio de regras jurídicas,
desempenhando, por isso, uma função normogenética fundamentante.
Nesse sentido, podem-se compreender princípios e regras como
espécies de normas, ou seja, esta é gênero que comporta aquelas espécies.
As regras possuem comandos negativos ou positivos, ou até mesmo
permissivos, a impor conduta à pessoa que se encontra sob sua égide. Ou
uma regra é válida ou ela não é válida em face de norma de hierarquia
superior.
Já os princípios possuem função integradora do sistema que se
encontram, motivo por que não há falar em validade ou não de determinado
princípio em face de outro princípio ou de determinada regra. Pode-se dizer
que os princípios possuem valoração, o que enseja aplicar um em
detrimento do outro sem que haja declaração de inconstitucionalidade ou
ilegalidade deste.A Constituição da República Federativa do Brasil, em análise
geográ�ca, contempla, em seu Título III (Da Organização do Estado),
Capítulo VII (Da Administração Pública), dispositivos destinados à
Administração Pública. Em especial, no que diz respeito a este tópico, a
Constituição especi�cou princípios expressos aplicáveis à Administração
Pública, quais sejam: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
e�ciência99.
11.2 APARENTE COLISÃO ENTRE PRINCÍPIOS
A partir da distinção entre regras e princípios, espécies do gênero
norma, já formulada no item anterior, pode-se compreender que, quando
duas regras colidem, uma deve ser retirada do mundo jurídico, observada,
inclusive, a disciplina referente à natureza de fonte integradora Sistema
Jurídico, em relação aos princípios gerais do Direito, constante na Lei de
Introdução às Normas do Direito Brasileiro - LINDB100.
Entretanto, quando há (aparente) colisão entre princípios, não há falar
em declaração de nulidade de um em detrimento do outro, haja vista a
função integradora dessa espécie de norma.
É nesse contexto que, quando da veri�cação de dois princípios
colidentes em face de um mesmo caso concreto, não há falar em invalidade
de um ou nulidade de outro, pois eles possuem força integradora da norma e
não são excludentes entre si, motivo por que deve ocorrer a aplicação de um
e não do outro, sem que dessa aplicação decorra a declaração de nulidade do
outro. Isso se deve ao fato da possibilidade de coexistirem dois princípios
aparentemente antagônicos em face de um mesmo caso concreto. É,
portanto, juridicamente possível a coexistência no ordenamento jurídico de
dois princípios antagônicos ao caso concreto analisado (con�ito aparente de
princípios).
Robert Alexy101, ao lecionar sobre colisão entre princípios, assim se
manifesta:
As colisões entre princípios devem ser solucionadas de forma
completamente diversa [das colisões entre regras]. Se dois princípios
colidem - o que ocorre, por exemplo, quando algo é proibido de acordo com
um princípio e, de acordo com o outro, permitido -, um dos princípios terá
que ceder. Isso não signi�ca, contudo, nem que o princípio cedente deva ser
declarado inválido, nem que nele deverá ser introduzida uma cláusula de
exceção. Na verdade, o que ocorre é que um dos princípios tem precedência
em face do outro sob determinadas condições. Sob outras condições, a
questão da precedência pode ser resolvida de forma oposta. Isso é o que se
quer dizer quando se a�rma que, nos casos concretos, os princípios têm
pesos diferentes e que os princípios com o maior peso têm precedência.
Con�itos entre regras ocorrem na dimensão da validade, enquanto as
colisões entre princípios - visto que só princípios válidos podem colidir -
ocorrem, para além dessa dimensão, na dimensão do peso.
É nesse contexto que, quando da veri�cação de dois princípios
colidentes em face de um mesmo caso concreto, não há falar em invalidade
de um ou nulidade de outro, pois eles possuem força integradora da norma e
não são excludentes entre si, motivo por que deve ocorrer a aplicação de um
e não do outro, sem que dessa aplicação decorra a declaração de nulidade do
outro. Isso se deve ao fato da possibilidade de coexistirem dois princípios
aparentemente antagônicos em face de um caso concreto. É, portanto,
juridicamente possível a coexistência no ordenamento jurídico de dois
princípios antagônicos ao caso concreto analisado (con�ito aparente de
princípios).
Diante do antagonismo existente entre dois princípios em face de um
mesmo caso concreto, deve haver ponderação de princípios, a �m de que
seja analisado qual deverá ser aplicado, mas sempre com o sentido
teleológico de se alcançar o interesse público. A ponderação de princípios
não pode destinar-se a interesse diverso do público, sob pena de con�gurar
ato praticado com irregularidade a ensejar responsabilidade do agente que
houver participado da cadeia causal da irregularidade. Assim, a aparente
colisão entre princípios deverá ser solucionada a partir de critério
axiológico, em que a valoração de um há de preponderar em face do outro
princípio com o qual o colide, sem que haja necessidade da declaração de
ilegalidade ou de inconstitucionalidade de um deles.
Isso não acontece com as regras, pois uma vez incompatível uma regra
com outra, há de ser declarada a invalidade de uma em face da outra, dada a
impossibilidade jurídica de convivência de duas regras antinômicas, já que
as estas proíbem, impõem ou permitem, diversamente dos princípios, que
possuem força integradora na norma.
No mesmo sentido, o ensinamento de Virgílio Afonso da Silva que,
quando veri�cada colisão entre dois princípios, menciona a precedência de
um em detrimento do outro, nos seguintes termos102:
As colisões entre princípios têm que ser encaradas e resolvidas de forma
distinta. Segundo os pressupostos da teoria dos princípios, não se pode falar
em declaração de invalidade de um deles, nem em instituição de uma
cláusula de exceção. O que ocorre quando dois princípios colidem - ou seja,
preveem consequências jurídicas incompatíveis para um mesmo ato, fato ou
posição jurídica - é a �xação de relações condicionadas de precedência”.
11.3 PRINCÍPIOS EXPRESSOS E IMPLÍCITOS
Os princípios, como espécie do gênero norma, possuem função
integradora do sistema em que se inserem. Daí por que violar um princípio
é muito mais grave do que violar uma regra, pois essa violação atenta contra
todo o sistema. Entretanto, há princípios que o próprio ordenamento
jurídico fez questão de especi�car. São os denominados princípios
expressos. Mas também há princípios que não vêm expressamente
designados pelo ordenamento jurídico. São os chamados princípios
implícitos, também denominados por alguns doutrinadores como
princípios reconhecidos.
Mencionem-se, a título de exemplo dos princípios expressos, aqueles
constantes no caput do art. 37, da Constituição Federal: legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade, e�ciência. Já, a título de exemplo
dos princípios implícitos, podem ser mencionados os alicerces do regime
jurídico-administrativo, quais sejam: supremacia do interesse público sobre
o privado e indisponibilidade pela Administração do interesse público.
Feitas as distinções entre princípios e regras, abordada a aparente
colisão entre princípios e estabelecida a essência de princípios expressos e
implícitos, apresentar-se-ão os principais princípios informadores do
Direito Administrativo.
11.4 PRINCÍPIO DA SUPREMACIA DO INTERESSE
PÚBLICO SOBRE O INTERESSE PRIVADO
O princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse
privado e o princípio da indisponibilidade pela Administração do interesse
público consistem no alicerce do regime jurídico-administrativo.
Diversamente das relações particulares em que as partes encontram-se
em situação de igualdade, no regime administrativo, a Administração
Pública encontra-se em sobreposição ao particular ou ao administrado, a
preponderar uma relação vertical. Há verdadeira preponderância do
interesse público sobre o privado, mas sempre com respeito aos direitos dos
terceiros de boa-fé.
O princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse
privado, embora esteja eminentemente afeto ao Direito Público, não pode
afastar-se do Estado de Direito, motivo por que, embora prevaleça o
interesse coletivo sobre o individual, este há de ser preservado na forma do
Direito, sob pena de, albergado pelo manto da pseudoteleologia, haver
violação ao ordenamento jurídico e dano causado ao particular. Daí por que
a Administração Pública também se encontra limitada por esse princípio,
sob pena de violar �agrantemente, dentre outros, o princípio da
impessoalidade, pois, se agir com interesses diversos do público, estará a se
distanciar da �nalidade pública, ou seja, agirá com desvio de �nalidade ou
com violação ao princípio da impessoalidade. Assim, ao mesmo tempo em
que se impõe ao particular ou administrado, o princípio da supremacia do
interesse público sobre o interesse privado tambémconsiste em limite a ser
observado pela própria Administração.
Esse princípio está a nortear diversas áreas, como, por exemplo,
elaboração legislativa, intervenção do Estado na propriedade privada,
solução de litígios, licitações, contratos.
Assim, pode-se entender princípio da supremacia do interesse
público sobre o interesse privado como poder-dever de que dispõe a
Administração para privilegiar o interesse público sobre o interesse
individual na prática de suas atividades estatais, sem prejudicar os direitos
de terceiros e interessados de boa-fé.
11.5 PRINCÍPIO DA INDISPONIBILIDADE PELA
ADMINISTRAÇÃO DO INTERESSE PÚBLICO
O princípio da indisponibilidade pela Administração do interesse
público, ao lado do princípio da supremacia do interesse público sobre o
interesse privado, constitui um dos pilares do regime jurídico-
administrativo, motivo por que não há falar em um sem a existência do
outro.
Ora, ao dispor o ordenamento jurídico que a Administração Pública
não poderá renunciar total ou parcialmente aos poderes ou competências
que lhe são atribuídas, exceto nos casos expressamente previstos em lei,
implica reconhecer que não é facultado ao Estado dispor livremente do
interesse público.
Os poderes-deveres de que dispõe a Administração para exercer seu
ofício não podem ser renunciados ou colocados em segundo plano, pois o
ordenamento não lhe permite essa discricionariedade.
É nesse contexto que, por exemplo, para se desfazer de um bem
público, deve a Administração realizar licitação para obter o maior lance a
ser ofertado no bem. Para aquisição de bens ou serviços, deverá a
Administração realizar licitação pública, a �m de obter a proposta mais
vantajosa, exceto nos casos expressamente previstos em lei, quando poderá
haver contratação direta decorrente de licitação dispensável, inexigível ou
dispensada, mas, ainda assim, nos termos de�nidos pelo Estatuto das
Licitações e Contratos.
Assim, o princípio da indisponibilidade pela Administração do
interesse público consiste na impossibilidade de a Administração renunciar
ou dispor do interesse público, salvo nas hipóteses expressamente previstas
em lei.
11.6 PRINCÍPIO DO INTERESSE PÚBLICO
O princípio do interesse público pode ser compreendido como
corolário dos princípios que constituem o alicerce do regime jurídico-
administrativo, além de estar expressamente consagrado no caput do art. 2º,
da Lei nº 9.784/1999103.
Princípio do interesse público consiste na prática de todos os atos da
Administração Pública visando ao interesse público, sob pena de violação
também do princípio da impessoalidade (ou �nalidade), quando restar
caracterizado interesse diverso do público.
11.7 PRINCÍPIO DO DEVIDO PROCESSO LEGAL
O art. XI, nº 1, da Declaração Universal dos Direitos do Homem,
estabelece que:
Todo homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser
presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de
acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido
asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
Inspirada nesse dispositivo da Declaração Universal dos Direitos do
Homem, a Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, LIV, consigna que:
“ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo
legal”.
Ao erigir o devido processo legal como direito fundamental,
estabeleceu-se a garantia de o acusado possuir um processo desenvolvido
segundo o respectivo rito, a �m de se evitarem arbitrariedades da
Administração em face do cidadão.
Quando se fala em processo, podem ser imaginadas duas forças. A
primeira do Estado, a quem compete apurar os ilícitos de sua competência.
A segunda do “acusado”, a quem compete afastar as acusações que lhe são
impostas. Veri�ca-se, portanto, uma dualidade de forças.
Ocorre que o Estado, em regra, dispõe de mais recursos acusatórios do
que o particular. Na medida em que se eleva o princípio do devido processo
legal como direito e garantia fundamental (protegido, inclusive, contra
emenda tendente a aboli-lo - art. 60, IV, “d”, Constituição Federal), buscam-
se igualar as forças atuantes no processo, seja a força do Estado, seja a força
do cidadão.
O devido processo legal (due process of law) garante ao acusado o
direito de conhecer, previamente, as regras que disciplinarão, por exemplo,
todos os atos a serem desenvolvidos no contencioso administrativo, bem
como a uniformidade dos ritos para todos quantos se encontrem naquela
situação, em privilégio ao princípio da impessoalidade, da isonomia e da
uniformidade processual.
É nesse sentido, por exemplo, que se aplica aos atos administrativos o
direito de o responsável ser intimado pessoalmente, conhecer do processo,
ter uma defesa técnica se julgá-la necessária, produzir todas as provas
admitidas no Direito, conhecer dos ritos a que se submeterá... bem como
todos os demais direitos que digam respeito à ampla defesa e ao
contraditório, como corolários do princípio do devido processo legal.
A relevância do princípio do devido processo legal assim está
contemplada nas palavras de Gilmar Mendes104:
É provável que a garantia do devido processo legal con�gure uma das mais
amplas e relevantes garantias do direito constitucional, se considerarmos a
sua aplicação nas relações de caráter processual e nas relações de caráter
material (princípio da proporcionalidade/direito substantivo). Todavia,
somente no âmbito das garantias do processo é que o devido processo legal
assume uma amplitude inigualável e um signi�cado ímpar como postulado
que traduz uma série de garantias hoje devidamente especi�cadas nas várias
ordens jurídicas. Assim, cogita-se de devido processo legal quando se fala de
(1) direito ao contraditório e à ampla defesa, de (2) direito ao juiz natural, de
(3) direito a não ser processado e condenado com base em provas ilícitas, de
(4) direito a não ser preso senão por determinação da autoridade
competente e na forma estabelecida pela ordem jurídica.
A violação do princípio do devido processo legal consiste, portanto, em
vício insanável a ser reparado pela própria Administração, no seu dever de
autotutela, ou pelo Judiciário na tutela jurisdicional que lhe compete.
11.8 PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO E DA
AMPLA DEFESA
Como corolário do Estado Democrático de Direito, a Constituição
Federal estabeleceu, como direito e garantia fundamental, conforme
estabelecido no art. 5º, LV, que “aos litigantes, em processo judicial ou
administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e
ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”. (Grifou-se.)
O princípio do contraditório e da ampla defesa deve visar à igualdade
processual entre as partes, a �m de possibilitar, em igualdade de condições,
que os fatos imputados como irregulares pela Administração, devidamente
identi�cados tanto por esta quanto pelo responsável, possam ser afastados
ou contra-atacados por meio de todas as provas admitidas no Direito, para
possibilitar que o responsável ou acusado exerça em plenitude o direito ao
contraditório e à ampla defesa, com os recursos e meios a ela inerentes.
Embora se tenha o princípio do contraditório e da ampla defesa como
garantia fundamental, nem sempre ele se apresenta absoluto, haja vista as
diversas situações em que outros princípios, de igual estatura, devem ser
sopesados, aplicando-se um em detrimento do outro, sem a necessidade de
haver declaração de nulidade de um em face do outro, conforme ensina
Humberto eodoro Júnior105:
En�m, quando se a�rma o caráter absoluto do princípio do contraditório, o
que se pretende dizer é que nenhum processo ou procedimento pode ser
disciplinado sem assegurar às partes a regra de isonomia no exercício das
faculdades processuais. Disso não decorre, porém, a supremacia absoluta e
plena do contraditório sobre todos os demais princípios. O devido processo
legal, síntese geral da principiologia da tutela jurisdicional, exige que o
contraditório, às vezes, tenha de ceder momentaneamente a medidas
indispensáveis à e�cácia e efetividade da garantia de acessoao processo
justo. Assim, no caso de medidas liminares (cautelares ou antecipatórias) a
providência judicial é deferida a uma das partes antes da defesa da outra. Isto
se admite, porque sem essa atuação imediata da proteção do interesse da
parte, a e�cácia do processo se anularia e a garantia máxima de acesso à
tutela da justiça restaria frustrada.
Da mesma forma como preconizado por Humberto eodoro Júnior,
em sede do controle externo de competência do Congresso Nacional,
exercido com o auxílio do Tribunal de Contas da União, porque não dizer
no âmbito do contencioso administrativo, pode-se adotar medida cautelar
ou tutela de urgência, com vistas a tornar e�caz a decisão de mérito a ser
proferida, sem que haja, inicialmente, a observância, stricto sensu, do
princípio do devido processo legal106. É de se enfatizar que a concessão de
medida cautelar sem a oitiva do responsável não ofende o princípio do
contraditório e da ampla defesa, já que outros princípios encontram-se em
iguais condições e, sopesando-os, aplicam-se estes em detrimento daquele.
Tudo em consonância com a teoria dos princípios, conforme mencionado
na parte introdutória deste capítulo.
Ante a natureza do procedimento instaurado no TCU (normalmente
denúncia ou representação), por exemplo, veri�ca-se não apenas uma
mitigação desse princípio, mas sua não aplicação, em face da busca da
satisfação do interesse público sobre o privado. Para a concessão de medida
cautelar, há de se ter em mente a possibilidade de ine�cácia da decisão a ser
proferida, daí por que devem estar presentes os requisitos fundamentais do
fumus boni iuris (fumaça do bom direito) e do periculum in mora (perigo na
demora), além de fundado receio de grave lesão ao erário ou a direito alheio
ou de risco de ine�cácia da decisão de mérito.
São requisitos para a concessão dessa medida cautelar inaudita altera
pars, pelo Tribunal de Contas da União: i) urgência; ii) fundado receio de
grave lesão ao erário ou a direito alheio ou de risco de ine�cácia da decisão
de mérito; iii) fumus boni iuris; iv) periculum in mora.
A concessão de medida cautelar inaudita altera pars pelo Tribunal de
Contas da União não se esgota em si mesma. Ao deferir essa medida,
presentes os requisitos para sua concessão, deve ser facultada ao destinatário
dessa medida a oportunidade de manifestar-se nos autos, em privilégio ao
devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa. Como se veri�ca, a
concessão dessa medida apenas mitiga o princípio do contraditório e da
ampla defesa, em razão da veri�cação dos pressupostos para deferimento,
principalmente no que diz respeito ao periculum in mora e fumus boni iuris,
já que, em ato contínuo ao deferimento da medida, deve-se facultar ao seu
destinatário a possibilidade de exercer em plenitude o contraditório e a
ampla defesa. Na forma regimental, a medida cautelar, por vezes concedida
monocraticamente, deve ser submetida ao respectivo colegiado para �ns de
julgamento do mérito, quando poderá ser rati�cada ou suspensa sua
e�cácia, sem prejuízo da possibilidade de o relator que a deferiu
monocraticamente suspender sua e�cácia também por meio de despacho
singular, ao analisar as justi�cativas do respectivo gestor.
Corroborando a coexistência de princípios antagônicos aplicados ao
caso concreto, conforme anteriormente mencionado, veri�ca-se, na
concessão de medidas cautelares inaudita altera pars pelo Tribunal de
Contas da União, a prevalência do princípio do interesse público sobre o
privado em face do princípio do devido processo legal, do contraditório e da
ampla defesa. Contudo, a medida cautelar poderá ser revista a qualquer
tempo pelo Relator ou Tribunal, quando não mais subsistirem os motivos
ensejadores de seu deferimento ou quando da análise de mérito do
respectivo processo.
Percebe-se, então, que o princípio do contraditório e da ampla defesa
há de ser observado em processos judiciais ou administrativos, como consta
nos direitos e garantias fundamentais inseridos no Texto Constitucional,
com as ressalvas expressamente previstas no ordenamento jurídico pátrio.
11.9 PRINCÍPIO DA FORMALIDADE
Dentre os requisitos do ato administrativo, está contemplada a forma
como requisito de constituição e validade, além da competência, �nalidade,
motivo, objeto.
No contencioso administrativo, exercido por diversos órgãos da
Administração Pública, veri�cam-se ritos, por exemplo, no Sistema Tribunal
de Contas, em que se exigem formalidades necessárias ao regular
desenvolvimento do processo administrativo sob a competência
administrativa.
Na esfera judicial, a forma das petições deve estar circunscrita às
espécies taxativamente previstas na norma, sob pena de não serem
conhecidas e, consequentemente, perecer o direito pretendido.
Entretanto, não há confundir o âmbito de atuação do contencioso
administrativo em contraponto ao Sistema de Jurisdição Única contemplado
na Constituição Federal.
Os atos administrativos exigem, como requisito de validade,
competência, forma, �nalidade, motivo, objeto e publicidade. A forma é,
então, um dos requisitos de validade dos atos administrativos, para que
possam integrar o mundo jurídico, aptos a criar, transformar ou extinguir
direitos, devendo ser, então, prescrita ou não defesa em lei, sob pena de
invalidade.
Não se deve desconsiderar que a formalidade exigida nos atos
administrativos visa, também, garantir a igualdade processual107 entre as
partes, a �m de que estas conheçam o rito e a forma a que se sujeitarão
quando diante de um processo administrativo ou judicial.
Entretanto, o próprio ordenamento jurídico, no que tange ao controle,
possibilita que os atos administrativos praticados com vícios sanáveis
possam ser convalidados pela Administração Pública108, desde que não
impliquem lesão ao interesse público, nem prejuízo a terceiros.
Assim, sem prejuízo da essencialidade da forma quando estritamente
necessária, diferente do que ocorre no Poder Judiciário, o princípio da
verdade formal vendo sendo mitigado em face do princípio da verdade
material no âmbito do contencioso administrativo.
11.10 PRINCÍPIO DO FORMALISMO MODERADO
Sem qualquer capitis diminutio, em relação ao princípio da formalidade
mencionado no item anterior, também vige no ordenamento jurídico-
administrativo o princípio do formalismo moderado.
Em que pese sua aplicação no âmbito administrativo há tempos, com o
advento da Lei de Processo Administrativo, houve formalmente sua
incorporação ao sistema jurídico-administrativo, conforme expressamente
consagrado em seu at. 2º, parágrafo único, incisos VIII e IX, que, pela
pertinência, são descritos a seguir:
Art. 2º A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da
legalidade, �nalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade,
moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse
público e e�ciência.
Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre
outros, os critérios de:
(...)
VIII - observância das formalidades essenciais à garantia dos direitos dos
administrados;
(...)
IX - adoção de formas simples, su�cientes para propiciar adequado grau de
certeza, segurança e respeito aos direitos dos administrados.
A possibilidade jurídica de observância de formalidades essenciais na
garantia dos direitos dos administrados e a adoção de formas simples que
privilegiem a segurança jurídica e o respeito aos direitos dos administrados
não implicam reconhecimento de prática de atos sem observância de formas
indispensáveis à garantia desses mesmos direitos dos administrados sob o
pseudomanto da aplicação do princípio do formalismo moderado.
Entretanto, possibilita o reconhecimento de atos praticados sem a estrita
observância dos ditames da lei, desde que não haja violação a regras e
princípios que impliquem danos aos cofres públicos, lesão ao interesse
público, prejuízos a terceiros.
Ganha relevância na aplicação do princípio do formalismo moderado o
princípio da impessoalidade ou da �nalidade. Não deve ser aplicado o
princípio do formalismomoderado diante de violação a outros princípios,
principalmente o da impessoalidade, pois, nessa hipótese, estar-se-á diante
de interesses diversos do interesse público, motivo por que, no momento de
sopesar esses princípios, há de preponderar o da impessoalidade em prol da
boa Administração Pública.
11.11 PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL
O princípio da verdade material encontra-se intimamente ligado ao do
livre convencimento motivado do julgador. No âmbito do contencioso
administrativo, sem prejuízo de formalidade estritamente essencial ao ato
administrativo, deve-se buscar a verdade dos fatos, a �m de subsidiar a
decisão de mérito a ser proferida pela Administração.
Sobre o princípio da verdade material, Hely Lopes Meirelles assim se
pronuncia109:
O princípio da verdade material, também denominado da liberdade na
prova, autoriza a Administração a valer-se de qualquer prova lícita de que a
autoridade processante ou julgadora tenha conhecimento, desde que a faça
trasladar para o processo. É a busca da verdade material em contraste com a
verdade formal. Enquanto nos processos judiciais o juiz deve cingir-se às
provas indicadas no devido tempo pelas partes, no processo administrativo a
autoridade processante ou julgadora pode, até o julgamento �nal, conhecer
de novas provas, ainda que produzidas em outro processo ou decorrentes de
fatos supervenientes que comprovem as alegações em tela.
O princípio da verdade material deve, então, nortear os processos no
âmbito do contencioso administrativo, em detrimento da verdade formal, de
maior proeminência no Poder Judiciário.
11.12 PRINCÍPIO DA LEGALIDADE
Como corolário do Estado Democrático de Direito consagrado no art.
1º, da Constituição Federal, emerge o princípio da legalidade. Este princípio
decorre de inspiração extraída do artigo primeiro, parágrafo único, da Carta
Magna, in verbis:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel
dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito e tem como fundamentos (...). (Grifou-se.)
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
A titularidade do poder assenta no povo, cuja soberania, cidadania,
dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre
iniciativa, pluralismo político somente serão efetivados como fundamentos
da República expressamente previstos no primeiro artigo da Lei Maior se
houver observância dos limites da lei.
Do Texto Constitucional, emergem dois princípios da legalidade.
O primeiro está previsto no art. 5º, II (ninguém será obrigado a fazer
ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei). Em que pese esse
princípio encontrar-se no capítulo “Dos Direitos e Deveres Individuais e
Coletivos”, pode-se concebê-lo como uma garantia constitucional do
cidadão em face de eventuais arbitrariedades da Administração ou de
tentativa de arvoramento do Estado sobre o particular, “já que ele não tutela,
especi�camente, um bem da vida, mas assegura ao particular a prerrogativa
de repelir as injunções que lhe sejam impostas por outra via que não seja a
da lei”110. Veri�ca-se, portanto, que o princípio da legalidade previsto nesse
dispositivo destina-se ao cidadão, a garantir os direitos do cidadão de não
ser compelido a fazer ou deixar de fazer alguma coisa a não ser em
decorrência da existência de regra que contemple o dever de fazer ou não
fazer, sendo-lhe lícito fazer tudo o que a lei não proíbe.
Já o segundo princípio da legalidade constante no Texto Constitucional
destina-se a estabelecer os limites de atuação da Administração Pública.
Esta, além do previsto no art. 5º, II, cuja melhor exegese acena no sentido de
destinar-se, em primeiro plano, ao particular, deverá observar também o
princípio da legalidade discriminado no caput do art. 37, da Constituição
Federal.
Por aquele princípio, é lícito ao particular fazer tudo o que a lei não
veda. Já por este princípio, tem-se que a Administração Pública somente
poderá fazer o que estiver previsto em lei. A contrario sensu, tudo o que não
estiver previsto em lei, a Administração Pública não poderá fazer, sob pena
de o administrador substituir-se ao poder que emana do povo, titular da
produção normativa instrumentalizada pelo Poder Legislativo, que busca
seu fundamento de validade último na norma fundamental tal como
mencionada por Kelsen.
É nesse sentido que a competência nos diversos estágios do
contencioso administrativo não pode extrapolar os limites da lei, não sendo,
portanto, lícito à Administração exigir do responsável pela gestão de
recursos, bens e patrimônios públicos deveres não previstos no
ordenamento ou aqueles defesos pela norma legal, sob pena de ser o ato
ilegal desconstituído em sede da própria Administração Pública ou pelo
Supremo Tribunal Federal.
11.13 PRINCÍPIO DA IMPESSOALIDADE OU DA
FINALIDADE
Quando se está a falar do princípio da �nalidade (ou da
impessoalidade), devem-se ter em mente os requisitos do ato administrativo
(competência, forma, �nalidade, motivo, objeto), pois a �nalidade dos atos
administrativos há de ser sempre pública, sob pena de invalidade do ato
praticado pela Administração.
O sentido teleológico do princípio da impessoalidade consiste em
promover certa igualdade entre aqueles que se encontrem na mesma
situação, em consonância com a essência da isonomia.
Quando se pratica um ato sem observância da impessoalidade ou
�nalidade, estar-se-á diante de desvio de �nalidade praticado pelo
respectivo agente público, pois se pratica um ato com interesse diverso do
interesse público, como, por exemplo, por motivos de amizade ou inimizade
com o destinatário do ato ou mesmo para obter alguma vantagem indevida.
O art. 2º, parágrafo único, alínea “c”, da Lei nº 7.417/195 (Lei da Ação
Popular), estabelece que “o desvio de �nalidade se veri�ca quando o agente
pratica o ato visando a �m diverso daquele previsto, explícita ou
implicitamente, na regra de competência”.
11.14 PRINCÍPIO DA MORALIDADE
ADMINISTRATIVA
O princípio da moralidade, dada sua importância da gestão da res
publica, encontra-se expressamente contemplado em diversos diplomas. O
Art. 37, caput, da Constituição Federal, contempla sua existência como
norteador da Administração Pública. Também o art. 5º, LXXIII, da Lei
Maior, prevê o remédio constitucional da ação popular (Lei nº 4.717/1965)
para anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado
participe à moralidade administrativa. O art. 2º, caput, da Lei de Processo
Administrativo, também o prevê expressamente. A Lei nº 1.079/1950
estabelece como crime de responsabilidade do Presidente da República os
atos que atentarem contra a probidade da Administração.
É importante ter em mente que o gestor é uma pessoa comum que se
encontra no exercício de uma atividade pública. Por ser um bonus pater
familiae, está sujeito à prática de erros, comuns em todas as pessoas que
exercem qualquer tipo de atividade, seja pública ou privada. Embora o
princípio da moralidade seja mais latente ao gestor público, não há
desconsiderar que o particular que mantém relação com o Estado também
deve observar este princípio, sob pena de arcar com os efeitos previstos no
ordenamento jurídico.
Contudo, há que distinguir o erro comum a todas as pessoas no
exercício de suas atividades, inclusive no que se refere ao bonus pater
familiae, do erro com o objetivo de praticar atos contrários à lei ou aos bons
costumes. Este último erro classi�cado como dolo, em suas duas
classi�cações, ou seja, quando deseja o resultado (dolo direto) ou quando,
ainda que não queira o resultado, assume o risco (dolo eventual), onde o
elemento volitivo na conduta do agente é imprescindível na obtenção ou
assunção do risco no resultado. A moralidade está bem mais afeta a este erro
onde se pretende ou assume o risco pelo resultado contrário ao Direito.
A Administração Pública está jungida ao princípio da legalidade, do
qual não pode afastar-se,sob pena de nulidade do ato praticado. Entretanto,
a moralidade administrativa transcende os limites da legalidade, pois nem
tudo que é legal pode ser considerado moralmente correto.
O princípio da moralidade administrativa pode ser concebido como
conduta do homem médio segundo padrões socialmente aceitos.
11.15 PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE
O princípio da publicidade, além de estar expressamente contemplado
na Constituição Federal, também está previsto em diversas normas
brasileiras, como, por exemplo, Lei nº 8.429/1992, Lei nº 4.717/1965, Lei nº
12.527/2011, art. 5º da Lei nº 14.133/2021, o qual, além de estabelecer o
objetivo da licitação, prescreve que esse procedimento há de observar o
princípio da publicidade, além dos demais que menciona.
Ganha destaque, então, a norma fundamental mencionada por
Kelsen111, cuja característica consiste em ser aquela que não possui
fundamento em nenhum outro diploma e que serve de fundamento para
todas as demais normas do ordenamento, sendo que contra ela nenhuma
outra norma do sistema pode insurgir-se.
Sob o conceito da norma fundamental de�nida por Kelsen, o caput do
art. 37, além de mencionar os princípios da legalidade, impessoalidade,
moralidade e e�ciência, consagra expressamente o princípio da publicidade.
Ao de�nir o princípio da publicidade, Hely Lopes Meirelles112 assim se
manifesta:
Publicidade é a divulgação o�cial do ato para conhecimento público e início
de seus efeitos externos. Daí por que as leis, atos e contratos administrativos
que produzem consequências jurídicas fora dos órgãos que os emitem
exigem publicidade para adquirirem validade universal, isto é, perante as
parte e terceiros.
Também Gilmar Mendes, Inocêncio Coelho e Paulo Gonet113, sobre o
princípio da publicidade, lecionam que:
No plano jurídico-formal, o princípio da publicidade aponta para a
necessidade de que todos os atos administrativos estejam expostos ao
público, que se pratiquem à luz do dia, até porque os agentes estatais não
atuam para a satisfação de interesses pessoais, nem sequer da própria
Administração, que, sabidamente, é apenas um conjunto de pessoas, órgãos,
entidades e funções, uma estrutura, en�m, a serviço do interesse público,
que, este sim, está acima de quaisquer pessoas. Prepostos da sociedade, que
os mantém e legitima no exercício das suas funções, devem os agentes
públicos estar permanentemente abertos à inspeção social, o que só se
materializa com a publicação/publicidade dos seus atos.
Diogenes Gasparini114, ao lecionar sobre princípios, assim de�ne o da
publicidade:
Esse princípio [publicidade] torna obrigatória a divulgação de atos, contratos
e outros instrumentos celebrados pela Administração Pública direta e
indireta, para conhecimento, controle e início de seus efeitos. (...) A essa
regra escapam os atos e atividades relacionados com a segurança nacional
(art. 5º, XXXIII, da CF), os ligados a certas investigações, a exemplo dos
processos disciplinares, de determinados inquéritos policiais (art. 20 do
CPP) e dos pedidos de reti�cação de dados (art. 5º, LXXII, b, da CF), desde
que prévia e justi�cadamente sejam assim declarados pela autoridade
competente. (Grifou-se.)
Não se pode perder de vista a natureza de publicização dos atos
administrativos de que se reveste este princípio. Entretanto, ao buscar o seu
sentido teleológico, veri�ca-se a função precípua do princípio da
publicidade: permitir o controle da Administração Pública.
Os atos praticados pela Administração hão de ser publicados, para que
todos quantos queiram possam deles tomar ciência. A gestão da coisa
pública não pode pautar-se sob um véu da não-publicidade, penumbra,
sombra ou qualquer outro interesse escuso que impeça o cidadão ou os
órgãos de controle de terem conhecimento ou acesso a eles, pois a prática
administrativa é impessoal e deve visar sempre à satisfação do interesse
público.
Considerando a estatura constitucional do princípio da publicidade,
violá-lo signi�ca transgredir um princípio, cuja função integralizadora do
sistema em que se insere consistiria em uma grave infração, além de atentar
contra todo o sistema em que se insere.
Não é demais lembrar que a Lei de Improbidade Administrativa - LIA
(Lei nº 8.429/1993, art. 11, IV) considera improbidade administrativa ato
que atente contra os princípios da Administração Pública. A rigor, violar
princípio, qualquer que seja, inclusive o da publicidade, constitui ato de
improbidade administrativa, sujeitando o infrator às sanções discriminadas
nessa norma115. Enfatize-se, contudo, que a LIA é expressa ao de�nir ato de
improbidade administrativa em relação ao ato que “negar publicidade aos
atos o�ciais, salvo em razão de sua imprescindibilidade para a segurança da
sociedade e do Estado ou de outras hipóteses instituídas em lei”.
Entretanto, ter o princípio da publicidade como um mero instrumento
de publicização dos atos praticados pela Administração implicaria capitis
diminutio sem precedente desse sublime princípio, uma vez que seu sentido
teleológico consiste em permitir o controle dos atos administrativos.
Esse deve ser o entendimento acerca do princípio da publicidade no
âmbito do Estado, pois imaginá-lo como simples veículo de externalização
dos atos praticados pela Administração implicaria a redução, senão a
inexistência, de sua essência.
É nesse sentido que o princípio da publicidade deve ser concebido, ou
seja, destina-se a publicizar, dar ciência dos atos praticados pela
Administração, a �m de permitir seu controle. É nesse controle que reside a
essência, o fundamento, a razão de existir do princípio da publicidade, ou
seja, para permitir o controle dos atos da Administração.
Assim sendo, os princípios, explícitos ou implícitos, como espécies de
normas, hão de ser observados no regular desenvolvimento dos processos
administrativos, sob pena de sua inobservância violar a norma legal,
hipótese em que se veri�ca a competência do Poder Judiciário para apreciar
lesão ou ameaça a direito decorrente dessa irregularidade ou da própria
Administração em seu poder-dever de autotutela com o �m de reparar o ato.
11.16 PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA
O Texto Constitucional erigiu a e�ciência como princípio informador
de toda a Administração Pública, conforme expressamente consagrado no
caput de seu art. 37. Entretanto, essa elevação ao status constitucional da
e�ciência ocorreu por meio do constituinte derivado.
O constituinte originário de 1988 não inseriu esse princípio como
informador da Administração Pública. Contudo, por meio da Emenda
Constitucional nº 19/1998, o constituinte reformador o inseriu no caput do
art. 37, motivo por que passou a ser informador de toda a Administração
Pública.
Não pode passar despercebido que a Lei de Processo Administrativo
também consignou esse princípio de forma expressa, em seu art. 2º, caput.
Não há falar em princípio da e�ciência sem repassar as funções da
Administração: planejamento, organização, direção e controle. Essas funções
devem permear o agir do gestor público, a �m de se alcançarem os objetivos
previamente concebidos. Caso a Administração Pública não desenvolva
ações sob inspiração dessas quatro funções, poder-se-á estar diante de
gestão temerária a ensejar dano aos cofres públicos e consequente
responsabilização de todos que houverem participado da cadeia causal do
prejuízo apurado.
As necessidades serão sempre amplas, quiçá in�nitas. Entretanto, os
recursos humanos, materiais e �nanceiros encontram o limite do possível,
do existente, do legal. Daí por que o princípio da e�ciência na gestão da res
publica ganha relevância.
A gestão pública deve visar sempre à realização dos serviços sob sua
responsabilidade com o menor dispêndio de recursos humanos, materiais e
�nanceiros. Nesse sentido, o princípio da e�ciência pode ser concebido
como a realização do objeto pretendido pela Administração com o menor
dispêndio de recursos humanos, materiais e �nanceiros sem comprometer
sua qualidade. Embora se registre que os conceitos de e�cácia e e�ciência
serão tratados emcapítulo mais à frente, adianta-se que nem todo o
atingimento do objeto pretendido pela Administração será e�ciente. A
concretude do objeto implica reconhecimento de sua e�cácia. Contudo,
deve-se veri�car se essa materialização ocorreu com o menor dispêndio de
recursos humanos, materiais e �nanceiros, a �m de veri�car se foi ou não
e�ciente.
A e�ciência transcende os limites da conformidade do ato praticado
pela Administração ou da legalidade stricto sensu, pois não basta que haja
realização do objeto. Torna-se imprescindível veri�car se os recursos
empregados em sua concretização são compatíveis ou não com os valores
(humanos, materiais e �nanceiros) de referência, sob pena de não se
identi�car a boa Administração e ensejar ação de ressarcimento dos danos
causados aos cofres públicos, em razão da prática de ato com inobservância
do princípio da e�ciência, sempre com atenção ao princípio do devido
processo legal, contraditório e ampla defesa.
Acerca do princípio da e�ciência, Hely Lopes Meirelles assim
leciona116:
O princípio da e�ciência exige que a atividade administrativa seja exercida
com presteza, perfeição e rendimento funcional. É o mais moderno princípio
da função administrativa, que já não se contenta em ser desempenhada
apenas com legalidade, exigindo resultados positivos para o serviço público e
satisfatório atendimento das necessidades da comunidade e de seus
membros.
O princípio da e�ciência consiste, portanto, no atingimento dos
objetivos pretendidos pela Administração com o menor dispêndio de
recursos humanos, materiais e �nanceiros sem perda da qualidade.
11.17 PRINCÍPIO DA RAZOABILIDADE E
PROPORCIONALIDADE
A Administração Pública pode praticar atos vinculados ou
discricionários. Os primeiros, o próprio normativo aplicável à espécie
confere o contorno de como deve ser praticado, ou seja, não há margem de
oportunidade ou conveniência para praticá-lo. Contudo, os atos
discricionários possuem, em sua essência, juízo de oportunidade e
conveniência para sua prática, dentro dos limites �xados em lei. Nesse
sentido, o princípio da razoabilidade e proporcionalidade está muito afeto à
prática do ato discricionário, ou seja, para afastar a pré-compreensão de que
os �ns justi�cam os meios.
Não é demais recordar que o juízo de oportunidade ou conveniência,
ou seja, o poder discricionário há de ser utilizado dentro dos limites, dentro
dos contornos delimitados pelo ordenamento jurídico, sob pena de ser
declarado ilegal pela própria Administração ou pelo Poder Judiciário. Nessa
hipótese, em havendo controle pelo Poder Judiciário, não se estará a
controlar o mérito (oportunidade ou conveniência), mas sim a legalidade do
ato.
No plano legislativo, a Lei de Processo Administrativo contempla
expressamente os princípios da razoabilidade e proporcionalidade afetos à
Administração Pública (art. 2º, caput). Embora haja expressa menção à
proporcionalidade e à razoabilidade, pode-se entender que uma contém a
outra. É difícil compreender proporcionalidade que não esteja de acordo
com razoabilidade. Daí por que se entende que a razoabilidade é
pressuposto para a proporcionalidade117.
A Emenda Constitucional nº 45/2004 acrescentou o inciso LXXVIII ao
art. 5º, que prevê razoável duração do processo e os meios que garantam a
celeridade de sua tramitação nos âmbitos judicial e administrativo, como
garantia fundamental. Embora essa razoabilidade e celeridade não se
re�ram diretamente aos atos administrativos, mas sim aos processos
administrativos, há de se considerar a aplicabilidade desses institutos em
toda a prática administrativa, conforme interpretação sistemático-
teleológica dos dispositivos constitucionais.
Razoabilidade e proporcionalidade possuem natureza axiológica e
devem ser analisadas à luz do caso concreto, uma vez que somente poderão
ser aferidas em face de um caso concreto. Nessa concepção, ganha relevo o
seguinte ensinamento118:
Utilizado, de ordinário, para aferir a legitimidade das restrições de direitos -
muito embora possa aplicar-se, também, para dizer do equilíbrio na
concessão de poderes, privilégios ou benefícios - o princípio da
proporcionalidade ou da razoabilidade, em essência, consubstancia uma
pauta de natureza axiológica que emana diretamente das ideias de justiça,
equidade, bom senso, prudência, moderação, justa medida, proibição de
excesso, direito justo e valores a�ns; precede e condiciona a positivação
jurídica, inclusive a de nível constitucional; e, ainda, enquanto princípio
geral do direito, serve de regra de interpretação para todo o ordenamento
jurídico.
Para se veri�carem a proporcionalidade e a razoabilidade na prática
dos atos administrativos, também devem ser aferidos dois requisitos:
necessidade e adequação.
A necessidade caracteriza-se pela veri�cação de ser imprescindível o
ato para o �m desejado. Caso não se caracterize a imprescindibilidade para
o �m desejado, não será necessário o ato e restará demonstrada exorbitância
do poder discricionário, que, em essência, caracteriza ilegalidade do ato.
Por outro lado, existem formas e formas de a Administração exercer
seu ofício. Se a adequação não for veri�cada na prática do ato
administrativo, estar-se-á diante de violação aos limites da
discricionariedade conferidos ao gestor público, o que também revela
ilegalidade do ato, a ser revista pela própria Administração ou pelo Poder
Judiciário.
Nesse sentido, o princípio da razoabilidade e da proporcionalidade
consiste no instrumento de aferição da adequação e da necessidade entre os
�ns e os meios dos atos praticados pela Administração Pública.
11.18 PRINCÍPIO DA AUTOTUTELA
Ao se analisarem as possibilidades de composição de uma pretensão
resistida, emergem duas possibilidades: judicial e administrativa. O Poder
Judiciário rege-se pelo princípio da inércia, ou seja, caso não seja provocado
pela parte que teve seu direito violado, permanecerá inerte. Já a
Administração Pública não necessita ser movimentada para solucionar
administrativamente um con�ito, pois pode, por moto proprio, instaurar
processos administrativos, por exemplo, para ressarcir os cofres públicos ou
apurar irregularidade sob sua tutela jurisdicional.
Quando se fala em tutela jurisdicional, trata-se de termo
eminentemente técnico afeto ao Poder Judiciário, nos exatos termos do art.
5º, XXXV, da Constituição Federal, in verbis: “a lei não excluirá da
apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”.
Já a tutela administrativa consiste no poder-dever de que dispõe a
Administração para dizer o direito a ser aplicado em face de terceiros no
âmbito de suas respectivas competências, em decorrência de movimentação
por terceiros ou em razão de atuação própria. Feita essa distinção, adotar-se-
á tutela jurisdicional tanto para competência do Poder Judiciário, quanto
para atribuição de órgãos administrativos que tenham competência para
impor obrigações a pessoas, físicas ou jurídicas, sujeitas à sua jurisdição.
Ocorre que, por exemplo, quando há ilicitude praticada por qualquer
órgão da Administração Pública, a pessoa que sentir violado qualquer
direito seu poderá demandar o Poder Judiciário, a �m de que se pronuncie
sobre a nulidade do ato praticado por esse órgão.
Já no âmbito administrativo, a Administração, ao identi�car um ato
praticado com violação ao ordenamento jurídico, poderá, por iniciativa
própria anular esse ato administrativo, em razão de vício insanável. Também
poderá a Administração, conforme juízo de oportunidade ou de
conveniência, revogar um ato lícito e e�caz. Quando ocorre de a
Administração rever, por iniciativa própria, um ato por ela praticado, seja
para revogá-lo, seja para anulá-lo, tem-se o instituto da autotutela.
O princípio da autotutela consiste na possibilidade jurídica de a
Administração Pública rever, por iniciativa própria, um ato por ela mesma
praticado, no que diz respeito à revogação ou à anulação, respeitados os
direitos adquiridos. Esse princípio vem expressamente garantido por meio
das súmulas 346 e 473 do STF119.
No âmbito infraconstitucional,a Lei nº 8.112/1990 também estabelece
a competência para a Administração Pública rever seus próprios atos,
quando eivados de vícios de ilegalidade (art. 114), em privilégio ao princípio
da autotutela que a norteia.
O princípio da autotutela estará atrelado ao princípio da legalidade
quando se tratar de anulação, por moto proprio, de ato por ela mesma
praticado. Estará ligado ao poder discricionário de que dispõe a
Administração Pública quando se tratar de revogação de ato licito e e�caz,
conforme juízo de oportunidade ou conveniência. Em qualquer dessas
hipóteses, devem sempre ser respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada,
em todos os casos, a apreciação judicial, haja vista o Sistema de Jurisdição
Única adotado no Brasil.
11.19 PRINCÍPIO DA CONTINUIDADE DO
SERVIÇO PÚBLICO
O Estado detém competência para praticar os serviços contemplados
no ordenamento jurídico. Ocorre que grande parte desses serviços não pode
sofrer solução de continuidade, sob pena de causar danos de difícil
superação.
Imagine-se a hipótese de um hospital público deixar de prestar serviços
por falta de médicos ou insumos. Essa situação hipotética poderia gerar
danos de difícil superação caso sofresse qualquer solução de continuidade.
O serviço público não pode parar.
Em razão desse princípio, por exemplo, serviços essenciais não podem
ser interrompidos, nem mesmo em razão de greve. É nesse sentido, que, ao
exercício da função pública, aplica-se o princípio da continuidade do serviço
público.
Também pode ser mencionada a mitigação do princípio da exceptio
non adimpleti contractus, que, mesmo diante do inadimplemento de
pagamento pelo Administração Pública, o contratado não poderá suspender
a execução dos serviços por até 90 (noventa) dias úteis (art. 137, § 2º, III, da
Lei nº 14.133/2021).
Princípio da continuidade do serviço público consiste na
impossibilidade de os serviços imprescindíveis à sociedade sofrerem solução
de continuidade.
11.20 PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA
O Estado Democrático de Direito, em linhas gerais, consiste naquele
que cria e se submete às mesmas leis que criou. Contudo, existem princípios
que são alicerces desse Estado de Direito. O princípio da segurança jurídica
é um desses princípios-garante do próprio Estado Democrático de Direito.
Quanto mais um país estiver distante do princípio da segurança jurídica,
mais próximo estará de um estado absolutista ou de um estado em que não
se veri�ca a democracia representativa ou mesmo o Estado de Direito. Nesse
sentido, merece destaque ensinamento do professor Canotilho nos seguintes
termos120:
A economia capitalista necessita de segurança jurídica e a segurança jurídica
não estava garantida no estado absoluto, dadas as frequentes intervenções do
príncipe na esfera jurídico-patrimonial dos súbditos e o direito
discricionário do mesmo princípio quanto à alteração e revogação das leis.
Ora, toda a construção constitucional liberal tem em vista a certeza do
direito. O laço que liga ou vincula às leis gerais as funções estaduais protege
o sistema da liberdade codi�cada do Direito Privado burguês e a economia
do mercado.
Continua o professor Canotilho121:
O princípio geral da segurança jurídica em sentido amplo (abrangendo, pois,
a ideia de proteção da con�ança) pode formular-se do seguinte modo: o
indivíduo tem do direito poder con�ar em que os seus actos ou as decisões
públicas incidentes sobre os seus direitos, posições ou relações jurídicas
alicerçadas em normas jurídicas vigentes e válidas por esses actos jurídicos
deixados pelas autoridades com base nessas normas se ligam os efeitos
jurídicos previstos e prescritos no ordenamento jurídico. As refrações mais
importantes do princípio da segurança jurídica são os seguintes: (1)
relativamente a actos normativos - proibição de normas retroactivas
restritivas de direitos ou interesses juridicamente protegidos; (2)
relativamente a actos jurisdicionais - inalterabilidade do caso julgado; (3)
em relação a actos da administração - tendencial estabilidade dos casos
decididos através de actos administrativos constitutivos de direitos. (Grifou-
se.)
O princípio da segurança jurídica consiste na estabilização das
relações jurídicas ou administrativas, em consonância com o direito
adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada122.
O princípio da segurança jurídica está intimamente associado ao
princípio da con�ança nas relações administrativas ou judiciais, além do
direito à coisa julgada, erigida à cláusula pétrea pelo Poder Constituinte
Originário. Daí por que, em algumas anulações de atos administrativos ou
mesmo em caso de declaração de inconstitucionalidade de algumas normas,
veri�ca-se a possibilidade de modulação123 dos efeitos do ato declarado nulo
pela própria Administração ou pelo Poder Judiciário ou do estabelecimento
de cláusulas de transição. Eventuais declarações de nulidade de atos
administrativos, caso haja e�cácia imediata da decisão, podem colocar em
risco o interesse público ou causar insegurança jurídica, o que fragilizaria a
con�ança nas relações administrativas e judiciais, além de instabilizar o
Estado de Direito, quiçá violar o manto da coisa julgada.
O princípio da segurança jurídica de�ui do próprio Texto
Constitucional, ao assegurar como cláusula pétrea que “a lei não prejudicará
o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada” (art. 5º,
XXXVI). Ora, ao estabelecer o direito fundamental ao direito adquirido, ao
ato jurídico perfeito e à coisa julgada, o poder constituinte originário
privilegiou a estabilidade das relações jurídicas ou administrativas, ou seja,
perenizou o direito à segurança jurídica, erigido a princípio e à cláusula
pétrea. Também não pode passar ao largo a expressa previsão desse
princípio no art. 2º, da Lei nº 9.784/1999.
Ao estabilizar as relações jurídicas ou administrativas, a segurança
jurídica impõe destaque a alguns pontos, como, por exemplo:
irretroatividade da lei ou de interpretação; boa-fé nas relações jurídicas.
A segurança jurídica impede que interpretações ou mudanças
legislativas alterem relações jurídicas já constituídas sob a égide da
hermenêutica aplicada ao tempo de suas concretizações ou em
conformidade com a legislação aplicável à época. Assim, a segurança
jurídica privilegia a irretroatividade da lei ou de interpretação, que, de
certa forma, faz valer o brocado tempus regit actum, que, em tradução livre
pode ser compreendido como “tempo rege o ato”.
É importante registrar que a lei ou a interpretação podem ser alteradas.
O que é defeso, segundo o princípio da segurança jurídica, é sua
retroatividade para alcançar as relações jurídicas ou administrativas já
constituídas124.
Mais uma vez com a doutrina sempre atual de Canotilho, merecem
destaque seus ensinamentos sobre segurança jurídica, nos seguintes
termos125:
O homem necessita de segurança para conduzir, plani�car e conformar
autônoma e responsavelmente a sua vida. Por isso, desde cedo se
consideravam os princípios da segurança jurídica e da proteção da confiança
como elementos constitutivos do Estado de Direito.
Esses dois princípios - segurança jurídica e protecção da con�ança - andam
estreitamente associados a ponto de alguns autores considerarem o princípio
da protecção de con�ança como um subprincípio ou como uma dimensão
especí�ca da segurança jurídica. Em geral, considera-se que a segurança
jurídica está conexionada com elementos objectivos da ordem jurídica -
garantia de estabilidade jurídica, segurança de orientação e realização do
direito - enquanto a protecção da con�ança se prende mais com as
componentes subcjetivas da segurança, designadamente a calculabilidade e
previsibilidade dos indivíduos em relação aos efeitos jurídicos dos actos dos
poderes públicos.
A segurança jurídica também acena na boa-fé das relações jurídicas
estabelecidas com o Estado. A interdisciplinaridade que norteia o
Subsistema Direito Administrativo, integrante de um sistema maior, o
Sistema Direito, permite que se valha do Código Civil126, a �m de
reconhecer a boa-fécomo elemento integrante dos negócios jurídicos.
A Lei de Processo Administrativo (Lei nº 9.784/1999, arts. 2º, IV, e 4º, I
e II127) também estabelece a boa-fé como de interesse e de observância tanto
pela Administração quanto pelo particular que com ela se relacione, ou seja,
a boa-fé há de ser recíproca entre Administração e administrado.
A inobservância da boa-fé, dentro da segurança jurídica pretendida
pelo Estado e pelo particular, permite asseverar a existência de improbidade
administrativa ou particular, ambas repudiadas por todo o ordenamento
jurídico.
Da segurança jurídica, também decorre a prescrição128 para a
Administração Pública rever seus próprios atos ou para o Judiciário dizer o
Direito ao caso que lhe seja submetido. De acordo com a Lei de Processo
Administrativo (art. 54), a Administração Pública tem o prazo prescricional
de 5 (cinco) anos para anular os atos administrativos com efeitos favoráveis
aos respectivos destinatários, prazo esse contado a partir de sua prática,
ressalvada a comprovada má-fé.
Dessa forma, o princípio da segurança jurídica, além de ser um dos
sustentáculos do Estado de Direito, visa proporcionar estabilidade nas
relações jurídicas no âmbito administrativo ou judicial.
11.21 PRINCÍPIO DA MOTIVAÇÃO
Mais uma vez com subsídio na teoria do ato administrativo, a
motivação consiste em requisito de constituição e validade. Uma vez
insubsistente a motivação do ato, ainda que discricionário, insubsistente será
o ato.
A motivação é comando obrigatório às decisões proferidas pelo Poder
Judiciário, nos termo do Texto Constitucional129, 130. Não diferente, os atos
administrativos também devem ser motivados sob pena de invalidade. O
princípio da motivação também privilegia o princípio do devido processo
legal, na medida em que permite ao destinatário do ato conhecer os motivos
que levaram a Administração a criar, transformar ou extinguir um direito
que lhe afete. Os atos administrativos hão de ser devidamente
fundamentados, sob pena de nulidade.
Ao se exigir motivação dos atos administrativos, garante-se ao
responsável pelo ato �scalizado pelo Sistema Contencioso Administrativo o
conhecimento da fundamentação pela Administração. Assim, cônscio dessa
motivação, a pessoa que teve um ato administrativo que atinja algum direito
subjetivo pode socorrer-se dos remédios processuais cabíveis para ver
prestada a tutela administrativa ou jurisdicional em face de lesão ou ameaça
a direito que tenha sofrido, a �m de desconstituir a motivação ensejadora do
ato contra o qual se insurge e, consequentemente, do ato que lhe tenha sido
desfavorável.
A inexistência de motivação dos atos praticados administrativamente,
como, por exemplo, por uma CPI (aqui em amplo sentido do contencioso
administrativo) não subsiste em face de demanda junto ao Supremo
Tribunal Federal131.
Também a lei que regula a ação popular (Lei nº 4.717/1965) estabelece
que são nulos os atos praticados pelas pessoas que especi�ca quando lesivos
aos respectivos patrimônios em razão da inexistência dos motivos que os
fundamentaram.
A motivação consiste, pois, em pressuposto de validade jurídica dos
atos administrativos, sob pena de nulidade a ser declarada pela própria
Administração ou pelo Poder judiciário.
11.22 PRINCÍPIO DA NÃO OBRIGAÇÃO DE
PRODUÇÃO DE PROVA CONTRA SI
O conjunto probatório produzido no âmbito do Direito Administrativo
há de observar o limite da legalidade na produção de provas, ou seja, não
são admitidas provas produzidas por meio de coação ou qualquer outro
meio ilícito.
Acerca das provas obtidas ilicitamente, bem como sobre a não
obrigação de produção de provas contra si, Paulo Rangel assim leciona132:
A prova obtida por meios ilícitos enquadra-se na categoria da prova vedada,
que, se admitida e valorada pelo juiz em sua sentença, acarretará a nulidade
da mesma.
Por tal motivo, por exemplo, entendemos que a testemunha (isso mesmo a
testemunha), em processo criminal [ou administrativo], pode (e deve) se
recusar a falar sobre aquilo que irá incriminá-la em processo criminal [ou
administrativo] futuro, pois, não obstante sua condição de testemunha no
processo em que presta depoimento (art. 342 do CP), isso não lhe priva dos
direitos e garantias fundamentais assegurados pela Carta Maga e o direito de
não produzir prova contra si mesmo (art. 8, item 2, alínea g, da Convenção
Americana dos Direitos Humanos - Pacto de São José da Costa Rica) é um
deles.
O princípio da não produção de provas contra si permite, por exemplo,
ao acusado, ao indiciado, permanecer silente ante perguntas que possam, no
presente ou no futuro, repercutir contra si mesmo.
Esse é o Entendimento do Supremo Tribunal Federal ao analisar o
Habeas Corpus 79812/SP (DJ de 16.2.2001, p. 21), de relatoria do Ministro
Celso de Mello, que possibilitou a uma testemunha permanecer silente em
comissão parlamentar de inquérito, no âmbito administrativo, a �m de
eventualmente não produzir provas contra si:
EMENTA: COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO - PRIVILÉGIO
CONTRA A AUTO-INCRIMINAÇÃO - DIREITO QUE ASSISTE A
QUALQUER INDICIADO OU TESTEMUNHA - IMPOSSIBILIDADE DE
O PODER PÚBLICO IMPOR MEDIDAS RESTRITIVAS A QUEM
EXERCE, REGULARMENTE, ESSA PRERROGATIVA - PEDIDO DE
HABEAS CORPUS DEFERIDO. O privilégio contra a autoincriminação -
que é plenamente invocável perante as Comissões Parlamentares de
Inquérito - traduz Direito Público subjetivo assegurado a qualquer pessoa,
que, na condição de testemunha, de indiciado ou de réu, deva prestar
depoimento perante órgãos do Poder Legislativo, do Poder Executivo ou do
Poder Judiciário. O exercício do direito de permanecer em silêncio não
autoriza os órgãos estatais a dispensarem qualquer tratamento que implique
restrição à esfera jurídica daquele que regularmente invocou essa
prerrogativa fundamental. Precedentes. O direito ao silêncio - enquanto
poder jurídico reconhecido a qualquer pessoa relativamente a perguntas
cujas respostas possam incriminá-la (nemo tenetur se detegere) - impede,
quando concretamente exercido, que aquele que o invocou venha, por tal
especí�ca razão, a ser preso, ou ameaçado de prisão, pelos agentes ou pelas
autoridades do Estado. Ninguém pode ser tratado como culpado, qualquer
que seja a natureza do ilícito penal cuja prática lhe tenha sido atribuída, sem
que exista, a esse respeito, decisão judicial condenatória transitada em
julgado. O princípio constitucional da não-culpabilidade, em nosso sistema
jurídico, consagra uma regra de tratamento que impede o Poder Público de
agir e de se comportar, em relação ao suspeito, ao indiciado, ao denunciado
ou ao réu, como se estes já houvessem sido condenados de�nitivamente por
sentença do Poder Judiciário. Precedentes.
Nesse sentido, nenhuma pessoa, testemunha ou investigado, tem o
dever de produzir prova contra si, motivo por que o Supremo Tribunal
Federal tem jurisprudência sobre a possibilidade de que essa pessoa
permaneça em silêncio durante os questionamentos realizados tanto no
Sistema Direito Administrativo quanto no Sistema de Jurisdição Única.
11.23 PRINCÍPIO DA ISONOMIA
O princípio da isonomia vai além de qualquer ramo do Direito, como,
por exemplo, Direito Penal, Direito Administrativo, Direito Civil, pois sua
estatura é constitucional, nos termos do caput do art. 5º, o que faz com que
seja de observância obrigatória por todo o ordenamento jurídico.
No plano constitucional o princípio da isonomia ou da igualdade pode
ser extraído de seu art. 5º, I: “homens e mulheres são iguais em direitos e
obrigações, nos termos desta Constituição”. A parte �nal desse dispositivo já
acena que não há igualdade no sentido de tratar todos de forma igual.
O princípio da isonomia possui grande carga axiológica de equidade
social, em que não se deve tratar todo mundo igualmente, mas no sentido de
que a Administração Pública deve “tratar igualmente os iguais e
desigualmente os desiguais na medida de suas desigualdades”, na célebre
concepção de Aristóteles.
Tratar todas as pessoas com a mesma medida ou sem qualquer desnívelpode ensejar �agrante violação ao princípio da isonomia, uma vez que são
necessários tratamentos diferenciados com o objetivo de se alcançar a
equidade social identi�cada nesses desníveis.
A desigualdade está presente em todas as pessoas. A constatação das
desigualdades não pode ensejar silêncio do Poder Legislativo, do Poder
Executivo ou do Poder Judiciário, mas sim atuações tempestivas e
necessárias de forma a minimizarem os efeitos dessas desigualdades, a �m
de se alcançar uma sociedade social, justa e equilibrada.
Acerca desse princípio, deve-se colacionar doutrina de José Afonso da
Silva, nos seguintes termos133:
A justiça formal consiste em “um princípio de ação, segundo o qual os seres
de uma mesma categoria essencial devem ser tratados da mesma forma”. Aí a
justiça formal se identi�ca como a igualdade formal. A justiça concreta ou
material seria, para Perelman, a especi�cação da justiça formal, indicando a
característica construtiva da categoria essencial, chegando-se às formas: a
cada um segundo a sua necessidade; a cada um segundo seus méritos; a cada
um a mesma coisa. Porque existem desigualdades, é que se aspira à
igualdade real ou material que busque realizar a igualização das condições
desiguais, do que se extrai que a lei geral, abstrata e impessoal que incide em
todos igualmente, levando em conta apenas a igualdade dos indivíduos e não
a igualdade dos grupos, acaba por gerar mais desigualdades e propiciar a
injustiça (..).
Acerca do princípio da isonomia, deve-se também colacionar lição de
Ruy Barbosa, nos seguintes termos134:
A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos
desiguais, na medida em que se desigualam. Nessa desigualdade social,
proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da
igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar
com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade
�agrante, e não igualdade real. Os apetites humanos conceberam inverter a
norma universal da criação, pretendendo, não dar a cada um, na razão do
que vale, mas atribuir o mesmo a todos, como se todos se equivalessem.
Assim, o princípio da isonomia consiste em tratar de forma igual os
que se encontrem na mesma situação e de forma desigual os que se
encontram em situações distintas, a �m de que se obtenha a equidade social
identi�cada nas diferenças existentes entre as pessoas.
No Direito Administrativo, mencione-se que esse princípio é de
observância obrigatória, por exemplo, na realização de concursos públicos,
bem como nas licitações realizadas pela Administração Pública que
envolvam microempresas e empresa de pequeno porte.
11.24 PRINCÍPIO DA COLEGIALIDADE
O princípio da colegialidade, decorrente do duplo grau de jurisdição,
consiste no dever de determinada deliberação ser proferida por um órgão
colegiado, conforme expressa previsão legal ou até mesmo em determinadas
situações em que o relator submete o feito ao colegiado, quando poderia
deliberar monocraticamente, a �m de obter mais estabilidade e segurança
jurídica.
O sentido teleológico desse princípio é possibilitar maior segurança
jurídica nas decisões a serem proferidas, pois o objeto da ação ou do recurso
será necessariamente analisado pelos respectivos membros.
É de se registrar que as decisões reiteradas do colegiado acabam por
criar jurisprudência sobre o tema decidido reiteradamente da mesma forma,
pois elas preponderam mesmo em face de entendimento diverso de algum
de seus membros, o que implica decisão por maioria.
Ademais, é possível que um membro do colegiado vote contra suas
próprias convicções, em face de decisões reiteradas sobre o assunto pelo
Colegiado, oportunidade em que poderá avocar o princípio da colegialidade
para votar contra suas convicções. Nada obsta, contudo, que o relator
apresente declaração de voto com os fundamentos jurídicos que ente devam
prevalecer, mesmo com discordância do entendimento do colegiado, pois
suas decisões devem observar o livre convencimento motivado.
Não é demais recordar que o magistrado está vinculado135, por força da
Constituição Federal, às decisões de mérito proferidas pelo Supremo
Tribunal Federal, nas ações diretas de inconstitucionalidade e nas ações
declaratórias de constitucionalidade (art. 102, § 2º, com redação dada pela
EC nº 45/2004), bem como às súmulas vinculantes136 (art. 103-A, com
redação dada pela EC nº 45/2004).
11.25 Princípio do duplo grau de jurisdição -
administrative review
O princípio do duplo grau de jurisdição, também conhecido no
âmbito administrativo como administrative review, consiste na
possibilidade assegurada às partes de submeterem matéria já apreciada e
decidida pelo juízo originário a novo julgamento por órgão
hierarquicamente superior.
O princípio do duplo grau de jurisdição visa paci�car e estabilizar
decisão proferida por juízo ou órgão inferior, ou reformar a decisão
recorrida para também se alcançar essa paci�cação e estabilização jurídicas,
em privilégio ao Estado de Direito.
11.26 PRINCÍPIO DA FUNGIBILIDADE RECURSAL
A norma legal estabelece os recursos a serem interpostos no âmbito
administrativo ou judicial, conforme o caso, o que implica reconhecer rol
taxativo nas possibilidades recursais. Nesse sentido, para cada deliberação
contra a qual se insurge o interessado, deve haver um recurso especí�co para
atacar o mérito recorrido.
Entretanto, no âmbito administrativo, sem prejuízo das normas que
regem sua atividade, também são observados os princípios do formalismo
moderado e da verdade material ou real. Daí por que, quando o recorrente
no âmbito administrativo interpõe um recurso em vez de outro, é possível o
órgão competente para analisar sua admissibilidade e mérito conhecer de
recurso diverso, quando preenchido pelo menos o requisito da
tempestividade do recurso apropriado à espécie e certa dúvida acerca da
espécie recursal cabível no caso concreto.
O princípio da fungibilidade recursal consiste no conhecimento de
recurso diverso daquele cabível para reformar a deliberação recorrida,
quando tempestivo.
Acerca da aplicação do princípio da fungibilidade recursal no âmbito
do TCU, impõe-se colacionar e comentar dois precedentes.
O primeiro diz respeito ao Acórdão nº 2792/2019/TCU-Plenário, de
relatoria da Ministra Ana Arraes, publicado in Ata nº 45/2019-Plenário, cujo
excerto do sumário é reproduzido in verbis:
O princípio da fungibilidade recursal somente se aplica quando houver
dúvida razoável acerca da espécie recursal cabível e quando o recurso
impróprio tenha sido interposto dentro do prazo do recurso próprio.
Dois requisitos foram consignados pela Relatora: i) razoável dúvida
acerca da espécie recursal e ii) interposição do recurso impróprio dentro do
prazo do recurso próprio.
O segundo refere-se ao Acórdão nº 4124/2019/TCU-Primeira Câmara,
de relatoria do Ministro Bruno Dantas, publicado in Ata nº 18/2019-
Primeira Câmara, cujo excerto do sumário é reproduzido in verbis:
1. Estando clara a intenção do peticionário de não interpor recurso, mas
apenas de protocolar pedido de reconsideração com o objetivo de solicitar a
retratação do juízo a quo, não cabe aplicar o princípio da fungibilidade para
conhecer da peça como recurso. 2. O princípio da fungibilidade constitui
salvaguarda da parte, sendo sua aplicação incompatível com os casos em que
contrarie sua vontade.
A aplicação do princípio da fungibilidade recursal não deve prosperar
in malam partem, ou seja, em prejuízo para o recorrente, pois a aplicação
desse princípio deve ocorrer em benefício da parte e não em seu malefício.
Ainda que em sede de juízo de cognição sumária, caso o relator do feito
entenda que o mérito do recurso deverá ser prejudicial ao recorrente, a
melhor hermenêutica a ser aplicada ao caso concreto deve ser não conhecer
do recurso e consequentemente não analisar o mérito, ou seja, não aplicar o
princípio da fungibilidade recursal, a �m de possibilitar à parte a
interposição de outra espécie recursal cabível ao caso concreto.
11.27PRINCÍPIO DA RAZOÁVEL DURAÇÃO DO
PROCESSO
O regular desenvolvimento do processo judicial ou administrativo não
pode durar tempo que prejudique a efetiva solução do direito nele
envolvido, sob pena de ine�cácia da decisão judicial ou administrativa a ser
proferida.
A Constituição Federal, por meio da alteração introduzida pela
Emenda Constitucional nº 45/2004 (art. 5º, LXXVIII), estabeleceu que a
todos são assegurados a razoável duração do processo e os meios que
garantam a celeridade de sua tramitação, nos âmbitos judicial e
administrativo, a erigir o princípio da razoável duração do processo a
garantia fundamental, petri�cada pelo poder constituinte.
11.28 PRINCÍPIO DA HIERARQUIA FEDERATIVA
Com a Constituição de 1891, foi estabelecido o modelo federativo que é
mantido até os dias de hoje, nos termos do art. 1º da Carta Magna de 1988,
assim descrito: «A República Federativa do Brasil, formada pela união
indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em
Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos (...)».
Já a organização político-administrativa da República Federativa do
Brasil, nos termos do art. 18, da Constituição Federal, “compreende a União,
os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos
desta Constituição”.
Nesse sentido, pode-se compreender que o Brasil possui quatro
espécies de entes federados: União, estados, Distrito Federal e municípios,
porém autônomos e sem qualquer tipo de subordinação entre eles.
Nesse sentido, não há hierarquia entre os entes da Federação. Porém,
existem competências que são atribuídas a cada ente, nos termos �xados
pela Constituição Federal de 1988.
Ainda que não exista hierarquia entre os entes da Federação, existem
algumas normas que estabelecem o princípio da hierarquia federativa ou da
hierarquia verticalizada, que passam a ser mencionadas, dentre outras
possibilidades.
Princípio da hierarquia federativa ou da hierarquia verticalizada
consiste na prerrogativa de que dispõe a União sobre estados, Distrito
Federal e municípios; os estados sobre municípios.
A Constituição Federal, ao estabelecer as atribuições da União no
âmbito da competência legislativa concorrente para expedir normas gerais, e
que eventual legislação estadual terá caráter complementar e não poderá
contrariar lei federal, estabelece a observância do princípio da hierarquia
federativa nesse caso.
A Lei nº 14.133/2021, ao prever em seu art. 43, § 1º, que é “permitida a
padronização com base em processo de outro órgão ou entidade de nível
federativo igual ou superior ao do órgão adquirente, devendo o ato que
decidir pela adesão a outra padronização ser devidamente motivado, com
indicação da necessidade da Administração e dos riscos decorrentes dessa
decisão, e divulgado em sítio eletrônico o�cial”, acena também no sentido da
observância desse princípio na hipótese mencionada.
Nas hipóteses de intervenção do Estado na propriedade,
principalmente no que diz respeito à desapropriação, servidão
administrativa e tombamento de ofício, veri�ca-se que a União poderá
valer-se desses institutos sobre bens públicos estaduais, distritais ou
municipais; os estados, sobre bens municipais. Contudo, o sentido inverso
não se admite, o que con�rma o princípio da hierarquia federativa nessas
hipóteses.
90 Fonte: http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001394/139423por.pdf.
91 FAGUNDES, M. Seabra. O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário. Rio de
Janeiro: Revista Forense, 3ª ed., 1957, p. 132.
92 FAGUNDES, M. Seabra. O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário. Rio de
Janeiro: Revista Forense, 3ª ed., 1957, p. 132.
93 Decreto-Lei nº 4.657/1942, com redação dada pela Lei nº 12.376/2010.
94 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Malheiros
Editores, 25ª ed., 2008, pp. 942/943.
95 Idem.
96 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Coimbra: Livraria
Almedina, 3ª ed., 1999, pp.1087/1088.
97 Apud COELHO, Inocêncio Mártires. Interpretação Constitucional. São Paulo: Saraiva, 3ª ed., 2007,
p. 74.
98 Apud COELHO, Inocêncio Mártires. Interpretação Constitucional. São Paulo: Saraiva, 3ª ed., 2007,
pp. 76/77.
99 O princípio da e�ciência passou a ter estatura constitucional expressa a partir da Emenda
Constitucional nº 19/1998, que alterou o caput do art. 37, introduzindo esse princípio.
100 Decreto-Lei nº 4.657/1942 e posteriores alterações.
101 ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. Tradução de Virgílio Afonso da Silva. São
Paulo: Malheiros, 5ª, ed., 2008, pp. 93/94.
102 SILVA, Virgílio Afonso Direito. Administrativo Direitos Fundamentais Conteúdo Essencial,
Restrições e E�cácia. São Paulo: Malheiros Editores, 2009, p.50.
103 Art. 2º A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade,
�nalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório,
segurança jurídica, interesse público e e�ciência.
Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios de: (...)
II - atendimento a �ns de interesse geral, vedada a renúncia total ou parcial de poderes ou
competências, salvo autorização em lei. (Grifou-se.)
104 MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet.
Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva: 2007, pp. 602/603.
105 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil. Rio de Janeiro: Forense, 38ª
ed., 2002, p. 25.
106 O art. 276 do Regimento Interno do Tribunal de Contas da União, ao regulamentar o art. 45, da
Lei nº 8.443/1992, assim disciplina concessão de medida cautelar nos processos de sua
competência:
Art. 276. O Plenário, o relator, ou, na hipótese do art. 28, inciso XVI, o Presidente, em caso de
urgência, de fundado receio de grave lesão ao erário ou a direito alheio ou de risco de ine�cácia da
decisão de mérito, poderá, de ofício ou mediante provocação, adotar medida cautelar, com ou
sem a prévia oitiva da parte, determinando, entre outras providências, a suspensão do ato ou do
procedimento impugnado, até que o Tribunal decida sobre o mérito da questão suscitada, nos
termos do art. 45 da Lei nº 8.443, de 1992. (Grifou-se.)
§ 1º O despacho do relator ou do Presidente, de que trata o caput, será submetido ao Plenário na
primeira sessão subsequente.
§ 2º Se o Plenário, o Presidente ou o relator entender que antes de ser adotada a medida cautelar deva
o responsável ser ouvido, o prazo para a resposta será de até cinco dias úteis.
§ 3º A decisão do Plenário, do Presidente ou do relator que adotar a medida cautelar determinará
também a oitiva da parte, para que se pronuncie em até quinze dias, ressalvada a hipótese do
parágrafo anterior.
§ 4º Nas hipóteses de que trata este artigo, as devidas noti�cações e demais comunicações do Tribunal
e, quando for o caso, a resposta do responsável ou interessado poderão ser encaminhadas por
telegrama, fac-símile ou outro meio eletrônico, sempre com con�rmação de recebimento, com
posterior remessa do original, no prazo de até cinco dias, iniciando-se a contagem do prazo a partir
da mencionada con�rmação do recebimento.
§ 5º A medida cautelar de que trata este artigo pode ser revista de ofício por quem a tiver adotado.
107 Não há desconsiderar uma intercessão entre o princípio da formalidade e do devido processo
legal, no que tange ao princípio da igualdade processual. Acerca desse tema, assim se manifestou o
Ministro Luiz Fux (STF), nos autos do Recurso Extraordinário com Agravo 648.629 - Rio de
Janeiro (publicado no DJe 69, de 8.4.2014): “A isonomia é um elemento ínsito ao princípio
constitucional do contraditório (art. 5º, LV, da CRFB), do qual se extrai a necessidade de assegurar
que as partes gozem das mesmas oportunidades e faculdades processuais, atuando sempre com
paridade de armas, a �m de garantir que o resultado �nal jurisdicional espelhe a justiça do processo
em que prolatado. Doutrina (FERNANDES, Antonio Scarance.

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