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CENTRO UNIVERSITÁRIO RITTER DOS REIS 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU 
 MESTRADO EM DIREITOS HUMANOS 
 
 
 
 
RENATA CHIMENDES 
 
 
 
 
O SENSO DE JUSTIÇA DOS PARLAMENTARES 
DO RIO GRANDE DO SUL: 
Um estudo sobre a competência moral-democrática 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PORTO ALEGRE 
2022 
 
 
Renata Chimendes 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O SENSO DE JUSTIÇA DOS PARLAMENTARES 
 DO RIO GRANDE DO SUL: 
Um estudo sobre a competência moral-democrática 
 
 
 
 
Dissertação apresentada como requisito 
parcial para a obtenção do título de 
Mestra em Direito pelo Programa de Pós-
Graduação em Direitos Humanos do 
Centro Universitário Ritter dos Reis -
UniRitter. 
 
Área de concentração: Direitos Humanos 
e Efetividade 
 
Orientador: Prof. Dr. Marcos Rolim 
 
 
 
 
 
Porto Alegre 
2022 
 
 
TERMO DE APROVAÇÃO 
 
RENATA CHIMENDES 
 
O SENSO DE JUSTIÇA DOS PARLAMENTARES 
 DO RIO GRANDE DO SUL: 
Um estudo sobre a competência moral-democrática 
 
 
Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre 
em Direito, no curso de pós-graduação lato sensu de Mestrado em Direito com 
enfoque em Direitos Humanos, do Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter, 
aprovada pela seguinte banca examinadora: 
_________________________________________ 
Prof. Dr. Marcos Rolim 
Orientador – Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter 
_________________________________________ 
Prof. Dr. Luciano Fedozzi 
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS 
_________________________________________ 
Prof. Dr. Mártin Haeberlin 
Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter 
__________________________________________ 
Prof.ª Dr.ª Karina Fernandes 
Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter 
 
Porto Alegre,11 de fevereiro de 2022 
 
 
AGRADECIMENTOS 
As histórias individuais são marcadas pelos encontros com as pessoas que 
cruzam o mesmo caminho. Na jornada trilhada para a construção deste trabalho, 
agradeço a todos que colaboraram para a sua realização e que me encorajaram ao 
longo de todo o processo. 
Agradeço ao Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter pela iniciativa de 
criação do Curso Mestrado em Direitos Humanos, cuja temática é extremamente 
relevante para a construção de uma sociedade mais justa e para a promoção e 
garantia de efetivação de direitos. 
Agradeço à coordenadora do curso, professora Dra. Sandra Regina Martini, 
pela perseverança e entusiasmo na coordenação do Mestrado em Direitos Humanos 
e por todo apoio e orientação ao longo desta jornada. 
Agradeço a todos os professores do curso que nos proporcionaram 
aprendizado, trocas e partilhas e nos conduziram de maneira ímpar o aprendizado 
assim como sensibilização às temáticas sobre os Direitos Humanos. 
Uma palavra, em especial, ao meu orientador professor Dr. Marcos Rolim 
pela sua generosidade em compartilhar sua experiência no campo empírico e por 
despertar em mim a coragem necessária para realização da presente pesquisa. 
Obrigada, professor Rolim, pela paciência e por todos os momentos de orientação e 
diálogo, fundamentais para a concepção e realização desta dissertação. 
 Gostaria, também, de agradecer aos professores Dr. Mártin Haeberlin e Dr. 
Luciano Fedozzi pelas contribuições dadas na banca de Qualificação que foram 
extremamente úteis para a melhoria do trabalho. 
Aos colegas da turma 2020/2021 do curso, por dividirem coletivamente 
espaços de discussões, de trocas e de aprendizagem. A amizade e parceria que 
foram construídos ao longo do processo tornaram a vida de Mestranda mais leve. 
Vocês foram essenciais nesta jornada. 
Agradeço ainda a parceria da jornalista Mauren Xavier pela disponibilização 
dos contatos dos parlamentares e seus assessores. 
 
 
Um agradecimento especial a Daiana Hermann pela importante contribuição 
profissional, auxiliando no cálculo no MJT_xt e tratamento estatístico da base por 
meio do programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). 
Agradeço, por fim, pela participação em nossa pesquisa, tanto como pela 
acolhida e gentileza na realização das entrevistas, aos 44 parlamentares do Rio 
Grande do Sul (cujos nomes não posso declinar), assim como aos vereadores e 
vereadoras que responderam os questionários quando do pré-teste, e aos 
assessores e assessoras parlamentares que se empenharam para que esse 
trabalho fosse possível. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Mudar o mundo, meu amigo Sancho, 
não é loucura, não é utopia; é justiça!” 
 
 
Dom Quixote, de Miguel de Cervantes 
 
 
RESUMO 
O presente estudo, elaborado como exigência parcial para a conclusão do curso de 
Mestrado em Direitos Humanos do Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter, 
investigou o senso de justiça dos parlamentares do Rio Grande do Sul, a partir de 
sua capacidade de julgamento em situações difíceis, utilizando-se 
fundamentalmente, para tanto, as contribuições de Lawrence Kohlberg e George 
Lind. No campo empírico, utilizamos dilemas na aplicação do Teste de Julgamento 
Moral (Moral Judgment Test – MJT) de Lind, para mensurar a competência moral-
democrática presente na amostra. Os dados foram, posteriormente, processados 
estatisticamente em busca de correlações significativas entre as variáveis 
independentes (autodeclaração de campo ideológico, sexo, raça, idade, 
escolaridade, religião, número de mandatos) com a variável dependente 
(competência moral-democrática). A pesquisa empírica conta com uma amostra de 
44 parlamentares do Rio Grande do Sul (deputados/as estaduais, deputados/as 
federais e senadores) que responderam, em entrevistas presenciais ou 
telepresenciais, a um questionário identificado com a versão estendida do Teste 
(Moral Judgment Test - MJT_xt extended). O instrumento permite mensurar a 
competência moral-democrática a partir do “C-score”, em que “C” representa 
“competence” (competência). Os escores altos traduzem alta competência moral-
democrática e sugerem um senso de justiça elevado; já escores baixos 
representariam um senso de justiça instável ou ausente e, por decorrência, baixa 
competência moral-democrática. Os resultados obtidos na amostra apontaram o C-
score médio do grupo de parlamentares do Rio Grande do Sul de 17,78 pontos (em 
uma escala de zero a 100). Ou seja, a partir da Teoria de Lind, encontramos que 
70,4% dos parlamentares do Rio Grande do Sul possuem um C-score muito baixo 
ou baixo de competência moral-democrática, o que sugere a atuação com baixo 
senso de justiça, ou seja, com menores competências para a construção de 
soluções justas. Mais do que isso, o estudo sugere que a baixa competência moral-
democrática não é característica exclusiva de qualquer grupo político-ideológico, 
mas que diz respeito a todas as posições representadas na amostra. Os resultados 
evidenciam limites estruturais do sistema político brasileiro e/ou falhas importantes 
nas dinâmicas de seleção eleitoral vigentes. Entre outros elementos a serem 
estudados por novas e mais amplas pesquisas, concluímos que um parlamento 
 
 
composto por representantes com os limites identificados pelo estudo será, 
provavelmente, incapaz de valorizar e de defender o Estado Democrático de Direito. 
 
Palavras-chave: Senso de justiça. Competência Moral-democrática. Direitos 
Humanos. Parlamento. 
 
 
 
ABSTRACT 
The present study, prepared as a partial requirement for the completion of the 
Master's in Human Rights course at Ritter dos Reis University Center - UniRitter, 
investigated the sense of justice of parliamentarians of Rio Grande do Sul, based on 
their ability to judge in difficult situations, using fundamentally, for this, the 
contributions of Lawrence Kohlberg and George Lind. In the empirical field, we used 
dilemmas in the application of Lind's Moral Judgment Test(MJT) to measure the 
moral-democratic competence present in the sample. The data were subsequently 
processed statistically in search of significant correlations between the independent 
variables (self-declaration of ideological field, gender, race, age, education, number 
of mandates) and the dependent variable (moral-democratic competence). The 
empirical research counts on a sample of 44 parliamentarians from Rio Grande do 
Sul (state deputies, federal deputies and senators) who answered, in face-to-face or 
online interviews, a questionnaire identified with the extended version of the Test 
(Moral Judgment Test - MJT_xt – extended). The instrument allows measuring moral-
democratic competence based on the "Score C", where "C" stands for "competence". 
High scores translate high moral-democratic competence and suggest a high sense 
of justice, whereas low scores would represent an unstable or absent sense of justice 
and, consequently, low moral-democratic competence. The results obtained in the 
sample indicated the average C-score of the group of parliamentarians from Rio 
Grande do Sul of 17.78 points (on a scale of zero to 100). That is, from Lind's 
Theory, we found that 70.4% of the parliamentarians from Rio Grande do Sul have a 
very low or low C-score of moral competence for democracy, which suggests acting 
with a low sense of justice, that is, with less competence for the construction of just 
solutions. More than that, the study suggests that low moral-democratic competence 
is not an exclusive characteristic of any political-ideological group but concerns all 
the positions represented in the sample. The results highlight structural limits of the 
Brazilian political system and/or important flaws in the current dynamics of electoral 
selection. Among other elements to be studied by new and more extensive research, 
we conclude that a Parliament composed by representatives with the limits identified 
by the study will probably be unable to value and defend the democratic rule of law. 
 
 
 
Keywords: Sense of Justice. Moral Competence for Democracy. Human Rights. 
Parliament. 
 
 
 
LISTA DE ILUSTRAÇÕES 
 
LISTA DE QUADROS 
Quadro 1 - Os dois tipos puros de moral segundo Piaget ......................................... 31 
Quadro 2 - Níveis e estágios da consciência moral .................................................. 35 
Quadro 3 - Fases do Desenvolvimento Moral de acordo com Kohlberg (1981) ........ 36 
Quadro 4 - Estágios de consciência moral e tipos de consciência de cidadania ...... 39 
Quadro 5 - Grau de concordância/discordância na Escala Likert.............................. 78 
Quadro 6 - Grau de inaceitável/aceitável na Escala Likert ........................................ 78 
Quadro 7 - Padrão resposta C-score extraordinariamente alto – Dilema Operário ... 89 
Quadro 8 - Padrão resposta C-score muito baixo – Dilema Operário ....................... 90 
 
LISTA DE TABELAS 
Tabela 1 - Distribuição por sexo ................................................................................ 83 
Tabela 2 - Distribuição por faixa etária ...................................................................... 84 
Tabela 3 - Distribuição por etnia/cor .......................................................................... 84 
Tabela 4 - Distribuição religião/igreja ........................................................................ 84 
Tabela 5 - Distribuição por espectro político ............................................................. 85 
Tabela 6 - Distribuição por número de mandatos ...................................................... 85 
Tabela 7 - Média C-score .......................................................................................... 86 
Tabela 8 - Frequência e C-score médio entre os três dilemas .................................. 86 
Tabela 9 - Frequência C-score com a média entre o dilema 1 (Operários) e dilema 3 
(comandante) ............................................................................................................ 87 
Tabela 10 - Frequência entre os três C-scores - CATEGORIAS * Sexo ................... 91 
Tabela 11 - Frequência agrupada em três categorias entre os três C-scores – 
CATEGORIAS * Sexo ............................................................................................... 92 
Tabela 12 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Sexo .......................... 92 
Tabela 13 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Faixa etária ................ 93 
Tabela 14 - Frequência e C-scores – CATEGORIAS * faixa etária ........................... 93 
 
 
Tabela 15 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Faixa etária sem 
participantes discrepantes ......................................................................................... 94 
Tabela 16 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos 94 
Tabela 17 - Frequência C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos ............. 95 
Tabela 18 - Frequência agrupada C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos
 .................................................................................................................................. 95 
Tabela 19 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos 
sem participantes discrepantes ................................................................................. 96 
Tabela 20 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Espectro político ........ 97 
Tabela 21 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Espectro político sem 
participantes discrepantes ......................................................................................... 97 
Tabela 22 - Frequência e C-scores – CATEGORIAS * Espectro político .................. 98 
Tabela 23 - Frequência agrupada e C-scores – CATEGORIAS * Espectro político .. 99 
Tabela 24 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Cargo político ............ 99 
Tabela 25 - Frequência C-scores – CATEGORIAS * Cargo político ....................... 100 
Tabela 26 - Frequência Concordância/discordância – Conduta do Comandante ... 101 
Tabela 27 - Frequência Concordância/discordância – Conduta dos dois operários 101 
Tabela 28 - Frequência Concordância/discordância – Conduta do médico ............ 102 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 13 
 
2 REFERENCIAL TEÓRICO ..................................................................................... 21 
2.1 A regra do jogo e a formação do juízo moral .................................................. 25 
2.2 A teoria do Desenvolvimento Moral de Lawrence Kohlberg ......................... 32 
2.3 O senso de justiça em John Rawls e a competência moral-democrática em 
George Lind ............................................................................................................. 42 
2.4 A inclusão do outro no Estado Democrático de Direito ................................ 51 
 
3 METODOLOGIA E CAMPO EMPÍRICO ................................................................ 64 
3.1 Competência moral-democrática a partir do Teste de Julgamento Moral ... 64 
3.2 Hipóteses de investigação ............................................................................... 74 
3.3 Escolha da técnica de investigação ................................................................ 76 
3.4 Coleta e processamento dos dados ................................................................ 79 
 
4 O SENSO DE JUSTIÇA E A COMPETÊNCIA MORAL-DEMOCRÁTICA DOS 
PARLAMENTARES DO RIO GRANDE DO SUL ..................................................... 82 
 
5 CONCLUSÃO ...................................................................................................... 104 
 
REFERÊNCIAS .......................................................................................................107 
 
Apêndice A – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ............................ 112 
Apêndice B – Instrumento de coleta ................................................................... 114 
 
 
 
 
13 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
“Só existe uma expressão para a verdade: o pensamento que 
repudia a injustiça. Se a insistência no lado bom da vida não é 
sublimada no todo negativo, ela se transfigura em seu próprio 
oposto: a violência”. 
 
Theodor W. Adorno 
 
O filho do Capitão Temístocles narra a história de sua infância, quando sua 
mãe se defrontou com o dilema moral: optar entre ter a consciência tranquila ou ter 
uma galinha ao molho pardo no estômago. 
Eu tinha possivelmente onze, doze anos, já sem pai, um pouco faminto, 
mas não tanto quanto os meninos deste país, deste continente. Lembro-me 
de uma manhã de domingo, uma manhã sem chuva. Estávamos, meus 
irmãos mais velhos e eu, no fundo do quintal, num gramado em que minha 
mãe plantava algumas roseiras para enfeitar a vida difícil. Eis que uma 
galinha pedrês se aproxima de nós, distraída, acompanhando com seu 
pescoço ondulante os pulos de um gafanhoto incauto. Em certo momento, a 
galinha apanhou o gafanhoto. E nós apanhamos a galinha... Nós havíamos 
estrangulado a galinha. Eu não esqueço que minha mãe cristã católica, 
séria, bem-comportada, com uma consciência ética bem aguçada, agarrou 
a galinha pedrês nas mãos e deve ter dito a ela mesma: O que fazer? 
Devolver está galinha ao proprietário pedindo desculpas pelo ato de seus 
filhos, como possivelmente a sua consciência ética sugeriria, ou pelo 
contrário fazer com aquela galinha o lauto almoço que há tempo não 
tínhamos? Claro que ela nunca me disse isso, eu apenas traduzo essa 
hesitação. De repente, sem dizer uma palavra, vira para o terraço e 
encaminha-se para a cozinha, com um corpo quente da galinha pedrês do 
vizinho. Uma ou duas horas depois comíamos uma excelente refeição. No 
dia seguinte não há dúvida nenhuma que o dono da galinha deve ter se 
estrebuchado de raiva contra o ladrão. Possivelmente ele jamais poderia ter 
pensado que junto dele, na casa do vizinho, estavam os autores do sumiço. 
Mas ele não podia fazer está conjectura, porque os autores do sumiço eram 
os filhos do capitão Temístocles, meu pai, e os filhos do capitão Temístocles 
não podiam ser ladrões de galinhas. O meu vizinho não podia pensar que 
nós éramos os autores daquele furto porque a classe social a que nós 
pertencíamos não possibilitava que ele fizesse essa conjectura. No máximo, 
se ele viesse a descobrir que éramos nós os autores, o vizinho iria dar um 
riso discreto e dizer à minha mãe: não se preocupe isso é trela de crianças. 
Se fossem, porém, meninos de um operário, teriam sido considerados 
delinquentes infantis. Na verdade, não éramos e não fomos delinquentes, 
matamos a galinha pedrês do vizinho para comer. Tínhamos fome (FREIRE, 
2020, p. 79). 
14 
 
A história da infância de Paulo Freire remete-nos à discussão sobre o que 
seria justiça. Podemos, através da história, falar sobre justiça social, sobre valores 
morais e sobre como, muitas vezes, os atos não são julgados por si, mas sim tendo 
em vista quem os protagonizou. A história da galinha pedrês de Freire ainda pode 
provocar o debate quando discutimos o que seria uma sociedade justa, nos 
provocando a pensar quais os princípios morais que guiam as regras estabelecidas 
no convívio social, e se estas regras são justas, considerando, principalmente, a 
sociedade desigual que condena parcela da população a uma vida precária, sem 
direitos sociais básicos. 
Habermas (2018) propõe a revisão da compreensão intuitiva da justiça, 
salientando que justiça talhada às relações interpessoais surge como um valor ao 
lado de outros, e não como um padrão para juízos imparciais, independente do 
contexto. Nesse particular, podemos identificar duas abordagens clássicas: a que 
compreende a moral como aquilo que promove a coerência solidária de uma 
comunidade e a que se estrutura pelo contratualismo que entende por moral aquilo 
que assegura a justiça de uma interação social regulada em termos normativos. 
 Para abordar o teor cognitivo moral, é preciso compreender o que significa 
fundamentar moralmente algo. Dessa forma, as proposições morais servem para 
regular as ações de diferentes atores em uma comunidade. De modo que havendo 
um rompimento destas normas, os membros desta comunidade moral se reportam 
às normas estabelecidas. Uma moral não se limita somente a estabelecer como os 
indivíduos devem se comportar, mas também fornece elementos para resolução 
consensual de conflitos, de modo que as regras morais acompanham as disputas 
morais. A consciência moral é expressão das exigências legítimas que os membros 
de um grupo social dirigem uns aos outros. A essa comunidade pertencem todos 
que foram socializados em alguma forma de vida comunicativa (HABERMAS, 2018). 
 Na teia das relações sociais, o sujeito se depara com a necessidade da 
tomada de decisões, orientadas por pressupostos conscientes ou inconscientes, que 
produzem consequências individuais e/ou coletivas. Nessa linha, pensar uma 
sociedade justa exige uma discussão mais complexa capaz de tematizar a relação 
entre o “Eu” e os “Outros”, de forma a se garantir que todos os seres humanos 
sejam tratados como sujeito de direitos. 
15 
 
Para Rolim (2021) muitos sentidos são atribuídos à expressão “justiça”, desde 
os valores mais presentes na mídia e no senso comum até as definições oferecidas 
pela filosofia e pela teoria política. Nas percepções correntes, no noticiário e nas 
aspirações disseminadas socialmente, é comum que o ideal de “justiça” seja 
associado à ideia de “punição”. Essa visão, resultado de uma forte demanda punitiva 
experimentada pelo sistema de justiça brasileiro, nos distancia dos sentidos 
emancipatórios da justiça. O autor lembra os conteúdos particulares propostos por 
Aristóteles, que conectou a ideia de justiça às virtudes da cidade, ressaltando a 
disposição de caráter e a “igualdade”, princípio assentado na integridade moral 
(Dikaiosyne); por Benthan, para quem a justiça estava definida pela promoção da 
“felicidade”; por Rawls e a noção de justiça como “equidade”; por MacIntyre, que 
sustenta a justiça como o equivalente à “afirmação do bem” e por Dworkin, para 
quem a justiça deve ser compreendida como “igual cuidado e responsabilidade 
especial”. 
Na antiguidade, com o surgimento dos conceitos de democracia e de política, 
a humanidade já discutia sobre justiça e bem comum. No processo histórico, ainda 
que existam avanços e retrocessos na construção de sociedades mais plurais, 
menos violentas e mais justas, parece haver um progresso moral mais amplo, 
notadamente se tivermos em conta a tendência geral de redução da violência 
conforme amplamente demonstrado por Pinker (2013). 
 No Brasil a justiça social enfrenta desafios enraizados em nossa formação 
histórica, notadamente aqueles resultantes da escravidão, da desigualdade social, 
da violência e do autoritarismo do Estado. No atual cenário político brasileiro, temos 
muitos projetos de leis que ameaçam os Direitos Humanos em pautas como a 
reforma trabalhista, a reforma da previdência, fim das demarcações das terras 
indígenas, restrição à laicidade do Estado, escola sem partido, redução da 
maioridade penal, redução da idade de trabalho, revogação do estatuto do 
desarmamento, adoção de políticas contrárias à proteção ambiental e desmonte 
do Estado e das políticas que garantem direitos sociais. É visível, também, um 
processo de politização dos Direitos Humanos e ataques extremistas que ameaçam 
a experiência democrática brasileira. 
16 
 
Esses processos atualizam o interesse a respeito das concepções de justiça 
que orientam os parlamentares brasileiros. Afinal, cabe a eles, em grande medida 
pelos menos, a tomada de decisão a respeito das reformas e da configuração das 
políticaspúblicas capazes de enfrentar nossas mazelas. Assim, deve-se observar o 
papel político que o parlamentar exerce na construção de uma sociedade mais justa, 
tendo em vista que ele atua na formulação, discussão e aprovação da legislação, o 
que se traduz em políticas públicas e/ou na ausência delas. 
Com esse intuito, a presente dissertação, um dos requisitos para a conclusão 
do curso de Mestrado em Direitos Humanos da UniRitter – Centro Universitário Ritter 
dos Reis, buscou investigar o senso de justiça dos parlamentares do Rio Grande do 
Sul, a partir de sua capacidade de julgamento em situações difíceis, utilizando-se 
para isso dos princípios da Teoria de Lawrence Kohlberg e George Lind. 
Trata-se de um estudo exploratório cujo objetivo é conhecer a competência 
moral-democrática (LIND, 2008) dos parlamentares e, por decorrência, suas 
possibilidades de produção de políticas justas. Assume-se que quanto maior a 
competência moral-democrática dos indivíduos, maiores as possibilidades de que 
eles produzam soluções que considerem mais amplamente as necessidades 
públicas. Assim, uma alta competência moral-democrática pode ser tomada como 
um “marcador” para um senso de justiça mais apurado. A assertiva diz respeito a 
potenciais determinados, expressando, portanto, uma expectativa lógica e não a 
uma realidade evidenciada por decisões tomadas no mundo real. Para saber até que 
ponto os parlamentares produzem ou não políticas justas seria preciso, no mais, 
contar com dados confiáveis a respeito dos resultados produzidos pelas suas 
decisões e acompanhar o quanto essas evidências seriam capazes de alterar 
posicionamentos percebidos pelos próprios parlamentares como escolhas 
equivocadas. As dificuldades para um trabalho com esse escopo, particularmente 
em uma tradição de ausência de avaliação de políticas públicas, muito 
provavelmente inviabilizariam a pesquisa. A opção metodológica que escolhemos foi 
por isso mesmo, a de oferecer aos parlamentares dilemas de difícil solução o que 
permite simular uma circunstância extrema que demanda justificativas de ordem 
moral. 
17 
 
Dentre as hipóteses levantadas, consideramos que as definições político-
ideológicas assumidas pelos parlamentares poderiam constituir variável 
estatisticamente significativa na conformação de sua competência moral. Pela 
segunda hipótese, consideramos que, no desempenho por faixa etária, 
parlamentares mais jovens possuiriam um C-score mais elevado do que os 
parlamentares com mais de 50 anos. Pela terceira hipótese, que é uma variação da 
segunda, pensamos que o número de mandatos obtidos pelos parlamentares se 
relacionaria inversamente com a sua competência moral. Por fim, de acordo com a 
quarta hipótese, presumiu-se que o número de votos obtidos pelos parlamentares 
estaria inversamente correlacionado à competência moral. 
O trabalho conta com pesquisa empírica com uma amostra de 44 
parlamentares do Rio Grande do Sul (deputados/as estaduais, deputados/as 
federais e senadores) que responderam, em entrevista presenciais ou 
telepresenciais, um questionário identificado na literatura como Moral Judgment Test 
- MJT_xt (extended), versão não certificada, adaptada a partir do instrumento 
utilizado por Silva (2016). 
 Por conta das limitações de nossa experiência democrática, notadamente se 
levarmos em consideração a importância da participação popular no processo de 
tomada de decisões e a dimensão igualitária do regime1 e, muito provavelmente, em 
consequência da distância existente entre representantes e representados e do 
baixo nível de formação política que caracteriza a sociedade brasileira (BAQUERO, 
2011), pouco se discute sobre o trabalho parlamentar. 
 Sabe-se que as democracias contemporâneas emergiram no ocidente por 
conta de um processo multifacetado de reivindicações populares, parte delas 
claramente disruptivas (TILLY, 1978; ELEY, 2005). O regime democrático é, em 
larga medida, aquele que se forma pelo conflito e que se nutre dele, na medida em 
que as demandas por igualdade e justiça ganham as ruas em mobilizações 
populares (YOUNG, 2014; TAVARES, 2012; TARROW, 2009). De um lado, pode-se 
verificar o ceticismo generalizado com respeito à atividade política, tomada, 
acriticamente, como expressão de interesses particulares e mera tradução do apetite 
 
1 O projeto internacional Variedades da Democracia (V-Dem), que monitora a experiência 
democrática no mundo, lida com indicadores de cinco dimensões democráticas: eleitoral, liberal, 
participativa, deliberativa e igualitária (COPPEDGE et al., 2021). 
18 
 
pelo Poder; de outro, se observa o emaranhado de laços de clientela (AVELINO 
FILHO, 1994) formados a partir da atividade política, fenômeno que termina por 
valorar a própria atuação dos parlamentares a partir da concessão de benesses e 
distribuição de recursos públicos que asseguram apoio eleitoral, como ocorre, com 
cada vez mais amplitude, com as chamadas “emendas parlamentares” (BAIÃO; 
COUTO; OLIVEIRA, 2019). 
 Em um quadro dessa natureza, refletir sobre a atuação parlamentar a partir 
da competência moral-democrática dos titulares dos mandatos e pensar sobre a 
capacidade que nossos representantes em possuir (ou não possuir) um senso de 
justiça capaz de construir soluções justas para os problemas do País parece adquirir 
ainda mais relevância. Se considerarmos, ainda, o cenário político atual, marcado 
por impasses políticos de dimensão histórica, poderemos destacar ainda mais o 
desafio de construir um Estado e uma sociedade que permitam a efetivação de 
direitos, assim como a formação de uma cidadania crítica, condição imprescindível à 
promoção da dignidade humana. 
Na primeira parte desse estudo, apresentamos nossos referenciais teórico-
conceituais, que partem dos estudos realizados por Piaget (1994), sobre o 
desenvolvimento moral, que associou o desenvolvimento geral da criança ao 
desenvolvimento moral. Através da teoria de Piaget, é possível uma discussão entre 
“as regras do jogo” e as normativas do convívio social. Na sequência, é aprofundada 
a Teoria do Desenvolvimento Moral de Kohlberg sobre a justiça crescente. Lawrence 
Kohlberg parte dos pressupostos de Piaget, onde o ato de julgar refere para uma 
nova estrutura lógica de operações mentais. Para Kohlberg a competência de 
julgamento moral é a capacidade de tomar decisões e de julgar moralmente em 
princípios internos. A partir de estudos clínicos com a realização de entrevistas com 
seus dilemas morais, Kohlberg identifica três níveis de moralidade, os quais são 
agrupados em seis estágios. O nível pré-convencional (estágios 1 e 2), contempla a 
maioria das crianças, onde as regras são seguidas ou não conforme o seu próprio 
interesse, tendo em vista a recompensa ou castigo por sua ação, não julgando a 
ação em si, mas suas consequências. O nível convencional (estágios 3 e 4), 
abarcam a maioria dos adolescentes e adultos, neste nível a ação se baseia no 
contrato social, nas regras sociais e expectativas do grupo social e da autoridade. O 
nível pós-convencional (estágios 5 e 6), contempla uma minoria de indivíduos, onde 
19 
 
a expressão pós convencional indica uma referência situada em princípios, ou seja: 
para além das normas convencionais. Os indivíduos desse nível compreendem que 
legalidade e justiça são coisas distintas e que, algumas vezes, para se promover a 
justiça é necessário romper com as normas. Para os pós-convencionais a ação se 
baseia em princípios morais universais, orientados pela reciprocidade e igualdade. 
Assim cada estágio kohlberguiano representa uma moralidade distinta ao conceber 
a justiça. 
Na discussão da Teoria de Kohlberg, a pesquisa se ancora nos autores 
nacionais Biaggio (2006) e Fedozzi (2002). 
A Teoria do Duplo Aspecto do Comportamento e Desenvolvimento Moral de 
George Lind apresenta a competência moral como tema central, e sustenta que 
aspectos afetivos e aspectoscognitivos podem ser mensurados simultaneamente e 
também separadamente um do outro, apesar de serem dimensões inseparáveis do 
comportamento. As contribuições de Lind, desenvolvidas a partir de Kohlberg, foram 
importantes em nossa pesquisa de campo e constituem a base teórica e empírica 
desta pesquisa. O estudo de Bataglia (2010) é utilizado para apresentação da 
versão estendida para a realidade brasileira, o Moral Judgment Test - MJT_xt. 
Para definição do que seria a noção de senso de justiça, partimos da 
concepção apresentada por John Rawls (1963) que ancorou seu significado na 
tradição kantiana. 
Já Habermas (2003) e Honneth (2009) são utilizados principalmente para 
discutir os impactos que a competência moral dos parlamentares tem em relação ao 
seu senso de justiça e sua interface com a efetivação de leis e políticas públicas 
garantidoras dos Direitos Humanos em um Estado Democrático de Direito. 
A segunda parte apresenta a problemática central da pesquisa e trata dos 
aspectos metodológicos do estudo empírico, apresentando a escolha de 
investigação e os procedimentos realizados, assim como o perfil dos entrevistados. 
Nesse capítulo, é detalhada a metodologia do Teste Moral Judgment Test (MJT_xt), 
instrumento adaptado para a avaliação da competência moral-democrática dos 
parlamentares participantes do estudo. 
20 
 
 A terceira parte é dedicada à apresentação e análise dos resultados da 
pesquisa empírica, com a amostra sobre o senso de justiça e a competência moral-
democrática dos parlamentares do Rio Grande do Sul e uma discussão sobre as 
correlações entre as variáveis independentes e dependente. Na discussão, 
ponderamos sobre os possíveis impactos do senso de justiça e da competência 
moral-democrática dos parlamentares nos seus posicionamentos. 
 Por fim, apresentamos a conclusão do estudo, problematizando sobre a 
relação entre a competência moral-democrática dos parlamentares e seu senso de 
justiça, assim como suas consequências na efetivação dos direitos humanos e na 
inclusão do “Outro”, desafios pressupostos na defesa do bem comum. 
21 
 
2 REFERENCIAL TEÓRICO 
 
“Essencialmente, educação social é educação moral, e educação 
moral é preparação para a cidadania”. 
Lawrence Kohlberg 
 
O referencial teórico deste trabalho conta, basicamente, com as contribuições 
de Lawrence Kohlberg e George Lind. Outros autores, como Rawls (1963), Piaget 
(1994), Habermas (2003) e Honneth (2009) serão utilizados em um segundo plano. 
Entre os autores nacionais, terão especial relevância os estudos de Biaggio (2006), 
Fedozzi (2002) e Bataglia (2010). 
Como o problema central da investigação empírica envolve o senso de justiça 
dos parlamentares, é importante esclarecer, de início, o significado dessa 
expressão. Quando falamos em “senso de justiça”, afinal, estamos diante de 
inúmeras possibilidades interpretativas, como bem o observou Markus Dubber 
(2005, p. 816, tradução nossa) 2: 
O que as pessoas querem dizer quando se referem ao senso de justiça? A 
resposta é, claro, que as pessoas atribuem muitos significados à expressão 
e, às vezes, nenhum significado maior. Muitas vezes, o senso de justiça 
aparece quase com o significado de um ponto de exclamação; a resolução 
preferida de uma determinada disputa de justiça é justificada não apenas 
como certa e adequada, mas, frequentemente, na forma de que qualquer 
outra resolução "chocaria" o senso de justiça. Alternativamente, pode-se 
descartar o senso de justiça como simplesmente irracional, um impulso 
emocional irracional perigosamente fora do lugar em um sistema abstrato 
legal e de normas políticas igualmente aplicadas. Finalmente, na sua 
variante comum, o senso de justiça pode funcionar pouco mais como um 
substituto para noções mais obviamente vazias, como "bom senso" ou 
"sentimento comunitário”. 
 
 
2 No original: What do people mean when they refer to the sense of justice? The answer is, of course, 
that they mean a great many things, and sometimes they mean not much at all. All too often, the 
sense of justice appears roughly to have the significance of an exclamation point; the preferred 
resolution of a given justice dispute is justified as not only right and proper, but so much so that any 
other resolution would "shock" the sense of justice. Alternatively, one might dismiss the sense of 
justice as simply beside the point, an irrational emotional impulse dangerously out of place in a system 
of abstract legal and political norms equally applied. Finally, in its communal variant, the sense of 
justice might function as little more than a stand-in for more obviously vacuous notions such as 
"common sense" or "community sentiment”. 
22 
 
 
Nesse trabalho, trataremos a noção de senso de justiça a partir da 
contribuição de John Rawls que procurou desenvolver a linha de argumentação 
kantiana que havia conectado o sentimento moral e a capacidade moral com a 
autonomia. Segundo Dubber (2005), Rawls desenvolveu uma teoria na qual “o 
senso de justiça é o sentimento moral por excelência”. Para ele, o senso de justiça 
pode nos ajudar a entender o que Rawls denomina “base da igualdade” (basis of 
equality) especialmente quanto às “competências básicas que nos permitem 
funcionar e interagir com outras pessoas em uma comunidade política desprovida de 
consenso sobre virtudes” (DUBBER, 2005, p. 832). 
Refletir sobre a competência moral, por sua vez, nos faz pensar sobre como 
se dá o mecanismo da autoconsciência, o que, por seu turno, aponta para a 
natureza das relações sociais e para as noções de justiça que são operantes 
socialmente. 
Piaget (1994) identifica quatro estágios universais das estruturas cognitivas 
numa escala invariante: senso motor, pré-operacional, de operações concretas e 
operações formais; associando o desenvolvimento geral da criança ao 
desenvolvimento moral do sujeito. Piaget (1994) sustenta sua teoria a partir da 
análise do papel das regras dos jogos infantis com a formação moral da criança 
apontando que as concepções de justiça vão evoluindo a cada novo estágio, 
percorrendo deste a noção de retribuição e vingança até a ideia de restauração, 
enfatizando o percurso percorrido entre uma moral imposta pelo “Outro” e uma moral 
autônoma. 
Lawrence Kohlberg, partindo do conceito de que pessoas e sociedades 
virtuosas são aquelas que atendem aos princípios da justiça, ancora seu estudo no 
critério de justiça crescente, relacionando noções de igualdade, equidade e 
reciprocidade da perspectiva sociomoral de cada indivíduo em relação ao coletivo, 
com o mesmo respeito a todas as pessoas. Kohlberg (1984) apresenta sua teoria do 
desenvolvimento moral cognitivo, com uma base teórica focada no estruturalismo 
psicogenético, sustentando que o desenvolvimento da moral abrange três níveis e 
seis estágios de desenvolvimento, que serão apresentados ao longo deste texto. 
23 
 
Ângela Biaggio (2006) apresenta a Teoria de Kohlberg, as pesquisas e suas 
aplicações na Psicologia educacional através de uma ampla revisão de literatura. 
Biaggio (2006) ainda traduziu três textos de Kohlberg que, mesmo em língua 
inglesa, não são de fácil acesso. 
Já Georg Lind, elabora sua Teoria do Duplo Aspecto do Comportamento e 
Desenvolvimento Moral a partir dos conceitos de Piaget e Kohlberg, determinando 
as orientações morais (aspecto afetivo) e a competência moral (aspecto cognitivo), 
integrando em sua teoria, afeto, juízo e ação. Lind elabora um instrumento que 
permite medir a competência moral-democrática de um determinado grupo. Assim o 
instrumento Moral Judgment Test (MJT) ou Moral Competence Test – (MCT),o 
instrumento permite medir a capacidade do entrevistado em avaliar argumentos a 
favor e contra a atitude tomada por personagem em um dilema por sua qualidade 
moral, de modo a confrontar os argumentos com a sua opinião frente à situação 
apresentada. De modo que a competência moral-democráticaé transformada em 
uma pontuação, o "C-score", "C" para “competence” (competência). 
Os estudos de Patrícia Bataglia (2010) nos auxiliam a pensar a Teoria de 
Geord Lind a partir da cultura brasileira. O MJT já foi traduzido e adaptado em mais 
de 30 línguas, Bataglia então adapta o Moral Judgment Test - MJT/MCT para a 
realidade brasileira, desenvolvendo a versão MJT_xt ou MCT_xt, a qual introduz um 
novo dilema (Dilema do Juiz), que aborda o direito à vida numa perspectiva distinta 
da apresentada no Dilema do Médico (eutanásia), já que, na cultura brasileira, a 
religião se apresentou como um fator muito influente que poderia enviesar o teste. 
Bataglia desenvolve inúmeras pesquisas com o MJT_xt, validando o instrumento 
para a obtenção da competência moral de sujeitos em distintas realidades. 
Luciano Fedozzi (2002) desenvolveu estudo sobre a consciência social a 
partir de pesquisa realizada com participantes do Orçamento Participativo de Porto 
Alegre. A metodologia utilizou-se dos dilemas kohlberguianos com o Defining Issues 
Test (DIT), elucidando mudanças na consciência social dos participantes, 
identificando que, a experiência de participação no espaço democrático (orçamento 
participativo) elevou a moralidade dos entrevistados. Os resultados indicam que a 
participação popular, ao longo do tempo, produz efeito positivo sobre a consciência 
moral, e, consequentemente, sobre a consciência social dos sujeitos da amostra. 
24 
 
Fedozzi (2002) em seu estudo realiza uma relação entre os níveis kohlberguianos 
pré-convencional, convencional e pós-convencional com os três tipos de consciência 
de cidadania: pré-cidadania, cidadania conformada e cidadania crítica, sustentando 
ainda que a democracia é um processo de autolegislação e forma de 
autodeterminação política na comunidade, salientando sua importância nas 
sociedades modernas. 
Jürgen Habermas (2003) entende que os diferentes níveis de aprendizado, 
relacionados às dimensões da organização moral e política, não correspondem às 
novas formas de organização da produção material e, sim, a graus de 
desenvolvimento da consciência moral. Habermas (2018) em sua obra “A inclusão 
do Outro”, parte de uma crítica à violação dos direitos das minorias presentes nas 
posições xenófobas, autoritárias e racistas, refletindo sobre o desafio de assegurar a 
igualdade de direitos e convivência mútua no Estado Democrático de Direito dentro 
de uma perspectiva de pluralidade, o que dialoga com o objeto de nossa pesquisa já 
que o senso de justiça dos parlamentares deve impactar a natureza da elaboração, 
discussão e aprovação de leis e políticas públicas, sobretudo quanto ao desafio de 
assegurar a igualdade de direitos. 
Também as contribuições de Axel Honneth (2009), com sua Teoria do 
Reconhecimento, ajudam a compreender os mecanismos complexos de formação 
do juízo moral. Ancorado em Hegel e Mead, ele sustenta que o juízo moral é uma 
construção influenciada pelas experiências com os processos de socialização ao 
longo da vida. Não de um modo behaviorista, determinado unilateralmente pelo 
meio, mas sim pela interação entre sujeito e objeto, contextualizando a dinâmica de 
construção de estruturas da consciência do indivíduo. Honneth (2009) retoma a 
questão dos conflitos existentes nas democracias contemporâneas e teoriza sobre 
os meios pelos quais os sujeitos buscam uma vida boa, no sentido aristotélico. 
Nessa perspectiva, para o sujeito referir-se enquanto um sujeito de direitos, ele 
precisa obter as três formas de reconhecimento intersubjetivo nas experiências do 
amor, do reconhecimento jurídico e da vivência da solidariedade. 
 
 
25 
 
2.1 A regra do jogo e a formação do juízo moral 
 Uma das dimensões da complexidade na vida em sociedade é aquela 
estabelecida entre o indivíduo e as regras do convívio social. Com o 
estabelecimento de normas, gera-se uma expectativa de comportamento adaptado, 
é representado como obediência. Por melhor que sejam as regras e por mais que, 
em torno delas, tenha se produzido um consenso, é sabido que, com frequência, a 
simples obediência às regras pode não assegurar a justiça. No mais, há também 
situações onde algumas regras são percebidas pelo indivíduo como injustas. Nesses 
casos, como se portar? 
Sobre a condição moral em uma perspectiva ocidental, pode-se destacar três 
perspectivas filosóficas representativas. A primeira advém da doutrina cristã, 
fundamentada como a humanidade nascendo do pecado original. A segunda 
corrente, ancorada no pensamento de Rousseau, concebe os seres humanos como 
naturalmente bons, sendo a sociedade responsável pelos eventuais desvios no 
comportamento das pessoas. A terceira advém do pensamento de John Locke para 
quem os indivíduos nascem amorais, nem bons nem maus, como uma “tábula 
rasa3”, onde a moralidade deriva da interação com o ambiente (MCDANIEL, 2007). 
Hegel entende que o sujeito só pode adquirir consciência de si no momento 
que interage com o “Outro”, fundamentando a teoria de reconhecimento, destacando 
que a autoconsciência humana depende da existência de outro sujeito, onde no 
direito natural moderno, uma comunidade de homens , é concebida pelos muitos 
associados (HEGEL, 1969 apud HONNETH, 2009). 
 Kant (2019, p. 17) estabelece uma relação entre as faculdades do ânimo e o 
arbítrio: 
A faculdade de desejar segundo conceitos chama-se faculdade de fazer ou 
omitir a seu bel-prazer, na medida em que o fundamento da sua 
determinação para a ação se encontra nela mesma, e não no objeto. Dado 
que ela está à unida à consciência de ser capaz de produzir o objeto 
mediante a ação, chama-se arbítrio. 
Na tomada de decisão e na inter-relação do “Eu” e os” Outros”, é que reside a 
centralidade do desenvolvimento moral. Diversos pensadores desenvolveram 
 
3 Como metáfora o conceito de tábula rasa foi utilizado por Aristóteles para indicar uma condição em que 
a consciência é desprovida de qualquer conhecimento prévio e inato. 
26 
 
pesquisas sobre a formação da identidade moral do sujeito, um processo que 
interfere, diretamente, na relação de reconhecimento recíproco e na vida social. 
Até hoje, há duas correntes teóricas predominantes sobre o desenvolvimento 
moral: aprendizagem social/conhecimento social e estruturalismo cognitivo. Ambas 
entendem a condição humana como amoral (nem boa, nem má), valorizando assim 
a importância no desenvolvimento moral. Assim, o desenvolvimento moral é foco de 
inúmeros estudos e pesquisas, principalmente em áreas como Psicologia, 
Sociologia, Filosofia e Educação sendo que alguns pensadores como Sigmund 
Freud (1856-1939), Geroge Herbert Mead (1863-1931), Jean Piaget (1896-1980) e 
Lawrence Kohlberg (1927-1987) desenvolveram teorias específicas sobre o tema. 
Freud (2017, p. 35) traz a oposição entre a psicologia individual e psicologia 
social: 
[...] É verdade que a psicologia individual está orientada para o ser humano 
singular e investiga os caminhos pelos quais ele busca alcançar a 
satisfação de suas moções de impulso, só que ao fazê-lo, apenas 
raramente, sob determinadas condições excepcionais, ela desconsidera as 
relações desse indivíduo com os outros. Na vida psíquica do indivíduo, o 
outro entra em consideração de maneira bem regular como modelo, objeto 
ajudante, e adversário, e por isso, desde o princípio a psicologia individual 
também é ao mesmo tempo psicologia social nesse sentido ampliado, 
porém inteiramente legítimo. 
Na perspectiva de Freud (2017) a psicologia “das massas” compreende o 
indivíduo como membro de uma tribo, um povo, uma casta, uma classe, uma 
instituição. Freud argumenta que ideias se transformam em ações apenas nas 
massas. 
Para George Herbert Mead (1863-1931), as situações de problematização 
evocam operações cognitivas e, através do problema prático a ser solucionado, o 
sujeito é forçado a reelaborar interpretações da situação (MEAD,1973 apud 
HONNETH, 2009).Mead dedica seu estudo à formação da identidade prático moral. 
Debruçando-se sobre a relação do Eu com o mundo social, concluiu que há uma 
precedência da percepção do outro sobre o desenvolvimento da autoconsciência. 
Mead constrói uma base teórica para a distinção do “Eu” e Me”, onde "Me" enfatiza 
que o sujeito recebe de si mesmo, tão logo aprenda a perceber-se da perspectiva de 
27 
 
uma segunda pessoa, desde a perspectiva normativa de seus pares (MEAD,1973 
apud HONNETH, 2009). 
Do ponto de vista de Habermas (2018), é racional o sujeito ingressar numa 
comunidade moral, preferindo ser um sujeito destinatário de direitos e deveres do 
que ter um status de objeto em uma instrumentalização mútua, de modo que é na 
comunidade e no convívio social que os sujeitos vivenciam a satisfação de ser 
respeitado por pessoas, as quais também são dignas de serem respeitadas 
moralmente. 
Mead utilizou-se dos jogos infantis para elaboração de sua teoria, recorrendo 
a duas fases da atividade lúdica infantil: o play e o game. Na fase do play, a criança 
vivencia o jogo de papéis, imitando o comportamento do sujeito de interação, 
reagindo posteriormente na própria ação. Na fase do game, a criança representa 
simultaneamente as expectativas de comportamento de seus pares. De modo que 
sua autoimagem (moral) incorpora as normas sociais de ação de um “outro 
generalizado”. Mead destaca a relação de reconhecimento mútuo, o sujeito é 
reconhecido pelo coletivo, no momento que reconhece os “Outros” (MEAD,1973 
apud HONNETH, 2009). 
Na teia de relações sociais, o indivíduo adota as regras sociais, aprendendo 
as obrigações que ele tem com o coletivo e a se reconhecer como sujeito de direitos. 
Os direitos, portanto, e os conflitos emergentes para sua efetividade são os meios 
para o reconhecimento. Nesse sentido, pela concessão social desses direitos, é 
possível medir se um sujeito pode conceber-se como membro completamente aceito 
de sua coletividade (HONNETH, 2009). 
Sobre as normas reconhecidas pelo meio social do sujeito, Mead destaca o 
conflito existente entre o “Eu” e o “Me”, na tomada de decisão do sujeito, resultante 
da sua formação moral. O atrito interno entre "Eu" e "Me" representa, para Mead, as 
linhas gerais do conflito que deve explicar o desenvolvimento moral tanto dos 
indivíduos como das sociedades. “Me” representa as normas convencionais do 
coletivo e se depara com o “Eu”, que representa a impulsividade e a criatividade, o 
que resulta na liberação da individualidade e em comportamento genuíno da 
identidade individual (MEAD,1973 apud HONNETH, 2009). 
28 
 
Tanto para a Psicanálise quanto para o Behaviorismo, a moral parece ser 
algo externo, que passa a ser internalizada pela pessoa. Já no construtivismo de 
Jean Piaget (1896-1980) e no enfoque cognitivo-evolutivo de Lawrence Kohlberg, o 
sujeito passa a ser um agente do processo moral (BIAGGIO, 2006). 
Os estudos de Jean Piaget concentram-se, basicamente, no desenvolvimento 
cognitivo, sendo um teórico fundamental para a área da Educação e da Psicologia. 
Piaget pauta sua teoria na interação entre estruturas cognitivas, biologicamente 
vinculadas, e a estimulação ambiental (REGO, 2003), identificando quatro estágios 
universais pelo quais evolui o pensamento numa sequência invariante: cognitivo: 
senso-motor, pré-operacional, de operações concretas e operações formais 
(BIAGGIO, 2006). 
Estágio sensório motor: Estágio das crianças de até 2 anos, onde a 
inteligência da criança manifesta-se por meio da exercitação dos órgãos 
sensoriais e dos aspectos motores. A criança neste estágio adquiriu 
habilidades de distância, profundidade, inter-relaciona sons e imagens, 
desenvolvendo também o tato, olfato (BIAGGIO, 2006). 
Estágio pré-operacional: Estágio das crianças de dois a seis anos 
aproximadamente, o qual é caracterizado pelo desenvolvimento da linguagem 
e simbolismo e pela ausência da noção de conservação (BIAGGIO, 2006). 
Estágio operacional concreto: Estágio das crianças de sete a 12 anos 
aproximadamente, estágio que marca o início do pensamento lógico, o qual a 
criança exercita com estimulo de objetos concretos. Neste estágio adquire-se 
a capacidade de conservação e os rudimentos da lógica. Capacidade das 
operações aritméticas (BIAGGIO, 2006). 
Estágio operações formais: Estágio típico em que se encontram os 
adolescentes. Caracteriza-se pela possibilidade da habilidade de abstração e 
a formulação de hipóteses (BIAGGIO, 2006). 
 Piaget (1994) associa esse desenvolvimento geral da criança ao 
desenvolvimento moral do sujeito, argumentando que o julgamento moral também 
tem uma evolução ordinária, passando por etapas semelhantes aos quatro estágios 
29 
 
do desenvolvimento cognitivo. Ele se utiliza dos jogos infantis para uma análise da 
incorporação das regras realizada pela criança. No jogo infantil, a regra não é, 
necessariamente, estabelecida apenas por adultos, mas também pelos pares, o que 
fez com que Piaget se concentrasse nas regras do jogo para a observação da moral 
infantil, indagando: - qual a moral do jogo? Com o jogo da bola de gude, Piaget 
percebe que a criança percorre um caminho que vai do senso de justiça retributiva à 
justiça distributiva. 
Na mesma forma a palavra “glaine” (assalto) justifica o roubo em situações 
bem definidas. Quando um jogador, por sorte ou habilidade consegue 
ganhar todas as bolas de seus parceiros, é obrigado por uma espécie de 
contrato de honra, análogo aquele que os sociólogos designam pelo nome 
de “potlatch” a oferecer uma nova partida, colocando ele mesmo, no 
quadrado as bolas necessárias, de modo a dar aos parceiros infelizes a 
oportunidade de retomar uma fração de seus bens. Mas, se recusa, 
nenhuma lei pode obrigá-lo a isso: ganhou e está acabado. Entretanto, se 
um dos jogadores pronuncia a palavra “gleine”, então todo o grupo lança 
sobre avaro, derruba-o esvazia-lhe os bolsos e reparte o saque. Este ato de 
banditismo, profundamente contrário à moral em tempos morais (uma vez 
que as bolas recolhidas pelo vencedor constituem um bem legitimamente 
adquirido), transforma-se, então, num lícito e mesmo num ato de justiça 
retributiva aprovado pela consciência comum, desde que a palavra “glaine” 
tenha sido pronunciada (PIAGET, 1994, p. 27). 
Desde o jogo de bola de gude, podemos perpassar pelo anti-herói inglês 
Robin Hood, que roubava dos ricos para distribuir aos pobres; ou, ainda, pelo 
personagem da literatura argentina Martín Fierro, de José Hernandez, que 
representa o gaúcho fora da lei, que luta contra as injustiças. O saque das bolas de 
gude, legitimado no ato como justiça, permite um paralelo com o conceito de 
desobediência civil, conceito que está intimamente ligado à ideia de que nem 
sempre as leis/regras do “jogo” são justas e que, às vezes, é necessário rompê-las 
para que direitos fundamentais sejam garantidos. 
Rawls (1997) discute, exatamente, o dever de se obedecer a uma lei injusta, 
defendendo que, assim como a injustiça de uma lei não é razão plena para 
desobedecê-la, a lei e sua validade jurídica também não constituem pressupostos 
para sua manutenção. Assim, muitas vezes, quando a lei e as políticas públicas se 
afastam dos valores reconhecidos pelos grupos sociais, ocorre um apelo ao senso 
de justiça da sociedade. 
Para Hannah Arendt (2017), a desobediência civil aparece quando um grupo 
de cidadãos se convence que os canais normais para mudar as regras já não 
30 
 
funcionam, e que suas queixas e demandas não são consideradas pelo coletivo e 
onde o contestador, diferente do criminoso comum, age em prol de um grupo 
determinado, visando o bem comum. 
Piaget (1994) salienta que a obediência às regras é um elemento que 
depende extremamente do convívio social. No entanto, Piaget, ao exemplificar o 
jogo de bola de gude, concentra-se na incorporação das regras propriamente ditas, 
que constituem uma realidade social. Com entrevistascom crianças sobre as regras 
do jogo, Piaget faz um paralelo entre o juízo moral da criança e os quatro estágios 
que se iniciam na fase egocêntrica, terminando na fase de cooperação. 
No primeiro estágio senso-motor, a regra ainda não é coercitiva. Nesse 
estágio, a criança manipula a bolinha de gude, exercendo os sentidos da visão e do 
tato, sem regras do jogo incorporadas (BIAGGIO, 2006). No segundo estágio senso-
motor, o jogo é egocêntrico, havendo um respeito unilateral à regra e às autoridades 
que a criaram. A regra é considerada imutável e intangível, assim toda proposta de 
mudança da regra é considerada uma transgressão (PIAGET, 1994). Já no terceiro 
estágio, o das operações-concretas, a regra é considerada como uma lei imposta 
pelo coletivo, com o consentimento mútuo. Sendo possível assim mudar a regra do 
jogo, sempre que o grupo considere justo (PIAGET, 1994). No quarto estágio, o de 
operações-formais, ocorre uma criticidade sobre as regras do jogo, com a 
compreensão da natureza arbitrária e convencional de algumas delas (BIAGGIO, 
2006). 
Fedozzi (2002) cria um quadro conceitual dos tipos puros de moral segundo a 
Teoria piagetiana. 
 
31 
 
Quadro 1 – Os dois tipos puros de moral segundo Piaget 
Critérios de comparação Heterônoma Autônoma 
Gênese da moralidade Respeito unilateral Respeito mútuo 
Tipo de relações sociais Coação Reciprocidade 
Caráter de relações Desiguais Igualitárias 
Forma de interação social Autoridade/dever 
(obediência) 
Cooperação (acordo mútuo) 
Consequências da interação 
social 
Egocentrismo moral e 
intelectual 
Descentração moral e 
intelectual 
Personalidade do Eu 
Tipo de moral resultante Heterônoma 
Moral do dever 
(regras externas impostas aos 
indivíduos) 
Autônoma 
Moral do bem 
(regras nascidas da 
reciprocidade tornam-se 
normas interiores) 
Prática das regras Imutáveis e sagradas 
Tradicionais ou transcendentes 
Dependente de acordos 
racionalmente estabelecidos 
Justiça Autoridade predomina sobre a 
justiça 
Justiça acima da autoridade. 
Solidariedade acima da 
obediência 
Responsabilidade Objetiva 
Intenção das ações não são 
avaliadas 
Subjetiva 
Julgamento em função das 
intenções 
Tipo de sanção Expiatória (sem relação entre 
delito e religiões primitivas) 
Supressão momentânea dos 
laços de reciprocidade 
Condições sociais propícias Homogeneidade social 
Gerontocracia e religiões 
primitivas 
Diferenciação social 
Religiões evoluídas 
Ambiente societário 
predominante 
Sociedades conformistas e 
autoritárias 
Sociedades modernas e 
democráticas 
Status da relação frente à 
realidade social 
Existente na maioria dos 
estados de fato, em particular 
entre adultos e crianças 
É tipo ideal. É igualdade de 
direito e não de fato. É 
equilíbrio limite 
Fonte: Fedozzi (2002, p. 112). 
Biaggio (2006) identifica que os estágios propostos por Piaget trazem 
concepções de justiça, as quais vão evoluindo a cada novo estágio, percorrendo 
deste a ideia de retribuição e vingança (justiça retributiva) até a ideia de recuperação 
do culpado e reparação. Destacando que, na evolução dos estágios, a criança passa 
de uma moral de autoridade imposta por autoridade exterior para uma moral 
autônoma fruto da consciência individual. 
32 
 
2.2 A Teoria do Desenvolvimento Moral de Lawrence Kohlberg 
O pensamento piagetiano inspirou muitos estudos no campo do 
desenvolvimento moral. De modo que a moralidade deixa de ser entendida somente 
como a questão de atitudes e de preferências morais e passa a ser considerada 
como competência e cognição. 
Assim, o trabalho do psicólogo estadunidense Lawrence Kohlberg segue o 
construtivismo psicogenético piagetiano. Tanto Kohlberg quanto Piaget foram 
influenciados pelo pensamento de Kant (1724-1804) e pela sociologia de Durkheim 
(1858-1917) (BIAGGIO, 2006). No entanto, para Kohlberg (1992), os conceitos de 
heteronomia e autonomia, propostos por Piaget (1932/1994), não classificam em sua 
integridade os tipos de raciocínio moral (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010). 
Kohlberg, insatisfeito com os métodos existentes na educação moral 
baseados no relativismo ético e na doutrinação “saco de virtudes”, ou, ainda, na 
incorporação das regras sociais, formata sua pesquisa a partir da hipótese de que 
cada criança ou adulto é um “filósofo moral” que formula padrões organizados sobre 
questões morais. Esses padrões seguem etapas de desenvolvimento que as 
crianças passam na mesma ordem, havendo tempos diferentes de duração de cada 
etapa (PORTER, 2006). 
Dessa forma, Kohlberg utilizou-se de dilemas morais4 em suas entrevistas 
clínicas, com intuito de medir a moralidade do sujeito entrevistado, sendo o Dilema 
de Heinz, um dos mais utilizados nos estudos sobre moralidade. Vejamos, então, a 
narrativa desse dilema: 
Num país da Europa havia uma mulher que estava quase morrendo por 
causa de uma doença rara. Existia só um remédio que poderia salvá-la 
inventado por um farmacêutico local. O remédio era caro para se fazer e o 
farmacêutico estava cobrando dez vezes mais do que o remédio lhe 
custava. O marido daquela mulher doente tomou dinheiro emprestado para 
comprar o remédio, mas só conseguiu a metade. Ele pediu ao farmacêutico 
um abatimento ou então que ele lhe deixasse pagar mais tarde. Mas o 
farmacêutico disse que não vendia por menos e nem vendia fiado, pois 
tinha inventado o remédio e queria ganhar dinheiro. Então João pensou que 
única maneira de salvar a sua esposa era arrombar a farmácia e roubar o 
 
4 Um dilema moral é uma situação na qual é imperativo que o sujeito escolha entre duas ou mais 
ações possíveis, sendo que, independentemente da escolha, haverá uma consequência indesejável 
ou eticamente censurável. 
33 
 
remédio. Pergunta-se: Heinz deve roubar a droga do farmacêutico? Por 
quê? (FEDOZZI, 2002, p. 128). 
 Ao nos depararmos com o Dilema de Heinz, em que o personagem se vê 
obrigado a decidir entre a defesa da vida (da esposa doente) e o respeito pela lei e 
pela propriedade alheia (do farmacêutico), nosso senso de justiça é provocado: 
Heinz agiu corretamente ao furtar a droga para salvar a vida da sua esposa? 
A teoria de Kohlberg não se baseia na opinião do entrevistado quanto ao ato, 
e, sim, nos argumentos que serão utilizados para avaliar a ação. Percebeu-se que 
diferentes argumentos podem ser dados para a indagação se Heinz deveria ou não 
furtar o medicamento, como: não deveria furtar, porque seria punido; não deveria 
furtar por ser um ato inaceitável perante a sociedade; não deveria furtar o remédio, 
pois isso contraria os mandamentos de Deus; remédios para pacientes em estado 
graves deveriam ser garantidos pelo Estado; Heinz poderia furtar o remédio, pois o 
direito à vida é soberano ao direto à propriedade. 
Dessa forma, Kohlberg evidenciou que as justificativas são ancoradas em 
distintas perspectivas sociomorais. Com suas pesquisas empíricas com crianças e 
pré-adolescentes, Kohlberg concluiu que a moralidade deve ser entendida como 
uma resultante do processo de socialização. O desenvolvimento cognitivo moral 
ocorre por meio da evolução de estágios, sendo que, a cada nível da hierarquia, 
correspondem operações que se tornam cada vez mais complexas (ROLIM, 2007). 
 Fedozzi (2002) explicita a Teoria de Kohlberg com a hierarquia de formas de 
julgar no sentido da justiça crescente: 
1) O ato de julgar moralmente recai sobre um processo de role taking, quando 
se assume uma papel social (Mead); 
2) Em cada estágio, o ato de julgar refere para uma nova estrutura lógica – 
operações mentais (Piaget); 
3) A estrutura pode ser referida como estrutura-de-justiça; 
4) Cada estágio é mais abrangenteque o estágio anterior (Kohlberg). 
34 
 
Kohlberg identificou três níveis de consciência moral, contemplando fases de 
transição ou intermediárias, entre um estágio e outro. Em cada um destes níveis, hádois estágios diferentes, dispostos numa escala crescente, totalizando a existência 
de seis estágios de desenvolvimento moral: pré-convencional (estágios 1 e 2), 
convencional (estágios 3 e 4) e o pós-convencional (estágios 5 e 6). 
 O termo convencional, aqui, significa conformidade e manutenção das 
normas, expectativas e acordos da sociedade ou autoridade. Desse modo, os níveis 
de consciência moral propostos por Kohlberg e os seus respectivos estágios, 
decorrem da relação entre o sujeito e as normas estabelecidas. Essa tipologia é que 
nos possibilita perceber qual é o senso de justiça que guia o posicionamento do 
entrevistado frente às normas sociais e aos valores universais (SILVA, 2016). 
A seguir, um resumo conceitual de cada nível, para melhor compreensão. 
• Nível pré-convencional: Os indivíduos desse nível, ainda, não têm a noção 
de reciprocidade, não compreendem e não respeitam as normas sociais e 
expectativas compartilhadas (BIAGGIO, 2006). Para os indivíduos do nível 
pré-convencional, o ato é julgado pelas suas consequências e não pelas suas 
intenções. Portanto, a ação é má se a consequência for o castigo e a ação é 
boa quando for recompensada com o prazer. Neste nível, o indivíduo julga o 
certo e o errado apoiado apenas em seus interesses. O que guia seu 
posicionamento é o medo à punição. A maioria das crianças, até nove anos, 
adolescentes, jovens envolvidos em atos delituosos e alguns adultos estariam 
neste nível (FEDOZZI, 2002). 
• Nível convencional: Refere-se ao nível da internalização das normas 
coletivas. Neste nível, o sujeito identifica as normas e expectativas dos 
grupos sociais. O sujeito acredita no valor daquilo que considera certo e acha 
que deva fazê-lo em justificativa da aceitação ou do respeito à ordem 
estabelecida. Há uma consciência inicial de que os interesses coletivos são 
mais importantes do que os individuais. A maioria dos adolescentes e 
pessoas adultas encontra-se neste nível das relações e lealdades pessoais 
(FEDOZZI, 2002). 
35 
 
• Nível pós-convencional: Neste nível, o sujeito compreende o significado e a 
importância das normas sociais, mas tem consciência de suas limitações em 
face de princípios morais de justiça que se sobrepõe a elas. Os valores e 
princípios têm validade independente da autoridade. O sujeito entende que 
legalidade é diferente de justiça. Para os sujeitos alcançarem este nível, suas 
ações e julgamentos são pautados em princípios universais e não em 
conformidade com as normas morais e expectativas do sistema social vigente 
(FEDOZZI, 2002). Assim, os pós-convencionais julgam de acordo com seus 
princípios de conciência e não pela convenção (BIAGGIO, 2006). 
O quadro abaixo mostra os níveis e estágios de consciência moral da Teoria 
de Kohlberg. 
Quadro 2 - Níveis e estágios da consciência moral 
NÍVEIS ESTÁGIOS 
 
1- Nível Pré-Convencional 
 
1. Orientação para a punição e a obediência 
2. Postura hedonista (orientação instrumental) 
 
2- Nível Convencional 
 
3. Moralidade do Bom Garoto 
4. Orientação para lei e ordem 
 
3- Nível Pós-Convencional 
 
 5. Orientação para o contrato social 
 6. Validade dos princípios universais 
Fonte: Rolim (2007, p. 4). 
Portanto cada nível e estágio de consciência moral trazem perspectivas 
distintas sobre o senso de justiça. A tabela abaixo descreve as características de 
cada estágio. 
 
36 
 
Quadro 3 - Fases do Desenvolvimento Moral de acordo com Kohlberg (1981) 
Estágio 1: Orientação para 
a obediência e castigo 
Para evitar quebrar as regras apoiadas pela punição, a obediência por 
si mesma, evitando danos físicos às pessoas e a si próprio. 
Estágio 2: Finalidade 
instrumental e intercâmbio 
Seguir as regras apenas quando é de interesse pessoal imediato de 
alguém; agir para satisfazer os seus próprios interesses e deixar os 
outros fazerem o mesmo; o direito é uma troca igual, um bom negócio. 
Estágio 3: Acordo 
interpessoal e 
conformidade 
Viver à altura do que se espera das pessoas próximas de si ou do que 
as pessoas geralmente esperam das pessoas no seu papel; ser bom é 
importante. 
Estágio 4: Acordo social e 
manutenção do sistema 
Cumprir os deveres reais com os quais concordou; as leis devem ser 
sempre cumpridas, exceto em casos extremos em que entram em 
conflitos com outros deveres sociais fixos; o direito também está a 
contribuir para a sociedade, o grupo ou a instituição. 
Estágio 5: Contrato social, 
utilidade, direitos individuais 
Estar ciente de que as pessoas têm uma variedade de valores e 
opiniões, que a maioria dos valores e regras são relativos ao seu 
grupo; mas que geralmente devem ser definidos porque são o contrato 
social; alguns valores e direitos não relativos como a vida e a 
liberdade, no entanto, devem ser defendidos em qualquer sociedade, 
independente da opinião da maioria. 
Estágio 6: Princípios éticos 
universais 
Seguindo os princípios éticos escolhidos por si mesmo, leis 
particulares ou acordos sociais são geralmente válidos porque se 
baseiam nesses princípios, quando as leis violam esses princípios, 
age-se de acordo com o princípio; os princípios são princípios 
universais de justiça: a igualdade dos direitos humanos e o respeito 
pela dignidade dos seres humanos como pessoas individuais; a razão 
para fazer o direito e a crença, como pessoa racional na validade dos 
princípios morais universais e um sentido de compromisso pessoal 
com eles. 
Fonte: Snarey (1985, p. 203). 
Porter (2006) salienta que a teoria de Kohlberg nos possibilita distinguir o 
senso de justiça presente nos distintos níveis e estágios de moralidade do sujeito. 
Cada etapa incorpora certas características da anterior, não havendo uma ruptura 
total. No entanto, cada estágio envolve uma distinção ou diferenciação não feita no 
estágio anterior. 
Os níveis pré-convencional (estágios 1 e 2) e convencional (estágios 3 e 4), 
do sistema de desenvolvimento moral de Kohlberg, envolvem julgamentos morais 
que se conformam às condições externas de punição, recompensa, expectativa 
social e conformidade com a lei. O nível pós-convencional (estágios 5 e 6) envolve o 
desafio ao que é socialmente aceito e o desafio às ações que exigem mais 
autocontrole (HEILBRUN JR.; GEORGES, 2011). 
 Como percebemos, o estágio 6 apresenta o nível pós-convencional da 
consciência moral e revela o seu caráter democrático e transformador, em que os 
37 
 
valores universais como justiça, liberdade e igualdade são prioritários sobre as 
normas legais e o direito de propriedade. Tal nível supõe o exercício da tolerância 
para com os diferentes, da alteridade e do reconhecimento do coletivo. Gerando 
assim a perspectiva da desobediência civil frente a leis que produzam injustiça 
(FEDOZZI, 2002). 
 Heilbrunnn Jr. e Georges (2011) explicam que os indivíduos que se 
encontram no nível pós-convencional expressam valores morais genuínos não 
sancionados por autoridade externa, exigindo que o sujeito aja de acordo com um 
princípio pessoal, apesar da sua consequência. Portanto, o sujeito pós-convencional 
toma atitudes ancoradas em seus princípios morais, mesmo que esses sejam 
impopulares, ilegais ou acarretem consequências ruins para o próprio sujeito. 
 Na visão de Porter (2006), a pessoa que se encontra no estágio 6 do nível 
pós-convencional possui uma capacidade de compreender a justiça, de modo a 
implicar a capacidade de agir e ser prejudicado, como parte da luta contra a injustiça 
do mundo. Além desses estágios anteriores, Kohlberg levantou a possibilidade de 
haver um estágio 7, baseado no misticismo racional, trazendo questões sobre 
religião e metafísica. Para o autor, o estágio 7 revelaria a necessidade de se pensar 
além da ciência e da ética. Rolim (2007) sintetiza o tema: 
Kohlberg também trabalhou em uma tentativa de especificar ainda mais os 
estágios de desenvolvimento moral, procurando identificar em cada umdeles um momento de maior heteronomia e outro de maior autonomia (ideia 
de sub-estágios “A” e B”) e passou a cogitar da possibilidade de existência 
de um “7º estágio” de moralidade, mais vinculado a uma ação orientada por 
perspectivas éticas ou religiosas que transcendem a ideia de justiça 
(ROLIM, 2007, p. 7). 
Assim, através de sua pesquisa inovadora, Kohlberg rompeu com o conceito 
de moralidade dentro de um discurso religioso ou político, transformando a 
moralidade em uma temática de pesquisa científica (LIND, 2000). Para Kohlberg o 
indivíduo sempre parte do estágio 1 e tem o potencial de atingir o estágio 6, sendo 
cada estágio um alicerce para o estágio seguinte. 
Rolim (2007) destaca que a Teoria de Kohlberg permite uma análise 
sociológica das normas estabelecidas vigentes na sociedade e nas instituições, 
enfatizando que a teoria sustenta que a formação de um senso de comunidade 
38 
 
influencia na formação de adolescentes e jovens, postulando assim a “Comunidade 
Justa”. 
Kohlberg, então, passou a desenvolver uma proposta de organização 
fundada em pressupostos democráticos, procurando se aproveitar do senso 
de comunidade que o coletivismo induzia, tentando, ao mesmo tempo, 
neutralizar os efeitos conformistas a ele associados. Surgiram, assim, nas 
décadas de 60 e 70, nos EUA, as chamadas “escolas alternativas” (ROLIM, 
2007, p. 7). 
Sendo assim, podemos perceber que os sujeitos que se encontram no nível 
pós-convencional da conciência moral, segundo a Teoria de Kohlberg, possuem um 
estágio moral que situa leis e regras a partir de outra dimensão, vez que elas não 
representam em sua totalidade a justiça e podem ser modificadas, visando ao bem 
comum e aos valores universais, o que evidencia a diferença entre legalidade e 
justiça. Segundo Fedozzi (2002, p. 145), 
os três níveis de consciência moral construídos por Kohlberg, a partir da 
teoria psicogenética de Piaget, como se viu representam o desenvolvimento 
sociomoral dos indivíduos em direção à descentração crescente, partindo 
do interesse pessoal, passando pelo dever de manutenção das normas até 
o pensamento orientado por princípios éticos universais, ponto máximo de 
maturidade do juízo moral (Kohlberg, 1987;1981;1984; Kohlberg et al. 1983; 
Colby e Kohlberg, 1987, vol 1); A teoria piagetiana do desenvolvimento 
cognitivo e a teoria do desenvolvimento da consciência da moral, de 
Kohlberg, fornecem elementos suficientes para pensar-se em tipos ou 
momentos diferenciados da construção da consciência social de cidadania, 
pois como já discutimos acima, os estágios de desenvolvimento da 
moralidade estão ancorados em diferentes perspectivas sociomorais do 
sujeito em relação aos outros (Eu e os outros) e em diferentes 
competências interativas. Essas diferentes perspectivas sociomorais, 
assentadas no conceito de justiça crescente, possibilitam a crescente 
descentração cognitivo-moral, até à total reciprocidade do role taking. 
Com a correlação entre consciência moral e consciência de cidadania, 
entende-se que os níveis pré-convencional, convencional e pós-convencional 
correspondem aos tipos de consciência de cidadania: consciência de pré-cidadania, 
consciência de cidadania conformada e consciência de cidadania crítica (FEDOZZI, 
2002). De acordo com Habermas (1983 apud RAVELLA, 2010, p. 61), 
cada indivíduo deve por à prova, monologicamente, a capacidade de 
generalização de sua norma respectiva. Isso corresponde ao nível 6 de 
Kohlberg (orientação segundo a consciência). É somente em nível de uma 
ética universal da linguagem que se podem tornar também objeto de 
discurso prático as próprias interpretações das necessidades, ou seja, o que 
cada indivíduo crê que deva ser entendido e afirmado como seus 
"verdadeiros" interesses. Esse nível não é diferenciado por Kohlberg do 
nível 6 embora haja entre eles uma diferença qualitativa: o princípio que 
justifica as normas não é mais o princípio monologicamente aplicável da 
capacidade de generalização das mesmas, mas o procedimento 
39 
 
comunitariamente seguido para emprestar realização discursiva às 
pretensões de validade normativa. 
No quadro 4, visualizamos os estágios de consciência moral relacionados 
com os tipos de consciência de cidadania. 
Quadro 4 - Estágios de consciência moral e tipos de consciência de cidadania 
NÍVEIS ESTÁGIOS DE CONSCIÊNCIA 
MORAL 
TIPOS DE CONSCIÊNCIA DE 
CIDADANIA 
Pré-Convencional 1- Orientação punição e 
obediência 
 
Pré-cidadania 
 
2- Hedonismo instrumental 
Convencional 
3- Bom moço ou Boa moça 
 
Pré-cidadania 
 
 
4- Lei e ordem 
 
Cidadania conformada 
 
Pós-Convencional 
5- Contratualismo 
democrático 
 
Cidadania crítica 
 
6- Princípios éticos universais 
Fonte: Fedozzi (2002, p. 150). 
 De acordo com Fedozzi (2002, p. 161), 
pode-se afirmar, assim que os estágios da moralidade pós-convencional 
são plenamente compatíveis com a consciência de cidadania crítica. Essa 
concepção está contida na ideia arendtiana de cidadania como “direito a ter 
direitos” (Arent,1974) o que se, segundo Lefort (1987), também pode ser 
expresso pela ideia de não-separação entre os direitos e a consciência dos 
direitos. Nesse tipo de consciência de cidadania, ficam para trás as noções 
de subordinação e de tutela, que caracterizam a cultura da dádiva, do pedir 
e do favor, assim com a ética da vantagem e da esperteza (“Lei de 
Gerson”), da troca pragmática de favores (a exemplo o clientelismo político) 
e o jeitinho. Surge, assim, uma nova perspectiva sociomoral que permite, 
também, superar a moralidade da Lei e da Ordem, não por negar o caráter 
civilizatório contido na ordem racional-legal, mas por compreender a 
insuficiência da perspectiva da “Lei e da Ordem” frente à questão prática-
moral da universalização da justiça. 
A consciência pós-convencional postula que os indivíduos sejam capazes de 
pensar a sua relação com o diferente, a partir da capacidade de reconhecimento e 
diálogo. A consciência pós-convencional torna-se, dessa forma, uma condição para 
o exercício da democracia em todos os níveis de sociabilidade e equivale à 
consciência crítica. Rolim (2007, p. 10) discute os efeitos práticos do nível pós-
convencional na cultura democrática 
40 
 
com os juízos práticos do nível pós-convencional os sujeitos alcançam a 
condição mais desenvolvida da competência moral, o que lhes permite 
valorizar os procedimentos democráticos – pelo reconhecimento da 
legitimidade das pretensões dos demais (estágio 5) – e orientar suas ações 
por princípios éticos de natureza universal – com os quais se relacionam, 
concretamente, com o conjunto da humanidade (estágio 6). 
A cidadania crítica é um requisito para o processo de autoinstituição da 
sociedade. É a capacidade de perceber que as leis nem sempre são justas e que 
temos o poder de modificá-las e corrigi-las. Essa forma de consciência está 
ancorada na capacidade do sujeito contrastar determinadas normas da sociedade, 
caso elas impeçam a garantia de valores maiores, como o bem-estar da população, 
a vida e a dignidade humana, permitindo, assim, a existência da transformação 
social, gerando uma sociedade mais justa e igualitária (FEDOZZI, 2002). 
A empatia é a organização cognitiva da atitude de identificação como “Outro”, 
sendo a base substantiva do componente da benevolência no respeito pelas 
diferenças. A empatia pressupõe o reconhecimento do “Outro” e da necessidade de 
interagir com ele. O respeito pelas pessoas é interpretado por meio de uma 
compreensão de judicação que tem por princípio a justiça. Assim, sugere-se a 
adoção da reciprocidade para resolução de situações problemáticas. Nessa 
perspectiva, o senso de justiça deveria ser guiado através do exercício de se colocar 
no lugar do “Outro”. A norma é justa quando considerados os interesses básicos de 
todos. Portanto, a empatia é o reconhecimento da dignidade e integridade dos 
outros como seres únicos e especiais(KOHLBERG, 1990 apud BIAGGIO, 2006). 
No contexto do Dilema de Heinz, a reciprocidade e empatia, características 
contidas no estágio 6, podem ser vistas quando o sujeito tem a capacidade de se 
colocar no lugar de cada um dos personagens da história. Dessa maneira, o sujeito 
levaria em consideração o direito da vida da esposa e o direito da propriedade do 
farmacêutico, imaginando os agentes trocando de lugar, considerando os direitos um 
do outro de forma igual, o que expressa a adoção de papel multilateral (KOHLBERG, 
1990 apud BIAGGIO, 2006). Ainda de acordo com Fedozzi (2002, p. 157), 
um dos dramas da sociedade brasileira, decorrentes do seu caráter híbrido, 
ao mesmo tempo tradicional e moderno, é a necessidade de criar uma 
consciência de cidadania crítica – possível somente por meio da superação 
da consciência típica do estágio 4 (Lei e Ordem) – sem ter gerado 
estruturas sociopolíticas e transformações socioculturais compatíveis com 
esse estágio da consciência social. Esse parece ser um dilema que torna 
mais complexa a construção material e cultural da cidadania no Brasil, pois 
41 
 
se situa na contramão de uma época histórica que suprime direitos sociais 
arduamente conquistados pelos movimentos das classes subalternas nos 
países centrais do capitalismo durante o século XX. 
Kohlberg postula que há relação entre julgamento moral e comportamento 
moral. A partir de nova análise dos dados de Haan, Smith e Block (1968), acerca do 
movimento pela liberdade de expressão em Berkeley e novo exame do experimento 
de Milgram (1974), Kohlberg também evidencia uma relação entre julgamento e 
comportamento, analisando os escores obtidos pelos estudantes ativistas e não 
ativistas do caso da ocupação da Universidade de Berkeley, sendo mais altos os 
escores dos estudantes ativistas. Já no experimento de Milgram, que recrutou 
estudantes voluntários para uma pesquisa onde eram comandados a dar choques 
elétricos em um colega (em uma situação que os sujeitos tinham como verdadeira, 
embora não houvesse choques reais e a “vítima” fosse, de fato, um ator), se 
evidenciou que os estudantes com maior nível de maturidade moral, foram os que se 
recusaram a cumprir a ordem (BIAGGIO, 2006). 
Fedozzi (2002, p. 163) sintetiza a contribuição da teoria do desenvolvimento 
cognitivo-moral de Kohlber e Piaget, sublinhando o desafio da transformação social: 
A consciência de cidadania crítica é, por isso, francamente aberta à 
transformação social. Eis o cerne da contribuição que a teoria do 
desenvolvimento cognitivo-moral de Piaget e de Kolberg oferece às ciências 
sociais. Em conjunto com a sociologia, essa contribuição possibilita 
construir um referencial teórico capaz de examinar empiricamente os níveis 
de consciência moral e, consequentemente, os tipos prováveis de 
consciência de cidadania, assim como as condições sociais que bloqueiam 
ou que facilitam o processo dessa construção. 
 Rolim (2007), por seu turno, sustenta que a Teoria de Kohlberg oferece uma 
consistente base para estudos sobre a formação da consciência moral e 
competência moral, destacando claramente o seu caráter interdisciplinar e a 
contribuição que a Teoria pode produzir em estudos nas áreas da Criminologia, 
Serviço Social, Antropologia e Sociologia. 
 Assim, percebemos porque Kohlberg oferece um referencial capaz de 
examinar empiricamente as perspectivas sociomorais e, consequentemente, o senso 
de justiça, inaugurando espaço de debate sobre as condições sociais que favorecem 
o processo desta construção. 
42 
 
2.3 O senso de justiça em John Rawls e a competência moral-democrática em 
George Lind 
 
“O dever de justiça é devido aqueles que são capazes de um senso 
de justiça” 
John Rawls 
 
O conceito de senso de justiça tem sido objeto de uma complexa discussão 
que envolve não apenas os filósofos e os teóricos do Direito, mas também é objeto 
da reflexão de sociólogos, psicólogos, pedagogos, entre outros. Para Adam Smith, 
por exemplo, o senso de justiça deveria ser compreendido como o equivalente à 
consciência anterior que “todo o homem honesto” teria. 
Não existe um homem normalmente honesto que ... não sinta interiormente 
a verdade daquela grande máxima estóica, segundo a qual um homem 
privar outro injustamente de qualquer coisa, ou injustamente alcançar 
vantagem pessoal em prejuízo ou desvantagem de outro, é mais contrário à 
natureza do que a morte, do que a pobreza, do que a dor, do que todos os 
infortúnios que podem afetá-lo, seja em seu corpo, seja em suas 
circunstâncias externas (SMITH, 1759 apud DUBBER, 2005, p. 819).5 
Outros pensadores como Rousseau (1973) compartilharam essa noção 
segundo a qual o senso de justiça expressava um sentimento natural, iluminado pela 
razão, mas ancorado em nossos afetos primordiais. 
Para Rawls o senso de justiça também diz respeito a atitudes naturais, 
embora seja mais do que isso: 
Para fins desta discussão, tomo o senso de justiça como sendo algo que as 
pessoas efetivamente possuem. Referimo-nos a ele quando dizemos, por 
exemplo, que punições cruéis e fora do comum ofendem o senso de justiça. 
O senso de justiça pode ser estimulado ou amenizado, e está relacionado 
não apenas aos sentimentos morais como ressentimento e indignação, mas 
também, como argumentarei, a atitudes naturais como a confiança mútua e 
o afeto. A construção psicológica é concebida para mostrar como o senso 
de justiça pode ser visto como o resultado de um certo desenvolvimento 
natural; será útil para entender porque a capacidade para um senso de 
 
5 No original: There is no commonly honest man who ... does not inwardly feel the truth of that great 
stoical maxim, that for one man to deprive another unjustly of anything, 
orunjustlytopromotehisownadvantagebythelossordisadvantageofanother, is more contrary to nature, 
than death, than poverty, than pain, than all of them is fortunes which can affect him, either in his body 
or in his external circumstances. 
43 
 
justiça é o aspecto fundamental da personalidade moral na teoria da justiça 
(RAWLS, 1963, p. 3). 
 Para Rawls, o ressentimento é a reação moral que temos diante da injustiça 
que sofremos, enquanto a indignação moral é a reação diante da injustiça imposta 
aos outros. Ter sentimentos morais dessa ordem pressupõe a aceitação de 
princípios gerais e universais o que já significa incorporar a noção de que há limites 
a serem observados quanto aos interesses dos indivíduos. Os princípios, no mais, 
“devem enunciar certas restrições específicas” (RAWLS, 1963, p. 4). Rawls entende 
que há um processo de construção do senso de justiça e que ele ocorre, na 
dimensão psicológica, a partir do desenvolvimento de três formas de sentimento de 
culpa: “culpa com relação à autoridade (authority guilt), culpa com relação à 
associação (association guilt) e culpa com relação a princípios (principle guilt)” 
(RAWLS, 1963, p. 5). O processo transita, assim, de uma posição mais propriamente 
autocentrada (como ocorre com as crianças em relação aos seus pais), alcançando 
uma dimensão social (na relação com os pares) e uma dimensão abstrata (em que 
me valho de princípios para considerar todas as pessoas). Essa dinâmica situa 
potenciais diversos: 
Certamente algumas pessoas têm uma maior capacidade para um senso de 
justiça do que outras. Essas pessoas podem ser adequadamente colocadas 
em posições nas quais as virtudes judiciosas são especialmente 
adequadas, mas sua capacidade superior deve ser considerada como 
qualquer outra vantagem na loteria natural, os benefícios advindos dela 
estão sujeitos aos princípios da justiça. Uma capacidade especial para um 
senso de justiça pode, então, qualificar um homem para certos cargos, mas 
assumindo que um certo mínimo é satisfeito, esses dotes peculiares não 
são um fundamento apropriado para estabelecer diferentes graus de 
cidadania. O mínimo basta para compartilhar a posição de igual cidadania 
em uma democracia constitucional(RAWLS, 1963, p. 5). 
Rawls conclui seu artigo sobre o senso de justiça afirmando que “a 
consequência natural dessa construção é que a capacidade para o senso de justiça 
é o aspecto fundamental da personalidade moral na teoria da justiça”. O senso de 
justiça deve ser, então, compreendido, na senda proposta por Rawls, como uma 
capacidade e uma disposição específicas com as quais se pode considerar todas as 
pessoas como titulares dos mesmos direitos e liberdades, vale dizer, com a mesma 
legitimidade de postular suas opiniões e interesses. Esse ponto de vista, tão 
equidistante quanto possível, inclusive e especialmente das minhas opiniões e 
interesses, assinalaria o “senso de justiça”. Para alcançar essa posição (ou ponto de 
44 
 
vista), assim, é preciso contar com elevadas competências morais. O que fez com 
que Dubber (2005, p. 817) assinalasse: 
Entendido como uma competência moral geral que consiste em um pacote 
de capacidades afetivas e cognitivas, o senso de justiça é a cola que 
mantém as comunidades de justiça unidas em um moderno mundo vazio de 
semelhanças substantivas6. 
Assim postulamos que o desenvolvimento do senso de justiça caminha com o 
desenvolvimento da competência moral do indivíduo. Quando o senso de justiça 
está presente na sociedade, está presente também a ideia de justiça como equidade 
onde todas as pessoas são titulares dos mesmos direitos e liberdades. Rawls (1963) 
toma o senso de justiça como sendo algo que as pessoas efetivamente possuem, de 
modo que o senso de justiça pode ser estimulado ou amenizado. 
Por seu turno, George Lind (2000) propõe uma metodologia capaz de mensurara 
competência moral-democrática de um grupo de indivíduos. A teoria de Lind postula 
que o juízo moral deve considerar os aspectos cognitivos e as propriedades afetivas 
(sentimentos, valores, motivações, etc.) e que ambas as capacidades são aplicadas 
ao processo de decisão moral do que seria justo na situação enfrentada. Sua teoria 
é fundamentada em três pontos centrais: 
1º - Conceitua juízo moral como um tipo particular de comportamento humano, o 
qual pode ser representado em categorias afetivas e cognitivas. Cognição aqui 
possui o significado de estruturas cognitivas tácitas diretamente retratadas no seu 
senso de julgamento e na tomada de decisão do que seria justo. 
2º - A partir do modelo dual do juízo moral, Lind cria uma metodologia pela qual 
é possível obter ambos os grupos de categorias descritivas com o mesmo padrão de 
comportamento de julgar e não com grupos diferentes formados pelos chamados 
comportamentos “afetivo” e “cognitivo”. De modo que afeto e cognição não podem 
ser separados em diferentes domínios comportamentais, mas podem ser 
distinguidos e medidos de um modo diferente. 
 
6 No original: Understood as a general moral competence that consists of a bundle of affective and 
cognitive capacities, the sense of justice is the glue that holds communities of justice together in a 
modern world void of substantive commonalities 
45 
 
3º - Estruturas cognitivas do juízo moral podem ser diretamente identificadas 
como uma propriedade do comportamento de julgar, mais do que inferidas através 
de sinais. 
Lind (2002) postula que o é um componente indispensável do comportamento 
moral, estando presentes, assim, no senso de justiça do indivíduo para a tomada de 
uma decisão. Esse tema já havia sido levantado por Kohlberg, mas ele baseou seu 
conceito de competência moral apenas em aspectos cognitivos; já Lind sustenta que 
se deve integrar as duas dimensões, mensurando-as simultânea e 
independentemente. 
Kohlberg define moral como uma competência em que os melhores juízos têm 
por característica um alto nível de diferenciação e integração no comportamento de 
julgar moralmente. Assim a competência moral também aponta para a integração 
democrática de indivíduos, onde a Teoria de Georg Lind inclui a habilidade em se 
reconhecer princípios morais em argumentos contrários e estabelecer diálogo com 
diferentes posições para a construção de decisões justas. 
Para Lind (2019), a competência moral-democrática é definida como a 
habilidade de resolver problemas e conflitos por meio da apreciação de argumentos 
e de uma deliberação resultante de uma discussão. Ele postula que alguns 
indivíduos não possuem essa capacidade de aplicar princípios morais em situações 
concretas e de resolver conflitos morais entre princípios conflituosos. 
A teoria de Lind (2000) ainda incluiu a possibilidade de progressões e 
regressões no desenvolvimento moral do sujeito, de modo que a competência moral-
democrática pode ser adquirida ao longo da vida. 
Kohlberg (1984), como Piaget, afirmou que a moralidade não é apenas um 
problema de ideias morais ou atitudes, mas que a moralidade tem um forte 
aspecto cognitivo ou aspecto de competência. “O que conceituo como 
raciocínio moral é uma competência cognitiva. Uma criança pode possuir 
altos princípios morais, tais como justiça e manutenção de uma promessa, 
já em uma idade bastante precoce, mas faltar-lhe à competência para 
aplicá-los de modo consistente e de modo diferenciado nas tomadas de 
decisão do dia (LIND, 2000, p. 404). 
 Lind (2000) parte dos pressupostos da teoria kohlberguiana, mas sustenta 
que ela é falha na definição de comportamento moral, sendo crítico à metodologia 
da Entrevista de Juízo Moral de Kohlberg. A teoria ainda tem a pretensão de 
46 
 
completar a lacuna entre o julgamento moral e a ação moral. Kohlberg não teria 
escolhido uma validade teórica, mas sim um critério empírico, enfatizando que o que 
Kohlberg pretende medir em sua teoria não resulta no que de fato o Moral Judgment 
Interview (MJI) é capaz de medir. Para Lind, o teste criado por Kolberg não pode ser 
usado como um critério não tendencioso para avaliar a teoria cognitiva evolutiva. 
Inicialmente, Kohlberg utilizou dilemas morais em seus estudos clínicos. Para 
validar sua Teoria sobre juízo moral e competência moral, Kohlberg e pesquisadores 
que trabalham com sua abordagem desenvolveram alguns instrumentos de pesquisa 
que medem o juízo moral ou competência moral em escalas mais amplas. 
Atualmente, três são os instrumentos mais utilizados em pesquisas sobre 
moralidade: a) Moral Judgment Interview (MJI), b) Defining Issues Test (DIT) e c) 
Moral Judgment Test (MJT). 
a. Moral Judgment Interview - MJI (Entrevista de Julgamento Moral): Constitui-se 
de uma entrevista oral semiestruturada, que avalia o juízo moral do entrevistado, 
através de uma conversa a partir da apresentação de três dilemas morais. O 
tempo de realização do teste é, aproximadamente, de 60 minutos, normalmente 
gravada. Os dilemas abordam questões sobre vida/lei; 
moralidade/consciência/castigo e contrato/autoridade. A MJI, assim, identifica o 
perfil moral do entrevistado a partir dos argumentos utilizados pelo sujeito, 
analisando o seu posicionamento frente às atitudes do personagem central do 
dilema narrado. No Brasil, a MJI tem sido utilizada por pesquisadores como 
Bataglia (1996), Biaggio (1984), Koller, Biaggio e Viñas (1992), Lepre (2005), 
Lepre e Martins (2009), Lins (1993) (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010). 
b. Defining Issues Test – DIT (Teste de Definição de Questões): Kohlberg fez da 
técnica de entrevista seu único instrumento de coleta de dados. Em busca de uma 
escala mais objetiva que permitisse a aplicação em maior amplitude, o Defining 
Issues Test (DIT) foi elaborado por Rest, em 1979 (REST, 1986), contudo o 
instrumento manteve o alinhamento com pressupostos elaborados por Kohlberg. 
Assim, o DIT também apresenta dilemas ao entrevistado, o qual deve avaliar doze 
justificativas de resolução ao dilema, dentro de uma escala de cinco graus, 
devendo, ainda, hierarquizar as quatro justificativas percebidas como as mais 
relevantes. O Instrumento foi trazido ao Brasil por Bzuneck em 1979 que o 
47 
 
traduziu como “Teste de Julgamento de Situações”.Sendo reformulado por 
Camino; Luna; Alves; Silva; Rique (1988/1989) que o identificaram como 
“Opiniões sobre problemas sociais”. O teste pode ser aplicado com seis dilemas 
(versão longa) ou três dilemas (versão curta). O instrumento fornece o score P 
que representa a porcentagem da moral pós-convencional do entrevistado 
(BATAGLIA; MORAIS; ELEPRE, 2010). 
c. Moral Judgment Test – MJT (Teste de Julgamento Moral): Instrumento 
desenvolvido por Georg Lind na década de 70, denominado atualmente de Teste 
de Competência Moral – MCT é baseado nos pressupostos da teoria cognitivo-
desenvolvimentista de Kohlberg. O MJT trata de um aspecto do desenvolvimento 
moral que não é contemplado pelos demais instrumentos desenvolvidos, 
avaliando a capacidade do sujeito em aplicar a estrutura de juízo em situações 
adversas. O MJT é baseado na Teoria de Dois Aspectos do comportamento de 
julgamento moral de Lind. O MJT consiste na apresentação de dilemas, onde o 
personagem central da história se depara com uma situação de conflito. O dilema 
surge, porque o evento narrado envolve a transgressão de valores ou princípios 
morais. Em cada dilema o personagem central toma uma atitude, cabendo ao 
entrevistado concordar ou não com ela, devendo ainda mensurar o grau de 
concordância ou discordância numa escala de 7 pontos que vai do -3 ao +3 
(Escala de Likert7), em seguida o entrevistado deve “julgar” argumentos a favor e 
argumentos contrários à atitude tomada pelo protagonista do dilema, os quais 
representam concepções distintas para justificar a atitude tomada ou para 
condenar esta atitude (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010). 
Assim, Lind elabora um novo método de pesquisa para medir competência 
moral, o Moral Judgment Test – MJT, hoje chamado de Moral Competence Test - 
MCT, que possibilita avaliar a capacidade do entrevistado em diferenciar a qualidade 
moral dos argumentos, mensurando o aspecto dual em que o afetivo e o cognitivo 
integram a compreensão do comportamento moral. Sua teoria trabalha a noção de 
Kohlberg de competência de julgamento moral em conjunto com o modelo de 
 
7 Referência à escala proposta por Rensis Likert, em 1932, que permite aferir a intensidade da 
concordância ou da discordância dos entrevistados diante de uma afirmação ou situação exposta. A 
cada resposta é atribuído um número que reflete a atitude específica do respondente. 
 
48 
 
comportamento de duplo aspecto piagetiano. Conservou ainda a ideia de 
questionário experimental de Piaget, com dilemas comportamentais. 
Um dos elementos importantes do método de promoção das competências 
democráticas, desenvolvido por Georg Lind, é o Teste de Julgamento Moral, 
que permite “avaliar a capacidade das pessoas de julgar argumentos pró e 
contra um problema moral controverso com base em seus próprios 
princípios morais, isto é, independentemente de sua opinião sobre o 
problema particular. Além disso, deve fornecer medidas das atitudes dos 
participantes em relação aos seis estágios kohlbergianos do raciocínio 
moral (LIND, 2008, p. 195). 
Assim a competência moral-democrática é transformada em uma pontuação, 
o "C-score". Lind através da identificação do C-score do sujeito, consegue mensurar 
seu nível de competência moral. De modo que escores baixos representam baixa 
competência moral para a democrática e escores altos representam uma alta 
competência. 
Lind (2016) sugere que um C-score de 20 pontos seria uma espécie de limite, 
que todos deveriam atingir a convivência em paz, onde sujeitos com escores altos 
possuem competência moral para deliberação através do diálogo, já sujeitos com 
escores baixos possuem uma baixa competência moral, demonstrando uma maior 
necessidade de violência, engano, ou submissão sob outros aspectos (LIND, 2019). 
Figura 1 - C-score 
 
Fonte: Lind (2019a, p. 5). 
Na Teoria de Lind se postula que o C-score baixo representa que o indivíduo 
só valoriza as ideias de pessoas que pensam da mesma forma que ele, enquanto 
49 
 
indivíduos com escores elevados valorizam a diversidade de julgamentos, 
desenvolvendo assim a comunicação colaborativa (AGURTO et al., 2017). 
Lind (2000) enfatiza a inovação da abordagem do Teste de Juízo Moral, 
destacando que ele tem o objetivo de demonstrar o modo de julgar do entrevistado. 
Nosso Teste de Juízo Moral, entretanto, é muito diferente da abordagem de 
entrevista clínica de Piaget, e da atitude tradicional de testes. Primeiro, a 
teoria na qual sua construção é baseada é estabelecida de forma 
antecipada, explicitamente, e não post hoc. A tarefa moral que é crucial 
para se trazer à tona a competência moral do sujeito pode ser claramente 
estabelecida: para obter um alto escore, o sujeito deve ser capaz de 
demonstrar por seu comportamento de julgar que aprecia a qualidade moral 
de um dado argumento a despeito do fato desse argumento estar 
completamente em desacordo com sua opinião sobre a solução do dilema 
em consideração (LIND, 2000, p. 406). 
Assim para Lind (2019) a competência moral é uma capacidade a qual as 
pessoas revelam no seu comportamento, a qual pode ser identificada inclusive no 
comportamento que as pessoas adotam numa discussão. 
De acordo com Lind (2019a, p. 2), 
a competência moral também é necessária porque o significado dos 
princípios morais é frequentemente contestado e requer julgamento. Não é 
fácil julgar em situações concretas o que é "justiça" meios. Podemos sentir 
que algo é "não apenas". Mas quando tentamos explicar porque nos 
sentimos assim, ou seja, quando precisamos de pôr os nossos sentimentos 
em palavras, e quando precisamos de responder a perguntas num debate 
com outros, depressa descobrimos que o processo de articulação e 
discussão requer certas capacidades.8 
Lind (2002) ainda postula que alguns indivíduos não possuem a capacidade 
para aplicar princípios morais em situações concretas e de resolver conflitos morais 
entre princípios conflituosos. 
Lind (2019a) ainda considera que falta de competência moral-democrática é 
responsável pelas desigualdades. De modo que para que uma democracia funcione 
eficazmente, as pessoas devem possuir uma elevada competência moral-
democrática, pela qual os sujeitos são capazes de resolver problemas e conflitos por 
 
8 No original: Moral competence is also needed because the meaning of moral principles is often 
contested and requires judgment. It is not easy to judge in concrete situations what “justice” means. 
We may feel that something is “not just.” But when we try to explain why we feel so, that is, when we 
need to put our feelings into words, and when we need to respond to questions in a debate with 
others, we soon discover that the process of articulation and discussion requires certain abilities. 
50 
 
reflexão e discussão com base em princípios morais. Lind (2019a) ainda postula que 
a democracia como forma de vida requer uma competência moral. 
Lind (2019) argumenta que a competência moral-democrática é necessária, 
justamente porque muitas vezes nossas ideias morais entram em conflito, e nos 
colocam numa situação de dilema. De modo que para resolver estas situações 
difíceis precisamos da capacidade de empatia e de valorização dos argumentos dos 
adversários e ainda devemos considerar as consequências das nossas próprias 
decisões. De modo que na maioria das vezes estas situações de dilema, nos exigem 
que façamos tudo isso em pouco tempo, ou seja, as situações difíceis muitas vezes 
precisam ser resolvidas no momento que se apresentam. Assim os indivíduos de 
baixa competência moral, por consequência não possuem habilidades para a vida 
democrática. 
A democracia assim exige uma cidadania com uma moral-democrática 
elevada, para que exista uma participação em que os sujeitos sejam capazes de 
expressar suas opiniões e necessidades com a mesma capacidade para 
compreender as necessidades e convicções dos outros (LIND, 2019) 
Já Ralws (1963) elucida que o senso de justiça éuma capacidade da 
personalidade moral, que se pode ter ou não. Por isso, o dever de justiça, é devido 
por aqueles que são capazes de um senso de justiça, algo que pode ser estimulado 
ou constrangido. 
 Rawls (1963), ainda argumenta que uma sociedade onde as pessoas não 
possuíssem senso de justiça seria incapaz de se comover com as injustiças. 
Finalmente, alguém pode sustentar, seguindo Kant, que uma vontade boa, 
ou, no caso presente, um senso de justiça é uma condição necessária de 
dignidade (worthiness) para ser feliz. Pode-se afirmar que o senso de justiça 
é uma parte necessária da dignidade da pessoa e que é essa dignidade que 
atribui um valor à pessoa distinto e logicamente anterior à sua capacidade 
de satisfação e sua capacidade de contribuir para a satisfação das demais 
através do desenvolvimento de seus talentos. É por essa dignidade que a 
concepção de justiça como equidade está correta ao ver cada pessoa 
como, por assim dizer, um soberano individual, cujos interesses não devem 
ser sacrificados por um maior saldo líquido de felicidade, mas apenas de 
acordo com princípios que todos poderiam reconhecer numa posição inicial 
de igual liberdade. Pode-se dizer que se ninguém tivesse um senso de 
justiça, não haveria qualquer objeção ao princípio utilitarista. Na ausência 
desta capacidade, o fato de estar sujeito ao prazer e à dor, à alegria e à 
tristeza, pode ser tomado como o único relevante, e então o princípio da 
maior felicidade seria totalmente natural. Certamente, na ausência da 
51 
 
capacidade para um senso de justiça, ninguém poderia queixar-se caso o 
princípio utilitarista fosse aplicado, e, de tal modo, a posse de um senso de 
justiça é necessária para garantir a concepção de justiça como equidade. A 
falta de um senso de justiça, entretanto, minaria nossa capacidade de nos 
identificarmos e de nos preocuparmos com tais pessoas, se é que tal 
sociedade pode existir. Em uma sociedade em que as pessoas não 
possuíssem senso de justiça, não ficaríamos comovidos com a injustiças, já 
que elas não poderiam se ressentir e ficar indignadas sobre si mesmos, não 
poderíamos nos ressentir e ficar indignados por eles (RAWLS, 1963, p. 15). 
Diante do conceito trazido por Rawls (1963) onde o senso de justiça é uma 
capacidade da personalidade moral que o sujeito pode possuir ou não o conceito 
trazido por Lind (2019) sobre os impactos da competência-moral para a democracia, 
postulamos que uma alta competência moral-democrática pode ser tomada como 
um “marcador” para um senso de justiça mais apurado. 
 
2.4 A inclusão do outro no Estado Democrático de Direito 
Desde as proposições de Aristóteles até o debate político contemporâneo, a 
complexidade da sociedade e dos problemas a serem regulados politicamente, nos 
move a pensar e debater sobre a relação entre política, direito, justiça e moral na 
esfera pública e da própria concepção de Estado. Assim indagamos as interfaces 
que a competência moral do parlamentar com o seu senso de justiça e suas 
consequências na efetivação dos direitos humanos, da justiça, igualdade, 
reconhecimento, multiculturalismo e inclusão no Estado Democrático de Direito. 
Até chegarmos à experiência contemporânea das democracias, a 
humanidade experimentou distintas formas de organização social. Os humanos, 
para sua sobrevivência, sempre viveram em bandos, dos bandos, tribos, vilas, 
cidades, províncias e Estados; formando-se assim grupos sociais e estabelecendo-
se parcerias. Nessas formas associativas nasceram, também, os códigos e as 
regras. Para Starbinski (2015 apud ROUSSEAU, 2015, p. 17), 
[...] as variações do clima e a esterilidade de certas terras fizeram com que 
o homem deixasse de bastar a si mesmo; a natureza já não lhe dava tudo 
que necessitava. Instigado por “esses concursos singulares e fortuitos de 
circunstâncias”, o homem ocioso tomava consciência de que devia 
conquistar aquilo de que precisava e logo descobriria que podia superar 
obstáculo com esforço. Ocasionalmente, associava-se a outros homens em 
um esforço comum, e dessa aproximação se originava a consciência da 
diferença: o trabalho conduzia cada homem a comparar-se ao outro, 
fazendo com que desenvolvesse a sua razão, até então uma faculdade 
52 
 
virtual. Aos poucos, o homem adquiria poder sobre o mundo à sua volta, 
mas deixava em relação imediata com ele. À medida que a ferramenta se 
interpunha entre ele e o mundo, o homem deixava a condição animal. 
O cuidado com o “outro” precede a organização Estatal, de modo que os 
seres humanos sempre precisaram uns dos outros para sua própria sobrevivência. 
Para antropóloga Margaret Mead, um fóssil de um fêmur fraturado de 15 mil anos, 
encontrado em um sítio arqueológico, assinala um sinal de civilização, pois, em 
sociedades sem os benefícios da Medicina moderna, levava-se muito tempo para a 
cura de uma fratura de fêmur. O fato de o osso de um fêmur fraturado ter sido 
curado indica que alguém teria cuidado daquele que havia se machucado. Para 
Mead, quanto mais nos civilizamos, mais cuidamos do outro. 
 Hegel destaca que os sujeitos se movem juntos, seguindo a noção 
Aristotélica de que, na natureza humana, já estão inscritas como um substrato as 
relações de comunidade (HEGEL,1970 apud HONNETH, 2009). 
É possível vislumbrar os caminhos percorridos no processo de humanização 
como um duelo entre a luta pela sobrevivência e a evolução moral. Nessa chave, a 
política serve como alicerce da busca pelo bem viver, assim como também 
preconiza uma luta pelo Poder e pela constante afirmação de grupos. Aristóteles 
compreendia a ética como práxis valorativa na qual a práxis orienta o sentido da 
ação. Ele estabelece um percurso entre a política e o bem viver, onde o bem viver 
transcende a mera vida natural. O termo zoe, na cultura grega, designa a mera vida 
natural, o termo bios traz o conceito de uma vida social e política (RUIZ, 2007). 
Quem se propuser pesquisar de forma adequada qual é a melhor política, 
deve primeiro determinar que é a vida melhor. Enquanto isso não for 
esclarecido não se perceberá com clareza qual é a melhor política. [...] Por 
isso devemos, antes de tudo, pormo-nos de acordo acerca de qual vida 
(bios) entre todas é, por assim dizer, a melhor para todos, e depois se é a 
mesma para uma comunidade e para um indivíduo, ou diferente 
(ARISTÓTELES, 1989 apud RUIZ, 2007, p. 266). 
Aristóteles concebe que uma Pólis deve poder orientar a virtude de seus 
cidadãos; do contrário, o Estado não passaria de uma mera associação. Assim o 
Estado recebe do Direito romano o nome de societas, representando uma aliança 
entre Estados na forma de uma vinculação social entre cidadãos (HABERMAS, 
2013). 
53 
 
Aristóteles apresenta a justiça como algo inerente aos seres humanos. Para 
Aristóteles, o justo e o injusto sempre envolvem mais de uma pessoa (MORAES; 
ASSIS, 2015). Na antiguidade o conceito de justiça advinha da ideia de “dar o que 
lhe cabe”; noção que guia pensadores como Justiniano e Cícero e, na Idade Média, 
Tomás de Aquino. 
Tomás de Aquino se ampara na concepção aristotélica, no sentido de 
compreender que, mesmo que um Estado seja fundado pela virtude da 
sobrevivência, ele só se mantém em virtude na vida boa. Concebendo assim que, 
para a comunidade possuir status de Estado, ela deve permitir que seus cidadãos 
possam realizar ações virtuosas. Contudo, São Tomás não concebe essa 
comunidade de maneira genuinamente política; de modo que, se a ordem da polis 
se consuma na participação dos cidadãos na administração, legislação, 
jurisprudência e deliberação, então a substância da política se forma do diálogo 
público e no tipo de ação dos cidadãos que rompe com a velha política de 
dominação. Da política aristotélica, São Tomás transforma a política em uma filosofia 
do social, de modo a manter a relação entre ética e política a partir de uma 
construção ontoteológica, partindo de uma ordem social na qualidade deordem 
virtuosa: a lex natura é, assim, fundamenta a ordem de civitas na qualidade de 
societas (HABERMAS, 2013). 
 Nicolau Maquiavel (2019), por seu turno, rompe com uma visão teológica e 
funda o realismo político. Para ele, o conflito social partia de um mundo de disputas 
pelo poder. Assim Maquiavel pensa as estratégias políticas para a conquista e a 
manutenção do poder. Seu pensamento conflita com a moral cristã de seu tempo, 
sendo o Estado o bem supremo a ser preservado, inaugurando uma forte discussão 
da relação entre ética e política. Maquiavel usa os conceitos Virtú e Fortuna, mas o 
faz marginalmente como recursos do sujeito para a luta pelo poder, onde o campo 
da ação social é o das lutas dos sujeitos pela conservação de sua identidade física 
(HONNETH, 2009). 
No mesmo ano que Maquiavel concebe o Príncipe, Thomas More escreve a 
Utopia, debatendo questões a respeito da ordem absolutista. Habermas (2013) 
destaca que os pensadores modernos (Maquiavel e More), diferentemente dos 
pensadores antigos, não se perguntam mais pelas relações éticas da vida boa, mas 
54 
 
pelas condições factuais de sobrevivência. Se o ponto de partida dos antigos era de 
que maneira os humanos podem satisfazer a uma ordem natural, o ponto de partida 
dos modernos é a maneira como eles podem dominar o ameaçador mal natural. 
Thomas Hobbes, no Leviatã, concebe que, no “estado de natureza”, a 
condição humana é a de guerra de todos contra todos. Para Hobbes (2020), sem um 
governo os humanos entrariam em conflito por conta da escassez de bens ou para 
obter poder. Ainda na visão de Hobbes os seres humanos precisavam ser 
governados, já que, na sua visão, a natureza humana era essencialmente egoísta. 
Já na perspectiva de Rousseau (2015), os conflitos humanos resultaram da 
produção de excedentes, logo os humanos se viam determinados por sua 
dependência em relação aos “outros”. Os menos hábeis e menos violentos foram 
sendo excluídos e condenados à pobreza. Dentro desse cenário, celebrou-se o que 
Rousseau designou como “contrato social”, onde o mais rico, desejando se 
consolidar, impôs as suas vantagens, originando a desigualdade, garantindo a 
propriedade do rico, um direito que antes não existia. O contrato primitivo era 
abusivo e favorecia apenas os mais fortes. Rousseau sugere que foi necessário que 
os humanos deixassem o seu isolamento primitivo para que as sociedades políticas 
e as leis se tornassem necessárias. 
 Para Kant (2019), o Direito é o conjunto de condições sob as quais o arbítrio 
de um pode se harmonizar com o arbítrio do outro, portanto o Direito afeta a relação 
de uma pessoa com a outra, permitindo a liberdade do arbítrio de cada um e 
respeitando a liberdade de todos, de acordo com uma lei universal. 
O conjunto das leis que carecem de uma promulgação universal para 
suscitar um Estado Jurídico é o direito público. Este é, portanto um sistema 
de leis para um povo, ou seja, para um conjunto de homens, ou para um 
conjunto de povos, que, encontrando-se em si numa relação de influência 
mútua, necessitam de um Estado Jurídico que os unifique sob uma vontade, 
sob uma constituição (constitutio), para compartir o que é o direito. – Este 
estado dos indivíduos num povo, em relação recíproca, é o Estado Civil 
(status civilis), e o conjunto dos mesmos, em relação aos seus próprios 
membros, é o Estado (civistas) que, graças à sua forma, se denomina 
comunidade (republica latius sic dicta), porquanto está unido pelo comum 
interesse de todos se encontrarem no Estado Jurídico; mas em relação a 
outros povos, chama-se simplesmente potência (potentia) (daí a palavra 
potentado). Em virtude da sua (presumida) união herdada, denomina-se 
também nação (gens) e, por isso, sob o conceito geral de direito público não 
se pensa apenas no direito político, mas ainda em um direito de gentes (ius 
gentium); um e outro em conjunto, porque a Terra não é ilimitada, mas sim 
uma superfície por si só limitada, levam inevitavelmente a ideia de um 
direito político das gentes (ius gentium), ou direito cosmopolita 
55 
 
(iuscosmopoliticum); pelo que, se a um destas três formas do Estado 
Jurídico faltar o princípio que restringe a liberdade externa mediante leis, o 
edifício das restantes fica inevitavelmente minado e acaba por se derrubar 
(KANT, 2019, p. 127). 
Kant (2019), ainda concebe que o Poder Legislativo deve representar a 
vontade coletiva do povo, sendo que os membros de um Estado, unidos por uma 
legislação, são os cidadãos que só obedecerão às leis a que deram seu 
consentimento. Sobre a moralidade da ação, assevera: 
Estas leis da liberdade, diferentemente das leis da natureza, chamam-se 
morais. Se afetam apenas ações meramente externas e a sua conformidade 
com a lei, dizem-se jurídicas; mas se exigem também que elas próprias (as 
leis) devam ser os fundamentos de determinação das ações , então são 
éticas e diz-se que a coincidência com as primeiras é a legalidade, a 
coincidência com as segundas , a moralidade da ação (KANT, 2019, p. 18). 
Kant combina na moral, em uma mesma pessoa, dois papéis, a do cidadão 
que participa da legislação e do indivíduo subordinado às leis. Isso só é possível 
quando a competência legisladora não age de forma arbitrária, mas sim ancorada 
com a constituição de uma coletividade. Assim, uma lei somente é válida no sentido 
moral, quando ela pode ser aceita por todos a partir da perspectiva de cada um 
(HABERMAS, 2018). 
Fedozzi (2002) faz ressalva às três distintas culturas políticas: paroquial, 
súdita e participativa. A paroquial é concebida em sociedades simples, onde não há 
uma divisão clara entre os papéis e estruturas de cunho econômico e religioso. Na 
cultura política súdita, a participação dos indivíduos é passiva, o que ocorre, 
sobretudo em regimes políticos autoritários. Por fim, a chamada cultura de 
participação pressupõe a participação ativa de cada indivíduo no sistema político. 
Arendt (2017) elucida três conceitos distintos o qual o século XVII 
experimentou como contrato social. 
Em teoria, o século dezessete, conheceu e associou sob o nome de 
‘contrato social’ três tipos completamente diferentes destes acordos 
aborígenes. Havia primeiro, o exemplo do convívio bíblico, celebrado entre 
um povo com um todo e seu Deus, pelo qual o povo consentia em obedecer 
a quaisquer leis que a divindade toda poderosa escolhesse revelar para ele. 
Se esta versão puritana de consentimento prevalecesse, teria como bem 
observou John Cotton, ‘instituído a Teocracia... como a melhor forma de 
governo’. Havia, em segundo lugar, a variante de Hobbes segundo a qual 
todo indivíduo celebra um acordo com a autoridade estritamente secular 
para garantir sua segurança, por cuja proteção ele renuncia a todos os 
direitos e poderes. Chamo isso de versão vertical do contrato social. Sem 
dúvida é incoerente com a ideia norte-americana de governo por que 
56 
 
reivindica para este um monopólio de poder em benefício de todos os que 
estão submetidos a ele, os quais não tem nem direitos, nem poderes 
enquanto sua segurança estiver garantida; a república norte americana, ao 
contrário repousa no poder do povo – o antigo potestas in populo de Roma 
– e o poder confiado às autoridades é um poder delegado que pode ser 
revogado. Havia em terceiro lugar, o contrato social aborígene de Locke que 
guiava não o governo, mas a sociedade – entendendo-se a palavra no 
sentido latino de societas, uma “aliança” entre todos os indivíduos membros 
que depois de estarem mutuamente comprometidos fazem um contrato de 
governo. Eu chamo isto de versão horizontal de contrato social. Tal contrato 
limita o poder de cada indivíduo membro, mas deixa intacto o poder da 
sociedade; a sociedade então estabelece um governo “sobre o firme terreno 
de um contrato original entre indivíduos independentes” (ARENDT, 2017, p. 
77). 
 Neste sentido de versão horizontal de contrato social, as constituições 
modernas partemde uma associação de indivíduos, os quais estão mutuamente 
comprometidos numa teia de relações sancionadas pelo Estado. A constituição do 
Estado pode ser entendida num sentido étnico de nação como povo, no entanto há o 
risco de se postular um sentido de nação como uma comunidade homogênea. Neste 
sentido, cabe destacar o surgimento de certo nacionalismo tribal que articula assim 
uma luta contra os que postulam valores, culturas diferentes da dita comunidade 
homogênea, tanto num sentido interno, quanto externo. O que muito se observa hoje 
na sociedade contemporânea, a qual está impregnada de racismo, intolerância 
religiosa, homofobia, machismo, etc. Segundo Habermas (2018, p. 341), 
as constituições modernas são tributárias da ideia do direito racional 
segundo a qual os cidadãos, por decisão própria se associam para formar 
uma comunidade de parceiros do direito livres e iguais. A constituição põe 
em vigor precisamente os direitos que os cidadãos precisam admitir 
mutuamente se quiserem regular sua convivência com os meios do direito 
positivo. Aí já estão pressupostos os conceitos do direito subjetivo e de 
pessoa de direito individual como o portador dos direitos. O direito moderno 
fundamenta relações de reconhecimento intersubjetivo sancionadas pelo 
Estado, mas os direitos que daí são derivados asseguram a integridade 
vulnerável dos respectivos sujeitos de direito individuais. Em última 
instância, trata-se de proteger essas pessoas de direito individuais, mesmo 
quando a integridade do indivíduo – tanto no direito quanto na moral – 
depende da estrutura intacta das relações de reconhecimento mútuo. Esse 
tipo de teoria dos direitos formulada em termos individualistas pode fazer jus 
àquelas lutas por reconhecimento nas quais parece tratar-se, sobretudo da 
articulação e afirmação de identidades coletivas? 
 Habermas (2018) traz a questão que o Estado Democrático de Direito regula 
o exercício do poder político de modo duplo: mediação dos respectivos interesses e 
a realização de um sistema de direitos. Onde na arena política se discute o coletivo 
e, no tribunal e nos discursos jurídicos, se trata dos direitos individuais. Ele identifica 
a necessidade de nos despedirmos de uma imagem institucionalmente congelada do 
57 
 
Estado Democrático de Direito, concebendo a fluidificação comunicativa da política 
como uma chave sociológica para compreensão do conceito de política deliberativa. 
Partindo da dissolução do paradoxo proposto por Max Weber para dominação legal. 
Destacando assim que o positivismo jurídico representa no recurso a uma regra 
fundamental arbitrariamente adotada ou que se tornou hábito, a partir de uma 
premissa fundamentadora de validade. Já o direito natural apela para o acesso 
privilegiado ao conhecimento de leis incondicionalmente válidas, visto que são 
cosmologicamente ancoradas ou teologicamente fundamentadas. Assim o direito 
natural se apoia em imagens metafísicas do mundo que já não convencem 
universalmente em sociedades pluralistas. Para Habermas (2014) a fonte normativa 
da legitimidade, nasce da inclusão de todos os concernidos e do caráter deliberativo, 
portanto da combinação de inclusão e deliberação. 
Habermas (2014) discute sobre o direito de participação política dos cidadãos, 
fundamentando seu pensamento na teoria do discurso, de modo a conceber que no 
Estado Democrático de Direito os sujeitos precisam conceder-se mutuamente, antes 
de regularem sobre uma matéria qualquer com meios do direito moderno, cabendo 
ainda conciliar o paradigma jurídico liberal com o Estado de bem-estar social. 
De acordo com a ideia kantiana de autonomia, as pessoas agem livremente 
se obedecem exatamente às leis que elas se deram a si mesmas, segundo 
os discernimentos obtidos intersubjetivamente sobre o que subsiste no 
interesse simétrico de todos, em cada caso. Ora, o direito coercitivo 
moderno distribui esses dois momentos da vontade fiel à lei legisladora para 
dois papéis sociais distintos, a saber, de um lado o papel do destinatário 
privado do direito, que age autonomamente como cidadão da sociedade no 
quadro das leis, e, de outro, o papel do colegislador democrático que faz 
uso de sua autonomia de cidadão do Estado. O direito do Estado moderno 
divide a pessoa moral, de certo modo, nas duas pessoas do cidadão da 
sociedade e do cidadão do Estado (HABERMAS, 2014, p. 101). 
Para Habermas (2014), a interação entre papel do destinatário privado do 
direito e o papel do colegislador democrático é que reside a chave para avaliar o 
paradigma jurídico liberal e o do Estado de Bem-Estar Social. De modo que a 
sociedade do direito privado dos ordoliberais9 deposita a legitimação unilateralmente 
sobre a igualdade de chances dos cidadãos da sociedade, ganhando força no curso 
do fracasso da política neoliberal. Já o modelo ancorado no Estado de Bem-Estar se 
 
9 O ordoliberalismo é uma corrente de pensamento liberal que sustenta a importância de a economia 
existir a partir de regras definidas pelo Estado que tenham o objetivo de produzir benefícios para o 
conjunto da sociedade. 
58 
 
limita sob os pontos de vista da justiça distributiva, surgindo um terceiro paradigma 
procedimental do direito que discute facticidade e validade. No centro do debate, 
Habermas concebe que se encontram os laços de reacoplamento positivo entre o 
processo democrático e a autonomia pública e privada. 
Essa legitimidade assim se vê ameaçada nas sociedades com divisão social 
crescente, geradoras de abstenção eleitoral de camadas sociais marginalizadas e a 
adoção de padrões políticos que negam os interesses desses segmentos da 
população (HABERMAS, 2014). Habermas (2018, p. 359) destaca os direitos 
negados às minorias que ganham um sentido jurídico numa política de 
reconhecimento: 
Com isso, a questão sobre o “direito” ou os “direitos” de minorias ofendidas 
e desrespeitadas ganha um sentido jurídico. As decisões políticas se 
servem das formas de regulamentação do direito positivo para se tornarem 
efetivas em sociedades complexas em geral. Mas com o médium do direito 
nos defrontamos com uma estrutura artificial que implica determinadas 
decisões normativas prévias. O direito moderno é formal porque se baseia 
na premissa de que tudo o que não é explicitamente proibido é permitido. 
Ele é individualista porque transforma a pessoa individual em portadora de 
direitos subjetivos. É um direito coercivo porque é sancionado pelo Estado e 
se aplica apenas aos comportamentos legais ou conformes à regra – por 
exemplo, ele pode deixar à escolha de cada um o exercício da religião, mas 
não pode prescrever nenhuma consciência moral. É um direito positivo 
porque remonta às decisões – modificáveis – de um legislador político; e por 
fim, ele é um direito estabelecido em termos procedimentais porque é 
legitimado por meio de um procedimento democrático. O direito positivo 
somente exige, é claro, o comportamento legal, mas ele precisa ser 
legítimo: embora ele nos dispense dos motivos da obediência ao direito, ele 
precisa estar constituído de maneira tal que a qualquer momento possa 
também ser obedecido pelos destinatários em virtude do respeito à lei. 
Portanto, uma ordem jurídica é legitima quando ela assegura de modo igual 
a autonomia de todos os cidadãos. Estes são autônomos somente quando 
os destinatários do direito podem ao mesmo tempo se compreender como 
seus autores. E os autores são livres somente enquanto participantes nos 
processos de legislação que são realizados sob formas de comunicação e 
regulados de maneira tal que todos possam supor porque as 
regulamentações acordadas merecem o consentimento universal e 
motivado de modo racional. Do ponto de vista normativo, não existe Estado 
de direito sem democracia. Por outro lado, dado que o próprio processo 
democrático precisa ser institucionalizado, o princípio da soberania popular 
exige, em contrapartida, aqueles direitos fundamentais sem os quais não 
podehaver um direito legítimo em geral; exige sobretudo o direito às iguais 
liberdades subjetivas de ação que, por sua vez pressupõe a proteção 
jurídica individual e abrangente. 
Assim, o Estado se define como um conjunto de relações de poder pensadas 
e legitimadas em termos de direitos e deveres. A contemporaneidade nos faz discutir 
sobre os impactos que as instituições modernas e o aparato Estatal possuem sobre 
59 
 
os corpos, sobre a vida humana com seus dispositivos de poder, cabendo, cada vez 
mais, a discussão sobre amoral, a política, a justiça e os direitos humanos. 
Harbermas (2003) postula que, desde Hobbes, as regras do Direito Privado 
cooperam como protótipo para o Direito em geral. Para ele, Kant parte dos direitos 
naturais subjetivos, os quais garantiam a cada pessoa o direito de usar sua força 
quando suas liberdades de ação fossem feridas, enfatizando que o direito positivo 
sucedeu o natural, onde os espaços legítimos de usar a força passaram a ser 
monopolizados pelo Estado, e os direitos de usar a força converteram-se em 
autorizações para iniciar uma ação judicial. 
 Max Weber, numa perspectiva analítica, sobre a distinção entre ética e 
política, apresenta a temática em suas famosas Conferências: A Ciência como 
Vocação e A Política como Vocação. Para Weber, o Estado se funda na força e a 
política se destina ao poder, salientando ainda que o Estado produz uma relação de 
homens dominando homens, relação ancorada muitas vezes pelo uso da violência 
legítima. 
 A sociedade democrática, mais do que a formação de instituições 
democráticas, exige a atuação na esfera pública e privada de indivíduos 
democráticos e autônomos. De forma que a relação entre o “eu” e os “outros”, deve 
ser regida pelo reconhecimento de que o “outro” também é portador de direitos, 
estabelecendo-se relações de reciprocidade entre os indivíduos. Porém, há uma 
constante tensão de luta pelo reconhecimento, principalmente no que tange aos 
direitos das minorias e dos grupos vulneráveis. Assim, precisamos alargar a 
abordagem entre o “eu” e os “outros” para a questão entre “nós” e “eles”, ou seja: 
nossos valores e interesses versus os valores e interesses “dos demais”. Para Lind 
(2006 apud BATAGLIA, 2010, p. 84 ): 
Um dos princípios centrais das democracias modernas é resolver conflitos 
ou dilemas por meio de negociação e discussão preferencialmente ao uso 
de poder, força ou violência. Obviamente, um pré-requisito dos mais 
importantes para a negociação pacífica é a habilidade dos participantes 
para ouvirem-se uns aos outros, independente do fato de serem oponentes 
ou até inimigos. Se quisermos encontrar a base moral para a solução de um 
conflito, devemos apreciar argumentos não apenas advindos de pessoas 
que suportam nossa posição, mas também daquelas que são nossas 
oponentes. Tal competência é crucial para a participação em uma 
sociedade pluralística e democrática. 
60 
 
Para Kohlberg, a sociedade deve estar ancorada em direitos individuais, 
baseada em valores como respeito e igualdade, onde o respeito inclui o 
reconhecimento do direito aos valores morais minoritários (RONDON, 2009). 
Kohlberg (1975) e Lind (2000) também sustentam que o desenvolvimento da 
competência moral representa uma evolução dos indivíduos enquanto pessoas e 
enquanto cidadãos. A democracia postula a ausência de tiranos e é um regime 
político em que é imprescindível a habilidade para argumentar, discutir e negociar. 
Também é na democracia onde diferentes percepções do que seria a justiça podem 
disputar espaços na esfera pública (GUALTIERI-KAPPANN, 2016). 
Na luta por reconhecimento são articuladas as experiências coletivas de 
integridade violada. A luta contra a opressão de coletividades que são privadas de 
iguais oportunidades de vida social resulta numa luta pela universalização dos 
direitos da cidadania nos termos do Estado de Bem-Estar Social. Essa reivindicação 
está presente nas sociedades contemporâneas nas demandas por igualdade de 
gênero e pelo fim do racismo; por respeito às minorias em sociedades multiculturais; 
nas lutas pela independência nacional de povos oprimidos, entre outras. De modo 
que estes grupos criam um movimento de emancipação, cujos objetivos políticos 
são definidos em termos culturais, assim como em termos de igualdade social, 
econômica e política (HABERMAS, 2018). 
Venturi (1995) muito bem elucida que, para Kohlberg, o princípio da justiça é 
um princípio de defesa da vida, dos direitos individuais e do bem comum: 
Enfim, para Kohlberg, a universalidade dos princípios prescritivos pós-
convencionais – em especial a da moralidade da justiça – não está, 
naturalmente, em serem eles universalmente observados no conjunto das 
ações humanas, ou mesmo reconhecidos em discurso; mas em serem 
universalizáveis, em função da trajetória universal da psicogênese da 
moralidade, que teria na razão e na justiça seus pontos ideais de equilíbrio. 
Para Kohlberg, o princípio de justiça, enquanto defesa da vida, dos direitos 
individuais e do bem comum, é universal, em suma, não como fato social, 
apenas como possibilidade de ideal moral. Orientar-se por ele seria uma 
faculdade potencial de todo ser humano, faculdade, em princípio, tão 
universal quanto a razão (VENTURI, 1995, p. 71). 
Na visão de Honneth (2009) é possível ver nas diversas lutas por 
reconhecimento uma força moral que resulta em desenvolvimentos sociais. De 
Hegel, Honneth retira a ideia de que, na sociedade, há três dimensões de integração 
e de reprodução social: a família, a sociedade civil e o Estado, o que se desdobra 
61 
 
nas três formas de reconhecimento intersubjetivo: o amor, o reconhecimento jurídico 
e a solidariedade. Esse reconhecimento advém de processos de luta que em cada 
esfera assumem formas distintas. Ao falar do amor como um elemento de eticidade, 
Honneth (2009), parte do pressuposto que a experiência de ser amado é um 
elemento de reconhecimento de participação na vida pública de uma coletividade. Já 
o reconhecimento jurídico de um ser com direitos é uma forma de reconhecimento 
recíproco, pelo qual os membros da sociedade respeitam mutuamente suas 
pretensões legítimas e podem se relacionar socialmente em pé de igualdade. O 
desequilíbrio em qualquer uma destas esferas que resulte numa condição de 
reconhecimento negado pode transformar a identidade da pessoa. 
Honneth (2009) elucida que, para cada uma das três formas de 
reconhecimento, há também três formas de desrespeito: maus-tratos, privação de 
direitos ou exclusão social e ofensa e degradação. Os maus-tratos físicos 
representam um tipo de desrespeito que quebra a confiança advinda das relações 
de amor. Havendo assim uma perda de confiança em si e no mundo, afetando 
principalmente a esfera dos relacionamentos, juntamente com uma espécie de 
vergonha social. Quando o sujeito experimenta a negação dos seus direitos e a 
exclusão social, descobre-se lesado na expectativa intersubjetiva de ser reconhecido 
como sujeito capaz de formar juízo moral. Por fim, a ofensa e a degradação 
representam o último tipo de rebaixamento, retirando dos sujeitos toda a 
possibilidade de atribuir um valor social as suas próprias capacidades, onde a 
hierarquia social degrada algumas formas de vida ou modos de crença, 
considerando-as de menor valor (HONNETH, 2009). 
 É através das percepções de injustiça ou de ser injustiçado, que Honneth 
conjectura que a injustiça tenciona uma luta por reconhecimento, a qual impulsiona a 
transformação social. Inspirado em Hegel, Honneth concebe que aluta vai além da 
luta material, sendo também moral. 
Hegel defende que a luta dos sujeitos pelo reconhecimento recíproco é 
resultado de uma pressão intrassocial para o estabelecimento prático e político de 
instituições garantidoras de direitos (HONNETH, 2009). O que destaca a dimensão 
histórica da luta por direitos que se materializa também dentro de regimes 
formalmente democráticos,mas ainda marcados por muita desigualdade social e, 
62 
 
portanto, por reconhecimento negado. Nesse particular, o ponto da obediência 
diante da lei se reencontra com o conteúdo das democracias, como o observou 
Hannah Arendt (2017, p. 75): 
O compromisso moral do cidadão em obedecer às leis, tradicionalmente 
provém da suposição de que ele, ou deu seu consentimento a elas, ou foi o 
próprio legislador; sob o domínio da lei, o homem não está sujeito a uma 
vontade alheia, está obedecendo a si mesmo e o resultado, naturalmente, é 
que cada pessoa é ao mesmo tempo seu próprio senhor e seu próprio 
escravo, e o que é visto como o conflito original entre o cidadão, relacionado 
com o bem público, e o eu, que persegue sua felicidade particular, fica 
subjetivado. Esta é em essência a solução de Rousseau e Kant para o 
problema do compromisso, e seu defeito, no meu modo de ver, é que volta 
novamente à consciência à relação do eu próprio. Do ponto de vista da 
ciência política moderna, o problema está na origem fictícia do 
consentimento: “Muitos escrevem como se existisse um contrato social ou 
alguma base parecida para o compromisso político de obedecer à vontade 
da maioria”, e para isso o argumento normalmente preferido é: Nós numa 
democracia temos que obedecer à lei, porque temos o direito de votar. Mas 
é exatamente este direito ao voto, sufrágio universal em eleições livres que, 
como sendo uma base suficiente para a democracia e uma pretensão de 
liberdade pública, que está sob ataque. 
Assim concebe-se que a luta por reconhecimento é fruto das tensões das 
relações sociais e cotidianas, quando sujeitos buscam afirmação de seus direitos, na 
busca de não serem marginalizados, invisibilizados, violados e negados. Desta 
forma, a luta não significa uma autoconservação individual como em Hobbes e 
Maquiavel, mas uma luta coletiva por um reconhecimento plural em que se postula a 
inclusão do “outro”: 
[...] o respeito igual a cada um não se limita aos que são semelhantes: ele 
se estende à pessoa do outro ou ao outro em sua diferença. E assumir a 
responsabilidade solidária para com um outro como um de nós se refere 
aos “nós” flexível de uma comunidade que se opõe a tudo o que é 
substancial e que amplia continuamente seus limites porosos. Essa 
comunidade moral se constitui exclusivamente pela ideia negativa da recusa 
da discriminação e do sofrimento, bem como pela inclusão dos 
marginalizados – e do que está marginalizado – em uma consideração 
recíproca. Essa comunidade, projetada de modo construtivo, não obrigaria 
seus membros homogeneizados a afirmar o distinto modo de ser dessa 
coletividade. Aqui, incluir não significa incorporar ao que é próprio e se 
fechar ao outro. Antes, a “inclusão do outro” quer dizer que as fronteiras da 
comunidade estão abertas para todos – e especialmente para aqueles que 
são estranhos uns aos outros e que querem permanecer estranhos 
(HABERMAS, 2018, p. 28). 
Assim as teorias de reconhecimento contida em Habermas e Honneth nos 
oferecem um aporte teórico para discussão sobre política em seu sentido ampliado, 
que nos possibilita pensar a inclusão do outro no Estado Democrático de Direito, 
63 
 
respeitando as identidades coletivas ao se reconhecer as demandas públicas, de 
modo a se conceber sociedades mais justas e plurais. 
 
 
64 
 
3 METODOLOGIA E CAMPO EMPÍRICO 
 
“Não há muitas virtudes, mas apenas uma e o seu nome é justiça”. 
Lawrence Kohlberg 
 
Densin e Lincoln (2006, p. 21) afirmam que 
a pesquisa é um campo interdisciplinar, transdisciplinar e, às vezes, 
contradisciplinar, que atravessa as humanidades, as ciências sociais e as 
ciências físicas. Tem um foco multiparadigmático [...] tendo um 
compromisso com a experiência humana. 
Nossa pesquisa de campo é exploratória e se deu a partir de um método 
quantitativo com uma amostra dos parlamentares do Rio Grande do Sul (deputados 
estaduais, deputados federais e senadores) que permitiu analisar a competência 
moral-democrática dos entrevistados, mensurando o C-score do grupo. Nossa 
amostra foi formada pelas entrevistas realizadas presencialmente com 44 
parlamentares (33 deputados/as estaduais, 10 deputados/as federais e um senador) 
do Rio Grande do Sul, entre os meses de agosto, setembro e outubro de 2021. 
Sobre a escolha metodológica da pesquisa, optamos pela utilização do instrumento 
utilizado por Silva (2016), baseado no Teste MJT_xt. instrumento objetivo capaz de 
permitir a avaliação da competência moral. 
 
3.1 Competência moral-democrática a partir do Teste de Julgamento Moral 
Diferentemente dos demais instrumentos, o MJT não foi elaborado com o 
objetivo de avaliar o juízo moral, mas sim a competência moral-democrática. De 
modo que Lind enfoca que os componentes afetivos e cognitivos são distintos, mas 
inseparáveis na emissão do juízo moral, conceito já apontado por Piaget 
(BATAGLIA, 2009). No MJT, após cada situação problema, são apresentados seis 
argumentos favoráveis ao posicionamento do protagonista e seis contrários ao 
posicionamento do personagem central do dilema, totalizando doze argumentos por 
dilema. Os argumentos são baseados em distintas orientações morais, 
65 
 
fundamentados nos seis estágios dos três níveis de moralidade identificados por 
Kohlberg (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010). 
Os seis estágios de orientação moral de Kohlberg que compõe o MJT 
traduzem a dimensão afetiva do juízo moral, a dimensão cognitiva é observada 
através da competência que é mensurada e refletida no C-score (RONDON, 2009). 
Assim o Teste determina, simultaneamente, as orientações morais (aspecto afetivo) 
e a competência moral (aspecto cognitivo) da ação moral, assim como opiniões 
pessoais (MARTINS et al., 2020). 
Lind (2000) ainda argumenta que para o sujeito habilidoso na argumentação, 
é possível falsear seu próprio estágio de desenvolvimento moral. Assim Lind se 
concentra na elaboração de um instrumento capaz de avaliar o nível de juízo moral, 
onde o sujeito possa mostrar sua competência em aplicar sua estrutura em 
situações adversas (BATAGLIA, 2010). 
Nós desenvolvemos o Teste de Juízo Moral, ou MJT, com o objetivo de 
estreitar a brecha entre significado e mensuração no campo do 
desenvolvimento e educação moral. Seu primeiro propósito, que não exclui 
outros, é prover um critério para o teste de teorias que pretendam guiar, ou 
que realmente guiem, o planejamento e aplicação prática de modelos de 
educação moral por professores, pais e administradores (LIND, 2000, p. 
406). 
O instrumento MJT permite que o entrevistado reconheça argumentos a favor 
de sua própria opinião e argumentos contrários, permitindo que o sujeito avalie a 
qualidade dos argumentos contrários à sua opinião. Isso requer uma estrutura 
cognitiva e, também, exige postura não dogmática em relação a sua própria atitude. 
É essa capacidade (competência) que o MJT se propõe mensurar (BATAGLIA; 
MORAIS; LEPRE, 2010). 
O MJT é piagetiano na medida em que confronta os sujeitos com dilemas 
comportamentais (apresentados na forma de uma história na qual os 
protagonistas têm que resolver um conflito entre dois cursos de ação 
opostos) e não com situações rotineiras. Como qualquer outra proficiência, 
a competência do juízo moral apenas se revelará se desafiada por uma 
tarefa moral real. Em situações rotineiras, o comportamento do sujeito é 
preferencialmente determinado por seus hábitos e humor e pelas 
circunstâncias do teste, e apenas parcialmente, se ocorrer, por sua 
proficiência moral (LIND, 2000, p. 406). 
Mensurando o peso que cada entrevistado dá para os distintos argumentos, 
os quais representam os seis estágios da Teoria de Kohberg, o teste possibilita 
66 
 
avaliar a capacidade do entrevistado em diferenciar a qualidade moral dos 
argumentos. Ainda, pelo MJT, o entrevistado poder ser classificado em qualquer um 
dos estágios, tanto concordando ou discordando da atitude do personagem do 
dilema. Sendoassim, a competência moral não está relacionada à opinião, mas à 
capacidade de julgar a qualidade moral dos argumentos apresentados pelo teste, 
independentemente da posição que o entrevistado assuma em relação ao dilema 
(MCDANIEL, 2007). O MJT então mensura as competências morais, tais como 
definidas por Kohlberg, como a capacidade de agir e julgar de acordo com seus 
princípios, onde as competências morais podem regredir ou avançar. Assim, Lind 
postula que a competência moral pode ser desenvolvida, o que possibilita a criação 
de métodos e instrumentos que fomentem o desenvolvimento da moralidade 
(GUALTIERI-KAPPANN, 2016). 
Além disso, o MJT trouxe uma inovação para a Psicologia Moral, que foi a 
proposta de avaliar não apenas a atitude moral, mas a habilidade dos sujeitos em 
aplicar valores ou princípios em situações complexas para resolver conflitos. 
Entretanto, algumas questões referentes ao MJT nos indagam se o sujeito, ao 
responder às questões de um dilema, está de fato refletindo o seu nível de juízo 
moral ou o seu compromisso com a defesa de um ideal (BATAGLIA; MORAIS; 
LEPRE, 2010). 
A avaliação do MJT leva em conta a indissociabilidade de afeto e cognição, 
mas a possibilidade de distingui-los. As duas dimensões do comportamento 
moral – afetivo e cognitivo – não se apresentam necessariamente 
conectadas, embora ocorram de modo integrado, isto é, apesar de muitos 
indivíduos preferirem argumentos de estágios morais superiores, apenas 
aqueles com estruturas mentais reversíveis podem ser, também, 
competentes moralmente, ou seja, apresentar uma preferência pelos 
mesmos estágios quando avaliam contra-argumentos, ou argumentos rivais 
à sua opinião. É importante lembrar que a reversibilidade cognitiva por si só, 
igualmente, não garante a competência moral, o que a reduziria a uma 
operação intelectual (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010, p. 30). 
O MJT também possibilita avaliar em que medida o grupo (e não o sujeito 
individualmente) é capaz de avaliar a qualidade de argumentos morais ou fica preso 
à sua própria opinião (BATAGLIA, 2010). 
Silva (2016) enfatiza que o instrumento MJT mede a competência moral do 
indivíduo não através de respostas isoladas, mas, sim, através do padrão de 
consistência de respostas do entrevistado, no todo. A competência moral é medida 
67 
 
com a análise do padrão de consciência das respostas do entrevistado nas 
situações diversas apresentadas. 
 O instrumento criado por Lind (2006), conforme McDaniel (2007), oferece o 
cálculo do índice global de desenvolvimento moral. Resultando num C-score definido 
como competência de julgamento moral, expressão da variação intraindividual nas 
respostas, apurado com os cálculos de MANOVA10. 
A pontuação C pode variar de 1 a 100. A pesquisa de McDaniel (2007) utilizou 
os parâmetros para pontuação do C-score: (1-9) muito baixo, (10-19) baixo, (20-29) 
médio, (30-39) alto, (40-49) muito alto e (acima de 50) extraordinariamente alto. Já 
outros pesquisadores apresentaram algumas variações nas escalas, como Silva 
(2016) e Rondon (2009) que usaram o parâmetro de pontuação do C-score: entre 1 
e 9, indicam baixos índices para competência moral; pontuação entre 10-29, indicam 
resultados médios; escores entre 30-49, indicam resultados altos para competência 
moral; e escores acima de 50, indicam resultados extraordinariamente alto para 
competência moral. 
Lind (2000) reformulou, recentemente, a escala de valores do C-score para: 
valores de 0-9 como competência moral zero ou muito baixa, de 10 - 29 como média 
competência moral e onde a maior parte das pessoas parece estar, segundo o autor, 
e, acima de 30 pontos como alta competência moral (GUALTIERI-KAPPANN, 2016). 
Bataglia (2010, p. 87) estabelece a relação entre a pontuação do C-score com 
a preferência pelos estágios: 
[...] Assumir-se-á aqui a posição de Lind que prevê como forma de 
validação de constructo a correlação do C score com a preferência por 
estágios. De acordo com a teoria, os índices mais altos de C score devem 
correlacionar positivamente com a preferência pelos estágios mais altos, de 
modo neutro com os estágios intermediários e negativamente com os 
estágios inferiores. 
Ainda de acordo com Lind (2000, p. 408), 
de acordo com nosso modelo dual, o MJT pode ser avaliado de dois modos 
diferentes. De um lado, o MJT provê medidas para as atitudes do sujeito em 
direção a cada um dos seis estágios de raciocínio moral como originalmente 
definidos por Kohlberg. Estes escores são calculados como escores de 
 
10 A análise de variância multivariada (MANOVA) é uma forma generalizada da análise de variância 
(ANOVA). É utilizada em casos onde existem duas ou mais variáveis dependentes. 
68 
 
testes tradicionais de atitudes, com taxas médias de aceitação. De outro 
lado, o MJT permite-nos calcular escores para aspectos cognitivos do 
comportamento de julgar moralmente. Geralmente, apenas um índice é 
calculado, precisamente o índice para a competência do juízo moral. Este 
índice varia de 0 a 100, indicando diferentes graus de habilidade para julgar 
itens consistentemente sobre as bases de sua qualidade moral mais do que 
sob quaisquer outros critérios, como concordância com a própria opinião do 
sujeito. Este escore para a competência do juízo moral é uma medida 
verdadeiramente estrutural porque reflete o padrão total de juízo do sujeito, 
isto é, caracteriza as relações entre as respostas mais do que sua direção 
ou número ou força. 
Quando há diferenças de cinco pontos entre o dilema do médico e os demais 
dilemas, ocorre o que Lind identificou como sendo o fenômeno de segmentação 
moral, onde o sujeito entrega a responsabilidade pelo julgamento a uma autoridade 
externa: religião, ideologia, ética profissional (MARTINS et al., 2020). 
Sobre a quantidade mínima de participantes Gualtieri-Kappann (2016) 
destaca a mudança de recomendação de utilização do MJT para grupos a partir de 
15 participantes. 
O instrumento criado por Lind passou por adaptações no Brasil e no México. 
Patrícia Bataglia o adaptou para a língua portuguesa. Assim o Moral Judgment Test 
Extended (MJT_xt) incorpora um terceiro dilema, fruto de discussões sobre o 
impacto do Dilema do Médico, o qual traz à tona questões de eutanásia em países 
de tradição moral cristã, da cultura latino-americana (BATAGLIA, 2010). 
A versão padrão do MJT_xt validado por Bataglia, contendo três dilemas, do 
Médico, dos Operários e o do Juiz. Agregando o tema da vida, já apresentado no 
Dilema do Médico, o Dilema do Juiz enfatiza o dilema de escolha da vida de uma 
pessoa em contraposição à vida de outras pessoas, indagando o entrevistado se a 
tortura é justificada para salvar a vida de outras pessoas (SILVA, 2016). Assim o 
instrumento MJT_xt faz com que o entrevistado se depare em situações diversas 
com relação à atitude de distintos personagens em situações problemáticas, de 
modo que propõe uma tarefa moral ao entrevistado, viabilizando medir sua 
competência moral. 
Bataglia (2010) salienta que o Moral Judgment Test (MJT_xt) tem o objetivo 
de saber em que medida o grupo - e não o sujeito individualmente - é capaz de 
avaliar a qualidade de argumentos morais ou se esse fica com seus argumentos 
preconcebidos, ligando o juízo à ação moral propriamente dita. O instrumento ainda 
69 
 
evidencia o grau de coerência com que o entrevistado diferencia e integra princípios 
morais e os aplica em situações problemas. 
O teste MJT passa por constante aperfeiçoamento, sendo que, em 2015, Lind 
substituiu o nome Moral Judgment Test - MJT para MCT (Moral Competence Test), 
sendo ainda utilizada a nomenclatura antiga. Respectivamente a versão brasileira é 
chamada de MCT_xt, composta por três dilemas (KAPPANN, 2016). 
A revisão de literatura nos possibilitou encontrar diversas pesquisas nacionais 
e internacionais que utilizaram o Teste de Juízo Moral – MJT (ou Teste de 
Competência Moral – MCT). Algumasse utilizaram no instrumento original com dois 
dilemas e outras optaram pela versão MJT_xt / MCT_xt adaptado e validado para a 
cultura brasileira por Bataglia (2010), com 3 dilemas. Analisamos as pesquisas 
empíricas que buscaram mensurar a competência moral de grupos, utilizando-se do 
instrumento Moral Judgment Test (e sua nova nomenclatura: Moral Competence 
Test – MCT), assim como versão estendida do Teste MJT_xt (extended) / MCT_xt 
(extended). Os trabalhos reportados na busca consideram teses, dissertações e 
artigos científicos no banco de textos disponíveis na plataforma Google acadêmico 
acessados pelo software PublishorPerish11 com as palavras-chaves: 
Desenvolvimento e/ou Julgamento Moral; Kohlberg; Moral Judgment Test -MJT / 
MCT e Teste MJT_xt(extended) / MCT_xt (extended). 
McDaniel (2007) explorou as variáveis que impactam a competência de 
julgamento moral, com o objetivo de compreender melhor os fundamentos e o 
desenvolvimento da moralidade humana. Trabalhando com uma pesquisa 
multiconstrutivista de moralidade, buscou compreender a influência das emoções 
como, empatia, vergonha e culpa; além de o quanto podem influir na formação moral 
temas como religiosidade, funcionamento familiar e comportamentos. Seu trabalho 
foi pioneiro no estudo do campo do desenvolvimento moral em uma perspectiva 
multiconstrutivista, integrando assim blocos de construção de desenvolvimento 
moral, emoções morais e competência de julgamento moral. Em sua pesquisa, com 
uma amostra de 258 estudantes universitários, utilizou o instrumento Moral 
Judgment Test -MJT, versão com dois dilemas, aplicando abordagem estatística 
 
11 O software PlublishorPerish é um programa que realiza busca de dados online e analisa as 
citações acadêmicas, organizando as obras em um ranking de citações e relevância. Disponível em: 
https://harzing.com/resources/publish-or-perish/windows. 
https://harzing.com/resources/publish-or-perish/windows
70 
 
multiconstrutiva da modelagem da equação estrutural. Encontrou uma média de C-
score de 19,01 (mediana) lidando com os parâmetros 1-9 (muito baixo), 10- 19 
(baixo), 20-29 (médio), 30-39 (alto), 40-49 (muito alto) acima de 50 
(extraordinariamente alto). 
Em suas conclusões, McDaniel (2007) afirma que a empatia pode ser 
fomentada até a idade adulta, independente do funcionamento familiar, 
possivelmente na escola e no playground. O paralelo entre emoções morais e 
competência de julgamento moral não foram significativas. O estudo apontou 
ausência de relação entre os blocos de construção do desenvolvimento e a 
competência de julgamento moral. McDaniel (2007) sustenta a necessidade de 
pesquisas longitudinais/ transversais para gerar indicadores mais fidedignos de 
desenvolvimento moral. 
Silva (2016) procurou investigar o desenvolvimento moral e os 
comportamentos de cidadania organizacional, de modo a utilizar a versão Moral 
Judgment Test (MJT_xt), agregando dois novos dilemas: o Dilema do Estudante 
(relacionado à situação de cola em avaliação) e o Dilema dos Pastores (que trata da 
vida e da morte entre civis e militares), trabalhando assim com um questionário 
composto por cinco dilemas. O instrumento foi aplicado com 732 cadetes do Exército 
Brasileiro (FEB), matriculados, em 2015, no curso de formação para oficiais da 
Academia Agulhas Negras (AMAN). Silva ( 2016) associou o MJT com Escalas de 
Comportamento de Cidadania Organizacional utilizando-se de tratamento estatístico 
com o programa SPSS (Statistical Package for Social Science) e dos Módulos 
AMOS (Analysis of Moment Structures). A pesquisa encontrou uma competência 
moral em níveis medianos para os cadetes. Silva (2016) utilizou os parâmetros para 
o C-score: 1-9 (baixo), 10-29 (médio), 30-49 (alto) e acima de 50 muito alto para o C-
score, não encontrando diferenças estatísticas significativas na variável progresso 
no curso de formação ou em relação às diferentes especialidades militares, nem nas 
variáveis origem familiar, procedência escolar (colégio militar ou civil), e religião. 
Observou, no entanto, pequena elevação no escore de indivíduos ateus ou 
integrantes de grupos religiosos minoritários. Os dados apresentados por Silva 
(2016) ainda sugerem uma correlação negativa entre o desenvolvimento da 
Competência Moral e os CCO de Cadetes. Destacando que há uma tendência de 
diminuição dos C-scores conforme avança a formação, sendo essa redução mais 
71 
 
relevante nos resultados dos cadetes do 2º ano de curso. O estudo ainda destaca 
que, quando comparado o C-score encontrado nos Cadetes da Academia Agulhas 
Negro (AMAN), com resultados de instituições de ensino civis, encontra-se uma 
diferença significativa, sendo os índices mais baixos para os cadetes da Academia 
Agulhas Negras (AMAN). 
Rondon (2009) também utiliza o Instrumento MJT_xt com o objetivo de 
analisar a competência de juízo moral dos estudantes de Teologia de uma instituição 
protestante batista, com intuito de discutir a relação entre moral e religião. A 
pesquisa de caráter quali-quanti, aplicou o instrumento MJT_xt com três dilemas 
para uma amostra de 115 estudantes. Na parte qualitativa, foi empregada a técnica 
de grupo focal com 10 estudantes, com os Dilemas do Médico e dos Operários, 
assim como discussão de questões sobre autonomia, moral e religião. A 
pesquisadora utilizou os parâmetros definidos por Cohen para o C-score: 1-9 
(baixo), 10-29 (médio), 30-49 (alto) e acima de 50 muito alto, encontrando uma 
média de 14,61 para a competência de julgamento moral do grupo estudado. A 
autora percebe a ocorrência da segmentação social apresentada por Lind, no 
Dilema do Médico. Os estudantes apresentaram C-score de 30,93 no Dilema do 
Operário, 21,13 no Dilema do Médico e 30,86 no Dilema do Juiz. A pesquisa 
concluiu que não houve alterações significativas nos índices de competência moral 
(C-score) quando comparados a estudos anteriores com a população brasileira. 
Nesse trabalho, a religião não se apresenta como uma influência determinante na 
ocorrência da segmentação. 
Já a pesquisa realizada por Melo (2015) concluiu que estudantes com maior 
espiritualidade apresentam tendência de competência moral menos elevada. O 
estudo buscou investigar se a espiritualidade estaria envolvida na construção, 
modificação e consolidação do juízo moral dos estudantes de Medicina com o 
objetivo, então, de avaliar a relação entre a competência moral e a espiritualidade e 
fatores associados. A aplicação do MJT com dois dilemas morais e com a Escala de 
espiritualidade de Pinto e Pais-Ribeiro, uma escala brasileira constituída a partir da 
combinação dos itens da dimensão espiritual do Quality of Life-Cancer Survivor 
(QOL-CS), e módulo da espiritualidade do Instrumento da Organização Mundial de 
Saúde (WHOQOL). O MJT foi aplicado com 121 estudantes do curso de Medicina da 
Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS). Do perfil dos entrevistados 71,1% eram 
72 
 
do gênero feminino, a média de idade do grupo era de 22,5 anos, 89,3% afirmaram 
ter alguma religião, sendo 52% da amostra católicos. O C-score no estudo foi 
calculado através da orientação do autor para cálculo em planilha do Excel. A 
pesquisadora verifica que o C-score manteve-se crescendo ao longo dos anos de 
graduação de Medicina e que estudantes com baixa espiritualidade apresentaram 
um C-score maior. Para uma média de 12,7 no C-score no grupo avaliado, 
estudantes com baixa espiritualidade obtiveram 15,7, enquanto estudantes com 
espiritualidade elevada alcançaram 9,9 pontos. 
Martins et al. (2020) realizam um estudo longitudinal utilizando o MJT_xt, com 
os dilemas do Operário, do Médico e do Juiz com estudantes do curso de 
Enfermagem e Medicina. A aplicação do teste é realizada em dois momentos: antes 
e depois dos estudantes terem cursado a disciplina de Ética. A amostra contou com 
400 participantes. O C-score obtido após os alunos cursarem a disciplina de Éticasofreu uma diminuição de 21 para 19,5 em média para estudantes de Enfermagem e 
uma diminuição de 23,2 para 22 para os estudantes de Medicina. O fenômeno de 
segmentação social foi observado nos dilemas do Operário e do Juiz. A partir do 
estudo, os autores salientam a importância de uma estratégia curricular para que os 
estudantes das escolas de Saúde possam desenvolver melhor a competência moral. 
Agurto et al. (2017) utilizaram o Teste de Competência Moral - MCT em sua 
pesquisa com objetivo de explorar a competência moral e seus fatores associados 
com 236 médicos no Chile. O estudo considerou os valores: muito baixo (0-9), baixo 
(10-19), médio (20-39), muito alto (40-49) e extraordinariamente alto (acima de 50). 
O valor médio encontrado no grupo para competência moral foi de 20,9. Sendo que 
os médicos com pós-graduação obtiveram um desempenho melhor e os 
profissionais com mais de 15 anos de atuação, obtiveram um C-score menor. Não 
foram encontradas no estudo diferenças significativas por sexo. 
A pesquisa de Gualtierri-Kappann (2016) buscou conhecer a realidade do 
ensino da Ética nas escolas do estado de São Paulo, a partir da perspectiva dos 
documentos oficiais e do corpo docente em exercício a partir de um método de 
discussão de dilemas morais para a educação. A pesquisa de caráter quali-quanti 
envolveu questões de ética, justiça e democracia em sala de aula, com professores 
do Ensino Médio de uma escola estadual de uma cidade do interior de São Paulo. A 
73 
 
metodologia envolveu grupo focal com parte do corpo docente da escola e uma pré-
testagem com MJT_xt (Moral Judgment Test-extended) com este grupo de 30 
professores realizada no início e ao final das intervenções. A autora utilizou a escala 
de valores de 0-9 como competência moral zero ou muito baixa, de 10 - 29 como 
média competência moral e acima de 30 pontos como alta competência moral. 
Segundo os dados obtidos na pesquisa, o C-score do grupo de professores 
participantes da amostra foi de total médio de 11,6 antes e de 10,8 após as 
intervenções. No entanto, a pesquisa aponta que, quando retirados os sujeitos 
discrepantes, os valores totais médios do grupo caem, resultando em um C-score 
total médio de 9,3 antes e de 9,0 após as intervenções. Nesse caso, eles seriam 
considerados como indivíduos com níveis de competência moral zero ou muito 
baixos. Assim a pesquisadora concluiu que as intervenções não provocaram efeitos 
nos níveis de competência moral. 
A pesquisa desenvolvida por Vieira (2016) teve como escopo a análise do 
julgamento a respeito da justiça das cotas, a partir da percepção de docentes e 
estudantes, do curso de Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia de 
uma universidade pública. O estudo utilizou a estratégia de verificar a relação entre 
o julgamento sobre a lei de cotas com o nível de competência de juízo moral dos 
estudantes e professores. A amostra contou com 317 estudantes e 15 professores, 
aplicando-se o Teste de Competência Moral (MCT_xt). A pesquisadora obteve o C-
score total de 8,25 (nível de baixa competência moral), não sendo identificada 
diferença significativa entre os grupos de cotistas, não cotistas e professores. 
Thielen et al. (2006) investigaram a relação entre competência moral e 
comportamento no trânsito, aplicando o Teste de Julgamento Moral – MJT com 10 
motoristas de trânsito da cidade de Maringá-PR. O estudo concluiu que os 
resultados do teste MJT não possibilitam correlacionar estágios kohlberguianos dos 
motoristas com seus respectivos comportamentos no trânsito, porque o teste MJT 
não determina, precisamente, em qual estágio cada sujeito se encontra. 
 Após décadas de pesquisa com o MJT, com mais de 15 mil sujeitos com 
estudos transculturais, longitudinais, representativos e laboratoriais, o teste 
finalmente alcançou sua mais importante checagem da validade teórica. Assim, o 
Moral Judgment Test, mesmo ainda podendo ser melhorado, é um valioso 
74 
 
instrumento para medir o aspecto cognitivo ou de competência do juízo moral. O 
instrumento permite testar adequadamente hipóteses centrais da teoria cognitivo 
evolutiva, possibilitando medir os aspectos do juízo moral: o afetivo e o cognitivo, 
sem misturá-los. Através do instrumento, é possível concluir que possuir princípios 
morais é condição necessária, mas não suficiente para a tomada de boas decisões 
morais. Portanto, o MJT mede a habilidade de um sujeito ao aplicar princípios 
morais em seu comportamento de julgar (LIND, 2000). 
Desta forma, salientamos a validação do instrumento MJT/MCT e sua versão 
ampliada MJT_xt/MCT_xt para medir a competência moral de grupos. Nossa revisão 
de literatura não encontrou pesquisas que investigassem a competência moral de 
agentes políticos com o instrumento MJT, mas avaliamos que o Moral Judgment 
Test – MJT em sua versão estendida seja apropriado para a investigação proposta 
na presente pesquisa. 
 
3.2 Hipóteses de investigação 
Assumimos que, quanto mais alta a competência moral (C-score) dos 
parlamentares, maiores condições eles terão de formular propostas de leis 
orientadas pela efetivação dos Direitos Humanos, gerando uma sociedade mais 
justa, uma vez que um C-score baixo representa indivíduos que valorizam ideias e 
princípios morais apenas daqueles que pensam da mesma forma que eles, 
enquanto indivíduos com C-scores elevados conseguem valorizar as ideias dos que 
postulam opiniões contrárias. Partindo das diferenças entre sujeitos com 
competência moral baixa, média e elevada, que implicam em atitudes diferentes na 
construção da consciência de cidadania, a investigação da presente pesquisa parte 
da seguinte pergunta: Qual senso de justiça, critérios e competências morais guiam 
o posicionamento político dos parlamentares do Rio Grande do Sul? 
Com base em nosso referencial teórico, também assumimos que sujeitos com 
um C-score alto no Teste são possuidores de alta competência moral-democrática, o 
que representaria um senso de justiça elevado; já escores baixos representariam um 
senso de justiça instável ou ausente, portanto, com maiores dificuldades de orientar-
se por meio de princípios universais de inclusão e acolhimento. 
75 
 
Durante a formulação de hipóteses, considerou-se que as definições político-
ideológicas assumidas pelos parlamentares constituiria variável estatisticamente 
significativa na conformação de sua competência moral. A premissa dessas 
hipóteses parte da constatação de que representantes mais identificados com 
posições à esquerda no espectro político-ideológico demonstram uma maior 
aderência às pautas de inclusão social, assim como, aparentemente, um maior 
comprometimento com os ideais democráticos, pelo menos no que diz respeito à 
experiência política brasileira recente. 
De acordo com a segunda hipótese, consideramos que, no desempenho por 
faixa etária, parlamentares mais jovens possuiriam um C-score mais elevado do que 
os parlamentares com mais de 50 anos, partindo do pressuposto de que os 
representantes mais jovens seriam mais propensos à inovação e à busca por 
mudanças e que teriam posições menos consolidadas, o que auxiliaria a repensar 
seus pontos de vista. 
Como terceira hipótese, que é uma variação da segunda, pensamos que o 
número de mandatos obtidos pelos parlamentares relacionar-se-ia inversamente 
com a competência moral, considerando que a prática legislativa, no cenário atual 
da política brasileira, ao invés de desenvolver a habilidade do diálogo e respeito à 
diferença, acabaria selecionando, em maior número, os representantes menos 
dispostos a superar ideias preconceituosas ou posições simplificadoras. 
Por fim, a quarta hipótese presume que o número de votos obtidos pelos 
parlamentares estaria inversamente correlacionado à competência moral. A ideia 
parte do pressuposto de que o atual sistema eleitoral acaba por refletir a 
competência moral-democrática da sociedadecomo um todo. Assim, se há uma 
baixa competência moral-democrática entre os eleitores, como vários estudos 
sugerem, haveria uma tendência de os eleitores identificarem-se mais com 
candidatos com baixa competência moral-democrática. 
 
76 
 
3.3 Escolha da técnica de investigação 
 Nossa pesquisa observou os seguintes procedimentos: 
a) Realização do levantamento bibliográfico, construção de referencial teórico e 
revisão de literatura. 
b) Aplicação do teste com entrevistas presenciais e individuais para exposição 
dos dilemas morais kohlberguianos com o instrumento TesteMJT_xtversão 
não certificada, com amostra de parlamentares do Rio Grande do Sul, 
deputados estaduais, deputados federais e senadores. 
c) Armazenamento dos dados coletados na plataforma Google Forms e em 
meio digital próprio sem compartilhamento em ambientes da Internet, sem 
nomes ou quaisquer outros indicadores que permitam a identificação dos 
respondentes. 
d) Tabulação dos dados e tratamento estatístico da base por meio do 
programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). 
e) Cruzamento dos dados na busca de correlações possíveis entre as variáveis 
independentes (sexo, idade, etnia, religião, escolarização, espectro político), 
e a competência moral (variável dependente). 
f) Discussão dos resultados. 
 Selecionamos a versão estendida do MJT, O Teste MJT_xt, adaptado por 
Silva (2016), que conta com mais dois dilemas (o Dilema do Estudante e o Dilema 
do Comandante). Assim, para compor nosso instrumento de pesquisa usamos três 
dilemas morais dos cinco utilizados por Silva (2016), os quais foram adaptados pela 
pesquisadora e apresentam questões de valores morais sobre direito à propriedade 
e direito à vida. 
Os três dilemas que compõe o questionário utilizado na coleta de dados 
seguem abaixo, o instrumento completo consta no Apêndice B. 
 
77 
 
História A - Conduta dos operários 
Devido à existência de demissões aparentemente infundadas, alguns 
operários de fábrica suspeitam que a chefia esteja ouvindo as conversas dos 
empregados através de um microfone oculto, e usando tais informações contra os 
empregados. A chefia nega essas acusações enfaticamente. O sindicato declara 
que só tomará providências contra a empresa quando forem encontradas provas 
que confirmem as suspeitas. Sendo assim, dois operários decidem arrombar o 
escritório administrativo e furtam uma transcrição de uma gravação que prova a 
alegação de espionagem por parte da chefia. 
História B - Conduta do médico 
O médico está diante de uma paciente com câncer disseminado e sabe que 
ela tem poucos dias de vida. A mulher sofre com dores terríveis e estava tão fraca 
que uma dose maior de morfina, por exemplo, lhe causaria a morte rápida. A 
paciente, então, implora ao médico que lhe dê a morfina suficiente para matá-la. 
Ela disse que não poderia suportar a dor por mais tempo e que estaria morta em 
alguns dias de qualquer modo. O médico, então, atende ao desejo da paciente e 
abrevia seu sofrimento. 
História C - Conduta do comandante 
O Serviço de Inteligência Militar de um país ocidental identificou a presença 
de um líder terrorista e 150 milicianos, num vilarejo em meio às montanhas no 
Afeganistão. Essa liderança era famosa por matar seus oponentes, após torturá-
los. Um grupo de militares especializado em ações contraterrorismo recebeu a 
missão de capturar o líder. Infiltrados na região, os militares aguardavam a melhor 
oportunidade para a ação. Após alguns dias escondidos na montanha, foram 
surpreendidos com a aparição de três pastores de ovelhas: um velho, um garoto 
de 14 anos e um homem jovem. Os militares renderam os três civis e devido às 
dificuldades de comunicação, não conseguiram avaliar se haveria alguma ligação 
entre os pastores e os terroristas. O comandante militar da operação sabia que, se 
fossem descobertos, a missão e a vida de seus homens correriam sérios riscos. A 
alternativa que tinha era a de executar os três pastores, impedindo, assim, que a 
missão fosse descoberta e os militares fossem mortos. Após ouvir seus 
78 
 
comandados que, em maioria, defendiam a execução, o comandante decidiu 
liberar os pastores. Em liberdade, os pastores informaram os terroristas, que 
atacaram o destacamento militar matando quase todos os seus integrantes. 
Em cada uma das histórias, o personagem se depara com uma situação 
limite, enfrentando assim um dilema que envolve a transgressão de valores ou a 
afirmação de princípios morais. Diante da situação, o personagem central toma uma 
atitude. 
É perguntado ao entrevistado se ele concorda ou não com a atitude tomada 
pelo personagem, cabendo ao respondente mensurar o grau de concordância ou 
discordância numa escala de -3 à +3 (Escala de Likert). 
Quadro 5 – Grau de concordância/discordância na Escala Likert 
Forte Discordância Forte Concordância 
 
-3 
 
-2 
 
-1 
 
0 
 
+1 
 
+2 
 
+3 
Fonte: Elaborado pela autora (2021). 
Na sequência, são apresentados seis argumentos favoráveis ao 
posicionamento do protagonista e seis contrários, totalizando doze argumentos por 
dilema. Os argumentos são baseados em distintas orientações morais e de justiça, 
fundamentados nos seis estágios dos três níveis de moralidade identificados por 
Kohlberg, sendo apresentados de forma aleatória (ver Anexo B). 
Para cada argumento é perguntado ao entrevistado se este considera o 
argumento aceitável ou inaceitável, conforme a escala apresentada. 
Quadro 6 – Grau de inaceitável/aceitável na Escala Likert 
Completamente inaceitável Completamente aceitável 
-4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 
Fonte: Elaborado pela autora (2021). 
Assim, é mensurado o peso que cada entrevistado dá a cada um dos 12 
argumentos sobre ação do protagonista do dilema (favoráveis e 
79 
 
contrários)elaborados de acordo com os seis estágios de moralidade propostos por 
Kohlberg. 
Pelo instrumento utilizado em nossa pesquisa, o entrevistado poder ser 
classificado em qualquer um dos níveis, tanto concordando ou discordando da 
atitude do personagem do dilema. Dessa forma, a competência moral não está 
relacionada com a opinião que o entrevistado tem sobre a atitude do personagem, 
mas com a sua capacidade de julgar os argumentos favoráveis à sua opinião e, 
sobretudo, os argumentos contrários ao seu posicionamento, o que permite verificar 
se o entrevistado possui a capacidade de valorizar simetricamente os argumentos 
contra e a favor da sua posição que estejam ancorados na mesma perspectiva 
moral. Portanto, o teste mede o padrão de respostas do entrevistado e não 
respostas isoladas. Por esse caminho, chegamos ao nível de competência moral (C-
score) do grupo de parlamentares do Rio Grande do Rio Grande do Sul. 
 
3.4 Coleta e processamento dos dados 
O estudo contou com dados obtidos da amostra por adesão de 44 
parlamentares do Rio Grande do Sul, 33 deputados/as estaduais, 10 deputados/as 
federais e um senador12. A participação dos parlamentares foi voluntária, em 
conformidade com o estabelecido no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, 
assinado pelos participantes (Apêndice A).Um parlamentar, após a realização da 
entrevista presencial com a aplicação do MJT_xt, recusou-se a assinar o Termo de 
Consentimento, razão pela qual suas respostas foram excluídas do estudo. 
Antes da coleta de dados com os/as deputados/as estaduais, federais e 
senadores foi realizado o pré-teste com uma amostra de 17 vereadores/as de Porto 
Alegre, a fim de desenvolver os procedimentos de aplicação do instrumento e 
conferir se havia problemas de compreensão dos enunciados. Os dados coletados 
no estudo piloto não serão apresentados neste trabalho, visto que a coleta serviu 
 
12 A pesquisa desenvolvida foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro 
Universitário Ritter dos Reis – UniRitter, gerando o número do parecer: 4.983.955/2021. De acordo 
com a liberação,o projeto atende aos princípios éticos e está de acordo com a resolução 466/12, que 
regula os procedimentos de pesquisa envolvendo seres humanos. 
 
80 
 
apenas como recurso metodológicos. A aplicação do pré-teste, no mais, 
diferentemente do procedimento adotado na pesquisa, foi realizada por meio 
eletrônico, através de e-mail com o convite de participação na pesquisa, tendo, em 
anexo, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e o link para o formulário na 
plataforma digital Google Forms com o questionário. Obtivemos um retorno de 17 
vereadores/as da capital (taxa de retorno de 47,2%). A partir dessa experiência, 
optamos por realizar as entrevistas que compõe o escopo do presente estudo de 
forma presencial ou telepresencial, o que nos daria a certeza de que o questionário 
seria respondido pelo próprio parlamentar, além de possibilitar dirimir eventuais 
dúvidas. 
Toda a coleta empírica foi realizada pela pesquisadora. O convite aos 
parlamentares para participar da pesquisa foi realizado por e-mail e a partir de 
contato telefônico com o gabinete do parlamentar. As entrevistas com aplicação dos 
testes foram realizadas presencialmente no gabinete do parlamentar ou através de 
vídeo chamada, pela plataforma Meet. Durante a entrevista, foi disponibilizado o 
questionário para registro das respostas através da plataforma digital Google Forms. 
O tempo de cada entrevista com a aplicação do instrumento Teste MJT_xt variou 
entre 30 e 45 minutos. 
Para a aplicação do instrumento, seguiu-se o mesmo procedimento em todas 
as entrevistas: explicação dos objetivos da pesquisa, explicação detalhada do 
preenchimento do questionário eletrônico na plataforma digital Google Forms, 
enfatizando que o questionário tratava do julgamento sobre as três histórias 
narradas e que o intuito central da investigação está no posicionamento do 
parlamentar frente aos dilemas, sobretudo no julgamento dos argumentos 
apresentados. As três histórias com seus argumentos favoráveis e seus argumentos 
contrários à atitude do personagem central foram lidas em voz alta pela 
pesquisadora, após o que foi solicitado ao parlamentar registrar o seu 
posicionamento no questionário eletrônico disponibilizado. 
Os dados brutos da presente pesquisa serão descartados e, portanto, não 
serão utilizados em pesquisas futuras. O retorno dos resultados da pesquisa será 
compartilhado com os parlamentares participantes e com a comunidade. Aos 
participantes da pesquisa será encaminhada a presente Dissertação de Mestrado 
81 
 
por e-mail; já o retorno à comunidade se pretende assegurar com a produção de 
artigo a ser publicado por revista científica e pela apresentação do trabalho em 
encontros e congressos acadêmicos. 
A tabulação dos dados foi realizada em planilha de Excel. As análises 
estatísticas foram feitas através do programa SPSS (Statistical Package for Social 
Sciences). Para obtermos o C-score, nos utilizamos do cálculo apresentado pela 
pesquisadora McDaniel (2007), respeitando as nove etapas de cálculo propostas no 
princípio MANOVA. 
 
82 
 
4 O SENSO DE JUSTIÇA E A COMPETÊNCIA MORAL-
DEMOCRÁTICA DOS PARLAMENTARES DO RIO GRANDE DO 
SUL 
 
“Sunt lacrimae rerum et mentem mortalia 
tangunt.”13 
Virgílio (Eneida) 
 
Uma das características fundamentais das democracias modernas é seu 
papel representativo, mas quais os projetos políticos que os representantes eleitos 
representam? 
A constituição de 1988 inaugurou o processo de redemocratização, 
reposicionando o Brasil na “era de direitos”. Após mais de duas décadas de ditadura, 
nosso País reconquistou a autonomia e a independência entre os Poderes, 
característica central para o mecanismo de “freios e contrapesos” (Checks and 
balances). A Constituição Federal, assim, garante ao Poder Legislativo a função de 
elaboração de leis tanto quanto a de fiscalização do Executivo. Os parlamentares 
possuem, por decorrência, prerrogativas destacadas e o poder de formular, debater, 
aprovar ou rejeitar projetos de lei, assim como amplas possibilidades de fiscalização 
do Poder Executivo e das políticas públicas. 
Na formulação, discussão e aprovação de leis em uma democracia, os 
parlamentares devem exercer capacidades específicas que os habilitem à 
superação de conflitos entre interesses não raro conflitantes. Devem, por isso 
mesmo, praticar a escuta respeitosa e compassiva, além de propor e praticar o 
diálogo de forma a contornar os riscos da violência. Essas capacidades e 
disposições são pressupostos do reconhecimento dos direitos daqueles que 
postulam valores distintos ou daqueles que pertencem a “tribos distintas”, sem o que 
não é possível cogitar a garantia de direitos e acesso às políticas públicas a todos 
 
13 “Há lágrimas na natureza das coisas e tocam a alma dos mortais”. 
83 
 
independente de sua raça, cor, religião, orientação sexual, posição político-
ideológica etc. No entanto, a luta política muitas vezes deixa de ser uma luta por 
direitos coletivos e passa a ser, simplesmente, uma disputa pelo Poder, um caminho 
que transforma a disputa em um “jogo de soma zero”14, em que teremos vencedores 
e derrotados, amigos e inimigos. 
Uma das formas de se perceber como a política é pensada é inquirir sobre a 
competência moral-democrática dos políticos, o que pode nos oferecer, a depender 
da qualidade da amostra examinada, características mais gerais presentes no 
Parlamento. Nosso estudo, nesse sentido, revela aspectos relevantes do perfil de 
parte da representação política do Rio Grande do Sul, e nos provoca a pensar de 
que forma a competência moral-democrática do parlamentar repercute na efetivação 
dos direitos humanos e políticas públicas. 
Apresentaremos aqui os dados obtidos em nosso campo empírico. 
Primeiramente vamos apresentar o perfil do grupo de parlamentares da amostra 
composta por 79,5% do sexo masculino e 20,5% de parlamentares do sexo 
feminino, o que reflete o pequeno percentual de parlamentares do sexo feminino nos 
Legislativos brasileiros15. 
Tabela 1 - Distribuição por sexo 
 Frequency Percent 
Feminino 9 20,5 
Masculino 35 79,5 
 
Total 44 100,0 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Quanto à faixa etária, 18,2% dos parlamentares da amostra possuem idade 
de até 39 anos; 25,0% estão na faixa etária entre 40 e 49 anos e 56,8% se 
encontram acima dos 50 anos, conforme percebemos na tabela abaixo. 
 
14 O conceito é muito usado pela Teoria dos Jogos e no âmbito das análises econômicas para 
identificar os processos em que os ganhos de um indivíduo ou de um grupo são, necessariamente, as 
perdas de outro indivíduo ou grupo. 
15 Em 2020, as mulheres foram 16,6% das pessoas eleitas para as Câmaras Municipais no Brasil. No 
plano Federal, a proporção de vagas ocupadas por mulheres era de 14% em 2020, o que é a menor 
proporção de mulheres exercendo mandato parlamentar na América do Sul, o que situa o Brasil na 
142ª posição de um ranking com dados para 190 países. 
84 
 
Tabela 2 - Distribuição por faixa etária 
 Frequency Percent 
Até 39 anos 8 18,2 
De 40 a 49 anos 11 25,0 
50 anos ou mais 25 56,8 
Total 44 100,0 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
 
 
 
Quanto à etnia/cor 93,2% dos parlamentares da amostras e declaram de cor 
branca e 6,8%, parda. 
Tabela 3 - Distribuição por etnia/cor 
 Frequency Percent 
Branca 41 93,2 
Parda 3 6,8 
Total 44 100,0 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
 
Quanto à religião, o número de parlamentares cristãos corresponde à mais de 
80% dos entrevistados, conforme observamos na tabela a seguir. 
Tabela 4 - Distribuição religião/igreja 
 Frequency Percent 
Católica 32 72,7 
Espírita 1 2,3 
Evangélicos 2 4,5 
Outra 2 4,5 
Protestante tradicional 2 4,5 
Sem religião 5 11,4 
Total 44 100,0 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Nossa amostra tem representatividade de parlamentares dos espectros 
políticos: direita, centro, esquerda e extrema esquerda.O espectro político foi 
declarado pelo próprio entrevistado. Não usamos as nomenclaturas centro-direita e 
centro-esquerda, porque elas nos pareceram oferecer campos de baixa densidade 
de definição. A disposição das alternativas político-ideológicas de nosso instrumento 
nos pareceu suficiente e adequada, mas quatro parlamentares manifestaram que se 
identificariam melhor com as nomenclaturas “centro-direita” e “centro-esquerda”; 
ainda assim, eles optaram entre as categorias oferecidas. 
85 
 
Destacamos ainda que parlamentares de uma mesma sigla tiveram 
identificações ideológicas diversas, o que contribuiu para um número menor de 
parlamentares autodeclarados “de direita”. 
Tabela 5 - Distribuição por espectro político 
 Frequency Percent 
 Extrema-esquerda 1 2,3 
Esquerda 16 36,4 
Centro 19 43,2 
Direita 8 18,2 
Total 44 100,0 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Sobre o número de mandatos, a amostra possui uma quantidade significativa 
de agentes políticos que possuem quatro mandatos ou mais. A maioria dos 
parlamentares, entretanto, está no primeiro ou no segundo mandato. Aqui cabe 
salientar que foi solicitado que cada parlamentar registrasse o número total de 
mandatos, incluindo mandatos parlamentares em outras esferas de Poder. 
Tabela 6 - Distribuição por número de mandatos 
 Frequency Percent 
Um mandato 11 25,0 
Dois/três mandatos 14 31,8 
Quatro mandatos ou mais 19 43,1 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
A seguir, apresentaremos a média encontrada para o C-score do grupo de 44 
parlamentares que compõe o presente estudo. A pontuação C pode variar de 1 a 
100. Consideramos no estudo um C-score entre zero e nove como muito baixo; de 
10 a19 como baixo; de 20 a 29 como médio; de 30 a 39 como alto, de 40 a 49 muito 
alto e acima de 50, como extraordinariamente alto. Decidimos utilizar os mesmos 
valores da pesquisa de McDaniel (2007) por ela ser mais ampla e por termos 
utilizado a mesma base de cálculo que a pesquisadora. 
O C-score da amostra apresentou como valor mínimo zero e o valor máximo 
de 67,7. A média geral de competência de julgamento moral da amostra foi de 17,7. 
O que, de acordo com a escala de classificação utilizada como parâmetro, nos 
fornece um grupo formado por parlamentares de competências morais de nível baixo 
(10 a 19). Conforme observamos na tabela abaixo. 
86 
 
Tabela 7 - Média C-score 
Média entre o C-score 17,7886884 
Valor mínimo registrado 0,00000 
Valor máximo registrado 67,16652 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Encontramos, assim, uma maior frequência de parlamentares com 
competência moral baixa (10 a 19), o que corresponde a 47,7% da amostra. 
Tabela 8 - Frequência e C-score médio entre os três Dilemas 
 Frequency Percent 
Valid Muito baixo (0-9) 10 22,7 
Baixo (10 a 19) 21 47,7 
Médio (20 a 29) 8 18,2 
Alto (30 a 39) 4 9,1 
Extraordinariamente alto (50 +) 
1 2,3 
Total 44 100,0 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Se retirados os dois sujeitos discrepantes do grupo de parlamentares, ou seja, 
o único parlamentar que obteve C-score zero e o único parlamentar que obteve 
pontuação acima de 50, encontramos um valor de 17,0 como média para o C-score 
do grupo de parlamentares. 
Quando excluímos o Dilema do Médico e calculamos o C-score do grupo de 
parlamentares utilizando a versão padrão do MJT, considerando apenas os Dilemas 
dos Operários e do Comandante, encontramos uma média do C-score de 20,0, com 
o valor mínimo registrado de zero e máximo de 66,0. 
 
87 
 
Tabela 9 - Frequência C-score com a média entre o dilema 1 (Operários) e Dilema 3 
(Comandante) 
 Frequency Percent 
Valid 
Muito baixo (0-9) 9 20,5 
Baixo (10 a 19) 14 31,8 
Médio (20 a 29) 14 31,8 
Alto (30 a 39) 5 11,4 
Muito Alto (40 a 49) 1 2,3 
Extraordinariamente alto (50 
+) 
1 2,3 
Total 44 100,0 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Com esse procedimento, identificamos que o Dilema do Médico, que trata da 
eutanásia, é um fator preponderante para a média do C-score baixo entre os 
parlamentares. O resultado encontrado corrobora a necessidade de aplicação do 
instrumento em sua versão MJT_xt, o qual situa o mesmo dilema em outra 
perspectiva. 
O fato de os parlamentares possuírem um C-score mais baixo justamente no 
dilema que trata da eutanásia pode, sim, ter a ver com a religiosidade, visto o 
número expressivo de parlamentares que se declaram cristãos, mas também pode 
refletir a falta de competência para julgar argumentos morais contrários ao seu 
posicionamento político. 
Portanto o estudo nos elucida que o senso de justiça dos parlamentares do 
Rio Grande do Sul é guiado por uma baixa competência moral-democrática, o que 
nos autoriza a imaginar um cenário de muitas dificuldades para a definição de 
políticas públicas eficientes porque, com frequência, é preciso que na tomada de 
decisões sobre elas, os agentes relativizem suas próprias convicções morais tendo 
presente as consequências práticas das escolhas a serem tomadas. Para esse 
distanciamento, é preciso uma competência moral muito desenvolvida, capaz de 
permitir que um valor pessoal seja “suspenso” em nome dos benefícios mais amplos. 
Se repõe aqui a célebre assertiva de Max Weber a respeito de uma conduta 
amparada no que ele chamou de “ética da convicção”, em contraposição à chamada 
“ética da responsabilidade”. Nos termos weberianos, a ética da convicção se ancora 
em alguma versão do absoluto pelo que o que define o bem e o mal é apenas a 
tradução ou concordância do agente político com os valores por ele professados. Já 
88 
 
a ética da responsabilidade, de caráter teleológico, é orientada pelas consequências 
das escolhas, o que situa seu fundamento no Outro. Ela leva em conta, assim, o 
bem que pode ser feito a um número maior de pessoas; ou, o que é apenas outra 
forma de expor o mesmo compromisso, a ideia de evitar o maior mal possível. 
Isso não quer dizer que a ética da convicção equivalha a ausência de 
responsabilidade e a ética da responsabilidade, a ausência de 
mentalidade. Não se trata disso, evidentemente. Não obstante, há 
oposição profunda entre a atividade de quem se conforma às 
máximas da ética da convicção - diríamos, em linguagem religiosa, 
‘O cristão cumpre seu dever e, quanto aos resultados da ação, confia 
em Deus’ - e a atitude de quem se orienta pela ética da 
responsabilidade, que diz: ‘Devemos responder pelas previsíveis 
consequências de nossos atos’. [...] Quando as consequências de 
um ato praticado por pura convicção se revelam desagradáveis, o 
partidário de tal ética [de convicção] não atribuirá responsabilidade 
ao agente, mas ao mundo, à tolice dos homens ou à vontade de 
Deus, que assim criou os homens. O partidário da ética da 
responsabilidade, ao contrário, contará com as fraquezas comuns do 
homem (pois, como dizia muito procedentemente Fichte, não temos 
o direito de pressupor a bondade e a perfeição do homem) e 
entenderá que não pode lançar a ombros alheios as consequências 
previsíveis de sua própria ação. Dirá, portanto: "essas 
consequências são imputáveis à minha própria ação". O partidário da 
ética da convicção só se sentirá "responsável" pela necessidade de 
velar em favor da chama pura da doutrina pura, a fim de que ela não 
se extinga, de velar, por exemplo, para que se mantenha a chama 
que anima o protesto contra a injustiça social. Seus atos, que só 
podem e só devem ter valor exemplar, mas que, considerados do 
ponto de vista do objetivo essencial, aparecem como totalmente 
irracionais, visam apenas àquele fim: estimular perpetuamente a 
chama da própria convicção (WEBER, 2015, p. 126-127). 
 Ao cotejarmos a competência moral dos parlamentares do Rio Grande do Sul, 
uma questão a ser levantada é se a competência moral muda a depender das 
variáveis processadas pelo estudo. Abaixo, apresentamos um quadro com as 
respostas do indivíduo da amostra que alcançou um C-score extraordinariamente 
alto (acima de 50).Os argumentos pró e contra não estão apresentados na ordem 
aleatória aplicada, mas justapostos segundo a ordem dos seis estágios de Kohlberg, 
o que nos permite visualizar e compreender melhor o padrão das respostas que, na 
maioria das vezes, valor aos argumentos favoráveis à sua opinião da mesma forma 
com que valora os argumentos contrários. No exemplo, há notas mais altas 
(positivas) na escala Likert para os argumentos dos estágios 5 e 6 que representam 
o nível pós-convencional e notas negativas para os argumentos dos estágios 1 e 2 
do nível pré-convencional. 
89 
 
Quadro 7 - Padrão resposta C-score extraordinariamente alto – Dilema Operário 
Estágio Argumento Pró Resposta 
Entrevistado 
escala Likert 
Argumento Contra Resposta 
Entrevistado 
escala Likert 
Característica 
Estágio 
Estágio 1 Eles não causaram 
prejuízos para a 
companhia. 
-2 Os operários não 
foram afetados pela 
demissão dos outros 
empregados, não 
tinham nenhuma 
razão para roubar as 
transcrições. 
-2 Orientação 
para a punição 
e a obediência 
 
Estágio 2 Desde que a 
companhia cometeu 
uma injustiça em 
primeiro lugar, os 
operários estariam 
justificados em 
arrombar o escritório. 
-2 
É imprudente 
arriscar-se a ser 
demitido da empresa 
por causa de outras 
pessoas. 
-3 Postura 
hedonista 
Estágio 3 A maioria dos 
operários aprovaria o 
que foi feito e muitos 
deles ficariam 
inclusive satisfeitos. 
-3 Se a pessoa quer ser 
considerada correta e 
decente, ela não 
invade um recinto 
alheio para apropriar-
se do que quer que 
seja. 
+3 Moralidade do 
Bom garoto 
Estágio 4 Devido ao 
desrespeito da 
companhia em 
relação às leis, os 
meios utilizados 
seriam permitidos 
com o objetivo de 
restabelecer a lei e 
ordem. 
-2 A lei e a ordem na 
sociedade seriam 
colocados sem risco 
se todos agissem 
como esses dois 
operários agiram. 
+2 Orientação 
para lei e 
ordem 
Estágio 5 Os operários não 
viram nenhum meio 
legal de revelar o 
mau uso que a 
companhia fazia das 
informações dessa 
forma obtidas e, 
portanto ,escolheram 
fazer aquilo que 
consideram “mal 
menor”. 
+1 Os operários 
deveriam ter 
percorrido os canais 
legais existentes ao 
invés de ter agido 
contra a lei 
+4 Orientação 
para o contrato 
social 
Estágio 6 A confiança entre as 
pessoas e a 
dignidade contam 
mais do que 
regulamentos 
internos da empresa. 
+2 Não se deve violar 
um direito básico 
como o direito à 
propriedade e tomar 
a lei em suas próprias 
mãos, a menos que 
algum princípio moral 
justifique agir assim. 
+3 Validade dos 
princípios 
universais 
 
Fonte: Elaborado pela autora (2021). 
 Já um indivíduo que obteve um baixíssimo C-score (0-9) não consegue emitir 
um juízo moral sobre o argumento em si, ficando preso a sua opinião do que seria 
mais justo para resolução do dilema moral enfrentado pelo personagem. Nesse 
caso, o entrevistado atribuiu notas iguais e negativas na escala Likert para todos os 
argumentos pró atitude dos operários, e notas positivas para todos os argumentos 
90 
 
que contrariam a atitude dos operários. repetindo esse padrão de respostas nos 
demais dilemas. 
Quadro 8 - Padrão resposta C-score muito baixo – Dilema Operário 
Estágio Argumento Pró Resposta 
Entrevistado 
escala Likert 
Argumento Contra Resposta 
Entrevistado 
escala Likert 
Característica 
Estágio 
Estágio 1 Eles não causaram 
prejuízos para a 
companhia. 
-2 Os operários não 
foram afetados pela 
demissão dos outros 
empregados, não 
tinham nenhuma 
razão para roubar as 
transcrições. 
+1 Orientação 
para a punição 
e a obediência 
 
Estágio 2 Desde que a companhia 
cometeu uma injustiça 
em primeiro lugar, os 
operários estariam 
justificados em arrombar 
o escritório. 
-2 
É imprudente 
arriscar-se a ser 
demitido da empresa 
por causa de outras 
pessoas. 
+2 Postura 
hedonista 
Estágio 3 A maioria dos operários 
aprovaria o que foi feito 
e muitos deles ficariam 
inclusive satisfeitos. 
-2 Se a pessoa quer ser 
considerada correta e 
decente, ela não 
invade um recinto 
alheio para apropriar-
se do que quer que 
seja. 
+3 Moralidade do 
Bom garoto 
Estágio 4 Devido ao desrespeito 
da companhia em 
relação às leis, os meios 
utilizados seriam 
permitidos com o 
objetivo de restabelecer 
a lei e ordem. 
-2 A lei e a ordem na 
sociedade seriam 
colocados em risco 
se todos agissem 
como esses dois 
operários agiram. 
+2 Orientação 
para lei e 
ordem 
Estágio 5 Os operários não viram 
nenhum meio legal de 
revelar o mau uso que a 
companhia fazia das 
informações dessa 
forma obtidas e, portanto 
escolheram fazer aquilo 
que consideram “ mal 
menor”. 
-2 Os operários 
deveriam ter 
percorrido os canais 
legais existentes ao 
invés de ter agido 
contra a lei. 
+4 Orientação 
para o contrato 
social 
Estágio 6 A confiança entre as 
pessoas e a dignidade 
contam mais do que 
regulamentos internos 
da empresa. 
-2 Não se deve violar 
um direito básico 
como o direito à 
propriedade e tomar 
a lei em suas próprias 
mãos, a menos que 
algum princípio moral 
justifique agir assim. 
+2 Validade dos 
princípios 
universais 
 
Fonte: Elaborado pela autora (2021). 
Com o objetivo de se verificar se o senso de justiça pode variar a depender 
das variáveis (sexo, idade, escolarização, inclinação político-ideológica, nº de 
mandatos), realizou-se o cruzamento entre os escores de competência moral 
obtidos e as variáveis independentes. 
91 
 
Quanto ao gênero, não encontramos diferença estatística significativa (p< 
0,05). Homens e mulheres da amostra situaram-se, em maioria, no nível baixo (10-
19), ressaltando que 79,5% dos parlamentares respondentes são homens. Os 
valores registrados para competência moral muito baixa e baixa na amostra são, no 
mais, bem aproximados, já o nível médio é liderado por parlamentares do sexo 
feminino. A competência moral alta e extraordinariamente alta, bem rarefeita, foi 
observada em parlamentares do sexo masculino. Conforme de observa na tabela 
10. No caso, essa distribuição por gênero é uma diferença apenas da amostra, sem 
significância estatística. Ou seja, em outro estudo com amostra semelhante, 
poderíamos encontras diferenças de outra natureza. Para saber se há diferenças 
estatística de gênero quando à competência moral seria preciso uma amostra com 
“n” muito maior. 
Tabela 10 – Frequência entre os três C-scores - CATEGORIAS * Sexo 
 
Sexo 
 
Feminino Masculino 
 
Média entre os três C-scores – 
CATEGORIAS 
Muito baixo (0-9) 22,2% 22,9% 
Baixo (10 a 19) 44,4% 48,6% 
Médio (20 a 29) 33,3% 14,3% 
Alto (30 a 39) 11,4% 
Extraordinariamente alto (50 
+) 
 2,9% 
Total 100,0% 100,0% 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Como agrupamento das categorias: muito baixo/baixo (0-19), médio (20-29) e 
alto/muito alto/extraordinariamente alto (30 a 50+), encontramos a seguinte 
frequência para a variável sexo: 
 
92 
 
Tabela 11 - Frequência agrupada em três categorias entre os três C-scores – CATEGORIAS 
* Sexo 
 
Sexo 
 
Feminino Masculino 
 
Média entre os três C-scores - 
TRÊS CATEGORIAS 
MUITO BAIXO / BAIXO (0-19) 66,7% 71,4% 
 
MÉDIO (20-29) 
 
 
33,3% 
 
 
14,3% 
 
 
 
ALTO (30 a 50+) 
 
 
14,3% 
 
 
 
Total 100,0% 100,0% 
Pearson Chi-Square = 0,254 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
A média do C-score obtido pelas parlamentares mulheres e pelos 
parlamentares homens que compõe a amostra encontram-se em valores muitos 
próximos, sendo a média encontrada para o sexo feminino de 16,72 e 18,06 para o 
sexo masculino. 
Tabela 12 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Sexo 
Sexo 
C-score para o 
dilemas 2 e 3 
Feminino 
Mean 16,72 
Minimum 5,86 
Maximum 26,48 
Masculino 
Mean 18,06 
Minimum 0,00 
Maximum 67,17 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
No desempenho por faixa etária, imaginávamos que os parlamentares mais 
jovens teriam melhor C-score. A média encontrada para o C-score de parlamentares 
de até 39anos foi de 20,70 (nível médio), parlamentares de 40 a 49 anos atingem a 
média de 20,38 (nível médio) e parlamentares com mais de 50 anos atingem uma 
média de 15,72 (nível baixo). Aqui observamos uma diferença de cinco pontos, o 
que para Lind (2000) representa uma diferença alta (acima de 10 pontos 
representaria uma diferença muito alta). 
93 
 
Tabela 13 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Faixa etária 
Sexo 
Média entre os três C-scores 
Até 39 anos 
Mean 20,70 
Minimum 7,22 
Maximum 67,17 
De 40 a 49 anos 
Mean 20,38 
Minimum 0,00 
Maximum 37,03 
50 anos ou mais 
Mean 15,72 
Minimum 2,68 
Maximum 36,48 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Entretanto, a análise dos dados mostra uma porcentagem de 75% de 
parlamentares de até 39 anos no nível baixo de competência moral e ainda 12,5 % 
dos parlamentares mais jovens encontram-se no nível muito baixo. 
Tabela 14 - Frequência e C-scores – CATEGORIAS * Faixa etária 
 
faixa etária 3 categorias 
Até 39 anos 
De 40 a 49 
anos 
50 anos ou mais 
Média entre os três C-scores 
– CATEGORIAS 
Muito baixo (0-9) 12,5% 18,2% 28,0% 
Baixo (10 a 19) 75,0% 36,4% 44,0% 
Médio (20 a 29) 27,3% 20,0% 
Alto (30 a 39) 18,2% 8,0% 
Extraordinariamente 
alto (50 +) 
12,5% 
Total 100,0% 100,0% 100,0% 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Ou seja, 87,5% dos parlamentares mais jovens encontram-se nos níveis 
muito baixo ou baixo (0-19). No cálculo de relevância estatística, tivemos o p = 
0,487, não havendo, assim, diferença estatística significativa para a variável idade. 
Quando retiramos os dois participantes discrepantes, (C-score 0 e o C-score 
extraordinariamente elevado de 67,17), obtivemos a seguinte média por grupo de 
faixa etária. 
 
94 
 
Tabela 15 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Faixa etária sem participantes 
discrepantes 
Sexo 
Média entre os três C-scores 
Até 39 anos 
Mean 14,06 
Minimum 7,22 
Maximum 18,65 
De 40 a 49 anos 
Mean 22,42 
Minimum 5,86 
Maximum 37,03 
50 anos ou mais 
Mean 15,72 
Minimum 2,68 
Maximum 36,48 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Deste modo, os parlamentares com até 39 anos têm uma queda para um C-
score de 14,06 (baixo), os parlamentares de 40 a 49 anos apresentam um C-score 
mais elevado de 22,42 (médio) e os parlamentares com mais de 50 anos 
permanecem com um C-score de 15,72. 
Portanto, os dados coletados na amostra sugerem que parlamentares de faixa 
etária entre 40 e 49 anos possuem um escore mais elevado de competência moral 
média. 
A hipótese referente ao número de mandatos estar inversamente 
correlacionado à competência moral não foi confirmada, sendo a média encontrada 
para o C-score muito próxima para veteranos e novatos na atividade parlamentar, 
conforme observamos na tabela 16. 
Tabela 16 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos 
 
 Média entre os três 
C-scores 
1 mandato 
Mean 16,26 
Minimum 2,68 
Maximum 67,17 
Entre 2 e 3 mandatos 
Mean 18,69 
Minimum 0,00 
Maximum 37,03 
4 mandatos ou mais 
Mean 18,01 
Minimum 5,10 
Maximum 36,48 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
95 
 
Ainda observamos que 81,8% dos parlamentares com até um mandado estão 
no nível muito baixo/ baixo com pontuação entre 0 e 19 pontos, não sendo 
observado no teste qui-quadrado diferença estatisticamente significativa quanto ao 
número de mandatos. 
Tabela 17 - Frequência C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos 
 
Nº_mandatos_cat 
1 mandato 
Entre 2 e 3 
mandatos 
4 mandatos ou 
mais 
Média entre os três C-scores 
 
CINCO CATEGORIAS 
Muito baixo (0-9) 45,5% 14,3% 15,8% 
Baixo (10 a 19) 36,4% 50,0% 52,6% 
Médio (20 a 29) 9,1% 21,4% 21,1% 
Alto (30 a 39) 14,3% 10,5% 
Extraordinariamente 
alto (50 +) 
9,1% 
Total 100,0% 100,0% 100,0% 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Tabela 18 - Frequência agrupada C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos 
 
Nº_mandatos_cat 
1 mandato Entre 2 e 3 mandatos 
4 mandatos ou 
mais 
 
Média entre os três 
C-scores 
TRES CATEGORIAS 
MUITO BAIXO 
/BAIXO (0-19) 
81,8% 64,3% 68,4% 
 
MÉDIO (20-29) 
9,1% 21,4% 21,1% 
 
ALTO (30 a 50+) 
9,1% 14,3% 10,5% 
Total 100,0% 100,0% 100,0% 
Pearson Chi-Square= 0,891 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Quando retiramos os dois participantes discrepantes do grupo, a amostra 
sugere que o número de mandatos colabora para o desenvolvimento da 
competência moral-democrática. De modo que encontramos uma média de C-score 
de 11,16 ( baixo) para parlamentares de até 1 mandato. Já parlamentares entre 2 e 
3 mandatos atingem um C-score de 20,13 ( médio) e parlamentares com mais de 4 
mandatos permanecem no nível baixo com uma média de C-score de 18,01. 
 
96 
 
Tabela 19 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos sem 
participantes discrepantes 
 
 Média entre os três 
C-scores 
1 mandato 
Mean 11,16 
Minimum 2,68 
Maximum 26,34 
Entre 2 e 3 mandatos 
Mean 20,13 
Minimum 3,70 
Maximum 37,03 
4 mandatos ou mais 
Mean 18,01 
Minimum 5,10 
Maximum 36,48 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Dessa forma, os resultados obtidos, sem os participantes discrepantes da 
amostra, sugerem que parlamentares entre 40 e 49 anos e parlamentares que estão 
entre o segundo e terceiro mandatos estariam no nível médio da competência moral-
democrática. Os dados da amostra não nos permitem concluir se as variáveis idade 
e número de mandatos complementam-se ou se uma delas seria preponderante 
para o resultado. 
Um dos temas relevantes quando do cruzamento dos dados era saber se os 
perfis ideológicos autodeclarados dos parlamentares (esquerda, centro e direta) 
faziam alguma diferença em seu desempenho no teste de competência moral. 
Imaginávamos que sim, que essa definição – mesmo com as imprecisões com as 
quais elas se revestem contemporaneamente – deveria produzir diferenças 
estatisticamente significativas entre os “campos”. 
Partindo da autodeclaração, estamos lidando com uma amostra de um 
parlamentar de extrema esquerda e 16 parlamentares “de esquerda”, os quais foram 
agrupados no grupo “esquerda”;19 parlamentares “de centro” e oito parlamentares 
“de direita”. Na média, os oito parlamentares que se autodeclararam “de direita” 
alcançaram um C-score de 26,11 (competência média), ou seja uma média superior 
aos parlamentares autodeclarados “de esquerda” e aos parlamentares que se 
autodeclararam “de centro”, sendo ainda encontrada uma diferença, superior a 10 
pontos em relação ao grupos de “esquerda” e “centro”, o que seria identificada por 
Lind (2002) como uma diferença muito alta, conforme observamos na tabela 20. 
97 
 
Tabela 20 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Espectro político 
Espectro Político 
 Média entre os 
três C-scores 
Esquerda 
Mean 16,39 
Minimum 3,70 
Maximum 30,23 
Centro 
Mean 15,54 
Minimum 0,00 
Maximum 36,48 
Direita 
Mean 26,11 
Minimum 7,22 
Maximum 67,17 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Quando retiramos da amostra os parlamentares discrepantes, encontramos a 
seguinte média para os grupos de esquerda, centro e direita: 
 
Tabela 21 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Espectro político sem 
participantes discrepantes 
Espectro Político 
 Média entre os 
três C-scores 
Esquerda 
Mean 16,39 
Minimum 3,70 
Maximum 30,23 
Centro 
Mean 16,40 
Minimum 2,68 
Maximum 36,48 
Direita 
Mean 20,25 
Minimum 7,22 
Maximum 37,03 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Sem os dois casos discrepantes, os valores da média entre os escores de 
cada grupo ficam mais harmonizados, mas os representantes de direita 
permanecem no nível médio para competência moral (20 a 29), e os grupos de 
“esquerda” e “centro” permanecem no nível de competência baixa (10-19). 
Contudo, quando ainda permanecemos com o participante discrepante do 
grupo, possuidor de um C-score elevadíssimo, encontramos uma porcentagem 
muito próximano nível muito baixo (0-9) para os representantes da direita, centro e 
“esquerda” (aqui agrupamos o único participante declarado como extrema esquerda 
98 
 
na esquerda), o que ajuda a compreender porque essa diferença também não é 
estatisticamente significativa, correspondendo apenas ao perfil da amostra. 
Tabela 22 - Frequência e C-scores – CATEGORIAS * Espectro político 
 
Espectro Político 
Esquerda Centro Direita 
Média entre os três C-scores 
CINCO CATEGORIAS 
Muito baixo (0-9) 23,5% 21,1% 25,0% 
Baixo (10 a 19) 41,2% 63,2% 25,0% 
Médio (20 a 29) 29,4% 10,5% 12,5% 
Alto (30 a 39) 5,9% 5,3% 25,0% 
Extraordinariamente 
alto (50 +) 
 12,5% 
Total 100,0% 100,0% 100,0% 
 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
 Com a tabela acima ainda é possível observar que não há uma repetição de 
competência moral entre os parlamentares de direita, visto que estes estão 
proporcionalmente distribuídos nos níveis: muito baixo 25,0%, baixo 25,0%, médio 
12,5%, alto 25,0% e extraordinariamente alto 12,5%. 
 Quando olhamos a escala de valores agrupada se percebe que metade dos 
oito parlamentares de direita estão nos níveis muito baixo/baixo de competência 
moral (0-19), já 84,2% dos 19 parlamentares de centro encontram-se no nível l muito 
baixo/ baixo (0-19) e 64,7 % dos 17 deputados de esquerda estão no mesmo nível 
muito baixo/ baixo (0-19). 
 
99 
 
Tabela 23 - Frequência agrupada e C-scores – CATEGORIAS * Espectro político 
 
Espectro Político 
Esquerda Centro Direita 
Média entre os três C-scores - 
TRES CATEGORIAS 
MUITO BAIXO/ 
BAIXO (0-19) 64,7% 84,2% 50,0% 
 
 
MÉDIO (20-29) 29,4% 10,5% 12,5% 
 
 
ALTO (30 a 
50+) 5,9% 5,3% 37,5% 
Total 100,0% 100,0% 100,0% 
 Pearson Chi-Square = 0,064 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
O que se destaca é o fato de que, na amostra, há um número elevado de 
parlamentares com competência moral baixa em todas as tendências político-
ideológicas, não sendo o espectro político do parlamentar uma variável significativa 
para a competência moral. 
 No cálculo de relevância estatística, tivemos o p = 0,064, o que significa que 
a diferença observada nas médias entre os campos pode ser apenas uma 
característica da amostra e não uma diferença real entre as vertentes ideológicas. 
Portanto não se pode afirmar com segurança que o espectro político seria um fator 
preponderante para ocorrência um C-score mais elevado. 
Também não encontramos diferenças significativas quanto aos resultados 
obtidos nos escores dos deputados federais e estaduais. Como a amostra só contou 
com um senador, o resultado deste foi excluído nesta análise a fim de não 
revelarmos o seu C-score. 
Tabela 24 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Cargo político 
Qual cargo político ocupa 
Média entre os três 
C-scores 
Deputado Estadual 
Mean 18,84 
Minimum 0,00 
Maximum 67,17 
Deputado Federal 
Mean 15,77 
Minimum 5,10 
Maximum 30,23 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
100 
 
 Quando analisamos a porcentagem de cada nível os números permanecem 
próximos, não havendo diferenças significativas. 
Tabela 25 - Frequência C-scores – CATEGORIAS * Cargo político 
 
Qual cargo político ocupa 
Deputado Estadual 
Deputado 
Federal 
Média entre os três C-scores – 
CINCO CATEGORIAS 
Muito baixo (0-9) 21,2% 20,0% 
Baixo (10 a 19) 48,5% 50,0% 
Médio (20 a 29) 18,2% 20,0% 
Alto (30 a 39) 9,1% 10,0% 
Extraordinariamente alto 
(50 +) 
3,0% 
Total 100,0% 100,0% 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
 Quanto às variáveis religião e escolarização, a amostra era muito homogênea 
para se identificar qualquer diferença estatisticamente significativa. Majoritariamente, 
a amostra é de parlamentares cristãos e de nível superior completo. 
 Sobre a nossa quarta hipótese que considerava que o número de votos 
obtidos pelos parlamentares estaria inversamente correlacionado à competência 
moral, o que se observou foi que os escores mais elevados estão entre os 
parlamentares menos votados, com poucas exceções. Os escores baixos, no 
entanto, não são monopólio dos mais votados, sendo recorrente entre os mais 
votados, os medianos e os menos votados. Os escores médios caracterizam, na 
maioria das vezes, os parlamentares que receberam votações medianas. Essa 
tendência foi observada a partir da análise da classificação geral por número de 
votos e no ranking entre as coligações, dados que não podem ser exibidos, para a 
preservação da identidade dos parlamentares. 
Aqui, no entanto, cabe destacar ainda que estamos lidando com uma amostra 
com apenas cinco parlamentares com C-scores alto e extraordinariamente alto. 
Seria preciso uma amostra com um “n” muito maior para sabermos se diferenças do 
tipo são estatisticamente significativas. 
 Quando perguntados se concordavam ou discordavam da atitude dos 
personagens centrais dos dilemas, encontramos o seguinte padrão de 
posicionamentos. 
101 
 
 Quanto à atitude do comandante, 20,5% dos parlamentares foram contra a 
liberação dos pastores; 13,6% ficaram neutros e 65,9% concordaram com a atitude 
do comandante. 
Tabela 26 - Frequência Concordância/discordância - Conduta do comandante 
 Frequency Percent 
Valid -3,0 4 9,1 
-2,0 1 2,3 
 
-1,0 4 9,1 
,0 6 13,6 
1,0 8 18,2 
2,0 6 13,6 
3,0 15 34,1 
Total 44 100,0 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
 Quanto aos dilemas dos operários e do médico, foi observado um padrão de 
resposta de maior discordância na atitude do operário e maior concordância na 
atitude do médico. Este padrão não interfere na mensuração da competência moral, 
mas, por se tratar de diferentes questões morais (propriedade e privacidade x vida), 
o padrão de respostas talvez evidencie um peso específico para o “fator classe 
social” no que diz respeito ao senso de justiça dos parlamentares da amostra. 
Tabela 27 - Frequência Concordância/discordância – Conduta dos dois operários 
 Frequency Percent 
Valid 
-3,0 15 34,1 
-2,0 8 18,2 
-1,0 3 6,8 
,0 2 4,5 
1,0 7 15,9 
2,0 3 6,8 
3,0 6 13,6 
Total 44 100,0 
 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
 59,1% dos parlamentares são contra a atitude dos operários; 4,5% foram 
neutros e 36,3 foram favoráveis. 
102 
 
 Quando perguntados se concordavam com à atitude do médico, encontramos 
outro padrão: 36,4% foram contra; 13,6% foram neutros e 50% foram favoráveis. 
Tabela 28 - Frequência Concordância/discordância – Conduta do médico 
 Frequency Percent 
Valid -3,0 9 20,5 
-2,0 5 11,4 
-1,0 2 4,5 
,0 6 13,6 
1,0 7 15,9 
2,0 4 9,1 
3,0 11 25,0 
Total 44 100,0 
Fonte: Elaborada pela autora (2021). 
Em ambos os dilemas, os protagonistas das histórias se encontravam numa 
situação extrema e optaram por transgredir a “lei”, a fim de fazerem o que julgaram 
ser mais justo na situação enfrentada. Os parlamentares foram mais compreensivo 
sem relação à atitude do médico em abreviar o sofrimento com a morte do que 
frente à atitude tomada pelos operários que arrombam a fábrica para comprovar a 
espionagem da chefia. Essa diferença pode traduzir maior simpatia pela eutanásia 
ou uma identidade maior dos respondentes com o médico; um maior apego ao valor 
da privacidade e da propriedade ou um preconceito quanto à defesa dos operários, o 
que, normalmente, é associado a uma posição “de esquerda”. Essas e outras 
possibilidades não são identificadas com o instrumento que, como situamos, está 
dirigido para medir a competência moral-democrática. 
Os resultados que encontramos evidenciam que os parlamentares do Rio 
Grande do sul apresentam dificuldades em reconhecer, para além das declarações 
protocolares, o significado essencial do diálogo. A política trata da convivência entre 
os diferentes, no entanto, se parlamentares apresentam baixa competência moral-
democrática, estamos diante de agentes políticos que terão muita dificuldade em 
lidar com as diferenças, o que sugere um percurso tortuoso, talvez impossível,para 
o estabelecimento de compromissos capazes de produzir leis e políticas públicas 
inclusivas bem como um risco de enfraquecimento do sistema democrático. 
103 
 
Levitsky e Ziblatt (2018) discutem justamente os indicadores de 
comportamento autoritário de políticos, os quais são uma ameaça aos regimes 
democráticos. Entre os indicadores, encontramos rejeição das regras democráticas 
do jogo, negação da legitimidade dos oponentes políticos, a intolerância e o 
encorajamento à violência. Os autores sustentam a necessidade de que os 
guardiões da democracia atuem no sentido de afastar dos cargos políticos as forças 
extremistas e os candidatos antidemocráticos. 
 
104 
 
5 CONCLUSÃO 
 
“A maior ameaça à democracia, ao que parece, vem da própria 
democracia: ela pode destruir a si própria. A constituição e as leis 
são impotentes face a este paradoxo. O sucesso dos políticos 
contrários à democracia nas urnas, aqui e noutros países, mostra 
que a ameaça é real. Se restringirmos os nossos esforços para 
sustentar a democracia apenas a exigências de mudança estruturais 
e não considerarmos as pessoas, a democracia pode transformar-se 
em ditadura.”16 
 George Lind 
 
Para Rawls (1963) o senso de justiça de um indivíduo de elevadas 
competências morais é refletido diretamente na sua capacidade e disposição para o 
reconhecimento de que todas as pessoas são titulares dos mesmos direitos e 
liberdades. Esta capacidade para o senso de justiça é matriz central da 
personalidade moral em sua teoria da justiça. 
Habermas (2018) discorre em sua obra sobre a falta da capacidade de 
reconhecer a igualdade de direitos entre todos os cidadãos, assim como a não 
inclusão do “Outro” nas políticas públicas, o que gera uma violação de direitos de 
minorias e a crescente onda de sujeitos que assumem posturas xenófobas, racistas 
e autoritárias. 
Honneth (2009), por seu turno, sustenta que os indivíduos só irão se situar 
como portadores de direito em um processo de luta pelo reconhecimento que 
demanda as experiências concretas do amor, do reconhecimento jurídico e da 
vivência da solidariedade. 
Lind (2002) através do seu teste Moral Judgment Test, torna mensurável 
justamente a competência moral-democrática do entrevistado/grupo, definida como 
a habilidade/capacidade do sujeito em resolver dilemas, problemas e conflitos, por 
meio da discussão e deliberação, em lugar do uso da violência ou do autoritarismo. 
Portanto, Lind concebe que a competência moral é mensurada pela capacidade ou 
 
16 No original: The greatest threat to democracy, it seems, comes from democracy itself: it can destroy 
itself. The constitution and the laws are powerless in the face of this paradox. The success of 
politicians inimical to democracy at the polls here and in other countries shows that the threat is real. If 
we restrict our endeavors to sustain democracy merely to demands for structural change and leave 
people out of account democracy can turn into dictatorship. 
 
105 
 
não do sujeito em julgar argumentos por sua qualidade moral, ao invés de uma 
concordância pré-estabelecida ou por critérios não morais. 
Lind, portanto, expande o conceito de competência moral-democrática, onde 
a competência moral é a habilidade individual para encontrar uma saída justa para 
problemas de difícil solução. De modo que só cidadãos possuidores de um senso de 
justiça ancorado numa competência moral-democrática seriam capazes de apreciar 
argumentos independente de sua concordância ou não com eles. Assim a 
competência moral-democrática estaria ancorada num senso de justiça capaz de 
reconhecer o direito daqueles que postulam opiniões contrárias. 
As casas legisladoras são espaços institucionais que exigem membros com 
competência moral-democrática elevada e um senso de justiça capaz de reconhecer 
o direito das minorias, dos grupos vulneráveis e de todos a aqueles que postulam 
ideias diferentes, sendo as habilidades da escuta e do diálogo fundamentais para o 
exercício de mandatos parlamentares efetivos. 
A partir da Teoria de Lind, encontramos a evidência perturbadora de que 
70,4% dos parlamentares do Rio Grande do Sul possuem um C-score muito baixo 
ou baixo de competência moral-democrática. Sendo o C-score da amostra de 17,7, o 
que sugere a atuação de uma maioria de parlamentares com baixo senso de justiça, 
ou seja: com menor competência para a construção de soluções justas. Mais do que 
isso, o estudo sugere que a falta de senso de justiça não é característica de um ou 
outro agrupamento político-ideológico, mas que diz respeito a todas as posições 
representadas na amostra. 
Aqui cabe salientar que, a partir do MJT_xt, é possível avaliar o quanto o 
grupo pesquisado é capaz ou não de ter um senso de justiça capaz de considerar a 
qualidade moral dos argumentos de defesa e acusação dos personagens envolvidos 
nos dilemas morais. Um escore baixo representa que os parlamentares ficaram 
presos à sua própria opinião e não conseguem julgar o argumento pela qualidade 
moral com um grau de coerência. 
Os dados apresentados na pesquisa devem ser interpretados com cautela em 
função do estudo ser pioneiro quanto à representação política. Conforme já 
assinalado, há muitos estudos semelhantes voltados a outros grupos, mas não 
106 
 
encontramos referências de utilização o MJT ou MJT_xt em estudos com agentes 
políticos. 
Podemos então sugerir que os 70,4 % dos parlamentares com escores muito 
baixo e baixo para competência moral, não possuem um senso de justiça capaz de 
considerar argumentos de uma mesma perspectiva moral de forma igualitária. Um 
nível de competência moral baixo é, no mais, incompatível com as prerrogativas da 
cidadania crítica que, como assinalou Fedozzi (2002), exige uma consciência 
autônoma e a noção igualitária dos direitos e da justiça. 
Ainda é preciso considerar o papel que o legislador tem para a promoção da 
justiça distributiva, que demanda relações de cooperação e reconhecimento dos 
direitos daqueles que postulam crenças e valores distintos dos seus. 
Os achados de nosso estudo evidenciam limites que não dizem respeito 
apenas aos parlamentares, mas, claramente, à instituição política brasileira, o que 
parece ser reforçado na circunstância que identificamos de baixa competência 
moral-democrática em todas as agremiações e grupos político-ideológicos da 
amostra, sem diferenças significativas para as variáveis processadas. Tratamos, 
assim, ao que tudo indica, de um sistema que seleciona representantes com baixa 
competência moral-democrática e que, possivelmente, opera mais amplamente 
favorecendo aqueles que possuem os piores C-scores, como vimos quando, para 
fins de análise, separamos os parlamentares da amostra mais votados dos menos 
votados. 
Para Lind (2019a), quando a competência moral do povo é baixa, este não 
possui a capacidade para julgar a competência moral dos políticos, correndo-se o 
risco de transformar uma democracia forte numa ditadura autocrática. Lind (2002) 
postula a importância da habilidade dos sujeitos com alta competência moral-
democrática de escutarem uns aos outros, mesmo quando essa escuta ocorre em 
meio a disputas com oponentes. Para Lind, trata-se de uma capacidade crucial para 
a vida em uma sociedade pluralista. Nesse sentido, um Parlamento com baixa 
competência moral-democrática é também uma Instituição que terá muitas 
dificuldades em valorar e defender o regime democrático. 
 
107 
 
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112 
 
APÊNDICE A – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido 
 
O SENSO DE JUSTIÇA DOS PARLAMENTARES DO RIO GRANDE DO SUL 
Um estudo sobre a competência moral-democrática 
 
 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO 
 
 
 
Você está sendo convidado(a) a participar de uma pesquisa desenvolvida por 
Renata Chimendes, aluna do Curso de Mestrado em Direito do Centro Universitário 
Ritter dos Reis - UniRitter. 
 
Trata-se de um estudo de caso a ser realizando com uma amostra dos 
parlamentares do Rio Grande do Sul que tem por objetivo conhecer o senso de 
Justiça da representação política de nosso estado. 
 
A pesquisa consistirá na realização de entrevista com parlamentares do Rio 
Grande do Sul (vereadores da capital, deputados estaduais, deputados federais e 
senadores). A aplicação dos testes será realizada através da plataforma digital, 
assegurado o anonimato dos respondentes. O tempo estimado para a realização de 
cada entrevista e aplicação do teste é de 30 minutos. 
 
Toda a pesquisa com seres humanos envolve um risco específico 
caracterizado como dano. Esse dano poderá ser “associado ou decorrente da 
pesquisa - agravo imediato ou posterior, direto ou indireto, ao indivíduo ou à 
coletividade, decorrente da pesquisa” (Resolução 466/2012 – II – Termos e 
definições). 
 
Os riscos possíveis desse estudo se restringem à: 
 
a) Desconforto em participar da pesquisa; 
b) Cansaço ao responder às perguntas. 
 
Os possíveis benefícios são de natureza pública caso a pesquisa consiga 
identificar o senso de justiça presente na representação política do estado. 
 
 
Os dados obtidos na pesquisa serão utilizados na Dissertação de Mestrado 
da pesquisadora Renata Chimendes, mas também poderão ser apresentados em 
encontros, revistas científicas e reportagens jornalísticas. Os dados e resultados 
obtidos serão utilizados de maneira agregada, sem revelar o nome dos entrevistados 
ou qualquer informação relacionada à sua privacidade. Os dados ficarão disponíveis 
em banco de dados para estudos futuros. 
 
Pelo presente Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, declaro que 
autorizo a minha participação neste projeto de pesquisa, pois fui informado, deforma 
clara e detalhada e livre de qualquer forma de constrangimento ou coerção, dos 
113 
 
objetivos, da justificativa, dos procedimentos que serei submetido, dos riscos, 
desconfortos e benefícios, assim como das alternativas às quais poderia ser 
submetido, todos acima listados. 
 
Manifesto, igualmente, que fui adequadamente informado: 
 
1. Da garantia de receber resposta a qualquer pergunta ou esclarecimento a 
qualquer dúvida sobre os procedimentos, riscos, benefícios e outros assuntos 
relacionados com a pesquisa; 
 
2. Da liberdade de retirar meu consentimento, a qualquer momento, e deixar 
de participar do estudo; 
 
3. Da garantia de que não serei identificado quando da divulgação dos 
resultados e que as informações obtidas serão utilizadas apenas para fins científicos 
vinculados ao presente projeto de pesquisa; 
 
4. De que os dados que estão sendo coletados serão acessados apenas 
pelos pesquisadores Mestranda Renata Chimendes e utilizadas pelo grupo de 
pesquisa; 
 
 
O Pesquisador Responsável por este Projeto de Pesquisa é Renata 
Chimendes. 
 
Você pode entrar em contato, caso tenha eventuais dúvidas, pelo telefone 51 
998783218 ou pelo e-mail renatachimendes@hotmail.com. Contatos também podem 
ser feitos com a coordenação do Mestrado, com a professora Sandra Martini, pelo 
telefone 99948.2697 ou pelo e-mail: sandra.martini@uniritter.edu.br 
 
O presente documento deve ser assinado em duas vias de igual teor, ficando 
uma com o Participante da Pesquisa ou seu representante legal e outra com o 
Pesquisador Responsável. 
 
O Comitê de Ética em Pesquisa da UniRitter (CEP|UniRitter),responsável pela 
apreciação do referido Projeto de Pesquisa, pode ser consultado a qualquer 
momento, para fins de esclarecimento, por meio do número de telefone: (51) 
3230.3333 - Ramal 5177 ou do endereço eletrônico (e-mail):cep@uniritter.edu.br. 
 
 
Local: _______________________ Data___ /___ /____ 
 
 
 
 
___________________________ _________________________ 
Renata Chimendes Nome do entrevistado 
 Assinatura do Pesquisador Assinatura do entrevistado 
 
 
mailto:renatachimendes@hotmail.com
mailto:sandra.martini@uniritter.edu.br
114 
 
APÊNDICE B – Instrumento de coleta 
Perguntas sobre a ação em momentos difíceis 
 
 
O Sr.(a) está sendo convidado a participar de uma pesquisa desenvolvida por, 
Renata Chimendes, aluna do Curso de Mestrado em Direitos Humanos do Centro 
Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. O objetivo deste teste é compreender quais 
as posições dos parlamentares gaúchos diante de situações de difícil solução. Neste 
instrumento de pesquisa não existem respostas certas ou erradas, apenas 
justificativas diversas. Nós gostaríamos de saber qual a sua posição sobre três 
situações hipotéticas. 
Ninguém, além da pesquisadora, e equipe de pesquisa terá acesso à 
folha de resposta. A identidade dos parlamentares não interessa à pesquisa e 
será preservada integralmente. O que nos importa são as respostas e os dados 
agregados de todos os parlamentares estaduais e federais do RS. 
 
P1- Nome: _________________________________________ 
P2- Faixa etária: ______________ 
P3- Sexo: ( ) Masculino ( ) Feminino ( ) Outro ( ) Não quero responder 
 
P4- Escolaridade: 
( ) Ensino fundamental completo 
( ) Ensino médio completo 
( ) Ensino superior completo 
( ) Mestrado concluído 
( ) Doutorado concluído 
 
P5- Etnia/Cor: 
( ) Branca 
( ) Parda 
( ) Preta 
( ) Amarela 
( ) Indígena 
( ) Outra 
115 
 
 
P6- Religião/Igreja: 
( ) Católica 
( ) Protestante tradicional (Luterana, Metodista, Batista, Adventista) 
( ) Evangélica ( Assembleia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, Igreja 
Universal...) 
( ) Culto afro-brasileiro (Umbanda, Candomblé...) 
( ) Judaica 
( ) Muçulmana 
( ) Espírita 
( ) Budista 
( ) Outra 
( ) Sem religiãoP7- Espectro político: 
( ) extrema direita ( ) direita ( ) centro ( ) esquerda ( ) extrema esquerda 
 
P8- Cargo Político que ocupa 
( ) Deputado Estadual ( ) Deputado Federal ( ) Senador 
 
P9- Número de mandatos como parlamentar: _________________ 
 
Muito obrigada pela participação! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
116 
 
Devido à existência de demissões aparentemente infundadas, alguns operários de 
fábrica suspeitam que a chefia esteja ouvindo as conversas dos empregados através 
de um microfone oculto, e usando tais informações contra os empregados. A chefia 
nega essas acusações enfaticamente. O sindicato declara que só tomará 
providências contra a empresa quando forem encontradas provas que confirmem as 
suspeitas. Sendo assim, dois operários decidem arrombar o escritório administrativo 
e roubam uma transcrição de uma gravação que prova a alegação de espionagem 
por parte da chefia. 
INSTRUÇÕES 
 
A seguir serão apresentadas três histórias, cada uma delas com três perguntas em 
que você deverá analisar as condutas dos personagens e julgar cada um dos 
argumentos apresentados (favoráveis e contrários). 
Na primeira pergunta, em cada história, você atribuirá um grau de 
DISCORDÂNCIA/CONCORDÂNCIA com o comportamento adotado na situação, 
seguindo a escala de -3 até +3: 
Forte Discordância Forte Concordância 
 
 
 
Na segunda e terceira pergunta, em cada história, você atribuirá um grau 
INACEITÁVEL / ACEITÁVEL para as justificativas das ações das personagens em 
cada afirmativa, seguindo a escala de -4 até+4: 
Completamente inaceitável Completamente aceitável 
 -4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 
 
História A - Conduta dos dois operários 
 
P 1a– Você discorda ou concorda com o comportamento dos operários? 
Marque na escala a sua avaliação escolhendo uma casa entre -3 e +3. 
 
 
-3 -2 -1 0 +1 +2 +3 
 
117 
 
Forte Discordância Forte Concordância 
 
-3 -2 -1 0 +1 +2 +3 
 
 
P 2a– Os seguintes argumentos são a favor do comportamento dos dois 
operários. Suponha que alguém dê as justificativas abaixo para a ação dos 
operários. Avalie as 6 justificativas abaixo, usando a escala de -4 a + 4. 
 
Completamente inaceitável Completamente aceitável 
 
-4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 
Afirmativa Escala Estágio 
1. Eles não causaram prejuízos para a companhia. 1 
2. Devido ao desrespeito da companhia em relação às leis, os 
meios utilizados seriam permitidos com o objetivo de restabelecer 
a lei e a ordem. 
 4 
3. A maioria dos operários aprovaria o que foi feito e muitos deles 
ficariam inclusive satisfeitos. 
 3 
4. A confiança entre as pessoas e a dignidade contam mais do 
que regulamentos internos da empresa. 
 6 
5. Desde que a companhia cometeu uma injustiça em primeiro 
lugar, os operários estariam justificados em arrombar o escritório. 
 2 
6. Os operários não viram nenhum meio legal de revelar o mau 
uso que a companhia fazia das informações dessa forma obtidas 
e, portanto, escolheram fazer aquilo que consideraram “mal 
menor”. 
 5 
P 3a– Os seguintes argumentos são contra o comportamento dos dois operários. 
Suponha que alguém dê essas justificativas abaixo relacionadas contra a ação 
dos operários. Você considera essas justificativas aceitáveis? Em uma escala de -
4 a +4, como você as classificaria? 
 
Completamente inaceitável Completamente aceitável 
 
-4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 
 
Em uma escala de -4 a +4, como você as classificaria cada resposta? 
Afirmativa Escala Estágio 
7. A lei e ordem na sociedade seriam colocadas em risco se todos 
agissem como esses dois operários agiram. 
 4 
118 
 
O médico está diante de uma paciente com câncer disseminado e sabe que ela tem 
poucos dias de vida. A mulher sofre com dores terríveis e estava tão fraca que uma 
dose maior de morfina, por exemplo, pode lhe causar a morte rápida. A paciente, 
então, implora ao médico que lhe dê a morfina suficiente para matá-la. Ela disse que 
não poderia suportar a dor por mais tempo e que estaria morta em alguns dias de 
qualquer modo. O médico, então, atende ao desejo da paciente e abrevia seu 
sofrimento. 
8. Não se deve violar um direito básico como o direito à propriedade 
e tomar a lei em suas próprias mãos, a menos que algum princípio 
moral universal justifique agir assim. 
 6 
9. É imprudente arriscar-se a ser demitido da empresa por causa de 
outras pessoas. 
 2 
10. Os operários deveriam ter percorrido os canais legais existentes 
em vez de ter agido contra a lei. 
 5 
11. Se a pessoa quer ser considerada correta e decente, ela não 
invade um recinto alheio para apropriar-se do que quer que seja. 
 3 
12. Os operários não foram afetados pela demissão dos outros 
empregados e, portanto, não tinham nenhuma razão para roubar as 
transcrições. 
 1 
 
História B – Conduta do médico 
 
 
P 1b– Você discorda ou concordado comportamento do médico? 
Marque na escala a sua avaliação escolhendo uma casa entre -3 e +3. 
 
Forte Discordância Forte Concordância 
 
P 2b– Os seguintes argumentos são a favor do comportamento do médico. 
Suponha que alguém dê as justificativas abaixo em apoio à ação do médico. 
Você considera essas justificativas aceitáveis? Em uma escala de -4 a +4, como 
você as classificaria? 
 
-3 -2 -1 0 +1 +2 +3 
119 
 
 Completamente inaceitável Completamente aceitável 
 
-4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 
 
Nessa escala de -4 a +4, como você as classificaria cada resposta? 
 
Afirmativa Escala Estágio 
1. O médico tinha que agir de acordo com sua consciência. O estado 
de saúde da mulher justificava uma exceção à obrigação moral de 
preservação da vida. 
 6 
2. O médico era o único que poderia realizar o desejo dessa mulher; 
o respeito pela vontade dela fez com que agisse como agiu. 
 5 
3. O médico apenas fez o que a mulher pediu a ele. Ele não 
precisava se preocupar com possíveis consequências negativas. 
 1 
4. A mulher teria morrido de qualquer forma e não custou nada a ele 
dar- lhe uma overdose de morfina. 
 2 
5. O médico não agiu realmente contra a lei uma vez que a mulher 
não poderia ter sido salva e ele apenas quis abreviar seu sofrimento. 
 4 
6. Os meus amigos, parentes e colegas, provavelmente, 
concordariam que a eutanásia era a melhor alternativa para aquela 
mulher. 
 3 
 
P 3b– Os seguintes argumentos são contra o comportamento do médico. 
Suponha que alguém dê essas justificativas abaixo para dizer que o médico agiu 
de modo errado. Você considera essas justificativas aceitáveis? Em uma escala 
de -4 a +4, como você as classificaria? 
 
Completamente inaceitável Completamente aceitável 
-4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 
 
Nessa escala de -4 a +4, como você as classificaria cada resposta? 
Afirmativa Escala Estágio 
7. Ele agiu contra as convicções de seus colegas. Se os médicos 
são contrários à eutanásia, ele não deveria tê-la praticado. 
 3 
8. Deve-se ter absoluta confiança no juramento médico de preservar 
a vida ainda que se trate de alguém que esteja sofrendo muita dor 
ou quase morrendo. 
 5 
9. A preservação da vida é a mais alta obrigação moral de cada um 
de nós. Como nós não temos critérios morais claros para diferenciar 
eutanásia de assassinato, não se tem o direito de decidir sobre a 
vida ou morte de ninguém. 
 6 
10. O médico poderia se envolver em sérios problemas. Outras 
pessoas já foram severamente punidas por fazer algo semelhante. 
 1 
11. Seria mais fácil ele esperar e não interferir na morte da paciente. 2 
120 
 
O Serviço de Inteligência Militar de um país Ocidental identificou a presença de um 
líder terrorista e 150 milicianos, num vilarejo em meio às montanhas no Afeganistão. 
Essa liderança era famosa por matar seus oponentes, após torturá-los.Um grupo de 
militares especializado em ações contraterrorismo recebeu a missão de capturar o 
líder. Infiltrados na região, os militares aguardavam a melhor oportunidade para a 
ação. Após alguns dias no deserto, foram surpreendidos com a aparição de três 
pastores de ovelhas: um velho, um garoto de 14 anos e um homem jovem. Os 
militares renderam os três civis e devido às dificuldades de comunicação, não 
conseguiram avaliar se haveria alguma ligação entre os pastores e os terroristas. O 
comandante militar da operação sabia que, se fossem descobertos, a missão e a 
vida de seus homens correriam sérios riscos. A alternativa que tinha era a de 
executar os três pastores, impedindo, assim que a missão fosse descoberta e os 
militares fossem mortos. Após ouvir seus comandados que, em maioria, defendiam a 
execução, o comandante decidiu liberar os pastores. Em Liberdade, os pastores 
informaram os terroristas que atacaram o destacamento militar matando quase todos 
os seus integrantes. 
12. O médico agiu contra a lei. Sendo a eutanásia ilegal, não se 
deve aceitar pedidos como o daquela paciente. 
 4 
 
História C - Conduta do comandante 
 
 
P 1c– Você discorda de ou concorda do comportamento do comandante? 
Marque na escala a sua avaliação escolhendo uma casa entre -3 e +3. 
 
Forte Discordância Forte Concordância 
-3 -2 -1 0 +1 +2 +3 
 
P 2c– Os seguintes argumentos são a favor do comportamento do 
comandante. Suponha que alguém dê essas justificativas para dizer que o 
comandante agiu corretamente. Você considera essas justificativas aceitáveis? 
Em uma escala de -4 a +4, como você as classificaria? 
 
121 
 
Completamente inaceitável Completamente aceitável 
-4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 
 
Em uma escala de -4 a +4, como você as classificaria cada resposta? 
Afirmativa Escala Estágio 
1. Como os pastores eram civis, o comandante deveria soltá-los para 
não ser punido como criminoso de guerra. 
 1 
2. Deveria libertar os pastores para evitar a fúria da população local 
e da mídia. 
 2 
3. Apesar das opiniões em contrário, o comandante decidiu de 
acordo com sua consciência. Os pastores estavam desarmados, 
havia risco em libertá-los, mas seria preferível correr esses riscos a 
matar inocentes. 
 6 
4. O respeito às leis e aos acordos de conduta em guerra limitam o 
uso de violência desnecessária pelos agentes militares, valorizando 
a vida de populações civis envolvidas nos conflitos. 
 5 
5. É o que preconiza as leis internacionais de guerra sobre conduta 
com civis em combate. As leis devem ser cumpridas mesmo 
oferecendo risco para os soldados. 
 4 
6. Decidiu libertar os pastores porque teria a aprovação da mídia, da 
opinião pública geral e dos Comitês de Direitos Humanos. 
 3 
 
P 3c– Os seguintes argumentos são contra o comportamento do comandante. 
Suponha que alguém dê essas justificativas para dizer que o comandante agiu 
de modo errado. Você considera essas justificativas aceitáveis? Em uma escala 
de -4 a +4, como você as classificaria? 
 
Completamente inaceitável Completamente aceitável 
-4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 
 
Em uma escala de -4 a +4, como você as classificaria cada resposta? 
Afirmativa Escala Estágio 
7. Não se sabe se eles fariam o mesmo pela gente. 2 
122 
 
8. Se todos os militares jurassem silêncio sobre a execução dos 
pastores, não haveria como puni-los pelas consequências dessa 
decisão. 
 1 
9. O comandante deveria executar os objetivos da missão recebida 
dos seus superiores, não se preocupando com as consequências da 
execução dos pastores, pois estava cumprindo ordens. 
 4 
10. O comandante deveria escutar as opiniões de seus 
subordinados, que eram contrários à liberação dos pastores. Do 
contrário, seria julgado um mau comandante pelos seus 
subordinados. 
 3 
11. A decisão de soltar os pastores atenta contra o papel do 
comandante de preservar a integridade de seus homens. Além 
disso, demonstraria falta de senso de comprometimento com a 
missão recebida. 
 5 
12. A operação militar tinha um caráter de libertar uma população 
da violência de milicianos. A fidelidade ao senso de liberdade e 
direito à paz das populações em conflito justificam os efeitos 
colaterais de uma ação de aprisionamento de civis como a 
necessidade de executá-los. 
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Muito obrigada pela participação! 
 
* Instrumento elaborado por Silva (2016), adaptado pela pesquisadora Renata 
Chimendes

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