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CENTRO UNIVERSITÁRIO RITTER DOS REIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU MESTRADO EM DIREITOS HUMANOS RENATA CHIMENDES O SENSO DE JUSTIÇA DOS PARLAMENTARES DO RIO GRANDE DO SUL: Um estudo sobre a competência moral-democrática PORTO ALEGRE 2022 Renata Chimendes O SENSO DE JUSTIÇA DOS PARLAMENTARES DO RIO GRANDE DO SUL: Um estudo sobre a competência moral-democrática Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestra em Direito pelo Programa de Pós- Graduação em Direitos Humanos do Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. Área de concentração: Direitos Humanos e Efetividade Orientador: Prof. Dr. Marcos Rolim Porto Alegre 2022 TERMO DE APROVAÇÃO RENATA CHIMENDES O SENSO DE JUSTIÇA DOS PARLAMENTARES DO RIO GRANDE DO SUL: Um estudo sobre a competência moral-democrática Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Direito, no curso de pós-graduação lato sensu de Mestrado em Direito com enfoque em Direitos Humanos, do Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter, aprovada pela seguinte banca examinadora: _________________________________________ Prof. Dr. Marcos Rolim Orientador – Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter _________________________________________ Prof. Dr. Luciano Fedozzi Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS _________________________________________ Prof. Dr. Mártin Haeberlin Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter __________________________________________ Prof.ª Dr.ª Karina Fernandes Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter Porto Alegre,11 de fevereiro de 2022 AGRADECIMENTOS As histórias individuais são marcadas pelos encontros com as pessoas que cruzam o mesmo caminho. Na jornada trilhada para a construção deste trabalho, agradeço a todos que colaboraram para a sua realização e que me encorajaram ao longo de todo o processo. Agradeço ao Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter pela iniciativa de criação do Curso Mestrado em Direitos Humanos, cuja temática é extremamente relevante para a construção de uma sociedade mais justa e para a promoção e garantia de efetivação de direitos. Agradeço à coordenadora do curso, professora Dra. Sandra Regina Martini, pela perseverança e entusiasmo na coordenação do Mestrado em Direitos Humanos e por todo apoio e orientação ao longo desta jornada. Agradeço a todos os professores do curso que nos proporcionaram aprendizado, trocas e partilhas e nos conduziram de maneira ímpar o aprendizado assim como sensibilização às temáticas sobre os Direitos Humanos. Uma palavra, em especial, ao meu orientador professor Dr. Marcos Rolim pela sua generosidade em compartilhar sua experiência no campo empírico e por despertar em mim a coragem necessária para realização da presente pesquisa. Obrigada, professor Rolim, pela paciência e por todos os momentos de orientação e diálogo, fundamentais para a concepção e realização desta dissertação. Gostaria, também, de agradecer aos professores Dr. Mártin Haeberlin e Dr. Luciano Fedozzi pelas contribuições dadas na banca de Qualificação que foram extremamente úteis para a melhoria do trabalho. Aos colegas da turma 2020/2021 do curso, por dividirem coletivamente espaços de discussões, de trocas e de aprendizagem. A amizade e parceria que foram construídos ao longo do processo tornaram a vida de Mestranda mais leve. Vocês foram essenciais nesta jornada. Agradeço ainda a parceria da jornalista Mauren Xavier pela disponibilização dos contatos dos parlamentares e seus assessores. Um agradecimento especial a Daiana Hermann pela importante contribuição profissional, auxiliando no cálculo no MJT_xt e tratamento estatístico da base por meio do programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). Agradeço, por fim, pela participação em nossa pesquisa, tanto como pela acolhida e gentileza na realização das entrevistas, aos 44 parlamentares do Rio Grande do Sul (cujos nomes não posso declinar), assim como aos vereadores e vereadoras que responderam os questionários quando do pré-teste, e aos assessores e assessoras parlamentares que se empenharam para que esse trabalho fosse possível. “Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia; é justiça!” Dom Quixote, de Miguel de Cervantes RESUMO O presente estudo, elaborado como exigência parcial para a conclusão do curso de Mestrado em Direitos Humanos do Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter, investigou o senso de justiça dos parlamentares do Rio Grande do Sul, a partir de sua capacidade de julgamento em situações difíceis, utilizando-se fundamentalmente, para tanto, as contribuições de Lawrence Kohlberg e George Lind. No campo empírico, utilizamos dilemas na aplicação do Teste de Julgamento Moral (Moral Judgment Test – MJT) de Lind, para mensurar a competência moral- democrática presente na amostra. Os dados foram, posteriormente, processados estatisticamente em busca de correlações significativas entre as variáveis independentes (autodeclaração de campo ideológico, sexo, raça, idade, escolaridade, religião, número de mandatos) com a variável dependente (competência moral-democrática). A pesquisa empírica conta com uma amostra de 44 parlamentares do Rio Grande do Sul (deputados/as estaduais, deputados/as federais e senadores) que responderam, em entrevistas presenciais ou telepresenciais, a um questionário identificado com a versão estendida do Teste (Moral Judgment Test - MJT_xt extended). O instrumento permite mensurar a competência moral-democrática a partir do “C-score”, em que “C” representa “competence” (competência). Os escores altos traduzem alta competência moral- democrática e sugerem um senso de justiça elevado; já escores baixos representariam um senso de justiça instável ou ausente e, por decorrência, baixa competência moral-democrática. Os resultados obtidos na amostra apontaram o C- score médio do grupo de parlamentares do Rio Grande do Sul de 17,78 pontos (em uma escala de zero a 100). Ou seja, a partir da Teoria de Lind, encontramos que 70,4% dos parlamentares do Rio Grande do Sul possuem um C-score muito baixo ou baixo de competência moral-democrática, o que sugere a atuação com baixo senso de justiça, ou seja, com menores competências para a construção de soluções justas. Mais do que isso, o estudo sugere que a baixa competência moral- democrática não é característica exclusiva de qualquer grupo político-ideológico, mas que diz respeito a todas as posições representadas na amostra. Os resultados evidenciam limites estruturais do sistema político brasileiro e/ou falhas importantes nas dinâmicas de seleção eleitoral vigentes. Entre outros elementos a serem estudados por novas e mais amplas pesquisas, concluímos que um parlamento composto por representantes com os limites identificados pelo estudo será, provavelmente, incapaz de valorizar e de defender o Estado Democrático de Direito. Palavras-chave: Senso de justiça. Competência Moral-democrática. Direitos Humanos. Parlamento. ABSTRACT The present study, prepared as a partial requirement for the completion of the Master's in Human Rights course at Ritter dos Reis University Center - UniRitter, investigated the sense of justice of parliamentarians of Rio Grande do Sul, based on their ability to judge in difficult situations, using fundamentally, for this, the contributions of Lawrence Kohlberg and George Lind. In the empirical field, we used dilemmas in the application of Lind's Moral Judgment Test(MJT) to measure the moral-democratic competence present in the sample. The data were subsequently processed statistically in search of significant correlations between the independent variables (self-declaration of ideological field, gender, race, age, education, number of mandates) and the dependent variable (moral-democratic competence). The empirical research counts on a sample of 44 parliamentarians from Rio Grande do Sul (state deputies, federal deputies and senators) who answered, in face-to-face or online interviews, a questionnaire identified with the extended version of the Test (Moral Judgment Test - MJT_xt – extended). The instrument allows measuring moral- democratic competence based on the "Score C", where "C" stands for "competence". High scores translate high moral-democratic competence and suggest a high sense of justice, whereas low scores would represent an unstable or absent sense of justice and, consequently, low moral-democratic competence. The results obtained in the sample indicated the average C-score of the group of parliamentarians from Rio Grande do Sul of 17.78 points (on a scale of zero to 100). That is, from Lind's Theory, we found that 70.4% of the parliamentarians from Rio Grande do Sul have a very low or low C-score of moral competence for democracy, which suggests acting with a low sense of justice, that is, with less competence for the construction of just solutions. More than that, the study suggests that low moral-democratic competence is not an exclusive characteristic of any political-ideological group but concerns all the positions represented in the sample. The results highlight structural limits of the Brazilian political system and/or important flaws in the current dynamics of electoral selection. Among other elements to be studied by new and more extensive research, we conclude that a Parliament composed by representatives with the limits identified by the study will probably be unable to value and defend the democratic rule of law. Keywords: Sense of Justice. Moral Competence for Democracy. Human Rights. Parliament. LISTA DE ILUSTRAÇÕES LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Os dois tipos puros de moral segundo Piaget ......................................... 31 Quadro 2 - Níveis e estágios da consciência moral .................................................. 35 Quadro 3 - Fases do Desenvolvimento Moral de acordo com Kohlberg (1981) ........ 36 Quadro 4 - Estágios de consciência moral e tipos de consciência de cidadania ...... 39 Quadro 5 - Grau de concordância/discordância na Escala Likert.............................. 78 Quadro 6 - Grau de inaceitável/aceitável na Escala Likert ........................................ 78 Quadro 7 - Padrão resposta C-score extraordinariamente alto – Dilema Operário ... 89 Quadro 8 - Padrão resposta C-score muito baixo – Dilema Operário ....................... 90 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Distribuição por sexo ................................................................................ 83 Tabela 2 - Distribuição por faixa etária ...................................................................... 84 Tabela 3 - Distribuição por etnia/cor .......................................................................... 84 Tabela 4 - Distribuição religião/igreja ........................................................................ 84 Tabela 5 - Distribuição por espectro político ............................................................. 85 Tabela 6 - Distribuição por número de mandatos ...................................................... 85 Tabela 7 - Média C-score .......................................................................................... 86 Tabela 8 - Frequência e C-score médio entre os três dilemas .................................. 86 Tabela 9 - Frequência C-score com a média entre o dilema 1 (Operários) e dilema 3 (comandante) ............................................................................................................ 87 Tabela 10 - Frequência entre os três C-scores - CATEGORIAS * Sexo ................... 91 Tabela 11 - Frequência agrupada em três categorias entre os três C-scores – CATEGORIAS * Sexo ............................................................................................... 92 Tabela 12 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Sexo .......................... 92 Tabela 13 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Faixa etária ................ 93 Tabela 14 - Frequência e C-scores – CATEGORIAS * faixa etária ........................... 93 Tabela 15 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Faixa etária sem participantes discrepantes ......................................................................................... 94 Tabela 16 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos 94 Tabela 17 - Frequência C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos ............. 95 Tabela 18 - Frequência agrupada C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos .................................................................................................................................. 95 Tabela 19 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos sem participantes discrepantes ................................................................................. 96 Tabela 20 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Espectro político ........ 97 Tabela 21 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Espectro político sem participantes discrepantes ......................................................................................... 97 Tabela 22 - Frequência e C-scores – CATEGORIAS * Espectro político .................. 98 Tabela 23 - Frequência agrupada e C-scores – CATEGORIAS * Espectro político .. 99 Tabela 24 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Cargo político ............ 99 Tabela 25 - Frequência C-scores – CATEGORIAS * Cargo político ....................... 100 Tabela 26 - Frequência Concordância/discordância – Conduta do Comandante ... 101 Tabela 27 - Frequência Concordância/discordância – Conduta dos dois operários 101 Tabela 28 - Frequência Concordância/discordância – Conduta do médico ............ 102 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 13 2 REFERENCIAL TEÓRICO ..................................................................................... 21 2.1 A regra do jogo e a formação do juízo moral .................................................. 25 2.2 A teoria do Desenvolvimento Moral de Lawrence Kohlberg ......................... 32 2.3 O senso de justiça em John Rawls e a competência moral-democrática em George Lind ............................................................................................................. 42 2.4 A inclusão do outro no Estado Democrático de Direito ................................ 51 3 METODOLOGIA E CAMPO EMPÍRICO ................................................................ 64 3.1 Competência moral-democrática a partir do Teste de Julgamento Moral ... 64 3.2 Hipóteses de investigação ............................................................................... 74 3.3 Escolha da técnica de investigação ................................................................ 76 3.4 Coleta e processamento dos dados ................................................................ 79 4 O SENSO DE JUSTIÇA E A COMPETÊNCIA MORAL-DEMOCRÁTICA DOS PARLAMENTARES DO RIO GRANDE DO SUL ..................................................... 82 5 CONCLUSÃO ...................................................................................................... 104 REFERÊNCIAS .......................................................................................................107 Apêndice A – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ............................ 112 Apêndice B – Instrumento de coleta ................................................................... 114 13 1 INTRODUÇÃO “Só existe uma expressão para a verdade: o pensamento que repudia a injustiça. Se a insistência no lado bom da vida não é sublimada no todo negativo, ela se transfigura em seu próprio oposto: a violência”. Theodor W. Adorno O filho do Capitão Temístocles narra a história de sua infância, quando sua mãe se defrontou com o dilema moral: optar entre ter a consciência tranquila ou ter uma galinha ao molho pardo no estômago. Eu tinha possivelmente onze, doze anos, já sem pai, um pouco faminto, mas não tanto quanto os meninos deste país, deste continente. Lembro-me de uma manhã de domingo, uma manhã sem chuva. Estávamos, meus irmãos mais velhos e eu, no fundo do quintal, num gramado em que minha mãe plantava algumas roseiras para enfeitar a vida difícil. Eis que uma galinha pedrês se aproxima de nós, distraída, acompanhando com seu pescoço ondulante os pulos de um gafanhoto incauto. Em certo momento, a galinha apanhou o gafanhoto. E nós apanhamos a galinha... Nós havíamos estrangulado a galinha. Eu não esqueço que minha mãe cristã católica, séria, bem-comportada, com uma consciência ética bem aguçada, agarrou a galinha pedrês nas mãos e deve ter dito a ela mesma: O que fazer? Devolver está galinha ao proprietário pedindo desculpas pelo ato de seus filhos, como possivelmente a sua consciência ética sugeriria, ou pelo contrário fazer com aquela galinha o lauto almoço que há tempo não tínhamos? Claro que ela nunca me disse isso, eu apenas traduzo essa hesitação. De repente, sem dizer uma palavra, vira para o terraço e encaminha-se para a cozinha, com um corpo quente da galinha pedrês do vizinho. Uma ou duas horas depois comíamos uma excelente refeição. No dia seguinte não há dúvida nenhuma que o dono da galinha deve ter se estrebuchado de raiva contra o ladrão. Possivelmente ele jamais poderia ter pensado que junto dele, na casa do vizinho, estavam os autores do sumiço. Mas ele não podia fazer está conjectura, porque os autores do sumiço eram os filhos do capitão Temístocles, meu pai, e os filhos do capitão Temístocles não podiam ser ladrões de galinhas. O meu vizinho não podia pensar que nós éramos os autores daquele furto porque a classe social a que nós pertencíamos não possibilitava que ele fizesse essa conjectura. No máximo, se ele viesse a descobrir que éramos nós os autores, o vizinho iria dar um riso discreto e dizer à minha mãe: não se preocupe isso é trela de crianças. Se fossem, porém, meninos de um operário, teriam sido considerados delinquentes infantis. Na verdade, não éramos e não fomos delinquentes, matamos a galinha pedrês do vizinho para comer. Tínhamos fome (FREIRE, 2020, p. 79). 14 A história da infância de Paulo Freire remete-nos à discussão sobre o que seria justiça. Podemos, através da história, falar sobre justiça social, sobre valores morais e sobre como, muitas vezes, os atos não são julgados por si, mas sim tendo em vista quem os protagonizou. A história da galinha pedrês de Freire ainda pode provocar o debate quando discutimos o que seria uma sociedade justa, nos provocando a pensar quais os princípios morais que guiam as regras estabelecidas no convívio social, e se estas regras são justas, considerando, principalmente, a sociedade desigual que condena parcela da população a uma vida precária, sem direitos sociais básicos. Habermas (2018) propõe a revisão da compreensão intuitiva da justiça, salientando que justiça talhada às relações interpessoais surge como um valor ao lado de outros, e não como um padrão para juízos imparciais, independente do contexto. Nesse particular, podemos identificar duas abordagens clássicas: a que compreende a moral como aquilo que promove a coerência solidária de uma comunidade e a que se estrutura pelo contratualismo que entende por moral aquilo que assegura a justiça de uma interação social regulada em termos normativos. Para abordar o teor cognitivo moral, é preciso compreender o que significa fundamentar moralmente algo. Dessa forma, as proposições morais servem para regular as ações de diferentes atores em uma comunidade. De modo que havendo um rompimento destas normas, os membros desta comunidade moral se reportam às normas estabelecidas. Uma moral não se limita somente a estabelecer como os indivíduos devem se comportar, mas também fornece elementos para resolução consensual de conflitos, de modo que as regras morais acompanham as disputas morais. A consciência moral é expressão das exigências legítimas que os membros de um grupo social dirigem uns aos outros. A essa comunidade pertencem todos que foram socializados em alguma forma de vida comunicativa (HABERMAS, 2018). Na teia das relações sociais, o sujeito se depara com a necessidade da tomada de decisões, orientadas por pressupostos conscientes ou inconscientes, que produzem consequências individuais e/ou coletivas. Nessa linha, pensar uma sociedade justa exige uma discussão mais complexa capaz de tematizar a relação entre o “Eu” e os “Outros”, de forma a se garantir que todos os seres humanos sejam tratados como sujeito de direitos. 15 Para Rolim (2021) muitos sentidos são atribuídos à expressão “justiça”, desde os valores mais presentes na mídia e no senso comum até as definições oferecidas pela filosofia e pela teoria política. Nas percepções correntes, no noticiário e nas aspirações disseminadas socialmente, é comum que o ideal de “justiça” seja associado à ideia de “punição”. Essa visão, resultado de uma forte demanda punitiva experimentada pelo sistema de justiça brasileiro, nos distancia dos sentidos emancipatórios da justiça. O autor lembra os conteúdos particulares propostos por Aristóteles, que conectou a ideia de justiça às virtudes da cidade, ressaltando a disposição de caráter e a “igualdade”, princípio assentado na integridade moral (Dikaiosyne); por Benthan, para quem a justiça estava definida pela promoção da “felicidade”; por Rawls e a noção de justiça como “equidade”; por MacIntyre, que sustenta a justiça como o equivalente à “afirmação do bem” e por Dworkin, para quem a justiça deve ser compreendida como “igual cuidado e responsabilidade especial”. Na antiguidade, com o surgimento dos conceitos de democracia e de política, a humanidade já discutia sobre justiça e bem comum. No processo histórico, ainda que existam avanços e retrocessos na construção de sociedades mais plurais, menos violentas e mais justas, parece haver um progresso moral mais amplo, notadamente se tivermos em conta a tendência geral de redução da violência conforme amplamente demonstrado por Pinker (2013). No Brasil a justiça social enfrenta desafios enraizados em nossa formação histórica, notadamente aqueles resultantes da escravidão, da desigualdade social, da violência e do autoritarismo do Estado. No atual cenário político brasileiro, temos muitos projetos de leis que ameaçam os Direitos Humanos em pautas como a reforma trabalhista, a reforma da previdência, fim das demarcações das terras indígenas, restrição à laicidade do Estado, escola sem partido, redução da maioridade penal, redução da idade de trabalho, revogação do estatuto do desarmamento, adoção de políticas contrárias à proteção ambiental e desmonte do Estado e das políticas que garantem direitos sociais. É visível, também, um processo de politização dos Direitos Humanos e ataques extremistas que ameaçam a experiência democrática brasileira. 16 Esses processos atualizam o interesse a respeito das concepções de justiça que orientam os parlamentares brasileiros. Afinal, cabe a eles, em grande medida pelos menos, a tomada de decisão a respeito das reformas e da configuração das políticaspúblicas capazes de enfrentar nossas mazelas. Assim, deve-se observar o papel político que o parlamentar exerce na construção de uma sociedade mais justa, tendo em vista que ele atua na formulação, discussão e aprovação da legislação, o que se traduz em políticas públicas e/ou na ausência delas. Com esse intuito, a presente dissertação, um dos requisitos para a conclusão do curso de Mestrado em Direitos Humanos da UniRitter – Centro Universitário Ritter dos Reis, buscou investigar o senso de justiça dos parlamentares do Rio Grande do Sul, a partir de sua capacidade de julgamento em situações difíceis, utilizando-se para isso dos princípios da Teoria de Lawrence Kohlberg e George Lind. Trata-se de um estudo exploratório cujo objetivo é conhecer a competência moral-democrática (LIND, 2008) dos parlamentares e, por decorrência, suas possibilidades de produção de políticas justas. Assume-se que quanto maior a competência moral-democrática dos indivíduos, maiores as possibilidades de que eles produzam soluções que considerem mais amplamente as necessidades públicas. Assim, uma alta competência moral-democrática pode ser tomada como um “marcador” para um senso de justiça mais apurado. A assertiva diz respeito a potenciais determinados, expressando, portanto, uma expectativa lógica e não a uma realidade evidenciada por decisões tomadas no mundo real. Para saber até que ponto os parlamentares produzem ou não políticas justas seria preciso, no mais, contar com dados confiáveis a respeito dos resultados produzidos pelas suas decisões e acompanhar o quanto essas evidências seriam capazes de alterar posicionamentos percebidos pelos próprios parlamentares como escolhas equivocadas. As dificuldades para um trabalho com esse escopo, particularmente em uma tradição de ausência de avaliação de políticas públicas, muito provavelmente inviabilizariam a pesquisa. A opção metodológica que escolhemos foi por isso mesmo, a de oferecer aos parlamentares dilemas de difícil solução o que permite simular uma circunstância extrema que demanda justificativas de ordem moral. 17 Dentre as hipóteses levantadas, consideramos que as definições político- ideológicas assumidas pelos parlamentares poderiam constituir variável estatisticamente significativa na conformação de sua competência moral. Pela segunda hipótese, consideramos que, no desempenho por faixa etária, parlamentares mais jovens possuiriam um C-score mais elevado do que os parlamentares com mais de 50 anos. Pela terceira hipótese, que é uma variação da segunda, pensamos que o número de mandatos obtidos pelos parlamentares se relacionaria inversamente com a sua competência moral. Por fim, de acordo com a quarta hipótese, presumiu-se que o número de votos obtidos pelos parlamentares estaria inversamente correlacionado à competência moral. O trabalho conta com pesquisa empírica com uma amostra de 44 parlamentares do Rio Grande do Sul (deputados/as estaduais, deputados/as federais e senadores) que responderam, em entrevista presenciais ou telepresenciais, um questionário identificado na literatura como Moral Judgment Test - MJT_xt (extended), versão não certificada, adaptada a partir do instrumento utilizado por Silva (2016). Por conta das limitações de nossa experiência democrática, notadamente se levarmos em consideração a importância da participação popular no processo de tomada de decisões e a dimensão igualitária do regime1 e, muito provavelmente, em consequência da distância existente entre representantes e representados e do baixo nível de formação política que caracteriza a sociedade brasileira (BAQUERO, 2011), pouco se discute sobre o trabalho parlamentar. Sabe-se que as democracias contemporâneas emergiram no ocidente por conta de um processo multifacetado de reivindicações populares, parte delas claramente disruptivas (TILLY, 1978; ELEY, 2005). O regime democrático é, em larga medida, aquele que se forma pelo conflito e que se nutre dele, na medida em que as demandas por igualdade e justiça ganham as ruas em mobilizações populares (YOUNG, 2014; TAVARES, 2012; TARROW, 2009). De um lado, pode-se verificar o ceticismo generalizado com respeito à atividade política, tomada, acriticamente, como expressão de interesses particulares e mera tradução do apetite 1 O projeto internacional Variedades da Democracia (V-Dem), que monitora a experiência democrática no mundo, lida com indicadores de cinco dimensões democráticas: eleitoral, liberal, participativa, deliberativa e igualitária (COPPEDGE et al., 2021). 18 pelo Poder; de outro, se observa o emaranhado de laços de clientela (AVELINO FILHO, 1994) formados a partir da atividade política, fenômeno que termina por valorar a própria atuação dos parlamentares a partir da concessão de benesses e distribuição de recursos públicos que asseguram apoio eleitoral, como ocorre, com cada vez mais amplitude, com as chamadas “emendas parlamentares” (BAIÃO; COUTO; OLIVEIRA, 2019). Em um quadro dessa natureza, refletir sobre a atuação parlamentar a partir da competência moral-democrática dos titulares dos mandatos e pensar sobre a capacidade que nossos representantes em possuir (ou não possuir) um senso de justiça capaz de construir soluções justas para os problemas do País parece adquirir ainda mais relevância. Se considerarmos, ainda, o cenário político atual, marcado por impasses políticos de dimensão histórica, poderemos destacar ainda mais o desafio de construir um Estado e uma sociedade que permitam a efetivação de direitos, assim como a formação de uma cidadania crítica, condição imprescindível à promoção da dignidade humana. Na primeira parte desse estudo, apresentamos nossos referenciais teórico- conceituais, que partem dos estudos realizados por Piaget (1994), sobre o desenvolvimento moral, que associou o desenvolvimento geral da criança ao desenvolvimento moral. Através da teoria de Piaget, é possível uma discussão entre “as regras do jogo” e as normativas do convívio social. Na sequência, é aprofundada a Teoria do Desenvolvimento Moral de Kohlberg sobre a justiça crescente. Lawrence Kohlberg parte dos pressupostos de Piaget, onde o ato de julgar refere para uma nova estrutura lógica de operações mentais. Para Kohlberg a competência de julgamento moral é a capacidade de tomar decisões e de julgar moralmente em princípios internos. A partir de estudos clínicos com a realização de entrevistas com seus dilemas morais, Kohlberg identifica três níveis de moralidade, os quais são agrupados em seis estágios. O nível pré-convencional (estágios 1 e 2), contempla a maioria das crianças, onde as regras são seguidas ou não conforme o seu próprio interesse, tendo em vista a recompensa ou castigo por sua ação, não julgando a ação em si, mas suas consequências. O nível convencional (estágios 3 e 4), abarcam a maioria dos adolescentes e adultos, neste nível a ação se baseia no contrato social, nas regras sociais e expectativas do grupo social e da autoridade. O nível pós-convencional (estágios 5 e 6), contempla uma minoria de indivíduos, onde 19 a expressão pós convencional indica uma referência situada em princípios, ou seja: para além das normas convencionais. Os indivíduos desse nível compreendem que legalidade e justiça são coisas distintas e que, algumas vezes, para se promover a justiça é necessário romper com as normas. Para os pós-convencionais a ação se baseia em princípios morais universais, orientados pela reciprocidade e igualdade. Assim cada estágio kohlberguiano representa uma moralidade distinta ao conceber a justiça. Na discussão da Teoria de Kohlberg, a pesquisa se ancora nos autores nacionais Biaggio (2006) e Fedozzi (2002). A Teoria do Duplo Aspecto do Comportamento e Desenvolvimento Moral de George Lind apresenta a competência moral como tema central, e sustenta que aspectos afetivos e aspectoscognitivos podem ser mensurados simultaneamente e também separadamente um do outro, apesar de serem dimensões inseparáveis do comportamento. As contribuições de Lind, desenvolvidas a partir de Kohlberg, foram importantes em nossa pesquisa de campo e constituem a base teórica e empírica desta pesquisa. O estudo de Bataglia (2010) é utilizado para apresentação da versão estendida para a realidade brasileira, o Moral Judgment Test - MJT_xt. Para definição do que seria a noção de senso de justiça, partimos da concepção apresentada por John Rawls (1963) que ancorou seu significado na tradição kantiana. Já Habermas (2003) e Honneth (2009) são utilizados principalmente para discutir os impactos que a competência moral dos parlamentares tem em relação ao seu senso de justiça e sua interface com a efetivação de leis e políticas públicas garantidoras dos Direitos Humanos em um Estado Democrático de Direito. A segunda parte apresenta a problemática central da pesquisa e trata dos aspectos metodológicos do estudo empírico, apresentando a escolha de investigação e os procedimentos realizados, assim como o perfil dos entrevistados. Nesse capítulo, é detalhada a metodologia do Teste Moral Judgment Test (MJT_xt), instrumento adaptado para a avaliação da competência moral-democrática dos parlamentares participantes do estudo. 20 A terceira parte é dedicada à apresentação e análise dos resultados da pesquisa empírica, com a amostra sobre o senso de justiça e a competência moral- democrática dos parlamentares do Rio Grande do Sul e uma discussão sobre as correlações entre as variáveis independentes e dependente. Na discussão, ponderamos sobre os possíveis impactos do senso de justiça e da competência moral-democrática dos parlamentares nos seus posicionamentos. Por fim, apresentamos a conclusão do estudo, problematizando sobre a relação entre a competência moral-democrática dos parlamentares e seu senso de justiça, assim como suas consequências na efetivação dos direitos humanos e na inclusão do “Outro”, desafios pressupostos na defesa do bem comum. 21 2 REFERENCIAL TEÓRICO “Essencialmente, educação social é educação moral, e educação moral é preparação para a cidadania”. Lawrence Kohlberg O referencial teórico deste trabalho conta, basicamente, com as contribuições de Lawrence Kohlberg e George Lind. Outros autores, como Rawls (1963), Piaget (1994), Habermas (2003) e Honneth (2009) serão utilizados em um segundo plano. Entre os autores nacionais, terão especial relevância os estudos de Biaggio (2006), Fedozzi (2002) e Bataglia (2010). Como o problema central da investigação empírica envolve o senso de justiça dos parlamentares, é importante esclarecer, de início, o significado dessa expressão. Quando falamos em “senso de justiça”, afinal, estamos diante de inúmeras possibilidades interpretativas, como bem o observou Markus Dubber (2005, p. 816, tradução nossa) 2: O que as pessoas querem dizer quando se referem ao senso de justiça? A resposta é, claro, que as pessoas atribuem muitos significados à expressão e, às vezes, nenhum significado maior. Muitas vezes, o senso de justiça aparece quase com o significado de um ponto de exclamação; a resolução preferida de uma determinada disputa de justiça é justificada não apenas como certa e adequada, mas, frequentemente, na forma de que qualquer outra resolução "chocaria" o senso de justiça. Alternativamente, pode-se descartar o senso de justiça como simplesmente irracional, um impulso emocional irracional perigosamente fora do lugar em um sistema abstrato legal e de normas políticas igualmente aplicadas. Finalmente, na sua variante comum, o senso de justiça pode funcionar pouco mais como um substituto para noções mais obviamente vazias, como "bom senso" ou "sentimento comunitário”. 2 No original: What do people mean when they refer to the sense of justice? The answer is, of course, that they mean a great many things, and sometimes they mean not much at all. All too often, the sense of justice appears roughly to have the significance of an exclamation point; the preferred resolution of a given justice dispute is justified as not only right and proper, but so much so that any other resolution would "shock" the sense of justice. Alternatively, one might dismiss the sense of justice as simply beside the point, an irrational emotional impulse dangerously out of place in a system of abstract legal and political norms equally applied. Finally, in its communal variant, the sense of justice might function as little more than a stand-in for more obviously vacuous notions such as "common sense" or "community sentiment”. 22 Nesse trabalho, trataremos a noção de senso de justiça a partir da contribuição de John Rawls que procurou desenvolver a linha de argumentação kantiana que havia conectado o sentimento moral e a capacidade moral com a autonomia. Segundo Dubber (2005), Rawls desenvolveu uma teoria na qual “o senso de justiça é o sentimento moral por excelência”. Para ele, o senso de justiça pode nos ajudar a entender o que Rawls denomina “base da igualdade” (basis of equality) especialmente quanto às “competências básicas que nos permitem funcionar e interagir com outras pessoas em uma comunidade política desprovida de consenso sobre virtudes” (DUBBER, 2005, p. 832). Refletir sobre a competência moral, por sua vez, nos faz pensar sobre como se dá o mecanismo da autoconsciência, o que, por seu turno, aponta para a natureza das relações sociais e para as noções de justiça que são operantes socialmente. Piaget (1994) identifica quatro estágios universais das estruturas cognitivas numa escala invariante: senso motor, pré-operacional, de operações concretas e operações formais; associando o desenvolvimento geral da criança ao desenvolvimento moral do sujeito. Piaget (1994) sustenta sua teoria a partir da análise do papel das regras dos jogos infantis com a formação moral da criança apontando que as concepções de justiça vão evoluindo a cada novo estágio, percorrendo deste a noção de retribuição e vingança até a ideia de restauração, enfatizando o percurso percorrido entre uma moral imposta pelo “Outro” e uma moral autônoma. Lawrence Kohlberg, partindo do conceito de que pessoas e sociedades virtuosas são aquelas que atendem aos princípios da justiça, ancora seu estudo no critério de justiça crescente, relacionando noções de igualdade, equidade e reciprocidade da perspectiva sociomoral de cada indivíduo em relação ao coletivo, com o mesmo respeito a todas as pessoas. Kohlberg (1984) apresenta sua teoria do desenvolvimento moral cognitivo, com uma base teórica focada no estruturalismo psicogenético, sustentando que o desenvolvimento da moral abrange três níveis e seis estágios de desenvolvimento, que serão apresentados ao longo deste texto. 23 Ângela Biaggio (2006) apresenta a Teoria de Kohlberg, as pesquisas e suas aplicações na Psicologia educacional através de uma ampla revisão de literatura. Biaggio (2006) ainda traduziu três textos de Kohlberg que, mesmo em língua inglesa, não são de fácil acesso. Já Georg Lind, elabora sua Teoria do Duplo Aspecto do Comportamento e Desenvolvimento Moral a partir dos conceitos de Piaget e Kohlberg, determinando as orientações morais (aspecto afetivo) e a competência moral (aspecto cognitivo), integrando em sua teoria, afeto, juízo e ação. Lind elabora um instrumento que permite medir a competência moral-democrática de um determinado grupo. Assim o instrumento Moral Judgment Test (MJT) ou Moral Competence Test – (MCT),o instrumento permite medir a capacidade do entrevistado em avaliar argumentos a favor e contra a atitude tomada por personagem em um dilema por sua qualidade moral, de modo a confrontar os argumentos com a sua opinião frente à situação apresentada. De modo que a competência moral-democráticaé transformada em uma pontuação, o "C-score", "C" para “competence” (competência). Os estudos de Patrícia Bataglia (2010) nos auxiliam a pensar a Teoria de Geord Lind a partir da cultura brasileira. O MJT já foi traduzido e adaptado em mais de 30 línguas, Bataglia então adapta o Moral Judgment Test - MJT/MCT para a realidade brasileira, desenvolvendo a versão MJT_xt ou MCT_xt, a qual introduz um novo dilema (Dilema do Juiz), que aborda o direito à vida numa perspectiva distinta da apresentada no Dilema do Médico (eutanásia), já que, na cultura brasileira, a religião se apresentou como um fator muito influente que poderia enviesar o teste. Bataglia desenvolve inúmeras pesquisas com o MJT_xt, validando o instrumento para a obtenção da competência moral de sujeitos em distintas realidades. Luciano Fedozzi (2002) desenvolveu estudo sobre a consciência social a partir de pesquisa realizada com participantes do Orçamento Participativo de Porto Alegre. A metodologia utilizou-se dos dilemas kohlberguianos com o Defining Issues Test (DIT), elucidando mudanças na consciência social dos participantes, identificando que, a experiência de participação no espaço democrático (orçamento participativo) elevou a moralidade dos entrevistados. Os resultados indicam que a participação popular, ao longo do tempo, produz efeito positivo sobre a consciência moral, e, consequentemente, sobre a consciência social dos sujeitos da amostra. 24 Fedozzi (2002) em seu estudo realiza uma relação entre os níveis kohlberguianos pré-convencional, convencional e pós-convencional com os três tipos de consciência de cidadania: pré-cidadania, cidadania conformada e cidadania crítica, sustentando ainda que a democracia é um processo de autolegislação e forma de autodeterminação política na comunidade, salientando sua importância nas sociedades modernas. Jürgen Habermas (2003) entende que os diferentes níveis de aprendizado, relacionados às dimensões da organização moral e política, não correspondem às novas formas de organização da produção material e, sim, a graus de desenvolvimento da consciência moral. Habermas (2018) em sua obra “A inclusão do Outro”, parte de uma crítica à violação dos direitos das minorias presentes nas posições xenófobas, autoritárias e racistas, refletindo sobre o desafio de assegurar a igualdade de direitos e convivência mútua no Estado Democrático de Direito dentro de uma perspectiva de pluralidade, o que dialoga com o objeto de nossa pesquisa já que o senso de justiça dos parlamentares deve impactar a natureza da elaboração, discussão e aprovação de leis e políticas públicas, sobretudo quanto ao desafio de assegurar a igualdade de direitos. Também as contribuições de Axel Honneth (2009), com sua Teoria do Reconhecimento, ajudam a compreender os mecanismos complexos de formação do juízo moral. Ancorado em Hegel e Mead, ele sustenta que o juízo moral é uma construção influenciada pelas experiências com os processos de socialização ao longo da vida. Não de um modo behaviorista, determinado unilateralmente pelo meio, mas sim pela interação entre sujeito e objeto, contextualizando a dinâmica de construção de estruturas da consciência do indivíduo. Honneth (2009) retoma a questão dos conflitos existentes nas democracias contemporâneas e teoriza sobre os meios pelos quais os sujeitos buscam uma vida boa, no sentido aristotélico. Nessa perspectiva, para o sujeito referir-se enquanto um sujeito de direitos, ele precisa obter as três formas de reconhecimento intersubjetivo nas experiências do amor, do reconhecimento jurídico e da vivência da solidariedade. 25 2.1 A regra do jogo e a formação do juízo moral Uma das dimensões da complexidade na vida em sociedade é aquela estabelecida entre o indivíduo e as regras do convívio social. Com o estabelecimento de normas, gera-se uma expectativa de comportamento adaptado, é representado como obediência. Por melhor que sejam as regras e por mais que, em torno delas, tenha se produzido um consenso, é sabido que, com frequência, a simples obediência às regras pode não assegurar a justiça. No mais, há também situações onde algumas regras são percebidas pelo indivíduo como injustas. Nesses casos, como se portar? Sobre a condição moral em uma perspectiva ocidental, pode-se destacar três perspectivas filosóficas representativas. A primeira advém da doutrina cristã, fundamentada como a humanidade nascendo do pecado original. A segunda corrente, ancorada no pensamento de Rousseau, concebe os seres humanos como naturalmente bons, sendo a sociedade responsável pelos eventuais desvios no comportamento das pessoas. A terceira advém do pensamento de John Locke para quem os indivíduos nascem amorais, nem bons nem maus, como uma “tábula rasa3”, onde a moralidade deriva da interação com o ambiente (MCDANIEL, 2007). Hegel entende que o sujeito só pode adquirir consciência de si no momento que interage com o “Outro”, fundamentando a teoria de reconhecimento, destacando que a autoconsciência humana depende da existência de outro sujeito, onde no direito natural moderno, uma comunidade de homens , é concebida pelos muitos associados (HEGEL, 1969 apud HONNETH, 2009). Kant (2019, p. 17) estabelece uma relação entre as faculdades do ânimo e o arbítrio: A faculdade de desejar segundo conceitos chama-se faculdade de fazer ou omitir a seu bel-prazer, na medida em que o fundamento da sua determinação para a ação se encontra nela mesma, e não no objeto. Dado que ela está à unida à consciência de ser capaz de produzir o objeto mediante a ação, chama-se arbítrio. Na tomada de decisão e na inter-relação do “Eu” e os” Outros”, é que reside a centralidade do desenvolvimento moral. Diversos pensadores desenvolveram 3 Como metáfora o conceito de tábula rasa foi utilizado por Aristóteles para indicar uma condição em que a consciência é desprovida de qualquer conhecimento prévio e inato. 26 pesquisas sobre a formação da identidade moral do sujeito, um processo que interfere, diretamente, na relação de reconhecimento recíproco e na vida social. Até hoje, há duas correntes teóricas predominantes sobre o desenvolvimento moral: aprendizagem social/conhecimento social e estruturalismo cognitivo. Ambas entendem a condição humana como amoral (nem boa, nem má), valorizando assim a importância no desenvolvimento moral. Assim, o desenvolvimento moral é foco de inúmeros estudos e pesquisas, principalmente em áreas como Psicologia, Sociologia, Filosofia e Educação sendo que alguns pensadores como Sigmund Freud (1856-1939), Geroge Herbert Mead (1863-1931), Jean Piaget (1896-1980) e Lawrence Kohlberg (1927-1987) desenvolveram teorias específicas sobre o tema. Freud (2017, p. 35) traz a oposição entre a psicologia individual e psicologia social: [...] É verdade que a psicologia individual está orientada para o ser humano singular e investiga os caminhos pelos quais ele busca alcançar a satisfação de suas moções de impulso, só que ao fazê-lo, apenas raramente, sob determinadas condições excepcionais, ela desconsidera as relações desse indivíduo com os outros. Na vida psíquica do indivíduo, o outro entra em consideração de maneira bem regular como modelo, objeto ajudante, e adversário, e por isso, desde o princípio a psicologia individual também é ao mesmo tempo psicologia social nesse sentido ampliado, porém inteiramente legítimo. Na perspectiva de Freud (2017) a psicologia “das massas” compreende o indivíduo como membro de uma tribo, um povo, uma casta, uma classe, uma instituição. Freud argumenta que ideias se transformam em ações apenas nas massas. Para George Herbert Mead (1863-1931), as situações de problematização evocam operações cognitivas e, através do problema prático a ser solucionado, o sujeito é forçado a reelaborar interpretações da situação (MEAD,1973 apud HONNETH, 2009).Mead dedica seu estudo à formação da identidade prático moral. Debruçando-se sobre a relação do Eu com o mundo social, concluiu que há uma precedência da percepção do outro sobre o desenvolvimento da autoconsciência. Mead constrói uma base teórica para a distinção do “Eu” e Me”, onde "Me" enfatiza que o sujeito recebe de si mesmo, tão logo aprenda a perceber-se da perspectiva de 27 uma segunda pessoa, desde a perspectiva normativa de seus pares (MEAD,1973 apud HONNETH, 2009). Do ponto de vista de Habermas (2018), é racional o sujeito ingressar numa comunidade moral, preferindo ser um sujeito destinatário de direitos e deveres do que ter um status de objeto em uma instrumentalização mútua, de modo que é na comunidade e no convívio social que os sujeitos vivenciam a satisfação de ser respeitado por pessoas, as quais também são dignas de serem respeitadas moralmente. Mead utilizou-se dos jogos infantis para elaboração de sua teoria, recorrendo a duas fases da atividade lúdica infantil: o play e o game. Na fase do play, a criança vivencia o jogo de papéis, imitando o comportamento do sujeito de interação, reagindo posteriormente na própria ação. Na fase do game, a criança representa simultaneamente as expectativas de comportamento de seus pares. De modo que sua autoimagem (moral) incorpora as normas sociais de ação de um “outro generalizado”. Mead destaca a relação de reconhecimento mútuo, o sujeito é reconhecido pelo coletivo, no momento que reconhece os “Outros” (MEAD,1973 apud HONNETH, 2009). Na teia de relações sociais, o indivíduo adota as regras sociais, aprendendo as obrigações que ele tem com o coletivo e a se reconhecer como sujeito de direitos. Os direitos, portanto, e os conflitos emergentes para sua efetividade são os meios para o reconhecimento. Nesse sentido, pela concessão social desses direitos, é possível medir se um sujeito pode conceber-se como membro completamente aceito de sua coletividade (HONNETH, 2009). Sobre as normas reconhecidas pelo meio social do sujeito, Mead destaca o conflito existente entre o “Eu” e o “Me”, na tomada de decisão do sujeito, resultante da sua formação moral. O atrito interno entre "Eu" e "Me" representa, para Mead, as linhas gerais do conflito que deve explicar o desenvolvimento moral tanto dos indivíduos como das sociedades. “Me” representa as normas convencionais do coletivo e se depara com o “Eu”, que representa a impulsividade e a criatividade, o que resulta na liberação da individualidade e em comportamento genuíno da identidade individual (MEAD,1973 apud HONNETH, 2009). 28 Tanto para a Psicanálise quanto para o Behaviorismo, a moral parece ser algo externo, que passa a ser internalizada pela pessoa. Já no construtivismo de Jean Piaget (1896-1980) e no enfoque cognitivo-evolutivo de Lawrence Kohlberg, o sujeito passa a ser um agente do processo moral (BIAGGIO, 2006). Os estudos de Jean Piaget concentram-se, basicamente, no desenvolvimento cognitivo, sendo um teórico fundamental para a área da Educação e da Psicologia. Piaget pauta sua teoria na interação entre estruturas cognitivas, biologicamente vinculadas, e a estimulação ambiental (REGO, 2003), identificando quatro estágios universais pelo quais evolui o pensamento numa sequência invariante: cognitivo: senso-motor, pré-operacional, de operações concretas e operações formais (BIAGGIO, 2006). Estágio sensório motor: Estágio das crianças de até 2 anos, onde a inteligência da criança manifesta-se por meio da exercitação dos órgãos sensoriais e dos aspectos motores. A criança neste estágio adquiriu habilidades de distância, profundidade, inter-relaciona sons e imagens, desenvolvendo também o tato, olfato (BIAGGIO, 2006). Estágio pré-operacional: Estágio das crianças de dois a seis anos aproximadamente, o qual é caracterizado pelo desenvolvimento da linguagem e simbolismo e pela ausência da noção de conservação (BIAGGIO, 2006). Estágio operacional concreto: Estágio das crianças de sete a 12 anos aproximadamente, estágio que marca o início do pensamento lógico, o qual a criança exercita com estimulo de objetos concretos. Neste estágio adquire-se a capacidade de conservação e os rudimentos da lógica. Capacidade das operações aritméticas (BIAGGIO, 2006). Estágio operações formais: Estágio típico em que se encontram os adolescentes. Caracteriza-se pela possibilidade da habilidade de abstração e a formulação de hipóteses (BIAGGIO, 2006). Piaget (1994) associa esse desenvolvimento geral da criança ao desenvolvimento moral do sujeito, argumentando que o julgamento moral também tem uma evolução ordinária, passando por etapas semelhantes aos quatro estágios 29 do desenvolvimento cognitivo. Ele se utiliza dos jogos infantis para uma análise da incorporação das regras realizada pela criança. No jogo infantil, a regra não é, necessariamente, estabelecida apenas por adultos, mas também pelos pares, o que fez com que Piaget se concentrasse nas regras do jogo para a observação da moral infantil, indagando: - qual a moral do jogo? Com o jogo da bola de gude, Piaget percebe que a criança percorre um caminho que vai do senso de justiça retributiva à justiça distributiva. Na mesma forma a palavra “glaine” (assalto) justifica o roubo em situações bem definidas. Quando um jogador, por sorte ou habilidade consegue ganhar todas as bolas de seus parceiros, é obrigado por uma espécie de contrato de honra, análogo aquele que os sociólogos designam pelo nome de “potlatch” a oferecer uma nova partida, colocando ele mesmo, no quadrado as bolas necessárias, de modo a dar aos parceiros infelizes a oportunidade de retomar uma fração de seus bens. Mas, se recusa, nenhuma lei pode obrigá-lo a isso: ganhou e está acabado. Entretanto, se um dos jogadores pronuncia a palavra “gleine”, então todo o grupo lança sobre avaro, derruba-o esvazia-lhe os bolsos e reparte o saque. Este ato de banditismo, profundamente contrário à moral em tempos morais (uma vez que as bolas recolhidas pelo vencedor constituem um bem legitimamente adquirido), transforma-se, então, num lícito e mesmo num ato de justiça retributiva aprovado pela consciência comum, desde que a palavra “glaine” tenha sido pronunciada (PIAGET, 1994, p. 27). Desde o jogo de bola de gude, podemos perpassar pelo anti-herói inglês Robin Hood, que roubava dos ricos para distribuir aos pobres; ou, ainda, pelo personagem da literatura argentina Martín Fierro, de José Hernandez, que representa o gaúcho fora da lei, que luta contra as injustiças. O saque das bolas de gude, legitimado no ato como justiça, permite um paralelo com o conceito de desobediência civil, conceito que está intimamente ligado à ideia de que nem sempre as leis/regras do “jogo” são justas e que, às vezes, é necessário rompê-las para que direitos fundamentais sejam garantidos. Rawls (1997) discute, exatamente, o dever de se obedecer a uma lei injusta, defendendo que, assim como a injustiça de uma lei não é razão plena para desobedecê-la, a lei e sua validade jurídica também não constituem pressupostos para sua manutenção. Assim, muitas vezes, quando a lei e as políticas públicas se afastam dos valores reconhecidos pelos grupos sociais, ocorre um apelo ao senso de justiça da sociedade. Para Hannah Arendt (2017), a desobediência civil aparece quando um grupo de cidadãos se convence que os canais normais para mudar as regras já não 30 funcionam, e que suas queixas e demandas não são consideradas pelo coletivo e onde o contestador, diferente do criminoso comum, age em prol de um grupo determinado, visando o bem comum. Piaget (1994) salienta que a obediência às regras é um elemento que depende extremamente do convívio social. No entanto, Piaget, ao exemplificar o jogo de bola de gude, concentra-se na incorporação das regras propriamente ditas, que constituem uma realidade social. Com entrevistascom crianças sobre as regras do jogo, Piaget faz um paralelo entre o juízo moral da criança e os quatro estágios que se iniciam na fase egocêntrica, terminando na fase de cooperação. No primeiro estágio senso-motor, a regra ainda não é coercitiva. Nesse estágio, a criança manipula a bolinha de gude, exercendo os sentidos da visão e do tato, sem regras do jogo incorporadas (BIAGGIO, 2006). No segundo estágio senso- motor, o jogo é egocêntrico, havendo um respeito unilateral à regra e às autoridades que a criaram. A regra é considerada imutável e intangível, assim toda proposta de mudança da regra é considerada uma transgressão (PIAGET, 1994). Já no terceiro estágio, o das operações-concretas, a regra é considerada como uma lei imposta pelo coletivo, com o consentimento mútuo. Sendo possível assim mudar a regra do jogo, sempre que o grupo considere justo (PIAGET, 1994). No quarto estágio, o de operações-formais, ocorre uma criticidade sobre as regras do jogo, com a compreensão da natureza arbitrária e convencional de algumas delas (BIAGGIO, 2006). Fedozzi (2002) cria um quadro conceitual dos tipos puros de moral segundo a Teoria piagetiana. 31 Quadro 1 – Os dois tipos puros de moral segundo Piaget Critérios de comparação Heterônoma Autônoma Gênese da moralidade Respeito unilateral Respeito mútuo Tipo de relações sociais Coação Reciprocidade Caráter de relações Desiguais Igualitárias Forma de interação social Autoridade/dever (obediência) Cooperação (acordo mútuo) Consequências da interação social Egocentrismo moral e intelectual Descentração moral e intelectual Personalidade do Eu Tipo de moral resultante Heterônoma Moral do dever (regras externas impostas aos indivíduos) Autônoma Moral do bem (regras nascidas da reciprocidade tornam-se normas interiores) Prática das regras Imutáveis e sagradas Tradicionais ou transcendentes Dependente de acordos racionalmente estabelecidos Justiça Autoridade predomina sobre a justiça Justiça acima da autoridade. Solidariedade acima da obediência Responsabilidade Objetiva Intenção das ações não são avaliadas Subjetiva Julgamento em função das intenções Tipo de sanção Expiatória (sem relação entre delito e religiões primitivas) Supressão momentânea dos laços de reciprocidade Condições sociais propícias Homogeneidade social Gerontocracia e religiões primitivas Diferenciação social Religiões evoluídas Ambiente societário predominante Sociedades conformistas e autoritárias Sociedades modernas e democráticas Status da relação frente à realidade social Existente na maioria dos estados de fato, em particular entre adultos e crianças É tipo ideal. É igualdade de direito e não de fato. É equilíbrio limite Fonte: Fedozzi (2002, p. 112). Biaggio (2006) identifica que os estágios propostos por Piaget trazem concepções de justiça, as quais vão evoluindo a cada novo estágio, percorrendo deste a ideia de retribuição e vingança (justiça retributiva) até a ideia de recuperação do culpado e reparação. Destacando que, na evolução dos estágios, a criança passa de uma moral de autoridade imposta por autoridade exterior para uma moral autônoma fruto da consciência individual. 32 2.2 A Teoria do Desenvolvimento Moral de Lawrence Kohlberg O pensamento piagetiano inspirou muitos estudos no campo do desenvolvimento moral. De modo que a moralidade deixa de ser entendida somente como a questão de atitudes e de preferências morais e passa a ser considerada como competência e cognição. Assim, o trabalho do psicólogo estadunidense Lawrence Kohlberg segue o construtivismo psicogenético piagetiano. Tanto Kohlberg quanto Piaget foram influenciados pelo pensamento de Kant (1724-1804) e pela sociologia de Durkheim (1858-1917) (BIAGGIO, 2006). No entanto, para Kohlberg (1992), os conceitos de heteronomia e autonomia, propostos por Piaget (1932/1994), não classificam em sua integridade os tipos de raciocínio moral (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010). Kohlberg, insatisfeito com os métodos existentes na educação moral baseados no relativismo ético e na doutrinação “saco de virtudes”, ou, ainda, na incorporação das regras sociais, formata sua pesquisa a partir da hipótese de que cada criança ou adulto é um “filósofo moral” que formula padrões organizados sobre questões morais. Esses padrões seguem etapas de desenvolvimento que as crianças passam na mesma ordem, havendo tempos diferentes de duração de cada etapa (PORTER, 2006). Dessa forma, Kohlberg utilizou-se de dilemas morais4 em suas entrevistas clínicas, com intuito de medir a moralidade do sujeito entrevistado, sendo o Dilema de Heinz, um dos mais utilizados nos estudos sobre moralidade. Vejamos, então, a narrativa desse dilema: Num país da Europa havia uma mulher que estava quase morrendo por causa de uma doença rara. Existia só um remédio que poderia salvá-la inventado por um farmacêutico local. O remédio era caro para se fazer e o farmacêutico estava cobrando dez vezes mais do que o remédio lhe custava. O marido daquela mulher doente tomou dinheiro emprestado para comprar o remédio, mas só conseguiu a metade. Ele pediu ao farmacêutico um abatimento ou então que ele lhe deixasse pagar mais tarde. Mas o farmacêutico disse que não vendia por menos e nem vendia fiado, pois tinha inventado o remédio e queria ganhar dinheiro. Então João pensou que única maneira de salvar a sua esposa era arrombar a farmácia e roubar o 4 Um dilema moral é uma situação na qual é imperativo que o sujeito escolha entre duas ou mais ações possíveis, sendo que, independentemente da escolha, haverá uma consequência indesejável ou eticamente censurável. 33 remédio. Pergunta-se: Heinz deve roubar a droga do farmacêutico? Por quê? (FEDOZZI, 2002, p. 128). Ao nos depararmos com o Dilema de Heinz, em que o personagem se vê obrigado a decidir entre a defesa da vida (da esposa doente) e o respeito pela lei e pela propriedade alheia (do farmacêutico), nosso senso de justiça é provocado: Heinz agiu corretamente ao furtar a droga para salvar a vida da sua esposa? A teoria de Kohlberg não se baseia na opinião do entrevistado quanto ao ato, e, sim, nos argumentos que serão utilizados para avaliar a ação. Percebeu-se que diferentes argumentos podem ser dados para a indagação se Heinz deveria ou não furtar o medicamento, como: não deveria furtar, porque seria punido; não deveria furtar por ser um ato inaceitável perante a sociedade; não deveria furtar o remédio, pois isso contraria os mandamentos de Deus; remédios para pacientes em estado graves deveriam ser garantidos pelo Estado; Heinz poderia furtar o remédio, pois o direito à vida é soberano ao direto à propriedade. Dessa forma, Kohlberg evidenciou que as justificativas são ancoradas em distintas perspectivas sociomorais. Com suas pesquisas empíricas com crianças e pré-adolescentes, Kohlberg concluiu que a moralidade deve ser entendida como uma resultante do processo de socialização. O desenvolvimento cognitivo moral ocorre por meio da evolução de estágios, sendo que, a cada nível da hierarquia, correspondem operações que se tornam cada vez mais complexas (ROLIM, 2007). Fedozzi (2002) explicita a Teoria de Kohlberg com a hierarquia de formas de julgar no sentido da justiça crescente: 1) O ato de julgar moralmente recai sobre um processo de role taking, quando se assume uma papel social (Mead); 2) Em cada estágio, o ato de julgar refere para uma nova estrutura lógica – operações mentais (Piaget); 3) A estrutura pode ser referida como estrutura-de-justiça; 4) Cada estágio é mais abrangenteque o estágio anterior (Kohlberg). 34 Kohlberg identificou três níveis de consciência moral, contemplando fases de transição ou intermediárias, entre um estágio e outro. Em cada um destes níveis, hádois estágios diferentes, dispostos numa escala crescente, totalizando a existência de seis estágios de desenvolvimento moral: pré-convencional (estágios 1 e 2), convencional (estágios 3 e 4) e o pós-convencional (estágios 5 e 6). O termo convencional, aqui, significa conformidade e manutenção das normas, expectativas e acordos da sociedade ou autoridade. Desse modo, os níveis de consciência moral propostos por Kohlberg e os seus respectivos estágios, decorrem da relação entre o sujeito e as normas estabelecidas. Essa tipologia é que nos possibilita perceber qual é o senso de justiça que guia o posicionamento do entrevistado frente às normas sociais e aos valores universais (SILVA, 2016). A seguir, um resumo conceitual de cada nível, para melhor compreensão. • Nível pré-convencional: Os indivíduos desse nível, ainda, não têm a noção de reciprocidade, não compreendem e não respeitam as normas sociais e expectativas compartilhadas (BIAGGIO, 2006). Para os indivíduos do nível pré-convencional, o ato é julgado pelas suas consequências e não pelas suas intenções. Portanto, a ação é má se a consequência for o castigo e a ação é boa quando for recompensada com o prazer. Neste nível, o indivíduo julga o certo e o errado apoiado apenas em seus interesses. O que guia seu posicionamento é o medo à punição. A maioria das crianças, até nove anos, adolescentes, jovens envolvidos em atos delituosos e alguns adultos estariam neste nível (FEDOZZI, 2002). • Nível convencional: Refere-se ao nível da internalização das normas coletivas. Neste nível, o sujeito identifica as normas e expectativas dos grupos sociais. O sujeito acredita no valor daquilo que considera certo e acha que deva fazê-lo em justificativa da aceitação ou do respeito à ordem estabelecida. Há uma consciência inicial de que os interesses coletivos são mais importantes do que os individuais. A maioria dos adolescentes e pessoas adultas encontra-se neste nível das relações e lealdades pessoais (FEDOZZI, 2002). 35 • Nível pós-convencional: Neste nível, o sujeito compreende o significado e a importância das normas sociais, mas tem consciência de suas limitações em face de princípios morais de justiça que se sobrepõe a elas. Os valores e princípios têm validade independente da autoridade. O sujeito entende que legalidade é diferente de justiça. Para os sujeitos alcançarem este nível, suas ações e julgamentos são pautados em princípios universais e não em conformidade com as normas morais e expectativas do sistema social vigente (FEDOZZI, 2002). Assim, os pós-convencionais julgam de acordo com seus princípios de conciência e não pela convenção (BIAGGIO, 2006). O quadro abaixo mostra os níveis e estágios de consciência moral da Teoria de Kohlberg. Quadro 2 - Níveis e estágios da consciência moral NÍVEIS ESTÁGIOS 1- Nível Pré-Convencional 1. Orientação para a punição e a obediência 2. Postura hedonista (orientação instrumental) 2- Nível Convencional 3. Moralidade do Bom Garoto 4. Orientação para lei e ordem 3- Nível Pós-Convencional 5. Orientação para o contrato social 6. Validade dos princípios universais Fonte: Rolim (2007, p. 4). Portanto cada nível e estágio de consciência moral trazem perspectivas distintas sobre o senso de justiça. A tabela abaixo descreve as características de cada estágio. 36 Quadro 3 - Fases do Desenvolvimento Moral de acordo com Kohlberg (1981) Estágio 1: Orientação para a obediência e castigo Para evitar quebrar as regras apoiadas pela punição, a obediência por si mesma, evitando danos físicos às pessoas e a si próprio. Estágio 2: Finalidade instrumental e intercâmbio Seguir as regras apenas quando é de interesse pessoal imediato de alguém; agir para satisfazer os seus próprios interesses e deixar os outros fazerem o mesmo; o direito é uma troca igual, um bom negócio. Estágio 3: Acordo interpessoal e conformidade Viver à altura do que se espera das pessoas próximas de si ou do que as pessoas geralmente esperam das pessoas no seu papel; ser bom é importante. Estágio 4: Acordo social e manutenção do sistema Cumprir os deveres reais com os quais concordou; as leis devem ser sempre cumpridas, exceto em casos extremos em que entram em conflitos com outros deveres sociais fixos; o direito também está a contribuir para a sociedade, o grupo ou a instituição. Estágio 5: Contrato social, utilidade, direitos individuais Estar ciente de que as pessoas têm uma variedade de valores e opiniões, que a maioria dos valores e regras são relativos ao seu grupo; mas que geralmente devem ser definidos porque são o contrato social; alguns valores e direitos não relativos como a vida e a liberdade, no entanto, devem ser defendidos em qualquer sociedade, independente da opinião da maioria. Estágio 6: Princípios éticos universais Seguindo os princípios éticos escolhidos por si mesmo, leis particulares ou acordos sociais são geralmente válidos porque se baseiam nesses princípios, quando as leis violam esses princípios, age-se de acordo com o princípio; os princípios são princípios universais de justiça: a igualdade dos direitos humanos e o respeito pela dignidade dos seres humanos como pessoas individuais; a razão para fazer o direito e a crença, como pessoa racional na validade dos princípios morais universais e um sentido de compromisso pessoal com eles. Fonte: Snarey (1985, p. 203). Porter (2006) salienta que a teoria de Kohlberg nos possibilita distinguir o senso de justiça presente nos distintos níveis e estágios de moralidade do sujeito. Cada etapa incorpora certas características da anterior, não havendo uma ruptura total. No entanto, cada estágio envolve uma distinção ou diferenciação não feita no estágio anterior. Os níveis pré-convencional (estágios 1 e 2) e convencional (estágios 3 e 4), do sistema de desenvolvimento moral de Kohlberg, envolvem julgamentos morais que se conformam às condições externas de punição, recompensa, expectativa social e conformidade com a lei. O nível pós-convencional (estágios 5 e 6) envolve o desafio ao que é socialmente aceito e o desafio às ações que exigem mais autocontrole (HEILBRUN JR.; GEORGES, 2011). Como percebemos, o estágio 6 apresenta o nível pós-convencional da consciência moral e revela o seu caráter democrático e transformador, em que os 37 valores universais como justiça, liberdade e igualdade são prioritários sobre as normas legais e o direito de propriedade. Tal nível supõe o exercício da tolerância para com os diferentes, da alteridade e do reconhecimento do coletivo. Gerando assim a perspectiva da desobediência civil frente a leis que produzam injustiça (FEDOZZI, 2002). Heilbrunnn Jr. e Georges (2011) explicam que os indivíduos que se encontram no nível pós-convencional expressam valores morais genuínos não sancionados por autoridade externa, exigindo que o sujeito aja de acordo com um princípio pessoal, apesar da sua consequência. Portanto, o sujeito pós-convencional toma atitudes ancoradas em seus princípios morais, mesmo que esses sejam impopulares, ilegais ou acarretem consequências ruins para o próprio sujeito. Na visão de Porter (2006), a pessoa que se encontra no estágio 6 do nível pós-convencional possui uma capacidade de compreender a justiça, de modo a implicar a capacidade de agir e ser prejudicado, como parte da luta contra a injustiça do mundo. Além desses estágios anteriores, Kohlberg levantou a possibilidade de haver um estágio 7, baseado no misticismo racional, trazendo questões sobre religião e metafísica. Para o autor, o estágio 7 revelaria a necessidade de se pensar além da ciência e da ética. Rolim (2007) sintetiza o tema: Kohlberg também trabalhou em uma tentativa de especificar ainda mais os estágios de desenvolvimento moral, procurando identificar em cada umdeles um momento de maior heteronomia e outro de maior autonomia (ideia de sub-estágios “A” e B”) e passou a cogitar da possibilidade de existência de um “7º estágio” de moralidade, mais vinculado a uma ação orientada por perspectivas éticas ou religiosas que transcendem a ideia de justiça (ROLIM, 2007, p. 7). Assim, através de sua pesquisa inovadora, Kohlberg rompeu com o conceito de moralidade dentro de um discurso religioso ou político, transformando a moralidade em uma temática de pesquisa científica (LIND, 2000). Para Kohlberg o indivíduo sempre parte do estágio 1 e tem o potencial de atingir o estágio 6, sendo cada estágio um alicerce para o estágio seguinte. Rolim (2007) destaca que a Teoria de Kohlberg permite uma análise sociológica das normas estabelecidas vigentes na sociedade e nas instituições, enfatizando que a teoria sustenta que a formação de um senso de comunidade 38 influencia na formação de adolescentes e jovens, postulando assim a “Comunidade Justa”. Kohlberg, então, passou a desenvolver uma proposta de organização fundada em pressupostos democráticos, procurando se aproveitar do senso de comunidade que o coletivismo induzia, tentando, ao mesmo tempo, neutralizar os efeitos conformistas a ele associados. Surgiram, assim, nas décadas de 60 e 70, nos EUA, as chamadas “escolas alternativas” (ROLIM, 2007, p. 7). Sendo assim, podemos perceber que os sujeitos que se encontram no nível pós-convencional da conciência moral, segundo a Teoria de Kohlberg, possuem um estágio moral que situa leis e regras a partir de outra dimensão, vez que elas não representam em sua totalidade a justiça e podem ser modificadas, visando ao bem comum e aos valores universais, o que evidencia a diferença entre legalidade e justiça. Segundo Fedozzi (2002, p. 145), os três níveis de consciência moral construídos por Kohlberg, a partir da teoria psicogenética de Piaget, como se viu representam o desenvolvimento sociomoral dos indivíduos em direção à descentração crescente, partindo do interesse pessoal, passando pelo dever de manutenção das normas até o pensamento orientado por princípios éticos universais, ponto máximo de maturidade do juízo moral (Kohlberg, 1987;1981;1984; Kohlberg et al. 1983; Colby e Kohlberg, 1987, vol 1); A teoria piagetiana do desenvolvimento cognitivo e a teoria do desenvolvimento da consciência da moral, de Kohlberg, fornecem elementos suficientes para pensar-se em tipos ou momentos diferenciados da construção da consciência social de cidadania, pois como já discutimos acima, os estágios de desenvolvimento da moralidade estão ancorados em diferentes perspectivas sociomorais do sujeito em relação aos outros (Eu e os outros) e em diferentes competências interativas. Essas diferentes perspectivas sociomorais, assentadas no conceito de justiça crescente, possibilitam a crescente descentração cognitivo-moral, até à total reciprocidade do role taking. Com a correlação entre consciência moral e consciência de cidadania, entende-se que os níveis pré-convencional, convencional e pós-convencional correspondem aos tipos de consciência de cidadania: consciência de pré-cidadania, consciência de cidadania conformada e consciência de cidadania crítica (FEDOZZI, 2002). De acordo com Habermas (1983 apud RAVELLA, 2010, p. 61), cada indivíduo deve por à prova, monologicamente, a capacidade de generalização de sua norma respectiva. Isso corresponde ao nível 6 de Kohlberg (orientação segundo a consciência). É somente em nível de uma ética universal da linguagem que se podem tornar também objeto de discurso prático as próprias interpretações das necessidades, ou seja, o que cada indivíduo crê que deva ser entendido e afirmado como seus "verdadeiros" interesses. Esse nível não é diferenciado por Kohlberg do nível 6 embora haja entre eles uma diferença qualitativa: o princípio que justifica as normas não é mais o princípio monologicamente aplicável da capacidade de generalização das mesmas, mas o procedimento 39 comunitariamente seguido para emprestar realização discursiva às pretensões de validade normativa. No quadro 4, visualizamos os estágios de consciência moral relacionados com os tipos de consciência de cidadania. Quadro 4 - Estágios de consciência moral e tipos de consciência de cidadania NÍVEIS ESTÁGIOS DE CONSCIÊNCIA MORAL TIPOS DE CONSCIÊNCIA DE CIDADANIA Pré-Convencional 1- Orientação punição e obediência Pré-cidadania 2- Hedonismo instrumental Convencional 3- Bom moço ou Boa moça Pré-cidadania 4- Lei e ordem Cidadania conformada Pós-Convencional 5- Contratualismo democrático Cidadania crítica 6- Princípios éticos universais Fonte: Fedozzi (2002, p. 150). De acordo com Fedozzi (2002, p. 161), pode-se afirmar, assim que os estágios da moralidade pós-convencional são plenamente compatíveis com a consciência de cidadania crítica. Essa concepção está contida na ideia arendtiana de cidadania como “direito a ter direitos” (Arent,1974) o que se, segundo Lefort (1987), também pode ser expresso pela ideia de não-separação entre os direitos e a consciência dos direitos. Nesse tipo de consciência de cidadania, ficam para trás as noções de subordinação e de tutela, que caracterizam a cultura da dádiva, do pedir e do favor, assim com a ética da vantagem e da esperteza (“Lei de Gerson”), da troca pragmática de favores (a exemplo o clientelismo político) e o jeitinho. Surge, assim, uma nova perspectiva sociomoral que permite, também, superar a moralidade da Lei e da Ordem, não por negar o caráter civilizatório contido na ordem racional-legal, mas por compreender a insuficiência da perspectiva da “Lei e da Ordem” frente à questão prática- moral da universalização da justiça. A consciência pós-convencional postula que os indivíduos sejam capazes de pensar a sua relação com o diferente, a partir da capacidade de reconhecimento e diálogo. A consciência pós-convencional torna-se, dessa forma, uma condição para o exercício da democracia em todos os níveis de sociabilidade e equivale à consciência crítica. Rolim (2007, p. 10) discute os efeitos práticos do nível pós- convencional na cultura democrática 40 com os juízos práticos do nível pós-convencional os sujeitos alcançam a condição mais desenvolvida da competência moral, o que lhes permite valorizar os procedimentos democráticos – pelo reconhecimento da legitimidade das pretensões dos demais (estágio 5) – e orientar suas ações por princípios éticos de natureza universal – com os quais se relacionam, concretamente, com o conjunto da humanidade (estágio 6). A cidadania crítica é um requisito para o processo de autoinstituição da sociedade. É a capacidade de perceber que as leis nem sempre são justas e que temos o poder de modificá-las e corrigi-las. Essa forma de consciência está ancorada na capacidade do sujeito contrastar determinadas normas da sociedade, caso elas impeçam a garantia de valores maiores, como o bem-estar da população, a vida e a dignidade humana, permitindo, assim, a existência da transformação social, gerando uma sociedade mais justa e igualitária (FEDOZZI, 2002). A empatia é a organização cognitiva da atitude de identificação como “Outro”, sendo a base substantiva do componente da benevolência no respeito pelas diferenças. A empatia pressupõe o reconhecimento do “Outro” e da necessidade de interagir com ele. O respeito pelas pessoas é interpretado por meio de uma compreensão de judicação que tem por princípio a justiça. Assim, sugere-se a adoção da reciprocidade para resolução de situações problemáticas. Nessa perspectiva, o senso de justiça deveria ser guiado através do exercício de se colocar no lugar do “Outro”. A norma é justa quando considerados os interesses básicos de todos. Portanto, a empatia é o reconhecimento da dignidade e integridade dos outros como seres únicos e especiais(KOHLBERG, 1990 apud BIAGGIO, 2006). No contexto do Dilema de Heinz, a reciprocidade e empatia, características contidas no estágio 6, podem ser vistas quando o sujeito tem a capacidade de se colocar no lugar de cada um dos personagens da história. Dessa maneira, o sujeito levaria em consideração o direito da vida da esposa e o direito da propriedade do farmacêutico, imaginando os agentes trocando de lugar, considerando os direitos um do outro de forma igual, o que expressa a adoção de papel multilateral (KOHLBERG, 1990 apud BIAGGIO, 2006). Ainda de acordo com Fedozzi (2002, p. 157), um dos dramas da sociedade brasileira, decorrentes do seu caráter híbrido, ao mesmo tempo tradicional e moderno, é a necessidade de criar uma consciência de cidadania crítica – possível somente por meio da superação da consciência típica do estágio 4 (Lei e Ordem) – sem ter gerado estruturas sociopolíticas e transformações socioculturais compatíveis com esse estágio da consciência social. Esse parece ser um dilema que torna mais complexa a construção material e cultural da cidadania no Brasil, pois 41 se situa na contramão de uma época histórica que suprime direitos sociais arduamente conquistados pelos movimentos das classes subalternas nos países centrais do capitalismo durante o século XX. Kohlberg postula que há relação entre julgamento moral e comportamento moral. A partir de nova análise dos dados de Haan, Smith e Block (1968), acerca do movimento pela liberdade de expressão em Berkeley e novo exame do experimento de Milgram (1974), Kohlberg também evidencia uma relação entre julgamento e comportamento, analisando os escores obtidos pelos estudantes ativistas e não ativistas do caso da ocupação da Universidade de Berkeley, sendo mais altos os escores dos estudantes ativistas. Já no experimento de Milgram, que recrutou estudantes voluntários para uma pesquisa onde eram comandados a dar choques elétricos em um colega (em uma situação que os sujeitos tinham como verdadeira, embora não houvesse choques reais e a “vítima” fosse, de fato, um ator), se evidenciou que os estudantes com maior nível de maturidade moral, foram os que se recusaram a cumprir a ordem (BIAGGIO, 2006). Fedozzi (2002, p. 163) sintetiza a contribuição da teoria do desenvolvimento cognitivo-moral de Kohlber e Piaget, sublinhando o desafio da transformação social: A consciência de cidadania crítica é, por isso, francamente aberta à transformação social. Eis o cerne da contribuição que a teoria do desenvolvimento cognitivo-moral de Piaget e de Kolberg oferece às ciências sociais. Em conjunto com a sociologia, essa contribuição possibilita construir um referencial teórico capaz de examinar empiricamente os níveis de consciência moral e, consequentemente, os tipos prováveis de consciência de cidadania, assim como as condições sociais que bloqueiam ou que facilitam o processo dessa construção. Rolim (2007), por seu turno, sustenta que a Teoria de Kohlberg oferece uma consistente base para estudos sobre a formação da consciência moral e competência moral, destacando claramente o seu caráter interdisciplinar e a contribuição que a Teoria pode produzir em estudos nas áreas da Criminologia, Serviço Social, Antropologia e Sociologia. Assim, percebemos porque Kohlberg oferece um referencial capaz de examinar empiricamente as perspectivas sociomorais e, consequentemente, o senso de justiça, inaugurando espaço de debate sobre as condições sociais que favorecem o processo desta construção. 42 2.3 O senso de justiça em John Rawls e a competência moral-democrática em George Lind “O dever de justiça é devido aqueles que são capazes de um senso de justiça” John Rawls O conceito de senso de justiça tem sido objeto de uma complexa discussão que envolve não apenas os filósofos e os teóricos do Direito, mas também é objeto da reflexão de sociólogos, psicólogos, pedagogos, entre outros. Para Adam Smith, por exemplo, o senso de justiça deveria ser compreendido como o equivalente à consciência anterior que “todo o homem honesto” teria. Não existe um homem normalmente honesto que ... não sinta interiormente a verdade daquela grande máxima estóica, segundo a qual um homem privar outro injustamente de qualquer coisa, ou injustamente alcançar vantagem pessoal em prejuízo ou desvantagem de outro, é mais contrário à natureza do que a morte, do que a pobreza, do que a dor, do que todos os infortúnios que podem afetá-lo, seja em seu corpo, seja em suas circunstâncias externas (SMITH, 1759 apud DUBBER, 2005, p. 819).5 Outros pensadores como Rousseau (1973) compartilharam essa noção segundo a qual o senso de justiça expressava um sentimento natural, iluminado pela razão, mas ancorado em nossos afetos primordiais. Para Rawls o senso de justiça também diz respeito a atitudes naturais, embora seja mais do que isso: Para fins desta discussão, tomo o senso de justiça como sendo algo que as pessoas efetivamente possuem. Referimo-nos a ele quando dizemos, por exemplo, que punições cruéis e fora do comum ofendem o senso de justiça. O senso de justiça pode ser estimulado ou amenizado, e está relacionado não apenas aos sentimentos morais como ressentimento e indignação, mas também, como argumentarei, a atitudes naturais como a confiança mútua e o afeto. A construção psicológica é concebida para mostrar como o senso de justiça pode ser visto como o resultado de um certo desenvolvimento natural; será útil para entender porque a capacidade para um senso de 5 No original: There is no commonly honest man who ... does not inwardly feel the truth of that great stoical maxim, that for one man to deprive another unjustly of anything, orunjustlytopromotehisownadvantagebythelossordisadvantageofanother, is more contrary to nature, than death, than poverty, than pain, than all of them is fortunes which can affect him, either in his body or in his external circumstances. 43 justiça é o aspecto fundamental da personalidade moral na teoria da justiça (RAWLS, 1963, p. 3). Para Rawls, o ressentimento é a reação moral que temos diante da injustiça que sofremos, enquanto a indignação moral é a reação diante da injustiça imposta aos outros. Ter sentimentos morais dessa ordem pressupõe a aceitação de princípios gerais e universais o que já significa incorporar a noção de que há limites a serem observados quanto aos interesses dos indivíduos. Os princípios, no mais, “devem enunciar certas restrições específicas” (RAWLS, 1963, p. 4). Rawls entende que há um processo de construção do senso de justiça e que ele ocorre, na dimensão psicológica, a partir do desenvolvimento de três formas de sentimento de culpa: “culpa com relação à autoridade (authority guilt), culpa com relação à associação (association guilt) e culpa com relação a princípios (principle guilt)” (RAWLS, 1963, p. 5). O processo transita, assim, de uma posição mais propriamente autocentrada (como ocorre com as crianças em relação aos seus pais), alcançando uma dimensão social (na relação com os pares) e uma dimensão abstrata (em que me valho de princípios para considerar todas as pessoas). Essa dinâmica situa potenciais diversos: Certamente algumas pessoas têm uma maior capacidade para um senso de justiça do que outras. Essas pessoas podem ser adequadamente colocadas em posições nas quais as virtudes judiciosas são especialmente adequadas, mas sua capacidade superior deve ser considerada como qualquer outra vantagem na loteria natural, os benefícios advindos dela estão sujeitos aos princípios da justiça. Uma capacidade especial para um senso de justiça pode, então, qualificar um homem para certos cargos, mas assumindo que um certo mínimo é satisfeito, esses dotes peculiares não são um fundamento apropriado para estabelecer diferentes graus de cidadania. O mínimo basta para compartilhar a posição de igual cidadania em uma democracia constitucional(RAWLS, 1963, p. 5). Rawls conclui seu artigo sobre o senso de justiça afirmando que “a consequência natural dessa construção é que a capacidade para o senso de justiça é o aspecto fundamental da personalidade moral na teoria da justiça”. O senso de justiça deve ser, então, compreendido, na senda proposta por Rawls, como uma capacidade e uma disposição específicas com as quais se pode considerar todas as pessoas como titulares dos mesmos direitos e liberdades, vale dizer, com a mesma legitimidade de postular suas opiniões e interesses. Esse ponto de vista, tão equidistante quanto possível, inclusive e especialmente das minhas opiniões e interesses, assinalaria o “senso de justiça”. Para alcançar essa posição (ou ponto de 44 vista), assim, é preciso contar com elevadas competências morais. O que fez com que Dubber (2005, p. 817) assinalasse: Entendido como uma competência moral geral que consiste em um pacote de capacidades afetivas e cognitivas, o senso de justiça é a cola que mantém as comunidades de justiça unidas em um moderno mundo vazio de semelhanças substantivas6. Assim postulamos que o desenvolvimento do senso de justiça caminha com o desenvolvimento da competência moral do indivíduo. Quando o senso de justiça está presente na sociedade, está presente também a ideia de justiça como equidade onde todas as pessoas são titulares dos mesmos direitos e liberdades. Rawls (1963) toma o senso de justiça como sendo algo que as pessoas efetivamente possuem, de modo que o senso de justiça pode ser estimulado ou amenizado. Por seu turno, George Lind (2000) propõe uma metodologia capaz de mensurara competência moral-democrática de um grupo de indivíduos. A teoria de Lind postula que o juízo moral deve considerar os aspectos cognitivos e as propriedades afetivas (sentimentos, valores, motivações, etc.) e que ambas as capacidades são aplicadas ao processo de decisão moral do que seria justo na situação enfrentada. Sua teoria é fundamentada em três pontos centrais: 1º - Conceitua juízo moral como um tipo particular de comportamento humano, o qual pode ser representado em categorias afetivas e cognitivas. Cognição aqui possui o significado de estruturas cognitivas tácitas diretamente retratadas no seu senso de julgamento e na tomada de decisão do que seria justo. 2º - A partir do modelo dual do juízo moral, Lind cria uma metodologia pela qual é possível obter ambos os grupos de categorias descritivas com o mesmo padrão de comportamento de julgar e não com grupos diferentes formados pelos chamados comportamentos “afetivo” e “cognitivo”. De modo que afeto e cognição não podem ser separados em diferentes domínios comportamentais, mas podem ser distinguidos e medidos de um modo diferente. 6 No original: Understood as a general moral competence that consists of a bundle of affective and cognitive capacities, the sense of justice is the glue that holds communities of justice together in a modern world void of substantive commonalities 45 3º - Estruturas cognitivas do juízo moral podem ser diretamente identificadas como uma propriedade do comportamento de julgar, mais do que inferidas através de sinais. Lind (2002) postula que o é um componente indispensável do comportamento moral, estando presentes, assim, no senso de justiça do indivíduo para a tomada de uma decisão. Esse tema já havia sido levantado por Kohlberg, mas ele baseou seu conceito de competência moral apenas em aspectos cognitivos; já Lind sustenta que se deve integrar as duas dimensões, mensurando-as simultânea e independentemente. Kohlberg define moral como uma competência em que os melhores juízos têm por característica um alto nível de diferenciação e integração no comportamento de julgar moralmente. Assim a competência moral também aponta para a integração democrática de indivíduos, onde a Teoria de Georg Lind inclui a habilidade em se reconhecer princípios morais em argumentos contrários e estabelecer diálogo com diferentes posições para a construção de decisões justas. Para Lind (2019), a competência moral-democrática é definida como a habilidade de resolver problemas e conflitos por meio da apreciação de argumentos e de uma deliberação resultante de uma discussão. Ele postula que alguns indivíduos não possuem essa capacidade de aplicar princípios morais em situações concretas e de resolver conflitos morais entre princípios conflituosos. A teoria de Lind (2000) ainda incluiu a possibilidade de progressões e regressões no desenvolvimento moral do sujeito, de modo que a competência moral- democrática pode ser adquirida ao longo da vida. Kohlberg (1984), como Piaget, afirmou que a moralidade não é apenas um problema de ideias morais ou atitudes, mas que a moralidade tem um forte aspecto cognitivo ou aspecto de competência. “O que conceituo como raciocínio moral é uma competência cognitiva. Uma criança pode possuir altos princípios morais, tais como justiça e manutenção de uma promessa, já em uma idade bastante precoce, mas faltar-lhe à competência para aplicá-los de modo consistente e de modo diferenciado nas tomadas de decisão do dia (LIND, 2000, p. 404). Lind (2000) parte dos pressupostos da teoria kohlberguiana, mas sustenta que ela é falha na definição de comportamento moral, sendo crítico à metodologia da Entrevista de Juízo Moral de Kohlberg. A teoria ainda tem a pretensão de 46 completar a lacuna entre o julgamento moral e a ação moral. Kohlberg não teria escolhido uma validade teórica, mas sim um critério empírico, enfatizando que o que Kohlberg pretende medir em sua teoria não resulta no que de fato o Moral Judgment Interview (MJI) é capaz de medir. Para Lind, o teste criado por Kolberg não pode ser usado como um critério não tendencioso para avaliar a teoria cognitiva evolutiva. Inicialmente, Kohlberg utilizou dilemas morais em seus estudos clínicos. Para validar sua Teoria sobre juízo moral e competência moral, Kohlberg e pesquisadores que trabalham com sua abordagem desenvolveram alguns instrumentos de pesquisa que medem o juízo moral ou competência moral em escalas mais amplas. Atualmente, três são os instrumentos mais utilizados em pesquisas sobre moralidade: a) Moral Judgment Interview (MJI), b) Defining Issues Test (DIT) e c) Moral Judgment Test (MJT). a. Moral Judgment Interview - MJI (Entrevista de Julgamento Moral): Constitui-se de uma entrevista oral semiestruturada, que avalia o juízo moral do entrevistado, através de uma conversa a partir da apresentação de três dilemas morais. O tempo de realização do teste é, aproximadamente, de 60 minutos, normalmente gravada. Os dilemas abordam questões sobre vida/lei; moralidade/consciência/castigo e contrato/autoridade. A MJI, assim, identifica o perfil moral do entrevistado a partir dos argumentos utilizados pelo sujeito, analisando o seu posicionamento frente às atitudes do personagem central do dilema narrado. No Brasil, a MJI tem sido utilizada por pesquisadores como Bataglia (1996), Biaggio (1984), Koller, Biaggio e Viñas (1992), Lepre (2005), Lepre e Martins (2009), Lins (1993) (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010). b. Defining Issues Test – DIT (Teste de Definição de Questões): Kohlberg fez da técnica de entrevista seu único instrumento de coleta de dados. Em busca de uma escala mais objetiva que permitisse a aplicação em maior amplitude, o Defining Issues Test (DIT) foi elaborado por Rest, em 1979 (REST, 1986), contudo o instrumento manteve o alinhamento com pressupostos elaborados por Kohlberg. Assim, o DIT também apresenta dilemas ao entrevistado, o qual deve avaliar doze justificativas de resolução ao dilema, dentro de uma escala de cinco graus, devendo, ainda, hierarquizar as quatro justificativas percebidas como as mais relevantes. O Instrumento foi trazido ao Brasil por Bzuneck em 1979 que o 47 traduziu como “Teste de Julgamento de Situações”.Sendo reformulado por Camino; Luna; Alves; Silva; Rique (1988/1989) que o identificaram como “Opiniões sobre problemas sociais”. O teste pode ser aplicado com seis dilemas (versão longa) ou três dilemas (versão curta). O instrumento fornece o score P que representa a porcentagem da moral pós-convencional do entrevistado (BATAGLIA; MORAIS; ELEPRE, 2010). c. Moral Judgment Test – MJT (Teste de Julgamento Moral): Instrumento desenvolvido por Georg Lind na década de 70, denominado atualmente de Teste de Competência Moral – MCT é baseado nos pressupostos da teoria cognitivo- desenvolvimentista de Kohlberg. O MJT trata de um aspecto do desenvolvimento moral que não é contemplado pelos demais instrumentos desenvolvidos, avaliando a capacidade do sujeito em aplicar a estrutura de juízo em situações adversas. O MJT é baseado na Teoria de Dois Aspectos do comportamento de julgamento moral de Lind. O MJT consiste na apresentação de dilemas, onde o personagem central da história se depara com uma situação de conflito. O dilema surge, porque o evento narrado envolve a transgressão de valores ou princípios morais. Em cada dilema o personagem central toma uma atitude, cabendo ao entrevistado concordar ou não com ela, devendo ainda mensurar o grau de concordância ou discordância numa escala de 7 pontos que vai do -3 ao +3 (Escala de Likert7), em seguida o entrevistado deve “julgar” argumentos a favor e argumentos contrários à atitude tomada pelo protagonista do dilema, os quais representam concepções distintas para justificar a atitude tomada ou para condenar esta atitude (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010). Assim, Lind elabora um novo método de pesquisa para medir competência moral, o Moral Judgment Test – MJT, hoje chamado de Moral Competence Test - MCT, que possibilita avaliar a capacidade do entrevistado em diferenciar a qualidade moral dos argumentos, mensurando o aspecto dual em que o afetivo e o cognitivo integram a compreensão do comportamento moral. Sua teoria trabalha a noção de Kohlberg de competência de julgamento moral em conjunto com o modelo de 7 Referência à escala proposta por Rensis Likert, em 1932, que permite aferir a intensidade da concordância ou da discordância dos entrevistados diante de uma afirmação ou situação exposta. A cada resposta é atribuído um número que reflete a atitude específica do respondente. 48 comportamento de duplo aspecto piagetiano. Conservou ainda a ideia de questionário experimental de Piaget, com dilemas comportamentais. Um dos elementos importantes do método de promoção das competências democráticas, desenvolvido por Georg Lind, é o Teste de Julgamento Moral, que permite “avaliar a capacidade das pessoas de julgar argumentos pró e contra um problema moral controverso com base em seus próprios princípios morais, isto é, independentemente de sua opinião sobre o problema particular. Além disso, deve fornecer medidas das atitudes dos participantes em relação aos seis estágios kohlbergianos do raciocínio moral (LIND, 2008, p. 195). Assim a competência moral-democrática é transformada em uma pontuação, o "C-score". Lind através da identificação do C-score do sujeito, consegue mensurar seu nível de competência moral. De modo que escores baixos representam baixa competência moral para a democrática e escores altos representam uma alta competência. Lind (2016) sugere que um C-score de 20 pontos seria uma espécie de limite, que todos deveriam atingir a convivência em paz, onde sujeitos com escores altos possuem competência moral para deliberação através do diálogo, já sujeitos com escores baixos possuem uma baixa competência moral, demonstrando uma maior necessidade de violência, engano, ou submissão sob outros aspectos (LIND, 2019). Figura 1 - C-score Fonte: Lind (2019a, p. 5). Na Teoria de Lind se postula que o C-score baixo representa que o indivíduo só valoriza as ideias de pessoas que pensam da mesma forma que ele, enquanto 49 indivíduos com escores elevados valorizam a diversidade de julgamentos, desenvolvendo assim a comunicação colaborativa (AGURTO et al., 2017). Lind (2000) enfatiza a inovação da abordagem do Teste de Juízo Moral, destacando que ele tem o objetivo de demonstrar o modo de julgar do entrevistado. Nosso Teste de Juízo Moral, entretanto, é muito diferente da abordagem de entrevista clínica de Piaget, e da atitude tradicional de testes. Primeiro, a teoria na qual sua construção é baseada é estabelecida de forma antecipada, explicitamente, e não post hoc. A tarefa moral que é crucial para se trazer à tona a competência moral do sujeito pode ser claramente estabelecida: para obter um alto escore, o sujeito deve ser capaz de demonstrar por seu comportamento de julgar que aprecia a qualidade moral de um dado argumento a despeito do fato desse argumento estar completamente em desacordo com sua opinião sobre a solução do dilema em consideração (LIND, 2000, p. 406). Assim para Lind (2019) a competência moral é uma capacidade a qual as pessoas revelam no seu comportamento, a qual pode ser identificada inclusive no comportamento que as pessoas adotam numa discussão. De acordo com Lind (2019a, p. 2), a competência moral também é necessária porque o significado dos princípios morais é frequentemente contestado e requer julgamento. Não é fácil julgar em situações concretas o que é "justiça" meios. Podemos sentir que algo é "não apenas". Mas quando tentamos explicar porque nos sentimos assim, ou seja, quando precisamos de pôr os nossos sentimentos em palavras, e quando precisamos de responder a perguntas num debate com outros, depressa descobrimos que o processo de articulação e discussão requer certas capacidades.8 Lind (2002) ainda postula que alguns indivíduos não possuem a capacidade para aplicar princípios morais em situações concretas e de resolver conflitos morais entre princípios conflituosos. Lind (2019a) ainda considera que falta de competência moral-democrática é responsável pelas desigualdades. De modo que para que uma democracia funcione eficazmente, as pessoas devem possuir uma elevada competência moral- democrática, pela qual os sujeitos são capazes de resolver problemas e conflitos por 8 No original: Moral competence is also needed because the meaning of moral principles is often contested and requires judgment. It is not easy to judge in concrete situations what “justice” means. We may feel that something is “not just.” But when we try to explain why we feel so, that is, when we need to put our feelings into words, and when we need to respond to questions in a debate with others, we soon discover that the process of articulation and discussion requires certain abilities. 50 reflexão e discussão com base em princípios morais. Lind (2019a) ainda postula que a democracia como forma de vida requer uma competência moral. Lind (2019) argumenta que a competência moral-democrática é necessária, justamente porque muitas vezes nossas ideias morais entram em conflito, e nos colocam numa situação de dilema. De modo que para resolver estas situações difíceis precisamos da capacidade de empatia e de valorização dos argumentos dos adversários e ainda devemos considerar as consequências das nossas próprias decisões. De modo que na maioria das vezes estas situações de dilema, nos exigem que façamos tudo isso em pouco tempo, ou seja, as situações difíceis muitas vezes precisam ser resolvidas no momento que se apresentam. Assim os indivíduos de baixa competência moral, por consequência não possuem habilidades para a vida democrática. A democracia assim exige uma cidadania com uma moral-democrática elevada, para que exista uma participação em que os sujeitos sejam capazes de expressar suas opiniões e necessidades com a mesma capacidade para compreender as necessidades e convicções dos outros (LIND, 2019) Já Ralws (1963) elucida que o senso de justiça éuma capacidade da personalidade moral, que se pode ter ou não. Por isso, o dever de justiça, é devido por aqueles que são capazes de um senso de justiça, algo que pode ser estimulado ou constrangido. Rawls (1963), ainda argumenta que uma sociedade onde as pessoas não possuíssem senso de justiça seria incapaz de se comover com as injustiças. Finalmente, alguém pode sustentar, seguindo Kant, que uma vontade boa, ou, no caso presente, um senso de justiça é uma condição necessária de dignidade (worthiness) para ser feliz. Pode-se afirmar que o senso de justiça é uma parte necessária da dignidade da pessoa e que é essa dignidade que atribui um valor à pessoa distinto e logicamente anterior à sua capacidade de satisfação e sua capacidade de contribuir para a satisfação das demais através do desenvolvimento de seus talentos. É por essa dignidade que a concepção de justiça como equidade está correta ao ver cada pessoa como, por assim dizer, um soberano individual, cujos interesses não devem ser sacrificados por um maior saldo líquido de felicidade, mas apenas de acordo com princípios que todos poderiam reconhecer numa posição inicial de igual liberdade. Pode-se dizer que se ninguém tivesse um senso de justiça, não haveria qualquer objeção ao princípio utilitarista. Na ausência desta capacidade, o fato de estar sujeito ao prazer e à dor, à alegria e à tristeza, pode ser tomado como o único relevante, e então o princípio da maior felicidade seria totalmente natural. Certamente, na ausência da 51 capacidade para um senso de justiça, ninguém poderia queixar-se caso o princípio utilitarista fosse aplicado, e, de tal modo, a posse de um senso de justiça é necessária para garantir a concepção de justiça como equidade. A falta de um senso de justiça, entretanto, minaria nossa capacidade de nos identificarmos e de nos preocuparmos com tais pessoas, se é que tal sociedade pode existir. Em uma sociedade em que as pessoas não possuíssem senso de justiça, não ficaríamos comovidos com a injustiças, já que elas não poderiam se ressentir e ficar indignadas sobre si mesmos, não poderíamos nos ressentir e ficar indignados por eles (RAWLS, 1963, p. 15). Diante do conceito trazido por Rawls (1963) onde o senso de justiça é uma capacidade da personalidade moral que o sujeito pode possuir ou não o conceito trazido por Lind (2019) sobre os impactos da competência-moral para a democracia, postulamos que uma alta competência moral-democrática pode ser tomada como um “marcador” para um senso de justiça mais apurado. 2.4 A inclusão do outro no Estado Democrático de Direito Desde as proposições de Aristóteles até o debate político contemporâneo, a complexidade da sociedade e dos problemas a serem regulados politicamente, nos move a pensar e debater sobre a relação entre política, direito, justiça e moral na esfera pública e da própria concepção de Estado. Assim indagamos as interfaces que a competência moral do parlamentar com o seu senso de justiça e suas consequências na efetivação dos direitos humanos, da justiça, igualdade, reconhecimento, multiculturalismo e inclusão no Estado Democrático de Direito. Até chegarmos à experiência contemporânea das democracias, a humanidade experimentou distintas formas de organização social. Os humanos, para sua sobrevivência, sempre viveram em bandos, dos bandos, tribos, vilas, cidades, províncias e Estados; formando-se assim grupos sociais e estabelecendo- se parcerias. Nessas formas associativas nasceram, também, os códigos e as regras. Para Starbinski (2015 apud ROUSSEAU, 2015, p. 17), [...] as variações do clima e a esterilidade de certas terras fizeram com que o homem deixasse de bastar a si mesmo; a natureza já não lhe dava tudo que necessitava. Instigado por “esses concursos singulares e fortuitos de circunstâncias”, o homem ocioso tomava consciência de que devia conquistar aquilo de que precisava e logo descobriria que podia superar obstáculo com esforço. Ocasionalmente, associava-se a outros homens em um esforço comum, e dessa aproximação se originava a consciência da diferença: o trabalho conduzia cada homem a comparar-se ao outro, fazendo com que desenvolvesse a sua razão, até então uma faculdade 52 virtual. Aos poucos, o homem adquiria poder sobre o mundo à sua volta, mas deixava em relação imediata com ele. À medida que a ferramenta se interpunha entre ele e o mundo, o homem deixava a condição animal. O cuidado com o “outro” precede a organização Estatal, de modo que os seres humanos sempre precisaram uns dos outros para sua própria sobrevivência. Para antropóloga Margaret Mead, um fóssil de um fêmur fraturado de 15 mil anos, encontrado em um sítio arqueológico, assinala um sinal de civilização, pois, em sociedades sem os benefícios da Medicina moderna, levava-se muito tempo para a cura de uma fratura de fêmur. O fato de o osso de um fêmur fraturado ter sido curado indica que alguém teria cuidado daquele que havia se machucado. Para Mead, quanto mais nos civilizamos, mais cuidamos do outro. Hegel destaca que os sujeitos se movem juntos, seguindo a noção Aristotélica de que, na natureza humana, já estão inscritas como um substrato as relações de comunidade (HEGEL,1970 apud HONNETH, 2009). É possível vislumbrar os caminhos percorridos no processo de humanização como um duelo entre a luta pela sobrevivência e a evolução moral. Nessa chave, a política serve como alicerce da busca pelo bem viver, assim como também preconiza uma luta pelo Poder e pela constante afirmação de grupos. Aristóteles compreendia a ética como práxis valorativa na qual a práxis orienta o sentido da ação. Ele estabelece um percurso entre a política e o bem viver, onde o bem viver transcende a mera vida natural. O termo zoe, na cultura grega, designa a mera vida natural, o termo bios traz o conceito de uma vida social e política (RUIZ, 2007). Quem se propuser pesquisar de forma adequada qual é a melhor política, deve primeiro determinar que é a vida melhor. Enquanto isso não for esclarecido não se perceberá com clareza qual é a melhor política. [...] Por isso devemos, antes de tudo, pormo-nos de acordo acerca de qual vida (bios) entre todas é, por assim dizer, a melhor para todos, e depois se é a mesma para uma comunidade e para um indivíduo, ou diferente (ARISTÓTELES, 1989 apud RUIZ, 2007, p. 266). Aristóteles concebe que uma Pólis deve poder orientar a virtude de seus cidadãos; do contrário, o Estado não passaria de uma mera associação. Assim o Estado recebe do Direito romano o nome de societas, representando uma aliança entre Estados na forma de uma vinculação social entre cidadãos (HABERMAS, 2013). 53 Aristóteles apresenta a justiça como algo inerente aos seres humanos. Para Aristóteles, o justo e o injusto sempre envolvem mais de uma pessoa (MORAES; ASSIS, 2015). Na antiguidade o conceito de justiça advinha da ideia de “dar o que lhe cabe”; noção que guia pensadores como Justiniano e Cícero e, na Idade Média, Tomás de Aquino. Tomás de Aquino se ampara na concepção aristotélica, no sentido de compreender que, mesmo que um Estado seja fundado pela virtude da sobrevivência, ele só se mantém em virtude na vida boa. Concebendo assim que, para a comunidade possuir status de Estado, ela deve permitir que seus cidadãos possam realizar ações virtuosas. Contudo, São Tomás não concebe essa comunidade de maneira genuinamente política; de modo que, se a ordem da polis se consuma na participação dos cidadãos na administração, legislação, jurisprudência e deliberação, então a substância da política se forma do diálogo público e no tipo de ação dos cidadãos que rompe com a velha política de dominação. Da política aristotélica, São Tomás transforma a política em uma filosofia do social, de modo a manter a relação entre ética e política a partir de uma construção ontoteológica, partindo de uma ordem social na qualidade deordem virtuosa: a lex natura é, assim, fundamenta a ordem de civitas na qualidade de societas (HABERMAS, 2013). Nicolau Maquiavel (2019), por seu turno, rompe com uma visão teológica e funda o realismo político. Para ele, o conflito social partia de um mundo de disputas pelo poder. Assim Maquiavel pensa as estratégias políticas para a conquista e a manutenção do poder. Seu pensamento conflita com a moral cristã de seu tempo, sendo o Estado o bem supremo a ser preservado, inaugurando uma forte discussão da relação entre ética e política. Maquiavel usa os conceitos Virtú e Fortuna, mas o faz marginalmente como recursos do sujeito para a luta pelo poder, onde o campo da ação social é o das lutas dos sujeitos pela conservação de sua identidade física (HONNETH, 2009). No mesmo ano que Maquiavel concebe o Príncipe, Thomas More escreve a Utopia, debatendo questões a respeito da ordem absolutista. Habermas (2013) destaca que os pensadores modernos (Maquiavel e More), diferentemente dos pensadores antigos, não se perguntam mais pelas relações éticas da vida boa, mas 54 pelas condições factuais de sobrevivência. Se o ponto de partida dos antigos era de que maneira os humanos podem satisfazer a uma ordem natural, o ponto de partida dos modernos é a maneira como eles podem dominar o ameaçador mal natural. Thomas Hobbes, no Leviatã, concebe que, no “estado de natureza”, a condição humana é a de guerra de todos contra todos. Para Hobbes (2020), sem um governo os humanos entrariam em conflito por conta da escassez de bens ou para obter poder. Ainda na visão de Hobbes os seres humanos precisavam ser governados, já que, na sua visão, a natureza humana era essencialmente egoísta. Já na perspectiva de Rousseau (2015), os conflitos humanos resultaram da produção de excedentes, logo os humanos se viam determinados por sua dependência em relação aos “outros”. Os menos hábeis e menos violentos foram sendo excluídos e condenados à pobreza. Dentro desse cenário, celebrou-se o que Rousseau designou como “contrato social”, onde o mais rico, desejando se consolidar, impôs as suas vantagens, originando a desigualdade, garantindo a propriedade do rico, um direito que antes não existia. O contrato primitivo era abusivo e favorecia apenas os mais fortes. Rousseau sugere que foi necessário que os humanos deixassem o seu isolamento primitivo para que as sociedades políticas e as leis se tornassem necessárias. Para Kant (2019), o Direito é o conjunto de condições sob as quais o arbítrio de um pode se harmonizar com o arbítrio do outro, portanto o Direito afeta a relação de uma pessoa com a outra, permitindo a liberdade do arbítrio de cada um e respeitando a liberdade de todos, de acordo com uma lei universal. O conjunto das leis que carecem de uma promulgação universal para suscitar um Estado Jurídico é o direito público. Este é, portanto um sistema de leis para um povo, ou seja, para um conjunto de homens, ou para um conjunto de povos, que, encontrando-se em si numa relação de influência mútua, necessitam de um Estado Jurídico que os unifique sob uma vontade, sob uma constituição (constitutio), para compartir o que é o direito. – Este estado dos indivíduos num povo, em relação recíproca, é o Estado Civil (status civilis), e o conjunto dos mesmos, em relação aos seus próprios membros, é o Estado (civistas) que, graças à sua forma, se denomina comunidade (republica latius sic dicta), porquanto está unido pelo comum interesse de todos se encontrarem no Estado Jurídico; mas em relação a outros povos, chama-se simplesmente potência (potentia) (daí a palavra potentado). Em virtude da sua (presumida) união herdada, denomina-se também nação (gens) e, por isso, sob o conceito geral de direito público não se pensa apenas no direito político, mas ainda em um direito de gentes (ius gentium); um e outro em conjunto, porque a Terra não é ilimitada, mas sim uma superfície por si só limitada, levam inevitavelmente a ideia de um direito político das gentes (ius gentium), ou direito cosmopolita 55 (iuscosmopoliticum); pelo que, se a um destas três formas do Estado Jurídico faltar o princípio que restringe a liberdade externa mediante leis, o edifício das restantes fica inevitavelmente minado e acaba por se derrubar (KANT, 2019, p. 127). Kant (2019), ainda concebe que o Poder Legislativo deve representar a vontade coletiva do povo, sendo que os membros de um Estado, unidos por uma legislação, são os cidadãos que só obedecerão às leis a que deram seu consentimento. Sobre a moralidade da ação, assevera: Estas leis da liberdade, diferentemente das leis da natureza, chamam-se morais. Se afetam apenas ações meramente externas e a sua conformidade com a lei, dizem-se jurídicas; mas se exigem também que elas próprias (as leis) devam ser os fundamentos de determinação das ações , então são éticas e diz-se que a coincidência com as primeiras é a legalidade, a coincidência com as segundas , a moralidade da ação (KANT, 2019, p. 18). Kant combina na moral, em uma mesma pessoa, dois papéis, a do cidadão que participa da legislação e do indivíduo subordinado às leis. Isso só é possível quando a competência legisladora não age de forma arbitrária, mas sim ancorada com a constituição de uma coletividade. Assim, uma lei somente é válida no sentido moral, quando ela pode ser aceita por todos a partir da perspectiva de cada um (HABERMAS, 2018). Fedozzi (2002) faz ressalva às três distintas culturas políticas: paroquial, súdita e participativa. A paroquial é concebida em sociedades simples, onde não há uma divisão clara entre os papéis e estruturas de cunho econômico e religioso. Na cultura política súdita, a participação dos indivíduos é passiva, o que ocorre, sobretudo em regimes políticos autoritários. Por fim, a chamada cultura de participação pressupõe a participação ativa de cada indivíduo no sistema político. Arendt (2017) elucida três conceitos distintos o qual o século XVII experimentou como contrato social. Em teoria, o século dezessete, conheceu e associou sob o nome de ‘contrato social’ três tipos completamente diferentes destes acordos aborígenes. Havia primeiro, o exemplo do convívio bíblico, celebrado entre um povo com um todo e seu Deus, pelo qual o povo consentia em obedecer a quaisquer leis que a divindade toda poderosa escolhesse revelar para ele. Se esta versão puritana de consentimento prevalecesse, teria como bem observou John Cotton, ‘instituído a Teocracia... como a melhor forma de governo’. Havia, em segundo lugar, a variante de Hobbes segundo a qual todo indivíduo celebra um acordo com a autoridade estritamente secular para garantir sua segurança, por cuja proteção ele renuncia a todos os direitos e poderes. Chamo isso de versão vertical do contrato social. Sem dúvida é incoerente com a ideia norte-americana de governo por que 56 reivindica para este um monopólio de poder em benefício de todos os que estão submetidos a ele, os quais não tem nem direitos, nem poderes enquanto sua segurança estiver garantida; a república norte americana, ao contrário repousa no poder do povo – o antigo potestas in populo de Roma – e o poder confiado às autoridades é um poder delegado que pode ser revogado. Havia em terceiro lugar, o contrato social aborígene de Locke que guiava não o governo, mas a sociedade – entendendo-se a palavra no sentido latino de societas, uma “aliança” entre todos os indivíduos membros que depois de estarem mutuamente comprometidos fazem um contrato de governo. Eu chamo isto de versão horizontal de contrato social. Tal contrato limita o poder de cada indivíduo membro, mas deixa intacto o poder da sociedade; a sociedade então estabelece um governo “sobre o firme terreno de um contrato original entre indivíduos independentes” (ARENDT, 2017, p. 77). Neste sentido de versão horizontal de contrato social, as constituições modernas partemde uma associação de indivíduos, os quais estão mutuamente comprometidos numa teia de relações sancionadas pelo Estado. A constituição do Estado pode ser entendida num sentido étnico de nação como povo, no entanto há o risco de se postular um sentido de nação como uma comunidade homogênea. Neste sentido, cabe destacar o surgimento de certo nacionalismo tribal que articula assim uma luta contra os que postulam valores, culturas diferentes da dita comunidade homogênea, tanto num sentido interno, quanto externo. O que muito se observa hoje na sociedade contemporânea, a qual está impregnada de racismo, intolerância religiosa, homofobia, machismo, etc. Segundo Habermas (2018, p. 341), as constituições modernas são tributárias da ideia do direito racional segundo a qual os cidadãos, por decisão própria se associam para formar uma comunidade de parceiros do direito livres e iguais. A constituição põe em vigor precisamente os direitos que os cidadãos precisam admitir mutuamente se quiserem regular sua convivência com os meios do direito positivo. Aí já estão pressupostos os conceitos do direito subjetivo e de pessoa de direito individual como o portador dos direitos. O direito moderno fundamenta relações de reconhecimento intersubjetivo sancionadas pelo Estado, mas os direitos que daí são derivados asseguram a integridade vulnerável dos respectivos sujeitos de direito individuais. Em última instância, trata-se de proteger essas pessoas de direito individuais, mesmo quando a integridade do indivíduo – tanto no direito quanto na moral – depende da estrutura intacta das relações de reconhecimento mútuo. Esse tipo de teoria dos direitos formulada em termos individualistas pode fazer jus àquelas lutas por reconhecimento nas quais parece tratar-se, sobretudo da articulação e afirmação de identidades coletivas? Habermas (2018) traz a questão que o Estado Democrático de Direito regula o exercício do poder político de modo duplo: mediação dos respectivos interesses e a realização de um sistema de direitos. Onde na arena política se discute o coletivo e, no tribunal e nos discursos jurídicos, se trata dos direitos individuais. Ele identifica a necessidade de nos despedirmos de uma imagem institucionalmente congelada do 57 Estado Democrático de Direito, concebendo a fluidificação comunicativa da política como uma chave sociológica para compreensão do conceito de política deliberativa. Partindo da dissolução do paradoxo proposto por Max Weber para dominação legal. Destacando assim que o positivismo jurídico representa no recurso a uma regra fundamental arbitrariamente adotada ou que se tornou hábito, a partir de uma premissa fundamentadora de validade. Já o direito natural apela para o acesso privilegiado ao conhecimento de leis incondicionalmente válidas, visto que são cosmologicamente ancoradas ou teologicamente fundamentadas. Assim o direito natural se apoia em imagens metafísicas do mundo que já não convencem universalmente em sociedades pluralistas. Para Habermas (2014) a fonte normativa da legitimidade, nasce da inclusão de todos os concernidos e do caráter deliberativo, portanto da combinação de inclusão e deliberação. Habermas (2014) discute sobre o direito de participação política dos cidadãos, fundamentando seu pensamento na teoria do discurso, de modo a conceber que no Estado Democrático de Direito os sujeitos precisam conceder-se mutuamente, antes de regularem sobre uma matéria qualquer com meios do direito moderno, cabendo ainda conciliar o paradigma jurídico liberal com o Estado de bem-estar social. De acordo com a ideia kantiana de autonomia, as pessoas agem livremente se obedecem exatamente às leis que elas se deram a si mesmas, segundo os discernimentos obtidos intersubjetivamente sobre o que subsiste no interesse simétrico de todos, em cada caso. Ora, o direito coercitivo moderno distribui esses dois momentos da vontade fiel à lei legisladora para dois papéis sociais distintos, a saber, de um lado o papel do destinatário privado do direito, que age autonomamente como cidadão da sociedade no quadro das leis, e, de outro, o papel do colegislador democrático que faz uso de sua autonomia de cidadão do Estado. O direito do Estado moderno divide a pessoa moral, de certo modo, nas duas pessoas do cidadão da sociedade e do cidadão do Estado (HABERMAS, 2014, p. 101). Para Habermas (2014), a interação entre papel do destinatário privado do direito e o papel do colegislador democrático é que reside a chave para avaliar o paradigma jurídico liberal e o do Estado de Bem-Estar Social. De modo que a sociedade do direito privado dos ordoliberais9 deposita a legitimação unilateralmente sobre a igualdade de chances dos cidadãos da sociedade, ganhando força no curso do fracasso da política neoliberal. Já o modelo ancorado no Estado de Bem-Estar se 9 O ordoliberalismo é uma corrente de pensamento liberal que sustenta a importância de a economia existir a partir de regras definidas pelo Estado que tenham o objetivo de produzir benefícios para o conjunto da sociedade. 58 limita sob os pontos de vista da justiça distributiva, surgindo um terceiro paradigma procedimental do direito que discute facticidade e validade. No centro do debate, Habermas concebe que se encontram os laços de reacoplamento positivo entre o processo democrático e a autonomia pública e privada. Essa legitimidade assim se vê ameaçada nas sociedades com divisão social crescente, geradoras de abstenção eleitoral de camadas sociais marginalizadas e a adoção de padrões políticos que negam os interesses desses segmentos da população (HABERMAS, 2014). Habermas (2018, p. 359) destaca os direitos negados às minorias que ganham um sentido jurídico numa política de reconhecimento: Com isso, a questão sobre o “direito” ou os “direitos” de minorias ofendidas e desrespeitadas ganha um sentido jurídico. As decisões políticas se servem das formas de regulamentação do direito positivo para se tornarem efetivas em sociedades complexas em geral. Mas com o médium do direito nos defrontamos com uma estrutura artificial que implica determinadas decisões normativas prévias. O direito moderno é formal porque se baseia na premissa de que tudo o que não é explicitamente proibido é permitido. Ele é individualista porque transforma a pessoa individual em portadora de direitos subjetivos. É um direito coercivo porque é sancionado pelo Estado e se aplica apenas aos comportamentos legais ou conformes à regra – por exemplo, ele pode deixar à escolha de cada um o exercício da religião, mas não pode prescrever nenhuma consciência moral. É um direito positivo porque remonta às decisões – modificáveis – de um legislador político; e por fim, ele é um direito estabelecido em termos procedimentais porque é legitimado por meio de um procedimento democrático. O direito positivo somente exige, é claro, o comportamento legal, mas ele precisa ser legítimo: embora ele nos dispense dos motivos da obediência ao direito, ele precisa estar constituído de maneira tal que a qualquer momento possa também ser obedecido pelos destinatários em virtude do respeito à lei. Portanto, uma ordem jurídica é legitima quando ela assegura de modo igual a autonomia de todos os cidadãos. Estes são autônomos somente quando os destinatários do direito podem ao mesmo tempo se compreender como seus autores. E os autores são livres somente enquanto participantes nos processos de legislação que são realizados sob formas de comunicação e regulados de maneira tal que todos possam supor porque as regulamentações acordadas merecem o consentimento universal e motivado de modo racional. Do ponto de vista normativo, não existe Estado de direito sem democracia. Por outro lado, dado que o próprio processo democrático precisa ser institucionalizado, o princípio da soberania popular exige, em contrapartida, aqueles direitos fundamentais sem os quais não podehaver um direito legítimo em geral; exige sobretudo o direito às iguais liberdades subjetivas de ação que, por sua vez pressupõe a proteção jurídica individual e abrangente. Assim, o Estado se define como um conjunto de relações de poder pensadas e legitimadas em termos de direitos e deveres. A contemporaneidade nos faz discutir sobre os impactos que as instituições modernas e o aparato Estatal possuem sobre 59 os corpos, sobre a vida humana com seus dispositivos de poder, cabendo, cada vez mais, a discussão sobre amoral, a política, a justiça e os direitos humanos. Harbermas (2003) postula que, desde Hobbes, as regras do Direito Privado cooperam como protótipo para o Direito em geral. Para ele, Kant parte dos direitos naturais subjetivos, os quais garantiam a cada pessoa o direito de usar sua força quando suas liberdades de ação fossem feridas, enfatizando que o direito positivo sucedeu o natural, onde os espaços legítimos de usar a força passaram a ser monopolizados pelo Estado, e os direitos de usar a força converteram-se em autorizações para iniciar uma ação judicial. Max Weber, numa perspectiva analítica, sobre a distinção entre ética e política, apresenta a temática em suas famosas Conferências: A Ciência como Vocação e A Política como Vocação. Para Weber, o Estado se funda na força e a política se destina ao poder, salientando ainda que o Estado produz uma relação de homens dominando homens, relação ancorada muitas vezes pelo uso da violência legítima. A sociedade democrática, mais do que a formação de instituições democráticas, exige a atuação na esfera pública e privada de indivíduos democráticos e autônomos. De forma que a relação entre o “eu” e os “outros”, deve ser regida pelo reconhecimento de que o “outro” também é portador de direitos, estabelecendo-se relações de reciprocidade entre os indivíduos. Porém, há uma constante tensão de luta pelo reconhecimento, principalmente no que tange aos direitos das minorias e dos grupos vulneráveis. Assim, precisamos alargar a abordagem entre o “eu” e os “outros” para a questão entre “nós” e “eles”, ou seja: nossos valores e interesses versus os valores e interesses “dos demais”. Para Lind (2006 apud BATAGLIA, 2010, p. 84 ): Um dos princípios centrais das democracias modernas é resolver conflitos ou dilemas por meio de negociação e discussão preferencialmente ao uso de poder, força ou violência. Obviamente, um pré-requisito dos mais importantes para a negociação pacífica é a habilidade dos participantes para ouvirem-se uns aos outros, independente do fato de serem oponentes ou até inimigos. Se quisermos encontrar a base moral para a solução de um conflito, devemos apreciar argumentos não apenas advindos de pessoas que suportam nossa posição, mas também daquelas que são nossas oponentes. Tal competência é crucial para a participação em uma sociedade pluralística e democrática. 60 Para Kohlberg, a sociedade deve estar ancorada em direitos individuais, baseada em valores como respeito e igualdade, onde o respeito inclui o reconhecimento do direito aos valores morais minoritários (RONDON, 2009). Kohlberg (1975) e Lind (2000) também sustentam que o desenvolvimento da competência moral representa uma evolução dos indivíduos enquanto pessoas e enquanto cidadãos. A democracia postula a ausência de tiranos e é um regime político em que é imprescindível a habilidade para argumentar, discutir e negociar. Também é na democracia onde diferentes percepções do que seria a justiça podem disputar espaços na esfera pública (GUALTIERI-KAPPANN, 2016). Na luta por reconhecimento são articuladas as experiências coletivas de integridade violada. A luta contra a opressão de coletividades que são privadas de iguais oportunidades de vida social resulta numa luta pela universalização dos direitos da cidadania nos termos do Estado de Bem-Estar Social. Essa reivindicação está presente nas sociedades contemporâneas nas demandas por igualdade de gênero e pelo fim do racismo; por respeito às minorias em sociedades multiculturais; nas lutas pela independência nacional de povos oprimidos, entre outras. De modo que estes grupos criam um movimento de emancipação, cujos objetivos políticos são definidos em termos culturais, assim como em termos de igualdade social, econômica e política (HABERMAS, 2018). Venturi (1995) muito bem elucida que, para Kohlberg, o princípio da justiça é um princípio de defesa da vida, dos direitos individuais e do bem comum: Enfim, para Kohlberg, a universalidade dos princípios prescritivos pós- convencionais – em especial a da moralidade da justiça – não está, naturalmente, em serem eles universalmente observados no conjunto das ações humanas, ou mesmo reconhecidos em discurso; mas em serem universalizáveis, em função da trajetória universal da psicogênese da moralidade, que teria na razão e na justiça seus pontos ideais de equilíbrio. Para Kohlberg, o princípio de justiça, enquanto defesa da vida, dos direitos individuais e do bem comum, é universal, em suma, não como fato social, apenas como possibilidade de ideal moral. Orientar-se por ele seria uma faculdade potencial de todo ser humano, faculdade, em princípio, tão universal quanto a razão (VENTURI, 1995, p. 71). Na visão de Honneth (2009) é possível ver nas diversas lutas por reconhecimento uma força moral que resulta em desenvolvimentos sociais. De Hegel, Honneth retira a ideia de que, na sociedade, há três dimensões de integração e de reprodução social: a família, a sociedade civil e o Estado, o que se desdobra 61 nas três formas de reconhecimento intersubjetivo: o amor, o reconhecimento jurídico e a solidariedade. Esse reconhecimento advém de processos de luta que em cada esfera assumem formas distintas. Ao falar do amor como um elemento de eticidade, Honneth (2009), parte do pressuposto que a experiência de ser amado é um elemento de reconhecimento de participação na vida pública de uma coletividade. Já o reconhecimento jurídico de um ser com direitos é uma forma de reconhecimento recíproco, pelo qual os membros da sociedade respeitam mutuamente suas pretensões legítimas e podem se relacionar socialmente em pé de igualdade. O desequilíbrio em qualquer uma destas esferas que resulte numa condição de reconhecimento negado pode transformar a identidade da pessoa. Honneth (2009) elucida que, para cada uma das três formas de reconhecimento, há também três formas de desrespeito: maus-tratos, privação de direitos ou exclusão social e ofensa e degradação. Os maus-tratos físicos representam um tipo de desrespeito que quebra a confiança advinda das relações de amor. Havendo assim uma perda de confiança em si e no mundo, afetando principalmente a esfera dos relacionamentos, juntamente com uma espécie de vergonha social. Quando o sujeito experimenta a negação dos seus direitos e a exclusão social, descobre-se lesado na expectativa intersubjetiva de ser reconhecido como sujeito capaz de formar juízo moral. Por fim, a ofensa e a degradação representam o último tipo de rebaixamento, retirando dos sujeitos toda a possibilidade de atribuir um valor social as suas próprias capacidades, onde a hierarquia social degrada algumas formas de vida ou modos de crença, considerando-as de menor valor (HONNETH, 2009). É através das percepções de injustiça ou de ser injustiçado, que Honneth conjectura que a injustiça tenciona uma luta por reconhecimento, a qual impulsiona a transformação social. Inspirado em Hegel, Honneth concebe que aluta vai além da luta material, sendo também moral. Hegel defende que a luta dos sujeitos pelo reconhecimento recíproco é resultado de uma pressão intrassocial para o estabelecimento prático e político de instituições garantidoras de direitos (HONNETH, 2009). O que destaca a dimensão histórica da luta por direitos que se materializa também dentro de regimes formalmente democráticos,mas ainda marcados por muita desigualdade social e, 62 portanto, por reconhecimento negado. Nesse particular, o ponto da obediência diante da lei se reencontra com o conteúdo das democracias, como o observou Hannah Arendt (2017, p. 75): O compromisso moral do cidadão em obedecer às leis, tradicionalmente provém da suposição de que ele, ou deu seu consentimento a elas, ou foi o próprio legislador; sob o domínio da lei, o homem não está sujeito a uma vontade alheia, está obedecendo a si mesmo e o resultado, naturalmente, é que cada pessoa é ao mesmo tempo seu próprio senhor e seu próprio escravo, e o que é visto como o conflito original entre o cidadão, relacionado com o bem público, e o eu, que persegue sua felicidade particular, fica subjetivado. Esta é em essência a solução de Rousseau e Kant para o problema do compromisso, e seu defeito, no meu modo de ver, é que volta novamente à consciência à relação do eu próprio. Do ponto de vista da ciência política moderna, o problema está na origem fictícia do consentimento: “Muitos escrevem como se existisse um contrato social ou alguma base parecida para o compromisso político de obedecer à vontade da maioria”, e para isso o argumento normalmente preferido é: Nós numa democracia temos que obedecer à lei, porque temos o direito de votar. Mas é exatamente este direito ao voto, sufrágio universal em eleições livres que, como sendo uma base suficiente para a democracia e uma pretensão de liberdade pública, que está sob ataque. Assim concebe-se que a luta por reconhecimento é fruto das tensões das relações sociais e cotidianas, quando sujeitos buscam afirmação de seus direitos, na busca de não serem marginalizados, invisibilizados, violados e negados. Desta forma, a luta não significa uma autoconservação individual como em Hobbes e Maquiavel, mas uma luta coletiva por um reconhecimento plural em que se postula a inclusão do “outro”: [...] o respeito igual a cada um não se limita aos que são semelhantes: ele se estende à pessoa do outro ou ao outro em sua diferença. E assumir a responsabilidade solidária para com um outro como um de nós se refere aos “nós” flexível de uma comunidade que se opõe a tudo o que é substancial e que amplia continuamente seus limites porosos. Essa comunidade moral se constitui exclusivamente pela ideia negativa da recusa da discriminação e do sofrimento, bem como pela inclusão dos marginalizados – e do que está marginalizado – em uma consideração recíproca. Essa comunidade, projetada de modo construtivo, não obrigaria seus membros homogeneizados a afirmar o distinto modo de ser dessa coletividade. Aqui, incluir não significa incorporar ao que é próprio e se fechar ao outro. Antes, a “inclusão do outro” quer dizer que as fronteiras da comunidade estão abertas para todos – e especialmente para aqueles que são estranhos uns aos outros e que querem permanecer estranhos (HABERMAS, 2018, p. 28). Assim as teorias de reconhecimento contida em Habermas e Honneth nos oferecem um aporte teórico para discussão sobre política em seu sentido ampliado, que nos possibilita pensar a inclusão do outro no Estado Democrático de Direito, 63 respeitando as identidades coletivas ao se reconhecer as demandas públicas, de modo a se conceber sociedades mais justas e plurais. 64 3 METODOLOGIA E CAMPO EMPÍRICO “Não há muitas virtudes, mas apenas uma e o seu nome é justiça”. Lawrence Kohlberg Densin e Lincoln (2006, p. 21) afirmam que a pesquisa é um campo interdisciplinar, transdisciplinar e, às vezes, contradisciplinar, que atravessa as humanidades, as ciências sociais e as ciências físicas. Tem um foco multiparadigmático [...] tendo um compromisso com a experiência humana. Nossa pesquisa de campo é exploratória e se deu a partir de um método quantitativo com uma amostra dos parlamentares do Rio Grande do Sul (deputados estaduais, deputados federais e senadores) que permitiu analisar a competência moral-democrática dos entrevistados, mensurando o C-score do grupo. Nossa amostra foi formada pelas entrevistas realizadas presencialmente com 44 parlamentares (33 deputados/as estaduais, 10 deputados/as federais e um senador) do Rio Grande do Sul, entre os meses de agosto, setembro e outubro de 2021. Sobre a escolha metodológica da pesquisa, optamos pela utilização do instrumento utilizado por Silva (2016), baseado no Teste MJT_xt. instrumento objetivo capaz de permitir a avaliação da competência moral. 3.1 Competência moral-democrática a partir do Teste de Julgamento Moral Diferentemente dos demais instrumentos, o MJT não foi elaborado com o objetivo de avaliar o juízo moral, mas sim a competência moral-democrática. De modo que Lind enfoca que os componentes afetivos e cognitivos são distintos, mas inseparáveis na emissão do juízo moral, conceito já apontado por Piaget (BATAGLIA, 2009). No MJT, após cada situação problema, são apresentados seis argumentos favoráveis ao posicionamento do protagonista e seis contrários ao posicionamento do personagem central do dilema, totalizando doze argumentos por dilema. Os argumentos são baseados em distintas orientações morais, 65 fundamentados nos seis estágios dos três níveis de moralidade identificados por Kohlberg (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010). Os seis estágios de orientação moral de Kohlberg que compõe o MJT traduzem a dimensão afetiva do juízo moral, a dimensão cognitiva é observada através da competência que é mensurada e refletida no C-score (RONDON, 2009). Assim o Teste determina, simultaneamente, as orientações morais (aspecto afetivo) e a competência moral (aspecto cognitivo) da ação moral, assim como opiniões pessoais (MARTINS et al., 2020). Lind (2000) ainda argumenta que para o sujeito habilidoso na argumentação, é possível falsear seu próprio estágio de desenvolvimento moral. Assim Lind se concentra na elaboração de um instrumento capaz de avaliar o nível de juízo moral, onde o sujeito possa mostrar sua competência em aplicar sua estrutura em situações adversas (BATAGLIA, 2010). Nós desenvolvemos o Teste de Juízo Moral, ou MJT, com o objetivo de estreitar a brecha entre significado e mensuração no campo do desenvolvimento e educação moral. Seu primeiro propósito, que não exclui outros, é prover um critério para o teste de teorias que pretendam guiar, ou que realmente guiem, o planejamento e aplicação prática de modelos de educação moral por professores, pais e administradores (LIND, 2000, p. 406). O instrumento MJT permite que o entrevistado reconheça argumentos a favor de sua própria opinião e argumentos contrários, permitindo que o sujeito avalie a qualidade dos argumentos contrários à sua opinião. Isso requer uma estrutura cognitiva e, também, exige postura não dogmática em relação a sua própria atitude. É essa capacidade (competência) que o MJT se propõe mensurar (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010). O MJT é piagetiano na medida em que confronta os sujeitos com dilemas comportamentais (apresentados na forma de uma história na qual os protagonistas têm que resolver um conflito entre dois cursos de ação opostos) e não com situações rotineiras. Como qualquer outra proficiência, a competência do juízo moral apenas se revelará se desafiada por uma tarefa moral real. Em situações rotineiras, o comportamento do sujeito é preferencialmente determinado por seus hábitos e humor e pelas circunstâncias do teste, e apenas parcialmente, se ocorrer, por sua proficiência moral (LIND, 2000, p. 406). Mensurando o peso que cada entrevistado dá para os distintos argumentos, os quais representam os seis estágios da Teoria de Kohberg, o teste possibilita 66 avaliar a capacidade do entrevistado em diferenciar a qualidade moral dos argumentos. Ainda, pelo MJT, o entrevistado poder ser classificado em qualquer um dos estágios, tanto concordando ou discordando da atitude do personagem do dilema. Sendoassim, a competência moral não está relacionada à opinião, mas à capacidade de julgar a qualidade moral dos argumentos apresentados pelo teste, independentemente da posição que o entrevistado assuma em relação ao dilema (MCDANIEL, 2007). O MJT então mensura as competências morais, tais como definidas por Kohlberg, como a capacidade de agir e julgar de acordo com seus princípios, onde as competências morais podem regredir ou avançar. Assim, Lind postula que a competência moral pode ser desenvolvida, o que possibilita a criação de métodos e instrumentos que fomentem o desenvolvimento da moralidade (GUALTIERI-KAPPANN, 2016). Além disso, o MJT trouxe uma inovação para a Psicologia Moral, que foi a proposta de avaliar não apenas a atitude moral, mas a habilidade dos sujeitos em aplicar valores ou princípios em situações complexas para resolver conflitos. Entretanto, algumas questões referentes ao MJT nos indagam se o sujeito, ao responder às questões de um dilema, está de fato refletindo o seu nível de juízo moral ou o seu compromisso com a defesa de um ideal (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010). A avaliação do MJT leva em conta a indissociabilidade de afeto e cognição, mas a possibilidade de distingui-los. As duas dimensões do comportamento moral – afetivo e cognitivo – não se apresentam necessariamente conectadas, embora ocorram de modo integrado, isto é, apesar de muitos indivíduos preferirem argumentos de estágios morais superiores, apenas aqueles com estruturas mentais reversíveis podem ser, também, competentes moralmente, ou seja, apresentar uma preferência pelos mesmos estágios quando avaliam contra-argumentos, ou argumentos rivais à sua opinião. É importante lembrar que a reversibilidade cognitiva por si só, igualmente, não garante a competência moral, o que a reduziria a uma operação intelectual (BATAGLIA; MORAIS; LEPRE, 2010, p. 30). O MJT também possibilita avaliar em que medida o grupo (e não o sujeito individualmente) é capaz de avaliar a qualidade de argumentos morais ou fica preso à sua própria opinião (BATAGLIA, 2010). Silva (2016) enfatiza que o instrumento MJT mede a competência moral do indivíduo não através de respostas isoladas, mas, sim, através do padrão de consistência de respostas do entrevistado, no todo. A competência moral é medida 67 com a análise do padrão de consciência das respostas do entrevistado nas situações diversas apresentadas. O instrumento criado por Lind (2006), conforme McDaniel (2007), oferece o cálculo do índice global de desenvolvimento moral. Resultando num C-score definido como competência de julgamento moral, expressão da variação intraindividual nas respostas, apurado com os cálculos de MANOVA10. A pontuação C pode variar de 1 a 100. A pesquisa de McDaniel (2007) utilizou os parâmetros para pontuação do C-score: (1-9) muito baixo, (10-19) baixo, (20-29) médio, (30-39) alto, (40-49) muito alto e (acima de 50) extraordinariamente alto. Já outros pesquisadores apresentaram algumas variações nas escalas, como Silva (2016) e Rondon (2009) que usaram o parâmetro de pontuação do C-score: entre 1 e 9, indicam baixos índices para competência moral; pontuação entre 10-29, indicam resultados médios; escores entre 30-49, indicam resultados altos para competência moral; e escores acima de 50, indicam resultados extraordinariamente alto para competência moral. Lind (2000) reformulou, recentemente, a escala de valores do C-score para: valores de 0-9 como competência moral zero ou muito baixa, de 10 - 29 como média competência moral e onde a maior parte das pessoas parece estar, segundo o autor, e, acima de 30 pontos como alta competência moral (GUALTIERI-KAPPANN, 2016). Bataglia (2010, p. 87) estabelece a relação entre a pontuação do C-score com a preferência pelos estágios: [...] Assumir-se-á aqui a posição de Lind que prevê como forma de validação de constructo a correlação do C score com a preferência por estágios. De acordo com a teoria, os índices mais altos de C score devem correlacionar positivamente com a preferência pelos estágios mais altos, de modo neutro com os estágios intermediários e negativamente com os estágios inferiores. Ainda de acordo com Lind (2000, p. 408), de acordo com nosso modelo dual, o MJT pode ser avaliado de dois modos diferentes. De um lado, o MJT provê medidas para as atitudes do sujeito em direção a cada um dos seis estágios de raciocínio moral como originalmente definidos por Kohlberg. Estes escores são calculados como escores de 10 A análise de variância multivariada (MANOVA) é uma forma generalizada da análise de variância (ANOVA). É utilizada em casos onde existem duas ou mais variáveis dependentes. 68 testes tradicionais de atitudes, com taxas médias de aceitação. De outro lado, o MJT permite-nos calcular escores para aspectos cognitivos do comportamento de julgar moralmente. Geralmente, apenas um índice é calculado, precisamente o índice para a competência do juízo moral. Este índice varia de 0 a 100, indicando diferentes graus de habilidade para julgar itens consistentemente sobre as bases de sua qualidade moral mais do que sob quaisquer outros critérios, como concordância com a própria opinião do sujeito. Este escore para a competência do juízo moral é uma medida verdadeiramente estrutural porque reflete o padrão total de juízo do sujeito, isto é, caracteriza as relações entre as respostas mais do que sua direção ou número ou força. Quando há diferenças de cinco pontos entre o dilema do médico e os demais dilemas, ocorre o que Lind identificou como sendo o fenômeno de segmentação moral, onde o sujeito entrega a responsabilidade pelo julgamento a uma autoridade externa: religião, ideologia, ética profissional (MARTINS et al., 2020). Sobre a quantidade mínima de participantes Gualtieri-Kappann (2016) destaca a mudança de recomendação de utilização do MJT para grupos a partir de 15 participantes. O instrumento criado por Lind passou por adaptações no Brasil e no México. Patrícia Bataglia o adaptou para a língua portuguesa. Assim o Moral Judgment Test Extended (MJT_xt) incorpora um terceiro dilema, fruto de discussões sobre o impacto do Dilema do Médico, o qual traz à tona questões de eutanásia em países de tradição moral cristã, da cultura latino-americana (BATAGLIA, 2010). A versão padrão do MJT_xt validado por Bataglia, contendo três dilemas, do Médico, dos Operários e o do Juiz. Agregando o tema da vida, já apresentado no Dilema do Médico, o Dilema do Juiz enfatiza o dilema de escolha da vida de uma pessoa em contraposição à vida de outras pessoas, indagando o entrevistado se a tortura é justificada para salvar a vida de outras pessoas (SILVA, 2016). Assim o instrumento MJT_xt faz com que o entrevistado se depare em situações diversas com relação à atitude de distintos personagens em situações problemáticas, de modo que propõe uma tarefa moral ao entrevistado, viabilizando medir sua competência moral. Bataglia (2010) salienta que o Moral Judgment Test (MJT_xt) tem o objetivo de saber em que medida o grupo - e não o sujeito individualmente - é capaz de avaliar a qualidade de argumentos morais ou se esse fica com seus argumentos preconcebidos, ligando o juízo à ação moral propriamente dita. O instrumento ainda 69 evidencia o grau de coerência com que o entrevistado diferencia e integra princípios morais e os aplica em situações problemas. O teste MJT passa por constante aperfeiçoamento, sendo que, em 2015, Lind substituiu o nome Moral Judgment Test - MJT para MCT (Moral Competence Test), sendo ainda utilizada a nomenclatura antiga. Respectivamente a versão brasileira é chamada de MCT_xt, composta por três dilemas (KAPPANN, 2016). A revisão de literatura nos possibilitou encontrar diversas pesquisas nacionais e internacionais que utilizaram o Teste de Juízo Moral – MJT (ou Teste de Competência Moral – MCT). Algumasse utilizaram no instrumento original com dois dilemas e outras optaram pela versão MJT_xt / MCT_xt adaptado e validado para a cultura brasileira por Bataglia (2010), com 3 dilemas. Analisamos as pesquisas empíricas que buscaram mensurar a competência moral de grupos, utilizando-se do instrumento Moral Judgment Test (e sua nova nomenclatura: Moral Competence Test – MCT), assim como versão estendida do Teste MJT_xt (extended) / MCT_xt (extended). Os trabalhos reportados na busca consideram teses, dissertações e artigos científicos no banco de textos disponíveis na plataforma Google acadêmico acessados pelo software PublishorPerish11 com as palavras-chaves: Desenvolvimento e/ou Julgamento Moral; Kohlberg; Moral Judgment Test -MJT / MCT e Teste MJT_xt(extended) / MCT_xt (extended). McDaniel (2007) explorou as variáveis que impactam a competência de julgamento moral, com o objetivo de compreender melhor os fundamentos e o desenvolvimento da moralidade humana. Trabalhando com uma pesquisa multiconstrutivista de moralidade, buscou compreender a influência das emoções como, empatia, vergonha e culpa; além de o quanto podem influir na formação moral temas como religiosidade, funcionamento familiar e comportamentos. Seu trabalho foi pioneiro no estudo do campo do desenvolvimento moral em uma perspectiva multiconstrutivista, integrando assim blocos de construção de desenvolvimento moral, emoções morais e competência de julgamento moral. Em sua pesquisa, com uma amostra de 258 estudantes universitários, utilizou o instrumento Moral Judgment Test -MJT, versão com dois dilemas, aplicando abordagem estatística 11 O software PlublishorPerish é um programa que realiza busca de dados online e analisa as citações acadêmicas, organizando as obras em um ranking de citações e relevância. Disponível em: https://harzing.com/resources/publish-or-perish/windows. https://harzing.com/resources/publish-or-perish/windows 70 multiconstrutiva da modelagem da equação estrutural. Encontrou uma média de C- score de 19,01 (mediana) lidando com os parâmetros 1-9 (muito baixo), 10- 19 (baixo), 20-29 (médio), 30-39 (alto), 40-49 (muito alto) acima de 50 (extraordinariamente alto). Em suas conclusões, McDaniel (2007) afirma que a empatia pode ser fomentada até a idade adulta, independente do funcionamento familiar, possivelmente na escola e no playground. O paralelo entre emoções morais e competência de julgamento moral não foram significativas. O estudo apontou ausência de relação entre os blocos de construção do desenvolvimento e a competência de julgamento moral. McDaniel (2007) sustenta a necessidade de pesquisas longitudinais/ transversais para gerar indicadores mais fidedignos de desenvolvimento moral. Silva (2016) procurou investigar o desenvolvimento moral e os comportamentos de cidadania organizacional, de modo a utilizar a versão Moral Judgment Test (MJT_xt), agregando dois novos dilemas: o Dilema do Estudante (relacionado à situação de cola em avaliação) e o Dilema dos Pastores (que trata da vida e da morte entre civis e militares), trabalhando assim com um questionário composto por cinco dilemas. O instrumento foi aplicado com 732 cadetes do Exército Brasileiro (FEB), matriculados, em 2015, no curso de formação para oficiais da Academia Agulhas Negras (AMAN). Silva ( 2016) associou o MJT com Escalas de Comportamento de Cidadania Organizacional utilizando-se de tratamento estatístico com o programa SPSS (Statistical Package for Social Science) e dos Módulos AMOS (Analysis of Moment Structures). A pesquisa encontrou uma competência moral em níveis medianos para os cadetes. Silva (2016) utilizou os parâmetros para o C-score: 1-9 (baixo), 10-29 (médio), 30-49 (alto) e acima de 50 muito alto para o C- score, não encontrando diferenças estatísticas significativas na variável progresso no curso de formação ou em relação às diferentes especialidades militares, nem nas variáveis origem familiar, procedência escolar (colégio militar ou civil), e religião. Observou, no entanto, pequena elevação no escore de indivíduos ateus ou integrantes de grupos religiosos minoritários. Os dados apresentados por Silva (2016) ainda sugerem uma correlação negativa entre o desenvolvimento da Competência Moral e os CCO de Cadetes. Destacando que há uma tendência de diminuição dos C-scores conforme avança a formação, sendo essa redução mais 71 relevante nos resultados dos cadetes do 2º ano de curso. O estudo ainda destaca que, quando comparado o C-score encontrado nos Cadetes da Academia Agulhas Negro (AMAN), com resultados de instituições de ensino civis, encontra-se uma diferença significativa, sendo os índices mais baixos para os cadetes da Academia Agulhas Negras (AMAN). Rondon (2009) também utiliza o Instrumento MJT_xt com o objetivo de analisar a competência de juízo moral dos estudantes de Teologia de uma instituição protestante batista, com intuito de discutir a relação entre moral e religião. A pesquisa de caráter quali-quanti, aplicou o instrumento MJT_xt com três dilemas para uma amostra de 115 estudantes. Na parte qualitativa, foi empregada a técnica de grupo focal com 10 estudantes, com os Dilemas do Médico e dos Operários, assim como discussão de questões sobre autonomia, moral e religião. A pesquisadora utilizou os parâmetros definidos por Cohen para o C-score: 1-9 (baixo), 10-29 (médio), 30-49 (alto) e acima de 50 muito alto, encontrando uma média de 14,61 para a competência de julgamento moral do grupo estudado. A autora percebe a ocorrência da segmentação social apresentada por Lind, no Dilema do Médico. Os estudantes apresentaram C-score de 30,93 no Dilema do Operário, 21,13 no Dilema do Médico e 30,86 no Dilema do Juiz. A pesquisa concluiu que não houve alterações significativas nos índices de competência moral (C-score) quando comparados a estudos anteriores com a população brasileira. Nesse trabalho, a religião não se apresenta como uma influência determinante na ocorrência da segmentação. Já a pesquisa realizada por Melo (2015) concluiu que estudantes com maior espiritualidade apresentam tendência de competência moral menos elevada. O estudo buscou investigar se a espiritualidade estaria envolvida na construção, modificação e consolidação do juízo moral dos estudantes de Medicina com o objetivo, então, de avaliar a relação entre a competência moral e a espiritualidade e fatores associados. A aplicação do MJT com dois dilemas morais e com a Escala de espiritualidade de Pinto e Pais-Ribeiro, uma escala brasileira constituída a partir da combinação dos itens da dimensão espiritual do Quality of Life-Cancer Survivor (QOL-CS), e módulo da espiritualidade do Instrumento da Organização Mundial de Saúde (WHOQOL). O MJT foi aplicado com 121 estudantes do curso de Medicina da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS). Do perfil dos entrevistados 71,1% eram 72 do gênero feminino, a média de idade do grupo era de 22,5 anos, 89,3% afirmaram ter alguma religião, sendo 52% da amostra católicos. O C-score no estudo foi calculado através da orientação do autor para cálculo em planilha do Excel. A pesquisadora verifica que o C-score manteve-se crescendo ao longo dos anos de graduação de Medicina e que estudantes com baixa espiritualidade apresentaram um C-score maior. Para uma média de 12,7 no C-score no grupo avaliado, estudantes com baixa espiritualidade obtiveram 15,7, enquanto estudantes com espiritualidade elevada alcançaram 9,9 pontos. Martins et al. (2020) realizam um estudo longitudinal utilizando o MJT_xt, com os dilemas do Operário, do Médico e do Juiz com estudantes do curso de Enfermagem e Medicina. A aplicação do teste é realizada em dois momentos: antes e depois dos estudantes terem cursado a disciplina de Ética. A amostra contou com 400 participantes. O C-score obtido após os alunos cursarem a disciplina de Éticasofreu uma diminuição de 21 para 19,5 em média para estudantes de Enfermagem e uma diminuição de 23,2 para 22 para os estudantes de Medicina. O fenômeno de segmentação social foi observado nos dilemas do Operário e do Juiz. A partir do estudo, os autores salientam a importância de uma estratégia curricular para que os estudantes das escolas de Saúde possam desenvolver melhor a competência moral. Agurto et al. (2017) utilizaram o Teste de Competência Moral - MCT em sua pesquisa com objetivo de explorar a competência moral e seus fatores associados com 236 médicos no Chile. O estudo considerou os valores: muito baixo (0-9), baixo (10-19), médio (20-39), muito alto (40-49) e extraordinariamente alto (acima de 50). O valor médio encontrado no grupo para competência moral foi de 20,9. Sendo que os médicos com pós-graduação obtiveram um desempenho melhor e os profissionais com mais de 15 anos de atuação, obtiveram um C-score menor. Não foram encontradas no estudo diferenças significativas por sexo. A pesquisa de Gualtierri-Kappann (2016) buscou conhecer a realidade do ensino da Ética nas escolas do estado de São Paulo, a partir da perspectiva dos documentos oficiais e do corpo docente em exercício a partir de um método de discussão de dilemas morais para a educação. A pesquisa de caráter quali-quanti envolveu questões de ética, justiça e democracia em sala de aula, com professores do Ensino Médio de uma escola estadual de uma cidade do interior de São Paulo. A 73 metodologia envolveu grupo focal com parte do corpo docente da escola e uma pré- testagem com MJT_xt (Moral Judgment Test-extended) com este grupo de 30 professores realizada no início e ao final das intervenções. A autora utilizou a escala de valores de 0-9 como competência moral zero ou muito baixa, de 10 - 29 como média competência moral e acima de 30 pontos como alta competência moral. Segundo os dados obtidos na pesquisa, o C-score do grupo de professores participantes da amostra foi de total médio de 11,6 antes e de 10,8 após as intervenções. No entanto, a pesquisa aponta que, quando retirados os sujeitos discrepantes, os valores totais médios do grupo caem, resultando em um C-score total médio de 9,3 antes e de 9,0 após as intervenções. Nesse caso, eles seriam considerados como indivíduos com níveis de competência moral zero ou muito baixos. Assim a pesquisadora concluiu que as intervenções não provocaram efeitos nos níveis de competência moral. A pesquisa desenvolvida por Vieira (2016) teve como escopo a análise do julgamento a respeito da justiça das cotas, a partir da percepção de docentes e estudantes, do curso de Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia de uma universidade pública. O estudo utilizou a estratégia de verificar a relação entre o julgamento sobre a lei de cotas com o nível de competência de juízo moral dos estudantes e professores. A amostra contou com 317 estudantes e 15 professores, aplicando-se o Teste de Competência Moral (MCT_xt). A pesquisadora obteve o C- score total de 8,25 (nível de baixa competência moral), não sendo identificada diferença significativa entre os grupos de cotistas, não cotistas e professores. Thielen et al. (2006) investigaram a relação entre competência moral e comportamento no trânsito, aplicando o Teste de Julgamento Moral – MJT com 10 motoristas de trânsito da cidade de Maringá-PR. O estudo concluiu que os resultados do teste MJT não possibilitam correlacionar estágios kohlberguianos dos motoristas com seus respectivos comportamentos no trânsito, porque o teste MJT não determina, precisamente, em qual estágio cada sujeito se encontra. Após décadas de pesquisa com o MJT, com mais de 15 mil sujeitos com estudos transculturais, longitudinais, representativos e laboratoriais, o teste finalmente alcançou sua mais importante checagem da validade teórica. Assim, o Moral Judgment Test, mesmo ainda podendo ser melhorado, é um valioso 74 instrumento para medir o aspecto cognitivo ou de competência do juízo moral. O instrumento permite testar adequadamente hipóteses centrais da teoria cognitivo evolutiva, possibilitando medir os aspectos do juízo moral: o afetivo e o cognitivo, sem misturá-los. Através do instrumento, é possível concluir que possuir princípios morais é condição necessária, mas não suficiente para a tomada de boas decisões morais. Portanto, o MJT mede a habilidade de um sujeito ao aplicar princípios morais em seu comportamento de julgar (LIND, 2000). Desta forma, salientamos a validação do instrumento MJT/MCT e sua versão ampliada MJT_xt/MCT_xt para medir a competência moral de grupos. Nossa revisão de literatura não encontrou pesquisas que investigassem a competência moral de agentes políticos com o instrumento MJT, mas avaliamos que o Moral Judgment Test – MJT em sua versão estendida seja apropriado para a investigação proposta na presente pesquisa. 3.2 Hipóteses de investigação Assumimos que, quanto mais alta a competência moral (C-score) dos parlamentares, maiores condições eles terão de formular propostas de leis orientadas pela efetivação dos Direitos Humanos, gerando uma sociedade mais justa, uma vez que um C-score baixo representa indivíduos que valorizam ideias e princípios morais apenas daqueles que pensam da mesma forma que eles, enquanto indivíduos com C-scores elevados conseguem valorizar as ideias dos que postulam opiniões contrárias. Partindo das diferenças entre sujeitos com competência moral baixa, média e elevada, que implicam em atitudes diferentes na construção da consciência de cidadania, a investigação da presente pesquisa parte da seguinte pergunta: Qual senso de justiça, critérios e competências morais guiam o posicionamento político dos parlamentares do Rio Grande do Sul? Com base em nosso referencial teórico, também assumimos que sujeitos com um C-score alto no Teste são possuidores de alta competência moral-democrática, o que representaria um senso de justiça elevado; já escores baixos representariam um senso de justiça instável ou ausente, portanto, com maiores dificuldades de orientar- se por meio de princípios universais de inclusão e acolhimento. 75 Durante a formulação de hipóteses, considerou-se que as definições político- ideológicas assumidas pelos parlamentares constituiria variável estatisticamente significativa na conformação de sua competência moral. A premissa dessas hipóteses parte da constatação de que representantes mais identificados com posições à esquerda no espectro político-ideológico demonstram uma maior aderência às pautas de inclusão social, assim como, aparentemente, um maior comprometimento com os ideais democráticos, pelo menos no que diz respeito à experiência política brasileira recente. De acordo com a segunda hipótese, consideramos que, no desempenho por faixa etária, parlamentares mais jovens possuiriam um C-score mais elevado do que os parlamentares com mais de 50 anos, partindo do pressuposto de que os representantes mais jovens seriam mais propensos à inovação e à busca por mudanças e que teriam posições menos consolidadas, o que auxiliaria a repensar seus pontos de vista. Como terceira hipótese, que é uma variação da segunda, pensamos que o número de mandatos obtidos pelos parlamentares relacionar-se-ia inversamente com a competência moral, considerando que a prática legislativa, no cenário atual da política brasileira, ao invés de desenvolver a habilidade do diálogo e respeito à diferença, acabaria selecionando, em maior número, os representantes menos dispostos a superar ideias preconceituosas ou posições simplificadoras. Por fim, a quarta hipótese presume que o número de votos obtidos pelos parlamentares estaria inversamente correlacionado à competência moral. A ideia parte do pressuposto de que o atual sistema eleitoral acaba por refletir a competência moral-democrática da sociedadecomo um todo. Assim, se há uma baixa competência moral-democrática entre os eleitores, como vários estudos sugerem, haveria uma tendência de os eleitores identificarem-se mais com candidatos com baixa competência moral-democrática. 76 3.3 Escolha da técnica de investigação Nossa pesquisa observou os seguintes procedimentos: a) Realização do levantamento bibliográfico, construção de referencial teórico e revisão de literatura. b) Aplicação do teste com entrevistas presenciais e individuais para exposição dos dilemas morais kohlberguianos com o instrumento TesteMJT_xtversão não certificada, com amostra de parlamentares do Rio Grande do Sul, deputados estaduais, deputados federais e senadores. c) Armazenamento dos dados coletados na plataforma Google Forms e em meio digital próprio sem compartilhamento em ambientes da Internet, sem nomes ou quaisquer outros indicadores que permitam a identificação dos respondentes. d) Tabulação dos dados e tratamento estatístico da base por meio do programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). e) Cruzamento dos dados na busca de correlações possíveis entre as variáveis independentes (sexo, idade, etnia, religião, escolarização, espectro político), e a competência moral (variável dependente). f) Discussão dos resultados. Selecionamos a versão estendida do MJT, O Teste MJT_xt, adaptado por Silva (2016), que conta com mais dois dilemas (o Dilema do Estudante e o Dilema do Comandante). Assim, para compor nosso instrumento de pesquisa usamos três dilemas morais dos cinco utilizados por Silva (2016), os quais foram adaptados pela pesquisadora e apresentam questões de valores morais sobre direito à propriedade e direito à vida. Os três dilemas que compõe o questionário utilizado na coleta de dados seguem abaixo, o instrumento completo consta no Apêndice B. 77 História A - Conduta dos operários Devido à existência de demissões aparentemente infundadas, alguns operários de fábrica suspeitam que a chefia esteja ouvindo as conversas dos empregados através de um microfone oculto, e usando tais informações contra os empregados. A chefia nega essas acusações enfaticamente. O sindicato declara que só tomará providências contra a empresa quando forem encontradas provas que confirmem as suspeitas. Sendo assim, dois operários decidem arrombar o escritório administrativo e furtam uma transcrição de uma gravação que prova a alegação de espionagem por parte da chefia. História B - Conduta do médico O médico está diante de uma paciente com câncer disseminado e sabe que ela tem poucos dias de vida. A mulher sofre com dores terríveis e estava tão fraca que uma dose maior de morfina, por exemplo, lhe causaria a morte rápida. A paciente, então, implora ao médico que lhe dê a morfina suficiente para matá-la. Ela disse que não poderia suportar a dor por mais tempo e que estaria morta em alguns dias de qualquer modo. O médico, então, atende ao desejo da paciente e abrevia seu sofrimento. História C - Conduta do comandante O Serviço de Inteligência Militar de um país ocidental identificou a presença de um líder terrorista e 150 milicianos, num vilarejo em meio às montanhas no Afeganistão. Essa liderança era famosa por matar seus oponentes, após torturá- los. Um grupo de militares especializado em ações contraterrorismo recebeu a missão de capturar o líder. Infiltrados na região, os militares aguardavam a melhor oportunidade para a ação. Após alguns dias escondidos na montanha, foram surpreendidos com a aparição de três pastores de ovelhas: um velho, um garoto de 14 anos e um homem jovem. Os militares renderam os três civis e devido às dificuldades de comunicação, não conseguiram avaliar se haveria alguma ligação entre os pastores e os terroristas. O comandante militar da operação sabia que, se fossem descobertos, a missão e a vida de seus homens correriam sérios riscos. A alternativa que tinha era a de executar os três pastores, impedindo, assim, que a missão fosse descoberta e os militares fossem mortos. Após ouvir seus 78 comandados que, em maioria, defendiam a execução, o comandante decidiu liberar os pastores. Em liberdade, os pastores informaram os terroristas, que atacaram o destacamento militar matando quase todos os seus integrantes. Em cada uma das histórias, o personagem se depara com uma situação limite, enfrentando assim um dilema que envolve a transgressão de valores ou a afirmação de princípios morais. Diante da situação, o personagem central toma uma atitude. É perguntado ao entrevistado se ele concorda ou não com a atitude tomada pelo personagem, cabendo ao respondente mensurar o grau de concordância ou discordância numa escala de -3 à +3 (Escala de Likert). Quadro 5 – Grau de concordância/discordância na Escala Likert Forte Discordância Forte Concordância -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 Fonte: Elaborado pela autora (2021). Na sequência, são apresentados seis argumentos favoráveis ao posicionamento do protagonista e seis contrários, totalizando doze argumentos por dilema. Os argumentos são baseados em distintas orientações morais e de justiça, fundamentados nos seis estágios dos três níveis de moralidade identificados por Kohlberg, sendo apresentados de forma aleatória (ver Anexo B). Para cada argumento é perguntado ao entrevistado se este considera o argumento aceitável ou inaceitável, conforme a escala apresentada. Quadro 6 – Grau de inaceitável/aceitável na Escala Likert Completamente inaceitável Completamente aceitável -4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 Fonte: Elaborado pela autora (2021). Assim, é mensurado o peso que cada entrevistado dá a cada um dos 12 argumentos sobre ação do protagonista do dilema (favoráveis e 79 contrários)elaborados de acordo com os seis estágios de moralidade propostos por Kohlberg. Pelo instrumento utilizado em nossa pesquisa, o entrevistado poder ser classificado em qualquer um dos níveis, tanto concordando ou discordando da atitude do personagem do dilema. Dessa forma, a competência moral não está relacionada com a opinião que o entrevistado tem sobre a atitude do personagem, mas com a sua capacidade de julgar os argumentos favoráveis à sua opinião e, sobretudo, os argumentos contrários ao seu posicionamento, o que permite verificar se o entrevistado possui a capacidade de valorizar simetricamente os argumentos contra e a favor da sua posição que estejam ancorados na mesma perspectiva moral. Portanto, o teste mede o padrão de respostas do entrevistado e não respostas isoladas. Por esse caminho, chegamos ao nível de competência moral (C- score) do grupo de parlamentares do Rio Grande do Rio Grande do Sul. 3.4 Coleta e processamento dos dados O estudo contou com dados obtidos da amostra por adesão de 44 parlamentares do Rio Grande do Sul, 33 deputados/as estaduais, 10 deputados/as federais e um senador12. A participação dos parlamentares foi voluntária, em conformidade com o estabelecido no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, assinado pelos participantes (Apêndice A).Um parlamentar, após a realização da entrevista presencial com a aplicação do MJT_xt, recusou-se a assinar o Termo de Consentimento, razão pela qual suas respostas foram excluídas do estudo. Antes da coleta de dados com os/as deputados/as estaduais, federais e senadores foi realizado o pré-teste com uma amostra de 17 vereadores/as de Porto Alegre, a fim de desenvolver os procedimentos de aplicação do instrumento e conferir se havia problemas de compreensão dos enunciados. Os dados coletados no estudo piloto não serão apresentados neste trabalho, visto que a coleta serviu 12 A pesquisa desenvolvida foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter, gerando o número do parecer: 4.983.955/2021. De acordo com a liberação,o projeto atende aos princípios éticos e está de acordo com a resolução 466/12, que regula os procedimentos de pesquisa envolvendo seres humanos. 80 apenas como recurso metodológicos. A aplicação do pré-teste, no mais, diferentemente do procedimento adotado na pesquisa, foi realizada por meio eletrônico, através de e-mail com o convite de participação na pesquisa, tendo, em anexo, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e o link para o formulário na plataforma digital Google Forms com o questionário. Obtivemos um retorno de 17 vereadores/as da capital (taxa de retorno de 47,2%). A partir dessa experiência, optamos por realizar as entrevistas que compõe o escopo do presente estudo de forma presencial ou telepresencial, o que nos daria a certeza de que o questionário seria respondido pelo próprio parlamentar, além de possibilitar dirimir eventuais dúvidas. Toda a coleta empírica foi realizada pela pesquisadora. O convite aos parlamentares para participar da pesquisa foi realizado por e-mail e a partir de contato telefônico com o gabinete do parlamentar. As entrevistas com aplicação dos testes foram realizadas presencialmente no gabinete do parlamentar ou através de vídeo chamada, pela plataforma Meet. Durante a entrevista, foi disponibilizado o questionário para registro das respostas através da plataforma digital Google Forms. O tempo de cada entrevista com a aplicação do instrumento Teste MJT_xt variou entre 30 e 45 minutos. Para a aplicação do instrumento, seguiu-se o mesmo procedimento em todas as entrevistas: explicação dos objetivos da pesquisa, explicação detalhada do preenchimento do questionário eletrônico na plataforma digital Google Forms, enfatizando que o questionário tratava do julgamento sobre as três histórias narradas e que o intuito central da investigação está no posicionamento do parlamentar frente aos dilemas, sobretudo no julgamento dos argumentos apresentados. As três histórias com seus argumentos favoráveis e seus argumentos contrários à atitude do personagem central foram lidas em voz alta pela pesquisadora, após o que foi solicitado ao parlamentar registrar o seu posicionamento no questionário eletrônico disponibilizado. Os dados brutos da presente pesquisa serão descartados e, portanto, não serão utilizados em pesquisas futuras. O retorno dos resultados da pesquisa será compartilhado com os parlamentares participantes e com a comunidade. Aos participantes da pesquisa será encaminhada a presente Dissertação de Mestrado 81 por e-mail; já o retorno à comunidade se pretende assegurar com a produção de artigo a ser publicado por revista científica e pela apresentação do trabalho em encontros e congressos acadêmicos. A tabulação dos dados foi realizada em planilha de Excel. As análises estatísticas foram feitas através do programa SPSS (Statistical Package for Social Sciences). Para obtermos o C-score, nos utilizamos do cálculo apresentado pela pesquisadora McDaniel (2007), respeitando as nove etapas de cálculo propostas no princípio MANOVA. 82 4 O SENSO DE JUSTIÇA E A COMPETÊNCIA MORAL- DEMOCRÁTICA DOS PARLAMENTARES DO RIO GRANDE DO SUL “Sunt lacrimae rerum et mentem mortalia tangunt.”13 Virgílio (Eneida) Uma das características fundamentais das democracias modernas é seu papel representativo, mas quais os projetos políticos que os representantes eleitos representam? A constituição de 1988 inaugurou o processo de redemocratização, reposicionando o Brasil na “era de direitos”. Após mais de duas décadas de ditadura, nosso País reconquistou a autonomia e a independência entre os Poderes, característica central para o mecanismo de “freios e contrapesos” (Checks and balances). A Constituição Federal, assim, garante ao Poder Legislativo a função de elaboração de leis tanto quanto a de fiscalização do Executivo. Os parlamentares possuem, por decorrência, prerrogativas destacadas e o poder de formular, debater, aprovar ou rejeitar projetos de lei, assim como amplas possibilidades de fiscalização do Poder Executivo e das políticas públicas. Na formulação, discussão e aprovação de leis em uma democracia, os parlamentares devem exercer capacidades específicas que os habilitem à superação de conflitos entre interesses não raro conflitantes. Devem, por isso mesmo, praticar a escuta respeitosa e compassiva, além de propor e praticar o diálogo de forma a contornar os riscos da violência. Essas capacidades e disposições são pressupostos do reconhecimento dos direitos daqueles que postulam valores distintos ou daqueles que pertencem a “tribos distintas”, sem o que não é possível cogitar a garantia de direitos e acesso às políticas públicas a todos 13 “Há lágrimas na natureza das coisas e tocam a alma dos mortais”. 83 independente de sua raça, cor, religião, orientação sexual, posição político- ideológica etc. No entanto, a luta política muitas vezes deixa de ser uma luta por direitos coletivos e passa a ser, simplesmente, uma disputa pelo Poder, um caminho que transforma a disputa em um “jogo de soma zero”14, em que teremos vencedores e derrotados, amigos e inimigos. Uma das formas de se perceber como a política é pensada é inquirir sobre a competência moral-democrática dos políticos, o que pode nos oferecer, a depender da qualidade da amostra examinada, características mais gerais presentes no Parlamento. Nosso estudo, nesse sentido, revela aspectos relevantes do perfil de parte da representação política do Rio Grande do Sul, e nos provoca a pensar de que forma a competência moral-democrática do parlamentar repercute na efetivação dos direitos humanos e políticas públicas. Apresentaremos aqui os dados obtidos em nosso campo empírico. Primeiramente vamos apresentar o perfil do grupo de parlamentares da amostra composta por 79,5% do sexo masculino e 20,5% de parlamentares do sexo feminino, o que reflete o pequeno percentual de parlamentares do sexo feminino nos Legislativos brasileiros15. Tabela 1 - Distribuição por sexo Frequency Percent Feminino 9 20,5 Masculino 35 79,5 Total 44 100,0 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Quanto à faixa etária, 18,2% dos parlamentares da amostra possuem idade de até 39 anos; 25,0% estão na faixa etária entre 40 e 49 anos e 56,8% se encontram acima dos 50 anos, conforme percebemos na tabela abaixo. 14 O conceito é muito usado pela Teoria dos Jogos e no âmbito das análises econômicas para identificar os processos em que os ganhos de um indivíduo ou de um grupo são, necessariamente, as perdas de outro indivíduo ou grupo. 15 Em 2020, as mulheres foram 16,6% das pessoas eleitas para as Câmaras Municipais no Brasil. No plano Federal, a proporção de vagas ocupadas por mulheres era de 14% em 2020, o que é a menor proporção de mulheres exercendo mandato parlamentar na América do Sul, o que situa o Brasil na 142ª posição de um ranking com dados para 190 países. 84 Tabela 2 - Distribuição por faixa etária Frequency Percent Até 39 anos 8 18,2 De 40 a 49 anos 11 25,0 50 anos ou mais 25 56,8 Total 44 100,0 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Quanto à etnia/cor 93,2% dos parlamentares da amostras e declaram de cor branca e 6,8%, parda. Tabela 3 - Distribuição por etnia/cor Frequency Percent Branca 41 93,2 Parda 3 6,8 Total 44 100,0 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Quanto à religião, o número de parlamentares cristãos corresponde à mais de 80% dos entrevistados, conforme observamos na tabela a seguir. Tabela 4 - Distribuição religião/igreja Frequency Percent Católica 32 72,7 Espírita 1 2,3 Evangélicos 2 4,5 Outra 2 4,5 Protestante tradicional 2 4,5 Sem religião 5 11,4 Total 44 100,0 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Nossa amostra tem representatividade de parlamentares dos espectros políticos: direita, centro, esquerda e extrema esquerda.O espectro político foi declarado pelo próprio entrevistado. Não usamos as nomenclaturas centro-direita e centro-esquerda, porque elas nos pareceram oferecer campos de baixa densidade de definição. A disposição das alternativas político-ideológicas de nosso instrumento nos pareceu suficiente e adequada, mas quatro parlamentares manifestaram que se identificariam melhor com as nomenclaturas “centro-direita” e “centro-esquerda”; ainda assim, eles optaram entre as categorias oferecidas. 85 Destacamos ainda que parlamentares de uma mesma sigla tiveram identificações ideológicas diversas, o que contribuiu para um número menor de parlamentares autodeclarados “de direita”. Tabela 5 - Distribuição por espectro político Frequency Percent Extrema-esquerda 1 2,3 Esquerda 16 36,4 Centro 19 43,2 Direita 8 18,2 Total 44 100,0 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Sobre o número de mandatos, a amostra possui uma quantidade significativa de agentes políticos que possuem quatro mandatos ou mais. A maioria dos parlamentares, entretanto, está no primeiro ou no segundo mandato. Aqui cabe salientar que foi solicitado que cada parlamentar registrasse o número total de mandatos, incluindo mandatos parlamentares em outras esferas de Poder. Tabela 6 - Distribuição por número de mandatos Frequency Percent Um mandato 11 25,0 Dois/três mandatos 14 31,8 Quatro mandatos ou mais 19 43,1 Fonte: Elaborada pela autora (2021). A seguir, apresentaremos a média encontrada para o C-score do grupo de 44 parlamentares que compõe o presente estudo. A pontuação C pode variar de 1 a 100. Consideramos no estudo um C-score entre zero e nove como muito baixo; de 10 a19 como baixo; de 20 a 29 como médio; de 30 a 39 como alto, de 40 a 49 muito alto e acima de 50, como extraordinariamente alto. Decidimos utilizar os mesmos valores da pesquisa de McDaniel (2007) por ela ser mais ampla e por termos utilizado a mesma base de cálculo que a pesquisadora. O C-score da amostra apresentou como valor mínimo zero e o valor máximo de 67,7. A média geral de competência de julgamento moral da amostra foi de 17,7. O que, de acordo com a escala de classificação utilizada como parâmetro, nos fornece um grupo formado por parlamentares de competências morais de nível baixo (10 a 19). Conforme observamos na tabela abaixo. 86 Tabela 7 - Média C-score Média entre o C-score 17,7886884 Valor mínimo registrado 0,00000 Valor máximo registrado 67,16652 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Encontramos, assim, uma maior frequência de parlamentares com competência moral baixa (10 a 19), o que corresponde a 47,7% da amostra. Tabela 8 - Frequência e C-score médio entre os três Dilemas Frequency Percent Valid Muito baixo (0-9) 10 22,7 Baixo (10 a 19) 21 47,7 Médio (20 a 29) 8 18,2 Alto (30 a 39) 4 9,1 Extraordinariamente alto (50 +) 1 2,3 Total 44 100,0 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Se retirados os dois sujeitos discrepantes do grupo de parlamentares, ou seja, o único parlamentar que obteve C-score zero e o único parlamentar que obteve pontuação acima de 50, encontramos um valor de 17,0 como média para o C-score do grupo de parlamentares. Quando excluímos o Dilema do Médico e calculamos o C-score do grupo de parlamentares utilizando a versão padrão do MJT, considerando apenas os Dilemas dos Operários e do Comandante, encontramos uma média do C-score de 20,0, com o valor mínimo registrado de zero e máximo de 66,0. 87 Tabela 9 - Frequência C-score com a média entre o dilema 1 (Operários) e Dilema 3 (Comandante) Frequency Percent Valid Muito baixo (0-9) 9 20,5 Baixo (10 a 19) 14 31,8 Médio (20 a 29) 14 31,8 Alto (30 a 39) 5 11,4 Muito Alto (40 a 49) 1 2,3 Extraordinariamente alto (50 +) 1 2,3 Total 44 100,0 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Com esse procedimento, identificamos que o Dilema do Médico, que trata da eutanásia, é um fator preponderante para a média do C-score baixo entre os parlamentares. O resultado encontrado corrobora a necessidade de aplicação do instrumento em sua versão MJT_xt, o qual situa o mesmo dilema em outra perspectiva. O fato de os parlamentares possuírem um C-score mais baixo justamente no dilema que trata da eutanásia pode, sim, ter a ver com a religiosidade, visto o número expressivo de parlamentares que se declaram cristãos, mas também pode refletir a falta de competência para julgar argumentos morais contrários ao seu posicionamento político. Portanto o estudo nos elucida que o senso de justiça dos parlamentares do Rio Grande do Sul é guiado por uma baixa competência moral-democrática, o que nos autoriza a imaginar um cenário de muitas dificuldades para a definição de políticas públicas eficientes porque, com frequência, é preciso que na tomada de decisões sobre elas, os agentes relativizem suas próprias convicções morais tendo presente as consequências práticas das escolhas a serem tomadas. Para esse distanciamento, é preciso uma competência moral muito desenvolvida, capaz de permitir que um valor pessoal seja “suspenso” em nome dos benefícios mais amplos. Se repõe aqui a célebre assertiva de Max Weber a respeito de uma conduta amparada no que ele chamou de “ética da convicção”, em contraposição à chamada “ética da responsabilidade”. Nos termos weberianos, a ética da convicção se ancora em alguma versão do absoluto pelo que o que define o bem e o mal é apenas a tradução ou concordância do agente político com os valores por ele professados. Já 88 a ética da responsabilidade, de caráter teleológico, é orientada pelas consequências das escolhas, o que situa seu fundamento no Outro. Ela leva em conta, assim, o bem que pode ser feito a um número maior de pessoas; ou, o que é apenas outra forma de expor o mesmo compromisso, a ideia de evitar o maior mal possível. Isso não quer dizer que a ética da convicção equivalha a ausência de responsabilidade e a ética da responsabilidade, a ausência de mentalidade. Não se trata disso, evidentemente. Não obstante, há oposição profunda entre a atividade de quem se conforma às máximas da ética da convicção - diríamos, em linguagem religiosa, ‘O cristão cumpre seu dever e, quanto aos resultados da ação, confia em Deus’ - e a atitude de quem se orienta pela ética da responsabilidade, que diz: ‘Devemos responder pelas previsíveis consequências de nossos atos’. [...] Quando as consequências de um ato praticado por pura convicção se revelam desagradáveis, o partidário de tal ética [de convicção] não atribuirá responsabilidade ao agente, mas ao mundo, à tolice dos homens ou à vontade de Deus, que assim criou os homens. O partidário da ética da responsabilidade, ao contrário, contará com as fraquezas comuns do homem (pois, como dizia muito procedentemente Fichte, não temos o direito de pressupor a bondade e a perfeição do homem) e entenderá que não pode lançar a ombros alheios as consequências previsíveis de sua própria ação. Dirá, portanto: "essas consequências são imputáveis à minha própria ação". O partidário da ética da convicção só se sentirá "responsável" pela necessidade de velar em favor da chama pura da doutrina pura, a fim de que ela não se extinga, de velar, por exemplo, para que se mantenha a chama que anima o protesto contra a injustiça social. Seus atos, que só podem e só devem ter valor exemplar, mas que, considerados do ponto de vista do objetivo essencial, aparecem como totalmente irracionais, visam apenas àquele fim: estimular perpetuamente a chama da própria convicção (WEBER, 2015, p. 126-127). Ao cotejarmos a competência moral dos parlamentares do Rio Grande do Sul, uma questão a ser levantada é se a competência moral muda a depender das variáveis processadas pelo estudo. Abaixo, apresentamos um quadro com as respostas do indivíduo da amostra que alcançou um C-score extraordinariamente alto (acima de 50).Os argumentos pró e contra não estão apresentados na ordem aleatória aplicada, mas justapostos segundo a ordem dos seis estágios de Kohlberg, o que nos permite visualizar e compreender melhor o padrão das respostas que, na maioria das vezes, valor aos argumentos favoráveis à sua opinião da mesma forma com que valora os argumentos contrários. No exemplo, há notas mais altas (positivas) na escala Likert para os argumentos dos estágios 5 e 6 que representam o nível pós-convencional e notas negativas para os argumentos dos estágios 1 e 2 do nível pré-convencional. 89 Quadro 7 - Padrão resposta C-score extraordinariamente alto – Dilema Operário Estágio Argumento Pró Resposta Entrevistado escala Likert Argumento Contra Resposta Entrevistado escala Likert Característica Estágio Estágio 1 Eles não causaram prejuízos para a companhia. -2 Os operários não foram afetados pela demissão dos outros empregados, não tinham nenhuma razão para roubar as transcrições. -2 Orientação para a punição e a obediência Estágio 2 Desde que a companhia cometeu uma injustiça em primeiro lugar, os operários estariam justificados em arrombar o escritório. -2 É imprudente arriscar-se a ser demitido da empresa por causa de outras pessoas. -3 Postura hedonista Estágio 3 A maioria dos operários aprovaria o que foi feito e muitos deles ficariam inclusive satisfeitos. -3 Se a pessoa quer ser considerada correta e decente, ela não invade um recinto alheio para apropriar- se do que quer que seja. +3 Moralidade do Bom garoto Estágio 4 Devido ao desrespeito da companhia em relação às leis, os meios utilizados seriam permitidos com o objetivo de restabelecer a lei e ordem. -2 A lei e a ordem na sociedade seriam colocados sem risco se todos agissem como esses dois operários agiram. +2 Orientação para lei e ordem Estágio 5 Os operários não viram nenhum meio legal de revelar o mau uso que a companhia fazia das informações dessa forma obtidas e, portanto ,escolheram fazer aquilo que consideram “mal menor”. +1 Os operários deveriam ter percorrido os canais legais existentes ao invés de ter agido contra a lei +4 Orientação para o contrato social Estágio 6 A confiança entre as pessoas e a dignidade contam mais do que regulamentos internos da empresa. +2 Não se deve violar um direito básico como o direito à propriedade e tomar a lei em suas próprias mãos, a menos que algum princípio moral justifique agir assim. +3 Validade dos princípios universais Fonte: Elaborado pela autora (2021). Já um indivíduo que obteve um baixíssimo C-score (0-9) não consegue emitir um juízo moral sobre o argumento em si, ficando preso a sua opinião do que seria mais justo para resolução do dilema moral enfrentado pelo personagem. Nesse caso, o entrevistado atribuiu notas iguais e negativas na escala Likert para todos os argumentos pró atitude dos operários, e notas positivas para todos os argumentos 90 que contrariam a atitude dos operários. repetindo esse padrão de respostas nos demais dilemas. Quadro 8 - Padrão resposta C-score muito baixo – Dilema Operário Estágio Argumento Pró Resposta Entrevistado escala Likert Argumento Contra Resposta Entrevistado escala Likert Característica Estágio Estágio 1 Eles não causaram prejuízos para a companhia. -2 Os operários não foram afetados pela demissão dos outros empregados, não tinham nenhuma razão para roubar as transcrições. +1 Orientação para a punição e a obediência Estágio 2 Desde que a companhia cometeu uma injustiça em primeiro lugar, os operários estariam justificados em arrombar o escritório. -2 É imprudente arriscar-se a ser demitido da empresa por causa de outras pessoas. +2 Postura hedonista Estágio 3 A maioria dos operários aprovaria o que foi feito e muitos deles ficariam inclusive satisfeitos. -2 Se a pessoa quer ser considerada correta e decente, ela não invade um recinto alheio para apropriar- se do que quer que seja. +3 Moralidade do Bom garoto Estágio 4 Devido ao desrespeito da companhia em relação às leis, os meios utilizados seriam permitidos com o objetivo de restabelecer a lei e ordem. -2 A lei e a ordem na sociedade seriam colocados em risco se todos agissem como esses dois operários agiram. +2 Orientação para lei e ordem Estágio 5 Os operários não viram nenhum meio legal de revelar o mau uso que a companhia fazia das informações dessa forma obtidas e, portanto escolheram fazer aquilo que consideram “ mal menor”. -2 Os operários deveriam ter percorrido os canais legais existentes ao invés de ter agido contra a lei. +4 Orientação para o contrato social Estágio 6 A confiança entre as pessoas e a dignidade contam mais do que regulamentos internos da empresa. -2 Não se deve violar um direito básico como o direito à propriedade e tomar a lei em suas próprias mãos, a menos que algum princípio moral justifique agir assim. +2 Validade dos princípios universais Fonte: Elaborado pela autora (2021). Com o objetivo de se verificar se o senso de justiça pode variar a depender das variáveis (sexo, idade, escolarização, inclinação político-ideológica, nº de mandatos), realizou-se o cruzamento entre os escores de competência moral obtidos e as variáveis independentes. 91 Quanto ao gênero, não encontramos diferença estatística significativa (p< 0,05). Homens e mulheres da amostra situaram-se, em maioria, no nível baixo (10- 19), ressaltando que 79,5% dos parlamentares respondentes são homens. Os valores registrados para competência moral muito baixa e baixa na amostra são, no mais, bem aproximados, já o nível médio é liderado por parlamentares do sexo feminino. A competência moral alta e extraordinariamente alta, bem rarefeita, foi observada em parlamentares do sexo masculino. Conforme de observa na tabela 10. No caso, essa distribuição por gênero é uma diferença apenas da amostra, sem significância estatística. Ou seja, em outro estudo com amostra semelhante, poderíamos encontras diferenças de outra natureza. Para saber se há diferenças estatística de gênero quando à competência moral seria preciso uma amostra com “n” muito maior. Tabela 10 – Frequência entre os três C-scores - CATEGORIAS * Sexo Sexo Feminino Masculino Média entre os três C-scores – CATEGORIAS Muito baixo (0-9) 22,2% 22,9% Baixo (10 a 19) 44,4% 48,6% Médio (20 a 29) 33,3% 14,3% Alto (30 a 39) 11,4% Extraordinariamente alto (50 +) 2,9% Total 100,0% 100,0% Fonte: Elaborada pela autora (2021). Como agrupamento das categorias: muito baixo/baixo (0-19), médio (20-29) e alto/muito alto/extraordinariamente alto (30 a 50+), encontramos a seguinte frequência para a variável sexo: 92 Tabela 11 - Frequência agrupada em três categorias entre os três C-scores – CATEGORIAS * Sexo Sexo Feminino Masculino Média entre os três C-scores - TRÊS CATEGORIAS MUITO BAIXO / BAIXO (0-19) 66,7% 71,4% MÉDIO (20-29) 33,3% 14,3% ALTO (30 a 50+) 14,3% Total 100,0% 100,0% Pearson Chi-Square = 0,254 Fonte: Elaborada pela autora (2021). A média do C-score obtido pelas parlamentares mulheres e pelos parlamentares homens que compõe a amostra encontram-se em valores muitos próximos, sendo a média encontrada para o sexo feminino de 16,72 e 18,06 para o sexo masculino. Tabela 12 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Sexo Sexo C-score para o dilemas 2 e 3 Feminino Mean 16,72 Minimum 5,86 Maximum 26,48 Masculino Mean 18,06 Minimum 0,00 Maximum 67,17 Fonte: Elaborada pela autora (2021). No desempenho por faixa etária, imaginávamos que os parlamentares mais jovens teriam melhor C-score. A média encontrada para o C-score de parlamentares de até 39anos foi de 20,70 (nível médio), parlamentares de 40 a 49 anos atingem a média de 20,38 (nível médio) e parlamentares com mais de 50 anos atingem uma média de 15,72 (nível baixo). Aqui observamos uma diferença de cinco pontos, o que para Lind (2000) representa uma diferença alta (acima de 10 pontos representaria uma diferença muito alta). 93 Tabela 13 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Faixa etária Sexo Média entre os três C-scores Até 39 anos Mean 20,70 Minimum 7,22 Maximum 67,17 De 40 a 49 anos Mean 20,38 Minimum 0,00 Maximum 37,03 50 anos ou mais Mean 15,72 Minimum 2,68 Maximum 36,48 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Entretanto, a análise dos dados mostra uma porcentagem de 75% de parlamentares de até 39 anos no nível baixo de competência moral e ainda 12,5 % dos parlamentares mais jovens encontram-se no nível muito baixo. Tabela 14 - Frequência e C-scores – CATEGORIAS * Faixa etária faixa etária 3 categorias Até 39 anos De 40 a 49 anos 50 anos ou mais Média entre os três C-scores – CATEGORIAS Muito baixo (0-9) 12,5% 18,2% 28,0% Baixo (10 a 19) 75,0% 36,4% 44,0% Médio (20 a 29) 27,3% 20,0% Alto (30 a 39) 18,2% 8,0% Extraordinariamente alto (50 +) 12,5% Total 100,0% 100,0% 100,0% Fonte: Elaborada pela autora (2021). Ou seja, 87,5% dos parlamentares mais jovens encontram-se nos níveis muito baixo ou baixo (0-19). No cálculo de relevância estatística, tivemos o p = 0,487, não havendo, assim, diferença estatística significativa para a variável idade. Quando retiramos os dois participantes discrepantes, (C-score 0 e o C-score extraordinariamente elevado de 67,17), obtivemos a seguinte média por grupo de faixa etária. 94 Tabela 15 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Faixa etária sem participantes discrepantes Sexo Média entre os três C-scores Até 39 anos Mean 14,06 Minimum 7,22 Maximum 18,65 De 40 a 49 anos Mean 22,42 Minimum 5,86 Maximum 37,03 50 anos ou mais Mean 15,72 Minimum 2,68 Maximum 36,48 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Deste modo, os parlamentares com até 39 anos têm uma queda para um C- score de 14,06 (baixo), os parlamentares de 40 a 49 anos apresentam um C-score mais elevado de 22,42 (médio) e os parlamentares com mais de 50 anos permanecem com um C-score de 15,72. Portanto, os dados coletados na amostra sugerem que parlamentares de faixa etária entre 40 e 49 anos possuem um escore mais elevado de competência moral média. A hipótese referente ao número de mandatos estar inversamente correlacionado à competência moral não foi confirmada, sendo a média encontrada para o C-score muito próxima para veteranos e novatos na atividade parlamentar, conforme observamos na tabela 16. Tabela 16 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos Média entre os três C-scores 1 mandato Mean 16,26 Minimum 2,68 Maximum 67,17 Entre 2 e 3 mandatos Mean 18,69 Minimum 0,00 Maximum 37,03 4 mandatos ou mais Mean 18,01 Minimum 5,10 Maximum 36,48 Fonte: Elaborada pela autora (2021). 95 Ainda observamos que 81,8% dos parlamentares com até um mandado estão no nível muito baixo/ baixo com pontuação entre 0 e 19 pontos, não sendo observado no teste qui-quadrado diferença estatisticamente significativa quanto ao número de mandatos. Tabela 17 - Frequência C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos Nº_mandatos_cat 1 mandato Entre 2 e 3 mandatos 4 mandatos ou mais Média entre os três C-scores CINCO CATEGORIAS Muito baixo (0-9) 45,5% 14,3% 15,8% Baixo (10 a 19) 36,4% 50,0% 52,6% Médio (20 a 29) 9,1% 21,4% 21,1% Alto (30 a 39) 14,3% 10,5% Extraordinariamente alto (50 +) 9,1% Total 100,0% 100,0% 100,0% Fonte: Elaborada pela autora (2021). Tabela 18 - Frequência agrupada C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos Nº_mandatos_cat 1 mandato Entre 2 e 3 mandatos 4 mandatos ou mais Média entre os três C-scores TRES CATEGORIAS MUITO BAIXO /BAIXO (0-19) 81,8% 64,3% 68,4% MÉDIO (20-29) 9,1% 21,4% 21,1% ALTO (30 a 50+) 9,1% 14,3% 10,5% Total 100,0% 100,0% 100,0% Pearson Chi-Square= 0,891 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Quando retiramos os dois participantes discrepantes do grupo, a amostra sugere que o número de mandatos colabora para o desenvolvimento da competência moral-democrática. De modo que encontramos uma média de C-score de 11,16 ( baixo) para parlamentares de até 1 mandato. Já parlamentares entre 2 e 3 mandatos atingem um C-score de 20,13 ( médio) e parlamentares com mais de 4 mandatos permanecem no nível baixo com uma média de C-score de 18,01. 96 Tabela 19 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Número de mandatos sem participantes discrepantes Média entre os três C-scores 1 mandato Mean 11,16 Minimum 2,68 Maximum 26,34 Entre 2 e 3 mandatos Mean 20,13 Minimum 3,70 Maximum 37,03 4 mandatos ou mais Mean 18,01 Minimum 5,10 Maximum 36,48 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Dessa forma, os resultados obtidos, sem os participantes discrepantes da amostra, sugerem que parlamentares entre 40 e 49 anos e parlamentares que estão entre o segundo e terceiro mandatos estariam no nível médio da competência moral- democrática. Os dados da amostra não nos permitem concluir se as variáveis idade e número de mandatos complementam-se ou se uma delas seria preponderante para o resultado. Um dos temas relevantes quando do cruzamento dos dados era saber se os perfis ideológicos autodeclarados dos parlamentares (esquerda, centro e direta) faziam alguma diferença em seu desempenho no teste de competência moral. Imaginávamos que sim, que essa definição – mesmo com as imprecisões com as quais elas se revestem contemporaneamente – deveria produzir diferenças estatisticamente significativas entre os “campos”. Partindo da autodeclaração, estamos lidando com uma amostra de um parlamentar de extrema esquerda e 16 parlamentares “de esquerda”, os quais foram agrupados no grupo “esquerda”;19 parlamentares “de centro” e oito parlamentares “de direita”. Na média, os oito parlamentares que se autodeclararam “de direita” alcançaram um C-score de 26,11 (competência média), ou seja uma média superior aos parlamentares autodeclarados “de esquerda” e aos parlamentares que se autodeclararam “de centro”, sendo ainda encontrada uma diferença, superior a 10 pontos em relação ao grupos de “esquerda” e “centro”, o que seria identificada por Lind (2002) como uma diferença muito alta, conforme observamos na tabela 20. 97 Tabela 20 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Espectro político Espectro Político Média entre os três C-scores Esquerda Mean 16,39 Minimum 3,70 Maximum 30,23 Centro Mean 15,54 Minimum 0,00 Maximum 36,48 Direita Mean 26,11 Minimum 7,22 Maximum 67,17 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Quando retiramos da amostra os parlamentares discrepantes, encontramos a seguinte média para os grupos de esquerda, centro e direita: Tabela 21 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Espectro político sem participantes discrepantes Espectro Político Média entre os três C-scores Esquerda Mean 16,39 Minimum 3,70 Maximum 30,23 Centro Mean 16,40 Minimum 2,68 Maximum 36,48 Direita Mean 20,25 Minimum 7,22 Maximum 37,03 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Sem os dois casos discrepantes, os valores da média entre os escores de cada grupo ficam mais harmonizados, mas os representantes de direita permanecem no nível médio para competência moral (20 a 29), e os grupos de “esquerda” e “centro” permanecem no nível de competência baixa (10-19). Contudo, quando ainda permanecemos com o participante discrepante do grupo, possuidor de um C-score elevadíssimo, encontramos uma porcentagem muito próximano nível muito baixo (0-9) para os representantes da direita, centro e “esquerda” (aqui agrupamos o único participante declarado como extrema esquerda 98 na esquerda), o que ajuda a compreender porque essa diferença também não é estatisticamente significativa, correspondendo apenas ao perfil da amostra. Tabela 22 - Frequência e C-scores – CATEGORIAS * Espectro político Espectro Político Esquerda Centro Direita Média entre os três C-scores CINCO CATEGORIAS Muito baixo (0-9) 23,5% 21,1% 25,0% Baixo (10 a 19) 41,2% 63,2% 25,0% Médio (20 a 29) 29,4% 10,5% 12,5% Alto (30 a 39) 5,9% 5,3% 25,0% Extraordinariamente alto (50 +) 12,5% Total 100,0% 100,0% 100,0% Fonte: Elaborada pela autora (2021). Com a tabela acima ainda é possível observar que não há uma repetição de competência moral entre os parlamentares de direita, visto que estes estão proporcionalmente distribuídos nos níveis: muito baixo 25,0%, baixo 25,0%, médio 12,5%, alto 25,0% e extraordinariamente alto 12,5%. Quando olhamos a escala de valores agrupada se percebe que metade dos oito parlamentares de direita estão nos níveis muito baixo/baixo de competência moral (0-19), já 84,2% dos 19 parlamentares de centro encontram-se no nível l muito baixo/ baixo (0-19) e 64,7 % dos 17 deputados de esquerda estão no mesmo nível muito baixo/ baixo (0-19). 99 Tabela 23 - Frequência agrupada e C-scores – CATEGORIAS * Espectro político Espectro Político Esquerda Centro Direita Média entre os três C-scores - TRES CATEGORIAS MUITO BAIXO/ BAIXO (0-19) 64,7% 84,2% 50,0% MÉDIO (20-29) 29,4% 10,5% 12,5% ALTO (30 a 50+) 5,9% 5,3% 37,5% Total 100,0% 100,0% 100,0% Pearson Chi-Square = 0,064 Fonte: Elaborada pela autora (2021). O que se destaca é o fato de que, na amostra, há um número elevado de parlamentares com competência moral baixa em todas as tendências político- ideológicas, não sendo o espectro político do parlamentar uma variável significativa para a competência moral. No cálculo de relevância estatística, tivemos o p = 0,064, o que significa que a diferença observada nas médias entre os campos pode ser apenas uma característica da amostra e não uma diferença real entre as vertentes ideológicas. Portanto não se pode afirmar com segurança que o espectro político seria um fator preponderante para ocorrência um C-score mais elevado. Também não encontramos diferenças significativas quanto aos resultados obtidos nos escores dos deputados federais e estaduais. Como a amostra só contou com um senador, o resultado deste foi excluído nesta análise a fim de não revelarmos o seu C-score. Tabela 24 - Média entre os três C-scores – CATEGORIAS * Cargo político Qual cargo político ocupa Média entre os três C-scores Deputado Estadual Mean 18,84 Minimum 0,00 Maximum 67,17 Deputado Federal Mean 15,77 Minimum 5,10 Maximum 30,23 Fonte: Elaborada pela autora (2021). 100 Quando analisamos a porcentagem de cada nível os números permanecem próximos, não havendo diferenças significativas. Tabela 25 - Frequência C-scores – CATEGORIAS * Cargo político Qual cargo político ocupa Deputado Estadual Deputado Federal Média entre os três C-scores – CINCO CATEGORIAS Muito baixo (0-9) 21,2% 20,0% Baixo (10 a 19) 48,5% 50,0% Médio (20 a 29) 18,2% 20,0% Alto (30 a 39) 9,1% 10,0% Extraordinariamente alto (50 +) 3,0% Total 100,0% 100,0% Fonte: Elaborada pela autora (2021). Quanto às variáveis religião e escolarização, a amostra era muito homogênea para se identificar qualquer diferença estatisticamente significativa. Majoritariamente, a amostra é de parlamentares cristãos e de nível superior completo. Sobre a nossa quarta hipótese que considerava que o número de votos obtidos pelos parlamentares estaria inversamente correlacionado à competência moral, o que se observou foi que os escores mais elevados estão entre os parlamentares menos votados, com poucas exceções. Os escores baixos, no entanto, não são monopólio dos mais votados, sendo recorrente entre os mais votados, os medianos e os menos votados. Os escores médios caracterizam, na maioria das vezes, os parlamentares que receberam votações medianas. Essa tendência foi observada a partir da análise da classificação geral por número de votos e no ranking entre as coligações, dados que não podem ser exibidos, para a preservação da identidade dos parlamentares. Aqui, no entanto, cabe destacar ainda que estamos lidando com uma amostra com apenas cinco parlamentares com C-scores alto e extraordinariamente alto. Seria preciso uma amostra com um “n” muito maior para sabermos se diferenças do tipo são estatisticamente significativas. Quando perguntados se concordavam ou discordavam da atitude dos personagens centrais dos dilemas, encontramos o seguinte padrão de posicionamentos. 101 Quanto à atitude do comandante, 20,5% dos parlamentares foram contra a liberação dos pastores; 13,6% ficaram neutros e 65,9% concordaram com a atitude do comandante. Tabela 26 - Frequência Concordância/discordância - Conduta do comandante Frequency Percent Valid -3,0 4 9,1 -2,0 1 2,3 -1,0 4 9,1 ,0 6 13,6 1,0 8 18,2 2,0 6 13,6 3,0 15 34,1 Total 44 100,0 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Quanto aos dilemas dos operários e do médico, foi observado um padrão de resposta de maior discordância na atitude do operário e maior concordância na atitude do médico. Este padrão não interfere na mensuração da competência moral, mas, por se tratar de diferentes questões morais (propriedade e privacidade x vida), o padrão de respostas talvez evidencie um peso específico para o “fator classe social” no que diz respeito ao senso de justiça dos parlamentares da amostra. Tabela 27 - Frequência Concordância/discordância – Conduta dos dois operários Frequency Percent Valid -3,0 15 34,1 -2,0 8 18,2 -1,0 3 6,8 ,0 2 4,5 1,0 7 15,9 2,0 3 6,8 3,0 6 13,6 Total 44 100,0 Fonte: Elaborada pela autora (2021). 59,1% dos parlamentares são contra a atitude dos operários; 4,5% foram neutros e 36,3 foram favoráveis. 102 Quando perguntados se concordavam com à atitude do médico, encontramos outro padrão: 36,4% foram contra; 13,6% foram neutros e 50% foram favoráveis. Tabela 28 - Frequência Concordância/discordância – Conduta do médico Frequency Percent Valid -3,0 9 20,5 -2,0 5 11,4 -1,0 2 4,5 ,0 6 13,6 1,0 7 15,9 2,0 4 9,1 3,0 11 25,0 Total 44 100,0 Fonte: Elaborada pela autora (2021). Em ambos os dilemas, os protagonistas das histórias se encontravam numa situação extrema e optaram por transgredir a “lei”, a fim de fazerem o que julgaram ser mais justo na situação enfrentada. Os parlamentares foram mais compreensivo sem relação à atitude do médico em abreviar o sofrimento com a morte do que frente à atitude tomada pelos operários que arrombam a fábrica para comprovar a espionagem da chefia. Essa diferença pode traduzir maior simpatia pela eutanásia ou uma identidade maior dos respondentes com o médico; um maior apego ao valor da privacidade e da propriedade ou um preconceito quanto à defesa dos operários, o que, normalmente, é associado a uma posição “de esquerda”. Essas e outras possibilidades não são identificadas com o instrumento que, como situamos, está dirigido para medir a competência moral-democrática. Os resultados que encontramos evidenciam que os parlamentares do Rio Grande do sul apresentam dificuldades em reconhecer, para além das declarações protocolares, o significado essencial do diálogo. A política trata da convivência entre os diferentes, no entanto, se parlamentares apresentam baixa competência moral- democrática, estamos diante de agentes políticos que terão muita dificuldade em lidar com as diferenças, o que sugere um percurso tortuoso, talvez impossível,para o estabelecimento de compromissos capazes de produzir leis e políticas públicas inclusivas bem como um risco de enfraquecimento do sistema democrático. 103 Levitsky e Ziblatt (2018) discutem justamente os indicadores de comportamento autoritário de políticos, os quais são uma ameaça aos regimes democráticos. Entre os indicadores, encontramos rejeição das regras democráticas do jogo, negação da legitimidade dos oponentes políticos, a intolerância e o encorajamento à violência. Os autores sustentam a necessidade de que os guardiões da democracia atuem no sentido de afastar dos cargos políticos as forças extremistas e os candidatos antidemocráticos. 104 5 CONCLUSÃO “A maior ameaça à democracia, ao que parece, vem da própria democracia: ela pode destruir a si própria. A constituição e as leis são impotentes face a este paradoxo. O sucesso dos políticos contrários à democracia nas urnas, aqui e noutros países, mostra que a ameaça é real. Se restringirmos os nossos esforços para sustentar a democracia apenas a exigências de mudança estruturais e não considerarmos as pessoas, a democracia pode transformar-se em ditadura.”16 George Lind Para Rawls (1963) o senso de justiça de um indivíduo de elevadas competências morais é refletido diretamente na sua capacidade e disposição para o reconhecimento de que todas as pessoas são titulares dos mesmos direitos e liberdades. Esta capacidade para o senso de justiça é matriz central da personalidade moral em sua teoria da justiça. Habermas (2018) discorre em sua obra sobre a falta da capacidade de reconhecer a igualdade de direitos entre todos os cidadãos, assim como a não inclusão do “Outro” nas políticas públicas, o que gera uma violação de direitos de minorias e a crescente onda de sujeitos que assumem posturas xenófobas, racistas e autoritárias. Honneth (2009), por seu turno, sustenta que os indivíduos só irão se situar como portadores de direito em um processo de luta pelo reconhecimento que demanda as experiências concretas do amor, do reconhecimento jurídico e da vivência da solidariedade. Lind (2002) através do seu teste Moral Judgment Test, torna mensurável justamente a competência moral-democrática do entrevistado/grupo, definida como a habilidade/capacidade do sujeito em resolver dilemas, problemas e conflitos, por meio da discussão e deliberação, em lugar do uso da violência ou do autoritarismo. Portanto, Lind concebe que a competência moral é mensurada pela capacidade ou 16 No original: The greatest threat to democracy, it seems, comes from democracy itself: it can destroy itself. The constitution and the laws are powerless in the face of this paradox. The success of politicians inimical to democracy at the polls here and in other countries shows that the threat is real. If we restrict our endeavors to sustain democracy merely to demands for structural change and leave people out of account democracy can turn into dictatorship. 105 não do sujeito em julgar argumentos por sua qualidade moral, ao invés de uma concordância pré-estabelecida ou por critérios não morais. Lind, portanto, expande o conceito de competência moral-democrática, onde a competência moral é a habilidade individual para encontrar uma saída justa para problemas de difícil solução. De modo que só cidadãos possuidores de um senso de justiça ancorado numa competência moral-democrática seriam capazes de apreciar argumentos independente de sua concordância ou não com eles. Assim a competência moral-democrática estaria ancorada num senso de justiça capaz de reconhecer o direito daqueles que postulam opiniões contrárias. As casas legisladoras são espaços institucionais que exigem membros com competência moral-democrática elevada e um senso de justiça capaz de reconhecer o direito das minorias, dos grupos vulneráveis e de todos a aqueles que postulam ideias diferentes, sendo as habilidades da escuta e do diálogo fundamentais para o exercício de mandatos parlamentares efetivos. A partir da Teoria de Lind, encontramos a evidência perturbadora de que 70,4% dos parlamentares do Rio Grande do Sul possuem um C-score muito baixo ou baixo de competência moral-democrática. Sendo o C-score da amostra de 17,7, o que sugere a atuação de uma maioria de parlamentares com baixo senso de justiça, ou seja: com menor competência para a construção de soluções justas. Mais do que isso, o estudo sugere que a falta de senso de justiça não é característica de um ou outro agrupamento político-ideológico, mas que diz respeito a todas as posições representadas na amostra. Aqui cabe salientar que, a partir do MJT_xt, é possível avaliar o quanto o grupo pesquisado é capaz ou não de ter um senso de justiça capaz de considerar a qualidade moral dos argumentos de defesa e acusação dos personagens envolvidos nos dilemas morais. Um escore baixo representa que os parlamentares ficaram presos à sua própria opinião e não conseguem julgar o argumento pela qualidade moral com um grau de coerência. Os dados apresentados na pesquisa devem ser interpretados com cautela em função do estudo ser pioneiro quanto à representação política. Conforme já assinalado, há muitos estudos semelhantes voltados a outros grupos, mas não 106 encontramos referências de utilização o MJT ou MJT_xt em estudos com agentes políticos. Podemos então sugerir que os 70,4 % dos parlamentares com escores muito baixo e baixo para competência moral, não possuem um senso de justiça capaz de considerar argumentos de uma mesma perspectiva moral de forma igualitária. Um nível de competência moral baixo é, no mais, incompatível com as prerrogativas da cidadania crítica que, como assinalou Fedozzi (2002), exige uma consciência autônoma e a noção igualitária dos direitos e da justiça. Ainda é preciso considerar o papel que o legislador tem para a promoção da justiça distributiva, que demanda relações de cooperação e reconhecimento dos direitos daqueles que postulam crenças e valores distintos dos seus. Os achados de nosso estudo evidenciam limites que não dizem respeito apenas aos parlamentares, mas, claramente, à instituição política brasileira, o que parece ser reforçado na circunstância que identificamos de baixa competência moral-democrática em todas as agremiações e grupos político-ideológicos da amostra, sem diferenças significativas para as variáveis processadas. Tratamos, assim, ao que tudo indica, de um sistema que seleciona representantes com baixa competência moral-democrática e que, possivelmente, opera mais amplamente favorecendo aqueles que possuem os piores C-scores, como vimos quando, para fins de análise, separamos os parlamentares da amostra mais votados dos menos votados. Para Lind (2019a), quando a competência moral do povo é baixa, este não possui a capacidade para julgar a competência moral dos políticos, correndo-se o risco de transformar uma democracia forte numa ditadura autocrática. Lind (2002) postula a importância da habilidade dos sujeitos com alta competência moral- democrática de escutarem uns aos outros, mesmo quando essa escuta ocorre em meio a disputas com oponentes. Para Lind, trata-se de uma capacidade crucial para a vida em uma sociedade pluralista. Nesse sentido, um Parlamento com baixa competência moral-democrática é também uma Instituição que terá muitas dificuldades em valorar e defender o regime democrático. 107 REFERÊNCIAS AGURTO, M. et al. Índice em médicos de los centros hospitalarios chilenos según el test de competência moral de Lind. Rev. Med. Chile, Santiago, v. 145, n. 9, 2017,p. 1122-1128. Disponível em: https://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034- 98872017000901122&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 10 ago. 2020. ARENTH, H. Crises da República. São Paulo: Perspectiva, 2017. AVELINO FILHO, G. Clientelismo e política no Brasil: revisitandovelhos problemas. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, v. 1, n. 38, 1994. BAIÃO, A. L.; COUTO, C. G.; OLIVEIRA, V. E. de. Quem ganha o quê, quando e como? Emendas orçamentárias em Saúde no Brasil. Revista de Sociologia e Política, v. 27 , n. 71, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rsocp/a/ZTGNpZyqYZKysNcGLqS3trj/?lang=pt. Acesso em: 20 dez. 2021. BAQUERO, M. 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Trata-se de um estudo de caso a ser realizando com uma amostra dos parlamentares do Rio Grande do Sul que tem por objetivo conhecer o senso de Justiça da representação política de nosso estado. A pesquisa consistirá na realização de entrevista com parlamentares do Rio Grande do Sul (vereadores da capital, deputados estaduais, deputados federais e senadores). A aplicação dos testes será realizada através da plataforma digital, assegurado o anonimato dos respondentes. O tempo estimado para a realização de cada entrevista e aplicação do teste é de 30 minutos. Toda a pesquisa com seres humanos envolve um risco específico caracterizado como dano. Esse dano poderá ser “associado ou decorrente da pesquisa - agravo imediato ou posterior, direto ou indireto, ao indivíduo ou à coletividade, decorrente da pesquisa” (Resolução 466/2012 – II – Termos e definições). Os riscos possíveis desse estudo se restringem à: a) Desconforto em participar da pesquisa; b) Cansaço ao responder às perguntas. Os possíveis benefícios são de natureza pública caso a pesquisa consiga identificar o senso de justiça presente na representação política do estado. Os dados obtidos na pesquisa serão utilizados na Dissertação de Mestrado da pesquisadora Renata Chimendes, mas também poderão ser apresentados em encontros, revistas científicas e reportagens jornalísticas. Os dados e resultados obtidos serão utilizados de maneira agregada, sem revelar o nome dos entrevistados ou qualquer informação relacionada à sua privacidade. Os dados ficarão disponíveis em banco de dados para estudos futuros. Pelo presente Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, declaro que autorizo a minha participação neste projeto de pesquisa, pois fui informado, deforma clara e detalhada e livre de qualquer forma de constrangimento ou coerção, dos 113 objetivos, da justificativa, dos procedimentos que serei submetido, dos riscos, desconfortos e benefícios, assim como das alternativas às quais poderia ser submetido, todos acima listados. Manifesto, igualmente, que fui adequadamente informado: 1. Da garantia de receber resposta a qualquer pergunta ou esclarecimento a qualquer dúvida sobre os procedimentos, riscos, benefícios e outros assuntos relacionados com a pesquisa; 2. Da liberdade de retirar meu consentimento, a qualquer momento, e deixar de participar do estudo; 3. Da garantia de que não serei identificado quando da divulgação dos resultados e que as informações obtidas serão utilizadas apenas para fins científicos vinculados ao presente projeto de pesquisa; 4. De que os dados que estão sendo coletados serão acessados apenas pelos pesquisadores Mestranda Renata Chimendes e utilizadas pelo grupo de pesquisa; O Pesquisador Responsável por este Projeto de Pesquisa é Renata Chimendes. Você pode entrar em contato, caso tenha eventuais dúvidas, pelo telefone 51 998783218 ou pelo e-mail renatachimendes@hotmail.com. Contatos também podem ser feitos com a coordenação do Mestrado, com a professora Sandra Martini, pelo telefone 99948.2697 ou pelo e-mail: sandra.martini@uniritter.edu.br O presente documento deve ser assinado em duas vias de igual teor, ficando uma com o Participante da Pesquisa ou seu representante legal e outra com o Pesquisador Responsável. O Comitê de Ética em Pesquisa da UniRitter (CEP|UniRitter),responsável pela apreciação do referido Projeto de Pesquisa, pode ser consultado a qualquer momento, para fins de esclarecimento, por meio do número de telefone: (51) 3230.3333 - Ramal 5177 ou do endereço eletrônico (e-mail):cep@uniritter.edu.br. Local: _______________________ Data___ /___ /____ ___________________________ _________________________ Renata Chimendes Nome do entrevistado Assinatura do Pesquisador Assinatura do entrevistado mailto:renatachimendes@hotmail.com mailto:sandra.martini@uniritter.edu.br 114 APÊNDICE B – Instrumento de coleta Perguntas sobre a ação em momentos difíceis O Sr.(a) está sendo convidado a participar de uma pesquisa desenvolvida por, Renata Chimendes, aluna do Curso de Mestrado em Direitos Humanos do Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. O objetivo deste teste é compreender quais as posições dos parlamentares gaúchos diante de situações de difícil solução. Neste instrumento de pesquisa não existem respostas certas ou erradas, apenas justificativas diversas. Nós gostaríamos de saber qual a sua posição sobre três situações hipotéticas. Ninguém, além da pesquisadora, e equipe de pesquisa terá acesso à folha de resposta. A identidade dos parlamentares não interessa à pesquisa e será preservada integralmente. O que nos importa são as respostas e os dados agregados de todos os parlamentares estaduais e federais do RS. P1- Nome: _________________________________________ P2- Faixa etária: ______________ P3- Sexo: ( ) Masculino ( ) Feminino ( ) Outro ( ) Não quero responder P4- Escolaridade: ( ) Ensino fundamental completo ( ) Ensino médio completo ( ) Ensino superior completo ( ) Mestrado concluído ( ) Doutorado concluído P5- Etnia/Cor: ( ) Branca ( ) Parda ( ) Preta ( ) Amarela ( ) Indígena ( ) Outra 115 P6- Religião/Igreja: ( ) Católica ( ) Protestante tradicional (Luterana, Metodista, Batista, Adventista) ( ) Evangélica ( Assembleia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, Igreja Universal...) ( ) Culto afro-brasileiro (Umbanda, Candomblé...) ( ) Judaica ( ) Muçulmana ( ) Espírita ( ) Budista ( ) Outra ( ) Sem religiãoP7- Espectro político: ( ) extrema direita ( ) direita ( ) centro ( ) esquerda ( ) extrema esquerda P8- Cargo Político que ocupa ( ) Deputado Estadual ( ) Deputado Federal ( ) Senador P9- Número de mandatos como parlamentar: _________________ Muito obrigada pela participação! 116 Devido à existência de demissões aparentemente infundadas, alguns operários de fábrica suspeitam que a chefia esteja ouvindo as conversas dos empregados através de um microfone oculto, e usando tais informações contra os empregados. A chefia nega essas acusações enfaticamente. O sindicato declara que só tomará providências contra a empresa quando forem encontradas provas que confirmem as suspeitas. Sendo assim, dois operários decidem arrombar o escritório administrativo e roubam uma transcrição de uma gravação que prova a alegação de espionagem por parte da chefia. INSTRUÇÕES A seguir serão apresentadas três histórias, cada uma delas com três perguntas em que você deverá analisar as condutas dos personagens e julgar cada um dos argumentos apresentados (favoráveis e contrários). Na primeira pergunta, em cada história, você atribuirá um grau de DISCORDÂNCIA/CONCORDÂNCIA com o comportamento adotado na situação, seguindo a escala de -3 até +3: Forte Discordância Forte Concordância Na segunda e terceira pergunta, em cada história, você atribuirá um grau INACEITÁVEL / ACEITÁVEL para as justificativas das ações das personagens em cada afirmativa, seguindo a escala de -4 até+4: Completamente inaceitável Completamente aceitável -4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 História A - Conduta dos dois operários P 1a– Você discorda ou concorda com o comportamento dos operários? Marque na escala a sua avaliação escolhendo uma casa entre -3 e +3. -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 117 Forte Discordância Forte Concordância -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 P 2a– Os seguintes argumentos são a favor do comportamento dos dois operários. Suponha que alguém dê as justificativas abaixo para a ação dos operários. Avalie as 6 justificativas abaixo, usando a escala de -4 a + 4. Completamente inaceitável Completamente aceitável -4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 Afirmativa Escala Estágio 1. Eles não causaram prejuízos para a companhia. 1 2. Devido ao desrespeito da companhia em relação às leis, os meios utilizados seriam permitidos com o objetivo de restabelecer a lei e a ordem. 4 3. A maioria dos operários aprovaria o que foi feito e muitos deles ficariam inclusive satisfeitos. 3 4. A confiança entre as pessoas e a dignidade contam mais do que regulamentos internos da empresa. 6 5. Desde que a companhia cometeu uma injustiça em primeiro lugar, os operários estariam justificados em arrombar o escritório. 2 6. Os operários não viram nenhum meio legal de revelar o mau uso que a companhia fazia das informações dessa forma obtidas e, portanto, escolheram fazer aquilo que consideraram “mal menor”. 5 P 3a– Os seguintes argumentos são contra o comportamento dos dois operários. Suponha que alguém dê essas justificativas abaixo relacionadas contra a ação dos operários. Você considera essas justificativas aceitáveis? Em uma escala de - 4 a +4, como você as classificaria? Completamente inaceitável Completamente aceitável -4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 Em uma escala de -4 a +4, como você as classificaria cada resposta? Afirmativa Escala Estágio 7. A lei e ordem na sociedade seriam colocadas em risco se todos agissem como esses dois operários agiram. 4 118 O médico está diante de uma paciente com câncer disseminado e sabe que ela tem poucos dias de vida. A mulher sofre com dores terríveis e estava tão fraca que uma dose maior de morfina, por exemplo, pode lhe causar a morte rápida. A paciente, então, implora ao médico que lhe dê a morfina suficiente para matá-la. Ela disse que não poderia suportar a dor por mais tempo e que estaria morta em alguns dias de qualquer modo. O médico, então, atende ao desejo da paciente e abrevia seu sofrimento. 8. Não se deve violar um direito básico como o direito à propriedade e tomar a lei em suas próprias mãos, a menos que algum princípio moral universal justifique agir assim. 6 9. É imprudente arriscar-se a ser demitido da empresa por causa de outras pessoas. 2 10. Os operários deveriam ter percorrido os canais legais existentes em vez de ter agido contra a lei. 5 11. Se a pessoa quer ser considerada correta e decente, ela não invade um recinto alheio para apropriar-se do que quer que seja. 3 12. Os operários não foram afetados pela demissão dos outros empregados e, portanto, não tinham nenhuma razão para roubar as transcrições. 1 História B – Conduta do médico P 1b– Você discorda ou concordado comportamento do médico? Marque na escala a sua avaliação escolhendo uma casa entre -3 e +3. Forte Discordância Forte Concordância P 2b– Os seguintes argumentos são a favor do comportamento do médico. Suponha que alguém dê as justificativas abaixo em apoio à ação do médico. Você considera essas justificativas aceitáveis? Em uma escala de -4 a +4, como você as classificaria? -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 119 Completamente inaceitável Completamente aceitável -4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 Nessa escala de -4 a +4, como você as classificaria cada resposta? Afirmativa Escala Estágio 1. O médico tinha que agir de acordo com sua consciência. O estado de saúde da mulher justificava uma exceção à obrigação moral de preservação da vida. 6 2. O médico era o único que poderia realizar o desejo dessa mulher; o respeito pela vontade dela fez com que agisse como agiu. 5 3. O médico apenas fez o que a mulher pediu a ele. Ele não precisava se preocupar com possíveis consequências negativas. 1 4. A mulher teria morrido de qualquer forma e não custou nada a ele dar- lhe uma overdose de morfina. 2 5. O médico não agiu realmente contra a lei uma vez que a mulher não poderia ter sido salva e ele apenas quis abreviar seu sofrimento. 4 6. Os meus amigos, parentes e colegas, provavelmente, concordariam que a eutanásia era a melhor alternativa para aquela mulher. 3 P 3b– Os seguintes argumentos são contra o comportamento do médico. Suponha que alguém dê essas justificativas abaixo para dizer que o médico agiu de modo errado. Você considera essas justificativas aceitáveis? Em uma escala de -4 a +4, como você as classificaria? Completamente inaceitável Completamente aceitável -4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 Nessa escala de -4 a +4, como você as classificaria cada resposta? Afirmativa Escala Estágio 7. Ele agiu contra as convicções de seus colegas. Se os médicos são contrários à eutanásia, ele não deveria tê-la praticado. 3 8. Deve-se ter absoluta confiança no juramento médico de preservar a vida ainda que se trate de alguém que esteja sofrendo muita dor ou quase morrendo. 5 9. A preservação da vida é a mais alta obrigação moral de cada um de nós. Como nós não temos critérios morais claros para diferenciar eutanásia de assassinato, não se tem o direito de decidir sobre a vida ou morte de ninguém. 6 10. O médico poderia se envolver em sérios problemas. Outras pessoas já foram severamente punidas por fazer algo semelhante. 1 11. Seria mais fácil ele esperar e não interferir na morte da paciente. 2 120 O Serviço de Inteligência Militar de um país Ocidental identificou a presença de um líder terrorista e 150 milicianos, num vilarejo em meio às montanhas no Afeganistão. Essa liderança era famosa por matar seus oponentes, após torturá-los.Um grupo de militares especializado em ações contraterrorismo recebeu a missão de capturar o líder. Infiltrados na região, os militares aguardavam a melhor oportunidade para a ação. Após alguns dias no deserto, foram surpreendidos com a aparição de três pastores de ovelhas: um velho, um garoto de 14 anos e um homem jovem. Os militares renderam os três civis e devido às dificuldades de comunicação, não conseguiram avaliar se haveria alguma ligação entre os pastores e os terroristas. O comandante militar da operação sabia que, se fossem descobertos, a missão e a vida de seus homens correriam sérios riscos. A alternativa que tinha era a de executar os três pastores, impedindo, assim que a missão fosse descoberta e os militares fossem mortos. Após ouvir seus comandados que, em maioria, defendiam a execução, o comandante decidiu liberar os pastores. Em Liberdade, os pastores informaram os terroristas que atacaram o destacamento militar matando quase todos os seus integrantes. 12. O médico agiu contra a lei. Sendo a eutanásia ilegal, não se deve aceitar pedidos como o daquela paciente. 4 História C - Conduta do comandante P 1c– Você discorda de ou concorda do comportamento do comandante? Marque na escala a sua avaliação escolhendo uma casa entre -3 e +3. Forte Discordância Forte Concordância -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 P 2c– Os seguintes argumentos são a favor do comportamento do comandante. Suponha que alguém dê essas justificativas para dizer que o comandante agiu corretamente. Você considera essas justificativas aceitáveis? Em uma escala de -4 a +4, como você as classificaria? 121 Completamente inaceitável Completamente aceitável -4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 Em uma escala de -4 a +4, como você as classificaria cada resposta? Afirmativa Escala Estágio 1. Como os pastores eram civis, o comandante deveria soltá-los para não ser punido como criminoso de guerra. 1 2. Deveria libertar os pastores para evitar a fúria da população local e da mídia. 2 3. Apesar das opiniões em contrário, o comandante decidiu de acordo com sua consciência. Os pastores estavam desarmados, havia risco em libertá-los, mas seria preferível correr esses riscos a matar inocentes. 6 4. O respeito às leis e aos acordos de conduta em guerra limitam o uso de violência desnecessária pelos agentes militares, valorizando a vida de populações civis envolvidas nos conflitos. 5 5. É o que preconiza as leis internacionais de guerra sobre conduta com civis em combate. As leis devem ser cumpridas mesmo oferecendo risco para os soldados. 4 6. Decidiu libertar os pastores porque teria a aprovação da mídia, da opinião pública geral e dos Comitês de Direitos Humanos. 3 P 3c– Os seguintes argumentos são contra o comportamento do comandante. Suponha que alguém dê essas justificativas para dizer que o comandante agiu de modo errado. Você considera essas justificativas aceitáveis? Em uma escala de -4 a +4, como você as classificaria? Completamente inaceitável Completamente aceitável -4 -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 +4 Em uma escala de -4 a +4, como você as classificaria cada resposta? Afirmativa Escala Estágio 7. Não se sabe se eles fariam o mesmo pela gente. 2 122 8. Se todos os militares jurassem silêncio sobre a execução dos pastores, não haveria como puni-los pelas consequências dessa decisão. 1 9. O comandante deveria executar os objetivos da missão recebida dos seus superiores, não se preocupando com as consequências da execução dos pastores, pois estava cumprindo ordens. 4 10. O comandante deveria escutar as opiniões de seus subordinados, que eram contrários à liberação dos pastores. Do contrário, seria julgado um mau comandante pelos seus subordinados. 3 11. A decisão de soltar os pastores atenta contra o papel do comandante de preservar a integridade de seus homens. Além disso, demonstraria falta de senso de comprometimento com a missão recebida. 5 12. A operação militar tinha um caráter de libertar uma população da violência de milicianos. A fidelidade ao senso de liberdade e direito à paz das populações em conflito justificam os efeitos colaterais de uma ação de aprisionamento de civis como a necessidade de executá-los. 6 Muito obrigada pela participação! * Instrumento elaborado por Silva (2016), adaptado pela pesquisadora Renata Chimendes