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MUSICALIZAÇÃO INFANTIL AULA 4 Profª Florinda Cerdeira Pimentel 2 CONVERSA INICIAL Existe uma curiosidade muito grande em torno deste assunto: como e por que musicalizar crianças muito pequenas? De acordo com a educadora musical Josette Feres (1998), o principal objetivo da musicalização para bebês é despertar na criança o prazer de ouvir e fazer música. Nas classes de bebês, os objetivos específicos são os seguintes: • Estimular maior ligação afetiva entre a mãe (ou o adulto que cuida da criança) e o bebê. • Proporcionar à criança momentos de prazer junto de quem ama. • Contribuir para resgatar o patrimônio cultural nacional, utilizando canções folclóricas e populares nas aulas. • Dar modelos de interação musical, fornecendo um repertório para a mãe ou o responsável cantar e brincar com a criança. • Proporcionar à criança um ambiente em que terá maior liberdade para criar. • Estimular o canto e a fala, de modo que a criança aprende a cantar ao mesmo tempo que aprende a falar. • Dar oportunidade à criança de ter contato com outras pessoas em uma atmosfera expressiva e agradável. • Desenvolver a musicalidade, a sensibilidade, a percepção auditiva, a psicomotricidade, o senso rítmico e a sociabilidade (Feres, 1998). Estevão Marques (2018) enfatiza que as raízes musicais de um povo podem ser reconhecidas no colo ou no pátio escolar. Isso significa que o hábito de cantar ou brincar musicalmente com os bebês e as brincadeiras infantis que acontecem espontaneamente no pátio da escola ou na rua são grandes responsáveis por preservar e divulgar nossas tradições musicais. TEMA 1 – INTRODUÇÃO: DESENVOLVIMENTO E PREFERÊNCIAS MUSICAIS NOS BEBÊS A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe que toda criança é um ser de direitos, sendo estes: 3 • conviver com outras crianças e adultos, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às diferenças entre as pessoas; • brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais; • participar ativamente, com adultos e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da escola e das atividades propostas pelo educador quanto da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conhecimentos, decidindo e se posicionando; • explorar movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza, na escola e fora dela, ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas modalidades: as artes, a escrita, a ciência e a tecnologia; • expressar, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões, questionamentos, por meio de diferentes linguagens; • conhecer-se e construir sua identidade pessoal, social e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento, nas diversas experiências de cuidados, interações, brincadeiras e linguagens vivenciadas na instituição escolar e em seu contexto familiar e comunitário. Para que as crianças bem pequenas possam usufruir de todos os benefícios oferecidos pelas propostas de musicalização, já não basta a visão de uma escola assistencialista, pois já se sabe que os bebês têm potencial de aprendizagem, participação e desenvolvimento. Sendo assim, é importante que o educador responsável pela mediação das atividades musicais tenha conhecimento da faixa etária das crianças e, acima de tudo, que cada fase já é capaz de realizar e respeitar as potencialidades e particularidades de cada indivíduo. 4 Para orientar a adequação das atividades musicais às características das diferentes fases do desenvolvimento infantil, o educador musical dispõe, hoje, de ampla e rica produção na literatura especializada. O psicólogo clínico estadunidense Arnold Gasell (1953, citado por Jannibelli, 1971) em seu estudo sobre as principais características do desenvolvimento infantil, aborda aspectos relacionados à percepção sonora e à música. • Até os 18 meses: ouve atentamente os sons de campainhas, apitos, brinquedos sonoros e reage a esses estímulos pela movimentação total do corpo. Gorjeia e emite sons isolados. Demonstra interesses aos cantos que lhe são oferecidos – cantigas de ninar, baladas e todo e qualquer som que lhe desperte a atenção. • Dois anos: reconhece algumas melodias, tenta reproduzi-las com versos incompletos e geralmente fora do tom. Reação rítmica que estimula a cantar, dançar, bater palmas, bater com os pés, movimentar a cabeça e balançar os braços. Linguagem repetitiva, dentro da fase imitativa. • Três anos: apresenta capacidade de apreciação de quantidade, enumeração e capacidade de aquisição de hábitos. Atinge controle físico dos movimentos de correr, saltar, andar dentro de um determinado ritmo. Reproduz várias melodias simples e curtas e reconhece facilmente algumas delas. Começa a perder a inibição de cantar em grupo. Sente atração por instrumentos rítmicos. Na linguagem, suas frases já têm lógica. TEMA 2 – PLANEJAMENTO NA MUSICALIZAÇÃO PARA BEBÊS: ROTINA, NECESSIDADES, VONTADES Os bebês geralmente são muito sensíveis e observadores. Mesmo ainda na fase de estranhamento, eles ficam atentos a tudo ao seu redor, sons, cores, formas, pessoas, por isso o trabalho de musicalização deve ser totalmente direcionado ao estímulo, às descobertas, à construção da identidade do bebê e à relação entre ele, os amiguinhos e o professor. Com algumas aulas de musicalização, os bebês já são capazes de demonstrar satisfação ao ouvir suas canções preferidas, como também se movimentam e batem palmas acompanhando os ritmos propostos. Ainda, gostam de experimentar as várias possibilidades sonoras, assim como testam os instrumentos e objetos oferecidos 5 com grande curiosidade. Recomenda-se que as aulas tenham a duração de aproximadamente trinta minutos, preenchidos por atividade curtas e variadas, pois os bebês tendem a perder o interesse rapidamente. Quando se trata de plano de aula para musicalização para bebês, o educador musical deve considerar alguns pontos importantes: 1. Crianças pequenas choram, seja por fome, por sono, por saudade de casa ou qualquer outro descontentamento, mas é algo natural e que faz parte da comunicação, uma vez que os bebês ainda não falam. Cabe ao educador, ou se puder contar com o auxiliar de sala, resolver a situação com serenidade, sem jamais tentar seguir a aula ignorando os sentimentos das crianças. Toda criança merece ser respeitada e atendida. De acordo com a BNCC, a criança é o centro da aprendizagem, portanto, de nada serve uma atividade realizada se a criança não foi contemplada em sua totalidade. 2. Imprevistos acontecem. Por exemplo, certa vez, em uma aula de musicalização, o professor estava no meio de uma proposta quando duas crianças saíram da roda e foram olhar para fora da janela. O que fazer? Gritar? Pedir que voltem para a roda? Ou o professor pode aproveitar esse momento de descoberta e apenas observar: “o que será que encanta as crianças lá fora? O barulho da rua? As árvores? O cachorro da vizinha? Que tal irmos todos lá fora explorar os sons?”. 3. Nem sempre um imprevisto deve ser visto como um problema, mas o educador que é observador consegue tirar proveito de todas as situações. 4. As atividades rotineiras do berçárionão devem ser mecanizadas: desde a troca de fraldas, a higienização do nariz, a alimentação, a organização para o deslocamento de espaços, a hora de guardar os materiais e brinquedos, tudo deve ser realizado com amor, olho no olho, com respeito à criança e de forma lúdica. Um simples ato de trocar a fralda do bebê pode ser um momento para musicalizar, cantando e olhando com amor e respeito para esse bebê. Imagine que você está sentado assistindo a um filme e alguém surge por trás sem aviso e aperta seu nariz com um lenço de papel, qual seria a sensação? 5. As atividades do plano de aula devem ser variadas e curtas, de forma que eles possam ser estimulados a perceber os sons de diversas fontes, manipular objetos sonoros e instrumentos musicais, movimentar e 6 deslocar-se pelo espaço, imitar sons e gestos de pessoas e animais, explorar os sons produzidos pelo próprio corpo, utilizar instrumentos, objetos e o corpo para acompanhar diversos ritmos musicais, participar de brincadeiras cantadas, canções e melodias. A seguir, apresentamos uma proposta de plano de aula para educação infantil, berçários e maternal (zero a três anos). Essa proposta pode ser adaptada desde o berçário, com bebês a partir de quatro meses até crianças de três anos, incluindo atividades adequadas à faixa etária. 1. Canção de boas-vindas com o nome de cada criança: para sinalizar o início da aula. 2. Jogos musicais de socialização: brincadeiras musicais de passar objetos, pegar na mão, roda, promovendo o entendimento da existência do outro. 3. Rodinha cantada: canções conhecidas do folclore popular e da rotina das crianças; a cada aula, o educador apresenta uma canção nova. Nesse momento, desenvolve-se também a linguagem oral e gestual e a ampliação de repertório. 4. Movimento: atividades de correr, pular, saltar, rolar, imitar animais (adaptar as brincadeiras de acordo com a faixa etária das crianças). 5. Apresentar instrumentos da bandinha rítmica com a música A loja do mestre André, por exemplo. 6. Bandinha rítmica: distribuir os instrumentos e tocar a música do dia: escolher uma música para que as crianças acompanhem com a banda rítmica. 7. Guardar os instrumentos na caixa. 8. Relaxamento: momento para acalmar as crianças com uma canção e atividade tranquila, uma caixinha de música ou instrumentos como pau- de-chuva, por exemplo. 9. Canção de despedida: sinalizando o final da aula. Materiais utilizados: caixa de som, pen drive ou celular com as músicas gravada, ukulelê, caixa com instrumentos ou objetos sonoros, lenços, bolas etc. 7 TEMA 3 – BEBÊ EM AÇÃO: IMPORTÂNCIA DO MOVIMENTO NA MUSICALIZAÇÃO O bebê, desde o seu nascimento, está exposto a estímulos. Oferecer espaços e atividades que proporcionem ao bebê a oportunidade de se movimentar, explorar e observar o mundo ao seu redor é papel do educador e de seus cuidadores. “Desde muito cedo a criança deve ser colocada em situações que propiciem o contato com o mundo das sensações, levando-a a uma captação ativa do seu meio, transformando experiência em aprendizagem e esta em inteligência” (Meneses; Bencks, 2017). O desenvolvimento psicomotor, que é a possibilidade de executar habilidades voluntárias e se expressar por meio delas na primeiríssima infância, ocorre em duas etapas, conforme apresentado a seguir. 3.1 Desenvolvimento céfalo-caudal As primeiras aquisições se iniciam na região da cabeça e evoluem em direção aos pés. Nesse sentido, o desenvolvimento ocorre por meio dos movimentos oculares, quando a criança acompanha com o olhar os movimentos do exterior, move a cabeça para ambos os lados. Em seguida, desenvolve os músculos do pescoço, na sustentação da cabeça, posteriormente para o controle do tronco quando o bebê se senta. Depois, evolui para os membros superiores até a conquista do uso do dedo indicador para movimentos de pinça (oposição entre o polegar e o indicador) e, por último, para membros inferiores, quando o bebê adquire o controle da marcha. 3.2 Desenvolvimento próximo-distal Segue a direção da região central do corpo (o eixo corporal) para as extremidades. O controle se processa do tronco, nos movimentos amplos do ombro, para os braços, mãos e dedos, nos movimentos finos dos dedos das mãos. Nas aulas de musicalização, o educador pode contribuir muito para esse desenvolvimento, oferecendo propostas que estimulem o movimento, como exemplificado a seguir. 8 3.2.1 Na primeira etapa: bebês que ainda não caminham • Movimentar objetos sonoros de um lado para outro para que o bebê acompanhe virando a cabeça, procurando a direção do som. • Brincadeiras musicais com lenços coloridos e móbiles para que os bebês acompanhem com os olhos as cores e os movimentos dos objetos de acordo com o ritmo da música que está tocando. • Objetos sonoros para que manipulem e percebam diferentes timbres como garrafas com água, chocalhos com variados tipos de grãos ou pedras. • Objetos percussivos para que as crianças que já conseguem se sentar possam bater e perceber diferentes texturas, alturas e timbres. Podem ser tambores, pandeiros ou baldes, potes e caixas. • Percussão corporal, em que os bebês já são estimulados a produzir sons com o próprio corpo, batendo palmas, pés, estalando a língua, mandando beijos ou imitando sons de objetos e animais. • Brincadeiras que movimentem o tronco e as pernas dos bebês – por exemplo, Serra-serra, serrador – e brincadeiras com movimentos de bicicleta – Pedala o pedalinho. 3.2.2 Na segunda etapa: bebês que já caminham • Brincadeiras musicais que desenvolvam o movimento de marcha. • Brincadeiras de roda que, além de desenvolverem a coordenação motora e a lateralidade, também resgatam as cantigas tradicionais do nosso folclore, estimulam a socialização, entre muitos outros aspectos, dependendo da canção que se está trabalhando. • Jogos musicais que envolvam movimento de maneira geral, como estátua, em que se desenvolve a noção de som e silêncio; caminhar pela sala em andamentos variados acompanhando determinada música ou imitando os movimentos dos animais, brincadeiras que permitam movimentos de abaixar e levantar, correr, pular, rolar e dançar. • Nessa fase, vale utilizar como recursos, além dos instrumentos musicais e objetos sonoros, bambolês, lenços e bolas. 9 • Importante ressaltar que as atividades musicais são um direito e não um dever dos bebês, portanto, não se desespere caso o bebê perca o interesse por uma atividade ou outra. Jamais force uma criança a permanecer sentado ou na brincadeira, sempre tenha alternativas para o caso de acontecer imprevistos e, acima de tudo, o educador deve manter a tranquilidade em sua aula de musicalização. TEMA 4 – CANTAR E ENCANTAR: REPERTÓRIO NA MUSICALIZAÇÃO PARA BEBÊS A ciência comprova há muito tempo que desde o ventre materno o bebê está exposto a diversos tipos de sons e, mesmo depois do seu nascimento, durante os primeiros meses de vida, o seu vínculo com a mãe ainda é muito forte. Esse ser que acaba de chegar ao mundo precisa de estímulos para se entender como indivíduo. Segundo Parejo (2018), o trabalho musical se inicia na estimulação sensorial, ou melhor, na sensibilização. Sensibilizar-se é tornar-se sensível a fenômenos do ambiente que nos cerca. Logo, o bebê necessita de estimulação multissensorial, na qual os sentidos se cruzam e o processo de sensibilização musical é resultante da articulação de um trinômio essencial: • escuta: ponto de partida, cria as condições necessárias para que o bebê se torne receptivo ao ambiente sonoro, à fala do outro, à música, e, futuramente, à escuta de si próprio; • expressão: intencionalidade de tocar, manipular, morder e interagir de forma intensa com os objetos e fontes sonoras que lhe são apresentados; • interação: se dá de forma irregular e não intencional, em seu egocentrismotípico; falta-lhe, a princípio, a consciência da existência do outro, fato que vai mudando de acordo com seu desenvolvimento. Partindo desse conhecimento, é importante que o educador musical ofereça aos bebês um repertório de canções que acompanhem e atendam essa necessidade de escuta, expressão e interação. O bebê precisa do toque sensível, da voz, das canções e do movimento corporal para se conhecer e conhecer o outro, como também fazer conexões com o mundo. Desde os sons de objetos, instrumentos musicais, caixinhas de música e demais sons agradáveis que podem proporcionais momentos de aprendizado e 10 estímulos agradáveis ao bebê, o educador musical deve sempre cantar, conversar, contar histórias. As canções devem sempre ser coerentes, devendo o educador se atentar para que o momento seja prazeroso. Sons muito fortes e ruídos demasiadamente dissonantes podem irritar o bebê. O repertório da aula de musicalização deve ser variado, desde música clássica até MPB, música do cancioneiro infantil, contanto que sejam selecionadas com critério e buscando sempre a qualidade. TEMA 5 – BEBÊS TAMBÉM FAZEM MÚSICA: ATIVIDADES DE PRODUÇÃO E COMPOSIÇÃO MUSICAL COM BEBÊS Já se sabe que os bebês precisam de estímulos para se desenvolver, mas como o educador musical pode contribuir com esse processo de descobertas, como promover estímulos utilizando a música e fazer com que os bebês tão pequenos consigam se envolver musicalmente no mundo? Como promover vivências musicais capazes de construir experiências significativas para cada indivíduo não somente para o aprendizado musical, mas também para o seu desenvolvimento global? Primeiramente, deve-se saber o que são esses estímulos. Segundo Meneses (2017, p. 22), estímulo é tudo aquilo que provoca uma ação ou uma reação nos bebês, e nas aulas de musicalização pode ser desde um som isolado de um chocalho ou outro objeto sonoro, uma cantiga, uma música gravada, uma história. “São esses momentos que fazem com que esses reflexos inicialmente inatos se tornem cada vez mais intencionais” (2017, p. 22). Quando o educador entra como mediador de oportunidades e propõe atividades estimulantes que despertem a curiosidade dos bebês, a aula inicialmente será composta por atividades dirigidas por ele, mas com o passar do tempo, as crianças serão capazes de realizar o seu próprio fazer musical. Um bom exemplo: em uma turma de bebês entre um ano e meio e três anos de idade, após as atividades com a bandinha rítmica, em que o mediador pode apresentar os instrumentos individualmente e realizar propostas dirigidas exploratórias que trabalhem a percepção de aspectos musicais como altura, intensidade, duração, timbre, andamentos etc., experimente deixar as crianças livres para manipular os instrumentos e apenas observe. As crianças são capazes de ouvir música e os sons e imitá-los, basta que tenham as condições para fazê-lo, um espaço com instrumentos musicais 11 disponíveis, objetos sonoros e o seu próprio corpo. Além disso, as crianças pequenas gostam muito de brincar com a própria voz, desce recém-nascidas emitem sons, ensaiando para a fala, e seus balbucios são pequenos cantos improvisados que utilizam para se comunicar e para se distrair. As crianças maiores, que já dominam a fala, testam as palavras aprendidas e costumam criar suas próprias canções, inventando paródias ou até mesmo compondo melodias. NA PRÁTICA Há uma infinidade de opções disponíveis para o repertório das aulas de musicalização de bebês e cabe ao educador musical pesquisar quais músicas mais agradam os pequenos e quais oferecem mais possibilidades de trabalho musical, gestual, corporal, afinal, não existe receita pronta e formatada para um plano de aula. Cada indivíduo é único e cada turma também. O professor deve conhecer suas crianças para preparar seu repertório. O cancioneiro popular é sempre bem-vindo, portanto, seguem algumas sugestões. • Canção de boas-vindas Da laranja eu quero um gomo (popular) “Da laranja eu quero um gomo (5 palmas no ritmo) Do limão quero um pedaço (5 pés) Do coqueiro eu quero um coco e da Maria eu quero um abraço”. • Trabalhando timbres: cesto de tesouros O cesto de tesouros é um jogo dentro da proposta pedagógica montessoriana, consistindo em um cesto com diversos objetos do cotidiano, que pode ser oferecido aos bebês a partir do sexto mês, quando este já consegue sentar-se sozinho. O objetivo principal é que fomentar o desenvolvimento psicomotor e contribuir para que o bebê desenvolva sua autonomia, pois nessa atividade o mediador não interfere na ação; a criança escolhe e manipula os objetos da forma que quiser. Nas aulas de musicalização, os objetos escolhidos podem contemplar instrumentos ou objetos sonoros com diferentes timbres e alturas. Para crianças que já caminham, existem outros jogos semelhantes, como as mesas de experimentação, que veremos futuramente. 12 Figura 1 – Cesto com diversos objetos do cotidiano Crédito: Florinda Cerdeira Pimentel. • Trabalhando com propriedades sonoras com bebês Altura: propriedade que difere sons graves, médios e agudos. A utilização de instrumento com alturas diferentes ajuda muito na percepção auditiva dos bebês, tanto em canções como em contação de histórias. Em Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, o lobo pode ser representado pelos sons graves do piano, a mãe pelos sons médios e a Chapeuzinho pelos sons agudos. Outra sugestão é o palhaço feito de cone de papelão e tecido, com o qual é possível criar várias atividades com os bebês, por exemplo, utilizando a flauta de êmbolo. Quando o som sobe para o agudo, o palhaço aparece, e quando desce para o grave, o palhaço se esconde. 13 Figura 2 – Palhaço feito de cone de papelão e tecido SOM GRAVE SOM AGUDO Crédito: Florinda Cerdeira Pimentel. Intensidade: propriedade sonora que difere sons fortes de sons fracos. Utilização de canções e brincadeiras que propiciem movimentos com percussão corporal ou utilização de instrumentos em que os bebês possam diferenciar as intensidades do som. Neste exemplo, a canção sofre variações que determinam diversas ações que trabalham pulsação, lateralidade e intensidade: “Palminhas, palminhas nós vamos bater, Depois as mãozinhas pra trás esconder, Depois as mãozinhas pra trás esconder. Mais forte, mais forte nós vamos bater... Mais fraco, mais fraco nós vamos bater...” 14 Figura 3 – Palminhas, canção popular Crédito: Florinda Cerdeira Pimentel. Duração: propriedade sonora que determina o tamanho, o tempo do som, se são sons curtos, médios ou longos. Brincadeiras imitando sons de objetos ou de animais são ótimas opção para os bebês a partir do primeiro ano. Nessa idade, eles adoram imitar os animais. A canção popular Senhor caçador é um exemplo de proposta em que se pode imitar os sons dos animais e classificá-los como sons curtos ou longos: o som do pássaro é curto ou longo? E o mugido da vaca? Senhor caçador “Senhor caçador, não vá se enganar, Preste muita atenção quando o gato miar!” Figura 4 – Senhor caçador Crédito: Florinda Cerdeira Pimentel. FINALIZANDO Muitas vezes, nós educadores musicais temos muita sede de ensinar os conceitos musicais e cumprir o plano de aula. No berçário, principalmente, é preciso ter a consciência de que aquele ser que acabou de chegar ao mundo precisa ser compreendido, e que nós estamos ali, lançando sementes. Devemos 15 lembrar que, com bebês, imprevistos acontecem, eles choram para se comunicar e toda criança tem o direito de ser atendida em suas necessidades. A educação musical é um direito e não um dever, portanto, a tranquilidade, a capacidade de observar e a criatividade do educador são tão importantes quanto sua formação acadêmica. Ainda mais importante do que cumpriro plano de aula é observar se o objetivo principal está sendo cumprido: bebês se desenvolvendo, se sensibilizando ao universo sonoro que os cerca de maneira gradual e orgânica e, acima de tudo, de forma lúdica e prazerosa. 16 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC/SEB, 2017. Disponível em: <http://basenacionalcomum.mec.gov. br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf>. Acesso em: 29 set. 2020. FERES, S. M. J. Bebê, música e movimento: orientação para musicalização infantil. Jundiaí: Editora do Autor, 1998. JANNIBELLI, E. d'A. A musicalização na escola. Rio de Janeiro: Lidador, 1971. MARQUES, E. Maravilhamento. Desvendério. São Paulo, 2018. MENESES, A.; BENCKS, S. Bebê em movimento: para pais e educadores. Americana: Editora do Autor, 2017. PAREJO. E. Iniciação e sensibilização musical: uma proposta de educação musical para o novo paradigma. São Paulo: Signum, 2018.